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METROLOGIA-2003 – Metrologia para a Vida

Sociedade Brasileira de Metrologia (SBM)


Setembro 01−05, 2003, Recife, Pernambuco - BRASIL

MEDIÇÕES, ERROS E INCERTEZAS

João Carlos Pinheiro Beck 1 , Isaac Newton Lima da Silva1


1
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul –PUCRS, Porto Alegre, Brasil

Resumo: O objetivo da presente contribuição é estabelecer Esta função é de fundamental importância em metrologia
as interações que ocorrem num sistema de medição em quando se analisam as fontes de erro numa medição.
relação aos possíveis valores obtidos de um mensurando, a
grandeza que está sendo avaliada. Estas interações são
2. MÉTODOS
abordadas do ponto de vista matemático e estatístico,
seguindo o rigor dos princípios metrológicos. Considerando-
2.1 Valores Máximos e Mínimos
se as medições como variáveis contínuas que podem ter n
valores possíveis, caracterizando uma função densidade de A metodologia adotada para interpretar as medições
probabilidade. Tomando-se este caminho apresentam-se os experimentais segundo uma distribuição matemática, é
elementos fundamentais da conceituação de uma rastrear metrológicamente os valores prováveis máximos e
distribuição Gauss-Laplace, analisando-se as fontes de erro mínimos.
seguindo estratégias metrológicas . A análise parte do
pressuposto que erro total resulta de um somatório de erros É costume representar, graficamente, a função de Gauss-
elementares independentes, constituindo, assim, uma Laplace, utilizando-se para representação de variável x o
distribuição de probabilidades gaussiana. Admitindo-se tais eixo das abcissas e para a função P( x) o eixo das
distribuições, abordam-se as inter-relações entre erro,
ordenadas. Assim procedendo obtém-se uma curva cuja
incerteza padrão, incerteza expandida e limite de
forma é próxima a da que se obteria através da projeção da
erro.Conclui-se pelo funcionamento e aplicabilidade da
secção longitudinal de um “sino” (ver figura 1).
distribuição matemática de Gaurs-Laplace, de tal forma que,
graficamente, a largura, a área e as condições de A altura máxima de P( x) pode ser obtida através da
utilização da média µ, fazendo x = µ , o que conduz ao
normalização se expressem, explicitamente, numa
abordagem metrológica rigorosa.
valor
Palavras Chave: Erro, Incerteza, Metrologia
P ( x ) máx = 1 1 (2)
σ(2π ) 2
1. INTRODUÇÃO Define-se como largura do “sino”, a largura x ′
correspondente à metade da altura máxima. Desta forma é
Ao se efetuar e conduzir um sistema de medição, no que se possível obter os valores das abcissas x1 e x2 para os
refere ao tratamento estatístico dos dados obtidos, uma das
funções matemáticas de relevada importância é a função quais
denominada função de Gauss-Laplace.
P ( x ) máx
A função Gauss-Laplace também é chamada de função P( x) =
2
normal de erros, ou função gaussiana de densidade de
probabilidades. Chamando-se esta função de P( x) , ela é Resolvendo-se a expressão (1), para esta situação, obtém-se
definida pela expressão: os valores seguintes para x e x2 :
1

 1  x − µ 2  x1 = µ − σ 2 ln 2 e x2 = µ − σ 2 ln 2
1
P ( x) = exp −   
σ ( 2π ) 2  2  σ  
(1) x ′ , e fazendo
1

Sendo a largura a largura da curva


x ′ = x 2 − x1 , obtém-se:
Nesta expressão x é uma variável contínua, µ representa o
valor médio e ó, o desvio padrão, sendo ambos (µ e ó) dois x′ = 2σ ( 2 ln 2 ) 12 = 2 ,3548 σ
parâmetros constantes na distribuição.
Utilizando-se a expressão (1) pode-se obter o valor P( x) de zero a partir de x < µ − 3σ e x > µ + 3σ . Desta
que corresponde a dois desvios padrões ( 2σ) , e isto forma, considerando x = µ − 3σ e x2 = µ + 3σ ,
1
obtém-se
implica ser P ( x) = 0, 61P( x)máx a largura da curva x′ na abcissa, onde

2.2 A Largura da Função Gauss-Laplace x′ = x − x = 6σ .Este resultado informa que a largura total
2 1
da função Gauss-Laplace corresponde a seis desvios
Por outro lado a curva normal apresenta um aspecto de padrões, 6ó. Veja-se a figura 1 a seguir.
fundamental interesse no que diz respeito a sua largura, pois,
embora ela se estenda, teoricamente, de menos infinito
(−∞) à mais infinito (+∞) ela apresenta valores próximos

Fig.1 Distribuição Gauss-Laplace

De uma forma geral, num processo de medição, os valores Uma distribuição de erros experimentais não segue,
possíveis da variável xi compõem-se de um conjunto de obrigatoriamente, uma distribuição gaussiana, Mas, de uma
forma geral, com boa aproximação, pode-se admitir que os
definidos valores discretos, portanto, se constituindo no que
erros seguem uma distribuição gaussiana, quando se
se define como variável discreta. Cada valor individual desta
variável tem uma probabilidade de ocorrência. Assim, para o trabalha com as fontes principais de erro em metrologia.
conjunto dos n valores possíveis de i , ter-se-ão n valores Considerando-se como sendo x o valor verdadeiro de um
v
de P ( xi ) o que constitui uma distribuição de probabilidades
correspondente aos valores assumidos pela variável discreta
mensurando e x o resultado de uma medição, o erro E ,em
i

x , é definido como :
x.
E = xi − xv
Desta forma cumpre-se a chamada condição de
normalização O valor verdadeiro exato de uma grandeza é sempre
desconhecido, conseqüentemente, não se pode conhecer o
n

∑i =1
P ( xi) = 1 erro absolutamente exato. Formalmente, o que se pode
conhecer é o valor presumivelmente exato de uma grandeza,
desta forma, o erro também é desconhecido e desconhecível,
Assim a área total sobre a curva em forma de sino é igual a devendo ser obrigatoriamente determinado
1, ou 100%. A probabilidade ∆ P i de obter-se uma probabilisticamente. Neste sentido, uma distribuição de
medição xi
num intervalo ∆x é representada pela área probabilidades dos valores assumidos pelo erro E , seria
uma distribuição de erros num sistema de medição de um
∆A , conforme se mostra na figura 1. determinado mensurando, segundo uma estratégia
metrológica definida.
Com esta linha de raciocínio uma distribuição de erros pode
ser definida por uma densidade de probabilidades do tipo:
P (E ) = P ( x i − x v )

O erro total, num sistema de medição, constituindo-se de


3. DISCUSSÃO
uma soma de erros de E elementos, mesmo com diferentes
3.1 Erros Gauss-Laplacianos distribuições de probabilidade, implicará numa distribuição
de probabilidades dos erros E tendente a uma gaussiana. É
exatamente isto o que a experiência nos mostra quando se probabilidades do erro total seja uma gaussiana. Assim, a
opera com os mais diversos aspectos de rastreabilidade incerteza padrão (σ) é definida como o desvio padrão (σ)
metrológica. 1
 2 + 2 + ...+ d 2  2
3.2 Incertezas e Limite de Erro da distribuição de erros, onde σ =  d 1 d 2 n
 n −1 
Toda medição realizada num mensurando (grandeza  
avaliada) conduz à uma aproximação do seu valor Sendo d,d
1 2
... d os desvios das
n
n medições. (4)
verdadeiro, com tendência a conduzir-nos a um valor que se
pode chamar de presumivelmente exato. Isto, porque,
embora os objetivos da teoria de erros e técnicas de medição
B. Incerteza expandida com nível de confiança P C
O nível de confiança, ou coeficiente de confiança PC da
são procurar determinar o valor mais próximo possível do
mensurando, sempre teremos uma incerteza deste valor. Esta ocorrência de uma proposição representa uma probabilidade
incerteza é uma indicação de quanto se esta afastado do PC de que esta proposição ocorra.
verdadeiro valor do mensurando.
A incerteza expandida ( kσ) com nível de confiança P,
C
Há várias formas de se apresentar a incerteza de um
resultado. As três formas mais usuais e difundidas corresponde à probabilidade PC
de se efetuar uma medição
internacionalmente, são: que se encontre dentro do intervalo
xi

A. A incerteza padrão (σ) ( x − kσ ) < xi < ( x + kσ) .Convém lembrar que a incerteza
B. A incerteza expandida padrão σ obtida experimentalmente é, na realidade, uma
C. O limite de erro aproximação do verdadeiro desvio padrão.
A. Incerteza padrão (σ) . Considerando os erros com distribuição gaussiana
Considera-se que o erro total resulte de uma superposição de apresentamos a seguir, alguns intervalos expandidos com os
vários erros elementares e que a distribuição de respectivos níveis de confiança.

Intervalos Níveis de
Confiança
( x − σ) < xv < ( x + σ ) 68,27%

( x − 1,6σ) < xv < ( x + 1,6σ) 90%

( x − 2σ ) < xv < ( x + 2σ) 95,45%

( x − 3σ) < xv < ( x + 3σ) 99,73%

Estes níveis de confiança são de extrema importância nas - Funcionamento e aplicabilidade da distribuição matemática
estratégias metrológicas que envolvam procedimentos de de Gauss-Laplace orientada à metrologia.
medição, rastreabilidade e calibração. - Interpretação gráfica da largura, área e condição de
normalização no tratamento das medições.
B. O limite de erro l . - Interpretação dos erros Gauss-Laplacianos, com
abordagem metrológica.
Chama-se de limite de erro l , o valor máximo que qualquer
- Apresentação das formas experimentais da incerteza
erro pode assumir no conjunto de medições efetuadas.
padrão, incerteza expandida e limite de erro, segundo o rigor
Assim, no caso de uma distribuição simétrica que possui um
metrológico.
ponto x , além do qual ela se anula, então, este ponto será
o limite de erro, onde x = l .
REFERÊNCIAS
No caso de uma distribuição gaussiana ela praticamente se
anula para valores de x maiores do que 3σ , então, neste
[1]VUOLO, J. H., 2000.” Fundamentos da Teoria de Erros”, Ed.
Edgard Blücher Ltda, pp249.
caso, o limite de erro é l = 3σ . Então, para o caso de uma
gaussiana, o limite de erro corresponde a uma incerteza [2]COLLÉ, R. and KARP, P., 1987.” Measurement Uncertanties:
expandida com nível de confiança de 99,73%. Report of an International Working Group Meeting”, J. Research
National Bureau of Standards, Vol. 92/3, pp.243

4. CONCLUSÃO [3]PETLEY, B.W., 1985.” The Fundamental Physical Constants


and the Frontier of Measurement”, Adam Hilger Ltda, London.
Segundo a abordagem utilizada nesta contribuição foram
destacados e inter-relacionados teórica e praticamente, os
seguintes aspectos do ponto de vista estatístico quando se
trabalha com um sistema de medição:
João Carlos Pinheiro Beck Av. Ipiranga, 6681 – Prédio 30/Bloco 06/sala 167 – Porto
Dr. em Instrumentação Eletro-Eletrônica Alegre/RS – Fone: (051) 3320-3584 Faxpress: (051)3320-
Isaac Newton Lima da Silva 3819
Dr. em Instrumentação e-mail:beck@em.pucrs.br / Isaac@em.pucrs.br
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul-
PUCRS