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FOÜCAULT.
S1MPLESMENTE

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SRLMR TRNNUS
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LEITURAS

CI~G

FILOSÓFICAS

Aristóteles e o logos, Barbara Cassil1
Aristóteles no século XX, Enrico Berti
Da nahneza, José Gabriel dos Santos
Diálogos com a cultura contemporânea, W.M
Eric Weil e a compreensão do nosso tempo, Marcelo Perine
Filosofia a partir de seus problemas (A), 2" ed.,
Mario Ariei González Porta
Filosofia da ciência - introdução ao jogo e a suas regras, 8" ed.,

Rubem Alves
Filosofia da natureza (A), Jacques Maritail1
Foucault, simplemente - textos rennidos, Salma TamJUs Mucllail
Metáfora viva (A), Paul Ricoeur
\1ovilllento sofista (O), G. B. K.erferd
l\'iilismo (O), Franco Volpi
Ofício do filósofo estóico (O), RacheI Gazolla
Ordem do discurso (A), 10" cd., Michell''oucault
Para não ler ingenuamente uma tragédia grega, Rachei GazoUa
Quc é a filosofia antiga? (O), Pierre Hadot
Razõcs dc Aristóteles (As), 2" ed., Enrico Berti
Saber dos antigos - terapia para os tempos atuais, 2.' ed.,

FOUCRULT,
SIMPLESMENTE
·~2xtQS :-eL:f"":id:i5

Giovallni Reale
Sete lições sobre o ser, 2" ed, Jacques Maritain
Sobre O político de Platão, Comeljus Castoriadjs
Sócrates ou o despertar da consciência, fean-Toel Duhot
Tempo e razão - 1.600 anos das confissões de Agostinho,
Carlos Arthur A. Nascimel1to
Transformação da filosofia, vol. 1, Karl-Otto Apel
Transformação clJ filosofia, vol. 2, Karl-Otto Apel
Vontadc de crer (A), William James

PUCRS/BCE
1111111111111111111111
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SUMRRIO

PREPARAÇÃO:

Marcelo Perine

DIAGRAMAÇÃO:

REVISÃO:

Maurélio Barbosa

Maurício B. Leal

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P~CRS

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Apresentação ................... .

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A TAAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULT .................. .

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A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA
Filosofia e/ou história?

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O MESMO E O OUTRO
Faces da história da loucura

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EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO

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o LUGAA DAS INSTITUiÇÕES NA SOCIEDADE OISClPLlNAA

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DE PRÃTICAS SOCIAIS

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PRODUÇÃO DE SABERES

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FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS ................ ..

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OLHARES E DIZERES .............. ..

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ISBN: 85-15-02992-8
© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2004

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.. Os textos reunidos neste livro exprimem esse caráter. a preapresentação ! 7 . Percorrê-los exige uma dedicação cuidadosa para que se possa enfrentar esta diversidade e. dar conta de sua inventividade e de sua densidade conceitual.... COMO NA OALA DO MAR.. artigos e capítulos de livros já publicados. Os textos que o compõem expressam a marca temporal dos momentos em que foram produzidos.. trata-se. o livro comporta suas próprias diversidades. ao percorrê-los.. por outras. no entanto.. a democracia... a filosofia...... Também os temas discutidos são diversos.... 133 o pensamento de Michel Foucaulr é um pensamento plural.. ao mesmo tempo.. não permite que se determine. Por outro lado.... Em sua maioria são conferências... 109 o ••••••••••••• . Como reunião de textos dispersos.... para este livro. .... Também seus escritos têm a marca da diversidade de temas e de abordagens. RPRESENTRÇÃO 115 MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOA ...... revelada por vezes na eleição dos Çlbjetos tratados e. ... em primeiro lugar.. a cultura..... o próprio pensamento é instigado a tornar-se múltiplo e igualmente afinado com a inventividade e o rigor.. a abordagem de temas como o ensino. de um livro escrito em diferentes momentos.. a loucura.. 123 BIBLlOGAAFIA ... À semelhança dos escritos de Foucault.. na contextualização das análises... UM AOSTO DE AAEIA·· Notas sobre maio de 68 . a história. uma unidade dotada de significado... Relativamente às diversidades. o poder....OEMOCRRCIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Mich~1 Foucault e Cornelius Castoriadis . não deixando de formar.. as instituições. ...

) tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de leptimar o que já se sabe? M. A unidade de significado do livro. Foi publicado na Revista Extensão. e 1984. PUC/MG. 8 I Foucault. O nascimento da clínica (1963).Razão e Desrazão". mais específicos. servem de iniciação à sua leitura. FOUCAULT. 1992. Alguns possuem um sentido mais geral. 13. é voltado principalmente para questões relativas à constituição dos saberes e inclui os principais livros publicados na década de 1960: A história da loucura (1961). Resultado de uma leitura e de uma análise detidas dos escritos de Michel Foucault.. realizam análises detidas sobre temas precisos.como a pluralidade do pensamento. Por fim. será possível apreender um pensamento que tem muito a dizer ao nosso presente. o caráter dos textos é igualmente diverso. deve-se à natureza dos textos que o constituem. uma repartição possível dessa trajetória em três momentos. a profundidade das análises -.. 2. na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em abril de1991. Talvez por este motivo sejam tão didáticos.. Assim como dizer Foucaul~ simplesmente implica tantas outras coisas . As palavras e as coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969). simplesmente a trajetória de Michel Foucault I 9 . escrito em muitos tempos. Belo Horizonte. pois. aos leitores deste livro diverso. O uso dos prazeres. esclarecem o leitor a seu respeito. ) senão o trabalho critico do pensamento sobre o pensamento? Senão (. este livro tem sua índole vinculada ao ensino. tratando de métodos. pois na medida em que discutem diferentes aspectos do pensamento de Foucault. Outros. O segundo mamemo. n. 1. a diversificação das abordagens.sença de um único objeto. Márcio Alves da Fonseca Professor do Departamento de Filosofia da PUC/SP A TRAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULr Mas o que é filosofar hoje em dia (. favorecendo a compreensão de um pensamento tão profundo e complexo quanto instigante. v.. Todos os textos nele reunidos ou nasceram de aulas ministradas por sua autora ou destinavam-se a prepará-las. acima de tudo. com certo consenso. desdobrado em muitos temas. O primeiro. com seus últimos livros publicados. fev. quando saiu seu primeiro grande livro. a leitura desta simples reunião de textos tem muito a nos propor e ensinar. A trajetória intelectual de Michel Foucault (1926-1984) pode ser inscrita entre 1961. Desse modo. como também ele próprio. reconhecem. periodizações e problemas centrais dos escritos de Foucault. Os estudiosos de Foucault. por sua vez. conhecido como período da "arqueologia". conhecido como períodó da "ge* Este texto é uma versão modificada de aula ministrada no curso "Michel Foucault .

Luís Felipe Baeta Neves. mudo .. um conteúdo de significações "já-dito" e.nealogia". seu desaparecimento. "jamais-dito"3. mais particularmente. cuja publicação foi iniciada em 1997. 36. 1972.79. que esta origem e este sentido . ainda mais recencemence. 10 I Foucault. os discursos são tomados em sua positividade. intitulados. Vozes. simultaneamente. da Glória R da Silva. dos Dits et écrits (são quatro volumosos livros que reúnem textos dispersos. e trata-se de buscar não sua origem ou seu sentido secreto.. M. assim como as novas regras que presidem a formação de novos discursos em outra época. de maneira mais precisa. nele dormitam. A este conjunco devem ser acrescencadas ainda duas situações ocorridas após a morte de Foucault: a publicação. e quer estabelecer não as regras formais de sua inteligibilidade. das transformações e do desaparecimento ••• Em texto de 1968. desde o século XVII" . Petrópolis. a cada vez.mais essencial e. simplesmente 3. Revista Tempo Brasileiro. Paris. o que deve ter sido na Europa. A análise lingüística. conferências. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. desde o século XVII. ver também L'Archéologie du savoir. não porém quaisquer discursos. até "o saber que é nosso hoje") e a preocupação está 1. faremos iniciar a abordagem de cada um desses momentos. 21. O primeiro momento de seus escritos tem. a trajetória de Michel Foucault ! 11 . em 1994. trad. como "fatos". ) para que se constitua o saber que é nosso hoje e. M. o modo de existência dos discursos e singularmente dos discursos científicos (. Cf. FOUCAULT. 1971. a fim de que possam ser trazidos à luz pelo comentário. em determinada época. portanto. as regras que presidem seu surgimento. O comentário é uma espécie de discurso segundo a duplicar o discurso comentado. Observe-se que esta descrição histórica dos discursos não é feita nem à maneira do "comentário". mas as condições de sua emergência. os das chamadas ciências humanas ("o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem").. respectivamente.2. assim como suas aproximações e diferenças. artigos. buscando fazer surgir temaremos esboçar os traços que caracterizam esses três momentos. e supõe. mas aqueles considerados científicos e. aulas etc. Rio de Janeiro. 2. em tese e em número infinito. é centrado sobre questões relativas aos mecanismos do poder e inclui os principais livros da década de 1970: Vigiar e punir (1975) e o volume I da História da sexualidade. alguma verdade implícita no dito explícito do discurso primeiro. por outro lado.de algum modo atravessam o sentido explícito.. Supõe. nas suas dimensões diversas. suas mudanças. nem ao modo de uma análise lingüística. diz respeito à língua como sistema formal que rege a formulação tanto de enunciados efetivamente realizados como a dos que. um enfoque explicitamente histórico ("na Europa. o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem. O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984( Tomando esta repartição como ponto de partida e roteiro. Com a transcrição da seleção de passagens em que. 1969. e. ao contrário.. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". ao mesmo tempo. assim descrevia Foucault os propósitos de suas primeiras investigações: "determinar. o próprio Foucault declara suas preocupações e seus propósitos. FOUCAULT. trad.. jan/mar. seu funcionamento. Gallimard. O terceiro momento trata de questões relativas à constituição do sujeito ético e inclui os volumes II e III da História da sexualidade. intitulado A vontade de saber (1976). centrada na descrição dos discursos. alguma origem mais remota a ser reencontrada e um sentido oculto a ser decifrado. por um lado.. "Resposta a uma Questão". poderiam vir a ser constituídos. que Foucault produzir~ e realizara em diversos países). por sua vez. a gradativa edição dos cursos que Foucault ministrou no Collêge de France entre os anos 1970 e 1984 (foram ministrados treze cursos). de M. pois. Nas análises de Foucault. 28 (Epistemologia). mas o jogo de regras que define as condições de possibilidade do aparecimento. Supõe. Já a descrição foucaultiana dos fatos discursivos se limita a enunciados já formulados que compõem as formações discursivas.

ver também L'Archéologie du savoir. jogo este que é. simolesmente to de investigação pode precisamente esfacelar-se sob o efeito da própria análise. quem pode dizê-lo. Maria Teresa de Oliveira e Roberto Machado. "que os reencontrarei (esses domínios do saber eleitos como área de investigação) ao termo da anãlise.4. Ele mesmo nos adverte de que a demarcação desse donúnio é uma escolha de certo modo hipotética. 43. essa de~arcação não pretende definir. 5. e duplamente relativa. Assim é.. a região das chamadas ciências humanas. Trata-se tão-somente de "um privilégio de partida. 53-54.e entre eles sobre "os que têm por domínio este curioso objeto que é o homem" . Pode-se chamar a esse "jogo de regras" de epistéme de uma época. genericamente. portanto. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". eis o procedimento que Foucault chama de "arqueologia". Graal. diz Foucault. oS efeitos de verdade que este poder produz.. in Microfísica do poder. nem que descobrirei o princípio de sua delimitação e de sua individualização. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". nem limita o método nem delimita o próprio domínio escolhido. Estabelecer esse jogo ou conjunto de regras que. por exemplo. M. Trata-se de uma circunscrição relativa. transmite e que por sua vez reproduzem-no. Com efeito. M. variável num curso histórico marcado por diferenças e descontinuidades. "Soberania e disciplina". de quaisquer discursos que Foucault trata. 6. são regiões do L'Archéologie du savoir. 27. ••• E contudo é um privilégio. no início. nada me prova que tal descrição poderá dar conta da cienrificidade (ou da não-cientificidade) desses conjuntos discursivos que assumi como ponto de ataque e que apresentam todos. de que as primeiras não são meras precursoras. que em As palavras e as coisas as análises mostram como na Europa dos séculos XVII e XVIII emergem determinadas formações discursivas que vão constituir a gramática geral. a que instituições isso se vincula etc. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. Por outro. 12 I Foucault. dois limites: por um lado.. em tese. a trajetória de Michel Foucault I 13 . de 1970 até agora. trad.6. enquanto no século XIX vão surgir a filologia. como se pode dizê-lo. ver também L'Archéologie du savoir.de tais ou quais discursos. a demarcação do domínio não limita o ãmbito de aplicabilidade da arqueologia que poderia.. "Nada me prova". FOUCAULT. FOUCAULT. Foucault assim declarava: "O que tentei investigar.que melhor lhe permite trazer à tona "os mecanismos existentes" entre exercícios de poder e produção de saberes reconhecidos como verdadeiros. Em uma passagem de 1976. 43. tentei discernir os mecanismos existentes entre dois pontos de referência. Mas não é. numa época dada e numa dada sociedade. as regras de direito que delimitam formalmente o poder e.7. o campo do saber assim assumido como obje4. por outro. dentro dele. seu a priori histórico. pelo contrário. o que deve ser reconhecido como verdadeiro e o que deve ser excluído como desqualificável. salvaguardar ou confirmar os contornos do próprio domínio escolhido. grosso modo. 27. Do mesmO modo. a respeito dos escritos do segundo momento de sua trajetória.. foi o como do poder. 7. ser usada em outros campos do saber. enfim. Ora. autoriza o que é permitido dizer. a biologia e a economia.179. certa presunção de racionalidade científica"s A escolha do domínio. e não de outros. M. portanto. numa determinada época e para uma determinada sociedade. Por um lado.. Interessam-lhe os que constituem o campo do saber considerado científico e.. "uma primeira aproximação" ou "um primeiro esboço. M. Será nos escritos posteriores que se tornarão mais claros os motivos de semelhante eleição. ou ainda o solo onde são constituídas as formações discursivas historicamente realizadas e que compõem as diferentes configurações no espaço do saber.. Rio de Janeiro. a história natural e a análise das riquezas. FOUCAULT. 1979. é a investigação sobre os discursos científicos . FOUCAULT.

. "Genealogia e poder".saber cujo terreno é mais movediço. "é o método para a análise da discursividade local. mas não percebidos. multifacetado e cotidiano 10. in Microfisica do poder. praticamente. prioritariamente de natureza estratégica. Assim. "Sobre a história da sexualidade". Ver. mediados. escreve ele. que vai incidir a investigação. "O olho do poder". as instituições apropriadas. "Poder-Corpo". 172. particularmente no caso das ciências humanas. Mais de uma vez Foucault afirma que os propósitos explícitos nos escritos da fase genealógica já estavam presentes. 13. tais como práticas jurídicas. "Verdade e poder". "Os Intelectuais e o poder". 75-76. instituições sociais diversas. XVI. Foucault amplia o âmbito das análises: de análises quase sempre mais preocupadas com discursos ou interdiscursos. "Enquanto a arqueologia". em nossa sociedade a produção da verdade é regulamentada por regras que autorizam a eleição dos discursos reconhecidos como científicos e a conseqüente exclusão de outros saberes.ou. M. discursivos e extradiscursivos. particularmente sobre os das ciências humanas. o dispositivo. a genealogia é a tática que. antes. Trata-se. e.. envolve articulações entre elementos heterogêneos. um elemento prioritariamente discursivo do dispositivo -. a mesma natureza e o mesmo teor. Quando Foucault passa a explicitar esse momento de sua investigação. Mas com outras transformações. Ora. enquanto a arqueologia efetua uma análise descritiva veiculando uma denúncia. III I Foucault. mas "regras" historicamente diferenciáveis. passa a priorizar seu cruzamento "Sobre a geografia". arqueologia e genealogia se distinguem ao mesmo tempo em que guardam. e cujos efeitos de poder. pode ter mais "eficácia política"8. por isso mesmo. FOUCAULT. 251. uma vez que. assim como a "verdade" de que se trata não é nenhuma essência universal. 154. Mas adverte também que uma mudança ocorreu na condução das análises. A denominação "genealogia" será mantida por Foucault ao referir-se ao terceiro e último momento de sua trajetória. 149. Simplesmente com a trama das instituições e práticas sociais. M. a noção de epistéme pela noção mais complexa de "dispositivo estratégico". que qualificam os objetos dignos de saber. de certo modo. 10. a genealogia constrói uma política de resistência e de luta. 8. 175. por exemplo. 6. que só existe em sua "concretude". por assim dizer. Abandona. FOUCAULT. 9. 221. M. os sujeitos aptos a produzi-los. Machado). FOVCAULT. in Microfisica do poder. Nesse momento de seus escritos. são sobretudo disciplinar e normalizar. mas "o conjunto de regras segundo as quais se distingu~ o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"9. "Genealogia e poder". 183-185. "Verdade e poder". também o poder não deve ser compreendido como uma "idéia" ou uma "identidade teórica". Por "verdade" deve-se entender não "o conjunto de coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar". compreende-se que é sobre os discursos científicos. nos primeiros escritos.. enquanto a epistéme é também um dispositivo . E. a partir da discursividade local assim descrita. se toda sociedade tem seu regime de verdade com efeitos de poder. entendendo-se que. mas como exercício. in Microftsica do Poder. assim se exprimiu Foucault a respeito de seus últimos escritos: "Ten11. ativa os saberes libertos da sujeição que emergem desta discursividade"l1. pelo que podemos chamar de modos de produção da verdade. mais claramente aberto a combates e cuja história. como faz principalmente em sua história do nascimento das prisões (Vigiar e punir). em Microftsica do poder:. agora. de evidenciar as articulações entre saber e poder. para denominá-lo "genealogia". projetos arquitetônicos. "Soberania e disciplina". *** Em entrevista concedida pouco antes de sua morte. como prática. passa também a definilo menos como "arqueologia". a trajeto ria de Michel Foucault I 15 . "Introdução" (de R. a este respeito. Poder-seia dizer que a arqueologia é como englobada e ampliada na genealogia e que.

org.últi· mas entrevistas. de C. da Costa Albuquerque.. M. H.. O uso do prazeres. a pergunta que ele então se colocou . ).passaram-se oito anos. 86. nos últimos séculos antes de Cristo e nos primeiros séculos da era cristã 13 . H.últimas entrevis· tas. seu tema.últimas entrevistas. de compreender nosso presente. ) eu me pergunto se nosso problema atualmente não é. Como nos livros anteriores. e RABINOW. as que assinalaram a passagem do final da Idade Clãssica à Modernidade.. eis algumas observações de Foucaulr: "O que me impressionou é que na ética grega as pessoas se preocupavam com sua conduta moral.. ). Foucault alterou radicalmente o plano inicial previsto para a obra. EWALD."Por que tínhamos feito da sexualidade uma experiência moral?" . in O Dossier .. A. Agora. 15. 14. 10-11. o foco das investigações será o sujeito. "artes da existência"ls. P. ). mas a da conduta. ESCOBAR. o prazer. M.. voI. FOUCAULT. Neste intervalo. que Foucault chama de "práticas de si". "Introdução". Nesse enfoque. Rio de Janeiro. 12. "O cuidado com a verdade". A este propósito. in O Dossierúltimas entrevistas. "técnicas da vida". privada (. simplesmente A alteração na cronologia foi acompanhada por mudanças teóricas e deslocamentos de temas. quase sempre.. não porém como aquele "curioso objeto" de um domínio de saber. e nem quer um sistema legal que interfira na nossa moral pessoal. Taurus. Ao privilegiar essa perspectiva. Cf. eSCALA. O projeto inicial da História da sexualidade anunciava um percurso histórico semelhante. . in O Dossier . jurídicos ou religiosos. tomando então a relação a si e aos outros. Estou interessado nessa semelhança de problemas"16. 16 I Foucault. mantendo. enquanto "sujeito do desejo"14.to responder a um problema 'preciso: nascimento de uma moral. Rio de Janeiro. Mas agora a cronologia é outra. M. pois. semelhante a este. O uso dos prazeres. Cf. Ana Maria de A Lima e M. de certa maneira. 43-44. 11. sua ética. suas ligações com elas próprias e com os outros muito mais do que com problemas religiosos (.12. Porém. F. 16. 15. in O Dossier. indivíduo que se constitui a si mesmo. "Um devaneio moral".. desde que a maioria de nós já não acredita que a ética esteja fundada na religião. continua a fazer filosofia fazendo pesquisa histórica. um percurso que ia desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). G. a característica da genealogia de compreender o presente. era constituir um tipo de ética que era uma estética da existência". buscando trazer à luz as transformações que marcaram a passagem do Renascimento à Idade Clássica e. A segunda observação é que a ética não estava relacionada a nenhum sistema social .. 16. "Introdução".. da Glória R da Silva. a perspectiva que ele privilegia não é a dos códigos morais. "Sobre a genealogia da ética: uma visão do trabalho em andamento". E as aproximações que em seguida faz: ''(. 13. na direção. assim. enfim. 75.e a dos volumes II e 1II . principalmente. de uma moral enquanto reflexão sobre a sexualidade. 136. R BELLOUR. com realce para a chamada Idade Clãssica (séculos XVII e XVIII).O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984) . Graal. DREYFUS. trad. ou a das leis definidoras do que é permitido ou interditado. trad.. 1984. FOUCAULT. detendo-se então na Antiguidade grega e greco-romana. ibid. como reconhece o próprio Foucault.. Entre a publicação do volume I da História da sexualidade A vontade de saber (1976) . BARBEDEITE. 1984. Até então as histórias que escrevera atravessavam. como espaço de referência. T.levou-o a procurar mais "atrás" pelo "nascimento de uma moral". O terceiro ponto a observar é que o que os preocupava.. "O retorno da moral". Uma mudança importante ocorreu relativamente ao período histórico estudado. mas como sujeito ético. sobre o desejo. L. a traietória de Michel Foucault I 17 . daquilo. do modo de comportar-se ou das posições em face de códigos e leis.ou pelo menos legal-institucional (.. História da sexualidade. Cf. a investigação permite melhor aproximar dados da Antiguidade de problemas de nossa atualidade.

o segundo tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres tem por título "As formas de problematização". pois. 76. 76. ao primeiro tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres dá o título "Modificações". articulam-se entre si.. Agora. compreender a reunião dos três momentos da trajetória de Foucault em um mesmo conjunto. quando se julga e se pune enquanto criminoso (Vigiar e punir)? Através de quais jogos de verdade o ser humano se reconheceu como homem de desejo (História da sexualidade)?"!'. juntando sugestivamente as duas pontas de sua trajetória.. sem contudo escamotear suas diferenças: o primeiro momento interroga o que habitualmente se entende por "progresso do conhecimento". as semelhanças também existem. Do mesmo modo. Aqui.. num dado momento. 76..últimas entrevistas. O uso dos prazeres. ser falante e ser trabalhador (As palavras e as coisas). "O cuidado com a verdade". Aliás. tratavase de analisar as mudanças na problematização das relações entre delinqüência e castigo através de práticas penais e instituições penitenciárias no fim do século XVIII e no início do século XIX. EWALD. da História da loucura à História da sexualidade: "A propósito da loucura. Dito de outro modo. 12 (os títulos entre parênteses foram acrescentados por nós). in O Dossier.... Aliás. "Introdução". por sua vez ~ o propósito de fazer a história das relações entre pensamento e verdade e o ângulo das problematizações~. FOUCAULT. F.últimas entrevistas. em todos eles. na visão teórica. parti do problema que o comportamento sexual podia colocar aos próprios indivíduos (. quando se olha como doente (O nascimento da clínica). Os dois eixos comuns. 21. 19. ••• A partir daqueles eixos de aproximação pode-se.20. Ibid. na passagem dos momentos anteriores ao último. um mesmo propósito de base: escrever "a história das relações que o pensamento mantém com a verdade"18. agora como 'governar-se' a si próprio". parti do 'problema' que ela podia constituir num certo contexto social. em Vigiar e punir. "O cuidado com a verdade". Ibid. Todos eles se direcionam a "problematizações". Um segundo eixo desses escritos está em certo ângulo a partir do qual os temas são abordados. finalmente. Primeiro. tratava-se em suma de saber como se 'governava' os loucos. ). o terceiro momento interroga o que habitualmente 17. Em um caso. todos os escritos são sustentados por uma mesma pergunta de fundo: "Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a pensar quando se percebe como louco (A história da loucura). F. in O Dossier . que o próprio Foucault faz questão de reconhecer. há. foi problematizada através de uma certa prática institucional e um certo aparelho de conhecimento. político e epistemológico: o problema que a loucura colocava para os outros. na cronologia. como se problematiza a atividade sexual?. E elas têm pelo menos dois eixos comuns. duas vias de acesso inversas em direção a uma mesma questão: como se forma uma 'experiência' onde estão ligadas a relação a si e aos outros"l? Com efeito. 18. Em outra passagem realça essas diferenças. EWALD. E conclui apontando para aproximações: "São. nos temas. em resumo. Eis ainda uma passagem em que esse eixo comum é explicitado: "Em A história da loucura a questão era saber como e porque a loucura.Mudanças. conduzindo à análise das práticas discursivas constitutivas dos saberes reconhecidos como verdadeiros.. o segundo interroga o que habitualmente se entende por "poder". quando reflete sobre si como ser vivo. já que por "problematização" deve-se entender "o conjunto de práticas discursivas ou não-discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e a constitui como objeto para o pensamento JJ21 . conduzindo à análise dos mecanismos de exercícios dos poderes relacionados à produção de saberes. 20. 75. 18 ! Foucault. M. simplesmente a trajetória de Michel Foucault l I 19 .

11. Basta evocar. 13. por exemplo. como se sabe. Educ. N. quer se lhe acentuem os momentos. O uso dos prazeres. Poderia receber ele formulações diversas. G. com algumas alterações. "o da verdade. São Paulo.que duvida do estabelecido.a que se pode chamar filosofia . a filosofia como critica da cultura I 21 . 22. ele descreve como exigências. do intelectual e que. Risumés de cours) como ainda os opúsculos Les sciences de l'hommeet la phénoménologie e Le métaphysique dans l'homme. in O Dossier . F. 129. Posteriormente. 26. é uma questão a que Merleau-Ponty dedica vários textos nos quais trata particularmente das relações entre a filosofia e as ciências humanas. M. in O Dossierúltimas entrevistas.. hoje. "ser capaz permanentemente de se desprender de si mesmo"26. ou trata-se. quer se lhe realce o conjunto. n.. Le philosophe et la sociologie. ou entre essência e experiência. assim expressas: "Conseguir pensar algo que não seja o que se pensava antes.27. foi republicado com o acréscimo de "Discussão" em Epistemologia das Ciências Sociais. o do poder e o da conduta individual"24. "O retorno da moral".. Série Cadernos pue. n. por isso mesmo. BOGus. ou ainda entre interioridade e exterioridade. comunicação apresentada no V Simpósio Nacional da Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF). em certas passagens. Foi publicado em Cadernos PUC. BARBEDElTE. B. 19. FOUCAULT. como se exprime o mesmo Foucault. e que constituiria a base do antagonismo ou da correlação entre o pensamento filosófico e a elaboração científica. "Michel Foucault". a reconstituição da trajetória desse pensamento. orgs. F. em novembro de 1981. Cf. 13. F. em Belo Horizonte. Ou pode-se. EWALD. lembremos um conhecido problema afrontado por Husserl e muitas vezes explorado por MerleauPonty. como indica um estudioso de Foucault.. 25. aproximações e diferenças compõem assim um tipo de pensamento . contrapondo dois pólos ou dois termos: trata-se do antagonismo ou da correlação entre idéia e fato. 23. São Paulo. Éloge de la philosophie. A. 27.).. de três campos ou continentes de reflexão. 81. todas elas. "Introdução". simplesmente 11 A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA Filosofia e/ou história?* A título de introdução. expõe a si próprio à mobilidade e dispõe-se constantemente a se recompor. Ne* Este texto reproduz.25.. conduzindo à análise da "constituição de si mesmo como sujeito"22. EducfCortez. que abala o habitual e que. 74. inversamente. in O Dossier. porém. C. 71..se entende por "sujeito". um mais marcadamente epistemológico. eSCALA. Esta. ou mesmo entre subjetividade e objetividade. por exemplo. de três ordens de problemas.últimas entrevistas. L.. M. O uso dos prazeres.. Cf. EWALD. 24. Semelhanças e dessemelhanças.. outro étic023 . Ibid. VERAS.últimas entrevistas. De todo modo. M. FOUCAULT. 20 I Foucault. outro político. "O cuidado com a verdade". enumerar os momentos dessa trajetória acent~ando as diferenças sem necessariamente perder suas conjunções: trata-se. (FAVARETIO. faz nela perceber a presença daqueles traços com que Foucault desenha o perfil. 1984. 1982. "pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê. "Introdução".

A idéia da "rivalidade" aparece igualmente em outros textos. pressupõem isolados entre si "o fato e o homem interior". que. M. in Sens et non-sens. resumir alguns aspectos de sua posição a respeito da filosofia e da história. é claro. in Éloge de la philosophie et au"tres essais. em que neste caso as relações não são tão sistemáticas a ponto de conduzir finalmente à anulação de uma sob o jugo da outra. Não há que escolher. 160. literalmente. 9. como que a predeterminá-I02 • Alternativas deste teor podem incorporar seja uma "ilusão retrospectiva". Assim. São Paulo. M. Merleau-Ponty atribuía assim certa inerência entre o trabalho do historiador e o do filósofo. "Le métaphysique dans l'homme". Não foi. 1960. 171. "desligada de todo interesse pelo fato". Paris. do que ela fala". MERLEAU-PONIT. Muchail. Por exemplo. M.61. "Le métaphysique dans l'homme". Interessa-nos. 46. a psicologia. a sociologia. assim como uma filosofia que sobrevoasse os fatos "só desembocaria em verdades formais.. 22 I Foucault. M. na trama histórica dos acontecimentos. "a história e o intemporal. Em contrapartida. a história. pode-se completar que só haverá filosofia se os sentidos ou as verdades que ela busca forem procurados no seio do devir. in Éloge. para introduzir nosso estudo. Uma história que se estreitasse a um relato empírico dos fatos sem buscar compreender-lhes a significação através do concurso da filosofia "não saberia. por um lado. mas ainda mutuamente indispensáveis. é nossa experiência de sujeitos situados. 113-114. "Le métaphysique dans l'homme". Nagel. 5.les.. 1965. trad. e sobretudo 6. simplesmente preensão de outras situações e de outras formações culturais. in Éloge de la philosophie et autres essais. Paris. "Máteriaux pour une théorie de l'histoire". por outro. MERLEAU-PONTY. 7. por exemplo. 43. 1968. elegendo. Merleau-Ponry afirmará que é precisamente pela nossa inerência a uma determinada situação. T.. que podemos realizar o movimento de comL MERLEAu-PONTY.. "Le philosophe et la sociologie". 171. pela nossa inserção numa cultura particular. o autot aborda aquela questão do ângulo das relações entre. in Résumés de cours (ColJege de France). Gallimard. a primeira nem a última vez que um pensador travou relações entre filosofia e história. se para Merleau-Poncy só "haverá história na medida em que houver uma lógica na contingência. uma razão na desrazão"9. cremos. 2. M. as ciências da linguagem. paradoxalmente. Merleau-Ponty rejeita certas alternativas que confundem ou falseiam O conceito de história e que fazem da filosofia e da história "tradições rivais"l.. a filosofia como critica da cultura I 23 . reduzindo os fatos à imediatez de seu presente sem qualquer abertura para o futur0 3 • Ademais. Cf MERLEAU-PONTY. 112. Em quase todos esses ensaios. ou bem o "mito da filosofia" ou bem a "idolatria da objetividade"5. MERLEAU-PONTY.. em "Le métaphysique dans l'homme". S. Ibid.43. ao contrário. 3. in Sensetnon-sens.. Ciências do homem e fenomenologia. in Sens et nonsens. Primeiramente. 8. que impede. Ciências do homem e fenomenologia. Paris.) Éloge de la philosophie. projetando as categorias de hoje na leitura do passado. M. 4. Mas a peculiaridade está. "Matériaux pour une théorie de l'histoire". história e filosofia serão não apenas solidárias. in Résumés des Cours. o único meio de acesso à compreensão de outras situações particulares com as quais podemos nos comunicar enquanto variantes da nossa6• Ou seja. Se nossa particularidade nos limita é também. seja uma "ilusão prospectiva". Nessa medida. a submissão da história à força de uma lógica todo-poderosa e atemporal e. inserem no curso das coisas uma lógica oculta". 45. entre uma filosofia que postula uma consciência fora do tempo..4. Gallimard. a sua redução a uma reunião de fatos circunstanciais e sem significação. ou em "Le philosophe et la sociologie". numa verdadeira "guerra fria". por um lado. Cf MERLEAU-PONTY. M. 56. 162.. e as '''filosofias da história'. em erros"s. isto é. a filosofia e. 1973. pela qual vivenciamos uma "co-existência histórica"?. Saraiva. retoma a questão desde onde Husserl a tinha levantado e a conduz na direção da superação do impasse. "Le philosophe et la sociologie". in Sens et non-sens. 69. in Éloge 137. MERLEAU-PONTY. por outro. Ibid.

Quando. Já no final da "Introdução" de A arqueologia do saber escrevera ele: "Não me perguntem quem sou e não me digam para permanecer o mesmo: isso é moral de estado civil. Por outro lado. 156. Rio de Janeiro. mais de uma vez. in Microfisica do poder. L'Archélogie du savoir. se for da verdade que me ocupo. 180. eu sou apesar de tudo filósofo". A partir destas considerações iniciais. 164. realçando porém que a questão da verdade que ele coloca é a de perscrutar "qual é sua história. o papel do historiador"14. É que esses e~ritos assumem um caráter por assim dizer flutuante.. Podemos dizer que Poucault escreve com segurança sobre suas próprias incertezas e toda vez que aborda o trajeto de sua produção é pata questionálo. in Microfisica do poder. FOUCAULT. a nosso ver. Não nos importa aqui reproduzi-las.'Eis o que penso'. por exemplo. 1969. quais são seus efeitos. buscando desenhar seus traços eventualmente inalteráveis ou circunscrever características invariáveis. a função mais modesta de "fornecer os instrumentos de análise". essencialmente. escreve: "Não quis dizer . ). em que sentido se poderia dizer que algo como uma crítica da cultura permeia esse trabalho. não será porém artificioso afirmar que os escritos de Poucault têm a ver com a história e têm a ver com a filosofia. de Roberto Machado. in Microfisica do poder. 14. durante uma entrevista. Salvaguardadas estas observações. ao que parece.28.. é executada nos escritos his- tórico-filosóficos de Michel Foucault. M. chama-o de "discurso hipotético" e.. 16. M.. Ele próprio parece situar a si mesmo em ambas. e org. in Microfisica do poder. que atesta uma evasão sadia em relação a todo dogmatismo.nem tão precisas que desfaçam certa ambigüidade a atravessar. M. "Sobre a geografia". Graal. de "jogo"ll. Noutra ocasião. incrod. E 10 FOUCAULT. ao referir-se às mudanças ocorridas desde algum tem11 FOUCAULT. parece abrir espaço para a possibilidade da eventual reunião das duas atividades numa mesma prática. na prática. FOUCAULT. M. ao contrário. Ou ainda. 239. o intercâmbio entre ambas. pois ainda não estou muito seguro quanto ao que formulei (.. in Microfisica do poder. lhe é perguntado por que 'historiador' e não 'filósofo"'. Questões dessa ordem são amplamente discutidas por estudiosos de Foucault. in Microfisica do poder. Não são poucas as vezes em que se refere a seu trabalho de historiador. 243. ). Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever"lO.. "Sobre a geografia".Corpo". Gallimard.13.15. hoje. quando.. é essa certa ambigüidade que. conclui dizendo ser "este. tentemos ver como o próprio Foucault compreende seu trabalho enquanto filosofia e enquanto história e. E num debate a propósito do primeiro volume da História da sexualidade. FOUCAULT. além de marcar uma postura fortemente anti dogmática. E é essa a prática que. 151.. sua resposta indica que a questão da filosofia hoje não deixa de ser igualmente uma questão de história: "é a questão deste presente que é o que somos. O que existe de incerto no que escrevi é certamente incerto (. após a observação de que "em muitos momentos você se definiu como historiador".. FOUCAULT. 12 Cf. como isso se entrelaça com as relações de poderJJ16 . "Soberania e disciplina". "Sobre a História da sexualidade". depois de a ele referir-se como um "livro-programa tipo queijo gruyere. justifica ter gostado de determinada entrevista pelo fato de ter mudado de opinião "entre o começo e o fim. Ora. mas acentuar o lado francamente positivo dessa "resistência" à classificação. Em outras passagens afirma o caráter parcial e ziguezagueante de suas investigações 12 . M.. 13 FOUCAULT. ela rege nossos papéis.. a filosofia como crítica da cultura I 25 . Paris. 15. já mais claramente afirmará: "E mesmo que eu diga que não sou filósofo. "Poder. M. em seguida. Noutra ainda. É sempre difícil tentar encaixar os escritos de Michel Foucault em classificações estabelecidas do saber... Simplesmente não estou certo quanto ao que escreverei nos próximos volumes". cheio de buracos para que neles possamos nos alojar". M. Ver também 259. 19'(9. 2'-1 j Foucault. "Não ao sexo rei". rejeitando ao intelectual o papel de "conselheiro" na militância política e designando-lhe.

19. quer encontrar "vestígios" que permitam traçar uma linha contínua. uma lógica escondida.. M. as "intenções" ou o "espírito" que os teriam inspirado20 .. de início. M. O segundo consiste em buscar "interpretar" os fatos no sentido de encontrar como que por detrás deles suas razões mais secretas. Ibid. a saber. Esses procedimentos têm em comum o uso da técnica que lhes é apropriada. uma direção única. quer no curso sucessivo do tempo (buscando detectar "gêneses. da dispersão. essas histórias salvaguardam a unidade soberana do sujeito. Foucault faz ver que a história do Ocidente "não é dissociável da maneira pela qual a 'verdade' é produzida e assinala seus efeitos". apontando assim em direção a um horizonte sempre longínquo e cada vez mais recuável) como por um método que procede pelo "recurso empírico ou psicológico" (isto é. esses procedimentos cunham a história com a marca unitária do contínuo e da sub}etividade. FOUCAULT. Ibid. de histórias "evolutivas" ou "progressivas". mediante a "decifração" dos textos. as linhas de sua origem. parentescos. FOUCAULT. uma "história global" é precisamente aquela que. os traços de uma história que Foucault não elabora. por meio deles. M. Cf. a filosofia como critica da cultura I 27 . Ainda mais. pois. nesses casos. 65. Ao se salvar a linha segura da continuidade histórica..). uma "história do espírito" é precisamente aquela que. simplesmente oculto" de que supostamente estariam carregadosr 9 . quer no âmbito interno de uma época (buscando captar seu espírito. 21. São próprios às histórias "do espírito" e às histórias "globais". 1972..59. Préface. quando recusa a elaboração da história tanto por um método que procede pelo "recurso histórico-transcendental" (isto é. por meio de todo acontecimento. in Microfúica do poder.. o tratamento dos textos na forma de "comentários". capazes que seriam de trazer à luz a suposta origem e o suposto segredo que o discurso explícito implicitamente conteria. 26 I Foucault. "Não ao sexo rei". assegurando a linearidade do progresso. influências"). como se os fatos fossem sempre uma espécie de "alegoria" a dizer outra coisa que não eles próprios!8. 1972. de modo uniforme e homogêneo. Mas que história e que verdade? Ou melhor. "consciência histórica" que se constitui em núcleo unificador ou centro originário capaz de reunir em si a explicação e. da multiplicidade. Eis. M. 21. É basicamente a esses mesmos recursos que também se refere noutro texto. a dissolução da heterogeneidade. 20. deixando claro que é seu propósito fazer "a história da 'verdade' . quer desvelar a "consciência". um "sentido 17. que quer encontrar. que filosofia e história se entrelaçam num mesmo trabalho que se pretende história da produção da "verdade". Naissance de la clinique.?JJ22. as multiplicidades e as transformações. que não pensam as "diferenças" mas "as continuidades ininterruptas JJ2 ! de uma teleologia segura. Mais ainda. PUF. O primeiro consiste em descrever uma história das idéias fundada em analogias estabelecidas pelo historiador. sua Weltanschauung etc..do poder próprio aos discursos aceitos como verdadeiros"!7. Paris. Trata-se sempre. Rio de Janeiro. que expliquem. 239-23l. de que tipo de história esse filósofo que se ocupa da verdade é hoje o historiador? Afastemos. de algum modo salvase ao mesmo tempo a consciência como seu eixo: "Querer fazer da análise histórica o discurso do contínuo e fazer da consciência humana o assunto originário de todo devi r e de toda prática são as duas faces de um mesmo sistema de pensament. 22. portanto. filiações. de toda manifestação histórica. FOUCAULT.po na escrita da história. Tempo Brasileiro) 28. FOUCAULT. Com efeito. na dispersão dos fatos e documentos. "Resposta a uma questão". 22. XIII. que quer "interpretar" as significações explícitas dos fatos objetivando fazer falar. Já no Prefácio a O nascimento da clínica (1963) aponta dois recursos tradicionais que rejeita e chama-os de "estético" e "psicológico". 18. L'Archélogie du savoir.

com as práticas e as instituições sociais. uma história geral desdobraria. Nesse uso. em suas transformações. Ibid. interdiscursivas. ao contrário. Ibid. disfarce. 19. dos discursos. o espaço de uma dispersão"26. M. espírito. jogo etc. M. "histórias gerais. 27.. FOUCAULT. cena. que por ser impensável devia ser suprimido e desintegrado mediante sua integração numa explicação continuísta. À prática desse procedimento Foucault chamou primeiramente "arqueologia" e posteriormente "genealogia". passa agora a ser "um dos elementos fundamentais da análise histórica"25. máscara. 28. 26. isto é. A história tradicional. M. não há por trás da trama histórica qualquer identidade pura de um sentido ou de uma essência. Ibid. Simplesmente história que nos permitiria nos reconhecermos em toda parte e dar a todos os deslocamentos passados a forma da reconciliação. contrapõe a genealogia compreendida como "história efetiva" (Wirkliche Historie) à história tradicional dos historiadores. as histórias que Foucault escreve são. ela recusa a identidade das origens e a segurança das teleologias: "A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profun- da do filósofo ao olhar de toupeira do cientista. buscam antes "detectar a incidência das interrupções"24. ela se opõe. de sorte que se antes a descontinuidade equivalia ao "impensável"... ao contrário. É interessante observar a freqüência no uso deste tipo de metáfora: carnaval.23 entendidas como descrição dos fatos em sua singularidade de acontecimentos. 34. FOVCAULT. ao contrário. significação. isto é. Cahiers pour l'analyse. Ela se opõe à pesquisa da 'origem"'31... I!. Ibid. enfim reduzida. as histórias que Foucault escreve desfocam a categoria da consciência e se voltam para as análises dos discursos considerados quer em suas correlações internas.princípio. "reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado imortal no homem". visão do mundo. in Microftsica do poder. Faz ver que esta última "reintroduz (e supõe sempre) o ponto de vista supra-histórico: uma história que reria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma a diversidade. Seuil.. teatro. todos os disfarces"29. forma de conjunto.28. 1968. como tantas máscaras sob as quais não há um rosto a ser desmascarado: "A genealogia é um carnaval organizado"30. reintroduz "o descontínuo em nosso próprio ser. nem histórias globais. FOUCAULT. A "história efetiva". em suas correlações. 17. Segundo. em seus desaparecimentos. uma história que lançaria sobre o que está atrás dela um olhar de fim de mundo. Recolhamos estes traços da história praticada por Foucault na seleção de algumas passagens em que ele explicita o perfil da genealogia. 30. do tempo. ela desvia o enfoque antropológico em direção aos discursos que compõem os saberes: "É isto que eu chamaria de genealogia. como ele mesmo as chama. Primeiro. 29. 28 I Foucault.m. todas as astúcias. 24.. ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. ao contrário.. uma 23. bastidores. quer em suas relações com o extradiscursivo. a genealogia e a história". a filosofia como crítica da cultura I 29 . Paris.. 25. em sua perseguição da origem (Ursprung). como o modo de seu uso. "Réponse au Cercle d'épistémologie". o que existe é precisamente a multiplicidade de fisionomias. a genealogia. Para a genealogia. 31. são histórias que.. pretende recuar ao reencontro de uma identidade enfim desvelada. reporta a Nietzsche não só o termo "genealogia". "Nietzsche. Ibid. cenário. 16. Concomitantemente.. 9. dos domí27. ibid. no lugar de uma teleologia da continuidade e do progresso. O deslocamento é explícito: "Uma descrição global encerra todos os fenômenos em torno de um centro único . considerando "acidentais todas as peripécias que puderam ter acontecido. 26. L'Archéologie du savoir. 10. essência única e sempre a mesma. uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes.Nem histórias do espírito. 17. Cf. Sem dúvida. isto é.

M. M. ou melhor elucidado do que o que se passou antes. Com efeito. teleologias. seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história"32. Terceiro. um tratado. com a questão da verdade significa aqui não ir em busca de uma essência a ser descoberta.. nem a uma mecânica. Ouçamo-lo mais uma vez: "Uma edição do Petit Larousse que acaba de sair diz: 'Foucault: um filósofo que funda sua teoria da história na descontinuidade'. aqueles que são reconhecidos como científicos e.nios de objeto etc. despida de origens. um reino. ). Digo que considero um mau método colocar o problema 'por que progredimos?'. a genealogia descreve uma história marcada pela descontinuidade dos acontecimentos. estas precipitações de evolução. os que compõem a região mais cambiante e imprecisa que é constituída pelos saberes das chamadas ciências humanas. forças que "no jogo da história não obedecem nem a uma destinação. enquanto filósofo. este ceticismo que impede que se suponha que tudo isto é melhor ou que é mais do que o passado (. estas mudanças bruscas. )"34. "Verdade e poder". 7.. FOUCAULT. sujeito constituinte e progresso evolutivo. Afinal.. é precisamente a eleição.. Meu problema não foi absolutamente dizer: viva a descontinuidade. FOUCAULT. mas colocar a questão: como é possível que se tenha. não se trata pura e simplesmente de efetuar substituições de algum modo arbitrárias: a continuidade pela descontinuidade. Ao contrário. ocupar-se. Foucault restringe a região de seus estudos: entre os discursos. longe de ser inocente. in Microfisica do poder. acaso do jogo que "não é simples sorteio". Por um lado. estas transformações que não correspondem à imagem tranqüila e continuísta que normalmente se faz? Mas o importante em tais mudanças não é se serão rápidas ou de grande amplitude. a filosofia como crítica da cultura j 31 . Essa escolha é. ela não está preocupada com o "progresso": "Tenho esta precaução de método. a uniformidade pela dispersão. esta rapidez e esta amplitude são apenas o sinal de outras coisas: uma modificação nas regras de formação dos enunciados aceitos como cientificamente verdadeiros"35. nem de trocar o núcleo "consciência" por outro chamado "discursos". 28. sem dúvida. funciona como uma "estratégia" porque calcada num comprometimento crítico com pretensões a uma eficácia política. e daí à compreensão do que chamamos seu comprometimento crítico com a cultura. FOUCAULT. in Microftsica do poder. "Nierzsche. Finalmente. mas uma relação de forças". "não uma decisão. sem ter que se referir a um sujeito. mas ao acaso da luta".. O problema é 'como isto se passa?'. 30 ! Foucault. estamos nela e nela ficamos.. ou uma batalha... FOUCAULT. ao aqui e agora. ou melhor. uma estratégia. Isto é. Isto me deixa pasmado (. Ora. entendendo-se por "acontecimento".. ). 3-4. mas antes "risco sempre renovado (. 34.. em certos momentos e em certas ordens do saber. por que tantas "inversões"? Com efeito. entre estes. in Microfisica do poder. daquilo que é aceito "como cientificamente verdadeiro" que nos encaminha à abordagem dos vínculos dessa história com a questão da verdade enquanto assunto da filosofia. a linearidade pela diferença. simplesmente conferida ao entendimento e à escrita da história. 140. este ceticismo radical mas sem agressividade que se dá por princípio não tomar o ponto em que nos encontramos por final de um progresso que nos caberia reconstituir com precisão na história.33. M. ou mais elaborado. essa orientação 32. 33. E não digo que a humanidade não progrida. a nosso presente. para domínio da investigação histórica. ter em relação a nós mesmos. E essa estratégia se aloja no ponto de cruzamento entre a questão da verdade e os mecanismos do poder. "Sobre a prisão". Mas a prática deste procedimento na escrita da história não é também movida ao acaso de um capricho. in Microfoica do poder. ao privilegiar os acontecimentos discursivos como campo de análise.. E o que se passa agora não é forçosamente melhor. ao que somos. seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos. "Verdade e poder".. M. a genealogia e a história". mas descrever e 35.

daquele estabelecimento do jogo de regras . FOUCAULT. Ibid. Assim. como o permitido e o interditado."42 Mais ainda: lembremos que enquanto a arqueologia pretendia realçar principalmente as epistémes) isto é. precisamente. in Microfísica do poder. saberes abaixo do nível da cientificidade" (por exemplo. o nível das 40. "A genealogia seria portanto. é aliada da recuperação de saberes considerados "ingênuos. o correto e o errado. 39.. M. 171. 32 I Foucault. de sujeitos. FOUCAULT. revelando os mecanismos correlatos de exclusão. por seu turno. é desses saberes que tratará a genealogia. posto que em nossas sociedades ocidentais são os discursos reconhecidos como científicos os que compõem os saberes aceitos como verdadeiros. de instituições. M.). a filosofia como critica da cultura I 33 . o saber acarreta efeitos de poder"36. FOUCAULT. com a questão da verdade encarada segundo seus modos históricos de produção é ocupar-se também do vínculo circular que ela mantém com os modos de exercício do poder: "o exercício do poder cria perpetuamente saber e.37 Ora. in Microfísica do poder. dissociando assim o sujeito do conhecimento que "possui a verdade" de seus "objetos" que "nada sabem".regras que são transformáveis de uma sociedade para outra. FOUCAULT. in Microfísica do poder. FOUCAULT. faz emergir. num trabalho que exige paciência e erudição. a genealogia pretende constituir-se em foco de crítica e em instrumento de resistência. do enfermeiro. conteúdos históricos que foram subestimados ou silenciados pelo saber "qualificado" das histórias tradicionais: mostra. atribuindo ao sujeito detentor do conhecimento sobre o homem a "competência" que autoriza o domínio de seus "objetos". mutuamente se produzem e se reproduzem. ocupar-se. 172. do doente. por exemplo. in Microfisica do poder. descreve. e ao mesmo tempo. mediados pela verdade. 179. Por outro lado. isto é. de que modo a pretensão ao estatuto científico dos saberes sobre o homem lhes imprime as marcas do exercício do poder. "Sobre a prisão". enquanto filósofo. 42.) "Genealogia e poder". de enclausuramento e de redução ao silêncio. "Verdade e poder"... l. recuperar. para a produção de saberes reconhecíveis como verdadeiros. E isso duplamente. in Microfísica do poder. torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico. a história da Desrazão e do Outro. "Sobre a geografia". por ser "pouco definido"38. Simplesmente Nesse sentido pois. unitário. pela análise do nascimento das prisões..)". pontos de confronto. inversamente. por um lado.. que tipo de poder é capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos?. tensões"39. hierarquicamente inferiores. é sobre ela que vai particularmente recair a invesrlgação. conteúdos históricos que evidenciam o poder na forma da disciplina etc. com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na hierarquia de poderes próprios à ciência. E posto que é a região das chamadas ciências humanas a que melhor ou mais claramente permite fazer ver aquele entrelaçamento entre regime de verdade e regime de poder. do delinqüente etc. 36. "Soberania e disciplina". 154. Eis a pergunta de "filosofia política" que Foucault se coloca: "Em uma sociedade como a nossa. na medida em que ela envolve saberes cujo "perfil epistemológico". Quer propor "um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais. M. o normal e o patológico etc. podemos dizer que.analisar os modos como a "verdade" vem sendo historicamente produzida. Ibid. em face das histórias da Razão e do mesmo.40. os direitos de uso do poder (em seu nome se distingue não só o verdadeiro e o falso. 41. 38. ocupando-se da análise das relações entre saber e poder que.. se a "verdade" é "efeito" do poder das regras segundo as quais determinados saberes têm a competência para a verdade. Por outro lado. formal e científico. abriga "combates... trata-se. linhas de força. de uma época para a outra . Busca. M. 37. 170. 142. M. essa competência lhes atribui.que autoriza a qualificação de objetos. um empreendimento para libertar a sujeição dos saberes históricos.

. aquela simultaneidade entre 46. Merleau-Ponty recusava igualmente tanto a ininteligibilidade da história como as pretensões "de uma História Universal inteiramente desdobrada diante do historiador como o seria sob o olhar de Deus. falar.276. sem entrarmos na pluralidade possível de acepções que podem ser cobertas pelo termo "cultura". ele próprio. E. pelo menos. construir uma teoria ou se constituir como sistema: o programa que elas formulam é o de realizar análises fragmentárias e transformáveis. da cultura "qualificada". Ver também. portanto. Do mesmo teor. finalmente. nem. in Microfísica . habilitado para o poder. principalmente "Verdade e poder". M.. Paris. in Microfisica do poder. sobretudo. a crítica tem um caráter local e específico 46 • Em oposição ao teórico "legislador". contudo. "Genealogia e poder". de um modo tão geral quanto simples. numa passagem de Vigiar e punir: "O sistema carceral reúne numa mesma figura discursos e arquiteturas. partícipe da "história" e da "cultura". in Sens et non·sens 158. 11. "Os intelectuais e o poder".. esse trab~lho filosófico de constituição de 43.'TY. alguns aspectos que apontávamos em nossas primeiras considerações em torno de Merleau-Ponty.correlações interdiscursivas. em oposição às teorias gerais e globalizantes. ao estabelecer a história da constituição dos saberes explicitando seu vínculo com exercícios do poder. na prática. Préface. pressupunha. além de avessas a qualquer aspiração de universalidade.. Assim. 59. como o saber disciplinar trazia consigo o modelo da prisão. XIII. 47. Les Mots et les choses.. Cf. FOUCAULT. exigia a reclu- são asilar.por ele chamada de "dispositivo" . 1975. Gallimard. menos ainda. 34 I Foucau!t. "Neste sentido"..que envolve tanto as inter-relações dos saberes como suas articulações com as práticas institucionais. 45. nem nos diferentes ângulos sob os quais pode ser abordado e."48 Essa mobilidade que é constitutiva da postura mesma das investigações de Foucault vem confirmar aquela distância de quaisquer dogmatismos a que inicialmente nos referíamos. a medicina de Bichat o espaço do Hospital e a economia política a estrutura da fábrica"44.45. 44.. nas muitas questões que suscita. por exemplo. .. M. Cf. Daí o cuidado insistente de Fou- caulr em não se vir a rransformar a análise realizada pelas genealogias em outro saber centralizador ou monopolizador da "verdade" e. E permite que reencontremos. a genealogia têm por objetivo fundar uma ciência. As histórias que Foucault escreve. bem como das relações entre ambas.. in Microfísica do poder. o conjunto de saberes teóricos e de práticas sociais que compõem o quadro em que se move uma determinada sociedade e cujos limites lhe demarcam as possibilidades de "nomear. MACHADO R. "Introdução". escreve Roberto Machado. M. E pelo menos dois aspectos. "Le métaphysique dans l'homme". FOUCAULT. Paris.43.. MERLEAU-POl\. a genealogia se dirige não somente ou sobretudo aos discursos. FOUCAULT. poderíamos considerar "cultura". É aliás numa concepção assim bem ampla que o termo é freqüentemente usado neste Prefácio. Foucault sonha "com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades"47. M. 49. Recusando a alternativa entre uma história atravessada por um sentido teleológico e uma história desprovida de sentido porque concebida como um conglomerado de fatos. J a filosofia como crítica da cultura I 35 . «nem a arqueologia.49. não há que se esquecer que. regulamentos coercitivos e proposições científicas . "Sobre a geografia". 242. Ora.. Entende-se assim que. 16l. Gallimard. assumem.. Foucault não rejeita a afirmação que lhe é dirigida por um entrevistador: "Você mostrou como o saber psiquiátrico trazia consigo. Surveiller et punir. pensar. (saber". como ainda a suas relações com as estruturas sociais. a respeito da filosofia e da história. a genealogia os considera como peças nas tramas de uma rede . simplesmente um "saber histórico das lutas" é. Éloge . . essa crítica da cultura. 1966. "Não ao sexo rei".. 48. É nesse sentido que não nos parece abusivo reconhecer nos trabalhos históricofilosóficos de Foucaulr algo a que poderíamos chamar uma crítica da cultura ou. Lê-se. in Microfísica do poder..

e justamente por isso é também visado por seu mesmo olhar crítico. partindo de uma ilustração que está nas primeiras . pois. o mesmo e o outro j 37 .o incontrolável de sua paixão". M. 52. M. MERLEAu-PONTY. agora. o partido que eles tomam . o momento em que eles estão. e tanto quanto possível. M. há que se dispor. "Verdade e poder". in Microfísica do poder. a genealogia e a história". mas segundo a inteligibilidade das lutas. Conferência apresentada na VII Semana de Estudos em Filosofia da Universidade Metodista de Piracicaba. 13. Foucault faz filosofia fazendo pesquisa histórica. por propô-la. Piracicaba. na medida do possível. in Microfoica do poder. 36 I Foucault. Por ser "perspectivo". conduzindo este aparente paradoxo a uma nova direção: "A história não tem 'sentido'. é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes.. ao contrário. com o propósito deliberado de apreciar. já o "saber perspectivo". das táticas"50. FOUCAULT.. M. Simplesmente 111 O MESMO E O OUTRO Faces da história da loucura* De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não. apagar o que pode revelar. porém. ele próprio. de um conhecimento sem ponto de vista. É possível sugerir que a questão que. mas a olha de dentro dela. genericamente. 30. "Saber perspectivo". e se saber assim. afirmando que é pela inerência a uma situação histórica particular que podemos compreender a significação de outras situações que compõem a trama da história. 50. Publicaclaem Foucault e a destruição das evidências (MARlGUELA. "olha de um determinado ângulo. de dizer sim ou não". nem "ilusão retrospectiva". em seu saber. FOUCAULT. As histórias que escreve desenvolvem-se no espaço do Ocidente. nem "ilusão prospectiva". 51. é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. Segundo.. elaborado a partir da cultura que o torna possível..a ausência de um sentido único e a presença de inteligibilidade. "Nieczsche. Unimep.. o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida nos quais a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa. o uso dos prazeres. podemos denominar "do outro e do mesmo" se estenda como um pano de fundo dessas histórias. FOUCA..). das estratégias. e perceber diferentemente do que se vê. Merleau-Ponty se opunha ('ao ideal de um espectador absoluto. 5.. "é um olhar que sabe tanto de onde olha como o que olha"52. o lugar de onde eles olham. eis como Foucault (na descrição da genealogia nietzschiana) caracteriza a história: os historiadores que perseguem a neutra objetividade de uma consciência isenta e soberana "procuram. e o tempo que percorrem é quase sempre aquele que vai desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). 1995. olha-a criticamente. "Le philosophe et la sociologie". se provoca deslocamentos. de certa maneira. org. in Éloge. Afinal.uLT. Comecemos. atravessando com realce a chamada Idade Clássica (séculos XVII e XVIII). em agosto de 1994. e conseqüentemente. Ao contrário. . 136.. o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. "sabe que é perspectivo". de sorte que. M. a deslocar-se.51.

Gallimard. n) que de longe parecem moscasJ1 1.que. nomeável.. espaço que torna possível nomeá-las. Ibid. b) embalsamados. dizê-las. Ora. f) fabulosos. de Janeiro. a descrição da experiência da loucura durante o período renascentista ocupa não mais que as 55 páginas do capítulo inicial. simplesmente não é. supostamente extraída de uma enciclopédia chinesa. c) domesticados. pensar" podem ser analisadas em torno de três termos: ordem) lugar.. aquilo que a circunda por fora e lhe escapa. ainda que meramente alfabética: "O absurdo arruína o e (ordem) da enumeração. Segundo esta classificação. Graal. "Arqueologia da percepção". simultaneamente. porém (para reduzir-lhe a alteridade)"6. m) que acabam de quebrar a bilha..es mots et les choses. marcando de impossibilidade o em (lugar) onde se repartem as coisas enumeradas"3. 3. antes. pode-se também entender o "outro" em seu sentido estrito: aquilo que. 7. Assim. há uma ordem que.cuja vertente institucional é o Hospital Geral . I. a partir daí. Ibid. R. Com efeito. porém. A estranheza da ordem está em sua articulação com a ausência de lugar capaz de permitir a reunião das classes e sua ordenação. por assim dizer. in O homem e o discurso (A arqueologia de Michel Foucault). diferença que lhe é inclusa. 10. 57-95). Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Michel Foucault. É nesse sentido que a História da loucura é uma história do "outro": história daquilo que pertence à nossa cultura . parecem impossíveis de "nomear. para nós. é esta ordem que ali parece não "caber". dizível portanto -. falar. alguns aspectos dessa história7 • No conjunto do livro.. aquela classificação de animais 1. estranho e exterior. repousa sobre outro espaço: "A China .. Estranheza. a possibilidade e a impossibilidade de "nomear. "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador.. 38 I Foucau!t.pensável... h) incluídos na presente classificação. dependem de um espaço homogêneo e comum dentro do qual somente ou sobre o qual as coisas possam ser localizáveis e ordenáveis. justamente. a saber.páginas do Prefácio de As palavras e as coisas. 11. não é justamente o lugar privilegiado do espaço?JJ5 Eis o "outro" em seu sentido mais amplo: limite de pensamento e de linguagem para uma cultura. Trara-se da reromada de uma classificação dos animais. Esta classificação reúne de modo incongruente categorias sem nexo que. a ser. de dentro dos quadros de uma cultura. substancial e minuciosamente. se dedicam as mais de 600 páginas do livro em suas três partes (as duas primeiras ocupando-se da Idade Clássica e a terceira da nossa Modernidade).e à experiência moderna . FOUCAULT. P. Mas. e) sereias. para nós. 9. Ibid. parece vincular a seqüência das classes nela reunidas. Ordem e lugar. "ausente" de espaço. É à experiência clássica . M.. i) que se agitam como loucos. "Préface".cuja vertente institucional é o Asilo . g) cães em liberdade. 1982 (cf. naquela classificação. Afinal.. pensar. falar. precisamente porque ameaçador. excluído (para conjurar-lhe o perigo interior). espaço. S. simultaneamente interna e estrangeira. Rio. Nas pretensões reduzidas desta exposição 5. 8.2. j) inumeráveis. a nós. 15. Tempo Brasileiro. 6. porém. história "daquilo que para uma cultura é ao mesmo tempo interior e estranho. desse em (lugar) e desse sobre (espaço) que instaura. Também ROUANET. Nossa exposição pretende tão-somente retraçar. 7. k) desenhados com um pincel fino de pêlo de camelo. Borges. 1971. 4. Para uma reconstituição mais completa do livro. Ibid. 1966. a série alfabética. 2. o mesmo e o outro I 39 . é a justaposição desse e (ordem). Rio de Janeiro. Paris. "A gramática do homicídio". encerrando-o. citada por Jorge L. leia-se MACHADO. Mas. pensá-las. mas constantemente ameaçado de submissão aos critérios do "mesmo". d) leitões. Ibid... a estranheza dessa classificação 4 . I) et cetera. em resumo. portanto. a limita por dentro.

9. Ib. nos limiares do Renascimento (por volta dos fins do século XIV). Ib..d.. os loucos vagavam. o gesto ritual da cisão. 13.d. 15. 16. uma espécie de testemunho do mal ao mesmo tempo que de sua expiação. por exemplo. 16.. isto é. ••• Leprosários e navios Ao término da Idade Média. "tipos sociais" cuja viagem simbolizava seu "destino" ou sua "verdade"I3. reclusão e salvação serão transpostas. Com efeito. 18. estão vinculados à instituição do leprosário e ao personagem do leproso vão persistir. Por motivos análogos.pincelar algumas faces ou facetas da história desse "outro" que é a loucura no Ocidente -. Ib. "modelos éticos". rito que segregava e. assumirá. Era freqüente nas composições literárias e pictóricas do Renascimento a imagem de navios que transportavam "heróis imaginários". cerca de dois séculos mais tarde (por volta da segunda metade do século XVII e no século XVIII).. M. assim. gesto que excluía e.. ela ocupará outra posição. Ia. antes por força da segregação dos leprosos (e. do contato com focos de infecção do Oriente).d. portanto. antes. esse "gesto que expulsa" está próximo do "rito. FOUCAULT. 40 I Foucault. Era. Água e navegação cumprem. porém. Antes disso. peregrinos ou marinheiros. a Nau dos principes e das batalhas de nobreza. segregação e sacralidade. 16. a loucura. a abordagem da Idade Clássica e da Modernidade será apenas pautada em algumas passagens em que o próprio Foucault fornece descrições mais amplas desses dois momentos. no decurso de uma longa sucessão histórica. séculos mais tarde. o papel de manter o louco como "prisioneiro em meio à mais livre e mais aberta das rotas: solidame~te preso 12. a ser "suprimida" e "curada".. os "valores" e as "imagens"lO. Mas. Gallimard. ou seja. pois. Ib. entregues a mercadores. a lepra não era experimentada como "assunto médico".9. uma espécie de papel de herdeira da lepra!'. começa o esvaziamento daquelas casas de "exclusão" e "purificação"s que se haviam multiplicado às portas das cidades medievais: os leprosários. simultaneamente. A lepra regride. purificava: "O pecador que abandona o leproso à sua porta abre-lhe a salvação. a Nau das damas virtuosas.d. em meio a essa onda literária e pictórica. escolhemos tratar os três períodos em proporções diversas às do livro.d. e evitando o risco de um resumo por demais empobrecedor. Assim. as "estruturas" e as "formas"ll que.. exclusão e purificação. 14. na chamada Idade Clássica. Por isso mesmo. Requeria..muitas vezes nos mesmos lugares que antes abrigavam os leprosos . de certo modo. Paris. 1972. 2 a ed. ou melhor. 11. o louco. A lepra regride. 13. 19. o mesmo e o outro I 41 . Ib. como também a Nau dos loucos. Porém. De fato. no intermédio entre o final da Idade Média e o início da Idade Clássica.15. Para Foucault.d. a figura da nau carrega o simbolismo da água que purifica e da navegação que é passagem.. numa sucessão histórica longa. 19. no chamado período renascentista (por volta dos séculos XV a XVII).. 15. a Nau dos loucos guardava uma singular peculiaridade: a de existir realmente. Entre eles. do contágio) e do final das Cruzadas (e.d. a recomposição dessas "facetas" será organizada em dois tópicos ou subi tens. expulsos das cidades. Assim. Historie de la falie à l'âge classique. simultaneamente. du8. circulará sem posição fixa. Simplesmente rante a Idade Média. numa existência "errante"14. portanto. não como resultado de práticas médicas. Ib. Contudo. os leprosários se esvaziam. para outras instituições .e para outros personagens. títulos de obras literárias incluíam.. Ib. sacralizava.

Bosch. Montaigne. simplesmente Hospitais e asilos No começo do século XVII a loucura adentrou os muros da cidade. mas como mal e fraqueza humanos. Artaud. Entre as expressões pictóricas incluem-se obras de]. a presunção dos sábios (O Elogio da loucura.. que transparece sobretudo nas composições literárias e filosóficas. "na ronda de loucos.. M. humano-animalescas. FOUCAULT. a predominância do saber crítico sobre o trágico. do Hospital ao Asilo. Não mais. porém. A ironia crítica.). 20. por exemplo. o prisioneiro da Passagem.. prioritária no texto. a avareza dos ricos. internalizada. de Erasmo. observa Foucault. mas a loucura é excluída. Sade são alguns exemplos desses pressentimentos e testemunhos). 53. entre as expressões lingüísticas. Ibid. não mais como detentora dos segredos ocultos do cosmos. filósofos. 42 1 Foucault. Mas. t:. voltada para a racionalidade e a moralidade 16. O mastro da Nau dos Loucos de]. isto é. a loucura aparece como motivo de sátira ou de escárnio. num deslocamento que vai da Nau ao Hospital. e Montaigne sugere que loucura é fiar-se apenas na razão ls . reserva. 22. 34. com Montaigne. 18. o trágico da loucura subsistirá na obscuridade. Retida e mantida. malgrado o predomínio cada vez maior do racional.à infinita encruzilhada.. assinala o fim da experiência renascentista. A ambigüidade dessa simbologia corresponde à ambigüidade da experiência renascentista da loucura.""" L __ ":iJt" I 43 '. 22. simbolizadas pictórica e literariamente. na palavra. torna-se "familiar" em um mundo que lhe é "estranhamente hospitaleiro"20. como que "às escondidas" e "em vigí- lidade presente no coração do homem. no curso da história. de onde nascem a ambição dos políticos. irônico e moral. Bosch é a figura da árvore: árvore proibida da sabedoria à qual só os loucos têm acesso.. no verbo. que mostram a bestia- humanas. no meio das coisas e das pessoas. mas. a presença subterrânea do trágico será pressentida e testemunhada como que em erupções esporádicas (Nietzsche. obras de Brant. O "fascínio do trágico" transparece sobretudo nas imagens pictóricas: são figuras fantásticas. 54-55. teólogos etc. um largo lugar para homens de saber" . os caminhos que conduzirão à experiência moderna da loucura. Bosch. no texto. 21.. em Descartes são incorporados os erros dos sentidos e a ilusão dos sonhos. Erasmo. uma experiência que envolvia duas vertentes simultâneas: um lado trágico. jurisconsultos. lia". Historie de la folie . essa ocultação jamais abolirá inteiramente a experiência do trágico: "esse desaparecimento não é uma derrocada"l9. um lado crítico. abrindo o limiar da Idade Clássica e. Goya.. solidamente. escritores. Não mais vagará: "Ei-la amarrada. Van Gogh. impregnadas de um saber hermético que anuncia a ameaça da desordem e do fim do mundo e ao qual só os loucos têm acesso.gramáticos.' '. 17. poetas. a crítica à presunção da razão. na palavra: ali. os dois pólos se distanciam e o elemento crítico ganha relevo sobre o trágico. como que "nas noites dos pensamentos e dos sonhos". marcando o domínio da razão sobre a loucura. Sem dúvida. a partir dela. mas hospital"21. Nos séculos seguintes e até hoje. Ibid. com Descartes. Ao mesmo tempo. Enquanto em Montaigne a loucura é incorporada ao caminho que conduz à verdade. o banimento da loucura do caminho que conduz à certeza22 • A 19. Gradativamente. ocupa cada vez mais o primeiro plano na experiência da loucura. no verbo. mas é também árvore "moral" do bem e do mal. .16. fascinante e cósmico.. Ele é o Passageiro por excelência. Ibid. de tal modo que. Ibid.l? As duas vertentes da experiência renascentista da loucura. certamente se entrecruzam: há temas morais nos quadros de]. Brueghel. Dürer. Não mais nau.39.' . deixando na sombra o silêncio verbal e fascinante das imagens trágicas carregadas de forças cósmicas. a "ironia da crítica". o mesmo e o outro .

libertinos. desrazão que. o classicismo formava uma experiência mo24. de dentro dele. as liberdades do pensamento e do coração. Os "novos personagens" que ocupam esses estabelecimentoS são apresentados em diversas passagens e em listagens mais ou menos longas.. a Salpêtriere. "homens de des- razão"24. muitas delas estabelecidas nos antigos leprosários. 23. entre outros. prostitutas. devassos. cabeças alienadas. ou a Bicêtre. ser "separada" como objeto possível de conhecimento.. os traços que marcavam os diferentes grupos com que até então se avizinhava. agrupava em uma única administração estabelecimentos já existentes com fins diversificados (como. enfim. mais pressentida que percebida. Como em Paris. blasfemadores. alquimistas. que eram "portadores do visível brasão do mal". morais. cuja expressão institucional foi o internamento. numa esfera que será não mais da desrazão. para os tempos da Modernidade. podem ser assim identificados: pobres. os hóspedes do Hospital Geral são instalados. Diferentemente dos viajantes das naus renascentistas. na Alemanha. simplEsmente suicidas. se transmutará em doença mental. que colocara a distância. II 7.. O gesto que interna não é mais simples: ele também tem significações políticas. na Inglaterra. porém. os Hospitais Gerais. pais dissipadores. na Modernidade. "individualizada". transportando consigo. Com base nessas várias referências. as proibições sexuais. que a loucura poderá. É porque já "distanciada". Numa palavra. ainda que incluíssem visitas médicas em seu sistema de funcionamento. não tinham propósito terapêutico: "O classicismo inventou o internamento um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos. v~gabundos. localizados. Ibid. por exemplo. os "novos proscritos da Idade Clássica carregam os estigmas mais secretos da desrazão"25.>23. Diferentemente dos leprosos da Idade Média. desem- pregados. portadores de doenças venéreas. 26. 25. jovens que perturbam o repouso da família ou dilapidam seus bens. o lugar deixado vazio por estes foi ocupado por personagens novos no mundo europeu: são os 'internados'. E. as interdições religiosas. O leprosário não tinha um sentido apenas médico. o mesmo e o outro I 4S . 1I9. por decreto real sob Luís XIV. pretensas feiticeiras e. Ibid. que segregara. muitas outras funções eram desempenhadas neste gesto de banimento que abria espaços malditos. tornados "presença concreta" no horizonte de uma «realidade social" que demarca explicitamente a cisura entre a razão e a desrazã0 26 • É lá. antes destinada a recolher inválidos de guerra). isto é. enfermos. nesse espaço aberto pelo classicismo. espíritos transtornados . A designação posterior e moderna da loucura como alienação e depois como doença mental não será o resultado direto de uma espécie de progresso do conhecimento. Demarcada por oposição à razão. No século XVII são fundados os Hospitais Gerais que constituem a estrutura visível e a forma institucional da cisão entre razão e desrazão. que "alienara" a desrazão.. Ibid. "asilada". econômicas. 64. Ibid. filhos ingratos. que antes abrigava um arsenal. pródigos. O Hospital Geral de Paris. Sua condição de possibilidade encontra-se lá. séculos mais tarde. insensatos. ao lado da loucura. que data de 1656. que vagando por toda parte eram uma presença igualmente "vaga". são fundadas instituições para o internamento. que a loucura será mais tarde "destacada". mas da alienação e da doença mental: "anexando ao domínio da desrazão. correcionários. é lá.desordem irracional do trágico submete-se à ordem do racional. homossexuais.. "isolada" e. naquele gesto que produzira a alienação. mágicos. já segregada. religiosas. 117. a loucura é transformada em desrazão. assim como os leprosários. 44 I Foucault. sociais.. também. em toda a França.

de respon27. sobre o solo da experiência classicista da loucura. inclusive do ponto de vista cronológico.. Ora. polícia) e o louco tinha o estatuto de "sujeito social") perturbador da ordem. ela passou pelo internamento do período classicista.que os deixarão. 119. antes "justapostas". as decisões procediam de julgamentos médicos e o louco tinha um estatuto de "sujeito juridicamente incapaZ. além dos Hospitais Gerais.entre a Idade Média e o Renascimento até a nossa Modernidade. Com efeito. não foi avanço rumo à Modernidade. não se pode pretender simplesmente que a loucura será um dia tornada "objeto" de conhecimento por ter sido. mas em seu exílio e em seu silêncio: "Não é importante para a nossa cultura que a desrazão só tenha podido tomar-se objeto de conhecimento na medida em que previamente foi objeto de ex-comunicação?"29. 33. onde. Ibid. Ibid. uma leitura histórica simplista veria na hospitalização comum os indícios de uma espécie de progresso rumo à Modernidade. com "as vizinhanças da culpabilidade. ainda que vagamente.. e não o inverso. escreve Foucault.. o mesmo e o outro I 47 ..30) eximido. por essa dessacralização. comprometido. "encontrarão os loucos. Essa leitura simples seria plausível se Os fatos fossem simples. 32. Assim. se internavam loucos com perspectivas de tratamento e de cura. liberada das "velhas participações religiosas e éticas em que a Idade Média a tomava. em que as perspectivas eram antes de correção) castigo e repressão. calcada na repartição entre razão e desrazão e misturando indiscriminadamente os insensatos aos demais grupos "associais" .. ela inverte-lhes a ordem e a prioridade. Ibid. se reconheceria na loucura a doença. lbid. porque só alcançada no propósito inicial de uma condenação"27. Nas casas de internamento. da Idade Clássica foi justamente a transposição dos loucos das casas de cura para as casas de correção. é lá . e o internamento não consistiu numa forma possível de "conhecimento" da loucura. não sem antes se vangloriarem de os ter libertado"32.. Ibid. Bethlém em Londres. 28. sua essência imutável. 34.. de modo que a experiência mais ampla e relevante da loucura foi seu internamento não Como procedimento médico. "Ê entre os muros do internamento que Pinel e a psiquiatria do século XIX". as decisões competiam às autoridades sociais (magistrados. mas como prática social. que. 147. Antes de se tornar ~'objeto" de conhecimento e ser configurada como patologia. Ibid.31. sua verdade de sempre. portanto. É que. 121.33. 29. 144. perfaz ele uma aparência de neutralidade que já é comprometida. então. 119.ral da desrazão que serve. consistirá numa espécie de junção entre suas duas vertentes. diferentemente das casas de internamento.. mas o resíduo ainda de uma percepção medieval e renascentista em que a individualidade do louco era de algum modo reconhecida. simplesmente sabilidades sociais. no fundo. serão depois "superpostas. por exemplo).não o esqueçamos . embora em número extremamente menor.. durante a Idade Clássica. Ibid. quando. Nos hospitais comuns. na verdade. bispos. pois. A hospitalização individualizada do louco nos hospitais comuns. 31. Em outras palavras: o "alienado" será reconhecido simultaneamente como "incapaz e como louco"34. 146. 146.a experiência clássica da loucura não foi uniforme.. 59. no caminho desse percurso histórico é possível compreender como a transformação que se operará a partir do final do século XVIII e do início do século XIX. 30. I Foucault. Uma leitura histórica simplista e linear poderia talvez prevalecer-se do fato de que durante esses 150 anos . havia também hospitais comuns (Hôtel-Dieu em Paris. então. 46 Ibid.. Por esse distanciamento. O fato "novo"..2B. de solo para o nosso conhecimento 'científico' da doença mental.

Esta suposição está sugerida. 35. Publicada em Cadernos PUC. ERIBON. Ibid. Retomamos aqui um comentário do livro de ERIBON. consubstanciado numa verdade essencial cuja identidade é sempre a mesma.. em seu todo. EducjCorcez.. 1982.denominar-se-á "doença mental" essa união entre o fato de uma incapacidade jurídica do indivíduo e o fato de um distúrbio que afeta a vida social. lI8 I Foucault. e que aborda.. FOUCAULT. a transformação do "internamento em ato terapêutico"35. 1990. Para concluir. em maio de 1981. Les Mots et les choses. simolesmente * Comunicação apresentada por ocasião da "Semana de Educação". Michel Pou· cault: uma biografia. educação e saber soberano I lI9 . Companhia das Letras. talvez. op. reciprocamente. 1. Cf. H. ou. Como cenário de nossas considerações escolhemos algumas passagens de As palavras e as coisas 1 cuja retomada constituirá o primeiro momento da exposição. 36. nos séculos XIX e XX. E sua história a mostra como tantas faces que figuram o "outro" no interior do "mesmo". Em palavras simples: '''a loucura não é um fato da natureza' mas um fato da civilização"36. 102-103. tentaremos num segundo momento realçar alguns aspectos dos papéis desempenhados pelas ciências humanas em geral e pela ciência da educação em particular. que. podemos compreender que a loucura não seja um "objeto" uniforme. finalmente. cujas verdades são historicamente produzidas e variadas. lembramos que As palavras e as coisas.. 13. 119. percorre uma trajetória histórica que começa no fim do Renascimen- to (por volta do século XVI). D. e na frase de Pascal que escolhera para iniciá-lo: "Os homens são tão necessariamente loucos que seria uma outra forma de loucura não ser louco". o surgimento das chamadas ciências humanas. Paris. cit. E é essa junção do conceito de doença IV como assunto médico à prática social do internamento. Do interior desse cenário e a partir de uma interpretação relativamente livre das análises foucaultianas. 149.. em cada qual desses segmentos históricos. n. caracterizará então a instauração da instituição asilar. trad. 1966. M. na Universidade Federal de Uberlândia. "A outra forma da loucura. Gallimard.. a emergência de determinados saberes de modo a finalmente poder descrever. São Paulo. no primeiro título que Foucault pretendia dar a seu livro. 37. Feist. São Paulo. D. detém-se na Idade Clássica (séculos XVII e XVIII) e desemboca em nossa Modernidade. Numa visão extremamente sucinta (mas útil a nosso intento).37. EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO' • •• A partir da reconstituição resumida de alguns aspectos dessa história. mas antes um fato multifacetado. ousemos supor que esse "outro" de múltiplos rostos que atravessa a história de nossa cultura possivelmente atravessa também a história pessoal de cada um de nós.

Trava-se assim um jogo ambíguo entre o visível e o invisível: com efeito. que se trata. faremos um grande salto até o capítulo IX.Com curiosa astúcia. SO I Foucault. permitindo uma espécie de ilustração comparativa a propósito da Modernidade. ouçamos uma descrição me- ramente empírica do quadro em questão: "( . Assim é que. Porém. mas que se pode distingui-las num espelho. esse espectador-modelo precisa colocar-se em face do quadro na posição de quem olha. Ibid. bufa0 italiano. que nesse quadro ele se representou a si mesmo. o espectador é o modelo de carne e osso mas sempre invisível e extremamente variável. em seu atélier ou num salão do Escorial. permite o assinalamento do fim do Renascimento e do início da Idade Clássica. a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar. espectadores.. De início. Porque só o reverso é representado. a partir dele. ) bastaria dizer que Velázquez compôs um quadro. para o qual o pintor dirige o olhar. nesse ponto igualmente. o quadro escolhido (Las Meninas) aponta elementos que serão retomados no final do livro (capítulo IX). para ser olhado pelo pintor. do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana"2. rodeada de aias. ali Nieto. retomaremos alguns aspectos do primeiro capítulo e.. Bastaria acrescentar que as duas personagens que servem de modelos ao pintor não são visíveis. está presumidamente o próprio espectador. o pintor olha para um ponto fixo e invisível: nesse ponto está o modelo que ele pinta sobre uma tela da qual o espectador só vê o reverso. cuja obra foi escolhida. de modo que somente na medida em que é ((sujeitoque-olha" pode ser "objeto-olhado". Ora. E é esta que nos interessa. simplesmente educação e saber soberano I Sl . outra descrição é possível. ao menos diretamente. de cortesãos e de anões. sem dúvida. no primeiro plano Nicolaso Pertusato.. que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradição reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente. não sabemos. Situado entre o fim da segunda metade do século XVI e o início da segunda metade do século XVII (1599-1660). 25. se deslocamos nosso olhar dessa visão imediatamente empírica e nos situamos numa região em que os nomes não são diretamente colados às coisas percebidas. Por outro lado. O reverso da tela que está sendo pintada garante essa ambigüidade. se olhamos ou 2. 1O pintor e o espectador - De dentro do quadro. nós. enquanto "objeto" virtual do olhar do pintor. o pintor. o primeiro capítulo traz a nossoS olhos um quadro de Velázquez. Refaçamo-la em alguns de seus ângulos. Para desenhar nosso cenário. de damas de companhia.

e. pois. porém do interior dela. enquanto espectadores que olham do exterior o pintor que é. o visitante 3. uma representação. e mostra assim o espaço interno do quadro que é representação de modelos. afinal. dois anões. em seu todo. isto é. representação de uma representação. assim também O quadro como um todo torna presentes. quadro que representa um quadro. 4. do rei. S2 I Foucault.se somos olhados. o lugar do pintor real. mas fá-los ver (também "por reflexo"). Nesse espaço. o único que pode ir do modelo à frente da tela.. "representado" do ponto de vista do exterior do quadro. O espaço vazio faz do quadro como um todo o que o espelho faz no interior do quadro: assim como no espelho o rei ausente está presente. Ibid. ele próprio. Do interior e no fundo dessa representação são representados outros quadros (que são outras tantas representações). representado (feito de linhas. "Mas não é um quadro: é um espelho.. e o olhar firme da princesa realçado em primeiro plano. ele próprio. 3 O visitante inusitado - No fundo do quadro.4 E. supostamente.. 21. a princesa entre duas damas de companhia. Mas o espelho reflete precisamente o modelo que está sendo pintado. o olhar do pintor. os modelos olham o pintor e as personagens. à esquerda. Dois pontos centrais parecem comandar a composição do quadro: o espelho a refletir os modelos. cores). afinal. como se não fosse parte da representação. con- 4 As personagens e os centros do quadro . Não se sabe se ela <{entra" ou "sai". só há lugar para o sujeito no plano de representação. Um centro soberano. a demarcar o limite impreciso entre o seu interior e o seu exterior. E percebe-se então que. o espelho faz ver (por "reflexo") os modelos externos olhados de dentro do quadro pelo olhar do pintor que os representa. No interior do quadro é o lugar do modelo. ao mesmo tempo sujeito e objeto do olhar ausente e presente. É o espaço olhado pelo pintor e as personagens. um é especialmente mais claro. e duplamente soberano: porque comanda a composição de todo o quadro e porque supostamente ocupado por "soberanos" (o rei e a rainha).. mas. do quadro enquanto visto internamente). revela o jogo ambíguo entre o real e o representado: é um es- 2 O espelho - tudo. porém. Entre eles. O quadro como um todo é. é também o lugar do visitante que assiste à cena e é o espectador projetado para dentro da representação. à direita.Do plano de fundo. um homem e uma mulher. formas. o pintor real e o espectador real. que na verdade se olha como seu próprio modelo para se representar. evidentemente. Mas esses dois pontos parecem estar ambos direcionados para um ponto convergente: trata-se do espaço claro à frente do quadro. Se o espelho reflete o jogo ambíguo entre o interior e o exterior. agora o espelho é clara visibilidade para o espectador mas sempre invisível para o pin- tor 0á que este lhe dá as costas). esta agora entre o interior e o exterior do quadro: com efeito. no meio. é o "olhar soberano"'. o visitante olha as personagens dos primeiros planos: o pintor. ainda à direita e mais à frente. Ibid. mas assistisse a ela. é nesse espaço. mas donde. assim como a frente da tela tepresentada é invisível para o espectador e só visível para o pintor. uma porta deixa entrever uma estranha figura. 21. outra ambigüidade se estabelece. Simplesmente pectador "real" do ponto de vista do interior do quadro e. Parece estar ao mesmo tempo dentro do quadro (isto é. e mostra assim o contorno externo do quadro que é. Espaço ocupado e vazio ao mesmo tempo. esse espaço é também o lugar do espectador que olha e é olhado. mas "por reflexo". como que prolongável para fora do quadro. que poderá ser enunciado o cogito cartesiano e onde podeeducação E' saber soberano I S3 . e ainda. do quadro enquanto visto do exterior) e fora dele (isto é. é ele o centro principal do quadro. além do jogo entre o visível e o invisível. Nesse jogo. mas "por reflexo") o modelo real.

2 a ed. aliás. o homem aparece com sua posição ambígua de objeto para um saber e de sujeito que conhece: soberano submetido. São Paulo.rão desdobrar-se os saberes emergentes na Idade Clássica. "Ventos do progresso: A Universidade administrada". durante tanto tempo. no entanto. nO 11 ("Educação ou Desconversa?"). duas distinções exploradas com extrema clareza por Marilena Chaut podem 7. Abre-se um novo espaço epistemológico no qual podem emergir a biologia. Como se nesse espaço vago para o qual está virado inteiramente o quadro de Velázquez. E o primeiro aspecto a apontar é que a instauração das ciências humanas requer. se petrificassem numa figura plena e exigissem que fosse enfim referido a um olhar de carne todo o espaço da representação. Ora. Mas. simplesmente. isto é. isto é. 1980. mas tão-somente a marca de uma diferença. mediante o acaso de um espelho e como que abusivamente. São Paulo. o pintor. entre outros. Ver. Ver. Almanaque."6 Não é nosso intento refazer a análise dessa mutação. "A não-violência do brasileiro.jan. particularmente o artigo "Soberania e disciplina". nesse lugar do Rei que lhe atribuíam antecipadamente Las Meninas. acontece também que. Foucault. nem examinar sua "legitimidade científica" ou avaliar o peso de sua significação histórica. O homem. Como único saber qualificado. ele surge aí. de Roberto Machado. 8. Cortez Editora/Autores Associados/Cedes. 1981. Graal. E onde emergem também as filosofias do homem e as ciências humanas. intrinsecamente. Brasiliense. Brasiliense. 1980. a economia. o lugar antes vazio de uma presença ausente. o espectador) cessassem de súbito sua imperceptível dança. "nada sabem". por outro lado. Educação e Sociedade.. Partindo do pressuposto de que uma mutação histórica do saber não é sinônimo de avanço ou de progresso. Neste momento de nossas considerações. 1979. 6. uma vez que a racionalidade do saber científico é erigida como critério exclusivo da validade de todo saber e medida do verdadeiro. São Paulo. o certo e o errado. que se atribua ao homem real o estatuto de "coisa científica" a ser dominada pelo homem como sujeito detentor do conhecimento. lbid. "em carne e osso". um mito interessantíssimo". a exclusão recíproca. de M. 321. mas de onde. corre também o risco inalienável de se fazer sempre prescritivo. assume então o direito da soberania cujo poder se exerce pelos mecanismos da disciplina. e org. o entrelaçamento e a ofuscação (o modelo. 323. a sua presença real foi excluída. só refletia. in Descaminhos da Educação Pós-68. 54 I Foucault. fala e trabalha"S. todas as figuras de que se suspeitava a alternância. da exclusão 7 • Ele dissocia os que "possuem" a verdade porque "sabem" e os demais que. mas que ele. No século XIX. O conhecimento "científico" sobre o homem torna-se não só o único saber qualificado e competente. do controle. lbid. espectador olhado. aquele que veicula as normas pelas quais são desqualificáveis quaisquer outros saberes e reduzidos ao silêncio outros discursos.. as ciências humanas carregam em seu próprio bojo o risco inalienável da redução do homem ao que dele se pode "cientificamente conhecer". "No movimento profundo de tal mutação arqueológica. a esse respeito. aquele que tem o poder de decidir sobre o verdadeiro e o falso. será também a ocupação desse espaço pelo sujeito concreto enquanto empírico e existente real (no duplo sentido. o rei. de realidade e de realeza) que caracterizará o surgimento das ciências humanas em nossa Modernidade. cujo segundo item tem precisamente como título "O lugar do rei". como "indivíduo que vive. educação e saber soberano I 55 .. introd. ocupa. Simplesmente nos agora apenas explorar alguns aspectos inerentes àquela posição ambígua hoje ocupada pelo homem como "objeto para um saber" e como "sujeito que conhece". E eis que já saltamos para o capítulo IX. in Microfisica do poder. o normal e o patológico. a filologia. Brasiliense. interessa5. sobretudo. por outro lado e ao mesmo tempo. O que é ideologia. 1980. nO 5. Ano 11. a personagem representada no quadro de Velázquez entra empiricamente em cena. Rio de Janeiro. Cadernos de Literatura e Ensaio. da autora: "Ideologia e educação".

tendem a excluir o espaço do pensamento. quando o discurso da loucura tem que ser silenciado. nO 5. é o esforço por reverter semelhante configuração pelo esvaziamento da "posse" desse espaço. in Educação e Sociedade. "Por exemplo. quer no modo da realidade). por intermédio dos ministérios e das secreta9. Conhecimento é aquisição intelectual do saber já constituído. ali onde não pode haver discurso da mulher surge um discurso sobre a mulher etc. na medida em que as ciências humanas se movem na zona do conhecimento qualificado e instituído.. É bem possível que acabemos por verificar que ela se faça como conhecimento) isto é.e com isso entendamos qualificado. legisla. instituído e qualificado. na medida mesma em que professores e alunos nos limitamos a cumprir as normas. quando o discurso da unidade social se tornou realmente impossível em virtude da divisão social. destituído de todo direito da realeza. impedindo que isso mesmo que está em questão primeiramente fale de si e por si para vir a ser compreendido. O "discurso sobre" um objeto dissimula e busca substituir o discurso daquilo mesmo que está em questão. sobre a revolução. trazemos para dentro das próprias relações pedagógicas os mesmos mecanismos e os mesmos efeitos de exercício do poder. estamos apenas endossando a proposta de que.cie o discurso pedagógico não sejam nem os professores nem os estudantes. as ciências humanas. Ora. Ora. Entenda-se: não estamos aqui a aspirar a um absurdo regresso ao século XVII nem a um retorno à soberania da representação. Por uma transposição mais metafórica que ilustrativa. "Ideologia e educação". estabelecido. normativo e poderoso -. É quando a escola não pode ser um lugar onde se pensa para ser o lugar onde se reproduz o conhecimento instituído. finalmente. desocupado de qualquer sujeito soberano (quer na forma da representação. enquanto saber soberano . em contrapartida. A saber: a de que no trabalho lO. fique vazio o "lugar do rei". no saber da educação. surgiu um discurso sobre a unidade. admitida que é no campo das ciências humanas como "ciência da educação". em seu lugar surge um discurso sobre a loucura.nQs ser úteis. reprodução de um saber instituído sobre a educação. regulamenta e controla não está exclusivamente centralizado num saber elaborado no exterior da instituição escolar. Simplesmente rias da educação. E que o que se propõe. É quando as relações entre professor e estudante reproduzem a relação do sujeito que "possui" o saber com um "objeto" de educação. Mas é preciso não se iludir: o poder que legisla.. A outra distinção (retomada de Claude Lefort) marca a diferença entre "discurso sobre" e "discurso de"."9. mas "a burocracia estatal. CHAU1. 27. 56 I Foucault. esse "soberano submetido". Ao contrário. Pensamento é afrontamento de uma realidade nova. isto é. A primeira é a distinção entre conhecimento e pensamento. nela se exercendo de fora para dentro e de cima para baixo. que. a assimilar o saber "qualificado". Transposição metafórica e interpretação livre que pretende apenas emoldurar. educaçáo e saber soberano I 57 . Ibid. está plenamente ocupado. M. Diríamos. que é nesse tipo de configuração do saber pedagógico e das relações pedagógicas que o "lugar do rei". Transportemos finalmente estas considerações para a região da pedagogia. e numa interpretação livre da análise foucaultiana do quadro de Velázquez. regulamenta e conttola o trabalho pedagógico"lO. cujo saber é construído a partir de um não-saber que requer sua compreensão. 26. na instituição escolar e nas relações pedagógicas. trazem não só a carga do conhecimento capaz de estagnar o pensamento como as marcas de um saber sobre o homem que silencia o seu próprio "objeto". num cenário visual. a proposta muitas vezes formulada por Marilena Chaui. onde não pode haver um discurso da revolução surge um outro. As estruturas mesmas das instituições escolares são já um cumprimento dessas normas. É possível que quem primeiramente pronui..

certamente. 229. o professor desocuparia o lugar soberano de detentor do saber. Na medida em que exercesse esse papel. v O LUGAR DAS INSTITUiÇÕES NA SOCIEDADE DISCIPLINAR' Que há de espantoso no fato de que a pn'são se assemelhe às usinas. o lugar das instituiçóes na sociedade disciplinar ! 59 . nO 11. org.24. R. e de que todos se assemelhem às prisões? M.. "A não-violência do brasileiro. Publicado em Recordar Foucault (RIBEIRO.. um miro interessantíssimo".pedagógico não seja o conhecimento a ponte entre o professor e o estudante.). FOUCAULT. Almanaque. às escolas. esta é uma questão que. preliminarmente. lugar que "então permaneceria sempre vazio. às casernas. mas antes seja o professor o mediador entre o estudante e o pensamento. aos hospitais. foi (ou é) objeto de polêmica e tema de interesse. à questão das imbricações entre os planos discursivo e extradiscursivo. particularmente em relação aos primeiros livros de Foucault. situar o aparecimento desse tema no contexto mais amplo daquele pensamento. com pequenas alterações. Brasiliense. Buscando reconstituir aspectos do pensamento de Foucault no tratamento das assim chamadas "instituições disciplinares". convém. CHAUl. a fim de que pudesse ser visto como acessível a todos porque não pertence a ninguém"ll. 58 I Foucault. 1985. 11. M. J. palestra proferida por ocasião do Colóquio Foucault. Ora. Surveiller et punir. na Universidade de São Paulo. A inclusão de análises e descrições de práticas institucionais no interior de um pensamento voltado para a formação e a transformação de configurações discursivas que compõem saberes historicamente constituídos é um assunto que pertence. Simplesmente * Este textO reproduz. São Paulo. em abril de 1985.

Em suma. A sociedade disciplinar tem seu surgimento por volta dos fins do século XVIII. com efeito. em relação ao dispositivo.. A verdade e as formas juridicas) trad.** R instalação das instituições disciplinares As conferências que compõem o texto A verdade e as formas juridicas (1974) descrevem uma história da produção de saberes baseada em determinadas práticas sociais (as práticas jurídicas ou judiciárias) que foram capazes de gerar modelos de estabelecimento da verdade. na medida em que responde à articulação entre produção de saber e modos de exercício de poder que é dominante em cada momento histórico'. instituições. in Microfísica do poder. morais. como elementos de um "dispositivo" articulador das relações entre produção de saberes e modos de exercício de poder.. Cadernos da PUC/Rj. igualmente. Rio de Janeiro. pela Nau Edirora. 60 I Foucault. brevemente. nO 16. precisamente. FOUCAULT. sobretudo. a análise se descentraliza do eixo "discursivo/não-discursivo". quando Foucault busca. um modo de poder em que a sujeição não se faz apenas na forma negativa da repressão.Contudo. em primeiro lugar. medidas administrativas. reúne o discursivo e o extradiscursivo. de controlar o tempo. Cf. eis o que não é"2. coloca esta questão em um plano de menor importância. Posteriormente. O ((dispositivo". pois. Morais. ao modo mais sutil do adestrament9. explicitamente. Simplesmente tipo determinado de instituições: aquelas que. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 61 . Eis o que ele escreve: "Através desse termo tento demarcar. principalmente. 247. 2. Roberto Machado e Eduardo J. que engloba discursos. 6/74. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos". série Letras e Arres. Tomaremos esse text03 como referência para resumir. proposições filosóficas. genericamente. o que ele nos diz sobre a sociedade disciplinar e nos determos na questão de suas instituições.. este texto foi republicado no Rio de Janeiro. da pro3. o dito e o não-dito são os elementos do dispositivo. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem à primeira edição. leis. e que Foucault chama de "instituições disciplinares". com esse termo. 1974. constituem peças na engrenagem de um tipo determinado de sociedade. enunciados científicos. de vigiar e registrar continuamente o indivíduo e sua conduta. um conjunto decididamente heterogêneo. da publicação dos livros Vigiar e punir (1975) e A vontade de saber (1976). não é muito importante dizer: eis o que é discursivo. inrrod. para aproximar-se de um eixo mais complexo que o autor chama de "dispositivo". e org. Graal. ou antes. Desde então. Ib. . decisões regulamentares. 1979. filantrópicas. marcando a passagem da "arqueologia" para a "genealogia". De sorte que poderá afirmar: "Mas. na última conferência. a sociedade disciplinar deu lugar ao nascimento de determinados saberes (os das chamadas ciências humanas).d. que é ainda a nossa. de Roberto Machado. a uma abordagem mais centralizada sobre as instituições inseridas nesse tipo de sociedade. esta questão sofre um deslocamento considerá- vel a partir. Foucault descreve o surgimento e os caracteres do que denomina "sociedade disciplinar". pelo "exame" instaura-se. em 1999. num dado momento histórico. para os quais o "exame" é o modelo prioritário de estabelecimento da verdade. E segue mostrando que. Não. porém. pretende ainda "demarcar a natureza da relação que pode existir entre esses elementos heterogêneos" ("discursivos ou não") bem como evidenciar a "função estratégica" do dispositivo. mas. "Sobre a história da sexualidade". Retomaremos a descrição de um 1. dedicando-se. M. FOUCAULT. organizações arquitetônicas. M. O que aqui nos ocupará é a análise de instituições entendidas. atrelar a questão da constituição de saberes a modos de exercícios de poder. Caracterizando-se. Ao longo desse estudo. como um modo de organizar o espaço.

permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro.. 86-88). ao contrário. "Na época atual. no fundo. forte". M. Gallima. mas de "forma branda. Foucault chama-as ainda de "instituições de seqüestro". O mesmo acontece com a casa de correção ou com a prisão"? Outra passagem descritiva do projeto conclui com a seguinte observação: "O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é. uma torre. prisão ~ têm por finalidade não excluir. Recorrendo a autores contemporâneos ao surgimento dessas instituições e que desenvolveram estudos a respe~to (N. um condenado. hospital. foram instaladas ti4.201-202. a um aparelho de normalização dos indivíduos. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se para o interior. rodas essas instituições ~ fábrica.. prisões etc. realmente existiu na França dos anos 1840-1845. Esta descrição praticamente reproduz a. liga-os a um aparelho de correção. a sociedade que atualmente conhecemos . a seguir. M. Devido ao efeito de contraluz. A fábrica não exclui os indivíduos. Eis uma passagem esclarecedora: "O princípio é: na periferia. Retomemos uma das passagens em que descreve esse projeto arquitetômco: nham uma forma "compacta. 91-92. recortando-se na luminosidade. difusa. escolas. Em suma. tal como é anunciado no projeto do Panopticon. mas antes "incluí-lo" num sistema normalizador. FoucAuLT. outra. elaborado em fins do século XVIII pelo jurista inglês Jeremy Bentham. "O olho do poder". as primeiras instituições que. 5. ela os fixa a um aparelho de transmissão do saber. Na realização do "panoptismo". a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro. liga-os a um aparelho de produção. A Verdade e as formas jurídicas. sendo depois substituídas por instituições com iguais características. 6. Elas marcaram o aparecimento de fábricas. Por isso.. o traço mais básico e geral das instituições disciplinares e. no fundo. as funções que lhes cabe cumprir. simplesmente Descreveremos. 1975. mas. no centro.6. um doente.dução positiva de comportamentos que definem o "indivíduo" ou o que "deve" ele ser segundo o padrão da "normalidade".. A construção periférica é dividida em celas. fixar os indivíduos. Característica básica: do espetáculo à vigilância Pode-se dizer que o traço característico fundamental das instituições disciplinares está desenhado em seu modelo de arquitetura. que. A escola não exclui os indivíduos. mesmo fechando-os. que. escola. instalam-se determinadas instituições a eles articuladas. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 63 . Basta então colocar um vigia na rorre central e em cada cela trancafiar um louco. dando para o exterior.. hospitais. podem-se perceber da torre. Paris. Cf FoucAULT. correspondendo às janelas da torre. a longa descrição que Foucault fornece do regulamento de um destes tipos de instituições. Foucault toma como modelo prenunciador dessas instituições um projeto de arquitetura. cada uma ocupando roda a largura da construção. as pequenas silhueras prisioneiras nas celas da periferia. cujas características de fundo ainda hoje permanecem. in Microfísica do poder. em sua forma mais "compacta". É ilustrativo ler (no mesmo texto. uma construção em anel. um operário ou um estudante. inverte-se o princípio da masmorra. esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. Concomitantemente ao surgimento de saberes e ao exercício do poder disciplinares. hospital psiquiátrico. 62 I Foucault. Ibid. 69. em razão de que a reclusão que elas operam não pretende propriamente "excluir" o indivíduo recluso. 90. que se encontra em Surveiller et punir. protegia"4. o Panóptico.rd..utopia que efetivamente se realizou"s. a partir daí. esse tipo de sociedade e de poder é perpassado pelo que Foucault denomina "panoptismo". O hospital psiquiátrico não exclui os indivíduos. H. 210. 7. 1bid. por volta do início do século XIX. casas de correção.

Paris. in Microfi: sica do poder. Ibid. M. M. acaba por se tornar "um poder muito oneroso e com poucos resultados"15. 64 I Foucault. por exemplo. mas que indivíduos sejam dados como que em espetáculo a um olhar vigilan- te. 13. as relações só podem ser reguladas numa forma exatamente inversa ao espetáculo.14. não é por acaso que o próprio Bentham refere-se à sua invenção como "um ovo de Colombo". e de outro o Estado. "O olho do poder". uma dominação que se faz como por "iluminação"12. exercendo-se com violência aparente e garantindo Sua continuidade por meio de punições espetaculares para efeitos de exemplo. 1975. o lugar das instituições na sociedade diSCiplinar I 65 . "a arquitetura dos templos. Reportando-se a Giulius. em que o "anteparo da escuridão" é substituído por uma "visibilidade" isolante". a designação que lhe deu . esse tipo de construção respondia a um tipo de sociedade marcado pela participação da comunidade nos momentos de mais unidade na vida pública ("sacrifícios religiosos. 85.encerra uma generalização altamente significativa. teatro ou discursos políticos"t Não que esse modelo tenha desaparecido por completo. como "princípio de conjunto". Treillard. B.. 15. efetivando-se por meio da organização de uma cadeia de olhares vigilantes que. 218. o traço básico do panoptismo articula-se com transformações fundamentais e gerais na ordem do poder. de 1830. na arquitetura das instituições. as conseqüências vantajosas que acarreta para os custos políticos e econômicos do poder. e que Giulius vê nela "um acontecimento 'na história do espírito humano".. Olho auxiliado por uma série de olhares dispostos em forma de pirâ- mide a partir do olho imperial e que vigiam toda a sociedade" I I Mediante uma vigilância que é "ao mesmo tempo global e individualizante". 211. mas sustentam "um princípio de conjunto. vai-se constituindo en8. 218. E (a partir de Giulius) lembra a metáfora do "olho" com que então se simbolizava o imperador: "O imperador é o olho universal vo. Ibid. 9. 218. transformam-se as necessidades e transforma-se a arquitetura. Do pOnto de vista propriamente político. o da escola ou o dos hospitais". e J. o projeto e seu nome não carregam apenas a idéia de uma técnica específica destinada a "resolver um problema específico. a arquitetura atendia à necessidade de possibilitat a exibição de espetáculos ao maior número possível de pessoas (para isso. Economicamente. o controle contínuo é de uma eficácia pouco dispendiosa. Gallimard. dos teatros. porém. 10. A verdade e as formas jurídicas. Cf. 217.ltado sobre a sociedade em toda a sua extensão. na sociedade moderna.Giulius. como O da prisão. 14.. "Numa sociedade"."lO Isto significa que a arquitetura deverá então assegurar não mais que espetáculos sejam dados ao maior número de pessoas. expressões usadas pelo autor em "O olho do poder". A verdade e as formas jurídicas. de 1808). diz Foucault. FOUCAULT.. FOUCAULT. in Microfísica do poder.. Simplesmente tão um tipo de poder que se exerce "por transparências". possibilita uma crítica ao funcionamento do poder monárquico. 210. FOUCAULT. FOUCAULT.13 capaz de inaugurar o que viria a ser o desenvolvimento de toda uma nova forma de poder. 217. Com efeito. Foucault lembra que se o projeto de Bentham fora inspira- do na arquitetura já existente da Escola Militar de Paris (1751).218. mas de um lado os indivíduos privados. Entendido assim. "onde os elementos principais não são mais a comunidade e a vida pública. faz ver como na civilização grega antiga. contudo. M. finalmente. 86. 209. Surveilleret punir. que.. por exemplo. teve por efeito invertê-las de uma arquitetura de espetáculo a uma arquitetura de vigilância. Foucaulr realça a transformação que. autor de Lições sobre as prisões. 216-217. Ver também: Surveiller et punir. M. autor de Motivos do Código de Instrução Criminal. Surveiller et punir.Panopticon .. FOUCAULT. M. dos circos")'. exercendo a vigilância 12. 85. 11. e A verdade e as formas jurídicas. Basta apontar.. organizada na forma estatal. Assim. cada indivíduo "acabará por interiorizar a ponto de observar a si mesmo".

Foucault mostra que certas técnicas. 145. igualmente. prisões. que. no Controle dos corpos Aparentemente. a disciplina corporal é minuciosa. porém. 219-220. que.. 96. De maneiras mais abruptas ou mais sutis. 218. desenvolvendo-se de formas diversificadas mas de algum modo semelhantes e intercruzadas tanto na pedagogia escolar como na organização militar. atingido por meio dos corpos individuais. e com diferentes técnicas. é uma "fórmula maravilhosa: um poder contínuo e de custo afinal de contas irrisório"!6. não mais o corpo supliciado. não podem ser usados pelos trabalhadores "no momento em que desejarem. as prisões para punir"!9. Eis também por que. de modo a que as instituições disciplinares cumpram. Controlar o tempo é transformar o tempo do trabalho em mercadoria trocada por salário. 20. Funçóes Controle do tempo A vigilância é. uma maneira de dispor do tempo do indivíduo. na sociedade moderna o importante é o "corpo da sociedade". FOUCAULT. as escolas para ensinar.. de prazer. 95.controle do tempo é exercido continuamente não só nas fábricas. nas casas de correção etc. I 67 .. 94-95. Ibid. Portanto. questões como a imoralidade e a devassidão eram assunto de preocupação dos patrões. nas fábricas do começo do século XIX. é volvimento da sociedade disciplinar. pode-se dizer que o.. FOUCAULT. de descanso. assim também. Cf.. a título de exemplo. FOUCAULT.. se no poder monárquico o "corpo do rei" era não uma "metáfora. receber um certo número de qualidades. na verdade têm a eficácia de controlar todo o tempo de sua vida.. às necessidades da industrialização. esse sistema basicamente "ótico"!7 desdobrarse-á no aperfeiçoamento. Ver. M. 21. 66 I Foucault.18. 211. entendida assim a visibilidade como princípio geral. Assim. substituindo-se "a eliminação pelo suplício" por "métodos de assepsia: a criminologia. nas 16."sobre e contra si mesmo". nas sociedades modernas. excedem a função estrita do ensino. já que "sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia". efetivamente. com Foucault. Lembremos. qualificar-se como corpo capaz de trabalhar"Z!. a eugenia. reformado. nos orfanatos. as disciplinas escolares. "O olho do poder". como um dos nós que amarram essa rede de instituições. a proibição de atividades sexuais não se reduz a motivos de higiene e saúde. mas é mais ainda: é transformar todo o tempo dos homens em tempo de trabalho. Surveiller et punir. cada uma das instituições disciplinares é destinada a uma função específica: "As fábricas feitas para produzir. A verdade e as formas juridicas. M. "Poder-Corpo". mas uma realidade política". cuja função específica é a cura. mas o corpo controlado como "o que deve ser formado. in Microfísica do poder. o que deve adquirir aptidões. mais que uma técnica particular. de ociosidade. diversificadas funções que respondem à instalação e ao desen- função de todas disciplinar a existência inteira do indivíduo pela disciplinarização do corpo. mas também nas escolas. M. Controlados são os tempos de festa. nos hospitais. M. A verdade e as formas jurzdicas. Simplesmente o lugar das instituições na SOCiedade disciplinar 1. corrigido. lbid. FOUCAULT. 17. de modo a atender. portanto. a exclusão dos 'degenerados"'20. 19. Um exemplo disso é a concessão de aumentos salariais e de fundos de economia. sobretudo. para curar. na multiplicação e na diversificação de instrumentos de vigilância (até os mais sofisticados). Foucault faz ver que. para fazer greve ou para festejar. in Microfisica do poder. nos hospitais. contudo. ele será "protegido". psiquiátricos ou não. os hospitais. aparentemente criadas para a proteção do trabalhador. De fato. a este respeito. 18.

quem é o pior.. pelo diretor d3: prisão etc.. capilar. e. o acréscimo de uma observação. nascido de sua prática. a esse respeito. poder político. 23. por exemplo. 25. polimorfo e polivalente. Poder econômico. FOUCAULT. É de se notar que.. 97. 22. mas também se tem o direito de punir e compensar. como no pagamento feito a hospitais. 28..". E os produz duplamente: quer extraindo saber dos indivíduos. 96. não apenas se dão ordens. FOUCAULT.23. saberes sobre o indivíduo nascem das observações. O caráter econômico do poder disciplinar é evidente. muitas são as passagens em que Foucault se detém particularmente nas prisões. a aprendizagem etc. 97.. Mas indicar que o controle dos corpos engendra saber já é referir-se ao caráter polimorfo do poder disciplinar. depois de julgado por um tribunal. se diz quem é o melhor.. onde.espaço hospitalar como nas prisões. um "saber sobre o corpo. fornece elementos para gerar saber acerca da produção. o exemplo particular do sistema escolar. Por sua vez. da criança etc. por isso. o realce da importância de um estudo sobre "a arquitetura institucional" ("da sala de aula ou da organização hospitalar"). o poder instalado nas instituições disciplinares é também epistemológico. não é essencialmente localizável em um pólo centralizado e personificado. "polivalente"24. de aceitar outros etc. nas análises das instituições disciplinares. no caso das fábricas. ou a elaboração de uma "história dos espaços" que seria também uma "história dos poderes". pode também aparecer de formas menos diretas. Em suma. FOUCAULT. esquematicamente. Surveiller et punir. FOUCAULT. Ver. se tomam decisões. as instituições disciplinares fazem funcionar um poder que.25 Ambos. de Surveilleret punir. Mas também é curioso. isto é.. de tomar medidas. o econômico e o político. "Poder-Corpo". poder judiciário. espalhado. se tem o poder de fazer comparecer diante de instâncias de julgamento"26. Neste último (211-212). o estudo destes caracteres no capítulo intitulado "Le paroptisme". judiciários e epistemológicos. quando Foucault faz ver quanto ele é "inteiramente baseado em uma espécie de poder judiciário". M.. produz saberes. como 27. orgânico". mas é principalmente difuso. em Microfisica do poder. Ver. de expulsar indivíduos. minucioso. articulam-se a um caráter judiciário: "nestas instituições. também. do criminoso. simplesmente o !ugar das instituições na sociedade disciplinar 1 ! 69 . particularmente todo o capítulo desse livro intitulado "Les corps dociles".. a este respeito. 148-149. quer elaborando saber sobre os indivíduos 28 . ele se desdobra em múltiplos caracteres que. Um exemplo de saber extraído dos indivíduos ocorre em instituições como fábricas. 26.27. 97. Instalação de um poder polimorfo O tipo de poder instalado por essas instituições é "polimorfo" e. Ibid. Foucaulr indica inclusive que foram as disciplinas corporais (particularmente as militares e escolares) que tornaram possível a elaboração de um "saber fisiológico. onde o saber do operário a respeito de seu próprio trabalho. in Microfoica do poder. os artigos "Soberania e disciplina" e "O olho do poder". de estabelecer regulamentos. se classifica. podemos designar de econômicos.. Ibid. 141. e constantemente submetido à vigilância e ao registro. o indivíduo continua tendo seu comportamento constantemente julgado *** Para concluir. É claro que o caráter judiciário é mais evidente no caso das prisões. Ibid. se avalia. 24. pelos guardas. M. 96. de modo a "cobrir o corpo social por inteiro. A verdade e as formas juridicas. não somente se garantem funções como a produção. Mas ao caráter econômico se atrela o político: "As pessoas que dirigem estas instituições se delegam o direito de dar ordens. das anotações a respeito do doente. M. Isto é. M.22.. explicitando que nele "a todo momento se pune e se recompensa. As conferências sobre A verdade e as formas jurídicas. das classificações. A verdade e as formas juridicas. e conseqüentemente. políticos. 68 I Faucault.

308-310. Ibid. seu caráter quase evidente. ela "se inocenta" de ser prisão. FOUCAULT. M. e ao mesmo tempo é puro. (E o discurso que ela então emite seria: "Eu faço unicamente aquilo que lhes fazem diariamente na fábrica. é ela a única "onde o poder pode se manifestar em estado puro. Por outro lado. 73. em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral". de um lado. Ver. 31. todas lhe são semelhantes. tem uma marca "local e marginal. Por um lado. com esta marca. (E o discurso que ela então emite seria: "A melhor prova de que vocês não estão na prisão é que eu existo como instituição particular. Ibid.. E é assim. na escola etc. como que circular e reciprocamente. "Os intelectuais e o poder". 252. 29. 33. Cf. ao meSmo tempo em que é "diferente" das outras instituições. afinal. 35. É nela. 32. I 71 . explica "sua extrema solidez"36. se mostra como tirania levada aos ínfimos detalhes. FOUCAULT. a facilidade com que ela foi aceita. e talvez por isso. ela "inocenta" as demais. entre as instituições disciplinares. M. Cf.. 100. in Microfoica do poder. 30. M. pois.29. M.Assim. só ela é prisão.. efetivamente. M. Surveiller et punir. é nela que "a utopia de Bentham pôde. traz como subtítulo O nascimento das prisões. porém.. 70 I Foucault. particularmente. FOUCAULT. 34. que focaliza explicitamente o estudo de instituições. A verdade e as formas jurídicas) 99.. a particularidade de concretizar o "panoptismo" da forma mais palpável. um número reduzido de indivíduos. "exemplar" e "simbólica" de todas as outras instituições32 .". é inteiramente 'justificado m31 . Ou seja: "O que é fascinante nas prisões é que nelas o poder não se esconde. Surveiller et punir. se vincula mais diretamente às prisões. tomar uma forma material. isso talvez se explique precisamente porque. "3S. por outro. já dissemos.) Mas. a prisão guarda certas peculiaridades: basta lembrar que. assim.. segundo Foucault. que a prisão desperta interesse ou curiosidade na maioria das pessoas.. atingindo. O livro Vigiar e punir. diz Foucault. afinal. FOUCAULT. por certo. 99. "seu incrível sucesso.. que o "Panopticon" encontra "seu lugar privilegiado de realização". Tem. entre as diversas instituições.)34 Essa ambigüidade da prisão explica. Por isso.. A verdade e as formas jurídicas. afinal. cuja história. não se mascara cinicamente.. Afinal. tomam por base as práticas judiciárias. já que. num só lance. Surveilleret punir. 36... 72. há uma certa singularidade da prisão.. É possível que essa tônica ou esse realce se fundamente em dois aspectos que. se completam. é apenas a forma mais transparente de todas as outras. Além disso. a prisão também aparece como sendo não mais que a forma "concentrada". separada das outras . "... 312. simplesmente o lugar das instituições na SOciedade disciplinar .. não faz parte da vida rotineira das pessoas e. E podemos certamente completar: explica também. ambiguamente. Ora. a aceitação cotidiana de sua diluição mais sutil por toda a rede das chamadas instituições disciplinares. para Foucault. FOUCAULT. contudo. todas as outras instituições realizam uma espécie ~e difusão discreta da prisão 33..30. a este respeito.

Foi publicado em O uno e o múltiplo nas relações entre as áreas do saber (MARTINELLI. dos saberes às práticas sociais. um pensamento sobre esse encontro parece apontar. palestra proferida em Fórum de Debates realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Para isso. com maior freqüência. São Paulo.). * Este texto reproduz. estas como que guiadas ou iluminadas por aqueles.. prioritariamente. L. pensar um espaço comum que abrigasse o encontro entre ambos não é sempre habitual. para uma direção de relações que vai. MUCHAIL... É propósito desta exposição perguntar por esse encontro e problematizar essa direção. ! 73 . em abril de 1993. Por outro.. Educ. L. M..VI DE PRÁTICAS SOCIAIS À PRODUÇÃO DE SABERES* Trarar-se-á aqui de verdade e poder. À primeira vista.. 1995. esta questão parece sugerir certa repartição entre dois âmbitos: o dos saberes (onde se situaria a ocupação com a verdade) e o dos procedimentos sociais (onde se reconheceria o lugar do poder). M. T. S. orgs. por um lado. com pequenas alterações. questão repetidas vezes indicada como temática nuclear dos escritos de Michel Foucault. Assim. de prátícas sociaís à produção de saberes . RODRIGUES. buscaremos na leitura de Michel Foucault a seleção de algumas passagens capazes de estimular o debate sobre o assunto e propiciar alguma reflexão acerca do trânsito entre o campo das práticas sociais e o dos saberes.

coisas. trad. mas enquanto produzida no decurso da história.. Posteriormente.2. Numa definição introdurória e geral. cas jurídicas ou judiciárias "o modo pelo qual os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido. a própria trajetória da constituição dos saberes (é esse.mostra-nos Foucault . Série Letras e Artes. simplesmente . I 7S . 1. 1974. percorrendo. em 1999. constituindo-se na formação de saberes reconhecidos como verdadeiros. Servir-nos-á de roteiro. a reflexão foucaultiana a res- Mas pode-se igualmente dizer que não é da verdade e do poder peito de tais práticas l . mos. no ou de múltiplos modos de exercício do poder que permeiam plano dos saberes (ciências. Do mesmo modo. Segundo Foucault. É esse o ângulo que aqui nos interessa. por exemplo. o procedimento judicial mais arcaico. na Grécia antiga. entende-se por práti- que eles tratam. o textO de cinco conferências pronunciadas por M. 2. retraçando não o seu próprio desenvolvimento. vale assinalar a descrição dos elementos da prova e das características do Foucault dedica especial destaque às chamadas práticas jurídicas ou judiciárias. M. a título de caso ilustrativo. o exame. Foucault na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. 06/ 74. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem àquela primeira edição.)3. Morais. Embora o âmbito desta exposição não comporte reconsticuílas. modos de produção de saberes reconhecidos como verdadeiros e sua articulação com modos de exercícios do poder. mas tomando como ponto de partida determinadas práticas sociais que. certos procedimentos. mas de poderes dade. duas formas de prática jurídica marcaram a sociedade grega antiga. de modo muito genérico. isto é. para centrar-se mais detidamente no período que vai desde os fins do século XVIII e início do século XIX até nossa contemporaneidade. Mas pode-se também realizá-la desde uma perspectiva externa aos saberes. 8. o inquérito. isto é. O percurso da histó- as diferentes sociedades em diferentes momentos históricos. de 1966). dizer que os escritos de Foucault concernem à verdade e ao poder significa que eles realizam investigações históricas que buscam descrever. n° 16. filosofia etc. que os escritos de Foucault investigam a verdade e seus vínculos com o poder. em Cadernos PUC-RJ. 20-21. reunidas sob o título A verdade e as formas jurídicas.c. É que a verdade não é entendida enquanto identidade de uma essência una e sempre a mesma... 4. A descrição histórica empreendida por Foucault pretende então mos- trata-se de verdades em seus diferentes modos de produção trar em que sentido modos práticos de estabelecimento da ver- em diferentes sociedades. Essa história pode ser lida e organizada em torno de três procedimentos ou práticas sociais de caráter jurídico: a prova. Entre essas práticas. Prova e inQuérito A prova é. basicamente. por dentro. Ibid. de natureza jurídica. verific~r como. certas práticas não-discursivas de estabelecimento da verdade puderam tornar-se matrizes ou modelos para a produção discursiva da verdade. FOUCAULT. isto é.Pode-se dizer.. Assim. este textO foi republicado no Rio de Janeiro pela Nau Editora. numa palavra..pode ser elaborada de modo direto e interno. em períodos determinados da história da cultura ocidental. ou seja. no decurso da história. puderam vir a constituir como que modelos de produção da verdade no plano discursivo. sobre o qual veio a prevalecer depois (a partir do sécu- lo V a. 3. A verdade e as formas jurídicas. historicamente. Essa investigação histórica . não se trata do poder enquanto dominação central e unitária. aproximadamente) a prática do inquérito4 • Pela prova. Para o propósito desta exposição retomare74 ! de práticas sociais à produção de saberes Foucault. de Roberto Machado e Eduardo]. engendraram saberes considerados verdadeiros. portanto historicamente múltiplos e diversificados. a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras. Rio de Janeiro. o procedimento empregado em As palavras e as ria que Foucault refaz começa na Grécia antiga e atravessa a Idade Média.

Ibid. responsável por "dublar" a vítima. uma troca de palavras) era prova de culpa. Ibid. ainda apresentasse cicatrizes. Ibid. isto é.)6.. 7. Essa era a prática adequada ao perfil de uma sociedade de tipo marcadamente feudal em que a circulação dos bens era assegurada menos pelo comércio que pela herança. pelos testamentos e.depois. baseados que são em testemunhos (como os dos historiadores. porque um dano não configura mais questão apenas entre indivíduos. a água o recebera. este agora de "dimensões extraordinárias". pelos 8. Na Idade Média. já que "seu destino será praticamente coextensivo ao próprio destino da cultura européia ou ocidental'" e. 42. era culpado. cujos traços principais podem ser assim reunidos: tratava-se sempre de uma ação "de estrutura binária"7. na segunda daquelas cinco conferências.)'. representante do soberano. Ibid. é baseada em testemunhos que têm. 42-43. Eis alguns dos exemplos levantados por Foucault (cf 45-47) de provas durante a Idade Média. Prova corporal: o acusado deveria andar sobre ferro em brasa e se. 6. em que indivíduos. 41. S. na medida em que a Europa impôs violentamente seu jugo a toda a superfície da terra"IO. Simplesmente . portanto. sem intervenção de qualquer terceiro elemento que representasse a autoridade ou a coletividade.1 I 77 . o da prova. É na segunda metade da Idade Média (a partir de fins do século XII e no decurso do século XIII) que o sistema da prova tende a desaparecer. de práticas sociais à produção de saberes 76 I Foucault. ou seja. determinando-se a verdade pelo lado do vencedor do risco. e o acusado ganhava o processo. a ocupação de uma terra. a verdade é determinada por quem "viu e enuncia"s. cedendo lugar ao que Foucault chama de "uma espécie de segundo nascimento do inquérito". os dois modelos reaparecem. mas se impõe "de fora" e "do alto" por um poder simultaneamente judiciário e político. Prova verbal: o acusado deveria responder à acusação pronunciando certas fórmulas. tais como: "sistemas racionais" (como a filosofia). numa espécie de jogo. os traços principais que desenham seu perfil: a resolução das questões de litígio não se dá diretamente entre os oponentes. aparece um personagem novo. de um castelo etc. dos botânicos. era considerado culpado. Inicialmente (entre os séculos V e XII aproximadamente). se se afogasse. sobretudo. 49. de duelo ou de desafio. a "arte de persuadir" (como a retórica). 49. foi a prática do inquérito que constituiu modelo para formações culturais então emergentes na Grécia antiga. Ou ainda: amarrava-se a mão direita ao pé esquerdo do acusado e se o atirava na água..mecanismos bélicos (a rapina.. a verdade se confundia com a vitória do mais forte. o direito de opor-se ao poder dos governantes. mas "também uma ofensa de um indivíduo ao Estado. ao soberano como a verdade é judiciariamente estabelecida sem o recurso a testemunhas ou a sentenças: os adversários em litígio são literalmente "postos à prova".. grupos ou famílias. Segundo Foucault. dois dias .. pronunciá-las incorretamente (um erro gramatical. No inquérito) ao contrário. Eis. grupos ou famílias eram diretamente postos em disputa. Ibid.. Usado inicialmente nas esferas eclesiásticas e nas gestões administrativas. surge a noção de crime como infração. prevalece o primeiro. qualquer instância como um júri ou um juiz não tem competência de decisão sobre a verdade senão apenas sobre o correto cumprimento das regras do jogo. se não se afogasse era porque nem a água o recebera e. Ibid. dos geógrafos etc. inquérito que Foucault. 47. "para a história do mundo inteiro. o direito constituindo-se não numa correlação entre justiça e paz mas num prolongamento ritualizado da guerra. o "procurador" do rei. 10. no âmbito jurídico. conhecimentos empíricos. reconhece em sua instigante leitura de Édipo-Rei. uma vez que o próprio rei é lesado porque são descumpridas suas leis. inclusive. o inquérito é introduzido no âmbito das práticas jurídicas e dali se generalizará como modelo de produção de verdade e de outras práticas. de certo modo. 9.

durante o século XVIII (principalmente com Beccaria. a prática do inquérito como instrumento capaz de substituir o flagrante delito.o exame. dele restando talvez a prática da tortura (e mesmo esta "já mesclada com a preocupação de obter a confissão. reunir dados são procedimentos que se estenderão para outras práticas e. Porém. nessa direção. é "que vai se tornar a grande punição do século XIX. ou melhor. o trabalho forçado e a pena de talião. para a constituição da verdade na ordem do saber. É nesse quadro novo que se instaura o que Foucault chama de "sociedade disciplinar". de algum modo. a deportação. em domínios "como o da geografia. pois. ao contrário. segundo. prova de verificação"13). simplesmente 1 I 79 . que "não era uma pena de direito no sistema penal dos séculos XVII e XVIII". portanto. transformações fundamentais ocorreram: novas formas de práticas judiciárias.. recolher testemunhos. as sociedades industriais nascentes vão adotar um procedimento penal que não estava previsto pelos teóricos da lei e que vai estabelecer-se. Do ponto de vista judiciário. permanece e se estende até nossos dias. 59. sobretudo. este inteiramente novo . a busca da reconstituição dos fatos. Na medida em que se generaliza a prática do aprisionamento alteram-se radicalmente os princípios da legislação penal. quinto. Ora. estar explicitamente formulada. as leis civis. de práticas sociais à produção de saberes 78 I Foucault. principalmente.. ao que é socialmente útil. por conseguinte. mas a reparação do dano social. reconstituir situações.. a humi- lhação pública. No nível teórico realizam-se. portanto. a prisão. não compete à lei. excluído da sociedade. concernem apenas à sociedade civil. Ibid. 15.. No nível prático. 64-65.15.". de saberes considerados verdadeiros. com resultados diferentes. enfim. 12. É o funcionamento desse sistema que requer a necessária argüição de testemunhas. cujos traços novos podem ser assim reunidos: primeiro. a saber. as transformações aconteceram em dois níveis. a infração não diz respeito à lei natural. que precisa. Ibid. desenvolver-se-ão. Ibid. tal como se instala a partir do século XIX. "quase sem justificativa teórica": trata-se do aprisionamento. define-se como "dano social" e o criminoso como "inimigo interno" a ser. da botânica e da zoologia 12 • Enquanto o sistema da prova desaparece quase por completo. 78. a prescrição de "vingança" ou a "redenção de um pecado"14. reatualizando o crime quando o criminoso não é surpreendido na atualidade de sua falta. que é ainda a nossa. Ibid.. como faz notar Foucault. nesse quadro. 13. 59. Bentham e Brissot). da astronomia. com a introdução de uma importante diferença: a partir dos fins do século XVIII e no decurso do século XIX. 14. 51-52. o crime. constituindo ainda hoje a base do sistema jurídico de nossa sociedade. não sendo falta moral ou religiosa. novas formas de 11. as leis tendem agora a ajustar-se menos à utilidade social que ao indivíduo (o recurso cada vez maior ao Inquérito e exame No início do período que passamos a investigar. Ibid. do conhecimento de climas etc. as ciências empíricas ou da natureza. o modelo do inquérito é invadido por outro. reelaborações do sistema penal cujos princípios básicos podem ser assim reunidos: primeiro. formuladas pelo poder político. novas formas de estabelecimento da verdade. terceiro. religiosa ou moral e só se representante do Estado". ou ainda da medicina. porém. o modelo do inquérito. por isso mesmo é da competência do soberano o direito de impor penas e exigir reparações (freqüentemente na forma de "confiscos" que enriquecerão as monarquias)11. Assim.exercício do poder. quarto.. configura como ruptura com a lei civil. ou melhor. as punições serão de quatro tipos possíveis.

De ação assim ampliada. nas sociedades modernas encontra-se.a prisão. os dois sistemas mantêm. enquanto o modelo do inquérito é correlato de uma sociedade comandada pela soberania do monarca. controlando o tempo e o espaço dos indivíduos. as casas de correção -. enquanto a punição propriamente dita depende da existência de lei explícita e concerne à ocorrência efetiva de uma desaparecimento completo do modelo inquisitorial. os hospitais psiquiátricos. um saber do direito articulado na esfera do inquérito e. a escola. por outro. No mesmo quadro. Simplesmente de práticas sociais à produção de saberes j I 81 . simultâneos aos saberes disciplinares.. terceiro. "poderes laterais. mecanismos ramificados de controles disciplinares. Ibid. classificando-os e registrando continuamente suas condutas. o exame é vigilância sempre atual e ininterrupta. o asilo. portanto. criminológicas. "o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e comportamentos". permitindo modificações na aplicação estrita da lei. correto ou incorreto. enquanto numa sociedade de tipo infração. psiquiátricas. abre espaço para o surgimento das chamadas ciências do homem. seu adestramento.17. Ele requererá a conjugação de outros poderes. Enquanto o inquérito é um procedimento para se saber o que havia ocorrido. "reatualizar um acontecimento passado através de testemunhos. contudo. mas. examinando-os. que. Dele a disciplina faz uso e é ele que permanece no interior do sistema jurídico cujo discurso calca-se ainda no inquérito e organiza-se em torno das relaçoes de soberania (do tipo súdito-rei). médicas. importando saber não tanto o que "se passou". a polícia. isto é. é um exemplo desta mudança). esse controle não pode ser assumido apenas pelo poder judiciário. ao contrário. 80 I Foucau!t. isto é. por um lado. 67-68.. De modo genérico. A sociedade disciplinar. Mais. constrói as condições para um novo modo de produção da verdade. instalam-se seus correlatos no plano das instituições sociais: são as instituições disciplinares . sob o do exame) não se tenham constituído outros saberes. Foucault faz ver. certa articulação na sociedade contemporânea. o do inquérito) permanece incorporado ao saber jurídico. mas à conduta do indivíduo no âmbito da norma. Ele se calca em outro procedimento. segundo e correlatamente. avaliando-os. se o modelo da soberania (e. 17. enfatizando então a noção nova de "periculosidade". por exemplo. em suma. à margem da justiça". basicamente. para funções de correção 16 . a esse âmbito de ação do controle já não basta o inquérito. o controle aringe não apenas o crime já cometido. sua correção. Ibid. precisamente sua "inclusão" como indivíduo. enquanto a prática do inquérito foi modelo para o desenvolvimento das ciências da natureza. o exame. a fábrica. e "toda uma rede de instituições" ("psicológicas. isto é. mas a possibilidade de ser cometido. mas quais as virtualidades do indivíduo e como ele presentemente se conduz. mas pela objetivação do indivíduo e na ordem do que é certo ou errado. por isso mesmo.. para a função de vigilância. elas buscam menos o "castigo" que o ajustamento do indivíduo à sociedade. Pode-se dizer que na sociedade caracterizada pela disciplina não se dá o 16. "normal" ou não. Foucault chamao de exame. imbricando-se concomitante e complementarmente. ou a disciplina. Radicalmente heterogên~os.que chamamos de "circunstâncias atenuantes". portanto. seu ajustamento. Em suma. pedagógicas"). São eles. São saberes e instituições que não se atrelam ao que é do estrito âmbito da lei. 69. isso não significa que o modelo da disciplina (e. cuja finalidade não é propriamente a "exclusão" do indivíduo mediante sua "reclusão". em função de situações individuais. É assim que. Mas. a disciplina é correlata de uma sociedade comandada pela democracia burguesa. permitido ou interditado. pode-se dizer que. O estabelecimento da verdade pela matriz do exame não se faz mais pela reconstituição de fatos nem na ordem dos testemunhos.

um modo de exercício do poder do qual uma descrição sura (da imprensa. constituir uma espécie de proposta teórica geral. é possível interrogar se ele se ajusta inteiramente ao quadro descrito. pela possibilidade de que.inquisitorial "a individualização é máxima do lado em que se exerce a soberania e nas regiões superiores do poder". De um ponto de vista amplo. a individualização é "descendente". à diferença do que parece habitual. isto é. circunscritas. apontemos alguns indícios para a reflexão: • a industrialização em escala incipiente. É um poder sutil e produtivo: produz comportamentos e com as relações súdito-rei que caracterizam a sociedade gestos. Introduz-se assim. comandada pela soberania. entre práticas sociais e saberes sejam menos distantes e o trânsito bem mais freqüente. dades de terra são indícios. Estimulando esta pergunta. de modo algum. Gallimard. Sabemos que as análises foucaultianas não pretendem.) na história ainda recente de nossa sociedade são indícios. nar. FOUCAULT. • um sistema de governo no qual foi possível ocorrer o uso ainda recente do confisco e em que a tônica da individualização recai tantas vezes sobre a figura expoente do meramente negativa. pelo menos sob alguns aspectos ou em algumas regiões. talvez. mais de perto. bem como a preservação das grandes proprie- governante traz indícios. ali desenhado. a crítica das sociedades moldadas na disciplina e no controle. desigual e regio- nalizada. dentro dos quadros da sociedade discipli- ••• Levantemos algumas reflexões que a reconstituição destas passagens pode.. das artes etc. aqueles sobre quem ele se exerce tendem a ser fortemente individualizados'1l8. é possível que nOSSa sociedade. polemicamente. numa última consideração. " à medida que o poder se torna mais anônimo e funcional. 1975. 82 I Foucault. espetacular e repressiva não pode dar conta. as fronteiras entre procedimentos e discursos. Pode-se. vale dizer. Finalmente. Elas são pontuais. retomemos o contexto em que situamos inicialmente esta exposição. perguntar pela situa- ção particular da sociedade brasileira atual no quadro daquela descrição da sociedade contemporânea ocidental. normaliza. também ele. talvez. assim como o uso de mecanismos explícitos de cen18. porém. parece-nos que o perfil de nossa sociedade encontra-se. de proximidade ainda Indícios como estes podem sugerir uma curiosa situação: enquanto a descrição foucaultiana já veicula. Surveilleret punir. M. • a manipulação pela tortura e pela violência sem disfarces. simplesmente de práticas sociais à produção de saberes I 83 . localizadas. ainda esteja projetando . talvez. de proximidade ainda com as condições qu~ caracterizam o modelo inquisitorial mais do que o do controle. alarguemos o alcance do exemplo e indaguemos. nos suscitar.como meta de desenvolvimento ou como horizonte de esperança . de proximidade ainda com o modo do poder espetacular e repressivo que caracteriza menos "a disciplina" do que a prova ou o inquérito. cria hábitos. Paris. numa sociedade de tipo disciplinar passa-se o contrário. pois. não exclui. mais amplamente. 194-195. Depois de termos feito a apresentação de uma espécie de caso ilustrativo. ao mesmo tempo.sua realização mais completa como sociedade disciplinar.

as chamadas ciências humanas. com particularidades de uma situação muito diversa. 21. Nau Editora.ARRERO. orgs. indagações sobre a conjugação ou a disjunção entre caráter histórico e qualidade filosófica são freqüentes. M. na Universidade do Rio deJaneiro. Nesses casos.. Porém.. quando se trata da leitura de textos filosóficos na elaboração de histórias da filosofia.).1 I 85 . Publicado em Retratos de Foucault (PORTOC. os filósofos reúnem sua atividade à do historiador quando o que os ocupa são "canteiros históricos" de obras filosóficas. De modo geral. com algumas modificações. como se sabe. mas outros e variados os "objetos" e os "domínios" dos quais se ocupam os estudos históricos que Foucault realiza (a loucura. isto é. CASTELO BRANCO. Primeiro. a delinqüên* Este texto reproduz.VII1 FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS' Meus livros não são tratados de filosofia nem estudos históricos. palestra proferida por ocasião do Colóquio Michel Foucault. FOUCAULT) Dits et écrits) IV. a medicina. no máximo. a doença. não são as filosofias. V. G. 2000. Rio de Janeiro. E de uma diversidade pelo menos tríplice. Questões semelhantes podem ter lugar relativamente aos escritos de Michel Foucault. em novembro de 1999. são fragmentos filosóficos em canteiros históricos. Foucault e a leitura dos filósofos .

permanecendo. ). Éditions La Découverte. Ensaio.. certa história das filosofias . no interior das articulações interdiscursivas. acrescentada à segunda edição de Histoire de la folie à l'âge classique. Rio de Janeiro. Comporta tradução e introdução a Kant. M. Gallimard. quase sempre. 5.. l'histoire". "Qu'est-ce que les Lumieres?". 136-156. "Introduction" a Rousseau. atreladas que estão ao assunto central da respectiva investigação. nos interstícios entre os gêneros"'. nos limites. 1963 n. e isso significa no âmbito das epistémes ou dos espaços que demarcam as possibilidades de configurações dos saberes historicamente qualificados. I 87 .jdéc. a tese complementar de dourorado 1. Paris. da Silva.. Como escreveu um historiador. po epistêmico práticas e instituições sociais. Em todo caso. 1992. "seu pensamento se situa sistematicamente nas linhas fronteiriças.últimas entrevis· tas. 6. Antropologia do ponto de vista pragmático. no volume FOUCAULT.. 1994. ••• Não muitos escritos se ocupam diretamente da abordagem de filósofos. "Cogito et histoire de la folie". em tradução brasileira. variados são também os planos das abordagens. Revue de Métaphysique etde Morale.Le chant du rygne. Todavia.se se quiser. extraída do curso de 5 de janeiro de 1983. ce papier. Para mencionar algumas siruações par- discursiva e a extradiscursiva. Roberto Machado. 1967 à nos jours. Sob o título "Mon corps. o esrudo mais recente sobre Kant (de 1984t De modo geral. a sexualidade. e mais genericamente. 4. Rousseau)juge deJean-Jacques. ce feu". Graal. e isso significa no âmbito dos chamados dispositivos estratégicos. certa leitura das filosofias . 288-293. Terceiro. Lima e M.sobre Kant (de 1961)3.. 2. Dialogues. 562-578 e 679688. 7. as filosofias são protagonistas dos grandes livros de história (História da loucura) Nascimento da clínica. la généalogie. 1979. em sentido largo. Cf. e org. Foucault e a leitura dos filósofos 86 I Foucault. oct.. agregando. Esta última versão.. História da sexualidade).. Cf "Nietzsche. 172-188. está incluído no acervo do Centre Michel Foucault e uma "Notice historique" está publicada em Dits et écrits. datilografado. Tradução brasileira de Álvaro Cabral. As palavras e as coisas. da Glória R. ce papier. o direito.. Microftsica M poder.marca presen- ça nos trabalhos de Foucault. DOSSE) F. de Ana Maria de A.. incluído em Dits etécrits. I.. O texto de Foucault. ao cam- ticularmente explícitas: a leitura comparativa entre Montaigne e Descartes. de Carlos Henrique Escobar. 1994. Ora se movem no trânsito entre a dimensão Descartes4 (em réplica tardia à crítica de Derrida). Paris. Simplesmente . Gallimard. Ora mantêm-se na dimensão estrita dos discursos. no capítulo II ("O grande enclausuramento") da primeira parte de História da loucura. 305. Rio de Janeiro. Pode ser reconhecida de duas maneiras. incluída. ou as retomadas de Platão nos volumes II e III (O uso dos prazeres e O cuidado de si) de Historia da sexualidade. 11 . 1972. indiretamente. in Dits et écrits) IV. Taurus. há diversidade porque Foucault realiza um peculiar cruzamento entre a atividade do filósofo e a do historiador na medida em que.. O Dossier . a presença assídua das filosofias encontra-se nos escritos volumosos e de grande porre onde têm lugar. 3. textos curtos e. 460-494. M. Para o primeiro modo de presença. pensa filosoficamente ao praticar a investigação histórica. em todo caso. Para mencionar alguns: um estudo introdutório sobre Rousseau (de 1962)2. tomemos uma análise textual que nos parece exemplar.274. São Paulo. Entretanto. por assim dizer. indireto.. no volume FOUCAULT. Cf. Cf. no texto "Mon corps. em tradução brasileira. J. Paris. diferentemente da prática filosófica de pensar a história. em número reduzido. o ensaio so- bre Nierzsche (de 1971)5. Incluído. Vigiar e punir. in Dits et écrits) lI. 1984. mas em proporções desiguais: convencionemos dizer que diretamente as filosofias comparecem com menor freqüência. as artes . portanto.. a releitura (de 1971) das Meditações de cia. ce feu". 4. ensaios "avulsos". I. Trata-se da réplica à crítica que Derrida endereçara à leitura foucaultiana de Descartes em História da loucura? Com efeito. Introd. DERRlDA. portanto.. Segundo. trata-se de cursos. e org. as práticas judiciárias. Histoire du structuralisme. Trad. introd. com diferentes intensidades e extensões. a literatura.

faz ver a necessidade de dupla postura de leitura demandada pelo próprio texto. e muitos deles numerosas vezes: Montaigne. M. de seu crítico (no caso. para explanar o desmoronamento da semelhança renascentista e a instauração da categoria clássica da "ordem". Nietzsche. Finalmente. Ibid.. 1992) de outro texto. que "contém ao menos o esboço de uma história da filosofia" e no qual encontramos "indicações para uma leitura de Descar- cimento. Relume Dumará. que estabelece a ponte do renascimento à idade clássica. Derrida de certo modo a repete e propõe . subverte a posição de defesa para instalar-se no terreno do opositor e apontar os defeitos que são dele. duas escolhidas entre aquelas que se ocupam com momentos de limiares ou de transição entre os períodos históricos investigados. 8. destaquemos algumas passagens e. G.. in Michel Foucault philosophe . para '(a representação do signo".. Consideremos a outra e mais freqüente maneira . não de Descartes . Descartes. 11. compõe todo o teor do item II. conta com a Logique e com Destutt de Tracy. a Logique de Port-Royal. Leibniz. Cf. Espinosa. os parágrafos (sobre o sonho e sobre a loucura) do texto cartesiano e segue. Lebrun descreve-o como "um livro de combate" e "um livro filosófico".tes. idade clássica. 593-597.. "apagamento enfim e sobretudo da determinação discursiva essencial (dupla trama do exercício e da demonstração)"ll. Hume. Berkeley.Rencontre internationale)Paris. 12. além disso. na leitura do mesmo texto cartesiano: "omissão de elementos literais". 590-591. usando técnicas refinadamente rigorosas e uma esmerada ordem de exposição. não deixa de lembrar quanto Foucault suspeitava de uma «história da filosofia universitária"'3 e. Seuil. Montesquieu. o sistema que os opõé. com habilidade de mestre. Bacon. 14. LEBRUN. 51. 588-590. "a representação reduplicada". M. 38. 88 I FoucaulL Simplesmente Foucault e a leitura dos filósofos • I 89 .. enquanto sistema. aos ideólogos.. Heidegger. Ibid. acompanhando os três períodos históricos percorridos (renas- Foucault realiza. Paris. Ignes Duque Estrada. remete a termos latinos e a suas traduções9. no final. Rousseau.de inserção das filosofias. 9. Hegel. no item V. Um artigo de G. MAJOR. E. in Histoire de lafolie. O item N. Se. Ibid. enfim. indica o trabalho foucaultiano como "um instrumento de renovação de uma 'história da filosofia' que seria acionada..Leituras da história da loucura. J. G. modernidade). tentando vasculhá-la um pouco no enredo das investigações históricas Tomemos As palavras e as coisas. Rio de Janeiro. ce feu". 55ss. em detalhe. em As palavras e as coisas) fizermos um levantamento geral na seqüência dos dez capítulos. preferencialmente.11 janvier 1988. à fenomenologia. entre outros. mas também enquanto exercício. Trad.a indireta . A título de curiosidade. CANGUILHEM. isto é. lembremos a publicação bem posterior (Éd. Compara. FOUCAULT. Para apresentar "a imaginação da semelhança". "Note sur la phénoménologie dans Les Mots et les choses"."o esquema ou o espectro de uma problemática análoga" ou de "uma questão semelhante".. há chamadas à Logique de Port-Royal. ao afirmar que evita o retorno à discussão anterior. principalmente. Husserl. Derrida). Bergson. passa a fazer falar os filósofos. 9)10. Condillac. "Mon corps. Ibid.A história da loucura na era da psicanálise". Berkeley e Condillac. depois de iniciar-se com a cativante leitura sobre as aventuras de "Dom Quixote" (item I). 599. ce papier.. "elisão de diferenças textuais". ao estruturalismo etc. certamente ("encadeamento sistemático de proposições))). de Kant. ROUDINESCO. no qual. 13. Dessa relação apenas nominal. O capítulo III ("Representar"). uma reconstituição interna das Meditações. com a morte da 'filosofia' tal como esta é ainda escolarmente entendida"'4. A palavra de Descartes. Galilée. veremos que são convocados. de Husserl JJ1z .. passo a passo. Dilthey. Foucault . Malebranche. 1989. Hobbes. principalmente. Kant. Ibid. precisamente por sua natureza de "meditação"lO. DERRlDA. 1994. R. 10.agora acerca de Freud. Locke.33. "Fazer justiça a Freud . No item I1I.

Está bem claro que As palavras e as coisas. mas do objeto e do a posteriori. em apêndice.. um trecho sobre as declarações de Foucault acerca de sua tese complementar de doutorado (que. entre outros. biologia. teríamos visto o tecido de relações entre o plano discursivo e o extradiscursivo. Vera Portocarrero. tem-se um sujeito do co15. R.16. mas de modo genérico. lembremos.. "linguagem": trata-se. Forense Universitária. MACHADO. o lugar de surgimento das ciências humanas: elas emergem no entroncamento das dimensões positiva e filosófica dos saberes. Rio de Janeiro. Após Descartes. o positivismo. op. a presença de Kant. Duas passagens extraídas do livro biográfico de Didier Eribon nos servem para retomar conjuntamente os modos de presença das filosofias que estivemos denominando direto e indireto. no livro de RABINOW e DREYFUS. elas se alojam na confluência. Veja-se também. assim como Condillac. para empregar uma expressão de Roberto Machado. agora como o marco filosófico na partilha clássica entre razão e desrazão. dos conhecimentos positivos com o pensamento filosófico. Desenharse-á. Trad. 411. A entrevista também se encontra. 69. 1995. cit. em um texto escrito muito depois (originado em uma entrevista de 1983). a vida. "À propos de la généalogie de l'éthique: un aperçu du travail en cours". simplesme-nte- nhecimento que coloca para Kant o problema de saber o que é a relação entre o sujeito moral e o sujeito do conhecimento. sem desconsiderar outros filósofos. se compôs de tradução e introdução à Antropologia de Kant): 16. Malebranche e Espinosa. história natural. Foucault e a leitura dos filósofos I 91 . Assim como o pensamento de Kant é analisado em correlação com os saberes modernos "Sobre o trabalho. nos capítulos IX ("O homem e seus duplos") e X ("As ciências humanas"). a linguagem (economia. biologia. 1982. com a diferença de que estas categorias situam-se do lado não do sujeito e do a priori. Importa observar que. cit. 136-138. Mostra a correspondência entre o campo transcendental kantiano das condições de possibili- dade do conhecimento e as categorias modernas de "trabalho". esquematizo aqui uma história muito longa. e certamente então reencontraríamos Descartes.17 entre a filosofia e outros saberes dos respectivos períodos históricos. precisamente ou. "vida". Kant será reintroduzido. Bem mais adiante. assim como para ilustrar a diferença entre eles. FOUCAULT. não há desigualdade de importância nem de prestígio ou. Rio de Janeiro.e é para onde todo o livro se dirige -.. no mesmo livro. melhor dizendo. como é o caso de História da loucura. assim o de Descartes com os saberes clássicos (análise das riquezas. Ciência e saber . mas que permanece fundamental. Se tivéssemos tomado outro exemplo. e são evocados Descartes. 137. Hume e Rousseau. Graal. finalmente . Foucault retomará. Para o primeiro caso.278. que descreve as transformações ocorridas na segunda metade do século XVIII. "As sínteses objetivas"). Em português: Dossier. a configuração moderna dos saberes e. longa e explicitamente. de que o Hospital Geral é o marco institucional. Aliás. ambiguamente. traça agora a curva do classicismo para a modernidade e assinala. para o filósofo investigador da história. gramática geral). filologia). detalhadamente posiciona Descartes no limiar do classicismo como Kant no da modernidade 15 . sempre. de "transcendentais". 17. já que se trata da mesma entrevista reproduzida com modificações. quando também aparecerão. IV.Para além do estruturalismo e da hermenêutica. então... Mas observação semelhante pode ser feita também a propósito das relações entre a filosofia e práticas não-discursivas.. Isso no que concerne ao âmbito de articulações somente interdiscursivas. enquanto condições de possibilidade de conhecimentos objetivos (economia. a fenomenologia. o capítulo VII ("Os limites da representação"). op.lá estão Hobbes e Hume. essas duas pontas filosóficas daqueles períodos históricos: "Seguramente. 630. R. 90 I Faucault. M. filologia). a dialética. Cf MACHADO. in Dits et écrits. "diferença de nível. em seu último item (VI.A trajetória da arqueologia de Foucault. Uma trajetória filosófica .

ERIBON.20. 1. da desgraça. 176. obtida de um comentário de Michel Serres: A filosofia.. ) para compreender esse texto de Kant escrito. não vagamente humanista. mas espalhadas na exterioridade espessa das epistémes ou conectadas à heterogeneidade complexa dos disposltivos estratégicos. FOUCAULT. Minuit. professeur Foucault?". de que sucessivos sedimentos se alimentou? Análise genética. uma atenção mais ardente: a obra seria precisa sem ser inteiramente verdadeira. Companhia das Letras. esse livro é também um grito .. M. Em outras palavras. com domínios diversos. com práticas não-discursivas.. 92 20. o outro eu. agosro de 1962. ••• As filosofias comparecem. é necessário cruzar análise estrutural e análise genética. Republicado em Hermes ou la communication."( . no cerco interno dos sistemas. em vários momentos e de muitos modos. enredadas no interior das histórias. "Qui êees-vous. Hildegard Feise. por outro é resultante de uma maneira de conceber a própria filosofia. por exemplo. no seio da minuciosa erudição da pesquisa histórica circula um amor profundo. diagnóstico do presente As filosofias só estão associadas às investigações históricas do passado para possibilitar um olhar mais atento sobre nosso tempo. remanejado. pois. "Géometrie de la folie". Qual é a situação dessa obra na disposição global e interna do sistema kantiano. Assim. 1188. Por isso começa-se a entender que uma história "exclusiva" das filosofias possa ser não apenas historicamente como ainda filosoficamente insuficiente. Foucault e a leitura dos filósofos Foucault. se por um lado resulta em um modo de história da filosofia.. 18. contracenando. mas quase piedoso.. do exílio. a saber. 125. o que "desde Nietzsche caracteriza a filosofia contemporânea.. E conclui: "Falei-lhes de um desaparecimento das filosofias e não de um desaparecimento do filósofo. Pertence a certa escolha que. lbid. 119. para que elas possam ser o que devem ser. Não. Mercure de France.18. A compreensão da filosofia como "diagnóstico" é. 21.606. com saberes não-filosóficos. in Dits et écrits. 1990. com objetos múltiplos. verdadeira função que podem ter hoje os indivíduos a que chamamos filósofos"21. 19.. nem tampouco na suficiência de suas singularidades. além da compreensão estrutural. essa geometria transparente é a linguagem patética dos homens que sofrem o suplício maior da rejeição. E para ilustrar o que chamamos de presença indireta a citação sobre a tese principal de doutorado (Folie el Déraison. Por isso é que no próprio seio da argumentação lógica. de algumas reflexões. Já em uma entrevista de 1967. M. Simplesmente J I 93 . D. declara-se "filósofo" por reconhecer-se no trabalho de quem "busca diagnosticar. 1968. São Paulo. Como essa obra terminal foi elaborada. realizar um diagnóstico do presente". Trad. diagnóstico do presente. Concluamos com a sugestão. transformado durante quase 25 anos. n. SERRES. da quarentena. qual é a relação dessa Antropologia com o movimento 'crítico' desenvolvido por Kant? Análise estrutural.. não houvesse uma visão secreta.. por essa gente obscura em que se reconhece o infinitamente próximo... Histoire de la folie à l'âge classique). Cf. a este propósito. formulada por Foucault. porém.. lbid. Creio que existe certo tipo de atividades 'filosóficas' em domínios determinados que consiste em geral em diagnosticar o presente de uma cultura: é a "Inútil seria esse rigor da arquitetura se. Assim. Michel Foucault ~ Uma biografia. quase sempre. do ostracismo e da excomunhão. Essa forma de inclusão das filosofias na história não é certamente descomprometida.19. 620.

o seu outro. 27. "Sur le style philosophique de Michel Foucault ~ pour une critique du normal".exercício de vida. alguns aspectos das considerações de Deleuze sobre o que é o dispositivo. se se quiser. 24. lI. leitura dos filósofos 94 I Foucault..antes de tudo e após tudo . eu diria que é precisamente nos seus 'ensaios' para abrir a filosofia ao seu fora que Foucault era filósofo . para nosso uso. é preciso que ela seja -:.como transgredir se as filosofias. in Dits et écrits.uma 22 espécie de filósofo malgrado ele". 144. FOUCAULT._-' 1 I 9S . in Michel Foucault philosophe. Finalmente.. RAVEL. palavra transgressora Pertencente ao seu tempo. Assim. diréction de Luce Giard. Judith Ravel retoma essas "três figuras misturadas" . "Michel Foucault et Gilles Deleuze veulem rendre à Nietzsche son vrai visage". um discurso não-cúmplice. "Qu'est-ce qu'un dispositif?". poderíamos acrescentar: para que a filosofia possa ser um olhar atento sobre o presente.. o louco.m. assunto da análise histórica. J.. de procedimentos que delineiam um modo outro de história da filosofia como estratégia de criatividade na contraface de dispositivos estratégicos estratificados. 552.24. "que foge a toda conivência. é multiplicá-los. mesmo se em certos domínios permanece um homem do século XIX. apenas atrelar as filosofias ao estabelecido. pela história. Foi buscar a filosofia em toda parte.25.. o seu fora. in Michel Foucault. 26. O atual é o transformávet o ((devir-outro)~ aquilo em que nos tornamos. Com isto. Rajchman • E o próptio Foucault..o poeta. ) Nietzsche multiplicou os gestos filosóficos.. Grenoble. a filosofia está em toda e em nenhuma parte. M. A filosofia. 25. 1992. assunto do diagnóstico. Jérôme Millon. as coisas e as palavras. in Michel Foucault philoso· phe. essas histórias que inserem a urdidura das filosofias nas tramas de objetos. Ed.>23. senão que se constroem no espaço relacionaI com o seu diverso. conjugar as filosofias a saberes e práticas nãofilosóficos que compõem epistémes e dispositivos não é reduzir os gestos filosóficos. G. em sua mobilidade.. Trata-se. o filósofo -. "Le piege de Vincennes". 55.. necessariamente. reunindo as reflexões que acabamos de sugerir. Cf. são também linhas de forças e linhas de subjetivação. in Dits et écrits I. 185-195.-. DELEuzE.. O dispositivo é "multilinear" e as linhas de que se compõe são linhas de visibilidade e de enunciação. a não-filosofia Como diria Merleau-poncy. também em entrevista mais antiga (de 1966): "( . saberes e práticas diversificados e as situam como peças de dispositivos historicamente dominantes não fazem. 25l. Foucault e a. o gesto filosófico pode ser também capaz de excedê-lo.. os poetas e os louCOS. como outros saberes e práticas. "Assim. Abrem também a possibilidade do discurso de resistência. e o atual. . escreve]. Há "linhas de fuga" e "todas as linhas são linhas de variação". Foucault já aproximava os filósofos de "seus vizinhos. envolvem o ver e o dizer. in Michel Foucault philosophe.. Por isso. genialmente antecipou a nossa época.-. Os dispositivos são "moventes". 70. Em um texto de 1970.. M. uma palavra interrogante. em toda parte Dize~ que as atividades filosóficas existem "em domínios determinados" e que o diagnóstico que elas realizam remete a "uma cultura" significa também que elas não configuram um "domínio" específico. cit. "Sur l'Imroduction à Binswan~er (1954)". "Foucault: l'échique et l'oeuvre".]. Comportam o arquivo. Simplesmente . lire l'oeuvre. MOREY. RAjCHMAN. Por isso. pela literatura. pela política etc. modo de existência. 23. estão calcadas nos solos das épistemes e tecidas nas redes dos dispositivos? Retomemos aqui. um pensamento sem morada. op. Interessou-se por tudo. Mas 22. Em texto bem mais recente. reunindo-as sob a categoria da "palavra transgressora. as linhas do dispositivo se repartem em "linhas de estratificação ou de sedimentação" e "linhas de atualização ou de criatividade"26. A filosofia.

VIII

OLHARES E DIZERES'

Fazer a cnêica é tornar difiéeis os gestos demasiado fáceis.
M. FOUCAULT, Dits et écrits, IV, 180.

Em busca do fio condutor
Os modos de distribuir os escritos de Foucault e recompôlos podem ser relativamente diversos, mas quase sempre se
sobrepõem e, sem dificuldades, complementam-se. O modo
mais freqüente, nomeado e renomeado pelos diferentes estudiosos e reconhecido pelo próprio Foucault, consiste em considerá-los ao longo de sua cronologia, situando-os, segundo o
critério dos grandes deslocamentos, em três grupos: quer se
fale de momentos, fases ou etapas, de áreas, campos ou domínios, de eixos ou vertentes, de planos, níveis, camadas, terrenos
ou patamares, eles configuram, em seu conjunto e sucessivamente, uma arqueologia do saber, uma genealogia do poder e uma
genealogia da ética.
* Conferência proferida por ocasião do Colóquio FoucaulrjDeleuze, na
Universidade Estadual de Campinas, novembro de 2000. Publicada em Imagens de Foucault e Deleuze, ressonâncias nietzschianas (RAGo, M., ORlANDI, L. 1.,
VEIGA-NETO, A., orgs.), Rio de Janeiro, DP&A editora, 2002.
olhares e dizeres

I

j

j

97

Contudo, pretendo referir-me aqui a outros modos ou critérios de organização, que não se opõem ao mais usual e que, a
meu ver, são aproximáveis entre si. Para isso, evoco três passagens, duas das quais recolho em Foucault e a terceira em Deleuze.
Já no "Prefácio" de As palavras e as coisas, de 1966 - antes,

portanto, da produção chamada genealógica -, o próprio Foucault propunha certa organização de seus escritos, e o critério era
então o da ênfase no Outro ou no Mesmo. Assim, enquanto Históri4 da loucura perguntava pela "diferença" que limita internamente uma cultura, As palavras e as coisas, respondendo "como em
eco", investigava a "proximidade das coisas"; enquanto História da
loucura "seria uma história do Outro" - daquilo que, em uma
cultura, na nossa, "é ao mesmo tempo interior e estranho" -, As
palavras e as coisas "seria uma história do Mesmo" - daquilo que,
em nossa cultura, preside "a ordem das coisas", podendo ser
"distinguido por marcas e recolhido em identidades"l.
Anos depois, na elaboração de um texto que tem por tÍtulo o seu nome - um verbete para um Dicionário de filósofos, de
1984 -, Foucault reconstitui a organização de seus escritos e,
de certo modo, retoma, como que obliquamente, aquele critério usado no início de sua trajetória, o do Outro e do Mesmo.
Reúne então, retrospectivamente, toda a sua produção sob o
que ele chama de um "projeto geral": investigar a experiência
histórica da constituição do sujeito nas formas diversas de sua
subjetivação e de sua objetivação. E, como que atravessando
este projeto, um "fio condutor": a questão dos "jogos de verdade" ou "das relações entre sujeito e verdade"z.
Dentro desse "projeto" e segundo esse "fio condutor", realizam-se, no conjunto e no decurso de sua trajetória, dois modos de análise: no primeiro, a análise dos "jogos de verdade"
pelos quais o sujeito torna-se objeto de saber na forma do co1. FOUCAULT, M., As palavras e as coisas, "Prefácio", 13-14.
2. Cf. "Foucault" in Dits et écrits IV, Paris, Gallimard, 1994, 631-636. O
verbete "Foucault" pode ser encontrado na tradução brasileira: HUISMAN, D.,

98 I Foucault. simplesmente

nhecimento científico, desembocando nas chamadas ciências
humanas com sua característica normativa; no segundo, a análise dos "jogos de verdade" pelos quais o sujeito é constituído
como objeto de conhecimento, alojado, porém, no "outro lado
da divisão normativa". Pode-se ver, no primeiro caso, o sujeito
enquanto "distinguido por marcas e recolhido em suas identidades", de As palavras e as coisas. No segundo, trata-se do "diferente", o louco, o doente, o delinqüente, de História da loucura, O

Nascimento da clínica, Vigiar e punir'.
Finalmente, e sempre no interior do mesmo "projeto geral",
aos dois primeiros tipos de análise seguiu-se o mais recente: investigar "a maneira como o sujeito faz a experiência de si mesmo
em um jogo de verdade no qual se relaciona consigo próprio"4.
Reunindo esta reconstituição às considerações do "Prefácio" de As palavras e as coisas, pode-se dizer que, na seqüência dos
grupos de escritos, o fio condutor é sempre o das relações entre
sujeito e verdade, tramadas nos jogos do Mesmo e do Outro.
Resta acrescentar que, quando os escritos se centram no Mesmo, descrevem a epistéme, o círculo de uma época, o instituído,
o sedimentado. Quando se voltam para o Outro) realçam o dispositivo, que tanto comporta a estratégia dominante como se
abre à possibilidade do novo, da resistência e da mobilidade.
A aproximação dessas passagens, a mais antiga e a mais
recente, permite, por sua vez, ligar ambas a alguns aspectos da
leitura que faz Deleuze acerca do percurso foucaultiano. Os
três momentos desse percurso são por ele descritos em termos
de "linhas" que compõem os diversos dispositivos analisados por
Foucault. As mudanças entre eles são referidas como "crises",
"desvios", "brechas", "linhas quebradas", "novas linhas" etcs.
Dicionário de filósofos, trad. C. Berliner, E. Brandão, I. Castilho Benedeti, M. E.
Galvão. São Paulo, Martins Fontes, 2001, 388-391.
3. Ibid., 633.
4. Ibid., 633.
5. Cf. DELEuzE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?" in Michel Foucault philosophe
- Rencontre Internationale, 1988, 185-195, que retoma, particularmente, o capítuolhares e dizeres

I 99

No primeiro momento - o da dimensão do saber -, tratase, especialmente, de "linhas de visibilidade e de enunciação":
"pensar é, primeiramente, ver e falar ... "6. Isso corresponde, nos
termos do citado verbete de 1984, aos jogos de verdade segundo os quais o sujeito é constituído como objeto para um saber
reconhecido; ou ainda, nos termos do "Prefácio" de As palavras
e as coisas, ao sujeito "visível" e "dizível", na ordem do Mesmo.
No segundo momento - o da dimensão do poder -, tratase, especialmente, de "linhas de forças": elas operam um "vai-evém do ver ao dizer", fazem "entrecruzar as coisas e as palavras"7. É o pensamento na elaboração de "estratégias". Nos termos dos dois textos anteriormente considerados, significa que
isso inclui tanto o pólo das "identidades" como o das "diferenças"; ou, se se quiser, tanto o lado "instituído" da "divisão normativa" como seu "outro".
No terceiro momento - o da dimensão ética -, trata-se,
especialmente, de "linhas de subjetivação": elas apontam para
"novas possibilidades de existência"g. Não mais "o domínio das
regras codificadas do saber (... ), nem o das regras coercitivas do
poder (... ), são regras de algum modo facultativas"9. Nos termos
dos textos vistos, isso corresponde à "experiência que o sujeito
faz de si" na relação consigo próprio, ou ainda, se se quiser, à
possibilidade de um devir do Mesmo em Outro.
lo "Pensar de outra maneira" de seu livro Foucault, Paris, Minuit, 1986. Vejase também as três entrevistas sobre Foucault, "Rachar as coisas, rachar as
palavras", "A vida como obra de arte" e "Um retrato de Foucault", reunidas
em Conversações, trad. P. P. Pelbart, São Paulo, Ed. 34, 1992.
6. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", in Conversações, 119. Veja-se ainda,
no mesmo texto, 119-122; 126; e no texto "Um retrato de Foucaulr", 133-134.
7. DELEUZE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?", in Michel Foucault philoso-

Finalmente, reunindo as três referências, busquemos refazer o fio condutor que percorre o trajeto foucaultiano. Digamos
que se trata das relações entre sujeito e verdade, ou mesmo do
sujeito com sua verdade; que essas relações são tomadas no jogo
entre o estabelecido e o mutável, vale dizer, entre o Mesmo e o
Outro; e acrescentemos agora que, nesse jogo, as relações são
visíveis e dizíveis de modos diversos, isto é, que olhares e dizeres
- analogamente aos pólos do idêntico e o do estranho - são
sedimentados ou mobilizadores, dependentemente daquilo que
nós, historicamente, somos capazes de ver e dizer.

Imagens e palavras -

um exercício

Usando o fio condutor brevemente reconstruído, proponho que façamos um pequeno jogo, alinhavando com ele alguns comentários sobre o filme Meninos não choram lO•
Personagens principais e ambientação geral

• Brandon ou Teena Brandon: uma jovem de 21 anos que se
sente) se veste e se comporta como um rapaz; tem um primo
que é também seu confidente.
• Lana' jovem aproximadamente da mesma idade) mora com a
mãe e trabalha em uma fábrica; é amiga de Candace.
• John: namorado de Lana; é amigo de Tom e ambos são expresidiários.
Os personagens são todos de classe média baixa ou pobres,
arriscam-se em aventuras, são usuários de drogas. O contexto é o
de uma pequena cidade americana (Falls City). O filme todo
transcorre em ambientação de pouca luminosidade, ~esmo quando a cena acontece ao ar livre (como no episódio do estupro).

phe. 186.

8. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", 120.
9. DELEUZE, G., "Um retrato de Foucault", in Conversações, 141. Veja-se
ainda ''Rachar as coisas, rachar as palavras", 116; "A vida como obra de arte",
123; 125. "Qu'est-ce qu'un disposicif?", in Michel Foucault philosophe, 187.

100 ! Foucault. simplesmente

10. Boys don't cry - 1999. Direção: Kimberly Pewirce (também um dos
autores do texto). No elenco: Hilary Swank (Oscar de melhor atriz), no papel
de Teena Brandon; Chloé Sevigny, no papel de Lana; Peter Sarsgaard, no
papel de John. O enredo reconstitui uma hiscória real ocorrida. em 1993.
olhares e dizeres

! 101

Tom colaborou com a acusação. John e Tom agarram Brandon e brutalmente lhe tiram as roupas. comprometendo-se a dar. teve uma filha e voltou a morar na pequena cidade. uma investigação policial revela sua identidade feminina. localizada no sexo. Brandon vai à polícia e. Quando. Simplesmente • . é mais ela que ele". vai. Sob seu olhar perplexo. Lana. Mas Brandon não é bem ele. olhares e dizeres I 103 102 I Faucault. recua. Em seguida. Em suma. Quando fechada no quarto com Lana. "tomar a estrada". sua mãe e seus amigos. John e Tom surpreendem Lana e a levam também à casa de Candace. expressão que repete aos outros para tentar definir-se. Quando têm relações amorosas. Decidem fugir juntas. alguns anos depois. Entre seus objetos pessoais encontra-se um pequeno livro sobre "crise de identidade sexual". Leva-a então à sua casa onde. É Lana que a interrompe. Quase ao mesmo tempo. Lana busca Brandon na prisão. se se 11. aos olhos de todos. Brandon consegue escapar e encontra Lana. sob eles. pede. Aparentemente sem vínculos (salvo os raros encontros com um primo). Brandon tem sobre si o olhar e o dizer da verdade "reconhecida": verdade una. Informações em notas finais: John foi condenado e está apelando da pena de morte. quase em murmúrio. Após o banho. ou. em seguida. Depois de alguns momentos com ela no quarto. seu testemunho da "verdade". não se despe. faz o relato das agressões. Brandon vai então à casa onde se hospedara a fim de apanhar suas coisas. especialmente os rapazes. quando é por ela despido. que a faz ser levada a um hospital. meio ao acaso. começa quase mecanicamente a despir-se a fim de que Lana pudesse testemunhar sobre sua "verdade".que Brandon dirigia a mando de John e Tom -. que apaguem as luzes. quando posta sob o olhar do primo/confidente parece ingenuamente tola. é despida por John e Tom. pro- saber a verdade? Sou hermafrodita. à pequena cidade onde moram Lana. sobre si mesma Vê-se como um rapaz e faz saber que quer mudar de sexo. Uma pessoa que tem ór- põe fechar-se a sós com ela. Desconhecedora dessas informações. Na cena final. indignados. matam a tiros Candace e Brandon. apenas abre a porta e comunica a todos que Brandon é homem. Teena Brandon é levada presa. gãos femininos e masculinos. Brandon quer ser rapaz e produz sua transformação. exceto na última vez. com imensa dificuldade. Levam-na depois a um lugar ermo onde a espancam e estupram. todos os esperam. contam à mãe de Lana. Apaixona-se por Lana e é correspondido. como se perscrutassem sua "verdade". ameaçada. por sua vez. sozinha. mas sua única preocupação é tirá-la dali. expondo-a nua ao olhar de todos.Há uma última cena de amor em que Lana faz Brandon despir-se. Quando presa. Resumo do enredo Na cena inicial. relatando-a aJohn e Tom. na cela feminina. eis o que diz a Lana: "Quer de sua hóspede e faz a mesma descoberta. O nome de Brandon é Teena. Tenta comportar-se como o grupo de jovens que acaba de conhecer. essa mesma visão. estranha encontrá-la em uma cela feminina. Inquirida sobre a identidade sexual de Brandon e buscando impedir que a forcem a despir-se publicamente. Também se vê examinada pelo olhar de Lana ou o de sua mãe e. Candace vasculha os objetos pessoais Palavras e imagens • De Brandon. desesperadamente. Cobram-lhe segredo do ocorrido e conduzem-na de volta à casa de Candace para que se lave. que. Desencadeada por um acidente de carro . Hospeda-se na casa de Candace. testemunhou contra John e foi condenado à prisão perpétua. Lana. sendo porém submetida a uma espécie de interrogatório informal que quer desvendar não o estupro mas a natureza de seu sexo. "toma a estrada"ll.

((só há um modo de saber a verdade". de que precisavam os estupradores. 2. no disfarce do chapéu. focalizando as curvas femininas de coxas e quadris) parece finalmente fornecer ao espectador a informação aguardada. Segunda situação 1. 2. Em suma. não sem alguma ambiguidade: cCDirei a eles o que querem ouvir. Na cena inicial. Assim. Por isso é que a "verdade" de si mesma estaria perigosamente exibida em seu desnudamento. declara. Quando se fecha no quarto com Brandon e a impede de despir-se. Na cena do banho) após o estupro. Ao policial que a interroga. despir. nas roupas. afirma: "Não me interessa se você é meio macaco. aliás. E o nome. simplesmente mentira.e os dizeres que o acompanham. afinal. entrecruza imagens e palavras. e comprimindo os seios. as do poder que. sobre Brandon Candace "descobre". proponho o destaque de quatro cenas. • Da câmera e o do espectador sobre Brandon Para capturar o olhar da câmera . tem que estar inscrito na carne.quiser. é Teena. nos objetos vasculhados) a verdade "encoberta". verdade identitária. Tudo o mais é de menor importância ou é falso. 104 I Foucault. John e Tom localizam a marca da identidade no "nome" de Brandon. Simplesmente Primeira situação 1. que. Na cena em que a personagem se instala na casa de Candace. sobre Brandon e sobre si mesma Lana vê Brandon sem suspeitas e admite ver-se confusa. no corte de cabelos. Indica "linhas de forças". nos genitais postiços. estupradores e espectador. E no de] ohn: "Só quero a verdade. come- ça a insinuar-se no espectador uma dúvida sutil. veste-se depois. Eis um de seus dizeres: {(Também tenho sentimentos estranhos". esta é a única personagem com indícios de críti- ca e sugestão de perplexidade. ele próprio invisível e indizível. só interessa conjeturar sobre seu sexo e por que ('nunca fez amor antes do estupro~'. seu mentiroso". na expectativa de resolvê-la) só lhe resta (como. por sua vez. agora enfim nu. é preciso que as luzes se apaguem. • De outras personagens. a verdade está na transparência do visto e na unicidade do dito. uma in- desejada cumplicidade. O que sabemos ser a verdade". de costas. • De Lana. olhares e dizeres I 105 . tador . Vou tirá-lo daqui". revelando o circuito de condições dentro do qual somente alguma coisa como a "verdade" do sujeito é visível e enunciável. a câmera faz ver seu corpo seminu. no dispositivo instituído da sexualidade. a câmera percorre o corpo. é certo. e por isso também. de resto. Em suma. a câmera faz ver Brandon "transformar- se" em rapaz. mas com a camisa cobrindo-o até as pernas. no dizer de Tom. Nesse par de cenas) o personagem aparece como uma figura ambivalente. Nesse par de cenas. Na cena em que Brandon se declara hermafrodita. a mesma.mçiação". reunidas e contrapostas em dois pares. sustentando aquilo que pode ser "distinguido por marcas e recolhido em identidades". mas meio caricata) apenas uma espécie de falso artifício. Quando na prisão. aos estupradores) que o personagem se dispa. quase andrógina. essencial e universal. ••• o filme traça "linhas de visibilidade e de em. tudo se passa como se a lente da câmera intermediasse entre eles.que conduz o do espec.

1982. mais de uma bienta todo o filme. Rio de Janeiro. lembrar-se de que. se reconhece tributário da fenomenologia e fiel à lição de Merleau-Ponty naquilo "que constituía. 1984. FoucAuLT. para ele. certamente. se se instaura no presente. Francisco Alves. é preciso olhar ao longe mas também muito de perto e em torno de si"ls. nem o dizer filosófico prediz. Todavia. T. Rio de Janeiro. de r. Raras vezes e somente ao olhar e dizer de um personagem esboça-se uma luz desfocada. 11 .No plano das evidências.O uso dos prazeres. em que. O olhar filosófico não prevê. História da sexualidade. pretende. G. crad. trad. É também sob essa perspectiva que Foucault.. O diário de uma hermafrodi· ta. como aquela penumbra que am- Sob esse ponto de vista. DELEUZE. descrevendo a atividade filosófica como "trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento". assim como "Herculine-Adé- laide Barbin. enquanto dispositivo. para line Barbin. de M. ou ainda Alexina Barbin. Graal. Mas vê e diz criticamente. da Costa Albuquerque. Le Nouvel Observateur.. entre o que somos e o que estamos vindo a ser. 191. ou ainda Abel Barbin. 14. refaz a tonalidade do Mesmo e. in Michel Foucault philoso· phe.13. "Pour une morale de l'inconfort". FoucAuLT. como escreveu Deleuze. Percepção e discurso estão cercados pelo mesmo círculo de condições de visibilidade e dizibilidade a que ela própria pertence. Situam-nos na difícil passagem entre o que já se diz e vê e o que não ainda. fazem-nos "atentos ao desconhecido que bate à porta. dar a elas a indispensável mobilidade. designada em seu próprio texto ora pelo nome de Alexina ora pelo de Camille". porém.ontologia do presente. Apenas. IlI. entre o agora e o devir. "Qu'est-ce qu'un disposicif?". Isso significa que. ). a filosofia vê e diz. FOUCAULT. M. o vislumbre talvez de um dispositivo outro. a tarefa filosófica essencial: jamais consentir em estar totalmente à vontade com suas próprias evidências (. M. simplesmente olhares e dizeres I o 107 . creio.. retomo uma passagem tantas vezes lembrada. Em busca da filosofia Atitude de "diagnóstico". também Teena Brandon "foi um desses heróis infelizes da caça à identidade"12. um som destoante.. 787. Franco. à semelhança do Diário de Hercu- vez. permanece nos ecos do instituído. É assim.. Prefácio a Herculine Barbin. é como para perceber por dentro suas oscilações e falar de seus abalos. ser um depoimento contra a violência e uma resistência ao preconceito.. 13. De algum modo. 15. M. 106 I Foucault. em Dits et écrits. o Mesmo e o Outro. o filme faz saber que. Foucault também nos fala daqueles "momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar e a refletir'J14. 13. como pensamento de limiar que o pensamento filosófico é uma . Mas não passa de vislumbre. abril/79. 12.

presta-se a interpretações diversas e só com a prática adquire sentido preciso. org. se presta aos mais variados usos. em dezembro de 2001. A cidade grega. 2004. * Palestra proferida por ocasião do Seminário "Democracia e Soberania Popular". Faculdade de Campos. GLOTZ. Partidos e regimes políticos. em toda época e em todo lugar.mara dos Deputados. Democracia é uma palavra que. revistO e modificado.) um princípio político.I . Ed. O texto. partilhando tendências diferentes e. G.IX DEMOCRACIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Michel Foucault e Cornelius Castoriadis* (. Campos. instituições diversas. T. Mas este é apenas um ângulo possível de consideração. 111.. c.entre o murmúrio e a palavra (CALOMENI.. e não sem razão. foi publicado em Michel Foucault .. Alguns reconhecem nisso.). em Brasília.. freqüentes vezes opostas. governantes e representantes sociais. promovido pela Comissão de Legislação Participativa da Câ. como se sabe. democracia camo prática I 109 . são qualificados ou se autoqualificam como democráticos. a situação de termos cujo uso foi de tal modo banalizado que acabam por perder toda consistência conceitual.

c. heterogêneos.mas se espalha. isto é. pode-se dizer que. na Atenas do século V a. o aparecimento da sociedade moderna é assinalado pelo declínio de um tipo hegemônico de poder. Em uma entrevisra radiofônica realizada em 1996. in Dits et écrits. incrod. em seguida. hábitos. as luzes de algumas sugestões. permitir que as pessoas do povo. 1994. uma necessária flexibilidade e uma permanente incompletude. Mais sutil.. Não se exibe na identidade de um poder central e superior . que o esvaziamento conceitual não se deva apenas à vulgarização do termo. ainda que muito esquematicamente.. mas se exerce no plural . A cidade grega. in Microfoicado poder.. antes. 11 Da prática.2. São Paulo/Rio de Janeiro. 188. retomando a expressão de um historiador helenista clássico. mas à natureza mesma do conceito de democracia. Cones de Lacerda. de Roberto Machado. "Cours du 14 Janvier 1976". ainda pertencemos.Outros também cabem. o poder soberano. gestos. Trad. mais escuros de nossa sociedade. pouco antes de sua morte. de poderes. Às características desse tipo de sociedade vinculase a construção das significações modernas de democracia.como na figura do Estado soberano . para que a democracia não fosse uma palavra oca. sempre a partir dos mesmos pensadores. Graal. Vejamos agora algumas reflexões de Cornelius Castoriadis (1922-1997). "instrumento fundamental para a constituição do capitalismo industrial e da sociedade que lhe é correspondente. por exemplo.. desde o momento histórico de seu surgimento. em tom coloquial mas não menos denso. 105. monárquico. difuso. o uso que atribui ao termo "insignificância" para caracterizar nossa épo- tóricos de exercê-la que lhe conferem diferentes significados. M. 2. móveis. O poder disciplinar não é apenas repressivo ou ostensivamente opressor.: "Soberania e disciplina". primeiramente darei realce a alguns aspectos. a democracia seria «uma palavra oca" se não houvesse sido praticad4 pelas pessoas do povo: "Era também necessário.. de Araújo Mesquita e R. dedicassem seu tempo ao serviço da república"'. Michel Foucault e Cornelius Castoriadis. Não é primeiramente uma idéia. Simplesmente democracia como prática . 13. que têm início por volta do começo do século XIX e às quais. por assim dizer. E. numa palavra. Assim. 111 . 1998. FOUCAULT. tentarei delinear alguns sinais que marcam esse tipo de sociedade. recorro a elementos extraídos das análises de dois pensadores contemporâneos. IH. de alguma forma. G. enfim.trata-se. H. como por princípio.. 1.des ocidentais modernas. ocupadas em ganhar a vida. à democracia pertencem. o Para elaborar esse esquema. capilar. Traços da atualidade fato de se tratar de um conceito historicamente circunscrito. Mais ainda. pois. Paris. Rio de Janeiro. proponho considerar aqui um recorte histórico particular: o que demarca os contornos de nossas socieda. ed. em práticas minuciosas exercidas por todo o corpo social. complementarmente. é antes uma prática. e org. múltiplos. recobrindo um sentido universal. Difel. Afinal.I. 110 I Foucault. o autor explicita. e são os modos his- Segundo Michel Foucaulr (1926-1984). micropoderes cujo funcionamento dá sustentação e eficácia ao macro poder estatal. adestra as pessoas. Gallimard. a essa natureza de certo modo vaga vincula-se. GLOTZ. e em seguida publicada.. Não se mantém numa unidade. "produz" comportamentos. Tradução brasileira. ao conceito. aqueles que a descrevem e denunciam. Assim. voI. Pode-se pensar. de modo tal que parece incompatível com esse conceito que ele se substancialize em uma significação única e definitiva. A partir de suas idéias. portanto incessantemente construído e reconstruído. 1. anônimo. ele é "positivo". e pela insralação crescente de outro tipo de poder por ele denominado «disciplinar" ou "de controle". talvez mais fundamentais. 1980.

." 4. acompanhado de uma "disposição geral" que é de "resignação". 2. Eles são descritos como "profissionais da política" ou Upolíticos de carteirinha"3. Ibid. a compreender que a 'crise' não é uma fatalidade da modernidade à qual seria preciso submeter-se. 39. É dessa perspectiva que apresentarei. é na experiência de uma "contra-educação política" que a "insignificância" os alcança. a partir daí. Dizer isso é uma tautologia. Paris. a todo tipo de poder responde um tipo de resistência e de luta. por um lado. 8. Post-scriptum sur l'insignifiance. Ibid. então. Castoriadis opõe a boa "educação polírica" que se faz pela ariva participação das pessoas nas coisas comuns. de sua partici pação na coisa comum. prefácio Edgard de Assis Carvalho. Como as pessoas estão longe de ser idiotas. 38.doce e bela utopiade sair do conformismo generalizado. 30. ) e creio que só sairemos dele [do esgotamento ideológico] pelo ressurgimento de uma potente crítica do sistema e um renascimenco da atividade das pessoas. 27 e 33.• 29. ou de "conformismo generalizado". de "inibição" para agir6• Mas essas análises de nossa sociedade não se reduzem a seu desenho austero.. na direção de mudanças. 112 I Foucault. numa espécie de apatia política"5.ca. Éd. De orientação similar. "Enquanto as pessoas deveriam habituar-se a exercer todas as espécies de responsabilidades e a tomar iniciativas. Aqui e lá começa-se. habituam-se a seguir opções que outros lhes apresentam ou a votar por elas.. É a "insignificância" que. 4. faz ver que nisso consiste a educação política: em aprender a governar. tradução Salma Tannus Muchail e Maria Lucia. São Paulo. Primeiramente eles se representam a si mesmos ou representam interesses particulares. o problema do papel dos cidadãos e da competência de cada um para exercer os direitos e os deveres democráticos com a finalidade ."cidadão é aquele capaz de governar e ser governado" -. brevemente. "( . o resultado é que elas crêem cada vez menos e se tornam cínicas. não se terá bom êxito transformando do alto o regime central de governo ou o aparelho de Estado... c. a indicação de algumas pistas. mas é preciso esperar. por outro lado.. sentimos vibrar uma retomada da atividade cívica. distingue os políticos de hoje. Ibid . provisórias.. Veras Editora. Ibid. 38. 39."s Àquela "contra-educação política". 47-48. Como os poderes. 5.. é preciso confiar e é preciso trabalhar nessa direção"7. delinear e anunciar um horizonte de transformações. 40-44. No caso de transformação da sociedade moderna. estabelecendo "redes" dentro da rede do poder. Prospectivas Para Foucault. "Mas. pontuais. 6. 2001. as lutas. E. 30-31. Cf ibid. para serem eficazes. A democracia representativa "não é uma verdadeira democracia. 'adaptar-se' para não incorrennos em alguma espécie de arcaísmo. nesse momento. Tradução brasileira: Post-scriptum sobre a insignificância. heterogêneas. governando 9• 3. mas atuando estrategicamente na trama molecular dos poderes sociais. Coloca-se. Há um "esgotamento ideológico". Rodrigues. 9. apresentação Maria Lucia Rodrigues. precisam ser plurais. apoiando-se na afinnação de Aristóteles . de algum modo. Entretiens avec Daniel Mermet. Ibid. Quanto aos cidadãos comuns. simplesmente democracia como prática I 1 I 113 . móveis. de l'Aube. 7. 1998 . que é a do ripo disciplinar e de controle. Seus representantes muito pouco representam as pessoas que os elegem. CASTORIADIS.. lobbies etc. reproduzo algumas passagens de Castoriadis. Cada qual dos dois pensadores descreve e denuncia o presente com o intuito de questionar nossas evidências de pensamentos e nossas aderências de condutas e.

52. UM ROSTO DE AREIA" Notas sobre maio de 68* Para situar Foucault relativamente a maio de 68. que se mantém no estrito plano dos discursos. cuja conquista é tanto mais alcançável quanto mais se praticar a autonomia de pensamentos e de condutas. de S. mobilizar nossas inibições..que é aquele em que se é conduzido por outrem . São Paulo. . Foucault. descrevo. como na orla do mar. Paris. algumas predisposições que podem nos orientar rumo à maioridade democrática. 562·578. E se encerra com aquele prenúncio solene. Cf FOUCAULT. possivelmente. em abril de 1966 é publicado As palavras e as coisas. móveis.que precedia de perto 68 .111 x Finalmente. ser-lhe bem pouco acolhedora. As palavras e as coisas. T.404. em uma idéia mais ampla. meio teatral. sem nenhuma articulação com a ordem das práticas sociais. por sua vez.. na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.. Muchail. ) então se pode apostar que o homem se desvaneceria. eis certamente. um quase gesto. Casroriadis. Cf. Les mots et les choses. L FOUCAULT.que consiste no governo ou condução de si mesmo. Estas são. reúno os dois autores que escolhi como apoio. 2) dispor-se à educação política que propicie ao cidadão comum a aprendizagem de "governar e ser governado". nos convoca à saída de um "estado de menoridade') . no final daquela entrevista. "Qu'est-ce que les Lumieres?" in Dits et écrits IV. Gallimard. contribuindo assim para sacudir as apatias. um rosto de areia" J I 115 . um norte para balizar nossas tentativas de exercício democrático.. Gallimard. 11. 10. flexíveis. 1966. M. O livro. COMO NA ORLA DO MAR. 398. supostamente. a apontar o iminente desaparecimento do sujeito: "( . um fragmento de sua trajetória . ibid.de 1966 a 1970 _ permitindo-me misturar considerações conceituais com curiosidades biográficas. em maio de 1998.para o "estado de maioridade" . o mundo é Outro?". 1944. brevemente. A partir das reflexões que fizemos. provisórias. É um norte apenas. algumas dessas condições podem ser identificadas: 1) dispor-se à pluralidade de participações heterogêneas. Texto inédito. no comentário de um texto de Kant l l . Mas suficiente talvez para nos predispor a certas condições indispensáveis se quisermos fazer de nossa própria prática um lugar de transformações e de superação de nossas desesperanças. Depois dos já polêmicos escritos anteriores (principalmente História da loucura). abalar os conformismos. um rosto de areia"1. desloca o homem do centro da história e da origem dos saberes.. usa a expressão "sociedade autônoma"IO e nos convida à difícil porém verdadeira democracia.deveria. Martins Fontes. compondo pistas diversas que sejam capazes de convergir em alianças e pactos em nome de causas democráticas compartilhadas. trad. 1981. pontuais. Paris. 114 ! Foucault. Governo de si ou autonomia. M. Em u~a avaliação * Palestra proferida por ocasião da Semana de Ciências Sociais "196830 anos. Simplesmente como na orla do mar. A atmosfera intelectual da época .

. Dits et écrits I. Inusitado êxito que Foucault. simplesmente que havia de produzir-se em maio de 6S?"'. do centro. F. As mutações em curso produziam-se relativamente a um tipo de filosofia. Paris. Ora.367-368. "segundo as descri- pois. em suma.. chegamos lá. "Foucault vende como pãezinhos" é título de um artigo do momentos. 1978. estranha. 1990. sugere outros: "E também. Cf. publicada em II Contributo. por ocasião de uma entrevista realizada anos mais tarde (em 1978. Didier Eribon. Depois de apontar motivos de ordem mais teórica. de H. o que estava em via de acontecer não tinha sua própria teoria. M. perguntou-me ela. humanista ções publicadas pelos jornais da época. "Repensando essa época. Foucault realça algumas razões para um esperado insucesso. trad. afinal. contudo.. de reflexão geral. em relação aos problemas reconhecidos como válidos e importantes. reconstruía uma história das ciências de modo tão extravagante. ora. por comparação. 70. em definitivo... 159.70. eu diria que. como professor de filosofia. M. Como lembra o biógrafo de Foucault. se ocupava com a loucura e. todas as posições humanistas relativas ao sujeito. com uma calma. "Entretien avec Michel Foucault". in Ditsetécrits IV. DOSSE. Trombadori. Ensaio. 1993. seu próprio vocabulário. ERIBON. Michel Foucault. 3. jan. S. História do estruturalismo I. 7. diante das manchetes sobre a primeira revolta estudantil. Companhia das Letras. eis aí.. 32-33. como na orla do mar. FOUCAULT. as pessoas lêem a obra Se foi possível dizer que se estava "em pleno Foucault". o próprio Foucault. D. naquela mesma avaliação retrospectiva. No momento em que eclode maio de 68. Em pleno Foucault . sua repercussão foi "fulgurante"). da direita. hoje em dia. 116 ! Foucault.. o da primeira metade de nosso século. a melhor venda do verão". se quisermos.. a grande excomunhão de As palavras e as coisas por parte de todos: Les Temps Modernes) Esprit. o fato de que não se podia levar muito a sério alguém que. 1994. M. n. "Chronologie". As palavras e as coisas não era o formidável anúncio da rachadura geológica de nossa cultura humana. Le NouveZ Observateur. )"6. um rosto de areia" I 117 . comprei os jornais na estação de Lyon e. Uma passagem escrita em 1967 nos diz O que pensava ele sobre a Tunísia (e. Feist.. não estava lá. aconteceu. D. Desde setembro de 1966. A convergência desse conjunto de razões provocou o anátema. Na verdade. explicar: 2. Cf. Gallimard. disse a minha mulher. ao que parece. 23-84). tem sobre a Tunísia: o sol. as resistências a certas aproximações com o estruturalismo e. no conjunto.1980. Era pancadaria de todos os lados. em geral. vendeu dezenas de milhares"z..4. paixões tão de Foucault na praia ou a exibem pelas mesas de bar para mostrar que não ignoraram tal acontecimento. o mar. .retrospectiva. de outro. como a supervalorização do marxismo. 4. FOUCAULT. O livro não deveria vender mais que duzentos exemplares. São Paulo.. São Paulo. 367. encontrei estudantes tunisianos e então aconteceu o inesperado. "Entretien avec Michel Foucault" (com D. viera buscar um retiro sem ascetismo. O artigo foi publicado em Le Nouvel observateur. DOSSE.. in Dits et écrits IV. Provavelmente foi só no Brasil e na Tunísia que encontrei nos estudantes tanta seriedade e tanta paixão. da esquerda.jmar. no dia 3 de maio.l. sobre o Brasil): "Eu viera por causa dos mitos que todo europeu. 6. a grande tepidez da África. a um tipo até de cultura que era. de A.. de um lado. Com efeito. Ed. tenta. Cabral. um tanto genericamente. é certamente esse tipo de reconhecimento que está tão vivo no depoimento de Maurice Clavel: "Quando desembarquei em Paris. FOUCAULT. História do estruturalismo. e ERIBON. Michel Foucault) uma biografia. Paris. trad. As coisas estavam se desagregando e não existia vocabulário apto para exprimir esse processo. instalara-se em uma pequena cidade na Tunísia. publicada em 1980). tão particular. "acontecimento editorial do ano. as pessoas talvez reconhecessem como que uma diferença e ao mesmo tempo se revoltavam por não reconhecer o vocabulário do que estava em via de acontecer (. 'Onde?'. em As palavras e as coisas. 160.

12. "La philosophie strucruraliste permet de diagnosttiquer ce qu'est 'aujourd' hui'''. Ibid. reproduzido por Eribon.. "Entretien . 13. M. para mim. mas março de 68 e em um país do terceiro mundo"12.. Dada minha posição de professor. Constituída uma comissão de cerca de vinte membros (entre eles.. ainda na Tunísia. Judith Miller. O retorno ocorre em outubro de 68.. . fundada sob o então ministro da Educação. apreender com exatidão as reações do governo francês em face de tudo aquilo. M. à p. entre uma e outra viagem. Na Universidade de Túnis as revoltas estudantis começaram bem antes: no final de 66. ao mesmo tempo. "Entretien . Simplesmente algo diferente de todo o ronronar de instituições e de discursos políticos na Europa"lO. M.. FOUCAULT. sendo francês. a absoluta avidez de saber"B. DossE. um rosto de areia'· ! 119 . é um grande enigma"ll. Canguilhem. Inicialmente nomeado para a Faculdade de Nanterre. quando volta para a França. onde assiste a um comício e participa das últimas manifestações na Sorbonne. François Châtelet (Cf. D.. M. esconde em seu jardim um mimeógrafo para a impressão de panfletos. Ali. Michel Foucault . aos quais caberá a tarefa de compor o corpo docente.. no fim de maio e no fim de junho. escreve: "Daqui. ninguém o conhecia por outra coisa que não seu hábito de trabalhar desde o amanhecer diante das janelas de sua villa. Cf. mas recebe ameaças e intimidaçães do serviço de polícia paralelo e chega a sofrer maus-tratos físicos. os tumultos. D. interrupções dos cursos.. recusa o reconhecimento de validade nacional para o ensino da filosofia ao diploma obtido em Vincennes. se agravam. in Dits et écrits IV... entre outros. Olivier Guichard. detenções e greve geral dos estudantes. tem ocasião de ir a Paris. Edgar Faure. distribuindoo ou convocando à greve. Jacques Ranciere. ". Para ele. abriga estudantes foragidos. e por sua gula de viver e amar ao sol". 176. atua intensamente: procura o embaixador da França. onde não chega a assumir o posto. 79. Como era argumento do ministro que o conteúdo de filosofia ali ensinado era demasiadamente particular e especializado. Foucault concede uma entrevista publicada sob o título "Le piege de Vincennes". ERIBON. um estudante é espancado por policiais. Gilles Deleuze (que não pôde aceitar por estar adoentado). 189. "Estávamos em março de 1968: greves. não estou certo de como na orla do mar. in Dits et écrits IV. o que mais me encanta. em junho de 67. ". F. "é sempre com um olhar um pouco estrangeiro"I3.. Barthes.. A polícia entrou na universidade. Retomemos trechos de seu relato. Alguns ainda estão lá. Alguns foram condenados a oito.. não é oficialmente importunado.. 9. 584. o novo ministro da Educação. Foi. Convidará para o quadro docente da filosofia.175). "Chronologie". (. vincula-se ao centro experimental de Vincennes. de certo modo. Foucault é escolhido para a área de filosofia1 4 • Ao mesmo tempo em que a 10. em resposta às recentes reivindicações. ERIBON. maltratou numerosos estudantes. in Dits et écrits I. em janeiro de 1970. atrelados a questões palestinas e às oposições ao governo. uma verdadeira experiência política. dez e mesmo quatorze anos de prisão. Por duas vezes. 179.. 78. Jean-François Lyotard. entre eles. além de viver "entre os prazeres do sol e a ascese filosófica. que davam para a baía.. 14. ) fui levado a tocar com o dedo 8. o que me permitiu realizar facilmente uma série de ações e. feriu gravemente vários deles e os jogou na prisão. protegido em relação às autoridades locais. lê-se: "Nessa cidadezinha onde ele era feliz. eu estava. no mês de junho.. pouco mais tarde.. "não foi maio de 68. ) Na Tunísia (. e é em março de 68 que recrudesce a repressão violenta. História do estruturalismo 11.9. Michel Foucault. portanto. Alain Badiou. Derrida) encarregada de designar os primeiros professores de diferentes áreas. à margem" e. Foucault diz-se "sempre um pouco deslocado. Nem bem aceito na Tunísia. Michel Serres. vale a pena reproduzir um pequeno trecho da resposta de Foucault: "Como sabem. nem bem recebido na França. Quando. 118 I Foucault. FOUCAULT. Tive uma idéia direta do que se passava nas universidades do mundo. também comprometeu-se intensamente com atividades políticas. FOUCAULT. Em um depoimento de Jean Daniel. 33.sérias e.. Mas. FOUCAULT. 78. in Dits et écrits I. 11. fiquei profundamente impressionado com aquelas moças e aqueles rapazes que se expunham a riscos terríveis redigindo um panfleto. Os professores franceses intercedem e Foucault. espécie de faculdade-piloto.

de práticas e instituições sociais que entram na composição da noção de dispositivo. Fiz a mesma coisa com a noção de autor. fiquei principalmente surpreso. o mesmo preço. é o abandono das descrições estritamente intra e interdiscursivas que caracterizavam a configuração de uma epistéme e direcionavam o horizonte meto· dológico de As palavras e as coisas. Foucault é considerado "pouco engajado" pelas esquerdas e criticado «(por não ter 'feito nada' em maio de 1968". seguir-se-ão comentários mais concretos e até irônicos.. de A. ) um livro muito técnico. os poetas e os loucos. 16. em 1969. Suas investigações agora se ocuparão. Michel Foucault. destaquemos um trecho da entrevista de 1978. 188. 18. M. 17. Cascais e E. isto é.. de modo algum. um rosto de areia·· I 121 . Lisboa. quando ingressa no College de France. ". O que é um autor? Trad. M. ERlBON. busquei considerar as coisas tomando distân· cia em relação a essas discussões indefinidas. É nessa direção. admirado e até decepcionado em relação ao que vira na Tunísia. in Dits et écrits lI. Ten· rei fazer coisas que implicassem um comprometimento pessoal. Ao tratamento quase solene do tema. isto é. as marcas do evento em Michel Foucault e as mudanças que nele acarretaram. 817. que Foucault vai relativizar o alcance e o entusiasmo por As palavras e as coisas.. Outro aspecto. O que existe. Assim. crime são para mim coisas mais intensas. creio. sexualidade. precisos. Loucura. aquela proclamada "morte do homem" passará a receber contornos e consistência mais precisos. pronunciando em 2 de dezembro sua aula inaugural. numa discussão com Lu· cien Goldman. ". 1992.. Já lhes falei de experiências· limite: eis o tema que verdadeiramente me fascina· va. trata-se (. Para dizer a verdade. eu me ocupava de coisas sérias na Tunísia"'IS.. FOUCAULT.. ) de ver de que modo.. como na orla do mar. FOUCAULT. essa configuração heterogênea que articula o dircursivo e o extradiscursivo. e em particular da de Vincennes. lá permanecendo até 1970. por exemplo. "Le piege de Vincennes". pelo menos. agora também em Vincennes. dirá: "Não se trata de afirmar que o homem morreu... quinze anos de prisão (.. definidos no interior de uma situação determinada"16. Mais uma vez. Isso explica talvez a maneira como. a essa hipermarxi· zação. in Dits et écrits IV.. 67. O que os distingue. morte. simplesmente indica também o efeito recíproco. não implicaram.. em novembro-dezembro de 1968.. F. As lutas. Primeiro. A um amigo Oean Gattegno) que militara com ele na Tunísia.comissão é atacada pela direita "como um bando de esquerdistas". Em contrapartida. Mas que a filosofia exista. in Dits et écrits IV. é a separação que os isola. do pensamento de Foucault pós-68. Esta breve reconstituição permite ver a marca forre e controvertida de Michel Foucault nos acontecimentos de 68. que se endereçava principalmente a técnicos da história das ciências (. não a unidade de um gênero ou a constância de uma doença" (FOUCAULT. sua paixão. FOlJCAULT. ).são 'filósofos'. D. físico e real e que colocassem os problemas em termos concretos. Vega. merecem destaque. ).. Não há comparação entre as barricadas do Quarcier Latin e o risco real de cumprir. com sua violência. Des· se ponto de vista. "Qu'esc·ce qu'un auteur?" (compce rendu de la séance). "( . "Quando voltei para a França. ligado ao anterior. declara: "Vou dizer a eles: 'Enquanto vocês se divertiam em suas barricadas do Quartier Latin. como se lê naquela entrevista de 1978. 120 I Foucault. a partir daquele momento. em Vincennes. dois traços. assim como a seus vizinhos. 80. como na Tunísia. Assim. a essa discursividade incoercível que era própria da vida das universidades. Foucault será o "filósofo engajado" e o "intelectual militante". M.81. Portanto. 70).. Cordeiro. in Dits et écrits I. segundo quais regras se formou e funcionou o conceito de homem. os mesmos sacrifícios.. 15. "Encretien . "Entretien . ou seja. lá não estavam os problemas que mais me apaixonavam. M. vamos conter as lágrimas"17. explicita e principalmente.. certa categoria de pessoas cujas atividades e cujos discursos variaram muito de uma época para outra. As palavras e as coisas foi para mim uma espécie de exercício formal"18.

Águas de Lindóia. Chamemos.. pelo menos do lado daquele que o escreveu. a atribuição de autoria a seus próprios discursos. na França e na Tunísia". a saber. Educ. pois. Para este livro já velho. No clima anterior a 1968 nada disto era possível"19. . simplesmente * Este texto é uma versão modificada de comunicação apresentada no Encontro Nacional de Filosofia. Confesso que isto me repugna (. Mas. número 16. expondo-o às luzes do próprio discurso.Mas você acabou de fazer um prefácio. ANPOF. nos temas e na direção das investigações. "os mais visíveis e superficiais". a propósito da prisão. da sexualidade. Mas o paradoxo parece instalar-se quando ele traz para o centro da cena aquilo que precisamente desejaria fora dela.Mudanças. 2002. parece subestimar o acontecimento. eram-lhe "completamente estranhos". É esse paradoxo que está já presente na célebre formulação que Foucault tomou emprestada a Beckett: "Que importa quem 19. eu devena escrever um novo prefácio. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 123 . nada mais fosse que as frases de que éfeito. É certo que. M. por ele mesmo".)..Pelo menos é curto. mais uma vez e para concluir. Foucault reconhece que alguns de seus aspectos. Ibid. São conhecidas as considerações de Foucault sobre o apagamento do autor. Perguntado por que. Prefácio à nova edição de Histoire de la folie. o testemunho de Foucault. a ava- XI MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOR' liação é outra: "Maio de 68 teve uma importância. àquilo que realmente fez mudar as coisas" e que "era da mesma natureza. FOUCAULT. excepcional. São Paulo. sem maio de 68. eu não teria jamais feito o que faço. 122 I Foucault. Tão paradoxal quanto escrever um prefácio escrevendo sobre a relutância em escrevê-lo é querer preservar a obscuridade do anonimato falando dele.. da delinqüência. . ao evocar maio de 68. o autor. . no que tange "àquilo que estava realmente em jogo. sem dúvida. 81. e que não se desdobrasse neste primeiro simulacro dele mesmo que é um prefácio (. Quereria que um livro. . ). sob o título "Foucault. 1996. Foi publicado na revista Margem.

a resposta será "quem é apenas alguém". é o texto "vertical". As duas outras que Foucault indica estão assim resumidas: "a função-autor está ligada ao sistema jurídico e institucional que encerra.. farei liSO de passagens extraídas de três textos: ('O que é um autor?" (1969). mais que paradoxo. imagino-os como estendidos na "horizontal". (O que é um autor?. 2. e diferentes são as conseqüências. "Qu'est-ce qu'un ameur?". em Estruturalismo e teoria da linguagem. dentro de uma concepção teórica sobre a categoria do autor.792. IV. 44). Ibid. 631-636. numa determinada cultura. trad.. 4. como num jogo. 124 I Foucault. Gallimard. Porém. o texto de 1968. M. 1971 (A ordem do discurso. 1971) bem como o item "Les unités du discours" de L'Archéologiedu savoir. articula o universo dos discursos. 56). "que importa". jan. 1969.. A ordem do discurso (1970) e "Foucault" (1984). LoyoIa.. 797 (tead.. Paris. produzido bem depois deles. trad. M. guarda porém uma "singularidade paradoxal"3. Função-autor Restringindo a função-autor ao âmbito de livros e textos. Laura Fraga de A. Com os dois primeiros."característica do modo de existência. "Qu'est-ce qu'un auteur?".. simplesmente I. Ver. Michel Foucau!t e o di!aceramento do autor I 125 . com que os pretendo cruzar. de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade"4. menos que um nome próprio. mas "de uma operação complexa" que tem por efeito 3. M. o gesto que aponta para o desejo pessoal de impessoalidade em seu posro de auror não faz dele necessariamente um privilégio. a noção de autor de que aqui se trata. talvez apenas o dilua. 798 (trad.destaco três pontos. Só para sugerir um exemplo. in Ditsetécrits I. O nome de autor está atrelado não propriamente a um indivíduo real e exterior que proferiu um discurso. M. "Réponse au Cercle d'Epistémologie" (trad. alguém disse: que imporra quem fala"l Considerando que o primeiro segmento dessa formulação ("que importa quem fala") diz respeiro a qualquer auror. São Paulo. aqueles cujo modo de ser. Gallimard. por exemplo. pode-se nela reconhecer certas características. Assim. 1. não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos. "Qu'est-ce qu'un auteur?". escritos na mesma época. FOUCAULT. in Dits et écrits. a função-autor não resulta simplesmente da espontânea "atribuição de um discurso a um indivíduo". Sampaio. se perguntarmos então quem disse "que importa quem fala)). Cf FOUCAULT."O que é um autor?" (1969) . perfazendo uma dobra circular do discurso sobre si mesmo. como um caso entre outros. mas de "textos cruzados". determina. em todas as épocas e em todas as formas de civilização" (Dits et écrits I. 803. qualquer autor. Ver também: FOUCAULT. in Dits et écrits. in Epistemologia/28. M. ("Resposta a uma questão". Vega. não bem de palavras. in Dits et écrits.fala. da Glória Ribeiro da Silva. é diferente. Paris. bras. 792. 789-821. 1992. ••• Do primeiro texto . talvez haja nessa dobra um jogo de estratégia. trad. digamos assim. "Réponse à une question". 46). in Dits et écrits I. Paris. duas das quais escolho destacarS . 1996). ele inclusive. "Foucault". A relação entre aucor e nome próprio é também tratada por Foucault quando discute o conceito de "obra"como unidade discursiva. FOUCAULT. Cordeiro. Cascais e E. I. Autor e nome própriO Ainda que o "nome de autor" seja um "nome próprio" e com ele mantenha semelhanças. trad. Para apresentar aqui algumas considerações sobre esse assunto. isto é. de A. Com efeito. L'ordre du discours. 1972. isto é. mas a certo tipo de discursos com estatuto específico. dizer que um nome foi erroneamente atribuído a uma pessoa e dizer que o nome Guimarães Rosa foi erroneamente atribuído ao autor de Sagarana. e que o segundo ("alguém disse: que importa quem fala") concerne ao autor dessa fala. F. Lisboa.81). Rio de Janeiro./mar. indiferenciadamente.. 11. o terceiro. é uma função . formo um pequeno conjunto e..34). 5. os torna providos de uma atribuição de autoria. 1994. Por um lado. Gallimard.

126 ! Foucault. embora possa modificar a imagem tradicional que se faz de um autor. 30 (trad. mais "negativo". Circunscrito como um deles. será a partir de uma 11. O assunto ocupa um breve trech. por sua vez.. Autor. nos discursos. 52-53). Autor. I. outra a do que argumenta no corpo de um livro.. Desse texto... tratar-se-á de perguntar não pelo sujeito constituinte. Míchel Foucau!t e o dilaceramento do autor I 127 . ••• o segundo texto .. 10. 28-31 (trad. Ibid. é claro. mas por sua constituição enquanto função do discurso.~'proibição" de certos discursos. crição dos diversos procedimentos de rarefação ou controle dos discursos. cujo papel consiste em reduzir. 8. ) função do autor. 810 (trad. 26-29).. uma é a posição-sujeito do autor que fala em um prefácio. a categoria do autor pertence ao grupo de procedimentos classificados como internos. mas invertê-la: considerando-se a função-autor uma particularização possível da funçãosujeito. "como unidade estilística". tal como a recebe de sua época ou tal como ele. por assim dizer. é claro. Entre os chamados internos. função de controle "Trata-se do autor... "segregação" de outros. por sua vez. Ibid.. outra ainda a que avalia a recepção da obra publicada ou a esclarece)'. de acontecimento. Autor.. a descrição do "autor" é precedida pela do "comentário" e seguida pela da repartição em "disciplinas". Mas penso que . "como certo campo de coerência conceptual ou teórica". Ibid. Por outro lado. e segundo determinadas regras (por exemplo. a um reexame da noção de sujeito. não como o indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto. Ibid. ).. "como momento histórico definido e ponto de encontro de certo número de acontecimentos"?). 28 (trad.."I2 111. limito-me a reproduzir três passagens. 54-57). mas a uma "pluralidade de egos" ou a "várias posições-sujeitos" (por exemplo. 800·801 (trad. como unidade e origem de suas significações.foram apresentados anteriormente. podem remeter.. 801-802 (trad."13 111. FOUCAULT. 26). simplesmente 11. Ibid. o autor é definido "como certo nível constante de valor". Autor e sujeito A análise da função-autor conduz. o autor é também sinalizado e definido pelos próprios textos que.. como foco de sua coerência. Pois.. Ibid. tor (. reexaminar a noção de sujeito não significa restaurar a pergunta pelo sujeito originário. função modificável "( . não a um indivíduo singular..o lO. entre outras conseqüências.um "ser de razão"6. o que eles têm de acaso. 69). de ficção'!. L'Ordre du discours. O autor entendido. 7.A ordem do discurso (1970) . 12.. 802·803 (trad. mas o autor como princípio de agrupamento do discurso. não apenas efeito de uma construção. a modifica. a existência do indivíduo que escreve e inventa. 9. inserido na seqüência de des6. 50). Sem dúvida. conferindo-lhes pequenos títulos. imposição da "vontade de verdade" . Os procedimentos ditos externos ou de exclusão . portanto construído. Ora. função recebida "Seria absurdo negar.dá à noção de autor um tratamento. 28·29).ao menos desde certa épocao indivíduo que se põe a escrever um texto no horizonte do qual paira uma obra possível retoma por sua conta a função do au. M. 13. e complementarmente.. considerar um texto do ponto de vista da "análise interna e arquitetônica" já é colocar em questão "o caráter absoluto e o papel fundador do sujeito"9.

Dele retraço algumas linhas que permitam possíveis cruzamentos com os destaques dos textos anteriores. Benedetti. Antes. inclusive. Dictionnaire des philosophes. IV). Mais. política. que a investigação de Foucault ocupase. E. em uma determinada sociedade. considero o terceiro texto. 389). um sujeito pode ser legitimado como "sujeito do conhecimento". coincidindo com sua sucessão cronológica: arqueologia (História da loucura. teria orientado a produção dos escritos foucaultianos. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. vols.. A arqueologia do saber). Lê-se. O título e a destinação o texto intitula-se "Foucault" e destinou-se a compor um verbete para um Dicionário de filósofosls. alguma coisa pode ser qualificada como objeto para um conhecimento possível. 31 (ecad. 942944 (republicado em Dits et écrits. D. As palavras e as coisas. São Paulo. genealogia (Vigiar e punir. basicamente. Dicionário dos filósofos. 128 I Foucault. Dits etécrits IV. D.. Entretanto. não com quaisquer modalidades de "subjetivação" e de "objetivação" para a construção de quaisquer saberes possíveis. 29). 631 (trad. 2001.. é no mínimo curioso que esteja instalado em um dicionário de "autores" um pensador que se renha empenhado em denunciar a função restritiva do autor. trad. 11. ética.17. 14. M. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 129 . vol. 1984. mas com aqueles. a seguir. Martins Fontes. Galvão. publicado quatorze a quinze anos após os outros. Para mostrá-lo..14 *** Finalmente. 389). 633 (trad.16 que os teria presidido..nova posição de autor que recortará (. ) o perfil ainda trêmulo de sua obra. A vontade de saber.. a "objetivação" do objeto.. Berliner. 388-391. I. C. em uma determinada época. • A mais conhecida reúne-os segundo os momentos "metodológicos". por sua vez. de um modo ou de outro. como precisamente assentado na questão da constituição do sujeito. o ponto de vista da "constituição do sujeito" permite.. O nascimento da clz'nica. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. 16. "Foucault". uma reconstituição de seus trabalhos reunidos desde o ponto de vista de um "projeto geral. t. a dois procedimentos interdependentes: a "subjetivação" do sujeito. esse projeto. M. em que o próprio sujeito é colocado como objeto de conhecimento. Essas condições dizem respeito. FouCAuLT. Brandão.. Reconstituição de um projeto e constituição do sujeito Sob o nome-título nada se lê acerca do autor.. 17. E. dispondo-os em um modo novo de repartição.. Com efeito. vertente ética (O uso dos prazeres. é descrito. HUISMAN. Paris. 11 e III de História da sexualidade). Ibid.. I. em uma determinada sociedade. em Dicionárro dos filósofos. que. Organização semelhante já foi também formulada em termos de prioridade de "áreas": epistemológica. na medida em que realiza análises (históricas) das condições de possibilidade para a construção de saberes. I de História da sexualidade). o texto é. I. precisamente. apresento um breve resumo do trecho inicial. a estranheza se atenua quando se examina o teor do verbete. que seus trabalhos sejam identificados mediante um título que é nada menos que seu "nome próprio". por inteiro. Apresentado como uma espécie de fio condutor dos escritos de Foucault. C.. Ibid. em uma determinada época. estudos sobre o percurso da produção foucaultiana fornecem algumas formas de agrupar seus escritos. Simplesmente Lê-se que a produção de Foucault pode ser denominada "História crítica do pensamento. Ora. PUF. dar-lhes um novo desenho. Ora. 15. O c/fidado de si. in HUISMAN.

então assistente de Michel Foucault. E dessa suspeita há pelo menos dois indícios. em contrapartida a uma abordagem mais "negativa" (como em A ordem do discurso) da função-autor. um desdobramento do autor que a si próprio se coloca numa espécie de zona limítrofe em que ele é e pode não ser igual a si mesmo. a tal ponto que permite. R assinatura" o paradoxo Atenuada. Organização semelhante tem por critério. História da loucura é uma história do "Qutrol) e As palavras e as coisas é uma história do "Mesmo"). a qual é conduzida pela temática da "cons- tltUlção do sujeito". um rearranjo do conjunto de escritos. F. o doente. a questão do "Mesmo" e do "Outro" (por exemplo. 389). quem desenvolveu aquela concepção teórica sobre a categoria do autor e nela pretendeu diluir o seu próprio apagamento parece agora revestir-se de um disfarce que. 633 (trad. é estrategicamente instrutivo que o título-autor recubra um texto cujo desenvolvimento trata da questão do sujeito. 389). inicialmente solicitado a François Ewald.. • análise da "constituição do sujeito como objeto para ele mesmo"19 . Foucault a "retoma por sua conta" e "a modifica". a positiva explicitação de uma pluralidade possível de "posições-sujeitos". de acordo com diferentes modos de operar a análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento: • análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento com pretensão a estatuto científico (isto é. é claro . mais uma vez. faz ressurgir o paradoxo sugerido anteriormente. O nascimento da clínica. de que tudo seja ainda um prosseguimento daquele jogo estratégico no qual quem ainda é apenas alguém. mas as amplia ou mesmo as recobre. 633 (cead.temos História da loucura. suspeita-se aqui. como uma espécie de pano de fundo. 130 I Foucault. 18. É quando se atenta para o fato de que o texto do verbete. se se quiser. Ora.• Outro modo de organizar tem por critério a "transitividade" ou "intransitividade" da dimensão discursiva às práticas extradiscursivas (por exemplo..18 (isto é. ao contrário. enquanto As palavras e as coisas se classifica no nível discursivo estrito. como o louco. que não se opõe necessariamente às anteriores. Segundo. ao mesmo tempo em que. o "projeto geral" proposto justifica agora uma nova organização dos escritos de Foucault.. Em suma e para concluir. o texto permite um desdobramento do próprio título: também permite. Primeiro. se a funçãoautor é não somente recebida. mas de sua produção discursiva. • análise da constituição do sujeito enquanto objeto do conhecimento como "o outro lado de uma partição normativa. História da loucura e Vigiar e punir misturam-no ao das práticas sociais). o expõe à plena luz. inclusive. enquanto objeto das chamadas ciências humanas) temos aqui As palavras e as coisas. sob a assinatura.temos os volumes de História da sexualidade. 19. com ela. Com essas observações..retrospectivamente. é possível que. Ibid. malgrado o título. Suspeita-se de que. o que interessa é fazer notar que.em três conjuntos. esse texto realize~. não é do "autor" que o texto fala. Trata-se de redistribuí-Ios . 111. mas modificável. Vigiar e punir. se lembrarmos que a funçãoautor é uma particularização da função-sujeito.. abreviando. Ibid. Entretanto. Ora. a estranheza porém ressurge e. em sua materialidade. foi redigido e vem assinado por um certo Maurice Florence ou. o delinquente) e . sob o título. M. simplesmente Michel Foucault e o dilaceramento do autor ) 131 .

Gallimard. 1969. PUF. • Naissance de la clinique.· bibliografia ! 133 .1963. Paris. 1963. • Falie et déraison. Acrescentamos aqui uma relação das obras de Michel Foucault seguida de uma relação de traduções em língua portuguesa. • Raymond Roussel. PUF. Histoire de la folie à l'âge classique. 1954. Paris. Hyppolite. 1966. Paris. Gallimard. 1962. Une archéologie des sciences humaines. Paris. • L'Archéologie du savoir. PIon. Obras de Michel Foucault • Maladie mentale et personnalité. • L'Ordre du discours. 1961. Une archéologie du regard médical. Gallimard. directeur d'études J. Paris. Paris. 1961 (Texto datilografado) . Paris. Leçon inaugural au Col/ége de France prononcée le 2 décembre 1970. Paris. These complémentaire pour le Docrorat. 1971. • Maladie mentale et psychologie. Paris. Gallimard.BIBLIOGRAFIA Os textos utilizados ou citados ao longo dos artigos estão referenciados nas respectivas notas. • Les Mots et les choses. PUF. • lntroduction à l'anthropologie de Kant.

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br CEARÁ EDITORA VOZES LTOA Rua Major Facundo.1999. GO e-mail: vozes27@uol. 197 A Tel. • Estratégia. Rio de Janeiro. Tradução de Andréa Daher. 7 de Setembro.: (62) 224-2585/224-2329 • Fax: (62) 224-2247 74010-010 Goiânia.br EDITORA VOZES LTOA Rua 3. Coleção "Ditos e Escritos".br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Major Facundo. BA e-mail: livsalvador@paulinas. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. . poder-saber. e. vol. simplesmente LIVRARIAS PAULlNAS Rua Barão de Itapemirim.. 15 leI.Q. MA e-mai1: fspsaoluis@elo.Piedade Tel. 2003. Martins Fontes.org. Tradução de Veta Lúcia Avellar Ribeiro. 04218-970.com.: (61) 326-2436 • Fax: (61) 326-2282 70730-516 BraSl1ia..: (98) 221-0715. São Paulo.: (71) 329-0109 40070-190 Salvador.loyola.Centro Tel.br GOIÁS (92) 633-4017 LIVRARIA E DISTRIB. 1974-1975.. Tradução de Eduardo Brandão_ São Paulo.com. Fax: (31) 3226-7797 3{l~H?:O' Belo .: (85) 231-9321 • Fax: (85) 2214238 60025-100 fortaleza. sexualidade. 665 Tel. 680 .DISTRIBUIDORES DE EDiÇÕES LOYOLA Se o{a} senhor{a) não encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nosso ros da Motta.com.org. São Paulo SP· Caixa Postal 42.Centro Tel. MT e-mail: vozes54@uol. Rio deJaneiro.com.Lojas 19122 . Fax: 69005-141 Manaus.: (921 232"5777 • Fax: (921 233-0154 69010-230 Manaus. E5 e-mail: livvitoria@paulinas. V. voI.com.:. 2001.Centro Tel.br. Coleção "Ditos e Escritos". Ipiranga. • Ética. 04216-000. BA e-mail: vozes20@uol.com.BI. nO 291 Tel.br LIVRARIAS PAULlNAS Av. Forense Universitária. MA e-mail: livrariavozes@terra.br 138 ! Foucault. 105 .Conjunto Bela Center . 381 .org.loja 1 TeI.com. AM c-mail: vozes61@uol.: (711 329-0326/329-1381 Telelax. MS. Goiá" 636 Tel.br MARANHÃO EDITORA VOZES LTDA Rua da Palma. 1997. 203 .com.br AMAZONAS EspiRITO SANTO EDITORA VOZES LTOA Rua Costa Azevedo. distribuidores.: (921633-42511233-5130.br LIVRARIAS PAUlINAS SCS . CE e-mail: vozes23@uol. 704 . política. C . São Paulo.Centro Tel. MULTlCAMP LTDA Rua Direita da Piedade.: {27) 3223-13181 0800-15-712 • Fax: (27) 3222-353: 29010-060 Vitória. Curso no Collége de France.loja 2 Tel.com.1970-1982. 2004. Tradução de Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa.nllmJ: ·vozes04I'uol. 698A .LIVRARIA VOGAL -' Av. Consultoria de Roberto Machado.br • e-mail: vendas@loyola. IV. CE c-mail: livfortaleza@paulinas. BA e-mail: multicamp@uol.org.. Getúlio Vargas. • Em defesa da sociedade.'. Martins Fontes.Centro Tel.com. 502 . DF c_mail: vozes09@uol. • Os Anormais. 216 .br MATO GROSSO EDITORA VOZES LTOA Rua Antônio Maria Coelho.com. AM e-mail: livmanaus@paulinas. • A Hermenêutica do sujeito. 1981-1982. SP· Telefone: (11) 6914-1922' Fax: (11) 6163-4271 [ursos BAHIA • Resumo dos cursos do Collége de France. Tradução de Maria Ermantina Galvão.com.br llVRARIAS PAUlINAS Av.br BRAS/LIA EDITORA VOZES LTOA SCLR/Norte . CO e-mail: livgoiania@paulinas. Rio de Janeiro.Q. Curso no Collége de France.br llVRARIAS PAUllNAS Rua de Santana.: {65) 623-5307 • Fax: (65) 623-5186 78005-970 Cuiabá. 7 de Setembro. MT e-mail: Imarchi@terra.: (65) 3226-9677 • Fax: (65) 322-3350 78005-600 Cuiabá. Curso no Coll'ge de France.org. CO e-mail: distribuidora@livrariaalternativa. 05 . 499 .: (85) 226-7544/226-7398 • Fax: (85) 226-9930 60025-100 Fortaleza.br MARCHI L1VRARlA E DISTRIBUIDORA LTDA .. Rio de Janeiro) Forense Universitária. Zahar.br LIVRARIA ALTERNATIVA Rua 70.: (71) 329-2477/329-3668 • Fax: (71) 329-2546 40060-001 Salvador. ~_.1975-1976.br MINAS GERAIS EDITORA VOZES LTDA Rua Sergipe.com.f:lorizonte.Centro Tel. São Paulo. Fax: (98) 231-0641 65010-440 São Luís.br EDITORA VOZES LTOA Rua Carlos Gomes.Setor Central Tel: (62) 229-0107 / 224-4292· Fax: (62) 212-103 74055-120 Goiânia.: (61) 225"9595 • Fax: (61) 225-9219 70300-500 Brasma.: (62) 225-3077 • Fax: (62) 225-3994 74023-010 Goiânia. • Home page e vendas: www. 2001. .: (71) 329-5466 • Fax: (71) 329-4749 40060-410 Salvador. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail.: (98) 232-3068/232-3072 • Fax: (98) 232-265 65015-440 São Luís. 2004. Forense Universitária. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta. 730 Tel.com.br LIVRARIAS PAULlNAS Av.Bloco A n. 332 TeI. faça o pedido por reembolso postal à Rua 1822 nQ 347. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta..org.335.~o Pedro Tel. DF c-mail: livbrasilia@paulinas. n° 124 . 120 . Martins Fontes.(31) 3226-9010.

PR e-mail: livcuritiba@paulinas.ED[TORA VOZES LTOA Rua Tupis. (21) 2232-5486 • Fax: (21) 2224-1889 20050-005 Rio de Janeiro. Rj EDITORA VOZES LTOA Rua México. MG e-rnail: distribuidora@astecabooks. Fax: (11) 3242-4326 01004-010 São Paulo. Fax: (21) 2622-9940 24020-320 Niterói. MG e-mail: vozes32@uo[. Fax: {1913234-9316 13015-002 Campinas. 5P e-mai!: atendimento@livrJrialoyola. PR e-mail: livmaringa@paulinas. MG e-mail: maedaigrejabh@wminas.Hugo lange TeI. PARAf8A.org.com. Presidente Vargas.br PARANÁ EDITORA VOZES lTOA Rua Voluntários da Pátria.: (51) 3221-0422 • Fax: (51) 3224-4354 90020-008 Porto Alegre.org.sala 1701 Telefax: (21) 2233-4295 / 2263-4280 20071-000 Rio de Janeiro.: (81) 3224-5812/3224-6609 Fax: (81) 3224-9028 / 3224-6321 5001 0-120 Recife. {11 131 06-4418/3106-0602 • Fax: (lI 13106-3535 01013-001 São Paulo. 59 .. RIO GRANDE DO NORTE E SERGIPE EDITORA VOZES LTDA Rua do Príncipe.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Duque de Caxias. SP e-mail: vozes40@uol.br DISTRIBUIDORA lOYOlA DE LIVROS LTOA Rua Quintino Bocaiúva.Centro Tel. 981 São Migue[ Paulista Tel. RS e-mail: livrariarcus@[ivraria-padre-reus. 225 .577-300 São Paulo.br PERNAMBUCO.com.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Dagmar da Fonseca.145 Tel.br Rua Barão de jaguara.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Voluntários da Pátria.org. AL e-rnail: livmaceio@paulinas.br SANTA CATARINA EDITORA VOZES Rua Jerônimo Coelho.Bloco A. 864 .br Vendas no Varejo Rua Senador Feijó. SP e-rnail: vozes03@uol.: (48) 222-4112 • Fax: (48) 222-1052 88010-030 Florianópolis.com.: (44) 226-3536. SP e-mail: expedicaOI!.br Rua Barão de [tapctininga. 963 Tel.com.br lIVRAR[AS PAUlINAS Rua dos Andradas. km 19. 870 .com.org. SP e-mail: senador@livrarialoyo[a. PA e-mail: livbelem@paulinas.br Rua Frei Caneca.Mooca Tel.: (51) 3226-3911 • Fax: (51) 3226-3710 90010-273 Porto Alegre. SP e-mail: livsmiguel@paulinas.org. 1164/1166 Tel. ALAGOAS.: (83) 241-5591 /241-5636 Fax: (83) 241-6979 58010-821 João Pessoa. 1212· Centro TeI.Cidade Universitária Telefax: (21) 2290-3768/ 3867-6159 21941-590 Rio de Janeiro.br Via Raposo Tavares.: (82) 326-2575.org.: (8l) 3423-4100.com. PR e-mail: vozes41@uol. PE e-mail: livrecife@pau[inas.com.: (31) 3273-2538 • Fax: (31) 3222-4482 30190-060 Belo Horizonte.: (19)3231-1323.Centro Tel.org. SP e-mail: loyola_barao@lterra. 1 S8-C Tel. 120 Telefax: (11 J 3242-0449 01006-000 São Paulo. 174 . Getúlio Vargas. 308 Tel.com. MG e-mail: livbe[ohorizonte@paulinas.org.Centro Tel.: 111) 6693-7944 • Fax: (11) 6693-7355 03168-010 São Paulo. RS e-mail: livpa[egre@pau[inas. 246 Tel. 224 . 114 Tel. Fax: (69) 224·1361 78900-010 Porto Velho. 1054/1233 -Centro Tel.br lIVRAR1AS PAULlNAS Av..com. 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