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Imagem, visão e imaginação Pierre Francastel

Valores sócio-psicológicos do espaço-tempo figurativo

 Nossa época vê como secundárias todas as atividades figurativas


 Atribui ao pensamento uma existência autônoma: idéias nascem do
absoluto e depois se manifestam através da linguagem
 De fato, relação entre significado e significante é sempre dialética, nunca
causal.

Doutrina da informação

 implica a existência de um modelo imaginário, em função do qual se fará


a seleção dos elementos representativos
 implica o caráter de uma problemática para a criação estética, o que
pressupõe que as formas artísticas encarnem formas intelectuais
 inadequada para explicar a gênese das coisas figurativas

Pensamento plástico

 Qualquer atividade intelectual cria novas problemáticas do real e do


imaginário
 A arte, como toda linguagem, é uma forma de registrar coisas que se
aprendem na experiência e sugerir modos de ação diferenciados
 Característica: utilizar um meio, um suporte não verbal
 Todos falam das obras figurativas como se elas fossem portadoras de
uma significação evidente e estável
 Comentários baseiam-se em valores comuns a outros campos do
pensamento explícito (verbal e literário)

Espaço e tempo

 Espaço e tempo são essenciais para a interpretação de um sistema


 Durante anos, considerou-se que espaço e tempo eram conceitos
contraditórios; recentemente passou-se a entender o espaço-tempo como
um único esforço de compreensão
 Pacto entre arte e magia foi substituído por pacto entre arte e ciência
 Só há homens e Humanidade porque surgem constantemente certos
organismos que fixam o estabilizam elementos que se constituem fora do
espaço e do tempo absolutos
 O que permanece fixo na memória não á a recordação da coisa vista,
mas da coisa sabida  não existe reação da retina sem atividade
combinatória
 Nossa visão não capta um espetáculo imobilizado
 A imagem figurativa é fixa, mas sua percepção é móvel (ver é uma ação)
 Admite-se não ter ouvido musical, mas ninguém reconhece ter “pouco
olho”
 O que é significativo não são os elementos isolados, mas a montagem, e
para captar esse esquema de integração é preciso ter adquirido a
capacidade de ler e interpretar o signo

Fotografia

 espalhou idéia da leitura global, instantânea e automática de qualquer


imagem (multiplicação dos signos alterou a natureza do signo e da
atividade perceptiva)
 Antigamente: numero reduzido de imagens; quando começaram a se
multiplicar, passaram a ser acompanhadas por comentários escritos
 Idade Média: mesmo as pessoas cultas tinham dificuldade no acesso ao
texto escrito (imagens: lugar de ajustamento de valores, revelados pela
palavra e pela tradição oral; temas retirados da religião – saber familiar).
Imagens eram o resíduo de uma sabedoria imemorial.
 Advento da fotografia: possibilidade de fixar a conjugação passageira de
certos elementos, faz pensar que este corte do universo corresponde as
intenções da natureza.

Memória coletiva

 Só vemos aquilo que conhecemos ou que somos capazes de integrar


num sistema coerente (o contato com o espaço não é significativo sem o
tempo)
 A partir do momento em que a visão está integrada no tempo, nenhuma
imagem se forma sem a participação da memória coletiva
 Inclusão do tempo na visão implica a intervenção da memória (micro-
memória: memória atual, imediata, onde o tempo intervêm a uma
velocidade fenomenológica)
 Constata-se a intervenção do tempo em qualquer apreensão espacial
 O temo não nos interessa quando aparecer idêntico a si próprio, só nos
interessa diferenciado. O mesmo acontece com o espaço: a vastidão
homogênea infinita é o lugar onde o tempo e a mudança são abolidos
 O tempo é a memória; o espaço é o presente. O tempo é diferencial, o
espaço é unificante.O tempo é a causalidade; o espaço é ato. O tempo é
a colocação no passado ou virtual; o espaço é a colocação no real ou
instantâneo.
 A visão nos transmite não o espetáculo de um mundo estável, mas de um
mundo em transformação.