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FOÜCAULT.
S1MPLESMENTE

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SRLMR TRNNUS
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LEITURAS

CI~G

FILOSÓFICAS

Aristóteles e o logos, Barbara Cassil1
Aristóteles no século XX, Enrico Berti
Da nahneza, José Gabriel dos Santos
Diálogos com a cultura contemporânea, W.M
Eric Weil e a compreensão do nosso tempo, Marcelo Perine
Filosofia a partir de seus problemas (A), 2" ed.,
Mario Ariei González Porta
Filosofia da ciência - introdução ao jogo e a suas regras, 8" ed.,

Rubem Alves
Filosofia da natureza (A), Jacques Maritail1
Foucault, simplemente - textos rennidos, Salma TamJUs Mucllail
Metáfora viva (A), Paul Ricoeur
\1ovilllento sofista (O), G. B. K.erferd
l\'iilismo (O), Franco Volpi
Ofício do filósofo estóico (O), RacheI Gazolla
Ordem do discurso (A), 10" cd., Michell''oucault
Para não ler ingenuamente uma tragédia grega, Rachei GazoUa
Quc é a filosofia antiga? (O), Pierre Hadot
Razõcs dc Aristóteles (As), 2" ed., Enrico Berti
Saber dos antigos - terapia para os tempos atuais, 2.' ed.,

FOUCRULT,
SIMPLESMENTE
·~2xtQS :-eL:f"":id:i5

Giovallni Reale
Sete lições sobre o ser, 2" ed, Jacques Maritain
Sobre O político de Platão, Comeljus Castoriadjs
Sócrates ou o despertar da consciência, fean-Toel Duhot
Tempo e razão - 1.600 anos das confissões de Agostinho,
Carlos Arthur A. Nascimel1to
Transformação da filosofia, vol. 1, Karl-Otto Apel
Transformação clJ filosofia, vol. 2, Karl-Otto Apel
Vontadc de crer (A), William James

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SUMRRIO

PREPARAÇÃO:

Marcelo Perine

DIAGRAMAÇÃO:

REVISÃO:

Maurélio Barbosa

Maurício B. Leal

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P~CRS

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Apresentação ................... .

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A TAAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULT .................. .

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A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA
Filosofia e/ou história?

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O MESMO E O OUTRO
Faces da história da loucura

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EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO

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DE PRÃTICAS SOCIAIS

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PRODUÇÃO DE SABERES

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FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS ................ ..

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OLHARES E DIZERES .............. ..

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ISBN: 85-15-02992-8
© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2004

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trata-se.... Em sua maioria são conferências. a abordagem de temas como o ensino.. .. 123 BIBLlOGAAFIA .. Como reunião de textos dispersos...OEMOCRRCIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Mich~1 Foucault e Cornelius Castoriadis ... 133 o pensamento de Michel Foucaulr é um pensamento plural.... a história. RPRESENTRÇÃO 115 MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOA ... por outras... 109 o ••••••••••••• . Percorrê-los exige uma dedicação cuidadosa para que se possa enfrentar esta diversidade e.. a cultura.. de um livro escrito em diferentes momentos.. a loucura. Relativamente às diversidades. as instituições... em primeiro lugar. para este livro.... Os textos que o compõem expressam a marca temporal dos momentos em que foram produzidos.... ao percorrê-los. COMO NA OALA DO MAR. o poder.... ao mesmo tempo.. ... no entanto... uma unidade dotada de significado. Os textos reunidos neste livro exprimem esse caráter.. o próprio pensamento é instigado a tornar-se múltiplo e igualmente afinado com a inventividade e o rigor. a filosofia.. não deixando de formar. UM AOSTO DE AAEIA·· Notas sobre maio de 68 . não permite que se determine... Também os temas discutidos são diversos.. artigos e capítulos de livros já publicados. revelada por vezes na eleição dos Çlbjetos tratados e. À semelhança dos escritos de Foucault. dar conta de sua inventividade e de sua densidade conceitual. ..... a preapresentação ! 7 .. na contextualização das análises... Também seus escritos têm a marca da diversidade de temas e de abordagens..... a democracia...... o livro comporta suas próprias diversidades.... Por outro lado.

aos leitores deste livro diverso. conhecido como períodó da "ge* Este texto é uma versão modificada de aula ministrada no curso "Michel Foucault . mais específicos. com seus últimos livros publicados. periodizações e problemas centrais dos escritos de Foucault. PUC/MG. conhecido como período da "arqueologia". realizam análises detidas sobre temas precisos. Belo Horizonte. uma repartição possível dessa trajetória em três momentos. O segundo mamemo.. v. deve-se à natureza dos textos que o constituem. Márcio Alves da Fonseca Professor do Departamento de Filosofia da PUC/SP A TRAJETÓRIA DE MICHEL FOUCAULr Mas o que é filosofar hoje em dia (.. e 1984.Razão e Desrazão". quando saiu seu primeiro grande livro. escrito em muitos tempos. servem de iniciação à sua leitura. n. é voltado principalmente para questões relativas à constituição dos saberes e inclui os principais livros publicados na década de 1960: A história da loucura (1961). Resultado de uma leitura e de uma análise detidas dos escritos de Michel Foucault. com certo consenso.como a pluralidade do pensamento. ) senão o trabalho critico do pensamento sobre o pensamento? Senão (. O uso dos prazeres. Por fim. pois. A trajetória intelectual de Michel Foucault (1926-1984) pode ser inscrita entre 1961. simplesmente a trajetória de Michel Foucault I 9 . FOUCAULT. As palavras e as coisas (1966) e A arqueologia do saber (1969). favorecendo a compreensão de um pensamento tão profundo e complexo quanto instigante.. fev. 13. na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em abril de1991. Assim como dizer Foucaul~ simplesmente implica tantas outras coisas . tratando de métodos. Foi publicado na Revista Extensão. 8 I Foucault.sença de um único objeto. esclarecem o leitor a seu respeito. 1. acima de tudo. Alguns possuem um sentido mais geral. pois na medida em que discutem diferentes aspectos do pensamento de Foucault. a profundidade das análises -. ) tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de leptimar o que já se sabe? M. como também ele próprio. o caráter dos textos é igualmente diverso. Todos os textos nele reunidos ou nasceram de aulas ministradas por sua autora ou destinavam-se a prepará-las. 1992. a leitura desta simples reunião de textos tem muito a nos propor e ensinar.. a diversificação das abordagens. desdobrado em muitos temas. reconhecem. este livro tem sua índole vinculada ao ensino. será possível apreender um pensamento que tem muito a dizer ao nosso presente. Os estudiosos de Foucault. por sua vez. Desse modo. O nascimento da clínica (1963). A unidade de significado do livro. Outros. O primeiro. Talvez por este motivo sejam tão didáticos. 2.

assim como suas aproximações e diferenças. assim descrevia Foucault os propósitos de suas primeiras investigações: "determinar.. ao contrário. seu desaparecimento. Supõe. ainda mais recencemence. assim como as novas regras que presidem a formação de novos discursos em outra época. FOUCAULT. é centrado sobre questões relativas aos mecanismos do poder e inclui os principais livros da década de 1970: Vigiar e punir (1975) e o volume I da História da sexualidade. mas aqueles considerados científicos e. como "fatos". desde o século XVII" .de algum modo atravessam o sentido explícito. A este conjunco devem ser acrescencadas ainda duas situações ocorridas após a morte de Foucault: a publicação. um enfoque explicitamente histórico ("na Europa. simultaneamente. ) para que se constitua o saber que é nosso hoje e. em tese e em número infinito. Luís Felipe Baeta Neves. 28 (Epistemologia). 1972. o próprio Foucault declara suas preocupações e seus propósitos.nealogia".. a trajetória de Michel Foucault ! 11 .2. 36. nas suas dimensões diversas. das transformações e do desaparecimento ••• Em texto de 1968. trad. Paris. desde o século XVII. M. buscando fazer surgir temaremos esboçar os traços que caracterizam esses três momentos. mais particularmente. trad. o modo de existência dos discursos e singularmente dos discursos científicos (. A análise lingüística. os das chamadas ciências humanas ("o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem"). O comentário é uma espécie de discurso segundo a duplicar o discurso comentado. o que deve ter sido na Europa. o saber que se deu por domínio este curioso objeto que é o homem.79. poderiam vir a ser constituídos. ao mesmo tempo. ver também L'Archéologie du savoir. dos Dits et écrits (são quatro volumosos livros que reúnem textos dispersos. nem ao modo de uma análise lingüística. Já a descrição foucaultiana dos fatos discursivos se limita a enunciados já formulados que compõem as formações discursivas. em determinada época. que esta origem e este sentido . até "o saber que é nosso hoje") e a preocupação está 1. intitulados. O primeiro momento de seus escritos tem. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". suas mudanças. simplesmente 3. "Resposta a uma Questão". de maneira mais precisa. centrada na descrição dos discursos. conferências. artigos. pois. nele dormitam. não porém quaisquer discursos. Observe-se que esta descrição histórica dos discursos não é feita nem à maneira do "comentário". e trata-se de buscar não sua origem ou seu sentido secreto. alguma verdade implícita no dito explícito do discurso primeiro. 1971.. cuja publicação foi iniciada em 1997. intitulado A vontade de saber (1976). mas as condições de sua emergência. portanto. "jamais-dito"3. aulas etc. e. em 1994. diz respeito à língua como sistema formal que rege a formulação tanto de enunciados efetivamente realizados como a dos que. 21. a gradativa edição dos cursos que Foucault ministrou no Collêge de France entre os anos 1970 e 1984 (foram ministrados treze cursos). por outro lado. O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984( Tomando esta repartição como ponto de partida e roteiro. por sua vez. 2. e quer estabelecer não as regras formais de sua inteligibilidade.. e supõe. mas o jogo de regras que define as condições de possibilidade do aparecimento.. os discursos são tomados em sua positividade. que Foucault produzir~ e realizara em diversos países). de M. da Glória R da Silva. as regras que presidem seu surgimento. respectivamente. Nas análises de Foucault. Com a transcrição da seleção de passagens em que. a fim de que possam ser trazidos à luz pelo comentário... por um lado. M.mais essencial e. a cada vez. Revista Tempo Brasileiro. Gallimard. alguma origem mais remota a ser reencontrada e um sentido oculto a ser decifrado. FOUCAULT. Vozes. jan/mar. Supõe. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. 10 I Foucault. Rio de Janeiro. Cf. Petrópolis. um conteúdo de significações "já-dito" e. O terceiro momento trata de questões relativas à constituição do sujeito ético e inclui os volumes II e III da História da sexualidade. seu funcionamento. mudo . faremos iniciar a abordagem de cada um desses momentos. 1969.

Maria Teresa de Oliveira e Roberto Machado. a que instituições isso se vincula etc.179. "que os reencontrarei (esses domínios do saber eleitos como área de investigação) ao termo da anãlise. 53-54. de quaisquer discursos que Foucault trata. ••• E contudo é um privilégio. pelo contrário. diz Foucault. Do mesmO modo.4. in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. são regiões do L'Archéologie du savoir.que melhor lhe permite trazer à tona "os mecanismos existentes" entre exercícios de poder e produção de saberes reconhecidos como verdadeiros. M. Trata-se tão-somente de "um privilégio de partida. trad. genericamente. as regras de direito que delimitam formalmente o poder e. dentro dele. enfim. a demarcação do domínio não limita o ãmbito de aplicabilidade da arqueologia que poderia. 1979. FOUCAULT. 27. em tese. salvaguardar ou confirmar os contornos do próprio domínio escolhido. grosso modo. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". ver também L'Archéologie du savoir. numa determinada época e para uma determinada sociedade.. FOUCAULT. ver também L'Archéologie du savoir. o que deve ser reconhecido como verdadeiro e o que deve ser excluído como desqualificável.7. Em uma passagem de 1976. 43. Com efeito. 6. 27. Será nos escritos posteriores que se tornarão mais claros os motivos de semelhante eleição. "uma primeira aproximação" ou "um primeiro esboço.e entre eles sobre "os que têm por domínio este curioso objeto que é o homem" .. é a investigação sobre os discursos científicos . in Estruturalismo e Teoria da Linguagem. Ele mesmo nos adverte de que a demarcação desse donúnio é uma escolha de certo modo hipotética. a trajetória de Michel Foucault I 13 . Assim é. nem que descobrirei o princípio de sua delimitação e de sua individualização. eis o procedimento que Foucault chama de "arqueologia". nem limita o método nem delimita o próprio domínio escolhido. certa presunção de racionalidade científica"s A escolha do domínio. numa época dada e numa dada sociedade. que em As palavras e as coisas as análises mostram como na Europa dos séculos XVII e XVIII emergem determinadas formações discursivas que vão constituir a gramática geral. no início. FOUCAULT.. nada me prova que tal descrição poderá dar conta da cienrificidade (ou da não-cientificidade) desses conjuntos discursivos que assumi como ponto de ataque e que apresentam todos. jogo este que é. oS efeitos de verdade que este poder produz. Estabelecer esse jogo ou conjunto de regras que. seu a priori histórico. variável num curso histórico marcado por diferenças e descontinuidades. dois limites: por um lado. 5. Trata-se de uma circunscrição relativa. M. Por outro. Por um lado. "Soberania e disciplina".6. Graal. tentei discernir os mecanismos existentes entre dois pontos de referência. Pode-se chamar a esse "jogo de regras" de epistéme de uma época. 43. enquanto no século XIX vão surgir a filologia.. quem pode dizê-lo. Foucault assim declarava: "O que tentei investigar. Interessam-lhe os que constituem o campo do saber considerado científico e. e não de outros. foi o como do poder. M. essa de~arcação não pretende definir.. in Microfísica do poder. Mas não é. Ora. o campo do saber assim assumido como obje4.. e duplamente relativa. 7. "Resposta ao Círculo de Epistemologia". a respeito dos escritos do segundo momento de sua trajetória.. ou ainda o solo onde são constituídas as formações discursivas historicamente realizadas e que compõem as diferentes configurações no espaço do saber. por outro. a biologia e a economia. autoriza o que é permitido dizer. por exemplo. "Nada me prova". a história natural e a análise das riquezas. portanto.de tais ou quais discursos. de 1970 até agora. ser usada em outros campos do saber. simolesmente to de investigação pode precisamente esfacelar-se sob o efeito da própria análise. portanto. M. Rio de Janeiro.. a região das chamadas ciências humanas. transmite e que por sua vez reproduzem-no. FOUCAULT. 12 I Foucault. de que as primeiras não são meras precursoras. como se pode dizê-lo.

ou. FOUCAULT. a este respeito. a genealogia constrói uma política de resistência e de luta. "Genealogia e poder". envolve articulações entre elementos heterogêneos. compreende-se que é sobre os discursos científicos. "Os Intelectuais e o poder". 172. Simplesmente com a trama das instituições e práticas sociais. Machado). como prática. 8. M. 221. discursivos e extradiscursivos. em nossa sociedade a produção da verdade é regulamentada por regras que autorizam a eleição dos discursos reconhecidos como científicos e a conseqüente exclusão de outros saberes. agora. por isso mesmo. E. "Introdução" (de R. 175. "Enquanto a arqueologia". 10. para denominá-lo "genealogia". "Sobre a história da sexualidade". em Microftsica do poder:. as instituições apropriadas. 9. o dispositivo. a trajeto ria de Michel Foucault I 15 . Mais de uma vez Foucault afirma que os propósitos explícitos nos escritos da fase genealógica já estavam presentes. assim como a "verdade" de que se trata não é nenhuma essência universal. entendendo-se que. os sujeitos aptos a produzi-los. por exemplo. enquanto a epistéme é também um dispositivo . também o poder não deve ser compreendido como uma "idéia" ou uma "identidade teórica". Assim. "Verdade e poder". ativa os saberes libertos da sujeição que emergem desta discursividade"l1. de certo modo.. Foucault amplia o âmbito das análises: de análises quase sempre mais preocupadas com discursos ou interdiscursos. "O olho do poder". "Poder-Corpo". Por "verdade" deve-se entender não "o conjunto de coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar". de evidenciar as articulações entre saber e poder. antes. passa também a definilo menos como "arqueologia". mais claramente aberto a combates e cuja história. a genealogia é a tática que. que vai incidir a investigação. praticamente. mas como exercício.. III I Foucault. in Microftsica do Poder.saber cujo terreno é mais movediço. como faz principalmente em sua história do nascimento das prisões (Vigiar e punir). tais como práticas jurídicas. mas "regras" historicamente diferenciáveis. A denominação "genealogia" será mantida por Foucault ao referir-se ao terceiro e último momento de sua trajetória. arqueologia e genealogia se distinguem ao mesmo tempo em que guardam. a mesma natureza e o mesmo teor. uma vez que. Trata-se. Mas com outras transformações. se toda sociedade tem seu regime de verdade com efeitos de poder. e cujos efeitos de poder. Poder-seia dizer que a arqueologia é como englobada e ampliada na genealogia e que. nos primeiros escritos. que qualificam os objetos dignos de saber. 183-185. XVI. "Soberania e disciplina". particularmente no caso das ciências humanas. FOUCAULT.. enquanto a arqueologia efetua uma análise descritiva veiculando uma denúncia. "Verdade e poder". *** Em entrevista concedida pouco antes de sua morte. particularmente sobre os das ciências humanas. 13. M. M. Nesse momento de seus escritos. in Microfisica do poder. in Microfisica do poder. assim se exprimiu Foucault a respeito de seus últimos escritos: "Ten11. que só existe em sua "concretude". um elemento prioritariamente discursivo do dispositivo -. 251. mas "o conjunto de regras segundo as quais se distingu~ o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"9. mediados. instituições sociais diversas. Quando Foucault passa a explicitar esse momento de sua investigação. "Genealogia e poder". mas não percebidos. FOVCAULT. 149. a noção de epistéme pela noção mais complexa de "dispositivo estratégico". e. a partir da discursividade local assim descrita. 75-76. pode ter mais "eficácia política"8. escreve ele. projetos arquitetônicos. Ver. 154. prioritariamente de natureza estratégica. por assim dizer. passa a priorizar seu cruzamento "Sobre a geografia". Ora. Abandona. "é o método para a análise da discursividade local. Mas adverte também que uma mudança ocorreu na condução das análises. são sobretudo disciplinar e normalizar. multifacetado e cotidiano 10. pelo que podemos chamar de modos de produção da verdade. 6.

org. T. o foco das investigações será o sujeito. A. era constituir um tipo de ética que era uma estética da existência". 15. . H.últimas entrevistas. na direção. EWALD. do modo de comportar-se ou das posições em face de códigos e leis.passaram-se oito anos. 1984. 16 I Foucault. Ana Maria de A Lima e M. Cf. com realce para a chamada Idade Clãssica (séculos XVII e XVIII). indivíduo que se constitui a si mesmo. E as aproximações que em seguida faz: ''(.. suas ligações com elas próprias e com os outros muito mais do que com problemas religiosos (. principalmente. Porém. FOUCAULT. a pergunta que ele então se colocou . e nem quer um sistema legal que interfira na nossa moral pessoal. e RABINOW."Por que tínhamos feito da sexualidade uma experiência moral?" . enfim. "Introdução". M. sobre o desejo. A segunda observação é que a ética não estava relacionada a nenhum sistema social .. da Glória R da Silva. nos últimos séculos antes de Cristo e nos primeiros séculos da era cristã 13 . 16. de C. mas a da conduta. Ao privilegiar essa perspectiva.últi· mas entrevistas. como espaço de referência. in O Dossier. pois. seu tema. ). ).. tomando então a relação a si e aos outros. O terceiro ponto a observar é que o que os preocupava. ) eu me pergunto se nosso problema atualmente não é. Como nos livros anteriores. FOUCAULT.. ). H. O projeto inicial da História da sexualidade anunciava um percurso histórico semelhante. 15. Uma mudança importante ocorreu relativamente ao período histórico estudado. a perspectiva que ele privilegia não é a dos códigos morais. Cf. A este propósito. 16. O uso do prazeres... Graal. 43-44. Cf. Neste intervalo. continua a fazer filosofia fazendo pesquisa histórica. daquilo. "Sobre a genealogia da ética: uma visão do trabalho em andamento". desde que a maioria de nós já não acredita que a ética esteja fundada na religião. P. 12.to responder a um problema 'preciso: nascimento de uma moral. ESCOBAR. Estou interessado nessa semelhança de problemas"16. 75.. de uma moral enquanto reflexão sobre a sexualidade. 10-11. Mas agora a cronologia é outra. voI. eis algumas observações de Foucaulr: "O que me impressionou é que na ética grega as pessoas se preocupavam com sua conduta moral. assim. trad. 14. a característica da genealogia de compreender o presente. M.. Taurus. Nesse enfoque. Rio de Janeiro. da Costa Albuquerque. as que assinalaram a passagem do final da Idade Clãssica à Modernidade. O uso dos prazeres.. 13. Rio de Janeiro. "Introdução". "Um devaneio moral".12. DREYFUS. Foucault alterou radicalmente o plano inicial previsto para a obra. detendo-se então na Antiguidade grega e greco-romana. que Foucault chama de "práticas de si". "técnicas da vida".. R BELLOUR. Até então as histórias que escrevera atravessavam.últimas entrevis· tas.e a dos volumes II e 1II . 11. trad. G. de certa maneira.O uso dos prazeres e O cuidado de si (1984) . Agora. ou a das leis definidoras do que é permitido ou interditado.. ibid. Entre a publicação do volume I da História da sexualidade A vontade de saber (1976) .. in O Dossier .. mas como sujeito ético. 1984. semelhante a este. História da sexualidade. quase sempre. 136. simplesmente A alteração na cronologia foi acompanhada por mudanças teóricas e deslocamentos de temas. a investigação permite melhor aproximar dados da Antiguidade de problemas de nossa atualidade. como reconhece o próprio Foucault. sua ética. enquanto "sujeito do desejo"14. in O Dossier . L.. "O cuidado com a verdade". privada (.levou-o a procurar mais "atrás" pelo "nascimento de uma moral". in O Dossierúltimas entrevistas. não porém como aquele "curioso objeto" de um domínio de saber. jurídicos ou religiosos. 86. "artes da existência"ls. a traietória de Michel Foucault I 17 . "O retorno da moral". F.ou pelo menos legal-institucional (. um percurso que ia desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). mantendo. BARBEDEITE. o prazer. M. de compreender nosso presente. buscando trazer à luz as transformações que marcaram a passagem do Renascimento à Idade Clássica e. eSCALA.

Os dois eixos comuns.. Aliás. o terceiro momento interroga o que habitualmente 17. em resumo. E elas têm pelo menos dois eixos comuns. parti do 'problema' que ela podia constituir num certo contexto social. FOUCAULT. 76. foi problematizada através de uma certa prática institucional e um certo aparelho de conhecimento. da História da loucura à História da sexualidade: "A propósito da loucura. O uso dos prazeres.. ). finalmente. um mesmo propósito de base: escrever "a história das relações que o pensamento mantém com a verdade"18. E conclui apontando para aproximações: "São. "O cuidado com a verdade".. todos os escritos são sustentados por uma mesma pergunta de fundo: "Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a pensar quando se percebe como louco (A história da loucura). parti do problema que o comportamento sexual podia colocar aos próprios indivíduos (. M. Ibid.. em Vigiar e punir. ••• A partir daqueles eixos de aproximação pode-se. conduzindo à análise das práticas discursivas constitutivas dos saberes reconhecidos como verdadeiros. ser falante e ser trabalhador (As palavras e as coisas). tratavase de analisar as mudanças na problematização das relações entre delinqüência e castigo através de práticas penais e instituições penitenciárias no fim do século XVIII e no início do século XIX. agora como 'governar-se' a si próprio".. Em um caso. Dito de outro modo. Em outra passagem realça essas diferenças.20. 19. há. EWALD.últimas entrevistas. as semelhanças também existem. já que por "problematização" deve-se entender "o conjunto de práticas discursivas ou não-discursivas que faz alguma coisa entrar no jogo do verdadeiro e do falso e a constitui como objeto para o pensamento JJ21 . 12 (os títulos entre parênteses foram acrescentados por nós). Aliás. tratava-se em suma de saber como se 'governava' os loucos. "O cuidado com a verdade". Eis ainda uma passagem em que esse eixo comum é explicitado: "Em A história da loucura a questão era saber como e porque a loucura. duas vias de acesso inversas em direção a uma mesma questão: como se forma uma 'experiência' onde estão ligadas a relação a si e aos outros"l? Com efeito. quando se olha como doente (O nascimento da clínica). "Introdução". 75. conduzindo à análise dos mecanismos de exercícios dos poderes relacionados à produção de saberes. 18 ! Foucault. in O Dossier . 20. juntando sugestivamente as duas pontas de sua trajetória. F. articulam-se entre si. Um segundo eixo desses escritos está em certo ângulo a partir do qual os temas são abordados. como se problematiza a atividade sexual?. o segundo interroga o que habitualmente se entende por "poder". em todos eles. pois.últimas entrevistas. Do mesmo modo. por sua vez ~ o propósito de fazer a história das relações entre pensamento e verdade e o ângulo das problematizações~. quando reflete sobre si como ser vivo. EWALD. compreender a reunião dos três momentos da trajetória de Foucault em um mesmo conjunto. 76. na visão teórica. Agora. simplesmente a trajetória de Michel Foucault l I 19 . Todos eles se direcionam a "problematizações". 21. na cronologia. que o próprio Foucault faz questão de reconhecer. Primeiro.. político e epistemológico: o problema que a loucura colocava para os outros. na passagem dos momentos anteriores ao último. nos temas.. 76. in O Dossier.. ao primeiro tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres dá o título "Modificações". 18. num dado momento. Ibid. F. Aqui. o segundo tópico da "Introdução" de O uso dos prazeres tem por título "As formas de problematização". quando se julga e se pune enquanto criminoso (Vigiar e punir)? Através de quais jogos de verdade o ser humano se reconheceu como homem de desejo (História da sexualidade)?"!'.Mudanças. sem contudo escamotear suas diferenças: o primeiro momento interroga o que habitualmente se entende por "progresso do conhecimento".

24. B. simplesmente 11 A FILOSOFIA COMO CRíTICA DA CULTURA Filosofia e/ou história?* A título de introdução.. "O cuidado com a verdade". Semelhanças e dessemelhanças. enumerar os momentos dessa trajetória acent~ando as diferenças sem necessariamente perder suas conjunções: trata-se. ou entre essência e experiência.. ou ainda entre interioridade e exterioridade. N. in O Dossierúltimas entrevistas.. contrapondo dois pólos ou dois termos: trata-se do antagonismo ou da correlação entre idéia e fato. Posteriormente. outro étic023 .. ou trata-se. F. um mais marcadamente epistemológico. faz nela perceber a presença daqueles traços com que Foucault desenha o perfil....que duvida do estabelecido. Esta.a que se pode chamar filosofia . Risumés de cours) como ainda os opúsculos Les sciences de l'hommeet la phénoménologie e Le métaphysique dans l'homme. 11. lembremos um conhecido problema afrontado por Husserl e muitas vezes explorado por MerleauPonty. o do poder e o da conduta individual"24. expõe a si próprio à mobilidade e dispõe-se constantemente a se recompor. (FAVARETIO. que abala o habitual e que. São Paulo. em novembro de 1981. em Belo Horizonte. em certas passagens. Ibid. L.25. assim expressas: "Conseguir pensar algo que não seja o que se pensava antes. "Introdução". a filosofia como critica da cultura I 21 . FOUCAULT. outro político. a reconstituição da trajetória desse pensamento. 71. orgs. A. comunicação apresentada no V Simpósio Nacional da Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF). F. Ne* Este texto reproduz. EWALD. 25. de três campos ou continentes de reflexão. é uma questão a que Merleau-Ponty dedica vários textos nos quais trata particularmente das relações entre a filosofia e as ciências humanas. do intelectual e que. ele descreve como exigências.. Cf. Poderia receber ele formulações diversas. como se exprime o mesmo Foucault. "O retorno da moral". M.se entende por "sujeito". 13. O uso dos prazeres. 20 I Foucault. 23. BARBEDElTE.últimas entrevistas. n.). EducfCortez. ou mesmo entre subjetividade e objetividade. conduzindo à análise da "constituição de si mesmo como sujeito"22. eSCALA. todas elas. porém. quer se lhe acentuem os momentos. 74. BOGus. Basta evocar. Ou pode-se. F. Educ. 1984. Éloge de la philosophie. quer se lhe realce o conjunto. por exemplo. 129. in O Dossier. como indica um estudioso de Foucault. inversamente. O uso dos prazeres. VERAS. Foi publicado em Cadernos PUC. 22. 19. Série Cadernos pue. hoje. 1982. M.27. Le philosophe et la sociologie.. com algumas alterações. foi republicado com o acréscimo de "Discussão" em Epistemologia das Ciências Sociais. G. De todo modo. in O Dossier . C. FOUCAULT. "Introdução".últimas entrevistas. e que constituiria a base do antagonismo ou da correlação entre o pensamento filosófico e a elaboração científica. aproximações e diferenças compõem assim um tipo de pensamento . 27. 26. "pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê. Cf.. como se sabe. "ser capaz permanentemente de se desprender de si mesmo"26. de três ordens de problemas. por isso mesmo. "o da verdade. EWALD. 13. n. "Michel Foucault". M. São Paulo. 81. por exemplo.

pressupõem isolados entre si "o fato e o homem interior". M. 2. Não há que escolher. São Paulo. por outro. reduzindo os fatos à imediatez de seu presente sem qualquer abertura para o futur0 3 • Ademais. do que ela fala". Paris. trad. por outro... M. como que a predeterminá-I02 • Alternativas deste teor podem incorporar seja uma "ilusão retrospectiva". in Éloge. 171.. Em contrapartida.. 4. 56. M. M. in Sens et non-sens. Muchail. projetando as categorias de hoje na leitura do passado. Cf MERLEAU-PONTY. as ciências da linguagem. "Le métaphysique dans l'homme". resumir alguns aspectos de sua posição a respeito da filosofia e da história. por um lado. 46. 45. que. Mas a peculiaridade está. numa verdadeira "guerra fria". a sociologia. Merleau-Ponty atribuía assim certa inerência entre o trabalho do historiador e o do filósofo. Gallimard. Em quase todos esses ensaios. "a história e o intemporal. 1960. in Résumés des Cours. que impede. Uma história que se estreitasse a um relato empírico dos fatos sem buscar compreender-lhes a significação através do concurso da filosofia "não saberia. é nossa experiência de sujeitos situados. M. pela qual vivenciamos uma "co-existência histórica"?. seja uma "ilusão prospectiva". que podemos realizar o movimento de comL MERLEAu-PONTY. a sua redução a uma reunião de fatos circunstanciais e sem significação. o único meio de acesso à compreensão de outras situações particulares com as quais podemos nos comunicar enquanto variantes da nossa6• Ou seja. a submissão da história à força de uma lógica todo-poderosa e atemporal e. 7. 112. in Sensetnon-sens. a primeira nem a última vez que um pensador travou relações entre filosofia e história.43. "Le philosophe et la sociologie". Ibid. Ciências do homem e fenomenologia. Paris.4.61. simplesmente preensão de outras situações e de outras formações culturais. em "Le métaphysique dans l'homme". 113-114. Interessa-nos. 1965. A idéia da "rivalidade" aparece igualmente em outros textos. Saraiva. M. o autot aborda aquela questão do ângulo das relações entre. MERLEAU-PONTY. 1973. a história. 3. em que neste caso as relações não são tão sistemáticas a ponto de conduzir finalmente à anulação de uma sob o jugo da outra. pela nossa inserção numa cultura particular. 5. elegendo. in Sens et nonsens. MERLEAU-PONTY. 171. mas ainda mutuamente indispensáveis. "Le métaphysique dans l'homme". Primeiramente. a psicologia. 162. 22 I Foucault. 69. 9. 1968. Ciências do homem e fenomenologia. na trama histórica dos acontecimentos. por exemplo. Merleau-Ponry afirmará que é precisamente pela nossa inerência a uma determinada situação. Paris. MERLEAU-PONTY. Gallimard.. e sobretudo 6. S. entre uma filosofia que postula uma consciência fora do tempo. Por exemplo. Se nossa particularidade nos limita é também..les. Não foi. in Éloge 137. paradoxalmente. Nagel. 43. 8. a filosofia e. pode-se completar que só haverá filosofia se os sentidos ou as verdades que ela busca forem procurados no seio do devir. cremos. a filosofia como critica da cultura I 23 .. Nessa medida. Cf MERLEAU-PONTY. M. é claro. literalmente. T. Assim. ao contrário. "Le philosophe et la sociologie". "Matériaux pour une théorie de l'histoire". 160. por um lado. inserem no curso das coisas uma lógica oculta". Merleau-Ponty rejeita certas alternativas que confundem ou falseiam O conceito de história e que fazem da filosofia e da história "tradições rivais"l. assim como uma filosofia que sobrevoasse os fatos "só desembocaria em verdades formais. e as '''filosofias da história'. in Résumés de cours (ColJege de France). "Máteriaux pour une théorie de l'histoire".. se para Merleau-Poncy só "haverá história na medida em que houver uma lógica na contingência. in Éloge de la philosophie et au"tres essais. Ibid. "Le métaphysique dans l'homme". história e filosofia serão não apenas solidárias. MERLEAU-PONIT. isto é. uma razão na desrazão"9.) Éloge de la philosophie.. para introduzir nosso estudo. in Éloge de la philosophie et autres essais. ou bem o "mito da filosofia" ou bem a "idolatria da objetividade"5. em erros"s. in Sens et non-sens. ou em "Le philosophe et la sociologie". retoma a questão desde onde Husserl a tinha levantado e a conduz na direção da superação do impasse. "desligada de todo interesse pelo fato".

além de marcar uma postura fortemente anti dogmática. Não são poucas as vezes em que se refere a seu trabalho de historiador. o intercâmbio entre ambas. 243.'Eis o que penso'. "Poder. em que sentido se poderia dizer que algo como uma crítica da cultura permeia esse trabalho. chama-o de "discurso hipotético" e.Corpo". 151. ). a função mais modesta de "fornecer os instrumentos de análise". in Microfisica do poder. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever"lO. in Microfisica do poder. Paris. "Sobre a História da sexualidade". mas acentuar o lado francamente positivo dessa "resistência" à classificação. É que esses e~ritos assumem um caráter por assim dizer flutuante. in Microfisica do poder. 156. Questões dessa ordem são amplamente discutidas por estudiosos de Foucault. por exemplo. in Microfisica do poder. M. L'Archélogie du savoir. FOUCAULT. ao referir-se às mudanças ocorridas desde algum tem11 FOUCAULT. mais de uma vez. A partir destas considerações iniciais. tentemos ver como o próprio Foucault compreende seu trabalho enquanto filosofia e enquanto história e..15. ). Quando. "Sobre a geografia".nem tão precisas que desfaçam certa ambigüidade a atravessar. M. E é essa a prática que. ao contrário. e org. Noutra ainda. Ver também 259. 12 Cf. a nosso ver. E 10 FOUCAULT. M.. M. FOUCAULT. O que existe de incerto no que escrevi é certamente incerto (. eu sou apesar de tudo filósofo".. Ele próprio parece situar a si mesmo em ambas. M. o papel do historiador"14.. incrod. 19'(9. Por outro lado. quais são seus efeitos. Simplesmente não estou certo quanto ao que escreverei nos próximos volumes". Em outras passagens afirma o caráter parcial e ziguezagueante de suas investigações 12 .. E num debate a propósito do primeiro volume da História da sexualidade. FOUCAULT. M.. É sempre difícil tentar encaixar os escritos de Michel Foucault em classificações estabelecidas do saber.. M.. que atesta uma evasão sadia em relação a todo dogmatismo. é executada nos escritos his- tórico-filosóficos de Michel Foucault. durante uma entrevista. ela rege nossos papéis. Podemos dizer que Poucault escreve com segurança sobre suas próprias incertezas e toda vez que aborda o trajeto de sua produção é pata questionálo. escreve: "Não quis dizer . "Sobre a geografia". 239. 1969. FOUCAULT. ao que parece. conclui dizendo ser "este. Noutra ocasião. justifica ter gostado de determinada entrevista pelo fato de ter mudado de opinião "entre o começo e o fim. Graal. "Não ao sexo rei". cheio de buracos para que neles possamos nos alojar". sua resposta indica que a questão da filosofia hoje não deixa de ser igualmente uma questão de história: "é a questão deste presente que é o que somos. pois ainda não estou muito seguro quanto ao que formulei (. após a observação de que "em muitos momentos você se definiu como historiador".. a filosofia como crítica da cultura I 25 .. 180. Salvaguardadas estas observações. 2'-1 j Foucault. Rio de Janeiro. na prática. 15. de Roberto Machado. como isso se entrelaça com as relações de poderJJ16 . 164. Já no final da "Introdução" de A arqueologia do saber escrevera ele: "Não me perguntem quem sou e não me digam para permanecer o mesmo: isso é moral de estado civil. é essa certa ambigüidade que. essencialmente. de "jogo"ll. se for da verdade que me ocupo.13. buscando desenhar seus traços eventualmente inalteráveis ou circunscrever características invariáveis. depois de a ele referir-se como um "livro-programa tipo queijo gruyere. Ora... "Soberania e disciplina". Ou ainda. parece abrir espaço para a possibilidade da eventual reunião das duas atividades numa mesma prática. 16. já mais claramente afirmará: "E mesmo que eu diga que não sou filósofo.. hoje. Gallimard. em seguida. 14. rejeitando ao intelectual o papel de "conselheiro" na militância política e designando-lhe. in Microfisica do poder. não será porém artificioso afirmar que os escritos de Poucault têm a ver com a história e têm a ver com a filosofia. Não nos importa aqui reproduzi-las. realçando porém que a questão da verdade que ele coloca é a de perscrutar "qual é sua história. in Microfisica do poder. quando.28. lhe é perguntado por que 'historiador' e não 'filósofo"'. 13 FOUCAULT.

po na escrita da história. que quer encontrar. quer no âmbito interno de uma época (buscando captar seu espírito.. essas histórias salvaguardam a unidade soberana do sujeito. M. que filosofia e história se entrelaçam num mesmo trabalho que se pretende história da produção da "verdade". 18. a dissolução da heterogeneidade. Mais ainda. quer no curso sucessivo do tempo (buscando detectar "gêneses.. por meio deles. por meio de todo acontecimento. parentescos. de toda manifestação histórica. São próprios às histórias "do espírito" e às histórias "globais". de modo uniforme e homogêneo. uma "história do espírito" é precisamente aquela que. da multiplicidade. mediante a "decifração" dos textos. capazes que seriam de trazer à luz a suposta origem e o suposto segredo que o discurso explícito implicitamente conteria. FOUCAULT. uma direção única. pois. Eis. Já no Prefácio a O nascimento da clínica (1963) aponta dois recursos tradicionais que rejeita e chama-os de "estético" e "psicológico". "consciência histórica" que se constitui em núcleo unificador ou centro originário capaz de reunir em si a explicação e. É basicamente a esses mesmos recursos que também se refere noutro texto. 21. 239-23l. 22. de início. que quer "interpretar" as significações explícitas dos fatos objetivando fazer falar. quer encontrar "vestígios" que permitam traçar uma linha contínua.?JJ22. FOUCAULT. quer desvelar a "consciência". 26 I Foucault. a saber. portanto. 1972. Préface. Trata-se sempre.. M. Naissance de la clinique. Ibid.. da dispersão.. filiações. a filosofia como critica da cultura I 27 . 22. Rio de Janeiro. influências"). FOUCAULT. 65. PUF. M. de algum modo salvase ao mesmo tempo a consciência como seu eixo: "Querer fazer da análise histórica o discurso do contínuo e fazer da consciência humana o assunto originário de todo devi r e de toda prática são as duas faces de um mesmo sistema de pensament. Paris. Ibid.. FOUCAULT. apontando assim em direção a um horizonte sempre longínquo e cada vez mais recuável) como por um método que procede pelo "recurso empírico ou psicológico" (isto é. Cf. "Resposta a uma questão". Foucault faz ver que a história do Ocidente "não é dissociável da maneira pela qual a 'verdade' é produzida e assinala seus efeitos". nesses casos. deixando claro que é seu propósito fazer "a história da 'verdade' . que não pensam as "diferenças" mas "as continuidades ininterruptas JJ2 ! de uma teleologia segura. O segundo consiste em buscar "interpretar" os fatos no sentido de encontrar como que por detrás deles suas razões mais secretas. 21. L'Archélogie du savoir. Ao se salvar a linha segura da continuidade histórica. 1972. como se os fatos fossem sempre uma espécie de "alegoria" a dizer outra coisa que não eles próprios!8. um "sentido 17. as "intenções" ou o "espírito" que os teriam inspirado20 . XIII. "Não ao sexo rei". Com efeito. de histórias "evolutivas" ou "progressivas". na dispersão dos fatos e documentos. simplesmente oculto" de que supostamente estariam carregadosr 9 . as linhas de sua origem. uma lógica escondida. os traços de uma história que Foucault não elabora. o tratamento dos textos na forma de "comentários". Mas que história e que verdade? Ou melhor. quando recusa a elaboração da história tanto por um método que procede pelo "recurso histórico-transcendental" (isto é. O primeiro consiste em descrever uma história das idéias fundada em analogias estabelecidas pelo historiador.). Esses procedimentos têm em comum o uso da técnica que lhes é apropriada. Tempo Brasileiro) 28.59. M. Ainda mais. de que tipo de história esse filósofo que se ocupa da verdade é hoje o historiador? Afastemos. que expliquem. assegurando a linearidade do progresso. in Microfúica do poder. uma "história global" é precisamente aquela que. as multiplicidades e as transformações.do poder próprio aos discursos aceitos como verdadeiros"!7. 20. 19. sua Weltanschauung etc. esses procedimentos cunham a história com a marca unitária do contínuo e da sub}etividade.

28 I Foucault. bastidores. 31. essência única e sempre a mesma. em suas correlações. Seuil. ela se opõe. forma de conjunto. no lugar de uma teleologia da continuidade e do progresso. A "história efetiva". FOVCAULT. FOUCAULT. Segundo. cena. todos os disfarces"29. isto é. as histórias que Foucault escreve são. quer em suas relações com o extradiscursivo. de sorte que se antes a descontinuidade equivalia ao "impensável". 16. "Nietzsche. ela recusa a identidade das origens e a segurança das teleologias: "A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profun- da do filósofo ao olhar de toupeira do cientista. considerando "acidentais todas as peripécias que puderam ter acontecido. Ibid. 25. ao contrário. jogo etc. uma história que lançaria sobre o que está atrás dela um olhar de fim de mundo..28.. Paris. todas as astúcias. 10. Cahiers pour l'analyse. isto é. enfim reduzida. ao contrário. reintroduz "o descontínuo em nosso próprio ser. em suas transformações. Primeiro. À prática desse procedimento Foucault chamou primeiramente "arqueologia" e posteriormente "genealogia". cenário. significação. espírito. passa agora a ser "um dos elementos fundamentais da análise histórica"25. 26. É interessante observar a freqüência no uso deste tipo de metáfora: carnaval. interdiscursivas. O deslocamento é explícito: "Uma descrição global encerra todos os fenômenos em torno de um centro único . dos domí27. do tempo.m. nem histórias globais. M... Ela se opõe à pesquisa da 'origem"'31.princípio. 19. Ibid. Faz ver que esta última "reintroduz (e supõe sempre) o ponto de vista supra-histórico: uma história que reria por função recolher em uma totalidade bem fechada sobre si mesma a diversidade. Cf. uma 23. Nesse uso. uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes. como tantas máscaras sob as quais não há um rosto a ser desmascarado: "A genealogia é um carnaval organizado"30. como ele mesmo as chama. 29. isto é. 30. não há por trás da trama histórica qualquer identidade pura de um sentido ou de uma essência. Simplesmente história que nos permitiria nos reconhecermos em toda parte e dar a todos os deslocamentos passados a forma da reconciliação. reporta a Nietzsche não só o termo "genealogia". "Réponse au Cercle d'épistémologie".. o espaço de uma dispersão"26. com as práticas e as instituições sociais. 9. 1968. Sem dúvida. 17. as histórias que Foucault escreve desfocam a categoria da consciência e se voltam para as análises dos discursos considerados quer em suas correlações internas. in Microftsica do poder.. Ibid. o que existe é precisamente a multiplicidade de fisionomias. em sua perseguição da origem (Ursprung). 24. ao contrário. a genealogia e a história". são histórias que.. a genealogia. ela desvia o enfoque antropológico em direção aos discursos que compõem os saberes: "É isto que eu chamaria de genealogia.. Recolhamos estes traços da história praticada por Foucault na seleção de algumas passagens em que ele explicita o perfil da genealogia. 28. contrapõe a genealogia compreendida como "história efetiva" (Wirkliche Historie) à história tradicional dos historiadores. 26.. Para a genealogia. que por ser impensável devia ser suprimido e desintegrado mediante sua integração numa explicação continuísta. Ibid. a filosofia como crítica da cultura I 29 . Concomitantemente. buscam antes "detectar a incidência das interrupções"24. 17. como o modo de seu uso. pretende recuar ao reencontro de uma identidade enfim desvelada.. dos discursos. I!. 34. máscara. A história tradicional. L'Archéologie du savoir. Ibid.. uma história geral desdobraria. FOUCAULT. "histórias gerais. ao contrário. ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. visão do mundo.23 entendidas como descrição dos fatos em sua singularidade de acontecimentos. teatro. "reintroduz no devir tudo o que se tinha acreditado imortal no homem". M. M.Nem histórias do espírito. disfarce. em seus desaparecimentos. ibid. 27.

FOUCAULT. esta rapidez e esta amplitude são apenas o sinal de outras coisas: uma modificação nas regras de formação dos enunciados aceitos como cientificamente verdadeiros"35. por que tantas "inversões"? Com efeito. M. ). 28.... mas ao acaso da luta". um reino. entre estes. enquanto filósofo.33.nios de objeto etc.. Terceiro. Isto me deixa pasmado (. simplesmente conferida ao entendimento e à escrita da história. ou melhor. "não uma decisão. E não digo que a humanidade não progrida. funciona como uma "estratégia" porque calcada num comprometimento crítico com pretensões a uma eficácia política. ou mais elaborado. 30 ! Foucault. Por um lado. in Microfoica do poder. um tratado. sujeito constituinte e progresso evolutivo. estas transformações que não correspondem à imagem tranqüila e continuísta que normalmente se faz? Mas o importante em tais mudanças não é se serão rápidas ou de grande amplitude. Finalmente. ou uma batalha. a linearidade pela diferença. daquilo que é aceito "como cientificamente verdadeiro" que nos encaminha à abordagem dos vínculos dessa história com a questão da verdade enquanto assunto da filosofia. "Verdade e poder". "Sobre a prisão".. este ceticismo que impede que se suponha que tudo isto é melhor ou que é mais do que o passado (. ela não está preocupada com o "progresso": "Tenho esta precaução de método. ter em relação a nós mesmos. estamos nela e nela ficamos. com a questão da verdade significa aqui não ir em busca de uma essência a ser descoberta. este ceticismo radical mas sem agressividade que se dá por princípio não tomar o ponto em que nos encontramos por final de um progresso que nos caberia reconstituir com precisão na história. Mas a prática deste procedimento na escrita da história não é também movida ao acaso de um capricho.. é precisamente a eleição. ao aqui e agora. in Microftsica do poder. estas mudanças bruscas. teleologias. in Microfisica do poder.. in Microfisica do poder. mas uma relação de forças". aqueles que são reconhecidos como científicos e. e daí à compreensão do que chamamos seu comprometimento crítico com a cultura. em certos momentos e em certas ordens do saber. não se trata pura e simplesmente de efetuar substituições de algum modo arbitrárias: a continuidade pela descontinuidade. acaso do jogo que "não é simples sorteio". Afinal. mas antes "risco sempre renovado (. Foucault restringe a região de seus estudos: entre os discursos. longe de ser inocente. Ora. entendendo-se por "acontecimento". a filosofia como crítica da cultura j 31 . a genealogia e a história". forças que "no jogo da história não obedecem nem a uma destinação. "Verdade e poder". Com efeito. mas descrever e 35. sem ter que se referir a um sujeito. "Nierzsche. 33. nem a uma mecânica. Ouçamo-lo mais uma vez: "Uma edição do Petit Larousse que acaba de sair diz: 'Foucault: um filósofo que funda sua teoria da história na descontinuidade'. 3-4. ). sem dúvida. O problema é 'como isto se passa?'. a uniformidade pela dispersão. E essa estratégia se aloja no ponto de cruzamento entre a questão da verdade e os mecanismos do poder. a genealogia descreve uma história marcada pela descontinuidade dos acontecimentos. M. seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história"32. Digo que considero um mau método colocar o problema 'por que progredimos?'. mas colocar a questão: como é possível que se tenha. M. Essa escolha é. 34.. Isto é.. FOUCAULT. Meu problema não foi absolutamente dizer: viva a descontinuidade. estas precipitações de evolução. E o que se passa agora não é forçosamente melhor. uma estratégia. Ao contrário. 140.. ao privilegiar os acontecimentos discursivos como campo de análise. nem de trocar o núcleo "consciência" por outro chamado "discursos". para domínio da investigação histórica. )"34. M. FOUCAULT.. ocupar-se. os que compõem a região mais cambiante e imprecisa que é constituída pelos saberes das chamadas ciências humanas. ao que somos. a nosso presente. despida de origens. 7. essa orientação 32.. ou melhor elucidado do que o que se passou antes. seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos. FOUCAULT.

"A genealogia seria portanto. pontos de confronto. conteúdos históricos que evidenciam o poder na forma da disciplina etc. linhas de força. trata-se. isto é. FOUCAULT. um empreendimento para libertar a sujeição dos saberes históricos. com a questão da verdade encarada segundo seus modos históricos de produção é ocupar-se também do vínculo circular que ela mantém com os modos de exercício do poder: "o exercício do poder cria perpetuamente saber e.. faz emergir. posto que em nossas sociedades ocidentais são os discursos reconhecidos como científicos os que compõem os saberes aceitos como verdadeiros. M. in Microfisica do poder. com relação ao projeto de uma inscrição dos saberes na hierarquia de poderes próprios à ciência. "Verdade e poder". M. 171. mutuamente se produzem e se reproduzem. pela análise do nascimento das prisões. é aliada da recuperação de saberes considerados "ingênuos. 142. para a produção de saberes reconhecíveis como verdadeiros. a genealogia pretende constituir-se em foco de crítica e em instrumento de resistência. atribuindo ao sujeito detentor do conhecimento sobre o homem a "competência" que autoriza o domínio de seus "objetos". na medida em que ela envolve saberes cujo "perfil epistemológico". o correto e o errado..). os direitos de uso do poder (em seu nome se distingue não só o verdadeiro e o falso.. tensões"39.40. do delinqüente etc. em face das histórias da Razão e do mesmo. 37. Por outro lado.. Assim. enquanto filósofo. e ao mesmo tempo. descreve. M. "Soberania e disciplina". 172. mediados pela verdade. in Microfísica do poder. o normal e o patológico etc. formal e científico. o nível das 40. dissociando assim o sujeito do conhecimento que "possui a verdade" de seus "objetos" que "nada sabem". torná-los capazes de oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico.que autoriza a qualificação de objetos. E isso duplamente.regras que são transformáveis de uma sociedade para outra. FOUCAULT. saberes abaixo do nível da cientificidade" (por exemplo."42 Mais ainda: lembremos que enquanto a arqueologia pretendia realçar principalmente as epistémes) isto é. Ibid. de que modo a pretensão ao estatuto científico dos saberes sobre o homem lhes imprime as marcas do exercício do poder. a filosofia como critica da cultura I 33 . hierarquicamente inferiores. por exemplo. de instituições.. por ser "pouco definido"38. 42. por seu turno. conteúdos históricos que foram subestimados ou silenciados pelo saber "qualificado" das histórias tradicionais: mostra. 39. "Sobre a prisão". que tipo de poder é capaz de produzir discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos?. "Sobre a geografia". 41. l. Ibid. Simplesmente Nesse sentido pois. abriga "combates. FOUCAULT. Por outro lado. 32 I Foucault. ocupando-se da análise das relações entre saber e poder que. Eis a pergunta de "filosofia política" que Foucault se coloca: "Em uma sociedade como a nossa. unitário. o saber acarreta efeitos de poder"36.)". 179. Quer propor "um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais. 38. se a "verdade" é "efeito" do poder das regras segundo as quais determinados saberes têm a competência para a verdade. in Microfísica do poder. essa competência lhes atribui. daquele estabelecimento do jogo de regras ... de uma época para a outra . E posto que é a região das chamadas ciências humanas a que melhor ou mais claramente permite fazer ver aquele entrelaçamento entre regime de verdade e regime de poder. FOUCAULT. M. in Microfísica do poder. precisamente.. num trabalho que exige paciência e erudição. 36. podemos dizer que. inversamente. in Microfísica do poder. a história da Desrazão e do Outro. recuperar. 154.37 Ora. é sobre ela que vai particularmente recair a invesrlgação. Busca. é desses saberes que tratará a genealogia. de sujeitos. ocupar-se. como o permitido e o interditado. 170. por um lado. do doente. FOUCAULT.) "Genealogia e poder". revelando os mecanismos correlatos de exclusão. M. de enclausuramento e de redução ao silêncio.analisar os modos como a "verdade" vem sendo historicamente produzida. do enfermeiro.

Préface. E. J a filosofia como crítica da cultura I 35 ..'TY. 44. "Neste sentido". falar. "Introdução". As histórias que Foucault escreve. exigia a reclu- são asilar. Assim. É nesse sentido que não nos parece abusivo reconhecer nos trabalhos históricofilosóficos de Foucaulr algo a que poderíamos chamar uma crítica da cultura ou.45. Recusando a alternativa entre uma história atravessada por um sentido teleológico e uma história desprovida de sentido porque concebida como um conglomerado de fatos. portanto. sem entrarmos na pluralidade possível de acepções que podem ser cobertas pelo termo "cultura". alguns aspectos que apontávamos em nossas primeiras considerações em torno de Merleau-Ponty. a medicina de Bichat o espaço do Hospital e a economia política a estrutura da fábrica"44. assumem. Gallimard.. ele próprio. in Microfisica do poder. numa passagem de Vigiar e punir: "O sistema carceral reúne numa mesma figura discursos e arquiteturas. regulamentos coercitivos e proposições científicas . Lê-se. "Sobre a geografia". essa crítica da cultura. simplesmente um "saber histórico das lutas" é.. da cultura "qualificada". esse trab~lho filosófico de constituição de 43. 34 I Foucau!t. 49. in Sens et non·sens 158. Éloge . Cf. 242. Entende-se assim que.. 59. M. na prática.. a genealogia têm por objetivo fundar uma ciência. 1966. 11. nem nos diferentes ângulos sob os quais pode ser abordado e. 1975. Surveiller et punir. bem como das relações entre ambas. «nem a arqueologia. pressupunha. 47. Cf. . de um modo tão geral quanto simples. Do mesmo teor. Merleau-Ponty recusava igualmente tanto a ininteligibilidade da história como as pretensões "de uma História Universal inteiramente desdobrada diante do historiador como o seria sob o olhar de Deus. Paris.que envolve tanto as inter-relações dos saberes como suas articulações com as práticas institucionais. (saber". como ainda a suas relações com as estruturas sociais. Les Mots et les choses. finalmente. como o saber disciplinar trazia consigo o modelo da prisão.por ele chamada de "dispositivo" . M. além de avessas a qualquer aspiração de universalidade.. 16l. sobretudo. 48."48 Essa mobilidade que é constitutiva da postura mesma das investigações de Foucault vem confirmar aquela distância de quaisquer dogmatismos a que inicialmente nos referíamos. M. Foucault não rejeita a afirmação que lhe é dirigida por um entrevistador: "Você mostrou como o saber psiquiátrico trazia consigo... em oposição às teorias gerais e globalizantes. E permite que reencontremos. FOUCAULT.. poderíamos considerar "cultura".. "Le métaphysique dans l'homme". 45.. a respeito da filosofia e da história.49. FOUCAULT. XIII. aquela simultaneidade entre 46.43.. "Não ao sexo rei". "Genealogia e poder". escreve Roberto Machado.276. . nas muitas questões que suscita.. contudo. Daí o cuidado insistente de Fou- caulr em não se vir a rransformar a análise realizada pelas genealogias em outro saber centralizador ou monopolizador da "verdade" e. Ver também. FOUCAULT. in Microfísica do poder. Paris. a genealogia se dirige não somente ou sobretudo aos discursos. construir uma teoria ou se constituir como sistema: o programa que elas formulam é o de realizar análises fragmentárias e transformáveis. ao estabelecer a história da constituição dos saberes explicitando seu vínculo com exercícios do poder. a crítica tem um caráter local e específico 46 • Em oposição ao teórico "legislador". principalmente "Verdade e poder". por exemplo. partícipe da "história" e da "cultura". habilitado para o poder.correlações interdiscursivas. Ora. in Microfísica do poder. MERLEAU-POl\.. E pelo menos dois aspectos. menos ainda. pensar. Foucault sonha "com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades"47. in Microfísica . Gallimard. não há que se esquecer que. É aliás numa concepção assim bem ampla que o termo é freqüentemente usado neste Prefácio. pelo menos. a genealogia os considera como peças nas tramas de uma rede . o conjunto de saberes teóricos e de práticas sociais que compõem o quadro em que se move uma determinada sociedade e cujos limites lhe demarcam as possibilidades de "nomear. "Os intelectuais e o poder". M. MACHADO R. nem.

conduzindo este aparente paradoxo a uma nova direção: "A história não tem 'sentido'. M. o lugar de onde eles olham. de sorte que. a genealogia e a história". porém. nem "ilusão retrospectiva". e justamente por isso é também visado por seu mesmo olhar crítico. apagar o que pode revelar.51. Unimep.o incontrolável de sua paixão". por propô-la. . ele próprio. mas a olha de dentro dela. in Microfísica do poder. org. pois. em seu saber. MERLEAu-PONTY. 36 I Foucault. FOUCAULT. genericamente. com o propósito deliberado de apreciar. de um conhecimento sem ponto de vista.). se provoca deslocamentos. o momento em que eles estão. agora. Comecemos. M. Piracicaba. é inteligível e deve poder ser analisada em seus menores detalhes. elaborado a partir da cultura que o torna possível. partindo de uma ilustração que está nas primeiras . podemos denominar "do outro e do mesmo" se estenda como um pano de fundo dessas histórias.. das táticas"50. olha-a criticamente. nem "ilusão prospectiva". o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida nos quais a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa. FOUCAULT. há que se dispor. FOUCA. Segundo... Por ser "perspectivo". É possível sugerir que a questão que. 13. o que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Simplesmente 111 O MESMO E O OUTRO Faces da história da loucura* De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não. M. 30. Foucault faz filosofia fazendo pesquisa histórica. M. já o "saber perspectivo".. o partido que eles tomam . na medida do possível. "Verdade e poder". 1995. Ao contrário. As histórias que escreve desenvolvem-se no espaço do Ocidente. o mesmo e o outro j 37 . "olha de um determinado ângulo. 136.a ausência de um sentido único e a presença de inteligibilidade. Afinal. Conferência apresentada na VII Semana de Estudos em Filosofia da Universidade Metodista de Piracicaba. mas segundo a inteligibilidade das lutas. das estratégias. em agosto de 1994..uLT. 50. in Éloge.. "Nieczsche. é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. "sabe que é perspectivo". "é um olhar que sabe tanto de onde olha como o que olha"52. e perceber diferentemente do que se vê. de certa maneira. Merleau-Ponty se opunha ('ao ideal de um espectador absoluto. e o tempo que percorrem é quase sempre aquele que vai desde o final do Renascimento (por volta do século XVI) até a nossa Modernidade (séculos XIX e XX). e tanto quanto possível. M. o uso dos prazeres. afirmando que é pela inerência a uma situação histórica particular que podemos compreender a significação de outras situações que compõem a trama da história. a deslocar-se. ao contrário. e se saber assim. Publicaclaem Foucault e a destruição das evidências (MARlGUELA. atravessando com realce a chamada Idade Clássica (séculos XVII e XVIII). e conseqüentemente. "Saber perspectivo"... eis como Foucault (na descrição da genealogia nietzschiana) caracteriza a história: os historiadores que perseguem a neutra objetividade de uma consciência isenta e soberana "procuram. 52. "Le philosophe et la sociologie". de dizer sim ou não". 5. 51. in Microfoica do poder.

15. Ibid. 57-95). naquela classificação. 11. 38 I Foucau!t. parece vincular a seqüência das classes nela reunidas. Ordem e lugar. "ausente" de espaço. Borges. porém. Esta classificação reúne de modo incongruente categorias sem nexo que.2. o mesmo e o outro I 39 . Nas pretensões reduzidas desta exposição 5. Para uma reconstituição mais completa do livro. É à experiência clássica .. não é justamente o lugar privilegiado do espaço?JJ5 Eis o "outro" em seu sentido mais amplo: limite de pensamento e de linguagem para uma cultura. Ciência e saber: a trajetória da arqueologia de Michel Foucault. há uma ordem que. M. 2. porém (para reduzir-lhe a alteridade)"6. leia-se MACHADO. Mas. 9. pensar. 6. "Arqueologia da percepção". a possibilidade e a impossibilidade de "nomear.páginas do Prefácio de As palavras e as coisas.cuja vertente institucional é o Asilo . 3. dizê-las. de dentro dos quadros de uma cultura. encerrando-o. 10. alguns aspectos dessa história7 • No conjunto do livro. Ibid. Assim. k) desenhados com um pincel fino de pêlo de camelo. aquilo que a circunda por fora e lhe escapa. por assim dizer. para nós. simultaneamente interna e estrangeira. se dedicam as mais de 600 páginas do livro em suas três partes (as duas primeiras ocupando-se da Idade Clássica e a terceira da nossa Modernidade).. dizível portanto -. g) cães em liberdade.. a nós.. portanto. espaço. a limita por dentro. é esta ordem que ali parece não "caber". Segundo esta classificação. É nesse sentido que a História da loucura é uma história do "outro": história daquilo que pertence à nossa cultura . I) et cetera. a partir daí.e à experiência moderna . Rio de Janeiro. i) que se agitam como loucos. Ibid. Graal. P. espaço que torna possível nomeá-las. a saber. 4. "A gramática do homicídio".. substancial e minuciosamente. 1971. pensar" podem ser analisadas em torno de três termos: ordem) lugar. a série alfabética. h) incluídos na presente classificação. citada por Jorge L.. Rio. nomeável. porém. e) sereias. supostamente extraída de uma enciclopédia chinesa. Afinal. 7. Também ROUANET. simplesmente não é. ainda que meramente alfabética: "O absurdo arruína o e (ordem) da enumeração. Estranheza. Ora. in O homem e o discurso (A arqueologia de Michel Foucault). em resumo. marcando de impossibilidade o em (lugar) onde se repartem as coisas enumeradas"3. FOUCAULT. repousa sobre outro espaço: "A China . Nossa exposição pretende tão-somente retraçar. dependem de um espaço homogêneo e comum dentro do qual somente ou sobre o qual as coisas possam ser localizáveis e ordenáveis.. para nós. é a justaposição desse e (ordem). história "daquilo que para uma cultura é ao mesmo tempo interior e estranho. parecem impossíveis de "nomear. "Préface". mas constantemente ameaçado de submissão aos critérios do "mesmo". 8. pensá-las..pensável. S. a ser. Ibid. "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador. de Janeiro.. antes.que. j) inumeráveis. Com efeito. justamente. 7. a estranheza dessa classificação 4 . A estranheza da ordem está em sua articulação com a ausência de lugar capaz de permitir a reunião das classes e sua ordenação. precisamente porque ameaçador. m) que acabam de quebrar a bilha. Mas. c) domesticados.. Trara-se da reromada de uma classificação dos animais. b) embalsamados. R. pode-se também entender o "outro" em seu sentido estrito: aquilo que.cuja vertente institucional é o Hospital Geral . Gallimard. simultaneamente.. a descrição da experiência da loucura durante o período renascentista ocupa não mais que as 55 páginas do capítulo inicial. 1966. falar. n) que de longe parecem moscasJ1 1. Tempo Brasileiro.es mots et les choses.. 1982 (cf. d) leitões. aquela classificação de animais 1. diferença que lhe é inclusa. falar. f) fabulosos. I. Paris. Ibid. estranho e exterior. desse em (lugar) e desse sobre (espaço) que instaura. excluído (para conjurar-lhe o perigo interior).

a Nau das damas virtuosas. gesto que excluía e. "tipos sociais" cuja viagem simbolizava seu "destino" ou sua "verdade"I3. 18. 2 a ed. Assim. cerca de dois séculos mais tarde (por volta da segunda metade do século XVII e no século XVIII). a ser "suprimida" e "curada". 16. 14. ••• Leprosários e navios Ao término da Idade Média. Gallimard. A lepra regride. Assim.e para outros personagens. a Nau dos loucos guardava uma singular peculiaridade: a de existir realmente. os "valores" e as "imagens"lO. Historie de la falie à l'âge classique.. Por isso mesmo. 11. Ib. rito que segregava e. não como resultado de práticas médicas. sacralizava. Por motivos análogos.. Com efeito. títulos de obras literárias incluíam. começa o esvaziamento daquelas casas de "exclusão" e "purificação"s que se haviam multiplicado às portas das cidades medievais: os leprosários. no decurso de uma longa sucessão histórica.pincelar algumas faces ou facetas da história desse "outro" que é a loucura no Ocidente -. a Nau dos principes e das batalhas de nobreza. nos limiares do Renascimento (por volta dos fins do século XIV). uma espécie de papel de herdeira da lepra!'. Entre eles.d. portanto. para outras instituições . 13. numa sucessão histórica longa. do contágio) e do final das Cruzadas (e. Requeria. ou seja. A lepra regride. o gesto ritual da cisão. entregues a mercadores. o louco. 9. no chamado período renascentista (por volta dos séculos XV a XVII). porém.d.9.d. reclusão e salvação serão transpostas. circulará sem posição fixa. a loucura. no intermédio entre o final da Idade Média e o início da Idade Clássica. 40 I Foucault. escolhemos tratar os três períodos em proporções diversas às do livro. ou melhor. Paris. expulsos das cidades. Ia.. exclusão e purificação. por exemplo. os loucos vagavam. Porém. Contudo. Ib.d. em meio a essa onda literária e pictórica. FOUCAULT. simultaneamente.. 1972. Era freqüente nas composições literárias e pictóricas do Renascimento a imagem de navios que transportavam "heróis imaginários". Água e navegação cumprem. "modelos éticos".. ela ocupará outra posição.. a figura da nau carrega o simbolismo da água que purifica e da navegação que é passagem. estão vinculados à instituição do leprosário e ao personagem do leproso vão persistir. como também a Nau dos loucos. Para Foucault. uma espécie de testemunho do mal ao mesmo tempo que de sua expiação. segregação e sacralidade. 16. 16. a lepra não era experimentada como "assunto médico".. numa existência "errante"14.muitas vezes nos mesmos lugares que antes abrigavam os leprosos .. a abordagem da Idade Clássica e da Modernidade será apenas pautada em algumas passagens em que o próprio Foucault fornece descrições mais amplas desses dois momentos. Ib. Ib. antes por força da segregação dos leprosos (e. assim. Ib. 15. Mas. Simplesmente rante a Idade Média. Ib. M. as "estruturas" e as "formas"ll que. antes. 19. do contato com focos de infecção do Oriente). portanto. de certo modo. assumirá.. e evitando o risco de um resumo por demais empobrecedor. Era. peregrinos ou marinheiros. isto é. Ib.d. os leprosários se esvaziam.. purificava: "O pecador que abandona o leproso à sua porta abre-lhe a salvação. 19.15. o papel de manter o louco como "prisioneiro em meio à mais livre e mais aberta das rotas: solidame~te preso 12. séculos mais tarde. De fato.d. na chamada Idade Clássica. 13. Antes disso. a recomposição dessas "facetas" será organizada em dois tópicos ou subi tens. esse "gesto que expulsa" está próximo do "rito.d. simultaneamente. 15. pois.. du8. o mesmo e o outro I 41 .

mas hospital"21. e Montaigne sugere que loucura é fiar-se apenas na razão ls . no verbo. o prisioneiro da Passagem.gramáticos. a loucura aparece como motivo de sátira ou de escárnio.16. Van Gogh. a predominância do saber crítico sobre o trágico.39. um lado crítico. que mostram a bestia- humanas. no verbo. num deslocamento que vai da Nau ao Hospital. Gradativamente. reserva. Historie de la folie . Retida e mantida. com Descartes. 53. certamente se entrecruzam: há temas morais nos quadros de]. a "ironia da crítica". Sem dúvida. Dürer. impregnadas de um saber hermético que anuncia a ameaça da desordem e do fim do mundo e ao qual só os loucos têm acesso. um largo lugar para homens de saber" . prioritária no texto. Não mais nau. a presença subterrânea do trágico será pressentida e testemunhada como que em erupções esporádicas (Nietzsche. abrindo o limiar da Idade Clássica e. poetas. fascinante e cósmico. 20. no texto. deixando na sombra o silêncio verbal e fascinante das imagens trágicas carregadas de forças cósmicas. 34.l? As duas vertentes da experiência renascentista da loucura. Goya. ocupa cada vez mais o primeiro plano na experiência da loucura. Ibid. lia". como que "às escondidas" e "em vigí- lidade presente no coração do homem. Sade são alguns exemplos desses pressentimentos e testemunhos). jurisconsultos. "na ronda de loucos. Mas.. O mastro da Nau dos Loucos de]. Bosch. no curso da história. Montaigne. na palavra. Bosch é a figura da árvore: árvore proibida da sabedoria à qual só os loucos têm acesso. Artaud. Não mais. simbolizadas pictórica e literariamente. Entre as expressões pictóricas incluem-se obras de]. Nos séculos seguintes e até hoje. Bosch. .. M.. Ao mesmo tempo. na palavra: ali. Erasmo. a avareza dos ricos. Ibid. essa ocultação jamais abolirá inteiramente a experiência do trágico: "esse desaparecimento não é uma derrocada"l9. por exemplo. humano-animalescas. internalizada. os dois pólos se distanciam e o elemento crítico ganha relevo sobre o trágico.). Ibid. que transparece sobretudo nas composições literárias e filosóficas. Não mais vagará: "Ei-la amarrada. de Erasmo. teólogos etc. FOUCAULT. mas. a crítica à presunção da razão. entre as expressões lingüísticas.. como que "nas noites dos pensamentos e dos sonhos". do Hospital ao Asilo..' '. Enquanto em Montaigne a loucura é incorporada ao caminho que conduz à verdade. mas a loucura é excluída. simplesmente Hospitais e asilos No começo do século XVII a loucura adentrou os muros da cidade. 54-55. Ibid. com Montaigne. mas é também árvore "moral" do bem e do mal. Brueghel. isto é. a presunção dos sábios (O Elogio da loucura. o trágico da loucura subsistirá na obscuridade. obras de Brant. 21. assinala o fim da experiência renascentista. uma experiência que envolvia duas vertentes simultâneas: um lado trágico. marcando o domínio da razão sobre a loucura. A ironia crítica. t:. voltada para a racionalidade e a moralidade 16. o banimento da loucura do caminho que conduz à certeza22 • A 19. no meio das coisas e das pessoas. irônico e moral. não mais como detentora dos segredos ocultos do cosmos. 18. a partir dela. mas como mal e fraqueza humanos. 22. os caminhos que conduzirão à experiência moderna da loucura.' . A ambigüidade dessa simbologia corresponde à ambigüidade da experiência renascentista da loucura. observa Foucault. malgrado o predomínio cada vez maior do racional. O "fascínio do trágico" transparece sobretudo nas imagens pictóricas: são figuras fantásticas. de tal modo que. 17. de onde nascem a ambição dos políticos. solidamente. Ele é o Passageiro por excelência. 22.. o mesmo e o outro . escritores. 42 1 Foucault..""" L __ ":iJt" I 43 '. filósofos.. em Descartes são incorporados os erros dos sentidos e a ilusão dos sonhos. torna-se "familiar" em um mundo que lhe é "estranhamente hospitaleiro"20. porém.à infinita encruzilhada.

os traços que marcavam os diferentes grupos com que até então se avizinhava. sociais. É porque já "distanciada". II 7. Numa palavra. o mesmo e o outro I 4S . pretensas feiticeiras e. devassos. a Salpêtriere.. filhos ingratos. que segregara. Ibid. os "novos proscritos da Idade Clássica carregam os estigmas mais secretos da desrazão"25. transportando consigo. Os "novos personagens" que ocupam esses estabelecimentoS são apresentados em diversas passagens e em listagens mais ou menos longas. na Inglaterra. insensatos. "asilada". Como em Paris. blasfemadores. tornados "presença concreta" no horizonte de uma «realidade social" que demarca explicitamente a cisura entre a razão e a desrazã0 26 • É lá.. 1I9. E. O leprosário não tinha um sentido apenas médico. mais pressentida que percebida. Ibid. Sua condição de possibilidade encontra-se lá. para os tempos da Modernidade. "individualizada". 117. espíritos transtornados . nesse espaço aberto pelo classicismo. v~gabundos. "isolada" e... homossexuais. que a loucura será mais tarde "destacada". em toda a França. por decreto real sob Luís XIV. por exemplo. assim como os leprosários. na Alemanha. naquele gesto que produzira a alienação. Diferentemente dos viajantes das naus renascentistas. 25.desordem irracional do trágico submete-se à ordem do racional. que antes abrigava um arsenal. entre outros. 23. mágicos. jovens que perturbam o repouso da família ou dilapidam seus bens. antes destinada a recolher inválidos de guerra). se transmutará em doença mental. simplEsmente suicidas. correcionários. já segregada. 26. o classicismo formava uma experiência mo24. também. enfermos. os Hospitais Gerais. que data de 1656. que a loucura poderá. muitas outras funções eram desempenhadas neste gesto de banimento que abria espaços malditos. que colocara a distância. agrupava em uma única administração estabelecimentos já existentes com fins diversificados (como. desrazão que. localizados. são fundadas instituições para o internamento. não tinham propósito terapêutico: "O classicismo inventou o internamento um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos. O gesto que interna não é mais simples: ele também tem significações políticas.. podem ser assim identificados: pobres. No século XVII são fundados os Hospitais Gerais que constituem a estrutura visível e a forma institucional da cisão entre razão e desrazão. pais dissipadores. ao lado da loucura. Ibid. enfim.. econômicas. os hóspedes do Hospital Geral são instalados. religiosas. ou a Bicêtre. isto é. 64. Ibid. as proibições sexuais. prostitutas. é lá. numa esfera que será não mais da desrazão. O Hospital Geral de Paris. que vagando por toda parte eram uma presença igualmente "vaga". o lugar deixado vazio por estes foi ocupado por personagens novos no mundo europeu: são os 'internados'. cabeças alienadas. "homens de des- razão"24. as interdições religiosas. 44 I Foucault. ser "separada" como objeto possível de conhecimento. as liberdades do pensamento e do coração. de dentro dele. que "alienara" a desrazão. A designação posterior e moderna da loucura como alienação e depois como doença mental não será o resultado direto de uma espécie de progresso do conhecimento. ainda que incluíssem visitas médicas em seu sistema de funcionamento. mas da alienação e da doença mental: "anexando ao domínio da desrazão. libertinos. porém. muitas delas estabelecidas nos antigos leprosários. a loucura é transformada em desrazão.>23. alquimistas. Demarcada por oposição à razão. que eram "portadores do visível brasão do mal". morais. pródigos. Com base nessas várias referências. portadores de doenças venéreas. cuja expressão institucional foi o internamento. Diferentemente dos leprosos da Idade Média. na Modernidade. séculos mais tarde. desem- pregados.

Com efeito. por exemplo). 146. Ibid.. com "as vizinhanças da culpabilidade.. havia também hospitais comuns (Hôtel-Dieu em Paris. Em outras palavras: o "alienado" será reconhecido simultaneamente como "incapaz e como louco"34. lbid. polícia) e o louco tinha o estatuto de "sujeito social") perturbador da ordem. liberada das "velhas participações religiosas e éticas em que a Idade Média a tomava. ainda que vagamente. perfaz ele uma aparência de neutralidade que já é comprometida.. Uma leitura histórica simplista e linear poderia talvez prevalecer-se do fato de que durante esses 150 anos . "Ê entre os muros do internamento que Pinel e a psiquiatria do século XIX". Ora.33. calcada na repartição entre razão e desrazão e misturando indiscriminadamente os insensatos aos demais grupos "associais" . durante a Idade Clássica.30) eximido... mas como prática social.. por essa dessacralização. uma leitura histórica simplista veria na hospitalização comum os indícios de uma espécie de progresso rumo à Modernidade. 146.. embora em número extremamente menor. 33. e não o inverso.não o esqueçamos . de respon27. 119. portanto. da Idade Clássica foi justamente a transposição dos loucos das casas de cura para as casas de correção. "encontrarão os loucos..que os deixarão. 29. 28. porque só alcançada no propósito inicial de uma condenação"27. É que. 119. não se pode pretender simplesmente que a loucura será um dia tornada "objeto" de conhecimento por ter sido. Nos hospitais comuns. antes "justapostas". Essa leitura simples seria plausível se Os fatos fossem simples.. se internavam loucos com perspectivas de tratamento e de cura. sua essência imutável. escreve Foucault. inclusive do ponto de vista cronológico.31. de solo para o nosso conhecimento 'científico' da doença mental.. em que as perspectivas eram antes de correção) castigo e repressão. I Foucault. serão depois "superpostas. 144. 31. ela inverte-lhes a ordem e a prioridade. é lá . 30.ral da desrazão que serve. mas em seu exílio e em seu silêncio: "Não é importante para a nossa cultura que a desrazão só tenha podido tomar-se objeto de conhecimento na medida em que previamente foi objeto de ex-comunicação?"29. A hospitalização individualizada do louco nos hospitais comuns.a experiência clássica da loucura não foi uniforme. comprometido. além dos Hospitais Gerais. onde. então. as decisões competiam às autoridades sociais (magistrados. Ibid. não foi avanço rumo à Modernidade.entre a Idade Média e o Renascimento até a nossa Modernidade. 34. O fato "novo". Nas casas de internamento. Ibid. sobre o solo da experiência classicista da loucura. ela passou pelo internamento do período classicista.. 59. sua verdade de sempre. diferentemente das casas de internamento.. Antes de se tornar ~'objeto" de conhecimento e ser configurada como patologia. não sem antes se vangloriarem de os ter libertado"32. 46 Ibid. Por esse distanciamento. então. na verdade. no caminho desse percurso histórico é possível compreender como a transformação que se operará a partir do final do século XVIII e do início do século XIX. e o internamento não consistiu numa forma possível de "conhecimento" da loucura. 32. de modo que a experiência mais ampla e relevante da loucura foi seu internamento não Como procedimento médico. Ibid. bispos. simplesmente sabilidades sociais. 147.2B. Assim. 121. Ibid. que. pois. se reconheceria na loucura a doença. o mesmo e o outro I 47 . Ibid. consistirá numa espécie de junção entre suas duas vertentes. quando. mas o resíduo ainda de uma percepção medieval e renascentista em que a individualidade do louco era de algum modo reconhecida. Bethlém em Londres. as decisões procediam de julgamentos médicos e o louco tinha um estatuto de "sujeito juridicamente incapaZ. no fundo.

ERIBON. Publicada em Cadernos PUC. em seu todo.37. M. a emergência de determinados saberes de modo a finalmente poder descrever. D. E sua história a mostra como tantas faces que figuram o "outro" no interior do "mesmo". Retomamos aqui um comentário do livro de ERIBON. na Universidade Federal de Uberlândia. Cf. São Paulo. talvez. 13. Paris. tentaremos num segundo momento realçar alguns aspectos dos papéis desempenhados pelas ciências humanas em geral e pela ciência da educação em particular. Em palavras simples: '''a loucura não é um fato da natureza' mas um fato da civilização"36. EDUCAÇÃO E SABER SOBERANO' • •• A partir da reconstituição resumida de alguns aspectos dessa história. Esta suposição está sugerida. que. E é essa junção do conceito de doença IV como assunto médico à prática social do internamento.. podemos compreender que a loucura não seja um "objeto" uniforme. cit. caracterizará então a instauração da instituição asilar. a transformação do "internamento em ato terapêutico"35. educação e saber soberano I lI9 . 1966. 36. 119. n. Para concluir. "A outra forma da loucura. ou. 1982. e na frase de Pascal que escolhera para iniciá-lo: "Os homens são tão necessariamente loucos que seria uma outra forma de loucura não ser louco". EducjCorcez. Do interior desse cenário e a partir de uma interpretação relativamente livre das análises foucaultianas. lembramos que As palavras e as coisas. Feist. Numa visão extremamente sucinta (mas útil a nosso intento). FOUCAULT.. em maio de 1981. 1. Companhia das Letras. São Paulo. trad. cujas verdades são historicamente produzidas e variadas. Michel Pou· cault: uma biografia. no primeiro título que Foucault pretendia dar a seu livro. consubstanciado numa verdade essencial cuja identidade é sempre a mesma. 37. 102-103.. finalmente.. D. percorre uma trajetória histórica que começa no fim do Renascimen- to (por volta do século XVI). em cada qual desses segmentos históricos. simolesmente * Comunicação apresentada por ocasião da "Semana de Educação". op. lI8 I Foucault. 35.. Como cenário de nossas considerações escolhemos algumas passagens de As palavras e as coisas 1 cuja retomada constituirá o primeiro momento da exposição. o surgimento das chamadas ciências humanas. 149. e que aborda. Ibid. mas antes um fato multifacetado. Les Mots et les choses. ousemos supor que esse "outro" de múltiplos rostos que atravessa a história de nossa cultura possivelmente atravessa também a história pessoal de cada um de nós. Gallimard.denominar-se-á "doença mental" essa união entre o fato de uma incapacidade jurídica do indivíduo e o fato de um distúrbio que afeta a vida social. reciprocamente. detém-se na Idade Clássica (séculos XVII e XVIII) e desemboca em nossa Modernidade. H. 1990.. nos séculos XIX e XX.

Refaçamo-la em alguns de seus ângulos. sem dúvida. ) bastaria dizer que Velázquez compôs um quadro. Situado entre o fim da segunda metade do século XVI e o início da segunda metade do século XVII (1599-1660). o pintor olha para um ponto fixo e invisível: nesse ponto está o modelo que ele pinta sobre uma tela da qual o espectador só vê o reverso. retomaremos alguns aspectos do primeiro capítulo e. não sabemos. permite o assinalamento do fim do Renascimento e do início da Idade Clássica. SO I Foucault. Porém. outra descrição é possível. nós. E é esta que nos interessa. o pintor. Ora. enquanto "objeto" virtual do olhar do pintor. Trava-se assim um jogo ambíguo entre o visível e o invisível: com efeito. para o qual o pintor dirige o olhar.. que se trata. Por outro lado. a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar.. de modo que somente na medida em que é ((sujeitoque-olha" pode ser "objeto-olhado". no primeiro plano Nicolaso Pertusato. simplesmente educação e saber soberano I Sl . nesse ponto igualmente. de cortesãos e de anões. Ibid.Com curiosa astúcia. para ser olhado pelo pintor. Assim é que. ouçamos uma descrição me- ramente empírica do quadro em questão: "( . em seu atélier ou num salão do Escorial. esse espectador-modelo precisa colocar-se em face do quadro na posição de quem olha. o primeiro capítulo traz a nossoS olhos um quadro de Velázquez. Para desenhar nosso cenário. o quadro escolhido (Las Meninas) aponta elementos que serão retomados no final do livro (capítulo IX).. O reverso da tela que está sendo pintada garante essa ambigüidade. do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana"2. rodeada de aias. Bastaria acrescentar que as duas personagens que servem de modelos ao pintor não são visíveis. 1O pintor e o espectador - De dentro do quadro. cuja obra foi escolhida. bufa0 italiano. de damas de companhia. o espectador é o modelo de carne e osso mas sempre invisível e extremamente variável. De início. mas que se pode distingui-las num espelho. que nesse quadro ele se representou a si mesmo. permitindo uma espécie de ilustração comparativa a propósito da Modernidade. se deslocamos nosso olhar dessa visão imediatamente empírica e nos situamos numa região em que os nomes não são diretamente colados às coisas percebidas. faremos um grande salto até o capítulo IX. está presumidamente o próprio espectador. 25. ao menos diretamente. ali Nieto. a partir dele. espectadores. Porque só o reverso é representado. que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradição reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente. se olhamos ou 2.

do quadro enquanto visto do exterior) e fora dele (isto é. Não se sabe se ela <{entra" ou "sai". "Mas não é um quadro: é um espelho. como se não fosse parte da representação. o olhar do pintor. é também o lugar do visitante que assiste à cena e é o espectador projetado para dentro da representação. Do interior e no fundo dessa representação são representados outros quadros (que são outras tantas representações). S2 I Foucault. do quadro enquanto visto internamente). mas assistisse a ela. mas "por reflexo". cores). e mostra assim o contorno externo do quadro que é. Mas esses dois pontos parecem estar ambos direcionados para um ponto convergente: trata-se do espaço claro à frente do quadro. pois. representação de uma representação. Espaço ocupado e vazio ao mesmo tempo. Mas o espelho reflete precisamente o modelo que está sendo pintado. o visitante olha as personagens dos primeiros planos: o pintor. e mostra assim o espaço interno do quadro que é representação de modelos. só há lugar para o sujeito no plano de representação. formas. É o espaço olhado pelo pintor e as personagens. "representado" do ponto de vista do exterior do quadro. 21. afinal. a demarcar o limite impreciso entre o seu interior e o seu exterior. é o "olhar soberano"'. No interior do quadro é o lugar do modelo. ao mesmo tempo sujeito e objeto do olhar ausente e presente. uma representação. revela o jogo ambíguo entre o real e o representado: é um es- 2 O espelho - tudo. E percebe-se então que. além do jogo entre o visível e o invisível. ele próprio. 3 O visitante inusitado - No fundo do quadro. Parece estar ao mesmo tempo dentro do quadro (isto é. afinal. um é especialmente mais claro. mas.4 E. e ainda. assim como a frente da tela tepresentada é invisível para o espectador e só visível para o pintor. é ele o centro principal do quadro. mas "por reflexo") o modelo real. Nesse espaço. mas donde. 21. Nesse jogo. do rei.se somos olhados. o espelho faz ver (por "reflexo") os modelos externos olhados de dentro do quadro pelo olhar do pintor que os representa. supostamente. uma porta deixa entrever uma estranha figura. con- 4 As personagens e os centros do quadro .. e. enquanto espectadores que olham do exterior o pintor que é. quadro que representa um quadro. porém. ele próprio. um homem e uma mulher. ainda à direita e mais à frente. como que prolongável para fora do quadro. e duplamente soberano: porque comanda a composição de todo o quadro e porque supostamente ocupado por "soberanos" (o rei e a rainha). Se o espelho reflete o jogo ambíguo entre o interior e o exterior. que poderá ser enunciado o cogito cartesiano e onde podeeducação E' saber soberano I S3 . o único que pode ir do modelo à frente da tela.Do plano de fundo. outra ambigüidade se estabelece. o pintor real e o espectador real. à esquerda.. os modelos olham o pintor e as personagens. O quadro como um todo é. Ibid. Simplesmente pectador "real" do ponto de vista do interior do quadro e. Um centro soberano. dois anões. e o olhar firme da princesa realçado em primeiro plano. é nesse espaço. O espaço vazio faz do quadro como um todo o que o espelho faz no interior do quadro: assim como no espelho o rei ausente está presente. agora o espelho é clara visibilidade para o espectador mas sempre invisível para o pin- tor 0á que este lhe dá as costas). representado (feito de linhas. à direita. isto é. que na verdade se olha como seu próprio modelo para se representar.. em seu todo. 4. assim também O quadro como um todo torna presentes. evidentemente. o lugar do pintor real. Entre eles. porém do interior dela. mas fá-los ver (também "por reflexo").. esse espaço é também o lugar do espectador que olha e é olhado. no meio. a princesa entre duas damas de companhia. Dois pontos centrais parecem comandar a composição do quadro: o espelho a refletir os modelos. esta agora entre o interior e o exterior do quadro: com efeito. Ibid. o visitante 3.

a economia. e org. a personagem representada no quadro de Velázquez entra empiricamente em cena. interessa5. E eis que já saltamos para o capítulo IX. 2 a ed. isto é. mas de onde. aquele que tem o poder de decidir sobre o verdadeiro e o falso.. no entanto. Abre-se um novo espaço epistemológico no qual podem emergir a biologia. da exclusão 7 • Ele dissocia os que "possuem" a verdade porque "sabem" e os demais que.. de realidade e de realeza) que caracterizará o surgimento das ciências humanas em nossa Modernidade. a filologia. Simplesmente nos agora apenas explorar alguns aspectos inerentes àquela posição ambígua hoje ocupada pelo homem como "objeto para um saber" e como "sujeito que conhece". nO 11 ("Educação ou Desconversa?"). ocupa. mediante o acaso de um espelho e como que abusivamente. Graal. São Paulo. aliás. assume então o direito da soberania cujo poder se exerce pelos mecanismos da disciplina. fala e trabalha"S. o certo e o errado. se petrificassem numa figura plena e exigissem que fosse enfim referido a um olhar de carne todo o espaço da representação. entre outros. duas distinções exploradas com extrema clareza por Marilena Chaut podem 7. de M. Ver. a esse respeito. todas as figuras de que se suspeitava a alternância. o lugar antes vazio de uma presença ausente. a sua presença real foi excluída. Neste momento de nossas considerações. O que é ideologia. a exclusão recíproca. as ciências humanas carregam em seu próprio bojo o risco inalienável da redução do homem ao que dele se pode "cientificamente conhecer". Brasiliense. 8. "Ventos do progresso: A Universidade administrada". Ora.jan. particularmente o artigo "Soberania e disciplina". Brasiliense. mas que ele. São Paulo. Ver. lbid. durante tanto tempo. 54 I Foucault. nO 5. O homem. da autora: "Ideologia e educação". Educação e Sociedade. O conhecimento "científico" sobre o homem torna-se não só o único saber qualificado e competente. introd. Foucault. corre também o risco inalienável de se fazer sempre prescritivo. "em carne e osso". E onde emergem também as filosofias do homem e as ciências humanas. cujo segundo item tem precisamente como título "O lugar do rei". Ano 11. 1980. por outro lado e ao mesmo tempo. 1981. lbid. 6. "A não-violência do brasileiro. Como se nesse espaço vago para o qual está virado inteiramente o quadro de Velázquez."6 Não é nosso intento refazer a análise dessa mutação. 1980. mas tão-somente a marca de uma diferença. E o primeiro aspecto a apontar é que a instauração das ciências humanas requer. nesse lugar do Rei que lhe atribuíam antecipadamente Las Meninas. Rio de Janeiro. São Paulo. por outro lado. Partindo do pressuposto de que uma mutação histórica do saber não é sinônimo de avanço ou de progresso. o normal e o patológico. "nada sabem". só refletia. do controle. o rei. Como único saber qualificado. simplesmente. Mas. o entrelaçamento e a ofuscação (o modelo. Brasiliense. Cortez Editora/Autores Associados/Cedes. 1980. educação e saber soberano I 55 . será também a ocupação desse espaço pelo sujeito concreto enquanto empírico e existente real (no duplo sentido. 1979. Cadernos de Literatura e Ensaio. que se atribua ao homem real o estatuto de "coisa científica" a ser dominada pelo homem como sujeito detentor do conhecimento. como "indivíduo que vive. 323. acontece também que. de Roberto Machado. isto é. ele surge aí. No século XIX. in Microfisica do poder. Almanaque.rão desdobrar-se os saberes emergentes na Idade Clássica. intrinsecamente. uma vez que a racionalidade do saber científico é erigida como critério exclusivo da validade de todo saber e medida do verdadeiro. aquele que veicula as normas pelas quais são desqualificáveis quaisquer outros saberes e reduzidos ao silêncio outros discursos. espectador olhado. sobretudo.. um mito interessantíssimo". o pintor. o homem aparece com sua posição ambígua de objeto para um saber e de sujeito que conhece: soberano submetido. 321. "No movimento profundo de tal mutação arqueológica. nem examinar sua "legitimidade científica" ou avaliar o peso de sua significação histórica. in Descaminhos da Educação Pós-68. o espectador) cessassem de súbito sua imperceptível dança.

sobre a revolução. admitida que é no campo das ciências humanas como "ciência da educação". em seu lugar surge um discurso sobre a loucura. desocupado de qualquer sujeito soberano (quer na forma da representação. enquanto saber soberano . é o esforço por reverter semelhante configuração pelo esvaziamento da "posse" desse espaço. Ora. surgiu um discurso sobre a unidade. regulamenta e conttola o trabalho pedagógico"lO. trazem não só a carga do conhecimento capaz de estagnar o pensamento como as marcas de um saber sobre o homem que silencia o seu próprio "objeto". a assimilar o saber "qualificado". e numa interpretação livre da análise foucaultiana do quadro de Velázquez. onde não pode haver um discurso da revolução surge um outro.. estamos apenas endossando a proposta de que. Simplesmente rias da educação. quando o discurso da unidade social se tornou realmente impossível em virtude da divisão social.nQs ser úteis. Ora. na medida em que as ciências humanas se movem na zona do conhecimento qualificado e instituído. M. instituído e qualificado.cie o discurso pedagógico não sejam nem os professores nem os estudantes. na instituição escolar e nas relações pedagógicas. tendem a excluir o espaço do pensamento. legisla. trazemos para dentro das próprias relações pedagógicas os mesmos mecanismos e os mesmos efeitos de exercício do poder. As estruturas mesmas das instituições escolares são já um cumprimento dessas normas. nela se exercendo de fora para dentro e de cima para baixo. cujo saber é construído a partir de um não-saber que requer sua compreensão. Transportemos finalmente estas considerações para a região da pedagogia. regulamenta e controla não está exclusivamente centralizado num saber elaborado no exterior da instituição escolar. "Por exemplo. destituído de todo direito da realeza. reprodução de um saber instituído sobre a educação. 26. in Educação e Sociedade. que. na medida mesma em que professores e alunos nos limitamos a cumprir as normas. A saber: a de que no trabalho lO. A primeira é a distinção entre conhecimento e pensamento. É bem possível que acabemos por verificar que ela se faça como conhecimento) isto é. Pensamento é afrontamento de uma realidade nova.. 27. impedindo que isso mesmo que está em questão primeiramente fale de si e por si para vir a ser compreendido. normativo e poderoso -. no saber da educação. "Ideologia e educação". Conhecimento é aquisição intelectual do saber já constituído. por intermédio dos ministérios e das secreta9. quer no modo da realidade). em contrapartida. Diríamos. Ao contrário. a proposta muitas vezes formulada por Marilena Chaui. O "discurso sobre" um objeto dissimula e busca substituir o discurso daquilo mesmo que está em questão. nO 5. isto é. É possível que quem primeiramente pronui. mas "a burocracia estatal."9. fique vazio o "lugar do rei". E que o que se propõe. É quando as relações entre professor e estudante reproduzem a relação do sujeito que "possui" o saber com um "objeto" de educação. num cenário visual. educaçáo e saber soberano I 57 . Ibid. que é nesse tipo de configuração do saber pedagógico e das relações pedagógicas que o "lugar do rei". Mas é preciso não se iludir: o poder que legisla. ali onde não pode haver discurso da mulher surge um discurso sobre a mulher etc. esse "soberano submetido". Por uma transposição mais metafórica que ilustrativa. CHAU1. Entenda-se: não estamos aqui a aspirar a um absurdo regresso ao século XVII nem a um retorno à soberania da representação. Transposição metafórica e interpretação livre que pretende apenas emoldurar. quando o discurso da loucura tem que ser silenciado. A outra distinção (retomada de Claude Lefort) marca a diferença entre "discurso sobre" e "discurso de". estabelecido.. as ciências humanas. 56 I Foucault.e com isso entendamos qualificado. está plenamente ocupado. É quando a escola não pode ser um lugar onde se pensa para ser o lugar onde se reproduz o conhecimento instituído. finalmente.

na Universidade de São Paulo. esta é uma questão que. Ora. o lugar das instituiçóes na sociedade disciplinar ! 59 . Na medida em que exercesse esse papel. R. 1985. Surveiller et punir. às casernas. Brasiliense. 229. palestra proferida por ocasião do Colóquio Foucault. preliminarmente. Almanaque. lugar que "então permaneceria sempre vazio. Simplesmente * Este textO reproduz.pedagógico não seja o conhecimento a ponte entre o professor e o estudante. situar o aparecimento desse tema no contexto mais amplo daquele pensamento. convém.). 58 I Foucault. em abril de 1985. v O LUGAR DAS INSTITUiÇÕES NA SOCIEDADE DISCIPLINAR' Que há de espantoso no fato de que a pn'são se assemelhe às usinas. um miro interessantíssimo". M. FOUCAULT. CHAUl. nO 11. 11. Buscando reconstituir aspectos do pensamento de Foucault no tratamento das assim chamadas "instituições disciplinares". mas antes seja o professor o mediador entre o estudante e o pensamento. com pequenas alterações. e de que todos se assemelhem às prisões? M. aos hospitais. particularmente em relação aos primeiros livros de Foucault. o professor desocuparia o lugar soberano de detentor do saber. São Paulo.. à questão das imbricações entre os planos discursivo e extradiscursivo. J. Publicado em Recordar Foucault (RIBEIRO. certamente. foi (ou é) objeto de polêmica e tema de interesse. às escolas..24. "A não-violência do brasileiro. a fim de que pudesse ser visto como acessível a todos porque não pertence a ninguém"ll. A inclusão de análises e descrições de práticas institucionais no interior de um pensamento voltado para a formação e a transformação de configurações discursivas que compõem saberes historicamente constituídos é um assunto que pertence. org.

. explicitamente. este texto foi republicado no Rio de Janeiro. para aproximar-se de um eixo mais complexo que o autor chama de "dispositivo". Rio de Janeiro. Desde então. FOUCAULT. "Sobre a história da sexualidade". decisões regulamentares. quando Foucault busca. Em suma. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre esses elementos". um modo de poder em que a sujeição não se faz apenas na forma negativa da repressão. em relação ao dispositivo. como elementos de um "dispositivo" articulador das relações entre produção de saberes e modos de exercício de poder. O que aqui nos ocupará é a análise de instituições entendidas. a sociedade disciplinar deu lugar ao nascimento de determinados saberes (os das chamadas ciências humanas). E segue mostrando que. precisamente. Caracterizando-se. M. Retomaremos a descrição de um 1. esta questão sofre um deslocamento considerá- vel a partir. ao modo mais sutil do adestrament9. da pro3. genericamente. de Roberto Machado. coloca esta questão em um plano de menor importância. que é ainda a nossa. igualmente. O ((dispositivo". A sociedade disciplinar tem seu surgimento por volta dos fins do século XVIII. a análise se descentraliza do eixo "discursivo/não-discursivo". pelo "exame" instaura-se. Tomaremos esse text03 como referência para resumir. Morais. num dado momento histórico. De sorte que poderá afirmar: "Mas. Simplesmente tipo determinado de instituições: aquelas que. enunciados científicos. ou antes. brevemente. organizações arquitetônicas. pela Nau Edirora.. in Microfísica do poder. em 1999. de vigiar e registrar continuamente o indivíduo e sua conduta. que engloba discursos. reúne o discursivo e o extradiscursivo. pois. Ao longo desse estudo. e org. mas. Não. o dito e o não-dito são os elementos do dispositivo. instituições. medidas administrativas. FOUCAULT. atrelar a questão da constituição de saberes a modos de exercícios de poder. como um modo de organizar o espaço. nO 16. Roberto Machado e Eduardo J. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 61 . de controlar o tempo. 247. proposições filosóficas. 1979. morais. Eis o que ele escreve: "Através desse termo tento demarcar. em primeiro lugar. um conjunto decididamente heterogêneo. 1974. Ib. com efeito.** R instalação das instituições disciplinares As conferências que compõem o texto A verdade e as formas juridicas (1974) descrevem uma história da produção de saberes baseada em determinadas práticas sociais (as práticas jurídicas ou judiciárias) que foram capazes de gerar modelos de estabelecimento da verdade.. filantrópicas. a uma abordagem mais centralizada sobre as instituições inseridas nesse tipo de sociedade.d. na última conferência. Posteriormente. e que Foucault chama de "instituições disciplinares". o que ele nos diz sobre a sociedade disciplinar e nos determos na questão de suas instituições. na medida em que responde à articulação entre produção de saber e modos de exercício de poder que é dominante em cada momento histórico'. eis o que não é"2. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem à primeira edição. constituem peças na engrenagem de um tipo determinado de sociedade. não é muito importante dizer: eis o que é discursivo. marcando a passagem da "arqueologia" para a "genealogia". dedicando-se. inrrod. principalmente.Contudo. A verdade e as formas juridicas) trad. 60 I Foucault.. leis. Graal. série Letras e Arres. Cf. pretende ainda "demarcar a natureza da relação que pode existir entre esses elementos heterogêneos" ("discursivos ou não") bem como evidenciar a "função estratégica" do dispositivo. M. com esse termo. para os quais o "exame" é o modelo prioritário de estabelecimento da verdade. Cadernos da PUC/Rj. da publicação dos livros Vigiar e punir (1975) e A vontade de saber (1976). Foucault descreve o surgimento e os caracteres do que denomina "sociedade disciplinar". sobretudo. porém. 6/74. 2.

simplesmente Descreveremos. hospital psiquiátrico. recortando-se na luminosidade.6. Elas marcaram o aparecimento de fábricas. em razão de que a reclusão que elas operam não pretende propriamente "excluir" o indivíduo recluso. que. que. Recorrendo a autores contemporâneos ao surgimento dessas instituições e que desenvolveram estudos a respe~to (N. Eis uma passagem esclarecedora: "O princípio é: na periferia. A construção periférica é dividida em celas. um operário ou um estudante. foram instaladas ti4. Gallima. correspondendo às janelas da torre. a luz e o olhar de um vigia captam melhor que o escuro. o lugar das instituições na sociedade disciplinar I 63 . cada uma ocupando roda a largura da construção. o Panóptico.. outra. 69. M. mesmo fechando-os. forte".. 62 I Foucault. prisões etc. Basta então colocar um vigia na rorre central e em cada cela trancafiar um louco. mas. uma torre. 5. Concomitantemente ao surgimento de saberes e ao exercício do poder disciplinares. um condenado. É ilustrativo ler (no mesmo texto. no centro. podem-se perceber da torre. no fundo. escola. ao contrário. Por isso. mas antes "incluí-lo" num sistema normalizador. mas de "forma branda. as pequenas silhueras prisioneiras nas celas da periferia. Ibid. 91-92. no fundo.. 86-88). protegia"4. Característica básica: do espetáculo à vigilância Pode-se dizer que o traço característico fundamental das instituições disciplinares está desenhado em seu modelo de arquitetura. instalam-se determinadas instituições a eles articuladas. liga-os a um aparelho de correção. Retomemos uma das passagens em que descreve esse projeto arquitetômco: nham uma forma "compacta. Em suma. A fábrica não exclui os indivíduos. as primeiras instituições que. o traço mais básico e geral das instituições disciplinares e. Na realização do "panoptismo". dando para o exterior. Devido ao efeito de contraluz. Foucault toma como modelo prenunciador dessas instituições um projeto de arquitetura. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se para o interior. 7. esse tipo de sociedade e de poder é perpassado pelo que Foucault denomina "panoptismo". realmente existiu na França dos anos 1840-1845. in Microfísica do poder. uma construção em anel. hospital. O hospital psiquiátrico não exclui os indivíduos. a um aparelho de normalização dos indivíduos. liga-os a um aparelho de produção..dução positiva de comportamentos que definem o "indivíduo" ou o que "deve" ele ser segundo o padrão da "normalidade". casas de correção. "O olho do poder". 90.rd. cujas características de fundo ainda hoje permanecem. O mesmo acontece com a casa de correção ou com a prisão"? Outra passagem descritiva do projeto conclui com a seguinte observação: "O Panopticon é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é. FoucAuLT. ela os fixa a um aparelho de transmissão do saber. um doente. fixar os indivíduos. inverte-se o princípio da masmorra. por volta do início do século XIX. hospitais. rodas essas instituições ~ fábrica. prisão ~ têm por finalidade não excluir. que se encontra em Surveiller et punir. Esta descrição praticamente reproduz a. sendo depois substituídas por instituições com iguais características. 1bid. elaborado em fins do século XVIII pelo jurista inglês Jeremy Bentham. Cf FoucAULT. a longa descrição que Foucault fornece do regulamento de um destes tipos de instituições.. difusa.201-202. as funções que lhes cabe cumprir. a sociedade que atualmente conhecemos . Paris.utopia que efetivamente se realizou"s. 1975. Foucault chama-as ainda de "instituições de seqüestro". A Verdade e as formas jurídicas. permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. a seguir. tal como é anunciado no projeto do Panopticon. H. escolas. esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. "Na época atual. A escola não exclui os indivíduos. a partir daí. 6.. M. 210. em sua forma mais "compacta".

15. Surveilleret punir. 1975. Basta apontar. 85. as conseqüências vantajosas que acarreta para os custos políticos e econômicos do poder. 85. teatro ou discursos políticos"t Não que esse modelo tenha desaparecido por completo. Assim. Ibid. M. mas que indivíduos sejam dados como que em espetáculo a um olhar vigilan- te. na sociedade moderna. finalmente. dos teatros. uma dominação que se faz como por "iluminação"12. por exemplo. M. Paris. esse tipo de construção respondia a um tipo de sociedade marcado pela participação da comunidade nos momentos de mais unidade na vida pública ("sacrifícios religiosos. "a arquitetura dos templos. que. 218. 9. Ibid. Com efeito. exercendo-se com violência aparente e garantindo Sua continuidade por meio de punições espetaculares para efeitos de exemplo. FOUCAULT. Olho auxiliado por uma série de olhares dispostos em forma de pirâ- mide a partir do olho imperial e que vigiam toda a sociedade" I I Mediante uma vigilância que é "ao mesmo tempo global e individualizante". 11. Do pOnto de vista propriamente político. por exemplo. expressões usadas pelo autor em "O olho do poder". FOUCAULT. 211. FOUCAULT. o traço básico do panoptismo articula-se com transformações fundamentais e gerais na ordem do poder. faz ver como na civilização grega antiga. 217. E (a partir de Giulius) lembra a metáfora do "olho" com que então se simbolizava o imperador: "O imperador é o olho universal vo.14. "O olho do poder". Gallimard.encerra uma generalização altamente significativa. e que Giulius vê nela "um acontecimento 'na história do espírito humano". transformam-se as necessidades e transforma-se a arquitetura. organizada na forma estatal. e A verdade e as formas jurídicas. o lugar das instituições na sociedade diSCiplinar I 65 . 10. Foucaulr realça a transformação que.. Economicamente. 210. mas sustentam "um princípio de conjunto. teve por efeito invertê-las de uma arquitetura de espetáculo a uma arquitetura de vigilância. diz Foucault. 216-217. e de outro o Estado. A verdade e as formas jurídicas. exercendo a vigilância 12. como O da prisão.. o controle contínuo é de uma eficácia pouco dispendiosa. Surveiller et punir. in Microfi: sica do poder. o da escola ou o dos hospitais". in Microfísica do poder. autor de Lições sobre as prisões..Panopticon . M. "Numa sociedade".. 209. porém. B.13 capaz de inaugurar o que viria a ser o desenvolvimento de toda uma nova forma de poder. M.. de 1830. autor de Motivos do Código de Instrução Criminal."lO Isto significa que a arquitetura deverá então assegurar não mais que espetáculos sejam dados ao maior número de pessoas. na arquitetura das instituições. vai-se constituindo en8. as relações só podem ser reguladas numa forma exatamente inversa ao espetáculo. e J.ltado sobre a sociedade em toda a sua extensão. a designação que lhe deu . Reportando-se a Giulius. 218. "onde os elementos principais não são mais a comunidade e a vida pública. de 1808). efetivando-se por meio da organização de uma cadeia de olhares vigilantes que. Ver também: Surveiller et punir. 218. 13. FOUCAULT. o projeto e seu nome não carregam apenas a idéia de uma técnica específica destinada a "resolver um problema específico. mas de um lado os indivíduos privados. em que o "anteparo da escuridão" é substituído por uma "visibilidade" isolante".. 14. a arquitetura atendia à necessidade de possibilitat a exibição de espetáculos ao maior número possível de pessoas (para isso.Giulius. possibilita uma crítica ao funcionamento do poder monárquico. acaba por se tornar "um poder muito oneroso e com poucos resultados"15. M. Entendido assim. Cf. 86.. 217. como "princípio de conjunto". A verdade e as formas jurídicas. cada indivíduo "acabará por interiorizar a ponto de observar a si mesmo". Simplesmente tão um tipo de poder que se exerce "por transparências".218. FOUCAULT. dos circos")'. Foucault lembra que se o projeto de Bentham fora inspira- do na arquitetura já existente da Escola Militar de Paris (1751). 64 I Foucault. contudo. não é por acaso que o próprio Bentham refere-se à sua invenção como "um ovo de Colombo".. Treillard.

cuja função específica é a cura. excedem a função estrita do ensino. as prisões para punir"!9. e com diferentes técnicas. entendida assim a visibilidade como princípio geral. atingido por meio dos corpos individuais. sobretudo. mas o corpo controlado como "o que deve ser formado. a título de exemplo."sobre e contra si mesmo". não mais o corpo supliciado. de modo a atender. é volvimento da sociedade disciplinar. a disciplina corporal é minuciosa. 19. as disciplinas escolares. na multiplicação e na diversificação de instrumentos de vigilância (até os mais sofisticados). de ociosidade. Lembremos. portanto.. 17. Funçóes Controle do tempo A vigilância é. nos hospitais.. Simplesmente o lugar das instituições na SOCiedade disciplinar 1. Controlar o tempo é transformar o tempo do trabalho em mercadoria trocada por salário. os hospitais. 21. A verdade e as formas juridicas. corrigido. às necessidades da industrialização. já que "sua presença física era necessária ao funcionamento da monarquia". lbid.. FOUCAULT.. nas sociedades modernas. prisões. que. M. reformado. Ibid. igualmente. 219-220. de descanso. assim também. FOUCAULT. a proibição de atividades sexuais não se reduz a motivos de higiene e saúde. como um dos nós que amarram essa rede de instituições. nas casas de correção etc. a este respeito. Assim. 145.18. ele será "protegido". De maneiras mais abruptas ou mais sutis. na verdade têm a eficácia de controlar todo o tempo de sua vida. "Poder-Corpo". Portanto. 96. desenvolvendo-se de formas diversificadas mas de algum modo semelhantes e intercruzadas tanto na pedagogia escolar como na organização militar. A verdade e as formas jurzdicas. de modo a que as instituições disciplinares cumpram. FOUCAULT. Surveiller et punir. qualificar-se como corpo capaz de trabalhar"Z!. é uma "fórmula maravilhosa: um poder contínuo e de custo afinal de contas irrisório"!6. mas também nas escolas. 66 I Foucault. M. cada uma das instituições disciplinares é destinada a uma função específica: "As fábricas feitas para produzir.. nos hospitais. uma maneira de dispor do tempo do indivíduo. M. na sociedade moderna o importante é o "corpo da sociedade". pode-se dizer que o. Cf. a eugenia. Um exemplo disso é a concessão de aumentos salariais e de fundos de economia. o que deve adquirir aptidões. in Microfisica do poder. 211. nos orfanatos. De fato. Foucault faz ver que. efetivamente. Ver. nas 16. a exclusão dos 'degenerados"'20. não podem ser usados pelos trabalhadores "no momento em que desejarem. se no poder monárquico o "corpo do rei" era não uma "metáfora. mas uma realidade política". M. com Foucault. Controlados são os tempos de festa. 20. porém. que. I 67 . substituindo-se "a eliminação pelo suplício" por "métodos de assepsia: a criminologia.controle do tempo é exercido continuamente não só nas fábricas. 95. as escolas para ensinar. receber um certo número de qualidades. 94-95.. psiquiátricos ou não. para fazer greve ou para festejar. contudo.. para curar. 18. esse sistema basicamente "ótico"!7 desdobrarse-á no aperfeiçoamento. aparentemente criadas para a proteção do trabalhador. mas é mais ainda: é transformar todo o tempo dos homens em tempo de trabalho. Foucault mostra que certas técnicas. questões como a imoralidade e a devassidão eram assunto de preocupação dos patrões. Eis também por que. FOUCAULT. 218. de prazer. nas fábricas do começo do século XIX. diversificadas funções que respondem à instalação e ao desen- função de todas disciplinar a existência inteira do indivíduo pela disciplinarização do corpo. "O olho do poder". no Controle dos corpos Aparentemente. in Microfísica do poder. mais que uma técnica particular.

. A verdade e as formas juridicas. Mas também é curioso. judiciários e epistemológicos. das classificações. e. Foucaulr indica inclusive que foram as disciplinas corporais (particularmente as militares e escolares) que tornaram possível a elaboração de um "saber fisiológico. os artigos "Soberania e disciplina" e "O olho do poder". orgânico". se classifica. 96. de modo a "cobrir o corpo social por inteiro. Neste último (211-212). ele se desdobra em múltiplos caracteres que. esquematicamente. onde. pode também aparecer de formas menos diretas.. um "saber sobre o corpo. nas análises das instituições disciplinares. não somente se garantem funções como a produção. mas também se tem o direito de punir e compensar. 68 I Faucault. FOUCAULT. não é essencialmente localizável em um pólo centralizado e personificado. de tomar medidas. a este respeito.22. se tem o poder de fazer comparecer diante de instâncias de julgamento"26. em Microfisica do poder. FOUCAULT. quer elaborando saber sobre os indivíduos 28 . se tomam decisões. Mas ao caráter econômico se atrela o político: "As pessoas que dirigem estas instituições se delegam o direito de dar ordens. no caso das fábricas. "polivalente"24. 148-149. 23. Surveiller et punir. podemos designar de econômicos. quem é o pior.23.". do criminoso. Ver. o indivíduo continua tendo seu comportamento constantemente julgado *** Para concluir. "Poder-Corpo". o acréscimo de uma observação. também.25 Ambos. FOUCAULT. por exemplo. quando Foucault faz ver quanto ele é "inteiramente baseado em uma espécie de poder judiciário". não apenas se dão ordens. o exemplo particular do sistema escolar. depois de julgado por um tribunal. fornece elementos para gerar saber acerca da produção. pelo diretor d3: prisão etc. 24.. 97. A verdade e as formas juridicas. minucioso. 26. in Microfoica do poder. Isto é. de aceitar outros etc.espaço hospitalar como nas prisões. políticos. polimorfo e polivalente. FOUCAULT. 28. de expulsar indivíduos. simplesmente o !ugar das instituições na sociedade disciplinar 1 ! 69 . o estudo destes caracteres no capítulo intitulado "Le paroptisme". Um exemplo de saber extraído dos indivíduos ocorre em instituições como fábricas. se diz quem é o melhor.. as instituições disciplinares fazem funcionar um poder que.27.... 141. É de se notar que.. 97.. particularmente todo o capítulo desse livro intitulado "Les corps dociles". 25. capilar. explicitando que nele "a todo momento se pune e se recompensa. Por sua vez. É claro que o caráter judiciário é mais evidente no caso das prisões. Poder econômico.. poder judiciário. como 27. muitas são as passagens em que Foucault se detém particularmente nas prisões. 96. O caráter econômico do poder disciplinar é evidente. se avalia. articulam-se a um caráter judiciário: "nestas instituições. As conferências sobre A verdade e as formas jurídicas. produz saberes. de Surveilleret punir. o poder instalado nas instituições disciplinares é também epistemológico.. espalhado. e conseqüentemente. isto é. da criança etc. ou a elaboração de uma "história dos espaços" que seria também uma "história dos poderes". Ver. o econômico e o político. E os produz duplamente: quer extraindo saber dos indivíduos. por isso. nascido de sua prática. Mas indicar que o controle dos corpos engendra saber já é referir-se ao caráter polimorfo do poder disciplinar. a aprendizagem etc. saberes sobre o indivíduo nascem das observações. das anotações a respeito do doente. e constantemente submetido à vigilância e ao registro. onde o saber do operário a respeito de seu próprio trabalho. 97. M. Ibid. Em suma. o realce da importância de um estudo sobre "a arquitetura institucional" ("da sala de aula ou da organização hospitalar"). pelos guardas. Ibid. M. Ibid. M. Instalação de um poder polimorfo O tipo de poder instalado por essas instituições é "polimorfo" e. a esse respeito. de estabelecer regulamentos. poder político. M. como no pagamento feito a hospitais. mas é principalmente difuso. 22.

M. a prisão guarda certas peculiaridades: basta lembrar que. O livro Vigiar e punir. pois. "Os intelectuais e o poder". M. para Foucault. 29. 30. por outro. (E o discurso que ela então emite seria: "Eu faço unicamente aquilo que lhes fazem diariamente na fábrica. todas as outras instituições realizam uma espécie ~e difusão discreta da prisão 33. 99. É nela. I 71 . afinal. a prisão também aparece como sendo não mais que a forma "concentrada". todas lhe são semelhantes. na escola etc. contudo. M. 35. se mostra como tirania levada aos ínfimos detalhes. entre as instituições disciplinares. segundo Foucault. "exemplar" e "simbólica" de todas as outras instituições32 . 70 I Foucault.. Cf... ela "inocenta" as demais. é inteiramente 'justificado m31 . A verdade e as formas jurídicas) 99. se vincula mais diretamente às prisões. FOUCAULT. atingindo. a particularidade de concretizar o "panoptismo" da forma mais palpável. 31. ela "se inocenta" de ser prisão. 100. de um lado. a este respeito. FOUCAULT.. a facilidade com que ela foi aceita. ". 33. seu caráter quase evidente. ao meSmo tempo em que é "diferente" das outras instituições. Ora. "seu incrível sucesso.. "3S. Surveilleret punir. FOUCAULT. Afinal.. in Microfoica do poder. é apenas a forma mais transparente de todas as outras.. como que circular e reciprocamente. cuja história.. que o "Panopticon" encontra "seu lugar privilegiado de realização". tomar uma forma material. em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral".)34 Essa ambigüidade da prisão explica. FOUCAULT. ambiguamente. M.. assim. 73. FOUCAULT. e ao mesmo tempo é puro. traz como subtítulo O nascimento das prisões. 308-310. entre as diversas instituições. a aceitação cotidiana de sua diluição mais sutil por toda a rede das chamadas instituições disciplinares..". afinal. Por outro lado. afinal.. efetivamente. diz Foucault. tem uma marca "local e marginal. é ela a única "onde o poder pode se manifestar em estado puro. com esta marca. 72. 36. que a prisão desperta interesse ou curiosidade na maioria das pessoas. não faz parte da vida rotineira das pessoas e. simplesmente o lugar das instituições na SOciedade disciplinar . Surveiller et punir. Por isso. Cf. separada das outras . 252. isso talvez se explique precisamente porque. 32. não se mascara cinicamente. já dissemos. porém. há uma certa singularidade da prisão.. M. explica "sua extrema solidez"36. um número reduzido de indivíduos.30.. Ibid. Surveiller et punir.. Ou seja: "O que é fascinante nas prisões é que nelas o poder não se esconde. É possível que essa tônica ou esse realce se fundamente em dois aspectos que. Ibid.Assim. Tem. 34. e talvez por isso. já que. por certo. Além disso. (E o discurso que ela então emite seria: "A melhor prova de que vocês não estão na prisão é que eu existo como instituição particular. 312. particularmente. E podemos certamente completar: explica também. Por um lado... se completam.) Mas.. num só lance. A verdade e as formas jurídicas. é nela que "a utopia de Bentham pôde. só ela é prisão.29. que focaliza explicitamente o estudo de instituições. E é assim. tomam por base as práticas judiciárias. Ver.

L. estas como que guiadas ou iluminadas por aqueles. orgs. M.. L.. para uma direção de relações que vai. em abril de 1993. MUCHAIL... por um lado. ! 73 . prioritariamente. M.. Assim. S. T. pensar um espaço comum que abrigasse o encontro entre ambos não é sempre habitual.).. São Paulo. RODRIGUES. questão repetidas vezes indicada como temática nuclear dos escritos de Michel Foucault. Para isso. * Este texto reproduz. com pequenas alterações. 1995. com maior freqüência. À primeira vista. um pensamento sobre esse encontro parece apontar. de prátícas sociaís à produção de saberes . É propósito desta exposição perguntar por esse encontro e problematizar essa direção. palestra proferida em Fórum de Debates realizado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi publicado em O uno e o múltiplo nas relações entre as áreas do saber (MARTINELLI. dos saberes às práticas sociais.VI DE PRÁTICAS SOCIAIS À PRODUÇÃO DE SABERES* Trarar-se-á aqui de verdade e poder. Por outro. esta questão parece sugerir certa repartição entre dois âmbitos: o dos saberes (onde se situaria a ocupação com a verdade) e o dos procedimentos sociais (onde se reconheceria o lugar do poder). Educ. buscaremos na leitura de Michel Foucault a seleção de algumas passagens capazes de estimular o debate sobre o assunto e propiciar alguma reflexão acerca do trânsito entre o campo das práticas sociais e o dos saberes.

Ibid. este textO foi republicado no Rio de Janeiro pela Nau Editora. trad. Série Letras e Artes. de natureza jurídica. aproximadamente) a prática do inquérito4 • Pela prova.c. Mas pode-se também realizá-la desde uma perspectiva externa aos saberes.pode ser elaborada de modo direto e interno. I 7S . modos de produção de saberes reconhecidos como verdadeiros e sua articulação com modos de exercícios do poder. em 1999. FOUCAULT. A descrição histórica empreendida por Foucault pretende então mos- trata-se de verdades em seus diferentes modos de produção trar em que sentido modos práticos de estabelecimento da ver- em diferentes sociedades. de 1966).)3. isto é. percorrendo. ou seja. filosofia etc. numa palavra. o textO de cinco conferências pronunciadas por M. A verdade e as formas jurídicas. Essa história pode ser lida e organizada em torno de três procedimentos ou práticas sociais de caráter jurídico: a prova. 06/ 74. isto é. historicamente. para centrar-se mais detidamente no período que vai desde os fins do século XVIII e início do século XIX até nossa contemporaneidade.2. por dentro. dizer que os escritos de Foucault concernem à verdade e ao poder significa que eles realizam investigações históricas que buscam descrever. de modo muito genérico. portanto historicamente múltiplos e diversificados. cas jurídicas ou judiciárias "o modo pelo qual os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido. em Cadernos PUC-RJ. Foucault na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. engendraram saberes considerados verdadeiros. Entre essas práticas. certas práticas não-discursivas de estabelecimento da verdade puderam tornar-se matrizes ou modelos para a produção discursiva da verdade. reunidas sob o título A verdade e as formas jurídicas. duas formas de prática jurídica marcaram a sociedade grega antiga. a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras. o procedimento empregado em As palavras e as ria que Foucault refaz começa na Grécia antiga e atravessa a Idade Média. isto é. mas de poderes dade. Servir-nos-á de roteiro. Numa definição introdurória e geral. simplesmente . por exemplo.. Essa investigação histórica .. em períodos determinados da história da cultura ocidental. 1. Morais. mas enquanto produzida no decurso da história. na Grécia antiga.. verific~r como. 4.. vale assinalar a descrição dos elementos da prova e das características do Foucault dedica especial destaque às chamadas práticas jurídicas ou judiciárias. sobre o qual veio a prevalecer depois (a partir do sécu- lo V a. Do mesmo modo. Rio de Janeiro. O percurso da histó- as diferentes sociedades em diferentes momentos históricos. 8. Segundo Foucault. Assim.mostra-nos Foucault . no ou de múltiplos modos de exercício do poder que permeiam plano dos saberes (ciências. Posteriormente. É esse o ângulo que aqui nos interessa. 1974. n° 16. puderam vir a constituir como que modelos de produção da verdade no plano discursivo. que os escritos de Foucault investigam a verdade e seus vínculos com o poder. de Roberto Machado e Eduardo]. o procedimento judicial mais arcaico. coisas. o inquérito. 3. Para o propósito desta exposição retomare74 ! de práticas sociais à produção de saberes Foucault. 2. Prova e inQuérito A prova é. retraçando não o seu próprio desenvolvimento. a reflexão foucaultiana a res- Mas pode-se igualmente dizer que não é da verdade e do poder peito de tais práticas l .Pode-se dizer. mos. certos procedimentos. 20-21. o exame. entende-se por práti- que eles tratam. constituindo-se na formação de saberes reconhecidos como verdadeiros. As referências das passagens aqui reproduzidas remetem àquela primeira edição. no decurso da história. mas tomando como ponto de partida determinadas práticas sociais que. É que a verdade não é entendida enquanto identidade de uma essência una e sempre a mesma. a título de caso ilustrativo. basicamente. a própria trajetória da constituição dos saberes (é esse. Embora o âmbito desta exposição não comporte reconsticuílas. M. não se trata do poder enquanto dominação central e unitária..

este agora de "dimensões extraordinárias".. isto é. 49. reconhece em sua instigante leitura de Édipo-Rei. ainda apresentasse cicatrizes. Eis. pronunciá-las incorretamente (um erro gramatical. Na Idade Média. Eis alguns dos exemplos levantados por Foucault (cf 45-47) de provas durante a Idade Média. Essa era a prática adequada ao perfil de uma sociedade de tipo marcadamente feudal em que a circulação dos bens era assegurada menos pelo comércio que pela herança. 47.. numa espécie de jogo. se não se afogasse era porque nem a água o recebera e. era considerado culpado.)'.. pelos testamentos e. dois dias . Ibid. 6. grupos ou famílias eram diretamente postos em disputa. ao soberano como a verdade é judiciariamente estabelecida sem o recurso a testemunhas ou a sentenças: os adversários em litígio são literalmente "postos à prova". "para a história do mundo inteiro. grupos ou famílias. mas "também uma ofensa de um indivíduo ao Estado. tais como: "sistemas racionais" (como a filosofia). a verdade se confundia com a vitória do mais forte. Ou ainda: amarrava-se a mão direita ao pé esquerdo do acusado e se o atirava na água. inclusive. S. e o acusado ganhava o processo. baseados que são em testemunhos (como os dos historiadores. determinando-se a verdade pelo lado do vencedor do risco. a "arte de persuadir" (como a retórica). Prova verbal: o acusado deveria responder à acusação pronunciando certas fórmulas. cedendo lugar ao que Foucault chama de "uma espécie de segundo nascimento do inquérito".)6. 9. Ibid. dos geógrafos etc. o direito constituindo-se não numa correlação entre justiça e paz mas num prolongamento ritualizado da guerra. Usado inicialmente nas esferas eclesiásticas e nas gestões administrativas. representante do soberano. já que "seu destino será praticamente coextensivo ao próprio destino da cultura européia ou ocidental'" e. cujos traços principais podem ser assim reunidos: tratava-se sempre de uma ação "de estrutura binária"7. porque um dano não configura mais questão apenas entre indivíduos. dos botânicos. o "procurador" do rei. os dois modelos reaparecem. 41. era culpado. 49. a verdade é determinada por quem "viu e enuncia"s. mas se impõe "de fora" e "do alto" por um poder simultaneamente judiciário e político. 42-43. 42. em que indivíduos. surge a noção de crime como infração. se se afogasse. Simplesmente .. 7. de certo modo. a ocupação de uma terra. responsável por "dublar" a vítima. qualquer instância como um júri ou um juiz não tem competência de decisão sobre a verdade senão apenas sobre o correto cumprimento das regras do jogo. uma vez que o próprio rei é lesado porque são descumpridas suas leis. o direito de opor-se ao poder dos governantes. o da prova. 10. na medida em que a Europa impôs violentamente seu jugo a toda a superfície da terra"IO.1 I 77 . de um castelo etc. sem intervenção de qualquer terceiro elemento que representasse a autoridade ou a coletividade. Ibid. Inicialmente (entre os séculos V e XII aproximadamente). prevalece o primeiro. é baseada em testemunhos que têm. Segundo Foucault..depois. aparece um personagem novo. sobretudo. a água o recebera. portanto. foi a prática do inquérito que constituiu modelo para formações culturais então emergentes na Grécia antiga. de duelo ou de desafio. É na segunda metade da Idade Média (a partir de fins do século XII e no decurso do século XIII) que o sistema da prova tende a desaparecer.. na segunda daquelas cinco conferências. o inquérito é introduzido no âmbito das práticas jurídicas e dali se generalizará como modelo de produção de verdade e de outras práticas. Ibid. Ibid. Ibid. de práticas sociais à produção de saberes 76 I Foucault. uma troca de palavras) era prova de culpa. pelos 8. os traços principais que desenham seu perfil: a resolução das questões de litígio não se dá diretamente entre os oponentes. ou seja. no âmbito jurídico. Prova corporal: o acusado deveria andar sobre ferro em brasa e se. conhecimentos empíricos.mecanismos bélicos (a rapina. No inquérito) ao contrário. inquérito que Foucault.

com resultados diferentes. 64-65. a prescrição de "vingança" ou a "redenção de um pecado"14. nesse quadro. terceiro.. transformações fundamentais ocorreram: novas formas de práticas judiciárias. durante o século XVIII (principalmente com Beccaria. as transformações aconteceram em dois níveis. as sociedades industriais nascentes vão adotar um procedimento penal que não estava previsto pelos teóricos da lei e que vai estabelecer-se. Do ponto de vista judiciário. É nesse quadro novo que se instaura o que Foucault chama de "sociedade disciplinar".15. No nível teórico realizam-se. portanto. permanece e se estende até nossos dias. 13. reelaborações do sistema penal cujos princípios básicos podem ser assim reunidos: primeiro. reunir dados são procedimentos que se estenderão para outras práticas e. estar explicitamente formulada. de práticas sociais à produção de saberes 78 I Foucault. Ibid. Na medida em que se generaliza a prática do aprisionamento alteram-se radicalmente os princípios da legislação penal. a prisão. Ibid. com a introdução de uma importante diferença: a partir dos fins do século XVIII e no decurso do século XIX. reconstituir situações. segundo. ao que é socialmente útil. da botânica e da zoologia 12 • Enquanto o sistema da prova desaparece quase por completo. Ibid. Porém. Bentham e Brissot). para a constituição da verdade na ordem do saber. recolher testemunhos.. enfim. nessa direção. "quase sem justificativa teórica": trata-se do aprisionamento. define-se como "dano social" e o criminoso como "inimigo interno" a ser. ou ainda da medicina.o exame. novas formas de estabelecimento da verdade. o modelo do inquérito. ao contrário. não compete à lei. a deportação.". No nível prático. que precisa. quarto. por isso mesmo é da competência do soberano o direito de impor penas e exigir reparações (freqüentemente na forma de "confiscos" que enriquecerão as monarquias)11. o modelo do inquérito é invadido por outro. 78. constituindo ainda hoje a base do sistema jurídico de nossa sociedade. a humi- lhação pública. religiosa ou moral e só se representante do Estado". do conhecimento de climas etc. novas formas de 11. ou melhor.. 59. prova de verificação"13). as leis civis. este inteiramente novo . em domínios "como o da geografia. Ibid. portanto.exercício do poder. de saberes considerados verdadeiros. a prática do inquérito como instrumento capaz de substituir o flagrante delito. concernem apenas à sociedade civil. excluído da sociedade. o trabalho forçado e a pena de talião. a saber. sobretudo. simplesmente 1 I 79 . as leis tendem agora a ajustar-se menos à utilidade social que ao indivíduo (o recurso cada vez maior ao Inquérito e exame No início do período que passamos a investigar. as ciências empíricas ou da natureza. 12. desenvolver-se-ão. as punições serão de quatro tipos possíveis. mas a reparação do dano social. É o funcionamento desse sistema que requer a necessária argüição de testemunhas. o crime. tal como se instala a partir do século XIX. pois. não sendo falta moral ou religiosa. reatualizando o crime quando o criminoso não é surpreendido na atualidade de sua falta. que é ainda a nossa. Assim. de algum modo. como faz notar Foucault. da astronomia. formuladas pelo poder político. é "que vai se tornar a grande punição do século XIX. que "não era uma pena de direito no sistema penal dos séculos XVII e XVIII". cujos traços novos podem ser assim reunidos: primeiro. a infração não diz respeito à lei natural.. 51-52. quinto. 14. porém. Ora. por conseguinte. 59.. Ibid. a busca da reconstituição dos fatos. principalmente. ou melhor. configura como ruptura com a lei civil. 15.. dele restando talvez a prática da tortura (e mesmo esta "já mesclada com a preocupação de obter a confissão.

Foucault chamao de exame. "normal" ou não. nas sociedades modernas encontra-se. Radicalmente heterogên~os. isto é. Ibid. o asilo. Foucault faz ver. mas à conduta do indivíduo no âmbito da norma. avaliando-os. enquanto a prática do inquérito foi modelo para o desenvolvimento das ciências da natureza. mas. seu ajustamento. um saber do direito articulado na esfera do inquérito e. instalam-se seus correlatos no plano das instituições sociais: são as instituições disciplinares .17. permitindo modificações na aplicação estrita da lei. esse controle não pode ser assumido apenas pelo poder judiciário. Ele requererá a conjugação de outros poderes.. isto é. basicamente. Ele se calca em outro procedimento. correto ou incorreto. De modo genérico. e "toda uma rede de instituições" ("psicológicas. certa articulação na sociedade contemporânea. O estabelecimento da verdade pela matriz do exame não se faz mais pela reconstituição de fatos nem na ordem dos testemunhos. as casas de correção -. os dois sistemas mantêm. É assim que. a polícia. portanto. Enquanto o inquérito é um procedimento para se saber o que havia ocorrido. mas pela objetivação do indivíduo e na ordem do que é certo ou errado. 17. pode-se dizer que. constrói as condições para um novo modo de produção da verdade. abre espaço para o surgimento das chamadas ciências do homem.. classificando-os e registrando continuamente suas condutas. São eles. 80 I Foucau!t. "reatualizar um acontecimento passado através de testemunhos. em função de situações individuais. a fábrica. sob o do exame) não se tenham constituído outros saberes. Em suma. a disciplina é correlata de uma sociedade comandada pela democracia burguesa. o controle aringe não apenas o crime já cometido. por um lado. imbricando-se concomitante e complementarmente. enquanto o modelo do inquérito é correlato de uma sociedade comandada pela soberania do monarca. controlando o tempo e o espaço dos indivíduos. elas buscam menos o "castigo" que o ajustamento do indivíduo à sociedade. para a função de vigilância. Simplesmente de práticas sociais à produção de saberes j I 81 . que. examinando-os. contudo. permitido ou interditado. cuja finalidade não é propriamente a "exclusão" do indivíduo mediante sua "reclusão". "o controle e a reforma psicológica e moral das atitudes e comportamentos". Mas. médicas. De ação assim ampliada. o do inquérito) permanece incorporado ao saber jurídico. 69. enquanto numa sociedade de tipo infração. 67-68. os hospitais psiquiátricos. é um exemplo desta mudança). enfatizando então a noção nova de "periculosidade". mas a possibilidade de ser cometido. isso não significa que o modelo da disciplina (e. a esse âmbito de ação do controle já não basta o inquérito. No mesmo quadro. "poderes laterais. importando saber não tanto o que "se passou". segundo e correlatamente. o exame.a prisão. seu adestramento. ao contrário. em suma. criminológicas. A sociedade disciplinar. pedagógicas"). a escola.que chamamos de "circunstâncias atenuantes". à margem da justiça". isto é. sua correção. Dele a disciplina faz uso e é ele que permanece no interior do sistema jurídico cujo discurso calca-se ainda no inquérito e organiza-se em torno das relaçoes de soberania (do tipo súdito-rei). terceiro. se o modelo da soberania (e. para funções de correção 16 . ou a disciplina. Ibid. por isso mesmo. precisamente sua "inclusão" como indivíduo. enquanto a punição propriamente dita depende da existência de lei explícita e concerne à ocorrência efetiva de uma desaparecimento completo do modelo inquisitorial. por exemplo. mas quais as virtualidades do indivíduo e como ele presentemente se conduz. simultâneos aos saberes disciplinares. Pode-se dizer que na sociedade caracterizada pela disciplina não se dá o 16. por outro. portanto. mecanismos ramificados de controles disciplinares. o exame é vigilância sempre atual e ininterrupta.. São saberes e instituições que não se atrelam ao que é do estrito âmbito da lei. Mais. psiquiátricas.

de proximidade ainda com o modo do poder espetacular e repressivo que caracteriza menos "a disciplina" do que a prova ou o inquérito. dentro dos quadros da sociedade discipli- ••• Levantemos algumas reflexões que a reconstituição destas passagens pode. " à medida que o poder se torna mais anônimo e funcional. É um poder sutil e produtivo: produz comportamentos e com as relações súdito-rei que caracterizam a sociedade gestos. comandada pela soberania.como meta de desenvolvimento ou como horizonte de esperança . desigual e regio- nalizada. um modo de exercício do poder do qual uma descrição sura (da imprensa. Gallimard.) na história ainda recente de nossa sociedade são indícios. de proximidade ainda Indícios como estes podem sugerir uma curiosa situação: enquanto a descrição foucaultiana já veicula. talvez. circunscritas. espetacular e repressiva não pode dar conta. ao mesmo tempo. Depois de termos feito a apresentação de uma espécie de caso ilustrativo. talvez. 82 I Foucault. ainda esteja projetando . alarguemos o alcance do exemplo e indaguemos. dades de terra são indícios. entre práticas sociais e saberes sejam menos distantes e o trânsito bem mais freqüente. não exclui.sua realização mais completa como sociedade disciplinar. à diferença do que parece habitual. • um sistema de governo no qual foi possível ocorrer o uso ainda recente do confisco e em que a tônica da individualização recai tantas vezes sobre a figura expoente do meramente negativa. a crítica das sociedades moldadas na disciplina e no controle. numa sociedade de tipo disciplinar passa-se o contrário. • a manipulação pela tortura e pela violência sem disfarces. também ele.. Surveilleret punir. Introduz-se assim. polemicamente. mais amplamente. é possível interrogar se ele se ajusta inteiramente ao quadro descrito. retomemos o contexto em que situamos inicialmente esta exposição. talvez. das artes etc. Elas são pontuais. constituir uma espécie de proposta teórica geral. pois. aqueles sobre quem ele se exerce tendem a ser fortemente individualizados'1l8. numa última consideração. é possível que nOSSa sociedade. de proximidade ainda com as condições qu~ caracterizam o modelo inquisitorial mais do que o do controle. Finalmente. nos suscitar. Pode-se. ali desenhado. pelo menos sob alguns aspectos ou em algumas regiões. assim como o uso de mecanismos explícitos de cen18. a individualização é "descendente". Paris. simplesmente de práticas sociais à produção de saberes I 83 . as fronteiras entre procedimentos e discursos. normaliza. Estimulando esta pergunta. De um ponto de vista amplo. nar. 1975. isto é. pela possibilidade de que. mais de perto. bem como a preservação das grandes proprie- governante traz indícios. 194-195. M. Sabemos que as análises foucaultianas não pretendem. perguntar pela situa- ção particular da sociedade brasileira atual no quadro daquela descrição da sociedade contemporânea ocidental.inquisitorial "a individualização é máxima do lado em que se exerce a soberania e nas regiões superiores do poder". de modo algum. parece-nos que o perfil de nossa sociedade encontra-se. FOUCAULT. cria hábitos. localizadas. apontemos alguns indícios para a reflexão: • a industrialização em escala incipiente. vale dizer. porém.

com particularidades de uma situação muito diversa. De modo geral. palestra proferida por ocasião do Colóquio Michel Foucault. são fragmentos filosóficos em canteiros históricos. isto é. CASTELO BRANCO. não são as filosofias. M. em novembro de 1999. 21. na Universidade do Rio deJaneiro. 2000. mas outros e variados os "objetos" e os "domínios" dos quais se ocupam os estudos históricos que Foucault realiza (a loucura. Primeiro. a medicina. Publicado em Retratos de Foucault (PORTOC. Porém.. como se sabe. FOUCAULT) Dits et écrits) IV.1 I 85 . Rio de Janeiro. Questões semelhantes podem ter lugar relativamente aos escritos de Michel Foucault. quando se trata da leitura de textos filosóficos na elaboração de histórias da filosofia. com algumas modificações. orgs. a doença. Nesses casos. E de uma diversidade pelo menos tríplice. V. indagações sobre a conjugação ou a disjunção entre caráter histórico e qualidade filosófica são freqüentes. Nau Editora. G. os filósofos reúnem sua atividade à do historiador quando o que os ocupa são "canteiros históricos" de obras filosóficas. Foucault e a leitura dos filósofos . a delinqüên* Este texto reproduz.ARRERO.. no máximo. as chamadas ciências humanas.VII1 FOUCAULT E A LEITURA DOS FILÓSOFOS' Meus livros não são tratados de filosofia nem estudos históricos.).

mas em proporções desiguais: convencionemos dizer que diretamente as filosofias comparecem com menor freqüência. Antropologia do ponto de vista pragmático. ou as retomadas de Platão nos volumes II e III (O uso dos prazeres e O cuidado de si) de Historia da sexualidade. Ora se movem no trânsito entre a dimensão Descartes4 (em réplica tardia à crítica de Derrida). pensa filosoficamente ao praticar a investigação histórica. Rio de Janeiro.. Introd..Le chant du rygne. l'histoire". Entretanto. de Carlos Henrique Escobar. O Dossier . Dialogues. em tradução brasileira. introd. indiretamente. 1994. Gallimard. Roberto Machado. Microftsica M poder. as filosofias são protagonistas dos grandes livros de história (História da loucura) Nascimento da clínica.. ••• Não muitos escritos se ocupam diretamente da abordagem de filósofos. Terceiro.jdéc. Incluído. I. "Introduction" a Rousseau. I. DOSSE) F. Segundo... "Qu'est-ce que les Lumieres?". ). Como escreveu um historiador. permanecendo. po epistêmico práticas e instituições sociais. nos interstícios entre os gêneros"'. Cf "Nietzsche. 5. Cf. em sentido largo. in Dits et écrits) lI. 1972. Comporta tradução e introdução a Kant. 7. em todo caso. ce feu". Trata-se da réplica à crítica que Derrida endereçara à leitura foucaultiana de Descartes em História da loucura? Com efeito. "seu pensamento se situa sistematicamente nas linhas fronteiriças. e isso significa no âmbito das epistémes ou dos espaços que demarcam as possibilidades de configurações dos saberes historicamente qualificados. 1994. por assim dizer. incluído em Dits etécrits. Para o primeiro modo de presença. ao cam- ticularmente explícitas: a leitura comparativa entre Montaigne e Descartes. acrescentada à segunda edição de Histoire de la folie à l'âge classique. "Cogito et histoire de la folie". a sexualidade. O texto de Foucault. no capítulo II ("O grande enclausuramento") da primeira parte de História da loucura. nos limites..sobre Kant (de 1961)3. 1979.se se quiser. ce papier. la généalogie.. a presença assídua das filosofias encontra-se nos escritos volumosos e de grande porre onde têm lugar. e isso significa no âmbito dos chamados dispositivos estratégicos. 3. em tradução brasileira.. 288-293. o direito. está incluído no acervo do Centre Michel Foucault e uma "Notice historique" está publicada em Dits et écrits. Foucault e a leitura dos filósofos 86 I Foucault.. M. 4. DERRlDA. certa história das filosofias .últimas entrevis· tas. tomemos uma análise textual que nos parece exemplar. o ensaio so- bre Nierzsche (de 1971)5. no volume FOUCAULT. Éditions La Découverte. extraída do curso de 5 de janeiro de 1983. As palavras e as coisas. portanto.. incluída. 1967 à nos jours. Gallimard. Simplesmente . datilografado. Graal.. 1992. as práticas judiciárias. Ensaio. 1984. J. Cf. diferentemente da prática filosófica de pensar a história. 4. Revue de Métaphysique etde Morale. há diversidade porque Foucault realiza um peculiar cruzamento entre a atividade do filósofo e a do historiador na medida em que.marca presen- ça nos trabalhos de Foucault. 2. oct.. Sob o título "Mon corps. as artes . 136-156. 172-188. I 87 .. 1963 n.. ensaios "avulsos". a tese complementar de dourorado 1. no interior das articulações interdiscursivas. no texto "Mon corps. 562-578 e 679688. ce feu". Trad. Histoire du structuralisme. no volume FOUCAULT. Rio de Janeiro. atreladas que estão ao assunto central da respectiva investigação. e org. Pode ser reconhecida de duas maneiras. História da sexualidade). Em todo caso. Lima e M. agregando. Paris. M. textos curtos e.274. quase sempre. certa leitura das filosofias . Vigiar e punir. São Paulo. in Dits et écrits) IV. 6. Para mencionar algumas siruações par- discursiva e a extradiscursiva. indireto.. ce papier. Paris. e org. da Silva. a literatura. em número reduzido. Para mencionar alguns: um estudo introdutório sobre Rousseau (de 1962)2. Cf. trata-se de cursos. 460-494. a releitura (de 1971) das Meditações de cia. Paris. Tradução brasileira de Álvaro Cabral. Esta última versão. 305. Ora mantêm-se na dimensão estrita dos discursos. 11 . variados são também os planos das abordagens. Todavia. Rousseau)juge deJean-Jacques. o esrudo mais recente sobre Kant (de 1984t De modo geral. portanto. e mais genericamente. Taurus. da Glória R. com diferentes intensidades e extensões. de Ana Maria de A.

O item N.tes. Um artigo de G. 1992) de outro texto.. Heidegger. LEBRUN. indica o trabalho foucaultiano como "um instrumento de renovação de uma 'história da filosofia' que seria acionada. idade clássica.a indireta . FOUCAULT. não deixa de lembrar quanto Foucault suspeitava de uma «história da filosofia universitária"'3 e. para explanar o desmoronamento da semelhança renascentista e a instauração da categoria clássica da "ordem". a Logique de Port-Royal. Hume. Nietzsche. Rio de Janeiro. principalmente. 55ss. de seu crítico (no caso. 88 I FoucaulL Simplesmente Foucault e a leitura dos filósofos • I 89 . Hobbes. A título de curiosidade. o sistema que os opõé.Rencontre internationale)Paris. Montesquieu. destaquemos algumas passagens e. enfim. duas escolhidas entre aquelas que se ocupam com momentos de limiares ou de transição entre os períodos históricos investigados.. in Michel Foucault philosophe . tentando vasculhá-la um pouco no enredo das investigações históricas Tomemos As palavras e as coisas. Paris. à fenomenologia. mas também enquanto exercício. in Histoire de lafolie. 51.. Leibniz. 8. "Mon corps. O capítulo III ("Representar")... M.33.. aos ideólogos. acompanhando os três períodos históricos percorridos (renas- Foucault realiza. faz ver a necessidade de dupla postura de leitura demandada pelo próprio texto. conta com a Logique e com Destutt de Tracy. ce feu". 593-597. e muitos deles numerosas vezes: Montaigne. M. 13. E. Relume Dumará. Derrida de certo modo a repete e propõe . Se. Consideremos a outra e mais freqüente maneira . Kant. Espinosa. A palavra de Descartes. ROUDINESCO. 9. remete a termos latinos e a suas traduções9. subverte a posição de defesa para instalar-se no terreno do opositor e apontar os defeitos que são dele. passo a passo. com a morte da 'filosofia' tal como esta é ainda escolarmente entendida"'4. "elisão de diferenças textuais". Ibid.. passa a fazer falar os filósofos. uma reconstituição interna das Meditações. que estabelece a ponte do renascimento à idade clássica. Malebranche.. no qual. "Note sur la phénoménologie dans Les Mots et les choses". Husserl. "Fazer justiça a Freud . G. ce papier. Ibid. J. ao estruturalismo etc. em detalhe. Descartes. em As palavras e as coisas) fizermos um levantamento geral na seqüência dos dez capítulos. 599. modernidade). 11. R. 38. Seuil. enquanto sistema. Ibid. depois de iniciar-se com a cativante leitura sobre as aventuras de "Dom Quixote" (item I). Bacon. que "contém ao menos o esboço de uma história da filosofia" e no qual encontramos "indicações para uma leitura de Descar- cimento. Berkeley. 12. Condillac. 588-590.agora acerca de Freud. usando técnicas refinadamente rigorosas e uma esmerada ordem de exposição. Ibid. Ibid. 14. Para apresentar "a imaginação da semelhança". Berkeley e Condillac. Cf. para '(a representação do signo". Galilée. ao afirmar que evita o retorno à discussão anterior. Bergson. precisamente por sua natureza de "meditação"lO. Derrida). veremos que são convocados. 1989. preferencialmente. Foucault . Hegel."o esquema ou o espectro de uma problemática análoga" ou de "uma questão semelhante". 9)10. "a representação reduplicada". CANGUILHEM. além disso. MAJOR. 10. Rousseau.. os parágrafos (sobre o sonho e sobre a loucura) do texto cartesiano e segue. isto é. G. DERRlDA. Trad.Leituras da história da loucura.de inserção das filosofias. Finalmente. Lebrun descreve-o como "um livro de combate" e "um livro filosófico". de Kant. entre outros. certamente ("encadeamento sistemático de proposições))). de Husserl JJ1z . principalmente. No item I1I. Dessa relação apenas nominal. Locke. Dilthey. não de Descartes . lembremos a publicação bem posterior (Éd. Compara.11 janvier 1988. compõe todo o teor do item II. "apagamento enfim e sobretudo da determinação discursiva essencial (dupla trama do exercício e da demonstração)"ll.. 590-591. há chamadas à Logique de Port-Royal. 1994. com habilidade de mestre.A história da loucura na era da psicanálise". no item V. no final. na leitura do mesmo texto cartesiano: "omissão de elementos literais". Ignes Duque Estrada.

como é o caso de História da loucura. Após Descartes. "vida". a fenomenologia.. a presença de Kant. de "transcendentais". Veja-se também.e é para onde todo o livro se dirige -. 90 I Faucault. MACHADO. história natural. op. em seu último item (VI. cit. Desenharse-á. R... no livro de RABINOW e DREYFUS. 1995. Foucault retomará. Bem mais adiante. Isso no que concerne ao âmbito de articulações somente interdiscursivas. o positivismo. esquematizo aqui uma história muito longa. 136-138.Para além do estruturalismo e da hermenêutica.A trajetória da arqueologia de Foucault. Aliás.278. Hume e Rousseau. nos capítulos IX ("O homem e seus duplos") e X ("As ciências humanas"). Rio de Janeiro.. não há desigualdade de importância nem de prestígio ou. M. no mesmo livro. o capítulo VII ("Os limites da representação"). biologia. Vera Portocarrero. Importa observar que. e são evocados Descartes. 69. que descreve as transformações ocorridas na segunda metade do século XVIII. um trecho sobre as declarações de Foucault acerca de sua tese complementar de doutorado (que. "linguagem": trata-se. Em português: Dossier. a linguagem (economia. FOUCAULT. dos conhecimentos positivos com o pensamento filosófico. A entrevista também se encontra. lembremos. Foucault e a leitura dos filósofos I 91 . Para o primeiro caso. 17. de que o Hospital Geral é o marco institucional. Mostra a correspondência entre o campo transcendental kantiano das condições de possibili- dade do conhecimento e as categorias modernas de "trabalho".. 630. a dialética. simplesme-nte- nhecimento que coloca para Kant o problema de saber o que é a relação entre o sujeito moral e o sujeito do conhecimento.lá estão Hobbes e Hume. para o filósofo investigador da história. Uma trajetória filosófica . e certamente então reencontraríamos Descartes. op. filologia). sem desconsiderar outros filósofos. elas se alojam na confluência. teríamos visto o tecido de relações entre o plano discursivo e o extradiscursivo. R. a configuração moderna dos saberes e. "À propos de la généalogie de l'éthique: un aperçu du travail en cours". ambiguamente. 137. mas do objeto e do a posteriori. mas de modo genérico. biologia. 411. Rio de Janeiro. "As sínteses objetivas"). melhor dizendo. mas que permanece fundamental. Malebranche e Espinosa. tem-se um sujeito do co15. assim como Condillac.. Está bem claro que As palavras e as coisas. então. assim como para ilustrar a diferença entre eles. Assim como o pensamento de Kant é analisado em correlação com os saberes modernos "Sobre o trabalho. já que se trata da mesma entrevista reproduzida com modificações. Cf MACHADO. em apêndice.17 entre a filosofia e outros saberes dos respectivos períodos históricos. finalmente . traça agora a curva do classicismo para a modernidade e assinala. cit. enquanto condições de possibilidade de conhecimentos objetivos (economia. Duas passagens extraídas do livro biográfico de Didier Eribon nos servem para retomar conjuntamente os modos de presença das filosofias que estivemos denominando direto e indireto. com a diferença de que estas categorias situam-se do lado não do sujeito e do a priori. Mas observação semelhante pode ser feita também a propósito das relações entre a filosofia e práticas não-discursivas. longa e explicitamente. em um texto escrito muito depois (originado em uma entrevista de 1983). o lugar de surgimento das ciências humanas: elas emergem no entroncamento das dimensões positiva e filosófica dos saberes. gramática geral).16. entre outros. a vida. agora como o marco filosófico na partilha clássica entre razão e desrazão. Kant será reintroduzido. para empregar uma expressão de Roberto Machado. Se tivéssemos tomado outro exemplo. sempre. Ciência e saber . se compôs de tradução e introdução à Antropologia de Kant): 16. filologia). assim o de Descartes com os saberes clássicos (análise das riquezas. detalhadamente posiciona Descartes no limiar do classicismo como Kant no da modernidade 15 . essas duas pontas filosóficas daqueles períodos históricos: "Seguramente. quando também aparecerão. precisamente ou. Trad. in Dits et écrits. IV. 1982. Forense Universitária. "diferença de nível. Graal.

••• As filosofias comparecem. n. D. da desgraça. "Qui êees-vous. M. Já em uma entrevista de 1967.. nem tampouco na suficiência de suas singularidades. 176. M. Minuit. Histoire de la folie à l'âge classique). formulada por Foucault. 620. E conclui: "Falei-lhes de um desaparecimento das filosofias e não de um desaparecimento do filósofo. "Géometrie de la folie". agosro de 1962.. Trad. o que "desde Nietzsche caracteriza a filosofia contemporânea. enredadas no interior das histórias. além da compreensão estrutural. uma atenção mais ardente: a obra seria precisa sem ser inteiramente verdadeira. para que elas possam ser o que devem ser. é necessário cruzar análise estrutural e análise genética. diagnóstico do presente. obtida de um comentário de Michel Serres: A filosofia. 21.20. Qual é a situação dessa obra na disposição global e interna do sistema kantiano. Essa forma de inclusão das filosofias na história não é certamente descomprometida. da quarentena. no cerco interno dos sistemas. Mercure de France. Michel Foucault ~ Uma biografia. 1990. Em outras palavras. verdadeira função que podem ter hoje os indivíduos a que chamamos filósofos"21. lbid. do ostracismo e da excomunhão."( . 1968.. 125. com domínios diversos. São Paulo. Assim. ERIBON. a este propósito.18. E para ilustrar o que chamamos de presença indireta a citação sobre a tese principal de doutorado (Folie el Déraison. não houvesse uma visão secreta. de algumas reflexões. Concluamos com a sugestão.. professeur Foucault?". Creio que existe certo tipo de atividades 'filosóficas' em domínios determinados que consiste em geral em diagnosticar o presente de uma cultura: é a "Inútil seria esse rigor da arquitetura se. realizar um diagnóstico do presente". com saberes não-filosóficos.. mas espalhadas na exterioridade espessa das epistémes ou conectadas à heterogeneidade complexa dos disposltivos estratégicos. Não. Por isso é que no próprio seio da argumentação lógica. porém. 92 20. em vários momentos e de muitos modos. remanejado. Companhia das Letras. Hildegard Feise. Como essa obra terminal foi elaborada. Simplesmente J I 93 .. com práticas não-discursivas. essa geometria transparente é a linguagem patética dos homens que sofrem o suplício maior da rejeição. Cf.606. Foucault e a leitura dos filósofos Foucault. 19. Republicado em Hermes ou la communication. se por um lado resulta em um modo de história da filosofia.. mas quase piedoso. declara-se "filósofo" por reconhecer-se no trabalho de quem "busca diagnosticar. diagnóstico do presente As filosofias só estão associadas às investigações históricas do passado para possibilitar um olhar mais atento sobre nosso tempo. 18. o outro eu. a saber.. qual é a relação dessa Antropologia com o movimento 'crítico' desenvolvido por Kant? Análise estrutural. no seio da minuciosa erudição da pesquisa histórica circula um amor profundo.19. com objetos múltiplos. ) para compreender esse texto de Kant escrito. SERRES. 1.. pois.. 1188.. Pertence a certa escolha que. contracenando. por exemplo. não vagamente humanista. esse livro é também um grito . quase sempre.. do exílio. por outro é resultante de uma maneira de conceber a própria filosofia. in Dits et écrits. por essa gente obscura em que se reconhece o infinitamente próximo. lbid. transformado durante quase 25 anos. FOUCAULT. Assim. 119. Por isso começa-se a entender que uma história "exclusiva" das filosofias possa ser não apenas historicamente como ainda filosoficamente insuficiente. de que sucessivos sedimentos se alimentou? Análise genética. A compreensão da filosofia como "diagnóstico" é.

. para nosso uso. genialmente antecipou a nossa época. RAVEL._-' 1 I 9S . lI.. assunto da análise histórica. pela literatura. in Dits et écrits. Interessou-se por tudo. cit. envolvem o ver e o dizer. Os dispositivos são "moventes". 25l. 144. alguns aspectos das considerações de Deleuze sobre o que é o dispositivo. "Foucault: l'échique et l'oeuvre"..o poeta. reunindo as reflexões que acabamos de sugerir. é multiplicá-los. uma palavra interrogante. O atual é o transformávet o ((devir-outro)~ aquilo em que nos tornamos. Ed.exercício de vida. os poetas e os louCOS. RAjCHMAN.. Simplesmente . A filosofia. reunindo-as sob a categoria da "palavra transgressora. Em um texto de 1970. 1992. estão calcadas nos solos das épistemes e tecidas nas redes dos dispositivos? Retomemos aqui.. palavra transgressora Pertencente ao seu tempo. "Le piege de Vincennes".como transgredir se as filosofias. o louco. o seu outro. G. também em entrevista mais antiga (de 1966): "( . ) Nietzsche multiplicou os gestos filosóficos.-. "Assim. e o atual. 55. Jérôme Millon. in Michel Foucault philosophe. Foucault já aproximava os filósofos de "seus vizinhos. . Finalmente. M.. o gesto filosófico pode ser também capaz de excedê-lo. lire l'oeuvre. Grenoble.>23. apenas atrelar as filosofias ao estabelecido. um discurso não-cúmplice. Abrem também a possibilidade do discurso de resistência. a não-filosofia Como diria Merleau-poncy. diréction de Luce Giard. in Michel Foucault. em toda parte Dize~ que as atividades filosóficas existem "em domínios determinados" e que o diagnóstico que elas realizam remete a "uma cultura" significa também que elas não configuram um "domínio" específico. op. "Qu'est-ce qu'un dispositif?". como outros saberes e práticas. Há "linhas de fuga" e "todas as linhas são linhas de variação". 23. essas histórias que inserem a urdidura das filosofias nas tramas de objetos. o filósofo -. eu diria que é precisamente nos seus 'ensaios' para abrir a filosofia ao seu fora que Foucault era filósofo . in Michel Foucault philoso· phe. O dispositivo é "multilinear" e as linhas de que se compõe são linhas de visibilidade e de enunciação. "Sur le style philosophique de Michel Foucault ~ pour une critique du normal". 70. Rajchman • E o próptio Foucault. pela história. modo de existência. Cf. escreve]. se se quiser. FOUCAULT. in Dits et écrits I. Foucault e a. "Michel Foucault et Gilles Deleuze veulem rendre à Nietzsche son vrai visage".-. um pensamento sem morada. Trata-se. in Michel Foucault philosophe.m. é preciso que ela seja -:. Por isso.. saberes e práticas diversificados e as situam como peças de dispositivos historicamente dominantes não fazem. conjugar as filosofias a saberes e práticas nãofilosóficos que compõem epistémes e dispositivos não é reduzir os gestos filosóficos. leitura dos filósofos 94 I Foucault. 27. 24. 26. Com isto.25. A filosofia. M. Mas 22.. 25. senão que se constroem no espaço relacionaI com o seu diverso. 552. assunto do diagnóstico. de procedimentos que delineiam um modo outro de história da filosofia como estratégia de criatividade na contraface de dispositivos estratégicos estratificados. Em texto bem mais recente. em sua mobilidade. poderíamos acrescentar: para que a filosofia possa ser um olhar atento sobre o presente. são também linhas de forças e linhas de subjetivação. Assim. J. mesmo se em certos domínios permanece um homem do século XIX. DELEuzE.]. pela política etc. 185-195. o seu fora.24. Judith Ravel retoma essas "três figuras misturadas" .. a filosofia está em toda e em nenhuma parte. "Sur l'Imroduction à Binswan~er (1954)". MOREY.. necessariamente. Comportam o arquivo..antes de tudo e após tudo . "que foge a toda conivência. Foi buscar a filosofia em toda parte. as linhas do dispositivo se repartem em "linhas de estratificação ou de sedimentação" e "linhas de atualização ou de criatividade"26.. as coisas e as palavras.uma 22 espécie de filósofo malgrado ele".. Por isso.

VIII

OLHARES E DIZERES'

Fazer a cnêica é tornar difiéeis os gestos demasiado fáceis.
M. FOUCAULT, Dits et écrits, IV, 180.

Em busca do fio condutor
Os modos de distribuir os escritos de Foucault e recompôlos podem ser relativamente diversos, mas quase sempre se
sobrepõem e, sem dificuldades, complementam-se. O modo
mais freqüente, nomeado e renomeado pelos diferentes estudiosos e reconhecido pelo próprio Foucault, consiste em considerá-los ao longo de sua cronologia, situando-os, segundo o
critério dos grandes deslocamentos, em três grupos: quer se
fale de momentos, fases ou etapas, de áreas, campos ou domínios, de eixos ou vertentes, de planos, níveis, camadas, terrenos
ou patamares, eles configuram, em seu conjunto e sucessivamente, uma arqueologia do saber, uma genealogia do poder e uma
genealogia da ética.
* Conferência proferida por ocasião do Colóquio FoucaulrjDeleuze, na
Universidade Estadual de Campinas, novembro de 2000. Publicada em Imagens de Foucault e Deleuze, ressonâncias nietzschianas (RAGo, M., ORlANDI, L. 1.,
VEIGA-NETO, A., orgs.), Rio de Janeiro, DP&A editora, 2002.
olhares e dizeres

I

j

j

97

Contudo, pretendo referir-me aqui a outros modos ou critérios de organização, que não se opõem ao mais usual e que, a
meu ver, são aproximáveis entre si. Para isso, evoco três passagens, duas das quais recolho em Foucault e a terceira em Deleuze.
Já no "Prefácio" de As palavras e as coisas, de 1966 - antes,

portanto, da produção chamada genealógica -, o próprio Foucault propunha certa organização de seus escritos, e o critério era
então o da ênfase no Outro ou no Mesmo. Assim, enquanto Históri4 da loucura perguntava pela "diferença" que limita internamente uma cultura, As palavras e as coisas, respondendo "como em
eco", investigava a "proximidade das coisas"; enquanto História da
loucura "seria uma história do Outro" - daquilo que, em uma
cultura, na nossa, "é ao mesmo tempo interior e estranho" -, As
palavras e as coisas "seria uma história do Mesmo" - daquilo que,
em nossa cultura, preside "a ordem das coisas", podendo ser
"distinguido por marcas e recolhido em identidades"l.
Anos depois, na elaboração de um texto que tem por tÍtulo o seu nome - um verbete para um Dicionário de filósofos, de
1984 -, Foucault reconstitui a organização de seus escritos e,
de certo modo, retoma, como que obliquamente, aquele critério usado no início de sua trajetória, o do Outro e do Mesmo.
Reúne então, retrospectivamente, toda a sua produção sob o
que ele chama de um "projeto geral": investigar a experiência
histórica da constituição do sujeito nas formas diversas de sua
subjetivação e de sua objetivação. E, como que atravessando
este projeto, um "fio condutor": a questão dos "jogos de verdade" ou "das relações entre sujeito e verdade"z.
Dentro desse "projeto" e segundo esse "fio condutor", realizam-se, no conjunto e no decurso de sua trajetória, dois modos de análise: no primeiro, a análise dos "jogos de verdade"
pelos quais o sujeito torna-se objeto de saber na forma do co1. FOUCAULT, M., As palavras e as coisas, "Prefácio", 13-14.
2. Cf. "Foucault" in Dits et écrits IV, Paris, Gallimard, 1994, 631-636. O
verbete "Foucault" pode ser encontrado na tradução brasileira: HUISMAN, D.,

98 I Foucault. simplesmente

nhecimento científico, desembocando nas chamadas ciências
humanas com sua característica normativa; no segundo, a análise dos "jogos de verdade" pelos quais o sujeito é constituído
como objeto de conhecimento, alojado, porém, no "outro lado
da divisão normativa". Pode-se ver, no primeiro caso, o sujeito
enquanto "distinguido por marcas e recolhido em suas identidades", de As palavras e as coisas. No segundo, trata-se do "diferente", o louco, o doente, o delinqüente, de História da loucura, O

Nascimento da clínica, Vigiar e punir'.
Finalmente, e sempre no interior do mesmo "projeto geral",
aos dois primeiros tipos de análise seguiu-se o mais recente: investigar "a maneira como o sujeito faz a experiência de si mesmo
em um jogo de verdade no qual se relaciona consigo próprio"4.
Reunindo esta reconstituição às considerações do "Prefácio" de As palavras e as coisas, pode-se dizer que, na seqüência dos
grupos de escritos, o fio condutor é sempre o das relações entre
sujeito e verdade, tramadas nos jogos do Mesmo e do Outro.
Resta acrescentar que, quando os escritos se centram no Mesmo, descrevem a epistéme, o círculo de uma época, o instituído,
o sedimentado. Quando se voltam para o Outro) realçam o dispositivo, que tanto comporta a estratégia dominante como se
abre à possibilidade do novo, da resistência e da mobilidade.
A aproximação dessas passagens, a mais antiga e a mais
recente, permite, por sua vez, ligar ambas a alguns aspectos da
leitura que faz Deleuze acerca do percurso foucaultiano. Os
três momentos desse percurso são por ele descritos em termos
de "linhas" que compõem os diversos dispositivos analisados por
Foucault. As mudanças entre eles são referidas como "crises",
"desvios", "brechas", "linhas quebradas", "novas linhas" etcs.
Dicionário de filósofos, trad. C. Berliner, E. Brandão, I. Castilho Benedeti, M. E.
Galvão. São Paulo, Martins Fontes, 2001, 388-391.
3. Ibid., 633.
4. Ibid., 633.
5. Cf. DELEuzE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?" in Michel Foucault philosophe
- Rencontre Internationale, 1988, 185-195, que retoma, particularmente, o capítuolhares e dizeres

I 99

No primeiro momento - o da dimensão do saber -, tratase, especialmente, de "linhas de visibilidade e de enunciação":
"pensar é, primeiramente, ver e falar ... "6. Isso corresponde, nos
termos do citado verbete de 1984, aos jogos de verdade segundo os quais o sujeito é constituído como objeto para um saber
reconhecido; ou ainda, nos termos do "Prefácio" de As palavras
e as coisas, ao sujeito "visível" e "dizível", na ordem do Mesmo.
No segundo momento - o da dimensão do poder -, tratase, especialmente, de "linhas de forças": elas operam um "vai-evém do ver ao dizer", fazem "entrecruzar as coisas e as palavras"7. É o pensamento na elaboração de "estratégias". Nos termos dos dois textos anteriormente considerados, significa que
isso inclui tanto o pólo das "identidades" como o das "diferenças"; ou, se se quiser, tanto o lado "instituído" da "divisão normativa" como seu "outro".
No terceiro momento - o da dimensão ética -, trata-se,
especialmente, de "linhas de subjetivação": elas apontam para
"novas possibilidades de existência"g. Não mais "o domínio das
regras codificadas do saber (... ), nem o das regras coercitivas do
poder (... ), são regras de algum modo facultativas"9. Nos termos
dos textos vistos, isso corresponde à "experiência que o sujeito
faz de si" na relação consigo próprio, ou ainda, se se quiser, à
possibilidade de um devir do Mesmo em Outro.
lo "Pensar de outra maneira" de seu livro Foucault, Paris, Minuit, 1986. Vejase também as três entrevistas sobre Foucault, "Rachar as coisas, rachar as
palavras", "A vida como obra de arte" e "Um retrato de Foucault", reunidas
em Conversações, trad. P. P. Pelbart, São Paulo, Ed. 34, 1992.
6. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", in Conversações, 119. Veja-se ainda,
no mesmo texto, 119-122; 126; e no texto "Um retrato de Foucaulr", 133-134.
7. DELEUZE, G., "Qu'est-ce qu'un dispositif?", in Michel Foucault philoso-

Finalmente, reunindo as três referências, busquemos refazer o fio condutor que percorre o trajeto foucaultiano. Digamos
que se trata das relações entre sujeito e verdade, ou mesmo do
sujeito com sua verdade; que essas relações são tomadas no jogo
entre o estabelecido e o mutável, vale dizer, entre o Mesmo e o
Outro; e acrescentemos agora que, nesse jogo, as relações são
visíveis e dizíveis de modos diversos, isto é, que olhares e dizeres
- analogamente aos pólos do idêntico e o do estranho - são
sedimentados ou mobilizadores, dependentemente daquilo que
nós, historicamente, somos capazes de ver e dizer.

Imagens e palavras -

um exercício

Usando o fio condutor brevemente reconstruído, proponho que façamos um pequeno jogo, alinhavando com ele alguns comentários sobre o filme Meninos não choram lO•
Personagens principais e ambientação geral

• Brandon ou Teena Brandon: uma jovem de 21 anos que se
sente) se veste e se comporta como um rapaz; tem um primo
que é também seu confidente.
• Lana' jovem aproximadamente da mesma idade) mora com a
mãe e trabalha em uma fábrica; é amiga de Candace.
• John: namorado de Lana; é amigo de Tom e ambos são expresidiários.
Os personagens são todos de classe média baixa ou pobres,
arriscam-se em aventuras, são usuários de drogas. O contexto é o
de uma pequena cidade americana (Falls City). O filme todo
transcorre em ambientação de pouca luminosidade, ~esmo quando a cena acontece ao ar livre (como no episódio do estupro).

phe. 186.

8. DELEUZE, G., "A vida como obra de arte", 120.
9. DELEUZE, G., "Um retrato de Foucault", in Conversações, 141. Veja-se
ainda ''Rachar as coisas, rachar as palavras", 116; "A vida como obra de arte",
123; 125. "Qu'est-ce qu'un disposicif?", in Michel Foucault philosophe, 187.

100 ! Foucault. simplesmente

10. Boys don't cry - 1999. Direção: Kimberly Pewirce (também um dos
autores do texto). No elenco: Hilary Swank (Oscar de melhor atriz), no papel
de Teena Brandon; Chloé Sevigny, no papel de Lana; Peter Sarsgaard, no
papel de John. O enredo reconstitui uma hiscória real ocorrida. em 1993.
olhares e dizeres

! 101

na cela feminina. faz o relato das agressões. quando posta sob o olhar do primo/confidente parece ingenuamente tola. se se 11. localizada no sexo. exceto na última vez. Brandon tem sobre si o olhar e o dizer da verdade "reconhecida": verdade una. pede. Cobram-lhe segredo do ocorrido e conduzem-na de volta à casa de Candace para que se lave. Resumo do enredo Na cena inicial. Leva-a então à sua casa onde. Candace vasculha os objetos pessoais Palavras e imagens • De Brandon. Em seguida. John e Tom surpreendem Lana e a levam também à casa de Candace. Desconhecedora dessas informações. Quando presa. Mas Brandon não é bem ele.que Brandon dirigia a mando de John e Tom -. olhares e dizeres I 103 102 I Faucault. testemunhou contra John e foi condenado à prisão perpétua. quando é por ela despido. eis o que diz a Lana: "Quer de sua hóspede e faz a mesma descoberta. não se despe.Há uma última cena de amor em que Lana faz Brandon despir-se. como se perscrutassem sua "verdade". sendo porém submetida a uma espécie de interrogatório informal que quer desvendar não o estupro mas a natureza de seu sexo. sozinha. Uma pessoa que tem ór- põe fechar-se a sós com ela. indignados. apenas abre a porta e comunica a todos que Brandon é homem. teve uma filha e voltou a morar na pequena cidade. essa mesma visão. é mais ela que ele". Brandon vai à polícia e. Tenta comportar-se como o grupo de jovens que acaba de conhecer. Apaixona-se por Lana e é correspondido. É Lana que a interrompe. Desencadeada por um acidente de carro . comprometendo-se a dar. expondo-a nua ao olhar de todos. em seguida. "toma a estrada"ll. começa quase mecanicamente a despir-se a fim de que Lana pudesse testemunhar sobre sua "verdade". uma investigação policial revela sua identidade feminina. vai. Teena Brandon é levada presa. ou. relatando-a aJohn e Tom. contam à mãe de Lana. Brandon consegue escapar e encontra Lana. Lana. Na cena final. Em suma. sobre si mesma Vê-se como um rapaz e faz saber que quer mudar de sexo. desesperadamente. estranha encontrá-la em uma cela feminina. Também se vê examinada pelo olhar de Lana ou o de sua mãe e. Quando têm relações amorosas. por sua vez. especialmente os rapazes. aos olhos de todos. sob eles. pro- saber a verdade? Sou hermafrodita. Lana. Decidem fugir juntas. é despida por John e Tom. meio ao acaso. gãos femininos e masculinos. à pequena cidade onde moram Lana. todos os esperam. Após o banho. expressão que repete aos outros para tentar definir-se. que. ameaçada. Quando fechada no quarto com Lana. recua. que apaguem as luzes. Quando. mas sua única preocupação é tirá-la dali. Brandon quer ser rapaz e produz sua transformação. Tom colaborou com a acusação. Inquirida sobre a identidade sexual de Brandon e buscando impedir que a forcem a despir-se publicamente. Entre seus objetos pessoais encontra-se um pequeno livro sobre "crise de identidade sexual". Sob seu olhar perplexo. John e Tom agarram Brandon e brutalmente lhe tiram as roupas. Hospeda-se na casa de Candace. alguns anos depois. Brandon vai então à casa onde se hospedara a fim de apanhar suas coisas. sua mãe e seus amigos. Lana busca Brandon na prisão. quase em murmúrio. Aparentemente sem vínculos (salvo os raros encontros com um primo). Simplesmente • . com imensa dificuldade. que a faz ser levada a um hospital. matam a tiros Candace e Brandon. Informações em notas finais: John foi condenado e está apelando da pena de morte. "tomar a estrada". Levam-na depois a um lugar ermo onde a espancam e estupram. O nome de Brandon é Teena. seu testemunho da "verdade". Depois de alguns momentos com ela no quarto. Quase ao mesmo tempo.

reunidas e contrapostas em dois pares. Por isso é que a "verdade" de si mesma estaria perigosamente exibida em seu desnudamento. • Da câmera e o do espectador sobre Brandon Para capturar o olhar da câmera . nos objetos vasculhados) a verdade "encoberta". Eis um de seus dizeres: {(Também tenho sentimentos estranhos". por sua vez. não sem alguma ambiguidade: cCDirei a eles o que querem ouvir. declara. aos estupradores) que o personagem se dispa. e comprimindo os seios. estupradores e espectador. é certo. Na cena em que Brandon se declara hermafrodita. mas meio caricata) apenas uma espécie de falso artifício. uma in- desejada cumplicidade. entrecruza imagens e palavras. é Teena. Tudo o mais é de menor importância ou é falso.quiser. sobre Brandon Candace "descobre". Segunda situação 1.mçiação". Em suma. tudo se passa como se a lente da câmera intermediasse entre eles. afinal. veste-se depois. é preciso que as luzes se apaguem. focalizando as curvas femininas de coxas e quadris) parece finalmente fornecer ao espectador a informação aguardada. a mesma. seu mentiroso". que. Simplesmente Primeira situação 1. a câmera faz ver seu corpo seminu. come- ça a insinuar-se no espectador uma dúvida sutil. O que sabemos ser a verdade". a câmera percorre o corpo. Quando na prisão. no dispositivo instituído da sexualidade. ((só há um modo de saber a verdade". e por isso também. E no de] ohn: "Só quero a verdade. Na cena inicial. Assim. ele próprio invisível e indizível. 2. as do poder que. agora enfim nu. tem que estar inscrito na carne. de que precisavam os estupradores. Indica "linhas de forças". só interessa conjeturar sobre seu sexo e por que ('nunca fez amor antes do estupro~'. E o nome.que conduz o do espec. no disfarce do chapéu. sobre Brandon e sobre si mesma Lana vê Brandon sem suspeitas e admite ver-se confusa. afirma: "Não me interessa se você é meio macaco. despir. mas com a camisa cobrindo-o até as pernas. Nesse par de cenas) o personagem aparece como uma figura ambivalente. nas roupas. esta é a única personagem com indícios de críti- ca e sugestão de perplexidade. aliás. Nesse par de cenas. sustentando aquilo que pode ser "distinguido por marcas e recolhido em identidades". Quando se fecha no quarto com Brandon e a impede de despir-se. de costas. a verdade está na transparência do visto e na unicidade do dito. olhares e dizeres I 105 . revelando o circuito de condições dentro do qual somente alguma coisa como a "verdade" do sujeito é visível e enunciável. Ao policial que a interroga. no dizer de Tom. simplesmente mentira. essencial e universal. verdade identitária. Vou tirá-lo daqui". 2. de resto. na expectativa de resolvê-la) só lhe resta (como. Na cena em que a personagem se instala na casa de Candace. • De outras personagens. Na cena do banho) após o estupro. John e Tom localizam a marca da identidade no "nome" de Brandon. 104 I Foucault. a câmera faz ver Brandon "transformar- se" em rapaz. Em suma.e os dizeres que o acompanham. no corte de cabelos. tador . nos genitais postiços. ••• o filme traça "linhas de visibilidade e de em. • De Lana. quase andrógina. proponho o destaque de quatro cenas.

de M. 14. T. ou ainda Alexina Barbin. Situam-nos na difícil passagem entre o que já se diz e vê e o que não ainda. História da sexualidade. entre o agora e o devir. um som destoante.No plano das evidências. Percepção e discurso estão cercados pelo mesmo círculo de condições de visibilidade e dizibilidade a que ela própria pertence. fazem-nos "atentos ao desconhecido que bate à porta.. como pensamento de limiar que o pensamento filosófico é uma . trad. se reconhece tributário da fenomenologia e fiel à lição de Merleau-Ponty naquilo "que constituía. Francisco Alves. Mas não passa de vislumbre.. 12. permanece nos ecos do instituído. dar a elas a indispensável mobilidade. 13. à semelhança do Diário de Hercu- vez. 13. nem o dizer filosófico prediz. 787. ser um depoimento contra a violência e uma resistência ao preconceito.ontologia do presente. ou ainda Abel Barbin. crad. Prefácio a Herculine Barbin. DELEUZE. descrevendo a atividade filosófica como "trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento". a filosofia vê e diz.O uso dos prazeres. para line Barbin. Rio de Janeiro. para ele. Graal. porém. Isso significa que. De algum modo. IlI. Em busca da filosofia Atitude de "diagnóstico". FoucAuLT. abril/79. retomo uma passagem tantas vezes lembrada.. enquanto dispositivo. o vislumbre talvez de um dispositivo outro. Le Nouvel Observateur. creio. Apenas. mais de uma bienta todo o filme. como aquela penumbra que am- Sob esse ponto de vista. o Mesmo e o Outro. se se instaura no presente. Todavia. ). simplesmente olhares e dizeres I o 107 . como escreveu Deleuze. FoucAuLT.. Rio de Janeiro. entre o que somos e o que estamos vindo a ser. 1982. pretende. O diário de uma hermafrodi· ta. 1984. a tarefa filosófica essencial: jamais consentir em estar totalmente à vontade com suas próprias evidências (. M. 106 I Foucault. é como para perceber por dentro suas oscilações e falar de seus abalos. FOUCAULT. 11 . em Dits et écrits. designada em seu próprio texto ora pelo nome de Alexina ora pelo de Camille". É assim.. da Costa Albuquerque. in Michel Foucault philoso· phe. Franco. Foucault também nos fala daqueles "momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber diferentemente do que se vê é indispensável para continuar a olhar e a refletir'J14. É também sob essa perspectiva que Foucault.13. em que. o filme faz saber que. lembrar-se de que. é preciso olhar ao longe mas também muito de perto e em torno de si"ls. 15. M.. "Qu'est-ce qu'un disposicif?". 191. "Pour une morale de l'inconfort". refaz a tonalidade do Mesmo e. M. também Teena Brandon "foi um desses heróis infelizes da caça à identidade"12. G. Mas vê e diz criticamente. Raras vezes e somente ao olhar e dizer de um personagem esboça-se uma luz desfocada. de r. O olhar filosófico não prevê. certamente. assim como "Herculine-Adé- laide Barbin.

2004. instituições diversas. em toda época e em todo lugar. partilhando tendências diferentes e. presta-se a interpretações diversas e só com a prática adquire sentido preciso. Partidos e regimes políticos.. 111. freqüentes vezes opostas. Ed. em Brasília. A cidade grega. se presta aos mais variados usos.) um princípio político. a situação de termos cujo uso foi de tal modo banalizado que acabam por perder toda consistência conceitual.). org. T. e não sem razão. são qualificados ou se autoqualificam como democráticos. Democracia é uma palavra que.I ..mara dos Deputados. Campos.IX DEMOCRACIA COMO PRÁTICA Rlgumas reflexões a partir de Michel Foucault e Cornelius Castoriadis* (. Faculdade de Campos. GLOTZ. O texto. Mas este é apenas um ângulo possível de consideração. revistO e modificado. democracia camo prática I 109 . promovido pela Comissão de Legislação Participativa da Câ.entre o murmúrio e a palavra (CALOMENI. foi publicado em Michel Foucault .. governantes e representantes sociais. G. Alguns reconhecem nisso. em dezembro de 2001. * Palestra proferida por ocasião do Seminário "Democracia e Soberania Popular". c. como se sabe..

o uso que atribui ao termo "insignificância" para caracterizar nossa épo- tóricos de exercê-la que lhe conferem diferentes significados.. à democracia pertencem. Traços da atualidade fato de se tratar de um conceito historicamente circunscrito. 1998. a democracia seria «uma palavra oca" se não houvesse sido praticad4 pelas pessoas do povo: "Era também necessário. tentarei delinear alguns sinais que marcam esse tipo de sociedade. é antes uma prática. Assim. em seguida. de Araújo Mesquita e R. Afinal.. G. GLOTZ. aqueles que a descrevem e denunciam. o Para elaborar esse esquema. proponho considerar aqui um recorte histórico particular: o que demarca os contornos de nossas socieda. e org. Em uma entrevisra radiofônica realizada em 1996. dedicassem seu tempo ao serviço da república"'. Michel Foucault e Cornelius Castoriadis. adestra as pessoas. 2. 1994. o aparecimento da sociedade moderna é assinalado pelo declínio de um tipo hegemônico de poder. FOUCAULT. pois. 111 . in Dits et écrits. capilar.Outros também cabem.trata-se. móveis. Trad. O poder disciplinar não é apenas repressivo ou ostensivamente opressor. incrod. que o esvaziamento conceitual não se deva apenas à vulgarização do termo. a essa natureza de certo modo vaga vincula-se. portanto incessantemente construído e reconstruído. Mais sutil. Difel.: "Soberania e disciplina". numa palavra. 110 I Foucault. de Roberto Machado. difuso.des ocidentais modernas. primeiramente darei realce a alguns aspectos. e são os modos his- Segundo Michel Foucaulr (1926-1984).mas se espalha.. ao conceito. "instrumento fundamental para a constituição do capitalismo industrial e da sociedade que lhe é correspondente.. monárquico.2. ainda que muito esquematicamente. em práticas minuciosas exercidas por todo o corpo social. 105. uma necessária flexibilidade e uma permanente incompletude. sempre a partir dos mesmos pensadores. por assim dizer. de modo tal que parece incompatível com esse conceito que ele se substancialize em uma significação única e definitiva. Paris. ocupadas em ganhar a vida.I. múltiplos. enfim. A cidade grega. talvez mais fundamentais. o autor explicita. como por princípio. Não se mantém numa unidade..como na figura do Estado soberano . "Cours du 14 Janvier 1976". permitir que as pessoas do povo. 11 Da prática. recobrindo um sentido universal. Simplesmente democracia como prática . para que a democracia não fosse uma palavra oca. em tom coloquial mas não menos denso. retomando a expressão de um historiador helenista clássico. São Paulo/Rio de Janeiro. recorro a elementos extraídos das análises de dois pensadores contemporâneos. IH. "produz" comportamentos. Não se exibe na identidade de um poder central e superior . de poderes. e em seguida publicada. Gallimard. mais escuros de nossa sociedade. hábitos. micropoderes cujo funcionamento dá sustentação e eficácia ao macro poder estatal. Graal. 188. Pode-se pensar. Rio de Janeiro. que têm início por volta do começo do século XIX e às quais. 1. Cones de Lacerda. Assim.c. de alguma forma. Às características desse tipo de sociedade vinculase a construção das significações modernas de democracia. antes. E. ele é "positivo". complementarmente. as luzes de algumas sugestões. pouco antes de sua morte. Vejamos agora algumas reflexões de Cornelius Castoriadis (1922-1997). 1. heterogêneos. pode-se dizer que. desde o momento histórico de seu surgimento. Mais ainda. H. mas se exerce no plural . 13. in Microfoicado poder. Tradução brasileira. A partir de suas idéias. o poder soberano. anônimo. ainda pertencemos. 1980. na Atenas do século V a. ed.. voI. gestos. mas à natureza mesma do conceito de democracia. e pela insralação crescente de outro tipo de poder por ele denominado «disciplinar" ou "de controle". M. Não é primeiramente uma idéia. isto é. por exemplo..

Ibid. Prospectivas Para Foucault. delinear e anunciar um horizonte de transformações. Cada qual dos dois pensadores descreve e denuncia o presente com o intuito de questionar nossas evidências de pensamentos e nossas aderências de condutas e. 1998 . 38. 9.doce e bela utopiade sair do conformismo generalizado. 8. as lutas. São Paulo. brevemente. Ibid.• 29. E. na direção de mudanças. heterogêneas. numa espécie de apatia política"5. 39. que é a do ripo disciplinar e de controle. de sua partici pação na coisa comum. pontuais. A democracia representativa "não é uma verdadeira democracia. Éd. Dizer isso é uma tautologia. é na experiência de uma "contra-educação política" que a "insignificância" os alcança. então. sentimos vibrar uma retomada da atividade cívica. 7. a partir daí. reproduzo algumas passagens de Castoriadis. Coloca-se. provisórias. é preciso confiar e é preciso trabalhar nessa direção"7. Como os poderes. por um lado. Primeiramente eles se representam a si mesmos ou representam interesses particulares. Cf ibid. o problema do papel dos cidadãos e da competência de cada um para exercer os direitos e os deveres democráticos com a finalidade . Rodrigues. 39.. móveis. apoiando-se na afinnação de Aristóteles .. Como as pessoas estão longe de ser idiotas. 30. 27 e 33. Castoriadis opõe a boa "educação polírica" que se faz pela ariva participação das pessoas nas coisas comuns. 'adaptar-se' para não incorrennos em alguma espécie de arcaísmo.. ou de "conformismo generalizado". tradução Salma Tannus Muchail e Maria Lucia. a indicação de algumas pistas. a compreender que a 'crise' não é uma fatalidade da modernidade à qual seria preciso submeter-se. de "inibição" para agir6• Mas essas análises de nossa sociedade não se reduzem a seu desenho austero.. simplesmente democracia como prática I 1 I 113 . Seus representantes muito pouco representam as pessoas que os elegem.."cidadão é aquele capaz de governar e ser governado" -. "Enquanto as pessoas deveriam habituar-se a exercer todas as espécies de responsabilidades e a tomar iniciativas. 4... 38. apresentação Maria Lucia Rodrigues. precisam ser plurais. para serem eficazes. ) e creio que só sairemos dele [do esgotamento ideológico] pelo ressurgimento de uma potente crítica do sistema e um renascimenco da atividade das pessoas. "( . É dessa perspectiva que apresentarei. É a "insignificância" que. Eles são descritos como "profissionais da política" ou Upolíticos de carteirinha"3." 4. a todo tipo de poder responde um tipo de resistência e de luta. Post-scriptum sur l'insignifiance. governando 9• 3. 6. "Mas. 2001."s Àquela "contra-educação política". 2. Ibid.. por outro lado. Entretiens avec Daniel Mermet. de algum modo. acompanhado de uma "disposição geral" que é de "resignação". Paris. mas atuando estrategicamente na trama molecular dos poderes sociais. 30-31. CASTORIADIS. não se terá bom êxito transformando do alto o regime central de governo ou o aparelho de Estado. De orientação similar. 40-44.ca. 5. Ibid . Quanto aos cidadãos comuns. Tradução brasileira: Post-scriptum sobre a insignificância. c. faz ver que nisso consiste a educação política: em aprender a governar. estabelecendo "redes" dentro da rede do poder. de l'Aube. Veras Editora. prefácio Edgard de Assis Carvalho. o resultado é que elas crêem cada vez menos e se tornam cínicas. distingue os políticos de hoje. 47-48. lobbies etc. No caso de transformação da sociedade moderna. mas é preciso esperar. Ibid. Aqui e lá começa-se. habituam-se a seguir opções que outros lhes apresentam ou a votar por elas. 112 I Foucault. Há um "esgotamento ideológico".. nesse momento.

provisórias. A partir das reflexões que fizemos. Casroriadis. em uma idéia mais ampla. ser-lhe bem pouco acolhedora. Les mots et les choses. L FOUCAULT. cuja conquista é tanto mais alcançável quanto mais se praticar a autonomia de pensamentos e de condutas. móveis. M.deveria.404. contribuindo assim para sacudir as apatias.. 1944. usa a expressão "sociedade autônoma"IO e nos convida à difícil porém verdadeira democracia. flexíveis. nos convoca à saída de um "estado de menoridade') . 2) dispor-se à educação política que propicie ao cidadão comum a aprendizagem de "governar e ser governado". Foucault. um quase gesto. "Qu'est-ce que les Lumieres?" in Dits et écrits IV. Depois dos já polêmicos escritos anteriores (principalmente História da loucura). Cf. COMO NA ORLA DO MAR. ibid. M. reúno os dois autores que escolhi como apoio. 11. pontuais. Gallimard. Estas são. por sua vez. Paris. ) então se pode apostar que o homem se desvaneceria. 114 ! Foucault. algumas predisposições que podem nos orientar rumo à maioridade democrática. Martins Fontes. 1966.que é aquele em que se é conduzido por outrem .para o "estado de maioridade" . descrevo. meio teatral. . um rosto de areia" J I 115 . a apontar o iminente desaparecimento do sujeito: "( . Mas suficiente talvez para nos predispor a certas condições indispensáveis se quisermos fazer de nossa própria prática um lugar de transformações e de superação de nossas desesperanças. 398. É um norte apenas. desloca o homem do centro da história e da origem dos saberes. 10. eis certamente. um rosto de areia"1. como na orla do mar. que se mantém no estrito plano dos discursos. um fragmento de sua trajetória . trad. A atmosfera intelectual da época . em maio de 1998. Simplesmente como na orla do mar. O livro..de 1966 a 1970 _ permitindo-me misturar considerações conceituais com curiosidades biográficas. UM ROSTO DE AREIA" Notas sobre maio de 68* Para situar Foucault relativamente a maio de 68. 52.que consiste no governo ou condução de si mesmo. Gallimard. Cf FOUCAULT. Governo de si ou autonomia. na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.que precedia de perto 68 . Muchail. um norte para balizar nossas tentativas de exercício democrático. no final daquela entrevista.111 x Finalmente. As palavras e as coisas. Em u~a avaliação * Palestra proferida por ocasião da Semana de Ciências Sociais "196830 anos. possivelmente. sem nenhuma articulação com a ordem das práticas sociais. T. o mundo é Outro?"... São Paulo. em abril de 1966 é publicado As palavras e as coisas. no comentário de um texto de Kant l l . abalar os conformismos. 562·578. Paris. 1981. E se encerra com aquele prenúncio solene. brevemente. compondo pistas diversas que sejam capazes de convergir em alianças e pactos em nome de causas democráticas compartilhadas. de S.. algumas dessas condições podem ser identificadas: 1) dispor-se à pluralidade de participações heterogêneas. Texto inédito. mobilizar nossas inibições. supostamente.

em relação aos problemas reconhecidos como válidos e importantes. o mar. e ERIBON. M. 23-84). de outro. Feist. eu diria que. seu próprio vocabulário.. da esquerda. As coisas estavam se desagregando e não existia vocabulário apto para exprimir esse processo. Em pleno Foucault . contudo.. de reflexão geral... aconteceu. Cabral. publicada em II Contributo. Ora. Companhia das Letras. "Repensando essa época. Como lembra o biógrafo de Foucault. Gallimard. Paris.retrospectiva. perguntou-me ela.70. todas as posições humanistas relativas ao sujeito. Cf. por ocasião de uma entrevista realizada anos mais tarde (em 1978. simplesmente que havia de produzir-se em maio de 6S?"'. As palavras e as coisas não era o formidável anúncio da rachadura geológica de nossa cultura humana. 160. eis aí. No momento em que eclode maio de 68. "acontecimento editorial do ano. "Chronologie". do centro. as pessoas lêem a obra Se foi possível dizer que se estava "em pleno Foucault". Era pancadaria de todos os lados.1980. a grande excomunhão de As palavras e as coisas por parte de todos: Les Temps Modernes) Esprit. D. jan. ao que parece. "Foucault vende como pãezinhos" é título de um artigo do momentos.. As mutações em curso produziam-se relativamente a um tipo de filosofia. 116 ! Foucault. Com efeito. tão particular.. 'Onde?'. FOUCAULT.367-368.4. hoje em dia. Uma passagem escrita em 1967 nos diz O que pensava ele sobre a Tunísia (e. a um tipo até de cultura que era. Dits et écrits I. diante das manchetes sobre a primeira revolta estudantil. "Entretien avec Michel Foucault". não estava lá. a melhor venda do verão".. D. M. em suma. São Paulo. o que estava em via de acontecer não tinha sua própria teoria. in Ditsetécrits IV. 6. em definitivo. Michel Foucault) uma biografia.. Depois de apontar motivos de ordem mais teórica. trad. as resistências a certas aproximações com o estruturalismo e. publicada em 1980). 367. o fato de que não se podia levar muito a sério alguém que. por comparação. a grande tepidez da África. explicar: 2. ERIBON. F. Provavelmente foi só no Brasil e na Tunísia que encontrei nos estudantes tanta seriedade e tanta paixão. viera buscar um retiro sem ascetismo. sugere outros: "E também. se ocupava com a loucura e. como professor de filosofia. Ensaio. no conjunto. DOSSE. O livro não deveria vender mais que duzentos exemplares. S. M. Ed. História do estruturalismo I. reconstruía uma história das ciências de modo tão extravagante. 32-33. em As palavras e as coisas. com uma calma. humanista ções publicadas pelos jornais da época. 3. instalara-se em uma pequena cidade na Tunísia. afinal. FOUCAULT. em geral. paixões tão de Foucault na praia ou a exibem pelas mesas de bar para mostrar que não ignoraram tal acontecimento. disse a minha mulher. "segundo as descri- pois. A convergência desse conjunto de razões provocou o anátema. de um lado. chegamos lá. Didier Eribon. comprei os jornais na estação de Lyon e. ora. estranha. História do estruturalismo. 1978. . FOUCAULT. )"6. as pessoas talvez reconhecessem como que uma diferença e ao mesmo tempo se revoltavam por não reconhecer o vocabulário do que estava em via de acontecer (. Le NouveZ Observateur. DOSSE. Paris. como na orla do mar. São Paulo. um rosto de areia" I 117 . in Dits et écrits IV. 7. Trombadori. Desde setembro de 1966. Foucault realça algumas razões para um esperado insucesso. tenta. tem sobre a Tunísia: o sol. 1990. Na verdade.. é certamente esse tipo de reconhecimento que está tão vivo no depoimento de Maurice Clavel: "Quando desembarquei em Paris. como a supervalorização do marxismo. 1994. de H. naquela mesma avaliação retrospectiva. encontrei estudantes tunisianos e então aconteceu o inesperado. O artigo foi publicado em Le Nouvel observateur. um tanto genericamente. trad. sobre o Brasil): "Eu viera por causa dos mitos que todo europeu.. o da primeira metade de nosso século. 159. da direita.jmar. 4. vendeu dezenas de milhares"z. n.. 1993. o próprio Foucault..l. no dia 3 de maio.. se quisermos. de A. Inusitado êxito que Foucault. sua repercussão foi "fulgurante"). Michel Foucault. Cf. "Entretien avec Michel Foucault" (com D. 70.

"La philosophie strucruraliste permet de diagnosttiquer ce qu'est 'aujourd' hui'''. Michel Serres. um estudante é espancado por policiais.. onde assiste a um comício e participa das últimas manifestações na Sorbonne. dez e mesmo quatorze anos de prisão. distribuindoo ou convocando à greve. também comprometeu-se intensamente com atividades políticas. fundada sob o então ministro da Educação. não estou certo de como na orla do mar. M. Na Universidade de Túnis as revoltas estudantis começaram bem antes: no final de 66. FOUCAULT..175). 79. ninguém o conhecia por outra coisa que não seu hábito de trabalhar desde o amanhecer diante das janelas de sua villa. recusa o reconhecimento de validade nacional para o ensino da filosofia ao diploma obtido em Vincennes. em janeiro de 1970. in Dits et écrits I. Os professores franceses intercedem e Foucault. 78. atrelados a questões palestinas e às oposições ao governo. História do estruturalismo 11. Judith Miller. "Entretien . entre eles. Tive uma idéia direta do que se passava nas universidades do mundo. Ibid. vincula-se ao centro experimental de Vincennes. ERIBON. lê-se: "Nessa cidadezinha onde ele era feliz. FOUCAULT. Jean-François Lyotard. espécie de faculdade-piloto. Foucault concede uma entrevista publicada sob o título "Le piege de Vincennes". 11. 14. não é oficialmente importunado. 118 I Foucault. Alain Badiou. "Entretien . FOUCAULT. ) Na Tunísia (. Convidará para o quadro docente da filosofia. feriu gravemente vários deles e os jogou na prisão. 189. esconde em seu jardim um mimeógrafo para a impressão de panfletos. protegido em relação às autoridades locais. Gilles Deleuze (que não pôde aceitar por estar adoentado). Dada minha posição de professor.. ". "não foi maio de 68.. "Chronologie". Jacques Ranciere. escreve: "Daqui.. em resposta às recentes reivindicações. 9. ". Como era argumento do ministro que o conteúdo de filosofia ali ensinado era demasiadamente particular e especializado.. Michel Foucault . entre uma e outra viagem.. 176. que davam para a baía. Ali. Foucault é escolhido para a área de filosofia1 4 • Ao mesmo tempo em que a 10. e é em março de 68 que recrudesce a repressão violenta. eu estava. FOUCAULT.. um rosto de areia'· ! 119 . entre outros. Em um depoimento de Jean Daniel.. Quando. Alguns ainda estão lá. ERIBON. pouco mais tarde. in Dits et écrits I. interrupções dos cursos. Por duas vezes.. M. além de viver "entre os prazeres do sol e a ascese filosófica. se agravam. à margem" e.. uma verdadeira experiência política.. (. 584. o que me permitiu realizar facilmente uma série de ações e. DossE. Canguilhem.. detenções e greve geral dos estudantes. "é sempre com um olhar um pouco estrangeiro"I3. mas recebe ameaças e intimidaçães do serviço de polícia paralelo e chega a sofrer maus-tratos físicos. mas março de 68 e em um país do terceiro mundo"12. o novo ministro da Educação. Foucault diz-se "sempre um pouco deslocado. apreender com exatidão as reações do governo francês em face de tudo aquilo. Michel Foucault. 13. Barthes. ainda na Tunísia. nem bem recebido na França. quando volta para a França. Alguns foram condenados a oito. Inicialmente nomeado para a Faculdade de Nanterre. Para ele.. onde não chega a assumir o posto. os tumultos. François Châtelet (Cf.. A polícia entrou na universidade. atua intensamente: procura o embaixador da França. ) fui levado a tocar com o dedo 8. à p. aos quais caberá a tarefa de compor o corpo docente. "Estávamos em março de 1968: greves. 12. de certo modo. D. vale a pena reproduzir um pequeno trecho da resposta de Foucault: "Como sabem. Simplesmente algo diferente de todo o ronronar de instituições e de discursos políticos na Europa"lO. 78. Constituída uma comissão de cerca de vinte membros (entre eles.9. Cf. ao mesmo tempo. abriga estudantes foragidos. e por sua gula de viver e amar ao sol". Retomemos trechos de seu relato. M.. portanto. Edgar Faure. in Dits et écrits IV. Nem bem aceito na Tunísia. sendo francês. Foi. no mês de junho. Olivier Guichard.sérias e.. no fim de maio e no fim de junho. maltratou numerosos estudantes. tem ocasião de ir a Paris. fiquei profundamente impressionado com aquelas moças e aqueles rapazes que se expunham a riscos terríveis redigindo um panfleto. em junho de 67. F. O retorno ocorre em outubro de 68. in Dits et écrits IV. 179. a absoluta avidez de saber"B. D. Mas.. Derrida) encarregada de designar os primeiros professores de diferentes áreas. 33. o que mais me encanta. M. é um grande enigma"ll. para mim. . reproduzido por Eribon..

. F. lá permanecendo até 1970. não implicaram. de A. M. a essa discursividade incoercível que era própria da vida das universidades. a essa hipermarxi· zação. de modo algum. em Vincennes. merecem destaque. certa categoria de pessoas cujas atividades e cujos discursos variaram muito de uma época para outra. como na orla do mar. declara: "Vou dizer a eles: 'Enquanto vocês se divertiam em suas barricadas do Quartier Latin. numa discussão com Lu· cien Goldman. 15.. "Quando voltei para a França.. 18. a partir daquele momento.. por exemplo. os mesmos sacrifícios. sua paixão. Esta breve reconstituição permite ver a marca forre e controvertida de Michel Foucault nos acontecimentos de 68. crime são para mim coisas mais intensas. 80. Cascais e E. Mais uma vez. 67. M. M. sexualidade. isto é.comissão é atacada pela direita "como um bando de esquerdistas". Portanto.. ERlBON. um rosto de areia·· I 121 . Foucault é considerado "pouco engajado" pelas esquerdas e criticado «(por não ter 'feito nada' em maio de 1968". admirado e até decepcionado em relação ao que vira na Tunísia.. "Le piege de Vincennes". Assim. ligado ao anterior. como se lê naquela entrevista de 1978. os poetas e os loucos. não a unidade de um gênero ou a constância de uma doença" (FOUCAULT. dirá: "Não se trata de afirmar que o homem morreu. 70). quando ingressa no College de France. busquei considerar as coisas tomando distân· cia em relação a essas discussões indefinidas. 1992. Ao tratamento quase solene do tema. pelo menos. agora também em Vincennes. as marcas do evento em Michel Foucault e as mudanças que nele acarretaram. 17. ) de ver de que modo. ". Isso explica talvez a maneira como. FOlJCAULT.81. Foucault será o "filósofo engajado" e o "intelectual militante". Não há comparação entre as barricadas do Quarcier Latin e o risco real de cumprir. Michel Foucault. M. D. é a separação que os isola. Para dizer a verdade. Outro aspecto. assim como a seus vizinhos. de práticas e instituições sociais que entram na composição da noção de dispositivo. in Dits et écrits lI. essa configuração heterogênea que articula o dircursivo e o extradiscursivo.. Cordeiro. in Dits et écrits I. trata-se (. o mesmo preço.. que se endereçava principalmente a técnicos da história das ciências (. e em particular da de Vincennes. em 1969. FOUCAULT.. explicita e principalmente. Mas que a filosofia exista. Primeiro. in Dits et écrits IV. eu me ocupava de coisas sérias na Tunísia"'IS.. Vega. "Encretien . que Foucault vai relativizar o alcance e o entusiasmo por As palavras e as coisas.. Lisboa. FOUCAULT. morte. precisos. Suas investigações agora se ocuparão. 16. "( . As palavras e as coisas foi para mim uma espécie de exercício formal"18. como na Tunísia. é o abandono das descrições estritamente intra e interdiscursivas que caracterizavam a configuração de uma epistéme e direcionavam o horizonte meto· dológico de As palavras e as coisas. O que existe. ). As lutas. ). Des· se ponto de vista. segundo quais regras se formou e funcionou o conceito de homem.. em novembro-dezembro de 1968. lá não estavam os problemas que mais me apaixonavam. pronunciando em 2 de dezembro sua aula inaugural. "Entretien .são 'filósofos'. aquela proclamada "morte do homem" passará a receber contornos e consistência mais precisos. A um amigo Oean Gattegno) que militara com ele na Tunísia. O que os distingue. Loucura... fiquei principalmente surpreso. simplesmente indica também o efeito recíproco. 120 I Foucault. Já lhes falei de experiências· limite: eis o tema que verdadeiramente me fascina· va. O que é um autor? Trad. 817. isto é. seguir-se-ão comentários mais concretos e até irônicos. quinze anos de prisão (. creio.. dois traços. Ten· rei fazer coisas que implicassem um comprometimento pessoal. in Dits et écrits IV. É nessa direção. ". ou seja. definidos no interior de uma situação determinada"16. Assim. com sua violência. destaquemos um trecho da entrevista de 1978. do pensamento de Foucault pós-68. Em contrapartida. Fiz a mesma coisa com a noção de autor. "Qu'esc·ce qu'un auteur?" (compce rendu de la séance). 188.. físico e real e que colocassem os problemas em termos concretos. ) um livro muito técnico. vamos conter as lágrimas"17..

É esse paradoxo que está já presente na célebre formulação que Foucault tomou emprestada a Beckett: "Que importa quem 19. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 123 . .. número 16.Mudanças. Tão paradoxal quanto escrever um prefácio escrevendo sobre a relutância em escrevê-lo é querer preservar a obscuridade do anonimato falando dele. ). É certo que. a ava- XI MICHEL FOUCAULT E O DILACERAMENTO DO AUTOR' liação é outra: "Maio de 68 teve uma importância. 122 I Foucault. Ibid. Mas o paradoxo parece instalar-se quando ele traz para o centro da cena aquilo que precisamente desejaria fora dela. simplesmente * Este texto é uma versão modificada de comunicação apresentada no Encontro Nacional de Filosofia. Educ. mais uma vez e para concluir. por ele mesmo". FOUCAULT. nos temas e na direção das investigações. pelo menos do lado daquele que o escreveu. . Foi publicado na revista Margem. a saber. sob o título "Foucault. a atribuição de autoria a seus próprios discursos.Pelo menos é curto. Para este livro já velho. Confesso que isto me repugna (. o autor. 1996. São conhecidas as considerações de Foucault sobre o apagamento do autor. ANPOF. Prefácio à nova edição de Histoire de la folie. "os mais visíveis e superficiais".Mas você acabou de fazer um prefácio. eu devena escrever um novo prefácio. Chamemos. parece subestimar o acontecimento. 81. 2002. Águas de Lindóia. São Paulo. . e que não se desdobrasse neste primeiro simulacro dele mesmo que é um prefácio (.. nada mais fosse que as frases de que éfeito. no que tange "àquilo que estava realmente em jogo. sem maio de 68. a propósito da prisão. . sem dúvida. da sexualidade. No clima anterior a 1968 nada disto era possível"19. eu não teria jamais feito o que faço. na França e na Tunísia". M.). eram-lhe "completamente estranhos".. expondo-o às luzes do próprio discurso. o testemunho de Foucault. àquilo que realmente fez mudar as coisas" e que "era da mesma natureza. ao evocar maio de 68. Foucault reconhece que alguns de seus aspectos. da delinqüência. excepcional. Mas. Perguntado por que. Quereria que um livro. pois.

O nome de autor está atrelado não propriamente a um indivíduo real e exterior que proferiu um discurso. em Estruturalismo e teoria da linguagem. qualquer autor. Vega. 1972. 789-821. pode-se nela reconhecer certas características. Paris. em todas as épocas e em todas as formas de civilização" (Dits et écrits I. trad. da Glória Ribeiro da Silva. formo um pequeno conjunto e.. numa determinada cultura. 56). e diferentes são as conseqüências. F. M. As duas outras que Foucault indica estão assim resumidas: "a função-autor está ligada ao sistema jurídico e institucional que encerra. o texto de 1968. 44).. os torna providos de uma atribuição de autoria. "Qu'est-ce qu'un auteur?". indiferenciadamente. Com efeito. Porém. 792. determina. mais que paradoxo. Gallimard. "Réponse au Cercle d'Epistémologie" (trad. bras. produzido bem depois deles. articula o universo dos discursos.792. LoyoIa. trad. Rio de Janeiro. in Dits et écrits. Cordeiro.. L'ordre du discours. duas das quais escolho destacarS .. dizer que um nome foi erroneamente atribuído a uma pessoa e dizer que o nome Guimarães Rosa foi erroneamente atribuído ao autor de Sagarana. como num jogo. 4. jan. Cf FOUCAULT. simplesmente I. ("Resposta a uma questão". trad. é diferente. trad. M. não se exerce uniformemente e da mesma maneira sobre todos os discursos. 2. in Dits et écrits. se perguntarmos então quem disse "que importa quem fala)). Para apresentar aqui algumas considerações sobre esse assunto. 1971) bem como o item "Les unités du discours" de L'Archéologiedu savoir. A relação entre aucor e nome próprio é também tratada por Foucault quando discute o conceito de "obra"como unidade discursiva. 797 (tead./mar. in Ditsetécrits I. mas a certo tipo de discursos com estatuto específico. Só para sugerir um exemplo. Laura Fraga de A. Ver também: FOUCAULT. alguém disse: que imporra quem fala"l Considerando que o primeiro segmento dessa formulação ("que importa quem fala") diz respeiro a qualquer auror. e que o segundo ("alguém disse: que importa quem fala") concerne ao autor dessa fala. dentro de uma concepção teórica sobre a categoria do autor. "Réponse à une question". digamos assim. não bem de palavras. é o texto "vertical". a noção de autor de que aqui se trata. ••• Do primeiro texto .fala. por exemplo. Paris. o gesto que aponta para o desejo pessoal de impessoalidade em seu posro de auror não faz dele necessariamente um privilégio. Paris. de A. 1992... Gallimard. M. in Epistemologia/28. "Qu'est-ce qu'un auteur?". menos que um nome próprio.. mas de "textos cruzados". (O que é um autor?. São Paulo. 1996). como um caso entre outros. ele inclusive."O que é um autor?" (1969) . Gallimard. Função-autor Restringindo a função-autor ao âmbito de livros e textos. Michel Foucau!t e o di!aceramento do autor I 125 . Por um lado. "Qu'est-ce qu'un ameur?". mas "de uma operação complexa" que tem por efeito 3. é uma função . 11. "Foucault". a função-autor não resulta simplesmente da espontânea "atribuição de um discurso a um indivíduo". 5.34). isto é. A ordem do discurso (1970) e "Foucault" (1984).81). 803. IV. 798 (trad. Ver. de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade"4.destaco três pontos. M. 1994. I. 1971 (A ordem do discurso. FOUCAULT. in Dits et écrits I. o terceiro."característica do modo de existência. perfazendo uma dobra circular do discurso sobre si mesmo. 1. FOUCAULT. Ibid. isto é. in Dits et écrits. farei liSO de passagens extraídas de três textos: ('O que é um autor?" (1969). 46). talvez apenas o dilua. com que os pretendo cruzar. 1969. "que importa". 631-636. Assim.. 124 I Foucault. a resposta será "quem é apenas alguém". talvez haja nessa dobra um jogo de estratégia. imagino-os como estendidos na "horizontal". escritos na mesma época. Autor e nome própriO Ainda que o "nome de autor" seja um "nome próprio" e com ele mantenha semelhanças. aqueles cujo modo de ser. guarda porém uma "singularidade paradoxal"3. Sampaio. Lisboa. Cascais e E. M. Com os dois primeiros.

não a um indivíduo singular. função modificável "( . imposição da "vontade de verdade" .. como unidade e origem de suas significações.. portanto construído. a categoria do autor pertence ao grupo de procedimentos classificados como internos. L'Ordre du discours. Ibid. Autor e sujeito A análise da função-autor conduz.ao menos desde certa épocao indivíduo que se põe a escrever um texto no horizonte do qual paira uma obra possível retoma por sua conta a função do au. Ibid. mas o autor como princípio de agrupamento do discurso. não apenas efeito de uma construção. será a partir de uma 11. 8. 26). Os procedimentos ditos externos ou de exclusão . 26-29). a um reexame da noção de sujeito. 30 (trad. Ibid.. o autor é definido "como certo nível constante de valor". o autor é também sinalizado e definido pelos próprios textos que.um "ser de razão"6. I.. Autor. como foco de sua coerência. M. outra ainda a que avalia a recepção da obra publicada ou a esclarece)'. 126 ! Foucault. considerar um texto do ponto de vista da "análise interna e arquitetônica" já é colocar em questão "o caráter absoluto e o papel fundador do sujeito"9. reexaminar a noção de sujeito não significa restaurar a pergunta pelo sujeito originário. entre outras conseqüências. 13.. mas por sua constituição enquanto função do discurso. simplesmente 11. 7. a descrição do "autor" é precedida pela do "comentário" e seguida pela da repartição em "disciplinas". o que eles têm de acaso. e complementarmente... uma é a posição-sujeito do autor que fala em um prefácio. e segundo determinadas regras (por exemplo.. Ibid. ) função do autor. "como unidade estilística". inserido na seqüência de des6.. 28·29). O autor entendido.~'proibição" de certos discursos. "como certo campo de coerência conceptual ou teórica". "segregação" de outros. ••• o segundo texto . Circunscrito como um deles. 810 (trad.A ordem do discurso (1970) . outra a do que argumenta no corpo de um livro. Pois."I2 111. mais "negativo". 28-31 (trad. 9. Mas penso que . 52-53).. "como momento histórico definido e ponto de encontro de certo número de acontecimentos"?). 12. cujo papel consiste em reduzir. a modifica. mas invertê-la: considerando-se a função-autor uma particularização possível da funçãosujeito. 801-802 (trad. limito-me a reproduzir três passagens. Míchel Foucau!t e o dilaceramento do autor I 127 . por sua vez. 802·803 (trad.. 10. Autor.. Entre os chamados internos. ). Ibid. é claro."13 111. tratar-se-á de perguntar não pelo sujeito constituinte. tal como a recebe de sua época ou tal como ele. é claro. de acontecimento... nos discursos.o lO. Autor. por assim dizer. tor (. a existência do indivíduo que escreve e inventa.. Ibid. embora possa modificar a imagem tradicional que se faz de um autor. não como o indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto..dá à noção de autor um tratamento. Desse texto. conferindo-lhes pequenos títulos. Por outro lado. mas a uma "pluralidade de egos" ou a "várias posições-sujeitos" (por exemplo. função recebida "Seria absurdo negar.. O assunto ocupa um breve trech. 54-57). de ficção'!. Sem dúvida. por sua vez. crição dos diversos procedimentos de rarefação ou controle dos discursos. função de controle "Trata-se do autor. 69). 28 (trad. 800·801 (trad. Ora.foram apresentados anteriormente. podem remeter.. 50). FOUCAULT.

Antes. política.14 *** Finalmente.. E. é no mínimo curioso que esteja instalado em um dicionário de "autores" um pensador que se renha empenhado em denunciar a função restritiva do autor. Dictionnaire des philosophes. a seguir. 11 e III de História da sexualidade). O c/fidado de si. HUISMAN. 388-391. Ora. 1984. alguma coisa pode ser qualificada como objeto para um conhecimento possível.. I. Galvão. 16. Ibid. como precisamente assentado na questão da constituição do sujeito. vol. 128 I Foucault. por inteiro. I de História da sexualidade).. o ponto de vista da "constituição do sujeito" permite. Berliner. 31 (ecad. O nascimento da clz'nica. 389). uma reconstituição de seus trabalhos reunidos desde o ponto de vista de um "projeto geral. t.. 29). As palavras e as coisas. 631 (trad. a dois procedimentos interdependentes: a "subjetivação" do sujeito.. Ora. 2001. em uma determinada época. "Foucault". entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. esse projeto.. vertente ética (O uso dos prazeres.. ) o perfil ainda trêmulo de sua obra. IV).17...nova posição de autor que recortará (. de um modo ou de outro. Brandão. entendida como o estabelecimento das condições segundo as quais. teria orientado a produção dos escritos foucaultianos. Ibid. a estranheza se atenua quando se examina o teor do verbete. apresento um breve resumo do trecho inicial. Para mostrá-lo. que seus trabalhos sejam identificados mediante um título que é nada menos que seu "nome próprio". M. Organização semelhante já foi também formulada em termos de prioridade de "áreas": epistemológica. 14. considero o terceiro texto. C. I. coincidindo com sua sucessão cronológica: arqueologia (História da loucura. Dicionário dos filósofos. Entretanto. ética. publicado quatorze a quinze anos após os outros. em uma determinada sociedade. Dele retraço algumas linhas que permitam possíveis cruzamentos com os destaques dos textos anteriores. Dits etécrits IV. Apresentado como uma espécie de fio condutor dos escritos de Foucault. Com efeito. Reconstituição de um projeto e constituição do sujeito Sob o nome-título nada se lê acerca do autor. I. Michel Foucault e o dilaceramento do autor I 129 . A vontade de saber. a "objetivação" do objeto. M. trad. D. A arqueologia do saber). • A mais conhecida reúne-os segundo os momentos "metodológicos". que. Lê-se. em uma determinada época. PUF. C. na medida em que realiza análises (históricas) das condições de possibilidade para a construção de saberes. FouCAuLT. São Paulo.. 633 (trad. em Dicionárro dos filósofos. que a investigação de Foucault ocupase. D. dispondo-os em um modo novo de repartição. basicamente. é descrito. precisamente. Mais. in HUISMAN. 15. inclusive. O título e a destinação o texto intitula-se "Foucault" e destinou-se a compor um verbete para um Dicionário de filósofosls. Benedetti. um sujeito pode ser legitimado como "sujeito do conhecimento". o texto é. por sua vez. 389). 17. Paris. vols. Simplesmente Lê-se que a produção de Foucault pode ser denominada "História crítica do pensamento... 11. 942944 (republicado em Dits et écrits. em que o próprio sujeito é colocado como objeto de conhecimento. genealogia (Vigiar e punir. Martins Fontes. Essas condições dizem respeito. não com quaisquer modalidades de "subjetivação" e de "objetivação" para a construção de quaisquer saberes possíveis.. em uma determinada sociedade. estudos sobre o percurso da produção foucaultiana fornecem algumas formas de agrupar seus escritos.16 que os teria presidido. mas com aqueles. E. dar-lhes um novo desenho.

se a funçãoautor é não somente recebida. a tal ponto que permite.. então assistente de Michel Foucault. malgrado o título. é claro . o doente. História da loucura e Vigiar e punir misturam-no ao das práticas sociais). enquanto objeto das chamadas ciências humanas) temos aqui As palavras e as coisas. de acordo com diferentes modos de operar a análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento: • análise da constituição do sujeito enquanto objeto de conhecimento com pretensão a estatuto científico (isto é.. Entretanto. enquanto As palavras e as coisas se classifica no nível discursivo estrito. inicialmente solicitado a François Ewald. • análise da constituição do sujeito enquanto objeto do conhecimento como "o outro lado de uma partição normativa. quem desenvolveu aquela concepção teórica sobre a categoria do autor e nela pretendeu diluir o seu próprio apagamento parece agora revestir-se de um disfarce que. sob o título.• Outro modo de organizar tem por critério a "transitividade" ou "intransitividade" da dimensão discursiva às práticas extradiscursivas (por exemplo. 130 I Foucault. 18. em contrapartida a uma abordagem mais "negativa" (como em A ordem do discurso) da função-autor. não é do "autor" que o texto fala.. como o louco. mais uma vez. um desdobramento do autor que a si próprio se coloca numa espécie de zona limítrofe em que ele é e pode não ser igual a si mesmo. Em suma e para concluir. R assinatura" o paradoxo Atenuada. 389). de que tudo seja ainda um prosseguimento daquele jogo estratégico no qual quem ainda é apenas alguém. Ibid. 633 (cead. mas as amplia ou mesmo as recobre. mas de sua produção discursiva. abreviando. Organização semelhante tem por critério. como uma espécie de pano de fundo. o delinquente) e . sob a assinatura.. o expõe à plena luz. 389). Trata-se de redistribuí-Ios .18 (isto é. suspeita-se aqui. É quando se atenta para o fato de que o texto do verbete. ao mesmo tempo em que. a positiva explicitação de uma pluralidade possível de "posições-sujeitos". 633 (trad. foi redigido e vem assinado por um certo Maurice Florence ou. 19. Ora. Com essas observações. Vigiar e punir. se se quiser. F. esse texto realize~. o texto permite um desdobramento do próprio título: também permite. se lembrarmos que a funçãoautor é uma particularização da função-sujeito. é estrategicamente instrutivo que o título-autor recubra um texto cujo desenvolvimento trata da questão do sujeito. Foucault a "retoma por sua conta" e "a modifica". Ibid. mas modificável.. simplesmente Michel Foucault e o dilaceramento do autor ) 131 . em sua materialidade. a qual é conduzida pela temática da "cons- tltUlção do sujeito". o que interessa é fazer notar que. Segundo. Primeiro. a questão do "Mesmo" e do "Outro" (por exemplo. com ela. M.em três conjuntos. O nascimento da clínica. faz ressurgir o paradoxo sugerido anteriormente. o "projeto geral" proposto justifica agora uma nova organização dos escritos de Foucault. a estranheza porém ressurge e. um rearranjo do conjunto de escritos. Suspeita-se de que. E dessa suspeita há pelo menos dois indícios.temos História da loucura. é possível que. 111.retrospectivamente. • análise da "constituição do sujeito como objeto para ele mesmo"19 . Ora. ao contrário. inclusive.temos os volumes de História da sexualidade. História da loucura é uma história do "Qutrol) e As palavras e as coisas é uma história do "Mesmo"). que não se opõe necessariamente às anteriores.

Paris. PUF. Paris. 1966. PUF. Paris. Paris. 1962. Gallimard. Gallimard. Obras de Michel Foucault • Maladie mentale et personnalité. • Falie et déraison. Histoire de la folie à l'âge classique. PIon. Une archéologie du regard médical.· bibliografia ! 133 . 1954.BIBLIOGRAFIA Os textos utilizados ou citados ao longo dos artigos estão referenciados nas respectivas notas. • Raymond Roussel. • Maladie mentale et psychologie. Gallimard. Paris. 1971. • L'Ordre du discours. Paris. Gallimard. Acrescentamos aqui uma relação das obras de Michel Foucault seguida de uma relação de traduções em língua portuguesa. • L'Archéologie du savoir. 1961 (Texto datilografado) . directeur d'études J. Hyppolite. Paris. 1961. Une archéologie des sciences humaines. Paris. PUF. 1969. • lntroduction à l'anthropologie de Kant.1963. Paris. These complémentaire pour le Docrorat. Leçon inaugural au Col/ége de France prononcée le 2 décembre 1970. • Les Mots et les choses. • Naissance de la clinique. 1963.

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DF c-mail: livbrasilia@paulinas.loja 1 TeI. CO e-mail: livgoiania@paulinas. São Paulo.com.org.BI. C .Setor Central Tel: (62) 229-0107 / 224-4292· Fax: (62) 212-103 74055-120 Goiânia. • Em defesa da sociedade.: (98) 232-3068/232-3072 • Fax: (98) 232-265 65015-440 São Luís.com.: (85) 226-7544/226-7398 • Fax: (85) 226-9930 60025-100 Fortaleza.. voI. e.com.Q. 502 .org.'. Rio de Janeiro. Tradução de Inês Autran Dourado Barbosa. 15 leI.1999. Martins Fontes. 7 de Setembro.br LIVRARIA ALTERNATIVA Rua 70. 704 .br llVRARIAS PAUlINAS Av. faça o pedido por reembolso postal à Rua 1822 nQ 347. vol. • A Hermenêutica do sujeito. Rio de Janeiro. 04216-000. • Estratégia. • Os Anormais. V.1975-1976.: (921633-42511233-5130. 7 de Setembro. Goiá" 636 Tel.: (921 232"5777 • Fax: (921 233-0154 69010-230 Manaus.: (62) 225-3077 • Fax: (62) 225-3994 74023-010 Goiânia.com. MT e-mail: vozes54@uol. CO e-mail: distribuidora@livrariaalternativa. 216 .br BRAS/LIA EDITORA VOZES LTOA SCLR/Norte . CE c-mail: livfortaleza@paulinas. Coleção "Ditos e Escritos".br CEARÁ EDITORA VOZES LTOA Rua Major Facundo.br 138 ! Foucault.Piedade Tel. MS. 2001.com. Ipiranga.Q. 203 . Getúlio Vargas. 197 A Tel. 1981-1982.: (65) 3226-9677 • Fax: (65) 322-3350 78005-600 Cuiabá..br EDITORA VOZES LTOA Rua Carlos Gomes. 120 .com. nO 291 Tel.br LIVRARIAS PAULlNAS Av.br AMAZONAS EspiRITO SANTO EDITORA VOZES LTOA Rua Costa Azevedo.:. IV.: {27) 3223-13181 0800-15-712 • Fax: (27) 3222-353: 29010-060 Vitória. São Paulo SP· Caixa Postal 42. 332 TeI. • Home page e vendas: www. 680 .com. Rio de Janeiro) Forense Universitária. .Centro Tel. 2004. simplesmente LIVRARIAS PAULlNAS Rua Barão de Itapemirim. 2003. política.br MATO GROSSO EDITORA VOZES LTOA Rua Antônio Maria Coelho. 665 Tel. .loyola.Conjunto Bela Center . Tradução de Maria Ermantina Galvão.com.org. GO e-mail: vozes27@uol.: (71) 329-5466 • Fax: (71) 329-4749 40060-410 Salvador.com. 499 . Fax: 69005-141 Manaus.br MARCHI L1VRARlA E DISTRIBUIDORA LTDA .org.~o Pedro Tel.: (61) 225"9595 • Fax: (61) 225-9219 70300-500 Brasma.org.: (61) 326-2436 • Fax: (61) 326-2282 70730-516 BraSl1ia. 730 Tel.: {65) 623-5307 • Fax: (65) 623-5186 78005-970 Cuiabá.com.br EDITORA VOZES LTOA Rua 3.335. MULTlCAMP LTDA Rua Direita da Piedade.Bloco A n.br MARANHÃO EDITORA VOZES LTDA Rua da Palma. Martins Fontes.nllmJ: ·vozes04I'uol.Lojas 19122 .: (711 329-0326/329-1381 Telelax.(31) 3226-9010.br • e-mail: vendas@loyola. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta. São Paulo.br GOIÁS (92) 633-4017 LIVRARIA E DISTRIB. MA e-mail: livrariavozes@terra. Tradução de Andréa Daher. Organização e seleção de textos de Manoel Barros da Motta.br MINAS GERAIS EDITORA VOZES LTDA Rua Sergipe. BA e-mail: vozes20@uol.: (85) 231-9321 • Fax: (85) 2214238 60025-100 fortaleza. São Paulo. AM c-mail: vozes61@uol. ~_.. SP· Telefone: (11) 6914-1922' Fax: (11) 6163-4271 [ursos BAHIA • Resumo dos cursos do Collége de France. AM e-mail: livmanaus@paulinas. E5 e-mail: livvitoria@paulinas.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Major Facundo. BA e-mail: multicamp@uol.. Forense Universitária.Centro Tel.br LIVRARIAS PAUlINAS SCS .. n° 124 . 698A . Zahar.Centro Tel.DISTRIBUIDORES DE EDiÇÕES LOYOLA Se o{a} senhor{a) não encontrar qualquer um de nossos livros em sua livraria preferida ou em nosso ros da Motta. Tradução de Veta Lúcia Avellar Ribeiro.org. sexualidade. 2004. DF c_mail: vozes09@uol. MT e-mail: Imarchi@terra. 381 . Coleção "Ditos e Escritos".: (71) 329-0109 40070-190 Salvador.com. 105 .br llVRARIAS PAUllNAS Rua de Santana.com. Curso no Collége de France. 05 . 2001. Forense Universitária.Centro Tel. Fax: (98) 231-0641 65010-440 São Luís. CE e-mail: vozes23@uol.com. Curso no Coll'ge de France. 04218-970.f:lorizonte.br. 1974-1975.Centro Tel. MA e-mai1: fspsaoluis@elo.loja 2 Tel.: (98) 221-0715. Tradução de Eduardo Brandão_ São Paulo. BA e-mail: livsalvador@paulinas. Consultoria de Roberto Machado.1970-1982. Tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail.: (71) 329-2477/329-3668 • Fax: (71) 329-2546 40060-001 Salvador..br LIVRARIAS PAULlNAS Av. Fax: (31) 3226-7797 3{l~H?:O' Belo . Curso no Collége de France. Rio deJaneiro.Centro Tel.: (62) 224-2585/224-2329 • Fax: (62) 224-2247 74010-010 Goiânia. Tradução de Elisa Monteiro e Inês Autran Dourado Barbosa. distribuidores. Martins Fontes.LIVRARIA VOGAL -' Av.com. poder-saber. • Ética. 1997.

SP e-mai!: vendasatacado@[ivrarialoyola.: (11) 6297-5756 • Fax: (11) 6956-0162 08010-090 São Paulo. Rua Costa Monteiro.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Dagmar da Fonseca.Centro Telefax: (21) 2215-011 O 1 (21) 2220-8546 20031-143 Rio de Janeiro. km 19. 225 . 597 . 278 .br Rua dos Trilhos. Rua4deiniantaria. Presidente Vargas. RJ e-mail: livniteroi@paulinas.: (11)3105-7144. PR e-mail: livcuritiba@paulinas. Fax: (32) 3215-8061 36010-041 Juiz de Fora.org.br Av. 805 Tel. 234 -Centro Tel. CULTo Av.org. Madureira Tel.org. SP e-rnail: vozes 16@uol. SP e-rnail: vozes03@uol. 981 São Migue[ Paulista Tel. 308 Tel.br RIO DE JANEIRO Z~LlO Blo.br PORTUGAL MULTI NOVA UNIÃO LlY. (41) 224-1442 80020-000 Curitiba. Asa "Oeste" Rua 02 e 03 ~ lojas 111 /112 e 113/114 Tel. MG e-mail: maedaigrejabh@wminas.br Rua Curitiba.br Rua Barão de [tapctininga.org.Luz Tel. RS e-mail: livrariarcus@[ivraria-padre-reus.: (48) 222-4112 • Fax: (48) 222-1052 88010-030 Florianópolis.Loja 1 Tel. 120 Telefax: (11 J 3242-0449 01006-000 São Paulo.com.Bloco A.Rink Te[.br Rua Frei Caneca. 1212· Centro TeI.Ramal 9045 25620-001 Petrópolis.com. PR e-mail: vozes41@uol. SC e-mail: vozes4S@uol. Fax: (69) 224·1361 78900-010 Porto Velho.: (82) 326-2575. Marecha[ Tito.com.org.br Rua Haddock lobo. SP e-mail: vozes40@uol.com PARÁ ~ LIVRARIAS PAULlNAS Rua Santo Antônio. 50 e 54 Bairro Sagrada Família Tel. 870 .com. PR e-mail: livmaringa@paulinas.org. PE e-mail: vozesl0@uol.br Av.com.Vila Mariana Te[. RS e-mail: vozes05@uol.br SÃO PAULO DISTRIBU[DORA lOYOlA DE LIVROS LIDA Vendas no Atacado Rua São Caetano. Fax: (11) 3105-7948 01006-000 São Paulo.br LIVRARIAS PAUlINAS Rua 7 de Setembro.: (51) 3226-3911 • Fax: (51) 3226-3710 90010-273 Porto Alegre. Fax: (82) 326-6561 57020-320 Maceió.br Rua João Pessoa.: (69) 224-4522. 5 de outubro. SP e_mail: livdomingos(iQpaulinas. 114 Tel. 41-loja 39 Tel.org.br LIVRARIAS PAULlNAS Rua Duque de Caxias. (21) 2232-5486 • Fax: (21) 2224-1889 20050-005 Rio de Janeiro.: (51) 3224-0250 • Fax: (51) 3228-1880 90010-282 Porto Alegre.: (11)3105-7198. Goulin.B.: (00xx351 21) 388-8371 /60-6996 1350-006 Lisboa.org.com. Fax: (44) 226-4250 87013-130 Maringá. 225 Tel. RN e-mail: livnatal@paulinas. Portugal . 59 .Bairro do Comércio Tel.: (8l) 3423-4100. 23 Tel. RJ e-mail: ze[iobicalho@prolink. 81-A Tel. (41) 362-0296/262-8992 Fax.br Rua Joaquim Távora. PARAf8A.org.: (11) 3322-0100 • Fax: (11 13322-0101 01104-001 SãoPaulo.br SANTA CATARINA EDITORA VOZES Rua Jerônimo Coelho.: (41) 224-8550 • Fax: (41) 223-1450 80020-000 Curitiba.com.Hugo lange TeI.: (32) 3215-9050. MG e-rnail: distribuidora@astecabooks. 502 . MG e-rnail: vozes35@uol.br Vendas no Varejo Rua Senador Feijó.br DISTRIBUIDORA lOYOlA DE LIVROS LTOA Rua Quintino Bocaiúva.com. 3861390 Tel.br Rua Senador Souza Naves. 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