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SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

23
dezembro
2009
ano II

ficina

Unamuno
Melodrama e Metalinguagem
SAMIZDAT 23
dezembro de 2009

Edição, Capa e Diagramação: Editorial


Henry Alfred Bugalho

Edição de Imagens:
Mais um final de ano se aproxima e a Revista SAMIZDAT
Volmar Camargo Junior
está prestes a completar seu segundo ano de existência.
Henry Alfred Bugalho
Geralmente, este é um período de reflexão e balanço: o
Revisão Geral
que queremos para nosso futuro? Quais serão nossos próxi-
Léo Borges mos projetos? O que gostaríamos de fazer que não consegui-
mos no ano que passou?
Assessoria de Imprensa A própria SAMIZDAT foi resultado de uma reflexão se-
Mariana Valle melhante, e a cada ano que se passa, ela se torna mais diver-
sificada. Posso dizer até que esta é uma das nossas metas:
Autores ser o espelho da boa literatura que poucos conhecem, reunir
Barbara Duffles num único espaço os grandes talentos dispersos pelos vários
Caio Rudá países falantes de português. Sinto que, no limite das nossas
Carlos Davissara possibilidades, estamos cumprindo esta missão.
Dênis Moura Nós, da Revista SAMIZDAT, desejamos a todos nossos
Giselle Natsu Sato leitores um Feliz Natal e um Ano-Novo repleto de conquistas
Guilherme Rodrigues e sucesso.
Henry Alfred Bugalho
Joaquim Bispo Henry Alfred Bugalho
José Guilherme Vereza
Jú Blasina
Léo Borges
Mariana Valle
Maristela Scheuer Deves
Volmar Camargo Junior
Wellington Souza

Textos de: Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada


Castro Alvez a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
Cruz e Souza
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mons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de
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As idéias expressas são de inteira ­responsabilidade de seus
autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade
expressa dos colaboradores da revista.
Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Danilo Corci fala sobre a Mojo Books 8

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA


Ahasverus e o Gênio 12
Castro Alves

As Devotas 14
Cruz e Souza

CONTOS
Um Táxi da Chuva 16
Caio Rudá
Um muro de intransigência 18
Joaquim Bispo
Marca a página 21
Wellington Souza
Morte & Espelhos 24
Ju Blasina

A dança dos imortais 28


Volmar Camargo Junior

O incrível Joaquim Maria 32


Henry Alfred Bugalho
Deus me perdoe, era tudo o que eu queria 36
José Guilherme Vereza

Noite de Chuva 40
Mariana Valle

Invasão nas ondas médias 42


Léo Borges
Alô, Waldirene? 46
Barbara Duffles
69, o ano que nem começou - Big Bang
Microcósmico - Capítulo 2 48
Dênis Moura

TRADUÇÃO
E faz de conta... 50
Miguel de Unamuno

TEORIA LITERÁRIA
Física como matéria-prima para o suspense 56
Maristela Scheuer Deves

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
Morte e a Morte de Quincas Berro DÁGUA 58
Carlos Davissara
Crepúsculo 60
Giselle Sato

CRÔNICA
Um vestido rosa, tabu e um fenômeno de
intolerância coletiva 64
Henry Alfred Bugalho
Eu também quero o meu Septilhão 68
Volmar Camargo Junior

POESIA
Iminente (poema blavino) 70
Carlos Davissara
Desejo e castidade 71
Wellington Souza
Laboratório Poético: indrisos 72
Volmar Camargo Junior
Poesia: Contra o Muro 74
Ju Blasina

4 SAMIZDAT dezembro de 2009


Escuro 75
Guilherme Augusto Rodrigues
Lascívias viáveis 76
Léo Borges
Só a semente 77
Maristela Scheuer Deves

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 78

www.revistasamizdat.com 5
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiam,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprimir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

6
E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substituam
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido A serem obrigados a
pelo mercado. burlar a indústria cultural, Enfim, “Samizdat” porque a
os autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- od­ iálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

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Entrevista

Danilo Corci fala sobre a

Mojo Books
Danilo Corci
É jornalista e começou sua carreira
no Jornal de Jundiaí, rumando de-
pois para a Folha de S.Paulo. Criou
a revista cultural Speculum ao lado
de Renato Roschel. Também criou e
dirigiu a redação do portal BrTurbo,
da Brasil Telecom. Em 2007 fez sua
primeira incursão literária com a

http://farm1.static.flickr.com/135/402660235_e0b6baa65c.jpg
novela Black celebration, publicada
pela editora Mojo Books. Em março
de 2008 lançou sua segunda aven-
tura literária, agora um microconto,
Sympathy for the devil, também lan-
çado pela Mojo Books. Atualmente
é redator da agência publicitária
JWT. Um dos fundadores da Mojo
Books, ao lado de Ricardo Giassetti.

Mojo Books
A MOJO é uma editora 100%
digital. Sua proposta é simples: Se
SAMIZDAT - Comecemos uma editora. Como estáva-
música fosse literatura, que história
pela pergunta que não mos muito ligado ao mun-
contaria?
pode deixar de ser feita: do digital, a escolha de uma
www.mojobooks.com.br de onde surgiu a ideia de editora digital foi natural.
preparar livros inspirados E, entre tantas conversas,
em álbuns musicais? acabou surgindo a ideia de
Danilo Corci - A ideia vem fazer uma coleção de livros
de uma inspiração anti- inspirados em música e dai
ga. Na década de 90, eu e surgiu a MOJO.
o Ricardo tínhamos uma
banda que fazia justamente SAMIZDAT - Imagino que
o contrário: pegava livros e vocês devam receber inú-
musicava. O tempo passou, meros textos de autores
a banda acabou e nós con- estreantes que gostariam
versávamos sobre montar de publicar com vocês.

8 SAMIZDAT dezembro de 2009


tagens do que desvantagens. (como o filme O Náufrago,
O custo é menor, bem me- por exemplo).
nor, é possível arriscar mais
por conta disso. A única
desvantagem que vejo são SAMIZDAT - Na listagem
os detratores do livro digi- dos 5 mojobooks mais
tal que ficam com aquele baixados (o Mojo Top 5)
papo chato de ‘cheirinho de podemos encontrar Be-
papel’, ‘o toque’, blablablá. atles, Amy Winehouse,
E dá mesmo pra dizer que Rolling Stones, My Che-
é blablablá porque a re- mical Romance e Bauhaus
Como funciona o projeto cepção do público é ótima, na parada.
de seleção de um mojo- temos uma base de mais de A que vocês atribuem
book? Qual é a exigência 80 mil leitores, cada livro esta hierarquia? Ela refle-
ao escolherem um texto consegue mais de 10 mil te as predileções musicais
para publicação? downloads, em média, um dos leitores, ou indicam a
DC - Recebemos muito volume bem grande perto popularidade dos autores
material, alguns claramente do mercado editorial tradi- dos mojobooks?
fora da proposta e que o cional. DC - Gostando ou não, a
autor manda porque já tem visibilidade do material ain-
um livro escrito e tenta da está apoiada na banda
SAMIZDAT - Um dos
encaixar, o que geralmente escolhida. Então este top 5
desafios da Literatura no
não dá certo. Basicamen- da MOJO reflete mesmo a
século XXI é descobrir
te, chegando um livro, preferência musical e não
como lucrar com algo tão
ele passa por uma leitura literária. Justamente por
facilmente “pirateável”
crítica para ver se vale a saber disso que criamos
quanto o livro digital.
publicação ou não. Valen- a coleção MOJO+, onde o
do, vai para uma primeira Qual é o caminho, na foco de divulgação é sem-
edição onde algumas falhas opinião de vocês, que o pre sobre o autor.
são corrigidas. O material autor que deseja se inserir
volta pro autor retrabalhar no universo dos e-books
e assim vai até que tanto o deveria trilhar, caso quei- SAMIZDAT - Há algum
autor como nós da MOJO ra sustentar sua carreira projeto de publicar al-
estejamos satisfeitos. Dai o através deste formato? gum livro impresso com
livro cai no fluxo normal DC - A pirataria não acaba os mojobooks? Caso sim,
de publicação, que passa com o modelo de negócios. como funcionaria?
por revisão, capa, etc... De Os valores serão revistos
verdade, é um processo para baixo, autores pode-
editorial tradicional. rão ganhar mais. Aqui no
Brasil é um pouco mais
complexo porque brasileiro
SAMIZDAT - Quais são as
tem mania de não querer
vantagens do e-book em
pagar por bem cultural.
comparação ao livro im-
Num primeiro momento,
presso? E as desvantagens?
este mercado será bancado
Como tem sido a recep-
por publicidade, seja no
ção do leitor brasileiro?
livro, seja de uma maneira
DC - Vejo muito mais van- bem feita de merchandising

www.revistasamizdat.com 9
DC - De verdade, não ro pagaria
temos planos de ir para o por algo que
impresso não. Obviamente pode ter de
somos uma editora tentan- graça?
do sobreviver no mercado, DC - O Brasil
então se houver alguma é bem um
oportunidade isso pode ser caso a parte
possível. Mas para a gente neste universo. música, mais quadrinhos,
ir pro impresso só se for Não só pelo poder aquisiti- terminar a migração para
em um esquema bem feito vo menor, mas pela cultura celular e começar a inva-
de print on demand ou de não pagar. O modelo dir outras mídias, como
parceria com alguma outra brasileiro pode comportar o audiovisual. Mas como
editora. algo assim, mas as chances temos um modelo de negó-
dos resultados serem pe- cio novo, vamos com calma
quenos é muito alto. Pelo fazendo as coisas com a
que vejo e tenho aprendido consistência que devem ter.
em quase 3 anos de MOJO
é que o modelo publicitário
A equipe da Revista SAMI-
dende a trazer melhores
ZDAT agradece ao Danilo
resultados.
Corci.

SAMIZDAT - O livro
digital é um formato que
veio para ficar? Podemos
prever o fim do livro im-
presso?
DC - Que veio pra ficar é
óbvio, custa menos, é possí-
vel lançar mais, etc. Se vai
SAMIZDAT - Em 2007, a ser o fim do impresso? Não
banda Radiohead lançou necessariamente. Hoje tem
o álbum “In Rainbows” MP3, CD, mas o vinil ainda
primeiro na internet, sen- existe. A diferença é que as
do que os fãs poderiam editoras provavelmente vão
pagar o quanto quisessem lançar impressos de ‘luxo’,
pelo download. Nos EUA, coisa mais elaborada, edi-
o ­autor Cory Doctorow ção de colecionador, mais
publica tanto em meio cara, com lucro maior. E o
digital quanto impresso, jogo segue.
sendo que seus livros
podem ser baixados gra- Coordenação da entrevista:
tuitamente na internet. SAMIZDAT - Quais são Henry Alfred Bugalho
Estes dois modelos, ligei- os planos para a MOJO
ramente diferentes, pode- Books no futuro?
riam ser reproduzidos no DC - Temos vários planos.
Brasil, seja na música ou Lançar livros inéditos que
na Literatura? O brasilei- não tenham nada a ver com

10 SAMIZDAT dezembro de 2009


Ele tinha
nome dediante
“O Cantode
da si sua visão ao concertista. chão a partitura do final
Sereia de Bach”, já que a Aquela mesma figura ca- de uma recente compo-
a mais difícil das missões:
bela melodia sempre se davérica, que levara tan- sição sua – a primeira a
mostrava como um fatal
cumprir a vontade de Deus
e irresistível convite ao
além-túmulo.
lhe seus terríveis olhos ficina
tos a sucumbir, apontava- lembrar que estava em
harmonia com a música
ausentes. E como todos os inacabada de Bach. Ter-
Quase um ano após o outros, também Mozart minando, viu que a perna
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paralisou-se. Junto à ima- já estava livre. Correu o
início das mortes, passava
pela região um viajante gem macabra, sentiu o mais rápido que pôde,
austríaco, excepcional cheiro da putrefação. As sem olhar para trás. O

http://www.flickr.com/photos/erzs/1357413280/sizes/o/
estudante de música, náuseas dominaram-no, som de sua composição
chamado Wolfgang Ama- o que o fez libertar-se da servia de trilha sonora
deus Mozart. Quando paralisia, caindo de joe- para a fuga, enquanto
soube da maldição, não lhos a largos vômitos. Em ele pensava como, até o
se alarmou, disse apenas meio a engasgos, tosses e momento, aquela música
que gostaria de ouvir o ânsias, ouviu a frase mor- nunca havia lhe parecido
tal concerto fúnebre e de tal: “Termine a música”. tão viva e tão mórbida.
conhecer o seu autor. Foi Confuso, desnorte- Prometeu não mais tocá-
alertado de que a história ado, Mozart tentou se la.
era verdadeira, de que as levantar apoiando-se No dia seguinte, o
pessoas já não queriam no órgão, que sua mão jovem Mozart já não se
mais estudar música, e atravessou como se nada encontrava pela cidade.
ele poderia ser o próxi- ali estivesse. Caiu sobre “Mais um levado pelo
mo, e o dia fatal estava o vômito, começando a Canto da Sereia de Bach”,
se aproximando... Nada recobrar a razão e ten- diziam. Contudo, soube-
disso o espantou. tando afastar-se daquele se na hospedaria que ele
Dia vinte e oito, “Toca- prenúncio da morte. havia partido durante a
ta e Fuga em Ré Menor”, De bruços sobre a terra, madrugada, são e salvo,
tudo como haviam dito, sentiu algo prendendo-o após o sinistro concerto.
e lá estavaHenry
Mozart pelo pé. Não teve cora-
den-Bugalho No cemitério, ao invés do
Alfred
tro do cemitério. Com os gem de olhar para ver o http://www.lostseed.com/extras/free-graphics/images/jesus-pictures/jesus-crucified.jpg
esperado músico morto,

O Rei dos
olhos fechados, deixava-se que era. E novamente a foi encontrada apenas
extasiar com as compo- voz suave suplicou: “Ter- uma inscrição na terra,
sições de Johann Sebas- mine a música”. Fazendo parecida com o trecho de

Judeus
tian Bach, num estado uma desesperada oração alguma partitura. Desde
de euforia sobrenatural. mental, tateou o solo até então, não se noticiou
Subitamente, o som se encontrar uma pedra mais vítimas do “Canto
extinguiu. O jovem des- pontiaguda. Com ela, da Sereia de Bach”.
pertou do transe e dirigiu começou a desenhar no

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Autor em Língua Portuguesa

Ahasverus e o Gênio
Castro Alves

12 SAMIZDAT dezembro de 2009


Ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior — Silêncio, paz e amor! —
No entanto à noite, se o Hebreu passava,
Um murmúrio de inveja se elevava,
Sabes quem foi Ahasverus?... — o precito,
Desde a flor da campina ao colibri.
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!
“Ele não morre”, a multidão dizia...
Eterno viajor de eterna senda...
E o precito consigo respondia:
— “Ai! mas nunca vivi!” —
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadora voz!
O Gênio é como Ahasverus... solitário
Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
A marchar, a marchar no itinerário
E no mundo tão grande... o forasteiro
Não teve onde... pousar.
Sem termo do existir.
Co’a mão vazia-viu a terra cheia.
Invejado! a invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos...
O deserto negou-lhe — o grão de areia.
E sempre a caminhar... sempre a seguir...
A gota d’água — rejeitou-lhe o mar.
Pede u’a mão de amigo-dão-lhe palmas:
D’Asia as florestas-lhe negaram sombra
Pede um beijo de amor— e as outras al-
A savana sem fim-negou-lhe alfombra.
mas
O chão negou-lhe o pó!...
Tabas, serralhos, tendas e solares...
Fogem pasmas de si.

Ninguém lhe abriu a porta de seus lares


E o mísero de glória em glória corre...
E o triste seguiu só.
Viu povos de mil climas, viu mil raças,
Mas quando a terra diz: — “Ele não morre”
E não pôde entre tantas populaças
Beijar uma só mão...
Responde o desgraçado:-”Eu não vivi!...”
Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,
http://www.flickr.com/photos/malcubed/7311090/sizes/l/

Desde a inglesa à crioula das Antilhas


Não teve um coração!...
E caminhou!... E as tribos se afastavam
E as mulheres tremendo murmuravam Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br/do-
Com respeito e pavor. wnload/texto/wk000583.pdf
Ai! Fazia tremer do vale à serra...

Ele que só pedia sobre a terra

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Autor em Língua Portuguesa

AS DEVOTAS
Cruz e Sousa

I
Enquanto o sino bimbalha,
Bimbalha, bimbalha e tine,
II
Lançai do olhar a migalha
Perto da Igreja a senzala,
— Enquanto o sino bimbalha —
O Cristo junto aos escravos
À raça que se amortalha
E, pois, deveis visitá-la,
No horror que não se define...
Perto da Igreja, a senzala
Enquanto o sino bimbalha
E procurar transformá-la
Bimbalha, bimbalha e tine.
Da luz às palmas, aos bravos!...
Perto da Igreja a senzala,
O Cristo junto aos escravos.

14 SAMIZDAT dezembro de 2009


III
E tão-somente por isto
Enquanto o sino bimbalha,
Bem antes de terdes visto
— E tão-somente por isto —
Todo o martírio do Cristo,
O vosso amor que lhes valha,
E tão-somente por isto,
Enquanto o sino bimbalha.

http://www.flickr.com/photos/ricardoinfante/3995685836/sizes/o/

Fonte: Poemas Irônicos e Humorísticos de Cruz e Sousa


Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/
bn000098.pdf

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16
Contos

SAMIZDAT dezembro de 2009


Um Táxi na Chuva
Caio Rudá

http://www.flickr.com/photos/thomashawk/3277337877/sizes/l/
O lugar onde
Quisera eu ter tempo para desaba, desliza, borra e não a boa Literatura
admirar a chuva que cai. E existe. São quase tantos tipos
não pense que eis uma redun- de chuva quanto as gotas
é fabricada
dância, pois há chuvas que que caem. Os motoristas nos

http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg
desabam, há as que deslizam, carros, no entanto, não vêem
as que borram o céu, as que a chuva passar, presos que
não existem. A de hoje é um são no trânsito vagaroso. Até
pouco de todas elas. entendo sua ânsia por chegar
Segunda-feira, último logo em casa depois de um dia
dia do mês. Estou certo de cansativo. É sua opção enrai-
que toda essa água vem para varem-se. Cada um elege os
diluir e carregar para a terra sentimentos que lhe convêm.
e esgotos os infortúnios de Assim também é meu
agosto, época do desgosto. direito zombar deles, por não
Com os maus agouros vai a aproveitarem um tempo de
espera de uns graus a menos gozo pleno, em que nada é

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
nos termômetros. Não me mais forte que a força da chu-
acostumo à ideia de um meio va. De dentro de um veículo, a
de ano quente. No interior é intensidade da água no metal é
diferente. Lá a fina garoa é quase um pêndulo hipnotizan-
constante, seja ao amanhecer, te, intenso e pesado barulho
ao passar do dia ou à boca da psicodélico, não cabendo aqui
noite. Uma garoa que eu tanto melhor descrição ― não se
aguardei desde o São João dorme, vigília não pode ser,
e que só deixou-se aparecer tampouco sonho, é existir,
hoje. talvez, no pequeno pedaço
O dia precisou amanhecer de céu que escorre no vidro
nublado, abrir-se ― uma brin- embaçado.
cadeira de mal gosto especial- O mundo real não se quer
mente para mim ― e voltar ver, nem a chuva lhe permite
a acinzentar-se à tardinha. A se oferecer às retinas. Faz
despeito da psicótica rixa das um pouco de frio, mas não é
forças da natureza para comi- sentido. Não faz sentido, aliás.
go, a chuva veio. E, diferen- Rima para cidade é calami-
temente de outras vezes, já se dade, e o que é feio a água
vão algumas horas desde que limpa. O vidro molhado seca,
chegou nos céus daqui. já é noite e todos chegam às
Quisera eu ter tempo para
admirar a chuva, que cai,
suas residências molhadas. ficina
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17
Contos

Um muro de intransigência
Joaquim Bispo

18 SAMIZDAT dezembro de 2009


O que aconteceu esta manhã de várias partes do Mundo e vinha, cavou-a, tratou-a, cons-
conta-se em poucas palavras: um tornou-se um revoltado. O seu truiu-lhe um lagar e uma adega.
lunático entrou em Jerusalém carácter meditativo não o atirou, Um dia, vieram uns lavradores e
vindo da Cisjordânia, acompa- porém, para os braços da OLP ou propuseram arrendar-lhe a vinha.
nhado por um pequeno grupo de do Hamas. Formou, no entanto, Assim se fez, mas quando o
adeptos determinados. Devem um grupo de activistas pacifistas dono da vinha enviou emissários
ter passado, dispersos, as barrei- que pretende, através da persu- a recolher a renda, estes foram
ras militares do muro, para não asão e de acções não violentas, apedrejados, feridos e alguns
levantar suspeitas do Tzahal. consciencializar os habitantes de mortos. O mesmo fizeram ao
Chegados às imediações da cida- ambos os lados para a necessida- filho do dono da vinha, cuidando
de, o líder mandou dois discípu- de de se aceitarem mutuamente e apoderar-se definitivamente da
los buscar uma burra, que estava partilharem o território em dois herança dele. Agora, dizei-me
presa, não muito longe, com a estados irmãos. compatriotas, quando vier o dono
sua cria. Quando a trouxeram, os Diz ele que não faz sentido da vinha, que fará ele àqueles
discípulos aparelharam-na com que Israel queira reconstituir o lavradores?
simples panos, ele montou-a e estado com o mesmo território Com exemplos propícios à
assim entrou em Jerusalém. A que dominou nos tempos áureos, reflexão, como este, vai tentando
estranha personagem e os seus mas que foi desmembrado há mostrar a razão dos desapossa-
acompanhantes, todos de sandá- mais de dezanove séculos. Essa dos.
lias e túnica, cabelo comprido e pretensão, diz, é tão absurda Mostra ser muito sagaz,
cabeça descoberta, foram aplau- como os Árabes quererem re- embora idealista. O episódio
didos pelos transeuntes, sobretu- constituir o califado de Córdoba de entrar em Jerusalém a caval-
do jovens, aparentemente entu- no território da Península Ibérica, gar uma burra parece ter sido
siasmados com a performance, e extinto, também, há séculos, ou preparado meticulosamente
houve quem estendesse no chão o povo Inca tentar reanimar o seu para corresponder à profecia de
folhas de palma e mesmo roupas antigo império destruído pelos Zacarias (Zc 9,9): «Regozija-te
pessoais, para o grupo passar. Espanhóis, ou os descendentes ó filha de Sião. Eis que vem a ti
O episódio foi ignorado por dos Cátaros reivindicarem o o teu Rei, justo e salvador. Ele é
quase todos os correspondentes Languedoc para reorganizarem a humilde e vem montado numa
estrangeiros, devido ao seu ca- sua religião. E que, a exemplo de burra, e sobre o potrinho da bur-
rácter irrisório e quase anedótico. Israel, organizassem um exérci- ra.» Nicodemo, um membro do
to e começassem a expulsar os
http://www.flickr.com/photos/mulazimoglu/3700293297/sizes/l/

Quem me relatou os porme- Knesset, que acedeu a comentar


nores deste caso foi um homem habitantes actuais desses territó- o episódio, é da opinião que esta
de nome Zaqueu que, por ser rios, recorrendo ao morticínio, se entrada messiânica em Jerusalém
pequeno, trepou a uma palmei- necessário. foi uma estratégia pensada para
ra e assistiu a tudo. Disse-me Avesso à violência, também chegar aos judeus mais conser-
que o chefe do grupo nasceu na condena os actos de intolerância vadores.
Galileia, numa aldeia chamada dos palestinianos para com os Aparentemente, esta mensa-
Nazaré, actualmente ocupada por ocupantes, mas compreende o gem visual não passou, apesar da
Israel. Viu a terra, que ele amou seu desespero. Diz ele, falando relativa algazarra que os jovens
na adolescência, ser colonizada aos que param a ouvi-lo: militantes anti-guerra produziram
aos poucos por gentes vindas – Um homem plantou uma durante todo o percurso da co-

www.revistasamizdat.com 19
Contos

Marca
mitiva até à esplanada do Muro hebraico contra os opositores
das Lamentações, onde muitos à anexação de território pales-
judeus fanáticos cabeceavam tiniano – destruindo cidades,
a afirmação dos seus preceitos utilizando fósforo branco e
religiosos. Aí, talvez por não ter outras armas proibidas contra
tido a atenção que esperava, co- populações civis, exterminando
meçou a gritar palavras de ordem indiscriminadamente sem olhar
em aramaico, a plenos pulmões, a idades – a determinação dos
provocando os orantes, enquanto dirigentes israelitas em reconsti-
puxava as melenas a uns e des- tuir a grande terra de Canaã das
barretava outros, sempre numa escrituras tradicionais é inamo-
atitude de grande irreverência e vível, respaldada na posse das
insolência. únicas armas nucleares da zona,
O burburinho foi imediata- e no apoio incondicional do novo
mente detectado por uma patru- império romano, que parece dis-
lha militar que, com grande apa- posto a tudo para ter um aliado
rato bélico, o intimou a parar. O fiel junto ao oceano subterrâneo
homem não só não parou como de petróleo.
começou a apontar a mão esten- Isolado na região, este país
dida para os soldados, com dois asiático, sequela dos complexos
dedos unidos levantados. Não se de culpa europeus, patenteia,
sabe se os soldados entenderam ridiculamente, essa relação um-
esse gesto como agressivo, ou bilical integrando, por exemplo,
se simplesmente não toleraram a os torneios de futebol europeus
desobediência; certo é que alguns ou os festivais de canções euro-
disparos foram ouvidos e o na- peus, incapaz de uma identidade
zareno caiu com a túnica ensan- médio-oriental, que procura no
guentada. Morreu pouco depois território mas rejeita na cultura.
no hospital. Os companheiros Cultivando a segregação,
foram presos e estão acusados de prossegue a construção de uma
alteração da ordem pública, que linha de betão de oito metros de
poderá, eventualmente, evoluir altura e setecentos quilómetros
para traição. de comprimento, a marcar a fron-
Só então as agências noticio- teira, segundo a sua interpreta-
sas se movimentaram e conse- ção, anexando Jerusalém oriental
guiram comprar uma gravação e isolando 450.000 pessoas.
de telemóvel feita por um turista. O nazareno pacifista é a mais
Este episódio é bizarro, mas recente vítima anónima deste
estará esquecido em breve. enorme equívoco.
Apesar do clamor internacio-
nal que tem denunciado a força
excessiva utilizada pelo estado

20 SAMIZDAT dezembro de 2009


a a página
Senta-se e abre o livro.
“Na escola arrebentada
onde experimentou pela
primeira vez a segurança
do poder, a poucos metros
do quarto onde conheceu a
incerteza do amor, Arcadio
achou ridículo o formalis-
Wellington Souza mo da morte. Realmente
não se importava com a
morte, e sim com a vida,
por isso a sensação que
experimentou quando pro-
nunciaram a sentença não
foi uma sensação de medo,
mas de nostalgia. Não falou
enquanto não lhe pergunta-
ram qual era a sua última
vontade.*”
Marca a página e fecha o
livro.
Sai, atravessa a sala até
a cozinha, enche um copo
com água da torneira. A
essa hora pouco importa as
impurezas e precipitados.
Na mesa de centro da sala
havia ainda quinze, dos
vinte Diazepans da cartela.
Leva mais um à boca, se-
guido de um gole de água;
mais um e outro gole, por
fim o derradeiro e devolve
o copo à mesinha de cen-
tro. Conta 3:23 horas no
relógio de ponteiro.Volta à
escrivaninha, senta e colo-
ca café, que está forte, sem
açúcar e não mais quente,
na caneca de louça. Bebe
de uma só vez. Escreve: “Já
no avião/ sem volta e aflito/
olha para os lados/e seus
colegas pularam/ e agora é
a sua vez./ Pula./ é mágico
o vôo liberto/ o forte vento
é mágico/ o mundo, enfim
sob ele/ é mágico./ Puxa a
corda do pára-quedas:/ Da
sua mochila saem panelas/
talheres/ conchas/ toalha de
http://www.flickr.com/photos/hebe/2090250869/sizes/l/

21
mesa/ cesta de piquenique/ to da droga. Tenta levantar- Olha o espelho e encara
um botijão de gás peque- se. Apóia na escrivaninha, uns outros olhos fúnebres.
no./ Atônito,/ele olha para mas seus braços logo cedem Com o pulso bate no
o desenhista!”. Sente uma ao peso do corpo. O direito espelho, mas sua estrutura
tontura, de onde sai o título: se flexiona batendo o coto- está fraca como seu espírito
“Morte animada”. velo e desliza, deixando o sempre foi. Concentra-se.
Deixa de lado o rascu- rascunho, canetas e lapiseira Inclina o corpo para trás e
nho. Abre o livro, mas não caírem no chão. Bate a testa bate com mais força. Que-
consegue focar as palavras na madeira, mas o impacto bra. O machucado no pulso
com clareza. Mesmo assim é leve. Volta a sentar, já sem é superficial. Ao arrancar
segue lendo. forças no corpo, inerte. Ten- um caco do espelho quebra-
tar respirar, mas encontra do fere o dedo. Pega a lasca
“— Digam à minha mu- dificuldades. Abre a boca e
lher — respondeu com voz de espelho e corta um pul-
um filete de baba mancha so, troca a lasca de mão e
bem timbrada — que po- o livro. Está ofegante, como
nha na menina o nome de faz um corte mais profundo
que se afogando no ar. no outro. Perfura novamen-
Úrsula. — Fez uma pausa e
confirmou: — Úrsula, como Pensa em tomar a última te o primeiro. O sangue já
a avó. E digam-lhe tam- dose para remediar o fim tinge parte do banheiro.
bém que se o outro nascer da tortura. Levanta abrup- Caminha cambaleando
homem, que lhe ponham o tamente e cambaleia até a até a janela da sala, onde
nome de José Arcadio, mas cama, onde o tronco e os ajoelha e se apóia, deixando
não pelo tio, e sim pelo avô. membros superiores conse- os braços para fora. Repou-
guem chegar, mas os infe- sa a cabeça no parapeito. O
Antes que o levassem ao riores não. Desmaia, então,
paredão, o Padre Nicanor sangue escorre pelas mãos,
com metade do corpo na pinga lá em baixo onde for-
tentou assisti-lo. “Não tenho cama e um braço, o outro
nada de que me arrepen- mará uma pequena poça.
está suspenso.
der”, disse Arcadio, e se pôs Queria olhar o sol da
às ordens do pelotão depois Inanimado, passará nessa tarde quente, mas ele está
de tomar uma xícara de posição quase dois dias. sobre as nuvens.
café preto. (...) “Ah, cara- _________________ Inspira. Enfim, não sente
lho!”, chegou a pensar, “me Acorda numa tarde que mais medo da vida.
esqueci de dizer que se não reconhece, com dúvidas
nascesse mulher pusessem sobre sua identidade e seu
Remedios.”Então, numa só meio. Forte dor de cabeça e *Trechos do livro: Cem
pontada dilacerante, voltou de barriga. Deita na cama e Anos de Solidão/ Gabriel
a sentir todo o terror que o olha para o teto. Nada lhe García Márquez; tradução
atormentara na vida. O ca- vem à cabeça. Calcula se de Eliane Zagury – 49° Ed.
pitão deu a ordem de fogo. conseguirá andar, mexendo – Rio de Janeiro: Record
Arcadio mal teve tempo de a perna. Senta e vê uma 2001.
estufar o peito e levantar mancha de saliva na cama.
a cabeça, sem entender de Levanta escorando nas pa-
onde fluía o líquido ardente redes e escorado chega até
que lhe queimava as coxas. a cozinha. Prepara um copo
— Cornos! — gritou. — de água com sal e segue,
Viva o Partido Liberal!*” assim, até o banheiro. Bebe
Suas pestanas estão pe- a água e vomita uma bile
sadas. Não agüenta mais o amarela, seguido de muitas
sono, para não dizer o efei- tentativas que só fazem ba-
rulho, mas nada evacuam.

22 SAMIZDAT dezembro de 2009


O homem
lugar onde
De longe, sem se virar, o
respondeu:

a boa Literatura
– Kane.

é fabricada
ficina
www.oficinaeditora.com

http://www.flickr.com/photos/27235917@N02/2788169879/sizes/l/
A Oficina Editora é uma utopia, um não-
lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como uma
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão ­cultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

www.revistasamizdat.com 23
Contos

Morte & Espelhos


Ju Blasina

Ilustração: Jairo Tx

24 SAMIZDAT dezembro de 2009


Mais um feliz dia de dia, nem mesmo uma inferior, e subir um lance
trabalho para o Dr. Shoji. vírgula mudara de lugar de escada não foi nada
Ele chega pontualmente — muito menos o chá — agradável para o homem
às 07h04min — nem um ainda assim, conferir as de 130 Kg.
minuto a mais nem um preferências quanto ao Sr. Okashi não só esta-
minuto a menos — ao chá e o número de bis- va atrasado e esbaforido,
seu distinto consultório, coitos era algo imprescin- como também ensopa-
num dentre os tantos dível para o bom relacio- do de suor! Ele se apóia
arranhacéus no centro de namento profissional, que na parede e entrega o
Tóquio; 49º andar. já durava 4 anos! cupom suado e amassa-
— Ohayou, Menial San! do à secretária, que sorri
— Ohayou, Dr. Shoji, Não tão pontual foi gentilmente e pelo tele-
como vai a família? a chegada do primeiro fone anuncia ao doutor a
paciente, Hiroito Okashi chegada do paciente, sem
— Bem, muito bem, citar o nome — seu ser-
eu diria. Agradeço por — primeira consulta.
Aliás, como todo e qual- viço preza pelo absoluto
perguntar. sigilo!
quer paciente do Dr.
Seu inglês era absurda- Shoji: uma única consulta O homem, sem enten-
mente perfeito para um era suficiente para curar der “que raios de lugar é
japonês e ele se orgulha- qualquer perturbação, esse” e torcendo para que
va disso. Teve a melhor conforme garante sua ao menos o brinde vales-
educação que o dinheiro propaganda — rodapé se o sacrifício da escada-
e a disciplina podem de 4X4 cm, publicada a ria é então conduzido ao
fornecer, viajou o mundo cada 4 dias, em quatro divã. Confuso e atônito,
e ao abrir seu consultó- idiomas, logo abaixo do ele apenas senta naquele
rio em Tóquio, fez ques- obituário: “banquinho confortável”,
tão de uma secretária enquanto o doutor faz o
americana — e poliglota! “Para que o seu nome
não esteja aqui amanhã, o seu trabalho.
— para que assim aten-
desse melhor a todo e meu está hoje: DR. KA- Exatos 40 minutos
qualquer paciente, afinal GAMI SHOJI” depois o homem deixa
“a insanidade não escolhe Sua secretária tomara o consultório — calmo
descendência” já dizia um boas lições de marketing e bem disposto. Na saí-
provérbio de sua própria e, segundo ela, o obituá- da esvazia os bolsos na
autoria. rio é sem dúvida o me- lixeira da secretária, que
lhor lugar para angariar com o mesmo sorriso
— A senhorita pode- automático, olha e pensa
ria, por obséquio, levar os D’s (deprimidos e/ou
desesperados). “como pode caber prati-
uma xícara de chá até a camente uma confeitaria
minha sala, dentro de 4 inteira no bolso de um
minutos? Sr. Okashi procura- homem?” (...minutos de
— Pois não, doutor. va cupons de desconto neurônios em sacrifício...)
Chá verde, sem açúcar e para guloseimas quando, e a resposta: “é claro: é
4 biscoitos para acompa- por acidente recortara um bolso grande!”
nhar? o rodapé do Dr. Shoji e
— Sim, minha jovem, por pura gula ali estava
— atrasado e esbaforido. Cerca de 90 minutos
seria de meu agrado. depois chega o próximo
O elevador teimava em
Era assim, todo santo parar sempre no andar paciente – homem car-

www.revistasamizdat.com 25
rancudo, cara de poucos qual entrou. desgosta... e como boa e
amigos, ombros tensos, servil secretária, logo re-
olhar ameaçador — “um conhece o ato como algo
americano típico”, pensa Dr. Shoji dá por encer- “imprescindível para o
a Srta. Menial e sem ousa rado o expediente. Algu- bom relacionamento pro-
dirigir-lhe a palavra, ape- mas pessoas orgulham-se fissional, que já durara...
nas sorri e mais do que de ter um relógio biológi- Quantos anos mesmo?”
rapidamente o conduz co apurado – ele poderia
se gabar por sua agenda Após esta pequena re-
ao consultório principal, creação, Dr. Shoji alinha
onde o doutor já o aguar- de consultas mental; ape-
sar de não trabalhar com o paletó, pega a valise,
da. Alguns berros, ba- despede-se cordialmente
rulhos e minutos depois hora marcada, inexpli-
cavelmente sempre sabe da tão gentil secretária
(40, lógico), o homem sai e segue, tranqüilo e se-
do consultório. Sorri e quantos, quando e quais
pacientes atenderá por reno, até sua residência,
agradece, apresentando- onde é esperado para o
se e beijando a mão da dia. O que torna a secre-
tária tão obsoleta quanto almoço familiar. Entra na
secretária que, perplexa, impecável casa, beija a
jura ter ouvido o, agora um porta guarda-chuvas
no verão, porém, além de impecável esposa — res-
gentil cavalheiro, Sr. Har- peitosamente, na testa —
dman cantarolar alguma imprescindíveis em um
consultório respeitável, e passa a mão na cabeça
coisa enquanto seguia de seus dois impecáveis
pelo corredor, escada ambos são belos objetos
decorativos – sobretudo a filhos, já sentados à mesa.
abaixo.
Srta. Menial! A refeição cheira mui-
— Oh, como eu nun- to bem e tem uma apa-
Pontualmente, às 13 ca havia reparado em rência espetacular, porém
horas chega ela: mulher tamanha formosura... a não lhe apetece; nada ali
bonita, cabelos e olhos palavra gostosa lhe é bem lhe apetece, e ao contrá-
extremamente negros. apropriada! - São tantos rio da comida, o cheiro e
Apesar do ar suave e os adjetivos que lhe vêm a aparência de sua esposa
sorridente, há algo mui- a mente, tantos os atra- lhe são repugnantes. E
to assustador naquela tivos que lhe pulam aos mais uma vez ele é to-
mulher e não é apenas a olhos, hormônios circu- mado por um impulso
grande borboleta tatuada lando em abundância febril, incontrolável e
em preto cobrindo-lhe e respostas fisiológicas violentamente esmurra a
o rosto. “Coisas assim previsíveis, que o Dou- esposa na cara. A força é
são comuns por aqui. tor nem mesmo percebe tamanha que a arremessa
Deve ser maquiagem, só a atitude gerada. Se vê ao chão.
pode!”, pensa a secretá- surpreendido... Ainda Abatido o primeiro
ria, enquanto a paciente mais surpresa fica a Srta. obstáculo, ele olha em
caminha serelepe e entra Menial: volta, ansioso à procura
direto no consultório, da próxima vítima. O
sem bater à porta e nem Ela se assusta com a
brutalidade com a qual filho corre para o quar-
mesmo esperar ser anun- to enquanto a pequena
ciada! ele a toma, grita confor-
me seu cabelo é puxado esconde-se debaixo da
Consulta muito breve, e geme quando seu corpo mesa. O que lhe traz um
menos de 15 minutos é jogado violentamente grande alívio:
e ela sai, com a mesma sobre a mesa. Teme, reage — Ah, nada como
graça assustadora com a brevemente, mas não filhos bem treinados!

26 SAMIZDAT dezembro de 2009


Filhos e cachorros! Que de vazio que um artista ...40 segundos depois...
maravilha! - E dizendo sente quando percebe sua Pronto: missão cumprida!
isto se levanta e vai até obra incompleta. Isto o
a geladeira em busca de inquieta.
uma refeição decente. O filho ouve o tiro, a
Ele percorre os cômo- filha encontra o corpo,
— Hm, sorvete! Queri- dos da casa, procurando a mulher limpa o san-
da, onde guardamos os por “sabe-se lá o que”. gue: Chão, parede, teto e
biscoitos? Ah, sua estaba- Confere atentamente espelho.
nada, o que faz no chão? sua agenda mental e de
Vamos, deixe-me levantá- repente percebe o que E a secretária cuida dos
la, assim, pronto! Você esquecera: “Obrigações detalhes:
está tão... Abatida, deveria profissionais, claro!” — Alô, é do jornal?
retocar a maquiagem, Ele sorri e caminha até Sim? Olá, aqui é a Srta.
como faz a Srta. Menial! o banheiro; abre o armá- Menial, eu gostaria de
E você menina, isso são rio e de lá tira uma caixa modificar o anúncio do
horas pra brincadeiras? de madeira relativamente Dr. Shoji – não, não, a
Saia já debaixo da mesa! antiga que ele nem lem- página está ótima! Isto,
Crianças... brava possuir, mas soube obituário mesmo, só
Ele se senta conforta- exatamente onde encon- precisamos de uma leve
velmente em sua poltro- trar. Abre a caixa, confere alteração no texto, assim:
na favorita e saboreia a o conteúdo e sorri nova- “Para que o seu nome
agradável e deliciosa re- mente, satisfeito por estar não esteja aqui amanhã,
feição de sorvetes, biscoi- intacto. Olha-se no espe- o meu está hoje
tos e confeitos coloridos! lho e diz para si mesmo: – DR. KAGAMI SHOJI
— Ah, que belo dia de — Só mais este tra- - amado pai e esposo”
trabalho! Quanta satisfa- balho e meu dia estará — Sim, é só isso. Ariga-
ção! completo! tou gozaimasu.
Ao terminar a refeição Recorda do que lhe
sente um enorme vazio — dissera a última paciente
que certamente não vem (sigilo profissional). Olha-
do estômago. É o tipo se ao espelho, sorri e...

http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/
O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada

ficina
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www.oficinaeditora.com
Contos

A dança dos imortais


Volmar Camargo Junior

28 SAMIZDAT dezembro de 2009


Um crime aconteceu
numa cidade provinciana. Os
policiais responsáveis pelo
caso, Inspetor Magalhães e
Inspetor Barbosa, estavam
na delegacia, fazendo plan-
tão como sempre. Tentavam
deduzir algo a partir dos
poucos fatos que tinham. Co-
çando a garganta, o policial
Magalhães preparou-se para
reler o primeiro boletim de
ocorrência, lavrado por ele
próprio na noite do crime.
— Recapitulando: “Orlan-
do Nogueira, o Orlandinho
assistia ao seu programa
de televisão favorito quan-
do ouviu à campainha soar
das vezes – o segundo toque
mais longo que o primeiro.
Reconheceu o código, embo-
ra houvesse muitos dias que
o autor, digo, a autora, não
comparecia à sua casa. Assim
que destrancou a porta, a
amiga, Mighellina Fonseca de
Alcântara e Silva, adentrou
muito aflita no apartamen-
to. Assim que entrou, disse
estas exatas palavras: “Eles...
querem... me... cal... argh!” Só
então Orlando percebeu que
Mighellina tinha as mãos, as
costas da jaqueta de couro e
o lado esquerdo do pescoço
manchados de vermelho vivo.
Sem aviso prévio, desfaleceu
com os olhos vidrados. Estava
morta.”
— Mas que bela porcaria,
Magal! Precisava desse dra-
ma todo? A delegada vai te
encher o saco. Bom, continua
teu raciocínio.
— Obrigado. A moça não
tinha inimigos, não era dada

http://www.flickr.com/photos/leah8691/2053099576/sizes/l/

www.revistasamizdat.com 29
a hábitos escusos, “Um doce!”, Os seus livros estão disponí- como diz o ditado balzaquia-
disse o tal Orlando. Também veis na internet, de graça. O no, a ficha caiu para o poli-
não fazia nada de extraordi- último tá aqui nesse site. cial. No teclado, pressionou
nário. Era uma pobre moça — Bah! Caso solucionado: simultaneamente as teclas
rica, que gostava de roman- quem mandou matá-la foi CTRL+L, e no campo locali-
ces de terror e que até se alguém grande do mercado zar escreveu
arriscava ela mesma a escre- editorial! “Eles querem me calar”
ver alguns.
— Acho que não é tão — Magal – gritou o Bar-
— Mas isso tem alguma simples assim, Barbosa. Dá bosa ao colega quando este
importância? – perguntou o uma lida nisso aqui. – disse, trazia as duas xícaras fume-
Barbosa. Magalhães, levantando-se de gantes – Você leu o último
— Ora, tem toda – respon- seu birô, apontando com a romance da dita cuja?
deu o Magalhães - Essa moça mão espalmada para o mo- — Qual? O do índio gua-
apareceu moribunda no nitor do PC. – Enquanto isso, rani que seqüestrou, torturou,
apartamento do amigo, e dis- vou fazer um café. Tá a fim? matou e esquartejou o José
se esta frase “Eles... querem... — Chá verde, para mim. de Alencar?
me... cal... argh!”. Alguém Café tem me dado uma azia...
queria calá-la. — Não, esse é o penúlti-
— Ok! Chá verde para o mo. Estou falando deste aqui,
— E como concluiu que Inspetor Barbie, que está de o do vampiro.
alguém queria calá-la? Ela dieta. Veadinho...
só disse “cal...”. Talvez fosse — Esse não estava aí. –
dessas piadinhas em inglês... — “Barbie” é a @#$%¨&;* disse Inspetor Magalhães,
“They want to me telefonar”. que te pariu! pulando curioso diante do
Sabe aquela: What is um Enquanto Magalhães foi monitor, com os olhos arre-
pontinho amarelo vendo até a cozinha da delegacia, galados. — Eu tenho certeza,
a esposa transando com o Barbosa acessou o link. Havia olhei a página na mesma
amante? Um Corn-o-manso! uma lista de quase trinta noite do crime... Eu até dei
romances de autoria da tal uma lida, e me admirei: a
— Puxa, Barbosinha... Às guria sabia escrever.
vezes eu tenho vontade de moça, o que o deixou em-
anotar o que você diz. basbacado. Escolheu o mais — Ah, é? E como ela dei-
recente, intitulado “A Dança xou passar isso aqui?
— Agora está sendo cíni- dos Imortais”. Conhecido
co... Então ela era escritora. O policial Barbosa selecio-
por suas técnicas de leitura nou o seguinte trecho:
E daí? dinâmica, quase sem piscar,
— Sim. Escrevia muito Barbosa leu ininterruptamen- (...) então, como uma tem-
bem, a propósito. te três capítulos do roman- pestade, os homens vestido
ce. Tinha um estilo notável, de preto começaram a ati-
— Conseguiu algum livro rarem contra a criatura, que
dela? muito claro e, ao mesmo
tempo, dotado de uma impe- ficou encurralado. Erguendo
— É lógico. Quer dizer, tal- cável correção gramatical. O o punho serrado em direção
vez não seja bem o que você romance de trezentas e treze ao holofote forte que quei-
está esperando. páginas digitalizadas tinha mava seu rosto com a luz
— Por quê? por enredo a vida de um intensa, o ser monstruoso
vampiro carioca, ambientada proferiu a plenos pulmões,
— Ela era defensora da pu- com um tom de voz gutural,
blicação on-line. Tinha uma no que hoje é o centro velho
do Rio de Janeiro, em finais demoníaco:
ONG e tudo, um lance muito
esquisito: “Biblioterrorismo”. do século XIX. Foi então que, — Eles querem me calar!

30 SAMIZDAT dezembro de 2009


Mas eu sobreviverei! Mesmo num vampiro. No terceiro — Magal! Magal! Pres-
que eu seje silenciado como capítulo, o tal Joaquim Maria ta atenção, meu filho! Essa
da vez passada, minha obra tornou-se um escritor famo- moça, a tal defunta, é um
ainda deixará a marca dela! so. Não pude resistir, e pulei embuste! Ela é uma “laranja
Minha obra revelará a verda- direto para o último capítu- intelectual”. Você não viu o
de sobre os Imortais. lo, onde encontrei a frase que jeito que ela escreve? É um
E tendo dito estas palavras, a Mighellina falou: o Joaquim horror! Ela até tem as idéias,
uma nova e longa saraiva- Maria criou uma sociedade mas quem escreve os roman-
da de tiros de metralhado- de vampiros-escritores que, ces dela de verdade é outra
ra abafaram a gargalhada na verdade, governam toda a pessoa.
horrenda da monstruosa indústria cultural no Brasil: — Mas quem?
criatura meia homem, meia os Imortais. Ele, o fundador, é
considerado o maior escritor Então, ouviu-se um baru-
morcego. (...) lho metálico, uma forte pan-
de todos os tempos; e não
— E então, o que você é para menos: seu talento é cada vinda detrás da porta
acha? devido a ele ser um vampiro, que levava à sala do Instituto
— Eu acho que esse trecho e os outros todos, para se Médico Legal, contíguo à
precisa ser reescrito com ur- tornarem “Imortais” da tal so- delegacia. E de novo. E de
gência... onde já se viu? “Vez ciedade secreta, precisam ser novo. E na quarta vez, a porta
passada”, “marca dela”! Nem transformados também. Não de aço voou contra a parede
eu escrevo tão mal! que todos tenham talento... oposta. Todas as luzes da
No fim das contas, o Joaquim delegacia apagaram-se. Um
— Você tem razão, mas guincho medonho foi ouvido
não estou falando disso. Você percebeu o quanto seus la-
caios se tornaram escrotos, e em todo o quarteirão onde
não acha muita coincidência ficava a delegacia.
que a mulher tenha morrido se arrependeu. Por isso é que
como uma vítima de... ele decide contar toda a ver- No dia seguinte, a faxinei-
dade para o mundo, dando ra desmaiou diante da porta
— De um vampiro? Tá da sala onde trabalhavam os
uma entrevista a uma jovem
doido? Que tipo de policial inspetores Magalhães e Bar-
escritora que abomina as
você é, Barbosa? bosa. Havia apenas restos de
práticas mercadológicas dos
— Do tipo que entende Vampiros de Fardão. Mas, corpos humanos, papéis em
alguma coisa de literatura. antes que ele concedesse tal desordem, o monitor do PC
— Pronto. Falou o especia- entrevista, os paus-mandados esmigalhado e, por todas as
lista. dos sanguessugas o encon- paredes, forro, cortinas, birôs,
tram, o perseguem e, por fim, arquivos, cadeiras, soalho. E
— Acompanha comigo: sangue, muito sangue.
acontece aquela cena que eu
pelo que eu li desse roman-
não terminei de ler porque A gaveta onde, até o início
ce, o personagem principal
tu chegou com o meu chá. da noite anterior, estava o ca-
é um certo Joaquim Maria,
Ufa! dáver etiquetado como sendo
mulato, filho ilegítimo de
uma escrava negra e um — Barbosa... essa é a his- de Mighellina Fonseca de Al-
comerciante carioca que tória mais ridícula que eu cântara e Silva, foi encontra-
conheceu uma cigana es- já ouvi. Eu achei que a tal da vazia. Ao seu redor, havia
panhola chamada Capitu. Mighellina fosse uma baita marcas de pegadas, como se
Essa cigana, na verdade, era escritora. Rapaz, até a minha fossem de um enorme ani-
uma vampira, que o sedu- filha de doze anos tem idéia mal bípede, que o rapaz da
ziu usando seus encantos, melhor pras aventuras de perícia, formado em biologia,
transformando-o também RPG dela. alegou serem muito pareci-
das com as de um morcego.

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Contos

Henry Alfred Bugalho

O Incrível Joaquim Maria

32 SAMIZDAT dezembro de 2009


Ontem morreu Joa- falava, gesticulava e até da corte, um dos quadros
quim Maria. Todos o brincava como se criança mais visitados da Galeria
conheciam, ele dispensa fosse; mas se o interlocu- Real.
apresentações, homem tor fosse um homem de
Podia manusear qual-
público, outrora amado ciência, ou um matemá-
quer arma de fogo se na
pelos nobres, idolatrado tico, ou um engenheiro
presença de militares,
pelo populacho. naval, Joaquim Maria
dançava como um pro-
falava sobre tais assuntos
A vida de Joaquim fissional se dançarinos o
com propriedade, como
Maria foi recheada de di- cercassem. O mais im-
se possuísse o mesmo
ficuldades, mas ele ven- pressionante, contudo, era
conhecimento, como se
ceu-as todas e se tornou o incompreensível dom
houvesse cursado todas
um símbolo para nossa de falar os idiomas dos
as faculdades e lido todos
nação, poucos indivíduos interlocutores: russo ao
os livros de tais matérias.
representaram tanto o conversar com um russo,
espírito de seu povo e de Se conversava com ou alemão com um ale-
sua época como Joaquim uma mulher, Joaquim mão, ou polonês com um
Maria. Maria afinava a voz, que- polaco, ou hebraico com
brava o pulso e fofocava um judeu.
E o que o tornou tão
sobre a vizinhança; se
célebre foram suas idios- Existiam boatos de que
fosse com um mendigo,
sincrasias. Ainda menino até o comportamento de
em pouco tempo tam-
elas começaram a se ma- animais Joaquim Maria
bém começava a esmolar,
nifestar, primeiro, de ma- era capaz de reproduzir
se fosse um capitalista,
neira discreta, mas após e testemunhas garantem
logo recitava de cor as
a tutela com o místico que ele já havia atacado
cotações das ações e
e sábio Roberto Alberto um carteiro na compa-
quais eram os melhores
Norberto, Joaquim Ma- nhia de cães e que, outra
investimentos.
ria aprendeu a controlar vez, durante a visita ao
seus comportamentos e Certa vez, ao deba- zoológico, a polícia teve
imediatamente se tornou ter com um astrônomo, grandes dificuldades para
um notável. Joaquim Maria descobriu retirá-lo dos galhos duma
um novo planeta; ou- árvore ao lado da jaula
http://www.flickr.com/photos/salaboli/3828791259/sizes/o/

Seus atributos eram


tra, discutindo com um dos macacos.
maravilhosos, mas o prin-
filósofo, Joaquim Maria
cipal deles era sua capa- Os sábios do reino
provou a existência de
cidade de dialogar com então se propuseram
Deus; escreveu três livros
qualquer indivíduo do uma missão: descobrir
após ter se encontrado
planeta, sobre qualquer o verdadeiro Eu de Joa-
com autores renomados,
assunto. Se se encon- quim Maria. Isolaram-no
duas óperas ao se reunir
trava com uma criança, completamente numa
com compositores e pin-
Joaquim Maria pare- sala espelhada e o obser-
tou, durante uma sessão
cia retroceder em anos, varam por semanas. No
particular com o artista

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entanto, Joaquim Maria deveria ser comparti- gênio de nossa época.
não esboçava nenhum lhado e, num intervalo
Escrevo este relato
tipo de comportamento, de três meses, escreveu
para que a memória dele
apenas permanecia senta- um livro expondo tudo
não se apague, e cito o
do, olhando seu próprio isto. Mas Joaquim Maria,
primeiro parágrafo da
reflexo. Mas num dia, agora repersonificado, era
obra que tornou Joaquim
subitamente, ele pulou da um crítico inclemente da
Maria o inimigo público
cadeira e começou a aba- sociedade, talvez o mais
número um, após ter sido
nar os braços e a correr, satírico de todos os tem-
o maior expoente do país:
em ziguezague, pela sala. pos, um comediógrafo
Foi quando constataram arguto e cruel da vida
que uma mosca havia se real.
infiltrado no cômodo. Contar mentiras é peri-
Em seu livro, ele difa- goso,
Mas ninguém ima- mava desde o Imperador
ginou que um dom tão até a prostituta, do ge- Mas falar a verdade
extraordinário seria a neral ao bobo da corte. pode ser fatal.
causa da própria des- Contava tudo, sem censu-
graça de Joaquim Maria. ra, sem dó, nem piedade.
Sem nenhuma explica-
É óbvio que Joaquim
ção, inadvertidamente,
Maria criou inimigos
Joaquim Maria se tor-
poderosos e tudo que se
nou uma pessoa normal,
falava à boca pequena era
como outra qualquer.
que o queriam morto.
Quer dizer, mais ou
Então, ontem à noite,
menos...
encontraram-no enforca-
Durante todos os anos do em seu gabinete.
em que Joaquim Maria
O comissário da po-
não passou dum repli-
lícia afirmou que não
cante, de algum modo
investigará o crime, pois
inexplicável, ele também
Joaquim Maria havia
havia tido acesso a todos
contado no livro sobre o
os pensamentos mais
caso extraconjugal que
secretos das pessoas com
ele mantinha com um
as quais havia conversa-
estivador; o Imperador
do. Joaquim Maria sabia
se recusou a comentar o
de tudo, desde os detalhes
crime; não havia testemu-
mais sórdidos até as con-
nhas; ninguém, a não ser
jeturas mais intrincadas.
eu, velho amigo de Joa-
Joaquim Maria decidiu quim Maria, compareceu
que tanto conhecimento ao sepultamento deste

34 SAMIZDAT dezembro de 2009


O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
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ficina
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Contos

Deus me perdoe,
era tudo o que eu queria
José Guilherme Vereza

http://www.flickr.com/photos/tay/4078728403/sizes/l/
O quarto tinha cheiro de só, tal a sofreguidão dos e domingo?
comida velha. A fumaça da beijos, apertos, passadas de - É a minha folga.
fritura vagabunda vinha do mão e entrelaços de pernas,
porão da espelunca, atraves- cambraias e linhos se rasgan- Ademar esfregou a testa,
sava o basculante e impreg- do, botões voando, gemidos, coçou a cabeça, vasculhou
nava tudo: as paredes, os len- muitos gemidos ecoando, o ambiente com os olhos.
çóis grossos, os travesseiros antes mesmo de a porta ser Estranhou tudo.
toscos, a cortina pesada de trancada pelas mãos hábeis - Margareth... é Margareth,
veludo que vedava a janela. da mulher. Não perderam não é? Me diga, minha filha,
Ao lado da cama, sobre o tempo. Uma vez trancafia- como foi que chegamos aqui?
criado-mudo, uma morin- dos, mergulharam um no
- De táxi, não lembra?
ga, dois copos e um abajur outro sobre a cama, num
empoeirado. No que se diz balé animal, aflito e ruidoso, - Não lembro. A bebida me
banheiro, o mínimo. Uma que não durou mais do que faz mal.
privada sem tampa, um cano o suficiente para Ademar se - Percebi. O senhor gozou
no lugar de um chuveiro e dar por satisfeito. rápido.
uma pia amarelada e torta - Como é mesmo o seu
no canto, um espelho redon- ***
nome?
do e duas toalhas aparente- Ademar estava zonzo.
mente limpas penduradas na - Margareth. Embora há tempos quisesse
maçaneta da porta. Ao longe, - Você vem sempre nesse viver um encontro arrisca-
vestígios de um rádio ligado lugar? do com sabe-Deus-quem,
sujavam o silêncio. Deveria não entendeu se deu conta
- Umas quatro vezes por
ser fim da tarde quando a do que fazia naquele lugar.
semana, tirando sábado e
porta se abriu e de lá surgi- O uísque ordinário tinha
domingo.
ram Ademar e uma moça, um efeito devastador e, aos
como se fossem um corpo - Você não trabalha sábado tropeços, tentou recolher as

36 SAMIZDAT dezembro de 2009


roupas que se espalharam discreta e nada curiosa. Faz tituta de luxo, que fazia vida
pelo chão. Apertou os olhos, parte da natureza do meu num belo apartamento no
tentando enxergar o que aca- negócio. Catete, mas perdeu tudo no
bara de cometer nos últimos - Não fale em negócio! Cassino da Urca. Por gratidão
instantes. Estamos aqui para viver uma e vocação, entrei nessa vida
- Como é que conheci paixão, um romance. para sustentar a tia e acabei
você? arrumando uma criança para
- Bravo! Que bela surpresa! dar mais trabalho, adivinha a
- Na mesa do Calypso. O Admitindo o nosso romance, quem?
senhor foi logo sentando e hein? Pelo que estou vendo o
perguntando quanto custava. uísque ordinário está perden- - A coitada da sua tia.
Nem teve a elegância de me do o efeito. Quer apostar que - A própria, pobrezinha. Na
perguntar o nome. agora sua cabeça vai virar verdade, não tenho o que me
- Elegância? uma bigorna? queixar, mas pela infância
- Tem água nessa pocilga? que tive com a velha tia Au-
- É. A gente costuma fingir rita, que não poupou a me-
que está começando a viver - Vira a moringa no copo lhor educação, os melhores
uma romance. e senta aqui no meu colinho. hábitos, os melhores livros e
- Romance? Vamos cuidar da ressaca que as roupas mais finas à so-
o tempo é uma criança. brinha órfãzinha, até que eu
- Por que não? Essa profis-
- Criança… criança…. merecia um bar melhor que
são me dá o direito de me
seu filho é menino ou meni- o Calypso. Merecia umas
iludir, iludir os clientes, ilu-
na? roupinhas mais chiques ,
dir o tempo, até o momento
merecia freqüentar um hotel
em que o dinheiro voa, voa, - Mas que observador!
no Lido, em Copacabana, no
voa e pousa na minha bolsa. Reparou minha cicatriz da
Flamengo, enfim, um lugar
- Quanto foi que combina- cesariana!
menos ordinário do que esse
mos? - E também seus bicos dos aqui na Mem de Sá.
- Não acabei o serviço seios escurecidos. Deve ter
- Não fale mal deste paraí-
ainda. O senhor me falou na amamentado de três a quatro
so. É o nosso ninho de amor.
mesa que queria me namorar meses, quando as glândulas
mamárias secaram. A par- - Por favor, vamos deva-
muito. Prometeu o céu, as
tir daí, a repetição de uma gar com as ilusões. Daqui a
estrelas, o universo. Prometeu
massagem assim e assado, pouco o senhor me paga, vai
me levar a um programa da
devolveu à dona esses dois para a casa e eu volto para
Rádio Nacional.
manjares, que agora repou- o Calypso, para mais uma
- Não, minha filha. Não sam sob minhas mãos. rodada no meu taxímetro.
considere o que eu disse.
- Então, já que o senhor - Mas enquanto daqui a
Nem eu considero o que eu
descobriu que sou mãe… pouco não chega, vamos
disse.
adivinhe se a criança é filho aproveitar esse pouco que
- Vem cá, senhor, relaxe. ou filha da puta… nos resta.
Não me deixe com saudade
- Que palavreado horrendo! ***
de ainda há pouco. Tenho
muito trabalho gostoso pela Mas eu perdôo. Você é muito Algumas horas antes, a
frente. graciosa, mãezinha responsá- moça chegava ao Calypso,
vel. Com quem fica a criança bem antes da fervura do
*** quando você trabalha? local. O bar de encontros
- Dessa vez o senhor demo- - Com minha tia. Tenho começava a ficar interessan-
rou mais a gozar… está se uma vida muito difícil. Perdi te a partir das seis e meia,
acostumando comigo? meus pais muito cedo. Mi- quando senhores vetustos de
- Não, minha filha… nha mãe morreu tísica logo jaquetão e relógios de bolso
estou sendo empurrado por que nasci. Meu pai, no auge deixavam a fineza na calça-
sei-lá-o-quê para dentro de da mocidade, se meteu numa da e se esborrachavam no
você… sem comentários, briga na Galeria Cruzeiro. uísque ordinário servido em
nem perguntas. Por favor. Foi esfaqueado e não resistiu. pequenas mesas de tampo de
Fui criada por uma tia, pros- mármore, quase sempre já
- Não se preocupe. Sou

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preenchidas por duas – ou às *** gozou?
vezes três – raparigas dispo- - Deus me perdoe… era - Fique com a dúvida. Essa
níveis. Ocupando uma boa tudo o que eu queria. dúvida é que faz com que
mesa, bem perto da entrada, meus clientes voltem sempre.
a moça queria logo ser vista - Ouvi bem o que o senhor
disse? Essa dúvida me excita. Essa
e desejada pelo primeiro dúvida é o fio que separa a
cavalheiro que da porta sur- - O que eu disse, minha paixão da hipocrisia.
gisse, desde que cumprisse filha?
seus caprichos e requisitos. - Você fala de um jeito que
- Algo como “Deus me não parece que é o que você
Foi abordada pelo garçom,
perdoe… era tudo o que é.
que estranhou sua presença
eu queria”.
ali, naquele momento tão - Não subestime o que
adiantado. Mas como bom - Digamos que o que você eu sou. Só porque sou uma
anfitrião, deixou-a completa- ouviu foi apenas um golpe mulher fácil e achada numa
mente à vontade, além de lhe de ar que partiu involun- mesa do Calypso não posso
acender um cigarro e servir tariamente do esôfago, pas- pensar na minha condição?
um drinque de boas-vindas. sando pelas cordas vocais, e, Não basta ser puta? Tem que
no encontro do palato e da ser puta e burra?
No piano, um tipo quase
língua em ligeiro movimento,
imberbe, cabelo de glos- - Puta, não! Aqui dentro
produziu um efeito asseme-
tora e colarinho troncho, você não é puta! Está no
lhado a um som indecifrável,
mal dedilhava um bolero, nosso contrato viver um ro-
que poderia sugerir algumas
enquanto fumava um mata- mance de duas ou três horas.
palavras. Nada que a cons-
rato impertinente, tão denso, Ainda faltam alguns minutos.
ciência tenha comandado.
mas tão denso, que pouco se E, por enquanto, nós somos
Portanto, se disse, não disse o
enxergava o balcão às suas dois amantes sem pudores,
que você supõe que eu tenha
costas, de onde a moça viu que se escondem da vida
dito…
surgir um vulto cambalean- num quartinho de um ho-
te em sua direção, que, sem - Para. O senhor, você, seja tel. E por isso se desejam, se
cerimônia – ou sem conheci- lá como quer ser chamado, lambuzam, se querem bem.
mento dos estatutos do local me enrola. Diz que não diz Isso é o que vale. O aqui e o
–, sentou-se ao seu lado e foi o que diz. Diz que não diz neste momento.
logo colocando a mão direi- o que pensa e o que sente.
Mas não pode dizer o que - Pára de falar…, - a
ta na sua coxa. Sem dúvida,
sente senão estraga tudo. Até moça afrouxou a voz. - Estou
uma intimidade de provocar
entendo. Estamos aqui num com vontade de fazer tudo
arrepios.
teatro, aqui está o palco, ali de novo…
A conversa durou pouco.
está a platéia naquele espe- Ademar baixou a guarda.
Mal se apresentaram, mal se
lho, formada por nós mes- - Diz “estou com vontade
enxergaram. Não chegaram a
mos. Aqui, o cenário: uma de fazer tudo de novo”, diz. É
trocar nomes, mas acertaram
cama suficiente, onde você vontade mesmo ou é fingi-
uma saída urgente, já que
deposita seu carinho animal mento?
um lugar mais aconchegante
dentro de mim e eu o recebo
e discreto poderia ser mais A moça põe, entre os den-
com braços e pernas aber-
apropriado para escoar toda tes e a pontinha da língua,
tas, como se fossemos dois
a excitação. No táxi, beija- a orelha do parceiro. E diz,
amantes em pleno gozo do
ram-se com sofreguidão e só rouquíssima:
amor, da paixão, do compa-
pararam quando o motorista
nheirismo, da cumplicidade, - Pois fique com a dúvida...,
estacionou na porta de um
como manda o figurino dos a-do-ro a dú-vi-da.
prédio chinfrim na Mem de
grandes amores. E tem mais:
Sá. Ao analisar o hotel do ***
duvido que você não duvide
telhado ao meio-fio, o cava- As duas horas combinadas
da minha sinceridade. “Será
lheiro balbuciou para si, com passaram voando. Ademar
que ela goza? Sera que ela
bafo de uísque ordinário: excedeu o tempo e nem quis
finge?” Quer apostar como
“Deus me perdoe… era saber o quanto pagaria a
isso não sai da sua cabeça?
tudo o que eu queria.” mais. Os instantes tinham
- Mas você gozou, não
sido tão generosos, que, fosse

38 SAMIZDAT dezembro de 2009


o que fosse o que estivesse - Alguém, assim, tão indi- em casa, abraçar as filhas,
registrado no taxímetro da gente? beijar a mulher, que, dormin-
moça, seria um dinheiro bem - Não. Alguém dos Santos. do, não perguntaria porque
despendido, um investimen- Um quarentão grisalho, feroz chegou quase à meia-noite. E
to no escuro com retorno e carinhoso, um pouco abe- assim o fez. Deitou na cama
farto de energia e auto- lhudo pro meu gosto. Investi- sem fazer barulho e custou
estima. Embora sentimentos gou minhas cicatrizes, exami- a adormecer. Ainda com o
de culpa e remorsos não nou meus mamilos, cheirou cheiro da moça no corpo,
tenham aparecido, Ademar meus cheiros, escarafunchou caiu num sono profundo
já sentia o ímpeto de abrir meus recintos secretos. Mer- e restaurador, como nunca
a carteira, acertar o negócio gulhou em mim como um tinha dormido antes.
e sair correndo atrás de um cliente íntimo e freqüente, e ***
táxi, até chegar aos braços e que teve a coragem de sair
abraços das suas filhas, que – A moça deixou o hotel
daqui com meu perfume no sozinha e flutuando nas
adolescentes que eram – não seu corpo.
costumavam dormir cedinho nuvens. Nada que abalasse
como bem recomendado às - Não. Eu não tive coragem seu estado moral, mas en-
crianças. é de entrar naquele chuveiro. trou num táxi com as veias
- E ainda por cima, bem e artérias dilatadas, por onde
- Minha filha, acho que fluíam sentimentos e sensa-
está na hora… dotado de senso de humor.
ções de bem-estar inédito
- Não estou ouvindo mais - Está aqui o que devo. Por e encantador. Precisava – e
o rádio. favor, não conta agora não. como precisava – ter vivido
Fico meio sem jeito, não esse despudor pelo menos
- Me recuso terminante- estou acostumado com essas
mente a entrar nesse chuvei- uma vez na vida. Não pensa-
coisas. É mais do que você va em retornar ao Calypso,
ro nojento. pediu. É menos que você onde nunca tinha ido antes.
- Vai sem banho. Chegue merece. O que mais queria agora era
em casa com meu cheiro no - Já descobri o seu nome. chegar em casa, abraçar os
corpo. Os suores e perfumes Você é Alguém. Alguém com filhos e beijar o marido, que,
do sexo são divinos, abenço- sobrenome bonito: Alguém meio dormindo, inevitavel-
ados e inocentes. Pior seria dos Santos. Alguém com mente perguntaria:
um batom na camisa, um sobrenome comprido, como
chupão no pescoço. Quanto - Tudo bem, Maria Cristi-
os nobres e incomuns. As- na? Tia Judith está melhor?
a isso, pode ficar tranqüilo: sim: Alguém Muito Especial
sou muito cuidadosa. Cavalheiro dos Anjos e dos - A enfermeira custou a
- Sábia, você é sábia... Santos. Muito prazer, Marga- chegar. Por isso cheguei tão
reth. tarde.
- Você não me disse o seu
nome. *** E assim aconteceu. Maria
Cristina deitou na cama sem
- Meu nome? Ademar deixou o hotel fazer barulho, custou um
- Também não quero saber. sozinho e flutuando nas pouco a adormecer. Ainda
As colegas do Calypso vão nuvens. Nada que abalasse enfeitiçada por ter sido Mar-
me perguntar com quem fiz seu estado moral, mas en- gareth por algumas horas,
o programa e eu vou dizer trou num táxi com as veias caiu num sono profundo e
com Ninguém. “Saí com Nin- e artérias dilatadas, por onde restaurador. Como nunca
guém que deu uma bimbadi- fluíam sentimentos e sensa- tinha dormido antes.
nha e me largou num cafofo ções de um bem-estar inédi-
da Mém de Sá, com uns to e encantador.
trocadinhos na bolsa. Fujam Precisava – e como precisa-
de Ninguém. Ele trepa mal e va – ter vivido esse despudor
paga pior ainda.” pelo menos uma vez na vida.
- Definitivamente você não Não pensava em retornar ao
saiu com Ninguém. Calypso, onde nunca tinha
ido antes. O que mais queria
- De fato: saí com Alguém. naquele momento era chegar

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Contos

Noite de chuva
Mariana Valle

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40 SAMIZDAT dezembro de 2009


Ela andava por um beco todinha. quatro e retomou os tra-
escuro. Passos apressados, - Por favor... balhos cada vez com mais
com medo. A capa de chu- força.
va cobria o collant e a calça - Ai, pede, pede mais que
eu fico louco. Ela não sabia se chorava
suada que ela usara na aca- ou se gemia.
demia. Acabara de voltar da - Me deixa ir...
aula de dança. Nada a fazia - Ai... por favor...
- Que barriguinha...
mais feliz do que aquela - Vamos parar com essa
hora e meia de aula... E foi - Socorro! educação? Me manda meter,
quando se lembrou da co- Com violência, ele ta- vai.
reografia do dia que ela se pou sua boca e puxou seu - Como assim?
deparou com um moreno cabelo.
forte e mal-encarado. - Manda logo, porra.
- Olha aqui, gostosinha.
- Tá sorrindo pra mim é, Gemer pode, mas gritar - Mete.
lindona? não. Assim eu perco a paci- - Assim não, tá muito
Ela tentou avançar, sem ência. fraco. Quero ouvir alto.
sucesso. Aqueles braços E isso parece que o dei- - Meeeete.
musculosos e sujos de graxa xou com mais tesão ainda, - Mais forte.
impediam seu caminho. pois num minuto ele rasgou
o collant e colocou o seu - Mete!
- Onde você pensa que
vai, boneca? membro naquele buraco - Ta melhorando. De
quentinho. novo.
- Você não tem nada a
ver com isso. Dá licença, - Hum, sua safada. Tá - Mete, cacete.
por favor? molhadinha, hein? Tá gos- - Isso! Assim que eu
tando do papai aqui, tá? gosto.
- Hummm. Que educa-
ção. Olha aqui garota, saiba - Me deixa ir embora - - Mete logo essa porra!
você que eu tenho tudo a dizia ela cerrando os dentes
e arranhando a lataria do - Hummm.
ver com isso, porque você
vai comigo agora praquele carro onde estava deitada. Era o que faltava pro
cantinho. - Eu deixo, mas antes vou garanhão gozar.
E dito isso ele já foi em- fazer a festa, sua cadela - - Agora pode ir, cadela. E
purrando-a para o ambiente disse o moreno dando um não esquece: você nunca me
sujo, fétido e escuro. tabefe naquelas fuças. viu na vida, hein? Sei onde
- Ai, não precisa me ba- você mora e vou infernizar
- Não, por favor, me
ter. Eu fico quietinha. tua vida se tu der com a
deixa ir embora. Eu te dou
língua nos dentes.
todo o meu dinheiro, toma. - Ah vai ficar quietinha,
É seu. é? Mas eu não quero não,
- Quem disse que eu sua piranha. Quero te ver Em casa, já no chuveiro,
quero grana, princesa? Eu gemendo, gritando. Quero ela não conseguia esquecer
quero você. te ver gozando, vai. o que tinha acabado de
- Por favoooooor... acontecer. E nunca contou
- Por favor...
pra ninguém, nem pra sua
E nisso ele já tinha aber- - Isso vai, assim que eu analista. Mas todo dia de
to a capa e já abaixava a gosto. Já está até perdendo noite sonhava com o tal
alça do collant. a voz. moreno. E acordava com o
- Não, por favor... - Me deixa ir embora... lençol encharcado.
- Hum, que peitinho - Sem acabar o serviço?
gostoso. Vou mamar você Dito isso, ele a virou de

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Contos

Léo Borges

Invasão nas ondas médias


– Doces ou travessuras? pelas ruas, ignorando a – Mulher, você não vai
– Como “doces ou tra- batalha incipiente, fidedig- acreditar! Notícias e mais
vessuras”? Como seus pais namente transmitida pela notícias sobre a assombrosa

http://www.flickr.com/photos/scatterkeir/2436938431/sizes/l/
deixam vocês soltos numa Rádio CBS. invasão marciana e idiotas
noite como esta? Não estão O militar estava transtor- vestidos de diabos e bruxas
ouvindo as notícias? nado. Participara da guer- aí fora desfilando!

O tenente Mark Budd ra de 1914 no apoio dos Rose Budd, assustada


não entendia como algu- Estados Unidos à Tríplice desde que sintonizaram o
mas crianças mantinham Entente como soldado raso, drama nas ondas médias,
as inocentes brincadeiras onde sofrera ferimentos de via sua aflição aumentar
do Dia das Bruxas mesmo todo o tipo (além do psico- gradativamente com o
com a tensão que pairava lógico abalado pela morte pânico disseminado pelo
sobre aquele 30 de outubro. dos colegas de farda) e ago- professor Pierson, codinome
Capetas e vampiros desavi- ra se via novamente frente do produtor radiofônico
sados ainda perambulavam à outra, talvez ainda mais Orson Welles. Este nar-
devastadora. rava o estranho episódio

42 SAMIZDAT dezembro de 2009


de OVNIs que invadiam o destas conexões políticas, a deiras nas portas e janelas!
espaço aéreo americano e, paz vigorará inexoravelmen- – berrou a mulher, nervosa
vez por outra, abria espaço te neste planeta no início da com o marido.
para que gritos histéricos nova década... Rose saiu sem olhar para
de repórteres e de pessoas – Ora, Rose – interrom- trás. O dever de cuidado
sendo caçadas por insuspei- peu Mark –, estamos viven- com seus pais era maior do
tos seres esverdeados fos- do uma guerra dos mundos que o temor por encontrar
sem levados a toda a nação. e você muda o dial para bizarros ETs pela frente.
Muito longe de ser uma alguém falando em “paz na Corria aos tropeções sob os
tragédia comum, aquilo era nova década”?! Não sabemos olhares atônitos de pessoas
uma impensável ocorrência nem se vamos estar vivos escondidas em suas casas,
extraterrestre. Alienígenas em 1939! Quem quer saber agora transformadas em
estavam atacando o mundo sobre Nobel da Paz neste verdadeiras fortalezas.
e a tecnologia dos novos momento? Volte para a CBS!
aparelhos de radiofreqüên- No meio do caminho,
cia servia apenas para que A história da guerra chorou. Com tanta tecnolo-
o medo se espalhasse mais interplanetária ganhava gia bélica o homem ainda
rápido. força no boca a boca e as era incapaz de fabricar
ruas, aos poucos, se esva- armas que evitassem um
– Meu Deus, Mark! Es- ziavam, com os foliões, em problema de tal magnitude.
tamos nos curvando para fuga, abandonando suas Mas, esperar o quê de seres
esses seres de Marte! fantasias. Welles era enfáti- que constroem um opulen-
O tenente Budd, procu- co ao informar que muitos to e, afirmado pelas autori-
rando ripas no sótão, não já haviam sucumbido ante dades navais, extremamente
ouviu o comentário. Estava os raios de esquisitas ar- seguro navio para, logo
mais preocupado em en- mas e os que ludibriavam em sua primeira viagem,
contrar objetos que pudes- a morte eram, de qualquer afundar? Isso sem falar na
sem ajudá-lo a lacrar as modo, cooptados e tinham bestialidade da sangrenta
possíveis entradas, dificul- a consciência subtraída; o guerra – esta puramente
tando, assim, o acesso dos Halloween, de mera ficção, humana – de vinte e quatro
inimigos verdes à sua casa. ganhava personagens reais. anos atrás. O mundo estava
Ainda incrédula, Rose mu- Rose, subitamente, lembrou- mesmo perdido. Talvez a
dou de estação para ouvir o se dos pais, idosos, morado- invasão dos marcianos não
que outras rádios poderiam res do quarteirão vizinho. fosse de toda ruim. Iriam
estar falando sobre o terrí- – Vou ver meus pais – destruir essa medíocre e ig-
vel acontecimento. Captou disse e saiu por uma janela nóbil civilização e criariam
uma estação com notícias que ainda não fora vedada. uma nova, mais inteligente
internacionais: e justa.
– Está louca?! Quer ser
A poetisa Gertrude Stein abduzida? Eles estão bem! Num átimo, Rose se
continua defendendo a Meu sogro não saiu de casa enxergou ao lado de um
entrega do Nobel da Paz de nem para saudar Roosevelt dos dominadores esmeral-
1938 ao líder alemão Adolf em seu comício! Não é ago- dinos, quem sabe o mais
Hitler. Este posicionamen- ra, no meio dessa calamida- robusto e poderoso, alguém
to é compartilhado por de, que o velho vai botar a que fosse o mentor de toda
Chamberlain, que acredita cara na rua. a invasão. Um giro rápido
nas promessas deste novo e confuso de recordações
ícone mundial. Robert – Você é das Forças Ar- entrecortadas fez deste pen-
Kolgest, analista geopolítico madas! Devia estar fazendo samento um paralelo com
presente aqui em nossos alguma coisa além de se seu casamento e de como
estúdios, crê que, através acovardar escorando ma- o condicionara à ascensão

www.revistasamizdat.com 43
de Mark no meio militar. A do? Não é possível! – balbu- aquela aparição, Rose acei-
convicção de que somente ciou Rose para si mesma. tou a ajuda e, lentamente,
amor não mantém relacio- – Aquele alemão que está ergueu-se.
namentos (muito embora concorrendo ao Nobel da – Doce? Travessura? Meu
não admitisse ser taxada Paz deveria se pronunciar. senhor, ainda brincas de
como uma pessoa materia- Vir a público para dar al- Halloween? Que calma é
lista) sempre a acompanhou guma esperança às pessoas. essa?
e, por isso, acreditava que Falar sobre algum projeto
estar perto dos vencedores para eliminar essa praga – Desconfie do que ouve
era um meio legítimo de sideral que assolou o mun- e tenha cuidado com os
proteção e, por conseguinte, do... verdadeiros invasores – dis-
de sobrevivência. se, com paciência, o miste-
Desanimada e sem fô- rioso sujeito, afastando-se,
Mas o desvario, revesti- lego, Rose caiu ajoelhada, logo após, num calmo
do por uma grotesca carga olhando para o firmamento vagar. Antes, porém, deixou
libidinosa, a fez corar de e clamando por Deus; o céu um livro sobre a abóbora
vergonha e entender que estava limpo, mas a luz das com os dizeres: A Guerra
aquilo era pecado não ape- estrelas parecia ocultar o dos Mundos – H. G. Wells.
nas macabro como também brilho dos discos voadores.
digno de severo castigo. O Em sua frente, repousan- A simples presença
remorso obrigou-a, então, do no asfalto, apenas uma daquele exemplar ilumi-
a correr ainda mais rápi- sarcástica e oca abóbora, nou a mente de Rose de
do, como se, agora, lutasse vazada com seu indefectível tal modo que a escuridão
para escapar dos insidiosos sorriso demoníaco. Os inva- de desconfianças dissipou-
flashes que açoitavam sua sores esperaram o Hallowe- se de imediato, permitindo
mente. Enquanto corria, en para poder concretizar o que o silêncio noturno
viu restos de capas, más- plano. Nada mais perfeito: rapidamente invadisse seus
caras mortuárias e cruzes bruxas e marcianos. Era ouvidos. Não havia nenhum
de madeira esquecidas nas isso! Eram seres realmen- ruído de armas estelares
calçadas. Ninguém nas ruas te evoluídos. Estudaram o ou de monitoramento do
além dela e de sua sombra comportamento e as tradi- espaço terrestre; não havia
criada pelos antigos pos- ções dos humanos por anos! naves; não havia marcianos;
tes de ferro do subúrbio Uma noite como aquela, não havia invasão. Mas ain-
de Nova Jersey. Durante a onde todos festejavam o da assim a mulher sentiu
sôfrega correria, a mulher Mal, era perfeita para a as pernas tremerem, pois
passou perto de uma casa conquista da Terra. a calmaria, de tão mórbi-
que também ouvia, em alto da, gerou-lhe um súbito e
Rose, já sem esperanças intenso calafrio. Quem era
som, o noticiário que vinha em uma vitória da Humani-
tirando sua paz: aquela pessoa?
dade, chorava copiosamente
Pierson, eles estão che- quando um soturno homem – Qual o seu nome, cida-
gando à Manhattan. São de terno surgiu em sua dão? –
­ indagou com algum
muitos e são hostis. Nossa frente, oferecendo o braço receio.
correspondente em Detroit para ajudá-la a se levantar. De longe, sem se virar, o
foi atacada e virou um – Q-quem é você? homem respondeu:
zumbi. Vou suspender a – Kane.
transmissão. Nick Rogers – Pegue esse pão embe-
diretamente de Nova York. bido em groselha. Um doce
Que Deus nos proteja... aliviará seu pânico pela
travessura.
– Como? Como é que
isso pode estar acontecen- Mesmo estranhando

44 SAMIZDAT dezembro de 2009


O lugar onde
a boa Literatura ficina
é fabricada
www.oficinaeditora.com

http://www.flickr.com/photos/27235917@N02/2788169879/sizes/l/
A Oficina Editora é uma utopia, um não-
lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como uma
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão ­cultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

www.revistasamizdat.com 45
Contos

Alô, Waldirene?
Barbara Duffles

46 SAMIZDAT dezembro de 2009


1: Seu problema é 2: Ah, me ajude, então,
autoboicotismo crônico, o que eu devo fazer?
senhor.
1: Para começar, pare
2: E o que seria isso? de ligar para mim. Eu
não posso lhe ajudar.
1: Simples. O senhor
sabota sua vida. Coloca 2: Mas a sua voz me
empecilhos para justifi- acalma.
car sua depressão – que
eu inclusive acho que o 1: O senhor não tem
senhor saboreia. amigos? Precisa impor-
tunar uma operadora de
2: Eu saboreio minha telemarketing todos os
depressão?? dias?
1: Sim. No fundo, o 2: Você é minha única
senhor gosta de ser um amiga, Waldirene.
loser. Chorar suas pitan-
gas para os amigos, dizer- 1: Eu nem sei seu
se impróprio para a vida. nome, senhor. Com licen-
ça, preciso atender outra
2: Mas eu sou mesmo. ligação.
Minha vida não caminha.
Vejo os outros correndo 2: Alô??? Waldireneeee!
por fora. Eu não luto e
nem tenho forças para
tal.
1: Loser, senhor.
2: Pare de me chamar
de loser!
1: Não grite comigo,
senhor.
2: Eu quero morrer. E
vou fazê-lo esta noite.
1: Isso é egoísmo, se-
nhor. Pense no sofrimento
dos que vão ficar.
2: Então vou para um
mosteiro. Vou me enclau-
surar.
1: É uma maneira
covarde de fugir da vida,
não acha?

http://www.flickr.com/photos/lwr/438474635/sizes/l/

www.revistasamizdat.com 47
Contos

68, o ano que nem começou


Big Bang Microcósmico- Capítulo 2
Dênis Moura

48 SAMIZDAT dezembro de 2009


Em Nova York, um for- alvo de todos ao seu redor:
migueiro humano fervilha a sede da ONU.
por dezenas de quartei-
Um detetive...
rões da estação de metrô Muitos carregam faixas
e cartazes, mas Helenice, Uma loira gostosa...
Queensboro Place até as
margens do rio East River. tal qual alguns, carrega um
disco preto nas mãos. O Um assassinato...
As águas são escuras, o ar
é pesado, malcheiroso e que eles querem é apenas
quente. Os galpões indus- consumar um ato simbó-
triais foram transformados lico, já efetuado em quase E o pau comendo entre
em acampamento. Milhares todas as partes do mundo: as máfias italiana e
de pessoas afunilam-se na depositar um disco holo- chinesa.
­
ponte Queensboro, ocupan- gráfico em cada assento que
do-a completamente. Ou- tenha sido ocupado por um
tra multidão, bem menor, poderoso.
bloqueia o acesso à ilha de Por todos os lugares do
Manhattan. Todos os tú-
neis e demais pontes foram
mundo, de um lado, ses-
senta famílias controlando
O Covil
igualmente bloqueados, tan- toda a riqueza do planeta
to os da Grande Ilha quanto
os do continente. O cerco à
enquanto seus aparatos
de poder reagem violenta-
dos
Manhattan já dura meses.

Aproximo-me até dis-


mente ao que chamam de
desordem das massas. Do
Inocentes
cernir construções, veí- outro, milhões de pessoas
culos e rostos. As pessoas invadem no mesmo instante www.covildosinocentes.blogspot.com
compartilham grandes os gabinetes corporativos
cilindros azuis de oxigê- e governamentais. São os
nio, revezando as mascaras braços de três bilhões de
constantemente. Encostada sobreviventes que se organi-
no alambrado amarelo da zam mundialmente através
ponte, embaixo das grandes da Grande Rede e delibe-
armações de aço, reconheço ram regras para regular a
a face de uma mulher idosa desordem esgotadora de
com uma familiar meia lua pessoas e natureza que
no centro da testa. Quantas perdurou por mais de cinco
http://www.flickr.com/photos/spaceflattener/487648649/sizes/o/

décadas sem reencontrá-la? séculos.


Helenice, no meio da ponte
W, olha para a esquerda,
entre as duas velhas chami- http://bigbangmicrocos-
nés da Marupi e um painel mico.blogspot.com/
holográfico na margem do
rio onde a defasada frase
“Happy 2068 New Year” tre-
mula falhando. Seus olhos do
vão além do extremo sul w
da ilha Roosevelt Island sob gr nl
át
oa
a ponte. Desejam o mesmo is d

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Tradução

E faz de conta...
Miguel de Unamuno
trad.: Henry Alfred Bugalho

50 SAMIZDAT dezembro de 2009


A Miguel, o herói de meu dois. Era, pois, herói o meu suas entranhas. E isto de
conto, um haviam lhe pedi- Miguel, a quem Emilio lhe sacar contos do fundo das
do. Herói? Herói, sim! E por pediu um conto, e era herói entranhas, isto de converter
quê?— perguntará o leitor. o meu Emilio, que pediu o em literatura os mais ínti-
Pois, primeiro, porque quase conto a Miguel. E assim vai mos tormentos do espírito,
todos os protagonistas dos avançando este que escrevo. as mais espirituais dores
contos e dos poemas devem Quer dizer, da mente, ó, sobre isto!...
ser heróis, e isto por defini- Sobre isto, tanto já falaram
ção. Por definição? Sim! E se os poetas líricos de todos
não, vê-lo-emos. Sem perceber, seguem os os tempos e países, que nos
dois adiante. resta já muito pouco por
P. — Que é um herói?
dizer.
R. — Alguém sobre o
E logo os contos de meu
qual se pode escrever um E meu herói, diante das herói teriam para os leitores
poema épico, um epinício, folhas brancas e amarele- habituais de contos — os
um epitáfio, um conto, um cidas, olhos fixos nelas, a quais formam uma classe
epigrama, ou mesmo uma cabeça entre as palmas das especial dentro do gênero
manchete ou uma mera mãos e cotovelos sobre a dos leitores — um gravíssi-
frase. escrivaninha de trabalho mo inconveniente, que é o
— e com esta descrição me de não haver argumento, o
Aquiles é herói porque
parece que o leitor estará que se chama argumento.
fê-lo Homero, ou quem
vendo-o muito melhor do Dava muito mais impor-
quer que fosse, ao compor a
que se o visse ilustrado —, tância às pérolas do que ao
Ilíada.
dizia para si: “Bem, sobre o fio em que estão inseridas,
Somos, pois, os escrito- que escrevo agora o con- e para o leitor de contos o
res — ó nobre sacerdócio! to que me pedem?” Vixe, importante é a ação, assim
— quem para nosso uso e escrever um conto alguém com “a”, e não ilação, com
satisfação criamos os heróis, que, como eu, não é contis- “il”, como nos esforçamos
e não haveria heroísmo se ta de profissão! Porque há em escrever, os mais ou
não houvesse literatura. Isso o romancista que escreve menos latinistas que pensa-
de heróis ignorados é uma romances, um, dois, três ou mos ser, e ensinar que este
lengalenga para consolo dos mais ao ano, e o homem vocábulo deriva de infero,
simplórios. Ser herói é ser que os escreve quando eles fers, intuli, illatum. (Não se
cantado! brotam de si. E eu não sou esqueçam que sou um ca-
um contista!...
http://life.qoop.com/images/110978588

E, ademais, era herói o tedrático, e por sê-lo meus


Miguel de meu conto por- E não, o Miguel de meu filhos comem, mesmo que,
que lhe haviam pedido um. conto não era um contista. vez ou outra, merendem de
Aquele a quem se lhe pede Quando, por acaso, fazia- um conto perdido)
um conto é, pelo mesmo os, sacava-os, ou de algo
fato de sê-lo pedido, um que, visto ou ouvido, havia
herói, e aquele que o pede ferido-lhe a imaginação, E estou na metade de ou-
é outro herói. Heróis os ou das mais profundas de tra página.

www.revistasamizdat.com 51
daquelas, é o que dizia o que ele escrevia. Haja visto
famoso melodramaturgo pretensão semelhante!
Para o herói do meu
d’Ennery: “Em um drama
conto, o conto não é senão Permita-me o leitor que
(e quem diz drama, diz
um pretexto para obser- interrompa um momento
conto), o importante são
vações mais ou menos o fio da narração de meu
as situações; componha
engenhosas, fragmentos de conto, faltando ao preceito
você uma situação patéti-
fantasia, paradoxos, etc., literário da impessoalidade
ca e emocionante, e pouco
etc. E isto, francamente, é do contista (veja a Cor-
importa o que nela digam
rebaixar a dignidade do respondance de Flaubert,
os personagens, porque o
conto, que tem um valor em qualquer de seus cinco
público, quando chora, não
substantivo — creio que se volumes Oeuvres comple-
ouve”. Que profunda obser-
diz assim — em si mesmo e tes, Paris, Louis Conard,
vação esta de que o público,
por si mesmo. Miguel não libraire-éditeur, MDCC-
quando chora, não ouve!
cria que o importante era o CXX), para contestar essa
Um sujeito que havia sido
interesse da narração e que pretensão ridícula do herói
apontador do grande ator
o leitor fosse dizendo para de meu conto de que seu
Antonio Vico me dizia que,
si mesmo a cada momento: público se interesse pelo
representando este uma vez
“E agora o que virá?”, ou: “E que ele escreve. É que não
A morte civil, quando entre
como isto acabará?” Sabia, sabia que a maioria das
dois assentos fazia que mor-
ademais, que há quem co- pessoas lê para não se in-
ria, e as senhoras o olhavam
meça um destes romances teirar? Fartos estão cada um
com binóculos para cobrir
enormemente interessantes, com suas próprias penas,
com eles as lágrimas e os
vai ver nas últimas páginas seus próprios pesares e
cavalheiros fingiam que
o desfecho e já não o lê cavilações para que venham
assoavam para enxugá-las, o
mais. lhes enfiar outras! Quando
grande Vico, entre soluços
eu, de manhã, à hora do
Por isto, acreditava que estertóricos e frases entre-
chocolate, pego o jornal do
um bom romance não cortadas de agonia, estava
dia, é para me distrair, para
deve ter desfecho, como dando a ele, ao apontador,
passar o tempo. E conhe-
não tem, ordinariamente, umas tarefas para a conta-
cido é o aforismo daquele
a vida. Ou devia ter dois doria. O que precisa é saber
sábio granadino: “A questão
ou mais, expostos em duas fazer chorar!
é passar o tempo”; ao que
ou mais colunas, e que o
Sim; aquele que num outro sábio, bilbaíno este, e
leitor escolha entre aquele
conto, como num drama, que sou eu, acrescento: “Mas
que mais o agrade. O que é
sabe fazer chorar ou rir, sem adquirir compromis-
soberanamente arbitrário. E
pode nele dizer o que lhe sos sérios”. E não há meio
este Miguel meu era o mais
apetecer. O público, quando menos comprometedor de
arbitrário que dar-se possa.
chora ou quando ri, não se passar o tempo do que ler o
Em um bom conto, o inteira. E o herói de meu jornal. E se apanho um ro-
mais importante são as conto tinha a perniciosa mance ou um conto não é
situações e as transições. e petulante mania de que para que, por reação, suscite
Sobretudo, estas últimas. Ó, o público — seu público, minhas profundas preo-
as transições! E a respeito é claro! — se inteirasse do cupações e minhas penas,

52 SAMIZDAT dezembro de 2009


senão para que me distraia a ver com o conto? Volte- herói de meu conto.
delas. E, por isto, não me in- mos, pois, a ele.
Prossigamos? Por mim,
teiro do que leio, e até leio
Havíamos deixado nosso leitor amigo, até onde você
para não me inteirar...
herói — começando sendo-o quiser; mas temo que isto
Mas o herói de meu meu e já é teu, leitor amigo, se converta no conto que
conto era um petulante que e meu; isto é, nosso — com nunca há de acabar. E assim
queria escrever para que os cotovelos sobre a mesa, é a vida... Ainda que não!
se inteirassem e, é natural, com os olhos fixos nas Não! A vida se acaba.
assim não pode ser, não lhe folhas brancas, etc. (veja
Aqui seria uma boa oca-
resultava do que escrevia a descrição precedente) e
sião, com este pretexto, para
senão paradoxos. dizendo para si: “Bem, sobre
dissertar sobre a brevidade
que escrevo eu agora?...”
Que é isto um paradoxo? desta vida perecedora e a
Ah!, eu não sei, mas tam- Isto de pôr-se a escrever, vanidade de seus êxitos, o
pouco sabem os que falam não precisamente porque que daria a este conto um
deles com certo desdém, se tenha encontrado assun- certo caráter moralizador
mas ou menos fingido; mas to, senão para encontrá-lo, que o elevaria além do ní-
nos entendemos, e basta. E é uma das necessidades vel destes outros contos vul-
precisamente o chiste do mais terríveis a que se gares que só servem para
paradoxo, como o do hu- veem expostos os escrito- divertir. Porque a arte deve
mor, firma-se somente em res fabricantes de heróis, e, ser edificante. Vou, portanto,
haver quem fale deles e sai- por conseguinte, heróis eles acabar com uma
bam o que são. A questão mesmos. Por que qual é o
é passar o tempo, sim, mas heroísmo supremo, senão
sem adquirir compromissos criar heróis, cantá-los? É o Moral da história. Tudo
sérios; e que compromisso herói quem cria seu cria- se acaba neste mundo mi-
sério se adquire acusando dor, opinião que mantenho serável: Até os contos e a
algo de paradoxo, sem saber muito brilhante e profun- paciência dos leitores. Não
o que ele seja, ou tachan- damente em minha Vida vou, pois, abusar.
do-o de humorístico? de Don Quixote e Sancho,
segundo Miguel de Cervan-
Eu, que como o herói do
tes Saavedra, Madri, librería Fonte: http://www.scribd.
meu conto, sou também he-
de Fernando Fe, 1905 — e com/doc/6808126/Unamu-
rói e catedrático de grego,
isto sirva, de passagem, no-Miguel-de-Tres-Cuentos
sei o que etimologicamente
como propaganda —, obra
quer dizer isto de paradoxo:
na qual sustento que foi
Da preposição para, que in-
Dom Quixote aquele que
dica lateralidade, o que vai
criou Cervantes e não este
ao lado ou se desvia, e doxa,
a aquele. E a mim quem me
opinião, e sei que entre pa-
criou, pois? Neste caso, não
radoxo e heresia há apenas
cabe dúvida que foi o herói
diferença; mas...
do meu conto. Sim, eu não
Mas o que tem tudo isto sou senão uma fantasia do

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http://www.garcianieto.com/Fotos/Fotos%20de%20Personalidades/Miguel%20de%20%20Unamuno.jpg

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SAMIZDAT dezembro de 2009
Miguel de Unamuno y Jugo (29
de Setembro de 1864 – 31 de
Dezembro de 1936) foi um poeta
e filósofo espanhol.

Nasceu em Ronda del Casco


Viejo (Bilbau) e faleceu em Sa-
lamanca. Considerado a figura
mais completa da Generación
del 98, um grupo constituído por
nomes como Antonio Machado,
Azorín, Pío Baroja, Ramón del
Valle-Inclán, Ramiro de Maetzu,
Angel Ganivet, entre outros.

Estudou na universidade de
Madrid onde tirou o curso de
Filosofia e Letras e mais tarde
obteve a cátedra de grego na
Universidade de Salamanca. Dez
anos depois foi nomeado reitor
da universidade salmantina.

Foi conhecido também pelos


sucessivos ataques à monarquia
de Afonso XIII de Espanha. De
1926 a 1930 viveu no exílio,
primeiro nas Ilhas Canárias e
depois em França, de onde só
voltou depois da queda do gene-
ral Primo de Rivera. Mais tarde
o General Francisco Franco
afastou-o novamente da vida
pública, devido a críticas duras
feitas ao General Millán Astray,
acabando por passar os seus
últimos dias de vida numa casa
em Salamanca.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/
wiki/Miguel_de_Unamuno

www.revistasamizdat.com 55
Teoria Literária

Maristela Scheuer Deves

Física como matéria-


prima para o suspense

56 SAMIZDAT dezembro de 2009


O lugar onde
Seja sincero: alguma vez, Brasil pela editora Agir, 388 a boa Literatura
durante uma aula de física, páginas, preço aproximado
você pensou que aquele de R$ 40), gira em torno da
é fabricada
conteúdo que o professor Einheitliche Feldtheorie, ou

http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg
explicava lá na frente e que teoria do tudo, um conjun-
por vezes parecia impos- to de equações explicando
sível de entender poderia todas as forças da natureza
servir de base para um que Albert Einstein teria
romance de suspense? A descoberto - mas não teria
resposta, muito provavel- revelado por medo de que
mente, é não. ela fosse usada para criar
Eu, tampouco, cheguei armas ainda mais poderosas
a cogitar tal coisa. Assim, do que a bomba atômica.
quando vi a capa do livro Apenas três cientis-
A última teoria de Eins- tas que trabalharam com
tein numa banca da Feira Einstein sabem dessa teoria,
do Livro de Caxias do Sul, e agora eles estão sendo

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
onde moro, ele não atraiu mortos, um a um. O último,
minha atenção. O título e antes de morrer, revela a
as fórmulas matemáticas na existência da teoria a seu
capa deram-me a impressão ex-pupilo David Swift, um
de que se tratava de um professor universitário que,
livro teórico. a partir de então, passa a
Mas quando o livreiro, ser perseguido pelo FBI e
meu conhecido, indicou- por um matador implacá-
me sua leitura, resolvi dar vel.
à obra o ônus da dúvida Com estilo semelhante
e folheá-lo. Foi o bastante a O Código Da Vinci, A
para mudar minha opinião: última teoria de Einstein é
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/14/Albert_Einstein_1947.jpg

o livro valia a pena ser de certa forma mais con-


comprado e lido. Essa nova vincente, talvez pela mescla
impressão se confirmou com o mundo da física e da
durante os dias de leitura, matemática.
pois a obra é um thriller de Uma leitura que prende
muito suspense, mesclado do início ao fim - mesmo
com o mundo dos pesqui- enquanto os personagem
sadores e do terrorismo (e discorrem sobre física.
uma pitada de romance).

ficina
A trama de A última
teoria de Einstein, do escri-
tor Mark Alpert (editado no

www.oficinaeditora.org

57
Recomendação de Leitura

Carlos Davissara

A MORTE E
A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA

58 SAMIZDAT dezembro de 2009


Confesso nunca ter tados nomes da cultura por tipos caricatos dos
dado muito crédito à artística de nosso país, há subúrbios baianos, defen-
obra de Jorge Amado. que se dar mínimo crédi- de a tese de que Quincas
Não por qualquer moti- to ao que escreveu e, sem morreu entregue às águas
vo mais relevante, mas, dúvida, chega-se à con- do mar, num cenário de
simplesmente, por puro clusão de que a novela de lua e mistério.
preconceito de alguém Jorge Amado é, ao menos, Com pitadas de hu-
que não conseguia enxer- digna de ser lida. mor irônico – lembrando
gar nenhum ponto atrati- Tendo um ou outro Tolstoi em seu “A Morte
vo em títulos como “Tieta deslize na técnica (quase de Ivan Ilitch” – e repre-
do Agreste” ou “Gabriela, imperceptíveis), a escri- sentando uma deliciosa
Cravo e Canela”. ta de Amado se mostra alma baiana que talvez
E o que maturidade aconchegante, acalen- nem mais exista – reme-
não faz conosco? Hoje, tadora, transparecendo tendo a “O Cortiço” de
com meus quase 30 anos algo que remete a certa Aluísio de Azevedo –,
de idade (nem tão madu- inocência de tempos idos Jorge Amado, sem dúvida,
ro assim), resolvi superar do Brasil. Ao leitor, fica criou uma obra magnífi-
meu antigo preconceito a agradável experiência ca que, como poucas, une
juvenil da maneira mais de ler uma história que prazer na leitura com
óbvia possível: lendo o flui sem rebuscamentos, qualidade literária.
que Jorge Amado escre- com diálogos divertidos e Assim como na mor-
veu. personagens de uma con- te de Quincas, há quem
Eis que me surge “A quistadora malandragem concorde ou discorde
Morte e a Morte de inocente. da opinião de Vinicius
Quincas Berro Dágua”, O enredo trata das de Moraes. A mim, a
escrito em 1959. E, já no circunstâncias envolvidas certeza que fica é que
prefácio, encontro pala- na morte de Joaquim Soa- Jorge Amado foi um dos
vras intimistas de Viní- res da Cunha, também grandes escritores da
cius de Moraes, dizendo chamado Quincas Berro literatura brasileira. E, se
que a novela em ques- Dágua. Através de dois ainda ficar dúvidas no
http://www.flickr.com/photos/23312274@N03/3399761144/sizes/l/

tão trata-se da melhor blocos de personagens leitor sobre “A Morte e a


na literatura brasileira. principais, são confron- Morte de Quincas Berro
Opiniões à parte, o que tadas distintas versões Dágua”, cabe uma última
se deve levar em conta para a morte do defunto- reflexão sobre a frase
é a franqueza até mes- protagonista. Há o grupo derradeira de Quincas,
mo comprometedora da família sanguínea, o segundo Quitéria que
da afirmação, que deixa qual insiste na morte estava ao seu lado: “Cada
para trás obras de outros tranquila e formal de qual cuide de seu enterro,
grandes novelistas. Mas, Joaquim Soares. Enquanto impossível não há”.
sendo Vinícius de Mora- que o grupo da “família
es um dos mais respei- mundana”, representado

www.revistasamizdat.com 59
60
SAMIZDAT dezembro de 2009
Recomendação de Leitura

Crepúsculo
Giselle Sato
http://twilightsingapore.files.wordpress.com/2009/01/twilight_natl_2disc_2dskew.jpg
Crepúsculo atordoantes e irresistíveis. Romeu e Julieta do
Depois ela descobre que século 21, cenários lindos
(Twilight -2008)
ele é um vampiro, e se e a realização dos sonhos
O filme começa com desenrola um romance, o de qualquer mortal: Viver
um clima normal, uma grande mote da historia. a emoção de um imortal,
adolescente como qual- escalando arvores altís-
Eis a sinopse do filme,
quer outra, Isabella Swan simas, vendo o mundo
com pitadas de situações
(Kristen Stewart) se muda sob um ângulo completa-
onde a jovem é salva
para Forks, uma cidade mente diferente. E é claro,
pelo amado e todas as
pequena, nublada e chu- não podemos esquecer:
informações aprendidas
vosa, perto do estado de A dor do amor frustrado,
nos antigos filmes sobre
Washington. A razão da proibido, entre uma hu-
vampiros. Quem assistiu
mudança, é o novo casa- mana e um vampiro.
Entrevista com vampiro,
mento da mãe, com um
Harry Potter, Van Hen- Ele representa o pe-
jogador de baseball da se-
sing e outros, sabe muito rigo, ela é uma garota
gunda linha. E a vontade
bem do que estou falan- diferente, que não teme o
da mesma, de viajar com
do. Sobreviver com san- desconhecido. Estão tão
o marido, o que não po-
gue humano ou animal? envolvidos, que precisam
deria fazer, morando com
Resistir à sede e lutar lutar contra as inquie-
Bella. A reaproximação
contra os maus da espé- tações desconcertantes,
com o pai, a escola onde
cie ou dar vazão a todo tão comum aos jovens e
é o centro da atenções e
poder e ferocidade? Um aprender a controlar seus
o reencontro com o ami-
bom fã de vampiros, co- impulsos.
go índio, dão um enfoque
nhece de cor e salteado.
inicial bem tranqüilo. Bella, aos dezessete
Então, o que tornou uma
anos, é a mistura perfeita
O que Bella não con- série, escrita em 2005 por
de pureza e libido.
tava, era com o fascínio uma escritora novata, um
que uma estranha famí- fenômeno? Vamos entrar Edward tem sede, não
lia, causa em seu mundo neste universo sobrenatu- de sexo, mas do sangue
tímido e triste. Os Cullen, ral... da amada. Querem situ-
são um grupo de jovens ação mais erótica e pro-
Se tratando de um
pálidos, lindos e arredios. vocante? Muitas cenas,
primeiro episódio de
Razão por si só, motivo insinuam um beijo que
uma série, esse é um
de muita curiosidade. nunca acontece... E envol-
filme mais completo, com
Em especial, o mais jo- vem o publico em uma
um início, meio e fim. A
vem dos irmãos, Edward torcida apaixonada.
história, para muitas ado-
Cullen (Robert Pattin-
lescentes, é linda, maravi- Enquanto isso, sensu-
son), um garoto de uma
lhosa e romântica. alidade, paisagens belís-
beleza e magnetismo,

www.revistasamizdat.com 61
simas, efeitos especiais, as razões acima citadas admirei a capacidade
romance e fantasia in- e principalmente porque de alguns escritores de
teragem. Não foi à toa foi feito para entreter. criar situações de fanta-
que o filme virou febre sia impossíveis e depois
Por alguns minutos,
e conquistou altíssimas acrescentar personagens
deixe a realidade lá fora,
bilheterias. Devo admitir que são tão profunda-
e no escurinho do cine-
que o filme é delicioso mente humanos que suas
ma... Liberte o jovem den-
e por alguns minutos, perspectivas tornam a
tro de si e deixe-se levar
senti vontade de ter todos situação real. Espero que
pela magia.
aqueles poderes. Quem Crepúsculo proporcione
não sentiria? Impossível a mesma experiência a
resistir... seus leitores”. A escritora
“Quando a vida lhe ofe-
mora com o marido e
E é claro, encontrar um rece um sonho muito além
três filhos em Glendale,
vampiro tão encantador de todas as suas expectati-
no Arizona.
quanto Edward, persona- vas, é irracional se lamen-
gem que Stephenie Meyer, tar quando isso chega ao
a autora, construiu em fim”
Descrição da Saga:
uma trama de extraor-
(trecho do livro)
dinário suspense e que Crepúsculo: O início
marcou sua estréia lite- da saga de Isabella Swan
rária. desde sua chegada a cida-
Diretor: Catherine Har-
dela de Forks e a desco-
Vale citar que seus dwicke
berta de sua paixão pelo
livros já venderam mais
Roteiro: Melissa Ro- vampiro Edward Cullen
de 25 milhões de copias
senberg no best-seller mais cultu-
e foram traduzidos em
ado da atualidade. - 416
37 idiomas. A saga é Com: Kristen Stewart,
páginas
contada em quatro livros, Robert Pattinson, Billy
e o segundo volume, Lua Burke, Ashley Greene,
Nova, já estreou nos cine- Nikki Reed, Kellan Lutz e
Lua Nova: Para Bella
mas. Posso adiantar que Taylor Lautner.
Swan, há uma coisa mais
neste filme, Jacob Black ,
importante do que a pró-
o amigo índio de Bella e
pria vida: Edward Cullen.
que já deixou indícios, de Autora: Stephenie
Mas estar apaixonada
ser um lobisomem, tem Meyer formou-se em lite-
por um vampiro é ainda
grande destaque na tra- ratura inglesa na Brigham
mais perigoso do que ela
ma. Young University. Sobre
poderia ter imaginado.
Crepúsculo vale a pena este romance (Crepús-
Edward já resgatara Bella
ser assistido, por todas culo), ela diz: “Sempre
das garras de um mostro

62 SAMIZDAT dezembro de 2009


O lugar onde
cruel, mas agora, quando Amanhecer: Na aguar- a boa Literatura
o relacionamento ousa- dada conclusão da saga
do do casal ameaça tudo
é fabricada
Crepúsculo Bella se vê a
o que lhes é próximo e frente da difícil decisão

http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg
querido, eles percebem da escolha fatal entre
que seus problemas po- fazer parte do obscuro,
dem estar apenas come- mas sedutor, mundo dos
çando... Em Lua Nova, imortais ou seguir uma
Stephenie Meyer nos dá vida totalmente humana.
outra combinação ir- Escolha essa, que poderá
resistível de romance e significar a transforma-
suspense com um toque ção do destino dos dois
sobrenatural. - 480 pági- clãs: vampiros e lobiso-
nas mens. Assombroso e de
tirar o fôlego, Amanhecer
esclarece os mistérios e

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
Eclipse: Enquanto Se- os segredos desse fasci-
attle é assolada por uma nante épico romântico
sequência de assassinatos que tem arrebatado mi-
misteriosos e uma vampi- lhões de leitores. - 576
ra maligna continua em páginas
sua busca por vingança,
Bella está cercada de ou-
tros perigos. Em meio a
isso, ela é forçada a esco-
lher entre seu amor por
Edward e sua amizade
com Jacob - uma op-
ção que tem o potencial
para reacender o conflito
perene entre vampiros e
lobisomens. Com a pro-
ximidade da formatura,
Bella vive mais um dile-
ma: vida ou morte. Mas
o que representará cada
uma dessas escolhas?-
464 páginas
ficina
www.oficinaeditora.org

63
Crônica

Henry Alfred Bugalho

Um vestido rosa, tabu


e um fenômeno de intolerância coletiva

64 SAMIZDAT dezembro de 2009


Todos os anos, em janeiro,
no auge do inverno nova-
iorquino, centenas de pessoas
se reunem para uma estra-
nha brincadeira: entrar no
metrô sem calças. Na parte
de cima, homens e mulheres
vestem o que habitualmente
usam, paletó, blusa, casaco,
ou moletom, no entanto, na
parte de baixo, somente cue-
cas e calcinhas, com pernas à
mostra.

Da primeira vez que vi


isto ocorrer, causou um
certo estranhamento, mas,
no metrô lotado, eu era o
único que parecia estar no-
tando algo de errado. Todos
os demais nova-iorquinos
ignoravam, ou fingiam igno-
rar, a ausência das calças em
alguns passageiros. Era como
se fosse um dia corriqueiro,
como qualquer outro.

Semana passada, no East


Village, um homem, vestido
de mulher, corria em círculos
com uma rena de pelúcia em
mãos. A maioria das pessoas
simplesmente passava por ele,
fingindo não vê-lo, apenas
um ou outro dava uma risa-
dinha, ou parava para tirar
uma foto

Se era um louco, pouco


importa, o extraordinário
Foto por: Henry Alfred Bugalho

era a reação das pessoas, a


indiferença delas.

O mote dos EUA, arrotado


aos quatro ventos, é liber-
dade. Em vários aspectos, é

65
uma lema puramente retó- concurso “Menina da Laje”, uma criatura social, tende a
rico, para justificar invasões na protagonista da novela reproduzir os atos dos seus
ao Iraque ou Afeganistão, posando para a “Playboy”, na pares como estratégia de
mas em outros, é de fato o imagem do corpo vendida e sobrevivência: se a maioria
ideal pelo qual os americanos veiculada em todos os outdo- faz, então deve ser o melhor
vivem: liberdade acima de ors, nas revistas, na TV, nos a ser feito. Enquanto que este
tudo. jornais de quinta. comportamento se justifica
em várias ocasiões e nos aju-
Para um americano, pouco Consumimos a todo o
da coletivamente, em muitas
importa como você se veste, momento o culto ao corpo,
situações apenas reforça uma
o que você faz, com quem ao sexo, à beleza a qualquer
injustiça.
você anda, o que você come. custo e, ao mesmo tempo, pa-
Cada um é responsável por radoxalmente, repudiamo-lo No livro “A Sabedoria das
seus próprios atos, livre para quando se apresenta fora dos Multidões”, há um exemplo
fazer suas próprias escolhas meios onde ele é convencio- esclarecedor - uma mulher
e ninguém tem nada a ver nalmente aceito. que deseja se suicidar jogan-
com isto. Ninguém. do-se de uma ponte causa
Talvez sejam os tabus,
um enorme congestionamen-
Isto não significa que estas normais sociais que
to. Algumas pessoas, para se
não haja preconceitos, mas regulam o permitido e proi-
livrarem logo deste incômo-
externá-los chega a ser quase bido, que estejam no cerne
do, começam a gritar, “Pula!
antiético. desta questão, que expliquem
Pula!”. Em pouco tempo, cen-
porque aceitaríamos a Geyse
Como os americanos re- tenas de motoristas nervosos
e seu vestido rosa em certas
agiriam a uma universitária reforçam o coro e a mulher
circunstâncias, mas a repu-
desfilando com um vestido se joga para a morte.
diariamos em outras.
rosa curtíssimo?
Duvido que qualquer uma
Mas nada é tão simples,
Difícil dar uma resposta daquelas pessoas, individual-
e tabus não explicariam
categórica, mas talvez com a mente, desejasse a morte da
porque milhares de alunos,
mesma indiferença com que mulher, mas coletivamente,
supostamente esclarecidos,
tratam os passageiros sem de modo errôneo, os moto-
posto que estão numa Uni-
calças no metrô, ou o louco ristas julgaram que, se ela se
versidade, se reuniriam para
trajado de mulher na Astor jogasse logo no rio, o tráfego
insultar uma colega, apenas
Place, com indiferença, com seria normalizado.
por causa do que ela veste.
naturalidade.
Se tabu, ou machismo, pode Às vezes, precisamos nos
E é neste momento em estar na origem do ocorri- esconder sob a máscara da
que revelamos toda nossa do, as proporções do evento coletividade para expormos
hipocrisia, nosso atraso, nossa sugerem outro fator. nossa intolerância. Somente
moralidade retrógrada. assim, sentimo-nos seguros
“Eu comecei a gritar, mas
para demonstrar a nossa
Estamos tão habituados à nem sabia o que estava acon-
profunda ignorância.
exposição do corpo, à reifi- tecendo. Foi engraçado”, disse
cação da mulher e do sexo, um estudante da UniBan,
no baile funk, no carnaval, numa das reportagens que
no fio dental na praia, no assisti. O ser humano, como

66 SAMIZDAT dezembro de 2009


O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
www.samizdat-pt.blogspot.com
www.revistasamizdat.com 67

www.oficinaeditora.com
Crônica

http://www.flickr.com/photos/dborman2/3258378233/sizes/l/
Volmar Camargo Junior

Eu também quero
meu Septilhão!
68 SAMIZDAT dezembro de 2009
Dia desses, um certo 3º - pagá-lo com relíquias
cidadão americano chamado católicas medievais. Dizem Henry Alfred Bugalho
A
GUI
Nova York
Dalton Chiscolm entrou com que com a quantidade de
uma ação na justiça, pedindo ossos de Jesus Cristo surgidos
uma indenização ao banco nas igrejas da idade média -

para Mãos-de-VAca
onde é correntista, o Bank que cobravam “uma pequena
of America, alegando que foi quantia” para que os pere-
mal atendido. O valor pedido grinos os vissem, tocassem
por ele por conta da cara feia ou mesmo, levassem uma
O Guia do Viajante Inteligente
(e, talvez, por causa das deze- lasquinha para casa - dava
nas de tarifas cobradas pelo para dar uma volta inteira ao www.maosdevaca.com
banco, ou porque o cafezinho redor de Roma.
tinha gosto de meia suja) é o 4º - entregar a ele o baú
número mais absurdo que já do mago Paulo Coelho, de
se ouviu falar onde saíram todas as verda-
US$ 1.784.000.000.000.000. des e provas de seus contatos
000.000.000,00 (ou, um septi- extraplanares e extraterres-
lhão e pouco de dólares)(¹) tres.
Quem pode com um tro- 5º - pagá-lo com a hi-
ço desses? poteca das usinas de bene-
É óbvio que não existe di- ficiamento de urânio e as
nheiro o suficiente no mun- indústrias de armamento de
do pra pagar o cara. Ainda destruição em massa que os
que algum juiz fosse levar o americanos encontraram no
cara a sério (é só uma supo- Iraque.
sição, ok?), como seria pos-
sível indenizá-lo? Eu tenho Com uma dessas alterna-
aqui minhas sugestões: tivas, seria bem provável que
1º - entregar a ele uma o cara ficasse bem satisfei-
escritura pública do plane- to. Só não ia conseguir que
ta Saturno, incluindo o anel os bancos melhorassem o
recém-descoberto, já que atentimento. Afinal, o que
dizem que ele poderia cir- lhes interessa são números.
cundar bilhões de planetas Grandes números.
iguais à Terra;
2° - entregar uma escri-
tura pública do ex-planeta
Plutão, já que agora ele caiu
para a segunda divisão do
sistema solar, estaria livre
de pagar o IPTU. Mas seria
preciso fazer isso antes que
o MST tomasse conta do pla-
netóide, alegando que se trata
de propriedade improdutiva.

www.revistasamizdat.com 69
Poesia

Iminente (poema blavino)


Carlos Davissara

Peça

Eu sei, amor,
que queres mais

Atrás, à frente, não importa


Se quiseres, peça, e eu digo mais
Sem compaixão, sem dó ou remorsos

Direi-te o que há cravado na garganta há tempos

E não transforme lágrima em reforços!


Assim, garanto que não volto atrás
e trago-te a verdade morta

Vai continuar, vai,


doce flor?

Peça!

http://www.flickr.com/photos/yeyito/96304435/sizes/l/

70 SAMIZDAT dezembro de 2009


Desejo
http://www.flickr.com/photos/that_kate/2341519108/sizes/o/

e
castidade Wellington Souza

Passo os dedos em tua boca


e abro-a – entreabro,
como se pudesse te fazer pedir.

Passas os dedos em meus olhos


e fecha-os como a um cadáver querido
mas não podes me fazer sonhar.

Há a demanda insatisfeita.

Há a oferta insatisfatória.

www.revistasamizdat.com 71
Poesia

Laboratório Poético: indrisos


Volmar Camargo Junior

[córrego por onde escorre o tempo]

córrego por onde escorre o tempo


sentença tornada gelo
lago vazio de perguntas

só um dique, ora seco, ora raso


ora transbordando
comportaria essas águas todas

essas correntes às vezes caudalosas

não raro somem sem razão nenhuma

72 SAMIZDAT dezembro de 2009


[um barco deixou aqui uma caixa]

um barco deixou aqui uma caixa


depois, deixou o barco o porto
deixou, pois, p’ra trás, o horizonte
http://www.flickr.com/photos/23209605@N00/2786126623/sizes/l/

choveu, e a chuva manchou a caixa


deixei os nomes e a tinta irem p’ra junto d’água
não vi para quem era, nem de que se tratava

ventou e o vento trouxe o barco de volta

deixei o chão, o porto, a caixa, a tinta, e fui


embora

www.revistasamizdat.com 73
Poesia

Poesia: Contra o Muro


Ju Blasina
Os muros são tantos
Obstáculos intransponíveis
A dividir a estrada
E nós — Tão poucos
Impedidos de proferir
Impelidos a prosseguir
A alta escalada
Apta a transcender
Esta plástica realidade

Ah, se nós fôssemos tantos


Quanto são os sonhos que ousamos ter (?)
Ah, se fôssemos tão fortes
Quanto é o medo que nos faz oprimir (?)
Que nos tenta abater
Ah, se fôssemos mais altos
Que os obstáculos
Que nos levam a cair

Não haveria muro


Capaz de suportar
Tamanha vontade

E a realidade (?)
Seria nova
Seria nossa (?)
Seria nada

*Nota da autora: poesia inspirada nos 20


anos da queda do muro de Berlim, com-
pletos em 09/11/09.

http://www.flickr.com/photos/roozbeh11/2307922735/sizes/l/

74 SAMIZDAT dezembro de 2009


Poesia

Escuro Guilherme Augusto Rodrigues

O bom de se apagar a luz


permanecer em total escuridão

http://www.flickr.com/photos/ashleyrosex/3101042573/sizes/l/
-e nada se ver-
é que acende a luz da cabeça
brilham os olhos, como faróis,
aí posso voar para qualquer estrela
pois além da minha cabeça
só elas estão acesas, e o meu coração,
e voo cada vez mais alto
sou tragado pela leveza e calmaria do vento e oceano
e quando a luz torna a acender
apaga-se a luz da cabeça
e tudo volta ao normal
Assim, sem nada para ver.

www.revistasamizdat.com 75
Poesia

Lascívias viáveis
Léo Borges

Alguns desejos são traídos pela lógica,


outros, conquistados pela inocência.
Todos atraídos pela vontade de ontem.

Em cômodos, estes pecados se travestem,


incômodos trazidos por meias promessas.
Tolos pactos impregnados de noite.

Por fim, alças caem dentro de trapaças.

E orgasmos surgem no auge da mentira.

http://www.flickr.com/photos/togga/2630251674/sizes/l/

76 SAMIZDAT dezembro de 2009


Poesia

Só a semente
Maristela Scheuer Deves

A vida é feita de sonhos,


que vêm e vão
Vêm com esperança, vão com desilusão.

Mas a semente fica, embora o sonho morreu;


Mas a semente fica, esperando a chuva http://www.flickr.com/photos/maxblack/3487949183/sizes/o/

que de algum lugar virá


Que de algum lugar virá, antes que seja tarde
Antes que a semente
morra também.

www.revistasamizdat.com 77
SOBRE OS AUTORES DA

SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa

Henry Alfred Bugalho


Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em
Estética. Especialista em Literatura e História. Autor
de quatro romances e de duas coletâneas de contos.
Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores
da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia
Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em
Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachor-
rinha.
henrybugalho@gmail.com
www.maosdevaca.com

Edição de imagens

Volmar Camargo Junior


Inconformado com a própria inaptidão para di-
zer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de
parte de suas horas diárias de sono, tentando domar
a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambu-
lar pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa,
fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por
um cenário natural de extrema beleza – Canela, na
Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descen-
dente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indí-
genas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio,
é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo,
torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor
dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

78
78 SAMIZDAT dezembro de 2009
Revisão
Léo Borges
Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor
público e amante da literatura. Formado em Comu-
nicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas
Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas
“Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Assessoria de imprensa

Mariana Valle
Por um amor não correspondido, a carioca de
Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o
beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua
amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o
papel com erotismo. E também com seu choro. Em
reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade.
Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi
na TV Globo onde aprimorou as técnicas de reda-
ção e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias
histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro
e outras divulgadas nos links listados em seu blog
pessoal: www.marianavalle.com

www.revistasamizdat.com 79
Colaboração
Dênis Moura
Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de
amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberes-
paço, mais com bits de imaginação que com telescó-
pios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja
ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e
a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na
outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social,
com a democracia participativa eletrônica, onde o
povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias
sua primeira obra, um Romance de Ficção Científi-
ca, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É
feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize,
o clique, o blogue e o leia!

Giselle Sato
Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Baila-
rina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine
apenas como uma contadora de histórias carioca.
Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de
bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se
a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes,
funcionando como um eficiente panorama da socie-
dade em que vivemos.

Wellington Souza
Paulistano, mas morou também em Ribeirão Preto,
onde cursou economia na Universidade de São Pau-
lo. Hoje, reside novamente no bairro em que nasceu.
Participou das antologias do concurso Nacional de
Contos da Cidade de Porto Seguro e do Poetas de Ga-
veta/USP. Escreve poemas, contos, crônicas e ensaios
literários em um blog (Hiper-link), na revista digital
SAMIZDAT e no portal Sociedade Literária. “Escrever
é um modo de ser outro ser”.

80
80 SAMIZDAT dezembro de 2009
http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
Carlos Davissara
Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde
sempre, artista plástico formado, escritor. Começou
sua vida profissional como educador e, desde então,
já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros
Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagó-
gicos – experiências que têm forte influência sobre
seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilus-
tração para crianças, estuda pós-graduação em Histó-
ria da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com
http://desnome.blogspot.com

Jú Blasina
Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar
a vida em números (idade, peso, altura, salário). Não
se julga muito sã e coleciona papéis - alguns afir-
mam que é bióloga, mestre em fisiologia animal e
etc, mas ela os nega dizendo-se escritora e ponto fi-
nal. Disso não resta dúvida, mas como nem sempre
uma palavra sincera basta, voltou à faculdade como
estudante de letras, de onde obterá mais papéis para
aumentar a sua pilha. É cronista do Caderno Mulher
(Jornal Agora - Rio Grande - RS), mantém atualiza-
do seu blog “P+ 2 T” e participa de fóruns e oficinas
virtuais, além de projetos secretos sustentados à base
de chocolate e vinho, nas madrugadas da vida.

Maristela Deves
Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, co-
meçou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu
a ler. Escreve principalmente contos nos gêneros mis-
tério, suspense e terror, além de crônicas. Mantém
ainda o blog Palavra Escrita, sobre livros e literatura
(www.pioneiro.com/palavraescrita).

www.revistasamizdat.com 81
Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor ama-
dor, licenciado recente em História da Arte, experi-
menta agora o prazer da escrita, em Lisboa.

episcopum@hotmail.com

Guilherme Rodrigues
Estudante de Letras na Universidade do Sagrado
Coração, em Bauru, onde sempre morou. Procura
reinventar o mundo a seu modo, seja belo ou grotes-
co, e assim mostrar um novo caminho. Admirador
das coisas mais simples e belas do mundo e da vida,
busca expressar essas sublimes minúcias em suas
poesias. Não dispensa o café da tarde com pãezinhos.
Apaixonado por Línguas, Literatura e Linguística.

Caio Rudá
Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda
Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera
um dia entender o ser humano. Enquanto isso não
acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enig-
ma da existência. Não tem livro publicado, prêmio,
reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas
como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

82
82 SAMIZDAT dezembro de 2009
http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
Barbara Duffles
Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro
“Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das nega-
tivas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo es-
critor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem
sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de
novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

José Guilherme Vereza


Publicitário, redator, executivo, professor, aluno, marido,
pai, filho, cunhado, tio, sobrinho, genro, sogro, amigo, bota-
foguense, tijucano, lebloniano, neopaulistano, escritor, leitor,
eleitor, metido a cozinheiro, guloso, nem gordo nem magro,
motorista categoria B, pedestre, caminhante, viajante, seden-
tário, telespectador, pilhado, zen, carnívoro, beatlemaníaco,
cinemeiro, desafinado, sinfônico, acústico, capricorniano,
calorento, alérgico a ditaduras, sonhador, delirante, insone,
objetivo, subjetivo, pragmático, enérgico, banana, introspec-
tivo, extrovertido, goleiro, blogueiro, colunista do Bolsa de
Mulher, colaborador do Mundo Mundano, tem livro publi-
cado, conto premiado, teve texto encenado no teatro, fez ro-
teiros para televisão, criou uma infinidade de comerciais e
aprendeu que aproveitar a vida intensamente é ser de tudo
um muito. Samizdat é seu mais recente energético..

www.revistasamizdat.com 83
Também nesta edição, textos de

Barbara Duffles José Guilherme Vereza

Caio Rudá Jú Blasina

Carlos Davissara Léo Borges

Dênis Moura Mariana Valle


http://www.flickr.com/photos/jon-ntx/3492216474/sizes/o/

Giselle Natsu Sato Maristela Deves

Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

Joaquim Bispo Wellington Souza

84 SAMIZDAT dezembro de 2009