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A CASA TOMADA

inspirado no conto homônimo de Julio Cortázar

por Djair Guilherme

RELAÇÃO DOS PERSONAGENS

1. TIO ALBERTO (TIO-AVÔ DE JULIO E IRENE)


2. JORGE (MARIDO DE AMÁLIA)
3. AMÁLIA (SOBRINHA DE ALBERTO)
4. JULIO
5. IRENE
6. CARMEN (PRIMA DE AMÁLIA E ROBERTO)
7. ROBERTO (PRIMO DE AMÁLIA E CARMEN)
8. PAI (DE JULIO E IRENE)
9. MÃE (DE JULIO E IRENE E SOBRINHA DE TIO ALBERTO)
10. EMPREGADA
11. SEGUNDA EMPREGADA

Jardim TIO ALBERTO


O peso dele, sabe? Como se o copo
A casa está sendo preparada para tivesse esvaziado.
uma festa. Julio e Irene brincam no
JORGE
jardim da casa, como crianças.
O seu copo é que esvaziou, tio!
Funcionários entram e saem da
casa, nos preparativos. No andar AMÁLIA
superior, na sacada, os pais se re- Aliás, onde estão os copos?
vezam. O pai aparece na sacada,
ajeitando a gravata. Depois surge a TIO ALBERTO
mãe, penteando-se. Surge um ca- Será que isso é o peso da vida?
sal, junto ao público vestido em tra- JORGE
jes finos. Jorge e Amália. Julio e O tio já está pra lá de Bagdá!
Irene discutem e Irene sai corren-
do. O tio se dirige ao público. AMÁLIA
A festa já começou?
TIO ALBERTO
(Bebendo vinho) Não sei se vocês já JORGE
sentiram isso. Você se distrai numa Julio! Vem cá, menino. Não vem fa-
conversa, por exemplo, e sente von- lar com o tio Jorge?
tade de tomar água. Felizmente, ali
perto, tem um copo que você acredi- JULIO
ta que está cheio. Você então o le- (Correndo) Oi tio!
vanta e subitamente percebe o copo TIO ALBERTO
mais leve do que deveria. (Enche o Pede a benção!
copo novamente) Quando eu era
criança, foi assim que eu senti a JULIO
morte. Um parente nosso adoeceu ‘Bença’, tio Jorge! (estende a mão)
de repente e a morte o rondou du-
JORGE
rante anos, mas a doença não o ven-
Não precisa. (Aperta a mão de Ju-
cia de forma alguma. (Bebe) Um dia
lio)
nós fomos visitá-lo e eu pedi-lhe as
bençãos, como era o costume da TIO ALBERTO
época. (Olhando a taça) Apertei-lhe Guarda bem o peso. Guarda bem o
a mão e naquele momento, senti peso! (Entra na casa)
que o peso dele não estava lá.
AMÁLIA
JORGE E a Irene, cadê?
Tio Alberto. Tio Alberto! Sempre
com suas histórias agradáveis! JULIO
Irene!
AMÁLIA
O dia é de festa, Tio! No andar de cima da casa vemos a
sombra da menina.

JULIO tasma lá dentro... (Passando pela


Olha ela lá! (Chama a irmã) Irene! Janela onde vemos Tio Alberto to-
O tio Jorge chegou... (Para o públi- cando violino) Esse é o Tio Alberto.
co) Vamos lá que eu vou te mostrar Ele é músico. Fica o dia inteiro to-
a Irene. (Conduzindo o público para cando violino. Ele é legal! A mamãe
a outra entrada) Irene! O pessoal já fala que ele é excêntrico, mas eu não
chegou! sei o que é isso. Um dia ele veio aqui
pra fora, com o violino, e ficou pela-
AMÁLIA
do. Tava o maior frio e ele pelado,
(Para outra parte do público) Gen-
tocando o violino. Minha mãe saiu
te, que festa é essa? Onde estão as
correndo para tapar os olhos da Ire-
taças? (Entrando na casa pelo
ne. O meu pai deu uma bronca nele!
aquário) Olha essa foto! Que coisa
Eu achei engraçado... Tocando vio-
mais cafona!
lino no frio. E pelado! (Ri)
Neste momento, o público é dividi- IRENE
do em duas partes. O primeiro gru- (Abrindo a porta. Ela tem quarenta
po acompanha Julio, pelo lado de e poucos anos) Faz trinta anos.
fora da casa, até a entrada frontal.
O segundo, acompanha Amália e JULIO
Jorge, entrando através do sala (Agora com quarenta e poucos
envidraçada, que chamamos de anos) Trinta?
aquário.
IRENE
Eu sempre lembro dele.
Irene
JULIO JULIO
(Pelo lado de fora da casa) A Irene Lembra dele tocando violino aqui
é boba! Toda vez que ela fica com fora? Pelado?
raiva de mim, ela fica sem conversar IRENE
comigo. Uma vez, ela ficou três dias Não lembro.
sem conversar. Ela me ignorava. Daí
eu inventei uma história que tinha JULIO
fantasma na casa, lá em cima, num Ele, pelado aqui fora... E o papai
quarto que tem lá. Eu fiz assim: en- dando bronca...
trei no quarto, fiz uns barulhos lá
IRENE
dentro. Daí eu saí correndo e falei:
Quando isso?
“Tem fantasma aqui. Eles querem
tomar a casa da gente”. Ela ficou JULIO
com medo e perguntou “De verda- Você não lembra? Foi um pouco an-
de?”. Eu falei que sim. Aí eu abri a tes... Trinta anos, você disse?
porta do quarto, e não tinha nada lá
né, daí eu falava: “Eles foram embo- IRENE
ra!” Eu ficava com medo de um dia Parece que foi agora mesmo...
abrir a porta e ter mesmo um fan-

JULIO ças coloca o colchão na escada e se


Já começou? senta sobre ele, escorregando para
baixo. Os outros seguem, dando ri-
IRENE
sadas.
Não. Estava te esperando.
IRENE
JULIO
Lembra disso?
(Para o público) Vamos entrar...
Vamos entrar... (Espera até que to- JULIO
dos entrem) Fazemos a limpeza de (Pegando uma vassoura) Do quê?
manhã.
IRENE
IRENE Da gente, descendo a escada...
Temos que acordar cedo. Sempre às
sete. (Fecha a porta) JULIO
(Confuso) Da gente, descendo a es-
JULIO cada? Quando? Hoje?
Sempre. (Subindo as escadas)
IRENE
IRENE Não. Quando a gente era criança, no
(Segue Julio e conduz o público) colchão...
Mais ou menos às onze, o Julio sai
para fazer nosso almoço. JULIO
Ah! (Confuso. Começa a varrer o
JULIO cômodo)
E ela fica com os últimos quartos.
IRENE
IRENE Lembra?
O almoço é servido sempre ao meio
dia. JULIO
Não.
JULIO
Sempre. IRENE
Ê velhice! (Pega também uma vas-
IRENE soura e começa a varrer. Vão em
(Mostrando a casa) Não é um espe- direção ao closet).
táculo? Olha esse espaço... (Termi-
na de organizar o público em na JULIO
saída da escada) Sério. Não lembro de nada disso...

JULIO IRENE
Nós adoramos essa casa. Ela é espa- Parece que foi agora mesmo...
çosa, antiga... E guarda as lembran- JULIO
ças de nossos bisavós, do avô pater- Trinta anos.
no, dos nossos pais...
IRENE
Um grupo de crianças surge arras- Menos.
tando um colchão. Uma das crian-

JULIO sombra aumenta cada vez mais.


Você disse trinta. Até que ela vai embora.
IRENE JULIO
Não. Isso deve ser quando a gente Eu olhava para ela ao longe, e aque-
era um pouco maior... la distância toda fazia com que eu
me encolhesse. Como se ao me en-
JULIO
colher eu fosse capaz de trazê-la
Tô pensando no tio Alberto.
para mim. Como se ao me encolher,
IRENE ela aumentasse. Como se a contra-
(Desapontada) Ah. Isso... Pensei ção de mim mesmo fosse a contra-
que era o escorregador. ção da própria distância. No dia em
que Maria Esther foi embora, eu me
JULIO descontrai. E a descontração era
Escorregador? tanta que eu me senti vazio. E nunca
IRENE mais pude preencher esse espaço.
É, na escada... (Entrando no armário)
IRENE
JULIO
Claro! Claro! (Abre uma porta) Maria Esther...
JULIO
IRENE
Outro dia eu lembrei da Maria Quem? (Fecha a porta)
Esther. Era Maria Esther, não? (En- IRENE
trando no armário, como se fosse Aquela sua namorada...
limpá-lo por dentro)
JULIO
JULIO (De dentro do armário) Ah... E seus
Quem? dois de paus?
IRENE IRENE
(de dentro do armário) Aquela sua Dois de paus?
namorada...
JULIO
JULIO (Abre a porta) Não lembra? Como
Ah. eram os nomes deles?
IRENE IRENE
(Abre uma porta e fala) Maria Ah... Coitados... Dois de paus?
Esther... Que será dela? (Volta ao
interior do armário) JULIO
Como eram os nomes?
Maria Esther é uma sombra, proje-
tada. Julio e ela se relacionam, ten- IRENE
tando se alcançar. Quando Julio Nossa...(Entra no armário)
fala que se encolhia, Maria Esther
se aproxima da fonte de luz e sua
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JULIO JULIO
(Entra no armário) Que foi? Que nem quem?
IRENE IRENE
Eu não lembro o nome deles... O tio. O tio Alberto.
JULIO JULIO
Não lembra? O tio Alberto sempre foi subestima-
do.
IRENE
(Abre a porta) Não. IRENE
O tio Alberto era louco, Julio!
JULIO
(Abre a porta) Nem eu... JULIO
Não. A mamãe dizia que ela era ex-
IRENE cêntrico.
Como posso ter esquecido?
IRENE
JULIO A mamãe tinha pena dele.
Acontece...
JULIO
IRENE Tio Alberto não merecia a pena de
Não. (Descendo do armário) ninguém. Ele tinha mais dignidade
JULIO do que qualquer pessoa dessa famí-
Faz vinte anos... (Descendo do ar- lia.
mário) É normal. IRENE
IRENE Como é?
Não é normal. (Pega a vassoura) JULIO
JULIO Isso. Tinha mais dignidade do que
Vinte anos. É normal sim. qualquer um de nós.

IRENE IRENE
Meu deus! É hereditário. Agora eu sei.

JULIO JULIO
Não sei pra quê tanto drama. O quê?

IRENE IRENE
Eu tenho medo de ficar que nem ele. Você. Você está muito esquisito ul-
timamente. Esquecendo as coisas...
JULIO
(Pega a vassoura) Que nem quem? JULIO
Eu estou esquecendo? E você? Fa-
IRENE lando enquanto dorme. Falando
Dizem que essas coisas são heredi- com essa voz de estátua, essa voz de
tárias... papagaio. Eu não consigo dormir,
Irene! Eu não consigo dormir!
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IRENE JULIO
(Magoada, fala para o público, ig- (Pegando o fio do casaco) Vou em-
norando Julio) Essa cidade pode ser bora.
uma cidade limpa, mas é graças aos
IRENE
seus habitantes. Tem poeira demais
no ar e mal sopra uma brisa e já se Não se pode repetir sem escândalo.
apalpa o pó nos mármores. Dá um JULIO
trabalho tirar! Vou embora...
JULIO IRENE
Eu não consigo dormir, porque você Como era o nome deles?
fica com essa maldita voz de papa-
gaio, falando dos primos toscos, fa- Julio sai de cena, levando o fio do
lando das festas, falando dos seus casaco, que vai se desfiando pouco
“dois de paus” que você nunca lem- a pouco. No lugar onde a sombra
bra o nome. Falando do seu maldito de Maria Esther foi projetada, sur-
tricô. ge a sombra de alguém sentado
numa pilha de livros, folheando as
IRENE páginas.
(Para o público) Fora dessa nossa
atividade da limpeza eu passo o dia IRENE
tricotando. Viveu a vida como se ela fosse uma
cópia forjada de um de seus livros.
JULIO Cada capítulo da sua vida tentando
Você está me ignorando? ser o ápice da trama. A cada pará-
IRENE grafo mais drama, mais reticências,
Eu não sei o que seria de mim sem o mais insatisfação. Os livros termi-
tricô. navam grandiosos, mas sua vida se-
guia sempre medíocre e interminá-
JULIO vel. Um perpétuo capítulo, repetido
(Irônico) Ah, sim! Eu me pergunto o dia a dia, exaustivamente. Lembra-
que seria de Irene sem o tricô. va das mínimas coisas tentando pôr
(Abrindo uma gaveta) Outro dia eu uma lupa nos fatos mais insignifi-
encontrei numa gaveta da cômoda cantes. Buscava poesia no nada que
xales brancos, verdes, lilazes... co- era. Mamãe tentou em vão ensinar-
bertos de naftalina, empilhados lhe a ter os pés no chão. Nada. Se-
como num armarinho. Quem está guia inventando a vida, amassando
louco agora? Hein? Quem é o louco? os próprios parágrafos, rabiscando
as próprias frases, como se elas
IRENE
sempre saíssem vazias. No dia em
(Pegando um casaco de tricô. Co-
que Maria Esther foi embora, ele se
meça a desfiar o casaco enquanto
sentou na biblioteca e abriu pilhas e
fala) A gente pode reler um livro,
pilhas de livros. Queria saber se o
mas quando um casado de tricô está
seu fim realmente havia chegado.
terminado, não se pode repetir sem
Mas o amanhã veio, com menos
escândalo.
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drama e menos sentido. E ele seguiu ados e conferindo o aspecto de cada


sozinho, virando a página. Sempre recanto de nossa casa. Mamãe não
se pode reler um livro... se maquiava, nem foi capaz de tingir
os cabelos quando a idade chegou.
Os pais saem do banheiro do fundo Nunca. Sua maneira de enganar a
terminando de vestir a roupa para velhice era manter a casa limpa e
a festa. em ordem como quando ela era cri-
PAI ança. Nossa casa sempre teve o as-
Só espero que ele não resolva tirar a pecto de uma fotografia. Indestrutí-
roupa e tocar aquele maldito violi- vel, sempre a mesma, não importa
no! quantos anos tenham se passado.
Os parentes se reuniam todos os
MÃE anos, na festa do aniversário de tio
Eu já conversei com ele... Ele não Alberto, que era o irmão de minha
vai fazer isso. Não ficou louco. avó. Todos os outros parentes enve-
lheciam, todos cresciam, se casa-
PAI vam, geravam mais parentes e fi-
Não ficou? Como assim? Ele estava nalmente morriam. A casa e tio Al-
nu, lá fora. Eu quase enchi ele de berto continuavam lá. Sempre cri-
pontapés! anças. Quando tio Alberto morreu, a
MÃE casa se sentiu vazia. Abandonada.
Nós temos que ter calma. Ter paci- Naquele dia, a casa começou a enve-
ência com ele. lhecer e a definhar. Eu e Irene a
herdamos de mamãe e assim como
PAI ela passou a vida cuidando de tio
Se eu soubesse que ia ser esse infer- Alberto, nós dois passamos a nossa
no, nunca tinha me oferecido para cuidando da casa.
cuidar dele!
IRENE
MÃE (Voltando) Nós só temos que ter
Eu prometi a mamãe que cuidaria calma. Ter paciência com ele.
dele.
JULIO
PAI Irene... A casa está tomada.
Eu sei. Eu sei. (Saem)
IRENE
IRENE Tem certeza?
(Sai atrás dos pais) Mãe?
JULIO
JULIO Tenho. Eu fui até o outro lado, abri
(Voltando a cena) A casa tinha que a porta e escutei um barulho.
estar perfeita. Incólume. Indestrutí-
vel. Nada poderia aniquilar sua be- IRENE
leza. Isso Irene herdou de mamãe. Um barulho?
Quando éramos crianças, mamãe
passava o dia dando ordens aos cri-
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JULIO de ficar louca, do que de morrer.


Um barulho. Tenho medo desse esquecimento.
IRENE JULIO
As minhas lãs. As minhas lãs esta- João e Bernardo.
vam todas lá.
IRENE
JULIO Quem?
(Com a lã que puxou do casaco an-
tes) Eu ainda consegui pegar um JULIO
pouco para você. Os dois de paus. João e Bernardo.

IRENE IRENE
Trinta anos, Julio. Trinta anos que Era mesmo?
ele se foi. No final ele estava louco, JULIO
não estava? Era.
JULIO IRENE
Eu nunca soube. Quando tio Alberto enlouqueceu,
IRENE todos os parentes sabiam disso, mas
Mas aquilo que ele disse da casa. ele não. Para ele a vida continuava a
mesma.
JULIO
Talvez ele tivesse razão, Irene. JULIO
Quando todos os parentes disseram
IRENE que tio Alberto era louco, ele se
Ele estava louco, Julio. Falar da casa afastou de todo mundo e mergulhou
daquele jeito. na música.
JULIO IRENE
Talvez ele tivesse razão. Foi isso o que eu disse.
IRENE JULIO
E se for hereditário? Não.
JULIO IRENE
A casa foi hereditária, não? Foi o que eu disse.
IRENE JULIO
E se a loucura for de herança, Julio? Mamãe se recusava a ver loucura
E se nós enlouquecermos? nas ações de tio Alberto. Para ela,
eram traquinagens de um menino
JULIO
que há muito havia partido e que
Ele não era louco, Irene.
agora retornava à casa, cheio de
IRENE vida e alegria.
Tenho medo de acreditar nisso. Te-
nho medo de ficar louca. Mais medo

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IRENE JULIO
Papai se aborrecia com as coisas de Eu não quero essa vida.
tio Alberto. Se desagradava em ver
IRENE
um homem mais velho do que ele
sem nenhuma responsabilidade. Essa é uma vida tão boa quanto
Sem freio algum. Uma criança de qualquer outra.
oitenta anos. JULIO
JULIO Dois loucos cuidando de uma casa...
Tio Alberto parou o tempo. Parou o IRENE
próprio tempo. Eu não estou louca.
IRENE JULIO
Tio Alberto enlouqueceu e dizia que Por enquanto. E depois?
era por culpa da casa.
IRENE
JULIO E na próxima página?
Tio Alberto não era louco porque ti-
nha a mamãe para cuidar dele. JULIO
E no próximo ponto?
IRENE
Tio Alberto lia as mesmas páginas IRENE
do livro o resto de sua vida. Feio.

JULIO JULIO
Fazia um tricô de sua história, para Boba!
em seguida desmanchá-la.
IRENE
IRENE Não falo mais com você.
Se empilhava de histórias e históri-
JULIO
as, que nunca lembrava como ter-
Deixa. Eu não ligo.
minava e então tinha que relê-las
infinitamente. IRENE
Eu vou embora. Vou pegar minhas
JULIO
lãs e vou embora.
Enchia gavetas e gavetas de coisas
inúteis e que não serviam para nin- JULIO
guém e estavam completamente (Batendo nas portas dos armários.
fora de moda. Música ONE - U2)
Ele só precisava de amor, Irene.
IRENE
Amor. Como eu, como você.
Deve ser hereditário.
IRENE
JULIO
A casa foi tomada.
Deve ser herança da família.
JULIO
IRENE
Isso acaba, Irene. Se você não cuida.
Eu não quero enlouquecer.

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IRENE IRENE
A casa? Nem sucesso.
JULIO JULIO
O amor. Eu te levo e você me leva.
IRENE IRENE
Você veio pedir perdão? Tá.

Julio e Irene montam uma exposi- JULIO


ção com as fotos da família pendu- Vamos?
radas nas lãs de Irene. Como um
IRENE
varal de memórias.
Sim.
JULIO
JULIO
Um amor.
No dia em que tio Alberto fez oiten-
IRENE ta anos, a família inteira se reuniu.
O mesmo sangue. Talvez porque o destino tenha dito a
todos que aquele seria o último ani-
JULIO versário do velho louco.
A vida que tivemos, para fazer o que
deveríamos ter feito. IRENE
Talvez porque quisessem saber com
IRENE quem ficaria a casa dos nossos bisa-
Uma vida juntos. vós.
JULIO JULIO
Juntos. Depois daquele dia, os parentes dis-
IRENE tantes apareciam raramente. Os
Uma vida, mas não a mesma. primos gordos e toscos pouco a
pouco desapareceram.
JULIO
Não a mesma. Tio Alberto desce as escadas como o
escorregador, acompanhado das
IRENE crianças que já fizeram a cena an-
Cada um com a sua vida. tes. Quando chega ao final da esca-
da, ele se deita no colchão e todos o
JULIO
carregam para a sala onde aconte-
Cada um com sua vida, mas sempre
cerá o velório.
juntos.
IRENE ...
Cada um tentando viver à sua ma-
neira.
JULIO
Sem fracasso.

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Amália AMÁLIA
Cadê a dona da casa?
Amália vai entrando pelo aquário,
EMPREGADA
conferindo o mural de fotos anti-
(Entrando) Boa tarde, dona Amália.
gas. Na outra sala, tio Alberto toca
A dona Odete pediu para senhora
e dança uma sinfonia inaudível.
esperar que eles já estão descendo.
AMÁLIA
JORGE
Gente, olha o meu cabelo nessa foto!
E onde está o vinho?
Que horrível! Melhor colocar um
balão de festa aqui na frente senão AMÁLIA
eu vou passar vergonha. E os outros convidados?
JORGE EMPREGADA
(Chamando Amália de canto) Amá- Os convidados estão na sala ao lado.
lia, vamos devagar com o vinho, E o vinho também. O senhor quer
vamos? Não quero passar vergonha que eu traga uma taça?
aqui no meio da sua família.
AMÁLIA
AMÁLIA Não precisa. A gente vai até lá.
Que vergonha, meu filho!? Sou forte Obrigada. Vamos gente, vamos que
com essa coisa de bebida. Puxei o a festa é do outro lado.
tio Alberto.
JORGE Vitamina C
Puxou mesmo. Olha lá ele na outra Amália e Jorge seguem a emprega-
sala. Fortíssimo! da e conduzem o público para a
AMÁLIA sala da lareira, onde estão os ou-
Que ele está fazendo? tros familiares. Há música ambien-
te, muito baixa para não atrapa-
JORGE lhar a conversa geral. Quando che-
Regendo a orquestra do delírio. gam no cômodo, se separam. Jorge
vai cumprimentar Roberto do ou-
AMÁLIA tro lado da sala e Amália, conversa
Que lindo isso: regendo a orquestra com Carmen.
do delírio. Da loucura dele, isso sim.
AMÁLIA
JORGE Quem é vivo sempre aparece!
Cadê os donos da casa?
CARMEN
AMÁLIA Olha só quem fala...
A casa é do velho, Jorge.
AMÁLIA
JORGE Tudo bem, prima?
Só no papel. Esse velho já perdeu
tudo, Amália. Perdeu o juízo, per- CARMEN
deu tudo! Tudo ótimo! Melhor impossível!

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AMÁLIA CARMEN
E o maridão? Deita e ronca a noite inteira!
CARMEN AMÁLIA
Não veio. Estava com trabalho... Ô!!!

Sei.
AMÁLIA
Aplicações de Risco
JORGE
CARMEN Faala, Ricardo!
E o Jorge, cadê?
ROBERTO
AMÁLIA Roberto.
Tá ali, cumprimentando o pessoal...
JORGE
CARMEN Puta merda, eu sempre confundo
Nossa, aquele é o Jorge? vocês dois.
AMÁLIA ROBERTO
É ele sim. Não faz mal.
CARMEN JORGE
Eu me lembrava dele diferente. E como anda a vida?
AMÁLIA ROBERTO
É que faz tempo, né? A gente se viu A mesma merda, né. Comprando,
quando? vendendo... Ano passado, com a cri-
CARMEN se... E você? Ainda é advogado?
Foi no casamento da menina da Clo- JORGE
tilde, não foi? Ainda.
AMÁLIA ROBERTO
Uns cinco anos? Eu estava precisando de uns conse-
CARMEN lhos, rapaz...
Imagina? Cinco anos? Faz mais... JORGE
AMÁLIA (Tirando o cartão de visitas) Passa
Que é isso, Carmen? Não estou tão lá no escritório durante a semana.
velha assim. ROBERTO
CARMEN E tua mulher?
Não está mesmo, menina... Está lin- JORGE
da! Me conta, qual o segredo? A Amália, tá ali, falando com aquela
AMÁLIA senhora...
Vitamina C, querida! De cama... ROBERTO
Aquela é a Carmen.

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JORGE ROBERTO
A Carmen? Puta que o pariu! Tô levando, prima.
ROBERTO AMÁLIA
Tá um bagaço né? Ainda no mercado de ações?
JORGE ROBERTO
É sério que é a Carmen? Ainda.
ROBERTO CARMEN
É. Pra mim isso é igual apostar em ca-
valo.
JORGE
Que aconteceu com ela? ROBERTO
Pode apostar que é.
ROBERTO
Se divorciou. O marido largou ela AMÁLIA
pra ficar com outro cara... Lembra da Carmen?
JORGE JORGE
Putz! Com outro cara? Lembro. Tudo bem contigo?
ROBERTO CARMEN
Pois é. Tudo ótimo.
JORGE JORGE
Que golpe, rapaz. A mulher era lin- E o teu marido, hein? Que coisa...
da! Se cuidava inteira...
AMÁLIA
ROBERTO Ele está trabalhando. Não pode vir.
E não adiantou merda nenhuma, no
CARMEN
final. O cara largou ela pra ficar com
outro homem... (Constrangida) É. Está trabalhan-
do... E você, Jorge? Como anda a
JORGE advocacia?
Era melhor ela ter deixado a barba
JORGE
crescer...
Porquê? Você está precisando?
ROBERTO
CARMEN
Pois é. Vamos lá que eu quero cum-
primentar a Amália. Não. Estou só curiosa... Dá licença,
vou pegar um vinho e já volto. (Vai
até a bandeja com vinho e desabafa
Ação cautelar com alguém da platéia) Filho da
AMÁLIA puta, esse Jorge! Era apaixonado
Roberto, menino! Como você está? por mim. Apaixonado. E agora me
(Dando três beijinhos) humilhando assim...

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AMÁLIA AMÁLIA
E você Roberto? Que me conta de Tão negociando a herança da gente,
novo? só que com o velho vivo.
ROBERTO CARMEN
Nada demais. Vocês já viram o ve- Da gente nada. Ouvi dizer que o ve-
lho? Dá pena, né? lho vai deixar tudo para os meninos.
JORGE AMÁLIA
Esse aí não dura muito mais... Eu já Como é que é?
conversei com a Amália, que vocês
JORGE
deveriam agilizar o inventário. Es-
sas coisas facilitam muito quando a Eu avisei. Se a gente tivesse agiliza-
pessoa ainda está viva. do isso antes de ele ficar louco...
AMÁLIA
AMÁLIA
Jorge! Me explica essa história?
CARMEN
JORGE
Tô sendo prático, Amália. Eu ouvi os empregados comentando
alguma coisa assim...
AMÁLIA
ROBERTO
Tá sendo um canalha, isso sim!
Os empregados? Que empregado?
ROBERTO
CARMEN
O Jorge tem razão, Amália. Eu tam-
bém já pensei nisso. Disse que vai ficar tudo para o me-
nino e a menina.
AMÁLIA
JORGE
Escuta, vocês não têm vergonha
não? O velho ainda está vivo. O Julio e a Irene?
CARMEN
JORGE
Mas é disso que eu estou falando. É. Enquanto eles não crescem, a
mãe fica cuidando da propriedade.
ROBERTO
AMÁLIA
É disso que ele está falando.
A mãe. Claro. Agora sei de quem foi
CARMEN a idéia...
Tão falando de quem?
JORGE
JORGE Você acha...
Do velho.
AMÁLIA
CARMEN Claro, Jorge! Pensa... A festa de oi-
Do tio Alberto? tenta anos, a reunião de família. Ela,
tomando conta do velho esses anos
todos... Filha da puta!

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ROBERTO ROBERTO
Eu não tinha pensado nisso... Sou o filho do Geraldo, seu irmão.
AMÁLIA TIO ALBERTO
Vocês, homens, não enxergam mer- Geraldo, tranqueira! Ê Geraldão... E
da nenhuma. como está seu pai?
ROBERTO ROBERTO
Dá licença... Vou ali falar com o ve- Morreu, tio. O senhor não lembra?
lho.
TIO ALBERTO
AMÁLIA Nessa idade, filho, se eu não morri
Vou com você. (Saem) ainda, com certeza já não me lem-
bro de nada. (Dá risada) E como
JORGE está a sua mãe? Morreu também?
Quer dizer que teu marido te largou
pra ficar com um cara? ROBERTO
Não.
CARMEN
Cala a boca, Jorge! TIO ALBERTO
Então ela não deve lembrar de mim.
JORGE
Quem diria, hein Carmen? ROBERTO
Lembra, sim. Ela mandou lembran-
CARMEN ças.
Por que isso agora, hein? Por quê?
TIO ALBERTO
JORGE Se mandou lembranças, é porque
Você sabe que dá para tirar uma ainda as tem.
grana do cara por dano moral? Sa-
bia? Eu já fiz isso. E ganhei. ROBERTO
Claro. Claro.
CARMEN
Que me importa isso, Jorge? Que TIO ALBERTO
me importa? E você menina? Quer o quê comigo?

Tio Alberto entra no cômodo com AMÁLIA


uma taça na mão. Jorge para a A casa está linda, não é tio?
conversa com Carmen e olha para
TIO ALBERTO
ele. Logo depois, entram Amália e
Essa casa é uma merda. Perdi meu
Roberto. Eles ficam olhando para o
tempo com essa casa...
tio um pouco, sem saber como en-
trar no assunto. AMÁLIA
Que é isso, tio? Essa é a casa em que
ROBERTO
o senhor foi criado. A casa em que o
Sua benção, meu tio...
senhor nasceu...
TIO ALBERTO
Você quem é?
17

TIO ALBERTO todos os funcionários no olho da


O lugar onde eu nasci mesmo é mui- rua.
to longe dessa casa.
ROBERTO
ROBERTO Não foi responsabilidade minha. Eu
O papai dizia que vocês todos ti- apenas vendi as ações.
nham nascido aqui.
TIO ALBERTO
TIO ALBERTO (Falando cada vez mais alto) Eu
Eu vim ao mundo aqui. Mas nasci passei mais da metade da minha
em outro lugar. Sabia disso? Você vida lá fora. Longe dessa casa. Você
chega ao mundo num lugar e nasce não teria feito diferente do que eu
em outro. fiz. Não teria. Minha juventude era
uma merda. Isso que eu me tornei
AMÁLIA
não era o meu projeto. Nunca foi.
Entendi.
Eu gostava de estar lá fora. E fui
TIO ALBERTO educado para ver a vida como diver-
Entendeu? são e levá-la do jeito que desse para
levar. Quando eu estava aqui, minha
AMÁLIA mãe me abraçava, me amava. O meu
Acho que sim. pai também. Mas quando eu saí,
TIO ALBERTO quando eu fui viver a minha aventu-
Então me explica... ra, quem me abraçava? Quem me
apoiou?
AMÁLIA
CARMEN
(Desconcertada) É...
(Se aproximando) Calma, tio Alber-
ROBERTO to. Calma. O senhor não pode pas-
Escuta, tio, a gente quer saber da sar nervoso.
casa...
TIO ALBERTO
A música da festa aumenta um Eu posso passar o nervoso que eu
pouco. “Ode to my family”, Cram- bem entender, seus abutres! Vocês
berrries. querem que eu morra? Querem ver
o meu defunto? Querem me ver
TIO ALBERTO apodrecer? (Solta um enorme pei-
Eu já entendi a conversa de vocês. do) Está aqui! Não precisa esperar!
Já entendi. Aquele pulha ali com a
sua prima é o seu marido, não é? O JULIO
advogado... (Entrando) Tio Alberto, o papai vai
dar bronca...
AMÁLIA
Não fala assim, tio. CARMEN
(Para Amália) Para quê você foi fa-
TIO ALBERTO zer isso?
(Para Roberto) E você é o crápula
que afundou aquele banco e deixou
18

AMÁLIA TIO ALBERTO


Ah, sim, melhor seria ficar fofocan- Um... dois... três... tampou? (Olha
do com os empregados, não é? para Julio) Tampou. E vocês, seus
abutres, vão todos à merda! (Dá
CARMEN uma banana para todos).
A casa é dele, Amália. Ele que faça o
que quiser. JULIO
Eu ouvi! (Sai, rindo)
TIO ALBERTO
Maldita seja essa casa! Maldita seja! Jorge, Amália, Carmen e Roberto -
Meu pai gostava de mim. Minha os abutres - se afastam de tio Alber-
mãe gostava de mim. Eu deixei to, que vai cumprimentar as outras
tudo. Eu vivi lá fora. Vivi até esgotar pessoas.
tudo o que eu realmente queria ser.
Vivi com outros. Eu gostava disso. TIO ALBERTO
Gostava da música. Das viagens sem (Para o público) E vocês, meus que-
fim. Da falta de casa, da falta de di- ridos, me perdoem por esse peque-
nheiro. Do amor comprado. Das no rompante. Espero que isso não
danças. De dormir até a hora em estrague a nossa festa. Vamos lá na
que eu bem entendesse, não esse cozinha que eu quero mostrar uma
maldito sono curto de velho. Quan- coisa para vocês. Vamos...
do eu voltei, os comentários come-
Tio Alberto entra na cozinha, fecha
çaram. Eu nunca encontrei apoio de
a porta e sai em direção à outra
ninguém. Só dessa gente. Só dessa
cena. Na cozinha, quando o público
gente!
entra, estão o pai e a mãe conver-
JULIO sando com as empregadas.
Tio Alberto, o papai...
PAI
TIO ALBERTO O que foi que aconteceu?
Tá bom, filho. O tio já vai parar. O
EMPREGADA
tio vai só falar mais uma coisa, tá
Eu não vi direito, seu Afonso.
bom? Mas você tem que tapar os
Quando eu cheguei, já tinha aconte-
ouvidos e não pode ouvir, tá bom?
cido.
JULIO
MÃE
Tá bom.
Ele estava comendo direito?
TIO ALBERTO
SEGUNDA EMPREGADA
O tio vai contar até três e você tam-
Tava sim senhora.
pa os ouvidos, tá?
PAI
JULIO
Desmaiou, assim?
Tá bom.
EMPREGADA
Eu não vi, seu Afonso.

19

MÃE seu Alberto... Sempre dando risada,


E as crianças? sempre com aquela conversa doida
dele. Ele não era louco. Quer dizer,
SEGUNDA EMPREGADA
não todo o tempo. Tinha hora que
Os meninos estavam na escola.
ele até falava umas coisas bonitas
MÃE pra gente. Dava um alívio. Sabe
Ligou para o hospital? aquelas pessoas que parece que
prestam atenção em você. Que te
PAI vêem por dentro?
Liguei. Já devem estar chegando.
SEGUNDA EMPREGADA
IRENE Eu gostava de quando ele tocava o
(Entrando) Mãe, pai, a ambulância violino mesmo. Na época que ele to-
chegou! cava de verdade. Ele pegava o bichi-
MÃE nho e ia pro quintal e ficava o dia in-
Que bom. teiro tocando.
EMPREGADA
IRENE
Ele vai ficar bem, mamãe? Lembra quando ele tirou a roupa?
SEGUNDA EMPREGADA
MÃE
Vai, querida. Vai. Que confusão, meu deus! Acho que
foi nesse dia que ele endoidou de
PAI vez.
Cadê seu irmão?
Tio Alberto aparece, no quintal, to-
IRENE cando o violino. Está inspiradíssi-
Tá lá em cima. mo.
PAI EMPREGADA
Então suba e fique com ele. O papai “Francisco de Assis”, “Francisco de
e a mamãe vão ter que sair. Assis”, ele dizia. E tirava a roupa.
Depois ficou tocando o violino lá
IRENE
fora, num frio que estremecia os os-
Tá bom! (Sai)
sos.
PAI
SEGUNDA EMPREGADA
(Para a empregada) Você pode fi-
“Francisco de Assis”, “Francisco de
car mais um pouco? A gente não
Assis”... (Rindo)
demora. Vamos só acompanhar a
ambulância e dar entrada na inter- EMPREGADA
nação. (Saem) Começou a falar que a casa tinha ti-
rado a vida dele. Que era melhor se
EMPREGADA
desfazer da casa, vender, usar o di-
(Começam a lavar a louça e a pre-
nheiro para sair daqui, para conhe-
parar a comida) Ele parecia que
cer o mundo.
não tinha medo de nada, sabe? O

20

SEGUNDA EMPREGADA que as pessoas se percam dentro


O menino Julio é doido por ele. dela”, Borges - sobre o minotauro e
o labirinto. Eu te amei. Cheguei ao
EMPREGADA
mundo nesta casca e me apaixonei
E são eles que vão ficar com tudo,
por ela à primeira vista. Me apaixo-
né?
nei pelo que eu sentia através dela.
SEGUNDA EMPREGADA Meus olhos eram as tuas janelas e a
Vendendo essa casa, eles estão com natureza era tua cozinha. Um dia
a vida feita. Não vão precisar se senti teu teto e era duro demais e aí
preocupar com nada. nos desentendemos. Teu teto e o
meu tinham dimensões diferentes.
EMPREGADA Eu me afastei de ti, te achando me-
Eles já não precisam se preocupar nor que eu, pequena, atrasada e ve-
com nada, né minha filha. Todo mês lha. Meu desejo era maior que ti. E
chega o dinheiro dos campos e nin- com o passar dos anos, o amor que
guém tem que mover nem uma pa- eu sentia virou distância e depois
lha. ódio. O esforço que outros despren-
SEGUNDA EMPREGADA diam para que tu permanecesses jo-
Isso é verdade. Não é que nem nós vem para sempre me irritava. Desde
duas. logo eu soube que quando eu me
fosse de uma vez, tua estrutura in-
EMPREGADA teira entraria em colapso e não so-
Não é mesmo. braria nada. Tu dependias de mim,
mas eu não dependia de ti. Me afas-
SEGUNDA EMPREGADA tei de ti, me entreguei aos excessos,
Passa o sal. me afastei para além de todo limite,
EMPREGADA mas onde quer que eu estivesse, te
Toma. carregava junto comigo, como um
fardo insuportável. Tentei te destru-
Tio Alberto segue tocando o violino ir com o fogo, o frio, as inundações e
em direção à garagem. Carmen, os ventos sem fim, mas tu insistias
Amália, Roberto e Jorge aparecem em me esperar. Eu te odiava mais e
do lado de fora, junto com Tio Al- mais, porque nas tuas paredes fica-
berto. Estão com a expressão pesa- vam registradas as marcas de todos
da. Em seguida, surgem os pais, os meus fracassos e batalhas perdi-
que os convidam para entrar atra- das. (Abre a porta da casa e entra)
vés da garagem. Tio Alberto come- Quando minha força de lutar se foi,
ça sua elegia na garagem e vai eu voltei para ti, com a face do hu-
conduzindo os espectadores ao Hall milhado. Tu me sorriste e disseste -
de entrada da casa. “Vamos?” - e então seguimos juntos
para o abismo.
TIO ALBERTO
“Mais assustador que a idéia de um
homem com a cabeça de touro é a
idéia de uma casa construída para
21

A escada se ilumina no ponto supe-


rior. Tio Alberto diz o próximo tex-
Cena Final
to subindo lentamente a escada. Depois que a peça é executada duas
vezes, com cada metade do público
TIO ALBERTO assistindo uma parte por vez, Julio
Agora é a hora, Alberto. Agora é a e Irene (e não Amália) conduzem os
hora. Chegamos a este mundo num espectadores para a entrada da
lugar, mas de verdade, só nascemos casa.
muito depois, em outra parte. Só
nascemos de verdade, quando des- JULIO
cobrimos a que viemos. Chegamos Você esqueceu de pegar alguma coi-
neste mundo cegos, vendo sombras, sa?
dependentes dos nossos desejos, in-
IRENE
capazes de decidir verdadeiramente.
Eu já tenho tudo o que preciso.
Um dia, por processo ou acidente,
chegamos num ponto aonde o nas- JULIO
cer acontece. Neste dia, somos mais Tudo bem. (Joga longe a chave da
vivos do que nunca. Podemos lograr casa)
que esse dia permaneça para sem-
pre. Ou podemos retornar ao con- IRENE
forto das sombras e dos nossos de- Vamos?
sejos intermináveis. Neste dia esco- JULIO
lhemos. Verdadeiramente, escolhe- Vamos.
mos.
Julio e Irene saem, em direção aos
Alberto desaparece. fundos da casa. Nas janelas do pa-
Música. vimento superior, aparecem os ato-
res, cantando.
Alberto desce no colchão com as
crianças, como na cena do escorre- FIM
gador. No final da escada, se deita
e a família leva o colchão com ele
para o local do velório. Fecham a
porta. Julio conduz seu público
para fora, através da sala da larei-
ra. Amália conduz seu público para
fora, através do aquário.

...

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