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BACULO

Igreja Anglicana Reformada do Brasil | Novembro de 2017

Espiritualidade | Comunhão | Catequeze | Evangelismo

Missões
Urbanas
Precisamos redefinir
o que é Evangelismo CAFÉ COM O BISPO
= Reverendíssimo Josep Rossello =

Muito já foi escrito sobre as missões nas cidades. As cidades se con-


verteram em grandes centros populacionais, e é onde a maior par-
te das pessoas do mundo vive hoje. Por isso elas são diversas, muti-
-culturais e dinâmicas. Isso requer de nós planejamento sobre como
apresentar o antigo evangelho de forma a ser compreendido dentro desse contexto.

Bispo, “O Báculo” fala esse mês de mis- centros populacionais, e é onde a maior parte
sões urbanas. Conte-nos um pouco de das pessoas do mundo vive hoje. Por isso elas
sua experiência pessoal. são diversas, multiculturais e dinâmicas. Isso
requer de nós planejamento sobre como apre-
Desde minha conversão sempre tive uma sentar o antigo evangelho de forma a ser com-
grande paixão por missões. Alguns meses após preendido dentro desse contextoa.
minha conversão participei de diversos traba- A Igreja do Novo Testamento estava em
lhos missionários em cidades de Euskadi e da contextos bem parecidos aos das cidades do
Catalunha. Porém, aqueles trabalhos não se en- Século 21, em diversos aspectos. Havia muita
quadrariam no que hoje chamamos de “missões liberdade religiosa, e muitas opções de fé. As
urbanas”. pessoas podiam mudar facilmente de uma reli-
Quando me converti, aos 20 anos de ida- gião para outra, de um culto para outro. Muitas
de, as primeiras igrejas evangélicas que encon- dessas religiões, aliás, traziam aspectos muito
trei estavam em cidades. No Estado de Valência próximos ao da narrativa bíblica, o que era um
(Espanha), não há igrejas evangélicas em todas complicador para a nascente fé cristã.
as cidades, e por isso eu precisava viajar no mí- Os primeiros cristãos foram capazes de
nimo duas horas para ir ao culto. Isso me fez responder aos desafios das cidades; assim esta-
considerar o contexto missionário no qual eu beleceram uma Igreja capaz de avançar, ainda
estava, e passei a buscar formas eficazes de res- que enfrentando perseguições e inimigos exter-
ponder aos desafios propostos por esse contex- nos e internos. Gosto de pensar que um de seus
to. Ainda assim as missões eram realizadas sem trunfos foi a unidade cristã em meio a diversi-
a reflexão teológica que hoje envolve o tema das dade da Igreja primitiva. Mas não gostaria que
“missões urbanas”, e sem considerar a grande o leitor tivesse uma visão romântica sobre esses
diversidade cultural que existe nas cidades do temas. Eles não converteram todo o Império
Século 21. Romano, nem é correto pensar que não havia
problemas nas congregações.
Que fundamentação bíblica e teológica o _______
senhor poderia dar para as missões em
centros urbanos? a
Dois artigos abordam o tema das missões ur-
banas nesta edição: O nascimento de uma igreja urbana
Muito já foi escrito sobre as missões nas (pág. 10), e Missões Urbanas (pág.15).
cidades. As cidades se converteram em grandes

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Assim, acredito que um dos concei- no Reino. O membro até ora, mas
tos mais interessantes para conside- não espera resposta - a menos que
rarmos as missões urbanas está na a resposta seja segundo sua própria
ideia da “Cidade de Deus”. A Igre- vontade. O membro escuta, assimila
ja de Cristo torna o Reino de Deus e reproduz o linguajar da Igreja, mas
visível entre os homens quando é não necessariamente compreende o
una, santa, católica e apostólicab. A que acontece diante dele. Ele aceita,
vida em comunidade, por meio da se acostuma e vive dentro de uma
Palavra e dos Sacramentos, é um cultura eclesiástica, acreditando que
dos atos mais revolucionários para isso define sua própria realidade es-
o Século 21. Não existe força mais piritual. É um erro comum, aceito
poderosa do que viver plenamente tácitamente em todas as denomi-
a fé em Cristo, pelo poder do Espíri- nações cristãs, porque, apesar de
to Santo, e para a glória de Deus, o falho, tal sistema assegura alguns
Pai. Isso explica porque que o Esta- resultados numéricos.
do teme a Igreja de Cristo, e vários Por outro lado, os discípulos
estadistas já tentaram ou tentam não necessitam do compromisso
impedir que ela seja uma presente com um “clube social”, mas sempre
encarnação de Jesus, o Corpo de compartilham o que Deus realiza em
Cristo, tendo Ele so por Cabeça. suas vidas. De modo simples, sem
necessariamente se valer de uma
O que dizer àqueles que acham agenda institucional, o discípulo en-
que evangelizar é trabalho de sina, compartilha e, o mais impor-
pastores e pessoas mais quali- tante, vive a realidade do Reino de
ficadas? Deus. Os cultos talvez não fiquem tão
cheios, a princípio, mas se estamos
Muito se fala de evangelismo, fazendo discípulos, estes certamente
porém há muita confusão a respeito. serão testemunhas vivas do Cris-
Precisamos redefinir o que enten- to. Este processo é mais demorado,
demos por evangelismo, rejeitando porém, mais interessante, autêntico
visões errôneas que causam tantas e duradouro. É também mais eficaz,
inseguranças e equívocos. Acima de porque os cristãos dos primeiros
tudo, é preciso dedicar mais tempo séculos mudaram a História da Hu-
para fazer discípulos e não meros manidade, e nem eram 10% de toda
membros de Igreja. Não é uma de- a população do Império Romano. No
cisão humanamente fácil, porque Brasil, somos cerca de 40% da pop-
“membros” preenchem os templos, ulação, mas ainda não conseguimos
suas vidas estão dentro de quatro fazer a diferença. Tem algo errado
paredes; já os discípulos esvaziam os nessa equação.
templos, pois sua vocação é encher a _______
Cidade de Deus.
Em outras palavras: o mem- b
Mais sobre as características
bro quer ir a Igreja, mas ele não quer da Igreja na revista Examinai! (Outubro
ser Igreja. O membro pode até entre- 2017), especialmente em Uma perspectiva
gar o dízimo, mas não quer trabalhar anglicana da Reforma (pág. 6).

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Novas vocaçoes na Inglaterra

Precisamos aprender a ser discípulos, e a Este ano a Igreja brasileira enviou mis-
discipular outros. E não falo de conhecimen- sionários para a Europa, como o irmão
to intelectual, coisa muito necessária, to- Jonatas Braggato. Qual a razão de ter um
davia, ser e fazer discípulo é muito mais do missionário em centros urbanos? A Euro-
que isso. É um estilo de vida único, formado pa precisa de missionários?
e conformado pelas Escrituras Sagradas, e
pela vida do próprio Cristo.
Enviamos um missionário para a In-
glaterra e outro para a Alemanha, e estamos
Que conselhos o senhor daria aos que precisando enviar um à Venezuela no próxi-
não se sentem preparados? mo ano, se Deus permitir.
Isso me faz lembrar o desafio que co-
loquei para a Igreja Anglicana Reformada
Seja você mesmo, compartilhe aquilo em seu primeiro Sínodo. Disse na época que
que Deus está fazendo em sua vida, e ore com esperava ver o dia no qual enviaríamos nosso
fé por aquelas pessoas que estão próximas a primeiro missionário. Era uma ideia bonita,
você. Muitas vezes sequer oramos por nossos mas creio que ninguém realmente acreditou.
colegas de trabalho, ou da Universidade, tal- Hoje, oito anos depois, temos dois missioná-
vez porque não acreditamos realmente que rios na Europa e seis Igrejas na Venezuela.
Deus possa responder as nossas orações. Ou Não é pouco, considerando que somos uma
porque nos sentimos indignos, imperfeitos, Igreja pequena.
ou sem preparo. E talvez tudo isso seja ver- E a única razão para enviar missio-
dade, mas ainda assim o Espírito Santo pode nários para qualquer lugar é sempre a mes-
usar ferramentas imperfeitas para transfor- ma: fomos chamaos a discipular as nações.
mar a vida das pessoas ao nosso redor E, sim, a Europa precisa ser re-evangelizada
Precisamos confiar mais em Deus, e no Século 21. Então, precisamos enviar mais
menos em nós mesmos. Não se trata de es- missionários, e aguardar grandes coisas para
tarmos preparados, mas de estarmos pron- Cristo.
tos para confiar que o Espírito de Deus pode
No Café com o Bispo da revista de Outu-
nos usar para a glória de Deus.
bro, o senhor disse que a Igreja está cres-
Evidentemente, não significa que não
cendo a Inglaterra. Há trabalhos de evan-
podemos nos preparar melhor, ler mais, es-
gelização na Free Church of England?
tudar mais, e até refletirmos sobre nossos er-
Pode compartilhar com a gente?
ros e acertos como evangelizadores. Em seu
devido lugar, tais coisas podem nos ajudar a
amadurecer e crescer cada dia mais. A Free Church of England, da qual so-
mos parte, tem feito um grande esforço na

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Europa para reverter a perda de membros, e com Cheguei ontem, e ainda estou processan-
isso começar a crescer novamente. do minha visita à Venezuela. Assim, tem muitas
A maioria das Igrejas cristãs na Europa coisas passando na minha cabeça, e as emoções
perde membros a cada ano, um fato inegável que ainda estão a flor da pele.
requer nossa atenção e nossas orações. Contudo, Falando objetivamente, nossa Igreja tem
a FCE está conseguindo mudar essa tendência, e crescido mais do que o esperado na Venezuela, o
tem crescido algo em torno de 10%, consideran- que trás também muitos desafios, como edificar
do o biênio 2015-2016. Os dados que consideram e discipular aqueles que estão chegando. Tenho
este ano só estarão disponíveis em 2018. a sensação de que o Senhor nos tem chamado à
É importante destacar que a FCE conse- Venezuela em um momento no qual existe uma
gue ser uma das primeiras Igrejas a mudar um verdadeira janela para o evangelismo por lá. O
processo aparentemente irreversível para muitas venezuelano é uma pessoa religiosa, e possui
Igrejas na Europa. Um milagre, levando em con- elementos cristãos em sua vida, mas precisa de
ta que a FCE possui poucos recursos humanos e conversão e discipulado na graça de Deus, e nas
financeiros, ao contrário de outras muito maio- verdades da Palavra de Deus.
res. Infelizmente, tive a desagradável surpresa
Este processo de revitalização tem sido de encontrar igrejas neo-pentecostais brasileiras
possível graças a renovação da liderança, que aprontando das suas também na Venezuela. Mas
tem recebido ministros mais jovens nos últimos constatei uma grande presença luterana, o que
anos. Sem novas vocações, a Igreja não pode so- foi bastante inspirador. Encontrei apenas uma
breviver. Além disso, outros fatores presentes Igreja presbiteriana.
nessa revitalização são: um compromisso claro Uma das coisas mais impactantes é ver as
com o Evangelho, e o desejo firme de manter a fé pessoas nos abordando nas ruas, pedindo ora-
da Igreja na Palavra de Deus. No final de Outu- ções, palavra de conforto, e perceber pessoas
bro, a Igreja plantou uma nova Igreja no Sul da sendo transformadas pela proclamação e ensino
Inglaterra, e planeja plantar outras nos próximos da Palavra de Deus - verdadeiras conversões!
anos. Além disso, as paróquias já existentes bus- Sobre as nossas Igrejas, a maioria delas
cam e almejam avivamento. estão fora dos centros urbanos, porém, temos um
maravilhoso projeto sendo empreendido em Ca-
racas, e há conversações sobre outros em outras
O senhor acaba de retornar da Venezuela. cidades. Tudo no tempo de Deus.
Conte-nos como foi. Lá os trabalhos são
mais urbanos ou estão afastados dos gran-
des centros?

“Nossa Igreja tem crescido mais do que o es-


perado na Venezuela, o que trás também mui-
tos desafios, como edificar e discipular aqueles
que estão chegando. Tenho a sensação de que
o Senhor nos tem chamado à Venezuela em um
momento no qual existe uma verdadeira janela
para o evangelismo por lá”.

Bispo Josep Rossello

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Uma crônica anglicana
n o M e t r ô d a S é

Rev. Marcelo Lemos

- Eu sei que você é casado!- começou o bêbado; - Meu jovem, não gosto de você; se soubesse do
mesmo que você não me tenha dito nada. que sou capaz, dos poderes de Ogum...

Um sorriso insípio deve ter sido flagrado no meu Cá entre nos? Hoje eu não ficaria incomodado
roto. Ele insistiu: com tanto “jovem” pra lá, “jovem” pra cá. Deve
ser coisa da idade. Confesso que as vezes sinto
- Você tem curiosidade de saber como isso é pos- falta do tempo em que estranhos me tratavam
sível? por “jovem” e não por “senhor”. “Senhora tá no
céu”, me dizia uma tia, sem que eu entendesse
- Não; respondi. o profundo significado existencial dessa bronca.

Estava bem pouco interessado em abandonar - Nâo tenho medo de Ogum; respondi.
meu jogo de xadrez no celular por causa da intro-
missão do estranho. Um estranho bêbado? Dis- - É. Você tem cara de Evangélico!
penso. Mesmo assim respondi, já imaginando o
rumo que ele desejava dar a conversa: - Honestamente? Preferia ter cara de cristão.

- De qualquer modo, acho que é para isso as pes- - De que Igreja você é?
soas usam alianças, não?
- Eu sou anglicano.
- Meu jovem, você tem a mente muito fechada –
retrucou o rapaz, com ar indignado. Mas, deixa - Que coisa é essa?
estar, um dia desses Ogum aparece para você, e
tudo muda. Sim, meu jovem, eu sou de Ogum… - Hum… O termo anglicano vem de “Igreja da In-
Toda sexta eu sacrifico para Ogum… animais, glaterra”. Já ouviu falar?
sabe?… É por isso que eu sei que agora tua esposa
está em casa, esperando por você… - Realmente eu não gosto... Além de ser chato,
ainda vem com essa Igreja onde só entra rico!
Não havia esposa em casa. E devo ter feito uma
cara zombeteira, ou dado outro sorriso aguado, - Eu não sou rico...
pois o rapaz disse algo como:

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- O que você faz numa igreja de rico - Fiquei bebado com meu dinheiro,
então? que você tem com isso?

- Foi você quem disse que somos uma - Não estou reclamando. E também
igreja de ricos, não eu! aprecio uma cerveja vez ou outra,a
diferença e que aprendi com Cristo a
- Hum… Vocês pregam o que? não ser dominado por coisa alguma.

- Que Cristo veio ao mundo salvar os - Sabe, se um dia eu tiver um amigo


pecadores. evangélico que me aceite como eu sou,
que não fique se fazendo de melhor
- Salvar os pecadores! Crente se acha que eu, viro crente na hora!
melhor que os outros!
- Serve eu?
- Eu não. Por isso sou cristão: sei que
sou pecador, e que apenas em Cristo - Você é an.gli.ca.no - retrucou o bê-
encontro salvação para minha alma. bado; enfatizando o predicado. E você
não é meu amigo. TCHAU!
- (...) ficam dizendo para eu parar de
tomar minha cerveja, e largar meu ci- O rapaz levantou-se e sumiu na mul-
garro, como se isso fosse me fazer uma tidão.
pessoa melhor.
Do banco de concreto no hall do Me-
- Eu não disse nada disso. E não é ver- trô, podia contemplar a parte vísivel
dade que parar com qualquer dessas da torre da Catedral da Sé. Xeque-ma-
coisas possa te fazer uma pessoa me- te para o Android, avisou o celular.
lhor. Não podemos fazer nada para Meio incrédulo sobre aquela conversa
nos tornarmos melhores, e é por isso um tanto surreal, me perguntei se po-
que precisamos de Jesus. deria ter feito aquela conversa render
um pouco mais. Um pouco mais de
- Muita gente disse... compassividade. Um pouco mais de
Cristo. Um pouco mais de evangeliza-
- Não eu. ção.

- Mas a maioria diz! Se o visse novamente, talvez o convi-


dasse para um churrasquinho grego
- Eu poderia te julgar pela maioria dos ali perto, num dos calçadões do Cen-
bêbados, mas até que nossa conversa tro Velho. Se bem que ele iria preferir
tá divertinda, não? Mesmo assim, você uma gelada.
está me julgando por outros crentes
que você diz que conheçeu.

Diretor Geral: Reverendíssimo Bispo Josep Rossello. Editor Chefe: Marcelo Lemos (Registro: MG08183JP). Conse-
lho Editorial (2017-2018): Bispo Josep Rossello (SP), Marcelo Lemos (MG), Rev. Diego de Araujo Viana (RJ), Dr. Gui-
lherme Braun Jr (Alemanha). Projeto Gráfico: Marcelo Lemos. Colaboraram nesta edição: Bispo Josep Rossello,
Ricardo (Rika) Ramos, Rev. Jorge Aquino, Rev. Marcelo Lemos, Rev. Regis Domingues. VOCÊ TAMBÉM PODE AJUDAR ESTE
PROJETO A CRESCER ENVIANDO FOTOS, ARTIGOS, COMENTÁRIOS, PERGUNTAS (marcelolemosramos@gmail.com).
Esta publicação está comprometida com os formulários anglicanos, e adota a Declaração de Princí-
pios da Free Church of England, também chamada no Brasil por Igreja Anglicana Reformada do Brasil.
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SOBRE O ANGLICANISMO REFORMADO? ESCREVA PARA NOSSO ESCRITORIO NACIONAL: contato@igrejaanglicana.com

O Báculo | Página 07
Web
Evangelismo Você já pensou em ser um evangeli-
zador digital? Você tem contribuído
para que a visão missionária da sua
Igreja chegue até as pessoas? Veja al-
gumas dicas que podem te auxiliar.

Um dos anglicanos mais influ- que em 50 anos, ele tenha per-


êntes da história foi o pregador corrido 400 mil kilômetros e
John Wesley. Evangelísta por pregado 40 mil sermões, numa
natureza, e movido por uma média de 800 sermões por ano.
paixão incendiária pela salva-
ção dos homens, John e seu Hoje, não apenas os meios
irmão Charles percorreram a de transporte evoluíram,
Inglaterra anunciando as bo- como também os métodos
as-novas - o que, para eles, in- de comunicação disponíveis.
cluia a justificaçao pela fe, uma
vida transformada pela Graça, A mídia digital transformou o
e ainda uma mensagem profe- mundo nos últimos 15 anos. Com
tica de transformaçao social. mais de 3 bilhões de pessoas na
rede, e mais de 5 bilhões que se
Sofrendo resistência por parte conectam ao mundo por meio de
da liderança da Igreja, os irmãos celulares, uma verdadeira revo-
Wesley organizaram pequenas lução na forma como nos comu-
sociedades e classes de estudo nicamos aconteceu. E a evolução
dentro da Igreja da Inglaterra, continua. Para a Igreja á uma Percorrendo a Inglaterra
que eram lideradas por cristãos ótima oportunidade, pois abre em seu cavalo, o Rev. John
leigos e igualmente apaixona- um novo campo missionário. Wesley recebeu o apelido
dos. O avivamento wesleyano es- de Cavaleiro de Deus.
palhou-se por toda a Inglaterra, Você já pensou em ser um evan-
e por diversas partes do mundo. gelizador digital? Você tem con-
Para dar conta do trabalho de tribuído para que a visão missio-
evangelização, Wesley percorria nária da sua Igreja chegue até as
o país montado em seu cavalo, e pessoas? Compartilhamos algu-
isso lhe rendeu o apelido de “O mas dicas que podem te auxiliar.
Cavaleiro de Deus”. Estima-se

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Seja sociável com as pessoas.

Devido a distância e o anônimato é tentador se deixar levar por contendas online, espe-
cialmente nas redes sociais. Muitas vezes usamos mais tempo para tentar provar nossos
pontos de vistas do que evangelizando e acolhendo as pessoas. Defenda seus pontos de
vistas, e defenda sua fé, mas não se esqueças de que apenas o Espírito Santo pode con-
vencer as pessoas.
Você sabia? O Bispo Josep Rossello publicou um vídeo chamado “Dez Passos Prá-
ticos Para o Evangelismo”. Assista e divulgue o link: https://www.youtube.com/wa-
tch?v=ECvA_yIXWxY

Seja estratégico.

Você, sua paróquia ou seu grupo de evangelização precisam ser estratégicos. Um ditado
popular diz que para quem não sabe onde quer chegar qualquer caminho serve. Fuja do
improviso, tenha sempre os seus alvos claros. Talvez seja útil dedicar um período pu-
blicando memes, artigos e devocionais sobre família, outro período sobre os distintivos
anglicanos, e um terceiro sobre o Plano da Salvação. Planeje com antecedência, pesquise
e produza material de fácil compreensão, e divulgue.

Você sabia? O Google é a mais popular e influênte ferramenta de buscas da inter-


net. A empresa usa “robôs” digitais que analisam e classificam os sites com base em
diversas informações como a qualidade dos textos e a quantidade de acessos. Se você
acessa, permanece mais que alguns minutos no site, e divulga os links publicados
pela Igreja, está contribuindo para melhorar a classificação dos mesmos pela ferra-
menta de busca.

Divulgue materiais da Igreja.

Se sua Igreja disponibiliza material de formação espiritual, ajude a divulgar. Se você


é anglicano conhece os sites oficiais da Igreja, bem como os blogues e sites afiliados.
Leia-os, e divulgue entre seus amigos online. O mesmo vale para as publicações, como a
Revista O Báculo, bem como as demais literaturas do site oficial - por exemplo, os ser-
mões do Bispo Jossep Rossello.

Produza material.

Se você gosta de escrever, escreva. Se você gosta de cantar, cante. Se gosta de com-
por, componha. Talvez você tenha talentos para criar memes e postagens inte-
ressantes, dedique-se a isso. O fato é que todos possuem talentos próprios, dados
pelo próprio Deus. Use seus talentos para falar do amor de Cristo pelas pessoas.
Um dos benefícios das redes sociais é que elas permitem que todos possam com-
partilhar suas ideias com o mundo através dos meios mais diversos!
Você sabia? O Bispo Francisco Buzzo, da Igreja Anglicana Reformada em Bragança
Paulista, dedica boa parte de suas interações no Facebook à divulgação de pequenas
mensagens baseadas nos Credos e nos formulários anglicanos, como os 39 Artigos.
Trata-se de uma maneira simples e eficiênte de divulgar a identidade anglicana e
falar do amor de Cristo para as pessoas.

O Báculo | Página 09
O nascimento de uma Igreja urbana.
Um exame de caso: A igreja em Filipos (At 16:11-34)

Rev. Jorge Aquino

Quando estamos tratando de missões ou de implantação de igrejas,


imediatamente aparecem aquelas pessoas cheias de boas intenções
dizendo possuírem a resposta para todos os nossos problemas. Eles
juram possuir “o” método infalível para implantar igrejas e faze-las
crescer. Normalmente estes métodos são acompanhados de um “man-
ual de instrução” que explicam “passo a passo” como se faz para que
uma igreja possa nascer e crescer. As “formulas” para o crescimento
das igrejas estão espalhadas por toda parte e em qualquer boa livraria

Lendo as Escrituras, contudo, entendemos que não existe um


método do tipo “acrescente água e agite”, para fazer missões e im-
plantar igrejas. Muito pelo contrário, a leitura do Novo Testamento
nos revelará muitas experiências diferentes e absolutamente próprias
que revelam uma grande diversidade de realidades e de circunstân-
cias nas quais as igrejas neotestamentárias foram implantadas. Com
este texto pretendo estudar apenas um desses casos: o caso Filipos.

O Báculo | Página 10
Segundo as opiniões mais correntes, Paulo esta- tar” antes de usar. Não pretende ser um mode-
ria em torno do ano 50. Está acompanhado de lo único nem rígido. Contudo é um modelo ex-
Silas, Timóteo e Lucas, seus ajudantes na sua tremamente significante e relevante para quem
segunda viagem missionária. Eles acabaram de quer pesar a pastoral urbana nos dias atuais.
passar pela Ásia Menor e agora estão chegan- Estes elementos podem muito bem ser iden-
do à região conhecida como Macedônia, uma tificados com a “cara” desta igreja nascente.
região com status de colônia às margens da es- E como sabemos, todos se interessam em ver
trada Egnátia. Esta região era conhecida porque com quem se aprece o bebê recém-nascido. Sa-
era habitada por muitos militares aposentados, ber como é a “cara” da criança pode nos ajudar
o que nos leva a crer que o culto ao imperador a descobrir pistas relevantes para nosso tra-
era uma prática muito forte na região. Esta re- balho missionário. Neste texto encontramos
gião era também conhecida por ser muito rica pelo menos três elementos importantes que
nas chamadas “religiões de mistério”, que ca- caracterizam o nascimento desta novel igreja.
racterizou fortemente a cultura grega e a romana.

As Escrituras nos dizem que eles “Tendo, pois, na-


vegado de Trôade, seguimos em direitura a Samo-
trácia, no dia seguinte, a Neápolis e dali, a Filipos,
cidade da Macedônia, primeira do distrito e colô-
nia. Nesta cidade, permanecemos alguns dias” (At
16: 11, 12). O doutor Donald Turner nos diz que
Filipos era uma cidade política mais do que co-
mercial, e havia nela um número muito reduzi-
do de judeus. Não tinha sinagoga, mas um lugar
perto do rio onde os judeus costumavam congre-
gar-se aos sábados para orar. Era seu costume fa-
zer um edifício chamado “proseuchae”, à beira do
mar ou de um rio, para ter água para os ritos de
lavagem das mãos, etc., que era um dos requisitos
na preparação para a oração. [...] Em vez de se po-
rem em pé para fazerem um discurso, sentaram-
-se como mestres para ensinar, e conversaram
com as mulheres (sic) (TURNER, 1989, p. 217).

No texto de Atos 16 o que temos é o registro do


nascimento de uma nova igreja fruto do traba-
lho missionário do apóstolo Paulo. Entre os
versos 11 e 34 é possível observar alguns ele-
mentos importantes que podem servir de orien-
tação para todos aqueles que pretendem im-
plantar uma nova igreja em uma região urbana.
Sabemos pelas Escrituras que Paulo é um mis-
sionário criativo e experiente. Depois de obser-
varmos todas as suas viagens missionárias po-
demos afirmar que em sua experiência, Paulo se
revelou bastante flexível e criativo, adaptando-
-se a cada circunstância como ela assim exigia.
O texto em questão não pretende ser apresen-
tado como um “modelo” ou como uma “receita”
onde apenas temos que “acrescentar água e agi-

O Báculo | Página 11
A Igreja Nasce em meio à Gente Simples
Esta é uma igreja que nasce em meio a gente sim- surpresos. Os versos 14 e 15 nos dão conta que ela era
ples. Paulo (v.13) procura encontrar um grupo de , alem de temente a Deus e prestativa aos apostolos,
mulheres. Naquela sociedade, a mulher era encara-
da como uma res ou uma “coisa”. Algo que perdeu 1) mulher;
todo referencial de pessoalidade e de personalidade.
2) migrante, vinda da cidade de Tiatira;
Aquelas mulheres estavam reunidas em um “lugar de
oração”. Sabemos que as mulheres eram impedidas por 3) trabalhadora, vendia púrpura;
lei de cultuar nas sinagogas (que para existir bastaria a
presença de 10 homens) por serem consideradas impró- Em nossa sociedade urbana encontramos hoje uma
prias para aquela reunião. No entanto, questionando as multidão de pessoas abandonadas, sofridas, oprimi-
normas estabelecidas, e dando vazão às suas necessida- das pelas mais diversas angustias. O desemprego, a
des de oração e de contato com o sagrado, elas teimam enfermidade, a condição sexual, a cor da pele, o grau
em buscar um lugar onde possam orar em comunidade. de escolaridade, etc. tudo isto tem se tornado cau-
sas de mais dor e mais exclusão. Se pretendemos se-
Era um lugar que “fora da cidade”. As cidades da época guir o mesmo caminho trilhado por Paulo na criação
eram construídas na busca, acima de tudo, da seguran- de uma igreja urbana, precisamos estar dispostos e
ça. Por isso eram edificadas dentro de fortes e robus- prontos a atender uma gama enorme de “dores” exis-
tos muros. Aquelas mulheres tiveram que sair da segu- tenciais que têm afligido nosso povo. Dores que não
rança dos muros, tiveram que buscar a periferia para saem nem desaparecem por medidas paliativa ou com
poderem adorar. Foram onde moravam os excluídos, coreografias, angustiam que não se dissolvem com
os esquecidos, os que não eram considerados cidadãos. “palavras mágicas” nem ao “estalar dos dedos”. É pre-
ciso que desenvolvamos um coração de pastor. É pre-
Interessante perceber que, diante da pregação de Pau- ciso que tenhamos em nossos missionários urbanos
lo, o “coração de Lídia” se abre para receber a Palavra a mesma paixão e o mesmo carinho que havia no co-
de Deus. Lídia é conhecida como a primeira cristã da ração do Cristo e que o fez encarnar e ser um de nós.
Europa. E a forma como a Biblia a descreve nos deixa

A Igreja Nasce em Meio ao Conflito


O texto nos fala de uma “jovem possessa de espí- Paulo, contudo, é visto neste texto (v. 18) como
rito adivinhador, a qual...dava grande lucro aos aquele que é usado por Deus para libertar a jo-
seus senhores” (v.16). Um perfeito exemplo de vem menina das garras da alienação. Nos diz a Bí-
uma pessoa alienada. Ela era um retrato da socie- blia que Paulo repreende o espírito “em nome de
dade de Filipos. A relação existente entre a posses- Jesus”. “Jesus” é o nome que está acima de todos
são e a alienação é marcante. Em ambos os casos a os outros nomes. “Jesus” é o nome que relativi-
pessoa está sendo possuída por um outro ser; em za e destrói todos os poderes iníquos e injustos.
ambos os casos a pessoa perde sua capacidade de
agir livremente; em ambos os casos a pessoa per- O segundo conflito descrito aqui é resultado do pri-
de a sua consciência e passa a não ser mais respon- meiro. Ao ver a menina liberta, o sistema organiza-
sável pelos seus atos. Aquela era uma sociedade do se mobiliza para prender Paulo (v.19). Na socie-
desigual onde uns lucravam às custas da escravi- dade de Filipos o sistema de exploração funcionava
dão dos indefesos: mulheres, jovens, crianças, etc. muito bem. Alguns exploravam e outros legitima-

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vam a exploração e punia qualquer ação libertado- ele não se manifestou no palácio de Herodes
ra. Aquela era uma sociedade voltada apenas para na forma de um imperador sanguinário, mas
o TER e não para o SER. Ninguém se alegrou com em uma estribaria em Belém, na forma de uma
a libertação da jovem, ninguém manifestou agrade- criança. E mesmo sendo apenas um recém-
cimento pelo que o Evangelho fez na vida daquela -nascido, ela já desestruturava os reis da terra.
jovem mulher, mas todos perceberam algo funda-
mental: a “esperança do lucro” (v. 19) se desfez. Ninguém, nem o Estado, nem uma doutrina,
Imediatamente a acusação foi feita. Paulo e seus nem qualquer ditador, pode exigir poder supre-
companheiros eram acusados de “perturbar a cida- mo ou obediência absoluta, porque o cristão só
de”. (v. 20) Os missionários agora são vistos como adora e só serve a um Deus: Jesus. Toda a for-
desordeiros, perturbadores da “paz” e da “tranqüi- ça maligna que oprime e que dirige a sociedade
lidade” da “ordem” estabelecida. O resultado deste deve ser relativizada pelo poder e pelo exemplo
conflito é que os missionários são “açoitados”, lan- de Jesus. A Boa Nova deste texto é que somen-
çados na prisão e colocados “no tronco”. (v.23, 24) te o poder do Evangelho pode libertar o homem
do poder alienador das ideologias, do consumis-
Quando o Reino de Deus irrompeu entre nós, mo, do individualismo e dos sistemas opressores.

A Igreja Nasce como resultado do Testemunho


O texto ainda nos conta algo extraordiná- com normalidade o anúncio de Jesus Cristo. A diferença
rio que acontece com aqueles que anun- entre um discípulo engajado e um membro regular de
ciam as boas-novas. Presos e açoitados, esta- nossas comunidades é que os discípulos falam de Cristo.
vam “orando e cantando louvores” (v.25) por
volta da meia-noite quando sobreveio um terremo- Há inúmeras pessoas aprisionadas em seus dilemas e que
to que quebrou as correntes e eles ficaram livres. freqüentam nossas salas de aula, nosso ambiente de tra-
balho ou o lugar onde nos divertimos. Elas estão lá, sós,
Prevendo que seria morto por permitir a fuga dos isoladas, mendigando uma palavra de apoio, um ombro
prisioneiros, o guarda da prisão faz um movimen- amigo, a compreensão de alguém, e é neste momento
to que prepara seu suicídio. Imediatamente vemos que o Evangelho de Cristo pode fazer toda a diferença.
a reação de Paulo: “não te faças nenhum mal, to- Paulo e Silas estavam lá onde os sofridos estavam e foi lá
dos estamos aqui” (v.28). Além de reagir com com- mesmo que os cânticos e as orações foram ouvidas. Os
paixão diante de um possível suicídio, Paulo apre- discípulos, ao invés de fazerem coro com o lamento dos
senta uma resposta para a maior pergunta daquele demais, aproveitam a oportunidade para evangelizar.
homem. Diante da questão de seu interlocutor:
“que farei para me salvar?” . Paulo respon- Pessoas envolvidas e motivadas com a missão são mais
de: “Crê em Jesus Cristo e tu e tua família será salva”. eficazes do que qualquer método que os “especialis-
tas” possam apresentar. Isto, obviamente, nos deve
Aquele carcereiro, acostumado a tortura e fazer sof- parar para pensar em que tipo de missão e pastoral
rer a todos os prisioneiros que lhe eram entregues, estamos desenvolvendo nas cidades. Que tipo de mis-
agora passa a cuidar de Paulo e a lavar as feridas dos sionários estão sendo enviados para elas? Neste texto
açoites. A seguir, diz a Bíblia, “ele e todos os seus foi de Atos encontramos um exemplo de criação de uma
batizado”. (v. 33) O algoz se transforma em mem- igreja urbana em contexto de crise. Nossas cidades
bro da família. O torturador manifesta arrependi- não são tão diferentes, mas elas precisam de pessoas
mento e se transforma em irmão do torturado. As- que sejam capazes de abraçar a todos os “excluídos”
sim é a mudança de vida que é operada por Jesus. dos sistemas religiosos, enfrentar todos os conflitos
necessários para assistir pastoralmente as pessoas e
Neste texto aprendemos que a igreja tem que encarar anunciar a mensagem de reconciliação e de perdão.

O Báculo | Página 13
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Ordenação em Holy Trinity, de mãos para o ministério pres-


Oswaldtwistle. biteral. Dentre o clero presen-
te na ordenação, destaque para
Em 28 de outubro de 28, An- o Rev. John Taylor, sob o qual
thony Roberts foi ordena- Anthony serviu inicialmente.
do aos presbiterado na paró-
quia da Santíssima Trindade, Em seu sermão, o Bispo John
com a presença do Bispo John sublinhou como o ministério de
Fenwich, da Diocese do Norte. um presbítero deve ser basea-
do no ministério triplo de Je-
Anthony havia servido na paró- sus, como Profeta, Sacerdote e
quia por um ano como diácono, Rei. A ordenação foi seguida por
recebendo agora a imposição um buffet de almoço para todos.

Venezuela para Cristo!


O trabalho da Igreja no país tem
O Bispo Josep Rossello esteve em sido ricamente abençoado pelo
Novembro realizando uma viagem Senhor, saltando de 1 para 9 con-
missionária à Venezuela. Com o gregações em menos de dois anos.
lema “Venezuela para Cristo”, o
Bispo realizou visitas pastorais, Em entrevista à edição do Báculo
batismos, confirmações e trei- deste mês o Bispo comenta mais
namentos para a liderança local. sobre as missões no País vizinho.

Qual a sua motivação missio- Dentre os temas abordados, o li-


nária? vro alerta sobre o perigo de se fa-
zer missões baseado nos desejos
Vale a pena destacar que na seção pessoais, “a tentação de buscar
“Livros do Bispo”, que você pode estabelecer uma igreja forma-
encontrar no site oficial da Igreja da de pessoas que sejam como
no Brasil (www.igrejaanglicana. nós, sem perceber que isto é ra-
com.br), há bastante literatura dicalmente contrário às próprias
sobre missões temas correlatos. Escrituras (1 Coríntios 10,32;
Um dos destaques é o livro Qual a Gálatas 3,28) e à catolicidade da
sua motivação missionária, publi- Igreja (Apocalipse 7,9)” (pág. 5).
cado pela Igreja em parceiria com
o Projeto Castelo Forte. Este livro Se você deseja ser um missio-
é a transcrição de uma mensagem nário urbano acesse também
pregada pelo Bispo Josep Ros- obras do site como Igreja: uma
sello em 16 de Junho de 2016, na comunidade missionária, Li-
Igreja Anglicana do Vale do Pa- derança Cristã e Transfor-
raíba, em São José dos Campos. mados pelo Espírito Santo.

O Báculo | Página 14
Missões Urbanas
Rika Ramos

Em A sociedade do Anel, livro de J.R.R Tolkien, “Empenhai-vos pela prosperidade(Paz) da cida-


a rainha do Elfos, Galadriel, interpretada no fil- de, para onde vos exilei, e orai ao SENHOR em
me homonimo pela atriz Kate Blanchet, tem favor dela; porque a prosperidade (Paz) dela
uma fala icônica a respeito das mudanças acon- será a vossa prosperidade (Paz)”. Jeremias 29.7
tecendo na Terra Media. Ela diz para Frodo:
Esta é uma palavra proferida pelo profeta a um
“O mundo esta mudando. Sinto isso na povo no exílio. Estavam em uma nação estranha,
água. Sinto isso na terra. Sinto isso no ar.” em meio a um povo geralmente hostil. Ainda as-
sim, Deus ordena que buscassem a paz da cidade.
Trazendo a frase para nossa realidade, as mu- Hoje, de modo geral, as pessoas a nossa volta não
danças em nosso contexto se fazem presentes estão encontrando paz e prosperidade nos cen-
em nosso dia a dia, quando sairmos de casa para tros urbanos. E assim como a geração de Jere-
ir para a escola ou ao trabalho. Sim! Muitos so- mias tinha uma missão a realizar na cidade, as
mos missionários bi-vocacionados! Costumo missões urbanas atendem ao mesmo chamado.
dizer que sou um missionário urbano, e com o
trabalho secular sustento minha familia. A ideia Quando o Senhor fala pela boca de Jeremias pelo
de que missionário é só aquele que sai das cida- empenho em prol da prosperidade (ou da Paz,
des, de seu país, para evangelizar tribos e na- como se lê em algumas traduções), vemos clarama-
ções distantes não diz tudo sobre o que é fazer nente que o Senhor é preocupado com as pessoas!
missões. Há missão a ser feita na sua rua, no
seu colégio, no seu trabalho, na sua faculdade...E vale ressaltar que as pessoas que estavam no
exílio juntamente com Jeremias, estavam na-
Tudo isso num mundo em constante mudança, e quela situação por seus próprios pecados. Cada
que passa sempre em ritimo acelerado. Olhamos uma delas experimentava o juízo, a correção
em volta e nos deparamos com várias pessoas em de Deus, sem que Deus deixasse de se impor-
suas mais diversas ocupações, dos estudos ao la- tar com o seu bem-estar. Interessante, não?
zer. E sabemos que cada uma delas tem uma his- Hoje o povo de Deus também está em exí-
toria de vida própria, uma jornada pessoal rumo lio. Cidadãos dos céus, não da mundo. Como
à fé, com experiências boas e outras amargas. nos dias de Jeremias, há motivos de lamen-
tação, pois percebemos que os pecados es-
Mas, o que isso tem a ver com missões urbanas? tão incrustados em nossos corpos e mentes.

O Báculo | Página 15
Como Igreja de Cristo, vivendo em selvas de pe- em nosso dia a dia? Quantas pessoas com fome
dra, concreto e aço, devemos nos empenhar em existe em nossas cidades, talvez na casa vizinha?
viver o evangelho de Cristo nesta terra. O desafio
é a sinalização do Reino de Deus no aqui e agora, Mas, missões urbanas falam apenas de proble-
tornando-o visível entre os homens. O desafio in- mas sociais e econômicos?
clui algumas questões importantes, por exemplo:
como apresentar Deus a um homem sem Deus? A minha resposta é não! Missões urbanas é muito
mais que isso. Quando o versículo fala sobre fome,
Então, dê uma espiada em Mateus 25:35-40: sede, nudez e presões, está falando de cada ser hu-
mano com suas mazelas, inclusive as mazelas do
“Porque tive fome, e me destes de comer; tive Século XXI, como a depressão, o estress, dentre
sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me outras. Neste sentido, podemos conhecer pessoas
acolhestes; precisei de roupas, e me vestistes; es- que estando em seus palacetes tavez se sinta piores
tive doente, e me visitastes; estava na prisão e do que aquela pessoa que encontramos pelas ruas.
fostes visitar-me. Então os justos lhe pergunta-
rão: Senhor, quando te vimos com fome e te de- Nós, como igreja, devemos ser os olhos e os
mos de comer, ou com sede e te demos de beber? ouvidos de Deus nesta terra; temos o dever
Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, de mostrar as boas novas da salvação à todos,
ou precisando de roupas e te vestimos? Quando te sem exceção, pois todos estamos doentes e pre-
vimos doente, ou na prisão, e fomos visitar-te? E cisamos do médico dos médicos, Jesus, úni-
o Rei lhes responderá: Em verdade vos digo que co capaz de restaurar nossa vida e nossa visão.
sempre que o fizestes a um destes meus irmãos,
ainda que dos mais pequeninos, a mim o fizestes”. Missões urbanas são um dever para nós. É
um chamado que Deus colocou em nossos co-
Quantas vezes nos deparamos com estas ex- rações, a fim de que possámos ser gratos e de-
periências em nossa volta? Quantas vezes nos dicaros a JESUS - sim, dedicados e gratos, por
deparamos com pessoas morando debaixo de cada batida de nosso coração, porque por mim
marquises, viadutos, nos banco das praças? e por você, o DELE parou de bater no Calvário.
Com 1uantos usuários de drogas ‘trombamos’

Por que plantar Igrejas?


Rev. Regis Domingues

O ato de plantar é uma figura de linguagem utilizada pelo to de Jesus (Mt 28:19). E, assim, edificar uma Igreja Sau-
apóstolo Paulo para exemplificar o início e o desenvolvi- dável, voltada muito mais à maturidade espiritual do que
mento da Igreja em Corinto. Plantar uma igreja requer uma ao crescimento numérico local, até porque o objetivo de
dedicação missionária, onde é necessário semear (em mui- Jesus sempre foi o envio, para multiplicar e não represar
tas passagens bíblicas semear é comparado ao pregar a pa- (At 1:8). O crescimento numérico é desejado sim, mas des-
lavra de Deus, anunciar as Boas Novas), cultivar e aguardar de que esse se espalhe em caráter missional e, assim, os
que Deus dê o crescimento. E aqui não nos referimos ao discípulos se reúnam em torno da pessoa de Jesus Cristo
crescimento número, mas sim ao crescimento em estatura e não de uma personalidade carismática qualquer. Plan-
espiritual. O crescimento numérico pode ocorrer sim, e é tar Igrejas, e essas saudáveis, é o plano original de Deus
muito desejável, mas a prioridade de Deus é que cada um para o seu povo, dando continuidade à Missão de Deus.
de nós cresçamos em amor (1 Ts 3:12), cresçamos na graça e Dessa forma podemos dizer que uma Igreja saudável é
no conhecimento de Cristo (2 Pe 3:18) e por fim cheguemos a reunião de pessoas alcançadas pela graça irresistível
à maturidade, a estatura da plenitude de Cristo (Ef 4:13). de Deus em Jesus Cristo, independente de estatísticas,
números, publicidades e local. E creio firmemente que
Ao plantarmos uma Igreja temos como propósito reunir o avivamento que tanto almejamos para a Igreja hoje
pessoas à caminhada do discipulado e cumprir o manda- está nos aguardando na plantação de Igrejas saudáveis.

O Báculo | Página 16
NA ESCOLA DOS PRIMEIROS CRISTAOS

Rev. Marcelo Lemos

Justino Mártir e o Velho.


Quem deve fazer missões? Quem é res- “Meu espírito foi incendiado imediatamen-
ponsável pelo trabalho de evangelismo? te, e o amor pelos profetas e pelos díscipulos
Que conceitos e tradições emperram nosso traba- de Cristo se apoderou de mim. Enquanto refle-
lho de evangelização nos dias atuais? Talvez a cren- tia sobre as palavras [daquele velho], desco-
ça de que evangelizar seja tarefa para pessoas es- bri que ela era a única filosofia segura e útil”.
pecializadas? Ou a tendência de deixarmos que os
“grupos de missões” façam o trabalho? Quem sabe a Não sabemos quem era aquele velho cristão. Um
ilusão de que os chamados “cultos de missões” seja pastor? Um leigo? Um profeta? Provavelmente nem
todo o necessário para acalmar nossa conciência? o próprio Justino veio a conhecer sua identidade,
uma vez que não a registrou. E isso é simplesmente
Na Igreja dos primeiros séculos a evangelização era maravilhoso. Um completo anônimo, avançado em
tarefa de todo cristão, sem excesões: apóstolos, mis- idade, usado por Deus para levar um dos grandes
sionários, diáconos, presbiteros, bispos, escravos, filósofos de seu tempo aos pés do Salvador. Justino
mulheres, soldados... E não viam a pregação das Boas renunciou sua busca pelas filosofias do mundo, abra-
Novas como algo de “profissionais”, ou que preci- çou o Evangelho, e dedicou o resto de sua vida ao tra-
sasse de métodos alinhados com a última moda em balho de evangelização. Por fim, foi martirizado pelo
comunicação social. Entendiam que cada cristão ti- Império Romano por se negar a abandonar Jesus.
nha sobre si o poder do Espírito Santo para anunciar
o Evangelho ao mundo, não apenas com palavras, Isto serve como terrível exortação para a Igre-
mas também através de seu testemunho de vida. ja de nosso tempo. Uma exortação presente há
500 anos no Livro das Homilias, um dos for-
Isso explica como um simples e anômino an- mulários anglicanos. No sermão sobre a des-
cião evangelizou um dos maiores icônes do cris- cida do Espírito Santo em Pentecostes lemos:
tianismo primitivo. Justino era um filósofo bem
treinado e capaz. Sabia sobre todas as escolas fi- “O Senhor”, disse Isaías, “me deu uma língua eru-
losóficas de seu tempo, e dedicara sua vida in- dita, para que eu saiba dizer, a seu tempo, uma
teira a busca da verdade. Porém, convencido de boa palavra ao que está cansado” (Isaías 50, 4). O
que não era capaz de encontrar a verdade última Profeta Davi clamou por este dom, dizendo: “Abre,
das coisas, um abatido e cansado Justino decide Senhor, os meus lábios, e a minha boca entoará o
passar um tempo em isolamento, num lugar so- teu louvor” (Salmos 51, 15). Nosso Salvador Cris-
litário e de frente para o mar. Imaginava assim to, no Evangelho também diz aos seus discípulos:
poder reorganizar suas emoções e pensamentos. “Porque não sois vós quem falará, mas o Espíri-
to de vosso Pai é que fala em vós” (S. Mateus 10,
O pretendido isolamento de Justino é interrompi- 20). Todos os testemunhos das Escrituras, decla-
do por um cristão, velho e anônimo. Sem rodeios, e ram de modo suficiente o mistério das línguas, o
sem timidez, o velho inicia um conversa com o filó- dom de pregar do Evangelho e a confissão públi-
sofo a respeito da natureza da verdade, e a respeito ca da fé cristã em todos que possuem o Espírito
da revelação de Deus aos homens através das Es- Santo. Por isso, se um cristão é tolo de não decla-
crituras. Para o velho, se Justino desejava conhecer rar abertamente sua fé, antes disfarca-se temendo
a verdade precisava lê-las. Quando Justino final- o perigo dos dias que virão, ele dá aos homens a
mente se rendeu e abriu as páginas sagradas, nos oportunidade de duvidarem, com bons motivos,
profétas e apóstolos, conta-nos que foi totalmente se ele realmente tem a graça do Espírito Santo
envolvido pelo Evangelho de Cristo. O filósofo re- dentro de si, pois tem a língua presa e não fala”.
gistrou sua experiência em Diálogo com Trypho:

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