A CONFLUÊNCIA DE UMA ONTOLOGIA GEOGRÁFICA E A DIMENSÃO ESTÉTICA

A arte pura, segundo o poeta, se caracteriza por criar uma magia sugestiva contendo ao mesmo tempo o objeto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista - Charles Baudelaire

Elvis Christian Madureira Ramos1

Resumo: Este artigo nasce da seguinte pergunta: Há uma abordagem teórica que articule, ou aproxime a geografia e a estética? Entre os caminhos e fundamentações possíveis, aponto aqui a teoria da reflexividade, pois teria a vantagem de reconhecer a ontologia geográfica da relação homem e meio, como ponto de partida desta aproximação. E também abre flanco às investigações da objetividade e subjetividade quanto à compreensão da realidade geográfica vertida na arte. Palavras-chaves: geografia; geografia e arte; geografia e estética; ontologia geográfica. Resumen: En este artículo se aborda la siguiente pregunta: ¿existe un enfoque teórico que permita un puente entre la geografía y la estética? Un enfoque, adoptado en este artículo, se produce a través de la teoría de la reflexividad, cuya ventaja es reconocer ontología geográfica, en este caso, la relación entre el hombre y el mundo exterior. Asimismo, promueve la investigación para una mejor comprensión de la objetividad y la subjetividad del arte en esta realidad geográfica. Palavras claves: geografía, la geografía y el arte, la geografía y la estética; ontología geográfica. Abstract: This article comes from the following question: is there a theoretical approach that serves as a bridge between the geography and aesthetics? Among the ideas and possible paths, was exploited here the theory of reflexivity, whose advantage is to recognize the geographic ontology of man-environment-society. This theory opens discussions on objectivity and subjectivity in the understanding of geographical reality in art. Key words: geography, geography and art, geography and aesthetics; geographic ontology.

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Geógrafo. Mestre em Educação para Ciência (UNESP-Bauru). Doutorando em Geografia (UNESPPresidente Prudente). Membro da Diretoria Executiva da Associação dos Geógrafos Brasileiros – Seção Local Bauru – SP. Professor efetivo da Rede Pública de Ensino do Estado de São Paulo. E-mail: solelvis@gmail.com

a mesma também pode ser refletida nas obras artísticas. mas agora no sentido etéreo da arte. da ontologia. não escapem de controvérsias: (1) Há uma realidade que a geografia como ciência institucionalizada investiga e a faz através de um discurso conceitual público. a partir de algumas bases teóricas e pressupostos. buscando conhecer e estender as fronteiras do conhecimento geográfico.há uma dificuldade em vislumbrar toda a extensão desse campo. experimentam na sua relação com o meio.que é a relação entre geografia e literatura. que comunicam sob várias formas e conteúdos aquilo que os artistas. os geógrafos estão experimentando novamente a sensação da aventura exploratória. mas com a condição de ser representada sob formas e conteúdos que transcendem a realidade objetiva. ou seja. embora sem dela se afastar totalmente. (2) Esta realidade geográfica também é experimentada através de estados subjetivos. É com essa imagem tão íntima dos geógrafos. O termo confluência transmite aquela imagem de rios que se encontram e se mesclam formando único caudal. Tal confluência proposta ainda parece estranha a muitos e até mesmo difícil de localizá-la no discurso geográfico. o bom e o belo. o conhecer. desta metáfora inicial que servirá ao propósito de se pensar o encontro de uma realidade geográfica e a expressão artística. se a geografia é uma realidade material e vivida. Deste modo. da epistemologia. em seus estados subjetivos e objetivos. é o campo onde se deu os grandes debates no contexto da tradição ocidental sobre: o ser. Com efeito. utilizar-se-ão .INTRODUÇÃO Este artigo busca refletir. deve-se deixar claro que o rigor do raciocínio especulativo. naquele que tem sido o principal flanco exploratório . Mesmo para aqueles que a localizam. da ética e da estética. embora. o verdadeiro. da lógica. (3) As expressões artísticas são trabalhos materiais. não apenas no sentido terreal. Antes da discussão que se segue. embora não seja uma exclusividade da filosofia. O passo adiante é destacar que. sobre a confluência da geografia com a dimensão estética. é preciso alimentar essa reflexão com algumas premissas que estão postas já há algum tempo. respectivamente. Temas estes desenvolvidos nos campos. Entrementes.

a posição defendida é que. DISCUSSÃO A primeira premissa poderia ser justificada dizendo que a ciência geográfica investiga a realidade e. é uma intencionalidade dirigida para a realidade. isso ocorre tanto com a ciência. territorialidade e lugar constituem parte daquelas discussões epistêmicas e não se pode. Porém. recai em idealizações sem comunicação com a prática social ou empírica. Isto porque. as discussões sobre sua unidade de análise. especialmente inseridos na filosofia para esta discussão geográfica. qual for o tipo de discurso geográfico. o discurso é feito em torno de uma realidade. é possível dizer. E nunca saíram de pauta. que seu temário é tão amplo quanto as bases teóricas que os inspiram. mais especialmente da ontologia e da estética. um clima babélico. ou pior. do que mesmo. Conceitos como espaço geográfico. Eis o campo ontológico. Mas não é assim que acontece. Mas é também uma realidade que vai ao encontro dessa intencionalidade. Esse descolamento entre discurso e realidade empírica. já que buscam justamente reificar o próprio discurso. ela também se transforma diante do observador e mesmo o observador interfere nela. constituem a principal fração das discussões sobre aquilo que se chama pensamento geográfico. o qual acabará por se tornar um objeto de análise ou que ainda sofrerá recortes epistêmicos. a ciência geográfica e seus estudos caminham a despeito das suas dúvidas. Ciência geográfica não é a mesma coisa que a realidade. embora a geografia exista como disciplina acadêmica e marque presença enquanto ciência. objetos de pesquisa e mesmo seus métodos de interpretação e análise. seja. Contudo. há uma realidade para qual a geografia olha. existam esforços na contramão. Muito embora. sem fazer articulações com outros conceitos. isoladamente. realidade esta. aliás.considerações trazidas destes campos. a princípio. clarificar as descobertas e análises. observa e analisa. como com a filosofia. . Tal situação cria muitas vezes. às vezes também tem como consequência uma profusão de termos e conceitos que mais tem o papel de encobrir a realidade. fronteira disciplinar. com alguma variação. recorte epistêmico e metodológico. a partir dessa realidade abstrai seus objetos e temário do seu interesse sem maiores justificativas epistêmicas. por isso. discutir estes conceitos.

as conceituações e reconceituações sejam tão ricas em geografia. Deve-se deixar claro. teorias e discursos. e outras tantas iniciativas. Mas. estão enraizados numa base empírica comum e fundamental. O que impõe a necessidade de distinções. e seu afã em buscar em outras ciências novos recursos para entender a realidade. Discursos sobre o urbano. esse olhar sobre a realidade geográfica é centrada nos cânones da objetividade cientifica. na direção de buscar estreitar o diálogo da geografia com outras formas de linguagem. Contudo. Por isso. que é o realismo externo. Significa dizer. ligação com um pano de fundo ontológico. quase sempre. Se pensarmos a realidade como uma dimensão total que não é estática. 2007) tem o mérito de localizar o que é do domínio epistêmico e o que é do domínio ontológico em geografia. sobretudo. que é uma distinção analítica. o determinante é sua permeabilidade a uma forma de realismo. avaliadas como desnecessárias e/ou encobridoras quanto a real identificação e conhecimento do objeto. isto é. sobre a geomorfologia do sudeste. existem iniciativas e esforços. E é uma distinção importante. programas de pesquisas e estudos importantes na geografia. A origem dessa visão dominante tem certamente ligação com o contexto histórico. conteúdo e forma. uma base empírica e concreta da qual devem emanar a iniciativa epistêmica e o desenvolvimento de uma rede conceitual para entender essa mesma realidade. A ciência geográfica não se furta a este esforço. objetividade e subjetividade. acesso direto ao mundo real. cujo propósito favorece entender os largos horizontes que uma ontologia geográfica abre ao se pensar a geografia num sentido mais lato. .E estes conceitos têm. seu maior desafio talvez. É preciso dizer que esta realidade que se trata aqui é uma totalidade1 e inclui coisas que se costuma separar nas variadas práticas e discursos das disciplinas científicas: como sujeito e o objeto. a meu ver seja de entender justamente a realidade em seus múltiplos movimentos. Por exemplo. sobre a territorialidade dos quilombolas. quanto ao nascimento institucional da geografia no final do século XIX. físico e mental. sem envolvimento com suposições e instâncias subjetivas. a linguagem literária. No caso da geografia enquanto discurso científico. mas uma soma totalizante de coisas em movimento e permanência pode-se então reconhecer o esforço que é conhecer a realidade. Mas a distinção sobre o que se pensa sobre “geografia enquanto discurso científico” e “geografia enquanto realidade” (MACHADO.

O sujeito acaba reduzido àquele que conhece o objeto. tais como: materialidade e percepção. Mas. 24). alimentada pelas tradições do racionalismo e empirismo. com seu amplo temário. que isso seja falho ou errado. Desse modo. exige aberturas e novas iniciativas. Esta racionalidade mencionada aqui. têm apresentado variações quanto ao abraço dessa posição-padrão. a ciência como linguagem da objetividade.ou seja. a fim de explicar o objeto. não se está a dizer aqui. não existe um passo decidido para outras possibilidades de ver a realidade sob outros ângulos e linguagens. da história e das interferências que emergem da sociedade. Portanto. também está envolvida.mas ao mesmo tempo.. porque. Mas. Tais clivagens e especializações. não queira dizer que iniciativas extremas não foram tentadas . e para tanto. é uma ciência que se quer independente das preferências pessoais. ou nas entrelinhas do discurso. com algum processo de subjetivação. O sujeito da vivência e de uma realidade interna é ocultado no processo de conhecimento. físico e humano. a posição-padrão é o suposto de uma realidade externa e passível de ser descoberta ou entendida como unidirecional discurso da objetividade científica. Contudo. cuja ortodoxia. Aliás. . é se afastar ao máximo do mundo das idiossincrasias dos estados mentais e subjetivos. p. a consciência e sua subjetividade ficam em segundo plano. tomam decisões pessoais sobre certos interesses e pressupostos. que advém dessa racionalidade predominante. acabam usadas elas mesmas para defender o status científico da ciência geográfica quanto sua permanência no rol das ciências empíricas. a crença em uma realidade externa ao sujeito e sua consciência. qualquer olhar para outras janelas do conhecimento e experiência é ainda considerado uma heterodoxia entre os pares. que é um caminho entre outros. pois. certamente há perspectivas e métodos oriundos e desenvolvidos por pessoas que fazem ciência. pois entender a realidade remete para uma totalidade de múltiplas facetas e dimensões. Isso também se dá com a geografia. Apenas. portanto. Essa é talvez a razão de predominarem e persistirem alguns dualismos em geografia. objetividade e subjetividade. sempre procurou se estabelecer como um procedimento que se vê numa autonomia plena. Muito embora. É certo que a geografia. isolar o objeto das interferências subjetivas é a posição-padrão. uma busca de autonomia direcionada para o “conhecimento das coisas [..] e inteiramente liberada da sociedade e da história” (OLIVEIRA 1997.

. reduzir o estudo do meio e a materialidade sem pensar no trabalho humano ou social. É preciso apresentar e discutir as propriedades dessa relação. por ora. Mas. todas querem destacar um tipo de interação necessária. não no sentido de ocultá-la. o esforço teórico de Santos (2006). assim como. o interesse aqui é apontar como a relação homem e meio pode alcançar a linguagem estética. mas. também de dialética homem e meio. É importante frisar que há outras ontologias em geografia. ou estranhamento. ainda que. "homem realiza seus entornos" que costumam deixar de lado a questão de como homem se faz no e pelo meio. ainda há certo repúdio em geografia. começa a partir. também se transforma nesse processo. Mas devido o escopo de tal estudo ainda precisar de maiores discussões e aprofundamentos. mas de criticar aquelas explicações que se fazem através de uma relação direta homem e meio. o conceito de técnica. Um trabalho objetivado e subjetivado. Por ora. ou ainda. mas elas parecem se situar e/ou partir basilarmente dessa relação. não é objetivo desse artigo uma análise exaustiva e analítica sobre todas as possíveis propriedades que surgem dessa relação em geografia. uma consciência que muda no processo de fazer e lidar com seu mundo externo. pois. Agora se pode discutir a segunda premissa desse artigo. ou outras formas desse apontamento relacional. com seu trabalho. isso ainda não basta para se avançar na discussão. Isso que se chama numa perspectiva menos clivado. Ainda que cada apontamento relacional implique suas peculiaridades e métodos. Não somente porque este não é o propósito aqui. homem e a terra. ao se aceitar a relação homem e meio como uma realidade geográfica fundamental e irredutível.Então. proposições como "homem produz o espaço". quando se tenta reduzir o estudo do trabalho humano somente ao homem e separa-lo do espaço ou meio. Daí. Embora sob ataque das clivagens epistêmicas. uma relação determinante: a qual aponta o homem como transformador das suas condições ambientais. justamente dessa relação fundamental da geografia. Ou seja. Por exemplo. a despeito do discurso predominante em torno da realidade geográfica. ao mesmo tempo em que o faz. como mediador entre homem e seu meio. portanto. deve-se atentar que a ciência geográfica emerge de uma ontologia fundamental e não redutível. a relação homem e meio tenha perdido o interesse nas discussões do pensamento geográfico. Esta inseparabilidade da relação homem e meio. ou seja.

Essa “relação” tal como entendemos é o âmago da qual parte todo entendimento fundamental da realidade geográfica. Decorre de capacidades subjetivas e intersubjetivas de se apropriar e transformar sua realidade. de contar o mundo dos homens. é em si uma necessidade. como em lascaux na França ou ainda as pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra da Capivara. Pode-se falar nesses termos. pois tem como núcleo uma interdependência necessária do homem e o meio. sacralidade e simbolizações. São atribuições que vão além de um sentido objetivo de sobreviver. seja qual for o motivo. homem e a terra. é difícil de não conceber como ato carregado de algum traço de afetividade. simbolização. tais marcas. sem um meio que o conjuga com as condições de subsistência. mas seja qual for a designação para este meio. Mas também. Porque falar dos homens sem falar de onde eles vêm é ocultar uma das determinações do seu modo de ser. desde os gregos antigos. como grafá-lo com mitologias. ou ainda. por outras expressões. sem um lugar. ou ainda. refletem uma materialidade particular de um tempo e espaço. elaborada em termos de subjetividade. o homem e a natureza. O desenvolvimento da pessoa e da sociedade envolve diretamente lidar com esse mundo. ou simples desejo de representar os animais e seu mundo. sempre é de uma relação necessária. Isso quer dizer. uma pintura rupestre é um registro. foi preciso reelaborar internamente uma experiência com o mundo. tanto durante sua ontogênese como na sua sociogênese. é uma relação de coeternidade. de apropriação. de uma relação homem e meio. sem uma referência externa a ele mesmo. nasce dessa vontade de falar das ações dos homens inseparavelmente do seu mundo. pois.Essa realidade que sustenta uma ciência geográfica. Hoje. descrevendo suas culturas. emoção ou ainda uma intencionalidade ritualística. Tanto se apropriar das coisas do meio. mesmo no passado remoto. modos de viver e trabalhar. Outro aspecto é quanto ao surgimento de experiências dessa relação. O homem trabalha e transforma o meio objetivando e subjetivando ao mesmo tempo. afinal. tais marcas constituem uma forma muda de diálogo com o passado dos homens e seu . pois não se abstrai o homem sem um entorno. Por sinal. A geografia como estudo. como o homem pode existir e se compreender sem um entorno. Isso corresponde a estabelecer formas de apropriação e significação. como meio material para sua expressividade espiritual.

a mediação entre o homem e meio é o trabalho. isto é. esse ponto é importante no que virá a seguir sobre o trabalho do artista. qualitativa e em primeira pessoa. não devem ser simplificados. cujo . é a de Dardel (2011). Essa relação não deixa de estar presente nas formas de domínio e apropriação. há também todo um mundo interno e com experiências qualitativas que embora só possam ser sentidas em primeira pessoa. Mas a dimensão dessa relação homem e meio. na vivência do cotidiano. Mas para uma ontologia geográfica. Existe a consciência dessa experiência que é interna. implica duplo processo de objetivação e subjetivação. no sentido de uma reelaboração interna. Ela não se reduz ao realismo externo. proposições verdadeiras e falsas. pois é subjetivo no sentido de ser pessoal.mundo. mas de necessariamente ele estar no mundo e redimensionar as formas como ele vê esse mundo. tais pinturas e traços nas rochas e cavernas eram uma forma de diálogo com seu tempo e seu espaço. Desse modo. na economia. Outra concepção. ou de impor com suas técnicas e lógicas certo domínio do mundo. mas é qualitativo porque cada pessoa tem sua maneira de sentir uma experiência. na sacralidade. Esta reelaboração interna passa pela ontologia homem e meio. Desse modo. Mas para aqueles homens. e que não se faz sem o meio. a partir dessa própria relação. uma dimensão própria do corpo e em relação ao mundo em sua volta. o que seria uma relação apenas de domínio ou subordinação. uma condição determinante do ser do Homem (MARTINS. parece se aproximar da concepção de que a ação do homem. também podem ser diversamente comunicadas ou exploradas. Estar ciente de uma dimensão geográfica. Tal relação não se reduz somente ao fato dos homens construírem imagens científicas da realidade. só pode haver. etc. pois é uma experiência sentida no interior do corpo. e cujas variações de visões e percepções escapam à dimensão lógica verdade/falsidade. está instalada aquela relação inseparável: homem e meio. nas atividades contemplativas. o trabalho. É o trabalho que implica o homem se apropriar subjetivamente também do meio. vai muito mais além da experiência direta e objetiva. portanto. na ampla maioria das vezes. porém pioneira. numa escala subjetiva. processos que se articulam mutuamente. No realismo externo. Searle (2006) esclarece que estes estados subjetivos. e é interno. tal como adere dominantemente a geografia como ciência. 2007). Não é uma questão de apenas impor uma vontade ou domínio.

mais precisamente na literatura. como nos lembra Lefebvre. além de interesses e discussões sobre os vários aspectos geográficos inseridos ou metamorfoseados na arte. mas impõe um desafio duplo de pronto. p. O primeiro é indagar como a geografia está sendo dimensionada e/ou representada nessas obras e como explorar isto? O segundo é de natureza mais subjetiva. será apartado. portanto. e outra é eliminar uma dimensão da realidade. sentem. como os artistas veem. não é um problema apenas da geografia. há sempre outras interpretações possíveis para uma obra. e sob o lembrete de Austin (1993) de que sempre existe o perigo de tentar abarcar o mundo com as pernas. ou seja. a geografia é um determinante da sua condição de ser.50) o problema na teoria do conhecimento já nasce quando “é preciso que a análise separe e isole o que é dado efetivamente como indissoluvelmente ligado: os elementos do conhecimento. que base teórica nos ajuda a entender essa confluência entre geografia e arte? Não é tão difícil encontrar elementos do temário geográfico. Mas uma coisa é aceitar a fragmentação. ou aspectos geográficos. uma geograficidade. Já que é em si. está posta essa inseparabilidade homem e meio. Ainda que.estatuto ontológico do homem se realiza também junto com sua condição terrestre. experimentam a geografia e até mesmo a subvertem? Para fins deste artigo. o mundo da subjetividade. . assim como. Em resumo. seguindo-se tal recomendação. pela via da ciência. nesse caso. como as paisagens em várias pinturas impressionistas. também amplo. sujeito e objeto. o primeiro desafio. com a arte? Como podemos ver essa relação nas artes? Ou ainda. O ser do homem também é determinado pelo tempo e sua geografia. ou ainda. ou seja. já que como destaca Lefebvre (1987. encontrar aspectos da tensão urbana e da dialética campo-cidade em " As Cidades e as Serras" de Eça de Queiros. como a premissa da relação homem e meio como um dos determinantes da existência humana se conjuga com a estética. pois. Agora. A questão de localizar a geografia nas diversas obras do mundo da arte é sempre algo revelador e interessante. aspectos de representação geográfica e musical no poema sinfônico "A floresta do Amazonas" de Villa-Lobos2. O que também. o sujeito e o objeto". implique a fragmentação da geografia.

Assim. Na obra "Grande Sertão Veredas". no interior do temário urbano. ela é vida como um todo. de Paul Klee. em 1928. se funde e se recria impulsionada pela força da sociedade e dos movimentos. Mas tal interpretação é uma entre outras. às vezes como protagonista. também experimenta o meio. ou seja. É difícil não considerar que o sertão . O mesmo dir-se-ia do desenho "Urban Perspective"4. se é assim. o próprio Guimarães Rosa demonstra sua vivência com a geografia do sertão. Uma delas seria essa: a cidade nessa obra se entorta. não há como viver sem sofrer alteridade. através de uma paisagem complementar ao seu tema. uma meditação. uma forma de ter acesso ao real. E tal experiência encontra expressão ou comunicação artística. uma presença não somente física. colheu informações. escritores. Mas eles. Ao ponto do sertão. todos nós e também os artistas. parece maior que o sujeito. com o quadro "Moscou" de Kandiysky3. Tais obras citadas destacam o urbano e não deixam de ter uma objetividade. de lugares e de alguma região em sua vida. porque. O artista. em certas ocasiões.116. E sua importância é bem salientada por Lefebvre quando diz que "a arte traz para a realização da sociedade urbana sua longa meditação sobre a vida como drama e fruição" p. Então. não constituir mero adorno na sua obra. não trazer a arte para o mundo da discussão geográfica? Mas a posição que interessa aqui é dizer que o artista. se alonga. percebe-se-á como um ente vivo. aquele que faz arte. Todos nós e também os artistas temos lembranças de certas paisagens da infância. sem barreiras e posições-padrão. querem comunicar essa experiência: às vezes. mas afetiva. Todos têm alguma relação de afeto com nosso mundo. precisou ir além da verdade e falsidade sobre o sertão para descrevê-lo. e às vezes tudo simultaneamente. crítica ou consciente. E. seja ele o pintor. emotiva. sem estar necessariamente numa geografia. a obra poderia ser explorada quanto a destacar quais aspectos urbanos e geográficos anunciavam já naquela época a nova fase do processo de urbanização que viria a se cristalizar. e em última instância. poderia ser o caso. poeta ou fotógrafo têm experiências inescapavelmente com seu meio. precisou entender a atração do lugar e seu mundo de crenças e simbolismos. refaz suas cores. A cidade como se destaca na pintura. porque. Contudo. Arte é assim. não explorar a geografia onde os homens costumam expressá-la em sua máxima riqueza narrativa e descritiva. mais uma vez. poetas sentem a presença do espaço.

em comparação com a Europa. a teoria do reflexo estético tem como pressuposto central que a realidade objetiva não deixa de ter algum tipo de reflexividade nas artes. personagem destacado dessa obra. por Riobaldo Tatarana. conflui nas artes também. como é o caso dos monólogos reflexivos de Riobaldo Tatarana. ao ponto de levá-lo ao seguinte depoimento: "A cor apoderou-se de mim: não tenho mais necessidade de persegui-la. o meio. Portanto. o mundo que se faz com e pelo homem está presente em seu trabalho e expressão. O social. pelo homem. Por exemplo. Tal é o significado deste momento abençoado. que o cientista não o faz. O . marcam momentos do devir da pessoa. (PARTSCH 2001. A cor e eu somos um só. a vida. Assim o personagem tem no lugar. mas é sempre vista nessa perspectiva de componente de uma realidade geográfica física. quando a todo o momento da leitura. ele é chamado em conjunção com alguma experiência existencial. na região ou seu mundo um determinante de sua trajetória de vida. foi profundamente tocado e alterou sua maneira de ver a realidade a partir da viagem que fez à Tunísia. Em geral.tão ricamente descrito na obra. a defesa aqui não é apenas da relação entre o artista e a geografia. ela altera nossa relação com o mundo. o seu entono. mas do artista que experimenta estados subjetivos/objetivos da geografia. Ele sente e expressa artisticamente seu modo de experimentar o meio. faz ver o sertão. naquela relação homem e meio. A luminosidade e as cores em meio a uma geografia árida deste país. pelo ser. ela tem uma qualidade ontológica. ou seja. as materialidades do seu meio. que em certa época de sua trajetória. centrada na relação homem e meio. A cor é um elemento da paisagem e da descrição geográfica. sugere impressões sensoriais e sentimentos. o coletivo. O mesmo poderia ser dito das inovações estéticas do pintor suíço Paul Klee. E tal forma de pensar está em conexão com a teoria do reflexo estético. seja apenas um elemento secundário. É daí que se conclui aqui que a geografia como uma realidade. sei que me tomou para sempre. a cidade. da atmosfera e outros aspectos físicos da geografia que podem ser significativos para qualquer pessoa e inclusive o artista. de maneira. O mesmo dir-se-ia das sensações da luminosidade do lugar. o artista explora também a realidade. Sou pintor".18). A terra. impressionaram Klee. Mas Guimarães Rosa faz mais do que isso. p. A cor para Klee vai além. Mas a geografia conflui de modo diferente de outras formas discursivas.

mas o faz pautado por uma objetividade e parâmetros verificacionistas. que não se sente tolhido em ressaltar ou acrescentar elementos estéticos dos mais variados. não raro. o artista tem a licença de explorar os diversos recônditos da consciência. Já o artista. ir além do que está posto ou condicionado. a teoria do reflexo estético não é nova. a individualização do escritor não ocorre de maneira abstrata. mas ambas tem suas distinções. 216). ela torna as coisas visíveis” (BARRACLOUGH 1980. mas que ele também recebe influxos de seu mundo e os transfigura muitas vezes. Mas como salienta Cândido (2006). que é transcender uma realidade. Uma forma de ataque é conceber que essa reflexividade é outra maneira de dizer que a arte é somente condicionada pela sociedade e/ou meio. sua obra atravessa sua própria época. ou traz elementos novos para se pensar o mundo. Neste caso. explora a realidade de um modo. ela tem muitas variações e sofre diferentes tipos de ataques. mas insere-se-o também na realidade social. mas “inserida no quadro da fermentação dos fenômenos a partir dos quais ela amadurece” p. E nesse ponto. não é uma idealização pura. o que seria um desvio ao que é próprio do estético. . por exemplo. No sentido de esclarecer esta posição e não deixá-la cair em algum simplismo ingênuo. Contudo. não é isolar-se da realidade. que é explorar de forma indireta as matizes subjetivas da relação homem e meio. p. Há também uma forma de refutação do reflexo estético. geralmente encobertas pela visão condicionada e alienada. Essa transcendência. Talvez nesse sentido que Paul Klee tenha dito que a "arte não reproduz o que se pode ver. na verdade. portanto. explorar no sentido de transcender as outras formas de ver a realidade.cientista também tem criatividade e precisa dela. no interior da teoria do reflexo estético. há certo ganho cognitivo para a geografia. ou seja. ele pode brincar esteticamente com a realidade e nessas ousadias oferecer ao público. não se perde o elemento individual e subjetivo do artista. formas de ver o mundo. Além disso. Lukács (1970) destaca que a mesma realidade tem um reflexo na ciências e outra nas artes. que é dizer que o artista transcende idealmente a realidade.31. Não é que o artista seja o produto de uma época. mesmo qualquer inspiração que vá além do comum e genérico ainda sim é uma fuga da realidade imediata. Na estética marxista.

se introduz uma distinção/conexão. isso não quer dizer apenas o imaginário das pessoas. Para Lukacs (1968) essa reflexividade não se detém em uma determinação absoluta. de perturbar e causar perplexidade não somente sobre a obra.Outro ponto são as versões do reflexo estético. ela é talvez revolucionária. as simbolizações ou aquela carga de sentimentos sobre os lugares. mas são influxos que se ligam ao absoluto. como destaca Marcuse (2007). enquanto realidade social de seu período e lugar. pode-se dizer que seu trabalho é uma forma de transcender a realidade. E de maneira geral. embora também isso faça parte dessa dimensão estética. como também exercem influência que rege todo o desenvolvimento social. o que é também uma exploração geográfica. novamente se destaca a autonomia do artista ou escritor em relação ao seu contexto e mais. Ao trazer essa forma de ver a dimensão estética para o campo da geografia. Não é uma defesa da virtualidade da realidade social. que interfere sobre nossa visão de mundo. também não é uma questão de invenção ficcional da realidade. personalismos e tendências. O reflexo estético deve ser explorado no sentido de projetar novos conceitos sobre a realidade. Já na obra de Marcuse (2007) denominada “A dimensão estética”. ao ponto de tornar-se revolucionária. é aquela representação da realidade que se realiza de modo estético. 1968 p. o problema da reflexividade nas artes e a maneira como se entende esta questão sofre diferentes abordagens. mas também transformá-la. reações. O reflexo estético da realidade elaborada pelo artista é uma dimensão que busca alterar a própria realidade. muitas vezes produz sensações e experiências sensoriais que constituem um ir além do que estamos acostumados a ver e experimentar. pois a esfera da vida subjetiva e artística tem sua autonomia fundada em “criações precedentes”. refletir a geograficidade. precisamente a geografia nas artes. de empreender um choque e atingir a visão de novas possibilidades não apenas de ver a realidade. sentimentos. um ir além de nosso entorno. que é uma geografia da ação dos homens e uma geografia das representações. mas sobre como ela reflete a realidade. nas leituras iniciais que embasam este artigo. inclusive o econômico” (LUKACS. aqui também. que é tornada pública pelo artista e pela qual buscamos entender nossa própria realidade social e geográfica. O que se cogita. ou ainda. Mas. mas relativa. . quando se fala em representações. “as artes em certa medida são reflexos dessas sociabilidades e economia. 16). nesse ponto.

há aí. a partir de algumas leituras uma pequena contribuição para as discussões sobre arte e geografia. a principio. isso parece estar justificado devido à própria necessidade que a geografia tem com o elemento descritivo da relação homem e meio. Não se espera que seja vista como uma contribuição fixa e acabada. Já nas outras artes. Aproximar arte e literatura ao aluno. . numa mediadora entre o mundo objetivo e subjetivo da realidade geográfica.CONCLUSÃO O artista não é um observador distante da realidade. apesar do vasto campo que se abre entre a geografia e arte. Por último. Mas isso só pode acontecer porque o sujeito é ao mesmo tempo aquele que busca conhecer e o que experimenta a relação com o mundo. Outra consideração é que a literatura é entre as formas de arte. o artista e seu trabalho estão numa posição diferente daquela que a ciência tradicional costuma separar e colocar como dualismo intransponível. mesmo na poesia. Ou seja. que é o ensino de geografia. mas. Nesse sentido. entre forma e conteúdo. E se formos mais longe. não deixa de ser um modo. de que a arte acaba também a se constituir. pelo contrário. CONSIDERAÇÕES FINAIS Tentei realizar aqui. a arte em geografia abre reflexões sobre as possibilidades de ver e alterar a realidade. ele está inserido na realidade geográfica. Nesse campo de prática. seja vista como aberta e dialógica. pela própria vastidão da geografia e da arte. há uma espécie de vacuidade verbal. para que ele venha a perceber que a geografia está presente em nossas vidas de um modo interno e que podemos pela arte vislumbrar outras maneiras de entender nossa realidade social e material. pode-se contribuir muito para uma intersecção produtiva e complementar entre a geografia nas artes e o conteúdo mais programático e curricular da geografia escolar. um terreno a ser mais explorado. aquela que mais ganha espaço nos estudos geográficos. tem a ver com o sentido. O que isso é importante para geografia. penso que tais estudos tem muito a acrescentar num certo direcionamento. a arte invade os campos da objetividade e da física e ao mesmo tempo o mundo da consciência com todo lastro da vida subjetiva e psíquica da pessoa.

pode ser encontrado neste site: <http://www. Tudo que é sólido desmancha no ar. . 1985. 2 Heitor Villa_Lobos: site como muitas informações sobre vida e obra. Maisés. 2011. 1981. Werthel Holzer. 1983. Trad. F. Trad. 1999. Introdução a uma estética marxista. LUKÁCS. categoria da determinação do real. Trad.1º semestre de 2007. que mais parece epistêmico (recorte) do que talvez ontológico. 1968. BESSE. 2006. São Paulo : Martins Fontes. Trad. Armando Manuel Mora de Oliveira. Marxismo e forma: teorias dialéticas da literatura do século XX. MACHADO. Civilização. São Paulo: Itatiaia. Tradução de Sérgio Martins e revisão técnica de Margarida Maria de Andrade. São Paulo: Companhia das letras.vol. 1 . J. DARDEL. Implicações do realismo na Geografia e no seu objeto de estudo: a geografia como materialidade. Ensaios sobre literatura.NOTAS 1 Totalidade e subtotalidade: No caso dos estudos da geografia. LEFEBVRE. Perspectiva. (Coleção tópicos) BERMAN. JAMESON. ver site disponível em: <http://paintingdb. G. Carlos Nelson Coltinho. embora. Belo Horizonte: Editora UFMG. 1993. Carlos F. Rio de Janeiro. LEFÈBVRE. LUKÁCS. Editoras Civilização Brasileira e Difel. M. G. Carlos Nelson Coutinho. <http://www. a aventura da modernidade. 178 p. Trad. aqui fosse isso também plausível. Ver a Terra: seis ensaios sobre a paisagem e a geografia. Civilização. Vladimir Bartalini.com/view/6787/> BIBLIOGRAFIA AUSTIN. São Paulo.org/new-york/education/school-educator-programs/teacherresources/arts-curriculum-online?view=item&catid=725&id=135> 4 Paul Klee: sobre esta obra "Urban Perspective".htm> 3 Wassily Kandisnky : o quadro sobre o qual faço referência. Rio de Janeiro.ano 09 número 17 . Sentido e percepção. num sentido.museuvillalobos. mas uma dimensão dela. Editora Perspectiva. Geo UERJ . H. São Paulo: Hucitec. Lógica Formal e Lógica dialética. Trad. L. A. Silva (2007) fala numa subtotalidade. E. Rio de Janeiro. M. CÂNDIDO.org. São Paulo. A revolução urbana. Trad. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.guggenheim. H. Leandro Konder. 1988. afinal a geografia não se interessa por toda a realidade. O homem e a terra: natureza da realidade geográfica.br/villalob/index. 6º ed. Jean-Marc. 1970.

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