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A MISSÃO DO PASTOR

(escrevendo em tempo de reflexão)

Chegam-nos sinais de ventos de mudança, em terras de Espanha, no que se refere à vida


das comunidades cristãs. A participação dos leigos é cada vez mais activa e empenhada,
os jovens são cada vez em maior número nas diversas actividades religiosas.

Isso deve-se sobretudo ao facto de haver já muitos bispos com idades mais jovens, mas
bem preparados e activos. São jovens em idade mas “maduros” e com uma grande
preocupação na interpretação actual da doutrina da Igreja e na sua aplicabilidade à vida
dos cristãos. São determinados e afirmativos na evangelização e muito actuantes na
sociedade. São novos ventos de uma esperança renovadora que varrem a Igreja na nossa
vizinha Espanha. Ventos de mudança na forma de adaptar os Preceitos à nova filosofia
de vida das comunidades modernas, tão sedentas de mudança e com grande vontade de
encontrar na Igreja respostas para os seus legítimos anseios.
Vivemos hoje, uma sociedade em mudança permanente e teremos de ser capazes de
acompanhar esse movimento, correndo o risco de ficar para trás se o não fizermos.

Jesus Cristo mostrou-nos bem o caminho e foi Ele mesmo uma mudança em
actualidade. “Eu não vim revogar a lei de Moisés, contudo vim actualiza-la…”
Personagem sempre atenta às necessidades dos que O procuravam, Jesus, correu tantas
vezes o risco de ser incómodo para o poder estabelecido e para os instalados do sistema
(civil ou religioso)! Um Jesus atento e preocupado com as necessidades do povo que
ansiava por “quebrar” o jugo que o escravizava, que não o deixava viver e ser feliz. Este
Jesus é sempre actual e aponta-nos hoje o caminho. Só nos resta querer segui-LO.

Ingénuo, cheguei a pensar que esta onda de renovação se alargava naturalmente a todas
as comunidades e que por cá também se começariam a sentir sinais de mudança.
Engano meu ou então muita ingenuidade mesmo!
Por cá não há sinais semelhantes, nem mesmo sequer sinais. Tudo continua na mesma
como até aqui. Tudo se passa na rotina dos ritos e dos dias!

Embora já haja aqui e ali bispos mais novos em idade, não se sentem ainda sinais de que
alguma coisa possa mudar. Continuam os nossos bispos a pautar a sua acção pelo
calculismo e pelo medo de implementar, nas suas terras de Missão, as alterações
necessárias enquanto é tempo. Não se sente que tenham a capacidade (assim parece) ou
a vontade de criticar o que se lhes mostra não estar tão bem ou mesmo aquilo que eles
próprios vêem pessoalmente ter de ser adaptado às novas realidades das sociedades
modernas.
Não os vemos a tomar a iniciativa de mobilização, nestes tempos de mudanças muito
profundas das mentalidades e passarem a abordar “as coisas da Igreja” com outra
abertura (não ligeireza) mais compatível com os tempos e as realidades actuais.

“Ainda temos muitos padres para que tudo se faça dentro das determinações canónicas e
as recomendações do Catecismo da Igreja Católica…” dizem naturalmente quando
interpelados ou confrontados com a necessidade de uma mudança ou de uma adaptação
dos ritos, aos tempos de hoje.
Mas isto não tem nada a ver com o número de padres!!
A questão não é essa. Estão a ver mal a situação!
Os crestes (os cristãos), os de Jesus Cristo querem participar de uma outra forma na
vida da Sua Igreja e querem sentir uma Igreja de verdade, mais humana e mais próxima
de cada um. Querem participar e ser felizes.
Os cristãos de hoje, querem ser activos mas adultos, querem viver um Cristianismo de
vento novo de Ressurreição e de vida.

Estes sinais são preocupantes, porque se nada entretanto for feito, teremos as nossas
celebrações frequentadas por comunidades cada vez mais envelhecidas e ancilosadas,
com os novos (jovens e não só) a afastarem-se e a procurarem outros espaços que os
possam acompanhar nas mudanças ultra-rápidas que sentem acontecer nas suas vidas.

As nossas igrejas ficam desertas, e os espaços de Encontro desconfortáveis e povoados


por “meia dúzia” de resistentes resignados.

O Concílio Vaticano II abriu uma janela para entrar um pouco de ar fresco. O ar entrou
e o sol também. Fez-se vida nova…Que se deixe esta vida nova crescer, que não se
feche de novo a janela, nem tão pouco, sequer, a cortina…
Não tenhamos medo. Todos nós a Igreja de Jesus. Não se trave ou retarde, sequer, a
renovação e a vida nova que já há em nós.
“Não estais sozinhos, Eu estou convosco…”, disse-nos Jesus em testamento.

Os nossos bispos vivem, parece, ainda dentro de umas redomas, vendo as coisas de
longe, demasiados agarrados a preceitos que pouco têm a ver com os dias de hoje.
Têm medo de descer à realidade da vida, à realidade do seu povo, para viverem de perto
as experiências reais dos seus “rebanhos”.
Devem descer e deixarem-se “contagiar” pela pobreza, pela doença, pela solidão, pela
carência afectiva, na vertigem da vida do dia a dia, “nas margens do caminho largo” ou
“pelas margens do lago” onde vive a gente menos visível da sociedade, a realidade do
homem comum.
São estas as realidades que o Homem Deus conheceu bem de perto e onde encontrou os
Seus amigos, companheiros de jornada, durante a Sua vida e no decorrer da Sua
pregação. Caminhos reais de então, como de hoje ainda; caminhos que o verdadeiro
Pastor não temeu percorrer e que ensinou aos Seus que Lhe haviam de seguir as
passadas na Missão de evangelizar.
Pena é que nem todos os queiram percorrer hoje.

O “rebanho” está em marcha pelos caminhos, na demanda de pastagens verdejantes,


seguindo o seu pastor. Está em marcha e não pára.
Este “rebanho” está em marcha. Tem fome de Verdade de Vida, oxalá que não passe
para a frente do pastor…

ZéLuiz
(Maio/2008)