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DECLARAÇÃO DE CURITIBA

Os membros do Comitê Brasileiro do ICOMOS, com a presença do


Presidente do ICOMOS Chile e demais participantes, reunidos na cidade
de Curitiba, nos dias 26 e 27 de março de 2009, para refletir sobre o
tema “PATRIMÔNIO E CIÊNCIA”, expressam seus agradecimentos à
Universidade POSITIVO pela organização desse evento, ao IPHAN – 10ª
SR, à Secretaria de Estado da Cultura do Paraná e à ITAIPU Binacional,
pelo apoio para sua realização, e aprovam as seguintes conclusões
decorrentes das apresentações e discussões em plenário:

1. Sobre o tema PATRIMÔNIO E CIÊNCIA

A experiência dos países que vêm laborando na área da ciência da


conservação de bens culturais conta muito para quem pretende refletir
sobre o assunto. Essa observação ajuda a evitar o insucesso, pois desta
experiência pode-se apropriar e atentar para os erros que foram
cometidos, bem como os sucessos obtidos. Por outro lado, existem
condicionantes econômicas, sociais, de tradição construtiva, de
materiais e ecológicas bastante diferentes das experimentadas pelos
outros povos. Isto quer dizer que existe uma parte desse conhecimento
que nos cabe aplicar, outra que nos cabe desenvolver e uma terceira
que nos cabe adaptar à nossa realidade e aos nossos meios. É
necessário pesquisar para equacionar os nossos problemas.

Para que isto aconteça, o apoio oficial e o desenvolvimento do


conhecimento dos operadores e das esferas de decisão é fundamental.
Nota-se que este desenvolvimento está acontecendo através da
formação de novos restauradores e pesquisadores, com a percepção de
que a ciência deve ser um auxílio poderoso para o exercício da sua
atividade.

Uma boa base para o ensino não se faz sem o contraponto da pesquisa
e quase todos os educadores recomendam a prática deste binômio.

Não se pode ignorar as dificuldades econômicas que representam um


óbice na luta para a preservação, que exige recursos para se conseguir
sucesso e não pode, infelizmente, ser postergada, sob pena de perdas
irreparáveis.

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Para lograr bons resultados deve-se, dentre outras providências, fazer
da conservação e da restauração um processo teórico e metodológico
cuidadoso, fundamentado na pesquisa e no ensino, sem deixar de
considerar a prática, as técnicas tradicionais, o conhecimento dos bons
mestres e artífices.

Para isto, necessita-se de cientistas qualificados, docentes com sólida


formação e laboratórios adequadamente aparelhados. Muito embora se
reconheça a existência, nas universidades e outras instituições, de
laboratórios que atendem ao ensino, pesquisa e extensão, é necessário
que estes atendam às demandas da conservação do patrimônio
cultural.

Destaca-se que a pesquisa científica da conservação, pelas suas


características interdisciplinares, leva a um inter-relacionamento
enriquecedor entre os diversos laboratórios e especialistas das
universidades, estabelecendo aquele elo perdido que existia nas
universidades no passado.

O trabalho criterioso da conservação e restauração pode, pela sua


metodologia, ser considerado como científico, se admitido o sentido lato
da palavra. É bom que se ressalte, também, que as indagações sobre a
durabilidade e conservação dos materiais, artefatos e estruturas
constituem-se na base das investigações de um laboratório de
pesquisas da conservação-restauração. Identificam-se diretamente com
todos os estudos atuais de tecnologias alternativas, com a apropriação
de tecnologias tradicionais ou estudos aprofundados de materiais de
construção, com a eficiência de alguns produtos industrializados ou
manufaturados, e outros tantos temas de grande atualidade.
Relacionam-se, também, com o desenvolvimento social, porque podem
propiciar o reaparecimento de técnicas já esquecidas ou orientar o
processo de produção de certas comunidades, que perderam o seu meio
de subsistência ou a competitividade de sua produção.

Cabe reforçar ainda as instituições de ensino e pesquisa na sua função


de pólo produtor do conhecimento, com distribuição dos seus resultados
para a comunidade dos conservadores e restauradores.

Estes estudos poderiam e deveriam, entretanto, ter um rebatimento


sobre as modernas técnicas de produção, o que não é tarefa difícil para
quem estuda um material em toda a sua profundidade, no intuito de
conhecer o processo do seu envelhecimento e degradação.
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Se a contribuição da ciência e dos cientistas é fundamental para a
conservação, os restauradores, operadores dessa complexa atividade,
devem ter mínimas condições de diálogo com a comunidade científica.

Cabe a essa comunidade não ser alheia à preservação da memória, e


cabe às entidades de preservação e às universidades criar mecanismos
para a ampliação das visões e perspectivas dos seus especialistas.

Tendo essas considerações como pano de fundo, os participantes desse


Seminário sobre PATRIMÔNIO E CIÊNCIA chegaram às conclusões e
recomendações apresentadas a seguir:

1. Conclusões

. A política de preservação de bens de valor cultural deve prever ações


que visem dar à sociedade condições de compreender a história social
do País;

. A natureza específica do patrimônio construído e suas diversidades


requer abordagem científica interdisciplinar para resolver e lidar com os
riscos e os processos de degradação aos quais os bens estão
inevitavelmente sujeitos e ameaçados;

. A notável, reconhecida e necessária contribuição dos estudos e


pesquisas sobre preservação e conservação de materiais desenvolvidos
nos últimos anos, em especial, pelo seu caráter multidisciplinar;

. A inquestionável importância da ciência para se chegar à conservação


qualificada e melhor qualidade de vida, integrando a conservação
científica à questão social e ao desenvolvimento socioeconômico
sustentável;

. A importância de identificar e desenvolver, cientificamente e na


prática, a utilização de materiais e tecnologias de conservação
tradicionais sustentáveis como forma de buscar a máxima integração
das comunidades e economicidade nas intervenções, na conservação
preventiva e manutenção de bens culturais materiais;

. A transmissão, para a população de um modo geral, do conhecimento


produzido pelos estudos e pesquisas sobre a conservação e regeneração
de materiais nos bens culturais como parte integrante da política e
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ações de preservação, com especial atenção para as técnicas e
materiais tradicionais, deve ser ampla e permanente;

. Os imóveis privados de valor cultural e ambiental são essenciais na


conformação dos lugares tradicionais das nossas cidades e centros
históricos;

. Os remanescentes do patrimônio azulejar brasileiro, em particular os


painéis e revestimentos exteriores que vêm sendo comprometidos pela
destruição sistemática, ou por intervenções inadequadas, deverão ser
protegidos e providas técnicas adequadas à sua conservação a todas as
instituições de preservação. Essas ações de preservação, por sua
importância, devem ser divulgadas para a população residente e criados
mecanismos de incentivo que facilitem sua preservação.

. As ações de ampliação da proteção legal ao patrimônio cultural


brasileiro com instrumentos complementares ao Decreto Lei 25 de 30
de novembro de 1937, sem alteração de seu texto original, devem ser
apoiadas e incentivadas;

. A política de inclusão de zonas de preservação rigorosa nas leis


municipais de ordenamento territorial proporciona ampla e adequada
proteção aos bens imóveis de valor cultural e deve ser apoiada e
incentivada.

2. Recomendações

Ao ICOMOS Brasil que:

. promova diretamente ou em parcerias com as entidades de


preservação a realização de seminários técnicos, publicação de textos
científicos, manuais e cartilhas;

. ofereça às entidades de preservação, difusão e proteção do


patrimônio cultural brasileiro assessoramento na elaboração de suas
políticas e proposta de ação;

. busque, juntamente com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico


Nacional - IPHAN e órgãos estaduais e municipais de preservação,
formas de garantir execução de obras qualificadas e que atendam às
recomendações técnicas da política de preservação;

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. encaminhe proposição aos órgãos de preservação das três esferas
administrativas para que incorporem nos cadernos de encargos de
obras os resultados de pesquisas científicas e dos estudos
comprovadamente adequados às intervenções sobre os sistemas
construtivos tradicionais, com o objetivo de elevar o nível dessas
intervenções, reforçar a eficiência da manutenção dos bens, prolongar
sua longevidade e corrigir deficiência da qualidade e durabilidade das
obras de restauração, especialmente aquelas objeto de licitação
pública;

. propugne por assegurar a colaboração técnica e interação do


conhecimento acadêmico com o vernacular, de modo que as práticas
tradicionais possam ser efetivamente incorporadas às políticas de
preservação e conservação do patrimônio com as comunidades.

Ao IPHAN que:

. priorize a implementação do Sistema Nacional de Patrimônio;

. realize, em articulação com as entidades municipais e estaduais de


preservação, o mapeamento do patrimônio cultural em risco para o
desenvolvimento e implementação de estratégias de conservação
sustentável;

. se articule com os órgãos de preservação e universidades para


identificar os pontos de interesse comum no campo da preservação e
propor a formação de grupos de pesquisa visando a formação de uma
rede de informações entre as escolas de arquitetura, laboratórios de
materiais e de restauro e cursos de pós graduação, para o intercâmbio
e difusão de pesquisas e técnicas de preservação voltadas para a
solução dos problemas identificados nas diversas regiões o País;

. proponha às entidades de preservação e pesquisa que estimulem e


intensifiquem o processo de restauração azulejar, adotando
procedimentos científicos similares aos que vem sendo desenvolvidos
em Belém, Estado do Pará;

Ao Ministério da Educação que:

. acelere, incremente e incentive a política de implantação e


atuação das universidades em cidades históricas;
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. incentive as instituições de ensino a desenvolver programas e
ações que contribuam para a preservação do patrimônio cultural
tangível e intangível;

. incentive as universidades públicas e privadas a criarem cursos


que contribuam para o conhecimento, proteção e divulgação de
práticas e técnicas construtivas tradicionais nas localidades
portadoras de acervos culturais.

Curitiba, 27 de março de 2009

Os membros do Comitê Brasileiro do ICOMOS, com a presença do


Presidente do ICOMOS Chile e demais participantes, reunidos na cidade
de Curitiba, nos dias 26 e 27 de março de 2009, para refletir sobre o
tema “PATRIMÔNIO E CIÊNCIA”, expressam seus agradecimentos à
Universidade POSITIVO pela organização desse evento, ao IPHAN – 10ª
SR, à Secretaria de Estado da Cultura do Paraná e à ITAIPU Binacional,
pelo apoio para sua realização, adicionalmente ao que consta na
DECLARAÇÃO DE CURITIBA, considerando a importância de alguns
temas abordados ao longo das apresentações e discussões, os
participantes desse Seminário decidiram sugerir à Pesidente do
ICOMOS Brasil, Arquiteta Rosina Parchen, que submeta à
consideração da Diretoria do ICOMOS Brasil as seguintes articulações
com:

. o IPHAN para:

. acertar com instituições estaduais e municipais de preservação


a inclusão nos projetos de intervenção restaurativa de bens
culturais procedimentos científicos que incluam inventários,
diagnósticos estruturais e de materiais e proposição de novos
usos e meios de manutenção, conservação preventiva e gestão,
sempre com a participação de profissionais especializados no
assunto;

. firmar acordos de cooperação técnica com entidades de


preservação com o objetivo de promover, monitorar e fiscalizar
bens do patrimônio cultural brasileiro;

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. promover a criação de núcleos de suporte técnico, objetivando a
conservação, recuperação e difusão do patrimônio cultural ;

. definir os entornos dos bens tombados para facilitar as ações de


proteção das entidades de preservação;

. regulamentar a ações de identificação de bens culturais imóveis


com a Marca do IPHAN, tornando obrigatória sua aplicação aos
proprietários e promotores de intervenções sobre os ditos bens
culturais;

. promover a criação de cursos de história da arte e de artes


visuais nas cidades protegidas por tombamento visando o
desenvolvimento da sensibilidade artística da população.

. as entidades estaduais e municipais de preservação para que


reconheçam o papel essencial dos imóveis privados de valor cultural e
ambiental na conformação dos lugares tradicionais das nossas cidades e
centros históricos e criem incentivos fiscais progamas voltados para a
sua preservação e conservação;

. as entidades de preservação e universidades com o objetivo de


buscar formas e parcerias que viabilizem a vinda de especialistas do
exterior, de promover o intercâmbio interno de técnicos entre entidades
de preservação e universidades e orientar e promover a montagem de
cursos, e seminários e a publicação de material técnico sobre o assunto;

. o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e


Tecnológico – CNPq visando a reativação dos editais para apoio a
projetos de pesquisa inter e multidisciplinares nas áreas de preservação
de bens culturais, arqueologia e paleontologia com a conseqüente
formação de redes interdisciplinares;

. os agentes financeiros oficiais, em especial à Caixa Econômica


Federal, visando a criação de amplo programa de financiamento para a
conservação de edificações privadas, habitacionais e comerciais, com
juros e prazos compatíveis com a renda da população da área, para
sustar a crescente deterioração e rápido desaparecimento desses
imóveis e evitar a perda da identidade das cidades. Sugerir que esses
programas tomem como base a experiência do Programa Monumenta e

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da ONG Moradia e Cidadania, tendo como parceiros técnicos as
entidades oficiais de preservação e universidades;

. as entidades de fomento e financiamento à pesquisa para que


atuem na área de ciência e tecnologia voltada para a restauração e
conservação de bens culturais:

. o Ministério das Cidades visando a inclusão em suas normas de


orientação aos estados e municípios orientações sobre a preservação de
bens de valor cultural;

. o Ministério de Turismo visando a celebração de acordo de


cooperação técnica para prestação de assessoramento na elaboração de
suas políticas e propostas de ação em áreas de interesse comum, troca
de informações e a adoção de medidas que orientem sua política de
difusão do patrimônio cultural brasileiro.

. a Associação Brasileira de Conservadores-Restauradores de


Bens Culturais - ABRACOR e entidades de preservação, com o
objetivo de incentivar os técnicos especializados em restauração de
bens móveis e imóveis pertencentes ao patrimônio cultural brasileiro a
se organizarem na forma de OSCIP – Organização da Sociedade Civil
de Interesse Público, reguladas pela lei 9.790 de 23/03/99 como uma
das soluções para que a contratação dos serviços de restauração seja
realizada com base na qualidade técnica e experiência da prestadora de
serviços.

Finalmente, que o ICOMOS Brasil faça saber ao Iphan e demais


órgãos federais e estaduais o descontentamento e a preocupação dos
profissionais presentes a este Seminário quanto ao emprego da Lei de
Licitações e Contratos Administrativos, (Lei 8.666/93) nos trabalhos de
conservação e restauração de bens móveis e imóveis pertencentes ao
patrimônio cultural brasileiro, tendo em vista sua total inadequação às
peculiaridades das intervenções nesses bens e oferecer a sua
colaboração para desenvolver estudos conjuntos, visando a elaboração
de uma legislação específica voltada para a restauração desses bens.

Curitiba, 27 de março de 2009

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