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TRATADOS EUROPEUS

Introdução

Na mitologia grega a Europa é uma princesa, filha de um rei


fenício. Um dia, enquanto ela e as suas amigas brincavam na
praia, Zeus, o pai dos deuses para os antigos gregos, viu-a e
enamorou-se de imediato. Para a seduzir Zeus transformou-
se num touro gentil e manso. A Europa, confiada, começou a acariciar o touro e sentou-se
no seu dorso. Era disso que Zeus estava à espera. De repente, levantou-se e galopou até ao
mar, levando consigo a Europa. O touro Zeus nadou sempre até Creta. Quando chegou à ilha
mediterrânica, reassumiu a forma humana e teve três filhos da Europa, um deles foi Minos,
rei de Creta e "dux Europaeus".

Cidadão: é aquele que convive numa sociedade respeitando o próximo, cumprindo com
as suas obrigações e gozando os seus direitos
Cidadania: é o conjunto de direitos, e deveres ao qual um indivíduo está sujeito em relação
à sociedade em que vive.

Ouvimos frequentemente falar em «cidadania europeia», «cidadania multicultural»,


«cidadania planetária». Insiste-se numa «educação para a cidadania» nas escolas: fala-se
de «práticas de cidadania» numa sociedade democrática e, no caso português, insiste-se
num «deficit de cidadania» para explicar a nossa ausência de participação e de organização.
Que entendemos por cidadania? Será que existe apenas um tipo de cidadania? Como
podemos contribuir para a «construção de cidadanias»? Qual o papel da educação neste
processo? Sem pretendermos responder exaustivamente a este conjunto de questões,
iremos às raízes da palavra cidadania para melhor entender o que se pretende com ela.

O conceito de cidadania tem origem na Grécia clássica e sempre esteve fortemente


ligado à noção de direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo
intervir na direcção dos negócios públicos do Estado, participando de modo directo ou
indirecto na formação do governo e na sua administração, seja ao votar (directo), seja ao
concorrer a cargo público (indirecto). No entanto, dentro de uma democracia, a própria
definição de Direito, pressupõe a contrapartida de deveres, uma vez que numa
colectividade os direitos de um indivíduo são garantidos a partir do cumprimento dos
deveres dos demais componentes da sociedade. Cidadania, direitos e deveres.

Ao longo da história o conceito de cidadania foi ampliado, passando a englobar um


conjunto de valores sociais que determinam o conjunto de deveres e direitos de um
cidadão. O conceito de cidadania converteu-se num dos termos chave de debate político a
partir da década de 90. Esta relevância deve-se em grande parte ao que é um conceito que
se encontra em plena evolução devido às grandes trocas económicas, sociais e políticas do
final do século.
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O conceito clássico de Cidadania

Podemos definir cidadania como um status jurídico e político mediante o qual o


cidadão adquire os direitos como indivíduo (civis, políticos, sociais) e os deveres (impostos,
tradicionalmente o serviço militar, fidelidade…) relativos a uma colectividade política, além
da faculdade de participar na vida colectiva do Estado. Esta faculdade surge do princípio
democrático da soberania popular. O cidadão (de Espanha, Reino Unido, França, Portugal,)
dispõe de uma série de direitos reconhecidos nas suas constituições mas além disso tem
obrigações no que se refere à colectividade (fiscais, militares…). Num estado democrático,
o cidadão vê-se obrigado a cumprir com essas obrigações, já que são aprovadas pelos
representantes que elegeram, utilizando um dos seus principais direitos políticos como
cidadãos, o sufrágio. A condição de cidadania está restringida às pessoas que têm essa
condição. As pessoas que habitam num território do qual não são cidadãos, estão excluídos
dos direitos e deveres que comportam essa condição. Cada estado tem normas que
regulamentam a aquisição da nacionalidade desse estado, o que quer dizer a condição de
cidadão. Esta concepção de cidadania é a já existente no período histórico iniciado com as
grandes revoluções liberais do século XVIII, e caracterizado pela primazia do Estado-
Nação como colectividade política que agrupa os indivíduos. Esta cidadania equivale à
nacionalidade.

Os desafios do Estado-Nação e a cidadania que equivale à nacionalidade

O conceito de cidadania foi evoluindo desde a antiguidade clássica (Grécia, Roma)


até aos nossos dias. No século XXI veremos como o conceito de cidadania se converte em
algo bem diferente daquilo que é hoje. Ainda que hoje o Estado-Nação continue sendo o
elemento chave do mapa político mundial, estão a acontecer mudanças que supõem um claro
desafio a este tipo de organização política. Duas grandes transformações estão a
questionar o Estado-Nação contemporâneo e o conceito de cidadania inerente: O que se
tem denominado “globalização”, quer dizer de facto que as actividades económicas centrais
e estratégicas estão integradas a nível mundial através de redes electrónicas de troca de
capital, bens e informação. Um elemento chave desta “globalização” é o desenvolvimento da
Internet, daquilo se veio a chamar “a sociedade da informação”. Esta mundialização da
economia, impulsionou os últimos passos, decisivos na integração europeia, essencialmente a
União Económica e Monetária aprovada em Maastricht. Os Estados-Nação são cada vez
mais incapazes de fazer frente aos reptos da globalização.

O aparecimento de sociedades cada vez mais multiculturais, em que se fragmenta a


teórica homogeneidade dos Estados-Nação: a diversidade regional ou nacional (Espanha,
Bélgica, Reino Unido) e a multicultural idade e multiplicidade derivada da crescente
imigração são aspectos chave desta crescente diferenciação das sociedades.

O caminho até à criação da Cidadania Europeia

O direito da livre circulação de pessoas dentro do território da Comunidade foi


introduzido no Tratado constitutivo da CEE, firmado em Roma em 1957. Esta livre
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circulação não aparecia ligada a nenhum conceito de cidadania ainda que estivesse
estreitamente vinculado ao desempenho de uma actividade económica (trabalho por conta
de outrem, actividade independente ou prestação de serviços). Por consequência, o direito
de residência foi reconhecido aos trabalhadores e sua família, relacionando-se com o
direito a exercer uma actividade laboral noutro país membro da CEE.

Se bem que na Cimeira de Chefes de Estado e de Governo celebrada em Paris em


1974 já se tenha delineado a necessidade de reconhecer “direitos especiais” aos cidadãos
dos estados membros da então Comunidade Económica Europeia, a primeira ocasião em que
podemos encontrar o propósito de um mero mercado comum com o objectivo de criar uma
comunidade de cidadãos é em 1976, no denominado Parecer de Tindemans. Este parecer
redigido pelo então primeiro-ministro belga por ocasião da Cimeira de Paris de 1974, teve
pouco êxito entre os governos, ainda que tivesse uma influência importante nos passos
seguintes até à integração. Num dos capítulos, intitulado “A Europa dos Cidadãos”,
Tindemans propunha mais do que uma série de actuações dirigidas à maior protecção dos
direitos dos cidadãos, a aprovação de diversas medidas que fizeram entender, de acordo
com sinais exteriores, o aparecimento de uma “consciência europeia”: a unificação de
passaportes (hoje quase uma realidade), o desaparecimento dos controles das fronteiras, a
utilização indistinta dos benefícios e sistemas de Segurança Social, a validação de títulos e
curso académicos…

Um segundo passo é constituído pela convocatória, mediante acta de 20 de


Setembro de 1976, das primeiras eleições para o Parlamento Europeu por sufrágio
universal. Por muito limitados poderes que tenha ainda o Parlamento, pela primeira vez
aparece um dos elementos essenciais da cidadania: a participação democrática.
Posteriormente, depois do Conselho Europeu celebrado em Fontainebleau (França) em 1984,
foi criado um Comité “Europa dos Cidadãos”, presidido pelo eurodeputado italiano Adonnino
que aprovou uma série de propostas tímidas, em relação à constituição de uma cidadania
europeia. Mais atrevido foi o Projecto de Tratado da União Europeia aprovado pelo
Parlamento Europeu, em Fevereiro de 1984, e apresentado pelo eurodeputado Altiero
Spinelli (Projecto Spinneli). O seu artigo 3º referia o seguinte:

“Os cidadãos dos Estados membros são por direito cidadãos da União. (…) Os
cidadãos da União participam na vida política da mesma, de acordo com as formas previstas
no presente Tratado, gozam dos direitos que lhes são reconhecidos pelo ordenamento
jurídico da União e seguem as suas normas”.

Apesar da sua moderação, a Acta Única Europeia (1986) não reconheceu qualquer
das propostas do projecto Spinelli, ainda que tenha estabelecido, e isso é fundamental, o
objectivo da União política europeia. Assim, poucos anos depois, convocaram-se duas
Conferências Intergovernamentais para a reforma dos Tratados. Uma delas centrou-se na
União monetária e económica e a outra, exclusivamente na União política. O Conselho
Europeu de Roma, em Outubro de 1990, ao marcar as linhas orientadoras, introduziu depois
a noção de uma Cidadania Europeia como um elemento essencial da reforma dos Tratados e
com características e direitos similares aos que posteriormente se reconheceram no
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Tratado da União Europeia ou de Maastricht. Foi a delegação espanhola que apresentou
primeiro em Outubro de 1990, um texto articulado sobre a cidadania europeia. Apesar das
diversas discussões com o apoio claro e explícito do Parlamento Europeu que aprovou duas
resoluções a seu favor, em 1991, finalmente o Tratado da União Europeia veio a
institucionalizar a cidadania europeia.

Tratado da União Europeia

O Tratado da União Europeia (TUE), conhecido também como Tratado de


Maastricht por ter sido assinado nessa localidade holandesa, constitui uma pedra angular
no processo de integração europeia, pois, ao modificar e completar o Tratado de Paris de
1951 que criou a CECA, os Tratados de Roma de 1957 que constituem a CEE e o EURATOM,
e ainda a Acta Única Europeia de 1986, ultrapassa pela primeira vez, o objectivo
económico inicial da Comunidade (constituir um mercado comum) dando-lhe uma vocação de
unidade política. O Tratado de Maastricht consagra oficialmente o nome de “União
Europeia” que a partir daí substituirá o de Comunidade Europeia. O termo União usa-se
desde o início do Tratado para representar o avanço num projecto histórico. Assim, o
articulado no artº 2 do Tratado da União Europeia diz o seguinte:

“O presente Tratado constitui uma nova etapa no processo criador de uma União cada vez
mais estreita entre os povos da Europa…”

O Tratado vai ter uma estrutura baseada em “três pilares”, segundo o ponto de vista
jurídico dos que o idealizaram e redigiram. A metáfora utilizada é de que o TUE tem a
forma de um “templo grego” que se sustenta em três pilares: o central é o que se
denominou o “pilar comunitário”, o que quer dizer, o recolhido nos Tratados comunitários
nas suas diversas formas, com as suas instituições, com competências supranacionais.
Neste pilar estão representados o mercado único, a união europeia, a união Económica e
Monetária, a PAC, os fundos estruturais e de coesão. os novos pilares, os laterais, estariam
baseados não nos poderes supranacionais mas na cooperação entre os governos Política
Exterior e Segurança Comum (PESC) Justiça e Assuntos de Interior (JAI) Qual a grande
diferença entre o “pilar comunitário” e os dois pilares baseados na cooperação
intergovernamental? Basicamente tem a ver com o modo com se tomam as decisões e com
as competências das instituições comunitárias. Nos pilares de cooperação entre os
governos, as decisões deverão tomar-se por consenso e as competências da Comissão, o
Parlamento Europeu e o Tribunal de Justiça são escassas. No pilar comunitário, as decisões
tomam-se cada vez mais por maioria e o papel das instituições comunitárias é essencial.

No que respeita ao primeiro pilar, o comunitário, o TUE introduz importantes


novidades: O reconhecimento de uma cidadania europeia, que veremos detalhadamente mais
adiante. O grande passo em frente: a União Económica e Monetária (UEM). Adoptou-se a
decisão de criar uma moeda única, que receberá o nome de EURO em 1 de Novembro de
1999. Acordou-se um plano estrutural em três fases: A primeira, iniciada em 1990, seria
concluída em 31 de Dezembro de 1993 e teria como objectivo a plena liberalização da
circulação de capitais. De 1 de Janeiro de 1994 a 1 de Janeiro de 1999, os países membros
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deviam coordenar as suas políticas económicas para conseguir os objectivos fixados
quantitativamente e conhecidos como “critérios de convergência”, de redução da inflação,
dos tipos de interesse e das flutuações do câmbio entre as moedas europeias, de controlo
do deficit e da dívida pública. Os países que alcançaram esses objectivos poderiam passar à
terceira fase. No Conselho Europeu reunido em Dezembro de 1995 em Madrid, deu-se o
nome definitivo à moeda única europeia: EURO. A partir de 1 de Janeiro de 1999: Criação
da moeda única, o Euro, fixação irreversível da sua equivalência com as moedas que
participariam e estabelecimento de um Banco Central Europeu (BCE). Os países que
acederam em 1999 ao que se chamou “zona euro” foram onze: Espanha, Portugal, Itália,
Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, França, Alemanha, Áustria, Irlanda e Finlândia. Quatro
países não integraram o grupo: Grécia, Reino Unido, Dinamarca e Suécia.

O Tratado da União consagra a procura da coesão económico-social das diversas


regiões e países comunitários como um dos objectivos da União. Para o conseguir,
regulamentou-se o chamado Fundo de Coesão, que proporcionaria uma ajuda financeira “nos
sectores do meio ambiente e das redes europeias em matéria de infra-estruturas de
transportes”. Este fundo estava destinado aos estados membros da União que tivessem um
PNB per capita inferior a 90% da média europeia e levassem a cabo “políticas de
convergência”, o que quer dizer de controlo da inflação, tipos de interesse, deficit e dívida
pública. Estes países, Espanha - o mais beneficiado em termos absolutos, - Grécia, Portugal
e Irlanda (que deixou de receber após superar o seu PNB per capita ao limite estabelecido)
passaram a ser conhecidos como “países da coesão”. Em 1994 nasceram oficialmente os
Fundos da Coesão” como uma transferência de recursos financeiros entre os países
prósperos e os menos prósperos. O TUE também suportou um avanço considerável nas
competências comunitárias, em campos como a política económica e monetária, a política
industrial, as redes transeuropeias e a política de transportes, as políticas educativas, a
protecção aos consumidores, a investigação e o desenvolvimento tecnológico, a cooperação
e o meio ambiente. A Política Agrária Comum (PAC), um dos grandes temas pendentes da
reforma, continua a absorver mais de metade do pressuposto comunitário. O TUE aborda o
tema da educação geral e da formação profissional. Os estados membros têm
responsabilidade exclusiva nos planos de estudo e na organização do sistema educativo. A
tarefa da comunidade limita-se a promover a cooperação entre os estados na educação,
apoiando e complementando as medidas adoptadas por cada país. A União Europeia pôs em
marcha diversos programas para fomentar esta cooperação, facilitando os contactos e
trabalhos conjuntos de alunos e professores europeus. O Programa Sócrates centra-se na
educação não universitária, o Leonardo da Vinci na formação profissional e o Erasmus na
educação superior.

No que se refere às instituições, o TUE introduz novidades importantes: o


Parlamento aumenta os seus poderes, o Conselho de Ministros passa a denominar-se
Conselho da União Europeia, a Comissão recebe o nome oficial de “Comissão das
Comunidades Europeias”, o Tribunal da Justiça, o Tribunal de Contas e o Comité Económico
e Social reforçam as suas competências, cria-se o Comité das Regiões, de carácter

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consultivo e prevê-se a criação do Banco Central Europeu, ao iniciar-se a terceira fase da
União Económica e Monetária.

Como segundo pilar, baseado na cooperação entre os governos, estabeleceu-se uma


Política Externa e de Segurança Comum (ESC) que permite empreender acções comuns em
matéria de política externa. O Conselho Europeu, onde se devem adoptar as decisões por
unanimidade, é o que define os princípios e orientações gerais da PESC. Numa declaração
anexa ao Tratado, os Estados membros da União Europeia Ocidental (UEO) reafirmaram o
objectivo, construindo esta organização por etapas, atribuir-lhe, a longo prazo, o papel de
se converter no componente defensivo da União.

A realidade crua, na forma do conflito da ex-Jugusláva (Croácia, Bósnia, Kosovo)


mostrou que a construção de uma política externa e de defesa comum na UE é um objectivo
a longo prazo. Os EE.UU. e a NATO continuam a ser os grandes actores neste campo e os
estados europeus têm uma vontade política e uma capacidade de manobra ainda muito débil
para levar a cabo a sua própria política. O terceiro pilar baseado na cooperação
intergovernamental do TUE baseia-se na Justiça e nos Assuntos Internos (JAI). Assuntos
de interesse comum para todos os estados membros: terrorismo, imigração clandestina,
política de asilo, tráfico de drogas, a delinquência internacional, as alfândegas e a
cooperação judicial. A criação da Europol, gérmen de uma futura polícia europeia, é uma das
novidades mais destacadas neste âmbito. Há que assinalar também neste campo o Convénio
de Shengen, em 1990 que dá origem ao acordo de Schengen, para construir uma Europa
comunitária sem fronteiras.

A difícil ratificação do Tratado de Maastricht

A ratificação do Tratado de Maastricht pelos diversos parlamentos nacionais esteve


repleta de dificuldades. O simbólico ano de 1992, viu-se ensombrado por três crises que
travaram o impulso europeísta que traiu a assinatura em Maastricht, do TUE em 7 de
Fevereiro de 1992.Em primeiro lugar, a Europa sofreu uma grave e profunda crise
económica que disparou as taxas de desemprego. Os governos e a opinião pública centraram
os seus interesses nestas questões, deixando de lado a construção europeia. Em segundo
lugar, houve graves tensões monetárias que puseram em questão o Sistema Monetário
Europeu e o objectivo da união Económica e Monetária (UEM). Em terceiro lugar, a UE
mostrou-se incapaz de implementar uma política exterior e segurança comum na crise da
Jugoslávia, que trouxe de novo a guerra ao continente, após muitos anos de paz. Neste
ambiente teve lugar o primeiro processo de ratificação na Dinamarca. Depois de um
referendo, o NÃO ao Tratado de Maastricht triunfou por uma escassa diferença de 50
000 votos. Uma onda de “eurocepticismo” estendeu-se a alguns países mas as ratificações
ao Tratado foram-se concretizando pouco a pouco. França, com 51,44% de votos a favor do
SIM foi a que ratificou de forma mais ajustada o TUE.

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Iniciou-se uma negociação com a Dinamarca à qual foi concedido um
protocolo especial o qual se denominou na gíria comunitária “opting out” (cláusula
de exclusão), o que queria dizer a possibilidade de não seguir os outros membros, no que se
refere à terceira

fase da UEM (algo de semelhante tinha conseguida a Grã-Bretanha ao assinar o TUE) e em


todos os assuntos relacionados com assuntos relacionados com Defesa. A 20 de Maio de
1993, o povo dinamarquês aprovou este acordo num referendo com 53,8% de votos
favoráveis.

Liberdade, segurança, justiça

O Tratado afirma que a União Europeia se baseia nos princípios de liberdade,


democracia, respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e do Estado de
Direito. Estes princípios são comuns a todos os estados membros. Neste sentido,
posteriormente em 1998, o Conselho Europeu reunido em Colónia, acordou que a UE rediga
e aprove uma Carta de Direitos Fundamentais. Esta Carta virá a “comunitarizar” os
princípios gerais expressos no Convénio Europeu dos Direitos Humanos (CEDH), aprovado
em 1950 no quadro do Conselho da Europa.

O artigo 6.2 do tratado refere o seguinte:

“A União respeitará os direitos fundamentais como se garantiam no Convénio


Europeu dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais assinado em Roma a 4 de
Novembro de 1950, e tal como resulta das tradições constitucionais comuns aos Estados
membros como princípios gerais do Direito comunitário”.

A Carta Comunitária de Direitos Sociais aprovada em 1989, conhecida normalmente


como Carta Social. A União Europeia pode daqui em diante actuar nos âmbitos da saúde e
segurança dos trabalhadores, as condições de trabalho, a integração das pessoas excluídas
no mercado de trabalho e na igualdade de tratamento entre homens e mulheres. Prevê-se a
possibilidade de que quando um estado membro viole os direitos fundamentais se possa
adoptar medidas da União contra esse estado. Estabelece-se o princípio da não
discriminação e de igualdade de oportunidades como uma das directrizes básicas da política
da UE. O Conselho compromete-se a adoptar todo o tipo de medidas contra a discriminação
por motivos de sexo, de origem racial ou étnica, religião ou convicção, incapacidades, idade,
ou orientação sexual. Também se reforça e fomenta a igualdade entre homens e mulheres.

Como a livre circulação de pessoas tornou-se necessário criar sistemas de


informação à escala europeia, reforçaram-se as garantias de protecção contra os dados
pessoais. A União compromete-se a estabelecer progressivamente um espaço de liberdade,
de segurança e de justiça comum. Tudo o referido e a livre circulação de pessoas, controlo
das fronteiras externas, asilo, emigração e cooperação judicial em matéria civil passa a
fazer parte do “pilar comunitário” num processo gradual de vários anos. Neste sentido os
Acordos e o Convénio de Schengen ficam incluídos no Tratado. O Reino Unido, Irlanda e
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Dinamarca ficam afastados voluntariamente, portanto reservam-se ao direito de
exercer controlo sobre as pessoas nas suas fronteiras. Um importante avanço
foi o facto de quatro grandes países europeus, Espanha, Itália, Alemanha e França
acordaram em 28 de Julho de 2000, a eliminação da obrigação de obter uma autorização de
residência para os cidadãos

da UE. A medida aplicar-se-á a todos os nacionais comunitários, ainda que não haja
reciprocidade.

A cooperação policial e judicial em matéria penal (racismo e xenofobia, terrorismo,


tráfico de drogas e armas, tráfico de seres humanos e delitos contra menores, corrupção e
fraude) continuam incluídos no “terceiro pilar” de Justiça e Assuntos Internos (JAI) sendo
portanto matéria de cooperação intergovernamental. Fixam-se diversos objectivos como
facilitar a colaboração entre as autoridades judiciais, facilitar a extradição entre Estados
membros e fomentar a colaboração policial. Assim, estabelece-se um programa gradual de
fomento das actividades da Europol ou Oficina Europeia de Polícia.

A União e o cidadão

Além de desenvolver o conceito de cidadania europeia, o Tratado reúne diversas


medidas que tratam de por o cidadão comum no centro das preocupações da União.
Introduzem-se medidas que fomentam a intervenção comunitária na luta contra o
desemprego, o respeito do meio ambiente e a protecção dos consumidores. Garante-se o
direito de todos os cidadãos a aceder aos documentos das instituições da UE e a comunicar
com ela em qualquer das doze línguas oficiais da União (espanhol, português, francês,
italiano, inglês, irlandês ou gaélico, holandês, alemão, dinamarquês, sueco, finlandês e grego)

Política externa comum

A dramática ruptura da Jugoslávia e o regresso da guerra a este continente mostrou


a urgente necessidade de que a União esteja em condições de actuar e prevenir e não
somente relacionar perante os acontecimentos externos. A crise jugoslava pôs de novo em
evidência a debilidade dos estados europeus quando a reagem de maneira dispersa perante
uma crise internacional. O principal problema da política Externa e de Segurança Comum
(PESC) posta em marcha pelo Tratado de Maastricht é a evidência da desproporção que há
entre os objectivos ambiciosos e os meios escassos com que conta a União para os levar a
cabo.

A reforma das instituições comunitárias

Na perspectiva da ainda pendente reforma institucional, completamente necessária


perante a ampliação da UE aos países da Europa central e oriental, o tratado de
Amesterdão ampliou as competências do Parlamento Europeu, introduziu algumas reformas

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no funcionamento da Comissão e do Conselho da UE, reforçando as funções do
Tribunal de Contas, do Comité Económico e Social e do Comité das Regiões.

De facto foi criada a possibilidade do que se chamou “cooperação reforçada” entre


alguns estados membros. O que quer dizer a possibilidade de que um grupo de países que
queiram ir mais longe do que foi previsto nos Tratados, em diversos aspectos, possam fazê-
lo no âmbito da União Europeia. Definitivamente, o ritmo da integração não deve

condicionar os países mais renitentes à integração, e aqueles estados desejosos de ceder


mais competências à União devem poder caminhar mais rapidamente no caminho da unidade.
Os jornalistas utilizaram várias expressões para denominarem a Europa que surgiu da
aplicação destas “cooperações reforçadas”: Europa “a la carte”, Europa “de diferentes
velocidades” ou a Europa “de geometria variável”.

O Tratado de Roma (1957)

Em 25 de Março de 1957 assinaram-se, em Roma, os tratados que fundaram a


Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade da Energia Atómica (EURATOM).
Assinaram este acordo histórico Christian Pineau pela França, Joseph Luns pelos Países
Baixos, Paul Henri Spaak pela Bélgica, Joseph Bech pelo Luxemburgo, Antonio Segni pela
Itália e Konrad Adenauer pela República Federal Alemã. A ratificação do Tratado de Roma
pelos Parlamentos dos "Seis" teve lugar nos meses seguintes e entrou em vigor em 1 de
Janeiro de 1958.

O Tratado que instituía a CEE afirmava, no seu preâmbulo, que os estados


signatários estavam "determinados a estabelecer os fundamentos de uma união sem
brechas e mais estreita entre os países europeus". Assim deixavam claramente afirmado o
objectivo político de integração progressiva dos diferentes países membros. Na prática, o
que fundamentalmente se criou foi uma união aduaneira. Por isso a CEE ficou popularmente
conhecida como "Mercado Comum". Foi acordado um processo transitório de 12 anos para a
total abolição de fronteiras entre os países membros. Perante o êxito económico trazido
por uma maior fluidez dos intercâmbios comerciais, foi acordado um prazo transitório e, em
1 de Julho de 1968, suprimiram-se todas as fronteiras internas dos estados comunitários.
Ao mesmo tempo, adoptou-se uma Fronteira Aduaneira Comum para todos os produtos
originários de outros países.

Este mercado comum aplicava-se, na realidade, exclusivamente à livre circulação de


bens. O livre movimento de pessoas, capitais e serviços sofriam consideráveis limitações.
Com efeito, seria preciso esperar pelo Acto Único de 1987 para que se desse um impulso
definitivo que permitiu em 1992 o estabelecimento de um mercado único. Outro elemento
importante acordado em Roma foi a adopção de uma Política Agrícola Comum (PAC).
Essencialmente a PAC estabelece a liberdade de circulação dos produtos agrícolas dentro
da CEE e a adopção de políticas altamente proteccionistas que garantem aos agricultores
europeus um nível de cotas suficiente para evitar a concorrência de outros países,
mediante a subvenção dos preços agrícolas. Com o objectivo de financiar a PAC, foi criada,
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em 1962, o Fundo Europeu de Orientação e Garantia Agrícola (FEOGA). A PAC
continua a absorver a maior parte da receita comunitária e é uma das
instituições onde é urgente fazer reformas.

O Tratado de Roma também estabeleceu a proibição de monopólios, algumas


políticas comuns na área dos transportes e a concessão de alguns privilégios comerciais aos
territórios coloniais dos estados membros. O Tratado de Roma significou o triunfo do que
se tem vindo a chamar teses "funcionalistas", representadas, essencialmente, por Jean

Monnet. Perante a impossibilidade de aceder, de imediato, a uma união política,


impossibilidade demonstrada pelo fracasso da CED, a nova estratégia procura um processo
de integração que vá afectando, pouco a pouco, diversos sectores económicos, de forma
gradual, e que vá criando instituições supranacionais às quais os Estados, paulatinamente,
vão cedendo competências económicas, administrativas e, em último caso, políticas. Neste
sentido a CEE passa a ter uma série de instituições: a Comissão, o Conselho, a Assembleia
Europeia (chamada, depois, Parlamento Europeu), o Tribunal Europeu e o Comité Económico
e Social cujas competências se foram alargando e modificando nos diversos acordos e
tratados que modificaram, nos anos posteriores, o Tratado de Roma. Tratava-se afinal de
iniciar um processo em que a progressiva integração económica fosse abrindo caminho ao
objectivo final da união política, união que estava programada a longo prazo.

O tratado que instituiu a Comunidade Atómica Europeia (EURATOM) é muito menos


importante e destinou-se a criar "as condições de uma pujante indústria nuclear". Na
realidade, quando se fala do Tratado de Roma referimo-nos em exclusivo, ainda que de
forma incorrecta, à criação da CEE.

O "problema britânico" e o alargamento da CEE em 1973

O principal problema político na altura da criação da CEE foi o facto de um país


importante como é o Reino Unido se ter posto à margem. Os britânicos negaram-se a entrar
por diversas razões: A importância das suas relações comerciais, políticas e,
inclusivamente, sentimentais com as suas colónias e ex-colónias, pertencentes quase todas
à Commonwealth. Recusaram fazer parte de uma união aduaneira. Londres defendia a
criação de uma zona de livre-câmbio, em que seriam abolidos os direitos alfandegários
internos mas em que cada país tivesse liberdade de decidir as suas próprias fronteiras em
relação a outros países não comunitários. Não tinham nenhuma vontade de participar num
projecto em que, a longo prazo, se previa a cessação da soberania de cada estado em
benefício de instituições supranacionais europeias. Dizendo de outro modo, os britânicos
desconfiavam, e muitos deles ainda desconfiam, do objectivo da unidade política europeia.
Em vez de recusar as negociações para a sua entrada na CEE, o governo britânico propiciou
a criação da Associação Europeia do Comércio Livre (EFTA), a que aderiram a Suécia, a
Suíça, a Noruega, a Dinamarca, a Áustria e Portugal. Esta associação, longe de qualquer
projecto de integração política, foi uma mera zona de livre comércio, essencialmente de
produtos industriais, e não reconhecia qualquer fronteira comum. Os britânicos deram
rapidamente conta do seu erro. Enquanto a CEE protagonizava um crescimento económico
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espectacular, com taxas de crescimento, nos anos 60, claramente superiores ao
norte-americano, a Grã-Bretanha continuou a sua tendência decadente em
relação aos países do continente. Assim, em Agosto de 1961, o primeiro-ministro britânico
solicitou o início das negociações para a entrada do Reino Unido. Depois de várias
tentativas de negociação, o líder francês, Charles De Gaulle, decidido a construir o que
chamava uma "Europa das pátrias" que se tornasse independente das duas superpotências
que protagonizavam a "guerra fria" e receoso da estreita vinculação britânica a
Washington, vetou, em 1963, a entrada britânica na CEE. Quando, em 1967, o governo
trabalhista de Harold Wilson tornou a solicitar a entrada na CEE, o general francês voltou
a vetar a adesão do Reino Unido. Em

1973, três novos países entraram na CEE: o Reino Unido, a Dinamarca e a Irlanda. Nascia a
"Europa dos Nove". Os noruegueses votaram contra a integração do seu país, contrariando
a opinião do seu próprio governo, pelo que a Noruega se manteve à margem da Comunidade.

Os avanços na integração europeia e o alargamento à "Europa dos Doze" (1973-1986)

A "crise do petróleo" de 1973 pôs fim ao espectacular crescimento económico de


que os países europeus haviam desfrutado durante tantos anos. O desemprego, a inflação, a
crise de sectores tradicionais da indústria caracterizaram o panorama económico da CEE
na segunda metade dos anos setenta e nos primeiros anos da década de oitenta. Apesar de,
em alguns momentos, os jornais terem empregado os termos "eurocepticismo" e
"eurosclerose" para se referirem a um processo de integração que parecia desfalecer, a
verdade é que durante estes anos aconteceram avanços importantes, quer no sentido de
uma maior integração quer no alargamento da Comunidade a novos membros. Assinalemos
alguns momentos chave:

A partir de 1975, foi institucionalizado o chamado Conselho Europeu, reunião


periódica dos chefes de Estado e do Governo, onde se tomam as grandes decisões
estratégicas da Comunidade. Em 1979, nasceu o Sistema Monetário Europeu, acompanhado
da criação do ECU ( European Currency Unit), antecedente directo do Euro. As moedas dos
países membros ficavam fixadas numa estreita zona de flutuação do seu valor de câmbio
em 2,5% e, além disso, os governos comprometiam-se a coordenar as suas políticas
monetárias. Tratava-se do primeiro passo significativo para a unidade monetária. Ainda
em 1979, tiveram lugar as primeiras eleições, por sufrágio universal, para o Parlamento
Europeu. A queda das ditaduras militares na Grécia (1974), Portugal (1974) e Espanha
(morte de Franco em 1975) propiciaram a adesão destes países. A Grécia em 1981, a
Espanha e Portugal, em 1986, tornaram-se membros da CEE. A comunidade estendeu-se até
à Europa mediterrânica e a Espanha conseguiu realizar uma antiga aspiração. Em 1984, um
grupo de parlamentares europeus, dirigidos pelo italiano Altiero Spinelli, apresentou ao
Parlamento um "Projecto do Tratado da União Europeia", em que se propunha a aprovação
de um novo tratado que substituiria o de Roma e que, em princípio, faria avançar a
integração europeia. Apesar de não ter sido aprovado pelos governos, teve o mérito de
relançar o debate sobre o futuro da Comunidade, antecipando os avanços que ocorreram
nos anos noventa.
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Em 1985, os três países do Benelux, a França e a Alemanha assinaram um
acordo denominado Acordo de Schengen ao qual foram posteriormente aderindo
a maioria dos países comunitários. Teve início, assim, uma ambiciosa iniciativa que garantia a
livre circulação das pessoas e a gradual supressão de fronteiras entre os estados
comunitários. Na segunda metade dos anos oitenta, o processo de alargamento recebeu um
importante impulso político, propiciado, em grande medida, por Jacques Delors, socialista
francês que foi eleito presidente da Comissão Europeia em 1985. A sua primeira medida foi
permitir a aprovação, em 1986, do Acto Único Europeu.

Existe o perigo de ver o processo de integração europeia como um processo isolado,


exclusivamente centrado no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Esta visão
comete uma grande injustiça porque não tem em conta as grandes transformações que
formaram o que actualmente se designa por Europa.

A lista de importantes e, às vezes, tristemente célebres, figuras históricas que, de uma


forma ou de outra, sonharam com a ideia da Europa é também grande: Carlos Magno, Carlos
V, Napoleão, Metternich, Hitler. O mesmo poderíamos dizer de intelectuais e filósofos. De
Rousseau a Marx, de Kant a Leibniz, são vários os pensadores que propuseram a ideia de
uma Comunidade europeia como um objectivam político desejável a longo prazo. A cidadania
europeia tal como está reconhecida hoje nos Tratados é uma realidade ainda insípida. Mas o
que temos é o início de um processo evolutivo que chegará a uma outra realidade de acordo
com o próprio destino do processo de integração europeia. Para que a cidadania europeia se
desenvolva plenamente e tenha um significado real para os europeus é necessário que vá
surgindo, com perfis cada vez mais definidos, uma consciência de identidade

A extensão dos direitos

Os direitos reconhecidos no estatuto de cidadania são, para muitos, ainda escassos


e afectam um número reduzido de europeus, pelo que para a maioria dos cidadãos são
irrelevantes. O mais importante é, sem sombra de dúvida, o da livre circulação e residência.
Avançou-se de forma notável desde o Tratado de Roma, no que respeita à liberdade de
deslocação e estritamente ligada à actividade laboral, no entanto continua a haver
limitações que é necessário eliminar. Apesar dos acordos e Convénio de Schengen, qualquer
país pode restabelecer os controlos fronteiriços se vê a sua segurança ameaçada, a
permissão de residência continua a ter limitações distintas.

Os restantes direitos têm um reflexo muito débil na vida quotidiana dos europeus: o
direito de apelar ao Provedor de Justiça só se refere aos assuntos de competência
comunitária; o direito de petição ao Parlamento já existia e dirige-se a um Parlamento ainda
com muito escassos poderes; o direito de sufrágio noutro país membro afecta um número
importante, mas claramente minoritário de europeus, o direito de protecção diplomática só
se concerne aos europeus que visitam um terceiro país em que não exista embaixadas ou
consulados do seu próprio estado. O grande debate dos próximos anos será este, damos
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força e concretização ao estatuto de cidadania europeia. A única maneira de
construir uma verdadeira cidadania europeia passa por esgotar este “deficit
democrático”. A cidadania não só é algo passiva, é decidir, desfrute de uma série de
liberdades e direitos, ainda que, antes de mais deva ser uma cidadania activa, baseada na
participação política e cívica.

As cidadanias nacionais têm vindo a ser construídas historicamente com base nessa
participação da sociedade, participação que a miúdo adopta a forma de lutas e conflitos e
que tem desenvolvido um conjunto de direitos (civis, políticos e sociais) e

O aparecimento de uma identidade europeia

O conceito de identidade europeia é, cada vez menos problemático. A maior parte


dos habitantes do nosso continente sente-se, com maior ou menor agrado, “europeu”, ainda
que a maioria dos cidadãos sinta de maneira mais clara e forte, a sua ligação a França,
Espanha, Alemanha ou Portugal, ou também a Catalunha, Escócia, Bretanha, ou Flandres. É
certo que todas essas identidades são dificilmente separáveis e que regularmente se
misturem com outros sentimentos pertinentes (género, grupo étnico ou racial, ideológico,
político, afinidades culturais…)

A unificação europeia requer a construção de uma identidade europeia mas esta


existe. Não há uma homogeneidade linguística nem cultural. Não se pode construir sobre
elementos como o cristianismo, nem a democracia, nem a identidade O que é evidente é que
a identidade europeia não poderá surgir de uma uniformização cultural impossível, nem
deverá construir-se contra o “outro” Uma das propostas mais sugestivas foi popularizada
pelo pensador alemão Jurgen Habermas. Numa democracia liberal, os cidadãos devem ser
leais e sentir-se identificados não com uma identidade cultural comum, mas sim com
princípios constitucionais que garantam plenamente os seus direitos e liberdades. Esta
proposta é especialmente sugestiva, engloba o melhor da tradição liberal e tolerante da
Europa, combate o nacionalismo étnico, o grande inimigo da paz e liberdade na Europa que
penetra no século XXI.

A Europa formulou acordos com outros países com vista ao intercâmbio de comércio,
harmonização aduaneira, direitos sociais e humanos e de desenvolvimento não só ao nível da
EFTA como com os países ACP ao qual se deu o nome que ainda hoje vigora de Convenção de
Lomé que é o acordo comercial assinado em 1975 entre a União Europeia e os países ACP,
que vigorou até à assinatura do acordo de Cotonou. Existiram quatro convenções de Lomé:
Lomé I, Lomé II, Lomé III e Lomé IV, que são sucessivos aperfeiçoamentos de um acordo
inicial. Lomé I Esta primeira Convenção foi assinada por 46 países ACP. Tinha por
objectivos a coordenação comercial, garantido a liberdade de acesso ao mercado
comunitário de quase todos os produtos dos países ACP, assegurar a estabilidade das
receitas de exportação para 36 projectos-base, protegendo-as contra as flutuações de
preços do mercado mundial, cooperação industrial e financeira e criação de instituições
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destinadas à gestão em comum do conjunto de acordos. Lomé II Foi assinada
por 58 países ACP e tinha quase os mesmos objectivos da primeira Convenção.
Esta Convenção veio aprofundar os acordos anteriores e estabelecer a cooperação mineira
e energética. Também nesta Convenção se estabeleceu a cooperação no domínio das pescas,
medidas a favor da mão-de-obra e definição de dispositivos de promoção comercial. A
Convenção de Lomé II trouxe uma nova abordagem, pensando no desenvolvimento
autocentrado e no apoio a políticas sectoriais. O termo da vigência da Convenção de Lomé
constitui uma oportunidade única para reexaminar e rever profundamente a política da UE
sobre esta matéria. Esta Convenção, que rege as relações entre a União Europeia e 71
países ACP, constitui uma vertente importante da política externa da União Europeia.
Actualmente, atravessa-se uma fase crucial das relações UE/ACP. Após 25 anos de
«cooperação no âmbito de Lomé», torna-se necessário elaborar um novo quadro político que
tenha em conta

as profundas mudanças ocorridas no contexto económico e político internacional, bem como


nos próprios Estados ACP.

Sabemos que as condições políticas de determinado país podem ter um impacto


decisivo nas medidas de cooperação e desenvolvimento. A promoção de um quadro político e
democrático estável, propício às liberdades fundamentais, ao Estado de direito e à boa
governação, constitui não só uma condição prévia para o êxito das políticas de
desenvolvimento, mas também parte integrante dos nossos objectivos. O modelo de
desenvolvimento que tem vindo a emergir gradualmente das principais conferências
internacionais tem por objectivo satisfazer as necessidades básicas, além de atribuir uma
grande prioridade aos direitos humanos, políticos, sociais e culturais. Em primeiro lugar,
porque procura-se obter um equilíbrio entre dois requisitos: por um lado, a preservação do
acervo de Lomé e, por outro, uma profunda reforma das relações UE-ACP, com vista a
enfrentar novos desafios e a atingir novos objectivos. Em segundo lugar, porque pretendem
construir uma parceria verdadeira e eficaz, o que significa que a nossa política de
cooperação deve basear-se no reconhecimento de que a responsabilidade fundamental pela
erradicação da pobreza e a criação de um enquadramento favorável ao desenvolvimento
económico e social incumbe aos países interessados, que são os principais intervenientes.
Podemos contribuir para que tenham uma função activa e genuína nos seus países e na sua
região, bem como a nível internacional. Não queremos prosseguir a forma tradicional das
relações dador-beneficiário. A parceria deve ser eficaz em todas as áreas, quer a nível do
diálogo político, quer do apoio a estratégias de desenvolvimento adequadas e à cooperação
económica e comercial.

Conclusão: hoje somos cidadãos portugueses e europeus, não significa que tenhamos
dupla nacionalidade embora haja quem a tenha, podemos eleger e ser eleitos em qualquer
pais onde nos encontramos a trabalhar e que aí tenhamos residência fixa
independentemente de sermos naturais de lá ou não, temos os mesmos direitos de trabalho
e de protecção social, lembrando ainda que entre outros deveres, temos também acrescido
uma dupla responsabilidade inerente à nossa condição de cidadania, nacional e europeia.

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Coimbra, 06 de Fevereiro de 2009

José António da Costa Silva

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