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caso clínico

Caminhos e descaminhos
ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO AJUDA PESSOAS COM DISTÚRBIOS GRAVES A RETOMAR
LAÇOS SOCIAIS E A DESENVOLVER PROJETOS DE VIDA

Jeanne tem 56 anos e é administradora de empresas aposentada

por invalidez. Sofre de esquizofrenia do tipo paranóide – teve
um surto na juventude, após a morte de uma pessoa querida;
automedicou-se e sofreu intensos delírios de perseguição,
controlados com fármacos antipsicóticos. Solteira, tem um
irmão e uma irmã que moram em outro estado. Depois da
morte dos pais, há alguns anos, passou a viver com um casal
de antigos empregados de sua família, numa casa que recebeu
de herança. Depois de freqüentar um hospital-dia por cinco
anos, Jeanne recebeu alta da instituição. Continuou, no entanto,

com o tratamento psiquiátrico e com a psicoterapia. A equipe
multidisciplinar que a atendia recomendou também o acompanhamento terapêutico (AT), para que pudesse retomar com
mais segurança algumas atividades que não se sentia capaz de
cumprir – como dirigir, fazer compras e cuidar da casa.
Antes de abordar a fundo o caso de Jeanne e seu empenho
em construir para si trajetos que não lhe parecessem tão
ameaçadores, cabe esclarecer alguns pontos sobre o acompanhamento terapêutico. A prática é indicada de forma
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VIVER MENTE&CÉREBRO

complementar para pessoas com transtornos mentais graves
e deve ser associada a tratamentos psiquiátrico e psicológico
e a atividades desenvolvidas no hospital-dia. Esses pacientes,
em geral, tendem a perder a autonomia, o contato social e
enfrentam grandes dificuldades para executar no dia-a-dia
tarefas aparentemente simples.
Os acompanhamentos terapêuticos são realizados em
diversos lugares e, dependendo do paciente e de suas necessidades, acontecem dentro de casa, em ruas, shoppings,
escolas ou durante períodos prolongados de internações.
Psicólogos, enfermeiros, pedagogos, terapeutas ocupacionais,
fisioterapeutas, entre outros profissionais, podem exercer a
função. E sua base teórica é variável. No caso do psicólogo
a orientação pode ser, por exemplo, psicanalítica, cognitiva,
fenomenológica ou bioenergética.
A quantidade de acompanhamentos e sua duração, o número de acompanhantes terapêuticos e suas funções não podem ser
determinados a priori e definidos em conexão com a estratégia
estabelecida pelo projeto clínico, traçado consensualmente pela
equipe terapêutica. As intervenções do acompanhante devem
estar em sintonia com a atuação de outros profissionais. Atitudes
e palavras devem ser claras, jamais invasivas ou agressivas. É
fundamental, entretanto, que o acompanhante terapêutico
tenha alguma autonomia para intervir em diferentes situações,
empenhando-se em contribuir para fazer do paciente o sujeito
da própria história e não objeto de um tratamento ou de uma
conduta que lhe será imposta. Os horários de atendimento
precisam ser respeitados, já que eventuais atrasos costumam
provocar grande ansiedade e, por vezes, desorganização psíquica no paciente.
As autoras Kuras e Resnizky, em Acompanhantes terapêuticos
e pacientes psicóticos, traçam algumas propostas terapêuticas
de acordo com as diferentes patologias. Por exemplo, para
uma pessoa esquizofrênica seria indicado estabelecer uma
comunicação simples, que não desse lugar a ambigüidades;
dispor-se a escutar o paciente, caso ele deseje falar, mas também
tolerar seu silêncio e não perguntar com insistência para que
ele não se sinta perseguido. É como se, em alguns momentos,
MAIO 2006

mas como já não ia até lá fazia muito tempo. à medida que avançávamos. HAILTON YAGIU é psicólogo clínico. disse que queria retornar. PARA CONHECER MAIS Acompanhantes terapêuticos e pacientes psicóticos. psicanalista e acompanhante terapêutico do Instituto A Casa e integrante do Programa de Esquizofrenia e do Laboratório Interdisciplinar de Neuroimagem e Cognição da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Jeanne tem um projeto mais amplo: ir à casa de outros amigos que não vê há mais de 15 anos. Aparentando desânimo. que não encontrava havia mais de dez anos. cada etapa vencida aumentaria o sentimento de estabilidade total e forneceria as bases do desenvolvimento emocional. Agora tem menos medo do trânsito – das sinalizações que a confundiam – e está mais rápida no raciocínio ao volante. pega-o e o leva à boca. E. Editora Papirus.VIVERMENTECEREBRO. chegamos a um local que parecia muito estranho para ela. Jeanne revelava o receio de enfrentar um mundo que lhe parecia excessivo e desconhecido. ao chegar à rua onde morava sua amiga. Nesse momento. receava não saber como chegar. nesses casos. Jeanne queria ir a um município vizinho visitar uma amiga. quando já havíamos completado mais da metade do trajeto. Jeanne dizia não recordar mais como fazer para continuar. Equipe de ATs de A Casa (org. não muito distante de onde estávamos. mas lamentava não ter conseguido chegar à casa da amiga. Em sua fala. ESCOLHA OBJETIVOS o profissional “emprestasse” seu Eu ao ego fragilizado da pessoa que assiste. lembrou-se da cor da casa. Primeiro surge a hesitação. foi tomada por uma grande angústia. principalmente se ela puder contar VMC com acompanhantes em sua jornada. Eu nada disse. em outras saídas. mas a cada saída íamos um pouco além do ponto alcançado anteriormente. E. Atendendo a seu pedido. aproprie-se deles e de suas conquistas e. Como havíamos consultado o guia pouco antes. em seu ritmo. Talvez a visita a uma amiga que não se vê há tempos não traga maiores dificuldades a uma pessoa sem distúrbios mentais significativos. Depois. é possível estabelecer uma comparação com as etapas propostas por Winnicott. Jeanne ficou nervosa e. Gradualmente. 1987. no encontro seguinte partimos da casa da paciente com seu carro. Alguns meses depois. Após dirigir por algumas quadras. ajudando-a a realizar seus projetos. mostrando sentir prazer nesse ato. 1991. Tomando por base os três momentos.). Estacionou o carro em frente à residência e disse confiante que ia tocar a campainha e perguntar se a amiga ainda morava ali. que permanecia a mesma.POR HAILTON YAGIU É IMPORTANTE QUE O PROFISSIONAL SAIBA AGUARDAR O MOMENTO DE INTERVIR E PERMITA QUE O PACIENTE. finalmente. começou a invadi-la a sensação de estar perdida. Jeanne não suportava dirigir muito. Pensando no trajeto – não apenas físico – percorrido pela paciente em busca de um local e de uma pessoa que já tinham feito parte de sua história e aos quais queria retornar. podemos perceber a importância. “Ruas podem ter mudado de sentido e a quantidade de carros. um mapa atualizado de ruas e levei o material a sua casa para. Winnicott diz que se as três etapas fossem completadas se daria a experiência total. Sabe que há caminhos nem sempre fáceis e que não é preciso cumpri-los de uma só vez. um caminho bem mais longo do que aquele que eu havia proposto. ela prosseguia com mais desenvoltura e. Com um plano traçado.COM. joga o objeto no chão e. dividido entre a possibilidade de pegá-lo ou não. surge o momento da posse. mas se vê num dilema. à medida que avançávamos. EM SEU RITMO. A rua como espaço clínico: acompanhamento terapêutico. aumentado”. porém. Susana Mauer e Silvia Resnizky. reuni guias de estradas.BR descreve a existência de uma seqüência de três etapas na aproximação do bebê a um objeto (uma espátula brilhante. usada para empurrar a língua e examinar a garganta dos pacientes) colocado em seu campo de visão. Lembrava-se de ter freqüentado o local. deixei que fizesse seu trajeto e. ponderei que uma parte do trajeto já fora cumprida e lhe disse que. escolha os objetivos que quer atingir. Depois desse episódio. se alguém o entrega novamente. ele o joga outra vez. Tomou. dizia. finalmente. de esperar e permitir que o paciente. debruçamo-nos sobre os guias. muito terapêutica. VIVER MENTE&CÉREBRO 97 . sem pressa. a criança passa a se interessar por outros objetos. para vencê-lo. poderíamos tentar novamente em outra ocasião. da apropriação do objeto. os deixe após tê-los cumprido ou tê-los transformado em outros projetos. em A observação de bebês em uma situação padrão. Durante o conflito é fundamental que não haja interferência e o bebê possa dirigir sua própria experiência. traçarmos um caminho. Imediatamente ela disse ter se lembrado de parte do trajeto e da rua que nos levaria à avenida aonde pretendíamos chegar. juntos. Editora Escuta. Mas é possível percorrê-los. aparece a agressividade: o bebê se desfaz da espátula. mas para Jeanne era um grande desafio. Jeanne falava de como se sentia mais segura em relação a sua capacidade de acessar lembranças. o bebê é atraído pelo objeto. Hoje. comentei que o caminho mais curto seria por determinada avenida. pois funcionaria como uma aula sobre o objeto. Retomamos as tentativas. Winnicott relata. sua experiência com o atendimento de crianças pequenas e WWW. no qual a criança demonstra novo interesse por ele.