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NA BIBLIOTECA

W.W. JACOBS

O fogo queimara debilmente na biblioteca, pois a


noite estava úmida e morna. Era agora pouco mais que
uma concha acinzentada e parecia desolado. Trayton
Burleigh, ainda aquecido, ergueu-se de sua poltrona e,
fechando um dos bicos do lampião, apanhou um
charuto de uma caixa numa mesa lateral e voltou a
sentar-se.
O cômodo, que ficava no terceiro andar, nos fundos
da casa, era uma combinação de biblioteca, estúdio e
sala de fumar, e era o desespero diário da velha
governanta que, com a ajuda de um criado,
administrava a casa. Era um apartamento de solteiro e
havia sido deixado para Trayton Burleigh e James
Fletcher por um conhecido comum dos dois homens,
uns dez anos antes.
Trayton Burleigh sentou-se de volta em sua cadeira
observando a fumaça de seu charuto com os olhos
semicerrados. Ocasionalmente, abria-os um pouco mais
e girava-os pela sala confortável e bem mobiliada, ou
fixava-os com um brilho frio de ódio em Fletcher,
sentado e fumando impassível seu cachimbo. Era uma
sala confortável e uma casa valiosa, metade da qual
pertencia a Trayton Burleigh, e mesmo assim ele
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deveria deixá-la pela manhã e se tornar um vagabundo


e um nômade sobre a face da terra. James Fletcher
assim tinha dito. James Fletcher, com o cachimbo ainda
entre os dentes e falando pelo canto da boca, tinha
pronunciado sua sentença.
- Talvez não lhe tenha ocorrido, creio eu - disse
Burleigh, de repente -, que eu poderia recusar seus
termos.
- Não - disse simplesmente Fletcher.
Burleigh deu uma grande baforada e deixou a
fumaça rolar lentamente de sua boca. - Eu vou sair e
deixar você como proprietário? - continuou. - Você
ficará aqui como o único dono da casa; você ficará
como o único dono do escritório e representante da
firma? Você é muito bom em acordos, James Fletcher.
- Eu sou um homem honesto - disse Fletcher -, e
levantar dinheiro suficiente para fazer frente a seus
desfalques não me deixará de modo algum como
vencedor, como você sabe muito bem.
- Não há necessidade de empréstimos - começou
Burleigh, impaciente. - Podemos pagar facilmente os
juros e, no devido tempo, integralizar o capital sem que
ninguém perceba.
- Isto você sugeriu antes - disse Fletcher - e minha
resposta é a mesma. Eu não serei cúmplice da
desonestidade de homem algum; levantarei cada
centavo a qualquer custo e salvarei o nome da firma - e
o seu -, mas nunca mais vou vê-lo pisar novamente no
escritório, ou sentar-se nesta casa depois desta noite.
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- Você não vai - gritou Burleigh, levantando-se num


frenesi de ódio.
- Eu não vou - respondeu Fletcher. - Você pode
escolher a alternativa: desgraça e trabalhos forçados.
Não cresça para cima de mim, você não vai me
assustar, posso garantir. Sente-se.
- Você decidiu tantas coisas em sua generosidade -
disse Burleigh, lentamente, voltando a sentar-se. -
Decidiu como vou viver?
- Você tem duas mãos fortes e saúde - respondeu
Fletcher. - Eu lhe darei as duzentas libras que mencionei
e depois disso você terá que cuidar de si mesmo. Pode
levá-las agora.
Ele apanhou uma carteira de couro do bolso da
camisa e tirou um rolo de notas.
Burleigh, observando-o calmamente, esticou a mão
e apanhou-as da mesa. Então, deu vazão a um súbito
acesso de ódio e, amassando as notas em sua mão,
lançou-as num canto da sala. Fletcher continuou a
fumar.
- A Sra. Marl saiu? - disse Burleigh, de repente.
Fletcher concordou com a cabeça.
- Ela vai passar a noite fora - disse, lentamente - e
Jane também; foram juntas a algum lugar, mas estarão
de volta às oito e meia da manhã.
- Então você vai me deixar tomar mais um café da
manhã na velha casa - disse Burleigh. - Oito e meia,
oito e ...
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Levantou-se novamente da poltrona. Desta vez


Fletcher tirou o cachimbo da boca e observou-o
atentamente. Burleigh inclinou-se e, apanhando as
notas, colocou-as no bolso. - Se eu vou ser lançado à
deriva, não vai ser para deixá-lo aqui - disse ele, numa
voz rouca.
Atravessou a sala e fechou a porta; quando voltou,
Fletcher levantou-se da poltrona e enfrentou-o. Burleigh
pôs a mão na parede e, tirando uma pequena espada
japonesa de seu estojo de marfim esculpido, andou
lentamente em sua direção.
- Eu lhe dou uma chance, Fletcher - disse,
implacável. - Você é um homem de palavra. Acabe com
isto. Deixe as coisas serem como antes e você estará
salvo.
- Largue isto - disse Fletcher, estridente.
- Por ... eu falei sério! - gritou o outro.
- Eu falei sério! - respondeu Fletcher.
Ele olhou em volta no último instante em busca de
uma arma. Então voltou-se de repente com uma súbita
dor aguda e viu o punho fechado de Burleigh quase
tocando seu esterno. A mão afastou-se novamente de
seu peito e algo mais com ela. Demorou muito para se
afastar. Trayton Burleigh foi repentinamente para muito
longe e a sala escureceu.
Ficou muito escuro e Fletcher fez uma tentativa de
erguer as mãos. Em vez disso, deixou-as cair e desabou
no chão.
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Ele estava tão imóvel que Burleigh mal percebeu


que tudo estava acabado e ficou estupidamente à
espera de que se erguesse novamente. Então ele tirou o
lenço como se fosse limpar a espada, mas, pensando
melhor, recolocou-o no bolso e jogou a arma no chão.
O corpo de Fletcher ficou onde tinha caído, o rosto
branco voltado para o lampião de gás. Em vida, ele
havia sido um homem de aparência comum, para não
dizer vulgar, agora ... Burleigh, com um sentimento de
náusea, retrocedeu até a porta, até que o corpo ficou
escondido pela mesa e, poupado da visão, foi capaz de
pensar com mais clareza. Olhou cuidadosamente para
baixo e examinou suas roupas e suas botas. Então
atravessou novamente a sala e, desviando o rosto,
apagou o gás. Algo parecia mover-se na escuridão e,
com um grito baixo, ele se precipitou para a porta antes
de perceber que era o relógio. Ele soou doze vezes.
Burleigh ficou na beira da escada tentando se
recuperar, tentando pensar. O lampião no piso inferior, a
escada e a mobília, tudo parecia tão prosaico e familiar
que ele poderia não perceber o que havia acontecido.
Caminhou lentamente e apagou a luz. A escuridão da
parte superior da casa estava agora quase aterradora,
e, num pânico súbito, ele correu escada abaixo para o
hall iluminado e, arrancando um chapéu do cabide, foi
até a porta e caminhou para o portão.
Com exceção de uma janela, as casas vizinhas
estavam às escuras e as lamparinas resplandeciam
numa rua silenciosa. Havia um pouco de chuva no ar e
a estrada barrenta estava cheia de seixos. Ele parou no
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portão tentando criar coragem para entrar na casa


novamente. Então, avistou uma figura surgindo
lentamente da estrada e mantendo-se junto às cercas.
A total compreensão do que havia feito atingiu-o
quando ele se viu virando para correr da aproximação
do guarda. A capa molhada brilhando à luz do lampião,
o passo lento e pesado, fizeram-no tremer. Imagine se
a coisa lá em cima não estivesse suficientemente morta
e gritasse? Imagine se o guarda achasse estranho ele
estar ali parado e o seguisse para dentro da casa? Ele
assumiu um ar descuidado que não parecia descuidado
e, quando o homem passou, desejou-lhe boa-noite e fez
uma observação sobre o tempo.
Antes que o som dos passos do outro estivesse
totalmente fora de seu alcance, ele se virou e entrou
novamente na casa sem que a sensação de ter
companhia houvesse desaparecido por completo. O
primeiro lance de degraus era iluminado pelo lampião
de gás no saguão e ele subiu lentamente. Então, riscou
um fósforo e subiu resolutamente, passou pela porta da
biblioteca e, com dedos firmes, ligou o lampião em seu
quarto e iluminou-o. Abriu um pouco a janela e,
sentando-se em sua cama, tentou pensar.
Ele tinha oito horas. Oito horas e duzentas libras em
notas pequenas. Abriu seu cofre e tirou todo o dinheiro
solto que encontrou e, caminhando pelo quarto,
recolheu e colocou nos bolsos todos os artigos de valor
que possuía.
O primeiro horror tinha agora passado até certo
ponto e foi seguido pelo medo da morte. Com este
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medo, ele se sentou novamente e tentou considerar os


primeiros passos daquele jogo de habilidade do qual
sua vida dependia. Ele tinha muitas vezes lido a
respeito de pessoas de temperamento impetuoso que
iludiram a polícia por algum tempo e eventualmente
caíram em suas mãos por falta do mais elementar bom
senso. Tinha ouvido dizer que elas sempre fizeram
alguma asneira estúpida, deixaram para trás alguma
maldita pista. Apanhou seu revólver numa gaveta e viu
que estava carregado. Se acontecesse o pior, ele
morreria depressa.
Primeiras oito horas, duzentas libras a mais. No
início, alugaria um quarto em algum distrito populoso e
deixaria crescer a barba. Quando a poeira abaixasse,
iria para o exterior e começaria vida nova. Ele sairia à
noite e remeteria cartas para si mesmo ou, melhor
ainda, cartões-postais que sua locadora leria. Cartões-
postais de amigos entusiasmados, de uma irmã, de um
irmão. Durante o dia, ficaria em casa e escreveria,
tornando-se um homem que se diria jornalista.
Ou, quem sabe iria para o litoral? Quem o
procuraria de ceroulas, tomando banhos de mar e
andando de bote com felizes mortais comuns? Ele se
sentou e ponderou. Uma decisão poderia significar a
vida e a outra a morte. Qual?
Seu rosto queimou quando ele pensou na
responsabilidade da escolha. Tanta gente ia para o
litoral naquela época do ano que ele certamente
passaria despercebido. Mas na praia podem-se
encontrar conhecidos. Ele se levantou e nervosamente
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andou outra vez de um lado para o outro. Agora que


significava tanto, não era tão simples quanto parecera.
O pequeno relógio estridente sobre a lareira soou
uma vez, imediatamente seguido pela nota mais grave
do da biblioteca. Ele pensou no relógio, parecia a única
coisa viva naquela sala, e estremeceu. Ficou pensando
se a coisa deitada ao lado da mesa o ouvira. Ficou
pensando ...
Ele prendeu a respiração com medo. Em algum
lugar lá embaixo uma tábua rangeu alto, depois outra.
Ele foi até a porta e abriu-a um pouco, mas sem olhar
para fora, ficou à escuta. A casa estava tão quieta que
ele podia ouvir o tique-taque do velho relógio da
cozinha lá embaixo. Abriu um pouco mais a porta e
espiou. Quando o fez, houve uma súbita gritaria
estridente na escada e ele recuou e ficou parado
tremendo antes que pudesse perceber que o barulho
tinha sido feito pelo gato. O grito era inconfundível;
mas o que o teria perturbado?
Estava tudo novamente em silêncio e ele foi outra
vez para perto da porta. Teve a certeza de que algo se
movia furtivamente pelos degraus. Ouviu as tábuas
rangerem novamente e mais uma vez o corrimão
rangeu. O silêncio e a expectativa eram horrorosos.
Imagine se a coisa que havia sido Fletcher estivesse
esperando por ele na escuridão?
Ele enfrentou seus medos e, abrindo a porta,
decidiu ver o que havia. A luz do quarto fluiu para o
patamar e ele espiou assustado. Era imaginação, ou a
porta do quarto de Fletcher, em frente, fechou-se
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quando ele olhou? Era isto imaginação, ou a maçaneta


da porta realmente girou?
Em absoluto silêncio e observando a porta enquanto
se movia, para ver se nada saía e o seguia, continuou
lentamente pelos escuros degraus abaixo. Então seu
queixo caiu e ele se sentiu outra vez fraco e enjoado. A
porta da biblioteca, que ele se lembrava perfeitamente
de ter fechado e que, além disso, ele havia visto
fechada quando subiu a escada para seu quarto, estava
agora uns dez ou doze centímetros aberta. Imagínou
haver um sussurro lá dentro, mas seu cérebro se
recusava a ter certeza. Então, clara e inequivocamente,
ouviu uma cadeira ser empurrada de encontro à parede.
Rastejou até a porta, esperando passar por ela
antes que a coisa lá dentro se desse conta de sua
presença. Algo rastejou furtivamente pela sala. Num
impulso repentino, ele pegou a maçaneta da porta e,
fechando-a violentamente, virou a chave na fechadura e
correu como louco escada abaixo.
Um grito pavoroso veio da sala e uma mão pesada
bateu nos painéis da porta. A casa rangeu com os
golpes, mas acima deles soaram os gritos, altos e
roucos, de medo humano. Burleigh, a meio-caminho em
direção ao vestíbulo, parou com a mão no corrimão e
ficou à escuta. A batida cessou e uma voz de homem
implorou alto para que pelo amor de Deus o deixassem
sair.
Burleigh viu imediatamente o que havia acontecido
e o que aquilo poderia significar para ele. Tinha deixado
a porta do vestíbulo aberta depois de sua ida à rua e
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algum pássaro noturno errante tinha entrado na casa.


Nenhuma necessidade de sair agora. Nenhuma
necessidade de se esconder da corda do carrasco ou da
cela do criminoso. O bobo lá em cima o salvara. Virou-
se e correu novamente escada acima exatamente quan-
do o prisioneiro, em seus furiosos esforços para
escapar, arrancou a maçaneta da porta.
- Quem está aí? - gritou alto.
- Deixe-me sair! - gritou uma voz frenética. - Pelo
amor de Deus, abra a porta! Tem uma coisa aqui
dentro.
- Fique onde está! - berrou Burleigh rispidamente. -
Fique onde está! Se você sair, atirarei como num cão!
A única resposta foi um violento soco na fechadura
da porta. Burleigh ergueu sua pistola e, mirando na
altura do tórax de um homem, atirou através do painel.
O tiro e a madeira estilhaçada fizeram um único
ruído, seguido de um silêncio sobrenatural, e então o
barulho de uma janela apressadamente aberta. Burleigh
fugiu apressadamente escada abaixo e, abrindo com
violência a porta do vestíbulo, pediu ajuda aos gritos.
Acontece que o sargento e o guarda de ronda
tinham acabado de se encontrar no caminho. Correram
para a casa. Burleigh, com explicações incoerentes,
lançou-se pela escada antes deles e parou defronte à
porta de biblioteca. O prisioneiro ainda estava lá dentro,
ainda tentando arrebentar a fechadura da sólida porta
de carvalho. Burleigh tentou virar a chave, mas a
fechadura estava por demais danificada para permitir
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qualquer movimento. O sargento recuou e, ombros à


frente, atirou-se à porta e arrombou-a.
Ele entrou na sala aos tropeções, seguido pelo
guarda, e dois raios de luz das lanternas em seus cintos
dançaram pela sala. Um homem escondido atrás da
porta correu para ela e no instante seguinte os três
homens estavam embolados.
Burleigh, parado na soleira, olhava friamente para
dentro, guardando-se para a cena seguinte. Com
exceção do esbarrão dos homens e da respiração
ofegante do prisioneiro, não havia ruído. Um capacete
caiu, quicou e rolou pelo chão. Os homens caíram,
houve um grunhido soluçado e um estalo estridente.
Um vulto alto ergueu-se do chão. O outro, de joelhos,
ainda segurava o homem. O vulto de pé vasculhou o
bolso e, riscando um fósforo, acendeu o lampião de gás.
A luz caiu no rosto corado e na barba loura do
sargento. Sua cabeça estava descoberta e seu cabelo
desgrenhado. Burleigh entrou na sala e contemplou
avidamente o homem meio-desmaiado no chão - um
camarada baixo e gorducho com um rosto branco e sujo
e bigode preto. Seu lábio estava cortado e o sangue
escorria pelo seu pescoço. Burleigh olhou furtivamente
para a mesa. A toalha tinha caído com a luta e estava
agora no lugar onde ele deixara Fletcher.
- Bom trabalho, senhor - disse o sargento, com um
sorriso. - Foi sorte estarmos por perto.
O prisioneiro ergueu uma cabeça pesada e
examinou-os com um inconfundível terror no olhar.
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- Muito bem, senhor - disse ele, trêmulo, enquanto


o guarda aumentava a pressão do joelho. - Não cheguei
a ficar nem dez minutos na casa. Por ... não fui eu.
O sargento olhou-o com curiosidade.
- Isto não quer dizer nada - disse, lentamente. -
Dez minutos ou dez segundos não farão diferença
alguma.
O homem tremeu e começou a choramingar.
- Ele já estava aqui quando cheguei - disse,
ansiosamente. - Anote isso, senhor. Eu tinha acabado
de chegar e aquilo já era. Então tentei escapar, mas fui
preso.
- O que é que já era? - perguntou o sargento.
- Aquilo - disse ele, desesperadamente.
O sargento, seguindo a direção dos olhos pretos
aterrorizados, inclinou-se para a mesa. Então, com uma
exclamação aguda, puxou a toalha. Burleigh, com um
grito agudo de horror, cambaleou até a parede às suas
costas.
- Tudo certo, senhor - disse o sargento segurando-
o. - Tudo certo. Incline a cabeça.
Ele o empurrou até uma cadeira e, cruzando a sala,
encheu um copo de uísque e o trouxe para ele. O copo
chacoalhou contra seus dentes, mas ele o bebeu com
avidez e então gemeu fracamente. O sargento esperou
com paciência. Não havia pressa.
- Quem é, senhor? - perguntou afinal.
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- Meu amigo Fletcher - disse Burleigh, com um


esforço. - Morávamos juntos. - Ele se virou para o
prisioneiro: - Seu maldito!
- Ele estava morto quando eu entrei na sala,
cavalheiros - disse o prisioneiro, energicamente. - Ele
estava morto no chão e, quando o vi, tentei cair fora.
Deus me ajude que ele já era. O senhor me ouviu
chamar, senhor. Eu não chamaria se eu o tivesse
matado.
- Tudo certo - disse o sargento, rispidamente. - É
melhor segurar a língua, sabia?
- Você fique quieto - advertiu o guarda.
O sargento se ajoelhou e levantou a cabeça do
homem morto.
- Eu não tenho nada a ver com isso - insistiu o
homem no chão. - Eu não tenho nada a ver com isso.
Eu nunca pensei numa coisa dessas. Eu só fiquei dez
minutos nesse lugar; abaixe isso, senhor.
O sargento tateou com a mão esquerda e, pegando
a espada japonesa, sacudiu-a para ele.
- Eu nunca vi isso antes - disse o prisioneiro,
debatendo-se.
- Ficava pendurada na parede, disse Burleigh. - Ele
deve tê-la arrancado de lá. Estava na parede quando
deixei Fletcher pouco tempo atrás.
- Quanto tempo? - inquiriu o sargento.
- Talvez uma hora, talvez meia hora - foi a resposta.
- Eu fui para o meu quarto.
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O homem no chão torceu a cabeça e olhou-o


impaciente.
- Foi você quem fez isto! - gritou ele, furioso. - Você
fez isto e quer que eu leve a culpa.
- Já chega - disse o guarda indignado.
O sargento repôs gentilmente sua carga no chão.
- Você segura a língua, seu diabo! - disse, amea-
çador.
Atravessou a sala até a mesa, colocou um pouco de
bebida num copo e segurou-o. Então abaixou-o
novamente e foi até Burleigh.
- Sentindo-se melhor, senhor? - perguntou. O outro
sacudiu debilmente a cabeça.
- O senhor não vai mais querer isto aqui - disse o
sargento.
Apontou para a pistola que o outro ainda segurava
e, tirando-a gentilmente de suas mãos, colocou-a no
bolso.
- Machucou seu pulso, senhor - disse ele,
ansiosamente.
Burleigh ergueu rapidamente uma das mãos, depois
a outra.
- Este aqui, eu acho - disse o sargento. - Acabei de
ver.
Pegou os pulsos do outro em suas mãos e,
apertando-os de repente com a força de um alicate,
sacou algo do bolso - alguma coisa dura e fria que
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estalou de repente nos pulsos de Burleigh e os manteve


juntos.
- Está tudo bem - disse o sargento. - Fique quieto.
O guarda deu meia-volta assombrado. Burleigh
saltou furiosamente sobre ele.
- Tire estas coisas! - arquejou. - Ficou louco? Tire-
as!
- Tudo no seu devido tempo - disse o sargento.
- Tire-as! - gritou novamente Burleigh.
Em resposta, o sargento segurou-o num aperto
poderoso e, encarando seu rosto pálido e seus olhos
brilhantes, levou-o à força para o outro lado da sala e
empurrou-o para uma cadeira.
- Collins - disse ele, severamente.
- Senhor? - disse o subordinado perplexo.
- Corra ao médico aí da esquina o mais depressa
que puder! - disse o outro. - Este homem não está
morto! Ele sussurou-me no ouvido o nome de quem o
atacou.
Quando o homem deixou a sala, o sargento
apanhou o copo de bebida que tinha enchido e,
ajoelhando novamente junto a Fletcher, levantou sua
cabeça e tentou derramar um pouco em sua garganta.
Burleigh, sentado em seu canto, assistiu como se
estivesse em transe. Ele viu o guarda voltar com o
cirurgião ofegante, viu os três homens se debruçarem
sobre Fletcher e então viu os olhos do homem
agonizante se abrirem e os lábios do homem agonizante
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se moverem. Ele tinha consciência de que o sargento


tomava algumas notas num bloco e de que os três
homens o olhavam diretamente. O sargento andou até
ele e colocou a mão em seu ombro, e, obedecendo ao
toque, ergueu-se e saiu com ele para a noite.

Tradução de Celina Portocarrero

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