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Parte I Titulo II Capitulo I

Direitos, liberdades e garantias pessoais


Artigo 24.º
(Direito à vida)
1 - A vida humana é inviolável.
2 - Em caso algum haverá pena de morte.

“ Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal,


pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o
exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal.
Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade
imensa da qual todos somos concidadãos”

Portugal não foi o primeiro estado europeu a abolir a pena de morte. A República
Romana fê-lo em 1849 seguida por S. Marino em 1852. Em Portugal, depois de duas
propostas legislativas em 1852 e 1863, foi abolida para todos os crimes em 1867.

Abolida para crimes políticos em 1852 (artigo 16º do Acto Adicional à Carta
Constitucional de 5 de Julho, sancionado por D. Maria II).
Abolida para crimes civis em 1867 no reinado de D. Luís. Abolida para todos os crimes,
excepto por traição, durante a guerra em Julho em 1867 (Lei de 1 de Julho de 1867). A
proposta partiu do ministro da Justiça Augusto César Barjona de Freitas, sendo
submetida à discussão na Câmara dos Deputados. Transitou depois à Câmara dos Pares,
onde foi aprovada. Mas a pena de morte continuava no Código de Justiça Militar. Em
1874, quando o soldado de infantaria nº 2, António Coelho, assassinou o alferes Palma e
Brito, levantou-se grande discussão sobre a pena a aplicar.

Abolição para todos os crimes, incluindo os militares em 1911. Readmitida a pena


de morte para crimes de traição em tempo de guerra, em 1916. Abolição total em 1976.
Em 1772 ocorreu a última condenação à pena de morte de uma mulher. Assim, desde o
reinado de D. Maria I que deixou de vigorar a pena de morte aplicada a mulheres.
A última execução conhecida em território português foi em 1846, em Lagos.

As posições que Portugal assumiu relativamente a esta matéria são, em grande


parte, fruto da influência das doutrinas humanitaristas do italiano marquês de Beccaria,
a partir de 1764.
Eventualmente (não confirmado), terá havido uma execução em França, entre o
exército português, ao abrigo do Direito português, durante a primeira guerra mundial
em 1917 ou 1918, por traição.

Actualmente, a pena de morte é um acto proibido e ilegal segundo o Artigo 24.º


alínea 2 da Constituição Portuguesa.
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História
Aplicada em quase todas as civilizações ao longo da História como forma de
punição de crimes, encontra actualmente um enquadramento legal e sociológico bastante
diferente.
Nenhum Estado membro aplica a pena de morte. Actualmente, a Convenção
Europeia dos Direitos Humanos recomenda a sua proibição.

A maioria dos estados federados dos Estados Unidos, principalmente no sul, retomaram
essa prática após uma breve interrupção durante os anos 1970, sendo por isso uma das
raras democracias, juntamente com o Japão, a continuar a aplicar a pena de morte.

Em Janeiro de 2008, 36 dos 50 estados dos EUA prevêem a aplicação da pena


capital. O estado que mais recentemente aboliu o uso da pena de morte foi Nova Jersei
em 13 de Dezembro de 2007.

O país que mais recentemente aboliu a pena de morte foi o Uzbequistão, em 1 de Janeiro

Excepções históricas
A pena de morte é um acto da Justiça, sujeito às regras do Direito e da Lei.

A pena de morte distingue-se da eliminação de indivíduos julgados indesejáveis


(deficientes físicos ou mentais, judeus e homossexuais), que foi praticada ao longo dos
tempos, com especial referência para o Holocausto e nazismo. Na realidade, a pena de
morte é concebida como uma punição de um crime, enquanto a eliminação dos
indesejáveis é considerada como um acto arbitrário.

É importante distinguir a pena de morte da eutanásia, que é a prática pela qual se


abrevia, sem dor ou sofrimento, a vida de um enfermo incurável. O fato de um polícia ou
outra pessoa matar um suspeito ou um criminoso, em estado de legítima defesa ou não,
não constitui uma aplicação da pena de morte. O mesmo é o caso de mortes causadas por
operações militares.

A pena de morte, a condenação, a sentença e a sua execução resultam da aplicação


de uma lei conforme os ritos e as regras de um processo da justiça criminal ou militar

Nos países lusófonos que a adaptaram após a independência, também estes já a aboliram.

Angola: Abolida para todos os crimes (desde 1992) Moçambique Abolida para
todos os crimes (desde 1990) Guiné-Bissau, Abolida para todos os crimes (desde 1993)
Cabo Verde, Abolida para todos os crimes (desde Novembro de 1980) São Tomé e
Príncipe, Abolida para todos os crimes (desde 1990)

2
No mundo: Dentre os países com sistemas políticos democráticos, os Estados Unidos da
América e o Japão são os únicos que efectivamente aplicam a pena de morte.

Em países como a China, Cuba, Irão e a maior parte dos países do Médio Oriente, a
pena de morte é aplicada com frequência.

Métodos de aplicação
Asfixia, Fogueira, Crucificação, Esmagamento, Esmagamento por elefante, por mil
cortes, Decapitação (a espada, machado ou guilhotina), Desmembramento, Afogamento,
Electrocussão numa cadeira eléctrica, De sangrado, Fuzilamento, Garrote vil, Câmara de
gás Forca, Empalamento, Injecção letal, Lapidação (Apedrejamento), Estrangulamento, A
Roda Inanição, O serrote, Paredão, Precipitação, Tapocrifação, Touro de latão etc..

Cometidos em circunstâncias excepcionais.

Execução de Menores
O uso da pena de morte para crimes cometidos por pessoas que ainda não
atingiram os 18 anos é proibido pela lei internacional, no entanto alguns países ainda
executam menores. Essas execuções são poucas comparativamente com o número total
de execuções a nível mundial. O seu significado vai para além dos números e põe em
causa a vontade dos estados em respeitar a lei internacional.

A Amnistia Internacional opõe-se à pena de morte em todos os casos por ser uma
violação à vida e ao direito de não ser sujeito a uma punição cruel, desumana ou
degradante. Como passos em direcção à abolição total da pena de morte, a Amnistia
Internacional suporta medidas que limitem a aplicação da pena de morte. Estas medidas
incluem leis que impedem a execução de menores: pessoas condenadas por crimes
cometidos antes dos 18 anos.

Abolição da Pena Capital

A pena de morte deve ser abolida em todos os casos sem excepções:


A pena capital viola o direito à vida assegurado pela Declaração Universal dos Direitos
Humanos;
Representa a total negação dos Direitos Humanos;
É o assassínio premeditado e o sangue frio de um ser humano, pelo Estado, em nome da
justiça; é o castigo mais cruel, desumano e degradante;
É um acto de violência irreversível, praticado pelo estado;
É incompatível com as normas de comportamento civilizado;
É uma resposta inapropriada e inaceitável ao crime violento.

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A pena de morte é tortura

Uma execução constitui um atentado físico e mental extremo. A dor física


causada pelo acto de matar e o sofrimento psicológico causado pelo conhecimento prévio
da própria morte não podem ser quantificados.
Todas as formas de execução acarretam uma dor física. Todas as formas de execução
são desumanas.
É ainda necessário não esquecer que o condenado sofre uma dor psicológica
inimaginável, desde que é condenado, até ao momento da execução.

A pena de morte é discriminatória e muitas vezes usada de forma


desproporcionada contra os pobres, minorias e membros de comunidades raciais, étnicas
e religiosas, atingindo inevitavelmente vítimas inocentes. Os prisioneiros executados não
são necessariamente os piores, mas aqueles que eram demasiado pobres para contratar
bons advogados ou que tiveram de enfrentar juízes mais duros.

A possibilidade de erro
Todos os sistemas de justiça criminal são vulneráveis à discriminação e ao erro.
Nenhum sistema é, nem será, capaz de decidir com justiça, com consistência e sem
falhas quem deverá viver e quem deverá morrer.
A rotina, as discriminações e a força da opinião pública podem influenciar todo o
processo. Enquanto a justiça humana for falível, o risco de se executar um inocente não
pode ser eliminado.

A pena de morte pode ser uma arma política


A pena de morte tem sido usada como uma forma de repressão política, uma
forma de calar para sempre os adversários políticos. Em muitos destes casos, as vítimas
são condenadas à morte após julgamentos injustos. Enquanto a pena de morte for aceite,
a possibilidade de influências políticas manter-se-á.
Por outro lado, muitos políticos apoiam a pena de morte apenas para conseguirem
mais votos; eles sabem que os eleitores desinformados e receosos pelos níveis de
violência são entusiastas de pena capital.

Pena de morte não é autodefesa


A autodefesa justifica, em alguns casos, mortes executadas por autoridades
estatais, desde que se respeitem as salvaguardas legais aceites internacionalmente. Mas
a pena de morte não é um acto de autodefesa contra uma ameaça à vida. A pena capital é
a morte premeditada de um prisioneiro.

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Efeito dissuasor duvidoso

Muitos governos tentam resolver problemas políticos e sociais executando


prisioneiros. Muitos cidadãos não se apercebem que a pena de morte não oferece mais
protecção, mas sim mais violência.
Os estudos científicos mais recentes sobre a relação entre a pena de morte e as
percentagens de homicídios, conduzidas pelas Nações Unidas em 1988 e actualizadas em
1996, não conseguiram encontrar provas científicas de que as execuções tenham um
efeito dissuasor superior ao da prisão perpétua.

Não é correcto assumir que as pessoas que cometem crimes graves o fazem depois
de analisar racionalmente as consequências. Geralmente, os assassinatos ocorrem quando
a emoção ultrapassa a razão, ou sob a influência de drogas ou álcool. Muitas pessoas que
cometem crimes violentos são emocionalmente instáveis ou doentes mentais. Em nenhum
destes casos o receio da pena de morte pode ser dissuasor. Além disso, aqueles que
cometem crimes graves premeditados podem decidir fazê-lo, apesar do risco de serem
condenados à morte, por acreditarem que não serão apanhados.

A forma de impedir estes crimes é aumentar as probabilidades de detenção e de


condenação.

A pena de morte impede a reabilitação:


A pena de morte garante que os condenados não repetirão os crimes que os
levaram à execução, mas, ao contrário das penas de prisão, a pena de morte tem como
risco o facto de os erros judiciais não poderem nunca ser corrigidos. Haverá sempre o
risco de executar inocentes.
É também impossível saber se os que foram executados iriam realmente repetir os
crimes pelos quais foram condenados. A execução retira a vida de um prisioneiro para
prevenir eventuais crimes futuros, crimes que nem se sabe se voltariam a acontecer. Ela
nega o princípio da reabilitação.

Se a pena de prisão não garante que os condenados voltem a praticar os mesmos


crimes depois de libertados, então é necessário rever as sentenças.

A pena de morte não pode ser usada contra o terrorismo:


Os responsáveis pela luta antiterrorista e contra os crimes políticos têm
repetidamente afirmado que a pena de morte tanto pode diminuir como aumentar estes
tipos de crime.
A pena de morte não repõe a justiça não inibe as pessoas de cometerem crimes
não tem efeitos dissuasores é apenas um acto de intimidação e humilhação, de pura
vingança e crueldade, de morte pela morte. Tantos séculos volvidos depois de a mais
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cruel das leis ter sido banida da justiça humana “ Lei de Talião” ainda hoje de quando em
vez esta lei é ressuscitada para aplicarmos aos nossos semelhantes, aquela que é
irremediavelmente a pior das penas que depois de aplicada ninguém a pode revogar ou
amnistiar.

As execuções podem criar mártires, cuja memória pode fortalecer as organizações


criminosas; e podem ser uma justificação para vinganças, aumentando o ciclo de violência.

Muitos terroristas estão preparados para dar a sua vida por aquilo que
reivindicam, podendo a pena de morte funcionar nestes casos como um incentivo.

A opinião pública e a decisão pela abolição:


A decisão de abolir a pena de morte tem de ser tomada pelos governos e pelos
legisladores, mesmo se a maioria da população for favorável à pena de morte. Isto é o
que geralmente acontece. Depois de abolida a pena de morte, não é normal existirem
reacções negativas da população, e quase sempre a pena de morte fica definitivamente
abolida.

O Direito à Vida:
Os Direitos Humanos são inalienáveis, isto é, são direitos de todos os indivíduos
independentemente do seu estatuto, etnia, religião ou origem. Não podem ser retirados,
quaisquer que sejam os crimes que eventualmente determinada pessoa tenha cometido.

Respeito pelos tratados internacionais:


A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela Assembleia Geral das
Nações Unidas em Dezembro de 1948, em resposta ao terror e brutalidade de alguns
governos, reconhece o direito de cada pessoa à vida, afirmando ainda que ninguém deverá
ser sujeitado a tortura ou a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante. A pena
de morte viola estes direitos. A adopção de outros tratados regionais e internacionais
tem apoiado a abolição da pena de morte.

O Segundo Protocolo Facultativo para o Tratado Internacional de Direitos Civis e


Políticos, que tem como objectivo a abolição da pena de morte e que foi adoptado pela
Assembleia Geral da ONU em 1989, defende a total abolição da pena de morte
permitindo mantê-la em tempo de guerra, desde que no momento da ratificação do
protocolo se faça uma reserva nesse sentido.

O Sexto Protocolo da Convenção Europeia sobre Direitos Humanos, adoptado pelo


Conselho da Europa em 1982, prevê a abolição da pena de morte em tempo de paz,
podendo os estados mantê-la para crimes em tempo de guerra ou em caso de guerra
iminente.
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O artigo 1º deste Protocolo, em vigor desde 1 de Março de 1985, prescreve: "A pena de
morte é abolida. Ninguém pode ser condenado a tal pena ou executado"
E o artigo 2º: "Um Estado pode prever na sua legislação a pena de morte para actos
praticados em tempo de guerra ou de perigo iminente de guerra; tal pena não será
aplicada senão nos casos previstos por esta legislação e de acordo com as suas
disposições. Este Estado comunicará ao secretário-geral do Conselho da Europa as
disposições correspondentes da legislação em causa".

O Protocolo da Convenção Americana sobre Direitos Humanos para a Abolição da


Pena de Morte, adoptado pela Assembleia-geral da Organização dos Estados Americanos
em 1990, pretende a total abolição da pena de morte, permitindo aos estados mantê-la
em tempo de guerra desde que façam essa reserva ao ratificar ou aceitar o protocolo.

A pena de morte foi excluída dos castigos que o Tribunal Criminal Internacional
estará autorizado a impor, mesmo tendo ele jurisdição em casos de crimes
extremamente graves, como crimes contra a humanidade, incluindo genocídio e violação
das leis de conflito armado.

Pena de Morte: Um fracasso da Justiça?


A Pena de Morte não é uma questão abstracta e teórica. Na verdade, falamos de
seres humanos, sejam homens ou mulheres, que são tratados indiferentemente e
condenados à morte. A discriminação sobre indivíduos condenados à morte, o risco,
sempre presente, de executar um inocente, a forma banal de lidar com indivíduos que
sofrem de distúrbios mentais e a aplicação de julgamentos injustos na administração da
pena capital, conduzem a uma realidade inaceitável. A sua aplicação aparece justificada
como um impedimento para crimes futuros, mas a verdade é que estudos recentes
mostram que Pena de Morte não significa protecção nem traz benefícios para a
sociedade. É a punição mais cruel, desumana e degradante que pode existir e pior, é
irrevogável. Quando uma punição destas é aplicada por sistemas dependentes da acção
humana e dos seus possíveis erros, o resultado é que em vez de servida, a justiça é
pervertida.
O Dia Mundial contra a Pena de Morte, em 2006, teve como tema “A Pena de
Morte, um Fracasso da Justiça”, nomeadamente em questões relacionadas com
delinquência juvenis, discriminação, inocência, doenças mentais e julgamentos injustos
em vários países do mundo, de modo a ilustrar o fracasso da justiça na aplicação da pena
capital. Delinquentes Juvenis.
Os tratados internacionais sobre Direitos Humanos proíbem que indivíduos com
idade inferior a 18 anos, na altura do crime, sejam condenados à morte ou executados. O
Tratado Internacional dos Direitos Civis e Políticos, a Convenção dos Direitos da Criança,

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a Carta Africana sobre os Direitos da Criança e a Convenção Americana dos Direitos
Humanos têm em comum esta proibição.
Mais de 110 países, cujas leis ainda prevêem a aplicação da Pena de Morte, têm leis
especificas que excluem a aplicação no caso de delinquentes juvenis. Um pequeno número
de países contínua, no entanto, a aplicar a Pena de Morte nestes casos. Desde 1990, pelo
menos oito países executaram 47 prisioneiros com menos de 18 anos de idade, na altura
em que cometeram o crime – China, República Democrática do Congo, Irão, Nigéria,
Paquistão, Arábia Saudita, Estados Unidos da América e o Iémen. No entanto, a China, o
Paquistão, os EUA e o Iémen alteraram recentemente a idade mínima para aplicação
desta pena para 18 anos. Os EUA e o Irão executaram mais delinquentes juvenis do que
os restantes seis países juntos. Oito delinquentes juvenis foram executadas no Irão em
2005, o único país que aplicou a Pena de Morte a estes casos, no ano passado.

Um rapaz de 17 anos de idade foi executado em Maio de 2006 Irão. No Paquistão


executaram também um jovem, mas a sua idade não foi tida em conta no Tribunal.
Discriminação.
A Pena de Morte tende a ser aplicada aos membros mais vulneráveis da sociedade:
aos pobres, aos doentes mentais, aos membros de minorias raciais, étnicas e religiosas.
Em todo o mundo é aplicada de modo desproporcional, sendo os indivíduos de classes
sociais mais baixas, os mais punidos com esta pena. Os migrantes e estrangeiros pelo
mundo fora sofrem de marginalização, pobreza, xenofobia e discriminação, factores que
influenciam todo o processo de condenação à morte.

Raramente têm uma representação legal, e não compreendem os processos


levantados contra eles. Em alguns casos, nem eles nem as suas famílias são informados
de que foram condenados à morte. Estes factores, quer individualmente, quer quando
combinados, provam que muitos prisioneiros são alvos de discriminação durante os
processos de condenação. Inocência a tendência para cometer erros, que leva a uma
discriminação e a uma imposição arbitrária da pena de morte, torna também inevitável a
execução de alguns prisioneiros que foram injustamente condenados. Uma defesa
precariamente preparada, a falta de provas, ou mesmo a decisão de falsa acusação por
parte das autoridades responsáveis, podem resultar em condenações erradas. Essas
condenações são dificilmente reversíveis, já que os tribunais de recurso dificilmente
consideram novas provas. Muitos prisioneiros têm sido executados ao longo das últimas
décadas, apesar das fortes dúvidas acerca da sua real culpa.
Outros têm sido libertados após a reexaminação dos seus casos, sendo provado que
foram condenados injustamente. É impossível determinar quantas pessoas inocentes
foram condenadas à morte.
O que é certo é que a abolição da pena de morte é o único caminho para assegurar
que erros desses não ocorram.

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Doenças Mentais. É globalmente aceite que, pessoas com problemas mentais, não devem
ser responsabilizadas pelos seus actos e, mais ainda, alguns criminosos não devem ser
julgados com base nas leis normais do Sistema Criminal de Justiça. Um princípio
importante é o que defende que um prisioneiro condenado à morte, mas que é doente
mental, não deve ser executado, pois ele é incapaz de compreender a natureza da
punição.
Estes princípios estão enunciados na Resolução 2005/59, adoptada a 20 de Abril
de 2005. A Comissão de Direitos Humanos da ONU apelou a todos os Estados que ainda
mantêm a Pena de Morte para que “não a apliquem a pessoas que sofram de qualquer tipo
de doença mental ou psíquica ou para não executarem essas pessoas”. O Relatório
Especial da ONU sobre execuções extrajudiciais ou arbitrárias, refere que “a lei
internacional proíbe a aplicação da pena capital a pessoas com insanidade mental” e que
os governos que continuam a reforçar a legislação sobre a pena capital “no que diz
respeito a minorias e doentes mentais serão aconselhados a adequar a sua legislação
interna com as leis internacionais. Os Estados devem considerar a adopção de leis
especiais para protecção dos doentes mentais, incorporando a legislação internacional”.
Julgamentos Injustos: Para defender as suas vidas nos tribunais, os arguidos
devem beneficiar de julgamentos justos. Quando os padrões aceites para um julgamento
justo são ignorados ou postos de lado, a aplicação da pena de morte fica sujeita a um
abuso político e o risco de execução de inocentes aumenta. Vários prisioneiros durante
as últimas décadas, foram executados em casos em que os recursos de defesa foram
deficientes ou mesmo inexistentes. Outros casos continuam a ser ouvidos em tribunais
especiais, em segredo de justiça, sem que haja uma adequada representação da defesa
ou por juízes que nem sempre são competentes ou independentes.
Os procedimentos tendem a ser cada vez mais rápidos, não deixando espaço para
apelos ou petições de clemência.
Dia 10 de Outubro é o dia Mundial contra a Pena de Morte

Pessoalmente aliás, não acho que a pena de morte seja a medida mais severa para
com o preso. A prisão perpétua, para mim, é muito mais dura. O problema é que as coisas
são um pouco diferentes, porque pode-se apanhar, no máximo, uma pena de 25 anos. Na
maioria das vezes, essa pena é reduzida se o preso se comportar de maneira adequada,
prestar serviços na cadeia, etc. Consequentemente, a pena vai sendo reduzida e o preso
fica muito menos tempo na cadeia do que deveria ficar. Mesmo assim, acho que o mal não
se paga com o mal, acho que ninguém pode tirar a vida de ninguém, nem fazer justiça
dessa maneira. Colocar um ser humano que cometeu um crime hediondo no corredor na
morte e matá-lo posteriormente é como se igualar a ele. Além disso, nos EUA foi
comprovada a inocência de muitos presos que foram mortos pela pena de morte? Esse é
outro problema, há vários casos de inocentes que foram mortos!

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Será que a pena de morte vale a pena? Não

O cristianismo foi o primeiro sistema religioso a defender a legítima separação


entre a Igreja e o Estado e a liberdade de consciência. A Igreja, repetidas vezes,
criticou a intromissão das autoridades na vida religiosa. Foram muitos os mártires até
que, em 313, o imperador Constantino declarasse a liberdade religiosa no Império
Romano. Deste modo, o cristianismo consagrou a liberdade de consciência e a dualidade
entre religião e política, entre Igreja e Estado.

Infelizmente, com a liberdade e com o crescimento numérico, alterou-se o


comportamento cristão, retornando ao antigo espírito romano onde o imperador, para
garantir a unidade do Império, exigia a unidade religiosa.

A legislação foi alterada em 380, com o Edito de Tessalónica: toda a população


ficou obrigada a professar o cristianismo e, em 386, na Espanha, houve a primeira
condenação à morte por motivos doutrinais.

No campo doutrinal, Agostinho ensina que o bem da verdade e da unidade é mais


importante do que o da liberdade, e aceita obrigar o herege à sã doutrina.

O imperador Justiniano, em 529, obrigou que todos os súbditos do Império se


fizessem cristãos, sob pena de perderem os bens e os direitos civis. Desaparece, dessa
maneira, a antiga mansidão cristã e passa-se a igualar unidade religiosa com unidade
política. Assim, heresia é subversão, crime contra a unidade do Estado.

A cristandade medieval
O conceito da primazia da verdade e da unidade sobre a liberdade acabou
triunfando e a antiga Igreja perseguida torna-se perseguidora.

A teologia caminha em duas direcções:

a) Ninguém pode ser obrigado a crer;

b) Ninguém tem a liberdade de se desviar da verdadeira fé ou perdê-la. Santo


Tomás afirma que, se quem falsifica moeda deve ser morto, muito mais o deve quem
falsifica a fé. A Igreja deve ter paciência, admoestar o herege mas, se ele continuar no
erro, deve ser entregue às autoridades a fim de que seja exterminado pela morte.

Os bispos eram os responsáveis naturais pela defesa da fé e denúncia dos


hereges. Como nem sempre eram muito zelosos, são criados tribunais de caça e
julgamento de hereges: nascia a Inquisição.

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O Papa Alexandre III (1159-1181) estendeu a toda a Igreja o Direito Canónico, que
determinava a intervenção activa diante do desvio da fé. Fala-se agora em guerra contra
os hereges, cruzada contra os infiéis, especialmente contra os cátaros no sul da França.
Em 1209, foi atacada a cidade de Béziers e 5 mil pessoas são queimadas vivas dentro de
uma igreja.

A legislação torna-se sempre mais dura e o papa Lúcio III, em 1184, estabelece o direito
penal a ser aplicado contra os hereges. Todos, autoridades e leigos, estão obrigados a
denunciar os hereges sob pena de perderem os bens. Por quê essa mudança? É que
sempre mais se misturam os interesses do Estado com os da Igreja, e papas e reis estão
empenhados na unidade da fé para garantir a unidade política.

A unidade religiosa é confundida com o bem comum e os reis são os mais activos na
caça aos hereges, que lhes pareciam uma ameaça à ordem interna. Os castigos cruéis
provém mais dos príncipes do que dos papas.

Pena de morte:
Tribunal de Inquisição - Torquemada
Em 1199, o papa Inocêncio III qualifica a heresia de crime de lesa-majestade
(crime contra o rei, o Estado, traição). Como para esses crimes o Estado aplicava a pena
de morte, defende-se a mesma pena para os hereges que não se quisessem emendar.

O IV Concílio de Latrão (1215) elevou este princípio à doutrina para toda a Igreja,
ordenou que os hereges fossem caçados em todos os lugares, não se arrependendo
tivessem os bens confiscados e entregues ao Estado para a pena devida (serem
queimados). Os Seus herdeiros também sofriam o confisco dos bens e o exílio.

Frederico II, imperador alemão, foi um dos grandes entusiastas da Inquisição,


pois dela gostava de se servir para assassinar todos os adversários políticos. Isso
aconteceu em todos os lugares, especialmente na Espanha, onde o Tribunal da Inquisição
foi confiado aos reis que o manipularam para a eliminação de opositores, judeus e
muçulmanos.

Inquisição entregue aos monges:


Como bispos e príncipes nem sempre fossem zelosos e persistentes na caça aos
hereges, em 1232 o papa Gregório IX entregou o Tribunal às novas Ordens mendicantes,
especialmente aos dominicanos. Os Inquisidores realizam um trabalho realmente
“científico”, elaborando Directórios e Manuais para os processos. A máquina funcionava
na França, Itália, Alemanha, Países Baixos, Espanha. O papa Inocêncio IV chegou a
admitir o uso da tortura nos tribunais (1252).

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As vítimas:
Inicialmente o objecto da Inquisição era apenas a heresia, abundante na época:
cátaros, albigenses, valdenses, passaginos, josefinos, esperonistas, arnaldistas,
luciferianos, begardos, etc. Também era suspeito de heresia quem conversava com um
herege. Com o tempo, alarga-se o campo inquisitorial, incluindo quem praticasse
sortilégio, bruxaria, necromancia, feitiçaria, adivinhação, usura, incesto, sodomia,
blasfémia. O Tribunal da Igreja tornou-se a imagem de uma sociedade totalitária que não
admitia o diferente.
O Manual ensinava ao Inquisidor 50 maneiras de que o demónio se servia para
impedir o acto sexual, provocar impotência ou aborto.
As mulheres foram as grandes sofredoras. Entre 1627 e 1630, quase todas as parteiras
de Colónia (Alemanha) foram eliminadas. As “bruxas” (geralmente mulheres de má
aparência) eram culpadas de todos os males da sociedade europeia. Isso foi longe: ainda
em 1721, em Freising, na Alemanha, a sala das torturas era incensada, celebrava-se a
missa pelo bom sucesso do trabalho e se abençoavam os instrumentos de tortura. Isso
vale para católicos e protestantes, pois todas as Igrejas da Reforma (protestantes,
anglicanos e calvinistas) admitiram o uso da Inquisição.

O Processo Inquisitorial:
Após a composição do Tribunal, o Inquisidor proferia um sermão exortando todos
à conversão e à colaboração. Seguia-se o Edito de Graça: os que se apresentassem num
prazo de 15 a 30 dias recebiam a penitência com a absolvição.

Expirado o prazo, era publicado o Edito de Fé: todos eram intimados à denúncia e
os denunciados eram caçados e presos e sujeitos ao processo. A habilidade do Inquisidor
fazia o réu entrar em contradição, pedir perdão, reconhecer o erro. Não se descobrindo
culpas, o réu era absolvido. Havendo indícios de culpa passava pelo cárcere ou pela
tortura.
A lei eclesiástica admitia a tortura, mas não por mais de meia hora e que não se
quebrasse nenhum osso. Os meios de tortura eram os mesmos dos tribunais civis da
época, todos horrorosos.

O réu arrependido, chegando-se à conclusão do processo, recebia penitência e era


sujeito a humilhações. Se caísse novamente na heresia, a pena de morte estava
garantida. Se o réu confessasse o erro, mas sem arrependimento, era colocado por
meses em cárcere severo. Se mesmo assim persistisse no erro, morte pela fogueira era o
seu destino.

As sentenças eram publicadas de forma solene: uma grande procissão,


acompanhada pela multidão, levava os acusados à igreja onde eram lidas as sentenças. No
pátio, erguia-se a fogueira onde eram queimados os hereges impenitentes.

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Normalmente a multidão gostava de assistir a esse espectáculo macabro, quer por ver o
falso triunfo da verdade, quer porque a cultura vigente era mesmo cruel.

A Igreja, teoricamente, não aboliu a Inquisição, mas, no século XVIII, quando os


Estados europeus a aboliram, a Igreja não teve mais meios de executar as suas
sentenças. A última execução de herege que se conhece foi na Espanha, em 1826.

Podemos entender o mundo em que surgiu e progrediu a Inquisição, mas nunca


justificá-la. Ela é um atentado à dignidade humana, um atentado às convicções religiosas
das pessoas, como se os hereges estivessem na heresia por divertimento. Não se pode
anunciar o Cristo que morreu pelos inimigos torturando, prendendo, ou matando.

A Inquisição foi possível porque deu-se mais importância ao Direito Canónico, à


unidade da Igreja e do Estado do que à Escritura e aos Santos Pais.

Concluindo: entendo que ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém, seja
porque motivo for, está provado que os países onde se praticam estes actos a
criminalidade não diminuiu. Deve haver um espaço para cada caso, se é demente,
pedófilo, pirómano etc. Mesmo que se seja condenado a prisão perpétua, existe sempre a
possibilidade de provar a sua inocência se for o caso.
Considerando tudo quanto foi explanado há cerca da pena de morte ou pena
capital, e sendo nós um pais que temos dado ao mundo lições de tolerância e humanismo,
fomos os primeiros a abolir a escravatura, dos primeiros a abolir a pena de morte,
atravessamos quase dois séculos sem que tal pena tenha sido aplicada, repudiamos tais
actos e estes estão intrinsecamente lavrados na nossa Constituição. Esta mesma que nos
defende, também não impede que amanhã movidos por interesses pessoais ou políticos,
os arautos da Nação democraticamente por nós eleitos, possam vir a impor-nos tal pena.

José António da Costa silva

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