ÉMILE ZOLA

A FORTUNA DOS ROUGON
Tradução de GABRIELA CORTE-REAL

CAPÍTULO I

Ao sair de Plassans pela Porta de Roma, no lado sul da cidade, depara-se, na margem direita da estrada de Nice e ultrapassadas as primeiras casas dos subúrbios, com um baldio designado na terra pelo nome de Campo Saint-Mittre. O Campo Saint-Mittre é um quadrilátero extenso, que corre ao nível do passeio da estrada, da qual o separa uma simples faixa de erva murcha. De um lado, à direita, ladeiam-no os casebres de uma ruela sem saída; à esquerda e ao fundo, fecham-no dois lanços de muralhas corroídas pelo musgo, por cima das quais se avistam os ramos mais altos das amoreiras do Jas-Meiffren, uma grande quinta cuja entrada fica mais adiante, nos subúrbios. Assim fechado por três lados, o campo é como que uma praça que não leva a parte nenhuma e que só os passeantes atravessam. Fora, em tempos idos, um cemitério entregue à protecção de Saint-Mittre, santo provençal altamente conceituado no sítio. Os velhos de Plassans ainda, em 1851, se lembravam de ter visto de pé os muros desse cemitério, que se mantivera fechado durante anos. O terreno, empanturrado de cadáveres durante mais de um século, ressumava morte, e fora necessário abrir um novo campo de sepulturas no extremo oposto da cidade. Abandonado, o velho cemitério purificava-se a cada Primavera, cobrindo-se de uma densa vegetação negra. O bem adubado solo, onde os coveiros já não conseguiam dar uma enxadada sem arrancar pedaços de cadáver, revelou-se formidavelmente fértil. A seguir às chuvas de Maio e aos calores de Junho, podiam ver-se da estrada, mais altas do que os muros, as pontas das
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ervas; lá dentro, era um mar verde-escuro, profundo, salpicado de grandes flores singularmente resplandecentes. Na sombra das hastes, muito cerradas, sentia-se a ebulição da terra húmida e o destilar da seiva. Uma das curiosidades daquele campo era, na época, umas pereiras de braços retorcidos, monstruosamente nodosos, cujos enormes frutos nenhuma dona de casa de Plassans teria querido colher. Na cidade falava-se dessas peras com esgares de repugnância; mas os garotos dos subúrbios não tinham tais delicadezas e à tardinha, ao crepúsculo, escalavam a muralha, em bando, para roubar as peras antes mesmo de estarem maduras. A vida ardente das ervas e das árvores consumiu num ápice toda a morte do velho cemitério. A podridão humana foi avidamente devorada pelas flores e pelos frutos e chegou o dia em que se não sentiram, vindos daquela cloaca, mais do que os penetrantes aromas dos goivos do campo. Alguns Verões bastaram. Nessa altura, a Câmara pensou em tirar partido da propriedade municipal que para ali jazia, inútil. Demoliram-se os muros que davam para a estrada e para o beco, arrancaram-se as ervas e as pereiras. Vasculhou-se bem fundo o terreno e amontoaram-se a um canto as ossadas que a terra achou por bem devolver. Durante perto de um mês os garotos, que não esqueciam as pereiras, jogaram à bola com os crânios; uma noite, alguns brincalhões de mau gosto penduraram fémures e tíbias em todos os cordões de campainha da cidade. Plassans ainda recorda o escândalo, que só cessou quando a Câmara se resolveu a atirar um montão de ossos para um buraco aberto no cemitério novo. Porém, na província, as obras fazem-se com sábia lentidão: durante uma longa semana, os habitantes assistiram à passagem, espaçada, de uma carroça, uma só, transportando restos humanos como se transportasse entulho. O pior é que a carroça tinha que atravessar Plassans de um extremo ao outro e, pelo mau calcetamento das ruas, a cada solavanco ia semeando fragmentos de ossos e punhados de terra gordurosa. Nem a mínima cerimónia religiosa; um carreto lento e brutal. Nenhuma outra cidade sofreu maior afronta.
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A Câmara. demasiado negligente e modorrenta para dele tirar bom partido. ou talvez a explicação resida na indolência da província. os habitantes foram pouco a pouco levados. em pilhas semelhantes a uma aglomeração de colunas gigantescas caídas. talvez a recordação do monte de ossos e da carroça de cá para lá. Aquelas pilhas de barrotes. alugou-o por uma ninharia a uns carpinteiros da terra. inconscientemente. a atravessá-lo. Para melhor apagar qualquer recordação desagradável. Datam de há muito estes factos. espalhados aqui e além. Aberto a quem quisesse entrar. que o transformaram em estância de madeiras. de uma ponta à outra do campo. endurecida e pardacenta a terra batida. nessa sua repugnância por tudo quanto é destruir e reconstruir. a povoá-lo. sobre o qual só com milagres de equilíbrio se consegue caminhar. com que baptizaram também o beco aberto a um dos cantos. Desgastada a erva. passou a haver o Campo Saint-Mittre e o Beco Saint-Mittre.. com o passar dos anos. seguem em fila pelas arestas estreitas. Ainda hoje continua atafulhado de barrotes enormes. de dez a quinze metros de comprimento. conservaram apenas o do santo. são uma contínua alegria para os miúdos. solitária. começaram a sentar-se nas ervas que o rodeavam. 9 . Nem sequer o rodeou de um tapume: quem queria. o terreno do cemitério de Saint-Mittre foi uma fonte de terror. A Câmara. de novo presa das ervas. aquele espaço vazio entrou nos hábitos das pessoas.. a mudar o nome ao sítio. aquela espécie de mastros dispostos paralelamente. não deve ter encontrado comprador. entrava. Há mais de trinta anos que o Campo Saint-Mittre tem um aspecto peculiar. obstinada como um pesadelo. Como têm escorregado bocados de madeira. E a pouco e pouco. A verdade é que a Câmara ficou com o terreno e acabou mesmo por esquecer o desejo que tivera de o vender.A FORTUNA DOS ROUGON Durante muitos anos. pelas ruas. assemelhou-se enfim o cemitério a uma praça pública mal nivelada. deserto se mantinha. à beira de uma estrada. Bandos de crianças entregam-se a esse exercício o dia inteiro. escarrancham-se nos barrotes. o terreno está em certos pontos coberto por um simulacro de soalho feito de pranchas abauladas. que esperara decerto vendê-lo para construção de casas. Saltam por cima dos madeiros grandes. fizesse recuar as gentes.

entre a madeira e a muralha. peça a peça. elevado alguns centímetros acima do solo e. dormindo. A madeira que serram vai sendo arrumada ao longo do muro do fundo. acentuaram o carácter estranho do campo. Durante horas. ei-la que se instala no Campo Saint-Mittre que.ÉMILE ZOLA mil brincadeiras que geralmente terminam em empurrões e lágrimas. e dois serradores. É uma serração primitiva: o pedaço de madeira é colocado sobre duas burras altas. tendo por música de fundo o rangido de uma serração que. comendo coisas sem nome. o Campo Saint-Mittre tornou-se o local de recreio onde há mais de um quarto de século vêm rasgar-se os fundilhos da garotada lá do sítio. Os ciganos de passagem. Gente que vive sem vergonha. minadas pela erva junto ao solo. uma dúzia deles senta-se na extremidade solta de algum barrote. um em cima do próprio barrote e o outro por baixo. não está nunca vazio. cheio do barulho das disputas dos ciganos e dos berros dos jovens vadios dos subúrbios. Um deserto. pelo meio. formando montes de dois ou três metros de altura. uma tira de verdura de onde mais não se vê do que nesgas de céu. estreitas e discretas. ao ar livre. de uma forma cúbica perfeita. que vão desembocar numa álea mais larga. ficam a balouçar-se horas infindas. Essa espécie de medas quadradas. transformou-se num lugar ruidoso. aparelha a madeira da estância. 10 . muito chegados uns aos outros. ostentando os seus andrajos esfarrapados. Mal uma dessas casas ambulantes. E o campo morto e deserto. onde cabe uma tribo inteira. assim. E assim. Formam veredas misteriosas. aqueles homens baixam-se e erguem-se com a regularidade e a frieza de uma máquina. um qualquer bando de homens asselvajados e de mulheres esqueléticas e. beijando-se. espancando-se. ou então. diante de todo o mundo. a um canto. grupos de crianças lindas a rebolar-se pelo chão. chega a Plassans. empestando o ar do odor da porcaria e da miséria. há sempre por lá uma qualquer quadrilha de comportamento singular. onde dantes só zângãos zumbiam à roda das flores luxuriantes. que tradicionalmente o elegem seu domicílio. que por vezes ali ficam estação após estação. são um dos encantos do Campo Saint-Mittre. cego pela serradura que cai. fazendo os seus cozinhados. imprimem a uma comprida e forte serra um movimento contínuo de vaivém.

todo o campo fervilha. contra o céu. a estância não mostrava o seu aspecto sinistro das noites chuvosas. com uma suave melancolia. Ao fundo. na lendária carroça. só o clarão mortiço da fogueira dos ciganos se avista. mais vibrante de conchego. nos campos de Plassans. Só os velhos. Lugar de eleição para amar. de solidão e de amor.A FORTUNA DOS ROUGON Nessa álea. o sítio fica sinistro. Perpassa nela esse sopro cálido e vago das voluptuosidades da morte que emana das velhas sepulturas aquecidas pelo sol abrasador. iluminada por grandes manchas de luz branca. Sobretudo no Inverno. espraiava-se no silêncio e na imobilidade do frio. decerto amontoaram os ossos naquele canto. Aliás. sobrepõe-se. Nesse fim de tarde. peculiar aos luares de Inverno. só as crianças vão para trás das pilhas de madeira. esvazia-se como um grande buraco escuro. quando o sol é tépido. sentados nos barrotes a aquecer-se ao sol-poente. De manhã e de tarde. não é raro desenterrar fragmentos de crânios. 11 . De dia. a silhueta seca do serrador. Não se vê senão a estância atulhada de barrotes e cinzenta de pó. Estava-se nos primeiros dias de Dezembro de 1851. Fazia um frio seco. Quando o cemitério foi despejado. colado às paredes. se se raspa com o pé a terra húmida. Numa tarde de domingo. já ninguém pensa nos mortos que dormiram sob aquela erva. A álea verde continua virgem e ignorada. Da lua cheia vinha uma claridade viva. às vezes ainda falam entre si dos ossos que em tempos idos viram acarretar pelas ruas de Plassans. aos miúdos que brincam entre os pedaços de madeira. como que a regular a vida nova e ardente que despontou no antigo campo do repouso eterno. Não há. o Campo Saint-Mittre despeja-se. Quando cai a noite. aos ciganos que atiçam o lume debaixo da panela. subindo e descendo num movimento cadenciado de baloiço. saiu cautelosamente do Beco Saint-Mittre. um rapaz que enfiou por entre os barrotes da estância. A intervalos. sombras esvaem-se silenciosamente nas trevas. e a toda essa turbulência. com os muros forrados de musgo e o solo coberto por um macio tapete felpudo. pois ainda hoje. pelas sete horas. reinam ainda a vegetação vigorosa e o silêncio fremente do antigo cemitério. quando brincam às escondidas. lugar mais emocionante. empoleirado no seu barrote.

Sob o luar de Inverno. baixou-se. estriado apenas de finos traços negros pelas linhas de sombra que corriam ao longo dos madeiros. Ao centro do campo. olhando em frente. com as casas nitidamente demarcadas. no ângulo dos muros do Jas-Meiffren. no silêncio gélido. virado para o chão. terno e triste. assemelhava-se a um fosso sombrio. desconfiado. por baixo da jaqueta. nem uma respiração. alongadas.ÉMILE ZOLA O rapaz parou um momento à beira do campo. Aí. um tabuleiro de damas feito de luz e de sombra. Aí. brilhava ao luar. A álea alongava-se. afastou uma tábua e escondeu a espingarda numa pilha de madeira. deitados. de longe em longe. onde não temia perigo algum e do qual só esperava obter coisas boas e agradáveis. num pedaço de solo cinzento e nu. o tapete de pranchas. Apertando a arma contra o peito. deslizando por entre pilhas de tábuas. como que inteiriçados de sono e de frio. nem um ser humano. cujo cano. um 12 . trevas e claridade. as burras dos serradores desenhavam-se. Estava então na álea de verdura que ladeia o muro. Mesmo no ângulo do muro. a erva coberta de geada estalava quase imperceptivelmente sob os seus pés. Tomou-o uma sensação de bem-estar. O resto da estância. estacou apurando o ouvido. após um rápido exame. Depois. até o som dos próprios passos deixou de ouvir. mais não era do que um vasto leito onde o luar dormia. estreitas. imóveis. a atravessar velozmente a estância. bizarras. Nada poderia comparar-se à paz daquela vereda. uma velha pedra tumular esquecida aquando da remoção do antigo cemitério e colocada por terra. traçavam na erva um risco de luz. como que a escutar se vinha algum ruído da propriedade contígua. até ao fim. lembrava os mortos do velho cemitério. branco e preto. aquele mar de mastros. perscrutou atentamente com o olhar os quadrados de trevas que os cubos de tábuas projectavam no chão. Decerto gostava daquele sítio. Segurava. Tudo dormia. Deixou de esconder a espingarda. sugerindo uma monstruosa figura geométrica traçada a tinta em papel. os raios de luar. por trás das tábuas. a coronha de uma comprida espingarda. Arriscou-se contudo. como nada ouvisse. afrouxou o passo. nenhum perigo de ser visto ou ouvido. Inquietavam-no mais as manchas sombrias do fundo. um sono profundo. O rapaz limitou-se a uma olhadela rápida pelo espaço vazio. por onde o rapaz foi caminhando. Mal se viu a salvo.

uns certos resquícios de infantilidade. Era belo. a casa grande e as dependências habitadas pelo caseiro eram manchas de um branco gritante. iluminado pelo luar. corrigiam-lhe os traços rudes uma certa languidez atraente. Porém.A FORTUNA DOS ROUGON pouco de través. mal salpicadas as faces e o queixo de leve penugem. ainda com a boca inocente e a pele suave da juventude.. o queixo irregular. Nem todas as mulheres teriam apreciado esse garoto. podia ainda ler-se este fragmento de epitáfio gravado no lado que se cravava no chão: AQUI JAZ.. Porém. na puberdade. de uma magreza angulosa de cavaleiro andante. planas e sem árvores. Escolhera um canto escuro. a uma centena de metros. alcançou-o a luz da Lua que subia no céu e o seu rosto ficou iluminado. mais não viu do que uma planície de luz. formava uma espécie de banco alto. O rapaz olhava inquieto para esse lado quando um relógio da cidade começou a bater. A chuva esfarelara-lhe as bordas e o musgo corroía-a lentamente. Contou-as e desceu da pedra. de um negro meigo. o olhar fixo numa mancha sombria. o sobrolho proeminente. que as 13 . Sentou-se no banco. as maçãs do rosto muito marcadas formavam um conjunto de singular vigor. sonhador. O tempo apagara o resto. disposto a uma longa espera.. Nem parecia sentir o frio. Contudo. permitiu-lhe apoiar os cotovelos. agora. MORTA. a testa abaulada. Com a idade. O muro era baixo. de uma beleza especial. as terras do Jas-Meiffren. para além do renque de amoreiras. as setes horas. Teria uns dezassete anos.. o nariz adunco.. Durante mais de meia hora manteve-se imóvel. mas emanava dos seus traços uma tão ardente e simpática vivacidade. As faces.. eram mais um traço de doçura na máscara enérgica. tornar-se-ia decerto demasiado ossudo. magras e compridas. MARIE. mas. o jovem. longe de ser aquilo a que se chama um «bonito rapaz». tanto entusiasmo e vigor. Escondida a espingarda. dir-se-iam talhadas pela mão de um escultor pujante. estiravam-se ao luar como uma imensa peça de linho cru. pouco a pouco. lenta e gravemente. decidiu-se a trepar à pedra. parecendo surpreendido e aliviado. Era um rapaz de aspecto vigoroso. Os olhos. outra vez à escuta e sem de novo nada ouvir.

retomou-o a impaciência. refugiou-se de novo no escuro. um coração de homem guiado por um raciocínio de criança. Com um movimento brusco. Pelos pulsos. por se sentir incompleto e não saber como completar-se. sem saber como matar o tempo. umas mãos fortes de operário. irradiantes. envergonhado. Depois. pela espessura da coronha e a potente culatra. os pés eram pesadões. mas não conseguiu retomar o fio das suas divagações. foi arrancado em sobressalto ao seu sonho. foi buscar a espingarda à pilha de tábuas onde a escondera e entreteve-se a manuseá-la. o rapaz continuava pensativo. Ao ver-se banhado de luz. tímido e inquieto. vestia umas calças e um casaco de veludo de algodão esverdeado. desceu. Quando soou a meia hora no relógio vizinho. Um chapéu mole de feltro. que sem dúvida pertencera a um qualquer contrabandista. não dava sequer pelos raios de luar que lhe percorriam agora o peito e as pernas. cuja ignorância se havia transformado em entusiasmo. pela postura entorpecida dos membros. Nessa noite. ligeiramente atirado para trás. deviam sonhar com ele. capaz dos abandonos de uma mulher e da coragem de um herói. Na extremidade dos braços demasiado desenvolvidos. não obstante o seu vigor. olhou em frente. quando o viam passar-lhes à porta nas noites quentes de Julho. no entanto. Sentado na pedra tumular. Voltou a trepar para deitar uma olhadela ao Jas-Meiffren. pelas mãos e pelos pés. um pouco atarracado. como que uma revolta surda contra o embrutecimento do trabalho manual que principiava a curvá-lo para o chão. um desses espíritos ternos e requintados que sofrem por não poder soltar-se. Um bom rapaz. Devia ser uma criatura inteligente afogada na grosseria da sua raça e da sua classe. na cintilação pensativa do olhar. A arma era uma carabina comprida e pesada. Por isso parecia. Sentiu então gelados os pés e as mãos. do seu invólucro sombrio. que continuava silencioso e deserto. reconhecia-se uma velha espingarda 14 .ÉMILE ZOLA raparigas da província. havia em si. no aprumo altivo do pescoço. já calejadas pelo trabalho. Era de estatura média. era um homem do povo. essas raparigas bronzeadas do Sul. calçados com grossos sapatos de atacadores. pelos calcanhares. sem disso se aperceber. projectava-lhe na testa uma tira de sombra. inquieto.

O rapaz acariciava a arma com amor. Pouco a pouco. Ainda nem estendera os braços quando uma cabeça de rapariga surgiu por cima do muro. Sentou-se a seu lado. Silvère deixou cair a arma e saltou para a pedra tumular. está decidido. percebia-se que aquele estranho caminho devia ser-lhe familiar. enquanto dizia: — Queria ver-te.A FORTUNA DOS ROUGON de pederneira transformada por um qualquer armeiro da terra em espingarda de fulminante.. meteu o dedo mínimo no cano. já sentada na pedra: — Estás à minha espera há muito tempo?. — Estou. Houve um silêncio. 15 . Com uma enorme agilidade e apoiando-se no tronco de uma amoreira. Encostou por fim a carabina à cara. abafando também a voz.. murmurou: — Ah!. baixa e ofegante.. com um riso de miúda brincalhona —. Teria esperado por ti a noite inteira. animou-o. vou ajudar-te. ao nascer do dia. Ficou séria.. Há algum tempo que mantinha a arma encostada à cara. Não parecia ter vontade de rir. quando uma voz. Num abrir e fechar de olhos. estava sentada no cimo do muro.. deixa-me. Silvère não respondeu. Vim a correr. Vêem-se carabinas dessas penduradas em casas de quintas. Depois. por cima das chaminés. Silvère? — perguntou a voz. a garota trepara como uma gatita. engatilhou mais de vinte vezes o cão. apontando para o espaço. Parto amanhã de manhã. Sei muito bem descer sozinha. sim — respondeu.. — Estás aí. tens aqui a espingarda. Silvère tomou-a então nos braços e pousou-a no banco. examinou atentamente a coronha.. veio do Jas-Meiffren.. subtil como um sopro. Não devia faltar muito para que soassem as oito horas. Porém. — Espera. ainda à mistura com alguma infantilidade. Miette.. como um recruta em manobras.. — Deixa-me — dizia... estou esbaforida. um entusiasmo de jovem. Pela precisão e à-vontade dos seus movimentos. olhava-a com um ar desgostoso. ela debateu-se. Miette acabava de ver a espingarda caída no chão.

usam ainda. muito viva. na Provença. mais não houve do que um abraço em que o amor continha ainda a inocência doce de amor fraternal. a que na região chamam «capuchas» e cuja origem deve ser muito longínqua. animando-se. As mulheres do povo. que lhe caía até aos pés e a envolvia toda. Pronunciou a palavra «irmãos» com uma ênfase juvenil. sem ver nada.. amanhã de manhã. mas eu ainda tinha esperanças. retomou a sua melancólica tranquilidade. Não trocaram qualquer beijo. os que ainda cá estão irão ao encontro dos seus irmãos. amanhã. a tia Dide poderia ver-me ir buscá-la e ia ficar inquieta. simplesmente: — Está bem. só a luz da Lua. as camponesas e as operárias. está decidido. Esta tarde. após um silêncio: — Tu bem me avisaste. a álea verdejante. E. levantou-se e meteu-a de novo na pilha de tábuas. venho buscá-la no momento de partir. Foi decidido que nos juntaríamos a eles. Preferi tirá-la hoje de casa. Miette escutava Silvère olhando fixamente em frente. essas mantas. Só se lhe viam a cabeça e as mãos. E. Silvère rodeara com o braço a cintura de Miette e esta encostara-se-lhe ao ombro. Vou escondê-la. O grupo formado pelos dois jovens sentados na pedra tumular imobilizara-se. Enfim. vamos triunfar.. — Soubemos esta manhã — continuou. como Miette parecia incapaz de desviar o olhar da arma que ele tão parvamente deixara sobre a erva. na pálida claridade.. Miette estava coberta por uma espécie de grande manta castanha com capuz. é a minha espingarda..ÉMILE ZOLA — Sim — respondeu Silvère numa voz ainda mais insegura —.. voltando a sentar-se — que os insurrectos de Palud e de Saint-Martin-de-Vaulx se encontravam a caminho e estiveram a noite passada em Alboise. Ao chegar. emudecera. Depois. Miette 16 . O canto deserto da estância. Não conseguiram encontrar mais palavras. uma parte dos operários de Plassans deixou a cidade. disse. com voz mais vibrante: — A luta é inevitável. fazia girar sobre a erva a sombra das pilhas de tábuas.. Quando ele se calou. mas a razão está connosco.

sair-lhe das mãos elegantíssimo. Não se lhe chamaria feia. ficam feias. Incomodavam-na. por vezes. tinha a forma e a cor dourada da Lua em quarto crescente. é uma época de graciosidade penetrante que nunca mais viverão. sem nunca se preocupar com a chuva ou a geada. inconscientemente. para todas aquelas cujo sangue é rico e que vivem ao ar livre. para que ocupassem menos espaço. da grossura de um punho de criança. muito baixa. uma delicadeza de botão de flor. negros como tinta. Para Miette. Tal como o seu amigo. Sob a linha escura dos cabelos. a sua beleza não era vulgar. mas em que cada traço confessa. Devia ser já núbil. as linhas cheias e voluptuosas da puberdade anunciam-se nas magrezas inocentes da infância. graças ao clima e à vida dura que levava. a testa. de sangue ardente. Era uma criança. Habituada ao ar livre. por essa massa de cabelos frisados que se lhe soltavam sobre as fontes e o pescoço como uma pele de animal. a mulher desabrocha com os seus primeiros embaraços pudicos. Ao vê-la coberta por esse toucado vivo. porém. implantados com rudeza e direitos na fronte. mas uma criança que se fazia mulher. é uma altura má. Não tinha tempo para se preocupar com o penteado e acontecia sempre o enorme carrapito. e depois amontoava-os atrás da cabeça. lançavam-se vigorosamente para trás. Tinha uns cabelos soberbos. alegre e ingénuo o seu riso. tão fortemente quanto podia. amarelas e débeis como plantas precoces. Atravessava aquela fase indecisa e adorável em que da garota nasce a rapariga. escorriam-lhe ao longo da cabeça e da nuca como um mar encapelado. Os olhos 17 . em todas as adolescentes. A sua cabeça descoberta salientava-se contra o muro iluminado pelo luar. ainda com um corpo em parte infantil. gorducha e cheia de vida. Embora fosse já forte. compreendia-se porque andava de cabeça descoberta. a tal ponto era ainda. Para algumas raparigas. não se lhe davam mais. Há então. feito sem espelho e à pressa. Eram tão bastos que a rapariga não sabia o que fazer-lhes. nunca usava touca. uma hesitação de formas de delicioso encanto. pareceria pelo menos estranha.A FORTUNA DOS ROUGON atirara para trás o capuz. a muitos jovens. crescem muito depressa. cheio de vagas e de caprichos. Torcia-os em várias madeixas. Miette tinha treze anos. Era quase do tamanho de Silvère. a mulher expandia-se nela rapidamente. o seu sexo.

Miette e Silvère ficaram calados muito tempo. No rosto de Miette. Uma leve penugem escura punha já um ligeiro sombreado sobre o lábio superior. Silvère. na sua vivacidade esfuziante. muito brancos os dentes grandes. Sem responder. conter-se por mais tempo.ÉMILE ZOLA grandes. E. pendurando-se no pescoço de Silvère. Liam os pensamentos inquietos um do outro. agitando na nuca as grandes madeixas de cabelos frisados. não teria estre18 . para nela reencontrar a virgem. Miette estremeceu. assemelhava-se a uma bacante da Antiguidade. beijou-a na face. e numa frase exprimiu a inquietação de ambos: — Tu voltas. a rapariguinha de treze anos. A rapariga não conseguiu. se se mantivessem preguiçosas. Na véspera. apertava-se mais o seu abraço. Já não se encostava ao ombro de Silvère. à flor do rosto. demasiado grossos e demasiado vermelhos — outras tantas fealdades. em certos dias. de narinas largas e arrebitado. gelava-se-lhe o corpo. à medida que iam mergulhando juntos no medo e no desconhecido do amanhã. reflexos de âmbar dourado. queimado pelo sol. Separaram-se. atirando para trás a cabeça e deixando-a pender docemente sobre o ombro direito. umas adoráveis mãos rechonchudas de burguesa. enquadrados no arredondado sedutor da cara. inchada a garganta de sonora alegria. No entanto. era preciso ver quanta inocência havia nas suas gargalhadas ricas e dóceis de mulher feita. de novo caíram no seu silêncio. se examinarmos separadamente. Quando Miette ria. com um nó na garganta e receoso de chorar como ela. arredondadas as faces como as de uma criança. não voltas? — balbuciou. era sobretudo preciso reparar na delicadeza ainda infantil do queixo e na pureza suave das têmporas. E. O trabalho começava a deformar-lhe as mãozitas pequenas que teriam podido tornar-se. os lábios. sufocava. Entendiam-se profundamente. esses pormenores do rosto constituíam um conjunto de estranha e sedutora beleza. no entanto. semelhantes a uma coroa de parras. Passado um instante. o nariz curto. como um irmão que não encontra outra forma de consolo. sentiam a inutilidade e a crueldade de qualquer queixa feita em voz alta. havia.

Miette envolvera Silvère e este prestara-se a essa operação. rente às casas. Miette pensava que não iria ter talvez durante muito tempo a alegria de um encontro. há várias estações. Quando Silvère e Miette seguiam sob as árvores. viviam com tanta felicidade a sua ternura. como eles. direitos à estrada. há alguns anos. ruínas grandiosas e ainda plenas de vigor.. quando sob as pregas da capucha perderam toda a forma humana. Eram. em 1851. cobrindo-o todo. hermeticamente fechados num pedaço de tecido. no fundo daquela álea deserta. Aí. dentro do mesmo manto. — Vamos. como se todas as noites a capucha lhes viesse prestar o mesmo serviço. de uma dessas conversas à tardinha. os que um dia virão a ca19 .. A estrada de Nice. vamos até ao moinho. dos dois lados da qual foram construídos os subúrbios. — Ainda não são nove horas. brancos de luar. era ladeada. atirou uma ponta desse abrigo amplo e quente sobre os ombros de Silvère. pares de apaixonados. cujos ramos monstruosos a luz da Lua desenhava no passeio. podemos dar um passeio pela estrada. passeando nas sombras profundas a sua ternura discreta. apertando-o contra si. Deixaram o banco e esconderam-se na sombra de uma pilha de tábuas. pondo o capuz. vultos negros que se moviam em silêncio. — Estou cheia de frio — disse ela. encontraram. Miette afastou a capucha. para as quais vivia o dia inteiro. sim — respondeu com vivacidade —. Quando se fundiram num único ser. que a municipalidade muito asseada da cidade substituiu. juntando-o a si. Passaram-se mutuamente um braço pela cintura para se tornarem num só corpo. com a maior naturalidade. naquela pedra tumular onde. puseram-se a caminho em passos curtos. por olmos seculares.A FORTUNA DOS ROUGON mecido assim. Os amorosos das cidades meridionais adoptaram esse género de passeio. Os rapazes e as raparigas do povo. na paz dos velhos mortos. por pequenos plátanos. atravessando sem receio os espaços nus da estância. Fico toda a noite. — Queres que andemos? — perguntou-lhe o rapaz. que tinha um desenho de losangos e era forrada de chita cor de sangue. velhos gigantes. por duas ou três vezes. se quiseres.

na verdade. embora os pais lhes concedam uma liberdade total. do que estes passeios de amor. ao longo das estradas. Os apaixonados sabem-se bem escondidos. o escândalo da terra. a andar. os desvios das estradas. felizes por se sentirem aconchegados e juntos no mesmo peda20 . se se encontrassem a sós. como todos os habitantes se conhecem. conversam em voz baixa. Os apaixonados sentaram-se. a moral rígida da província não se mostra alarmada. É uma verdadeira mascarada. sem correrem o risco de ser reconhecidos e apontados a dedo. seriam. contudo. no dia seguinte. Os pais toleram tais passeios em plenas trevas. de passar noites nos braços um do outro em público. nada mais. todos os locais onde passa pouca gente e onde há muitos cantos escuros. come-se ao ar livre. Aqui. percorrem os arredores. o que dá aos beijos trocados uma voluptuosidade penetrante. o amor sem nome. no calor do seu fato. Neles se concentra toda a imaginação meiga e inventiva do Sul. o amor que se adivinha e se ignora.ÉMILE ZOLA sar-se e a quem não desagradam nada algumas carícias antes disso. assemelha-se a outro par. Um par não passa de uma massa bruta. não sabem onde se refugiar para trocar uns beijos à sua vontade. dão-se ao trabalho de se tornar irreconhecíveis enrolando-se numa dessas grandes mantas. sem se expor demasiado à má-língua. o mais frequente é não dizerem nada. que vê vagamente moverem-se essas massas. deve ser a certeza de poderem abraçar-se impunemente diante de todos. Às vezes. Para o passeante tardio. esconde-o contra o coração. os baldios. E o que há de delicioso. Na cidade. no meio dos indiferentes. é o amor que acontece. como as burguesinhas escondem os seus galãs debaixo da cama ou no armário. que abrigaria uma família inteira. o fruto proibido tem um sabor particularmente doce. uma rapariga porta-se mal. passearem durante horas. admite-se que os apaixonados não parem nunca em recantos nem se sentem ao fundo dos terrenos e tal basta para acalmar os pudores assanhados. Nada mais encantador. nem todos os dias têm meio-termo. Não se pode fazer mais do que dar beijos. sentem-se em casa. fértil de pequenos prazeres e ao alcance dos miseráveis. o abrigo está pronto para o seu amante. E. A apaixonada não tem mais do que abrir a manta. por outro lado. por maior prudência. se alugassem um quarto.

Começavam a descer a avenida.A FORTUNA DOS ROUGON ço de chita. dir-se-iam convidados de um baile misterioso oferecido pelas estrelas aos amores dos pobres. contentam-se com arregaçar a saia de cima. É algo de muito voluptuoso e ao mesmo tempo muito virginal. as duas filas de olmos continuavam e transformavam a estrada numa avenida magnífica. a estrada desce em suave declive até ao fundo de um vale que serve de leito a um riacho. que acabavam de deixar para trás. Estavam tristes os seus corações. na sombra de cada lanço de muralha. dois grandes pilares ligados por uma grade que deixa ver. a ventura que saboreavam ao cingir-se um ao outro continha a emoção dolorosa de um adeus. Quando está muito calor e as raparigas não trazem as suas capuchas. quando os pensamentos de Miette retornaram ao Jas-Meiffren. sem ruído. Nas belas noites de Verão. o Viorne. sob a lua cheia e fria. Silvère e Miette não pensavam em queixar-se da fria noite de Dezembro. Os jovens atravessaram os subúrbios adormecidos sem trocar uma só palavra. Ao passar. Enquanto seguiam pela estrada de Nice. os amorosos riem-se das geadas. é impossível dar a volta a Plassans sem descobrir. Nessa época. parecia-lhes infinda a doçura e a amargura do silêncio que embalava suavemente os seus passos. A partir do Jas-Meiffren. só a voz surda do Viorne abalava a paz imensa dos campos. um par encapuzado. um comprido renque de amoreiras. Ao longe. semelhantes a vastas camadas de algodão acinzentado que amortecessem todos os sons ambientes. os campos lavrados de fresco estendiam-se até às duas beiras do caminho. alguns sítios. Reencontravam. cortando a encosta plantada de trigo e de vinhas enfezadas. É aí que fica o portão do Jas-Meiffren. o Campo Saint-Mittre. 21 . Depressa as casas começaram a rarear. Naquela noite de Dezembro. É o clima o grande culpado. por exemplo. atingiram o extremo dos subúrbios. o prazer quente do seu abraço. com uma larga faixa de árvores gigantescas. deve ter sido só ele quem inicialmente os incitou a procurar os recantos dos subúrbios. numa felicidade muda. na cálida serenidade da noite. Silvère e Miette deitaram instintivamente um olhar à propriedade. por entre as suas barras. regato no Verão e torrente no Inverno. estão cheios desses dominós sombrios que se roçam lentamente. No Inverno.

— O meu tio não se decidia a mandar-me embora. Acrescentou depois. tu és bom.. Miette. não terás mais horas más. De cada vez que me atiram à cara o nome do meu pai.. por vezes. Não são os trabalhos duros que me ralam. 22 . abanando a cabeça —.. Acho que isso me faria bem. — Não importa — continuou a rapariga —. é como se me queimassem o corpo inteiro.. acrescentou: — Tu és um homem. Não devemos revoltar-nos contra a justiça. Silvère. Quando passo e os garotos gritam: «Eh! Chantegreil». fico fora de mim. pelo contrário. Silvère interrompeu-o num tom quase rude: — Cala-te! Tinhas-me prometido pensar menos nisso. porque. tu. Silvère abraçou-a com mais meiguice. não para satisfazer uma vingança qualquer.. — Ah! — continuou a rapariga. fico muitas vezes feliz com a severidade do meu tio e com as tarefas que me impõe. porque esta manhã parecia muito assustado com os acontecimentos que se preparam. Teve razão em fazer de mim uma camponesa. quebrou-se-lhe a voz num soluço. Não é um crime teu. abro o meu coração. há momentos em que me sinto maldita.. estendes-me a tua mão. disse com voz triste: — Estás errada. não é verdade? Quando estivermos casados. sinto-me revoltada. em que me apetecia estar morta.. Silvère deixara-a falar. Não vale a pena apoquentares-te. Acho que me fizeram mal e então dá-me vontade de ser má. Fechou-se num celeiro. a tua cólera é má. Há dias em que me sinto bem triste. talvez eu tivesse ido por mau caminho. após um silêncio feroz... mais docemente: — Nós amamos-nos. E. tu vais dar tiros. Alguns passos adiante. A ti. Ao pronunciar as últimas palavras. julgo que enterrou lá o seu dinheiro. sabes. eu queria ser homem e dar tiros. És bem feliz.ÉMILE ZOLA — Tive imensa dificuldade em escapar-me esta noite — disse ela. Há-de chegar o dia em que nos veremos livres todo o tempo. Eu vou bater-me pelos direitos de todos nós. — Vá.. Penso em quem tu sabes.... tem coragem. quereria apanhá-los e bater-lhes.. tu tens esperança. Mas que queres? Assaltam-me receios. — Eu sei — murmurou Miette —...

— Julgas-me muito mais feliz do que tu? — perguntou Silvère. que beijou.. Mas. Amo a República. Começou a chorar. Não estou a ralhar contigo. a esses cavalheiros. Talvez dissesse para consigo que Silvère a deixava com demasiada facilidade para acorrer aos combates.. que é operário como eu e me ensinou a amar a República. O tio Antoine é que as sabe bonitas sobre o assunto. Continuaram a caminhar. Toda a sua exaltação se desvaneceu.. percebeu que lhe desagradara. retendo Miette no meio da estrada. cuja recordação Miette evocara tão dolorosamente. hei-de pespegar-lhes tudo na cara. O drama. Só queria ver-te mais feliz e isso depende muito de ti. mas havia amargura por detrás do seu riso. tentando brincar. Silvère. — Deus é testemunha — continuou — de que não invejo e não odeio ninguém. o que teria sido de mim? Excepto o meu tio Antoine. Balbuciou. Recomeçaram a caminhada. Vamos viver todos livres e felizes. um instante depois. Animava-se ao falar. porque te amo.. comovido. atormentados pelos seus pensamentos. voltando sem querer ao assunto. de cabeça baixa. se triunfarmos. passas da cólera às lágrimas como uma criança. Vais ver. que devo ser humilde. Miette puxou-o com doçura.. como Silvère se mantinha calado. — Se a minha avó não me tivesse recolhido e educado. todos os meus outros parentes parece temerem que eu os suje quando passo por eles. — Muito tu gostas da tua República! — disse a rapariga. parara. precisaremos de muita felicidade e é por uma parte dessa felicidade que vou afastar-me amanhã de manhã. suplicante: — Não estás zangado comigo? É a tua partida que me entristece e me dá ideias destas. — Gostas tanto de mim como dela? Ria-se. Dei-te todo o meu coração. O rapaz respondeu com gravidade: — Tu. tu és a minha mulher. tomou-lhe as mãos. — Vá lá — disse ternamente —. deixou entristecidos os apaixonados durante alguns minutos. Não me aconselhas a ficar em casa? 23 . Sei bem que tens razão. quando regressarmos.A FORTUNA DOS ROUGON E. Quando formos casados. É preciso ser razoável..

desde as últimas casas que não se cruzavam com vivalma. Não deixaram por isso de continuar envolvidos na grande capucha. Recomeçaram a descer a encosta. sem sentir aquele peso acabrunhante com que os vastos horizontes indiferentes carregam as ternuras humanas. ter-se-iam achado muito pequeninos e muito isolados na vastidão do campo. — O que nós andamos! — exclamou ele.. Silvère avistou o moinho. sem sequer passar os olhos pelos campos que atravessavam. era por assim dizer o ninho natural dos seus amores. não é verdade? Guardou um momento de silêncio. — Só mais um bocadinho — implorou —. Bem gostaria de ter tanta força como tu. Devem ser quase nove e meia. À esquerda. não! — exclamou com ardor a rapariga. o campo continuava a dormir. Tinham chegado a meio da encosta.. A garota esquivou-se um pouco. até ao atalho. só a torre restava. Através das pregas da capucha olhavam os campos que se estendiam de ambos os lados da estrada. Era a meta que haviam determinado para o seu passeio. Desde a saída do subúrbios que seguiam em frente. a sorrir. E tinha os olhos rasos de lágrimas de emoção. — Um homem deve ser forte. Tomou Miette nos braços e beijou-a várias vezes nas faces. É bela. Tens de me perdoar os ciúmes. a coragem!. A sério. na paz infinita do frio. um outeiro elevado em cujo cume a luz da Lua iluminava as ruínas de um moinho de vento. temos de voltar para casa. depois acrescentou com uma vivacidade e uma ingenuidade deliciosas: — Ah. só até lá. uns passos apenas. toda desmoronada de um lado. tornava-os maiores.. Tranquilizava-os. Parecia-lhes que levavam consigo a sua casa. Escondera-os durante tantas noites felizes! Se passeassem lado a lado. Miette fez beicinho. — Lá está o moinho. a rir. goza24 . Silvère passou-lhe outra vez o braço pela cintura. Já não receavam os olhares dos curiosos.ÉMILE ZOLA — Ah.. formar um único ser. Ainda gostarias mais de mim. Rodeando os amantes. Essa capucha. esse fato comum. como será bom abraçar-te. quando regressares! Este grito de um coração apaixonado e corajoso tocou Silvère profundamente.

vagos sob a mortalha do Inverno e da noite. fingindo não ver o atalho que haviam prometido não ultrapassar. Porém. amando a calma solidão. que corre no ex25 . Foi só alguns minutos adiante que Silvère murmurou: — Deve ser tardíssimo.. acaba-se mesmo. pedaço de ruela infiltrado nos campos e que levava a uma aldeia construída na margem do Viorne. não estou fatigada — retorquiu a rapariga. todo aquele vale que. voltamos para trás. Avançavam devagar. Depressa chegaram ao atalho de que Miette falara. os pequenos retalhos de natureza. sem verdadeiramente se ouvirem. Tinham aliás desistido de manter uma conversa seguida. Voltaram ao seu êxtase. com os olhos abertos. que o andar cadenciado da pequena embalava e que dormitava docemente. encantando-os. — Era capaz de andar assim léguas a fio. poucas palavras pronunciando. Lá chegados. ora apertando-se as mãos. enquanto caminhassem em frente. Iam avançando. no entanto. ora exclamando perante determinada paisagem. Como acontecia nos dias vulgares. o cruel adeus. era como se durasse até à eternidade o abraço que os unia. vais-te cansar. — Não. O fundo do vale é constituído por prados que se estendem até ao Viorne. viviam o momento presente. Silvère. E acrescentou com voz sedutora: — Queres? Vamos descer até aos prados de Sainte-Claire. não fez objecção. deixavam-se embalar pelo êxtase da sua ternura. o regresso era a separação. poder suficiente para se intrometer entre os seus dois corações apertados um contra o outro. os lençóis de luz adormecida. por muito tempo. Miette já não pensava que o seu apaixonado iria deixá-la daí a uma hora. continuaram a descer. não tinha.A FORTUNA DOS ROUGON vam o campo como se o vissem de uma janela. Silvère esquecia os seus entusiasmos republicanos. já não falavam dos outros. como que entorpecidos pela tepidez dos seus corpos.. não se detiveram. nem sequer de si próprios. talvez para sempre. juro-te que não. quando nenhuma despedida perturbava a paz dos seus encontros. receosos do momento em que seriam obrigados a subir de novo a encosta. A inclinação do caminho ia diminuindo.

Ao belo luar de Inverno. olharam para baixo. apesar de toda a sua lentidão. e que segue em linha recta de Plassans até ao Viorne. viram a outra parte da estrada. No regresso. porém. por entre as trevas amon26 . eles. semelhantes a uma larga tira de lã verde. nus. apoiados ao parapeito da ponte.ÉMILE ZOLA tremo oposto. Os apaixonados levaram um bom quarto de hora a percorrer essa distância. quais chamas vivas. pois faz uma curva brusca. — Ora! — exclamou Silvère ao avistar os primeiros tapetes de erva. Depois. aquela que tinham acabado de percorrer. Essas planícies. rentes ao horizonte. Passo a passo. cortados por essa fita branca de geada. Miette e Silvère tinham-se afastado uma boa légua. a meio quilómetro da ponte. a estrada de Nice subia a vertente oposta do vale. engrossado pelas chuvas. dir-se-ia uma longa fita de prata que os renques de olmos orlavam de dois debruns escuros. Não podia haver grandeza mais imponente. Na sua frente. separadas da estrada por sebes espinhosas. Pararam. aliás. erguia-se numa imobilidade e num silêncio de morte. Agarrou o rapaz pelo pescoço e beijou-o ruidosamente. e perde-se entre uns morros arborizados. Chegaram finalmente. só conseguiam ver um bocadinho dela. A montante e a jusante. como se galgassem os degraus de uma cascata. ao longo de uma série de colinas baixas. a comprida alameda de árvores era então rematada por dois olmos. — Bem podemos ir até à ponte. Dos últimos olmos até à ponte. de um brilho metálico. Olharam o caminho percorrido. num ruído surdo e contínuo. algumas janelas dos subúrbios ainda iluminadas. são os prados de Sainte-Claire. até aos salgueiros e aos vidoeiros do rio. Os terrenos estendem-se ao nível da estrada. O Viorne. as terras lavradas da encosta eram grandes mares cinzentos e imprecisos. O estranho cenário. No sítio onde começam as sebes. No alto brilhavam. distavam. passava a seus pés. tomados de muda admiração pelo imenso anfiteatro que subia até ao céu e pelo qual escorriam lençóis de claridades azuladas. À direita e à esquerda. a apoteose colossal. Miette soltou uma gargalhada ingénua. apenas trezentos metros. dois colossos ainda mais gigantescos do que os outros.

. Dir-se-ia um vale encantado. E depois de um silêncio. Os jovens conheciam bem este trecho do rio. nessa época estreito como um fio. Reviram. antes do açude. cujos mínimos pormenores recordavam: o grande céu morno. pondo na água um rasto de estanho fundido que luzia e se agitava. E ao mesmo tempo. na margem direita. as belas noites que tinham passado juntos.. — É. antes de subir a encosta. nas noites quentes de Julho. como se as iluminasse um clarão.. um retiro maravilhoso onde vivesse uma estranha vida todo um povo de sombras e claridades. — Se estivesse mais quente — suspirou —. poderíamos descer para descansar um bocadinho. em busca de alguma frescura. uma emoção na qual se misturavam as alegrias da véspera e as esperanças do amanhã. em voz baixa. é a moita — concordou Silvère. das pedras sobre as quais era preciso saltar para atravessar o Viorne. tinham ido até lá muitas vezes.A FORTUNA DOS ROUGON toadas nas concavidades. no local onde os prados de Sainte-Claire desenrolam até à borda-d’água os seus tapetes de erva. Por isso Miette. a frescura dos salgueiros do Viorne. haviam passado longas horas. 27 . sempre com os olhos postos nas margens do Viorne: — Olha para aquela mancha escura. Essas luzes corriam com misterioso encanto acompanhando a corrente parda do rio. distinguiam as linhas negras das árvores das margens. Lembras-te? É a moita onde estivemos sentados no último Corpo de Deus. aqui e além. enquanto as coisas do passado os revisitavam docemente. Essa recordação que a pequena acabava de evocar causou a ambos uma sensação deliciosa.. em cima da ponte. como um reflexo de luz nas escamas de um animal vivo. de certos buracos de erva nos quais haviam sonhado os seus sonhos de ternura. Lembravam-se das mais ínfimas sinuosidades da margem. Fora lá que haviam ousado beijar-se na cara. contemplava com um olhar desejoso a margem direita da corrente. julgaram penetrar no desconhecido do dia seguinte. sobretudo a do Corpo de Deus. por entre os fantasmas vagos da folhagem. Silvère. escondidos nas moitas de salgueiros. um raio de luar deslizava. lá em baixo. as palavras carinhosas que trocaram.

Estavam tão felizes uns minutos antes. Silvère escutava. por entre esse som contínuo e crescente. num ímpeto de alegria e entusiasmo. formidável. de súbito. escondidos pelos arbustos. Distinguiu-se depois. Miette. 28 . E retomou-os o enlevo. sopros estranhos de tempestade cadenciados e rítmicos. se assemelharam ao ruído de pés de um exército em marcha. surpreendida. sem compreender por que razão se afastava dela o rapaz com um gesto tão rápido.ÉMILE ZOLA ver-se de braço dado. o vozear da multidão. tão estreitamente unidos. Deitou a correr encosta acima. Há já instantes que vinham ruídos confusos de detrás dos morros em que se perde a estrada de Nice. realizando o seu sonho e passeando juntos pela vida como acabavam de fazer na estrada. olhos nos olhos. cantada com uma fúria vingativa. imitou-o. arrastando Miette. já nem parecia saber que ela estava ali. tão perdidos no grande silêncio e na claridade discreta da luz da Lua! E agora Silvère. o Viorne abafava com o seu bramido esses rumores ainda indistintos. — São eles! — exclamou Silvère. mas que pouco a pouco se acentuaram. sem conseguir discernir essas vozes tempestuosas que as colinas impediam de chegar nitidamente até ele. perturbando já com a sua aproximação o ar adormecido. olhou tristemente os homens cujo cantar longínquo bastara para arrancar Silvère dos seus braços. explodiu. para que não os arrastasse a ambos a multidão ululante. empalidecida. Desembaraçou-se das pregas da capucha. à qual trepou com a rapariga. aconchegados no calor de uma mesma capucha. com a cabeça voltada. isolados na muda claridade. Silvère ergueu a cabeça. Dir-se-ia os solavancos distantes de um comboio de carroças. Aliás. Bruscamente. Havia. uma escarpa plantada de azinheiras. como se fossem os estrondos de uma trovoada a avançar rapidamente. uma massa escura surgiu na curva da estrada. E. A Marselhesa. a garota. Pareceu-lhe que o bando inteiro vinha interpor-se entre os dois. Quando se encontraram no cimo da escarpa. tão sós. só tinha olhos para aqueles desconhecidos a que dava o nome de «irmãos». apurou o ouvido. à esquerda do caminho. sorrindo um para o outro.

como se bocas gigantescas a soprassem em trompetas monstruosas que a lançavam. repetindo com todos os seus ecos as notas ardentes do hino nacional. dos extremos do horizonte. Nada mais terrivelmente grandioso do que a irrupção desses milhares de homens na paz morta e gelada do horizonte. devíamos. no fundo das cavidades do Viorne. na comoção do ar e do solo. gritava vingança e liberdade. vibrante. pareceu saírem vozes humanas. branco de emoção. — Estava convencida — murmurou Miette — de que não atravessavam Plassans? — É porque modificaram o plano de campanha — respondeu Silvère —. agora uma torrente. ressoou até às entranhas. não existia um só recanto de trevas onde não se acreditasse haver homens escondidos a retomar cada refrão com uma cólera crescente. irresistível. Quando apareceram os últimos batalhões. como um tambor atingido pelas baquetas. A Marselhesa encheu o céu. 29 . sacudindo as próprias pedras do caminho. Os insurrectos que marchavam à cabeça. parecia coberta por um povo invisível e inumerável a aclamar os insurrectos. dos mais pequenos tufos. surgiam sempre novas massas negras. Devem ter partido de Alboise esta tarde e passado pelas Tulettes à noite. estremeceu todo ele. Silvère. houve uma explosão ensurdecedora. continuava a ouvir e a olhar. Enquanto o pequeno exército desceu a encosta. E o campo adormecido acordou em sobressalto. dos rochedos distantes. na curva do caminho. e. dos prados. a todos os cantos do vale. a cascata gigantesca pela qual escorriam as claridades azuladas da Lua. de facto. E deixou de ser apenas o bando a cantar. ao longo das águas riscadas por misteriosos reflexos de estanho fundido. O campo. o rugido popular rolou assim em ondas sonoras atravessadas por explosões bruscas. com a rudeza dos cobres. aproximavam-se da ponte a passos rápidos. o vasto anfiteatro que sobe do rio até Plassans. trazia vagas vivas que parecia não se esgotarem. monstruosamente indefinida na sombra.A FORTUNA DOS ROUGON O bando avançava com um ímpeto soberbo. dos pedaços de terra lavrada. arrastando atrás de si aquela extensa corrente efervescente e bramante. das moitas arborizadas. alcançar a capital do distrito pela estrada de Toulon. cujos cantos iam engrossando a grande voz daquela tempestade humana. A estrada. passando à esquerda de Plassans e de Orchères.

Passou o braço pelo pescoço do rapaz. emoldurado o rosto pelo capuz da capucha. na sombra que os morros altos projectavam na estrada. refulgiam ao luar. infiltrando-se por essa abertura. O impulso com que nesse momento se precipitavam para a encosta. unidos e arrastados em bloco por um vento colérico. No entanto. que a sentia estremecer a seu lado. surgir de súbito das trevas. assim ficou. de invencível poder. E. Seriam cerca de três mil homens. sentindo-se embora em segurança e ao abrigo dos olhares. Traziam ao ombros grandes machados. a cinco ou seis passos dos arbustos onde Miette e Silvère se tinham escondido. inclinou-se então e foi-lhe nomeando ao ouvido os diversos contingentes.ÉMILE ZOLA A cabeça da coluna chegara junto dos jovens. Quando os primeiros insurrectos aí entraram. grandes rapagões de cabeça quadrada que aparentavam uma força hercúlea e uma fé ingénua de gigantes. de cada localidade. abertas e negras as bocas que o grito vingador d’A Marselhesa enchia. cujas lâminas. formavam batalhões distintos que marchavam a alguns passos uns dos outros. Decerto a República encontraria neles defensores cegos e intrépidos. renascendo incessantemente. Os contingentes de cada cidade. o morro da esquerda baixava para deixar passar um atalho que seguia o Viorne. Miette. 30 . aguçadas de fresco. os jovens viam-nos desse modo na sua frente. Quando os primeiros homens apareceram na claridade. sólida. Esses batalhões pareciam obedecer a chefes. obstinados. transformava-os aliás numa massa compacta. transfiguradas pelo entusiasmo. no pequeno exército. cortava a estrada com uma larga tira luminosa. mais ordem do que seria de esperar de um bando de homens indisciplinados. À frente. de olhar fixo no quadrado de luz que tão estranhas caras atravessavam rapidamente. Distinguiam-se mal. Reinava. À medida que os contingentes desfilavam. encostou-se instintivamente a Silvère. apoiou a cabeça no seu ombro. os estranhos pormenores da cena. e o luar. foram de súbito iluminados por uma claridade cuja brancura incisiva desenhava com singular nitidez os mais pequenos contornos das caras e dos fatos. A coluna marchava em fileiras de oito homens. Silvère. à medida que iam surgindo.

Miette.. pelos frémitos de febre que lhe transmitiam os cantos dos insurrectos. como que chicoteada pelo sopro agreste do mistral. continuava a descer.A FORTUNA DOS ROUGON — Os lenhadores das mata do Seille — disse Silvère. O rapaz mencionava com orgulho os grossos pulsos dos seus camaradas. porém. examinou os caçadores com uma expressão mista de cólera e de estranha simpatia. A partir desse momento. um grupo de operários barbudos e queimados pelo sol. Quando Silvère lhe falou do pai.. — Uma localidade que se revoltou quase ao mesmo tempo que Palud. se todos estivessem armados assim! Há falta de espingardas. com o qual se misturava um bom número de burgueses encasacados. Foi a primeira terra que se insurgiu. Os operários só têm varapaus. os de jaqueta de veludo. pareceu animada.. Os contingentes desciam a encosta. e dois outros batalhões haviam já atravessado a faixa de luz que iluminava a estrada. a pouco e pouco. corou violentamente.. — São um corpo de sapadores. Com o rosto em brasa. muda. 31 . Às gentes de Palud sucedeu-se um outro grupo de operários. só há algumas espingardas de caça. A um sinal do chefe. Falava ainda dos de Saint-Martin-de-Vaulx. estes homens iriam até Paris.. a seguir aos lenhadores. continuou: — O contingente de Palud. — São os homens de Saint-Martin-de-Vaulx — recomeçou Silvère. Cintinua a faltar armas. arrombando as portas das cidades à machadada. que recomeçara A Marselhesa. como fazem aos velhos sobreiros da montanha. Silvère. Os homens de blusa são os corticeiros. Têm boas armas e manejam-nas com destreza. devem ser caçadores e carvoeiros que vivem nos desfiladeiros do Seille.. Miette. ricos que podiam viver tranquilos nas suas casas e que vão arriscar a vida em defesa da liberdade.. vês? Miette olhava.. Os caçadores conheceram o teu pai. Estás a ver aqueles com uma braçadeira de tecido vermelho no braço esquerdo? São os chefes. escutava.. Alguns são ricos. os outros. Os patrões juntaram-se aos operários. atrasava-se. Ricos de que devemos gostar. A coluna. mais rápidos do que as suas palavras. Ao ver aproximar-se.. Ah.

apertava-lhe a garganta.ÉMILE ZOLA — Viste? Acabaram de passar os insurrectos de Alboise e das Tulettes.. Os insurrectos que o constituíam. forquilhas e gadanhas. A maioria desses soldados improvisados tinha espingardas. cantando. lá vêm as gentes do campo! — exclamou. Não teve tempo para retomar fôlego: — Ah. — O homem a cavalo dever o chefe de que me falaram. mas hão-de ceifar a tropa 32 . Reconheci o Burgat. carabinas ou antigos mosquetes da Guarda Nacional. No meio deles distinguia-se um homem a cavalo. Aqueles só têm gadanhas. Era bem preciso que toda a coluna estivesse assim equipada. de sabre à ilharga. Cada aldeola contribuíra com os seus homens válidos. Miette. o senhor cura também. falaram-me nele. Miette inclinava-se para seguir durante mais tempo com o olhar os pequenos grupos que o rapaz lhe indicava. no máximo. Brandiam. — Ah. o tio Antoine conhece-os. Surgiu nesse momento um batalhão mais numeroso e mais disciplinado do que os outros.. cada um deles composto por dez a vinte homens. que reconhecia os grupos pelos seus chefes. o ferreiro. — Aqueles não conheço — disse Silvère. mas são firmes. que belo desfile! Rozan! Vernoux! Corbière! E há mais. vais ver. Todos usavam o casaco curto dos camponeses do Sul. Devem ter aderido hoje. quase todos de blusa azul e cingindo-lhes a cintura uma faixa vermelha. Silvère. tinha que os nomear a correr e essa precipitação fazia-o parecer meio louco.. Atrás dos oriundos de Faverolles. havia mesmo alguns que só traziam grandes pás de cabouqueiros. nem um só faltou à chamada. Valqueyras! Olha. dir-se-ia que usavam farda. é um grande republicano. Trouxe com ele os contingentes de Faverolles e das aldeias vizinhas. enumerou-os com voz febril: — O contingente de Chavanoz! Tem só oito homens. Agora que cada batalhão contava só com meia dúzia de insurrectos. E Nazères! E Poujols! Vêm todos. A comoção que de si se apoderava comprimia-lhe o peito. Exaltava-se. Como correm! Agora. avançavam pequenos bandos..

agudas como picos que. aquela fila interminável de cabeças. com os seus estremecimentos de cólera. os últimos. são duros e negros como o ferro... que quem os carregava era A Marselhesa. têm carabinas. era uma criança 33 . Para não escorregar pelo talude. Atraía-a a estrada. causava-lhe. lhe fossem cravando na carne. a sua estranha mistura de massacres e de ímpetos sublimes. uma criança. que durou apenas alguns minutos. no entanto. Gesto que Miette seguia. esse canto louco de sonoridades formidáveis. Miette era.. Havia momentos em que lhe parecia que já não marchavam. O desfile. Castel-le-Vieux! Sainte-Anne! Graille! Estourmel! Murdaran! E concluiu. na verdade. homens feitos. o rosto em fogo. Aqueles seres entrevistos num raio de luar. uma dessas angústias voluptuosas de virgem mártir que se reergue e sorri a cada chicotada. Desprendia-se um singular aturdimento daquela multidão ébria de barulho. Empalidecera à aproximação do grupo.. E não acaba! Pruinas! Les Roches-Noires! Estes.A FORTUNA DOS ROUGON mais rente do que a erva dos seus prados. acabara por configurar aos olhos da rapariga a impetuosidade vertiginosa de uma torrente.. velhos. apontava os contingentes num gesto nervoso. ininterruptamente e mais fundo a cada brutalidade do ritmo.. são contrabandistas. brandindo armas estranhas. continuam os contingentes do campo. adolescentes. de coragem e de fé. a enumeração desses homens que um turbilhão parecia tomar e arrebatar à medida que ele os designava. Mais gadanhas e forquilhas. Avolumada a estatura. Vamos vencer! O país inteiro está connosco. mais não ouvia do que um bramir contínuo que ia das notas surdas às notas vibrantes. os seus ardentes anseios de liberdade. lá em baixo. com a voz estrangulada pela emoção.. Não conseguia distinguir as palavras. Repara nos braços daqueles homens. como as profundezas de um precipício. ao atingi-la no coração. segurava-se ao pescoço do rapaz. pareceu aos jovens infinito.. vestidos com as mais diversas indumentárias. de sacão. Saint-Eutrope! Mazet! Les Gardes! Marsanne! Toda a vertente norte do Seille!. o apelo à luta e à morte. transformadas pela hora e pelas circunstâncias em máscaras inesquecíveis de energia e de êxtase fanáticos. O rugido da revolta. chorara a sua ternura perdida. do surrão do camponês à sobrecasaca da burguesia.

Como cada batalhão alinhava à beira da estrada. sem trocar palavra. os seus dentes brancos surgiam mais compridos e mais aguçados entre os lábios vermelhos. pelos prados de Sainte-Claire. Depois gritou.ÉMILE ZOLA corajosa. pôde perceber as ordens que os contingentes iam transmitindo e que chamavam a gente de Plassans para a vanguarda do grupo. A Marselhesa extinguiu-se num último rugido. recomeçou a subir o talude. Têm a bandeira. nesse momento. mas. uma poeira de homens varrida por uma tempestade. como as presas de um pequeno lobo com vontade de morder. De boa vontade teria pegado numa arma e seguido os insurrectos. as terras lavradas. triunfante de alegria: — Ah. Silvère. Corriam-lhe pelas faces grossas lágrimas ardentes. a agitava agora totalmente. Tudo rodopiava à sua volta. A coluna desenhava. na estrada. Havia 34 . Não tardou a que tudo fosse um remoinho. se intensificasse a impetuosidade da coluna. — Chegamos antes deles ao outro lado da ponte. para deixar passar a bandeira. Transformava-se em rapaz. — Não vejo os homens que saíram de Plassans esta tarde — murmurou ele. lá estão eles!. Fechou os olhos.. sempre a correr. sempre de mão dada. Atravessaram o Viorne por uma prancha que os moleiros lá haviam colocado. foi como se. ainda na sombra. os insurrectos pararam. em diagonal. Também as pestanas de Silvère estavam húmidas. arrastando Miette. Conforme iam desfilando as espingardas e as gadanhas. a cada palavra do jovem. desataram a correr direitos a um moinho cujo açude barra o rio. Tentava descortinar o fim da coluna. o rapaz. E quando ouviu Silvère enumerar numa voz cada vez mais apressada os contingentes do campo. — Anda — disse-lhe. E quando atingiram o cimo. uma natureza ardente que o entusiasmo facilmente exaltava. uma linha escura que seguiram ao longo das sebes. de ouvido à escura. nada mais se ouviu para além do murmúrio confuso da multidão ainda vibrante.. Passaram ordens ao longo da coluna. Por isso a emoção que pouco a pouco a tomara. Cortaram depois. confiaram-lhes a bandeira! Quis então saltar do talude para se reunir aos companheiros.

por estúpida maldade. Não queremos connosco a filha de um ladrão e de um assassino. Os operários troçavam da atitude agressiva da pequena. a sobrinha do Rébufat. a acusação de roubo exasperava-a. Miette empalideceu terrivelmente. porém. o hortelão do Jas-Meiffren. A coisa ia acabar mal. Porém. semi-selvagem. confusa. mais pálido e mais trémulo do que ela. quando um caçador da região do Seille. não pensara na estranha figura que faria a sua apaixonada perante os inevitáveis gracejos dos operários. Porque o insultam. mas não roubou. soberba de ira. Silvère trocou alguns apertos de mão. chegaram ao mesmo tempo que a gente de Plassans. decerto pensaram que ele tivera conhecimento do novo percurso dos insurrectos e viera ao seu encontro. Miette. Apesar do desvio que tinham feito. nas suas costas? Empertigara-se. antes mesmo que o rapaz pudesse abrir a boca. uma nova voz se elevou do grupo. mais do que repetir o que há anos ouvia dizer. parecia aceitar com bastante placidez a acusação de assassínio. vibrante: — Mentem! Mentem! Ele nunca roubou um vintém a ninguém. — Mentem — murmurou —. Bem o sabem. o meu pai pode ter morto. — Ah. com o rosto semiescondido pelo capuz. Voltou-se para o grupo e repetiu. O seu carácter fogoso. Era coisa sabida e por isso a multidão lha atirava frequentemente à cara.A FORTUNA DOS ROUGON aberturas pelo meio dos pilriteiros. O homem que tratara de ladrão o seu pai não fizera. que es35 . ébrio de entusiasmo. aliás. Miette. foi olhada com curiosidade. é a Chantegreil — disse um homem dos subúrbios —. — De onde vens tu. E como Silvère cerrava os punhos. Silvère continuava de punhos cerrados. isto é comigo. Silvère. brutal: — O pai dela está na grilheta. olhava-o. como que a implorar apoio e socorro. disse-lhe: — Deixa. Silvère e Miette saltaram para a estrada por uma delas. vadia? — gritou outra voz.

— A miúda tem razão. Os operários. Em Plassans. eu sou forte! — retorquiu a pequena com orgulho. O Chantegreil era nosso irmão. Nunca se percebeu lá muito bem aquela história. A seu lado. de novo presa da emoção que A Marselhesa lhe fizera subir à garganta. arregaçando as mangas e mostrando os braços. levo-a eu. rematou: — Esperem! 36 . — Sim. como um rapaz. Debulhou-se em lágrimas. sim. na sua frente. E. bastou a declaração do caçador furtivo para que Miette encontrasse defensores. — Ah. a título de agradecimento. O Chantegreil era dos nossos. sempre acreditei nas declarações que ele fez aos juízes. suplicou: — Dê-ma. Porém. entenderam o lado ingenuamente sublime do agradecimento. rapariga! Nunca Miette ouvira dizer bem do pai. não sabia como agradecer àqueles homens que se compadeciam com os desgraçados. na caça. o reinício da marcha. veio em socorro da rapariga. estava o insurrecto que levava a bandeira. já tão cheios como os de uma mulher feita. Por segundos. que não iria longe. que se há-de fazer? Mas o Chantegreil era honesto. à beira da estrada. de pé. é verdade — corroboraram. acalma-te. Vários operários pretenderam ter também conhecido Chantegreil. pobres de espírito. deve ter-lhe apontado primeiro a carabina. o Chantegreil não roubou.. de malandro. O gendarme que ele liquidou. passou-lhe pela cabeça apertar a mão a cada um deles. Por mim. quando lhe estendiam a bandeira.ÉMILE ZOLA perava sentado num monte de pedras. Um homem defende-se.. há canalhas que bem mereciam ir dentro em vez dele. com um tiro. Vá. Eu conheci-o. — Ele não era um ladrão.. de patife. — É isso mesmo — gritaram. o coração ditou-lhe algo melhor.. — A Chantegreil leva a bandeira! Um lenhador observou que ela depressa se cansaria. Habitualmente tratavam-no. Como sempre acontece em casos semelhantes. A rapariga pousou a mão no pau da bandeira e. e eis que deparava com bons corações que tinham para ela palavras de perdão e o declaravam honesto.

a moça. os insurrectos subiam devagar. fico contigo. A noite gelada de Dezembro recuperara o seu silêncio e só o Viorne resmungava em voz alta. exaltada. Queres? Sem responder. envolta até aos pés num amplo manto purpúreo. Aqueles meridionais. O capuz. Quereria ter já chegado. que voltou a pôr depois de a ter virado do avesso. a República. Confundia-a agora com a sua outra amante adorada. A coluna avançava entre os dois renques de olmos. encostou o pau ao peito e estacou. a sua espingarda ao ombro. por um momento. De cabelos crespos. ergueu para o céu a cabeça. Silvère retribuiu o seu aperto de mão. Tê-la-iam aclamado por muito tempo. não fora a ordem de retomar a marcha. tão santa! Durante toda a subida da encosta a viu à sua frente. radiante na sua glória purpúrea. Chegados às primeiras casas dos subúrbios. num impulso enérgico. Os insurrectos explodiram em aplausos. os lábios entreabertos num sorriso. Surgiu então. Pegou na bandeira. do lado vermelho. de imaginação viva. Aceitava. seria aliás incapaz de não se deixar contagiar pelo entusiasmo dos seus camaradas. Foi. deixavam-se impressionar e entusiasmar pela súbita aparição do grande vulto vermelho que tão nervosamente apertava contra o peito a sua bandeira. a virgem Liberdade. enquanto a coluna se agitava. húmidos os grandes olhos. assente no carrapito. Contudo. ador37 . Silvère adiantou-se a correr para ir buscar a sua espingarda ao Campo Saint-Mittre. Profundamente comovido. E. a sobressair das pregas do estandarte cor de sangue que flutuava atrás de si. Chantegreil! Viva a Chantegreil! Ela fica connosco. Partiram gritos do grupo: — Bravo. lembrava um barrete frígio. Miette mostrara-se-lhe tão bela. Miette apertou a mão de Silvère que acabara de chegar junto dela e murmurou-lhe ao ouvido: — Ouviste. vai dar-nos sorte. semelhante a uma serpente gigantesca da qual cada anel tivesse estranhas vibrações. tão grandiosa. Fora dada ordem para fazer o mínimo possível de barulho. muito direita.A FORTUNA DOS ROUGON Afastou rapidamente a capucha. à luz branca do luar.

com o seu sorriso de criança: — Parece-me que vou na procissão do Corpo de Deus e que levo o estandarte da Virgem. .ÉMILE ZOLA mecido ao luar. Quando se reuniu aos insurrectos. Miette inclinou-se e disse-lhe. estes tinham chegado à Porta de Roma.

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