Você está na página 1de 1

Polichinello nº 12 | por acaso

Perder por perder

Algumas apostas no jogo literário

26

Eduardo Pellejero

Não tenho nenhum método para ganhar, disse eu. Tenho inclusive a certeza de que vou perder. Mas quero jogar. Se tivesse algum método seguro para ganhar, não jogaria mais. Juan José Saer, Cicatrizes 1

Falar da arte como mero jogo é uma bravata de batoteiros ou o último estertor de uma cultura cha- mando-se ao silêncio. Se o acaso tem um sentido em arte, devemos começar por inverter, antes de mais, a metáfora dos dados conjurando o caos no segredo do copo e a redução alegórica do mundo a uma mesa de jogo. Os jogos de azar são, por definição, jogos de ex- tensão limitada: o que tem lugar no jogo morre com o jogo, o que acontece fora da mesa de jogo não influi sobre o jogo. O jogo literário, pelo contrário, traça um plano que duplica o mundo especularmente, ex- cedendo seus limites, colocando em causa suas fron- teiras, propondo novas partilhas do sensível. O artis- ta sabe, em todo momento, que, jogando o jogo que joga, está em jogo sempre outra coisa (sempre muito mais, e muito menos) que a mão que reparte: a sorte da mesa sobre a que se lançam os dados (céu e terra), o sentido das figuras para além do brilho súbito dos naipes sobre o pano (rei de espadas, valete de ouros, rainha de corações), a justificada esperança de outro jogo (resistência, utopia ou revolução) 2 . Por outro lado, e contra o que possa parecer a pri- meira vista, reduzir a realidade a um puro jogo de forças não é o signo de um materialismo consistente, mas o reverso de um idealismo encoberto 3 . A autono- mia do sentido é um fantasma da vontade, mas é um fantasma que nos ronda a todos, e do qual esperamos, contra todas as probabilidades, que nos arranque da inércia dos sorteios arranjados que escandem nosso mundo. Deixadas ao acaso, as coisas tornam-se previsí- veis (como nos ensinam as mais rudimentares leis da probabilidade) 4 . Voltar a colocar as fichas no verme- lho depois de uma noite negra não é um ato delibera- do de abandono, muito menos um gesto de confiança na imponderabilidade da sorte, mas o mais intenso movimento de um desejo que aspira por si próprio a inclinar a mesa 5 . Evidentemente, escrever não é um ato da pura vontade, no sentido em que seria suficiente uma de- cisão para conduzi-lo a bom termo, mas também não é um simples resultado do acaso, como se bastasse

se abandonar ao imprevisível fluir da escrita para

dar lugar ao sentido. Escrever é, antes, a elevação à segunda potência de uma vontade condenada a fra- cassar perante a resistência das coisas e a opacida- de da linguagem; de uma vontade que, consciente de seu destino trágico, persiste em exorcizar o acaso do qual se sabe apenas uma figura fugaz, entre mui- tas outras igualmente condenadas à desaparição, ao esquecimento 6 . Na Biblioteca, as permutações dos vinte e cinco signos ortográficos esgotam virtualmente tudo o que

é possível expressar em todas as línguas possíveis,

mas a natureza informe e caótica da maior parte dos livros resultantes leva os homens à superstição, ao cepticismo ou ao desespero. Ao mesmo tempo que o número dos suicídios aumenta, ocultos nas latrinas de suas celas, alguns anciãos tentam construir mediante artificiosos procedimentos livros que arremedem a divina desordem, enquanto que em distritos distantes da Biblioteca os jovens prosternam-se perante livros cujas páginas beijam com barbárie, mesmo quando não são capazes de decifrar uma única letra. A afir- mação pura do acaso – e seu corolário literário: a certeza de que tudo foi ou será escrito – anula-nos ou afantasma-nos 7 . Mas outra atitude é possível. Se aprestando para morrer a poucas léguas do hexágono no qual nascera, o bibliotecário de Borges encontra

na escrita metódica uma linha de fuga, e, tomando por conta própria a pena, traça (já não ao acaso) sím- bolos trêmulos que pretendem decifrar o universo 8 . Se é certo que vivemos presos ao lombo de um tigre, como dizia Nietzsche, também é certo que nos agarramos ao que temos com todas as nossas forças.

E mesmo sendo produtos do acaso (de uma necessi-

dade cega), não podemos prescindir da afirmação de nossa liberdade (uma cegueira necessária). A luta, o amor, a arte, são apostas de perdedor, mas enquanto apostas são também o lugar de um vitória imanente que, a contramão do movimento aleatório da realida- de, afirma a esperança de outros mundos possíveis (um lugar onde a constelação dos pontos dos dados sobre a mesa faça sentido para nós, mesmo se é ape- nas por um instante e deve dar lugar a novas tiradas,

a novas incertezas). A cultura – e, através da cultura, o poder – marca as cartas. Os dados, queiramos ou não, estão vicia- dos. Como em qualquer casa de jogo, quem se sen- ta à mesa sabe que as probabilidades não estão com ele. O escritor que se adentre nesse antro não pode ignorar que deverá contar com algo mais que com o acaso para extrair algum lucro de uma noite de sorte.

1 Juan José Saer, Cicatrices, Buenos Aires: Seix Barral 2003. Cf. Alejandro Dolina, «Pactos diabólicos en Flores», in Alejandro Dolina, Crónicas del Ángel Gris, Buenos Aires: Ediciones de

la Urraca, 1988: “–Asmodeo: Sou Asmodeo, inspirador de batoteiros e dono de todas as fichas do mundo. Conheço de cor todas as mãos que foram repartidas na história das cartas. Também conheço as que serão repartidas no futuro. Os dados e as roletas obedecem-me. A minha cara está em todos os naipes. Eu possuo a cifra secreta e fatal que somarão as tuas generalas quando chegue o fim da tua vida. –Salzman: Não quer jogar chinchón? –Asmodeo Não, Salzman, venho oferecer-te o triunfo perpétuo. Se me adorares, ganharás sempre em qualquer jogo. –Salzman: Eu não sei se quero ganhar. –Asmodeo: Imbecil! Acaso queres perder? –Salzman: Não, também não quero perder. Asmodeo: O que queres, então? Salzman: Jogar. Quero

Joguemos um chinchón”. Cf. Alejandro Dolina,

«Juego», in Alejandro Dolina, El libro del fantasma, Buenos

Aires: Colihue, 1999.

jogar, mestre

2 Deleuze gostava de recordar que, a quem lhe perguntava em que consistia escrever, Virginia Woolf respondia: “Quem é que fala de escrever?” (Gilles Deleuze, Critique et clinique, p. 17).

3 Como escreve Slavoj Žižek: “o fluxo de sentido é um teatro de sombras, mas isto não significa que possamos negligenciá-lo

e concentrar-nos na “luta real” (

A afirmação da “autonomia” do nível do sentido

é, não um compromisso com o idealismo, mas a tese necessária

Se subtrairmos este excesso

imaterial não obteremos um materialismo reducionista senão um idealismo encoberto” (Žižek, Organs without bodies. On Deleuze and consequences, pp. 31-32 e 113-114).

4 “Eu próprio, nesta apressada declaração, tenho falseado algum esplendor, alguma atrocidade. Quiçá, também, alguma misteriosa monotonia” (Jorge Luis Borges, «A lotaria em Babilônia»).

5 “Ganhei setenta pesos. Não era nada. Mas chamou minha atenção que eu fosse capaz de ir prevendo as cartas que ia receber. Bastava-me desejar-las muito para que viessem. Se recebia uma figura, e depois um dois, concentrava-me pensando:

agora tem que vir um cinco, e vinha. Cheguei inclusive a pedir cartas com seis e meio – ponto altíssimo no qual qualquer jogador

de um verdadeiro materialismo (

em última instância tudo é

decidido aqui (

)

)

)

Eventualmente, terá que fazer bluff (ou passar, se for o caso), gastar o que tem (e o que não tem), com- prometer-se à conta da tradição (ou da posteridade); terá que, chegado o caso, apostar inclusive contra a própria escrita (para isto não há método). É o jogo em que andamos, no qual acontece que jogamos a nossa morte 9 . Hoje é tarde demais, mas amanhã

10

normalmente deve parar – por ter a certeza de que viria o às. E o às vinha.” (Juan José Saer, Cicatrices).

6 Curiosamente, em sua caracterização dos jogos ideais, Gilles Deleuze fala menos do acaso que da vontade: “assim, em Alice,

a corrida dos conjurados, na qual se começa quando se quer e se

termina à vontade” (Deleuze, Logique du sens, 10ª Série). Por outro lado, longe de dar conta do jogo literário, o jogo ideal de que fala Deleuze é, antes, uma espécie de inconsciente produtivo do pensamento (dimensão in-voluntarista), sendo o elemento próprio do pensamento agenciar estrategicamente essas tiradas (dimensão voluntarista) (Deleuze, Logique du sens, 10ª Série). Deleuze fala criticamente da aposta, mas nisto parece passar por alto a aposta do verdadeiro jogador – que é também a do criador e do revolucionário, a aposta de quem aposta consciente de que vai perder –, a aposta que, mesmo operando apenas efeitos sobre a vontade, “é também a que faz com que o pensamento e

a arte sejam reais e transtornem a realidade, a moralidade e a

economia do mundo” (aposta que quiçá possamos ver refletida nesse «devir-revolucionário sem futuro de revolução» do qual fala junto a Guattari em «Maio de 68 não aconteceu»).

7 Jorge Luis Borges, «A Biblioteca de Babel»

8 “Pensar, analisar, inventar (escreveu-me também [Menard]) não são atos anômalos da razão, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o ocasional cumprimento dessa função, atesourar antigos e alheios pensamentos, relembrar com incrédulo estupor o que o doctor universalis pensou, é confessar nossa languidez ou nossa barbárie. Todo homem deve ser capaz de todas as idéias e entendo que no porvir o será.” (Jorge Luis Borges, «Pierre Menard, Autor do Quixote»).

9 Juan Gelman, O jogo em que andamos: “Se me dessem a escolher, eu escolheria / esta saúde de saber que estamos muito doentes, / esta dita de andar tão infelizes. / Se me dessem a escolher, eu escolheria / esta inocência de não ser um inocente, / esta pureza em que eu ando por impuro. / Se me dessem a escolher, eu escolheria / este amor com que odeio, / esta esperança que come pães desesperados. / Aqui acontece, senhores, / que jogo minha morte”.

10 Fiodor Dostoievski, O jogador, tradução portuguesa de Moacir Werneck de Castro, Bertrand Brasil, 2003.

Eduardo Pellejero nasceu na Argentina (1972), é professor da UFRN, autor de A Postulação da Realidade: filosofía, literatura, política (Vendaval).

27