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FOÜCAULT.
S1MPLESMENTE

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LEITURAS

CI~G

FILOSÓFICAS

Aristóteles e o logos, Barbara Cassil1
Aristóteles no século XX, Enrico Berti
Da nahneza, José Gabriel dos Santos
Diálogos com a cultura contemporânea, W.M
Eric Weil e a compreensão do nosso tempo, Marcelo Perine
Filosofia a partir de seus problemas (A), 2" ed.,
Mario Ariei González Porta
Filosofia da ciência - introdução ao jogo e a suas regras, 8" ed.,

Rubem Alves
Filosofia da natureza (A), Jacques Maritail1
Foucault, simplemente - textos rennidos, Salma TamJUs Mucllail
Metáfora viva (A), Paul Ricoeur
\1ovilllento sofista (O), G. B. K.erferd
l\'iilismo (O), Franco Volpi
Ofício do filósofo estóico (O), RacheI Gazolla
Ordem do discurso (A), 10" cd., Michell''oucault
Para não ler ingenuamente uma tragédia grega, Rachei GazoUa
Quc é a filosofia antiga? (O), Pierre Hadot
Razõcs dc Aristóteles (As), 2" ed., Enrico Berti
Saber dos antigos - terapia para os tempos atuais, 2.' ed.,

FOUCRULT,
SIMPLESMENTE
·~2xtQS :-eL:f"":id:i5

Giovallni Reale
Sete lições sobre o ser, 2" ed, Jacques Maritain
Sobre O político de Platão, Comeljus Castoriadjs
Sócrates ou o despertar da consciência, fean-Toel Duhot
Tempo e razão - 1.600 anos das confissões de Agostinho,
Carlos Arthur A. Nascimel1to
Transformação da filosofia, vol. 1, Karl-Otto Apel
Transformação clJ filosofia, vol. 2, Karl-Otto Apel
Vontadc de crer (A), William James

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SUMRRIO

PREPARAÇÃO:

Marcelo Perine

DIAGRAMAÇÃO:

REVISÃO:

Maurélio Barbosa

Maurício B. Leal

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Apresentação ................... .

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A TAAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULT .................. .

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A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA
Filosofia e/ou história?

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O MESMO E O OUTRO
Faces da história da loucura

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EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO

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DE PRÃTICAS SOCIAIS

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PRODUÇÃO DE SABERES

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FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS ................ ..

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OLHARES E DIZERES .............. ..

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ISBN: 85-15-02992-8
© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2004

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. a história.. o próprio pensamento é instigado a tornar-se múltiplo e igualmente afinado com a inventividade e o rigor.. ...... a abordagem de temas como o ensino. para este livro. uma unidade dotada de significado. o poder.. UM AOSTO DE AAEIA·· Notas sobre maio de 68 .. ao mesmo tempo... RPRESENTRÇÃO 115 MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOA .. por outras. a loucura.. COMO NA OALA DO MAR.. o livro comporta suas próprias diversidades... Percorrê-los exige uma dedicação cuidadosa para que se possa enfrentar esta diversidade e.... trata-se... revelada por vezes na eleição dos Çlbjetos tratados e. Como reunião de textos dispersos. na contextualização das análises..... Por outro lado. Relativamente às diversidades... a filosofia. Também os temas discutidos são diversos...OEMOCRRCIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Mich~1 Foucault e Cornelius Castoriadis . a cultura.. de um livro escrito em diferentes momentos... artigos e capítulos de livros já publicados.. a democracia. as instituições.. 109 o ••••••••••••• . 123 BIBLlOGAAFIA .... Os textos reunidos neste livro exprimem esse caráter.. no entanto. Também seus escritos têm a marca da diversidade de temas e de abordagens.. não permite que se determine.. Em sua maioria são conferências...... a preapresentação ! 7 .. não deixando de formar..... .... 133 o pensamento de Michel Foucaulr é um pensamento plural.. À semelhança dos escritos de Foucault. em primeiro lugar. . ao percorrê-los...... Os textos que o compõem expressam a marca temporal dos momentos em que foram produzidos. dar conta de sua inventividade e de sua densidade conceitual.

O nascimento da clínica (1963).. pois na medida em que discutem diferentes aspectos do pensamento de Foucault. a leitura desta simples reunião de textos tem muito a nos propor e ensinar. 13. com seus últimos livros publicados. deve-se à natureza dos textos que o constituem. reconhecem. desdobrado em muitos temas. FOUCAULT.Razão e Desrazão". As palavras e as coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969). 2. Resultado de uma leitura e de uma análise detidas dos escritos de Michel Foucault. uma repartição possível dessa trajetória em três momentos. aos leitores deste livro diverso. este livro tem sua índole vinculada ao ensino. com certo consenso. é voltado principalmente para questões relativas à constituição dos saberes e inclui os principais livros publicados na década de 1960: A história da loucura (1961). e 1984. O segundo mamemo. O primeiro. quando saiu seu primeiro grande livro. Os estudiosos de Foucault. será possível apreender um pensamento que tem muito a dizer ao nosso presente. a profundidade das análises -. por sua vez. como também ele próprio. n. ) senão o trabalho critico do pensamento sobre o pensamento? Senão (. conhecido como período da "arqueologia". PUC/MG. A unidade de significado do livro. Assim como dizer Foucaul~ simplesmente implica tantas outras coisas . conhecido como períodó da "ge* Este texto é uma versão modificada de aula ministrada no curso "Michel Foucault . periodizações e problemas centrais dos escritos de Foucault. Belo Horizonte. 1992. a diversificação das abordagens. Talvez por este motivo sejam tão didáticos. ) tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de leptimar o que já se sabe? M. na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em abril de1991. escrito em muitos tempos. favorecendo a compreensão de um pensamento tão profundo e complexo quanto instigante. Outros. realizam análises detidas sobre temas precisos.. Todos os textos nele reunidos ou nasceram de aulas ministradas por sua autora ou destinavam-se a prepará-las. v.. pois. mais específicos. acima de tudo. Desse modo. Alguns possuem um sentido mais geral. o caráter dos textos é igualmente diverso. tratando de métodos. 8 I Foucault. A trajetória intelectual de Michel Foucault (1926-1984) pode ser inscrita entre 1961. Foi publicado na Revista Extensão. 1. fev. Márcio Alves da Fonseca Professor do Departamento de Filosofia da PUC/SP A TRAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULr Mas o que é filosofar hoje em dia (. esclarecem o leitor a seu respeito. Por fim. O uso dos prazeres. simplesmente a trajetória de Michel Foucault I 9 ..sença de um único objeto. servem de iniciação à sua leitura.como a pluralidade do pensamento.

e quer estabelecer não as regras formais de sua inteligibilidade. intitulado A vontade de saber (1976). e supõe. FOUCAULT. A análise lingüística. a trajetória de Michel Foucault ! 11 . suas mudanças. 1971.. por sua vez. ainda mais recencemence. e trata-se de buscar não sua origem ou seu sentido secreto. os discursos são tomados em sua positividade. "jamais-dito"3. o que deve ter sido na Europa. O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984( Tomando esta repartição como ponto de partida e roteiro. mas aqueles considerados científicos e.. a gradativa edição dos cursos que Foucault ministrou no Collêge de France entre os anos 1970 e 1984 (foram ministrados treze cursos). cuja publicação foi iniciada em 1997. O comentário é uma espécie de discurso segundo a duplicar o discurso comentado. o próprio Foucault declara suas preocupações e seus propósitos. faremos iniciar a abordagem de cada um desses momentos. respectivamente. como "fatos". desde o século XVII" . pois. alguma verdade implícita no dito explícito do discurso primeiro. M. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". Cf. das transformações e do desaparecimento ••• Em texto de 1968. intitulados.. Com a transcrição da seleção de passagens em que. Revista Tempo Brasileiro. em determinada época. da Glória R da Silva. "Resposta a uma Questão".. de M. em 1994.. um enfoque explicitamente histórico ("na Europa. não porém quaisquer discursos. ) para que se constitua o saber que é nosso hoje e. 21. simultaneamente. Já a descrição foucaultiana dos fatos discursivos se limita a enunciados já formulados que compõem as formações discursivas. mudo . assim como as novas regras que presidem a formação de novos discursos em outra época. que Foucault produzir~ e realizara em diversos países). o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem. portanto. trad. Petrópolis. alguma origem mais remota a ser reencontrada e um sentido oculto a ser decifrado.. é centrado sobre questões relativas aos mecanismos do poder e inclui os principais livros da década de 1970: Vigiar e punir (1975) e o volume I da História da sexualidade. Gallimard. dos Dits et écrits (são quatro volumosos livros que reúnem textos dispersos. conferências. por um lado. Supõe. até "o saber que é nosso hoje") e a preocupação está 1. e. assim como suas aproximações e diferenças.nealogia". 28 (Epistemologia). as regras que presidem seu surgimento. seu funcionamento.de algum modo atravessam o sentido explícito.mais essencial e. diz respeito à língua como sistema formal que rege a formulação tanto de enunciados efetivamente realizados como a dos que. aulas etc. os das chamadas ciências humanas ("o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem").79. ao mesmo tempo. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. de maneira mais precisa. simplesmente 3. assim descrevia Foucault os propósitos de suas primeiras investigações: "determinar. trad.2. nas suas dimensões diversas. O primeiro momento de seus escritos tem. nele dormitam. FOUCAULT. nem ao modo de uma análise lingüística. O terceiro momento trata de questões relativas à constituição do sujeito ético e inclui os volumes II e III da História da sexualidade. Supõe. poderiam vir a ser constituídos. que esta origem e este sentido . mas as condições de sua emergência. Rio de Janeiro.. ao contrário. um conteúdo de significações "já-dito" e. por outro lado. seu desaparecimento. 36. Paris. 2. jan/mar. Luís Felipe Baeta Neves. o modo de existência dos discursos e singularmente dos discursos científicos (. 1972. a cada vez. desde o século XVII. 1969. buscando fazer surgir temaremos esboçar os traços que caracterizam esses três momentos. artigos. M. Observe-se que esta descrição histórica dos discursos não é feita nem à maneira do "comentário". 10 I Foucault. ver também L'Archéologie du savoir. mas o jogo de regras que define as condições de possibilidade do aparecimento. a fim de que possam ser trazidos à luz pelo comentário. em tese e em número infinito. centrada na descrição dos discursos. A este conjunco devem ser acrescencadas ainda duas situações ocorridas após a morte de Foucault: a publicação. Vozes. Nas análises de Foucault. mais particularmente.

ver também L'Archéologie du savoir. por exemplo. foi o como do poder. jogo este que é. FOUCAULT. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. são regiões do L'Archéologie du savoir. quem pode dizê-lo.e entre eles sobre "os que têm por domínio este curioso objeto que é o homem" . diz Foucault. ou ainda o solo onde são constituídas as formações discursivas historicamente realizadas e que compõem as diferentes configurações no espaço do saber. "que os reencontrarei (esses domínios do saber eleitos como área de investigação) ao termo da anãlise. 12 I Foucault. salvaguardar ou confirmar os contornos do próprio domínio escolhido. 1979. Em uma passagem de 1976. de quaisquer discursos que Foucault trata. Trata-se tão-somente de "um privilégio de partida.. de 1970 até agora. a trajetória de Michel Foucault I 13 . grosso modo. Com efeito. M. in Microfísica do poder. trad. Foucault assim declarava: "O que tentei investigar. como se pode dizê-lo. eis o procedimento que Foucault chama de "arqueologia". "uma primeira aproximação" ou "um primeiro esboço.. M. 27. Interessam-lhe os que constituem o campo do saber considerado científico e. de que as primeiras não são meras precursoras. dois limites: por um lado. a biologia e a economia. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. o campo do saber assim assumido como obje4. enfim. é a investigação sobre os discursos científicos .que melhor lhe permite trazer à tona "os mecanismos existentes" entre exercícios de poder e produção de saberes reconhecidos como verdadeiros. autoriza o que é permitido dizer.. M. M. 27. Por um lado.179.. Trata-se de uma circunscrição relativa. Ele mesmo nos adverte de que a demarcação desse donúnio é uma escolha de certo modo hipotética. certa presunção de racionalidade científica"s A escolha do domínio. Por outro. Maria Teresa de Oliveira e Roberto Machado. a história natural e a análise das riquezas. portanto. Será nos escritos posteriores que se tornarão mais claros os motivos de semelhante eleição. "Nada me prova". 5. pelo contrário. "Soberania e disciplina". nem que descobrirei o princípio de sua delimitação e de sua individualização. numa época dada e numa dada sociedade. variável num curso histórico marcado por diferenças e descontinuidades. transmite e que por sua vez reproduzem-no. numa determinada época e para uma determinada sociedade.. tentei discernir os mecanismos existentes entre dois pontos de referência. a respeito dos escritos do segundo momento de sua trajetória. dentro dele. 6. e não de outros. nada me prova que tal descrição poderá dar conta da cienrificidade (ou da não-cientificidade) desses conjuntos discursivos que assumi como ponto de ataque e que apresentam todos. 43. que em As palavras e as coisas as análises mostram como na Europa dos séculos XVII e XVIII emergem determinadas formações discursivas que vão constituir a gramática geral. simolesmente to de investigação pode precisamente esfacelar-se sob o efeito da própria análise. em tese. no início. seu a priori histórico. Do mesmO modo. ser usada em outros campos do saber. as regras de direito que delimitam formalmente o poder e. Graal.de tais ou quais discursos. 7. genericamente.4. 43. o que deve ser reconhecido como verdadeiro e o que deve ser excluído como desqualificável. Rio de Janeiro.. FOUCAULT. ver também L'Archéologie du savoir. Mas não é. Assim é. a região das chamadas ciências humanas. oS efeitos de verdade que este poder produz. FOUCAULT. enquanto no século XIX vão surgir a filologia. Estabelecer esse jogo ou conjunto de regras que. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". nem limita o método nem delimita o próprio domínio escolhido. a que instituições isso se vincula etc.. FOUCAULT.. Pode-se chamar a esse "jogo de regras" de epistéme de uma época. essa de~arcação não pretende definir. por outro.6. Ora.7. a demarcação do domínio não limita o ãmbito de aplicabilidade da arqueologia que poderia. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". portanto. e duplamente relativa. ••• E contudo é um privilégio. 53-54.

Quando Foucault passa a explicitar esse momento de sua investigação. "Verdade e poder". que só existe em sua "concretude". in Microftsica do Poder. a trajeto ria de Michel Foucault I 15 . "é o método para a análise da discursividade local. instituições sociais diversas. particularmente sobre os das ciências humanas. Ver. Trata-se. 6. in Microfisica do poder. que qualificam os objetos dignos de saber. de certo modo. Ora. tais como práticas jurídicas. 10. 251. em Microftsica do poder:. discursivos e extradiscursivos. M. como faz principalmente em sua história do nascimento das prisões (Vigiar e punir). in Microfisica do poder. se toda sociedade tem seu regime de verdade com efeitos de poder. enquanto a epistéme é também um dispositivo . Abandona. mas como exercício. envolve articulações entre elementos heterogêneos. FOUCAULT.. M. o dispositivo. FOVCAULT. FOUCAULT. "Introdução" (de R. e. 154. a noção de epistéme pela noção mais complexa de "dispositivo estratégico". um elemento prioritariamente discursivo do dispositivo -. "Sobre a história da sexualidade". a este respeito. M.. compreende-se que é sobre os discursos científicos. "Soberania e disciplina". como prática. a partir da discursividade local assim descrita. por exemplo. Assim. 172. Machado). também o poder não deve ser compreendido como uma "idéia" ou uma "identidade teórica". de evidenciar as articulações entre saber e poder. projetos arquitetônicos. a genealogia constrói uma política de resistência e de luta. que vai incidir a investigação. *** Em entrevista concedida pouco antes de sua morte.saber cujo terreno é mais movediço. "O olho do poder". particularmente no caso das ciências humanas. III I Foucault. agora. uma vez que. 183-185. 75-76. a genealogia é a tática que. antes. Mas com outras transformações. A denominação "genealogia" será mantida por Foucault ao referir-se ao terceiro e último momento de sua trajetória.ou. assim se exprimiu Foucault a respeito de seus últimos escritos: "Ten11. Mais de uma vez Foucault afirma que os propósitos explícitos nos escritos da fase genealógica já estavam presentes. mas "o conjunto de regras segundo as quais se distingu~ o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"9. entendendo-se que. Por "verdade" deve-se entender não "o conjunto de coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar". arqueologia e genealogia se distinguem ao mesmo tempo em que guardam. e cujos efeitos de poder. mas "regras" historicamente diferenciáveis. ativa os saberes libertos da sujeição que emergem desta discursividade"l1. por isso mesmo. Mas adverte também que uma mudança ocorreu na condução das análises. pode ter mais "eficácia política"8. as instituições apropriadas. mediados. escreve ele. Simplesmente com a trama das instituições e práticas sociais. 13. "Poder-Corpo". por assim dizer. a mesma natureza e o mesmo teor. passa também a definilo menos como "arqueologia". 221. 9. pelo que podemos chamar de modos de produção da verdade. praticamente. Poder-seia dizer que a arqueologia é como englobada e ampliada na genealogia e que. os sujeitos aptos a produzi-los. Foucault amplia o âmbito das análises: de análises quase sempre mais preocupadas com discursos ou interdiscursos. "Enquanto a arqueologia". mas não percebidos. para denominá-lo "genealogia". 175. mais claramente aberto a combates e cuja história. prioritariamente de natureza estratégica. XVI. E. são sobretudo disciplinar e normalizar.. Nesse momento de seus escritos. "Verdade e poder". passa a priorizar seu cruzamento "Sobre a geografia". 8. "Genealogia e poder". 149. assim como a "verdade" de que se trata não é nenhuma essência universal. "Genealogia e poder". multifacetado e cotidiano 10. nos primeiros escritos. enquanto a arqueologia efetua uma análise descritiva veiculando uma denúncia. "Os Intelectuais e o poder". em nossa sociedade a produção da verdade é regulamentada por regras que autorizam a eleição dos discursos reconhecidos como científicos e a conseqüente exclusão de outros saberes.

"O cuidado com a verdade". sobre o desejo. org."Por que tínhamos feito da sexualidade uma experiência moral?" .. 43-44. 13. "técnicas da vida". Agora... 16 I Foucault. G. eis algumas observações de Foucaulr: "O que me impressionou é que na ética grega as pessoas se preocupavam com sua conduta moral. indivíduo que se constitui a si mesmo. jurídicos ou religiosos. de uma moral enquanto reflexão sobre a sexualidade. Rio de Janeiro. FOUCAULT. H. 136. Cf. quase sempre. "O retorno da moral". da Glória R da Silva. Cf. ).to responder a um problema 'preciso: nascimento de uma moral. Rio de Janeiro. continua a fazer filosofia fazendo pesquisa histórica. H.últimas entrevistas. in O Dossier. 1984. 12. A. assim.O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984) . O projeto inicial da História da sexualidade anunciava um percurso histórico semelhante. DREYFUS. T.. O uso do prazeres. Como nos livros anteriores. de C. 10-11. Neste intervalo. a pergunta que ele então se colocou . 15. buscando trazer à luz as transformações que marcaram a passagem do Renascimento à Idade Clássica e. tomando então a relação a si e aos outros. detendo-se então na Antiguidade grega e greco-romana. ou a das leis definidoras do que é permitido ou interditado. e RABINOW. Uma mudança importante ocorreu relativamente ao período histórico estudado. F. ESCOBAR. 15. História da sexualidade..levou-o a procurar mais "atrás" pelo "nascimento de uma moral". não porém como aquele "curioso objeto" de um domínio de saber. e nem quer um sistema legal que interfira na nossa moral pessoal. FOUCAULT.. A segunda observação é que a ética não estava relacionada a nenhum sistema social . Estou interessado nessa semelhança de problemas"16. .passaram-se oito anos. 75. suas ligações com elas próprias e com os outros muito mais do que com problemas religiosos (. 86. desde que a maioria de nós já não acredita que a ética esteja fundada na religião. de compreender nosso presente. enfim. ) eu me pergunto se nosso problema atualmente não é.. P. O terceiro ponto a observar é que o que os preocupava. Ao privilegiar essa perspectiva.12. L. trad. Mas agora a cronologia é outra.. as que assinalaram a passagem do final da Idade Clãssica à Modernidade. semelhante a este. Foucault alterou radicalmente o plano inicial previsto para a obra. R BELLOUR. seu tema. de certa maneira. do modo de comportar-se ou das posições em face de códigos e leis. sua ética. M. eSCALA. BARBEDEITE. Entre a publicação do volume I da História da sexualidade A vontade de saber (1976) . Até então as histórias que escrevera atravessavam. na direção. trad. O uso dos prazeres. privada (. o foco das investigações será o sujeito. como espaço de referência. era constituir um tipo de ética que era uma estética da existência". in O Dossier . enquanto "sujeito do desejo"14. a perspectiva que ele privilegia não é a dos códigos morais. a traietória de Michel Foucault I 17 .. M..últimas entrevis· tas. "Um devaneio moral".. "Sobre a genealogia da ética: uma visão do trabalho em andamento". principalmente. Ana Maria de A Lima e M.. in O Dossierúltimas entrevistas. ). simplesmente A alteração na cronologia foi acompanhada por mudanças teóricas e deslocamentos de temas. nos últimos séculos antes de Cristo e nos primeiros séculos da era cristã 13 .. M. um percurso que ia desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). que Foucault chama de "práticas de si". in O Dossier . a característica da genealogia de compreender o presente. 16. 14. Graal. ibid. daquilo. "Introdução". voI. 11. a investigação permite melhor aproximar dados da Antiguidade de problemas de nossa atualidade. mas a da conduta. mas como sujeito ético. o prazer. Taurus.ou pelo menos legal-institucional (.e a dos volumes II e 1II ..últi· mas entrevistas. Nesse enfoque. da Costa Albuquerque. mantendo. 1984. "artes da existência"ls. pois. como reconhece o próprio Foucault. "Introdução". E as aproximações que em seguida faz: ''(. Porém. 16. A este propósito. Cf. ). EWALD. com realce para a chamada Idade Clãssica (séculos XVII e XVIII).

20. há. F. 76. Um segundo eixo desses escritos está em certo ângulo a partir do qual os temas são abordados. 19. em resumo. Em outra passagem realça essas diferenças. 18. em Vigiar e punir.. EWALD. quando reflete sobre si como ser vivo.20. in O Dossier . o segundo tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres tem por título "As formas de problematização".. finalmente. articulam-se entre si. o segundo interroga o que habitualmente se entende por "poder". na visão teórica. 12 (os títulos entre parênteses foram acrescentados por nós). o terceiro momento interroga o que habitualmente 17. O uso dos prazeres.. Ibid. conduzindo à análise dos mecanismos de exercícios dos poderes relacionados à produção de saberes. E conclui apontando para aproximações: "São. Ibid. ••• A partir daqueles eixos de aproximação pode-se. "Introdução". 75. parti do 'problema' que ela podia constituir num certo contexto social. já que por "problematização" deve-se entender "o conjunto de práticas discursivas ou não-discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e a constitui como objeto para o pensamento JJ21 . sem contudo escamotear suas diferenças: o primeiro momento interroga o que habitualmente se entende por "progresso do conhecimento". 76. as semelhanças também existem. F. na cronologia. FOUCAULT. que o próprio Foucault faz questão de reconhecer. como se problematiza a atividade sexual?. ). ser falante e ser trabalhador (As palavras e as coisas). tratavase de analisar as mudanças na problematização das relações entre delinqüência e castigo através de práticas penais e instituições penitenciárias no fim do século XVIII e no início do século XIX. 18 ! Foucault. em todos eles. por sua vez ~ o propósito de fazer a história das relações entre pensamento e verdade e o ângulo das problematizações~. político e epistemológico: o problema que a loucura colocava para os outros. Agora. "O cuidado com a verdade".Mudanças. foi problematizada através de uma certa prática institucional e um certo aparelho de conhecimento. Aliás. EWALD. quando se julga e se pune enquanto criminoso (Vigiar e punir)? Através de quais jogos de verdade o ser humano se reconheceu como homem de desejo (História da sexualidade)?"!'. E elas têm pelo menos dois eixos comuns. ao primeiro tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres dá o título "Modificações". num dado momento. um mesmo propósito de base: escrever "a história das relações que o pensamento mantém com a verdade"18. Aliás. "O cuidado com a verdade". todos os escritos são sustentados por uma mesma pergunta de fundo: "Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a pensar quando se percebe como louco (A história da loucura). Aqui.últimas entrevistas.últimas entrevistas. tratava-se em suma de saber como se 'governava' os loucos. Os dois eixos comuns. Em um caso. duas vias de acesso inversas em direção a uma mesma questão: como se forma uma 'experiência' onde estão ligadas a relação a si e aos outros"l? Com efeito. agora como 'governar-se' a si próprio". conduzindo à análise das práticas discursivas constitutivas dos saberes reconhecidos como verdadeiros. in O Dossier. compreender a reunião dos três momentos da trajetória de Foucault em um mesmo conjunto. nos temas. Primeiro. 76. Todos eles se direcionam a "problematizações". Dito de outro modo. na passagem dos momentos anteriores ao último. pois. quando se olha como doente (O nascimento da clínica).. juntando sugestivamente as duas pontas de sua trajetória. simplesmente a trajetória de Michel Foucault l I 19 . 21.. parti do problema que o comportamento sexual podia colocar aos próprios indivíduos (.. da História da loucura à História da sexualidade: "A propósito da loucura. M.. Do mesmo modo. Eis ainda uma passagem em que esse eixo comum é explicitado: "Em A história da loucura a questão era saber como e porque a loucura..

FOUCAULT. 11.últimas entrevistas. "o da verdade. outro político.. São Paulo. em novembro de 1981. M. Educ.que duvida do estabelecido. M. BOGus.27. por isso mesmo. in O Dossier... F. Série Cadernos pue. Le philosophe et la sociologie.25. 1984. "O cuidado com a verdade". O uso dos prazeres. M. porém.se entende por "sujeito". simplesmente 11 A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA Filosofia e/ou história?* A título de introdução. ele descreve como exigências.a que se pode chamar filosofia . Risumés de cours) como ainda os opúsculos Les sciences de l'hommeet la phénoménologie e Le métaphysique dans l'homme. BARBEDElTE. EWALD. quer se lhe realce o conjunto. FOUCAULT. todas elas. conduzindo à análise da "constituição de si mesmo como sujeito"22. 71. in O Dossier .. "ser capaz permanentemente de se desprender de si mesmo"26. C. VERAS. faz nela perceber a presença daqueles traços com que Foucault desenha o perfil. L. N. como se exprime o mesmo Foucault. n. 129. 74. 22. 13. quer se lhe acentuem os momentos. ou entre essência e experiência. 81.. "O retorno da moral". eSCALA. G. 23. de três ordens de problemas.últimas entrevistas. outro étic023 . ou ainda entre interioridade e exterioridade. que abala o habitual e que. "Michel Foucault". assim expressas: "Conseguir pensar algo que não seja o que se pensava antes. Semelhanças e dessemelhanças. F. orgs. B. contrapondo dois pólos ou dois termos: trata-se do antagonismo ou da correlação entre idéia e fato. Poderia receber ele formulações diversas. Éloge de la philosophie. "Introdução".). a reconstituição da trajetória desse pensamento. Ou pode-se. comunicação apresentada no V Simpósio Nacional da Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF). n. como indica um estudioso de Foucault. 26. ou trata-se. F. São Paulo. o do poder e o da conduta individual"24. A. "pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê. 1982. 25. Cf. 24. 27.. em Belo Horizonte. O uso dos prazeres. 20 I Foucault. um mais marcadamente epistemológico.. De todo modo. hoje. expõe a si próprio à mobilidade e dispõe-se constantemente a se recompor.. de três campos ou continentes de reflexão. por exemplo. 19. com algumas alterações.. Basta evocar. e que constituiria a base do antagonismo ou da correlação entre o pensamento filosófico e a elaboração científica. inversamente. aproximações e diferenças compõem assim um tipo de pensamento . lembremos um conhecido problema afrontado por Husserl e muitas vezes explorado por MerleauPonty. in O Dossierúltimas entrevistas. Ne* Este texto reproduz. foi republicado com o acréscimo de "Discussão" em Epistemologia das Ciências Sociais. ou mesmo entre subjetividade e objetividade. (FAVARETIO. EducfCortez. enumerar os momentos dessa trajetória acent~ando as diferenças sem necessariamente perder suas conjunções: trata-se. Esta. "Introdução". a filosofia como critica da cultura I 21 . Posteriormente. do intelectual e que. em certas passagens. 13. como se sabe. Ibid. Cf. EWALD. Foi publicado em Cadernos PUC.. é uma questão a que Merleau-Ponty dedica vários textos nos quais trata particularmente das relações entre a filosofia e as ciências humanas. por exemplo.

46. São Paulo. simplesmente preensão de outras situações e de outras formações culturais. Ibid. isto é. que.43. a filosofia e. história e filosofia serão não apenas solidárias.. M. "Le métaphysique dans l'homme". do que ela fala". 171. "Máteriaux pour une théorie de l'histoire". e as '''filosofias da história'. a sua redução a uma reunião de fatos circunstanciais e sem significação. trad. Cf MERLEAU-PONTY.. "a história e o intemporal. a filosofia como critica da cultura I 23 . Gallimard. 1968. Não há que escolher. M. 1960. reduzindo os fatos à imediatez de seu presente sem qualquer abertura para o futur0 3 • Ademais. in Sens et nonsens. 162. 43. como que a predeterminá-I02 • Alternativas deste teor podem incorporar seja uma "ilusão retrospectiva". literalmente. in Résumés des Cours. ou bem o "mito da filosofia" ou bem a "idolatria da objetividade"5. in Éloge. resumir alguns aspectos de sua posição a respeito da filosofia e da história. S. Primeiramente..61. 2.) Éloge de la philosophie. MERLEAU-PONIT. in Résumés de cours (ColJege de France). por outro. Ciências do homem e fenomenologia. se para Merleau-Poncy só "haverá história na medida em que houver uma lógica na contingência. paradoxalmente.les. "Matériaux pour une théorie de l'histoire". que podemos realizar o movimento de comL MERLEAu-PONTY. a psicologia. é nossa experiência de sujeitos situados. MERLEAU-PONTY. in Sens et non-sens. Merleau-Ponry afirmará que é precisamente pela nossa inerência a uma determinada situação. na trama histórica dos acontecimentos. 1965.. Muchail. 5. Merleau-Ponty rejeita certas alternativas que confundem ou falseiam O conceito de história e que fazem da filosofia e da história "tradições rivais"l. pela nossa inserção numa cultura particular. ou em "Le philosophe et la sociologie". A idéia da "rivalidade" aparece igualmente em outros textos.. "desligada de todo interesse pelo fato". Por exemplo. Paris. para introduzir nosso estudo. 7. 8. M. Não foi. por um lado. Ciências do homem e fenomenologia. M. Cf MERLEAU-PONTY.4. Gallimard. Ibid. as ciências da linguagem. Merleau-Ponty atribuía assim certa inerência entre o trabalho do historiador e o do filósofo. inserem no curso das coisas uma lógica oculta". "Le métaphysique dans l'homme". retoma a questão desde onde Husserl a tinha levantado e a conduz na direção da superação do impasse. in Éloge de la philosophie et autres essais. 3. em que neste caso as relações não são tão sistemáticas a ponto de conduzir finalmente à anulação de uma sob o jugo da outra. Paris. pela qual vivenciamos uma "co-existência histórica"?. numa verdadeira "guerra fria". projetando as categorias de hoje na leitura do passado. 160. 56. é claro. 113-114. Saraiva. cremos. assim como uma filosofia que sobrevoasse os fatos "só desembocaria em verdades formais. o autot aborda aquela questão do ângulo das relações entre. Assim. M. por outro. "Le métaphysique dans l'homme". entre uma filosofia que postula uma consciência fora do tempo. pode-se completar que só haverá filosofia se os sentidos ou as verdades que ela busca forem procurados no seio do devir. mas ainda mutuamente indispensáveis. Em quase todos esses ensaios. 171. Em contrapartida. 69. 9. "Le philosophe et la sociologie". Nagel. por exemplo. em "Le métaphysique dans l'homme". MERLEAU-PONTY. Interessa-nos. in Sens et non-sens.. 45. uma razão na desrazão"9. o único meio de acesso à compreensão de outras situações particulares com as quais podemos nos comunicar enquanto variantes da nossa6• Ou seja.. MERLEAU-PONTY. 1973. que impede.. e sobretudo 6. in Éloge de la philosophie et au"tres essais. a sociologia. Nessa medida. T. em erros"s. pressupõem isolados entre si "o fato e o homem interior". Se nossa particularidade nos limita é também. 112. M. elegendo. a submissão da história à força de uma lógica todo-poderosa e atemporal e. in Sensetnon-sens. por um lado. in Éloge 137. Uma história que se estreitasse a um relato empírico dos fatos sem buscar compreender-lhes a significação através do concurso da filosofia "não saberia. Paris. 4. a primeira nem a última vez que um pensador travou relações entre filosofia e história. M. seja uma "ilusão prospectiva".. ao contrário. Mas a peculiaridade está. 22 I Foucault. "Le philosophe et la sociologie". a história.

FOUCAULT.. de "jogo"ll. buscando desenhar seus traços eventualmente inalteráveis ou circunscrever características invariáveis. Não são poucas as vezes em que se refere a seu trabalho de historiador. além de marcar uma postura fortemente anti dogmática. o papel do historiador"14. Noutra ocasião. a nosso ver.. parece abrir espaço para a possibilidade da eventual reunião das duas atividades numa mesma prática. quando. tentemos ver como o próprio Foucault compreende seu trabalho enquanto filosofia e enquanto história e. Quando. Ver também 259. M. de Roberto Machado. Podemos dizer que Poucault escreve com segurança sobre suas próprias incertezas e toda vez que aborda o trajeto de sua produção é pata questionálo. Noutra ainda.. ela rege nossos papéis. Ora. in Microfisica do poder. L'Archélogie du savoir. M. É que esses e~ritos assumem um caráter por assim dizer flutuante. e org.. como isso se entrelaça com as relações de poderJJ16 . Salvaguardadas estas observações. em seguida. in Microfisica do poder. "Soberania e disciplina". a função mais modesta de "fornecer os instrumentos de análise".nem tão precisas que desfaçam certa ambigüidade a atravessar. 13 FOUCAULT. M. pois ainda não estou muito seguro quanto ao que formulei (. "Não ao sexo rei". que atesta uma evasão sadia em relação a todo dogmatismo. Questões dessa ordem são amplamente discutidas por estudiosos de Foucault.15. M. é essa certa ambigüidade que. em que sentido se poderia dizer que algo como uma crítica da cultura permeia esse trabalho.28. FOUCAULT. in Microfisica do poder. E 10 FOUCAULT. 151. o intercâmbio entre ambas. ao referir-se às mudanças ocorridas desde algum tem11 FOUCAULT. quais são seus efeitos. já mais claramente afirmará: "E mesmo que eu diga que não sou filósofo. cheio de buracos para que neles possamos nos alojar". É sempre difícil tentar encaixar os escritos de Michel Foucault em classificações estabelecidas do saber. 156. Gallimard. 180. sua resposta indica que a questão da filosofia hoje não deixa de ser igualmente uma questão de história: "é a questão deste presente que é o que somos. conclui dizendo ser "este.'Eis o que penso'... não será porém artificioso afirmar que os escritos de Poucault têm a ver com a história e têm a ver com a filosofia. M. "Sobre a geografia". 243.13. M. "Poder. após a observação de que "em muitos momentos você se definiu como historiador". hoje. por exemplo. ao que parece. é executada nos escritos his- tórico-filosóficos de Michel Foucault. essencialmente. FOUCAULT. Simplesmente não estou certo quanto ao que escreverei nos próximos volumes". 239. 15. realçando porém que a questão da verdade que ele coloca é a de perscrutar "qual é sua história. durante uma entrevista. 12 Cf. 16. Por outro lado... 2'-1 j Foucault.Corpo". ). ). incrod. in Microfisica do poder. FOUCAULT. "Sobre a História da sexualidade". depois de a ele referir-se como um "livro-programa tipo queijo gruyere. ao contrário. 14. escreve: "Não quis dizer . Ou ainda. chama-o de "discurso hipotético" e. Paris. E é essa a prática que. 19'(9. justifica ter gostado de determinada entrevista pelo fato de ter mudado de opinião "entre o começo e o fim. a filosofia como crítica da cultura I 25 ... E num debate a propósito do primeiro volume da História da sexualidade. M. se for da verdade que me ocupo. O que existe de incerto no que escrevi é certamente incerto (... mais de uma vez. Em outras passagens afirma o caráter parcial e ziguezagueante de suas investigações 12 . in Microfisica do poder. Ele próprio parece situar a si mesmo em ambas.. "Sobre a geografia". lhe é perguntado por que 'historiador' e não 'filósofo"'. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever"lO. Já no final da "Introdução" de A arqueologia do saber escrevera ele: "Não me perguntem quem sou e não me digam para permanecer o mesmo: isso é moral de estado civil. rejeitando ao intelectual o papel de "conselheiro" na militância política e designando-lhe. 1969. Não nos importa aqui reproduzi-las. Rio de Janeiro. Graal. na prática. in Microfisica do poder. eu sou apesar de tudo filósofo". mas acentuar o lado francamente positivo dessa "resistência" à classificação. 164. A partir destas considerações iniciais.

essas histórias salvaguardam a unidade soberana do sujeito. Esses procedimentos têm em comum o uso da técnica que lhes é apropriada. na dispersão dos fatos e documentos. M. Ainda mais. 26 I Foucault. 1972.. 22. quer no curso sucessivo do tempo (buscando detectar "gêneses.. que quer encontrar. a dissolução da heterogeneidade. nesses casos. Trata-se sempre. de algum modo salvase ao mesmo tempo a consciência como seu eixo: "Querer fazer da análise histórica o discurso do contínuo e fazer da consciência humana o assunto originário de todo devi r e de toda prática são as duas faces de um mesmo sistema de pensament. Mais ainda. que quer "interpretar" as significações explícitas dos fatos objetivando fazer falar.).?JJ22.po na escrita da história. 19. Mas que história e que verdade? Ou melhor. M. Com efeito.. L'Archélogie du savoir. que filosofia e história se entrelaçam num mesmo trabalho que se pretende história da produção da "verdade". 18. da dispersão. "Não ao sexo rei". uma lógica escondida.. in Microfúica do poder. Ibid. esses procedimentos cunham a história com a marca unitária do contínuo e da sub}etividade. quando recusa a elaboração da história tanto por um método que procede pelo "recurso histórico-transcendental" (isto é. Ibid. quer desvelar a "consciência". as multiplicidades e as transformações. que não pensam as "diferenças" mas "as continuidades ininterruptas JJ2 ! de uma teleologia segura. Tempo Brasileiro) 28. de histórias "evolutivas" ou "progressivas".do poder próprio aos discursos aceitos como verdadeiros"!7. 20. "Resposta a uma questão". a saber. deixando claro que é seu propósito fazer "a história da 'verdade' . da multiplicidade. 1972. capazes que seriam de trazer à luz a suposta origem e o suposto segredo que o discurso explícito implicitamente conteria. Cf. quer no âmbito interno de uma época (buscando captar seu espírito. de que tipo de história esse filósofo que se ocupa da verdade é hoje o historiador? Afastemos. Naissance de la clinique. M.59. O segundo consiste em buscar "interpretar" os fatos no sentido de encontrar como que por detrás deles suas razões mais secretas. M. 22. "consciência histórica" que se constitui em núcleo unificador ou centro originário capaz de reunir em si a explicação e. como se os fatos fossem sempre uma espécie de "alegoria" a dizer outra coisa que não eles próprios!8. que expliquem. Paris. Foucault faz ver que a história do Ocidente "não é dissociável da maneira pela qual a 'verdade' é produzida e assinala seus efeitos". um "sentido 17. simplesmente oculto" de que supostamente estariam carregadosr 9 . por meio de todo acontecimento. 239-23l. XIII. por meio deles. PUF. São próprios às histórias "do espírito" e às histórias "globais". FOUCAULT. assegurando a linearidade do progresso. uma "história global" é precisamente aquela que. sua Weltanschauung etc. a filosofia como critica da cultura I 27 . uma "história do espírito" é precisamente aquela que. o tratamento dos textos na forma de "comentários". pois. 21. as "intenções" ou o "espírito" que os teriam inspirado20 . de modo uniforme e homogêneo.. de início. Eis. FOUCAULT. filiações. O primeiro consiste em descrever uma história das idéias fundada em analogias estabelecidas pelo historiador. apontando assim em direção a um horizonte sempre longínquo e cada vez mais recuável) como por um método que procede pelo "recurso empírico ou psicológico" (isto é. 65. os traços de uma história que Foucault não elabora. quer encontrar "vestígios" que permitam traçar uma linha contínua. influências"). Préface. uma direção única. Rio de Janeiro. FOUCAULT. 21. as linhas de sua origem. de toda manifestação histórica. É basicamente a esses mesmos recursos que também se refere noutro texto. parentescos. Ao se salvar a linha segura da continuidade histórica. portanto.. mediante a "decifração" dos textos. Já no Prefácio a O nascimento da clínica (1963) aponta dois recursos tradicionais que rejeita e chama-os de "estético" e "psicológico". FOUCAULT.

ela se opõe. em sua perseguição da origem (Ursprung).. essência única e sempre a mesma.. ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias.. em suas transformações. Ibid. reintroduz "o descontínuo em nosso próprio ser. ao contrário.m. reporta a Nietzsche não só o termo "genealogia". interdiscursivas. uma história que lançaria sobre o que está atrás dela um olhar de fim de mundo. do tempo. o espaço de uma dispersão"26. ela recusa a identidade das origens e a segurança das teleologias: "A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profun- da do filósofo ao olhar de toupeira do cientista. com as práticas e as instituições sociais. M. significação. 1968. "Nietzsche. FOVCAULT.. isto é. ela desvia o enfoque antropológico em direção aos discursos que compõem os saberes: "É isto que eu chamaria de genealogia. nem histórias globais.. forma de conjunto. Ibid.. dos domí27. Concomitantemente. não há por trás da trama histórica qualquer identidade pura de um sentido ou de uma essência. I!. Nesse uso. disfarce. M. no lugar de uma teleologia da continuidade e do progresso. cena. a genealogia e a história".. Paris. como tantas máscaras sob as quais não há um rosto a ser desmascarado: "A genealogia é um carnaval organizado"30. É interessante observar a freqüência no uso deste tipo de metáfora: carnaval. como ele mesmo as chama. 26. 28 I Foucault. in Microftsica do poder.princípio. 9. 27. que por ser impensável devia ser suprimido e desintegrado mediante sua integração numa explicação continuísta. dos discursos. Ibid. de sorte que se antes a descontinuidade equivalia ao "impensável". 10. Primeiro. 25. L'Archéologie du savoir.28. passa agora a ser "um dos elementos fundamentais da análise histórica"25. uma 23. cenário. todos os disfarces"29. 24. em seus desaparecimentos. pretende recuar ao reencontro de uma identidade enfim desvelada. 17. Ibid. Segundo. FOUCAULT. 29. são histórias que. jogo etc. considerando "acidentais todas as peripécias que puderam ter acontecido. 28.. Para a genealogia. bastidores. FOUCAULT. isto é. isto é. ao contrário. "histórias gerais. quer em suas relações com o extradiscursivo. ao contrário. 31. Ela se opõe à pesquisa da 'origem"'31. Simplesmente história que nos permitiria nos reconhecermos em toda parte e dar a todos os deslocamentos passados a forma da reconciliação. 17.Nem histórias do espírito. contrapõe a genealogia compreendida como "história efetiva" (Wirkliche Historie) à história tradicional dos historiadores. M. Ibid. enfim reduzida. o que existe é precisamente a multiplicidade de fisionomias. 19. A "história efetiva".. máscara. uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes. 26. Cf. a filosofia como crítica da cultura I 29 . Seuil. uma história geral desdobraria. A história tradicional. espírito. ibid. as histórias que Foucault escreve são. 34.23 entendidas como descrição dos fatos em sua singularidade de acontecimentos. as histórias que Foucault escreve desfocam a categoria da consciência e se voltam para as análises dos discursos considerados quer em suas correlações internas. 16. "reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado imortal no homem". visão do mundo. buscam antes "detectar a incidência das interrupções"24. O deslocamento é explícito: "Uma descrição global encerra todos os fenômenos em torno de um centro único . ao contrário. À prática desse procedimento Foucault chamou primeiramente "arqueologia" e posteriormente "genealogia". 30. "Réponse au Cercle d'épistémologie". como o modo de seu uso... todas as astúcias. Cahiers pour l'analyse. Sem dúvida. Recolhamos estes traços da história praticada por Foucault na seleção de algumas passagens em que ele explicita o perfil da genealogia. em suas correlações. teatro. a genealogia. Faz ver que esta última "reintroduz (e supõe sempre) o ponto de vista supra-histórico: uma história que reria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma a diversidade.

M. seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos.. "não uma decisão. Foucault restringe a região de seus estudos: entre os discursos.nios de objeto etc. ela não está preocupada com o "progresso": "Tenho esta precaução de método. e daí à compreensão do que chamamos seu comprometimento crítico com a cultura. este ceticismo radical mas sem agressividade que se dá por princípio não tomar o ponto em que nos encontramos por final de um progresso que nos caberia reconstituir com precisão na história. FOUCAULT. em certos momentos e em certas ordens do saber. ocupar-se.. os que compõem a região mais cambiante e imprecisa que é constituída pelos saberes das chamadas ciências humanas.. FOUCAULT. in Microfisica do poder. mas colocar a questão: como é possível que se tenha. sem ter que se referir a um sujeito. daquilo que é aceito "como cientificamente verdadeiro" que nos encaminha à abordagem dos vínculos dessa história com a questão da verdade enquanto assunto da filosofia.. esta rapidez e esta amplitude são apenas o sinal de outras coisas: uma modificação nas regras de formação dos enunciados aceitos como cientificamente verdadeiros"35. a filosofia como crítica da cultura j 31 . M.. 30 ! Foucault. Ouçamo-lo mais uma vez: "Uma edição do Petit Larousse que acaba de sair diz: 'Foucault: um filósofo que funda sua teoria da história na descontinuidade'. um reino.. despida de origens. Meu problema não foi absolutamente dizer: viva a descontinuidade. "Sobre a prisão". "Nierzsche. enquanto filósofo. 33. E essa estratégia se aloja no ponto de cruzamento entre a questão da verdade e os mecanismos do poder. estas precipitações de evolução. FOUCAULT. ao que somos. a genealogia descreve uma história marcada pela descontinuidade dos acontecimentos. teleologias. Finalmente. ou mais elaborado. ou melhor. entre estes. estamos nela e nela ficamos.. sem dúvida. 3-4. mas descrever e 35. acaso do jogo que "não é simples sorteio". in Microfoica do poder. para domínio da investigação histórica. funciona como uma "estratégia" porque calcada num comprometimento crítico com pretensões a uma eficácia política. )"34.. entendendo-se por "acontecimento". não se trata pura e simplesmente de efetuar substituições de algum modo arbitrárias: a continuidade pela descontinuidade. este ceticismo que impede que se suponha que tudo isto é melhor ou que é mais do que o passado (. forças que "no jogo da história não obedecem nem a uma destinação. um tratado. ao privilegiar os acontecimentos discursivos como campo de análise. ou uma batalha. Com efeito. Ao contrário. 7. ). a nosso presente. 28. "Verdade e poder". in Microfisica do poder. )... Ora. ou melhor elucidado do que o que se passou antes. Digo que considero um mau método colocar o problema 'por que progredimos?'. estas transformações que não correspondem à imagem tranqüila e continuísta que normalmente se faz? Mas o importante em tais mudanças não é se serão rápidas ou de grande amplitude.33.. mas ao acaso da luta". Essa escolha é. in Microftsica do poder. ter em relação a nós mesmos. seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história"32. longe de ser inocente. FOUCAULT.. simplesmente conferida ao entendimento e à escrita da história. é precisamente a eleição. 140. Afinal. nem a uma mecânica. M. Isto é. E o que se passa agora não é forçosamente melhor. por que tantas "inversões"? Com efeito. Isto me deixa pasmado (. a linearidade pela diferença. Terceiro. E não digo que a humanidade não progrida. 34. a genealogia e a história". sujeito constituinte e progresso evolutivo. aqueles que são reconhecidos como científicos e. essa orientação 32. nem de trocar o núcleo "consciência" por outro chamado "discursos". ao aqui e agora. M. Por um lado. estas mudanças bruscas. a uniformidade pela dispersão. mas antes "risco sempre renovado (. mas uma relação de forças". Mas a prática deste procedimento na escrita da história não é também movida ao acaso de um capricho. com a questão da verdade significa aqui não ir em busca de uma essência a ser descoberta. O problema é 'como isto se passa?'. "Verdade e poder". uma estratégia.

posto que em nossas sociedades ocidentais são os discursos reconhecidos como científicos os que compõem os saberes aceitos como verdadeiros. "Sobre a prisão". e ao mesmo tempo. trata-se. Assim. ocupar-se. conteúdos históricos que evidenciam o poder na forma da disciplina etc. a filosofia como critica da cultura I 33 . os direitos de uso do poder (em seu nome se distingue não só o verdadeiro e o falso. FOUCAULT. Ibid."42 Mais ainda: lembremos que enquanto a arqueologia pretendia realçar principalmente as epistémes) isto é. em face das histórias da Razão e do mesmo. por ser "pouco definido"38. Por outro lado. descreve. 32 I Foucault. tensões"39. formal e científico. Eis a pergunta de "filosofia política" que Foucault se coloca: "Em uma sociedade como a nossa. a história da Desrazão e do Outro. in Microfísica do poder. abriga "combates. faz emergir. atribuindo ao sujeito detentor do conhecimento sobre o homem a "competência" que autoriza o domínio de seus "objetos".40. in Microfísica do poder. ocupando-se da análise das relações entre saber e poder que. dissociando assim o sujeito do conhecimento que "possui a verdade" de seus "objetos" que "nada sabem". torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico. 37. por um lado.37 Ora. 154. Simplesmente Nesse sentido pois. revelando os mecanismos correlatos de exclusão. M. in Microfísica do poder. que tipo de poder é capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos?.. num trabalho que exige paciência e erudição.. Ibid. recuperar. mutuamente se produzem e se reproduzem. para a produção de saberes reconhecíveis como verdadeiros. precisamente.. FOUCAULT.)". é aliada da recuperação de saberes considerados "ingênuos. M. Busca. Por outro lado. 170.. conteúdos históricos que foram subestimados ou silenciados pelo saber "qualificado" das histórias tradicionais: mostra. pela análise do nascimento das prisões. o correto e o errado. 36.. "Soberania e disciplina".. do enfermeiro. daquele estabelecimento do jogo de regras . FOUCAULT. de que modo a pretensão ao estatuto científico dos saberes sobre o homem lhes imprime as marcas do exercício do poder. M. podemos dizer que. in Microfisica do poder. 171. essa competência lhes atribui. inversamente.). M. de sujeitos. o normal e o patológico etc.. l. com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na hierarquia de poderes próprios à ciência. de enclausuramento e de redução ao silêncio. é sobre ela que vai particularmente recair a invesrlgação. de uma época para a outra . 39.regras que são transformáveis de uma sociedade para outra. é desses saberes que tratará a genealogia. "Sobre a geografia".. um empreendimento para libertar a sujeição dos saberes históricos. o nível das 40. Quer propor "um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais. unitário. in Microfísica do poder. M. linhas de força. pontos de confronto. o saber acarreta efeitos de poder"36. enquanto filósofo. a genealogia pretende constituir-se em foco de crítica e em instrumento de resistência. mediados pela verdade.analisar os modos como a "verdade" vem sendo historicamente produzida. por exemplo. com a questão da verdade encarada segundo seus modos históricos de produção é ocupar-se também do vínculo circular que ela mantém com os modos de exercício do poder: "o exercício do poder cria perpetuamente saber e. de instituições. E isso duplamente. do doente. 41. "A genealogia seria portanto.) "Genealogia e poder". do delinqüente etc. 179. na medida em que ela envolve saberes cujo "perfil epistemológico". como o permitido e o interditado. 172. FOUCAULT. saberes abaixo do nível da cientificidade" (por exemplo. isto é. se a "verdade" é "efeito" do poder das regras segundo as quais determinados saberes têm a competência para a verdade. por seu turno. E posto que é a região das chamadas ciências humanas a que melhor ou mais claramente permite fazer ver aquele entrelaçamento entre regime de verdade e regime de poder. 38.que autoriza a qualificação de objetos. FOUCAULT. 142. "Verdade e poder". 42. hierarquicamente inferiores.

portanto. in Microfísica do poder. É aliás numa concepção assim bem ampla que o termo é freqüentemente usado neste Prefácio.. M. 1975. "Os intelectuais e o poder". 34 I Foucau!t. É nesse sentido que não nos parece abusivo reconhecer nos trabalhos históricofilosóficos de Foucaulr algo a que poderíamos chamar uma crítica da cultura ou. da cultura "qualificada". alguns aspectos que apontávamos em nossas primeiras considerações em torno de Merleau-Ponty. Gallimard. a crítica tem um caráter local e específico 46 • Em oposição ao teórico "legislador". 11.. menos ainda. 49. Cf. E. (saber". Paris. . Préface. 48. como ainda a suas relações com as estruturas sociais. o conjunto de saberes teóricos e de práticas sociais que compõem o quadro em que se move uma determinada sociedade e cujos limites lhe demarcam as possibilidades de "nomear. pelo menos. FOUCAULT. além de avessas a qualquer aspiração de universalidade. "Le métaphysique dans l'homme". M. MACHADO R.45. aquela simultaneidade entre 46. "Sobre a geografia". Paris. habilitado para o poder. como o saber disciplinar trazia consigo o modelo da prisão. essa crítica da cultura. Merleau-Ponty recusava igualmente tanto a ininteligibilidade da história como as pretensões "de uma História Universal inteiramente desdobrada diante do historiador como o seria sob o olhar de Deus. nem. . sobretudo.. "Neste sentido". nas muitas questões que suscita.. Gallimard.. Ora. não há que se esquecer que. de um modo tão geral quanto simples. bem como das relações entre ambas. regulamentos coercitivos e proposições científicas . Les Mots et les choses.. J a filosofia como crítica da cultura I 35 . 16l. in Sens et non·sens 158. a genealogia os considera como peças nas tramas de uma rede . FOUCAULT. ele próprio. falar. partícipe da "história" e da "cultura"."48 Essa mobilidade que é constitutiva da postura mesma das investigações de Foucault vem confirmar aquela distância de quaisquer dogmatismos a que inicialmente nos referíamos. XIII. numa passagem de Vigiar e punir: "O sistema carceral reúne numa mesma figura discursos e arquiteturas. 1966. 47. Lê-se. assumem. exigia a reclu- são asilar.'TY. As histórias que Foucault escreve. 45. ao estabelecer a história da constituição dos saberes explicitando seu vínculo com exercícios do poder. simplesmente um "saber histórico das lutas" é. "Genealogia e poder". «nem a arqueologia. na prática. MERLEAU-POl\. "Introdução".49... E pelo menos dois aspectos. in Microfisica do poder..que envolve tanto as inter-relações dos saberes como suas articulações com as práticas institucionais. em oposição às teorias gerais e globalizantes. nem nos diferentes ângulos sob os quais pode ser abordado e.. Foucault não rejeita a afirmação que lhe é dirigida por um entrevistador: "Você mostrou como o saber psiquiátrico trazia consigo. 44.correlações interdiscursivas. Surveiller et punir. in Microfísica .por ele chamada de "dispositivo" . Foucault sonha "com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades"47.. Do mesmo teor.. construir uma teoria ou se constituir como sistema: o programa que elas formulam é o de realizar análises fragmentárias e transformáveis. a respeito da filosofia e da história. M. Assim. M. Cf. Ver também. principalmente "Verdade e poder". finalmente. a genealogia se dirige não somente ou sobretudo aos discursos. FOUCAULT.. Daí o cuidado insistente de Fou- caulr em não se vir a rransformar a análise realizada pelas genealogias em outro saber centralizador ou monopolizador da "verdade" e. pressupunha. poderíamos considerar "cultura". Entende-se assim que. esse trab~lho filosófico de constituição de 43. pensar. 242. Éloge . a medicina de Bichat o espaço do Hospital e a economia política a estrutura da fábrica"44.43. E permite que reencontremos. 59.276. contudo. escreve Roberto Machado. por exemplo. a genealogia têm por objetivo fundar uma ciência. Recusando a alternativa entre uma história atravessada por um sentido teleológico e uma história desprovida de sentido porque concebida como um conglomerado de fatos. "Não ao sexo rei".. in Microfísica do poder. sem entrarmos na pluralidade possível de acepções que podem ser cobertas pelo termo "cultura".

in Éloge. elaborado a partir da cultura que o torna possível. olha-a criticamente. das estratégias.51. FOUCAULT.. M. FOUCAULT.a ausência de um sentido único e a presença de inteligibilidade. Foucault faz filosofia fazendo pesquisa histórica. "é um olhar que sabe tanto de onde olha como o que olha"52. "Nieczsche. 51. Ao contrário.. e se saber assim. org. podemos denominar "do outro e do mesmo" se estenda como um pano de fundo dessas histórias. 30. com o propósito deliberado de apreciar.. de sorte que. pois. partindo de uma ilustração que está nas primeiras . eis como Foucault (na descrição da genealogia nietzschiana) caracteriza a história: os historiadores que perseguem a neutra objetividade de uma consciência isenta e soberana "procuram. nem "ilusão retrospectiva". o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida nos quais a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa. in Microfísica do poder. em agosto de 1994. Merleau-Ponty se opunha ('ao ideal de um espectador absoluto.). o lugar de onde eles olham.. mas segundo a inteligibilidade das lutas. Afinal. há que se dispor. 50. o partido que eles tomam . 5. Por ser "perspectivo". . nem "ilusão prospectiva". 36 I Foucault. 136.. de um conhecimento sem ponto de vista. Conferência apresentada na VII Semana de Estudos em Filosofia da Universidade Metodista de Piracicaba.o incontrolável de sua paixão". em seu saber. e tanto quanto possível. MERLEAu-PONTY. das táticas"50. Piracicaba. de certa maneira. 1995. genericamente. o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. M. é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes. As histórias que escreve desenvolvem-se no espaço do Ocidente. "olha de um determinado ângulo. Segundo. e perceber diferentemente do que se vê.. a deslocar-se. 13. M. "sabe que é perspectivo".uLT. agora. o uso dos prazeres. É possível sugerir que a questão que. e conseqüentemente. M. M.. apagar o que pode revelar. na medida do possível. é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. "Verdade e poder". por propô-la. conduzindo este aparente paradoxo a uma nova direção: "A história não tem 'sentido'. afirmando que é pela inerência a uma situação histórica particular que podemos compreender a significação de outras situações que compõem a trama da história. porém. ao contrário. Publicaclaem Foucault e a destruição das evidências (MARlGUELA. in Microfoica do poder. o momento em que eles estão. se provoca deslocamentos. Comecemos. 52. mas a olha de dentro dela. já o "saber perspectivo". ele próprio. e justamente por isso é também visado por seu mesmo olhar crítico. atravessando com realce a chamada Idade Clássica (séculos XVII e XVIII). "Saber perspectivo". e o tempo que percorrem é quase sempre aquele que vai desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). de dizer sim ou não".. FOUCA. Unimep. a genealogia e a história". "Le philosophe et la sociologie". Simplesmente 111 O MESMO E O OUTRO Faces da história da loucura* De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não. o mesmo e o outro j 37 .

es mots et les choses. k) desenhados com um pincel fino de pêlo de camelo. de Janeiro. Esta classificação reúne de modo incongruente categorias sem nexo que. Borges. não é justamente o lugar privilegiado do espaço?JJ5 Eis o "outro" em seu sentido mais amplo: limite de pensamento e de linguagem para uma cultura. Afinal. I) et cetera. excluído (para conjurar-lhe o perigo interior).. diferença que lhe é inclusa. porém. 7. Nossa exposição pretende tão-somente retraçar.que. "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador. de dentro dos quadros de uma cultura. a descrição da experiência da loucura durante o período renascentista ocupa não mais que as 55 páginas do capítulo inicial.. 57-95). Tempo Brasileiro. simultaneamente interna e estrangeira. Paris. 2.. a estranheza dessa classificação 4 . a saber. alguns aspectos dessa história7 • No conjunto do livro.. é esta ordem que ali parece não "caber". FOUCAULT. e) sereias. Assim. a possibilidade e a impossibilidade de "nomear. desse em (lugar) e desse sobre (espaço) que instaura. i) que se agitam como loucos. simultaneamente.. 1966. Mas. substancial e minuciosamente. Ibid. repousa sobre outro espaço: "A China . para nós.. Segundo esta classificação.. Ibid. Trara-se da reromada de uma classificação dos animais. espaço que torna possível nomeá-las.cuja vertente institucional é o Hospital Geral . Ibid. j) inumeráveis. estranho e exterior. Para uma reconstituição mais completa do livro.. encerrando-o. d) leitões. pensá-las. nomeável. falar. "Arqueologia da percepção". porém (para reduzir-lhe a alteridade)"6. "ausente" de espaço. S. porém. Também ROUANET. supostamente extraída de uma enciclopédia chinesa. Rio de Janeiro. falar. Mas.2. se dedicam as mais de 600 páginas do livro em suas três partes (as duas primeiras ocupando-se da Idade Clássica e a terceira da nossa Modernidade). ainda que meramente alfabética: "O absurdo arruína o e (ordem) da enumeração. a série alfabética. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Michel Foucault. Estranheza. parecem impossíveis de "nomear. história "daquilo que para uma cultura é ao mesmo tempo interior e estranho. 9. 1982 (cf.. justamente. 15. h) incluídos na presente classificação. 38 I Foucau!t. "Préface". P. em resumo. antes. Graal. 8. 6. para nós. a limita por dentro. simplesmente não é. a nós. 7. pode-se também entender o "outro" em seu sentido estrito: aquilo que.pensável.e à experiência moderna . m) que acabam de quebrar a bilha. parece vincular a seqüência das classes nela reunidas. marcando de impossibilidade o em (lugar) onde se repartem as coisas enumeradas"3. pensar. precisamente porque ameaçador. in O homem e o discurso (A arqueologia de Michel Foucault). n) que de longe parecem moscasJ1 1.. 11. I. o mesmo e o outro I 39 .. por assim dizer. pensar" podem ser analisadas em torno de três termos: ordem) lugar. Gallimard. É à experiência clássica . portanto. aquela classificação de animais 1. Ibid. Com efeito. citada por Jorge L. R. g) cães em liberdade. 4. 3. Nas pretensões reduzidas desta exposição 5. há uma ordem que. aquilo que a circunda por fora e lhe escapa. espaço. dizível portanto -. "A gramática do homicídio". é a justaposição desse e (ordem). naquela classificação.páginas do Prefácio de As palavras e as coisas. Ora. a ser. Ibid. É nesse sentido que a História da loucura é uma história do "outro": história daquilo que pertence à nossa cultura . f) fabulosos. M. Rio. Ordem e lugar. 10. dependem de um espaço homogêneo e comum dentro do qual somente ou sobre o qual as coisas possam ser localizáveis e ordenáveis. A estranheza da ordem está em sua articulação com a ausência de lugar capaz de permitir a reunião das classes e sua ordenação. 1971. a partir daí.cuja vertente institucional é o Asilo . leia-se MACHADO.. c) domesticados. dizê-las. mas constantemente ameaçado de submissão aos critérios do "mesmo". b) embalsamados.

na chamada Idade Clássica. Assim. exclusão e purificação. Contudo. Ib. a recomposição dessas "facetas" será organizada em dois tópicos ou subi tens. Era. Mas. Gallimard. peregrinos ou marinheiros. 40 I Foucault. simultaneamente. portanto. a ser "suprimida" e "curada". como também a Nau dos loucos. "tipos sociais" cuja viagem simbolizava seu "destino" ou sua "verdade"I3. nos limiares do Renascimento (por volta dos fins do século XIV). sacralizava.. 15. A lepra regride... para outras instituições . Ib.pincelar algumas faces ou facetas da história desse "outro" que é a loucura no Ocidente -. A lepra regride. o mesmo e o outro I 41 . 1972. ela ocupará outra posição.15. Assim. 13. as "estruturas" e as "formas"ll que.. ••• Leprosários e navios Ao término da Idade Média. e evitando o risco de um resumo por demais empobrecedor. a figura da nau carrega o simbolismo da água que purifica e da navegação que é passagem. Porém. uma espécie de testemunho do mal ao mesmo tempo que de sua expiação. a Nau dos principes e das batalhas de nobreza. séculos mais tarde. FOUCAULT. M.d. 13. esse "gesto que expulsa" está próximo do "rito.. ou melhor. Água e navegação cumprem.. a Nau das damas virtuosas. isto é. o gesto ritual da cisão. Era freqüente nas composições literárias e pictóricas do Renascimento a imagem de navios que transportavam "heróis imaginários". no decurso de uma longa sucessão histórica. a Nau dos loucos guardava uma singular peculiaridade: a de existir realmente. gesto que excluía e. ou seja. não como resultado de práticas médicas. a abordagem da Idade Clássica e da Modernidade será apenas pautada em algumas passagens em que o próprio Foucault fornece descrições mais amplas desses dois momentos. 2 a ed.d. Antes disso.. Ib.d. De fato.9.d. do contágio) e do final das Cruzadas (e. uma espécie de papel de herdeira da lepra!'. 15. títulos de obras literárias incluíam. "modelos éticos". Entre eles. portanto.. em meio a essa onda literária e pictórica. purificava: "O pecador que abandona o leproso à sua porta abre-lhe a salvação. a loucura. porém. no chamado período renascentista (por volta dos séculos XV a XVII).d. começa o esvaziamento daquelas casas de "exclusão" e "purificação"s que se haviam multiplicado às portas das cidades medievais: os leprosários. 19. no intermédio entre o final da Idade Média e o início da Idade Clássica. Ia.. 16. Ib.e para outros personagens. Para Foucault. escolhemos tratar os três períodos em proporções diversas às do livro. os "valores" e as "imagens"lO. Ib. segregação e sacralidade. entregues a mercadores. assim. Com efeito. os leprosários se esvaziam. assumirá. por exemplo. 11. antes por força da segregação dos leprosos (e. Paris. antes. os loucos vagavam. Historie de la falie à l'âge classique. 16.muitas vezes nos mesmos lugares que antes abrigavam os leprosos . Ib. expulsos das cidades. 9. a lepra não era experimentada como "assunto médico". 14. 16. circulará sem posição fixa. do contato com focos de infecção do Oriente). cerca de dois séculos mais tarde (por volta da segunda metade do século XVII e no século XVIII). o louco. numa existência "errante"14. Por isso mesmo.d. pois.. reclusão e salvação serão transpostas. rito que segregava e. numa sucessão histórica longa. simultaneamente. du8.d. de certo modo. estão vinculados à instituição do leprosário e ao personagem do leproso vão persistir. o papel de manter o louco como "prisioneiro em meio à mais livre e mais aberta das rotas: solidame~te preso 12. Ib. Por motivos análogos. 19. Simplesmente rante a Idade Média. 18. Requeria..

com Descartes.. que transparece sobretudo nas composições literárias e filosóficas. Sem dúvida.). Brueghel.39. O mastro da Nau dos Loucos de]. internalizada. 21. irônico e moral. Entre as expressões pictóricas incluem-se obras de]. Historie de la folie . Retida e mantida. isto é. a predominância do saber crítico sobre o trágico. Mas.' '. poetas. Bosch. jurisconsultos. o prisioneiro da Passagem.. um largo lugar para homens de saber" . Gradativamente. num deslocamento que vai da Nau ao Hospital.. mas. no verbo.. os dois pólos se distanciam e o elemento crítico ganha relevo sobre o trágico.à infinita encruzilhada. a presença subterrânea do trágico será pressentida e testemunhada como que em erupções esporádicas (Nietzsche. voltada para a racionalidade e a moralidade 16. de tal modo que. o banimento da loucura do caminho que conduz à certeza22 • A 19. observa Foucault. o mesmo e o outro . a presunção dos sábios (O Elogio da loucura. não mais como detentora dos segredos ocultos do cosmos. t:. do Hospital ao Asilo. M. os caminhos que conduzirão à experiência moderna da loucura. porém. Artaud. malgrado o predomínio cada vez maior do racional. a avareza dos ricos. Ibid.' . a "ironia da crítica". escritores. como que "às escondidas" e "em vigí- lidade presente no coração do homem. no verbo. fascinante e cósmico. que mostram a bestia- humanas. Goya. Bosch é a figura da árvore: árvore proibida da sabedoria à qual só os loucos têm acesso. entre as expressões lingüísticas. mas como mal e fraqueza humanos. Ibid. A ironia crítica. a loucura aparece como motivo de sátira ou de escárnio. Ele é o Passageiro por excelência. a partir dela.. "na ronda de loucos. Nos séculos seguintes e até hoje. o trágico da loucura subsistirá na obscuridade. Sade são alguns exemplos desses pressentimentos e testemunhos). Van Gogh. por exemplo. prioritária no texto.l? As duas vertentes da experiência renascentista da loucura. no curso da história. na palavra: ali. obras de Brant. FOUCAULT. Enquanto em Montaigne a loucura é incorporada ao caminho que conduz à verdade. de Erasmo. Ibid.. 34. reserva. no texto. simbolizadas pictórica e literariamente. 53. e Montaigne sugere que loucura é fiar-se apenas na razão ls . 17. humano-animalescas. assinala o fim da experiência renascentista.gramáticos. O "fascínio do trágico" transparece sobretudo nas imagens pictóricas: são figuras fantásticas. mas é também árvore "moral" do bem e do mal. Não mais. Montaigne. Bosch. 54-55. torna-se "familiar" em um mundo que lhe é "estranhamente hospitaleiro"20. Não mais nau. certamente se entrecruzam: há temas morais nos quadros de]. 22. impregnadas de um saber hermético que anuncia a ameaça da desordem e do fim do mundo e ao qual só os loucos têm acesso. 20. marcando o domínio da razão sobre a loucura. a crítica à presunção da razão. simplesmente Hospitais e asilos No começo do século XVII a loucura adentrou os muros da cidade. 22. uma experiência que envolvia duas vertentes simultâneas: um lado trágico. de onde nascem a ambição dos políticos. como que "nas noites dos pensamentos e dos sonhos". filósofos. na palavra. essa ocultação jamais abolirá inteiramente a experiência do trágico: "esse desaparecimento não é uma derrocada"l9. 18. 42 1 Foucault. mas a loucura é excluída. teólogos etc. deixando na sombra o silêncio verbal e fascinante das imagens trágicas carregadas de forças cósmicas. A ambigüidade dessa simbologia corresponde à ambigüidade da experiência renascentista da loucura. Ao mesmo tempo. solidamente. mas hospital"21. em Descartes são incorporados os erros dos sentidos e a ilusão dos sonhos. Dürer. com Montaigne. Não mais vagará: "Ei-la amarrada. um lado crítico.. ocupa cada vez mais o primeiro plano na experiência da loucura. lia". abrindo o limiar da Idade Clássica e. Erasmo. Ibid.16. . no meio das coisas e das pessoas..""" L __ ":iJt" I 43 '.

nesse espaço aberto pelo classicismo. jovens que perturbam o repouso da família ou dilapidam seus bens.. mágicos. assim como os leprosários. 44 I Foucault. 23. já segregada. antes destinada a recolher inválidos de guerra). ser "separada" como objeto possível de conhecimento. correcionários. No século XVII são fundados os Hospitais Gerais que constituem a estrutura visível e a forma institucional da cisão entre razão e desrazão. homossexuais. podem ser assim identificados: pobres. desrazão que. as liberdades do pensamento e do coração. A designação posterior e moderna da loucura como alienação e depois como doença mental não será o resultado direto de uma espécie de progresso do conhecimento. 26. Ibid. na Alemanha. que a loucura poderá. "isolada" e. se transmutará em doença mental. Os "novos personagens" que ocupam esses estabelecimentoS são apresentados em diversas passagens e em listagens mais ou menos longas. que segregara. tornados "presença concreta" no horizonte de uma «realidade social" que demarca explicitamente a cisura entre a razão e a desrazã0 26 • É lá. numa esfera que será não mais da desrazão. pródigos. para os tempos da Modernidade. as proibições sexuais. muitas outras funções eram desempenhadas neste gesto de banimento que abria espaços malditos. os traços que marcavam os diferentes grupos com que até então se avizinhava. entre outros. "asilada". isto é. por exemplo. que data de 1656. que antes abrigava um arsenal. alquimistas. as interdições religiosas. ainda que incluíssem visitas médicas em seu sistema de funcionamento. enfim. devassos. Numa palavra. que colocara a distância. portadores de doenças venéreas. o classicismo formava uma experiência mo24. que vagando por toda parte eram uma presença igualmente "vaga". também. O gesto que interna não é mais simples: ele também tem significações políticas. na Inglaterra. na Modernidade.. sociais. mas da alienação e da doença mental: "anexando ao domínio da desrazão. pretensas feiticeiras e. os "novos proscritos da Idade Clássica carregam os estigmas mais secretos da desrazão"25. pais dissipadores. O Hospital Geral de Paris. séculos mais tarde. os hóspedes do Hospital Geral são instalados. cabeças alienadas. o lugar deixado vazio por estes foi ocupado por personagens novos no mundo europeu: são os 'internados'. Sua condição de possibilidade encontra-se lá. Diferentemente dos viajantes das naus renascentistas. E. é lá. desem- pregados. o mesmo e o outro I 4S . religiosas.desordem irracional do trágico submete-se à ordem do racional. morais. filhos ingratos. Demarcada por oposição à razão. Ibid. não tinham propósito terapêutico: "O classicismo inventou o internamento um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos. Diferentemente dos leprosos da Idade Média. naquele gesto que produzira a alienação.. blasfemadores. Com base nessas várias referências.. cuja expressão institucional foi o internamento. "homens de des- razão"24. "individualizada". por decreto real sob Luís XIV. Ibid. porém. agrupava em uma única administração estabelecimentos já existentes com fins diversificados (como. mais pressentida que percebida. são fundadas instituições para o internamento. os Hospitais Gerais. transportando consigo. 25. a loucura é transformada em desrazão. insensatos. ao lado da loucura. espíritos transtornados . 1I9. 64. econômicas. a Salpêtriere. prostitutas. Ibid.>23. enfermos. libertinos. que "alienara" a desrazão. É porque já "distanciada". muitas delas estabelecidas nos antigos leprosários. em toda a França... 117. II 7. Como em Paris. que eram "portadores do visível brasão do mal". v~gabundos. simplEsmente suicidas. que a loucura será mais tarde "destacada". O leprosário não tinha um sentido apenas médico. ou a Bicêtre. de dentro dele. localizados.

ela passou pelo internamento do período classicista. em que as perspectivas eram antes de correção) castigo e repressão. Ibid. "encontrarão os loucos. além dos Hospitais Gerais. Por esse distanciamento.. Essa leitura simples seria plausível se Os fatos fossem simples. Ibid. 146. comprometido. pois. por exemplo).. Com efeito.. sua verdade de sempre. Antes de se tornar ~'objeto" de conhecimento e ser configurada como patologia. da Idade Clássica foi justamente a transposição dos loucos das casas de cura para as casas de correção. por essa dessacralização. 34. no caminho desse percurso histórico é possível compreender como a transformação que se operará a partir do final do século XVIII e do início do século XIX. lbid. então. de solo para o nosso conhecimento 'científico' da doença mental.. Nas casas de internamento. não sem antes se vangloriarem de os ter libertado"32.. 31. sua essência imutável. mas o resíduo ainda de uma percepção medieval e renascentista em que a individualidade do louco era de algum modo reconhecida.30) eximido. não foi avanço rumo à Modernidade. que. mas em seu exílio e em seu silêncio: "Não é importante para a nossa cultura que a desrazão só tenha podido tomar-se objeto de conhecimento na medida em que previamente foi objeto de ex-comunicação?"29. e o internamento não consistiu numa forma possível de "conhecimento" da loucura. não se pode pretender simplesmente que a loucura será um dia tornada "objeto" de conhecimento por ter sido. Ibid. 144. embora em número extremamente menor. com "as vizinhanças da culpabilidade. É que. bispos. 32. Assim. durante a Idade Clássica. escreve Foucault. O fato "novo". se internavam loucos com perspectivas de tratamento e de cura.. as decisões procediam de julgamentos médicos e o louco tinha um estatuto de "sujeito juridicamente incapaZ. 59. 147. mas como prática social. 119. na verdade. Bethlém em Londres. onde. "Ê entre os muros do internamento que Pinel e a psiquiatria do século XIX". Nos hospitais comuns.31. 33. perfaz ele uma aparência de neutralidade que já é comprometida.. 30. Ibid. Uma leitura histórica simplista e linear poderia talvez prevalecer-se do fato de que durante esses 150 anos . simplesmente sabilidades sociais.não o esqueçamos . Ibid. Ora. inclusive do ponto de vista cronológico. as decisões competiam às autoridades sociais (magistrados. 29.. ela inverte-lhes a ordem e a prioridade. I Foucault.. e não o inverso. ainda que vagamente. calcada na repartição entre razão e desrazão e misturando indiscriminadamente os insensatos aos demais grupos "associais" . havia também hospitais comuns (Hôtel-Dieu em Paris. diferentemente das casas de internamento. polícia) e o louco tinha o estatuto de "sujeito social") perturbador da ordem.que os deixarão. o mesmo e o outro I 47 .a experiência clássica da loucura não foi uniforme. antes "justapostas"..33.. 46 Ibid. A hospitalização individualizada do louco nos hospitais comuns. uma leitura histórica simplista veria na hospitalização comum os indícios de uma espécie de progresso rumo à Modernidade. liberada das "velhas participações religiosas e éticas em que a Idade Média a tomava. consistirá numa espécie de junção entre suas duas vertentes. sobre o solo da experiência classicista da loucura.ral da desrazão que serve. porque só alcançada no propósito inicial de uma condenação"27.2B.entre a Idade Média e o Renascimento até a nossa Modernidade. é lá . de respon27. Em outras palavras: o "alienado" será reconhecido simultaneamente como "incapaz e como louco"34. então. no fundo.. 119. 121. se reconheceria na loucura a doença. de modo que a experiência mais ampla e relevante da loucura foi seu internamento não Como procedimento médico. Ibid. serão depois "superpostas. 146. 28. portanto. quando.

E sua história a mostra como tantas faces que figuram o "outro" no interior do "mesmo". Gallimard. mas antes um fato multifacetado. Retomamos aqui um comentário do livro de ERIBON. 149. Publicada em Cadernos PUC. Feist. no primeiro título que Foucault pretendia dar a seu livro. Como cenário de nossas considerações escolhemos algumas passagens de As palavras e as coisas 1 cuja retomada constituirá o primeiro momento da exposição. ousemos supor que esse "outro" de múltiplos rostos que atravessa a história de nossa cultura possivelmente atravessa também a história pessoal de cada um de nós. 1982. São Paulo. n. reciprocamente. Companhia das Letras. 1966. em seu todo. Paris. ou. 35. "A outra forma da loucura. consubstanciado numa verdade essencial cuja identidade é sempre a mesma. D.. em cada qual desses segmentos históricos. lembramos que As palavras e as coisas. educação e saber soberano I lI9 . cujas verdades são historicamente produzidas e variadas.37. EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO' • •• A partir da reconstituição resumida de alguns aspectos dessa história. trad. caracterizará então a instauração da instituição asilar. que.. Ibid. EducjCorcez.. D. Numa visão extremamente sucinta (mas útil a nosso intento). E é essa junção do conceito de doença IV como assunto médico à prática social do internamento. 37. detém-se na Idade Clássica (séculos XVII e XVIII) e desemboca em nossa Modernidade.. talvez. 1990. lI8 I Foucault. M. nos séculos XIX e XX. FOUCAULT. Para concluir. e na frase de Pascal que escolhera para iniciá-lo: "Os homens são tão necessariamente loucos que seria uma outra forma de loucura não ser louco". Esta suposição está sugerida. 36. 119. Les Mots et les choses. 102-103. o surgimento das chamadas ciências humanas. percorre uma trajetória histórica que começa no fim do Renascimen- to (por volta do século XVI). finalmente.. em maio de 1981. simolesmente * Comunicação apresentada por ocasião da "Semana de Educação".. São Paulo.denominar-se-á "doença mental" essa união entre o fato de uma incapacidade jurídica do indivíduo e o fato de um distúrbio que afeta a vida social. ERIBON. H. tentaremos num segundo momento realçar alguns aspectos dos papéis desempenhados pelas ciências humanas em geral e pela ciência da educação em particular. na Universidade Federal de Uberlândia. Em palavras simples: '''a loucura não é um fato da natureza' mas um fato da civilização"36. Michel Pou· cault: uma biografia. a transformação do "internamento em ato terapêutico"35. 13. podemos compreender que a loucura não seja um "objeto" uniforme. Do interior desse cenário e a partir de uma interpretação relativamente livre das análises foucaultianas. Cf. a emergência de determinados saberes de modo a finalmente poder descrever. 1. cit. op. e que aborda.

retomaremos alguns aspectos do primeiro capítulo e. o pintor olha para um ponto fixo e invisível: nesse ponto está o modelo que ele pinta sobre uma tela da qual o espectador só vê o reverso. o primeiro capítulo traz a nossoS olhos um quadro de Velázquez. que se trata.. enquanto "objeto" virtual do olhar do pintor. está presumidamente o próprio espectador. faremos um grande salto até o capítulo IX. se deslocamos nosso olhar dessa visão imediatamente empírica e nos situamos numa região em que os nomes não são diretamente colados às coisas percebidas. se olhamos ou 2. Assim é que. rodeada de aias. Ora. no primeiro plano Nicolaso Pertusato. de cortesãos e de anões. E é esta que nos interessa. Porque só o reverso é representado. Porém. nesse ponto igualmente. a partir dele. Trava-se assim um jogo ambíguo entre o visível e o invisível: com efeito. o pintor. Por outro lado. outra descrição é possível. ali Nieto.. que nesse quadro ele se representou a si mesmo. para o qual o pintor dirige o olhar. permite o assinalamento do fim do Renascimento e do início da Idade Clássica. O reverso da tela que está sendo pintada garante essa ambigüidade. espectadores. o espectador é o modelo de carne e osso mas sempre invisível e extremamente variável. a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar. 1O pintor e o espectador - De dentro do quadro. nós. permitindo uma espécie de ilustração comparativa a propósito da Modernidade. para ser olhado pelo pintor. cuja obra foi escolhida. SO I Foucault. Ibid. esse espectador-modelo precisa colocar-se em face do quadro na posição de quem olha. ) bastaria dizer que Velázquez compôs um quadro. de damas de companhia. do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana"2. que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradição reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente. em seu atélier ou num salão do Escorial. 25. ao menos diretamente. não sabemos. Para desenhar nosso cenário. bufa0 italiano. mas que se pode distingui-las num espelho.. sem dúvida. ouçamos uma descrição me- ramente empírica do quadro em questão: "( . simplesmente educação e saber soberano I Sl .Com curiosa astúcia. Bastaria acrescentar que as duas personagens que servem de modelos ao pintor não são visíveis. de modo que somente na medida em que é ((sujeitoque-olha" pode ser "objeto-olhado". o quadro escolhido (Las Meninas) aponta elementos que serão retomados no final do livro (capítulo IX). Refaçamo-la em alguns de seus ângulos. Situado entre o fim da segunda metade do século XVI e o início da segunda metade do século XVII (1599-1660). De início.

e. e duplamente soberano: porque comanda a composição de todo o quadro e porque supostamente ocupado por "soberanos" (o rei e a rainha). afinal. Simplesmente pectador "real" do ponto de vista do interior do quadro e. mas donde. o visitante 3. Do interior e no fundo dessa representação são representados outros quadros (que são outras tantas representações). é o "olhar soberano"'. É o espaço olhado pelo pintor e as personagens. que poderá ser enunciado o cogito cartesiano e onde podeeducação E' saber soberano I S3 . um homem e uma mulher. "Mas não é um quadro: é um espelho. esse espaço é também o lugar do espectador que olha e é olhado. Nesse espaço. Mas o espelho reflete precisamente o modelo que está sendo pintado. 3 O visitante inusitado - No fundo do quadro. assim como a frente da tela tepresentada é invisível para o espectador e só visível para o pintor. O quadro como um todo é. e o olhar firme da princesa realçado em primeiro plano. no meio. Entre eles. só há lugar para o sujeito no plano de representação. ele próprio.. representado (feito de linhas. porém. mas fá-los ver (também "por reflexo"). o olhar do pintor. evidentemente. uma representação. o visitante olha as personagens dos primeiros planos: o pintor.. a princesa entre duas damas de companhia. como que prolongável para fora do quadro. os modelos olham o pintor e as personagens. 4. agora o espelho é clara visibilidade para o espectador mas sempre invisível para o pin- tor 0á que este lhe dá as costas). do quadro enquanto visto internamente). 21. S2 I Foucault. é nesse espaço. Ibid.4 E. Não se sabe se ela <{entra" ou "sai". con- 4 As personagens e os centros do quadro . a demarcar o limite impreciso entre o seu interior e o seu exterior.. supostamente. 21. mas. quadro que representa um quadro. e mostra assim o espaço interno do quadro que é representação de modelos. ele próprio. Dois pontos centrais parecem comandar a composição do quadro: o espelho a refletir os modelos.Do plano de fundo. assim também O quadro como um todo torna presentes. pois. representação de uma representação. O espaço vazio faz do quadro como um todo o que o espelho faz no interior do quadro: assim como no espelho o rei ausente está presente. o pintor real e o espectador real. cores). afinal. enquanto espectadores que olham do exterior o pintor que é. No interior do quadro é o lugar do modelo. do quadro enquanto visto do exterior) e fora dele (isto é. em seu todo. Um centro soberano. Se o espelho reflete o jogo ambíguo entre o interior e o exterior. o único que pode ir do modelo à frente da tela. mas assistisse a ela. Espaço ocupado e vazio ao mesmo tempo. isto é. como se não fosse parte da representação. revela o jogo ambíguo entre o real e o representado: é um es- 2 O espelho - tudo. o espelho faz ver (por "reflexo") os modelos externos olhados de dentro do quadro pelo olhar do pintor que os representa.. mas "por reflexo". formas. que na verdade se olha como seu próprio modelo para se representar. outra ambigüidade se estabelece. porém do interior dela. esta agora entre o interior e o exterior do quadro: com efeito. à esquerda. mas "por reflexo") o modelo real. um é especialmente mais claro. Parece estar ao mesmo tempo dentro do quadro (isto é. o lugar do pintor real. uma porta deixa entrever uma estranha figura. e ainda. além do jogo entre o visível e o invisível. é ele o centro principal do quadro. Nesse jogo. dois anões. E percebe-se então que. "representado" do ponto de vista do exterior do quadro. à direita. ainda à direita e mais à frente. e mostra assim o contorno externo do quadro que é. é também o lugar do visitante que assiste à cena e é o espectador projetado para dentro da representação.se somos olhados. Mas esses dois pontos parecem estar ambos direcionados para um ponto convergente: trata-se do espaço claro à frente do quadro. ao mesmo tempo sujeito e objeto do olhar ausente e presente. do rei. Ibid.

espectador olhado. mediante o acaso de um espelho e como que abusivamente. O que é ideologia. de M. a sua presença real foi excluída.rão desdobrar-se os saberes emergentes na Idade Clássica. introd. particularmente o artigo "Soberania e disciplina". São Paulo. mas tão-somente a marca de uma diferença. acontece também que. E onde emergem também as filosofias do homem e as ciências humanas. o certo e o errado. 1979. durante tanto tempo. Rio de Janeiro. Ver. só refletia. "em carne e osso". da exclusão 7 • Ele dissocia os que "possuem" a verdade porque "sabem" e os demais que. da autora: "Ideologia e educação". intrinsecamente.. o homem aparece com sua posição ambígua de objeto para um saber e de sujeito que conhece: soberano submetido. por outro lado. de Roberto Machado. ele surge aí. 6. Ano 11."6 Não é nosso intento refazer a análise dessa mutação. como "indivíduo que vive. um mito interessantíssimo". Neste momento de nossas considerações. No século XIX. 8. corre também o risco inalienável de se fazer sempre prescritivo. que se atribua ao homem real o estatuto de "coisa científica" a ser dominada pelo homem como sujeito detentor do conhecimento.jan. Almanaque. nesse lugar do Rei que lhe atribuíam antecipadamente Las Meninas. se petrificassem numa figura plena e exigissem que fosse enfim referido a um olhar de carne todo o espaço da representação. lbid. mas de onde. O conhecimento "científico" sobre o homem torna-se não só o único saber qualificado e competente. nO 5. "Ventos do progresso: A Universidade administrada". a filologia.. Cadernos de Literatura e Ensaio. lbid. isto é. Graal. no entanto. aquele que veicula as normas pelas quais são desqualificáveis quaisquer outros saberes e reduzidos ao silêncio outros discursos. Abre-se um novo espaço epistemológico no qual podem emergir a biologia. Cortez Editora/Autores Associados/Cedes. as ciências humanas carregam em seu próprio bojo o risco inalienável da redução do homem ao que dele se pode "cientificamente conhecer". simplesmente. in Descaminhos da Educação Pós-68. nem examinar sua "legitimidade científica" ou avaliar o peso de sua significação histórica. cujo segundo item tem precisamente como título "O lugar do rei". "A não-violência do brasileiro. o rei. aquele que tem o poder de decidir sobre o verdadeiro e o falso. aliás. São Paulo. nO 11 ("Educação ou Desconversa?"). educação e saber soberano I 55 . Mas. Como único saber qualificado. será também a ocupação desse espaço pelo sujeito concreto enquanto empírico e existente real (no duplo sentido. Foucault. E o primeiro aspecto a apontar é que a instauração das ciências humanas requer. 1980. a exclusão recíproca. "nada sabem". "No movimento profundo de tal mutação arqueológica. O homem. a esse respeito. E eis que já saltamos para o capítulo IX. sobretudo. o pintor. 2 a ed. Como se nesse espaço vago para o qual está virado inteiramente o quadro de Velázquez. por outro lado e ao mesmo tempo. Brasiliense. de realidade e de realeza) que caracterizará o surgimento das ciências humanas em nossa Modernidade. fala e trabalha"S. Brasiliense. o entrelaçamento e a ofuscação (o modelo. uma vez que a racionalidade do saber científico é erigida como critério exclusivo da validade de todo saber e medida do verdadeiro. o normal e o patológico. 54 I Foucault. Brasiliense. Partindo do pressuposto de que uma mutação histórica do saber não é sinônimo de avanço ou de progresso. a economia. duas distinções exploradas com extrema clareza por Marilena Chaut podem 7. 1981. Ora.. o lugar antes vazio de uma presença ausente. São Paulo. in Microfisica do poder. interessa5. todas as figuras de que se suspeitava a alternância. 1980. 1980. e org. 323. mas que ele. 321. Educação e Sociedade. isto é. do controle. a personagem representada no quadro de Velázquez entra empiricamente em cena. Ver. entre outros. assume então o direito da soberania cujo poder se exerce pelos mecanismos da disciplina. ocupa. o espectador) cessassem de súbito sua imperceptível dança. Simplesmente nos agora apenas explorar alguns aspectos inerentes àquela posição ambígua hoje ocupada pelo homem como "objeto para um saber" e como "sujeito que conhece".

nQs ser úteis. Ora. instituído e qualificado. é o esforço por reverter semelhante configuração pelo esvaziamento da "posse" desse espaço. a assimilar o saber "qualificado".. na medida em que as ciências humanas se movem na zona do conhecimento qualificado e instituído. na medida mesma em que professores e alunos nos limitamos a cumprir as normas. O "discurso sobre" um objeto dissimula e busca substituir o discurso daquilo mesmo que está em questão. 56 I Foucault."9. Transportemos finalmente estas considerações para a região da pedagogia. 26. Ibid. A saber: a de que no trabalho lO. impedindo que isso mesmo que está em questão primeiramente fale de si e por si para vir a ser compreendido. destituído de todo direito da realeza. regulamenta e controla não está exclusivamente centralizado num saber elaborado no exterior da instituição escolar. mas "a burocracia estatal. as ciências humanas. "Por exemplo. finalmente. É quando a escola não pode ser um lugar onde se pensa para ser o lugar onde se reproduz o conhecimento instituído. nO 5. É possível que quem primeiramente pronui. legisla. Ao contrário. ali onde não pode haver discurso da mulher surge um discurso sobre a mulher etc. está plenamente ocupado.e com isso entendamos qualificado. em seu lugar surge um discurso sobre a loucura. por intermédio dos ministérios e das secreta9. no saber da educação. que. desocupado de qualquer sujeito soberano (quer na forma da representação. quando o discurso da unidade social se tornou realmente impossível em virtude da divisão social. Pensamento é afrontamento de uma realidade nova. e numa interpretação livre da análise foucaultiana do quadro de Velázquez. nela se exercendo de fora para dentro e de cima para baixo. trazemos para dentro das próprias relações pedagógicas os mesmos mecanismos e os mesmos efeitos de exercício do poder. quando o discurso da loucura tem que ser silenciado. E que o que se propõe. trazem não só a carga do conhecimento capaz de estagnar o pensamento como as marcas de um saber sobre o homem que silencia o seu próprio "objeto".. regulamenta e conttola o trabalho pedagógico"lO. 27. cujo saber é construído a partir de um não-saber que requer sua compreensão. isto é. surgiu um discurso sobre a unidade.. na instituição escolar e nas relações pedagógicas. estabelecido. esse "soberano submetido". in Educação e Sociedade. É bem possível que acabemos por verificar que ela se faça como conhecimento) isto é. em contrapartida. admitida que é no campo das ciências humanas como "ciência da educação". tendem a excluir o espaço do pensamento. CHAU1. a proposta muitas vezes formulada por Marilena Chaui. Simplesmente rias da educação. "Ideologia e educação". Diríamos. reprodução de um saber instituído sobre a educação. Transposição metafórica e interpretação livre que pretende apenas emoldurar. educaçáo e saber soberano I 57 . sobre a revolução. onde não pode haver um discurso da revolução surge um outro. A primeira é a distinção entre conhecimento e pensamento. É quando as relações entre professor e estudante reproduzem a relação do sujeito que "possui" o saber com um "objeto" de educação. Conhecimento é aquisição intelectual do saber já constituído. Por uma transposição mais metafórica que ilustrativa. Ora. As estruturas mesmas das instituições escolares são já um cumprimento dessas normas. A outra distinção (retomada de Claude Lefort) marca a diferença entre "discurso sobre" e "discurso de". M. enquanto saber soberano . normativo e poderoso -. fique vazio o "lugar do rei". estamos apenas endossando a proposta de que. Entenda-se: não estamos aqui a aspirar a um absurdo regresso ao século XVII nem a um retorno à soberania da representação. quer no modo da realidade). num cenário visual. Mas é preciso não se iludir: o poder que legisla. que é nesse tipo de configuração do saber pedagógico e das relações pedagógicas que o "lugar do rei".cie o discurso pedagógico não sejam nem os professores nem os estudantes.

particularmente em relação aos primeiros livros de Foucault. a fim de que pudesse ser visto como acessível a todos porque não pertence a ninguém"ll. Almanaque. FOUCAULT. J. 229.pedagógico não seja o conhecimento a ponte entre o professor e o estudante. Buscando reconstituir aspectos do pensamento de Foucault no tratamento das assim chamadas "instituições disciplinares". certamente. às casernas. e de que todos se assemelhem às prisões? M. "A não-violência do brasileiro. em abril de 1985. 11. mas antes seja o professor o mediador entre o estudante e o pensamento. situar o aparecimento desse tema no contexto mais amplo daquele pensamento. Simplesmente * Este textO reproduz. R. aos hospitais. às escolas. com pequenas alterações. CHAUl. lugar que "então permaneceria sempre vazio. convém..24. M. v O LUGAR DAS INSTITUiÇÕES NA SOCIEDADE DISCIPLINAR' Que há de espantoso no fato de que a pn'são se assemelhe às usinas. 58 I Foucault. org. o lugar das instituiçóes na sociedade disciplinar ! 59 .. esta é uma questão que. na Universidade de São Paulo. preliminarmente. nO 11. Ora. Surveiller et punir.). um miro interessantíssimo". Brasiliense. São Paulo. o professor desocuparia o lugar soberano de detentor do saber. à questão das imbricações entre os planos discursivo e extradiscursivo. A inclusão de análises e descrições de práticas institucionais no interior de um pensamento voltado para a formação e a transformação de configurações discursivas que compõem saberes historicamente constituídos é um assunto que pertence. 1985. foi (ou é) objeto de polêmica e tema de interesse. palestra proferida por ocasião do Colóquio Foucault. Publicado em Recordar Foucault (RIBEIRO. Na medida em que exercesse esse papel.

quando Foucault busca. Em suma. Retomaremos a descrição de um 1. mas. que é ainda a nossa. e que Foucault chama de "instituições disciplinares". O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos". marcando a passagem da "arqueologia" para a "genealogia". nO 16. em relação ao dispositivo. enunciados científicos. inrrod. a sociedade disciplinar deu lugar ao nascimento de determinados saberes (os das chamadas ciências humanas). num dado momento histórico. atrelar a questão da constituição de saberes a modos de exercícios de poder. da pro3. Simplesmente tipo determinado de instituições: aquelas que. proposições filosóficas. o dito e o não-dito são os elementos do dispositivo. para aproximar-se de um eixo mais complexo que o autor chama de "dispositivo". a uma abordagem mais centralizada sobre as instituições inseridas nesse tipo de sociedade. Tomaremos esse text03 como referência para resumir. na medida em que responde à articulação entre produção de saber e modos de exercício de poder que é dominante em cada momento histórico'. 1979. precisamente. O que aqui nos ocupará é a análise de instituições entendidas. igualmente. . o que ele nos diz sobre a sociedade disciplinar e nos determos na questão de suas instituições. sobretudo. em primeiro lugar. principalmente. "Sobre a história da sexualidade". Posteriormente. dedicando-se. 2. Desde então. porém.. Cadernos da PUC/Rj. FOUCAULT.. A verdade e as formas juridicas) trad. instituições. ao modo mais sutil do adestrament9. este texto foi republicado no Rio de Janeiro. M. leis. 60 I Foucault. que engloba discursos. da publicação dos livros Vigiar e punir (1975) e A vontade de saber (1976). morais. pelo "exame" instaura-se.. Cf. a análise se descentraliza do eixo "discursivo/não-discursivo". como um modo de organizar o espaço. um conjunto decididamente heterogêneo. Caracterizando-se. pois. 1974. série Letras e Arres. na última conferência. Graal. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 61 . in Microfísica do poder. coloca esta questão em um plano de menor importância. de Roberto Machado. e org. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem à primeira edição. Rio de Janeiro. com esse termo. E segue mostrando que. para os quais o "exame" é o modelo prioritário de estabelecimento da verdade. De sorte que poderá afirmar: "Mas. como elementos de um "dispositivo" articulador das relações entre produção de saberes e modos de exercício de poder. filantrópicas. A sociedade disciplinar tem seu surgimento por volta dos fins do século XVIII. Roberto Machado e Eduardo J. genericamente. Ao longo desse estudo. com efeito. Ib. brevemente. O ((dispositivo". pretende ainda "demarcar a natureza da relação que pode existir entre esses elementos heterogêneos" ("discursivos ou não") bem como evidenciar a "função estratégica" do dispositivo. Não. explicitamente. ou antes. de controlar o tempo. não é muito importante dizer: eis o que é discursivo. em 1999. 6/74. medidas administrativas. pela Nau Edirora. decisões regulamentares. organizações arquitetônicas. 247. reúne o discursivo e o extradiscursivo. Eis o que ele escreve: "Através desse termo tento demarcar. de vigiar e registrar continuamente o indivíduo e sua conduta.Contudo. M. esta questão sofre um deslocamento considerá- vel a partir. constituem peças na engrenagem de um tipo determinado de sociedade.** R instalação das instituições disciplinares As conferências que compõem o texto A verdade e as formas juridicas (1974) descrevem uma história da produção de saberes baseada em determinadas práticas sociais (as práticas jurídicas ou judiciárias) que foram capazes de gerar modelos de estabelecimento da verdade.d. um modo de poder em que a sujeição não se faz apenas na forma negativa da repressão. FOUCAULT. eis o que não é"2. Foucault descreve o surgimento e os caracteres do que denomina "sociedade disciplinar". Morais.

o traço mais básico e geral das instituições disciplinares e. casas de correção. A escola não exclui os indivíduos. Foucault chama-as ainda de "instituições de seqüestro". FoucAuLT. 6. Paris. esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. no fundo. a partir daí. Gallima. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se para o interior. O mesmo acontece com a casa de correção ou com a prisão"? Outra passagem descritiva do projeto conclui com a seguinte observação: "O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é. cada uma ocupando roda a largura da construção.201-202. Em suma. ela os fixa a um aparelho de transmissão do saber. Na realização do "panoptismo". no centro. as primeiras instituições que. sendo depois substituídas por instituições com iguais características. 7. "O olho do poder". Devido ao efeito de contraluz. esse tipo de sociedade e de poder é perpassado pelo que Foucault denomina "panoptismo".rd. M. a um aparelho de normalização dos indivíduos. Esta descrição praticamente reproduz a. por volta do início do século XIX. protegia"4. liga-os a um aparelho de produção.. Ibid. em sua forma mais "compacta". 69. um operário ou um estudante. difusa. uma construção em anel. Cf FoucAULT. a sociedade que atualmente conhecemos . A Verdade e as formas jurídicas. uma torre. 86-88).dução positiva de comportamentos que definem o "indivíduo" ou o que "deve" ele ser segundo o padrão da "normalidade". Retomemos uma das passagens em que descreve esse projeto arquitetômco: nham uma forma "compacta. A construção periférica é dividida em celas. hospital psiquiátrico. 90. hospital. o Panóptico.. prisão ~ têm por finalidade não excluir. liga-os a um aparelho de correção. correspondendo às janelas da torre.6. 1975. 91-92. cujas características de fundo ainda hoje permanecem. Por isso. ao contrário. 1bid. realmente existiu na França dos anos 1840-1845. que se encontra em Surveiller et punir. A fábrica não exclui os indivíduos. outra. É ilustrativo ler (no mesmo texto. podem-se perceber da torre. Concomitantemente ao surgimento de saberes e ao exercício do poder disciplinares. Recorrendo a autores contemporâneos ao surgimento dessas instituições e que desenvolveram estudos a respe~to (N. mas de "forma branda. Elas marcaram o aparecimento de fábricas. escola. M. as pequenas silhueras prisioneiras nas celas da periferia. 210. que. inverte-se o princípio da masmorra. "Na época atual. O hospital psiquiátrico não exclui os indivíduos. in Microfísica do poder. 5. instalam-se determinadas instituições a eles articuladas. Eis uma passagem esclarecedora: "O princípio é: na periferia. mas antes "incluí-lo" num sistema normalizador. rodas essas instituições ~ fábrica. escolas. um doente. em razão de que a reclusão que elas operam não pretende propriamente "excluir" o indivíduo recluso. um condenado. 62 I Foucault. foram instaladas ti4. permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. dando para o exterior. mesmo fechando-os. hospitais. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 63 . tal como é anunciado no projeto do Panopticon. a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro. simplesmente Descreveremos. prisões etc.utopia que efetivamente se realizou"s... que. mas. a seguir. Basta então colocar um vigia na rorre central e em cada cela trancafiar um louco. no fundo. recortando-se na luminosidade. as funções que lhes cabe cumprir. fixar os indivíduos. H. forte".. elaborado em fins do século XVIII pelo jurista inglês Jeremy Bentham.. Característica básica: do espetáculo à vigilância Pode-se dizer que o traço característico fundamental das instituições disciplinares está desenhado em seu modelo de arquitetura. Foucault toma como modelo prenunciador dessas instituições um projeto de arquitetura. a longa descrição que Foucault fornece do regulamento de um destes tipos de instituições.

10. organizada na forma estatal. 15. 14. na arquitetura das instituições. porém. o lugar das instituições na sociedade diSCiplinar I 65 . por exemplo. teve por efeito invertê-las de uma arquitetura de espetáculo a uma arquitetura de vigilância. Ibid.218. Olho auxiliado por uma série de olhares dispostos em forma de pirâ- mide a partir do olho imperial e que vigiam toda a sociedade" I I Mediante uma vigilância que é "ao mesmo tempo global e individualizante". 210. mas sustentam "um princípio de conjunto. dos teatros. Treillard. Basta apontar. Foucault lembra que se o projeto de Bentham fora inspira- do na arquitetura já existente da Escola Militar de Paris (1751). in Microfi: sica do poder. A verdade e as formas jurídicas. FOUCAULT. 218. Assim.. 217. as relações só podem ser reguladas numa forma exatamente inversa ao espetáculo. 86. possibilita uma crítica ao funcionamento do poder monárquico. "O olho do poder". as conseqüências vantajosas que acarreta para os custos políticos e econômicos do poder. Paris. 209. M. exercendo-se com violência aparente e garantindo Sua continuidade por meio de punições espetaculares para efeitos de exemplo. contudo. a arquitetura atendia à necessidade de possibilitat a exibição de espetáculos ao maior número possível de pessoas (para isso. Com efeito.. Economicamente. Ibid. teatro ou discursos políticos"t Não que esse modelo tenha desaparecido por completo. M. não é por acaso que o próprio Bentham refere-se à sua invenção como "um ovo de Colombo". mas que indivíduos sejam dados como que em espetáculo a um olhar vigilan- te. FOUCAULT. 85.13 capaz de inaugurar o que viria a ser o desenvolvimento de toda uma nova forma de poder. 218. o projeto e seu nome não carregam apenas a idéia de uma técnica específica destinada a "resolver um problema específico. e J.. como O da prisão. 1975.Panopticon . autor de Lições sobre as prisões. efetivando-se por meio da organização de uma cadeia de olhares vigilantes que. finalmente. E (a partir de Giulius) lembra a metáfora do "olho" com que então se simbolizava o imperador: "O imperador é o olho universal vo. exercendo a vigilância 12. mas de um lado os indivíduos privados. acaba por se tornar "um poder muito oneroso e com poucos resultados"15. FOUCAULT. o da escola ou o dos hospitais". o controle contínuo é de uma eficácia pouco dispendiosa. autor de Motivos do Código de Instrução Criminal. FOUCAULT. Foucaulr realça a transformação que. de 1808). Ver também: Surveiller et punir. M. M. dos circos")'. que. como "princípio de conjunto". 217. e que Giulius vê nela "um acontecimento 'na história do espírito humano". Surveiller et punir. Gallimard. a designação que lhe deu . e A verdade e as formas jurídicas.. Entendido assim. in Microfísica do poder. M. 218. "onde os elementos principais não são mais a comunidade e a vida pública.14. uma dominação que se faz como por "iluminação"12. diz Foucault. Do pOnto de vista propriamente político.Giulius. Reportando-se a Giulius. expressões usadas pelo autor em "O olho do poder"..."lO Isto significa que a arquitetura deverá então assegurar não mais que espetáculos sejam dados ao maior número de pessoas. Simplesmente tão um tipo de poder que se exerce "por transparências". Cf. 9. de 1830. faz ver como na civilização grega antiga. 85. vai-se constituindo en8.encerra uma generalização altamente significativa. Surveilleret punir. 64 I Foucault. na sociedade moderna.. "a arquitetura dos templos. transformam-se as necessidades e transforma-se a arquitetura. A verdade e as formas jurídicas. esse tipo de construção respondia a um tipo de sociedade marcado pela participação da comunidade nos momentos de mais unidade na vida pública ("sacrifícios religiosos. 11. 13.ltado sobre a sociedade em toda a sua extensão. "Numa sociedade". B. por exemplo.. o traço básico do panoptismo articula-se com transformações fundamentais e gerais na ordem do poder. cada indivíduo "acabará por interiorizar a ponto de observar a si mesmo". 211. e de outro o Estado. 216-217. em que o "anteparo da escuridão" é substituído por uma "visibilidade" isolante". FOUCAULT.

nos hospitais. as prisões para punir"!9... excedem a função estrita do ensino. 17. não podem ser usados pelos trabalhadores "no momento em que desejarem. 95. de modo a atender. M. com Foucault. A verdade e as formas jurzdicas. de prazer. portanto. 66 I Foucault. na verdade têm a eficácia de controlar todo o tempo de sua vida. nas sociedades modernas. e com diferentes técnicas. a disciplina corporal é minuciosa. Portanto. que. de modo a que as instituições disciplinares cumpram. reformado. já que "sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia". M. para curar. mas é mais ainda: é transformar todo o tempo dos homens em tempo de trabalho. 96. de descanso. porém. receber um certo número de qualidades. atingido por meio dos corpos individuais. Ver. a eugenia. pode-se dizer que o. 218.. sobretudo. ele será "protegido". Simplesmente o lugar das instituições na SOCiedade disciplinar 1. nas fábricas do começo do século XIX. Controlados são os tempos de festa. as escolas para ensinar. a proibição de atividades sexuais não se reduz a motivos de higiene e saúde. os hospitais. questões como a imoralidade e a devassidão eram assunto de preocupação dos patrões. a título de exemplo. às necessidades da industrialização. assim também. nas casas de correção etc. nos orfanatos. Controlar o tempo é transformar o tempo do trabalho em mercadoria trocada por salário. uma maneira de dispor do tempo do indivíduo. igualmente. é volvimento da sociedade disciplinar. Surveiller et punir. qualificar-se como corpo capaz de trabalhar"Z!. na multiplicação e na diversificação de instrumentos de vigilância (até os mais sofisticados). A verdade e as formas juridicas. 18. 21. Eis também por que. prisões. M. mas o corpo controlado como "o que deve ser formado. Assim. FOUCAULT. FOUCAULT."sobre e contra si mesmo". mas também nas escolas. mais que uma técnica particular. se no poder monárquico o "corpo do rei" era não uma "metáfora.. para fazer greve ou para festejar. 219-220. De fato. I 67 . mas uma realidade política". não mais o corpo supliciado. 19. a exclusão dos 'degenerados"'20. o que deve adquirir aptidões.. psiquiátricos ou não. 20. na sociedade moderna o importante é o "corpo da sociedade". entendida assim a visibilidade como princípio geral. no Controle dos corpos Aparentemente. como um dos nós que amarram essa rede de instituições. in Microfisica do poder. "Poder-Corpo".18. que. FOUCAULT. 94-95. Funçóes Controle do tempo A vigilância é. as disciplinas escolares. contudo. 211. M.. cada uma das instituições disciplinares é destinada a uma função específica: "As fábricas feitas para produzir.controle do tempo é exercido continuamente não só nas fábricas. nos hospitais. aparentemente criadas para a proteção do trabalhador. FOUCAULT. De maneiras mais abruptas ou mais sutis. "O olho do poder". esse sistema basicamente "ótico"!7 desdobrarse-á no aperfeiçoamento. Lembremos. é uma "fórmula maravilhosa: um poder contínuo e de custo afinal de contas irrisório"!6. efetivamente.. diversificadas funções que respondem à instalação e ao desen- função de todas disciplinar a existência inteira do indivíduo pela disciplinarização do corpo. Um exemplo disso é a concessão de aumentos salariais e de fundos de economia. corrigido. Foucault mostra que certas técnicas. desenvolvendo-se de formas diversificadas mas de algum modo semelhantes e intercruzadas tanto na pedagogia escolar como na organização militar. nas 16. substituindo-se "a eliminação pelo suplício" por "métodos de assepsia: a criminologia. 145. de ociosidade. Foucault faz ver que. Ibid. Cf. lbid. in Microfísica do poder. a este respeito. cuja função específica é a cura.

in Microfoica do poder. Instalação de um poder polimorfo O tipo de poder instalado por essas instituições é "polimorfo" e. por isso. 96. também. se diz quem é o melhor. fornece elementos para gerar saber acerca da produção. polimorfo e polivalente.. "polivalente"24. a aprendizagem etc. ou a elaboração de uma "história dos espaços" que seria também uma "história dos poderes". e conseqüentemente. FOUCAULT. explicitando que nele "a todo momento se pune e se recompensa. do criminoso. Em suma..23.. não é essencialmente localizável em um pólo centralizado e personificado. de tomar medidas. 22. Ibid. É de se notar que. pelos guardas. saberes sobre o indivíduo nascem das observações.. mas também se tem o direito de punir e compensar.27.". poder judiciário. o poder instalado nas instituições disciplinares é também epistemológico. capilar. 25. de Surveilleret punir.. o exemplo particular do sistema escolar.. minucioso. FOUCAULT. Poder econômico. M. se avalia. "Poder-Corpo". 97. Ibid. políticos. M. 23. quer elaborando saber sobre os indivíduos 28 . poder político.. pode também aparecer de formas menos diretas. 141. não apenas se dão ordens. É claro que o caráter judiciário é mais evidente no caso das prisões. 97. muitas são as passagens em que Foucault se detém particularmente nas prisões. de aceitar outros etc. o econômico e o político. nas análises das instituições disciplinares. o indivíduo continua tendo seu comportamento constantemente julgado *** Para concluir.. E os produz duplamente: quer extraindo saber dos indivíduos. de expulsar indivíduos. por exemplo. se tomam decisões. se tem o poder de fazer comparecer diante de instâncias de julgamento"26. Ibid. onde o saber do operário a respeito de seu próprio trabalho. como no pagamento feito a hospitais. o acréscimo de uma observação. isto é. os artigos "Soberania e disciplina" e "O olho do poder". no caso das fábricas. em Microfisica do poder. 26. Mas também é curioso. Um exemplo de saber extraído dos indivíduos ocorre em instituições como fábricas. de estabelecer regulamentos. como 27. onde.espaço hospitalar como nas prisões. o estudo destes caracteres no capítulo intitulado "Le paroptisme". pelo diretor d3: prisão etc. ele se desdobra em múltiplos caracteres que. As conferências sobre A verdade e as formas jurídicas. e constantemente submetido à vigilância e ao registro.25 Ambos. Por sua vez. Ver. das anotações a respeito do doente. mas é principalmente difuso. A verdade e as formas juridicas. depois de julgado por um tribunal. de modo a "cobrir o corpo social por inteiro. as instituições disciplinares fazem funcionar um poder que. FOUCAULT. a esse respeito. M.22. 96.. produz saberes. O caráter econômico do poder disciplinar é evidente. orgânico". 148-149. 24. podemos designar de econômicos. FOUCAULT. Isto é. Ver. das classificações. se classifica.. Neste último (211-212). simplesmente o !ugar das instituições na sociedade disciplinar 1 ! 69 . 97. particularmente todo o capítulo desse livro intitulado "Les corps dociles". Foucaulr indica inclusive que foram as disciplinas corporais (particularmente as militares e escolares) que tornaram possível a elaboração de um "saber fisiológico. 28. judiciários e epistemológicos. um "saber sobre o corpo. Surveiller et punir. Mas ao caráter econômico se atrela o político: "As pessoas que dirigem estas instituições se delegam o direito de dar ordens. e. esquematicamente. Mas indicar que o controle dos corpos engendra saber já é referir-se ao caráter polimorfo do poder disciplinar. 68 I Faucault. nascido de sua prática. quem é o pior. não somente se garantem funções como a produção. M. da criança etc. A verdade e as formas juridicas. espalhado. o realce da importância de um estudo sobre "a arquitetura institucional" ("da sala de aula ou da organização hospitalar").. articulam-se a um caráter judiciário: "nestas instituições. a este respeito. quando Foucault faz ver quanto ele é "inteiramente baseado em uma espécie de poder judiciário".

"exemplar" e "simbólica" de todas as outras instituições32 . que o "Panopticon" encontra "seu lugar privilegiado de realização".. contudo. 100.Assim. 34. Tem. assim.". 29. por outro. M. para Foucault.. Ibid. Ibid. que a prisão desperta interesse ou curiosidade na maioria das pessoas. Ou seja: "O que é fascinante nas prisões é que nelas o poder não se esconde. Surveilleret punir. entre as diversas instituições. é apenas a forma mais transparente de todas as outras. já que. M. M.) Mas.. Por outro lado. não faz parte da vida rotineira das pessoas e. Cf.. só ela é prisão. E é assim. se mostra como tirania levada aos ínfimos detalhes. FOUCAULT. Por um lado. particularmente. in Microfoica do poder.29. ". M. e ao mesmo tempo é puro. E podemos certamente completar: explica também. como que circular e reciprocamente. 33. a facilidade com que ela foi aceita. explica "sua extrema solidez"36.. A verdade e as formas jurídicas) 99. 252. 31. todas lhe são semelhantes. 72. tem uma marca "local e marginal. porém. separada das outras . a aceitação cotidiana de sua diluição mais sutil por toda a rede das chamadas instituições disciplinares. 73. Afinal. Surveiller et punir. 32. na escola etc.. tomam por base as práticas judiciárias.. Cf. Por isso. 308-310.. não se mascara cinicamente. afinal. seu caráter quase evidente. a particularidade de concretizar o "panoptismo" da forma mais palpável. todas as outras instituições realizam uma espécie ~e difusão discreta da prisão 33.. a este respeito. por certo. FOUCAULT. Surveiller et punir. Ora. A verdade e as formas jurídicas. cuja história. que focaliza explicitamente o estudo de instituições. Além disso. a prisão guarda certas peculiaridades: basta lembrar que. há uma certa singularidade da prisão. é nela que "a utopia de Bentham pôde. 99. Ver. "3S. e talvez por isso. afinal. se completam. ambiguamente. FOUCAULT.. é ela a única "onde o poder pode se manifestar em estado puro. atingindo.. de um lado. se vincula mais diretamente às prisões. ela "inocenta" as demais... 36. M. "Os intelectuais e o poder". pois. isso talvez se explique precisamente porque. ao meSmo tempo em que é "diferente" das outras instituições. É nela.30. ela "se inocenta" de ser prisão. diz Foucault. simplesmente o lugar das instituições na SOciedade disciplinar . entre as instituições disciplinares. um número reduzido de indivíduos. segundo Foucault. "seu incrível sucesso. FOUCAULT. 312. é inteiramente 'justificado m31 . com esta marca.. num só lance. É possível que essa tônica ou esse realce se fundamente em dois aspectos que. (E o discurso que ela então emite seria: "Eu faço unicamente aquilo que lhes fazem diariamente na fábrica. já dissemos. em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral".. (E o discurso que ela então emite seria: "A melhor prova de que vocês não estão na prisão é que eu existo como instituição particular. 70 I Foucault. O livro Vigiar e punir. 30. a prisão também aparece como sendo não mais que a forma "concentrada".. traz como subtítulo O nascimento das prisões. tomar uma forma material. FOUCAULT. 35.. afinal. I 71 .)34 Essa ambigüidade da prisão explica. efetivamente.

L.. M. Educ. palestra proferida em Fórum de Debates realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. ! 73 . em abril de 1993. prioritariamente.. É propósito desta exposição perguntar por esse encontro e problematizar essa direção. com pequenas alterações. por um lado. Para isso.VI DE PRÁTICAS SOCIAIS À PRODUÇÃO DE SABERES* Trarar-se-á aqui de verdade e poder. S. de prátícas sociaís à produção de saberes .. RODRIGUES. buscaremos na leitura de Michel Foucault a seleção de algumas passagens capazes de estimular o debate sobre o assunto e propiciar alguma reflexão acerca do trânsito entre o campo das práticas sociais e o dos saberes. Por outro. com maior freqüência. um pensamento sobre esse encontro parece apontar. T.). M. L.. 1995. pensar um espaço comum que abrigasse o encontro entre ambos não é sempre habitual. estas como que guiadas ou iluminadas por aqueles. São Paulo. * Este texto reproduz. À primeira vista. Assim.. MUCHAIL. para uma direção de relações que vai. orgs. esta questão parece sugerir certa repartição entre dois âmbitos: o dos saberes (onde se situaria a ocupação com a verdade) e o dos procedimentos sociais (onde se reconheceria o lugar do poder). dos saberes às práticas sociais.. questão repetidas vezes indicada como temática nuclear dos escritos de Michel Foucault. Foi publicado em O uno e o múltiplo nas relações entre as áreas do saber (MARTINELLI.

a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras. a título de caso ilustrativo. I 7S . Servir-nos-á de roteiro. Morais. que os escritos de Foucault investigam a verdade e seus vínculos com o poder. entende-se por práti- que eles tratam. Rio de Janeiro. Embora o âmbito desta exposição não comporte reconsticuílas. 8. engendraram saberes considerados verdadeiros. 2. numa palavra.. o textO de cinco conferências pronunciadas por M. no ou de múltiplos modos de exercício do poder que permeiam plano dos saberes (ciências. A verdade e as formas jurídicas. mas enquanto produzida no decurso da história. o procedimento judicial mais arcaico. coisas. simplesmente . no decurso da história. mas de poderes dade.pode ser elaborada de modo direto e interno. dizer que os escritos de Foucault concernem à verdade e ao poder significa que eles realizam investigações históricas que buscam descrever.. Assim. verific~r como. M. por exemplo. Posteriormente. 3. Foucault na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ibid. em períodos determinados da história da cultura ocidental. retraçando não o seu próprio desenvolvimento. de modo muito genérico. puderam vir a constituir como que modelos de produção da verdade no plano discursivo. Entre essas práticas. filosofia etc. isto é. basicamente. O percurso da histó- as diferentes sociedades em diferentes momentos históricos. Série Letras e Artes. mos. reunidas sob o título A verdade e as formas jurídicas. a reflexão foucaultiana a res- Mas pode-se igualmente dizer que não é da verdade e do poder peito de tais práticas l . mas tomando como ponto de partida determinadas práticas sociais que. sobre o qual veio a prevalecer depois (a partir do sécu- lo V a. É que a verdade não é entendida enquanto identidade de uma essência una e sempre a mesma. em Cadernos PUC-RJ. modos de produção de saberes reconhecidos como verdadeiros e sua articulação com modos de exercícios do poder. A descrição histórica empreendida por Foucault pretende então mos- trata-se de verdades em seus diferentes modos de produção trar em que sentido modos práticos de estabelecimento da ver- em diferentes sociedades. por dentro.2.mostra-nos Foucault . FOUCAULT. para centrar-se mais detidamente no período que vai desde os fins do século XVIII e início do século XIX até nossa contemporaneidade. em 1999. cas jurídicas ou judiciárias "o modo pelo qual os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido. Essa investigação histórica . o procedimento empregado em As palavras e as ria que Foucault refaz começa na Grécia antiga e atravessa a Idade Média. 1. 4. duas formas de prática jurídica marcaram a sociedade grega antiga. de natureza jurídica. não se trata do poder enquanto dominação central e unitária. portanto historicamente múltiplos e diversificados. trad. isto é. n° 16. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem àquela primeira edição. 1974.)3.. vale assinalar a descrição dos elementos da prova e das características do Foucault dedica especial destaque às chamadas práticas jurídicas ou judiciárias. certas práticas não-discursivas de estabelecimento da verdade puderam tornar-se matrizes ou modelos para a produção discursiva da verdade.c.. na Grécia antiga. 06/ 74. aproximadamente) a prática do inquérito4 • Pela prova. de 1966). Do mesmo modo. Numa definição introdurória e geral. Para o propósito desta exposição retomare74 ! de práticas sociais à produção de saberes Foucault. o inquérito. certos procedimentos. 20-21. isto é. Mas pode-se também realizá-la desde uma perspectiva externa aos saberes. É esse o ângulo que aqui nos interessa. Essa história pode ser lida e organizada em torno de três procedimentos ou práticas sociais de caráter jurídico: a prova. percorrendo. historicamente.. Prova e inQuérito A prova é. o exame.Pode-se dizer. este textO foi republicado no Rio de Janeiro pela Nau Editora. de Roberto Machado e Eduardo]. a própria trajetória da constituição dos saberes (é esse. constituindo-se na formação de saberes reconhecidos como verdadeiros. Segundo Foucault. ou seja.

depois. 47. no âmbito jurídico. o da prova. 7. mas se impõe "de fora" e "do alto" por um poder simultaneamente judiciário e político. inquérito que Foucault. pronunciá-las incorretamente (um erro gramatical. tais como: "sistemas racionais" (como a filosofia). surge a noção de crime como infração.. Ibid. Inicialmente (entre os séculos V e XII aproximadamente). dos botânicos. sobretudo. S. de duelo ou de desafio. portanto. pelos testamentos e. sem intervenção de qualquer terceiro elemento que representasse a autoridade ou a coletividade. ainda apresentasse cicatrizes. uma troca de palavras) era prova de culpa. era considerado culpado. a "arte de persuadir" (como a retórica). é baseada em testemunhos que têm. reconhece em sua instigante leitura de Édipo-Rei.. o direito constituindo-se não numa correlação entre justiça e paz mas num prolongamento ritualizado da guerra. numa espécie de jogo. Ibid. já que "seu destino será praticamente coextensivo ao próprio destino da cultura européia ou ocidental'" e. Prova verbal: o acusado deveria responder à acusação pronunciando certas fórmulas. É na segunda metade da Idade Média (a partir de fins do século XII e no decurso do século XIII) que o sistema da prova tende a desaparecer. determinando-se a verdade pelo lado do vencedor do risco. os dois modelos reaparecem. era culpado. cujos traços principais podem ser assim reunidos: tratava-se sempre de uma ação "de estrutura binária"7.mecanismos bélicos (a rapina. inclusive. a água o recebera.. o "procurador" do rei. 9. "para a história do mundo inteiro. 49. a verdade é determinada por quem "viu e enuncia"s. de práticas sociais à produção de saberes 76 I Foucault. baseados que são em testemunhos (como os dos historiadores. 41. os traços principais que desenham seu perfil: a resolução das questões de litígio não se dá diretamente entre os oponentes.. Na Idade Média. aparece um personagem novo. a ocupação de uma terra. cedendo lugar ao que Foucault chama de "uma espécie de segundo nascimento do inquérito". ao soberano como a verdade é judiciariamente estabelecida sem o recurso a testemunhas ou a sentenças: os adversários em litígio são literalmente "postos à prova". foi a prática do inquérito que constituiu modelo para formações culturais então emergentes na Grécia antiga. e o acusado ganhava o processo. isto é. o direito de opor-se ao poder dos governantes. Segundo Foucault. grupos ou famílias. qualquer instância como um júri ou um juiz não tem competência de decisão sobre a verdade senão apenas sobre o correto cumprimento das regras do jogo. uma vez que o próprio rei é lesado porque são descumpridas suas leis. responsável por "dublar" a vítima. 49. Ibid.. de certo modo.. Simplesmente . grupos ou famílias eram diretamente postos em disputa. dos geógrafos etc. 6. mas "também uma ofensa de um indivíduo ao Estado. porque um dano não configura mais questão apenas entre indivíduos. se não se afogasse era porque nem a água o recebera e. Eis alguns dos exemplos levantados por Foucault (cf 45-47) de provas durante a Idade Média. 42. 10. Ibid. a verdade se confundia com a vitória do mais forte. ou seja. em que indivíduos. de um castelo etc.1 I 77 . se se afogasse. o inquérito é introduzido no âmbito das práticas jurídicas e dali se generalizará como modelo de produção de verdade e de outras práticas. Ibid. Prova corporal: o acusado deveria andar sobre ferro em brasa e se. No inquérito) ao contrário. Ou ainda: amarrava-se a mão direita ao pé esquerdo do acusado e se o atirava na água. conhecimentos empíricos. prevalece o primeiro. 42-43. na medida em que a Europa impôs violentamente seu jugo a toda a superfície da terra"IO. na segunda daquelas cinco conferências. Ibid. Essa era a prática adequada ao perfil de uma sociedade de tipo marcadamente feudal em que a circulação dos bens era assegurada menos pelo comércio que pela herança. pelos 8. representante do soberano.)'. Usado inicialmente nas esferas eclesiásticas e nas gestões administrativas. este agora de "dimensões extraordinárias".)6. dois dias . Eis.

tal como se instala a partir do século XIX.o exame. 51-52. reelaborações do sistema penal cujos princípios básicos podem ser assim reunidos: primeiro. a busca da reconstituição dos fatos. as punições serão de quatro tipos possíveis. da astronomia. ou melhor. Do ponto de vista judiciário. o modelo do inquérito é invadido por outro. de algum modo. estar explicitamente formulada. de práticas sociais à produção de saberes 78 I Foucault. a infração não diz respeito à lei natural. religiosa ou moral e só se representante do Estado". do conhecimento de climas etc. ao contrário. portanto. 64-65. simplesmente 1 I 79 . constituindo ainda hoje a base do sistema jurídico de nossa sociedade. durante o século XVIII (principalmente com Beccaria.. reatualizando o crime quando o criminoso não é surpreendido na atualidade de sua falta. novas formas de 11.. excluído da sociedade. porém. nesse quadro. as ciências empíricas ou da natureza. segundo. quarto. configura como ruptura com a lei civil. dele restando talvez a prática da tortura (e mesmo esta "já mesclada com a preocupação de obter a confissão. principalmente. da botânica e da zoologia 12 • Enquanto o sistema da prova desaparece quase por completo.. que é ainda a nossa.. de saberes considerados verdadeiros. ou ainda da medicina.. Bentham e Brissot). é "que vai se tornar a grande punição do século XIX. enfim. Ibid.15. as leis civis. a prática do inquérito como instrumento capaz de substituir o flagrante delito. Ora. 15. sobretudo. por isso mesmo é da competência do soberano o direito de impor penas e exigir reparações (freqüentemente na forma de "confiscos" que enriquecerão as monarquias)11. não compete à lei. prova de verificação"13). que precisa. 14. ou melhor. a prescrição de "vingança" ou a "redenção de um pecado"14. nessa direção. 13. ao que é socialmente útil. define-se como "dano social" e o criminoso como "inimigo interno" a ser. No nível prático. novas formas de estabelecimento da verdade. pois. formuladas pelo poder político. a deportação. Porém. o modelo do inquérito. em domínios "como o da geografia. concernem apenas à sociedade civil. reconstituir situações. Ibid. Ibid. 59. as leis tendem agora a ajustar-se menos à utilidade social que ao indivíduo (o recurso cada vez maior ao Inquérito e exame No início do período que passamos a investigar. as transformações aconteceram em dois níveis. com a introdução de uma importante diferença: a partir dos fins do século XVIII e no decurso do século XIX. desenvolver-se-ão. por conseguinte. 59. É o funcionamento desse sistema que requer a necessária argüição de testemunhas. terceiro. como faz notar Foucault. permanece e se estende até nossos dias. No nível teórico realizam-se. Ibid. Assim. 12. o crime. as sociedades industriais nascentes vão adotar um procedimento penal que não estava previsto pelos teóricos da lei e que vai estabelecer-se. este inteiramente novo . reunir dados são procedimentos que se estenderão para outras práticas e. não sendo falta moral ou religiosa. a saber. a humi- lhação pública.". com resultados diferentes. o trabalho forçado e a pena de talião. Ibid. 78. portanto. para a constituição da verdade na ordem do saber. quinto. É nesse quadro novo que se instaura o que Foucault chama de "sociedade disciplinar". que "não era uma pena de direito no sistema penal dos séculos XVII e XVIII". mas a reparação do dano social. recolher testemunhos. a prisão. cujos traços novos podem ser assim reunidos: primeiro. "quase sem justificativa teórica": trata-se do aprisionamento. Na medida em que se generaliza a prática do aprisionamento alteram-se radicalmente os princípios da legislação penal.exercício do poder.. transformações fundamentais ocorreram: novas formas de práticas judiciárias.

por exemplo. os dois sistemas mantêm. "poderes laterais. Foucault chamao de exame. enquanto o modelo do inquérito é correlato de uma sociedade comandada pela soberania do monarca. em função de situações individuais. pedagógicas"). mecanismos ramificados de controles disciplinares. elas buscam menos o "castigo" que o ajustamento do indivíduo à sociedade. precisamente sua "inclusão" como indivíduo. O estabelecimento da verdade pela matriz do exame não se faz mais pela reconstituição de fatos nem na ordem dos testemunhos. a polícia. Simplesmente de práticas sociais à produção de saberes j I 81 . para funções de correção 16 . contudo. A sociedade disciplinar. ou a disciplina. Radicalmente heterogên~os. um saber do direito articulado na esfera do inquérito e. 17. esse controle não pode ser assumido apenas pelo poder judiciário. segundo e correlatamente. São saberes e instituições que não se atrelam ao que é do estrito âmbito da lei. simultâneos aos saberes disciplinares. para a função de vigilância. isto é. mas quais as virtualidades do indivíduo e como ele presentemente se conduz. por um lado. abre espaço para o surgimento das chamadas ciências do homem. classificando-os e registrando continuamente suas condutas. basicamente. "o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e comportamentos". examinando-os. constrói as condições para um novo modo de produção da verdade. nas sociedades modernas encontra-se. 67-68. é um exemplo desta mudança). Ibid. isso não significa que o modelo da disciplina (e. De modo genérico. correto ou incorreto. Ibid. Ele se calca em outro procedimento. Pode-se dizer que na sociedade caracterizada pela disciplina não se dá o 16. controlando o tempo e o espaço dos indivíduos. importando saber não tanto o que "se passou". a fábrica. Em suma. São eles. a disciplina é correlata de uma sociedade comandada pela democracia burguesa. e "toda uma rede de instituições" ("psicológicas. Ele requererá a conjugação de outros poderes. o controle aringe não apenas o crime já cometido. seu adestramento. enquanto a prática do inquérito foi modelo para o desenvolvimento das ciências da natureza.17. Mas. o exame é vigilância sempre atual e ininterrupta. imbricando-se concomitante e complementarmente. portanto. certa articulação na sociedade contemporânea. as casas de correção -. avaliando-os.. sua correção. pode-se dizer que. Mais. se o modelo da soberania (e. a escola. Dele a disciplina faz uso e é ele que permanece no interior do sistema jurídico cujo discurso calca-se ainda no inquérito e organiza-se em torno das relaçoes de soberania (do tipo súdito-rei). Enquanto o inquérito é um procedimento para se saber o que havia ocorrido. "normal" ou não. enquanto a punição propriamente dita depende da existência de lei explícita e concerne à ocorrência efetiva de uma desaparecimento completo do modelo inquisitorial. mas.. permitido ou interditado. De ação assim ampliada. por isso mesmo. 69. em suma. à margem da justiça". o asilo. permitindo modificações na aplicação estrita da lei. isto é. Foucault faz ver. portanto. criminológicas.que chamamos de "circunstâncias atenuantes". psiquiátricas. mas pela objetivação do indivíduo e na ordem do que é certo ou errado. médicas. que. sob o do exame) não se tenham constituído outros saberes. por outro. a esse âmbito de ação do controle já não basta o inquérito. seu ajustamento. "reatualizar um acontecimento passado através de testemunhos. terceiro. o exame. o do inquérito) permanece incorporado ao saber jurídico. mas à conduta do indivíduo no âmbito da norma.. No mesmo quadro. enquanto numa sociedade de tipo infração. cuja finalidade não é propriamente a "exclusão" do indivíduo mediante sua "reclusão".a prisão. 80 I Foucau!t. instalam-se seus correlatos no plano das instituições sociais: são as instituições disciplinares . É assim que. os hospitais psiquiátricos. ao contrário. enfatizando então a noção nova de "periculosidade". mas a possibilidade de ser cometido. isto é.

Estimulando esta pergunta. • um sistema de governo no qual foi possível ocorrer o uso ainda recente do confisco e em que a tônica da individualização recai tantas vezes sobre a figura expoente do meramente negativa. 82 I Foucault. comandada pela soberania.inquisitorial "a individualização é máxima do lado em que se exerce a soberania e nas regiões superiores do poder". retomemos o contexto em que situamos inicialmente esta exposição.) na história ainda recente de nossa sociedade são indícios. pois. entre práticas sociais e saberes sejam menos distantes e o trânsito bem mais freqüente. M. 194-195. espetacular e repressiva não pode dar conta. de proximidade ainda com o modo do poder espetacular e repressivo que caracteriza menos "a disciplina" do que a prova ou o inquérito. à diferença do que parece habitual. localizadas. circunscritas. normaliza. de modo algum. ao mesmo tempo. dentro dos quadros da sociedade discipli- ••• Levantemos algumas reflexões que a reconstituição destas passagens pode. dades de terra são indícios. é possível interrogar se ele se ajusta inteiramente ao quadro descrito. Paris. a individualização é "descendente". mais amplamente. cria hábitos.. assim como o uso de mecanismos explícitos de cen18. nar. parece-nos que o perfil de nossa sociedade encontra-se. não exclui. FOUCAULT. Pode-se. Sabemos que as análises foucaultianas não pretendem. Finalmente. numa última consideração. desigual e regio- nalizada. Elas são pontuais. Depois de termos feito a apresentação de uma espécie de caso ilustrativo. isto é. talvez. pela possibilidade de que. apontemos alguns indícios para a reflexão: • a industrialização em escala incipiente. as fronteiras entre procedimentos e discursos. " à medida que o poder se torna mais anônimo e funcional. também ele.como meta de desenvolvimento ou como horizonte de esperança . talvez. simplesmente de práticas sociais à produção de saberes I 83 . • a manipulação pela tortura e pela violência sem disfarces. aqueles sobre quem ele se exerce tendem a ser fortemente individualizados'1l8. mais de perto. De um ponto de vista amplo. 1975. das artes etc. talvez. perguntar pela situa- ção particular da sociedade brasileira atual no quadro daquela descrição da sociedade contemporânea ocidental. Surveilleret punir. vale dizer. nos suscitar. é possível que nOSSa sociedade. alarguemos o alcance do exemplo e indaguemos. polemicamente. pelo menos sob alguns aspectos ou em algumas regiões. um modo de exercício do poder do qual uma descrição sura (da imprensa. Introduz-se assim. de proximidade ainda Indícios como estes podem sugerir uma curiosa situação: enquanto a descrição foucaultiana já veicula. ainda esteja projetando . bem como a preservação das grandes proprie- governante traz indícios.sua realização mais completa como sociedade disciplinar. constituir uma espécie de proposta teórica geral. É um poder sutil e produtivo: produz comportamentos e com as relações súdito-rei que caracterizam a sociedade gestos. Gallimard. ali desenhado. de proximidade ainda com as condições qu~ caracterizam o modelo inquisitorial mais do que o do controle. numa sociedade de tipo disciplinar passa-se o contrário. a crítica das sociedades moldadas na disciplina e no controle. porém.

).. na Universidade do Rio deJaneiro. a delinqüên* Este texto reproduz. não são as filosofias.. com algumas modificações. 21.ARRERO. mas outros e variados os "objetos" e os "domínios" dos quais se ocupam os estudos históricos que Foucault realiza (a loucura. G. E de uma diversidade pelo menos tríplice. Nau Editora. isto é. as chamadas ciências humanas.1 I 85 . Publicado em Retratos de Foucault (PORTOC. são fragmentos filosóficos em canteiros históricos. orgs. Primeiro. Rio de Janeiro. com particularidades de uma situação muito diversa. 2000. De modo geral. quando se trata da leitura de textos filosóficos na elaboração de histórias da filosofia. Nesses casos. em novembro de 1999. Questões semelhantes podem ter lugar relativamente aos escritos de Michel Foucault. CASTELO BRANCO. Foucault e a leitura dos filósofos . Porém. M. no máximo. V. os filósofos reúnem sua atividade à do historiador quando o que os ocupa são "canteiros históricos" de obras filosóficas. FOUCAULT) Dits et écrits) IV. indagações sobre a conjugação ou a disjunção entre caráter histórico e qualidade filosófica são freqüentes. palestra proferida por ocasião do Colóquio Michel Foucault. a medicina.VII1 FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS' Meus livros não são tratados de filosofia nem estudos históricos. a doença. como se sabe.

agregando. 305. no volume FOUCAULT.. oct. 1967 à nos jours. o ensaio so- bre Nierzsche (de 1971)5.sobre Kant (de 1961)3. 6. diferentemente da prática filosófica de pensar a história. 1984. em tradução brasileira. e org. o esrudo mais recente sobre Kant (de 1984t De modo geral. em tradução brasileira. quase sempre. incluída. Graal.. 5. Vigiar e punir. ao cam- ticularmente explícitas: a leitura comparativa entre Montaigne e Descartes. permanecendo. Lima e M. datilografado. a sexualidade. Antropologia do ponto de vista pragmático. no capítulo II ("O grande enclausuramento") da primeira parte de História da loucura. o direito. 1979. da Silva. Revue de Métaphysique etde Morale.. 136-156. 288-293. Paris. certa história das filosofias . mas em proporções desiguais: convencionemos dizer que diretamente as filosofias comparecem com menor freqüência. certa leitura das filosofias . e mais genericamente...se se quiser.. ce feu". a tese complementar de dourorado 1.. I.últimas entrevis· tas. 1963 n. Trata-se da réplica à crítica que Derrida endereçara à leitura foucaultiana de Descartes em História da loucura? Com efeito. de Ana Maria de A. portanto. ce papier. 172-188. 4. São Paulo. M. em número reduzido. indiretamente. Simplesmente . "Introduction" a Rousseau. Ora se movem no trânsito entre a dimensão Descartes4 (em réplica tardia à crítica de Derrida). la généalogie.. Tradução brasileira de Álvaro Cabral. e isso significa no âmbito dos chamados dispositivos estratégicos. tomemos uma análise textual que nos parece exemplar. as filosofias são protagonistas dos grandes livros de história (História da loucura) Nascimento da clínica. Rio de Janeiro. as práticas judiciárias. Cf "Nietzsche. Como escreveu um historiador. 1992. ou as retomadas de Platão nos volumes II e III (O uso dos prazeres e O cuidado de si) de Historia da sexualidade. Cf. I 87 . Em todo caso. da Glória R. a releitura (de 1971) das Meditações de cia. pensa filosoficamente ao praticar a investigação histórica. Histoire du structuralisme.. "Cogito et histoire de la folie". trata-se de cursos. Éditions La Découverte. ••• Não muitos escritos se ocupam diretamente da abordagem de filósofos. nos limites.. 2. DERRlDA..marca presen- ça nos trabalhos de Foucault. "seu pensamento se situa sistematicamente nas linhas fronteiriças. acrescentada à segunda edição de Histoire de la folie à l'âge classique. de Carlos Henrique Escobar. indireto. Incluído. Todavia.. Terceiro. História da sexualidade). Paris. Entretanto. ce feu". 4. in Dits et écrits) lI. Para mencionar algumas siruações par- discursiva e a extradiscursiva. Ensaio. as artes .Le chant du rygne. em sentido largo. Ora mantêm-se na dimensão estrita dos discursos. há diversidade porque Foucault realiza um peculiar cruzamento entre a atividade do filósofo e a do historiador na medida em que. nos interstícios entre os gêneros"'. introd. ce papier. Gallimard. 460-494. ensaios "avulsos". 3. Rousseau)juge deJean-Jacques.. Roberto Machado.jdéc. "Qu'est-ce que les Lumieres?".. e org. Paris. Pode ser reconhecida de duas maneiras. 1994. no texto "Mon corps. atreladas que estão ao assunto central da respectiva investigação. no interior das articulações interdiscursivas. ). O Dossier . O texto de Foucault. portanto. 1972. Cf. e isso significa no âmbito das epistémes ou dos espaços que demarcam as possibilidades de configurações dos saberes historicamente qualificados. Comporta tradução e introdução a Kant. l'histoire". Segundo. está incluído no acervo do Centre Michel Foucault e uma "Notice historique" está publicada em Dits et écrits. As palavras e as coisas.274. Gallimard. DOSSE) F. Sob o título "Mon corps. em todo caso. J. Taurus. no volume FOUCAULT. textos curtos e. Para mencionar alguns: um estudo introdutório sobre Rousseau (de 1962)2. com diferentes intensidades e extensões. Foucault e a leitura dos filósofos 86 I Foucault. a presença assídua das filosofias encontra-se nos escritos volumosos e de grande porre onde têm lugar. a literatura. Rio de Janeiro. M. 562-578 e 679688. 1994. po epistêmico práticas e instituições sociais. Para o primeiro modo de presença. Trad. 11 . Esta última versão.. Microftsica M poder. Introd. Dialogues. por assim dizer. incluído em Dits etécrits. variados são também os planos das abordagens. Cf. I. in Dits et écrits) IV. 7. extraída do curso de 5 de janeiro de 1983.

de Kant. além disso. Rousseau. Ignes Duque Estrada. 11. Ibid. E. a Logique de Port-Royal. 38. M.. usando técnicas refinadamente rigorosas e uma esmerada ordem de exposição. CANGUILHEM. modernidade). J. ROUDINESCO.tes.. no item V. R. passo a passo. Dilthey. Ibid. A palavra de Descartes. Condillac. faz ver a necessidade de dupla postura de leitura demandada pelo próprio texto. passa a fazer falar os filósofos. para '(a representação do signo".. o sistema que os opõé. 1994. "a representação reduplicada". 10. A título de curiosidade. Hobbes. com a morte da 'filosofia' tal como esta é ainda escolarmente entendida"'4. ao afirmar que evita o retorno à discussão anterior. Malebranche. Compara. Derrida).33. Ibid. 12. "apagamento enfim e sobretudo da determinação discursiva essencial (dupla trama do exercício e da demonstração)"ll. destaquemos algumas passagens e. aos ideólogos."o esquema ou o espectro de uma problemática análoga" ou de "uma questão semelhante". 1992) de outro texto. Descartes. O item N. 599. veremos que são convocados. e muitos deles numerosas vezes: Montaigne. acompanhando os três períodos históricos percorridos (renas- Foucault realiza. Nietzsche.de inserção das filosofias. O capítulo III ("Representar"). compõe todo o teor do item II. Trad. Bergson. Berkeley e Condillac.a indireta ... Cf. ce papier. 588-590. enquanto sistema. 590-591. em detalhe. Kant..agora acerca de Freud. Finalmente. em As palavras e as coisas) fizermos um levantamento geral na seqüência dos dez capítulos. ao estruturalismo etc. Para apresentar "a imaginação da semelhança". Berkeley. LEBRUN. Galilée. isto é. Ibid.Leituras da história da loucura. indica o trabalho foucaultiano como "um instrumento de renovação de uma 'história da filosofia' que seria acionada. há chamadas à Logique de Port-Royal. Foucault . à fenomenologia. que "contém ao menos o esboço de uma história da filosofia" e no qual encontramos "indicações para uma leitura de Descar- cimento. enfim. Bacon. não de Descartes . mas também enquanto exercício.A história da loucura na era da psicanálise". depois de iniciar-se com a cativante leitura sobre as aventuras de "Dom Quixote" (item I). Consideremos a outra e mais freqüente maneira . preferencialmente.. idade clássica. remete a termos latinos e a suas traduções9. Leibniz. Relume Dumará. Hegel. Derrida de certo modo a repete e propõe .. Espinosa. duas escolhidas entre aquelas que se ocupam com momentos de limiares ou de transição entre os períodos históricos investigados. No item I1I. Montesquieu. conta com a Logique e com Destutt de Tracy. 14. no final. Rio de Janeiro. entre outros.Rencontre internationale)Paris. Heidegger. DERRlDA. Paris. 55ss. "elisão de diferenças textuais". 9. FOUCAULT. Se. 13. com habilidade de mestre. G. subverte a posição de defesa para instalar-se no terreno do opositor e apontar os defeitos que são dele. na leitura do mesmo texto cartesiano: "omissão de elementos literais". "Note sur la phénoménologie dans Les Mots et les choses". para explanar o desmoronamento da semelhança renascentista e a instauração da categoria clássica da "ordem".11 janvier 1988. no qual. que estabelece a ponte do renascimento à idade clássica. 1989. Dessa relação apenas nominal. principalmente. Um artigo de G.. de seu crítico (no caso. 8. Husserl. Locke. 88 I FoucaulL Simplesmente Foucault e a leitura dos filósofos • I 89 . Seuil. G. 593-597. não deixa de lembrar quanto Foucault suspeitava de uma «história da filosofia universitária"'3 e. 51. os parágrafos (sobre o sonho e sobre a loucura) do texto cartesiano e segue. uma reconstituição interna das Meditações. Hume. "Mon corps. in Histoire de lafolie. "Fazer justiça a Freud . tentando vasculhá-la um pouco no enredo das investigações históricas Tomemos As palavras e as coisas. MAJOR.. in Michel Foucault philosophe . M. de Husserl JJ1z . Ibid. ce feu". lembremos a publicação bem posterior (Éd. Lebrun descreve-o como "um livro de combate" e "um livro filosófico". principalmente. certamente ("encadeamento sistemático de proposições))). precisamente por sua natureza de "meditação"lO. 9)10.

"À propos de la généalogie de l'éthique: un aperçu du travail en cours". assim o de Descartes com os saberes clássicos (análise das riquezas. Hume e Rousseau. esquematizo aqui uma história muito longa. op. filologia). Importa observar que. e são evocados Descartes. o positivismo. Graal. de "transcendentais". então. filologia). M.. Malebranche e Espinosa. op.e é para onde todo o livro se dirige -.A trajetória da arqueologia de Foucault. "As sínteses objetivas"). que descreve as transformações ocorridas na segunda metade do século XVIII. A entrevista também se encontra. assim como Condillac. Assim como o pensamento de Kant é analisado em correlação com os saberes modernos "Sobre o trabalho. enquanto condições de possibilidade de conhecimentos objetivos (economia. a dialética. Vera Portocarrero. R. Duas passagens extraídas do livro biográfico de Didier Eribon nos servem para retomar conjuntamente os modos de presença das filosofias que estivemos denominando direto e indireto. mas do objeto e do a posteriori. R.. com a diferença de que estas categorias situam-se do lado não do sujeito e do a priori. "vida". entre outros. Para o primeiro caso. sempre. 17. biologia. a configuração moderna dos saberes e. lembremos. em um texto escrito muito depois (originado em uma entrevista de 1983). no livro de RABINOW e DREYFUS. para empregar uma expressão de Roberto Machado. quando também aparecerão. a presença de Kant. 136-138. Mostra a correspondência entre o campo transcendental kantiano das condições de possibili- dade do conhecimento e as categorias modernas de "trabalho". melhor dizendo. essas duas pontas filosóficas daqueles períodos históricos: "Seguramente. 69. mas de modo genérico. "linguagem": trata-se. a linguagem (economia. in Dits et écrits. Ciência e saber . para o filósofo investigador da história. 1982. e certamente então reencontraríamos Descartes. um trecho sobre as declarações de Foucault acerca de sua tese complementar de doutorado (que. Forense Universitária.. Desenharse-á. no mesmo livro. Rio de Janeiro. Após Descartes. o capítulo VII ("Os limites da representação"). agora como o marco filosófico na partilha clássica entre razão e desrazão. cit. IV.17 entre a filosofia e outros saberes dos respectivos períodos históricos. assim como para ilustrar a diferença entre eles. 630. Trad. se compôs de tradução e introdução à Antropologia de Kant): 16. elas se alojam na confluência. Foucault retomará. Veja-se também. teríamos visto o tecido de relações entre o plano discursivo e o extradiscursivo. biologia. Mas observação semelhante pode ser feita também a propósito das relações entre a filosofia e práticas não-discursivas. tem-se um sujeito do co15. "diferença de nível. ambiguamente. em seu último item (VI. Kant será reintroduzido. Isso no que concerne ao âmbito de articulações somente interdiscursivas.. Cf MACHADO. detalhadamente posiciona Descartes no limiar do classicismo como Kant no da modernidade 15 . Está bem claro que As palavras e as coisas. 137.. de que o Hospital Geral é o marco institucional. Rio de Janeiro. Foucault e a leitura dos filósofos I 91 . simplesme-nte- nhecimento que coloca para Kant o problema de saber o que é a relação entre o sujeito moral e o sujeito do conhecimento. Em português: Dossier. 90 I Faucault. FOUCAULT. Uma trajetória filosófica . o lugar de surgimento das ciências humanas: elas emergem no entroncamento das dimensões positiva e filosófica dos saberes. dos conhecimentos positivos com o pensamento filosófico. gramática geral). Aliás. Se tivéssemos tomado outro exemplo. a vida. história natural. longa e explicitamente. mas que permanece fundamental.278. 1995.Para além do estruturalismo e da hermenêutica.16.. finalmente . sem desconsiderar outros filósofos. não há desigualdade de importância nem de prestígio ou. em apêndice. nos capítulos IX ("O homem e seus duplos") e X ("As ciências humanas"). precisamente ou.lá estão Hobbes e Hume. 411. cit. já que se trata da mesma entrevista reproduzida com modificações. como é o caso de História da loucura. MACHADO. a fenomenologia. Bem mais adiante. traça agora a curva do classicismo para a modernidade e assinala.

SERRES. M. o outro eu. Republicado em Hermes ou la communication. FOUCAULT. com saberes não-filosóficos. do exílio. por essa gente obscura em que se reconhece o infinitamente próximo. Não. quase sempre. pois. 620. qual é a relação dessa Antropologia com o movimento 'crítico' desenvolvido por Kant? Análise estrutural. enredadas no interior das histórias. Assim. de que sucessivos sedimentos se alimentou? Análise genética. 1. Foucault e a leitura dos filósofos Foucault. Michel Foucault ~ Uma biografia. no cerco interno dos sistemas. Por isso começa-se a entender que uma história "exclusiva" das filosofias possa ser não apenas historicamente como ainda filosoficamente insuficiente.. por outro é resultante de uma maneira de conceber a própria filosofia.19. o que "desde Nietzsche caracteriza a filosofia contemporânea. de algumas reflexões. D. da quarentena. agosro de 1962. A compreensão da filosofia como "diagnóstico" é. Creio que existe certo tipo de atividades 'filosóficas' em domínios determinados que consiste em geral em diagnosticar o presente de uma cultura: é a "Inútil seria esse rigor da arquitetura se. no seio da minuciosa erudição da pesquisa histórica circula um amor profundo. Concluamos com a sugestão. Em outras palavras. transformado durante quase 25 anos.. verdadeira função que podem ter hoje os indivíduos a que chamamos filósofos"21. com práticas não-discursivas. é necessário cruzar análise estrutural e análise genética. obtida de um comentário de Michel Serres: A filosofia. por exemplo. mas quase piedoso. diagnóstico do presente. Companhia das Letras. uma atenção mais ardente: a obra seria precisa sem ser inteiramente verdadeira.. São Paulo. Mercure de France. essa geometria transparente é a linguagem patética dos homens que sofrem o suplício maior da rejeição. "Qui êees-vous. além da compreensão estrutural. da desgraça. Trad. com domínios diversos. não vagamente humanista. Pertence a certa escolha que. 1968. formulada por Foucault. 125. realizar um diagnóstico do presente". para que elas possam ser o que devem ser. Cf. 92 20. E conclui: "Falei-lhes de um desaparecimento das filosofias e não de um desaparecimento do filósofo. 21.. contracenando... em vários momentos e de muitos modos. 1188. in Dits et écrits. lbid. n. lbid. não houvesse uma visão secreta. Essa forma de inclusão das filosofias na história não é certamente descomprometida. ••• As filosofias comparecem. se por um lado resulta em um modo de história da filosofia. do ostracismo e da excomunhão.18. 1990.. Minuit.. 119. Já em uma entrevista de 1967. remanejado. com objetos múltiplos. ) para compreender esse texto de Kant escrito. esse livro é também um grito .. 176. diagnóstico do presente As filosofias só estão associadas às investigações históricas do passado para possibilitar um olhar mais atento sobre nosso tempo. declara-se "filósofo" por reconhecer-se no trabalho de quem "busca diagnosticar. 18. nem tampouco na suficiência de suas singularidades.606. M. E para ilustrar o que chamamos de presença indireta a citação sobre a tese principal de doutorado (Folie el Déraison... Assim. Qual é a situação dessa obra na disposição global e interna do sistema kantiano. professeur Foucault?". ERIBON. a este propósito. Hildegard Feise. 19.20. mas espalhadas na exterioridade espessa das epistémes ou conectadas à heterogeneidade complexa dos disposltivos estratégicos. Histoire de la folie à l'âge classique). a saber. Por isso é que no próprio seio da argumentação lógica. Simplesmente J I 93 . Como essa obra terminal foi elaborada."( .. porém. "Géometrie de la folie".

são também linhas de forças e linhas de subjetivação.>23. Abrem também a possibilidade do discurso de resistência. estão calcadas nos solos das épistemes e tecidas nas redes dos dispositivos? Retomemos aqui. Há "linhas de fuga" e "todas as linhas são linhas de variação". M. Ed._-' 1 I 9S . lire l'oeuvre.-. escreve]. poderíamos acrescentar: para que a filosofia possa ser um olhar atento sobre o presente. eu diria que é precisamente nos seus 'ensaios' para abrir a filosofia ao seu fora que Foucault era filósofo . "Sur l'Imroduction à Binswan~er (1954)".m. Judith Ravel retoma essas "três figuras misturadas" .. 552.exercício de vida. Em um texto de 1970. . em toda parte Dize~ que as atividades filosóficas existem "em domínios determinados" e que o diagnóstico que elas realizam remete a "uma cultura" significa também que elas não configuram um "domínio" específico. "Foucault: l'échique et l'oeuvre"..antes de tudo e após tudo . reunindo as reflexões que acabamos de sugerir. lI. uma palavra interrogante.. Com isto. 25l. assunto do diagnóstico... assunto da análise histórica. Grenoble. pela política etc. Por isso. é multiplicá-los. saberes e práticas diversificados e as situam como peças de dispositivos historicamente dominantes não fazem. Simplesmente . os poetas e os louCOS.o poeta. mesmo se em certos domínios permanece um homem do século XIX. Finalmente. reunindo-as sob a categoria da "palavra transgressora. essas histórias que inserem a urdidura das filosofias nas tramas de objetos. MOREY. "Sur le style philosophique de Michel Foucault ~ pour une critique du normal". Assim. a filosofia está em toda e em nenhuma parte. de procedimentos que delineiam um modo outro de história da filosofia como estratégia de criatividade na contraface de dispositivos estratégicos estratificados. "Le piege de Vincennes". Os dispositivos são "moventes". RAjCHMAN. O atual é o transformávet o ((devir-outro)~ aquilo em que nos tornamos. modo de existência. M.. alguns aspectos das considerações de Deleuze sobre o que é o dispositivo. em sua mobilidade. diréction de Luce Giard. Trata-se. as coisas e as palavras. 55. o filósofo -. in Dits et écrits I.. "Qu'est-ce qu'un dispositif?". e o atual. Comportam o arquivo.25. in Michel Foucault philosophe.como transgredir se as filosofias.]. in Michel Foucault philoso· phe. 26. envolvem o ver e o dizer. Foi buscar a filosofia em toda parte.uma 22 espécie de filósofo malgrado ele". necessariamente. Foucault e a. genialmente antecipou a nossa época.-. Jérôme Millon. cit. senão que se constroem no espaço relacionaI com o seu diverso. Por isso. pela literatura. in Michel Foucault philosophe. 144. in Michel Foucault. J. Cf. para nosso uso.. as linhas do dispositivo se repartem em "linhas de estratificação ou de sedimentação" e "linhas de atualização ou de criatividade"26. como outros saberes e práticas. um pensamento sem morada. se se quiser..24. FOUCAULT. DELEuzE. Rajchman • E o próptio Foucault. O dispositivo é "multilinear" e as linhas de que se compõe são linhas de visibilidade e de enunciação. leitura dos filósofos 94 I Foucault. Foucault já aproximava os filósofos de "seus vizinhos. Interessou-se por tudo. pela história. 24.. 23. 1992. 70. o seu fora. op. apenas atrelar as filosofias ao estabelecido. in Dits et écrits.. palavra transgressora Pertencente ao seu tempo.. 185-195. A filosofia. também em entrevista mais antiga (de 1966): "( . o seu outro. A filosofia. o gesto filosófico pode ser também capaz de excedê-lo. "que foge a toda conivência. a não-filosofia Como diria Merleau-poncy. ) Nietzsche multiplicou os gestos filosóficos. conjugar as filosofias a saberes e práticas nãofilosóficos que compõem epistémes e dispositivos não é reduzir os gestos filosóficos. um discurso não-cúmplice. 25. "Michel Foucault et Gilles Deleuze veulem rendre à Nietzsche son vrai visage". "Assim. 27.. RAVEL. Em texto bem mais recente. G. é preciso que ela seja -:. Mas 22. o louco.

VIII

OLHARES E DIZERES'

Fazer a cnêica é tornar difiéeis os gestos demasiado fáceis.
M. FOUCAULT, Dits et écrits, IV, 180.

Em busca do fio condutor
Os modos de distribuir os escritos de Foucault e recompôlos podem ser relativamente diversos, mas quase sempre se
sobrepõem e, sem dificuldades, complementam-se. O modo
mais freqüente, nomeado e renomeado pelos diferentes estudiosos e reconhecido pelo próprio Foucault, consiste em considerá-los ao longo de sua cronologia, situando-os, segundo o
critério dos grandes deslocamentos, em três grupos: quer se
fale de momentos, fases ou etapas, de áreas, campos ou domínios, de eixos ou vertentes, de planos, níveis, camadas, terrenos
ou patamares, eles configuram, em seu conjunto e sucessivamente, uma arqueologia do saber, uma genealogia do poder e uma
genealogia da ética.
* Conferência proferida por ocasião do Colóquio FoucaulrjDeleuze, na
Universidade Estadual de Campinas, novembro de 2000. Publicada em Imagens de Foucault e Deleuze, ressonâncias nietzschianas (RAGo, M., ORlANDI, L. 1.,
VEIGA-NETO, A., orgs.), Rio de Janeiro, DP&A editora, 2002.
olhares e dizeres

I

j

j

97

Contudo, pretendo referir-me aqui a outros modos ou critérios de organização, que não se opõem ao mais usual e que, a
meu ver, são aproximáveis entre si. Para isso, evoco três passagens, duas das quais recolho em Foucault e a terceira em Deleuze.
Já no "Prefácio" de As palavras e as coisas, de 1966 - antes,

portanto, da produção chamada genealógica -, o próprio Foucault propunha certa organização de seus escritos, e o critério era
então o da ênfase no Outro ou no Mesmo. Assim, enquanto Históri4 da loucura perguntava pela "diferença" que limita internamente uma cultura, As palavras e as coisas, respondendo "como em
eco", investigava a "proximidade das coisas"; enquanto História da
loucura "seria uma história do Outro" - daquilo que, em uma
cultura, na nossa, "é ao mesmo tempo interior e estranho" -, As
palavras e as coisas "seria uma história do Mesmo" - daquilo que,
em nossa cultura, preside "a ordem das coisas", podendo ser
"distinguido por marcas e recolhido em identidades"l.
Anos depois, na elaboração de um texto que tem por tÍtulo o seu nome - um verbete para um Dicionário de filósofos, de
1984 -, Foucault reconstitui a organização de seus escritos e,
de certo modo, retoma, como que obliquamente, aquele critério usado no início de sua trajetória, o do Outro e do Mesmo.
Reúne então, retrospectivamente, toda a sua produção sob o
que ele chama de um "projeto geral": investigar a experiência
histórica da constituição do sujeito nas formas diversas de sua
subjetivação e de sua objetivação. E, como que atravessando
este projeto, um "fio condutor": a questão dos "jogos de verdade" ou "das relações entre sujeito e verdade"z.
Dentro desse "projeto" e segundo esse "fio condutor", realizam-se, no conjunto e no decurso de sua trajetória, dois modos de análise: no primeiro, a análise dos "jogos de verdade"
pelos quais o sujeito torna-se objeto de saber na forma do co1. FOUCAULT, M., As palavras e as coisas, "Prefácio", 13-14.
2. Cf. "Foucault" in Dits et écrits IV, Paris, Gallimard, 1994, 631-636. O
verbete "Foucault" pode ser encontrado na tradução brasileira: HUISMAN, D.,

98 I Foucault. simplesmente

nhecimento científico, desembocando nas chamadas ciências
humanas com sua característica normativa; no segundo, a análise dos "jogos de verdade" pelos quais o sujeito é constituído
como objeto de conhecimento, alojado, porém, no "outro lado
da divisão normativa". Pode-se ver, no primeiro caso, o sujeito
enquanto "distinguido por marcas e recolhido em suas identidades", de As palavras e as coisas. No segundo, trata-se do "diferente", o louco, o doente, o delinqüente, de História da loucura, O

Nascimento da clínica, Vigiar e punir'.
Finalmente, e sempre no interior do mesmo "projeto geral",
aos dois primeiros tipos de análise seguiu-se o mais recente: investigar "a maneira como o sujeito faz a experiência de si mesmo
em um jogo de verdade no qual se relaciona consigo próprio"4.
Reunindo esta reconstituição às considerações do "Prefácio" de As palavras e as coisas, pode-se dizer que, na seqüência dos
grupos de escritos, o fio condutor é sempre o das relações entre
sujeito e verdade, tramadas nos jogos do Mesmo e do Outro.
Resta acrescentar que, quando os escritos se centram no Mesmo, descrevem a epistéme, o círculo de uma época, o instituído,
o sedimentado. Quando se voltam para o Outro) realçam o dispositivo, que tanto comporta a estratégia dominante como se
abre à possibilidade do novo, da resistência e da mobilidade.
A aproximação dessas passagens, a mais antiga e a mais
recente, permite, por sua vez, ligar ambas a alguns aspectos da
leitura que faz Deleuze acerca do percurso foucaultiano. Os
três momentos desse percurso são por ele descritos em termos
de "linhas" que compõem os diversos dispositivos analisados por
Foucault. As mudanças entre eles são referidas como "crises",
"desvios", "brechas", "linhas quebradas", "novas linhas" etcs.
Dicionário de filósofos, trad. C. Berliner, E. Brandão, I. Castilho Benedeti, M. E.
Galvão. São Paulo, Martins Fontes, 2001, 388-391.
3. Ibid., 633.
4. Ibid., 633.
5. Cf. DELEuzE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?" in Michel Foucault philosophe
- Rencontre Internationale, 1988, 185-195, que retoma, particularmente, o capítuolhares e dizeres

I 99

No primeiro momento - o da dimensão do saber -, tratase, especialmente, de "linhas de visibilidade e de enunciação":
"pensar é, primeiramente, ver e falar ... "6. Isso corresponde, nos
termos do citado verbete de 1984, aos jogos de verdade segundo os quais o sujeito é constituído como objeto para um saber
reconhecido; ou ainda, nos termos do "Prefácio" de As palavras
e as coisas, ao sujeito "visível" e "dizível", na ordem do Mesmo.
No segundo momento - o da dimensão do poder -, tratase, especialmente, de "linhas de forças": elas operam um "vai-evém do ver ao dizer", fazem "entrecruzar as coisas e as palavras"7. É o pensamento na elaboração de "estratégias". Nos termos dos dois textos anteriormente considerados, significa que
isso inclui tanto o pólo das "identidades" como o das "diferenças"; ou, se se quiser, tanto o lado "instituído" da "divisão normativa" como seu "outro".
No terceiro momento - o da dimensão ética -, trata-se,
especialmente, de "linhas de subjetivação": elas apontam para
"novas possibilidades de existência"g. Não mais "o domínio das
regras codificadas do saber (... ), nem o das regras coercitivas do
poder (... ), são regras de algum modo facultativas"9. Nos termos
dos textos vistos, isso corresponde à "experiência que o sujeito
faz de si" na relação consigo próprio, ou ainda, se se quiser, à
possibilidade de um devir do Mesmo em Outro.
lo "Pensar de outra maneira" de seu livro Foucault, Paris, Minuit, 1986. Vejase também as três entrevistas sobre Foucault, "Rachar as coisas, rachar as
palavras", "A vida como obra de arte" e "Um retrato de Foucault", reunidas
em Conversações, trad. P. P. Pelbart, São Paulo, Ed. 34, 1992.
6. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", in Conversações, 119. Veja-se ainda,
no mesmo texto, 119-122; 126; e no texto "Um retrato de Foucaulr", 133-134.
7. DELEUZE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?", in Michel Foucault philoso-

Finalmente, reunindo as três referências, busquemos refazer o fio condutor que percorre o trajeto foucaultiano. Digamos
que se trata das relações entre sujeito e verdade, ou mesmo do
sujeito com sua verdade; que essas relações são tomadas no jogo
entre o estabelecido e o mutável, vale dizer, entre o Mesmo e o
Outro; e acrescentemos agora que, nesse jogo, as relações são
visíveis e dizíveis de modos diversos, isto é, que olhares e dizeres
- analogamente aos pólos do idêntico e o do estranho - são
sedimentados ou mobilizadores, dependentemente daquilo que
nós, historicamente, somos capazes de ver e dizer.

Imagens e palavras -

um exercício

Usando o fio condutor brevemente reconstruído, proponho que façamos um pequeno jogo, alinhavando com ele alguns comentários sobre o filme Meninos não choram lO•
Personagens principais e ambientação geral

• Brandon ou Teena Brandon: uma jovem de 21 anos que se
sente) se veste e se comporta como um rapaz; tem um primo
que é também seu confidente.
• Lana' jovem aproximadamente da mesma idade) mora com a
mãe e trabalha em uma fábrica; é amiga de Candace.
• John: namorado de Lana; é amigo de Tom e ambos são expresidiários.
Os personagens são todos de classe média baixa ou pobres,
arriscam-se em aventuras, são usuários de drogas. O contexto é o
de uma pequena cidade americana (Falls City). O filme todo
transcorre em ambientação de pouca luminosidade, ~esmo quando a cena acontece ao ar livre (como no episódio do estupro).

phe. 186.

8. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", 120.
9. DELEUZE, G., "Um retrato de Foucault", in Conversações, 141. Veja-se
ainda ''Rachar as coisas, rachar as palavras", 116; "A vida como obra de arte",
123; 125. "Qu'est-ce qu'un disposicif?", in Michel Foucault philosophe, 187.

100 ! Foucault. simplesmente

10. Boys don't cry - 1999. Direção: Kimberly Pewirce (também um dos
autores do texto). No elenco: Hilary Swank (Oscar de melhor atriz), no papel
de Teena Brandon; Chloé Sevigny, no papel de Lana; Peter Sarsgaard, no
papel de John. O enredo reconstitui uma hiscória real ocorrida. em 1993.
olhares e dizeres

! 101

O nome de Brandon é Teena. na cela feminina. Desencadeada por um acidente de carro . Em suma. indignados. apenas abre a porta e comunica a todos que Brandon é homem. por sua vez. que apaguem as luzes. eis o que diz a Lana: "Quer de sua hóspede e faz a mesma descoberta. Quase ao mesmo tempo. Quando presa. que. Simplesmente • . Decidem fugir juntas. Inquirida sobre a identidade sexual de Brandon e buscando impedir que a forcem a despir-se publicamente. teve uma filha e voltou a morar na pequena cidade. pede. exceto na última vez. Hospeda-se na casa de Candace. comprometendo-se a dar. ameaçada. gãos femininos e masculinos. sendo porém submetida a uma espécie de interrogatório informal que quer desvendar não o estupro mas a natureza de seu sexo. Uma pessoa que tem ór- põe fechar-se a sós com ela. localizada no sexo. com imensa dificuldade. "tomar a estrada". olhares e dizeres I 103 102 I Faucault. Cobram-lhe segredo do ocorrido e conduzem-na de volta à casa de Candace para que se lave. Brandon vai então à casa onde se hospedara a fim de apanhar suas coisas. Em seguida. ou. Aparentemente sem vínculos (salvo os raros encontros com um primo). Brandon vai à polícia e. sua mãe e seus amigos. Lana. Quando fechada no quarto com Lana. quando é por ela despido. quando posta sob o olhar do primo/confidente parece ingenuamente tola. meio ao acaso. alguns anos depois. essa mesma visão. faz o relato das agressões. John e Tom agarram Brandon e brutalmente lhe tiram as roupas. Depois de alguns momentos com ela no quarto. sobre si mesma Vê-se como um rapaz e faz saber que quer mudar de sexo. É Lana que a interrompe. que a faz ser levada a um hospital. expressão que repete aos outros para tentar definir-se. Tom colaborou com a acusação. começa quase mecanicamente a despir-se a fim de que Lana pudesse testemunhar sobre sua "verdade".que Brandon dirigia a mando de John e Tom -. testemunhou contra John e foi condenado à prisão perpétua.Há uma última cena de amor em que Lana faz Brandon despir-se. matam a tiros Candace e Brandon. é despida por John e Tom. estranha encontrá-la em uma cela feminina. Resumo do enredo Na cena inicial. Brandon consegue escapar e encontra Lana. "toma a estrada"ll. seu testemunho da "verdade". Após o banho. Brandon quer ser rapaz e produz sua transformação. Sob seu olhar perplexo. desesperadamente. mas sua única preocupação é tirá-la dali. Teena Brandon é levada presa. pro- saber a verdade? Sou hermafrodita. uma investigação policial revela sua identidade feminina. Desconhecedora dessas informações. se se 11. Também se vê examinada pelo olhar de Lana ou o de sua mãe e. Mas Brandon não é bem ele. não se despe. em seguida. aos olhos de todos. como se perscrutassem sua "verdade". Levam-na depois a um lugar ermo onde a espancam e estupram. Lana. contam à mãe de Lana. sozinha. todos os esperam. à pequena cidade onde moram Lana. Leva-a então à sua casa onde. Na cena final. especialmente os rapazes. Apaixona-se por Lana e é correspondido. Quando têm relações amorosas. recua. sob eles. vai. Entre seus objetos pessoais encontra-se um pequeno livro sobre "crise de identidade sexual". quase em murmúrio. Lana busca Brandon na prisão. Informações em notas finais: John foi condenado e está apelando da pena de morte. Candace vasculha os objetos pessoais Palavras e imagens • De Brandon. John e Tom surpreendem Lana e a levam também à casa de Candace. Brandon tem sobre si o olhar e o dizer da verdade "reconhecida": verdade una. expondo-a nua ao olhar de todos. Quando. é mais ela que ele". Tenta comportar-se como o grupo de jovens que acaba de conhecer. relatando-a aJohn e Tom.

E o nome. focalizando as curvas femininas de coxas e quadris) parece finalmente fornecer ao espectador a informação aguardada. Indica "linhas de forças". 2. 104 I Foucault. sobre Brandon e sobre si mesma Lana vê Brandon sem suspeitas e admite ver-se confusa. entrecruza imagens e palavras.mçiação". Em suma. Por isso é que a "verdade" de si mesma estaria perigosamente exibida em seu desnudamento. declara. de costas. afirma: "Não me interessa se você é meio macaco. esta é a única personagem com indícios de críti- ca e sugestão de perplexidade. • De outras personagens. despir. a verdade está na transparência do visto e na unicidade do dito. 2. estupradores e espectador. seu mentiroso". por sua vez. é Teena. • De Lana. uma in- desejada cumplicidade. ((só há um modo de saber a verdade". as do poder que. O que sabemos ser a verdade". sobre Brandon Candace "descobre". no disfarce do chapéu. quase andrógina. é preciso que as luzes se apaguem. não sem alguma ambiguidade: cCDirei a eles o que querem ouvir. • Da câmera e o do espectador sobre Brandon Para capturar o olhar da câmera . veste-se depois. John e Tom localizam a marca da identidade no "nome" de Brandon. que. na expectativa de resolvê-la) só lhe resta (como. e comprimindo os seios. de que precisavam os estupradores. olhares e dizeres I 105 .quiser. verdade identitária. Na cena em que Brandon se declara hermafrodita. sustentando aquilo que pode ser "distinguido por marcas e recolhido em identidades". mas meio caricata) apenas uma espécie de falso artifício. Simplesmente Primeira situação 1. Vou tirá-lo daqui".que conduz o do espec. a câmera faz ver seu corpo seminu. Na cena inicial. Tudo o mais é de menor importância ou é falso. essencial e universal. só interessa conjeturar sobre seu sexo e por que ('nunca fez amor antes do estupro~'. tem que estar inscrito na carne. revelando o circuito de condições dentro do qual somente alguma coisa como a "verdade" do sujeito é visível e enunciável. Ao policial que a interroga. mas com a camisa cobrindo-o até as pernas. Assim. Nesse par de cenas) o personagem aparece como uma figura ambivalente. ••• o filme traça "linhas de visibilidade e de em. Segunda situação 1. E no de] ohn: "Só quero a verdade. de resto. e por isso também. agora enfim nu. é certo. Nesse par de cenas. Na cena em que a personagem se instala na casa de Candace. tudo se passa como se a lente da câmera intermediasse entre eles. Eis um de seus dizeres: {(Também tenho sentimentos estranhos". nos genitais postiços. proponho o destaque de quatro cenas. a câmera faz ver Brandon "transformar- se" em rapaz. simplesmente mentira. Quando na prisão. a mesma. reunidas e contrapostas em dois pares. no dispositivo instituído da sexualidade. Quando se fecha no quarto com Brandon e a impede de despir-se. aos estupradores) que o personagem se dispa. Na cena do banho) após o estupro. afinal. nas roupas. no dizer de Tom.e os dizeres que o acompanham. ele próprio invisível e indizível. nos objetos vasculhados) a verdade "encoberta". Em suma. no corte de cabelos. come- ça a insinuar-se no espectador uma dúvida sutil. a câmera percorre o corpo. tador . aliás.

Todavia. 1982. 13. 15. Graal. "Pour une morale de l'inconfort". História da sexualidade. a filosofia vê e diz. como aquela penumbra que am- Sob esse ponto de vista. G. se reconhece tributário da fenomenologia e fiel à lição de Merleau-Ponty naquilo "que constituía.. de r. simplesmente olhares e dizeres I o 107 . Le Nouvel Observateur. lembrar-se de que. em Dits et écrits. 106 I Foucault. para line Barbin.No plano das evidências. crad. Percepção e discurso estão cercados pelo mesmo círculo de condições de visibilidade e dizibilidade a que ela própria pertence. retomo uma passagem tantas vezes lembrada. pretende. 13.O uso dos prazeres. É também sob essa perspectiva que Foucault. Rio de Janeiro. como pensamento de limiar que o pensamento filosófico é uma . o Mesmo e o Outro. dar a elas a indispensável mobilidade. ser um depoimento contra a violência e uma resistência ao preconceito.. Isso significa que. 12. "Qu'est-ce qu'un disposicif?".. Foucault também nos fala daqueles "momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar e a refletir'J14. M. 11 .13. assim como "Herculine-Adé- laide Barbin. Franco. M. Francisco Alves. O diário de uma hermafrodi· ta. Em busca da filosofia Atitude de "diagnóstico". porém. da Costa Albuquerque. ).ontologia do presente. in Michel Foucault philoso· phe. Mas vê e diz criticamente. DELEUZE. É assim. é preciso olhar ao longe mas também muito de perto e em torno de si"ls. O olhar filosófico não prevê. enquanto dispositivo. creio. Apenas. Rio de Janeiro. mais de uma bienta todo o filme. fazem-nos "atentos ao desconhecido que bate à porta. entre o que somos e o que estamos vindo a ser. Mas não passa de vislumbre. ou ainda Abel Barbin. é como para perceber por dentro suas oscilações e falar de seus abalos. FoucAuLT.. entre o agora e o devir. IlI. FoucAuLT. de M. se se instaura no presente.. 14. a tarefa filosófica essencial: jamais consentir em estar totalmente à vontade com suas próprias evidências (. T. Situam-nos na difícil passagem entre o que já se diz e vê e o que não ainda. para ele. ou ainda Alexina Barbin. Raras vezes e somente ao olhar e dizer de um personagem esboça-se uma luz desfocada. descrevendo a atividade filosófica como "trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento". refaz a tonalidade do Mesmo e. trad. à semelhança do Diário de Hercu- vez. Prefácio a Herculine Barbin. 787. M. em que. FOUCAULT.. nem o dizer filosófico prediz. um som destoante. o vislumbre talvez de um dispositivo outro. abril/79. De algum modo. certamente. designada em seu próprio texto ora pelo nome de Alexina ora pelo de Camille". 1984. como escreveu Deleuze. permanece nos ecos do instituído. 191. também Teena Brandon "foi um desses heróis infelizes da caça à identidade"12. o filme faz saber que.

partilhando tendências diferentes e. Mas este é apenas um ângulo possível de consideração.). GLOTZ. A cidade grega.mara dos Deputados. a situação de termos cujo uso foi de tal modo banalizado que acabam por perder toda consistência conceitual. c. Ed. foi publicado em Michel Foucault .entre o murmúrio e a palavra (CALOMENI. se presta aos mais variados usos. como se sabe. T. em Brasília. são qualificados ou se autoqualificam como democráticos. Partidos e regimes políticos. promovido pela Comissão de Legislação Participativa da Câ.. governantes e representantes sociais. e não sem razão.. freqüentes vezes opostas.. Faculdade de Campos. em toda época e em todo lugar.. democracia camo prática I 109 . Democracia é uma palavra que. Alguns reconhecem nisso. Campos. 111. O texto.) um princípio político. presta-se a interpretações diversas e só com a prática adquire sentido preciso. em dezembro de 2001. revistO e modificado. instituições diversas.I .IX DEMOCRACIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Michel Foucault e Cornelius Castoriadis* (. * Palestra proferida por ocasião do Seminário "Democracia e Soberania Popular". org. 2004. G.

Não é primeiramente uma idéia. o poder soberano. ocupadas em ganhar a vida. dedicassem seu tempo ao serviço da república"'.. pouco antes de sua morte. Em uma entrevisra radiofônica realizada em 1996. na Atenas do século V a. complementarmente. proponho considerar aqui um recorte histórico particular: o que demarca os contornos de nossas socieda. em seguida. GLOTZ. que o esvaziamento conceitual não se deva apenas à vulgarização do termo. portanto incessantemente construído e reconstruído. Pode-se pensar. Cones de Lacerda. mas se exerce no plural . recorro a elementos extraídos das análises de dois pensadores contemporâneos. E. G. IH. tentarei delinear alguns sinais que marcam esse tipo de sociedade. Traços da atualidade fato de se tratar de um conceito historicamente circunscrito. incrod. de Araújo Mesquita e R. ed.mas se espalha. retomando a expressão de um historiador helenista clássico. anônimo. pois. de Roberto Machado. Trad.Outros também cabem. Mais ainda. e são os modos his- Segundo Michel Foucaulr (1926-1984). O poder disciplinar não é apenas repressivo ou ostensivamente opressor. móveis. aqueles que a descrevem e denunciam. recobrindo um sentido universal. Mais sutil. para que a democracia não fosse uma palavra oca. é antes uma prática. por exemplo. de poderes.como na figura do Estado soberano . ele é "positivo". uma necessária flexibilidade e uma permanente incompletude. permitir que as pessoas do povo. difuso. A partir de suas idéias. mas à natureza mesma do conceito de democracia. heterogêneos. "instrumento fundamental para a constituição do capitalismo industrial e da sociedade que lhe é correspondente. sempre a partir dos mesmos pensadores. as luzes de algumas sugestões. São Paulo/Rio de Janeiro. desde o momento histórico de seu surgimento. em práticas minuciosas exercidas por todo o corpo social.2. de alguma forma. monárquico. enfim. Simplesmente democracia como prática . micropoderes cujo funcionamento dá sustentação e eficácia ao macro poder estatal. ainda pertencemos. Não se mantém numa unidade.. 11 Da prática. o autor explicita. talvez mais fundamentais. ainda que muito esquematicamente. isto é. FOUCAULT. hábitos. a essa natureza de certo modo vaga vincula-se. in Microfoicado poder. e em seguida publicada.des ocidentais modernas. Graal. pode-se dizer que. "produz" comportamentos. Difel. 111 . voI. Às características desse tipo de sociedade vinculase a construção das significações modernas de democracia. como por princípio. numa palavra. 188. "Cours du 14 Janvier 1976". 1998. que têm início por volta do começo do século XIX e às quais. gestos.trata-se. 1. mais escuros de nossa sociedade. o aparecimento da sociedade moderna é assinalado pelo declínio de um tipo hegemônico de poder. Gallimard. A cidade grega.c. o Para elaborar esse esquema. Vejamos agora algumas reflexões de Cornelius Castoriadis (1922-1997). antes. capilar. primeiramente darei realce a alguns aspectos. 1980. o uso que atribui ao termo "insignificância" para caracterizar nossa épo- tóricos de exercê-la que lhe conferem diferentes significados. múltiplos. in Dits et écrits. Tradução brasileira. 105. adestra as pessoas. 13. à democracia pertencem... 110 I Foucault. por assim dizer. M. 2. Afinal. 1994. a democracia seria «uma palavra oca" se não houvesse sido praticad4 pelas pessoas do povo: "Era também necessário. de modo tal que parece incompatível com esse conceito que ele se substancialize em uma significação única e definitiva.. ao conceito. Paris. Michel Foucault e Cornelius Castoriadis. Rio de Janeiro. Assim. e pela insralação crescente de outro tipo de poder por ele denominado «disciplinar" ou "de controle".. e org.: "Soberania e disciplina". Assim. 1. Não se exibe na identidade de um poder central e superior . em tom coloquial mas não menos denso. H.I..

Ibid. E. 39. Ibid. precisam ser plurais. 7. Como as pessoas estão longe de ser idiotas. na direção de mudanças. "( . "Mas. 8. Veras Editora.. Cf ibid. faz ver que nisso consiste a educação política: em aprender a governar. não se terá bom êxito transformando do alto o regime central de governo ou o aparelho de Estado."cidadão é aquele capaz de governar e ser governado" -. provisórias. o problema do papel dos cidadãos e da competência de cada um para exercer os direitos e os deveres democráticos com a finalidade . Castoriadis opõe a boa "educação polírica" que se faz pela ariva participação das pessoas nas coisas comuns. mas é preciso esperar. 112 I Foucault. Éd. Primeiramente eles se representam a si mesmos ou representam interesses particulares. 30-31.• 29. governando 9• 3. de sua partici pação na coisa comum. então. a todo tipo de poder responde um tipo de resistência e de luta. 1998 . Quanto aos cidadãos comuns. 9..ca. de l'Aube. É a "insignificância" que. pontuais. c. Seus representantes muito pouco representam as pessoas que os elegem. 38. Dizer isso é uma tautologia.doce e bela utopiade sair do conformismo generalizado.. acompanhado de uma "disposição geral" que é de "resignação". a indicação de algumas pistas. 39. 2001. 4. é na experiência de uma "contra-educação política" que a "insignificância" os alcança. Prospectivas Para Foucault." 4.. nesse momento. de algum modo. Ibid. Eles são descritos como "profissionais da política" ou Upolíticos de carteirinha"3. 47-48. simplesmente democracia como prática I 1 I 113 . Rodrigues. reproduzo algumas passagens de Castoriadis. sentimos vibrar uma retomada da atividade cívica. por um lado. De orientação similar. para serem eficazes. estabelecendo "redes" dentro da rede do poder. A democracia representativa "não é uma verdadeira democracia. ) e creio que só sairemos dele [do esgotamento ideológico] pelo ressurgimento de uma potente crítica do sistema e um renascimenco da atividade das pessoas.. apresentação Maria Lucia Rodrigues. É dessa perspectiva que apresentarei. ou de "conformismo generalizado". 30. de "inibição" para agir6• Mas essas análises de nossa sociedade não se reduzem a seu desenho austero. as lutas. a compreender que a 'crise' não é uma fatalidade da modernidade à qual seria preciso submeter-se. heterogêneas.. habituam-se a seguir opções que outros lhes apresentam ou a votar por elas. Tradução brasileira: Post-scriptum sobre a insignificância. lobbies etc. móveis.. brevemente. que é a do ripo disciplinar e de controle. Há um "esgotamento ideológico". Post-scriptum sur l'insignifiance. CASTORIADIS. Aqui e lá começa-se. 38. No caso de transformação da sociedade moderna. por outro lado."s Àquela "contra-educação política". apoiando-se na afinnação de Aristóteles . é preciso confiar e é preciso trabalhar nessa direção"7. 5. Ibid. numa espécie de apatia política"5.. São Paulo. 27 e 33. 6.. 'adaptar-se' para não incorrennos em alguma espécie de arcaísmo. o resultado é que elas crêem cada vez menos e se tornam cínicas. Como os poderes. 2. prefácio Edgard de Assis Carvalho. "Enquanto as pessoas deveriam habituar-se a exercer todas as espécies de responsabilidades e a tomar iniciativas. tradução Salma Tannus Muchail e Maria Lucia. Coloca-se. distingue os políticos de hoje. 40-44. Entretiens avec Daniel Mermet. mas atuando estrategicamente na trama molecular dos poderes sociais. Cada qual dos dois pensadores descreve e denuncia o presente com o intuito de questionar nossas evidências de pensamentos e nossas aderências de condutas e. a partir daí. delinear e anunciar um horizonte de transformações. Ibid . Paris.

M. um rosto de areia"1. desloca o homem do centro da história e da origem dos saberes. Simplesmente como na orla do mar.. 114 ! Foucault. Cf. As palavras e as coisas.que é aquele em que se é conduzido por outrem . Texto inédito.. Casroriadis. Martins Fontes. 52. provisórias.para o "estado de maioridade" . um quase gesto. supostamente. O livro. Estas são. em abril de 1966 é publicado As palavras e as coisas.. Governo de si ou autonomia. no final daquela entrevista. que se mantém no estrito plano dos discursos. A partir das reflexões que fizemos. o mundo é Outro?".que precedia de perto 68 .que consiste no governo ou condução de si mesmo. Cf FOUCAULT. usa a expressão "sociedade autônoma"IO e nos convida à difícil porém verdadeira democracia. descrevo. Muchail.deveria. brevemente. compondo pistas diversas que sejam capazes de convergir em alianças e pactos em nome de causas democráticas compartilhadas. pontuais. Em u~a avaliação * Palestra proferida por ocasião da Semana de Ciências Sociais "196830 anos. reúno os dois autores que escolhi como apoio. na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. ) então se pode apostar que o homem se desvaneceria. algumas dessas condições podem ser identificadas: 1) dispor-se à pluralidade de participações heterogêneas. ser-lhe bem pouco acolhedora.. nos convoca à saída de um "estado de menoridade') . Foucault. 1966. M. 562·578. 11. L FOUCAULT. por sua vez. Les mots et les choses. E se encerra com aquele prenúncio solene. Depois dos já polêmicos escritos anteriores (principalmente História da loucura). São Paulo. 2) dispor-se à educação política que propicie ao cidadão comum a aprendizagem de "governar e ser governado". Paris. 1981. móveis. mobilizar nossas inibições.404. Gallimard. meio teatral. de S. flexíveis. abalar os conformismos. Gallimard. UM ROSTO DE AREIA" Notas sobre maio de 68* Para situar Foucault relativamente a maio de 68. no comentário de um texto de Kant l l . T. ibid. como na orla do mar. em uma idéia mais ampla. um norte para balizar nossas tentativas de exercício democrático. um rosto de areia" J I 115 . 1944. sem nenhuma articulação com a ordem das práticas sociais. "Qu'est-ce que les Lumieres?" in Dits et écrits IV. algumas predisposições que podem nos orientar rumo à maioridade democrática. COMO NA ORLA DO MAR. contribuindo assim para sacudir as apatias. eis certamente. 398.. Mas suficiente talvez para nos predispor a certas condições indispensáveis se quisermos fazer de nossa própria prática um lugar de transformações e de superação de nossas desesperanças.de 1966 a 1970 _ permitindo-me misturar considerações conceituais com curiosidades biográficas. Paris. . A atmosfera intelectual da época . um fragmento de sua trajetória . em maio de 1998. a apontar o iminente desaparecimento do sujeito: "( . cuja conquista é tanto mais alcançável quanto mais se praticar a autonomia de pensamentos e de condutas. É um norte apenas. 10.111 x Finalmente. trad. possivelmente.

de H.. "Entretien avec Michel Foucault" (com D. FOUCAULT. a grande excomunhão de As palavras e as coisas por parte de todos: Les Temps Modernes) Esprit. Ora. publicada em 1980). jan. da direita. trad. 160. As coisas estavam se desagregando e não existia vocabulário apto para exprimir esse processo.retrospectiva. Ensaio. FOUCAULT. ERIBON. Depois de apontar motivos de ordem mais teórica.. As mutações em curso produziam-se relativamente a um tipo de filosofia. S. 159.. Paris. por comparação. a um tipo até de cultura que era. tão particular. 1993. trad. vendeu dezenas de milhares"z.jmar. 3. 1990. FOUCAULT. Desde setembro de 1966. Michel Foucault. in Ditsetécrits IV. sobre o Brasil): "Eu viera por causa dos mitos que todo europeu. perguntou-me ela. hoje em dia. diante das manchetes sobre a primeira revolta estudantil. estranha. disse a minha mulher.70. aconteceu. comprei os jornais na estação de Lyon e. 7. As palavras e as coisas não era o formidável anúncio da rachadura geológica de nossa cultura humana. em relação aos problemas reconhecidos como válidos e importantes. ora. Trombadori. de reflexão geral.1980. n. D. in Dits et écrits IV.. se quisermos. Cf.4. as pessoas lêem a obra Se foi possível dizer que se estava "em pleno Foucault". afinal. Foucault realça algumas razões para um esperado insucesso. como professor de filosofia. Cabral. 23-84). da esquerda. todas as posições humanistas relativas ao sujeito. Em pleno Foucault . no conjunto. o próprio Foucault. M. um tanto genericamente. Gallimard. F. 367. reconstruía uma história das ciências de modo tão extravagante. eu diria que. História do estruturalismo I.. as pessoas talvez reconhecessem como que uma diferença e ao mesmo tempo se revoltavam por não reconhecer o vocabulário do que estava em via de acontecer (. Dits et écrits I. em As palavras e as coisas. 4. humanista ções publicadas pelos jornais da época. DOSSE. contudo. é certamente esse tipo de reconhecimento que está tão vivo no depoimento de Maurice Clavel: "Quando desembarquei em Paris. DOSSE. em suma. as resistências a certas aproximações com o estruturalismo e. "Chronologie". a grande tepidez da África. Le NouveZ Observateur. instalara-se em uma pequena cidade na Tunísia. No momento em que eclode maio de 68. . 70. Era pancadaria de todos os lados. 'Onde?'. encontrei estudantes tunisianos e então aconteceu o inesperado. o fato de que não se podia levar muito a sério alguém que.. publicada em II Contributo. "Repensando essa época. Ed. o que estava em via de acontecer não tinha sua própria teoria. um rosto de areia" I 117 .. e ERIBON. com uma calma. São Paulo. paixões tão de Foucault na praia ou a exibem pelas mesas de bar para mostrar que não ignoraram tal acontecimento. a melhor venda do verão". )"6. M. A convergência desse conjunto de razões provocou o anátema. sua repercussão foi "fulgurante"). no dia 3 de maio. eis aí. "segundo as descri- pois. tem sobre a Tunísia: o sol. Feist. ao que parece. 1994. Uma passagem escrita em 1967 nos diz O que pensava ele sobre a Tunísia (e. não estava lá. 116 ! Foucault. Na verdade. tenta. do centro. em definitivo. M. explicar: 2. Inusitado êxito que Foucault. Provavelmente foi só no Brasil e na Tunísia que encontrei nos estudantes tanta seriedade e tanta paixão. São Paulo.. se ocupava com a loucura e. como na orla do mar. de outro. Como lembra o biógrafo de Foucault.. por ocasião de uma entrevista realizada anos mais tarde (em 1978. viera buscar um retiro sem ascetismo. de A. seu próprio vocabulário. 6. o mar. Com efeito. Michel Foucault) uma biografia.. 1978. em geral. Cf. "Entretien avec Michel Foucault". naquela mesma avaliação retrospectiva. simplesmente que havia de produzir-se em maio de 6S?"'. "Foucault vende como pãezinhos" é título de um artigo do momentos. sugere outros: "E também.. chegamos lá.. O artigo foi publicado em Le Nouvel observateur. 32-33.367-368. o da primeira metade de nosso século. Companhia das Letras. Paris. Didier Eribon. de um lado.. D. O livro não deveria vender mais que duzentos exemplares. História do estruturalismo. como a supervalorização do marxismo. "acontecimento editorial do ano.l.

"é sempre com um olhar um pouco estrangeiro"I3. 176. Retomemos trechos de seu relato. feriu gravemente vários deles e os jogou na prisão. se agravam. ERIBON.. "Chronologie".. entre eles. não é oficialmente importunado. interrupções dos cursos... Foucault é escolhido para a área de filosofia1 4 • Ao mesmo tempo em que a 10. em junho de 67.. Cf. M. além de viver "entre os prazeres do sol e a ascese filosófica. quando volta para a França. ". lê-se: "Nessa cidadezinha onde ele era feliz. não estou certo de como na orla do mar. F. 584. que davam para a baía.. à p. 79. 179. no mês de junho. abriga estudantes foragidos. mas recebe ameaças e intimidaçães do serviço de polícia paralelo e chega a sofrer maus-tratos físicos. vincula-se ao centro experimental de Vincennes. em janeiro de 1970... Judith Miller. atrelados a questões palestinas e às oposições ao governo. escreve: "Daqui. 118 I Foucault. (. in Dits et écrits I. Ali. Jean-François Lyotard. FOUCAULT. Ibid. um rosto de areia'· ! 119 .sérias e. Nem bem aceito na Tunísia. tem ocasião de ir a Paris. Olivier Guichard. Para ele. 33. vale a pena reproduzir um pequeno trecho da resposta de Foucault: "Como sabem. Edgar Faure. M. pouco mais tarde.. mas março de 68 e em um país do terceiro mundo"12. in Dits et écrits I.. Em um depoimento de Jean Daniel. 78. à margem" e. . é um grande enigma"ll.. M. Foi.. O retorno ocorre em outubro de 68. e por sua gula de viver e amar ao sol". Gilles Deleuze (que não pôde aceitar por estar adoentado). Alguns ainda estão lá. Derrida) encarregada de designar os primeiros professores de diferentes áreas. ". aos quais caberá a tarefa de compor o corpo docente. M. "não foi maio de 68. in Dits et écrits IV. 189. detenções e greve geral dos estudantes. Michel Serres. Inicialmente nomeado para a Faculdade de Nanterre. protegido em relação às autoridades locais.. História do estruturalismo 11. Convidará para o quadro docente da filosofia.. ninguém o conhecia por outra coisa que não seu hábito de trabalhar desde o amanhecer diante das janelas de sua villa. Constituída uma comissão de cerca de vinte membros (entre eles. a absoluta avidez de saber"B. 12. também comprometeu-se intensamente com atividades políticas. Quando. espécie de faculdade-piloto. D. FOUCAULT. Canguilhem. para mim. DossE. e é em março de 68 que recrudesce a repressão violenta. ainda na Tunísia. ) Na Tunísia (. 9. apreender com exatidão as reações do governo francês em face de tudo aquilo. Barthes. 78. Alguns foram condenados a oito. portanto. onde não chega a assumir o posto. François Châtelet (Cf. Dada minha posição de professor. reproduzido por Eribon. Simplesmente algo diferente de todo o ronronar de instituições e de discursos políticos na Europa"lO. de certo modo.. sendo francês. Tive uma idéia direta do que se passava nas universidades do mundo. uma verdadeira experiência política. Foucault concede uma entrevista publicada sob o título "Le piege de Vincennes".175). entre uma e outra viagem. Alain Badiou. nem bem recebido na França. 13.. recusa o reconhecimento de validade nacional para o ensino da filosofia ao diploma obtido em Vincennes. onde assiste a um comício e participa das últimas manifestações na Sorbonne. o que mais me encanta. Michel Foucault . ) fui levado a tocar com o dedo 8. in Dits et écrits IV. esconde em seu jardim um mimeógrafo para a impressão de panfletos. "Estávamos em março de 1968: greves. entre outros. atua intensamente: procura o embaixador da França. os tumultos. A polícia entrou na universidade. "Entretien .. Mas.9. Jacques Ranciere. ao mesmo tempo. Os professores franceses intercedem e Foucault. o que me permitiu realizar facilmente uma série de ações e. o novo ministro da Educação. D. Como era argumento do ministro que o conteúdo de filosofia ali ensinado era demasiadamente particular e especializado. dez e mesmo quatorze anos de prisão. "Entretien . fundada sob o então ministro da Educação. Na Universidade de Túnis as revoltas estudantis começaram bem antes: no final de 66. "La philosophie strucruraliste permet de diagnosttiquer ce qu'est 'aujourd' hui'''. FOUCAULT. maltratou numerosos estudantes. um estudante é espancado por policiais. fiquei profundamente impressionado com aquelas moças e aqueles rapazes que se expunham a riscos terríveis redigindo um panfleto. eu estava. Michel Foucault. 11. distribuindoo ou convocando à greve. no fim de maio e no fim de junho. FOUCAULT... Por duas vezes. Foucault diz-se "sempre um pouco deslocado. ERIBON. em resposta às recentes reivindicações. 14.

de modo algum. o mesmo preço. fiquei principalmente surpreso. Vega. M. por exemplo. numa discussão com Lu· cien Goldman. ou seja. físico e real e que colocassem os problemas em termos concretos. como na Tunísia. 16.. os poetas e os loucos. Loucura. isto é. é a separação que os isola. sexualidade. Suas investigações agora se ocuparão. de A. Cordeiro. quinze anos de prisão (. de práticas e instituições sociais que entram na composição da noção de dispositivo. sua paixão. crime são para mim coisas mais intensas. não implicaram. isto é. 67. a essa discursividade incoercível que era própria da vida das universidades.. M. como se lê naquela entrevista de 1978.. Não há comparação entre as barricadas do Quarcier Latin e o risco real de cumprir.. 18. Esta breve reconstituição permite ver a marca forre e controvertida de Michel Foucault nos acontecimentos de 68. que se endereçava principalmente a técnicos da história das ciências (. Assim. e em particular da de Vincennes. ). M. Ao tratamento quase solene do tema. 80.. F. merecem destaque. creio. em 1969. 188. FOUCAULT. in Dits et écrits IV. ) um livro muito técnico. busquei considerar as coisas tomando distân· cia em relação a essas discussões indefinidas. in Dits et écrits IV. Ten· rei fazer coisas que implicassem um comprometimento pessoal. Lisboa. Foucault será o "filósofo engajado" e o "intelectual militante". ".. 15. Fiz a mesma coisa com a noção de autor... vamos conter as lágrimas"17. Mas que a filosofia exista. explicita e principalmente. Primeiro.81. As palavras e as coisas foi para mim uma espécie de exercício formal"18. um rosto de areia·· I 121 . simplesmente indica também o efeito recíproco.. ). destaquemos um trecho da entrevista de 1978. As lutas. Outro aspecto. in Dits et écrits I. os mesmos sacrifícios. dirá: "Não se trata de afirmar que o homem morreu. certa categoria de pessoas cujas atividades e cujos discursos variaram muito de uma época para outra. "( . Cascais e E. lá permanecendo até 1970. definidos no interior de uma situação determinada"16. FOlJCAULT. Para dizer a verdade.. Portanto. quando ingressa no College de France. a essa hipermarxi· zação. dois traços. precisos. essa configuração heterogênea que articula o dircursivo e o extradiscursivo. agora também em Vincennes. O que os distingue.. "Quando voltei para a França. ERlBON. Michel Foucault. O que existe. em Vincennes. pronunciando em 2 de dezembro sua aula inaugural. Foucault é considerado "pouco engajado" pelas esquerdas e criticado «(por não ter 'feito nada' em maio de 1968". FOUCAULT. trata-se (. seguir-se-ão comentários mais concretos e até irônicos. Mais uma vez.. É nessa direção. que Foucault vai relativizar o alcance e o entusiasmo por As palavras e as coisas. admirado e até decepcionado em relação ao que vira na Tunísia.. in Dits et écrits lI. O que é um autor? Trad. segundo quais regras se formou e funcionou o conceito de homem. com sua violência. 70). não a unidade de um gênero ou a constância de uma doença" (FOUCAULT.. Assim. a partir daquele momento. declara: "Vou dizer a eles: 'Enquanto vocês se divertiam em suas barricadas do Quartier Latin. Isso explica talvez a maneira como. é o abandono das descrições estritamente intra e interdiscursivas que caracterizavam a configuração de uma epistéme e direcionavam o horizonte meto· dológico de As palavras e as coisas. A um amigo Oean Gattegno) que militara com ele na Tunísia. M. Já lhes falei de experiências· limite: eis o tema que verdadeiramente me fascina· va. "Qu'esc·ce qu'un auteur?" (compce rendu de la séance). como na orla do mar. Em contrapartida. "Le piege de Vincennes". as marcas do evento em Michel Foucault e as mudanças que nele acarretaram. 1992. Des· se ponto de vista. morte. ) de ver de que modo.... "Entretien . eu me ocupava de coisas sérias na Tunísia"'IS. aquela proclamada "morte do homem" passará a receber contornos e consistência mais precisos. do pensamento de Foucault pós-68.comissão é atacada pela direita "como um bando de esquerdistas". 817. 120 I Foucault. D. ligado ao anterior. lá não estavam os problemas que mais me apaixonavam.são 'filósofos'. 17. assim como a seus vizinhos. em novembro-dezembro de 1968. ". pelo menos. "Encretien .

pelo menos do lado daquele que o escreveu.. no que tange "àquilo que estava realmente em jogo. 2002.. nada mais fosse que as frases de que éfeito. número 16. Mas. Foi publicado na revista Margem. São conhecidas as considerações de Foucault sobre o apagamento do autor. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 123 . FOUCAULT. e que não se desdobrasse neste primeiro simulacro dele mesmo que é um prefácio (. "os mais visíveis e superficiais". Águas de Lindóia. Quereria que um livro.). simplesmente * Este texto é uma versão modificada de comunicação apresentada no Encontro Nacional de Filosofia. ANPOF. Perguntado por que. Foucault reconhece que alguns de seus aspectos.Pelo menos é curto. Ibid. É esse paradoxo que está já presente na célebre formulação que Foucault tomou emprestada a Beckett: "Que importa quem 19. M. a ava- XI MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOR' liação é outra: "Maio de 68 teve uma importância. a propósito da prisão. ao evocar maio de 68. parece subestimar o acontecimento. sem dúvida. da delinqüência. .Mas você acabou de fazer um prefácio. .Mudanças. sem maio de 68. Mas o paradoxo parece instalar-se quando ele traz para o centro da cena aquilo que precisamente desejaria fora dela. ). Prefácio à nova edição de Histoire de la folie. pois. 81. da sexualidade. eu não teria jamais feito o que faço. No clima anterior a 1968 nada disto era possível"19. Educ. Confesso que isto me repugna (. sob o título "Foucault. Tão paradoxal quanto escrever um prefácio escrevendo sobre a relutância em escrevê-lo é querer preservar a obscuridade do anonimato falando dele. mais uma vez e para concluir. o autor. excepcional. o testemunho de Foucault. expondo-o às luzes do próprio discurso. . 1996. eram-lhe "completamente estranhos". a saber. . a atribuição de autoria a seus próprios discursos. eu devena escrever um novo prefácio. àquilo que realmente fez mudar as coisas" e que "era da mesma natureza. É certo que. nos temas e na direção das investigações. por ele mesmo". 122 I Foucault. Para este livro já velho.. Chamemos. São Paulo. na França e na Tunísia".

simplesmente I. Paris. 1969. não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos. se perguntarmos então quem disse "que importa quem fala)). o texto de 1968. em todas as épocas e em todas as formas de civilização" (Dits et écrits I. em Estruturalismo e teoria da linguagem. 1971) bem como o item "Les unités du discours" de L'Archéologiedu savoir. 789-821. 798 (trad. I. não bem de palavras. Para apresentar aqui algumas considerações sobre esse assunto. Ver.. Cascais e E. in Dits et écrits I. M. Assim. L'ordre du discours. 5.792. trad. Autor e nome própriO Ainda que o "nome de autor" seja um "nome próprio" e com ele mantenha semelhanças. ("Resposta a uma questão".destaco três pontos. talvez haja nessa dobra um jogo de estratégia. ••• Do primeiro texto . in Dits et écrits."O que é um autor?" (1969) . duas das quais escolho destacarS . "que importa". 56). articula o universo dos discursos. Só para sugerir um exemplo. As duas outras que Foucault indica estão assim resumidas: "a função-autor está ligada ao sistema jurídico e institucional que encerra. São Paulo. 1. "Qu'est-ce qu'un auteur?". A ordem do discurso (1970) e "Foucault" (1984). a noção de autor de que aqui se trata. os torna providos de uma atribuição de autoria.. talvez apenas o dilua. e que o segundo ("alguém disse: que importa quem fala") concerne ao autor dessa fala. FOUCAULT. 1996). M.. é diferente. Michel Foucau!t e o di!aceramento do autor I 125 . dizer que um nome foi erroneamente atribuído a uma pessoa e dizer que o nome Guimarães Rosa foi erroneamente atribuído ao autor de Sagarana. "Réponse au Cercle d'Epistémologie" (trad. Ibid. como num jogo. mas de "textos cruzados". "Réponse à une question".. in Ditsetécrits I. 2. Por um lado. Rio de Janeiro. in Dits et écrits. 1972. por exemplo. numa determinada cultura. O nome de autor está atrelado não propriamente a um indivíduo real e exterior que proferiu um discurso. Sampaio. Cf FOUCAULT. M. formo um pequeno conjunto e. 803. "Qu'est-ce qu'un auteur?".. A relação entre aucor e nome próprio é também tratada por Foucault quando discute o conceito de "obra"como unidade discursiva. Cordeiro. a resposta será "quem é apenas alguém". "Foucault". Com os dois primeiros. isto é. da Glória Ribeiro da Silva. 797 (tead. de A. Ver também: FOUCAULT.fala. alguém disse: que imporra quem fala"l Considerando que o primeiro segmento dessa formulação ("que importa quem fala") diz respeiro a qualquer auror... 46). perfazendo uma dobra circular do discurso sobre si mesmo. farei liSO de passagens extraídas de três textos: ('O que é um autor?" (1969). LoyoIa. o gesto que aponta para o desejo pessoal de impessoalidade em seu posro de auror não faz dele necessariamente um privilégio. de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade"4. trad. in Dits et écrits. 44). in Epistemologia/28. mas "de uma operação complexa" que tem por efeito 3. 1994.34). 792. 1971 (A ordem do discurso. e diferentes são as conseqüências. trad.. Lisboa. M. Paris. Paris. 631-636. 124 I Foucault./mar. M."característica do modo de existência. mas a certo tipo de discursos com estatuto específico. qualquer autor. menos que um nome próprio. mais que paradoxo. pode-se nela reconhecer certas características. ele inclusive. é uma função . trad. imagino-os como estendidos na "horizontal". "Qu'est-ce qu'un ameur?". isto é. escritos na mesma época. a função-autor não resulta simplesmente da espontânea "atribuição de um discurso a um indivíduo". IV. produzido bem depois deles. Com efeito. 1992. digamos assim. jan. Vega. Gallimard. Porém. aqueles cujo modo de ser. (O que é um autor?. guarda porém uma "singularidade paradoxal"3. Gallimard. indiferenciadamente. o terceiro. Função-autor Restringindo a função-autor ao âmbito de livros e textos. F. FOUCAULT. dentro de uma concepção teórica sobre a categoria do autor. é o texto "vertical". 4. Gallimard. bras. 11. determina. Laura Fraga de A. com que os pretendo cruzar. como um caso entre outros.81).

função recebida "Seria absurdo negar. Ibid. e complementarmente. 26-29). tal como a recebe de sua época ou tal como ele. Autor. simplesmente 11.. Autor. 69). 7. o que eles têm de acaso. FOUCAULT.. ). é claro. L'Ordre du discours. a um reexame da noção de sujeito. limito-me a reproduzir três passagens. outra a do que argumenta no corpo de um livro. mas o autor como princípio de agrupamento do discurso. 810 (trad. Pois. o autor é também sinalizado e definido pelos próprios textos que.ao menos desde certa épocao indivíduo que se põe a escrever um texto no horizonte do qual paira uma obra possível retoma por sua conta a função do au. Sem dúvida. "como certo campo de coerência conceptual ou teórica". entre outras conseqüências. Os procedimentos ditos externos ou de exclusão ."13 111. Desse texto. 800·801 (trad. Mas penso que . Circunscrito como um deles. mais "negativo". 802·803 (trad. crição dos diversos procedimentos de rarefação ou controle dos discursos. função de controle "Trata-se do autor. outra ainda a que avalia a recepção da obra publicada ou a esclarece)'.. O assunto ocupa um breve trech. Ibid. 28·29).. mas invertê-la: considerando-se a função-autor uma particularização possível da funçãosujeito. 28-31 (trad.. reexaminar a noção de sujeito não significa restaurar a pergunta pelo sujeito originário. a categoria do autor pertence ao grupo de procedimentos classificados como internos.um "ser de razão"6. Autor. mas por sua constituição enquanto função do discurso. 12. Ibid.A ordem do discurso (1970) . cujo papel consiste em reduzir. não como o indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto.. 26). Ibid. por sua vez.. 50). a existência do indivíduo que escreve e inventa. tratar-se-á de perguntar não pelo sujeito constituinte. Ora. mas a uma "pluralidade de egos" ou a "várias posições-sujeitos" (por exemplo. 9.. uma é a posição-sujeito do autor que fala em um prefácio. o autor é definido "como certo nível constante de valor". I. não apenas efeito de uma construção. de acontecimento.. 28 (trad. podem remeter. inserido na seqüência de des6.. é claro. como foco de sua coerência. não a um indivíduo singular. será a partir de uma 11. nos discursos. O autor entendido.o lO. Míchel Foucau!t e o dilaceramento do autor I 127 . tor (. Entre os chamados internos. e segundo determinadas regras (por exemplo. 13.~'proibição" de certos discursos. considerar um texto do ponto de vista da "análise interna e arquitetônica" já é colocar em questão "o caráter absoluto e o papel fundador do sujeito"9.. 30 (trad. imposição da "vontade de verdade" .. "segregação" de outros.dá à noção de autor um tratamento. 8. conferindo-lhes pequenos títulos. "como unidade estilística".. por assim dizer. a descrição do "autor" é precedida pela do "comentário" e seguida pela da repartição em "disciplinas". Por outro lado.. 54-57). função modificável "( . "como momento histórico definido e ponto de encontro de certo número de acontecimentos"?).. por sua vez. portanto construído. de ficção'!. Ibid. M. Autor e sujeito A análise da função-autor conduz.. 10. como unidade e origem de suas significações."I2 111. 126 ! Foucault.. ) função do autor. Ibid. a modifica.foram apresentados anteriormente. ••• o segundo texto .. 52-53). embora possa modificar a imagem tradicional que se faz de um autor. 801-802 (trad.

Ora. Benedetti. o texto é. um sujeito pode ser legitimado como "sujeito do conhecimento".. I. em Dicionárro dos filósofos. alguma coisa pode ser qualificada como objeto para um conhecimento possível. ética. t. 1984. FouCAuLT. Paris. como precisamente assentado na questão da constituição do sujeito. Para mostrá-lo. Com efeito. vol.. O nascimento da clz'nica. As palavras e as coisas. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. HUISMAN. a dois procedimentos interdependentes: a "subjetivação" do sujeito. esse projeto. Antes. "Foucault". Brandão. 2001. 14. basicamente.. é descrito. Reconstituição de um projeto e constituição do sujeito Sob o nome-título nada se lê acerca do autor. 631 (trad. 389). Ibid. Berliner. IV). A vontade de saber. em uma determinada sociedade. C. de um modo ou de outro.. I.. não com quaisquer modalidades de "subjetivação" e de "objetivação" para a construção de quaisquer saberes possíveis. vols. M. Essas condições dizem respeito. São Paulo. Apresentado como uma espécie de fio condutor dos escritos de Foucault.. teria orientado a produção dos escritos foucaultianos. em uma determinada época. precisamente. D. E... Galvão. o ponto de vista da "constituição do sujeito" permite. a "objetivação" do objeto.nova posição de autor que recortará (. 11. 31 (ecad. uma reconstituição de seus trabalhos reunidos desde o ponto de vista de um "projeto geral. a estranheza se atenua quando se examina o teor do verbete. apresento um breve resumo do trecho inicial. O título e a destinação o texto intitula-se "Foucault" e destinou-se a compor um verbete para um Dicionário de filósofosls.14 *** Finalmente. publicado quatorze a quinze anos após os outros.. em que o próprio sujeito é colocado como objeto de conhecimento. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 129 . vertente ética (O uso dos prazeres. 15. 11 e III de História da sexualidade). Dits etécrits IV. 633 (trad. que. Ibid. Dictionnaire des philosophes. ) o perfil ainda trêmulo de sua obra. D. O c/fidado de si. que a investigação de Foucault ocupase. trad. Dele retraço algumas linhas que permitam possíveis cruzamentos com os destaques dos textos anteriores. Lê-se.16 que os teria presidido. genealogia (Vigiar e punir. coincidindo com sua sucessão cronológica: arqueologia (História da loucura.. 388-391. 17. 128 I Foucault. M. inclusive. in HUISMAN. 389). Mais. • A mais conhecida reúne-os segundo os momentos "metodológicos". considero o terceiro texto. dispondo-os em um modo novo de repartição. a seguir. em uma determinada época. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. 942944 (republicado em Dits et écrits. 29). Entretanto. I de História da sexualidade). E. PUF. dar-lhes um novo desenho. 16. C. estudos sobre o percurso da produção foucaultiana fornecem algumas formas de agrupar seus escritos.. I. mas com aqueles. é no mínimo curioso que esteja instalado em um dicionário de "autores" um pensador que se renha empenhado em denunciar a função restritiva do autor. em uma determinada sociedade. A arqueologia do saber).. que seus trabalhos sejam identificados mediante um título que é nada menos que seu "nome próprio". Simplesmente Lê-se que a produção de Foucault pode ser denominada "História crítica do pensamento. por sua vez..17. Martins Fontes. Organização semelhante já foi também formulada em termos de prioridade de "áreas": epistemológica. por inteiro. na medida em que realiza análises (históricas) das condições de possibilidade para a construção de saberes. Dicionário dos filósofos. Ora. política.

Ibid.. enquanto objeto das chamadas ciências humanas) temos aqui As palavras e as coisas. o delinquente) e . é estrategicamente instrutivo que o título-autor recubra um texto cujo desenvolvimento trata da questão do sujeito. R assinatura" o paradoxo Atenuada.18 (isto é. 130 I Foucault. quem desenvolveu aquela concepção teórica sobre a categoria do autor e nela pretendeu diluir o seu próprio apagamento parece agora revestir-se de um disfarce que. Suspeita-se de que. M. Foucault a "retoma por sua conta" e "a modifica". • análise da "constituição do sujeito como objeto para ele mesmo"19 . mais uma vez. um rearranjo do conjunto de escritos. como o louco. a tal ponto que permite. o "projeto geral" proposto justifica agora uma nova organização dos escritos de Foucault. sob a assinatura. se lembrarmos que a funçãoautor é uma particularização da função-sujeito. o texto permite um desdobramento do próprio título: também permite. Ora. simplesmente Michel Foucault e o dilaceramento do autor ) 131 . suspeita-se aqui. esse texto realize~. então assistente de Michel Foucault. se se quiser. 633 (trad. E dessa suspeita há pelo menos dois indícios.em três conjuntos. um desdobramento do autor que a si próprio se coloca numa espécie de zona limítrofe em que ele é e pode não ser igual a si mesmo. ao mesmo tempo em que. inclusive. abreviando.temos História da loucura.. mas as amplia ou mesmo as recobre. com ela. Organização semelhante tem por critério. faz ressurgir o paradoxo sugerido anteriormente. Vigiar e punir. Ibid. que não se opõe necessariamente às anteriores. o expõe à plena luz. malgrado o título. como uma espécie de pano de fundo. 633 (cead. o doente. o que interessa é fazer notar que.. inicialmente solicitado a François Ewald. a estranheza porém ressurge e. 19. a positiva explicitação de uma pluralidade possível de "posições-sujeitos". Trata-se de redistribuí-Ios . é possível que. História da loucura e Vigiar e punir misturam-no ao das práticas sociais). O nascimento da clínica. sob o título. enquanto As palavras e as coisas se classifica no nível discursivo estrito.• Outro modo de organizar tem por critério a "transitividade" ou "intransitividade" da dimensão discursiva às práticas extradiscursivas (por exemplo. 18. É quando se atenta para o fato de que o texto do verbete. Primeiro. é claro . 389). se a funçãoautor é não somente recebida. ao contrário. em contrapartida a uma abordagem mais "negativa" (como em A ordem do discurso) da função-autor. de que tudo seja ainda um prosseguimento daquele jogo estratégico no qual quem ainda é apenas alguém. Em suma e para concluir. a qual é conduzida pela temática da "cons- tltUlção do sujeito".. a questão do "Mesmo" e do "Outro" (por exemplo. F. 389). mas modificável.retrospectivamente. 111. Com essas observações. • análise da constituição do sujeito enquanto objeto do conhecimento como "o outro lado de uma partição normativa. em sua materialidade.. foi redigido e vem assinado por um certo Maurice Florence ou. não é do "autor" que o texto fala. Ora. de acordo com diferentes modos de operar a análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento: • análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento com pretensão a estatuto científico (isto é. História da loucura é uma história do "Qutrol) e As palavras e as coisas é uma história do "Mesmo"). Entretanto. Segundo. mas de sua produção discursiva.temos os volumes de História da sexualidade.

• L'Archéologie du savoir. Acrescentamos aqui uma relação das obras de Michel Foucault seguida de uma relação de traduções em língua portuguesa. • lntroduction à l'anthropologie de Kant. Paris. Paris. Gallimard. 1954. 1962. These complémentaire pour le Docrorat. Une archéologie des sciences humaines. Gallimard. PUF. • Naissance de la clinique. directeur d'études J. Hyppolite. • Falie et déraison. PIon. Paris. • Maladie mentale et psychologie. PUF. Paris. 1971. Paris. • Raymond Roussel. • L'Ordre du discours. 1969. Une archéologie du regard médical. Paris. 1963. Gallimard. Paris. Gallimard. 1966. Paris.· bibliografia ! 133 . Leçon inaugural au Col/ége de France prononcée le 2 décembre 1970.1963. • Les Mots et les choses. Obras de Michel Foucault • Maladie mentale et personnalité.BIBLIOGRAFIA Os textos utilizados ou citados ao longo dos artigos estão referenciados nas respectivas notas. Paris. 1961 (Texto datilografado) . PUF. Histoire de la folie à l'âge classique. 1961.

Gallimard. Um caso de parricídio do século XIX (apresentado por Michel Foucault).. Nascimento da prisão. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Gallimatd. 1999. (présenté par Michel Foucault). L 'Usage des plaisirs. Paris. par Michel Senellart. 1994 (2 vols. Paris. 134 ! Foucault. 2001. 1987. Perspectiva. Tradução de Lílian Rose Shalders. Histoire de la sexualité) L La Volonté de savoir. • A ordem do discurso. Graal.. Uma arqueologia das ciências humanas. Loyola. par Jacgues Lagtange. Histoire de la sexualité. Le Pouvoir psychiatrique. avec la collaboration de Jacgues Lagtange Paris. 1999. Paris) Gallimard. São Paulo. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessan- Édition établie par François Ewald et Alessandro Fontana. population. Tradução de Lauta Fraga de Almeida Sampaio. Paris. Tempo Brasileiro. Gallimard/Seuil. Paris. Tradução de Luís Felipe Baeta Neves. par Michel Foucault). Cours au Collége de France. par Frédéric Gros.Cours au Collége de France. Revisão técnica o de Geotges Lamaziére. 1954-1988. Paris. 1996.Cours au Collége de France. Gallimard. Paris. Herculine Barbin dite Alexine B. Surveiller et punir. Gallimard/Seuil.o • • • o o o • o • o Histoire de la folie à l'âge classique (2eme ed. Gallimard/Julliard. Un cas de parricide au XIX siécle (coord. 1978. par Mauro Bertani e Alesssanclro Fontana. 1976. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessan- o dro Fontana. Le Désordre des familles. territoire. 1981-1982. Moi) Pierre Riviêre) ayant égorgé ma mere) ma soeur et mon frere . Vozes. Forense Universitária. 11. 1982. 4 vaIs. Gallimard. Simplesmente o Sécurité. Tradução de Raguel Ramalhete. Rio de Janeiro. 1984. Gallimard/SeuiI2003. 1977-1978. Pierre Riviere) que degolei minha mãe) minha irmã e meu irmão . Lettres de cachet des Archives de la Bastille au XVIlIeme siêcle (présentées para Arlette Farge et Michel Foucault). Cours au Collégede France. 1975. Paris. III.1974-1975. São Paulo. A arqueologia do saber. o 1981. Gallimard. Aula inaugural no College de France pronunciada em 2 de dezembro de 1970. • As palavras e as coisas. Cours au Collége de France. 1973-1974. 1984.) • Eu. Naissance de la biopolitique. Petrópolis. 1982. 1999. Paris. 1977. Paris. L'Herméneutique du sujeI. 1997. Cours au Collége de France. Le Souci de soi. Dits et écrits. Paris. Forense Universitária. augmentée). 2004. • Raymond Roussel.2001). Gallimard. 1975. • História da loucura na idade clássica. "I! faut défendre la société". Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. 1972. Julliard. 1978-1979. 2004.. Tradução de Denise Lezan de Almeida. 1975-1976. Édition établie sous la direction de Daniel Defert et François Ewald. Rio de Janeiro. Paris. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. 1989. Paris. Paris. 1977. Rio de Janeiro. Gallimard/Seuil. Revisão técnica de Chaim Samuel Katz. par o Valerio Marchetti et Antonella Salomini. Gallimard. Gallimatd. o O Nascimento da clínica. Tradução de Salma Tannus MuchailJ São Paulo. Relógio D'Água Editores. par Michel Senellarr. Naissance de la prison. Édition étab!ie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. 1970-1982. Obras de Michel Foucault traduzidas para o português Livros o Doença mental e psicologia. 1972. Gallimard/Seuil. Lisboa. bibliografia I 135 . Gallimard/Seuil. Tradução de Manoel Barros da Motta e Vera Lucia Avellar Ribeiro. Vigiar e punir. (Edição portuguesa revista por Nuno Nabais. Martins Fontes.. 1973. o dro Fontana. Paris. Tradução de Roberto Machado. Forense Universitária. Paris. °Les Anormaux. Résumés des cours du Collége de France. Histoire de la sexualité.

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AM e-mail: livmanaus@paulinas.br BRAS/LIA EDITORA VOZES LTOA SCLR/Norte . Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. Curso no Coll'ge de France.org.com.org..com. Martins Fontes. Forense Universitária. Coleção "Ditos e Escritos".Q. Ipiranga.BI. poder-saber. faça o pedido por reembolso postal à Rua 1822 nQ 347.: (65) 3226-9677 • Fax: (65) 322-3350 78005-600 Cuiabá. 730 Tel. IV. GO e-mail: vozes27@uol. E5 e-mail: livvitoria@paulinas.'. MA e-mail: livrariavozes@terra. Rio de Janeiro) Forense Universitária.br CEARÁ EDITORA VOZES LTOA Rua Major Facundo. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta. . vol.com. 698A .loyola.Centro Tel. 332 TeI. ~_. MA e-mai1: fspsaoluis@elo. 216 .com.: (62) 224-2585/224-2329 • Fax: (62) 224-2247 74010-010 Goiânia. 2004. 05 .DISTRIBUIDORES DE EDiÇÕES LOYOLA Se o{a} senhor{a) não encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nosso ros da Motta.Centro Tel.. MS.: (71) 329-5466 • Fax: (71) 329-4749 40060-410 Salvador.com. MT e-mail: vozes54@uol.com. Consultoria de Roberto Machado.br LIVRARIA ALTERNATIVA Rua 70. DF c-mail: livbrasilia@paulinas. 203 .org.: (85) 226-7544/226-7398 • Fax: (85) 226-9930 60025-100 Fortaleza. Fax: (31) 3226-7797 3{l~H?:O' Belo .Setor Central Tel: (62) 229-0107 / 224-4292· Fax: (62) 212-103 74055-120 Goiânia..Centro Tel. AM c-mail: vozes61@uol.f:lorizonte. São Paulo SP· Caixa Postal 42.: {27) 3223-13181 0800-15-712 • Fax: (27) 3222-353: 29010-060 Vitória.:.: (62) 225-3077 • Fax: (62) 225-3994 74023-010 Goiânia. Martins Fontes. MULTlCAMP LTDA Rua Direita da Piedade.com.br MATO GROSSO EDITORA VOZES LTOA Rua Antônio Maria Coelho. 7 de Setembro. distribuidores. 2004. 15 leI.Centro Tel.nllmJ: ·vozes04I'uol. Martins Fontes. 1981-1982. Tradução de Maria Ermantina Galvão. Tradução de Veta Lúcia Avellar Ribeiro. nO 291 Tel.335. Tradução de Eduardo Brandão_ São Paulo. • Home page e vendas: www. 7 de Setembro.Q. 04216-000. . 381 . Tradução de Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa.br LIVRARIAS PAULlNAS Av. • A Hermenêutica do sujeito. 197 A Tel...br LIVRARIAS PAULlNAS Av. SP· Telefone: (11) 6914-1922' Fax: (11) 6163-4271 [ursos BAHIA • Resumo dos cursos do Collége de France.com. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta.br MARCHI L1VRARlA E DISTRIBUIDORA LTDA .: (71) 329-2477/329-3668 • Fax: (71) 329-2546 40060-001 Salvador. sexualidade.com.org.br 138 ! Foucault. Curso no Collége de France. • Estratégia.org.: (921 232"5777 • Fax: (921 233-0154 69010-230 Manaus. DF c_mail: vozes09@uol. voI.: (98) 221-0715. C . BA e-mail: multicamp@uol. Curso no Collége de France.: (61) 225"9595 • Fax: (61) 225-9219 70300-500 Brasma.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Major Facundo.: {65) 623-5307 • Fax: (65) 623-5186 78005-970 Cuiabá.Piedade Tel.br MINAS GERAIS EDITORA VOZES LTDA Rua Sergipe.br LIVRARIAS PAUlINAS SCS .com. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa.br • e-mail: vendas@loyola. 2001. São Paulo.Conjunto Bela Center .br llVRARIAS PAUllNAS Rua de Santana. 499 . 1997.LIVRARIA VOGAL -' Av.com. Rio de Janeiro.br MARANHÃO EDITORA VOZES LTDA Rua da Palma.br GOIÁS (92) 633-4017 LIVRARIA E DISTRIB.br EDITORA VOZES LTOA Rua Carlos Gomes.com.Centro Tel. Rio de Janeiro. CO e-mail: livgoiania@paulinas. política. BA e-mail: vozes20@uol.: (711 329-0326/329-1381 Telelax. CE e-mail: vozes23@uol. 2001. 502 . Zahar.: (71) 329-0109 40070-190 Salvador.org. Forense Universitária.: (61) 326-2436 • Fax: (61) 326-2282 70730-516 BraSl1ia. Coleção "Ditos e Escritos". 2003. 04218-970. 704 . simplesmente LIVRARIAS PAULlNAS Rua Barão de Itapemirim.Centro Tel. 680 . CO e-mail: distribuidora@livrariaalternativa.: (921633-42511233-5130.1970-1982.br AMAZONAS EspiRITO SANTO EDITORA VOZES LTOA Rua Costa Azevedo.loja 1 TeI.1975-1976. • Em defesa da sociedade.com.1999. • Os Anormais. Goiá" 636 Tel.~o Pedro Tel. BA e-mail: livsalvador@paulinas.Bloco A n.Lojas 19122 .: (98) 232-3068/232-3072 • Fax: (98) 232-265 65015-440 São Luís. Fax: (98) 231-0641 65010-440 São Luís. Fax: 69005-141 Manaus. • Ética.(31) 3226-9010.br. n° 124 . São Paulo. 1974-1975. Rio deJaneiro. 105 . 665 Tel.. 120 .br EDITORA VOZES LTOA Rua 3. MT e-mail: Imarchi@terra. CE c-mail: livfortaleza@paulinas. V. Getúlio Vargas.: (85) 231-9321 • Fax: (85) 2214238 60025-100 fortaleza. Tradução de Andréa Daher. e. São Paulo.loja 2 Tel.com.br llVRARIAS PAUlINAS Av.

ALAGOAS. AL e-rnail: livmaceio@paulinas. 234 -Centro Tel.Centro Tel. {11 131 06-4418/3106-0602 • Fax: (lI 13106-3535 01013-001 São Paulo. Portugal EDITORA VOZES Av.com.: 111) 6693-7944 • Fax: (11) 6693-7355 03168-010 São Paulo.com.org. Rj EDITORA VOZES LTOA Rua México.org.Luz Tel.br Rua Joaquim Távora.br Rua Haddock lobo. 597 .br Rua Barão de [tapctininga.br lIVRAR[AS PAUlINAS Rua dos Andradas.br Rua Senador Souza Naves. Fax: 111) 5549-7825 04010-100 São Paulo. 308 Tel. PA e-mail: livbelem@paulinas.: (84) 212-2184 • Fax: (84) 212-1846 59025-500 Natal. SP e-mail: livsmiguel@paulinas. SP e-mail: expedicaOI!.br Av.com. 120 Telefax: (11 J 3242-0449 01006-000 São Paulo.br ASTECA DISTRIBUIDORA DE LIVROS lTOA.Bairro do Comércio Tel.B. 1164/1166 Tel. 45 -loja NB . 278 .sala 1701 Telefax: (21) 2233-4295 / 2263-4280 20071-000 Rio de Janeiro. 18-18A Te[.br LIVRARIAS PAUlINAS Rua 7 de Setembro.com.: (41) 233-1392 • Fax.br Rua Barão de jaguara.br SANTA CATARINA EDITORA VOZES Rua Jerônimo Coelho.br PORTUGAL MULTI NOVA UNIÃO LlY. 59 .: (32) 3215-9050. km 19.Cidade Universitária Telefax: (21) 2290-3768/ 3867-6159 21941-590 Rio de Janeiro.: (51) 3221-0422 • Fax: (51) 3224-4354 90020-008 Porto Alegre.: (82) 326-2575. PE e-mail: vozesl0@uol. MG e-mail: maedaigrejabh@wminas.com PARÁ ~ LIVRARIAS PAULlNAS Rua Santo Antônio. 502 .br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Voluntários da Pátria. Asa "Oeste" Rua 02 e 03 ~ lojas 111 /112 e 113/114 Tel. (41) 362-0296 / 362-1367 80040-280 Curitiba. lTOA Vendas no Atacado e no Varejo Av.: (81) 3224-5812/3224-6609 Fax: (81) 3224-9028 / 3224-6321 5001 0-120 Recife.com.org.com.: (11) 6297-5756 • Fax: (11) 6956-0162 08010-090 São Paulo.br RIO GRANDE DO SUL EDITORA VOZES l TOA Rua Ramiro Barcelos.: (11)3105-7198.: (OOxx]. MG e-mail: vozes32@uo[. Goulin. SP e-mail: vozes40@uol.com.Bloco A.br PERNAMBUCO. (41) 362-0296/262-8992 Fax.: (51) 3225-4879 • Fax: (51) 3225-4979 9003 5-000 Porto Alegre. PARAf8A.com. 174 . 225 Tel. SP e_mail: livdomingos(iQpaulinas.br lIVRAR1AS PAULlNAS Av.br Rua do Imperador.PUC Prédio Cardeal leme .Mooca Tel.: (48) 222-4112 • Fax: (48) 222-1052 88010-030 Florianópolis. RN e-mail: livnatal@paulinas.br Rua Curitiba.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Domingos de Morais. RJ e-mail: livniteroi@paulinas. 981 São Migue[ Paulista Tel. Presidente Vargas. Fax: (32) 3215-8061 36010-041 Juiz de Fora.com. 71 Tel.: (31) 3423-7979 • Fax: (31) 3424-7667 31030-480 Belo Horizonte. Afonso Pena.Centro Tel.'i121 )355-1127 • Fax: (OOxx35121 1355-1128 1050-047 Lisboa.Ja Riachuelo.Ramal 9045 25620-001 Petrópolis.Centro Tel.com.br Rua dos Trilhos.com. 1 S8-C Tel. Madureira Tel. Vicente.br SÃO PAULO DISTRIBU[DORA lOYOlA DE LIVROS LIDA Vendas no Atacado Rua São Caetano.577-300 São Paulo. PR e-mail: vozes21@uol.•• paulinas. MG e-rnail: gerencial ivbelohorizonte@paulinas.br Rua Frei Caneca. 5P e-mail: vozes56i!Jluol.org. RJ e-mail: ze[iobicalho@prolink.br Rua Marquês de S. 168 Te[.br PARANÁ EDITORA VOZES lTOA Rua Voluntários da Pátria. RO e-mail: fsp-pve[ho(álronet. 1212· Centro TeI. RJ e-rnai!: livjaneiro@paulinas. Fax: (21) 2622-9940 24020-320 Niterói. Santa jOdfla Princesa.145 Tel. 225 . Rua Costa Monteiro.: (43) 3337-3129· Fax: (43) 3325-7167 86020-160 londrina. Rua Dr. 5 de outubro.SP e-mai!: vendasatacado@[ivrarialoyola. RS e-mail: livpa[egre@pau[inas.org.br Rua Doutor Borman.Centro Telefax: (24) 2233-9000 . 360 Tel. 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Getúlio Vargas.com. RI Centro Tecnologia . SP e-rnail: vozes03@uol.com.. 1523 .Rink Te[. RS e-mail: livrariarcus@[ivraria-padre-reus. Fax: (11) 3782-0972 0.lHO PORTUGAL ClA. 1280 Tel.: (51) 3224-0250 • Fax: (51) 3228-1880 90010-282 Porto Alegre. 805 Tel. PR e-mail: livraria@miIleniumlivraria.: (41) 224-8550 • Fax: (41) 223-1450 80020-000 Curitiba.: (91) 241-3607 / 241-4845 • Fax: (91) 224-3482 6601(}'()90 Belém.Vila Mariana Te[.: (31) 3224-2832 • Fax (31) 3224-2208 30170-120 Belo Horizonte.: (69) 224-4522.br DISTRIBUIDORA lOYOlA DE LIVROS LTOA Rua Quintino Bocaiúva. MG e-mail: livbe[ohorizonte@paulinas.org.br MÃE DA IGREJA LTOA Rua São Paulo. SP e-rnail: vozes 16@uol. RJ e-mail: vozes62@uol. SP e-mail: vozes37@uol..Hugo lange TeI.com.

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