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Normas Técnicas – ABNT

Extensão universitária: espaços de aprendizagem em rizoma e movimento.

Autor: Pedro E. Gontijo


Doutorando em Educação – Unicamp
Professor e Diretor de Programas de Extensão da Universidade Católica de Brasília
Endereço: Q. 17 conjunto B Casa 04 Setro Central Gama-DF – CEP.: 72405-170
Fone: (61) 33855274/ 91614920 Email: pgontijo@ucb.br

Resumo:
O objetivo deste é propor reflexões sobre a prática extensionista como espaço e
movimento de aprendizagem no espaço universitário a partir do referencial teórico do
filósofo Gilles Deleuze. O método seguido por esta análise é o da constatação da atual
configuração do ensino superior com base na indissociabilidade ensino, pesquisa e
extensão. Segue com a apresentação de alguns aspectos do pensamento de Gilles
Deleuze e como estes conceitos podem permitir outros olhares sobre a extensão
universitária como espaço de aprendizagem. Pode-se pensar a extensão universitária
como um espaço de “experienciação” de novas possibilidades de aprendizagem. Um
movimento que ocupa espaços, mas que não finca raízes pivotantes, fixa movendo-se
como rizomas. Assim pretendemos pensar a partir de alguns conceitos de Deleuze e a
partir da leitura que ele faz de outros autores como Nietzsche, Spinoza e Hume. Pensar
como estes autores permitem problematizar questões e propor sentidos para a
organização da extensão universitária como experiência de aprendizagem. O conceito
de rizoma, em especial, nos dá a possibilidade de pensar na permeabilidade que a
extensão pode ter em toda a universidade. O pensamento de Hume permite não mais
perguntarmos pela essência do ensino, da pesquisa e da extensão, mas sim, perguntar
sobre a relação entre as “coisas”. O pensamento de Nietzsche possibilita recolocar a
pergunta pelo sentido. Spinoza permite pensar sobre os encontros criados na extensão
como encontros que podem aumentar nossa potência de vida.

Palavras-chave: Extensão Universitária, Rizoma, Deleuze


Ao modo de uma introdução...

“As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não


deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos
de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não têm
muito o que dizer. A arte de se construir um problema é muito
importante: inventa-se um problema, uma posição de problema,
antes de se encontrar a solução.“ (DELEUZE,1998, p.09)

Uma orientação hierárquica nos moldes tradicionais de manuais de pesquisa


afirmaria que os questionamentos e proposições aqui expostos podem ser, de fácil
hierarquização. Acreditamos que, em se tratando de algo estático, talvez esta máxima se
aplicasse com alguma propriedade, mas quando se está falando ou escrevendo sobre
algo dinâmico, com movimento como a filosofia ou a educação, esse “algo” é
continuamente alterado. Diferentemente de outros autores tradicionais, que em geral,
concebem a filosofia como uma reflexão crítica da realidade, ou mesmo como ação
contemplativa, DELEUZE (1992,p.170) propõe que:

“A filosofia não é comunicativa, assim como não é contemplativa nem


reflexiva: ela é, por natureza, criadora ou mesmo revolucionaria, uma vez
que não pára de criar novos conceitos. A única condição é que eles tenham
uma necessidade, mas também uma estranheza, e eles as têm na medida em
que respondem a verdadeiros problemas. O conceito é o que impede que o
pensamento seja uma simples opinião, um conselho, uma discussão, uma
tagarelice”.

Assim, pode-se dizer que a questão que se coloca é: achar potenciais em Deleuze
para que seja possível encontrar potencialidades outras de pensar a extensão
universitária. Dito de outra forma, qual é o problema que essa questão busca responder?
Talvez um desconforto com as respostas sobre o modo de perceber a extensão
universitária encontrada nos manuais, nos documentos oficiais, nas políticas
governamentais, nas elaborações positivistas, marxistas ou fenomenológicas. Um
sentimento de estagnação que não consegue responder ao que impacta em diferentes
situações pedagógicas.

Deleuze foi construindo seu pensamento nos encontros que produzia com
filósofos que geralmente eram considerados meio periféricos ou marginais: Lucrécio,
Estóicos, Hume, Espinoza, Bergson, Leibniz e Nietzsche, além da busca de fazer
filosofia no diálogo com cinema, com a literatura e as artes em geral. Autores deram um
sopro, produziram ventos novos no pensamento já estabelecido. Aqui vai-se então
criando um monstrinho que uma minha visão sobre a extensão com o Deleuze. Como
isto está dando tesão, será também um filho monstro produzido com Deleuze e com
algumas colagens dos monstrinhos que ele produziu em alguns autores. A relação é
meio libidinosa, pois é fruto do desejo. Escreve-se aqui como quem faz uma experiência
de tentar perturbar alguma coisa estabelecida e desencadear outras experiências. Afinal
segue-se Deleuze que concebe que teoria é ação e que o valor de uma teoria está na
capacidade da mesma produzir efeitos no que comumente chamamos de real. Uma
teoria é interessante se faz funcionar alguma coisa. Esta será uma forma de olhar a
extensão, de explorar e percorrer a extensão de forma pouco ou nada percorrida.

“Escrever não tem outra função: ser um fluxo que se conjuga com outros
fluxos – todos os devires-minoritarios do mundo. Um fluxo é algo intensivo,
instantâneo e mutante, entre uma criação e uma destruição. Somente
quando um fluxo é desterritorializado ele consegue fazer sua conjugação
com outros fluxos, que o desterritorializam por sua vez e vice-versa.
“ (Deleuze, 1998,p.63)

Pensemos então o fazer extensão como um fazer que quer produzir efeitos no
ensino, na pesquisa, na comunidade, na estrutura institucional e mais. Talvez a categoria
“experiência” seja muito interessante e muito bem vinda de ser explorada neste
movimento que estamos querendo provocar. Experiência como algo que não se sabe de
antemão como será. Experiência que não se repetirá, posto que é única. Experiência de
convivência com o outro que não se reduz ao nosso poder de capturá-lo. Que não se
reduz ao poder de conhecê-lo, mas que está aí, para convivência como um outro.
Experiência de explorar todos os espaços da universidade e das aderências que esta tem
com a comunidade próxima, com o que chamamos sociedade e com a mãe Terra-Gaia.
Experiência de levar a universidade para além de onde parece que ela pode ir.
Encontremos seus limites e os forcemos um pouco mais.

Iniciando um deslocamento: “rizomar”...

Continuando com o deslocamento teórico, Deleuze afirma que existem dois tipos
de livros: aqueles que são aparelhos do estado, que estão a serviço do poder
estabelecido e os livros máquina de guerra. Como tal, estes últimos servem para gerar
processos revolucionários junto a outras máquinas de guerra. Num contexto em que
temos o ensino graduado e pós-graduado e a pesquisa tão normatizados, tão
enquadrados, os espaços de extensão teriam uma situação privilegiada como espaços
máquinas de guerras.

Pode-se fazer um deslocamento no que Deleuze e Guattari escreveram sobre o


livro como um rizoma e procurar pensar extensão como espaço rizomático, ou no que
dá no mesmo, perguntar com o que uma a extensão faz rizoma e com o que ela pode
“rizomar”? Que conexões são possíveis em na atividade extensionista? Com o quê os
princípios, as metas, os programas e os projetos podem fazer conexões para manter viva
a experiência extensionista ? É provável que possamos afirmar facilmente que o fazer
extensão faz muitas conexões. Não parece existir extensão que não faça conexões,
independe de vontade de gestores, alunos e estruturas. Bem sabemos que ocorrem
práticas extensionistas em vários cantos da universidade conectando esta a outros
contextos e que isto ocorre sem a gestão dos setores com esta finalidade A questão seria
buscar verificar como esta perspectiva nos liberta da imagem arborecente do
conhecimento, da estrutura hierárquica e nos possibilita lançar em outros devires
extensionistas.

“Devir não é atingir uma forma (identificação, imitação, mimese), mas


encontrar a zona de vizinhança, de indiscernibilidade ou de
indiferenciação tal que já não seja possível distinguir-se de uma mulher,
de um animal ou de uma molécula: não imprecisos nem gerais, mas
imprevistos, não-preexistentes, tanto menos determinados numa forma
quanto se singularizam numa população.” (DELEUZE, 1997, p12)

Pensemos, na universidade e mesmo em um projeto de extensão como “coisa”


que também tem suas linhas de articulação ou segmentaridade, suas territorialidades,
suas linhas de fuga e seus movimentos de desterritorialização e reterritorialização.
Assim como o livro para Deleuze, a extensionalidade como um fazer rizomático
funciona como agenciamento e pode nos propor perguntas sobre como ela funciona,
com o que faz passar intensidades.

Considerado como agenciamento, ele está somente em conexão com outros


agenciamentos, em relação com outros corpos sem órgãos. Não se
perguntará nunca o que um livro quer dizer, significado ou significante, não
se buscará nada compreender num livro, perguntar-se-á com o que ele
funciona, em conexão com o que ele faz ou não passar intensidades, em que
multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia a sua, com que corpos sem
órgãos ele faz convergir o seu. (Deleuze e Guattari, 1995, p.12)

Como rizoma a extensão ou a extensionalidade obedece a alguns princípios.


Pensemos um pouco a partir dos quatro primeiros princípios que Deleuze descreve nos
rizomas: O primeiro princípio é o da conexão que afirma a interconectividade constante
e a partir de qualquer parte. A organização das práticas extensionistas da universidade se
conecta a qualquer parte da universidade por meio de qualquer parte, por meio de
qualquer professor, funcionário e estudante. Se a extensionalidade tem algo haver com a
interação da universidade com a sociedade, podemos aplicar o mesmo princípio a esta e
poderíamos dizer que a extensionalidade vaza ou pode vazar por qualquer parte da
universidade. As conexões extensionistas estão longe, muito longe de serem apenas
aquelas feitas por meio das Pró-reitorias de extensão.

O segundo princípio é o da heterogeneidade e revela que se estas conexões são


como acabamos de relatar, elas ocorrem expressando uma diversidade multiforme
também não apreensível nas classificações rotineiras do que sejam atividades de
extensão. Tanto inventamos novos modos heterogêneos de fazer conexões
extensionistas, como, atentos a estes princípios, podemos potencializar nossa percepção
sobre as formas já presentes na prática da universidade que ainda não reconhecemos.

O terceiro princípio do rizoma, parece decorrente e complementar a estes dois. É


o princípio da multiplicidade. Permite que tratemos a extensionalidade como ação
coletiva sem sujeito e objeto determináveis. Encarar a extensionalidade como
multiplicidade faz pensar que qualquer setor com suas prerrogativas na verdade não
funciona e não pode funcionar como um pivô central por onde ramifica as práticas
extensionistas. As práticas extensinistas independente de qualquer um ocorrem de
formas diversas, velocidades diferentes e intensidades com rumos variados.

O quarto princípio da ruptura a-significante prevê que mesmo alguma conexão


sendo rompida em qualquer lugar é retomada em outro lugar. Segundo Deleuze
(Deleuze e Guattari, 1995, p.18) é impossível exterminar as formigas, pois elas formam
um rizoma animal no qual a maior parte pode ser destruída sem que deixem de se
reconstruir. Pensar a extensão ou a extensionalidade assim permite alguns devaneios.
Um que me vem é que fortalecer a extensionalidade nada tem haver com o tamanho de
estruturas de gestão de ações extensionistas. Mas sim fazer que cada cantinho de
universidade tenha um pequeno “formigueiro”extensionista. Talvez isso dependa mais
da sensibilização e mobilização sobre extensão do que da quantidade de projetos
formalmente constituídos como extensão. Ora isso é pensar nos movimentos de
desterrritorialização e reterritorialização da extensão. Não parece interessante criar
alguns apegos a esta ou outra forma de estrutura, mas sim de dar movimento a qualquer
estrutura que permita fluir a extensionalidade em todos os “cantinhos” da instituição.

Rápido encontro com Deleuze e o seu Hume...

O encontro de Deleuze com Hume pode nos fazer pensar muito sobre a extensão
e sobre a universidade. Somos muitas vezes escravos de uma tradição platônica que
atravessou todos os períodos da história da filosofia. Platão ao propor a distinção entre o
que seria a essência e o que seriam os acidentes nas coisas e nos seres, deixou uma
herança que constitui até hoje nossas subjetividades. Reforçado pelo que foi depois
elaborado por Aristóteles e quase toda a tradição patrística e escolástica ainda hoje
costumamos a nos perguntar sobre as essências. Corremos atrás da melhor definição do
que seja universidade. Perguntamos o que é o ensino, o que é a pesquisa e o que é a
extensão. Esta é a forma hegemônica de nos relacionarmos com estas questões. Mesmo
que não abandonemos esta perspectiva, o convite é que nos permitamos um exercício a
partir do pensamento de Hume, ou do que Deleuze destaca em Hume. A perspectiva
empirista abandona a pergunta sobre as essências e passa a pergunta-se pelas relações
entre as coisas. Entendendo que as relações podem ser exteriores aos termos da relação,
pode-se postular que a relação pode mudar mesmo que não se mude o que sejam os
termos. Dito de outra forma bem diferente: mesmo não sabendo o que seja uma coisa,
não apreendendo o que seja sua essência, posso perceber e pensar sua relação com
outras coisas sem, inclusive, que estas coisas mudem o que são. Para os empiristas o
que dizemos que uma é não passa de uma coleção de impressões, imagens, ou seja, de
percepções. Mesmo o que dizemos sobre o “eu” não passa de um amontoado de
percepções.

Hume ainda destaca que temos três faculdades no conhecimento: a sensibilidade


que percebe inicialmente as informações, a razão que manipula alguns dados e orienta
nossa conduta e a imaginação que possibilita criar idéias próprias e relacioná-las. Para
ele a imaginação e não a razão é a principal faculdade do conhecimento e é ela que nos
permite estabelecer as relações de causalidade entre fenômenos. A relação de
causalidade e qualquer outra relação estabelecemos pela imaginação. Não há aqui o que
também tradicionalmente buscamos como sendo a verdade positivista, ou seja, a
representação mental mais próxima possível daquilo que é a coisa. Não somos algo,
uma coisa, uma essência. Somos as relações que estabelecemos. Somos nossas práticas.
Eu vou sendo definido por aquilo que vou fazendo, vou praticando. Seria muito bom
continuar e explicitar algumas outras conseqüências gerais do pensamento empirista,
mas penso que por hora já pode provocar ventos em nosso pensamento extensionista.

Talvez pudéssemos pensar não em algo que se chama de extensão, mas sim de
relações extensionistas. Quando é ou como é que imaginamos as relações
extensionistas? Como fazemos esta relação com a sociedade e com a comunidade
acadêmica. A universidade trabalha com o conhecimento. Que relações estabelece com
o conhecimento e a sociedade? Com o conhecimento e a comunidade acadêmica? Com
o conhecimento e vizinhos? Com o conhecimento e poder público? Com o
conhecimento e mercado? (a repetição é proposital e deseja uma leitura lenta e atenta).
Que mudanças nossas práticas extensionistas provocam na relação com o “mercado”?
Com os estudantes? Com os docentes? Se buscamos definir o que seja a essência da
universidade e da extensão partimos de algo estático e que não deveria mudar. Mas se
em vez disso, pensarmos no que a universidade está fazendo, no que está praticando,
podemos postular que isso é apenas conjuntural, que faz sentido em um contexto e em
não em outro. Tudo pode ser diferente.

O que fazemos é sempre mutável. Sem o certo e o errado, sem um ideal a ser
alcançado. Viver cada contexto no que ele oferece de possibilidades. Estar atento para
não perder nenhuma “fresta” nas paredes. Pode ser interessante desligarmos um pouco
do dever ser na prática extensionista e buscarmos o que podemos criar e praticar.
Abandonarmos qualquer pretensão de seguir ou produzir um ideal.

Parece interessante pensar que a forma como colocamos as perguntas,


condicionam nossas respostas e, assim, talvez, seja interessante não só retomar as
respostas, mas reelaborar as perguntas de outra forma, para potencializar outras
respostas.

Um caminho pouco usual para pensar a universidade: Nietzsche


Não parece a primeira vista que Nietzsche seria um bom parceiro para pensar a
extensão, mas vamos lá, pois podemos nos surpreender. Um dos focos que Deleuze
coloca em sua apreciação sobre Nietzsche está no fato desse ter conseguido uma
formulação sobre sentido e valor de forma inédita. A “vontade de poder” do Nietzsche
seria justamente uma vontade de se contrapor aos valores estabelecidos e criar novos
valores. A vontade de poder não tem relação em conquistar o poder. Que valores no
espaço acadêmico entendemos serem valores reativos, serem valores que podam novas
possibilidades de existência? Que valores permitem poderes encastelados em caixinhas
da hierarquia? Perguntar qual ou que sentido tem a estrutura, os procedimentos, as
tarefas, as práticas pode ser revelador das forças que se apropriam destas coisas. Elas
facilitam ou impedem novos fluxos, novos movimentos, que afirmem a vida, que
busquem vida em abundância?

Nietzsche resgata o valor do filósofo como legislador. Nada de apenas obedecer


leis que antes já estavam aqui e que impedem a vida de se manifestar. Ao propor este
doutorado nos moldes que estamos propondo (Oxalá que consigamos), estamos também
nos tornando ou assumindo legisladores do modo de funcionamento da universidade, da
pós e da extensão. Talvez pudéssemos nos perguntar sobre outras práticas, outras
“caixinhas” na universidade e na extensão que carecem de nosso juízo avaliando se as
mesmas funcionam dando vazão à vida ou negando e obstruindo a vida. Alguém poderá
nos perguntar onde é o lugar de um doutorado? Onde é o lugar disso ou daquilo? Onde e
como deve verdadeiramente estar organizada a universidade? Penso que podemos ao
menos no nível de pensamento, posto que é um abismo com perigos administráveis,
nos lançar a perguntas mais interessantes do que encontrar a verdade sobre as coisas.
Perguntar pela vida nas coisas. Por aquilo que, no serviço que a universidade presta à
coletividade, deixa fluir e potencializa a vida. A pergunta pela verdade apenas serve
para conservar forças reativas e limitar a liberdade de criar. No arcabouço legal e
administrativo já há verdades demais a serem seguidas. Deixemos o pensamento um
pouco mais oxigenado.

Nietzsche resgata também a figura do pensador como um artista, posto que se


coloca em sua prática buscando romper amarras, inovar nos traços, nas formas. Como
artistas na universidade o compromisso seria com a vida e estaríamos criando novos
valores, novos sentidos para nossas práticas buscando afirmar a vida e não
simplesmente servindo a pseudo-verdades pré-estabelecidas.
Deleuze vai destacar também como Nietzsche destrói a dialética hegeliana e
como isso lhe interessa para pensar a diferença como afirmação e não apenas como
negação. O potencial de perceber que o que não é “A” não é “não-A”, mas apenas
distinto de “A” pode nos ajudar a superar uma certa leitura – dialética - que prende a
realidade em uma lógica que busca contradições em qualquer processo. Talvez
possamos enxergar a realidade não como fruto de contradições, mas como o efeito de
um jogo de dados continuo. Cada vez que se joga o dado tem-se resultados diferentes e
não contrários aos outros, apenas diferentes. Isso me faz lembrar também que as notas
musicais também não tem seu contrário. Dó não é contrário de Ré ou de qualquer outra
nota. Assim a realidade pode ser percebida como bem mais que este jogo dos contrários
proposto na dialética. Não precisamos concordar com isso, mas no plano do
pensamento, podemos nos permitir investigar as conseqüências disso para pensar a
extensão.

Por uma extensão alegre: encontros ao modo spinosista

Apesar de ter sofrido uma grande influência de Nietzsche, talvez seja Spinoza o
filósofo que mais elogios tenha recebido de Deleuze. A busca de Spinoza por construir
seu pensamento sem amarras institucionais, evitando qualquer dependência de poderes
constituídos lhe rendeu ira entre judeus e cristãos. Talvez sua vida, tida como errante e
solitária tenha reunido as condições de produzir uma das mais belas elaborações
filosóficas. A vida tem o costume de surpreender onde ela parece mais frágil. Penso que
dá para bebermos nas elaborações sobre os afetos algo para pensar a extensão, a
extensionalidade e a universidade.

“O que é importante é que vocês percebam como, segundo Spinoza, nós


somos fabricados como autômatos espirituais. Enquanto autômatos
espirituais, há o tempo todo idéias que se sucedem em nós, e de acordo
com essa sucessão de idéias, nossa potência de agir ou nossa força de
existir é aumentada ou é diminuída de uma maneira contínua, sobre uma
linha contínua, e é isso que nós chamamos afeto [affectus], é isso que nós
chamamos existir”. (Deleuze, 1978)

Para Spinoza toda a existência é composta de encontros. Há bons encontros e


maus encontros. Os encontros produzem misturas entre os corpos. Um encontro afeta os
corpos envolvidos nele. Os encontros podem aumentar a potência dos corpos ou pode
diminuir esta potência. Os encontros que diminuem a potência desencadeiam paixões
tristes. Os encontros que aumentam a potência dos corpos desencadeiam paixões alegres
e ampliam sua capacidade de ação. Podemos imaginar um corpo como sendo uma
relação de movimento e repouso entre partículas.

A sociedade, para Spinoza, deveria promover todo um conjunto de condições


para que cada corpo pudesse potencializar sua existência por meio de bons encontros.
Todavia percebe que não é o que ocorre. Deleuze faz advertência que as pessoas que
tem algum poder costumam afetar outras pessoas de uma maneira triste, para poder
continuar no exercício do poder. De fato, em universidades e escolas, a forma como as
direções se relacionam com professores e alunos e a forma como professores se
relacionam com alunos em sala de aula nem sempre provocam afetamentos alegres.
Talvez dirigentes sintam necessidade de provocar afetamentos tristes para se conservar
um domínio no exercício do poder. Aqui já teríamos “pano para costurar muitas mangas
de camisa” só pensando nas relações pedagógicas propriamente ditas. Como pensar em
encontros pedagógicos que aumentem a potência de vida dos alunos, dos professores,
trabalhadores em geral da universidade?

Pensando na universidade como um corpo e em outros atores sociais coletivos


como outros corpos e a extensionalidade como a dimensão da primeira que mais forte
interage com os demais, que afetamentos estes encontros têm produzido? Como
preparar a universidade para que seus encontros com o “corpo” mercado seja
potencializador de sua existência (universidade) e não diminuidor e escravizante de sua
prática? Como os encontros da universidade podem promover encontros alegres com
comunidades, pessoas e instituições evitando qualquer provocação de comportamentos
passivos por parte destes?

Para Spinoza o segredo do bem viver estaria na capacidade de organizar


adequadamente os encontros, porém não dá para ser fazer isso pois somos lançados no
mundo e estamos expostos a qualquer mau encontro. Daí o mistério é como um corpo
consegue constituir uma vida onde ele consegue ser soberano de si mesmo, onde ele não
permite que alguns encontros produzam afetamentos tristes. Esta história me fez pensar
nas relações da instituição universidade comunitária e mercado. Como não consigo
perceber positividade neste segundo, fico pensando em como pode a universidade se
blindar do discurso neoliberal. Como garantir sua sustentabilidade sem diminuir sua
potência de vida e de gerar vida. A extensionalidade pode ser o modo que a
universidade consegue provocar afetamentos alegres naqueles com os quais se encontra.

Sendo o espaço da universidade em geral marcado por tantas estratégias


disciplinares e de controle, pode o espaço da extensão forjar linhas de fuga. Assim como
Spinoza acreditava que a sociedade deveria ser um espaço que oferecesse condições
para que as pessoas pudessem desenvolver suas potencialidades, também na extensão
acreditamos ter um espaço privilegiado para tal possibilidade. A relação com os alunos
já não seria de obediência destes, mas de busca de potencializá-los. O encontro dos
alunos com seus professores pode ser um encontro em que as diferenças de intensidades
estejam a serviço da vida e não de estruturas ou políticas de estado. O mistério seria
como, na aula, em ações tanto de ensino, como de pesquisa e extensão estabelecer esta
relação que aumenta a potência dos estudantes e do próprio professor? Se pensarmos em
termos de aplicabilidade do princípio é um tanto complicado, ao menos podemos pensar
nele como um indicador. Pode-se ao menos perguntar se os alunos estão cada vez mais
passivos ou ativos. Se estiverem com posturas de submissão ou assumindo mais o
protagonismos dos próprios processos de aprendizagem.

Para não concluir...

Não se pretendia aqui organizar um sistema, uma proposta política para se


transformar em políticas públicas na educação superior. Buscou-se mais encontrar
linhas de fuga dos sistemas em evidencia e colocar-se num momvimento de
experimentar devires novos. “Os processos são os devires, e estes não se julgam pelo
resultado que os findaria, mas pela qualidade dos devires-animal ou das individuações
não subjetivas.”(Deleuze, 1992:183) Pretendemos mais provocar experiências
marginais na prática extensionista. Nada de proposta totalizante ou globalizante. Nada
de resgate de algum modelo. Mais que isso, contra todo e qualquer modelo educacional.

Acreditamos que uma outra pedagogia, uma outra relação didática, uma outra
concepção de extensão, não melhor, nem pior que outras, que tenha uma característica
marcante de se evitar, de fugir de qualquer perspectiva facista, de afirmação do poder,
pode ser construída. Qual a sua forma ou como de fato vai ocorrer em cada lugar, em
cada situação específica, não há como determinar a priori.
Acreditar no mundo é o que mais no falta; nós perdemos completamente o
mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente
suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou
engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos.
(Deleuze, 1992:p.218)

É hora de acreditar no mundo e suscitar acontecimentos...

Bibliografia.

CORAZZA, Sandra Mara. Para uma filosofia do inferno na educação: Nietzsche,


Deleuze e outros malditos afins. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

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