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Introdução

As Constituições nem sempre se apresentam de maneira idêntica, seja no domínio do mesmo Estado, seja entre Estados distintos.

Vem daí a importância em classificar as Constituições, visando identificar os seus vários tipos ou espécies.

É importante frisar, contudo, que não há uniformidade de entendimento acerca do tema, pois vários autores classificam as constituições de diversas formas.

Quanto ao conteudo : material e Formal

a) Material: é o conjunto de normas, escritas ou não escritas (costumeiras), que regulam a

estrutura do Estado, a organização do poder e os direitos e garantias fundamentais, inseridas ou não no texto escrito. Matéria essencialmente constitucional.

b) Formal: é o conjunto de normas escritas reunidas num documento solenemente

elaborado pelo poder constituinte, tenham ou não valor constitucional material, ou seja,

digam ou não respeito às matérias tipicamente constitucionais.

Quanto à forma: escrita e não-escrita

a) Constituição escrita: é aquela cujas normas são codificadas e sistematizadas em texto

único e solene, elaborado racionalmente por um órgão constituinte. É produto das revoluções liberais do século XVIII (Constituição Americana de 1787 e Francesa de 1791);

b) Constituição Não escrita ou costumeira: é aquela cujas normas não estão plasmadas em

texto único, mas que se revelam através dos costumes, da jurisprudência e até mesmo em

textos não escritos, porém esparsos, como é o caso da Constituição da Inglaterra.

Quanto à origem: Democrática ou Outorgada

a) Constituição democrática (ou promulgada ou popular ou votada): é aquela elaborada

por representantes legítimos do povo, que compõem, por eleição, um órgão constituinte (. É a constituição fruto da soberana manifestação de vontade de um povo. Exs.: Constituições

de 1891, 1934 1946 e 1988;

b) Constituição outorgada: é aquela cuja elaboração se processa sem qualquer participação do povo. É fruto do autoritarismo, do abuso, da usurpação do poder constituinte do povo. Exs.: Cartas de 1824, 1937, 1967/69. Existem, ainda, as constituições cesaristas (Ex.: plebiscitos napoleônicos, e plebiscito de Pinochet, no Chile.

c) Constituição pactuada: é aquela que oficializa um compromisso político instável de duas forças políticas opostas: a realeza absoluta debilitada, de um lado, e a nobreza e a burguesia, em ascensão, de outro, surgindo, assim, a monarquia limitada. Ex.: Maga Carta de 1215, a Constituição francesa de 1791.

Quanto à estabilidade ou consistência ou mutabilidade:

a) Constituição imutável: é aquela que não prevê nenhum processo de alteração de suas

normas, sob o fundamento de que a vontade do poder constituinte exaure-se com a manifestação da vontade originária. A Constituição do Império foi provisoriamente

imutável.

b) Constituição fixa: é aquela que só pode ser alterada pelo próprio poder constituinte

originário, circunstância que implica, não em alteração, mas em elaboração, propriamente,

de uma nova constituição. São conhecidas como constituições silenciosas;

c) Constituição rígida: é aquela que não pode ser alterada com a mesma simplicidade com que se modifica uma lei. Caracteriza-se por estabelecer e exigir procedimentos especiais, solenes e formais, necessários para a reforma de suas normas, distintos e mais difíceis,

portanto, do que aqueles previstos para a elaboração ou alteração das leis. É o caso da

CF/88.

d) Constituição flexível: é aquela que, em sentido oposto, pode ser alterada pelo mesmo

procedimento observado para as normas legais. A própria lei contrária à Constituição

muda o seu texto. Ex.: Constituição Inglesa.

e) Constituição semirrígida ou semiflexível: cuida-se de uma Constituição parcialmente

rígida e parcialmente flexível, ou seja, uma parte é rígida e outra é flexível. Ex.:

Constituição do Império de 1824.

Michel Temer fala, ainda, da existência de uma Constituição super-rígida. Não é aceita pela doutrina.

Quanto à extensão: sintética e analítica

a) Constituição sintética (concisas, breves, sumárias, sucintas, básicas): são constituições

breves que regulam sucintamente os aspectos básico da organização estatal. Limitam-se a

prever os princípios gerais de organização e funcionamento do Estado, cuidando

exatamente da matéria essencialmente constitucional. Ex.: Constituição dos EUA de 1787 e

a Constituição de 1891.

b) Constituição analítica (amplas, extensas, longas): são constituições extensas que

disciplinam longa e minuciosamente todas as particularidades ocorrente e consideradas

relevantes no momento para o Estado e para a sociedade, definindo largamente os fins atribuídos ao Estado.

Quanto à finalidade: garantia e dirigente

a) Constituição garantia (ou liberal ou defensiva ou negativa):

século XVIII, servindo de instrumento de garantia das liberdades públicas individuais.

é fruto das revoluções do

b) Constituição dirigente (ou social): é uma consequência do constitucionalismo social do

século XX, que provocou a evolução do modelo de Estado, de Estado liberal (passivo) para

o Estado social (intervencionista), preservando o presente com uma linha voltada para o futuro.

Quanto ao modo de elaboração: dogmática e histórica

a) Constituição dogmática (ou sistemática) : consiste num documento escrito e

sistematizado, elaborado por um órgão constituinte em determinado momento da história politico-constitucional de um País, a partir de dogmas ou idéias fundamentais da ciência

políticas e do direito dominantes na ocasião. Coincide com as Constituições escritas. É sempre escrita;

b) Constituição dogmática (ou sistemática) : é sempre não escrita, cuja elaboração é lenta e

ocorre sob o influxo dos costumes e das transformações sociais. A sua formação resulta da

demorada e contínua evolução histórica das tradições de um determinado povo, que se protrai no tempo. Ex.: Constituições Inglesa.

Quanto à sistemáticas (critério sistemático)

Valendo-se do critério sistemático, as Constituições podem ser reduzidas (ou unitárias) e variadas.

a) reduzidas: seriam aquelas que se materializam em um só código básico e sistemático,

com as brasileiras.

b) Variadas: seriam aquelas que se distribuem em vários textos e documentos esparsos,

sendo formadas de várias leis constitucionais, destacando-se a belga de 1830 e a francesa de

1875.

Seguindo esse critério, Paulo Bonavides distingue as constituições codificadas das legais.

a) codificadas: seriam aquelas que se acham inteiramente num só texto;

b) legais: seriam aquelas escritas que se apresentam esparsas ou fragmentadas em vários

textos.

Quanto à ideologia: ortodoxa e eclética

a) Constituição ortodoxa: é aquela que resulta da consagração de uma só ideologia. São

exemplos dela as Constituições da União Soviética de 1923, 1936, 1977.

b) Constituição eclética ou pluralista: é aquela que logra contemplar, plural e

democraticamente, várias ideologias aparentemente contrapostas, conciliando as idéias que

permearam as discussões na Assembléia Constituinte. Ex.: CF/1988

Quanto à correspondência com a realidade (critério ontológico essência

Esta classificação “ontológica” foi apresentada pelo autor alemão Karl Loewenstein levando em consideração a eficácia das Constituições em face da realidade;

a) Constituição normativa: (com valor jurídico);

b) Constituição nominal (sem valor jurídico, uma Constituição de Fachada)

c) Constituição semântica: utilizada apenas para justificar juridicamente o exercício

autoritário do poder, como a Constituição Brasileira de 1937;

Quanto à unidade documental

a) Constituição Orgânica: É aquela que é elaborada em um documento único, num corpo

único de uma só vez por um poder competente para tal e que contém uma articulação

(interconexão entre suas normas (título, capítulos, seções).

b) Constituição Inorgânica: É aquela que não é dotada de uma unidade documental. É

elaborada por textos escritos não dotados de uma interconexão que podem ser reunidos posteriormente (e solenemente) em um documento específico e ser intitulado de texto constitucional. A doutrina cita como exemplos as atuais Constituições de Israel e da Nova Zelândia.

Quanto ao sistema

Constituição Principiológica

É aquela em que predominam os princípios (embora nela possam existir regras) considerados normas (constitucionais) de alto grau de abstração e generalidade para boa parte dos doutrinadores pátrios, como é o exemplo da Constituição de 1988.

Constituição preceitual: É aquela em que, embora possa conter princípios, predominam-se as regras que, para boa doutrina nacional, possuem um baixo grau de abstração e um alto grau de determinabilidade. Esse tipo de Constituição que enfatiza as regras em detrimento dos princípios tende a ser essencialmente detalhista, como a Constituição do México de

1917

Outras classificações

1) Constituições plásticas:

Constituições plásticas são aquelas dotadas de uma maleabilidade, ou seja, são maleáveis aos influxos da realidade social (política, econômica, educacional, jurisprudência e etc). São Constituições que possibilitam releituras, (re)interpretações de seu texto, à luz de novas realidades sociais. É importante deixarmos consignados que alguns autores classificam as Constituições plásticas como flexíveis.

2) Constituições Nominalistas:

Para alguns doutrinadores são as Constituições que trazem normas dotadas de alta clareza e precisão, nas quais sua interpretação de seu texto somente é realizada por meio de um método literal ou gramatical.

3) Constituições semânticas:

Para alguns doutrinadores são as constituições nas quais o texto NÃO é dotado de uma clareza e especificidade e que, portanto, não vão trabalhar apenas o método gramatical, elas vão exigir outros métodos de interpretação.

4) Constituições em Branco:

São aquelas que não trazem limitações explícitas ao poder de alteração ou reforma constitucional. Nesse sentido, o poder de reforma se vincula à discricionariedade dos órgãos revisores, que, sem qualquer dispositivo de delimitação revisional, ficam encarregados de estabelecer regras para a propositura de emendas constitucionais. Exemplos: Constituições francesas de 1799 e 1814.

5) Constituições Compromissórias:

São aquelas que resultam de acordos entre as diversas forças políticas e sociais, nas quais não há uma identidade ideológica (ecletismo), sendo a Constituição resultado da fragmentação de acordos tópicos que explicitam uma diversidade de projetos, caracterizando a textura aberta da Constituição, que possibilita a “consagração de valores e princípios contraditórios a serem equacionados e concretizados pelos operadores e aplicadores do direito.

6) Heteroconstituições:

São constituições decretadas de fora do Estado que irão reger. São incomuns. Um exemplo é a Constituição da Albânia desenvolvida e produzida partir de uma conferência internacional em

1913.

7) Autoconstituições:

São aquelas elaboradas e decretadas dentro do próprio Estado que irão reger.

6. Estrutura da Constituição

6.1 Preâmbulo:

É a parte precedente da Constituição, podendo ser conceituado como um documento de intenções, uma proclamação de princípios. Não faz parte do texto constitucionalmente propriamente dito, não possuindo valor normativo. Apesar disso, não é juridicamente irrelevante

6.2 Parte dogmática:

É o texto articulado da Constituição, ou seja, todas as normas que contém os direitos políticos, civis, econômicos e sociais por ela vinculados, compreendendo do art. 1º ao 250.

6.3 Disposições transitórias:

Fazem a integração entre a nova ordem constitucional e a que foi substituída, estabelecendo as regras de transição entre as duas constituições. Fazem parte do texto constitucional e têm natureza de norma constitucional, e podem trazer exceção às regras contidas na parte dogmática; podem, ainda, ser objeto de emendas constitucionais, como foram nas emendas constitucionais 02/02; 06/94, 21/99, 38/00, 40 e 42/03