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FOÜCAULT.
S1MPLESMENTE

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LEITURAS

CI~G

FILOSÓFICAS

Aristóteles e o logos, Barbara Cassil1
Aristóteles no século XX, Enrico Berti
Da nahneza, José Gabriel dos Santos
Diálogos com a cultura contemporânea, W.M
Eric Weil e a compreensão do nosso tempo, Marcelo Perine
Filosofia a partir de seus problemas (A), 2" ed.,
Mario Ariei González Porta
Filosofia da ciência - introdução ao jogo e a suas regras, 8" ed.,

Rubem Alves
Filosofia da natureza (A), Jacques Maritail1
Foucault, simplemente - textos rennidos, Salma TamJUs Mucllail
Metáfora viva (A), Paul Ricoeur
\1ovilllento sofista (O), G. B. K.erferd
l\'iilismo (O), Franco Volpi
Ofício do filósofo estóico (O), RacheI Gazolla
Ordem do discurso (A), 10" cd., Michell''oucault
Para não ler ingenuamente uma tragédia grega, Rachei GazoUa
Quc é a filosofia antiga? (O), Pierre Hadot
Razõcs dc Aristóteles (As), 2" ed., Enrico Berti
Saber dos antigos - terapia para os tempos atuais, 2.' ed.,

FOUCRULT,
SIMPLESMENTE
·~2xtQS :-eL:f"":id:i5

Giovallni Reale
Sete lições sobre o ser, 2" ed, Jacques Maritain
Sobre O político de Platão, Comeljus Castoriadjs
Sócrates ou o despertar da consciência, fean-Toel Duhot
Tempo e razão - 1.600 anos das confissões de Agostinho,
Carlos Arthur A. Nascimel1to
Transformação da filosofia, vol. 1, Karl-Otto Apel
Transformação clJ filosofia, vol. 2, Karl-Otto Apel
Vontadc de crer (A), William James

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SUMRRIO

PREPARAÇÃO:

Marcelo Perine

DIAGRAMAÇÃO:

REVISÃO:

Maurélio Barbosa

Maurício B. Leal

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P~CRS

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Apresentação ................... .

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A TAAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULT .................. .

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A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA
Filosofia e/ou história?

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O MESMO E O OUTRO
Faces da história da loucura

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EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO

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DE PRÃTICAS SOCIAIS

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PRODUÇÃO DE SABERES

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FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS ................ ..

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OLHARES E DIZERES .............. ..

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ISBN: 85-15-02992-8
© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2004

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.. uma unidade dotada de significado. a filosofia........ a abordagem de temas como o ensino. o próprio pensamento é instigado a tornar-se múltiplo e igualmente afinado com a inventividade e o rigor... a democracia... Relativamente às diversidades.... UM AOSTO DE AAEIA·· Notas sobre maio de 68 . . o livro comporta suas próprias diversidades.. 109 o ••••••••••••• . por outras....OEMOCRRCIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Mich~1 Foucault e Cornelius Castoriadis . de um livro escrito em diferentes momentos. o poder... para este livro. Os textos que o compõem expressam a marca temporal dos momentos em que foram produzidos.. À semelhança dos escritos de Foucault. a história. a loucura..... Também seus escritos têm a marca da diversidade de temas e de abordagens... 123 BIBLlOGAAFIA . 133 o pensamento de Michel Foucaulr é um pensamento plural.. dar conta de sua inventividade e de sua densidade conceitual.. RPRESENTRÇÃO 115 MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOA . COMO NA OALA DO MAR........ Também os temas discutidos são diversos.. Percorrê-los exige uma dedicação cuidadosa para que se possa enfrentar esta diversidade e... ao mesmo tempo...... Por outro lado. a preapresentação ! 7 .. não permite que se determine.. artigos e capítulos de livros já publicados..... em primeiro lugar. não deixando de formar. ao percorrê-los. .. a cultura.. .. Os textos reunidos neste livro exprimem esse caráter. trata-se.. revelada por vezes na eleição dos Çlbjetos tratados e. Em sua maioria são conferências. Como reunião de textos dispersos.. as instituições. na contextualização das análises.. no entanto...

Outros. quando saiu seu primeiro grande livro. uma repartição possível dessa trajetória em três momentos. o caráter dos textos é igualmente diverso. esclarecem o leitor a seu respeito. servem de iniciação à sua leitura. FOUCAULT. Belo Horizonte. reconhecem. O uso dos prazeres. v.. Foi publicado na Revista Extensão.como a pluralidade do pensamento. 1. conhecido como período da "arqueologia".Razão e Desrazão". com seus últimos livros publicados. Assim como dizer Foucaul~ simplesmente implica tantas outras coisas . escrito em muitos tempos.. A unidade de significado do livro. desdobrado em muitos temas. A trajetória intelectual de Michel Foucault (1926-1984) pode ser inscrita entre 1961. como também ele próprio. será possível apreender um pensamento que tem muito a dizer ao nosso presente. com certo consenso. 2. a leitura desta simples reunião de textos tem muito a nos propor e ensinar. Por fim. Desse modo. PUC/MG. n. é voltado principalmente para questões relativas à constituição dos saberes e inclui os principais livros publicados na década de 1960: A história da loucura (1961).sença de um único objeto. Alguns possuem um sentido mais geral. O segundo mamemo. este livro tem sua índole vinculada ao ensino.. por sua vez. pois. e 1984. ) tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de leptimar o que já se sabe? M. O primeiro. acima de tudo. 1992. tratando de métodos. ) senão o trabalho critico do pensamento sobre o pensamento? Senão (. Todos os textos nele reunidos ou nasceram de aulas ministradas por sua autora ou destinavam-se a prepará-las. O nascimento da clínica (1963). conhecido como períodó da "ge* Este texto é uma versão modificada de aula ministrada no curso "Michel Foucault . a profundidade das análises -. deve-se à natureza dos textos que o constituem. fev. mais específicos. Resultado de uma leitura e de uma análise detidas dos escritos de Michel Foucault. As palavras e as coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969). aos leitores deste livro diverso. 8 I Foucault. Márcio Alves da Fonseca Professor do Departamento de Filosofia da PUC/SP A TRAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULr Mas o que é filosofar hoje em dia (.. simplesmente a trajetória de Michel Foucault I 9 . favorecendo a compreensão de um pensamento tão profundo e complexo quanto instigante. na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em abril de1991. periodizações e problemas centrais dos escritos de Foucault. realizam análises detidas sobre temas precisos. a diversificação das abordagens. Os estudiosos de Foucault. Talvez por este motivo sejam tão didáticos. 13. pois na medida em que discutem diferentes aspectos do pensamento de Foucault.

que Foucault produzir~ e realizara em diversos países). o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem.. intitulado A vontade de saber (1976). e supõe. 1972. Supõe. os discursos são tomados em sua positividade. FOUCAULT. as regras que presidem seu surgimento. A este conjunco devem ser acrescencadas ainda duas situações ocorridas após a morte de Foucault: a publicação. nas suas dimensões diversas. 21. seu funcionamento. assim como suas aproximações e diferenças. de maneira mais precisa. mas o jogo de regras que define as condições de possibilidade do aparecimento. Vozes. O terceiro momento trata de questões relativas à constituição do sujeito ético e inclui os volumes II e III da História da sexualidade. Paris.. 1969. 10 I Foucault. Petrópolis. M. "Resposta a uma Questão". seu desaparecimento. assim descrevia Foucault os propósitos de suas primeiras investigações: "determinar. Revista Tempo Brasileiro. e trata-se de buscar não sua origem ou seu sentido secreto.. desde o século XVII" . Rio de Janeiro. pois. ao contrário. FOUCAULT. de M.nealogia". por sua vez. diz respeito à língua como sistema formal que rege a formulação tanto de enunciados efetivamente realizados como a dos que. em tese e em número infinito. cuja publicação foi iniciada em 1997. assim como as novas regras que presidem a formação de novos discursos em outra época. até "o saber que é nosso hoje") e a preocupação está 1. 1971. por um lado. o que deve ter sido na Europa. Observe-se que esta descrição histórica dos discursos não é feita nem à maneira do "comentário". não porém quaisquer discursos. suas mudanças. mais particularmente. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. A análise lingüística. O primeiro momento de seus escritos tem. centrada na descrição dos discursos. a fim de que possam ser trazidos à luz pelo comentário. desde o século XVII. aulas etc. "jamais-dito"3. em 1994. 2. mas aqueles considerados científicos e. simultaneamente.. os das chamadas ciências humanas ("o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem"). simplesmente 3. em determinada época. a cada vez. a trajetória de Michel Foucault ! 11 . alguma origem mais remota a ser reencontrada e um sentido oculto a ser decifrado. nem ao modo de uma análise lingüística. Cf.mais essencial e.. Já a descrição foucaultiana dos fatos discursivos se limita a enunciados já formulados que compõem as formações discursivas. que esta origem e este sentido .de algum modo atravessam o sentido explícito. O comentário é uma espécie de discurso segundo a duplicar o discurso comentado. Gallimard. jan/mar. a gradativa edição dos cursos que Foucault ministrou no Collêge de France entre os anos 1970 e 1984 (foram ministrados treze cursos).2. Supõe.. faremos iniciar a abordagem de cada um desses momentos. trad. é centrado sobre questões relativas aos mecanismos do poder e inclui os principais livros da década de 1970: Vigiar e punir (1975) e o volume I da História da sexualidade. portanto. mudo . Nas análises de Foucault. nele dormitam. O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984( Tomando esta repartição como ponto de partida e roteiro. e quer estabelecer não as regras formais de sua inteligibilidade. ao mesmo tempo. como "fatos". intitulados. conferências. artigos. alguma verdade implícita no dito explícito do discurso primeiro. 28 (Epistemologia). ainda mais recencemence. mas as condições de sua emergência. dos Dits et écrits (são quatro volumosos livros que reúnem textos dispersos. ver também L'Archéologie du savoir. M. o modo de existência dos discursos e singularmente dos discursos científicos (. o próprio Foucault declara suas preocupações e seus propósitos. Com a transcrição da seleção de passagens em que. e. trad. um conteúdo de significações "já-dito" e. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". das transformações e do desaparecimento ••• Em texto de 1968. da Glória R da Silva. poderiam vir a ser constituídos. buscando fazer surgir temaremos esboçar os traços que caracterizam esses três momentos. um enfoque explicitamente histórico ("na Europa. 36. ) para que se constitua o saber que é nosso hoje e.79. Luís Felipe Baeta Neves. respectivamente.. por outro lado.

que melhor lhe permite trazer à tona "os mecanismos existentes" entre exercícios de poder e produção de saberes reconhecidos como verdadeiros.. essa de~arcação não pretende definir. Ora.6. a que instituições isso se vincula etc. tentei discernir os mecanismos existentes entre dois pontos de referência. são regiões do L'Archéologie du savoir. grosso modo. portanto.4. "Nada me prova". quem pode dizê-lo. 43. Ele mesmo nos adverte de que a demarcação desse donúnio é uma escolha de certo modo hipotética. autoriza o que é permitido dizer. FOUCAULT.. diz Foucault. genericamente. por outro. a respeito dos escritos do segundo momento de sua trajetória. a demarcação do domínio não limita o ãmbito de aplicabilidade da arqueologia que poderia. a região das chamadas ciências humanas. ser usada em outros campos do saber. "uma primeira aproximação" ou "um primeiro esboço. enquanto no século XIX vão surgir a filologia. salvaguardar ou confirmar os contornos do próprio domínio escolhido. é a investigação sobre os discursos científicos . as regras de direito que delimitam formalmente o poder e. Com efeito. Maria Teresa de Oliveira e Roberto Machado. ou ainda o solo onde são constituídas as formações discursivas historicamente realizadas e que compõem as diferentes configurações no espaço do saber.179. Por outro. 27. 7..de tais ou quais discursos.. FOUCAULT. trad. transmite e que por sua vez reproduzem-no. M. 43. a história natural e a análise das riquezas. Por um lado. 5. Rio de Janeiro. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". pelo contrário. Foucault assim declarava: "O que tentei investigar. variável num curso histórico marcado por diferenças e descontinuidades. Assim é. numa determinada época e para uma determinada sociedade.7. nem que descobrirei o princípio de sua delimitação e de sua individualização. de quaisquer discursos que Foucault trata. 53-54.. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. M. ••• E contudo é um privilégio. Será nos escritos posteriores que se tornarão mais claros os motivos de semelhante eleição. 12 I Foucault. por exemplo. como se pode dizê-lo. o campo do saber assim assumido como obje4. o que deve ser reconhecido como verdadeiro e o que deve ser excluído como desqualificável. M. Do mesmO modo. Trata-se tão-somente de "um privilégio de partida. no início.. nem limita o método nem delimita o próprio domínio escolhido. e não de outros. nada me prova que tal descrição poderá dar conta da cienrificidade (ou da não-cientificidade) desses conjuntos discursivos que assumi como ponto de ataque e que apresentam todos. Mas não é. dentro dele. portanto. 6. a trajetória de Michel Foucault I 13 . Interessam-lhe os que constituem o campo do saber considerado científico e. foi o como do poder. eis o procedimento que Foucault chama de "arqueologia". Graal. que em As palavras e as coisas as análises mostram como na Europa dos séculos XVII e XVIII emergem determinadas formações discursivas que vão constituir a gramática geral. em tese. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. Trata-se de uma circunscrição relativa. "que os reencontrarei (esses domínios do saber eleitos como área de investigação) ao termo da anãlise. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". Pode-se chamar a esse "jogo de regras" de epistéme de uma época. numa época dada e numa dada sociedade. ver também L'Archéologie du savoir. simolesmente to de investigação pode precisamente esfacelar-se sob o efeito da própria análise. oS efeitos de verdade que este poder produz. ver também L'Archéologie du savoir. 1979. dois limites: por um lado. 27.. M. "Soberania e disciplina". de 1970 até agora. jogo este que é.. FOUCAULT. Estabelecer esse jogo ou conjunto de regras que. seu a priori histórico. de que as primeiras não são meras precursoras. in Microfísica do poder. a biologia e a economia. Em uma passagem de 1976. certa presunção de racionalidade científica"s A escolha do domínio. e duplamente relativa. enfim. FOUCAULT.e entre eles sobre "os que têm por domínio este curioso objeto que é o homem" .

Mas com outras transformações. instituições sociais diversas. 251. 172. in Microfisica do poder. mais claramente aberto a combates e cuja história. enquanto a epistéme é também um dispositivo . que só existe em sua "concretude". escreve ele. M. uma vez que. "Poder-Corpo". 9. a trajeto ria de Michel Foucault I 15 . pelo que podemos chamar de modos de produção da verdade.. a partir da discursividade local assim descrita. se toda sociedade tem seu regime de verdade com efeitos de poder. o dispositivo. ativa os saberes libertos da sujeição que emergem desta discursividade"l1. por assim dizer. 6. os sujeitos aptos a produzi-los. passa também a definilo menos como "arqueologia". enquanto a arqueologia efetua uma análise descritiva veiculando uma denúncia. 183-185. 175.. "Verdade e poder". M. mas não percebidos. de certo modo. a este respeito. a mesma natureza e o mesmo teor. as instituições apropriadas. 154. Por "verdade" deve-se entender não "o conjunto de coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar". por isso mesmo. III I Foucault. de evidenciar as articulações entre saber e poder. também o poder não deve ser compreendido como uma "idéia" ou uma "identidade teórica". 75-76. passa a priorizar seu cruzamento "Sobre a geografia". "Verdade e poder". são sobretudo disciplinar e normalizar. como faz principalmente em sua história do nascimento das prisões (Vigiar e punir).. Trata-se. Mais de uma vez Foucault afirma que os propósitos explícitos nos escritos da fase genealógica já estavam presentes. nos primeiros escritos. in Microftsica do Poder. e. Foucault amplia o âmbito das análises: de análises quase sempre mais preocupadas com discursos ou interdiscursos. 149. a genealogia constrói uma política de resistência e de luta. particularmente no caso das ciências humanas. a genealogia é a tática que. mas como exercício. FOUCAULT. A denominação "genealogia" será mantida por Foucault ao referir-se ao terceiro e último momento de sua trajetória. como prática. E. Ora. em Microftsica do poder:. 13. em nossa sociedade a produção da verdade é regulamentada por regras que autorizam a eleição dos discursos reconhecidos como científicos e a conseqüente exclusão de outros saberes. "Enquanto a arqueologia". tais como práticas jurídicas. e cujos efeitos de poder. multifacetado e cotidiano 10. FOVCAULT. compreende-se que é sobre os discursos científicos. "Os Intelectuais e o poder". *** Em entrevista concedida pouco antes de sua morte. Mas adverte também que uma mudança ocorreu na condução das análises. FOUCAULT. assim se exprimiu Foucault a respeito de seus últimos escritos: "Ten11. Poder-seia dizer que a arqueologia é como englobada e ampliada na genealogia e que. assim como a "verdade" de que se trata não é nenhuma essência universal. particularmente sobre os das ciências humanas. mediados. Ver. Assim. entendendo-se que. 10. arqueologia e genealogia se distinguem ao mesmo tempo em que guardam. mas "regras" historicamente diferenciáveis. mas "o conjunto de regras segundo as quais se distingu~ o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"9. praticamente. Nesse momento de seus escritos. agora. a noção de epistéme pela noção mais complexa de "dispositivo estratégico". "Genealogia e poder". "é o método para a análise da discursividade local. pode ter mais "eficácia política"8. "Introdução" (de R. 8. Quando Foucault passa a explicitar esse momento de sua investigação. Abandona. Machado). XVI. "Sobre a história da sexualidade". um elemento prioritariamente discursivo do dispositivo -.saber cujo terreno é mais movediço. que vai incidir a investigação. envolve articulações entre elementos heterogêneos. "Soberania e disciplina". por exemplo. projetos arquitetônicos. "Genealogia e poder".ou. "O olho do poder". para denominá-lo "genealogia". antes. M. in Microfisica do poder. que qualificam os objetos dignos de saber. prioritariamente de natureza estratégica. discursivos e extradiscursivos. Simplesmente com a trama das instituições e práticas sociais. 221.

H. 75. jurídicos ou religiosos. mantendo.to responder a um problema 'preciso: nascimento de uma moral. mas como sujeito ético. E as aproximações que em seguida faz: ''(. um percurso que ia desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX).. Rio de Janeiro. 86. "O retorno da moral". e nem quer um sistema legal que interfira na nossa moral pessoal. T. História da sexualidade. 11. O terceiro ponto a observar é que o que os preocupava. "Introdução". Porém. sobre o desejo. Foucault alterou radicalmente o plano inicial previsto para a obra. FOUCAULT. 16. tomando então a relação a si e aos outros.. da Costa Albuquerque. O uso dos prazeres.e a dos volumes II e 1II . A segunda observação é que a ética não estava relacionada a nenhum sistema social . Agora. 14. P. indivíduo que se constitui a si mesmo. Nesse enfoque. de C. 10-11. privada (. 13. continua a fazer filosofia fazendo pesquisa histórica. Estou interessado nessa semelhança de problemas"16. in O Dossier. enquanto "sujeito do desejo"14. "artes da existência"ls. que Foucault chama de "práticas de si". Mas agora a cronologia é outra. . G.levou-o a procurar mais "atrás" pelo "nascimento de uma moral". voI.ou pelo menos legal-institucional (. 1984. buscando trazer à luz as transformações que marcaram a passagem do Renascimento à Idade Clássica e. O uso do prazeres. O projeto inicial da História da sexualidade anunciava um percurso histórico semelhante. Cf. enfim. M. ) eu me pergunto se nosso problema atualmente não é. L. Neste intervalo. in O Dossier . nos últimos séculos antes de Cristo e nos primeiros séculos da era cristã 13 ..últimas entrevistas. Rio de Janeiro. da Glória R da Silva. era constituir um tipo de ética que era uma estética da existência". "O cuidado com a verdade".. in O Dossierúltimas entrevistas. pois.12. H. A. M. eis algumas observações de Foucaulr: "O que me impressionou é que na ética grega as pessoas se preocupavam com sua conduta moral. sua ética. daquilo. principalmente. Até então as histórias que escrevera atravessavam. Como nos livros anteriores. 15. 12. Ao privilegiar essa perspectiva. DREYFUS. ou a das leis definidoras do que é permitido ou interditado. ibid. de certa maneira.últimas entrevis· tas. Cf. Entre a publicação do volume I da História da sexualidade A vontade de saber (1976) . A este propósito.. as que assinalaram a passagem do final da Idade Clãssica à Modernidade. "Um devaneio moral".. mas a da conduta. ). Uma mudança importante ocorreu relativamente ao período histórico estudado.últi· mas entrevistas. trad. de compreender nosso presente. o prazer. ).. BARBEDEITE.. de uma moral enquanto reflexão sobre a sexualidade..passaram-se oito anos. a característica da genealogia de compreender o presente. 1984. a traietória de Michel Foucault I 17 .O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984) . eSCALA. R BELLOUR. detendo-se então na Antiguidade grega e greco-romana. Graal. EWALD. seu tema. trad.."Por que tínhamos feito da sexualidade uma experiência moral?" . 136. 16. Taurus. a investigação permite melhor aproximar dados da Antiguidade de problemas de nossa atualidade. 43-44. Cf. org. "Sobre a genealogia da ética: uma visão do trabalho em andamento". do modo de comportar-se ou das posições em face de códigos e leis. Ana Maria de A Lima e M. ). desde que a maioria de nós já não acredita que a ética esteja fundada na religião.. "Introdução". o foco das investigações será o sujeito. suas ligações com elas próprias e com os outros muito mais do que com problemas religiosos (.. M. como espaço de referência.. não porém como aquele "curioso objeto" de um domínio de saber. semelhante a este. "técnicas da vida". a pergunta que ele então se colocou . na direção. assim. quase sempre. FOUCAULT. com realce para a chamada Idade Clãssica (séculos XVII e XVIII). a perspectiva que ele privilegia não é a dos códigos morais. 15. 16 I Foucault. F. in O Dossier . como reconhece o próprio Foucault. simplesmente A alteração na cronologia foi acompanhada por mudanças teóricas e deslocamentos de temas. ESCOBAR. e RABINOW..

"Introdução". Eis ainda uma passagem em que esse eixo comum é explicitado: "Em A história da loucura a questão era saber como e porque a loucura. Um segundo eixo desses escritos está em certo ângulo a partir do qual os temas são abordados. Dito de outro modo. Ibid. duas vias de acesso inversas em direção a uma mesma questão: como se forma uma 'experiência' onde estão ligadas a relação a si e aos outros"l? Com efeito. ao primeiro tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres dá o título "Modificações". na visão teórica. EWALD. 19. nos temas. E elas têm pelo menos dois eixos comuns. 75. político e epistemológico: o problema que a loucura colocava para os outros. Em um caso. conduzindo à análise das práticas discursivas constitutivas dos saberes reconhecidos como verdadeiros. na cronologia. EWALD. quando se julga e se pune enquanto criminoso (Vigiar e punir)? Através de quais jogos de verdade o ser humano se reconheceu como homem de desejo (História da sexualidade)?"!'. foi problematizada através de uma certa prática institucional e um certo aparelho de conhecimento. quando se olha como doente (O nascimento da clínica). 21. 18 ! Foucault. na passagem dos momentos anteriores ao último. Do mesmo modo. Em outra passagem realça essas diferenças. em Vigiar e punir. há. articulam-se entre si. "O cuidado com a verdade". Os dois eixos comuns. ser falante e ser trabalhador (As palavras e as coisas). agora como 'governar-se' a si próprio". 76. pois.últimas entrevistas.. M. Ibid. sem contudo escamotear suas diferenças: o primeiro momento interroga o que habitualmente se entende por "progresso do conhecimento". as semelhanças também existem. em resumo. compreender a reunião dos três momentos da trajetória de Foucault em um mesmo conjunto. in O Dossier . 76. Agora. já que por "problematização" deve-se entender "o conjunto de práticas discursivas ou não-discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e a constitui como objeto para o pensamento JJ21 . em todos eles. que o próprio Foucault faz questão de reconhecer.. F. tratava-se em suma de saber como se 'governava' os loucos. o segundo interroga o que habitualmente se entende por "poder". 18. simplesmente a trajetória de Michel Foucault l I 19 .. um mesmo propósito de base: escrever "a história das relações que o pensamento mantém com a verdade"18. E conclui apontando para aproximações: "São. ). num dado momento. Aliás. FOUCAULT. conduzindo à análise dos mecanismos de exercícios dos poderes relacionados à produção de saberes. 20.. in O Dossier.. como se problematiza a atividade sexual?.... quando reflete sobre si como ser vivo. tratavase de analisar as mudanças na problematização das relações entre delinqüência e castigo através de práticas penais e instituições penitenciárias no fim do século XVIII e no início do século XIX. o segundo tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres tem por título "As formas de problematização". "O cuidado com a verdade". Todos eles se direcionam a "problematizações". 76. finalmente. Aqui. parti do 'problema' que ela podia constituir num certo contexto social. da História da loucura à História da sexualidade: "A propósito da loucura. F. por sua vez ~ o propósito de fazer a história das relações entre pensamento e verdade e o ângulo das problematizações~. 12 (os títulos entre parênteses foram acrescentados por nós). parti do problema que o comportamento sexual podia colocar aos próprios indivíduos (. Primeiro. o terceiro momento interroga o que habitualmente 17. O uso dos prazeres.Mudanças. juntando sugestivamente as duas pontas de sua trajetória. Aliás. todos os escritos são sustentados por uma mesma pergunta de fundo: "Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a pensar quando se percebe como louco (A história da loucura). ••• A partir daqueles eixos de aproximação pode-se.20.últimas entrevistas.

"O retorno da moral". 24. é uma questão a que Merleau-Ponty dedica vários textos nos quais trata particularmente das relações entre a filosofia e as ciências humanas.se entende por "sujeito". do intelectual e que. M. outro étic023 . expõe a si próprio à mobilidade e dispõe-se constantemente a se recompor. in O Dossier. O uso dos prazeres. como se exprime o mesmo Foucault. foi republicado com o acréscimo de "Discussão" em Epistemologia das Ciências Sociais. e que constituiria a base do antagonismo ou da correlação entre o pensamento filosófico e a elaboração científica. enumerar os momentos dessa trajetória acent~ando as diferenças sem necessariamente perder suas conjunções: trata-se. São Paulo. 1984. 81. C. Educ. n. "o da verdade. 13. Basta evocar. em novembro de 1981. quer se lhe realce o conjunto. simplesmente 11 A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA Filosofia e/ou história?* A título de introdução. Posteriormente. 19. Foi publicado em Cadernos PUC. 71. quer se lhe acentuem os momentos.. por exemplo.. conduzindo à análise da "constituição de si mesmo como sujeito"22. ou trata-se. todas elas. F.. "Introdução". F. De todo modo. São Paulo. 13. Cf. EWALD. 22. Ou pode-se. em certas passagens. in O Dossierúltimas entrevistas.. que abala o habitual e que. "ser capaz permanentemente de se desprender de si mesmo"26. VERAS.25.que duvida do estabelecido. ou entre essência e experiência. M. o do poder e o da conduta individual"24. orgs. como indica um estudioso de Foucault. ou mesmo entre subjetividade e objetividade. em Belo Horizonte. "Introdução". de três campos ou continentes de reflexão. EWALD. 20 I Foucault. hoje. assim expressas: "Conseguir pensar algo que não seja o que se pensava antes. FOUCAULT. "Michel Foucault". outro político. 11. EducfCortez. eSCALA. lembremos um conhecido problema afrontado por Husserl e muitas vezes explorado por MerleauPonty. aproximações e diferenças compõem assim um tipo de pensamento . N. Série Cadernos pue. a filosofia como critica da cultura I 21 .últimas entrevistas. um mais marcadamente epistemológico. O uso dos prazeres. Esta. inversamente.. a reconstituição da trajetória desse pensamento. M.últimas entrevistas. G. 25.). "O cuidado com a verdade". Semelhanças e dessemelhanças. "pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê. comunicação apresentada no V Simpósio Nacional da Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF). F... BOGus. 23. Ibid. faz nela perceber a presença daqueles traços com que Foucault desenha o perfil. ele descreve como exigências. Ne* Este texto reproduz. Poderia receber ele formulações diversas. 27. por exemplo. Cf.a que se pode chamar filosofia . com algumas alterações. 26. in O Dossier . por isso mesmo. 1982. Éloge de la philosophie.. 129. de três ordens de problemas. L. A. Risumés de cours) como ainda os opúsculos Les sciences de l'hommeet la phénoménologie e Le métaphysique dans l'homme. B. como se sabe. porém. BARBEDElTE. n. contrapondo dois pólos ou dois termos: trata-se do antagonismo ou da correlação entre idéia e fato. Le philosophe et la sociologie.. 74. (FAVARETIO. ou ainda entre interioridade e exterioridade. FOUCAULT..27.

in Éloge de la philosophie et autres essais. 171. Em quase todos esses ensaios. se para Merleau-Poncy só "haverá história na medida em que houver uma lógica na contingência. resumir alguns aspectos de sua posição a respeito da filosofia e da história. 1973. elegendo. Saraiva. por um lado. in Éloge 137. numa verdadeira "guerra fria". in Éloge de la philosophie et au"tres essais. Uma história que se estreitasse a um relato empírico dos fatos sem buscar compreender-lhes a significação através do concurso da filosofia "não saberia.) Éloge de la philosophie. cremos. in Éloge. 171. 4. in Sens et non-sens.. 7. "Le métaphysique dans l'homme". Merleau-Ponry afirmará que é precisamente pela nossa inerência a uma determinada situação.. por outro. 1960. ou em "Le philosophe et la sociologie". 69. Mas a peculiaridade está. a história. a sociologia. M. 2. M. Nessa medida. pressupõem isolados entre si "o fato e o homem interior". Se nossa particularidade nos limita é também. ou bem o "mito da filosofia" ou bem a "idolatria da objetividade"5. entre uma filosofia que postula uma consciência fora do tempo. ao contrário. 45. e as '''filosofias da história'. simplesmente preensão de outras situações e de outras formações culturais. S. M. paradoxalmente.. 1968.les. Ciências do homem e fenomenologia. M. M. Em contrapartida.. a filosofia como critica da cultura I 23 . a submissão da história à força de uma lógica todo-poderosa e atemporal e. por exemplo. que podemos realizar o movimento de comL MERLEAu-PONTY. "Máteriaux pour une théorie de l'histoire". a sua redução a uma reunião de fatos circunstanciais e sem significação. Cf MERLEAU-PONTY. Merleau-Ponty rejeita certas alternativas que confundem ou falseiam O conceito de história e que fazem da filosofia e da história "tradições rivais"l. por um lado. 162. pela qual vivenciamos uma "co-existência histórica"?.. Paris. na trama histórica dos acontecimentos. para introduzir nosso estudo. in Résumés des Cours. e sobretudo 6. MERLEAU-PONTY. Interessa-nos. literalmente. por outro. in Sens et nonsens. Muchail. M. São Paulo. isto é. 43. retoma a questão desde onde Husserl a tinha levantado e a conduz na direção da superação do impasse. in Résumés de cours (ColJege de France). 1965. M. a psicologia. in Sens et non-sens. T. mas ainda mutuamente indispensáveis. seja uma "ilusão prospectiva". Não foi. 22 I Foucault. in Sensetnon-sens. Por exemplo. 9. reduzindo os fatos à imediatez de seu presente sem qualquer abertura para o futur0 3 • Ademais. 3.. 5. Assim. projetando as categorias de hoje na leitura do passado. em erros"s. 56. "Le métaphysique dans l'homme".43. inserem no curso das coisas uma lógica oculta". é claro.. as ciências da linguagem. a filosofia e. pela nossa inserção numa cultura particular. que impede. Merleau-Ponty atribuía assim certa inerência entre o trabalho do historiador e o do filósofo. trad. A idéia da "rivalidade" aparece igualmente em outros textos. MERLEAU-PONTY. "a história e o intemporal.. 112. MERLEAU-PONTY. em "Le métaphysique dans l'homme". MERLEAU-PONIT. Ibid. história e filosofia serão não apenas solidárias. Gallimard. Ibid. "Le philosophe et la sociologie". Não há que escolher. assim como uma filosofia que sobrevoasse os fatos "só desembocaria em verdades formais.. Nagel. o autot aborda aquela questão do ângulo das relações entre. uma razão na desrazão"9. 46. Cf MERLEAU-PONTY. "desligada de todo interesse pelo fato". Paris. 113-114. em que neste caso as relações não são tão sistemáticas a ponto de conduzir finalmente à anulação de uma sob o jugo da outra. do que ela fala". Paris. "Matériaux pour une théorie de l'histoire". 8. que. Primeiramente. "Le philosophe et la sociologie". pode-se completar que só haverá filosofia se os sentidos ou as verdades que ela busca forem procurados no seio do devir. a primeira nem a última vez que um pensador travou relações entre filosofia e história. como que a predeterminá-I02 • Alternativas deste teor podem incorporar seja uma "ilusão retrospectiva". "Le métaphysique dans l'homme".4. Ciências do homem e fenomenologia. 160. o único meio de acesso à compreensão de outras situações particulares com as quais podemos nos comunicar enquanto variantes da nossa6• Ou seja.61. é nossa experiência de sujeitos situados. Gallimard.

O que existe de incerto no que escrevi é certamente incerto (. eu sou apesar de tudo filósofo". "Não ao sexo rei". lhe é perguntado por que 'historiador' e não 'filósofo"'. M. pois ainda não estou muito seguro quanto ao que formulei (. a nosso ver.15. "Sobre a geografia". 12 Cf. Simplesmente não estou certo quanto ao que escreverei nos próximos volumes". escreve: "Não quis dizer . realçando porém que a questão da verdade que ele coloca é a de perscrutar "qual é sua história... parece abrir espaço para a possibilidade da eventual reunião das duas atividades numa mesma prática. FOUCAULT. in Microfisica do poder. não será porém artificioso afirmar que os escritos de Poucault têm a ver com a história e têm a ver com a filosofia.. 13 FOUCAULT. a filosofia como crítica da cultura I 25 . Não nos importa aqui reproduzi-las. É sempre difícil tentar encaixar os escritos de Michel Foucault em classificações estabelecidas do saber. 180. Ele próprio parece situar a si mesmo em ambas. se for da verdade que me ocupo.. ao que parece. 151.'Eis o que penso'. essencialmente.nem tão precisas que desfaçam certa ambigüidade a atravessar. Podemos dizer que Poucault escreve com segurança sobre suas próprias incertezas e toda vez que aborda o trajeto de sua produção é pata questionálo. Rio de Janeiro. conclui dizendo ser "este. Graal. rejeitando ao intelectual o papel de "conselheiro" na militância política e designando-lhe. ela rege nossos papéis. M. "Sobre a História da sexualidade". é essa certa ambigüidade que. 239. ). mas acentuar o lado francamente positivo dessa "resistência" à classificação. quando. 19'(9. em que sentido se poderia dizer que algo como uma crítica da cultura permeia esse trabalho. M.. por exemplo. ). Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever"lO. já mais claramente afirmará: "E mesmo que eu diga que não sou filósofo. durante uma entrevista. buscando desenhar seus traços eventualmente inalteráveis ou circunscrever características invariáveis. 243. como isso se entrelaça com as relações de poderJJ16 . Em outras passagens afirma o caráter parcial e ziguezagueante de suas investigações 12 . M. "Sobre a geografia". 15. FOUCAULT.. in Microfisica do poder. em seguida. 16.28. 2'-1 j Foucault. além de marcar uma postura fortemente anti dogmática.. Já no final da "Introdução" de A arqueologia do saber escrevera ele: "Não me perguntem quem sou e não me digam para permanecer o mesmo: isso é moral de estado civil. quais são seus efeitos. Gallimard.. M. "Soberania e disciplina". Noutra ocasião. 1969. 156. Quando. e org. tentemos ver como o próprio Foucault compreende seu trabalho enquanto filosofia e enquanto história e. depois de a ele referir-se como um "livro-programa tipo queijo gruyere. Não são poucas as vezes em que se refere a seu trabalho de historiador. A partir destas considerações iniciais. ao contrário. 14.. M. ao referir-se às mudanças ocorridas desde algum tem11 FOUCAULT. é executada nos escritos his- tórico-filosóficos de Michel Foucault.. de "jogo"ll. "Poder. E num debate a propósito do primeiro volume da História da sexualidade.Corpo". Ora. É que esses e~ritos assumem um caráter por assim dizer flutuante. in Microfisica do poder.13. Salvaguardadas estas observações. Paris. cheio de buracos para que neles possamos nos alojar". in Microfisica do poder. sua resposta indica que a questão da filosofia hoje não deixa de ser igualmente uma questão de história: "é a questão deste presente que é o que somos. L'Archélogie du savoir. incrod. Ver também 259. o papel do historiador"14. FOUCAULT. Noutra ainda.. in Microfisica do poder. chama-o de "discurso hipotético" e. FOUCAULT... E é essa a prática que. hoje. E 10 FOUCAULT. in Microfisica do poder. a função mais modesta de "fornecer os instrumentos de análise". que atesta uma evasão sadia em relação a todo dogmatismo. Questões dessa ordem são amplamente discutidas por estudiosos de Foucault. Ou ainda. mais de uma vez. justifica ter gostado de determinada entrevista pelo fato de ter mudado de opinião "entre o começo e o fim. o intercâmbio entre ambas. M. na prática. Por outro lado. 164. de Roberto Machado. após a observação de que "em muitos momentos você se definiu como historiador".

. 26 I Foucault. nesses casos. 65. a saber. "Resposta a uma questão". o tratamento dos textos na forma de "comentários". de histórias "evolutivas" ou "progressivas". in Microfúica do poder.. a dissolução da heterogeneidade. de algum modo salvase ao mesmo tempo a consciência como seu eixo: "Querer fazer da análise histórica o discurso do contínuo e fazer da consciência humana o assunto originário de todo devi r e de toda prática são as duas faces de um mesmo sistema de pensament. 20. Esses procedimentos têm em comum o uso da técnica que lhes é apropriada. Com efeito. "Não ao sexo rei". FOUCAULT. É basicamente a esses mesmos recursos que também se refere noutro texto.. quer encontrar "vestígios" que permitam traçar uma linha contínua. "consciência histórica" que se constitui em núcleo unificador ou centro originário capaz de reunir em si a explicação e. pois. como se os fatos fossem sempre uma espécie de "alegoria" a dizer outra coisa que não eles próprios!8. M. um "sentido 17. FOUCAULT. Trata-se sempre.). uma "história do espírito" é precisamente aquela que. que quer encontrar. filiações. da multiplicidade. Foucault faz ver que a história do Ocidente "não é dissociável da maneira pela qual a 'verdade' é produzida e assinala seus efeitos". Paris. São próprios às histórias "do espírito" e às histórias "globais". Naissance de la clinique. por meio de todo acontecimento. L'Archélogie du savoir. Tempo Brasileiro) 28. Ainda mais. a filosofia como critica da cultura I 27 . assegurando a linearidade do progresso. portanto. Ibid. parentescos. na dispersão dos fatos e documentos. 22. FOUCAULT. essas histórias salvaguardam a unidade soberana do sujeito. Mais ainda. Ao se salvar a linha segura da continuidade histórica. influências").. 1972. quando recusa a elaboração da história tanto por um método que procede pelo "recurso histórico-transcendental" (isto é. XIII.. Mas que história e que verdade? Ou melhor. esses procedimentos cunham a história com a marca unitária do contínuo e da sub}etividade. que quer "interpretar" as significações explícitas dos fatos objetivando fazer falar. as multiplicidades e as transformações. apontando assim em direção a um horizonte sempre longínquo e cada vez mais recuável) como por um método que procede pelo "recurso empírico ou psicológico" (isto é.po na escrita da história. uma direção única. O primeiro consiste em descrever uma história das idéias fundada em analogias estabelecidas pelo historiador. 1972.59. uma "história global" é precisamente aquela que. que filosofia e história se entrelaçam num mesmo trabalho que se pretende história da produção da "verdade".do poder próprio aos discursos aceitos como verdadeiros"!7. 21. de que tipo de história esse filósofo que se ocupa da verdade é hoje o historiador? Afastemos. 239-23l.. da dispersão. que expliquem. mediante a "decifração" dos textos. Ibid. quer desvelar a "consciência". quer no curso sucessivo do tempo (buscando detectar "gêneses. Cf. M. de modo uniforme e homogêneo. 19. quer no âmbito interno de uma época (buscando captar seu espírito. de toda manifestação histórica. PUF. as "intenções" ou o "espírito" que os teriam inspirado20 . por meio deles. simplesmente oculto" de que supostamente estariam carregadosr 9 . uma lógica escondida. deixando claro que é seu propósito fazer "a história da 'verdade' . Eis. O segundo consiste em buscar "interpretar" os fatos no sentido de encontrar como que por detrás deles suas razões mais secretas. as linhas de sua origem. de início. M. Préface. 18. sua Weltanschauung etc. FOUCAULT. que não pensam as "diferenças" mas "as continuidades ininterruptas JJ2 ! de uma teleologia segura. os traços de uma história que Foucault não elabora. Rio de Janeiro. capazes que seriam de trazer à luz a suposta origem e o suposto segredo que o discurso explícito implicitamente conteria. 21. M. 22.?JJ22. Já no Prefácio a O nascimento da clínica (1963) aponta dois recursos tradicionais que rejeita e chama-os de "estético" e "psicológico".

a filosofia como crítica da cultura I 29 . ela desvia o enfoque antropológico em direção aos discursos que compõem os saberes: "É isto que eu chamaria de genealogia.. L'Archéologie du savoir. de sorte que se antes a descontinuidade equivalia ao "impensável". todas as astúcias. A história tradicional. 9. in Microftsica do poder. Ibid. 28. ela se opõe. são histórias que. considerando "acidentais todas as peripécias que puderam ter acontecido. ao contrário. 25. essência única e sempre a mesma. as histórias que Foucault escreve são. em suas correlações. buscam antes "detectar a incidência das interrupções"24. ao contrário. dos domí27. 26. enfim reduzida. do tempo. o espaço de uma dispersão"26.. Segundo. uma história geral desdobraria.28. O deslocamento é explícito: "Uma descrição global encerra todos os fenômenos em torno de um centro único . Cahiers pour l'analyse. 10. espírito. "Nietzsche. 1968. 34.. A "história efetiva". reintroduz "o descontínuo em nosso próprio ser. com as práticas e as instituições sociais. Simplesmente história que nos permitiria nos reconhecermos em toda parte e dar a todos os deslocamentos passados a forma da reconciliação. Primeiro. FOVCAULT. À prática desse procedimento Foucault chamou primeiramente "arqueologia" e posteriormente "genealogia". contrapõe a genealogia compreendida como "história efetiva" (Wirkliche Historie) à história tradicional dos historiadores. FOUCAULT. cenário. Ibid. 17. pretende recuar ao reencontro de uma identidade enfim desvelada. a genealogia e a história". como o modo de seu uso. em suas transformações. o que existe é precisamente a multiplicidade de fisionomias. máscara. M. Ibid. no lugar de uma teleologia da continuidade e do progresso. ao contrário. teatro. 29. "reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado imortal no homem".m.. jogo etc. ibid. Ibid. Cf.. Seuil.Nem histórias do espírito. disfarce. M. quer em suas relações com o extradiscursivo. nem histórias globais. isto é. significação. Concomitantemente. Paris. isto é. não há por trás da trama histórica qualquer identidade pura de um sentido ou de uma essência.. ela recusa a identidade das origens e a segurança das teleologias: "A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profun- da do filósofo ao olhar de toupeira do cientista. visão do mundo. reporta a Nietzsche não só o termo "genealogia".. 31. ao contrário. todos os disfarces"29. FOUCAULT. M. 17. em sua perseguição da origem (Ursprung). I!. É interessante observar a freqüência no uso deste tipo de metáfora: carnaval. Faz ver que esta última "reintroduz (e supõe sempre) o ponto de vista supra-histórico: uma história que reria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma a diversidade. a genealogia. uma história que lançaria sobre o que está atrás dela um olhar de fim de mundo.. forma de conjunto. dos discursos. Ibid. 26. como tantas máscaras sob as quais não há um rosto a ser desmascarado: "A genealogia é um carnaval organizado"30.princípio. 24. isto é.. que por ser impensável devia ser suprimido e desintegrado mediante sua integração numa explicação continuísta. 19. as histórias que Foucault escreve desfocam a categoria da consciência e se voltam para as análises dos discursos considerados quer em suas correlações internas. 28 I Foucault. 30... passa agora a ser "um dos elementos fundamentais da análise histórica"25. bastidores. como ele mesmo as chama. cena. Nesse uso. "Réponse au Cercle d'épistémologie".23 entendidas como descrição dos fatos em sua singularidade de acontecimentos. Ela se opõe à pesquisa da 'origem"'31. ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. 27. Sem dúvida. Recolhamos estes traços da história praticada por Foucault na seleção de algumas passagens em que ele explicita o perfil da genealogia. 16. em seus desaparecimentos. Para a genealogia. uma 23. interdiscursivas. "histórias gerais. uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes.

mas colocar a questão: como é possível que se tenha. ela não está preocupada com o "progresso": "Tenho esta precaução de método. FOUCAULT. seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos. E essa estratégia se aloja no ponto de cruzamento entre a questão da verdade e os mecanismos do poder. Afinal. 3-4. Ao contrário. esta rapidez e esta amplitude são apenas o sinal de outras coisas: uma modificação nas regras de formação dos enunciados aceitos como cientificamente verdadeiros"35. Isto me deixa pasmado (. ter em relação a nós mesmos.. Foucault restringe a região de seus estudos: entre os discursos. simplesmente conferida ao entendimento e à escrita da história. Essa escolha é. não se trata pura e simplesmente de efetuar substituições de algum modo arbitrárias: a continuidade pela descontinuidade. 7. ocupar-se. em certos momentos e em certas ordens do saber. ). Isto é. 140. seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história"32. a genealogia e a história". forças que "no jogo da história não obedecem nem a uma destinação. este ceticismo que impede que se suponha que tudo isto é melhor ou que é mais do que o passado (. "Sobre a prisão". Ouçamo-lo mais uma vez: "Uma edição do Petit Larousse que acaba de sair diz: 'Foucault: um filósofo que funda sua teoria da história na descontinuidade'.. 34. teleologias.. estamos nela e nela ficamos. Com efeito. )"34.. in Microfoica do poder. Ora.. a linearidade pela diferença. Meu problema não foi absolutamente dizer: viva a descontinuidade. M. sujeito constituinte e progresso evolutivo. ao aqui e agora. "Verdade e poder". 30 ! Foucault. Por um lado. é precisamente a eleição. a nosso presente. para domínio da investigação histórica.. 28.. nem de trocar o núcleo "consciência" por outro chamado "discursos". mas uma relação de forças". estas transformações que não correspondem à imagem tranqüila e continuísta que normalmente se faz? Mas o importante em tais mudanças não é se serão rápidas ou de grande amplitude... longe de ser inocente. ou melhor. mas descrever e 35. 33. ao que somos. a uniformidade pela dispersão. essa orientação 32. nem a uma mecânica. FOUCAULT.33. M. O problema é 'como isto se passa?'.. "Nierzsche. a filosofia como crítica da cultura j 31 . sem dúvida. despida de origens. in Microfisica do poder. um reino. por que tantas "inversões"? Com efeito. FOUCAULT. "não uma decisão. entendendo-se por "acontecimento".. ao privilegiar os acontecimentos discursivos como campo de análise. aqueles que são reconhecidos como científicos e. com a questão da verdade significa aqui não ir em busca de uma essência a ser descoberta. E não digo que a humanidade não progrida. Finalmente. FOUCAULT. estas mudanças bruscas. enquanto filósofo. acaso do jogo que "não é simples sorteio". e daí à compreensão do que chamamos seu comprometimento crítico com a cultura. ). ou melhor elucidado do que o que se passou antes. M. a genealogia descreve uma história marcada pela descontinuidade dos acontecimentos. os que compõem a região mais cambiante e imprecisa que é constituída pelos saberes das chamadas ciências humanas. daquilo que é aceito "como cientificamente verdadeiro" que nos encaminha à abordagem dos vínculos dessa história com a questão da verdade enquanto assunto da filosofia. um tratado. M. Terceiro. este ceticismo radical mas sem agressividade que se dá por princípio não tomar o ponto em que nos encontramos por final de um progresso que nos caberia reconstituir com precisão na história. mas ao acaso da luta". ou uma batalha. uma estratégia. in Microfisica do poder. E o que se passa agora não é forçosamente melhor. sem ter que se referir a um sujeito. "Verdade e poder".nios de objeto etc. Digo que considero um mau método colocar o problema 'por que progredimos?'. Mas a prática deste procedimento na escrita da história não é também movida ao acaso de um capricho.. entre estes. estas precipitações de evolução. ou mais elaborado. in Microftsica do poder. funciona como uma "estratégia" porque calcada num comprometimento crítico com pretensões a uma eficácia política. mas antes "risco sempre renovado (.

Ibid. descreve. Busca.). do delinqüente etc. o normal e o patológico etc. dissociando assim o sujeito do conhecimento que "possui a verdade" de seus "objetos" que "nada sabem". revelando os mecanismos correlatos de exclusão. "Soberania e disciplina". de enclausuramento e de redução ao silêncio. 170. 172.regras que são transformáveis de uma sociedade para outra. 142. essa competência lhes atribui. faz emergir. M. FOUCAULT. atribuindo ao sujeito detentor do conhecimento sobre o homem a "competência" que autoriza o domínio de seus "objetos". in Microfísica do poder. 154. conteúdos históricos que evidenciam o poder na forma da disciplina etc. e ao mesmo tempo. Por outro lado. E posto que é a região das chamadas ciências humanas a que melhor ou mais claramente permite fazer ver aquele entrelaçamento entre regime de verdade e regime de poder. a história da Desrazão e do Outro. trata-se. de instituições. conteúdos históricos que foram subestimados ou silenciados pelo saber "qualificado" das histórias tradicionais: mostra. enquanto filósofo. do doente. ocupando-se da análise das relações entre saber e poder que. é aliada da recuperação de saberes considerados "ingênuos. l. de uma época para a outra . abriga "combates.) "Genealogia e poder". a genealogia pretende constituir-se em foco de crítica e em instrumento de resistência. Quer propor "um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais. in Microfísica do poder.40. M. 171. precisamente. mediados pela verdade. Por outro lado. daquele estabelecimento do jogo de regras . 32 I Foucault. pontos de confronto. "Sobre a geografia".. torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico. por exemplo. inversamente. "Sobre a prisão". FOUCAULT. recuperar.)". Simplesmente Nesse sentido pois. "Verdade e poder". posto que em nossas sociedades ocidentais são os discursos reconhecidos como científicos os que compõem os saberes aceitos como verdadeiros. pela análise do nascimento das prisões. hierarquicamente inferiores. mutuamente se produzem e se reproduzem. FOUCAULT.. Ibid. "A genealogia seria portanto.. do enfermeiro. com a questão da verdade encarada segundo seus modos históricos de produção é ocupar-se também do vínculo circular que ela mantém com os modos de exercício do poder: "o exercício do poder cria perpetuamente saber e. 36. 38.. saberes abaixo do nível da cientificidade" (por exemplo. por um lado. tensões"39. é sobre ela que vai particularmente recair a invesrlgação. 39. 42. que tipo de poder é capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos?. por seu turno.. de que modo a pretensão ao estatuto científico dos saberes sobre o homem lhes imprime as marcas do exercício do poder. o nível das 40. se a "verdade" é "efeito" do poder das regras segundo as quais determinados saberes têm a competência para a verdade.. FOUCAULT. a filosofia como critica da cultura I 33 . 41.que autoriza a qualificação de objetos.. com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na hierarquia de poderes próprios à ciência. é desses saberes que tratará a genealogia. 37. ocupar-se. podemos dizer que. M. unitário.analisar os modos como a "verdade" vem sendo historicamente produzida."42 Mais ainda: lembremos que enquanto a arqueologia pretendia realçar principalmente as epistémes) isto é. in Microfisica do poder. em face das histórias da Razão e do mesmo. Assim. M. E isso duplamente. linhas de força. FOUCAULT. os direitos de uso do poder (em seu nome se distingue não só o verdadeiro e o falso. para a produção de saberes reconhecíveis como verdadeiros. in Microfísica do poder. M. in Microfísica do poder. o saber acarreta efeitos de poder"36. isto é. num trabalho que exige paciência e erudição..37 Ora. 179. um empreendimento para libertar a sujeição dos saberes históricos. o correto e o errado. de sujeitos. Eis a pergunta de "filosofia política" que Foucault se coloca: "Em uma sociedade como a nossa. na medida em que ela envolve saberes cujo "perfil epistemológico". como o permitido e o interditado. formal e científico. por ser "pouco definido"38.

"Genealogia e poder". ao estabelecer a história da constituição dos saberes explicitando seu vínculo com exercícios do poder. a genealogia os considera como peças nas tramas de uma rede . poderíamos considerar "cultura". "Le métaphysique dans l'homme"..'TY. além de avessas a qualquer aspiração de universalidade... Cf. Éloge . (saber". nem nos diferentes ângulos sob os quais pode ser abordado e.."48 Essa mobilidade que é constitutiva da postura mesma das investigações de Foucault vem confirmar aquela distância de quaisquer dogmatismos a que inicialmente nos referíamos. como o saber disciplinar trazia consigo o modelo da prisão. Entende-se assim que. assumem. de um modo tão geral quanto simples. 16l. aquela simultaneidade entre 46. J a filosofia como crítica da cultura I 35 . nem.por ele chamada de "dispositivo" . a genealogia têm por objetivo fundar uma ciência. MERLEAU-POl\. 59. Ora. Ver também. «nem a arqueologia. 49.45. a crítica tem um caráter local e específico 46 • Em oposição ao teórico "legislador".. menos ainda. esse trab~lho filosófico de constituição de 43.. in Microfisica do poder. essa crítica da cultura. M. FOUCAULT. Cf. 45. a respeito da filosofia e da história. E permite que reencontremos. escreve Roberto Machado. 11. Assim. por exemplo. Foucault não rejeita a afirmação que lhe é dirigida por um entrevistador: "Você mostrou como o saber psiquiátrico trazia consigo. Gallimard. XIII.correlações interdiscursivas. FOUCAULT. 1966. 242.. contudo. 44. É nesse sentido que não nos parece abusivo reconhecer nos trabalhos históricofilosóficos de Foucaulr algo a que poderíamos chamar uma crítica da cultura ou. M. "Os intelectuais e o poder". MACHADO R. Lê-se.. nas muitas questões que suscita. Surveiller et punir. construir uma teoria ou se constituir como sistema: o programa que elas formulam é o de realizar análises fragmentárias e transformáveis. Paris. As histórias que Foucault escreve. 47. simplesmente um "saber histórico das lutas" é. Daí o cuidado insistente de Fou- caulr em não se vir a rransformar a análise realizada pelas genealogias em outro saber centralizador ou monopolizador da "verdade" e. ele próprio. Foucault sonha "com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades"47.. in Microfísica do poder. exigia a reclu- são asilar. falar. sobretudo. finalmente. "Neste sentido".276. o conjunto de saberes teóricos e de práticas sociais que compõem o quadro em que se move uma determinada sociedade e cujos limites lhe demarcam as possibilidades de "nomear. Gallimard. .. da cultura "qualificada". Les Mots et les choses. E. in Sens et non·sens 158. a genealogia se dirige não somente ou sobretudo aos discursos. pensar. "Não ao sexo rei". "Sobre a geografia". sem entrarmos na pluralidade possível de acepções que podem ser cobertas pelo termo "cultura". pelo menos. in Microfísica do poder. M. como ainda a suas relações com as estruturas sociais. M. FOUCAULT.que envolve tanto as inter-relações dos saberes como suas articulações com as práticas institucionais. Préface. É aliás numa concepção assim bem ampla que o termo é freqüentemente usado neste Prefácio. pressupunha. Paris. Do mesmo teor... numa passagem de Vigiar e punir: "O sistema carceral reúne numa mesma figura discursos e arquiteturas. habilitado para o poder. 34 I Foucau!t.. alguns aspectos que apontávamos em nossas primeiras considerações em torno de Merleau-Ponty. "Introdução". na prática. regulamentos coercitivos e proposições científicas . in Microfísica .43.. a medicina de Bichat o espaço do Hospital e a economia política a estrutura da fábrica"44. . não há que se esquecer que. Recusando a alternativa entre uma história atravessada por um sentido teleológico e uma história desprovida de sentido porque concebida como um conglomerado de fatos. Merleau-Ponty recusava igualmente tanto a ininteligibilidade da história como as pretensões "de uma História Universal inteiramente desdobrada diante do historiador como o seria sob o olhar de Deus. em oposição às teorias gerais e globalizantes. E pelo menos dois aspectos. 48.49. bem como das relações entre ambas. partícipe da "história" e da "cultura". portanto. principalmente "Verdade e poder". 1975.

. de um conhecimento sem ponto de vista. o momento em que eles estão. olha-a criticamente. de certa maneira. nem "ilusão prospectiva". ele próprio. org.uLT. Comecemos. Merleau-Ponty se opunha ('ao ideal de um espectador absoluto. pois. o lugar de onde eles olham. "sabe que é perspectivo". FOUCAULT.. o uso dos prazeres. 13. há que se dispor. de dizer sim ou não". M. apagar o que pode revelar. Ao contrário. agora. FOUCA. As histórias que escreve desenvolvem-se no espaço do Ocidente. Conferência apresentada na VII Semana de Estudos em Filosofia da Universidade Metodista de Piracicaba. se provoca deslocamentos. 50. mas segundo a inteligibilidade das lutas. mas a olha de dentro dela. eis como Foucault (na descrição da genealogia nietzschiana) caracteriza a história: os historiadores que perseguem a neutra objetividade de uma consciência isenta e soberana "procuram. afirmando que é pela inerência a uma situação histórica particular que podemos compreender a significação de outras situações que compõem a trama da história. 1995. e conseqüentemente. e tanto quanto possível. in Microfísica do poder.. a deslocar-se. 36 I Foucault. MERLEAu-PONTY. o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida nos quais a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa. "Verdade e poder". e perceber diferentemente do que se vê. 30. partindo de uma ilustração que está nas primeiras . in Éloge. Segundo. M. é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes.a ausência de um sentido único e a presença de inteligibilidade. ao contrário. in Microfoica do poder. o mesmo e o outro j 37 . M.. Simplesmente 111 O MESMO E O OUTRO Faces da história da loucura* De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não. e se saber assim.. Afinal. e o tempo que percorrem é quase sempre aquele que vai desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). Piracicaba. em seu saber. o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. 136. com o propósito deliberado de apreciar. Unimep. por propô-la. É possível sugerir que a questão que.o incontrolável de sua paixão". genericamente. elaborado a partir da cultura que o torna possível.). Por ser "perspectivo".. M. 52. M. Publicaclaem Foucault e a destruição das evidências (MARlGUELA. e justamente por isso é também visado por seu mesmo olhar crítico. 5. porém. é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. das táticas"50. na medida do possível. atravessando com realce a chamada Idade Clássica (séculos XVII e XVIII). em agosto de 1994. "Saber perspectivo". "Le philosophe et la sociologie".. . já o "saber perspectivo". de sorte que. das estratégias.. 51. conduzindo este aparente paradoxo a uma nova direção: "A história não tem 'sentido'. FOUCAULT. "olha de um determinado ângulo.51. Foucault faz filosofia fazendo pesquisa histórica. a genealogia e a história". "Nieczsche. podemos denominar "do outro e do mesmo" se estenda como um pano de fundo dessas histórias. nem "ilusão retrospectiva". o partido que eles tomam . "é um olhar que sabe tanto de onde olha como o que olha"52.

6. 11. dependem de um espaço homogêneo e comum dentro do qual somente ou sobre o qual as coisas possam ser localizáveis e ordenáveis. a nós. a estranheza dessa classificação 4 . P. porém. c) domesticados. precisamente porque ameaçador. substancial e minuciosamente.. Trara-se da reromada de uma classificação dos animais. se dedicam as mais de 600 páginas do livro em suas três partes (as duas primeiras ocupando-se da Idade Clássica e a terceira da nossa Modernidade). 1982 (cf. a limita por dentro. pensar" podem ser analisadas em torno de três termos: ordem) lugar. é a justaposição desse e (ordem). Segundo esta classificação. Mas. 1966. o mesmo e o outro I 39 . in O homem e o discurso (A arqueologia de Michel Foucault). M. 15. antes. Para uma reconstituição mais completa do livro. 38 I Foucau!t.páginas do Prefácio de As palavras e as coisas. há uma ordem que.cuja vertente institucional é o Asilo . nomeável. falar. 8. FOUCAULT. Ibid. Ibid. parecem impossíveis de "nomear. Rio de Janeiro. 2. repousa sobre outro espaço: "A China . Com efeito. de Janeiro. Borges.. A estranheza da ordem está em sua articulação com a ausência de lugar capaz de permitir a reunião das classes e sua ordenação. 3. S. aquela classificação de animais 1. Gallimard.. Estranheza. Rio. porém. Tempo Brasileiro. 7. Nossa exposição pretende tão-somente retraçar. desse em (lugar) e desse sobre (espaço) que instaura. m) que acabam de quebrar a bilha. I) et cetera. a ser. para nós. supostamente extraída de uma enciclopédia chinesa. dizível portanto -. d) leitões.e à experiência moderna . história "daquilo que para uma cultura é ao mesmo tempo interior e estranho. R. por assim dizer. i) que se agitam como loucos. naquela classificação. simplesmente não é. excluído (para conjurar-lhe o perigo interior). é esta ordem que ali parece não "caber".. aquilo que a circunda por fora e lhe escapa. j) inumeráveis..2. porém (para reduzir-lhe a alteridade)"6. k) desenhados com um pincel fino de pêlo de camelo. Assim. parece vincular a seqüência das classes nela reunidas. Graal. Ora. diferença que lhe é inclusa. "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador. pensar. pode-se também entender o "outro" em seu sentido estrito: aquilo que.pensável.. a descrição da experiência da loucura durante o período renascentista ocupa não mais que as 55 páginas do capítulo inicial. 9. dizê-las. a possibilidade e a impossibilidade de "nomear. Ibid. não é justamente o lugar privilegiado do espaço?JJ5 Eis o "outro" em seu sentido mais amplo: limite de pensamento e de linguagem para uma cultura. marcando de impossibilidade o em (lugar) onde se repartem as coisas enumeradas"3. mas constantemente ameaçado de submissão aos critérios do "mesmo". Ibid. "ausente" de espaço. 7. portanto. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Michel Foucault. É nesse sentido que a História da loucura é uma história do "outro": história daquilo que pertence à nossa cultura .. a série alfabética. alguns aspectos dessa história7 • No conjunto do livro. a saber. 4. 10..es mots et les choses. Paris. falar. "Préface". espaço. Afinal. 1971. espaço que torna possível nomeá-las. leia-se MACHADO. Ibid. estranho e exterior..que. Nas pretensões reduzidas desta exposição 5. "Arqueologia da percepção".cuja vertente institucional é o Hospital Geral . ainda que meramente alfabética: "O absurdo arruína o e (ordem) da enumeração. e) sereias. de dentro dos quadros de uma cultura.. citada por Jorge L. 57-95). pensá-las. simultaneamente. f) fabulosos. Também ROUANET. h) incluídos na presente classificação. "A gramática do homicídio". em resumo. simultaneamente interna e estrangeira. Mas. I. n) que de longe parecem moscasJ1 1. É à experiência clássica . g) cães em liberdade.. justamente. Ordem e lugar. Esta classificação reúne de modo incongruente categorias sem nexo que. encerrando-o. a partir daí. para nós.. b) embalsamados.

as "estruturas" e as "formas"ll que. a Nau dos loucos guardava uma singular peculiaridade: a de existir realmente. 2 a ed. 15. 19.d. a lepra não era experimentada como "assunto médico". escolhemos tratar os três períodos em proporções diversas às do livro.15. purificava: "O pecador que abandona o leproso à sua porta abre-lhe a salvação. 9. expulsos das cidades. Para Foucault. 16. numa existência "errante"14..e para outros personagens. assumirá. A lepra regride. o mesmo e o outro I 41 . 19.d.. a ser "suprimida" e "curada". antes por força da segregação dos leprosos (e. Água e navegação cumprem. começa o esvaziamento daquelas casas de "exclusão" e "purificação"s que se haviam multiplicado às portas das cidades medievais: os leprosários. De fato. como também a Nau dos loucos. peregrinos ou marinheiros. para outras instituições . Assim. portanto. M. nos limiares do Renascimento (por volta dos fins do século XIV). ••• Leprosários e navios Ao término da Idade Média. do contágio) e do final das Cruzadas (e. Por isso mesmo.d. a recomposição dessas "facetas" será organizada em dois tópicos ou subi tens. Assim. sacralizava. de certo modo. no decurso de uma longa sucessão histórica. a Nau dos principes e das batalhas de nobreza. simultaneamente.d.. Ib. "tipos sociais" cuja viagem simbolizava seu "destino" ou sua "verdade"I3. reclusão e salvação serão transpostas. em meio a essa onda literária e pictórica. Ib. Entre eles. do contato com focos de infecção do Oriente). ou seja. Porém. simultaneamente. títulos de obras literárias incluíam. Contudo. 13. e evitando o risco de um resumo por demais empobrecedor. Era. portanto. Com efeito. o louco. no chamado período renascentista (por volta dos séculos XV a XVII). rito que segregava e.. Ia. a loucura. séculos mais tarde. circulará sem posição fixa. Era freqüente nas composições literárias e pictóricas do Renascimento a imagem de navios que transportavam "heróis imaginários". 40 I Foucault.. Ib. Ib. estão vinculados à instituição do leprosário e ao personagem do leproso vão persistir. 18. Mas. numa sucessão histórica longa. 1972. os loucos vagavam. a Nau das damas virtuosas. a figura da nau carrega o simbolismo da água que purifica e da navegação que é passagem. os "valores" e as "imagens"lO. du8. Gallimard. o gesto ritual da cisão. entregues a mercadores. "modelos éticos". 13. 16. 16. Historie de la falie à l'âge classique.. no intermédio entre o final da Idade Média e o início da Idade Clássica. antes. Requeria... Por motivos análogos. porém.. Ib. 15. uma espécie de testemunho do mal ao mesmo tempo que de sua expiação.9. não como resultado de práticas médicas. gesto que excluía e.d. pois. Ib. segregação e sacralidade.d. Paris. FOUCAULT.. esse "gesto que expulsa" está próximo do "rito. na chamada Idade Clássica. cerca de dois séculos mais tarde (por volta da segunda metade do século XVII e no século XVIII). exclusão e purificação. ou melhor. Ib. uma espécie de papel de herdeira da lepra!'. isto é. a abordagem da Idade Clássica e da Modernidade será apenas pautada em algumas passagens em que o próprio Foucault fornece descrições mais amplas desses dois momentos. por exemplo. A lepra regride. Simplesmente rante a Idade Média. o papel de manter o louco como "prisioneiro em meio à mais livre e mais aberta das rotas: solidame~te preso 12.d.muitas vezes nos mesmos lugares que antes abrigavam os leprosos . 14. 11. ela ocupará outra posição. Antes disso. os leprosários se esvaziam.pincelar algumas faces ou facetas da história desse "outro" que é a loucura no Ocidente -. assim..

fascinante e cósmico. o banimento da loucura do caminho que conduz à certeza22 • A 19.. essa ocultação jamais abolirá inteiramente a experiência do trágico: "esse desaparecimento não é uma derrocada"l9. no curso da história. a predominância do saber crítico sobre o trágico.' '. a loucura aparece como motivo de sátira ou de escárnio. de Erasmo.16. a partir dela. assinala o fim da experiência renascentista. Não mais vagará: "Ei-la amarrada. em Descartes são incorporados os erros dos sentidos e a ilusão dos sonhos.' . t:. Bosch. que mostram a bestia- humanas. isto é. mas. . a "ironia da crítica". 18. na palavra: ali. teólogos etc. Enquanto em Montaigne a loucura é incorporada ao caminho que conduz à verdade. no verbo. de tal modo que. impregnadas de um saber hermético que anuncia a ameaça da desordem e do fim do mundo e ao qual só os loucos têm acesso. 20. irônico e moral. malgrado o predomínio cada vez maior do racional. com Montaigne. mas a loucura é excluída. internalizada. 22. humano-animalescas. Goya. 53. a presunção dos sábios (O Elogio da loucura. mas hospital"21. como que "às escondidas" e "em vigí- lidade presente no coração do homem. o prisioneiro da Passagem. Bosch. Sade são alguns exemplos desses pressentimentos e testemunhos). o trágico da loucura subsistirá na obscuridade. no texto. O mastro da Nau dos Loucos de].39. reserva. 34. Entre as expressões pictóricas incluem-se obras de]. 21. Montaigne. não mais como detentora dos segredos ocultos do cosmos. solidamente. obras de Brant. e Montaigne sugere que loucura é fiar-se apenas na razão ls . Ao mesmo tempo. num deslocamento que vai da Nau ao Hospital. mas é também árvore "moral" do bem e do mal. torna-se "familiar" em um mundo que lhe é "estranhamente hospitaleiro"20. a crítica à presunção da razão. poetas. marcando o domínio da razão sobre a loucura. Nos séculos seguintes e até hoje. 42 1 Foucault. Bosch é a figura da árvore: árvore proibida da sabedoria à qual só os loucos têm acesso. uma experiência que envolvia duas vertentes simultâneas: um lado trágico. Mas. mas como mal e fraqueza humanos. porém. um lado crítico. prioritária no texto. escritores. FOUCAULT...). entre as expressões lingüísticas. por exemplo. ocupa cada vez mais o primeiro plano na experiência da loucura. Ibid. Dürer. A ironia crítica. os caminhos que conduzirão à experiência moderna da loucura. 22. deixando na sombra o silêncio verbal e fascinante das imagens trágicas carregadas de forças cósmicas. abrindo o limiar da Idade Clássica e. filósofos. um largo lugar para homens de saber" .. simbolizadas pictórica e literariamente. observa Foucault. Ele é o Passageiro por excelência. o mesmo e o outro . Ibid. Historie de la folie . Gradativamente. com Descartes. como que "nas noites dos pensamentos e dos sonhos". 54-55. que transparece sobretudo nas composições literárias e filosóficas. Retida e mantida..""" L __ ":iJt" I 43 '. voltada para a racionalidade e a moralidade 16... no verbo. na palavra. Não mais nau. "na ronda de loucos. certamente se entrecruzam: há temas morais nos quadros de]. A ambigüidade dessa simbologia corresponde à ambigüidade da experiência renascentista da loucura. Sem dúvida. os dois pólos se distanciam e o elemento crítico ganha relevo sobre o trágico. lia". a presença subterrânea do trágico será pressentida e testemunhada como que em erupções esporádicas (Nietzsche. jurisconsultos. Erasmo.gramáticos. Não mais. no meio das coisas e das pessoas. Brueghel. 17. do Hospital ao Asilo.l? As duas vertentes da experiência renascentista da loucura. a avareza dos ricos. Ibid.à infinita encruzilhada. Ibid. Van Gogh. de onde nascem a ambição dos políticos.. M. simplesmente Hospitais e asilos No começo do século XVII a loucura adentrou os muros da cidade. O "fascínio do trágico" transparece sobretudo nas imagens pictóricas: são figuras fantásticas. Artaud.

44 I Foucault. mas da alienação e da doença mental: "anexando ao domínio da desrazão. correcionários. 1I9. desrazão que. os traços que marcavam os diferentes grupos com que até então se avizinhava. v~gabundos. são fundadas instituições para o internamento. devassos. de dentro dele. naquele gesto que produzira a alienação. pródigos. isto é. No século XVII são fundados os Hospitais Gerais que constituem a estrutura visível e a forma institucional da cisão entre razão e desrazão. blasfemadores. O leprosário não tinha um sentido apenas médico. localizados. sociais. tornados "presença concreta" no horizonte de uma «realidade social" que demarca explicitamente a cisura entre a razão e a desrazã0 26 • É lá. numa esfera que será não mais da desrazão. "asilada". O Hospital Geral de Paris. Os "novos personagens" que ocupam esses estabelecimentoS são apresentados em diversas passagens e em listagens mais ou menos longas. cabeças alienadas. Ibid. E. cuja expressão institucional foi o internamento. porém. é lá. os Hospitais Gerais. Como em Paris. mais pressentida que percebida. jovens que perturbam o repouso da família ou dilapidam seus bens. Ibid. alquimistas. Ibid. que a loucura poderá. religiosas. pais dissipadores. por exemplo. libertinos. "homens de des- razão"24. as liberdades do pensamento e do coração. se transmutará em doença mental. antes destinada a recolher inválidos de guerra).. ainda que incluíssem visitas médicas em seu sistema de funcionamento. enfermos. os hóspedes do Hospital Geral são instalados. nesse espaço aberto pelo classicismo. ou a Bicêtre. É porque já "distanciada". filhos ingratos... que a loucura será mais tarde "destacada". enfim. podem ser assim identificados: pobres. que antes abrigava um arsenal. 117. homossexuais. por decreto real sob Luís XIV. na Modernidade. 23. assim como os leprosários. muitas outras funções eram desempenhadas neste gesto de banimento que abria espaços malditos. Demarcada por oposição à razão. também. o mesmo e o outro I 4S . agrupava em uma única administração estabelecimentos já existentes com fins diversificados (como. Diferentemente dos viajantes das naus renascentistas. II 7. o classicismo formava uma experiência mo24. desem- pregados.. transportando consigo. o lugar deixado vazio por estes foi ocupado por personagens novos no mundo europeu: são os 'internados'. "isolada" e. que "alienara" a desrazão. O gesto que interna não é mais simples: ele também tem significações políticas. já segregada. portadores de doenças venéreas. ser "separada" como objeto possível de conhecimento. as proibições sexuais. a Salpêtriere.. que data de 1656. prostitutas. na Inglaterra. insensatos. espíritos transtornados . ao lado da loucura. séculos mais tarde. que segregara. os "novos proscritos da Idade Clássica carregam os estigmas mais secretos da desrazão"25. pretensas feiticeiras e. Sua condição de possibilidade encontra-se lá. Ibid.>23. a loucura é transformada em desrazão. simplEsmente suicidas. em toda a França. para os tempos da Modernidade. que eram "portadores do visível brasão do mal". Numa palavra.desordem irracional do trágico submete-se à ordem do racional.. não tinham propósito terapêutico: "O classicismo inventou o internamento um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos. A designação posterior e moderna da loucura como alienação e depois como doença mental não será o resultado direto de uma espécie de progresso do conhecimento. 64. que colocara a distância. econômicas. Diferentemente dos leprosos da Idade Média. Com base nessas várias referências. mágicos. que vagando por toda parte eram uma presença igualmente "vaga". morais. na Alemanha. "individualizada". entre outros. 25. 26. muitas delas estabelecidas nos antigos leprosários. as interdições religiosas.

46 Ibid. Bethlém em Londres. 121. 29. 30. 146. liberada das "velhas participações religiosas e éticas em que a Idade Média a tomava. sua verdade de sempre. além dos Hospitais Gerais. uma leitura histórica simplista veria na hospitalização comum os indícios de uma espécie de progresso rumo à Modernidade. ela passou pelo internamento do período classicista. portanto. Essa leitura simples seria plausível se Os fatos fossem simples. calcada na repartição entre razão e desrazão e misturando indiscriminadamente os insensatos aos demais grupos "associais" . no fundo.31. e não o inverso.30) eximido..2B. embora em número extremamente menor. I Foucault. 31. o mesmo e o outro I 47 .não o esqueçamos ..... é lá . 28. não sem antes se vangloriarem de os ter libertado"32. Em outras palavras: o "alienado" será reconhecido simultaneamente como "incapaz e como louco"34. Ibid. Ora.. quando. não se pode pretender simplesmente que a loucura será um dia tornada "objeto" de conhecimento por ter sido. sobre o solo da experiência classicista da loucura. sua essência imutável. Ibid. Ibid..33.. se internavam loucos com perspectivas de tratamento e de cura. porque só alcançada no propósito inicial de uma condenação"27. perfaz ele uma aparência de neutralidade que já é comprometida. de solo para o nosso conhecimento 'científico' da doença mental. então. 144. mas o resíduo ainda de uma percepção medieval e renascentista em que a individualidade do louco era de algum modo reconhecida. ainda que vagamente. em que as perspectivas eram antes de correção) castigo e repressão. Ibid. mas como prática social.entre a Idade Média e o Renascimento até a nossa Modernidade. inclusive do ponto de vista cronológico. antes "justapostas". 147. É que. comprometido. no caminho desse percurso histórico é possível compreender como a transformação que se operará a partir do final do século XVIII e do início do século XIX. por essa dessacralização. onde. Ibid. havia também hospitais comuns (Hôtel-Dieu em Paris. Nos hospitais comuns. consistirá numa espécie de junção entre suas duas vertentes. Antes de se tornar ~'objeto" de conhecimento e ser configurada como patologia. de modo que a experiência mais ampla e relevante da loucura foi seu internamento não Como procedimento médico. durante a Idade Clássica.que os deixarão. então. simplesmente sabilidades sociais. ela inverte-lhes a ordem e a prioridade. da Idade Clássica foi justamente a transposição dos loucos das casas de cura para as casas de correção. que. escreve Foucault. lbid. Assim. as decisões procediam de julgamentos médicos e o louco tinha um estatuto de "sujeito juridicamente incapaZ. na verdade.ral da desrazão que serve. 33. de respon27. serão depois "superpostas..a experiência clássica da loucura não foi uniforme. as decisões competiam às autoridades sociais (magistrados. pois. polícia) e o louco tinha o estatuto de "sujeito social") perturbador da ordem. não foi avanço rumo à Modernidade. 119.. "encontrarão os loucos. com "as vizinhanças da culpabilidade. A hospitalização individualizada do louco nos hospitais comuns. 119. Uma leitura histórica simplista e linear poderia talvez prevalecer-se do fato de que durante esses 150 anos . "Ê entre os muros do internamento que Pinel e a psiquiatria do século XIX". Ibid. 34. Por esse distanciamento. 59.. mas em seu exílio e em seu silêncio: "Não é importante para a nossa cultura que a desrazão só tenha podido tomar-se objeto de conhecimento na medida em que previamente foi objeto de ex-comunicação?"29.. 146. diferentemente das casas de internamento. O fato "novo". Com efeito. bispos. Nas casas de internamento. 32. por exemplo). se reconheceria na loucura a doença. e o internamento não consistiu numa forma possível de "conhecimento" da loucura.

149.denominar-se-á "doença mental" essa união entre o fato de uma incapacidade jurídica do indivíduo e o fato de um distúrbio que afeta a vida social. o surgimento das chamadas ciências humanas. 1982.. 1. 102-103. cujas verdades são historicamente produzidas e variadas. simolesmente * Comunicação apresentada por ocasião da "Semana de Educação".. Em palavras simples: '''a loucura não é um fato da natureza' mas um fato da civilização"36. n. em seu todo. E sua história a mostra como tantas faces que figuram o "outro" no interior do "mesmo". Cf. educação e saber soberano I lI9 . op. 13.37. 37. D. Paris. no primeiro título que Foucault pretendia dar a seu livro.. São Paulo. Do interior desse cenário e a partir de uma interpretação relativamente livre das análises foucaultianas. Para concluir. nos séculos XIX e XX. FOUCAULT.. percorre uma trajetória histórica que começa no fim do Renascimen- to (por volta do século XVI). podemos compreender que a loucura não seja um "objeto" uniforme. ousemos supor que esse "outro" de múltiplos rostos que atravessa a história de nossa cultura possivelmente atravessa também a história pessoal de cada um de nós. 1966. a emergência de determinados saberes de modo a finalmente poder descrever. Ibid. Retomamos aqui um comentário do livro de ERIBON. "A outra forma da loucura. 36. em cada qual desses segmentos históricos. E é essa junção do conceito de doença IV como assunto médico à prática social do internamento. 35. e na frase de Pascal que escolhera para iniciá-lo: "Os homens são tão necessariamente loucos que seria uma outra forma de loucura não ser louco". na Universidade Federal de Uberlândia. H. Esta suposição está sugerida.. EducjCorcez. Michel Pou· cault: uma biografia. Numa visão extremamente sucinta (mas útil a nosso intento). trad. e que aborda. 1990. ERIBON. caracterizará então a instauração da instituição asilar. Les Mots et les choses. consubstanciado numa verdade essencial cuja identidade é sempre a mesma. que. Feist. em maio de 1981. detém-se na Idade Clássica (séculos XVII e XVIII) e desemboca em nossa Modernidade. Companhia das Letras. 119. mas antes um fato multifacetado. finalmente. a transformação do "internamento em ato terapêutico"35. cit.. lembramos que As palavras e as coisas. Publicada em Cadernos PUC. São Paulo. reciprocamente. D. Como cenário de nossas considerações escolhemos algumas passagens de As palavras e as coisas 1 cuja retomada constituirá o primeiro momento da exposição. tentaremos num segundo momento realçar alguns aspectos dos papéis desempenhados pelas ciências humanas em geral e pela ciência da educação em particular. lI8 I Foucault. talvez. M. EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO' • •• A partir da reconstituição resumida de alguns aspectos dessa história. Gallimard. ou.

simplesmente educação e saber soberano I Sl . não sabemos. o pintor olha para um ponto fixo e invisível: nesse ponto está o modelo que ele pinta sobre uma tela da qual o espectador só vê o reverso. 25. 1O pintor e o espectador - De dentro do quadro. de modo que somente na medida em que é ((sujeitoque-olha" pode ser "objeto-olhado". SO I Foucault.. sem dúvida. Porém. Ibid. para o qual o pintor dirige o olhar. Porque só o reverso é representado. Ora. do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana"2. Bastaria acrescentar que as duas personagens que servem de modelos ao pintor não são visíveis.. ) bastaria dizer que Velázquez compôs um quadro. se deslocamos nosso olhar dessa visão imediatamente empírica e nos situamos numa região em que os nomes não são diretamente colados às coisas percebidas. para ser olhado pelo pintor. em seu atélier ou num salão do Escorial. o pintor. mas que se pode distingui-las num espelho. esse espectador-modelo precisa colocar-se em face do quadro na posição de quem olha. Para desenhar nosso cenário. de damas de companhia. ao menos diretamente. permite o assinalamento do fim do Renascimento e do início da Idade Clássica. outra descrição é possível. Situado entre o fim da segunda metade do século XVI e o início da segunda metade do século XVII (1599-1660). O reverso da tela que está sendo pintada garante essa ambigüidade. permitindo uma espécie de ilustração comparativa a propósito da Modernidade. nesse ponto igualmente. Trava-se assim um jogo ambíguo entre o visível e o invisível: com efeito. retomaremos alguns aspectos do primeiro capítulo e. que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradição reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente. espectadores. enquanto "objeto" virtual do olhar do pintor. a partir dele. cuja obra foi escolhida. o quadro escolhido (Las Meninas) aponta elementos que serão retomados no final do livro (capítulo IX). de cortesãos e de anões. De início. ali Nieto. ouçamos uma descrição me- ramente empírica do quadro em questão: "( . o espectador é o modelo de carne e osso mas sempre invisível e extremamente variável. Refaçamo-la em alguns de seus ângulos. está presumidamente o próprio espectador. E é esta que nos interessa.. se olhamos ou 2. a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar. Assim é que. Por outro lado. o primeiro capítulo traz a nossoS olhos um quadro de Velázquez.Com curiosa astúcia. que se trata. nós. faremos um grande salto até o capítulo IX. que nesse quadro ele se representou a si mesmo. rodeada de aias. no primeiro plano Nicolaso Pertusato. bufa0 italiano.

o visitante 3. e. 4. afinal. uma porta deixa entrever uma estranha figura. "representado" do ponto de vista do exterior do quadro. Ibid. os modelos olham o pintor e as personagens. mas fá-los ver (também "por reflexo"). o pintor real e o espectador real. Mas o espelho reflete precisamente o modelo que está sendo pintado. Não se sabe se ela <{entra" ou "sai". do quadro enquanto visto internamente). 21. mas "por reflexo") o modelo real. representação de uma representação. e mostra assim o contorno externo do quadro que é. Dois pontos centrais parecem comandar a composição do quadro: o espelho a refletir os modelos. mas donde. quadro que representa um quadro. à esquerda. dois anões. mas. isto é. do quadro enquanto visto do exterior) e fora dele (isto é. S2 I Foucault. Se o espelho reflete o jogo ambíguo entre o interior e o exterior. o visitante olha as personagens dos primeiros planos: o pintor. assim também O quadro como um todo torna presentes. e o olhar firme da princesa realçado em primeiro plano. é ele o centro principal do quadro. Ibid. Mas esses dois pontos parecem estar ambos direcionados para um ponto convergente: trata-se do espaço claro à frente do quadro. Um centro soberano. outra ambigüidade se estabelece. supostamente. formas.Do plano de fundo. O espaço vazio faz do quadro como um todo o que o espelho faz no interior do quadro: assim como no espelho o rei ausente está presente. revela o jogo ambíguo entre o real e o representado: é um es- 2 O espelho - tudo. representado (feito de linhas. ainda à direita e mais à frente. mas "por reflexo". porém.. é nesse espaço. e ainda. Nesse jogo. Entre eles. uma representação. como se não fosse parte da representação. o espelho faz ver (por "reflexo") os modelos externos olhados de dentro do quadro pelo olhar do pintor que os representa. con- 4 As personagens e os centros do quadro . além do jogo entre o visível e o invisível.. pois. "Mas não é um quadro: é um espelho.. evidentemente. à direita. o olhar do pintor. que na verdade se olha como seu próprio modelo para se representar.. assim como a frente da tela tepresentada é invisível para o espectador e só visível para o pintor. no meio. ao mesmo tempo sujeito e objeto do olhar ausente e presente.se somos olhados. é também o lugar do visitante que assiste à cena e é o espectador projetado para dentro da representação. e duplamente soberano: porque comanda a composição de todo o quadro e porque supostamente ocupado por "soberanos" (o rei e a rainha). E percebe-se então que. porém do interior dela. em seu todo. o único que pode ir do modelo à frente da tela. cores). como que prolongável para fora do quadro.4 E. Parece estar ao mesmo tempo dentro do quadro (isto é. É o espaço olhado pelo pintor e as personagens. O quadro como um todo é. e mostra assim o espaço interno do quadro que é representação de modelos. um homem e uma mulher. ele próprio. Simplesmente pectador "real" do ponto de vista do interior do quadro e. Nesse espaço. a demarcar o limite impreciso entre o seu interior e o seu exterior. o lugar do pintor real. 21. que poderá ser enunciado o cogito cartesiano e onde podeeducação E' saber soberano I S3 . é o "olhar soberano"'. a princesa entre duas damas de companhia. No interior do quadro é o lugar do modelo. mas assistisse a ela. enquanto espectadores que olham do exterior o pintor que é. um é especialmente mais claro. só há lugar para o sujeito no plano de representação. afinal. do rei. esse espaço é também o lugar do espectador que olha e é olhado. 3 O visitante inusitado - No fundo do quadro. Do interior e no fundo dessa representação são representados outros quadros (que são outras tantas representações). agora o espelho é clara visibilidade para o espectador mas sempre invisível para o pin- tor 0á que este lhe dá as costas). esta agora entre o interior e o exterior do quadro: com efeito. ele próprio. Espaço ocupado e vazio ao mesmo tempo.

mas de onde. 54 I Foucault. "A não-violência do brasileiro. entre outros. todas as figuras de que se suspeitava a alternância. fala e trabalha"S. uma vez que a racionalidade do saber científico é erigida como critério exclusivo da validade de todo saber e medida do verdadeiro.. o homem aparece com sua posição ambígua de objeto para um saber e de sujeito que conhece: soberano submetido. será também a ocupação desse espaço pelo sujeito concreto enquanto empírico e existente real (no duplo sentido. Almanaque. São Paulo. nO 11 ("Educação ou Desconversa?"). "nada sabem". duas distinções exploradas com extrema clareza por Marilena Chaut podem 7. Partindo do pressuposto de que uma mutação histórica do saber não é sinônimo de avanço ou de progresso. isto é. como "indivíduo que vive. nem examinar sua "legitimidade científica" ou avaliar o peso de sua significação histórica. E onde emergem também as filosofias do homem e as ciências humanas. Simplesmente nos agora apenas explorar alguns aspectos inerentes àquela posição ambígua hoje ocupada pelo homem como "objeto para um saber" e como "sujeito que conhece". 6.. 1980. acontece também que. "No movimento profundo de tal mutação arqueológica. Cortez Editora/Autores Associados/Cedes. intrinsecamente. simplesmente. Rio de Janeiro. a esse respeito. um mito interessantíssimo".jan. o rei. mas tão-somente a marca de uma diferença. se petrificassem numa figura plena e exigissem que fosse enfim referido a um olhar de carne todo o espaço da representação. E eis que já saltamos para o capítulo IX. Ora. da exclusão 7 • Ele dissocia os que "possuem" a verdade porque "sabem" e os demais que. 1979. isto é. 321. Graal. o normal e o patológico. São Paulo. Ver. de realidade e de realeza) que caracterizará o surgimento das ciências humanas em nossa Modernidade. "em carne e osso". da autora: "Ideologia e educação". de Roberto Machado. particularmente o artigo "Soberania e disciplina". a sua presença real foi excluída. Brasiliense. E o primeiro aspecto a apontar é que a instauração das ciências humanas requer. Cadernos de Literatura e Ensaio. No século XIX. sobretudo. São Paulo. Mas. nesse lugar do Rei que lhe atribuíam antecipadamente Las Meninas. in Microfisica do poder. e org. ocupa. lbid. interessa5. educação e saber soberano I 55 . assume então o direito da soberania cujo poder se exerce pelos mecanismos da disciplina. por outro lado. Educação e Sociedade. in Descaminhos da Educação Pós-68. mediante o acaso de um espelho e como que abusivamente. Como único saber qualificado. corre também o risco inalienável de se fazer sempre prescritivo. lbid. ele surge aí. nO 5. a personagem representada no quadro de Velázquez entra empiricamente em cena. no entanto. 8. durante tanto tempo. 1980. aquele que veicula as normas pelas quais são desqualificáveis quaisquer outros saberes e reduzidos ao silêncio outros discursos. a exclusão recíproca. Brasiliense. espectador olhado. cujo segundo item tem precisamente como título "O lugar do rei". O conhecimento "científico" sobre o homem torna-se não só o único saber qualificado e competente."6 Não é nosso intento refazer a análise dessa mutação. Brasiliense. mas que ele. que se atribua ao homem real o estatuto de "coisa científica" a ser dominada pelo homem como sujeito detentor do conhecimento. de M. a economia. aliás. as ciências humanas carregam em seu próprio bojo o risco inalienável da redução do homem ao que dele se pode "cientificamente conhecer". 1981. 2 a ed. do controle.rão desdobrar-se os saberes emergentes na Idade Clássica. só refletia. O que é ideologia. o lugar antes vazio de uma presença ausente. o certo e o errado. 323. O homem. Ver. Neste momento de nossas considerações. 1980.. Abre-se um novo espaço epistemológico no qual podem emergir a biologia. Ano 11. "Ventos do progresso: A Universidade administrada". o pintor. a filologia. Como se nesse espaço vago para o qual está virado inteiramente o quadro de Velázquez. introd. o entrelaçamento e a ofuscação (o modelo. Foucault. o espectador) cessassem de súbito sua imperceptível dança. por outro lado e ao mesmo tempo. aquele que tem o poder de decidir sobre o verdadeiro e o falso.

ali onde não pode haver discurso da mulher surge um discurso sobre a mulher etc. é o esforço por reverter semelhante configuração pelo esvaziamento da "posse" desse espaço. quando o discurso da unidade social se tornou realmente impossível em virtude da divisão social. A saber: a de que no trabalho lO. reprodução de um saber instituído sobre a educação. num cenário visual. admitida que é no campo das ciências humanas como "ciência da educação". Por uma transposição mais metafórica que ilustrativa. M.cie o discurso pedagógico não sejam nem os professores nem os estudantes. no saber da educação.. "Por exemplo. e numa interpretação livre da análise foucaultiana do quadro de Velázquez. Simplesmente rias da educação. finalmente. Ora. 56 I Foucault. regulamenta e controla não está exclusivamente centralizado num saber elaborado no exterior da instituição escolar. Ao contrário. fique vazio o "lugar do rei". surgiu um discurso sobre a unidade. na medida em que as ciências humanas se movem na zona do conhecimento qualificado e instituído. É bem possível que acabemos por verificar que ela se faça como conhecimento) isto é. Transportemos finalmente estas considerações para a região da pedagogia. estamos apenas endossando a proposta de que."9. que é nesse tipo de configuração do saber pedagógico e das relações pedagógicas que o "lugar do rei". nela se exercendo de fora para dentro e de cima para baixo. legisla. Ora.e com isso entendamos qualificado. trazem não só a carga do conhecimento capaz de estagnar o pensamento como as marcas de um saber sobre o homem que silencia o seu próprio "objeto". normativo e poderoso -.nQs ser úteis. estabelecido. As estruturas mesmas das instituições escolares são já um cumprimento dessas normas. CHAU1. em contrapartida. quando o discurso da loucura tem que ser silenciado. impedindo que isso mesmo que está em questão primeiramente fale de si e por si para vir a ser compreendido. A outra distinção (retomada de Claude Lefort) marca a diferença entre "discurso sobre" e "discurso de". mas "a burocracia estatal. 27. nO 5. está plenamente ocupado. quer no modo da realidade). que.. A primeira é a distinção entre conhecimento e pensamento. isto é. destituído de todo direito da realeza. trazemos para dentro das próprias relações pedagógicas os mesmos mecanismos e os mesmos efeitos de exercício do poder. esse "soberano submetido". É quando a escola não pode ser um lugar onde se pensa para ser o lugar onde se reproduz o conhecimento instituído. a proposta muitas vezes formulada por Marilena Chaui. Entenda-se: não estamos aqui a aspirar a um absurdo regresso ao século XVII nem a um retorno à soberania da representação. por intermédio dos ministérios e das secreta9. onde não pode haver um discurso da revolução surge um outro. regulamenta e conttola o trabalho pedagógico"lO. E que o que se propõe.. instituído e qualificado. na medida mesma em que professores e alunos nos limitamos a cumprir as normas. tendem a excluir o espaço do pensamento. in Educação e Sociedade. Mas é preciso não se iludir: o poder que legisla. É possível que quem primeiramente pronui. Pensamento é afrontamento de uma realidade nova. educaçáo e saber soberano I 57 . Transposição metafórica e interpretação livre que pretende apenas emoldurar. a assimilar o saber "qualificado". 26. enquanto saber soberano . desocupado de qualquer sujeito soberano (quer na forma da representação. O "discurso sobre" um objeto dissimula e busca substituir o discurso daquilo mesmo que está em questão. as ciências humanas. É quando as relações entre professor e estudante reproduzem a relação do sujeito que "possui" o saber com um "objeto" de educação. sobre a revolução. em seu lugar surge um discurso sobre a loucura. cujo saber é construído a partir de um não-saber que requer sua compreensão. Conhecimento é aquisição intelectual do saber já constituído. Ibid. Diríamos. "Ideologia e educação". na instituição escolar e nas relações pedagógicas.

o lugar das instituiçóes na sociedade disciplinar ! 59 . às escolas. mas antes seja o professor o mediador entre o estudante e o pensamento. Ora. preliminarmente. Buscando reconstituir aspectos do pensamento de Foucault no tratamento das assim chamadas "instituições disciplinares".. CHAUl. A inclusão de análises e descrições de práticas institucionais no interior de um pensamento voltado para a formação e a transformação de configurações discursivas que compõem saberes historicamente constituídos é um assunto que pertence. lugar que "então permaneceria sempre vazio. foi (ou é) objeto de polêmica e tema de interesse.pedagógico não seja o conhecimento a ponte entre o professor e o estudante. Publicado em Recordar Foucault (RIBEIRO. a fim de que pudesse ser visto como acessível a todos porque não pertence a ninguém"ll. v O LUGAR DAS INSTITUiÇÕES NA SOCIEDADE DISCIPLINAR' Que há de espantoso no fato de que a pn'são se assemelhe às usinas. 229. na Universidade de São Paulo. São Paulo. 58 I Foucault. certamente. aos hospitais. FOUCAULT. particularmente em relação aos primeiros livros de Foucault. convém. "A não-violência do brasileiro. situar o aparecimento desse tema no contexto mais amplo daquele pensamento. nO 11. e de que todos se assemelhem às prisões? M. R. J. Surveiller et punir.24.). palestra proferida por ocasião do Colóquio Foucault. 1985. Simplesmente * Este textO reproduz. Brasiliense. em abril de 1985. um miro interessantíssimo". às casernas. o professor desocuparia o lugar soberano de detentor do saber. org. com pequenas alterações. esta é uma questão que.. Na medida em que exercesse esse papel. à questão das imbricações entre os planos discursivo e extradiscursivo. 11. Almanaque. M.

para os quais o "exame" é o modelo prioritário de estabelecimento da verdade. Cf. instituições. morais. Desde então. in Microfísica do poder. sobretudo. de Roberto Machado. em primeiro lugar. na medida em que responde à articulação entre produção de saber e modos de exercício de poder que é dominante em cada momento histórico'.. o que ele nos diz sobre a sociedade disciplinar e nos determos na questão de suas instituições. 1974. o dito e o não-dito são os elementos do dispositivo. num dado momento histórico. que é ainda a nossa. que engloba discursos. organizações arquitetônicas. Ib. da publicação dos livros Vigiar e punir (1975) e A vontade de saber (1976). leis. 247. pois. enunciados científicos. esta questão sofre um deslocamento considerá- vel a partir. filantrópicas.. Roberto Machado e Eduardo J. O ((dispositivo". 2. a análise se descentraliza do eixo "discursivo/não-discursivo". com efeito. ou antes. De sorte que poderá afirmar: "Mas. constituem peças na engrenagem de um tipo determinado de sociedade. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos". 60 I Foucault. este texto foi republicado no Rio de Janeiro. decisões regulamentares. na última conferência. Retomaremos a descrição de um 1. não é muito importante dizer: eis o que é discursivo. em 1999. Simplesmente tipo determinado de instituições: aquelas que. e que Foucault chama de "instituições disciplinares". para aproximar-se de um eixo mais complexo que o autor chama de "dispositivo". com esse termo. A sociedade disciplinar tem seu surgimento por volta dos fins do século XVIII. pretende ainda "demarcar a natureza da relação que pode existir entre esses elementos heterogêneos" ("discursivos ou não") bem como evidenciar a "função estratégica" do dispositivo. da pro3. O que aqui nos ocupará é a análise de instituições entendidas. marcando a passagem da "arqueologia" para a "genealogia". Não. FOUCAULT.Contudo. "Sobre a história da sexualidade". a sociedade disciplinar deu lugar ao nascimento de determinados saberes (os das chamadas ciências humanas). Cadernos da PUC/Rj. precisamente. A verdade e as formas juridicas) trad. 6/74. genericamente. reúne o discursivo e o extradiscursivo. Posteriormente. quando Foucault busca. Em suma. de controlar o tempo. atrelar a questão da constituição de saberes a modos de exercícios de poder.** R instalação das instituições disciplinares As conferências que compõem o texto A verdade e as formas juridicas (1974) descrevem uma história da produção de saberes baseada em determinadas práticas sociais (as práticas jurídicas ou judiciárias) que foram capazes de gerar modelos de estabelecimento da verdade. inrrod. como elementos de um "dispositivo" articulador das relações entre produção de saberes e modos de exercício de poder. de vigiar e registrar continuamente o indivíduo e sua conduta. explicitamente. Caracterizando-se. Tomaremos esse text03 como referência para resumir.. a uma abordagem mais centralizada sobre as instituições inseridas nesse tipo de sociedade. ao modo mais sutil do adestrament9. um conjunto decididamente heterogêneo. nO 16.d. coloca esta questão em um plano de menor importância. eis o que não é"2. Eis o que ele escreve: "Através desse termo tento demarcar. medidas administrativas. como um modo de organizar o espaço. proposições filosóficas. M. e org. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem à primeira edição. Morais. pela Nau Edirora. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 61 . Rio de Janeiro. série Letras e Arres. dedicando-se. porém. Ao longo desse estudo. 1979. Graal. E segue mostrando que. mas. igualmente. . FOUCAULT. pelo "exame" instaura-se. um modo de poder em que a sujeição não se faz apenas na forma negativa da repressão. brevemente. M. Foucault descreve o surgimento e os caracteres do que denomina "sociedade disciplinar". em relação ao dispositivo. principalmente.

90. 69. A escola não exclui os indivíduos. a longa descrição que Foucault fornece do regulamento de um destes tipos de instituições. correspondendo às janelas da torre. prisão ~ têm por finalidade não excluir. o Panóptico. Foucault toma como modelo prenunciador dessas instituições um projeto de arquitetura. dando para o exterior.utopia que efetivamente se realizou"s. Ibid. que. Retomemos uma das passagens em que descreve esse projeto arquitetômco: nham uma forma "compacta. cada uma ocupando roda a largura da construção. Basta então colocar um vigia na rorre central e em cada cela trancafiar um louco. liga-os a um aparelho de produção. H. M. 86-88). hospitais. mas antes "incluí-lo" num sistema normalizador. simplesmente Descreveremos. as pequenas silhueras prisioneiras nas celas da periferia.. M. protegia"4. Recorrendo a autores contemporâneos ao surgimento dessas instituições e que desenvolveram estudos a respe~to (N. hospital.dução positiva de comportamentos que definem o "indivíduo" ou o que "deve" ele ser segundo o padrão da "normalidade". 7. 6. que se encontra em Surveiller et punir. Em suma. realmente existiu na França dos anos 1840-1845. "Na época atual. FoucAuLT. o traço mais básico e geral das instituições disciplinares e. no fundo. cujas características de fundo ainda hoje permanecem. Na realização do "panoptismo". uma construção em anel. por volta do início do século XIX. esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. Paris. Foucault chama-as ainda de "instituições de seqüestro". Elas marcaram o aparecimento de fábricas. Concomitantemente ao surgimento de saberes e ao exercício do poder disciplinares. 91-92. Característica básica: do espetáculo à vigilância Pode-se dizer que o traço característico fundamental das instituições disciplinares está desenhado em seu modelo de arquitetura. mas. prisões etc. Eis uma passagem esclarecedora: "O princípio é: na periferia. ela os fixa a um aparelho de transmissão do saber. "O olho do poder". mas de "forma branda. Por isso. Cf FoucAULT. as funções que lhes cabe cumprir. inverte-se o princípio da masmorra. a partir daí. fixar os indivíduos. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 63 . a seguir. in Microfísica do poder.. as primeiras instituições que. esse tipo de sociedade e de poder é perpassado pelo que Foucault denomina "panoptismo". em razão de que a reclusão que elas operam não pretende propriamente "excluir" o indivíduo recluso. 1975. permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. casas de correção. a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro. em sua forma mais "compacta".. uma torre. escolas. A construção periférica é dividida em celas. foram instaladas ti4. que. Esta descrição praticamente reproduz a. instalam-se determinadas instituições a eles articuladas.6. difusa. 1bid. no centro.201-202. um operário ou um estudante. no fundo. a um aparelho de normalização dos indivíduos..rd. hospital psiquiátrico. sendo depois substituídas por instituições com iguais características. A Verdade e as formas jurídicas. um doente. um condenado.. O mesmo acontece com a casa de correção ou com a prisão"? Outra passagem descritiva do projeto conclui com a seguinte observação: "O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é. Gallima. Devido ao efeito de contraluz. A fábrica não exclui os indivíduos. mesmo fechando-os. forte". elaborado em fins do século XVIII pelo jurista inglês Jeremy Bentham. ao contrário. É ilustrativo ler (no mesmo texto. podem-se perceber da torre. O hospital psiquiátrico não exclui os indivíduos. escola. outra. 5. 210. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se para o interior. liga-os a um aparelho de correção. tal como é anunciado no projeto do Panopticon.. recortando-se na luminosidade. rodas essas instituições ~ fábrica. a sociedade que atualmente conhecemos . 62 I Foucault.

15. o projeto e seu nome não carregam apenas a idéia de uma técnica específica destinada a "resolver um problema específico. FOUCAULT. 210. na arquitetura das instituições. 9. as conseqüências vantajosas que acarreta para os custos políticos e econômicos do poder. A verdade e as formas jurídicas.. esse tipo de construção respondia a um tipo de sociedade marcado pela participação da comunidade nos momentos de mais unidade na vida pública ("sacrifícios religiosos. a designação que lhe deu . M. "a arquitetura dos templos. dos circos")'. 211. a arquitetura atendia à necessidade de possibilitat a exibição de espetáculos ao maior número possível de pessoas (para isso. possibilita uma crítica ao funcionamento do poder monárquico. de 1830. por exemplo. M. Reportando-se a Giulius. de 1808). cada indivíduo "acabará por interiorizar a ponto de observar a si mesmo". Surveilleret punir. que. 218. FOUCAULT. Foucaulr realça a transformação que.. in Microfi: sica do poder. M.encerra uma generalização altamente significativa. Cf."lO Isto significa que a arquitetura deverá então assegurar não mais que espetáculos sejam dados ao maior número de pessoas. diz Foucault. o da escola ou o dos hospitais".ltado sobre a sociedade em toda a sua extensão. como O da prisão. 11. o traço básico do panoptismo articula-se com transformações fundamentais e gerais na ordem do poder. em que o "anteparo da escuridão" é substituído por uma "visibilidade" isolante". e A verdade e as formas jurídicas. finalmente.218. "Numa sociedade". 64 I Foucault. Gallimard. Surveiller et punir. Simplesmente tão um tipo de poder que se exerce "por transparências". Treillard. vai-se constituindo en8. 217. organizada na forma estatal. 13. Assim. "onde os elementos principais não são mais a comunidade e a vida pública. acaba por se tornar "um poder muito oneroso e com poucos resultados"15. M.. e que Giulius vê nela "um acontecimento 'na história do espírito humano". dos teatros. 10. e J. teatro ou discursos políticos"t Não que esse modelo tenha desaparecido por completo. autor de Motivos do Código de Instrução Criminal. M. como "princípio de conjunto". mas de um lado os indivíduos privados. Ver também: Surveiller et punir. 217. Do pOnto de vista propriamente político. faz ver como na civilização grega antiga. exercendo-se com violência aparente e garantindo Sua continuidade por meio de punições espetaculares para efeitos de exemplo. efetivando-se por meio da organização de uma cadeia de olhares vigilantes que. A verdade e as formas jurídicas.Panopticon . in Microfísica do poder.Giulius.. transformam-se as necessidades e transforma-se a arquitetura. expressões usadas pelo autor em "O olho do poder". B. 14. 86. porém. 85. 216-217. Com efeito. 218. teve por efeito invertê-las de uma arquitetura de espetáculo a uma arquitetura de vigilância. Paris. não é por acaso que o próprio Bentham refere-se à sua invenção como "um ovo de Colombo". as relações só podem ser reguladas numa forma exatamente inversa ao espetáculo. mas sustentam "um princípio de conjunto. mas que indivíduos sejam dados como que em espetáculo a um olhar vigilan- te. Basta apontar. Foucault lembra que se o projeto de Bentham fora inspira- do na arquitetura já existente da Escola Militar de Paris (1751). FOUCAULT. exercendo a vigilância 12. 85. Ibid. 1975. Entendido assim.13 capaz de inaugurar o que viria a ser o desenvolvimento de toda uma nova forma de poder. 218. FOUCAULT. o lugar das instituições na sociedade diSCiplinar I 65 . e de outro o Estado..14.. Ibid.. por exemplo. autor de Lições sobre as prisões. Olho auxiliado por uma série de olhares dispostos em forma de pirâ- mide a partir do olho imperial e que vigiam toda a sociedade" I I Mediante uma vigilância que é "ao mesmo tempo global e individualizante". na sociedade moderna. 209. E (a partir de Giulius) lembra a metáfora do "olho" com que então se simbolizava o imperador: "O imperador é o olho universal vo. "O olho do poder". uma dominação que se faz como por "iluminação"12. o controle contínuo é de uma eficácia pouco dispendiosa.. FOUCAULT. contudo. Economicamente.

18. de descanso. a este respeito. se no poder monárquico o "corpo do rei" era não uma "metáfora. como um dos nós que amarram essa rede de instituições. nos hospitais. 94-95. excedem a função estrita do ensino. entendida assim a visibilidade como princípio geral. o que deve adquirir aptidões. igualmente. mas o corpo controlado como "o que deve ser formado. FOUCAULT. não mais o corpo supliciado. que. na verdade têm a eficácia de controlar todo o tempo de sua vida. FOUCAULT. nos hospitais. e com diferentes técnicas.. Funçóes Controle do tempo A vigilância é. mais que uma técnica particular. Surveiller et punir. 145. 95. uma maneira de dispor do tempo do indivíduo. Foucault faz ver que. Controlados são os tempos de festa. "O olho do poder". Lembremos. reformado. in Microfisica do poder. De maneiras mais abruptas ou mais sutis. sobretudo. Portanto. aparentemente criadas para a proteção do trabalhador. mas é mais ainda: é transformar todo o tempo dos homens em tempo de trabalho. 66 I Foucault. a título de exemplo. Ibid. cuja função específica é a cura. atingido por meio dos corpos individuais. Assim. corrigido. qualificar-se como corpo capaz de trabalhar"Z!. nos orfanatos. de modo a atender. M. é uma "fórmula maravilhosa: um poder contínuo e de custo afinal de contas irrisório"!6. as escolas para ensinar. 218. nas casas de correção etc.. efetivamente. é volvimento da sociedade disciplinar. "Poder-Corpo". Controlar o tempo é transformar o tempo do trabalho em mercadoria trocada por salário. pode-se dizer que o. 17.. Ver. portanto. nas sociedades modernas. na sociedade moderna o importante é o "corpo da sociedade". 18. FOUCAULT.. a proibição de atividades sexuais não se reduz a motivos de higiene e saúde. a eugenia. Foucault mostra que certas técnicas. M. 21. 19. ele será "protegido". Simplesmente o lugar das instituições na SOCiedade disciplinar 1.. 20. às necessidades da industrialização. A verdade e as formas jurzdicas. De fato. desenvolvendo-se de formas diversificadas mas de algum modo semelhantes e intercruzadas tanto na pedagogia escolar como na organização militar. as prisões para punir"!9. com Foucault.. a disciplina corporal é minuciosa. para curar. Cf. in Microfísica do poder. na multiplicação e na diversificação de instrumentos de vigilância (até os mais sofisticados).controle do tempo é exercido continuamente não só nas fábricas. psiquiátricos ou não. 96. 211. assim também. esse sistema basicamente "ótico"!7 desdobrarse-á no aperfeiçoamento. mas também nas escolas. já que "sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia". para fazer greve ou para festejar. que. porém. lbid. M. as disciplinas escolares. prisões. os hospitais."sobre e contra si mesmo". a exclusão dos 'degenerados"'20. Um exemplo disso é a concessão de aumentos salariais e de fundos de economia. no Controle dos corpos Aparentemente.. I 67 . de ociosidade. cada uma das instituições disciplinares é destinada a uma função específica: "As fábricas feitas para produzir. de modo a que as instituições disciplinares cumpram. nas fábricas do começo do século XIX. 219-220. Eis também por que. diversificadas funções que respondem à instalação e ao desen- função de todas disciplinar a existência inteira do indivíduo pela disciplinarização do corpo. A verdade e as formas juridicas. M. FOUCAULT. mas uma realidade política". nas 16. de prazer. receber um certo número de qualidades. não podem ser usados pelos trabalhadores "no momento em que desejarem. contudo. questões como a imoralidade e a devassidão eram assunto de preocupação dos patrões. substituindo-se "a eliminação pelo suplício" por "métodos de assepsia: a criminologia.

Por sua vez. Ver.25 Ambos. capilar. nas análises das instituições disciplinares. minucioso. "Poder-Corpo".. as instituições disciplinares fazem funcionar um poder que. Mas ao caráter econômico se atrela o político: "As pessoas que dirigem estas instituições se delegam o direito de dar ordens. Poder econômico. As conferências sobre A verdade e as formas jurídicas. de estabelecer regulamentos. depois de julgado por um tribunal. Instalação de um poder polimorfo O tipo de poder instalado por essas instituições é "polimorfo" e. das anotações a respeito do doente. M. A verdade e as formas juridicas.22.". nascido de sua prática. das classificações. judiciários e epistemológicos.. Surveiller et punir.. de modo a "cobrir o corpo social por inteiro. M.. in Microfoica do poder. quando Foucault faz ver quanto ele é "inteiramente baseado em uma espécie de poder judiciário". Neste último (211-212). pelos guardas. onde. Mas indicar que o controle dos corpos engendra saber já é referir-se ao caráter polimorfo do poder disciplinar. se avalia. da criança etc. espalhado.. produz saberes. 22. pelo diretor d3: prisão etc. como 27. mas também se tem o direito de punir e compensar. de tomar medidas. simplesmente o !ugar das instituições na sociedade disciplinar 1 ! 69 . saberes sobre o indivíduo nascem das observações. por exemplo. políticos. 25. muitas são as passagens em que Foucault se detém particularmente nas prisões. 26. isto é. se tomam decisões. não somente se garantem funções como a produção.. 96.. não é essencialmente localizável em um pólo centralizado e personificado. Ver. o econômico e o político. O caráter econômico do poder disciplinar é evidente. particularmente todo o capítulo desse livro intitulado "Les corps dociles". por isso. fornece elementos para gerar saber acerca da produção. de Surveilleret punir. ele se desdobra em múltiplos caracteres que. no caso das fábricas.. Ibid. 23. a aprendizagem etc. Em suma. Um exemplo de saber extraído dos indivíduos ocorre em instituições como fábricas. Mas também é curioso. do criminoso. se classifica. polimorfo e polivalente. e conseqüentemente.27. M. É claro que o caráter judiciário é mais evidente no caso das prisões. 148-149. o exemplo particular do sistema escolar. podemos designar de econômicos. e.. FOUCAULT. explicitando que nele "a todo momento se pune e se recompensa. 28. FOUCAULT. o estudo destes caracteres no capítulo intitulado "Le paroptisme". um "saber sobre o corpo. Ibid. 68 I Faucault. articulam-se a um caráter judiciário: "nestas instituições. o acréscimo de uma observação. poder judiciário. a este respeito. a esse respeito. 97. M. ou a elaboração de uma "história dos espaços" que seria também uma "história dos poderes".23. 97. esquematicamente. o poder instalado nas instituições disciplinares é também epistemológico. A verdade e as formas juridicas. em Microfisica do poder. FOUCAULT. como no pagamento feito a hospitais. quer elaborando saber sobre os indivíduos 28 . não apenas se dão ordens. os artigos "Soberania e disciplina" e "O olho do poder". se tem o poder de fazer comparecer diante de instâncias de julgamento"26. É de se notar que. de expulsar indivíduos.espaço hospitalar como nas prisões. Ibid. "polivalente"24. o indivíduo continua tendo seu comportamento constantemente julgado *** Para concluir. Isto é. 97. E os produz duplamente: quer extraindo saber dos indivíduos.. 96. 24. poder político.. orgânico". 141. de aceitar outros etc. o realce da importância de um estudo sobre "a arquitetura institucional" ("da sala de aula ou da organização hospitalar"). FOUCAULT. se diz quem é o melhor. onde o saber do operário a respeito de seu próprio trabalho. mas é principalmente difuso. Foucaulr indica inclusive que foram as disciplinas corporais (particularmente as militares e escolares) que tornaram possível a elaboração de um "saber fisiológico. e constantemente submetido à vigilância e ao registro. quem é o pior. também. pode também aparecer de formas menos diretas.

para Foucault. 32.. 35. 36. E podemos certamente completar: explica também. por certo.. (E o discurso que ela então emite seria: "Eu faço unicamente aquilo que lhes fazem diariamente na fábrica. por outro. in Microfoica do poder.30. se completam. já que.. afinal.. em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral". FOUCAULT. como que circular e reciprocamente. um número reduzido de indivíduos. já dissemos. Surveiller et punir. 29. na escola etc. com esta marca.. FOUCAULT. é nela que "a utopia de Bentham pôde...Assim. 34. diz Foucault... "3S. Surveilleret punir. Ibid.. há uma certa singularidade da prisão. 312. Surveiller et punir. 99.29. 73. tomar uma forma material. a prisão guarda certas peculiaridades: basta lembrar que. 30. a facilidade com que ela foi aceita. 308-310. que o "Panopticon" encontra "seu lugar privilegiado de realização". atingindo. ao meSmo tempo em que é "diferente" das outras instituições. A verdade e as formas jurídicas) 99.. a aceitação cotidiana de sua diluição mais sutil por toda a rede das chamadas instituições disciplinares. num só lance. 252.. tomam por base as práticas judiciárias. "seu incrível sucesso. efetivamente. 100.. contudo. é inteiramente 'justificado m31 . não faz parte da vida rotineira das pessoas e. ambiguamente. M. 31. ela "inocenta" as demais. Afinal. Por isso. pois. FOUCAULT. M. Além disso. É possível que essa tônica ou esse realce se fundamente em dois aspectos que. todas lhe são semelhantes. M. O livro Vigiar e punir. seu caráter quase evidente.. de um lado. Cf. 33.". se vincula mais diretamente às prisões. ela "se inocenta" de ser prisão. Por um lado. entre as instituições disciplinares. não se mascara cinicamente. assim. Ver. Ou seja: "O que é fascinante nas prisões é que nelas o poder não se esconde. E é assim. ". I 71 . FOUCAULT. Cf. separada das outras . Tem. que focaliza explicitamente o estudo de instituições. que a prisão desperta interesse ou curiosidade na maioria das pessoas. 70 I Foucault. é ela a única "onde o poder pode se manifestar em estado puro. a este respeito. segundo Foucault. particularmente.. A verdade e as formas jurídicas.. simplesmente o lugar das instituições na SOciedade disciplinar . explica "sua extrema solidez"36.)34 Essa ambigüidade da prisão explica. se mostra como tirania levada aos ínfimos detalhes. Ora. a particularidade de concretizar o "panoptismo" da forma mais palpável. só ela é prisão.. (E o discurso que ela então emite seria: "A melhor prova de que vocês não estão na prisão é que eu existo como instituição particular. é apenas a forma mais transparente de todas as outras. afinal. entre as diversas instituições. afinal. traz como subtítulo O nascimento das prisões. M. isso talvez se explique precisamente porque. e ao mesmo tempo é puro.) Mas. Ibid. "exemplar" e "simbólica" de todas as outras instituições32 . É nela. 72. a prisão também aparece como sendo não mais que a forma "concentrada". e talvez por isso. todas as outras instituições realizam uma espécie ~e difusão discreta da prisão 33. "Os intelectuais e o poder". tem uma marca "local e marginal. M. Por outro lado. FOUCAULT. cuja história. porém.

questão repetidas vezes indicada como temática nuclear dos escritos de Michel Foucault. com pequenas alterações. de prátícas sociaís à produção de saberes .. ! 73 . orgs. em abril de 1993. Por outro. Assim. buscaremos na leitura de Michel Foucault a seleção de algumas passagens capazes de estimular o debate sobre o assunto e propiciar alguma reflexão acerca do trânsito entre o campo das práticas sociais e o dos saberes. L. Educ. RODRIGUES.). 1995. T. M. S. com maior freqüência. esta questão parece sugerir certa repartição entre dois âmbitos: o dos saberes (onde se situaria a ocupação com a verdade) e o dos procedimentos sociais (onde se reconheceria o lugar do poder). dos saberes às práticas sociais. É propósito desta exposição perguntar por esse encontro e problematizar essa direção. * Este texto reproduz. Para isso. L. palestra proferida em Fórum de Debates realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. estas como que guiadas ou iluminadas por aqueles... São Paulo. para uma direção de relações que vai.. À primeira vista.. MUCHAIL.VI DE PRÁTICAS SOCIAIS À PRODUÇÃO DE SABERES* Trarar-se-á aqui de verdade e poder. por um lado. M. um pensamento sobre esse encontro parece apontar. pensar um espaço comum que abrigasse o encontro entre ambos não é sempre habitual. prioritariamente.. Foi publicado em O uno e o múltiplo nas relações entre as áreas do saber (MARTINELLI.

entende-se por práti- que eles tratam. não se trata do poder enquanto dominação central e unitária. filosofia etc. Ibid. na Grécia antiga. modos de produção de saberes reconhecidos como verdadeiros e sua articulação com modos de exercícios do poder. isto é. Morais. vale assinalar a descrição dos elementos da prova e das características do Foucault dedica especial destaque às chamadas práticas jurídicas ou judiciárias. por dentro. Servir-nos-á de roteiro. a reflexão foucaultiana a res- Mas pode-se igualmente dizer que não é da verdade e do poder peito de tais práticas l .Pode-se dizer. a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras. retraçando não o seu próprio desenvolvimento. de natureza jurídica. Numa definição introdurória e geral. por exemplo. mos. isto é. puderam vir a constituir como que modelos de produção da verdade no plano discursivo. mas de poderes dade. para centrar-se mais detidamente no período que vai desde os fins do século XVIII e início do século XIX até nossa contemporaneidade.. numa palavra. duas formas de prática jurídica marcaram a sociedade grega antiga.2.c. Segundo Foucault. Prova e inQuérito A prova é. este textO foi republicado no Rio de Janeiro pela Nau Editora. portanto historicamente múltiplos e diversificados. sobre o qual veio a prevalecer depois (a partir do sécu- lo V a. 1. o procedimento judicial mais arcaico.. o inquérito.. M. basicamente. constituindo-se na formação de saberes reconhecidos como verdadeiros. Posteriormente. Série Letras e Artes. A verdade e as formas jurídicas. que os escritos de Foucault investigam a verdade e seus vínculos com o poder. n° 16. dizer que os escritos de Foucault concernem à verdade e ao poder significa que eles realizam investigações históricas que buscam descrever. 2. Foucault na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. de modo muito genérico. 20-21. aproximadamente) a prática do inquérito4 • Pela prova. certas práticas não-discursivas de estabelecimento da verdade puderam tornar-se matrizes ou modelos para a produção discursiva da verdade.. isto é. em Cadernos PUC-RJ. 06/ 74.. de Roberto Machado e Eduardo]. É esse o ângulo que aqui nos interessa. coisas. historicamente. engendraram saberes considerados verdadeiros. I 7S . reunidas sob o título A verdade e as formas jurídicas. ou seja. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem àquela primeira edição. É que a verdade não é entendida enquanto identidade de uma essência una e sempre a mesma. Do mesmo modo. em 1999. Rio de Janeiro. o exame. simplesmente . em períodos determinados da história da cultura ocidental. Mas pode-se também realizá-la desde uma perspectiva externa aos saberes. 4. certos procedimentos. FOUCAULT. trad. Assim. no ou de múltiplos modos de exercício do poder que permeiam plano dos saberes (ciências. O percurso da histó- as diferentes sociedades em diferentes momentos históricos. 3. no decurso da história. a própria trajetória da constituição dos saberes (é esse. Embora o âmbito desta exposição não comporte reconsticuílas.pode ser elaborada de modo direto e interno. cas jurídicas ou judiciárias "o modo pelo qual os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido. percorrendo. 1974.)3. de 1966). 8. mas enquanto produzida no decurso da história. Para o propósito desta exposição retomare74 ! de práticas sociais à produção de saberes Foucault. a título de caso ilustrativo. o procedimento empregado em As palavras e as ria que Foucault refaz começa na Grécia antiga e atravessa a Idade Média.mostra-nos Foucault . verific~r como. A descrição histórica empreendida por Foucault pretende então mos- trata-se de verdades em seus diferentes modos de produção trar em que sentido modos práticos de estabelecimento da ver- em diferentes sociedades. mas tomando como ponto de partida determinadas práticas sociais que. Entre essas práticas. Essa investigação histórica . Essa história pode ser lida e organizada em torno de três procedimentos ou práticas sociais de caráter jurídico: a prova. o textO de cinco conferências pronunciadas por M.

em que indivíduos. na medida em que a Europa impôs violentamente seu jugo a toda a superfície da terra"IO. responsável por "dublar" a vítima.. dos botânicos. cedendo lugar ao que Foucault chama de "uma espécie de segundo nascimento do inquérito". "para a história do mundo inteiro. 41. Segundo Foucault.. Essa era a prática adequada ao perfil de uma sociedade de tipo marcadamente feudal em que a circulação dos bens era assegurada menos pelo comércio que pela herança. já que "seu destino será praticamente coextensivo ao próprio destino da cultura européia ou ocidental'" e. 6. ou seja. 47. se não se afogasse era porque nem a água o recebera e. tais como: "sistemas racionais" (como a filosofia). qualquer instância como um júri ou um juiz não tem competência de decisão sobre a verdade senão apenas sobre o correto cumprimento das regras do jogo. surge a noção de crime como infração.)'. conhecimentos empíricos. no âmbito jurídico. os dois modelos reaparecem. 42-43. o "procurador" do rei.)6. 49. pelos 8. ainda apresentasse cicatrizes. É na segunda metade da Idade Média (a partir de fins do século XII e no decurso do século XIII) que o sistema da prova tende a desaparecer. na segunda daquelas cinco conferências. inclusive. ao soberano como a verdade é judiciariamente estabelecida sem o recurso a testemunhas ou a sentenças: os adversários em litígio são literalmente "postos à prova". Na Idade Média. era culpado. Ou ainda: amarrava-se a mão direita ao pé esquerdo do acusado e se o atirava na água. a "arte de persuadir" (como a retórica). mas "também uma ofensa de um indivíduo ao Estado. Ibid. sem intervenção de qualquer terceiro elemento que representasse a autoridade ou a coletividade. pelos testamentos e. Eis. Prova corporal: o acusado deveria andar sobre ferro em brasa e se.. de práticas sociais à produção de saberes 76 I Foucault. é baseada em testemunhos que têm. grupos ou famílias eram diretamente postos em disputa. era considerado culpado. numa espécie de jogo. 42. Prova verbal: o acusado deveria responder à acusação pronunciando certas fórmulas.depois. Ibid. Ibid. o da prova. a água o recebera. dos geógrafos etc. cujos traços principais podem ser assim reunidos: tratava-se sempre de uma ação "de estrutura binária"7. 49. e o acusado ganhava o processo. sobretudo.. Simplesmente . o direito constituindo-se não numa correlação entre justiça e paz mas num prolongamento ritualizado da guerra. de duelo ou de desafio. isto é. reconhece em sua instigante leitura de Édipo-Rei. 7. baseados que são em testemunhos (como os dos historiadores. inquérito que Foucault. a verdade é determinada por quem "viu e enuncia"s. No inquérito) ao contrário. Ibid. dois dias .1 I 77 . Ibid. se se afogasse.mecanismos bélicos (a rapina. portanto. grupos ou famílias. este agora de "dimensões extraordinárias". 9. de um castelo etc. foi a prática do inquérito que constituiu modelo para formações culturais então emergentes na Grécia antiga. a verdade se confundia com a vitória do mais forte. o direito de opor-se ao poder dos governantes. S. Inicialmente (entre os séculos V e XII aproximadamente). determinando-se a verdade pelo lado do vencedor do risco. Eis alguns dos exemplos levantados por Foucault (cf 45-47) de provas durante a Idade Média. os traços principais que desenham seu perfil: a resolução das questões de litígio não se dá diretamente entre os oponentes. de certo modo. uma vez que o próprio rei é lesado porque são descumpridas suas leis. mas se impõe "de fora" e "do alto" por um poder simultaneamente judiciário e político.. prevalece o primeiro. pronunciá-las incorretamente (um erro gramatical.. 10. uma troca de palavras) era prova de culpa. aparece um personagem novo. a ocupação de uma terra. representante do soberano. Usado inicialmente nas esferas eclesiásticas e nas gestões administrativas. o inquérito é introduzido no âmbito das práticas jurídicas e dali se generalizará como modelo de produção de verdade e de outras práticas. Ibid. porque um dano não configura mais questão apenas entre indivíduos.

as sociedades industriais nascentes vão adotar um procedimento penal que não estava previsto pelos teóricos da lei e que vai estabelecer-se. reconstituir situações. No nível teórico realizam-se. dele restando talvez a prática da tortura (e mesmo esta "já mesclada com a preocupação de obter a confissão.. 13. a prisão. de saberes considerados verdadeiros. de práticas sociais à produção de saberes 78 I Foucault. o trabalho forçado e a pena de talião. as leis tendem agora a ajustar-se menos à utilidade social que ao indivíduo (o recurso cada vez maior ao Inquérito e exame No início do período que passamos a investigar. constituindo ainda hoje a base do sistema jurídico de nossa sociedade. terceiro. a busca da reconstituição dos fatos. configura como ruptura com a lei civil. "quase sem justificativa teórica": trata-se do aprisionamento. em domínios "como o da geografia. com resultados diferentes. 12. principalmente. reelaborações do sistema penal cujos princípios básicos podem ser assim reunidos: primeiro. é "que vai se tornar a grande punição do século XIX. para a constituição da verdade na ordem do saber. Ibid. este inteiramente novo . reatualizando o crime quando o criminoso não é surpreendido na atualidade de sua falta.. do conhecimento de climas etc. pois. ou ainda da medicina. por isso mesmo é da competência do soberano o direito de impor penas e exigir reparações (freqüentemente na forma de "confiscos" que enriquecerão as monarquias)11. as leis civis. da botânica e da zoologia 12 • Enquanto o sistema da prova desaparece quase por completo. ao contrário. quarto. sobretudo. 51-52. Assim. Bentham e Brissot). religiosa ou moral e só se representante do Estado". 59. novas formas de estabelecimento da verdade. Ibid. não sendo falta moral ou religiosa. Ibid. Ibid. a humi- lhação pública. por conseguinte. a infração não diz respeito à lei natural. durante o século XVIII (principalmente com Beccaria. a prática do inquérito como instrumento capaz de substituir o flagrante delito. transformações fundamentais ocorreram: novas formas de práticas judiciárias. desenvolver-se-ão. enfim. mas a reparação do dano social. as ciências empíricas ou da natureza. formuladas pelo poder político. quinto. as punições serão de quatro tipos possíveis. simplesmente 1 I 79 . Porém. que precisa. a prescrição de "vingança" ou a "redenção de um pecado"14. ou melhor. recolher testemunhos. No nível prático.. Na medida em que se generaliza a prática do aprisionamento alteram-se radicalmente os princípios da legislação penal. nesse quadro. com a introdução de uma importante diferença: a partir dos fins do século XVIII e no decurso do século XIX.. tal como se instala a partir do século XIX. o modelo do inquérito é invadido por outro. 78. o crime. o modelo do inquérito. estar explicitamente formulada. É nesse quadro novo que se instaura o que Foucault chama de "sociedade disciplinar". Ibid. permanece e se estende até nossos dias..".exercício do poder.15. ou melhor. concernem apenas à sociedade civil. que "não era uma pena de direito no sistema penal dos séculos XVII e XVIII". 15. da astronomia. 14. Ora. portanto. prova de verificação"13). que é ainda a nossa.. segundo. portanto. 64-65. É o funcionamento desse sistema que requer a necessária argüição de testemunhas.o exame. como faz notar Foucault. nessa direção. reunir dados são procedimentos que se estenderão para outras práticas e. excluído da sociedade. as transformações aconteceram em dois níveis. define-se como "dano social" e o criminoso como "inimigo interno" a ser. 59. cujos traços novos podem ser assim reunidos: primeiro. novas formas de 11. porém. ao que é socialmente útil. Do ponto de vista judiciário. a deportação. de algum modo. a saber. não compete à lei.

mas a possibilidade de ser cometido. Ibid. De modo genérico. elas buscam menos o "castigo" que o ajustamento do indivíduo à sociedade.. imbricando-se concomitante e complementarmente. seu ajustamento. a disciplina é correlata de uma sociedade comandada pela democracia burguesa. sua correção. mas pela objetivação do indivíduo e na ordem do que é certo ou errado. simultâneos aos saberes disciplinares. "reatualizar um acontecimento passado através de testemunhos. classificando-os e registrando continuamente suas condutas. constrói as condições para um novo modo de produção da verdade. Mais. enquanto o modelo do inquérito é correlato de uma sociedade comandada pela soberania do monarca. abre espaço para o surgimento das chamadas ciências do homem. De ação assim ampliada. São saberes e instituições que não se atrelam ao que é do estrito âmbito da lei. instalam-se seus correlatos no plano das instituições sociais: são as instituições disciplinares . Em suma. No mesmo quadro. um saber do direito articulado na esfera do inquérito e. o exame. a esse âmbito de ação do controle já não basta o inquérito. 17.. à margem da justiça". isto é.17.. 69. cuja finalidade não é propriamente a "exclusão" do indivíduo mediante sua "reclusão". mas quais as virtualidades do indivíduo e como ele presentemente se conduz. Foucault chamao de exame. criminológicas. isto é. por isso mesmo. o do inquérito) permanece incorporado ao saber jurídico. Dele a disciplina faz uso e é ele que permanece no interior do sistema jurídico cujo discurso calca-se ainda no inquérito e organiza-se em torno das relaçoes de soberania (do tipo súdito-rei). importando saber não tanto o que "se passou". ao contrário. portanto. esse controle não pode ser assumido apenas pelo poder judiciário. por um lado. examinando-os.que chamamos de "circunstâncias atenuantes". "o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e comportamentos". permitindo modificações na aplicação estrita da lei. controlando o tempo e o espaço dos indivíduos. os dois sistemas mantêm. em função de situações individuais. avaliando-os. enquanto a punição propriamente dita depende da existência de lei explícita e concerne à ocorrência efetiva de uma desaparecimento completo do modelo inquisitorial. mecanismos ramificados de controles disciplinares. 67-68. Radicalmente heterogên~os. em suma. A sociedade disciplinar. por exemplo. para a função de vigilância. o asilo. É assim que. Ibid. O estabelecimento da verdade pela matriz do exame não se faz mais pela reconstituição de fatos nem na ordem dos testemunhos. isto é. se o modelo da soberania (e. precisamente sua "inclusão" como indivíduo. a escola. enquanto numa sociedade de tipo infração. "normal" ou não. a polícia. Pode-se dizer que na sociedade caracterizada pela disciplina não se dá o 16. Ele se calca em outro procedimento. segundo e correlatamente. a fábrica. permitido ou interditado. São eles. as casas de correção -. os hospitais psiquiátricos.a prisão. por outro. pedagógicas"). nas sociedades modernas encontra-se. basicamente. mas. ou a disciplina. e "toda uma rede de instituições" ("psicológicas. Foucault faz ver. Mas. é um exemplo desta mudança). Ele requererá a conjugação de outros poderes. 80 I Foucau!t. sob o do exame) não se tenham constituído outros saberes. portanto. correto ou incorreto. certa articulação na sociedade contemporânea. médicas. contudo. "poderes laterais. para funções de correção 16 . enfatizando então a noção nova de "periculosidade". isso não significa que o modelo da disciplina (e. enquanto a prática do inquérito foi modelo para o desenvolvimento das ciências da natureza. que. seu adestramento. terceiro. psiquiátricas. o controle aringe não apenas o crime já cometido. mas à conduta do indivíduo no âmbito da norma. pode-se dizer que. Enquanto o inquérito é um procedimento para se saber o que havia ocorrido. Simplesmente de práticas sociais à produção de saberes j I 81 . o exame é vigilância sempre atual e ininterrupta.

assim como o uso de mecanismos explícitos de cen18. M. também ele. De um ponto de vista amplo. cria hábitos. 1975. Elas são pontuais. de modo algum. • a manipulação pela tortura e pela violência sem disfarces. pois. " à medida que o poder se torna mais anônimo e funcional. pela possibilidade de que. as fronteiras entre procedimentos e discursos. ainda esteja projetando . • um sistema de governo no qual foi possível ocorrer o uso ainda recente do confisco e em que a tônica da individualização recai tantas vezes sobre a figura expoente do meramente negativa. Pode-se. a individualização é "descendente". numa última consideração. desigual e regio- nalizada. isto é. retomemos o contexto em que situamos inicialmente esta exposição. vale dizer. Gallimard. FOUCAULT. nos suscitar. porém. aqueles sobre quem ele se exerce tendem a ser fortemente individualizados'1l8. 82 I Foucault. talvez. 194-195. nar. É um poder sutil e produtivo: produz comportamentos e com as relações súdito-rei que caracterizam a sociedade gestos. dades de terra são indícios. não exclui. de proximidade ainda com o modo do poder espetacular e repressivo que caracteriza menos "a disciplina" do que a prova ou o inquérito. Depois de termos feito a apresentação de uma espécie de caso ilustrativo.. parece-nos que o perfil de nossa sociedade encontra-se. entre práticas sociais e saberes sejam menos distantes e o trânsito bem mais freqüente. mais amplamente. constituir uma espécie de proposta teórica geral. ao mesmo tempo. comandada pela soberania. Surveilleret punir. é possível que nOSSa sociedade. à diferença do que parece habitual. Estimulando esta pergunta.como meta de desenvolvimento ou como horizonte de esperança . bem como a preservação das grandes proprie- governante traz indícios. um modo de exercício do poder do qual uma descrição sura (da imprensa. espetacular e repressiva não pode dar conta. dentro dos quadros da sociedade discipli- ••• Levantemos algumas reflexões que a reconstituição destas passagens pode. talvez.) na história ainda recente de nossa sociedade são indícios. perguntar pela situa- ção particular da sociedade brasileira atual no quadro daquela descrição da sociedade contemporânea ocidental. alarguemos o alcance do exemplo e indaguemos. ali desenhado. é possível interrogar se ele se ajusta inteiramente ao quadro descrito. mais de perto. pelo menos sob alguns aspectos ou em algumas regiões. circunscritas. polemicamente. normaliza. de proximidade ainda com as condições qu~ caracterizam o modelo inquisitorial mais do que o do controle. das artes etc. Paris. Finalmente. numa sociedade de tipo disciplinar passa-se o contrário.sua realização mais completa como sociedade disciplinar. Introduz-se assim. Sabemos que as análises foucaultianas não pretendem. a crítica das sociedades moldadas na disciplina e no controle. talvez. localizadas. simplesmente de práticas sociais à produção de saberes I 83 . de proximidade ainda Indícios como estes podem sugerir uma curiosa situação: enquanto a descrição foucaultiana já veicula.inquisitorial "a individualização é máxima do lado em que se exerce a soberania e nas regiões superiores do poder". apontemos alguns indícios para a reflexão: • a industrialização em escala incipiente.

como se sabe. Publicado em Retratos de Foucault (PORTOC. os filósofos reúnem sua atividade à do historiador quando o que os ocupa são "canteiros históricos" de obras filosóficas. Nesses casos. na Universidade do Rio deJaneiro. a medicina. De modo geral. palestra proferida por ocasião do Colóquio Michel Foucault. M. quando se trata da leitura de textos filosóficos na elaboração de histórias da filosofia. 21.. CASTELO BRANCO. são fragmentos filosóficos em canteiros históricos. Foucault e a leitura dos filósofos . 2000. a delinqüên* Este texto reproduz. com algumas modificações. Primeiro. mas outros e variados os "objetos" e os "domínios" dos quais se ocupam os estudos históricos que Foucault realiza (a loucura. no máximo. FOUCAULT) Dits et écrits) IV. Questões semelhantes podem ter lugar relativamente aos escritos de Michel Foucault. em novembro de 1999. isto é. não são as filosofias. a doença. Porém.. orgs.1 I 85 .ARRERO. indagações sobre a conjugação ou a disjunção entre caráter histórico e qualidade filosófica são freqüentes. Nau Editora.). Rio de Janeiro. as chamadas ciências humanas. V.VII1 FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS' Meus livros não são tratados de filosofia nem estudos históricos. com particularidades de uma situação muito diversa. E de uma diversidade pelo menos tríplice. G.

Revue de Métaphysique etde Morale. Rousseau)juge deJean-Jacques. ce feu". indireto. ensaios "avulsos". la généalogie. Cf. variados são também os planos das abordagens. e org. ••• Não muitos escritos se ocupam diretamente da abordagem de filósofos. l'histoire". atreladas que estão ao assunto central da respectiva investigação. in Dits et écrits) IV..se se quiser.274. Gallimard.. in Dits et écrits) lI. "Qu'est-ce que les Lumieres?". Sob o título "Mon corps. ce papier.sobre Kant (de 1961)3. incluída. Pode ser reconhecida de duas maneiras. 4. Em todo caso.Le chant du rygne. Microftsica M poder. pensa filosoficamente ao praticar a investigação histórica. Paris. no interior das articulações interdiscursivas. DERRlDA. a releitura (de 1971) das Meditações de cia. agregando. no texto "Mon corps. 305.. Paris. Como escreveu um historiador. 1994. a literatura. Incluído. Paris. certa história das filosofias . Segundo. com diferentes intensidades e extensões. Lima e M. no capítulo II ("O grande enclausuramento") da primeira parte de História da loucura. Gallimard. a presença assídua das filosofias encontra-se nos escritos volumosos e de grande porre onde têm lugar. o direito. introd. portanto. 2. 6. 460-494. Esta última versão. indiretamente. "Introduction" a Rousseau. "Cogito et histoire de la folie". M.. Ora se movem no trânsito entre a dimensão Descartes4 (em réplica tardia à crítica de Derrida). 136-156. de Carlos Henrique Escobar. Antropologia do ponto de vista pragmático. em sentido largo. Entretanto. e isso significa no âmbito dos chamados dispositivos estratégicos.. em todo caso. 1967 à nos jours. Graal. O Dossier . Vigiar e punir. Éditions La Découverte. em número reduzido. Trad.. História da sexualidade). Dialogues. 172-188. e isso significa no âmbito das epistémes ou dos espaços que demarcam as possibilidades de configurações dos saberes historicamente qualificados. acrescentada à segunda edição de Histoire de la folie à l'âge classique. as filosofias são protagonistas dos grandes livros de história (História da loucura) Nascimento da clínica. datilografado. e org. Introd. Cf.. 7. e mais genericamente. Taurus. no volume FOUCAULT. Foucault e a leitura dos filósofos 86 I Foucault. portanto.. as práticas judiciárias.jdéc. nos interstícios entre os gêneros"'.. quase sempre. 4. trata-se de cursos.. textos curtos e. 1994. as artes . em tradução brasileira. da Glória R. Ensaio. po epistêmico práticas e instituições sociais. ). Para o primeiro modo de presença. 288-293. a sexualidade. DOSSE) F. o ensaio so- bre Nierzsche (de 1971)5. permanecendo. o esrudo mais recente sobre Kant (de 1984t De modo geral. Roberto Machado. Histoire du structuralisme. J.marca presen- ça nos trabalhos de Foucault. da Silva. há diversidade porque Foucault realiza um peculiar cruzamento entre a atividade do filósofo e a do historiador na medida em que. a tese complementar de dourorado 1. Todavia. Trata-se da réplica à crítica que Derrida endereçara à leitura foucaultiana de Descartes em História da loucura? Com efeito.últimas entrevis· tas. ao cam- ticularmente explícitas: a leitura comparativa entre Montaigne e Descartes. Comporta tradução e introdução a Kant.. nos limites. ou as retomadas de Platão nos volumes II e III (O uso dos prazeres e O cuidado de si) de Historia da sexualidade. incluído em Dits etécrits. 11 . Rio de Janeiro. As palavras e as coisas.. diferentemente da prática filosófica de pensar a história. Rio de Janeiro. está incluído no acervo do Centre Michel Foucault e uma "Notice historique" está publicada em Dits et écrits. Cf. ce feu". tomemos uma análise textual que nos parece exemplar. Tradução brasileira de Álvaro Cabral. 562-578 e 679688. 1992.. "seu pensamento se situa sistematicamente nas linhas fronteiriças. oct. extraída do curso de 5 de janeiro de 1983. 1972. São Paulo. Para mencionar alguns: um estudo introdutório sobre Rousseau (de 1962)2. no volume FOUCAULT. por assim dizer. Para mencionar algumas siruações par- discursiva e a extradiscursiva. certa leitura das filosofias . 1984. 1979. I. I 87 . de Ana Maria de A. Ora mantêm-se na dimensão estrita dos discursos. 5. M. em tradução brasileira. Terceiro. O texto de Foucault.. 3. I. Cf "Nietzsche. Simplesmente . ce papier. mas em proporções desiguais: convencionemos dizer que diretamente as filosofias comparecem com menor freqüência. 1963 n..

lembremos a publicação bem posterior (Éd. no qual. Hobbes.. 10. Consideremos a outra e mais freqüente maneira . Montesquieu. Leibniz. acompanhando os três períodos históricos percorridos (renas- Foucault realiza. mas também enquanto exercício. 590-591. "a representação reduplicada". com a morte da 'filosofia' tal como esta é ainda escolarmente entendida"'4. O capítulo III ("Representar"). depois de iniciar-se com a cativante leitura sobre as aventuras de "Dom Quixote" (item I). Para apresentar "a imaginação da semelhança". enfim. além disso. com habilidade de mestre. 14.Rencontre internationale)Paris. Relume Dumará.agora acerca de Freud. Foucault . "Mon corps. Descartes. faz ver a necessidade de dupla postura de leitura demandada pelo próprio texto. Cf. 599. R.tes. 1994. Locke.. Nietzsche.. 9. destaquemos algumas passagens e. 55ss. M. precisamente por sua natureza de "meditação"lO. Bergson.. isto é. Ibid. 1992) de outro texto. Trad. não deixa de lembrar quanto Foucault suspeitava de uma «história da filosofia universitária"'3 e. Dilthey.11 janvier 1988. Bacon. subverte a posição de defesa para instalar-se no terreno do opositor e apontar os defeitos que são dele. 588-590. No item I1I. a Logique de Port-Royal. A palavra de Descartes. tentando vasculhá-la um pouco no enredo das investigações históricas Tomemos As palavras e as coisas. 593-597. ao estruturalismo etc. 8. para '(a representação do signo". Ibid. de Husserl JJ1z . há chamadas à Logique de Port-Royal. LEBRUN. Dessa relação apenas nominal. ao afirmar que evita o retorno à discussão anterior. passa a fazer falar os filósofos. entre outros. principalmente. Lebrun descreve-o como "um livro de combate" e "um livro filosófico". Espinosa. Berkeley e Condillac. usando técnicas refinadamente rigorosas e uma esmerada ordem de exposição. Finalmente. indica o trabalho foucaultiano como "um instrumento de renovação de uma 'história da filosofia' que seria acionada. compõe todo o teor do item II. 38. Heidegger. 51. MAJOR. E.. G. modernidade). uma reconstituição interna das Meditações. no final. na leitura do mesmo texto cartesiano: "omissão de elementos literais". ROUDINESCO. Berkeley. remete a termos latinos e a suas traduções9.Leituras da história da loucura.33. Condillac. de seu crítico (no caso. à fenomenologia. 12. Hume. J.."o esquema ou o espectro de uma problemática análoga" ou de "uma questão semelhante". Compara. que "contém ao menos o esboço de uma história da filosofia" e no qual encontramos "indicações para uma leitura de Descar- cimento. duas escolhidas entre aquelas que se ocupam com momentos de limiares ou de transição entre os períodos históricos investigados. Ibid. Malebranche. Rio de Janeiro. ce feu". que estabelece a ponte do renascimento à idade clássica. Husserl. A título de curiosidade. em As palavras e as coisas) fizermos um levantamento geral na seqüência dos dez capítulos. aos ideólogos. Ibid. Rousseau. Seuil. enquanto sistema. Derrida). conta com a Logique e com Destutt de Tracy. in Michel Foucault philosophe ... Se. passo a passo. o sistema que os opõé. CANGUILHEM. Ibid. Galilée. O item N. DERRlDA. in Histoire de lafolie. "Note sur la phénoménologie dans Les Mots et les choses". em detalhe. não de Descartes . "elisão de diferenças textuais". certamente ("encadeamento sistemático de proposições))). Hegel. FOUCAULT. para explanar o desmoronamento da semelhança renascentista e a instauração da categoria clássica da "ordem". 9)10. M. e muitos deles numerosas vezes: Montaigne..a indireta . ce papier. 1989.A história da loucura na era da psicanálise". G.. veremos que são convocados. Paris. "Fazer justiça a Freud .de inserção das filosofias. Kant. 13. Ignes Duque Estrada. "apagamento enfim e sobretudo da determinação discursiva essencial (dupla trama do exercício e da demonstração)"ll. Derrida de certo modo a repete e propõe . idade clássica. 88 I FoucaulL Simplesmente Foucault e a leitura dos filósofos • I 89 . os parágrafos (sobre o sonho e sobre a loucura) do texto cartesiano e segue. 11. principalmente. de Kant. no item V. preferencialmente. Um artigo de G.

o capítulo VII ("Os limites da representação"). "As sínteses objetivas"). Se tivéssemos tomado outro exemplo. mas que permanece fundamental. "linguagem": trata-se. filologia). biologia. op. no livro de RABINOW e DREYFUS. tem-se um sujeito do co15. cit. Foucault retomará. em seu último item (VI. 1995. 69. e certamente então reencontraríamos Descartes.. Ciência e saber . 136-138. a linguagem (economia. Aliás. de que o Hospital Geral é o marco institucional. em apêndice. quando também aparecerão. um trecho sobre as declarações de Foucault acerca de sua tese complementar de doutorado (que. a presença de Kant. Vera Portocarrero. op. filologia). 17.16. IV. Graal. precisamente ou. simplesme-nte- nhecimento que coloca para Kant o problema de saber o que é a relação entre o sujeito moral e o sujeito do conhecimento. Forense Universitária. para empregar uma expressão de Roberto Machado. Uma trajetória filosófica . já que se trata da mesma entrevista reproduzida com modificações.e é para onde todo o livro se dirige -. biologia. teríamos visto o tecido de relações entre o plano discursivo e o extradiscursivo. nos capítulos IX ("O homem e seus duplos") e X ("As ciências humanas"). Trad. Malebranche e Espinosa.17 entre a filosofia e outros saberes dos respectivos períodos históricos. "vida". essas duas pontas filosóficas daqueles períodos históricos: "Seguramente. se compôs de tradução e introdução à Antropologia de Kant): 16. Hume e Rousseau. Veja-se também.Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Kant será reintroduzido.. a vida. em um texto escrito muito depois (originado em uma entrevista de 1983).. finalmente . melhor dizendo. A entrevista também se encontra. Importa observar que. Para o primeiro caso. de "transcendentais". traça agora a curva do classicismo para a modernidade e assinala. Mostra a correspondência entre o campo transcendental kantiano das condições de possibili- dade do conhecimento e as categorias modernas de "trabalho". assim como para ilustrar a diferença entre eles. a fenomenologia. entre outros. Assim como o pensamento de Kant é analisado em correlação com os saberes modernos "Sobre o trabalho. gramática geral). "diferença de nível. Desenharse-á. esquematizo aqui uma história muito longa. sem desconsiderar outros filósofos.278. dos conhecimentos positivos com o pensamento filosófico. Está bem claro que As palavras e as coisas. Rio de Janeiro. sempre. assim como Condillac. elas se alojam na confluência. 137. não há desigualdade de importância nem de prestígio ou. 1982. como é o caso de História da loucura. Bem mais adiante. M. Mas observação semelhante pode ser feita também a propósito das relações entre a filosofia e práticas não-discursivas. FOUCAULT. enquanto condições de possibilidade de conhecimentos objetivos (economia. lembremos.. Em português: Dossier.. agora como o marco filosófico na partilha clássica entre razão e desrazão. 411. assim o de Descartes com os saberes clássicos (análise das riquezas. MACHADO. a dialética. o lugar de surgimento das ciências humanas: elas emergem no entroncamento das dimensões positiva e filosófica dos saberes. o positivismo.lá estão Hobbes e Hume. cit. para o filósofo investigador da história. que descreve as transformações ocorridas na segunda metade do século XVIII.. e são evocados Descartes. a configuração moderna dos saberes e. 90 I Faucault. Após Descartes. Isso no que concerne ao âmbito de articulações somente interdiscursivas. R. in Dits et écrits. história natural. detalhadamente posiciona Descartes no limiar do classicismo como Kant no da modernidade 15 . longa e explicitamente. mas de modo genérico. mas do objeto e do a posteriori. no mesmo livro.A trajetória da arqueologia de Foucault. então. Rio de Janeiro. Foucault e a leitura dos filósofos I 91 . com a diferença de que estas categorias situam-se do lado não do sujeito e do a priori. Duas passagens extraídas do livro biográfico de Didier Eribon nos servem para retomar conjuntamente os modos de presença das filosofias que estivemos denominando direto e indireto. "À propos de la généalogie de l'éthique: un aperçu du travail en cours". Cf MACHADO. 630. ambiguamente. R.

em vários momentos e de muitos modos. da quarentena.. 19. declara-se "filósofo" por reconhecer-se no trabalho de quem "busca diagnosticar. é necessário cruzar análise estrutural e análise genética..20. Pertence a certa escolha que. obtida de um comentário de Michel Serres: A filosofia. esse livro é também um grito . Trad. Por isso é que no próprio seio da argumentação lógica. Foucault e a leitura dos filósofos Foucault. Em outras palavras. Essa forma de inclusão das filosofias na história não é certamente descomprometida. no seio da minuciosa erudição da pesquisa histórica circula um amor profundo. de que sucessivos sedimentos se alimentou? Análise genética. n. São Paulo. Concluamos com a sugestão.18.. com domínios diversos. remanejado.. não vagamente humanista. realizar um diagnóstico do presente". contracenando. lbid. Assim.. uma atenção mais ardente: a obra seria precisa sem ser inteiramente verdadeira. lbid. ••• As filosofias comparecem. Republicado em Hermes ou la communication. Por isso começa-se a entender que uma história "exclusiva" das filosofias possa ser não apenas historicamente como ainda filosoficamente insuficiente. professeur Foucault?".. com objetos múltiplos.19. qual é a relação dessa Antropologia com o movimento 'crítico' desenvolvido por Kant? Análise estrutural. enredadas no interior das histórias. pois. porém. M. "Géometrie de la folie". o outro eu. não houvesse uma visão secreta. Minuit. 1968. 21. de algumas reflexões. Assim. Já em uma entrevista de 1967. 1.. Simplesmente J I 93 . no cerco interno dos sistemas. além da compreensão estrutural. 119.. diagnóstico do presente As filosofias só estão associadas às investigações históricas do passado para possibilitar um olhar mais atento sobre nosso tempo. da desgraça. essa geometria transparente é a linguagem patética dos homens que sofrem o suplício maior da rejeição. 92 20. com práticas não-discursivas. verdadeira função que podem ter hoje os indivíduos a que chamamos filósofos"21. formulada por Foucault.. 176. Creio que existe certo tipo de atividades 'filosóficas' em domínios determinados que consiste em geral em diagnosticar o presente de uma cultura: é a "Inútil seria esse rigor da arquitetura se. "Qui êees-vous. Michel Foucault ~ Uma biografia. 1990.. 18. D. por exemplo. mas quase piedoso. E para ilustrar o que chamamos de presença indireta a citação sobre a tese principal de doutorado (Folie el Déraison. quase sempre. nem tampouco na suficiência de suas singularidades. E conclui: "Falei-lhes de um desaparecimento das filosofias e não de um desaparecimento do filósofo. do exílio. Mercure de France. a este propósito. FOUCAULT. A compreensão da filosofia como "diagnóstico" é. por outro é resultante de uma maneira de conceber a própria filosofia. a saber. Qual é a situação dessa obra na disposição global e interna do sistema kantiano. transformado durante quase 25 anos. 1188. agosro de 1962. diagnóstico do presente. por essa gente obscura em que se reconhece o infinitamente próximo. 125. ) para compreender esse texto de Kant escrito. Hildegard Feise. do ostracismo e da excomunhão. ERIBON. para que elas possam ser o que devem ser. o que "desde Nietzsche caracteriza a filosofia contemporânea..606. se por um lado resulta em um modo de história da filosofia. mas espalhadas na exterioridade espessa das epistémes ou conectadas à heterogeneidade complexa dos disposltivos estratégicos. M.. 620. com saberes não-filosóficos."( . Histoire de la folie à l'âge classique). in Dits et écrits. Cf. Como essa obra terminal foi elaborada. SERRES. Companhia das Letras. Não.

em sua mobilidade. Os dispositivos são "moventes". em toda parte Dize~ que as atividades filosóficas existem "em domínios determinados" e que o diagnóstico que elas realizam remete a "uma cultura" significa também que elas não configuram um "domínio" específico. é multiplicá-los._-' 1 I 9S . op. "Sur le style philosophique de Michel Foucault ~ pour une critique du normal". in Michel Foucault philoso· phe. 25l.. um pensamento sem morada. Foi buscar a filosofia em toda parte. RAVEL.. saberes e práticas diversificados e as situam como peças de dispositivos historicamente dominantes não fazem. MOREY. FOUCAULT. Grenoble. a filosofia está em toda e em nenhuma parte. "Assim. as coisas e as palavras. 144. o filósofo -. "Sur l'Imroduction à Binswan~er (1954)". e o atual. o gesto filosófico pode ser também capaz de excedê-lo. modo de existência.o poeta. Ed. Jérôme Millon. se se quiser. lire l'oeuvre. também em entrevista mais antiga (de 1966): "( .. in Michel Foucault philosophe.uma 22 espécie de filósofo malgrado ele". in Michel Foucault.exercício de vida. Em um texto de 1970. genialmente antecipou a nossa época. o louco. Rajchman • E o próptio Foucault. leitura dos filósofos 94 I Foucault. Por isso. cit. reunindo as reflexões que acabamos de sugerir. de procedimentos que delineiam um modo outro de história da filosofia como estratégia de criatividade na contraface de dispositivos estratégicos estratificados. como outros saberes e práticas. 26. Comportam o arquivo. Há "linhas de fuga" e "todas as linhas são linhas de variação". O dispositivo é "multilinear" e as linhas de que se compõe são linhas de visibilidade e de enunciação. 27. palavra transgressora Pertencente ao seu tempo. 55. A filosofia. Assim.como transgredir se as filosofias. O atual é o transformávet o ((devir-outro)~ aquilo em que nos tornamos.. A filosofia. eu diria que é precisamente nos seus 'ensaios' para abrir a filosofia ao seu fora que Foucault era filósofo .25.-. M.. são também linhas de forças e linhas de subjetivação. é preciso que ela seja -:. Finalmente. Abrem também a possibilidade do discurso de resistência.-. in Dits et écrits. para nosso uso. Interessou-se por tudo.m. M. .. 23. Cf. estão calcadas nos solos das épistemes e tecidas nas redes dos dispositivos? Retomemos aqui. um discurso não-cúmplice. "Michel Foucault et Gilles Deleuze veulem rendre à Nietzsche son vrai visage".. 185-195.. senão que se constroem no espaço relacionaI com o seu diverso. Por isso. RAjCHMAN. Foucault já aproximava os filósofos de "seus vizinhos. pela história. 70. "Le piege de Vincennes". assunto do diagnóstico. o seu fora. envolvem o ver e o dizer. G. necessariamente. 24. poderíamos acrescentar: para que a filosofia possa ser um olhar atento sobre o presente. Mas 22. conjugar as filosofias a saberes e práticas nãofilosóficos que compõem epistémes e dispositivos não é reduzir os gestos filosóficos.]. 1992. alguns aspectos das considerações de Deleuze sobre o que é o dispositivo. mesmo se em certos domínios permanece um homem do século XIX. pela política etc. escreve]. "Foucault: l'échique et l'oeuvre". in Dits et écrits I. apenas atrelar as filosofias ao estabelecido. in Michel Foucault philosophe.. Simplesmente . essas histórias que inserem a urdidura das filosofias nas tramas de objetos. Judith Ravel retoma essas "três figuras misturadas" .antes de tudo e após tudo .. pela literatura. a não-filosofia Como diria Merleau-poncy. 25. ) Nietzsche multiplicou os gestos filosóficos. Em texto bem mais recente. 552. "que foge a toda conivência. Trata-se.>23.. "Qu'est-ce qu'un dispositif?".24. DELEuzE. reunindo-as sob a categoria da "palavra transgressora.. as linhas do dispositivo se repartem em "linhas de estratificação ou de sedimentação" e "linhas de atualização ou de criatividade"26.. Foucault e a. J. uma palavra interrogante. assunto da análise histórica. Com isto. diréction de Luce Giard. o seu outro. lI. os poetas e os louCOS.

VIII

OLHARES E DIZERES'

Fazer a cnêica é tornar difiéeis os gestos demasiado fáceis.
M. FOUCAULT, Dits et écrits, IV, 180.

Em busca do fio condutor
Os modos de distribuir os escritos de Foucault e recompôlos podem ser relativamente diversos, mas quase sempre se
sobrepõem e, sem dificuldades, complementam-se. O modo
mais freqüente, nomeado e renomeado pelos diferentes estudiosos e reconhecido pelo próprio Foucault, consiste em considerá-los ao longo de sua cronologia, situando-os, segundo o
critério dos grandes deslocamentos, em três grupos: quer se
fale de momentos, fases ou etapas, de áreas, campos ou domínios, de eixos ou vertentes, de planos, níveis, camadas, terrenos
ou patamares, eles configuram, em seu conjunto e sucessivamente, uma arqueologia do saber, uma genealogia do poder e uma
genealogia da ética.
* Conferência proferida por ocasião do Colóquio FoucaulrjDeleuze, na
Universidade Estadual de Campinas, novembro de 2000. Publicada em Imagens de Foucault e Deleuze, ressonâncias nietzschianas (RAGo, M., ORlANDI, L. 1.,
VEIGA-NETO, A., orgs.), Rio de Janeiro, DP&A editora, 2002.
olhares e dizeres

I

j

j

97

Contudo, pretendo referir-me aqui a outros modos ou critérios de organização, que não se opõem ao mais usual e que, a
meu ver, são aproximáveis entre si. Para isso, evoco três passagens, duas das quais recolho em Foucault e a terceira em Deleuze.
Já no "Prefácio" de As palavras e as coisas, de 1966 - antes,

portanto, da produção chamada genealógica -, o próprio Foucault propunha certa organização de seus escritos, e o critério era
então o da ênfase no Outro ou no Mesmo. Assim, enquanto Históri4 da loucura perguntava pela "diferença" que limita internamente uma cultura, As palavras e as coisas, respondendo "como em
eco", investigava a "proximidade das coisas"; enquanto História da
loucura "seria uma história do Outro" - daquilo que, em uma
cultura, na nossa, "é ao mesmo tempo interior e estranho" -, As
palavras e as coisas "seria uma história do Mesmo" - daquilo que,
em nossa cultura, preside "a ordem das coisas", podendo ser
"distinguido por marcas e recolhido em identidades"l.
Anos depois, na elaboração de um texto que tem por tÍtulo o seu nome - um verbete para um Dicionário de filósofos, de
1984 -, Foucault reconstitui a organização de seus escritos e,
de certo modo, retoma, como que obliquamente, aquele critério usado no início de sua trajetória, o do Outro e do Mesmo.
Reúne então, retrospectivamente, toda a sua produção sob o
que ele chama de um "projeto geral": investigar a experiência
histórica da constituição do sujeito nas formas diversas de sua
subjetivação e de sua objetivação. E, como que atravessando
este projeto, um "fio condutor": a questão dos "jogos de verdade" ou "das relações entre sujeito e verdade"z.
Dentro desse "projeto" e segundo esse "fio condutor", realizam-se, no conjunto e no decurso de sua trajetória, dois modos de análise: no primeiro, a análise dos "jogos de verdade"
pelos quais o sujeito torna-se objeto de saber na forma do co1. FOUCAULT, M., As palavras e as coisas, "Prefácio", 13-14.
2. Cf. "Foucault" in Dits et écrits IV, Paris, Gallimard, 1994, 631-636. O
verbete "Foucault" pode ser encontrado na tradução brasileira: HUISMAN, D.,

98 I Foucault. simplesmente

nhecimento científico, desembocando nas chamadas ciências
humanas com sua característica normativa; no segundo, a análise dos "jogos de verdade" pelos quais o sujeito é constituído
como objeto de conhecimento, alojado, porém, no "outro lado
da divisão normativa". Pode-se ver, no primeiro caso, o sujeito
enquanto "distinguido por marcas e recolhido em suas identidades", de As palavras e as coisas. No segundo, trata-se do "diferente", o louco, o doente, o delinqüente, de História da loucura, O

Nascimento da clínica, Vigiar e punir'.
Finalmente, e sempre no interior do mesmo "projeto geral",
aos dois primeiros tipos de análise seguiu-se o mais recente: investigar "a maneira como o sujeito faz a experiência de si mesmo
em um jogo de verdade no qual se relaciona consigo próprio"4.
Reunindo esta reconstituição às considerações do "Prefácio" de As palavras e as coisas, pode-se dizer que, na seqüência dos
grupos de escritos, o fio condutor é sempre o das relações entre
sujeito e verdade, tramadas nos jogos do Mesmo e do Outro.
Resta acrescentar que, quando os escritos se centram no Mesmo, descrevem a epistéme, o círculo de uma época, o instituído,
o sedimentado. Quando se voltam para o Outro) realçam o dispositivo, que tanto comporta a estratégia dominante como se
abre à possibilidade do novo, da resistência e da mobilidade.
A aproximação dessas passagens, a mais antiga e a mais
recente, permite, por sua vez, ligar ambas a alguns aspectos da
leitura que faz Deleuze acerca do percurso foucaultiano. Os
três momentos desse percurso são por ele descritos em termos
de "linhas" que compõem os diversos dispositivos analisados por
Foucault. As mudanças entre eles são referidas como "crises",
"desvios", "brechas", "linhas quebradas", "novas linhas" etcs.
Dicionário de filósofos, trad. C. Berliner, E. Brandão, I. Castilho Benedeti, M. E.
Galvão. São Paulo, Martins Fontes, 2001, 388-391.
3. Ibid., 633.
4. Ibid., 633.
5. Cf. DELEuzE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?" in Michel Foucault philosophe
- Rencontre Internationale, 1988, 185-195, que retoma, particularmente, o capítuolhares e dizeres

I 99

No primeiro momento - o da dimensão do saber -, tratase, especialmente, de "linhas de visibilidade e de enunciação":
"pensar é, primeiramente, ver e falar ... "6. Isso corresponde, nos
termos do citado verbete de 1984, aos jogos de verdade segundo os quais o sujeito é constituído como objeto para um saber
reconhecido; ou ainda, nos termos do "Prefácio" de As palavras
e as coisas, ao sujeito "visível" e "dizível", na ordem do Mesmo.
No segundo momento - o da dimensão do poder -, tratase, especialmente, de "linhas de forças": elas operam um "vai-evém do ver ao dizer", fazem "entrecruzar as coisas e as palavras"7. É o pensamento na elaboração de "estratégias". Nos termos dos dois textos anteriormente considerados, significa que
isso inclui tanto o pólo das "identidades" como o das "diferenças"; ou, se se quiser, tanto o lado "instituído" da "divisão normativa" como seu "outro".
No terceiro momento - o da dimensão ética -, trata-se,
especialmente, de "linhas de subjetivação": elas apontam para
"novas possibilidades de existência"g. Não mais "o domínio das
regras codificadas do saber (... ), nem o das regras coercitivas do
poder (... ), são regras de algum modo facultativas"9. Nos termos
dos textos vistos, isso corresponde à "experiência que o sujeito
faz de si" na relação consigo próprio, ou ainda, se se quiser, à
possibilidade de um devir do Mesmo em Outro.
lo "Pensar de outra maneira" de seu livro Foucault, Paris, Minuit, 1986. Vejase também as três entrevistas sobre Foucault, "Rachar as coisas, rachar as
palavras", "A vida como obra de arte" e "Um retrato de Foucault", reunidas
em Conversações, trad. P. P. Pelbart, São Paulo, Ed. 34, 1992.
6. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", in Conversações, 119. Veja-se ainda,
no mesmo texto, 119-122; 126; e no texto "Um retrato de Foucaulr", 133-134.
7. DELEUZE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?", in Michel Foucault philoso-

Finalmente, reunindo as três referências, busquemos refazer o fio condutor que percorre o trajeto foucaultiano. Digamos
que se trata das relações entre sujeito e verdade, ou mesmo do
sujeito com sua verdade; que essas relações são tomadas no jogo
entre o estabelecido e o mutável, vale dizer, entre o Mesmo e o
Outro; e acrescentemos agora que, nesse jogo, as relações são
visíveis e dizíveis de modos diversos, isto é, que olhares e dizeres
- analogamente aos pólos do idêntico e o do estranho - são
sedimentados ou mobilizadores, dependentemente daquilo que
nós, historicamente, somos capazes de ver e dizer.

Imagens e palavras -

um exercício

Usando o fio condutor brevemente reconstruído, proponho que façamos um pequeno jogo, alinhavando com ele alguns comentários sobre o filme Meninos não choram lO•
Personagens principais e ambientação geral

• Brandon ou Teena Brandon: uma jovem de 21 anos que se
sente) se veste e se comporta como um rapaz; tem um primo
que é também seu confidente.
• Lana' jovem aproximadamente da mesma idade) mora com a
mãe e trabalha em uma fábrica; é amiga de Candace.
• John: namorado de Lana; é amigo de Tom e ambos são expresidiários.
Os personagens são todos de classe média baixa ou pobres,
arriscam-se em aventuras, são usuários de drogas. O contexto é o
de uma pequena cidade americana (Falls City). O filme todo
transcorre em ambientação de pouca luminosidade, ~esmo quando a cena acontece ao ar livre (como no episódio do estupro).

phe. 186.

8. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", 120.
9. DELEUZE, G., "Um retrato de Foucault", in Conversações, 141. Veja-se
ainda ''Rachar as coisas, rachar as palavras", 116; "A vida como obra de arte",
123; 125. "Qu'est-ce qu'un disposicif?", in Michel Foucault philosophe, 187.

100 ! Foucault. simplesmente

10. Boys don't cry - 1999. Direção: Kimberly Pewirce (também um dos
autores do texto). No elenco: Hilary Swank (Oscar de melhor atriz), no papel
de Teena Brandon; Chloé Sevigny, no papel de Lana; Peter Sarsgaard, no
papel de John. O enredo reconstitui uma hiscória real ocorrida. em 1993.
olhares e dizeres

! 101

Na cena final. expondo-a nua ao olhar de todos. John e Tom agarram Brandon e brutalmente lhe tiram as roupas. Depois de alguns momentos com ela no quarto. começa quase mecanicamente a despir-se a fim de que Lana pudesse testemunhar sobre sua "verdade". Também se vê examinada pelo olhar de Lana ou o de sua mãe e. sob eles. ou. vai. uma investigação policial revela sua identidade feminina. Levam-na depois a um lugar ermo onde a espancam e estupram. estranha encontrá-la em uma cela feminina. Quando têm relações amorosas. Inquirida sobre a identidade sexual de Brandon e buscando impedir que a forcem a despir-se publicamente. com imensa dificuldade. mas sua única preocupação é tirá-la dali. Decidem fugir juntas. Sob seu olhar perplexo. sua mãe e seus amigos. Após o banho. Em suma. matam a tiros Candace e Brandon. apenas abre a porta e comunica a todos que Brandon é homem. "toma a estrada"ll. teve uma filha e voltou a morar na pequena cidade. especialmente os rapazes. Resumo do enredo Na cena inicial. Brandon vai então à casa onde se hospedara a fim de apanhar suas coisas. testemunhou contra John e foi condenado à prisão perpétua. Candace vasculha os objetos pessoais Palavras e imagens • De Brandon. faz o relato das agressões. Lana. ameaçada. quase em murmúrio. pede. olhares e dizeres I 103 102 I Faucault. Desconhecedora dessas informações. Quando fechada no quarto com Lana. alguns anos depois. Uma pessoa que tem ór- põe fechar-se a sós com ela. gãos femininos e masculinos. na cela feminina. todos os esperam. Tenta comportar-se como o grupo de jovens que acaba de conhecer. seu testemunho da "verdade". quando posta sob o olhar do primo/confidente parece ingenuamente tola. é despida por John e Tom. contam à mãe de Lana. Quase ao mesmo tempo. Em seguida. em seguida. essa mesma visão. É Lana que a interrompe. Lana. Brandon consegue escapar e encontra Lana. Quando presa. "tomar a estrada". sendo porém submetida a uma espécie de interrogatório informal que quer desvendar não o estupro mas a natureza de seu sexo. por sua vez. relatando-a aJohn e Tom. Brandon tem sobre si o olhar e o dizer da verdade "reconhecida": verdade una.Há uma última cena de amor em que Lana faz Brandon despir-se. é mais ela que ele". comprometendo-se a dar. indignados. à pequena cidade onde moram Lana. exceto na última vez. sobre si mesma Vê-se como um rapaz e faz saber que quer mudar de sexo. eis o que diz a Lana: "Quer de sua hóspede e faz a mesma descoberta. Teena Brandon é levada presa. John e Tom surpreendem Lana e a levam também à casa de Candace. se se 11. Simplesmente • . Aparentemente sem vínculos (salvo os raros encontros com um primo). Informações em notas finais: John foi condenado e está apelando da pena de morte. Apaixona-se por Lana e é correspondido. Entre seus objetos pessoais encontra-se um pequeno livro sobre "crise de identidade sexual". Brandon quer ser rapaz e produz sua transformação. meio ao acaso. aos olhos de todos. Leva-a então à sua casa onde. Cobram-lhe segredo do ocorrido e conduzem-na de volta à casa de Candace para que se lave. não se despe. expressão que repete aos outros para tentar definir-se. pro- saber a verdade? Sou hermafrodita. Desencadeada por um acidente de carro . Brandon vai à polícia e.que Brandon dirigia a mando de John e Tom -. Quando. recua. desesperadamente. que apaguem as luzes. que. Mas Brandon não é bem ele. localizada no sexo. Lana busca Brandon na prisão. sozinha. Tom colaborou com a acusação. que a faz ser levada a um hospital. como se perscrutassem sua "verdade". quando é por ela despido. Hospeda-se na casa de Candace. O nome de Brandon é Teena.

afinal. Na cena do banho) após o estupro. • Da câmera e o do espectador sobre Brandon Para capturar o olhar da câmera . despir. nos objetos vasculhados) a verdade "encoberta". a mesma. Eis um de seus dizeres: {(Também tenho sentimentos estranhos". nas roupas. E no de] ohn: "Só quero a verdade. no dispositivo instituído da sexualidade. as do poder que. John e Tom localizam a marca da identidade no "nome" de Brandon. mas meio caricata) apenas uma espécie de falso artifício. simplesmente mentira. Na cena em que Brandon se declara hermafrodita. 2. Por isso é que a "verdade" de si mesma estaria perigosamente exibida em seu desnudamento. e comprimindo os seios.quiser. reunidas e contrapostas em dois pares. seu mentiroso". sobre Brandon Candace "descobre". estupradores e espectador. olhares e dizeres I 105 . a câmera faz ver seu corpo seminu. de costas. Nesse par de cenas) o personagem aparece como uma figura ambivalente. por sua vez. Na cena inicial. come- ça a insinuar-se no espectador uma dúvida sutil. entrecruza imagens e palavras. tudo se passa como se a lente da câmera intermediasse entre eles. ele próprio invisível e indizível.e os dizeres que o acompanham.mçiação". E o nome. Na cena em que a personagem se instala na casa de Candace. agora enfim nu. de que precisavam os estupradores. • De outras personagens. ((só há um modo de saber a verdade". sobre Brandon e sobre si mesma Lana vê Brandon sem suspeitas e admite ver-se confusa. que. Assim. ••• o filme traça "linhas de visibilidade e de em. declara. uma in- desejada cumplicidade. Tudo o mais é de menor importância ou é falso. veste-se depois. tador . verdade identitária. O que sabemos ser a verdade". essencial e universal. esta é a única personagem com indícios de críti- ca e sugestão de perplexidade. quase andrógina. sustentando aquilo que pode ser "distinguido por marcas e recolhido em identidades". a câmera faz ver Brandon "transformar- se" em rapaz. aliás. • De Lana. Em suma. Vou tirá-lo daqui". tem que estar inscrito na carne. é preciso que as luzes se apaguem. e por isso também. é certo. no dizer de Tom. Nesse par de cenas. a verdade está na transparência do visto e na unicidade do dito. no corte de cabelos. Em suma. afirma: "Não me interessa se você é meio macaco. só interessa conjeturar sobre seu sexo e por que ('nunca fez amor antes do estupro~'. nos genitais postiços. proponho o destaque de quatro cenas. Ao policial que a interroga. a câmera percorre o corpo.que conduz o do espec. Quando se fecha no quarto com Brandon e a impede de despir-se. não sem alguma ambiguidade: cCDirei a eles o que querem ouvir. revelando o circuito de condições dentro do qual somente alguma coisa como a "verdade" do sujeito é visível e enunciável. na expectativa de resolvê-la) só lhe resta (como. no disfarce do chapéu. focalizando as curvas femininas de coxas e quadris) parece finalmente fornecer ao espectador a informação aguardada. mas com a camisa cobrindo-o até as pernas. é Teena. Simplesmente Primeira situação 1. aos estupradores) que o personagem se dispa. 104 I Foucault. Indica "linhas de forças". 2. Quando na prisão. de resto. Segunda situação 1.

106 I Foucault. para ele. DELEUZE. FoucAuLT. dar a elas a indispensável mobilidade. T. 13. História da sexualidade. também Teena Brandon "foi um desses heróis infelizes da caça à identidade"12. a tarefa filosófica essencial: jamais consentir em estar totalmente à vontade com suas próprias evidências (. fazem-nos "atentos ao desconhecido que bate à porta. Le Nouvel Observateur. FOUCAULT. 13. ou ainda Alexina Barbin. retomo uma passagem tantas vezes lembrada. entre o que somos e o que estamos vindo a ser.. O diário de uma hermafrodi· ta. é preciso olhar ao longe mas também muito de perto e em torno de si"ls.13. Isso significa que. Rio de Janeiro.No plano das evidências. G. "Pour une morale de l'inconfort". para line Barbin. Mas vê e diz criticamente. é como para perceber por dentro suas oscilações e falar de seus abalos. Mas não passa de vislumbre. Em busca da filosofia Atitude de "diagnóstico".. entre o agora e o devir. 1984. à semelhança do Diário de Hercu- vez. lembrar-se de que. Raras vezes e somente ao olhar e dizer de um personagem esboça-se uma luz desfocada. certamente. permanece nos ecos do instituído. Apenas. enquanto dispositivo.. 15. descrevendo a atividade filosófica como "trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento". refaz a tonalidade do Mesmo e. Prefácio a Herculine Barbin. mais de uma bienta todo o filme. É também sob essa perspectiva que Foucault. ). 787. De algum modo. de r. como aquela penumbra que am- Sob esse ponto de vista. 11 . crad. 191. ou ainda Abel Barbin. como escreveu Deleuze. IlI. se reconhece tributário da fenomenologia e fiel à lição de Merleau-Ponty naquilo "que constituía. Percepção e discurso estão cercados pelo mesmo círculo de condições de visibilidade e dizibilidade a que ela própria pertence. Francisco Alves. um som destoante. creio. M.. O olhar filosófico não prevê. da Costa Albuquerque. abril/79.. M. 14.ontologia do presente. de M. 1982. nem o dizer filosófico prediz. in Michel Foucault philoso· phe. Foucault também nos fala daqueles "momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar e a refletir'J14. Franco. o filme faz saber que. M. "Qu'est-ce qu'un disposicif?". trad. ser um depoimento contra a violência e uma resistência ao preconceito. designada em seu próprio texto ora pelo nome de Alexina ora pelo de Camille". FoucAuLT. Rio de Janeiro. Graal. porém.O uso dos prazeres. em que. É assim. pretende. Todavia. simplesmente olhares e dizeres I o 107 . assim como "Herculine-Adé- laide Barbin. Situam-nos na difícil passagem entre o que já se diz e vê e o que não ainda. em Dits et écrits.. a filosofia vê e diz. 12. o Mesmo e o Outro. como pensamento de limiar que o pensamento filosófico é uma . o vislumbre talvez de um dispositivo outro. se se instaura no presente.

promovido pela Comissão de Legislação Participativa da Câ. O texto.. A cidade grega. se presta aos mais variados usos. em toda época e em todo lugar. 111. G. org. a situação de termos cujo uso foi de tal modo banalizado que acabam por perder toda consistência conceitual. 2004. T. Democracia é uma palavra que. democracia camo prática I 109 . governantes e representantes sociais.mara dos Deputados. Faculdade de Campos. * Palestra proferida por ocasião do Seminário "Democracia e Soberania Popular".I . e não sem razão. Alguns reconhecem nisso.. freqüentes vezes opostas. partilhando tendências diferentes e. presta-se a interpretações diversas e só com a prática adquire sentido preciso. são qualificados ou se autoqualificam como democráticos. como se sabe. em dezembro de 2001. c. instituições diversas. Campos. em Brasília. revistO e modificado.IX DEMOCRACIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Michel Foucault e Cornelius Castoriadis* (.entre o murmúrio e a palavra (CALOMENI. GLOTZ.) um princípio político. foi publicado em Michel Foucault .. Ed..). Partidos e regimes políticos. Mas este é apenas um ângulo possível de consideração.

e são os modos his- Segundo Michel Foucaulr (1926-1984). incrod. primeiramente darei realce a alguns aspectos. Não é primeiramente uma idéia. múltiplos. Gallimard. 1980. Traços da atualidade fato de se tratar de um conceito historicamente circunscrito. de alguma forma. H. na Atenas do século V a. isto é. São Paulo/Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. e org. retomando a expressão de um historiador helenista clássico. para que a democracia não fosse uma palavra oca. ele é "positivo". pode-se dizer que. recobrindo um sentido universal. 13. "instrumento fundamental para a constituição do capitalismo industrial e da sociedade que lhe é correspondente. G. A partir de suas idéias. mas se exerce no plural . 1998. E. a democracia seria «uma palavra oca" se não houvesse sido praticad4 pelas pessoas do povo: "Era também necessário. 1. aqueles que a descrevem e denunciam. adestra as pessoas. Não se exibe na identidade de um poder central e superior . desde o momento histórico de seu surgimento.. em seguida. numa palavra. dedicassem seu tempo ao serviço da república"'. ed. em tom coloquial mas não menos denso. Em uma entrevisra radiofônica realizada em 1996. proponho considerar aqui um recorte histórico particular: o que demarca os contornos de nossas socieda. pois. IH. Assim. gestos. Afinal. portanto incessantemente construído e reconstruído. e pela insralação crescente de outro tipo de poder por ele denominado «disciplinar" ou "de controle". de Roberto Machado.des ocidentais modernas. de modo tal que parece incompatível com esse conceito que ele se substancialize em uma significação única e definitiva. anônimo. permitir que as pessoas do povo. M.trata-se. difuso. pouco antes de sua morte. Difel. in Microfoicado poder. por assim dizer. como por princípio. enfim. ao conceito. ainda pertencemos. Simplesmente democracia como prática . A cidade grega. Pode-se pensar. 1994. 111 . FOUCAULT.I.como na figura do Estado soberano . 11 Da prática.... por exemplo.: "Soberania e disciplina". ocupadas em ganhar a vida. micropoderes cujo funcionamento dá sustentação e eficácia ao macro poder estatal. Vejamos agora algumas reflexões de Cornelius Castoriadis (1922-1997). monárquico.c. o autor explicita. é antes uma prática. 188. Cones de Lacerda. sempre a partir dos mesmos pensadores. o aparecimento da sociedade moderna é assinalado pelo declínio de um tipo hegemônico de poder. as luzes de algumas sugestões. O poder disciplinar não é apenas repressivo ou ostensivamente opressor. heterogêneos. Graal. que têm início por volta do começo do século XIX e às quais. Assim. recorro a elementos extraídos das análises de dois pensadores contemporâneos. uma necessária flexibilidade e uma permanente incompletude. GLOTZ. Michel Foucault e Cornelius Castoriadis. móveis. mas à natureza mesma do conceito de democracia. in Dits et écrits.. 110 I Foucault. Paris. antes. de poderes. 2. Não se mantém numa unidade. em práticas minuciosas exercidas por todo o corpo social. capilar. talvez mais fundamentais. Mais ainda. 1. Mais sutil. e em seguida publicada.. o uso que atribui ao termo "insignificância" para caracterizar nossa épo- tóricos de exercê-la que lhe conferem diferentes significados.. Às características desse tipo de sociedade vinculase a construção das significações modernas de democracia. hábitos. Tradução brasileira. 105. "Cours du 14 Janvier 1976". ainda que muito esquematicamente. mais escuros de nossa sociedade. Trad. "produz" comportamentos.2. tentarei delinear alguns sinais que marcam esse tipo de sociedade. à democracia pertencem. o poder soberano. que o esvaziamento conceitual não se deva apenas à vulgarização do termo.Outros também cabem. de Araújo Mesquita e R.mas se espalha. o Para elaborar esse esquema. complementarmente. a essa natureza de certo modo vaga vincula-se. voI.

Rodrigues. 5. Ibid. mas é preciso esperar. Ibid. Entretiens avec Daniel Mermet. tradução Salma Tannus Muchail e Maria Lucia. 39. Quanto aos cidadãos comuns. 'adaptar-se' para não incorrennos em alguma espécie de arcaísmo. lobbies etc. 38. De orientação similar. Prospectivas Para Foucault. delinear e anunciar um horizonte de transformações.ca. ) e creio que só sairemos dele [do esgotamento ideológico] pelo ressurgimento de uma potente crítica do sistema e um renascimenco da atividade das pessoas. apresentação Maria Lucia Rodrigues.. o resultado é que elas crêem cada vez menos e se tornam cínicas. 2001. prefácio Edgard de Assis Carvalho. de algum modo. Ibid. distingue os políticos de hoje. não se terá bom êxito transformando do alto o regime central de governo ou o aparelho de Estado. reproduzo algumas passagens de Castoriadis. E. ou de "conformismo generalizado". por um lado. "Mas. a partir daí. 30-31. na direção de mudanças. Ibid . São Paulo. pontuais.doce e bela utopiade sair do conformismo generalizado.. acompanhado de uma "disposição geral" que é de "resignação". faz ver que nisso consiste a educação política: em aprender a governar. que é a do ripo disciplinar e de controle. móveis. 40-44. Éd. o problema do papel dos cidadãos e da competência de cada um para exercer os direitos e os deveres democráticos com a finalidade . sentimos vibrar uma retomada da atividade cívica.. Paris. Tradução brasileira: Post-scriptum sobre a insignificância. A democracia representativa "não é uma verdadeira democracia. Como as pessoas estão longe de ser idiotas. Eles são descritos como "profissionais da política" ou Upolíticos de carteirinha"3. mas atuando estrategicamente na trama molecular dos poderes sociais. 6. c. Cada qual dos dois pensadores descreve e denuncia o presente com o intuito de questionar nossas evidências de pensamentos e nossas aderências de condutas e. para serem eficazes. CASTORIADIS. de "inibição" para agir6• Mas essas análises de nossa sociedade não se reduzem a seu desenho austero. Há um "esgotamento ideológico".. é preciso confiar e é preciso trabalhar nessa direção"7. 39. numa espécie de apatia política"5." 4.. 8. por outro lado. No caso de transformação da sociedade moderna. apoiando-se na afinnação de Aristóteles .. a todo tipo de poder responde um tipo de resistência e de luta. Dizer isso é uma tautologia. Castoriadis opõe a boa "educação polírica" que se faz pela ariva participação das pessoas nas coisas comuns. é na experiência de uma "contra-educação política" que a "insignificância" os alcança. Primeiramente eles se representam a si mesmos ou representam interesses particulares.."s Àquela "contra-educação política". 7. É dessa perspectiva que apresentarei. 27 e 33. a compreender que a 'crise' não é uma fatalidade da modernidade à qual seria preciso submeter-se. Veras Editora. Aqui e lá começa-se. brevemente."cidadão é aquele capaz de governar e ser governado" -. É a "insignificância" que. Post-scriptum sur l'insignifiance. 38. 2. provisórias. Coloca-se. 9. as lutas.. a indicação de algumas pistas. 4.. estabelecendo "redes" dentro da rede do poder. "Enquanto as pessoas deveriam habituar-se a exercer todas as espécies de responsabilidades e a tomar iniciativas. Seus representantes muito pouco representam as pessoas que os elegem. de l'Aube. nesse momento. heterogêneas. habituam-se a seguir opções que outros lhes apresentam ou a votar por elas. de sua partici pação na coisa comum. precisam ser plurais. Como os poderes. simplesmente democracia como prática I 1 I 113 . Ibid. 30. "( . 1998 . 47-48. Cf ibid. então. governando 9• 3.• 29. 112 I Foucault.

"Qu'est-ce que les Lumieres?" in Dits et écrits IV. possivelmente. nos convoca à saída de um "estado de menoridade') . um fragmento de sua trajetória . trad. de S. Paris. reúno os dois autores que escolhi como apoio.que precedia de perto 68 . ser-lhe bem pouco acolhedora. brevemente. o mundo é Outro?".. pontuais. M. um rosto de areia"1. ibid. Estas são. T.. Muchail. Les mots et les choses. no final daquela entrevista. 1944. Governo de si ou autonomia. 11.111 x Finalmente. como na orla do mar. Casroriadis. M. 52. L FOUCAULT. 562·578. um norte para balizar nossas tentativas de exercício democrático.. Martins Fontes. As palavras e as coisas. ) então se pode apostar que o homem se desvaneceria. flexíveis. a apontar o iminente desaparecimento do sujeito: "( .. abalar os conformismos. algumas dessas condições podem ser identificadas: 1) dispor-se à pluralidade de participações heterogêneas. 1981. desloca o homem do centro da história e da origem dos saberes. usa a expressão "sociedade autônoma"IO e nos convida à difícil porém verdadeira democracia. COMO NA ORLA DO MAR. Cf. por sua vez. A partir das reflexões que fizemos. em uma idéia mais ampla.para o "estado de maioridade" . provisórias. compondo pistas diversas que sejam capazes de convergir em alianças e pactos em nome de causas democráticas compartilhadas. 114 ! Foucault. algumas predisposições que podem nos orientar rumo à maioridade democrática. que se mantém no estrito plano dos discursos. Gallimard. cuja conquista é tanto mais alcançável quanto mais se praticar a autonomia de pensamentos e de condutas. E se encerra com aquele prenúncio solene. Simplesmente como na orla do mar. 10. meio teatral. UM ROSTO DE AREIA" Notas sobre maio de 68* Para situar Foucault relativamente a maio de 68. Cf FOUCAULT. em abril de 1966 é publicado As palavras e as coisas.404. sem nenhuma articulação com a ordem das práticas sociais. contribuindo assim para sacudir as apatias.. É um norte apenas. 398. móveis. um quase gesto. Texto inédito. Foucault. Depois dos já polêmicos escritos anteriores (principalmente História da loucura). Paris. 2) dispor-se à educação política que propicie ao cidadão comum a aprendizagem de "governar e ser governado". 1966. Mas suficiente talvez para nos predispor a certas condições indispensáveis se quisermos fazer de nossa própria prática um lugar de transformações e de superação de nossas desesperanças.que é aquele em que se é conduzido por outrem . um rosto de areia" J I 115 . no comentário de um texto de Kant l l . eis certamente.deveria. Em u~a avaliação * Palestra proferida por ocasião da Semana de Ciências Sociais "196830 anos. A atmosfera intelectual da época . mobilizar nossas inibições.que consiste no governo ou condução de si mesmo. supostamente. em maio de 1998. descrevo.de 1966 a 1970 _ permitindo-me misturar considerações conceituais com curiosidades biográficas. São Paulo. na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O livro. Gallimard. .

Gallimard. Companhia das Letras. em geral. História do estruturalismo I. DOSSE. Le NouveZ Observateur. publicada em II Contributo. "Chronologie". explicar: 2. 160. de A. publicada em 1980). a um tipo até de cultura que era. Com efeito. o mar. Depois de apontar motivos de ordem mais teórica.. no conjunto. a melhor venda do verão". 1990. FOUCAULT. reconstruía uma história das ciências de modo tão extravagante. Didier Eribon. M. "Foucault vende como pãezinhos" é título de um artigo do momentos. tenta. todas as posições humanistas relativas ao sujeito.. . encontrei estudantes tunisianos e então aconteceu o inesperado. As coisas estavam se desagregando e não existia vocabulário apto para exprimir esse processo. Inusitado êxito que Foucault. instalara-se em uma pequena cidade na Tunísia. naquela mesma avaliação retrospectiva. Ensaio. o fato de que não se podia levar muito a sério alguém que. Michel Foucault. é certamente esse tipo de reconhecimento que está tão vivo no depoimento de Maurice Clavel: "Quando desembarquei em Paris. Michel Foucault) uma biografia. como professor de filosofia.. como na orla do mar. as pessoas talvez reconhecessem como que uma diferença e ao mesmo tempo se revoltavam por não reconhecer o vocabulário do que estava em via de acontecer (. No momento em que eclode maio de 68. diante das manchetes sobre a primeira revolta estudantil. )"6. 3. Paris. M. em relação aos problemas reconhecidos como válidos e importantes. O artigo foi publicado em Le Nouvel observateur. paixões tão de Foucault na praia ou a exibem pelas mesas de bar para mostrar que não ignoraram tal acontecimento. "acontecimento editorial do ano. sugere outros: "E também. as resistências a certas aproximações com o estruturalismo e. "segundo as descri- pois. Provavelmente foi só no Brasil e na Tunísia que encontrei nos estudantes tanta seriedade e tanta paixão... Em pleno Foucault . por ocasião de uma entrevista realizada anos mais tarde (em 1978. aconteceu. chegamos lá. Como lembra o biógrafo de Foucault. se ocupava com a loucura e. no dia 3 de maio. Desde setembro de 1966. 23-84). 1993.jmar.. humanista ções publicadas pelos jornais da época.70. Cabral. vendeu dezenas de milhares"z. viera buscar um retiro sem ascetismo. Trombadori. As mutações em curso produziam-se relativamente a um tipo de filosofia. em definitivo. de um lado. D. Feist. 159. do centro. em As palavras e as coisas. estranha. n. contudo. 6. ao que parece. Era pancadaria de todos os lados. perguntou-me ela. trad. D. "Entretien avec Michel Foucault" (com D. Na verdade. ERIBON. de H. o próprio Foucault. in Ditsetécrits IV. FOUCAULT. 70. e ERIBON. Foucault realça algumas razões para um esperado insucesso. 116 ! Foucault.4.. simplesmente que havia de produzir-se em maio de 6S?"'. A convergência desse conjunto de razões provocou o anátema. 32-33. um tanto genericamente. Ora. Paris. tão particular. de outro..1980. com uma calma. jan. seu próprio vocabulário. Uma passagem escrita em 1967 nos diz O que pensava ele sobre a Tunísia (e. Ed..retrospectiva. As palavras e as coisas não era o formidável anúncio da rachadura geológica de nossa cultura humana. como a supervalorização do marxismo. M. S.. por comparação. "Entretien avec Michel Foucault". sobre o Brasil): "Eu viera por causa dos mitos que todo europeu. 367. FOUCAULT. São Paulo. o da primeira metade de nosso século. in Dits et écrits IV. Cf.l. 4. DOSSE. a grande tepidez da África. História do estruturalismo. da direita. hoje em dia. a grande excomunhão de As palavras e as coisas por parte de todos: Les Temps Modernes) Esprit. sua repercussão foi "fulgurante"). as pessoas lêem a obra Se foi possível dizer que se estava "em pleno Foucault".367-368. trad. 1994. afinal. um rosto de areia" I 117 . da esquerda.. São Paulo. não estava lá. em suma. Dits et écrits I. "Repensando essa época. 'Onde?'. F. disse a minha mulher. eis aí. se quisermos.. Cf. o que estava em via de acontecer não tinha sua própria teoria. ora. comprei os jornais na estação de Lyon e. O livro não deveria vender mais que duzentos exemplares. 1978. 7. de reflexão geral. eu diria que.. tem sobre a Tunísia: o sol.

Foucault concede uma entrevista publicada sob o título "Le piege de Vincennes". sendo francês. de certo modo.. ) Na Tunísia (. ". o que mais me encanta.. in Dits et écrits IV. in Dits et écrits IV.. Ibid. fiquei profundamente impressionado com aquelas moças e aqueles rapazes que se expunham a riscos terríveis redigindo um panfleto.. pouco mais tarde. Tive uma idéia direta do que se passava nas universidades do mundo. maltratou numerosos estudantes. Foucault diz-se "sempre um pouco deslocado. mas recebe ameaças e intimidaçães do serviço de polícia paralelo e chega a sofrer maus-tratos físicos. Para ele. 79. D. um estudante é espancado por policiais. Na Universidade de Túnis as revoltas estudantis começaram bem antes: no final de 66. Judith Miller. Michel Foucault. Quando.175). A polícia entrou na universidade. em junho de 67. portanto. escreve: "Daqui. O retorno ocorre em outubro de 68. M. dez e mesmo quatorze anos de prisão.. à margem" e. DossE. 14... esconde em seu jardim um mimeógrafo para a impressão de panfletos. "Entretien .9. 9. o novo ministro da Educação. in Dits et écrits I.. onde não chega a assumir o posto. recusa o reconhecimento de validade nacional para o ensino da filosofia ao diploma obtido em Vincennes. Simplesmente algo diferente de todo o ronronar de instituições e de discursos políticos na Europa"lO. ninguém o conhecia por outra coisa que não seu hábito de trabalhar desde o amanhecer diante das janelas de sua villa. interrupções dos cursos. Mas. no fim de maio e no fim de junho. Alain Badiou.sérias e. entre uma e outra viagem. Foucault é escolhido para a área de filosofia1 4 • Ao mesmo tempo em que a 10. eu estava.. vincula-se ao centro experimental de Vincennes. História do estruturalismo 11. Por duas vezes. Inicialmente nomeado para a Faculdade de Nanterre. atua intensamente: procura o embaixador da França. 12. 189. Barthes. ERIBON. onde assiste a um comício e participa das últimas manifestações na Sorbonne. FOUCAULT. Cf.. espécie de faculdade-piloto. feriu gravemente vários deles e os jogou na prisão. atrelados a questões palestinas e às oposições ao governo... a absoluta avidez de saber"B. em resposta às recentes reivindicações. Os professores franceses intercedem e Foucault. os tumultos. M. Alguns ainda estão lá. "é sempre com um olhar um pouco estrangeiro"I3. Ali. Gilles Deleuze (que não pôde aceitar por estar adoentado). é um grande enigma"ll. ) fui levado a tocar com o dedo 8.. Jean-François Lyotard. abriga estudantes foragidos. Michel Serres. quando volta para a França. Retomemos trechos de seu relato. e é em março de 68 que recrudesce a repressão violenta. "Chronologie". FOUCAULT.. ainda na Tunísia. ".. mas março de 68 e em um país do terceiro mundo"12. FOUCAULT. Jacques Ranciere. "não foi maio de 68. 78. Foi. que davam para a baía. apreender com exatidão as reações do governo francês em face de tudo aquilo. Alguns foram condenados a oito. 179. protegido em relação às autoridades locais.. entre eles. detenções e greve geral dos estudantes. no mês de junho. tem ocasião de ir a Paris. "Estávamos em março de 1968: greves. D. 176. Michel Foucault . Edgar Faure. vale a pena reproduzir um pequeno trecho da resposta de Foucault: "Como sabem. e por sua gula de viver e amar ao sol". reproduzido por Eribon. um rosto de areia'· ! 119 . Canguilhem. nem bem recebido na França. Constituída uma comissão de cerca de vinte membros (entre eles. não estou certo de como na orla do mar. 33.. . fundada sob o então ministro da Educação. Nem bem aceito na Tunísia. também comprometeu-se intensamente com atividades políticas. 13. Derrida) encarregada de designar os primeiros professores de diferentes áreas. 584. lê-se: "Nessa cidadezinha onde ele era feliz. M. não é oficialmente importunado. 118 I Foucault. M. FOUCAULT. Como era argumento do ministro que o conteúdo de filosofia ali ensinado era demasiadamente particular e especializado. "La philosophie strucruraliste permet de diagnosttiquer ce qu'est 'aujourd' hui'''. 78.. ao mesmo tempo. aos quais caberá a tarefa de compor o corpo docente. in Dits et écrits I. ERIBON. para mim. 11. Em um depoimento de Jean Daniel. além de viver "entre os prazeres do sol e a ascese filosófica. Olivier Guichard. entre outros. "Entretien . Convidará para o quadro docente da filosofia.. François Châtelet (Cf. (. em janeiro de 1970. F. distribuindoo ou convocando à greve. Dada minha posição de professor. à p. o que me permitiu realizar facilmente uma série de ações e. se agravam. uma verdadeira experiência política.

Cordeiro. quinze anos de prisão (.. FOUCAULT. físico e real e que colocassem os problemas em termos concretos. as marcas do evento em Michel Foucault e as mudanças que nele acarretaram. 18.. pronunciando em 2 de dezembro sua aula inaugural. Lisboa.. 70). que se endereçava principalmente a técnicos da história das ciências (. Cascais e E. O que é um autor? Trad. Assim. do pensamento de Foucault pós-68. M. 1992. pelo menos. Mais uma vez. Ao tratamento quase solene do tema. Foucault será o "filósofo engajado" e o "intelectual militante". "Quando voltei para a França. os mesmos sacrifícios. "( . ) de ver de que modo.81. ". simplesmente indica também o efeito recíproco. 67. os poetas e os loucos. busquei considerar as coisas tomando distân· cia em relação a essas discussões indefinidas. em 1969. numa discussão com Lu· cien Goldman. in Dits et écrits lI. a essa hipermarxi· zação. Assim.. crime são para mim coisas mais intensas. in Dits et écrits I. admirado e até decepcionado em relação ao que vira na Tunísia. ligado ao anterior. definidos no interior de uma situação determinada"16. Para dizer a verdade. F. Loucura. M. é o abandono das descrições estritamente intra e interdiscursivas que caracterizavam a configuração de uma epistéme e direcionavam o horizonte meto· dológico de As palavras e as coisas. aquela proclamada "morte do homem" passará a receber contornos e consistência mais precisos. Isso explica talvez a maneira como. é a separação que os isola. explicita e principalmente. Vega.. Des· se ponto de vista.. um rosto de areia·· I 121 . ". ) um livro muito técnico. assim como a seus vizinhos. Esta breve reconstituição permite ver a marca forre e controvertida de Michel Foucault nos acontecimentos de 68. lá permanecendo até 1970. ). certa categoria de pessoas cujas atividades e cujos discursos variaram muito de uma época para outra. in Dits et écrits IV. merecem destaque. O que existe. essa configuração heterogênea que articula o dircursivo e o extradiscursivo. não a unidade de um gênero ou a constância de uma doença" (FOUCAULT.. isto é. sexualidade. morte. Em contrapartida. ou seja. "Qu'esc·ce qu'un auteur?" (compce rendu de la séance). de práticas e instituições sociais que entram na composição da noção de dispositivo.. como na Tunísia. in Dits et écrits IV. de A. M. em Vincennes. precisos. eu me ocupava de coisas sérias na Tunísia"'IS.. segundo quais regras se formou e funcionou o conceito de homem. Mas que a filosofia exista. dirá: "Não se trata de afirmar que o homem morreu. A um amigo Oean Gattegno) que militara com ele na Tunísia. em novembro-dezembro de 1968. trata-se (. agora também em Vincennes. a essa discursividade incoercível que era própria da vida das universidades.. dois traços. de modo algum. quando ingressa no College de France. As lutas. com sua violência. Portanto. 17. "Entretien . M. não implicaram. por exemplo. isto é. ERlBON. e em particular da de Vincennes. vamos conter as lágrimas"17. Suas investigações agora se ocuparão. Não há comparação entre as barricadas do Quarcier Latin e o risco real de cumprir. Foucault é considerado "pouco engajado" pelas esquerdas e criticado «(por não ter 'feito nada' em maio de 1968".. ). creio. 188. como se lê naquela entrevista de 1978. As palavras e as coisas foi para mim uma espécie de exercício formal"18. o mesmo preço. Ten· rei fazer coisas que implicassem um comprometimento pessoal. destaquemos um trecho da entrevista de 1978. O que os distingue. Primeiro. "Le piege de Vincennes". 120 I Foucault. Fiz a mesma coisa com a noção de autor. Michel Foucault. FOlJCAULT. D. sua paixão. 80.. "Encretien .. Outro aspecto. Já lhes falei de experiências· limite: eis o tema que verdadeiramente me fascina· va. É nessa direção. a partir daquele momento. declara: "Vou dizer a eles: 'Enquanto vocês se divertiam em suas barricadas do Quartier Latin... como na orla do mar. fiquei principalmente surpreso. 16..comissão é atacada pela direita "como um bando de esquerdistas".são 'filósofos'. lá não estavam os problemas que mais me apaixonavam. seguir-se-ão comentários mais concretos e até irônicos. que Foucault vai relativizar o alcance e o entusiasmo por As palavras e as coisas. 817. 15.. FOUCAULT.

Pelo menos é curto. simplesmente * Este texto é uma versão modificada de comunicação apresentada no Encontro Nacional de Filosofia. eu devena escrever um novo prefácio. Para este livro já velho. . 122 I Foucault.). excepcional. pelo menos do lado daquele que o escreveu.. São Paulo. Educ. número 16. 81. FOUCAULT. sem dúvida. Ibid. pois. Quereria que um livro. e que não se desdobrasse neste primeiro simulacro dele mesmo que é um prefácio (. sob o título "Foucault. nada mais fosse que as frases de que éfeito. a ava- XI MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOR' liação é outra: "Maio de 68 teve uma importância. eram-lhe "completamente estranhos". a propósito da prisão. ). Mas o paradoxo parece instalar-se quando ele traz para o centro da cena aquilo que precisamente desejaria fora dela. "os mais visíveis e superficiais". da delinqüência. M. São conhecidas as considerações de Foucault sobre o apagamento do autor. por ele mesmo". a atribuição de autoria a seus próprios discursos. o testemunho de Foucault. eu não teria jamais feito o que faço. da sexualidade. expondo-o às luzes do próprio discurso. o autor. Águas de Lindóia.Mas você acabou de fazer um prefácio. Tão paradoxal quanto escrever um prefácio escrevendo sobre a relutância em escrevê-lo é querer preservar a obscuridade do anonimato falando dele. nos temas e na direção das investigações. ao evocar maio de 68. É certo que. 2002. ANPOF. na França e na Tunísia". Confesso que isto me repugna (. Mas. a saber. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 123 . .Mudanças. Perguntado por que. No clima anterior a 1968 nada disto era possível"19. 1996. Chamemos. . parece subestimar o acontecimento.. Prefácio à nova edição de Histoire de la folie. àquilo que realmente fez mudar as coisas" e que "era da mesma natureza. no que tange "àquilo que estava realmente em jogo. É esse paradoxo que está já presente na célebre formulação que Foucault tomou emprestada a Beckett: "Que importa quem 19. mais uma vez e para concluir. Foucault reconhece que alguns de seus aspectos. . sem maio de 68. Foi publicado na revista Margem..

e diferentes são as conseqüências. 792. isto é. M. 2. digamos assim. não bem de palavras. "Qu'est-ce qu'un auteur?". (O que é um autor?. 1994. o texto de 1968. "Qu'est-ce qu'un auteur?". IV. mais que paradoxo. Assim. isto é.. Cf FOUCAULT. talvez haja nessa dobra um jogo de estratégia.. Ver também: FOUCAULT. in Dits et écrits. aqueles cujo modo de ser. 1. I."característica do modo de existência. a resposta será "quem é apenas alguém". é diferente.fala. Com efeito. é o texto "vertical". é uma função . escritos na mesma época. M. trad.792. Paris. a noção de autor de que aqui se trata. Ibid. 124 I Foucault. São Paulo. farei liSO de passagens extraídas de três textos: ('O que é um autor?" (1969). in Epistemologia/28. dizer que um nome foi erroneamente atribuído a uma pessoa e dizer que o nome Guimarães Rosa foi erroneamente atribuído ao autor de Sagarana. Ver.. e que o segundo ("alguém disse: que importa quem fala") concerne ao autor dessa fala. Função-autor Restringindo a função-autor ao âmbito de livros e textos. dentro de uma concepção teórica sobre a categoria do autor. bras. 797 (tead. a função-autor não resulta simplesmente da espontânea "atribuição de um discurso a um indivíduo". 1992. da Glória Ribeiro da Silva. "que importa". como um caso entre outros. Paris. mas de "textos cruzados". Autor e nome própriO Ainda que o "nome de autor" seja um "nome próprio" e com ele mantenha semelhanças. Cordeiro.81). menos que um nome próprio. M. "Qu'est-ce qu'un ameur?". 1996). 5.34). em Estruturalismo e teoria da linguagem. Gallimard. Paris. Com os dois primeiros. pode-se nela reconhecer certas características. alguém disse: que imporra quem fala"l Considerando que o primeiro segmento dessa formulação ("que importa quem fala") diz respeiro a qualquer auror. ••• Do primeiro texto . ("Resposta a uma questão". Porém. o gesto que aponta para o desejo pessoal de impessoalidade em seu posro de auror não faz dele necessariamente um privilégio.. imagino-os como estendidos na "horizontal". 11. 1971) bem como o item "Les unités du discours" de L'Archéologiedu savoir. 1969. trad. com que os pretendo cruzar. A relação entre aucor e nome próprio é também tratada por Foucault quando discute o conceito de "obra"como unidade discursiva. 1972. articula o universo dos discursos. não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos. in Dits et écrits. Só para sugerir um exemplo. Sampaio. se perguntarmos então quem disse "que importa quem fala)). LoyoIa. determina. Para apresentar aqui algumas considerações sobre esse assunto. qualquer autor. As duas outras que Foucault indica estão assim resumidas: "a função-autor está ligada ao sistema jurídico e institucional que encerra. produzido bem depois deles. 44). 46). por exemplo. Gallimard. Michel Foucau!t e o di!aceramento do autor I 125 . formo um pequeno conjunto e. Cascais e E. 789-821.destaco três pontos. A ordem do discurso (1970) e "Foucault" (1984). 798 (trad. trad. o terceiro. mas a certo tipo de discursos com estatuto específico. "Réponse à une question". 4. O nome de autor está atrelado não propriamente a um indivíduo real e exterior que proferiu um discurso. de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade"4. Gallimard. jan. perfazendo uma dobra circular do discurso sobre si mesmo. talvez apenas o dilua. duas das quais escolho destacarS .. in Ditsetécrits I. M. in Dits et écrits I. FOUCAULT. 1971 (A ordem do discurso. trad. como num jogo. Laura Fraga de A.. 631-636. F.. em todas as épocas e em todas as formas de civilização" (Dits et écrits I. Por um lado. ele inclusive. Vega."O que é um autor?" (1969) . indiferenciadamente. in Dits et écrits. os torna providos de uma atribuição de autoria. de A. mas "de uma operação complexa" que tem por efeito 3. numa determinada cultura. guarda porém uma "singularidade paradoxal"3. simplesmente I. "Foucault". L'ordre du discours. 803./mar. Rio de Janeiro. 56). M.. "Réponse au Cercle d'Epistémologie" (trad. Lisboa. FOUCAULT.

outra a do que argumenta no corpo de um livro. e complementarmente. ••• o segundo texto ... será a partir de uma 11. por sua vez. O autor entendido. Ibid. de acontecimento. tratar-se-á de perguntar não pelo sujeito constituinte. 7."I2 111. 802·803 (trad. 10.. e segundo determinadas regras (por exemplo. ). mas invertê-la: considerando-se a função-autor uma particularização possível da funçãosujeito. a modifica. 50). por sua vez. "como momento histórico definido e ponto de encontro de certo número de acontecimentos"?)."13 111. 126 ! Foucault. crição dos diversos procedimentos de rarefação ou controle dos discursos. 26). a um reexame da noção de sujeito.. Pois. podem remeter. simplesmente 11. 801-802 (trad. mas a uma "pluralidade de egos" ou a "várias posições-sujeitos" (por exemplo. Os procedimentos ditos externos ou de exclusão . ) função do autor. não como o indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto. "como certo campo de coerência conceptual ou teórica". mais "negativo". Autor.. Circunscrito como um deles. 26-29). é claro. 28·29). portanto construído.. o que eles têm de acaso. FOUCAULT. 69). Autor e sujeito A análise da função-autor conduz. como unidade e origem de suas significações. O assunto ocupa um breve trech. não a um indivíduo singular. mas por sua constituição enquanto função do discurso. o autor é também sinalizado e definido pelos próprios textos que. M. 810 (trad. Autor. Ora. I. 800·801 (trad. 28-31 (trad. a descrição do "autor" é precedida pela do "comentário" e seguida pela da repartição em "disciplinas". imposição da "vontade de verdade" . função de controle "Trata-se do autor. "como unidade estilística".. Sem dúvida. Entre os chamados internos.. Mas penso que . uma é a posição-sujeito do autor que fala em um prefácio.foram apresentados anteriormente. por assim dizer.. 30 (trad. cujo papel consiste em reduzir. considerar um texto do ponto de vista da "análise interna e arquitetônica" já é colocar em questão "o caráter absoluto e o papel fundador do sujeito"9. 8. "segregação" de outros. de ficção'!. é claro. Ibid.. embora possa modificar a imagem tradicional que se faz de um autor.A ordem do discurso (1970) . Ibid. inserido na seqüência de des6.~'proibição" de certos discursos.. mas o autor como princípio de agrupamento do discurso. reexaminar a noção de sujeito não significa restaurar a pergunta pelo sujeito originário. Ibid. 9. entre outras conseqüências. limito-me a reproduzir três passagens. 12. tor (. Ibid.. o autor é definido "como certo nível constante de valor". L'Ordre du discours.. tal como a recebe de sua época ou tal como ele.um "ser de razão"6.. a categoria do autor pertence ao grupo de procedimentos classificados como internos. outra ainda a que avalia a recepção da obra publicada ou a esclarece)'. como foco de sua coerência. função recebida "Seria absurdo negar. 52-53). 13. não apenas efeito de uma construção.dá à noção de autor um tratamento.. Autor. Míchel Foucau!t e o dilaceramento do autor I 127 . Ibid. conferindo-lhes pequenos títulos.o lO. nos discursos. Por outro lado. 28 (trad.. a existência do indivíduo que escreve e inventa..ao menos desde certa épocao indivíduo que se põe a escrever um texto no horizonte do qual paira uma obra possível retoma por sua conta a função do au.. Desse texto. 54-57). função modificável "( .

Dits etécrits IV. E. alguma coisa pode ser qualificada como objeto para um conhecimento possível. vols. que a investigação de Foucault ocupase. M. 389).. A vontade de saber. inclusive. PUF. D. publicado quatorze a quinze anos após os outros. in HUISMAN. A arqueologia do saber). por inteiro. 16. "Foucault". I de História da sexualidade). teria orientado a produção dos escritos foucaultianos. Dictionnaire des philosophes. As palavras e as coisas. em que o próprio sujeito é colocado como objeto de conhecimento. 631 (trad. apresento um breve resumo do trecho inicial.. Com efeito. é no mínimo curioso que esteja instalado em um dicionário de "autores" um pensador que se renha empenhado em denunciar a função restritiva do autor. que. Benedetti. 388-391. Ibid. em Dicionárro dos filósofos. I. um sujeito pode ser legitimado como "sujeito do conhecimento". entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. São Paulo. 128 I Foucault.. IV). I. Martins Fontes. Reconstituição de um projeto e constituição do sujeito Sob o nome-título nada se lê acerca do autor. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 129 . estudos sobre o percurso da produção foucaultiana fornecem algumas formas de agrupar seus escritos. considero o terceiro texto. coincidindo com sua sucessão cronológica: arqueologia (História da loucura. mas com aqueles. Essas condições dizem respeito.. Ibid. FouCAuLT. 29). Lê-se. C. o texto é. 17. O título e a destinação o texto intitula-se "Foucault" e destinou-se a compor um verbete para um Dicionário de filósofosls.14 *** Finalmente. 31 (ecad. HUISMAN. E. basicamente. O c/fidado de si. Organização semelhante já foi também formulada em termos de prioridade de "áreas": epistemológica. 2001. Mais.. a dois procedimentos interdependentes: a "subjetivação" do sujeito. o ponto de vista da "constituição do sujeito" permite. a "objetivação" do objeto. • A mais conhecida reúne-os segundo os momentos "metodológicos". 1984. Berliner. Ora. de um modo ou de outro. t. vertente ética (O uso dos prazeres. I. 942944 (republicado em Dits et écrits. por sua vez.16 que os teria presidido.. dar-lhes um novo desenho. Brandão.17. em uma determinada época.nova posição de autor que recortará (. 11 e III de História da sexualidade).. Apresentado como uma espécie de fio condutor dos escritos de Foucault. vol. O nascimento da clz'nica. esse projeto. Dicionário dos filósofos. em uma determinada sociedade. Entretanto. Galvão. 14. D. como precisamente assentado na questão da constituição do sujeito. 11. C. ) o perfil ainda trêmulo de sua obra. a seguir.. em uma determinada sociedade.. M. 389). precisamente. 15. na medida em que realiza análises (históricas) das condições de possibilidade para a construção de saberes. em uma determinada época. não com quaisquer modalidades de "subjetivação" e de "objetivação" para a construção de quaisquer saberes possíveis. genealogia (Vigiar e punir.. Antes.. Ora. trad.. Dele retraço algumas linhas que permitam possíveis cruzamentos com os destaques dos textos anteriores. Simplesmente Lê-se que a produção de Foucault pode ser denominada "História crítica do pensamento. 633 (trad.. a estranheza se atenua quando se examina o teor do verbete. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. que seus trabalhos sejam identificados mediante um título que é nada menos que seu "nome próprio". uma reconstituição de seus trabalhos reunidos desde o ponto de vista de um "projeto geral. é descrito. política. Para mostrá-lo. dispondo-os em um modo novo de repartição. ética. Paris.

o delinquente) e . • análise da "constituição do sujeito como objeto para ele mesmo"19 . se lembrarmos que a funçãoautor é uma particularização da função-sujeito. como uma espécie de pano de fundo. inicialmente solicitado a François Ewald.18 (isto é. Suspeita-se de que. Trata-se de redistribuí-Ios . História da loucura é uma história do "Qutrol) e As palavras e as coisas é uma história do "Mesmo"). enquanto As palavras e as coisas se classifica no nível discursivo estrito.• Outro modo de organizar tem por critério a "transitividade" ou "intransitividade" da dimensão discursiva às práticas extradiscursivas (por exemplo. enquanto objeto das chamadas ciências humanas) temos aqui As palavras e as coisas. o texto permite um desdobramento do próprio título: também permite. em sua materialidade. 389). sob a assinatura. 19. E dessa suspeita há pelo menos dois indícios. Entretanto. 633 (trad. Com essas observações.temos os volumes de História da sexualidade.. se a funçãoautor é não somente recebida.. História da loucura e Vigiar e punir misturam-no ao das práticas sociais). se se quiser. a qual é conduzida pela temática da "cons- tltUlção do sujeito". o "projeto geral" proposto justifica agora uma nova organização dos escritos de Foucault. Segundo. • análise da constituição do sujeito enquanto objeto do conhecimento como "o outro lado de uma partição normativa. que não se opõe necessariamente às anteriores. a questão do "Mesmo" e do "Outro" (por exemplo.. um desdobramento do autor que a si próprio se coloca numa espécie de zona limítrofe em que ele é e pode não ser igual a si mesmo. mais uma vez. é possível que. Foucault a "retoma por sua conta" e "a modifica".. Vigiar e punir. quem desenvolveu aquela concepção teórica sobre a categoria do autor e nela pretendeu diluir o seu próprio apagamento parece agora revestir-se de um disfarce que. ao contrário. a positiva explicitação de uma pluralidade possível de "posições-sujeitos". foi redigido e vem assinado por um certo Maurice Florence ou. R assinatura" o paradoxo Atenuada.retrospectivamente. Ora. Ora. 389). ao mesmo tempo em que. o expõe à plena luz. inclusive. abreviando. com ela. então assistente de Michel Foucault. é estrategicamente instrutivo que o título-autor recubra um texto cujo desenvolvimento trata da questão do sujeito. a tal ponto que permite. mas modificável. 111.em três conjuntos. É quando se atenta para o fato de que o texto do verbete. não é do "autor" que o texto fala. faz ressurgir o paradoxo sugerido anteriormente. Ibid. a estranheza porém ressurge e. como o louco. mas de sua produção discursiva. 18. em contrapartida a uma abordagem mais "negativa" (como em A ordem do discurso) da função-autor. O nascimento da clínica. Organização semelhante tem por critério. mas as amplia ou mesmo as recobre. o doente. M. de acordo com diferentes modos de operar a análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento: • análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento com pretensão a estatuto científico (isto é.temos História da loucura. esse texto realize~. F. Primeiro. Ibid. malgrado o título. Em suma e para concluir. suspeita-se aqui. 633 (cead.. de que tudo seja ainda um prosseguimento daquele jogo estratégico no qual quem ainda é apenas alguém. o que interessa é fazer notar que. simplesmente Michel Foucault e o dilaceramento do autor ) 131 . sob o título. um rearranjo do conjunto de escritos. 130 I Foucault. é claro .

Acrescentamos aqui uma relação das obras de Michel Foucault seguida de uma relação de traduções em língua portuguesa. Paris. Paris. Histoire de la folie à l'âge classique. 1962. 1954. PIon. Gallimard. • lntroduction à l'anthropologie de Kant. Paris. 1971. Gallimard. 1963. Paris. Gallimard. Une archéologie du regard médical. Gallimard. Leçon inaugural au Col/ége de France prononcée le 2 décembre 1970. PUF. Une archéologie des sciences humaines.BIBLIOGRAFIA Os textos utilizados ou citados ao longo dos artigos estão referenciados nas respectivas notas. Hyppolite. 1966. Paris. Obras de Michel Foucault • Maladie mentale et personnalité. 1969. 1961. • Maladie mentale et psychologie. PUF. Paris. • Falie et déraison. • L'Archéologie du savoir. • Raymond Roussel. These complémentaire pour le Docrorat.1963. Paris. • L'Ordre du discours. directeur d'études J. Paris. • Naissance de la clinique. Paris. • Les Mots et les choses.· bibliografia ! 133 . PUF. 1961 (Texto datilografado) .

par Frédéric Gros. Édition étab!ie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. 1987. Lettres de cachet des Archives de la Bastille au XVIlIeme siêcle (présentées para Arlette Farge et Michel Foucault). 1976. Gallimard. Gallimatd. 1982. L 'Usage des plaisirs. avec la collaboration de Jacgues Lagtange Paris. III. 1973. 1978-1979. o 1981. Aula inaugural no College de France pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 1954-1988. Gallimard. Un cas de parricide au XIX siécle (coord. 1975. 1972. Tempo Brasileiro.. Gallimard/Seuil. 1982. 11. Cours au Collége de France. Paris. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Gallimard/Julliard. Paris. 1994 (2 vols.1974-1975. Lisboa. Cours au Collégede France. augmentée). 1975-1976. 1981-1982. Paris. Gallimard. Tradução de Lílian Rose Shalders. 1977. Gallimard. Gallimard/Seuil. Histoire de la sexualité. o O Nascimento da clínica. Résumés des cours du Collége de France. Tradução de Roberto Machado. 1975. (Edição portuguesa revista por Nuno Nabais. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. Surveiller et punir. Le Souci de soi. par Michel Senellart. Paris. 1999. 1984. Petrópolis. Loyola. Forense Universitária. Histoire de la sexualité) L La Volonté de savoir. Martins Fontes. • A ordem do discurso. Forense Universitária. territoire. Cours au Collége de France.Cours au Collége de France. population. Moi) Pierre Riviêre) ayant égorgé ma mere) ma soeur et mon frere . Tradução de Raguel Ramalhete. Tradução de Manoel Barros da Motta e Vera Lucia Avellar Ribeiro. Um caso de parricídio do século XIX (apresentado por Michel Foucault). Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana.2001). Paris. Paris. Le Désordre des familles. Paris. Gallimard/Seuil. Paris. Perspectiva. Simplesmente o Sécurité.. 2004. Tradução de Lauta Fraga de Almeida Sampaio. Rio de Janeiro. São Paulo. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessandro Fontana. (présenté par Michel Foucault). Gallimard. • Raymond Roussel.) • Eu. Forense Universitária. Naissance de la biopolitique. Gallimard/Seuil. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessan- o dro Fontana.. Pierre Riviere) que degolei minha mãe) minha irmã e meu irmão . par o Valerio Marchetti et Antonella Salomini. Naissance de la prison. Tradução de Denise Lezan de Almeida. 4 vaIs. 1996. Cours au Collége de France. 1977. Le Pouvoir psychiatrique. Graal. bibliografia I 135 . Julliard. par Mauro Bertani e Alesssanclro Fontana. Édition établie sous la direction de François Ewald et Alessan- Édition établie par François Ewald et Alessandro Fontana. Dits et écrits. 1997. Gallimatd. Paris. 1972. 1999. 134 ! Foucault. Vigiar e punir. Paris. 2004.o • • • o o o • o • o Histoire de la folie à l'âge classique (2eme ed. 1978. Gallimard.. 1977-1978. L'Herméneutique du sujeI. Rio de Janeiro. Relógio D'Água Editores. Paris. par Jacgues Lagtange. Édition établie sous la direction de Daniel Defert et François Ewald. Tradução de Salma Tannus MuchailJ São Paulo. par Michel Foucault). Tradução de Luís Felipe Baeta Neves. • As palavras e as coisas. 2001. Uma arqueologia das ciências humanas. "I! faut défendre la société". 1973-1974. 1970-1982. 1999. Gallimard/Seuil. A arqueologia do saber.Cours au Collége de France. Paris) Gallimard. Rio de Janeiro. Paris. Paris. o dro Fontana. Vozes. par Michel Senellarr. Gallimard/SeuiI2003. Obras de Michel Foucault traduzidas para o português Livros o Doença mental e psicologia. Revisão técnica o de Geotges Lamaziére. Histoire de la sexualité. 1984. 1989. Paris. São Paulo. Paris. Revisão técnica de Chaim Samuel Katz. Nascimento da prisão. Herculine Barbin dite Alexine B. • História da loucura na idade clássica. °Les Anormaux.

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br • e-mail: vendas@loyola. Forense Universitária.org. Martins Fontes.org.: (85) 231-9321 • Fax: (85) 2214238 60025-100 fortaleza. Goiá" 636 Tel. São Paulo.Conjunto Bela Center .: (65) 3226-9677 • Fax: (65) 322-3350 78005-600 Cuiabá.com. Tradução de Andréa Daher. CE e-mail: vozes23@uol.com.Setor Central Tel: (62) 229-0107 / 224-4292· Fax: (62) 212-103 74055-120 Goiânia. 730 Tel. Fax: 69005-141 Manaus.Centro Tel.:. MS. 105 .BI. MT e-mail: Imarchi@terra.br 138 ! Foucault.(31) 3226-9010.Centro Tel. 332 TeI. CO e-mail: distribuidora@livrariaalternativa. 15 leI.: (61) 225"9595 • Fax: (61) 225-9219 70300-500 Brasma. GO e-mail: vozes27@uol. n° 124 . 2004. poder-saber. BA e-mail: livsalvador@paulinas. ~_. AM e-mail: livmanaus@paulinas. 502 .com.Bloco A n. Rio deJaneiro. São Paulo SP· Caixa Postal 42. São Paulo.br AMAZONAS EspiRITO SANTO EDITORA VOZES LTOA Rua Costa Azevedo. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta.Piedade Tel.f:lorizonte.com. • Home page e vendas: www. IV.DISTRIBUIDORES DE EDiÇÕES LOYOLA Se o{a} senhor{a) não encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nosso ros da Motta. 04218-970. DF c-mail: livbrasilia@paulinas. Fax: (98) 231-0641 65010-440 São Luís. distribuidores. . CO e-mail: livgoiania@paulinas. 499 . 7 de Setembro. • A Hermenêutica do sujeito.br EDITORA VOZES LTOA Rua Carlos Gomes.: (62) 225-3077 • Fax: (62) 225-3994 74023-010 Goiânia. Rio de Janeiro.1999. • Ética. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. Getúlio Vargas.com.org. 381 .br EDITORA VOZES LTOA Rua 3.org. C . 2001. MT e-mail: vozes54@uol.: (921633-42511233-5130.. Tradução de Eduardo Brandão_ São Paulo. Curso no Collége de France.1970-1982.~o Pedro Tel. • Em defesa da sociedade.br llVRARIAS PAUllNAS Rua de Santana.br MARCHI L1VRARlA E DISTRIBUIDORA LTDA . Rio de Janeiro. sexualidade.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Major Facundo. Tradução de Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa.org. Coleção "Ditos e Escritos".br MATO GROSSO EDITORA VOZES LTOA Rua Antônio Maria Coelho.Centro Tel. 680 . • Os Anormais..com. DF c_mail: vozes09@uol. vol.: (71) 329-5466 • Fax: (71) 329-4749 40060-410 Salvador.: {65) 623-5307 • Fax: (65) 623-5186 78005-970 Cuiabá. Consultoria de Roberto Machado. Tradução de Veta Lúcia Avellar Ribeiro.: (711 329-0326/329-1381 Telelax.: (85) 226-7544/226-7398 • Fax: (85) 226-9930 60025-100 Fortaleza. E5 e-mail: livvitoria@paulinas.Q. São Paulo.LIVRARIA VOGAL -' Av. 1997.com. BA e-mail: vozes20@uol. Curso no Collége de France.: (71) 329-0109 40070-190 Salvador. Forense Universitária. 120 .loja 2 Tel.loyola.br BRAS/LIA EDITORA VOZES LTOA SCLR/Norte .: (62) 224-2585/224-2329 • Fax: (62) 224-2247 74010-010 Goiânia.: (921 232"5777 • Fax: (921 233-0154 69010-230 Manaus.. e.br MARANHÃO EDITORA VOZES LTDA Rua da Palma. simplesmente LIVRARIAS PAULlNAS Rua Barão de Itapemirim. 203 . MA e-mail: livrariavozes@terra.Centro Tel. faça o pedido por reembolso postal à Rua 1822 nQ 347.br LIVRARIAS PAULlNAS Av.br..Centro Tel. 197 A Tel. 698A . Martins Fontes.loja 1 TeI.com.Q. 2003.br GOIÁS (92) 633-4017 LIVRARIA E DISTRIB. 1974-1975. BA e-mail: multicamp@uol.com.: (98) 221-0715. política.: (98) 232-3068/232-3072 • Fax: (98) 232-265 65015-440 São Luís. Zahar. V.br CEARÁ EDITORA VOZES LTOA Rua Major Facundo. 7 de Setembro. Fax: (31) 3226-7797 3{l~H?:O' Belo .org.: (71) 329-2477/329-3668 • Fax: (71) 329-2546 40060-001 Salvador. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta.br LIVRARIA ALTERNATIVA Rua 70. 1981-1982.. CE c-mail: livfortaleza@paulinas. 704 .br llVRARIAS PAUlINAS Av. SP· Telefone: (11) 6914-1922' Fax: (11) 6163-4271 [ursos BAHIA • Resumo dos cursos do Collége de France.com.: {27) 3223-13181 0800-15-712 • Fax: (27) 3222-353: 29010-060 Vitória. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. MA e-mai1: fspsaoluis@elo.1975-1976.'.: (61) 326-2436 • Fax: (61) 326-2282 70730-516 BraSl1ia.com. Curso no Coll'ge de France. nO 291 Tel. Coleção "Ditos e Escritos". 05 . 2004. Martins Fontes. Tradução de Maria Ermantina Galvão.com. AM c-mail: vozes61@uol.br LIVRARIAS PAUlINAS SCS ..com. .br MINAS GERAIS EDITORA VOZES LTDA Rua Sergipe.br LIVRARIAS PAULlNAS Av.Centro Tel. 216 . 2001. voI.Lojas 19122 . 665 Tel. • Estratégia. MULTlCAMP LTDA Rua Direita da Piedade. 04216-000.335.nllmJ: ·vozes04I'uol. Ipiranga.com. Rio de Janeiro) Forense Universitária.

: (111 5081-9330.: (11) 3255-0662 • F~x:(11)3231-2340 01042-001 São Paulo. 502 .: (48) 222-4112 • Fax: (48) 222-1052 88010-030 Florianópolis. 81-A Tel.: (43) 3337-3129· Fax: (43) 3325-7167 86020-160 londrina.br Rua Espírito Santo. MG e-mail: maedaigrejabh@wminas. RO e-mail: fsp-pve[ho(álronet. SP e·rnail: liv15@paulinas. PR e-mail: livcuritiba@paulinas. 660 . 59 .ED[TORA VOZES LTOA Rua Tupis.com.Centro Telefax: (21) 2215-011 O 1 (21) 2220-8546 20031-143 Rio de Janeiro. 71 Tel.org. PR e-mail: livraria@miIleniumlivraria. 1 S8-C Tel.: (69) 224-4522. Portugal .org.br Rua Doutor Borman.org. (41) 362-0296/262-8992 Fax. 18-18A Te[.com.br Rl.com.: {11) 3256-0611 • Fax:(11)3258-2841 01414-000 São Paulo.com.Cidade Universitária Telefax: (21) 2290-3768/ 3867-6159 21941-590 Rio de Janeiro. RS e-mail: vozes05@uol.com. 1054/1233 -Centro Tel. RJ e-mail: livniteroi@paulinas. 864 . 234 -Centro Tel. SP e-rnail: vozes 16@uol. SP e-mail: expedicaOI!. (41) 224-1442 80020-000 Curitiba. {11 131 06-4418/3106-0602 • Fax: (lI 13106-3535 01013-001 São Paulo. 5 de outubro.: (21) 2622-1219.: (31) 3224-2832 • Fax (31) 3224-2208 30170-120 Belo Horizonte.: (OOxx].: (81) 3224-5812/3224-6609 Fax: (81) 3224-9028 / 3224-6321 5001 0-120 Recife.br Centro de Apoio aos Romeiros Setor "A".Rink Te[.com. 360 Tel.br RONDÔNIA LIVRARIAS PAUlINAS Rua Dom Pedro 11. 627 .Centro Tel. SP e_mail: livdomingos(iQpaulinas. 805 Tel. AL e-rnail: livmaceio@paulinas. Fax: (11) 3105-7948 01006-000 São Paulo.. Fax: (69) 224·1361 78900-010 Porto Velho. RN e-mail: livnatal@paulinas.br Rua Marquês de S. SP e-mail: senador@livrarialoyo[a.org.br lIVRAR[AS PAUlINAS Rua dos Andradas.: (84) 212-2184 • Fax: (84) 212-1846 59025-500 Natal. 45 -loja NB . 1212· Centro TeI..Mooca Tel.Centro Tel. RIO GRANDE DO NORTE E SERGIPE EDITORA VOZES LTDA Rua do Príncipe. Rj EDITORA VOZES LTOA Rua México. MG e-rnail: gerencial ivbelohorizonte@paulinas.SP e-mai!: vendasatacado@[ivrarialoyola. 3861390 Tel.com.: (83) 241-5591 /241-5636 Fax: (83) 241-6979 58010-821 João Pessoa. Goulin.com.: (31) 3269-3700 • ~ax: (31) 3269-3730 30130-007 Belo Horizonte.: 111) 3782-1889/3782-0096. RS e-mail: vozes19@uol.br Rua Barão de jaguara. Fax: (11) 3242-4326 01004-010 São Paulo.: (41) 233-1392 • Fax. 33 .br SANTA CATARINA EDITORA VOZES Rua Jerônimo Coelho.Bloco A. 308 Tel. Vicente. MG e-mail: livbe[ohorizonte@paulinas. PE e-mail: livrecife@pau[inas. 2142 Tel.org.br Via Raposo Tavares.Ramal 9045 25620-001 Petrópolis. PB e-mail: [ivjpes50a@paulinas.: (51) 3221-0422 • Fax: (51) 3224-4354 90020-008 Porto Alegre.: (19)3231-1323. Fax: (44) 226-4250 87013-130 Maringá.br PARANÁ EDITORA VOZES lTOA Rua Voluntários da Pátria.com.com.Bairro do Comércio Tel. 1523 . Fax: (11) 3782-0972 0.com.com.B. SP e-rnail: vozes03@uol. ALAGOAS. 168 Te[. RI Centro Tecnologia . PR e-mail: livmaringa@paulinas. 41-loja 39 Tel.org.: (31) 3213-4740 / 3213-0031 30170-131 Belo Horizonte.Vila Mariana Te[.: (32) 3215-9050.br Rua Haddock lobo. MG e-rnail: distribuidora@astecabooks.org.Centro Tel. 225 Tel.Centro Tel.: (31) 3273-2538 • Fax: (31) 3222-4482 30190-060 Belo Horizonte. 276 .br Rua dos Trilhos.br Rua Barão de [tapctininga. Fax: (82) 326-6561 57020-320 Maceió. 50 e 54 Bairro Sagrada Família Tel.: (00xx351 21) 388-8371 /60-6996 1350-006 Lisboa. Santa jOdfla Princesa.com.sala 1701 Telefax: (21) 2233-4295 / 2263-4280 20071-000 Rio de Janeiro.org.com PARÁ ~ LIVRARIAS PAULlNAS Rua Santo Antônio. 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