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VOLUME1• NÚMERO 1• DEZEMBRO 2009

Revista Científica Inter-Universitária

VOLUME1

NÚMERO 1

DEZEMBRO 2009

Economia, Política e Desenvolvimento Economia, Política e Desenvolvimento Economia, Política e Desenvolvimento
Economia, Política
e Desenvolvimento
Economia, Política
e Desenvolvimento
Economia, Política e Desenvolvimento

CAP - CENTRO DE ANÁLISE DE POLÍTICAS DA FLCS / UEM

Revista Científica Inter-Universitária

ECONOMIA, POLÍTICA E DESENVOLVIMENTO

FICHA TÉCNICA DA REVISTA

Director: Eduardo J. Sitoe (eduardo.sitoe@uem.mz)

Editor: Gerhard Liesegang (gerhard.liesegang@uem.mz)

Sub-editor: Gil Lauriciano (gilaur64@yahoo.co.uk)

Revisor Linguístico: Gilberto Matusse (gilberto.matusse@gmail.com)

Conselho Cientíco

Presidente: José Paulino Castiano (jcastiano@up.ac.up) Adriano Niquice (adriano.niquice@yahoo.com.br)

João Mosca (joão.mosca@yahoo.com) - A Politécnica

- U.Pedagógica (UP) - U.Pedagógica (UP)

Vitória de Jesus Langa (vajesus@apolitecnica.ac.mz) Boris Tanana José Julião da Silva(dasilva113@hotmail.com) Carlos Shenga (cshenga@yahoo.com) Hilário Langa (hilario.langa@yahoo.com) Thomas Kring (thomas.kring@undp.org) Tomás Vieira Mário (tomas.mario@undp.org) Silvério Ronguane (silveriosamuel@hotmail.com)

- A Politécnica - ISCTEM - ISCTEM - ISAP - ISAP - PNUD - PNUD - ISRI

Secretariado Técnico

Nobre de Jesus Canhanga (nobre.canhanga@uem.com)

- UEM-CAP

Francisco da Conceição (conceicaofra@yahoo.com.br )

- UEM-CAP

Sáula Pinto (saula.pinto@uem.mz)

- UEM-CAP

Produção:

Centro de Análise de Políticas(CAP), Faculdade de Letras e Ciências Sociais, Universi- dade Eduardo Mondlane (FLCS/UEM) Apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

N.º de Registo:

046/GABINFO-DEC/2009

Tiragem

1000 exemplares

Impressão:

Académica, Lda.

ECONOMIA, POLÍTICA E DESENVOLVIMENTO

ÍNDICE

Nota Introdutória do Director da Faculdade de Letras e Ciências Sociais

1

Nota de Abertura do Representante do PNUD

3

Nota do Editor

5

Prefácio

7

Mobilidade da População, Pobreza e Feitiçaria no Meio Rural de Moçambique INÊS RAIMUNDO

13

A Exploração das Florestas e as Implicações para o Desenvolvimento Sustentável PROFESSOR ANICETO DOS MUCHANGOS

40

Espaços Criados ou Reivindicados? Uma Análise da Participação em Moçambique JOSÉ ADALIMA

53

Boa Governação:

Contexto, Teoria, Prática e Desaos para a Implementação da Monitoria da Acção Governativa NOBRE CANHANGA

69

Entre o Capital Escolar e o Capital Social: Uma Reexão sobre a Mobilidade Sócio-Prossional entre os Funcionários Públicos em Moçambique:

ORLANDO NIPASSA

92

ECONOMIA, POLÍTICA E DESENVOLVIMENTO

ÍNDICE

Nota Introdutória do Director da Faculdade de Letras e Ciências Sociais

1

Nota de Abertura do Representante do PNUD

3

Nota do Editor

5

Prefácio

7

Mobilidade da População, Pobreza e Feitiçaria no Meio Rural de Moçambique INÊS RAIMUNDO

13

A Exploração das Florestas e as Implicações para o Desenvolvimento Sustentável PROFESSOR ANICETO DOS MUCHANGOS

40

Espaços Criados ou Reivindicados? Uma Análise da Participação em Moçambique JOSÉ ADALIMA

53

Boa Governação:

Contexto, Teoria, Prática e Desaos para a Implementação da Monitoria da Acção Governativa NOBRE CANHANGA

69

Entre o Capital Escolar e o Capital Social: Uma Reexão sobre a Mobilidade Sócio-Pro ssional entre os Funcionários Públicos em Moçambique:

ORLANDO NIPASSA

92

Economia, Política e Desenvolvimento

NOTA INTRODUTÓRIA DO DIRECTOR DA FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS

Após pouco mais de um ano de preparação, nasceu a Revista inter-universitária moçam- bicana Economia, Política e Desenvolvimento. No início de Outubro de 2008, represen- tantes do Centro de Análise de Políticas (CAP) da Faculdade de Letras e Ciências Soci- ais (FLCS) da Universidade Eduardo Mondlane, do Instituto Superior de Administração Pública (ISAP), da Universidade Politécnica (ISPU), da Academia de Ciências Policiais (ACIPOL), do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique (ISCTEM), do Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI), da Universidade Técnica de Moçambique (UDM), da Universidade Pedagógica (UP), da Universidade São Tomás de Moçambique (USTM), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o De- senvolvimento (PNUD) em Moçambique discutiram as possibilidades e oportunidades da existência de uma publicação periódica cientíca inter-universitária orientada para as questões económicas, políticas e de desenvolvimento.

Houve várias reuniões em que foram discutidos o formato e o estatuto editorial e por m, até Maio de 2009, mais de uma dezena de pesquisadores enviaram os seus trabalhos, dos quais foram aprovados oito, cinco deles publicados neste primeiro número.

De acordo com o artigo 14 do estatuto editorial, a Revista Economia, Política e De- senvolvimento é uma publicação em língua portuguesa, propriedade das universidades

moçambicanas que aceitam a sua natureza, objectivos e estatutos. A Revista conta com

o patrocínio do PNUD. No seu momento fundador, é gerida e editada pelo Centro de Análise de Políticas (CAP) da FLCS, Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

As instituições envolvidas neste projecto exploratório reconhecem a importância e

o valor da produção, publicação e partilha do conhecimento cientíco nos diferentes

domínios políticos, sociais, económicos e culturais. Lançam, deste modo, a primeira semente para a institucionalização de uma revista cientíca inter-universitária criada como uma plataforma para: a) ampliar o espaço de debate e ideias, tidos como bases para construção do edifício da democratização, boa governação e fortalecimento de políticas públicas; b) abertura de espaços para construção de uma visão de futuro dos processos de desenvolvimento e crescimento económico; e c) consequente produção de instrumentos analíticos para consolidar o desempenho das instituições, quer públicas, quer privadas.

Para além da intervenção de investigadores experimentados, a revista conta com um número crescente de investigadores jovens que terão, assim, uma plataforma para o lançamento das suas ideias e desenvolvimento intelectual. Os autores incluidos nos primeiros números são maioritariamente jovens doutorados ou graduados em áreas das ciências humanas e sociais, preparando o seu projecto de doutoramento. Esta publica- ção, tal como outras do ramo, serve as ciências, os cientistas e todos os leitores interes- sados na gestão do espaço público.

Economia, Política e Desenvolvimento

O Centro de Análise de Políticas da FLCS, gestor da revista, é uma instituição especial- izada na promoção da pesquisa avançada, investigação aplicada e prestação de serviços em estudos de governação e administração pública, população, terras, recursos naturais e conitos. A estrutura orgânica do Centro integra três áreas de intervenção principais, nomeadamente:

(a) o Departamento de Estudos da População e Desenvolvimento - enfoque para de-

mograa, problemáticas de HIV-SIDA e migrações;

(b) o Departamento de Estudos de Boa Governação e Administração Pública - ênfase na

governação democrática, políticas públicas, planicação estratégica e reforma do sector público; e

(c) o Departamento de Estudos de Terra, Recursos Naturais e Conitos. Cada um destes

departamentos inclui diversos núcleos temáticos e conta com o contributo de investi- gadores associados provenientes dos quadros da FLCS e de outros sectores da UEM e demais instituições de ensino e de investigação de dentro e fora do País.

Não poderíamos terminar esta nota introdutória da revista, sem agradecer o apoio re- cebido da Direcção da Universidade Eduardo Mondlane, em particular, na pessoa do Magníco Reitor, Prof. Filipe Couto, do Programa das Nações Unidas na pessoa do seu Representante e Coordenador Residente em Moçambique, Ndolamb Ngokwey e a sua equipa de colaboradores, especicamente os Srs. Thomas Kring e Tomás Vieira Mário. Agradecemos, também, ao Doutor Eduardo Sitoe que, ao longo destes meses, deu um importante contributo para a organização, direcção e acompanhamento da equipa edito- rial, responsável pela Revista.

Professor Catedrático Armando Jorge Lopes

Director da FLCS, Universidade Eduardo Mondlane

Maputo, Novembro de 2009

Economia, Política e Desenvolvimento

NOTA DE ABERTURA DO REPRESENTANTE DO PNUD

Está agora nas suas mãos o primeiro número da Revista Inter-Universitária de Estudos de Economia, Política e Desenvolvimento, sob a coordenação geral do Centro de Aná- lises de Politica (CAP) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em parceria com outros estabelecimentos de ensino superior do País e com o alto patrocínio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em Moçambique.

O surgimento desta nova publicação, que pretende ser um espaço de reexão e de debate

aberto em torno de assuntos-chave relativos a processos de formulação de políticas públi- cas, de governação e do desenvolvimento social, económico e cultural de Mocambique, constitui naturalmente, motivo de grande satisfação e júbilo do PNUD e do sistema das Nações Unidas no País, em geral.

A temática do desenvolvimento, designadamente do desenvolvimento humano, visando

assegurar a dignidade da pessoa humana, medida pela faculdade de cada indivíduo ter acesso contínuo ao conhecimento; viver uma vida longa e condigna, desfrutando dos recursos disponíveis de forma sustentável, situa-se no cerne da missão do PNUD e, em última análise, do sistema das Nações Unidas como um todo.

É pois nesta perspectiva que o PNUD se associa a esta nobre iniciativa, na expectativa

de que a mesma venha a traduzir-se num instrumento relevante de disseminação de no- vos saberes, construídos com base em pesquisa inter e multi-disciplinar séria e credível, onde se questionem velhos paradigmas e se proponham novos, para benecio dos pensa- dores e estrategas da nação, dos decisores de politicas públicas, de outros pesquisadores, dos docentes e dos discentes, bem como do publico interessado em geral.

Em Março de 2005, o ilustre escritor e biólogo moçambicano, Mia Couto, ao proferir uma oração de sapiência na abertura do ano lectivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologias de Mocambique (ISTEM) abordou a problemática da investigação inova- dora e da disseminação do conhecimento cientico nos círculos académicos de forma particularmente acutilante. A esse respeito, disse o lustre escritor e cientista:

Mais do que gente preparada para dar respostas, necessitamos de capacidade para fazer per- guntas. Moçambique não precisa apenas de caminhar. Necessita de descobrir o seu próprio caminho num tempo enevoado e num mundo sem rumo. A bússola dos outros não serve, o mapa dos outros não ajuda. Necessitamos de inventar os nossos próprios pontos cardeais. Interessa- nos um passado que não esteja carregado de preconceitos, interessa-nos um futuro que não nos venha desenhado como uma receita nanceira”.

Colocando ênfase na visão de uma Universidade moderna e aberta, comprometida com o desenvolvimento do seu Pais, Mia Couto acrescenta, mais adiante:

Economia, Política e Desenvolvimento

A Universidade deve produzir “um pensamento jovem, fértil e produtivo. Esse pensamen- to não se encomenda, não nasce sozinho. Nasce do debate, da pesquisa inovadora, da informação aberta e atenta ao que de melhor está surgindo em África e no mundo”.

Este pensamento segue precisamente no sentido da Declaração Universal sobre o Ensino Superior no Século XXI, adoptada pela UNESCO em Outubro de 1998, a qual desaa a Universidade no sentido de “aumentar a sua capacidade para viver no meio da incerte- za, para mudar e provocar mudanças, para atender às necessidades sociais e promover

a solidariedade e a igualdade”, bem como assumir o compromisso de “preservar e exercer o rigor cientíco e a originalidade, num espírito de imparcialidade como condição previa básica para atingir e manter um nível indispensável de qualidade”.

Pensamos que este deve ser o desao principal a que a nova publicação deve procurar responder, sistematicamente: disseminar conhecimento que estimule o debate, funda- mentado numa pesquisa inovadora, atenta ao que de melhor vai surgindo em Moçam- bique e centrado no desenvolvimento humano.

Do nosso lado, enquanto parceiros estratégicos de desenvolvimento, reiteramos o nosso continuado compromisso de apoio e assistência técnica, convictos da centralidade do conhecimento na formulação de quaisquer estratégias de luta contra a pobreza, rumo ao desenvolvimento económico, social e cultural sustentável de qualquer povo e nação.

Bem-haja a Universidade Eduardo Mondlane, a qual, através do CAP, aceitou de pronto responder ao desao de acolher esta iniciativa; bem-hajam a todas as outras instituições de ensino superior moçambicanas associadas ao projecto, bem como aos digníssimos membros dos Conselhos Cientíco e Editorial da revista, sem cujo esforço e abnegação não teria sido possível a materialização rápida deste projecto.

Ndolamb Ngokwey, PhD

Coordenador Residente da ONU e Representante Residente do PNUD.

Maputo, Novembro de 2009

Economia, Política e Desenvolvimento

NOTA DO EDITOR

Um dos objectivos da Revista cientíca inter universitária é o estabelecimento de um espaço transdisciplinar. Este objectivo é arquitectado com vista a publicação de artigos cientícos sustentados com base em análises empíricas resultante de pesquisas sobre fenómenos políticos, económicos, sociais e de desenvolvimento. Os artigos seleccio- nados ou escolhidos para este número e para os números seguintes, abarcam temas co- muns, dão uma imagem do que se pertende fazer, contribuindo para o reforço da dinâmi- ca institucional em Moçambique, analisando os processos reais e as percepções que temos. Desta feita, este processo libertará forças para os processos de desenvolvimento económico do País.

A Revista cientíca inter universitária presta uma atenção especial às pesquisas que

contribuam para um conhecimento analítico da realidade moçambicana e um aprofunda- mento de perspectivas comparadas. Ao mesmo tempo privilegia trabalhos com potencial transdisciplinar que contribuem para a discussão teórica e reexão num contexto global. Académicos africanos, reputados no contexto internacional, são convidados à submeter seus papers para publicação. Este espaço é para já dos investigadores, representantes das instituições públicas e privadas de ensino, pesquisa, e administração, dos membros da sociedade civil, agencias de desenvolvimento nacional e internacional. No futuro criaremos oportunidades para publicarmos nesta revista resumos e análises de teses de doutoramento e mestrado e de livros com interesse para a área pública moçambicana e questões de desenvolvimento. Em termos mais especícos a Revista cientíca inter universitária procura:

1. Criar um espaço de produção e publicação de conhecimento cientíco que constitui

um ponto de referência por excelência e fonte de informação relevante para o processo

de

tomada de decisão e formulação de políticas públicas.

2.

Estabelecer um instrumento de informação que sirva de referência para políticos,

académicos, investigadores, agências de desenvolvimento internacional envolvidos no

processo de investigação em Moçambique.

3.

Estimular a produção de conhecimento cientíco e tecnologias através da divulgação

de

resultados de pesquisas produzidas por académicos nacionais e internacionais.

4.

Criar uma base de dados que facilite a investigação cientíca de diferentes actores

nacionais e internacionais.

5. Criar uma oportunidade para partilha de informação com diferentes actores políticos,

económicos, e cientistas sociais a nível nacional, regional e local; e

6. Contribuir para o pluralismo analítico e metodológico de modo a permitir a constitu-

ição de um programa integrado de debate de ideias capaz de fomentar a diversicação de ideias e acumulação de conhecimentos.

Em nome de todos que aceitaram embarcar neste compromisso que conduziu a publica- ção da primeira revista cientíca inter universitária, em nome de todas as instituições do ensino superior que livremente aceitaram aderir esta iniciativa, em nome dos colegas do Centro de Análise de Políticas que ao longo destes anos investiram ancadamente a sua

Economia, Política e Desenvolvimento

capacidade física e intelectual para a constituição dos elementos institucionais que con- duziram a publicação desta revista, gostaria de agradecer o Sistema das Nações Unidas que tudo fez para que esta revista surgisse.

Permitam-me dizer que em qualquer canto do mundo, a publicação de uma revista com

esta natureza exige um compromisso rme e crença no valor da análise da prática, das observações feitos durante as pesquisas. Esta devoção implica um contrato individual

e colectivo com as questões desenvolvimentistas e uma genuína opção pelos valores e

princípios da objectividade, clareza, simplicidade, humildade, honestidade ou mesmo verticalidade, respeitando os actores, embora não abdicando princípios éticos. Esta es- colha a Revista cientíca inter universitária apostou em perseguir.

A parceria com o PNUD viabilizou a materialização da nossa intenção de publicar uma

revista cientíca inter universitária. Senão teria sido quase impossível lançar uma re- vista, como também conrmou a Análise recente “the Nairobi Report preparada pela British Academy e Associação das Universidades do Commonwealth 1 . Por isso, muito obrigado. Agradeço também ao secretário, Nobre Canhanga, pela coordenação das activ- idades, algum pessoal ainda anónimo e outros já referidos pelos outros prefaciadores.

Gerhard Liesegang, PhD Professor Auxiliar

Editor da Revista

Maputo, Novembro de 2009

1 - The Nairobi Report: Frameworks for Africa-UK Research collaboration in the Social Sci- ences and Humanities. London 2009: pp 16-17

Economia, Política e Desenvolvimento

PREFÁCIO

O Instituto do Ensino Superior da Universidade Shanghai Jiao Tong 1 e o Conselho

de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior do Taiwan têm procedido ao ranking das universidades de todos os cantos do Planeta, usando metodologias diferentes, mas coincidindo quer nos critérios fundamentais de avaliação, quer nos indicadores-chave. Os critérios básicos giram em torno da qualidade da formação/educação oferecida, da qualidade da escola/centro que oferece esta formação/educação e da qualidade do resul-

tado das pesquisas/investigação empreendidas. Os indicadores-chave abarcam domínios como (i) número de docentes que tenham obtido o Prémio Nobel e/ou outras Medalhas

de Mérito nas suas respectivas disciplinas cientícas; (ii) número de vezes que as obras

dos docentes são citadas por outros investigadores/pesquisadores dentro e fora das suas disciplinas cientícas; (iii) número de publicações cientícas nos domínios das ciências

naturais e exactas e ciências sociais e humanidades; e (iv) número de publicações cientí- cas indexadas no índice de citações dos dois principais ramos cientícos. Como pode fácilmente notar-se, neste breve inventário de critérios e indicadores, a qualidade no (e do) Ensino Superior afere-se, sobretudo, através de uma ferramenta que se não oferece a subjectividades: Publicações Cientícas!

Publish or Perish” é a fórmula emblemática que na língua de William Shakespeare, Er- nest Heminguay e Barack Obama sintetiza o essencial do que o parágrafo supra pretende transmitir. Todavia, a importância das publicações cientícas não se esgota nas vanta- gens directas que elas trazem para a comunidade académica e respectivas instituições de ensino e/ou de pesquisa. As publicações cientícas constituem a ponte entre o docente/ pesquisador, a produção académica e a sociedade no seu todo. É aqui onde reside a razão fundadora da ideia/projecto/alavanca da Revista Cientíca Inter-Universitária Econo- mia, Política e Desenvolvimento”que hoje tendes em vossas mãos.

Com efeito, as publicações cientícas são um veículo que pode trazer para um público

mais amplo o resultado do labor universitário nos seus principais domínios de inter- venção, i.e., (a) formação/prossionalizante; (b) investigação/pesquisa; (c) extensão/ ligação com a sociedade; e (d) domínio e cultivo do saber humano nas suas múltiplas e profundas dimensões. Mas, as publicações cientícas igualmente podem (e devem!) ser um veículo que permita a um povo, uma nação, integrar-se efectivamente no novo paradigma de desenvolvimento social e económico que vigora no mundo neste limiar do século XXI. A Nova Economia como sói designar-se a este modo de produção alicerça-

se no papel central da Informação; daí a utilização indistinta dos termos sociedade da

1 - A Universidade Shanghai Jiao Tong foi fundada em 1896 e é até agora uma das maiores e mais importantes universidades da China – directamente subordinada ao Ministério da Educa- ção e com uma gestão que integra o Município de Shanghai.

Economia, Política e Desenvolvimento

informação ou sociedade do conhecimento para designá-lo. A ideia-chave aqui é de que

a produção/comunicação/circulação da informação gera uma dinâmica/dialéctica que

acumula e aprofunda o conhecimento que, quando devidamente empregue no processo produtivo, funciona como catalizador da produção da riqueza, da criação das condições para o bem-estar geral e, sobretudo, para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

É

neste contexto que surge esta Revista Cientíca, produto do empreendimento colectivo

e,

por isso mesmo, propriedade das universidades moçambicanas que voluntariamente

abraçaram esta ideia/projecto/alavanca que visa, fundamentalmente, constituir-se numa referência e num meio de comunicação entre a comunidade cientíca, investigadores, estudantes, sector produtivo, governo e outros actores políticos, com enfoque especíco nos desa os do desenvolvimento, abordados a partir de perspectivas diversas com con- centração nas vertentes sócio-económica e política.

Depositamos, assim, uma crença inamovível na actualidade e pertinência desta Revista Cientíca não sómente tendo em consideração as razões retromencionadas, mas sobretu- do pela amplitude da divulgação que ela terá, bem como a acessibilidade por um público mais vasto de estudantes, professores, empresários, governantes e outros interessados em todos os cantos do País.

Evidentemente, é por estas razões que a ideia/projecto/alavanca da Revista Cientíca Inter-Universitária Economia, Política e Desenvolvimento” foi imediata e entusiás- ticamente acolhida pela representação do PNUD em Moçambique, sabido que é, que o mandato desta agência especializada do sistema das Nações Unidas reside, primordial- mente, na promoção do desenvolvimento e na erradicação da pobreza no mundo.

A questão da pobreza é abordada, logo neste primeiro número, por Inês Raimundo, numa

análise que releva a crença e prática da feitiçaria na mobilidade da população, primeiro

e, depois, na perpetuação da pobreza. Raimundo anota no seu texto que em Moçambique

têm sido desenhadas (ou simplesmente adaptadas/adotadas) e postas em prática várias políticas e estratégias que visam erradicar a pobreza, tais como o PARPA I e II, a Agenda 2025, os PQG, os ODM e outras sem, no entanto, atingir as expectativas criadas em seu redor. Inês alerta, ainda, que:

necessário também olhar para a pobreza e para a feitiçaria para melhor com-

preendermos o fenómeno das migrações internas, para além dos habituais ‘dogmas’que existem à volta do assunto, por parte dos fazedores de políticas, segundo as quais a po- breza é originada pela guerra civil, baixo crescimento económico até ao início de 1990,

baixos índices de escolaridade da população economicamente activa (especialmente mulheres), elevada taxa de dependência dos agregados familiares, baixa produtividade na agricultura do sector familiar, falta de oportunidades de emprego no sector agrícola e noutros sectores, fraco desenvolvimento de infra-estruturas, fraca integração do mer- cado rural e desastres naturais (nomeadamente cheias e secas)”.

é “

Economia, Política e Desenvolvimento

Inês Raimundo argumenta que, ainda que se aceite que os factores retro são evident- emente caracterizadores do estado da pobreza no país, é preciso olhar para outros fac-

tores que, no seio das comunidades rurais, em particular, concorrem para neutralizar os esforços do governo e dos doadores no seu programa de erradicação da pobreza; neste

caso, a crença e prática da feitiçaria, como ela o arma: “

ser enfeitiçado não só impede que os camponeses tenham iniciativas próprias para a er- radicação da pobreza, como também condiciona a permanência destas comunidades nas suas áreas de residência, impedindo que elas tenham tempo suciente para a produção da sua subsistência e de excedentes para o mercado”.

medida em que o medo de

na

Outro texto que consta deste número e que, nas suas implicações em termos de políticas agrária e populacional e de desenvolvimento, retorna ao assunto da pobreza resulta da lavra do novicius Professor Catedrático da UEM: Aniceto dos Muchangos! Aniceto as- severa que “O espectro da fome, a degradação ambiental e o alto índice do crescimento populacional, constituem-se nos maiores e mais urgentes desaos, que a Humanidade tem de encarar neste século 21”. O enfoque analítico de Dos Muchangos está no uso sus- tentável das orestas tropicais que, na sua perspectiva, congura-se entanto componente incontornável dos esforços globais para reduzir a pobreza e alcançar os ODM. Neste quadro analítico, Aniceto dos Muchangos faz o seguinte apontamento:

“Os maiores benefícios derivados da exploração das orestas são, muitas vezes, alheios a grande parte dos seus habitantes, pois a desorestação priva numerosas comunidades que vivem das orestas tropicais das suas áreas tradicionais e de condições de suporte de vida, perdendo progressivamente os seus conhecimentos sobre como viver em har- monia com o Meio Ambiente de oresta tropical, adquiridos ao longo do tempo. Para os pobres, a sobrevivência signica muitas vezes trabalho árduo que coloca a protecção das orestas em segundo plano, mesmo contra os seus próprios interesses”.

Trata-se, efectivamente, de um apontamento importante que aborda este ‘conundrum’ que se erga das necessidades de sobrevivência imediata, baseada na exploração desen- freada da oresta tropical – nem sempre asseguradas – e o desao da sustentabilidade do Ambiente e do desenvolvimento também: tudo isto num cenário discursivo em que se dene a agricultura como base económica, particularmente nos países em desenvol- vimento, sem que os dados empíricos conrmem qualquer preponderância dada a este sector nas políticas de desenvolvimento destes países.

Segue-se o texto de José Adalima que aborda as dimensões teóricas e práticas da par- ticipação popular na governação – sobretudo na governação local – num enfoque que privilegia o empowerment das comunidades, a consolidação da democracia e, corolari- amente, a melhoria das condições de vida dos cidadãos em geral e, particularmente, dos grupos desfavorecidos e marginalizados. Primeiro, Adalima discute o conceito da participação (que ele avisa na nota de rodapé que se não deve confundir a participação com métodos e processos participativos, ES) nos termos seguintes:

Economia, Política e Desenvolvimento

literatura sobre o desenvolvimento a participação tem sido distinguida enquanto

um meio para acção com enfoque para os aspectos de eciência (participação como um instrumento para alcançar melhores resultados nos programas e projectos) e participa- ção como m que focaliza os aspectos de equidade e ‘empowerment’, isto é, a partici- pação como um processo que aumenta a capacidade dos indivíduos para melhorar as suas condições de vida e facilita mudanças sociais a favor dos grupos desfavorecidos e marginalizados”.

na

Na discussão de Adalima as dimensões retro do conceito da participação podem ser diferenciadas como (1) participação no sentido nominal/instrumental e, (2) participação no sentido transformativo. Para completar o seu quadro analítico, Adalima apresenta também uma distinção – em função da sua motivação e génese - dos espaços institucio- nalizados para o exercício da participação. Assim, teríamos espaços criados – ‘invited spaces’ – que são, essencialmente, de [ de uma lógica] cima para baixo ‘top-down’ e são concebidos para integrar as comunidades, e os chamados espaços reivindicados –

criados pelos grupos ou comunidades visam pressionar

as entidades públicas e administrativas promovendo mudanças”.

‘claimed spaces’- que “

sendo

Armado de todo este arsenal analítico, e tendo como referencial validatório o questiona- mento do contexto legal-institucional desenhado para o exercício da participação em Moçambique, José Adalima conclui:

processo da participação nos diferentes espaços em Moçambique é instrumental

ou nominal e está virado para legitimar a acção do governo. Em concreto, a institucio- nalização da participação não corresponde a uma efectiva capacidade de engajamento e inuência no processo de tomada de decisões. No caso concreto dos Observatórios de Desenvolvimento, a participação da sociedade civil é nominal e não se traduz na trans- formação do fórum num espaço de tomada de decisões sobre o desenvolvimento. ( ) Pois, a participação deve centrar-se na ‘transformação’ da prática de desenvolvimento vigente e, mais radicalmente, nas relações sociais – nas práticas institucionais que limi- tam a possibilidade de participação dos indivíduos e conduzem à exclusão social”.

o

A problematização/teorização da (boa) governação do país como ferramenta apropriada do combate contra as manifestações da pobreza absoluta, da corrupção e da burocra- cia nos sectores da administração do Estado, é aqui trazida por Nobre Canhanga. Aux- iliando-se do espólio epistemológico/metodológico de autores como Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704), GW Friedrich Hegel (1770-1831) e Max Weber (1864-1920) Canhanga assevera que o pré-requisito para uma (boa) governação radica, precisamente, num bom Estado; um Estado que garanta a estabilidade política, a segu- rança, a harmonia social e o melhoramento contínuo das condições de vida dos cidadãos. Nobre acrescenta, todavia, que o estabelecimento de um bom Estado e, por consequên- cia, a institucionalização e praxis de uma (boa) governação, não depende apenas da von-

Economia, Política e Desenvolvimento

tade dos governantes, mas sim, também, de uma cidadania activa que se pode revelar no engajamento consciente e informado dos cidadãos nos exercícios de monitoria da acção governativa. Nestes termos, Nobre Canhanga arma:

explicou-se

que o processo de monitoria da governação pode garantir o melhoramen-

to

do desempenho das actividades do governo e dos serviços prestados ao cidadão, o au-

mento da credibilidade dos actos governativos em diferentes sectores da administração estatal, a promoção da democracia participativa através do envolvimento da sociedade civil nos assuntos de interesse nacional e o consequente fortalecimento da sociedade

civil através da parceria e do diálogo com a sociedade política”.

O texto de Canhanga, para além do seu valor heurístico na abordagem do conceito da

(boa) governação, adianta outras propostas duma dimensão mais operacional e prática direccionadas a actores sociais e políticos activos; por exemplo quando arma que: “Os conteúdos teóricos aqui desenvolvidos podem ser matéria para capacitação e reexão entre membros de Partidos Políticos, Deputados da Assembleia da República, Assemble- ias Municipais (e Assembleias Provinciais, ES), Conselhos Municipais e muitas outras instituições públicas e privadas”.

O último texto que consta deste primeiro número da revista é da autoria de Orlando Ni-

passa, e aborda a problemática da mobilidade sócio-prossional dos funcionários públi- cos no Moçambique pós-independência, numa perspectiva comparada; primeiro, tendo em conta a variável da instrução/capital escolar e, segundo, discutindo a variável do capital social. Para uma elucidação do conteúdo da varável da instrução/capital escolar (socorrendo-se da elaboração feita por Morrow & Torres) Nipassa enumera as dimen-

sões/funções da educação, nos seguintes termos:

“ educação é de fundamental importância dadas as suas quatro funções primárias –

a académica, a distributiva, a económica e a da socialização política. Resumidamente,

a função académica respeita à transmissão de capacidades cognitivas universais , con-

sideradas necessárias para o funcionamento de diversas instituições que caracterizam as sociedades actuais; a distributiva trata da preparação dos indivíduos para a sua in- tegração prossional; a económica remete para a capacitação dos indivíduos de modo

a garantir-se um elo de ligação entre a educação e a alta produtividade; e, nalmente,

a função de socialização política diz respeito ao papel que a educação deve jogar no

processo de integração e controlo social, ou seja, para tornar possível o funcionamento

a

‘equilibrado’ das sociedades, nos termos dos pressupostos funcionalistas”.

Nipassa apresenta, no seu texto, várias dimensões do conteúdo da variável de capital

disponíveis nas e

através das redes pessoais e de negócios”. Partindo dos resultados obtidos no seu estudo de campo, Orlando Nipassa conclui que a integração e promoção sócio-pro ssional

social. Todavia, todas parecem coalescer no sentido de “

recursos

Economia, Política e Desenvolvimento

– sobretudo na função pública – ainda que, paulatinamente, tende a depender

numa medida importante das qualicações escolares, a primazia pertence ainda a outras “qualicações” (de dimensões sócio-demográcas e políticas) em termos de inuências sócio-prossionais. Nestes termos, Orlando Nipassa conclui:

e concatenando as concepções dos nossos inquiridos, vericamos

a prevalência da crença de que a alegada diculdade que caracteriza o processo

da mobilidade sócio-prossional na actualidade das suas instituições deve-se fundamen- talmente à questão da preponderância do capital social, ao alcance de ‘poucos’, em det- rimento do capital escolar, ao alcance de ‘muitos’”. Obviamente que, tendo em conta as dimensões do capital escolar que o autor enumera, pode-se argumentar também que a educação é um veículo ecaz para a conquista do capital social, ainda que a distrinça destas variáveis tenha um valor heurístico importante na elucidação da plêiada de fac- tores que podem estar na origem da mobilidade sócio-prossional.

resumindo “

Façamos, pois, neste momento de exaltação do nosso esforço colectivo, uma homena- gem singela a Direcção da UEM e da FLCS, e aos funcionários do PNUD em Moçam- bique que tanto se empenharam para que hoje tivéssemos esta ferramenta de luta pelo progresso que temos nas nossas mãos. Que seja estendido este verbo de apreço aos professores e investigadores das diferentes instituições do ensino superior do nosso País que prontamente abraçaram a ideia e entraram no comboio deste empreendimento inter- universitário.

Temos, anal, razões de sobra para gritarmos, junto do famoso matemático grego: Eure- ka! Claro, sem precisarmos de caminhar desnudos pelas avenidas/ruas de Moçambique, porque a Revista Cientíca Economia, Política e Desenvolvimento”, essa sim, fá-lo-á por nós!

Eduardo J. Sitoe, PhD Professor Auxiliar

Director da Revista

Maputo, Novembro de 2009

Economia, Política e Desenvolvimento

MOBILIDADE DA POPULAÇÃO, POBREZA E FEITIÇARIA NO MEIO RURAL DEMOÇAMBIQUE 1

Inês Raimundo

Resumo

Desde os primeiros momentos de contactos com estrangeiros (árabes e europeus), os moçambicanos sempre estiveram sujeitos a uma permanente mobilidade. Os estudos feitos até hoje, têm demonstrado que as migrações sempre estiveram relacionadas com o comércio e trabalho migratório. Por isso, podemos armar que grande parte desta popu- lação nunca experimentou um verdadeiro estágio de sedentarismo.

Actualmente, nota-se que, apesar do crescimento económico e social alcançado no país

os

movimentos migratórios são cada vez mais intensos, particularmente nas áreas rurais.

O

aumento da pobreza nestas áreas é sem dúvida um dos seus principais motivos.

O

que tem sido mais notório, é que os moçambicanos destas áreas têm usado a migração

como panaceia para os seus problemas económicos, políticos e sociais, particularmente

os relacionados com a instabilidade política, pobreza, feitiçaria e desastres naturais.

É importante observar que uma das características dessas migrações, é o seu carácter

desorganizado testemunhado pelas consequências negativas delas resultantes. Por isso, investigadores e políticos, nacionais e estrangeiros têm-se preocupado em compreender este fenómeno, de forma a sugerir soluções plausíveis que permitam o seu estancamento e bem-estar da população.

É importante referir também que, apesar do sofrimento que muitas vezes este fenómeno

provoca, a população rural reconhece a migração como solução possível para o seu es- tado de pobreza. Será que a migração é de facto a melhor estratégia para combater a pobreza? Se o é, achamos que ela não deve ser vista como iniciativa do governo, mas, como iniciativa e estratégia da própria população que assume e reconhece diferentes estratégias de sobrevivência incluindo a migração. Histórias de Vida e Grupos Focais de Discussão do distrito de Mandimba, província do Niassa são referência para o debate

deste tão importante assunto.

1 - Este artigo foi apresentado na conferência internacional sobre “Migrações e Desenvolvimen- to” organizada pela Universidade Nova de Lisboa, SOCINOVA Migration, Lisboa, Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, 2 de Junho de 2008.

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Introdução

Desde os primeiros momentos dos contactos com povos estrangeiros (árabes e europeus), os moçambicanos sempre estiveram sujeitos a uma permanente mobilidade. Segundo estudos feitos até hoje, essa mobilidade sempre esteve relacionada com o comércio, trabalho coercivo (forçado) e trabalho migratório. Por isso, pode-se armar que grande parte da população moçambicana nunca experimentou um verdadeiro estágio de seden- tarismo.

Actualmente, apesar do crescimento económico e social alcançado em Moçambique, nota-se claramente que os movimentos migratórios são cada vez mais intensos, em par- ticular nas áreas rurais.

Um dos principais motivos deste fenómeno é sem dúvida o aumento da pobreza, que se tem vericado principalmente nas áreas rurais, onde muitas vezes a migração tem sido usada como panaceia para os problemas do dia a dia, particularmente os que estão rela- cionados com a instabilidade política, pobreza, feitiçaria e desastres naturais. Este artigo foi apresentado na conferência internacional sobre “Migrações e Desenvolvimento” or- ganizada pela Universidade Nova de Lisboa, SOCINOVA Migration, Lisboa, Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, 2 de Junho de 2008.

Uma das características dessas migrações é o seu carácter desorganizado, testemunhado

pelas consequências negativas que delas resultam. Por isso, investigadores e políticos contemporâneos (nacionais e estrangeiros) têm-se preocupado imenso por compreender este fenómeno, de forma a sugerir soluções plausíveis sem, contudo, impedir a sua re- alização. Por exemplo, procuram garantir implementação de políticas que considerem

a migração como um direito constitucional para o bem-estar da população, a m de

prevenir os seus impactos negativos, como, por exemplo, o aumento da pobreza dos

agregados familiares.

É importante referir também que, apesar do sofrimento que muitas vezes este fenóme-

no provoca, a população rural reconhece que a migração representa para ela uma das soluções possíveis para o estado de pobreza em que se encontra. Será que a migração é de facto a melhor estratégia para combater a pobreza nas áreas rurais? Se o é, acho que ela não deve ser vista como iniciativa do governo 2 , mas como iniciativa e estratégia da própria população, que assume e reconhece diferentes estraté- gias de sobrevivência.

2 - Uma parte da população moçambicana tem tido experiências de migrações orientadas pelo governo, nomeadamente a operação produção (1983), o reassentamento em aldeias comunais (d’ecadas de 1970 e 1980) e em lugares seguros devido à guerra civil e às cheias (d’ecadas de 1970, 1980, 1990, 2000).

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Neste contexto, entende-se por migração o fenómeno de mudança de residência num determinado período de tempo (período mínimo de 6 meses, excluindo os turistas) e, por mobilidade, a deslocação de uma população por um período temporário (não superior a 3 anos), desde que tenha intenção de regressar ao ponto de origem.

A migração e a mobilidade são fenómenos que caracterizam o quotidiano social e económico dos moçambicanos, uma vez que as condições económicas e ambientais no país são bastante precárias. Estes fenómenos caracterizam-se, com maior ou menor in- cidência, em todas as regiões do país, em função dos pers histórico, económico e ambi- ental. Os investigadores moçambicanos têm identicado as seguintes formas de mobili- dade populacional: i) trabalho migratório, ii) movimentos pendulares e, iii) circulação de pessoas e mercadorias entre fronteiras regionais (comércio transfronteiriço).

Entrevistas individuais e de grupos focais de discussão de um distrito rural de Moçam- bique constituem referências para o debate deste tão importante assunto. Tomando como horizonte a hipótese de que uma das causas da migração rural em Moçambique tem sido originada pela crença em feitiçaria, o distrito de Mandimba será o exemplo de análise da migração onde o fenómeno de ´chitega´ 3 ou ´ukwiri´ é uma realidade.

Após re exões profundas sobre o assunto, resultantes das informações obtidas nas 148 entrevistas realizadas no âmbito da minha tese de doutoramento 4 , apercebi-me da relevância do tema para uma reexão conjunta no contexto de migração e pobreza, ten- do em conta os discursos corriqueiros dos diferentes quadrantes da sociedade contem- porânea, nos quais, muitas vezes, a migração tem sido considerada como uma das causas da pobreza e solução para os problemas dela advenientes.

3 -´Chitega´ou ´Ukwiri´ signica feitiço nas línguas Yao/Ajaua e Emakhuwa. É também uma

doença que causa paralisia de membros superiores e inferiores. Porém, em entrevista tida com o director distrital de Saúde de Mandimba, em Junho de 2005, ele assegurou-me que a paralisia era resultante de uma trombose, como consequência da tensão arterial alta. O que estava em

causa era explicar as razões para a tendência crescente de casos de tensão arterial alta neste distrito.

4 - Gender, Choice and Migration: Household Dynamics and Urbanisation in Mozambique

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O Distrito de Mandimba

O distrito de Mandimba (vide mapa 1) situa-se na província do Niassa e é limitado pelos distritos de Maúa, Metarica, Cuamba e Mecanhelas. A Oeste é limitado pela República do Malawi (com a qual a população do distrito se encontra ligada por laços de parentes- co, pelo comércio e pelo trabalho migratório).

Fonte: Mapa adaptado do Atlas geográco Volume. 1, MINED 1986.

Mapa adaptado do Atlas geográ fi co Volume. 1, MINED 1986. É importante referir que a

É importante referir que a

República do Malawi foi,

durante muitos anos, refú- gio da população moçam- bicana: durante o período

da dominação colonial, dos

impactos da luta de liber- tação nacional e, depois da independência do país, da guerra entre as tropas gov- ernamentais e a Renamo 5 .

No ano de 1997, o distrito de Mandimba tinha uma população total de 84.011 habitantes (41.123 homens

e 42.888 mulheres), que

correspondem a 11,1% da

população total da província

do Niassa. (INE 1999).

O distrito de Mandimba tem uma superfície de 4.376

Km2, que representa 3.39%

da superfície total da provín-

cia do Niassa. Possui 2 Postos Administrativos 6 (Mandimba e Mitande) . É também importante dizer que muitas aldeias se confundem com regulados. A capital do distrito é a vila de Mandimba que no ano de 1997 tinha uma população de 59.292 habitantes cor- respondente a 70,57% da população total do distrito.

5 - Resistência Nacional de Moçambique, que se opôs miltarmente à Frelimo durante os 16 anos de guerra civil. Actualmente é o maior partido de oposição de Moçambique. 6- Existe uma terrível confusão entre a divisão administrativa usada para efeitos do recensea- mento populacional de 1997 e a divisão administrativa que me foi indicada pela administração do distrito. Embora em termos o ciais não exista uma outra divisão administrativa diferente da do ano de 1986, a administração do distrito criou um novo posto, que é o Posto Administrativo de Lissiete. É importante também observar que, a nível das aldeias, existe uma disputa de limites entre os líderes tradicionais ou chefes das aldeias, o que torna confusa a divisão administrativa das mesmas.

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O que é feitiçaria?

A discussão sobre o fenómeno feitiçaria e da sua existência em Moçambique, ainda se

faz às escondidas. Se, por um lado, o regime colonial português exerceu uma grande repressão sobre as tradições e crenças dos moçambicanos, a Frelimo, depois da inde- pendência nacional, não fugiu à regra. Tal como no regime colonial, também considerou a crença e a prática da feitiçaria como superstição, e, por isso, um mal a ser combatido. Mas, a nal, o que é feitiçaria? E qual é a sua relação com a migração e a pobreza em

Moçambique?

Segundo o “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa” (1986), feitiçaria é um substantivo feminino que signica emprego de feitiços. Feitiço é um substantivo mascu- lino que signica coisa feita por arte mágica ou por feiticeiros. Couceiro (2004) dene feitiçaria como acusação moral, em qualquer sociedade, que funda uma relação social de desconança entre pessoas que se sentem prejudicadas por alguém que elas acusam de lhes fazer mal, com auxílio de poderes mágicos. O mais importante por reter nesta denição é o facto de as comunidades sobre as quais me irei debruçar (Ajaua), estarem convictas de que no seu seio existe sempre alguém com poderes mágicos capaz de fazer mal ao próximo. É importante observar que esta convicção é comum entre a população rural de Moçambique.

Douglas (1999), no seu artigo “Os Lele revisitados, 1987 acusações de feitiçaria à solta”, refere que na religião tradicional se acredita que os feiticeiros formam uma espécie de corporação do mal, na medida em que cada um deles necessita do auxílio dos outros para efectivar os seus desígnios malécos. Segundo este autor, nenhuma pessoa pode ser vítima de feitiçaria sem que um parente seu (também feiticeiro) “abra o caminho”, isto

é, sem que lhe seja retirada a protecção contra o feitiço.

A situação acima descrita por Douglas sobre os “Lele” foi também por mim constatada

entre os Ajaua de Mandimba, onde a feitiçaria é considerada responsável pelo apareci- mento de uma doença muito perigosa, conhecida na língua Ajaua/Yao por “Chitega” e na língua Emakhuwa por “Ukwiri”. A este respeito, uma ocial de programas de uma ONG em Mandimba (25 de Maio de 2005) disse o seguinte:

Acredito na existência de chitega, porque já tive experiência disso; acredito que seja causa de migração. Por exemplo, neste distrito, só as pessoas de outras áreas são as que podem ser chefes, porque as pessoas daqui se matam umas às outras por inveja, através do chitega. É por isso que pode ver que o presidente da União de Camponeses de Lissiete é natural do sul 7 ”.

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Segundo os entrevistados, o chitega manifesta-se de várias maneiras. Essas manifes- tações permitem identicar os seus diferentes tipos. Por vezes ela é caracterizada pela paralisia dos membros superiores. Neste caso, designa-se por chitega de ngucu (feitiço

de galinha). Noutros casos, ela manifesta-se através da paralisia dos membros inferiores, que os Ajaua chamam por chitega de ngonó (feitiço de tartaruga). O tipo de chitega mais perigoso e mais temível é o chitega de nguená (feitiço de crocodilo). Quem apanha este chitega morre inevitavelmente. Sobre este assunto, a acima mencionada ocial de ONG disse:

- “ O chitega existe de verdade. Eu já tive uma experiência disso. Por isso, acho que esta doença é uma das causas da migração. Por exemplo, algumas pessoas que se encontram no governo lá em Maputo não querem voltar para aqui, sua terra natal, e nem aceitam construir casas de alvenaria, porque têm medo do chitega.

Um outro entrevistado (Mandimba, 22 de Maio de 2005) disse:

Aqui o chitega mata ou mutila. Através da magia, os feiticeiros usam animais como crocodilos, galinhas, cágados e trovoada para fazer feitiço”.

Sobre este assunto ainda, Xavier Momade (cerca de 70 anos, Lissiete, 30 de Abril de 2005) disse o seguinte:

- “Nasci em Memba, na província de Nampula. Estou casado com uma mulher de Majune. Tenho 7 lhos e todos vivem em Lissiete. Cumpri a tropa portuguesa entre 1956 e 1960. Conheci a min- ha mulher na Vila Cabral (actual Lichinga) durante a guerra colonial. Depois do serviço militar, regressei a Nampula, minha terra natal, onde fui trabalhar em Nacala-Porto como ajudante de agrimensor, na abertura da estrada para a pedreira, onde se extraía pedra para a produção de cimento. Trabalhei durante 3 anos. Deixei este emprego porque havia muita inveja pelo facto de ganhar melhor que os outros. Saí de Nacala-Porto como uma forma de defesa contra invejosos e feiticeiros. Voltei para Memba em 1960, onde passei a trabalhar para a JFS 8 , na empresa do algodão, como trabalhador sazonal. Em 1961, passei para uma empresa alemã de produção de sisal em Monapo. Entre 1962 e 65 trabalhei de novo na JFS em Quissaca, Memba (na província de Nampula). Sai de lá a fugir do “ukwiri”. Adoeci e quei maluco. Fui me tratar tradicional- mente em Memba, onde vivi mais 3 anos. Em 1966, fui para a Vila Cabra onde me casei pela 2a vez em 1968”.

Segundo a tradição, acredita-se que o “chitega” tenha aparecido depois da independência nacional, mais precisamente no distrito de Majune, na província do Niassa. Em relação a este assunto, Manuel Jelane, que é natural de Mandimba, declarou o seguinte: (Man- dimba, 5 de Junho de 2005).

- Aqui há pobres porque há muitos feiticeiros que não querem que a gente progrida. As pessoas fazem movimentos circulares. Saem de Mitande para Chitenge. Isso aconteceu muito entre 1995-

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97, 2000 e 2003. Nesse período, as pessoas fugiram para Lissiete por causa da guerra, muitas delas traziam consigo o chitega. Agora, quando as pessoas não conseguem produzir em 3 anos consecutivos 20 sacos de milho em uma área de 1400m2, elas mudam para produzir num outro

lugar, porque pensam que existem feiticeiros nas proximidades desse lugar. Por outro lado, de- sentendimentos familiares são factores que obrigam à mudança de residência. Geralmente, esses desentendimentos surgem quando o prejudicado consulta um ou vários adivinhos e estes identi-

cam um familiar ou vizinho como causador da desgraça. Muitas vezes, o motivo do feitiço é o

facto de se ser considerado rico na aldeia. Também tem sido muito estranho quando num curto espaço de tempo morre mais do que uma pessoa numa família. Por isso, a prática aqui é de sair para um outro lugar. Aqui só cam os fortes ou pessoas que têm um bom curandeiro”.

Neste depoimento, pode-se depreender que a mudança de residência por causa do feitiço

é um fenómeno que, apesar de ser uma prática antiga, se evidencia mais no período pós

guerra, mais precisamente, com a reconstrução e reassentamento da população, altura em que certas pessoas das aldeias começaram a ter alguma riqueza. É preciso referir que, desde1975 (ano da independência nacional) até 1990 (ano da promulgação da 2ª Constituição do pais), Moçambique esteve sob regime socialista, que não permitia criar riqueza individual. Sobre este assunto, uma ex. improdutiva 9 disse que “a pobreza, nessa

altura, estava distribuída de igual forma entre os moçambicanos. Não havia ricos nem pobres, mas sim moçambicanos”.

A este respeito, Feliciano Ajuma Munhehele (aldeão da aldeia Nyerere - 30 de Maio

de 2005), disse o seguinte: Aqui na nossa aldeia o feitiço apareceu com as misturas entre diferentes grupos étnicos. No tempo colonial, as tradições não eram mudadas, pois não havia junção de tribos ou grupos étnicos. Nessa altura, os Nyanja olhavam para os Ajauas como seus escravos. Ora, estas misturas demonstraram grupos de pessoas com rendimento diferenciado e, por causa disso, as pessoas com uma renda baixa acham que caram pobres por causa de feitiço criado pelas pessoas de renda alta. Os de renda baixa não vêem outra solução se não sair da aldeia. Mas eles são tão pobres que nem dinheiro têm para migrar”.

No meu entender, esta última armação de Feliciano Munhehele, que diz que os “pobres não migram porque para o fazerem precisam de ter dinheiro”, explica em certa medida

o seguinte: 1°) o motivo pelo qual os Ajaua não percorrerem grandes distâncias no pro- cesso de migração, apesar de se instalarem longe das estradas e da vila de Mandimba; 2°) os migrantes não são as pessoas mais pobres das aldeias, mas sim aquelas que têm

condições de suportar nanceiramente essa mudança e, por isso, 3°) os que mais temem

o feitiço não são os mais pobres da aldeia, mas sim aqueles que nanceira e material- mente se encontram em melhores condições.

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Das entrevistas e dos grupos focais de discussão efectuados no terreno, pude perceber que a crença em “chitega” ou “ukwiri” existe de facto em todos os níveis e estratos sociais dos habitantes de Mandimba. Neste distrito, as pessoas acreditam que quando o “chitega” actua paralisa os membros (superiores ou inferiores) de alguém e pode até causar a morte. Segundo a tradição, “são os curandeiros que usam remédios para paral- isar os membros das pessoas ou para matar, quando alguém encomenda feitiço”, disse um camponês de Mitande, 1 de Junho de 2005.

Por aquilo que presenciei no terreno, para os habitantes de Mandimba, as doenças nunca

aparecem por acaso. A sua origem é sempre atribuída a alguém, isto é, não existe

doença que não tenha sido provocada por alguém. É por essa razão que, para estas co- munidades, as doenças têm sido motivo para acusações mútuas de feitiçaria, originando deste modo constantes conitos familiares e entre vizinhos, que, por sua vez, constituem fontes de grande instabilidade social. Sobre este assunto, Verónica Salimo, natural de Namango (Mitande), disse o seguinte (14 de Maio de 2005):

“- Aqui na nossa aldeia, tem havido problemas em quase todas as semanas. Quando alguém adoece ou morre, dizem sempre que foi por causa de feitiço. É por essa razão que quando isso acontece, os parentes do doente ou do defunto vão sempre consultar o curandeiro para descobri- rem quem foi o culpado. Muitas vezes, os culpados têm sido os parentes mais velhos da vítima, geralmente as avós e/ou o vizinho rico. É assim que surgem brigas entre parentes e vizinhos. Em algumas aldeias do nosso distrito, essas brigas terminam muitas vezes com a expulsão do feiticeiro. Noutros casos, algumas famílias se sentem forçadas a mudar de aldeia para se refugia- rem numa outra onde se possam sentir seguras. Isto geralmente acontece quando o chefe dessa família se sente ameaçado com chitega. Em relação à minha aldeia, ainda não ouvi dizer que as pessoas se mudaram por causa de chitega. Porém, temos recebido pessoas que fogem das suas aldeias para aqui por causa do chitega. Ainda ontem, por exemplo, acolhemos uma família do distrito de Majune, que teve de fugir da sua aldeia (Mapichiche) para que não fosse atingida por este mal”.

Migração, feitiçaria, pobreza O Contexto

Actualmente, diferentes estudos (vide Migration Policy Series No 43, 2006; Oucho, 2001; Applyard, 1996; Adepoju, 1991) têm assumido que existe uma ligação muito forte entre pobreza e migração, porque muitas vezes a pobreza tem sido vista como uma das principais causas da migração. Para mim, à luz deste pressuposto, a pobreza pode ser vista como causa da migração e esta, também como causa da pobreza.

Actualmente, muita ajuda internacional se baseia na relação entre a pobreza e a migração na execução dos seus programas. Porém, acho legítimo perguntar o seguinte: a que cate- goria de migrações pertencem as pessoas que migram por causa do “chitega”?

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É importante observar que nos locais de partida a população tem acesso à terra fértil,

água, orestas e animais selvagens, recursos naturais considerados indispensáveis para

se

sair da pobreza e evitar a permanente mobilidade.

O

tema aqui proposto para ser discutido é bastante polémico. Pode-se até dizer que se

trata de uma ousadia trazê-lo ao debate pelos seguintes motivos:

1°) - Pode parecer que não existe alguma relação entre feitiçaria, pobreza e migração;

2°) – Para o caso de Moçambique, não existem estudos empíricos capazes de sus- tentar este tema em debate, bem como de permitir fácil compreensão da relação que existe entre migração, pobreza e feitiçaria no espaço geográco escolhido;

3°) – Nos últimos tempos, a migração interna deixou de ter relevância como área

de estudo e de discussão académica, isto é, deixou de ser de grande importância quer entre os estudiosos, quer entre os fazedores de políticas, na medida em que o foco se restringe a assuntos ligados às migrações internacionais, soberania e segurança dos Esta- dos, controlo cerrado das fronteiras internacionais, rápida urbanização, pobreza urbana, tráco de pessoas, terrorismo, etc.

Durante a pesquisa para a minha tese de doutoramento sobre “Género, escolhas e mi- gração: dinâmicas dos agregados familiares e urbanização em Moçambique” (original- mente em inglês “Gender, Choice and Migration: Household Dynamics and Urbanisa- tion in Mozambique”), as histórias de vida, as entrevistas com informadores-chave e com grupos focais trouxeram ao de cima uma questão que, não tendo merecido a devida atenção dos diferentes pesquisadores moçambicanos, obrigou-me a observar e a anal- isar com muito cuidado. Trata-se da mobilidade ou migração interna como resultado da crença em “chitega”.

Olhando atentamente para o número de casos de pessoas que se sentiram obrigadas a mudar de residência (temporária ou denitivamente) 10 , apercebi-me de que se tratava de facto de um fenómeno geográco de grande importância, uma vez que cria padrões especiais de assentamentos (distância do centro urbano, das estradas e das aldeias ou povoamentos separados por bosques) e de utilização da terra (solos).

Os resultados dessa pesquisa levaram-me a concluir, em primeiro lugar, que a nível rural, particularmente no distrito de Mandimba, na província do Niassa, é necessário também olhar para a pobreza e para a feitiçaria para melhor compreendermos o fenómeno das migrações internas.

10 - Entrevistei 148 pessoas e constatei que cerca de 17 (11,4%) pessoas mudaram de residência por temerem feitiço, ou por acusação de feitiçaria.

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A feitiçaria se junta aos habituais “dogmas” que existem à volta do assunto, segundo os quais a pobreza é originada pela guerra civil, baixo crescimento económico até ao início de 1990 e baixos índices de escolaridade da população economicamente activa (especialmente mulheres). Mais ainda se acrescentam a elevada taxa de dependência dos agregados familiares, baixa produtividade na agricultura do sector familiar, falta de oportunidades de emprego no sector agrícola e noutros sectores, fraco desenvolvimento de infra-estruturas rurais 11 e desastres naturais 12 . É importante observar que este con- junto de causas tem sido também muitas vezes apontado nos relatórios do PNUD sobre o desenvolvimento humano de Moçambique. O mais curioso de tudo isto é que, ao mesmo tempo que se fala de pobreza absoluta elevada, esses relatórios indicam um bom desem- penho do governo através dos altos índices do crescimento económico (Vide PNUD 13 1998; 2000; 2003; 2004; 2006).

Em segundo lugar, essa pesquisa levou-me a pensar que estudar uma unidade adminis- trativa rural pequena (a aldeia) permitir-me-ia entender melhor aquilo que a nível mais genérico dicilmente concebível.

Finalmente, em terceiro lugar, as histórias de vida de laguns membros dos agregados fa- miliares entrevistados permitiram-me entender que existe uma mobilidade permanente e cíclica da população, que se efectua em períodos que variam de 1 a 3 anos ou mais. Esta mobilidade ocorre sempre entre aldeias próximas (situadas a distâncias inferiores a 40 km) e geralmente separadas por bosques.

Segundo as minhas análises, as causas desta mobilidade estão muitas vezes relacionadas com a crença na feitiçaria e também com a procura de lugares seguros (nos momentos de grande instabilidade, provocada, por exemplo, por guerras). Durante os trabalhos de terreno, apercebi-me, por exemplo, que, quando a “situação” social provocada pela feitiçaria é demasiado tensa, as vítimas cruzam a fronteira internacional e instalam-se no vizinho Malawi de forma a livrarem-se do chitega ou ukwir. É importante observar que muitas famílias que vivem no distrito de Mandimba possuem parentes que habitam do lado de lá da fronteira do Malawi desde há muito tempo, muito antes até do estabeleci- mento de fronteiras entre estes dois países.

É interessante também referir que, a nível do distrito de Mandimba, as famílias “fugi- tivas” instalam-se no interior dos bosques, em lugares cada vez mais distantes da vila, distanciando-se ainda mais das estradas principais, porque acreditam que os “feiticeiros” encontram-se nas cidades e vilas e que geralmente são pessoas vindas de outros lugares, isto é, estrangeiros ou imigrantes.

11 - São exmplo, as estradas que causam isolamento das comunidades, fraca integração do mer-

cado rural que que permitem a venda de excedentes agrícolas.

12 - As cheias e as secas.

13 - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

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O mais curioso ainda é quando as pessoas que saíram de Moçambique para o Malawi por diferentes razões regressam à terra de origem (Mandimba) por fugirem ou temerem

o chitega do Malawi. Apesar de não existirem muitas evidências deste caso, concluo que

o chitega é também um dos subterfúgios usados por estes migrantes para terem acesso a terra fácil em Moçambique 14 .

Analisadas as diferentes experiências reportadas pelas pessoas entrevistadas, pode-se dizer que a migração é uma estratégia de harmonia social, porque ‘resolve’ conitos sociais resultantes (neste caso concreto) de acusações de feitiçaria, que originam a deslo- cação de famílias para outros locais de residência (deixando as suas machambas e habi- tações sem ninguém) por um período de tempo determinado, regressando depois de al- gum tempo, numa altura em que se sentem mais seguras. O mais interessante é que estas machambas e habitações nunca chagam a ser ocupadas por outras famílias, que cam porque estas (as famílias que cam) reconhecem-nas sempre como propriedades de uma família temporariamente ausente temem ser “contagiadas” pelo chitega que provocou a saída dos legítimos proprietários.

A partir das constatações acima referidas, pode-se dizer que a migração interna entre áreas rurais no distrito de Mandimba é um facto. Porém, ela se restringe a áreas próximas das aldeias de saída devido a:

1°) - irregularidade ou falta de meios de transporte que liguem a área rural de saída às cidades capitais ou centros urbanos mais desenvolvidos;

2º) forte inuência de leis tradicionais ou costumeiras, segundo as quais a decisão para

a migração das mulheres (mesmo casadas) depende dos tios maternos (importa dizer

que se trata de uma comunidade matrilinear, onde as mulheres não decidem por si sobre

a mudança de residência, exceptuando-se os casos de situações extremas, tais como as guerras e calamidades naturais, como as cheias);

3º) medo do desconhecido. É importante referir que na migração nem todos migram. A este respeito, uma das entrevistadas disse o seguinte: “Não estou interessada em sair da minha terra, porque já me habituei aqui. Nasci e cresci aqui e, porque não sei o que se passa do outro lado, não sairia deste distrito. Só conheço Malawi”.

Estudos sobre migrações em Moçambique (vide Penvene 1988, Covane 1996, Das Neves 1998, Araújo 1990 e 1992, Knauder 2000, Raimundo 2005 e 2008) referem que, histori- camente, as migrações têm sido causadas pelo trabalho migratório, trabalho forçado ou coercivo (xibalo), guerras (de libertação colonial e civil), desastres naturais (cheias e secas) e reassentamento da população em aldeias comunais.

14 - Sobre este assunto, apresentei um artigo na Conferência Internacional sobre Migrações Forçadas e Vulnerabilidade Social em Bona, Alemanha (9-11 de Outubro 2008), cujo título é:

Mozambican refugees in Malawi: Did the Malawians gain the hell?

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Porém, existem também aqueles (deste grupo também faço parte) que dizem que as migrações constituem uma importante estratégia de sobrevivência (económica e social). É estratégia económica, porque, tal como refere Adepoju (2004) e SAMP (Migração e Pobreza em Moçambique 2004) 15 , elas providenciam para os membros da família que cam, não só remessas na forma de alimentos, mas também na forma de dinheiro.

As estatísticas sobre migrações referentes ao recenseamento geral da população e habi- tação de 1997 incidem sobre quatro situações: residência actual, lugar de nascimento, residência anterior ao censo (um ano antes) e residência depois da guerra civil. No meu entender, tal como no entender de outros estudiosos, estas quatro situações não são por si sós capazes de nos dar com precisão respostas sobre o número de pessoas que migrou entre diferentes postos administrativos, ou entre diferentes aldeias, e muito menos, as causas que originaram a migração, incluindo por razões de feitiço.

De acordo com o que atrás referi, a migração e a mobilidade da população como conse- quência da “feitiçaria” constituem a questão central deste trabalho.

À semelhança de muitos países africanos, Moçambique possui um largo sector rural com um índice de pobreza alto (vide relatório de desenvolvimento humano de Moçambique do PNUD de 1998 a 2006). Nestas condições, muitas famílias têm sobrevivido através da mobilidade, do comércio transfronteiriço, do comércio à longa distância com a Tanzânia, Zanzibar e Malawi e também do trabalho sazonal nas plantações de tabaco do Malawi e do Zimbabuè. Apesar da distância que separa Mandimba do Zimbabuè, algumas pessoas que entrevistei disseram que, no tempo colonial tiveram que fugir para a Rodésia do Sul

(actual Zimbabuè), por causa do trabalho forçado (xibalo), do serviço militar obrigatório

e da guerra entre as tropas coloniais e da Frelimo.

Tal como dizem os estudiosos deste assunto (Oucho, 2001; Adepoju 1996) a migração

é parte integrante do mercado de trabalho e da sobrevivência dos agregados familiares.

Porém, vêem negativamente a ligação entre a migração e a pobreza . Segundo eles, a migração, sobretudo para as cidades, tem acelerado a urbanização, resultante de um crescimento populacional muito rápido. No continente africano, a pobreza é a causa da migração de alguns membros dos agregados familiares pobres. Porém, estes estudiosos não consideram a migração como sendo causa da pobreza, apesar de considerarem a migração interna positiva, uma vez que, além de manter os laços de parentesco, ela não só permite que haja circulação de remessas na forma de dinheiro e de produtos, mas também encoraja iniciativas locais para a construção de infra-estruturas, bem como es- tabelece uma ligação permanente entre os produtores rurais e os consumidores urbanos. (Adepoju 2004; 1998).

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A Dimensão da Pobreza em Moçambique

O crescimento económico de Moçambique tem sido animador nos últimos anos, desde as

primeiras eleições multipartidárias do país, no ano de 1994. Por exemplo, o relatório do PNUD (2006) para o ano de 2005, sobre o crescimento económico, diz que o mesmo foi acompanhado por uma mudança na composição do PIB, onde a participação da indústria no PIB total cresceu de 16%, em 1997, para 27%, em 2003. Partindo desta informação, posso questionar por que é que este crescimento não se reecte também nas “panelas” 16

dos agregados familiares, sobretudo das famílias rurais? Citando o mesmo relatório do PNUD, os economistas referem que enquanto o sector industrial cresceu, sem impacto signicativo sobre a redução da pobreza, o sector agrícola registou um decréscimo de 30% para 23% entre 1997 e 2003. Esta situação afectou o meio rural, uma vez que a agricultura dá emprego e suporte económico a mais de 70% da população economica- mente activa. O mesmo relatório refere na página 27 que em Moçambique a pobreza aumentou geogracamente do sul para o norte e das áreas urbanas para as rurais; que a pobreza reduziu signicativamente de 1997 a 2003, mais nas áreas rurais do que nas urbanas, sendo a cidade de Maputo a que mais cou empobrecida. A explicação sobre o empobrecimento da cidade de Maputo é diversa, mas a rápida urbanização resultante do êxodo ruralé evidentemente uma das causas.

O distrito de Mandimba é um dos que está na categoria dos distritos pobres. Porém,

a questão que se coloca é a seguinte: Como se explica esta pobreza, considerando as

potencialidades edácas, faunísticas e hídricas? Sem querer ferir susceptibilidades, a hipótese que avanço neste artigo é a seguinte: a crença em feitiçaria e a consequente mobilidade populacional impede que a população organize convenientemente a sua ac- tividade produtiva. Esta mobilidade não só afecta a organização da produção agrícola e

as possibilidades de construção de habitações melhoradas, como também afecta o sector

da educação, pois muitas crianças são obrigadas a interromper os estudos para seguirem

os pais quando migram. Quando se fala de habitaçao, as pessoas privilegiam os celeiros (vide foto 1) do que a casa onde dormem, porque, como elas dizem, “somos uma popula- ção em movimento” 17 . Como se pode observar, a habitação está meio coberta, enquanto, em contrapartida, o celeiro está bem construído.

16 - Aqui rero-me ao rendimento do agregado familiar.

17 - É verdade que a guerra civil também afectou a forma de construir. Na altura em que z

o estudo, as pessoas ainda estavam receosas quanto à estabilidade, uma vez que disseram ter ouvido, via rádio, uma declaração do líder da Renamo, o Sr. Afonso Dlakhama, segundo a qual não estava satisfeito com os resultados das eleições, que tinha trazido uma cassete dos Estados Unidos da América e que iria pôr o povo a dançar. Lembro ao leitor que este estudo foi feito em 2005, ano em que tomou posse o governo saído das terceiras eleições gerais de Moçambique.

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Foto 1. Celeiro e habitação

Política e Desenvolvimento Foto 1. Celeiro e habitação Fonte: Fotogra fi a tirada pela autora do

Fonte: Fotograa tirada pela autora do ar- tigo, Mandimba, Maio de 2005.

Uma boa parte destas pessoas, quando migra com o intuito de descarregar o chitega, como armou um aldeão, fazem-no para o interior, distante da sua área de origem. Volvidos 2 ou 3 anos, regressam para a área de origem.

Em termos da organização espacial dos povoamentos, a tendência da mobilidade popu- lacional devido ao fenómeno chitega, ao contrário do que tem acontecido em outros lu- gares de Moçambique, nomeadamente na província de Gaza 18 , os povoamentos de pes- soas que fogem dos chitega as pessoas distanciam-se de lugares onde haja possibilidades de contactos com pessoas de outras aldeias. É natural observar, ao longo da estrada, seja em direcção ao sul, seja em direcção ao norte, ruínas de habitações e de celeiros no meio de bosques, bem como algumas árvores de fruta, nomeadamente papaieiras e manguei- ras. (vide foto 2)

Foto 2. Habitação abandonada.

manguei- ras. (vide foto 2) Foto 2. Habitação abandonada. Fonte: Fotogra fi a tirada pela autora

Fonte: Fotograa tirada pela autora do artigo, Mandimba, Maio de 2005.

Nos últimos tempos tem-se registado um grande esforço do Governo de Moçambique em planicar a luta contra

a

pobreza absoluta, através do PARPA I

e

II (Plano de Acção para a Redução da

Pobreza) 19 , da Agenda 2025, ao Plano Quinquenal do Governo, dos Objecti- vos de Desenvolvimento do Milénio, da Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional, etc. Estas tentativas têm-se revelado decepcionantes, na medida em que o número de pobres continua alto. Por outro lado, Moçambique tem interligado diversas políticas e estratégias de abrangência nacional, regional e global, visando o desenvolvimento económico e a redução da pobreza, sem considerar os aspectos de grande relevância para os camponeses, como é o caso do im- pacto das crenças na feitiçaria no desenvolvimento. Quais são então as causas reais da pobreza em Moçambique, em particular nas áreas rurais?

18 - Resultante da minha vivência e da observação.

19 - Recordo ao leitor que o PARPA II compreende o período de 2005-2009.

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Uma análise global demonstra que os factores identicados pelos relatórios acima referi- dos são os que caracterizam o estado de pobreza na sua generalidade em Moçambique. Porém, podemos encontrar dentro das comunidades rurais outros factores que põem em causa todo o esforço que o governo moçambicano e os doadores têm desenvolvido para

a erradicação da pobreza no país. Um dos factores de maior relevância é a crença e

prática da feitiçaria, na medida em que o medo de ser enfeitiçado não só impede que os camponeses tenham iniciativas próprias para a erradicação da pobreza, como também

condiciona a permanência destas comunidades nas suas áreas de residência, impedindo que elas tenham tempo suciente para a produção da sua subsistência e de excedentes para o mercado.

É indiscutível que nas comunidades em referência existe uma ideia generalizada de que

‘crescer’ mais do que os outros (por exemplo, ter uma boa casa e ser proprietário de celeiros mais cheios do que os dos outros membros da comunidade) pode ser motivo

su ciente para se ser enfeitiçado e apanhar a indesejável chitega. Por isso, “é muito peri-

goso mostrar riqueza material nas aldeias”. Numa outra ocasião fui exposta a uma situação similar sobre crença em feitiço: nas diferentes conversas tidas com o motorista que me levou a um trabalho de campo na província da Zambézia 20 , pude constatar que quando os camponeses Ajaua mudam de uma residência para outra, geralmente não constroem habitações sólidas (vide fotos 3 e 4) nem cultivam grandes extensões de terra. Segundo a minha análise, eles não o fazem por falta de recursos para o efeito, mas tam- bém porque têm medo de serem enfeitiçados.

Foto 3. Habitação típica do distrito de Mandimba.

Fonte: Foto tirada pela autora do artigo, Mandimba, Maio de 2005

Foto tirada pela autora do artigo, Mandimba, Maio de 2005 20 - No ano de 2003,

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Foto 4. Habitação típica de Mandimba

Fonte: Fotograa tirada pela autora do artigo, Madimba, Maio de 2005.

fi a tirada pela autora do artigo, Madimba, Maio de 2005. Porém, podem ser observadas habitações

Porém, podem ser observadas habitações melhoradas, do tipo da fotograa 5.

Foto 5. Habitação melhorada

Fonte: Fotograa tirada pela autora do artigo, Mandimba, Maio de 2005.

a tirada pela autora do artigo, Mandimba, Maio de 2005 . Existe, porém, uma outra crença,

Existe, porém, uma outra crença, que diz que os ‘vientes 21 ’são imunes ao ‘chitega’ e, por isso, podem de- senvolver negócios. Porém, existem outros “vientes” que acreditam não possuírem imunidade ao chitega. Em relacção ao primeiro caso, tem-se o exemplo do proprietário da Pensão Massinga, originário de Massinga, província de Inhambane, que foi audaz, ao construir este complexo turístico (foto 6).

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Foto 6. Pensão do Sr. Massinga, originário de Inhambane

Fonte: Foto tirada pela autora do artigo, Mandimba, Maio de 2005.

É comum ouvir dizer, entre os habi- tantes das aldeias do distrito de Man- dimba, que aqueles que prosperam (en- riquecem) não o fazem à custa do seu próprio esforço. Quase todos acreditam que a riqueza é fruto de práticas mági- cas, que consistem no uso da ‘energia’ dos outros, sobretudo de crianças. Por isso, nesta comunidade, existe a ideia de que os feiticeiros se servem sempre dessas práticas para serem pessoas bem sucedidas. Obviamente, este tipo de pensamento não permite criação de riquezas e tem sido tam- bém um grande obstáculo à implantação de infra-estruturas sociais em algumas aldeias, tais como escolas e hospitais, porque muitas vezes ‘nunca’ se sabe onde é que está lo- calizada a população dessas aldeias, com a agravante de Niassa ser a província menos populosa de Moçambique. É importante referir que estas ideais inuenciam em certa medida os investidores. A este respeito, uma senhora residente em Mandimba (Aldeia Julius Nyerere) e natural de Maputo (fruto da ‘Operação produção’) disse o seguinte:

Aqui ninguém de Maputo quer investir porque há feiticeiros. Mesmo nós não construí- mos boas casas por causa disso. Estamos há 23 anos neste local, desde que nos tiraram de Maputo porque éramos improdutivos. Não temos esperança de nada. Nós não quer- emos regressar a Maputo em caixões. Saímos vivos de lá e regressaremos vivos para lá. A gente vive como pode”.

e regressaremos vivos para lá. A gente vive como pode ”. Algumas pessoas são agredidas e

Algumas pessoas são agredidas e impedidas de ter acesso ao tratamento no hospital, como aconteceu com um octogenário de Xai-Xai, que se viu obrigado a viver sozinho 22 , porque a esposa e os lhos o acusavam de feiticeiro. Segundo ele, “até os enfermeiros recusam-me assistência médica porque dizem que não têm remédio para mim, apenas têm para os meus netos23 . Os feiticeiros são geralmente pessoas indesejáveis e, por isso, muitas vezes discrimi- nadas e maltratadas. Por isso, coloco a seguinte questão: onde enquadrar este tipo de migrantes?

22 - Na altura em que o entrevistei (Chicualacuala, Maio de 2001) ele estava de malas aviadas e

tinha inclusivamente vendido a sua casa, porque dizia que se ia embora para a sua terra de ori- gem, Chibuto, onde iria morrer, porque “sou feiticeiro”,conforme seu depoimento, e não queria viver mais sob o estigma de estar a acabar com os membros da sua família. Esta entrevista foi feita na altura do meu trabalho de campo sobre migrações internas na província de Gaza, para a dissertação de mestrado.

23 - Raimundo 2005, From civil war to oods: an implication for internal migration in Gaza

province. Edited by Elísio Macamo, CODESRIA and Zed Books, London.

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Pobreza Relativa como Forma de Harmonia Social

A crença na magia para o africano sempre permaneceu profundamente ligada à sua cul- tura. Sobre este assunto, Richard (2000) diz, no seu artigo sobre “A Maldição Africana:

Crenças Mágicas”, que os governos coloniais nunca tiveram grandes sucessos na erradi- cação das crenças africanas, particularmente referentes a magia, feitiçaria e bruxaria.

Em Moçambique, depois da independência nacional, a feitiçaria, integrada nos discursos contra a superstição, foi fortemente combatida. Muitos dos seus seguidores foram con- denados a prisão ou enviados para campos de reeducação. Porém, apesar disto, a crença na magia e feitiçaria continuou (não tão abertamente como hoje) em todo o país.

Por exemplo, durante a guerra civil (entre a Frelimo e a Renamo), alguns líderes comu- nitários, como o régulo Namassonjo (Bacar Chali, de Mitande), encorajavam as pessoas que tinham poderes mágicos para que os usassem contra as tropas da Renamo e da Frelimo, de forma a impedir que elas atacassem e saqueassem as suas aldeias. No sul de Moçambique, acreditava-se no “espírito Mungói” que se pensava ser protector dos soldados da Frelimo.

Por tudo isto, pode-se armar que o recurso a poderes mágicos foi sempre uma das es- tratégias utilizadas pelas populações rurais para resolver problemas de carácter social e económico, quando os governos e agências internacionais de ajuda não têm capacidade para o efeito. O depoimento de Bacar Chali, Régulo Namassonjo da sede de Mitande (Mitande 14 de Maio de 2005), testemunha o papel da crença e prática da magia e da feitiçaria como verdadeiro suporte social e económico dos camponeses

Falo uentemente Emakhuwa, Ajaua e Sisulo. Sou natural de Maua (Namuli), entre Malema e rio Lúrio. Nasci no dia 16 de Maio de 1942. Durante a luta de libertação nacional, nunca saí daqui porque este era um sítio muito seguro. Durante a guerra civil, eu realizava cerimónias de Sataca 24 na minha aldeia. Essas cerimónias eram acompan- hadas por utheka (bebida a base de milho) e tinham a nalidade de evitar que a minha comunidade fosse atacada pela Renamo. Estas cerimónias eram realizadas debaixo de uma árvore chamada Mutholo. Trata-se de uma árvore sagrada, que produz frutos não comestíveis. Nessa altura, todos os régulos das redondezas, bem como militares vinham

à minha casa a m de participarem nessas cerimónias, no m das quais eu distribuía

medicamentos aos presentes, para que estes não sentissem medo, para serem invencíveis

e também para impedir a entrada do inimigo nas aldeias.”

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Segundo observações no terreno e informações obtidas nas entrevistas e grupos focais sobre o assunto ‘migração e feitiço’, as pessoas que migram são i) as acusadas de serem feiticeiras; ii) as que têm medo de serem enfeitiçadas, iii) as que sentem que foram já vitimas de feitiço por ter morrido alguém da família, ou por terem morrido mais de 2 pessoas da mesma família na mesma aldeia num período de tempo muito curto. Es- tas pessoas migram para “descarregarem” o feitiço. Eles não migram denitivamente, mas sim temporariamente. Existem casos de agregados familiares que vão para Malawi, Zâmbia, Tanzânia e Zimbabuè, beneciando dos laços familiares existentes com pessoas destes países.

Depois do tratamento do chitega (que dura 2 a 3 anos), regressam à aldeia de origem. Bulaique disse o seguinte: “o meu tio teve que abandonar Mitande por ter sido acusado de ukwiri. Despediu-se do líder da aldeia. Tudo foi por causa de negócios. Geralmente, quando o negócio não anda bem dizem que houve feitiço. Eu sei que ele vai regressar a esta aldeia porque ele tem terra”.

Será que estes migrantes podem ser considerados da categoria de IDPS 25 (População Deslocada Internamente)?

Esta categoria refere-se a todas as pessoas que, devido a factores que as colocam numa situação de perigo eminente, tais como perseguições, conitos armados, actos de vio- lência e desastres naturais, sentem-se obrigadas a abandonar as suas casas ou lugares de residência natural para lugares que aparentemente os aceitam ou onde se sentem

mais seguras (dentro do seu próprio país). Para o caso de Mandimba, essa migração tem acontecido com pessoas que fogem do feitiço e também com pessoas que são expulsas da aldeia por serem acusadas de ser feiticeiras. Seja por expulsão ou por livre vontade,

o elemento que une estas pessoas é o feitiço. Porém, a fuga aos feiticeiros é vista como

uma forma de defesa pessoal e é facilitada pela existência de muita terra, muitos bosques ainda não explorados e por uma densidade populacional muito baixa para extensas áreas territoriais.

A crença na feitiçaria, no geral, e no chitega em particular, afecta em muitos aspectos a

vida dos agregados familiares em estudo:

1°) - Na segurança de posse da terra, na medida em que a mobilidade permanente obriga

a ocupações de várias terras;

2º) - Na forma de cultivo, pois que não se deve cultivar muito mais do que os outros, uma vez que é comum pensar-se que os que produzem mais fazem-no à custa da energia, força e capacidade dos outros. Por isso, são também considerados feiticeiros;

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3°) - Na segurança alimentar, porque ela não é assegurada, na medida em que mudam de terras de cultivo de 2 em 2 anos ou de 3 em 3, pondo em causa as reservas alimentares existentes nos celeiros;

4°) – Nos conitos de controlo de pessoas e não de terras (como é usual em certas áreas rurais de Moçambique), uma vez que os agregados familiares garantem aos líderes tradi- cionais uma parte de seus rendimentos para a realização dos ritos de iniciação e outras cerimónias importantes da cultura local. Por exemplo, é hábito, nas aldeias do distrito de Mandimba, que o líder comunitário cobre o equivalente $2 (dólares americanos) 26 por cabeça, durante o processo de realização dos ritos de iniciação, e $1.5 (dólares america- nos) para resolução de conitos referentes a divórcios ou separações, $0.40 (40 cêntimos) para a elaboração de uma declaração destinada às deslocações de residência ou acesso a um pedaço de terra. É importante observar ainda que quando um agregado familiar muda de uma aldeia para outra leva consigo os lhos (potenciais fontes de rendimento para os líderes tradicionais através do pagamento de taxas de ritos de iniciação).

5°) – Nos tipos de habitações, que geralmente são de material não durável e bastante rústico, com poucas árvores de fruta e com poucos animais domésticos e;

6°) – No rendimento escolar das crianças, na medida em que ao saírem de uma aldeia para o mato, elas são obrigadas a mudar de escola ou, por vezes, a deixar de estudar, porque no novo povoamento não existe escola. Segundo informações locais 27 , houve

casos em que algumas escolas encerraram por falta de alunos. Ligado a esta situação, ex- iste um outro factor cultural que afecta particularmente a rapariga: os ritos de iniciação. No distrito em análise, eles começam muito cedo, em particular entre os Yao ou Ajaua,

e não obedecem ao calendário escolar.

A o cial de programas de uma ONG de Mandimba disse o seguinte: “É importante ob- servar que os ritos de iniciação são mais frequentes entre os Ajauas. Neles ensinam que uma mulher não pode negar um homem. A idade em que as meninas são submetidas a

estes ritos varia entre os 5 e 10 anos. Nesses ritos, fala-se de tudo que se relaciona com

o comportamento de uma mulher perante um homem. O mais grave é que, no processo

desses ritos, as crianças cam 1 a 2 meses no mato, num período que geralmente coin- cide com as aulas. Por isso, elas acabam desistindo das aulas. Em Majune, por exemplo, as famílias migram bastante, levando uma vida de nómadas. É também por isso que a sua agricultura é itinerante”

26 - Valor calculado em 2005, na altura da entrevista.

27 - Director Distrital da Educação e Cultura de Mandimba, 1 de Junho de 2005.

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O impacto da crença em feitiçaria na organização da produção e assentamento populacional

Muitos relatórios do PNUD sobre o desenvolvimento em Moçambique têm referido que a pobreza em Moçambique encontra-se, quer no meio rural, quer no meio urbano, com grande incidência nas áreas rurais. Para explicar esta situação, muitos factores têm sido apresentados, tais como a guerra civil (que devastou a área rural), desastres naturais (cheias, ciclones e secas), analfabetismo, fracas infra-estruturas, políticas públicas inad- equadas, fraco investimento, etc. Porém, o meu estudo sobre migrações na província do Niassa, mais precisamente no distrito de Mandimba, demonstrou que, para além destes factores, a feitiçaria dever ser considerada também como outro factor importante para justicar a pobreza e a mobilidade dos agregados familiares.

Segundo esse estudo, a frequente mobilidade desses agregados familiares tem provo- cado vulnerabilidade na posse de terra e insegurança alimentar, porque as pessoas não cultivam com muita regularidade. Para agravar esta situação, os agregados familiares deixaram recentemente de se dedicar à produção de produtos alimentares e passaram a interessar-se mais pela produção de produtos de rendimento, como é o caso do tabaco. Durante o trabalho de campo, observei que em Mitande e Meluluca muitas extensões de terra são dedicadas à produção de tabaco no lugar de alimentos.

É importante referir que o cultivo de tabaco foi introduzido no ano de 1994, e as suas consequências não são muito animadoras. Sobre este assunto, um grupo de camponeses de Meluluca disse o seguinte:

Estamos a morrer de fome porque já não produzimos alimentos. Fomos enganados pela empresa JoãoFerreira dos Santos (JFS) porque a companhia oferece-nos bicicletas, se- mentes de tabaco e fertilizantes e temos que pagar este investimento. Para piorar, eles classicam o nosso tabaco como de má qualidade e, por isso, compram-no a um preço que não consideramos justo”.

A seguir são apresentados alguns testemunhos orais que explicam que a crença na feitiçaria, a produção de tabaco e a pobreza são fenómenos interligados.

De acordo com informações de Ernesto Bulaique (substituto do Chefe do Posto Admini- strativo de Mitande), “era normal encontrar malawianos e pessoas de Nampula, Zam- bézia e distrito de Cuamba (em Niassa) virem para este Posto Administrativo comprar milho. É um posto administrativo bastante produtivo porque, para além da terra, que é muito fértil, temos também muita água. De acordo com as estatísticas distritais, o posto contribui com 75% do milho e mapira produzidos em Mandimba. É importante dizer que Mitande e Meluluca são as aldeias mais ricas do distrito, porque as suas terras são muito produtivas e possuem muitos animais selvagens, como gazelas, leões, elefantes, coelhos bravos, galinhas do mato, macacos, lagoas e córregos. Porém, as pessoas não investem porque têm medo da feitiçaria, o que para nós constitui uma grande pena”.

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Para Madalena Sambo (Aldeia de Lissiete, 5 de Junho de 2005), a pobreza neste distrito é motivada pela crença na feitiçaria. Sobre este assunto, ela diz o seguinte:

É esta crença que faz com que a vida desta população seja itinerante e, não garanta nenhuma segurança alimentar. Por exemplo, as pessoas daqui não plantam árvores de fruta, não possuem uma habitação melhorada e não desenvolvem actividades de grande vulto, porque têm medo do feitiço. Aqui, tu não podes ser mais do que eles porque senão te matam com chitega. É por esta razão que as habitações aqui não são consistentes (vide foto…) e, os celeiros servem apenas para guardar cereais para serem consumidos no dia a dia, particularmente para fazer face às cerimónias dos ritos de iniciação (vide foto…), e raramente excedente para a comercialização”.

Sobre este assunto ainda, Mitucuta 28 , cortador de caniço, (Mandimba, 25 de Maio de 2005) disse o seguinte:

- “ Viver nesta terra é difícil. Crescer ou desenvolver mais do que os naturais é um

perigo, porque eles enfeitiçam e matam. São tão impiedosos que até se matam entre si. É por esta razão que esta terra não avança. É proibido cultivar mais do que aquilo que sirva apenas para a sobrevivência. Lissiete é terra do chitega. Chitega é uma ar- madilha para qualquer pessoa. As pessoas chegam a mudar de residência por causa deste fenómeno. Mas mudam-se temporariamente porque a terra é deles. Eles apenas saem para irem descansar. Ficam fora durante 1 ou 2 anos e depois voltam. Nós que somos de fora daqui é que conseguimos permanecer na mesma terra por muitos anos. Eu vim aqui durante a operação produção. Já lá vão 23 anos e nem casa tenho, porque foi-me dito logo à chegada (depois da assinatura do Acordo de Paz), que aqui há muitos feiticeiros. E de facto notei que, se tentasse crescer mais do que os naturais morreria de certeza. Eu quero voltar para Maputo, onde eu nasci não dentro de um caixão, porque cheguei vivo nesta terra”.

Para explicar o carácter temporário de permanência dos migrantes longe das suas alde- ias de origem, Albino Mamo Mejala Wasse (1 de Junho de 2005), líder comunitário de Meluluca disse o seguinte:

- “As pessoas saem daqui para viver num outro lugar quando sentem que há feitiço, mas voltam, porque não se habituam a outras terras, porque há desentendimentos lá onde pretendiam xar-se. Há homens que abandonam as suas mulheres. São férias que lhes dão, porque depois voltam, e as esposas aceitam-nos”.

Bulaique 29 acrescenta o seguinte: “Nós temos terra e animais selvagens e ninguém está interessado em investir aqui. O distrito tinha um ramal de caminhos-de-ferro, o qual foi destruído durante a guerra civil. Temos muita água dos rios e lagos com muito peixe. Por que é que ninguém quer investir aqui? Eu acho que é porque neste distrito há muitos feiticeiros”.

28 - Alcunha, pois ele não quis identicar-se pelo seu verdadeiro nome de registo, porque disse

que tinha medo de que mais tarde fosse identicado como reaccionário, razão que o levou à de- portação para Niassa no âmbito da “Operação produção”.

29 - Coordenador das Zonas de In uência Pedagógica (ZIP) e docente em Mitande.

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A pobreza neste distrito é também explicada pela característica itinerante da sua popu-

lação, uma vez que os seus habitantes não cam muito tempo no mesmo lugar. Por isso, não têm tempo suciente para cultivar. Deste modo, a mobilidade populacional é signi- cativa, também por causa da agricultura itinerante. Esta situação é favorecida pela ex- austão dos solos, pela crença em chitega, pela inveja e pela curta duração dos casamen- tos. É importante observar que os casamentos Ajaua são, no geral, de curta duração.

No distrito de Mandimba, as pessoas raramente emigram para o sul de Moçambique, tal como tem acontecido nos distritos de outras províncias. Pelo contrário, o distrito tem recebido muitas pessoas que fogem do feitiço do distrito de Majune (onde se julga ter sido o local de origem do chitega) e da província de Nampula. É importante dizer que o distrito é bastante atractivo no que se refere à disponibilidade e acesso à terra, para além

de que o milho cresce facilmente”.

É verdade que os entrevistados enfatizam o facto de recorrerem à migração como estra-

tégia de fuga ao feitiço. Mas também é verdade que, tal como já vimos, esta mobilidade é facilitada pela existência de terras férteis, abundantes e disponíveis, devido à fraca den- sidade populacional, que não permite a existência de conitos de terra. As pessoas prati- cam agricultura itinerante e vão aproveitando a disponibilidade e acesso fácil à terra. Bulaique, justicando as causas da intensa mobilidade populacional,disse que “as migra- ções existem por causa da fome, procura de melhores condições de vida e também por causa da procura de melhores solos para a prática agrícola. Em Mitande, a agricultura itinerante é prática comum entre a população. Existem dois tipos de mobilidade:

1°) de pessoas que se mudam de nitivamente e;

2°) de pessoas que saem temporariamente. É fácil conseguir terra, porque há muito mato. Eles mudam de machamba de 3 em 3 anos. Basta não conseguirem encher o celeiro num determinado ano agrícola para terem motivos sucientes para mudarem de machamba. Não é difícil voltar para a machamba anterior, porque não a abandonam totalmente”.

É preciso reconhecer também que, o facto de as pessoas se xarem mais para o interior

tem uma explicação. Para além de estarem a fugir do feitiço, as famílias ainda guardam uma parte dos seus alimentos e utensílios domésticos no mato, pois que ainda se encon- tram sob a ameaça do espectro de guerra, apesar de ter passado mais de uma década do m da guerra civil. Elas têm uma experiência amarga da guerra colonial e “da guerra da Renamo” (expressão utilizada para se referirem à guerra civil em Moçambique).

Ainda sobre o assunto da pobreza, uma outra pessoa entrevistada, que fora para o Niassa fruto da ‘Operação produção’, disse o seguinte:

- “Os Ajauas são pessoas que não gostam de fazer muito esforço e servem-se de todos os subterfúgios para não trabalharem. O analfabetismo é muito alto entre eles, devido ao elevado grau de desistência escolar, motivado pelos ritos de iniciação, casamentos

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precoces e também pela crença na feitiçaria. As pessoas daqui nada fazem sem antes consultar a Apwyamwene ou rainha ou o Mwenei. Tudo quanto fazem precisa de uma bênção. Eles não se conformam com o sucesso dos outros e, por isso, utilizam a magia para destruir os outros”.

Conclusão

Este artigo procura trazer, num contexto mais amplo dos estudos sobre migrações, po- breza e desenvolvimento, um estudo de caso relacionado com a feitiçaria. Existem já estudos sobre o assunto, mas nunca relacionados com a mobilidade e pobreza da popu- lação. As comunidades têm formas de detectar e de punir os feiticeiros, recorrendo à con- sulta aos adivinhos e curandeiros, que são vistos e considerados como seus verdadeiros “médicos” e “salvadores”, na medida em que eles limpam a aldeia de pessoas impuras.

No passado, por exemplo, recorria-se a testes tradicionais para se identicar os feiti- ceiros. O suspeito era obrigado a beber uma mistura de plantas. Quando morria, tinha-se a certeza de que era de facto um feiticeiro, e quando sobrevivesse ao teste, isso signi- cava que não era feiticeiro. Na actualidade, tal prática já não existe. Quando se descobre um feiticeiro, ele é imediatamente obrigado a abandonar a aldeia. Porém, em muitos casos, a família que se sente enfeitiçada é que tem preferido mudar-se para uma outra aldeia ou para o mato, a m de ‘descarregar o feitiço’. Isto signica que, actualmente esta crença não atingiu os níveis de histeria do antigamente, que culminava com o assas- sinato dos suspeitos 30 .

A crença na feitiçaria é um facto e encontra-se enraizada em todos os estratos sociais do

distrito em estudo, tal como o demonstram as diferentes entrevistas apresentadas. Uma

paralisia provocada por uma trombose, mortes “inexplicáveis” ou mortes de mais de 2 pessoas da mesma família numa mesma aldeia num período de tempo curto, têm sido motivos sucientes para procurar um adivinho ou curandeiro.

A peculiaridade do fenómeno “chitega” ou “ukwiri” centra-se no facto de as pessoas

acreditarem que este fenómeno tem uma origem geográca especíca, embora não apre- sentem argumentos para a sua convicção. Para o presente caso, é o distrito de Majune, situado na província do Niassa.

A crença no feitiço é tal que os camponeses sentem medo de cultivar mais do que o

necessário e, são coibidos de construir casas sólidas e de plantar árvores de fruta, a tal ponto que preferem mudar de aldeia para “descarregar o feitiço”.

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A mobilidade traz consigo a insegurança alimentar, a insegurança de posse de terra e, por

conseguinte, baixo desenvolvimento económico.

Existe uma relação muito forte entre mobilidade, pobreza e feitiçaria.

A população do distrito de Mandimba ainda pratica uma agricultura itinerante e é carac-

terizada por uma grande mobilidade populacional.

A crença no chitega é uma realidade. Tal como observei, ela tem sido responsável por

mudanças constantes de residência, quer a nível dos diferentes postos administrativos

do distrito de Mandimba, quer, também, a partir destes para a República do Malawi e vice-versa.

Os depoimentos aqui apresentados fazem-me avançar a tese de que no distrito de Man- dimba, o feitiço é um fenómeno que interfere nas iniciativas de desenvolvimento local, e que, a par desta crença, as pessoas ainda não acreditam na paz e continuam apreensivas em relação à experiência negativa sobre a “Operação Produção”. Os mesmos depoi- mentos fazem-me acreditar também que o recurso ao sobrenatural é justicado pelos camponeses como forma de esconder algumas questões ligadas à pobreza que devasta muitas aldeias. Por outro lado, serve também para ocultar as reais causas da pobreza. De tudo isto, posso concluir que os camponeses usam a feitiçaria como argumento para não melhorarem a sua condição de vida, no que diz respeito à habitação, produção agrícola, bem como para criar uma aparente harmonia social, na medida em que vivendo todos em iguais circunstâncias de pobreza, consegue-se maior estabilidade social e económica. Quem se aproveita desta situação? É uma questão a ser explorada em outros estudos.

Para terminar, posso armar que no Distrito de Mandimba, migração, pobreza e feitiçaria são elementos fortemente interligados e, enquanto não existir um programa de educação muito sério, dicilmente os programas de desenvolvimento serão bem sucedidos.

O grande desao é de fazer com que este assunto seja discutido ao nível dos órgãos de

decisão ao nível do distrito e sejam desenhadas estratégias que possam levar a mudanças de atitudes por parte da população.

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A EXPLORAÇÃO DAS FLORESTAS E AS IMPLICAÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Professor Aniceto dos Muchangos

Resumo

O presente artigo examina, numa perspectiva sócio-ecológica, um dos mais importantes

componentes do Meio Ambiente global, as orestas tropicais. Faz-se, em primeiro lugar, uma breve caracterização das orestas tropicais e do seu papel na estrutura da biodiver- sidade e a sua importância económica. Apresenta-se, o estágio ameaçador em que se encontra este ecossistema provocado pela desorestação, que tende a eliminar de cerca de metade das espécies de plantas e animais existentes actualmente. Para além dos prob- lemas cientícos, técnicos e económicos relacionados com a desorestação, o artigo ex- plica algumas implicações da exploração dos recursos lenhosos para o desenvolvimento sustentável, ao apresentar as consequências da desorestação e as algumas das medidas para minimizar o impacto da destruição das orestas.

Palavras-chave: Biodiversidade, desenvolvimento sustentável, desorestação, orestas tropicais, reorestamento.

Introdução

A Conferência Mundial sobre Ambiente e Desenvolvimento Sustentável realizada no

Rio de Janeiro, em 1992, dedicou-se a um grande número de problemas do Meio Ambi- ente, dentre eles, o futuro das orestas tropicais.

A Declaração dos princípios para o maneio sustentável das orestas, adoptada nessa

ocasião, consagra o direito dos países de desenvolver as orestas conforme as suas ne- cessidades sócio-económicas e exorta os países, especialmente os países desenvolvidos, a esforçarem-se por recuperar a Terra mediante o reorestamento e a conservação or- estal, garantindo aos países em desenvolvimento recursos nanceiros destinados concre- tamente a estabelecer programas de desenvolvimento orestal sustentável.

Em 1994, a Conferência do Cairo sobre a População e o Desenvolvimento, chamou a atenção para o rápido crescimento da população mundial e as suas implicações económi- cas, sociais e ecológicas.

Tão importante e igualmente crítico para a Humanidade, é a forte pressão para aumentar rapidamente a produção agrícola, tendo em conta que, mesmo os cenários demográcos mais optimistas, predizem que, a população global no ano 2050 rondará pelos 10 biliões de pessoas. Esta população precisa de alimentação e vai precisar de ser alimentada.

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O espectro da fome, a degradação ambiental e o alto índice do crescimento populacional,

constituem-se nos maiores e mais urgentes desaos, que a Humanidade tem que encarar

neste século 21.

O agelo da fome, que afecta muitos países, requer um aumento das áreas agrícolas a

uma taxa anual de cerca de 2,5%, o que pode ser conseguido através do aumento das áreas de produção agrícola ou pelo aumento da produtividade de cada área cultivada.

Como alimentar a crescente população? Para uma grande parte dos países, uma das alternativas é o uso cada vez maior das orestas tropicais para permitir a expansão da agricultura.

A exploração deste bem indispensável para a sobrevivência da espécie humana está a le-

var à sua destruição numa velocidade impressionante, estimando-se que apenas 12 % da área da oresta tropical original ainda permaneça intacta e que 4 a 5 milhões de hectares de orestas tropicais são completamente destruídos por ano (FAO, 1997).

Tudo isto acontece por causa das necessidades do ser humano em obter matéria-prima

e aumentar as áreas para as diferentes actividades económicas nas orestas, pensando apenas no benefício imediato que isso lhe trará.

As causas fundamentais da destruição são múltiplas. As orestas tropicais são devastadas para a criação de áreas para propósitos agrícolas e pecuários. As formas impróprias do uso da terra conduzem à rápida deterioração dos solos e consequentemente, contribuem para novos abates e para a migração a migração das populações para outras áreas.

As orestas podem ser convertidas em produtos acabados; através de processos de man- ufactura elas podem ser convertidas em madeiras, têxteis, químicos, fármacos ou em bens pesados tais como máquinas e equipamentos. Algumas das espécies lenhosas pos- suem um elevado valor comercial e o seu abate desenvolve-se a uma taxa insustentável para a Natureza.

Acima de tudo, a desorestação e o uso das orestas tropicais são estimulados pelo rápido crescimento da população, pela pressão nanceira para aumentar as receitas na- cionais e por algumas políticas orestais nacionais permissivas.

As necessidades energéticas exercem uma grande pressão sobre as espécies lenhosas da oresta e em muitos casos, estas constituem a principal fonte alternativa de combustível para as populações rurais.

Os altos preços dos alimentos e do combustível favorecem o corte das orestas para dedicar o terreno à criação de gado e aos cultivos comerciais destinados à produção de alimentos e biocombustíveis.

Com base nos princípios orestais adoptados na Eco-92, a utilização sustentável das

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orestas deve ter em conta a sua perpetuidade, por forma a poder legá-las intactas ou mesmo valorizadas às futuras gerações.

Florestas tropicais e biodiversidade

Uma Floresta é um “ecossistema caracterizado por uma cobertura extensiva de árvores, mais ou menos densa, consistindo de povoamentos orestais que podem variar em rela- ção a espécies, estrutura, composição, classe de idade, e que inclui os cursos de água e suas margens, a pesca e a vida selvagem” (Helms, 1998).

Na designação de oresta incluem-se tipos diferentes, tais como oresta industrial, o- resta pública, oresta de protecção, oresta (ou arvoredo) urbana(o), bem como parques

e reservas de vida selvagem.

Segundo a FAO, no termo oresta incluem-se orestas naturais e plantações orestais, geridas para produzir bens e/ou funções de protecção, uso múltiplo ou conservação.

A percepção corrente de oresta tropical é a de um conjunto de árvores existentes numa

determinada área, ou de uma mera cobertura vegetal. Porém, as orestas tropicais rep- resentam áreas continentais cobertas por árvores e habitadas por animais no seu meio natural, incluindo espécies como os fungos, constituindo o habitat mais rico e diversi- cado do planeta, com um total estimado de 10 milhões de espécies de plantas, animais e microrganismos.

Cobrindo apenas cerca de 8% da superfície da terra-rme, as orestas tropicais, detêm mais de 50% das espécies vivas da Terra e caracterizam-se pela enorme quantidade de espécies: um hectare pode conter mais de 100 espécies de diferentes árvores. A sua dispersão, todavia, é tão grande que um outro hectare a uma distância de cerca de 5 Km pode conter o mesmo número de espécies, em que, no entanto, apenas 50% são as mesmas.

A ocorrência dispersa de exemplares da mesma espécie de planta, que pode aparecer

centenas de metros de distância, a sua polinização especializada e o sistema de dispersão de sementes fazem da oresta tropical um ecossistema muito frágil.

A oresta tropical, que ocupa vastas áreas da América do Sul, África, Sudoeste da Ásia e

Austrália, é globalmente o maior produtor de biomassa obtida ao longo de todo o ano; é

a melhor máquina para conversão da energia solar através da xação do CO2 de carbono para a produção de oxigénio e para a evaporação da água.

A Biodiversidade das orestas tropicais baseia-se numa complicada rede de inter-rela-

ções entre plantas orescentes, polínicas, dispersantes de sementes, fungos, predadores, etc. Apesar da sua exuberância, a oresta tropical desenvolve-se num ambiente de solos muito pobres em nutrientes, em que, praticamente todos os seus nutrientes minerais es- tão ligados à biomassa proveniente de seres mortos e decompostos pelos fungos. Os iões

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minerais adicionais provêm sobretudo da água das chuvas, que alimenta a imensamente rica ora epífeta.

As grandes diferenças na diversidade biológica entre as diferentes áreas orestais re- sultam, sobretudo, das mudanças climáticas registadas no Pleistocénico, que explicam também a ocorrência de regiões do globo com mais espécies que outras.

Pela sua grande extensão territorial, abrangendo uma enorme variedade de habitats, o Brasil concentra duas das maiores áreas de orestas tropicais do Mundo, nomeadamente a Amazónica e a Atlântica, e a maior variedade de espécies de vertebrados e de plantas lenhosas do planeta (Tabela 1).

Em África, o país com maiores quantidades de orestas tropicais é a República Democráti- ca do Congo. Dos cerca de 54 milhões de hectares de terra disponível em Moçambique, 40 milhões de hectares (70%) são orestas e outras formações arbóreas lenhosas, com um total de 365 espécies, que se distribuem, em termos de cobertura, em 51% de ores- tas,19% de outras formações lenhosas, 12% de pradarias, 15% de agricultura e 3% de outras formas de ocupação do solo (Marzoli, 2008).

Ao longo dos anos, a des orestação e as queimadas de grandes áreas, com o intuito de aumentar as áreas de cultivo e pastagens, bem como facilitar a ocupação humana, levaram à extinção de várias espécies vegetais e animais e à aceleração da erosão do solo.

As orestas tropicais da América Central e do Sul, da África e da Ásia são as mais atingi- das pela desorestação, devido principalmente ao corte de madeira para exploração comercial, que movimenta anualmente biliões de dólares americanos.

Alguns estudos mostram que cerca de 12,5% das espécies de plantas conhecidas estão sob ameaça de extinção e que cerca de 20% de todas as espécies vivas de plantas e ani- mais poderão desaparecer em 30 anos devido às actividades humanas, sobretudo devido à destruição dos habitats.

No relatório “Situação das Florestas no Mundo 2009”, apresentado por ocasião da Se- mana Florestal Mundial, a FAO alertou para o facto de diariamente estarem a ser destruí- dos 200 km² de oresta em todo o Mundo. Para alguns cientistas, a ameaça resulta, não tanto pela sobre-exploração das espécies ou pela degradação do ecossistema, mas pela sua transformação em novos ecossistemas sob o efeito da monocultura que envolve o abate de árvores e as queimadas.

Hoje restam, em todo o planeta, apenas 22% da cobertura orestal original: a Euro- pa Ocidental já perdeu 99,7% das suas orestas primárias; a Ásia, 94%; África, 92%; Oceânia, 78%; América do Norte, 66%; e América do Sul, 54%.

Entre os efeitos da desorestação das áreas tropicais, a perda das espécies e da biodi-

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versidade representa, a longo prazo, a consequência mais severa, e caso se mantenha a actual taxa de desorestação, para alguns cientistas, as orestas tropicais poderão ser totalmente eliminadas em duas décadas.

As consequências da drástica redução da biodiversidade são imprevisíveis na sua pleni- tude, mas são, sem dúvidas, enormes, pelo facto de as orestas tropicais albergarem uma riqueza de espécies de plantas e de animais utilizadas na produção de medicamentos, vacinas, pesticidas e muitas outras substâncias químicas úteis.

As orestas tropicais são muito sensíveis aos efeitos das mudanças climáticas, que co- locam em risco as funções ambientais básicas nos ecossistemas orestais tropicais, tais como a manutenção do ciclo das águas e o balanço de carbono na atmosfera.

Florestas tropicais como recursos renováveis

A oresta como recurso essencial, com elevado valor natural, económico e cultural, proporciona alimento e abrigo a diversas espécies de animais e constitui uma fonte de matérias-primas renováveis produzidas a partir de substâncias naturais de proveniência animal ou vegetal e de químicos básicos, através de uma exploração orestal susten- tada.

Deve-se sublinhar que a ora e fauna das orestas, não representam apenas espécies e indivíduos, mas também uma incalculável fonte de material genético de utilização po- tencial na biotecnologia moderna, agricultura e investigação molecular.

Muitas espécies actualmente utilizadas nas plantações de grande escala, como exem- plo, a Hevea (árvore da borracha), Theobroma (cacau), Kaffa (café), chá (Camelia) etc., provêm das orestas tropicais.

A madeira, substância natural retirada das orestas, desempenha também um papel im- portante como combustível para muitos países, e é uma das razões para a sobre-explora- ção das orestas tropicais.

As orestas tropicais são também imensamente importantes como reservatórios para a captação sustentável da água doce. Através da sua vegetação rica e estraticada como solo poroso, elas são capazes de absorver a água das chuvas e libertá-la gradualmente, formando cursos de água permanentes que evitam a erosão do subsolo.

Em Moçambique, 26 milhões de hectares são aptos para a produção de madeira, e 13 milhões de hectares são áreas destinadas à conservação. 118 espécies lenhosas são po- tencial e economicamente exploráveis, enquanto as restantes formações lenhosas, arbus- tos e matagais sujeitos a agricultura itinerante, são consideradas não comerciais. Tal é o caso, entre outras, a mafurreira (Trichilia emetica), a mangueira (Mangifera indica), da Ocanho (Sclerocarya caffra), da Stricnos (Strichnohnos sp.).

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De entre as espécies lenhosas mais importantes sob o ponto de vista comercial, também designadas por “espécies de madeira preciosa”, podem citar-se a Milita sthulmmanni (jambirre), Pterocarpus angolensis (umbila), Afzelia quanzensis (chanfuta), Andros- tachys johsonii (mecruse) e Dalbergia melanoxilon (pau-preto).

O 3º Inventário Florestal Nacional realizado com o objectivo de avaliar a extensão e

composição dos recursos orestais em termos de quantidade e qualidade revela ser ad- missível o corte de 515 700 m³ de madeira por ano, tendo em conta a quantidade de precipitação média. Á escala nacional, a província da Zambézia é aquela que maior vol- ume de espécie arbórea comercial tem disponível para o corte, com cerca de 7.7 m³ por hectare, seguida pelas províncias de Cabo Delgado e Sofala com valores estimados em 7.3 e 7.1 m³ por hectare, respectivamente (Marzoli, 2008).

As espécies comerciais que apresentam maiores volumes disponíveis são mopane, um- bila, jambirre e chanfuta.Em termos de qualidade, 4% do volume disponível para o corte pertence às espécies produtoras de madeira preciosa, 21 % à madeira de primeira classe, 44% à de segunda, 14% à de terceira e 17% à de quarta.

As maiores riquezas da ora cultural moçambicana utilizadas na alimentação resultam do aproveitamento de espécies trazidas de outros continentes há mais de seis séculos, sobretudo pelos árabes e portugueses, as quais rapidamente se desenvolveram devido às boas condições climáticas, pedológicas, hidrológicas e altimétricas do país.

Na região costeira, e sub-costeira, desenvolvem-se duas das principais espécies lenhosas exóticas do país: o coqueiro e o cajueiro.

Enquanto o cajueiro (Anacardium occidentale) encontra boas condições físico-geográ- cas em todo o litoral, o coqueiro, devido às suas maiores exigências climáticas e edácas desenvolve-se em manchas no litoral de Nampula, Zambézia, Sofala e Inhambane.

Des orestação

Des orestação, desorestamento ou desmatamento é o processo de destruição de áreas orestais, provocado pela acção do ser humano, atribuído, entre outras causas, às práti- cas agrícolas incorrectas - que incluem o abate das árvores e as queimadas - ao estabelec- imento de áreas de pastagens, à obtenção de matérias-primas para a indústria, artesanato

e ns culturais e medicamentosos.

A des orestação regista actualmente taxas crescentes, sendo os países mais atingidos o

Brasil, a Indonésia, o Sudão, a Zâmbia, o México, a República Democrática de Congo e Myanmar, países que perderam mais de 71 milhões de hectares de orestas entre 1990

e 2000.

Entre 2000 e 2005, foram destruídos aproximadamente e 7,3 milhões de hectares de orestas do planeta. Nesse período, o Brasil, com uma desorestação de 2,3 milhões

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de hectares e a Indonésia com 1,3 milhões de hectares, lideraram a lista de destruição orestal.

Moçambique, de acordo com o Inventário Florestal Nacional publicado em 2007, perde anualmente cerca de 219 000 hectares de orestas, a uma taxa média de desmatamento de cerca de 0,58%. A sua exploração como madeira visa essencialmente o consumo in- terno e a exportação. A enorme pressão que se exerce sobre as orestas tem contribuído para a sua crescente escassez.

A nível interno, 90% do consumo total de produtos orestais é destinado à produção de

energia, suprindo por via deles a população urbana 70% das suas necessidades, enquanto

a quase totalidade da população rural utiliza a vegetação como principal fonte de ener- gia.

Em termos absolutos, a taxa média de desmatamento varia entre cerca de 11 000 hectares por ano em Inhambane e de 33 000 em Nampula. Em termos relativos, a taxa mais baixa observa-se em Niassa (0,22%) e a mais elevada em Maputo (1,67%).

A exploração das espécies orestais lenhosas visa fundamentalmente a extracção directa

da madeira para vários ns, procedimentos que, ao longo dos anos, levaram à extinção de várias espécies vegetais e animais e à aceleração da erosão do solo. Mas há outras razões por detrás da exploração das espécies lenhosas, para além da extração de madeira.

Os países em desenvolvimento necessitam cada vez mais de aumentar as áreas de cul- tivo e de instalar estradas, represas, diques, canais, rede eléctrica, etc. Com a tecnologia moderna, nunca foi tão fácil cortar as árvores das orestas, utilizando máquinas pesadas, como serras mecânicas, tractores e guindastes, capazes de devastar grandes porções de oresta com muito mais eciência do que com os tradicionais machados e catanas. Hoje, em poucos meses, pode-se converter uma grande extensão de oresta em enormes plan- tações de culturas industriais ou em áreas de pastagens. Quando convertidas em terras para lavoura, as orestas permanecem férteis por poucos anos e, assim, mais áreas de oresta têm de ser destruídas, repetindo-se o processo.

Os habitantes das orestas adoptam um método agrícola baseado no corte e queima de pequenos trechos da oresta que usam para cultivo temporário. Esta prática é, provavel- mente, a causa mais perniciosa da destruição das orestas tropicais, pois deixa rastros de terra estéril, que já não poderá ser utilizada para nada.

Igualmente perniciosa é a intervenção das madeireiras, que retiram a madeira de forma predatória, sem promover programas de reorestamento, principalmente nos países do Hemisfério Sul, onde se situam as orestas tropicais e os grandes projectos baseados na monocultura e na pecuária.

A remoção da camada que cobre o solo da oresta pode gerar outros sérios efeitos co-

laterais. As orestas são directamente responsáveis pelas chuvas, pois as gigantescas

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árvores absorvem grande parte da água, devolvendo-a lentamente ao Meio Ambiente sob forma de humidade. Ora, a devastação da oresta, reduzindo a quantidade de chuva nas áreas orestais, pode levar a um processo de deserticação, pois o solo, desprovido da sua cobertura vegetal, ca mais vulnerável à erosão, deslizamentos e à ocorrência da seca e das cheias.

Dado que as orestas tropicais regulam os padrões climáticos globais, a sua destruição tem também graves reexos à escala mundial. Em regiões tropicais, mais de 1 bilião de pessoas dependem da água produzida pelas orestas para irrigar sua produção agrícola. Há 40 anos, cerca de metade da Etiópia era coberta de orestas, que representam uma preciosa fonte de água para a exploração das lavouras; hoje, restam apenas 5% das o- restas etíopes.

No Hemisfério Norte, fenómenos como ciclos de chuvas irregulares e o aumento de dióxido de carbono na atmosfera são possíveis resultados da desorestação registada nos trópicos. A devastação da oresta leva a um aquecimento generalizado da atmosfera, que, por sua vez, acelera o derretimento das calotas polares e contribui para a elevação do nível do mar.

A alteração da dinâmica dos ecossistemas orestais tropicais afecta o balanço de car- bono da Terra, altera os ciclos de água e energia, afectando, portanto, o clima. Uma vez destruída, a oresta não pode ser recuperada, mesmo que sejam removidas apenas as grandes árvores. O frágil ecossistema orestal não resiste, e, com ele, estão perdidas para sempre comunidades inteiras de plantas e animais, muitas das quais de valor inco- mensurável.

Consequências da des orestação

Embora a principal causa dos impactos de actividades humanas no clima seja o uso de combustíveis fósseis nos países desenvolvidos, a desorestação está a tornar-se a princi- pal fonte global de emissões de gases de efeito estufa. Estima-se que a desorestação já seja responsável por 10 a 35% das emissões globais anuais, havendo algumas estimati- vas que são ainda mais elevadas.

Dentre os impactos ambientais causados pela desorestação, um problema ambiental bastante preocupante é a emissão de gases de efeito estufa. As mudanças climáticas, como uma das consequências da desorestação, podem afectar de diversas maneiras os ecossistemas e as espécies e, por isso, são consideradas uma ameaça adicional à biodi- versidade.

A interação entre a desorestação e as mudanças climáticas pode levar as orestas trop- icais a entrarem num ciclo vicioso extremamente perigoso, em que, por um lado, a des- orestação representa uma fonte importante de emissões de gases de efeito estufa, e, por outro, as mudanças climáticas aumentam a vulnerabilidade das orestas tropicais aos incêndios orestais e à desorestação, acelerando a sua conversão em ecossistemas

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muito mais secos e mais pobres em espécies, resultando em emissões cada vez maiores ao longo do processo.

De acordo com a FAO, as orestas estão sob um crescente stress, como resultado das mudanças climáticas, e podem começar a libertar uma enorme quantidade de carbono na atmosfera se as temperaturas do planeta subirem 2,5ºC acima dos chamados níveis pré-industriais.

A des orestação e a degradação das orestas tropicais são a principal causa de perda de

biodiversidade no planeta e contribuem contribuindo para uma extinção em massa de espécies, a um índice 100 a 1.000 vezes superior ao que poderia ser considerado numa evolução biológica normal.

Mas não são apenas o clima e a biodiversidade que são afectados pela desorestação, pois, como resultado da exploração de recursos lenhosos, sem que seja observada a sua capacidade de regeneração, ela causa igualmente perturbações no ciclo da água, traduz- indo-se num maior escoamento supercial e numa estiagem mais severa.

Milhões de pessoas que vivem e dependem das orestas são também afectadas dra- maticamente, muitas delas sujeitas a ameaça, violência e expulsões das suas terras ou submetidas a maus tratos ou a condições de trabalho degradantes.

Há séculos, tribos das orestas têm usado as propriedades químicas de muitas espécies de plantas para obter drogas e medicamentos. A própria ciência moderna reconhece hoje

o valor dessas ervas medicinais, algumas para o tratamento de doenças graves como

câncer, leucemia, problemas musculares e cardíacos. São também usadas como ingredi- entes básicos para a fabricação de produtos controladores da natalidade, estimulantes e tranquilizantes.

Do ponto de vista cientíco, como ecossistema mais complexo da Terra, a oresta tropi- cal constitui um imenso laboratório biológico disponível para a investigação em várias disciplinas tais como, a Botânica, a Zoologia, a Geologia, a Ecologia, a Geograa, a Meteorologia, entre outras.

O desenvolvimento sustentável das orestas tropicais exige estudos e inventários para

que se estabeleçam medidas ecientes contra a desorestação.

E isto é importante e interessante não apenas para a manutenção da biodiversidade, mas

também para o clima do planeta e para o sustento e a segurança de milhões de pes- soas que dependem destas orestas. O seu estudo como fonte energética ou renovável intensicou-se devido ao embargo petrolífero de 1972 e a previsão da exaustão, a médio prazo, do petróleo.

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O desenvolvimento sustentável das orestas

O uso sustentável das orestas tropicais é considerado, cada vez mais, uma componente

importante dos esforços globais para reduzir a pobreza e alcançar os Objectivos de De- senvolvimento do Milénio (ODM).

Os maiores benefícios derivados da exploração das orestas são , muitas vezes, alheios

a grande parte dos seus habitantes, pois a desorestação priva numerosas comunidades

que vivem das orestas tropicais das suas áreas tradicionais e de condições de suporte de vida, perdendo progressivamente os seus conhecimentos sobre como viver em har- monia com o Meio Ambiente de oresta tropical, adquiridos ao longo do tempo. Para os pobres, a sobrevivência signica muitas vezes trabalho árduo que coloca a protecção das orestas em segundo plano, mesmo contra os seus próprios interesses.

Deve-se sublinhar que os benefícios conseguidos com o derrube de árvores, apesar de às vezes indispensáveis para a sobrevivência humana, têm um efeito de curto prazo e são bem menores e restritos a menos pessoas do que aqueles trazidos pela manutenção das orestas, que são globais e de longo prazo. Um dos objectivos internacionais do de- senvolvimento sustentável e da redução da pobreza é implementar estratégias nacionais de desenvolvimento, de modo a garantir que em 2015 se tenham invertido as actuais tendências de degradação dos recursos ambientais a nível global e nacional.

É deplorável que as orestas tenham que ser destruídas para ceder lugar ao crescimento

económico, em especial à expansão das áreas agrícolas tão necessário aos países em desenvolvimento. Mas, infelizmente, orestas destruídas não signicam mais terras ad- equadas para actividades agrícolas e pecuárias: se a terra não for bem tratada, de modo

a não tornar-se rapidamente infértil, o que acontece muitas vezes pela falta de conheci- mento do agricultor, é que a porção de terra desbravada é abandonada.

Na busca da sustentabilidade, a preservação das orestas é uma necessidade dos países em desenvolvimento, particularmente aqueles que ainda detêm grande diversidade bi- ológica. Os países em desenvolvimento devem unir-se e, através de acções conjuntas, obrigar os países ocidentais a ajudá-los na solução dos seus problemas entre os quais a erradicação da pobreza.

Embora exista uma coincidência quanto aos princípios, essa concordância parece não ser tão evidente quando se trata de eleger as opções imediatas para a protecção das orestas, devido à complexidade das vertentes em jogo, de ordem técnica, económica e sócio- institucional, cuja combinação tem dicultado a correcta percepção dos problemas e, sobretudo, a denição de estratégias mais adequadas.

Sob o ponto de vista técnico, a exploração orestal em Moçambique ainda é essen- cialmente tradicional e com baixa introdução de factores de produção. Há por isso que prosseguir na aquisição e adaptação de novas tecnologias, devidamente enquadradas aos novos meios, e o recurso a toda uma gama de novas ferramentas que a tecnologia ofer-

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ece aos técnicos. Acrescenta-se ainda o aumento da população geral e a pressão sobre as orestas para a produção de alimentos com reexos naturais na degradação do ambiente, que importa neutralizar ou inverter.

Diversos organismos internacionais propõem o reorestamento. Porém, essa medida é apenas parcialmente aceite pelos ecologistas, pois estes consideram que a recuperação da área desmatada não pode levar em conta apenas o efeito de estufa, mas também a biodiversidade de toda a região.

Segundo a FAO, alguns dos receios são que os governos reduzam os investimentos no sector da energia limpa e que a contração dos sectores económicos formais abra caminho ao crescimento do sector informal, o que pode levar a um aumento do abate ilegal de orestas em todo o Mundo.

Nesse sentido, a FAO pede à comunidade internacional que melhore a gestão do sector orestal perante a nova conjuntura económica mundial e o fenómeno das alterações climáticas.

Para os ecologistas o reorestamento é, no melhor dos casos, o plantio de um conjunto de árvores dispostas articialmente, entre as quais se desenvolve uma estrato herbáceo ou arbustivo estranho à oresta original. Para além disso, vários especialistas consid- eram pouco provável que o aumento do ritmo na plantação de árvores, sobretudo na América Latina, seja suciente para inverter a desorestação nos próximos anos, apesar da baixa densidade da população do continente sul-americano.

A orientação técnica dominante é a de que o problema tem uma das suas principais sedes

de solução no ordenamento e na gestão da oresta.

Os técnicos orestais centram, obviamente, as suas preocupações na qualidade (ou ausência) da gestão orestal e percebem claramente que a dimensão, localização e estru- tura dos povoamentos (e dos seus acessos) são questões chave neste assunto.

Parece fácil, mas o certo é que, embora se defenda que a agricultura, onde se enquadra o sector orestal, é a base económica de muitos países em desenvolvimento, na realidade

é um sector pouco privilegiado.

A queda do sector imobiliário nos países mais ricos, devido à crise económica e nan-

ceira mundial, está a ter um forte impacto nas orestas, nomeadamente na diminuição da procura de madeira, uma situação que pode levar a uma quebra de investimentos e afectar os esforços da gestão das orestas e de áreas de madeira certicada.

A des orestação é, portanto, um enorme problema, com sérios impactos sobre o clima,

a biodiversidade e as pessoas. Acções urgentes são necessárias para combater esse mal,

com vista a ajudar a prevenir as mudanças climáticas, estabelecendo medidas ecientes contra a desorestação tropical, o que é importante, não apenas para o clima do plan-

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eta, mas também para a manutenção da biodiversidade e para o sustento e a segurança alimentar de milhões de pessoas que dependem das orestas tropicais.

Tabela Os 10 países com maior diversidade biológica (riqueza) total.

PAÍS

Plantas superiores

Mamíferos

Aves

Répteis

Anfíbios

Brazil

Colombia

Indonesia

China

México

10ª

RSA

14ª

11ª

15ª

Venezuela

10ª

13ª

Equador

13ª

Peru

12ª

EUA

10ª

12ª

16ª

12ª

As orestas cobrem cerca de 3 870 milhões de hectares, ou seja, 30% da superfície ter- restre. As orestas tropicais e subtropicais correspondem a 56% das orestas mundiais e as orestas temperadas e boreais a 44% (FAO, 2001).

Em conjunto, as orestas tropicais, temperadas e boreais oferecem uma multiplicidade de habitats de plantas, animais e microrganismos, nelas vivendo a grande maioria das espécies terrestres do mundo. Os organismos orestais fornecem uma grande variedade de bens e serviços, desde a madeira e outros produtos orestais até ao seu importante papel na atenuação das alterações climáticas como sumidouros de carbono.

Simultaneamente, as orestas proporcionam modos de subsistência e emprego a cente- nas de milhões de pessoas em todo o mundo. A diversidade biológica das orestas tam- bém desempenha um importante papel económico, social e cultural na vida de muitas comunidadesindígenas e locais. As orestas são, portanto, essenciais para a protecção da biodiversidade global (Kapos e Iremonger, 1998).

Nos últimos 8 000 anos, cerca de 45% da cobertura orestal primitiva da Terra desa- pareceu, tendo sido, na sua maioria, cortada durante o século passado. Este processo de desorestação global prossegue a um ritmo sem precedentes (FAO, 2001), levando a que muitas espéciesde plantas e animais tenham já desaparecido juntamente com os seus habitats orestais. Entre 1990 e 2000, estima-se que se perderam mais 5% da cobertura orestal do planeta, a um ritmo de cerca de 14 milhões de hectares por ano. A deso- restação está a vericar-se principalmente nas orestas tropicais, que constituem o reser- vatório de biodiversidade mais valioso e têm funções importantes para o clima mundial, e nas orestas boreais, que se regeneram muito lentamente.

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Bibliograa

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Declaração do Milénio (2000). United Nations Information Centre, Lisbon.

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ESPAÇOS CRIADOS OU REIVINDICADOS? UMA ANÁLISE DA PARTICIPAÇÃO EM MOÇAMBIQUE

José Adalima

Resumo

Na engenharia institucional relativa à edicação da segunda República (1990 a actuali- dade), o Estado Moçambicano tem estado a estabelecer um ambiente legal - institucio- nal propiciador da participação popular na governação, sobretudo na governação local. Todavia, uma análise a esses mecanismos sugere que o mero desenho institucional não conduz necessariamente, por um lado, ao engajamento popular em assuntos de fórum colectivo, e por outro, a uma maior inclusão da população desfavorecida na governação sobretudo nas estratégias concebidas para o combate à pobreza.

Palavras chave: Estado, participação, governação

Introdução

O

conceito “participação” é, nos dias de hoje, central no debate sobre o desenvolvimen-

to

entre académicos, agencias de desenvolvimento bem como de instituições nanceiras

internacionais como o Banco Mundial e o Fundo monetário Internacional.

Como assinala Woods (2000) a nova ortodoxia defende que uma maior participação local dos cidadãos no processo de tomada de decisões na planicação e desenho de políticas e programas garante um maior cometimento e acção na sua implementação e manutenção”. De uma forma geral tem sido os argumentos em torno da eciência que têm dominado as intervenções das principais instituições nanceiras internacionais e das agências de desenvolvimento

O pressuposto de base é o de que uma maior participação aumenta a ecácia e eciência dos investimentos feitos em programas ou projectos contribuindo para a democratiza- ção, empowerment e uma melhor sustentabilidade dos projectos de desenvolvimento.

Nesse sentido, a participação 1 é vista como algo positivo, benéco e decisivo sobretudo para quem participa (Cleaver, 1999) visto que se assume que os beneciários (regra ger-

al, os pobres, marginalizados e os mais vulneráveis) devem ser-lhes dadas oportunidades

para se desenvolverem. Há, pois, um reconhecimento tácito que aos pobres falta-lhes a capacidade de tomar decisões sobre suas próprias condições e inuenciar as decisões e políticas mesmo ao nível dos projectos (Biekart, 2006).

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Todavia, tentativas de aumentar a participação dos indivíduos nos processos de de- senvolvimento e políticos tem falhado por duas razoes fundamentais: primeiro, a falta de cometimento por parte das agencias e agentes externos promotores do processo de

participação; segundo, a falta de vontade politica por parte dos governos (Dijkstra and Lodewyckx, 2006). Acrescentaria mais duas razoes. Primeiro, que o excesso de partici- pação pode degenerar no que Cooke e Kothari (2002) designa por “tirania da participa-

ção” (

em muitas circunstancia, a conitos (Hickey et al, 2004) 2 .

segundo, o facto de se negligenciarem as dinâmicas locais de poder conduz,

);

Com efeito, a efectividade da participação depende do contexto e da nalidade que se espera dela. Em termos de nalidade, na literatura sobre o desenvolvimento, a partici- pação tem sido distinguida enquanto um meio para acção com enfoque para os aspectos de eciência (participação como um instrumento para alcançar melhores resultados nos programas e projectos) e participação como m que focaliza os aspectos de equidade e “empowerment”, isto é, a participação como um processo que aumenta a capacidade dos indivíduos para melhorar as suas condições de vida e facilita mudanças sociais a favor dos grupos desfavorecidos e marginalizados. De acordo com White (1996) não existe incompatibilidade entre o meio e m da participação.

A distinção da participação como meio e m conduz a classicar a participação em duas

categorias: nominal/ instrumental (virada para a eciência) e transformativa (empow-

erment). Contudo, Buchy (2005) salienta que mesmo em abordagens transformativas

a nalidade é muitas vezes instrumental. As pessoas são capacitadas para serem mais

ecientes e capazes de participarem no processo de desenvolvimento. Neste sentido, a

participação é um desao losó co e politico grande e abrangente que está para além das comunidades promoverem seu desenvolvimento com as suas próprias mãos.

De uma forma geral, a institucionalização da participação visa controlar sistematica- mente os processos e o respectivo enquadramento no funcionamento das instituições

existentes. Como recorda Cleaver (1999), os discursos sobre participação estão forte- mente inuenciados pelo novo institucionalismo, teorias que sugerem que as instituições ajudam a formalizar expectativas mútuas de comportamentos cooperativos, permitindo

o exercício de sanções contra a não cooperação e assim reduzir os custos de transacções individuais.

A questão que se coloca é como melhorar a participação publica no processo de gover-

nação. O debate em torno da participação na governação é um tema actual e relevante

no actual contexto socio-político de Moçambique dada a importância da participação na consolidação da democracia. Como assinalam Dijkstra and Lodewyckx (2006) na segunda metade dos anos 1990, o governo de Moçambique estava preocupado com o problema de sua limitada legitimidade e efectividade na governação local.

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Terminada a Guerra estava em curso o processo de reconstrução do país e o alargamento

da presença do Estado para locais que esteve ausente devido a mesma Guerra. Foi nesse

contexto que iniciou com medidas conducentes ao estabelecimento e institucionalização

da participação dos cidadãos na vida social e politica do país.

Este artigo parte do pressuposto que uma participação activa dos cidadãos na governação

é um requisito essencial para a consolidação da democracia, e explora o alcance da insti- tucionalização dos espaços de participação dos cidadãos na governação dos pais. Dado

que, a participação dos indivíduos aumenta, também, a sustentabilidade (e eu acrescento,

a legitimidade) das politicas do governo e promove o desenvolvimento social. e acordo com (Stiglitz, 2002).

O artigo discute o conceito participação com base na literatura como pressuposto para

enquadramento da participação em Moçambique no contexto da governação. De seguida faz-se uma breve contextualização da participação em Moçambique nos períodos colo- nial pós-colonial Num terceiro momento são apresentação resumida das instituição de consulta e participação comunitária a cada escalão. Uma analise dos espaços de par- ticipação disponíveis em Moçambique é feita a partir das instituições criadas para esse efeito. Por ultimo são avançadas algumas notas em jeito de conclusão.

O contexto legal institucional para a participação em Moçambique

Embora o enfoque deste artigo é o período referente a segunda República (de 1990 ate

a actualidade) uma breve analise histórica da participação em Moçambique tanto no

período colonial como no pós-colonial 3 é importante para a compreensão da qualidade

e do nível de participação política.

Em Moçambique as tentativas de materialização de participação política dos indivíduos pode ser datada do tempo colonial com a constituição de associações locais de carácter cultural e recreativo como o Grémio Africano e o Brado Africano “ como forma de reacção ao estado critico, económico e social, a que se viram remetidos, em consequên- cia às tendências discriminatórias e à marginalização social e política impostas pela ad- ministração colonial portuguesa (Rocha, 2002).

Estes grupos não sendo eminentemente políticos seguiam ns políticos de contestação ao regime politico exigindo quer autonomia em relação a metrópole ou reivindicando uma identidade nacional. O desenvolvimento da ideia de nacionalismo moçambicano beneciou, em grande medida, da acção de indivíduos liados nessas organizações. Em- bora limitadas nos seus movimentos e acções, estas organizações estabeleceram mecan- ismos de participação política que contribuíram para elevar a consciência sobre a ne- cessidade de libertar os pais do domínio colonial português.

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De alguma forma, a luta de libertação nacional pode ser considerada o auge dessa con- sciência nacional que alargou o espaço de participação dos indivíduos sobre a política ou na política. Como indica Cabaço (2007) durante a luta armada de libertação nacional a FRELIMO introduziu, em 1970, os comités eleitos pela população como uma forma de participação no exercício do poder nas zonas libertadas. As estruturas de participação criadas durante a luta armada foram transferidas para o Moçambique independente. Por exemplo, os comités do partido foram primeiramente estabelecidos em 1973, dentro das Forças Populares de Libertação de Moçambique, e em 1974, estes comités são transformados em Grupos Dinamizadores 4 .

Fora da Frelimo se haviam constituído alguns partidos políticos como o Grupo Unido de Moçambique (GUMO), Comité Revolucionário de Moçambique (COREMO) a par dos outros que existiam na clandestinidade durante a luta pela independência. Estes partidos políticos reivindicavam o direito de participar no poder em igualdade de circunstancias que a Frelimo. A Frelimo entendia que cabia a ela o direito de governar o pais dado o seu papel na luta de libertação nacional. Esta posição da Frelimo prevaleceu durante as negociações que deram origem aos acordos de Lusaka a 7 de Setembro de 1974.

Surgia, assim, uma divergência profunda entre a Frelimo que exigia “reconhecimento como único representante legítimo do “povo” e alguns ciclos da parte portuguesa a opta- rem por uma inclusão de outros grupos. O que sucedeu foi que Portugal teve mesmo que ceder e reconhecer o direito à independência de Moçambique e a FRELIMO como único movimento legítimo para assumir o poder no novo país Independente” (Jossias,

2007:29).

No pós - independência são constituídos as assembleias populares, organizações democráticas de massas como a Organização Mulher Moçambicana (OMM), Organiza- ção da Juventude Moçambicana (OJM), Organização Nacional dos Professores (ONP), Organização Nacional de Jornalistas (ONJ) como instituições de participação popular baseados em princípios de democracia popular e centralismo democrático. Para a Fre- limo, o conceito de democracia popular era basicamente um socialista guiada pela Fre- limo como o centro de poder com a obrigação de organizar as massas em direcção ao objective único de unir as acções dispersas (Frelimo, s/d: 95).

Esta concepção de democracia popular e centralismo democrático contrasta com a na- tureza política que o conceito de democracia encerra. Como arma Schumpeter (1943) O método democrático consiste num arranjo institucional para alcançar decisões políti- cas nas quais os indivíduos adquirem o direito de decidir por meio de competição pelo voto.

4 - Os Grupos Dinamizadores foram estabelecidos em todos os locais de trabalho, sectores económicos, áreas de residência e foram expandidos para todo o país como um meio de con- trole popular (Frelimo, s/d: 29).

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Assim ca evidente, que a participação na política visava unicamente a materialização do projecto político da Frelimo: criar a nação. A missão destas organizações era a de en- quadrar as populações e usar estas estancias para mobilizar diferentes grupos (mulheres, jovens, professores, jornalistas) para materializar o se projecto político.

Por essa razão, os partidos políticos e movimentos e associações cívicas que não comun- gavam com a ideologia da Frelimo foram banidas e proibidas de actuar no pais. Igual sorte tiveram as autoridades tradicionais, os cultos e ritos animistas bem como outras praticas culturais como o lobolo (Decreto n° 6/78 de 22 de Abril de 1978). Estas proi- bições e formas de controle social usadas pela Frelimo contribuíram para o surgimento de movimentos de contestação localizadas que mais tarde deram corpo a Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO) que confrontou o governo numa guerra que du- rou 16 anos 5 .

Os efeitos internos combinados da guerra, da seca e das políticas macro - económicas falhadas 6 e, os factores externos no âmbito da guerra fria (confrontação dos blocos socialista e capitalista) conduziram a uma crise da economia de Moçambique sem prec- edentes 7 . O governo da República Popular de Moçambique solicitar apoio nanceiro a alguns países ocidentais e instituições nanceiras internacionais - Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI) - para fazer face a crise económica do País.

Moçambique foi aceite como membro o Banco de Mundial e do FMI e começou a implementar o Programa de Reabilitação Económica (PRE) em 1987. Para o FMI a liberalização económica devia ser acompanhada pela liberalização política 8 , ou seja, de- fendiam que o sucesso das reformas económicas só podia ser garantido com reformas no sistema político que garantissem o direito a propriedade privada, liberdades de ex- pressão, informação e associação, defesa dos direitos humanos, defesa das liberdades individuais entre outros (Adalima, 2008).

Efectivamente, a aprovação da constituição em 1990, inaugura a segunda República 9 e marca uma nova era na vida política dos pais. A constituição de 1990 estabeleceu, por um lado, o quadro legal de protecção e respeito das liberdades de associação (capítulo II, artigo 52), de expressão e de imprensa (capítulo II, artigo 48), de participação política (capítulo II, artigo 53), o direito à propriedade privada (capítulo V, artigo 82) entre out- ros aspectos (Adalima, 2008).

5 - Para uma análise detalhada dos contornos da motivações e dinâmicas locais da Guerra ver Geffray (1991).

6 - Análises estimulantes sobre a situação económica do País entre os anos 1980 e 1990 podem ser encontradas em Castel-Branco (org.) (1994).

7 - Os apoios que Moçambique recebia do bloco socialista começavam a diminuir ou mesmo

a escassear, por um lado devido aos efeitos da proeminência do capitalismo, o governo da República Popular de Moçambique, a partir de 1984, solicitou apoios nanceiros aos países

ocidentais e instituições nanceiras internacionais - Banco Mundial e Fundo Monetário Inter- nacional (FMI) - para solicitar apoio nanceiro para fazer face a crise económica do País.

8 - Para a compreensão sobre como o Banco mundial e o FMI gradualmente foram assumido

uma posição dominante no processo de tomada de decisões do governo ver Hanlon (1997).

9 - A primeira República vai de 1975 a 1990.

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Por outro lado, a descentralização política consagrada através da institucionalização de órgãos locais eleitos por residentes numa determinada área territorial, com competência e poder de decisão próprios, compostos por órgãos representativos e órgãos executivos perante estes responsáveis (CRM: cap. IX do título III, P.48).

Do ponto de vista da participação, a descentralização tem sido vista como um dos princi- pais instrumentos de articulação entre o Estado e a sociedade. Assume-se que a descen- tralização política, em principio, promove uma maior participação e controle popular sobre a actuação da administração pública 10 .

Assim, o artigo 110 da lei 2/97 de 18 de Fevereiro, estabelece que os cidadãos moradores no município podem apresentar individualmente ou através de organizações sociais, ver- balmente ou por escrito, sugestões, queixas, reclamações ou petições à Assembleia Mu- nicipal.

O número 2 do artigo 28 estipula que no desempenho das suas funções, os órgãos das

autarquias locais poderão auscultar as opiniões e sugestões das autoridades tradicionais reconhecidas pelas comunidades como tais, de modo a coordenar com elas a realização de actividades que visem a satisfação das necessidades especícas das referidas comu- nidades.

A alínea c) do número 1 do artigo 96 determina que são deveres dos órgãos autárquicos

contactar as populações da autarquia. A alínea c) do número 1 do artigo 74 estabelece que a Assembleia Municipal pode reunir-se extraordinariamente, a requerimento de, pelo menos, 5% de cidadãos eleitores inscritos no recenseamento eleitoral do município.

Em termos organizacionais, a lei 8/2003 estabelece que o governo distrital promove e apoia as iniciativas de desenvolvimento local com a participação das comunidades e dos cidadãos na solução dos seus problemas (art. 39, alínea m) No escalão mais a baixo, a alínea a) do artigo 47, estabelece que compete ao Chefe do Posto Administrativo pro- mover e organizar a participação das comunidades locais, na solução dos problemas locais. A alínea c) do mesmo artigo acrescenta que “…dando prioridade as camadas mais vulneráveis”.

Na estruturação das Instituições de Participação e Consulta Comunitária (IPCC), o Di- ploma Ministerial 107-A/2000b que regulamenta o Decreto 15/2000 de 25 de Junho determina que o Conselho Consultivo do Distrito (CCD) é a instituição máxima de con- sulta no distrito mas, no entanto, reconhece a existência de outras instâncias de consulta abaixo deste nível territorial.

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A estratégia Global da Reforma do Sector Público (2001-11) estabelece, nos seus objec-

tivos, que “o sector público seja democratizado e com alto grau de institucionalização de

formas participativas que permitam não só identicar com maior segurança os anseios

e necessidades dos cidadãos, mas também, que crie um espaço para a participação da sociedade na busca de soluções para os problemas de desenvolvimento”.

Pelo Decreto 11/2005, no art. 100, determina-se “os órgãos locais do Estado devem as- segurar a participação dos cidadãos, das comunidades locais, das associações e de outras formas de organização, que tenham por objecto a defesa dos seus interesses, na formação das decisões que lhes disserem respeito”.

Pela descrição acima feita, ca evidente que o método de trabalho preconizado como forma de relacionamento dos órgãos locais do Estado com as comunidades é o da aus- cultação e consulta tal como estabelece o Decreto nº 15/2000, no art. 2, nº2. Essa aus- cultação é materializada através das Instituições de Participação e Consulta Comunitária (IPCC).

O breve historial apresentado sobre o processo de institucionalização da participação é

uma tentativa de mostrar como em cada momento histórico este conceito foi usado de acordo com os interesses políticos do regime vigente. Tanto no período colonial como no pós-colonial (primeira República) a participação política era mais limitada dado o carácter de forte controle social dos regimes.

Com o multi-partidarismo são alargados os espaços de participação e formalizados mecanismos de articulação entre as diferentes instituições. Contudo, a qualidade da par- ticipação política no actual contexto é ainda fraca e é o reexo de longos anos de forte

controle estatal (colonial e pós-colonial). Este aspecto será desenvolvido mais adiante no tópico referente aos espaços de participação. A seguir apresenta-se, de forma resumida,

as instituições de consulta e participação comunitária nos diferentes escalões territoriais vigentes na segunda República.

Alguns espaços de participação existentes em Moçambique Conselho Consultivo do Distrito

O Governo Distrital é actualmente o Órgão Local do Estado dotado de cada vez maior

protagonismo na programação, coordenação e gestão da intervenção do Estado a nível local. O Conselho Consultivo do Distrito permite que haja um diálogo ecaz entre a direcção do distrito (o Administrador do Distrito e os Dirigentes Distritais) e a sociedade civil local. O CCD é a instituição que permite aos vários grupos sociais do distrito co- laborar com as autoridades da administração local, na busca de soluções para as questões fundamentais que afectam a vida das populações, o seu bem estar e o desenvolvimento sustentável do seu território.

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Conselho Consultivo do Posto Administrativo

Duma forma parecida com o CCD, o Conselho Consultivo do Posto Administrativo (CCPA) é uma instituição de diálogo entre o aparelho de Estado e as comunidades locais nas diversas localidades do distrito. O CCPA inclui o Chefe de Posto, representando a administração local; os responsáveis dos sectores e serviços públicos localizados no Pos- to Administrativo, líderes locais provenientes dos Fóruns Locais do PA. É no âmbito do CCPA que as preocupações e as preferências provenientes das várias localidades serão sujeitas a um diálogo colectivo e, subsequentemente, organizadas e priorizadas antes de serem abordadas a nível distrital.

Os espaços de participação criados pelas autoridades referentes aos diferentes níveis as-

sumem que as comunidades são homogéneas e dotadas de interesses comuns que podem ser articulados no âmbito da consulta e auscultação. Não tomam em consideração as dinâmicas internas de poder e estraticação existentes e os efeitos adjacentes da interven- ção externa. Com efeito, a participação é vista como instrumental no sentido de que as comunidades são agentes passivos e que participam por via de consulta. Este espaço tem

o mérito de poder agregar, pelo menos em teoria, os diferentes agentes comunitários para

o exercício participativo para o desenvolvimento local. Portanto, CCPA não sendo um mecanismo formal 11 representa um espaço de interlocução com os mecanismos formais.

Paralelamente, a sociedade civil 12 tem trabalhado na criação de outros mecanismos que podem ser enquadrados no domínio dos “espaços reivindicados” como forma de não só emancipar-se como também complementar os espaços criados pelo governo no âmbito da acção governativa.

Fórum local

O Fórum Local (FL) é concebido como uma instituição da sociedade civil que tem como objectivo organizar os representantes das comunidades e dos grupos de interesse locais para permitir que eles denam as suas prioridades e exprimam junto aos CCPAs e CCDs. Os FLs são constituídos nos Postos Administrativos, geralmente em número entre dois e quatro por PA, variando consoante a extensão territorial, dimensão da população, activi- dades e formas de organização dos habitantes.

Contrariamente aos CCs, os Fóruns não são instituições de diálogo entre representantes do Estado e as comunidades mas sim uma instância onde a sociedade civil se prepara internamente para entrar nesse diálogo a partir do nível do Posto Administrativo.

11 - Não estão previstos na lei. Resultam da iniciativa do governo de encontrar espaços para

interacção com os cidadãos.

12 - Com enfoque para as comunidades locais. De acordo com os proponentes da abordagem

convencional de sociedade civil o ponto de partida para o fortalecimento da sociedade civil em África é o aumento da participação – no número das organizações e dos membros activos dentro dessas organizações. Todavia, os cientistas políticos americanos já haviam alertado que uma demasiada participação põe em perigo a estabilidade democrática Kasr (1998:128).

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Portanto, o FL é a instância de base para a agregação de preferências no âmbito do pro- cesso de planicação distrital.

Comités comunitários

Os Comités Comunitários são concebidos para permitir que as comunidades se mo- bilizem na identicação e procura de soluções para os seus problemas. Actualmente existem no país várias formas de Comités Comunitários designadamente os denomina- dos Comités de desenvolvimento Comunitário (CDC); Comissões de Desenvolvimento Local (CDL); Comissões de Maneio Comunitário (CMC) de terra e/ou outros recursos naturais; comités de agua, de escolas e de saúde comunitária; bem como outras institu- ições de natureza associativa a nível local.

Os observatórios de desenvolvimento

A formulação do primeiro Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA)

em 2001 contou com pouco envolvimento de actores não estatais. A solução encontrada pelo governo para a participação da sociedade civil foi a criação dos Observatório da Pobreza (Waeterloos, 2004).

Primeiramente (a partir de 2003) designados Observatórios de Pobreza e a partir de 2005 Observatórios de Desenvolvimento foram criados como um espaço de interacção entre o governo de Moçambique, parceiros de cooperação e sociedade civil onde se faz a análise do desempenho em relação ao PARPA. Este espaço resulta das políticas estabelecidas pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional nos nais da década 1990 que visavam o alívio da pobreza dos países altamente endividados.

Estes países foram solicitados pelas instituições supracitadas a conceberem Planos para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPAs) com envolvimento, para além do governo, de actores não estatais sobretudo ONGs, organizações religiosas, sector privado entre out- ras – em suma a sociedade civil (Fraser, 2005). Basicamente, os OD são um fórum de dialogo entre o governo e a sociedade civil (Hodges e Tibana, 2005; Francisco e Matter, 2007) na monitoria da acção governativa.

Espaços criados (“Invited spaces”) e espaços reivindicados (“claimed spaces”)

Os conselhos locais dos diferentes níveis (distrito, posto administrativo, localidade e povoação) são, por excelência, os espaços de interacção entre os órgãos do Estado e as populações a nível local, assegurando os processos de participação e consulta comuni- tárias.

Partindo deste pressuposto é importante distinguir os espaços institucionalizados para

o exercício da participação. Regra geral são distinguidos dois tipos de espaços partici-

pativos: espaços criados (“invited”) que são, essencialmente, de cima para baixo (“top- down”) e são concebidos para integrar as comunidades e; os chamados espaços reivin-

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dicados (“claimed”) que sendo criados pelos grupos ou comunidades visam pressionar as entidades políticas e administrativas 13 promovendo mudanças. Embora sejam espaços autónomos eles não são mutuamente exclusivos, estando o desao em cada contexto criar o ambiente para a combinação dos 2 espaços.

Os espaços de participação apresentados acima são fundamentalmente “Invited”space no sentido de que foram criadas pelo governo e outras agências com o objectivo de envolver a população, sobretudo os grupos sociais considerados mais desfavorecidos. A lógica das Instituições de Participação e Consulta Comunitária (IPCC) responde a esse desígnio de alargar o espaço de participação das comunidades.

Assim, as IPCC são vistas como uma instituição baseada num processo através do qual pessoas, especialmente as mais desfavorecidas, inuenciam as decisões que lhes afectam, ou seja, o processo de consulta e participação deve trazer para o processo de decisão as preocupações de todas as pessoas que se querem fazer ouvir o que implica abrangência, equidade e respeito pelas formas de organizações legitimas existentes desde que não se contradigam com as leis vigentes no país.

Contudo, o impacto da participação das pessoas nas IPCC tem sido de limitado alcance no processo de tomada de decisão a nível local (Dijkstra and Lodewyckx, 2006; Gon- çalves, 2008; Forquilha, 2009; Canhanga, 2009). De acordo com Gonçalves (2008:2) “pouco ou quase nada se sabe sobre o grau de representatividade dos diferentes grupos sociais nesses conselhos; os mecanismos para a selecção dos seus membros; o uxo de informação dos governos distritais para os conselhos locais/cidadãos e vice-versa; os mecanismos de prestação de contas dos governos distritais aos conselhos locais e destes aos cidadãos; os mecanismos de monitoria dos planos anuais e quinquenais dos distritos (PESODs e PEDDs, respectivamente); os processos de tomada de decisão nas sessões dos conselhos locais, etc.”. Portanto, conclui Gonçalves (2008) ainda se sabe relativa- mente pouco acerca da natureza e qualidade do funcionamento dos conselhos locais.

Analisando o funcionamento dos Observatórios de desenvolvimento chega-se a con- clusões similares. Desde que a sociedade civil começou a fazer parte dos OD em 2003 através do “posicionamento da Sociedade Civil” que era um documento que reectia a análise feita sobre a situação das províncias em relação ao PARPA, poucas criticas ou observações foram acatadas pelo governo (G20, 2005). As sessões dos OD transforma- ram-se momentos de criticas a desempenho do governo o que fez com que o governo rotulasse a sociedade civil, em algumas províncias, como fazendo parte da oposição política.

13 - O orçamento participativo no município de Porto Alegre tem sido considerado o melhor e mais citado exemplo de espaço reivindicado e de co-governação, porque a população decide sobre as prioridades municipais. Porém, a critica feita sobre esses espaços indica que existe uma tendência de se tornarem excessivamente burocratizados e o risco de deslegitimarem out- ros espaços participativos já existentes na comunidade.

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Embora, os OD sejam vistos como um fórum de procura de soluções conjuntas sobre os problemas da província, poucas sugestões são efectivamente incorporadas na acção do governo. Os OD são convocados e adiados pelo governo sem informação previa aos outros intervenientes do processo numa clara demonstração de poder e controle sobre o processo 14 .

Embora os Observatórios tenham sido estabelecidos como “fórum consultivo para a participação activa das forças vivas da província no processo de monitoria e avaliação do PARPA”, poucos membros da Sociedade Civil são capazes de explicar como se op- eracionaliza a “monitoria” do PARPA ou qual é o resultado do processo de “consulta” em eles participava (Gonçalves e Adalima, 2008).

Pelas razões acima indicadas, o processo de participação nos diferentes espaços em Moçambique é instrumental ou nominal e está virado para legitimar acção do gover- no. Em concreto, a institucionalização da participação não corresponde a uma efectiva capacidade de engajamento e inuência no processo de tomada de decisões. No caso concreto dos Observatórios de Desenvolvimento, a participação da sociedade civil é nominal e não se traduz na transformação do fórum num espaço de tomada de decisões sobre o desenvolvimento.

Pois, a participação deve centrar-se na “transformação” da prática de desenvolvimento vigente e, mais radicalmente, nas relações sociais; nas práticas institucionais que limi- tam a possibilidade de participação dos indivíduos e conduzem a exclusão social. Esse projecto transformativo só se pode realizar se houver ligação entre participação e cidadania, articulando as esferas políticas, comunitárias e sociais. Aos cidadãos é recon- hecida a capacidade de acção e de intervenção e não de simples usuários dos serviços de outros agentes (Gaventa, 2004).

Cabe ao cidadão enquanto homem equipado de um aparato racional para tomar decisões políticas consequentes. Entretanto, a participação popular na vida política tem sido feita prioritariamente via organizações ou grupo de organizações formais ou não, quer sejam partidos políticos, grupos ou coligações de partidos, associações cívicas. Quando os ac- tores individuais aparecem, estão corporizados nas guras de líderes comunitários, lí- deres religiosos e outras guras de destaque nos contextos sobre os quais o Estado incita os processos participativos.

Esta situação ilustra que estamos em presença de um paradoxo: a estruturação do sistema político baseado em partidos mas cabe ao cidadão a capacidade de acção e intervenção.

14 - Com raras excepções, em todas as províncias os adiamentos dos OD são frequentes. Muitas vezes a razão do adiamento esta relacionada com a não disponibilidade do governador provincial participar nas datas escolhidas pelo próprio governo. Ou seja, os adiamentos são feitos a ultima hora sempre que o governador tiver uma outra actividade.

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O indivíduo enquanto cidadão, fora no esquema partidário, encontra limitado espaço

para participar na política com a excepção dos momentos eleitorais onde há um esforço tanto do Estado como da sociedade civil para mobilizar para a sua participação activa nas eleições. O objectivo nestes momentos é mais de mobilização de votantes e não de envolvimento consciente dos cidadãos nas decisões que tem inuência sobre suas vidas.

A participação torna-se num instrumento de manipulação política dado que é um exer-

cício de legitimação de um determinado manifesto de governação que poucas vezes é cumprido. Talvez esta seja uma das razões que contribui para que os candidatos indepen- dentes não tenham possibilidades de se armarem no actual contexto politico moçambi- cano. Basta olhar para os resultados eleitorais desde 1994 para concluir que os candida- tos independentes têm uma presença e resultados insignicantes.

Existe um potencial para a criação de claimed spaces baseados nos cidadãos fora do es- quema partidário. Precisamos de uma transformação radical do sistema criando espaço para que surja e desenvolva-se uma consciência cívica critica. Para Gonçalves (2008) essa transformação deve começar no próprio sistema educativo que está desenhado para criar patriotas (indivíduos obedientes à nação) e não cidadãos.

Corroborando com Gonçalves (2008), existe uma certa descontinuidade entre os ideais

do sistema educativo, virados para uma educação mais patriótica, e os princípios do lib-

eralismo que colocam no indivíduo, o centro do exercício das liberdades individuais de associação, escolha e decisão.

Teremos o projecto de formar para a cidadania? Parece que não, o actual “Plano Estra- tégico da Educação e Cultura” mostra que a prioridade é formar empreendedores e de- senrascadores da vida; é transformar as escolas em ocinas de empreendedorismo e não o cinas de cidadania onde desde a tenra idade as crianças poderiam aprender e ensaiar a participação e a cidadania.

O grande desao a plena participação dos cidadãos na política em Moçambique passa

pela consolidação dos invited spaces pelo exercício critico que pode conduzir a emergên- cia de claimed spaces. Neste contexto, uma imprensa abrangente, diversicada, critica, autónoma e, sobretudo, com independência política e económica. E, acima de tudo, uma atenção especial deveria ser dada às rádios comunitárias que, muitas vezes, constituem as principais fontes de informação das populações nos distritos e, por isso, potenciais con- textos de exercício de questionamento e scalização das acções do poder público do dia.

Portanto, tal imprensa só será possível se estiver garantido, na sua plenitude, o direito

de acesso à informação pública. O direito à informação em Moçambique ainda não está

concretizado, fundamentalmente quando se trata de acesso a cheiros estatais e gover- namentais. Apesar de a nossa “Lei Mãe” – a Constituição da República” dispor que o direito à informação é reconhecido em Moçambique, na prática ainda existe um grande décit informativo na sociedade, derivado fundamentalmente da ausência de legislação especíca sobre a matéria. Portanto, embora o direito à informação seja um direito con-

stitucional, não existe uma lei que regulamente o seu exercício.

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Considerações nais

Olhando para o contexto institucional da participação em Moçambique ca evidente que a criação destes espaços é da iniciativa do governo e das agências estrangeiras. Com efeito, tanto os mecanismos criados pelo governo bem como os criados pela sociedade civil são marcadamente formais. Os mecanismos de participação não só são institucio- nalizados como também são caracterizados por uma forte centralização que se reproduz dos escalões mais altos aos mais baixos.

E isso encontra suporte nos princípios defendidos pelo Banco mundial e o FMI que

postulam que a participação popular deve contribuir para uma maior eciência dos pro- gramas, ou seja, os custos da não participação podem ser muito altos porque conduzem ao fracasso dos projectos.

A participação tanto para as instituições nanceiras internacionais como para os gover-

nos foi transformada num aspecto técnico que quando aplicado correctamente contribui

para aumentar a ecácia dos projectos e programas.

Uma análise do processo participativo em Moçambique indica que os “espaços convida- dos” têm sido crescentemente criados e as comunidades integradas em vários processos de consultas mas continuam ainda formais e centralizados “top down”. A criação de novas instituições em Moçambique criou oportunidades de participação popular no pro- cesso de governação. Todavia, o enfoque nos mecanismos formais de participação inibe, de alguma forma, que iniciativas informais sejam cada vez mais presentes. E é legítimo questionar em que medida as abordagens participativas promovem ou contribuem efec- tivamente para uma plena participação na governação?

Efectivamente, as comunidades não têm estado a usar ecientemente os espaços exis- tentes quer por fraca capacidade de agir dentro do contexto institucional especíco quer por ausência de vontade política das autoridades relevantes. Todavia, é nas comunidades que reside a responsabilidade de criar novos espaços e articular o processo de participa- ção nos espaços existentes. Com efeito, uma maior emancipação popular ou empower- ment é necessária para criar esse espírito crítico. Uma questão óbvia a ser colocada é como criar uma comunidade crítica? A quem cabe a responsabilidade de promover o empowerment comunitário? As respostas a estas questões são inconclusivas. Contudo, o Estado pode através da adopção de princípios de co-governação promover uma maior capacitação/empowerment comunitário.

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