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Resenhas

GEOgraphia
Niterói, Universidade Federal Fluminense
ISSN 15177793 (eletrônico)
Vol.19, No39, 2017: jan./abr.

Resenhas

VESENTINI, José William (2013). Novas Geopolíticas. 5ª edição. São Paulo: Editora Contexto.

Gabriel Saldanha Lula de Medeiros*

José William Vesentini é professor do departamento escreveu um livro chamado “O Estado Como Forma de
de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Vida”. Ele definia a geopolítica como sendo “a ciência
Humanas da USP. É considerado um dos pioneiros da que estuda o Estado como organismo geográfico”.
geografia crítica no Brasil. Seus livros são, geralmente, Após a queda do modelo hegemônico unipolar que
voltados para o ensino da geografia e para a geopolítica. tinha a Inglaterra no centro do poder até o século XVIII,
Entre suas obras mais importantes destaca-se “Geografia, a tendência da hegemonia era tornar-se multipolar, com
Natureza e Sociedade”. o poder centrado nas mãos das principais potencias
Neste livro, “Novas Geopolíticas”, Vesentini traz à luz europeias. Com isso, até o século XX, estas potências
uma discussão acerca dos conflitos geopolíticos que protagonizavam disputas de ordem econômica e
poderão ser palco das disputas pela hegemonia e poder territorial. A partir destas disputas a geopolítica passou
no século XXI. Para isso, ele faz um recorte histórico a ser um campo de estudo dominado pelos militares e
sobre o desenvolvimento dos estudos geopolíticos geógrafos, servindo principalmente aos interesses dos
desde a geopolítica clássica, teorizada pelos militares Estados. Além do mais, na época, não era comum a
e geógrafos, com foco nos Estados, até os dias atuais, ideia de interdisciplinaridade, engessando os estudos
onde há uma profunda interdisciplinaridade nos estudos geopolíticos nas mãos destes.
da área, com contribuições de intelectuais de vários Os estudos geopolíticos ganharam certa
segmentos como a Sociologia, Antropologia, Economia, popularidade na Europa, porém, esta popularidade
História. Isto se faz necessário pois, segundo o autor, aumentou consideravelmente a partir da criação da
os conflitos na contemporaneidade, principalmente no Revista de Geopolítica (Zeitschrift fur Geopolitik) que
século XXI, tendem a não ser mais exclusivamente entre circulou na Alemanha entre 1924 e 1944. De acordo
Estados em busca de poderes econômicos e territoriais, com Vesentini, esta revista foi responsável por tornar
podendo ser até mesmo de ordem cultural. a geopolítica mundialmente conhecida e que, sem a
De acordo com Vesentini, a geopolítica surgiu com popularidade da revista não só em território alemão mas
o status de ciência no início do século XX, a partir de também em vários outros países europeus, a geopolítica
publicações feitas pelo professor sueco Rudolf Kjellén. possivelmente não teria logrado o status de ciência.
Este era professor de História e Ciência Política das Esta revista foi fundada e chefiada por Karl
universidades de Göteborg e Uppsala e, em 1916, Haushofer, que acreditava em ideias, na época comuns à
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Acadêmico do curso de Geografia da Univarsidade Federal do Rio Grande do Norte. sociedade alemã, sobre a superioridade da raça ariana e
E-mail: gabriellula96_@hotmail.com
a necessidade do “espaço vital” (conceito desenvolvido

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por Ratzel) para o desenvolvimento da Alemanha. As motivos. O primeiro deles é que a redução drástica de
ideias propagadas por Haushofer na revista eram, muitas Estados socialistas após a Guerra Fria abriria espaço
vezes, repetidas em salas de aula de escolas básicas para a disputa capitalista de mercado. Com a revolução
ou universidades, uma vez que o periódico contava com tecnológica (ou terceira revolução industrial), avanço do
a contribuição de intelectuais da geografia e demais liberalismo e a globalização, os Estados passariam a ter
ciências, professores universitários, que repetiam seus menos influencia no mercado, separando as disputas
conceitos e concepções para os alunos. econômicas independentes de questões nacionais,
De certa forma, Haushofer contribuiu para a militares ou ideológicas como em outras épocas.
disseminação dos ideais nazistas que, em determinada
medida, estavam em consonância com aquilo que se Por esse motivo, a disputa atual não mais consistiria em
publicava em sua revista. Não se sabe se a publicação produzir maior quantidade de armamentos ou anexar
recebia algum incentivo do governo alemão para isso, novos territórios (seja militar ou ideologicamente,
como na época da guerra fria), e sim em produzir
porém, Vesentini diz que Haushofer, apesar de ser casado maiores e melhores bens de serviços, ampliando a
com uma judia, foi apresentado a Hitler por um amigo em produtividade, o nível tecnológico e educacional, o
padrão de consumo da população enfim. (VESENTINI,
comum que contribuia com a revista, o senhor Rudolf 2013, p. 33).
Hess.
Na década de 1940, com o fim da Segunda Guerra Vesentini ressalta a importância dos blocos
e o fim dos Estados nazista e fascista, a geopolítica econômicos nestes conflitos. Para ele, antes mesmo
clássica entrou em declínio, sendo altamente criticada do fim da URSS, já se debatia na imprensa e nos meios
pelos intelectuais durante os anos que se seguiram. acadêmicos quais seriam os blocos de poder a “dominar”
Devido o seu caráter militarizado, era vista como uma uma suposta nova ordem mundial com o fim do regime
fomentadora de estratégias de guerra e de legitimação de socialista soviético e, consequentemente, a queda da
ações repressoras e desastrosas. Até os anos de 1970, a bipolaridade capitalismo versus socialismo. Por isso,
geopolítica foi criticada e, nos mais importantes ciclos esta ideia dos blocos e megablocos não tem uma autoria
intelectuais e acadêmicos, não se produziam trabalhos definida.
na área.
De acordo com o autor, naquele período, os EUA, o
Entre os anos de 1970 e 1980, no contexto da Guerra oeste europeu e o Japão apresentavam grande progresso
Fria, houve a preocupação no meio intelectual com o econômico sendo considerados a tríade do sistema
advento de uma terceira guerra mundial provocada pelas capitalista. Esta é a razão pela qual se acreditava que
rusgas ideológicas entre capitalismo e socialismo, EUA e estes três constituiriam megablocos que dominariam
URSS, e gastos em armamento que as vezes chegavam a ordem de poder pós Guerra Fria. Os EUA lideraria um
a oitocentos bilhões de dólares por ano. Então, viu-se megabloco constituído pelas américas; o oeste europeu
a necessidade de produzir estudos geopolíticos para outro (com a Alemanha no comando) constituído pela
entender a configuração de poder da época, que pouco Europa e África; e o Japão lideraria o último, abrangendo
tinha a ver com disputas entre Estados e sim entre Ásia e Oceania. É importante dizer porém, que a
ideologias, além de tentar evitar uma possível guerra estagnação da economia japonesa no final do século XX
mundial. e o alto crescimento dos índices econômicos chineses
Com o fim da Guerra Fria, o esfacelamento da União fizeram alguns estudiosos pensarem que a China pode
Soviética e a reconfiguração territorial do mundo, a liderar este último megabloco.
geopolítica tem se dedicado a tentar compreender as Uma ideia de muitos adeptos é a do “sistema-mundo”,
novas relações de poder que tendem a surgir a partir onde alguns Estados com maior poder econômico, como
destes acontecimentos. Tentar compreender a chamada os Estados Unidos, seriam considerados “potencias
nova ordem mundial é a preocupação da geopolítica hegemônicas”, porém, não eram os projetos geopolíticos
atual. destas potencias que comandariam as dinâmicas
Vesentini elenca alguns intelectuais que, para ele, econômicas e de poder na nova ordem mundial, e sim um
melhor elaboraram teorias referentes às dinâmicas sistema-mundo, global, de economias interdependentes.
da nova ordem mundial. Edward Luttwak (professor Um sistema pautado numa economia liberal, globalizada,
do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de de cooperação. Sendo assim, os Estados passariam
Washington) foi o primeiro a desenvolver a ideia de que ainda a ter alguma importância, porém, as dinâmicas não
a nova ordem mundial não estará mais relacionada a seriam definidas por eles, e sim pelo que alguns autores
ordens militares ou ideológicas, e sim econômicas. Em chamam de geoeconomia global.
1990, num artigo publicado na revista americana The Vários autores consideram que alguns Estados ainda
National Interest, Luttwak diz que a geoeconomia está têm um papel hegemônico no decorrer do século XXI.
substituindo a geopolítica, e isto se dá por uma série de

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José Luís Fiori, em seu texto “A nova geopolítica das entre nações e grupos de diferentes civilizações. “As
nações e o lugar da Rússia, China, Índia, Brasil e África linhas de cisão entre as civilizações serão as linhas de
do Sul”, publicado na Revista Economia Heterodoxa, batalha do futuro” (HUNTINGTON, 1997, p. 120).
em 2007, acredita que o sistema político mundial da Para Huntington, as diferenças civilizacionais podem
atualidade nasceu na Europa há séculos. As grandes ser profundas, mas, com a globalização, o mundo vem
potências europeias tinham a necessidade de conquistar “diminuindo”, tornando maior o contato entre as pessoas,
territórios, estabelecer grandes impérios, para o acumulo inclusive as que pertencem a diferentes civilizações.
de riquezas. Antes, a expansão econômica se dava a Isto acaba por acentuar as diferenças civilizacionais
partir da expansão territorial efetiva, com conquistas de e aumentar as rusgas entre determinados grupos.
novos territórios, guerras. Hoje, a expansão é, de fato, Além disso, as características culturais são menos
econômica e não mais necessariamente feita a partir de mutáveis, mais difíceis de conciliar. Por fim, o autor diz
conquistas territoriais. que o fortalecimento do regionalismo econômico, com
Fiori acredita que os Estados Unidos continuam sendo os blocos econômicos, tem enrijecido ainda mais a
a maior potência hegemônica, não só por seu poder chamada consciência civilizacional, só podendo ser bem
econômico, mas pelo poder militar. Com a sua força sucedido este regionalismo econômico se pautado em
militar, os EUA investiu em invasões no Oriente Médio uma civilização comum.
a fim de desmantelar sistemas políticos locais mais A partir da discussão trazida por José William
fechados, como o de Saddam Hussein, e estabelecer Vesentini, em confronto com leitura de outros autores,
democracias aos moldes liberais e ocidentais. Com isto, podemos concluir que a nova ordem mundial ainda
ganhar-se-ia mais um parceiro comercial, aumentando não está estabelecida por completo, mas o poder que
as possibilidades de lucros americanos. as dinâmicas econômicas a nível globalizado exercem
Há, porém, alguns fatores que colocam em xeque sobre ela já está posto. Alguns autores descartam a
o projeto expansionista americano: o primeiro deles hegemonia de alguns Estados, teorizando a nova ordem
é o crescimento da economia chinesa, com práticas não como geopolítica e sim como geoeconômica.
comerciais em todos os continentes. O segundo Os Estados Unidos é ainda a maior potência militar
obstáculo é o surgimento de movimentos em busca de do mundo e durante o século passado mostrou ser
autonomia e supremacia no Oriente Médio fomentado um poderoso expoente econômico. Como oposição
pelas constantes invasões americanas e, outrora, ao projeto americano de expansão econômica, vários
soviéticas. Estes movimentos de supremacia regional autores destacam a China com o seu acentuado
tem ganhado força também através do radicalismo crescimento e práticas comerciais intensas ao redor do
islâmico. Radicalismo esse que através de ações mundo, os países islâmicos e o radicalismo religioso,
terroristas, tem investido em atentados contra o ocidente além de alguns países socialistas, em específico na
e suas principais potências liberais. América Latina.
Samuel Huntington (1997) acredita que, com o “Novas Geopolíticas”, de José William Vesentini é,
esfacelamento da União Soviética, o ocidente passou portanto, indicado não só a estudantes de Geografia,
a exercer maior poder com relação a outros grupos mas a pessoas de várias áreas de interesse uma vez
civilizacionais. As potências ocidentais dominam os que os conflitos na nova ordem mundial tenderão a ser,
órgãos internacionais de política e segurança, bem segundo os autores apresentados, de inúmeras vertentes:
como as instituições econômicas. Por meio disto, o econômicas, culturais, ideológicas, políticas, religiosas.
ocidente impõe aos outros países, políticas que julgam É um livro que abrange o interesse de estudiosos das
apropriadas além de promovê-las. As diferenças de Ciências Humanas em geral. É, antes de qualquer coisa,
poder e as disputas por eles (econômicos, políticos e um livro de caráter filosófico, onde são apresentadas
militares) são as bases para as rusgas entre o ocidente teorias a respeito do desenrolar das relações de poder
e demais grupos. Segundo ele, no futuro, parte dos no mundo durante o século XXI.
conflitos tende a ser de resistência ao “imperialismo”
econômico, liberal, do ocidente, capitaneado pelos EUA.
E, por isso, os grandes obstáculos para o expansionismo
econômico americano são, sob sua visão, a China e os
países islâmicos do Oriente Médio.
Porém, Samuel Huntington, em “O Choque das
Civilizações” (1997), diz que os conflitos, no futuro, não
serão essencialmente econômicos ou ideológicos, e
sim culturais. Os Estados-nações continuarão sendo os Data de submissão: 16/11/2016
Data de aceite: 10/03/2017
agentes de maior relevância, porém os conflitos se darão Data de publicação: abril/2017

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