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FOÜCAULT.
S1MPLESMENTE

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LEITURAS

CI~G

FILOSÓFICAS

Aristóteles e o logos, Barbara Cassil1
Aristóteles no século XX, Enrico Berti
Da nahneza, José Gabriel dos Santos
Diálogos com a cultura contemporânea, W.M
Eric Weil e a compreensão do nosso tempo, Marcelo Perine
Filosofia a partir de seus problemas (A), 2" ed.,
Mario Ariei González Porta
Filosofia da ciência - introdução ao jogo e a suas regras, 8" ed.,

Rubem Alves
Filosofia da natureza (A), Jacques Maritail1
Foucault, simplemente - textos rennidos, Salma TamJUs Mucllail
Metáfora viva (A), Paul Ricoeur
\1ovilllento sofista (O), G. B. K.erferd
l\'iilismo (O), Franco Volpi
Ofício do filósofo estóico (O), RacheI Gazolla
Ordem do discurso (A), 10" cd., Michell''oucault
Para não ler ingenuamente uma tragédia grega, Rachei GazoUa
Quc é a filosofia antiga? (O), Pierre Hadot
Razõcs dc Aristóteles (As), 2" ed., Enrico Berti
Saber dos antigos - terapia para os tempos atuais, 2.' ed.,

FOUCRULT,
SIMPLESMENTE
·~2xtQS :-eL:f"":id:i5

Giovallni Reale
Sete lições sobre o ser, 2" ed, Jacques Maritain
Sobre O político de Platão, Comeljus Castoriadjs
Sócrates ou o despertar da consciência, fean-Toel Duhot
Tempo e razão - 1.600 anos das confissões de Agostinho,
Carlos Arthur A. Nascimel1to
Transformação da filosofia, vol. 1, Karl-Otto Apel
Transformação clJ filosofia, vol. 2, Karl-Otto Apel
Vontadc de crer (A), William James

PUCRS/BCE
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SUMRRIO

PREPARAÇÃO:

Marcelo Perine

DIAGRAMAÇÃO:

REVISÃO:

Maurélio Barbosa

Maurício B. Leal

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P~CRS

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Apresentação ................... .

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A TAAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULT .................. .

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A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA
Filosofia e/ou história?

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O MESMO E O OUTRO
Faces da história da loucura

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EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO

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DE PRÃTICAS SOCIAIS

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PRODUÇÃO DE SABERES

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FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS ................ ..

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OLHARES E DIZERES .............. ..

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ISBN: 85-15-02992-8
© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2004

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.. no entanto.. Os textos reunidos neste livro exprimem esse caráter. o próprio pensamento é instigado a tornar-se múltiplo e igualmente afinado com a inventividade e o rigor. Os textos que o compõem expressam a marca temporal dos momentos em que foram produzidos. UM AOSTO DE AAEIA·· Notas sobre maio de 68 . Em sua maioria são conferências... COMO NA OALA DO MAR. a filosofia. Percorrê-los exige uma dedicação cuidadosa para que se possa enfrentar esta diversidade e.... RPRESENTRÇÃO 115 MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOA . a loucura. para este livro....... a cultura.. À semelhança dos escritos de Foucault...... artigos e capítulos de livros já publicados.. 109 o ••••••••••••• ... .. não permite que se determine.. 133 o pensamento de Michel Foucaulr é um pensamento plural. uma unidade dotada de significado... em primeiro lugar. a democracia... Relativamente às diversidades... Também os temas discutidos são diversos.. Como reunião de textos dispersos... dar conta de sua inventividade e de sua densidade conceitual... .. 123 BIBLlOGAAFIA ..... a história..... por outras.OEMOCRRCIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Mich~1 Foucault e Cornelius Castoriadis . ao mesmo tempo. a preapresentação ! 7 . na contextualização das análises... o poder. Também seus escritos têm a marca da diversidade de temas e de abordagens. Por outro lado. não deixando de formar.. .. ao percorrê-los..... de um livro escrito em diferentes momentos.. as instituições... revelada por vezes na eleição dos Çlbjetos tratados e.... trata-se. a abordagem de temas como o ensino. o livro comporta suas próprias diversidades..

reconhecem. mais específicos. o caráter dos textos é igualmente diverso.. será possível apreender um pensamento que tem muito a dizer ao nosso presente. com seus últimos livros publicados. desdobrado em muitos temas. simplesmente a trajetória de Michel Foucault I 9 . v. 1.sença de um único objeto. conhecido como períodó da "ge* Este texto é uma versão modificada de aula ministrada no curso "Michel Foucault . 8 I Foucault. a profundidade das análises -. 2. servem de iniciação à sua leitura. quando saiu seu primeiro grande livro... favorecendo a compreensão de um pensamento tão profundo e complexo quanto instigante. a leitura desta simples reunião de textos tem muito a nos propor e ensinar. fev. Foi publicado na Revista Extensão. PUC/MG. por sua vez. FOUCAULT. A trajetória intelectual de Michel Foucault (1926-1984) pode ser inscrita entre 1961. n. O segundo mamemo. na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em abril de1991. periodizações e problemas centrais dos escritos de Foucault. pois na medida em que discutem diferentes aspectos do pensamento de Foucault. é voltado principalmente para questões relativas à constituição dos saberes e inclui os principais livros publicados na década de 1960: A história da loucura (1961). Resultado de uma leitura e de uma análise detidas dos escritos de Michel Foucault. esclarecem o leitor a seu respeito. e 1984. Alguns possuem um sentido mais geral. O primeiro. O uso dos prazeres. deve-se à natureza dos textos que o constituem. Todos os textos nele reunidos ou nasceram de aulas ministradas por sua autora ou destinavam-se a prepará-las. 1992. a diversificação das abordagens. Talvez por este motivo sejam tão didáticos. Os estudiosos de Foucault. 13. aos leitores deste livro diverso. acima de tudo. ) senão o trabalho critico do pensamento sobre o pensamento? Senão (. Desse modo.Razão e Desrazão". com certo consenso. tratando de métodos.como a pluralidade do pensamento. Assim como dizer Foucaul~ simplesmente implica tantas outras coisas . O nascimento da clínica (1963). conhecido como período da "arqueologia". A unidade de significado do livro. As palavras e as coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969). escrito em muitos tempos. Márcio Alves da Fonseca Professor do Departamento de Filosofia da PUC/SP A TRAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULr Mas o que é filosofar hoje em dia (. uma repartição possível dessa trajetória em três momentos. este livro tem sua índole vinculada ao ensino. Belo Horizonte. como também ele próprio. Outros. pois. realizam análises detidas sobre temas precisos. Por fim. ) tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de leptimar o que já se sabe? M..

a trajetória de Michel Foucault ! 11 .nealogia". Nas análises de Foucault. simplesmente 3. a gradativa edição dos cursos que Foucault ministrou no Collêge de France entre os anos 1970 e 1984 (foram ministrados treze cursos). Cf. Paris. o próprio Foucault declara suas preocupações e seus propósitos. de maneira mais precisa. A análise lingüística. 10 I Foucault. portanto. Revista Tempo Brasileiro. poderiam vir a ser constituídos. buscando fazer surgir temaremos esboçar os traços que caracterizam esses três momentos. A este conjunco devem ser acrescencadas ainda duas situações ocorridas após a morte de Foucault: a publicação. os das chamadas ciências humanas ("o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem"). Rio de Janeiro. Luís Felipe Baeta Neves.. simultaneamente. Supõe. assim descrevia Foucault os propósitos de suas primeiras investigações: "determinar. até "o saber que é nosso hoje") e a preocupação está 1. desde o século XVII" .. 21. ao mesmo tempo. O terceiro momento trata de questões relativas à constituição do sujeito ético e inclui os volumes II e III da História da sexualidade. artigos. as regras que presidem seu surgimento. ) para que se constitua o saber que é nosso hoje e. Com a transcrição da seleção de passagens em que. intitulado A vontade de saber (1976). nem ao modo de uma análise lingüística. que Foucault produzir~ e realizara em diversos países). alguma origem mais remota a ser reencontrada e um sentido oculto a ser decifrado. a fim de que possam ser trazidos à luz pelo comentário. Observe-se que esta descrição histórica dos discursos não é feita nem à maneira do "comentário". O primeiro momento de seus escritos tem. a cada vez. da Glória R da Silva. e. alguma verdade implícita no dito explícito do discurso primeiro. ainda mais recencemence. e supõe. e quer estabelecer não as regras formais de sua inteligibilidade. FOUCAULT. das transformações e do desaparecimento ••• Em texto de 1968. O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984( Tomando esta repartição como ponto de partida e roteiro. e trata-se de buscar não sua origem ou seu sentido secreto. os discursos são tomados em sua positividade. Gallimard. trad. "Resposta a uma Questão". em determinada época. assim como suas aproximações e diferenças. é centrado sobre questões relativas aos mecanismos do poder e inclui os principais livros da década de 1970: Vigiar e punir (1975) e o volume I da História da sexualidade. 28 (Epistemologia). de M. em 1994. jan/mar. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. diz respeito à língua como sistema formal que rege a formulação tanto de enunciados efetivamente realizados como a dos que. que esta origem e este sentido . mas o jogo de regras que define as condições de possibilidade do aparecimento.de algum modo atravessam o sentido explícito. ao contrário. O comentário é uma espécie de discurso segundo a duplicar o discurso comentado. 1969. um enfoque explicitamente histórico ("na Europa. um conteúdo de significações "já-dito" e. mas aqueles considerados científicos e.79. por sua vez.mais essencial e. mas as condições de sua emergência. suas mudanças. 1971. seu desaparecimento. intitulados. desde o século XVII.. o que deve ter sido na Europa. mais particularmente. Petrópolis. cuja publicação foi iniciada em 1997. trad. Vozes. pois. ver também L'Archéologie du savoir.2.. seu funcionamento. faremos iniciar a abordagem de cada um desses momentos. 36. FOUCAULT. M. 1972. o modo de existência dos discursos e singularmente dos discursos científicos (. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". nas suas dimensões diversas. respectivamente. conferências. 2.. não porém quaisquer discursos. aulas etc. como "fatos". Supõe. "jamais-dito"3. mudo .. dos Dits et écrits (são quatro volumosos livros que reúnem textos dispersos. nele dormitam. assim como as novas regras que presidem a formação de novos discursos em outra época. o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem. centrada na descrição dos discursos.. em tese e em número infinito. por um lado. M. por outro lado. Já a descrição foucaultiana dos fatos discursivos se limita a enunciados já formulados que compõem as formações discursivas.

a demarcação do domínio não limita o ãmbito de aplicabilidade da arqueologia que poderia.179. FOUCAULT. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". "Resposta ao Círculo de Epistemologia". in Microfísica do poder. foi o como do poder.. simolesmente to de investigação pode precisamente esfacelar-se sob o efeito da própria análise. nem limita o método nem delimita o próprio domínio escolhido. Do mesmO modo. por outro. 27.. "uma primeira aproximação" ou "um primeiro esboço. Assim é. diz Foucault. a biologia e a economia. Estabelecer esse jogo ou conjunto de regras que. seu a priori histórico. o campo do saber assim assumido como obje4. numa determinada época e para uma determinada sociedade. dentro dele. a respeito dos escritos do segundo momento de sua trajetória.. Graal. transmite e que por sua vez reproduzem-no. eis o procedimento que Foucault chama de "arqueologia". salvaguardar ou confirmar os contornos do próprio domínio escolhido. Maria Teresa de Oliveira e Roberto Machado. "que os reencontrarei (esses domínios do saber eleitos como área de investigação) ao termo da anãlise.. Interessam-lhe os que constituem o campo do saber considerado científico e. variável num curso histórico marcado por diferenças e descontinuidades. ••• E contudo é um privilégio.4. 7. tentei discernir os mecanismos existentes entre dois pontos de referência.6. Por outro. ver também L'Archéologie du savoir. Rio de Janeiro. dois limites: por um lado. 43. Pode-se chamar a esse "jogo de regras" de epistéme de uma época. essa de~arcação não pretende definir. a região das chamadas ciências humanas. as regras de direito que delimitam formalmente o poder e. "Soberania e disciplina". no início. Trata-se de uma circunscrição relativa. enfim. Em uma passagem de 1976. jogo este que é. o que deve ser reconhecido como verdadeiro e o que deve ser excluído como desqualificável. de quaisquer discursos que Foucault trata. oS efeitos de verdade que este poder produz. Foucault assim declarava: "O que tentei investigar. quem pode dizê-lo. "Nada me prova". 1979. de que as primeiras não são meras precursoras. 27. FOUCAULT. ver também L'Archéologie du savoir. ou ainda o solo onde são constituídas as formações discursivas historicamente realizadas e que compõem as diferentes configurações no espaço do saber.. e não de outros.. trad. FOUCAULT. que em As palavras e as coisas as análises mostram como na Europa dos séculos XVII e XVIII emergem determinadas formações discursivas que vão constituir a gramática geral. M. como se pode dizê-lo. Ele mesmo nos adverte de que a demarcação desse donúnio é uma escolha de certo modo hipotética. e duplamente relativa. 5. pelo contrário. a que instituições isso se vincula etc. 43.e entre eles sobre "os que têm por domínio este curioso objeto que é o homem" . M. M. Mas não é.de tais ou quais discursos. Com efeito.que melhor lhe permite trazer à tona "os mecanismos existentes" entre exercícios de poder e produção de saberes reconhecidos como verdadeiros. certa presunção de racionalidade científica"s A escolha do domínio.. portanto. ser usada em outros campos do saber. a história natural e a análise das riquezas. nada me prova que tal descrição poderá dar conta da cienrificidade (ou da não-cientificidade) desses conjuntos discursivos que assumi como ponto de ataque e que apresentam todos. grosso modo. por exemplo. Será nos escritos posteriores que se tornarão mais claros os motivos de semelhante eleição. de 1970 até agora. M. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. Trata-se tão-somente de "um privilégio de partida. 6. genericamente.7. a trajetória de Michel Foucault I 13 . Por um lado. nem que descobrirei o princípio de sua delimitação e de sua individualização. é a investigação sobre os discursos científicos . são regiões do L'Archéologie du savoir. Ora. portanto. 53-54. enquanto no século XIX vão surgir a filologia. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem.. 12 I Foucault. em tese. numa época dada e numa dada sociedade. autoriza o que é permitido dizer. FOUCAULT.

Simplesmente com a trama das instituições e práticas sociais. antes. arqueologia e genealogia se distinguem ao mesmo tempo em que guardam. 183-185. Machado). 251. mediados. a mesma natureza e o mesmo teor. 13. como faz principalmente em sua história do nascimento das prisões (Vigiar e punir). "é o método para a análise da discursividade local. Quando Foucault passa a explicitar esse momento de sua investigação. assim como a "verdade" de que se trata não é nenhuma essência universal. M. Ora. passa a priorizar seu cruzamento "Sobre a geografia". FOUCAULT. como prática. pelo que podemos chamar de modos de produção da verdade. FOVCAULT. "Verdade e poder". 154.ou. M. as instituições apropriadas. mas como exercício. "Os Intelectuais e o poder". 149. de evidenciar as articulações entre saber e poder. "Verdade e poder". mais claramente aberto a combates e cuja história. 10. são sobretudo disciplinar e normalizar. a genealogia constrói uma política de resistência e de luta. 8. os sujeitos aptos a produzi-los. passa também a definilo menos como "arqueologia". in Microfisica do poder. projetos arquitetônicos. instituições sociais diversas. agora. Assim. por exemplo. envolve articulações entre elementos heterogêneos. prioritariamente de natureza estratégica. Foucault amplia o âmbito das análises: de análises quase sempre mais preocupadas com discursos ou interdiscursos. a este respeito. mas não percebidos. 6. a noção de epistéme pela noção mais complexa de "dispositivo estratégico".. a genealogia é a tática que. 175. 172. também o poder não deve ser compreendido como uma "idéia" ou uma "identidade teórica". in Microfisica do poder. 221. um elemento prioritariamente discursivo do dispositivo -. Por "verdade" deve-se entender não "o conjunto de coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar".. XVI. discursivos e extradiscursivos. que só existe em sua "concretude". e cujos efeitos de poder. pode ter mais "eficácia política"8. ativa os saberes libertos da sujeição que emergem desta discursividade"l1. "Poder-Corpo". nos primeiros escritos. 9. o dispositivo. de certo modo. compreende-se que é sobre os discursos científicos. entendendo-se que. III I Foucault. Mas adverte também que uma mudança ocorreu na condução das análises. A denominação "genealogia" será mantida por Foucault ao referir-se ao terceiro e último momento de sua trajetória. "O olho do poder". multifacetado e cotidiano 10. tais como práticas jurídicas. particularmente no caso das ciências humanas. FOUCAULT. que vai incidir a investigação. Ver. Trata-se. "Genealogia e poder". *** Em entrevista concedida pouco antes de sua morte. enquanto a epistéme é também um dispositivo .. "Soberania e disciplina". uma vez que. mas "o conjunto de regras segundo as quais se distingu~ o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"9. Abandona. a trajeto ria de Michel Foucault I 15 . Nesse momento de seus escritos. em nossa sociedade a produção da verdade é regulamentada por regras que autorizam a eleição dos discursos reconhecidos como científicos e a conseqüente exclusão de outros saberes. M. para denominá-lo "genealogia". escreve ele. Mais de uma vez Foucault afirma que os propósitos explícitos nos escritos da fase genealógica já estavam presentes. por isso mesmo. por assim dizer. "Introdução" (de R. in Microftsica do Poder. a partir da discursividade local assim descrita. 75-76. em Microftsica do poder:. enquanto a arqueologia efetua uma análise descritiva veiculando uma denúncia. "Enquanto a arqueologia". "Sobre a história da sexualidade". E. particularmente sobre os das ciências humanas. que qualificam os objetos dignos de saber. mas "regras" historicamente diferenciáveis. "Genealogia e poder".saber cujo terreno é mais movediço. Poder-seia dizer que a arqueologia é como englobada e ampliada na genealogia e que. praticamente. assim se exprimiu Foucault a respeito de seus últimos escritos: "Ten11. Mas com outras transformações. se toda sociedade tem seu regime de verdade com efeitos de poder. e.

A este propósito. Cf. na direção. e nem quer um sistema legal que interfira na nossa moral pessoal. de compreender nosso presente.. tomando então a relação a si e aos outros. pois. Foucault alterou radicalmente o plano inicial previsto para a obra. daquilo. 75. 43-44. 16. Estou interessado nessa semelhança de problemas"16. 15. trad. "Introdução".e a dos volumes II e 1II .O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984) .. ). Ao privilegiar essa perspectiva. de C.12. o foco das investigações será o sujeito. jurídicos ou religiosos. desde que a maioria de nós já não acredita que a ética esteja fundada na religião. M. in O Dossierúltimas entrevistas. enfim.ou pelo menos legal-institucional (. nos últimos séculos antes de Cristo e nos primeiros séculos da era cristã 13 . as que assinalaram a passagem do final da Idade Clãssica à Modernidade...últi· mas entrevistas. 10-11. detendo-se então na Antiguidade grega e greco-romana."Por que tínhamos feito da sexualidade uma experiência moral?" . A. o prazer. eSCALA.. R BELLOUR. enquanto "sujeito do desejo"14. com realce para a chamada Idade Clãssica (séculos XVII e XVIII). a traietória de Michel Foucault I 17 . mas como sujeito ético. Nesse enfoque. eis algumas observações de Foucaulr: "O que me impressionou é que na ética grega as pessoas se preocupavam com sua conduta moral. . como espaço de referência. ) eu me pergunto se nosso problema atualmente não é. O uso dos prazeres. "Um devaneio moral". do modo de comportar-se ou das posições em face de códigos e leis.últimas entrevistas. 11. O projeto inicial da História da sexualidade anunciava um percurso histórico semelhante. 13.. e RABINOW. G. BARBEDEITE. assim. trad. T. in O Dossier. O uso do prazeres. 15. um percurso que ia desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). Até então as histórias que escrevera atravessavam. História da sexualidade. 86.. ou a das leis definidoras do que é permitido ou interditado. a perspectiva que ele privilegia não é a dos códigos morais. 16 I Foucault. in O Dossier . a investigação permite melhor aproximar dados da Antiguidade de problemas de nossa atualidade. Ana Maria de A Lima e M. voI.levou-o a procurar mais "atrás" pelo "nascimento de uma moral". Cf. de uma moral enquanto reflexão sobre a sexualidade. in O Dossier . de certa maneira.. Entre a publicação do volume I da História da sexualidade A vontade de saber (1976) . Rio de Janeiro. 12. principalmente. suas ligações com elas próprias e com os outros muito mais do que com problemas religiosos (. mantendo. Cf. 16. "Sobre a genealogia da ética: uma visão do trabalho em andamento". sua ética. que Foucault chama de "práticas de si". "Introdução".últimas entrevis· tas. Uma mudança importante ocorreu relativamente ao período histórico estudado. não porém como aquele "curioso objeto" de um domínio de saber. 1984. buscando trazer à luz as transformações que marcaram a passagem do Renascimento à Idade Clássica e. Como nos livros anteriores. H.. "O cuidado com a verdade". L. a característica da genealogia de compreender o presente. continua a fazer filosofia fazendo pesquisa histórica.. Mas agora a cronologia é outra. mas a da conduta.. Neste intervalo. a pergunta que ele então se colocou . E as aproximações que em seguida faz: ''(. "artes da existência"ls. FOUCAULT. privada (. ). da Glória R da Silva. DREYFUS.to responder a um problema 'preciso: nascimento de uma moral. F. simplesmente A alteração na cronologia foi acompanhada por mudanças teóricas e deslocamentos de temas.passaram-se oito anos. ibid. ESCOBAR. org. "O retorno da moral". M. EWALD. FOUCAULT. 136. H. ). sobre o desejo.. A segunda observação é que a ética não estava relacionada a nenhum sistema social . Graal. seu tema. Taurus. P. quase sempre. M. Porém.. 1984. como reconhece o próprio Foucault. Agora. O terceiro ponto a observar é que o que os preocupava. "técnicas da vida".. da Costa Albuquerque. semelhante a este. 14. indivíduo que se constitui a si mesmo. Rio de Janeiro. era constituir um tipo de ética que era uma estética da existência".

da História da loucura à História da sexualidade: "A propósito da loucura. em resumo. quando se olha como doente (O nascimento da clínica). ser falante e ser trabalhador (As palavras e as coisas). há. tratavase de analisar as mudanças na problematização das relações entre delinqüência e castigo através de práticas penais e instituições penitenciárias no fim do século XVIII e no início do século XIX.Mudanças. ao primeiro tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres dá o título "Modificações". Em um caso. in O Dossier. "O cuidado com a verdade".. E elas têm pelo menos dois eixos comuns. ••• A partir daqueles eixos de aproximação pode-se. 76. o segundo interroga o que habitualmente se entende por "poder". na passagem dos momentos anteriores ao último. foi problematizada através de uma certa prática institucional e um certo aparelho de conhecimento. Em outra passagem realça essas diferenças. na cronologia. in O Dossier . FOUCAULT. EWALD. 21. 20. F. Primeiro. "Introdução".. M. sem contudo escamotear suas diferenças: o primeiro momento interroga o que habitualmente se entende por "progresso do conhecimento".. ). em Vigiar e punir. Ibid. Dito de outro modo. na visão teórica. 19. conduzindo à análise das práticas discursivas constitutivas dos saberes reconhecidos como verdadeiros. o terceiro momento interroga o que habitualmente 17. 76. um mesmo propósito de base: escrever "a história das relações que o pensamento mantém com a verdade"18. juntando sugestivamente as duas pontas de sua trajetória. Um segundo eixo desses escritos está em certo ângulo a partir do qual os temas são abordados. Agora. Eis ainda uma passagem em que esse eixo comum é explicitado: "Em A história da loucura a questão era saber como e porque a loucura. pois.. como se problematiza a atividade sexual?. "O cuidado com a verdade".últimas entrevistas. já que por "problematização" deve-se entender "o conjunto de práticas discursivas ou não-discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e a constitui como objeto para o pensamento JJ21 . F.. 18. quando se julga e se pune enquanto criminoso (Vigiar e punir)? Através de quais jogos de verdade o ser humano se reconheceu como homem de desejo (História da sexualidade)?"!'.últimas entrevistas. Todos eles se direcionam a "problematizações". compreender a reunião dos três momentos da trajetória de Foucault em um mesmo conjunto. simplesmente a trajetória de Michel Foucault l I 19 . E conclui apontando para aproximações: "São. 76. articulam-se entre si. EWALD. num dado momento. político e epistemológico: o problema que a loucura colocava para os outros. Do mesmo modo.. Ibid. finalmente. as semelhanças também existem. tratava-se em suma de saber como se 'governava' os loucos. parti do 'problema' que ela podia constituir num certo contexto social. em todos eles. agora como 'governar-se' a si próprio". 75. Os dois eixos comuns. que o próprio Foucault faz questão de reconhecer. 12 (os títulos entre parênteses foram acrescentados por nós). o segundo tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres tem por título "As formas de problematização". quando reflete sobre si como ser vivo.20. todos os escritos são sustentados por uma mesma pergunta de fundo: "Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a pensar quando se percebe como louco (A história da loucura). parti do problema que o comportamento sexual podia colocar aos próprios indivíduos (. conduzindo à análise dos mecanismos de exercícios dos poderes relacionados à produção de saberes. nos temas.. Aliás.. Aliás. por sua vez ~ o propósito de fazer a história das relações entre pensamento e verdade e o ângulo das problematizações~. 18 ! Foucault. duas vias de acesso inversas em direção a uma mesma questão: como se forma uma 'experiência' onde estão ligadas a relação a si e aos outros"l? Com efeito. Aqui. O uso dos prazeres.

BARBEDElTE. Semelhanças e dessemelhanças. n. quer se lhe realce o conjunto. que abala o habitual e que. FOUCAULT. 74. ou mesmo entre subjetividade e objetividade. VERAS. outro político. Éloge de la philosophie. in O Dossierúltimas entrevistas. "O retorno da moral". expõe a si próprio à mobilidade e dispõe-se constantemente a se recompor. quer se lhe acentuem os momentos. comunicação apresentada no V Simpósio Nacional da Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF). EWALD. aproximações e diferenças compõem assim um tipo de pensamento . M. Basta evocar. O uso dos prazeres. (FAVARETIO. N.últimas entrevistas.25. do intelectual e que.. 23. outro étic023 . ou entre essência e experiência... G. n. o do poder e o da conduta individual"24. Educ. faz nela perceber a presença daqueles traços com que Foucault desenha o perfil. 20 I Foucault. "o da verdade. Poderia receber ele formulações diversas.. Foi publicado em Cadernos PUC.últimas entrevistas. ou ainda entre interioridade e exterioridade. 13.. a reconstituição da trajetória desse pensamento. L. M.. com algumas alterações. C. conduzindo à análise da "constituição de si mesmo como sujeito"22. ele descreve como exigências. como se exprime o mesmo Foucault. lembremos um conhecido problema afrontado por Husserl e muitas vezes explorado por MerleauPonty. por exemplo. contrapondo dois pólos ou dois termos: trata-se do antagonismo ou da correlação entre idéia e fato. hoje. todas elas. Ne* Este texto reproduz. B.. Ibid. orgs. um mais marcadamente epistemológico. simplesmente 11 A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA Filosofia e/ou história?* A título de introdução. em Belo Horizonte. de três campos ou continentes de reflexão.. Risumés de cours) como ainda os opúsculos Les sciences de l'hommeet la phénoménologie e Le métaphysique dans l'homme.que duvida do estabelecido. F. 81. Ou pode-se. "pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê. 129. foi republicado com o acréscimo de "Discussão" em Epistemologia das Ciências Sociais. "O cuidado com a verdade". por isso mesmo. "Michel Foucault". 26. EducfCortez. 1984. São Paulo. FOUCAULT. Posteriormente. 11. De todo modo. 24. porém.. Le philosophe et la sociologie. 71. EWALD. in O Dossier . em certas passagens.a que se pode chamar filosofia . Esta.). enumerar os momentos dessa trajetória acent~ando as diferenças sem necessariamente perder suas conjunções: trata-se. inversamente.27.se entende por "sujeito". 25. é uma questão a que Merleau-Ponty dedica vários textos nos quais trata particularmente das relações entre a filosofia e as ciências humanas. ou trata-se. a filosofia como critica da cultura I 21 . eSCALA. como se sabe. como indica um estudioso de Foucault. 1982. Série Cadernos pue. F. "Introdução". por exemplo. BOGus. F. O uso dos prazeres. 13. 27. de três ordens de problemas. em novembro de 1981. São Paulo. "Introdução". 22. e que constituiria a base do antagonismo ou da correlação entre o pensamento filosófico e a elaboração científica. M. 19. Cf. assim expressas: "Conseguir pensar algo que não seja o que se pensava antes. A.. "ser capaz permanentemente de se desprender de si mesmo"26. in O Dossier. Cf.

São Paulo. Saraiva. S. 162. e sobretudo 6. M. Uma história que se estreitasse a um relato empírico dos fatos sem buscar compreender-lhes a significação através do concurso da filosofia "não saberia. 69. 7..les.61. in Sens et non-sens. in Éloge de la philosophie et au"tres essais. ou bem o "mito da filosofia" ou bem a "idolatria da objetividade"5.. pressupõem isolados entre si "o fato e o homem interior". "Le métaphysique dans l'homme". M. 1973. cremos. Ciências do homem e fenomenologia. inserem no curso das coisas uma lógica oculta". 8. 1968. paradoxalmente. por um lado. por outro. uma razão na desrazão"9. 160. Ibid. 46. in Sens et non-sens. que impede. in Éloge de la philosophie et autres essais. M. 9. trad. por um lado. MERLEAU-PONIT. in Résumés de cours (ColJege de France). Gallimard. Se nossa particularidade nos limita é também. in Sensetnon-sens. 5. que. simplesmente preensão de outras situações e de outras formações culturais. a história. MERLEAU-PONTY.) Éloge de la philosophie. T. M. pela nossa inserção numa cultura particular.43.. mas ainda mutuamente indispensáveis. MERLEAU-PONTY. Merleau-Ponty atribuía assim certa inerência entre o trabalho do historiador e o do filósofo. 56. "Le philosophe et la sociologie". 112. a submissão da história à força de uma lógica todo-poderosa e atemporal e.. 113-114. M. em erros"s. ao contrário. 4.. se para Merleau-Poncy só "haverá história na medida em que houver uma lógica na contingência. Paris. na trama histórica dos acontecimentos. 1965. Cf MERLEAU-PONTY. M. in Éloge 137. a psicologia.. Por exemplo. Nessa medida. Muchail. Assim. a sociologia. pode-se completar que só haverá filosofia se os sentidos ou as verdades que ela busca forem procurados no seio do devir. 3. 171. o único meio de acesso à compreensão de outras situações particulares com as quais podemos nos comunicar enquanto variantes da nossa6• Ou seja. pela qual vivenciamos uma "co-existência histórica"?. 2. e as '''filosofias da história'. seja uma "ilusão prospectiva". as ciências da linguagem. "Le métaphysique dans l'homme". Merleau-Ponty rejeita certas alternativas que confundem ou falseiam O conceito de história e que fazem da filosofia e da história "tradições rivais"l. A idéia da "rivalidade" aparece igualmente em outros textos. isto é. reduzindo os fatos à imediatez de seu presente sem qualquer abertura para o futur0 3 • Ademais. a filosofia como critica da cultura I 23 . in Résumés des Cours. Ibid. por outro. Não foi. em que neste caso as relações não são tão sistemáticas a ponto de conduzir finalmente à anulação de uma sob o jugo da outra. numa verdadeira "guerra fria". 1960. M.. "a história e o intemporal. 171. a sua redução a uma reunião de fatos circunstanciais e sem significação. em "Le métaphysique dans l'homme". Paris. "Le philosophe et la sociologie". a primeira nem a última vez que um pensador travou relações entre filosofia e história. retoma a questão desde onde Husserl a tinha levantado e a conduz na direção da superação do impasse. in Éloge. 43. Nagel. 45. como que a predeterminá-I02 • Alternativas deste teor podem incorporar seja uma "ilusão retrospectiva". "desligada de todo interesse pelo fato". "Le métaphysique dans l'homme". MERLEAU-PONTY. Cf MERLEAU-PONTY. que podemos realizar o movimento de comL MERLEAu-PONTY. literalmente. entre uma filosofia que postula uma consciência fora do tempo. elegendo. o autot aborda aquela questão do ângulo das relações entre. "Máteriaux pour une théorie de l'histoire". Gallimard. Merleau-Ponry afirmará que é precisamente pela nossa inerência a uma determinada situação. é nossa experiência de sujeitos situados.4. Interessa-nos. Não há que escolher. Em quase todos esses ensaios. por exemplo... Paris. do que ela fala". resumir alguns aspectos de sua posição a respeito da filosofia e da história. projetando as categorias de hoje na leitura do passado. Em contrapartida. "Matériaux pour une théorie de l'histoire". in Sens et nonsens. 22 I Foucault. é claro. ou em "Le philosophe et la sociologie". a filosofia e. Ciências do homem e fenomenologia. história e filosofia serão não apenas solidárias. Mas a peculiaridade está. para introduzir nosso estudo. assim como uma filosofia que sobrevoasse os fatos "só desembocaria em verdades formais. Primeiramente.

Graal. Por outro lado. 151. 239.15. Ou ainda. pois ainda não estou muito seguro quanto ao que formulei (. na prática. A partir destas considerações iniciais. E num debate a propósito do primeiro volume da História da sexualidade. "Não ao sexo rei". ). M. que atesta uma evasão sadia em relação a todo dogmatismo. quais são seus efeitos. ao que parece. M. Salvaguardadas estas observações.. a filosofia como crítica da cultura I 25 . e org. de "jogo"ll. além de marcar uma postura fortemente anti dogmática.13. Rio de Janeiro.. ela rege nossos papéis. cheio de buracos para que neles possamos nos alojar". in Microfisica do poder. após a observação de que "em muitos momentos você se definiu como historiador". E 10 FOUCAULT. Noutra ocasião. in Microfisica do poder. "Sobre a geografia". Ora. conclui dizendo ser "este. É que esses e~ritos assumem um caráter por assim dizer flutuante. como isso se entrelaça com as relações de poderJJ16 . o papel do historiador"14. 13 FOUCAULT. a função mais modesta de "fornecer os instrumentos de análise". 164. Ver também 259. Ele próprio parece situar a si mesmo em ambas... o intercâmbio entre ambas. 243. Em outras passagens afirma o caráter parcial e ziguezagueante de suas investigações 12 . E é essa a prática que. se for da verdade que me ocupo. é essa certa ambigüidade que. realçando porém que a questão da verdade que ele coloca é a de perscrutar "qual é sua história. quando. mais de uma vez. 12 Cf. rejeitando ao intelectual o papel de "conselheiro" na militância política e designando-lhe.Corpo". Já no final da "Introdução" de A arqueologia do saber escrevera ele: "Não me perguntem quem sou e não me digam para permanecer o mesmo: isso é moral de estado civil. 19'(9. tentemos ver como o próprio Foucault compreende seu trabalho enquanto filosofia e enquanto história e. in Microfisica do poder. mas acentuar o lado francamente positivo dessa "resistência" à classificação. Quando. por exemplo. hoje.'Eis o que penso'. 1969. Paris. É sempre difícil tentar encaixar os escritos de Michel Foucault em classificações estabelecidas do saber. in Microfisica do poder. M. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever"lO. "Sobre a História da sexualidade". Podemos dizer que Poucault escreve com segurança sobre suas próprias incertezas e toda vez que aborda o trajeto de sua produção é pata questionálo. ao contrário. 15.nem tão precisas que desfaçam certa ambigüidade a atravessar. 156. Não são poucas as vezes em que se refere a seu trabalho de historiador. in Microfisica do poder.28. durante uma entrevista.. em que sentido se poderia dizer que algo como uma crítica da cultura permeia esse trabalho. "Poder. 16. Gallimard. eu sou apesar de tudo filósofo". M. Noutra ainda. O que existe de incerto no que escrevi é certamente incerto (... 14. parece abrir espaço para a possibilidade da eventual reunião das duas atividades numa mesma prática. 180. M. FOUCAULT.. Não nos importa aqui reproduzi-las. justifica ter gostado de determinada entrevista pelo fato de ter mudado de opinião "entre o começo e o fim. chama-o de "discurso hipotético" e. M. ). "Sobre a geografia".. em seguida. lhe é perguntado por que 'historiador' e não 'filósofo"'.. in Microfisica do poder. L'Archélogie du savoir. essencialmente... Questões dessa ordem são amplamente discutidas por estudiosos de Foucault. M. sua resposta indica que a questão da filosofia hoje não deixa de ser igualmente uma questão de história: "é a questão deste presente que é o que somos. já mais claramente afirmará: "E mesmo que eu diga que não sou filósofo. FOUCAULT. incrod. "Soberania e disciplina". depois de a ele referir-se como um "livro-programa tipo queijo gruyere. 2'-1 j Foucault. Simplesmente não estou certo quanto ao que escreverei nos próximos volumes". buscando desenhar seus traços eventualmente inalteráveis ou circunscrever características invariáveis. FOUCAULT. de Roberto Machado. a nosso ver.. escreve: "Não quis dizer . ao referir-se às mudanças ocorridas desde algum tem11 FOUCAULT. não será porém artificioso afirmar que os escritos de Poucault têm a ver com a história e têm a ver com a filosofia. FOUCAULT. é executada nos escritos his- tórico-filosóficos de Michel Foucault.

a filosofia como critica da cultura I 27 . 19. Tempo Brasileiro) 28.do poder próprio aos discursos aceitos como verdadeiros"!7. 1972. assegurando a linearidade do progresso. "Não ao sexo rei". de toda manifestação histórica. de modo uniforme e homogêneo. nesses casos. simplesmente oculto" de que supostamente estariam carregadosr 9 . FOUCAULT. Cf. L'Archélogie du savoir. Trata-se sempre. uma "história do espírito" é precisamente aquela que.. FOUCAULT. parentescos. 26 I Foucault. o tratamento dos textos na forma de "comentários". de algum modo salvase ao mesmo tempo a consciência como seu eixo: "Querer fazer da análise histórica o discurso do contínuo e fazer da consciência humana o assunto originário de todo devi r e de toda prática são as duas faces de um mesmo sistema de pensament. que filosofia e história se entrelaçam num mesmo trabalho que se pretende história da produção da "verdade". uma "história global" é precisamente aquela que. a dissolução da heterogeneidade. as multiplicidades e as transformações. quer encontrar "vestígios" que permitam traçar uma linha contínua. FOUCAULT.. uma lógica escondida. Já no Prefácio a O nascimento da clínica (1963) aponta dois recursos tradicionais que rejeita e chama-os de "estético" e "psicológico". que expliquem. Ibid. mediante a "decifração" dos textos. FOUCAULT. M. M. as "intenções" ou o "espírito" que os teriam inspirado20 . de início... 1972. as linhas de sua origem. da multiplicidade. Naissance de la clinique.. 21. Rio de Janeiro. M. por meio de todo acontecimento. quando recusa a elaboração da história tanto por um método que procede pelo "recurso histórico-transcendental" (isto é. deixando claro que é seu propósito fazer "a história da 'verdade' . como se os fatos fossem sempre uma espécie de "alegoria" a dizer outra coisa que não eles próprios!8. que não pensam as "diferenças" mas "as continuidades ininterruptas JJ2 ! de uma teleologia segura. portanto. sua Weltanschauung etc. O primeiro consiste em descrever uma história das idéias fundada em analogias estabelecidas pelo historiador. uma direção única. Paris. da dispersão. "Resposta a uma questão". os traços de uma história que Foucault não elabora. Mais ainda. de histórias "evolutivas" ou "progressivas". apontando assim em direção a um horizonte sempre longínquo e cada vez mais recuável) como por um método que procede pelo "recurso empírico ou psicológico" (isto é. "consciência histórica" que se constitui em núcleo unificador ou centro originário capaz de reunir em si a explicação e. por meio deles. que quer encontrar.59. que quer "interpretar" as significações explícitas dos fatos objetivando fazer falar. 239-23l. Mas que história e que verdade? Ou melhor. 65. um "sentido 17. 22. pois. M. Eis. Esses procedimentos têm em comum o uso da técnica que lhes é apropriada. a saber. Ao se salvar a linha segura da continuidade histórica. esses procedimentos cunham a história com a marca unitária do contínuo e da sub}etividade. PUF. influências"). 20. de que tipo de história esse filósofo que se ocupa da verdade é hoje o historiador? Afastemos. Foucault faz ver que a história do Ocidente "não é dissociável da maneira pela qual a 'verdade' é produzida e assinala seus efeitos". Ibid. São próprios às histórias "do espírito" e às histórias "globais". quer no curso sucessivo do tempo (buscando detectar "gêneses. filiações. Ainda mais.. É basicamente a esses mesmos recursos que também se refere noutro texto. essas histórias salvaguardam a unidade soberana do sujeito. na dispersão dos fatos e documentos. quer desvelar a "consciência".).po na escrita da história. Com efeito. O segundo consiste em buscar "interpretar" os fatos no sentido de encontrar como que por detrás deles suas razões mais secretas. 18. 22. 21. XIII. Préface. quer no âmbito interno de uma época (buscando captar seu espírito.?JJ22. in Microfúica do poder. capazes que seriam de trazer à luz a suposta origem e o suposto segredo que o discurso explícito implicitamente conteria.

. M. em seus desaparecimentos. com as práticas e as instituições sociais. Ibid. "histórias gerais. como o modo de seu uso. ela desvia o enfoque antropológico em direção aos discursos que compõem os saberes: "É isto que eu chamaria de genealogia. Faz ver que esta última "reintroduz (e supõe sempre) o ponto de vista supra-histórico: uma história que reria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma a diversidade. Ibid. as histórias que Foucault escreve são. I!.. dos domí27. no lugar de uma teleologia da continuidade e do progresso. nem histórias globais. contrapõe a genealogia compreendida como "história efetiva" (Wirkliche Historie) à história tradicional dos historiadores. M. FOUCAULT.Nem histórias do espírito. uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes. 31. 24. cenário. Sem dúvida. ela se opõe. "reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado imortal no homem". passa agora a ser "um dos elementos fundamentais da análise histórica"25.. são histórias que.m. espírito. Concomitantemente. dos discursos. forma de conjunto. "Nietzsche... Para a genealogia. Ibid. enfim reduzida. não há por trás da trama histórica qualquer identidade pura de um sentido ou de uma essência. isto é. visão do mundo. M. 17.23 entendidas como descrição dos fatos em sua singularidade de acontecimentos. Ela se opõe à pesquisa da 'origem"'31. a genealogia e a história". todos os disfarces"29. FOVCAULT. cena. Simplesmente história que nos permitiria nos reconhecermos em toda parte e dar a todos os deslocamentos passados a forma da reconciliação. Nesse uso. Ibid. Recolhamos estes traços da história praticada por Foucault na seleção de algumas passagens em que ele explicita o perfil da genealogia. 25. Primeiro. isto é. 26. Seuil.. 17. isto é. in Microftsica do poder. como ele mesmo as chama. essência única e sempre a mesma. 27. 26. significação. as histórias que Foucault escreve desfocam a categoria da consciência e se voltam para as análises dos discursos considerados quer em suas correlações internas. 10. L'Archéologie du savoir. máscara. que por ser impensável devia ser suprimido e desintegrado mediante sua integração numa explicação continuísta. em suas correlações. ao contrário. de sorte que se antes a descontinuidade equivalia ao "impensável". A história tradicional. 28. 29. 16. 19. quer em suas relações com o extradiscursivo.. reporta a Nietzsche não só o termo "genealogia". como tantas máscaras sob as quais não há um rosto a ser desmascarado: "A genealogia é um carnaval organizado"30. buscam antes "detectar a incidência das interrupções"24. Segundo. "Réponse au Cercle d'épistémologie".. a filosofia como crítica da cultura I 29 . uma história geral desdobraria. É interessante observar a freqüência no uso deste tipo de metáfora: carnaval. ao contrário. disfarce. teatro. reintroduz "o descontínuo em nosso próprio ser. 9. a genealogia. o que existe é precisamente a multiplicidade de fisionomias. 34.. bastidores. em sua perseguição da origem (Ursprung). ela recusa a identidade das origens e a segurança das teleologias: "A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profun- da do filósofo ao olhar de toupeira do cientista. jogo etc. 30. FOUCAULT. considerando "acidentais todas as peripécias que puderam ter acontecido. o espaço de uma dispersão"26. ao contrário. todas as astúcias. Ibid. ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. uma 23. interdiscursivas. À prática desse procedimento Foucault chamou primeiramente "arqueologia" e posteriormente "genealogia".28. do tempo.. 1968. Paris. ibid. Cf. em suas transformações. ao contrário. A "história efetiva". O deslocamento é explícito: "Uma descrição global encerra todos os fenômenos em torno de um centro único ..princípio. Cahiers pour l'analyse. pretende recuar ao reencontro de uma identidade enfim desvelada. 28 I Foucault. uma história que lançaria sobre o que está atrás dela um olhar de fim de mundo.

mas ao acaso da luta". aqueles que são reconhecidos como científicos e. essa orientação 32. Finalmente. ou melhor. estamos nela e nela ficamos. 34. ou uma batalha. sujeito constituinte e progresso evolutivo. ao aqui e agora.. nem de trocar o núcleo "consciência" por outro chamado "discursos". Digo que considero um mau método colocar o problema 'por que progredimos?'. Foucault restringe a região de seus estudos: entre os discursos. Mas a prática deste procedimento na escrita da história não é também movida ao acaso de um capricho. mas descrever e 35. M. um tratado. seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história"32. Ouçamo-lo mais uma vez: "Uma edição do Petit Larousse que acaba de sair diz: 'Foucault: um filósofo que funda sua teoria da história na descontinuidade'. mas antes "risco sempre renovado (. "Verdade e poder". simplesmente conferida ao entendimento e à escrita da história. ao privilegiar os acontecimentos discursivos como campo de análise. forças que "no jogo da história não obedecem nem a uma destinação. entre estes. longe de ser inocente. uma estratégia. enquanto filósofo. "Nierzsche. para domínio da investigação histórica. in Microftsica do poder. estas precipitações de evolução. FOUCAULT. E essa estratégia se aloja no ponto de cruzamento entre a questão da verdade e os mecanismos do poder. daquilo que é aceito "como cientificamente verdadeiro" que nos encaminha à abordagem dos vínculos dessa história com a questão da verdade enquanto assunto da filosofia. M.33. a uniformidade pela dispersão... ocupar-se. nem a uma mecânica.. estas transformações que não correspondem à imagem tranqüila e continuísta que normalmente se faz? Mas o importante em tais mudanças não é se serão rápidas ou de grande amplitude. 7. é precisamente a eleição. )"34. ou melhor elucidado do que o que se passou antes. a filosofia como crítica da cultura j 31 . M. ). este ceticismo radical mas sem agressividade que se dá por princípio não tomar o ponto em que nos encontramos por final de um progresso que nos caberia reconstituir com precisão na história. entendendo-se por "acontecimento". O problema é 'como isto se passa?'. in Microfisica do poder. M.. 30 ! Foucault. in Microfoica do poder. FOUCAULT.. seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos. acaso do jogo que "não é simples sorteio". não se trata pura e simplesmente de efetuar substituições de algum modo arbitrárias: a continuidade pela descontinuidade. teleologias. despida de origens. Ao contrário. Terceiro. em certos momentos e em certas ordens do saber. a genealogia descreve uma história marcada pela descontinuidade dos acontecimentos..nios de objeto etc. Essa escolha é. sem ter que se referir a um sujeito. mas uma relação de forças". Por um lado. Afinal. Isto é. "Sobre a prisão". 33. ou mais elaborado. este ceticismo que impede que se suponha que tudo isto é melhor ou que é mais do que o passado (. "Verdade e poder". ). "não uma decisão.. e daí à compreensão do que chamamos seu comprometimento crítico com a cultura. sem dúvida. funciona como uma "estratégia" porque calcada num comprometimento crítico com pretensões a uma eficácia política. os que compõem a região mais cambiante e imprecisa que é constituída pelos saberes das chamadas ciências humanas.. E o que se passa agora não é forçosamente melhor. Meu problema não foi absolutamente dizer: viva a descontinuidade. in Microfisica do poder. a linearidade pela diferença. ter em relação a nós mesmos. FOUCAULT. a nosso presente. mas colocar a questão: como é possível que se tenha. 28. E não digo que a humanidade não progrida. a genealogia e a história". 140. esta rapidez e esta amplitude são apenas o sinal de outras coisas: uma modificação nas regras de formação dos enunciados aceitos como cientificamente verdadeiros"35. Isto me deixa pasmado (. por que tantas "inversões"? Com efeito. um reino. Com efeito.. estas mudanças bruscas. Ora. ao que somos. 3-4. FOUCAULT.. com a questão da verdade significa aqui não ir em busca de uma essência a ser descoberta. ela não está preocupada com o "progresso": "Tenho esta precaução de método..

172.que autoriza a qualificação de objetos. M. in Microfísica do poder. a genealogia pretende constituir-se em foco de crítica e em instrumento de resistência. Ibid. trata-se. FOUCAULT.) "Genealogia e poder". que tipo de poder é capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos?. pela análise do nascimento das prisões. "Verdade e poder". ocupando-se da análise das relações entre saber e poder que. do doente. do enfermeiro. 171. FOUCAULT. l. Por outro lado. M. "Sobre a prisão".analisar os modos como a "verdade" vem sendo historicamente produzida. inversamente. Assim."42 Mais ainda: lembremos que enquanto a arqueologia pretendia realçar principalmente as epistémes) isto é. faz emergir.. a história da Desrazão e do Outro. saberes abaixo do nível da cientificidade" (por exemplo. o correto e o errado. 142. de sujeitos. o normal e o patológico etc. E isso duplamente. com a questão da verdade encarada segundo seus modos históricos de produção é ocupar-se também do vínculo circular que ela mantém com os modos de exercício do poder: "o exercício do poder cria perpetuamente saber e. dissociando assim o sujeito do conhecimento que "possui a verdade" de seus "objetos" que "nada sabem". FOUCAULT. 32 I Foucault.. na medida em que ela envolve saberes cujo "perfil epistemológico". conteúdos históricos que foram subestimados ou silenciados pelo saber "qualificado" das histórias tradicionais: mostra. posto que em nossas sociedades ocidentais são os discursos reconhecidos como científicos os que compõem os saberes aceitos como verdadeiros. E posto que é a região das chamadas ciências humanas a que melhor ou mais claramente permite fazer ver aquele entrelaçamento entre regime de verdade e regime de poder. 41.. "Sobre a geografia". é aliada da recuperação de saberes considerados "ingênuos.. tensões"39. num trabalho que exige paciência e erudição.. formal e científico. 154. por um lado.regras que são transformáveis de uma sociedade para outra. por seu turno. linhas de força. daquele estabelecimento do jogo de regras . abriga "combates. se a "verdade" é "efeito" do poder das regras segundo as quais determinados saberes têm a competência para a verdade. de uma época para a outra . do delinqüente etc. precisamente. e ao mesmo tempo.. para a produção de saberes reconhecíveis como verdadeiros. o nível das 40. M. M. por exemplo.40. 36. 38. in Microfísica do poder. torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico. de enclausuramento e de redução ao silêncio. os direitos de uso do poder (em seu nome se distingue não só o verdadeiro e o falso. "Soberania e disciplina". o saber acarreta efeitos de poder"36. recuperar. podemos dizer que. Eis a pergunta de "filosofia política" que Foucault se coloca: "Em uma sociedade como a nossa. unitário. "A genealogia seria portanto. a filosofia como critica da cultura I 33 . FOUCAULT. enquanto filósofo. por ser "pouco definido"38. in Microfísica do poder. pontos de confronto. Por outro lado.. é sobre ela que vai particularmente recair a invesrlgação. mediados pela verdade. mutuamente se produzem e se reproduzem. descreve. Busca.. 42. é desses saberes que tratará a genealogia. 170. essa competência lhes atribui. de que modo a pretensão ao estatuto científico dos saberes sobre o homem lhes imprime as marcas do exercício do poder. hierarquicamente inferiores. atribuindo ao sujeito detentor do conhecimento sobre o homem a "competência" que autoriza o domínio de seus "objetos". in Microfísica do poder. M. 39. Simplesmente Nesse sentido pois. ocupar-se. FOUCAULT. revelando os mecanismos correlatos de exclusão.37 Ora. 179. de instituições. um empreendimento para libertar a sujeição dos saberes históricos. como o permitido e o interditado.). conteúdos históricos que evidenciam o poder na forma da disciplina etc. isto é. com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na hierarquia de poderes próprios à ciência. 37. Ibid. em face das histórias da Razão e do mesmo. Quer propor "um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais.)". in Microfisica do poder.

34 I Foucau!t. "Os intelectuais e o poder". J a filosofia como crítica da cultura I 35 . 242. ele próprio. finalmente. M. de um modo tão geral quanto simples. contudo. É nesse sentido que não nos parece abusivo reconhecer nos trabalhos históricofilosóficos de Foucaulr algo a que poderíamos chamar uma crítica da cultura ou. habilitado para o poder. Assim. XIII. alguns aspectos que apontávamos em nossas primeiras considerações em torno de Merleau-Ponty. Surveiller et punir. (saber". nem nos diferentes ângulos sob os quais pode ser abordado e. in Microfísica do poder. pressupunha. "Não ao sexo rei".. não há que se esquecer que. da cultura "qualificada".. esse trab~lho filosófico de constituição de 43. aquela simultaneidade entre 46. .. Foucault não rejeita a afirmação que lhe é dirigida por um entrevistador: "Você mostrou como o saber psiquiátrico trazia consigo. a medicina de Bichat o espaço do Hospital e a economia política a estrutura da fábrica"44.276. na prática.'TY.correlações interdiscursivas.. falar. Les Mots et les choses. Merleau-Ponty recusava igualmente tanto a ininteligibilidade da história como as pretensões "de uma História Universal inteiramente desdobrada diante do historiador como o seria sob o olhar de Deus. principalmente "Verdade e poder". FOUCAULT..que envolve tanto as inter-relações dos saberes como suas articulações com as práticas institucionais. ao estabelecer a história da constituição dos saberes explicitando seu vínculo com exercícios do poder. «nem a arqueologia. pensar.... 11. a crítica tem um caráter local e específico 46 • Em oposição ao teórico "legislador". in Microfísica . . in Microfisica do poder. nem. E permite que reencontremos. É aliás numa concepção assim bem ampla que o termo é freqüentemente usado neste Prefácio. M. Gallimard. sobretudo. FOUCAULT. assumem.. "Neste sentido". Ora. As histórias que Foucault escreve. Paris. em oposição às teorias gerais e globalizantes. MACHADO R. a respeito da filosofia e da história. menos ainda. 59. E pelo menos dois aspectos. Gallimard. o conjunto de saberes teóricos e de práticas sociais que compõem o quadro em que se move uma determinada sociedade e cujos limites lhe demarcam as possibilidades de "nomear. M. Ver também. Préface. como o saber disciplinar trazia consigo o modelo da prisão.45.. 16l.. Daí o cuidado insistente de Fou- caulr em não se vir a rransformar a análise realizada pelas genealogias em outro saber centralizador ou monopolizador da "verdade" e."48 Essa mobilidade que é constitutiva da postura mesma das investigações de Foucault vem confirmar aquela distância de quaisquer dogmatismos a que inicialmente nos referíamos. nas muitas questões que suscita.. regulamentos coercitivos e proposições científicas .por ele chamada de "dispositivo" . simplesmente um "saber histórico das lutas" é. "Le métaphysique dans l'homme". 47. FOUCAULT. partícipe da "história" e da "cultura". Cf.. E. Entende-se assim que. bem como das relações entre ambas. Paris. construir uma teoria ou se constituir como sistema: o programa que elas formulam é o de realizar análises fragmentárias e transformáveis. por exemplo. 44. a genealogia os considera como peças nas tramas de uma rede .49. pelo menos. 48. 1975. essa crítica da cultura. 49. "Sobre a geografia". poderíamos considerar "cultura". Lê-se. portanto. numa passagem de Vigiar e punir: "O sistema carceral reúne numa mesma figura discursos e arquiteturas. como ainda a suas relações com as estruturas sociais. "Genealogia e poder".43. "Introdução". MERLEAU-POl\. a genealogia se dirige não somente ou sobretudo aos discursos. a genealogia têm por objetivo fundar uma ciência. in Sens et non·sens 158. 45.. além de avessas a qualquer aspiração de universalidade. exigia a reclu- são asilar. sem entrarmos na pluralidade possível de acepções que podem ser cobertas pelo termo "cultura". 1966. Foucault sonha "com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades"47. M. escreve Roberto Machado. in Microfísica do poder. Éloge . Cf. Do mesmo teor. Recusando a alternativa entre uma história atravessada por um sentido teleológico e uma história desprovida de sentido porque concebida como um conglomerado de fatos.

nem "ilusão retrospectiva". o momento em que eles estão. Foucault faz filosofia fazendo pesquisa histórica. e justamente por isso é também visado por seu mesmo olhar crítico. mas segundo a inteligibilidade das lutas. "Saber perspectivo". pois. o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. em seu saber. M. "Verdade e poder".. já o "saber perspectivo". apagar o que pode revelar. in Microfísica do poder. ao contrário.o incontrolável de sua paixão". de certa maneira. das estratégias. nem "ilusão prospectiva". M. FOUCA. . de um conhecimento sem ponto de vista. e perceber diferentemente do que se vê. "Le philosophe et la sociologie". em agosto de 1994. Piracicaba. FOUCAULT. 50. podemos denominar "do outro e do mesmo" se estenda como um pano de fundo dessas histórias. ele próprio..51. "Nieczsche. o mesmo e o outro j 37 . Ao contrário. partindo de uma ilustração que está nas primeiras . Conferência apresentada na VII Semana de Estudos em Filosofia da Universidade Metodista de Piracicaba. com o propósito deliberado de apreciar. porém. eis como Foucault (na descrição da genealogia nietzschiana) caracteriza a história: os historiadores que perseguem a neutra objetividade de uma consciência isenta e soberana "procuram. agora. 30. elaborado a partir da cultura que o torna possível. Simplesmente 111 O MESMO E O OUTRO Faces da história da loucura* De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não. a genealogia e a história". atravessando com realce a chamada Idade Clássica (séculos XVII e XVIII).uLT. a deslocar-se. o uso dos prazeres. na medida do possível. in Microfoica do poder. 52. o partido que eles tomam .. "é um olhar que sabe tanto de onde olha como o que olha"52. Unimep. o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida nos quais a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa. o lugar de onde eles olham. FOUCAULT. M. Publicaclaem Foucault e a destruição das evidências (MARlGUELA. "sabe que é perspectivo". M. 36 I Foucault. Merleau-Ponty se opunha ('ao ideal de um espectador absoluto. há que se dispor.. MERLEAu-PONTY.a ausência de um sentido único e a presença de inteligibilidade. de sorte que. Por ser "perspectivo". Afinal. Segundo. genericamente.. se provoca deslocamentos. 136. "olha de um determinado ângulo. conduzindo este aparente paradoxo a uma nova direção: "A história não tem 'sentido'. de dizer sim ou não". olha-a criticamente. é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes. 13. É possível sugerir que a questão que. 5.. das táticas"50.. M. e se saber assim. org. 1995. afirmando que é pela inerência a uma situação histórica particular que podemos compreender a significação de outras situações que compõem a trama da história. por propô-la. As histórias que escreve desenvolvem-se no espaço do Ocidente. e o tempo que percorrem é quase sempre aquele que vai desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX).). e conseqüentemente. in Éloge. e tanto quanto possível. 51. Comecemos. mas a olha de dentro dela.. é indispensável para continuar a olhar ou a refletir.

. dizível portanto -. porém (para reduzir-lhe a alteridade)"6. de dentro dos quadros de uma cultura. falar. Esta classificação reúne de modo incongruente categorias sem nexo que. "A gramática do homicídio". g) cães em liberdade. leia-se MACHADO. Ordem e lugar. Afinal. Tempo Brasileiro. 4. Estranheza. Com efeito. substancial e minuciosamente. 2. k) desenhados com um pincel fino de pêlo de camelo. Ibid. 3.páginas do Prefácio de As palavras e as coisas. supostamente extraída de uma enciclopédia chinesa. 8. dizê-las. Assim. portanto. porém. dependem de um espaço homogêneo e comum dentro do qual somente ou sobre o qual as coisas possam ser localizáveis e ordenáveis. FOUCAULT. "Arqueologia da percepção". aquela classificação de animais 1. a descrição da experiência da loucura durante o período renascentista ocupa não mais que as 55 páginas do capítulo inicial. de Janeiro. Ibid. estranho e exterior. I) et cetera. h) incluídos na presente classificação. Ibid. in O homem e o discurso (A arqueologia de Michel Foucault). m) que acabam de quebrar a bilha. d) leitões.. Segundo esta classificação. 38 I Foucau!t.que. É à experiência clássica . "Préface".pensável. P. a saber. antes. I. 11. f) fabulosos. 1982 (cf. 7. Também ROUANET. justamente. 15. é esta ordem que ali parece não "caber". falar.. parece vincular a seqüência das classes nela reunidas.cuja vertente institucional é o Asilo . pode-se também entender o "outro" em seu sentido estrito: aquilo que. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Michel Foucault. a partir daí. n) que de longe parecem moscasJ1 1. c) domesticados. 57-95). a nós. desse em (lugar) e desse sobre (espaço) que instaura.. repousa sobre outro espaço: "A China . M. a limita por dentro. a possibilidade e a impossibilidade de "nomear. Nossa exposição pretende tão-somente retraçar.. a série alfabética. história "daquilo que para uma cultura é ao mesmo tempo interior e estranho. simplesmente não é. alguns aspectos dessa história7 • No conjunto do livro. Ora. naquela classificação. porém. 9. "ausente" de espaço. em resumo. para nós. o mesmo e o outro I 39 . Graal.. não é justamente o lugar privilegiado do espaço?JJ5 Eis o "outro" em seu sentido mais amplo: limite de pensamento e de linguagem para uma cultura. b) embalsamados. a estranheza dessa classificação 4 . Trara-se da reromada de uma classificação dos animais..e à experiência moderna . mas constantemente ameaçado de submissão aos critérios do "mesmo".. "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador. excluído (para conjurar-lhe o perigo interior). Gallimard.2. ainda que meramente alfabética: "O absurdo arruína o e (ordem) da enumeração. diferença que lhe é inclusa. É nesse sentido que a História da loucura é uma história do "outro": história daquilo que pertence à nossa cultura . espaço que torna possível nomeá-las. j) inumeráveis. S. se dedicam as mais de 600 páginas do livro em suas três partes (as duas primeiras ocupando-se da Idade Clássica e a terceira da nossa Modernidade). a ser. Mas. 6. Nas pretensões reduzidas desta exposição 5. Para uma reconstituição mais completa do livro. há uma ordem que. Rio de Janeiro. A estranheza da ordem está em sua articulação com a ausência de lugar capaz de permitir a reunião das classes e sua ordenação.. Borges. 10. por assim dizer. é a justaposição desse e (ordem). Paris. nomeável. parecem impossíveis de "nomear. Ibid.cuja vertente institucional é o Hospital Geral . pensá-las. R. i) que se agitam como loucos. simultaneamente interna e estrangeira.es mots et les choses. Mas.. simultaneamente. pensar. espaço. 7. pensar" podem ser analisadas em torno de três termos: ordem) lugar. aquilo que a circunda por fora e lhe escapa. precisamente porque ameaçador. 1971.. marcando de impossibilidade o em (lugar) onde se repartem as coisas enumeradas"3. 1966. citada por Jorge L. e) sereias. para nós.. Ibid. Rio. encerrando-o.

purificava: "O pecador que abandona o leproso à sua porta abre-lhe a salvação. Contudo. o papel de manter o louco como "prisioneiro em meio à mais livre e mais aberta das rotas: solidame~te preso 12... as "estruturas" e as "formas"ll que.e para outros personagens.d. 18. peregrinos ou marinheiros. 16. assumirá. isto é. 11. 13. o gesto ritual da cisão. Ib. Paris. e evitando o risco de um resumo por demais empobrecedor. por exemplo. Era freqüente nas composições literárias e pictóricas do Renascimento a imagem de navios que transportavam "heróis imaginários". Ib. reclusão e salvação serão transpostas. em meio a essa onda literária e pictórica. numa sucessão histórica longa. De fato. du8. do contato com focos de infecção do Oriente).d. porém. ou melhor.d. "tipos sociais" cuja viagem simbolizava seu "destino" ou sua "verdade"I3. Requeria. a loucura.. títulos de obras literárias incluíam. como também a Nau dos loucos. rito que segregava e.. do contágio) e do final das Cruzadas (e. FOUCAULT.. ••• Leprosários e navios Ao término da Idade Média..15. 9. antes por força da segregação dos leprosos (e. Assim. escolhemos tratar os três períodos em proporções diversas às do livro. no decurso de uma longa sucessão histórica. ou seja. portanto. uma espécie de papel de herdeira da lepra!'. gesto que excluía e. os leprosários se esvaziam. Era. a Nau das damas virtuosas. a figura da nau carrega o simbolismo da água que purifica e da navegação que é passagem. circulará sem posição fixa. 1972. Para Foucault. Água e navegação cumprem. a Nau dos principes e das batalhas de nobreza. não como resultado de práticas médicas. 19. estão vinculados à instituição do leprosário e ao personagem do leproso vão persistir. 16. 15. Por motivos análogos. Ib. Historie de la falie à l'âge classique. o mesmo e o outro I 41 . Simplesmente rante a Idade Média. simultaneamente. Gallimard. sacralizava. A lepra regride. "modelos éticos". para outras instituições . expulsos das cidades.d. Ia. antes. de certo modo. Assim. assim. no chamado período renascentista (por volta dos séculos XV a XVII). Entre eles.9. esse "gesto que expulsa" está próximo do "rito. os "valores" e as "imagens"lO. segregação e sacralidade. a ser "suprimida" e "curada". 16. simultaneamente. os loucos vagavam. 2 a ed. M. o louco. cerca de dois séculos mais tarde (por volta da segunda metade do século XVII e no século XVIII). A lepra regride. exclusão e purificação. a abordagem da Idade Clássica e da Modernidade será apenas pautada em algumas passagens em que o próprio Foucault fornece descrições mais amplas desses dois momentos. a Nau dos loucos guardava uma singular peculiaridade: a de existir realmente. pois. séculos mais tarde. uma espécie de testemunho do mal ao mesmo tempo que de sua expiação. Ib. 13.. 19. a lepra não era experimentada como "assunto médico".d. Porém. começa o esvaziamento daquelas casas de "exclusão" e "purificação"s que se haviam multiplicado às portas das cidades medievais: os leprosários. 15. no intermédio entre o final da Idade Média e o início da Idade Clássica. Com efeito.d. portanto. ela ocupará outra posição. Ib.pincelar algumas faces ou facetas da história desse "outro" que é a loucura no Ocidente -. numa existência "errante"14. entregues a mercadores. Antes disso. 40 I Foucault. na chamada Idade Clássica. a recomposição dessas "facetas" será organizada em dois tópicos ou subi tens. Por isso mesmo. nos limiares do Renascimento (por volta dos fins do século XIV). Ib....d. Mas.muitas vezes nos mesmos lugares que antes abrigavam os leprosos . Ib.. 14.

Historie de la folie . Não mais nau. entre as expressões lingüísticas. A ironia crítica. a "ironia da crítica". a presença subterrânea do trágico será pressentida e testemunhada como que em erupções esporádicas (Nietzsche. 18. irônico e moral. Não mais vagará: "Ei-la amarrada. com Descartes. no meio das coisas e das pessoas. mas é também árvore "moral" do bem e do mal. Bosch. o banimento da loucura do caminho que conduz à certeza22 • A 19. Ibid. observa Foucault. jurisconsultos. escritores. porém. humano-animalescas. Artaud. a partir dela. como que "às escondidas" e "em vigí- lidade presente no coração do homem.' '. a loucura aparece como motivo de sátira ou de escárnio. obras de Brant. e Montaigne sugere que loucura é fiar-se apenas na razão ls .). torna-se "familiar" em um mundo que lhe é "estranhamente hospitaleiro"20. Dürer.. de onde nascem a ambição dos políticos. 34. Goya. 53.' . de tal modo que. mas hospital"21. com Montaigne. no texto. Bosch é a figura da árvore: árvore proibida da sabedoria à qual só os loucos têm acesso. essa ocultação jamais abolirá inteiramente a experiência do trágico: "esse desaparecimento não é uma derrocada"l9. Nos séculos seguintes e até hoje.""" L __ ":iJt" I 43 '. a presunção dos sábios (O Elogio da loucura. Erasmo. como que "nas noites dos pensamentos e dos sonhos". t:. do Hospital ao Asilo.gramáticos. no verbo. O "fascínio do trágico" transparece sobretudo nas imagens pictóricas: são figuras fantásticas. mas como mal e fraqueza humanos. em Descartes são incorporados os erros dos sentidos e a ilusão dos sonhos.16. que mostram a bestia- humanas. os dois pólos se distanciam e o elemento crítico ganha relevo sobre o trágico. no verbo. 20. simbolizadas pictórica e literariamente. 54-55. poetas. no curso da história. um largo lugar para homens de saber" . uma experiência que envolvia duas vertentes simultâneas: um lado trágico. assinala o fim da experiência renascentista. Sade são alguns exemplos desses pressentimentos e testemunhos). Mas. simplesmente Hospitais e asilos No começo do século XVII a loucura adentrou os muros da cidade. mas. internalizada.l? As duas vertentes da experiência renascentista da loucura. o trágico da loucura subsistirá na obscuridade. deixando na sombra o silêncio verbal e fascinante das imagens trágicas carregadas de forças cósmicas. 22. Ibid.à infinita encruzilhada. o mesmo e o outro . certamente se entrecruzam: há temas morais nos quadros de]. Ibid. fascinante e cósmico. a avareza dos ricos. Gradativamente. O mastro da Nau dos Loucos de]. malgrado o predomínio cada vez maior do racional. num deslocamento que vai da Nau ao Hospital. abrindo o limiar da Idade Clássica e. que transparece sobretudo nas composições literárias e filosóficas. teólogos etc. Retida e mantida.39. M. Enquanto em Montaigne a loucura é incorporada ao caminho que conduz à verdade. na palavra: ali. reserva.... A ambigüidade dessa simbologia corresponde à ambigüidade da experiência renascentista da loucura.. 22. não mais como detentora dos segredos ocultos do cosmos. 42 1 Foucault.. os caminhos que conduzirão à experiência moderna da loucura.. ocupa cada vez mais o primeiro plano na experiência da loucura. a crítica à presunção da razão. 17. lia". FOUCAULT. . Ele é o Passageiro por excelência. Brueghel. o prisioneiro da Passagem. voltada para a racionalidade e a moralidade 16. a predominância do saber crítico sobre o trágico. Ibid. isto é. de Erasmo. na palavra. Entre as expressões pictóricas incluem-se obras de]. Van Gogh. um lado crítico. prioritária no texto. por exemplo. "na ronda de loucos. Sem dúvida. Não mais. 21. Ao mesmo tempo.. Montaigne. marcando o domínio da razão sobre a loucura. solidamente. filósofos. Bosch. impregnadas de um saber hermético que anuncia a ameaça da desordem e do fim do mundo e ao qual só os loucos têm acesso. mas a loucura é excluída.

agrupava em uma única administração estabelecimentos já existentes com fins diversificados (como. as liberdades do pensamento e do coração. Diferentemente dos viajantes das naus renascentistas. ao lado da loucura.. mais pressentida que percebida. morais. Diferentemente dos leprosos da Idade Média. a Salpêtriere. Demarcada por oposição à razão. séculos mais tarde. prostitutas. O gesto que interna não é mais simples: ele também tem significações políticas. o mesmo e o outro I 4S . blasfemadores. cuja expressão institucional foi o internamento. localizados. naquele gesto que produzira a alienação.desordem irracional do trágico submete-se à ordem do racional. portadores de doenças venéreas. se transmutará em doença mental. 23. filhos ingratos. O Hospital Geral de Paris. podem ser assim identificados: pobres. na Alemanha.. 117. assim como os leprosários. enfim. as interdições religiosas. por exemplo. Numa palavra. também. que antes abrigava um arsenal. Ibid. 64.>23. entre outros. pretensas feiticeiras e. "homens de des- razão"24. v~gabundos. muitas delas estabelecidas nos antigos leprosários. mas da alienação e da doença mental: "anexando ao domínio da desrazão. que colocara a distância. cabeças alienadas. insensatos.. são fundadas instituições para o internamento. para os tempos da Modernidade. "asilada". mágicos. Com base nessas várias referências. religiosas. na Modernidade. "isolada" e. antes destinada a recolher inválidos de guerra). os Hospitais Gerais. "individualizada". já segregada. as proibições sexuais. que eram "portadores do visível brasão do mal". na Inglaterra. espíritos transtornados .. 1I9. ou a Bicêtre. os hóspedes do Hospital Geral são instalados. ainda que incluíssem visitas médicas em seu sistema de funcionamento. os "novos proscritos da Idade Clássica carregam os estigmas mais secretos da desrazão"25. de dentro dele. que data de 1656. tornados "presença concreta" no horizonte de uma «realidade social" que demarca explicitamente a cisura entre a razão e a desrazã0 26 • É lá. o classicismo formava uma experiência mo24. que "alienara" a desrazão. No século XVII são fundados os Hospitais Gerais que constituem a estrutura visível e a forma institucional da cisão entre razão e desrazão. libertinos. não tinham propósito terapêutico: "O classicismo inventou o internamento um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos. devassos. 25. O leprosário não tinha um sentido apenas médico. porém. Sua condição de possibilidade encontra-se lá. em toda a França. a loucura é transformada em desrazão. Como em Paris. desem- pregados. muitas outras funções eram desempenhadas neste gesto de banimento que abria espaços malditos. homossexuais. que segregara. sociais. Ibid. por decreto real sob Luís XIV. desrazão que. 26. ser "separada" como objeto possível de conhecimento. É porque já "distanciada". transportando consigo. é lá. numa esfera que será não mais da desrazão. Ibid. II 7. Os "novos personagens" que ocupam esses estabelecimentoS são apresentados em diversas passagens e em listagens mais ou menos longas. 44 I Foucault. o lugar deixado vazio por estes foi ocupado por personagens novos no mundo europeu: são os 'internados'. pródigos. alquimistas. pais dissipadores.. simplEsmente suicidas.. os traços que marcavam os diferentes grupos com que até então se avizinhava. A designação posterior e moderna da loucura como alienação e depois como doença mental não será o resultado direto de uma espécie de progresso do conhecimento. E. enfermos. isto é. que vagando por toda parte eram uma presença igualmente "vaga". Ibid. que a loucura poderá. correcionários. que a loucura será mais tarde "destacada". econômicas. jovens que perturbam o repouso da família ou dilapidam seus bens. nesse espaço aberto pelo classicismo.

. o mesmo e o outro I 47 .. pois. que. sobre o solo da experiência classicista da loucura.2B. bispos. polícia) e o louco tinha o estatuto de "sujeito social") perturbador da ordem. 31. mas o resíduo ainda de uma percepção medieval e renascentista em que a individualidade do louco era de algum modo reconhecida. onde.ral da desrazão que serve.entre a Idade Média e o Renascimento até a nossa Modernidade. ela inverte-lhes a ordem e a prioridade.. não foi avanço rumo à Modernidade. ainda que vagamente. de solo para o nosso conhecimento 'científico' da doença mental. Ora.33. 28. mas em seu exílio e em seu silêncio: "Não é importante para a nossa cultura que a desrazão só tenha podido tomar-se objeto de conhecimento na medida em que previamente foi objeto de ex-comunicação?"29.31. é lá . por essa dessacralização. Ibid. mas como prática social.não o esqueçamos . por exemplo).. com "as vizinhanças da culpabilidade. 32. se reconheceria na loucura a doença.. antes "justapostas". inclusive do ponto de vista cronológico.. 59. as decisões procediam de julgamentos médicos e o louco tinha um estatuto de "sujeito juridicamente incapaZ. serão depois "superpostas.. diferentemente das casas de internamento. 144. Nas casas de internamento. Nos hospitais comuns.. O fato "novo". "encontrarão os loucos. em que as perspectivas eram antes de correção) castigo e repressão. porque só alcançada no propósito inicial de uma condenação"27. de modo que a experiência mais ampla e relevante da loucura foi seu internamento não Como procedimento médico.. no fundo. 33. Assim. Bethlém em Londres. perfaz ele uma aparência de neutralidade que já é comprometida. comprometido. consistirá numa espécie de junção entre suas duas vertentes. 29. 146. se internavam loucos com perspectivas de tratamento e de cura. 34. Em outras palavras: o "alienado" será reconhecido simultaneamente como "incapaz e como louco"34. calcada na repartição entre razão e desrazão e misturando indiscriminadamente os insensatos aos demais grupos "associais" ... 147.. Uma leitura histórica simplista e linear poderia talvez prevalecer-se do fato de que durante esses 150 anos . embora em número extremamente menor. na verdade. as decisões competiam às autoridades sociais (magistrados. simplesmente sabilidades sociais.30) eximido. lbid. além dos Hospitais Gerais. 46 Ibid. de respon27. escreve Foucault.que os deixarão. Antes de se tornar ~'objeto" de conhecimento e ser configurada como patologia. liberada das "velhas participações religiosas e éticas em que a Idade Média a tomava. quando. Ibid. sua verdade de sempre. então. Ibid. Ibid. Por esse distanciamento. "Ê entre os muros do internamento que Pinel e a psiquiatria do século XIX". não se pode pretender simplesmente que a loucura será um dia tornada "objeto" de conhecimento por ter sido. então. 119. uma leitura histórica simplista veria na hospitalização comum os indícios de uma espécie de progresso rumo à Modernidade. havia também hospitais comuns (Hôtel-Dieu em Paris. Essa leitura simples seria plausível se Os fatos fossem simples. A hospitalização individualizada do louco nos hospitais comuns. no caminho desse percurso histórico é possível compreender como a transformação que se operará a partir do final do século XVIII e do início do século XIX. 30. 121. e não o inverso. Com efeito. sua essência imutável.a experiência clássica da loucura não foi uniforme. I Foucault. portanto. É que. Ibid. da Idade Clássica foi justamente a transposição dos loucos das casas de cura para as casas de correção. 119. e o internamento não consistiu numa forma possível de "conhecimento" da loucura. Ibid. 146. ela passou pelo internamento do período classicista. não sem antes se vangloriarem de os ter libertado"32. durante a Idade Clássica.

educação e saber soberano I lI9 . 37. talvez.. no primeiro título que Foucault pretendia dar a seu livro. E é essa junção do conceito de doença IV como assunto médico à prática social do internamento. Para concluir. ou. 36. ERIBON. D. 35. n. percorre uma trajetória histórica que começa no fim do Renascimen- to (por volta do século XVI). Les Mots et les choses. trad. Cf. em maio de 1981. 13. E sua história a mostra como tantas faces que figuram o "outro" no interior do "mesmo". nos séculos XIX e XX. São Paulo. na Universidade Federal de Uberlândia. Retomamos aqui um comentário do livro de ERIBON. simolesmente * Comunicação apresentada por ocasião da "Semana de Educação". consubstanciado numa verdade essencial cuja identidade é sempre a mesma.. cujas verdades são historicamente produzidas e variadas. tentaremos num segundo momento realçar alguns aspectos dos papéis desempenhados pelas ciências humanas em geral e pela ciência da educação em particular. a transformação do "internamento em ato terapêutico"35. 1966. podemos compreender que a loucura não seja um "objeto" uniforme. ousemos supor que esse "outro" de múltiplos rostos que atravessa a história de nossa cultura possivelmente atravessa também a história pessoal de cada um de nós. 102-103. Feist. 119. FOUCAULT. H. "A outra forma da loucura. Paris. 149.denominar-se-á "doença mental" essa união entre o fato de uma incapacidade jurídica do indivíduo e o fato de um distúrbio que afeta a vida social. Gallimard. São Paulo. e que aborda. EducjCorcez. 1990. Publicada em Cadernos PUC. Como cenário de nossas considerações escolhemos algumas passagens de As palavras e as coisas 1 cuja retomada constituirá o primeiro momento da exposição. EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO' • •• A partir da reconstituição resumida de alguns aspectos dessa história. mas antes um fato multifacetado. Em palavras simples: '''a loucura não é um fato da natureza' mas um fato da civilização"36. Companhia das Letras. reciprocamente. Esta suposição está sugerida. finalmente.37. M.. D. Michel Pou· cault: uma biografia. em cada qual desses segmentos históricos. op. o surgimento das chamadas ciências humanas.... e na frase de Pascal que escolhera para iniciá-lo: "Os homens são tão necessariamente loucos que seria uma outra forma de loucura não ser louco". caracterizará então a instauração da instituição asilar. 1. 1982. Numa visão extremamente sucinta (mas útil a nosso intento). Ibid. em seu todo. lI8 I Foucault. a emergência de determinados saberes de modo a finalmente poder descrever. detém-se na Idade Clássica (séculos XVII e XVIII) e desemboca em nossa Modernidade. cit. lembramos que As palavras e as coisas. que. Do interior desse cenário e a partir de uma interpretação relativamente livre das análises foucaultianas.

rodeada de aias. no primeiro plano Nicolaso Pertusato. Refaçamo-la em alguns de seus ângulos. Porque só o reverso é representado. Trava-se assim um jogo ambíguo entre o visível e o invisível: com efeito. simplesmente educação e saber soberano I Sl . ouçamos uma descrição me- ramente empírica do quadro em questão: "( . não sabemos. retomaremos alguns aspectos do primeiro capítulo e. a partir dele. para o qual o pintor dirige o olhar. em seu atélier ou num salão do Escorial. bufa0 italiano. está presumidamente o próprio espectador. do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana"2. 1O pintor e o espectador - De dentro do quadro. cuja obra foi escolhida. Assim é que. que nesse quadro ele se representou a si mesmo. faremos um grande salto até o capítulo IX.Com curiosa astúcia.. 25. de cortesãos e de anões. se deslocamos nosso olhar dessa visão imediatamente empírica e nos situamos numa região em que os nomes não são diretamente colados às coisas percebidas. Bastaria acrescentar que as duas personagens que servem de modelos ao pintor não são visíveis. nós. de modo que somente na medida em que é ((sujeitoque-olha" pode ser "objeto-olhado". a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar.. o primeiro capítulo traz a nossoS olhos um quadro de Velázquez. E é esta que nos interessa. enquanto "objeto" virtual do olhar do pintor. Ibid. Para desenhar nosso cenário. o pintor olha para um ponto fixo e invisível: nesse ponto está o modelo que ele pinta sobre uma tela da qual o espectador só vê o reverso. ) bastaria dizer que Velázquez compôs um quadro. esse espectador-modelo precisa colocar-se em face do quadro na posição de quem olha. o quadro escolhido (Las Meninas) aponta elementos que serão retomados no final do livro (capítulo IX). O reverso da tela que está sendo pintada garante essa ambigüidade. se olhamos ou 2. Ora. mas que se pode distingui-las num espelho. que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradição reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente. De início. outra descrição é possível. de damas de companhia. permitindo uma espécie de ilustração comparativa a propósito da Modernidade.. ali Nieto. sem dúvida. nesse ponto igualmente. permite o assinalamento do fim do Renascimento e do início da Idade Clássica. o espectador é o modelo de carne e osso mas sempre invisível e extremamente variável. espectadores. Situado entre o fim da segunda metade do século XVI e o início da segunda metade do século XVII (1599-1660). que se trata. ao menos diretamente. Por outro lado. para ser olhado pelo pintor. Porém. SO I Foucault. o pintor.

mas. ele próprio. No interior do quadro é o lugar do modelo. esta agora entre o interior e o exterior do quadro: com efeito. Nesse jogo. o visitante olha as personagens dos primeiros planos: o pintor.Do plano de fundo. e ainda. e o olhar firme da princesa realçado em primeiro plano. Entre eles. isto é. "representado" do ponto de vista do exterior do quadro. a demarcar o limite impreciso entre o seu interior e o seu exterior. enquanto espectadores que olham do exterior o pintor que é. uma porta deixa entrever uma estranha figura. Se o espelho reflete o jogo ambíguo entre o interior e o exterior. os modelos olham o pintor e as personagens. o espelho faz ver (por "reflexo") os modelos externos olhados de dentro do quadro pelo olhar do pintor que os representa. e duplamente soberano: porque comanda a composição de todo o quadro e porque supostamente ocupado por "soberanos" (o rei e a rainha). porém do interior dela. mas assistisse a ela. como se não fosse parte da representação. ao mesmo tempo sujeito e objeto do olhar ausente e presente. uma representação. Dois pontos centrais parecem comandar a composição do quadro: o espelho a refletir os modelos. um é especialmente mais claro. pois. Mas o espelho reflete precisamente o modelo que está sendo pintado.se somos olhados.. o único que pode ir do modelo à frente da tela. 21. cores). e mostra assim o espaço interno do quadro que é representação de modelos. a princesa entre duas damas de companhia. que poderá ser enunciado o cogito cartesiano e onde podeeducação E' saber soberano I S3 . que na verdade se olha como seu próprio modelo para se representar. o olhar do pintor. assim como a frente da tela tepresentada é invisível para o espectador e só visível para o pintor. ainda à direita e mais à frente.. supostamente. e mostra assim o contorno externo do quadro que é. Do interior e no fundo dessa representação são representados outros quadros (que são outras tantas representações). e. do quadro enquanto visto internamente). é ele o centro principal do quadro. Mas esses dois pontos parecem estar ambos direcionados para um ponto convergente: trata-se do espaço claro à frente do quadro. afinal. con- 4 As personagens e os centros do quadro . no meio. mas donde. à esquerda. o pintor real e o espectador real. Nesse espaço. revela o jogo ambíguo entre o real e o representado: é um es- 2 O espelho - tudo.. outra ambigüidade se estabelece. O espaço vazio faz do quadro como um todo o que o espelho faz no interior do quadro: assim como no espelho o rei ausente está presente. em seu todo. do rei. Não se sabe se ela <{entra" ou "sai". é também o lugar do visitante que assiste à cena e é o espectador projetado para dentro da representação. evidentemente. à direita. mas fá-los ver (também "por reflexo"). quadro que representa um quadro. 3 O visitante inusitado - No fundo do quadro. 21. Ibid. mas "por reflexo". mas "por reflexo") o modelo real. representação de uma representação. do quadro enquanto visto do exterior) e fora dele (isto é. além do jogo entre o visível e o invisível. Um centro soberano. Parece estar ao mesmo tempo dentro do quadro (isto é. é o "olhar soberano"'. "Mas não é um quadro: é um espelho. dois anões. um homem e uma mulher. ele próprio. Espaço ocupado e vazio ao mesmo tempo. 4. o lugar do pintor real. afinal. E percebe-se então que. porém. Ibid. Simplesmente pectador "real" do ponto de vista do interior do quadro e. como que prolongável para fora do quadro. o visitante 3. É o espaço olhado pelo pintor e as personagens. O quadro como um todo é. assim também O quadro como um todo torna presentes. representado (feito de linhas. formas. agora o espelho é clara visibilidade para o espectador mas sempre invisível para o pin- tor 0á que este lhe dá as costas). esse espaço é também o lugar do espectador que olha e é olhado. é nesse espaço.4 E.. S2 I Foucault. só há lugar para o sujeito no plano de representação.

mas de onde."6 Não é nosso intento refazer a análise dessa mutação. o rei. que se atribua ao homem real o estatuto de "coisa científica" a ser dominada pelo homem como sujeito detentor do conhecimento. a filologia. Ver. São Paulo. corre também o risco inalienável de se fazer sempre prescritivo. assume então o direito da soberania cujo poder se exerce pelos mecanismos da disciplina. nesse lugar do Rei que lhe atribuíam antecipadamente Las Meninas. ocupa. por outro lado e ao mesmo tempo. uma vez que a racionalidade do saber científico é erigida como critério exclusivo da validade de todo saber e medida do verdadeiro. todas as figuras de que se suspeitava a alternância. 54 I Foucault. de Roberto Machado. mediante o acaso de um espelho e como que abusivamente. isto é. acontece também que. 1980. 1979. Abre-se um novo espaço epistemológico no qual podem emergir a biologia. interessa5. "No movimento profundo de tal mutação arqueológica. o pintor. do controle. fala e trabalha"S. entre outros. mas que ele.. Almanaque. Ora. nO 11 ("Educação ou Desconversa?"). Foucault. como "indivíduo que vive. São Paulo. Mas.jan. a esse respeito. introd. de M. "A não-violência do brasileiro. da autora: "Ideologia e educação". o entrelaçamento e a ofuscação (o modelo. nem examinar sua "legitimidade científica" ou avaliar o peso de sua significação histórica. 8. um mito interessantíssimo". São Paulo. de realidade e de realeza) que caracterizará o surgimento das ciências humanas em nossa Modernidade. Como único saber qualificado. Neste momento de nossas considerações. cujo segundo item tem precisamente como título "O lugar do rei". o certo e o errado. mas tão-somente a marca de uma diferença. Brasiliense. Brasiliense. Educação e Sociedade. E eis que já saltamos para o capítulo IX. ele surge aí. O que é ideologia.. durante tanto tempo. simplesmente. a personagem representada no quadro de Velázquez entra empiricamente em cena. No século XIX. sobretudo. o homem aparece com sua posição ambígua de objeto para um saber e de sujeito que conhece: soberano submetido. da exclusão 7 • Ele dissocia os que "possuem" a verdade porque "sabem" e os demais que. educação e saber soberano I 55 . aquele que tem o poder de decidir sobre o verdadeiro e o falso. no entanto. o espectador) cessassem de súbito sua imperceptível dança. o normal e o patológico. espectador olhado. Brasiliense. se petrificassem numa figura plena e exigissem que fosse enfim referido a um olhar de carne todo o espaço da representação. aliás. aquele que veicula as normas pelas quais são desqualificáveis quaisquer outros saberes e reduzidos ao silêncio outros discursos. nO 5. 323. as ciências humanas carregam em seu próprio bojo o risco inalienável da redução do homem ao que dele se pode "cientificamente conhecer".rão desdobrar-se os saberes emergentes na Idade Clássica. por outro lado. 321. Ver. será também a ocupação desse espaço pelo sujeito concreto enquanto empírico e existente real (no duplo sentido. particularmente o artigo "Soberania e disciplina". "Ventos do progresso: A Universidade administrada". isto é. 1980.. a sua presença real foi excluída. intrinsecamente. Rio de Janeiro. Partindo do pressuposto de que uma mutação histórica do saber não é sinônimo de avanço ou de progresso. "em carne e osso". Graal. o lugar antes vazio de uma presença ausente. duas distinções exploradas com extrema clareza por Marilena Chaut podem 7. Cadernos de Literatura e Ensaio. E o primeiro aspecto a apontar é que a instauração das ciências humanas requer. lbid. 1980. e org. a economia. "nada sabem". a exclusão recíproca. Como se nesse espaço vago para o qual está virado inteiramente o quadro de Velázquez. 2 a ed. O conhecimento "científico" sobre o homem torna-se não só o único saber qualificado e competente. E onde emergem também as filosofias do homem e as ciências humanas. 1981. só refletia. Ano 11. in Descaminhos da Educação Pós-68. Simplesmente nos agora apenas explorar alguns aspectos inerentes àquela posição ambígua hoje ocupada pelo homem como "objeto para um saber" e como "sujeito que conhece". Cortez Editora/Autores Associados/Cedes. O homem. lbid. in Microfisica do poder. 6.

fique vazio o "lugar do rei". cujo saber é construído a partir de um não-saber que requer sua compreensão. finalmente. Transposição metafórica e interpretação livre que pretende apenas emoldurar. Conhecimento é aquisição intelectual do saber já constituído.. as ciências humanas. reprodução de um saber instituído sobre a educação. a proposta muitas vezes formulada por Marilena Chaui. surgiu um discurso sobre a unidade. 26. trazem não só a carga do conhecimento capaz de estagnar o pensamento como as marcas de um saber sobre o homem que silencia o seu próprio "objeto". A saber: a de que no trabalho lO. que é nesse tipo de configuração do saber pedagógico e das relações pedagógicas que o "lugar do rei". educaçáo e saber soberano I 57 .. Por uma transposição mais metafórica que ilustrativa. legisla. no saber da educação. ali onde não pode haver discurso da mulher surge um discurso sobre a mulher etc. Entenda-se: não estamos aqui a aspirar a um absurdo regresso ao século XVII nem a um retorno à soberania da representação. instituído e qualificado. normativo e poderoso -. num cenário visual. na medida em que as ciências humanas se movem na zona do conhecimento qualificado e instituído. trazemos para dentro das próprias relações pedagógicas os mesmos mecanismos e os mesmos efeitos de exercício do poder. A outra distinção (retomada de Claude Lefort) marca a diferença entre "discurso sobre" e "discurso de". Simplesmente rias da educação. 56 I Foucault. na medida mesma em que professores e alunos nos limitamos a cumprir as normas. nela se exercendo de fora para dentro e de cima para baixo. a assimilar o saber "qualificado". por intermédio dos ministérios e das secreta9. admitida que é no campo das ciências humanas como "ciência da educação". onde não pode haver um discurso da revolução surge um outro. regulamenta e conttola o trabalho pedagógico"lO. O "discurso sobre" um objeto dissimula e busca substituir o discurso daquilo mesmo que está em questão. isto é. É possível que quem primeiramente pronui. em contrapartida.cie o discurso pedagógico não sejam nem os professores nem os estudantes. na instituição escolar e nas relações pedagógicas. desocupado de qualquer sujeito soberano (quer na forma da representação. Ora. quando o discurso da unidade social se tornou realmente impossível em virtude da divisão social. quando o discurso da loucura tem que ser silenciado. É quando as relações entre professor e estudante reproduzem a relação do sujeito que "possui" o saber com um "objeto" de educação. "Por exemplo. estamos apenas endossando a proposta de que. impedindo que isso mesmo que está em questão primeiramente fale de si e por si para vir a ser compreendido. quer no modo da realidade). Mas é preciso não se iludir: o poder que legisla. enquanto saber soberano . destituído de todo direito da realeza. É bem possível que acabemos por verificar que ela se faça como conhecimento) isto é. estabelecido. Transportemos finalmente estas considerações para a região da pedagogia. em seu lugar surge um discurso sobre a loucura. E que o que se propõe.e com isso entendamos qualificado. Ora. regulamenta e controla não está exclusivamente centralizado num saber elaborado no exterior da instituição escolar. sobre a revolução. É quando a escola não pode ser um lugar onde se pensa para ser o lugar onde se reproduz o conhecimento instituído. in Educação e Sociedade. 27. A primeira é a distinção entre conhecimento e pensamento. está plenamente ocupado. e numa interpretação livre da análise foucaultiana do quadro de Velázquez. que. esse "soberano submetido". tendem a excluir o espaço do pensamento. "Ideologia e educação". Pensamento é afrontamento de uma realidade nova."9. Ibid. Diríamos. Ao contrário. CHAU1. mas "a burocracia estatal. As estruturas mesmas das instituições escolares são já um cumprimento dessas normas..nQs ser úteis. nO 5. é o esforço por reverter semelhante configuração pelo esvaziamento da "posse" desse espaço. M.

nO 11.. CHAUl. a fim de que pudesse ser visto como acessível a todos porque não pertence a ninguém"ll. certamente. J. M. 1985. palestra proferida por ocasião do Colóquio Foucault. Ora. à questão das imbricações entre os planos discursivo e extradiscursivo. org. Surveiller et punir. com pequenas alterações.24. lugar que "então permaneceria sempre vazio. preliminarmente. São Paulo. na Universidade de São Paulo. Almanaque. o lugar das instituiçóes na sociedade disciplinar ! 59 . aos hospitais. Na medida em que exercesse esse papel. foi (ou é) objeto de polêmica e tema de interesse. A inclusão de análises e descrições de práticas institucionais no interior de um pensamento voltado para a formação e a transformação de configurações discursivas que compõem saberes historicamente constituídos é um assunto que pertence. 229.. v O LUGAR DAS INSTITUiÇÕES NA SOCIEDADE DISCIPLINAR' Que há de espantoso no fato de que a pn'são se assemelhe às usinas. R. às escolas. 58 I Foucault. o professor desocuparia o lugar soberano de detentor do saber. 11. e de que todos se assemelhem às prisões? M. Buscando reconstituir aspectos do pensamento de Foucault no tratamento das assim chamadas "instituições disciplinares". particularmente em relação aos primeiros livros de Foucault. "A não-violência do brasileiro. mas antes seja o professor o mediador entre o estudante e o pensamento. em abril de 1985. Publicado em Recordar Foucault (RIBEIRO. esta é uma questão que. situar o aparecimento desse tema no contexto mais amplo daquele pensamento. convém. às casernas.). Simplesmente * Este textO reproduz.pedagógico não seja o conhecimento a ponte entre o professor e o estudante. FOUCAULT. Brasiliense. um miro interessantíssimo".

organizações arquitetônicas. para os quais o "exame" é o modelo prioritário de estabelecimento da verdade. M. Morais. Cadernos da PUC/Rj. marcando a passagem da "arqueologia" para a "genealogia". sobretudo. O ((dispositivo". Simplesmente tipo determinado de instituições: aquelas que. pelo "exame" instaura-se.** R instalação das instituições disciplinares As conferências que compõem o texto A verdade e as formas juridicas (1974) descrevem uma história da produção de saberes baseada em determinadas práticas sociais (as práticas jurídicas ou judiciárias) que foram capazes de gerar modelos de estabelecimento da verdade. com esse termo.d. FOUCAULT. da publicação dos livros Vigiar e punir (1975) e A vontade de saber (1976). ao modo mais sutil do adestrament9. O que aqui nos ocupará é a análise de instituições entendidas. Rio de Janeiro. De sorte que poderá afirmar: "Mas. brevemente. Roberto Machado e Eduardo J. ou antes. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem à primeira edição. reúne o discursivo e o extradiscursivo. para aproximar-se de um eixo mais complexo que o autor chama de "dispositivo". 6/74. porém. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 61 . que é ainda a nossa. Foucault descreve o surgimento e os caracteres do que denomina "sociedade disciplinar". em relação ao dispositivo. que engloba discursos. FOUCAULT. de controlar o tempo. atrelar a questão da constituição de saberes a modos de exercícios de poder. esta questão sofre um deslocamento considerá- vel a partir. Tomaremos esse text03 como referência para resumir. decisões regulamentares. quando Foucault busca. Posteriormente. o que ele nos diz sobre a sociedade disciplinar e nos determos na questão de suas instituições. com efeito.Contudo. medidas administrativas. explicitamente. Ao longo desse estudo. . na medida em que responde à articulação entre produção de saber e modos de exercício de poder que é dominante em cada momento histórico'. 2.. Cf. Eis o que ele escreve: "Através desse termo tento demarcar. Caracterizando-se. em 1999. este texto foi republicado no Rio de Janeiro. Em suma. de Roberto Machado. coloca esta questão em um plano de menor importância. igualmente. um conjunto decididamente heterogêneo. não é muito importante dizer: eis o que é discursivo. 1979. precisamente. genericamente. filantrópicas. a análise se descentraliza do eixo "discursivo/não-discursivo". A sociedade disciplinar tem seu surgimento por volta dos fins do século XVIII. o dito e o não-dito são os elementos do dispositivo. eis o que não é"2. da pro3. pois. Não. dedicando-se. um modo de poder em que a sujeição não se faz apenas na forma negativa da repressão. morais. como um modo de organizar o espaço. e org. como elementos de um "dispositivo" articulador das relações entre produção de saberes e modos de exercício de poder. a uma abordagem mais centralizada sobre as instituições inseridas nesse tipo de sociedade. Graal. 60 I Foucault. proposições filosóficas.. Retomaremos a descrição de um 1. pretende ainda "demarcar a natureza da relação que pode existir entre esses elementos heterogêneos" ("discursivos ou não") bem como evidenciar a "função estratégica" do dispositivo. enunciados científicos. Desde então. em primeiro lugar. principalmente. Ib.. M. pela Nau Edirora. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos". a sociedade disciplinar deu lugar ao nascimento de determinados saberes (os das chamadas ciências humanas). instituições. leis. num dado momento histórico. inrrod. E segue mostrando que. série Letras e Arres. e que Foucault chama de "instituições disciplinares". 1974. nO 16. de vigiar e registrar continuamente o indivíduo e sua conduta. 247. mas. A verdade e as formas juridicas) trad. na última conferência. constituem peças na engrenagem de um tipo determinado de sociedade. "Sobre a história da sexualidade". in Microfísica do poder.

É ilustrativo ler (no mesmo texto. liga-os a um aparelho de produção. A fábrica não exclui os indivíduos.. A construção periférica é dividida em celas. esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. uma torre. mas antes "incluí-lo" num sistema normalizador.. 1975.dução positiva de comportamentos que definem o "indivíduo" ou o que "deve" ele ser segundo o padrão da "normalidade". Gallima. podem-se perceber da torre. Característica básica: do espetáculo à vigilância Pode-se dizer que o traço característico fundamental das instituições disciplinares está desenhado em seu modelo de arquitetura. escola. a partir daí. que. 90. tal como é anunciado no projeto do Panopticon. que se encontra em Surveiller et punir. um condenado. uma construção em anel. simplesmente Descreveremos. sendo depois substituídas por instituições com iguais características. liga-os a um aparelho de correção. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 63 . a seguir. forte". 6. em sua forma mais "compacta". no centro. Paris. in Microfísica do poder. cujas características de fundo ainda hoje permanecem. 7. 69. por volta do início do século XIX. um doente. fixar os indivíduos.. ao contrário. elaborado em fins do século XVIII pelo jurista inglês Jeremy Bentham. realmente existiu na França dos anos 1840-1845. 5. hospitais. A escola não exclui os indivíduos. Elas marcaram o aparecimento de fábricas. correspondendo às janelas da torre. Recorrendo a autores contemporâneos ao surgimento dessas instituições e que desenvolveram estudos a respe~to (N. Basta então colocar um vigia na rorre central e em cada cela trancafiar um louco. escolas. esse tipo de sociedade e de poder é perpassado pelo que Foucault denomina "panoptismo". Por isso. Esta descrição praticamente reproduz a. FoucAuLT. 62 I Foucault. no fundo. O hospital psiquiátrico não exclui os indivíduos. 210.utopia que efetivamente se realizou"s. A Verdade e as formas jurídicas. difusa. o traço mais básico e geral das instituições disciplinares e. hospital. M. as primeiras instituições que. dando para o exterior. hospital psiquiátrico. mesmo fechando-os. recortando-se na luminosidade. que. mas de "forma branda. outra. em razão de que a reclusão que elas operam não pretende propriamente "excluir" o indivíduo recluso.rd. ela os fixa a um aparelho de transmissão do saber. rodas essas instituições ~ fábrica. permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. Devido ao efeito de contraluz. Concomitantemente ao surgimento de saberes e ao exercício do poder disciplinares. protegia"4. 1bid.. 86-88). Foucault toma como modelo prenunciador dessas instituições um projeto de arquitetura. Retomemos uma das passagens em que descreve esse projeto arquitetômco: nham uma forma "compacta. Eis uma passagem esclarecedora: "O princípio é: na periferia. as funções que lhes cabe cumprir. Foucault chama-as ainda de "instituições de seqüestro". "Na época atual. O mesmo acontece com a casa de correção ou com a prisão"? Outra passagem descritiva do projeto conclui com a seguinte observação: "O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é. 91-92. o Panóptico. cada uma ocupando roda a largura da construção. Na realização do "panoptismo". a longa descrição que Foucault fornece do regulamento de um destes tipos de instituições. instalam-se determinadas instituições a eles articuladas. Ibid. as pequenas silhueras prisioneiras nas celas da periferia. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se para o interior. inverte-se o princípio da masmorra. no fundo. prisões etc. M. a sociedade que atualmente conhecemos .. um operário ou um estudante. mas.201-202. H.6. prisão ~ têm por finalidade não excluir. "O olho do poder". a um aparelho de normalização dos indivíduos. casas de correção. Cf FoucAULT. Em suma. a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro. foram instaladas ti4..

in Microfísica do poder. por exemplo. Olho auxiliado por uma série de olhares dispostos em forma de pirâ- mide a partir do olho imperial e que vigiam toda a sociedade" I I Mediante uma vigilância que é "ao mesmo tempo global e individualizante". transformam-se as necessidades e transforma-se a arquitetura. as relações só podem ser reguladas numa forma exatamente inversa ao espetáculo. Do pOnto de vista propriamente político. 217. Foucaulr realça a transformação que. exercendo-se com violência aparente e garantindo Sua continuidade por meio de punições espetaculares para efeitos de exemplo. finalmente. 1975. na sociedade moderna. Surveiller et punir. "onde os elementos principais não são mais a comunidade e a vida pública. Ibid. efetivando-se por meio da organização de uma cadeia de olhares vigilantes que. 15.. 85. expressões usadas pelo autor em "O olho do poder". as conseqüências vantajosas que acarreta para os custos políticos e econômicos do poder. cada indivíduo "acabará por interiorizar a ponto de observar a si mesmo". B. teatro ou discursos políticos"t Não que esse modelo tenha desaparecido por completo. Gallimard. M. exercendo a vigilância 12. por exemplo. a arquitetura atendia à necessidade de possibilitat a exibição de espetáculos ao maior número possível de pessoas (para isso. M. dos circos")'. Com efeito. dos teatros. "Numa sociedade". "O olho do poder". como O da prisão. que. teve por efeito invertê-las de uma arquitetura de espetáculo a uma arquitetura de vigilância. mas que indivíduos sejam dados como que em espetáculo a um olhar vigilan- te. Cf. e que Giulius vê nela "um acontecimento 'na história do espírito humano". 13. Paris.. A verdade e as formas jurídicas. Simplesmente tão um tipo de poder que se exerce "por transparências". M.ltado sobre a sociedade em toda a sua extensão. 210. 14.Giulius.. 86.. E (a partir de Giulius) lembra a metáfora do "olho" com que então se simbolizava o imperador: "O imperador é o olho universal vo. contudo. Basta apontar.. A verdade e as formas jurídicas. organizada na forma estatal.. 217. em que o "anteparo da escuridão" é substituído por uma "visibilidade" isolante". o traço básico do panoptismo articula-se com transformações fundamentais e gerais na ordem do poder. e A verdade e as formas jurídicas. Ver também: Surveiller et punir. mas de um lado os indivíduos privados. Economicamente. Reportando-se a Giulius.. Assim. in Microfi: sica do poder. autor de Lições sobre as prisões. como "princípio de conjunto". 211. 11. Surveilleret punir. a designação que lhe deu . de 1830. 10. 85.13 capaz de inaugurar o que viria a ser o desenvolvimento de toda uma nova forma de poder. vai-se constituindo en8. faz ver como na civilização grega antiga. FOUCAULT. 218.. porém. acaba por se tornar "um poder muito oneroso e com poucos resultados"15. 218. Foucault lembra que se o projeto de Bentham fora inspira- do na arquitetura já existente da Escola Militar de Paris (1751). e de outro o Estado. 218."lO Isto significa que a arquitetura deverá então assegurar não mais que espetáculos sejam dados ao maior número de pessoas. Treillard. o controle contínuo é de uma eficácia pouco dispendiosa. 216-217.encerra uma generalização altamente significativa. 209. possibilita uma crítica ao funcionamento do poder monárquico. não é por acaso que o próprio Bentham refere-se à sua invenção como "um ovo de Colombo". diz Foucault. Ibid. Entendido assim. M. o projeto e seu nome não carregam apenas a idéia de uma técnica específica destinada a "resolver um problema específico. o da escola ou o dos hospitais".14. esse tipo de construção respondia a um tipo de sociedade marcado pela participação da comunidade nos momentos de mais unidade na vida pública ("sacrifícios religiosos. uma dominação que se faz como por "iluminação"12. autor de Motivos do Código de Instrução Criminal. de 1808). M.Panopticon . o lugar das instituições na sociedade diSCiplinar I 65 .218. na arquitetura das instituições. e J. "a arquitetura dos templos. FOUCAULT. FOUCAULT. FOUCAULT. FOUCAULT. 64 I Foucault. mas sustentam "um princípio de conjunto. 9.

"sobre e contra si mesmo". nas fábricas do começo do século XIX. diversificadas funções que respondem à instalação e ao desen- função de todas disciplinar a existência inteira do indivíduo pela disciplinarização do corpo. se no poder monárquico o "corpo do rei" era não uma "metáfora. substituindo-se "a eliminação pelo suplício" por "métodos de assepsia: a criminologia. ele será "protegido". não podem ser usados pelos trabalhadores "no momento em que desejarem. Assim. mas é mais ainda: é transformar todo o tempo dos homens em tempo de trabalho. na verdade têm a eficácia de controlar todo o tempo de sua vida. nas casas de correção etc. contudo.18. "O olho do poder". nos hospitais. prisões. mas o corpo controlado como "o que deve ser formado. a eugenia. Controlados são os tempos de festa. a exclusão dos 'degenerados"'20. 18. de descanso. para curar. questões como a imoralidade e a devassidão eram assunto de preocupação dos patrões.. sobretudo. 66 I Foucault. uma maneira de dispor do tempo do indivíduo. porém. os hospitais.. Ver. o que deve adquirir aptidões. De fato. 17. 145.controle do tempo é exercido continuamente não só nas fábricas. de ociosidade. para fazer greve ou para festejar. Surveiller et punir. Lembremos. as prisões para punir"!9. Eis também por que. 211. FOUCAULT.. cuja função específica é a cura. assim também. portanto. igualmente. às necessidades da industrialização. M. de modo a atender. FOUCAULT. in Microfisica do poder. que. reformado. é uma "fórmula maravilhosa: um poder contínuo e de custo afinal de contas irrisório"!6. in Microfísica do poder. Cf. mas uma realidade política". 219-220. Ibid. excedem a função estrita do ensino. Um exemplo disso é a concessão de aumentos salariais e de fundos de economia. Foucault faz ver que. De maneiras mais abruptas ou mais sutis. como um dos nós que amarram essa rede de instituições. nos orfanatos. a disciplina corporal é minuciosa. nas sociedades modernas. atingido por meio dos corpos individuais. mais que uma técnica particular. M. e com diferentes técnicas. desenvolvendo-se de formas diversificadas mas de algum modo semelhantes e intercruzadas tanto na pedagogia escolar como na organização militar.. psiquiátricos ou não. 218. a este respeito. "Poder-Corpo". FOUCAULT. aparentemente criadas para a proteção do trabalhador. pode-se dizer que o. entendida assim a visibilidade como princípio geral. as escolas para ensinar. no Controle dos corpos Aparentemente. 20. 95. 96. esse sistema basicamente "ótico"!7 desdobrarse-á no aperfeiçoamento. Simplesmente o lugar das instituições na SOCiedade disciplinar 1.. FOUCAULT. que. a título de exemplo. Foucault mostra que certas técnicas. cada uma das instituições disciplinares é destinada a uma função específica: "As fábricas feitas para produzir. a proibição de atividades sexuais não se reduz a motivos de higiene e saúde. corrigido. Controlar o tempo é transformar o tempo do trabalho em mercadoria trocada por salário.. nos hospitais. na multiplicação e na diversificação de instrumentos de vigilância (até os mais sofisticados). as disciplinas escolares. mas também nas escolas. na sociedade moderna o importante é o "corpo da sociedade". de prazer. 19. nas 16. já que "sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia". I 67 . Portanto. M. qualificar-se como corpo capaz de trabalhar"Z!. 94-95. efetivamente. A verdade e as formas jurzdicas. receber um certo número de qualidades. com Foucault. de modo a que as instituições disciplinares cumpram. lbid. é volvimento da sociedade disciplinar. Funçóes Controle do tempo A vigilância é. A verdade e as formas juridicas. 21. M.. não mais o corpo supliciado.

. minucioso. Ver. 68 I Faucault. onde o saber do operário a respeito de seu próprio trabalho. o acréscimo de uma observação. simplesmente o !ugar das instituições na sociedade disciplinar 1 ! 69 . isto é. pelo diretor d3: prisão etc. da criança etc. não é essencialmente localizável em um pólo centralizado e personificado. por isso. Mas indicar que o controle dos corpos engendra saber já é referir-se ao caráter polimorfo do poder disciplinar. os artigos "Soberania e disciplina" e "O olho do poder". capilar. "polivalente"24. políticos. a aprendizagem etc. mas também se tem o direito de punir e compensar. a este respeito. M.. Ibid. produz saberes. M. 96. 25. pelos guardas.... e conseqüentemente. das classificações. E os produz duplamente: quer extraindo saber dos indivíduos. quer elaborando saber sobre os indivíduos 28 . in Microfoica do poder.27. As conferências sobre A verdade e as formas jurídicas. Ibid. Ibid. explicitando que nele "a todo momento se pune e se recompensa. Isto é. nascido de sua prática. o exemplo particular do sistema escolar.. polimorfo e polivalente. quem é o pior.". e. FOUCAULT. esquematicamente. 24. Por sua vez. o realce da importância de um estudo sobre "a arquitetura institucional" ("da sala de aula ou da organização hospitalar"). Ver. de estabelecer regulamentos. É de se notar que. A verdade e as formas juridicas. o poder instalado nas instituições disciplinares é também epistemológico. 148-149. Mas também é curioso. 97. saberes sobre o indivíduo nascem das observações. 26. podemos designar de econômicos. 97. se diz quem é o melhor. A verdade e as formas juridicas. Poder econômico. Mas ao caráter econômico se atrela o político: "As pessoas que dirigem estas instituições se delegam o direito de dar ordens. M. ou a elaboração de uma "história dos espaços" que seria também uma "história dos poderes".. FOUCAULT. de modo a "cobrir o corpo social por inteiro. articulam-se a um caráter judiciário: "nestas instituições. se tem o poder de fazer comparecer diante de instâncias de julgamento"26.22. as instituições disciplinares fazem funcionar um poder que. poder político. de aceitar outros etc. de expulsar indivíduos. FOUCAULT. não somente se garantem funções como a produção. Neste último (211-212). 97. pode também aparecer de formas menos diretas. mas é principalmente difuso. como no pagamento feito a hospitais.. se avalia. fornece elementos para gerar saber acerca da produção. muitas são as passagens em que Foucault se detém particularmente nas prisões. em Microfisica do poder. orgânico". 141. O caráter econômico do poder disciplinar é evidente. se classifica. Em suma. o indivíduo continua tendo seu comportamento constantemente julgado *** Para concluir. Surveiller et punir. no caso das fábricas. o econômico e o político. "Poder-Corpo". particularmente todo o capítulo desse livro intitulado "Les corps dociles". como 27. se tomam decisões. espalhado. depois de julgado por um tribunal. do criminoso. não apenas se dão ordens. Um exemplo de saber extraído dos indivíduos ocorre em instituições como fábricas. e constantemente submetido à vigilância e ao registro. FOUCAULT.23. onde. um "saber sobre o corpo. o estudo destes caracteres no capítulo intitulado "Le paroptisme". poder judiciário.25 Ambos. a esse respeito. 22. É claro que o caráter judiciário é mais evidente no caso das prisões. judiciários e epistemológicos. de tomar medidas. Instalação de um poder polimorfo O tipo de poder instalado por essas instituições é "polimorfo" e. 96..espaço hospitalar como nas prisões. de Surveilleret punir. quando Foucault faz ver quanto ele é "inteiramente baseado em uma espécie de poder judiciário". por exemplo.. ele se desdobra em múltiplos caracteres que. nas análises das instituições disciplinares. M. também.. das anotações a respeito do doente. Foucaulr indica inclusive que foram as disciplinas corporais (particularmente as militares e escolares) que tornaram possível a elaboração de um "saber fisiológico. 23. 28.

tomam por base as práticas judiciárias. FOUCAULT. 35.. Surveiller et punir. "3S. M. simplesmente o lugar das instituições na SOciedade disciplinar . segundo Foucault. contudo. é ela a única "onde o poder pode se manifestar em estado puro.". 29. Ora. efetivamente. ela "se inocenta" de ser prisão. Por isso. com esta marca. afinal. (E o discurso que ela então emite seria: "A melhor prova de que vocês não estão na prisão é que eu existo como instituição particular. Ver. 31. é inteiramente 'justificado m31 . que focaliza explicitamente o estudo de instituições. 308-310. por certo. 70 I Foucault. pois. Cf. 252. A verdade e as formas jurídicas) 99. 30. particularmente. tem uma marca "local e marginal. Surveilleret punir. Por um lado.)34 Essa ambigüidade da prisão explica. diz Foucault. FOUCAULT. Ou seja: "O que é fascinante nas prisões é que nelas o poder não se esconde. ". Ibid. se completam. Afinal. 312. "seu incrível sucesso. M. Surveiller et punir. há uma certa singularidade da prisão. ao meSmo tempo em que é "diferente" das outras instituições.. que a prisão desperta interesse ou curiosidade na maioria das pessoas. na escola etc. seu caráter quase evidente. E podemos certamente completar: explica também. de um lado. O livro Vigiar e punir. tomar uma forma material. entre as diversas instituições. 34.... in Microfoica do poder. Ibid.... que o "Panopticon" encontra "seu lugar privilegiado de realização". em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral". num só lance. I 71 . ela "inocenta" as demais.. a facilidade com que ela foi aceita. M. M. 32. atingindo. 73. 72. afinal. a aceitação cotidiana de sua diluição mais sutil por toda a rede das chamadas instituições disciplinares. ambiguamente.. como que circular e reciprocamente. entre as instituições disciplinares... é apenas a forma mais transparente de todas as outras. todas lhe são semelhantes. cuja história. 36.. isso talvez se explique precisamente porque. não faz parte da vida rotineira das pessoas e. já dissemos. e ao mesmo tempo é puro. não se mascara cinicamente.30. Tem.. separada das outras .29. porém. por outro. é nela que "a utopia de Bentham pôde. e talvez por isso.) Mas. um número reduzido de indivíduos. traz como subtítulo O nascimento das prisões. assim. É nela. só ela é prisão. se vincula mais diretamente às prisões. M.. 33. Por outro lado. a prisão guarda certas peculiaridades: basta lembrar que. explica "sua extrema solidez"36. para Foucault. a prisão também aparece como sendo não mais que a forma "concentrada". Cf. todas as outras instituições realizam uma espécie ~e difusão discreta da prisão 33. "exemplar" e "simbólica" de todas as outras instituições32 . 99. E é assim. "Os intelectuais e o poder".. A verdade e as formas jurídicas. se mostra como tirania levada aos ínfimos detalhes. a particularidade de concretizar o "panoptismo" da forma mais palpável. FOUCAULT. já que. a este respeito. (E o discurso que ela então emite seria: "Eu faço unicamente aquilo que lhes fazem diariamente na fábrica. É possível que essa tônica ou esse realce se fundamente em dois aspectos que. Além disso. FOUCAULT.Assim.. 100. FOUCAULT. afinal.

Educ. 1995. * Este texto reproduz. RODRIGUES. dos saberes às práticas sociais. um pensamento sobre esse encontro parece apontar. com pequenas alterações. em abril de 1993.. L. Assim. São Paulo. M. orgs.... para uma direção de relações que vai. esta questão parece sugerir certa repartição entre dois âmbitos: o dos saberes (onde se situaria a ocupação com a verdade) e o dos procedimentos sociais (onde se reconheceria o lugar do poder). questão repetidas vezes indicada como temática nuclear dos escritos de Michel Foucault. M. É propósito desta exposição perguntar por esse encontro e problematizar essa direção.). À primeira vista. L. ! 73 . pensar um espaço comum que abrigasse o encontro entre ambos não é sempre habitual. MUCHAIL.VI DE PRÁTICAS SOCIAIS À PRODUÇÃO DE SABERES* Trarar-se-á aqui de verdade e poder. S. prioritariamente. com maior freqüência. Para isso. de prátícas sociaís à produção de saberes . palestra proferida em Fórum de Debates realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. T. estas como que guiadas ou iluminadas por aqueles.. por um lado. buscaremos na leitura de Michel Foucault a seleção de algumas passagens capazes de estimular o debate sobre o assunto e propiciar alguma reflexão acerca do trânsito entre o campo das práticas sociais e o dos saberes. Por outro.. Foi publicado em O uno e o múltiplo nas relações entre as áreas do saber (MARTINELLI.

filosofia etc.. percorrendo. mas tomando como ponto de partida determinadas práticas sociais que. o procedimento judicial mais arcaico. o exame. Mas pode-se também realizá-la desde uma perspectiva externa aos saberes. Posteriormente. constituindo-se na formação de saberes reconhecidos como verdadeiros. o procedimento empregado em As palavras e as ria que Foucault refaz começa na Grécia antiga e atravessa a Idade Média.. em Cadernos PUC-RJ. Servir-nos-á de roteiro. simplesmente . Embora o âmbito desta exposição não comporte reconsticuílas. 1. I 7S . certas práticas não-discursivas de estabelecimento da verdade puderam tornar-se matrizes ou modelos para a produção discursiva da verdade. reunidas sob o título A verdade e as formas jurídicas. 4. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem àquela primeira edição. em 1999. Rio de Janeiro. por dentro. duas formas de prática jurídica marcaram a sociedade grega antiga. por exemplo. ou seja. isto é. cas jurídicas ou judiciárias "o modo pelo qual os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido. 2. M. Série Letras e Artes. no decurso da história.Pode-se dizer. a reflexão foucaultiana a res- Mas pode-se igualmente dizer que não é da verdade e do poder peito de tais práticas l . 06/ 74. FOUCAULT. mas de poderes dade. aproximadamente) a prática do inquérito4 • Pela prova. É esse o ângulo que aqui nos interessa. de natureza jurídica. vale assinalar a descrição dos elementos da prova e das características do Foucault dedica especial destaque às chamadas práticas jurídicas ou judiciárias. Essa investigação histórica . modos de produção de saberes reconhecidos como verdadeiros e sua articulação com modos de exercícios do poder. isto é. em períodos determinados da história da cultura ocidental. O percurso da histó- as diferentes sociedades em diferentes momentos históricos. certos procedimentos. este textO foi republicado no Rio de Janeiro pela Nau Editora. engendraram saberes considerados verdadeiros. isto é.mostra-nos Foucault . É que a verdade não é entendida enquanto identidade de uma essência una e sempre a mesma. Prova e inQuérito A prova é. o textO de cinco conferências pronunciadas por M. basicamente. mas enquanto produzida no decurso da história. para centrar-se mais detidamente no período que vai desde os fins do século XVIII e início do século XIX até nossa contemporaneidade. numa palavra. que os escritos de Foucault investigam a verdade e seus vínculos com o poder. Foucault na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. de Roberto Machado e Eduardo].. 1974. a título de caso ilustrativo. na Grécia antiga. não se trata do poder enquanto dominação central e unitária. 3. no ou de múltiplos modos de exercício do poder que permeiam plano dos saberes (ciências. Ibid. a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras. portanto historicamente múltiplos e diversificados. Do mesmo modo. Para o propósito desta exposição retomare74 ! de práticas sociais à produção de saberes Foucault. historicamente. de modo muito genérico. o inquérito.pode ser elaborada de modo direto e interno.c. sobre o qual veio a prevalecer depois (a partir do sécu- lo V a. 20-21. puderam vir a constituir como que modelos de produção da verdade no plano discursivo.2. Entre essas práticas. A verdade e as formas jurídicas. a própria trajetória da constituição dos saberes (é esse. Morais. Assim. mos.. trad.)3. de 1966). dizer que os escritos de Foucault concernem à verdade e ao poder significa que eles realizam investigações históricas que buscam descrever.. n° 16. Numa definição introdurória e geral. verific~r como. 8. A descrição histórica empreendida por Foucault pretende então mos- trata-se de verdades em seus diferentes modos de produção trar em que sentido modos práticos de estabelecimento da ver- em diferentes sociedades. retraçando não o seu próprio desenvolvimento. Essa história pode ser lida e organizada em torno de três procedimentos ou práticas sociais de caráter jurídico: a prova. Segundo Foucault. entende-se por práti- que eles tratam. coisas.

tais como: "sistemas racionais" (como a filosofia). grupos ou famílias. a verdade se confundia com a vitória do mais forte. Prova corporal: o acusado deveria andar sobre ferro em brasa e se. de duelo ou de desafio. uma troca de palavras) era prova de culpa. porque um dano não configura mais questão apenas entre indivíduos. inclusive. de um castelo etc. 9. na medida em que a Europa impôs violentamente seu jugo a toda a superfície da terra"IO. Ibid.depois. 49. de certo modo. a água o recebera. No inquérito) ao contrário. Eis. Na Idade Média. prevalece o primeiro.)6. 47. 42-43. se se afogasse. os traços principais que desenham seu perfil: a resolução das questões de litígio não se dá diretamente entre os oponentes. reconhece em sua instigante leitura de Édipo-Rei.. o direito constituindo-se não numa correlação entre justiça e paz mas num prolongamento ritualizado da guerra. cedendo lugar ao que Foucault chama de "uma espécie de segundo nascimento do inquérito". dois dias . é baseada em testemunhos que têm.mecanismos bélicos (a rapina. Prova verbal: o acusado deveria responder à acusação pronunciando certas fórmulas. cujos traços principais podem ser assim reunidos: tratava-se sempre de uma ação "de estrutura binária"7. se não se afogasse era porque nem a água o recebera e. Ibid. Ou ainda: amarrava-se a mão direita ao pé esquerdo do acusado e se o atirava na água. inquérito que Foucault. era culpado. na segunda daquelas cinco conferências.. Usado inicialmente nas esferas eclesiásticas e nas gestões administrativas. conhecimentos empíricos. mas se impõe "de fora" e "do alto" por um poder simultaneamente judiciário e político. os dois modelos reaparecem.. dos geógrafos etc. sem intervenção de qualquer terceiro elemento que representasse a autoridade ou a coletividade. surge a noção de crime como infração. ou seja. a "arte de persuadir" (como a retórica). portanto. o inquérito é introduzido no âmbito das práticas jurídicas e dali se generalizará como modelo de produção de verdade e de outras práticas. numa espécie de jogo. o da prova. já que "seu destino será praticamente coextensivo ao próprio destino da cultura européia ou ocidental'" e. qualquer instância como um júri ou um juiz não tem competência de decisão sobre a verdade senão apenas sobre o correto cumprimento das regras do jogo. uma vez que o próprio rei é lesado porque são descumpridas suas leis. o "procurador" do rei. ainda apresentasse cicatrizes.. a verdade é determinada por quem "viu e enuncia"s. grupos ou famílias eram diretamente postos em disputa. o direito de opor-se ao poder dos governantes. sobretudo. S. 49. Eis alguns dos exemplos levantados por Foucault (cf 45-47) de provas durante a Idade Média.. pelos testamentos e. ao soberano como a verdade é judiciariamente estabelecida sem o recurso a testemunhas ou a sentenças: os adversários em litígio são literalmente "postos à prova". dos botânicos. determinando-se a verdade pelo lado do vencedor do risco. de práticas sociais à produção de saberes 76 I Foucault. Ibid. foi a prática do inquérito que constituiu modelo para formações culturais então emergentes na Grécia antiga. 6. este agora de "dimensões extraordinárias". "para a história do mundo inteiro. 7.1 I 77 . É na segunda metade da Idade Média (a partir de fins do século XII e no decurso do século XIII) que o sistema da prova tende a desaparecer. Essa era a prática adequada ao perfil de uma sociedade de tipo marcadamente feudal em que a circulação dos bens era assegurada menos pelo comércio que pela herança. a ocupação de uma terra. Ibid. era considerado culpado. em que indivíduos. pelos 8. isto é. pronunciá-las incorretamente (um erro gramatical. responsável por "dublar" a vítima. Inicialmente (entre os séculos V e XII aproximadamente).. 42. Ibid. Ibid. representante do soberano. no âmbito jurídico. aparece um personagem novo. mas "também uma ofensa de um indivíduo ao Estado.)'. baseados que são em testemunhos (como os dos historiadores. 10. Segundo Foucault. e o acusado ganhava o processo. 41. Simplesmente .

de práticas sociais à produção de saberes 78 I Foucault. o modelo do inquérito é invadido por outro. 59. 64-65. Ibid. por isso mesmo é da competência do soberano o direito de impor penas e exigir reparações (freqüentemente na forma de "confiscos" que enriquecerão as monarquias)11. reunir dados são procedimentos que se estenderão para outras práticas e. define-se como "dano social" e o criminoso como "inimigo interno" a ser. as ciências empíricas ou da natureza. a saber. recolher testemunhos. pois. ao que é socialmente útil. dele restando talvez a prática da tortura (e mesmo esta "já mesclada com a preocupação de obter a confissão. as sociedades industriais nascentes vão adotar um procedimento penal que não estava previsto pelos teóricos da lei e que vai estabelecer-se. reatualizando o crime quando o criminoso não é surpreendido na atualidade de sua falta. transformações fundamentais ocorreram: novas formas de práticas judiciárias. do conhecimento de climas etc. reelaborações do sistema penal cujos princípios básicos podem ser assim reunidos: primeiro. o modelo do inquérito. estar explicitamente formulada. portanto. principalmente. a prisão. ou melhor. a prescrição de "vingança" ou a "redenção de um pecado"14.". a prática do inquérito como instrumento capaz de substituir o flagrante delito. sobretudo. as punições serão de quatro tipos possíveis. não compete à lei. É nesse quadro novo que se instaura o que Foucault chama de "sociedade disciplinar". configura como ruptura com a lei civil. a humi- lhação pública. Bentham e Brissot). ou ainda da medicina. o trabalho forçado e a pena de talião.. enfim. 78. Assim. permanece e se estende até nossos dias. que "não era uma pena de direito no sistema penal dos séculos XVII e XVIII". novas formas de 11.. este inteiramente novo . formuladas pelo poder político. durante o século XVIII (principalmente com Beccaria. as transformações aconteceram em dois níveis.. terceiro. reconstituir situações. porém. concernem apenas à sociedade civil. 15. "quase sem justificativa teórica": trata-se do aprisionamento. com resultados diferentes. religiosa ou moral e só se representante do Estado". É o funcionamento desse sistema que requer a necessária argüição de testemunhas. é "que vai se tornar a grande punição do século XIX.. as leis civis. para a constituição da verdade na ordem do saber. prova de verificação"13). Ibid. 51-52. Porém. não sendo falta moral ou religiosa. por conseguinte. cujos traços novos podem ser assim reunidos: primeiro. Ora. as leis tendem agora a ajustar-se menos à utilidade social que ao indivíduo (o recurso cada vez maior ao Inquérito e exame No início do período que passamos a investigar..o exame. segundo. tal como se instala a partir do século XIX. a infração não diz respeito à lei natural. excluído da sociedade. No nível teórico realizam-se. quinto. como faz notar Foucault. da astronomia. Ibid. nessa direção.. nesse quadro. com a introdução de uma importante diferença: a partir dos fins do século XVIII e no decurso do século XIX. em domínios "como o da geografia. 13. ao contrário. quarto. simplesmente 1 I 79 .exercício do poder. de saberes considerados verdadeiros. 14. Na medida em que se generaliza a prática do aprisionamento alteram-se radicalmente os princípios da legislação penal. Do ponto de vista judiciário. Ibid. a deportação. mas a reparação do dano social. o crime. portanto. da botânica e da zoologia 12 • Enquanto o sistema da prova desaparece quase por completo. Ibid. que é ainda a nossa. No nível prático. 12. a busca da reconstituição dos fatos. ou melhor. de algum modo. que precisa.15. 59. constituindo ainda hoje a base do sistema jurídico de nossa sociedade. novas formas de estabelecimento da verdade. desenvolver-se-ão.

imbricando-se concomitante e complementarmente. isto é. Dele a disciplina faz uso e é ele que permanece no interior do sistema jurídico cujo discurso calca-se ainda no inquérito e organiza-se em torno das relaçoes de soberania (do tipo súdito-rei). a polícia. esse controle não pode ser assumido apenas pelo poder judiciário. o exame. "poderes laterais. é um exemplo desta mudança). para a função de vigilância. certa articulação na sociedade contemporânea. No mesmo quadro. enfatizando então a noção nova de "periculosidade". precisamente sua "inclusão" como indivíduo. simultâneos aos saberes disciplinares. 80 I Foucau!t. classificando-os e registrando continuamente suas condutas. Mais. se o modelo da soberania (e. Foucault faz ver. a disciplina é correlata de uma sociedade comandada pela democracia burguesa. avaliando-os. De modo genérico. a escola. ou a disciplina. criminológicas. mas à conduta do indivíduo no âmbito da norma. É assim que. instalam-se seus correlatos no plano das instituições sociais: são as instituições disciplinares . os hospitais psiquiátricos. sua correção. "normal" ou não. correto ou incorreto. pedagógicas"). constrói as condições para um novo modo de produção da verdade. São eles.17. o asilo.a prisão.. Pode-se dizer que na sociedade caracterizada pela disciplina não se dá o 16. pode-se dizer que. por exemplo. 67-68. mas pela objetivação do indivíduo e na ordem do que é certo ou errado. basicamente.. Simplesmente de práticas sociais à produção de saberes j I 81 . importando saber não tanto o que "se passou". terceiro. sob o do exame) não se tenham constituído outros saberes. mas quais as virtualidades do indivíduo e como ele presentemente se conduz. psiquiátricas. Ibid. o do inquérito) permanece incorporado ao saber jurídico. em função de situações individuais. mas a possibilidade de ser cometido. permitindo modificações na aplicação estrita da lei. isto é. as casas de correção -. "reatualizar um acontecimento passado através de testemunhos. portanto. o exame é vigilância sempre atual e ininterrupta. seu adestramento. isso não significa que o modelo da disciplina (e. em suma. isto é. permitido ou interditado. De ação assim ampliada. a fábrica. o controle aringe não apenas o crime já cometido. ao contrário. médicas. nas sociedades modernas encontra-se. A sociedade disciplinar. Enquanto o inquérito é um procedimento para se saber o que havia ocorrido. 69. enquanto numa sociedade de tipo infração. enquanto a punição propriamente dita depende da existência de lei explícita e concerne à ocorrência efetiva de uma desaparecimento completo do modelo inquisitorial. mas. abre espaço para o surgimento das chamadas ciências do homem. por isso mesmo. portanto. enquanto a prática do inquérito foi modelo para o desenvolvimento das ciências da natureza. a esse âmbito de ação do controle já não basta o inquérito. controlando o tempo e o espaço dos indivíduos. para funções de correção 16 . Mas. Radicalmente heterogên~os. São saberes e instituições que não se atrelam ao que é do estrito âmbito da lei. Ibid. os dois sistemas mantêm. cuja finalidade não é propriamente a "exclusão" do indivíduo mediante sua "reclusão". elas buscam menos o "castigo" que o ajustamento do indivíduo à sociedade. "o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e comportamentos". Ele se calca em outro procedimento. por um lado. examinando-os. mecanismos ramificados de controles disciplinares. que. enquanto o modelo do inquérito é correlato de uma sociedade comandada pela soberania do monarca. Foucault chamao de exame. Ele requererá a conjugação de outros poderes. O estabelecimento da verdade pela matriz do exame não se faz mais pela reconstituição de fatos nem na ordem dos testemunhos. à margem da justiça". seu ajustamento. Em suma. e "toda uma rede de instituições" ("psicológicas. 17.que chamamos de "circunstâncias atenuantes".. segundo e correlatamente. contudo. por outro. um saber do direito articulado na esfera do inquérito e.

numa última consideração. dentro dos quadros da sociedade discipli- ••• Levantemos algumas reflexões que a reconstituição destas passagens pode. alarguemos o alcance do exemplo e indaguemos. pelo menos sob alguns aspectos ou em algumas regiões. M. Sabemos que as análises foucaultianas não pretendem. Elas são pontuais. à diferença do que parece habitual. É um poder sutil e produtivo: produz comportamentos e com as relações súdito-rei que caracterizam a sociedade gestos. pois. localizadas. circunscritas. 1975. de proximidade ainda com o modo do poder espetacular e repressivo que caracteriza menos "a disciplina" do que a prova ou o inquérito. de proximidade ainda com as condições qu~ caracterizam o modelo inquisitorial mais do que o do controle. entre práticas sociais e saberes sejam menos distantes e o trânsito bem mais freqüente. vale dizer. De um ponto de vista amplo. 194-195.como meta de desenvolvimento ou como horizonte de esperança . polemicamente. talvez. desigual e regio- nalizada.) na história ainda recente de nossa sociedade são indícios. não exclui. Surveilleret punir. " à medida que o poder se torna mais anônimo e funcional. as fronteiras entre procedimentos e discursos. Estimulando esta pergunta. comandada pela soberania. FOUCAULT. constituir uma espécie de proposta teórica geral. aqueles sobre quem ele se exerce tendem a ser fortemente individualizados'1l8. é possível interrogar se ele se ajusta inteiramente ao quadro descrito. Introduz-se assim. a individualização é "descendente". também ele. pela possibilidade de que.inquisitorial "a individualização é máxima do lado em que se exerce a soberania e nas regiões superiores do poder". de modo algum. talvez. de proximidade ainda Indícios como estes podem sugerir uma curiosa situação: enquanto a descrição foucaultiana já veicula. um modo de exercício do poder do qual uma descrição sura (da imprensa. apontemos alguns indícios para a reflexão: • a industrialização em escala incipiente. simplesmente de práticas sociais à produção de saberes I 83 . perguntar pela situa- ção particular da sociedade brasileira atual no quadro daquela descrição da sociedade contemporânea ocidental. ali desenhado. talvez. nos suscitar. parece-nos que o perfil de nossa sociedade encontra-se. • a manipulação pela tortura e pela violência sem disfarces. nar. retomemos o contexto em que situamos inicialmente esta exposição. 82 I Foucault. Paris. a crítica das sociedades moldadas na disciplina e no controle.. espetacular e repressiva não pode dar conta. assim como o uso de mecanismos explícitos de cen18. Depois de termos feito a apresentação de uma espécie de caso ilustrativo. dades de terra são indícios. numa sociedade de tipo disciplinar passa-se o contrário.sua realização mais completa como sociedade disciplinar. Finalmente. cria hábitos. ao mesmo tempo. • um sistema de governo no qual foi possível ocorrer o uso ainda recente do confisco e em que a tônica da individualização recai tantas vezes sobre a figura expoente do meramente negativa. das artes etc. bem como a preservação das grandes proprie- governante traz indícios. Gallimard. é possível que nOSSa sociedade. ainda esteja projetando . mais de perto. mais amplamente. porém. isto é. Pode-se. normaliza.

Nesses casos. são fragmentos filosóficos em canteiros históricos. G. Primeiro. mas outros e variados os "objetos" e os "domínios" dos quais se ocupam os estudos históricos que Foucault realiza (a loucura. como se sabe.1 I 85 . palestra proferida por ocasião do Colóquio Michel Foucault. Rio de Janeiro.). na Universidade do Rio deJaneiro. no máximo. Foucault e a leitura dos filósofos . Nau Editora. as chamadas ciências humanas. isto é.VII1 FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS' Meus livros não são tratados de filosofia nem estudos históricos. a delinqüên* Este texto reproduz. com particularidades de uma situação muito diversa. V.ARRERO. orgs. Questões semelhantes podem ter lugar relativamente aos escritos de Michel Foucault. 21. quando se trata da leitura de textos filosóficos na elaboração de histórias da filosofia. FOUCAULT) Dits et écrits) IV. Publicado em Retratos de Foucault (PORTOC. CASTELO BRANCO. a medicina. E de uma diversidade pelo menos tríplice. não são as filosofias. De modo geral. com algumas modificações. indagações sobre a conjugação ou a disjunção entre caráter histórico e qualidade filosófica são freqüentes. M. 2000. Porém. a doença. em novembro de 1999... os filósofos reúnem sua atividade à do historiador quando o que os ocupa são "canteiros históricos" de obras filosóficas.

4. As palavras e as coisas. Trad. as práticas judiciárias. Cf. Para o primeiro modo de presença. a tese complementar de dourorado 1. 288-293. 1994.últimas entrevis· tas. a presença assídua das filosofias encontra-se nos escritos volumosos e de grande porre onde têm lugar. atreladas que estão ao assunto central da respectiva investigação. Para mencionar alguns: um estudo introdutório sobre Rousseau (de 1962)2. ce feu". Paris. Histoire du structuralisme. "seu pensamento se situa sistematicamente nas linhas fronteiriças. Vigiar e punir. em tradução brasileira. a sexualidade.. acrescentada à segunda edição de Histoire de la folie à l'âge classique. da Glória R. Ora se movem no trânsito entre a dimensão Descartes4 (em réplica tardia à crítica de Derrida).. ••• Não muitos escritos se ocupam diretamente da abordagem de filósofos. Foucault e a leitura dos filósofos 86 I Foucault. Revue de Métaphysique etde Morale. Graal. indiretamente... in Dits et écrits) lI. Pode ser reconhecida de duas maneiras.. in Dits et écrits) IV. I. 136-156. l'histoire". 562-578 e 679688. extraída do curso de 5 de janeiro de 1983. mas em proporções desiguais: convencionemos dizer que diretamente as filosofias comparecem com menor freqüência.. Lima e M. O Dossier .jdéc. Éditions La Découverte. I. Microftsica M poder. Gallimard. em todo caso. introd. no capítulo II ("O grande enclausuramento") da primeira parte de História da loucura. Taurus. Antropologia do ponto de vista pragmático. a releitura (de 1971) das Meditações de cia. e org. portanto.. permanecendo. as artes . M.. no texto "Mon corps. ao cam- ticularmente explícitas: a leitura comparativa entre Montaigne e Descartes. "Introduction" a Rousseau. por assim dizer. Comporta tradução e introdução a Kant. Ora mantêm-se na dimensão estrita dos discursos. da Silva. Rio de Janeiro. ). Ensaio. Terceiro.. portanto. 1992. em tradução brasileira. 1979. 172-188. ce feu".marca presen- ça nos trabalhos de Foucault. Esta última versão. nos interstícios entre os gêneros"'. DOSSE) F. 4. História da sexualidade). Paris. 7. 1984. Trata-se da réplica à crítica que Derrida endereçara à leitura foucaultiana de Descartes em História da loucura? Com efeito. DERRlDA. quase sempre. 3. incluída. 6. Cf "Nietzsche. 305. datilografado. Incluído. 5. ce papier. Introd. São Paulo. Paris.se se quiser. Tradução brasileira de Álvaro Cabral.Le chant du rygne. Roberto Machado. textos curtos e. 460-494. com diferentes intensidades e extensões. 1994.sobre Kant (de 1961)3. há diversidade porque Foucault realiza um peculiar cruzamento entre a atividade do filósofo e a do historiador na medida em que. certa leitura das filosofias . em número reduzido. as filosofias são protagonistas dos grandes livros de história (História da loucura) Nascimento da clínica. está incluído no acervo do Centre Michel Foucault e uma "Notice historique" está publicada em Dits et écrits. agregando.. variados são também os planos das abordagens. Rousseau)juge deJean-Jacques. Cf.274. 1963 n. de Ana Maria de A. no interior das articulações interdiscursivas. M. 2. 11 . indireto. tomemos uma análise textual que nos parece exemplar. e mais genericamente.. Entretanto. nos limites. e isso significa no âmbito das epistémes ou dos espaços que demarcam as possibilidades de configurações dos saberes historicamente qualificados. o esrudo mais recente sobre Kant (de 1984t De modo geral. 1967 à nos jours.. ce papier. Dialogues. Para mencionar algumas siruações par- discursiva e a extradiscursiva. ou as retomadas de Platão nos volumes II e III (O uso dos prazeres e O cuidado de si) de Historia da sexualidade. 1972. O texto de Foucault... diferentemente da prática filosófica de pensar a história. e org. "Qu'est-ce que les Lumieres?".. la généalogie. a literatura. incluído em Dits etécrits. pensa filosoficamente ao praticar a investigação histórica. e isso significa no âmbito dos chamados dispositivos estratégicos. I 87 . certa história das filosofias . ensaios "avulsos". oct. o ensaio so- bre Nierzsche (de 1971)5. Rio de Janeiro. Como escreveu um historiador. Cf. trata-se de cursos. Em todo caso. no volume FOUCAULT. o direito. em sentido largo. Gallimard. no volume FOUCAULT. de Carlos Henrique Escobar. Sob o título "Mon corps. J. Simplesmente . "Cogito et histoire de la folie". po epistêmico práticas e instituições sociais. Todavia. Segundo.

remete a termos latinos e a suas traduções9. 14. de Husserl JJ1z . Finalmente.a indireta . 10. indica o trabalho foucaultiano como "um instrumento de renovação de uma 'história da filosofia' que seria acionada. Lebrun descreve-o como "um livro de combate" e "um livro filosófico". veremos que são convocados. tentando vasculhá-la um pouco no enredo das investigações históricas Tomemos As palavras e as coisas. 9. na leitura do mesmo texto cartesiano: "omissão de elementos literais". MAJOR. Husserl. com habilidade de mestre. precisamente por sua natureza de "meditação"lO. depois de iniciar-se com a cativante leitura sobre as aventuras de "Dom Quixote" (item I). Derrida de certo modo a repete e propõe . CANGUILHEM. Ibid. não deixa de lembrar quanto Foucault suspeitava de uma «história da filosofia universitária"'3 e. uma reconstituição interna das Meditações. Descartes.33. para explanar o desmoronamento da semelhança renascentista e a instauração da categoria clássica da "ordem". que "contém ao menos o esboço de uma história da filosofia" e no qual encontramos "indicações para uma leitura de Descar- cimento. 1994. Rousseau. passa a fazer falar os filósofos. Ibid. Hegel. Bergson. Trad. modernidade). isto é. a Logique de Port-Royal. à fenomenologia. 593-597.. 12. o sistema que os opõé. Dilthey. 588-590. ce feu". para '(a representação do signo". em detalhe. de seu crítico (no caso. compõe todo o teor do item II. Se."o esquema ou o espectro de uma problemática análoga" ou de "uma questão semelhante". de Kant. DERRlDA. não de Descartes . G. 599. 8. FOUCAULT. O item N. Locke. 9)10. ce papier. 1989.11 janvier 1988. faz ver a necessidade de dupla postura de leitura demandada pelo próprio texto. A título de curiosidade.Rencontre internationale)Paris. Condillac.. subverte a posição de defesa para instalar-se no terreno do opositor e apontar os defeitos que são dele. Leibniz. passo a passo. Berkeley e Condillac. que estabelece a ponte do renascimento à idade clássica. "apagamento enfim e sobretudo da determinação discursiva essencial (dupla trama do exercício e da demonstração)"ll. duas escolhidas entre aquelas que se ocupam com momentos de limiares ou de transição entre os períodos históricos investigados. idade clássica. enquanto sistema. 1992) de outro texto. "a representação reduplicada". Malebranche. com a morte da 'filosofia' tal como esta é ainda escolarmente entendida"'4. 55ss. lembremos a publicação bem posterior (Éd. há chamadas à Logique de Port-Royal. "Note sur la phénoménologie dans Les Mots et les choses".agora acerca de Freud. Galilée. Cf. entre outros. 13. usando técnicas refinadamente rigorosas e uma esmerada ordem de exposição. Foucault . G. Kant. Ibid. 88 I FoucaulL Simplesmente Foucault e a leitura dos filósofos • I 89 . preferencialmente. M. em As palavras e as coisas) fizermos um levantamento geral na seqüência dos dez capítulos. Bacon. M. J. os parágrafos (sobre o sonho e sobre a loucura) do texto cartesiano e segue.. Seuil. "Fazer justiça a Freud . Para apresentar "a imaginação da semelhança".A história da loucura na era da psicanálise". destaquemos algumas passagens e. O capítulo III ("Representar"). Compara. Heidegger.. ROUDINESCO.tes. aos ideólogos.Leituras da história da loucura. Montesquieu. 38. "elisão de diferenças textuais". no item V. Nietzsche. "Mon corps. conta com a Logique e com Destutt de Tracy. no final. Espinosa. Ignes Duque Estrada. Hobbes. no qual. Um artigo de G. Berkeley. Hume. e muitos deles numerosas vezes: Montaigne.. Ibid. acompanhando os três períodos históricos percorridos (renas- Foucault realiza. enfim... certamente ("encadeamento sistemático de proposições))). ao estruturalismo etc. Consideremos a outra e mais freqüente maneira . ao afirmar que evita o retorno à discussão anterior. Ibid. Paris. principalmente. além disso. principalmente. E. Derrida). 11. LEBRUN.. mas também enquanto exercício. in Histoire de lafolie. in Michel Foucault philosophe . 51.de inserção das filosofias. Relume Dumará. R... Rio de Janeiro. No item I1I. Dessa relação apenas nominal. A palavra de Descartes. 590-591.

Hume e Rousseau. longa e explicitamente. Rio de Janeiro. 136-138. Isso no que concerne ao âmbito de articulações somente interdiscursivas. Duas passagens extraídas do livro biográfico de Didier Eribon nos servem para retomar conjuntamente os modos de presença das filosofias que estivemos denominando direto e indireto. Foucault retomará. filologia). detalhadamente posiciona Descartes no limiar do classicismo como Kant no da modernidade 15 . "linguagem": trata-se. biologia. Bem mais adiante. como é o caso de História da loucura. 69. Para o primeiro caso. cit. Uma trajetória filosófica . "As sínteses objetivas").16. op. mas de modo genérico. 90 I Faucault. a vida. 137. para o filósofo investigador da história. assim o de Descartes com os saberes clássicos (análise das riquezas. FOUCAULT. mas que permanece fundamental. e certamente então reencontraríamos Descartes. R. o positivismo. in Dits et écrits. ambiguamente. a dialética. a presença de Kant. Desenharse-á. simplesme-nte- nhecimento que coloca para Kant o problema de saber o que é a relação entre o sujeito moral e o sujeito do conhecimento. IV. A entrevista também se encontra. de "transcendentais". Graal. Cf MACHADO.. de que o Hospital Geral é o marco institucional. biologia. um trecho sobre as declarações de Foucault acerca de sua tese complementar de doutorado (que. assim como Condillac. agora como o marco filosófico na partilha clássica entre razão e desrazão. a configuração moderna dos saberes e. Está bem claro que As palavras e as coisas. filologia). gramática geral). teríamos visto o tecido de relações entre o plano discursivo e o extradiscursivo. Importa observar que. em seu último item (VI. nos capítulos IX ("O homem e seus duplos") e X ("As ciências humanas"). sempre. Mas observação semelhante pode ser feita também a propósito das relações entre a filosofia e práticas não-discursivas. Ciência e saber . finalmente . dos conhecimentos positivos com o pensamento filosófico. a linguagem (economia. elas se alojam na confluência. para empregar uma expressão de Roberto Machado. 1982. 630. MACHADO. o capítulo VII ("Os limites da representação").e é para onde todo o livro se dirige -. entre outros. já que se trata da mesma entrevista reproduzida com modificações. "vida". Se tivéssemos tomado outro exemplo. melhor dizendo. assim como para ilustrar a diferença entre eles. Veja-se também. Mostra a correspondência entre o campo transcendental kantiano das condições de possibili- dade do conhecimento e as categorias modernas de "trabalho". mas do objeto e do a posteriori. Malebranche e Espinosa.. "diferença de nível. precisamente ou. R. não há desigualdade de importância nem de prestígio ou.lá estão Hobbes e Hume. Foucault e a leitura dos filósofos I 91 . tem-se um sujeito do co15. Kant será reintroduzido. Vera Portocarrero. Forense Universitária..A trajetória da arqueologia de Foucault.278. em um texto escrito muito depois (originado em uma entrevista de 1983). então. que descreve as transformações ocorridas na segunda metade do século XVIII. Aliás.17 entre a filosofia e outros saberes dos respectivos períodos históricos. Trad. Após Descartes. 411. o lugar de surgimento das ciências humanas: elas emergem no entroncamento das dimensões positiva e filosófica dos saberes. lembremos. história natural.. enquanto condições de possibilidade de conhecimentos objetivos (economia. 1995.. com a diferença de que estas categorias situam-se do lado não do sujeito e do a priori.Para além do estruturalismo e da hermenêutica. no mesmo livro. e são evocados Descartes. Rio de Janeiro. M. op. a fenomenologia. em apêndice. "À propos de la généalogie de l'éthique: un aperçu du travail en cours". 17. Em português: Dossier. esquematizo aqui uma história muito longa. sem desconsiderar outros filósofos. no livro de RABINOW e DREYFUS.. Assim como o pensamento de Kant é analisado em correlação com os saberes modernos "Sobre o trabalho. essas duas pontas filosóficas daqueles períodos históricos: "Seguramente. traça agora a curva do classicismo para a modernidade e assinala. se compôs de tradução e introdução à Antropologia de Kant): 16. cit. quando também aparecerão.

. Em outras palavras. do ostracismo e da excomunhão. por outro é resultante de uma maneira de conceber a própria filosofia. D. além da compreensão estrutural. em vários momentos e de muitos modos. do exílio. Simplesmente J I 93 . Creio que existe certo tipo de atividades 'filosóficas' em domínios determinados que consiste em geral em diagnosticar o presente de uma cultura: é a "Inútil seria esse rigor da arquitetura se. diagnóstico do presente. com domínios diversos. qual é a relação dessa Antropologia com o movimento 'crítico' desenvolvido por Kant? Análise estrutural. se por um lado resulta em um modo de história da filosofia. Por isso começa-se a entender que uma história "exclusiva" das filosofias possa ser não apenas historicamente como ainda filosoficamente insuficiente. transformado durante quase 25 anos.. São Paulo.. verdadeira função que podem ter hoje os indivíduos a que chamamos filósofos"21."( . Não. n. Minuit. E para ilustrar o que chamamos de presença indireta a citação sobre a tese principal de doutorado (Folie el Déraison. não houvesse uma visão secreta. a este propósito.. professeur Foucault?". FOUCAULT. o que "desde Nietzsche caracteriza a filosofia contemporânea. remanejado. com práticas não-discursivas. 125.. Companhia das Letras. Já em uma entrevista de 1967. mas quase piedoso.606.. ) para compreender esse texto de Kant escrito. 18.. por essa gente obscura em que se reconhece o infinitamente próximo. com saberes não-filosóficos. 620. Por isso é que no próprio seio da argumentação lógica. Pertence a certa escolha que.19. essa geometria transparente é a linguagem patética dos homens que sofrem o suplício maior da rejeição. por exemplo. nem tampouco na suficiência de suas singularidades. Cf. quase sempre. a saber. enredadas no interior das histórias. Foucault e a leitura dos filósofos Foucault. lbid. não vagamente humanista. Qual é a situação dessa obra na disposição global e interna do sistema kantiano. 92 20.. com objetos múltiplos.. 176. 1188. mas espalhadas na exterioridade espessa das epistémes ou conectadas à heterogeneidade complexa dos disposltivos estratégicos. 21. 19. no cerco interno dos sistemas. Trad.. para que elas possam ser o que devem ser. Assim.20. Michel Foucault ~ Uma biografia. de algumas reflexões. Como essa obra terminal foi elaborada. A compreensão da filosofia como "diagnóstico" é. in Dits et écrits. o outro eu. E conclui: "Falei-lhes de um desaparecimento das filosofias e não de um desaparecimento do filósofo. da desgraça.. Essa forma de inclusão das filosofias na história não é certamente descomprometida. SERRES. pois. contracenando. formulada por Foucault.18. M. ERIBON. 1. porém. M. lbid. "Qui êees-vous. Concluamos com a sugestão. declara-se "filósofo" por reconhecer-se no trabalho de quem "busca diagnosticar. Mercure de France. Hildegard Feise. agosro de 1962. no seio da minuciosa erudição da pesquisa histórica circula um amor profundo. ••• As filosofias comparecem. Histoire de la folie à l'âge classique). 1968. Assim. 1990. esse livro é também um grito . de que sucessivos sedimentos se alimentou? Análise genética. diagnóstico do presente As filosofias só estão associadas às investigações históricas do passado para possibilitar um olhar mais atento sobre nosso tempo. Republicado em Hermes ou la communication. obtida de um comentário de Michel Serres: A filosofia. "Géometrie de la folie". é necessário cruzar análise estrutural e análise genética.. da quarentena. realizar um diagnóstico do presente". uma atenção mais ardente: a obra seria precisa sem ser inteiramente verdadeira. 119.

"Le piege de Vincennes". cit. é preciso que ela seja -:. in Michel Foucault. A filosofia. Finalmente. "Qu'est-ce qu'un dispositif?". O dispositivo é "multilinear" e as linhas de que se compõe são linhas de visibilidade e de enunciação. saberes e práticas diversificados e as situam como peças de dispositivos historicamente dominantes não fazem.. reunindo as reflexões que acabamos de sugerir. em sua mobilidade. Grenoble.25. reunindo-as sob a categoria da "palavra transgressora.o poeta. Em um texto de 1970. pela história. MOREY. os poetas e os louCOS. in Michel Foucault philosophe. "Sur le style philosophique de Michel Foucault ~ pour une critique du normal". poderíamos acrescentar: para que a filosofia possa ser um olhar atento sobre o presente.-. alguns aspectos das considerações de Deleuze sobre o que é o dispositivo..]. Interessou-se por tudo. Em texto bem mais recente. Simplesmente . leitura dos filósofos 94 I Foucault. envolvem o ver e o dizer. o seu fora.. lire l'oeuvre. op. . uma palavra interrogante. diréction de Luce Giard. Com isto.exercício de vida. assunto do diagnóstico. as linhas do dispositivo se repartem em "linhas de estratificação ou de sedimentação" e "linhas de atualização ou de criatividade"26. também em entrevista mais antiga (de 1966): "( . pela literatura. Ed. Rajchman • E o próptio Foucault. conjugar as filosofias a saberes e práticas nãofilosóficos que compõem epistémes e dispositivos não é reduzir os gestos filosóficos. in Dits et écrits. as coisas e as palavras. um discurso não-cúmplice. o filósofo -.24. 144. in Michel Foucault philosophe. 1992. para nosso uso. o seu outro.m. DELEuzE. "Foucault: l'échique et l'oeuvre". "Assim.. 26. Abrem também a possibilidade do discurso de resistência. 27. assunto da análise histórica.. genialmente antecipou a nossa época. de procedimentos que delineiam um modo outro de história da filosofia como estratégia de criatividade na contraface de dispositivos estratégicos estratificados. Comportam o arquivo. 24._-' 1 I 9S . Por isso. essas histórias que inserem a urdidura das filosofias nas tramas de objetos.como transgredir se as filosofias.uma 22 espécie de filósofo malgrado ele". estão calcadas nos solos das épistemes e tecidas nas redes dos dispositivos? Retomemos aqui.. "Michel Foucault et Gilles Deleuze veulem rendre à Nietzsche son vrai visage". 70. 23. um pensamento sem morada. a não-filosofia Como diria Merleau-poncy. FOUCAULT. Há "linhas de fuga" e "todas as linhas são linhas de variação".. 552. Foucault e a. Foucault já aproximava os filósofos de "seus vizinhos.. A filosofia. 55. ) Nietzsche multiplicou os gestos filosóficos. se se quiser. em toda parte Dize~ que as atividades filosóficas existem "em domínios determinados" e que o diagnóstico que elas realizam remete a "uma cultura" significa também que elas não configuram um "domínio" específico. M. escreve]. pela política etc. O atual é o transformávet o ((devir-outro)~ aquilo em que nos tornamos. M. apenas atrelar as filosofias ao estabelecido. 25l. e o atual.-. modo de existência. "que foge a toda conivência. o louco.. in Michel Foucault philoso· phe. Judith Ravel retoma essas "três figuras misturadas" . G. "Sur l'Imroduction à Binswan~er (1954)". lI..antes de tudo e após tudo . 185-195.. senão que se constroem no espaço relacionaI com o seu diverso. a filosofia está em toda e em nenhuma parte. 25. RAVEL. Foi buscar a filosofia em toda parte. como outros saberes e práticas. é multiplicá-los. Cf.>23. Jérôme Millon... J. Por isso. necessariamente. Mas 22. Trata-se. in Dits et écrits I. palavra transgressora Pertencente ao seu tempo. eu diria que é precisamente nos seus 'ensaios' para abrir a filosofia ao seu fora que Foucault era filósofo . RAjCHMAN. mesmo se em certos domínios permanece um homem do século XIX. Assim. o gesto filosófico pode ser também capaz de excedê-lo. Os dispositivos são "moventes". são também linhas de forças e linhas de subjetivação.

VIII

OLHARES E DIZERES'

Fazer a cnêica é tornar difiéeis os gestos demasiado fáceis.
M. FOUCAULT, Dits et écrits, IV, 180.

Em busca do fio condutor
Os modos de distribuir os escritos de Foucault e recompôlos podem ser relativamente diversos, mas quase sempre se
sobrepõem e, sem dificuldades, complementam-se. O modo
mais freqüente, nomeado e renomeado pelos diferentes estudiosos e reconhecido pelo próprio Foucault, consiste em considerá-los ao longo de sua cronologia, situando-os, segundo o
critério dos grandes deslocamentos, em três grupos: quer se
fale de momentos, fases ou etapas, de áreas, campos ou domínios, de eixos ou vertentes, de planos, níveis, camadas, terrenos
ou patamares, eles configuram, em seu conjunto e sucessivamente, uma arqueologia do saber, uma genealogia do poder e uma
genealogia da ética.
* Conferência proferida por ocasião do Colóquio FoucaulrjDeleuze, na
Universidade Estadual de Campinas, novembro de 2000. Publicada em Imagens de Foucault e Deleuze, ressonâncias nietzschianas (RAGo, M., ORlANDI, L. 1.,
VEIGA-NETO, A., orgs.), Rio de Janeiro, DP&A editora, 2002.
olhares e dizeres

I

j

j

97

Contudo, pretendo referir-me aqui a outros modos ou critérios de organização, que não se opõem ao mais usual e que, a
meu ver, são aproximáveis entre si. Para isso, evoco três passagens, duas das quais recolho em Foucault e a terceira em Deleuze.
Já no "Prefácio" de As palavras e as coisas, de 1966 - antes,

portanto, da produção chamada genealógica -, o próprio Foucault propunha certa organização de seus escritos, e o critério era
então o da ênfase no Outro ou no Mesmo. Assim, enquanto Históri4 da loucura perguntava pela "diferença" que limita internamente uma cultura, As palavras e as coisas, respondendo "como em
eco", investigava a "proximidade das coisas"; enquanto História da
loucura "seria uma história do Outro" - daquilo que, em uma
cultura, na nossa, "é ao mesmo tempo interior e estranho" -, As
palavras e as coisas "seria uma história do Mesmo" - daquilo que,
em nossa cultura, preside "a ordem das coisas", podendo ser
"distinguido por marcas e recolhido em identidades"l.
Anos depois, na elaboração de um texto que tem por tÍtulo o seu nome - um verbete para um Dicionário de filósofos, de
1984 -, Foucault reconstitui a organização de seus escritos e,
de certo modo, retoma, como que obliquamente, aquele critério usado no início de sua trajetória, o do Outro e do Mesmo.
Reúne então, retrospectivamente, toda a sua produção sob o
que ele chama de um "projeto geral": investigar a experiência
histórica da constituição do sujeito nas formas diversas de sua
subjetivação e de sua objetivação. E, como que atravessando
este projeto, um "fio condutor": a questão dos "jogos de verdade" ou "das relações entre sujeito e verdade"z.
Dentro desse "projeto" e segundo esse "fio condutor", realizam-se, no conjunto e no decurso de sua trajetória, dois modos de análise: no primeiro, a análise dos "jogos de verdade"
pelos quais o sujeito torna-se objeto de saber na forma do co1. FOUCAULT, M., As palavras e as coisas, "Prefácio", 13-14.
2. Cf. "Foucault" in Dits et écrits IV, Paris, Gallimard, 1994, 631-636. O
verbete "Foucault" pode ser encontrado na tradução brasileira: HUISMAN, D.,

98 I Foucault. simplesmente

nhecimento científico, desembocando nas chamadas ciências
humanas com sua característica normativa; no segundo, a análise dos "jogos de verdade" pelos quais o sujeito é constituído
como objeto de conhecimento, alojado, porém, no "outro lado
da divisão normativa". Pode-se ver, no primeiro caso, o sujeito
enquanto "distinguido por marcas e recolhido em suas identidades", de As palavras e as coisas. No segundo, trata-se do "diferente", o louco, o doente, o delinqüente, de História da loucura, O

Nascimento da clínica, Vigiar e punir'.
Finalmente, e sempre no interior do mesmo "projeto geral",
aos dois primeiros tipos de análise seguiu-se o mais recente: investigar "a maneira como o sujeito faz a experiência de si mesmo
em um jogo de verdade no qual se relaciona consigo próprio"4.
Reunindo esta reconstituição às considerações do "Prefácio" de As palavras e as coisas, pode-se dizer que, na seqüência dos
grupos de escritos, o fio condutor é sempre o das relações entre
sujeito e verdade, tramadas nos jogos do Mesmo e do Outro.
Resta acrescentar que, quando os escritos se centram no Mesmo, descrevem a epistéme, o círculo de uma época, o instituído,
o sedimentado. Quando se voltam para o Outro) realçam o dispositivo, que tanto comporta a estratégia dominante como se
abre à possibilidade do novo, da resistência e da mobilidade.
A aproximação dessas passagens, a mais antiga e a mais
recente, permite, por sua vez, ligar ambas a alguns aspectos da
leitura que faz Deleuze acerca do percurso foucaultiano. Os
três momentos desse percurso são por ele descritos em termos
de "linhas" que compõem os diversos dispositivos analisados por
Foucault. As mudanças entre eles são referidas como "crises",
"desvios", "brechas", "linhas quebradas", "novas linhas" etcs.
Dicionário de filósofos, trad. C. Berliner, E. Brandão, I. Castilho Benedeti, M. E.
Galvão. São Paulo, Martins Fontes, 2001, 388-391.
3. Ibid., 633.
4. Ibid., 633.
5. Cf. DELEuzE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?" in Michel Foucault philosophe
- Rencontre Internationale, 1988, 185-195, que retoma, particularmente, o capítuolhares e dizeres

I 99

No primeiro momento - o da dimensão do saber -, tratase, especialmente, de "linhas de visibilidade e de enunciação":
"pensar é, primeiramente, ver e falar ... "6. Isso corresponde, nos
termos do citado verbete de 1984, aos jogos de verdade segundo os quais o sujeito é constituído como objeto para um saber
reconhecido; ou ainda, nos termos do "Prefácio" de As palavras
e as coisas, ao sujeito "visível" e "dizível", na ordem do Mesmo.
No segundo momento - o da dimensão do poder -, tratase, especialmente, de "linhas de forças": elas operam um "vai-evém do ver ao dizer", fazem "entrecruzar as coisas e as palavras"7. É o pensamento na elaboração de "estratégias". Nos termos dos dois textos anteriormente considerados, significa que
isso inclui tanto o pólo das "identidades" como o das "diferenças"; ou, se se quiser, tanto o lado "instituído" da "divisão normativa" como seu "outro".
No terceiro momento - o da dimensão ética -, trata-se,
especialmente, de "linhas de subjetivação": elas apontam para
"novas possibilidades de existência"g. Não mais "o domínio das
regras codificadas do saber (... ), nem o das regras coercitivas do
poder (... ), são regras de algum modo facultativas"9. Nos termos
dos textos vistos, isso corresponde à "experiência que o sujeito
faz de si" na relação consigo próprio, ou ainda, se se quiser, à
possibilidade de um devir do Mesmo em Outro.
lo "Pensar de outra maneira" de seu livro Foucault, Paris, Minuit, 1986. Vejase também as três entrevistas sobre Foucault, "Rachar as coisas, rachar as
palavras", "A vida como obra de arte" e "Um retrato de Foucault", reunidas
em Conversações, trad. P. P. Pelbart, São Paulo, Ed. 34, 1992.
6. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", in Conversações, 119. Veja-se ainda,
no mesmo texto, 119-122; 126; e no texto "Um retrato de Foucaulr", 133-134.
7. DELEUZE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?", in Michel Foucault philoso-

Finalmente, reunindo as três referências, busquemos refazer o fio condutor que percorre o trajeto foucaultiano. Digamos
que se trata das relações entre sujeito e verdade, ou mesmo do
sujeito com sua verdade; que essas relações são tomadas no jogo
entre o estabelecido e o mutável, vale dizer, entre o Mesmo e o
Outro; e acrescentemos agora que, nesse jogo, as relações são
visíveis e dizíveis de modos diversos, isto é, que olhares e dizeres
- analogamente aos pólos do idêntico e o do estranho - são
sedimentados ou mobilizadores, dependentemente daquilo que
nós, historicamente, somos capazes de ver e dizer.

Imagens e palavras -

um exercício

Usando o fio condutor brevemente reconstruído, proponho que façamos um pequeno jogo, alinhavando com ele alguns comentários sobre o filme Meninos não choram lO•
Personagens principais e ambientação geral

• Brandon ou Teena Brandon: uma jovem de 21 anos que se
sente) se veste e se comporta como um rapaz; tem um primo
que é também seu confidente.
• Lana' jovem aproximadamente da mesma idade) mora com a
mãe e trabalha em uma fábrica; é amiga de Candace.
• John: namorado de Lana; é amigo de Tom e ambos são expresidiários.
Os personagens são todos de classe média baixa ou pobres,
arriscam-se em aventuras, são usuários de drogas. O contexto é o
de uma pequena cidade americana (Falls City). O filme todo
transcorre em ambientação de pouca luminosidade, ~esmo quando a cena acontece ao ar livre (como no episódio do estupro).

phe. 186.

8. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", 120.
9. DELEUZE, G., "Um retrato de Foucault", in Conversações, 141. Veja-se
ainda ''Rachar as coisas, rachar as palavras", 116; "A vida como obra de arte",
123; 125. "Qu'est-ce qu'un disposicif?", in Michel Foucault philosophe, 187.

100 ! Foucault. simplesmente

10. Boys don't cry - 1999. Direção: Kimberly Pewirce (também um dos
autores do texto). No elenco: Hilary Swank (Oscar de melhor atriz), no papel
de Teena Brandon; Chloé Sevigny, no papel de Lana; Peter Sarsgaard, no
papel de John. O enredo reconstitui uma hiscória real ocorrida. em 1993.
olhares e dizeres

! 101

"tomar a estrada". Desconhecedora dessas informações. meio ao acaso. expondo-a nua ao olhar de todos. uma investigação policial revela sua identidade feminina. Quando presa. Tenta comportar-se como o grupo de jovens que acaba de conhecer. Sob seu olhar perplexo. expressão que repete aos outros para tentar definir-se. eis o que diz a Lana: "Quer de sua hóspede e faz a mesma descoberta. se se 11. especialmente os rapazes. Mas Brandon não é bem ele. que a faz ser levada a um hospital. É Lana que a interrompe. apenas abre a porta e comunica a todos que Brandon é homem. sob eles. alguns anos depois. Brandon vai à polícia e. seu testemunho da "verdade". Tom colaborou com a acusação. Levam-na depois a um lugar ermo onde a espancam e estupram. Em seguida. gãos femininos e masculinos. na cela feminina. Candace vasculha os objetos pessoais Palavras e imagens • De Brandon. matam a tiros Candace e Brandon. Lana. é mais ela que ele". mas sua única preocupação é tirá-la dali. desesperadamente. como se perscrutassem sua "verdade". ameaçada. vai. relatando-a aJohn e Tom. sobre si mesma Vê-se como um rapaz e faz saber que quer mudar de sexo. que apaguem as luzes. Entre seus objetos pessoais encontra-se um pequeno livro sobre "crise de identidade sexual". estranha encontrá-la em uma cela feminina. quando posta sob o olhar do primo/confidente parece ingenuamente tola. Brandon quer ser rapaz e produz sua transformação. Lana. Hospeda-se na casa de Candace. Desencadeada por um acidente de carro . Cobram-lhe segredo do ocorrido e conduzem-na de volta à casa de Candace para que se lave. John e Tom agarram Brandon e brutalmente lhe tiram as roupas. é despida por John e Tom. indignados. localizada no sexo. aos olhos de todos. Quase ao mesmo tempo. Na cena final. Quando têm relações amorosas. essa mesma visão.que Brandon dirigia a mando de John e Tom -. Leva-a então à sua casa onde. Quando fechada no quarto com Lana. Depois de alguns momentos com ela no quarto. não se despe. "toma a estrada"ll. pede. O nome de Brandon é Teena. pro- saber a verdade? Sou hermafrodita. contam à mãe de Lana. todos os esperam. olhares e dizeres I 103 102 I Faucault. Aparentemente sem vínculos (salvo os raros encontros com um primo). Brandon tem sobre si o olhar e o dizer da verdade "reconhecida": verdade una. testemunhou contra John e foi condenado à prisão perpétua. por sua vez. ou. comprometendo-se a dar. quase em murmúrio. Teena Brandon é levada presa. sendo porém submetida a uma espécie de interrogatório informal que quer desvendar não o estupro mas a natureza de seu sexo. começa quase mecanicamente a despir-se a fim de que Lana pudesse testemunhar sobre sua "verdade". recua. com imensa dificuldade. sozinha. Lana busca Brandon na prisão. à pequena cidade onde moram Lana. teve uma filha e voltou a morar na pequena cidade. Uma pessoa que tem ór- põe fechar-se a sós com ela. Em suma. Apaixona-se por Lana e é correspondido.Há uma última cena de amor em que Lana faz Brandon despir-se. quando é por ela despido. Simplesmente • . Inquirida sobre a identidade sexual de Brandon e buscando impedir que a forcem a despir-se publicamente. Informações em notas finais: John foi condenado e está apelando da pena de morte. Resumo do enredo Na cena inicial. faz o relato das agressões. Brandon consegue escapar e encontra Lana. que. sua mãe e seus amigos. John e Tom surpreendem Lana e a levam também à casa de Candace. Decidem fugir juntas. Quando. Também se vê examinada pelo olhar de Lana ou o de sua mãe e. exceto na última vez. Brandon vai então à casa onde se hospedara a fim de apanhar suas coisas. em seguida. Após o banho.

e por isso também. Eis um de seus dizeres: {(Também tenho sentimentos estranhos". entrecruza imagens e palavras. a mesma. Quando se fecha no quarto com Brandon e a impede de despir-se. afinal. sobre Brandon Candace "descobre". de costas. tador .mçiação". mas meio caricata) apenas uma espécie de falso artifício. • De Lana. a câmera percorre o corpo. ele próprio invisível e indizível. a câmera faz ver seu corpo seminu. só interessa conjeturar sobre seu sexo e por que ('nunca fez amor antes do estupro~'. Tudo o mais é de menor importância ou é falso. come- ça a insinuar-se no espectador uma dúvida sutil. sobre Brandon e sobre si mesma Lana vê Brandon sem suspeitas e admite ver-se confusa. Ao policial que a interroga. focalizando as curvas femininas de coxas e quadris) parece finalmente fornecer ao espectador a informação aguardada. simplesmente mentira. esta é a única personagem com indícios de críti- ca e sugestão de perplexidade. 2. proponho o destaque de quatro cenas. Indica "linhas de forças". veste-se depois. nos objetos vasculhados) a verdade "encoberta". Simplesmente Primeira situação 1. 104 I Foucault. Em suma.quiser. sustentando aquilo que pode ser "distinguido por marcas e recolhido em identidades". • Da câmera e o do espectador sobre Brandon Para capturar o olhar da câmera . Segunda situação 1. no dispositivo instituído da sexualidade. Na cena em que Brandon se declara hermafrodita. é Teena. seu mentiroso". quase andrógina. reunidas e contrapostas em dois pares. E no de] ohn: "Só quero a verdade. a verdade está na transparência do visto e na unicidade do dito.e os dizeres que o acompanham. Em suma. que. • De outras personagens. no disfarce do chapéu. por sua vez. Quando na prisão. Nesse par de cenas. nos genitais postiços. E o nome. Na cena inicial. a câmera faz ver Brandon "transformar- se" em rapaz. despir. na expectativa de resolvê-la) só lhe resta (como.que conduz o do espec. 2. Na cena em que a personagem se instala na casa de Candace. tem que estar inscrito na carne. Na cena do banho) após o estupro. essencial e universal. ••• o filme traça "linhas de visibilidade e de em. estupradores e espectador. ((só há um modo de saber a verdade". é certo. Assim. afirma: "Não me interessa se você é meio macaco. uma in- desejada cumplicidade. no dizer de Tom. e comprimindo os seios. Nesse par de cenas) o personagem aparece como uma figura ambivalente. de resto. é preciso que as luzes se apaguem. olhares e dizeres I 105 . nas roupas. mas com a camisa cobrindo-o até as pernas. não sem alguma ambiguidade: cCDirei a eles o que querem ouvir. tudo se passa como se a lente da câmera intermediasse entre eles. aliás. O que sabemos ser a verdade". Por isso é que a "verdade" de si mesma estaria perigosamente exibida em seu desnudamento. John e Tom localizam a marca da identidade no "nome" de Brandon. revelando o circuito de condições dentro do qual somente alguma coisa como a "verdade" do sujeito é visível e enunciável. verdade identitária. as do poder que. aos estupradores) que o personagem se dispa. no corte de cabelos. de que precisavam os estupradores. Vou tirá-lo daqui". agora enfim nu. declara.

1984. é preciso olhar ao longe mas também muito de perto e em torno de si"ls. pretende. Raras vezes e somente ao olhar e dizer de um personagem esboça-se uma luz desfocada. refaz a tonalidade do Mesmo e.No plano das evidências. Em busca da filosofia Atitude de "diagnóstico".. in Michel Foucault philoso· phe. em que. descrevendo a atividade filosófica como "trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento". porém. Mas vê e diz criticamente. como aquela penumbra que am- Sob esse ponto de vista. O olhar filosófico não prevê. FoucAuLT. fazem-nos "atentos ao desconhecido que bate à porta. "Qu'est-ce qu'un disposicif?". Le Nouvel Observateur. para ele. crad. como pensamento de limiar que o pensamento filosófico é uma . a tarefa filosófica essencial: jamais consentir em estar totalmente à vontade com suas próprias evidências (. De algum modo. é como para perceber por dentro suas oscilações e falar de seus abalos.ontologia do presente.13. 1982. o vislumbre talvez de um dispositivo outro. Situam-nos na difícil passagem entre o que já se diz e vê e o que não ainda. DELEUZE. "Pour une morale de l'inconfort". ou ainda Alexina Barbin. Franco. certamente. mais de uma bienta todo o filme. como escreveu Deleuze. da Costa Albuquerque. assim como "Herculine-Adé- laide Barbin.. 13. abril/79.. permanece nos ecos do instituído. Todavia. entre o agora e o devir. à semelhança do Diário de Hercu- vez. Francisco Alves. o Mesmo e o Outro. de M. um som destoante. 787. FOUCAULT. se reconhece tributário da fenomenologia e fiel à lição de Merleau-Ponty naquilo "que constituía. simplesmente olhares e dizeres I o 107 . ser um depoimento contra a violência e uma resistência ao preconceito. 14.O uso dos prazeres. o filme faz saber que. M. Rio de Janeiro. Graal. 191. 106 I Foucault. 13. entre o que somos e o que estamos vindo a ser. G. enquanto dispositivo. IlI. Percepção e discurso estão cercados pelo mesmo círculo de condições de visibilidade e dizibilidade a que ela própria pertence. História da sexualidade. Apenas. É assim. 12. também Teena Brandon "foi um desses heróis infelizes da caça à identidade"12. creio. de r. T. designada em seu próprio texto ora pelo nome de Alexina ora pelo de Camille". retomo uma passagem tantas vezes lembrada. É também sob essa perspectiva que Foucault. para line Barbin. Isso significa que. Foucault também nos fala daqueles "momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar e a refletir'J14. 15. ou ainda Abel Barbin. dar a elas a indispensável mobilidade.. trad. a filosofia vê e diz. M. ). Rio de Janeiro. se se instaura no presente. lembrar-se de que. nem o dizer filosófico prediz. O diário de uma hermafrodi· ta. 11 . em Dits et écrits. M. Prefácio a Herculine Barbin. Mas não passa de vislumbre.. FoucAuLT..

T.. a situação de termos cujo uso foi de tal modo banalizado que acabam por perder toda consistência conceitual. partilhando tendências diferentes e. foi publicado em Michel Foucault . Campos. Mas este é apenas um ângulo possível de consideração. 2004. Democracia é uma palavra que.. como se sabe. em dezembro de 2001.I . org. governantes e representantes sociais. 111.. em toda época e em todo lugar..) um princípio político. instituições diversas.). GLOTZ. e não sem razão. A cidade grega. Ed. G. O texto. revistO e modificado. presta-se a interpretações diversas e só com a prática adquire sentido preciso. * Palestra proferida por ocasião do Seminário "Democracia e Soberania Popular".entre o murmúrio e a palavra (CALOMENI. se presta aos mais variados usos. promovido pela Comissão de Legislação Participativa da Câ. Faculdade de Campos. c.mara dos Deputados. Partidos e regimes políticos. em Brasília. são qualificados ou se autoqualificam como democráticos. democracia camo prática I 109 . freqüentes vezes opostas.IX DEMOCRACIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Michel Foucault e Cornelius Castoriadis* (. Alguns reconhecem nisso.

Graal. A cidade grega. pouco antes de sua morte. e org. Em uma entrevisra radiofônica realizada em 1996. em seguida. mais escuros de nossa sociedade. que o esvaziamento conceitual não se deva apenas à vulgarização do termo. é antes uma prática. "produz" comportamentos. voI. Às características desse tipo de sociedade vinculase a construção das significações modernas de democracia. A partir de suas idéias. e são os modos his- Segundo Michel Foucaulr (1926-1984). tentarei delinear alguns sinais que marcam esse tipo de sociedade. sempre a partir dos mesmos pensadores. in Microfoicado poder. Cones de Lacerda. monárquico. E. mas à natureza mesma do conceito de democracia. pois. 1998. anônimo. O poder disciplinar não é apenas repressivo ou ostensivamente opressor. Pode-se pensar. 13.I. numa palavra. ao conceito. recobrindo um sentido universal. pode-se dizer que. de Roberto Machado. ed. para que a democracia não fosse uma palavra oca. 1994. Gallimard. desde o momento histórico de seu surgimento. talvez mais fundamentais. em tom coloquial mas não menos denso.: "Soberania e disciplina". Não se mantém numa unidade. 111 . Assim. ainda que muito esquematicamente. Traços da atualidade fato de se tratar de um conceito historicamente circunscrito. o aparecimento da sociedade moderna é assinalado pelo declínio de um tipo hegemônico de poder. Trad. complementarmente. Michel Foucault e Cornelius Castoriadis.como na figura do Estado soberano . 105. as luzes de algumas sugestões. "Cours du 14 Janvier 1976". incrod. enfim. portanto incessantemente construído e reconstruído. por assim dizer.trata-se.. capilar.. difuso. 11 Da prática. adestra as pessoas. Vejamos agora algumas reflexões de Cornelius Castoriadis (1922-1997). 110 I Foucault. uma necessária flexibilidade e uma permanente incompletude. a democracia seria «uma palavra oca" se não houvesse sido praticad4 pelas pessoas do povo: "Era também necessário. H. Afinal. de alguma forma. antes. Não se exibe na identidade de um poder central e superior .mas se espalha. à democracia pertencem. de modo tal que parece incompatível com esse conceito que ele se substancialize em uma significação única e definitiva. GLOTZ. in Dits et écrits. que têm início por volta do começo do século XIX e às quais. heterogêneos. a essa natureza de certo modo vaga vincula-se. por exemplo. 2.des ocidentais modernas. o Para elaborar esse esquema. de poderes. na Atenas do século V a.2.Outros também cabem. 1. o uso que atribui ao termo "insignificância" para caracterizar nossa épo- tóricos de exercê-la que lhe conferem diferentes significados. como por princípio. mas se exerce no plural . Assim. 1. múltiplos.c. micropoderes cujo funcionamento dá sustentação e eficácia ao macro poder estatal. G. Mais ainda. proponho considerar aqui um recorte histórico particular: o que demarca os contornos de nossas socieda.. 1980. Paris. isto é. móveis. e pela insralação crescente de outro tipo de poder por ele denominado «disciplinar" ou "de controle". o poder soberano. Difel. M. o autor explicita. em práticas minuciosas exercidas por todo o corpo social.. hábitos. recorro a elementos extraídos das análises de dois pensadores contemporâneos. retomando a expressão de um historiador helenista clássico. FOUCAULT. Rio de Janeiro. primeiramente darei realce a alguns aspectos. ocupadas em ganhar a vida.. 188. Tradução brasileira. ele é "positivo". "instrumento fundamental para a constituição do capitalismo industrial e da sociedade que lhe é correspondente.. dedicassem seu tempo ao serviço da república"'. Mais sutil. São Paulo/Rio de Janeiro. de Araújo Mesquita e R. IH. gestos. Simplesmente democracia como prática . e em seguida publicada.. aqueles que a descrevem e denunciam. ainda pertencemos. Não é primeiramente uma idéia. permitir que as pessoas do povo.

) e creio que só sairemos dele [do esgotamento ideológico] pelo ressurgimento de uma potente crítica do sistema e um renascimenco da atividade das pessoas. 38.. a partir daí. apresentação Maria Lucia Rodrigues. Ibid . 9.. Post-scriptum sur l'insignifiance. 112 I Foucault. acompanhado de uma "disposição geral" que é de "resignação". Ibid. Há um "esgotamento ideológico". móveis. Quanto aos cidadãos comuns.• 29. 4. heterogêneas. pontuais. Como as pessoas estão longe de ser idiotas. 39. Primeiramente eles se representam a si mesmos ou representam interesses particulares. 47-48. "( . Prospectivas Para Foucault. Cada qual dos dois pensadores descreve e denuncia o presente com o intuito de questionar nossas evidências de pensamentos e nossas aderências de condutas e. nesse momento.. 'adaptar-se' para não incorrennos em alguma espécie de arcaísmo. mas é preciso esperar. provisórias. lobbies etc.doce e bela utopiade sair do conformismo generalizado. o problema do papel dos cidadãos e da competência de cada um para exercer os direitos e os deveres democráticos com a finalidade .. Como os poderes. precisam ser plurais. habituam-se a seguir opções que outros lhes apresentam ou a votar por elas. as lutas. Tradução brasileira: Post-scriptum sobre a insignificância. que é a do ripo disciplinar e de controle. de algum modo. 30. 5. Seus representantes muito pouco representam as pessoas que os elegem. 1998 . Castoriadis opõe a boa "educação polírica" que se faz pela ariva participação das pessoas nas coisas comuns. 40-44. de sua partici pação na coisa comum. 38. De orientação similar. governando 9• 3." 4. a todo tipo de poder responde um tipo de resistência e de luta. "Enquanto as pessoas deveriam habituar-se a exercer todas as espécies de responsabilidades e a tomar iniciativas. na direção de mudanças. de "inibição" para agir6• Mas essas análises de nossa sociedade não se reduzem a seu desenho austero. 7. Aqui e lá começa-se. faz ver que nisso consiste a educação política: em aprender a governar. Ibid. 30-31."cidadão é aquele capaz de governar e ser governado" -.. estabelecendo "redes" dentro da rede do poder. É a "insignificância" que. Éd..."s Àquela "contra-educação política". mas atuando estrategicamente na trama molecular dos poderes sociais. tradução Salma Tannus Muchail e Maria Lucia. por um lado. No caso de transformação da sociedade moderna. delinear e anunciar um horizonte de transformações. Ibid. Eles são descritos como "profissionais da política" ou Upolíticos de carteirinha"3. distingue os políticos de hoje.. então. Paris. não se terá bom êxito transformando do alto o regime central de governo ou o aparelho de Estado. A democracia representativa "não é uma verdadeira democracia. Coloca-se. 27 e 33. É dessa perspectiva que apresentarei. de l'Aube. é na experiência de uma "contra-educação política" que a "insignificância" os alcança. E. reproduzo algumas passagens de Castoriadis. para serem eficazes. a compreender que a 'crise' não é uma fatalidade da modernidade à qual seria preciso submeter-se. sentimos vibrar uma retomada da atividade cívica. Dizer isso é uma tautologia. 8. é preciso confiar e é preciso trabalhar nessa direção"7.ca. prefácio Edgard de Assis Carvalho. Ibid. Veras Editora. Rodrigues. apoiando-se na afinnação de Aristóteles . 2. numa espécie de apatia política"5. 6. o resultado é que elas crêem cada vez menos e se tornam cínicas. por outro lado. 39. CASTORIADIS.. Cf ibid. 2001. a indicação de algumas pistas. São Paulo. ou de "conformismo generalizado". simplesmente democracia como prática I 1 I 113 . "Mas. brevemente. Entretiens avec Daniel Mermet. c.

na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. possivelmente. 398. Texto inédito. L FOUCAULT. Gallimard. nos convoca à saída de um "estado de menoridade') . mobilizar nossas inibições.. compondo pistas diversas que sejam capazes de convergir em alianças e pactos em nome de causas democráticas compartilhadas.que consiste no governo ou condução de si mesmo. um rosto de areia"1. Simplesmente como na orla do mar. contribuindo assim para sacudir as apatias. ibid. 10. Cf. COMO NA ORLA DO MAR.de 1966 a 1970 _ permitindo-me misturar considerações conceituais com curiosidades biográficas. pontuais. A atmosfera intelectual da época . Depois dos já polêmicos escritos anteriores (principalmente História da loucura). no final daquela entrevista. um quase gesto. móveis. O livro. supostamente. brevemente. Les mots et les choses. Foucault. sem nenhuma articulação com a ordem das práticas sociais. 1944. provisórias. cuja conquista é tanto mais alcançável quanto mais se praticar a autonomia de pensamentos e de condutas. abalar os conformismos. E se encerra com aquele prenúncio solene. Mas suficiente talvez para nos predispor a certas condições indispensáveis se quisermos fazer de nossa própria prática um lugar de transformações e de superação de nossas desesperanças. que se mantém no estrito plano dos discursos.111 x Finalmente. ) então se pode apostar que o homem se desvaneceria. T.para o "estado de maioridade" .. Paris. 1981. Muchail. de S. o mundo é Outro?". As palavras e as coisas. em uma idéia mais ampla. É um norte apenas. descrevo. Paris. Estas são. algumas predisposições que podem nos orientar rumo à maioridade democrática.. Cf FOUCAULT. M. algumas dessas condições podem ser identificadas: 1) dispor-se à pluralidade de participações heterogêneas. um fragmento de sua trajetória .que precedia de perto 68 . em abril de 1966 é publicado As palavras e as coisas. eis certamente. São Paulo. M. 11. por sua vez. "Qu'est-ce que les Lumieres?" in Dits et écrits IV. como na orla do mar. Em u~a avaliação * Palestra proferida por ocasião da Semana de Ciências Sociais "196830 anos. desloca o homem do centro da história e da origem dos saberes.. UM ROSTO DE AREIA" Notas sobre maio de 68* Para situar Foucault relativamente a maio de 68.404. trad. ser-lhe bem pouco acolhedora. flexíveis. um norte para balizar nossas tentativas de exercício democrático. em maio de 1998. meio teatral. 1966. Gallimard.. 2) dispor-se à educação política que propicie ao cidadão comum a aprendizagem de "governar e ser governado". 114 ! Foucault. um rosto de areia" J I 115 . Casroriadis. reúno os dois autores que escolhi como apoio. Martins Fontes. no comentário de um texto de Kant l l .deveria. Governo de si ou autonomia. 52. . usa a expressão "sociedade autônoma"IO e nos convida à difícil porém verdadeira democracia.que é aquele em que se é conduzido por outrem . a apontar o iminente desaparecimento do sujeito: "( . 562·578. A partir das reflexões que fizemos.

Trombadori. explicar: 2. a um tipo até de cultura que era. Na verdade. o mar. o próprio Foucault. "segundo as descri- pois. D. As palavras e as coisas não era o formidável anúncio da rachadura geológica de nossa cultura humana. a grande excomunhão de As palavras e as coisas por parte de todos: Les Temps Modernes) Esprit. como professor de filosofia. As coisas estavam se desagregando e não existia vocabulário apto para exprimir esse processo. perguntou-me ela. 32-33. M. publicada em II Contributo. afinal. e ERIBON.. "Chronologie". Uma passagem escrita em 1967 nos diz O que pensava ele sobre a Tunísia (e. 'Onde?'. Como lembra o biógrafo de Foucault. Gallimard. Ensaio. no dia 3 de maio. Feist. humanista ções publicadas pelos jornais da época.1980. em geral. in Ditsetécrits IV. Michel Foucault. seu próprio vocabulário. Era pancadaria de todos os lados. reconstruía uma história das ciências de modo tão extravagante. Michel Foucault) uma biografia. "Entretien avec Michel Foucault" (com D. 367.367-368. como na orla do mar. 3. as pessoas talvez reconhecessem como que uma diferença e ao mesmo tempo se revoltavam por não reconhecer o vocabulário do que estava em via de acontecer (. jan. simplesmente que havia de produzir-se em maio de 6S?"'. diante das manchetes sobre a primeira revolta estudantil. Cabral.. tem sobre a Tunísia: o sol. História do estruturalismo. 1978. do centro. São Paulo. M. 1990.. encontrei estudantes tunisianos e então aconteceu o inesperado.l. Inusitado êxito que Foucault. Le NouveZ Observateur. naquela mesma avaliação retrospectiva. "Foucault vende como pãezinhos" é título de um artigo do momentos. o fato de que não se podia levar muito a sério alguém que. tenta. trad. "Repensando essa época. São Paulo. Desde setembro de 1966. paixões tão de Foucault na praia ou a exibem pelas mesas de bar para mostrar que não ignoraram tal acontecimento. ora. DOSSE. 116 ! Foucault.. D. hoje em dia.. 23-84). Ed. viera buscar um retiro sem ascetismo. O artigo foi publicado em Le Nouvel observateur. de um lado. 70. todas as posições humanistas relativas ao sujeito.. de H. 159. "acontecimento editorial do ano. Depois de apontar motivos de ordem mais teórica.. com uma calma. )"6. História do estruturalismo I. no conjunto. é certamente esse tipo de reconhecimento que está tão vivo no depoimento de Maurice Clavel: "Quando desembarquei em Paris. in Dits et écrits IV. Em pleno Foucault . O livro não deveria vender mais que duzentos exemplares. Cf. Dits et écrits I. 1993. instalara-se em uma pequena cidade na Tunísia. sugere outros: "E também. No momento em que eclode maio de 68.. em relação aos problemas reconhecidos como válidos e importantes. trad.retrospectiva. sobre o Brasil): "Eu viera por causa dos mitos que todo europeu. A convergência desse conjunto de razões provocou o anátema. eis aí. de outro. as pessoas lêem a obra Se foi possível dizer que se estava "em pleno Foucault". F. em suma. Ora. em As palavras e as coisas. "Entretien avec Michel Foucault". o que estava em via de acontecer não tinha sua própria teoria.4. Com efeito. 160. S. publicada em 1980). vendeu dezenas de milhares"z.70. 4. o da primeira metade de nosso século. FOUCAULT. ao que parece. n. por comparação. como a supervalorização do marxismo.jmar. aconteceu. se ocupava com a loucura e. disse a minha mulher.. Companhia das Letras. a melhor venda do verão". da direita. por ocasião de uma entrevista realizada anos mais tarde (em 1978. As mutações em curso produziam-se relativamente a um tipo de filosofia. . 1994. as resistências a certas aproximações com o estruturalismo e. a grande tepidez da África. M. Didier Eribon.. Paris. em definitivo. um rosto de areia" I 117 . ERIBON.. FOUCAULT. estranha. não estava lá. chegamos lá. de A. tão particular. um tanto genericamente. Paris.. da esquerda. Cf. comprei os jornais na estação de Lyon e.. 7. eu diria que. sua repercussão foi "fulgurante"). 6. se quisermos. contudo. DOSSE. Foucault realça algumas razões para um esperado insucesso. FOUCAULT. Provavelmente foi só no Brasil e na Tunísia que encontrei nos estudantes tanta seriedade e tanta paixão. de reflexão geral.

in Dits et écrits I. História do estruturalismo 11.sérias e. Por duas vezes... também comprometeu-se intensamente com atividades políticas. Gilles Deleuze (que não pôde aceitar por estar adoentado). vincula-se ao centro experimental de Vincennes. 78.. in Dits et écrits IV. no fim de maio e no fim de junho. François Châtelet (Cf.. tem ocasião de ir a Paris. Jacques Ranciere. Judith Miller. aos quais caberá a tarefa de compor o corpo docente. FOUCAULT. Alguns ainda estão lá. Dada minha posição de professor. entre outros. "Chronologie". recusa o reconhecimento de validade nacional para o ensino da filosofia ao diploma obtido em Vincennes. o que mais me encanta. que davam para a baía.9. Para ele. D. "Entretien . Os professores franceses intercedem e Foucault. (. mas março de 68 e em um país do terceiro mundo"12. feriu gravemente vários deles e os jogou na prisão.. se agravam. Alguns foram condenados a oito. em resposta às recentes reivindicações. portanto. FOUCAULT. 179. 33. 9. Convidará para o quadro docente da filosofia.175). 189.. Michel Foucault . ) fui levado a tocar com o dedo 8. Nem bem aceito na Tunísia. Mas. Foucault diz-se "sempre um pouco deslocado. Michel Serres. reproduzido por Eribon.. Olivier Guichard. 118 I Foucault. Tive uma idéia direta do que se passava nas universidades do mundo. D. pouco mais tarde. Constituída uma comissão de cerca de vinte membros (entre eles. M. Na Universidade de Túnis as revoltas estudantis começaram bem antes: no final de 66. um estudante é espancado por policiais. para mim.. 584. ninguém o conhecia por outra coisa que não seu hábito de trabalhar desde o amanhecer diante das janelas de sua villa.. ainda na Tunísia. in Dits et écrits IV. no mês de junho. ) Na Tunísia (. espécie de faculdade-piloto. entre uma e outra viagem. não é oficialmente importunado. ERIBON. entre eles. Canguilhem. Quando. 79. Em um depoimento de Jean Daniel. maltratou numerosos estudantes. mas recebe ameaças e intimidaçães do serviço de polícia paralelo e chega a sofrer maus-tratos físicos. Foucault é escolhido para a área de filosofia1 4 • Ao mesmo tempo em que a 10. Ali.. O retorno ocorre em outubro de 68. protegido em relação às autoridades locais. "Entretien . quando volta para a França. nem bem recebido na França. M. detenções e greve geral dos estudantes. ao mesmo tempo.. 12. Barthes.. 13. a absoluta avidez de saber"B.. 176. distribuindoo ou convocando à greve. 78... Como era argumento do ministro que o conteúdo de filosofia ali ensinado era demasiadamente particular e especializado. interrupções dos cursos. em janeiro de 1970. sendo francês. Cf. apreender com exatidão as reações do governo francês em face de tudo aquilo. os tumultos. 11. Simplesmente algo diferente de todo o ronronar de instituições e de discursos políticos na Europa"lO. fiquei profundamente impressionado com aquelas moças e aqueles rapazes que se expunham a riscos terríveis redigindo um panfleto. além de viver "entre os prazeres do sol e a ascese filosófica. "La philosophie strucruraliste permet de diagnosttiquer ce qu'est 'aujourd' hui'''. à p. ". FOUCAULT. "é sempre com um olhar um pouco estrangeiro"I3. atua intensamente: procura o embaixador da França. in Dits et écrits I. é um grande enigma"ll. Retomemos trechos de seu relato. Jean-François Lyotard. "Estávamos em março de 1968: greves. DossE. uma verdadeira experiência política. vale a pena reproduzir um pequeno trecho da resposta de Foucault: "Como sabem. Inicialmente nomeado para a Faculdade de Nanterre. FOUCAULT. 14. ". esconde em seu jardim um mimeógrafo para a impressão de panfletos. lê-se: "Nessa cidadezinha onde ele era feliz. . dez e mesmo quatorze anos de prisão. F. ERIBON. "não foi maio de 68. escreve: "Daqui. Michel Foucault. Ibid.. Foucault concede uma entrevista publicada sob o título "Le piege de Vincennes". Derrida) encarregada de designar os primeiros professores de diferentes áreas. em junho de 67.. eu estava. o novo ministro da Educação. Edgar Faure. A polícia entrou na universidade. o que me permitiu realizar facilmente uma série de ações e. Alain Badiou. um rosto de areia'· ! 119 . de certo modo. abriga estudantes foragidos.. onde não chega a assumir o posto. não estou certo de como na orla do mar.. onde assiste a um comício e participa das últimas manifestações na Sorbonne. M. Foi. atrelados a questões palestinas e às oposições ao governo. e é em março de 68 que recrudesce a repressão violenta. M. à margem" e. e por sua gula de viver e amar ao sol". fundada sob o então ministro da Educação.

FOUCAULT. sua paixão. 120 I Foucault. 67. "Le piege de Vincennes". as marcas do evento em Michel Foucault e as mudanças que nele acarretaram. 70). de modo algum. dirá: "Não se trata de afirmar que o homem morreu. merecem destaque. a essa hipermarxi· zação. in Dits et écrits lI. como na orla do mar. vamos conter as lágrimas"17.. Mas que a filosofia exista. lá permanecendo até 1970.. a essa discursividade incoercível que era própria da vida das universidades. É nessa direção. como na Tunísia. um rosto de areia·· I 121 . não implicaram. declara: "Vou dizer a eles: 'Enquanto vocês se divertiam em suas barricadas do Quartier Latin. in Dits et écrits IV. quando ingressa no College de France. quinze anos de prisão (. aquela proclamada "morte do homem" passará a receber contornos e consistência mais precisos. 817.. é o abandono das descrições estritamente intra e interdiscursivas que caracterizavam a configuração de uma epistéme e direcionavam o horizonte meto· dológico de As palavras e as coisas. os poetas e os loucos. ". pronunciando em 2 de dezembro sua aula inaugural. destaquemos um trecho da entrevista de 1978. de práticas e instituições sociais que entram na composição da noção de dispositivo. lá não estavam os problemas que mais me apaixonavam. Cascais e E. ou seja. D.. os mesmos sacrifícios. F.. in Dits et écrits I. "Entretien . em Vincennes. "Quando voltei para a França.81.comissão é atacada pela direita "como um bando de esquerdistas". assim como a seus vizinhos. M. por exemplo. Foucault será o "filósofo engajado" e o "intelectual militante". As lutas. que Foucault vai relativizar o alcance e o entusiasmo por As palavras e as coisas. 188. simplesmente indica também o efeito recíproco. segundo quais regras se formou e funcionou o conceito de homem. Ao tratamento quase solene do tema. ERlBON. ligado ao anterior. como se lê naquela entrevista de 1978. crime são para mim coisas mais intensas. não a unidade de um gênero ou a constância de uma doença" (FOUCAULT... certa categoria de pessoas cujas atividades e cujos discursos variaram muito de uma época para outra. M. creio.. M. essa configuração heterogênea que articula o dircursivo e o extradiscursivo. ). Des· se ponto de vista. isto é. As palavras e as coisas foi para mim uma espécie de exercício formal"18. pelo menos.. agora também em Vincennes. Fiz a mesma coisa com a noção de autor. Em contrapartida. numa discussão com Lu· cien Goldman. FOUCAULT.. Ten· rei fazer coisas que implicassem um comprometimento pessoal. ". Foucault é considerado "pouco engajado" pelas esquerdas e criticado «(por não ter 'feito nada' em maio de 1968".são 'filósofos'. "Encretien . físico e real e que colocassem os problemas em termos concretos. 16. Outro aspecto. ) de ver de que modo. O que existe. Assim. Suas investigações agora se ocuparão. Portanto.. seguir-se-ão comentários mais concretos e até irônicos. o mesmo preço. Não há comparação entre as barricadas do Quarcier Latin e o risco real de cumprir. busquei considerar as coisas tomando distân· cia em relação a essas discussões indefinidas. do pensamento de Foucault pós-68. 15. dois traços. Assim. 1992. ). trata-se (. FOlJCAULT. de A. e em particular da de Vincennes. M. Cordeiro. "Qu'esc·ce qu'un auteur?" (compce rendu de la séance). Já lhes falei de experiências· limite: eis o tema que verdadeiramente me fascina· va. definidos no interior de uma situação determinada"16. 18. Primeiro. admirado e até decepcionado em relação ao que vira na Tunísia. Mais uma vez. explicita e principalmente. O que é um autor? Trad.. Loucura. é a separação que os isola. a partir daquele momento. Vega.. em 1969. em novembro-dezembro de 1968. 80. Esta breve reconstituição permite ver a marca forre e controvertida de Michel Foucault nos acontecimentos de 68. ) um livro muito técnico. eu me ocupava de coisas sérias na Tunísia"'IS. A um amigo Oean Gattegno) que militara com ele na Tunísia. Isso explica talvez a maneira como.. in Dits et écrits IV. sexualidade. com sua violência. morte. precisos. O que os distingue.. fiquei principalmente surpreso. "( .. Para dizer a verdade. Michel Foucault. 17. que se endereçava principalmente a técnicos da história das ciências (.. Lisboa. isto é.

no que tange "àquilo que estava realmente em jogo. na França e na Tunísia". eu devena escrever um novo prefácio. da sexualidade.Mudanças. nos temas e na direção das investigações. "os mais visíveis e superficiais". ). Águas de Lindóia. da delinqüência. eu não teria jamais feito o que faço. sem dúvida. e que não se desdobrasse neste primeiro simulacro dele mesmo que é um prefácio (. 1996. número 16. parece subestimar o acontecimento. . a atribuição de autoria a seus próprios discursos. É certo que. Confesso que isto me repugna (. ANPOF. Perguntado por que. Mas o paradoxo parece instalar-se quando ele traz para o centro da cena aquilo que precisamente desejaria fora dela. excepcional. nada mais fosse que as frases de que éfeito. Para este livro já velho. ao evocar maio de 68. FOUCAULT. pois.Pelo menos é curto. pelo menos do lado daquele que o escreveu. a propósito da prisão. eram-lhe "completamente estranhos". Prefácio à nova edição de Histoire de la folie. Educ. àquilo que realmente fez mudar as coisas" e que "era da mesma natureza. . Foucault reconhece que alguns de seus aspectos. a ava- XI MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOR' liação é outra: "Maio de 68 teve uma importância. É esse paradoxo que está já presente na célebre formulação que Foucault tomou emprestada a Beckett: "Que importa quem 19. M. Foi publicado na revista Margem. o testemunho de Foucault. simplesmente * Este texto é uma versão modificada de comunicação apresentada no Encontro Nacional de Filosofia. Quereria que um livro. Chamemos. 81. o autor. por ele mesmo". sob o título "Foucault.). a saber. . Mas. 122 I Foucault. mais uma vez e para concluir. São Paulo.Mas você acabou de fazer um prefácio. No clima anterior a 1968 nada disto era possível"19. Tão paradoxal quanto escrever um prefácio escrevendo sobre a relutância em escrevê-lo é querer preservar a obscuridade do anonimato falando dele. São conhecidas as considerações de Foucault sobre o apagamento do autor.. expondo-o às luzes do próprio discurso. sem maio de 68. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 123 ... . Ibid. 2002.

As duas outras que Foucault indica estão assim resumidas: "a função-autor está ligada ao sistema jurídico e institucional que encerra. jan. Rio de Janeiro. a noção de autor de que aqui se trata. "Foucault". 44). indiferenciadamente. os torna providos de uma atribuição de autoria. Para apresentar aqui algumas considerações sobre esse assunto. Cf FOUCAULT. in Epistemologia/28.792. Autor e nome própriO Ainda que o "nome de autor" seja um "nome próprio" e com ele mantenha semelhanças. não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos. guarda porém uma "singularidade paradoxal"3. 1. 2. Porém. é uma função . Ver. 789-821. da Glória Ribeiro da Silva. numa determinada cultura. de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade"4. Paris. "que importa". Gallimard. ("Resposta a uma questão". Laura Fraga de A. Michel Foucau!t e o di!aceramento do autor I 125 .. Gallimard. 5. 1994. mas a certo tipo de discursos com estatuto específico. imagino-os como estendidos na "horizontal". in Ditsetécrits I. o texto de 1968. M. M. 1971) bem como o item "Les unités du discours" de L'Archéologiedu savoir. A relação entre aucor e nome próprio é também tratada por Foucault quando discute o conceito de "obra"como unidade discursiva. a resposta será "quem é apenas alguém". Ibid. como num jogo.. Com efeito. L'ordre du discours. mas de "textos cruzados". e que o segundo ("alguém disse: que importa quem fala") concerne ao autor dessa fala. Sampaio. e diferentes são as conseqüências. de A. Com os dois primeiros. 4. não bem de palavras./mar.destaco três pontos. com que os pretendo cruzar. 803. Função-autor Restringindo a função-autor ao âmbito de livros e textos. trad. como um caso entre outros. Ver também: FOUCAULT. Assim. Gallimard.34). O nome de autor está atrelado não propriamente a um indivíduo real e exterior que proferiu um discurso. A ordem do discurso (1970) e "Foucault" (1984). "Qu'est-ce qu'un ameur?". isto é. é o texto "vertical". M. FOUCAULT. menos que um nome próprio. in Dits et écrits. por exemplo. F. Cascais e E. alguém disse: que imporra quem fala"l Considerando que o primeiro segmento dessa formulação ("que importa quem fala") diz respeiro a qualquer auror. 1992. é diferente. mais que paradoxo. farei liSO de passagens extraídas de três textos: ('O que é um autor?" (1969).. em todas as épocas e em todas as formas de civilização" (Dits et écrits I.. mas "de uma operação complexa" que tem por efeito 3.. "Réponse au Cercle d'Epistémologie" (trad. Vega. in Dits et écrits I. a função-autor não resulta simplesmente da espontânea "atribuição de um discurso a um indivíduo". LoyoIa. articula o universo dos discursos."característica do modo de existência. trad. I. determina. 46). talvez apenas o dilua. 11. Lisboa.. "Qu'est-ce qu'un auteur?". (O que é um autor?. São Paulo. ele inclusive. o gesto que aponta para o desejo pessoal de impessoalidade em seu posro de auror não faz dele necessariamente um privilégio. IV. trad."O que é um autor?" (1969) . simplesmente I. aqueles cujo modo de ser. digamos assim. dizer que um nome foi erroneamente atribuído a uma pessoa e dizer que o nome Guimarães Rosa foi erroneamente atribuído ao autor de Sagarana. 124 I Foucault. 797 (tead. 1996). 1972.. formo um pequeno conjunto e.81). qualquer autor. FOUCAULT. perfazendo uma dobra circular do discurso sobre si mesmo. produzido bem depois deles. o terceiro. 631-636.. Paris. escritos na mesma época. Paris. in Dits et écrits. M. trad. em Estruturalismo e teoria da linguagem. in Dits et écrits. 798 (trad. "Réponse à une question". "Qu'est-ce qu'un auteur?". pode-se nela reconhecer certas características. Cordeiro. 1969. 1971 (A ordem do discurso. 56). bras. se perguntarmos então quem disse "que importa quem fala)). 792. ••• Do primeiro texto . M. duas das quais escolho destacarS . dentro de uma concepção teórica sobre a categoria do autor. talvez haja nessa dobra um jogo de estratégia. Só para sugerir um exemplo. Por um lado. isto é.fala.

considerar um texto do ponto de vista da "análise interna e arquitetônica" já é colocar em questão "o caráter absoluto e o papel fundador do sujeito"9. 13.um "ser de razão"6. mais "negativo". entre outras conseqüências. e complementarmente. podem remeter. Desse texto. Ora. e segundo determinadas regras (por exemplo. simplesmente 11. ••• o segundo texto .. 69). FOUCAULT. Pois. uma é a posição-sujeito do autor que fala em um prefácio. não a um indivíduo singular.. imposição da "vontade de verdade" .. tratar-se-á de perguntar não pelo sujeito constituinte. 800·801 (trad.dá à noção de autor um tratamento. ) função do autor.. nos discursos... Ibid. portanto construído. Ibid. "como unidade estilística". 50). 9.ao menos desde certa épocao indivíduo que se põe a escrever um texto no horizonte do qual paira uma obra possível retoma por sua conta a função do au. 26). a descrição do "autor" é precedida pela do "comentário" e seguida pela da repartição em "disciplinas". "como momento histórico definido e ponto de encontro de certo número de acontecimentos"?). por assim dizer. não apenas efeito de uma construção. Autor. 10. 7. o autor é também sinalizado e definido pelos próprios textos que. 28·29)."13 111. 12. Autor e sujeito A análise da função-autor conduz. tal como a recebe de sua época ou tal como ele. mas a uma "pluralidade de egos" ou a "várias posições-sujeitos" (por exemplo. a existência do indivíduo que escreve e inventa.. tor (. mas por sua constituição enquanto função do discurso. Entre os chamados internos. função recebida "Seria absurdo negar. 802·803 (trad.. 801-802 (trad. ). mas o autor como princípio de agrupamento do discurso. 30 (trad. I. M. 126 ! Foucault. por sua vez... Sem dúvida. não como o indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto. conferindo-lhes pequenos títulos.o lO. L'Ordre du discours. outra ainda a que avalia a recepção da obra publicada ou a esclarece)'. reexaminar a noção de sujeito não significa restaurar a pergunta pelo sujeito originário. de ficção'!. será a partir de uma 11. a modifica. o que eles têm de acaso. Autor. por sua vez. Autor. Por outro lado. 28 (trad. cujo papel consiste em reduzir. O assunto ocupa um breve trech. como unidade e origem de suas significações. a um reexame da noção de sujeito.~'proibição" de certos discursos.. embora possa modificar a imagem tradicional que se faz de um autor. Mas penso que . mas invertê-la: considerando-se a função-autor uma particularização possível da funçãosujeito. crição dos diversos procedimentos de rarefação ou controle dos discursos. Os procedimentos ditos externos ou de exclusão . é claro.."I2 111.. o autor é definido "como certo nível constante de valor". Míchel Foucau!t e o dilaceramento do autor I 127 . limito-me a reproduzir três passagens. Ibid. 8. a categoria do autor pertence ao grupo de procedimentos classificados como internos.. inserido na seqüência de des6. 28-31 (trad.. 810 (trad.. Ibid. é claro. Ibid. "segregação" de outros. função de controle "Trata-se do autor. 54-57). "como certo campo de coerência conceptual ou teórica". O autor entendido. função modificável "( . de acontecimento.foram apresentados anteriormente.. Circunscrito como um deles. 52-53). outra a do que argumenta no corpo de um livro.A ordem do discurso (1970) .. 26-29). como foco de sua coerência. Ibid.

. precisamente. esse projeto. ética.. apresento um breve resumo do trecho inicial. 11 e III de História da sexualidade). é no mínimo curioso que esteja instalado em um dicionário de "autores" um pensador que se renha empenhado em denunciar a função restritiva do autor. M. Ibid.. Entretanto. Benedetti. Organização semelhante já foi também formulada em termos de prioridade de "áreas": epistemológica. 2001. Apresentado como uma espécie de fio condutor dos escritos de Foucault. considero o terceiro texto. Mais. t. A arqueologia do saber).17. teria orientado a produção dos escritos foucaultianos. Com efeito. • A mais conhecida reúne-os segundo os momentos "metodológicos".. I. As palavras e as coisas. C. vol. 31 (ecad. I de História da sexualidade).. que a investigação de Foucault ocupase. 631 (trad. em Dicionárro dos filósofos. D. em uma determinada sociedade. Paris. Ibid. PUF. não com quaisquer modalidades de "subjetivação" e de "objetivação" para a construção de quaisquer saberes possíveis. mas com aqueles. inclusive. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. Galvão. Simplesmente Lê-se que a produção de Foucault pode ser denominada "História crítica do pensamento. D. coincidindo com sua sucessão cronológica: arqueologia (História da loucura.14 *** Finalmente. 11.. a dois procedimentos interdependentes: a "subjetivação" do sujeito. Para mostrá-lo. Dicionário dos filósofos. na medida em que realiza análises (históricas) das condições de possibilidade para a construção de saberes. basicamente. genealogia (Vigiar e punir. estudos sobre o percurso da produção foucaultiana fornecem algumas formas de agrupar seus escritos. o texto é. IV). Berliner. FouCAuLT.. por sua vez. política. Dits etécrits IV. em uma determinada época. como precisamente assentado na questão da constituição do sujeito. 128 I Foucault. a "objetivação" do objeto. alguma coisa pode ser qualificada como objeto para um conhecimento possível. vols. "Foucault". C. Antes.. 1984. Dele retraço algumas linhas que permitam possíveis cruzamentos com os destaques dos textos anteriores. M. publicado quatorze a quinze anos após os outros. Ora. O c/fidado de si. por inteiro. A vontade de saber.. dispondo-os em um modo novo de repartição. 29).. ) o perfil ainda trêmulo de sua obra. I. 17. Reconstituição de um projeto e constituição do sujeito Sob o nome-título nada se lê acerca do autor. em que o próprio sujeito é colocado como objeto de conhecimento. dar-lhes um novo desenho. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 129 . in HUISMAN. Lê-se. em uma determinada época. uma reconstituição de seus trabalhos reunidos desde o ponto de vista de um "projeto geral.nova posição de autor que recortará (. a estranheza se atenua quando se examina o teor do verbete. E.. em uma determinada sociedade. que seus trabalhos sejam identificados mediante um título que é nada menos que seu "nome próprio". HUISMAN. que. E. Martins Fontes. Brandão. de um modo ou de outro. I. 388-391. trad.16 que os teria presidido.. 633 (trad. 389). Essas condições dizem respeito. 14. um sujeito pode ser legitimado como "sujeito do conhecimento". vertente ética (O uso dos prazeres. Ora. é descrito. O título e a destinação o texto intitula-se "Foucault" e destinou-se a compor um verbete para um Dicionário de filósofosls.. 389). O nascimento da clz'nica. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. 15. a seguir. 942944 (republicado em Dits et écrits. Dictionnaire des philosophes. o ponto de vista da "constituição do sujeito" permite. São Paulo. 16.

com ela. se se quiser. enquanto As palavras e as coisas se classifica no nível discursivo estrito. o "projeto geral" proposto justifica agora uma nova organização dos escritos de Foucault.. M. é estrategicamente instrutivo que o título-autor recubra um texto cujo desenvolvimento trata da questão do sujeito. ao mesmo tempo em que. Em suma e para concluir. a estranheza porém ressurge e.. o expõe à plena luz. Segundo. a qual é conduzida pela temática da "cons- tltUlção do sujeito". suspeita-se aqui. malgrado o título. Primeiro. Suspeita-se de que. 18. Ora.18 (isto é.. o texto permite um desdobramento do próprio título: também permite. É quando se atenta para o fato de que o texto do verbete. de que tudo seja ainda um prosseguimento daquele jogo estratégico no qual quem ainda é apenas alguém. inclusive. F. em contrapartida a uma abordagem mais "negativa" (como em A ordem do discurso) da função-autor. História da loucura e Vigiar e punir misturam-no ao das práticas sociais). Organização semelhante tem por critério. • análise da constituição do sujeito enquanto objeto do conhecimento como "o outro lado de uma partição normativa. 111. faz ressurgir o paradoxo sugerido anteriormente. é possível que. o doente.temos História da loucura.• Outro modo de organizar tem por critério a "transitividade" ou "intransitividade" da dimensão discursiva às práticas extradiscursivas (por exemplo. um desdobramento do autor que a si próprio se coloca numa espécie de zona limítrofe em que ele é e pode não ser igual a si mesmo. enquanto objeto das chamadas ciências humanas) temos aqui As palavras e as coisas. o delinquente) e . mais uma vez. Ibid. é claro . então assistente de Michel Foucault. Ora. em sua materialidade.. quem desenvolveu aquela concepção teórica sobre a categoria do autor e nela pretendeu diluir o seu próprio apagamento parece agora revestir-se de um disfarce que. não é do "autor" que o texto fala. Foucault a "retoma por sua conta" e "a modifica". mas modificável. um rearranjo do conjunto de escritos. inicialmente solicitado a François Ewald. se lembrarmos que a funçãoautor é uma particularização da função-sujeito. Com essas observações. 130 I Foucault. 389). que não se opõe necessariamente às anteriores. R assinatura" o paradoxo Atenuada. mas as amplia ou mesmo as recobre. abreviando.em três conjuntos. 633 (cead. como uma espécie de pano de fundo. a questão do "Mesmo" e do "Outro" (por exemplo. a tal ponto que permite. • análise da "constituição do sujeito como objeto para ele mesmo"19 . esse texto realize~. 389). E dessa suspeita há pelo menos dois indícios. de acordo com diferentes modos de operar a análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento: • análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento com pretensão a estatuto científico (isto é. o que interessa é fazer notar que.. como o louco. Trata-se de redistribuí-Ios . simplesmente Michel Foucault e o dilaceramento do autor ) 131 . ao contrário. História da loucura é uma história do "Qutrol) e As palavras e as coisas é uma história do "Mesmo"). sob a assinatura. a positiva explicitação de uma pluralidade possível de "posições-sujeitos". Ibid. mas de sua produção discursiva. O nascimento da clínica.temos os volumes de História da sexualidade. Entretanto.retrospectivamente. Vigiar e punir. sob o título. 633 (trad. 19. foi redigido e vem assinado por um certo Maurice Florence ou. se a funçãoautor é não somente recebida.

Paris. PIon. Gallimard. • Raymond Roussel. Paris. Acrescentamos aqui uma relação das obras de Michel Foucault seguida de uma relação de traduções em língua portuguesa. Hyppolite. 1961 (Texto datilografado) . • lntroduction à l'anthropologie de Kant. directeur d'études J. PUF. • Les Mots et les choses. Gallimard. 1963. • Naissance de la clinique. Paris. Paris. 1954. • Maladie mentale et psychologie. 1961. 1971. Paris. Paris. These complémentaire pour le Docrorat. Une archéologie du regard médical. Leçon inaugural au Col/ége de France prononcée le 2 décembre 1970. Histoire de la folie à l'âge classique. Paris. • Falie et déraison. Obras de Michel Foucault • Maladie mentale et personnalité. PUF. Gallimard. Gallimard. • L'Archéologie du savoir. Une archéologie des sciences humaines. PUF.BIBLIOGRAFIA Os textos utilizados ou citados ao longo dos artigos estão referenciados nas respectivas notas. 1962.· bibliografia ! 133 . • L'Ordre du discours. Paris.1963. 1966. 1969. Paris.

• Raymond Roussel. Revisão técnica de Chaim Samuel Katz. 1977-1978. Martins Fontes. (Edição portuguesa revista por Nuno Nabais. Gallimard. Tradução de Manoel Barros da Motta e Vera Lucia Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro.o • • • o o o • o • o Histoire de la folie à l'âge classique (2eme ed. 1989. 1977. 1987. Gallimard/Seuil. Petrópolis. 1981-1982. Paris. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. Um caso de parricídio do século XIX (apresentado por Michel Foucault). Gallimard. Gallimatd. Aula inaugural no College de France pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 1984. Herculine Barbin dite Alexine B. 1973-1974. Histoire de la sexualité. • História da loucura na idade clássica. Histoire de la sexualité. 2001. territoire. Cours au Collége de France. Gallimard/Seuil. Graal. o O Nascimento da clínica. 1982.... 1999. augmentée).Cours au Collége de France. Rio de Janeiro. Le Désordre des familles. Gallimard/SeuiI2003. Naissance de la prison. 1982. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro. III. avec la collaboration de Jacgues Lagtange Paris.Cours au Collége de France. Perspectiva. Gallimard/Seuil. Simplesmente o Sécurité. Revisão técnica o de Geotges Lamaziére. Paris. par Frédéric Gros. São Paulo. 1975-1976. 1972. 1996. Lettres de cachet des Archives de la Bastille au XVIlIeme siêcle (présentées para Arlette Farge et Michel Foucault).2001). Vozes. par Michel Senellarr. Pierre Riviere) que degolei minha mãe) minha irmã e meu irmão . 1970-1982. L'Herméneutique du sujeI. 4 vaIs. Tradução de Roberto Machado. Édition établie sous la direction de Daniel Defert et François Ewald. 134 ! Foucault. Surveiller et punir. par Jacgues Lagtange. 1973. Gallimard. 1999. Tempo Brasileiro. Gallimard/Seuil. 1976. Le Pouvoir psychiatrique. Paris. Un cas de parricide au XIX siécle (coord. 1999. Gallimard/Julliard. São Paulo. par Mauro Bertani e Alesssanclro Fontana. Paris. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessan- o dro Fontana. Paris. bibliografia I 135 . 1994 (2 vols. Loyola. Gallimard. • A ordem do discurso. Vigiar e punir. Paris. Nascimento da prisão. 2004. Tradução de Denise Lezan de Almeida. par o Valerio Marchetti et Antonella Salomini. Relógio D'Água Editores. Tradução de Luís Felipe Baeta Neves. 2004. par Michel Senellart. Paris. Paris. Gallimard. Résumés des cours du Collége de France. o 1981. (présenté par Michel Foucault). Gallimatd. o dro Fontana. Cours au Collége de France. Paris. • As palavras e as coisas. Paris) Gallimard. Tradução de Lauta Fraga de Almeida Sampaio.) • Eu. par Michel Foucault). "I! faut défendre la société". Uma arqueologia das ciências humanas. Forense Universitária. 1954-1988. 1984. Moi) Pierre Riviêre) ayant égorgé ma mere) ma soeur et mon frere .. Forense Universitária. Gallimard. Histoire de la sexualité) L La Volonté de savoir. Naissance de la biopolitique. population. °Les Anormaux. Paris. Paris. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. Cours au Collége de France. Forense Universitária. Cours au Collégede France. 11. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessan- Édition établie par François Ewald et Alessandro Fontana. Julliard. 1975. 1972. 1975.1974-1975. Tradução de Raguel Ramalhete. L 'Usage des plaisirs. Paris. Paris. Obras de Michel Foucault traduzidas para o português Livros o Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro. Gallimard/Seuil. Paris. Dits et écrits. Tradução de Lílian Rose Shalders. Lisboa. Le Souci de soi. Paris. 1978. Édition étab!ie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. 1997. 1977. Rio de Janeiro. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. 1978-1979. Tradução de Salma Tannus MuchailJ São Paulo.

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Tradução de Veta Lúcia Avellar Ribeiro.(31) 3226-9010. faça o pedido por reembolso postal à Rua 1822 nQ 347. MA e-mai1: fspsaoluis@elo..1999.: (61) 326-2436 • Fax: (61) 326-2282 70730-516 BraSl1ia.br LIVRARIAS PAULlNAS Av.f:lorizonte.br EDITORA VOZES LTOA Rua 3. SP· Telefone: (11) 6914-1922' Fax: (11) 6163-4271 [ursos BAHIA • Resumo dos cursos do Collége de France. Coleção "Ditos e Escritos". 381 . MULTlCAMP LTDA Rua Direita da Piedade. Goiá" 636 Tel.Centro Tel.br LIVRARIA ALTERNATIVA Rua 70. 2003.~o Pedro Tel. Fax: (98) 231-0641 65010-440 São Luís.com. Curso no Collége de France. • Ética.br CEARÁ EDITORA VOZES LTOA Rua Major Facundo.loyola.: {27) 3223-13181 0800-15-712 • Fax: (27) 3222-353: 29010-060 Vitória.br LIVRARIAS PAUlINAS SCS . 680 . política.. 499 . 332 TeI.: (921 232"5777 • Fax: (921 233-0154 69010-230 Manaus. AM c-mail: vozes61@uol. Forense Universitária. 04216-000.Q. poder-saber.com.: (921633-42511233-5130.Q. CO e-mail: distribuidora@livrariaalternativa.br MARCHI L1VRARlA E DISTRIBUIDORA LTDA .com. Forense Universitária. MA e-mail: livrariavozes@terra. E5 e-mail: livvitoria@paulinas.loja 1 TeI.. Ipiranga. AM e-mail: livmanaus@paulinas.com. • Home page e vendas: www. 665 Tel.: (62) 225-3077 • Fax: (62) 225-3994 74023-010 Goiânia. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. • Em defesa da sociedade. São Paulo.br llVRARIAS PAUllNAS Rua de Santana. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta.nllmJ: ·vozes04I'uol. São Paulo SP· Caixa Postal 42.: (71) 329-5466 • Fax: (71) 329-4749 40060-410 Salvador. MT e-mail: Imarchi@terra.335.: (65) 3226-9677 • Fax: (65) 322-3350 78005-600 Cuiabá.com. Martins Fontes.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Major Facundo.BI. CE e-mail: vozes23@uol. . Martins Fontes. MT e-mail: vozes54@uol.com.: (98) 232-3068/232-3072 • Fax: (98) 232-265 65015-440 São Luís.Piedade Tel. 1974-1975..com. • Os Anormais.: (711 329-0326/329-1381 Telelax. 7 de Setembro. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa.br MARANHÃO EDITORA VOZES LTDA Rua da Palma. MS.1970-1982. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta. 2004.: (71) 329-2477/329-3668 • Fax: (71) 329-2546 40060-001 Salvador. 730 Tel.Centro Tel. 216 .br EDITORA VOZES LTOA Rua Carlos Gomes. 2001. simplesmente LIVRARIAS PAULlNAS Rua Barão de Itapemirim.com. Getúlio Vargas.loja 2 Tel.br • e-mail: vendas@loyola.com. GO e-mail: vozes27@uol.1975-1976. V. BA e-mail: vozes20@uol. 7 de Setembro.Bloco A n. distribuidores. ~_. Tradução de Maria Ermantina Galvão. 120 .com. 1981-1982. São Paulo.DISTRIBUIDORES DE EDiÇÕES LOYOLA Se o{a} senhor{a) não encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nosso ros da Motta.com.org. IV. Curso no Coll'ge de France.com. 15 leI. nO 291 Tel. 197 A Tel. Martins Fontes..: (61) 225"9595 • Fax: (61) 225-9219 70300-500 Brasma. Consultoria de Roberto Machado. Zahar. DF c-mail: livbrasilia@paulinas.br GOIÁS (92) 633-4017 LIVRARIA E DISTRIB.'. Curso no Collége de France. Rio de Janeiro) Forense Universitária. 1997.Centro Tel.br MATO GROSSO EDITORA VOZES LTOA Rua Antônio Maria Coelho. 704 .Conjunto Bela Center .Centro Tel. Fax: (31) 3226-7797 3{l~H?:O' Belo .br BRAS/LIA EDITORA VOZES LTOA SCLR/Norte .. e. 2001.Centro Tel.Lojas 19122 . Tradução de Andréa Daher. BA e-mail: multicamp@uol. C . São Paulo.br AMAZONAS EspiRITO SANTO EDITORA VOZES LTOA Rua Costa Azevedo.com.Centro Tel. • Estratégia. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. 105 . n° 124 .: (62) 224-2585/224-2329 • Fax: (62) 224-2247 74010-010 Goiânia.:. sexualidade.com. 05 .org. CE c-mail: livfortaleza@paulinas. vol.: (71) 329-0109 40070-190 Salvador.Setor Central Tel: (62) 229-0107 / 224-4292· Fax: (62) 212-103 74055-120 Goiânia.br MINAS GERAIS EDITORA VOZES LTDA Rua Sergipe. CO e-mail: livgoiania@paulinas.br. DF c_mail: vozes09@uol.LIVRARIA VOGAL -' Av.: (98) 221-0715. Fax: 69005-141 Manaus.org.org. 2004. 203 .: (85) 231-9321 • Fax: (85) 2214238 60025-100 fortaleza. Tradução de Eduardo Brandão_ São Paulo.br LIVRARIAS PAULlNAS Av. voI. 698A . BA e-mail: livsalvador@paulinas.br llVRARIAS PAUlINAS Av.org.: {65) 623-5307 • Fax: (65) 623-5186 78005-970 Cuiabá.org. Coleção "Ditos e Escritos". Tradução de Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa. Rio deJaneiro. • A Hermenêutica do sujeito. .: (85) 226-7544/226-7398 • Fax: (85) 226-9930 60025-100 Fortaleza.br 138 ! Foucault. 502 . 04218-970.

Loja 1 Tel.: (00xx351 21) 388-8371 /60-6996 1350-006 Lisboa. 1523 . (41) 224-1442 80020-000 Curitiba.br Rua do Imperador.br Rua dos Trilhos. Rua Costa Monteiro.br ASTECA DISTRIBUIDORA DE LIVROS lTOA.org. SP e·rnail: liv15@paulinas.sala 1701 Telefax: (21) 2233-4295 / 2263-4280 20071-000 Rio de Janeiro.: (8l) 3423-4100. Fax: (69) 224·1361 78900-010 Porto Velho.br EDITORA VOZES l TOA Rua Senador Feijó.: 111) 3782-1889/3782-0096. PR e-mail: vozes21@uol. 225 Tel.577-300 São Paulo. 59 .: (51) 3224-0250 • Fax: (51) 3228-1880 90010-282 Porto Alegre.B.com.Hugo lange TeI. lTOA Vendas no Atacado e no Varejo Av. PE e-mail: livrecife@pau[inas.: (12) 564-1117 • Fax: (12) 564-1118 12570-000 Aparecida. 627 . ALAGOAS.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Dagmar da Fonseca. 71 Tel. 71 Tel.: (51) 3226-3911 • Fax: (51) 3226-3710 90010-273 Porto Alegre.'i121 )355-1127 • Fax: (OOxx35121 1355-1128 1050-047 Lisboa.: (11) 3322-0100 • Fax: (11 13322-0101 01104-001 SãoPaulo. Goulin.br DISTRIBUIDORA lOYOlA DE LIVROS LTOA Rua Quintino Bocaiúva.: (43) 3337-3129· Fax: (43) 3325-7167 86020-160 londrina.: (11) 3255-0662 • F~x:(11)3231-2340 01042-001 São Paulo.Pi[otis Telefax: (21) 2511-3900 / 2259-0195 22451-041 Rio de Janeiro. MG e-mail: maedaigrejabh@wminas. SP e-rnail: vozes 16@uol. 2142 Tel.: (84) 212-2184 • Fax: (84) 212-1846 59025-500 Natal.Luz Tel. Fax: (81) 3423-7575 50050-410 Recife. RIO GRANDE DO NORTE E SERGIPE EDITORA VOZES LTDA Rua do Príncipe.br Rua Curitiba. AL e-rnail: livmaceio@paulinas.br Rua Barão de [tapctininga. 168 Te[. Marecha[ Tito.br MÃE DA IGREJA LTOA Rua São Paulo.br PORTUGAL MULTI NOVA UNIÃO LlY.br lIVRAR1AS PAULlNAS Av. SP e-mail: livsmiguel@paulinas.br Rua João Pessoa. Rua4deiniantaria.com.br Rua Barão de jaguara..br Rua Frei Caneca.br Rua Haddock lobo.com. 33 . PR e-mail: livmaringa@paulinas.br Rua XV de Novembro.br SÃO PAULO DISTRIBU[DORA lOYOlA DE LIVROS LIDA Vendas no Atacado Rua São Caetano.org. (41) 362-0296/262-8992 Fax. 870 . Santa jOdfla Princesa. Rj e-mail: livmadureira@paulinas. {11 131 06-4418/3106-0602 • Fax: (lI 13106-3535 01013-001 São Paulo. 50 e 54 Bairro Sagrada Família Tel.br Av.Rink Te[. RJ e-mail: ze[iobicalho@prolink.: (21) 2622-1219.: (32) 3215-9050. 959..com. SC e-mail: vozes4S@uol. 5 de outubro.org.org. PR e-mail: livraria@miIleniumlivraria. PB e-mail: [ivjpes50a@paulinas. 805 Tel. 23 Tel.: (31) 3423-7979 • Fax: (31) 3424-7667 31030-480 Belo Horizonte. 278 . Asa "Oeste" Rua 02 e 03 ~ lojas 111 /112 e 113/114 Tel. SP e-mail: loyola_barao@lterra.org.: (83) 241-5591 /241-5636 Fax: (83) 241-6979 58010-821 João Pessoa.com.: (48) 222-4112 • Fax: (48) 222-1052 88010-030 Florianópolis. 224 . RS e-mail: livpa[egre@pau[inas. Fax: (11) 3105-7948 01006-000 São Paulo.SP e-mai!: vendasatacado@[ivrarialoyola. Rj EDITORA VOZES LTOA Rua México.: (31) 3269-3700 • ~ax: (31) 3269-3730 30130-007 Belo Horizonte.Ramal 9045 25620-001 Petrópolis. RN e-mail: livnatal@paulinas.com.Bloco A. Fax: 111) 5549-7825 04010-100 São Paulo. 482 Tel. 597 . RJ e-mail: livniteroi@paulinas.br Rua Senador Souza Naves. PR e-mail: vozes41@uol. 120 Telefax: (11 J 3242-0449 01006-000 São Paulo.: (19)3231-1323.: (11) 6297-5756 • Fax: (11) 6956-0162 08010-090 São Paulo.com. Fax: (21) 2622-9940 24020-320 Niterói.: (69) 224-4522.Centro Telefax: (24) 2233-9000 .br Rua Joaquim Távora.org.org.org. 114 Tel. Portugal D[STRIBUIDORA DE LIVROS VAMOS lER lTOA.com.com. Getúlio Vargas.org. SP e-mail: senador@livrarialoyo[a. RS e-mail: vozes05@uol.org.org. 1164/1166 Tel. 660 . 1054/1233 -Centro Tel..UFRJ !Iha do Fundão .br lIVRAR[AS PAUlINAS Rua dos Andradas. 225 . 502 .. 1280 Tel.: (41) 224-8550 • Fax: (41) 223-1450 80020-000 Curitiba. 1212· Centro TeI.com.•• paulinas.: 111) 6693-7944 • Fax: (11) 6693-7355 03168-010 São Paulo.: (OOxx]. 963 Tel. 174 .145 Tel.com.org.: (31) 3273-2538 • Fax: (31) 3222-4482 30190-060 Belo Horizonte. PARAf8A.ED[TORA VOZES LTOA Rua Tupis. SP e-rnail: vozes03@uol. RI e-rnail: vozes42@uol. 276 .com. SP e-mail: vozes40@uol.br SANTA CATARINA EDITORA VOZES Rua Jerônimo Coelho.br LIVRARIA E EDITORA PADRE REUS Rua Duque de Caxias.org. 3861390 Tel. Fax: (11) 3782-0972 0. 45 -loja NB . 12 E Tel: (OOxx351 21) 842-1820 /848-3436 1700-3S7lisboa.org. MG e-rnail: gerencial ivbelohorizonte@paulinas. 981 São Migue[ Paulista Tel. km 19. SP e_mail: livdomingos(iQpaulinas.br Av.: (91) 241-3607 / 241-4845 • Fax: (91) 224-3482 6601(}'()90 Belém.: (44) 226-3536. Vicente.com.br RIO GRANDE DO SUL EDITORA VOZES l TOA Rua Ramiro Barcelos.Centro Tel.com. Fax: (32) 3215-8061 36010-041 Juiz de Fora. CULTo Av.com.br PERNAMBUCO.: (51) 3221-0422 • Fax: (51) 3224-4354 90020-008 Porto Alegre.: (31) 3224-2832 • Fax (31) 3224-2208 30170-120 Belo Horizonte.PUC Prédio Cardeal leme .Centro Tel. Fax: (44) 226-4250 87013-130 Maringá.Centro Tel.: {11) 3256-0611 • Fax:(11)3258-2841 01414-000 São Paulo. PE e-mail: vozesl0@uol.: (11)3105-7144.br Rua Espírito Santo.Sobreloja . 1 S8-C Tel.: (51) 3225-4879 • Fax: (51) 3225-4979 9003 5-000 Porto Alegre. 246 Tel. SP e-mail: expedicaOI!. PR e-mail: livcuritiba@paulinas. MG e-mail: livbe[ohorizonte@paulinas.com.org.Bairro do Comércio Tel. SP e-mail: vozes37@uol.com. Afonso Pena. (41) 362-0296 / 362-1367 80040-280 Curitiba. RS e-mail: vozes19@uol.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Voluntários da Pátria.br RIO DE JANEIRO Z~LlO Blo. 864 . Presidente Vargas. 360 Tel.br Rua Doutor Borman.: (41) 233-1392 • Fax.Cidade Universitária Telefax: (21) 2290-3768/ 3867-6159 21941-590 Rio de Janeiro.Centro Telefax: (21) 2215-011 O 1 (21) 2220-8546 20031-143 Rio de Janeiro.com.com. Madureira Tel. RJ e-mail: vozes62@uol. 834 .br LIVRARIA MILLENIUM lTDA. Portugal .Centro Tel.br Rua Marquês de S.com.br RONDÔNIA LIVRARIAS PAUlINAS Rua Dom Pedro 11.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Domingos de Morais.: (11)3105-7198.lHO PORTUGAL ClA. PA e-mail: livbelem@paulinas. RS e-mail: livrariarcus@[ivraria-padre-reus.org.com. RO e-mail: fsp-pve[ho(álronet.:(21) 3355-5189/3355-5931 • Fax: (21) DS5-5929 21351-040 Rio de Janeiro. Fax: {1913234-9316 13015-002 Campinas.br PARANÁ EDITORA VOZES lTOA Rua Voluntários da Pátria. MG e-mail: vozes32@uo[.com. 234 -Centro Tel. Fax: (82) 326-6561 57020-320 Maceió.Ja Riachuelo. Fax: (11) 3242-4326 01004-010 São Paulo.Centro Tel. 5P e-mail: vozes56i!Jluol. 18-18A Te[. RI Centro Tecnologia .: (81) 3224-5812/3224-6609 Fax: (81) 3224-9028 / 3224-6321 5001 0-120 Recife.br Vendas no Varejo Rua Senador Feijó.: (111 5081-9330. (21) 2232-5486 • Fax: (21) 2224-1889 20050-005 Rio de Janeiro. 81-A Tel. Rua Dr.org.: (31) 3213-4740 / 3213-0031 30170-131 Belo Horizonte.: (82) 326-2575. MG e-rnail: distribuidora@astecabooks.br Rl.Mooca Tel. Portugal EDITORA VOZES Av. 41-loja 39 Tel.Vila Mariana Te[. 5P e-mai!: atendimento@livrJrialoyola.com. 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