Você está na página 1de 10

15ª Semana do Tempo Comum

Segunda leitura

Inicio do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo

(Nn.1-7: SCh 25 bis, 156-158) Catequese sobre os ritos anteriores ao batismo

(Séc. IV)

Tivemos diariamente sermões sobre a conduta moral, quando foram lidos os atos dos patriarcas ou os preceitos do livro dos Provérbios. Assim instruídos, vos acostumaríeis a andar pelas vias dos antepassados, a pôr-vos no mesmo caminho e a obedecer às divinas escrituras. Uma vez renovados pelo batismo, viveríeis da maneira conveniente a cristãos. Agora, já é tempo de falar sobre os mistérios e manifestar o conteúdo dos sacramentos. Antes do batismo, se pensássemos em insinuá-los a não iniciados, julgaríamos trair mais do que entregar. E também porque em pessoas sem idéia preconcebida, a luz dos mistérios se difunde melhor do que se precedida por alguma palavra. Abri, pois, os ouvidos e senti o bom odor da vida eterna que se desprende para vós do dom dos sacramentos. Era isso que vos dávamos a conhecer, quando no momento do mistério da abertura dissemos: Efetha, isto é, abre-te, de modo que cada um que se aproximava da graça sabia o que lhe interrogariam e devia lembrar- se da resposta pronta. Cristo realizou este mistério, como lemos no evangelho, ao curar o surdo-mudo. Em seguida, abriu-se para ti o santo dos santos e entraste no santuário do novo nascimento. Lembra-te da pergunta que te fizeram, reconhece o que respondeste. Renunciaste ao diabo e às suas obras, ao mundo e a suas pompas e delícias. Tua palavra está guardada não no túmulo dos mortos, mas no livro dos vivos. Ali viste o levita, viste o sacerdote, viste o sumo-sacerdote. Não dês atenção aos indivíduos, mas à graça dos ministérios. Na presença de anjos falaste, como está escrito. Ml 2, 7 Os lábios do sacerdote guardam a ciência e busca-se de sua boca a lei, porque é um anjo do Senhor onipotente. Não há ocultar, não há negar; é anjo quem anuncia o reino de Cristo, a vida eterna. Não leves em conta a aparência, mas o múnus. Atende àquilo que te entrega, pondera seu cargo e reconhece sua dignidade.

15ª Semana do Tempo Comum

Tendo, pois, entrado, para veres teu adversário a quem julgaste dever renunciar frontalmente, tu te voltaste para o Oriente; quem renuncia ao demônio, converte-se para Cristo, contempla-o em face.

Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (Nn.8-11: SCh 25 bis, 158-160) Renascemos da água e do Espírito Santo

(Séc. IV)

Que viste no batistério? Águas, sem dúvida, mas não só águas; viste também levitas servindo. Viste o sumo-sacerdote interrogando e consagrando. O Apóstolo te ensinou logo de início a não parar na contemplação 2Cor 4, 18 do que se vê mas nas coisas que não se vêem, porque as que se vêem são temporais; eternas, as que não se vêem. Em outro lugar encontras: Cf. Rm 1 ,20 O Deus invisível deixa- se insinuar desde a criação do mundo por tudo quanto foi feito, bem como seu poder eterno e sua divindade transparecem em suas obras. O mesmo Senhor também disse: Cf. Jo 10, 38 Se não credes em mim, crede ao menos nas obras. Crê, portanto, estar na presença da divindade. Se crês nas ações porque não crês na presença? Donde proviria a ação se a presença não precedesse? Observa que é um mistério muito antigo, prefigurado na própria origem do mundo. Logo no princípio, quando Deus fez o céu e a terra, Cf. Gn 1, 2 o Espírito pairava sobre as águas. Não agia aquele que pairava? Pois fica ciente que operava na criação do mundo, pelo Profeta que te diz: Cf. Sl 32(33), 6 Pela palavra do Senhor firmaram- se os céus, e pelo espírito de sua boca, todos os seus exércitos. Ambas as declarações se apóiam no testemunho profético: que pairava e que operava. Moisés é quem diz que pairava; Davi testemunha que operava. Há ainda outro testemunho. Toda a carne se corrompera por suas iniquidades. E se diz: Cf. Gn 6, 3 Meu espírito não permanecerá nos homens porque são carnais. Com isso, Deus mostrou que a impureza da carne e a nódoa de um pecado grave retiram a graça espiritual. Querendo então Deus renovar o que dera, mandou o dilúvio e ordenou ao justo Noé entrar na arca. Terminado o dilúvio, soltou primeiro o corvo, depois a pomba que voltou com um ramo de

15ª Semana do Tempo Comum

oliveira, segundo lemos. Vês a água, vês o lenho, vês a pomba e ainda duvidas do mistério? A água ali está para banhar o corpo, lavando-o de todo pecado

corporal, e nela fica sepultada toda torpeza. No lenho esteve pregado

o Senhor Jesus quando padecia por nós. Como aprendeste no Novo

Testamento na aparência da pomba desceu o Espírito Santo, o qual te inspira paz à alma e tranquilidade ao espírito.

Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (Nn. 12-16.19: SCh 25 bis, 162-164) Tudo lhes acontecia em figura

(Séc. IV)

A ti ensina o Apóstolo que 1Cor 10, 1-2 todos os nossos pais estiveram debaixo da nuvem e todos atravessaram o mar e todos, conduzidos por Moisés, foram batizados na nuvem e no mar. Em seguida o mesmo Moisés diz no cântico: Cf. Ex 15, 10 Enviaste teu espírito (vento) e o mar os cobriu. Nota que nesta passagem dos hebreus pelo mar já se prenuncia a figura do santo batismo, onde

perece o egípcio, e liberta-se o hebreu. Não é isto o que diariamente

o sacramento nos ensina, a saber, que a culpa é afogada, destruído o

erro, e a santidade e toda inocência passam através dele? Ouves que nossos pais estiveram debaixo da nuvem, a boa nuvem que refresca o ardor das paixões carnais, a boa nuvem que cobre com sua sombra aqueles que o Espírito Santo torna a visitar. Esta boa nuvem, em seguida, veio sobre a Virgem Maria e o poder do Altíssimo a envolveu com sua sombra, ao gerar a redenção do homem. Este milagre realizou-o Moisés em figura. Se, portanto, lá esteve o Espírito em figura, não estará aqui a realidade, já que a Escritura te diz que a lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo? Cf. Jo 1, 17 Em Mara a fonte era amarga. Nela Moisés mergulhou um lenho e ela se tornou doce. A água, sem a proclamação da cruz do Senhor,

não tem utilidade alguma para a futura salvação. Ao ser, porém, consagrada pelo salutar mistério da cruz, é usada no banho espiritual

e no cálice da salvação. À semelhança daquela fonte em que Moisés, isto é, o Profeta, pôs o lenho, também nesta fonte o sacerdote

15ª Semana do Tempo Comum

proclama a cruz do Senhor e a água se faz doce para a graça. Não creias apenas nos teus olhos corporais. Enxerga-se muito melhor o que não se vê, porque o que vemos é transitório, isto é terreno. No entanto, se vemos o que os olhos não alcançam, enxergamos com coração e a mente. Por fim ensina-te o trecho do Livro dos Reis: Naaman era sírio, tinha a lepra e ninguém podia purificá-lo. Então disse-lhe uma menina escrava que em Israel havia um profeta, que o poderia curar da lepra. Tomando consigo ouro e prata, Naaman dirigiu-se ao rei de Israel. Conhecendo o rei o motivo da vinda, rasgou as vestes em sinal de luto e declarou que este pedido tão além do poder real era antes um pretexto para um ataque contra o reino. Mas Eliseu mandou dizer ao rei que lhe enviasse o sírio para que lhe fosse dado conhecer como Deus estava em Israel. Tendo ele chegado, o profeta fez-lhe saber que devia mergulhar sete vezes no rio Jordão. Naaman começou, então, a pensar que melhores eram as águas de sua pátria, onde muitas vezes mergulhara e nunca ficara limpo da lepra e quis voltar, sem obedecer à ordem do profeta. Mas, diante do conselho insistente de seus servos, enfim concordou em banhar-se e, limpo no mesmo momento, compreendeu que não era por virtude da água que se tornara purificado, mas pela graça. Ora, Naaman duvidou antes de ser curado. Tu, porém, já estás são:

não podes duvidar!

Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (Nn. 19-21.24.26-28: SCh 25 bis, 164-170) A água não purifica sem o Espírito Santo

(Séc. IV)

Anteriormente fora-te recomendado não creres apenas no que vias, para que não viesses a dizer: É só isto o grande mistério (Cf. 1Cor 2, 9 ) que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram nem suspeitou o coração do homem? Vejo águas, eu as via diariamente. Águas assim, onde tantas vezes entrei e nunca fui purificado, é que irão purificar-me? Por aí ficas sabendo que a água sozinha, sem o Espírito Santo, não purifica. Leste igualmente que (Cf. 1Jo 5, 6-8 ) os três testemunhos no

15ª Semana do Tempo Comum

batismo são um só: a água, o sangue e o Espírito, porque se retiras um deles, já não há o sacramento do batismo. Pois, o que é a água sem a cruz de Cristo? Um elemento comum sem qualquer força de sacramento! Também sem água não há mistério de novo nascimento:

Jo 3, 5 Se alguém não renascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O catecúmeno já antes tinha fé na cruz do Senhor Jesus e por ela fora assinalado. Mas se não for batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, não poderá receber a remissão dos pecados nem acolher o dom da graça espiritual. Naaman, o sírio, no Antigo Testamento, mergulhou sete vezes; tu, porém, foste batizado uma vez em nome da Trindade. Confessaste o Pai – lembra-te do que fizeste – confessaste o Filho, confessaste o Espírito. Observa a ordem. Nesta fé morreste para o mundo, ressuscitaste para Deus. Como que sepultado no elemento primordial do mundo, morto ao pecado, ressuscitaste para a vida eterna. Crê, portanto, não se tratar de simples águas. Com efeito, mesmo o paralítico da piscina Probática esperava um homem. Que homem, a não ser o Senhor Jesus, o nascido da Virgem, cuja mera sombra da vinda curava um ou outro, mas cuja realidade agora já cura a todos? É Jesus a quem o paralítico esperava para descer, aquele mesmo de quem disse o Pai a João Batista: Cf. Jo 1, 33 Sobre quem vires o Espírito descer do céu e repousar sobre ele, é este o que batiza no Espírito Santo. João, também, deu-lhe testemunho, dizendo: Cf. Jo 1, 32 Eu vi o Espírito descendo do céu em forma de pomba e repousando sobre ele. Aqui, igualmente, nós nos perguntamos por que o Espírito desceu qual uma pomba? Para que visses e compreendesses como também aquela pomba, solta da arca pelo justo Noé, era figura desta que desceu sobre o Cristo, e assim reconheceres o tipo do sacramento. Há ainda algo que te faça duvidar? E, no entanto, o Pai te clama, com toda a evidência, no Evangelho: Mt 3, 17 Mc 1, 11 Este é o meu Filho em quem pus minha complacência. Clama igualmente o Filho, sobre quem o Espírito Santo se mostrou em forma de pomba. Clama do mesmo modo o Espírito Santo que, qual pomba, desceu. Clama, por sua vez, Davi: Sl 29(28), 3 Voz do Senhor sobre as águas; o Deus de majestade trovejou; o Senhor sobre as muitas águas. A Escritura te atesta que, diante das preces de Jerobaal Jz 6, 21 , desceu o fogo do

15ª Semana do Tempo Comum

céu e, outra vez, pelas súplicas de Elias 1Rs 18, 38 , veio um fogo consagrar o sacrifício. Não atentes para o mérito das pessoas, mas para o serviço dos sacerdotes. Ora, como respeitas a Elias, considera também os méritos de Pedro ou de Paulo que nos entregaram este mistério recebido do Senhor Jesus. Para os do Antigo Testamento era enviado o fogo visível a fim de que cressem. Em nós, que cremos, o fogo opera invisível. Para aqueles desceu o Espírito em figura, e, para nós, ele se torna realidade. Crê, portanto que, invocado pelas preces dos sacerdotes, aí está presente o Senhor Jesus que disse: Mt 18, 20 Onde quer que estejam dois ou três, aí estou Eu. Quanto mais onde está a Igreja, na qual existem os mistérios, ele se dignará a conceder a graça de sua presença. Desceste, pois, às águas do Batismo. Recorda-te do que respondeste: que crês no Pai, crês no Filho, crês no Espírito Santo. Não disseste: creio no maior, no menor e no último, mas com a mesma palavra te comprometeste a crer no Filho exatamente como crês no Pai e a crer no Espírito exatamente como crês no Filho, com esta única exceção: que confesses a fé na Cruz, que é só do Senhor Jesus.

Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (Nn. 29-30.34-35.37.42: SCh 25 bis, 172-178) Instrução sobre os ritos depois do batismo

(Séc. IV)

Em seguida banhado nas águas do Batismo, subiste em direção ao sacerdote. Pensa no que se seguiu. Não foi aquilo que Davi cantou:

Sl 133(132), 2 Como o bálsamo na cabeça que desce pela barba, pela barba de Aarão? É o mesmo bálsamo de que fala Salomão: Ct 1, 3 Bálsamo derramado é o teu nome, por isto as jovens te amaram e te atraíram. Quantas almas renovadas hoje te amam, Senhor Jesus, dizendo: Ct 1, 4 Atrai-nos em teu seguimento, correremos cf. Sl 45(44), 8b-9a ao odor de tuas vestes, para que respirem o odor da ressurreição. Entende de que modo se faz, Ecl 2, 14 pois os olhos do sábio estão em sua cabeça. A unção escorre pela barba, isto é, pela beleza da

15ª Semana do Tempo Comum

juventude; pela barba de Aarão para te tornares da 1Pd 2, 9 raça eleita, sacerdotal, preciosa. Porque todos no reino de Deus somos também ungidos pela graça espiritual para o sacerdócio. Recebeste depois a veste branca, indício de teres despido a crosta dos pecados e revestido a casta túnica da inocência, lembrada pelo Profeta quando diz: Sl 51(50), 9 Asperge-me com o hissopo e serei limpo, lavar-me-ás e serei mais branco do que a neve. Ora, quem é batizado vê-se purificado pela lei e pelo Evangelho: segundo a lei, porque como um ramo de hissopo Moisés aspergia o sangue do cordeiro; segundo o Evangelho, porque eram brancas como a neve as vestes de Cristo quando revelou a glória de sua ressurreição. Cf Ap 7, 14 Mais do que a neve se torna alvo aquele a quem se perdoa a culpa. O Senhor, por intermédio de Isaías, diz: Is 1, 18 Se vossos pecados forem como a púrpura, eu os alvejarei como a neve. Trazendo esta veste, recebida (Cf. Tt 3, 5 ; Ef 5, 26 ) no banho do novo nascimento, a Esposa diz, nos Cânticos: (Cf. Ct 1, 5 ) Sou escura e formosa, filhas de Jerusalém. Escura, pela fragilidade da condição humana; formosa pela graça. Escura, por vir dentre os pecadores; formosa, pelo sacramento da fé. Vendo tais roupas, exclamam estupefatas as filhas de Jerusalém: (Cf. Ct 6, 10 ) Quem é esta que sobe tão alva? Ela era escura; donde lhe veio agora de repente este brilho? Cristo, que assumira uma Zc 3, 3 veste sórdida, como se pode ler em Zacarias, por causa de sua Igreja, ao vê-la em vestes brancas, com a alma pura e lavada pelo banho do novo nascimento, diz: Ct 1, 15 Como és formosa, minha irmã, como és formosa, teus olhos parecem-se com os da pomba, sob cuja forma desceu do céu o Espírito Santo. Lembra-te então que recebeste a marca espiritual, Is 11, 2 o Espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de força, o espírito de ciência e de piedade, o espírito do santo temor . Guarda o que recebeste. Deus Pai te assinalou, o Cristo Senhor te confirmou e 2Cor 1, 22 deu o penhor do Espírito em teu coração, como aprendeste com a leitura do Apóstolo.

Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (Nn. 43.47-49:SCh25 bis,178-180.182)

(Séc. IV)

15ª Semana do Tempo Comum

Sobre a Eucaristia, aos neófitos

O povo purificado, enriquecido com estas vestes, adianta-se para

o altar de Cristo, dizendo: Sl 43(42), 4 E entrarei até o altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude. Despidas as vestimentas do antigo erro, (Cf. Is 40, 31 ) renovada a juventude como a da águia, apressa-se em ir participar do celeste banquete. Chega, e, ao ver a ornamentação do santo altar, exclama: Sl 23(22), 2 O Senhor é meu pastor, nada me falta; levou-me a boas pastagens. Conduziu-me às águas da quietude. E mais adiante: Sl 23(22), 4-6 Mesmo que caminhe em meio às sombras da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo. Teu cajado e teu bastão são meus arrimos. Preparaste diante de mim uma mesa contra aqueles que me perseguem. Ungiste com óleo minha cabeça e como é luminoso teu cálice embriagador! Coisa admirável o ter Deus feito chover o maná para sustentar com o alimento celeste os patriarcas. Por isso se disse: (Cf. Sl 78(77), 25 ) O homem comeu o pão dos anjos. No entanto, aqueles que comeram deste pão, todos eles morreram no deserto; o alimento, porém, que tu recebes, Jo 6, 58 pão vivo que desceu do céu, comunica

a substância da vida eterna e quem quer que Jo 6, 58 dele comer não morrerá eternamente, pois é o corpo de Cristo.

Considera agora qual deles é de maior valor: o pão dos anjos ou a carne de Cristo, que é o corpo da vida. Aquele maná vem do céu; este está acima do céu. Aquele, do céu; este, do Senhor dos céus. Aquele

é corruptível, se guardado para o dia seguinte; este é totalmente imune de corrupção e quem o tomar piedosamente não poderá experimentar a corrupção. Para aqueles brotou a água da pedra;

parati, o sangue de Cristo. Àqueles, por um momento, a água saciou;

a ti o sangue do Senhor refresca para sempre. O povo antigo bebe e

tem sede; tu, ao beberes, não podes mais sentir sede, pois, de fato, aquilo era sombra, enquanto isto é realidade.

Se já admiras a sombra, qual não será tua admiração da realidade?

Escuta como é sombra o acontecido aos patriarcas: (Cf. 1Cor 10, 4-5 ) Bebiam da pedra que os seguia; a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou de muitos deles, pois caíram mortos no deserto. Estas coisas foram feitas em figura para nós. Conheces agora o que tem maior valor: a luz supera a sombra; a realidade, a figura; o corpo do

15ª Semana do Tempo Comum

Criador vale mais do que o maná do céu.

Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (Nn. 52-54.58: SCh 25 bis,186-188.190)

(Séc. IV)

Este sacramento, que recebestes, tem por fonte a palavra de Cristo

Vemos que são maiores as obras da graça do que as da natureza. Entre as obras da graça, incluímos a graça da bênção profética. Se a bênção humana teve a força de mudar a natureza, que diremos da própria consagração divina, em que agem as palavras mesmas do Senhor e Salvador? Porque este sacramento que recebes se realiza pela palavra de Cristo. Se tanto pôde a palavra de Elias que fez o fogo descer do céu, não terá a palavra de Cristo o poder de mudar a substância dos elementos? Já leste acerca da criação do mundo inteiro que Sl 33(32), ·9 ele falou e tudo foi feito, ele ordenou e tudo foi criado. Portanto a palavra de Cristo, que pôde do nada fazer o que não era, não poderá mudar o que existe para aquilo que não era? Dar novas naturezas às coisas não é menos do que mudá-las. Mas por que apresentamos argumentos? Voltemo-nos para seus exemplos, confirmemos pelos mistérios da encarnação a verdade do mistério. Acaso, quando Jesus nasceu de Maria, foi observada a natureza comum? Normalmente, a mulher concebe pela união com o homem. Está, portanto, bem claro que a Virgem gerou fora da ordem natural. E este que consagramos é o corpo que proveio da Virgem. Por que exiges aqui que seja segundo a natureza, quando foi além da natureza que da Virgem se deu o nascimento do mesmo Senhor Jesus? É realmente a verdadeira carne de Cristo que foi crucificada, sepultada; é verdadeiramente o sacramento desta carne. O próprio Senhor Jesus declara: Mc 14, 22 ; Lc 22, 19 ; 1Cor 11, 24 Isto é o meu corpo. Antes da bênção das palavras celestes era outra realidade; depois da consagração, entende-se o corpo. Ele mesmo diz que é seu sangue. Antes da consagração é outra coisa; depois da consagração, chama-se sangue. E tu dizes: “Amém”; o que quer dizer: “É verdade”. Confesse o nosso interior o que proclamam os lábios, sinta o afeto o que a palavra soa. Vendo tão grande graça, a Igreja exorta seus filhos, exorta os

15ª Semana do Tempo Comum

amigos a que acorram ao sacramento: (Cf. Ct 5, 1 ) Comei, amigos meus, bebei e inebriai-vos, meus irmãos. O que comemos, o que bebemos, o Espírito Santo pelo Profeta o exprimiu: (Cf. Sl 34(33), 9 ) Provai e vede, como é suave o Senhor; feliz de quem nele confia. Neste sacramento está Cristo porque é o corpo de Cristo. Não é, por

conseguinte, alimento corporal, mas espiritual. O Apóstolo, falando da sua figura, dizia: 1Cor 10, 3-4 Nossos pais comeram o pão espiritual e beberam da bebida espiritual. O corpo de Deus é corpo espiritual; o corpo de Cristo é corpo do espírito divino, porque Cristo

é espírito, como lemos: O Espírito diante de nossa face, o Cristo

Senhor. E na carta de São Pedro encontramos: 1Pd 3, 18 E Cristo morreu por vós. Por fim este pão fortalece o nosso coração e esta bebida (Cf. Sl 104(103), 15 ) alegra o coração do homem; assim nos

lembra o Profeta.

Responsório

Mt 26, 26 ; cf. Jó 31, 31

R. Na Ceia derradeira Jesus tomou o pão, deu graças e o partiu, deu aos discípulos, dizendo:

* Tomai e comei, pois isto é o meu corpo.

V. Não diziam as pessoas que habitam minha tenda:

quem não se saciou da carne de sua mesa?

* Tomai e comei, pois isto é o meu corpo.

Oração Ó Deus, que mostrais a luz da verdade aos que eram para retomarem

o bom caminho, dai a todos os que professam a fé rejeitar o que não convém ao cristão, e abraçar tudo o que é digno desse nome. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.