Você está na página 1de 90

E

D

I

revista nº10 Ç Ã O E S P E C
revista
nº10
Ç
Ã
O
E
S
P
E
C

I

A

L

COMUNICARE - Portugal J&D - Consultores em Comunicação, Lda. NPC: 508 336 783 | Capital
COMUNICARE - Portugal
J&D - Consultores em Comunicação, Lda.
NPC: 508 336 783 | Capital Social: 5.000€
Rua do Senhor, 592 - 1º Frente
4460-417 Sra. da Hora - Portugal
Tel. +351 229 544 259 | Fax +351 229 520 369
Email: geral@comunicare.pt
www.comunicare.pt
Delegação Angola’in
Rua Rainha Ginga, Porta 7
Mutamba - Luanda - Angola
Contacto: Ludmila Paixão
E-mail: pontodevenda@comunicare.pt
Tel. +244 222 391 918 | Fax +244 222 392 216
in loco
NO ‘PALCO’ DO MUNDO
revista bimestral nº10 - edição especial
http://angolain.blogspot.com · http://twitter.com/angolain
Direcção Executiva
Daniel Mota Gomes · João Braga Tavares
O ano de 2009 está a chegar ao fim e é tempo
Direcção Editorial
Manuela Bártolo - mbartolo@comunicare.pt
de analisar os acontecimentos mais importan-
tes dos últimos 12 meses, tirando as devidas
lições e usar a experiência adquirida para conti-
formação tem “um compromisso para com o
povo”. Os adeptos prometem dar apoio incon-
dicional e os Palancas Negras estão dispostos
Redacção
Patrícia Alves Tavares - ptavares@comunicare.pt
Mónica Mendes - mmendes@comunicare.pt
a lutar ao máximo e a suar a camisola para
Colaborador Especial
João Paulo Jardim - jpjardim@comunicare.pt
André Sibi
Design Gráfico
Bruno Tavares · Patrícia Ferreira
design@comunicare.pt
Serviços Administrativos e Agenda
Maria Sá - agenda@comunicare.pt
Direcção de Marketing
Pedro Posser Brandão
Tel. +351 229 544 259 | Fax.+351 229 520 369
E-mail - pbrandao@comunicare.pt
nuar a aposta no crescimento económico que,
apesar das previsões menos optimistas, con-
tinuará a ser um período de desenvolvimento
acima da média mundial. O próximo ano será
certamente o da solidificação e diversificação
da economia, onde o investimento privado e
as obras públicas prometem estar novamente
na ordem do dia. Mas as boas notícias não fi-
cam por aí. Além da retrospectiva do ano tran-
sacto, a Angola’in apresenta-lhe nesta edição
muito especial algumas das principais expec-
tativas para o novo ano: a abertura da Bolsa
de Valores e Derivados, a elaboração da Cons-
honrar as cores do seu país. Por isso, não pode
perder o nosso suplemento sobre o CAN, que
elaboramos especificamente para si, para que
fique a par de tudo o que importa saber sobre
a maior competição continental.
Fotografia
Ana Rita Rodrigues · Shutterstock · Fotolia
Revisão
Marta Gomes
Publicidade
Tel. +351 229 544 259 | Fax.+351 229 520 369
E-mail - publicidade@comunicare.pt
João Tavares - jtavares@comunicare.pt
Daniel Gomes - dgomes@comunicare.pt
tituição e as eleições presidenciais vão agitar
a vida social, em que a participação de todos
é crucial.
Para fechar o ano em beleza, convidamos um
dos maiores ícones das artes nacionais para
pintar a nossa capa, tudo para que este exem-
plar seja um coleccionável inesquecível. Eleu-
tério Sanches aceitou o desafio e presenteia
os nossos leitores com um belíssimo quadro e
uma entrevista, que é um autêntico testemu-
nho sobre a sua constante aprendizagem e os
múltiplos ensinamentos que esta figura ainda
tem para dar às novas gerações.
ASSINATURAS - assinaturas@comunicare.pt
Envie o seu pedido para:
Rua Rainha Ginga, Porta 7
Mutamba - Luanda - Angola
Departamento Financeiro
Sílvia Coelho
Departamento Jurídico
Nicolau Vieira
Impressão
Multitema
Distribuição
Africana Distribuidora Expresso
Luanda - Angola
Tiragem
10.000 exemplares
ISSN 1647-3574
DEPÓSITO LEGAL Nº 297695/09
Interdita a reprodução, mesmo que parcial, de textos,
fotografias e ilustrações, sob quaisquer meios e para
quaisquer fins, inclusive comerciais
2010 será certamente o ano de concretização
de todos os sonhos. O CAN concentra todas as
expectativas e é a prova de fogo à capacida-
de de organização nacional. O evento do ano
augura tornar-se um sucesso. As entidades
estão empenhadas e a população vibra com a
recepção dos 16 candidatos ao título. Será um
arranque de ano em cheio, com o país a fervi-
lhar de vida. Os olhos vão estar concentrados
em Angola, que terá, através deste torneio, a
grande oportunidade para se projectar ainda
mais, tanto no contexto africano, como mun-
dial. A selecção nacional também tem respon-
sabilidades acrescidas. Como refere Manuel
José, em entrevista exclusiva à Angola’in, esta
Natal é sinónimo de convívio em família, re-
cheado de belas iguarias e muitas prendas. A
pensar nesta época festiva, a Angola’in prepa-
rou-lhe uma edição, repleta de sugestões para
ofertas para si e para os seus entes queridos,
onde não faltam os melhores gadjets. Tudo
acompanhado pelas receitas de Wilson Aguiar
e a nossa selecção de vinhos!
A todos desejamos um óptimo Natal,
um excelente 2010 e um magnífico CAN!
A Direcção
ASSINE ANGOLA´IN
Contacto Angola - assinaturas@comunicare.pt
1 ANO 17,55 EUROS (10% DESCONTO)
2 ANOS 31,20 EUROS (20% DESCONTO)
EUROS (10% DESCONTO) 2 ANOS 31,20 EUROS (20% DESCONTO) Esta revista utiliza papel produzido e impresso

Esta revista utiliza papel produzido e impresso por

empresa certificada segundo a norma ISO 9001:2000

(Certificação do Sistema de Gestão da Qualidade)

IN LOCO · ANGOLA’IN |

3

10

22

10 22 18 GRANDE ENTREVISTA o ícone dos artistas mais completos. Eleutério Sanches é um dos
18 GRANDE ENTREVISTA o ícone dos artistas mais completos. Eleutério Sanches é um dos símbolos
18
GRANDE ENTREVISTA
o ícone dos artistas mais completos. Eleutério Sanches é
um dos símbolos da cultura nacional. Multifacetado, tem
É
provas dadas na pintura, música e poesia. Enquanto pintor,
expôs nos ‘quatro’ cantos do mundo e cede uma das suas
26
DESPORTO
pinturas para a nossa capa. Em entrevista à Angola’in, o an-
tigo professor faz a análise do seu país e do estado das artes,
revelando que tem projectos na calha para o próximo ano
O país ultima os pormenores para o evento do ano.
52
LUXOS
A população está em contagem crescente e deposita
O
Natal está próximo e cheio de novidades. Nesta edição es-
todas as expectativas no desempenho da sua selecção,
que tem responsabilidades acrescidas. Manuel José,
em entrevista exclusiva à Angola’in, fala dos objectivos
para este Campeonato Africano das Nações e do trabalho
desenvolvido nos últimos meses com os Palancas Negras.
Conheça os estádios, as equipas e todos os pormenores
das cerimónias oficiais. Tudo num suplemento sobre a
competição preparado a pensar em si!
pecial, preparamos um dossier com as últimas novidades em
alta tecnologia. Conheça os melhores gadjets e os produtos
mais inovadores. Não deixe de consultar os relógios exclu-
sivos que propomos, bem como os carros mais desejados.
Uma oportunidade única! Aproveite as nossas sugestões e
comece a escolher as prendas para a família e amigos
74
VINHOS & COMPANHIA
Em período de festividades, a escolha da ementa e dos
vinhos é essencial para impressionar a sua família e con-
vidados. Wilson Aguiar prepara o menu para a noite de Na-
tal e de Passagem de Ano. A nossa equipa faz a selecção
dos melhores vinhos para a ocasião. São 40 opções a não
perder! Se pretende viajar, apresentamos os restaurantes
mais in do momento
IN FOCO
86
PERSONALIDADES
Com o final de 2009 a aproximar-se, é tempo de fazer o balanço do ano transac-
to. A economia está em destaque e neste número apresentamos a antevisão
dos pontos fortes para 2010: a abertura da Bolsa de Valores, as eleições presi-
denciais e as apostas na diversificação da economia, nomeadamente ao nível
do investimento privado, são as principais novidades. A fechar, fique a saber tu-
do sobre as comemorações do 34ª aniversário da Independência (em Portugal)
É
o cantor do momento. A jovem revelação termina este
mês a tournée pela Europa, onde fez a primeira parte do
concerto de Eros Ramazotti. Yuri da Cunha é a esperança
da música angolana. De passagem por Portugal, para actu-
ar
na comemoração do 34º aniversário da Independência, o
artista revelou-nos os seus projectos
FOTO REPORTAGEM
68
ESTILOS

SUMÁRIO · ANGOLA’IN

SUMÁRIO · ANGOLA’IN |

| 7

7

editorial muito mais angola! Com o pensamento na penumbra de emoções que en- toam à
editorial
muito mais angola!
Com o pensamento na penumbra de emoções que en-
toam à média luz, penso num coração angolano que
não bombeia sangue, mas sim sentimento. É tal a in-
tensidade, que a sensação que melhor define o final
de mais um ano é nada mais do que um momento de
catarse. Aquela impressão que todos nós vivemos de
libertação de uma emoção há muito contida. A mes-
ma que Aristóteles, filósofo grego, designa de “puri-
ficação sentida”.
Adivinham-se meses de luta, assentes em pilares de
cidadania, maturidade, mudança e consenso, impor-
tantes para a ‘maioridade’ de um país que sabe honrar
o seu passado e procura projectar um futuro sustentá-
vel para as suas gerações. Importa criar espaço e um
papel para a Assembleia Nacional, os partidos políti-
cos, as universidades, a Comunicação Social e outros
actores que se assumam como motores de dinamiza-
ção do progresso.
Na última edição de 2009, trago à consciência o que
denomino ‘estrada do sucesso’, um caminho difícil, em
que se sente o sangue ‘dar a volta’ e a vida a andar
à solta, mas nem por isso sem rédea. 2010 será para
todos os angolanos o desdobrar de um mapa, a des-
coberta de um espaço num tempo em movimento. Lá
fora há lugar, à espera de todos e essa é talvez a men-
sagem mais importante a transmitir.
Aprendizes fomos, construtores somos, inventores
e aventureiros sempre. Sonhadores inatos, sobrevi-
ventes natos, nem sempre conseguimos ser exactos,
nem sempre conseguimos evitar maus actos. Temos
alianças, muitas desconfianças, mas também as nos-
sas esperanças. Podem falar, mas para quem ama a
liberdade o importante é nunca parar. Esse é o grande
desígnio do novo ano: saber que a distância que existe
entre o não ser e o ser é uma questão de não ter medo
de ir longe demais.
Tudo isto passa por divulgar insistentemente a “ban-
deira”, que serve para comunicar o sonho de um país
que se propõe operacionalizar as suas ideias mais ar-
rojadas. Avante com a empresarialização da economia
nacional para que esta possa definitivamente integrar
os actores da globalização e com isso trazer desenvol-
vimento ao povo. Sejamos formadores de novas ati-
tudes, numa perspectiva de oportunidade para todos,
elevando assim o nível de vida da população. Apresen-
temos liderança ao Mundo na criação de um merca-
do alargado, uma das bases para a construção de uma
sustentabilidade competitiva. Desenhe-se um espaço
nacional onde a sociedade civil comece a construir os
novos desígnios para o país, de forma a que Angola se
torne cada vez mais uma marca de orgulho.
Os Angolanos são
o mais valioso ‘capital’
de sempre
Esta é talvez a primeira vez que me dirijo na primeira
pessoa aos leitores da revista, num assomo de sen-
timento (confesso), para por palavras próprias lhes
desejar votos sinceros de prosperidade e sucesso.
Estes são sinais de respeito e reconhecimento, sede-
ados em palavras de esperança e crença num advir
melhor. Se todos trabalharmos e juntarmos os nos-
sos esforços para a concretização destes objectivos
prestamos um contributo inestimável ao processo de
desenvolvimento económico, social, cultural e de re-
conciliação nacional. Nesse dia, deixaremos de sofrer
em consequência das condições materiais, reafirman-
do a nossa determinação em remover todos os obstá-
culos que se erguem diariamente na vida de cada um
de nós!
Feliz 2010!

mbartolo@comunicare.pt

se erguem diariamente na vida de cada um de nós! Feliz 2010! mbartolo@comunicare.pt 8 | ANGOLA’IN
IN FOCO | manuela bártolo* ARTIGO DE OPINIÃO
IN FOCO
| manuela bártolo*
ARTIGO DE OPINIÃO

(Ante) Visão do Futuro

O MERCADO DE CAPITAIS E A BOLSA Ao terminarmos mais um ano, várias são as reflexões e pontos de vista que se entrecru- zam nos bastidores. Por um lado, os ango- lanos vão enaltecendo as metas alcançadas nas mais diversas áreas, sobretudo no sector económico. Por outro, precisam de ter cora- gem de identificar e assumir as falhas come-

tidas para melhor direccionarem o futuro. No que se refere à melhoria das condições so- ciais básicas, foram construídos vários em- preendimentos no domínio energético e da construção civil, designadamente ao nível das estradas, hospitais e mercados munici- pais, que são de enaltecer. No entanto, um dos grandes desafios que se impõe passa pela melhoria do sentido de responsabilida- de e consolidação da Comissão de Mercados de Capitais (CMC), cuja missão é promover um importante instrumento de desenvol- vimento, dada a sua capacidade de acelerar

o crescimento económico. Uma das maiores

propostas deste organismo prende-se com

a criação da Bolsa de Valores e Derivados de

Angola, que vai certamente permitir a regula- mentação, supervisão e fiscalização do mer- cado e dos seus agentes. De acordo com as informações tornadas públicas, a mesma já conta com um montante de USD 7 milhões e 710 mil para a sua criação, o que justifica uma infra-estrutura e condições de trabalho muito sólidas em todas as suas esferas, para se evi- tar possíveis atrasos no seu funcionamento. Numa primeira fase, este importante instru- mento de desenvolvimento vai contar com 27 subscritores, com destaque para a Sonangol, Endiama, Ensa, FDES, BFA, BIC, BAI, grupo António Mosquito, Sistec e Chicoil, cujas pre- senças no mercado estão devidamente con- solidadas, o que por si só se pode considerar uma grande mais-valia. Uma vez que a bolsa de valores vai acelerar a privatização das em- presas angolanas, seria bom que as oportuni- dades nesta grande praça económica fossem iguais para todos. A bolsa deverá conhecer e

obedecer a uma legislação transparente para permitir que todos tenham acesso aos negó- cios que irá proporcionar, sem destinação da

cor partidária ou religiosa, evitando assim fa- cilidades para uns e dificuldades para outros.

A coerência no seu funcionamento vai permi-

tir a valorização da economia do país ao mais alto nível, pelo que a modernização do siste- ma financeiro irá também transformar Ango-

la numa praça financeira forte.

A NOVA CONSTITUIÇÃO

Outro dos desafios será sem dúvida a realiza- ção das eleições presidenciais. Dezasseis anos depois das primeiras eleições legislativas, os angolanos voltaram às urnas em 2008 para eleger o Parlamento. Um ano depois, seria a vez do Presidente da República. Infelizmen- te, não foi o que aconteceu. A realização das eleições presidenciais no país está a depender

de um conjunto de factores, entre as quais a

aprovação da Nova Constituição. A normaliza- ção constitucional em curso é um passo fun- damental para a consolidação da democracia rumo ao desenvolvimento sustentável. Para tal, os angolanos precisam definir o futuro sem depender dos interesses deste ou daque-

le, uma vez que se trata de um diploma legal

que vai definir as políticas para as presentes

e futuras gerações. Para 2010, é intenção de

todo o angolano que o país tenha uma situ- ação de constitucionalidade, completamente normalizada para garantir a realização perió-

dica das eleições legislativas e presidenciais.

A Nova Constituição cuja aprovação está a

condicionar as “eleições” deverá ser um docu- mento aprovado por consenso da maioria. Um diploma onde cada um de nós se possa rever.

O crescimento económico, político e social de

um país depende de vários factores, entre eles

a constituição, que não deve ser considerado

um triunfo de manipulação política. É desejo também de todos nós que o poder judicial seja completamente liberalizado para se garantir a serenidade dos tribunais, isto porque os mes- mos devem ser instituições independentes. Democracia sem liberdade é como um edifício sem pilares.

PLANO NACIONAL 2010/2011 Falar de 2010 é também falar de desporto em Angola. O CAN dá o pontapé de saída para um ano que promete ser de forte desenvol- vimento nesta área. No entanto, sendo este um evento desportivo de grande envergadu- ra, esperamos que se repensem estratégias para o aproveitamento dos estádios de fu- tebol sob pena de virem a ser subaproveita- dos. Para que o desenvolvimento chegue aos mais recônditos cantos de Angola basta a

A bolsa deverá permitir que todos tenham acesso aos negócios que irá proporcionar, sem destina- ção da cor partidária ou religiosa

vontade política, pois o crescimento depende da atenção que se dá aos recursos humanos. Um desejo de mudança igualmente presente na aprovação do Plano Nacional para o novo ano. Prioridades: “promover a unidade e coe- são nacional e a consolidação da democracia

e das suas instituições”. Os dados estão lan-

çados resta cumpri-los, ou seja, garantir um ritmo elevado e sustentado do crescimento económico, com estabilidade macroeconómi- ca, transformação e diversificação das estru- turas económicas. Melhorar a qualidade de vida e de desenvolvimento humano, bem co- mo estimular o progresso do sector privado, apoiar o empresariado nacional e reforçar a in- serção competitiva no contexto internacional são outras das metas que se impõem. O Plano Nacional 2010/2011 prevê ainda a implemen- tação de uma política de desenvolvimento ru- ral e peri-urbano, que mitigue o desiquilíbrio

na qualidade de vida entre os meios rural e ur- bano, através da promoção de um desenvol- vimento industrial que permita substituir as importações e reabilitar as infra-estruturas necessárias à reconstrução do país. Em cau- sa está também a necessidade de assegurar

a rápida urbanização dos musseques e a mo-

dernização das comunidades urbanas. Tudo isto faz com que importe, cada vez mais, de- finir uma política de proteccção social e de so- lidariedade nacional adequada, que priorizem

em simultâneo o sector social, particularmen- te ao nível da educação e saúde. Neste últi- mo capítulo, interessa (em particular) fazer uma resenha na melhoria das condições sa- nitárias dos mercados municipais da capital. Em Luanda, foram melhoradas as condições de saneamento básico, em algumas artérias da cidade, com destaque para estes espaços, nomeadamente os mercados dos congolen- ses no Município do Rangel, o mercado do Asa Branca no Município do Cazenga, o mercado do Kikolo no Município Cacuaco e por último

o mercado do Roque Santeiro, igualmente no

Cacuaco. Em comparação com o passado, es- tes locais de comercialização de bens de con- sumo de primeira necessidade, conheceram

uma melhoria significativa na higiene. Duran- te muito tempo, os produtos eram expostos ao ar livre, as bancadas onde se vendiam apre- sentavam condições péssimas, não existia iluminação, tão pouco a água potável para o consumo. Sabemos todos que a comercializa- ção de produtos de consumo alimentar ao ar livre acarreta uma série de problemas à saúde pública das populações. Assim, a ausência de infra-estruturas logísticas para a comerciali- zação destes bens alimentares fazia com que boa parte da população tivesse os mercados informais como alternativa. Durante décadas,

o Governo perdeu avultadas somas de dinhei-

ro devido à fuga ao fisco. Esta evasão devia- se à falta de uma estrutura administrativa adequada nos mercados municipais. Com a melhoria das condições destes mercados, do- ravante vai aumentar o volume das receitas a serem arrecadadas. A melhoria das condições vai limitar o espaço de manobra aos infracto- res. O que irá permitir uma satisfação total de todos agentes envolvidos neste processo. Por hoje, a higiene, consumo de água potável, a melhoria das condições nas bancadas de ven- da tendem a melhorar a cada dia que passa. Para melhor respondermos às necessidades dos munícipes da capital, dada a sua divisão administrativa que compreende nove municí- pios, deveríamos ter no mínimo 18 supermer- cados, dito por outras palavras dois em cada municipalidade. Estes locais de venda de pro- dutos de vária ordem, gerariam um número considerável de postos de trabalho, melhoria das condições de trabalho e consumo de pro- dutos devidamente conservados. Uma ideia a reter e a aplicar neste novo ano!

* em colaboração com André Sibi

A Nova Constituição deverá ser um documento aprovado por consenso da maioria; um diploma onde cada um de nós se possa rever

IN FOCO
IN FOCO

| manuela bártolo

Memória colectiva

A maior parte de nós não decora datas, ape-

sar de alguns (poucos) terem todos os dias importantes (ou não) memorizados de uma forma impressionante. Há, no entanto, um momento que marca particularmente todos os angolanos, mais patriotas, menos patrio- tas, pouco importa. O 11 de Novembro é e será sempre uma data a festejar por todos. Seja qual for o canto do mundo, onde há um ango- lano, há o sentimento de felicidade por essa independência conquistada. Partilham uma história de dor e sofrimento, mas também de

conquistas e vitórias, de respeito pelos seus heróis que lutaram e venceram. Faz 34 anos que Angola se “libertou” do jugo colonialis- ta. Não foi uma luta fácil e desencadeou ou- tra que viu o seu fim há menos de dez anos. Contudo, como todos sabemos o importante

é começar-se por algum lado. A 11 de Novem-

bro de 1975 proclamou-se a República Popu- lar de Angola, hoje República de Angola, mas tudo começou com o fim da ditadura em Por- tugal, a 25 de Abril de 1974. Para recordar a

sua História, o Consulado Geral de Angola no Porto (Portugal) organizou, no passado mês, em dois espaços distintos da cidade, uma enorme festa. Foi num clima de elevada es- perança e sentido orgulho, que se comemo- rou o 34º Aniversário da Independência. Em memória de todos os guerrilheiros e cidadãos anónimos, que lutaram pela autonomia do país, tornando o combate pela libertação na- cional um marco árduo e glorioso, que permi- tiu aos angolanos passarem a decidir o seu

destino, os altos dignitários angolanos em terras lusas honraram o seu passado e ce- lebraram com toda a comunidade. O evento serviu, sobretudo, para marcar a assumpção da dignidade e orgulho presente em todos que, longe da sua terra natal, se esforçam para tornar a pátria-mãe uma nação cada vez mais soberana. A batalha contra o colo- nialismo português possibilitou aos políticos nacionais passar a comandar os desígnios do país. Sacrifícios patrióticos de homens e mulheres, que “devem sempre ser homena- geados”, proporcionando um futuro digno às novas gerações, que no exterior defendem a oportunidade de usufruírem de um país rico e abundante em recursos. A proclamação da independência permitiu o seu reconhecimen- to como nação, tornando-o um exemplo para os restantes países africanos ao demonstrar ser possível a pacificação e a estabilidade po- lítica por via do diálogo. A estratégia adopta- da na resolução do conflito interno é hoje um

modelo a ser transmitido, de forma profunda

e contínua aos jovens, para que estes possam

compreender a sua história não só academi- camente, mas também entender a sua im- portância e repercussão no presente e futuro do seu país. Angola soube ser, ao longo das últimas décadas, um impulsionador das re- voluções raciais no continente africano, uma enorme evolução baseada num trabalho ár- duo de gerações, que lutaram com convicção pelo direito dos negros à igualdade e dignida- de como seres humanos. A instauração defi-

nitiva da paz possibilitou ao país destacar-se quer em África, quer no mundo, pois tem-se revelado capaz de consolidar, cada vez mais,

o seu sistema democrático, espelhado na re-

alização de eleições livres e pacíficas, a última das quais realizada em Setembro de 2008. Todos crêem estar no bom caminho, confian-

tes na melhoria social e num amplo progresso económico, muito, também, devido à estabi- lidade política alcançada.

económico, muito, também, devido à estabi- lidade política alcançada. 1 2 | ANGOLA’IN · IN FOCO
Maria de Jesus dos Reis Ferreira, Cônsul-Geral de Angola no Porto (ao centro) com Rui

Maria de Jesus dos Reis Ferreira, Cônsul-Geral de Angola no Porto (ao centro) com Rui Xavier, Ministro Conselheiro e restante comitiva

‘Durante anos, por causa da guerra, tivemos um outro tipo de cultura, agora é o
‘Durante anos, por causa da guerra,
tivemos um outro tipo de cultura, agora
é o momento de mudar para melhor’
Amélia Silva, presidente da OMA com o filho e alguns amigos

discurso directo

discurso directo

Amélia Silva

∏residente da Organização da Mulher Angolana (OMA) no Porto

“Penso que para todos os angolanos, estarmos aqui hoje representados, é um enorme prazer

e uma grande honra. O nosso consulado sem-

pre fez questão de manter a comunidade unida nestas datas. Mais uma vez, é com distinção que digo que tanto o consulado, como a nossa embaixada, nos fazem sentir nestes dias como se estivéssemos em solo pátrio. Para mim, es- te é um dos momentos mais importantes da

história do meu país. Vivo em Portugal há dez anos, mas para mim este é um dia que me re- presenta na totalidade. Sinto-o como um dia de reflexão. Já que actualmente Angola vive tempos de paz devemos, cada vez mais, pensar no nosso desenvolvimento. Não adianta neste momento falarmos em guerra, é passado, im- porta dizer que temos de arregaçar as mangas

e levar a nossa nação ao progresso que ela me-

rece, tentando elevar o seu crescimento a to-

dos os níveis. Um dos aspectos fundamentais que Angola deve ter em consideração é a impe- riosa necessidade de uma mudança de atitude e consciência. Durante anos, por causa da guer- ra, tivemos um outro tipo de cultura, agora é o momento de mudar para melhor. Reflectir so- bre as camadas mais jovens; prepará-las para que consigam enaltecer o nome do país e con- tinuar com o legado dos nossos antepassados. Acho que os jovens que vivem em Angola sem- pre sentiram isso, mas os que vivem em Por- tugal penso que nem tanto. Como emigrante, acho muito sinceramente que, principalmente os que nasceram cá, precisam de se sentir mais integrados. Importa fazer um grande trabalho no sentido de os enraizar; ensiná-los em rela- ção à nossa cultura, gastronomia, hino nacio- nal, etc. É necessário passar essa informação, pelo que devemos começar a fazer isso nas nossas próprias casas e a nível global, através do consulado/embaixada, organizando mais actividades com o apoio das diferentes asso- ciações. São pontes que temos de criar, até pa- ra ensinar a nossa língua, um dos aspectos que considero mais importante.

UM POUCO DE HISTÓRIA – PARTE I

Angola foi povoada pelos portugueses no sé- culo XV e permaneceu como sua colónia até

à independência em 1975. O primeiro euro-

peu a alcançar o país foi o explorador por- tuguês Diogo Cão, que desembarcou na foz do Rio Congo, em 1483. Em 1490, os portu- gueses enviaram uma pequena frota de na- vios com padres e trabalhadores, bem como ferramentas para o Rei do Congo. Em breve, contudo, o comércio de escravos levou à de- terioração das relações de Portugal com o Rei Afonso e os seus sucessores, criando revol- tas internas que conduziram ao declínio do Reino do Congo. Entretanto, os portugueses expandiram os seus contactos para Sul ao longo da costa, fundando Luanda, em 1576. O comércio de escravos continuou até meio do século XIX. Descontentes com a governação portuguesa, os angolanos começaram a lutar pela independência iniciando a guerra con- tra Portugal, em 1961. Em Janeiro de 1975, foi estabelecido um governo de transição, com representantes do Movimento de Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional para a Libertação de Angola (FNLA), A União Na- cional para a Independência Total de Angola (UNITA) e o governo português. No entanto, os violentos combates entre o MPLA e FNLA em Março de 1975 tornaram patente o resul-

tado das várias diferenças políticas, que se es- tenderam através do país. Na segunda metade de 1975, o controlo de Angola estava dividido pelos três maiores grupos nacionalistas, cada um dos quais ajudado por potências estran- geiras. O MPLA , que tinha tomado o controlo da capital, era apoiado pela União Soviética e Cuba, a FNLA pelo Zaire e potências ociden- tais (incluíndo os Estados Unidos), enquanto

a UNITA era apoiada pelas forças sul-africa- nas. A FNLA e a UNITA formaram uma frente unida para combater o MPLA

IN FOCO
IN FOCO

Evy Martins

Presidente da Casa de Angola na Figueira da Foz

Este é para mim um dia de enorme alegria. Enquanto presidente da Casa de Angola na Figueira da Foz, sinto-me orgulhosa por as- sinalar esta data junto da nossa comunidade. Procuramos através desta e de outras acções integrar, cada vez mais, os angolanos no país. Razão pela qual, a associação tem vindo a ofe- recer um conjunto alargado de serviços, como consultas de clínica geral gratuitas ou de ad- vocacia. Temos uma equipa multidisciplinar em acção e recorremos também à Segurança Social portuguesa quando temos necessidade de auxiliar os nossos compatriotas em outras áreas. Quero salientar que o nosso maior ob- jectivo é divulgar a cultura angolana no seio deste concelho. É uma cidade que adoro, onde estão instalados alguns angolanos e que já re- cebe algum investimento empresarial de An- gola ao nível dos apartamentos e compra de casas de praia. Cada vez mais, a comunidade angolana se está a espalhar por todo Portugal. No entanto, uma questão que me preocupa é que, por vezes, é difícil chegar à nossa comu- nidade, principalmente àqueles que vieram de Angola porque resistem em aceitar a ideia de que está tudo bem. Percebo, contudo, uma

aceitar a ideia de que está tudo bem. Percebo, contudo, uma Pétio Juarez Penelas de Barros

Pétio Juarez Penelas de Barros e namorada

‘Tenho um desejo:

recuperar os códigos ético-civilizacionais e a moral, fundamentos da nossa Nação’

Evy Martins, presidente da Casa de Angola na Figueira da Foz

identidade forte e reforçada, que nos dá san- gue novo e que às vezes quando estamos a ir

a baixo pensamos “vale a pena ir em frente”.

A população actual é mais jovem, habituada a

fazer intercâmbios de comércio, negócios, cul- tura e ensino. Um dos maiores objectivos da Casa Angolana na Figueira da Foz é, por isso, promover a lusofonia. A começar pela língua, algo muito forte que nos une. Somos todos irmãos, somos todos lusófonos e temos de lutar por isto, pela língua-mãe que nos identi-

fica. Temos de estar unidos porque é aí que re- side a nossa riqueza. Se nos unirmos de facto, tenho a certeza que nos tornaremos menos dependentes de nações que pouco ou quase nada têm a ver connosco. Esse é o nosso te- souro - o factor humano -, até para que não haja alienação cultural. Aos jovens deixo ape- nas uma mensagem “nunca percam a identi- dade cultural angolana”.

José Marcos Barrica, Embaixador de Angola em Lisboa, Portugal e Cecília Baptista, Cônsul-Geral de Angola
José Marcos Barrica, Embaixador de Angola em Lisboa, Portugal e Cecília Baptista, Cônsul-Geral de Angola em Lisboa
Colaboradores do Consulado de Angola no Porto Miguel Simões, partner da empresa NBB (National Business

Colaboradores do Consulado de Angola no Porto

Miguel Simões, partner da empresa NBB (National Business Brokers)
Miguel Simões, partner da empresa NBB (National Business Brokers)

Miguel Simões

Partner da empresa NBB (National Business Brokers)

Carlos Gourgel

Angolano a viver em Portugal

UM POUCO DE HISTÓRIA – PARTE II

Na sequência do derrube da ditadura em Portugal (25 de Abril de 1974), abriram-se perspectivas imediatas para a independên- cia de Angola. O novo governo revolucio-

nário português encetou negociações com os três principais movimentos de libertação

- MPLA, FNLA e UNITA -, para iniciar o pe-

ríodo de transição e o processo de implan- tação de um regime democrático no país (Acordos de Alvor, Janeiro de 1975). No dia 10 de Novembro de 1975, o Alto Comissário

e Governador-Geral de Angola, almirante Le-

onel Cardoso, em nome do Governo portu- guês, proclamou a independência de Angola, transferindo a soberania de Portugal, não pa-

ra um determinado movimento político mas sim para o “Povo Angolano”, de forma efecti- va a partir de 11 de Novembro de 1975. Parte do discurso dizia: “E assim Portugal entrega Angola aos angolanos, depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir. Os homens desaparecem, mas a obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa

e sem ter de que se envergonhar. Deixa um

país que está na vanguarda dos estados afri- canos, deixa um país de que se orgulha e de que todos os angolanos podem orgulhar-se”. Agostinho Neto, foi o primeiro presidente de Angola. A decisão de reconhecer como legíti- mo o governo de Agostinho Neto foi tomada pelo então presidente Ernesto Geisel ainda a 6 de Novembro, antes da data oficial de inde- pendência. A 11 de Novembro Agostinho Ne- to proclamou em Luanda este dia histórico

“Sinto um júbilo muito grande. Angola é um país muito sofredor, fruto de uma guerra de 40 anos, e estas comemorações fazem com que nunca esqueçamos o quanto nos custou alcançar a paz. Reavivam nas nossas men- tes os nossos entes queridos que pereceram. Neste momento, temos progresso e ao feste- jarmos não podemos esquecer esse passado tão longo e duro. No entanto, chegou a vez do futuro. 2010 será um ano de muito desenvol- vimento. Espero, por isso, que os angolanos tenham uma nova corrente de pensamento e possam evoluir baseados em ideais de demo- cracia, liberdade, pão para todos e dignidade. Tenho apenas um desejo – que muitos dos os meus “irmãos” recuperem os códigos ético- civilizacionais e a moral que foram perdendo ao longo dos últimos anos”.

“A grande mensagem que gostaria de transmi- tir num dia como este é que todas as pesso- as percebam que Angola já tem profissionais altamente qualificados e dispõe de empresá- rios que dignificam o nome do país no exte- rior. Logo, quem pensar ir para este território deve fazê-lo com um espírito de investimento e com o objectivo de se radicar lá. Quem não pensar assim não tem interesse para Angola, pois haverá outros empresários de outras par- te do mundo que irão fazer o mesmo. Não é o que o país pretende e precisa. O maior gosto que teria neste próximo ano, era que todos os jovens angolanos que estão a estudar um pou- co por toda a parte do mundo voltassem para o seu país e que juntos façam mais por Angola, no sentido de consolidar a imagem de grande potência e obter, cada vez mais, o respeito de toda a comunidade internacional”.

Nota: Este evento teve o patrocínio de algumas das maiores empresas portuguesas e angolanas, entre elas a Mota-Engil, FIL, Unicer, Monte Adriano, Conduril, Saftur, Soares da Costa, Grupo Visabeira, Taminvest Angola, Mufuma e Refriango

GRANDE ENTREVISTA

| patrícia alves tavares

Eleutério Sanches

“nós do mundo” somos

Nasceu em Luanda, mas foi em Portugal que solidificou

a sua brilhante carreira.

Eleutério Sanches é o ícone das artes angolanas. Pintor, músico e poeta, acredita que

a vida é uma aprendizagem

constante e não se incomoda com a definição de místico.

O ‘senhor dos sete ofícios’

recebeu a Angola’in e numa conversa intimista falou dos momentos que o país atravessa, do desejo de leccionar em Luanda e dos seus projectos. Nesta edição especial, um dos principais artistas de Angola aceitou o

desafio e pintou a nossa capa.

A sua entrevista constitui

um verdadeiro passar de testemunho às novas gerações

um verdadeiro passar de testemunho às novas gerações VISÃO DA TERRA NATAL Desloca-se a Angola com

VISÃO DA TERRA NATAL

VISÃO DA TERRA NATAL

Desloca-se a Angola com frequên- cia. Como foi assistir à distância a todas as situações que se desenro- laram no país? O período da guerra foi por um lado desmoti- vador e, por outro, terá motivado coisas, que não são propriamente terapêuticas. A guer- ra é sempre má. Claro que se colhem tam- bém muitos ensinamentos. Neste momento, penso que, ainda que as memórias devam ser sempre guardadas e daí tirar-se muitas ila- ções, há ainda muitas lições a tirar. Agora, o ambiente é muito mais propício para o país progredir em todos os aspectos, não só no la- do criativo propriamente e na aprendizagem técnica, mas também no sossego que é pre- ciso para criar.

No último mês assinalaram-se os 34 anos de Independência. O que mudou em termos económicos e sociais?

Angola tem progredido em aspectos que têm

a ver com o seu desenvolvimento material.

Tem-se preocupado com isso. Na última vez,

fui a Malange e gostei imenso. Acho que está

a andar para a frente. Luanda tem muitos pro-

blemas. É uma terra hiper-povoada. A guerra também contribuiu para muitos contrastes do ponto de vista urbano e isso tem de ser e já está a ser corrigido. Muito tem que ser feito e com muita orientação, hierarquizando as coi- sas mais importantes. Há que tirar as pessoas da pobreza e de aspectos que são degradan- tes. A guerra trouxe vícios e drogas. Portanto, há ainda muita coisa a corrigir. Está-se a fazer por isso. Há escolas que estão a fazer traba- lhos pedagógicos, que têm contribuído já para um certo desenvolvimento e recuperar muita gente desviada. A distribuição populacional de Luanda tem que ser pensada, a ordenação do território tem que se adaptar ao espaço exis- tente e as pessoas só têm a ganhar com isso. Há que fazer uma reintegração.

O próximo ano é decisivo em termos

políticos: constituição e eleições presidenciais. Isso pode contribuir para essa mudança positiva? Penso que sim. Acho que Angola precisava dis- so. Já há um clima de paz e esse aspecto pode ser feito com mais adequação. Agora, o país tem a capacidade de poder ser governado de uma pon- ta à outra e naturalmente tem que se criar um aparelho político, que realmente governe, um poder político com outras ambições, com mais

ambição de chegar a todos os lados. Tem que se proteger mais, não pode desistir de insistir na- quela parte que está desviada da cidadania.

A elevada presença de investidores

estrangeiros é benéfica para o país?

A maior parte de Angola está abandonada,

mas é preciso fazer esse trabalho de povoa- mento, privilegiando os de língua portuguesa. Tem todas as vantagens, não só na língua co- mo na cultura e história, que são indissociá- veis. Para se compreender o futuro é preciso estudar o passado. Por outro lado, descentra- lizar Luanda só tem benefícios. Hoje, Angola importa muita coisa que, com o desenvolvi- mento local, da indústria e do empreendedo- rismo como deve ser, poderia ser produzida dentro do país. Se todos derem um contribu- to honesto dá para valorizar não só os verda- deiramente interessados nessas empresas como os angolanos. Agora vão-se fazer par- cerias, os dois lados só ganham com isso.

É exequível combater a corrupção? É possível e eu penso que tudo isso existe precisamente ainda como consequência das guerras. Elas são muito más para estas coi- sas, tal como contribuíram para separar as famílias, que estão desagregadas, sem estru- tura nenhuma e sem capacidade de respon- der às necessidades que têm. Portanto, isso tem que ser revisto pelos serviços sociais e de inserção, que vão ter muito que fazer.

Estão reunidas as condições para que os jovens que estão fora do país regressem? Há muita gente fora, que está a estudar e sabemos que alguns não regressam, o que

é mau, pois eram necessários. As coisas não

são fáceis. Tem havido regressos frustrados por causa de aspectos de colocações dentro das áreas que estudam, mas isto tem que se fazer com tempo. Não podemos querer já tu- do de uma vez. Considero que se está no bom caminho e a intenção é essa. Angola tem ca-

pacidade para absorver tudo, mas isso depen- de sempre dos vários lados, dos que estudam

e dos que colocam as pessoas nos lugares em

que são necessários. Há-de haver certamente muitos aspectos em que é preciso colocar as pessoas em situações que podem ser muito úteis àquele país.

NOVA GERAÇÃO DE TALENTOS

NOVA GERAÇÃO DE TALENTOS

No caso concreto das artes, um jo- vem para se formar tem condições para o fazer dentro do país? Tenho um amigo que começou a trabalhar em pedra e tem uma boa mão para a escultura, que é o António Magina. Esteve nas pedrei-

ras do Mussulo, por iniciativa própria, a fazer

a sua pesquisa e estudos. Isso é positivo. Não sei se terá formação académica, mas isso não

é totalmente necessário. Há grandes artistas

que foram autodidactas e chegaram ao topo. Angola precisa sempre dos seus jovens, mes- mo dos que saem para estudar e esses preci- sam de um estímulo para poder voltar ao país, assim como os que lá estão. É preciso criar nú- cleos afectivos para que possam desenvolver essas diversas intervenções das artes.

Nas novas gerações, existe talento? Há, com certeza. Eu creio, e não é chauvinis- mo da minha parte, que o angolano geral- mente tem uma tendência e uma apetência natural para as artes, seja a música, a pintura ou o desenho. Mas claro que é preciso uma iniciação para tudo. Há algumas coisas em que é necessário um impulso. É preciso ir bus-

coisas em que é necessário um impulso. É preciso ir bus- “O angolano geralmente tem uma

“O angolano geralmente tem uma tendência e uma apetência natural para as artes, seja a música, a pintura ou o desenho”

car recursos humanos adequados seja lá onde for e não deve haver preconceitos. Tem que

se procurar os bons onde os houver, para dar

o seu contributo. Angola só ganha com isso.

Aliás já estão a fazê-lo em muitos domínios,

mais ligados às finanças e às economias, o que também não é mau.

É necessário mais empenho? Noto que sim, porque as artes voltam a es- tar numa fase de grande experimentação. O aparecimento de materiais novos obriga a ser dinamizador para novas intervenções. Por- tanto, estamos também de novo numa fa- se de grande importância para esse tipo de

pesquisa, que tem que ser feita. Não é fácil,

é preciso primeiro preparar pessoas para que

possam interessar-se a sério e com humilda- de ir aprender.

Existe público para a arte nacional? Há público, mas é preciso formar as pessoas. Agora há uma nova ministra da educação, es- peramos que ela, que é uma pessoa sensível, dê um impulso às artes e às coisas relativas às suas diversas manifestações (pintura, ce- râmica, etc).

O ARTISTA

O ARTISTA

Como descreveria o seu percurso profissional?

O meu avô dizia que eu desenhava em qual-

quer suporte, por exemplo na areia. Eu lem- bro-me realmente do percurso de iniciação normal. Os miúdos têm uma inquietação pe-

lo riscar, pela linha e às vezes essas coisas

manifestam-se muito cedo. Há crianças mui- to precoces e eu comecei com poucos anos

a fazer os meus riscos e rabiscos. Depois fui

desenvolvendo e houve alguém no liceu Sal- vador Correia, o meu professor de geografia, André Simbrone, que reconheceu o meu ta- lento. Houve várias pessoas a incentivar-me. Vim formar-me em Lisboa, onde estudei Be- las Artes e consegui, ainda antes de ser aluno, fazer uma exposição. Fiz um certo sucesso no Palácio Foz.

Em Lisboa, trabalhou durante 10 anos no departamento de Ergotera- pia do hospital Júlio de Matos… Foi talvez dos sítios onde colhi mais no acto

de ensinar, se é que ensinei alguma coisa. Ali

a arte funcionava como terapia para criar os

ambientes propícios a que as pessoas se liber-

GRANDE ENTREVISTA

GRANDE ENTREVISTA
GRANDE ENTREVISTA “A arte é a única coisa que sendo deste mundo já não é deste

“A arte é a única coisa que sendo deste mundo já não é deste mundo”

raiz e que sem querer já lá estamos. O pintor hoje é como toda a arte. Nós somos do mun- do e a arte é planetária em todos os aspectos, porque há cada vez uma maior interacção. Es- te mundo está cheio de inquietação, em que há aberturas que são louváveis, em que as pessoas aceitam as outras naturalmente e é já um espírito planetário, cósmico.

naturalmente e é já um espírito planetário, cósmico. “É necessário esforço, sacrifício e gostar muito [da

“É necessário esforço, sacrifício e gostar muito [da sua arte]. Se não gosta não vá por aí, procure outra coisa”

tassem, porque são doentes de vária ordem (esquizofrénicos, maníacos depressivos, atra- sados mentais, etc.). E os que tive como alu- nos eram de uma diversidade muito grande. Foi uma experiência muito interessante para mim, por ter oportunidade de poder conviver com os tais que dizem que são anormais.

Foi professor por muitos anos. Nunca sentiu vontade de leccionar em Luanda? Senti e já o manifestei várias vezes. Sinto es- sa vontade e falei nisso ainda no tempo do governador Aníbal Roça, um homem sensível, mas não sei em que estado de desenvolvi- mento está esse anseio. Gostei sempre mui- to de dar aulas, porque se aprende bastante. É uma actividade que compensa.

Que conselho gostaria de dar aos futuros artistas? Procurava dar-lhes uma visão geral dos as- pectos que são mais desconfortáveis e incó- modos e da parte gratificante, que é boa e que traz depois o resultado final. Até lá é ne- cessário esforço, sacrifício e gostar muito. Se não gosta não vá por aí, procure outra coisa. Deve-se gostar sempre, seja lá o que for.

A ARTE

A ARTE

O que significa a arte para si?

É uma definição que é quase impossível. A arte

é tudo o que é vida, o que me motiva, que me

revela a beleza, que tem múltiplas aparências.

A arte pode ser um veículo para

esse entendimento? Sem dúvida. A arte é a única coisa que sendo

deste mundo já não é deste mundo. Com isto quero dizer que eu não separo os mundos.

A

beleza contém um mistério que é indescrití-

vel, que não desmontamos. Eu penso que se a

Existe alguma obra que o marcou

peça se for uma obra de arte, esta transcende

particularmente?

o

próprio artista. Ele não deve ter a pretensão

Há muitas. O livro Universo-Transverso res-

de querer ler tudo o que faz. Às vezes até pode

ponde a isso, pois é uma parte expressiva da

ser ultrapassado. Arte é a criatividade, é tudo

minha obra, que está sempre ligada aos ele-

o

que nos toca profundamente.

mentos, à água, ao fogo, à terra… Estou sem- pre unido ao universo, ao cosmos. Acredito

O

que faz mais o artista? A parte

que todos nós temos essa ligação do espírito

técnica ou o talento? Eu penso que trabalhar é fundamental. Tra- balhar deve ser um acto constante. E nesse acto penso que está também implícita a con-

profundo. Essa parte para mim é importan- te e eu acho que isso acontece naturalmente. Não preciso de me inspirar, eu vou buscar a inspiração. Nós somos capazes de a ir buscar.

templação. Eu dou muito valor a isso. Sou ca- paz de no silêncio da meditação estar a ver uma obra durante umas horas, pegar nesse trabalho e virá-lo de costas para depois re- tomar noutro tempo. Nós temos uma parte emocional, estados de alma e esse retomar

já não é o mesmo. Pode enriquecer aquilo que

antes foi iniciado. Há uma parte que de fac- to é a continuidade, que nos abre para ou-

tros universos ainda que estejam no mesmo universo. Mas há em nós a capacidade para penetrar em outros compartimentos desse mesmo universo.

Vai buscar inspiração às suas raízes? Sempre. É natural, não é forçado. Sou um pintor que não tem preconceitos de motiva- ções. Gosto de qualquer tema. Claro que há os temas afectivos, a que estamos ligados pela

Sente-se orgulhoso por ver as suas obras publicadas nos diversos cantos do mundo? Naturalmente que sim. Agora convidaram- me para uma exposição que querem fazer com a Unesco, na Suíça. Deve ser para o ano. Espero que se materialize.

É pintor, músico e poeta. O que lhe

falta fazer? Tanta coisa. Eu cultivo estas coisas, também como terapia, no sentido de mi longo, como se diz na terra, de remédio para a alma. Gos- to pessoalmente da dimensão terapêutica da arte, de algo que pode ser feito para fazer bem aos outros. Não sei se é possível conse- guir sempre isso, nem eu tenho essa preten- são. A verdade é que penso que o mundo precisa disso.

FOTO REPORTAGEM

| ana rita rodrigues

De braços abertos a 2010

A doçura de um beijo infantil será a melhor

ilustração de votos de muito amor para o novo ano. Angola vive um notável crescimento e progresso

e o mundo está de olhos postos em nós. Cada novo dia somos uma Angola mais bonita, mais alegre e ambiciosa.

Neste mês de Dezembro, aproveitamos para reflectir sobre o que deixámos para trás e renovamos os nossos votos para o futuro. São sempre os

mesmos

Não importa o Hemisfério. Importa a condição humana, igual em todas as partes.

amor, saúde, paz, trabalho.

Num momento em que o angolano nunca sentiu tanto orgulho de o ser, teremos que receber este novo ano unidos e responder a cada novo desafio com a garra e a confiança de que somos do melhor que há no mundo.

O milindro, a fuba, a kizomba e o CAN estao aí!

Haja força e felicidade, bem haja 2010!

texto + fotografias - Ana Rita Rodrigues

e felicidade, bem haja 2010! texto + fotografias - Ana Rita Rodrigues 2 2 | ANGOLA’IN
FOTO REPORTAGEM · ANGOLA’IN | 23

FOTO REPORTAGEM

FOTO REPORTAGEM 2 4 | ANGOLA’IN · FOTO REPORTAGEM
FOTO REPORTAGEM 2 4 | ANGOLA’IN · FOTO REPORTAGEM
FOTO REPORTAGEM 2 4 | ANGOLA’IN · FOTO REPORTAGEM
FOTO REPORTAGEM · ANGOLA’IN | 25
FOTO REPORTAGEM · ANGOLA’IN | 25
FOTO REPORTAGEM · ANGOLA’IN | 25
DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

CORRIDA PARA A VITÓRIA
CORRIDA
PARA A VITÓRIA
aceitaram o desafio e responderam às questões da nossa publicação, revelando maturidade, vontade de vencer
aceitaram o desafio e responderam às
questões da nossa publicação, revelando
maturidade, vontade de vencer e desejo
de chegar mais longe.
Neste especial do CAN levamos até si
toda a informação que deve reter sobre
esta matéria. Os estádios e as infra-es-
truturas não foram esquecidos e apre-
sentamos um dossier completo sobre as
especificidades de cada recinto, bem co-
mo todos os pormenores das cerimónias
oficiais, que decorrem em Luanda.
Tecnologia e simbioses com o passado
cultural estão em destaque nos actos
de abertura e encerramento do evento
desportivo. Por outro lado, porque con-
sideramos que conhecer os adversários é
fundamental para explorar as suas fra-
quezas, elaboramos um ‘raio x’ das se-
lecções que, de 10 a 31 de Janeiro, vão
disputar o título do Campeonato Africa-
no das Nações de 2010.

O país está em contagem decrescente

para o maior evento de futebol alguma vez organizado em território nacional. Ultimam-se os pormenores e os adep- tos assistem com entusiasmo à prepa- ração da equipa que vai representar as cores da nação.

A Angola’in acompanhou os Palancas Negras durante o seu estágio em Por- tugal, na região
A Angola’in acompanhou os Palancas
Negras durante o seu estágio em Por-
tugal, na região do Algarve, e revela-lhe
em exclusivo todos os pormenores acer-
ca dos desafios e emoções que o grupo
viveu. As palavras de ordem foram con-
centração total e empenho máximo.
A nossa equipa de reportagem conver-
sou com o treinador Manuel José e acom-
panhou a chegada do presidente da
Federação Angolana de Futebol, Justino
Fernandes, que se deslocou àquele país
para assistir a um dos jogos de prepara-
ção da equipa e para motivar a selecção.
A aguardar pela chegada dos restantes
elementos da comitiva e a poucos dias
de ser conhecido o lote dos atletas parti-
cipantes, o responsável pela organização
do evento demonstrou, em declarações
à Angola’in, uma forte confiança no su-
cesso desta formação.
Descubra neste especial, inteiramente
dedicado ao acontecimento do ano, o
dia-a-dia do grupo, cuja união e coesão é
evidente. Os principais rostos da equipa
DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

Tecnologia e Cultura na abertura oficial

O dia mais esperado pelos angolanos, desde que tiveram conhecimento da sua nomeação para a organização da 27ª edição do Campeonato Africano das Nações (CAN), está a chegar. O arranque e encerramento do torneio estão há muito planeados e nada foi esquecido. A segurança é uma das principais preocupações e as medidas foram devidamente tomadas. Está tudo preparado para o acontecimento do ano, que irá decerto ficar na memória colectiva de Angola

Dez de Janeiro de 2010 é sinónimo de ‘olhos postos’ no país, que acolhe mais uma edição da maior competição continental de futebol. Os pormenores estão ultimados e o arranque começa dez dias antes do ponto de partida da cerimónia oficial, que antecede o jogo inaugu-

ral, onde Angola, a equipa anfitriã tem a hon-

ra de dar o pontapé de saída. Assim sendo, no

primeiro dia do ano realiza-se, como é já ha- bitual, o congresso da Confederação Africana de Futebol (CAF), com a finalidade de fazer o balanço e estruturar os serviços e actividades da entidade, enquanto órgão reitor do despor- to rei em África. Recorde-se que o país orga- niza o primeiro de dois eventos de futebol, de extrema importância, que decorrem no conti- nente em 2010.

“Angola e o Futuro” é o tema da festa de abertura, que terá uma simbiose entre a cultura nacional e as novas tecnologias

ATENÇÕES CONCENTRADAS EM ANGOLA

A organização acredita que o arranque do CAN

em solo nacional é o início de uma nova era,

tendo por isso trabalhado para que a cerimó-

nia de abertura signifique a estreia de uma competição de referência a todos os níveis. A abertura do Campeonato Africano das Nações “Orange Angola 2010” pretende ser um suces- so. Nada foi deixado ao acaso, desde a elabo- ração do “layout” dos bilhetes e convites, ao material de “merchandising”, que está dispo-

tição garante que está tudo preparado para se conseguir um espectáculo de grandeza com- parável às cerimónias de abertura e encerra- mento do Campeonato do Mundo de Futebol de 2006, que teve lugar na Alemanha. A orga- nização garante ainda que dispõe de material tecnológico de controlo remoto e com recurso

nível desde Novembro. A empresa de teleco- municações francesa “Orange” apadrinha o

combustíveis não poluentes, projecção au- diovisual, luzes e fogo-de-artifício.

a

evento, sendo desde Julho o patrocinador ofi- cial da maior competição da CAF. Quanto à ce- rimónia, o lema escolhido não podia ser mais apropriado, tendo em conta o momento que o país vive, em termos de desenvolvimento eco- nómico e social. “Angola e o Futuro” é o tema

ENCERRAMENTO EM GRANDE Os últimos minutos de Angola enquanto na- ção anfitriã da maior competição continental estão a ser planeados com todo o rigor, para que o derradeiro acto oficial dignifique o pa-

da festa de abertura, que terá uma simbiose

ís, o certame e os participantes, não obstante

entre a cultura nacional e as novas tecnolo-

o

destaque para os visitantes, que se espera

gias. O projecto cultural, que terá a duração de

que deixem o território nacional com saudade

45 minutos, conta com a contribuição de his-

e

orgulho, quanto à qualidade da recepção. A

toriadores e antropólogos angolanos, de for-

adaptação dos serviços tecnológicos aos as-

ma a garantir a tradução fiel da história nos três eventos. A organização do espectáculo

pectos culturais angolanos será o mote para o encerramento da prova desportiva. A abertu-

está a cargo da empresa portuguesa Cunha

ra

e finalização do CAN estão agendados para

Vaz e Associados. No total, os eventos (sor-

o

estádio de Luanda (Camama) e os jornalis-

teio, abertura e encerramento) contarão com 1500 figurantes, que envergarão as indumen- tárias de estilistas nacionais. Os conteúdos

tas ficarão albergados no Complexo Futungo II. Não esquecendo o hino oficial da prova, a Angola’in apurou que a música escolhida é da

temáticos estão a ser supervisionados pelo

autoria da dupla Filipe Mukenga e Filipe Zau.

Ministério da Cultura e pelo Comité Organiza-

O

tema intitula-se “Angola, País de Futuro”. A

dor do Campeonato Africano das Nações em Futebol (COCAN). A empresa responsável pe- los momentos mais marcantes desta compe-

31 de Janeiro será conhecido o nome do novo campeão africano, que envergará o título du- rante os próximos dois anos.

DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

Palco de todos os sonhos
Palco de
todos os
sonhos

Luanda, Cabinda, Benguela e Lubango vão receber as 16 selecções, que

a partir de 10 de Janeiro disputam o troféu do Campeonato das Nações

Africanas. Cada cidade viu nascer um novo estádio, com as infra-es- truturas (internas e subjacentes) necessárias para responder às exigên- cias de atletas, dirigentes, equipas técnicas, adeptos e profissionais da comunicação social. Orçados em 600 milhões de dólares, os novos espaços são uma mais-valia para as entidades desportivas locais, que

poderão usufruir das novas funcionalidades, após o término da compe- tição continental. A garantia é assegurada pelos organizadores da prova

e pelo Ministério da Juventude e dos Desportos. As quatro infra-estru-

o gigante de luanda

É

o maior de Angola e o local escolhido pa-

serviços e acessibilidades. A arquitectura do

ra

a abertura do evento do ano. Com capa-

espaço é funcional e teve especial cuidado pa-

cidade para 50 mil espectadores, o estádio

ge” Angola 2010 (10 e 31 de Janeiro), foi edi-

ra

com as necessidades dos adeptos. Os por-

de Luanda situa-se no Bairro da Camama. O

tadores de deficiência não foram esquecidos e

palco, que albergará as cerimónias oficiais de abertura e encerramento do CAN “Oran-

cado pela empresa asiática Shanghai Urban Constrution Group Corporation. A capacidade do principal palco do CAN é de 50 mil pesso-

possuem locais de acesso especiais. O recin- to, que vai acolher a série A do torneio, foi do- tado de vários restaurantes, parte deles com vista para o rectângulo de jogo. O espaço al- berga ainda uma pista de atletismo com oito faixas, escritórios e um camarote presidencial

as

contra os 60 mil inicialmente previstos. A

com 120 lugares. As condições para o trabalho

empreitada esteve ao cargo do consórcio for-

dos meios de comunicação social, nacionais e

mado pelas empresas Urbinvest, Arup Sport-

internacionais, foram pensadas ao pormenor.

Ar, Mario Sua Kay Arquitecto, China National Impor e Export Corporation (CEIEC), Cogedir, Somague, Engenharia Angola e Mota Engil.

estádio integra duas salas de imprensa, es-

paço para conferências, dois pontos para en- trevistas rápidas e uma zona mista. A obra

O

Coqueiros, o da Cidadela e o 22 de Junho foram

A

organização está confiante de que o es-

envolveu 2.300 trabalhadores, tendo dado

tádio de Luanda vai fomentar o desenvolvi- mento urbano de toda a região de Luanda e

respeita todos os requisitos de funcionalida- de, segurança e modernidade, impostos pela FIFA. O design, daquele que é actualmente o maior recinto desportivo do país, é moderno

emprego a 1.500 angolanos e 800 chineses. Além do estádio principal, a capital cede dois dos seus antigos estádios para os jogos de treino das selecções apuradas. O Estádio dos

remodelados e assumem durante o período

e

arrojado, contendo três anéis, elevadores

da competição a função de campos de treino.

panorâmicos, áreas VIP, camarote presiden-

O

primeiro tem capacidade para cerca de cinco

cial e tribuna para a imprensa. O estádio es-

mil espectadores, relva natural e instalações

inserido numa zona privilegiada, uma vez

de qualidade, uma vez que foi recentemen-

que está situado em Viana, próximo do Cam- pus Universitário Agostinho Neto (a 10 qui- lómetros), uma área composta por diversos

te restaurado. As restantes infra-estruturas podem receber até 9.500 pessoas e possuem igualmente relva natural.

à lupa • 50.000 lugares no total • 2080 lugares VIPS • 400 lugares para
à lupa
• 50.000 lugares no total
• 2080 lugares VIPS
• 400 lugares para deficientes
• 120 lugares no camarote presidencial
• 200 lugares na tribuna de imprensa
• 3 mil lugares de estacionamento
para viaturas ligeiras
• 800 lugares de estacionamento
para autocarros
• 35 km de bancadas pré-fabricadas
• 100.000 m3 de betão utilizados
• 5 MVA é a potência energética necessária
curiosidades
O Estádio dos Coqueiros foi reinaugurado
em Setembro de 2005, após uma interven-
ção de fundo, que permitiu criar instala-
ções de excelente qualidade. Sem dúvida, o
melhor equipado para receber as sessões de
treino. Do “velhinho” estádio resta apenas a
estrutura arquitectónica da fachada princi-
pal. O sistema de irrigação do relvado é au-
tomático e tem espaço para 12 mil adeptos.
Possui seis portas de acesso para os adeptos,
duas para os jogadores e uma VIP.
CAN SOLIDÁRIO As quatro cidades que vão acolher o CAN dispõem de um parque de
CAN SOLIDÁRIO
As quatro cidades que vão acolher o CAN
dispõem de um parque
de campismo,
criado especificamente para responder às
turas têm relva natural e pista de tartan. O recinto de Luanda pode albergar
até 50 mil espectadores e o de Benguela 35 mil, enquanto Huíla e Cabinda
dispõem de uma capacidade para 20 mil pessoas cada. A sua gestão está
necessidades de procura
neste período.
um espaço,
Assim, cada província possui
a cargo do Ministério das Obras Públicas e a manutenção foi entregue a
com capacidade para acolher 200 cidadãos
técnicos nacionais. Para apoio ao certame, foram ainda recuperados 12 es-
tádios, para a realização dos treinos das selecções participantes. A organi-
zação procedeu igualmente a um investimento de 200 milhões de euros em
novos hotéis e pousadas. A formação dos profissionais também não foi es-
não
possuam capacidade
financeira para pagar estadia
de baixa renda, que
num hotel
quecida. Em contagem decrescente para a cerimónia de abertura, as infra-
estruturas materiais e humanas serão postas à prova no início do ano.
cabinda aposta
na formação
à lupa
O novo complexo desportivo não esqueceu
dio do Tafe é a infra-estrutura designada pa-
ra os treinos das equipas. Os equipamentos
de apoio foram reestruturados para assegu-
rar as condições necessárias para as selec-
ções. O piso relvado tem capacidade para
cerca de cinco mil espectadores. Entretanto,
foi igualmente construído um campo de jo-
gos no Tchi, para completar as estruturas já
existentes.
• 20.000 cadeiras é a capacidade total
do estádio
os futuros atletas nacionais e tem como
principal particularidade o facto de possuir
• 204 lugares VIP
• 65 lugares para deficientes
um recinto relvado adjacente, que será usa-
do para treinos ou jogos das escolas de for-
mação. Moderno e dotado de equipamentos
sofisticados, o estádio de Cabinda está in-
serido no Bairro Tchiazi. A arquitectura arro-
jada e a respectiva cobertura ondulada, que
lembra as ondas do mar da província (banha-
da pelo oceano Atlântico), fazem deste es-
paço um dos mais belos do CAN 2010. Além
desta classificação, a obra merece o aplau-
so da população, uma vez que a estrutura
apresenta 65 lugares de destaque para os
adeptos com deficiências. A beleza e origi-
nalidade do recinto, com capacidade para 20
mil pessoas, devem-se à empresa respon-
sável pela empreitada, a construtora China
Jiangsu International. Relativamente às es-
truturas externas de apoio, o governo local
procedeu à criação de mais uma unidade ho-
teleira e reabilitou o Hotel Congresso, com
• 100 lugares para profissionais
da comunicação social
• 500 lugares de estacionamento
• 1 campo de treino anexo ao estádio
(para jogos das equipas das camadas
jovens)
curiosidades
A última reabilitação do Estádio do Tafe
ocorreu em 2004. O CAN serviu de mote
para a reabilitação de uma série de infra-
estruturas, que já se encontravam des-
gastadas.

o intuito de criar as condições necessárias

para que não haja carência de alojamentos. Para melhorar o visual da província, bastan-

te desgastada pela passagem do tempo, os responsáveis procederam ao arranjo dos es- paços verdes e dedicaram especial atenção às carências de saneamento básico. O está-

SABIA QUE…

optou por empresas

do CAN

comissão organizadora

que

quatro estádios,

A

dos

chinesas para a construção

recaiu nos asiáticos,

vão albergar as provas. A escolha

o porta-voz, em declaração ao jornal

pois, segundo

Diário Económico, nenhuma empresa

os estádios em um ano

português

fazer

europeia “conseguiria

estádios, a

e pouco”. Quanto ao arrelvamento dos

à empresa inglesa SIS - Support In

missão foi atribuída

pela implantação da relva

Sport, que foi responsável

Alemanha, para o Mundial de 2006

nos estádios da

DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

assistentes de recinto recebem formação

A cidade de Cabinda acolheu no último mês um curso de

formação para assistentes de recintos desportivos. Os 550 participantes mostraram-se empenhados na aprendizagem dos conteúdos, elaborados a pensar na capacitação dos

candidatos para a tarefa de servir e auxiliar os utilizadores dos estádios. O curso de aprendizagem foi um sucesso e

a direcção espera que após a conclusão do evento o país

esteja posicionado em altos patamares da organização de actividades desportivas e logística envolvente. “A magnitude

desportivas e logística envolvente. “A magnitude benguela , ao nível dos melhores Comparado por muitos aos

benguela, ao nível dos melhores

Comparado por muitos aos grandes estádios da Europa, o recinto que nasceu em Benguela para acolher o CAN tem capacidade para 35 mil pessoas. A empreitada esteve ao cargo da empresa Sinohydro Corporation. Localizado estrategicamente no bairro da Nossa Senhora

da Graça, o estádio de Benguela obedece rigo- rosamente a todas as especificações da FIFA.

O complexo, à semelhança de Cabinda, criou

lugares para 60 adeptos com mobilidade re-

duzida e possui o maior parque de estaciona- mento, com espaço para mais de mil viaturas.

A principal porta de entrada na província, Lo-

bito, sofreu profundas obras de reabilitação das vias rodoviárias, que duraram meses. A cidade assume especial importância devido ao seu porto comercial, sendo, por isso, um dos principais pontos de referência durante o CAN. Já a capital foi alvo de uma reestrutu- ração mais profunda. As estradas, passeios, jardins e infra-estruturas de apoio foram re- modeladas ou construídas de raiz, facultan- do uma nova imagem da cidade. No entanto, foi ao nível da hotelaria que a província mais cresceu. Aos oito hotéis em funcionamento, juntaram-se mais doze (alguns reabilitados),

disponibilizando um total de 1.140 quartos e 1.483 camas, que até ao arranque da compe- tição deverão estar lotados. O Estádio Muni- cipal de Benguela não foi esquecido e vai ter uma função importante na concretização da

competição africana ao acolher os treinos das respectivas selecções. Reabilitado em 2003, no âmbito do projecto Goal II, desencadeado pela FIFA, o espaço é provavelmente o mais adequado, ao nível provincial, para a função

de campo de treino. A relva é natural e os bal-

neários para as equipas e árbitros estão com nova roupagem, totalmente remodelados.

A estruturação de há seis anos contemplou

ainda a instalação de água e electricidade em todo o espaço. Com uma capacidade pa-

ra quatro mil espectadores, foi recentemente

adaptado, em termos de iluminação, criação

de sala de imprensa e outras funcionalidades.

O estádio do Buraco também sofreu obras de

restauração, nomeadamente nos balneários, acessos, bancadas, iluminação e substituição da relva.

à lupa • 35 mil lugares no total • 308 lugares VIP • 60 lugares
à lupa
• 35 mil lugares no total
• 308 lugares VIP
• 60 lugares para deficientes
• 154 lugares para a imprensa
• 1300 lugares de estacionamento
curiosidades
O Estádio Municipal de Benguela, com
capacidade para quatro mil pessoas, con-
seguiu concluir as obras de reabilitação,
pois determinadas infra-estruturas não fo-
ram beneficiadas pelo projecto da FIFA. O
Estádio do Buraco ganhou novos balneá-
rios, bancadas, acessos e procedeu-se a uma
reinstalação da relva.

do evento impunha a ordem de defesa e segurança e ordem interna à sociedade civil, a responsabilidade de garantir a realização de um CAN exemplar e campeão em termo de segurança nas suas múltiplas vertentes. Constitui preocupação número um a preparação antecipada e acautelada de todos os agentes intervenientes”, apontou António Pedro Kandela, coordenador da subcomissão provincial de segurança e protecção do COCAN. A formação foi dirigida pelo superintendente Sebastião Adão. Trinta

e cinco formadores leccionaram 13 unidades didácticas, durante 19 dias. O plano curricular dividiu-se em três cadeiras: segurança e ordem pública, segurança nos estádios e teoria geral do planeamento, informações e gestão de multidões. O director destacou as vantagens do curso, que dotou os assistentes de recintos desportivos de conhecimentos técnicos, assumindo-se como profissionais eficientes, dispostos a participar activamente e com maior atenção às questões de segurança dos espaços.

cristo rei é atractivo no lubango

Edificado num dos cenários mais belos da pro- víncia da Huíla, o novo estádio do Lubango é provavelmente o mais cobiçado, esperando-se que dentro de alguns meses seja muito pro- curado pelas selecções mundiais, com vista à preparação para o Mundial da África do Sul. A Sinohydro Corporation Limited construiu um dos estádios mais pequenos deste CAN, mas igualmente o mais apelativo, em termos de paisagem envolvente. Situado no bairro Chio- co, o recinto tem uma vista de rara beleza, a partir do qual é possível apreciar a imagem do

Cristo Rei. A altitude da Huíla (1.761 metros) e

o clima temperado, mais mediterrâneo, trans-

formam esta infra-estrutura desportiva numa das mais apetecíveis para as equipas (espe- cialmente europeias) apuradas para o Cam- peonato do Mundo, que decorrerá na vizinha África do Sul, já no próximo Verão. Assim, a or-

ganização do CAN está confiante de que este estádio, logo após o término do torneio conti- nental, será procurado para a preparação das selecções internacionais. Prevendo a enorme afluência de adeptos e comitivas, o troço rodo-

viário de acesso ao estádio foi asfaltado, desde

o entroncamento com a avenida que parte do

Aeroporto da Mukanka até ao principal cam-

po de futebol, inserido na ladeira da cordilheira do símbolo da província, o Cristo Rei. Esta obra foi muito importante para a população daque-

la região, que conta agora com melhores aces-

sos, que facilitam a deslocação dos visitantes entre os principais pontos da cidade. A referida estrada e o recinto estão agora ligados atra- vés da ponte, que foi erguida especificamente para melhorar as acessibilidades da localida- de. A passagem inferior da estrutura alberga

a linha do comboio, que diariamente interliga

a vila de Malata a outros pontos da Huíla e do

Namibe. Ainda relativamente ao exterior, o es- paço envolvente do estádio do Lubango, que vai receber os jogos do grupo D, foi requalifica- da, através de uma acção de arborização, cuja mais valia reside na oxigenação do local, que se encontra cerca de dois mil metros acima do mar. A capital da Huíla apresenta-se na com- petição com três excelentes campos de trei- no. Os estádios Nossa Senhora do Monte, do Ferrovia e do Benfica do Lubango são muito convidativos. As recentes modernizações dos acessos, bancadas, balneários, iluminação e

relvados, aliados às condições meteorológicas

à lupa • 20.000 lugares no total • 208 lugares VIP • 60 lugares para
à lupa
• 20.000 lugares no total
• 208 lugares VIP
• 60 lugares para deficientes
• 104 lugares para os jornalistas
• 780 lugares de estacionamento
curiosidades
O histórico Estádio Nossa Senhora do Mon-
te tem capacidade para 10 mil espectado-
res e foi proposto pelo país para integrar o
Projecto Goal-África da FIFA. O Estádio do
Ferrovia tem capacidade para nove mil pes-
soas, piso em relva e sofreu uma renovação
geral, especialmente ao nível dos balneá-
rios e da Sala de Imprensa

fazem destes espaços as pérolas da província. No âmbito do CAN, a província ganhou mais dois hotéis, para fazer face à elevada procura de alojamentos. O Chick-Chick (cinco andares) e o Hotel Lubango (com uma área de 3600 m2) abrem portas esse mês, num período em que se verifica uma forte corrida aos locais de aco- modação.

DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

Palancas Negras,

Mestres de Cerimónia
Mestres
de Cerimónia

Se o Campeonato Africano das Nações fosse disputado na categoria de apoio do público, os Palancas Negras tinham o título garantido. A Selecção Nacional de Angola joga em casa e como organizadora do evento tem exigências acrescidas. Os adeptos estão eufóricos e a formação conta com a mais-valia de um ambiente conhecido e motivador. Manuel José é o mais recente técnico e garante que a sua equipa vai demonstrar empenho e determinação, revelando estar à altura do desafio de honrar as cores do país

RESPONSABILIDADE DE ANFITRIÃO Pedro Mantorras e Fabrice Akwá são os ícones desta selecção, que no último Mundial impres- sionou pela força de vontade, que superou al-

guma falta de técnica. Entretanto, Akwá, o jogador que bateu os recordes das convocató- rias e marcou mais golos ao serviço da selec- ção, abandonou os relvados. O último ano não foi fácil para esta equipa, que aposta tudo nes- te CAN, que pode ser decisivo para a afirma- ção internacional do país, em todos os níveis. As exibições fracas, o afastamento do Mundial de África do Sul e a mudança de treinador aba- laram inevitavelmente o esqueleto da equipa. Porém, a entrada do técnico português Manuel José, conhecido pelos êxitos à frente do Al Ahly

e pela experiência nos campeonatos africanos,

trouxe um novo fôlego a este grupo, que dis- põe de uma enorme garra, humildade e de vá- rios talentos, oriundos dos palcos nacionais e internacionais. As expectativas são muito al- tas. Afinal, a selecção de Angola, enquanto equipa anfitriã, tem obrigação de impressionar

e alcançar um lugar de destaque na 27ª edição

do Campeonato das Nações. O apoio do público

é uma mais-valia. Os adeptos estão entusias-

mados e prometem ‘puxar’ pela equipa dentro

e fora de campo. A estrutura da formação ain-

da não está definida e os jogadores tentam dar

o seu melhor para conseguir um lugar no onze

inicial, honrando assim a sua nação. Contudo, Manuel José mantém guardado a sete chaves o lote de escolhidos para enfrentar a Argélia, Ma- lawi e Mali, na primeira fase da competição. Os eleitos serão divulgados nas vésperas do tor- neio, bem como a táctica de jogo (ver caixa). Os adeptos mais ansiosos terão ainda que esperar

algumas semanas.

currículo dos palancas negras
currículo dos palancas negras

• Campeonato das Nações Africanas

CAN 1996, 1998, 2006, 2008

• Qualificação Mundial (CAF) Participa-

ção nos apuramentos para o WC 1986,

1990, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010

• Campeonato do Mundo

Fase de grupos do Alemanha 2006

números

números

• 10 jogos para o CAN

• 53 jogos para a qualificação do Mundial

• 1 participação no Campeonato do Mundo

• 84 jogos amigáveis

• 2008 foi o ano da melhor classificação

no CAN (quartos-de-final)

ficha técnica

ficha técnica

• Primeira participação no CAN: 1996

• Treinador: Manuel José

• Preparador físico: Fidalgo Antunes

• Equipamento: Puma

• Ranking FIFA: 98

• Capitão: André Makanga

• Craques: Job, Manucho, Flávio

EQUIPA RESPEITADA

O futebol nacional tem crescido e amadure-

cido ao longo dos últimos anos. Os Palancas Negras já não são conhecidos pelo jogo irre- gular, tendo-se livrado da má fama após a exibição na qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo, na Alemanha, em 2006. O incrível golo de Akwá frente ao Ru- anda permitiu que a equipa se apurasse, em

detrimento da Nigéria, para a maior competi- ção organizada pela FIFA. Analisando a pres- tação da equipa em 2008, os especialistas acreditam que esta deu um salto qualitativo

e tudo indica que o seu bom desempenho se

tornará uma constante. Os êxitos da selecção significam muito para a população, uma vez que o desempenho da formação de Manuel José tem mostrado ao mundo uma imagem diferente do país. Recorde-se as afirmações de Akwá, durante o Mundial de 2006, que rei- terava que ficou “provado que Angola não é

só petróleo, guerra e pobreza”. De facto, es-

ta imagem positiva contribuiu para a atribui-

ção da responsabilidade de organizar a maior competição africana.

VIRAR A PÁGINA

A Selecção Nacional de Angola mostrou-se

ao mundo em 2005, data em que se classifi-

cou para o Campeonato Mundial, pela primei-

ra vez na sua história. Todavia, é nos Jogos

da Lusofonia que os Palancas se eviden- ciam. Após uma medalha de prata em 2006,

a formação subiu este ano ao terceiro lugar

do pódio. A mudança de treinador fez cres- cer a fasquia. O longo currículo e experiência de Manuel José são reconhecidos em todo o continente, pelo que se espera que o grupo

andré makanga Posição: Médio Clube: Kuwait FC Data nascimento: 14/05/1978 Altura: 175 cm Peso: 72
andré makanga Posição: Médio Clube: Kuwait FC Data nascimento: 14/05/1978 Altura: 175 cm Peso: 72
andré makanga Posição: Médio Clube: Kuwait FC Data nascimento: 14/05/1978 Altura: 175 cm Peso: 72
andré makanga Posição: Médio Clube: Kuwait FC Data nascimento: 14/05/1978 Altura: 175 cm Peso: 72

andré makanga

Posição: Médio Clube: Kuwait FC Data nascimento: 14/05/1978 Altura: 175 cm Peso: 72 kg Internacionalizações pela selecção:

Alemanha 2006, CAN 2008, WC2010 CAF

pela selecção: Alemanha 2006, CAN 2008, WC2010 CAF gilberto Posição: Avançado Clube: Al-Ahly Data

gilberto

Posição: Avançado Clube: Al-Ahly Data nascimento: 21/09/1982 Altura: 176 cm Peso: 70 kg Internacionalizações pela selecção:

CAN 2008, WC U20 2001, WC2010 CAF

pela selecção: CAN 2008, WC U20 2001, WC2010 CAF flávio Posição: Avançado Clube: El Shabad (Arábia

flávio

Posição: Avançado Clube: El Shabad (Arábia Saudita) Data nascimento: 30/12/1979 Altura: 173 cm Peso: 73 kg Internacionalizações pela selecção:

Alemanha 2006, CAN2006, CAN 2008, WC2010 CAF

Corrida à conquista do sonho

Manuel José ainda não adiantou dados acerca de quem vai escolher para encabeçar a equipa, que vai disputar o CAN, que decorre de 10 a 31 de Janeiro em Angola. Os jogado- res dão ao máximo nas exibições, mostrando muito empe- nho, dedicação e determinação em honrar a camisola e o nome do país. Até lá, o técnico português vai analisando o potencial de cada um. A Angola’in revela-lhe alguns dos talentos que compõem este grupo de grandes valores:

BIC OFERECE UM MILHÃO DE DÓLARES

O Banco BIC lançou um desafio invulgar

à selecção nacional. A entidade, de capi-

tais portugueses e angolanos, oferece um milhão de dólares à formação, caso esta conquiste o título no Campeonato das Na- ções Africanas. Fernando Teles, presidente do organismo bancário, anunciou ainda que caso os Palancas Negras obtenham o segundo lugar, o montante oferecido é de 250 mil dólares. Da mesma forma, o de- sempenho da equipa durante o campeo- nato será premiado. Por cada jogo ganho, o grupo arrecada 50 mil dólares e o goleador receberá 25 mil dólares. O objectivo desta recompensa monetária visa incentivar os atletas a empenhar-se ao máximo pela ca- misola do seu país

a empenhar-se ao máximo pela ca- misola do seu país carlos fernandes Posição: Guarda-redes Clube: Rio

carlos fernandes

Posição: Guarda-redes Clube: Rio Ave (Portugal) Data nascimento: 08/12/1979 Altura: 188 cm Peso: 85kg

Internacionalizações pela selecção:

-

cm Peso: 85kg Internacionalizações pela selecção: - djalma Posição: Médio Clube: Marítimo (Portugal)

djalma

Posição: Médio Clube: Marítimo (Portugal) Data nascimento: 25/04/1987 Altura: 175 cm Peso: 72kg

Internacionalizações pela selecção:

-

cm Peso: 72kg Internacionalizações pela selecção: - manucho Posição: Avançado Clube: Valladollid (Espanha)

manucho

Posição: Avançado Clube: Valladollid (Espanha) Data nascimento: 07/03/1083 Altura: 187 cm Peso: 83kg Internacionalizações pela selecção:

CAN 2008, WC2010 CAF

Internacionalizações pela selecção: CAN 2008, WC2010 CAF mantorras Posição: Avançado Clube: SL Benfica

mantorras

Posição: Avançado Clube: SL Benfica (Portugal) Data nascimento: 18/03/1982 Altura: 180 cm Peso: 77kg Internacionalizações pela selecção:

Alemanha 2006, WC U20 2001, WC2010 CAF

pela selecção: Alemanha 2006, WC U20 2001, WC2010 CAF zé kalanga Posição: Médio Clube: Dínamo Bucareste

zé kalanga

Posição: Médio Clube: Dínamo Bucareste Data nascimento: 12/10/1983 Altura: 175 cm Peso: 72kg Internacionalizações pela selecção:

Alemanha 2006, CAN 2008, WC2010 CAF

pela selecção: Alemanha 2006, CAN 2008, WC2010 CAF stélvio Posição: Médio Clube: União de Leiria

stélvio

Posição: Médio Clube: União de Leiria (Portugal) Data nascimento: 24/01/1989 Altura: 189 cm Peso: 84 kg

Internacionalizações pela selecção:

-

escolhido pelo técnico se apresente com mais técnica e com um futebol de qualida- de, assumindo-se como sérios candidatos ao título. Até ao momento, as prestações da formação têm sido consideradas positi- vas e o trabalho do técnico foi elogiado, in- clusive pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos. O dirigente máximo da nação louvou a capacidade do treinador luso ao conseguir implementar um siste- ma de jogo e rigor táctico entre jogadores.

A opinião é partilhada pelos adeptos, que

enaltecem o seu rigor e visão estratégica. Os apoiantes dos Palancas Negras, bem como os dirigentes desportivos e antigos atletas, destacam a forma como os joga- dores têm actuado, mostrando-se equi- librados, com atitude e desinibidos. As exibições fazem prever uma prestação equilibrada durante o CAN, com um grupo

a revelar bons níveis de evolução. Recen-

temente, a má exibição da equipa no pri- meiro amigável, disputado em ‘casa’ foi apontado como o calcanhar de Aquiles dos Palancas. O seleccionador, que também não se mostrou satisfeito com a presta- ção da equipa, explicou na ocasião que o facto de jogar em Angola pela primeira vez influenciou negativamente os atletas, que se deixaram dominar pela pressão. “Não podemos ter medo de vencer uma selec- ção com menos nome, nem encarar a res- ponsabilidade de jogar em casa como algo mau. Jogar diante do nosso público é uma boa responsabilidade e devemos ter força mental para aproveitar isso”, sustentou, falando à imprensa no final do encontro com o Congo.

DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

Entrevista a Manuel José

‘Os atletas têm de ser gigantes’

Manuel José, seleccionador de Angola, é bem conhecido no contexto africano devido aos sucessos alcançados como técnico do Al Ahly, equipa egípcia. Em vésperas do maior evento angolano, o treinador português revela em exclusivo à Angola’in tudo o que precisa saber acerca da sua selecção.

Como surgiu o convite para treinar a selecção?

O convite surgiu quando já tinha transmitido

ao meu clube no Egipto que não iria cumprir

o último ano de contrato, ou seja, a época que

está a decorrer 2009/2010. Queria descansar, mas de repente apareceu a selecção. A princí-

pio não estava muito entusiasmado, pois ti- nha a ideia de parar quatro ou cinco meses.

O que me convenceu foi o desafio de treinar

uma selecção que no ranking africano está numa posição bastante baixa. Hoje é 20ª, mas

há uns meses atrás estava no 26º lugar. Além disso, é a selecção de um país que organiza o CAN, o que por si só é motivador, uma vez que me abre mercado ao nível de futuras selec- ções, podendo desta forma ajudar a prolongar a minha carreira. Sem dúvida que é um acon- tecimento que cria uma grande expectativa em Angola. Todos querem ganhar. Ninguém acredita no Mundo e muito menos em África que possamos vencer o desafio, por isso acei- tei e não me arrependo.

‘Incuto nos jogadores uma filosofia competitiva agressiva, de pressing constante sobre o adversário’

Como descreve a equipa que encontrou?

Encontrei uma equipa desmoralizada, desmo- tivada e com índices de confiança baixíssimos porque vinha de quatro jogos em que não ti- nha ganho nenhum, tendo inclusive sofrido sete golos. Procurei desde logo difundir ideias diferentes. Comecei a introduzir mudanças, uma delas ao nível do modelo de jogo. Ango-

la jogava com a táctica de 4x3x3 e 4x4x2, na

maior parte das vezes, 4x5x1, muitas vezes,

e quis que a equipa começasse a jogar num

3x5x2 ou num 3x4x3. Passei de uma defesa clássica de quatro homens, para uma defesa de três, jogando com dois jogadores de mar- cação e um livre. Depois disso, tenho vindo a incutir nos jogadores uma filosofia competi- tiva agressiva, de pressing constante sobre o adversário e de circulação de bola. A base do futebol africano e angolano é a técnica e por isso tem-se de jogar de acordo com as carac- terísticas dos jogadores. Dessa forma, passa- mos a jogar um futebol de pé para pé, curto, de apoio, de passe e de devolução do passe. Jogamos em situações de dois contra um per-

manentemente, mas sempre em espaço cur- to, fazendo-o sem medo e para ganhar contra todas as equipas. Essa é a nossa filosofia e a que vamos levar para o CAN.

‘Importante é fazer sentir que este evento é um momento único na vida dos jogadores e do país Trabalhamos por uma matriz psicológica forte, para que todos os atletas percebam que têm de ser gigantes’

Essas mudanças foram conseguidas? Para se ter sucesso, é importante que treina- dor, equipa técnica e jogadores tenham uma relação profissional e pessoal boa, assente em valores de respeito e amizade. Penso que isso foi conseguido. O grupo está formado e pron- to para jogar. Faltava-nos ultrapassar o pro- blema da ansiedade. Essa tem sido a nossa maior dificuldade. Para a transpor tratamos

de ter profissionais de outras áreas, psicólogo,

nutricionista, entre outros, que ajudassem a educar a mente dos jogadores. O importante

é fazer-lhes sentir e perceber que este evento

é um momento único na vida deles e do país,

visto Angola ser a anfitriã. Esse é o peso his-

tórico que irá perdurar. Uma responsabilidade

de todos, que deve ser encarada com optimis-

mo e funcionar como um factor de supera- ção e não de inibição. O que peço aos meus jogadores é que a personalidade competiti-

va se revele verdadeiramente. Foi sobre essa matriz psicológica que trabalhamos, no sen- tido de termos um perfil forte, em que todos

os atletas percebam que têm de ser gigantes.

Jogamos em casa, temos um público fantás- tico para um estádio lindo, dos melhores e mais modernos do mundo, que comporta 50 mil pessoas e isso tem de ser um orgulho, um prazer e um estímulo para que os jogadores sintam uma vontade tremenda de superação.

‘Com um público deste até a mim me apetecia jogar. Acho que esta é uma oportunidade tremenda para serem felizes’

É uma equipa de constelações ou a estrela é o grupo?

A estrela é a equipa até porque Angola não

tem estrelas. Temos jogadores médios em equipas pequenas e outros atletas a jogar em equipas grandes, mas com um futebol não tão profissional, como é o caso dos pa- íses árabes. Estão em equipas de topo, mas que praticam um futebol sem a dimensão da

Europa. Por esse motivo, o mais importante

é o conjunto. Os jogadores têm de jogar para

a equipa, com uma humildade grande e uma

intensidade alta em cada jogo. Acima de tudo, temos de estar muito concentrados e ser uma selecção compacta e organizada. Queremos jogar sempre para ganhar. Não temos as es- trelas que outras selecções têm e que podem decidir o jogo de um momento para o outro

e por isso temos de nos valer acima de tudo

do colectivo. Não há outra decisão a tomar, temos de nos superar recorrendo a um espí- rito guerreiro, com uma entrega total ao jogo. Com um público deste até a mim me apetecia jogar. Acho que esta é uma oportunidade tre- menda para serem felizes.

Como classifica o grupo da primeira fase? Difícil, mas equilibrado. A Argélia é o 4º quali- ficado no ranking africano, o Mali é o 7º e tem

jogadores em clubes como a Juventus, o Real Madrid ou o Barcelona, o que faz deles joga- dores de topo do futebol europeu e mundial. Angola é a mais modesta. A equipa da Argélia é uma selecção que está em alta. Conseguiu, ao fim de 17 anos suponho, o apuramento pa- ra um Campeonato do Mundo. São, por isso, equipas sempre difíceis, muito experientes e que jogam no erro do adversário. O importan- te é qualificar-nos, depois como são jogos a eliminar tudo pode acontecer.

‘Não tenho dúvidas que dentro de uma década irão surgir grandes jogadores’

Independentemente da classificação, organizar um CAN é sempre importante para um país? Não foram apenas os estádios modernos que se construíram, mas também outras infra-es- truturas importantes para o desenvolvimento do Desporto. Os espaços devem ser rentabi- lizados a favor das novas gerações. Angola tem de apostar num projecto de formação e arranjar infra-estruturas desportivas onde os jovens possam aprender. Para formar joga- dores, o país dispõe de um leque alargado de escolhas, importa criar um plano. Agora que

as vias de comunicação começam a oferecer condições de deslocação por todo o país estru- ture-se um Campeonato Nacional de Juniores, um Campeonato Nacional de Juvenis, campe-

onatos distritais, selecções distritais, escolas

Primeiro

têm de criar uma organização, depois mais e melhores infra-estruturas porque a matéria- prima existe para ser desenvolvida. Se for fei- to já, não tenho dúvidas, que dentro de uma década começarão a surgir grandes jogado- res. É um investimento a longo prazo.

de jogadores, centros de formação

Como caracteriza os seus jogadores? Tenho jogadores que são humildes e boas pes- soas. Principalmente os que jogam no Girabo- la, são acima de tudo muito ingénuos. De uma ingenuidade que qualquer atleta de 20 anos a jogar na Europa já não tem. Infelizmente, o nível profissional entre o ‘velho continente’ e Angola tem uma diferença muito significati- va, daí a razão desta pureza do jogador ango- lano. Há falta de cultura táctica e os índices de profissionalismo não são elevados. Nos que jogam fora de Angola, nota-se essa diferença porque entretanto já absorveram uma outra cultura, com outros valores, outra intensida- de de jogo e outra organização. São diferenças que no jogo se tornam gritantes.

palmarés invejável A primeira experiência de Manuel José no continente africano foi na época de
palmarés invejável
A primeira experiência de Manuel José no continente africano foi na época de
2001/2002. Depois de ter conseguido a melhor classificação de sempre para o União
de Leiria, clube do campeonato português, aventurou-se em África, onde treinou,
durante os últimos seis anos, o Al-Ahly, do Egipto. O que o motivou a aceitar o
desafio foi o facto deste ter sido considerado o clube do século XX em África, assim
como o Real Madrid o tinha sido na Europa. Manuel José fez 20 finais, tendo ganho
18. Ajudou ainda o clube a conquistar 19 títulos, oito deles continentais, quatro
Ligas dos Campeões e quatro Supertaças Africanas. Vitórias que levaram ao delírio
os cerca de 40 milhões de adeptos do Al-Ahly
DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

‘União das nações’
‘União das nações’

LUÍS JOÃO, CONHECIDO POR LAMÁ, CONFIDENCIA QUE A ESCOLHA DO NOME É UM TRIBUTO AO SEU ÍDOLO, O LENDÁRIO GUARDA-REDES FRANCÊS BERNARD LAMA. O GUARDIÃO DA BALIZA NACIONAL É JOGADOR DOS CAMPEÕES DO PETRO DE LUANDA. AOS 28 ANOS, O ATLETA REVELA-NOS O SEU SONHO: FORMAR OS MAIS NOVOS.

Estão em contagem decrescente para o CAN. Como decorrem os trabalhos de pre- paração? Corre tudo bem. Saímos do nosso país para

Portugal, que tem sido a nossa sede. Estamos bem em termos de trabalho, de alimentação

e de hospitalidade. Em relação ao novo trei-

nador, tentamos acatar todas as orientações, pois é para o bem não só da selecção, mas do nosso país.

Sente uma crescente adaptação ao novo es- tilo de jogo? Tecnicamente estamos a evoluir e a tendên-

cia é essa. Todos os dias melhoramos. O nosso trabalho e os nossos índices vão progredindo

a cada dia que passa.

Que qualidades destaca na equipa e que são determinantes para sobressair perante os adversários? Hoje em dia não há resultados nem equipas fáceis. O futebol está a evoluir e a ser estu- dado. Na minha opinião, o que faz com que a equipa saia vencedora é a atitude, a inteligên- cia, a disposição e a motivação.

Abordou a conjugação da inteligência e da paixão pelo futebol. É esse o equilíbrio que o grupo procura? Sim, por isso a FAF contratou um psicólogo.

A emoção e o futebol estão relacionados. Não

podemos ter picos de emoção, que levam mui- tos jogadores a falhar nos momentos decisi- vos. Como estamos a organizar pela primeira vez um evento deste género, temos que es- tar bem preparados, não só psicologicamente,

mas com o melhor treinador, equipa técnica, nutricionista, entre outros componentes. É o que está a acontecer.

Qual é o seu sonho e o da equipa para este africano?

No meu caso, como sou guarda-redes, primei-

ro falo pela equipa e só depois abordo os as-

suntos pessoais. Neste momento, devemos pensar só no grupo, na união e na coesão. No

CAN passado ultrapassamos a primeira fase

e, se fora do país fomos até aos quartos-de-

final, estando na nossa casa queremos ir mais longe. Esse é o nosso grande objectivo.

Para si será uma oportunidade para se cata- pultar internacionalmente?

A minha meta é conseguir através desta mon-

tra uma equipa de renome, com novos desa- fios, nova mentalidade, outros ambientes e tipos de trabalho. Sinto falta de sair do país. Jo-

go na equipa de Angola desde que comecei, ou seja, o destino é sempre o mesmo. Todos so- nhamos experimentar o campeonato europeu, é outra experiência profissional, em que cresce- mos não só como atletas, mas como homens. Comparo a mentalidade dos meus colegas que estão fora e dos que jogam no campeonato na- cional e é muito diferente. Por outro lado, no futuro, gostava de criar uma escola de formação, sem me associar a equipas técnicas, apenas para ensinar e transmitir a mi- nha experiência. Isso é o que eu mais quero.

A formação é cada vez mais urgente?

A formação é muito importante, não só a fí-

sica, mas também a mental e a académica. Quando nos referimos ao ensino escolar fala- mos de inteligência, algo exigido pelo futebol actual. Muitos treinadores focam este aspec-

to, porque temos que estar concentrados e

‘A formação é muito importante, não só a física, mas também a mental e a académica’

saber aquilo que estamos a fazer para desem- penhar a nossa tarefa com maior maturidade. Posso estar apto fisicamente, mas se não es- tiver bem psicologicamente não tenho o ren- dimento ideal. Temos que saber controlar as emoções.

Aconselha os jovens em início de carreira a não desistir dos estudos?

A escola é muito importante, porque é o ensi-

no que nos orienta, nos ajuda a saber decidir e

a ter massa crítica. Muitos jovens querem ser como o Mantorras ou até como eu e acredito que eles ouvem aquilo que dizemos.

Esse factor é muito importante. Os atletas de alta competição funcionam como exemplos? Exactamente, não só como jogadores, mas co- mo Homens. Se um jovem vê que falamos de ensino, ele vai concentrar-se igualmente nes- se aspecto e certamente considerar que se nós chegamos aqui é porque também estudamos.

Que mensagem gostaria de deixar aos apoiantes da selecção?

Desejo que todo o povo esteja connosco desde

o princípio até ao fim, tendo em consideração

que não há matéria fácil. A selecção promete trabalhar para corresponder às expectativas de todos, pelo que vamos procurar estar pre- sentes em mais fases finais de torneios afri- canos e mundiais, porque o futebol é a união das nações.

do ‘Geração sucesso’

CARLOS MANUEL GONÇALVES ALONSO, DE SEU NOME, KALI, DE APELIDO, É O ROSTO DA MOTIVAÇÃO ANGOLANA. FERVEROSO ADEPTO DO SEU PAÍS, REVELA O INSTINTO DIGNO DE QUEM QUER IR MAIS ALÉM. NUM DISCURSO EMOCIONADO, FALA DE ASPIRAÇÕES E DE UMA OPORTUNIDADE ÚNICA COM TRANSMISSÃO DIRECTA PARA O MUNDO.

Como encara a participação num CAN orga- nizado pelo seu próprio país? Com grande expectativa porque todos sabe- mos que o país investiu muito para realizar esta prova em casa, o que faz aumentar as nossas responsabilidades. O mais importan- te é representar condignamente Angola e dar

uma alegria a todas as pessoas que acreditam em nós. Temos sorte, pois o nosso povo ama

e vive o futebol, são adeptos exigentes, que

gostam de bons espectáculos. Isso cria uma ansiedade. Valemo-nos para combatê-la da nossa união e amizade, factores que têm per- mitido à selecção alcançar algum sucesso, fru- to sempre da vontade de vencer.

to bons jogadores. Fize- ram uma boa qualificação

e por isso merecem estar

nos 16 melhores de Áfri-

ca. Resta salientar, que estamos em casa e essa vai ser uma força muito

grande, pois acredito que

o público vá ajudar mui-

to. Este vai ser de facto

o nosso 12º jogador e te-

mos de mostrar logo à entrada que vamos fazer coisas bonitas para nós e para eles.

que vamos fazer coisas bonitas para nós e para eles. Quais as vossas principais mais-valias? A

Quais as vossas principais mais-valias?

A equipa já mostra uma boa solidez defensiva,

trabalhamos muito o meio campo, só ficam a faltar os golos. Temos vindo a afinar o ataque, por intermédio de jogadores com qualidade

suficiente para olear uma máquina vencedora. Em África é muito complicado dizer quais são as selecções melhores ou os grupos mais for- tes porque hoje em dia no mundo do futebol já não há equipas fáceis. Actualmente, não exis- tem equipas pequenas porque mesmo essas se agigantam, trabalham da melhor maneira e têm profissionais em bons campeonatos.

O grupo de Angola é um dos mais difíceis?

É equilibrado. A Argélia, é uma equipa super

motivada. Esperemos que estejam com a ca- beça no mundial e não no CAN, pois vai ser melhor para nós (risos). O Mali tem jogadores que jogam nas melhores equipas do mundo, logo com muita experiência e qualidade. Do Malawi, todas as pessoas dizem que é “o pa- rente mais pobre” do grupo porque tem pou- ca expressão, mas nós, que já jogamos contra equipas deste país, sabemos que têm mui-

‘Somos a geração da guerra, mas conseguimos alcançar mais do que se calhar muitas pessoas acreditavam’

O CAN vai funcionar como uma montra?

Acho que se Angola depois do CAN conseguir exportar mais jogadores vai ser muito bom para o país. Depois do mundial e do europeu, esta é a competição mais vista do mundo. No CAN vão estar dos melhores jogadores africanos a jogar na Europa. Grandes clubes europeus vão perder dois ou três jogadores e isso é simbólico, fazendo com que as pesso- as estejam de olho neles e nesta competição. No entanto, é importante salientar que ainda conseguimos ter muitos jogadores na selec- ção que jogam no nosso campeonato e isso

é bom, pois vemos selecções africanas que

têm 20 jogadores fora. O Girabola é cada vez mais exigente, pelo que também se começa

a investir bastante. Esse investimento é im-

portante para o desenvolvimento das cama- das mais jovens ao nível da formação. Somos

a geração da guerra, mas já conseguimos al- cançar coisas que se calhar muitas pessoas não acreditavam como uma ida ao mundial, como estes CAN’s consecutivos num país que se está a organizar. Tenho a certeza que den- tro em breve iremos ter muitos mais valo- res fora de Angola porque é uma geração da paz, com acesso a mais e melhores condições desportivas. Já estive em vários CAN’s e pen- so que este vai ser exemplar nesse aspecto. Damo-nos ao luxo de ter um hotel para ca- da selecção, em cada província um campo de treino para cada equipa com boas condições, dados que vêm mostrar o grande investi- mento que o nosso Governo fez. Um esfor- ço que só terá sucesso se a selecção também tiver porque somos o ponto fulcral de tudo. Estamos a falar de um retorno inquantificá- vel a vários níveis.

DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

‘De para Lobito o Mundo’
‘De para Lobito
o Mundo’

DEDÉ, UMA DAS GRANDES REVELAÇÕES ANGOLANAS, CONSERVA AINDA O NOME QUE CONQUISTOU A JOGAR FUTEBOL NO LOBITO, A SUA CIDADE-NATAL. COM TA- LENTO MAIS DO QUE SUFICIENTE PARA PARTIR RUMO A OUTROS CAMPEONATOS, TEM-SE DESTACADO NO ESTRANGEIRO POR SER UM JOGADOR BASTANTE FOR- TE, TANTO A NÍVEL FÍSICO, COMO DE TÉCNICA DE JOGO. CONCENTRADO, TEM A CONVICÇÃO QUE PODE CONTRI- BUIR PARA AJUDAR A ELEVAR BEM ALTO O NOME DA SELECÇÃO ANGOLANA. PEDE QUE ACREDITEM NELE E QUE AS OPORTUNIDADES SURJAM.

Que análise faz à selecção? A equipa está em boas condições para atingir os seus objectivos, sendo que o mais impor- tante é formar um colectivo coeso e compacto. Para realizar bons jogos no CAN, todo o joga- dor tem de se sentir mentalmente tranquilo, sem pensar na pressão que irá ter no torneio porque esta existe em todo lado e em todos os jogos. Temos acima de tudo de pensar em nós, naquilo porque temos vindo a trabalhar diariamente, para que o resto saia com natu- ralidade. Todas as selecções têm a sua quali- dade e todos os grupos estão representados por boas equipas. Nós, queremos ganhar jogo a jogo para passar à próxima fase. Essa é a fi- losofia que defendemos.

‘Durante a guerra não havia condições para jogar e muitos jovens emigravam. Agora esse cenário pode mudar e a vontade de ir para o exterior diminuir’

Os novos estádios contribuem para elevar a vontade de ganhar? As infra-estruturas são importantes porque dão mais motivação aos jogadores, mas tam- bém são cruciais para o desenvolvimento des- portivo do país, sobretudo das camadas mais jovens. Como se sabe Angola viveu muitos anos de guerra e não tinha as condições ne- cessárias para os jogadores trabalharem no próprio país e por isso muitos deles emigra- vam, quando o sonho era jogar no estrangeiro, principalmente na Europa. Actualmente com a realização do CAN e com as infra-estruturas que estão a ser criadas para as futuras gera- ções esse cenário pode mudar. Acredito que é possível entrar numa nova era do futebol an- golano, com novos estádios e novos centros de estágio. Tudo isto é bom para os jovens, pois

recebem mais formação e deixam de ter tanta vontade de ir para o exterior. Começam a sen- tir mais orgulho e mais vontade de aprender no próprio pais. Nós, os mais velhos, estamos a abrir caminho para que os mais jovens pos- sam ter um futuro brilhante, dando-lhes as oportunidades que não tivemos. No fundo, é bom para Angola e para o próprio campeonato angolano, que sobressai mais e ganha ainda mais nome.

‘Nós, os mais velhos, estamos a abrir caminho para que os mais jovens possam ter um futuro brilhante, dando-lhes as oportunidades que não tivemos’

Que mensagem quer deixar aos adeptos? Acreditem mais na selecção e na nossa capa- cidade, pois só em grupo podemos conseguir alcançar os nossos objectivos. Não só a selec- ção ou os jogadores, mas o povo tem de estar unido para alcançar a meta, ou seja, a vitória.

é ‘Selecção do povo’
é ‘Selecção do povo’

MANOEL RUI MARQUES, JOGADOR DO LEE- DS UNITED, CLUBE INGLÊS, PROMETE DAR O SEU MELHOR PELA SELECÇÃO. EM ‘DEFESA’ DAS CORES DA BANDEIRA, FALA DA IMPOR- TÂNCIA DO APOIO DO PÚBLICO E DESABAFA SOBRE O CONFLITO DE INTERESSES EXIS- TENTE, POR VEZES, ENTRE AS SELECÇÕES E OS CLUBES, QUE ACABA POR PREJUDICAR AS ESTRELAS DO JOGO – OS ATLETAS.

O que é para si mais importante na véspera de um jogo? Realizar um trabalho que honre o povo ango- lano é o nosso principal objectivo. Para isso estamos unidos e temos vindo a dar passos positivos. Garantimos uma entrega e concen- tração redobrada, de forma a termos um bom desempenho. Noto que existe uma grande preocupação ao nível da federação, dos polí- ticos e de todo o povo angolano para que isso aconteça e penso que o CAN não é só impor- tante a nível desportivo, mas também a ní- vel económico, pois vai ajudar Angola a tirar benefício das coisas boas que está a organi- zar. Penso que o CAN poderá ser um empur- rão muito grande para o desenvolvimento do país. Tem-se vindo a construir muitas infra- estruturas, algumas delas em tempo recor- de, que irão ficar para o futuro e isso é sem dúvida o mais importante. As condições que os jovens irão ter serão óptimas e qualquer angolano se irá sentir orgulhoso por saber que tem bons estádios. O povo angolano es- tá contente por todo este esforço que tem sido feito e tornará este CAN um dos melho- res de sempre.

Qual é o seu prognóstico para este torneio? Creio que é difícil adiantar. Um dos favoritos é a Costa do Marfim porque tem jogadores muito fortes, mas há outros favoritos. Normalmente qualquer jogador gosta de jogar em casa pe- rante os seus adeptos, mas é uma responsabi- lidade grande. Não sei como alguns dos meus colegas irão reagir, no entanto penso que é um

factor positivo jogar em Angola, com o incen- tivo do nosso público. Pode ser o empurrão que precisamos para conquistar mais vitórias. Te- mos uma meta - como o último CAN nos cor- reu bem -, queremos que este corra melhor e para isso temos de tentar ultrapassar o que já conseguimos. Essa é a nossa obrigação, uma vez que jogamos perante o nosso povo. Nes- se sentido, quero deixar uma mensagem para todos os angolanos - que eles acreditem e nos apoiem como têm feito até aqui, pois vamos precisar dessa força. Esperamos acima de tu- do contribuir com o nosso desempenho para

a mesma felicidade que será a nossa se tiver- mos sucesso no torneio.

Como encara pessoalmente este campeonato?

É uma competição que é acompanhada pelo

mundo inteiro e por isso uma oportunidade que qualquer jogador gosta de ter. Quanto a

mim, espero estar e representar condignamen- te a nossa camisola. Neste momento, estou a jogar em Inglaterra, mas tenciono experimen- tar outros países. É, contudo, um pouco com- plicado porque estar no CAN não é fácil para nós, principalmente para os jogadores africa- nos que têm de abandonar o seu clube durante um mês e por vezes é difícil regressar porque as condições tornam-se mais difíceis. Senti no meu caso que o treinador já sabia que a par- tir do mês de Dezembro não poderia contar comigo e começou a procurar soluções antes. Isso acaba por ser difícil porque quando aca- bar o CAN, se a nossa equipa estiver bem, tal- vez não tenhamos a oportunidade de voltar a jogar. Esse é um dos factores negativos, que não acontecem só comigo, penso que também suceda com os meus colegas, pois há sempre um conflito entre o clube e a selecção, que às vezes acaba por nos prejudicar a nós.

DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

‘Mais Angola’
‘Mais Angola’

PARA LOVE ESTE PODERÁ SER O ÚLTIMO CAN. AOS 30 ANOS, O AVANÇADO DOS PALANCAS NEGRAS CONTOU À ANGOLA’IN OS MOMENTOS QUE VIVEU AO SERVIÇO DA SELECÇÃO, NOMEADAMENTE A PARTICIPAÇÃO NO MUNDIAL DA ALEMANHA. O ATLETA É DOS MAIS EXPERIENTES DO GRUPO E MOSTRA QUE AINDA TEM MUITO PARA DAR.

Novo treinador, novas tácticas e nova equipa técnica. Como é que a selecção está a reagir?

A adaptação tem corrido com toda a normali-

dade. Somos profissionais de futebol e esta- mos habituados a situações do género. Nos nossos clubes temos vivido episódios seme-

lhantes. Os atletas têm feito tudo de forma

a assimilar os ensinamentos da nova equipa

técnica. Estamos a trabalhar juntos há seis/ sete meses e felizmente temos interiorizado muito daquilo que o treinador tem exigido.

O factor casa tem sido inibidor. Como estão

a superar a situação?

Temos o exemplo do CAN anterior, que decorreu no Gana. Nessa altura, conseguimos alcançar os quartos-de-final, apesar de jogarmos sem o nosso público. Tivemos alguns apoiantes, mas não em tão grande número como se espera em

As novas infra-estruturas contribuem para a melhoria dessa formação? Com esses equipamentos, o nosso futebol só tem a ganhar e é mais uma oportunidade para os escalões inferiores poderem evoluir e fazer jogos em campos relvados.

Em termos pessoais, o CAN pode ser uma ajuda para a projecção da sua carreira?

O CAN é uma grande montra. Todos os joga-

dores estão a trabalhar no sentido de poder ajudar o colectivo. Tenho os meus sonhos, que

‘Os dirigentes estão mais atentos às equipas seniores, uma vez que estas geram rendimentos financeiros’

Como se encontra o espírito da equipa?

É muitíssimo bom, uma vez que o CAN vai re-

alizar-se em Angola. Temos algumas obriga- ções, porque a nação está atenta à prestação que a equipa poderá desempenhar durante o africano. Fizeram-se muitos investimentos, criaram-se novas infra-estruturas para o nos- so futebol e acho que devemos retribuir todo

este carinho, esforço e atenção que o Governo

e a população têm feito em prol do Campeona-

to Africano das Nações.

Sente que o grupo tem evoluído ao longo dos últimos meses?

Acredito que sim. Temos conseguido bons re- sultados. Tivemos recentemente uma derrota,

o que é normal, pois estamos na fase de pre-

paração. O treinador é rigoroso, algo necessá- rio dado o nível de competição e das exigências

que a selecção acarreta consigo. Temos esse privilégio e vamos aproveitar ao máximo, pois com esta equipa técnica vamos adquirindo no- vas experiências, o que tem sido muito bom.

Luanda. Em Janeiro, jogamos em casa e, por is- so, temos obrigação de fazer melhor.

São essas as vossas aspirações? Exactamente. Queremos atingir os mesmos níveis e até ir à final, se for possível.

Falou há pouco na equipa técnica, que trouxe maior diversidade. Considera importante, en-

quanto atleta de alta competição, que se apos-

te na formação mais especializada dos jovens?

Os escalões de formações em Angola sofrem de algumas debilidades de atenção. Os senio- res são alvo de maiores cuidados e, por vezes, essa juventude passa por alguns sacrifícios, já que habitualmente têm falta de apoios. Os dirigentes estão mais atentos às equipas se- niores, uma vez que estas geram rendimen- tos financeiros. No caso das camadas jovens, os jogadores, os treinadores e os massagistas devem ter uma mentalidade forte. É preciso muita força de vontade e muita humildade.

prefiro não exteriorizar agora. Neste momen- to, quero apenas dar o meu melhor.

Que mensagem gostaria de deixar aos adeptos? Primeiro devo dizer que em momento algum devem sentir-se mal com a selecção. No fute- bol, todos vão com o propósito de conquistar

os três pontos e Angola não é excepção. Vamos

passar períodos em que as equipas adversárias

poderão estar em vantagem numérica, pelo que

é preciso paciência. Peço que apoiem todos os

instantes do jogo. Os atletas em campo vão fa- zer tudo para dignificar a organização do CAN, a

nação e o povo. É preciso o estímulo de todos. Temos a responsabilidade de elevar o nome de Angola ao nível do futebol africano, porque no ranking da CAF não estamos bem posicionados

e uma boa prestação permitirá que a classifica-

ção melhore. Há vários ganhos, a organização deu emprego a muitos, dinamizou o turismo e a

nossa cultura vai ser redescoberta.

Foi um ano de mudanças. Que alterações considera mais positivas?

Sem dúvida o rigor táctico, a marcação e a pressão sobre quem tem a bola. Em Ango- la, não estamos habituados a esse estilo de jogo e isso exi- ge a transformação que está

a acontecer na selecção na- cional.

Como está a decorrer a pre- paração?

Inicialmente foi complicado, porque estávamos familiari- zados com o sistema do an- tigo treinador. Mas agora já nos habituamos e os traba- lhos no Algarve têm corrido bem. No dia-a-dia estamos

a conseguir aprender os en-

sinamentos do professor Ma-

nuel José. Este é o técnico de que a nossa selecção estava

a precisar. O campeonato na-

cional parou há algum tempo

e os primeiros dias de estágio

foram um bocado difíceis. Ac- tualmente sinto que há uma evolução crescente, estamos

a ganhar mais ritmo competi-

tivo e temos conseguido acer- tar algumas coisas.

É a primeira vez que participa

‘Superação pessoal’
‘Superação
pessoal’

NATURAL DO MOXICO, A JOVEM REVELAÇÃO DO FUTEBOL NACIONAL PREPARA-SE PARA A ESTREIA NO CAN. JOB, MELHOR MARCADOR DO GIRABOLA, É O ÍDOLO DOS MAIS NOVOS, EMBORA AINDA NÃO SE CONSIDERE

UM CRAQUE. O AVANÇADO PROMETE EMPENHAR-SE AO MÁXIMO NUM CAMPEONATO QUE LHE PODE ABRIR AS PORTAS PARA A EUROPA.

Sente que tem que dar o

exemplo enquanto jogador

e pessoa?

Sou o ídolo dos jovens e te- nho feito muita publicidade sobre delinquência juvenil.

O que o nosso país tem que

fazer é apostar nos campos de futebol e nas infra-estru- turas. Os jovens agora têm imensas condições e podem seguir esta carreira ou outras modalidades. Quem sabe se não aparecem mais craques como eu, apesar de ainda não me definir dessa forma…

O que é que lhe falta?

Não me acho um craque por- que ainda tenho alguns de- feitos. Às vezes tenho pouca responsabilidade no campo, talvez porque subi ao escalão

de sénior muito cedo, com apenas 16 anos. Entrei no futebol aos 12 anos. Foi di- fícil conciliar o desporto com

a escola, mas prometi aos

meus pais que quando atin- gisse a minha meta, que era

chegar aos seniores, ia voltar

a estudar e é o que estou a fazer neste momento.

Considera importante conci- liar o futebol e a escola?

no CAN. Quais são as aspirações para o torneio?

Desde pequeno que sonho jogar futebol e a

O

professor diz-nos constantemente que a

Este ano vamos organizar o campeonato na

minha meta principal sempre foi alcançar a

nossa carreira é muito curta, por isso temos

nossa casa, o nosso povo está orgulhoso e acho que é uma grande responsabilidade que temos.

selecção. Todos os atletas sonham partici- par no CAN. Actualmente sou considerado

que pensar no futuro. O conselho que dou é que se quiserem jogar futebol devem abraçar

O

professor tem conversado connosco e o im-

o melhor jogador do campeonato do Girabo-

a

escola, pois é importante e no nosso campe-

portante é passar a primeira fase. Depois, com

la de 2009. Acho que isso me faz ter maior

onato há poucos atletas com estudos. É preci-

a

ajuda de Deus e a dedicação que o grupo tem,

responsabilidade e jogar mais. De momento

so

ter muita força de vontade.

o

objectivo será ganhar a competição.

Como aguarda a sua estreia no CAN? Sou o jogador mais novo da selecção e nor- malmente quando estamos a jogar com atle- tas mais experientes as responsabilidades também são mais acrescidas. O professor ainda não escolheu o grupo que vai participar no campeonato africano. Se for seleccionado, prometo fazer o que sei melhor, que é jogar futebol e dar alegrias a este povo angolano que tanto merece.

É o melhor marcador do Girabola. O desem-

penho na competição pode ser uma mais-va-

lia para a sua carreira?

‘Há uma evolução crescente, estamos a ganhar mais ritmo competitivo’

sou um jogador livre, pois já não tenho con- trato com o Petro. Se tiver a oportunidade de jogar fora não vou esquecer as minhas origens. Já tenho muitos convites para vir para a Europa.

Pode adiantar quais são essas propostas? Em Portugal tenho equipas interessadas, mas isso está no segredo dos deuses. Agora quero concentrar-me na selecção nacional.

Que mensagem gostaria de deixar aos ango- lanos?

A selecção é do povo e deixo o apelo para que

apareçam, encham o estádio e nos apoiem. A única oferta que podemos dar depois de 30 anos de guerra é esta competição. Vamos fa- zer tudo para conseguir passar a primeira fase, que é o objectivo principal e voltar a dar ale- grias a este povo que está agora a renascer.

países à procura

título continental

RADAR

Dezasseis

do

DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

can 2010 Fogueira das Vaidades
can 2010
Fogueira das
Vaidades

A história do CAN começa em 1957. O Sudão foi o país que teve a honra de dar o pontapé ini- cial à maior manifestação futebolística do continente berço. Na prova que não contou com eliminatórias de acesso, apenas três selecções estiveram presentes. O Sudão, na condição de anfitrião, o Egipto e a Etiópia. A África do Sul era a quarta, mas foi excluída devido ao apartheid. Nos anos seguintes, o CAN não teve uma definição quanto à sua periodicidade. Só em 1968, na 6ª edição, ocorrida na Etiópia, é que o torneio passou a realizar-se a cada dois anos. Ao nível dos títulos, o Egipto tem a hegemonia, com seis campeonatos vencidos, seguindo-se o Gana, com quatro taças, os Camarões, com três, e a Nigéria, com dois.

taças, os Camarões, com três, e a Nigéria, com dois. ARGÉLIA As Raposas do Deserto competiram
ARGÉLIA
ARGÉLIA

As Raposas do Deserto competiram nos palcos mundiais pela primeira vez em 1982. Rabah Madjer e Lakhdar Belloumi destacaram o “talento” de uma forma- ção, que na época brilhava nos palcos con- tinentais. No entanto, após a vitória do torneio africano em 1990, esta selecção, que formava um dos melhores grupos, acabou afastada das lides mundiais. A constante mudança de treinador (34 téc- nicos, desde 1962) levou a equipa a falhar a qualificação para as duas últimas edi- ções do CAN

ficha técnica

ficha técnica
MALAWI
MALAWI

O percurso do Malawi não tem sido fácil. Após as tentativas frustradas de apu- ramento para os Mundiais da FIFA, as Chamas procuram melhorar o seu de- sempenho no CAN. Este é o regresso há muito aguardado, após uma única par- ticipação no torneio continental. Con- fiantes em alcançar um bom resultado, os adeptos depositam as esperanças no seu goleador Chiukepo Msowoya

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1984 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 90º lugar

MALI
MALI

É o desejado regresso da selecção do Mali às competições africanas. No úl- timo CAN, a equipa não foi apurada. O treinador foi substituído pelo reputado nigeriano Stephen Keshi. A formação conta agora com as potencialidades de jogadores como Frederic Kanoute, consi- derado o atleta africano do ano

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1972 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 51º lugar

1ª participação no CAN: 1968 Títulos continentais: CAN 1990 Ranking da FIFA: 29º lugar

BURKINA
BURKINA
CÔTE
CÔTE
GANA
GANA
TOGO
TOGO
BURKINA CÔTE GANA TOGO FASO Os Garanhões apostam tudo nesta com- petição, que conta com muitas

FASO

Os Garanhões apostam tudo nesta com-

petição, que conta com muitas caras novas. A formação está confiante no re- gresso às vitórias, procurando alcançar um resultado melhor que a quarta posi- ção, conquistada na edição de 1998, por eles organizada

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1978 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 55º lugar

D’IVOIRE

Considerado o gigante do futebol africa- no, a formação da Costa do Marfim con-

ta com a participação da nova geração de

atletas, que jogam nas principais ligas mundiais. Drogba, Kalou e Eboue são alguns dos seus craques. Foram vice- campeões no CAN 2006 e chegaram às semi-finais de 2008 no Gana. Em 2006, participaram pela primeira vez no Mun- dial FIFA

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1965 Títulos continentais: CAN 1992 Ranking da FIFA: 19º lugar

As Estrelas Negras têm por hábito ser os protagonistas das competições afri- canas. Venceram 4 vezes o CAN e foram organizadores do evento em 2008. Actu-

almente, estão também apurados para o Mundial. No de 2006, chegaram pela pri- meira vez à final de um campeonato do mundo e já estiveram em 16 fases finais do CAN

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1963 Títulos continentais: CAN 1963, 1965, 1978 e 1982 Ranking da FIFA: 38º lugar

O país é jovem, mas a sua selecção in-

gressou há muito nas competições con- tinentais e inter-continentais. No CAN, estreou-se em 1972 e dois anos depois participou pela primeira vez nas elimi- natórias de um Mundial. Os Gaviões con- tam cinco apuramentos para a fase final. As esperanças surgem renovadas graças ao novo ícone nacional Emmanuel Ade- bayor, um dos melhores marcadores da liga inglesa

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1972 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 80º lugar

Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 80º lugar BENIN A equipa é jovem, mas considerada competitiva
BENIN
BENIN

A equipa é jovem, mas considerada

competitiva e perigosa. Os Esquilos es- trearam-se no CAN de 2004, contando apenas com duas participações. O curto palmarés inclui uma subida histórica do ranking mundial (do 99ª para 67ª desde o

início de 2009) e da Confederação Africa-

na de Futebol (de 28ª para 12ª)

EGIPTO
EGIPTO

São os reis dos campeonatos africanos. Os atletas egípcios são bi-campeões do CAN e procuram nesta edição o hepta. Os Faraós são uma das maiores forma-

ções africanas, cujo talento e reconheci-

do palmarés fazem desta selecção uma

das mais temidas pelos adversários

desta selecção uma das mais temidas pelos adversários MOÇAMBIQUE A selecção foi considerada em 2007 co-

MOÇAMBIQUE

A selecção foi considerada em 2007 co- mo a que mais progrediu nos rankings da classificação mundial FIFA/ Coca- Cola. O percurso não tem sido fácil e a equipa continua a batalhar para levar

uma taça para o seu país. A primeira vitória dos Mambas nesta competição ocorreu apenas em 2002

NIGÉRIA
NIGÉRIA

As Super Águias da Nigéria preparam-se

para entrar com o pé direito no CAN. Com

o apuramento para o Mundial garantido,

a equipa está motivada e promete man-

ter as habituais boas prestações no dérbi

africano. A última vez que o país levou o troféu do CAN foi há 14 anos (1994)

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 2004 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 67º lugar

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1957 Títulos continentais: CAN 1957, 1959, 1986, 1998, 2006, 2008 Ranking da FIFA: 28º lugar

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1986 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 84º lugar

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1963 Títulos continentais:

CAN 1980 e 1994 Ranking da FIFA: 32º lugar

continentais: CAN 1980 e 1994 Ranking da FIFA: 32º lugar CAMARÕES GABÃO TUNÍSIA ZÂMBIA São dos

CAMARÕES

GABÃO
GABÃO
TUNÍSIA
TUNÍSIA
ZÂMBIA
ZÂMBIA
da FIFA: 32º lugar CAMARÕES GABÃO TUNÍSIA ZÂMBIA São dos principais candidatos ao títu- lo. Após

São dos principais candidatos ao títu- lo. Após um excelente desempenho no apuramento para a competição, os Leões Indomáveis contam com as estrelas Sa- muel Eto’o (tricampeão Futebolista Afri- cano do Ano) e o veterano Rigobert Song para a vitória final

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1970 Títulos continentais: CAN 1984, 1988, 2000 e 2002 Ranking da FIFA: 14º lugar

O Gabão aposta tudo nesta edição. O

percurso dos Panteras Negras tem-se pautado pela discrição e por muitas di- ficuldades em alcançar o estrelato conti- nental e intercontinental

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1994 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 45º lugar

Este país tem-se consolidado como uma das equipas mais fortes do continente. No contexto africano, a formação é pre- sença assídua. Após duas derrotas em finais do CAN (1965 e 1996), os atletas conseguiram quebrar a maldição e em 2004 conquistaram o tão desejado títu- lo. As Águias do Cartago contam com o novo técnico para consolidar o grupo

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1962 Títulos continentais: CAN 2004 Ranking da FIFA: 54º lugar

A sua reputação é sólida e é das selec-

ções mais respeitadas. O êxito é uma

constante para a equipa, que parece ter

a sorte contra si. Os sul-africanos foram duas vezes vice-campeões nas finais do CAN. Porém, nunca conseguiram alcan- çar o lugar mais alto do pódio

ficha técnica

ficha técnica

1ª participação no CAN: 1974 Títulos continentais: 0 Ranking da FIFA: 96º lugar

DESPORTO
DESPORTO

ESPECIAL CAN 2010

| patrícia alves tavares

DESPORTO ESPECIAL CAN 2010 | patrícia alves tavares ‘Competir para ganhar’ Antigo atleta e defensor incansável

‘Competir para ganhar’

Antigo atleta e defensor incansável do Desporto, Justino Fernandes tem uma longa experiência. Durante um treino matinal da selecção, o presidente da Federação Angolana de Futebol (FAF) descreveu à Angola’in como está a ser vivida a aventura do CAN. O responsável pelo Comité Organizador da prova está confiante nos bons resultados

o homem

o homem

O desporto sofreu uma evolução, mas nunca

tanto foi feito como agora. Como tem vivido

a fase de preparação do CAN?

Neste momento, sinto um certo orgulho em ser presidente da FAF. Fui desportista durante muitos anos na selecção de Luanda e de An- gola e enquanto atleta fui capitão das duas equipas. Isso deu-me uma certa experiência. Porém, infelizmente, tive de deixar o fute- bol, que na altura era amador. Joguei no ASA e estive a um passo do Sport Lisboa e Ben- fica. Porém, a minha mãe (a minha família é matriarcal) não encarou muito bem a minha partida. Éramos uma família bastante unida e decidi não ir.

‘O futebol é um factor de unidade nacional’

Foi o desistir de um sonho?

Não, porque queria fazer uma formação supe- rior, situação que acabou por acontecer. Aos 26 anos resolvi dedicar-me totalmente à minha formação. Depois da Independência fui direc-

go que conseguimos através de contactos di- rectos com o senhor presidente Issa Hayatou. Entretanto, fui chamado para a comissão or- ganizadora dos CANs e adquiri uma certa ex- periência. Depois do Coreia / Japão, em 2003, fui convidado para ser membro da comissão de auditoria interna da FIFA, cargo que ocupo até hoje. Nessa altura pensamos em organizar o CAN, mas chegamos à conclusão de que ainda não estávamos suficientemente maduros. Re- centemente apresentamos a candidatura e de entre oito países fomos escolhidos.

Sempre manteve a esperança de conseguir trazer este evento para o país? Se não tivesse esperança, nem sequer teria concorrido. O caderno de encargos da CAF não exige que se tenha as condições. Daí o cep- ticismo de muitos em relação à sua concre- tização. Estávamos a quatro anos do CAN e conseguimos mostrar que tínhamos os pres-

supostos todos. E era isso que a CAF queria. Saímos da guerra há seis anos e somos das economias que mais crescem no mundo. O pa-

ís tem um desenvolvimento económico muito

grande. Em dois anos, construímos quatro es- tádios novos, recuperamos 13 recintos e cria- mos os equipamentos necessários. Segundo os especialistas, o estádio 11 de Novembro de Luanda é o mais bonito de África, algo de que nos orgulhamos. Para materializar o projecto, foi necessário o apoio do Governo e do senhor presidente José Eduardo dos Santos, que foi fundamental em todo o processo.

‘Em dois anos construímos quatro estádios novos, recuperamos 13 recintos e criamos os equipamentos necessários’

tor

da Cuca, ministro da Indústria, da Juventu-

de

e dos Desportos e assim fui evoluindo. Só

‘frutos’ gerados pelo can

 

mais tarde surgiu o convite para a Federação, quando me pediram para agarrar o nosso fute- bol, que é um factor de unidade nacional.

Como analisa o trabalho que tem sido de- senvolvido pela entidade?

A

nível de desporto, quais os benefícios des-

te

evento?

Sem infra-estruturas desportivas não há de- senvolvimento. O futebol ganhou quatro es- tádios novos em quatro províncias. Temos infra-estruturas nas 18 localidades, contudo nas que vão albergar o CAN demos um salto

A

princípio, tivemos algumas dificuldades,

porque a nossa associação não era muito bem vista ao nível da Confederação Africana de Fu- tebol (CAF). Tivemos alguns dissabores com os meus antecessores. O nosso primeiro trabalho

foi repor a imagem positiva junto da CAF, al-

qualitativo. Criamos as condições para dar iní- cio ao desenvolvimento, existindo igualmente

a possibilidade de acolher outros eventos no

nosso país, como é o caso da taça das confe-

derações.

O torneio potenciou o desenvolvimento de

uma série de áreas, ao nível da hotelaria, da construção civil, até na criação de emprego.

O progresso atrai mais investimentos?

Ora nem mais. Os ganhos serão a todos os ní- veis. Vamos mostrar que Angola não é só um país de guerra. É um acto de coragem porque vamos abrir as portas ao mundo, após seis anos de conflito e as pessoas não irão apenas ver o futebol. Vão tentar julgar-nos, avaliar

a nossa hospitalidade, o nosso carácter e de

que forma estamos a progredir. O CAN permi-

tiu a criação de infra-estruturas envolventes, que provavelmente seriam produzidas daqui

a uns dez anos. O evento já está a ser um ca-

talisador do progresso. Por exemplo, inicia- mos um pólo de desenvolvimento em torno do estádio de Luanda, onde começam a sur- gir projectos imobiliários, fruto das condições criadas na região.

A nível de recursos humanos acredita que

agora é o começar de uma nova era?

É muito bom em termos de formação. E pa-

ra tal temos que ter formadores. A nossa principal preocupação será em obter técni- cos angolanos capacitados, que realmente possam formar os nossos jovens. Pensa- se que um bom jogador de futebol será um bom treinador e não é bem assim. São raros os casos de sucesso. Estes jovens [selecção nacional] aprenderam nos seus bairros, com bolas de trapos. Não tinham os fundamen- tos técnicos, que foram assimilados aqui, na idade adulta. Temos esse projecto, que que- remos colocar em prática depois do CAN. Ao nível das infra-estruturas está aceitável. A vertente de criação de escolas é algo que te- mos que pensar. Temos ainda que questio- nar outro aspecto. Sou presidente da FAF em ‘part-time’. Tenho outras responsabili- dades no país. Poderia fazer muito mais se estivesse apenas dedicado à federação, pe- lo que no fim deste mandato, daqui a dois anos, terei que ser substituído por um pro- fissional a tempo inteiro.

Está nos desafios da federação formar equi- pas capazes de competir com os ‘grandes’ do mundo?

É para aí que devemos caminhar. Queremos

ser cada vez mais fortes e há que apostar na formação. Porém, há sempre uma utopia nisso tudo. Por cada jogador congolês que desperta na Europa, fica uma série deles des- perdiçados. Esses aspectos têm que ser bem ponderados e conjugados com a educação es- colar da criança.

o ano de áfrica

o ano de áfrica

Como está a motivação da população?

O apoio do povo angolano é total. Só se fala

do CAN, é o centro das conversas de todos. O Governo também tem dado um apoio incon- dicional, especialmente nos investimentos, mostrando-se interessado, pois sabe que o campeonato é uma mais-valia para desenvol- ver o nosso país, principalmente no aspecto de dignidade nacional.

Quais são as suas expectativas quanto à prestação da selecção? Este grupo está a trabalhar muito bem. Quan- do os que jogam fora se juntarem a esta equipa vamos fazer um bom ‘team’. Não pre- tendemos participar, queremos competir para ganhar o CAN. Esse é o espírito incutido nos atletas. As conversas que têm com o professor Manuel José têm sido muito úteis. Agora, os nossos jogadores estão a acabar com a inibi-

ção. Está a ser feito um trabalho nesse âmbito

e estão a ser acompanhados por pessoas es- pecializadas para vencer esses receios.

A equipa tem evoluído tecnicamente? Há já algum tempo, essa evolução tem sido bastante visível. É evidente que estamos a fa- zer jogos de treino e é um trabalho feito a lon- go prazo. Com a integração dos que chegam

‘Queremos ser cada vez mais fortes e para isso temos que apostar na formação’

no dia 26, vão ficar muito mais desinibidos. Te- mos uma equipa técnica boa.

Apesar não participarem no Mundial de 2010, acredita que o evento pode ser im- portante para o país, inclusive no aproveita- mento dos estádios? Podemos acolher qualquer selecção no nosso país, principalmente aquelas que vão jogar em Joanesburgo. Temos condições excelentes na província da Huíla que, à semelhança de Joa- nesburgo, se encontra a cerca de dois mil me- tros de altitude. Temos um clima fantástico, hotéis excelentes e as equipas estão a procu- rar esse estádio.

É um ano importante para vocês? Considero o ano do futebol em África. Em Janeiro será em Angola e em Julho na África do Sul. Es- tamos muito unidos e os sul-africanos pedem- me para fazer um CAN exemplar, pois será o prelúdio do que vai acontecer na África do Sul.

Que apelo gostaria de fazer à nação? Deixo um pedido à população para que confie em nós. Estamos a trabalhar para dignificar o nosso futebol e dar uma alegria a este povo sofredor. O nosso obrigado por todo o apoio e prometemos fazer tudo para corresponder às expectativas.

LUXOS

| patrícia alves tavares

L U X O S | patrícia alves tavares O seu estilo inspira-se na Fórmula 1
O seu estilo inspira-se na Fórmula 1 e é visível nas linhas fluidas e curvas
O seu estilo
inspira-se na Fórmula 1 e é visível
nas linhas
fluidas e
curvas esculpidas. Este coupé de
capacidade para desenvolver
dois lugares
apresenta
um visual
de luxo e
elevada performance, com
cavalos, produzindo uma
mais de 500
velocidade máxima na ordem dos 320 km/h.
com cavalos, produzindo uma mais de 500 velocidade máxima na ordem dos 320 km/h. 5 2

O primeiro super carro dinamarquês

demarca-se dos restantes pelo seu design. À aparência

agressiva juntam-se os

1.104 cavalos. O interior luxuoso

seus

com o conforto,

combina o seu estilo desportivo

em que os bancos

e volante podem ser regulados e

o sistema de som permite

ligar o iPod, o

MP3 ou simplesmente ouvir

rádio e os seus

ligar o iPod, o MP3 ou simplesmente ouvir rádio e os seus LUXOS · ANGOLA’IN LUXOS
ligar o iPod, o MP3 ou simplesmente ouvir rádio e os seus LUXOS · ANGOLA’IN LUXOS

LUXOS · ANGOLA’IN

LUXOS · ANGOLA’IN |

|
|

53 53

em relação aos modelos anterio-

aumento de potência

o primeiro dos utilitários a receber o siste-

na v<