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CARL SAGAN

O MUNDO ASSOMBRADO
PELOS DEMÔNIOS
A ciência vista como uma vela no escuro

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES
GRADUAÇÃO EM JORNALISMO

Janaína Castilho Marcoantonio – No USP 3096577


Prof. Wilson Bueno – Jornalismo Científico
1. A importância do método científico

Enquanto as religiões – e mesmo a pseudociência – sustentam-se em dogmas, a ciência


utiliza-se do método científico na construção do conhecimento. Tal método consiste
basicamente na experiência e na observação, e possui um mecanismo de correção de erros,
que segundo Sagan é o que permite à ciência evoluir. Os dogmas são imunes à ação do
tempo e dos acontecimentos; são verdades absolutas, atemporais. Na ciência, o que é
considerado verdade hoje pode mostrar-se um grande equívoco em pesquisas futuras. O
cientista tem consciência disso, e deve estar sempre aberto a questionamentos.

O método científico revela a postura do cientista: estar aberto a novas idéias, sem, no
entanto, abrir mão de uma análise cética. Essa postura deve ser também a postura do
jornalista. Estar aberto a novas idéias é importante para que não se caia no erro de tentar
enquadrar os fatos à pauta pré-concebida:

“É um erro capital teorizar antes de ter os dados. Insensivelmente, começa-se a


distorcer os fatos para adaptá-los às teorias, em vez de fazer com que as teorias se
adaptem aos fatos”.
Sherlock Holmes, em A scandal in Bohemia, de Conan Doyle (1891)

A análise cética, por sua vez, é indispensável para que a busca desenfreada por “furos” de
reportagem não leve o jornalista a assumir “falsas verdades”.

2. O ceticismo

O ceticismo é fundamental ao método científico, pois ele evita que sejamos induzidos ao
erro. Nossas experiências pessoais tendem a determinar, imperceptivelmente, aquilo que
tendemos a aceitar como verdade. O ceticismo é a dúvida insistente, que nos permite
discernir entre ciência e pseudociência; realidade e ficção; informação e propaganda.
Entretanto, como coloca Sagan, “ceticismo não vende”. Como já foi dito, o jornalista
muitas vezes abre mão do ceticismo, em nome de “furos” de reportagem e índices de
audiência. Faz-se um grande barulho em torno de uma notícia fortemente “vendável” e,
caso essa notícia venha a ser refutada, reserva-se uma notinha de rodapé para desmentir o
fato.

O ceticismo é importante até mesmo para o exercício da democracia, e por isso todo
cidadão deveria ser educado para o ceticismo: até mesmo ao escolher um governante, a
análise cética de suas propostas de governo deveria conduzir a decisão do voto: O que o
candidato propõe tem coerência? É passível de ser cumprido? O que normalmente ocorre,
no entanto, é que o voto é decidido mais por empatia do que por uma análise racional.

3. Jornalismo e alfabetização científica

“É perigoso e temerário que o cidadão médio continue a ignorar o aquecimento


global, por exemplo, ou a diminuição da camada de ozônio, a poluição do ar, o lixo
tóxico e radioativo, a chuva ácida, a erosão da camada superior do solo, o
desflorestamento tropical, o crescimento exponencial da população (...). Como
podemos executar a política nacional – ou até mesmo tomar decisões inteligentes
sobre nossas próprias vidas – se não compreendemos as questões subjacentes?”.

Para Sagan, o analfabetismo científico impede o exercício da cidadania. Daí todos os seus
esforços para divulgar a ciência. O autor afirma que a mídia é hoje a forma mais eficaz de
divulgar a ciência para as massas, mas para isso precisa existir um compromisso de ambas
as partes: do cientista, espera-se que seja capaz de traduzir em palavras simples a produção
científica; do jornalista, espera-se a postura cética capaz de discernir entre a verdadeira e a
pseudociência. O segmento voltado ao jornalismo científico é cada vez mais escasso.
Muitas revistas sobre ciência passaram a tratar de temas de maior apelo comercial, como
espiritismo, curas mediúnicas, etc., numa postura nem sempre científica, e o leitor compra
os mais variados assuntos sob o título de ciência.
Os programas que tratam de ciência na TV também são raros, não só nos EUA, mas
também no Brasil. Sagan dá diversos exemplos no livro de como a ciência poderia ser
discutida na TV a partir de temas cotidianos.

A ciência deve ser apresentada de forma dinâmica, como parte do nosso dia-a-dia, e não
como um assunto extremamente complexo acessível a alguns “gênios”. Há pouco tempo
visitei o Museu do Funicular, em Paranapiacaba, e conheci o funcionamento do sistema
funicular. Fiquei boquiaberta por finalmente compreender o porquê de estudar as forças
atuantes num sistema de tração, em que um bloco “A” que está descendo faz com que o
bloco “B” consiga subir a rampa. O Museu é aberto ao público, mas está abandonado. Não
há curadoria, não há monitores, apenas um monte de “ferro-velho” que por si só não
significa nada, mas que poderia ensinar muita coisa. São raras as visitas de grupos
escolares. As escolas preferem organizar excursões para o PlayCenter, menos trabalhosas,
uma vez que não exigem interação ou preparo do professor.

Para Sagan, somente uma ação conjunta entre governo, cientistas e instituições de ensino,
contando com o apoio fundamental da mídia, será capaz de impedir o avanço da ignorância
científica, permitindo à população o pleno exercício da cidadania.

4. Pseudociência

“A pseudociência difere da ciência errônea. A ciência prospera com seus erros,


eliminando-os um a um. Conclusões falsas são tiradas todo o tempo, mas elas
constituem tentativas. As hipóteses são formuladas de modo a poderem ser
refutadas (...). A pseudociência é exatamente o oposto. As hipóteses são formuladas
de modo a se tornar invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma
perspectiva de refutação, para que em princípio não possam ser invalidadas”.

O maior problema com a pseudociência é que ela tenta disfarçar-se de ciência. Ao abraçar
uma religião, uma pessoa sabe que deve estar disposta a assumir dogmas; ela precisa ter fé.
Mas muitos buscam a pseudociência porque são ludibriados; acreditam estar buscando a
ciência, e que encontrarão explicações fundamentadas. Por falta de senso crítico e
ceticismo, não conseguem perceber a diferença entre uma e outra. Isso porque a
pseudociência estrutura-se de tal forma a não permitir questionamentos; ela tem respostas
prontas às perguntas mais esperadas; e por geralmente atuar num nicho em que a ciência
ainda não tem respostas, acaba por conseguir muitos adeptos.

A educação científica é fundamental para impedir o avanço de visões de mundo


mistificadoras. O jornalista deve ter atitude responsável na divulgação da verdadeira
ciência.

Opinião

A paixão com que Sagan fala sobre Ciência é contagiante. Ao ler as primeiras páginas do
livro, senti saudades das aulas de Física e Química que ficaram para trás quando optei por
um curso universitário na área de Humanas. Na verdade, a partir do momento em que a aula
de Ciências dividiu-se em Física e Química, estudar Ciência tornou-se a simples
memorização de um batalhão de fórmulas; as aulas eram maçantes e os professores,
incapazes de despertar na classe a curiosidade necessária ao aprendizado científico.

Nunca fui boa em física e química, e minhas melhores recordações sobre aulas de Ciência
remontam à minha infância, mais especificamente às aulas de Ciências da Profa Malu, na 5ª
série. Sempre estudei em escola pública, mas as aulas da Profa Malu davam um show em
muitas escolas particulares. Lembro-me de ter devorado de uma só vez o livro de Ciências
da 5ª série. Sabia de trás para frente os nomes de todos os satélites que circundavam até o
último planeta do Sistema Solar; um amiguinho da classe queria ser astronauta: tal era o
fascínio que a Ciência nos despertava. Isso tudo porque, na sala de aula, aprendíamos
experimentando e observando. Sem que percebêssemos, estávamos adquirindo as principais
ferramentas da Ciência, que acompanhariam muitos de nós por toda a vida, senão como
profissão, como forma de ver o mundo.
Ao ler sobre a situação do ensino norte-americano, fiquei realmente chocada. Se um dos
países mais poderosos do planeta apresenta um quadro tão drástico, o que esperar do
Brasil? Doze anos se passaram desde que eu cursei a 5ª série, e nesse período a qualidade
do ensino só declinou. As professoras Malus estão cada vez mais escassas.

Sagan é brilhante ao enfatizar a importância da educação científica, imprescindível para o


exercício pleno da democracia. Ressalta a necessidade de diferenciar a ciência da
pseudociência, e nomeia a mídia como a grande responsável pela educação científica em
massa, cabendo aos cientistas a boa vontade de explicá-la ao público leigo. No entanto,
radicaliza ao criticar a exibição de desenhos infantis que “contrariam” a ciência, em que
homens têm dinossauros como animais de estimação: eu sempre amei os Flintstones, e nem
por isso acredito que homens e dinossauros foram contemporâneos. Não considero que o
caminho para a educação científica seja podar a liberdade criativa dos desenhos animados e
dos filmes de ficção. Ao invés disso, deve-se utilizá-los como ponto de partida, seja na
escola ou em programas educativos na TV, para discutir Ciência, como o próprio autor
propõe a respeito dos jogos de basquete, entre outros exemplos.

Minha crítica está na forma como Sagan aborda o tema Pseudociência. Na tentativa de ser
o mais didático possível, Sagan dispõe-se a refutar infindáveis exemplos da pseudociência,
muitos dos quais eu jamais ouvira falar a respeito, e então eu me perguntava por que eu
deveria ler um livro que prova serem mentiras tantos fatos que eu nunca supus que fossem
verdades. O livro torna-se particularmente cansativo quando o cientista procura
desmistificar as histórias de extraterrestres (salvo algumas passagens interessantes, como a
comparação feita entre extraterrestres e os demônios da Idade Média e a hipótese de que
muitos relatos de abusos sexuais na infância tenham sido “induzidos” por psicanalistas
tendenciosos). De qualquer forma, a insistência nesse assunto reflete obsessões e paranóias
intrínsecas à sociedade norte-americana. Como num país tão desenvolvido economicamente
pode haver espaço para tanta credulidade? A sociedade americana está doente, e muito mais
do que eu supunha.