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VIII

Modos, géneros e discursos da Literatura de Viagens de Língua Portuguesa

Introdução

conjunto das comunicações do Congresso Internacional Do Brasil a Macau

— Narrativas de Viagens e Espaços de Diáspora, a secção “Modos, géneros

discursos da Literatura de Viagens da Língua Portuguesa” reuniu cerca

de uma dezena de contributos sobre os variados escritos acerca da Viagem, segundo, como a proposta indicava, os modos (narrativo, descritivo e expositivo) com os respectivos géneros (conto, carta, relação, diário e outros) e a atenção centrada nos seus diferentes discursos. Foram recebidos doze resumos. Depois, houve, com muita pena nossa, algumas desistências por motivos justificados, tendo sido realmente expostas em público e debatidas oito comunicações. No entanto, para publicação, chegaram-nos sete textos. A secção foi organizada em três sessões, de acordo com o tema geral do Congresso e com a nossa sugestão das correspondentes rubricas sub-temáticas. Uma primeira englobou os contributos que tratavam do registo, análise e comentário de textos de autores portugueses que trataram da “viagem” como tema em geral ou motivo mais particular de narrativas, como descrição ou reflexão diarística ou autobiográfica. Por um lado, assinala-se o trabalho de interpretação da Mensagem de Pessoa (de S. Avianni, só apresentado no último dia) e o do conto “exemplar” de tão rica significação de Sophia de Mello Breyner Andresen (de G. N. Barata). Por outro, registam-se as deslocações de escritores portugueses do passado ou contemporâneos para fora da Europa, sobretudo Oriente e África, com as análises de relatos como o de Fernão Mendes Pinto (M. A. Gomes), mas também as visões mais modernas das obras de Miguel Torga (I. Mateus) e dos diários de Natália Correia (M. Magalhães). Na segunda sessão, os estudiosos centraram o seu interesse na ilustração das “viagens” e seus reflexos nos escritos de entidades colectivas como missionários

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jesuítas nas deslocações para fora dos limites do Império (A. Rodrigues), dos embaixadores japoneses na sua visita à Cúria Romana (I. Vasile), na “Carreira da Índia” através do Diário de D. António José de Noronha (P. Martins) ou nas perso- nagens femininas orientais exemplificadas e referidas nas obras de Wenceslau de Moraes (M. P. Pinto). O último subconjunto de comunicações teve em consideração o Novo Mundo, principalmente o Brasil, com maneiras tão variadas de abordagem como as da “Mala para o Brasil”, através de correspondência eciana na imprensa carioca (I. Trabucho), da importância de Os Sertões de Euclides da Cunha para a compre- ensão da identidade brasileira (R. de A. Souto) e ainda do significado do êxito da telenovela Gabriela, entendida como “esporos” do Novo Mundo no Portugal Contemporâneo (R. Pinto). Também nesta sessão, foi apresentada uma exposição sobre as viagens de Mendonça e Costa, através das suas grandes deslocações a partir dos Estados Unidos até ao Oriente, no princípio do século XX (A. C. de Matos e E. F. Ribeiro). As sessões decorreram sempre com a duração estabelecida, assegurando-se também vivos debates com troca de opiniões muito diversas, esclarecedoras e enriquecedoras quer para a curiosidade do auditório quer para fundamento das conferências. Também devemos reconhecer que a afluência e o dinamismo do público foram bastante gratificantes para a plena aceitação e para o êxito dos subtemas desta secção. Na diversidade de propostas, verificámos sobretudo que este corpus de mensagens respeitantes à “viagem”, umas mais ficcionais e mesmo poéticas, outras mais práticas e referenciais, que nos remetem para estratégias e artifícios discursivos e para vivências e testemunhos muitíssimo diferentes, constitui objec- to inesgotável para a análise e interpretação de natureza histórica, literária, cultural, com novas perspectivas redimensionadas no âmbito de uma visão mais alargada ou, simplesmente, global.

A. P. Laborinho / J. D. Pinto Correia

Departamento de Literaturas Românicas Faculdade de Letras da Universidade Lisboa

Dos Estados Unidos da América ao Oriente: as viagens de Mendonça e Costa no início do século XX 1

ANA CARDOSO DE MATOS, ELÓI DE FIGUEIREDO RIBEIRO

CIDEHUS/Universidade de Évora 1

ISBN 978-972-8886-24-0 • FROM BRAZIL TO MACAO • CEAUL / ULICES 2013

1 Esta comunicação insere-se no projecto Viagens, Turismo e Lazer em perspectiva histórica dos finais do século XVII à primeira metade do século XX.

A partir da segunda metade do século XIX assiste-se a uma maior genera- lização das viagens que em grande parte está associada ao desenvolvi- mento dos transportes, particularmente do caminho-de-ferro, que ao

mesmo tempo que torna acessível a viagem a um maior número de pessoas favorece a deslocação até espaços cada vez mais distantes 2 . As próprias empre- sas de transportes desenvolvem toda uma estratégia de incentivo ao turismo que passa pela publicação de Guias de viagem e pela introdução de tarifas especiais para determinados destinos e épocas do ano 3 . As razões associadas às viagens realizadas neste período são múltiplas e os viajantes têm características diversificadas. Os viajantes tanto podem ser cien- tistas, técnicos, industriais ou intelectuais, que através da deslocação a outros países procuram actualizar os seus conhecimentos profissionais 4 , contactar espe- cialistas das várias áreas técnico/cientificas e adquirir os equipamentos e máquinas necessárias para modernizar as suas empresas, como pessoas sem qualquer formação específica, mas que possuem os meios económicos para se usufruírem de tempos de lazer e o interesse em conhecer novas regiões e povos. Este último aspecto está directamente associado ao desenvolvimento que

o turismo conheceu sobretudo a partir do final do século XIX. De facto, o acesso

à viagem de lazer, que no início do séc. XVIII era exclusivo da aristocracia, vai abranger no século XIX estratos populacionais cada vez mais largos 5 .

2 Sobre as relações entre os transportes e o turismo vejam-se os vários artigos incluídos em Laurent Tssot (dir), Construction d’une industrie touristique aux 19e et 20e siècles: perspec- tives internationales/Development of a tourist industry in the 19th and 20th centuries:

International perspectives, Neuchâtel, Ed. Alphil, 2003; Catherine Bertho Lavenir, La roue et le sytlo: comment nous sommes devenus touristes. Paris: Éditions Odile Jacob, 1999.

3 Sobre os vários tipos de tarifas que eram utilizadas pelas Companhias de Caminho-de-ferro portuguesas veja-se Elói de Figueiredo Ribeiro “A Gazeta dos Caminhos de Ferro e a Promoção do Turismo em Portugal (1888-1940)”, tese de mestrado, Évora, 2006.

4 Ana Cardoso de Matos e Maria Paula Diogo, “Bringing it all back home: Portuguese engineers and their travels of learning (1850-1900)”, HOST — Journal of History of Science and Technology, Vol.1, Summer 2007.

5 Sobre o desenvolvimento do turismo veja-se Marc Boyer, Histoire du tourisme de masse, Paris, PUF, 1999 e Marc Boyer, Histoire de l’invention du tourisme XVIe XIXe siècles: origine et développement du tourisme dans le Sud-Ouest de la France. La Tour d’Aigues: L’Aube, 2000.

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Os trabalhadores com alguns recursos financeiros que passaram a beneficiar de um tempo de férias podem passar a beneficiar das viagens turísticas, ainda que na maior arte das vezes feitas no país e a preços acessíveis. As viagens de turismo internacionais e mesmo intercontinentais continuam até tarde no século XX reservadas para a elite que possui os recursos financeiros e o tempo livre neces- sários para as realizar. Em muitos casos os profissionais que têm que se deslocar em trabalho ou em representação de um país ou de uma empresa para participar nos congressos e outras reuniões internacionais aproveitam muitas vezes a sua viagem de trabalho para fazerem um pouco de turismo. Portugal não ficou alheio ao interesse crescente pelas viagens e pelo turismo

e vários foram os portugueses que as procuraram promover, nomeadamente pela edição de revistas em que estes temas estavam presentes, pela publicação de relatos e guias de viagem e pela criação de instituições promotoras da activi- dade turística como foi o caso da Sociedade Propaganda de Portugal, fundada em 1906 6 . Entre os portugueses que tiveram uma acção importante na promoção do turismo em Portugal destaca-se Leonildo de Mendonça e Costa, que foi prova- velmente o português que na sua época mais viajou no país e no estrangeiro e os relatos das viagens que publicou tinham como objectivo não só descrever o que vira e apreciara, mas também incentivar os seus conterrâneos a realizar viagens semelhantes. De entre as várias viagens realizadas por Mendonça e Costa seleccionamos duas viagens, que realizou no início do século XX e que o levaram a dois pontos não só distantes e opostos em termos espaciais como diferentes em termos de hábitos, costumes e tradições — os Estados Unidos da América e o Oriente. São essas duas viagens que nos propomos analisar neste texto. Considerando

o tema do Colóquio em que apresentamos a comunicação que deu origem ao texto — Do Brasil a Macau: Narrativas de Viagens e Espaços de Diáspora — e tendo

6 Sobre o assunto a Sociedade Propaganda de Portugal veja-se Ana Cardoso de Matos e M. Luísa Santos, “Os Guias de Turismo e a emergência do turismo contemporâneo em Portugal (dos finais do século XIX às primeiras décadas do século XX)”. Geo Crítica / Scripta Nova. Revista electrónica de geografía y ciencias sociales. Barcelona, Universidad de Barcelona, 15 de junio de 2004, vol. VIII, núm. 167. http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-167.htm [consultado em 10 de Março de 2009] e Paulo Pina, O Turismo no século XX, Lisboa, Lucidus, 1988, p.13-14. Sobre a publicação de relatos e guias de viagem veja-se também Elói de Figueiredo Ribeiro “A Gazeta dos Caminhos de Ferro e a Promoção do Turismo em Portugal (1888-1940)”, ob. Cit., e Maria Luísa Santos, Ana Cardoso de Matos e Maria Ana Bernardo, “Tourism, Guidebooks and the Emergence of Contemporary Tourism in Portugal” in The Uses of History in Tourism Development (Auvo Kostiainen and Taina Syrjämaa ed.), Filand, Finnish University Network for Tourism Studies (FUNTS), 2008, p. 94-104.

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em conta que a organização da publicação se situa no âmbito da literatura recorreremos sistematicamente à transcrição de passagens dos relatos das viagens que este viajante publicou na Gazeta dos Caminhos de Ferro. Nestes relatos Mendonça e Costa descreveu os meios de transporte em que viajou nestes dois países e os espaços e gentes com que contactou durante as suas viagens.

Leonildo de Mendonça e Costa: um viajante “compulsivo”

Escritor, jornalista, inspector-chefe da Repartição do Tráfego da Companhia Real dos Caminhos de Ferro, Mendonça e Costa foi o fundador e director da Empreza de Annuncios nos Caminhos de Ferro e colaborador da Gaceta de los

Camiños de Hierro de Madrid, onde escreveu vários artigos em defesa dos interes- ses e sobre os caminhos-de-ferro portugueses 7 . Em 1888 fundou a Gazeta dos Caminhos de Ferro e, em parceria com José Duarte do Amaral fundou o Guia Oficial dos Caminhos de Ferro, cuja publi- cação se iniciou em 1882. Foi também autor do Manual do Viajante em Portugal, elabo- rado nos moldes dos Guides ou do Baedeker, publicação que teve várias edições e foi continuada por Carlos de Ornelas. Mendonça e Costa é normalmente apon- tado como precursor do turismo em Portugal pelo incentivo que deu a esta actividade atra- vés dos relatos das suas viagens pelo mundo, da criação da tarifa P.4 Viagens circulares em Portugal, (tarifa ferroviária que tornava mais económicas as viagens turísticas) 8 do papel que teve na criação da Sociedade Propaganda de Portugal, tendo sido redactor do seu pro- grama e eleito seu secretário perpétuo, cargo

que só abandonou após a implantação da República.

Leonildo de Mendonça e Costa 9

da República. Leonildo de Mendonça e Costa 9 7 Colaborou também nos jornais Diário de Notícias,

7 Colaborou também nos jornais Diário de Notícias, Jornal do Comércio e das Colónias e no Comércio do Porto onde era responsável pelas respectivas secções sobre os caminhos-de-ferro.

8 Sobre o assunto veja-se Elói de Figueiredo Ribeiro “A Gazeta dos Caminhos de Ferro e a Promoção do Turismo em Portugal (1888-1940)”, ob. Cit.

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O seu gosto pelas viagens e o seu interesse em promover o turismo em Portugal fizeram com que fosse o principal promotor da fundação da Sociedade Propaganda de Portugal criada em 1906. Foi ainda sócio de várias sociedades culturais e científicas como a Associação dos Escritores e Artistas de Madrid, de que foi sócio honorário, e a Sociedade de Geografia de Lisboa. Desempenhou ainda o cargo de Vice-cônsul da Argentina em Lisboa. Para Mendonça e Costa viajar era como doença, um vício que ele era compa- ra com o “vício” do filatelista que começa por guardar os selos da correspon- dência que lhe enviam, depois troca selos com os amigos e depois já quer selos do mundo inteiro. Como dizia em 1903, “Viajar com certa assiduidade por muitos países da Europa, produz o effeito que, á maneira do vicio, ataca todos os colleccionadores das raridades.” 10 No caso dos viajantes esse vício iniciava-se com o desejo de viajar até Madrid, depois Paris, depois Londres sem nunca ficar saciado e assemelhando-se uma “doença”, cujo tratamento seria da respon- sabilidade dos “médicos” especialistas como Cook, Lobin e outros agentes de viagem, e os “hospitais” os comboios expresso e os paquetes.

A Viagem ao Oriente

A viagem ao oriente inicia-se em Junho de 1903. Era uma viagem meramen- te de turismo motivada pelo interesse em conhecer a região do oriente e as pessoas que a habitavam. Nesta viagem Mendonça e Costa atravessa toda a Europa e Ásia e chega até Tóquio (ver quadro anexo 1). No total faz um percurso de 36.291 quilómetros ao longo dos quais utiliza como meios de transporte o comboio e o barco. O comboio

sempre que existiam linhas férreas e o barco nas ligações entre a China e o Japão

e nas travessias do lago Baikal. São diversos os aspectos descritos ao longo das suas viagens: as cidades, os

meios de transporte, os hotéis, os habitantes, a paisagem, a história, os costumes,

o património edificado e a cultura, entre outros. Como grande parte da viagem é realizada em comboio, a descrição dos mesmos é constante. O comboio que o transporta de Moscovo para Irkoutsk é descrito como “(…) é um bello trem, composto de três carruagens-leitos com lavatorio em cada dois compartimentos, um salão restaurante e cozinha, e um vagon que se divide em compartimento para bagagens, outro para o motor electrico que produz a corrente para todo o comboio.” 11

10 GCF nº 373 de1/7/1903, p. 349. 11 GCF, nº 378 de 16/9/1903, p.318.

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“O outro o que a nossa gravura representa é o «Baikal», um colossal back ou ferri-boat construido para transportar todo o comboio, não havendo assim necessidade de trasbordo, (…)” 12 . As estações do caminho de ferro e o seu movimento constante são igual- mente objecto da análise de Mendonça e Costa que consideta que “De Karbin para baixo mais se assentua entre a população que vem ás estações assistir á passagem dos trens, o trajo chines e o espirito commercial d’aquella gente; mulheres de variados costumes, especialmente mongolicos, homens e rapazes vendendo todas as bugiarias, gritando sempre pasmando para os passageiros do comboio e fugindo quando nas mãos d’elles veem a machina photographica em que elles suppõem haver feitiço.13 Ao longo da viagem passa por cidades de vários países que apresentam uma grande diversidade. Assim, enquanto Yokohama (Japão) “ (…) é meio europeia, meio japoneza. A’ beira do rio, o bairro europeu, antiga concessão estrangeira, não diverge consideravelmente, no seu aspecto geral, de qualquer cidade do continente europeu.” 14 Em Tcheliabinsk, na Sibéria, “A cidade é como todas as da Siberia, formada por largas ruas, sem calcetamento, com edificios em geral de madeira, e alguns de pedra e cal. As fachadas, muito enfeitadas de rendilhados de madeira, produ- zem bom effeito.15 . Em Fuzan, na Coreia, a perspectiva é completamente dife- rente, “Onde está a cidade? Perguntavam todos, olhando para aquelles montes escalvados e aridos, na base dos quaesum grupo de cabanas pardacentas se avistavam. A cidade era isso mesmo!16 Como pretende que o seu relato possa servir como guia de futuros viajantes, Mendonça e Costa faz descrições dos hotéis, dando indicações de grande utilidade para os futuros utilizadores “Hoteis são muito confortaveis, mas o viajante que se cubra bem, de noite, com o mosquiteiro, porque de contrario terá a cara, no dia seguinte, com a configuração d’um cacho d’uvas. Ouvi lá dizer que Nagoya tem tresentos mil habitantes e trinta milhões de mosquitos. Por experiencia propria calculo que ha de ter muito mais; cem mosquitos por habitante é pouco.17 , aqui e ali uma nota de humor para cativar o leitor.

12 GCF, nº 380 de16/10/1903, p. 349.

13 GCF, nº 383 — 01/12/1903, p.395.

14 GCF, nº 392 de16/4/1904, p. 134.

15 GCF, nº 379 de 1/10/1903, p.334.

16 GCF, nº 401 de 1/9/1904, p.278.

17 GCF, nº 397 de 1/7/1904, p.213.

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Porque pretende que a sua descrição seja simultaneamente um incentivo à viagem e um guia para essa mesma viagem, Mendonça e Costa indica, por exem- plo, monumentos importantes que mereceriam ser visitados “Nos arredores de Pequim ha, sobretudo, que ver os tumulos dos Mings, notavel santuario a um dia de distancia, a cavallo, que é peregrinação obrigada de todos que, pela primeira vez, vão á capital do celeste imperio.” 18

primeira vez, vão á capital do celeste imperio.” 18 Para reforçar aquilo que afirma, Mendonça e

Para reforçar aquilo que afirma, Mendonça e Costa utiliza gravuras ou mes- mo fotografias que ele próprio tira, para enriquecer as suas crónicas e estimular o desejo de viajar aos seus leitores. É o que acontece, por exemplo, com castelo de Nagoya — “Nagoya é um ponto obrigado de paragem, não só para visitar o notavel castello, com a sua torre de oito andares que aqui vae em gravura” 19 . Relativamente aos habitantes dos territórios por onde vai passando, Mendon- ça e Costa deixa-nos relatos de grande interesse, a que não falta alguma adjecti- vação bem humorada e de feição lusa “Os homens vestem todos de cassa branca, calção, especie de camiza e manto, tudo muito largo e muito engommado, agitando-se ao vento. Na cabeça um chapeu afunilado na copa, feito todo de tarlatana preta, fortemente engommada tambem, com largas abas à Mazzantini. Muito curioso o typo d’estes patuscos, mais ainda pela maneira importante porque andam, meneando os hombros com ademanes de principe de drama de feira.” 20 Embora manifeste a sua admiração por alguns aspectos culturais que en- contra no Oriente, muitos dos costumes com que se depara provocam-lhe espan- to, repulsa e uma atitude crítica, como é o caso dos exemplos que se seguem:

18 CF, nº 388 de 16/02/1904, p.70.

19 GCF, nº397 de 1/7/1904, p.213.

20 GCF, nº 401 de 1/09/1904, p.278.

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”Pela vida, sim; porque é do que o chinez menos caso faz. Haja quem a compre que não falta quem a venda barata. Succede até que, se um condemnado á morte entender-se com o carcereiro, este sem difficuldade, encontra quem se preste

a soffrer o garrote no logar do prisioneiro, a troco de uns magros 50 taeis ou um

kilo e meio de prata, ou uns 50$000 réis.” 21 , “Nos rios, nas piscinas, os dois sexos promiscuamente despem-se e lavam-se, sem que ninguem repare. (…) E’ que o podor, o sentimento de dever esconder ás vistas a maior parte

do corpo não é ali conhecido.” 22 É talvez o facto de encontrar uma cultura e um modo de vida tão diverso daquilo a que estava habituado, que o leva a defender que os viajantes antes de iniciarem uma viagem deviam estudar um pouco a história, a cultura e os costu-

mes dos sítios que pretendiam visitar, “Não se póde, ou, pelo menos, não se deve passar os humbraes da China sem se ter préviamente feito um estudo (…) do que

é aquelle paiz, dos seus usos, da sua etnographia, da maneira de viver dos

chinezes. Porque a diferença para os nossos costumes é tão radical, que a nossa ideia não póde refazer-se, com a rapidez precisa, das surpresas que, a todo o momento se lhe deparam ante aquelle povo absolutamente diferente do nosso. E é talvez a difficuldade de nos entendermos a nós proprios naquelle extraordinário paiz que explica porque é que os europeos que para lá vão, não podendo amoldar aos seus costumes uma população de 400 milhões de habitan- tes, de tão differentes caracteres, mesmo entre si se amoldam elles aos chinezes (…) vivendo á chineza e achando delicioso o que os viajantes, de passagem, acham insuportavel.” 23 “Para muitos, ver Macau, Cantão, Hong-Kong e Shanghae é ver a China completa, sem se lembrarem de que o imperio filho do sol é tão grande, as suas

cidades principaes tão afastadas, que cada uma de per si constitue um paiz diffe- rente.” 24 , ao referir-se aos japoneses e à introdução de novos meios de transpor- te neste país, como é o caso dos grandes comboios que por lá circulam, não pode deixar de dizer “(…) na continuação do viver do Japão vamos apreciando a preocupação d’este povo em tornar tudo pequeno, leve, dobravel, de maneira

a poder ser mettido em caixinhas, que ao vêr as grandes locomotivas que

rebocam os grandes comboios que percorrem todo o paiz, bem imaginamos

21 GCF, nº 388 de 16/2/1904, p.70.

22 GCF, nº 391 de 1/04/1904, p.120.

23 GCF, nº 384 de 16/2/1903, pp. 410-411.

24 GCF, nº 389 de 1/3/1904, p.85.

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quanto pesar o japonez sentirá em não poder dobral-as, empacotal-as de fórma a guardal-as em qualquer pequenino escrinio de tampa axaroada.” 25 . Nestas palavras, Mendonça e Costa revela-nos a forma como percepcionou algumas características deste povo, embora afirmasse que “Ao deixar o Japão havia no meu espírito uma impressão um pouco parecida com a que me inspirára á entrada: O que é o Japão?”, visto que passara ali um mês e segundo as suas palavras, o seu espírito não ficara esclarecido para responder a essa questão. “Longe de mim ter conhecido o Japão pelos romances de Pierre Loti, especial- mente o ultimo tão conhecido por tanta gente culta.” 26 , com estas palavras o autor refere-se à importância de conhecer os locais de forma presencial, em detrimento do conhecimento adquirido através da leitura de romances escritos, por vezes, por autores que nunca estiveram nesses mesmos locais, dando origem a falsas ideias sobre diversos aspectos das sociedades retratadas. No fim destas suas Notas de Viagem, mais precisamente trinta e quatro, uma por publicação, o autor, sobre a viagem ao Oriente, refere a sua duração, nú- mero de cidades visitadas e a extensão percorrida em quilómetros (ver anexo I).

A viagem à América

A viagem à América foi realizada em 1905 e teve como motivo o Congresso dos Caminhos de Ferro, no qual Mendonça e Costa ia participar como represen- tante da Companhia Real dos Caminhos de Ferro. No entanto, Mendonça e Costa prolongou a sua viagem para visitar outros locais que não estavam previstos nas visitas de estudo dos congressistas e para conhecer outros pontos do continente americano. Assim, a viagem não se restringe aos EUA, prolongando-se ao Alasca, ao México e ao Canadá. As memórias sobre esta viagem começam a ser publicadas na Gazeta dos Caminhos de Ferro de Maio de 1905. Tendo que atravessar o oceano Atlântico grande parte da viagem é realizada num navio que parte de Gibraltar e vai directo a Nova Iorque. Porque a viagem de barco é para ele uma novidade, que embora tenha aspectos interessantes se torna extremamente cansativa em percursos muito prolongados. Assim, conside- ra importante informar os seus leitores sobre a vida a bordo de um transatlântico — “Para muitos leitores que nunca fizeram uma viagem marítima, não será falho de interesse que, (…) lhes digamos um pouco o que é a vida a bordo. Tem encantos, não há dúvida, este viver d’alguns dias, mas, (…) o aborreci- mento é uma doença inevitável” (…)

25 GCF, nº 390 de 16/3/1904, p.102. 26 GCF, nº 391 de 1/4/1904, p. 120.

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os dias sucedem-se parecidos, as distracções em breve fadigam, pela sua repetição, pela insistência com que as buscamos. O que se faz a bordo? Lê-se; mas a continua leitura fatiga: o romance deixa de interessar; o jornal a breve trecho está lido desde o título até ao último anúncio. E esse jornal …é do mês anterior. Joga-se, mas os parceiros são sempre os mesmos, (…) 27 Como a primeira parte da viagem de Mendonça e Costa se encontrava englobada numa viagem organizada para os participantes do Congresso, as descrições que faz “dos primeiros dias desta viagem, que promete ser enorme e enormemente interessante, abrangendo toda a América do Norte, isto é, os seus três principais países — Estados Unidos, México e Canada — tem forçosamente que acompanhar a das excursões organizadas por motivo do Congresso dos Caminhos de Ferro (…)” 28 . Em Nova Iorque os participantes no Congresso dos Caminhos de Ferro foram recebidos por uma comissão de recepção que organizou as excursões de forma que os técnicos que participavam nesta reunião pudessem visitar os locais que mais lhes interessariam. Assim, porque se tratava de um grupo em que os enge- nheiros eram maioritários “para lhes mostrar coisas interessantes, nada mais próprio que as fábricas de energia eléctrica, as novas estações em construção para os caminhos de ferro e os trabalhos do túnel que ligará a estação de Jersey com a cidade, as obras do alargamento da estação central da rua 42ª, e o primoroso serviço de automóveis eléctricos“Quanto aos automóveis este é um serviço que se torna notável na América. Em cada cidade uma companhia de automóveis organiza diariamente 4 ou mais passeios, em grandes carros em forma de plateia para 40 pessoas, por um dólar (uns 500 réis nossos) cada uma. No carro vai um guia que, por meio de uma buzina fala aos passageiros explicando e descrevendo todos os pontos por onde o carro passa ou que dele se avistam(…)” 29 Depois de Nova Iorque, os congressistas deslocaram-se a Pittsburgo cidade que conhecia um grande desenvolvimento económico e que, por isso mesmo se encontrava grandemente poluída — “Pittsburgo é, como dissemos, a cidade do ferro, do fumo, do negrume, o que lhe imprime um carácter infernal muito sugestivo. Ville du fer lhe chamamos, por gracejo, e mais tarde vimos que alguém, antes de nós, fizera igual calemburgo.

27 GCF, nº418, p.149.

28 GCF, nº419, p.167.

29 GCF, nº419, p.167.

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Tão grande é a povoação, tão distanciadas as grandes fundições e altos fornos em que se trabalha o ferro e o aço para todas as aplicações, que foi necessário levar ali os congressistas em comboios especiais, dentro dos quais se passou uma boa parte do dia, circulando na cidade e proximidades30 . O fumo das fábricas era de tal forma intenso em Pittsburgo que não foi possí- vel fazerem fotografias, o que segundo Mendonça e Costa foi uma vantagem, a novidade da possibilidade de se registar as imagens do que se via fez com que os

excursionistas estivessem constantemente a tirar fotografias. Assim, a existência de fumo, “valeu que — só ali — nos livrássemos duma infernal praga que infesta toda a América — as máquinas fotográficas. Durante o mês que durou o congres- so, com as suas sessões, estudos, excursões e festas, não foram menos de cem as vezes que os senhores fotógrafos nos fizeram estar em posição, para nos tirarem em grupos; isto é, a 6 minutos cada vez foram 10 horas de viagem consagradas

a estes artistas que logo nos davam o seu bilhete para, se quiséssemos, podermos

obter uma prova do seu trabalho, no dia seguinte mediante um ou dois dólares” 31 Na cidade de Saint Luiz “o que mais tínhamos que examinar é o monumento que mais brilha hoje na cidade é a sua Union Station, uma das mais belas do mundo32 . E em “Chicago, o termo norte da linha principal é uma cidade enorme, das maiores e mais activas dos Estados Unidos. Quase todas as grandes invenções, os novos maquinismos, esses milhões de diferentes artigos que o país exporta e nós vemos por toda a parte, são fabrica- dos em Chicago. È inumerável a quantidade das suas fábricas como estonteadora

a faina que se nota no trabalho33 . Ao longo desta viagem Mendonça e Costa tem a clara percepção da impor- tância que a publicidade tem para promover as viagens. E, talvez porque nesta altura havia um interesse particular em incentivar as viagens ao Alaska, “Nume- rosos guias, folhetos, prospectos, mapas, roteiros, são distribuídos a montes por toda a parte, referindo maravilhas do Alaska. As companhias de vapores fazem não só continuas carreiras par ali, durante todo o ano afrontando os gelos, como estabelecem, no verão sucessivas viagens de recreio, em vapores especiais, em que as passagens, apesar de caras, uns 200$000 réis por pessoa, são disputadas por forma tal que os vapores se acham todos tomados com dois meses de antecedência” 34

30 GCF, nº423, p.230.

31 GCF, nº423, p.230.

32 GCF, nº423, p.230.

33 GCF, nº424, p.245.

34 GCF, nº439, p.107.

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Tal como fizera no Oriente Mendonça e Costa analisa e descreve os costumes dos povos da América. Assim considera que “Antes de prosseguirmos na descrição das viagens bom é ir dando algumas notas da observação da vida americana

que poderão interessar não só o leitor que tenha que vir a este país, como recrear

o que não pense sair de Portugal35 . Se considerar que alguns dos costumes dos americanos são bem diferentes daqueles que são usais no seu país, “Para contra- por a estes costumes especiais que contrariam o visitante outros há excelentes nos Estados unidos, que tornam agradável a viagem neste país. Primeiro que tudo, uma ampla liberdade, uma ausência de exigências, de rigores, de regulamentos imutáveis a torturar o estrangeiro36 . O mesmo verificou na cidade do Quebeque, “uma cidade católica, e cosmo- polita” em que as ruas estavam cheias de “elegantes damas, circulando apres- sadamente, sós, o corpo todo vestido de branco, os dentes todos vestidos de amarelo” 37 . No final da viagem Mendonça de Costa fez um balanço da mesma cons- tatando que visitara um total de 72 cidades das quais 48 nos EUA, 11 no Alasca, 7 no México e 7 no Canadá (ver anexo II). Sintetizando podia dizer que o “balanço final e moral: alguns quilos de menos no peso do nosso corpo, à chegada, e um sem número de deliciosas impressões de tão larga viagem, e também — o que não se desfaz nem mesmo com o tempo — um agradável sentimento de gratidão

a toda a América que tão amavelmente nos recebeu e nos facilitou uma das maiores viagens que aqui tem sido descritas38

Considerações finais

Embora o início do século XX seja marcado pelo interesse crescente pela viagem e pelo conhecimento de novas regiões Mendonça e Costa foi um caso excepcional pelo número e variedade de viagens que realizou. Como referia um seu contemporâneo

apaixonado pelo turismo, dedicou uma parte da sua vida

o norte da África, a China, o

Japão, tendo sido o primeiro portuguez que atravessou a Ásia no Transiberiano

a viajar. Percorreu todos os países da Europa (

Verdadeiro "

);

e no Mandchuriano; visitou a Terra Santa a Assyria; a América do Norte e o

México, (

Tomou parte em quasi todos os Congressos da imprensa bem como

)

35 GCF, nº422, p.212.

36 GCF, nº422, p.212.

37 GCF, nº425, p.261.

38 GCF, nº443, p.255.

666 Ana Cardoso de Matos / Elói de Figueiredo Ribeiro

nas reuniões do Congresso Internacional dos Caminhos de Ferro. Esteve na Austrália (…) as suas Notas de Viagem, feitas sempre com escrupulosa exactidão, descrevendo os lugares que visitou e os costumes dos povos por uma forma simples e despretensiosa mas que revela um fino espírito de observação, não lhe faltando um comentário apropriado e um dito espirituoso a sublinhar cada

acidente ( )”

Os relatos de viagem que nos deixou são um elemento precioso para, por um lado, se perceber como no início do século XX se viajava nos diferentes países e, por outro, se conhecer as características dos comboios ou das estações.

Os relatos são também uma importante fonte de informação sobre as regiões que Mendonça e Costa visitou e, sobretudo, um “olhar” de um europeu sobre outros continentes e outras culturas, de que neste texto apenas fizemos a primeira abordagem de uma investigação que temos em curso.

39

Anexo I

Viagem ao Oriente

que temos em curso. 39 Anexo I Viagem ao Oriente GCF, nº 406 de 16/11/1904, p.357

GCF, nº 406 de 16/11/1904, p.357

Anexo II

Viagem à América

nº 406 de 16/11/1904, p.357 Anexo II Viagem à América GCF, nº 448 de 16/8/1906, p.448

GCF, nº 448 de 16/8/1906, p.448

39 GCF, nº 580 — 16/2/1912, p.59.

Conto “A Viagem” de Sophia de Mello Breyner:

a orfandade do desejo na diáspora dos lugares

GILDA NUNES BARATA

ISBN 978-972-8886-24-0 • FROM BRAZIL TO MACAO • CEAUL / ULICES 2013

Resumo do Conto:

Um homem e uma mulher fazem uma viagem de carro. Percorrem uma estrada e ao chegarem a uma encruzilhada escolhem um caminho, no entanto a meio do caminho notam que se enganaram e tentam regressar à encruzilhada mas já não a encontram. Continuam a viagem. Chegam a uma parte da estrada em que têm que optar por uma colina com

árvores ou uma planície e optam por subir a colina para poderem avistar todos

os caminhos a fim de encontrarem o caminho certo que os conduzirá ao destino.

Ao chegarem à colina, avistam um cavador e perguntam-lhe pela encruzilhada.

O homem diz para esperarem um pouco. Enquanto esperam bebem água numa

fonte. Quando regressam da fonte, o cavador já não está lá. Decidem voltar para

o carro e ir na direcção que o cavador lhes tinha indicado, mas o carro já não

estava lá. Resolvem voltar à fonte que também desaparece. Seguem a estrada e passado algum tempo encontram uma casa. Batem à porta e ninguém abre. Arrombam a porta e encontram a casa vazia com uma lamparina de azeite acesa, roupa estendida no arame e pão e vinho numa mesa. Decidem voltar à estrada, mas a estrada já não existe. Tentam reencontrar

a casa mas não a avistam. A mulher está cansada. O homem insiste no sentido de continuarem. O per- curso é atravessado por um regato, uma bilha, um tarro, um lenhador, um rio… Tentam de novo encontrar a estrada. Retomam a caminhada, ouvindo vozes que rapidamente se distanciam. Chegam ao fim da floresta, já noite. Apercebem-se que estão perto de um abismo. Tentam seguir um carreiro rente ao abismo. O homem escorrega. A mulher tenta alcançar o homem, percebe que acabará por cair assim que as raízes que agarrava romperem da terra. E só avistando escuridão pensa que para lá do abismo estará alguém…

*

Poderíamos indagar da necessidade de partir. Poderíamos indagar da neces- sidade de viajar. Mas de que se trata quando se fala de viagem? A viagem uterina, interrompida por um parto, por gritos agudos, desmedidos, desgarradamente solitários e nus? O momento do parto, o momento que deforma,

670

Gilda Nunes Barata

desfigura a viagem tranquila no útero? Na paz de uma noite antiga, há qualquer coisa que irrompe, uma fenda, uma ferida. Termina uma viagem. Começa uma outra. Como se se tivesse ultrapassado toda a companhia da solidão e se se ambicionasse a companhia do mundo sombreada por meteoritos e oceanos.

O momento do nascimento, o erguer da voz arrancada aos confins do uni-

verso. Trocar alguém por outro alguém, obrigar alguém a responder, a configurar o silêncio.

Percebe-se então que uma viagem termina, que outra segue.

A viagem é uma feição muito importante da escrita de Sophia de Mello

Breyner. Na sua obra, a viagem é uma provocação que contém uma dimensão de beleza que transporta mais do que a sua própria beleza. É o acentuar de uma necessidade de interpelar um espaço de desiderato ou uma lacuna que denuncia insuficiências e incumprimentos vivenciais. Para a autora, em salutar diálogo

com as palavras de Ortega y Gasset: “A vida é, na sua mais primária essência, interrogação, ou, o que é igual, incerteza, impossibilidade de contentar-se com as coisas, com o que está aí agora e obrigatoriedade forçosa de antecipar o que serão”. 1 A viagem é um eixo do vórtice transformador do enigma em degraus de vida. Na sua essência, a viagem é a convergência originária dos arcanos meta- físicos que se fazem vida. É uma forma de desvio transcendente à revelação mais alta de visões imanentes. Por vias diferentes, a viagem violenta o que quer definir, agarrar, capturar.

O que é que se cumpre numa viagem?

Cumpre-se um combate. O assassinato de uma liberdade por um crime livre.

O viajante é sempre um ente tenso e menos errante do que se pensa. Ele

sabe muito bem que o não viajar o fará mais errante do que a partida. Um abutre ao ficar pode agarrar a podridão, mas nunca o dom de viajar. O ficar alisa as almas a uma ditadura pequena. A ditadura da viagem é sempre maior. O viajan- te enfrenta a entrega plena à vida, ainda que conduzida por quietismo ou por inacção espaciais. A viagem implica risco, a preparação para ser num caminho que para lá de conhecido é olhado com um gesto de solenidade. Todas as viagens são solenes, inaugurais. Simbolicamente, a autora recorre à “encruzilhada” profundamente enrai- zada em tradições de literatura sobre viagens. Diz: “E, dentro do carro que os levava, a mulher disse ao homem: — É o meio da vida. Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os

1 José Ortega y Gasset, O que é a Filosofia?, Lisboa, Edições Cotovia, 1999, p.203.

Conto “A Viagem” de Sophia de Mello Breyner: a orfandade do desejo na diáspora dos lugares

671

rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse. Surgiu uma encruzilhada. Aí viraram à direita. E seguiram”. 2

A “encruzilhada” é um ponto neutro, um ponto à semelhança do “ponto cin-

zento” de que fala Klee, um ponto que pode ordenar ou desordenar tudo para sempre. Ponto não dimensional, destemido. Norte. Sul. Este. Oeste. As possi-

bilidades a seguir diante de inúmeras alternativas. Qual o caminho? A angústia instala-se. A escolha é imprescindível para a continuação de uma viagem que responda à insuficiência de respostas e faltas de um mundo parturiente, nos recessos criativos deste.

A

mulher do conto “A viagem”, diz a certo momento: “ — É o meio da vida”.

O

passado foi descontinuidade. O futuro colherá a descontinuidade. O conto

desenrola-se na translação do tempo/espaço que determina um movimento de circularidade, um aprisionamento dos mesmos. A mulher quer tudo agarrar,

possuir. Por fim, até o precipício julga controlar (“ — Do outro lado do abismo está com certeza alguém. E começou a chamar” 3 ).

É a luta contra a morte das suas ilusões através de mais uma ilusão redentora de todas as outras: o chamar alguém. Exorcizar todos os momentos ilusórios

fintando a morte — a sua última ilusão. Como num sonho que reabre a realidade, remetendo-a para a verdade do sonho.

A mulher do conto “A viagem” diz-nos que é preciso iludirmo-nos. Ignorar a

morte através da ilusão da mesma — qualquer coisa do lado de lá. Alguém que contribua para o fechamento da verdade e a abertura à ilusão. Uma pressa que decorre do desespero que em nós produz o esperar, a estabilidade fátua das coisas, o influxo delas poderem dar-nos apenas o que não está à nossa disposição guindando-se no advento do nada, lançando rebentos do agora doméstico, intra- humano, dominador. Um escorço finito a abrir as estrelas que são sempre. Num tom de brevidade e despojamento, a autora não coloca nenhum impe- dimento à viagem do casal que logo depois não convoque mais ilusão no olhar seguinte, a não saciedade que inaugura a falha ontológica da transgressão seguinte em dádiva iluminativa de pó. Depuração, limpidez, precisão são algumas das palavras-chaves para esta escrita desvelada sempre na redenção e para a viagem descrita quase sem des- crição, sem cortejo. Não é preciso explicar o porquê da viagem. Viaja-se porque se viaja. A procura não tem que ser explicada com nenhum tipo de artifício. Ela estala, escreve, pinta utilizando a carência no carvão, pincel, tinta-da-china ou

2 Sophia de Mello Breyner Andresen, “A Viagem”, Contos Exemplares, s/l, Figueirinhas, 1985, p. 105.

3 Ibidem, p.127.

672

Gilda Nunes Barata

no inflectido do corpo fugidio. A inquietação não pressupõe que a viagem seja inquieta, mede somente a suicidária abertura que interseccionando ânsia com posse multiplica o sonho numa demanda perseverante do escatológico. Pelo contrário, o casal manifesta uma vontade que o faz prosseguir (“A mulher porém entornou a cabeça para trás e respirou profundamente o cheiro das árvores e da terra. Estendeu a mão no ar e na ponta dos seus dedos poisou uma borboleta. — Ah — disse ela —, mesmo perdida vejo como tudo é perfumado e belo. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz poisa leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre” 4 , diz a mulher). Uma balança interior fá-la prosseguir no caminho que a solidão interna das coisas externas adensa. A deserção de si corresponde ao éter mister último do eco do que em si persegue. É altura do encontro com as dádivas da terra, o estado primordial: “Encon- traram uma sebe carregada de amoras. — São maravilhosas! — Disse a mulher. O homem colheu um punhado de amoras e estendeu-as na palma da mão à mulher. Ela provou e tornou a dizer: — São maravilhosas! Rindo, começaram os dois a colher amoras e, tendo reunido uma grande quantidade, sentaram-se no chão a comer. A luz oblíqua da tarde passava entre os troncos escuros e acendia o verde das ervas” 5 ). Porém, de tudo o que tiveram só um vislumbre balouçante perdura. Não fosse uma viagem o ressoar. Ressoam nos búzios os mares viajados. Ressoam nos mares os ventos em mastros longos e não duráveis. Ressoa, mas não existe. De álcool e oxigénio sente-se algures algo de invulgar importância em queda e cisão. Os obstáculos de uma vida? Os obstáculos de uma viagem? A vida é incriada, mas tudo o que invoca é imaginoso. Há flores carnívoras, de espessuras licorosas e de cinza na vida da incomensurável totalidade das coisas. A viagem, também ela, é criada no incriado da vida: “o rio”, “o cavador”, “a fonte”, “as amoras”, “a bilha”, “o tarro”, “o lenhador”, “as vozes” são exis- tentes apenas no recorte ilusionista da viagem? Todos os lugares benignos ultrapassados pelo fito da voragem em alcançar o “lugar maravilhoso”, o misterioso lugar que promete a completude da felicidade (“E ela imaginou com sede a água clara e fria em roda dos seus ombros, e imagi- nou a relva onde se deitariam os dois, lado a lado, à sombra das folhagens e dos frutos. Ali parariam. Ali haveria tempo para poisar os olhos nas coisas. Ali haveria

4 Ibidem, p. 120. 5 Ibidem, p. 119.

Conto “A Viagem” de Sophia de Mello Breyner: a orfandade do desejo na diáspora dos lugares

673

tempo para tocar as coisas. Ali poderiam respirar devagar o perfume das roseiras. Ali tudo seria demora e presença. Ali haveria silêncio para escutar o murmúrio claro do rio. Silêncio para dizer as graves e puras palavras pesadas de paz e de alegria. Ali nada faltaria: o desejo seria estar ali” 6 ). Todos os obstáculos, transversais à beleza da viagem, são sublimados através de um promitente “lugar maravilhoso”? Beleza — palavra fundamental neste conto. Beleza ou perdição cansada à espera de esperança? A beleza sem nada a temer enquanto houver esperança.

A esperança alimentada pela perdição da beleza, a beleza ligada à aura. Uma

perdura recordada (a beleza), a outra (a esperança) recua/avança para o “lugar maravilhoso” a conquistar. Terá a “mulher” conquistado o “lugar maravilhoso”? Terá conquistado a realização da sua vida?

A punição da mulher por uma eventual não conquista não é o precipício,

como se possa imaginar pelo desenrolar do conto. Em nosso entendimento, a punição de uma vida não vivida em plenitude não é a morte. Amedrontam-nos

com a morte as culturas ocidentais, mas a morte ignora-nos uma vida inteira e é

a única coisa que não retira nada à vida para seu proveito. É a mais das indefesas

— mártires calamidades, não sendo calamidade nenhuma, se acharmos mistério igual no que a vida é e no que nela há.

A “mulher”, diante do abismo — precipício, consegue agarrar a sua vida toda,

o seu trajecto. O “cavador”, o “rio”, a “fonte”, a “encruzilhada”, todos os rastos, estão ali à espera, finalmente à espera. A “mulher” pode reaver o instante, se não avançar para a criação de uma nova ilusão. A “mulher”, porém, não aceita

a

desilusão — o fechamento final, e remete para uma ânsia nova — alguém que

a

socorra (nova ilusão).

O

abismo para que a autora aponta é, para os muitos estudiosos deste conto,

o

terror da morte, o terror do vazio. Pergunta-se: Porque aterrorizará mais o

confronto com o desconhecido da morte do que a própria vida, se incognoscíveis foram os momentos probatórios da mesma?

A “mulher”, no momento da queda, não cai sozinha. Amparada por todas as

suas ilusões, ela redime as ilusões do “cavador”, do “rio”, da “fonte”, de tudo

o que encontrou. Talvez o cavador precise daquele momento, a fonte transborde,

o rio siga. Não é um engano ou erro a possível morte. A possível morte é o momento não ilusório que pode convocar a verdade do ilusório.

A “mulher” poderá conhecer a realidade do homem que cavava (seria mesmo

um cavador ou cavava, por acaso)? O rio? O rio era um rio ou um mar amedron-

tado de vastidão? A fonte? A fonte podia estar seca há muito tempo e jorrar…

674

Gilda Nunes Barata

O ilusório não se constitui pelo desaparecimento das coisas ou entes da percepção mais superficial do casal. A nosso ver, o ilusório reside no casal ter dessas coisas a percepção subjectivista das mesmas, ter vivido tão pouco tempo a escuta que elas reclamavam (lugares “onde só estavam escritos os gestos da vida” 7 ). A “mulher” não perguntou ao cavador o essencial da sua vida (pedir ajuda é só uma parte essencial da vida daquele que pede…). A mulher não incutiu no rio muito mais do que a sua manipulação através da água que poderia matar a sua sede e do prazer de nadar. A “fonte”, as “maçãs vermelhas”? É suficiente deixarmos as coisas darem-nos a beleza, sem nos dedicarmos a elas? Pergunta-se… Esse é o comportamento do turista e não do viajante. O viajante permuta essências, fica mais pobre, desgasta-se, não só se enriquece. O turista, de tão enriquecido, vai pobre até ao destino de regresso. Sophia de Mello Breyner dá-nos ainda o terror desta viagem sem exagerar nesse terror (“Ambos ficaram mudos. Depois a mulher deixou-se cair no chão, e, estendida entre as pedras, chorou com a cara encostada à terra” 8 ). Dá-nos o medo sem exagerar esse medo (“Agora tenho sempre cada vez mais medo. Tudo desaparece. — Estamos juntos. — disse o homem” 9 ). O pasmo rente à dúvida. A brevidade a que tudo atribui não retira importância à perda, mas não acentua demasiadamente a falta. Há um equilíbrio, uma inexplicável justa medida para um trajecto de religação, uma religação sem resposta. Na verdade, a “mulher” sente uma falta ontológica que naufraga em perdas que se sucedem. Pode ser um capricho sentir falta muito tempo, por isso, ela sente falta algum tempo e deixa para trás o objecto perdido. O tempo da vai- dade. A vaidade dos homens perante o desapego do curso da vida. Também a vanidade enquanto o vão/efémero acontecimento de tudo. Procurar constan- temente um “lugar maravilhoso”, não será uma vaidade da consciência? Um lugar pesado e denso, de difícil respiração, é a recompensa para quem procura lugares de claridade. É preciso respirar dificilmente para arranhar a verdade. Depois de muito ver e ouvir, há que embalar a escuridão com mais escuridão… O dom do precipício, a sorte de confrontar o abismo, nem que seja uma única vez… A viagem ensina a viagem. A vida ensina a vida. A nossa atenção/dedicação ao mundo é o culto que as coisas pedem. Uma consciência atenta é a que decifra algo mais do que a cifra de uma coisa. Existir é um exercício que reflui sobre

7 Ibidem, p. 112.

8 Ibidem, p. 113.

9 Ibidem.

Conto “A Viagem” de Sophia de Mello Breyner: a orfandade do desejo na diáspora dos lugares

675

a

vida. O que vive, existe no refluxo do que liberta. Impressões brevíssimas,

o

corpo vaza-se em suspensão. Em relação ao casal do conto “A Viagem”, nunca estes assumiram o estado

edénico antes da chegada ao éden? Porquê? Porque é que nunca houve a assumpção de que já lá estavam? Porque é que as delícias vindouras são sempre mais gratificantes do que as presentes e mais operantes no momento futuro? Não estavam já todas as coisas suficientemente acesas (“Todas as coisas pareciam acesas” 10 )? Misteriosamente, a viagem do casal e a viagem da vida descem com as delí- cias que oferecem. Emanam da natureza sinais que pousam na cara, nos ombros do casal sem abraço. A “mulher” estende para o homem as mãos abertas, com as palmas viradas para cima.

A “mulher” não repete os mesmos gestos, não repete as mesmas palavras

e o que diz inteiramente o vento arranca inteiramente à sua boca. Ao longo de uma vida, ninguém decora as palavras como sendo moduladas por um canto. Acendem-se palavras que ocupam espaços visíveis com a sua forma, densidade e peso. Palavras que são só o nome das coisas. Palavras que não reúnem o disperso ou o brilho do que nomeavam…

Será que a “mulher” nomeou devidamente as coisas? Será que nomeou

devidamente o nome da sua vida? E o precipício, não será a nomeação do precipí- cio o nome da vida? A “mulher” não teve apenas um sucessivo número de perdas. Ela teve o ensinamento dessas perdas. Porque é que a autora não enfatiza o ganho do desaparecimento? Quantas coisas, nas nossas vidas, não são redimidas pelo desvanecimento dessas mesmas coisas?

A “mulher” está condenada a inventar novas soluções para uma estação que

é paragem. Ela não parece procurar a sua liberdade nem a do parceiro ou da

natureza. Ela parece procurar o “lugar maravilhoso” que pode não ser o lugar da sua felicidade. A sua facticidade corre atrás dos factos ou os factos não são a facticidade da sua vida? Não percebemos. Não percebemos se este casal é feliz

ou não é feliz. Também não se sabe se o que procuram, procuram com força. Falta força a esses não rostos. São porosos demais. Cabe lá tudo. Podem ser o que quisermos. São atirados para uma viagem que não sabemos se quiseram mesmo fazer.

Por fim, a “mulher” não suporta o fim da ilusão, o momento da transpa- rência e quer envolver um outro (uma alteridade) no processo ilusório, no jogo perigoso de não aceitar o fim do princípio da manifestação.

O homem, ao contrário, aceita ou não aceitando, a autora não nos dá conta

de nada.

676

Gilda Nunes Barata

A exaltação, a exultação, o clamor, a alegria de ver ir e vir o êxtase, o contí-

nuo avançar ordenam o tumulto do mundo para o dia da celebração: um lugar esburacado.

Talvez o dia da celebração não seja o “lugar maravilhoso”. Talvez um lugar maravilhoso tenha os buracos dos lugares mais frágeis. Afinal, o “lugar maravi- lhoso” não é dado em nenhum momento da narrativa ou será dado ao longo da mesma sucessivamente? E se não é oferecido, será porque a ordem natural do cosmos tem um fundamento para a sua não vinda?

A “mulher” não esconde a inquietude na modulação do acaso ou na ima-

nência/transcendência das coisas. Todas as situações existenciais conferir- -lhe-ão um sentido novo purificador? Não sabemos.

A mulher não muda de rota, não afunda a ilusão do “lugar maravilhoso”

na aquisição de uma sabedoria. Não estará frente a frente com o “lugar maravi- lhoso” e inúmeras vezes reiterando a sua procura cega? Preside à sua cegueira levar o parceiro consigo e cegá-lo ainda mais. Vendas. Cegueira perpétua a deste casal, já que no momento da morte não acordam. Não julgamos ter sido tempo perdido o que uns pensam ser tempo perdido. Determinados gestos como colher amoras ou fazer um ramo, que sentido acres- centam a uma vida? Apanhar flores com as raízes para levá-las, deslocá-las, é um momento epifânico? E porque é que essas flores não cederão à deslocação? O deslocar constantemente o encanto da surpresa da natureza pelas nossas voluntariosas demandas de certezas, será o mais valioso? A mulher não sabe se o “lugar maravi- lhoso” terá as delícias que ouviu a outros. Diz a autora/narradora: “Era um lugar onde nunca tinham ido. Nem conheciam ninguém que lá tivesse estado. Só o conheciam do mapa e de nome. Dizia-se que era um lugar maravilhoso”. 11 Além. Além. A dimensão ampla das coisas sempre no além. Tudo um meio para um fim mais precioso que o meio? — O além. De forma inexplicável, as coisas dialogantes só podem dialogar num lugar distante? Porquê? Porque é que no momento presente são incomunicáveis? “Ali”? Porque não, aqui, agora? “Ali” — um lugar condenado a ser livre. Um lugar sem desculpas para a não perfeição. Um lugar condenado a ser luminoso, lançado ao abandono da falsi- dade de estados de consciência. Um lugar sem justificações, quase desonesto.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do outro

ISABEL MARIA FIDALGO MATEUS

University of Birmingham

ISBN 978-972-8886-24-0 • FROM BRAZIL TO MACAO • CEAUL / ULICES 2013

1. Introdução

Desde o início da Literatura de Viagens europeia, cujo marco periodológico

se situa no século XV e surge ligada à época das Descobertas de quinhentos, que

a questão do Outro é extremamente relevante. O encontro e o olhar imediato

do povo descobridor em relação ao indígena tende em geral a estabelecer-se de

forma comparativamente superior e através duma visão eurocêntrica. Foi esta perspectiva de superioridade do Mesmo em relação ao Outro que imperou na

Europa durante a conquista e o estabelecimento do poder colonial até ao século

XX inclusive, como o atestam entre outros, por exemplo, Mary Louise Pratt em

Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation, Tzvetan Todorov em La Con- quête de l’Amérique: La Question de l’Autre ou Edward Said através da obra Culture & Imperialism. No caso tardio da África portuguesa só cessou com a

descolonização, que ocorreu entre 10 de Setembro de 1974 e 11 de Novembro

de 1975, após a queda da Ditadura em Portugal com o 25 de Abril de 1974 e o

consequente terminus da Guerra Colonial. 1 É precisamente na qualidade de opositor ao regime de Salazar e de não apoiante da Guerra Colonial entre Portugal e a África, que se iniciara a 4 de Feve-

reiro de 1961 em Angola, sob a iniciativa do MPLA, e se alargara em 1963 à Guiné

e em 1964 a Moçambique, que Miguel Torga se desloca a África. O Eu parte com

o intuito de se encontrar através da sua viagem actual e de se rever, no sentido colectivo, nas consequências de uma muito anterior — a viagem dos Descobri- mentos portugueses. É, portanto, simultaneamente uma viagem individual e colectiva como o documenta o poema sugestivamente intitulado “Viagem”, pois

é com ele que Torga inicia o Diário XII e anuncia a sua deslocação física, via aérea, a África. Preconiza igualmente para esta viagem “um adeus eterno” e quase se sente como um dos navegadores de quinhentos. Assim, com esta visita de Torga a África, que decorreu entre 17 de Maio e 12

de Junho de 1973, pretendemos mostrar a viragem da sua percepção do Outro

africano e contrapô-la à da presença portuguesa vigente em África, que coincide, afinal, com a de cinco séculos da nossa história com pé nesta terra. É através da

1 Marques, A. H. Oliveira, Histoire du Portugal et de son Empire Colonial. Paris: Éditions Karthala, 1998, p. 576.

680

Isabel Maria Fidalgo Mateus

sua atitude de rebeldia de homem livre, que por vezes se auto-flagela pelo peso da circunstância de ser ele próprio português e, como tal, colonizador, do seu comportamento de um visionário e de um “cronista de excepção” 2 que o Mesmo se confronta com a alteridade do Outro.

2. A alteridade africana nas obras A Criação do Mundo — O Sexto Dia e Diário XII de Miguel Torga: no humano (branco e negro); no telúrico (a paisagem e a caça); na arquitectura; na língua e nas crenças.

2.1. Alteridade em relação ao humano

A alteridade do Outro em Miguel Torga no que respeita a África refere-se como é evidente ao humano, de um lado o branco e do outro o preto, através da sua arquitectura, da sua língua e das suas crenças, mas passa principalmente pelo telúrico, que compreende a paisagem e a caça. Por essa razão, Torga resume à natureza a única possibilidade de conhecimento da terra africana:

Nova Lisboa, 30 de Maio de 1973 — O pé escreve as unidades; o automó- vel adita as parcelas; o avião mostra a soma. Das três maneiras me tenho servido para levar desta terra uma imagem condigna. Da terra, repito. A dos homens não requereu tanto esforço. Igual por toda a parte, ao primeiro relance fica entendida. (…) Teimo, pois, na prospecção da natureza, o único mistério que resta em Angola. 3

Contudo, como constatamos pela mesma nota do Diário, esta empresa de deci- fração revela-se-lhe ingrata, porque esta imensa terra continua por desbravar, intacta sem a única marca de presença humana. 4

2 Moreiro, José Maria, Miguel Torga e África. Lisboa: Universitária Editora, 1996, p. 19. Esta obra de edição bilingue é inteiramente dedicada à viagem de Miguel Torga por África, como o próprio título deixa adivinhar, e neste dedica-lhe uma parte onde designa Torga de “Cronista de Excepção”.

3 Torga, Miguel, Diário XII. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 1253.

4 As várias tentativas de colonização do interior africano com população originária da Metrópole (sobretudo os degredados) revelam-se infrutíferas ao longos dos séculos. E mesmo durante o maior afluxo da história da colonização da África lusófona pelos portugueses, que ocorreu entre 1960 e 1970, os emigrantes, na sua maioria provenientes das camadas rurais empobre- cidas, refugiam-se nas cidades e aí procuram fugir ao trabalho árduo do campo, sua anterior ocupação. A este respeito e para uma detalhada evolução desde o século XVI até ao século XX da colonização africana em geral e, em particular, do povoamento rural de Angola, que se processou de forma idêntica nas outras colónias, veja-se a obra de Gerald J. Bender Angola Under the Portuguese: The Myth and the Reality (London, Nairobi, Lusaka, Ibadan: Heinemann, 1978), Part II. White Settlement, pp. 55-129.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

681

Começando pelo aspecto humano é bem notória a desilusão do escritor- viajante perante o que observa no território africano e está patente naquilo que escreve no seu Diário XII quando, por exemplo, visita Cela e que reforça igual- mente em A Criação do Mundo — O Sexto Dia. Também em ambas as obras recorre

à analogia entre a colonização do Brasil, que conhece como emigrante, e o que

constata em África. Entre muitas outras possíveis, vejamos então a nota de Cela datada de 21 de Maio:

Não há dúvida: o português foi incapaz de repetir nestas paragens africa- nas o milagre brasileiro. Lá enraizou-se; aqui, não. Certamente porque lá o senhor e o escravo eram ambos emigrados e colonizadores. Estrangeiros os dois, tinham a mesma necessidade de sobrevivência e de entendimento. 5

Do que a citação deixa adivinhar, subentende-se que o Mesmo e o Outro não se encontram em sintonia. De facto, quando em território africano, o Eu reconhece no Outro diferentes graus de alteridade inerentes às situações de contraste exploradas pelo escritor-viajante munido do seu método prospectivo de apreen- são da realidade africana. 6 Estas foram originadas pela forma divergente de apro- ximação dos descobridores e viajantes portugueses e europeus da época das Descobertas e dos séculos sucessivos perante as terras achadas e colonizadas e os seus nativos: a pretensa superioridade europeia racial e cultural. Consideremos em primeira instância o encontro de Torga com um Outro com

o qual não lhe é possível identificar-se. Trata-se do indígena que não foi acultu- rado ou assimilado, pois não fala a língua portuguesa, nem entende o branco nas suas diferentes manifestações culturais:

While the number of Africans enrolled in school increased over tenfold during the final quarter century of colonialism, the poor quality and rigidity of the educational system precluded all but 5 per cent of the Africans enrolled from completing the four years of primary school. Thus, the one instrument which Portugal possessed for effectively assimilating

5 Torga, Miguel, Diário XII, pp. 1248-9. Gerald J. Bender no capítulo II “The Dynamics of Miscegenation” do seu livro acima citado compara e contrasta os efeitos da colonização portuguesa no Brasil e em África e entre outras razões apontadas, como a de um maior número de colonos brancos de diferentes nacionalidades, o seu pensamento vai ao encontro dos argumentos apresentados por Miguel Torga.

6 Mateus, Isabel Maria Fidalgo, A Viagem de Miguel Torga. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2007.

A

Autora refere-se a este método, que o escritor Miguel Torga utiliza sempre que viaja, assim

o

definindo: “O método de prospecção consiste em o Mesmo (o eu) perscrutar a realidade do

Outro para o conhecer e, consequentemente se encontrar a si próprio, formando a sua identi- dade”(p. 28). Note-se que na citação referente ao Diário XII, datado a 30 de Maio de 1973, de Nova Lisboa, Miguel Torga utiliza inclusive o nome “prospecção”, que remete evidentemente para o método em causa.

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Africans in Angola was accorded such a low priority and was so poorly utilized that only a minute proportion of Africans were ever meaningfully exposed to Portuguese culture, let alone desirous of assimilating it. 7

Havendo neste caso alteridade radical ou absoluta, o Eu não consegue ultrapassar

a barreira de duas culturas diferentes. 8 O Outro também não se dá a conhecer. Na citação que se segue estão expostos estes dois pólos irreconciliáveis:

O alívio com que deixava lugares aonde a curiosidade me levava e o

instinto de conservação não conseguia distinguir o rancor da cordialidade! Homens, mulheres e crianças olhavam-me no mesmo silêncio enigmático

e pesado, ou sorriam-me ainda mais inquietadoramente .9

Nunca até então o desconhecido da viagem, corporizado na alteridade do Outro, se lhe revelara tão confrangedor e a inibição do Eu perante o indígena não é senão a reacção consciente de alguém que sabe de antemão que do (seu) mínimo gesto mal interpretado pode resultar o acto irreversível da morte:

E experimentava pela primeira vez a sensação penosa de ter medo diante

de semelhantes a quem nunca fizera mal e gostaria até de apertar a mão fraternalmente. Mas o ar que se respirava de norte a sul estava conta- minado .10

Ao lado deste nativo, que habita preferencialmente as zonas rurais, o Eu des- cortina outro tipo mais citadino: o indígena aculturado, onde se notam de forma declarada duas tensões rácicas — a branca e a negra. Neste caso o Mesmo integrou

o Outro. Torga sente empatia por ele e critica o etnocentrismo da colonização

branca que vê o Outro como inferior a si, com expressão na forma como o trata:

No máximo, uma certa afectividade temperamental concedia ao negro a precária dignidade de criatura inferior, primária, infantil, incapaz de progresso, sempre necessitada de paciência e castigo. 11

7 Bender, Gerald J., Angola Under the Portuguese: The Myth and the Reality. London, Nairobi, Lusaka, Ibadan: Heinemann, 1978, p. 220. Bender refere que o processo de assimilação em África se operava em três etapas: “the destruction of traditional societies, followed by the inculcation of Portuguese culture and finally the integration of “detribalized” and “Portuguesized” Africans into Portuguese society” (p. 219). Este Autor opina que, ao contrário do Brasil, em África nem o primeiro estádio se chega a implementar.

8 Krysinsky, Wladimir, “Discours de Voyage et Sens de l’Altérité”, in A Viagem na Literatura. Cursos da Arrábida. Mem Martins: Europa-América, 1997, pp. 235-263.

9 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1994, pp. 172-3.

10 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 173.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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Afinal o que o Governo português queria fazer parecer apenas uma diferença cultural entre europeus e indígenas baseava-se no princípio descriminativo da raça. Segundo o extracto da obra Angola under the Portuguese que se segue, esta inferioridade atinge inclusivamente os assimilados 12 a que apenas uma minoria africana consegue ascender:

In the cities there was little basis for racial harmony: Portuguese peasants displaced Africans from the lesser skilled positions they traditionally held; there were large disparities in wages paid to whites and blacks (including assimilados); and the material and (presumed) cultural differences between Europeans and Africans were too great for meaningful social intercourse to occur. 13

Ainda que Torga não aplauda na sua totalidade a conduta de alguns dos represen- tantes da voz dos indígenas oprimidos — os nacionalistas —, percebe a perspectiva do nativo. 14 Homens cultos, educados muitos deles com matriz europeia na Metrópole ou até no estrangeiro, sendo alguns mestiços e assimilados, insurgem- se através do movimento anti-colonial de 1950 contra o poder dos portugueses em África. Há neste caso uma identificação com o Outro na sua alteridade. Também a opinião de Torga no território nacional diverge da do Governo portu- guês, quanto ao entendimento e valorização dos valores culturais do povo que tão bem elucida no livro Portugal e, sobretudo, não partilha dos ideais políticos de opressão, de falta de liberdade e de censura do Regime do Estado Novo, que expõe em toda a sua obra. Rendido às atrocidades da colonização portuguesa, o Eu toma o partido do oprimido, embora o modo como os seus mandatários se rebelam não caiba na humanidade de Torga. Este em A Criação do Mundo — O Quinto Dia não acalenta ódio contra o seu inimigo; no Aljube presta cuidados

12 Bender, Gerald J., Angola Under the Portuguese: The Myth and the Reality, p. 103. Bender diz que “Before the legislative reforms of 1961 (durante o indigenato), assimilados were those Africans and mestiços whom the Portuguese (legally) considered to have successfully assimilated Portuguese culture and language. However, both the private and public sectors paid Africans, including assimilados, lower wages than those paid to whites. The justification was that the salaries merely reflected the differential productivity of the two races”.

13 Bender, Gerald J., Angola Under the Portuguese: The Myth and the Reality, p. 103.

14 Macqueen, Norrie, The Decolonization of Portuguese Africa: Metropolitan Revolution and the Dissolution of Empire. London and New York: Longman, 1997. Para um estudo detalhado da acção dos nacionalistas e da sua afirmação contra o poder colonial português nas colónias ou Províncias Ultramarinas veja-se o segundo capítulo desta obra intitulado “Nationalist Consolidation and the Wars of Liberation”, pp. 17-63, e ainda o sucinto mas elucidativo artigo acerca dos diferentes grupos nacionalistas em África e da sua natureza de Patrick Chabal “The end of empire in “Lusophone Africa: Portugal and the anticolonial wars, 1960-1974”, in Portuguese, Brazilian And African Studies (Earle, T. F. and Griffin, Nigel (Edited by), Warminster: Aris & Phillips Ltd, 1995, pp. 219-333).

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médicos a um partidário do governo que, através do seu cargo, providencia a sua prisão. No entanto, o Eu compreende que esta seja a única forma por eles encon- trada para dar voz ao povo ameaçado:

Sem argumentos capazes para lhes contrapor, ouvia alanceado as acusa- ções de alguns nacionais esclarecidos. Intelectuais e artistas que, embora radicais no seu ódio, eram a voz impaciente de milhões de humilhados. Todos os Gungunhanas do passado e do presente falavam por aquelas bocas que em língua portuguesa condenavam inapelavelmente Portugal. 15

Apesar de o Eu ter esta postura de abertura e entendimento, também está ciente que à sua presença em terras africanas pode ser atribuído um sentido equívoco pelo colonizado, por ser simplesmente mais um dos membros opressores da metrópole. Do mesmo modo que o escritor-viajante se assume como um Nós, o português, perante a responsabilidade e a culpa de uma colonização falhada em África, porque injusta, também dele se distancia quando o seu objectivo aponta

o seu ponto de vista acerca daquilo que se está a passar na colónia durante a

guerra travada entre a Metrópole e esta Província. Mas na citação seguinte, para além dessa situação, a percepção desse facto na auto-análise do seu comporta- mento face ao Outro é o que mais incomoda e fere o Eu. A culpabilização deixa de ser colectiva para se individualizar e personificar no seu corpo e na sua alma

no decorrer desta sua viagem:

E, a caçar nas matas da Gorongosa ou sentado à mesa lauta de alguns anfitriões abastados, sentia não sei que peso na consciência. Tinha a impressão de estar a ser conivente com todos os que, de uma maneira ou outra, concorriam para atiçar o lume de revolta que, visível ou invisível, grassava de ponta a ponta naquelas terras. Frontal ou traiçoeiro, o perigo espreitava de todos os lados. 16

O Eu não se identifica com o colonizador português como facilmente constatamos

pelas temáticas que ele aborda nas páginas do Diário e em A Criação do Mundo,

as quais remetem para os vários desníveis que existem entre a etnia civilizadora

e a civilizada, como sejam o económico, o político e sobretudo o social. A alteri- dade que se regista entre Torga e o Outro colonizado apenas serve para enfatizar aquilo que o viajante pretende ver mudado em relação à actuação do branco versus o negro. Apesar disso, há sempre por parte de Torga a vontade de conhecer

o Outro. É, portanto, um Outro face ao Mesmo, na medida em que a visão do

Eu perante o colonizado é diversa daquela do colonizador português. O Eu não concorda com esta atitude opressora do branco perante o negro e sente-se

15 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 172. 16 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 172.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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envergonhado pela conduta dos portugueses em África a ponto de com as palavras que lhe dirige pôr a intenção de um pedido de desculpa:

A humilhação e o desespero que senti numa noite em que fui levado a

uma sala onde autodidactas nativos se reuniam e ensinavam uns aos outros, num esforço desesperado de promoção e dignificação! 17

Mas um exemplo gritante é o referente ao da conduta de uma criança branca em relação à sua ama negra adolescente, presente no Diário XII:

Às tantas, a pequerrucha, num capricho, pegou numa régua e agrediu a guardiã, que, naturalmente, a desarmou.

— Pretas! Pretas! — gritou a fedelha em fúria.

— Bem sei que sou preta

“Bem sei que sou preta” é exactamente o oposto de “bem sei que sou branca”. E há quinhentos anos que as duas etnias se excluem mutuamente

nos termos estritos deste dilema bárbaro. 18

— murmurou a mais idosa.”

2.2. Alteridade do telúrico

2.2.1. A paisagem

Comparativamente A Criação do Mundo O Sexto Dia o Diário XII realça melhor, ou seja, nota-se ainda maior preocupação no que respeita à não-identifi- cação do Eu com a paisagem africana; esta afasta-se em muito daquela da pátria. O Eu sente que o sentimento da terra africana também é mútuo em relação a si, esta rejeita-o recusando-se a integrá-lo mesmo depois de morto. Na nota do Diário XII datado de 19 de Maio de 1973, a partir de Luanda, explicita a exclusão telúrica do Mesmo relativamente ao Outro e vice-versa:

Escrevo diante da mesma paisagem feia para que abri os olhos de manhã- zinha e que parece abafar como eu. Paisagem seca, pulverulenta, ardida, de vegetação precária e rasteira, que algumas cabras famélicas depenam

e algumas presenças arbóreas tentam em vão erguer: embondeiros disfor-

mes, edemaciados, monstruosos; mangueiras sombrias, espessas, maciças; mamoeiros esgrouviados, sintéticos, de testículos ao pescoço. Numa apli- cação esforçada, tento compreender este chão em si mesmo, especifica-

mente, mas os sentidos refilam, inseguros fora dos seus padrões habituais

— transmontanos, alentejanos ou beirões. E, por mais que não queira,

sinto-me nele intruso, rejeitado, excluído, com a impressão incómoda de que, se morresse aqui, seria mais facilmente comido por dois abutres que me espreitam da ponta de um galho seco do que pela terra da sepultura. 19

17 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, pp. 169-170.

18 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1248.

19 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1247.

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O Eu nunca perante uma paisagem alheia foi tão peremptório no seu juízo de

valores, embora previamente se tenha esforçado por interiorizá-la na sua dife- rença. Mas o seu relativismo cultural europeu de parâmetros geográficos tão díspares no tamanho e na forma (exemplo do embondeiro) não se conseguiu adaptar à nova realidade, o que não sucedeu no Brasil. Tzvetan Todorov quando aborda o tipo de relações do Mesmo com o Outro indica como exemplar o caso do espanhol Diego Duran que foi para o México ainda criança e, por isso, conse- guiu apreender excepcionalmente no século XVI em pleno as duas culturas:

a espanhola e a dos astecas. 20 Podemos compará-lo nesta medida a Torga de

A Criação do Mundo — O Segundo Dia, em relação à vivência deste durante a sua meninice e juventude no Brasil profundo, telúrico que é também àquele onde ele tem a pretensão de chegar em África, ao contrário dos primeiros desco- bridores e dos colonos que Portugal tentou fixar no interior africano, através das várias tentativas (frustradas) de repovoamento rural europeu ao longo dos séculos até aos finais da Guerra Colonial. Não podemos esquecer, porém, que estes dois continentes tiveram colonizações diferentes como o próprio Torga o diz, assim como o testemunham outros críticos que já aqui referimos. A barreira entre a geografia natal e a indígena é demasiado grande, como no-la anuncia na nota do Diário, datada de 25 de Maio de 1973, a partir do deserto de Moçâmedes, a actual Namibe. Naquilo que regista no dia seguinte ainda do mesmo local afigura-se-lhe intransponível essa diferença, apesar de atenuada pela presença humana. Como sucede em relação à alteridade relativa ao humano, também no referente à paisagem devemos considerar a existência de uma alteridade completa, ou seja, radical. A paisagem africana é realmente um enigma para o Eu e a vegetação um escárnio na figura do embondeiro, mas a sua presença é afinal idêntica à da vegetação pobre das fragas nativas transmontanas, que para além de cilício funciona também como um sortilégio. Neste âmbito tem cabimento a frase reiterativa “infeliz pássaro que nasce em ruim ninho” na obra do autor relativa- mente à pátria, assim como o poema “Embondeiro” no que respeita a África:

Por mais que mude a luz De cada panorama, O teu vulto persiste Em ser a imagem triste Da tristeza africana. 21

20 Todorov, Tzvetan, La Conquête de L’Amérique: La Question de l’Autre. Paris: Éditions du Seuil, 1982, pp. 208-224.

21 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1257.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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Podemos assentir que a atitude prospectiva do Eu face à paisagem africana o leva a cotejá-la com a nativa e, embora não lhe negue a alteridade, esta propor- ciona-lhe pelo paralelismo estabelecido o conhecimento, embora antagónico, dos dois países telúricos.

2.2.2. Alteridade relativa à caça

Intimamente ligada à paisagem surge a caça por duas razões. Primeiro, pelo facto óbvio de o cenário da caçada corresponder a uma vegetação específica da savana africana, obrigando o caçador a permanecer durante horas “enterrado

no capim à procura de rastos, através dum nariz e duns olhos nativos, e a alvejar

a presa a duzentos metros de distância com carabinas de precisão” 22 , o que

conduz ao segundo motivo — a falta de identificação do Eu com o modo como a actividade cinegética aqui se pratica. O cotejo entre a própria caça (os animais),

a forma de caçar em Portugal e em África, Gorongosa, acentua essa clivagem.

Em Portugal há igualdade de circunstâncias entre o caçador e a presa, ou pelo menos não há traição: “Que saudades de uma perdiz bem mandada numa encosta do Douro, abatida de papo!” 23 A caça não é a única em desigualdade de circunstâncias, o negro também está em desvantagem perante o branco e a comparação do poder de Torga, a sua superioridade das balas em relação ao leão desarmado tem a mesma conotação

do colonizador perante o negro, o indígena: “(…) E, a autenticar a obra, a vetusta assinatura do autor, figurada na juba do leão deitado ao lado da companheira,

a olhar com majestática sobranceria o pobre rei da criação que eu era, a exibir

um ceptro de cinco balas nas mãos aterradas”. 24 É ainda neste cenário de caça que o Eu se confronta com o Outro humano da África profunda. Realidade ainda diversa da brasileira, novamente constata também aqui que indígenas e colonizadores não conseguem comunicar, enca- rando-se como perfeitos desconhecidos dentro da mesma pátria. Citando de novo Todorov e encarando a alteridade no plano da epistemologia, diríamos que o português nunca se mostrou interessado em conhecer o africano e que, por isso,

a frase “j’ignore l’identité de l’autre” retrata a postura do colonizador versus o colonizado. 25

22 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1256.

23 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1256.

24 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1256.

25 Todorov, Tzvetan, «Typologie des relations à autrui », pp. 191-207. Neste primeiro ponto do capítulo IV, sob o título “Connaître”, o autor explicita o tipo de relações que o Mesmo

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A caça foi o meio de chegar até eles, isto é, ao povo africano. Contudo, a bar- reira de quinhentos anos interpôs-se entre o Mesmo, o viajante Torga, e o Outro.

2.3. Alteridade arquitectónica

A visita que Torga efectua pela cidade de Luanda na manhã seguinte à sua aterragem desperta-lhe em A Criação do Mundo — O Sexto Dia comentários que revelam a amargura de uma má colonização. É através da arquitectura que ele melhor consegue materializar a explicação de tão nefasta atitude portuguesa, sobretudo porque já tinha dado provas em contrário da sua capacidade neste âmbito com Ouro Preto e Salvador, que são quase réplicas de Portugal no Brasil. Aquilo que tinha presenciado em terras brasileiras levara-o de facto a criar falsas esperanças, cujo desencanto exprime pelo recurso à retórica da frase interroga- tiva e ao uso das formas verbais no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, que atestam a sua ideia pré-concebida acerca da cidade e dos efeitos da colonização. Ora, vejamos:

Que demónio de orgulho e de cobiça nos tentara e ensandecera? Como é que tínhamos desaprendido tanto? Viera na expectativa de encontrar a imagem específica de um modo português de estar em África, expressa na trama de um espaço urbano condizente. E deparava com uma arquitec- tura arbitrária e sem alicerces no passado, dimensionada à triste altura das irredutibilidades humanas do presente. 26

Se continuarmos com a nota do Diário XII datado de19 de Maio de 1973, também a partir de Luanda, constatamos que a arquitectura fomenta o racismo entre branco e negro. Aqui reparamos na cor do Outro porque cada etnia vive num tipo particular de construção. Assim, podemos inferir que também não houve coloni- zação intercultural: nem o branco levou a sua cultura de Portugal, nem o negro se deixou assimilar. Afinal estamos face a duas cidades dentro da mesma: “… uma, arrogante, retórica, de papelão, a negar o preto; outra, calada, tentacular, eczematosa, a negar o branco”. 27 Efectivamente, a alteridade na arquitectura provoca outras alteridades como a do corpo e da alma, ou seja, o amor ou o ódio entre o Mesmo e o Outro, considerando-se o primeiro superior ao segundo. 28 Esse bipolarismo está magnifi- centemente representado no meio rural pela diferença de construções e da sua localização:

estabelece com o Outro a três níveis: da axiologia, da praxeologia e da epistemologia, a que aqui me referi concretamente.

26 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 167.

27 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, pp. 1247-8.

28 Todorov, Tzvetan, «Typologie des relations à autrui », p. 191.

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Visito uma roça modelar. E desanimo. Um abismo intransponível, espacial e temporal, separa a casa grande da sanzala. O indígena não faz parte dos afectos, dos sentimentos, da fraternidade e, até, da sensualidade. Do amor, numa palavra. Isolado na sua aldeia, segregado, é uma máquina útil que no fim do trabalho recolhe à arrecadação. 29

O mesmo se passa nas grandes cidades. À semelhança do que sucede em Luanda,

os muceques contrapõem-se à urbe; os primeiros são os guetos que muralham a cidade. Na nota do Diário datada de 30 de Maio, de Nova Lisboa, escreve que “Os muceques de Luanda são os bairros de lata de Lisboa. Em ambos se processa

a mesma dissolução humana”. 30 De facto no centro das cidades viviam apenas os

brancos e alguns mestiços e para os nativos, os cabo verdianos e os portugueses

pobres restavam os muceques da periferia. É ainda através do Diário que em Lourenço Marques, pela boca de um nacionalista, nos apresenta essas duas formas de vida palpáveis nas construções e que se agudizam na antinomia que também engloba a lei, a economia, a técnica e a política:

Tudo na óptica dele, estava errado na África portuguesa. Cidades de gente cercadas de guetos de bichos… 31

A mesma imagem de segregação racial é reiterada em A Criação do Mundo —

O Sexto Dia, onde a adjectivação altamente positiva referente ao núcleo da cidade contrasta com a carga negativa imbuída no significado dos dois adjectivos

atribuídos aos subúrbios: “As cidades cresciam também escaroladas e alinhadas entre muceques desordenados e sombrios”. 32

2.4. Alteridade linguística (entendimento intercultural)

A alteridade ao nível linguístico surge no intrincado das “Quatro imagens avulsas da nossa boa consciência civilizadora”, de que Miguel Torga fala na nota do Diário consagrada a Lobito, em estreita relação com a arquitectura, quer sob

a forma das construções habitacionais ou comerciais, quer na de monumentos

representativos e comemorativos da heroicidade dos portugueses, e com a paisa- gem agreste. A imagem do Outro passa primeiro por aquela que Torga tem do colo- nizador e da exploração, onde ele forçosamente se inclui. Nesta nota podemos já vislumbrar a alteridade radical que, desta feita, se baseia na língua quando Torga mostra através do contraste entre Camões e os indígenas a superioridade literária daquele em relação aos últimos: “…o épico a enfunar o peito heróico

29 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1249.

30 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1253.

31 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1258.

32 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 171.

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diante do analfabetismo indígena”. 33 Na obra A Criação do Mundo — O Sexto Dia essa alteridade espelha-se na grandiosidade aflitiva que a incompreensão linguís- tica da pátria portuguesa por parte do nativo provoca no escritor-viajante:

Tentava interrogar os indígenas. Como estátuas de carne, fitavam-me impassíveis na sua nudez inocente. Nem sequer compreendiam a língua em que lhes falava. Ou então, se já aculturados, a sua acomodação servil mais redobrava o pesadelo. 34

Ou ainda, na continuidade do raciocínio anterior, quando assiste cabisbaixo à tentativa autodidacta de serem os negros a ensinarem e a aprenderem por eles

o Português. No Diário XII não faltam outros registos donde sobressai precisa-

mente a inércia do colonizador versus a obrigatoriedade de incrementar o ensino da nossa língua naquelas paragens, para o possível entendimento entre as duas culturas. A 28 de Maio, em Sá da Bandeira, volta a ater-se do suporte da arquitec- tura para exprimir o paradoxo entre a super-cultura literária dos portugueses na figura dos “épicos” nos seus pedestais, apreciados somente “por olhos mornos, analfabetos e humilhados”. Segundo o pensamento torguiano, o contraste entre os brancos e os negros poderia anular-se se também houvesse heróis africanos representados ao lado dos descobridores, dos poetas portugueses. Assim se explica a última frase deste passo do Diário “Por conta dos muitos Gungunhanas que esperam também pela sua consagração”. 35

2.5. Alteridade nas crenças

Uma forte motivação da Empresa das Descobertas desde os seus primórdios consistiu na evangelização, no espírito de missão e de conversão ao cristianismo

a que Miguel Torga também se refere pela positiva na visita que efectua ao

cemitério da missão católica da Huíla no Diário XII. Segundo José da Silva Horta

no seu artigo “O africano: produção textual e representações (séculos XV-XVII)”,

a religião é no início da colonização imperial o elo fundamental de ligação a

estabelecer entre os indígenas e a possibilidade de os portugueses imporem a sua presença nesse território. É, pois, através do ensinamento da fé cristã ao

gentio que com mais facilidade este se (pode) deixa(r) assimilar 36 :

33 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1250.

34 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 168.

35 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1252.

36 Veja-se o exemplo do Congo nos primeiros contactos dos portugueses na África Central. Para uma narrativa acerca da conversão do rei do Congo pelos portugueses e posteriormente de um dos seus filhos, que viria a ser chamado Afonso I e lhe sucedera em 1505, faça-se uma leitura em Bender, pp. 12-18.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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Cristianizar é, para além do plano salvífico universal em que se insere, o caminho, o instrumento moral, que pode tornar determinadas sociedades africanas com quem se tem contacto mais próximas do modelo de socieda- de ocidental, e, simultânea e correlatamente, mais permeáveis à presença do poder português, na sua expressão política e económica. 37

Foi isso que se fez durante séculos numa perspectiva etnocêntrica e que Miguel Torga documenta com as frases curtas e directas das páginas acusadoras de A Criação do Mundo — O Sexto Dia, onde explicitamente informa acerca da nossa atitude distante em relação a tudo que diga respeito ao Outro africano:

Em vez de tentarmos compreender a significação de certas singularidades da sua vida quotidiana, o seu matriarcado, a sua poligamia, o seu noma- dismo, o seu panteísmo religioso, o seu tribalismo, as suas festas fúnebres e os seus rituais, de nos esforçarmos por decifrar nas suas máscaras os mistérios que neles se ocultam, de procurarmos interpretar o esoterismo das suas feitiçarias e a alucinação dos seus batuques, íamos às senzalas satisfazer apenas a fome dos sentidos. 38

Aliás, aqui nem os missionários são poupados à sua crítica, pois estes “no seu optimismo apostólico” desprezaram a crença nativa pela imposição da cristã. E ao papel tão pouco animador como satisfatório das ordens religiosas evangeli- zadoras (Jesuítas, Franciscanos), equipara o Eu posteriormente ainda mais negativamente o dos etnógrafos pela sua inexistência no terreno. Precisamente porque não se faz etnografia pelos portugueses nos países conquistados, são os (etnógrafos) estrangeiros que em campo tentam deslindar os mistérios da alma negra. A nota do Diário de 29 de Maio de 1973, escrita acerca de Sá da Bandei- ra, é inteiramente devotada à sua reflexão acerca da inércia secular dos portu- gueses para conhecerem em profundidade a alteridade do Outro para em seguida concluir que são outros povos, também eles colonizadores durante séculos, que estudam neste caso a nossa “negritude” africana. Deste encontro do Eu com o sábio missionário estrangeiro ficou-lhe mais uma vez a culpabilização de uma colonização portuguesa incompleta, devido à “nossa pobreza cultural”. 39 Do desconhecimento total das crenças e daquilo em que o povo africano acredita e respeita, pelo abuso e usurpação aos vários níveis da vida social e económica de que foram vítimas ao longa da presença portuguesa em África e de toda uma conjectura favorável internacional, não é de admirar uma resposta

37 Horta, José da Silva, “O africano: produção textual e representações (séculos XV-XVII)”, in Condicionantes culturais da literatura de viagens. Estudos e bibliografias (coord. Fernando Cristóvão). Lisboa: Edições Cosmos, 1999, p. 278.

38 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, pp. 175-176.

39 Torga, Miguel, Diário XII, pp. 1252-1253.

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violenta do povo africano — os massacres. Na opinião do escritor-viajante, como não soubemos interpretar o seu significado, pois em vez de mudarmos a nossa conduta de discriminação racial em relação aos africanos que tinham sido despojados das suas terras e da sua identidade cultural em aldeamentos desde longa data, respondemos a essa sua legítima revolta com armamento bélico e represálias pouco dignificantes quer para os nativos, quer para os portugueses como povo colonizador. Miguel Torga também não reconhece na sua totalidade a simbologia das forças que os moveram, mas tenta entendê-los inseridos na sua cultura e não os julga nos seus parâmetros europeus:

Numa moral primitiva, o vencedor destrói o vencido. Decapita-o, esquar- teja-o, devora-o. É bárbaro, é intolerável, mas é a sua lógica guerreira. Sabe-se lá que remotas implicações rituais, ou mesmo religiosas, estão por detrás desses excessos! O que em termos de cultura ocidental é uma aber- ração que brada aos céus, para ele pode ser uma afirmação étnica e ética. 40

Em A Criação do Mundo — O Sexto Dia reforça essa posição e justifica a sua conduta com uma cultura negra que o branco desconhece, assim como o nativo não conhece a nossa: “O esforço épico de alguns pioneiros não fora secundado pela maioria. Ao cabo de quinhentos anos de uma presença formal, com figura jurídica mas sem textura humana, fora do perímetro de cada povoado a lei do sertão continuava inalterada”. 41 Por esse motivo, e referindo-se igualmente aos massacres, acrescenta que “Só homens ainda na primitiva decência, certamente movidos por forças anímicas poderosas, mas alheios à graça da bênção cristã, se comportavam com tal ferocidade”. 42 Ao finalizarmos esta primeira parte do corpo do texto podemos concluir que até quase ao fim da sua peregrinação por terras do Ultramar Torga não teve a possibilidade de identificar-se com o Outro africano. A alteridade verificou-se ao nível do humano, do telúrico, da arquitectura, da língua e das crenças. Por essa razão, a percepção do Outro por Torga tem resultados negativos; antes de ele chegar o português nada fez para o conhecer. Afinal, é como se o Torga de agora estivesse a chegar em quinhentos com um olhar esclarecido do século XX. Após a leitura do referente à viagem a África tanto no Diário XII como em A Criação do Mundo —O Sexto Dia, concluímos que o poeta luso é o único que mostra interesse no conhecimento do Outro, segundo a perspectiva do Pós-Modernismo. Ou melhor, vê o Outro como um ser nem inferior nem superior, procurando entendê-lo na sua diferença e na do seu meio físico, social e cultural.

40 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1260.

41 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 168.

42 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 168.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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3. Ilha de Moçambique: a anulação da alteridade

Se desde que aterrou em Luanda na opinião do Eu do Diário a Empresa dos Descobrimentos em nada mais tinha resultado do que num terrível equívoco da acção da gesta lusíada em terras do Ultramar, na Ilha de Moçambique os portu- gueses excederam-se. Esta sua perspectiva também se encontra registada em A Criação do Mundo — O Sexto Dia. Tanto numa obra como noutra, o Eu exulta de alegria por aqui se ter realizado o que ele desejaria que tivesse acontecido em

toda a África de expressão portuguesa. De tão eficaz, este processo de colonização

é comparável ao operado no Brasil, que mais uma vez Torga usa para estabelecer

o paralelo da intervenção dos portugueses nos dois países. De acordo com as pa- lavras do Autor de A Criação do Mundo, até não será descabido pensar-se que com a Ilha de Moçambique se atingiu o clímax da positividade da colonização portuguesa:

Quando julgava que teria de regressar inteiramente desiludido e morti- ficado, descobria, perplexo, que na sua exiguidade podiam caber as provas de uma certeza sem contestação possível da nossa mundividência. Outros documentos conhecia já dessa potencialidade criativa. O Brasil estava cheio deles. Nenhum, contudo, mais expressivo. 43

As suas palavras proferidas no Diário são por demais elucidativas quanto às emoções que experimenta perante esta panorâmica:

Que orgulho legítimo eu sinto a compartilhar este sincretismo de raças, de culturas, de fé e de sentimentos! Brancos, pretos, pardos e amarelos num convívio fraterno, os vivos a mourejar ombro a ombro, os mortos a repousar lado a lado. 44

De facto, não se regista na narrativa referente à Ilha de Moçambique o binarismo do Mesmo e do Outro. 45 Isto é, se até então o Eu criticou tudo o que o português fez desde quinhentos neste país, também não se poupa à exortação do povo luso quando surge a oportunidade. Aqui de facto o Mesmo reconhece Portugal, porque finalmente encontra in loco o seu tão ansiado modo português de estar em África, como já visualizara no Brasil, que só agora reflecte em África o ideal do luso- tropicalismo difundido pela pátria. 46 Por esse motivo, “Em vez de uma ilha real,

43 Torga, Miguel, A Criacão do Mundo — O Sexto Dia, p. 176.

44 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1257.

45 Cadilhe, Gonçalo, Nos Passos de Magalhães. Oficina do Livro: Cruz Quebrada, 2008. Na sua muito recente visita a este local Cadilhe também fica extasiado com as parecenças de ambos os territórios: “A culpa não é minha que a Ilha de Moçambique recorde tanto Portugal. A “culpa” é de quatro séculos inaugurados com Vasco da Gama” (p. 32).

46 Bender, J. Gerald, Angola Under the Portuguese: Myth and the Reality, p. 3. Para um melhor entendimento do significado deste termo para a colonização em África (e no Brasil) leia-se a Primeira Parte da referida obra, sob o título “Lusotropicalism”.

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com latitude e longitude”, encontra “um acto de imaginação da pátria”. 47 A não-alteridade, devida também agora à obra dos colonizadores portu- gueses desde quinhentos, reflecte os mesmos temas que antes denunciavam a alteridade, donde se exceptuam apenas a paisagem e a caça por não lhe fazer referência como se compreende, tanto pela especificidade do papel desta Ilha nas Descobertas portuguesas, como pela sua geografia física. Gonçalo Cadilhe em 2008 tira-lhe o retrato como sendo por um lado apenas uma “fatia de terra”, mas por outro “a mais importante praça portuguesa na África oriental”. 48 Deste modo, na nota do Diário de 7 de Junho de 1973, a partir da Ilha de Moçambique, o Eu considera de novo a arquitectura como a principal responsá- vel pela afirmação da boa ou má colonização portuguesa. Aqui tudo faz sentido, inclusive os monumentos que marcaram a presença lusíada, porque eles estão contextualizados pela sua absorvência das outras culturas e por partilharem o mesmo espaço com outros edifícios que representam os outros povos, o nativo e os demais que o habitam, como os portugueses. Ao mesmo tempo que contesta

a segregação racial apresentada no ponto anterior, a citação que se segue é ainda exemplar quanto à comunhão do Mesmo com o Outro ao nível arquitectónico que, por sua vez, perpassa o humano com a sua língua e as suas crenças:

Não me canso de ver e de pasmar. A fortaleza, as igrejas, a mesquita, as moradias, as cubatas indígenas, a pegada de S. Francisco Xavier, os monu- mentos, as lápides, são toda a nossa heroicidade, santidade, fraternidade, cobiça e sabedoria ancoradas pelo Índico. E tudo certo, tudo ao mesmo tempo insólito e natural, como deve ser a vida: os goeses, os monhés, as negras mascaradas, os indianos marcados, as capulanas e os turbantes. O próprio Camões, tão descabido em Luanda e no Lobito, fica aqui bem, de peito aberto ao ar marítimo do Oriente. 49

A Criação do Mundo — O Sexto Dia faz de novo coro ao Diário XII na afirmação da

ausência de alteridade ao nível cultural, religioso e arquitectónico: “A Europa,

a África e a Ásia entrançadas na arte, na cultura, na vida e na morte”. 50 Assim, situando-nos no plano epistemológico, já aqui defendido por Todorov, podemos declarar que o Mesmo conhece a identidade do Outro, que passa pela cultura e pelo seu “modo de viver” e que numa vertente da praxeologia está próximo do Outro, porque adere aos seus valores e consigo se identifica.

47 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1258.

48 Cadilhe, Gonçalo, Nos Passos de Magalhães, p. 32. Para uma descrição mais pormenorizada da Ilha de Moçambique e da sua importância como praça veja-se o artigo de Malyn Newitt “Mozambique Island: The Rise and Decline of an East African Coastal City, 1500-1700” (Portuguese Studies, Volume 20, 2004, p. 23).

49 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1258.

50 Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, p. 177.

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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4. Conclusão

Ao apontarmos na sua viagem os elementos com os quais o Eu não se identifica ao longo da primeira parte do texto ficamos inteirados que o luso- -tropicalismo, de que os portugueses da metrópole em geral se orgulhavam, não passou de uma falácia para esconder o racismo que, não estando instituído por nenhuma lei, operava em silêncio na diferenciação da cor, na separação da vida quotidiana no que diz respeito ao trabalho, à habitação, ao direito à educação. Em suma, à possibilidade de mobilidade social sem discriminação racial. 51 Claramente também concluímos que a constatação do que viu desiludiu o viajante Miguel Torga. A forma como estruturámos esta exposição evidencia-o pelo recurso ao contraste do primeiro tópico com o segundo. Ou melhor, ao passo que a alteridade africana aos níveis atrás referenciados esbarra com a negação da epopeia de quinhentos que se efectuou no Brasil, o caso pontual em África — a Ilha de Moçambique — anula a alteridade do Mesmo em relação ao Outro e preconiza a vontade inicial dos colonizadores e de Torga durante o regime do Estado Novo. Nada melhor do que as explícitas palavras do Autor do Diário, numa cena alusiva à exploração petrolífera, para explicarem o modo correcto de os portugueses influenciarem o colonizado:

Em vez de emprestarmos consciência racional à sua riqueza anímica, de lhe abrirmos o entendimento para as virtualidades da natureza que ama mas desaproveita, ensinamos-lhe a técnica de a destruir, de a violentar, de a esventrar e de a poluir finalmente com as fezes da sua própria alma queimada. 52

Com isto Torga quer dizer que levámos ao indígena o progresso ao contrário. Afinal, nem sequer nos interessámos por assimilá-los como fizemos no Brasil, porque no interesse de alguns seria mais fácil deste modo explorá-los e preservar assim o domínio da superioridade branca sobre a inferioridade negra. 53 A este

51 J. L. Ribeiro Torres analisa no artigo “Race Relations in Moçambique” a ambivalência de os colonizadores portugueses serem ou não racistas em relação aos africanos, comparando a acção dos portugueses com a de outros colonizadores como os franceses e os britânicos e, apesar de observar algumas tensões ou actos menos cordiais, conclui com uma diferenciação positiva para a colonização portuguesa. A sua opinião distancia-se daquela de Bender, a que recorremos com frequência ao longo do artigo, e da de Miguel Torga, sobre a qual recai este trabalho.

52 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1249.

53 Bender, J. Gerald, “The Reality of Race in Angola”, pp. 219-224. Bender no IV e último capítulo da sua obra, depois de já se ter debruçado sobre este tópico no capítulo II em relação ao Brasil e à África, explica de novo aqui as três fases do processo de assimilação concebido pelos por- tugueses face aos africanos (“destruction of traditional societies”; “inculcation of Portuguese

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propósito, com o poema a Diogo Cão, que também assim o intitula, resume nos últimos dois versos a epopeia portuguesa em África: “Limpo brasão de quem só descobriu / E nada conquistou”. 54

culture”; “the integretion of “detribalized” and “Portuguezed” Africans into Portuguese society”), que nunca se chegou a concretizar como no-lo explica de forma sumária a seguinte frase: “Thus, the one instrument (education) which Portugal possessed for effectively assimilating Africans in Angola was accorded such a low priority and was so poorly utilized that only a minute proportion of Africans were ever meaningfully exposed to Portuguese culture, let alone desirous of assimilating it”(p. 220).

54 Torga, Miguel, Diário XII, p. 1250.

A “Mala para o Brasil” — correspondência eciana na imprensa carioca (1880-1882)

ISABEL TRABUCHO

Universidade Aberta, Lisboa

ISBN 978-972-8886-24-0 • FROM BRAZIL TO MACAO • CEAUL / ULICES 2013

N este ano comemorativo do bicentenário da chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, recordamos um veículo privilegiado das relações cultu- rais que se estabeleceram entre Portugal e o Brasil na época de Oitocentos

— a Imprensa. No último quartel do século XIX, o jornal era visto como um meio fundamen- tal para a transformação da sociedade. Através da crónica, ou de outros textos jornalísticos, poder-se-ia criticar abertamente a realidade quotidiana, visto

tratar-se de um “espaço de liberdade” em que o cronista podia, de forma aberta

e

avulsa, tratar das mais diversas temáticas. A imprensa estava presente, a par

e

passo dos acontecimentos, em pessoas e nos seus feitos, multiplicando-se o

número de periódicos, tanto em Portugal como no Brasil. Eça de Queiroz, sendo embora mais conhecido, lido e apreciado pela sua obra ficcional, revelou-se assazmente na sua epistolografia e no texto jornalístico (de onde se destaca a crónica), onde traça o quadro de toda uma realidade coeva numa época conturbada e em contínua evolução. Em face da actualidade de qual- quer acontecimento, a crónica queiroziana revela-nos o espírito subtil do seu autor, constituindo esses textos jornalísticos um testemunho das suas impressões, das imagens e das ideias de um escritor que, como poucos, nos revela a sua vivência e caracteriza o quotidiano e os acontecimentos que dele fazem parte. Deste modo, as crónicas, as cartas e outros escritos foram sendo publicados na imprensa portuguesa. Em 1880, Eça inicia a sua colaboração com a imprensa brasileira, na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, dando ensejo à sua necessi- dade de manter a escrita não ficcional nos seus hábitos diários, conforme refere “Eu necessito fazer correspondência por higiene intelectual…”. 1 Desde essa data até 1897 (apesar dos interregnos de 1883 a 1886 e de 1889

a 1891), Eça deleita o seu público-leitor brasileiro (mais fiel e devotado que o português) encetando a sua longa colaboração com uma série de crónicas e outros textos de imprensa em que fascina os seus numerosos leitores, de tal modo que pode ainda hodiernamente ser considerado um dos mestres do jornalismo daquele

1 Carta a Ramalho Ortigão de 10-7-1879, in Correspondência — Eça de Queiroz, Volume I, Lisboa, IN-CM, 1983, p.179.

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país. Granjeou prestígio e fama junto do público e dos seus pares, sendo eleito como “talvez o jornalista mais ágil, mais espirituoso, mais elegante, mais com- pleto que já apareceu na imprensa brasileira”. 2 Deste modo, o cronista vislumbrava informar o leitor de além-mar, não somente dos acontecimentos triviais e comezinhos de Londres e Paris, como pólos culturais do mundo, mas, acima de tudo, examinar e problematizar explicita- mente um ideário moral, político, literário e artístico de uma Europa oitocen- tista. Assim, de entre esse extenso corpus de textos de imprensa, seleccionámos nesta colaboração eciana para o Brasil, as crónicas correspondentes aos anos de 1880 a 1882, por se reportarem a uma primeira fase da correspondência para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Eça de Queiroz, apesar de nunca ter visitado o Brasil, privava assiduamente com brasileiros desde os tempos da Universidade de Coimbra, onde, segundo Heitor Lyra, contactara com mais de uma dezena de colegas. Na sua infância houvera já sido criado por um casal de negros trazidos do Brasil pelo seu avô, com os quais ganhara apego ao sotaque e às histórias que estes lhe contavam e que perduraram na sua memória. Mais tarde, em 1870, concorreu para cônsul em Salvador da Baía tendo sido preterido provavelmente pelo facto de ter participado nas Conferências do Casino, ou por o escolhido para o cargo ter usado as suas influências no meio diplomático, o que o levou, em 1871, a redigir uma crónica, em As Farpas, criticando o que hoje denominaríamos de lobbies da diplomacia lusa e dos seus agentes. No ano seguinte, foi nomeado cônsul em Cuba. Apesar do incidente provocado pela sua “farpa” contra o brasileiro comum, entre muitos outros visados, podemos considerar que a imagem do Brasil e do brasileiro se alterou intensamente ao longo dos anos, muito devido aos amigos brasileiros que Eça foi conquistando e com quem contactava amiúde: Eduardo Prado, Domício da Gama, Rio-Branco, Magalhães de Azeredo e Olavo Bilac. Eram frequentadores habituais de sua casa em Neuilly e Eça retribuía o gosto deste contacto tão próximo com estes escritores e intelectuais brasileiros que o delicia- vam com o sotaque que tão bem definiu como “um português com açúcar”. A partir de 1880, passa a ser correspondente efectivo da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, enviando cartas, crónicas, artigos de fundo, folhetins e capítu- los de romance para o Brasil, país que tão bem acolheu a sua produção literária e jornalística. Aliás, entre os brasileiros, o trabalho de Eça foi sempre largamente lido e apreciado, tal como atesta Paulo Cavalcanti ao afirmar que “nenhum romancista estrangeiro exerceu, até hoje, maior influência no Brasil do que

2 Manuel Bandeira, “Correspondência de Eça de Queiroz para a imprensa brasileira”, in Livro do Centenário de Eça de Queiroz, Lisboa, Edições Dois Mundos, 1945, p. 168.

A “Mala para o Brasil” — correspondência eciana na imprensa carioca (1880-1882)

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Eça de Queiroz. Durante sua vida, no fastígio da carreira literária, a consagração de seu nome, como escritor, atingiu proporções invulgares”. Na sua correspondência familiar, Eça refere, por diversas vezes, a necessi- dade premente e a azáfama que a correspondência de imprensa para o Brasil provocavam na sua vida pessoal, tal como se constata em diversas missivas a sua mulher, nas quais afirma respectivamente ”Minha querida Emília, estou hoje muito atarefado com a Mala para o Brasil e não sei se terei tempo de escrever carta”, ou, noutro exemplo, “Tens estado ao regime de bilhetes postais, o que não

é muito substancial nem muito carinhoso: mas a mala do Brasil tem-me absorvido

aquele escasso tempo que me deixam os negócios, e a natural indolência que toda esta casa respira”. A Gazeta de Notícias era um recém criado periódico carioca, fundado por Ferreira de Araújo, Manuel Carneiro e Elísio Mendes, e revelava-se notável na defesa de grandes causas como a da abolição da escravatura. De entre a plêiade de colaboradores deste jornal do Rio de Janeiro, contavam-se muitos intelectuais dos dois lados do Atlântico, destacando-se Eduardo Prado, Machado de Assis, Olavo Bilac, Ramalho Ortigão, entre outros. Assim, não admira o forte interesse demonstrado por Ferreira de Araújo em ter como seu colaborador o romancista português. Para mais, havia o facto de a Gazeta de Notícias carecer de um corres- pondente em cada um dos pólos culturais europeus, a fim de informar os seus interessados leitores de tudo o que se passava em Paris e Londres, considerados na época, como os locais de onde emanavam a cultura e a inovação. Vivendo o escritor em Inglaterra, supriria ainda melhor essa necessidade do periódico carioca. Como correspondente no estrangeiro para os seus leitores brasileiros, Eça transmitiu o seu testemunho da vida pública europeia, nomeadamente de Ingla-

terra e de França, nas suas diferentes vertentes: a cultura, a política, a ideologia,

a literatura e a vida social. Tomando a Europa como modelo civilizacional, por

excelência, Eça vislumbrava apresentar aos leitores do Rio de Janeiro os movi- mentos políticos, culturais e sociais dos grandes centros que eram incontesta- velmente Paris e Londres, ao longo de todo o período de Oitocentos. Segundo o cronista, ao mundo interessa, acima de tudo, o pulsar da vida, da sociedade que se move nessas cidades, pois “a curiosidade pública é impe- lida para lá — dando ao resto do mundo apenas aquele olhar rápido que se tem para os fundos de retratos, onde verdejam vagos de paisagem” ou, como afirma, “o desejo mais natural do homem é saber o que vai no seu bairro e em Paris”. Numa crónica de 1881, intitulada “A perseguição dos judeus” circunscreve

a sua temática no povo judaico, seja pela publicação de um novo romance de um autor judeu venerado pelos da sua raça — Lord Beaconsfield, seja pelo movi- mento anti-semita que se começa a notar na Alemanha. Encontrando-se Eça em

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Inglaterra, constata, tal como sucede na nação alemã, a relevância dos judeus

nas instituições bancárias e na imprensa britânica, pelo que o cronista manifesta

o seu receio em que tal sentimento anti-semita se extravase para outras nações

europeias. Prevê, tal como mais tarde sucedeu, uma nova e forte perseguição a todos os filhos de Israel, tal como no século XVI, uma “das boas, das antigas, das manuelinas, quando se deitavam à mesma fogueira os livros do Rabino e o próprio Rabino, exterminando assim economicamente com o mesmo feixe de lenha a doutrina e o doutor”. Perante este movimento que se volta a instalar nas sociedades ocidentais, Eça procede a uma análise do cerne do mesmo, anuindo que o mesmo não se baseia em motivos puramente religiosos e, portanto, espirituais, ou em motivos étnicos, mas, acima de tudo, assenta em razões bem concretas e materialistas, pois, como refere, “o motivo do furor anti-semítico é simplesmente a crescente prosperidade da colónia judaica, colónia relativamente pequena, apenas com- posta de quatrocentos mil judeus; mas que pela sua actividade, a sua pertinácia,

a sua disciplina está fazendo uma concorrência triunfante à burguesia alemã”,

continuando a concretizar a sua marcada influência através das seguintes circuns- tâncias: “A alta finança e o pequeno comércio estão-lhe igualmente nas mãos: é

o judeu que empresta aos Estados e aos príncipes, e é a ele que o pequeno

proprietário hipoteca as terras. Nas profissões liberais absorve tudo: é ele o advogado com mais causas, e o médico com mais clientela; se na mesma rua há dois tendeiros, um alemão e outro judeu — o filho da Germânia ao fim do ano está falido, e o filho de Israel tem carruagem!” Outro motivo que exaspera ainda mais o âmago dos germânicos é, sem dúvida, a ostentação dos judeus, pois, ao contrário dos seus antepassados, o judeu, na época de Oitocentos, segundo Eça, “traz a cabeça alta, tem a pança ostentosa e enche a rua”, não respeitando a sobriedade do cidadão das grandes cidades europeias, pois, “falam sempre alto, como em país vencido”, ao que o cronista concorda que num “restaurante de Londres ou de Berlim nada há mais intolerável que a gralhada semítica” em indivíduos identificados pelas jóias com que se cobrem, pelo ouro dos arreios das suas carruagens e pelo “luxo grosso” que veneram, o que os torna abjectos aos olhos dos povos europeus que os acolhem. São os senhores da Bolsa e da Imprensa, apoderando-se de bancos e jornais, o que leva à manipulação da opinião e a um sentimento alheio de impo- tência perante a solidez e a prosperidade da comunidade judaica, acirrando consequentemente ódios nos que os rodeiam e observam. Eça desmistifica esta aura pouco abonatória dos judeus, assim como tenta justificar o seu sucesso material, considerando a inata capacidade israelita para triunfar e progredir nos negócios ligados à banca e a sua necessidade de lutar pela sobrevivência e pela segurança de um estatuto económico e social que lhes

A “Mala para o Brasil” — correspondência eciana na imprensa carioca (1880-1882)

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permita uma vida despreocupada em países estranhos com religiões, crenças e tradições distintas. Ora, perante a situação de serem olhados sobranceiramente pelos outros cidadãos e de se isolarem como comunidade religiosamente diver-

gente e com tradições próprias, cria-se sempre uma oportunidade para quem tenta aproveitar-se das circunstâncias alheias para justificar os seus actos ou as suas inacções. Daí que, como afirma Eça, Bismarck, apesar de ser governante de um país civilizado, explora habilmente esse anti-semitismo 3 para desviar a atenção das massas das dificuldades internas, “à falta de uma guerra” e face a “uma prolongada crise comercial, às más colheitas, o excesso de impostos, o pesado serviço militar, a decadência industrial” distraía a atenção do “alemão esfomeado — apontando-lhe para o judeu enriquecido”. Astrojildo Pereira atribui o temor das classes conservadoras ao socialismo em ascensão como a principal causa do movimento anti-semita, funcionando este como “uma velha manobra diversionária: distrair o descontentamento das massas populares, fazendo-o convergir sôbre algum bode expiatório, adrede preparado, para, à sombra da excitação assim produzida, atacar o verdadeiro objectivo em mira. O socialismo crescia e ameaçava os fundamentos da ordem burguesa”, situação que não escapava ao olho clínico e perspicaz do cronista, tendo

originado, décadas mais tarde, um tão forte “ódio nazista contra Israel [

] uma

reedição — monstruosamente aumentada e aperfeiçoada — do ódio anti-semita já existente nos tempos de Bismarck”. O modo como as diferentes realidades subjacentes a cada nação eram vistas por Eça ainda hoje se reveste de profundo interesse, através do seu discurso crítico que, embora nos revele um idealista não deixa, acima de tudo, de procu- rar a verdade. Deste modo, os temas que aborda nas inúmeras crónicas e na correspondência jornalística manifestam as suas preocupações como homem de forte sentido moral. Lamenta que a humanidade não caminhe para o progresso nem para a perfeição, conduzindo-nos inexoravelmente ao “sofrimento moral” e ao “sofrimento social”. Daí que, como considera Eça com ironia, “Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inútil: afogá-la num dilúvio”.

3 No fim de século esse absurdo anti-semitismo propagar-se-ia para França, assistindo Eça, enquanto cônsul em Paris, ao famoso processo de Dreyfus, que o chocou devido às dúvidas suscitadas sobre a autenticidade das provas que o acusavam de espionagem. Perante este caso de injusta condenação de um capitão judeu, Eça não se mostrou impassível face a tal sórdido julgamento criticando-o a par de muitos escritores e intelectuais da época, afirmando: “Também eu senti grande tristeza com a indecente condenação de Dreyfus. Sobretudo talvez porque com ela morreram os últimos restos ainda teimosos do meu velho amor latino pela França Quatro quintos da França desejaram, aplaudiram a sentença. A França nunca foi na realidade uma exaltada da justiça, nem mesmo amiga dos oprimidos.” in Eça de Queirós, Textos de Imprensa IV, p. 512.

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A crítica severa ao imperialismo britânico e à sua política externa são uma constante na cronística para o Brasil. Transmitem, inegavelmente, uma atenta análise sócio-política da Inglaterra do seu tempo e revelam as fortes preo- cupações do escritor-jornalista perante as injustiças e o desequilíbrio social a que assiste. Num magnífico texto cronístico publicado ao longo de dois meses de 1882, Eça termina esta primeira fase da correspondência para o Brasil, que só irá retomar em 1888 com a crónica “A Europa”. Em “Os Ingleses no Egipto”, um texto jornalístico em que se embrenham a ficção e a realidade, Eça comenta o grande assunto do momento: o Egipto. Assim, através de seis longas crónicas refere a presença britânica neste país — a destruição maciça de Alexandria, proferindo que “hoje, à hora em que escrevo, Alexandria é apenas um imenso

montão de ruínas”, o que aconteceu, segundo o mesmo, “pela quarta vez na história”. 4 Mais uma vez, Eça faz questão de acentuar a prepotência inglesa face

a outras civilizações, não sendo infelizmente o único povo da Europa a menosprezar povos não ocidentais.

Deste modo, esquadras de couraçados bombardearam Alexandria, em nome da Inglaterra governada por Gladstone, denunciando um total desrespeito pelo povo egípcio e pela vida humana. Eça, do seu conhecimento dos dois países aqui implicados, tinha consciência desse preconceito europeu relativamente a outros povos, o que o leva a afirmar que “no Egipto um qualquer empregado europeu

retalhava a pele dum egípcio, tão naturalmente e com tanta indiferença,

] [

como se sacode uma mosca importuna”. Mais acrescenta que “o europeu de Alexandria considerava o felá egípcio como um ser de raça ínfima, incivilizável,

mero animal de trabalho, pouco diferente do gado”.

Desenvolvendo esta questão, disserta sobre a eterna contenda entre muçul- manos e cristãos (sempre actual!), referindo que, ao contrário do que o homem europeu supunha, o “árabe de modo nenhum se julga inferior a nós; as nossas indústrias, as nossas invenções não o deslumbram; e estou mesmo [certo] que,

do calmo repouso dos seus haréns, o grande ruído que nós fazemos sobre a Terra

lhe parece uma vã agitação”. Prossegue reiterando esta ideia e confessa mesmo que, com conhecimento empírico da sua viagem ao Egipto com o Conde de Rezende 5 , sabe que “os egípcios olhavam para o europeu como para a última e

4 Idem, p. 177.

5 Luis de Castro Pamplona, Conde de Rezende, que fora colega de Eça no Colégio da Lapa, e que seria, mais tarde, seu cunhado, convidou o escritor para o acompanhar numa viagem ao Egipto e à Terra Santa, por ocasião da inauguração do Canal do Suez. Embarcaram no dia 23 de Outubro de 1869, com destino a Cádis e, depois, Gibraltar, onde tomaram o paquete Delly que os levaria a Alexandria, com uma pequena paragem em Malta. Chegaram a Alexandria a 5 de Novembro,

A “Mala para o Brasil” — correspondência eciana na imprensa carioca (1880-1882)

mais terrível praga do Egipto, uma outra invasão de gafanhotos, descendo — não

do céu [

a alastrar, devorar as riquezas do Vale do Nilo”. 6 Tal como sucedeu noutras batalhas e guerras, tudo havia começado com uma singular situação ocorrida numa cidade em ebulição social e religiosa — Alexan- dria. Como frequentemente sucedia, um inglês chicoteou um árabe em plena

rua. Este, de modo desusado, replicou, tendo sido, de imediato, baleado pelo

inglês. Alastrou-se o confronto, de tal modo, que tudo terminou com a morte de mais de trezentos árabes e menos de um terço de europeus, tendo, no entanto,

a imprensa denominado este acontecimento de “massacre dos cristãos”. Eça não

resiste, na demanda da verdade e da justiça (valores que traçou como primordiais para o Jornalismo), a intitulá-lo, pelo contrário, de o “massacre dos muçulmanos”. Tratava-se de um povo subjugado e oprimido debaixo da arrogância e da supremacia inglesa, e europeia em geral, que ousara rebelar-se contra essa

injusta condição, gerando a raiva e a revolta em relação aos estrangeiros, o que despoletou “a cruzada contra o cristão” a quem chamava de “cão maldito”

e “ave de rapina”. Este acontecimento terá servido de móbil para que o regime

egípcio, considerado anárquico pelos ingleses, fosse destruído e o seu povo dizima- do. A Inglaterra contava, além do mais, com o apoio da imprensa e, seguramente,

do periódico que funcionava como barómetro da opinião pública britânica —

o “venerável” Times, que mais tarde terá confessado “com o rubor nas colunas

que foi uma insensatez”. Eça de Queiroz reconhece a falta de diálogo inter-religioso entre cristãos e

muçulmanos, pois constata que, assim como não sabemos “nós do que se passa dentro do Islão”, do mesmo modo “os letrados da mesquita de El-Azhar [não] sabem o que por cá vai dentro do nosso confuso catolicismo”. Deste modo, tomando Inglaterra como alvo da sua crítica, declara que “o século XIX vai findando, e tudo em torno de nós parece monótono e sombrio — porque o mundo se vai tornando inglês”. Evidencia a repulsa do britânico por tudo o que é estrangeiro, preservando, em qualquer lugar ou situação, os seus costumes, permanecendo “impermeável às civilizações alheias, atravessando religiões, hábitos, artes culinárias diferentes, sem que se modifique num só ponto, numa só prega, numa só linha

mas dos paquetes do Mediterrâneo, com a sua chapeleira na mão —

]

705

seguindo de comboio para o Cairo. A viagem prosseguiu para Porto Said, Suez, Palestina e Beirute. O retorno fez-se a partir de Alexandria, de onde partiram a 26 de Dezembro, tendo aportado a Lisboa a 3 de Janeiro de 1870. Vide José Calvet de Magalhães, Eça de Queiroz A Vida Privada, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2000, pp. 66-71.

706

Isabel Trabucho

é isto que os torna detestados. Nunca se fundem,

nunca se «desinglesam».” Podemos afirmar que a correspondência eciana para o Brasil, mormente a

de Inglaterra, sempre se pautou por revelar fortes preocupações sócio-políticas em prol da justiça e da defesa dos direitos humanos e de cidadania, pois, segundo refere Manuel Bandeira, “não ia com o seu temperamento a tarefa semanal de pôr os leitores de além-mar ao corrente dos faits divers de Londres e Paris”. Mas, sempre atento à vida social da Europa, costumava encarar um dos grandes pro- blemas que agitavam o continente e o mundo, examinava-o, discutia-o a fundo e nesse discretear ia pondo de maneira explícita todo o seu cabedal de idéias sôbre política, moral, literatura e arte. Profundamente imbuído do espírito europeu do século XIX, foi, todavia, bastante lúcido para sentir, em sua ameaçadora tragé- dia, o crepúsculo da civilização capitalista e imperialista”. A Europa, como entidade cultural e civilizacional, “para quem o mundo rodava, submisso e enfeitiçado”, aparece, nas suas crónicas, desprovida do brilho

e do deslumbramento que, à partida, seria de supor nos seus textos. Assim, esta

transfigura-se na mente do cronista, para se ver na sua correspondência jorna-

lística “uma Europa menos deliciosa de que fazia imaginar [

de imaginação de um poder tão sombrio, sangrento, ruidoso e complexo que é o do dinheiro tornando a Europa na insaciável e feroz senhora de saqueados e sempre oprimidos continentes”. Para Eça, o mundo era, inegavelmente, a velha Europa “em tôrno da qual os continentes produziam como escravos e se deslum- bravam como selvagens”. Tal como fez questão de anunciar na primeira crónica da sua correspondência para o Rio, o melhor espectáculo para o homem será sempre a própria humanidade e o seu devir. Consciente da voragem dos tempos que dissipava os grandes valores que demandava de Verdade e de Justiça, o cronista não se olvida, nos seus textos para a imprensa de exercer uma militante defesa dos direitos dos cidadãos e da dignidade dos homens. Deste modo, as crónicas que envia da nação britânica revelam o seu forte carácter filantrópico na defesa dos mais fracos, mais pobres, com menos recursos e capacidades de se defenderem e de terem voz na elitista sociedade oitocentista. Eça oferece uma interpretação do mundo inglês num tipo de jornalismo judi- cativo que exibe explicitamente marcas de avaliação e julgamento. Baseando- se no seu conhecimento verdadeiro e experiente do espaço que analisa, revela um maior interesse pelas manifestações do imperialismo, pela desigualdade económica e pela apreensão dos traços mais significativos do carácter britânico, em especial uma certa excentricidade de carácter, a hipocrisia e a arrogância. No entanto, comprova-se, nos seus escritos, uma verdade que ele próprio fez questão de enfatizar — a superioridade cultural e civilizacional britânica, na época vitoriana, face a qualquer outra nação, inclusive a França.

] afogada pela falta

o seu protótipo britânico [

]

A “Mala para o Brasil” — correspondência eciana na imprensa carioca (1880-1882)

Verbera com especial empenho a política externa inglesa e a sua feição

marcadamente imperialista relativamente às questões do Egipto, do Afeganistão

e da Irlanda, não temendo a forte crítica a uma sociedade que se regia pela

hipocrisia, pelo orgulho e por uma exacerbada ambição, na qual os grandes valores humanos eram claramente olvidados. Apesar de tudo, como refere, a Inglaterra

possuía uma forte cultura literária, valorizava o desporto, era um país organizado

e desenvolvido económica e socialmente devido, essencialmente, ao modo como

encaravam o trabalho, força motriz para uma pujante e determinada política

imperial. Mesmo relativamente a França, nas duas cartas com que enceta a sua corres- pondência para o Brasil, o interesse eciano prendeu-se fortemente à questão da pouca consistência prática dos valores republicanos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que teoricamente defendiam — a nação francesa surge ainda titubeante temendo a falta de solidez das suas instituições e ideologias, gerando paradoxalmente atitudes de evidente falta de cidadania e de liberdade de opinião

e acção que inibem uma sociedade justa e evoluída. Constata, com pesar, perse-

guições políticas aos defensores das ideias comunistas e das lutas do proletariado

e perseguições religiosas aos jesuítas. Censura asperamente as posições políticas da república francesa que proclama os direitos do Homem mas que, por outro lado, toma parte na partilha colonial do mundo, logo atrás da nação britânica, ao assenhorar-se de Tunes e de Madagáscar. No seu estilo contundente, defende um mundo mais civilizado e humanista, sendo que a ideia que subsiste na imagem do povo britânico que Eça transmite para os seus leitores brasileiros é vincadamente negativa e pejada de fortes

críticas aos poucos valores éticos e morais revelados pelos ingleses, como sejam

a “falta de fraternidade, o egoísmo, enfim, os defeitos morais que, segundo ele

[Eça], marcavam a civilização do século XIX.” (não diferindo, portanto, da actual!) Aquando da morte de Eça, em 1900, o escritor e cronista Machado de Assis não deixa por mãos alheias a elegia ao romancista e jornalista português ao dirigir uma missiva ao director da Gazeta de Notícias, na qual refere o falecimento de Eça como uma calamidade, considerando-o “o melhor da família, o mais esbelto,

o mais válido”, o “profeta” da sua geração. Como afirma Eduardo Lourenço, “só na obra de Eça, graças ao seu extra- ordinário mimetismo cosmopolita, nós temos a sensação de viver com ele e através dele o tempo próprio da segunda metade do século. Século que não foi apenas o da mudança de ritmo na civilização material e de costumes exteriores mas, sobretudo, um tempo que era ele mesmo nova visão do mundo, instalando-

nos num presente que se sabia e se dizia civilizado e moderno”. Tal como na sua

ficção, Eça soube “tratar ou integrar [

da sua época a propósito dos casos mais superficiais ou mundanos”.

as questões mais graves e candentes

]

707

708

Isabel Trabucho

Constituindo-se como um manancial insubstituível de informação, a totali- dade destas crónicas enriquecem, claramente, a história da cultura literária que se concretiza num conjunto de perspectivas de mediação culturais admiradas na época e lidas com prazer e avidez, tendo como melhor morada o inesgotável universo que chamamos de literatura. Deste modo, os seus textos de imprensa correspondem ao prometido aquando das suas primícias no Jornalismo ao evo- carem os supremos valores por que este se deve reger — a Verdade e a Justiça, no combate à ignorância e à penumbra do desconhecido!

O descobrimento dos sentidos na Peregrinação

MARIA ALICE ARRUDA FERREIRA GOMES

Universidad Complutense de Madrid – Facultad De Filología, Departamento De Filología Románica, F. Eslava Y Lingüística Universidade Federal do Ceará Casa de Cultura Hispânica

ISBN 978-972-8886-24-0 • FROM BRAZIL TO MACAO • CEAUL / ULICES 2013

1. Introdução

O estudo literário dos relatos de viagens costuma apresentar uma série de problemas de índole teórica devido ao contexto histórico e literário em que se apresentam. Enquanto forma literária no discurso dos relatos de viagens partici- pam dois tipos de escritura: a primeira obedece ao critério de ficcionalidade (literatura) e a segunda ao critério de veracidade objetiva (história). A combina- ção do discurso de ficção e uma série de elementos de natureza não literária origina a criação de um discurso misto. 1 O fato de estas obras terem merecido mais a atenção dos historiadores do que dos filólogos, que chegaram a considerá-la “literatura didática” 2 e a ausência de um parâmetro formal contribuíram para defini-las negativamente. 3 O que levou a crítica a falar em “hibridez”, “mestizaje” ou “gênero fronterizo. é, talvez, a sua diversidade e o seu dialogismo, uma das características mais destacadas. 4 Aliás, este é dos maiores problemas da teoria literária moderna, distinguir nos relatos de viagens um discurso literário de outro que não é. Por não se enqua- drar dentro de um gênero pré-estabelecido ou não obedecer a um critério de ficcionalidade estas obras acabaram sendo relegadas a uma situação de margina- lidade como comenta Alzira Seixo:

conseqüências, geradoras de preconceitos e com caráter inibi-

tório (quase censório) em relação a qualquer perspectiva de trabalho que

se atreva a encarar a literatura de viagens de outro modo, e, sobretudo que se arrisque a apagar-lhe o primacial papel documental, é ainda em certos contextos vigentes nos nossos dias, e leva mesmo os literários a procederem com toda a cautela, como se abeirasse do feudo do outrem

Estas (

)

1 POPEANGA, Eugenia, (2005) “Los relatos de viajes medievales: una encrucijada de textos” in Viajeros medievales y sus relatos, Bucuresti, Cartea Universitarã, pp.11-28, p. 24.

2 Idem, pp.11 e 12.

3 CHAMPEAU, Geneviéve, (2004) “El relato de viaje, un género fronterizo” in Champeau, Geneviéve (ed) Relatos de viajes contemporáneos por España y Portugal, Madrid, Verbum, pp. 15-31, p. 22.

4 Idem, ibidem.

712

Maria Alice Arruda Ferreira Gomes

e, para evitarem atitudes punitivas (!), a sacrificarem q.b. ao altar da “história dos factos” antes de procederem ao estatuto literário propria- mente dito, o que faz com que, na maior parte dos casos, e após todos os sacrifícios praticados, o corpo do texto já se tenha visto relativamente anulado nessa dimensão cujo enfoque continua sistematicamente a faltar- -lhe. 5

A partir do século XVI, com o fenômeno das Descobertas, Portugal gerou um novo tipo de viajante. Mercadores, soldados, evangelizadores, gente do povo, praticamente todas as classes da sociedade portuguesa se aventuraram nesta empresa. Como conseqüência desta grande variedade de emissores surgia uma

rica e heterogênea diversidade de textos cujo objetivo era contar sobre as nave-

gações, os descobrimentos e as conquistas dos portugueses. Apesar do objetivo

las referencias míticas y legen-

darias estarán presentes en los relatos de viajes del seiscientos portugués.

Es decir, la nueva perspectiva de viaje-aventura surge porque la mentalidad del

XVI ha sufrido un cambio, de ahí que se creen nuevos mitos y que permanezcan

algunos de los ya existentes en otras épocas.” 6 Geralmente utiliza-se o termo Literatura de viagens ou Literatura dos Desco-

relacionadas com os Descobri-

mentos Portugueses e a constituição de um vasto império entre o fim da Idade

Média e o fim do Antigo Regime ( ).” 7 Apesar de concordar com as duas catego-

rias nomeadas anteriormente José Manuel Garcia considera que tais classificações

abarcar de forma cabal e com a expressividade necessária a

multiplicidade de realidades e interesses pantenteadas em tais escritas.”. 8 Referido escritor crê mais conveniente utilizar o termo Literatura Portuguesa da Expansão porque é possível agregar as obras relacionadas com os descobrimentos portugueses realizadas por escritores estrangeiros. Atualmente a escritura de viagem se realiza com fins estéticos, na Idade Média e ainda até o Renascimento, os escritores, quando escreviam sobre as suas viagens, não levavam em consideração este objetivo na hora de transmitir as

)

não podem “(

brimentos para referir-se a todas as obras “(

da viagem ser a conquista de novas terras, “(

)

)

)

impressões sobre um lugar porque “(

un viaje debía estar justificado por su

5 SEIXO, Alzira (1998), Poética da Viagem na Literatura. Lisboa, Cosmo, p.18.

6 MEJÍA RUIZ Carmen,(1991), “Las peregrinaciones de Fernão Mendez. Un relato de viajes peculiar”, in Los Libros de viajes en el mundo románico, Anejo I, Madrid, Ed.Universidad Complutense, pp. 165-182, p. 167.

7 GARCIA, José Manuel (1994), “Algumas observações sobre a literatura portuguesa da expansão” in Ao Encontro dos Descobrimentos. Temas de História da Expansão, Lisboa, Presença, pp.187- 191, p. 191.

8 Idem, Ibidem.

O descobrimento dos sentidos na Peregrinação

utilidad para la sociedad, pues lo contrario caía en el temido ámbito de la desmesura e incluso la locura.” 9 Os autores dos relatos de viagens geralmente se deslocavam com fins religiosos, comerciais, políticos, diplomáticos ou científicos, alguns deles nem chegavam a viajar, eram os viajantes de “câmara”, os falsos viajantes, aqueles que escreviam fazendo uso de outros textos, que utilizavam

o jogo da intertextualidade. Diante do desejo de relatar as novas descobertas

os escritores viajantes não estavam interessados em fazer uma obra literária,

valorizando o caráter utilitário e didático dos documentos. Este utilitarismo,

na visão de Rui Loureiro, “(

rtunidade, quer de capacidade, quer de intenções, quer especialmente de epocalidade.10 A narrativa tinha que informar mais que criar um senso estético. Este tipo de escrita, sem grande pretensão estética e de caráter essencialmente prático

e noticioso, saciava a sede de conhecimento dos europeus, já que nele se encon-

travam as notícias mais completas sobre o Oriente. Uma espécie de abertura para um novo mundo, um retrato elaborado por meio da linguagem, descreven- do, conceituando economicamente, digamos assim, as terras novas, aliando o exotismo das paisagens e das gentes ao interesse econômico. Um tipo de janela que se abria aos europeus, através da qual se podia ver um modelo de retratos sensoriais, construídos para atingir os sentidos e propiciar ao leitor a sensação de estar diante do retratado pelo artista. Conseqüentemente, por causa dos objetivos do texto, que se afastava do puramente literário, há a elaboração de um discurso sensorial, com enfoque informativo antropológico, construído diferentemente daquele encontrado na literatura moderna, que o faz por meio da comparação. O objetivo de nossa abordagem é analisar, por meio desta linguagem, como se processa o discurso sensorial na Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto.

sobrepõe à estética, por questões quer de opo-

)

713

2. O discurso informativo-antropológico da Peregrinação

Tendo em vista a amplitude do texto mendesiano analisamos o discurso infor- mativo antropológico registrado na viagem que Mendes Pinto fez junto com os

9 CARRIZO RUEDA, Sofia (2002), “Analizar un relato de viajes. Una propuesta de abordaje desde las características del género y sus diferencias con la literatura de viajes” in Maravillas, peregrinaciones y utopías: Literatura de Viajes en el Mundo Románico, Valencia, Universitat de Valencia, pp. 343-358, p.353.

10 LOUREIRO, Rui Manuel (1984-1985), “Possibilidades e limitações na interpretação da Peregrina- ção de Fernão Mendes Pinto” in Separata Studia Românica et Anglica Zagrabiensia, Vol.XXIX- XXX, pp.229-250, p.230.

714

Maria Alice Arruda Ferreira Gomes

portugueses e a embaixada do Rei Bramaa até os reinos do Calaminhão e do Pegú.

A seqüência abarca do capítulo 144 a 171 e é formada pela crônica de diversos

reis e povos orientais. Não sabemos se esta viagem foi “real” ou “imaginária”. Se realmente ela aconteceu onde estaria localizado o reino de Calaminhão? Visconde de Lagoa, na

sua tentativa de reconstituição geográfica da Peregrinação 11 , o identificou como

o Tibete já, José de Ramos, como o império de Lanchang, conhecido por Laos

Oriental e integrado atualmente à Indochina. 12 Outros estudiosos da Peregrinação foram mais taxativos e qualificaram-na como uma invenção. Na visão de Maurice

) foi

um arranjo literário que lhe permitiu introduzir de jacto, numa narrativa seqüen- te, certa quantidade de informações variadas, que obtivera acerca de práticas religiosas da Índia, da Birmânia e do Tibete.” 13 A imaginação era o seu norte para poder descrever, com precisão, o mundo que ele queria tornar conhecido por sua narrativa, e esta imaginação às vezes escapa a este provável controle, e então

o autor cria, inventa, transforma.

Collis, a descrição da viagem empreendida pelo narrador ao Calaminhão “(

2.1. A descrição geográfica do Calaminhão

Na Peregrinação Mendes Pinto utiliza, além das “autoridades”, distintos procedimentos para dar verossimilhança ao seu relato: umas vezes ele afirma ter vivido ou visto com seus próprios olhos, outras vezes ele diz que lhe contaram por pessoas dignas de confiança, que soube/ leu em fontes históricas citadas diretamente no relato ou retiradas de outros textos da época, transcritos direta- mente sem citar a fonte. Na viagem ao reino do Calaminhão o primeiro motivo de admiração para o narrador é a paisagem. O contato inicial se dá pelos sentidos, especificamente,

a impressão visual que toma conta do escritor, do novo mundo que se abria a seus

olhos. A capacidade que tem o autor de ver é uma das características da sua escrita, é o que se convencionou chamar de o “visualismo” de Mendes Pinto. E é através da visão que o escritor viajante se deixa encantar pela diversidade das cidades, da flora, da fauna e do comércio oriental. Porém, ao descrevê-la, não

11 LAGOA, João Antonio de Mascarenhas Júdice,Visconde de (1947), “A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Tentativa de reconstituição geográfica” in Anais da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais,vol.II/-1.

12 RAMOS, José de (1951), “Império do Calaminhão” en Mosaico, vol.III, nº. 51, Macau, pp.1-12,

p.2.

13 COLLIS, Maurício (1951), A viagem maravilhosa (vida de Fernão Mendes Pinto), Versão do inglês por António Álvaro Dória, Porto, Liv.Civilização, p.205.

O descobrimento dos sentidos na Peregrinação

715

prioriza o revestimento vegetal, chamando a atenção para a riqueza do ambiente em um caráter puramente informativo:

Daquy continuamos nosso caminho mais treze dias, vendo ao longo do rio assi de hua parte como da outra muytos lugares muyto nobres, que segundo o apparato das mostras de fora, deuião de ser os mais delles cidades ricas, & tudo o mais erão bosques de grandes aruoredos, em que auia muytas hortas, jardins, & pumares, & a fora isto cãpinas de trigo muyto grãdes, em que pacia grãde soma de gado vacum: muytos veados, antas, & badas, & tudo apac.tado por hom.s a cauallo. No rio auia infini- dade de embarcaços de remo, nas quais se vendião todas as cousas quãtas a terra produze, em grande abudancia, das quais nosso Senhor foy seruido de enriquecer a gente destas partes muyto mais que todas as outras que se agora sabe em todo o mundo, elle sabe o porque. 14

A exuberância do Calaminhão é importante do ponto de vista comercial, pois a intenção primeira ao registrá-la não é valorizar o caráter estético da paisagem que circunda a fortaleza de Campalagor. É como uma tentativa de adequar o discurso à necessidade de mostrar o caráter econômico que envolve as descri- ções. Como se aquele mundo bonito só tivesse importância na medida em que servisse aos homens, de alguma forma. Esta exposição é puramente informativa, voltada para o uso de comerciantes e mercadores ocidentais, como se pode constatar no fragmento a seguir, que fornece uma localização exata dos tesouros deste império:

Daquy partimos hum Domingo pela menham, & ao outro dia à vespera fomos ter a hua fortaleza que se dezia Campalagor, situada sobre hua ponta de rocha metida no rio a modo de ilheo, cercada de boa cantaria, com tres baluartes, & duas torres de sete sobrados, dentro dos quais disserão ao Embaixador que tinha o Calaminhan hum grosso tisouro dos vinte & quatro que estauão repartidos pelo reyno, de que a mayor parte era em prata, o qual teria de peso seys mil candins, que da nossa conta são vinte & quatro mil quintais, o qual todo estaua em poços debaixo do chão. 15

Para Alfredo Margarido, Mendes Pinto não se afasta da grelha descritiva do século

as descrições obedeciam a determinados códigos, que encon-

tramos em textos, quer europeus quer chineses. Os códigos a serem respeitados não tinham tanto em linha de conta objetivos estéticos quanto utilitários:

XVI, visto que “(

)

servirem de repositório de informações para poderes políticos e econômicos. Daí a abundância de enumerações, o registro de quantidades exatas, a precisão

14 MENDES PINTO, Fernão (2002), p.346. 15 Idem, pp.345-346.

716

Maria Alice Arruda Ferreira Gomes

de informações técnicas, a recolha de terminologia científica (relacionada com a flora e a fauna, por exemplo).” 16 De fato, observamos que quando o autor men- ciona a flora e a fauna do Calaminhão não há notação destacada, são informações puramente utilitárias. A flora é vista pela sua riqueza e a fauna pela sua diversi- dade e o seu lado prático. 17 No entanto, notamos, que apesar do propósito do autor quando menciona o espaço urbano deste reino ser puramente utilitário, o sensorial surge como um dado a mais, detalhando aos ocidentais esse outro mundo. A este respeito o narrador se manifesta na descrição dos hábitos odoríficos utilizados por esta sociedade oriental na manutenção da enfermaria de Chipanocão. 18 Antonio José Saraiva afirma que não há retrato na Peregrinação. Da mesma forma que quando se volta à paisagem, o retrato do Calaminhão é registrado de modo informativo, restrigindo-se a uma classificação social, etária ou utilitária.

Sabemos que, neste reino, a nobreza “tratase muyto limpa & honradamente, com seruiços de baixellas de prata, & alg.as vezes douro, & a gente comum, de porcellana, & de latão. Vestem citins, damascos, & taficiras da Persia, & nos inuernos roupas forradas de martas19 , o tio do rei chama-se Monuagaruu, e é “homem de mais de setenta annos” 20 e, as mulheres são normalmente alvas e belas “mas o que lhes dá mayor lustro he serem muyto b. inclinadas, castas, caridosas, & mauiosas.” 21 A fim de o clarificar, Mendes Pinto aproxima o vestuário exótico dos Pauileus, homens brancos desta região, da sua realidade conhecida, ao afirmar que andam “ vestidos de queimo.s de seda como Iapo.s, & comião cõ

paos como Chins.” 22

O discurso informativo-científico da seqüência da embaixada ao Calaminhão gera um discurso de natureza histórica, geográfica, antropológica, nele o autor descreve os acontecimentos do percurso até o reino de Pegú, a flora, a fauna, a população, o nativo, os costumes, as festas, as religiões e os funerais. O narrador trata da sua aventura pessoal nas terras orientais, conta e informa com preten- sões científicas uma experiência real. No mesmo texto, Mendes Pinto continua contando uma experiência pessoal, porém, agora, puramente “espiritual”.

16 MARGARIDO, Alfredo apud PINTO CORREIA, João David (1979), Autobiografia e aventura na literatura de viagens: a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, Seara Nova, p. 72.

17 MENDES PINTO, Fernão (2002), p.347.

18 Idem, Ibidem.

19 Idem, p.369.

20 Idem, p.361.

21 Idem, p.369.

22 Idem, p.372.

O descobrimento dos sentidos na Peregrinação

717

“Tanto estos viajes “espirituales” como los viajes contados “desde un sillón” suelen ser viajes puramente librescos, cuya fuente es constituida por un con- glomerado de textos mezclados en un afán, quizás, de crear una enciclopedia del viaje, obra a medio camino entre las conocidas imágenes del mundo y los correctores de la ilusión espacial, esto es libros que cuentan viajes reales.” 23 Estão presentes na Peregrinação tanto as descrições de lugares novos que

o autor conheceu e outros de espaços sonhados e desejados. É por isto que observamos uma notação mais destacada quando o autor se refere aos homens selvagens e estranhos deste reino, esta observação faz parte da sua viagem “espiritual”, da sua aventura livresca, porque o nativo oriental é caracterizado por Mendes Pinto pela pigmentação da pele, pelo aspecto do rosto e pelo vestuário primitivo. A referência ao vestuário é registrada em função da posição social que ele ocupa e surge integrada em um processo de caracterização dos traços biológicos do seu portador:

Vimos outra nação de homens muyto ruyuos, & alg.as com alg.as sardas,

& muyto barbaçudos, & tinhaõ as orelhas & os narizes furados, & nos

buracos h.s reuites douro como colchetes, estes se chamauão Ginafógaos

& a prouincia donde erão naturais, Surobasoy, os quais por dentro dos

montes dos Laudos confinaõ co lago do Chiammay, & destes huns andão vestidos de pelles em cabello, & outros de pelles escodadas, & andão descalços, & com as cabeças sempre descubertas. Estes, nos dezião alguns mercadores, que erão comummente muyto ricos, & que não tinhão entre sy mais que somente prata, porem desta muyta em grande quantidade. 24

Para o narrador, o importante na descrição informativa da sociedade deste reino

é o elemento humano que foi descobrindo e contatando no decorrer do itinerário.

Alfredo Margarido esclarece que “(

do Outro comum à sua época: este não é identificado pelas características somá-

ticas, mesmo que se registrem um certo número de informações, respeitando à

cor da pele, à forma dos olhos, ao corte do cabelo.” E complementa que o Outro,

para o autor da Peregrinação, “(

cas militares e religiosas, e através das produções agrícolas ou artesanais.” 25 Para descrever um retrato, uma paisagem ou uma cena um escritor não deve se limitar a uma visão geral; é importante haver traços que a tornem singular a

é visto através do seu vocabulário, das práti-

Fernão Mendes permanece fiel à imagem

)

)

23 POPEANGA, Eugenia (2002), “Viajeros en busca del paraíso terrenal” in Maravillas, peregri- naciones y utopías: Literatura de Viajes en el Mundo Románico, Valencia, Universitat de Valencia, pp.59-76, pp. 59 e 60.

24 MENDES PINTO, Fernão (2002), pp.371-372.

25 MARGARIDO, Alfredo apud PINTO CORREIA, João David (1979), Autobiografia e aventura na literatura de viagens: a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, Seara Nova, p. 72.

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ponto de não ser confundida com nenhuma outra. O autor deve ter sensibilidade para transmitir ao leitor todas as sensações físicas percebidas no momento da viagem: as cores, as formas, os gestos, os sons, os odores, as texturas e os sabo- res. O objetivo de qualquer escritor de viagens contemporâneo é justamente captar a essência e o caráter de um lugar em poucas frases a ponto de despertar

o desejo imediato nos leitores de conhecer o país descrito. Como comentamos

anteriormente o homem pré-moderno não levava em consideração este aspecto,

o importante era que a escritura da viagem servisse de utilidade para a sociedade.

2.2. A descrição etnográfica do Calaminhão e do Pegú

) el pacto con los

receptores respecto a que el texto podía y debía ser espejo de una realidad objetiva” 26 do mesmo modo, os autores dos relatos de viagens do século XVI, também tinham em conta este modelo. O que ocorre é que a partir do Renasci- mento os escritores viajavam carregando consigo além da sua bagagem cultural, ou seja, um acúmulo de histórias que conheciam, as expectativas de outras que iriam encontrar. A sua percepção das terras visitadas será diferente não somente pelas experiências que vão vivendo do novo espaço que se enfrentam, mas tam- bém pelos elementos do imaginário coletivo de que procedem. Jaime Cortesão observa que as narrativas de viagens vieram substituir no gosto e apreço do público, durante o século XVII e o seguinte os livros de Cavalaria:

Se no caso dos escritores viajantes medievais havia “(

No fundo, o interesse era o mesmo. Aquelas obras falavam igualmente à imaginação. Seduziam pelo ímpeto. Simplesmente, as novas proezas da nova Cavalaria andante desenrolavam-se em mundos novos reais.

E

traziam consigo uma torrente de conhecimento inédito sobre a Natureza

e

o Homem. 27

Os relatos de viagens permitiram a valorização do testemunho como fonte direta de veracidade. Fruto da experiência, agora o olhar do “eu” viajante começa a

registra ilhas imaginárias ou

dizer o mundo que vê. Às vezes, este olhar “(

reimaginam outras que existem, ao dar-lhes uma configuração emblemática das riquezas nelas demandadas como uma verdade transposta da imaginação do real

)

26 CARRIZO RUEDA, Sofia M. (2002), “Analizar un relato de viajes. Una propuesta de abordaje desde las características del género y sus diferencias con la literatura de viajes” in Maravillas, peregrinaciones y utopías: Literatura de Viajes en el Mundo Románico, Valencia, Universitat de Valencia, pp.343-358, p.349.

27 CORTESÃO, Jaime (1965), “Fernão Mendes Pinto e o humanismo crítico”, in O Humanismo Universalista dos Portugueses, Obras Completas de Jaime Cortesão, vol.VI, Lisboa,Portugália

Editora,p.119.

O descobrimento dos sentidos na Peregrinação

para o real imaginado. O que era imaginável era melhor registrar, assim colo- cando tanto o que havia quanto o que não havia no mesmo plano da imaginação em que a expectativa precede o conhecido, a interpretação se sobrepõe à observação e a analogia neutraliza a diferença.” 28 Neste encontro entre povos e culturas diferentes, Mendes Pinto teve ocasião

de captar e registrar uma série de elementos exóticos. Na viagem ao Calaminhão

o autor da Peregrinação não se interessa por pequenos atos do cotidiano destes

orientais, apesar de os haver registrado no decorrer do itinerário. O importante

neste relato é transmitir o grandioso desta civilização. Este exotismo se sobressai e, conseqüentemente, também o seu discurso sensorial, quando o narrador manifesta um interesse especial pelos costumes e tradições do Oriente. A descri- ção destes fatos etnográficos se enquadra no que Antonio José Saraiva chama do

exotismo simpático da Peregrinação e se manifesta “(

e afetiva das formas orientais de civilização.” 29 A descrição da procissão que se celebra no pagode de Tinagoogoo por ocasião da festa de Massunterivó é um exemplo da presença deste elemento exótico na seqüência do Calaminhão. Segundo Mendes Pinto, este cortejo era seguido por um grande número de padres, alguns iam a pé, outros em palanquins. Estes últimos vestiam cetim verde com túnicas roxas e os sacerdotes que levavam os andores dos deuses traziam roupagens amarelas. Na parte mais elevada destes carros, conduzidos por rapazes com maças de prata nos ombros, luzia uma imagem de prata com uma coroa em forma de mitra e um colar de pedras preciosas. Completando este desfile sensorial, este ídolo era incensado, ao ritmo de música, com suaves perfumes. 30 Antonio Moniz esclarece que as imagens visuais, olfativas e auditivas, utilizadas pelo autor viajante na composição dos carros que levavam aos altos sacerdotes e ao ídolo Tinagoogoo, serviram para dar uma atmosfera religiosa a este relato:

na apreensão sensorial

)

719

O interdito de pisar o chão obriga ao transporte em palanquins dos sacer- dotes de grau hierárquico superior pelos respectivos subordinados, sobres- saindo novamente o simbolismo cromático do roxo, do amarelo e do verde, no vestuário de seda e damasco, de acordo com a categoria de cada qual. Igualmente simbólico é o número dos sobrados do carro dos ídolos, como os andares dos pagodes, entre quatro e cinco, evocando os elementos naturais. O valor material do ouro, da prata, da pedraria e das pérolas, associado à imagem olfactiva dos cheiros suavíssimos, à função ritual dos

28 GIL, Fernando; MACEDO, Helder (1998), Viagens do olhar. Retrospecção, Visão e Profecia no Renascimento Português. Porto, Campo das Letras, p.204.

29 SARAIVA, Antonio José (1958), “Fernão Mendes Pinto ou a sátira picaresca da ideologia senhorial”, in Separata da História da Cultura em Portugal, Lisboa,vol.III,pp.9-161,p.40.

30 MENDES PINTO, Fernão (2002), p.346.

720

Maria Alice Arruda Ferreira Gomes

acólicos menores e à imagem auditiva dos instrumentos e das vozes, cuja oração se descreve em língua exótica com a respectiva tradução portu- guesa, tudo contribuindo para criar a atmosfera do religioso. 31

Muitos estudiosos já levantaram a problemática do referente histórico da Peregrinação. De fato, a estranheza e novidade de muitas das descrições de Mendes Pinto desencadearam uma reação de ceticismo quanto ao valor histórico documental da narrativa, principalmente no que se refere à sobrevaloração das informações de caráter geográfico e etnográfico do Oriente. Esta desconfiança fazia crer, aos ocidentais que nada do que ele afirmava era verdade, dando motivo a um anôni- mo do século XVII criar o famoso trocadilho: “Fernão mentes? Minto”. Um exemplo destas informações é a descrição que oferece o narrador do ídolo Tinagoogoo. Nesta descrição, os vestuários, as cores, os perfumes são totalmente despropor- cionais à realidade ocidental do século XVII. Tudo é excessivo e exagerado. Há todo um cenário de cor, aromas e vozes na composição desta narrativa:

O ídolo deste Tinagoogoo estaua quãdo aquy chegamos no meyo do corpo da casa, em h.a rica tribuna como altar cercado de muytos candieyros & castiçaes de prata, & de mininos vestidos de roxo, que com tribulos o estauão encençando ao som de muytos & varios estromentos musicos, quasi ao nosso modo que muytos Sacerdotes tangião não desconcerta- damente, ao qual som dançauão tambem diante delle molheres muito fermosas & ricam.te vestidas, ás quais o pouo daua as esmollas que se offerecião, & da mão dellas as recebião os Sacerdotes, & as offerecião diante da tribuna do idolo co grandes cerimonias de cortesias, deitandose de quando em quando de bruços no chão. 32

Merece uma referência especial a notação do autor da Peregrinação na descrição das formas deste ídolo. Para incutir maior realismo ao texto, Mendes Pinto utili- za o que Pinto Correia nomeia de pormenores excitadores da emoção33 ao comunicar a sensação de medo que lhe provoca esta assustadora figura oriental. 34 Terminado este cortejo, Mendes Pinto segue com os portugueses e a embai- xada dos Bramaas até o encontro com o Calaminhão. No caminho informa sobre a paisagem oriental. Porém, as árvores e as flores são notadas no conjunto

31 MONIZ, António (1999), Para uma leitura de Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, Ed. Presença, p.134.

32 MENDES PINTO, Fernão (2002), p.353.

33 PINTO CORREIA, João David (1979), “Autobiografia e aventura na Literatura de Viagens: a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”, in Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, Lisboa, Comunicação, pp.13-111, pp.65-66.

34 MENDES PINTO, Fernão (2002), p.353.

O descobrimento dos sentidos na Peregrinação

721

exuberante da flora, e os frutos são vistos tendo em conta o seu aproveitamento.

O narrador afirma que o cheiro das árvores é estranho, que a natureza deste

reino é abundante durante todo o ano e que as mulheres, além de serem belas,

dançam, tocam e cantam com perfeição. O autor também admite a incapa-

cidade para esclarecer o observado diante da sensação que lhe era transmitida neste império. 35 Agora, no encontro com o rei oriental, o autor já se esmera em pormenorizar cada detalhe, descrevendo, além da suntuosidade do ambiente,

a dos vestuários e a dos adornos regionais do cerimonial que acompanha ao

Calaminhão. 36 Mendes Pinto é um exímio observador e fixa qualquer informação que lhe é transmitida. A novidade é captada imediatamente pelo autor da Peregrinação, fazendo do discurso descritivo deste reino um importante documento etnográ- fico sobre o Oriente. Em Pegú, o narrador soube da notícia da morte do Aixqu.doo Roolim de Mounay, alto sacerdote deste império. 37 Depois da demonstração de luto e tristeza manifestada pelo rei e pela sociedade do Pegú, segue a cerimônia de incineração do corpo deste religioso. Os restos mortais desta divindade são colocados, segundo Mendes Pinto, em um cadafalso ornamentado com veludo branco e envolvido em essências. 38 A descrição pormenorizada do ritual funerário visa impactar e surpreender pela riqueza e profusão ornamental:

Chegada a menham, o cadafalso foy desguarnecido das peças mais ricas que estauão nelle, & lhe ficarão porem os dorseis com todo o veludo, & guio.s, & bandeyras, & utras alfayas de muyta valia, & com muytas ceri- monias & grandes gritas, & prantos, & com horribel estrondo de muytos instrumentos que se tocauão, puseraõ fogo ao cadafalso com tudo o que ficara nelle, & ceuandoo muytas vezes com licores cheyrosos compostos de confeiço.s muyto custosas, o corpo em pequeno espaço foy todo feito em cinza, & quanto ardia, el Rey com todos os grandes que aly se acharaõ, lhe offerecerão de esmola muytas peças douro, & aneis ricos de rubis, & çafiras, & alg.s fios de perolas de muyto preço, o qual rico mouel, tão mal empregado, todo o fogo aly consumio cos ossos & corpo do triste defunto. 39

Depositadas as cinzas desta divindade no templo de Quiay Docoo Deos dos afligidos da terra, segue uma magnífica procissão. Os ricos adereços, o pormenor na enumeração do material, da cor utilizada na confecção e na ornamentação

35 Idem, pp.362-363.

36 Idem, p.363.

37 Idem, p.347.

38 Idem, Ibidem.

39 Idem, pp.375-376.

722

Maria Alice Arruda Ferreira Gomes

do tecido no vestuário dos religiosos que acompanham este cortejo reflete o grau hierárquico que cada um ocupa dentro desta ordem sacerdotal. 40 Este registro do pormenor lembra, para Rodrigues Lapa, certos processos do realismo moderno.

Segundo o autor supracitado esta “(

que tornam o quadro fortemente

visual, (

dar a cor local, a verdadeira imagem daquela gente exótica.” 41 Segue a eleição e o recebimento do sucessor do Aixqu.doo Roolim de Mounay. Mendes Pinto informa que o novo Roolim embarcou junto com o rei do Pegú. Na barca real, este alto sacerdote estava sentado em um trono de ouro cravejado de pedras preciosas, e, aos seus pés, ajoelhado, estava o rei. Esta embarcação era conduzida por nobres com remos dourados, ao som de muitos instrumentos tocados por meninos vestidos de cetim amarelo, devidamente ornamentados, e de músicas cantadas por dois coros de rapazes, que navegavam para Mounay, entoando hinos sagrados. 42 Depois de entronado o novo Roolim, que é segundo o autor, como o papa para os cristãos, desde uma janela saúda os seus fiéis lançando “nas cabeças graõs de arroz, como entre nòs se lãça agoa b.ta, que a g.te recebia delle cos joelhos no chaõ & as mãos levantadas.” 43 Encerrada esta cerimônia a corte volta para Pegú e Mendes Pinto segue o seu destino em busca de novas terras onde possa informar a riqueza e a grandeza do mundo asiático.

acumulação tem um caráter intensivo,

fere a imaginação e desperta o colorido, (

E complementa que Fernão Mendes Tem a preocupação de nos

)

)

).”

3. Conclusão

A análise da estrutura do discurso informativo-antropológico na seqüência da embaixada ao Calaminhão nos revela dois tipos de textos. O primeiro é o texto que informa sobre a geografia deste império, ou seja, paisagem rural, urbana ou humanizada, nele Mendes Pinto permanece um autor caracteristicamente medieval. A flora, a fauna e a sociedade não existem como uma contemplação despreocupada. A falta de retrato também salienta este aspecto. O seu relato

é uma espécie de descrição da geografia econômica do Calaminhão com uma

preocupação em pormenorizar e precisar numericamente todas as suas riquezas.

A importância era sempre comunicar o interesse que poderia haver por esta terra.

40

42

42

43

Idem, p.377.

LAPA, Manuel Rodrigues (1979), Prefácio, in Fernão Mendes Pinto, Peregrinação. 6ª ed, Lisboa, Sá da Costa, pp. 1-15, pp.14 e 15.

MENDES PINTO, Fernão (2002), p.379.

Idem, p.383.

O descobrimento dos sentidos na Peregrinação

723

A criatividade do autor em descrever o mundo que vê é como que posta a serviço

de outros interesses. Ele tem como que um olhar de comerciante ao se debruçar sobre a geografia econômica da região. Filipe Barreto observa que “a questão sensorial parece não preocupar, regra geral, os historiadores, acreditando-se pacificamente numa atemporalidade dos olhos, dos ouvidos ou dos outros sentidos. Falsa atemporalidade, pois que cada

clima civilizacional ordena à sua maneira os equilíbrios sensoriais, ordenação feita em harmonia com a sua visão do mundo, tecnologia, demografia, etc.” 44

É justamente porque cada época ordena como se deve expressar a leitura das

coisas, como se deve ver ouvir, cheirar, tocar e gostar que ao descrever os reinos do Calaminhão e do Pegú, o narrador transmite, através do elemento etnográfico,

referências sensoriais. Notamos que os sentidos não estão igualados, se traçamos uma hierarquia sensorial a visão é o sentido por excelência seguido da audição e do olfato, não há nenhuma menção com respeito ao paladar e ao tato. O segundo texto é, portanto, aquele que Mendes Pinto expressa a sua “visão do mundo”. As imagens sensoriais utilizadas na descrição do carro que leva os sacerdotes orientais, com seus vestuários plenos de cor e de perfumes, e o temível ídolo Tinagoogoo por ocasião da festa de Massunterivó, da suntuosidade do ambiente e do cerimonial que acompanha ao rei do Calaminhão, do luto da sociedade e do rei do Pegú por ocasião das exéquias do Aixqu.doo Roolim de Mounay e da alegre e movimentada barca que conduz o sucessor deste religioso são exemplos da percepção sensorial de Mendes Pinto. Na tentativa de fixar o que via, o narrador dá-nos quadros festivos em cores, aromas e sons que nos fazem quase que sentir a terra descrita. As cores das roupas, os cheiros dos ambientes, os instrumentos, as vozes tudo misturado num quadro que Mendes Pinto como que dependura na parede de nossa imaginação. Ao colocar o elemento humano em meio à paisagem vista, o narrador tenta transmitir o grandioso de uma civilização, e é então que o exotismo encontra a sua força, desaguando no seu discurso sensorial. Ao se aproximar do homem que descreve, ele se aproxima do homem que o lê. Apesar de envolvido por um projeto utilitário, o sensorial o diferenciará, fazendo explodir o colorido nos nossos sentidos, colorido que ele consegue ver nos rituais, cerimônias e festivi- dades orientais, e que incorpora ao seu relato. Assim, possibilita uma liberdade maior à sua imaginação, e não apenas descreve como também cria. Ele então não somente vê, analisa e descreve o Oriente, mas o homem inserido neste mundo. E talvez imperceptivelmente deixa

44 BARRETO, Luis Filipe (1983), Descobrimento e Renascimento. Formas de ser e pensar nos séculos XV e XVI. Lisboa: INCM, p. 279.

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cair, em sua mente, as barreiras impostas pela sua função mercantilista ou expan- sionista. Ao ver o Outro através de seu vocabulário, práticas religiosas e milita- res, e de suas formas de produção, há um filtro ao caracterizá-lo e descrevê-lo. Filtro este que às vezes enfraquece, e paradoxalmente, enriquece o relato e o aproxima mais do fazer literário propriamente dito.

4. Bibliografia

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Paisagens femininas nos orientes de Wenceslau de Moraes

MARTA PACHECO PINTO

Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

ISBN 978-972-8886-24-0 • FROM BRAZIL TO MACAO • CEAUL / ULICES 2013

N arrativas de diáspora ou de difusão cultural: eis uma classificação que, embora abrangente e, por isso, flexível, ressoará na mente do leitor ao longo desta reflexão. Mas, na realidade, não serão todas as narrativas de

diáspora, quer esta consista numa viagem física, real (a tradicional literatura de viagens 1 ), quer esta se situe no âmbito da alegoria, quer represente ou simbolize uma viagem espiritual? Estamos, pois, a partir do princípio de que toda a narra- tiva de diáspora pressupõe um encontro meta e/ou intraficcional, trans e/ou intracultural, inter e/ou intrasubjectivo. Todo o texto literário, todo o acto de leitura se apresentaria, neste sentido, como evasão ou escapatória e, por conse- guinte, como diáspora ficcional para o leitor, constituindo-se ao mesmo tempo como diáspora reconstitutiva, criativa ou literária para o próprio escritor; daí gerando-se uma homologia de experiências. 2 Subjacente a esta narrativa de procura voluntária ou não de um alter mundus, encontra-se um cruzamento de diferentes horizontes culturais que gera inevitavelmente um processo dinâmico de migrações geoculturais que designaremos como tradução cultural. É esta ideia de diáspora, de tradução cultural, capaz de gerar, introduzir ou transmitir novidade cultural, que pretendemos desenvolver em articulação com a obra Paisagens da China e do Japão de Wenceslau de Moraes. Oficial da marinha, Superintendente de Importação e Exportação do Ópio em Macau, professor no Liceu de Macau, cônsul de Portugal em Kobe, Wenceslau de Moraes foi tudo isto e muito mais: foi sobretudo o “intérprete cultural” 3 do

1 “Por Literatura de Viagens entendemos o subgénero literário que se mantém vivo do século XV ao final do século XIX, cujos textos, de carácter compósito, entrecruzam Literatura com História e Antropologia, indo buscar à viagem real ou imaginária (por mar, terra e ar) temas, motivos e formas” (Cristóvão 1999: 35).

2 Evoquemos as palavras da viajante Isabella Bird (1831-1904) que, no prefácio à sua narrativa de viagem por terras nipónicas, Unbeatan Tracks in Japan (1880), apresenta esta obra como um espaço de partilha de experiências: “it places the reader in the position of the traveller, and makes him share the vicissitudes of travel, discomfort, difficulty, and tedium, as well as novelty and enjoyment” (1984: 2).

3 Ver Armando Martins Janeira. 1966. Um Intérprete português do Japão — Wenceslau de Moraes. Macau: Imprensa Nacional/Instituto Luís de Camões.

730

Marta Pacheco Pinto

Japão, país que visitou pela primeira vez em 1889 e que o arrebatou de tal forma que, volvidos cerca de dez anos, decide trocar Macau, onde era residente há já uma década, por aquele “delicioso arquipélago, […] de cantinho de paraíso” (Moraes 1972: 89), um verdadeiro Olimpo no Extremo Oriente. Espaço eleito para

o auto-exílio de Moraes 4 , o Japão não é um mero espaço de reflexão crítica, tema ou objecto de análise; adquire mesmo a dimensão de personagem principal, mas uma personagem com existência extratextual que Moraes experimentou in loco. Tendo conhecido apenas uma única edição em 1906, Paisagens da China e do Japão, obra dedicada a Camilo Pessanha e João Vasco, fiéis amigos e companhei- ros dos tempos do Liceu de Macau, é uma colectânea ou amostra representativa de contos e lendas populares que se entretecem com pequenos apontamentos sobre a vida extremo-oriental, redigidos entre 1899 e 1902 (ou seja, em solo japonês) e publicados em jornais nacionais como O Comércio do Porto. A cada capítulo deste volume corresponde quase sempre um conto chinês ou japonês, facilmente contextualizável através das referências espaciais ou histórico- -culturais e da antroponímia e toponímia que o acompanha. Esta deambulação pela literatura popular de tradição oral, ou seja, a daquelas massas com que Moraes simpatizava por estarem mais próximas das origens telúricas orientais, permite dar a conhecer ao leitor português — o principal destinatário das suas reflexões 5 — o contexto cultural, social e moral em que se encontra inserido e que procura assimilar numa tentativa de aculturação total. Na esteira das reflexões desenvolvidas em Traços do Extremo Oriente (1895)

e Dai-Nippon (o grande Japão) (1897), e para efeitos da presente reflexão, consi-

deramos que Paisagens da China e do Japão se desdobra numa tipologia tripar- tida de paisagens, a saber: paisagens literárias (compostas por aquela literatura oral), paisagens naturais (ligadas, no sentido literal, ao mundo geofísico) e paisa- gens humanas, das quais se destaca a figura feminina em geral e a musumé em

particular. Combinadas, estas geram a paisagem moraeseana do Extremo Oriente sino-nipónico. No que se refere às paisagens literárias, convém referir que a inclusão do conto popular é, por um lado, uma forma de dar a conhecer as raízes populares daquelas culturas Outras, ao encerrar em si os valores da sociedade em que se

4 “[…] o aventureiro que escolheu para exilio um canto exotico, longe, muito longe do torrão onde nasceu, e no qual a civilisação disparatada, a feição propria das gentes com quem lida, hão-de fatalmente apresentar-se, dominantes” (Moraes 1906: 99-100).

5 Do ponto de vista da recepção, todos os escritos orientalistas de Moraes visam um leitor portu- guês com quem tenta dialogar constantemente, antecipando reacções e esclarecendo comportamentos susceptíveis de polémica junto do público português.

Paisagens femininas nos orientes de Wenceslau de Moraes

731

inscreve, sendo símbolo de uma identidade nacional colectiva (Moraes 1999: 127);

por outro, ecoa a tentativa de resgatar um Japão tradicional e ancestral, anterior

à adesão geral ao progresso industrial, tecnológico e comercial proveniente da

Europa e contra o qual Moraes se insurge (Chaves 2004: 11). Trata-se igualmente de colocar essas culturas extremo-orientais numa espécie de discurso directo — ainda que seja um discurso traduzido e grandemente mediado pela subjectivi- dade de Moraes, o que lhe valeu o estatuto de tradutor visível. 6 Realizado a partir de testemunhos orais e, dado o desconhecimento quase total da língua japonesa, de traduções existentes para línguas europeias 7 , este exercício de tradução literária apresenta-se como uma estratégia programática de divulgação cultural que, cumprindo um objectivo didáctico, podemos equiparar ao que Even-Zohar ou Gideon Toury designaram como planeamento cultural. 8 É interessante verificar que esta ideia de traduzir e compilar contos, que Traços do Extremo Oriente antecipa, poderá ter sido inspirada em Lafcadio Hearn que, até à data, já havia publicado várias antologias de contos traduzidos directamente do japonês para

a língua inglesa que vieram a popularizá-lo junto da sociedade nipónica. Através dos contos seleccionados e dos comentários esboçados, Wenceslau de Moraes manifesta pontos de vista diferentes consoante o objecto em análise

6 Wenceslau de Moraes adquire este estatuto ao interromper frequentemente a narrativa de

mediação cultural para introduzir, por meio de referências parentéticas (“e tanto ella teimou,

sabem todos o que são teimas de mulheres! — que sempre foi levando a sua ávante”; “O que

o

velho via claramente, era a imagem da filha, que alli tinha junto de si em carne e osso, —

que carne! e que osso! — palpitante de vida e gentileza” (Moraes 1906: 56 e 163)) ou apostos, comentários, observações pessoais e, por vezes, esclarecimentos no sentido de colmatar diferenças culturais.

e

7 “Nos meus vários livros a respeito de coisas japonesas, especialmente nas Paisagens da China e do Japão, o leitor poderá encontrar, em tradução, algumas lendas japonesas; mas melhor fará, consultando a brilhante colecção ilustrada The Japanese Fairy-Tale Series, publicada por Hasegawa, em Tóquio” (Moraes 1999: 142). O conhecimento bastante rudimentar da língua nipónica fez com que Moraes se visse na necessidade de recorrer a textos intermédios, nomea- damente a The Japanese Fairy-Tale Series de Hearn, obra que terá funcionado como texto de partida dos contos coligidos em Paisagens da China e do Japão.

8 Ver: Gideon Toury. 1999. “Culture Planning and Translation.” In Anovar/anosar: Estudios de traducción a interpretación I. Edição de Alberto Àlvarez Lugrís e Anxo Fernández Ocampo. Vigo: Servicio de Publicacións da Universidade de Vigo, 13-25; Itamar Even-Zohar. 1994. Culture Planning and the Market, http://www.tau.ac.il/~itamarez/papers/plan_clt.html; Itamar Even- Zohar. 1997. Culture Planning and Cultural Resistance, http://www.tau.ac.il/~itamarez/ papers/plan_res.htm; Itamar Even-Zohar. 2008. “Culture Planning, Cohesion, and The Making and Maintenance of Entities.” In Beyond Descriptive Translation Studies: Investigations in Homage to Gideon Toury. Edição de A. Pym, M. Shlesinger e Daniel Simeoni. Amsterdam & Philadelphia: John Benjamins, 277—292.

732

Marta Pacheco Pinto

seja o “povo amarello” (1906: 20) da China — simbolicamente representada por Macau — ou o Japão. Se Macau é um “exiguo penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira” e onde as “ruas lamacentas, [estão] coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas dos chuvascos” (Moraes 1906: 21 e 22), o Japão ocupa, pelo contrário, um lugar de destaque enquanto palco de “deliciosos exotismos ultra-terrestres, como se a gente se achasse de repente piando o solo de Marte ou de Saturno” (Moraes 1906: 125). Paisagens da China e do Japão oferece, pois, uma leitura comparativa da China e do Japão centrada sobretudo nas diferenças que opõem estes sistemas culturais:

para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo irmão, o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come pedaços do seu torrão sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do mundo na miserrima condição da sua plebe e na opulenta infamia dos seus nobres, desprestigiada emfim, indefeza à cubiça das gentes, aos homens loiros da Europa, que não tardarão em vir espezinhal-a. (Moraes 1906: 25)

Para além destas paisagens literárias, Moraes também nos presenteia com uma paisagem natural que “é sempre organizada pela apreensão de um olhar (pontualmente) fixo, pressupondo a perspectiva, que se exerce sobre um todo

homogéneo preferencialmente captado por uma direcção (oblíqua) e um sentido descendente do olhar” (Buescu 1990: 66; ênfase do original). O próprio título, Paisagens da China e do Japão, evoca um manual de viagens ou roteiro, uma digressão pela China e pelo Japão cujas lendas populares se coadunam com esse movimento digressivo que possibilita a reconstituição, pela escrita, das paisagens naturais percorridas pelo olhar. É nesse passeio cultural que, à semelhança do culi japonês, Wenceslau de Moraes — “um companheiro, um amigo quase, risonho, honesto, prestimoso, sabido em histórias e em lendas, que vai impingindo ao mais leve pretexto da paisagem” (Moraes 1972: 244) — surge como um condutor, não de carros nem de pessoas individuais, mas de diálogos interculturais. Interpelando directa e activamente o leitor português, sobretudo num tom intimista e confessional, Moraes emerge como guia, como relanceador de culturas Outras, pelo que, quando chega ao fim das suas diásporas e diva- gações, se apresenta “arquejante, a escorrer de suor” e “nos brada num sorriso — ‘sayonara!’…” (1972: 244). As paisagens chinesas e japonesas que descreve denotam claros veios exó- ticos, próprios da literatura de viagens então produzida um pouco por toda a Europa. Sinónimo de diferença, de estranho, de alteridade e alternativa cultural,

o exotismo institui-se como “mediation of an ‘abroad’ to an audience assumed

to be located at ‘home’” (Lodge 1992: 159). É nesta mediação entre o estranho

e o familiar, entre binómios aparentemente inconciliáveis, que se processa uma

identificação entre sujeito observador e objecto observado, em que a leitura

Paisagens femininas nos orientes de Wenceslau de Moraes

733

que o sujeito observador faz da alteridade é sempre uma leitura subjectiva na qual está necessariamente implicado. Na definição avançada por Rogério Puga

(2005),

[A] visão do alter mundus leva o Eu a consciencializar-se de que é também Outro no seio de um processo de “leitura” interactiva. O exotismo, metáfora representativa do encontro de diversas esferas civilizacionais, apresenta-se como uma questão de identidade, de pertença socio-cultu- ral; uma questão ontológica e também gnoseológica, um jogo de espelhos transversal a todas as manifestações artísticas, filtrado quer pela sensibili- dade de quem o elabora quer pelo contexto histórico-cultural da sua produção e posterior recepção.

É neste processo de identificação e apresentação de alternativas culturais que o Eu compreende ser e se sente como um Outro, ao mesmo tempo que, transver- salmente, sente esse Outro como diferente. 9 Neste sentido, fazemos nossas as palavras de Helena Buescu quando afirma que “a introdução da descrição da paisagem parece-nos provir de uma notação que exige a consciência da diferen- ciação: como se fosse necessário o efeito de estranheza, inerente ao exotismo, para a natureza se construir como objecto de olhar, passível de descrição” (1990:

48; ênfase do original). Essa natureza Outra é sempre concebida em função das categorias que o sujeito observador tem à sua disposição no seu aparelho linguís- tico e sistema cultural, categorias estas que lhe são familiares por designarem as realidades que fazem parte do seu universo cultural, podendo, por analogia, ser transpostas para o universo da alteridade. A tradução cultural que se opera — cujo objecto em trasladação reflecte uma escolha conceptual pessoal e a imagética subjectiva do autor desse processo — acaba por espelhar esse Eu, a sua compreensão de alteridade e as expectativas de leitura que cria para o leitor português. 10 Ao tentar (re)produzir-se um efeito de estranheza mas através de

9 “Le monde extérieur est ce qui se différencie aussitôt de nous. […] Or le sentiment de la nature n’exista qu’au moment où l’homme sut la concevoir différente de soi” (Segalen 1978: 44). Sobre o exotismo, consultar também: Francis Affergan. 1987. Exotisme et alterité. Paris: Presses Universitaires de France; Jean-Marc Moura. 1992. Lire l’exotisme. Paris: Fayard; mais recente- mente, Vladimir Kapor. 2007. Pour une poétique de l’écriture exotique — Les stratégies de l’écriture poétique dans les lettres françaises aux alentours de 1850. Paris: L’Harmattan.

10 “The translation is addressed to a very specific audience, which is waiting to read about another mode of life and to manipulate the text it reads according to established rules, not to learn to live a new mode of life” (Asad 1984: 159). Para Talal Asad, a tradução cultural tem sempre um público-alvo específico que partilha um conjunto de expectativas específicas e que constrói, em função do grau de concretização dessas expectativas, a sua própria concepção de alteridade.

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uma familiaridade lexical, esta forma de tradução afinal familiarizante, este exotismo — em que “le sujet épouse et se confond pour un temps avec l’une des parties de l’objet, et le Divers éclate entre lui et l’autre partie” (Segalen 1978:

79) — constitui-se como uma possibilidade de definição do sujeito observador, ou seja, o próprio Wenceslau de Moraes. Enquanto artifício literário ao serviço de uma estética do diverso, enquanto ornamento discursivo, o exotismo ajuda ainda a construir a cor local não só de Paisagens da China e do Japão, mas da obra de Moraes em geral. Segundo Aguiar e Silva, “ a cor local, ou seja, a reprodução fiel e pitoresca dos aspectos característicos de um país, uma região, uma época, etc., constitui um dos recursos mais vulgarizados na arte romântica” (2002: 549), bem como o refúgio oitocentista em cenários exóticos de que a obra em análise é exemplo:

Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas, torrentes espuman- tes, ribeiras dormentes, valles profundos, mares interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos de ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n’um relance. (PCJ 1906: 124)

Definida por Carlos Ceia como uma técnica narrativa ou pintura do pitoresco que pode levar a uma identificação entre o escritor e a paisagem pintada 11 ou, pelo contrário, a uma rejeição da mesma, de que os sentimentos de Moraes pela China e por Macau são exemplo, a cor local de que nos ocupamos é também composta por paisagens humanas que reflectem uma predilecção pelo Japão. É o caso da figura feminina nipónica, elemento integrante da cor e da paisagem locais, fazendo parte da própria natureza e sendo a ela equiparada. É, assim, a partir desta figura conciliadora de culturas extremas que Moraes concebe o seu Oriente nipónico. Pensemos, à guisa de exemplo, nas pinturas francesas orientalistas que procuravam o Oriente através da figura mítica de Salomé, bastante em voga no final do século XIX, ou na literatura de viagens produzida durante Setecentos e Oitocentos que, ao privilegiar uma evasão num espaço definido como Oriente, elegia a figura feminina como protagonista e símbolo desse espaço Outro, tantas vezes palco de devaneios eróticos — é o caso de Voyage en Orient (1851) de Nerval, Le Roman de la momie (1858) de Gautier, Salammbô (1862) de Flaubert, entre outros.

11 “Descrição pormenorizada de traços característicos de uma dada região ou do pitoresco de uma paisagem, ou descrição de particularidades dos costumes ou dialectos de certas comu- nidades. Os momentos de descrição conhecidos por cor local são em regra de importância secundária para o desenvolvimento da narração do principal tema de uma história. Contudo, a forma como certos escritores se envolvem na cor local descrita nas suas obras levou a processos curiosos de identificação desses escritores com as regiões que pintaram” (Ceia 2005).

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Alheio às preocupações românticas ou a outras considerações estético- literárias 12 — aliás, a obra de Moraes não está ao serviço de qualquer tipo de movimento literário, mas sim de uma filosofia pessoal de divulgação de um Oriente muito particular —, encontramos em Wenceslau de Moraes uma con- cepção de corpo feminino enquanto parte integrante da paisagem nipónica em que o próprio escritor procura fundir-se. Esta mesma concepção traduz um paradigma inaugurado pelo Romantismo que Hans Gumbrecht descreveu nos seguintes termos:

Romanticism tended to celebrate as an enrichment what 19 th century epistemology would later identify as a challenge — if not as a scandal. The aspect in particular that the human body would become, once again, a dimension of resonance for — and thereby part of — man’s physical environment seems to have fostered, in the beginning, a new feeling of “romantic” familiarity and closeness vis-à-vis the world. (Gumbrecht 2004: 59)

Meio privilegiado de socialização, aculturação e contacto com o Extremo Oriente,

a figura nipónica que polariza o interesse de Moraes é descrita em termos e

imagens familiares ao leitor português, numa espécie de familiaridade romântica

de que Gumbrecht nos fala, mas que, conjugados, criam uma rede de signifi- cações cujo exotismo desempenha uma função que transcende o mero plano

textual ao suscitar a curiosidade do leitor, mantendo-o simultaneamente preso

à leitura cultural que se lhe proporciona. A admiração que nutre pela mulher

japonesa nunca esmorece, ainda que a sua fé no Japão seja abalada sobretudo na fase final da sua vida e carreira literária. 13 É esta mulher, e “não ha mulheres mais mimosas do que estas musumés” (Moraes 1906: 210), que mais fascínio parece exercer, sendo apresentada como um misto de novidade, por ser diferente da mulher europeia (“uma grande dissemelhança afasta a mulher japoneza, da mulher occidental” (Moraes 1906: 207)), sensualidade e encantamento:

12 O exotismo inaugurado sobretudo pelas primeiras obras orientalistas de Wenceslau de Moraes foi cultivado não só pelos poetas românticos (“o Oriente, com o seu mistério, o fascínio das suas tradições, das suas cores e dos seus perfumes, transformou-se no mito central do exotismo dos românticos” (Aguiar e Silva 2002: 549)), mas também, mais tarde, por parnasianos e sim- bolistas — veja-se o caso do Cancioneiro chinês (1890) de António Feijó — “é verdadeiramente sintomática do lirismo finissecular a aproximação de António Feijó ao orientalismo exótico em voga na época, mas também de uma depuração parnasiana e ainda de um vago simbolismo” (Martins 2004: 18) — e a obra de Camilo Pessanha.

13 Leia-se O-Yoné e Ko-Haru (introdução e notas de Tereza Sena. Imprensa Nacional-Casa da Moeda: Lisboa, 2006).

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essa figurinha em miniatura que tão irresistivelmente captiva as attenções do estrangeiro, toda ella matizes, perfumes, frescura, gentileza, a figurinha da musumé, da rapariga, podemos ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura mais travessa, a chimera humana mais deliciosa, em que jamais olhos de viajante se poisaram!… (Moraes 1906: 122)

O maravilhamento de Moraes pela musumé está patente nas metáforas, nas ima- gens e nas estruturas linguísticas que usa para descrever essa realidade humana que, primando pela sua ultrafeminilidade, faz com que “o pobre europeu das

paizagens serenas, soffr[a] os choques d’esta natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste, meditativo e atribulado” (Moraes 1906: 31-32). E é talvez por ser subversiva que, desde as suas primeiras obras, se denota uma construção idiossincrática do corpo feminino oriental. Esta idiossincrasia, distri- buindo-se por diferentes partes desse corpo, mostra como esta musumé rompe com o protótipo de beleza exaltado por uma Laura de Noves petrarquista ou mesmo pela tradição greco-latina, contribuindo para a sua excepcionalidade num mar tão diversificado de entidades femininas. São, deste modo, objecto de um culto quase obsessivo o rosto (nomeadamente o “olhar negro” e “a boquinha, em forma de cereja, acarminada, [que] sorri em curvas, em prégas, em covinhas impagaveis… ” (Moraes 1906: 46 e 111)), as mãos — “convem saber que não ha mãos mais bonitas do que as mãos das japonezas” (Moraes 1906: 156) — e os pés, ”

(Moraes 1906: 136). É a reunião de todos estes elementos

“pés… e que pés!

corporais que define esta paisagem feminina, cuja sobrevalorização concorre para um quadro de erotismo e sedução flagrante:

[…] sereias de agua doce, simplesmente meigas, simplesmente gentis [… ] e dando de graça um sorriso, tão doce, que tirava ao chá o travor proprio, mesmo para o paladar mais exigente. (PCJ 1906: 45)

[…] era entreabrir o kimono de seda na parte junto ao peito, patentear lhe o par de maminhas brancas e roliças, com os bicos côr de rosa mace- rados pelos dentinhos do garoto que lhe brinca no collo, nu em pêlo… (PCJ 1906: 209)

Meiga, gentil, sorridente, mimosa, “emblema dos carinhos do sexo delicado” (Moraes 1906: 77): são estes os principais epítetos desta mulher que, actuando como uma femme fatale sem disso ter consciência, deleita o olhar masculino europeu pelos gestos graciosos com que realiza actividades aparentemente tão prosaicas como:

cuidar dos seus cabellos, pintar a boca de escarlate, dedilhar no shamicen, compôr ramos de flôres, servir o chá nipponico, lêr historias de raposas fabulosas e de macacos legendarios… (Moraes 1906: 208)

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Ao mesmo tempo que estas actividades reflectem o papel social que a sociedade nipónica programa para a mulher, espelham também a passividade e serenidade que caracterizam este ser. No retrato sempre superlativado que traça desta figura feminina, Wenceslau de Moraes evoca, por vezes, uma imagética floral e animal (regra geral, seres inofensivos de pequena dimensão) que meta- fórica e inevitavelmente, através de um movimento metonímico e enquanto prolongamento da própria natureza, associa a este ser frágil e vulnerável tornado objecto de uma apreciação estética desmedida. Reciprocamente, também na natureza se encontram paisagens femininas, verificando-se uma codificação daquele corpo na paisagem e vice-versa:

Alinhadas nos jardins, sob tendas de abrigo, as chrysanthemas lembram mulheres, lembram-me cortezãs de Ioshiwara, quando ellas vestem os ricos mantos polychromos, quando elas enfeitam os cabellos com diademas de espavento, e vêem postar-se em filas, princezas pompejantes do vicio, encantadoras e perversas… (Moraes 1906: 188)

Refira-se ainda a importância simbólica da cor nas descrições com que Moraes nos presenteia desta figura. Se a alvura da pele, símbolo de pureza e inocência, eleva estas figuras à condição de seres imaculados de adoração semideificada e de beleza exótica, o negro intenso dos olhos e a cor púrpura dos lábios tornam- se, quando combinados, cores da tentação carnal que excitam o desejo masculino e que estão congenitamente presentes nas pinturas que o pincel japonês traça da paisagem natural:

São estas florescencias paradoxaes, tão caracteristicas do solo nipponico, que encaminham a cada momento o pincel indigena para requintes de matizes que a esthetica occidental não comprehende; ellas inspiram aos artistas esses tão frequentes fundos de paizagem salpicados de brancos e vermelhos, a reminiscência do instante em que as flores se desfolharam e cairam do alto, n’um chuveiro de petalas. (Moraes 1906: 34-35)

O uso e abuso de diminutivos são uma outra prática recorrente que reforça a delicadeza destas figuras pueris, daí resultando a infantilização desta mulher 14 , sempre filtrada por um olhar enamorado e complacente que nunca a coloca em discurso directo e tende a confiná-la à esfera do lar doméstico: “dois meritos ainda: o delicado instincto da ordem, da limpeza, e um fundo de carinho mater- nal, tam amoroso, que talvez não tenha egual no mundo inteiro” (Moraes 1906:

206). Por outro lado, estes diminutivos sugerem implicitamente que estes corpos

14 Yamamoto, em Masking Selves, Masking Subjects — Japanese American Women, Identity, and the Body (1999), enuncia uma espécie de relação de causa e efeito entre um discurso de infantilização e a exoticização da figura feminina, sendo um correlato do outro (1999: 16).

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humanos necessitam de uma figura tutelar, autoritária, de preferência masculi- na, que os proteja. Este tipo de exotismo linguístico, aliado ao recurso a imagens sinestésicas, estende-se aos objectos que rodeiam a mulher nipónica que, uma vez mais por acção da metonímia, adquirem a sua fragilidade. Ainda, ao nível da pontuação, ressalvemos a presença abundante de reticências e pontos de exclamação, que exprimem emotividade, sugestão e incompletude e que, quando ocorrem em simultâneo, parecem expressar uma espécie de entusiasmo contido, um segredo não revelado que cabe ao leitor descobrir por si mesmo. Esta “chimera humana” (Moraes 1906: 209) surge, portanto, como um mo- delo de relacionação entre o homem e a natureza ou paisagem oriental, sendo mais do que um “mero ornamento que participa da paisagem e serve para [o] iniciar [Moraes] no fascínio da terra japonesa” (Laborinho 2004: 59). É, na nossa perspectiva, uma constante, um elemento fixo dessa paisagem estranha, desse imago mundi moraeseano, acusando inclusive um discurso de feminização do Japão. Segundo Nishihara, este discurso processar-se-ia por meio de não uma, mas duas figuras — a geisha e a musumé:

Another example is the geisha girl in English and mousmé in French as the epitome of the cliché of imposed sensuality on Japan. The Orient, including Japan, was associated with the gratification of sexual pleasures by Western men. The geisha repeatedly appeared in Western literature and art. Madame Chrysanthème (1887) by Pierre Loti (1850-1923) and Madame [sic] Butterfly (1904) composed by Giacomo Puccini (1858-1924), depended heavily on geisha images. However, a hasty conclusion that the sexual image of the geisha was unilaterally imposed by Western Orientalism is inappropriate. The Japanese also utilized the discourse on geisha. In the Japanese context, the sexual image was toned down and the geisha became a symbol of Japanese beauty made more acceptable for the Japanese. (2005: 246; itálicos do original)

Embora dedicando várias páginas à “guesha, a mulher-flor” (Moraes 1972: 230), é, sem dúvida, a musumé que ocupa um lugar de relevo na escrita de Moraes e que, na perspectiva de Nishihara, remeteria a sua produção literária para a tradição francófona, apesar de notória a dívida de Wenceslau de Moraes para com a herança anglófona (através sobretudo de Lafcadio Hearn, Chamberlain e Percival Lowell). Mais significativo é o facto de a sua obra divergir das que os seus pares ocidentais escreveram sobre o Japão, em que há uma inevitável (e dogmaticamente aceite) predisposição da mulher oriental para o homem ocidental: “the Japanese woman is configured as ontologically mysterious, sexually available, and hungry for contact with the West — via the white western male” (Yamamoto 1999: 21-22). O lusitano loiro de olhos claros de que nos temos vindo a ocupar rompe com este cliché ao assegurar o leitor português de que era

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alvo de rejeição por parte da mulher nipónica (cf. O-Yoné e Ko-Haru). Esta rejeição não é, porém, motivo de negação e repúdio dessa figura feminina, mas, pelo contrário, fomenta e intensifica ainda mais o culto que Moraes dedica a este fruto proibido. A paisagização feminina patente em Paisagens da China e do Japão tem uma maior visibilidade dentro do contexto geral da produção moraeseana. Este sujeito feminino, objecto de descrição exótica e apoteótica, surge ao serviço da “desco- berta da alma do país” (Laborinho 2004: 56) do Sol Nascente e, por que não, da

própria rejeição do solo mater, isto se tivermos em conta o contexto finissecular de desprestígio de Portugal no panorama europeu (pensemos no Ultimato inglês

e nas lutas liberais), bem como toda a instabilidade política que se vinha prolon- gando desde as Invasões Francesas. Por que não mesmo pensar essa figura em oposição a uma Maria da Fonte revolucionária que veio antecipar o advento de uma nova identidade feminina cujos ideais tanto desagradavam às mentalidades masculinas da época, de que Wenceslau de Moraes seria afinal um exemplo?

[…] até as mulheres são feias, feias como nunca foram — (ou é a fábula da raposa e as uvas que me inspira?) — tornadas ainda por cima quezilen- tas, graças aos progressos feministas, em fermento (Moraes 2006: 134)