Você está na página 1de 170

Capa

Anais
I I Simpósio
em Práticas
Interpretativas
UFRJ
2016
ISBN XXXXXXXX

Anais
III Simpósio
em Práticas
Interpretativas
UFRJ
2016
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA (PPGM)
Programa de Pós-Graduação Profissional em Música da UFRJ (PROMUS)
ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
Reitor: Roberto Leher
Vice-reitora: Denise Fernandes Lopez Nascimento
Pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa: Leila Rodrigues da Silva
Pró-Reitor de Graduação: Eduardo Gonçalves Serra
Pró-Reitora de Extensão: Maria Mello de Malta
CENTRO DE LETRAS E ARTES
Decana: Flora de Paoli Faria
ESCOLA DE MÚSICA
Diretora: Maria José Chevitarese
Vice-diretora: Andrea Adour
Diretor Adjunto de Graduação: David Alves
Diretor Adjunto do Setor Artístico: Marcelo Jardim
Diretor Adjunto dos Cursos de Extensão: Ronal Silveira
Coordenador do Curso de Licenciatura: Andrea Adour
Coordenador do Programa de Pós-graduação em Música: Pauxy Gentil-Nunes
Coordenador do Programa de Pós-Graduação Profissional em Música: Aloysio Fagerlande
Edição: Aloysio Fagerlande
Projeto gráfico editoração e tratamento de imagens: Francisco Conte
Capa: Fernanda Esteves
SECRETARIA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA (PPGM)
Beth Villela e Valeria Penna
SECRETARIA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFISSIONAL EM MÚSICA (PROMUS)
Marta Lisbôa
SETOR DE COMUNICAÇÃO DA ESCOLA DE MÚSICA
Fabríca Medeiros, Fernanda Estevam, Francisco Conte e Meri Toledo Fraga
SETOR ARTÍSTICO
Francisca Marques, Jandia Backx, Rosimaldo Martina, Paula Buscácio e Suely Franco
Endereço para correspondência:
Secretaia de Pós-graduação da Escola de Música da UFRJ
Edifício Ventura Corporate Towers
Av. República do Chile, 330
21o andar, Torre Leste
Centro - Rio de Janeiro, RJ
Brasil
CEP: 20.031-170
Tel.: 55 21 2262-8742
E-mails: posgraduacao@musica.ufrj.br e promus@musica.ufrj.br

REALIZAÇÃO APOIO INSTITUCIONAL


Sumário

Apresentação 9
Recitais conferência
Ricardo Vieira 13
Os princípios da música universal de Hermeto Pascoal como processo
composicional de corpo presente num duo de harmônica e 7 cordas
Miguel Garcia 15
Peças e arranjos para violão e acordeom
Daniela Mesquita 17
Kindertotenlieder: alguns aspectos de uma abordagem interpretativa
Jorge Ignacio Mathias 19
A influência da cultura africana na música vocal do Brasil e Estados Unidos
da América
Wesley Guedes 21
A interação cênica no repertório clarinetístico: performance e análise
crítica
Thiago Vieira Pereira 23
A música de câmara brasileira para trompete e os desafios da otimização
da performance
Philip Michael Doyle 25
A trompa na obra de Heitor Villa-Lobos: excertos orquestrais e camerísti-
cos – Os Choros
Paulo César Botelho de Souza 27
Choros originais para violão solo: João Pernambuco, Canhoto, Garoto e
Dilermando Reis
Jeferson Luiz da Silva Souza 29
Iniciação ao estudo da improvisação na música popular brasileira sob a
orientação de Leandro Braga aplicada ao fagote
Felipe Clark Portinho 31
Ritmos brasileiros no contrabaixo: o choro de Pixinguinha e Radamés
Mateus Ceccato 33
Sonata Op. 21 para Violoncelo e Piano, de Henrique Oswald: considerações
interpretativas para a construção da performance
Artigos
Daniel Serale 37
Percussão teatral: conceito, abordagens e notação através de exemplos de
obras de Mauricio Kagel
Samanta Adriele Neiva dos Santos 45
Edição musical: conceitos e reflexões
Gladson Leone Rosa 53
Avaliação: conceitos e possibilidades
Aleyson Mariano Scopel e Ana Paula da Matta M. Avvad 63
Harmonia peregrina na obra para piano de Almeida Prado: estudo de caso
na Nebulosa Planetária NGC3195 das Cartas Celestes XV
Flavio Leite Correia 71
Liberdade na arte: três encontros com a ópera contemporânea brasileira
Eduardo Lucas da Silva e Maria José Chevitarese 79
Listagem de softwares de editoração de partituras
Janaina Botelho Perotto 87
O Nonetto e as palhetas duplas na música de câmara de Villa-Lobos antes
de Paris.
Sergio Vitor Ribeiro 97
O primeiro movimento da Sonatina Dodecafônica para dois violões de
Marcos Alan, sob a ótica Tripartite (Nattiez): análise indutiva
Joab Muniz 107
Projetos sociais em música: uma revisão de literatura
Renata Ribeiro Athayde e Ana Paula da Matta Machado Avvad 117
Sonata para violino e piano op. 36, de Henrique Oswald: uma edição práti-
ca do segundo movimento da parte de violino
Raquel Santos Carneiro 129
Quatro Peças Brasileiras – Maroca - para quarteto de fagotes (1983) de
Francisco Mignone: proposta de edição crítica
Fabrício Malaquias Alves 139
Severino Gazzelloni e a revalorização da flauta na Itália do século XX: a
Gazzelloni-Musik
Fernando Pereira 149
Conceitos técnicos da escola germânica de violino do século XIX
Erika Suellen Machado Gama e Ana Paula da Matta M. Avvad 159
A interpretação pianística do poema Einklang, de Nicolaus Lenau, em
Alberto Nepomuceno
I I Simpósio
em Práticas
Interpretativas
A REALIZAÇÃO do III Simpósio em Práticas Interpretativas UFRJ visa dar continui-
dade ao processo de criação de parâmetros norteadores para uma melhor inserção
das práticas interpretativas nos cursos de pós-graduação em música, através de um
evento que explore diversos formatos de apresentação de resultados de investiga-
ções – acadêmicas, artísticas e processuais –, fortalecendo e consolidando seu papel
dentro dos programas de pós-graduação em música.

Dezembro de 2016
Professor Dr. Pauxy Gentil-Nunes, coordenador do PPGM
Professor Dr. Aloysio Fagerlande, coordenador do PROMUS

Comissão Organizadora
Professor Dr. Pauxy Gentil-Nunes
Professora Dra. Midori Maeshiro
Professora Dra. Ana Paula da Matta Machado Avvad
Professor Dr. Aloysio Fagerlande

Comissão de Pareceristas
Professor Dr. Luis Carlos Justi (UNIRIO)
Professor Dr. Lucas Robatto (UFBA)
Professora Dra. Miriam Grosman (UFRJ)
Professor Dr. Paulo Sá (UFRJ)
Professora Dra. Ana Paula da Matta Machado Avvad (UFRJ)
Professora Dra. Midori Maeshiro (UFRJ)

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 9


Recitais Conferência
Os princípios da música universal
de Hermeto Pascoal como processo
composicional de corpo presente num duo
de harmônica e 7 cordas

Ricardo Vieira
UFS – ricardovieira.mus@gmail.com

O NOSSO trabalho tem como objetivo apresentar a relação estabelecida entre alguns
princípios da música universal proposto por Hermeto Pascoal e o processo composicio-
nal e interpretativo de três peças para duo de harmônica e violão de 7 cordas. Além
disso, visamos explanar sobre como o processo ocorre segundo o método de corpo pre-
sente. Metodologicamente,
fazemos alusão ao primei-
ro (a harmonia é a mãe da
música, o ritmo é o pai e a
melodia ou o tema é o filho),
terceiro (bom gosto não se
aprende na escola), décimo-
-quarto (a prática é quem
manda) e décimo-quinto (é
preciso usar a teoria a favor
da música). De fato, tudo acontece no momento em que nos encontramos enquanto duo
de harmônica e violão de 7 cordas. O repertório proposto para apreciarmos as ideias aci-
ma citadas é composto por três peças autorais intituladas de Marco, Taieira e Estrella So-
litaria, escolhidas pelo fato destas se apoiarem no terceiro princípio da música \ universal
de Hermeto. Todo e qualquer elemento da teoria e estruturação musical foi resultado
da prática, corroborando com Borém e Araújo, em que favorecendo a prática, e não a
teoria, na sua rotina musical, Hermeto alcançou um nível criativo em que a improvisação
tornou-se muito próxima da composição

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 13


Peças e arranjos para violão e acordeom

Miguel Garcia
UFRJ – miguelgarciamusico@gmail.com

O PRESENTE trabalho apresentará três arranjos e quatro peças compostas para duo de
violão e acordeom. Embora esta formação seja importante na tradição cultural brasileira,
utilizada por músicos renomados como Dominguinhos, Yamandu Costa, Raphael Rabello,
Chiquinho do Acordeom, ainda é pequeno o repertório para esta instrumentação. As
peças estão sendo compos-
tas buscando influência no
universo dos ritmos popu-
lares brasileiros, retraba-
lhados em uma linguagem
contemporânea, onde estão
presentes, por exemplo, téc-
nicas não ortodoxas e influ-
ências provenientes de ou-
tras linguagens musicais. A
divulgação das obras e a ampliação da literatura para o duo são os principais objetivos do
projeto. Aqui serão destacadas as referências utilizadas nas composições e nos arranjos,
os procedimentos do processo de composição e a metodologia adotada para alcançar os
resultados propostos.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 15


Kindertotenlieder: alguns aspectos de uma
abordagem interpretativa

Daniela Mesquita
UFRJ – mesquitadaniela@hotmail.com

OS KINDERTOTENLIEDER de Gustav Mahler (1860-1911) são um ciclo de cinco canções


sobre textos de Friedrich Rückert (1788-1866), escolhidos da coletânea de poemas de
título homônimo, poemas estes concebidos como uma elaboração do luto vivido pelo
escritor em consequência da perda de dois de seus filhos. Mahler, que também havia
perdido vários de seus ir-
mãos quando jovem, trata
da superação da morte,
musicando exclusivamen-
te, dentre estes textos, os
que discorrem a respeito
de temas sobre a luz. Este
trabalho pretende abordar
alguns aspectos relativos ao
texto literário de Rückert,
que serviram de fundamentação para a construção de uma linha interpretativa da obra
supracitada, na qual, assim como fez o compositor, o foco se concentra na compreensão
e declamação adequada do texto.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 17


A influência da cultura africana na música
vocal do Brasil e Estados Unidos da
América

Jorge Ignacio Mathias


UFRJ- mathiasbass@hotmail.com

SE A MÚSICA é a expressão da cultura de um povo, nada mais lógico do que se utilizar


dela para melhor compreender a formação cultural de um país. Este recital/conferência
propõe um resgate das origens da influência africana na música vocal do Brasil e dos
Estados Unidos da América, através de um repertório calcado tanto em canções exe-
cutadas pelos próprios es-
cravos, quanto em músicas
escritas por compositores
interessados em ilustrar as
condições de vida do negro
nas colônias, mostrando que
os fatores que inspiram a
produção musical e seu con-
texto histórico estão sempre
interligados, passando por
questões sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas. E o entendimento destas
questões é vital para o aprimoramento das práticas interpretativas no processo de de-
senvolvimento artístico do músico. Este trabalho justifica-se por explicitar a necessidade
da pesquisa aplicada na busca de uma melhor e mais completa formação profissional
do intérprete. Além disso, por dar a devida importância às raízes africanas, que deram
origem e influenciaram diversos estilos, como por exemplo o samba, o maracatu, o blues
e o jazz, e que muito contribuíram para a história da música, tanto no campo erudito,
quanto no popular.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 19


A interação cênica no repertório
clarinetístico: performance e análise crítica

Weslley Guedes
UFRJ – wg.clarineta@gmail.com

O PRESENTE trabalho aborda uma proposta de apresentação de um repertório cla-


rinetístico, no qual elementos gestuais e cênicos são atrelados às demandas artísticas
contidas em obras criteriosamente selecionadas. O objetivo central da pesquisa reside
na realização de um recital camerístico, com duas obras, After you, Mr. Gershwin de Béla
Kovács e o Concerto para
Clarineta e Piano op. 116
de Ernst Widmer, obras nas
quais abarcam os elementos
supracitados, originalmente
concebidos (música e ges-
tual/cena) por cada compo-
sitor. A utilização de referen-
ciais teóricos e audiovisuais
está sendo de grande impor-
tância para esta investigação em andamento. Vislumbra-se, com o transcorrer da presen-
te pesquisa, não apenas validar a relevância do repertório abordado, bem como a real
perspectiva de desenvolvimento artístico encerrada em sua realização, face ao rigoroso
domínio sobre aspectos relativos à emissão do som, a técnicas expandidas e à comunica-
ção artística demandada neste contexto.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 21


A música de câmara brasileira para trompete
e os desafios da otimização da performance

Thiago Vieira Pereira


UFRJ – thiagovieiratrompete@hotmail.com

A PRODUÇÃO musical brasileira para trompete remonta ao século XIX, impulsionada, so-
bretudo, por Henrique Alves de Mesquita, exímio trompetista. Desde então, o trompete
vem ganhando um repertório cada vez mais extenso e significativo. Nota-se, entretanto, que
tal produção ainda se revela diminuta quando comparada ao catálogo de outros instrumen-
tos de sopro, por exemplo.
Soma-se a isso a escassez de
registros fonográficos, edi-
ções e veiculação da produ-
ção existente. O projeto aqui
apresentado abarca uma
ampla pesquisa que culmina
no registro, em CD, de um
representativo repertório ca-
merístico, englobando distin-
tas linguagens e formações. Para o presente trabalho selecionamos uma obra de Mesquita,
além de composições de Oswaldo Lacerda e Raul do Vale, trabalhos os quais farão parte do
registro supracitado. Além da busca por valorização e divulgação do trompete e seu reper-
tório, o presente projeto visa destacar a importância do desenvolvimento de ferramentas
cognitivas efetivamente voltadas à otimização de performance.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 23


A trompa na obra de Heitor Villa-Lobos:
excertos orquestrais e camerísticos – Os
Choros

Philip Michael Doyle


UFRJ – p.doyle@terra.com.br

O OBJETIVO principal deste trabalho é apresentar resultados parciais de minha pes-


quisa sobre excertos orquestrais e camerísticos para trompa de Heitor Villa-Lobos. O
resultado final será um método em que apresentarei trechos selecionados de obras do
compositor, acompanhado de comentários críticos e sugestões interpretativas. Estes
serão baseados em minha
experiência profissional de
mais de trinta anos como
camerista e primeiro trom-
pista das principais orques-
tras cariocas. Com isto, pre-
tenderei desenvolver uma
ferramenta que auxilie o
aluno de trompa na sua pre-
paração para audições nas
orquestras sinfônicas, além de fornecer informações que possam ser úteis a diversos
outros perfis de trompistas interessados nesse repertório. Para este recital-conferência
apresentarei excertos da série dos Choros, composta na década de 1920: Choros n. 3,
Choros n. 4 e Choros n. 6, com as respectivas questões interpretativas.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 25


Choros originais para violão solo – João
Pernambuco, Canhoto, Garoto e Dilermando
Reis

Paulo César Botelho de Souza


UFRJ – pcbotelho@oi.com.br

O PRESENTE trabalho é um recorte de uma pesquisa em andamento que tem por ob-
jetivo a organização e desenvolvimento de um método de violão brasileiro, evidenciando
nossos violonistas compositores e suas raízes culturas. Nosso estudo histórico, sistemáti-
co e analítico da trajetória do violão na música brasileira, e sua relação com os períodos e
gêneros musicais, apontam
como pioneiros e funda-
mentais para a constituição
de um repertório popular
solista: João Pernambuco;
Canhoto; Garoto e Diler-
mando Reis. Eles ampliaram
os limites do instrumento
possibilitando a assimilação
de um novo repertório, ex-
pandindo seus conhecimentos para além dos paradigmas tradicionais. Apesar da estreita
relação entre violão e choro, choros originais para violão solo não representam os pilares
do gênero.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 27


Iniciação ao estudo da improvisação na
música popular brasileira sob a orientação
de Leandro Braga aplicada ao fagote

Jeferson Luiz da Silva Souza


UFRJ – jefersonfagotista@gmail.com

O FAGOTE é um instrumento naturalmente usado para a música de concerto, raramen-


te utilizado na música popular brasileira. Toda a educação superior para o instrumento é
voltada para a carreira orquestral, música de câmara e solista, ligadas a música de con-
certo. Uma das principais ferramentas para a atuação do músico popular é sua capa-
cidade de improvisar. Este
trabalho tem como objetivo
apresentar a iniciação ao
estudo da improvisação na
música popular brasileira,
demonstrando possibilida-
des e meios de aprendizado
da improvisação, através de
métodos criados pelo pia-
nista e compositor Leandro
Braga. Todos os exemplos apresentados serão desenvolvidos a partir de composições do
próprio Leandro Braga.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 29


Ritmos brasileiros no contrabaixo: o choro
de Pixinguinha e Radamés

Felipe Clark Portinho


UFRJ – lipeportinho@gmail.com

O PRESENTE trabalho propõe demonstrar como dois grandes vetores do choro escre-
viam para o contraponto grave, os compositores Alfredo da Rocha Vianna Filho, conheci-
do como Pixinguinha, e Radamés Gnattali. Com suas obras podemos “descongelar” a for-
ma de tocar dos anos 1920/30, e que foi largamente difundida e copiada pelos chorões
no século XX. Pixinguinha
escrevia para oficleide ou
tuba, e Radamés já escrevia
para o contrabaixo desde os
anos de 1930, quando ficou
à frente da Rádio Mayrink
Veiga e Rádio Nacional.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 31


Sonata Op. 21 para Violoncelo e Piano,
e Henrique Oswald: considerações
interpretativas para a construção da
performance

Mateus Ceccato
UFRJ – mateusceccato@gmail.com

O PRESENTE trabalho tem como objetivo a elaboração das sugestões técnico-interpre-


tativas relacionadas a fatores como caráter, fraseado, dinâmica e sonoridade da parte do
violoncelo, a partir da análise dos principais procedimentos estruturais, utilizados por
Henrique Oswald (1852-1931) em sua Sonata Op. 21, para violoncelo e piano. Oswald é
um dos principais composi-
tores do período romântico
brasileiro e boa parte de sua
obra foi dedicada à música
de câmara. Por ter vivido
grande parte de sua vida na
Itália, faz-se necessário com-
preender a sua vasta produ-
ção musical sob uma pers-
pectiva europeia, da qual
sofreu influência direta de sua cultura musical, tornando-se compreensível, dessa forma,
a escassez de marcas de brasilidade em suas composições. Composta provavelmente
em 1897, em Florença, a Sonata Op. 21 possui três movimentos contrastantes: Allegro
Agitato, Romanza, e Molto Allegro. Baseado em Lester e Rink (1995), observaremos de
que modo a análise dos elementos estruturais referenciados irá elucidar as escolhas in-
terpretativas fundamentais para a construção da performance.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 33


Artigos
Percussão teatral: conceito, abordagens e
notação através de exemplos de obras de
Mauricio Kagel

Daniel Serale
UFRJ – dserale@hotmail.com

Resumo: O texto aqui apresentado é o resultado parcial de uma pesquisa em andamen-


to, cujo objeto de estudo é a obra de Mauricio Kagel na percussão teatral, com foco
nas peças para um percussionista. O presente trabalho apresenta e define o termo no
contexto do teatro instrumental, expõe as diversas abordagens utilizadas por Kagel para
combinar os aspectos visuais e acústicos da performance numa ação conjunta acústico-
-visual, e como isso é logrado através do uso de diferentes tipos de notação. Finalmente
são analisados os desafios e consequências que este repertório, fora dos padrões tradi-
cionais de concerto, traz para o intérprete e para o público.
Palavras-chave: Percussão teatral. Mauricio Kagel. Teatro instrumental. Performance.

Percussion theater: concept, approaches and notation through the example of works
by Mauricio Kagel
Abstract: The text presented here is a partial result of a research in progress, which ob-
ject of study is the work of Mauricio Kagel on percussion theater, focusing on the pieces
for one percussionist. The present work introduces and defines the term in the context
of instrumental theater, exposes the different approaches used by Kagel to combine the
visual and acoustic aspects of performance in a joint acoustic-visual action, and how this
is achieved through the use of different types of notation. Finally, we analyze the chal-
lenges and consequences that this repertoire, outside of traditional concert standards,
brings to the interpreter and the audience.
Key-words: Percussion theater. Mauricio Kagel. Instrumental theater. Performance.

O termo

Percussão teatral é um termo utilizado para reunir o conjunto de obras para


percussão que comportam, em sua performance, o emprego de elementos teatrais.
Peças deste tipo existem, na música de concerto, há mais de cinquenta anos, ainda
que na época não fossem catalogadas sob esse nome. Um exemplo é Pas de cinq,
para cinco atores ou percussionstas, composta por Mauricio Kagel em 1965. Outras
peças seminais do gênero foram compostas na década seguinte para o Trio le Cercle,

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 37


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

grupo francês de intérpretes11 que conseguiu consolidar um repertório no qual se


destacam: Dressur (1976), também de Kagel; Toucher (1978) e Corporel (1985), de
Vinko Globokar; e Le corps à corps (1978) e Le guetteurs du som (1981), de Georges
Aperghis. Nos Estados Unidos, o compositor mais citado nos trabalhos sobre per-
cussão teatral é Stuart Saunders Smith, com obras como Songs I-IX (1980), Tunnels
(1982) e ... And points North (1990). No Brasil podemos mencionar as peças de
Tim Rescala para conjunto, Bravo! (1989) e A dois (1992); e as peças para um per-
cussionista22 Cenas sugestivas (1985) de Carlos Kater, Canção simples de tambor
(1990) de Carlos Stasi, Le cru et le cuit (1994) de Jorge Antunes, e Sonhos (2007)
de Arthur Rinaldi.

Olhando retrospectivamente, a existência do repertório antecede ao termo.


A expressão percussão teatral é relativamente nova. No âmbito acadêmico, esta ca-
tegoria apareceu em um artigo de Steven SCHICK de 1995 como “percussão como
teatro” (percussion as theater). Em 2012, Julie STROM titula sua tese doutoral The-
ater Percussion, e começa dizendo que este é um gênero “ainda sem nome”. No
mesmo ano, a expressão aparece em sua forma atual e mais usada no DVD Salve
a Percussão Teatral (Save Percussion Theater), da percussionsita Aiyun Huang, que
inclui algumas das peças mencionadas no parágrafo anterior. Fixando o termo, a
editora Cambridge acaba de publicar, dentro da sua coleção Companions, um livro
dedicado à percussão, com um capítulo da própria HUANG (2016) titulado Percus-
são teatral: o drama da performance.

Em um contexto coloquial, porém, o termo foi utilizado previamente, e apa-


rece no jornal The New York Times, em uma matéria sobre o show do percussionista
David Van Tieghem em 1987. Na ocasião, o artista manifestou: “Eu chamo o que faço
de percussão teatral, ou algo parecido. Tenho um par de mesas cheias de instrumen-
tos de percussão, brinquedos e acessórios. Uso algumas fitas pré-gravadas, algo de
movimento e algumas coisas engraçadas também.” (PARELES, 1987).

O conceito e o contexto

Som e ação. As dimensões acústica e visual encontram-se ligadas na obra


musical por relações de causa e efeito. Visão e audição são, de fato, o centro das
artes performáticas. Os dois “sentidos públicos” - como os descrevera John Cage - se

1 Formado por Willy Coquillat, Jean-Pierre Drouet e Gaston Sylvestre.


2 Objeto de estudo da minha dissertação de Mestrado Performance no Teatro Instrumen-
tal: o repertório brasileiro para um percussionista. Rio de Janeiro, 2010. Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro.

38
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

combinam para criar um evento simultâneo e compartilhado por todos (Fetterman,


apud. pittenger, 2010:2). Neste sentido a música, além de som, é gesto, ação e te-
atro. A utilização consciente dos elementos visuais na composição da música de
concerto deu origem ao denominado teatro instrumental. E, como aponta Kaylie
DUNSTAN (2015), a percussão teatral repousa, histórica e conceitualmente, na prá-
tica do teatro instrumental.

Esta expressão foi proposta pelo compositor Mauricio Kagel, num artigo de
196333, com o intuito de estabelecer uma diferenciação entre as noções de teatro
musical, por um lado, e teatro instrumental, pelo outro. Segundo o autor, o teatro
musical está baseado nas características da ação cantada herdeira da ópera, en-
tanto que no teatro instrumental, é o instrumentista quem tem uma participação
teatral. Aqui o compositor trabalha com outros materiais além do som, e aplica seu
pensamento musical ao pensamento cênico teatral. Luz, movimento e palavras são
articulados da maneira similar às notas, os timbres e os tempos. Na introdução da
partitura de sua peça Pas de cinq, Kagel anotava: “... as acepções que podem ser
encontradas no dicionário sob o termo ‘composição’ (compor: ‘juntar várias coisas
para construir uma’) devem ser aceitas e conscientizadas tanto quanto a definição
estrita de composição musical.” (2011:116, grifo do autor). De forma análoga, o in-
térprete adquire um papel que vai além da mera execução instrumental e estende
suas habilidades através da incorporação de movimento corporal, gestualidade, tex-
to, ou uma combinação deles.

O palco, o espaço de apresentação é, na música e no teatro, basicamente o


mesmo. Mas o músico, a diferença do ator, se caracteriza por ter uma atitude realis-
ta frente ao público e uma relação concreta respeito ao material com que trabalha.
No teatro instrumental não se geram ilusões, não se descreve, não se narra uma
história. O aspecto teatral e gestual devém dos movimentos próprios da execução
instrumental. Portanto, não se trata de forçar ao músico a se fazer de ator, mas de
estimular suas habilidades expressivas a fim de alcançar uma interpretação marcada
por sua individualidade. As ações do intérprete combinam o sonoro e o visual, e
confrontam o tempo das ações teatrais com o das musicais. Isso permite alcançar
“complexidades gestuais absolutamente únicas” (Kagel, 1983:128), desenvolvendo
simultaneamente várias dramaturgias que não se produziriam a partir só do teatro
ou só da música.

3 Qu’est-ce que le thèâtre instrumental? Publicado em francês em 1983 no livro Tam-tam.


Monologues et dialogues sur la musique, traduzido do original em alemão de 1975 re-
unindo vários textos do autor.

39
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Abordagens

Como demonstra Björn HEILE (2006), as duas primeiras peças de Kagel no


teatro instrumental, Sonant e Sur scène, ambas compostas em 1960, exploram a
relação dos aspectos visuais e acústicos partindo de princípios opostos. Em Sonant,
a música resulta das técnicas envolvidas na execução instrumental. Kagel utiliza as
ações físicas sobre os instrumentos e compõe com elas. Desta forma, gestos e mo-
vimentos ficam ao descoberto, transformando a execução instrumental em ações
teatrais. Em Sur scène, pelo contrario, a performance musical é apresentada em
um contexto quase teatral. Situações que comunmente fazem parte do ritual de
concerto estão aqui prefixadas e compostas conscientemente. Assim, a percepção
da performance é alterada. Ou seja, se os músicos estão simplesmente tocando ou
fazendo-como-se tocassem, não se sabe ao certo. Apagam-se as diferenças entre
performance musical e teatral, se diluem as distinções entre escuta “semântica” e
“estética” (HEILE, 2006:39) e a obra pode ser percebida e experimentada combinan-
do ou alternando ambos os sentidos.

Além das diferenças que possa haver entre estas duas abordagens, o que
têm em comum é a não distinção entre performance musical e ação teatral. A ênfase
reside na percepção corporal e holística da experiência de concerto.

O percussionista Ross KARRE (2009) refere-se às diferentes formas de rela-


ção entre o visual e o sonoro na obra musical, a partir do que denomina Caminho de
Motivação (Motivation Path). De modo semelhante, e referindo-se também à obra
de Kagel, reconhece dois caminhos utilizados com maior frequencia: Um é Som-a-
ção-drama, onde o principal motivo para executar determinada ação é o resultado
sonoro, sendo o movimento e a ação dramática consequências da primeira (como
em Sonant). Outro, Drama-ação-som, onde o desenrolar de uma ação principalmen-
te teatral é o motivo para uma ação que terá consequências sonoras (como em Sur
scène). Mas, em obras posteriores, Kagel também apresenta de forma inovadora,
Ação-som-drama ou Ação-drama-som, onde as instruções e motivações para o in-
térprete são claras, mas cujo resultado é percebido pelo público de forma diversa,
frequentemente “ambígua e absurda” (KARRE, 2009:8).

Estes diversos Caminhos de Motivação, continuando com o vocabulário de


Karre, manifestam-se de forma paradigmática na obra Staatstheatre, de 1970. Re-
sultado de uma década de constante desenvolvimento e teste de ideias teatrais,
vários autores concordam em afirmar que esta “antítese da grande ópera” (Heile,
2006:57) representa o ápice do trabalho músico-teatral de Kagel. Com o subtítulo de
música cênica, Staatstheater se desenvolve em uma série de ações independentes

40
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

e simultâneas, executadas em ordem arbitraria. E o único meio pelo qual as ações


cênico-musicais são compostas – no sentido de ‘juntar várias coisas para construir
uma’ - e transmitidas aos intérpretes, é a notação da partitura musical. A mesma
consta de mais de 350 ações específicas, descritas detalhadamente combinando no-
tação tradicional, desenhos e texto.

Notação

A notação tradicional da música ocidental é, em sua raiz, descritiva. Ela indi-


ca o resultado sonoro desejado através da coordenação de variáveis independentes,
não os meios para alcançá-lo. A liberdade da interpretação está na execução técnica,
nas ações para alcançar esse resultado. A evolução das técnicas instrumentais, como
modo de padronizar a produção de som, tem sido recíproca à evolução da notação.
A notação musical é, portanto, a codificação simbólica dessas técnicas padronizadas.
A alternativa é uma notação prescritiva, na qual se aplica o sentido inverso, ou seja,
a liberdade está no resultado sonoro, não nas ações.

Em Staatstheatre, Kagel combina na partitura elementos descritivos e pres-


critivos para criar ações complexas. Como expõe Christofer Fisher-Lochhead (2011),
cada uma dessas ações é determinada por quatro elementos:
• notação musical (simbólica, descritiva).
• instruções textuais (simbólica, prescritiva).
• representação gráfica (imagem, descritiva).
• epigrama.

Através da coordenação destes tipos qualitativamente diferentes de nota-


ção, é alcançada uma interação entre determinação e indeterminação. Ao construir
a indeterminação nas próprias ações, Kagel garante uma execução espontânea que
contribui para a imediatez do gesto, o sentimento de presença em vez de represen-
tação. No Ex.1, tomado de uma das nove seções que integram Staatstheater, de-
nominada Spielplan, música intrumental em ação, podemos reconhecer os quatro
tipos de notação: o gráfico, representando um lavatório com mesinha, bacia, jarra
e copo; a notação musical, com os símbolos de modos de execução; as instruções
textuais; e o epigrama, neste caso, Pilatus.

O texto de cada ação consiste em instruções simples e práticas para sua exe-
cução. Não se faz menção a referenciais ou simbolismos extramusicais. O único lugar
que tal referência é feita é no epigrama, o qual consiste em uma palavra ou frase
curta que sugere as ressonâncias simbólicas da ação. “O fato de cada ação compor-

41
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Ex.1. Staatstheater, Spielplan: Pilatus.


tar um epigrama combinado com as sugestões de Kagel sobre a junção das ações,
indica que ele foi motivado por (ou pelo menos ciente de) suas possíveis conotações
extramusicais” (FISHER-LOCHHEAD,2011:6).

Neste contexto, é interessante destacar também o que Falk HÜBNER (2010)


propõe como “abordagem reducionista”. Realmente, no teatro instrumental o in-
térprete é desafiado a se tornar mais consciente da fisicalidade do próprio corpo e
do espaço de encenação. Também a lidar com situações que extrapolam a execu-
ção instrumental tradicional. Por tais razões é frequente dar ao teatro instrumental
um tratamento expansivo, ou seja, o intérprete torna-se também ator, cantor ou
bailarino. Sem deixar de ser certo, isto não se aplica à totalidade dos casos, e pode
desencorajar a certos músicos a abordar este tipo de repertório. Em contraposição,
como visto nos exemplos prévios, na abordagem reducionista o intérprete não é
exigido a adquirir novas habilidades, pelo contrário. Ao ser impossibilitado de usar
os instrumentos específicos da sua profissão, e recontextualizar ações simples ou
mesmo cotidianas, o músico se defronta com outro tipo de problemas. O público o
vê não desempenhando as tarefas habituais (nem para um, nem para o outro). Con-
cordando com HÜBNER, as abordagens expansiva e redutiva, são conceitos de tra-
balho cênico “capazes de transformar aos músicos em intérpretes teatrais, embora
que com estratégias, processos de trabalho e resultados artísticos completamente
diferentes” (2010:68-9).

42
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

O pensamento cênico e as ideias manifestas em Staatstheater continuaram


presentes em futuras peças do autor. Especificamente, no caso da percussão tea-
tral, a peça Semikolon, ação com bombo, de 1999, possui as mesmas características.
Uma ação direta, curta, cujos componentes cênicos, acústicos e visuais, estão com-
postos numa partitura que combina diferentes tipos de notação.

Semikolon é simplesmente, como indica seu subtítulo, uma ação com bom-
bo de aproximadamente dois minutos, que pode ser realizada no inicio ou no inter-
valo de um concerto. A partitura, de uma página, é basicamente a descrição desta
ação: O intérprete no palco, sentado na posição de loto sobre uma almofada frente
a um bombo. Do lado, sobre outra almofada, uma grande baqueta. O intérprete
aguarda imóvel com os olhos fechados até o público se acomodar em seus lugares.
Em seguida, ainda com os olhos fechados, toma a baqueta e a levanta lentamen-
te. Prepara o golpe, mas, surpreendentemente, não toca o bombo e a baqueta cai
sobre a almofada, produzindo um som abafado. Imediatamente o intérprete abre
os olhos e fica estático. Nesse instante se escuta o toque de um bombo, o qual foi
gravado previamente, sendo reproduzido por alto-falantes ocultos para o público.
Longa pausa. Relaxamento.

Considerações finais

Os exemplos expostos neste trabalho mostraram que não é raro ver, em


obras de percussão teatral, e de teatro instrumental em geral, um músico no palco
que não está tocando música em um sentido tradicional; embora esteja se comuni-
cando de um modo e com um código musical. Surgem comumente, então, questio-
namentos do tipo: É um músico quem faz isso? É isso música? O que é realmente
um músico? Perguntas que estão além do escopo deste trabalho. O interesse aqui
é refletir e analisar as diversas possibilidades de abordar a interpretação de uma
obra, a fim de construir uma performance capaz despertar no público esses mesmos
questionamentos. Ou seja, conseguir que o público esteja envolvido durante a per-
formance ativamente, de modo reflexivo.

A percussão teatral demanda um equilíbrio entre ver e ouvir. Este engaja-


mento de múltiplos níveis de percepção impele no espectador uma passagem do
papel passivo de apenas assistir à função ativa de refletir. Peças como Semikolon
demonstram que a reflexão pode ser causada pelo estranhamento, pelo absurdo,
pela ironia ou pelo humor, de modo que não exista um rechaço inicial por parte
do público, mas apenas um distanciamento crítico com os padrões conhecidos. A
relação com o público se estende em subjetividades, já não é só o que acontece no
palco, mas como é percebido o que está acontecendo. Os desafios que enfrenta o

43
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

intérprete na performance, trasladam-se, por meio da presença e a imediatez da


ação, aos espectadores, instigando suas expectativas e padrões de reconhecimento.
Desta forma, na percussão teatral o público se envolve no ato criativo e forma parte
da experiência.

Referências

DUNSTAN, Kaylie. Percussion and theatrical techniques: an investigation into per-


cussion theatre repertoire and its presence in Australian classical music. Dis-
sertação (Mestrado em Música) - Universidade de Sidney, Austrália, 2015.
FISHER-LOCHHEAD, C. Mauricio Kagel’s Staatstheater. 2011. Disponível em <http://
www.cflmusic.com/wpcontent/uploads/2011/09/Staatstheater.pdf> Aces-
so em: 11 nov. 2016
GRIFFITHS, Paul. Modern music and after: directions since 1945. 2.ed. Londres: Ox-
ford University Press, 1995.
HEILE, Björn. The music of Mauricio Kagel. Aldershot: Ashgate, 2006.
HUANG, A. Percussion theater: the drama of performance. In: Hartenberger, Russell.
The Cambridge companion to Percussion. Cambridge: Cambridge University
Press, 2016.
______SAVE PERCUSSION THEATRE. Aiyun Huang e Brian Brandt. DVD (128 min).
Nova York, Mode Records: 2012.
HÜBNER, F. Entering the stage – Musicians as performers in contemporary music
theater. New sound. Belgrado, 36/II p 63-74, 2010.
KAGEL, Mauricio. Tam-tam: monologues et dialogues sur la musique. Paris: Christian
Bourgois, 1983.
______ Palimpsestos. Tradução de Carla Imbrogno. Buenos Aires: Caja negra, 2011.
______Spielplan. In: Staatsthetaer. Viena: Universal, 1971. Partitura.
KARRE, Ross P. The media frame: the theory and practice of integrating a variety of
production protocol in modern experimental temporal art. Tese (Doutorado
em música). Universidade da California, San Diego, 2009.
PARELES, Jon. Perfecting Percussion Theater. The New York Times. Nova York, 29 jul.
1987, Artes.
PITTENGER, Elise. Visible Music: instrumental music theatre. Montreal. Tese (Douto-
rado em música). Escola de música Schulich, departamento de performance,
Universidade McGill, Montreal, 2010.
SCHICK, Steven. Multiple percussion. In: Beck, John H. (Ed.). Encyclopedia of percus-
sion. New York: Garland, 1995, p.257-263.
STROM, Julie. Theater percussion: developing a twenty-first-century genre through
the connection of visual, dramatic and percussive arts. Tese (Doutorado em
artes) - Universidade de North Colorado, Greeley, Estados Unidos, 2012

44
Edição musical: conceitos e reflexões

Samanta Adriele Neiva dos Santos


UFRJ – samantaadriele@hotmail.com

Resumo: Apesar do importante papel desenvolvido pela prática editorial, são escassas
as reflexões metodológicas que permeiam seus fundamentos e aplicações. Nesse sen-
tido, o presente trabalho presta-se como auxílio na divulgação dessa temática, apre-
sentando um panorama de discussões já realizadas e alguns conceitos desenvolvidos a
partir dos princípios de edição musical à luz de importantes musicólogos como Carlos
Alberto Figueiredo (2000) e James Grier (2008), propiciando a circulação de informa-
ções e despertando maior interesse envolvendo essa temática.
Palavras-chave: Edição musical. Música brasileira. Carlos Alberto Figueiredo. James
Grier.

Music Editing Considerations


Abstract: Despite the important role played by editorial practice,the methodological
reflections that permeate its foundations and applications are scarce. In this sense, the
present work lends itself as an aid in the diffusion of this theme, presenting a panorama
of discussions held and some concepts developed from the principles of musical editing
in the light of important musicologists like Carlos Alberto Figueiredo (2000) and James
Grier (2008), thus facilitating the circulation of information, thus raising greater interest
in this issue.
Key-words: Music edicion. Brasilian music. Carlos Alberto Figueiredo. James Grier.

Introdução

O tema edição musical é de grande importância para o meio musical, so-


bretudo no Brasil, onde as publicações pertinentes a esse assunto são limitados,
além de pouco disseminados as técnicas e conceitos desenvolvidos pelos estudos
musicológicos que abordam este tema em nível internacional. Apesar de possuir
uma grande riqueza em obras musicais, boa parte do material produzido por com-
positores nacionais segue longe do alcance de músicos intérpretes, estudiosos e
pesquisadores, que muitas vezes devido à dificuldade de acesso à obra, à falta de
divulgação, ou a precariedade do material encontrado, permanecem inéditos ou são
deixados de lado de programas de recitais e concertos.

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 45


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Geralmente estas obras ainda manuscritas, são guardadas em bibliotecas


públicas bem como em coleções particulares, dessa forma acabam sendo divulgadas
apenas através dos manuscritos do próprio compositor, ou ainda por cópias caseiras
e não autorizadas. Na maioria das vezes, os materiais encontrados estão em más
condições de uso, possivelmente contêm erros provenientes de diversos fatores,
ou não tiveram uma edição cuidadosa, com alguma credibilidade devido à falta de
critérios definidos para a escrita da partitura. A esse respeito, Fiorini destaca que:
Após uma música ser composta, não basta apenas que tenha qualidade e seja
executada por quem a encomendou para que se torne conhecida e passe a
ser requisitada por vários intérpretes. Ao contrário, excelentes obras são com-
pletamente esquecidas ou mesmo desconhecidas. [...] qualquer peça deve
apresentar-se da forma mais inteligível e direta possível para que possa atrair
o intérprete, ou seja, uma partitura editada com a devida clareza que permita
seu entendimento e a realização de tudo o que foi planejado e desejado pelo
compositor, sem erros ou anotações confusas (FIORINI, 2011, p.18).

Há iniciativas para a publicação de partituras no Brasil, como exemplos pode-


mos citar, a Academia Brasileira de Música, localizada na cidade do Rio de Janeiro, e
trabalha para a preservação da memória nacional, além da Editora Criadores do Brasil
da Osesp, em São Paulo, que tem como objetivo, promover a recuperação e posterior-
mente a publicação do repertório musical brasileiro. Nesse sentido, Bortolossi destaca
que ainda assim, tais iniciativas não contemplam a abrangência necessária para a tarefa:
[...] há uma evidente necessidade na realização de estudos e revisões críticas
destes repertórios, o que viabilizará, por bem, uma melhor compreensão de
sua abrangência e possibilitará aos poucos sua divulgação, consolidando-se
como objeto de estudos musicológicos e também como repertório viável para
execução em concertos (BORTOLOSSI, 2007, p. 12).

Edição Musical

No intuito de compreender melhor esse assunto, utilizaremos como prin-


cipais referenciais teóricos James Grier, autor do livro La Edición Crítica de música:
historia, método y práctica (2008), que trata dos princípios da edição musical, ana-
lisando a história da prática editorial, além de propor um modelo teórico para uma
metodologia crítica. Apresenta ainda as diversas atividades inerentes à edição mu-
sical, incluindo as tarefas do editor, a natureza das fontes musicais e as abordagens
adotadas pelo autor para executar várias edições musicais e críticas de edições feitas
por outros especialistas.

Utilizaremos também a Tese de Doutorado de Carlos Alberto Figueiredo, in-


titulada Editar José Maurício Nunes Garcia (2000). O trabalho discorre sobre os dife-

46
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

rentes tipos de edição e algumas das dificuldades do processo editorial, tais como:
problemas de datação dos manuscritos, localização de manuscritos desaparecidos,
determinação da autenticidade, divergências e ambiguidades das fontes, além de
apresentar os principais procedimentos metodológicos utilizados para solucionar
tais problemas: crítica das variantes, crítica textual, crítica genética e crítica da re-
cepção.

Entendamos primeiramente o que é uma edição musical. Inicialmente, bus-


camos o conceito de edição no The New Grove Dictionary of Music and Musicians,
definindo como “a arte de prepara-la para a publicação, especialmente música com-
posta por alguém diferente do editor1” (BÉHAGE, 1980, p. 839). Para estabelecer o
conceito de edição, Figueiredo conjuga duas definições do termo editar. A primeira
sugerida por Larousse de Poche (1954) sugere que o resultado do ato de editar é
um “conjunto de exemplares de um livro impresso a partir da mesma composição
tipográfica” (apud FIGUEIREDO, 2000, p.80). A segunda é encontrada no Webster
Dictionary, que define edição como “revisar e preparar para uma publicação” (apud
FIGUEIREDO, 2000, p. 80). A partir da apresentação desses dois conceitos, o autor
afirma que “uma edição resulta num texto, fruto da pesquisa e da reflexão em torno
das fontes que o transmitem e que seria o exemplar para a impressão” (FIGUEIRE-
DO, 2000, p. 80).

Já o musicólogo James Grier aponta que editar “consiste de uma série de


escolhas, instruídas, informadas criticamente; em resumo, o ato de interpretação.
Editar, além disso, consiste da interação entre a autoridade do compositor e a auto-
ridade do editor2” (GRIER, 2008, p. 12). Corroborando o seu pensamento, Grier nos
traz ainda o conceito de edição proposto pelo importante teórico Philip Brett:
A edição é principalmente um ato crítico. Além disso, (como a análise musi-
cal) começa a partir de suposições baseadas criticamente, e percepções que
normalmente não são confirmadas. Se estes pressupostos deveriam ser di-
tos abertamente, se começou a reconhecer e permitir a legítimas diferenças
na orientação editorial, e se deixou de usar a palavra “definitivo” em relação
a qualquer texto editado, então boa parte da polêmica em torno de edição
pode desaparecer 3 (apud GRIER, 2008, p. 13).

1 ...the art of preparing it for publication, especially music composed by someone other
than the editor.
2 ...consiste en una serie de decisiones fundamentadas, críticas e informadas; en resumen,
en el acto critico de la interpretación. Editar, además consiste en la interacción entre la
autoría del compositor y la autoría del editor.
3 ...la edición es fundamentalmente un acto crítico. Además, (como el análisis musical) es
un acto que parte de suposiciones fundamentadas criticamente y de percepciones que
por lo general ne se reconocen. Si estas suposiciones se especificaran abiertamente, si
comenzáramos a reconocer y a permitir las legítimas diferencias en la orientação edito-

47
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

A partir das reflexões expostas acima, podemos dizer que o ato de editar
tem como finalidade a publicação, é trazer ao público a reflexão desenvolvida a par-
tir das fontes para uma determinada obra e é, consequentemente, o resultado de
uma pesquisa.

Grier propõe quatro princípios fundamentais para expor a sua concepção


editorial, sendo cada um, consequência do seu antecessor:
1. A edição é critica por natureza.
2. Crítica, incluindo a edição, é baseada em pesquisa histórica.
3. Edição envolve a avaliação crítica do importe semiótico do texto musical;
essa avaliação também é uma investigação histórica.
4. O árbitro final na avaliação crítica do texto musical é a concepção do estilo
musical do editor; essa concepção, também está embasada em uma com-
preensão histórica da obra 4 (GRIER, 2008, p. 16).

Hazan (2004) discute detalhadamente cada um desses princípios propostos


por Grier em seu artigo nominado Afinal o que é uma edição crítica? Uma reflexão
sobre aspectos da obra “The Critical Editing of Music” e sua Relevância para a Edição
da Música Sacra Brasileira dos Séculos XVIII e XIX, cujo objetivo é traçar uma defini-
ção empírica motivado pela seguinte questão: “afinal, o que é uma edição crítica em
música?” (HAZAN, 2004, p. 165)

Caminhos Editoriais

Figueiredo (2014) afirma que dois tipos de itens “devem ou podem” fazer
parte de uma obra musical: “um essencial e vários acessórios”. O autor explica que
“o essencial é, naturalmente o texto musical, razão de ser da edição de uma obra
musical”, já os acessórios “são os apêndices e anexos, trazendo maior ou menor es-
clarecimento sobre o texto musical, das circunstâncias em torno dele e da pesquisa
para estabelecê-lo” (FIGUEIREDO, 2014, p. 48). Nesse contexto, tanto as característi-
cas finais do texto editado quanto a quantidade e tipos de itens acessórios, irá variar
de acordo com o tipo de edição pretendida e dos meios disponíveis para executá-la.

Ao definir o estabelecimento de um texto musical (essencial), Figueiredo

rial, y si dejáramos de usar la palabra “definitivo” en relación a cualquier texto editado,


entonces la polémica que rodea a la edición podría desaparecer.
4 1. la edición es crítica por naturaleza. 2. La crítica, incluyendo la edición, se basa em in-
vestigación histórica. 3. La edición involucra la evaluación critíca del significado semióti-
co del texto musical; esta evaluación es también una investigación histórica. 4. El árbitro
final en la evaluación crítica de texto musical es la Idea del estilo musical del proprio
editor; esta Idea también se arraiga en una compresión histórica de la obra.

48
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

sugere seis perguntas interdependentes, baseadas nos desdobramentos propostos


pelo teórico Badura-Skoda (1995):
1. Quantas e que tipos de fonte deverão ser utilizados para o estabelecimen-
to da edição?
2. O que está fixado na fonte?
3. Deve-se investigar e registrar a intenção de escrita do compositor?
4. Deve-se investigar e registrar a intenção sonora do compositor subjacente
àquilo que está fixado na fonte?
5. De que maneira poderiam ter escrito o compositor ou o copista seus tex-
tos, para serem entendidos universalmente nos dias de hoje?
6. Qual a destinação da edição? (FIGUEIREDO, 2014, p. 48-52)

O autor destaca que essas perguntas podem auxiliar a decisão do editor no


momento do estabelecimento de um texto, e podem ser utilizadas como um “guia
seguro para análises de edições já realizadas”. Posteriormente, Figueiredo trata das
partes acessórias de uma edição, elencando alguns itens, porém, há sempre a pos-
sibilidade evidente de que outros itens possam ser acrescidos a esta lista. A parte
acessória proposta pelo autor inclui nota introdutória, indicações para a prática, es-
tudo sobre o texto literário, fac-símile, material para a execução, redução para piano
e aspectos técnicos da editoração (FIGUEIREDO, 2014, p. 55-56).

Grier destaca que cada obra musical é repleta de particularidades criadas


através de uma combinação única de circunstâncias culturais, sociais e históricas,
sendo assim, cada obra, cada fonte e cada edição deverá ser tratada como um caso
especial. A esse respeito, o autor conclui que “diferentes repertórios musicais re-
querem diferentes métodos editoriais, ou mesmo que cada edição exige uma abor-
dagem única1” (GRIER, 2008, p. 25). Grier também propõe a formulação de um gru-
po de perguntas, que constituem um marco de referência para uma metodologia
editorial e um ponto de partida para cada projeto.
1. Qual é a natureza e a situação histórica das fontes de trabalho?
2. Como relacionam entre si?
3. A partir da evidência das fontes, que conclusões podem ser alcançadas
sobre a natureza e a situação histórica da obra?
4. Como determinar estas evidencias e conclusões nas decisões editoriais
tomadas durante a preparação do texto editado?
5. Qual é a maneira mais eficaz de apresentar o texto editado? 5 (GRIER, 2008, p. 14)

5 1. ¿Cuál es la naturaleza y la situación histórica de las fuentes de trabajo? 2. ¿Cómo


se relacionam la una con la outra? 3. A partir de la evidencia de las fuentes, ¿qué con-
clusiones pueden alcanzarse sobre la naturaleza y la situación histórica de la obra? 4.
¿Cómo determinan dichas evidencias y conclusiones las decisiones editoriales tomadas

49
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Porém, o autor destaca que não existe uma regra, para cada projeto edito-
rial as perguntas seriam diferentes, estamos tratando de uma questão crítica para
a teoria da música clássica ocidental. Grier afirma que “a criação de uma questão
realmente crítica requer não apenas formular essas perguntas, mas também algum
tipo de discurso crítico proposto na resposta 6” (GRIER, 2008, p. 26). Sendo assim, o
reconhecimento de que a edição é um ato crítico leva diretamente ao entendimento
que diferentes editores produzirão diferentes edições de uma mesma obra (GRIER,
2008, p. 14).

Após refletir os conceitos propostos por James Grier, o pesquisador Marcelo


Campos Hazan (2004) apresenta os passos necessários para a elaboração de uma
edição crítica:
Localizar e identificar as fontes primárias, estabelecer o parentesco entre
elas, recompor o contexto histórico em que foram produzidas e consumidas,
determinar o texto musical com base em uma sólida concepção de estilo, e,
finalmente apresentar um produto final no qual o raciocínio e as interferên-
cias do editor transpareçam de modo inequívoco ao usuário (HAZAN, 2004,
p. 173-174).

Hazan destaca ainda que apesar de muitas edições serem elaboradas cri-
ticamente, geralmente o último passo na elaboração de uma edição – “apresentar
um produto final no qual o raciocínio e as interferências do editor transpareçam de
modo inequívoco ao usuário” – é ignorado, pois os editores ainda pecam por não
explicitarem ao usuário os caminhos e as ideias utilizadas no desenvolvimento e
construção o texto (HAZAN, 2004, p. 174).

Tipologias de edição musical

James Grier destaca que esse campo do estudo da edição musical tem re-
cebido mais atenção do que os outros campos nos escritos musicológicos. O au-
tor aponta que uma explicação para a riqueza desta tradição seria a tendência dos
musicólogos a optarem por um tipo de edição específico, tentando representar de
forma concreta a relação entre a fonte e o texto editado. Como consequência são in-
troduzidos varias ideias nos mecanismos utilizados ao descrever esta relação. E uma
segunda explicação é que diferentes repertórios exigem modos de representações
diferentes (GRIER, 2008, p. 125).

durante la elaboración del texto editado? 5. ¿Cuál es el modo más eficaz de presentar
el texto editado?
6 La creacion de una edición realmente crítica requiere no solo la formulación dichas pre-
guntas, sino también algún tipo de discurso crítico propuesto a modo de respuesta.

50
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Santos (2014) relaciona onze diferentes tipologias possíveis de edições


musicais, apresentadas por três importantes teóricos da área: Feder, Figueiredo, e
Grier. George Feder propõe oito tipos de edições – fac-símile, diplomática, diplomá-
tico-interpretativa, crítica, histórico crítica, científica-prática, Urtext, e uma edição
fundada na história da tradição. Carlos Alberto Figueiredo estabelece sete tipos de
edição musical – fac-similar, diplomática, crítica, Urtext, prática, genética e aberta –,
já o musicólogo James Grier propõe apenas quatro tipos de edição - fac-símile, di-
plomática, crítica e interpretativa. A esse respeito, Figueiredo (2014), nos traz ainda
as tipologias propostas pelo musicólogo Caraci Vela (1995), totalizando cinco tipos
– prática, diplomática, Urtex, fac-similar e crítica (apud FIGUEIREDO, 2014, p. 57).

Segundo Santos (2014), os tipos de edição listados por tais musicólogos


muitas vezes não são claramente diferenciáveis. Existem muitas similaridades elen-
cadas com diferentes nomes e apresentadas com mais ou menos detalhes, como
por exemplo, a “edição diplomático-interpretativa” proposta por George Feder e a
“edição prática”, proposta por Figueiredo. Isso ocorre porque os autores adotam
diferentes critérios na definição das tipologias, como destacado por Santos:
Grier se preocupa somente com o modo de elaboração da edição para definir
um tipo de edição, dessa forma, acaba sendo mais claro e objetivo que os
outros dois autores. Claro que o modo de elaboração depende da finalida-
de, mas o foco de Grier é na forma de elaboração, e não na aplicação ou na
apresentação. Já Feder, ao se preocupar com o modo de elaboração, finalida-
de e apresentação, acaba criando tipologias confusas, pois se trata de níveis
diferentes; temos como exemplo a edição “diplomático-interpretativa” onde
Feder diz ser uma edição diplomática endereçada para o performer, ou seja,
se preocupou não só com a feitura da edição, mas também com consumidor
final, o performer (SANTOS, 2014, p. 40).

Podemos dizer que as edições musicais são feitas basicamente para fins mu-
sicológicos ou fins performáticos. Vale ressaltar que não existe um tipo de edição
melhor que outro o que interfere é a finalidade e ou funcionalidade a qual a ela será
destinada, ou seja, um mesmo conjunto de fontes pode ser objeto de pesquisa de
diferentes tipos de edição.

Considerações Finais

A bibliografia na qual a pesquisa se apoia, e os conhecimentos adquiridos


através do estudo da mesma, demonstraram o quão complexo pode ser a área que
engloba o trabalho editorial. Foi possível traçar uma reflexão sobre as teorias e me-
todologias editoriais adotadas pelos principais referências teóricos utilizados, os
musicólogos Carlos Alberto Figueiredo e James Grier.

51
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Sendo o texto o produto final de qualquer edição, a tarefa do editor consiste


na fixação e apresentação de um texto que represente a sua concepção da obra, de-
terminada por um exame crítico embasados no conhecimento histórico e estilístico
das fontes. Nesse contexto, dizemos que o editor atua como mediador entre o com-
positor e o público e faz a conexão entre a escrita do compositor a compreensão do
intérprete. Cabe a ele, através da sua sensibilidade, autoridade e capacidade crítica,
avaliar e decidir quais serão as fontes que melhor transmitirão a obra.

O trabalho de edição além de propor ao texto uma diagramação mais limpa,


sem eventuais divergências ou anotações confusas, permite o seu entendimento e
a realização do que foi proposto pelo compositor, além de se tornar mais atrativa e
difundida. Por fim, espera-se que esta pesquisa também possa servir de sugestão e
estimulo para futuras abordagens no tocante à edição em música.

Referências

BÉHAGUE, Gerard. Editing. In: The New Grove Dictionary of Music and Musicians.
London: Macmillan, 1980.
BORTOLOSSI, Daniel Santos. As Sinfonias Concertantes atribuídas a Manuel José Go-
mes – levantamento de fontes e edição de partituras. Dissertação (Mestra-
do - Musicologia) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo. São Paulo, 2007.
FIGUEIREDO, Carlos Alberto. Editar José Maurício Nunes Garcia. Tese Doutorado. Rio
de Janeiro: UNIRIO, 2000.
______. Música sacra e religiosa brasileira dos séculos VXIII e XIX: teorias e práticas
editoriais. 1º Ed. 2014.
FIORINI, Carlos Fernando.“Sinfonia dos Orixás” de Almeida Prado: um estudo sobre
sua execução através de uma nova edição, crítica e revisada. Tese (doutora-
do) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes.Campinas, SP,
2004.
GRIER, James. La edición crítica de música: historia, método y práctica. Ediciones.
Tradução: Andrea Giráldez. Akal, S.A. 2008.
HAZAN, Marcelo Campos. Afinal o que é uma edição crítica? Uma reflexão sobre as-
pectos da obra “The Critical Editing of Music” e sua Relevância para a Edição
da Música Sacra Brasileira dos Séculos XVIII e XIX. In: I Colóquio Brasileiro de
Arquivologia e Edição Musical. 2004.
SANTOS, Samanta Adriele Neiva. Edição crítica do “Concerto para Flauta e Orques-
tra” de Edmundo Villani-Côrtes. Dissertação de Mestrado. Salvador: UFBA,
2014.

52
Avaliação: conceitos e possibilidades

Gladson Leone Rosa


UFRJ – gladson.leone@gmail.com

Resumo: O presente artigo apresenta conceitos e modalidades avaliativas com base em


referenciais teóricos de Philippe Perrenoud e Ilza Martins Sant’Anna. Propõe-se nesse
trabalho uma reflexão sobre as possibilidades didático/educativas do processo avalia-
tivo em alunos dos cursos de bacharelado em música. De acordo com a investigação,
diferentes modalidades de avaliação podem ser relevantes para o desenvolvimento do
aluno:a avaliação diagnóstica, que identifica as características do avaliando em primeira
instância, a avaliação formativa, que em uma segunda etapa é integrada ao processo
educativo, e a avaliação somativa, aplicada ao final do processo. Como complemen-
to,são sugeridos instrumentos pedagógico-avaliativos que podem ser utilizados nas
citadas modalidades.
Palavras-chave: Avaliação. Processos pedagógico-avaliativos. Modalidades de avalia-
ção.

Evaluation: concepts and possibilities


Abstract: This article presents concepts and evaluation modalities based on the the-
oretical references of Philippe Perrenoud and Ilza Martins Sant’Anna. It is proposed in
this work a reflection on the didactic / educational possibilities of the evaluation pro-
cess in students of the baccalaureate courses in music. According to the research, dif-
ferent evaluation modalities may be relevant to student development: the diagnostic
evaluation, which identifies the characteristics of the first evaluation, the formative
assessment, which in a second stage is integrated into the educational process, and the
Somatic evaluation, applied at the end of the process. As a complement, pedagogical-e-
valuative tools are suggested that can be used in the mentioned modalities.
Key-words: Evaluation. Pedagogical-evaluative processes. Evaluation methods

Introdução

Com o objetivo principal de refletir, discutir e propor procedimentos avalia-


tivos da performance musical em estudantes universitários, investigamos o pensa-
mento de conceituados pedagogos como referenciais para a pesquisa, como Phili-
ppe Perrenoud e Ilza Martins Sant’Anna. Destacamos neste trabalho diversas formas
de avaliação que podem ser aplicadas com o intuito de fornecer ferramentas para o

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 53


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

desenvolvimento musical do estudante.

O ato de avaliar vem sendo analisado principalmente nas áreas pedagógica


e psicológica, com conceitos, métodos e funções colocados em discussão, como de-
corrência da falta de um entendimento mais consistente sobre a questão. Ao hierar-
quizar, basicamente tratamos a avaliação como fator comparativo entre alunos mas,
frequentemente, não contemplamos de forma adequada uma avaliação baseada no
desenvolvimento apresentado pelo estudante durante o processo de ensino/apren-
dizagem.

Perrenoud (1999, p.9) observa que a compreensão e aplicação adequadas


de processos avaliativos devem ser consideradas relevantes dentro de uma ótica
que visa a excelência na formação do indivíduo. Além de proporcionar diretrizes
que facilitam o percurso da aprendizagem, determinam referências relevantes para
o discernimento do estudante:
Avaliar é – cedo ou tarde – criar hierarquias de excelência, em função das quais
se decidirão a progressão no curso seguido [...] a orientação para diversos tipos
de estudo, a certificação antes da entrada no mercado de trabalho.... Avaliar é
também privilegiar um modo de estar em aula e no mundo, valorizar formas
e normas de excelência, definir um aluno modelo, aplicado e dócil para uns,
imaginativo e autônomo para outros... (PERRENOUD, 1999, p.9).

De acordo com Encone et al. (1975), a ideia de avaliar tem sido tratada como
uma forma de medir, dar valor a algo que pressupõe visão e caráter classificatório.
No entanto, pode também ser utilizada de forma pedagógica, diagnosticando e for-
necendo controle, auxiliando no processo ensino-aprendizagem e proporcionando
meios para correções das falhas e esclarecimentos das dúvidas.

Sant’Anna (1995, p.16) “[...] afirma que “avaliar não é rotular alguma coisa
e muito menos alguém! Avaliar é atribuir um valor!”. Sendo assim, podemos con-
cluir que qualquer forma avaliativa utilizada para discriminar e/ou rotular pode ser
considerada inadequada, perdendo, dessa forma, sua principal função que deveria
ser a de desenvolver o indivíduo avaliado, direcionando-o para novas aquisições ou
modificações.

A mesma autora enfatiza a necessidade de se observar mais analiticamente


o processo evolutivo de aprendizagem Numa perspectiva mais abrangente, institui-
ções, professores e alunos seriam responsáveis pela construção do conhecimento e
deveriam estar envolvidos conjuntamente na tarefa educativa, conforme podemos
verificar na sua afirmativa: “Um processo pelo qual se procura identificar, aferir, in-
vestigar e analisar as modificações do comportamento e rendimento do aluno, do

54
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

educador, do sistema, confirmando se a construção do conhecimento se processou,


seja este teórico (mental) ou prático (SANT’ANNA, 1998, p.29).

Posição semelhante é reiterada por José Carlos Libâneo enfatizando que a


supervalorização da nota, especialmente quando não é acompanhada de análise
da performance, deve ser evitada por não contribuir efetivamente para o desenvol-
vimento técnico-artístico do aluno. A cultura de valores e quantificação das ações
são fatores que podem contribuir para a tendência de avaliar através apenas de
atribuição de notas.
A avaliação é uma tarefa complexa que não se resume a realização de provas e
atribuição de notas. A mensuração apenas proporciona dados que devem ser
submetidos a uma apreciação qualitativa. A avaliação, assim, cumpre funções
pedagógico-didáticas, de diagnóstico e de controle em relação às quais se re-
correm a instrumentos de verificação do rendimento escolar (LIBÂNEO,1994,
apud OLIVEIRA; APARECIDA; SOUZA, 2008, p. 4).

A opinião de Pedro Demo enriquece a visão do processo avaliativo, conside-


rando-o também como um processo de planejamento, através de reflexão dos obje-
tivos a serem alcançados, e sempre de acordo com as necessidades das instituições
e das práticas em diferentes áreas:
Refletir é também avaliar, e avaliar é também planejar, estabelecer objetivos,
etc. Daí os critérios de avaliação que condicionam seus resultados estejam sem-
pre subordinados a finalidades e objetivos previamente estabelecidos para qual-
quer prática, seja ela educativa, social, política ou outra. (1999, p. 1)

Modalidades de avaliação

Entendemos que a classificação e conhecimento de diferentes modalidades


de avaliação, bem como sua aplicação, devam ser compreendidas para que possa-
mos obter resultados mais eficazes. De acordo com Bloom (apud SANT’ANNA, 1995),
podemos considerar várias modalidades de avaliação:

Fig. 1 – Modalidades da avaliação

55
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

1. Avaliação diagnóstica

Esta modalidade tem como função identificar o nível, os problemas e as ca-


racterísticas do avaliado em uma primeira instância, podendo ser utilizada como
identificadora de pré-requisitos para os cursos de bacharelado em música. A utili-
zação de entrevistas, formulários e uma prova para o início do processo seriam as
ferramentas básicas para o diagnóstico.

Segundo Blaya (2007, apud OLIVEIRA, 2008, p. 5):


Avaliação diagnóstica tem dois objetivos básicos: identificar as competências
do aluno e adequar o aluno num grupo ou nível de aprendizagem. No entan-
to, os dados fornecidos pela avaliação diagnóstica não devem ser tomados
como um ‘rótulo’ que se cola sempre ao aluno, mas sim como um conjunto de
indicações a partir do qual o aluno possa conseguir um processo de aprendi-
zagem. (OLIVEIRA, 2008, p. 5).

Fundamental no processo de ensino-aprendizagem, a avaliação diagnóstica


deve ser realizada nos primeiros contatos do professor com o aluno e sua função
básica seria identificar o perfil do estudante para traçar metas na orientação. Neste
momento, a sensibilidade e experiência do avaliador são essenciais para identificar
as possibilidades e potenciais de candidatos aos cursos de bacharelado em música.
No entanto, convém observar que, não raramente, as habilidades básicas exigidas
em uma determinada seleção podem estar encobertas por diferentes razões, o que
pode dificultar ou limitar essa primeira etapa avaliativa.

De acordo com Perrenoud (1999, p. 11-12),


[...] a avaliação diagnóstica está a serviço da seleção, hierarquizando e classifi-
cando os alunos de acordo com exigências preestabelecidas ou comparativas
entre o nível dos alunos, tendo como referência principal o próprio professor,
podendo ainda utilizar outras, criando o que ele trará como hierarquias de
excelência’, onde ‘os examinadores criam variações que se referem mais à es-
cala e ao princípio da classificação do que às variações significativas entre os
conhecimentos’. (PERRENOUD, 1999, p. 11 e 12).

Este momento possibilita ao professor/avaliador mapear a atuação do alu-


no que pretende ingressar no curso de bacharelado em música. O diagnóstico des-
te candidato poderá ser mais preciso se complementado por entrevista, análise de
suas experiências, vivência e expectativas quanto ao curso pretendido.

2. Avaliação formativa

Como uma segunda etapa da avaliação, já integrada ao processo educativo,

56
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

tem como funções principais a observação, compreensão e assimilação do conteú-


do ministrado. É o momento para corrigir, alterar ou manter o método utilizado no
processo de ensino-aprendizagem. Os instrumentos auxiliares podem ser variados,
mas o essencial será manter o foco na avaliação do rendimento e sua relação com
os métodos utilizados.

De acordo com Blaya (2007, apud OLIVEIRA; APARECIDA; SOUZA, 2008 p. 5):
...(É) a forma de avaliação em que a preocupação central reside em coletar
dados para reorientação do processo de ensino-aprendizagem. Trata-se de
uma ‘bússola orientadora’ do processo de ensino-aprendizagem. A avaliação
formativa não deve assim exprimir-se através de uma nota, mas sim por meio
de comentários.

A avaliação formativa deve acontecer durante todo o processo, do contrário


não seria possível mudar as estratégias de ensino para uma orientação mais eficien-
te do estudante. Analisando seu desempenho junto ao professor e à instituição de
ensino, investiga-se soluções apropriadas para seus problemas.

Perrenoud (1999, p.15) defende esta forma de avaliação como a mais im-
portante em todo o processo, propondo-a através de uma analogia com a área da
saúde:
Nenhum médico se preocupa em classificar seus pacientes, do menos do-
ente ao mais gravemente atingido. Nem mesmo pensa em lhes administrar
um tratamento coletivo. Esforça-se para determinar, para cada um deles, um
diagnóstico individualizado, estabelecendo uma ação terapêutica sob medida.
[...]
Avaliação formativa deve, pois, forjar seus próprios instrumentos, que vão do
teste criterioso, descrevendo de modo analítico um nível de aquisição ou de
domínio, à observação in loco dos métodos de trabalho, dos procedimentos,
dos processos intelectuais no aluno.” (PERRENOUD, 1999, p.15).

Entendemos que esse seria o momento, por exemplo, para adequar o pro-
grama ao aluno, fazer correções e/ou alterações pedagógicas e metodológicas.
Quando aplicada de forma criteriosa, esta avaliação pode apontar possibilidades de
novos rumos na metodologia de ensino, ao mesmo tempo que permite à instituição
maior flexibilidade do processo avaliativo.

3. Avaliação somativa

Concebida para ser aplicada ao final do processo, a avaliação somativa tem


por objetivo apresentar um resultado final transparente e definido que servirá de
base para uma futura orientação.

57
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Esta modalidade requer objetivos claros com parâmetros bem definidos,


podendo-se utilizar diferentes recursos, ficando a critério do avaliador aqueles que
melhor traduziriam o desempenho geral do aluno desde o início do processo. Não
é tarefa simples, pois é necessário uma visão de maior alcance para que se obtenha
um resultado representativo do processo.

De acordo com Gil (2006, p. 248),


...é uma avaliação pontual, que geralmente ocorre no final do curso, de uma
disciplina, ou de uma unidade de ensino, visando determinar o alcance dos
objetivos previamente estabelecidos. Visa elaborar um balanço somatório de
uma ou várias sequências de um trabalho de formação e pode ser realizada
num processo cumulativo, quando esse balanço final leva em consideração
vários balanços parciais.

Geralmente utilizada para mensurar e classificar, este procedimento tor-


na-se uma oportunidade para revisão e compreensão do conteúdo ministrado, as-
sociado ao mapa feito na avaliação diagnóstica e às adequações da avaliação for-
mativa. Conclui-se o processo com a avaliação somativa e o fornecimento de um
feedback1 que prepara os envolvidos para o próximo ciclo.

Instrumentos utilizados nas diferentes etapas avaliativas

As formas avaliativas são recursos possíveis de serem utilizados que, de


acordo com Sant’anna (1995, p. 87), possuem “[...] função primordial no contexto
avaliativo e devem ser planejadas as suas utilizações no contexto pedagógico-ava-
liativo”.

Com uma adequada interpretação dos resultados nas etapas apresentadas


pelo autor, podemos obter um perfil mais completo do aluno, através dos seguintes
procedimentos:

a) Conselho de classe: “instrumento que visa traçar o perfil de cada aluno e


do grupo” (SANT’ANNA, 1995, p. 87) em um momento em que todos os envolvidos
no processo de ensino se reúnem para melhor planejar o melhor caminho pedagó-
gico para o aluno ou turma.

b) Pré-teste: “teste aplicado para averiguar pré-requisitos para aquisição de

1 Palavra de origem inglesa que podemos traduzir como realimento ou comentário. No


entanto, em nosso país utilizamos o termo em sua forma original (feedback), cujo signifi-
cado seria o ato de realimentar o processo avaliativo, geralmente utilizado em diversas
áreas do conhecimento.

58
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

novos conhecimentos” (SANT’ANNA, 1995, p. 87). Pode, ainda, definir novos cami-
nhos metodológicos ou formatos a serem seguidos, servindo de amostragem para o
teste final. Podemos considerá-lo muito útil na avaliação formativa.

c) Autoavaliação: “instrumento capaz de conduzir o aluno a uma modalida-


de de autoconhecimento que se põe em prática a vida inteira” (SANT’ANNA, 1995,
p. 87). É sempre uma excelente oportunidade para a consolidação das aquisições
relevantes e reflexão sobre as lacunas a serem preenchidas. Geralmente adotada
ao fim do processo na avaliação somativa, pode ser um momento apropriado para
o feedback.

d) Avaliação cooperativa: “instrumento que oportuniza uma avaliação com-


preensiva, onde cada um contribui com os dados que possui, para conhecimento in-
dividual e grupal” (SANT’ANNA, 1995, p. 87). Procedimento útil no reconhecimento
das lacunas e oportunidade para apresentar soluções, mudanças de direcionamento
e necessidades para alcançar os objetivos traçados. Seria o ato de olhar o avaliado
de forma crítica, porém, nunca preconceituosa, ou seja, com parâmetros preesta-
belecidos que rotulem o estudante. Deve funcionar como instrumento de coleta de
dados, sendo, portanto, uma boa opção na avaliação diagnóstica.
Contemplarmo-nos do mesmo modo pelo qual os outros nos veem é uma das
mais confortadoras dádivas. E não menos importante é o dom de vermos os
outros, tal como eles mesmos se encaram.
[...]
Inquirição: Se desejarmos saber como as pessoas se sentem – qual sua experi-
ência interior, o que lembraram como são suas emoções e seus motivos, quais
as razões para agir como o fazem – por que não perguntar a elas? (SANT’AN-
NA, 1995, p. 87).

e) Inquirição: podemos utilizá-la como uma conversa franca em todo pro-


cesso avaliativo. No entanto, caso ocorra no final (avaliação somativa), serve como
oportunidade para fornecer o feedback.

f) Relatório: “constitui o registro de dados que expressam a comunicação


dos resultados de planejamentos concretizados” (SANT’ANNA, 1995, p. 87). São
adequados para gerar histórico de atividades e metas alcançadas, fornecendo um
feedback para a instituição. Os dados diversificados, ao serem cruzados, fornecerão
maior legitimidade ao processo avaliativo, dentro de um processo global.

Geralmente esta etapa da avaliação, o relatório, deve ser gerado a partir da


prova avaliada por banca examinadora, onde o aluno apresenta o programa exigido
e os professores lhe atribuem um conceito ou nota.

59
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Feedback

Como realimentador do processo, deve ser aplicado ao fim de cada ciclo,


fornecendo ao aluno, ao professor e à instituição, condições do aprendizado e justi-
ficativas das didáticas escolhidas.
Feedback é importante para todos nós. É a base de todas as relações inter-
pessoais. É o que determina como as pessoas pensam, como se sentem,
como reagem aos outros e, em grande parte, é o que determina como as
pessoas encaram suas responsabilidades no dia-a-dia (WILLIAMS, 2005, p.
19).

De suma importância para o aluno, este procedimento fornece material de


análise crítica onde aparecem os resultados, não apenas em números ou concei-
tos, mas em forma de relações com os objetivos traçados e os alcançados, falhas
e lacunas observadas. Fundamentalmente, o que fazer para melhorar? Tem sido
pouco compreendido e utilizado no âmbito musical; no entanto, poderia diminuir
a sensação de subjetividade na avaliação da performance, deixando de apresentar
apenas breves comentários, para apresentar comentários mais claros e objetivos.
Ao observar os resultados no passado, o estudante terá oportunidade de prever o
desempenho futuro, com novas perspectivas no aprimoramento da sua arte.

Considerações finais

O processo avaliativo tem início no momento em que um indivíduo observa


o outro e analisa suas atividades. Na performance musical de um estudante de mú-
sica, podemos avaliar, principalmente, o domínio técnico, estilístico, a criatividade e
a adequação do repertório exigido. No entanto, essa avaliação pode se tornar uma
ferramenta didática com possibilidades para aprimoramento do estudante conside-
rado em desenvolvimento. É nesse aspecto que vemos o professor/avaliador como
um verdadeiro educador e não apenas um transmissor de conhecimento.

Quando o processo avaliativo ocorre com intuito pedagógico, fornece di-


versas possibilidades para as etapas posteriores, possíveis revisões nos processos
didáticos e metodológicos do professor, assim como adequações da instituição à
realidade da comunidade acadêmica. A conscientização da relevância do processo
avaliativo permite novas condições favoráveis de trabalho, tanto para o professor
como para o aluno.

Este trabalho apresenta um resultado parcial do projeto proposto ao PRO-


MUS – UFRJ, intitulado ‘O processo avaliativo do aluno de bacharelado em instru-
mentos de metais na Faculdade de Música do Espírito Santo (FAMES)”.

60
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Referências

DEMO, Pedro. Avaliação qualitativa. 6. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 1999.
ENCONE, Délcia et al. Planejamento de ensino e avaliação. Porto Alegre: PUC, 1975.
GIL, Antônio Carlos. Didática do ensino superior. São Paulo: Atlas, 2006.
OLIVEIRA, Adriana; APARECIDA, Celena; SOUZA, Gelsenmeia M. Romero: Avaliação:
conceitos em diferentes olhares, uma experiência vivenciada no curso de
Pedagogia. 2008. Disponível em: <http://www.pucpr.br/eventos/educere/
educere2008/anais/pdf/510_223.pdf>. Acesso em: 22 fev. 2010.
PERRENOUD, Philippe. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens –
entre duas lógicas. Porto Alegre: Artmed, 1999.
______. As competências para ensinar no século XXI: a formação dos professores e
o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed, 2002.
SANT’ANNA, Ilza Martins. Por que avaliar? Como avaliar?: critérios e instrumentos.
3. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
WILLIAMS, Richard L. Preciso saber se estou indo bem: uma história sobre a impor-
tância de dar e receber feedback. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.

61
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Harmonia peregrina na obra para piano de


Almeida Prado: estudo de caso na Nebulosa
Planetária NGC3195 das Cartas Celestes XV

Aleyson Mariano Scopel


UFRJ – aleysonscopel@hotmail.com
Ana Paula da Matta Machado Avvad
UFRJ – paulamtt@globo.com

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo o estudo do movimento Nebulosa Pla-
netária NGC3195, das Cartas Celestes XV (2009) para piano, escritas por Almeida Prado
(1943-2010). Compostas por 18 obras, das quais 15 para piano, as Cartas Celestes são
consideradas pelo próprio compositor uma de suas obras mais importantes. O trabalho
apresenta um estudo da construção do movimento em questão, que emprega sobretudo
a técnica da harmonia peregrina, termo proposto pelo compositor para designar o uso
de tonalidades livres, e assemelha-se à forma empregada em seus Noturnos para piano.
Apresenta ainda algumas considerações para a execução pianística, buscando compreen-
der o discurso musical e levantar soluções técnico-interpretativas.
Palavras-chave: Cartas Celestes. Almeida Prado. Piano. Práticas Interpretativas.

Pilgrim harmony in the works for piano by Almeida Prado: a case study of the Nebulo-
sa Planetária NGC3195 from Cartas Celestes XV
Abstract: The present article targets the study of the movement Nebulosa Planetária
NGC3195, from the work Cartas Celestes XV (2009) for piano written by Almeida Prado
(1943-2010). A cycle of 18 works, of which 15 for piano, Cartas Celestes is considered by
the composer one of his most important works. The article presents a study of the cons-
truction of the movement, which makes use of the technique called pilgrim harmony,
a term used by the composer to designate the use of free tonality, and resembles the
form used in his Nocturnes for piano. It also considers the interpretation of the piece at
the piano, aiming at comprehending the musical discourse and providing technical-in-
terpretive solutions.
Key-words: Evaluation. Cartas Celestes. Almeida Prado. Piano. Interpretive practice.

Almeida Prado

José Antônio de Almeida Prado (1943-2010) é considerado um dos mais


importantes compositores brasileiros, tendo deixado um legado composicional que
ultrapassa 600 composições. O compositor atravessou diferentes fases estéticas
e costumava dividir sua produção artística em períodos, enfatizando, porém, que
são interdependentes e passíveis de serem reagrupados diferentemente. Hideraldo
Grosso (1997, p. 191) estabelece a divisão em sete fases: Fase da Infância (1952-

63
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

1959); Fase do Nacionalismo (1960-1965); Fase Autodidata ou Atonal-livre (1965-


1969); Fase de estudos na Europa com Boulanger e Messiaen (1969-1973); Fase da
Ecologia, Astronomia, Fauna e Flora (1973-1983); Fase do Pós-modernismo ou Mís-
tico-religiosa (1983-1993); e Fase Tonal-livre (1993-2010).

Na fase de estudos na Europa, Almeida Prado frequentou, em Paris, as classes


de Nádia Boulanger (1887-1979) e Olivier Messiaen (1908-1992). Boulanger e Messia-
en representavam, para os que buscavam aperfeiçoamento na França, o melhor de dois
universos contrastantes: “a primeira era considerada formalista de feição acadêmica; o
segundo, mais afeito às práticas não-ortodoxas, sem contar que houvera sido o mestre
dos compositores de Darmstadt, como Stockhausen e Boulez.” (SALLES, 2005, p. 187).

A vasta produção de Almeida Prado abordou diferentes temáticas. Merecem


destaque a temática ecológica, inspirada pela fauna e flora, e a astronômica, que
mostra seu olhar sobre o céu do Brasil e inspirou a série de Cartas Celestes.

Inseridas entre as obras mais importantes de sua carreira, as Cartas Celestes


são um ciclo de dezoito obras, das quais quinze para piano solo. Resultantes de fe-
cundos períodos e, em suas palavras, “responsáveis para um novo posicionamento
[...] diante da utilidade da minha música” (PRADO, 1985: 2), nelas, Prado empregou
de todas as formas imagináveis a exploração dos timbres e ressonâncias do piano.
Sua maior inovação foi o uso do transtonalismo, procedimento nem tonal nem ato-
nal adotado pelo compositor no qual sons são organizados por ressonâncias.

Cartas Celestes XV

Compostas em 2009, as Cartas Celestes XV fazem parte do seu último perí-


odo composicional, cuja característica principal é a total liberdade, realizando uma
síntese de todos os períodos anteriores, adicionando material tonal livre e de mul-
tiplicidade de texturas e timbres. As Cartas Celestes XV: O Universo em expansão
têm como tema central a formação e a expansão do universo e são divididas em seis
movimentos: A Estrela GRB090423, Nebulosa do Esquimó, Constelação de Pictoris
(Pintor) & Planeta Extra-Solar, Constelação da Ave do Paraíso (Avis Indica), Nebulosa
Planetária NGC3195 e Vento Solar. O presente trabalho é focado no penúltimo mo-
vimento Nebulosa Planetária NGC3195.

Nebulosa Planetária NGC3195

Identifica-se durante o movimento dois elementos contrastantes: a utilização


da harmonia peregrina, utilizada como acompanhamento, e a melodia atonal. Esses

64
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

elementos alternam-se em altura. A harmonia peregrina foi um termo proposto por Al-
meida Prado para fazer referência à sua forma de tratar o uso do sistema tonal de ma-
neira livre, principalmente no seu último período composicional. Ele explica o termo:
Eu seria um [compositor de linguagem] tonal livre e que eu chamo de harmo-
nia peregrina, que é uma harmonia em que eu estando, por exemplo, em dó
maior, para sol maior, para Si maior, para fá menor, para ré maior, para Mi
menor, para solb e dó. Quer dizer, eu não penso em dominante, tônica clichê,
posso fazer dominante abaixada em solb ir para dó maior. Então eu chamo de
harmonia peregrina, que ela vai andando, mas ela começa e termina em dó, ou
em qualquer outro tom. O tonal livre não obedece nem mesmo esse sentido
do peregrino, ele pode começar como um cluster e terminar em Mi maior. Ele
é bem livre mesmo. (PRADO apud COSTA, 1998, p.195).

O material harmônico peregrino no movimento Nebulosa Planetária


NGC3195 inicia-se em quiálteras de cinco no compasso 1. A partir do compasso 2
até o compasso 5, seção que tem indicação de repetição, tem-se a seguinte sequên-
cia em movimento descendente pelo teclado: Sol menor em estado fundamental, Si
menor em primeira inversão, Dó menor em estado fundamental, Lá Maior em estado

Fig 1 – A. Prado, Cartas Celestes XV, NGC3195, compassos 1-5

65
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

fundamental, Fá Maior em estado fundamental, Ré Maior em estado fundamental,


Ré maior com sétima em primeira inversão repetidos três vezes, seguidos, em mo-
vimento ascendente pelo teclado, por Sol Maior em estado fundamental, Si Maior
em estado fundamental, Dó menor em estado fundamental, Lá Maior em segunda
inversão, Fá menor em primeira inversão, Dó menor em posição fundamental, Mi
Maior com sétima em posição fundamental, e voltando ao Sol menor em estado fun-
damental.

Nota-se, a partir do segundo acorde, que cada um possui com o anterior ao


menos uma nota com a distância de um semitom inferior ou superior, e em alguns
casos duas ou três. Alguns acordes apresentam também notas em comum. Com ex-
ceção de dois acordes de quatro sons, o restante alterna-se entre tríades maiores ou
menores.

A harmonia peregrina já havia sido utilizada em vários outros momentos


das Cartas Celestes XV. Um exemplo claro é no princípio do segundo movimento, a
`“Nebulosa do Esquimó”, que abre com uma sequência de acordes tonais que não
são resolvidos dentro dos moldes da harmonia funcional.

Fig 2 – A. Prado, Cartas Celestes XV, Nebulosa do esquimó, compassos 4-5.

Tem-se nessa sequência, conforme a Figura 2 indica, os acordes de Si me-


nor passando pelo de Ré M com sétima, porém omitindo o quinto grau Lá natural
(temos apenas Ré, Fá e Dó), concluindo com o terceiro acorde na modalidade
menor de Sol.

Observa-se, na primeira página da Nebulosa NGC3195, que a harmonia pe-


regrina acumula, e isso pela primeira vez em toda a obra, as funções de base harmô-
nica e timbrística, ou cor e fluidez rítmica.

A polaridade Sol que abre o movimento foi utilizada no final do movimento


precedente. Denominado “Ave do Paraíso”, este movimento termina com duas oita-
vas na nota Sol em uníssono, conforme o exemplo abaixo:

66
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Fig 3 – A. Prado, Cartas Celestes XV, Ave do Paraíso, compassos 25-26.

Criando portanto um elo de ligação entre os movimentos, essa polaridade é


explorada no início da NGC3195, uma vez que o primeiro acorde que ressoa é o de
Sol menor na mão esquerda. Tal nebulosa, denominada Constelação de Camaleão,
situa-se numa Constelação vizinha à Ave do Paraíso, o que consideramos outra refe-
rência ao movimento anterior. É possível uma incidência interpretativa da ideia do
som-cor. Atribuindo a cada acorde uma cor diferente, faz-se uma livre associação
desse caleidoscópio com a característica do animal que dá nome à Constelação –
uma vez que essa espécie de lagarto tem a habilidade de mudar de cor.

A melodia atonal da mão direita percorre todos os doze sons da escala cro-
mática, priorizando linhas cromáticas e intervalos de 4a e 5a, com sons que muitas
vezes formam semitons com os sons dos acordes simultâneos da mão esquerda,
mudando portanto sua sonoridade e ressonância através desses elementos invaso-
res, um dos responsáveis também pelo caráter “misterioso” indicado pelo compo-
sitor. Por isso, a execução da primeira página deverá ser aqui, como em toda obra,
sensível às cores e timbres que o piano oferece através da dissonância criada pela
melodia da mão direita com o acompanhamento.

Nos compassos 6-7, os acordes tonais descendentes são ouvidos em blocos


repetidos na mão direita, apoiados na nota Dó em oitavas na mão esquerda:

Fig 4 – A. Prado, Cartas Celestes XV, NGC3195, compassos 6-7.

67
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

No compasso 8 (Figura 5), a melodia atonal é apresentada na mão direi-


ta em oitavas, com o acompanhamento dos acordes ascendentes em quiálteras de
sete. Nota-se aqui uma alteração no quarto grupo, através da adição do acorde de
Fá menor nas últimas quatro notas da quiáltera:

Fig 5 – A. Prado, Cartas Celestes XV, NGC3195, compasso 8.

Esse compasso serve como transição para o novo andamento no compasso


9, que tem a indicação de “mais rápido, eloquente!”. A insistência na nota Dó migra,
nos compassos 9-11 (Figura 6), para Ré, Fá e Mi, com arpejos de Sol menor, Dó me-

Fig 6 – A. Prado, Cartas Celestes XV, NGC3195, compassos 9-11.

68
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

nor, Fá Maior e Fá menor. Já a mão direita cria no extremo agudo uma figura ostinato
de sete sons, composta pelo acorde de Sol menor e a tríade descendente Mi5 – si5
 – Fá4 natural, que estão separadas por dois intervalos de 4a justa.

O movimento é concluído de maneira calma ainda com o Fá em oitavas na


mão esquerda e com alguns dos acordes outrora ouvidos em direção ascendente
de maneira descendente, repousando no acorde de Fá menor, criando um semitom
com o Fá.

Observam-se duas seções externas calmas do movimento, com uma seção


gradativamente agitada contrastante, remetendo a um Noturno de forma ABA’ divi-
dido da seguinte forma: Seção A– Compassos 1-7; Seção B – Compassos 8-11; Seção
A’ – 12-17.

Prado escreveu 14 Noturnos para piano entre 1985 e 1991. Costa (2011)
nota, em sua edição crítica, que eles reúnem diversas técnicas composicionais, al-
guns com a forma ABA fieldiana mais definida que outros. De particular interesse
comparativo é o Noturno n. 12, sobre o qual diz o compositor:
Este aqui [noturno 12] quando eu fiz, é como se eu tivesse compondo uma
nova carta celeste, como se isso aqui fosse uma galáxia, não uma constelação,
mas uma galáxia... mas virou noturno. O noturno 12 é muito multifacetado.
(PRADO apud COSTA, 2011, p. 134, grifo nosso).

Nesse e em outros noturnos, Costa mostra que é recorrente seções em osti-


nato de acordes ou arpejos, sustentando a melodia. O Noturno n. 12 traz a indicação
“Como estrelas” e, no corpo da obra, utiliza as seguintes indicações mais específicas
para ilustrar o caráter da estrela de cada passagem: “como suaves cintilações no céu
noturno”, “luminoso”, “como uma constelação”, “como uma nebulosa”, “como uma
galáxia” e “como um canto sideral”.

Convém citar uma passagem de Prado, ao falar sobre a interpretação de sua


obra, que descreve um universo emocional bastante adequado à NGC 3195: “Sem-
pre emocional! Logicamente lírica. O intérprete tem que ter um emocional violento,
um grande lirismo, essa coisa da respiração interrompida, para poder passar pra
quem ouve. Ou então é inútil.” (PRADO apud MOREIRA, 2004, p. 76).

Considerações Finais

As observações analíticas, nomeadamente a técnica da harmonia peregrina


empregada na primeira seção do movimento em questão e uso do tonal livre aliados
à melodia atonal, bem como a observação da estrutura do movimento (forma No-

69
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

turno), levaram à sugestões técnico-interpretativas apresentadas no decorrer deste


trabalho que contribuíram para a construção da performance, dando ao intérprete
um conhecimento mais amplo das possibilidades do instrumento e de seus timbres,
contribuindo para a concepção mais íntima da obra e uma execução sólida e bem
estruturada.

Referências

COSTA, Régis Gomide. Os Momentos de Almeida Prado: Laboratório de Experimento


Composicionais. 1998. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do
Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
COSTA, Thiago de Freitas Câmara. A edição crítica e revisada dos Noturnos para pia-
no de Almeida Prado. 2011. Dissertação de mestrado. Universidade de São
Paulo, Escola de Comunicações e Artes, São Paulo.
GROSSO, Hideraldo. Os Prelúdios para piano de Almeida Prado: Fundamentos para
uma interpretação. 1997. Dissertação (Mestrado em Música) – Instituto de
Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
MOREIRA, Adriana Lopes da Cunha. Flashes de Almeida Prado por ele mesmo. Opus
– Revista da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música.
Rio de Janeiro, ano X, n. 10, dezembro, p. 73-80, 2004.
SALLES, Paulo de Tarso. Aberturas e impasses: O pós modernismo na música e seus
reflexos no Brasil – 1970-1980. 1. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

70
Liberdade na arte: três encontros com a
ópera contemporânea brasileira

Flavio Leite Correia


UFRJ – fleitec@yahoo.com.br

Resumo: O presente artigo tem como objetivo traçar um paralelo entre três personagens
de óperas brasileiras contemporâneas e suas relações com a busca do sentimento de
liberdade. Através de um estudo de caso específico das óperas O Menino e a Liberdade,
com música de Ronaldo Miranda e libreto de Jorge Coli, O Perigo da Arte, com música e
libreto de Tim Rescala e A Estranha com música de Vagner Cunha e libreto de Antônio
Rocco analisar como cada uma das obras tratou musicalmente, vocalmente e no próprio
texto a relação entre as personagens escritas para a vocalidade de tenor; Rapaz, Fulano e
Casemiro, respectivamente, com seus caminhos internos rumo à libertação de suas reali-
dades opressoras, jornada essa comum a esses três protagonistas.
Palavras-chave: Música. Ópera brasileira contemporânea. Voz.

Freedom in art: three meettings with brazilian contemporary ópera


Abstract: This paper has as objective making a paralel between three characters from
brazilian contemporary operas and their relations in their process searching for free-
dom. Analysing the operas O Menino e a Liberdade, with music from Ronaldo Miranda
and text from Jorge Coli, O Perigo da Arte, with text and music from Tim Rescala and
A Estranha with music from Vagner Cunha and text from Antônio Rocco discusses how
each one treated musicaly, textualy and vocaly the relations between this three major
tenor rolls; Rapaz, Fulano and Casemiro, respectively, and their inner ways through the
freedom from their opressive realities.
Key-words: Music. Brazilian contemporary opera. Voice.

O Menino e a Liberdade – personagem O Rapaz.

A ópera em um ato O Menino e a Liberdade foi estreada no Theatro São


Pedro de São Paulo no dia 1º de novembro de 2013 após ter sido encomendada
pelo teatro ao compositor Ronaldo Miranda, tratando-se, portanto, de uma obra
comissionada. O libretista foi Jorge Coli que adaptou a crônica de mesmo nome do
poeta Paulo Bonfim, transformando-a em texto a ser musicado. 

A história passa-se em São Paulo na década de 1950. Um menino entra em


um taxi lotação acompanhado de sua mãe e, lendo a placa de “LIVRE” do taxímetro,

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 71


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

pergunta a ela o que é ser livre. O questionamento da criança gera instantanea-


mente em cada um dos passageiros do taxi lotação a mesma indagação. Cada um
dos outros cinco ocupantes do veículo expõe em grandes cenas individuais, como
se fossem grandes monólogos internos encenados nos seus pensamentos o que o
conceito de liberdade significaria para cada um. O segundo a expressar-se em um
monólogo é justamente o Rapaz, personagem escrito para o registro de tenor. A
narrativa de sua grande cena inicia-se com uma introdução orquestral com textura
musical de grande tensão por meio de dissonâncias e cromatismos sobrepostos.
Caio Senna (2007, p.5) define textura musical como “a percepção imaginária de um
espaço sonoro, em constante mutação, formado pelas alturas envolvidas na trama
e individuado por elementos diversos, tais como agógica, dinâmica e timbre.” A ten-
são continua presente na primeira parte da ária com a repetição de um cromatismo
descendente na orquestra, onde o personagem descreve a rotina de seu dia a dia de
pressões no trabalho e vida pessoal, ao relatar que ao chegar em casa continuará a
ser questionado por seus pais quanto à sua vida pessoal. Quando virá o casamento,
quando virão os netos são alguns dos questionamentos reproduzidos pelo Rapaz
num clima crescente de tensão, ilustrados musicalmente pelo compositor por uma
gama de texturas musicais sobrepostas na orquestração que culminarão na acusa-
ção feita pelos pais dele ser o culpado de continuar solteiro pelo fato de ser muito
exigente. Numa gradual mudança de cor, tempo e timbre na orquestração, esta-
belece-se uma instantânea calma. Sobre timbre na música do século XX, Roberto
Victorio nos diz:
Nesta fase da escrita musical ( séc. XX), podemos perceber o elo delimi-
tante na fronteira do fazer e do notar música, em uma diluição progres-
siva do percurso linear, enquanto intenção melódica, distanciamento da
preocupação harmônica, como veio condutor de tensões e distensões e a
conseqüente focalizarão em outro elemento musical que sempre existiu,
porém relegado à uma “natural” finalização/resultado sonoro das junções
e particularidades do processo de amálgama e distinção sonora: o timbre.
(VICTORIO, 2003, p.2)

Inicia-se a segunda parte da ária com uma expansiva e expressiva frase lírica
onde o Rapaz confessa seu amor por Sérgio, sintetizando toda a sua angústia prévia
na confissão de seu amor homossexual escondido e reprimido pela sociedade de
então. Seu sonho de liberdade seria poder realizar sem culpa este amor romântico
com seu objeto de desejo. O compositor enfatiza o êxtase amoroso da personagem
e paralela libertação das amarras de se ver obrigado a esconder seu amor em uma
frase ascendente ao registro agudo de tenor, onde a personagem revela “…Pegar
com afeto na mão dele quando der vontade, em qualquer lugar. Ah! Como eu queria
amar o Sérgio sem culpa.”

72
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Fica muito clara a intenção do compositor em exaltar a liberdade de senti-


mentos com uma expansiva escrita na zona aguda da voz, contrariando o peso da
culpa e opressão expressadas no extremo grave do registro vocal, e traçando uma
relação muito profunda entre texto e música, uma constante em toda a obra. A ópe-
ra encerra-se com uma grande discussão entre todos os personagens a respeito dos
conceitos filosóficos de liberdade.

O Perigo da Arte - personagem Fulano

A ópera em um ato O Perigo da Arte com libreto e música de Tim Rescala


teve sua estreia brasileira no dia 20 de dezembro de 2014 na Sala Cecília Meireles
no Rio de Janeiro. Após ter sido encomendada ao compositor pelo Ciclo de Ópera
Contemporânea de Buenos Aires e estreada na capital argentina no ano anterior, a
versão brasileira foi dentro da programação de reinauguração da Sala Cecília Meire-
les, no Rio de Janeiro. 

A história gira em torno do jovem artista plástico Fulano, oriundo de uma


comunidade carente e violenta, que  surge como um talento promissor das artes
plásticas, realizando trabalhos desconcertantes, sobretudo performances, utilizan-
do os materiais mais improváveis. Sob a influência de sua namorada e maior incen-
tivadora, Valquíria, vinte anos mais velha do que ele, vão à casa de Felipe Tricano,
ex-marido de Valquíria e maior crítico de arte do país, com o intuito de apresentar
o artista ao crítico e pedir sua ajuda para alavancar a carreira de Fulano. Ao longo
do jantar, o artista é apresentado ao submundo da atividade artística profissional,
onde favores, críticas compradas e trocas das mais diversas são fatores que determi-
nam o sucesso ou fracasso de uma carreira. Fulano sente-se ultrajado e tem que ser
contido por Valquíria para não avançar sobre Felipe a cada novidade exposta pelo
anfitrião. Ela pergunta então qual seria o preço para que o crítico colocasse sua influ-
ência no mundo da arte em favor de Fulano.  Diante das lagostas servidas por Felipe
e da constante humilhação do dono da casa ao artista, sucedem-se três propostas
por parte de Felipe. A primeira seria a revisão da pensão de sua ex-mulher, negada
no momento por Valquíria. A segunda seria a troca de favores sexuais de Fulano em
troca do apoio, também imediatamente negada por Valquíria. Fulano já não exibe
mais a rebeldia que demonstrou quando lá chegou. Estava quase catatônico, não só
por não saber se comportar à mesa, mas, principalmente, por estar assistindo a um
negócio  tendo como produto a sua obra, razão da sua vida e a desilusão que todas
aquelas informações lhe causavam. Felipe então propõe sua última alternativa, um
acordo financeiro em que ele ficaria com um percentual de 80% para ele e 20% para
o artista.

73
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Um pequeno silêncio se faz na mesa. Valquíria questiona Fulano sobre a pro-


posta. Sem voltar seu rosto para Valquíria, Fulano, apenas pergunta a Felipe como
é que se prepara aquela comida tão diferente. Tricano responde que uma lagosta
bem preparada deve ser cozida viva. Viva?, pergunta Fulano, surpreso. Sim, viva,
responde Tricano. Depois de mais um novo silêncio, sem olhar para os dois, Fulano
diz apenas: – Vocês dois agora terão a oportunidade de participar do meu último
trabalho como artista plástico. A minha maior obra, o meu trabalho mais radical,
que não poderá ser comparado a nenhum outro. Ninguém jamais ousará copiar este
meu trabalho e ninguém jamais dirá que ele se parece com qualquer outro. O que
se segue então é uma verdadeira carnificina. Fulano, até o momento o artista que
tentava se encaixar nas regras vigentes para se inserir no mercado da arte e na so-
ciedade como um todo, rompe com tudo e segue apenas seu instinto, matando bar-
baramente Felipe e Valquíria, suicidando-se em seguida, libertando-se das amarras
impostas pela idéia do mercado da arte.

A música de Rescala apresenta nesta obra os estilos propostos por Boudewi-


jn Bucknix de música pós-moderna, a saber:
1) a poliestilística; 2)a “música narrativa” na qual “tudo prossegue com lógi-
ca e continuamente, e mesmo assim não se sabe no que vai dar”; 3) a mú-
sica momentânea que tem uma “natureza sonora sempre muito agradável,
e cujas mudanças apenas tentam manter o estado atingido”; 4) a música
múltipla - aglomerados inapreensíveis. (BUCKINX, 1998, p.62 e 63).

Basicamente atonal, remetendo à uma grande tensão em quase a totalidade


da obra e ritmicamente muito elaborada, a partitura de Rescala é profundamente
complexa do ponto de vista de escrita musical. O discurso musical segue sem inter-
rupções; não há árias, duetos, ou números fechados, apenas pequenos interlúdios
orquestrais separando a espacialidade das cenas.

A música do personagem Fulano é sempre a mais exaltada, a mais nervosa,


de características completamente opostas a dos outros dois personagens. Sugerin-
do o caráter de Fulano, que está sempre a um passo do descontrole, sua escrita
apresenta grandes saltos ascendentes e descendentes aparentemente desconexos,
mas profundamente ligados à coloquialidade de seu texo, fazendo uso inclusive de
expressões e palavras de baixo calão, diferenciando-o por completo da verve cínica
e contida dos outros dois personagens. Sobre o peso desta relação entre texto e
música na música contemporânea, o compositor Luciano Berio (apud HERR, 2007,
p.122) nos diz: 
a verdadeira meta não seria todavia nem opor, nem mesclar dois sistemas
expressivos distintos, mas sim criar uma relação de continuidade entre os

74
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

mesmos, possibilitando a passagem de um para o outro sem que isto seja


notório, sem que se tornem manifestas as diferenças entre uma conduta
do tipo lógico-semântico (aquela que se adota em meio a uma mensagem
falada) e uma conduta perceptiva de tipo musical, isto é, transcendente e
oposta à precedente, seja no plano do conteúdo, seja no plano sonoro.  (BE-
RIO apud HERR 2007, p.122)

A opressão que toda a situação exposta ao artista no jantar de que o mer-


cado da arte no qual ele quer se inserir não tem nada a ver com a sua visão ideali-
zada e ingênua vai fazendo com que a música fique também cada vez mais densa,
culminando no momento em que ele se liberta de toda aquela situação matando os
outros dois e cometendo suicídio como seu último “ato artístico”.

A Estranha - personagem Casemiro

A ópera em um ato A Estranha de Vagner Cunha com libreto de Antônio


Rocco é uma obra comissionada pelo produtor e diretor cênico norte americano
Robert Driver. Ainda inédita, mas em fase de pré-produção e registro já podem ser
anotadas algumas informações acerca da composição. Os personagens são a Mãe,
mezzo soprano, Casemiro, tenor, a Estranha, soprano e Cachorrão, barítono.

A ação passa-se em São Paulo nos dias atuais e tem como pano de fundo um
apartamento em frente ao viaduto “Minhocão”, onde vivem Casemiro, um homem
solteiro por volta dos quarenta anos e um grande retrato de sua mãe, já falecida,
que interage com o filho exercendo sobre ele uma total dominação emocional. Na
noite do aniversário de Casemiro, onde ele comemora solitariamente com a mãe,
com quem tem uma relação de amor e ódio, acontece um acidente no Minhocão
e a festa é interrompida pela queda dentro do apartamento de uma jovem moça
desacordada. Desde então Casemiro transfere sua total atenção e afeto à moça des-
conhecida, resultando em uma revolta por parte da mãe, acostumada a ter a totali-
dade das atenções do filho. Quando a moça finalmente acorda, relata que sofreu um
acidente durante uma fuga da polícia com seu namorado, o traficante Cachorrão.
Casemiro e a moça apaixonam-se à primeira vista, e o rapaz muda completamente
de atitude depois deste sentimento. Antes tímido e retraído, agora corajoso e des-
temido ao livrar-se da dominação materna e do traficante Cachorrão que vem ao
apartamento atrás da moça que está envolvida em um assalto à banco, coincidente-
mente, o mesmo banco onde Casemiro trabalha. Uma trama de ação desenvolve-se
entre os quatro com um desenrolar surpreendente.

O compositor adota uma escrita tonal, com ritmos e métrica tradicionais


e a estrutura da obra lembra a de um musical por intercalar diálogos falados entre

75
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

os números claramente distinguíveis. São várias árias, duetos, tercetos e quartetos


intermeados por diálogos falados. A ópera começa com uma grande introdução de
orquestra simulando uma tempestade que emenda com a primeira ária da mãe, la-
mentando-se da vida dentro daquele quadro, da chuva incessante e da ausência do
filho. Casemiro chega e os dois começam um diálogo a respeito de seu aniversário
em um tempo de valsa tragicômica. Casemiro lamenta-se posteriormente em uma
ária de escrita lírica o fato de sua mãe sequer o ter cumprimentado pelo aniversário.
A escrita culmina nos xingamentos do personagem à sua mãe com saltos à zona
aguda da voz de tenor exatamente nas palavras “inútil” e “incompetente”. A partir
da chegada da estranha à cena, muda a escrita musical para Casemiro, que começa
a cantar frases mais líricas e temas mais inimistas revelando o impacto emocional
causado pela presença da personagem do soprano. A obra tem dezesseis cenas mu-
sicadas, terminando com um grande conjunto onde cantam todos os personagens.

Casemiro liberta-se do domínio desta figura materna através do amor que


surge pela personagem da Estranha, mudando sua maneira de encarar os desafios
de sua vida e sua própria visão de mundo.

Considerações Finais

Rapaz, Fulano e Casemiro, uma comparação

O ponto de convergência entre estes três personagens contemporâneos da


ópera brasileira é a sua busca pela liberdade. Em suas diferentes esferas e universos
textuais, musicais e vocais, os três percorrem ao longo de cada uma de sua ópera de
origem um caminho diverso rumo à libertação.

No que se refere ao texto cada uma das obras segue um caráter distinto até
em decorrência de suas situações de criação. Em O Menino e a Liberdade, Jorge Coli
baseou-se na pequena crônica de Paulo Bonfim para criar o libreto. Aumentou-a,
criou mais personagens e conflitos, entre eles o Rapaz, não existente como perso-
nagem na crônica original. Coli usa no texto a forma culta da lîngua, até pelo fato
da história passar-se nos anos 50, período histórico onde a norma culta da língua
era o padrão. Sobre a adaptação de textos já existentes para um libreto, o próprio
compositor Ronaldo Miranda nos esclarece:
Transpor uma obra de arte de um gênero para outro não é tarefa fácil. E,
quase sempre, quem se arrisca a fazer uma adaptação arrisca-se a ser alvo
de críticas e a ter o seu trabalho comparado (e diminuído) em relação ao ori-
ginal abordado. No entanto, se efetivamente a maioria das adaptações são
inferiores aos seus originais, há também honrosas exceções, mormente no

76
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

gênero lírico, onde encontramos transposições que podem ser consideradas


artisticamente equivalentes à matriz adaptada ou, até mesmo, superiores,
em casos de flagrante desnível do romance ou da peça de teatro original.
(MIRANDA, 2012, p. 97)

Já em O Perigo da Arte é o oposto. Rescala, responsável também pelo libreto


da ópera, utiliza um português coloquial e, especificamente, no que se refere ao
personagem Fulano, um português inculto, cheio de expressões coloquiais, gírias e
expressões de baixo calão. Fulano é um personagem advindo de uma comunidade
pobre e violenta e o libretista faz uso dessa linguagem até para caracterizar melhor
o personagem e distanciá-lo socialmente ainda mais dos outros dois personagens
da ópera. Em A Estranha, o texto segue o texto da peça teatral de mesmo nome de
Antonio Rocco, também fazendo uso de uma linguagem absolutamente coloquial.
A história passa-se na atualidade e é também recheado de expressões e gírias dos
dias de hoje, muitas também de carater ofensivo e inculto. Há uma clara mudança
no modo de falar de Casemiro quando refere-se à sua mãe, usando palavrões e
xingamentos quando não está em sua presença. A medida que a história avança e
há a clara evolução do personagem rumo à sua libertação daquela situação caseira
opressora, sua maneira de expressar-se também muda e passa a falar palavrões
também na presença de sua mãe.

Quanto ao carater de abordagem vocal os três personagens diferem-se


substancialmente. Na obra de Miranda, o Rapaz possui uma escrita basicamente
lírica, sugerindo ao intérprete o uso da tradicional técnica de canto culto ocidental,
pois a própria condução das frases o pede, além da história situar-se na década de
1950, tempo dos grandes cantores de rádio no Brasil em que se cantava em portu-
guês de maneira empostada.

Em A Estranha, a vocalidade do personagem Casemiro ainda está em pro-


cesso de construção, pois a obra ainda não foi estreada. Caminha-se na direção de
uma vocalidade ambígua, que em momentos fará uso dos recursos técnicos do can-
to lírico e em outros momentos estará mais próxima do belting e à fala.

Em O perigo da arte a abordagem vocal é outra. Sugerida pela própria vio-


lência da música e carater do personagem Fulano o estilo de produção vocal é muito
mais próximo do que se chama de voz contemporânea. Sobre a escolha das técnicas
a serem usadas na produção do canto, Martha Herr nos explica:
Se o conteúdo é que vai estabelecer as técnicas empregadas, a primeira ta-
refa do músico seria a escolha das técnicas a serem utilizadas na criação da
performance, apartir do entendimento dos elementos estilísticos utilizados
pelo compositor e dos seus desdobramentos. (HERR, 2007, p.14)

77
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Já sobre a voz contemporânea, Susie Becker nos esclarece:


A voz contemporânea vem de um corpo que se quer livre e pleno, que reco-
nhece suas imperfeições, contradições, seus ruídos, sua naturalidade, que
admite sua dimensão erótica, sua agressividade. Somente com essa mudan-
ça do entendimento ontológico do corpo que vai ocorrendo ao longo do sé-
culo XX é que se pode imaginar outras formas possíveis de experimentação
vocal. (BECKER, 2008, p.40).

O caminho percorrido pelo Rapaz em direção à vivência aberta de sua ho-


mossexualidade; a obra de arte final de Fulano, matando seus algozes e cometendo
suicídio, e a libertação de Casemiro da dominação do espírito dominador da Mãe
traçam um paralelo entre esses três personagens independentes na produção ope-
rística brasileira contemporânea que dialogam entre si no sentimento de busca de
liberdade.

Referências:

BECKER, Susie. A voz contemporânea. Dissertação (Mestrado em Artes). Departa-


mento de Música. Universidade de São Paulo, Escola de Comunicação e Ar-
tes. São Paulo 2008.
BUCKINX, Boudewij. O pequeno pomo ou a História da Música do Pós-Modernismo.
Ateliê Editorial. São Paulo, 1998.
HERR, Martha. Vozes em Conversa: a performance como produção em arte e ciên-
cia. Tese (Livre Docência). Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista.
São Paulo, 2007
MIRANDA, Ronaldo. Uma visão atual da ópera no Brasil: procedimentos cênicos-
-musicais. In: VOLPE, Maria Alice (org) Atualidade da ópera. Programa de
Pós-Graduação em Música, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro, 2012.
SENNA, Caio. Textura Musical: Forma e Metáfora. Tese (Doutorado em Música). Pro-
grama de Pós-Graduação em Música, Universidade Federal do Estado do Rio
de Janeiro. Rio de Janeiro, 2007.
VICTORIO, Roberto. Timbre e Espaço- Tempo Musical. Territórios e Fronteiras – Re-
vista do Mestrado em História da Universidade Federal do Mato Grosso,
nº4, vol. 1. Mato Grosso, 2003.

78
Listagem de softwares de editoração de
partituras

Eduardo Lucas da Silva


UFRJ – edu.trumpet@gmail.com
Maria José Chevitarese
UFRJ – zezechevitarese@gmail.com

Resumo: Com o intuito de reconhecer os inúmeros softwares de notação musical, efe-


tuou-se, por meio da rede mundial de computadores, um levantamento dos principais
programas dedicados a criação e difusão de partituras. Foram catalogados 39 softwares,
dos quais quantificamos 9 compatíveis com o sistema operacional linux, 34 com win-
dows, 25 com MacOS e 08 para tablets. Traçamos os programas comercializados e gratui-
tos, além de apontarmos os dez softwares mais utilizados e suas qualidades.
Palavras-chave: Softwares. Editoração. Partitura.

List of music publishing software


Abstract: In order to provide knowledge of the most relevant music notation softwares,
a survey was carried out on the world-wide web. Thirty software were found, of which
nine were compatible with the Linux operating system, thirty-four with Windows and
twenty-five with MacOS. A list of the programs was drawn up, indicating the commer-
cials and the free ones, as well as their main technical qualities.
Key-words: Software. Publishing. Score.

Introdução

Este trabalho é o recorte de uma pesquisa em andamento pelo PROMUS-


-UFRJ que visa a criação de um guia de editoração de partituras. O texto que segue
pretende apresentar os principais softwares de editoração de partitura, bem como
sua compatibilidade. Buscamos, panoramicamente, explorar os mais utilizados.

A editoração de partituras, no processo de construção do conhecimento


musical, é de grande relevância para o performer, sendo mesmo considerada o prin-
cipal elo entre a intenção do compositor e a execução do músico. Contudo, as inicia-
tivas que se dedicam a esse mote de pesquisa ainda são escassas.

O crescimento exponencial das ferramentas de criação e difusão de parti-


turas, disponíveis na rede, tem favorecido a edição de manuscritos autógrafos das

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 79


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

obras de compositores brasileiros. Entretanto, o desconhecimento das teorias e mé-


todos editoriais tem contribuído com surgimento de inúmeros equívocos. Preten-
demos, com esse artigo, contribuir com os profissionais que atuam nesse campo, e
também com os demais profissionais da música, levando ao conhecimento desses
uma lista com os softwares mais utilizados, a fim de que auxiliem na melhor compre-
ensão e apresentação editorial das obras.

Visando minimizar essa problemática e disponibilizar referenciais tecnoló-


gicos acerca da editoração, o presente trabalho apresenta um mapeamento e uma
catalogação preliminar de softwares de editoração relacionados diretamente à prá-
tica músical.

Materiais e Procedimentos Metodológicos

O levantamento de dados foi realizado, prioritariamente, por processamen-


tos via internet. Posteriormente, ramificamos as buscas para sítios eletrônicos das
empresas responsáveis pela criação dos softwares de notação, além de blogs, fóruns
e comunidades que se dedicam a essa área.

Utilizamos a seguintes palavras-chave para a elaboração da lista: edição de


partituras, softwares de edição de partituras, editores de partituras, programas de
partituras, editoração musical, partituração, scorewriter, notation software, nota-
tion program e aplicativos de partituras. No total foram catalogados 39 softwares,
alguns disponíveis gratuitamente outros pagos. Acreditamos ter alcançado um nú-
mero expressivo de sofwares, apesar de ressaltar que, seguramente, alguns não fo-
ram incluídos.

Na elaboração do artigo, fez-se necessária a definição de dois termos utiliza-


dos frequentemente de maneira equivocada, que são edição e editoração. A pesqui-
sadora Ygayara apresenta claramente as definições dos dois termos:
A edição musical é o trabalho de preparação para publicação, e diz respeito
às escolhas feitas na apresentação desse material, principalmente quando
se trata do trabalho de uma outra pessoa que não o compositor. (YGAYARA,
2010).

A edição musical é o trabalho de preparação para publicação, ou seja, ele-


mentos relacionados à apresentação gráfica do material, margem, layout, espaça-
mento, fonte e, no caso de uma edição musicológica, esses elementos vão muito
além das questões estéticas. É necessário um vasto estudo das fontes disponíveis ou
escolhidas para a pesquisa. As escolhas do editor são de fundamental importância.

80
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Já sobre a editoração, Ygayara discorre:


Editoração é o trabalho de preparação técnica de originais. Chama-se edi-
toração eletrônica o conjunto de atividades ou processos de montagem e
apresentação gráfica, realizados por meio de programas e equipamentos
computacionais. (YGAYARA, 2010)

A editoração é a utilização de programas e equipamentos computacionais.

Resultados e Discussões

Com o levantamento geral, identificamos e catalogamos 39 softwares com-


patíveis com os três principais sistemas operacionais (Linux, MacOS, Windows) e
versões para tablets, desenvolvidos por empresas, distribuídos gratuitamente ou
comercializados.

Podemos observar, no gráfico 1, um total de 39 softwares, sendo 9 compatí-


veis com o linux, 34 com windows, 25 com MacOS e 08 para tablets.

Um dos primeiros softwares de editoração de partituras foi o finale em


1988. Em seguinda , em 1993 surge o sibelius. O conjunto de dados apresentados
evidencia um número significativo de programas, demonstrando um crescimento e
sedimentação da prática de editorial mediado por programas.

Gráfico 1 – Softwares distribuídos entre os sistemas operacionais

O gráfico 2 demonstra a distribuição dos softwares comercializados e os gra-


tuitos. Podemos destacar uma preponderância dos programas comercializados. Os

81
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

softwares pagos somam um total de 51% e os gratuitos somam 49% do total. Apesar
da pequena diferença, é válido ressaltar que os softwares pagos apresentam maior
rigor e densidade comparada aos gratuitos.

Gráfico 2 – Distribuição geral dos softwares comercializados e gratuitos.

Entretanto, não intentamos trazer à tona julgamentos de valores e sim um


percentual de produções bibliográficas generalizadas.

Apresentamos, no gráfico 3, um ranking com os dez melhores softwares


de notação musical, essa classificação foi elaborado por Knoder (2015) disponível
no site http://www.toptenreviews.com/. Listaremos a seguir alguns dos parâmetros
adotados para a classificação: recursos musicais, input/output, recursos de edição,
suporte técnico, notação para percussão, nomeclatura dos acordes, diagramas dos
acordes para violão e tabulação para o violão. Ele ainda apresenta uma estimativa
dos valores para cada um dos softwares.

Alguns dos programas pesquisados oferecem ferramentas interessantes,


como o caso do musescores. Sua interface é intuitiva e colaborativa, o usuário é
convidado a fazer um cadastro e posteriormente incentivado a compartillhar suas
criações musicais pelo site do programa, podendo ter feedback do demais usuários.

Outra ferramenta útil, contudo comercializada, é o smartmusic desenvol-


vida pela empresa makemusic, também desenvolvedora do finale. O smartmusic é
um software educacional com compatibilidade direta com o finale. Nele o professor
compartilha as lições com os alunos através do software, instalado em computado-
res ou em tablets. Após o recebimento da lição, o aluno poderá tocar com o acom-
panhamento do metrônomo do próprio programa, que também possui um sistema

82
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Gráfico 3 – Ranking dos dez melhores softwares, segundo o site www.toptenreviews.com/.

de recepção do som. Caso o aluno erre determinada nota, o programa acusará e


apresentará a posição da nota para o aluno, em seu instrumento. Simultaneamente
o programa envia os dados do estudo para o professor.

Considerações finais

A partir do exposto no presente texto, nota-se um crescimento significativo


no desenvolvimento de softwares relacionados à criação de partituras nas últimas
décadas. É visível o aumento no número de softwares compatíveis com diversos
sistemas operacionais, em consonância com a demanda da área e, com efeito,
ampliando o campo de atuação e difusão do material notacional. Além disso, ob-
serva-se que as atualizações das ferramentas são constantes e estão associadas às
exigências dos usuários.

Mesmo com esse avanço e oferta de programas, muitos músicos desconhe-


cem as funções básicas dos programas, o que impacta diretamente nas produções
editoriais brasileiras. O mapeamento e, posteriormente, a criação do guia para edi-
toração de partituras que será disponibilizado em formato de sítio eletrônico, contri-
buirá de forma a apontar e sanar as dúvidas inerentes a esse segmento.

Outro fator evidenciado é o surgimento de ferramentas tecnológicas criadas


para facilitar o processo de ensino-aprendizagem, como o caso do smartmusic. A

83
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

disponibilização desse trabalho também é de suma importância, pois possibilita aos


estudantes e pesquisadores, acesso a softwares seguros e eficientes.

Referências

CASTAGNA, Paulo. Dualidades nas propostas editoriais da música brasileira. Per


musi,. N.18, p7-16,2008.
FIGUEIREDO, Carlos Alberto. Música sacra e religiosa dos séculos XVIII e XIX: teorias
e práticas editoriais. Edição 1. Rio de Janeiro: Ed. Do autor, 2014.
FONSECA, Felipe. Edição ou editoração? 2015. Disponível em <http://entrenotas.
mus.br/>. 10/08/2016.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 2. ed. SP: Atlas, 1991.
GOULD, Elaine. Behind Bars: the definitive guide to music notation. Faber Music Li-
mited, 2011.
IGAYARA-SOUSA, Susana. Alguns aspectos sobre a edição de música. 2010. Disponí-
vel em <palcosepaginas.blogspot.com>. 10/08/2016.
KNODER, Jonathan. Softwares de notação musical: os 10 melhores. 2015. Disponível
em http://www.toptenreviews.com/software/home/best-music-notation-sof-
tware/. 09/10/2016.
Listagem dos softwares e sítios pesquisados na internet

1. abcexplorer – http://www.abcnotation.com/ [acessado 07/06/2012]


2. Aria Maestosa – http://ariamaestosa.sourceforge.net/ [acessado 07/06/2012]
3. Capella – http://www.capella-software.com/ [acessado 07/06/2012]
4. Crescendo – http://www.nch.com.au/notation/ [acessado 07/06/2012]
5. Denemo – http://www.denemo.org/ [acessado 07/06/2012]
6. Dorico – https://www.steinberg.net [acessado 07/06/2012]
7. EasyABC – http://www.nilsliberg.se/ksp/easyabc/ [acessado 07/06/2012]
8. Encore – http://www.gvox-encore.at/ [acessado 07/06/2012]
9. Finale – https://www.finalemusic.com/ [acessado 07/06/2012]
10. Forte – http://www.fortenotation.com/ [acessado 07/06/2012]
11. Frescobaldi – https://github.com/wbsoft/frescobaldi [acessado 07/06/2012]
12. Gregorio – http://home.gna.org/gregorio/ [acessado 07/06/2012]
13. Guitar Pro – https://www.guitar-pro.com [acessado 07/06/2012]
14. Igor Engraver – http://noteheads.se/Welcome.html [acessado 07/06/2012]
15. Impro-Visor– https://www.cs.hmc.edu/~keller/jazz/improvisor/ [acessado
07/06/2012]
16. LilyPond – http://lilypond.org/ [acessado 07/06/2012]
17. Logic Pro – http://www.apple.com/br/logic--pro/ [acessado 07/06/2012]

84
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

18. MagicScore – http://www.musicaleditor.com/ [acessado 07/10/2012]


19. Mozart – http://www.mozart.co.uk/ [acessado 07/06/2012]
20. Mus2 – https://www.mus2.com.tr/en/ [acessado 07/06/2012]
21. MusEdit – http://musedit.software.informer.com/4.0/ [acessado 07/06/2012]
22. MuseScore – https://musescore.org/ [acessado 07/06/2012]
23. MusicEase – http://www.musicease.com/ [acessado 07/06/2012]
24. MusicTime Deluxe – http://www.passportmusic.com/ [acessado 07/06/2012]
25. Musink – http://musink.net/ [acessado 07/06/2012]
26. MusiXTeX – http://icking-music-archive.org/software/htdocs/ [acessado 07/06/2012]
27. Noteflight – https://www.noteflight.com/ [acessado 07/06/2012]
28. NoteWorthy Composer – https://noteworthycomposer.com/ [acessado 07/06/2012]
29. Notion – http://www.presonus.com/products/Notation-Software [acessado
07/06/2012]
30. Overture plus – https://sonicscores.com/overture/ [acessado 07/06/2012]
31. Philip’s Music Scribe – http://people.ds.cam.ac.uk/ [acessado 07/06/2012]
32. Rosegarden – http://www.rosegardenmusic.com/ [acessado 07/06/2012]
33. ScoreCloud Studio – http://scorecloud.com/ [acessado 07/10/2012]
34. Sibelius – http://www.avid.com/ [acessado 07/10/2012]
35. SmartScore Pro – http://www.musitek.com/ [acessado 03/09/2012]
36. Staffpad – https://www.staffpad.net/ [acessado 07/10/2012]
37. Stave’n’Tabs – http://staventabs.com/ [acessado 07/10/2012]
38. Symphonypro – http://symphonypro.net/ [acessado 05/10/2012]
39. Tuxguitar – http://tuxguitar.herac.com.ar/ [acessado 07/10/2012]
40. Toptenreviews – http://www.toptenreviews.com/software/home/best-music-no-
tation-software/ [acessado 07/06/2012]

85
O Nonetto e as palhetas duplas na música
de câmara de Villa-Lobos antes de Paris

Janaina Botelho Perotto


UFRJ – janainaperotto@gmail.com

Resumo: O presente artigo tem como objetivo abordar diferentes questões técnicas e
interpretativas referentes ao Nonetto, de Villa-Lobos, no contexto de sua produção ca-
merística anterior a seu primeiro contato com a cidade de Paris, a partir de 1923. Com
ênfase nas partes de palhetas duplas, a autora comenta as importantes contribuições
de Villa-Lobos para a renovação da linguagem composicional para esses instrumentos
na música brasileira de concerto e a importância desses aspectos para a interpretação
deste repertório.
Palavras-chave: Villa-Lobos. Música brasileira. Música de câmara. Interpretação.

The “Nonetto” and the double reeds in the chamber music of Villa-Lobos before
Paris
Abstract: The development of the present paper was intended to approach techni-
cal and musical issues concerning Heitor Villa-Lobos’s “Nonetto”, in the context of
this composer’s chamber music prior to his first contact with the city of Paris, in
1923. Focused on the double reeds, the author comments the important contribu-
tions by Villa-Lobos to renewing the compositional language for these instruments
in Brazilian concert music and the importance of these aspects when interpreting
this repertoire.
Key-words: Villa-Lobos. Brazilian music. Chamber music. Interpretation.

Introdução

Segundo Eurico Nogueira França, a melhor maneira de observar a evolução


do compositor Heitor Villa-Lobos e a solidificação de sua personalidade musical é
através da sua obra camerística (França, 1976). Nela, podemos observar claramente
as influências estilísticas e os caminhos percorridos em direção a seu estilo próprio.

Esta parte da criação musical de Villa-Lobos se divide em algumas fases,


não muito difíceis de serem identificadas, e sua trajetória como compositor se ini-
cia logo no início do século XX. As obras deste primeiro período – que vai de 1899
a 1912 – são consideradas como de aprendizado e bastante artesanais (Nóbrega,

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 87


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

1973:24). É a partir da década de 1910, quando temos os primeiros registros de


execuções públicas de suas peças, que Villa-Lobos realmente começaria a despontar
como compositor, transitando entre diferentes orientações estéticas até atingir sua
maturidade (Guérios, 2003:103).

Analisando as primeiras peças produzidas por Villa-Lobos durante aquela


década e os elementos estéticos do qual fazia uso, é possível constatar que o com-
positor ainda não ousava chocar o meio musical no qual estava inserido. As forma-
ções instrumentais inusitadas e, sobretudo, os elementos do folclore e da música
popular do Brasil – que tanto viriam a caracterizar sua obra futuramente – ainda não
eram apreciados entre as classes dominantes e pelos influentes críticos de música,
ainda voltados para as antigas tradições europeias.

Apesar de estas alusões à música popular e ao folclore brasileiro ainda se-


rem vistas com reserva nos círculos dominantes, um anseio por novas sonoridades
e possibilidades criativas começava a brotar, não apenas em círculos sociais intelec-
tualizados e mais a par das correntes estéticas que agitavam a Europa, mas também
no meio acadêmico musical brasileiro. As palavras de Alberto Nepomuceno para a
Revista Teatral, em 1917, nos mostram um pouco desta busca dos compositores
brasileiros por sua identidade nacional.
As notas características da música popular brasileira são as indicativas das
suas origens étnicas indígena, africana e peninsular; são fatores de impor-
tância o mouro e o cigano. Infelizmente a parte musical nos estudos do fol-
clore brasileiro não foi estudada. Esses elementos ainda não estão incor-
porados ao patrimônio artístico dos nossos compositores. Será por culpa
da nossa educação musical europeia refinada, que impede a aproximação
do artista flor da civilização – e da alma singela e simples dos sertanejos
[...] ou será por não ter aparecido ainda um gênio musical imbuído de sen-
timentos regionalistas que, segregando-se de toda influência estrangeira,
consiga criar uma música brasileira [...] sincera, simples, mística [...], tenaz
e humanamente sofredora, como o são a alma e o povo do sertão.” (apud
Corrêa do Lago, 2010, p.45)

No ano em que Nepomuceno concedeu esta entrevista, chegava ao Brasil


outro importante nome para a evolução desta possibilidade de incorporação da ri-
queza folclórica à composição musical erudita: o compositor francês Darius Milhaud
(1892-1974).

Formado pelo Conservatório de Paris e aluno particular de Vincent D’Indy,


Milhaud chegou ao Rio de Janeiro em novembro de 1917, na missão diplomática de
Paul Claudel, que se estenderia até o final de 1918. Neste período, o então jovem
compositor, que viria a fazer parte do Grupo dos Seis, conviveu intensamente com

88
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

músicos brasileiros, observando e absorvendo com entusiasmo a cultura brasileira,


além de promover concertos e artistas de destaque no cenário internacional (Corrêa
do Lago, 2010: 69).

Milhaud manteve contato com os compositores cariocas desde a geração


de Nepomuceno e Braga até Luciano Gallet (1893-1931) e Villa-Lobos, mas o círculo
que frequentava com maior assiduidade e com quem desenvolveu um relaciona-
mento mais estreito, era formado pelo professor e pianista Godofredo Leão Veloso
(1859-1926), sua filha, Nininha Veloso Guerra (1895-1921) e seu genro, Oswaldo
Guerra (1892-1980).

A importância destes personagens na cidade do Rio de Janeiro, nos anos


que antecederam a Semana de 22, reside no fato de terem criado um ativo núcleo
musical voltado para a difusão de repertório pouco convencional (tanto estrangei-
ro quanto brasileiro), e o fomento de novas ideias musicais. Através de concertos
e leituras, as práticas de Debussy, D’Indy, Milhaud, Ravel, Eric Satie (1866-1925) e
Charles Koechlin (1867-1950), se tornavam familiares entre os músicos e composi-
tores que frequentavam este grupo, apesar de muitas daquelas obras serem ainda
desconhecidas pelo grande público.

Ainda é difícil precisar detalhes do contato de Villa-Lobos com o círculo Velo-


so-Guerra neste período. Porém, algumas evidências podem ajudar a esclarecer os
pontos considerados vagos a respeito de sua formação e das influências estilísticas
que sofreu – e que marcaram fortemente o início de suas tentativas modernas e
nacionalistas. Em seu livro Presença de Villa-Lobos, Ademar Nóbrega afirma que foi
o professor Leão Veloso quem forneceu ao compositor um exemplar do Cours de
Composition Musicale, de Vincent D’Indy, a quem sempre atribuiu grande importân-
cia em sua concepção musical (Corrêa do Lago, 2010:80).

O primeiro contato do compositor com a capital francesa se deu em 1923 e


influenciaria dramaticamente sua escrita musical no tocante à harmonia, à concep-
ção rítmica e à motivação temática. No entanto, algumas peças anteriores a este
período já apontam uma inclinação para estas tendências e são importantes para
melhor compreendermos os passos desta evolução nos procedimentos composicio-
nais de Villa-Lobos (Guérios, 2003).

Apesar de pouco numerosas, cada peça deste período apresenta o desenvol-


vimento de, pelo menos, uma das características que serão plenamente incorporadas
à escrita villalobiana: instrumentações não usuais, o emprego de elementos rítmicos
e melódicos oriundos da música popular brasileira, o uso sistemático de polirritmias

89
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

e superposições de acordes. São elas: Sexteto Místico, Trio e Nonetto, compostas em


1917, 1921, 1923, respectivamente. Este artigo propõe um olhar sobre o Nonetto,
por reunir vários dos elementos marcantes nesta fase transitória na linguagem desse
compositor brasileiro, que são importantes para a construção de uma interpretação
para instrumentistas de palhetas duplas e demais intérpretes do conjunto.

Nonetto – Impressão rápida de todo o Brasil

Escrito entre o Rio de Janeiro e Paris nos anos de 1923 e 1924, o Nonetto é
considerado por críticos e musicólogos como um dos mais impressionantes traba-
lhos para formação camerística da autoria de Villa-Lobos (Corbin, 2006:41).

A peça se destaca pela especial combinação de instrumentos (característica


já observada em seu Sexteto Místico): um conjunto de sopros formado por flauta,
oboé, clarineta, fagote e saxofone se unem a uma harpa, piano, celesta, coro misto e
percussão – esta última consistindo de um grande elenco de instrumentos típicos do
Brasil. A formação dos sopros remete à tradicional formação de quinteto de sopros,
apenas com o saxofone no lugar da trompa.

Estreada com grande sucesso em Paris, no ano em que foi concluída, a peça
se propõe a retratar em sons todo o território brasileiro e seus diferentes elementos
culturais. Nela parecem estar representados o choro, o baião, o batuque, as culturas
indígena e africana, além de aspectos da natureza brasileira retratados através de
uma enorme gama de coloridos e texturas.

Composta de um único movimento dividido em sessões, a peça é repleta


de combinações rítmicas e harmônicas ousadas e pouco comuns na música brasi-
leira até então. O recurso do ritmo como elemento composicional foi redescoberto
e novamente valorizado por compositores do início do século XX e, nesta peça, é
explorado através de polirritmias raras e constantes deslocamentos de compasso e
acentuação. Estes elementos se tornariam características marcantes da música de
Villa-Lobos (Fagerlande, 2010).

No que diz respeito à escrita para palhetas duplas, o Nonetto apresenta o


oboé e o fagote atuando tanto na forma de melodias alusivas ao choro, quanto em
efeitos sonoros pouco convencionais para a técnica usual, como já observado em
seu Trio, escrito em 1921, segundo o catálogo do Museu Villa-Lobos.

É válido destacar que, ao explorar os aspectos rítmicos desta maneira parti-


cular, o compositor proporciona aos instrumentistas a oportunidade de desenvolver

90
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

possibilidades sonoras além daquelas consideradas tradicionais até então. No caso


dos instrumentos de palhetas, a questão das diferentes possibilidades de “ataque”,
ou emissão das notas, exigidas de acordo com as minuciosas articulações escritas
por Villa-Lobos, também é digna de atenção especial. É provável que sua experiência
como violoncelista tenha influenciado o emprego de notações pouco usuais para
instrumentos de sopro (Justi, 1996:91).

O Nonetto tem início com um solo de saxofone, totalmente descoberto, em


motivo claramente inspirado no choro; aqui representado na convenção do solo me-
lódico, sincopado e dentro de figurações rítmicas características do gênero. A passa-
gem de saxofone é permeada com breves intervenções dos demais instrumentos de
sopro, em trinados, ostinati e glissandi. Esta sequência se encerra com a entrada do
fagote, em desenho semelhante ao solista inicial da peça.

Figura 1 - Nonetto – solo de saxofone, c. 1 e 2.

O tratamento dado às madeiras se assemelha à linguagem já observada no


Trio, para oboé, clarineta e fagote. Villa-Lobos explora as regiões extremas dos ins-
trumentos, articulações ágeis em ritmos tipicamente brasileiros, e acentuações e
dinâmicas de impacto. Estes efeitos são alternados com momentos de caráter mais
expressivo e seresteiro.

A figura abaixo demonstra este tipo de escrita, onde o oboé é explorado re-

91
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

petidamente em sua nota mais grave, Si bemol, aliada a uma indicação de dinâmica
forte e sucessivos acentos.

Figura 2 - Nonetto - c. 17 a 20.

E, logo em seguida, assume uma linha melódica de caráter contrastante,


exigindo do intérprete um tipo de sonoridade completamente diferente.

Figura 3 - Nonetto - Solo de oboé, c. 28 a 32.

A sonoridade das madeiras tende a ser encoberta nos momentos onde coro
e percussão estão presentes em toda sua intensidade. Mas, nem por isto, a escrita
para estes instrumentos deixa de ser cuidadosamente elaborada. Villa-Lobos inova

92
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

completamente ao solicitar a realização de um destes efeitos de forma especial,


através de técnica fora dos padrões na música brasileira conhecida até então. Ao
clarinetista, é indicado que retire a boquilha e assopre a clarineta como uma trompa
ou, caso não consiga executar sua linha melódica daquela maneira, que cante as
notas na altura correta como num mirliton1.

Figura 4 - Nonetto - c. 309 a 313.

O espírito festivo retorna no número 40, com o ostinato em semicolcheias


novamente na voz do oboé, a síncope no fagote e o ritmo marcado pelo reco-reco.

Em nova entrada solista do conjunto de sopros, na seção intitulada Plus vite,


Villa-Lobos trabalha intensamente com articulações e acentuações, observadas nas
vozes do fagote e do oboé.

A peça se encerra com grande solo do coro em curtas palavras alusivas aos
idiomas africanos, repetidas ciclicamente. As madeiras estarão em repouso, a não
ser por breves intervenções de efeitos, até o início do tutti final, onde múltiplos
efeitos se encontram em dinâmica extrema.

Considerações finais

Um olhar especificamente direcionado para a escrita de Villa-Lobos para


palhetas duplas no período que antecedeu sua primeira experiência europeia de-
monstra seu conhecimento, mesmo que intuitivo, sobre as possibilidades destes

1 Termo genérico, de origem francesa, para designar instrumentos de sopro em que o


som pode ser produzido pela fala ou pelo canto, através de uma membrana ou película
vibratória. O tipo mais frequente de mirliton combina esta membrana com um corpo
cilíndrico ou cônico, para melhor projeção do som.

93
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Figura 5 - Nonetto - c. c. 363 a 368.

94
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Figura 6 - Nonetto - c. 381 a 385.

95
instrumentos. Um olhar ainda mais atento revela os inúmeros desafios e, conse-
quentemente, as contribuições para a ampliação dos limites de suas técnicas con-
vencionais – essenciais para traduzir as ideias musicais de Villa-Lobos. O compositor
ousa ao explorar o oboé e o fagote em novo potencial, situando-os corajosamente
na estética modernista brasileira.

A autora acredita que o conhecimento dos gêneros populares e a observa-


ção dos elementos composicionais que, gradualmente, se somaram a sua escrita são
importantes para uma performance deste repertório que vise transmitir o ímpeto
criativo e renovador do então jovem compositor brasileiro.

Referências

CORBIN Dwayne Vincent. The Three Wind/Choral Works of Heitor Villa-Lobos: Qua-
tuor, Nonetto, and Choros nº 3. Tese de Doutorado. University of Cincinnati,
EUA, 2006.
FAGERLANDE Aloysio Moraes Rego. Trio (1921) para oboé, clarineta e fagote, de
Heitor Villa-Lobos: Uma abordagem interpretativa. Opus, Goiânia, v. 16, n.
1, p. 70-98, jun. 2010.
FRANÇA, Eurico Nogueira. A Evolução de Villa-Lobos na música de câmara. Rio de
Janeiro: MEC, 1978.
GUÉRIOS, Paulo Renato. Heitor Villa-Lobos. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.
JUSTI, Luis Carlos. O TRIO (1921) de Villa-Lobos para oboé, clarineta e fagote: Revi-
são da partitura com vistas a um estudo da interpretação. Dissertação de
Mestrado. UNIRIO, Brasil, 1996.
LAGO, Manuel Aranha Corrêa do. O Círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil
– Modernismo musical no Rio de Janeiro antes da Semana. Rio de Janeiro:
Reler, 2010.
NÓBREGA, Adhemar. Os Choros de Villa-Lobos. Rio de Janeiro: MEC, 1973.
VILLA-LOBOS, Heitor. Nonetto. Paris: Max Eschig.
VILLA-LOBOS, Museu. Villa-Lobos: sua obra. Rio de Janeiro: Museu Villa-Lobos, 1989.
O primeiro movimento da Sonatina
Dodecafônica para dois violões de Marcos
Alan, sob a ótica Tripartite (Nattiez): análise
indutiva

Sergio Vitor Ribeiro


UFRJ – vioribeiro@yahoo.com.br

Resumo: O presente artigo é fruto de uma pesquisa que está sendo desenvolvida no
PPGM/UFRJ, onde analisamos, sob a ótica tripartite de Molino/Nattiez (1975), obras do
compositor Marcos Alan (1956-1973), a fim de explicitar seus procedimentos poéticos e
suas principais influências. A Semiologia Musical Tripartite sugere seis momentos analí-
ticos possíveis: a) Imanente ou análise do nível neutro; b) Poiética indutiva; c) Estésica
indutiva; d) Poiética externa; e) Estésica externa; f) Comunicação musical. Neste primeiro
relatório, passamos pela metade do processo descrito acima, ou seja, pelas famílias de
análise “a)”, “b)” e “c)”, evidenciando as práticas criativas de Marcos Alan e levantando
hipóteses sobre como sua música será percebida, através do resultado parcial da análise
do primeiro movimento da Sonatina Dodecafônica para dois violões.
Palavras-chave: Semiologia musical. Dodecafonismo. Marcos Alan. Violão.

The first moviment of Sonatina Dodecafônica for two guitars by Marcos Alan, from
the perspective Tripartite (Nattiez, 1975): the inductive analyses
Abstract: This article is the result of a research that is being developed in the PPGM/
UFRJ, in which we analyze, from the tripartite viewpoint of Molino / Nattiez (1975),
works by composer Marcos Alan (1956-1973), in order to explain his poetic procedures
and his main influences. The Musical Semiology suggests six possible analytical mo-
ments: a) Immanent or analysis of the neutral level; b) Inductive poietic; c) Inductive
aesthetic; d) External poietic; e) External esthetics; f) Musical communication. In this
first report, we pass through half of the process described above, that is, the analysis
families “a)”, “b)” and “c)”, in order to highlight the creative practices of Marcos Alan
and to raise hypotheses about how his Music may be perceived. Thus, we present the
partial result of the analysis of the first movement of the Sonatina Dodecafônica for
two guitars.
Key-words: Musical Semiology. Twelve-tone technique. Marcos Alan. Guitar.

Introdução

Com este artigo, iniciamos uma série de análises dedicadas à música do


compositor e violonista Marcos Alan (1956-1973). Direcionados pela Semiologia Tri-
partite de J. J. Nattiez (1975), abordaremos diferentes aspectos de sua obra, a fim
de explicitar seus procedimentos poéticos e suas principais influências, para que

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 97


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

assim possamos compreendê-la. Obviamente, seria inviável uma análise minuciosa


de todas as composições de Alan. Por isso, elencaremos peças das diferentes fases
criativas do compositor apontadas por José (2015:143-144), em que encontramos
linguagens composicionais diversas.

Resumidamente, a teoria analítica de Jean-Jacques Nattiez (1975; 1987)


está baseada no modelo semiológico tripartite de Jean Molino (1975), que vê uma
forma simbólica por três prismas: a dimensão poiética, a dimensão estésica e o nível
neutro, abandonando o antigo modelo clássico de comunicação, no qual o receptor
é um ser passivo. Segundo Nattiez, a semiologia
é o estudo da especificidade do funcionamento das formas simbólicas, isto
é, a análise da organização material de seus signos (a análise do nível neutro)
e dos fenômenos de remissão provocados por esses signos: essas remissões
se repartem entre o polo poiético e o polo estésico. A análise do nível neutro
descreve formas e estruturas mais ou menos regulares [...]; as análises poi-
éticas e estésicas descrevem e interpretam processos. (NATTIEZ, 2002: 16).

Trazendo esta ideia para o universo musical, temos: a partitura como o nível
neutro – ou imanente, como prefere Nattiez –; o processo de composição como o
nível poiético; a interpretação e percepção da obra como o nível estésico. Nesta
perspectiva, não há necessariamente uma transmissão de informações do emissor
para o receptor, pois “o poiético não tem vocação para se comunicar” (MOLINO
apud NATTIEZ, 1990:17) e “a percepção é, aqui, um processo ativo de reconstrução
de mensagem” (NATTIEZ:1990:54).

Partindo destes três níveis assumidos pela semiologia de Molino, Nattiez


classifica seis diferentes famílias de análise musical possíveis: a) Imanente ou aná-
lise do nível neutro: é a análise que aponta a configuração imanente da obra sem
observar a pertinência poiética ou estésica daquilo que foi discernido; b) Poiética
indutiva: é a análise que busca extrair da partitura (nível neutro) conclusões acerca
do processo composicional; c) Estésica indutiva: quando o analista aponta aquilo
que hipoteticamente será ouvido pelo ouvinte; d) Poiética externa: é a análise que
busca informações externas a partitura (esboços, cartas, cadernos de estudo, etc)
para auxiliar a análise da configuração da obra; e) Estésica externa: inversamente,
parte-se dos depoimentos dos ouvintes para tentar saber como a obra foi percebida;
e f) Comunicação musical: aqui o analista considera a análise imanente tão relevante
quanto as análises poiética e estésica. Observe, na figura abaixo, o processo deta-
lhado por Nattiez (Fig.1)

98
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Figura 1. Esquema analítico apresentado por Nattiez (2002).

Neste artigo, passaremos pela metade do processo descrito acima, ou seja,


pelas famílias de análise “a)”, “b)” e “c)”, a fim de evidenciar as práticas criativas de
Marcos Alan1 e levantar hipóteses sobre como sua música será percebida. Para isso,
apresentaremos o resultado parcial da análise do primeiro movimento da Sonatina
Dodecafônica para dois violões2.

Análise

1- O Nível neutro, ou imanente

O primeiro movimento da Sonatina de Marcos Alan pode ser dividido em


quatro seções. A primeira abrange os compassos 1-8 e é caracterizada pela utiliza-
ção de quatro formas da matriz dodecafônica da principal série da obra, como vere-
mos em tópico posterior, e pela textura predominantemente monofônica, em que
partes da linha melódica são apresentadas alternadamente em ambos os violões.
A segunda seção, scherzando, abrange os compassos 9-34 e é caracterizada pela
utilização de três novas séries dodecafônica e suas respectivas formas retrógradas, e
ainda pela textura mais densa do que a encontrada na seção anterior, com aparições
frequentes de acordes em ambos os instrumentos. A terceira seção, compassos 35-
41, é a repetição variada da primeira. A quarta e última seção, compassos 42-47,

1 Por se tratar da abordagem dos níveis neutro e poiético e estésico indutivos da obra, não
apresentaremos informações a respeito da biografia do compositor, algo que faremos
quando da análise poiética externa.
2 A obra, ainda inédita, será estreada pelo Duo Dístico (do qual o autor do artigo é inte-
grante) em dezembro de 2016.

99
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

volta a apresentar a mesma textura da segunda seção, mas com a apresentação de


três novas séries. Finalmente, os dois últimos compassos, 48-49, classificados aqui
como ‘coda’ apresentam a escala cromática em quase toda a extensão do violão, do
Mi1 ao .

2- Poiética e estésica indutivas

Nesta subseção, optamos por misturar os comentários referentes às duas


famílias de análises indutivas, pois na visão do próprio Nattiez, não seria possível a
separação entre a percepção e a semântica durante uma audição (2005: 37). Assim,
se em algum momento deduzirmos que o compositor teve a intenção de criar um
contraste rítmico, por exemplo, seremos levados a avaliar se tal contraste será ou
não percebido pelo ouvinte. Em suma, nossas observações serão direcionadas a três
aspectos: células, hemíolas e séries.

Para a identificação das células encontradas na peça, observamos suas con-


figurações rítmicas, seus contornos melódicos e suas articulações. A primeira célula,
logo no primeiro compasso, é caracterizada por uma figuração rítmica de três semi-
colcheias, apresentando variações no contorno melódico no decorrer da peça. Por
isso, as identificaremos com a letra ‘A’ mais o segmento de contorno3 apresentado
em cada uma de suas variações. São elas: A<012>; A<120>, A<021>, A<210>, A<2> e
A<102> (Fig.2). A segunda célula, que chamamos de célula ‘B’ (Fig.2), é ritmicamen-
te contrastante à primeira, pois nesta ouvimos naturalmente um acento métrico a
cada três notas, enquanto na segunda célula o acento é percebido a cada duas no-
tas, ou seja, ambas as células, se superpostas, caracterizariam uma hemíola. Como
veremos, esta relação é recorrente e por isso uma das características mais marcan-
tes da peça. A terceira célula, identificada com a letra ‘C’, é quase uma variação
da célula B, já que a unidade de tempo continua sendo ternária, mas agora sem a
repetição de notas (Fig.2).

3 “O fundamento básico da teoria dos contornos é a abstração dos parâmetros, que, a


partir da relativização dos valores absolutos, permite o uso de uma notação numérica
que expressa a organização hierárquica dos elementos constituintes do contorno. Tal
notação consiste na ordenação dos elementos do menor (ou mais simples) notado como
zero até n-1, no qual n é o número total de elementos diferentes no contorno. Um con-
torno < 1 2 0 >, por exemplo, demonstra uma estrutura musical que se inicia no valor
intermediário, segue ao maior e conclui no menor, o que pode ser aplicado a diferentes
parâmetros musicais” (MOREIRA, 2016:100). Para mais informações sobre Contorno
Melódico ver Friedman (1985) e Morris (1987).

100
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Figura 2. Células A, B e C da Sonatina Dodecafônica de Marcos Alan.

E, finalmente, as duas últimas células, ‘D’ e ‘E’, são tricordes que diferem
apenas na configuração rítmica. Enquanto uma é formada por três acordes em col-
cheias, a outra é formada por quatro acordes em colcheias pontuadas (Fig.3). Ob-
serve que estas células se superpostas também caracterizariam uma hemíola, assim
como na relação entre as células ‘A’ e ‘B’.

Figura 3. Células D e E da Sonatina Dodecafônica de Marcos Alan.

Durante todo o primeiro movimento da Sonatina Dodecafônica, Marcos


Alan explora a dualidade entre as unidades de tempo binária e ternária. Mas como
não há definição de fórmulas de compasso na peça, tal dualidade é percebida graças
ao emprego de diferentes recursos pelo compositor, como a articulação das notas,
a distribuição melódica entre os intérpretes, o contorno melódico, além das mudan-
ças nas figuras rítmicas. Veja no exemplo abaixo (Fig.4):

101
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Figura 4. Recursos geradores da dualidade “pulso binário ← → pulso terná-


rio” na Sonatina Dodecafônica de Marcos Alan.

Note no exemplo de distribuição acima, que a forma como Alan divide o ma-
terial melódico entre os intérpretes pode levar o ouvinte a sentir o pulso de três em
três notas, pois cada entrada origina um acento natural, gerando uma unidade de
tempo binária (considerando-se a semínima pontuada como a unidade de tempo,
sempre). Mas observe que, logo em seguida, o compositor altera o contorno da me-
lodia, repetindo as notas Sol, Lá Sol, Lá e Fá no segundo violão, levando o ouvinte
a perceber um acento a cada duas notas, gerando uma unidade de tempo ternária.

Em seguida, faremos algumas observações referentes à técnica serial em-


pregada por Marcos Alan. A série geradora4 da peça é formada por dois tricordes da
classe de conjuntos [012], seguidos de dois tricordes da classe de conjuntos [014].
Consequentemente, os dois hexacordes da série se complementam, pois pertencem
à mesma classe de conjunto [012345]. Veja, abaixo (Fig.5):

Figura 5. Classes de conjuntos encontradas na série geradora da Sonatina.


Dodecafônica de Marcos Alan.

4 Tal série é utilizada também no terceiro movimento da obra.

102
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Alan, inclusive, inicia a obra apresentando o primeiro hexacorde da série em


sua forma normal, ou seja, em sequência cromática. Como mencionado em tópico
anterior, na primeira seção, encontramos quatro formas da série geradora: OB (B 0
1 2 3 4 5 9 8 A 7 6) e sua forma retrógrada RB; R5 (0 1 4 2 3 B A 9 8 7 6 5); e IB (B A
9 8 7 6 5 1 2 0 3 4).

A figura abaixo apresenta a estrutura da série original invertida utilizada


pelo compositor no início da segunda seção. Note que a série mantem a mesma
estrutura da forma original (Fig.6).

Figura 6. Classes de conjuntos encontradas na inversão da série geradora


na Sonatina Dodecafônica de Marcos Alan.

Ademais, o mais importante para o desenvolvimento da obra é a organiza-


ção de seus tricordes. No exemplo abaixo (Fig.7), observe que as classes de notas
mais graves de cada acorde (B 8 2 4) fazem parte do primeiro tetracorde da nova
série apresentada no compasso seguinte, a qual identificamos como iiOB5 . As notas
medianas dos tricordes em IB (A 7 1 0) formam o segundo tetracorde da série iiOB,
enquanto as notas mais agudas dos tricordes IB (9 6 5 3) formam o tetracorde final
da nova série.

Figura 7. Criação da nova série iiOB a partir dos tricordes da série IB.

5 Os números romanos que antecedem a representação das séries têm a função de infor-
ma a ordem de aparição dentro da peça. Por exemplo: iiOB é a segunda série geradora
apresentada na peça, enquanto a forma iiRB é sua forma retrógrada. O mesmo serve
para as séries iiiO9, ivO4, vO3, viO0 e viiO0, que aparecem mais a frente.

103
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

A série iiOB não tem relação estrutural com as séries anteriores. A única expli-
cação para sua aparição na peça é mesmo o fato de ter sido gerada a partir da organi-
zação vertical dos tricordes de IB, como vimos acima. E o compositor procede da mes-
ma maneira em outros trechos. Cinco novas séries foram apresentadas por Marcos
Alan, utilizando-se do mesmo recurso. A partir da série IB, o compositor cria a terceira
série original iiiO9 (9 6 5 3 A 7 1 0 B 8 2 4) (Fig.8). De sua forma retrógrada, iiiR9 (4 2
8 B 0 1 7 A 3 5 6 9), o compositor gera a quarta série original, ivO4 (4 B 7 5 2 1 A 6 8 0
3 9). Da mesma maneira, de ivR4 (9 3 0 8 6 A 1 2 5 7 B 3), Alan cria a quinta e a sexta
séries da peça, vO3 (3 A 2 4 9 6 5 B 0 8 1 7) e viO0 (0 8 1 7 9 6 5 B 3 A 2 4). E, enfim,
da série vO3, Alan extrai a sétima série original da obra, viiO0 (0 7 5 A 8 9 B 2 1 6 3 4).

Figura 8. Mais um exemplo da geração de novas séries por Alan. Aqui, o


compositor cria a série iiiO9 a partir dos tricordes da série IB.

Finalizando, Alan apresenta a escala cromática – lembrando a forma como


iniciou a obra – por quase toda a extensão do violão (do Mi1 ao Si. No entanto,
interpretamos este conteúdo como sendo os primeiros hexacordes de duas séries
encontradas na matriz dodecafônica da série inicial, as séries AO (A B 0 1 2 3 4 8 7
9 6 5) e O4 (4 5 6 7 8 9 A 2 1 3 0 B) (Fig.9). A peça encerra na nota  tocada pelo
primeiro violão, enquanto o tricorde (4 B 7) é realizado pelo segundo violão, conse-
quentemente, formando o tetracorde (4 7 A B) – um Mi menor tocado em cima de
um Si (Fig.9) – que não tem qualquer relação com a série geradora da peça. Ade-
mais, o referido tricorde pertence à quarta série original, ivO4.

Figura 9. Hexacordes encontrados na ‘Coda’ da Sonatina Dodecafônica de


Marcos Alan.

104
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Considerações finais

Como antecipamos no início do artigo, restringimos a análise apenas aos


níveis imanente, poiético e estésico indutivos. Com isso, demos o primeiro passo
para o entendimento da poética de Marcos Alan, apontando, principalmente, suas
maneiras de trabalhar com a textura rítmica e com a técnica serial. Continuaremos
a pesquisa aplicando esta abordagem analítica em outras obras selecionadas, bus-
cando adquirir informações suficientes para que possamos criar relações entre os
processos criativos recorrentes em suas obras, dando inicio, então, a análise poiética
externa.

Referências

JOSÉ, Maria das Graças dos Reis. O discurso da escrita moderna para o violão de
concerto no Brasil: análise comparativa de 5 Prelúdios de Heitor Villa-Lobos
e 5 Prelúdios de Marcos Alan (1940-1973). Universidade Federal do Rio de
Janeiro – Instituto de História – Programa de Pós-Graduação em História
Comparada, 2015. Tese de Doutorado.
MOLINO, Jean. Fait musical et sémiology de la musicque. In: Musique en Jeu, n. 17,
1975, pag. 37-62.
MOREIRA, Daniel. Contornos musicais e textura: perspectivas para análise e compo-
sição. In: Anais do IV SIMPOM 2016 – Simpósio Brasileiro de Pós-Graduan-
dos em Música. 2016, pag. 99-109.
NATTIEZ, Jean-Jacques. De la sémiologie à la musique, Montréal: Cahiers du départ-
ment d’études littéraires de l’Université du Québec á Montréal, nº 10, 1987.
______ Music and Discourse: toward a semiology of music. Princeton University
Press, New Jersey, 1990.
NATTIEZ, Jean-Jacques. O modelo tripartite de semiologia musical: o exemplo de La
Cathédrale Engloutie, de Debussy. In: Debates nº 6, Cadernos do Colóquio,
PPGM/CLA/ Uni-Rio. Tradução de Luiz Paulo Sampaio, 2002, pag. 7-39.
NATTIEZ, Jean-Jacques. O combate entre Cronos e Orfeu. Ensaios de semiologia mu-
sical aplicada. Tradução de Luiz Paulo Sampaio. São Paulo: Via Lettera Edito-
ra e Livraria, 2005.

105
Projetos sociais em música: uma revisão de
literatura

Joab Muniz
UFRJ – joab_muniz@hotmail.com

Resumo: Este fenômeno mundial conhecido como Projeto Social em Música, tem cha-
mado a atenção por sua eficácia, e seu poder transformador tendo mudado para melhor
a vida de muitas pessoas. Este artigo busca através de uma revisão de literatura, dar um
panorama geral sobe este tipo de atividade, focando em pesquisar o potencial inclusivo
da música, avaliando o que realmente vem a ser a inclusão, fazendo uma reflexão sobre
formas de execução desse tipo de trabalho, discorrendo sobre alguns dos projetos que
mais se destacam no Brasil, para através deles encontrarmos melhores possibilidades
para resultados promissores.
Palavras-chave: Música. Projetos Sociais. Inclusão Social.

Social Project in music: a literature review


Abstract: This worldwide phenomenon known as Social Project in Music, has drawn
attention for its effectiveness, by getting a transforming power that has changed for
the better the lives of many people, so this article search through a literature review,
give an overview up this type of activity, focusing on researching the inclusive po-
tential of music, evaluating what really comes to inclusion, making a reflection on
what would be the ideal implementation of this type of work and discussing some
of the projects that best out in Brazil, through them to find better opportunities for
promising results.
Key-words: Music, Social Projects, Social Inclusion.

Introdução

Este artigo aborda assuntos relacionados a projetos de inclusão social com


música através de uma revisão de literatura, pois considera relevante o fato de que
existe um movimento crescente deste tipo de atividade no Brasil e no mundo. “Em
todo o mundo crescem em número e importância as iniciativas de integração social
por meio de instrumentos de orquestra para crianças e jovens”. (FISCHER, 2012, p.
14).

A música possui um poder transformador capaz de mudar o rumo de crian-

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 107


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

ças, adolescentes e jovens que por muitas vezes, pela falta de oportunidade e por
não sentirem-se capazes de alcançar algo melhor, optam por seguir passos, que
muitas vezes os levam a criminalidade, tráfico de drogas, entre outras atividades
depreciativas. Segundo Ventura, (2012) a música clássica está mudando o destino
de milhares de jovens carentes país afora.

Por motivos como estes considera-se importante pensar sobre este tipo
de trabalho, entendendo o seu funcionamento, buscando assim aperfeiçoamentos
nestes processos.

A inclusão social potencializada através música

Segundo Moreira (2006), um dos grandes desafios do Brasil é a inclusão


social, pois no desenrolar de sua história, pela desproporcional distribuição de ter-
ras, ele teve desde o início uma desigualdade social.

O tema “inclusão social” tem sido bastante veiculado e discutido pelos mais
amplos e diversos setores sociais e especialmente midiáticos (Ribeiro, 2012). Sendo
assim é importante avaliarmos algumas definições sobre este assunto.

Conforme Pacievitch (2012), inclusão social é uma expressão abrangente,


utilizada em situações diferentes, ela refere-se a variadas questões sociais. De forma
geral, esta expressão é utilizada referindo-se à inserção de pessoas com algum tipo
de déficit às escolas e ao mercado de trabalho, como também a quem é considerado
excluso, que não tem as mesmas oportunidades dentro da sociedade, por razões
como: condições sócio- econômicas, gênero, raça, falta de acesso a tecnologias.

Para Kushano e Almeida, a inclusão social é vista como sendo o método mais
elaborado da coexistência de indivíduos, taxados como diferentes, com os outros
integrantes da sociedade, tidos como hipoteticamente iguais (KUSHANO; ALMEIDA,
2008).

Entendendo o sentido da expressão “inclusão social”, sob o ponto de vista


dos pesquisadores citados, podemos agora avaliar especificamente como a música
é capaz de potencializar todo este processo inclusivo.

A arte musical tem conquistado um espaço muito importante em todo o


mundo não somente como algo cultural, mas também como uma eficiente ferra-
menta utilizada para proporcionar a todos os que são alcançados por estes projetos
a oportunidade de identificarem-se como parte integradora da sociedade onde vi-
vem, sentindo-se valorizados pela mesma e tendo seus sonhos e objetivos amplia-

108
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

dos e alcançados através deste impulso proporcionado pela música.

A atividade artística alimenta o desejo de uma vida melhor, a cultura e todas


as suas manifestações são revolucionárias, transformando a sociedade, as relações
e os sentimentos humanos (RIBEIRO, 2012).

Segundo Candé (2001), as conexões da música com aspectos sociais sempre


foram marcantes e, frequentemente era inconcebível desagregá-la destes.

Ilari (2003) afirma que as ações de educação musical, especialmente no que


se refere às crianças, são de grande relevância no estímulo à afetividade e sociali-
zação.

Professores dentro destes projetos normalmente são chamados de educa-


dores, eles são orientados a priorizar o lado humano da formação do aluno. E neste
sentido, vemos a declaração de pessoas que desempenham papéis importantes nes-
te tipo de trabalho como José de Campos, diretor educacional da Associação Amigos
do Projeto Guri, o qual declara: “não olhamos apenas para a mão do aluno, olhamos
para o aluno por inteiro”, (FISCHER, 2012, p. 48), o objetivo vai além da formação de
artistas, a música neste caso é utilizada como ferramenta para potencializar muitas
características positivas que um cidadão deve possuir e desta forma busca-se incluí-
-lo no meio social onde vive.

Segundo Reis et al Howard Gardner, (2012), a música deve ser considera-


da um elemento essencial na formação do indivíduo desde sua infância, uma vez
que pode facilitar a integração e a inclusão da criança na sociedade, pois por vários
motivos, como deficiência física, desigualdade econômica, auto-estima baixa, per-
sonalidade, forma de convívio familiar, entre outros, muitas vezes torna-se difícil a
integração social de crianças e jovens, porém o envolvimento com a arte musical,
quando bem direcionado pode trabalhar isto com muita eficiência. Por exemplo,
uma criança com auto-estima baixa, costuma ficar em silêncio por considerar que
sua capacidade é inferior aos dos colegas, e por este motivo, prefere permanecer
isolada por entender que este isolamento a protegerá de expor a sua “inferioridade”
diante dos que a cercam, contudo, ao aprender um instrumento e começar a ganhar
confiança apresentando-se primeiramente a um pequeno público e depois a muitas
pessoas, o fato de esta ser aplaudida em suas apresentações, desenvolve nela um
processo de transformação elevando sua auto-estima e consequentemente tornan-
do-a mais comunicativa e fazendo-a sentir-se parte integrante e atuante no meio so-
cial onde vive. A música possui o poder de transformar a identidade, de construir a
cidadania, de incentivar a capacidade de análise, de propiciar noções de ordenação,

109
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

de desenvolver a autonomia, de trabalhar a atuação em equipe, de formar valores e


de aguçar a sensibilidade entre outras possibilidades.

Trabalhando a inclusão social sem perder a essência do fazer musical

Pesquisas realizadas por autores como Penna (2006) e Kater (2004) alertam,
um cuidado que se deve ter ao desenvolver atividades sociais com música, é a co-
erência para que nenhum dos aspectos, tanto o social quanto o artístico, deixe de
explorar suas potencialidades.

É importante que haja coesão ao trabalhar as funcionalidades sociais da arte


musical para que não se corra o risco de cair em uma “visão redentora da arte e da
música”(PENNA, 2006, p. 38).

Kater (2004) aponta que esta não seja desprestigiada, pois existem situa-
ções em ela é utilizada parcialmente em sua capacidade formadora por excelência
e, ao contrario disso, é meramente empregada com o objetivo de promover o lazer.

De acordo com Penna; Barros; Mello, (2012) as aplicabilidades contextua-


listas ou os argumentos extrínsecos, direcionados para o desenvolvimento humano
e a inclusão social, não se mantém sem o aprimoramento verdadeiro de habilidades
e temáticas propriamente musicais, sem a prática da música com um bom direcio-
namento pedagógico.

Neste sentido é que trabalham os projetos de maior sucesso, que além de


promover a inclusão social, ainda proporcionam uma formação de excelente quali-
dade aos seus alunos, neste foco diz Ribeiro (2012), de tal modo, os projetos sociais
em música podem ser considerados com um importante veículo sócio-educativo
quando desenvolvidos de forma significativa e contextualizada com a realidade so-
cial de seu público, visto que têm alcançado relevantes resultados musicais e socio-
culturais junto aos indivíduos envolvidos.

Projetos Sociais em Música no Brasil

Ao conhecer um pouco sobre os projetos sociais existentes, é possível cons-


tatar que os de maior sucesso, são os que combinam bem uma ótima educação
musical com um excelente processo inclusivo. O trabalho social com música clássica
mais famoso internacionalmente é o El Sistema da Venezuela, iniciado pelo maes-
tro José Antônio Abreu, este já alcançou grandes resultados e ainda hoje serve de
exemplo para muitas iniciativas desta natureza espalhadas pelo mundo, inclusive no

110
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Brasil (FISCHER 2012).

Um importante projeto, criado com o apoio do governo do Estado de São


Paulo, o Projeto Guri, apresenta um número muito expressivo com mais de 51 mil
alunos espalhados por todo o estado, sendo considerado o maior programa socio-
cultural brasileiro. Desde 1995 as aulas são desenvolvidas no turno inverso da escola
onde são oferecidos cursos de teoria musical, canto coral, instrumentos de cordas,
madeiras sopro e percussão entre outros. Esta iniciativa tem como objetivo promo-
ver a educação musical e a prática coletiva de música com excelência, focando no
desenvolvimento humano de gerações em formação (RIBEIRO, 2012).

O Estado do Rio de Janeiro possui o maior número de projetos sociais em


música com cerca de 19 iniciativas espalhadas nos lugares de maior pobreza. Esta
idéia atualmente está disseminada nas cidades de Petrópolis e Piraí, Ji-Paraná, em
Rondônia com mais de mil alunos. Apesar de o Rio estar à frente na quantidade de
projetos, os maiores estão em São Paulo e são eles o Projeto Guri e o Instituto Bac-
carelli (Sinfônica Heliópolis) (FISCHER, 2012).

Outro projeto de grande destaque é o Neojiba, o qual tem sua filosofia total-
mente baseada no El Sistema e visa alcançar os mesmos resultados deste, buscando
a transformação de jovens através da cooperação, multiplicação e profissionalização
dentro da música (POLINI, 2012). Sendo assim O Neojiba é um programa que pro-
porciona gratuitamente a todos os integrantes, sem distinção social, instrumentos
musicais para a prática orquestral, material pedagógico, ensino de prática e teoria
musical ministrado por profissionais qualificados, auxílio transporte e lanche, além
de uma bolsa auxílio. (NEOJIBÁ, 2012).

Todo este fenômeno tem atraído a atenção de muitos profissionais da mú-


sica, como é o caso de Heloisa Fisher que desenvolveu em seu anuário de 2012 um
dossiê com o nome de “Cidadania Sinfônica”, onde a musicista destacou 92 projetos
de integração social através da música orquestral em diferentes lugares do Brasil
(FISCHER, 2012).

Dentro deste dossiê Fischer destaca muitos aspectos importantes, como


o grande impacto econômico proporcionado por estes projetos, criando um novo
mercado de trabalho em muitos lugares onde já estão consolidados. Ao fazer uma
compra de instrumentos musicais no valor de um milhão de reais o projeto Guri de
Santa Marcelina fez com que a Yamaha ocupasse três fábricas na construção dos
mesmos. Isto despertou um grande interesse do próprio presidente desta empre-
sa japonesa, que veio ao Brasil para ver de perto este novo fenômeno da música

111
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

clássica no Brasil. Além da movimentação do mercado na compra de instrumen-


tos, vários alunos tornam-se monitores nestes projetos, com uma bolsa mensal de
estudos que em média proporciona a estes valores mensais a partir de R$100,00
(cem reais) podendo alcançar R$ 1.250,00 (mil duzentos e cinqüenta reais). Já os
professores tem sua remuneração de R$ 600,00 (seiscentos reais) a R$ 2.500,00
(dois mil e quinhentos reais), outros tipos de empregos diretos e indiretos também
são gerados nestes projetos, o que beneficia a economia da sociedade em geral
(FISCHER, 2012).

Outro aspecto relevante, é o perfil dos profissionais que trabalham neste


tipo de projeto. O gestor deve ter uma visão clara em relação ao trabalho como
um todo, ele precisa pensar em todas as etapas, início, meio e fim, como também
conhecer a máquina estatal e ainda ter ótimas relações com as esferas política, em-
presarial e sociedade civil (PENNA, 2012). Igualmente importante é a escolha da
equipe de trabalho. A escolha da equipe deve ser feita com cuidado e sem pressa”
diz Ricardo Castro do NEOJIBA. O professor precisa ter paixão pelo ser humano e
compreender que, além do instrumento, ali está uma pessoa. Toda a equipe deve
ter acima de qualquer coisa o amor pela obra social a ser realizada (FISCHER 2012).

Projetos Sociais em música e o Ensino Coletivo de Instrumentos Musicais: contex-


tualização histórica no território brasileiro.

A grande maioria dos projetos sociais em música trabalha com o sistema de


ensino coletivo de instrumentos musicais, por isso é muito útil uma contextualização
que aborde historicamente o surgimento desta metodologia no Brasil.

Martin (2012) faz uma contextualização histórica de projetos que mesmo


não tendo em seus títulos a palavra inclusão social, desenvolveram um papel his-
toricamente importante neste sentido no Brasil. No período colonial já aconteciam
trabalhos com ensino coletivo de instrumentos musicais o que movimentava so-
cialmente vários grupos envolvidos. Outros acontecimentos importantes neste pro-
cesso foram, a abertura dos portos no século XIX, momento em que o acesso a
instrumentos e partituras foi grandemente ampliado e, o surgimento dos primeiros
movimentos de cantos e danças, os quais marcaram o início dos choros e modi-
nhas. As primeiras manifestações musicais coletivas não sistematizadas, através da
chamada modinha seresteira somada a linguagem dos poetas românticos, unidas a
sonoridade dos choros, também impulsionaram a criação de projetos sociais mu-
sicais. Com chegada do compositor Villa-Lobos, ouve um movimento muito forte
através do Canto Orfeônico, mobilizando um enorme número de participantes que
interagiam de forma sociocultural através do canto coral.

112
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Com o apoio financeiro federal durante o governo de Getúlio Vargas, esta


ação chegou a mobilizar de uma só vez um coral de trinta mil crianças fazendo mú-
sica em conjunto, algo muito significativo que inspira diretores musicais ainda hoje
em vários projetos sociais com música. Porém, quando a era Vargas chegou ao fim,
foi inevitável o enfraquecimento do Canto Orfeônico e foram surgindo outras ini-
ciativas. Já no final de década de 1950 o músico José Coelho de Almeida, organizou
bandas de música com filhos de operários no interior de algumas fábricas no Estado
de São Paulo. Em 1975 o musicista Alberto Jaffé implantou um projeto de ensino
coletivo de cordas na cidade de Fortaleza, CE através do Serviço Social da Indústria
SESI. No ano de 1978 a Fundação Nacional da Arte criou os Centros de Ensino Cole-
tivo de Cordas, (MARTIN, 2012).

De acordo com Fischer (2012), as décadas de 1990-2000 marcaram um forte


início de trabalhos intitulados “Projetos Sociais em Música” com enfoque em prática
de orquestra e ensino coletivo de instrumentos musicais. Alguns projetos já haviam
começado anteriormente nos anos de 1970 com menos intensidade, como é o caso
do trabalho desenvolvido por Nicolau Martins de Oliveira em Volta Redonda (RJ).
Porém foi a partir dos anos 1990 que estas iniciativas começaram a surgir com muita
força no Brasil.

Considerações finais

Todo este crescente movimento possui uma grade relevância especialmente


em nosso contexto brasileiro, onde as diferenças sócio-econômicas são muito acen-
tuadas, este levantamento bibliográfico proporcionou uma visão panorâmica sobre
as intenções demonstradas na execução destas iniciativas socioculturais. Foi possí-
vel enxergar que este tipo de trabalho está espalhado por muitos lugares diferentes
de nosso país e que isto deve-se às grandes diferenças sociais que surgiram no Brasil
desde o período colonial nas primeiras distribuições de terras.

Também avaliamos a capacidade que a música possui de transformar e pro-


mover a inclusão sendo bem direcionada (POLINI, 2012). Este ainda nos abre os
olhos para haja um equilíbrio na metodologia destes projetos, para que tanto a in-
clusão quanto a arte musical sejam desenvolvidos em sua plenitude.

Chegando as considerações que encerram este artigo, fica a aspiração de


que mais pesquisas neste sentido sejam realizadas e que a música, através de seus
colaboradores, tanto os que ensinam, compõem, regem, cantam, executam ins-
trumentos, quanto os patrocinadores, possam através desta proporcionar a exis-
tência de uma geração mais sensível, criativa, disciplinada, que saiba trabalhar em

113
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

equipe e que sejam seres humanos capazes tornar a sociedade onde vivem um
lugar melhor.

Referências

CANDÉ, Roland De. História universal da música. Tradução de Eduardo Brandão e


Marina Appenzeller. 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
FISCHER, Heloisa Cidadania Sinfônica. Anuário Viva Música, Rio de Janeiro, 343, N/D,
2012.
ILARI, Beatriz. A música e o cérebro: algumas implicações do neurodesenvolvimento
para a educação musical. Revista da ABEM, Porto Alegre, V. 9, 7-16, set.
2003. Disponível em http://www.abemeducacaomusical.org.br/masters/re-
vista9/revista9_artigo1.pdf. Acesso em 20 de ago. de 2016.
KATER, Carlos. O que podemos esperar da educação musical em projetos de ação
social. Revista da ABEM, Porto Alegre, v.10p.43-51, mar. 2004. Disponível
em <http://www.abemeducacaomusical.org.br/Masters/revista10/revista10_
artigo6.pdf>. Acesso em 04 de ago. de 2016.
KUSHANO, Elizabete Sayuri, ALMEIDA, Volnei Gomes. Inclusão social, cidadania e
turismo. 2008. Disponível em http://www.partes.com.br/turismo/inclusao-
socialeturismo.asp, último acesso em 29/08/2016.
MARTIN, César A, Ensino Coletivo de Instrumentos Musicais Possibilidades e Limita-
ções. Disponível em: Slide Share. Acesso em : 07 de julho de 2016.
MERRIAM, A O. The anthropology of music. U.S.A.: North – West University Press,
1964.
MOREIRA, Ildeu de Castro, A inclusão social e a popularização da ciência e tecnolo-
gia no Brasil. Inclusão Social. Brasília, v.1, n. 2, p, 11-16, abr./set. 2006.
NEOJIBÁ. Disponível em: <http://www.neojiba.org>. Acessos em: 12 agosto de 2016.
PACIEVITCH, Thaís. Inclusão Social. Disponível em http://www.infoescola.com/so-
ciologia/inclusao-social/, último acesso em 25/08/2016.
PENNA, Maura. Desafios para a educação musical: ultrapassar oposições e promo-
ver o diálogo. Revista da ABEM, Porto Alegre, v.14, p. 35-43, mar. 2006.
Acesso em <http://www.abemeducacaomusical.org.br/Masters/revista14/
revista14_artigo4.pdf>. Acesso em 28/08/2016.
PENNA, Maura; BARROS, Olga Renalli Nascimento e; MELLO, Marcel Ramalho de.
Educação musical com função social: qualquer prática vale? Revista ABEM,
Porto Alegre, v.20, p. 65-78, jan.-jun.2012. Disponível em <http://www.abe-
meducacaomusical.org.br/Masters/revista27/revista27_artigo6.pdf>. Aces-
so em 10 de agosto de 2016.
POLINI, Naira de Brito. NEOJIBÁ, os toques brasileiros na experiência musical e socio-

114
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

cultural venezuelana. 2012. 44f. Trabalho de Conclusão de Curso (Pós-Gra-


duação em Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos), CELACC/
ECA-USP, São Paulo, SP.
RIBEIRO, Raimundo Luis. Inclusão através do projeto Música no Munim: Musicali-
zando crianças e jovens. 2012. 79f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licen-
ciatura) – Universidade Federal do Maranhão, São Luis, MA.
SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: Construindo uma sociedade para todos. Rio de
Janeiro: WVA, 1997.
VENTURA Mauro, Orquestras sociais se multiplicam no Brasil, mudando o desti-
no de jovens carentes. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/cultura/
orquestras-sociais-se-multiplicam-no-brasil-mudando-destino-de-jovens-ca-
rentes-5787491>. Acesso em: 30 de julho de 2016.

115
Sonata para violino e piano op. 36, de
Henrique Oswald: uma edição prática do
segundo movimento da parte de violino

Renata Ribeiro Athayde


UFRJ – renata_ops@hotmail.com
Ana Paula da Matta Machado Avvad
UFRJ – paulamtt@globo.com

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo principal realizar uma edição práti-
ca do segundo movimento da Sonata Op. 36 (1908), para violino e piano, de Henrique
Oswald (1852-1931). Para a elaboração da presente edição, foi utilizada uma cópia do
manuscrito autógrafo do acervo particular do professor Doutor Eduardo Monteiro como
referência principal. Henrique Oswald foi um dos princiapis compositores do período ro-
mântico brasileiro e boa parte de sua obra foi dedicada à música de câmara. Por ter vivido
grande parte de sua vida na Itália, faz-se necessário compreender a sua vasta produção
musical sob uma ótica europeia, da qual sofreu influência direta de sua cultura musical,
tornando-se compreensível, dessa forma, a escassez de marcas de brasilidade em suas
produções. A Sonata Op. 36 foi idealizada em 1904, no Rio de Janeiro e finalizada em
Florença, em 1908. Nela, são abordadas questões referentes ao segundo movimento,
com a elaboração de uma breve análise harmônico-morfológica. Em seguida, foram feitas
sugestões técnico-interpretativas relacionadas às arcadas e aos dedilhados da parte de
violino, baseadas nas vivências musicais da pesquisadora, fundamentando-se na literatu-
ra do pedagogo Ivan Galamian (2013). Por fim, foi produzida uma edição prática, apoiada
em Figueiredo (2000), com todas as sugestões técnicas introduzidas na parte de violino, a
qual servirá de base para a sua execução musical. .
Palavras-chave: Música. Sonata. Henrique Oswald. Edição prática. Violino

Sonata for violin and piano op.36 by Henrique Oswald: a practical edition of the se-
cond movement of the violin part.
Abstract: The present work aims to realize a practical edition of the second movement
of Sonata Op.36 (1908), for violin and piano, by Henrique Oswald (1852-1931). For this,
a copy of the autograph manuscript of Professor Doctor Eduardo Monteiro’s private col-
lection was used as the main reference. Henrique Oswald was one of the main compo-
sers of the Brazilian Romantic period and much of his work was dedicated to chamber
music. Having lived a large part of his life in Italy, it is necessary to understand his vast
musical production from a European point of view, from which he was directly influen-
ced by his musical culture, making it understandable, in this way, the lack of Brazilian
marks in his works. The Sonata Op. 36 was conceived in 1904, in Rio de Janeiro, and
finished in Florence in 1908. In it, questions are approached referring to the second
movement, with the elaboration of a brief harmonic-morphological analysis. Then,
technical-interpretative suggestions related to the arcades and fingerings of the violin
part were based on the researcher’s musical experiences, supported on pedagogue Ivan
Galamian’s literature (2013). Finally, a practical edition was produced, based on Figuei-

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 117


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

redo (2000), with all the technical suggestions introduced in the violin’s score, which will
serve as the basis for its musical performance.
Key-words: Sonata. Henrique Oswald. Practical edition. Violin.

Introdução

Nascido no Rio de Janeiro, em 1852, filho de pais europeus e músicos, Hen-


rique Oswald teve uma formação europeizada que sempre foi estimulada pelos pais.
Passou a infância em São Paulo, tendo se iniciado musicalmente com sua mãe. Pos-
teriormente, foi aluno do francês Gabriel Giraudon, conceituado professor da épo-
ca. Passou a adolescência e grande parte da vida adulta morando na Itália, na cidade
de Florença, onde se aprimorou e terminou a sua formação musical. No período em
que morou na Itália, foi aluno do renomado pianista Giuseppe Buonamici, que havia
retornado da Alemanha. Após ter passado pela experiência dos ensinamentos do
grande maestro, compositor e pianista romântico alemão Hans von Bülow (1830-
1894), e de ter permanecido cinco anos em Munique, atuando como professor de
uma classe superior de piano no Conservatório, Oswald passou a seguir os ideais ar-
tísticos do grupo Liszt - Hans von Bülow, não adquirindo afeições pela música italiana
em voga na segunda metade do século XIX, como a ópera.

Durante o tempo em que esteve longe do Brasil, produziu grande parte de


suas obras. Para Azevedo, estas representavam “(…) um romantismo “parnasiano”,
sem as efusões delirantes do período áureo, sem o pessimismo sombrio, sem o teci-
do musical sobrecarregado dos mestres alemães” (AZEVEDO, 1956, pág.125).

Oswald uniu a escola romântica e a moderna, das quais detinha o seu conhe-
cimento e boa execução, e boa parte de sua obra foi dedicada à música de câmara. Por
toda sua vivência e educação musical, faz-se necessário compreender a obra de Oswald
sob uma perspectiva europeia, da qual sofre influência direta de sua cultura musical
e, dessa forma, torna-se compreensível a escassez de traços nítidos de brasilidade em
suas composições. Suas produções estão contextualizadas no momento estético euro-
peu que antecipa a dissolução da música tonal, com a passagem do ultra-romantismo
wagneriano para o Impressionismo de Debussy (1862-1918) (MARTINS, 1995).

Segundo Monteiro (2011), tendo em vista o contexto histórico em que vi-


veu, entre 1880 e fins do século XIX, recebeu influência do modelo germânico, gran-
de expoente na produção instrumental relacionado à Schumann (1810-1856) e a
Mendelssohn (1809-1847). Passou a ter uma maior influência francesa na virada
do século XIX para o século XX, com composições de harmonia sutil e refinada, que
fazem alusão à estética francesa vigente na época de Debussy.

118
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Sonata Op. 36, para violino e piano

De acordo com a divisão estabelecida por Monteiro (2000), a obra é parte


integrante da produção da terceira fase da música de câmara com piano de Oswald,
que vai de 1904 a 1926. Foi idealizada em 1904, em meio à solidão em que o compo-
sitor se encontrava no Rio de Janeiro, longe da família, que vivia na Itália e finalizada
em Florença, em 14 de fevereiro de 1908, em um período de passagem pela cidade
(MONTEIRO, 2000). É composta de quatro movimentos, intitulados: I - Allegro mo-
derato, II - Alegretto molto moderato, III - Andante molto expressivo e IV- Allegro con
fuoco, com uma duração aproximada de 22: 26.

Em relação à Sonata op. 36, Monteiro (2000) comenta que:


Pode ser considerada a primeira obra onde a influência francesa é nitidamen-
te preponderante sobre a alemã. Seu primeiro manuscrito, onde só figura o
movimento inicial, é datado de 1904, sendo o completo de 1908 (MO NTEIRO,
2000, p. 424).

Martins (1995) também explana sobre a abordagem semelhante a várias


tendências estilísticas francesas, nitidamente evidenciadas nesta obra, como: “vir-
tuosismo de Saint-Säens, alguns atributos encontráveis nas linguagens musicais de
César Franck e Gabriel Fauré (…)” (MARTINS, 1995, p. 86). Monteiro (2006) corrobo-
ra com essa afirmação, ao dizer que a sonata “poderia eventualmente ser tomada
por uma peça de Fauré ou César Franck” (MONTEIRO, 2006, p. 71).

Monteiro (2000) ainda diz que essa influência francesa determinante pode
ser explicada tanto pelo desenvolvimento da música francesa no mundo ocidental,
com início no fim do século XIX, sendo fonte de inspiração para vários compositores
da época, como também por eventos significativos na vida de Oswald. Reforçando
ainda a semelhança ao estilo francês encontrado nesta obra, Monteiro (2000) fala
do aparecimento permanente de “acordes com notas ajuntadas e de quinta aumen-
tada, que remetem a uma harmonia de forte influência debussysta” (MONTEIRO,
2000, p. 427).

Apesar da predominância do estilo francês, Monteiro (2000) comenta sobre


a existência de um formalismo típico da escola germânica nas últimas obras exten-
sas do compositor, com “resquícios de um tipo de expressão mendelssohniana ou
schumanniana que povoa as composições iniciais de Oswald” (MONTEIRO, 2000, p.
426), os quais estão frequentemente presentes em suas grandes obras, inclusive na
própria Sonata op. 36.

119
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Edição Prática

No presente trabalho, é realizada uma edição prática do segundo movimen-


to da Sonata Op.36, baseada em Figueiredo (2000), que apresenta uma aplicação
mais interpretativa, com interesse voltado para a realização sonora, com o intuito
de incluir elementos para a utilização prática do texto musical, seja para seu estudo
ou sua execução. Segundo o musicólogo Régis Duprat:
A ênfase principal das Edições Práticas está no aspecto da realização sonora,
trazendo sinais de vários tipos de dinâmica, de articulação, de fraseado –
que têm a intenção de conduzir o executante que a utiliza (DUPRAT apud
FIGUEIREDO, 2000, p. 80).

Portanto, tem-se a finalidade de facilitar a sua execução e, de acordo com


Figueiredo (2000), sem haver a necessidade de esclarecer o grau de interferência do
editor nos textos musicais, ou de explicitar os critérios editoriais.

1 - Segundo movimento: Allegretto molto moderato

O segundo movimento da sonata, que se inicia em Allegretto molto modera-


to, correspondendo à seção A, apresenta-se, basicamente, em spiccato, o qual será
mantido, conservando-se o texto original do autor.

Galamian (2013) comenta que: “neste tipo de execução, o arco é baixado,


vindo do ar e abandona a corda novamente depois de cada nota. Ao fazer isso, o
arco descreve um movimento semelhante a uma curva” (GALAMIAN, 2013, p.75).

As arcadas sugeridas no trecho da seção A, que vai do c. 1-16 (Ex 1.), co-
meçam para baixo sempre no início dos membros das frases. Da mesma forma, é
proposto que se retome o arco para se tocar para baixo no começo do c. 8, seguindo
assim um padrão em que todos os arcos se iniciem para baixo nos compassos deste
trecho, de modo que os acentos solicitados pelo compositor também sejam tocados
para baixo e o spiccato seja realizado de maneira mais simplificada.

Em relação aos dedilhados, começa na primeira posição, que vai ser mantida
até mudar para a quarta no c.14. Do c. 7-10, é preferível que se toque na primeira
posição por apresentar uma sonoridade mais interessante dentro de um leggiero,
caráter leve e delicado, indicado pelo compositor, ao invés da segunda posição, que
parece mais séria e acadêmica, não se encaixando tão bem neste caso.

No c.15, há a opção de continuar na quarta posição, havendo pequenas tro-


cas de cordas, ou a opção de não mudar de corda, mas mudar de posição, indo para

120
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

segunda com o segundo dedo na nota Lá do primeiro tempo, voltando para a quarta
no Dó do segundo tempo.

Ex.1: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 1-16

No trecho do c.18-24 (Ex.2), são enfatizados os dedilhados em blocos, que


mantêm a posição fixa em cada compasso. As arcadas originais são mantidas, com
exceção do c. 23, onde se sugerem dois arcos para cima nas duas primeiras notas
para que o trilo da nota seguinte caia para baixo, assim como os demais trinados
desta passagem.

121
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Deve-se ressaltar que todo o tema b é repleto de trinados. Também chama-


do de trilo, de acordo com Galamian:
Deve ser suave na execução, os dedos possuindo uma sensação de articula-
ção relaxada, e o dedo que trina deve manter-se muito perto da corda (…)
é necessário dar-se conta de que o levantamento do dedo no trinado é tão
importante quanto a sua queda. De fato, o trilo não se inicia até que o dedo
saia da corda (GALAMIAN, 2013, p.30).

Ex.2: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 18-24

Do c. 26-31 (Ex.3), as arcadas do início de cada compasso sempre começam


para baixo, mantendo um padrão da arcada.

Ex. 3: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 26-31

122
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

No c. 32-38 (Ex.4), sugere-se que as duas primeiras colcheias de cada com-


passo sejam tocadas para cima dentro do spiccato indicado pelo compositor. A re-
comendação de dedilhado nesta passagem enfatiza a posição fixa, com os dedos
presos nos intervalos de quinta, dando preferência ao uso do terceiro dedo ao invés
do quarto, sempre que possível.

Ex. 4: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 32-38

No decorrer da maior parte do trio, Più moderato (quasi andante), que co-
meça no c. 56 (Ex.5), recomenda-se o uso de ligaduras de duas em duas colcheias,
embasando a indicação de legatissimo presente no manuscrito.

Ex.5: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 56

123
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Apenas nos dois últimos compassos do trio, c. 94-95 (Ex.6), que se propõe
a ligadura entre quatro colcheias, momento em que o tempo fica mais rápido. Essa
escolha se baseia na indicação de stringendo do compositor, sugerindo que o trecho
musical passe do tempo mais lento ao mais rápido através do aumento gradual da
velocidade, preparando para a volta ao leggiero do Allegretto molto moderato, tam-
bém indicado pelo autor.

Ex.6: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 94-95

Com relação aos dedilhados, embora a maior parte do trio seja tocada na
quarta posição, ressaltam-se as mudanças de posição por semitons com a utilização
do mesmo dedo, c. 57-58 (Ex.7). Embora esta prática em notas consecutivas não seja
recomendada, em passagens lentas, como a referida, é possível, desde que a nitidez do
som não seja prejudicada. Além disso, esta mudança em semitom também mantém os
dedos na mesma corda, o que dá uniformidade na cor e não promove a troca de corda.

Ex.7: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 57-58

124
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

No c.61, que está na quarta posição, é usada uma extensão com o quarto
dedo no Fá natural, mantendo-se na quinta posição com o terceiro dedo no Mi na-
tural, retornando à quarta posição com o quarto dedo no Lá  no começo do c. 62
(Ex. 8). Esse tipo de extensão vem seguido por um reajuste da mão, que se adequa
a uma nova posição. Em relação a isso, Galamian comenta que:
Tais extensões serão sempre apresentadas a despeito do fato de que elas
poderiam muito bem ser substituídas por uma mudança de posição. As ex-
tensões nesse caso são preferidas porque contribuem para o funcionamen-
to técnico mais fácil e para um melhor efeito musical (com a eliminação
de deslizamentos através de uma correspondente articulação mais clara da
passagem) (GALAMIAN, 2013, p.33).

Ex. 8: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 61-62

No c. 71, após vir de uma quarta posição com o Mi e Si  tocados com o
dedo preso no intervalo de quinta, faz-se uma extensão com o terceiro dedo, que é
esticado até o Lá na corda Lá, também com o dedo na quinta para tocar o Mi logo
em seguida, com o ajuste da mão para a quinta posição. No c. 72, o Mi natural é
tocado com o quarto dedo, e é empregada uma extensão para trás, ou contração,
do primeiro dedo no Lá, também com o posterior ajuste da mão para a terceira
posição, que será mantida no Dó seguinte (Ex.9).

O emprego dos dedos presos no intervalo de quinta é recomendado por ser


mais funcional no que se refere à técnica do instrumento, permitindo que o trecho
tenha uma sonoridade mais uniforme, sem oscilações, e sem que se ouçam as pas-
sagens dos dedos de uma corda para outra.

125
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

EEx. 9: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 71-72

No c. 74, sugere-se a utilização da meia posição no primeiro tempo, para


impedir o uso do mesmo dedo nas duas notas, que provocaria um deslizamento de
sonoridade indesejável.

Ex. 10: Oswald, H. Sonata op. 36 para violino e piano, 2º movimento, c. 74

Considerações Finais

Os resultados da pesquisa possibilitaram a elaboração da presente edição


prática, através do levantamento das diversas questões técnico-interpretativas, as
quais apontaram algumas sugestões no que diz respeito à arcada e ao dedilhado,
bem como do fraseado musical da parte do violino.

A finalidade desta edição prática é fornecer ao intérprete um maior número

126
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

de subsídios para a construção da performance, dando-lhe, assim, um conhecimen-


to que permita a elaboração de uma concepção mais íntima da obra, além de possi-
bilitar uma execução sólida e bem estruturada.

O fato de este trabalho tratar de uma sonata de Henrique Oswald também


trouxe à tona a importância deste compositor e de sua obra de câmara, ainda pouco
valorizados na literatura musical, levando em consideração a qualidade artística de
suas composições. Espera-se, portanto, que a elaboração da presente edição con-
tribua para execução e disseminação do repertório romântico brasileiro e sua maior
inserção no campo das práticas interpretativas.

Referências

AZEVEDO, Luiz Heitor Corrêa de. 150 Anos de Música no Brasil (1800-1950). Rio de
Janeiro: Ed. José Olympio, 1956.
CASTAGNA, P. Dualidades nas propostas editoriais de música antiga brasileira. Revis-
ta Per Musi, Belo Horizonte, n.18, p.7-16, 2008.
FIGUEIREDO, Carlos Alberto. Editar José Maurício Nunes Garcia. Tese de Doutorado.
Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Fe-
deral do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), 2000.
GALAMIAN, Ivan. Principles of violin playing and teaching. Courier Corporation: Uni-
ted States, 2013.
MARTINS, José Eduardo. Henrique Oswald, músico de uma saga Romântica. Tese de
Doutorado. São Paulo, USP, EDUSP, 1995.
MONTEIRO, Eduardo Henrique Soares. Henrique Oswald (18521931) un composi-
teur brésilien au-delà du nationalisme músical. L’exemple de sa musique de
chambre avec piano. Thèse de Doctorat, Paris, Université de Paris IV-Sor-
bonne, 2000.
_______. Henrique Oswald e os Românticos Brasileiros: Em Busca do tempo perdi-
do. Textos do Brasil, Brasília, p. 68 - 71, 10 abr. 2006.
Gravações

VIOLIN MUSIC IN BRAZIL. Heitor Villa-Lobos (Compositor), Edino Krieger (Composi-


tor), Henrique Oswald (Compositor), Ronaldo Miranda (Compositor). Cláudio Cruz
(Intérprete, violino). Nahim Marun (Intérprete, piano). Gênova, Itália: Dynamic,
2001. Compact Disc.
HENRIQUE OSWALD. Henrique Oswald (Compositor). Elisa Fukuda (Intérprete, violi-
no). Antonio Del Claro (violoncelo). José Eduardo Martins (Intérprete, piano). Rio de
Janeiro: PRO-MEMUS/ Funarte, 1988. Gravação digital.

127
Quatro Peças Brasileiras – Maroca - para
quarteto de fagotes (1983) de Francisco
Mignone: proposta de edição crítica

Raquel Santos Carneiro


UFMG/UFRJ – quelsc@yahoo.com.br

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo principal a apresentação dos resultados
finais de uma pesquisa, sobre questões editoriais de uma das Quatro Peças Brasileiras -
Maroca (1930) de Francisco Mignone, em transcrição do próprio autor para quarteto de
fagotes (1983). Ele consiste na estruturação de um arcabouço teórico, apresentando o
aparato e comentários críticos, visando à elaboração de uma Edição Crítica. A metodo-
logia utilizada foi baseada nos conceitos desenvolvidos por Figueiredo (2000), para os
aspectos editoriais, e McGill (2007) para aspectos idiomáticos do fagote.
Palavras-chave: Francisco Mignone. Fagote. Práticas interpretativas. Edição .

Quatro Peças Brasileiras - Maroca - for bassoon quartet (1983) from Francisco Migno-
ne: critical edition proposal
Abstract: The aim of the present work is to demonstrate final results of the research
about editorial issues of Quatro Peças Brasileiras - Maroca (1930) by Francisco Migno-
ne, in the author’s own transcription for bassoon quartet (1983). It consists of struc-
turing a theoretical framework, showing some critical apparatus and commentary, in
order to develop a critical edition based on Figueiredo (2014), and McGill (2007) for
idiomatic aspects for the bassoon.
Key-words: Francisco Mignone. Bassoon. Performance Practice. Edition. Francisco Mig-
none. Bassoon. Performance Practice. Edition.

Introdução

Francisco Mignone foi um dos compositores do século XX que mais escreveu


para conjuntos específicos de fagote – solos, duos, trio e quartetos (KOENIGSBECK,
1994), e não podemos deixar de mencionar a importância de Noel Devos, o intérpre-
te virtuoso a quem o compositor dedicou todo esse repertório. Nascido em Calais,
França, e desde 1952 radicado no Brasil, Devos foi um entusiasta da música brasileira,
sempre estimulando os compositores a escreverem obras para fagote.

Na década de 1980, Mignone retoma a veia nacionalista, incorporando ele-


mentos estruturantes e/ou de performance da música popular brasileira em suas

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 129


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

composições - ritmos sincopados, deslocamentos do tempo, articulação, harmonia,


dentre outros. Com mais de oitenta anos de idade, realizou uma série de transcrições
de obras para piano da sua juventude para quarteto de fagotes, como é o caso das
Quatro Peças Brasileiras.

A peça Quatro Peças Brasileiras- Maroca, Maxixando, Nazareth e Toada, foi


composta para piano em 1930, e transcrita para quarteto de fagotes, pelo próprio
compositor, no ano de 1983. Segundo Mignone, “(...) são pecinhas que lembram mui-
tíssimo Chico Bororó” 1 (MIGNONE apud KIEFER, 1983, p.52). A obra foi dedicada ao
Quarteto Airton Barbosa, oriundo do Quarteto de Fagotes da UFRJ, composto pelo
professor Noël Devos, Antônio Bruno, Aloysio Fagerlande e Ricardo Rapoport, em
dezembro de 1983.

Esta pesquisa pretende apresentar parte dos resultados finais do processo


de elaboração de uma Edição Crítica, do primeiro movimento- Maroca2.

Edição Crítica

A “Edição Crítica” tem como diretriz principal a aproximação das intenções do


compositor. Seu objetivo, segundo Grier, é “transmitir o texto que melhor representa
a evidência histórica das fontes” (GRIER, 1996, p. 136)3. É uma edição musicológica
aseada em mais de um referencial da obra a ser editada. Para tal, os procedimentos
metodológicos adotados são balizados, sobremaneira, pela Crítica Textual ou Crítica
da Tradição. Neste contexto, a Crítica Textual4 é caracterizada como um método que
pretende estabelecer a forma original de um texto (DADELSEN apud FIGUEIREDO,
2000, p. 27), conservando as indicações do compositor, de extrema importância vis-
to serem um fator determinante para sua realização. Em nossa pesquisa utilizamos
os preceitos da Crítica Textual na construção de nossa edição. A edição crítica deve
conter, ainda, possíveis comentários para a prática musical, incluindo possibilidades

1 Chico Bororó foi pseudônimo utilizado por Francisco Mignone para compor música pop-
ular em início de carreira.
2 Todos os manuscritos originais das obras para conjunto de fagotes pertencem ao acervo
pessoal do Professor Noël Devos, e foram digitalizados pelos padrões internacionais de
acervos manuscritos pela equipe da Biblioteca Alberto Nepomuceno em 2012, e fazem
parte do acervo do Centro de Estudos dos Instrumentos de Sopro Prof. Noël Devos, da
EM-UFRJ.
3 Transmitir el texto que mejor representa la evidencia histórica de las fuentes (GRIER,
1996, p.136).
4 A Crítica Textual moderna apresenta-se, no século XIX, pelas edições críticas do filólogo
Karl Lachmann (1793-1851). Lachmann desenvolveu o “Método Lachmanniano”, basea-
do nos procedimentos usados pelos editores alexandrinos (QUEIROZ, 1997, p. 83), o que
deu à Crítica Textual um cunho científico.

130
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

interpretativas identificadas nas fontes (FIGUEIREDO, 2000, p. 77). É necessário um


profundo estudo e entendimento da obra. São edições que evidenciam as anotações,
os critérios e interferências dos editores (CASTAGNA, 2008, p. 10).

Neste trabalho, apresentaremos alguns dos itens adotados por Figueiredo


(2014) para uma Edição Crítica:

a) recenseamento: na pesquisa editorial, é necessário que haja coleta, avalia-


ção, identificação, classificação e organização das fontes.

Estas ocorreram da seguinte maneira:

• FONTE A – Manuscrito autógrafo da partitura (1983);5


• FONTE B – Manuscrito autógrafo das partes avulsas (1983);6
• FONTE C – Gravação feita pelo quarteto de fagotes Airton Barbosa (1985); 7
• FONTE D – Partitura impressa, original para piano (1930);8
• PE – Proposta de Edição (2015).

Neste processo, separamos os equívocos, manchas, notas trocadas, corre-


ções posteriores e qualquer fator que dificultasse ou deixasse ambígua a leitura das
partes. Quanto às fontes estudadas, é importante ressaltar que sua classificação e
organização, no recenseamento, conservam uma hierarquia cronológica. (FIGUEI-
REDO, 2000). Entretanto, nesta pesquisa, consideramos como referências principais
as FONTES A e B, correspondentes as fontes originais para quarteto de fagotes, de
1983. Desta forma, ao tomarmos decisões editoriais relativas às divergências entre
as FONTES A e B, fizemos uso das FONTES C e D. Por meio de análise da gravação,
além de um estudo minucioso da parte de piano, confirmamos as possíveis incon-
gruências entre as FONTES A e B.

b) aparato crítico e comentário crítico: nessa etapa, apresentaremos as de-


rivações das fontes, os erros presentes nos referenciais utilizados e as justificativas
das intervenções editoriais – que constituem o aparato crítico – e o comentário sobre
cada intervenção, em que nos apoiamos em três parâmetros, articulação, erros de
notação (notas erradas, divergências de ritmo e erros de escrita em geral) e dinâmica.

5 Integra o acervo do Centro de Estudos dos Instrumentos de Sopro Prof. Noël Devos, da
EM-UFRJ.
6 Integra o acervo do Centro de Estudos dos Instrumentos de Sopro Prof. Noël Devos, da
EM-UFRJ.
7 Integra o acervo do Centro de Estudos dos Instrumentos de Sopro Prof. Noël Devos, da
EM-UFRJ.
8 Edição Ricordi.Brasileira, 1930.

131
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Maroca – 1º movimento

Articulação

Nas ilustrações abaixo, percebemos, na FONTE A, a existência de um sinal de


respiração entre as notas Si sustenido e Dó sustenido na voz do segundo fagote. Em
contraposição, na FONTE B, há uma ligadura entre estas mesmas notas.

Ex.: 1 – Mignone, F. Maroca, FONTE A, 2º fgt., c. 8: Presença do sinal de respiração.

Ex.: 2 – Mignone, F. Maroca, FONTE B, 2º fgt., c.8: Falta o sinal de respiração e utilização
de ligadura.

Ex.: 3 – Mignone, F. Maroca, PE., 2º fg t., c. 8: Presença do sinal de respiração.

COMENTÁRIO: Optamos por inserir um sinal de respiração na voz do segun-


do fagote, pois se trata de um final de frase. As escolhas interpretativas contidas na
FONTE C nortearam a edição deste trecho, prevalecendo as indicações presentes na
FONTE A.

132
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Erros de notação

Na FONTE A, a armadura de clave encontra-se rasurada, causando dúvidas


quanto ao tom e desconforto no fluxo da leitura.

Ex.: 4– Mignone, F. Maroca, FONTE A; 1º, 2º, 3º e 4º fagotes: Rasuras na armadura de


clave I mov.

Ex.: 5– Mignone, F. Maroca, FONTE B, 1º fgt.: Armadura de clave rasurada.

Ex.: 6– Mignone, F. Maroca, Armadura de clave correta original..

133
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Ex.: 7- Mignone, F. Maroca, PE: Armadura de clave corrigida.


COMENTÁRIO: Em nossa PE corrigimos a armadura de clave. Mesmo a FON-
TE D nos mostrando que o número de acidentes era 3, optamos por grafar 4 susteni-
dos, pois o tom do movimento é Dó sustenido menor.

A próxima figura ilustra a mudança de claves (de Fá para Dó) na FONTE A, na


parte do segundo fagote. Entretanto, na FONTE B não existe a indicação de mudança,
o que modificaria a tessitura melódica do trecho.

Ex.: 8– Mignone, F. Maroca, FONTE A, 2º fgt., c.31: Clave de Dó.

Ex.: 9 – Mignone, F. Maroca, FONTE B, 2º fgt., c.31-34: Clave de Fá, equivocada.

134
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Ex.: 10 - Mignone, F. Maroca, FONTE D mesma linha melódica da FONTE A.

Ex.: 11– Mignone, F. Maroca, PE, 2º fgt., c.31: Clave de Dó.

COMENTÁRIO: Neste trecho concluímos, por meio de análise da gravação, e


da FONTE D, que correto é o grafado na FONTE A.

Dinâmica

Na figura que segue, a dinâmica se diferencia entre as FONTES A e B. Na


FONTE A, está expresso um sinal de diminuendo, acrescido de um pp; na FONTE B,
essa indicação não aparece.

Ex.: 12 – Mignone, F. Maroca, FONTE A, 1º fgt., c. 36: Dinâmica pp.

135
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Ex.: 13– Mignone, F. Maroca, FONTE B, 1º fgt., c. 36: Dinâmica em pp.

Ex.: 14 – Mignone, F. Maroca, FONTE D: Dinâmica mp.

Ex.: 15 – Mignone, F. Maroca, PE, 1º fgt., c. 36: Dinâmica modificada de pp para mf e mp

COMENTÁRIO: Neste trecho, modificamos a dinâmica, de pp para mf. Nos


compassos anteriores, o primeiro fagote executa uma linha melódica no registro
agudo. Subitamente, há uma transição para o registro grave do instrumento (Dó
sustenido 1), com a dinâmica piano9. Tecnicamente, este é um procedimento que
exige boa técnica no instrumentista, pois é preciso ter um bom ataque. O ataque da
nota requer uma corrente de ar mais rápida e mais concentrada, (McGILL 2007, p.
180) para não falhar devido a mudança de tessitura (aguda para extrema grave). O
intérprete tendo uma dinâmica mais confortável auxilia na execução do trecho e no
ataque corroborando na questão idiomática do instrumento. Essa mudança de dinâ-

9 Segundo o fagotista Arthur Weisberg, para se ter um bom êxito numa dinâmica mais
piano, é necessário ter uma boa qualidade de ar . Outro fator é a abertura da palheta
ele demonstra que quanto maior a abertura da palheta, mais difícil é de se conseguir
um bom pianíssimo. Portanto “um fff, requerem uma grande quantidade de ar, um mf
menos, e ppp quase nenhum” (WEISBERG, 1993, p. 5 – 6).

136
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

mica também valoriza a tônica (Dó sustenido) que é a nota fundamental do acorde e
a tessitura proposta por Mignone, na FONTE D.

Considerações Finais

Este trabalho abordou uma obra transcrita para quarteto de fagotes pelo
próprio autor, com uma grande riqueza no que diz respeito à diversidade de articula-
ções, tratamento do ritmo, além da questão idiomática dos fagotes. A metodologia
adotada privilegiou o estudo minucioso das fontes utilizadas, em que foram iden-
tificados equívocos que pudessem deixar confusa ou ambígua a leitura das partes,
fazendo parte do processo da edição crítica.

Na primeira peça -Maroca-, aqui abordada, corrigimos notas trocadas entre


as fontes, rasuras, claves equivocadas e sugerimos mudanças de dinâmicas ao final
do movimento. A obra transcorre com uma linha melódica delicada e sentimental,
em que as vozes dialogam entre si, deixando em evidência a linha solista executada
sempre pelo primeiro fagote. Mignone foi um excelente orquestrador, demonstrado
no entrelaçamento entre as vozes, com os solos apresentados sempre em primeiro
plano, mesmo sendo executados apenas por um fagote. Apesar da transcrição ter
sido realizada pelo próprio autor, notamos que diversas questões idiomáticas do
fagote ainda apresentavam problemas.

Neste sentido, este trabalho, através de uma edição crítica, apresentou al-
ternativas baseadas em parâmetros idiomáticos do instrumento, tais como articu-
lação, respiração, tessitura e dinâmica, propondo uma reflexão acerca da questão
editorial, de forma panorâmica, tendo como objetivo principal o aprimoramento das
condições de performance.

Referências

CASTAGNA, P. Dualidades nas propostas editoriais de música antiga brasileira. Per


Musi, Belo Horizonte, n. 18, 2008.
FIGUEIREDO, C. A. Editar José Maurício Nunes Garcia. Rio de Janeiro, 2000. Progra-
ma de Pós Graduação em Música Doutorado em Música – Centro de Letras
e Artes, UNIRIO.
GRIER, J. La Edición crítica de música: história, método y prática. Madrid: Ediciones
Akal, 2008.
KIEFER, B. Mignone: Vida e obra, Editora Movimento, Porto Alegre, 1983.
MARIZ, V. Francisco Mignone: O homem e obra. Rio de Janeiro: Funarte: UERJ, 1997.
MCGILL, D. Sound in motion: A performer´s guide to greater musical expression.

137
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Bloomington: Indiana University Press, 2007.


MIGNONE, F.: A parte do anjo: autocrítica de um cinqüentenário. São Paulo: Man-
gione, 1947.
______ Quatro Peças Brasileiras. Rio de Janeiro, Ricordi Brasileira, 1930, partitura
impressa, piano.
______ Quatro Peças Brasileiras. Rio de Janeiro, 1983, Partitura Manuscrito, quar-
teto de fagotes.
______ Quatro Peças Brasileiras. Rio de Janeiro, 1983, Partes manuscritas, quarteto
de fagotes.
KOENIGSBECK, B. Basson Bibliography - Bibliographie du Basson - Fagott Bibliogra-
phie. Monteux: Musica Rara, 1994.
QUEIROZ, R.C. Edição crítica de um soneto de Arthur Salles. Veneza: Sintientibus,
Feira de Santana, n.17, 1997.
WEISBERG, A. The art of wind playing. Minneapolis: SATCO, 1993.

138
Severino Gazzelloni e a revalorização da
flauta na Itália do século XX: a Gazzelloni-
Musik

Fabrício Malaquias Alves


Conservatorio Giuseppe Verdi – fabricio.malaquias@hotmail.com

Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar o processo que culminou na criação da


Gazzelloni-Musik – um amplo grupo de peças para flauta compostas durante o século XX
e dedicadas ao flautista italiano Severino Gazzelloni. Dentre os passos metodológicos,
foi realizada uma pesquisa histórica e bibliográfica acerca da organologia da flauta, e,
principalmente uma revisão sobre o papel dos intérpretes e docentes na difusão deste
instrumento, com especial atenção ao flautista Severino Gazzelloni, grande responsável
não só pela revalorização da flauta na Itália durante o vigésimo século mas também pela
influência que exerceu na elaboração do repertório flautístico de vanguarda.
Palavras-chave: Flauta. Música contemporânea. Compositores italianos. Severino Ga-
zelloni.

Severino Gazzelloni and the appreciation of the flute in Italy across the 20th century:
the Gazzelloni-Musik
Abstract: The aim of this work is to analyze the process that culminated in the creation
of Gazzelloni-Musik – a large group of flute pieces composed during the 20th century
and dedicated to the italian flutist Severino Gazzelloni. Here we made a historical and
bibliographic research about the organology of the flute and the roles of the performers
and teachers on the diffusion of this instrument. Special attention was given to the flu-
tist Severino Gazzelloni, responsible not only for the revaluation of the flute in Italy
during the 20th century, but also for his influence in the elaboration of the avant-garde
flute repertoire.
Key-words: Flute. Contemporary music. Italian composers. Severino Gazzelloni.

Introdução

O século XX assistiu ao florescer de um amplo repertório destinado à flauta


solista. Este fenômeno parece ter se tornado possível somente depois de um longo
processo permeado por oscilações no que tange à utilizaçao da flauta nas várias
formações instrumentais. No século XIX, por exemplo, a flauta foi relegada a um
segundo plano em relação a outros instrumentos musicais e não gozou de grande

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 139


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

interesse por parte dos compositores mais importantes1. Este fato, ao que parece,
está ligado à ausência de um instrumento único, standard, à diferença do violino
que já naquele século possuía um modelo estável. O século XIX é considerado “o
século no qual a flauta sofreu as maiores transformações organológicas que criaram
verdadeiras correntes de pensamento e escolas executivas nacionais geralmente
contrastantes entre si” (PETRUCCI, 2006: 7. Tradução nossa).

Diversos modelos de flauta coexistiam durante o período romântico e, não


obstante seja amplo o repertório flautístico do século XIX, este é composto, princi-
palmente, por peças escritas por compositores flautistas como os italianos Raffaello
Galli (1824-1889), Giuseppe Gariboldi (1830-1905) e o dinamarquês Carl Joachim
Andersen (1847-1909) e que, muitas vezes, também construíam o próprio instru-
mento, como é o caso do alemão Theobald Boehm (1794-1881)2 e do italiano Giulio
Briccialdi (1818-1881)3. Depois da ampla difusão do modelo proposto por Theobald
Boehm entre os flautistas, e de sua aceitação como modelo padrão, a flauta come-
çou a gozar de maior popularidade tornando-se, até mesmo, protagonista de uma
transformação na linguagem musical e de uma evolução em direção ao modernismo
novecentista. Galante (2003) inicia seu ensaio “A flauta no século XIX”4, citando dois
eventos ligados à vida musical francesa, mais precisamente parisiense, que pode-
riam assinalar o início do “Século XX flautístico”. Segundo este autor, 1893 é um pe-
ríodo importante neste sentido porque é nesse ano que Paul Taffanel 5, fundador da
moderna escola francesa de flauta, é nomeado professor no Conservatório Superior
de Paris (GALANTE, 2003: 183. Tradução nossa). O outro evento citado por Galante
é consenso entre os estudiosos da história da música e aponta aquele que seria o
início da música moderna: a primeira execução, em 1894, do Prèlude à l’après-midis
d’un faune, de Debussy (1862-1918). “Se a música moderna teve um ponto de par-
tida preciso, podemos identificá-lo nesta melodia para flauta que abre o Prèlude à
l’après-midis d’un faune de Debussy (…)”, afirma Griffthis (1987). Galante acrescenta
que:

1 Neste caso, consideramos o papel da flauta enquanto instrumento solista ou em casos


em que esta se sobressai no orgânico orquestral.
2 É atribuída a Boehm a criação da flauta moderna, projeto realizado por ele em diversas
etapas. O modelo de 1847 com corpo cilíndrico e cabeça cônico-parabólica, substancial-
mente corresponde à flauta de concerto empregada nos dias de hoje.
3 Em 1849, Briccialdi acrescentou uma chave acima da chave de Si para o polegar esquer-
do como uma alternativa mais fácil para a posição do Si bemol.
4 Il flauto nel Novecento.
5 Claude-Paul Taffanel (1844-1908) Flautista, regente e professor francês, considerado o
fundador da Escola francesa de Flauta que se tornaria, mais tarde, um modelo para a
composição e interpretação da flauta durante o fim do século XIX e início do século XX.

140
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

A importância simbólica do Prèlude à l’après-midis d’un faune de Claude De-


bussy para o início do século XX e para a flauta consiste em levar metaforica-
mente em cena a flauta como nova protagonista capaz de emergir, enquan-
to instrumento concertante e não obstante a tessitura geralmente grave,
[impor-se] também sobre uma orquestra de dimensões tardo-românticas
(somente a quase contemporânea Quarta Sinfonia de Brahms prevê um solo
tão grave para flauta.6 (GALANTE, 2003: 184. Tradução nossa)

Fig. 1: Inicio do Prèlude àl’après-midi d’un faune de Claude Debussy

Petrucci (2006), ao contrário, utiliza uma linguagem mais poética para recriar
tal acontecimento:
Aberta a gaiola dourada do pintassilgo por eleição, a languida cantora de
melopeias, a flauta encontrou a si mesma naquele papel orquestral que tan-
to preocupava os autores do passado. Primeiro com o Prèlude à l’après-midi
d’un faune de 1894, de Claude Debussy e, mais tarde, definitivamente, com
Daphnis et Chloé, de Maurice Ravel, de 1911, foram consagrados os elemen-
tos estilísticos timbrísticos agradáveis ao manifesto das novas possibilida-
des7. (PETRUCCI, 2006: 10. Tradução nossa)

Num sentido mais amplo, o Prèlude anuncia a era moderna porque libera a
música do sistema de tonalidades maior e menor, retirando das tensões harmônicas
o seu caráter imperativo sobre a composição (GRIFFTHIS, 1987:7). No caso da flauta,
o novo instrumento Boehm, metálico, cilíndrico, ofereceu aos compositores timbre
e possibilidades técnicas afins à nova estética musical: na música moderna e, prin-

6 L’importanza simbolica del Prèlude à l’après-midis d’un faune di Claude Debussy per
l’inizio del Novecento flautistico consiste invece nel portare metaforicamente sulla scena
il flauto come nuovo protagonista capace di emergere, in quanto strumento concertante
e nonostante la tessitura spesso grave, anche su un’orchestra di dimensioni tardo-ro-
mantiche (solo la quasi contemporanea Quarta Sinfonia di Brahms prevede un solo flau-
tistico così basso). (GALANTE, 2003: 184)
7 Dischiusa la gabbia dorata del cardellino per elezione o di languido cantante di melopée
il flauto trovò se stesso proprio in quel ruolo orchestrale che tanto impensieriva gli autori
del passato. Prima con il Prèlude àl’après-midi d’un faune del 1894 di Claude Debussy e
poi, definitivamente, con Daphnis et Chloé di Maurice Ravel, del 1911, vennero sanciti gli
stilemi timbrici congeniali al manifesto delle nuove possibilità. (PETRUCCI, 2006: 10)

141
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

cipalmente naquela produzida no pós-guerra, a intensidade será um elemento cada


vez mais desfrutado pelos compositores – os sons muito amplificados ou muito re-
duzidos atingem o extremo das possibilidades oferecidas pelos instrumentos. Tam-
bém o timbre será um dos parâmetros mais explorados entre os autores modernos
como elemento expressivo e através das diversas combinações dos instrumentos,
bem como a ênfase na oposição e sobreposição de sons musicais e ruído.

A flauta na Itália

Se a redescoberta da flauta, juntamente ao florescimento da música mo-


derna, aconteceu na França, no início do século XX, foi necessário mais tempo para
a reafirmação do instrumento na península itálica. Com respeito ao repertório, a
literatura para flauta produzida na Itália no mesmo período ainda olha para trás.
Os programas de estudo, na época adotados pelos conservatórios, estabeleciam,
com pouquíssimas exceções, somente estudos técnicos, oitocentistas, como os de
Hugues, Andersen, Koehler, Galli e Briccialdi, ainda adotados nos conservatórios ita-
lianos e em grande parte das instituições estrangeiras. Galante (2003), citando um
catálogo da empresa Rampone, organizado em torno de 1920, conta que grande era
o número de instrumentos produzidos, em diversos modelos e, curiosamente, havia
um prevalecimento dos antigos sistemas sobre o novo sistema idealizado por Bo-
ehm (em prata, com chaves abertas, Si bemol de Briccialdi e Sol sustenido fechado),
ainda que este novo modelo já gozasse de ampla difusão (GALANTE, 2003: 204). Pe-
trucci, em seu ensaio introdutório ao tratado de Boehm, confirma que tenha havido
certa resistência à aceitação da flauta Boehm na Itália, ainda que cite uma legião de
flautistas que participaram da propagação do novo instrumento e atribua a Briccial-
di a grande contribuição para a sua difusão.
Giuseppe Rabboni (1800-1856), o Conde Luigi Martini-Porti (1803-1886), Francesco
Pizzi (1808-1871), Cesare Ciardi (1818-1877), Vincenzo de Michelis (1825-1891), Luigi
Hugues (1836-1913), Francesco Rossi (1848-1911), Ernesto Kohler (1849-1907) perma-
neceram fiéis ao antigo sistema. Outros, ao contrário, como Filippo Franceschini (1841-
1916), Antonio Zamperoni (1844-1909), Italo Piazza (1860-após 1947), professores nos
Reali Conservatori di musica e Licei musicali onde tinha sido adotada a flauta Boehm, a
impuseram a seus alunos, mesmo continuando a tocar flautas do sistema antigo. Ou-
tros, mais tarde, e entre os mais ilustres, como Emanuele Krakamp (1813-1883), Filip-
po Savini (1814-1893), Giuseppe Gariboldi (1833-1905), Alberto Roberti (1833-1908),
Vittorio Beniamino (1833-1912), Emilio Gillone (1852-1925), Paolo Cristoferetti (1857-
1936), Filiberto Peri (1864-após 1940), não só a ensinaram, mas a adotaram e difundi-
ram-na por toda parte.8 (PETRUCCI, 2006: 15. Tradução nossa)

8 Giuseppe Rabboni (1800-1856), il Conte Luigi Martini-Porti (1803-1886), Francesco Pizzi


(1808-1871), Cesare Ciardi (1818-1877), Vincenzo de Michelis (1825-1891), Luigi Hugues
(1836-1913), Francesco Rossi (1848-1911), Ernesto Kohler (1849-1907) rimasero fedeli al

142
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Entre os flautistas italianos mais influentes do início do século XX, Galante


cita Leonardo de Lorenzo (1875-1962), Filippo Franceschini (1841-1918), Abelardo
Albisi (1872-1938), Alberto Veggetti (1874-1948) e Arrigo Tassinari (1889-1988). Este
último teria exercido grande influência sobre as novas gerações e manifestado pre-
dileção por uma escola puramente italiana. Em todo caso, o autor é categórico ao
afirmar que o grande renascimento da flauta na Itália se deve graças ao aluno mais
célebre de Tassinari, o flautista Severino Gazzelloni que mais tarde viria a influenciar
fortemente também a literatura de vanguarda para flauta produzida naquela penín-
sula e no exterior (GALANTE 2003: 204-206).

A Gazzelloni-Musik

O flautista Severino Gazzelloni, nascido em 1919 na localidade de Rocca-


secca, se diplomou em Roma, no ano de 1942. Gazzelloni iniciou gradualmente a
obter reputação em virtude da sua formidável mestria técnica no instrumento, e
é considerado pioneiro da redescoberta da flauta na Itália da época moderna. Sua
carreira solista, porém, se viu ligada à execução e divulgação da música contempo-
rânea da qual era um grande apaixonado. De 1952 a 1964 ele foi docente de flauta
nos FerienkursefurNeueMusik, organizados pelo musicólogo Wolfgang Steinecke, a
partir de 1946, em Darmstadt.

O interesse de Gazzelloni pela música de vanguarda teve início antes dos


Ferienkurse, em 1947, através de um convite do compositor Mario Peregallo que, na
época organizava uma turnê do Pierrot Lunaire de Arnold Shoenberg. O compositor
ofereceu a parte de flauta a Gazzelloni que depois deste primeiro contato teria se
tornado assíduo executante da nova música.

Durante os Ferienkurse, Gazzelloni teve contato e estabeleceu relações com


muitos compositores e estudiosos da nova música, entre os quais Pierre Boulez, Lu-
ciano Berio, Karlheinz Stockhausen, Luigi Nono, Franco Donatoni, Sylvano Bussotti,
Olivier Messiaen e John Cage. Naqueles anos, Gazzelloni era um dos poucos instru-
mentistas a dedicar-se verdadeiramente à música de vanguarda, e isto suscitou inte-

vecchio sistema. Altri invece, come Filippo Franceschini (1841-1916), Antonio Zamperoni
(1844-1909), Italo Piazza (1860-dopo il 1947), insegnanti nei Reali Conservatori di musica
e Licei musicali dove era stato adottato il flauto Bohm, lo imposero ai loro allievi, pur con-
tinuando a suonare flauti del sistema antico. Altri, poi, e fra i più illustri, come Emanuele
Krakamp (1813-1883), Filippo Savini (1814-1893), Giuseppe Gariboldi (1833-1905, Al-
berto Roberti (1833-1908), Vittorio Beniamino (1833-1912), Emilio Gillone (1852-1925),
Paolo Cristoferetti (1857-1936), Filiberto Peri (1864-dopo il 1940), non solo lo insegnaro-
no, ma lo adottarono e lo diffusero ovunque. (PETRUCCI, 2006: 15)

143
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

resse por parte de muitos compositores sobre o instrumentista que, além de virtu-
oso em seu instrumento, era muito disponível e aberto a colaborar com os autores.
Depois da experiência de Darmstadt, ele se tornou um dos maiores intérpretes da
NeueMusik e o máximo da música de vanguarda para flauta, mesmo tendo continu-
ado a executar o repertório tradicional para esse instrumento. Da colaboração entre
o flautista e os diversos autores nasceram centenas de peças a ele dedicadas. As
peças foram escritas principalmente nos anos sessenta e setenta do século XX, e a
primeira execução contava, quase sempre, com o homenageado à flauta.

Em 1958, Luciano Berio (1925-2003) dedicou ao flautista a sua Sequenza I


para flauta solo que poderia ser considerada uma das peças mais importantes da-
quela que ficou conhecida como Gazzelloni-Musik, ou seja, toda a enorme quanti-
dade de peças inspiradas ou dedicadas à flauta de Gazzelloni (GALANTE 2006: 213).
Sobre a primeira página da Sequenza, no alto, se lê a afetuosa dedicatória “a Severì”.
Nesta peça, ouve-se a tentativa por parte do compositor de confiar à flauta um alar-
gamento dos processos seriais com variações contínuas de elementos de base e
uma máxima exploração das possibilidades do instrumento. A flauta solista expõe
no início uma série de sons cujos fragmentos melódicos serão por toda a peça, sub-
metidos a livres transformações; esses se derramam como desenhos pontilhistas
sobre todas as outras partes e resultam num andamento de agregações improvi-
satórias, quase flutuantes; o resultado se coloca, assim, sobre um plano de séria
coerência que leva quase a evocações do estilo ornamental barroco.

Fig. 2: Início da Sequenza I per flauto solo de Luciano Berio.

Entre as tantas peças que Bruno Maderna (1920-1973) dedicou a Gazzello-


ni, devemos citar Honeyreves. Escrita em 1961, a composição é uma calorosa home-
nagem de Maderna ao amigo flautista. O título da peça é um anagrama do nome
Severino elaborado a partir da fusão das palavras honey, do inglês e rêves, do fran-
cês, ou seja: sonhos de mel. Nesta peça, a flauta surge dentro de um desenho de
arabescos virtuosísticos alternado por notas longas e por uma sucessão de sons har-
mônicos misteriosos e ornamentados por trinados. O instrumento é usado de ma-
neira inovadora, através do desfrutamento de todas as suas possibilidades técnicas
e sonoras. Em certos momentos, a refração do som é levada à beira da audibilidade.
A cantabilidade do instrumento-arquétipo, sempre presente nas obras de Maderna,

144
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

resulta fragmentada e as ideias se alternam entre os dois instrumentos (flauta e


piano) que dialogam entre si. Bruno Maderna dedicou a Gazzelloni algumas de suas
peças mais importantes como a Grande Aulodia, composta em 1979.

Fig. 3. Início de Honeyreves de Bruno Maderna, parte da flauta.

Também o compositor milanês Bruno Bettinelli (1913-2004) aprendeu atra-


vés da flauta de Gazzelloni e a ele dedicou o seu Studio da Concerto per flauto solo,
de 1977. Nesta peça, como é típico da poética de Bettinelli, nota-se uma escrita
muito rigorosa, seca, onde as combinações rítmicas possuem uma importância fun-
damental. Percebe-se no Studio da Concerto, o pensamento de Bettinelli que se insi-
nua cada vez mais no espaço atonal através de tensões cromáticas, uma profunda e
cuidadosa pesquisa tímbrica e fragmentos melódicos de grande cantabilidade e elo-
quência. A construção rítmica é rigorosíssima, se expressa com clara insistência em
tercinas, quartinas e quintinas. É necessário lembrar que Bettinelli sempre foi muito
interessado pela música antiga e condividia com a Generazione dell’Ottanta9 o ideal
de música instrumental pura, uma concepção musical contrária ao melodrama oito-
centista. Bettinelli, além disso, foi responsável pela revisão e transcrição de músicas
de Corelli, Nardi, Sammartini e uma série de laudas que remontam ao século XIII.

É realmente extensa a lista de peças que levam o nome de Gazzelloni como


homenageado. Somente para se ter uma ideia: na Itália, Camillo Togni para ele com-
pôs a Sonata (1953) e a Fantasia Concertante (1958); Giorgio Federico Ghedini, a
Sonata da Concerto (1958); Sylvano Bussotti, Couple per flauto e pianoforte (1958);
Aldo Clementi, Ideogrammi n. 2 (1959); Goffredo Petrassi, Souffle (1970) além do
Concerto per flauto e orchestra (1960). Entre as peças vindas de compositores es-
trangeiros se podem citar Flotenstuckneunphasig (1959) de Ernest Krenek; Polypho-
nie I per flauto contralto (1962) de Jacques Guyonnet; Condicionado (1963) e Reci-
proco (1963) de Luis de Pablo; Rhymes for Gazzelloni (1965) de Yori-AkiMatsudaira;
e Tre pezzi per flauto e pianoforte (1970) de AndrasSzollosy.

9 “Músicos nascidos em torno de 1880: principalmente Franco Alfano, Ottorino Respighi,


Ildebrando Pizzetti, Gian Francesco Malipiero e alfredo Casella”. (MILA, “La generazione
dell´ottanta”. Cf. http://www.rodoni.ch/malipiero/milagenerazione80.html, consultado
em 03 de outubro de 2016. Tradução nossa.

145
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Considerações finais

Se durante o período romântico competiu aos docentes e flautistas compo-


sitores eleger e defender gradualmente um modelo de instrumento que pudesse
satisfazer as constantes demandas advindas das mudanças na estética e na tecnolo-
gia musicais ocorridas naquele século, parece mais claro que, embora as mudanças
organológicas sofridas pela flauta no período supracitado tenham tido o alemão
Theobald Boehm como protagonista, coube justamente aos flautistas italianos di-
fundí-las em maior escala. E seguindo essa linha histórica percebe-se que foi preci-
samente um italiano, já no século XX, a saber, Severino Gazzelloni, a oferecer aos no-
vos compositores empenhados na música de vanguarda, a parceria necessária para
a divulgação e as experimentações, típicas da música do novo século. A intensidade
e a importância destas parcerias acabaram por cunhar o termo Gazzelloni-Musik – a
música para Gazzelloni, como apontado por Galante (2003: 213).
“A história deverá um dia estabelecer quanto se deve à flauta extraordinária
de Gazzelloni, daquela singular tendência à simplicidade monódica, mani-
festada por compositores sempre acusados de cerebralismo e mestres, na
realidade, das mais abstrusas complicações (…) (MILA 1976:19. Tradução
nossa)”10 .

O vasto número de peças que trazem o nome de Gazzelloni como homena-


geado testemunham quanta influência um intérprete possa ter sobre os composito-
res e, no caso especifico deste flautista, sobre toda uma geração de autores empe-
nhados na elaboração de uma nova música.

Referências

BOHM, THEOBALD, Il flauto dei suoi aspetti, tecnici e artistici. Trad. de Giuseppe
Esposito. Milano, Falaut Edizioni Musicali, 2006.
GALANTE, EMILIO, Il flauto nel Novecento, In: LAZZARI, GIANNI, Il Flauto traverso:
storia, tecnica, acustica. Torino, Edt. Torino 2003.
GRIFFTHIS, PAUL, A música moderna: uma historia concisa e ilustrada de Debussy
a Boulez. Trad. de Silvio Augusto Merhy. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,
1987.
LAZZARI, GIANNI, Il Flauto traverso: storia, tecnica, acustica. Torino, Edt. Torino,
2003.

10 La storia dovrà stabilire un giorno quanta si debba, al flauto straordinario di Gazzelloni, di


quella singolare tendenza alla semplicità monodica, manifestata da compositori sempre
tacciati di cerebralismo e maestri, in verità, delle più astruse complicazioni (…). (MILA
1976:19)

146
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

MILA, MASSIMO, Maderna musicista europeo. Torino, Einaudi, 1976.


PETRUCCI, GIAN-LUCA, Saggio introduttivo, In: BOHM, THEOBALD, Il flauto dei suoi
aspetti, tecnici e artistici. Trad. de Giuseppe Esposito. Milano, Falaut Edizioni
Musicali, 2006.
SABLICH, SERGIO, Il Novecento: dalla “generazione dell’80” a oggi, in ROSA, ASOR
(Org.) Letteratura italiana, vol. VI, Teatro, musica, tradizione dei classici. To-
rino, Einaudi, 1986. pp. 411-437.

147
Conceitos técnicos da escola germânica de
violino do século XIX

Fernando Pereira
UFRJ – fernando.pereira@opes.com.br

Resumo: O presente artigo pesquisa os princípios posturais e mecânicos da técnica de


mão esquerda na prática do violino, estabelecidos em dois tratados de procedência
germânica. O Violinschule, de Spohr e o Violinschule, de Moser e Joachim. Em seguida é
realizada uma análise comparativa que aponta os aspectos convergentes e divergentes
a fim de compreender esse período do desenvolvimento da técnica do instrumento e
o grau de unidade da tradição germânica de violino. Este trabalho constitui uma das
etapas que precede a posterior investigação do elo que a técnica violinística contempo-
rânea possui com o seu desenvolvimento histórico e com as Escolas de violino.
Palavras-chave: Violino. Escola germânica. Conceitos técnicos. Performance.

Technical concepts of the 19th Century german violin school


Abstract: This article searches the posture principles and mechanics of the technique
of the left hand in the practice of the violin, established in two treaties of germanic
origin. The Violinshule of Spohr, and The Violinshule of Moser and Joachim. It is then
carried out a comparative analysis that identifies the convergent and divergent as-
pects, in order to understand this period in the development of the technique of the
instrument and the degree of unity of the germanic violin tradition. This work is one
of the stages preceding the further investigation of the link that the contemporary
violinistic technique has with its historical development and with the schools of violin.
Key-words: Violin. Germanic school. Technical concepts. Performance.

Introdução

Para alguns estudiosos da evolução da performance musical, o legado dos


principais violinistas germânicos do século XIX não trouxe conceitos técnicos signi-
ficativamente originais, a ponto de merecer a alcunha de Escola. Em recente artigo,
Clive Brown (2013) distingue a supremacia da Escola Francesa das correntes que a
sucederam, como a Germânica e a Franco-Belga, o que o leva a questionar o próprio
conceito de Escola como definidora de características específicas da prática instru-
mental de um grupo de violinistas de determinada região:
Enquanto a ‘’Escola Viotti/Paris/França’’ era reconhecida por ter dominado

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 149


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

por décadas o mundo da performance dos instrumentos de cordas no iní-


cio do século dezenove, a Escola Franco-Belga, entendida geralmente como
implantada através da atuação artística e pedagógica de Charles de Bériot
(1802-1870), era considerada como uma extensão da primeira e, de certa
forma, por estar em oposição a uma Escola Germânica menos claramente
definida (deve-se compreender que ao longo desse artigo a palavra ‘’escola’’
é utilizada como um termo histórico mais do que como um conceito concre-
to). (BROWN, 2013: p.1. Tradução nossa) 1.

De fato, os violinistas germânicos mais atuantes na primeira metade do sé-


culo XIX, Louis Spohr (1784-1859) e Joseph Boehm (1795-1876), podem ser conside-
rados como sucessores da Escola Francesa de Pierre Baillot (1771-1842), Rodolphe
Kreutzer (1766-1831) e Pierre Rode (1774-1830). Tal argumentação baseia-se no
fato de que Rode foi professor de Boehm e exerceu forte influência sobre Spohr,
como demonstrado em seus relatos2. É provável ainda que a contestação relativa à
legitimidade de uma Escola Germânica de violino tenha uma explicação geopolítica.
No período que compreende a atuação artística e pedagógica de Spohr e Boehm, a
Alemanha não era unificada3 e, consequentemente, não havia uma instituição musi-
cal que representasse um polo centralizador equivalente ao Conservatório de Paris,
como comprova o subtítulo do método que será estudado em seguida, de autoria de
Louis Spohr: “Dedicado aos Conservatórios da Europa”.

No entanto, no âmbito de uma pesquisa que busca compreender os concei-


tos da técnica violinística contemporânea e sua relação com o desenvolvimento da
prática do instrumento, a ausência desse fator institucional - que por certo contribui
para a consolidação de um legado e valida a própria ideia de Escola - não retira as
possibilidades de análise das características da técnica violinística germânica des-
se período, pois outros dois fatores demonstram sua vitalidade e importância: o
primeiro reside no fato de que as atividades pedagógicas de Spohr e Boehm se es-
tenderam pelas demais gerações. Dentre os mais eminentes estão Ferdinand David
(1810-1873), aluno de Spohr, e Joachim (1831-1907), aluno de David e Boehm. O
segundo e principal fator advém de que a linha evolutiva, Spohr – David – Joachim,
traz concretas possibilidades de investigação e análise, pois os três violinistas escre-

1 ‘’Whereas the ‘Viotti/Paris/French school’ was seen to have dominated the world of
string playing for several decades at the beginning of the nineteenth century, the Fran-
co-Belgian school, generally regarded as having its roots in the playing and teaching of
Charles de Bériot (1802-70), was perceived to exist alongside and, to some extent, in op-
position to a less clearly defined German school (it should be understood that through-
out this article the word ‘school’ is used as an historical term rather than a substantial
concept ‘’).
2 Ver SPOHR, Louis. Autobiography . 1865. Londres: Reeves & Turner, 1878.
3 Ocorrida no ano de 1871, Boehm vivenciou a Alemanha unificada apenas nos seus últi-
mos anos de vida.

150
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

veram obras sobre a prática do instrumento, sendo as mais detalhadas o supracita-


do Violinschule (1832), de Spohr, e o Violinschule (1905), escrito conjuntamente por
Joachim e Andreas Moser (1859-1925).

Essas duas fontes formam a base da presente análise sobre o pensamento


da técnica violinística germânica a partir do século XIX para uma posterior compa-
ração com os elementos que compõem o conceito contemporâneo. O recorte entre
os tratados do século XVIII e do século XIX se justifica pelo fato de que nesse período
consolidam-se alterações no formato do violino e do arco, que incidem diretamente
sobre mecanismos técnicos fundamentais na performance do instrumento, resul-
tando na usual distinção entre violino barroco e violino moderno. Assim, apesar das
evidentes contribuições ao desenvolvimento da técnica violinística, os tratados es-
critos no século anterior, como o célebre Versuch einer grundlichen violinschule 4de
Leopold Mozart, não estão aqui considerados, pois uma pesquisa analítica e com-
parativa com a técnica contemporânea tornar-se-ia menos esclarecedora devido às
modificações morfológicas no violino como o alongamento do braço, o aumento da
altura do cavalete, e a acentuação da curvatura do espelho e do cavalete. No arco, a
alteração foi ainda mais significativa, pois esse atingiu um formato quase inverso aos
modelos precedentes. O chamado Arco Tourte, desenvolvido por François-Xavier
Tourte (1747-1835), feito com a madeira pau-brasil, aperfeiçoou o formato côncavo
de sua curvatura, alterou o seu peso e o seu equilíbrio. Essas características resul-
taram em uma maior capacidade de produção sonora e na ampliação dos recursos
técnicos para diferentes arcadas e golpes de arco.

Nos tratados que fundamentam a presente pesquisa os autores definem os


princípios da técnica do instrumento nos textos introdutórios aos exercícios, evo-
cando também características estilísticas de violinistas e compositores, além de
discorrer informalmente sobre o pensamento e a prática de músicos passados e
contemporâneos. Cada autor traz ainda singulares nomenclaturas e formatos dos
tópicos apresentados. Assim, para viabilizar a análise comparativa, foi preciso sele-
cionar e dispor uniformemente apenas os pontos específicos a serem trabalhados.
São eles:

• Sobre a colocação do violino junto ao corpo.


• Sobre os posicionamentos e mecanismos de funcionamento da mão es-
querda.

4 Mozart, L. (1756). Versuch einer grundlichen violinschule. Augsburg, Austria.

151
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Os Tratados

O Violinschule, de Louis Spohr é dividido em três partes. A primeira se


subdivide em sete seções, contendo aspectos relacionados à manufatura do ins-
trumento. A segunda parte se subdivide em treze seções, contendo exercícios e
determinações relacionadas à postura e aos mecanismos de execução, de onde
extrairemos os elementos e orientações que se enquadram nos tópicos acima. A
terceira parte se subdivide em cinco seções relativas aos aspectos estilísticos na
performance.

Sobre a colocação do violino junto ao corpo

• A borda inferior do fundo do violino é posicionada na clavícula esquerda.


• A borda inferior do fundo do violino é mantida firmemente pela pressão
do queixo sobre a queixeira – situada sobre o estandarte.
• O ombro esquerdo é levemente avançado para o suporte do fundo do
violino, acarretando em uma inclinação do instrumento para a direita de
um ângulo de 25 a 30 graus.

Sobre o posicionamento e os mecanismos de funcionamento da mão esquerda

• O braço do violino é mantido levemente acima da primeira articulação do


dedo polegar e na terceira articulação dedo indicador, porém de forma
suficientemente firme, a fim de impedi-lo de afundar-se na cavidade entre
o polegar e o dedo.
• A parte mais baixa da mão, que corresponde ao dedo mínimo, é posicio-
nada o mais próximo possível do espelho, para que esse dedo menor pos-
sa, assim como os outros, cair sobre as cordas em uma posição curvada.
• O centro da mão e o punho devem manter uma distância da parte inferior
do braço do violino.
• O cotovelo esquerdo é direcionado para dentro até chegar ao meio do
violino, mas não deve encostar-se ao corpo.

A segunda obra de considerável relevância da Escola Germânica, igual-


mente intitulada Violinschule (1905), foi escrita conjuntamente por Joseph Joa-
chim e seu aluno Andreas Moser, que possuía uma vasta experiência na pedagogia
de iniciação ao instrumento. Os dois primeiros volumes são escritos por Moser e o
terceiro volume, composto de excertos de obras musicais em forma de exercícios,
foi realizado por Joachim. No prefácio, Joachim assegura que todas as conside-
rações sobre a técnica instrumental do primeiro volume, escrito por Moser, cuja

152
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

notoriedade como concertista era significativamente menor do que de seu tutor,


foram debatidas e confirmadas conjuntamente.

Moser e Joachim estavam certamente conscientes da importância da reali-


zação de uma obra didática de grande porte para a perpetuação de seus conceitos
técnicos, como demonstra o texto final do Método:
F. Geminiani (1680-1762), discípulo de Corelli, em sua obra ‘’A Arte de tocar violino’’,
Londres 1740, foi o primeiro a orientar o posicionamento do instrumento embai-
xo do queixo e do lado esquerdo do estandarte. Leopold Mozart (1719-1787) nos
apresentou em sua ‘’Escola Fundamental de Violino’’ (Ausburg 1756), a primeira
tentativa de um sistema de instrução musical aplicada ao violino. B. Campagnoli
(1751-1827) nos ofereceu em seu ‘’Novo Método de Tocar Violino’’, as regras apren-
didas na escola do celebrado Nardini. Os pontos de vista de Viotti, Rode e Kreutzer
são principalmente refletidos no ‘’Méthode de Violon adoté par le Conservatoire’’
de Baillot e sua obra posterior ‘’L’Art du Violon’’. O ‘’Violinschule’’ (Vienna 1832) de
L. Spohr é um monumento infelizmente acompanhado por poucos iniciantes. A co-
nexão entre o toque de estilo clássico e o virtuosismo moderno é encontrada nas es-
colas de violino de Charles de Bériot e D. Alard 5. (MOSER, JOACHIM, 1905: p. 199).

Sobre a colocação do violino junto ao corpo.

• A parte do violino à esquerda do estandarte deve ficar embaixo do queixo


a fim de que a cabeça mantenha sua posição reta, possibilitando o olhar
ao longo do espelho.
• O violino deve ser mantido em posição horizontal, na direção do pé es-
querdo.
• O instrumento deve ficar inclinado para o lado de dentro, formando um
ângulo de 45 graus.
• O uso da queixeira (feita por Becker ou por Darbey) não é recomendado.
• É necessária a posição horizontal do violino, alcançada através do uso da
almofada ou queixeira.

5 F. Geminiani (1680-1762), a pupil of Corelli, in his work ‘’The Art of Playing the Violin’’,
London 1740 , was the first to give the direction that the instrument should be placed
under the chin on the left side of the tail-piece. Leopold Mozart (1719-1787) gave us, in
his ‘’Fundamental Violin-School’’ (Ausburg 1756), the first attempt at a system of mu-
sical instruction as applied to the violin. B. Campagnoli (1751-1827) delivered to us in
his ‘’Nouvelle Méthode du Jeu de Violon’’, the rules wich he had learned in the school
of the celebrated Nardini. The views held by Viotti, Rode, and Kreutzer are principally
reflected in Baillot’s ‘’Méthode de Violon adoptée par le Conservatoire’’ and in his later
work ‘’L’art du Violon’’. L. Spohr’s ‘’Violinschule’’ (Vienna 1832) is a monument which
unfortunately is little suited for beginners. The connecting link between the classical
style of playing and that of the modern virtuoso, is found in the violin-schools of Charles
de Bériot and D. Alard.

153
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Sobre o posicionamento e os mecanismos de funcionamento da mão esquerda

• O braço do violino deve estar levemente posicionado entre o dedo polegar e


o dedo indicador, e sob nenhuma condição o braço do violino deve encostar
a pele que une o dedo polegar e o dedo indicador. Ao contrário, um espaço
deve ser mantido, a ponto de um lápis poder passar confortavelmente.
• O braço do violino deve manter-se na articulação mais elevada do dedo
polegar.
• O dedo polegar deve se situar em frente ao dedo indicador.
• Se o dedo indicador estiver em uma posição adequada ao se tocar o pri-
meiro intervalo de tom, ao levantar-se novamente, sua parte posterior
não deve ir além da pestana.
• Os dedos devem pousar perpendicularmente sobre as cordas e se elevar
na mesma direção.
• Como o dedo mínimo é menor do que os demais, é necessário posicionar
o cotovelo abaixo do violino, para que a parte mais espessa da palma da
mão possa se aproximar do espelho até que a ação perpendicular dos
dedos seja alcançada.
• Deve-se evitar uma posição encolhida da mão, na qual os dedos conver-
gem em direção à palma.
• Os dedos devem se comportar como pequenos martelos, prontos para
cair sobre as cordas.
• A mão deve se manter absolutamente imóvel, acionando-se apenas atra-
vés das raízes e das articulações dos dedos.
• Em uma correta posição sobre as cordas, o caimento dos dedos não deve
incorrer em uma pressão exagerada da mão ou em uma pressão do dedo
polegar sobre a lateral do braço do violino.
• Os dedos não devem se esfregar uns contra os outros ao cair ou ao se er-
guer sobre o espelho e não devem impedir os livres movimentos de cada
um. Inversamente, eles devem ser treinados para se moverem da forma
mais independente possível.
• A velocidade se intensificará através de uma elevação adequada. Por
exemplo, se o dedo indicador estiver sobre a corda, a elevação do segun-
do dedo deve ser de dois centímetros, a do dedo médio de três centíme-
tros e a do dedo mínimo de aproximadamente cinco ou seis centímetros.
• O resultado de uma posição correta do braço esquerdo e dos dedos sobre
o espelho é a parte externa da mão em uma linha contínua com o ante-
braço. Contudo, na primeira posição, a mão não deve estar voltada nem
para dentro nem para fora.

154
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Análise comparativa

A comparação dos preceitos técnicos dos dois tratados acima descritos


completa-se por informações contidas nos textos. Assim visualizaremos os aspectos
convergentes, bem como compreenderemos certas questões ainda em via de de-
senvolvimento naquele período.

Sobre a colocação do violino junto ao corpo

De imediato, revela-se o caminho para a consolidação do fim do posicio-


namento do violino à direita do estandarte, além da concordância sobre uma leve
inclinação do violino.

Observamos ainda que o ponto nevrálgico desse item reside na eficácia da


utilização da queixeira. Em seu método, Spohr atribui a criação do utensílio para si
e o apresenta como um elemento inovador e indispensável para a estabilização do
violino diante do número crescente de trocas de posição exigidas pelo reportório da
época. Por outro lado, observamos que o Violinschule de Moser traz uma série de
contradições relativas ao assunto. O autor desaconselha veementemente o uso da
queixeira, trazendo ainda informações contraditórias quanto à sua criação quando
atribui inicialmente o utensílio a dois outros violinistas, Becker e Darbey, para em se-
guida referir-se à Spohr: ‘’A tentativa de Spohr de colocar a queixeira no meio do vio-
lino, acima do estandarte, não deve ser considerada, pois, em nossos dias, ninguém
mais sustenta o violino nessa posição’’(MOSER, 1905: p. 18). Surpreendentemente,
no subitem final, que no Método está intitulado como A mão esquerda e o funcio-
namento dos dedos no espelho, Moser preconiza o uso de uma almofada ou uma
queixeira como facilitadores da posição horizontal do violino. Assim, entendemos
que Spohr, ainda que não tenha sido o real inventor da queixeira, contribuiu para um
aspecto imprescindível na técnica moderna – a estabilização do violino. No entanto,
os relatos de Moser transparecem a fragilidade do conhecimento e a dificuldade de
aceitação do utensílio ao longo do século.

Sobre o posicionamento e os mecanismos de funcionamento da mão esquerda

Nesse item, a expressiva diferença na quantidade de informações indica o


significativo desenvolvimento da técnica de mão esquerda ao longo das sete dé-
cadas que separam os dois métodos. Primeiramente notamos que as orientações
de Spohr são referendadas no método de Moser e Joachim, o que demonstra uma
sólida concepção sobre a colocação do braço do violino ¬¬- entre os dedos polegar
e o indicador - e um entendimento mútuo de que o cotovelo esquerdo deve posi-

155
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

cionar-se embaixo do violino para que a palma da mão se aproxime do espelho e


permita uma ação do dedo mínimo equivalente à dos demais dedos.

Acreditamos ainda que Moser e Joachim tomam como ponto de partida os


preceitos de Sphor sobre o posicionamento da mão esquerda - cujas quatro orien-
tações são praticamente reescritas - e desenvolvem seus mecanismos de funcio-
namento6 introduzindo noções de dosagem de pressão, relação entre velocidade e
elevação, e independência dos dedos. Enfim, noções condizentes com um ideal de
virtuosismo característico das últimas décadas do século XIX.

Considerações finais

A técnica violinística contemporânea caracteriza-se pela excelência. Não se-


ria incorreto afirmar que a prática do violino - bem a de diversos instrumentos da
música erudita ocidental - vive um momento de prosperidade. Diante dessa riqueza
artística, perde-se por vezes a dimensão de que tal realidade é o resultado de um
acúmulo de experimentações e informações ao longo dos dois últimos séculos. Atra-
vés da análise das fontes bibliográficas sobre a técnica violinística do século XIX, é
possível compreender o desenvolvimento de questões técnicas ou estilísticas, onde
se configuram árvores genealógicas dos mais influentes violinistas. Nessa configura-
ção incluiu-se uma divisão geográfica e respeitaram-se apropriações institucionais,
principalmente a partir do século XIX, com a consolidação de instituições de ensino
musical na Europa Ocidental e do próprio conceito de nação. Assim como no campo
das Belas Artes, afirmou-se para a prática do violino o conceito de Escola, que busca
definir características técnicas e estilísticas dos principais núcleos de atuação artísti-
ca e pedagógica. Porém, a discussão sobre as limitações de tal setorização mediante
a extensa rede de influências ao longo da história e mediante o ato artístico em si,
não invalida uma pesquisa aprofundada sobre a evolução de conceitos na aborda-
gem da prática do instrumento e de questões técnicas específicas.

Nesse trabalho, através da análise dos tratados de Spohr e Moser/Joachim,


foi possível traçar uma linha evolutiva de aspectos específicos da técnica de mão es-
querda germânica ao longo do século XIX. A mesma metodologia pode ser aplicada
para estabelecer a evolução da concepção da prática do instrumento e de aspectos
técnicos até os dias de hoje, através da inclusão de referências bibliográficas do sé-
culo XX, como as obras de Leopold Auer (1845-1930), Carl Flesch (1873-1944) e Ivan
Galamian (1903-1981). Pois, para que as características da técnica contemporânea

6 No método de Moser e Joachim a seção é intitulada A mão esquerda e o funcionamento


dos dedos no espelho..

156
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

do instrumento sejam compreendidas, é necessário inseri-las em uma perspectiva


histórica, revelando continuidades ou rupturas dos elementos constituídos. E é esse
saber que garantirá a qualidade da pedagogia e da performance musical das próxi-
mas gerações de violinistas.

Referências:

BROWN, C. The decline of the 19th-century German school of violin playing. Leeds:
Chase.leeds.ac.uk, 2013. Disponível em: http://chase.leeds.ac.uk/article/the-
-decline-of-the-19th-century-german-school-of-violin-playing-clive-brown/
MOSER, A; JOACHIM, Joseph. Violineschule. Berlin: N. Simrock, 1905.
SPOHR, L. Violineschule. Vienna: Haslinger, 1832.
______ Autobiography . 1865. Londres: Reeves & Turner, 1878.

157
A interpretação pianística do poema
Einklang, de Nicolaus Lenau, em Alberto
Nepomuceno

Erika Suellen Machado Gama


UFRJ – erikamachadogama@gmail.com
Ana Paula da Matta Machado Avvad
UFRJ – paulamtt@globo.com

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo principal o estudo das questões da in-
terpretação pianística na canção Einklang, do ciclo Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, de
Alberto Nepomuceno, servindo de base para a preparação da sua performance. Partindo
da premissa da compreensão do poema, serão observados os aspectos técnicos descritos
ou não na partitura, baseadas em Lindo (1916), na qual o piano não atua somente como
um simples instrumento acompanhador, mas como um elemento ativo para a realização
da poética musical. As principais conclusões apontaram algumas possibilidades para o
acompanhamento ao piano no que diz respeito à articulação, dinâmica e variedade tim-
brística.
Palavras-chave: Romantismo brasileiro. Alberto Nepomuceno. Lied. Interpretação
pianística. Performance.

The pianistic interpretation of Einklang’s poem, by Nicolaus Lenau, in Albeto Nepo-


muceno
Abstract: The present work has as main objective the study of the questions of the
pianística interpretation in the song Einklang, of the cycle Five Poems of Nicolaus Le-
nau, of Alberto Nepomuceno, serving as base for the preparation of its performance.
Starting from the premise of understanding the poem, will be observed the technical
aspects described or not in the score, based on Lindo (1916), in which the piano acts
not only as a simple accompanying instrument, but as an active element for musical
poetry. The main conclusions pointed out some possibilities for piano accompaniment
in relation to articulation, dynamics and timbristic variety.
Key-words: Brazilian romanticism. Alberto Nepomuceno. Lied. Pianistic interpretation.
Performance.

Introdução

Numa época em que vigorava na Europa diversos conceitos de nacionalismo


e técnicas composicionais diferentes das que eram feitas no Brasil, Alberto Nepo-
muceno (1864-1920) inspirou-se nas novidades apresentadas a ele em seu meio
social e se manteve aberto às tendências modernas. Como nos aponta Vidal (2014),
a vida artística do compositor caminhou focada numa escrita romântica inovadora

Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas 159


Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

para a música brasileira do século XIX e início do século XX. Consequentemente,


foi diversas vezes afrontado e, como também nos apresenta Pereira (2007), foi um
músico que marcou a história musical e educacional brasileira durante processo de
transição que o país enfrentava no seu quadro político-social.

Segundo os catálogos de obras da Biblioteca Nacional (1964), do Sérgio


Alvim Corrêa (1996) e do Dante Pignatari (2009), o compositor cearense escreveu
cerca de 13 obras camerísticas e mais de 70 canções de câmara, escritas em idiomas
como latim, francês, italiano, sueco, alemão e português. Pensando no seu contexto
histórico, essa variedade em suas composições já geraria algum desconforto aos
ouvidos acostumados com as técnicas do bel-canto italiano. Porém, maior ainda foi
o desconforto de tornar obrigatório o estudo de uma peça em português nas aulas
de canto e introduzir o ensino da harmonia representada por Wagner e Liszt no
Instituto Nacional de Música.1

Seguindo as ideias europeias marcadas pelo Romantismo, Nepomuceno


defendeu a prática do canto em língua nacional e ainda levou aos salões eruditos
temas brasileiros em suas composições, como a Alvorada na Serra e composições
com textos de poetas brasileiros, como A jangada. Porém, a aceitação do canto em
idioma nacional e do uso de elementos de caráter popular no meio erudito só acon-
tecerá mais tarde, no início do século XX, com a “campanha vigorosa pelo canto em
português” do compositor Alberto Nepomuceno (MARIZ, 2002, p. 58). Dessa forma,
o compositor cearense, junto com Alexandre Levy (1864-1892), ganhou a alcunha
na musicologia brasileira de precursor do nacionalismo musical brasileiro, abrindo
os caminhos para futuras gerações de compositores que trabalhariam com diversos
materiais folclóricos e populares.

Além da linha composicional nacionalista, ele nos deixou várias canções ins-
piradas em poetas internacionais, como é o caso do ciclo Cinco Poemas de Nicolaus
Lenau (Fünf Gedichte von Nicolaus Lenau für eine Singstimme). Estes cinco lieder
foram compostos por volta de 1894, em Paris, e é a obra onde “mais claramente se
revelam o conhecimento e a utilização de alguns conceitos wagnerianos básicos”
(VIDAL, 2016, p. 378). São canções onde o compositor explora ricamente o acom-
panhamento pianístico com diversas questões técnicas e interpretativas, unindo-o
aos poemas de Lenau.

Nicolaus Lenau (1802-1850) foi um poeta austríaco do século XIX que re-

1 Antigo Conservatório de Música, o Instituto Nacional de Música foi criado pelo Decreto
N. 143, após a Proclamação da República, tendo como primeiro diretor o compositor
Leopoldo Miguez (1850-1902).

160
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

presentou o pessimismo presente na literatura alemã em sua escrita, como pode-


mos perceber nos textos utilizados por Nepomuceno. Escolhemos analisar a inter-
pretação pianística da canção Einklang, partindo da premissa da compreensão dos
poemas considerando aspectos técnicos descritos ou não na partitura e da análise
morfológica descrita no quadro abaixo. Como num lied alemão, o piano não deve
atuar como um simples instrumento acompanhador, mas como um elemento ativo
para a realização poética da música.

Análise Morfológica

Forma Binária

Introdução A b
c. 1- 7 c. 8- 16 c. 17- 27
c. 1- 7 descreve as doze ba- a: c. 8 – 13 frase única b: c. 17 – 23 frase única
daladas do sino, harmoniza- ampliada por repetição com elementos rítmicos
dos sem um encadeamento variada de a
tonal c. 8 – 11 frase única
c. 11 – 13 repetição codeta: c. 24 – 27 com tra-
variada da frase dicional encadeamento I-V-I
(tônica-dominante- tônica)
ligação: 14 – 16 com imita-
ção melódica e rítmica dos
elementos da voz

Einklang (Uníssono)

A primeira canção do ciclo de Nepomuceno é a mais curta das cinco, po-


rém repleta de complexidade harmônica e riqueza melódica. Seus versos dizem2:

Um Mitternachtent sand dies Lied, (À meia-noite surgiu esta canção,)


Zwölfmalerklang das Glokkenerz, (Doze vezes soou o sino,)
Und zwölf mal Antwortgab mein Herz, (E doze respostas ressoou meu imo,)
Im dumpfen Strophensang, (Em canto soturno,)
Dem dumpfen Glokkenklang (Ao som bronze-surdo.)

Einklang não nos deixa evidente a sua tonalidade, apresentando desde


o seu segundo compasso alterações que não condizem com a armadura ou com o

2 Tradução extraída do projeto de edição das canções de Alberto Nepomuceno, realizado


por Dante Pignatari (2004).

161
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

suposto centro tonal Mi que é evidenciado no baixo pela mão esquerda (ver exem-
plo 2). Baseando-se numa análise harmônico-morfológica, percebemos como esta
composição é embasada numa harmonização flutuante e se aproxima dos conceitos
de dissolução tonal trabalhados por Wagner. Reafirmamos esse pensamento ao ob-
servar o uso frequente de acordes alterados, utilizando inclusive o acorde de Tristão,
de Tristan und Isolde nos compassos 17, 18 e 19 ao piano. Fica difícil afirmar se a
melodia e a harmonia estão inseridas numa mesma escala, uma vez que apresentam
estruturas diferentes durante a peça, com características isoladas uma da outra.

Ex. 1: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, notas do


acompanhamento pianístico, c. 17-19

No início, a canção possui a indicação Sehr Langsam (muito lentamente)


além da expressão wie eine Glocke (como um relógio) para o piano. É importante
que o pianista saiba o conteúdo do texto do cantor para criar nos compassos 1 ao 7
um clima que se aproxime com a poesia que começa a ser apresentada no compas-
so 8. Nos 7 compassos de introdução, a mão esquerda simula o badalar do sino de
um relógio, onde o pianista “deve ter muito cuidado para manter o tempo estável”3
(LINDO, 1916, p. 41) preparando a entrada do cantor.

Ex. 2: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, c. 1-7

3 the accompanist must be very careful to keep the time steady (Livre tradução da autora).

162
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

A dinâmica da mão esquerda deve permanecer em piano neste trecho, en-


quanto a mão direita faz o sforzando no acorde de longa duração, que resultará em
um decrescendo natural descrito na partitura pelo compositor. Nesse início, o pedal
de sustain não se faz necessário, aproveitando para gerar mais facilmente o silêncio
das pausas. Diferente dos 4 primeiros compassos, o 5º compasso da introdução co-
meça piano e vai crescendo gradualmente na mão esquerda, que simula o badalar
do sino, já que há notas longas na mão direita. A partir do compasso 5, o pedal é
necessário para prolongar o som dos acordes arpejados, ajudando também a deixar
uma sonoridade mais densa à dinâmica crescendo.

No 8º compasso, o cantor começa a discorrer sobre as batidas do relógio


que foram ouvidas na introdução, declamando o verso Um Mitternachtent stand
dies Lied, zwölf maler klang das Glökkenerz, que diz sobre a canção que surgiu à
meia-noite, horário que soou o sino doze vezes. Observamos a importância do pia-
nista acompanhador ter a “capacidade de criar a atmosfera certa”4 (LINDO, 1916, p
33), variando a qualidade de seu toque para obter a sonoridade desejada, de acordo
com a poesia.

Ex. 3: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, c. 8-10

Pela primeira e única vez, o piano apresenta uma sequência melódica que
se assemelha a linha do canto. Isso acontece do compasso 14 ao 16, onde são utili-
zadas relações intervalares muito semelhantes e praticamente a mesma escrita rít-
mica, relembrando o que fora ouvido. Constitui-se de uma pequena linha melódica
na qual Vidal (2014) menciona que se refere a um verso do poema que foi omitido e
que o compositor escreveu para o piano interpretar de forma declamatória.

4 the ability to create the right atmosphere (Livre tradução da autora).

163
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Ex. 4: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, c. 14-16

Há um crescendo que chega ao forte no compasso 16 e, como no início da


introdução, há um decrescendo natural do acorde de longa duração para o próximo
acorde que deve ser tocado em piano. A partir daí, no compasso 17, o canto retorna
crescendo falando sobre seu íntimo até chegar no compasso 19.

Ex. 5: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, c. 17-19

O pianista precisa estar atento para atacar o seu acorde sforzando de acor-
do a intensidade trabalhada pela voz. Talvez o acorde nem precise ser tão forte, já
que o canto estará praticamente soando sozinho desde o compasso anterior, onde o
piano apenas sustenta o acorde atacado no 17º compasso. É um detalhe a ser obser-
vado que fará diferença no resultado sonoro, pois se o pianista não estiver sensível
ao canto, o acorde do compasso 19 poderá ser atacado totalmente fora do contex-
to musical apresentado neste pequeno trecho (ver exemplo 4). “Definitivamente,
a parte do piano deve ser muito subserviente à parte da voz”5 (LINDO, 1916, p 33).

5 The piano-part must be very definitely subservient to the voice-part (Livre tradução da
autora).

164
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

No compasso 20, o allargando pedido nas duas sequências de notas repeti-


das para a linha da voz auxilia na interpretação do texto que indica um momento de
canto melancólico que é expressado ao som das badaladas do relógio. O allargando
resulta no largo do compasso 22, onde o pianista mais uma vez deve se manter
atento ao andamento que está sendo desenvolvido para, assim, levar até o último
compasso.

Ex. 6: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, c. 20

Ex. 7: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, c. 21-23

O piano segue sozinho nos quatro últimos compassos numa cadência per-
feita de I-V-I, único momento da música que isso acontece, sendo o penúltimo com-
passo um acorde appoggiatura onde o ré e o fá sustenido resolvem no mi (tônica).
Como ele está invertido na mão direita, as notas appoggiaturas reforçam a solução
na tônica e requerem uma expressividade. É aconselhável que o último acorde, que
acaba valendo 8 tempos, fique soando até o fim, para concluir de uma forma mais
próxima a realidade da nossa lembrança auditiva de um soar de sino até surgir o
silêncio.

165
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

Ex. 8: Nepomuceno, Alberto. Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, 1ª canção, c. 24-27

Einklang é a canção do ciclo que “mais se aproxima da fala, em organização


intervalar e região vocal”, onde sua construção rítmica possui um caráter “arioso-
-declamatório, uma qualidade híbrida de canto e recitativo” (VIDAL, 2014, p. 380).
Um lied onde não conseguimos identificar qual seria a parte primordial, o canto ou
o piano, mas são elementos com mesmo grau de importância onde “melodia e har-
monia se definem e justificam mutuamente” (VIDAL, 2014, p. 381).

Desde o início, observamos diversos acordes alterados sem resolução que


não são facilmente percebidos pela audição por estarem dispostos de forma afas-
tada. Além disso, os acordes estão em sequências onde a escrita, moderna para o
Brasil do século XIX, é bem pensada para ser apresentada sutilmente. Nepomuceno
dá a impressão de não ter a intenção de chocar os ouvintes, mas de despertar algo
novo, através de uma forma cuidadosa em cada detalhe deste poema de Lenau.

Considerações Finais

Os resultados da pesquisa possibilitaram o levantamento das diversas ques-


tões interpretativas em Einklang. Estas constituem de suma importância para des-
tacar o compositor no cenário intelectual brasileiro, fazendo-nos entender como
Alberto Nepomuceno buscou a modernidade em suas canções inspirando-se em
técnicas europeias.

Observamos nesta obra o desejo de Nepomuceno em renovar as técnicas de


composição, impulsionando a música brasileira para um novo momento. As canções
em alemão foram como uma amostra do que ainda seria apresentado por ele, com
“uma escrita harmônico-melódica comprometida com as linguagens musicais mais

166
Anais do III Simpósio de Práticas Interpretativas

avançadas em seu tempo” (SOUZA, 2007, p. 9). De igual forma, ele pôde prosseguir
com estilos diferentes dos apresentados até sua época e incorporar textos de poetas
brasileiros em suas obras. Seus Cinco Poemas de Nicolaus Lenau, em especial esta
primeira canção, refletem a ambição em unir poesia e música como no lied alemão,
onde o pianista deve ajudar a criar a história, sugerindo uma imagem sonora rica
em variedade timbrística, dinâmica e articulações, permitindo-lhe uma ampliação
de suas possibilidades interpretativas.

Referências:

CORRÊA, Sérgio Alvim. Alberto Nepomuceno: Catálogo Geral. Rio de Janeiro, Funarte/
Coordenação de Música, 1996.
LINDO, Algeron H. The Art of Accompanying. G. Schirmer, Inc., New York, 1916.
MARIZ, Vasco. A Canção Brasileira de Câmara. Rio de Janeiro, Francisco Alves Editora,
2002.
PIGNATARI, Dante. Canções para Voz e Piano. Editora da Universidade de São Paulo,
2004.
SOUZA, Rodolfo Coelho de. A Bar Form nas canções de Nepomuceno. Revista eletrô-
nica de musicologia, 2007.
PEREIRA, Avelino Romero. Música, Sociedade e Política. Alberto Nepomuceno e a Re-
pública Musical. Editora UFRJ, 2007.
VIDAL, João. Formação germânica de Alberto Nepomuceno: estudos sobre recepção e
intertextualidade. Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janei-
ro, IMOS Editora, 2014.

167
Contracapa

Anais
III Simpósio
em Práticas
Interpretativas
UFRJ
2016
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA (PPGM)
Programa de Pós-Graduação Profissional em Música da UFRJ (PROMUS)
ESCOLA DE MÚSICA DA UFRJ