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A PEQUENA SEREIA

(The Little Mermaid)


Baseado no conto homônimo do escritor Hans Christian Andersen
e no filme da animação dos Estúdios Disney – 1989.

Direção: Nóris Martinelli e Henrique Giovanini

Personagens
Ariel –
Rei Tritão –
Sebastião -
Linguado –
Governanta (Marina) -
Peixe-Arauto -
Aquata -
Andrina -
Arista -
Attina -
Adela -
Alana -
Astéria -
Atena -
Úrsula –
Vanessa (Úrsula versão humana) -
Pedro (Capanga da Bruxa) -
Juca (Capanga da Bruxa) -
Sabidão (gaivota) -
Principe Eric -
Marinheiro 1 -
Marinheiro 2 -
Marinheiro 3 -
Grimsby (mordomo) -
Louis (Cozinheiro) -
Carlota (Camareira) -
Gertrudes (Camareira) -
Padre -

Apoio/Contra-regras

- Animais marinhos para os números “Aqui no mar” e “Beije a Moça”.


- Convidados do casamento
- Dois assistentes de cozinheiro

Cenário

Centro do palco: Fundo do mar/Interior do Castelo


Canto direito do palco: o interior de um navio
Canto esquerdo do palco: Coleção de “Coisas de humanos” / Trono da Úrsula
Cortinas fechadas: Superfície do ma

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1º ATO

Prólogo – Navio

(Marinheiros trabalhando, Eric pilotando e Grimsby enjoado em um canto)

*Foco somente no Navio, em seguida um leve âmbar toma conta do palco

Eric: Não é uma delícia?! Este ar salgado e este vento no rosto! (Respira fundo,
cheirando o ar a sua volta) Ahhh... É um dia perfeito no mar.

Grimsby: (Enjoado) Ééé, delicioso... (vomita colocando a cabeça para fora do navio)

Marinheiro 1: (Puxando a corda) Vento bom e forte para navegar, o Rei Tritão deve estar
hoje com muito bom humor.

Eric: Rei Tritão?

Marinheiro 2: (Trazendo baldes com peixes) É, o rei de todos os seres do mar. Eu creio
que todo marinheiro já ouviu falar nele.

Marinheiro 1: Vai dizer que o senhor nunca ouviu falar de Sereias?

MÚSICA: HISTÓRIAS DO MAR

Marinheiros:
“Nós sempre contamos histórias do mar para aqueles que vêm navegar.
E aos jovens dizemos: cuidado, rapaz, a sereia vai te enfeitiçar.
...rapaz, rapaz, rapaz, rapaz, a sereia vai te enfeitiçar!
...rapaz, rapaz, rapaz, rapaz, a sereia vai te enfeitiçar!”

Grimsby: Seres do mar... Eric, não dê atenção a essas bobagens náuticas.

Marinheiro 2: Não é bobagem, é verdade. Eu lhe garanto que eles vivem nas
profundezas do oceano!

(Música) Marinheiros:
“...rapaz, rapaz, rapaz, rapaz, a sereia vai te enfeitiçar!”

*Blackout.

(Começa a trilha)

*Luz azul, fundo do mar

Abre a cortina. Cenário Fundo do Mar

Entra a governanta, acompanhada pelo Benjamim.

Governanta: (Gritando) Levantem, levantem, queridinhas!

Benjamim: O pai de vocês chegará em breve, não queremos que se atrasem, meninas.

Aquata: (Entra com sono) Ai, governanta! É muito cedo!

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Attina: (Entra agarrada com um peixe de pelúcia) É! Por que tão cedo?

Governanta: (Tirando o peixe de pelúcia das mãos de Andrina) Para não atrasar! (Joga o
brinquedo para a coxia)

Attina: (Braba com a atitude da Governanta em relação ao peixe de pelúcia) Ei!!

Entram Astéria e Atena coçando o olho.

Astéria: Eu não acredito que já está na hora!

Atena: Ah! Dá um desconto, Marina. Fomos dormir tarde!

Governanta: Dormiram tarde sabendo que tinham compromisso logo cedo. O problema
não é meu.

Atena: Benjamim, vai deixar assim?

Astéria: É, Benjamim! Fala com ela.

Benjamim: Meninas, não posso fazer nada. Vocês sabem como é o pai de vocês.

Entram Arista bocejando e Andrina espreguiçando-se.

Governanta: Bom dia, lindas flores!

Adela: (Entrando com tapa olhos) Mas ainda está tão escuro.

Benjamim: (Tirando a venda dos olhos de Adela) Não acham que já dormiram o
suficiente?

Adela: (Se dá conta que estava vendada) Ah, opa! hahahaha

Alana: (Entrando) Ai, eu estava sonhando com um rapaz.

Governanta: Tá, bom... (perdendo a paciência) Rápido, meninas!

Arista: Mas dormir me deixa mais bela!

Andrina: E precisa mesmo!

Arista: Olha quem fala! Ninguém liga para o seu visual. Pelo menos eu...

Governanta: Chega! Vão se arrumar para o coral!

Benjamim: (Para Arista) Eu acho você linda. (Arista se derrete)

Andrina: Não podemos remarcar esse coral para mais tarde?

Governanta: Infelizmente eu não tomo esse tipo de decisão. (Vira-se para a plateia e fala
com rancor) Decisão nenhuma, aliás.

(Ao virar para as sereias novamente, a Governanta observa que estão todas sonolentas,
de pijama e desarrumadas).

Governanta: (Furiosa) Arrumem-se de uma vez!

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Todas: (levam um susto) Ai!

(As sereias dirigem-se imediatamente para um espelho e começam a se arrumar.


Ranzinzas, todas falam ao mesmo tempo, como um murmurinho, sem que a plateia
consiga identificar claramente cada fala. Elas devem dizer frases como “Estou com sono”,
“Podíamos falar com o papai para dormirmos até mais tarde”, “Ele nunca vai deixar”, “Eu
quero a minha cama”, “Ai que preguiça de me arrumar”, “Odeio acordar cedo”).

Governanta: (Passeando entre as irmãs enquanto se arrumam) Vamos! Mexam essas


caudas! É a nossa hora especial com o pai de vocês!

Aquata: Especial? É a mesma coisa toda manhã!

Adela: Sabe que ela tem razão.

Governanta: É exatamente disso que seu pai gosta. Previsibilidade, presença e


pontualidade.

Alana: É só nisso que o papai pensa!

Adela: Ela tem razão.

Attina: Peguem leve com o papai. Ele é rei, lembram? Tenta governar um reino inteiro...

Andrina: Eu não governaria assim.

Attina: Não vamos irritá-lo, pessoal!

Aquata: Attina, só porque é a mais velha, não significa que pode nos dar ordens.

Attina: Significa sim! (Volta a se maquiar. Aquata mostra a língua e também volta a se
olhar no espelho)

Astéria: Deixa ela, Aquata. Ela adora aparecer.

Attina: Até parece, Astéria. Só estou falando algumas verdades, já que vocês só pensam
no próprio umbigo.

Arista: (Concentrada em seu ritual de beleza) Quero um espelho maior!

Atena: E eu quero voltar para a cama!

Benjamim: Dois minutos, meninas!

Governanta: (Furiosa) Parem de se empetecar!

(As sereias silenciam, olham para a Governanta e em seguida retornam a se olhar no


espelho. Retocando suas maquiagens, todas falam ao mesmo tempo, novamente sem
que a plateia consiga identificar claramente cada fala. Elas devem dizer frases como
“Como eu ia dizendo... Esse espelho me deixa gorda”, “Você acha que esse batom está
forte demais?”, “Preciso comprar mais perfume, este aqui está no final”, “Quem roubou
meu lápis de olho?!”, “Vocês viram o novo esmalte da Sereia Atena? Um luxo!”, “Depois
vou querer esse rímel emprestado”).

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Governanta: (Desolada) Benjamim, se nos atrasarmos de novo nunca serei promovida.

Benjamim: (Indo consolá-la) Senhora...

Attina: (Finaliza) Pronto! Vamos, meninas! (Todas finalizam suas maquiagens e se


posicionam para a apresentação do Coral)

Governanta: (Tentando disfarçar) Oh, não que eu queira uma promoção! Não, não.
Adoro o meu cargo... (Organizando as posições das sereias) Adoro tomar conta de
vocês! Essa é a minha vida, é sério! (Vira-se para Beijamim e fala entre os dentes) Odeio
esse cargo!

Benjamim: Pshhh! Não fala isso alto!

(Fortes cornetas anunciam a chegada do Arauto)

Beijamim: (Gritando) Sua alteza real, o Rei Tritão.

(Trilha. Entra Tritão com muitos aplausos e ovação)

Beijamim: E com vocês, o consagrado compositor da corte... Horácio Felício Inácio


Crustáceo Sebastião!

(Trilha. Entra Sebastião com alguns aplausos)

Tritão: (Para Sebastião) Estou louco para ouvir este número, Sebastião.

Sebastião: (Tentando ser modesto) Oh Magestade, este será o mais belo concerto que
já regi. Suas filhas estarão espetaculares.

Tritão: Especialmente minha filha, Ariel.

Sebastião: Ela tem a mais bela das vozes! (Tirando o seu sorriso do rosto e virando para
a plateia) Se ao menos aparecesse para o ensaio uma vez ou outra. (Retorna a falar com
o Tritão) Bom, Majestade, vamos começar! (Tira a sua batuta do bolso e começa a reger
a plateia, como se ali houvesse uma orquestra).

(Música. Foco nas Filhas de Tritão)

MÚSICA: AS FILHAS DE TRITÃO

Papai é o rei destes mares


e nomes bonitos Papai nos deu:

Aquata,
Andrina,
Arista,
Attina,
Adela,
Alana.

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Escutem a melodia
com ela queremos impressionar

Aquata,
Andrina,
Arista,
Attina,
Adela,
Alana.

E a nossa irmã mais jovem que vai hoje estrear


A sétima Sereia. Vamos lhes apresentar.
Sua voz, disse o maestro, é tão doce quanto o mel
E se chama Ariel!!!
(Apontam para o lado e nada acontece)

(Após um silêncio as meninas tentam mais uma vez)

E se chama Ariel!!!
(Apontam para o lado e nada acontece, de novo)

Tritão: Como assim? Onde está Ariel?

(Trilha tensa, confusão e todos falam ao mesmo tempo)

Tritão: Eu preciso saber onde está minha filha.

Sebastião: Oh, alguma coisa aconteceu. Não era para ser assim Majestade.

Tritão: Encontrem-na!

Aquata: É típico de Ariel.

Andrina: Ela nem aparecia nos ensaios.

Adela: Eu disse que isso ia acontecer, mas ninguém me ouviu.

Alana: Onde será que se meteu essa menina?

Attina: Deve estar nadando por aí.

Arista: Ela não dá mesmo valor às coisas que têm, essa apresentação deveria ser o
momento dela.

Astéria: Ela é moleca mesmo, deve estar explorando o mar.

Atena: Ela e o linguado! Estão sempre nadando por aí.

Tritão: (furioso) ARIEEEEEL!!!

(Fecha a cortina. Cenário da Superfície do mar. Entra Ariel e Linguado).

Linguado: Ariel, finalmente encontrei você. Estava te procurando.

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Ariel: (Maravilhada) Olha Linguado, o sol, a areia... Esse não é o lugar mais bonito que
você já viu em toda a sua vida?

Linguado: (Com medo) É, é claro... é lindo, mas vamos embora daqui! Esqueceu de que
nunca devemos subir para a superfície?! É muito perigoso...

Ariel: Deixa de ser medroso, Linguado!

Linguado: Quem eu? Eu não! Sou tão corajoso quanto você!

Ariel: Ah, é? Então quer dizer que você não tem medo de... Pescadores?

Linguado: Não. (de braços cruzados)

Ariel: Anzol?

Linguado: Não. (descruza os braços)

Ariel: (assustando) TUBARÃO!

Linguado: (leva um susto) Onde?!

Ariel: (Rindo) Viu, Linguado. Você é medroso sim.

Linguado: Não sou não. (manhoso)

Ariel: (Dá um beijo na bochecha do Linguado) Você não vai acreditar no que eu
encontrei hoje. Estava dentro de um velho navio naufragado...

Linguado: (Curioso) O que?

Ariel: Olha! (Ariel mostra um garfo)

Linguado: (Empolgado) Um tesouro!

Ariel: É incrível, não é?!

Linguado: Legal, mas o que é?

Ariel: Ah, é um... um... Eu não sei, mas aposto que o Sabidão vai saber. Vamos!

(Ariel sai correndo puxando Linguado. Trilha de transição)

(Entra em cena uma pedra cenográfica com Sabidão em cima. Ele está olhando em uma
luneta ao contrário. Entram Ariel e Linguado)

Ariel: Sabidão!

Sabidão: (Avista Ariel e Linguado na luneta. Por estar observando com a luneta invertida,
tem a impressão de que estão longe) Sereia a vista no porto!! Ariel, como vai garota?
(Tira a luneta de seus olhos e avista Ariel bem perto) Puxa, como nada rápido.

Ariel: Olha só o que achamos. (Entrega um saco cheio)

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Sabidão: Oh, que legal! Coisas de humanos... (abrindo o saco e observando cada
objeto) Olha só, que maravilha. (Pega o garfo) Que beleza de... coisa, hein.

Linguado: Você sabe para que serve isso?

Sabidão: Puxa, isso é especial. Uma coisa muito rara.

Ariel: O que? O que é isso?!!!

Sabidão: É... é uma... Bruguzumba! Os humanos usam essa maravilha para endireitar o
cabelo, assim. (Começa a pentear os cabelos de Ariel) Você desliza esta coisa de cima
para baixo, e dá uma caprichada arrumação estética nos cabelos. Os humanos ficam
maluquinhos com isso.

Ariel: (Rindo) Uma buzaga!

Sabidão: Não, não. Uma bruguzumba!

Ariel: Ah, isso mesmo.

Sabidão: Essas coisinhas são fantabulosas. Absolutamente dispensabilizáveis. Quando


se trata de uma bruguzumba eu sou uma enciclopédia.

Linguado: (tirando um cachimbo do saco) E esse outro aqui? O que é?

Sabidão: (Retira rapidamente das mãos do Linguado, olhando fixamente para o


cachimbo) Oh, isso fazia anos que eu não via! Isso é maravilhoso! É um belo e um raro...
Ximbaco.

(Linguado e Ariel se olham admirados)

Os dois: Oh!

Sabidão: E este Ximbaco vem dos tempos pré-históricos em que os humanos se


sentavam em rodas e olhavam um pro outro o dia todo. Era muito monótono. Então, eles
inventaram este Ximbaco para fazer belas músicas. Querem ver? (Sopra o Cachimbo e
sai um som engraçado, já que está entupido)

Ariel: (lembrando) Música! O coral! Ai meu deus, meu pai vai ficar furioso! (recolhendo o
Ximbaco da mão do Sabidão).

Linguado: O coral era hoje?

Sabidão: (Ainda analisando o cachimbo)... Pode usar para botar planta ou coisa assim.
(Ariel pega o cachimbo da mão do Sabidão).

Ariel: Desculpe, eu tenho que ir. (apressada) Obrigada, Sabidão!

(Ariel e Linguado saem de cena)

Sabidão: Disponha sempre! Disponha!

Abre a cortina. Cenário Fundo do Mar

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(Entram Pedro e Juca)

Úrsula: (Em off) Pedrooo, Juuuca! (Entra em cena) Meus monstrinhos, venham dar
beijinho na mamãe, venham... (Pedro e Juca se olham e em seguida viram para a plateia
com cara de insatisfeitos. Úrsula estende as mãos e então os capangas começam a
beijar as mãos da bruxa). Deu, chega! (os dois cessam)

Pedro: Desde quando o Rei Tritão te expulsou do reino...

Juca: ... o povo do mar fica festejando! Ficou sabendo do concerto?

(Os dois começam a cantar imitando um coral)

Úrsula: Estão passando mal?

(Os dois param)

Úrsula: Festa é? Não podemos perder a festinha em família...

Pedro: Você vai mesmo?

Juca: Mesmo sem ter sido convidada?

Úrsula: hahahaha... Eu, naquelas festinhas xexelentas que dão hoje em dia? No meu
tempo sim, fazíamos festinhas fantásticas quando eu morava no palácio. Mas agora,
olhem para mim, jogada fora como quem não vale nada... (Dramática) Banida, exilada,
quase passando fome, enquanto Tritão e seus peixinhos idiotas festejam.

(Pedro e Juca choram)

Pedro: Que triste, chefa!

Juca: Eles não tem coração!

Úrsula: Ora, mas eu darei a eles o que festejar logo logo.

MÚSICA: BONS TEMPOS DE VOLTA

Papai
Quase morrendo decidiu que
O seu reino
Ele dividiria em dois
Eu tenho a concha e metade desse mar
E o tridente foi pra quem?
Eu nem vou falar!
Primeiramente foi delicioso
Luxo e glamour todo pra mim
Já usei magia negra

É, eu sei que fui má hehehe

Mutilei, torturei, destruí

Arrasei!

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E então fui banida, mas eu nem liguei
E só tem uma coisa que eu quero

Ah, é só uma coisinha!

Que eu quero

Eu quero o luxo
Linda e jovem sempre ser
Eu quero todo mundo festejando
Se eu cantar
Eu quero os mariscos me aplaudindo
Quando eu passar
Não que eu seja narcisista

Pedro e Juca: Não!

Úrsula:
Só sei que sou demais!

Eu quero comandar
Eu quero o meu lugar
E todo o mar pra me adorar
Com gritos de amor
Quero encontrar meu “amiguinhos”
Pra come-los nos jantar
Bons tempos de volta
Eu quero já

Saiam da minha frente já! Imaginem só, meus puxa sacos. Em breve estaremos no topo
novamente... Bebendo champanhe, comendo caviar antes de chocar! Ah, como eu amo!
O Rei Tritão é a única pedra no meu caminho. Se ao menos eu encontrasse seu
Calcanhar de Aquiles ou então uma pequena brecha para destruir toda aquela armadura.
Ah, mas eu ia arrancá-lo do trono e descama-lo! E então, rapazes, nós estaremos de
volta aos negócios. Todo mundo agora!

Todos:
Bons tempos vão voltar
Ninguém vai nos parar
Quebrando todas as barreiras
Vamos arrasar

Úrsula:
E eu desejo a todos eles
O mesmo que eu passei
Não que eu seja abusada

Pedro e Juca: Não!

Úrsula:
Abuso é o que ele fez

Quero vê-lo chorar


E vão se rastejar

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Minha vingança
é um vidro cheio de pavor

Todos:
é mais que um simples sentimento

Úrsula:
Que o reino vai ser meu

Todos:
Lembrar dos bons tempos

Úrsula:
Saudosos bons tempos

Todos:
ter mais dos bons tempos

Úrsula:
Eu quero já!

Se o jeito é encontrar
Para acabar com o rei deste lugar

Pedro: Veneno?

Úrsula: Não!

Juca: Chantagem?

Úrsula: Não!

Pedro: Suas filhas?

Úrsula: Não, para com isso... SIM! As suas filhas! Como não pensamos nisso antes?!

Juca: Tem que ser aquela com uma linda voz...

Úrsula: ...E que não dá a mínima! Uma mulher não sabe o poder se sua voz até o dia em
que fica muda. hahaha

Eu quero a sua voz


É minha e vou pegar
Um plano eu vou traçar
A filha e o pai vou esmagar!

Todos: Hmmm..

Úrsula:
Eu quero ver meu irmãozinho
Preocupado pra salvar
De repente eu apareço (Achou!)
Não tem como escapar

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Todos:
Seus servos concordar
Com tudo o que eu quiser
Tridente, o trono e a coroa
Que nas minhas mãos
E o netuno vai saber
Que enfim chegou a minha vez

Úrsula:
Agora é meu tempo

Pedro e Juca:
Saudosos bons tempos

Úrsula:
Eu quero de volta
E quero

Pedro e Juca:
Quero

Todos:
Já!

Blackout, todos saem de cena. Entra Tritão, seguido de Ariel, Linguado e Sebastião.

Tritão: (Furioso) Ariel, eu já não sei o que fazer com você, garota!

Ariel: Papai... Me desculpe! Eu esqueci!

Linguado: Como Resultado da sua...

Sebastião e Tritão: ...negligência...

Sebastião: (se intrometendo na fala de Tritão)... E completo desinteresse.

Tritão: Toda a nossa linda festa foi...

Sebastião: (Furioso)... Foi arruinada! Foi sim um completo fracasso. Esse coral deveria
ser o ponto alto da minha consagrada carreira. Agora graças a você, eu sou motivo de
chacota de todo o reino.

Linguado: Mas não foi culpa dela!!! Aaah... (pensativo) Bem, primeiro, foi o tubarão... É
foi! (se enrolando na mentira) Nós tentamos, mas não podemos... E aí ele: GRRRR
(imitando um monstro)... E nós: Oooo (imitando vítimas)... E conseguimos nos salvar. E
aí vem a gaivota. E conversa vem, conversa vai...

Tritão: (Que estava escutando entediado leva um susto e fala exaltado) Gaivota?! O
quê?! Vocês foram para a superfície outra vez? Não foram? Não foram? (Linguado
percebe que falou demais, tenta se esconder atrás de Ariel, que o fuzila com o olhar. O
rei está furioso).

Ariel: Não houve nada.

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Tritão: (Furioso) Ah! Ariel, quantas vezes eu preciso lhe chamar a atenção?! Você
poderia ser vista por um daqueles bárbaros... por... por um daqueles humanos.

Ariel: Papai eles não são bárbaros! Eles...

Tritão: São perigosos. Pensa que eu quero ver a minha filha mais jovem ser fisgada por
um anzol de um comedor de peixe.

Ariel: Tenho dezesseis anos. Não sou criança!

Tritão: (Furioso) Não use esse tom de voz comigo mocinha! Enquanto, viver nos meus
mares obedecerá minhas ordens.

Ariel: Mas o senhor deveria escutar.

Tritão: Nem mais uma palavra! E nunca mais, eu quero saber que você foi à superfície,
está bem claro?

Ariel começa a chorar e sai nadando triste, seguida por Linguado. O rei senta triste
buscando consolo com Sebastião.

Sebastião: Hum! Adolescentes! Hum! Pensam que sabem de tudo. A gente dá um dedo
querem o braço todo.

Tritão: (Pensativo) Você, acha que eu fui severo demais com ela?

Sebastião: Mas é claro que não! Ora, se Ariel fosse minha filha eu mostraria a ela quem
manda. Nada desses voos à superfície, tolices semelhantes, nada disso. Eu a teria sob
severo controle.

Tritão: Ah! Você tem toda a razão Sebastião.

Sebastião: Ah, Claro!

Tritão: Ariel tem que ser vigiada sempre.

Sebastião: (prepotente) Sempre!

Tritão: E alguém tem que cuidar disso para mantê-la longe de encrenca.

Sebastião: Todo o tempo.

Tritão: Você é o mais indicado para fazer isso! (Sai de cena)

Sebastião: Mas... Mas... Como? Hmmm... (Contrariado) Sim senhor. (Vira-se para a
plateia e começa a resmungar) Como é que eu fui me meter numa situação dessas? Eu
deveria escrever sinfonias e não andar por aí escoltando uma garota maluca.

Linguado e Ariel aparecem ao fundo fazendo gestos como se conversassem. Linguado


entrega uma bolsa a ela, em seguida vão para o canto esquerdo do palco, onde fica uma
coleção de coisas de humanos.

Sebastião: O que será que ela está tramando? (Se esconde na coxia)

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Ariel analisa um garfo enquanto pensa onde vai coloca-lo junto à coleção. Está
aparentemente triste.

Linguado: Ariel, está tudo bem?

Ariel: Se eu pudesse fazê-lo entender... É que eu não vejo as coisas do jeito que ele vê.
Não entendo como um mundo que faz coisas tão maravilhosas possa ser tão mau.

MÚSICA: PARTE DO SEU MUNDO

Tenho aqui uma porção


de coisas lindas nessa coleção,
posso dizer que eu sou
alguém que tem quase tudo.

O meu tesouro é tão precioso.


Tudo o que tenho é maravilhoso,
por isso eu posso dizer, sim.
Tenho tudo aqui.

Essas coisas estranhas curiosas,


para mim são bonitas demais.

Olhe essas aqui... Preciosas!

Mas pra mim, ainda é pouco, quero mais.

Eu quero estar, onde o povo está


Eu quero ver, um casal dançando
e caminhando em seus....

Como eles chamam? Ah! Pés.

As barbatanas não ajudam não.


Pernas são feitas para andar, dançar
e passear pela...

Como eles chamam?


Rua

Poder andar,
poder correr,
ver todo o dia o sol nascer,

Eu quero ver, eu quero ser


Ser desse mundo.

O que eu daria, pela magia de ser humana.


Eu pagaria por um só dia poder viver
com aquela gente. E ir conviver
e ficar fora dessas águas.

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Eu desejo.
Eu almejo esse prazer.

Eu quero saber o que sabem lá


Fazer perguntas e ouvir respostas
O que é o fogo e o que é mar
Lá eu vou viver

Quero saber, quero morar


naquele mundo cheio de ar.

Quero viver, não quero ser, mais deste mar.

(Linguado parece desolado, Sebastião espirra, mostrando-se a eles).

Ariel: (Assustada) Sebastião!

Sebastião: Ariel! Como... O que é tudo isso?

Ariel: É... É só a minha coleção.

Sebastião: Hmm, sim... Coleção! SE SEU PAI SOUBER DISSO AQUI EMBAIXO ELE
VAI...

Linguado: Você não vai contar a ele vai?

Ariel: Por favor, Sebastião ele jamais compreenderia.

Sebastião: Ariel! Você está sob pressão aqui embaixo. Venha comigo. Eu levo você para
casa, e dou alguma coisa...

A sombra de um navio escurece o palco distraindo a atenção de Ariel

Ariel: O que pode ser? (curiosa)

Sebastião: Ariel? Ariel! (ela vai à superfície Linguado e Sebastião a seguem. Acham o
navio que solta fogos de artifício) O que você? (espantado) Mas o que é isso? Ariel! Ariel,
por favor, volte aqui!

Blackout. Música alegre. Foco no canto direito do palco, onde está um navio. Entram Eric,
Grimsby e os marinheiros festejando no navio. Ariel, Linguado e Sebastião continuam em
cena, observando a ação dos marinheiros.

Eric: Essa festa está muito divertida, não acham?

Marinheiro 1: Fazia tempo que não nos divertíamos tanto.

Marinheiro 2: Temos que repetir a dose na semana que vem. Concordam?

Marinheiro 3: Claro que sim! As festinhas no mar são as melhores.

(Todos respondem que sim)

Entra Sabidão

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Sabidão: E AÍ, GAROTA? O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?

Ariel: Quieto, Sabidão! Eles vão ouvir você.

Sabidão: Já entendi. Temos que ser intrépidos. NÓS VAMOS DESCOBRIR... (Ariel
coloca a mão no bico de Sabidão)

Os Marinheiros carregam um barril e o colocam perto de onde Ariel e Sabidão estão


escondidos. Canhão seguidor ilumina os dois.

Ariel: Nunca tinha visto um humano tão de perto assim. (suspira) Ele é muito bonito, não
é?

Sabidão: Não sei, não. Me parece meio redondo, baixinho... Sério demais...

Ariel: Não, não é essa coisa que colocaram aqui. É aquele humano que está tocando
chimbaco.

Canhão seguidor se apaga.

Grimsby: Silêncio, silêncio. (Para a plateia) É uma honra e privilégio presentear nosso
estimado príncipe Eric com esse presente muito especial pela data de seu aniversário.

Entram os marinheiros com um enorme objeto tapado com um grande pano branco.

Eric: Grimsby, seu traiçoeiro, não devia ter feito isso.

Grimsby: Eu sei. Feliz aniversário, Eric.

Os marinheiros retiram o pano branco e um quadro com a pintura do rosto do Príncipe.

Eric: (sentindo-se desconfortável para dizer que não gostou) Puxa Grimsby... Isso é... é
um belo presente.

Grimsby: É, eu mesmo encomendei. Mas é claro que eu esperava que fosse um


presente de casamento.

Eric: hahahaha... Espera aí, Grimsby, não comece. Não está mais chateado por eu não
ter me apaixonado pela princesa de Porto Vermelho, está?

Grismby: Eric, não sou apenas eu. O reino inteiro pretende vê-lo felizmente
comprometido com a garota ideal.

Eric: Sei que ela está em algum lugar. Eu apenas... Não a encontrei ainda.

Grimsby: É... talvez não a tenha procurado o bastante.

Eric: Pode crer, Grimsby, quando eu a encontrar, você saberá. Ela tem que me atingir...
(ouve-se um trovão) Como um raio!

O trovão se repete, as luzes piscam.

Marinheiro 1: Um furação se aproxima!

Marinheiro 2: Rápido! Abaixe as velas!

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Sabidão: Nossa! Os ventos mudaram de repente por aqui! Ariel!

Trilha tensa. Som de chuva e trovões. Luzes piscam. Confusão em cena. O Navio afunda
e Ariel consegue salvar Eric. Blackout.

A luz vai acendendo aos poucos, imitando um nascer do sol. Som das ondas batendo.
Ariel observa Eric, que está desmaiado em cima de algumas pedras. Aparece Sabidão,
que começa a examinar o príncipe.

Ariel: Ele está... morto?

Sabidão: É difícil dizer. (Levanta uma das pernas de Eric e tenta escutar a sola do pé)
Eu... não ouço o coração bater.

Ariel: Veja! Ele está respirando. Ele é tão bonito. (Olhando fixamente para o rapaz,
apaixonada)

Quero viver onde você está


Quero ficar aqui ao seu lado
Quero também ver você sorrir para mim

Vamos andar, vamos correr


Ver todo dia o sol nascer
E sempre estar em algum lugar
Só seu e meu

Grismby: (Em off) Eric? Eric!

Ariel, assustada, esconde-se rapidamente no canto da cena, juntamente com Linguado e


Sebastião. Grismby entra.

Grismby: Eric! Ainda vai me ver morrer do coração de tanto susto.

Eric: (Acordando) Uma garota... me salvou. E ela... estava cantando. (Encantado) E tinha
uma belíssima voz. (Pensativo)

Grismby: Eric, acho que você engoliu muita água do mar. Vamos sair daqui.

Grismby coloca o braço de Eric sobre seus ombros e os dois saem de cena.

Sebastião: Vamos esquecer sobre tudo que se passou aqui. O rei dos mares nunca
saberá, você não vai contar a ele! Eu não vou contar, minha boca será um túmulo.

Ariel:

Eu não sei bem, como explicar


Que alguma coisa vai começar
Só sei dizer
Que a você
Vou pertencer

(Todos saem de cena. Blackout. Trilha tensa. Luz no canto esquerdo do palco, onde está
Úrsula, Pedro e Juca olhando para a concha mágica).

17
Úrsula: Não, não, não. Eu não aguento. Viram só, bebês?

(Pedro e Juca olham para a concha sem entender nada)

Pedro: (disfarçando) É! Dá pra ver muita coisa aí!

Juca: (aproximando seus olhos da concha) Eu não vi nada não.

(Pedro dá uma cutucada em Juca, para ele perceber que deve fingir também)

Pedro: (Entre os dentes) Se liga, idiota! (Falando em voz alta) Procura melhor, tá na
cara!

Juca: (dando uma piscada de olho para Pedro) Aaah, claro! Como eu não tinha visto
antes?! É uma linda paisagem, né?

(Pedro concorda com Juca e Úrsula os olha com cara de desprezo)

Úrsula: Não! Estou falando da sereia. A garota está amando um humano, e não é um
humano comum. É um príncipe!

Pedro e Juca: Ahhhh!

Úrsula: O papai vai adorar isso.

Pedro: Madame, não conhecemos o seu pai.

Juca: Verdade, como ele é?

Úrsula: (Furiosa) Estou falando de Tritão!! O pai de Ariel, seus imbecis!

Pedro e Juca: Ahhhh!

Pedro: (Assustado) Ele vai ficar furioso ao ver a Ariel com um humano.

Juca: (Dando um tapinha na nuca) Mas é isso que a madame quer, Pedro!

Úrsula: Será tão fácil! Sua menina voluntariosa e apaixonada seria mais uma flor em
meu jardinzinho de almas desesperadas. Hahahahahahahaha

(Pedro e Juca tentam acompanhar a risada maléfica de Úrsula, mas sem a mesma
intensidade).

Sobre som. Blackout.

Fundo do mar. Castelo do Rei Tritão

Trilha de transição

Entram as irmãs de Ariel se arrumando em frente ao espelho. Adela está com o rosto
revestido por uma máscara facial.

Alana: (Ao ver Adela) Ui! Que isso?!

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Adela: Me deixa, Alana.

Alana: Não é por nada não, mas parece que usou comida na cara.

Adela: É extrato de plâncton com sal marinho.

Alana: E daí?

Adela: Rejuvenesce a pele e não entope seus poros.

Alana: (Tapando o nariz) Ah, então tá... A cara é sua.

Andrina: (Pegando uma escova de cabelo para se pentear) Com licença.

Aquata: Ei, essa é a minha escova?

Andrina: (Nervosa em ser descoberta) Não!

Aquata: (Arrancando das mãos de Andrina) Tem as minhas iniciais nela. Olha aqui!
(Mostra para o público)

Attina: Todos os nossos nomes começam com A, Aquata.

Aquata começa a revirar a bolsa de Andrina

Andrina: Não mexa na minha bolsa!

Aquata: (tirando os objetos da bolsa) Meu batom!

Andrina: Você nunca usa.

Aquata: Meu colar de pérolas da sorte!

Andrina: Nem te dá tanta sorte assim...

Aquata: Meu bichinho de pelúcia!!!!

Andrina: Ah, ele é tão fofo. E gosta de mim!

Aquata: E meu anel!!!

Andrina: (Pegando o anel das mãos de Aquata) Esse foi pelo meu cavalo marinho!

Aquata: (Pegando o anel das mãos de Andrina) Até parece!

Andrina: (Pegando o anel das mãos de Aquata) Me devolve isso aqui!

Aquata: (Pegando o anel das mãos de Andrina) Agora é meu!

Andrina: (Pegando o anel das mãos de Aquata) Não é não! Papai me deu!

Aquata: (Pegando o anel das mãos de Andrina) É sim!

Andrina: (Pegando o anel das mãos de Aquata) Você sempre pega as minhas coisas!

Aquata: (Pegando o anel das mãos de Andrina) Você sempre me dá motivos pra isso!

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Andrina: (Pegando o anel das mãos de Aquata) Ninguém mandou você ser tão
desligada!

Aquata: (Pegando o anel das mãos de Andrina) Eu sou ocupada, o contrário de você!

Arista: Uh! Até que enfim, uma briga de verdade por aqui.

Astéria: É verdade! Adoro uma confusão. Só falta a pipoca pra gente, Arista.

Atena: Deixem de ser infantil, meninas! Parem com essa briga boba.

Arista: Falou a sereia madura!

Astéria: Briga boba porque não são as tuas coisas.

Attina: (para a Coxia) Ariel, querida, hora de ir embora.

Arista: Você está aí a manhã toda.

Ariel entre em cena cantarolando, apaixonada, senta em frente ao espelho e começa a


pentear o cabelo. Todas param o que estão fazendo e ficam observando Ariel. Em
seguida põe uma pequena estrela do mar enfeitando o seu cabelo.

Alana: O que está acontecendo com ela?

Entra Tritão

Ariel: Bom dia, papai. (Coloca a estrela do mar em Tritão e sai cantarolando)

Tritão: (Rindo sem entender nada) Ora!

Governanta: (Entra em cena acompanhada de Benjamin) Posso ajuda-lo, Majestade?

Tritão: Tudo bem, Marina. Só não estou entendo porque Ariel está desse jeito hoje.

Benjamin: Desse jeito?

Governanta: Como assim, Senhor?

Tritão: Não sei dizer. Simplesmente diferente...

Benjamin: (Pensativo) Vai ver... Está com dor de barriga!

Attina: É... Ela vai mal.

Tritão: Mal? Por quê?

Benjamin: Eu não disse? Tenho um remédio

Arista: (rindo) Não, Benjamin! Não é nesse sentido que Ariel está mal.

Benjamin: Não? Então como é?

Alana: Não é óbvio, papai?

Governanta: Ai, gente! Quanto suspense. Falem de uma vez! Assim me deixam nervosa.

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Attina: Ariel está amando.

Tritão: Ariel? Está amando?

Governanta: Babado forte esse, hein!

Tritão: Mas quem? (Sai gritando) Ariel!!! Sebastião!!!

Benjamin: Que legal! Teremos uma festa?

Attina: Calma lá... As coisas não são tão fáceis assim.

Governanta: Quem é o felizardo?

Alana: Ainda não sabemos.

Governanta: Hmmm.. Então aguardaremos cenas dos próximos capítulos.

(Blackout. Todos saem. Trilha de transição. Luz Fundo do Mar)

Ariel entra em cena, senta-se em uma rocha e começa a brincar de bem-me-quer com
uma flor.

Ariel: Bem-me-quer, mal-me-quer...

Entra Sebastião

Sebastião: Até aqui tudo bem. Eu acho que o rei não sabe. Mas não será fácil guardar
um segredo como esse por muito tempo.

Ariel: Bem-me-quer, mal-me-quer. (Até que chega na última pétala) Ah, bem-me-quer!
(feliz) Eu sabia!

Sebastião: Ariel, pare de falar bobagens!

Ariel: Eu o verei novamente... (sonhadora) Essa noite! O Sabidão sabe onde ele mora.

Sebastião: Ariel, por favor! Vai tirar sua cabeça das nuvens e voltar para a água, que é o
seu lugar?

Ariel: Nadarei até o castelo, então o Linguado fará de tudo para chamar a atenção dele.
E depois nós vamos...

Sebastião: O seu lar é aqui embaixo! Ariel, escute aqui. O mundo humano é uma
bagunça. A vida submarina é bem melhor do que tudo que eles têm lá.

MÚSICA: AQUI NO MAR

O fruto do meu vizinho


Parece melhor que o meu
Seu sonho de ir lá em cima
Eu creio que é engano seu

Você tem aqui no fundo


Conforto até demais

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É tão belo o nosso mundo
O que é que você quer mais?

Onde eu nasci, onde eu cresci


É mais molhado
Eu sou vidrado por tudo aqui

Lá se trabalha o dia inteiro


Lá são escravos do dinheiro
A vida é boa, eu vivo à toa
Onde eu nasci

Um peixe vive contente


Aqui debaixo do mar
E o peixe que vai pra terra
Não sabe onde vai parar

Às vezes vai pra um aquário


O que não é ruim de fato
Mas quando o homem tem fome
O peixe vai para o prato (Não!)

Vou lhe contar, aqui no mar


Ninguém nos segue, nem nos persegue pra nos fritar
Se os peixes querem ver o sol
Tomem cuidado com o anzol
Até o escuro é mais seguro

Aqui no mar (aqui no mar)


Onde eu nasci (Onde eu nasci)
Neste oceano entra e sai ano, tem tudo aqui
Os peixes param de nadar
Quando é hora de tocar
Temos a bossa que é toda nossa
Aqui no mar

Tritão sopra a flauta e a carpa na harpa


A solha no baixo melhor som não acho
E aqui nos metais tem peixe demais
Esperem que temos mais

Ninguém toca mal, nem o bacalhau


A truta dançando, o preto cantando
Até o salmão vem para o salão
E olhem quem vem soprar

Aqui no mar (aqui no mar)


Aqui no mar (aqui no mar)
Até a sardinha entra na minha e vem cantar

E se eles têm montes de areia


Nós temos coro de sereia
Qualquer molusco, sempre que eu busco sabe tocar
Até a lesminha sai da conchinha e vem dançar
Caracolzinho tira um sonzinho

22
Por isso a gente daqui é quente
Faz um programa
Até na lama
Aqui no mar

(Quando acaba a canção, Ariel não é vista em cena)

Sebastião: (procurando timidamente) Ariel? (Suspira e fica cabisbaixo) Alguém tem de


pregar as barbatanas da garota em nosso chão.

(Entra Benjamin correndo)

Benjamin: (Quase sem fôlego) Sebastião! Sebastião, procurei você por toda parte.
Tenho uma mensagem urgente do rei dos mares.

Sebastião: (Preocupado) O rei dos mares?

Benjamin: Ele disse que quer vê-lo o mais rápido possível. É algo sobre Ariel.

Sebastião: (Assustado) Ele descobriu.

(Entra Tritão e a Governanta)

Tritão: Sebastião!

Sebastião: (Pensando alto, virado para a plateia) Não posso me trair. Tenho que manter
a calma. (Vira-se para Tritão) Sim? Sim, Vossa Majestade? (Percebe a presença da
Governanta) Marina? O que faz aqui?

Governanta: Ah, não podia perder a fofoca. (Tritão olha para a Governanta) Quer dizer...
(exagerada) Eu, como a Governanta do Palácio e responsável pelas filhas de Tritão,
nosso Rei dos Sete Mares, tenho a obrigação de saber o que está acontecendo com
Ariel. (curiosa) Conta tudo!

Tritão: Sebastião. Estou preocupado com Ariel. Percebeu que ela tem agido de modo
suspeito ultimamente?

Sebastião: Suspeito?

Governanta: Você sabe... sonhando acordada, devaneando, cantando para si mesma.


Você não notou?

Sebastião: Bem, eu...

Tritão: Sebastião? Sei que está escondendo alguma coisa de mim.

Sebastião: (nervoso) Escondendo alguma coisa?

Tritão: Sobre Ariel?

Sebastião: (nervoso) Ariel?

Governanta: Anda, caranguejo!

Tritão: Sim, ela mesmo.

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Governanta: Quem mais seria? O Bob Esponja?

Tritão: Amando?

Sebastião: (Desabafa) Ahhh! Senhor, tentei impedi-la, mas ela não me ouviu. Disse para
ela se afastar dos humanos, que eles são maus... eles são problema!

Tritão: (Furioso, pega Sebastião pela gola da roupa) Humanos?! Mas que humanos?!

Sebastião: Humanos? Quem falou em humanos?

Tritão: Venha aqui! Precisamos ter uma conversa séria!

(Saem de cena)

Governanta: Iiiiiiiiiih! Vai sobrar para o lado do caranguejo. Quem sabe assim eu consiga
uma promoção, finalmente! Hahahah

(Entra Benjamin)

Governanta: Ah, Benjamin! Que bom que você chegou! Acho que nossa vida vai mudar,
tem que mudar! Eu não aguento mais vigiar essas princesas! Todo o dia é a mesma
coisa!

Benjamin: Calma, Marina. Esse estresse não faz bem pra você.

Governanta: Mas eu acho que agora Sebastião irá pra rua, só pode! Também.. como é
que aquele caramujo vira chefe dos funcionários?!

Benjamin: Audácia?

Governanta: Eu quero o cargo! Eu mereço o cargo! E daí se eu atraso de vez em


quando? As garotas estão infelizes?

Benjamin: Ninguém é perfeito.

Governanta: Tem razão, Benjamin. Ninguém é perfeito! Todos cometem erros, até ele!
Hahahah

(Saem de cena. Entra Linguado guiando Ariel, que está de olhos fechados.)

Linguado: Por aqui agora, Ariel!

Ariel: Linguado, por que não pode me contar o que está acontecendo?

Linguado: Você verá, é uma surpresa. Pronto, aqui está.

(Linguado aparece com um quadro com uma pintura do rosto do Príncipe)

Ariel: Linguado. Linguado, você é demais! É igualzinho a ele, e tem os mesmos olhos.
(Para a imagem) Olá Eric, quer passear comigo? Você surgiu tão... de repente.
Hahahaha (Ariel se diverte com o quadro até se depara com Tritão, que entra em cena de
repente) Papai?

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Tritão: (Furioso) Eu me considero um rei razoável. Decreto algumas leis e espero que
elas sejam obedecidas.

Ariel: Mas, papai...

Tritão: É verdade que salvou um humano de se afogar?

Ariel: Papai, eu tinha...

Tritão: O contato com seres humanos é definitivamente proibido. Ariel, você sabe disso!
Todos aqui sabem.

Ariel: Ele iria morrer.

Tritão: Um a menos para preocupar.

Ariel: O senhor nem o conhece.

Tritão: Conhecê-lo? Não preciso conhecê-lo! Eles são todos iguais. Covardes,
selvagens, devoradores de peixe incapazes do menor sentimento.

Ariel: Papai, eu o amo!

Tritão: (Surpreso) Não! Você perdeu o senso completamente! Ele é um humano e você é
uma sereia.

Ariel: Não me importo.

Tritão: Sinto muito, Ariel. Vou acabar com isso. (Aperta seu tridente, que começa a
brilhar) E se esse é o único jeito, que assim seja. (Aponta seu tridente para o quadro, as
luzes piscam, ouve-se som de explosão)

Ariel: Papai! Não! Por favor! Papai, pare! Pare com isso, papai! Papai, não!

(A imagem aparece rasgada, Ariel observa o quadro estragado e começa a chorar. Tritão,
aparentemente triste se retira de cena. Silêncio no palco. Ouve-se somente o choro de
Ariel)

Sebastião: Ariel, olha...

Ariel: Vai embora daqui.

(Sebastião, triste, obedece a ordem da princesa e vai embora. Linguado vai até Ariel,
coloca a mão no seu ombro e em seguida sai de cena cabisbaixo. A luz muda, o
ambiente fica mais sombrio e começa uma trilha de suspense. Entram Pedro e Juca).

Pedro: Pobrezinha.

Juca: Coitadinha dela.

Pedro: Está com um problema muito grave.

Juca: Se ao menos houvesse algo que pudéssemos fazer?

Pedro: Mas há uma solução, sim.

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Ariel: Quem... Quem são vocês?

Juca: Não tenha receio.

Pedro: Representamos alguém que pode ajudá-la.

Juca: Alguém que pode tornar todos os seus sonhos realidade.

Pedro: Apenas imagine...

Juca: Você e seu príncipe...

Pedro e Juca: Juntos para sempre.

Ariel: Eu não entendo.

Pedro: Úrsula tem grandes poderes.

Ariel: A bruxa do mar? Ora, eu... Não poderia. Não! Vão embora daqui. Me deixem em
paz!

Juca: Como quiser.

Pedro: Foi apenas uma sugestão.

(Pedro e Juca colocam os restos do quadro perto de Ariel e vão caminhando até a coxia
lentamente. A Sereia olha o quadro, reflete por um momento)

Ariel: Esperem.

Pedro e Juca: (Virando para Ariel) Sim?

Ariel: Vocês podem me guiar?

Pedro e Juca: Claro, princesa. Venha conosco.

Entram Linguado e Sebastião

Linguado: Coitadinha.

Sebastião: Eu não pretendia dizer. Foi um acidente.

Sebastião: Ariel? Aonde vai? Ariel, o que está fazendo aqui com essa gentalha?

Ariel: Eu vou visitar Úrsula.

Sebastião: Ariel, não! (Puxando-a pelo braço) Ela é um demônio, ela é um monstro.

Ariel: (Soltando-se) Por que não vai contar ao meu pai? Você é bom nisso.

(Pedro, Juca e Ariel saem de cena).

Sebastião: Mas... Mas eu... Vamos!

(Sai de cena)

26
Linguado: Ei, não me deixa aqui!

(Sai de cena)

Blackout. Trilha tensa para transição de cena, vozes assustadoras como se fossem
almas desesperadas. Luz no canto esquerdo do palco, onde está Úrsula sentada em seu
trono. Entram Pedro e Juca, seguidos por Ariel.

Pedro e Juca: Por aqui.

Pedro: Úrsula! Nós temos uma visitante!

Úrsula: Entre. Entre, menina.

Juca: Ela veio te pedir pra...

Ariel: Não não não.. Não estou bem certa...

Úrsula: Não seja tímida, Ariel. Sou eu, a titia Úrsula!

Ariel: Eu não devia estar aqui.

Úrsula: Não fale bobagem, querida. Nós somos da mesma família.

Ariel: Então porque papai te expulsou?

Úrsula: Ah! O oceano não era grande o suficiente para nós dois. E agora ele está
fazendo a mesma coisa com você, não é?

Ariel: (triste) Ele não entende...

Úrsula: Mas eu, querida. Eu te entendo. Nós duas somos muito parecidas. Garotas
cheias de ambição... Os homens não gostam disso, não é? Agora venha aqui e conte
tudo para a titia.

Ariel: Então... Estou apaixonada...

Úrsula: (Debochada, com cara de espanto) Não diga?!

Ariel: ... por um humano.

(Úrsula, Pedro e Juca caem na gargalhada)

Úrsula: (para Pedro e Juca) Calem a boca! (Vira-se para Ariel e aperta suas bochechas)
Que bonitinha! É um príncipe, não é?! Não a censuro. É um partidão! (debochada) Bem,
menina sereia a solução pro seu problema é simples. O jeito para conseguir o que quer é
se tornar humana também.

Ariel: Pode fazer isso?

Úrsula: Minha querida e bela menina, é isso que eu faço. É para isso que eu vivo: para
ajudar os infelizes seres do mar, como você é. Pobres almas que não tem a quem
recorrer.

MÚSICA: CORAÇÕES INFELIZES

27
Eu confesso que já fui muito malvada
Era pouco me chamarem só de bruxa
Mas depois de arrependida, fiquei mais comedida
E até mais generosa e gorducha

Pode crer!

Felizmente eu conheço uma magia


É um talento que eu sempre possuí
E hoje é esse o meu ofício
Uso em benefício do infeliz ou sofredor que vem aqui

Patético!

Corações infelizes
Precisam de mim
Uma quer ser mais magrinha
Outro quer a namorada
Eu resolvo?
Claro que sim!

São corações infelizes


Em busca de tudo
Todos eles chegam implorando
"Faça-me um feitiço"
O que é que eu faço?
Eu ajudo!

Mas me lembro no começo


Alguns não pagaram o preço
e fui forçada a castigar os infelizes

Se reclamam não adianta


Pois em geral eu sou uma santa
Para os corações infelizes

(Pedro e Juca trazem um contrato)

Úrsula: Agora vamos aos negócios! Eu lhe darei uma poção que lhe transformará em
humana por três dias. Entendeu? Três dias. Agora ouça, isso é importante. É claro que
há uma clausula com algum tipo de consequência. Antes do pôr-do-sol do terceiro dia
você tem que fazer aquele príncipe se apaixonar por você. Isto é, ele tem que beijar você.
Não um beijo qualquer, um beijo de amor verdadeiro. SE ele beijar você antes do pôr-do-
sol do terceiro dia, você se tornará humana para sempre...

Ariel: E se eu não conseguir?

Úrsula: Nada drástico, eu garanto. (Juca a alcança uma lupa gigante. Úrsula começa a
analisar o contrato gigante que Pedro segura) Olha só o pequeno detalhe! Sua alma será
minha para sempre... (Olha para a plateia como se estivesse falando de algo supérfluo)...
e você será condenada a passar o resto de sua vida no meu corredor do inferno. (Úrsula,
Pedro e Juca caem na gargalhada). Oh, e ainda tem mais uma coisa. Ainda não falamos
do detalhe do pagamento! Não se adquire nenhuma coisa por nada.

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Ariel: Mas eu não tenho nad...

Úrsula: Eu não cobro muito. Vai lhe custar uma ninharia. O que eu quero de você é...
Sua voz.

Ariel: Minha voz?

Úrsula: É o que eu disse, queridinha. Não vai mais falar, cantar, fim. Mas não se
preocupe, fofa. Eu tenho o lugar perfeito para guarda-la. (Pedro e Juca trazem a concha
mágica) Antes do seu avó morrer ele deu o tridente para o seu pai, mas esse aqui, foi o
seu presente pra mim!

Ariel: Uma concha mágica?

Úrsula: (Preocupada) Já ouviu falar dela?

Ariel: Papai disse que ela é fonte de todos os poderes.

(Úrsula, Pedro e Juca caem na gargalhada).

Úrsula: Que bobagem! Até parece!

Ariel: Papai disse que você morreria se perdesse isso aí...

Úrsula: Ah, morreria... (bate na concha) Isso é uma casaca, é uma bolha! Acredite, a sua
voz, o seu timbre e inclusive o seu vibrato, ficarão muito a salvos aqui dentro!

Ariel: Mas sem minha voz, como posso?

Úrsula: Terá sua aparência, seu belo rosto! E não subestime a importância da linguagem
do corpo.

O homem abomina tagarelas


Garota caladinha ele adora
Se a mulher ficar falando,
O dia inteiro fofocando
O homem se zanga, diz adeus e vai embora.

Não!

Não vá querer jogar conversa fora


Que os homens fazem tudo pra evitar
Sabe quem é mais querida?
É a garota retraída
E só as bem quietinhas vão casar

É hora de resolver
O negócio entre nós
Eu sou muito ocupada
E não tenho o dia inteiro
O meu preço?
É sua voz

Você que é tão infeliz


Não vai ser mais

29
Se quiser atravessar a ponte
Existe um pagamento
Vamos lá, tome coragem!
Assine o documento

A sereia está no papo!

É dia de alegria
Ganhei o que eu queria!

Ariel: Mas se eu assinar, nunca mais verei minha família... minhas irmãs e meu pai.

Úrsula: Você quer o seu príncipe ou não? 5, 4, 3, 2...

Ariel: Tá bom! Eu assino!

Úrsula:
Verruga, sifruga eu quero um vento assim
Laringo la língua
Ir lá ra laringe e a voz para mim

Úrsula: Agora cante...

(Ariel canta. Conforme Ariel canta, a concha vai sendo iluminada.)

Úrsula: Sim! Sim! Continue cantando!

(Ainda cantando, Ariel é levada por Pedro e Juca para um biombo. Ali será projetado um
vídeo com a silhueta da Sereia perdendo a calda e adquirindo pernas... Úrsula olha para
a concha, encantada, rindo sem parar e sai de cena. Porém, enquanto o público se
entretém com isso a atriz que faz a Sereia retira sua calda atrás do biombo e se dirige
cuidadosamente à borda do palco . Após a transformação a cortina fecha e aparece Ariel
do chão – na borda do palco – tentando se equilibrar para ficar em pé com as novas
pernas). Fim do 1ª Ato.

2º ATO

Em frente a cortina fechada.

Trilha. Luz âmbar cresce. Ariel entra em cena caminhando com a ajuda de Sebastião e
Linguado. A sereia senta-se em uma pedra cenográfica e fica maravilhada observando
seus pés. Entra Sabidão.

Sabidão: Ora, vejam o que o peixe gato pescou. Olhe pra você. (observando) Tem
alguma coisa diferente. Não me conte. (Pensativo) Já sei. Mudou o penteado? Você tem
usado a bruguzumba, certo? (Ariel faz o gesto negativo com a cabeça, mas sacode as
pernas para mostrar a Sabidão) Não? Não? Bem, deixe me ver... Conchinhas novas?
(Ariel faz o gesto negativo com a cabeça, mas novamente sacode as pernas) Não são as
conchinhas. Confesso que estou encontrando certa dificuldade, mas se eu ficar aqui um
pouquinho mais com você...

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Sebastião: (irritado) Ela tem pernas, seu idiota. (Sabidão se espanta e começa a analisar
as pernas de Ariel) Ela deu a voz dela para a bruxa do mar e ganhou pernas. Não
percebeu, não?

Sabidão: (convencido) Eu sabia disso.

Linguado: Ariel virou humana, e ela tem que fazer o príncipe se apaixonar por ela. E ele
vai beijá-la.

Sebastião: E ela só vai ter três dias! (Ariel levanta-se, mas se desequilibra e cai) Olhe só
para ela! Com pernas! Com pernas humanas! Estou arrasado! Isso é uma catástrofe! O
que o pai dela dirá? Direi o que o pai dela dirá! Dirá que vai fazer picadinho de um siri!
Isso é o que o pai dela dirá! Vou voltar para casa agora e contar para ele como já deveria
ter feito. (Ariel, apavorada, faz gestos para que Sebastião não conte para o seu pai) E
não balance a cabeça para mim, mocinha. Talvez ainda haja tempo. Se ao menos aquela
bruxa lhe devolvesse a voz, você voltaria para casa com todos os peixinhos normais e
então seria... Então seria... (Ariel baixa a cabeça. Sebastião percebe a infelicidade da
Sereia)) E então seria infeliz pelo resto da vida. (contrariado) Tá certo, tá certo. Vou
tentar te ajudar a achar aquele príncipe. (Ariel volta a ficar feliz, dá um beijo na bochecha
de Sebastião. Ele fala entre os dentes, virado para a plateia) Puxa, que casquinha mole
vou acabar ficando.

Sabidão: Agora, Ariel, estou te dizendo. Se quiser ser humana, a primeira coisa a fazer é
se vestir como uma. Vamos ver... (Vai atrás da pedra cenográfica e retira panos e cordas,
que precisam dar a impressão de que pertenciam a um navio. Enrola os panos e as
cordas no corpo de Ariel, tentando fazer um vestido) Deixe-me ver. (Ariel, feliz, dá uma
voltinha para que os amigos aprovem o figurino) Você está linda, garota.

Linguado: Está sensacional.

Entra Eric, pensativo, sem notar a presença de Ariel e seus amigos. Todos se escondem,
exceto Ariel

Eric: Aquela voz... Não sai da minha cabeça. Já procurei por toda parte. Onde ela
estará? (De repente, Eric olha para Ariel. Com um grande sorriso, ela tenta ajeitar seu
cabelo, olhando fixamente para o príncipe)

Eric: (Aproximando-se de Ariel) A senhorita está bem? (Ela continua a olhar fixamente
para Eric) Me parece bastante familiar. Já nos conhecemos? (Ariel sacode a cabeça
positivamente, com um grande sorriso no rosto) Já nos conhecemos. Eu sabia.
(Empolgado) É você, é você quem eu venho procurando. Qual o seu nome? (Ariel tenta
falar, mas não sai som algum) Qual o problema? (Ariel, triste, aponta para a sua
garganta) O que foi? Você não pode falar, né? (Ariel, triste, confirma. O príncipe também
fica triste) Ah, então não é quem eu estou procurando.

Ariel suspira, contrariada, e fica pensativa. Em seguida começa a fazer vários gestos,
tentando contar ao príncipe a sua história.

Eric: (Tentando adivinhar) O que foi? Está machucada? Não, não. Precisa de ajuda?
(Ariel se empolga tanto ao realizar os movimentos que se desequilibra e cai em cima do
príncipe) Cuidado! Cuidado, calma. (Abraça Ariel, tentando ajuda-la a se equilibrar. Os
dois se olham fixamente).

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Eric: (Após um tempo em silêncio, olhando nos olhos de Ariel) É, você deve ter tido
um problema sério. Mas não se preocupe. Vou ajudar você. (Príncipe sai de cena
abraçado em Ariel. Antes de desaparecer nas cortinas, Ariel vira-se para seus amigos e
faz um sinal de ‘ok’. Sabidão e linguado sorriem e retribuem o sinal, enquanto Sebastião
faz cara de preocupado) Vamos, vamos. Você ficará boa.

Blackout. Todos saem de cena. Trilha de transição.

Abre a cortina. Castelo do Príncipe Eric

Entram Carlota, Janete e Gertrudes puxando Ariel pelo braço.

Gertrudes: Como é mesmo seu nome?

Janete: Ela não fala, Gertrudes!

Gertrudes: (Sem jeito) Oh, me desculpe, esqueci.

Carlota: Sobrevivente de um naufrágio.

Janete: Pobrezinha. Por isso que eu nunca pisei em um navio!

Gertrudes: Hoje em dia, não está fácil navegar... Parece que o mar está cada vez mais
agitado.

Carlota: Vai se sentir melhor em pouco tempo.

Janete: Depois de um banho bem relaxante.

Gertrudes: Isso mesmo! Já preparei a banheira com água quente e sais especiais.

Janete: Você não vai querer sair de lá. (Empurrando Ariel para a coxia oposta a qual
entraram)

Carlota: Vamos tire a roupa, menina. Não vai querer tomar banho vestida desse jeito,
não é?!

(De dentro da coxia, Ariel estende o braço e lhe entrega o tecido que estava vestindo)

Gertrudes: (Com nojo) Oh, eu vou... Vou mandar lavar isto para você.

Carlota, Janete e Gertrudes dirigem-se ao centro do palco e começam a fofocar.

Carlota: Você já ouviu o que estão dizendo dessa garota, meninas?

Gertrudes: Não!

Janete: (Curiosa) O que?

Carlota: Joaquina disse que ela é uma princesa.

Janete: Uma princesa? Não pode ser!

Carlota: Por que não?

32
Janete: Ela não tem cara de rica.

Gertrudes: Ela chegou aqui em farrapos e ainda por cima não fala.

Carlota: Parece que é uma princesa orfã.

Gertrudes: Mas desde quando pode-se acreditar na Joaquina?

Carlota: Eu não acredito.

Gertrudes: Se Eric está procurando uma garota, eu conheço algumas que estão
disponíveis bem aqui mesmo.

Carlota: Verdade. Não sei o que tanto ele procura.

Janete: O reino está cheio de meninas que dariam tudo para ficar com Eric.

Gertrudes: Vamos voltar ao trabalho! Tenho que levar essa coisa para lavar.

Janete: (para Carlota) Vá ver se garota já tomou banho.

(Gertrudes e Janete saem de cena)

Carlota: Querida, já está pronta? Nós avisamos que você não iria querer sair daí!
Hehehehe (Sai de cena)

Entram Eric e Grimsby

Grimsby: Eric, seja razoável. Mocinhas de classe não andam salvando pessoas por aí,
no meio do oceano, e desaparecem completamente como se nada tivesse acontecido...

Eric: (pensativo) Eu garanto, Grimsby. Ela existe! Vou achar aquela garota e vou me
casar com ela.

Carlota, Janete e Gertrudes entram acompanhadas de Ariel, que veste um vestido de


princesa.

Carlota: (Puxando Ariel pelo braço) Vamos, querida.

Gertrudes: Não seja tímida.

Janete: O príncipe vai adorar.

As camareiras ficam próximas à coxia, enquanto Ariel aproxima-se de Eric sorrindo. O


príncipe olha maravilhado.

Grimsby: Eric, ela não é uma visão?

Eric: (encantado) Você está linda.

(Ariel, em agradecimento ao elogio, faz uma tímida reverência. Trilha de transição.


Blackout, todos saem de cena. Dois assistentes de cozinheiro entram em cena trazendo
um mesa. Nela está uma panela grande, uma bandeja com vários frutos do mar, uma
tábua de corte e uma faca cenográfica. Entra o Chefe Louis cantando. Enquanto Louis

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canta a música e prepara um jantar de frutos do mar, Sebastião aparece embaixo da
mesa. Ao longo da canção o siri dele se esquivar da visão e da faca do Chefe. Ao final,
Louis coloca o chapéu de Sebastião na panela).

MÚSICA: LES POISSONS

Louis:

Les poissons, les poissons,


eu adoro les poissons.
E cortar e picar com perícia
corto logo a cabeça e retiro as espinhas.
Ah, mais oui çà ce toujours delícia.

Les poissons, les poissons


Hi, hi, hi, ho, ho, ho com o cutelo eu os parto em dois.
... Preciso limpá-los e em seguida fritá-los.
E eu adoro comê-los depois.

Fiquei com amor ao trabalho


depois que aprendi a technique.
Soco bem le poisson com o molho.
Meu facão vou usando e a barriga cortando.
Algum sal vou passando

Ah! E assim vou temperando.

Louis: Vite allors! Acho que perdi um!

Sacré bleu! Un siri!


E eu quase perdi este belo petisco do mar.
Quelle domage! Se não olho e já vai para o molho.
Com farinha ainda vai melhorar!
E um pouco de pão.
Já morreu, não dói não, é feliz quem vai saborear.
Agora vai para o fogo,
vamos lá, anda logo,
tout allors, mon siri, au revoir!

(Os dois assistentes do cozinheiro retiram os objetos da mesa, enquanto as camareiras


trazem cadeiras, pratos e talheres, transformando o ambiente em uma sala de jantar).

Grimsby: Vamos, vamos, vamos. Você deve estar faminta. (levando-a até a mesa)
Deixe-me ajudá-la, minha querida. (Puxando a cadeira) Sente-se aí. Assim mesmo.
(Grimsby e Eric sentam-se a mesa) Está confortável, hein? É que nem sempre temos
uma convidada tão atraente como você, não é mesmo, Eric?

Toca trilha. Ariel olha o garfo em cima da mesa e começa a pentear seus cabelos.
Grimsby e Eric observam a atitude de Ariel e se olham espantados. A garota percebe que
não está agradando e, com vergonha, devolve o objeto à mesa. Após um tempo, Grimsby
acende seu cachimbo, Ariel olha empolgada.

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Grimsby: Ah, você gosta disso? (Ariel pega rapidamente o cachimbo de suas mãos e
observa animada) Esse é um dos melhores que...

Ariel sopra o cachimbo. A poeira dirige-se para o rosto de Grimsby, que fica paralisado,
sério. Eric ri.

Eric: hahahahaha (tentando conter-se) Desculpe, Grimsby.

Gertrudes: Eric, essa é a primeira vez que o vejo sorrir em semanas.

Grimsby: (tira um lenço do bolso e limpa seu rosto) É, foi engraçado. (continua sério)
Carlotta, querida, qual é o jantar?

Carlota: Não sei o que o Chefe Louis preparou, mas tenho certeza que estará do seu
agrado.

Janete: Vocês vão adorar!

Grimsby: Oh, que ótimo!

(Entra Louis)

Louis: Olá, Grimsby! Majestade! Madame! Como está o apetite para hoje?

Eric: Minha convidada deve estar faminta.

Grimsby: Estamos todos com muita fome.

Louis: Claro, claro. Devo informar que vocês são pessoas de muita sorte, pois vão
provar algo como nunca experimentaram na vida. Um prato que vai aguçar o seus
paladares.

Eric: Puxa, estou ansioso.

Louis: Esta é uma receita de família, que passa de geração para geração. Aprendi com o
meu pai... ah, papai... (emociona-se) Lembro-me, como se fosse ontem... Eu era
pequenino e já estava na cozinha, cozinhando com papai...

Grimsby: (Entediado) É melhor servir depressa. Vai esfriar...

Louis: Oh, desculpe. (recompondo-se) Mas talvez vocês estejam se perguntando se é


possível que esse prato seja o mais gostoso que vocês já provaram. Será uma grata
surpresa. Uma delicia para o seu deleite.

Eric: E então.

Louis: E agora, sem mais delongas, apresento-lhes a minha especialidade: casquinha de


siri. Bom apetite!

Ariel olha para Carlota sem entender. Louis retira a tampa da bandeja e Sebastião salta
da mesa, gerando uma enorme confusão. Trilha. Todos correm de um lado para o outro.
Luzes piscam. As cortinas fecham e a ação passa a acontecer no proscênio.

Louis: Venha aqui, seu bicho cascudo e lute como homem!

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Grimsby: Mas o que significa isso?

Louis: Perdon, senhor. Não sei como isso foi acontecer.

Grimsby: O que está fazendo?

Louis: Apenas... Eu estava...

Grimsby: O jantar está encerrado. Limpe já esta bagunça, Louis.

Louis: Sim, senhor. Pardon, madame. (Saindo de cena) Cadê você bicho safado?

Grimsby: (Para Ariel) Peço desculpas por esta situação constrangedora. Louis é um de
nossos melhores funcionários, não sei como isso foi acontecer. (Para Eric) Ouça, Eric.
Nossa jovem visitante talvez queira conhecer alguma das paisagens de nosso reino. Que
tal levá-la a um passeio?

Eric: (Olhando apaixonado para Ariel) Me desculpe, Grimsby. O que disse?

Grimsby: (Perdendo a paciência) Não pode ficar sonhando o tempo todo. Você tem que
sair. Faça alguma coisa. Viva a vida. Pare de pensar em...

Eric: Calma, Grimsby, calma. Não é uma má ideia, se ela quiser. Bem, o que você acha?
Gostaria de vir comigo para um passeio por aí?

(Ariel, empolgada, faz sinal positivo com a cabeça)

Grimsby: (Feliz) Esplêndido!

(Eric e Grimsby saem de cena. Sebastião aparece)

Sebastião: Este foi, sem sombra de dúvida, simplesmente o dia mais humilhante de toda
minha vida. Espero que reconheça o que já passei por você, mocinha. Agora, temos que
bolar um plano para aquele príncipe te beijar. Quando ele te levar para o passeio, você
tem de estar impecável. Você tem de piscar seus olhos, assim. (Imita uma garota tímida,
piscando os olhos rapidamente) E tem de fazer um beicinho, assim. (Fecha os olhos e faz
um bico exagerado. Ariel aproveita que Sebastião está de olhos fechados e sai de cena
sem que o caranguejo desconfie).

Sebastião: (Abre os olhos e observa que está sozinho em cena) Cadê? Onde? Ah.. Você
é incorrigível, menina. Sabe disso? Não tem jeito. (Sai de cena)

Trilha transição. Abre a cortina. Fundo do mar.

Entra Tritão, Benjamim e Governanta.

Tritão: Algum sinal deles?

Benjamim: Não, Majestade. Infelizmente não achamos nada.

Governanta: Procuramos por toda parte e não encontramos nenhum sinal de sua filha ou
daquele crustáceo insuportável do Sebastião. Bem que o senhor podia desistir da ideia
de achar o caranguejo.

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Tritão: O que?! Você enlouqueceu?! Desistir de procurar Sebastião é desistir de
procurar Ariel. (furioso) E nunca desistirei da minha filha, ouviu?!

Governanta: (Intimidada, dá risada sem graça) Eu sei, eu sei... Era brincadeirinha.


Nessas horas, senso de humor é fundamental. Hehehe (Vira-se para plateia) Ai, eu não
acerto uma.

Benjamim: Você precisar segurar a onda, Marina. Daqui a pouco Tritão vai perder a
paciência com você.

Tritão: Vão, continuem procurando. Revirem todas as conchas, explorem todos os


corais. Não deixem ninguém dormir neste reino enquanto ela não estiver a salvo em
casa.

Benjamim: Sim, senhor.

Governanta: (entre os dentes) Sim, senhor.

(Benjamim e Governanta saem de cena)

Tritão: (Preocupado) O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz? (Sai de cena)

O cenário se transforma na superfície de uma lago.

Entram Sebastião e linguado.

Sebastião: (Empolgado) O Príncipe saiu cedinho com Ariel. Estão dando voltas pelo
reino inteiro. Já foram na praça, nas tendas de comércio, já dançaram ao som de
músicos de rua... Ariel até conduziu uma carruagem!

Linguado: (Empolgado) É mesmo? Ariel deve estar adorando. Ele já a beijou?

Sebastião: (desmotivado) Ainda não.

Linguado: (desmotivado) Ahh...

Entra Sabidão.

Sabidão: Oi, pessoal! E aí? Alguma beijoca?

Linguado: Ainda não. Deram voltas pelo reino inteiro. Ariel até conduziu uma carruagem!

Sabidão: Mas, eles... Precisam se animar, entrar no clima!

Entram Eric e Ariel em um barco a remo.

Sebastião: Olhem, ali estão eles!

Linguado: (Para Sabidão) Chega pra lá. Tira essas penas da frente. Não consigo ver
nada.

Sabidão: Nada está acontecendo.

Os três observam em silêncio. Ariel e Eric se olham apaixonados.

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Sabidão: (Desmotivado) Só resta um dia, e aquele rapaz não deu nem uma bitoca. Já
sei! Eu acho que isso está precisando de um estímulo romântico vocal. Afastem-se!

(Sabidão chega mais perto do barco, limpa a garganta e começa a cantar alto e
desafinado).

Eric: Puxa, alguém deveria ajudar este coitadinho que está tão infeliz.

(Ariel, envergonhada, ri. Sabidão dá uma piscada de olho para Ariel, fazendo sinal de que
está ajudando a moça. Ariel tapa o rosto, sem acreditar no que está acontecendo).

Sebastião: (Tapando os ouvidos, irritado) Parece que aqui só tem amadores.


(Resmungando) Se você quer a coisa bem feita, tem que fazer pessoalmente. Primeiro
temos que criar o clima. (Tira a batuta do seu bolso e virado para a plateia começa a
fazer gestos como se regesse uma orquestra) Percussão! (A música começa. Ouve-se
somente a percussão da canção) Cordas! (A melodia das cordas é acrescentada) Sopro!
(Ouve-se o barulho do vento) Palavras! (Começa a cantar)

MÚSICA: BEIJE A MOÇA

Sebastião:
Aí está ela,
Aprendendo a namorar,
Nada nada vai falar,
Mas embora não a ouça,
Dentro de você,
Uma voz vai dizer agora,

Beije a moça
Eric: (para Ariel) Ouviu alguma coisa?

É verdade,
Gosta dela como vê,
Talvez ela de você,
Nem pergunte a ela,

Pois não vai falar,


Só vai demonstrar se você,
A beijar

Shala lala lala vai não vai,


Olha o rapaz não vai,
Não vai beijar a moça

Shala lala lala essa não,


Ele não tenta não,
E vai perder a moça

Eric: Eu não me sinto bem sem saber seu nome. Quem sabe eu adivinho. Será, Maria?
(Ariel faz uma cara de quem odiou o nome) hehehe Já sei que não. Que tal Diana? (Ariel
faz cara de nojo) Rachel? (Ariel discorda)

Sebastião: (Sussurrando no ouvido do Príncipe) Ariel. O nome dela é Ariel.

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Eric: (Confuso, olha para lado onde veio a voz de Sebastião, mas o caranguejo se
esconde) Ariel?

(Ariel, muito animada, pega nas mãos do príncipe e confirma seu nome)

Eric: (Feliz) Ariel! (Olha fixamente para Ariel) Hmm, é um belo nome. (Pausa) Está bem,
Ariel.

Ariel e Eric se olham apaixonados.


Esta é a hora,
Flutuando na lagoa,
Veja só que hora boa
Não perca esta chance

Ela não falou,


Ela não vai falar
Se você não a beijar

Shala lala lala vai com fé,


Que agora vai dar pé,
É só você beijar,

Shala lala lala vai em frente,


Não desaponte a gente,
Você tem que beijar

Shala lala lala pegue a mão,


Escute esta canção,
E beije logo a moça
Shala lala lala pra ser feliz,
Faça o que a gente diz
E beije logo a moça

Beije a moça
Beije a moça
Beije a moça
Beije a moça

(Quando os dois estão finalmente se aproximando para um beijo, entram Pedro e Juca
girando o barco. As luzes piscam, barulho de choque, os dois saem de cena. A luz
reestabelece, todos ficam sem entender)

Linguado: (Com medo) O que foi isso?

Sebastião: Deve ter sido um raio.

Sabidão: Na água? Muito improvável.

Sebastião: Tanto faz, isso pode ser algum tipo de tempestade.

Linguado: É melhor irmos embora.

Sebastião: Tem razão. Amanhã temos que fazer esses dois se casar até o sol se pôr.

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(Todos saem. Blackout. Fecha a cortina. Luz no canto esquerdo do palco. Entram Úrsula,
Pedro e Juca.)

Pedro: Pronto, senhora.

Juca: Fizemos tudo do jeitinho que a senhora mandou.

Pedro: Eles ficaram apavorados.

Juca: Sem entender absolutamente nada.

Pedro: E o mais importante...

Juca: O que é o mais importante?

Pedro: Como assim? Já esqueceu.

Juca: Ah, lembrei.

Pedro: Os dois não se beijaram!

Úrsula: Bom trabalho, meninos. Agora chegou bem perto... Perto demais! (Com raiva)
Vigarista! (Pensativa) Ela é melhor do que eu pensava. Deste jeito na certa ele vai beijá-
la até o pôr do sol.

Pedro: E o que você vai fazer, chefinha?

Juca: É, o que você vai fazer?

Úrsula: Estou pensando, bebês.

Pedro: Com todo respeito, senhora... Não há muito tempo para pensar.

Juca: Verdade, se ela o beijar, pufffff, acabou o nosso plano e a sereia será feliz.

Úrsula: (perdendo a linha) EU SEI!!! (retomando a compostura) Oh, mas estão de


parabéns estes meus pimpolhos. Já estão conseguindo pensar sozinhos é?

Pedro e Juca ficam envaidecidos.

Úrsula: Agora saiam daqui, estão dispensados por hoje. Já pensaram demais (Pedro e
Juca saem de cena). O que estou pensando em fazer, será algo infalível (A luz baixa e
começa uma trilha tensa em background) Já está na hora de fazer isso com meus
próprios tentáculos. (Abre um livro antigo e começa preparar uma poção mágica em um
caldeirão) Tudo o que eu preciso é de 20 ml de grito de sereia triste, 3 fios de cabelo
humano, uma escama de Nereu, uma pitada de beleza em pó e o mais importante.
(Pega a concha mágica e a joga no caldeirão) A voz de Ariel!! (Risada maléfica. Luzes
piscam e a trilha aumenta) A filha de Tritão será minha! E então eu o farei sofrer. (Retira
do caldeirão um colar com uma miniatura da concha mágica, que possui luz própria) E
ele irá se retorcer como uma minhoca num anzol! (Risada maléfica, música alta, fumaça,
luzes piscando. Em um breve blackout deve ser feita a troca de atrizes. Ao voltar a luz, há

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uma nova atriz, vestida de princesa, dando a entender que Úrsula se transformou em
humana. Ela sai de cena, a trilha cessa).

Novo blackout acontece juntamente com uma trilha para a transição de cena.
Abre a cortina. Interior do castelo

Entra Eric, cabisbaixo e pensativo. O príncipe carrega uma flauta e começa a tocar os
acordes que ouviu da Sereia. Em seguida entra Grimsby, preocupado.

Grimsby: Eric? Se me permite dizer... Muito melhor que a garota dos sonhos é uma de
carne e osso, com amor e carinho, e bem diante de seus olhos.

(Ariel entra em cena e percebe que o príncipe está conversando com Grismby e se
esconde. Eric levanta a cabeça, pensativo, dando um sorriso e concorda com o Grimsby)

Eric: Ariel!

(Eric se enche de coragem e ameaça jogar a flauta longe. Ariel sorri e vai em direção ao
príncipe, mas antes de ser vista por eles, ouve-se o canto da voz Ariel. A sereia olha para
os lados, sem entender o que está acontecendo. O príncipe olha fixamente para o fundo
do auditório, onde está entrando Úrsula disfarçada de Vanessa. Ela sobe no palco e se
abraça em Eric. Ariel, assustada, se esconde novamente).

Eric: (Hipnotizado) Faz tempo que procuro por você. Onde você esteve?

Vanessa: Agora ficaremos juntos e seremos eternamente felizes.

Grimsby: Parece que eu estava enganado. Sua donzela misteriosa de fato existe. E ela é
uma beleza. (Beijando a mão de Vanessa) Prazer em conhecê-la, senhora.

Vanessa: Oh, o prazer é todo meu. Mas não me chame de senhora.

Grimsby: Como posso chama-la, então?

Eric: Como é o seu nome?

Vanessa: (Nervosa, como quem foi pega de surpresa) Me.. me... Meu nome? é... Meu
nome é... Pode me chamar de Vanessa.

Eric: (Hipnotizado) Vanessa... Que lindo nome.

Grimsby: Então... (Fazendo reverência) Muito prazer, Vanessa. Meus parabéns, querida.

Eric: Queremos nos casar...

Vanessa: O mais breve possível!

Grimsby: Sim, claro, Eric, mas essas coisas levam tempo, você sabe...

Eric: Mas, Grimsby...

Vanessa: Hoje à tarde!

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Eric: (Gostando da ideia) Isso! Hoje à tarde! Partimos para a lua de mel
em seguida.

Grimsby: Muito bem, Eric. Como quiser.

(Trilha triste. Eric, Vanessa e Grimsby saem de cena, enquanto Ariel, que está escondida
no canto do palco, é iluminada. Ela está triste. Entra Sabidão).

Sabidão: (Feliz) Ariel, acorde! Acorde! Eu tenho novidades! Parabéns, garota, nós
conseguimos!

(Ariel não entende)

Sabidão: Como se vocês não soubessem, né? Toda a cidade está falando que o príncipe
será fisgado esta tarde! Entende? Ele vai se casar. Ouviu o que eu disse? Mil felicidades.
(Dá três beijinhos em Ariel) Agora tenho que ir. Não posso perder! (Sai de cena. Ariel
começa a chorar e também sai de cena.)

Sabidão: (Volta) Ah, Ariel! Esqueci de lhe perguntar se você tem uma bruguzumba para
me emprestar? Sabe como é, né..

Observa Vanessa, que entra em cena rindo e cantando, enquanto penteia os cabelos.

MÚSICA: CORAÇÕES INFELIZES (REPRISE)

Vanessa:
Eu duvido que haja noiva
Mais bonita do que eu
Até agora estou gostando
do que me aconteceu
Terei logo a sereia
e o oceano será meu...

(Vanessa se olha no espelho e aparece a imagem de Úrsula. Enquanto Vanessa sai de


cena, Sabidão grita)

Sabidão: (Assustado) A bruxa do mar! Oh, não! Ela vai... Eu tenho que...ARIEEEEL!!

Entram Ariel, Sebastião e Linguado.

Sabidão: Ariel, eu voltei para te pedir a bruguzumba emprestada... e eu vi... O espelho...


A bruxa estava se olhando no espelho, e ela cantava e dançava na frente do espelho!

(Ariel, Sebastião e Linguado ficam confusos)

Sabidão: (Descontrolado) Está ouvindo o que estou lhe contando? O príncipe vai se
casar com a bruxa do mar disfarçada!

(Ariel se assusta)

Sebastião: (Incrédulo) Tem certeza disso?

Sabidão: Eu nunca me engano! Isso é, quando é importante.

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Linguado: (Apavorado) E o que vamos fazer?

Ariel se desespera e fica pensativa. Ouve-se uma gravação com a voz da Úrsula

Úrsula: (em OFF) Antes do pôr do sol do terceiro dia.

Ariel sai correndo.

Linguado: (Apavorado) Ariel!! O que eu faço?

Sebastião: Linguado, leve-a até o casamento o mais rápido que


suas barbatanas puderem.

Linguado: Eu vou tentar! (Sai de cena)

Sebastião: Tenho de avisar o rei dos mares. Ele tem que saber disso.

Sabidão: E eu? E o que eu faço?

Sebastião: Você? Ache um jeito de impedir aquele casamento! (Sai de cena)

Sabidão: Eu impedir o casamento? Mas como que eu...? Ah, já sei! (Sai de cena)

(Música para o casamento começa. Entram figurantes construindo em cena aberta o


ambiente para o casamento. Tapete, flores, velas, panos, entre outros são posicionados
sincronizadamente em cena aberta. Em seguida, a figuração posiciona-se como se
fossem convidados da festa. Entra Grimsby, o Padre, e em seguida Vanessa e Eric. Os
dois estão com as vestimentas típicas de um casamento real. Eric está visivelmente
hipnotizado).

Padre: Vamos iniciar a cerimônia... Noivos caríssimos, minhas senhoras, meus senhores.
Estamos reunidos aqui hoje para celebrar o matrimônio de duas pessoas que se amam, e
que ele seja firmado com o sagrado selo de Deus. Você, Eric, aceita Vanessa como sua
legítima esposa para toda a vida e eternidade?

Eric: Aceito.

Padre: E você Vanessa, aceita Eric...

(Nesse momento ouve-se o som de animais. Vanessa olha para baixo do vestido e um
peixe sai debaixo das suas pernas, ela grita. Chega Sabidão e um monte de pássaros e
criaturas do mar. A confusão é geral, apenas o padre continua lendo o discurso
matrimonial calmamente).

Sabidão: Atacar!!!

Vanessa: Afaste-se de mim, seu bicho repugnante. (Sabidão briga com Vanessa para
tentar pegar o colar com a concha brilhante, até que consegue)

Vanessa: Miserável

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(Sabidão coloca o colar em Ariel. Ouve-se o canto de Ariel, o colar para de brilhar, a
sereia põe as mãos na garganta. Todos olham espantados, inclusive Vanessa que está
com muita raiva. Eric sacode rapidamente a cabeça e sai da hipnose).

Ariel: (Tímida) Oi, pessoal.

Eric: (Surpreso) Ariel?

Ariel: (Feliz) Eric!

Eric: (Feliz) Você... Pode falar? Então é você.

Vanessa: (Com a voz da Úrsula) Eric, afaste-se dela.

(O sol está se pondo)

Eric: (Pegando nas mãos de Ariel) Era você o tempo todo.

Ariel: Eric, eu queria te falar.

Vanessa: (Com a voz da Úrsula e desesperada) Eric, não!!!!

(Quando Eric e Ariel aproximam-se para se beijarem, o sol se põe. Ariel dá um pulo e
reage como se estivesse com dor)

Vanessa: Agora é tarde! Ahahahahahha (Luzes piscam, muita fumaça em cena, trilha
alta, todos estão assustados. Nesse momento Ariel precisa colocar sua cauda e Vanessa
ser substituída por Úrsula) Tarde demais! ahahahahaha

(Úrsula pega pelo braço de Ariel)

Úrsula: Adeusinho, jovem namorado. Vamos voltar para o mar que é o nosso lugar! (Sai
de cena)

Eric: (Assustado) Ariel!

Blackout. Todos saem de cena. O palco se transforma em fundo do mar.

Entra Úrsula carregando Ariel

Úrsula: Pobre princesinha. Não é você quem eu quero. Quero um peixe muito maior.

Entram Sebastião e Tritão. Tritão está furioso apontando seu Tridente para a bruxa do
mar.

Tritão: Ursula, pare!

Úrsula: (Calma e debochada) Ora, Rei Tritão! Como vai você?

Tritão: Deixe-a ir embora!

Úrsula: Não deixo, Tritão! Ela é minha agora! Temos um acordo.

(Pedro entra em cena e mostra o contrato)

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Ariel: Papai, me desculpe! Eu...Eu não pretendia fazer! Eu não sabia!

(Tritão mira seu tridente no contrato. As luzes piscam e efeitos sonoros tocam dando a
entender que tritão está atirando no papel. Mas nada acontece)

Úrsula: Está vendo? O contrato é legal, fechado e não pode ser anulado, nem por você.
Mas é claro, sempre fui uma pessoa disposta a negociar. A filha do grande rei dos mares
é uma verdadeira preciosidade. Mas eu posso estar interessada em uma troca, por
alguém ainda melhor.

(Pedro mostra o contrato e entrega uma caneta a Tritão)

Úrsula: Então, vamos fazer uma troca?

(Tritão assina)

Úrsula: (Comemorando) Está feito! HAHAHAH

Ariel: Não!

(Som de explosão, fumaça, as luzes piscam. Tritão sai escondido e deixa em cena
somente a coroa e o tridente. Após a luz voltar ao normal, começa uma trilha triste);

Sebastião: (Triste) Vossa Majestade!

Ariel: Papai!

Úrsula: (Recolhendo o tridente e vestindo a coroa) Até que enfim... É minha!

Ariel: Você é um monstro! (Parte para cima de Úrsula)

Úrsula: (A derrubando no chão e a ameaçando com o tridente) Não brinque comigo,


mocinha! Com ou sem contrato eu faço o mesmo que fiz com o seu pai...

(Eric entra em cena e pega Ariel pelo braço)

Úrsula: Seu idiota.

Ariel: Eric! Eric, cuidado! O que está fazendo?

Eric: Já te perdi uma vez e não vou perdê-la novamente!

Úrsula: (Apontando o tridente para Eric) Diga adeus para o seu namorado.

Ariel: Eric, você tem que sair daqui.

Eric: Não, não vou deixar você.

(Os dois dão a volta no palco, assustados. As luzes piscam e há muita fumaça em cena).

Úrsula: Seus idiotas, pensam que podem comigo? Agora sou a rainha dos mares!

Ariel: Eric!

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Eric: Ariel!

Úrsula: As ondas obedecem aos meus caprichos!

Ariel: Eric!

Eric: Ariel!

Úrsula: O mar e tudo o que ele contém se curvam ao meu poder!

(Úrsula pega Ariel pelo braço).

Úrsula: Volta aqui, queridinha! (Aponta o tridente para Ariel) Tanto esforço por um
verdadeiro amor!

(Eric empurra Úrsula, que deixa cair o tridente. Ariel pega o objeto mágico e dispara na
Bruxa).

Úrsula: Nãããããooo!!!

Som de explosão. fumaça, luzes piscam, Úrsula desaparece. Fecha a cortina.

Luz clara, trilha feliz, entram Sabidão, Linguado e Sebastião.

Sabidão: Ei, rapazes! Que bom que ocorreu tudo bem, não é?

Linguado: Que bom ver vocês novamente. Fiquei com tanto medo que aquela bruxa
acabasse com o reino inteiro.

Sebastião: É verdade. Mas dessa vez deu tudo certo e o rei Tritão está de volta!

(Entra Tritão, acompanhado de Marina e Benjamim)

Sebastião: Olá, Majestade. Esta falando do senhor.

Marina: Não puxa o saco, caranguejo.

(Tritão está cabisbaixo)

Sebastião: Está tudo bem, com o senhor?

Benjamim: Ele está assim desde que voltou para o palácio.

Tritão: Ela realmente o ama, não ama, Sebastião?

Sebastião: Bem, é como sempre digo, Majestade. Os jovens tem que ser livres pra
viverem suas próprias vidas.

Marina: hahahah Você sempre diz isso? Conta outra!

Benjamim: Marina está certa. Você é o mais conservador de nós todos.

Tritão: Não lembro de ouvir você falar uma coisa dessas.

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Sebastião: Ué, as pessoas mudam.

Tritão: (Suspira) Então acho que só me resta um problema.

Marina: E qual é ele, Majestade?

Tritão: A falta que vou sentir dela. (Sai de cena)

Trilha de casamento. Abre a cortina, o cenário é de casamento. Todo elenco está em


cena, exceto Úrsula, Pedro e Juca.

Aquata: Que orgulho da nossa maninha!

Andrina: E não é que ela conseguiu o que queria?

Attina: É mesmo! Essa danadinha nunca desistiu. Tanto lutou que achou seu príncipe.

Atena: (Debochada) Ela é um exemplo para as solteironas do reino. Não é, Adela e


Alana?

Adela: (Furiosa) Olha quem fala!

Alana: Pffff! Cadê o seu marido, Atena? Não estou vendo.

Astéria: Calma, meninas! Não vão estragar o casamento da nossa Ariel.

Arista: Meninas, meninas! Vai começar. Ela está linda!!!

(Toca a música, entram os noivos e se beijam).

MÚSICA: PARE DO SEU MUNDO (REPRISE)

Vamos andar, vamos correr


Ver todo dia o sol nascer
E sempre estar
Em algum lugar
Só seu e meu.

Fim.

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