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TEMPO PASCAL.

DOMINGO DE PENTECOSTES

96. A VINDA DO ESPÍRITO SANTO


– A festa judaica de Pentecostes. O envio do Espírito Santo. O vento impetuoso e as línguas
de fogo.

– O Paráclito santifica continuamente a Igreja e cada alma. Correspondência às moções e


inspirações do Espírito Santo.

– Correspondência: docilidade, vida de oração, união com a Cruz.

I. O AMOR DE DEUS foi derramado em nossos corações pelo Espírito


Santo que habita em nós. Aleluia1.

Pentecostes era uma das três grandes festas judaicas; muitos israelitas
iam nesses dias em peregrinação a Jerusalém, para adorar a Deus no
Templo. A origem da festa remontava a uma antiquíssima celebração em que
se davam graças a Deus pela safra do ano, em vésperas de ser colhida.
Depois acrescentou-se a essa comemoração, que se celebrava cinquenta
dias depois da Páscoa, a da promulgação da Lei dada por Deus no monte
Sinai. Por desígnio divino, a colheita material que os judeus festejavam com
tanto júbilo converteu-se, na Nova Aliança, numa festa de imensa alegria: a
vinda do Espírito Santo com todos os seus dons e frutos.

Quando chegou o dia de Pentecostes, estavam todos juntos num mesmo


lugar. E sobreveio de repente um ruído do céu, como de um vento impetuoso,
que encheu toda a casa em que se encontravam2. O Espírito Santo
manifestou-se por meio dos elementos que costumavam acompanhar a
presença de Deus no Antigo Testamento: o vento e o fogo3.

O fogo aparece na Sagrada Escritura como imagem do amor que penetra


todas as coisas e como elemento purificador4. É uma imagem que nos ajuda a
compreender melhor a acção que o Espírito Santo realiza nas almas: Ure
igne Sancti Spiritus renes nostros et cor nostrum, Domine... Purificai, Senhor,
com o fogo do Espírito Santo as nossas entranhas e o nosso coração...

O fogo também produz luz, e significa o novo resplendor com que o


Espírito Santo faz compreender a doutrina de Jesus Cristo. Quando vier o
Espírito de verdade, guiar-vos-á para a verdade completa... Ele me glorificará,
porque tomará do que é meu e vo-lo dará a conhecer 5. Numa ocasião
anterior, Jesus havia comunicado aos seus: O Advogado, o Espírito Santo...
vos ensinará tudo e vos trará à memória tudo quanto eu vos disse6. É Ele
quem nos conduz à plena compreensão da verdade ensinada por Cristo:
“Tendo enviado finalmente o Espírito de verdade, completou, culminou e
confirmou a revelação com o testemunho divino”7.

No Antigo Testamento, a obra do Espírito Santo é frequentemente sugerida


pela palavra “sopro”, a fim de exprimir ao mesmo tempo a delicadeza e a
força do amor divino. Não há nada mais subtil que o vento, que penetra por
toda a parte, que parece até percorrer os corpos inanimados e dar-lhes vida
própria. O vento impetuoso do dia de Pentecostes exprime a nova força com
que o Amor divino irrompe na Igreja e nas almas.

São Pedro, diante da multidão de pessoas que se encontravam nas


imediações do Cenáculo, fez-lhes ver que se estava cumprindo o que fora
anunciado pelos Profetas8: E sucederá nos últimos dias, diz Deus, que
derramarei o meu Espírito sobre toda a carne...9 Os que receberem a efusão
do Espírito não serão já uns poucos privilegiados, como os companheiros de
Moisés10, ou como os Profetas, mas todos os homens, na medida em que se
abrirem a Cristo11. A acção do Espírito Santo deve ter produzido tal assombro
nos discípulos e nos que os escutavam que todos estavam fora de si, cheios
de amor e de alegria.

II. A VINDA DO ESPÍRITO SANTO no dia de Pentecostes não foi um


acontecimento isolado na vida da Igreja. O Paráclito santifica-a
continuamente, como também santifica cada alma, através das inúmeras
inspirações que se escondem em “todos os atractivos, movimentos, censuras
e remorsos interiores, luzes e conhecimentos que Deus produz em nós,
prevenindo o nosso coração com as suas bênçãos, pelo seu cuidado e amor
paternal, a fim de nos despertar, mover, estimular e atrair para as santas
virtudes, para o amor celestial, para as boas resoluções, para tudo aquilo que,
numa palavra, nos conduz à nossa vida eterna”12. A sua acção na alma é
“suave e aprazível [...]; Ele vem salvar, curar, iluminar”13.

No dia de Pentecostes, os Apóstolos foram robustecidos na sua missão de


testemunhas de Jesus, a fim de anunciarem a Boa Nova a todos os povos.
Mas não somente eles: todos os que crerem n’Ele terão o doce dever de
anunciar que Cristo morreu e ressuscitou para nossa salvação. E sucederá
nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne,
e profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas, e os vossos jovens verão
visões, e os vossos anciãos sonharão sonhos. E sobre os meus servos e
sobre as minhas servas derramarei o meu Espírito naqueles dias, e eles
profetizarão14. Assim pregou São Pedro na manhã de Pentecostes, que
inaugurava a época dos últimos dias, os dias em que o Espírito Santo foi
derramado de uma maneira nova sobre aqueles que crêem que Jesus é o
Filho de Deus e põem em prática a sua doutrina.

Todos os cristãos têm desde então a missão de anunciar, de cantar as


magnalia Dei15, as maravilhas que Deus fez no seu Filho e em todos aqueles
que crêem n’Ele. Somos agora um povo santo para publicar as grandezas
d’Aquele que nos transferiu das trevas para a sua luz admirável16.

Ao compreendermos a grandeza da nossa missão, compreendemos


também que ela depende da nossa correspondência às moções do Espírito
Santo, e sentimo-nos necessitados de pedir-lhe frequentemente que lave o
que está manchado, regue o que está seco, cure o que está doente, acenda o
que está morno, rectifique o que está torcido17. Porque sabemos bem que no
nosso interior há manchas, e partes que não dão todo o fruto que deveriam
porque estão secas, e partes doentes, e tibieza, e também pequenos desvios,
que é necessário rectificar.

III. PARA SERMOS MAIS FIÉIS às constantes moções e inspirações do


Espírito Santo na nossa alma, “podemos atentar para três realidades
fundamentais: docilidade [...], vida de oração e união com a Cruz.

Em primeiro lugar, docilidade, “porque é o Espírito Santo quem, com suas


inspirações, vai dando tom sobrenatural aos nossos pensamentos, desejos e
obras. É Ele quem nos impele a aderir à doutrina de Cristo e a assimilá-la
com profundidade; quem nos dá luz para tomarmos consciência da nossa
vocação pessoal e força para realizarmos tudo o que Deus espera de nós”18.

O Paráclito actua sem cessar na nossa alma: não dizemos uma só


jaculatória se o Espírito Santo não nos move a dizê—la19, como nos mostra
São Paulo na segunda leitura da Missa. Ele está presente e inspira-nos
quando lemos o Evangelho, quando oramos, quando descobrimos uma luz
nova num conselho recebido, quando meditamos uma verdade de fé que
talvez já tivéssemos considerado antes muitas vezes. Percebemos que essa
luz não depende da nossa vontade. Não é coisa nossa, mas de Deus. É o
Espírito Santo quem nos move suavemente a abeirar-nos do sacramento da
Penitência, a levantar o coração a Deus num momento inesperado, a realizar
uma boa obra. É Ele quem nos sugere um pequeno sacrifício ou nos faz
encontrar a palavra adequada que anima uma pessoa a ser melhor.

Vida de oração, “porque a entrega, a obediência, a mansidão do cristão


nascem do amor e para o amor se orientam. E o amor leva à vida de relação,
à conversa assídua [...]. A vida cristã requer um diálogo constante com Deus
Uno e Trino, e é a essa intimidade que o Espírito Santo nos conduz [...].
Acostumemo-nos a procurar o convívio com o Espírito Santo, que é quem nos
há de santificar; a confiar n’Ele, a pedir a sua ajuda, a senti-lo perto de nós.
Assim se irá dilatando o nosso pobre coração, teremos mais ânsias de amar a
Deus e, por Ele, a todas as criaturas”20.

União com a Cruz, “porque na vida de Cristo, o Calvário precedeu a


Ressurreição e o Pentecostes, e esse mesmo processo se deve reproduzir na
vida de cada cristão [...]. O Espírito Santo é fruto da Cruz, da entrega total a
Deus, da procura exclusiva da sua glória e da completa renúncia a nós
mesmos”21.

Podemos terminar a nossa oração fazendo nossas as súplicas contidas no


hino que se canta na Sequência da Missa deste dia de Pentecostes: Vinde,
Espírito Santo, e enviai do céu um raio da vossa luz. Vinde, Pai dos pobres;
vinde, dador de graças; vinde, luz dos corações. Consolo óptimo, doce
hóspede da alma, doce refrigério, vinde! Vós sois descanso no trabalho, na
aflição remanso, no pranto consolo. Ó luz santíssima, enchei o mais íntimo do
coração dos vossos fiéis [...]. Dai aos vossos fiéis, que em Vós confiam, os
vossos sete dons. Dai-lhes o mérito da virtude, dai-lhes o porto da salvação,
dai-lhes a eterna alegria22.

Para chegarmos a um convívio mais íntimo com o Espírito Santo, nada tão
eficaz como aproximar-nos de Santa Maria, que soube secundar como
ninguém as inspirações do Espírito Santo. Os Apóstolos, antes do dia de
Pentecostes, perseveravam unânimes na oração, com algumas mulheres e
com Maria, a Mãe de Jesus23.

(1) Rom 5, 5; 8, 11; Antífona de entrada da Missa da vigília; (2) Act 2, 1-2; (3) cfr. Ex 3, 2; (4)
cfr. M. D. Philippe, Mistério de Maria, Rialp, Madrid, 1986, págs. 352-355; (5) cfr. Jo 16, 13-
14; (6) Jo 14, 26; (7) Conc. Vat. II, Const. Dei Verbum, 4; (8) Jl 2, 28; (9) Act 2, 17; (10) cfr.
Num 11, 25; (11) cfr. Jo 7, 39; (12) São Francisco de Sales, Introdução à vida devota, II, 18;
(13) São Francisco Sales, Catequese 16 sobre o Espírito Santo, 1; (14) Act 2, 17-18; (15) Act
2, 11; (16) 1 Pe 2, 9; (17) cfr. Missal Romano, Sequência da Missa de Pentecostes; (18) São
Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 135; (19) cfr. 1 Cor 12, 3; (20) São Josemaría
Escrivá, op. cit., n. 136; (21) ib., n. 137; (22) Missal Romano, Sequência da Missa de
Pentecostes; (23) cfr. Act 1, 14.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)