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Exclusão de Sócios nas

Sociedades Anônimas
ExcLusÃo DE Sócios NAS
SOCIEDADES ANÔNIMAS

Quartier Latin
Editora Quartier Latin do Brasil

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busca e apreensão e indenizações diversas (arts. 101a 110 da Lei 96
. 10, de 19.02.1998, Lei dos Direitos Autorais).
RENATO VENTURA RIBEIRO
Mestre pela Faculdade de Direito da USP

Doutor pela Faculdade de Direito da USP

Ex-P rofessor Assistente Temporário da Faculdade de Direito da USP

Advogado

Ex-Assessor Parlamentar do Conselho Federal da OAB

ExcLusÃo DE Sócios NAS


SOCIEDADES ANÔNIMAS

Editora Qyartier Latin do Brasil


S ão Paulo, primavera de 2005
quartierlatin@quartierlatin. art.br
www .quartierlatin. art.br
Editora Quartier Latin do Brasil
Rua Santo Amaro, 349 - Centro - São Paulo

Editor: Vinicius Vieira

Formada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas - FGV-SP

Editora de Texto: Priscila Tanaca

Mestranda em Direito na PUC-SP

Produção Editorial: Mônica A. Guedes

Formada em Letras pela FFLCH-USP

Produção de Arte -Thiago Kazuo Muniz de Souza

Ribeiro, Renato Ventura - Exclusão de Sócios nas

Sociedades Anônimas - São Paulo: Qtar tier Latin, 2005.

1. Direito Societário 2. Direito

Índice para catálogo sistemático:


1. Brasil : Direito Societário

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www. quartierlatin. art. br
SUMÁRIO
Breve Nota de Apresentação ..... ..... ........... ... ............... ....... ... .... 13
Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
Abreviaturas Utilizadas ..... ....... .. .... ........... ... .......... ..... ............ 23
. .

Introdução ........................... ......... ...................... ................ ....... 25

Parte I -Aspectos das SociedadesAnônimas Personalistas, 37


Capítulo I: Uma nova classificação das sociedades
comerciais ... .... . .. .. . . .. . ... . . .... .. . . .
. . . . .. . .. . .
... . .. ..... . .. ....... .. . . .
. .. .. . . . 39
1. Problemas da dicotomia sociedade de pessoas e sociedade
de capitais ...... ................ .. ........ .................................................. 39
1. 1. Falta de unidade de critério distintivo. A livre
cessibilidade da participação societária como elemento
diferenciador e suas limitações ... . .. ..... ........ ........ ............ 4 1 .

1.2. Não equivalência entre tipo e forma de sociedades ........ 43


2. Classificação adotada: sociedades intuitus personae e
intuitus pecuniae . .. . ... ... . ... .. . . . .... . .. ... ... .. .. ... . .
. . . . . . . . . . . . . . ... ..... ... . .... ... 45

Capítulo II: Intuitus personae nas sociedades comerciais.......... 46


1. Conceito e identificação ..... .. ... ... .. .. .. . ... .. . .. ... . .. . ..... ... . ... . . ... . . .. 46
2. Espécies ... ... . . ..... ... . .. . . . .. . .. .... ... . .. .. ...... .. .. . .. ... ... ...... .. . ...... .. . ..... 49
2. 1. Intuitus personae absoluto e relativo . .............................. 49
2.2. Intuitus personae positivo e negativo .......... .......... .......... 5 1
2.3. Intuitus personae legal e convencional ........ ................ .. . 52 .

2.4. Intuitus personae geral e particular .................. .... ....... .... 53

Capítulo III: Intuitus personae nas sociedades anônimas .. .. ... 55


..

1. Novas perspectivas das sociedades anônimas ...................... .. . 56


1. 1. Das companhias da Revolução Industrial às novas
sociedades da Era da Informação ......... ....................... .... 56
1.2. O novo paradigma da Era da Informação .................. ... 58
2. A sociedade anônima como estrutura organizativa de
pequenas e médias empresas .. .
... . ..... ....... ... . . . ... ... ... .. ..
... ............ 59
2.1. A nova realidade: sociedades anônimas para exploração
de pequenas e médias empresas....................................... 59
2.2. O reconhecimento legal das pequenas e médias
companhias .................................................................... 62
.

2.3. S ociedades limitadas ou anônimas? ......... .. ............ .. ...... 63


2.4. O problema no direito brasileiro . . .
.. ............... .. ............. 64
2.4.1. A insuficiência da distinção entre companhias
abertas e fechadas ...................................................... 64
.

2.4.2. A total indiferença e a necessidade de mudança.... 66


3. S ociedades anônimas intuitus personae .. ....... . . . . . ..... .
. . ...... . . . . . .. 68
3.1. Elementos caracterizadores das sociedades anônimas
personalistas ... ................................................................. 68
3.1.1. Restrições à circulação de ações .... .
........ ................ 70
3.1.2. Prestações acessórias ............................................. 7 6
.

3.2. S ociedades anônimas intuitus personae e fechadas:


diferenciação .................................................................. 79
.

3.3. As companhias familiares . . . ..


. . ........... .. . ..................... ... . 81
3.3.1. Distinção entre sociedades familiares e
intuitus personae ........................................................... 82
3.3.2. Distinção entre sociedades familiares e companhias
fechadas ..................................................................... 83
3.4. S ociedades unipessoais não personalistas ... ................... 84
4. Caráter jurídico das sociedades anônimas intuitus personae .. . 85
4.1. Teorias contratualistas ... .. ....... .
............. .... . ............... .. . .. 86
4.2. Teorias institucionalistas . . ..
.......... .. .. . . . ......... .................. 90
4.3. Teoria do contrato associativo ou contrato-organização.. 92
4.4. Teoria dos sistemas ... .. . . .
..................... ... .. ........ . .
.... ....... . 94
4.5. Nossa posição ................................................................ 95
5. Tratamento aplicável às sociedades anônimas
intuitus personae no direito brasileiro ......................................... 96
Parte II - Fundamentos da Exclusão de Sócio, 99

Capítulo I: Precisões terminológicas ...................... ............... 101 .

1. Exclusão em sentido amplo e estrito (expulsão) . .................. 101 .

2. Exclusão e expulsão ............................................................... 102


3. Distinção entre exclusão e dissolução parcial......................... 103
4. Despedida e saída . ....................... ... ................... . .... ...... .. 104
. . . . . . .

Capítulo II: Origem e evolução histórica do instituto ........ ..... 105


1. Direito romano...................................................................... 105
2. Idade Média .............. .... ... ................... ......... ...... ............. 110
. . . . . .

3. Evolução histórica da disciplina da exclusão de sócio nas


legislações modernas ................................................................. 112
4. Exclusão de sócio em direito comparado: das sociedades
de pessoas às sociedades anônimas ........................................... 113
.

4.1. Direito alemão..... ......... ............. .... ......... .. .. ........... 113


. . . . . .. .

4.2. Direito espanhol ............ ..... ......................... ..... .... ..... ... 115
4.3. Direito italiano .... ..... ................ ....................... ...
. . . . ..... .. 119
4.4. Direito francês ............................................................... 120
4.5. Direito português ... .... .................................... ............ 124
. . .

4.6. Direito brasileiro ........................................... ...... .......... 125

Capítulo III: Fundamentos.................................................... 134


1. Teorias ........................ ....... .......................... .......................... 134
1.1. Teoria do poder corporativo disciplinar . ................... . 135 . ..

1.2. Teoria da disciplina taxativa legal ....... .. ... ...... ........ .. 141 . .. . . .

1.3. Teoria contratualista .. .... ........... .. . .. .. ... ................... 145


. . . . . . . .

1.4. A tese da vontade social.. .... ........... .. ............. ... .......


. . . . . . . 152
1.5. A posição de INNO CENTI: disciplina taxativa legal
baseada no interesse privado .. ... ... ...... ...... ................. 154
. . . .. .

1.6. A posição de NUNES ............ . .. .... ............................ 155


. . . .

1.7. A tese de PERRINO : a exclusão no quadro dos


contratos associativos . ....... ..........................................
. . . . 157
1.8. A posição da doutrina alemã: dissolução da relação
jurídica de contrato continuado por motivo relevante
(wichtiger Grund) . . ..................... .. . ..... ...........
. . . . . ... .......... 158
2. Críticas comuns às teorias expostas e premissas de nossa
posição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161
2.1. Exclusão, empresa e sociedade ....................................... 161
2. 1. 1. Exclusão e preservação da empresa ........................ 161
2. 1. 1. 1. A necessidade de apurar a conveniência ou não
da exclusão do sócio ...... ............... .............................. 162
2. 1. 1.2. A exclusão de sócio como medida para melhorar
a eficiência empresarial e não apenas a preservação
da empresa .......... . ............ .. ..................... ....... ........... . 163
2. 1.2. Exclusão de sócio e conservação da sociedade ....... 163
2. 1.3. Exclusão com escopo de eficiência empresarial da
sociedade................................... ........................ .... ... .. 164
2.2. Interesses envolvidos na exclusão. A exclusão como
forma de proteção de interesses públicos e privados ........ 165
2.3. Exclusão e superveniência de causas .............................. 167
3. Tese proposta: a exclusão de sócio como decorrência da
quebra da base objetiva do negócio por fato superveniente ....... 167
4. Críticas a possíveis objeções .. .. . . . .. .. .. . .... .. .. . .. ... . . .. . . .. ... ... . .... .. . 172
4. 1. Aplicação de teoria contratual a sociedades
não contratuais .. . ... .. .. ... ... . ... ..... .. .. .... ... .. . .. .. . ... .. . . . . ... .. ... .. . 172
4.2. Dificuldade de precisão das bases essenciais da
sociedade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172
4.3. O direito de permanecer acionista e suas limitações ..... 173

Capítulo IV: Conseqüências da aplicação da teoria proposta


na exclusão de sócios nas sociedades comerciais e, em
particular, nas sociedades anônimas ... ............................ ........ 175
1. Exclusão e justa causa...... ... ... ................ ................................ 175
1. 1. Necessidade de justa causa ........ ....... .... ... .. .............. .. ... . 175
1.2. Conceito de justa causa .. ............................................... 177
1.3. O conceito de motivo grave...................... .. ....... ... ......... 179
2. Previsão legal ou estatutária .................... ... .......... ......... ......... 183
2. 1. Possibilidade de fixação de hipóteses e procedimentos
de exclusão no contrato ou estatuto social.... ................... 183
2.2. Validade das condições estabelecidas
extra-estatutariamente..................................................... 184
2.3. Não taxatividade das hipóteses legais e estatutárias....... 185
2.4. Possibilidade de exclusão na falta de previsão legal
ou convencional ... ................ ... ..... ..... ................. ......
. . . . . . . 187
2.5. A licitude de cláusula proibitiva de exclusão nas
hipóteses legais................................................................ 190
2.6. A licitude da deliberação de não exclusão de sócio
mesmo diante de causa justificada................................... 192
2.7. A validade da previsão estatutária de exclusão sem justa
causa ................................................................................ 193
3. Desnecessidade de culpa do sócio excluído .................... ...... 197 .

4. A exclusão de sócio majoritário ............................................. 198


5. Exclusão em companhia em fase de liquidação ou após uma
causa de dissolução da sociedade...................................... ........ 201 .

6. A exclusão em sociedade 'com dois sócios.............................. 205


7. A exclusão em sociedade unipessoal .. ................................... 208
.

8. Exclusão em sociedades de fato e irregulares ......................... 211


9. Limites à exclusão ........................... ..................... ............... 212
. .

Parte III - Exclusão de Acionistas nas Sociedades Anônimas, 213

Capítulo 1: Causas ................................................................. 215


1. Nulidade de subscrição ........... .......... ................... ........ ...... 215
. . . .

2. Descumprimento de obrigações .... ..................................... . 216


. .

2.1. Falta de integralização do capital social......................... 217


2.1.1. Mora na integralização do capital social................ 217
2.1.2. Perecimento da coisa oferecida pelo acionista em
conferência de bens .................................... ............... 221
.

2.1.2.1. Conferência de bens estranhos ao objeto social


da companhia............................................................. 223
2.1.2.2. Prestação tornada impossível .............................. 224
2.1.2.3. Perecimento da coisa antes da transferência da
propriedade ..................................................... ........... 225
2.1.2.4. Perecimento da coisa após a transferência da
propriedade ............................................................... 225
.

2.1.2.5. Conferência de bens mediante crédito não


satisfeito pelo devedor . . ........................................ . . . . . 226
2.1.2.6. Conferência mediante gozo de bens .................. 226
2.2. Falta de cumprimento de prestações acessórias . ............ 226
2.3. Dever de colaboração e de fidelidade ..
........ . ................. 227
2.3.1. Dever de colaboração . . .
...... ........... .. . . . ........ . . . . ....... 227
2.3.2. Dever de fidelidade ............................................... 229
2.4. A concorrência do sócio à sociedade.............................. 230
3. Vicissitudes pessoais do sócio . . . . .......... .. .
........... ..... .......... .. . . . 237
3.1. Falecimento .
....... . . . . . ........... .... ........... . . . ............. ......... . . . 238
3.2. Ausência ................................. ....................................... 242
3.3. Incapacidade física ou jurídica. Interdição e inabilitação .. 242
3.3.1. Interdição ou inabilitação temporárias .
..... ............ 245
3.3.1.1. Interdição temporária de ofícios públicos ..... .. .. .. 245
3.3.1.2. Suspensão do exercício profissional .
.... ... ............ 246
3.3.1.3. Licença para ocupar cargo incompatível . . . .......... 247
3.4. Sócios menores . . . .. .
........ ..... .... ........... ..
. . . ............ . . . ........ 247
3.5. Insolvência ou falência ........................... .. .......... .. . . . ...... 248
3.6. Liquidação das ações por credores particulares ........... .. . 255
3.7. Exclusão em função de outras condições pessoais ... .. . . .. 256
4. Abuso de direito ou de poder . . .
.... .. ........... . . . ......... .. ...... . . . ... . . 258
4.1. Abuso de poder de controle . . .. . ............. . ..... .. .. . ... . . ......... 259
4.2. Abuso de minoria .. .. .
. . . ........... ............ .... .......... . . . . ......... 261
5. �estões relacionadas à administração ................................. 263
.

5.1. Falta grave de sócio administrador .......... . .


......... . . . ........ 263
5.2. Ingerência na administração ..
... . ........... . ......... . . . . . . ......... 266
6. Desarmonia entre os sócios ................... .. ....... . .. . . . ....... .. ........ 267
7. Descumprimento de acordo de acionistas ............ ......... . . . . . . . . 269
8. Procedimentos de exclusão indireta de sócio ......................... 270
8.1. Reorganização societária e operações com o capital
da sociedade ................................................................... 270
.

8.1.1. Grupamento de ações ............... . . . . . ................... .... . 270


8.1.2. Incorporação e fusão.............................................. 271
8.1.3. Redução do capital social ..... . . . ...... . ..... .. .... 272 .. .. . . . . . ...

8.2. Exclusão em caso de alienação de controle.................... 272


8.2.1. Exclusão convencional, com previsão estatutária... 272
8.2.2. O ferta pública de aquisição de ações na alienação
de controle ................................................................ 273
.

8.2.3. O s fechamentos "brancos" de capital . ... ... .. .. . . .. . . ... . 274


9. Exclusão em razão de pedido de dissolução social.. ... ... . .....
. . . 277

Capítulo II: Procedimentos .............................. ... ... ....... . . 2 81 .. . . . .

1. Exclusão de acionista remisso................................................ 281


2. Exclusão por deliberação assemblear .................................... 283 .

3. Exclusão por via judicial ........................................................ 290


3.1. Legitimidade para propositura de ação de exclusão
de sócio ........................................................................... 292
3.2. Poderes do magistrado e efeitos da decisão judicial ... . 295 . ..

4. Amortização de ações . .. . ..................................................... 296


. . .

5. Resgate de ações .................................................................... 296


6. Cláusula de transferência compulsória de ações .................... 299
7. Cessação da causa justificadora de exclusão e falecimento
de sócio durante procedimento de exclusão............................... 300
8. O controle judicial da exclusão . .......... .......... .... .. . . . .. ... ... . ... .. . 301
8.1. Legitimidade . ........... .. . .... ..... . ................. ..... ..... .. 301
. . . . . . . .. . .

8.2. Limites ao poder dos magistrados ... ...... ......... .. . . . ... 304 . . . . . . .

9. Procedimento arbitral .. ... ... . . .......... ... . ... ......... .....


. . . . . . . . .. . . ... .. . 307
.

Capítulo III: Liquidação........................................................ 309


1. Apuração do valor de reembolso............................................ 309
2. Aquisição de participação societária mediante conferência
de bens ...................................................................................... 314
3. Direito de retenção . . . . ... . .. ... . ... .. .... . .
. .. . . . . . . .. . .. .. .. ... ... . . .. ... ... 315
. . . . .

4. Direito ao dividendo e demais proventos pelo sócio excluído .. 316

Capítulo IV: Efeitos ...................................................... .... .. 316 . .

1. Perda dos direitos de sócio...... ..... .... .............. ... ........ .... 316
. .. . . .. ..

2. Obrigações do sócio excluído ................................................ 317


3. Exclusão de sócio administrador ....... ... . . . . . . . . . . ............. .. . . . . .. . . 318
4. Proteção aos credores em caso de exclusão de sócio com
redução de capital ................................................................... 320
...

Considerações Finais, 323

Considerações Finais ............................................................... 325


.

Bibliografia .............................................................................. 333


.
RENATO VENTURA RIBEIRO

BREVE N OTA DE APRESENTAÇÃO

Nos ·primeiros meses de 1968 defendi na Faculdade de Direito


de Coimbra a minha tese de Pós-Graduação (Mestrado) em Ciênci­
as Jurídicas sobre O Direito de Exclusão de Sócios nas Sociedades Co-
merciazs.
Entretanto, a minha carreira académica orientava-se já, nessa
altura, para a área das Ciências Económicas, que se cultivam, na in­
vestigação e no ensino, nas Faculdades de Direito portuguesas, desde
o primeiro plano de estudos aprovado para a Faculdade de Direito de
Coimbra, criada em 1 834, como resultado da fusão das duas Escolas
de estudos jurídicos existentes até então na Universidade de Coim­
bra, a Faculdade de Cânones e a Faculdade de Leis. Doutorei-me
com uma tese sobre Industrialização e Desenvolvimento -A Economia
Política do 'Modelo Brasileiro de Desenvolvimento', fiz toda a minha
carreira académica posterior na área das Ciências Económicas, e sou
actualmente Professor Catedrático de Economia Política da Facul­
dade de Direito da Universidade de Coimbra.
Anos mais tarde, primeiro em Curitiba (por meados da década
de 90 do passado século) e depois em São Paulo (no início de 2000),
vim a saber que a minha velha tese sobre exclusão de sócios (que eu
quase tinha esquecido . . . ) era considerada no Brasil, cerca de trinta
anos após a sua primeira edição, uma espécie de 'bíblia' a que recorri­
am os especialistas que tinham de se ocupar destas matérias, no ensi­
no, na advocacia ou na magistratura.
Foi a informação que colhi do Prof. Alfredo de Assis Gonçalves
(da UFPR) e do Prof. Renato Ventura Ribeiro, que então preparava
o seu doutoramento na FDUSP. Perante esta notícia, fiquei pelo
menos tão espantado quanto satisfeito. Já o escrevi: fiquei também
como que envergonhado, de consciência pesada, por ter abandonado

13
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SooEDADES ANÓNIMAS

aquele 'filho' à sua sorte, entregue a si próprio desde o primeiro mo­


mento, sozinho na luta pela vida. Fiquei também orgulhoso desse
'filho' que, afinal, apesar de não ter contado com o acompanhamento
e com o apoio do seu progenitor, soube conquistar um lugar na vida,
mesmo longe do torrão natal.
Devo ao Prof Renato Ventura Ribeiro o gesto amigo de ter in­
sistido para que eu autorizasse a edição dessa minha tese no Brasil.
Hesitante perante a ideia de deixar vir de novo a lume um texto que
acabara de escrever em 1967 e no qual eu não poderia (nem saberia)
introduzir as alterações exigidas pelas novidades que entretanto apa­
receram, tanto na legislação como na doutrina e na jurisprudência,
'intimei' o Prof Renato a que fizesse um prefácio a explicar a razão
que o levava a ressuscitar esse corpo que eu considerava morto há
muitos anos.
Para minha surpresa - agradável surpresa, devo confessá-lo, como
quem confessa um pecado de vaidade -, o Prof Renato respondeu
logo que essa era para ele uma honrosa incumbência e que a aceitava
com todo o gosto. E o prefácio foi feito, e de grande qualidade (tanta,
que até eu quase fiquei convencido de que valia a pena reeditar a
tese . . . ) . E a edição brasileira da tese saiu em 2001, com a chancela da
Editora Cultural Paulista. Fiquei com uma dívida para com o Prof
Renato Ventura Ribeiro que não paguei até hoje.
Num gesto de amizade e confiança que só acrescenta a minha
dívida para com ele, o Prof Renato pede-me agora que escreva uma
pequena apresentação para a edição da sua tese de doutoramento
sobre Exclusão de Sócios nas Sociedades Anónimas. Engana-se, meu Caro
Amigo, se pensa que eu posso, pagando em espécie, amortizar sequer
uma pequena parte da dívida que mantenho em aberto para consigo.
Para além de outras razões (há dívidas que não conseguimos pagar) ,
o seu prefácio para a edição brasileira da minha tese é um texto escri­
to por alguém que domina os temas sobre que escreve, qualidade que
eu não posso hoje exibir, porque não estudo Direito das Sociedades

14
RENATO VENTURA RIBEIRO

Comerciais há quase quarenta anos. Professor em dedicação exclusi­


va, abandonei a advocacia logo que iniciei a minha actividade docen­
te na Faculdade de Direito de Coimbra (Janeiro de 1967), investindo,
desde então, o meu tempo e os meus limitados talentos a tentar apren­
der alguma coisa na área da Economia Política, na expectativa de
saber um pouco mais do que os meus alunos e de poder ajudá-los a
ser bons juristas e bons cidadãos.
Este meu texto é, pois, tão só, a saudação de um amigo, que
considera um privilégio poder ver o seu nome associado à edição de
uma tese que foi apreciada e positivamente valorizada pelos concei­
tuados comercialistas brasileiros que integraram a Banca Examina­
dora. Estou certo de que eles puseram em relevo os méritos desta
tese e não tenho dúvidas de que o fizeram muito melhor do que eu o
faria e com uma autoridade que eu não tenho.
Arrisco, no entanto afirmar aqui que considero tratar-se de um
trabalho muito bem organizado, com uma Introdução e Considerações
Finais (Conclusões) e três Partes (a primeira com três capítulos, as
restantes com quatro). Num percurso intelectual claro e transparen­
te, o A. começa por estudar os aspectos das sociedades anónimas
personalistas, passando depois à análise dos fundamentos da exclu­
são de sócios, carreando assim os elementos que lhe permitem abor­
dar, na Parte III, a problemática da exclusão de sócios nas sociedades
anónimas, que constitui o núcleo central da sua tese.
Tenho para mim que o bom senso é uma das grandes virtudes
dos bons juristas. E toda a obra do Prof. Renato Ventura evidencia
esta qualidade, bem expressa nas conclusões que resolveu acrescentar
à versão original do seu trabalho, por sugestão (sábia) da Banca Exa­
minadora. Estamos perante uma tese, em sentido verdadeiro. Uma
tese universitária. O A. exibe informação abundante, actualizada,
variada e de qualidade, mostrando que conhece e domina bem não
apenas a literatura em língua portuguesa (do Brasil e de Portugal),
mas t;imbém a literatura nas línguas alemã, italiana, francesa e caste-

15
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SomDADEs ANÓNIMAS

lhana, recorrendo não só a monografias mas igualmente a artigos


publicados num bom leque de revistas especializadas (aspecto que
relevo por entender que ele é, quase sempre, indispensável para ga­
rantir a modernidade da investigação levada a cabo). A leitura deste
trabalho não deixa dúvidas sobre a capacidade do A. para desenvol­
ver reflexão própria, apoiada numa personalidade madura e dotada
de sólida cultura jurídica.
Apraz-me expressar, com muita alegria, a minha concordância
com a defesa da Escola Pública feita pelo Prof. Renato Ventura Ri­
beiro. Ao fazê-lo, honra o seu passado de estudante de Escola Públi­
ca, honra a Escola que o formou, e diz uma verdade que é preciso
recordar sempre: a Escola Pública é a única onde todos podem exer­
cer o seu direito e a sua liberdade de ensinar e de aprender. Num País
como o Brasil, a dignificação da Escola Pública, desde o ensino bási­
co à Universidade, é uma exigência fundamental para o desenvolvi­
mento de todos os brasileiros.
Termino com uma sugestão: valeria a pena apresentar também a
síntese em versão alemã.
Meu Caro Renato, deixo-lhe os meus agradecimentos por mais
esta gentileza sua e os meus parabéns pelo excelente trabalho que
agora apresenta a público e oferece à crítica.

António JoséAvelãs Nunes

Fornotelheiro, Qyinta dos Casões


Julho de 2005

16
R ENATO VENTURA RIBEIRO

PREFÁCIO

O presente livro deriva da tese de doutoramento do autor, de­


fendida em dezembro de 2002. Acredita o autor que o trabalho está
suficientemente amadurecido para ser apresentado ao público atra­
vés de publicação. Mas ainda muito longe de estar completo ou com
a pretensão de esgotar o assunto. Entre outras razões, pela novidade
de muitos temas aqui tratados e pelas constantes transformações que
a matéria vem sofrendo nas legislações e jurisprudência.
As pesquisas do autor sobre o assunto iniciam-se em 1993, quan­
do ainda cursava o mestrado, com a intenção de elaboração de artigo
sobre o tema. Artigo este nunca publicado. Num primeiro momento,
pela maior preocupação do autor com a redação de sua dissertação de
mestrado. Depois, apesar da pouca bibliografia inicialmente obtida,
o autor percebeu o quão o assunto era bem mais fascinante do que
pensara, podendo gerar uma série de artigos. Ou até uma tese.
Daí a conversão e adaptação dos primeiros escritos para plano
de pesquisa de doutorado no segundo semestre de 1996. Para con­
correr, entre quatorze candidatos, à única vaga de doutorado ofereci­
da por todo o Departamento de Direito Comercial da Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo.
Apesar de idas e vindas semanais de Brasília, em razão de presti­
giosa função no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Bra­
sil, os créditos de doutorado foram concluídos rapidamente, em três
semestres, para restar mais tempo para pesquisa e elaboração da tese.
Em 1999, uma breve estada em Paris, para pesquisa e coleta de
material, em especial na Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbon­
ne) , onde fui calorosamente recebido e auxiliado pelo amigo, ex-alu­
no e doutorando naquela instituição, Leandro Michelon Endres. Com

17
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADES ANóNIMAS

direito à discussão "compulsória" sobre diversos aspectos do trabalho


durante noite até o final do amanhecer. Por tudo isto, deixo registra­
do meu agradecimento a Leandro pela companhia e o apoio na bus­
ca de material, nas diversas bibliotecas da Universidade de Paris, na
Biblioteca Nacional da França e na Universidade Robert Schuman,
em Strasburgo, nesta última a caminho da Alemanha. Agradeço tam­
bém sua esposa, Daniela Endres, minha querida ex-aluna, afilhada e
comadre, que ficou em terra brasilis, não só pelo apoio e confiança de
sempre, como pela "liberação" do Leandro por alguns dias a mais, no
nosso roteiro acadêmico.
Na Alemanha, fiz uma segunda passagem pelo Max Planck Ins­
titutfür auslandisches und internationales Privatrecht, na agradável ci­
dade de Hamburgo. Externo meus agradecimentos ao Professor
Jürgen Samtleben, seu assistente Jan Kleinheisterkamp e a todos os
funcionários do Instituto pela atenção e ajuda dispensada para tor­
nar profícuo meu trabalho de pesquisa. Minha gratidão também ao
Professor Calixto Salomão Filho, pela apresentação ao Professor
Samtleben, com recomendação ao Instituto.
O amadurecimento, crítica de muitas das idéias também devo a
vários de meus alunos, tanto na Faculdade de Direito da Universida­
de de São Paulo como em instituições particulares. Por isto, durante
todo o curso de doutorado, não deixei de continuar lecionando, não
obstante atividades profissionais em São Paulo e Brasília. Em espe­
cial, foram bastante profícuas as aulas de seminário, com intensos
debates. Embora questionáveis por alguns, que preferem as tradicio­
nais aulas expositivas, os seminários são essenciais para formação do
profissional do Direito, pois auxiliam a desenvolvem duas capacida­
des basilares, a crítica e a de argumentação, além da desinibição e
participação ativa, que também permite um feedback ao professor.
O contato com grandes mestres também foi fundamental. Além
dos professores da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo,
destaco as conversas que tive com o Professor António José Avelãs

18
RENATO VENTURÀ RI BEIRO

Nunes, uma das maiores autoridades mundiais da matéria, a quem


agradeço a atenção, confiança e incentivo. Minha gratidão também
aos Professores João Grandino Rodas, Rachel Sztajn e, indiretamen­
te, Haroldo Malheiros Duclerc Verçosa, pela apresentação ao Pro­
fessor Avelãs Nunes.
No exame de qualificação no curso de doutorado, foram valio­
sos os subsídios apresentados pelos Professores Luiz Gastão Paes de
Barros Leães, Vera Helena de Mello Franco e Paulo Fernando Cam­
pos Salles de Toledo, a maioria dos quais aproveitada na elaboração
da tese. Aos três, agradeço não só pelas contribuições como pelo im­
portante apoio, cada um ao seu modo, no início de minha carreira
acadêmica. Às vezes, de longa data, como a Professora Vera Helena,
que me acompanha desde o bacharelado e é incentivadora da minha
carreira docente, desde o 'início até os dias atuais, a quem devo tam­
bém a amizade.
Embora não tivessem participação direta no curso de doutora­
do, por atuarem em outra área, não poderia deixar de mencionar dois
importantes apoios. O do Professor Eduardo César Silveira Vita
Marchi, pelo estímulo à minha carreira acadêmica desde meu pri­
meiro ano de graduação, pela constante orientação durante a gradu­
ação e, mais tarde, no curso de mestrado, como Orientador também
de direito. Sua ascensão ainda novo à Titularidade e à Direção da
nossa querida Faculdade representa o reconhecimento de sua com­
petência, dedicação, seriedade e honestidade de princípios. Na mes­
ma linha, o Professor Ignácio Maria Poveda Velasco, a quem, além
de apoio, devo a indicação para assunção da primeira regência de
turmas, em faculdade particular.
A todos os professores, meus agradecimentos pela confiança,
pelos conselhos e pelo exemplo.
Para encerrar bem o curso de doutorado, uma feliz defesa da
tese. As cerca de seis horas de sua duração, longe de serem exausti-

19
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANôNIMAs

vas, transcorreram rapidamente. A utilização do tempo máximo de­


veu-se, em boa parte, ao grande interesse pelo assunto, demonstrado
por todos os membros da Banca Examinadora, transformando a de­
fesa num momento ímpar de questionamento e debate de idéias, al­
gumas das quais, reconheço, polêmicas. Dos presentes, o comentário
de que o trabalho foi minuciosa e cuidadosamente examinado pelos
membros da Banca.
Por isto, meu reconhecimento e gratidão à Banca Examinadora,
composta pelos professores Luiz Gastão Paes de B arros Leães, Her­
mes Marcelo Huck, Paulo Fernando Campos S alles de Toledo, Os­
mar Brina Corrêa Lima e Aurélio Wander Bastos, pelo interesse e
atenção dados ao trabalho e valiosas contribuições, incorporadas na
revisão da tese para publicação.
Em especial, um eterno agradecimento a meu Orientador, Pro­
fessor Luiz Gastão Paes de Barros Leães. Embora anteriormente
nunca tivesse tido contato comigo, por ocasião do processo de sele­
ção depositou sua confiança em minha pessoa e meus propósitos,
dando-me a oportunidade de preencher a única vaga de doutorado
disponível no Departamento, o que tornou minha responsabilidade
ainda maior. Obrigado não só pela oportunidade como pela confian­
ça, que procurei retribuir ao longo do curso e da vida acadêmica.
Apesar de obtido o título, a missão ainda não estava concluída.
Por recomendação da Banca Examinadora, a tese devia ser publica­
da. Diversos reparos, acréscimos e atualizações foram feitos, para sub­
meter a obra à opinião pública, esperando que ela possa ser útil para
reflexões e auxílio de resolução de casos práticos, não só aos doutri­
nadores, como aos profissionais e estudantes da área jurídica, res­
ponsabilizando-se o autor por quaisquer defeitos.
A etapa final foi possível graças à Editora �artier Latin, a qual
agradeço na pessoa de seu diretor e meu ex-aluno na Faculdade Vi­
nicius Lot Vieira, que desde 1999 sempre me cobrou publicações.

20
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Após longo período de aprendizado e embora não muito distante de


recém-doutor, é chegada a hora de dedicar-me mais a publicações,
em razão do encerramento de meus cursos de pós-graduação e da
maior maturidade. Para isto, é importante o apoio de jovem e pro­
missora editora, com a preocupação de colocar obras no mercado
sobre temas inexplorados, ainda· que com pouco retorno comercial.
Ao contrário de tantas outras com fins exclusivamente mercantilis­
tas, com uma enxurrada de resumos, manuais, cursos e outras coisas
do gênero, muitos dos quais repetitivos e sem idéias novas e que,
além de não trazer nenhuma contribuição original ao Direito, aca­
bam por embrutecer (e até "emburrecer") seus leitores, ao privá-los
de leituras de melhor qualidade. Por isto, a opção pela Qiartier La­
tin não foi por acaso e sim pela identidade de propósitos.
Após acertada a publicação, o fechamento com "chave de ouro"
pela gentil, carinhosa e honrosa apresentação do Prof António José
Avelãs Nunes. Além de sua enorme contribuição à legislação, dou­
trina e jurisprudência de diversas partes do mundo, algumas das quais
sou testemunha e relato na apresentação da edição brasileira de seu
livro O direito de exclusão de sócios nas sociedades comerciais (São Paulo,
Cultural Paulista, 2001), premiado pela Fundação Calouste Gulbenki­
an como a melhor tese européia do ano, sua obra foi de enorme valia
na elaboração do presente trabalho, tanto que referida merecidamente
por inúmeras vezes. Daí ser justa a escolha para apresentação e pre­
sença com maior destaque.
Confesso que as palavras do Prof Avelãs Nunes me deixaram
emocionado. Ao Prof Avelãs Nunes, só tenho a agradecer pela pron­
tidão na elaboração da apresentação, mesmo durante as férias, e pela
imensa generosidade, talvez bem mais do que a merecida pelo autor.
Também deve ser feito um tributo à desamparada e quase aban­
donada Universidade Pública, mas que é o melhor - senão único
meio - de permitir o desenvolvimento nacional, que exige tecnologia
e mão-de-obra qualificada. Além da importância macro, a Universi-

21
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAS

dade Pública é instrumento essencial para transformação e melhoria


da qualidade de vida de muitas pessoas e suas famílias. Não fosse a
Universidade Pública, inúmeras pessoas não teriam a oportunidade
de estudo e pesquisa. No caso do autor, a Universidade Pública é
responsável por mais de quinze anos de contínuos de estudo, entre
bacharelado, mestrado e doutorado, sendo pilar básico de sua forma­
ção profissional.
O curso de doutorado exige tempo e dedicação e, por conse­
guinte, algumas privações, como menor convívio familiar e com ami­
gos. Principalmente por ocasião da elaboração da tese (e até de sua
revisão), privei tantas pessoas do meu convívio, que não me arrisco a
enumerá-las. A elas, agradeço a enorme compreensão, que foi im­
portante forma de apoio e, sobretudo, respeito à minha pessoa e a
meus ideais.
Destaco a figura de meus pais, Jorge Ventura Ribeiro Filho e
Eli Elvira Maia Ribeiro, não só pela compreensão como por tudo,
em particular pela educação e pelos esforços dispendidos para que
pudesse chegar a esse momento e a outros que virão.
Findo um desafio ou uma missão, a vida segue, com novos hori­
zontes. Pouco tempo após o depósito da tese, fui presenteado com a
continuidade da vida, através de meu amado e querido filho Luis
Renato M. Ventura Ribeiro, que veio acompanhar, ainda no ventre
materno, a defesa do trabalho, para nascer filho de doutor e ser gran­
de companheiro, em preciosos e agradáveis momentos. Mais do que
isto, ganhei um Orientador permanente, para todas as minhas con­
dutas, a quem não meço esforços para ser, a cada instante, modelo e
exemplo. Até porque só saberá educar e orientar aquele que souber
ser orientado.

O autor

22
RE NATO VENTURA RIBEIRO

ABREVIATURAS UTILIZADAS
BGBP - Bundesgesetzblatt

BGHZ - Entscheidungen des Bundesgerichtshofs in Zivilsachen

BMJ - Boletim do Ministério da Justiça

DB - Der Betrieb

Dir. fali. - 11 diritto fallimentare e delle società commerciali

DJU - Diário da Justiça da União

FI - 11 Foro Italiano

Giust. Civ. - Giustizia Civile

Giur. Comm. - Giurisprudenza Commerciale: Società e Fallimento

Giur. It. - Giurisprudenza Italiana e la Legge

GP - Gazette du Palais

JS - Journal des Sociétés (civiles et commerciales)

NDI - Novíssimo digesto italiano

NJW - Neue Juristische Wochenschrift

NRDComm. - Nuova Rivista di Diritto Commerciale, Diritto deli' economia,


Diritto Sociale

RDCiv. - Rivista di Diritto Civile

RDComm. - Rivista del Diritto Commerciale e del Diritto Generale delle


O bligazioni

RDM - Revista de Direito Mercantil

RDP - Revista de Derecho Privado

RDProc. - Rivista di Diritto Processuale

RdS - Revista de Derecho de Sociedades

Rev. dr. bane. bour. - Revue de droit bancaire et de la bourse

23
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANôNIMAS

Rev. Soe. - Revue des Sociétés

RF - Revista Forense

RGZ - Amtliche Sammlung der Entscheidungen des Reichsgerichts in Zi­


vilsachen

RlOBJ - Repertório IOB de Jurisprudência

Riv. Soe. - Rivista delle Società

RSTJ - Revista do Superior Tribunal de Justiça

RT - Revista dos Tribunais

RTDCo. - Revue Trimestrielle de Droit Commercial

RTDPC - Rivista Trimestrale di Diritto e Procedura Civile

RTJ - Revista Trimestral de Jurisprudência

S. - Recuei} Sirey

STF - SupremoTribunal Federal

STJ - Superior Tribunal de Justiça

TJDF - Tribunal de Justiça do Distrito Federal

TJSP - Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo

ZGR - Zeitschrift für Unternehmens- und Gesellschaftsrecht

ZHR - Zeitschrift für das gesamte Handelsrecht und Wirtschaftrecht

ZIP - Zeitschrift für Wirtschaftsrecht

24
R ENATO VENTURA RI BEIRO

INTRODUÇÃO

Pode-se dizer que o interesse da doutrina pelo tema de exclusão


de sócio é inversamente proporcional à litigiosidade interna das socie­
dades1 . São raras as monografias2 e os tratadistas abordam o tema de

Cf. BOLLI NO, em artigo publicado post mortem, "Le cause di esclusione dei socio
nelle società di persone e nelle cooperative", Riv. Soe., 37 ( 1 992), fase. 5-6, pp. 375-
4 2 0, à p . 3 7 6, repet i n d o o j á acentuado p o r estud i osos d a matéria, como
DALMARTELLO, L 'esclusione dei soei dai/e società commerciali, Padova, CEDAM,
1 939, p. V I I ; REALE, "A exclusão de Sócios das Sociedades Mercantis e o Registro de
Comércio", in RT 1 50 ( 1 948), pp. 459-486, à p. 459; REQU IÃO, A preservação da
sociedade comercial pela exclusão do sócio, Curitiba, Saraiva, 1 959, p . 1 5; D E RRUPPÉ,
no prefácio da obra de CAI LLAUD, L 'exclusion d'un associé dans les sociétés, Paris,
S irey, 1 966, p. V, e LATORRACA, Exclusão de sócios nas sociedades por quotas, São
Paulo, Saraiva, 1 979, p. 1 .
2 Permanece atual a ponderação de DALMARTELLO, L 'esclusione. . . , cit., p. V I I : "Consi­
derando, anche superficialmente, la nostra letteratura commerc i alistica, e facile
constatare che, mentre essa abbonda di monografie su tutti i possibili aspetti o momenti
dei fenomeno associativo, d i fetta, i nvece, e in modo assoluto, di uno studio organico
sull'istituto dell'esclusione dei soei. 1 temi prefereti daila ricerca monografica sono que Ili
- o rmai ampiamente esplorati - della cost i t u z i o n e, d ell'orga n i zzaz ione, dello
sciogli m ento, della l i q u i dazione, della fu s i o n e e dei fallimento della società.
Sull'esclusione, silenzio quasi assoluto: tutto si riduce ai pochi cenni dei commentari o
dei trattati, e a qualche rara nota di giurisprudenza". Na Itália, além da citada, duas
obras, de I N NOCENTI, L 'esclusione dei sacio, Padova, CEDAM, 1 956, e de PERRI NO,
Le tecniche di esclusione dei sacio dai/a società, Milano, Giuffre, 1 997. Na França, a
monografia única de CAILLAUD, L 'exclusion d'un associé. . . , citada. O mesmo na
Espanha, as obras de VILLAVERDE, La exclusión de socios: causas legales, Madrid,
Montecorvo, 1 977, embora a obra de L ENZANO e TREJO, Separación y exclusión de
socios en la sociedad de responsabilidad limitada, Pamplona, Aranzadi, 1 998, também
aborde o tema, mas não exclusivamente. Em Portugal, além da monografia de N U N ES,
O direito de exclusão de sócios nas sociedades comerciais, Coimbra, AI medi na, 1 968,
com recentes reimpressões no Brasil (São Paulo, Cultural Paulista, 2 00 1 ) e local (Coimbra,
Almedi na, 2002), somente a de LEITÃO, Pressupostos da exclusão de sócio nas socie­
dades comerciais, Lisboa, AAF D L, 1 989.
Mesmo no d i reito germânico, destacado pelo pionei rismo da d i sciplina do i n stituto em
textos legais, as duas primeiras monografias não cuidam com exclusividade da exclu­
são, abordando também do d i reito de retirada. São os trabalhos de KAH N, A ustritt und
A ussch/uss des Cesellschafters den offenen Handelsgesellschaft und die sich daraus
ergebenden rechtlichen Konsequenzen nach deutschem und schweizerischen Recht,
München, 1 929, e de SCHOLZ, AusschlieBung uns Austritt aus der CmbH, Koln,
Schmidt, 1 947. Só recentemente o tema mereceu maior atenção da doutrina, com as
obras de SOU F LEROS, Aussch/ie(/,ung und Abfindung eines CmbH-Cesellschafters,
Koln, Schmidt, 1 983; SPITZE, Der Aussch/u(I, eines CmbH-Cesellschafters aus wichtigem

25
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAS

forma bastante sintética e limitada3 •


Contrastando com a escassa literatura, proliferam inúmeros ca­
sos concretos, alguns decorrentes da falta de tratamento legal mais
preciso. A inadequada disciplina legal decorre, entre outros, da com­
plexidade do assunto4 e da impossibilidade de esgotamento das múl-

Crund bei Schweigen der Satzung, Berlin, Duncker und H umblot, 1 985; GRUNEWALD,
Der AusschluB aus Cesellschaft und Verein, Kõln, Berlin, Bonn, München, Heymann, 1 987;
REINISCH, DerAusschluss von Aktionaren aus der Aktiengesel/schaft, Kõln, Schmidt, 1 992,
e GEH RLEIN, AusschluB undAbfindung von CmbH-Cesellschafe t rn, Kõln, Schmidt, 1 997.
No Brasil, além da tese de REQU IÃO e do opúsculo de LATORRACA, mencionados na
nota acima, havia somente três obras que enfocam casos concretos, de autoria de
FARIA, Da exclusão de sócios nas sociedades de responsabilidade ilimitada, São Pau­
lo, Saraiva, 1 92 6, FERREIRA, A exclusão do sócio súdito do Eixo, São Paulo, Saraiva,
1 943, e orga nizada por P I N H E I RO N ETO & CIA. - ADVOGADOS, Exclusão de sócios:
prevalência do contrato, São Paulo, 1 9 75. No ú ltimo qüi nqüênio, além da c i tada
rei mpressão brasileira da tese de N U N ES, as obras de FONSECA, Dissolução parcial,
retirada e exclusão de sócio, São Paulo, Atlas, 2002; LOPES, Empresa & exclusão de
sócio: de acordo com o novo Código Civil, Curitiba, J u ruá, 2003 e PIMENTA, Exclusão
e retirada de sócios: conflitos societários e apuração de haveres no Código Civil e na lei
das sociedades anônimas, Belo Horizonte, Melhoramentos, 2004.
3 Como apontado por DALMARTELLO, L 'esclusione .. ., cit., p. VII, e REQU IÃO, A preser­
vação da sociedade .. ., cit., p. 1 5 . No Brasil, são exceções, com maior atenção ao tema
em suas obras, F E R R E I RA, Sociedades por quotas, 5ª ed., São Paulo, Monteiro Lobato,
1 92 5 , pp. 1 1 6-1 2 1 , Compêndio de Sociedades Mercantis 1: sociedades de pessôas, 2ª
ed., Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1 942, pp. 344-362, Tratado de Direito Comercial I l i ,
São Paulo, Saraiva, 1 961 , pp. 1 56- 1 65 , e LUCENA, Das sociedades por quotas de
responsabilidade limitada, 4ª ed., Rio de J aneiro, Renovar, 2 00 1 , pp. 5 95-665 .
4 A j u risprudência mencionada ao longo do trabalho, por si só, atesta as dificu ldades
concretas relativas à questão da exclusão de sócios e sua importância. Porém, a relevân­
cia e a complexidade do tema, tanto na parte doutrinária quanto na prática, também
podem ser i lustradas pelos vários pareceres sobre casos concretos, de autores que com­
põem o mais seleto e abalizado grupo da h i stória jurídica pátria, como Ruy BARBOSA,
VISCONDE DE OURO PRETO e Lafayette PEREIRA, reproduzidos por FARIA, Da exclu­
são de sócios .. ., cit., p. 39 e ss.; REALE, "A exclusão de sócios das sociedades mercan­
tis ... ", cit.; LEME, "Sociedade por quotas de responsabilidade limitada. Exclusão de sócio.
Situação da espôsa também quotista. Se deve acompanhar o marido. Formalidades a
serem o bservadas para a exclusão. Ação de dissolução de sociedade p roposta posterior­
mente pelos sócios excluídos", RT 379 (1 967), pp. 99-1 0 1 ; COMPARATO, "Sociedade
por quotas de responsabil idade limitada", RT 473 (1 975), pp. 3 3-41 ( "Exclusão de
=

sócio, independentemente de específica previsão legal ou contratual", i n Ensaios e pare­


ceres de direito empresarial, Rio de Janeiro, Forense, 1 978, pp. 1 3 1 -1 49); GOMES, MAR­
QU ES, M I RANDA, MONTEIRO, RODRIGUES e SODRÉ, transcritos em PINHEIRO NETO
& CIA. - ADVOGADOS, org., Exclusão de sócios: prevalência do contrato, cit., p. 1 1 1 e
seguintes; MARTINS, "A exclusão de sócio nas sociedades por quotas", RF 273 ( 1 9 8 1 ),
pp. 1 26-140 (= Direito societário: estudos e pareceres, Rio de Janeiro, Forense, 1 984, pp.
244-285), aos quais se pode acrescentar LEÃES, "Exclusão extrajudicial de sócio em
sociedades por quotas", ROM 1 00 (1 995), pp. 85-97.

26
R ENATO VENTURA RI BEIRO

tiplas hipóteses motivadoras de expulsão de sócio5 , conduzindo as


questões aos tribunais.
Os diversos problemas e a necessidade de soluções instigaram a
jurisprudência a estar, em algumas vezes, mais adiantada do que a
doutrina no exame da exclusão de sócios6 • Em outras, a pouca aten­
ção dos juristas reflete negativamente nos julgamentos, havendo ampla
disparidade entre as decisões7 • Mas, há casos nos quais o trabalho do
doutrinador influencia decisivamente na legislação e jurisprudência,
tanto pátria como em outros países8 •
Constata-se a importância daJattispecie nos vários casos concre­
tos, muitos transformados em julgados, nos quais a medida é aplica­
da como remédio para graves problemas das sociedades e utilizada
como forma de preservação da empresa, objeto central das atenções
do direito comercial hodierno e instituição fundamental na civiliza­
ção contemporânea9 •

5 Cf. BOLIN NO, " Le cause di esclusione ... ", cit., p. 3 76.
6 Cf. a observação de REQUIÃO, A preservação da sociedade. ., cit., p. 1 6: "Causa impres­
.

são, e não a disfarçamos no decorrer destas páginas, a circunstância de ter a jurisprudência


de nossos tribunais avançado largos passos à frente da doutrina, no que se refere à exclusão
do sócio, no sentido preservativo da sociedade. Nossos doutrinadores se mantiveram esta­
cionários, enquanto os tribunais, em longas passadas, tanto quanto pode a cautela que os
caracteriza, vêm delineando os modernos contornos do instituto, quebrando certos pre­
conceitos e conquistando horizontes na elaboração de novas soluções".
7 Para REALE, "A exclusão de sócios das sociedades mercantis . . . ", cit., p. 459, a falta de
um estudo doutrinário mais aprofundado provoca "vaci l ação dos ju lgados e certa i m­
precisão em situar os casos concretos, por natu reza variáveis, com esse m ín i mo de
precisão técnica indispensável à vida jurídica e à garantia dos negócios humanos".
Mesmo assim, como pondera REQU IÃO, A preservação , cit., p. 1 6, a jurisprudência
...

consegue ficar adiante da doutrin a em alguns casos.


8 A título exempl ificativo, a tese de N U NES, O direito de exclusão . . , cit., cuja apresenta­
.

ção da rei mpre'Ssão brasileira (São Paulo, Cultural Pau l i sta, 2 00 1 ) destaca a i nfluencia
d a obra n a legislação, doutri n a e jurisprudênci a portuguesas (pp. 8-1 1 ) e no d i reito
brasileiro (pp. 1 2- 1 3).
9 Cf., por todos, COMPARATO, "A reforma da empresa", ROM 50 ( 1 983), pp. 5 7-74, à p.
5 7 (= Direito Empresarial: estudos e pareceres, São Paulo, Saraiva, 1 990, pp. 3-26). Às
observações do mestre, publicadas em 1 983, soma-se a posterior falência do modelo
de Estado Social, com a frag i l idade dos Estados e processos de p rivatizações e
desregulamentações, acentuando a i nda mais o poder econômico das empresas e trans­
formando-as no principal agente econômico do mundo hodierno. Se isto é benéfico ou
maléfico, dependerá dos rumos do Estado e do próprio d i reito comerc i a l .

27
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANôNIMAS

A doutrina é essencial para interpretação dos textos legais e ori­


entação da jurisprudência na aplicação da lei. O elevado interesse
prático, a amplitude, complexidade, importância e riqueza do tema,
acrescidos da necessidade de abordagem atual, considerando as trans­
formações na estrutura e conceito jurídico das sociedades, a dissoci­
ação das figuras da sociedade e empresa e a nova realidade
econômico-social, por si só, justificam várias monografias.
É certo que a exclusão de sócio não é assunto dos mais fáceis. Cuida­
se de questão considerada patológica na vida das sociedades, na qual estão
em jogo a empresa e variados ipteresses. Na órbita jurídica, a "elegante
questão de direito", que torna o tema fascinante, apresenta o conflito
entre, no mínimo, dois valores a serem conciliados10 : os direitos indivi­
duais dos sócios e os direitos da sociedade e dos beneficiários da atividade
empresarial. A eles pode-se acrescentar o interesse dos credores.
Não obstante a pouca atenção ao tema da exclusão nas socieda­
des contratuais, o presente trabalho trata de questão ainda mais com­
plexa e menos explorada, mas de grande relevância, a exclusão de
sócios nas sociedades anônimas11 O estudo exclusivo da exclusão

nas sociedades anônimas justifica-se em função de suas particulari­


dades, como a hipótese específica de grupamento de ações e a técni­
ca do resgate de ações.
As monografias sobre exclusão de sócio cuidam da sua aplica­
ção nas diversas sociedades, principalmente nas contratuais. Afora a
escassez a doutrinária sobre exclusão nas companhias, a maioria das
legislações limita-se a disciplinar a hipótese de falta de integraliza­
ção do capital social.

1O Cf. SASTRE, "Exclusión de un accionista de sociedad anónima", RDP 59 ( 1 975), pp.


473-490, p. 474.
11 Cf. DERRU PPÉ, no prefácio d a obra de CAI L LAUD, L 'exclusion d'un associé. . . , cit., p.
V e SASTRE, "Exclusión de u n accionista ... ", cit., à p. 473. P E R R I NO, Le tecniche . ,
..

cit., p. 75, registra que os autores sempre estiveram mais preocupados com a excl usão
de sócios nas sociedades contratuais.

28
R ENATO VENTURA RIBEIRO

No entanto, o Direito deve acompanhar a realidade. É antigo o


reconhecimento do vínculo intuituspersonae nas sociedades anônimas12•
Atualmente, há uma tendência globalizada de aumento do número de

12 N a França, entre outros, MAZEAUD, Le vote privilégié dans les sociétés de capitaux,
Paris, Dalloz, 1 924, pp. 236-252; BOU RCART, "De l'intuitus personae dans les sociétés",
JS 48 ( 1 927), 9-1 0, pp. 5 1 3-557, à p. 5 1 9 e ss.; CAMERLYNCK, De /'intuitus personae
dans la société anonyme, Paris, A. Pédone Éditeur, 1 929, pp. 1 76-1 77; J EANDEL, L 'intuitus
personae dans les sociétés commerciales, tese, Nancy, 1 932; G I RARD, Le rapprochment
des diverses sociétés: transmissibilité des parts sociales, tese, Grenoble, 1 93 7; VALEUR,
L 'i ntuitus personae dans les sociétés commerciales, tese, Paris, 1 93 8; SIGAUT, Les deux
sortes de société anonyme: la société privée et la société faisant appel à /'épargne publi­
que, tese, Grenoble, 1 942; CAILLAUD, L 'exclusion. .. , cit., p. 253; CACHIA, "Le déc l i n
de I' anonymat dans les sociétés par actions", i n Études offertes à Pierre Kayser 1, Marsei \ \e,
P U F d 'Aix, 1 979, pp. 2 1 3-224; LAMETHE, "L"'intuitu personae" des sociétés anonymes
(Les clauses statutaires d'admission et d'exclusion"), CP99 ( 1 979), pp. 262-265; H ELOT,
"La place de l'i ntuitus personae dans le société de capitaux", i n Recuei/ Dalloz Sirey de
Doctrine de jurisprudence et de législation, 1 99 1 , pp. 1 43-1 44; PASCUAL, "La personne
physique dans le droit des sociétés", RTDComm. 5 1 ( 1 998), 2, p. 276; GODON, Les
obligations des associés, Paris, Economica, 1 999, pp. 1 26 e 2 1 3, e MORIN, "lntuitus
personae et sociétés cotées", RTDComm 53 (2000), 2, pp. 299-326. No d i reito alemão,
são conhecidas como "sociedades de capitais personalísticas", sendo destacadas nas
obras de HOFMANN, "Die personalistische Kapitalgesellschaft", ZHR 1 3 7 ( 1 973), pp.
4 1 0-426; F R I EDEWALD, Die personalistische Aktiengesellschaft, Kõl n , Berl i n , Bonn,
M ü nchen, Heymann, 1 99 1 . IMMÇNGA, Die personalistische Kapitalgesellschaft, Bad
Hamburg, Atheneum, 1 970, em estudo comparativo com as dose corporations america­
nas, reconhece o vínculo intuitus personae em sociedades por cotas de responsabilidade
limitada, tidas como sociedades de capitais na Alemanha.
No Brasil, há mais de meio século, ASCARELLI, Problemas das sociedades anônimas e
direito comparado, 2ª ed., São Paulo, Saraiva, 1 969, p. 345, indiretamente admite a exis­
tência de sociedades anônimas com traços personalísticos. Mas é COMPARATO, "A natu­
reza da sociedade anônima e a questão da derrogabi lidade das regras legais de quorum
nas assembléias gerais e reuniões do conselho de administração", Novos ensaios e parece­
res de direito empresarial, Rio de Janeiro, Forense, 1 981 , pp. 1 1 6- 1 3 1 , à p. 1 20, quem
destaca a existência do vínculo intuitus personae nas companhias, por ele chamadas de
"sociedades de anônimas de pessoas" em outro trabalho, "Restrições à circulação de ações
em companhia fechada: nova et vetera", ROM 36 (1 979), pp. 65-76, à p. 65 ( Novos =

ensaios e pareceres. .. , cit, pp. 32-5 1 , à p. 33). Na jurisprudência, admitindo relação intuitus
personae em sociedade anônima, cf., por todos, REsp. 1 1 1 .294, 4ª T., rei. Min. Barros
Monteiro, rei. para o acórdão Min. César Asfor Rocha, j. 1 9.9.00, DJU 28.5.01 .
Alguns autores confundem as sociedades anônimas intuitus personae com companhias
fechadas ou fami l iares, como REQU IÃO, Curso de direito comercial l i, 20ª ed., São Pau­
lo, Saraiva, 1 995, pp. 28-29, para quem todas as companhias fechadas tem caráter intuitus
personae, pela facu ldade de restrição à c i rculação de ações prevista em lei. Já AZEVE­
DO, Dissociação da sociedade mercantil, São Paulo, Resenha U niversitária, 1 975, p.
1 37, e CARVALHOSA, Comentários à lei das sociedades anônimas: Lei n. 6. 404, de 75
de dezembro de 1 976, São Paulo, Saraiva, 1 997, 4 vais., 1, p. 265, associam o caráter
intuitus personae com sociedade fami l iar ou fechada. Porém, somente aquelas cujos
estatutos l imitam a transferência de ações devem ser consideradas personalistas, como
será exposto na Parte 1 , itens 2.4 . 1 , 3 . 1 , 3.2 e 3 . 3 . 1 .

29
ExcLUSÃO DE Sócios NAS Soc1EDADES ANôNIMAS

companhias personalistas, com reflexos na área jurídica13• Por di­


versos motivos (cf. Parte I, 2.3, abaixo), empresários estão cada vez
mais optando pela forma de sociedade anônima em lugar das soci­
edades por quotas de responsabilidade limitada. Em geral, socieda­
des de pequeno e médio porte, com traços personalistas.
Reconhecendo a crescente utilização das sociedades anônimas
para exercício de pequenas e médias empresas, vários países editar
regras específicas, com feições personalistas.
No Japão, ao final da década de oitenta, o número de sociedades
anônimas era bem próximo do número de sociedades por quotas de
responsabilidade limitada, sendo que noventa por cento das compa­
nhias eram empresas de pequeno e médio porte. Na reforma da lei
das sociedades anônimas, em 1990, o legislador tentou estabelecer
critérios para que somente permanecessem como companhias em­
presas de grande porte. No entanto, cedeu aos fatos e fixou regras
específicas às pequenas e médias companhias14 •
Na França, segundo estimativa, dois terços das sociedades anônimas
seriam empresas baseadas no trabalho pessoal do sócio15 . Em 1. 994 tem­
se a criação da sociétépars actions simplifiée (Lei 94-1, de 3 .1. 94)16 , inclusive
com a previsão legal de hipóteses de exclusão de acionista no estatuto17 •

13 LAMY F I L HO e P E D R E I RA, A Lei das S.A., Rio de Janeiro, Renovar, 1 992, p. 5 2 3 , não
só reconhecem o intuitus personae em sociedades de capital como fenômeno em "re­
levância crescente", como acrescentam: " E tal circunstância tem levado juristas, tribu­
nais e legisladores, em todas as latitudes - inclusive no Bras i l - a desprezarem, em
n umerosas hipóteses, a aparência formal da pessoa j urídica para buscarem surpreen­
der a real i dade que oculta, ou pretende ocultar".
14 Sobre a reforma d a lei das sociedades anônimas no Japão e a s particulares locais,
M I YAJIMA, "A nova lei japonesa das sociedades anônimas", ROM �2 ( 1 99 1 ), pp. 80-94.
15 Cf. CHAMPAUD, "L'entreprise personelle à responsabi l ité l i mitée", RTOCo. 3 2 ( 1 979),
pp. 5 79-636, às pp. 594-5.
16 Para uma rápida visão, cf. R E I NHARD, "Société par actions simplifiée", RTOCo. 47
( 1 994), pp. 3 00-306. Enfocando o caráter intuitus personae da sociedade por ações
simpl ificada, R E I N HARD, idem, pp. 3 04-306; HONORAT, "La société par actions
simplifiée ou la résurgence de l'élément contractuel en droit français des sociétés, Petites
Affiches, 1 996, n . 99, 4 e 1 00, 4.
17 Cf. art. 262- 1 7 da lei das sociedades de 1 966.

30
R ENATO VENTURA RIBEIRO

No mesmo ano, a Alemanha, cujo modelar lei do anonimato ba­


seia-se num tipo ideal de macrocompanhia voltada para captação de
recursos do público18 , edita a lei das pequenas sociedades anônimas (kleine
Aktiengesellschaft). Antes, estimava-se que entre dez a quinze por cento
das companhias podem ser consideradas personalistas19 , percentual que
hoje deve ser maior em razão da simplificação das regras. Sem confim­
dir companhia fechada com personalíssima, apenas 700 sociedades anô­
nimas de um total de 4.200 são cotadas em bolsa20 • Outros países
seguem o mesmo caminho, como Áustria, Suíça21 , Itália e Espanha.
Naturalmente, o reconhecimento legal da nova caracterização e
sua não significa acerto da medida22 , mas desperta a necessidade de
análise da questão, buscando os fundamentos teóricos e examinando
sua prática23 •
Por outro lado, como será demonstrado, o intuituspersonae pode
estar presente mesmo em sociedades de capital aberto (cf. Parte I,
3 .1 e 3 .2, abaixo).
Indubitavelmente, a sociedade anônima intuitus personae é uma
realidade e deve ser objeto de estudo. Diante do caráter personalista
de várias companhias, é possível exclusão de acionistas por motivos
outros que não a previsão legal de falta de integralização das ações24 •

18 Cf., por todos, F R I E D EWALD, Die personalistische Aktiengesellschaft, cit., p. 3.


19 Cf. F R I E D EWALD, Die personalistische Aktiengesellschaft, cit., p. 1 0, nota n. 8.
20 Cf. BAUMS, " l i sistema d i "corporate governance" i n Germania e d i suai recenti svi luppi",
Riv. Soe. 44 ( 1 999), pp. 1 - 1 9, à p. 2.
21 Cf. P E R R I NO, L e tecniche.. . , cit., p . 49, nota n . 96, com indicação bibliográfica. Sobre
a situação na S u íça, em especial a d i scip l in a legal das companhias persona l i stas,
F R I E D EWALD, Die personalistische Aktiengesellschaft, cit., p. 27 e ss.
22 C o m o d i to p o r H E N S S L E R, " D i e R e c ht s a n w a lt s -G m b H -Z u l as s i g k e i t u n d
Satzungserfordernisse", ZHR 1 61 ( 1 997), pp. 305-3 3 1 , à p . 3 3 1 : " D as Gesetz bringt
mancherlei Gutes und Neues; ach, ware das Gute doch neu und das Neue nur gut.".
23 N o mes�o sentido, e m relação a o reconhecimento legal das sociedades u n ipessoais,
SALOMAO F I LHO, A sociedade unipessoaf, São Paulo, Malheiros, 1 995, p. 1 1 .
24 N a Alemanha, em 1 90 1 , j á houve d iscussão judicial sobre a exclusão de acionista
(RGZ 49/77). Uma resenha dos casos de exclusão de acionistas n a Alemanha é encon­
trada em G R U N EWALD, Der A usschfuf5..., cit., pp. 5 0 - 5 7 , que também cita, à p. 5 2 ,

31
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAS

nota 1 1 1 , autores e decisões em sentido contrário. Entre as obras alemãs que defendem
a exclusão nas companhias, cf. em especi a l, SPITZE, DerAusschlu!L,cit., p. 5 1 ; BECKER,
"Der Ausschlu& aus der Aktiengesel lschaft", ZCR 1 5 ( 1 986), p. 383 e ss.; R E I NISCH,
Der A usschluss. . ., cit., e B E I SSWI N G E RT, Oie franzosische société anonyme ais
Familiengesel/schaft, tese, Regensburg, 1 997, pp. 63-66. Na França, há ju lgados deci­
d indo pela exclusão de acionista em 1 9 1 2 US, 1 9 1 3, p. 23) e 1 974 (RTOCo, 1 974, p.
29), com boa parte d a doutrina admiti ndo a exclusão de sócio nas sociedades anôni­
m a s, destacando-se BOU RCART, " De l ' i ntuitus personae . . . " , c it., pp. 5 1 8-5 2 4;
L E PA R G N E U R, " L'exclusion d'un associé'', JS, 1 928, pp. 2 5 7-276, à pp. 2 73 -2 75;
D E B E N E ST, La retraite volontaire et forcée des associés dans les sociétés à capital
variable, tese, Poitiers, 1 93 3 , pp. 96-97 e p. 1 1 7; R E N A U D, " D e l'exclusion de
l'act i o n n a i re d a n s les sociétés anonymes", Rev. Soe., 1 936, p. 1 49; CAI L LA U D,
L 'exclusion . ., cit., p. 1 70 e ss., BRANCH UT, Les abus de minorité dans la société
.

anonyme, tese Paris li, Paris, 1 974, pp. 2 79-2 8 1 , LAMETHE, " L"'i ntuitu personae" des
sociétés anonymes ... ", p. 264, e H ELOT "La place de l'i ntuitus personae ... ", c i t., p. 1 44.
N a doutrin a portuguesa, cf. LEITÃO, Pressupostos.. ., cit., p. 46.
Enquanto as doutri nas alemã e francesa, como apontado acima, aceitam com maior
ampl itude a exclusão de sócios nas companhias, a doutrina espanhola é a menos avan­
çada, com muitos autores admitindo a medida apenas no caso de acionista remisso,
i nc lusive de prestações acessórias (cf. VILLAVERDE, La exclusión.. ., cit., pp. 244- 2 5 5 e
L E NZANO e TREJO, Separación y exclusión .. ., cit., p. 2 7 e autores por eles menciona­
dos, à nota 2 7). Uma exceção - e mesmo assim prevendo algumas poucas h ipóteses de
exclusão de sócios nas sociedades anôn imas - é SASTRE, "Exclusión de u n accioni sta
de sociedad anónima", RDP 59 ( 1 975), pp. 473-490 (ju nio) e pp. 589-600 (ju l io/agos­
to). Os opositores da maior extensão de h i póteses de exclusão nas companh i as alegam
as características peculiares da forma societária, na qual a obrigação fundamental dos
sócios é o aporte de recursos e a idéia do capital social como garantia dos credores,
razão pela qual se deve evitar sua redução (cf., por todos, L E NZANO e TREJO, idem,
pp. 2 7-28). No entanto, como está demonstrado nesta I ntrodução e na Parte 1, é cada
vez maior o reconhecimento de intuitus personae nas sociedades anônimas, o que
i mplica maior número de casos de exclusão de sócios. Por outro lado, os próprios
adversários da tese reconhecem que a exclusão de sócio em sociedades capita l istas
não afeta a função do capital social, embora entendam que a perda de garantia dos
credores possa afetar o processo de exclusão (LENZANO e TREJO, idem, p . 1 73; para
maiores detalhes, ver também pp. 1 72-1 93). Ademais, a proteção aos credores, através
da garantia do capital social, é feita por outras formas legalmente estabelecidas. E as­
sim como não impede o exercício de d i reito de retirada não deve i l idir a possibi l idade
de exclusão de sócios. Por fim, como a exclusão do acionista objetiva a preservação da
empresa, o afastamento de sócios que a prejudicam é uma das formas mais eficazes de
garantia dos credores, através da defesa da manutenção da atividade.
No Brasi l, poucos registros isolados, como passagem de AZEVEDO, Dissociação .. .,
cit., p . 1 42 e um breve artigo de P I NTO J Ú NIOR, "Exclusão de acionista", ROM 54
( 1 984), pp. 83-89. Destaque-se a observação de COMPARATO, "Exclusão de sócio nas
sociedades por cotas de responsabil idade l i mitada", ROM 2 5 ( 1 977), pp. 39-48, à p .
4 3 , manifestando-se favorável à adoção da medida n a s companhias: "Deixo de l ado a
sociedade anônima, embora seja um tema fasci nante, pouco tratado, e, certamente, da
maior importância saber se é possível ou não a exclusão de acionistas, isso porque há,
certamente, casos em que o abuso do d i reito de voto, a disc i p l i na do abuso, a suspen­
são do exercício de d i reitos na sociedade não são remédios adequados para prejuízos
extremos que possa causar o acionista dentro do mecanismo da sociedade anônima''.
Em apoio, L U CENA, Das sociedades por quotas .. ., cit., p. 604: "Mas, em verdade,
pouco estudado, o tema da exclusão de acionista conti nua em aberto. Que o tema é d a

32
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Vê-se, portanto, que a abordagem do tema exige ampla visão


teórica, com exame um pouco mais minucioso da doutrina, mas sem­
pre com os olhos voltados à realidade do mundo negocial, particular­
mente às relações entre os sócios e à preservação da empresa. O
trabalho será dogmático, com utilização de raciocínios dedutivo e
indutivo, conforme o caso, além da análise funcional das sociedades e
da exclusão de sócio.
São analisadas as transformações sofridas pelo instituto e verifi­
cados alguns dos principais problemas práticos ocasionados na apli­
cação das legislações. Mais do que enumerar hipóteses de exclusão,
também será feita uma análise funcional da exclusão de sócio.
A amplitude do assunto é tamanha que um caso ou problema
isolado não devem ser estudados isoladamente. Por outro lado, há
que se conjugar as diversas situações fáticas com enquadramento ju­
rídico com normas abstratas e genéricas, o que se torna bastante di­
fícil em tema de exclusão de sócio, dada a enorme variedade dos casos.
Discute-se a impossibilidade de uma sistematização unitária da ex­
clusão de sócios do ponto de vista estrutural, dada a sua heterogenei­
dade25 , o que é possível somente do ponto de vista funcional26 . Por
isto, o tema será enfocado sob um duplo prisma: dogmático, tratan­
do dos fundamentos e princípios do instituto, e funcional, objetivan­
do o alcance do escopo da medida27 .
Em razão do exposto acima, em relação às companhias intuitus
personae, na Primeira Parte, o presente trabalho aborda a nova configu-

maior importância ressaltou-o Comparato ... ". Recentemente, com referências aos refe­
ridos trabalhos de COMPARATO e PI NTO J R., admitem a exclusão de sócios nas com­
panhias LOPES, Empresa & exclusão .. , cit., pp. 1 3 6-1 38, e PIMENTA, Exclusão e reti­
.

rada de sócios ... , cit., pp. 1 3 1 -1 57. Cf. ainda COSTA, "A d i ssolução de sociedade co­
mercial composta de dois sócios", in LIMA (Coord.), Atualidades}urfdicas, vol. 3, Belo
Horizonte, Dei Rey, 1 993, pp. 35 7-380, à p. 3 74.
25 Cf. P E R R INO, Le tecniche.. , cit., Parte 1 .
.

26 Idem, p. 5 8 .
27 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . ., cit., p . 3 8 .

33
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANôNIMAs

ração assumida pelas sociedades anônimas. Procura-se romper o mode­


lo da distinção doutrinária entre sociedades de pessoas e de capitais e a
identificação atual, tanto pela lei brasileira do anonimato como pela dou­
trina, das companhias como sociedades de capitais e voltadas às macro­
empresas. Após, segue-se a caracterização das companhias intuituspersonae,
seus elementos e sua natureza jurídica, para concluir pela possibilidade
de vínculo pessoal inclusive em sociedades de capital aberto.
A Segunda Parte pretende identificar o conceito e os fundamen­
tos da exclusão, para aplicação da medida nas sociedades anônimas.
Por fim, na Terceira Parte, desenvolve-se estudo sobre a exclu­
são nas companhias, sej am intuituspersonae ou intuituspecuniae, sen­
do tripartite, para abranger suas causas, procedimentos e efeitos28 •

Trata-se, portanto, de tese específica, ao cuidar da exclusão de


sócios apenas nas sociedades anônimas, e concomitantemente, pa­
norâmica, ao desenvolver e sistematizar variados aspectos da questão
central. A abordagem panorâmica do tema explica o tratamento su­
perficial de diversas questões. A obra é incompleta. Porém, seu obje­
tivo não é o esgotamento do tema, mas o início da discussão. A
sistematização da matéria pioneiramente no direito brasileiro justi­
fica a abordagem panorâmica, superficial e inacabada. Só diversas
monografias sobre questões específicas são capazes de enriquecer os
diferentes tópicos abordados.
As referências ao direito comparado, no tempo e espaço, e à
exclusão de sócio em sociedades contratuais tem por escopo a busca
de subsídios para desenvolvimento da sistematização da aplicação do
instituto nas companhias. Mesmo assim, em razão dos limites do
presente trabalho, autor traz apenas uma visão geral do direito com­
parado, o que explica a ausência de algumas referências e análises
mais aprofundadas de diversas obras.

28 Cf. V I L LAVE RDE, La exclusión . . , cit.; PERRINO, Le tecniche , cit., p. 1 4 .


. ...

34
RENATO VENTURA RI BEIRO

No direito comparado, são incluídos os direitos alemão e espa­


nhol, pelo pioneirismo no tratamento da matéria; o francês, no qual
houve certa rejeição ao instituto; o direito italiano, que serviu de base
de grande parte do desenvolvimento teórico e o português, cuja le­
gislação cuida de forma atualizada da exclusão de sócio.
Apesar das múltiplas referências à exclusão de sócio, próprias do
exame da matéria, a medida é extrema e só deve ser adotada na falta
em situações-limite, para evitar danos à eficiência e preservação da
empresa.
Com isto, a presente obra procura objetiva fornecer contribui­
ção ao estudo do tema de exclusão de sócios nas sociedades em geral,
razão de algumas abordagens e extensão por questões secundárias. E,
em relação às companhias, despertar a discussão para tão rico, inte­
ressante e importante assunto, para orientação na solução de diver­
sos problemas concretos no cotidiano da vida empresarial.

35
Parte 1 - Aspectos das
Sociedades Anônimas
Personalistas
R ENATO VENTURA RIBEIRO

PARTE 1 - ASPECTOS DAS SOCIEDADES ANÔN IMAS


PERSONALISTAS

O tema das sociedades anommas personalistas é complexo e


comporta várias monografias29 • Os limites do presente trabalho não
comportam exame pormenorizado e exaustivo da matéria. Pretende­
se apresentar o conceito de companhia intuituspersonae adotado, haja
vista diversidade doutrinária a respeito30 , bem como as premissas para
o desenvolvimento do tema de exclusão de acionistas.

CAPiTU LO 1 : LJMA NOVA CLASSIFICAÇÃO DAS SOCIEDADES


COMERCIAIS31

1 . PROBLEMAS DA DICOTOMIA SOCIEDADE DE PESSOAS E


SOCIEDADE DE CAPITAIS

A distinção entre sociedade de pessoas e de capitais é alvo


de críticas quanto à sua utilidade32 , racionalidade33 e inexati-

29 A exemplo das mencionadas obras de CAMERLYNCK, De /lntuitus ... ; IMMENGA, Die


personalistische Kapitalgesellschaft e FRIEDEWALD, Die personalistische Kapitalgesellschaft.
30 Para uma visão geral dos elementos personal istas, cf. IMMENGA, Die personalistische
Kapita lgesellschaft, c i t . , p. 72 e s s . ; F R I E D EWA L D , Die persona listische
Kapitalgesellschaft, cit., p. 4 e ss., p. 1 4 e ss.
31 A uti l idade das c l assificações a seguir consiste em faci l itar a compreensão d a proble­
mática a ser estudada, para alcance dos objetivos pretendidos no presente trabalho.
Não se descuida da finalidade prática e didática e muito menos pretende-se uma dis­
puta c lassificatória, evitando-se, assim, os i nconvenientes apontados por CARRI Ó , Notas
sobre Derecho y lenguage, 3ª ed., Buenos Aires, Abeledo-Perrot, 1 986, pp. 99-1 00.
32 Alguns autores não vislumbram utilidade na classificação, como CANIZARES e AZTRIA,
Tratado de sociedades de responsabilidade limitada en derecho argentino y compara­
do 1, Buenos Aires, Argenti na, 1 950, pp. 20-2 1 ; BORGES, Curso de direito comercial
terrestre, 5a ed., Rio de Janeiro, Forense, 1 99 1 , p. 292; A BRAÃO, Sociedades por quo­
tas de responsabilidade limitada, 5a ed., São Paulo, Saraiva, 1 995, p. 44.
33 M E N DONÇA, Tratado de Direito Comercial Brasileiro I l i , 4ª ed., São Paulo, Freitas
Bastos, 1 945, p. 62, considera-a i lógica, por confundir a sociedade com os sócios. Para

39
ExnusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔN IMAS

dão34 . Não prosperam os ataques em relação à sua utilidade, pelo


auxílio na interpretação de normas legais e contratuais em casos con­
cretos35 , por seu valor didático36 e adoção na legislação37 .
No mais, apresenta dificuldades, a começar pela terminologia.
Nas chamadas sociedades de pessoas também há uma contribuição
pecuniária ou em algo equivalente, pois todo sócio deve contribuir
para o capital social38 • E qualquer sociedade de capitais é constitu­
ída por, no mínimo, uma pessoa, não sendo associação de capitais,
mas de sócios capitalistas. Em suma, não há sociedade sem pessoa
e capital39• Por isto, a inclusão da sociedade em uma ou outra es­
pécie leva em conta o predomínio da importância da figura do sócio
ou de sua contribuição na formação do capital4º .

TEIXEIRA, Das sociedades por quotas de responsabilidade limitada, São Paulo, L i monad,
1 956, p. 24, é um critério "falho, i lógico e i nócuo".
34 O questionamento é antigo. Para MANARA, Trattato teorico-pratico: Dei/e società e dei/e
associazione commerciale 1 , Torino, Torinese, 1 902, p. 441 , a d istinção diz bem pouco,
sendo "una locuzione figurata, metaforica". Para VIVANTE, Tratatto di diritto commerciale
li: Le società commerciali, 5ª ed., M i l ano, Vallardi, 1 923, p. 84, é "piu bri lhante che
sol ida''. RIPERT e ROBLOT, Traité de droit commercial 1, 1 S a ed., Paris, LGDJ, 1 993, pp.
584-585, demonstram a fragil idade da d ivisão, afirmando a possibilidade de transmissão
de partes na sociedade de pessoas e de restrição à ai ienação nas sociedades de capitais.
Para CAI LLAUD, L 'exclusion .. , cit., p. 96, a c lassificação perde seu caráter absoluto.
35 CRISTIANO, Sociedade limitada no Brasil, São Paulo, Malheiros, 1 998, p. 30, vê sentido lógico
e prático, "em determinadas hipóteses de lacuna legislativa ou de falta de clareza, para que o
intérprete possa definir com alguma segurança qual a legislação aplicável a certo tipo societário,
e qual a não aplicável". No mesmo sentido, ESTRELLA, Apuração dos haveres de sócio, 2ª ed.,
Rio de Janeiro, Forense, 1 992, p. 30, e LUCENA, Das sociedades por quotas.. ., cit., pp. 46-47.
36 Cf. FRANCO, "O triste fimdas sociedades limitadas no novo Código Civi l", ROM 1 23 (2001 ),
pp. 8 1 -85, à p. 85, nota 1 5 : "A visão da estrutura e da origem de um e de outro modelo
acionário, todavia, ordena que se mantenha a d istinção''.
37 Cf. Decreto-lei n. 852, de 1 1 de novembro de 1 938, art. 7º; Decreto-lei n. 1 .968, de 1 7 de janeiro
de 1 940, n. 1 4; Decreto n. 22.239, de 1 9 de dezembro de 1 932, art. 2º; Lei n. 5.764/7 1 , art. 4º.
38 A contribuição pode ser em d i nheiro, bens ou trabalho. Atualmente a contribuição
exclusiva em serviços só é possível nas sociedades simples (Código Civil, art. 997, V e
1 .006). No Código Comercial de 1 850, o revogado art. 287 também previa a tríplice
possibil idade d e contribuição, sendo a ú ltima forma aplicável somente ao sócio de
indústria nas sociedades de capital e indústria (arts. 3 1 7 e 32 1 , revogados).
39 Sobre intuitus personae nas sociedades de capitais e intuitus pecuniae nas sociedades
de pessoas, vide a anál ise de MAZEAUD, Le vote . ., c i t., pp. 232-260.
.

40 Cf. BORGES, Curso .. ., cit., p. 292: "É evidente que sendo presentes em qualquer socieda­
de os dois elementos, capital e pessoas, a inclusão de uma sociedade nesta ou naquela
classe dependerá d a predominância de um sobre o outro elemento''.

40
RENATO VENTURA RIBEIRO

1 . 1 . f ALTA DE U N I DADE DE CRITÉRIO DISTI NTIVO. A LIVRE


CESSIBILIDADE DA PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA COMO
ELEMENTO DIFERENCIADOR E SUAS LIMITAÇÕES

O maior problema é o estabelecimento de critério divisor entre


ambas as categorias. Não se pode ter por base a participação e contri­
buição do sócio em razão de suas qualidades pessoais ou a indiferen­
ça em relação à sua pessoa, pois mesmo nas sociedades classificadas
como de pessoas, sócios contribuem apenas com dinheiro ou bens,
como os comanditários nas sociedades em comandita simples e os
ocultos nas sociedades em conta de participação. E nas sociedades
anônimas os estatutos podem estabelecer obrigações pessoais dos
sócios41•
Tampouco serve de elemento distintivo a garantia aos credores,
pela responsabilidade ilimitada de um ou mais sócios42 • Se a limita­
ção ou não da responsabilidade é um parâmetro para análise das rela­
ções externas da sociedade, não explica as internas, pois em algumas
formas de sociedade parte dos sócios tem responsabilidade limitada
e outra parte, ilimitada. E nas sociedades com responsabilidade limi­
tada, por quotas ou anônimas, pode ser relevante a figura do sócio.

41 Cf. a advertência de COMPARATO, "Exclusão de sócio n a s sociedades p o r cotas . . . " ,


cit., p . 4 1 : "Obrigações acessórias essas que, d iga-se entre parêntesis, podem existir até
mesmo nas sociedades por ações, embora isso seja muito pouco sabido e explorado."
A respeito das prestações acessórias nas sociedades anônimas, vide n . 3 . 1 . 2 abaixo.
42 Como defendem, entre outros, MEN DONÇA, Tratado..., cit., p. 60, com base n a garan­
tia dos bens pessoais dos sócios. FERREIRA, Tratado de direito comercial 1 1 1 , São Paulo,
Saraiva, 1 96 1 , pp. 2 1 7-2 1 8, fala em solidariedade dos sócios. MACHADO, Ensaio so­
bre a sociedade de responsabilidade limitada, São Paulo, tese, 1 940, pp. 95-1 03, p. 97,
e Problemas de direito mercantil, São Paulo, Limonad, 1 970, pp. 1 63-1 8 1 , em especi­
a l , p. 1 7 6 , p ro p õ e a c l a s s i f i c aç ã o d a s s o c i e d a d e s segu n d o d o i s c r i t é r i o s
concomitantemente: contribuição patrimonial o u pessoal . De acordo com o primeiro,
a sociedade pode ser l i m itada (por ações ou por quotas) e, pelo segundo, máxima a
m ín i ma . Embora consiga diferenciar todas as sociedades com a apl icação simu ltânea
de ambos os critérios (Problemas. .., cit., pp. 1 79- 1 8 1 ) , a solução tem o grave defeito de
enquadrar as sociedades com duas categorias de sócios (diferentes quanto à contribui­
ção pessoal ou responsabi l idade) em duas espécies. Parece serv i r mais para d isti nção
dos sócios do que das sociedades. Além d i sto, ambos os c ritérios uti l izados são
questionáveis, como exposto no texto principal.

41
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÓNIMAS

Outros critérios também não servem de distinção, como o da


administração pessoal pelos sócios nas sociedades de pessoas e orgâ­
nica nas sociedades de capitais, com a participação de terceiros, pois
pode haver gerência delegada a terceiros nas sociedades de pessoas.
Menos ainda a diferenciação com base no trabalho de execução e
direção, com os sócios gestores exercendo direta e pessoalmente a
atividade nas sociedades de pessoas, cabendo aos administradores de
sociedades de capitais a direção, sendo a atividade desenvolvida por
terceiros, pois principalmente nas pequenas sociedades anônimas os
administradores atuam efetivamente na execução do trabalho.
Nem a necessidade ou não de alteração do ato constitutivo da
sociedade no caso de transmissão da participação social, confundin­
do-se as sociedades contratuais como de pessoas e as estatutárias como
de capitais. Uma sociedade limitada pode ter forte característica in­
tuitus pecuniae, mas a transferência de suas quotas exige alteração do
ato constitutivo. Na Alemanha e na Itália as sociedades por quotas
de responsabilidade limitada são contratuais e de capitais. Na socie­
dade anônima, mesmo havendo restrição à cessibilidade de ações,
indicando a importância da pessoa do sócio, não há necessidade de
alteração estatutária no caso de transferência acionária.
Em geral, pela relevância da figura do sócio nas sociedades de
pessoas, o ingresso de novo sócio está sujeito à concordância dos de­
mais, enquanto nas sociedades de capitais, em razão do intuitus pecu­
niae, há o princípio da livre cessibilidade da participação acionária. A
importância ou não da figura do sócio implica na anuência ou não
dos demais à entrada de outros membros da sociedade. Por isto, o
traço distintivo da dicotomia sociedade de pessoas/sociedade de ca­
pitais deve centrar-se na livre transferência da participação social.
Apesar de melhor critério, a livre cessibilidade da participação
social apresenta limitações e defeitos. Em sociedades tidas como de
pessoas, através de cláusulas de continuidade no caso de falecimento,
pode-se permitir o automático ingresso de herdeiros, mesmo com a

42
RENATO VENTURA RIBEIRO

discordância dos demais. Não se pode falar nem em prévia aprovação


do nome do novo sócio, em razão da cláusula de continuidade, pois
nem todos os possíveis herdeiros podem ser conhecidos, haja vista
disposição testamentária nomeando terceiro totalmente estranho aos
demais sócios como herdeiro ou legatário. Sendo permitido, por tal
cláusula, o ingresso de qualquer pessoa na sociedade, a figura do só­
cio perde importância.
Nas sociedades anônimas, apontadas como típicas de capitais,
pode haver restrição à transferência de ações no estatuto de compa­
nhias fechadas43 , por lei44 ou acordo de acionistas, não importando,
nas duas últimas hipóteses, se a sociedade é ou não aberta.

1 .2. NÃO EQUIVAL�NCIA ENTRE TIPO E FORMA DE SOCIEDADES

A falta de unidade quanto ao traço distintivo entre ambas as


espécies conduz à dificuldade de inclusão das sociedades numa cate­
goria ou outra.
A doutrina45 tende a considerar as sociedades então disciplina­
das no Código Comercial de 1850 como sociedades de pessoas e as
sociedades anônimas como típicas de capitais, permanecendo muito
dividida quanto às sociedades limitadas46 • Tirante as últimas, cuja
dúvida é patente, a indicação não é tão precisa como parece.

43 Cf. Lei n. 6 .404/76, art. 36.


44 Cf. Lei 9.478/97, art. 62, e a revogada Lei 2.044/53 , art. 1 O.
45 Cf. FARIA, Da exclusão . . ., cit., p. 1 5 .
46 H á i ntenso debate sobre o caráter das sociedades l i mitadas, se de pessoas, de capitais,
m i stas ou até intermediárias. Para visão geral, por todos, cf. LUCENA, Das socieda­
des .. ., cit., pp. 4 1 -46. O revogado Decreto n . 3 .708/1 9 gera tal dúvida, no art. 2º, ao
aproximá-la tanto das sociedades de pessoas (pela apl icação dos artigos 300 a 302 do
Código Comercial, hoje revogados), como das sociedades de capitais (responsabi l ida­
de limitada), terminando por acrescentar a apl icação subsidiária da lei das sociedades
anônimas (art. 1 8). A legislação atual também é h íbrida. O novo Código Civil traz a
possib i l i dade de l ivre transmissão de quotas, mas desde que não haja oposição de
titu lares de mais de u m quarto do capital social (art. 1 .057). Além disto, a i nda que de
forma excepcional, o artigo 298 da Lei 6.404/76, estabelece a livre cessibil idade das
quotas de sociedades l i mitadas, i nc lusive para terceiros. O Código Civ i l (art. 1 .053 e
seu parágrafo ú n i co) prevê a a p l i cação subsidiária das normas da sociedade simples,

43
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS

Nas antigas sociedades contratuais do Código Comercial, a


maioria mantida pelo Código Civil, admite-se uma dupla condição:
a de sociedade de pessoas em relação aos sócios gerentes e a de soci­
edade de capitais em relação aos sócios que são meros prestadores de
capitais47 • E nas sociedades anônimas, tidas como de capitais, pode
haver a relevância da figura dos sócios, com o estabelecimento de
prestações acessórias e restrições à transferência das ações.
A doutrina falha ao tentar identificar a forma com o tipo de
sociedades. A pluralidade e complexidade das relações negociais do
mundo moderno não permitem tamanha rigidez. Uma determinada
forma societária serve para constituição de sociedades de tipos dife­
rentes, cujos exemplos não precisam ser buscados alhures.
Tomando-se a livre cessibilidade da participação social como
elemento de diferença entre sociedades de pessoas e de capitais, é
possível, conforme o art. 1.057 do novo Código Civil, a constituição
de sociedade por quotas de responsabilidade limitada de ambos os
tipos. Caso o contrato social preveja a livre transmissão de quotas,
será de capitais; havendo limitação, será de pessoas.
No caso das sociedades anônimas, havendo restrição à circula­
ção de ações, podem ser consideradas de pessoas. A forma de com­
panhia pode originar tanto o tipo de sociedades anônimas de capitais
como de sociedades anônimas de pessoas48 •

mas também permite que o contrato social estipule a regência supletiva pelas regras da
sociedade anônima.
47 O mesmo ocorre com as sociedades em comanditas por ações, sendo i nsuficiente para
i nvalidar a c lassificação. Cf., entre outros, FARIA, Oa exclusão ... , cit., p. 1 5 ; LYON­
CAEN, RENAULT e AMIAUD, Traité de droit commercial l i : Oes sociétés, parte l ª,
Paris, L G DJ, 1 92 6, p. 1 2 3; MACHADO, Problemas. . . , cit., p. 1 74, e CAI LLAU D,
L 'exclusion . , cit., p. 96.
..

48 Como afirma COMPARATO, "A natureza da sociedade anôn i m a e a questão da


derrogabil idade das regras legais de quorum nas assembléias gerais e reuniões do con­
selho de administração", in Novos ensaios. . , cit., pp. 1 1 6- 1 3 1 , à p. 1 20, "a vel ha c l as­
.

sificação das sociedades mercantis em sociedades de capitais e de pessoas (. .. ) aparece


agora subvertida; ou melhor, a c livagem entre as espécies passa no i nterior do próprio

44
R ENATO VENTURA R I B E I RO

A dicotomia sociedade de pessoas/de capitais surge após a cria­


ção das sociedades anônimas que, centradas na figura do capital, rom­
pem com a concepção personalista da sociedade49 • A razão de sua
origem, no entanto, não mais se encontra presente, dado o reconhe­
cimento de traços personalísticos nas sociedades anônimas. Perma­
nece sua virtude de auxiliar, em casos concretos, na interpretação de
normas aplicáveis às sociedades. Por isto, a classificação, ao invés de
ser totalmente descartada, merece ser revista, eliminando-se o in­
conveniente da associação do tipo com a forma societária.
Diante de tantas críticas e tamanhas dificuldades, conclui-se que a
teimosia na sobrevivência do uso de tal diferenciação prende-se a critéri­
os didáticos e p;áticos e à falta de uma classificação menos tormentosa.
'

2 . CLASSIFICAÇÃO ADOTADA: SOCIEDADES INTUITUS


PERSONAE E INTUITUS PECUNIAE

Pelas dificuldades acima apontadas, em lugar da classificação in


abstracto conforme a forma societária, é mais plausível, para que a
distinção tenha utilidade prática, a verificação das características par­
ticulares da sociedade.
O enquadramento das sociedades com base na forma retira a
utilidade da distinção entre sociedades de pessoas e de capitais (cf.
1.2 acima). Somente a análise individual das regras, contratuais ou
estatutárias, de cada sociedade pode determinar a características e a
interpretação a ser dada no caso concreto.

d i reito acionário. Se ainda é aceitável classificar a companhia aberta na categoria das


sociedades de capitais, pelo seu caráter marcadamente i nstitucional, a companhia fe­
chada já apresenta todas as características de uma sociedade de pessoas, a ni mada por
uma affectio societatis que se funda no intuitus personae. Ao contrário da simples con­
sideração dos capitais, na companhia fechada prepondera, tanto entre acionistas quanto
perante terceiros, a confiança e a consideração pessoal". Com base em tal raciocínio,
em outro estudo, "Restrições à circu lação de ações ... ", cit., p. 65, o autor d i ferencia as
sociedades anônimas em "sociedades de anônimas de pessoas" e "sociedades anôni­
mas de capitais", em razão do vínculo intuitus personae nas primeiras.
49 Cf. COMPARATO, Aspectos jurídicos da macro-empresa, São Paulo, RT, 1 970, pp. 87-88.

45
ExnusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS

Assim, uma companhia, dependendo de suas características, pode


ser intuitus pecuniae ou intuitus personae.

CAPÍTULO fl: /NTUITUS PERSONAE NAS SOCIEDADES COMERCIAIS

1 . CONCEITO E I DENTIFICAÇÃO

Por intuitus personae em sociedade comercial pode-se entender


a união íntima dos sócios em razão de confiança mútua e afinidades
comuns50 • Representa consideração da pessoa do sócio, quer em re­
lação à sociedade como aos demais sócios51 .
O vínculo intuitus personae nas sociedades tem sua origem no
direito romano52 e está relacionado à forte ligação entre os membros
da societas romana. Tal relação encontra explicação na provável ori­
gem da societas, derivada do consortium ereto non cito, formado pelos
herdeiros para manutenção e exploração em comum do patrimônio
do falecido. Mesmo com a evolução do direito romano, permitindo­
se o ingresso de terceiros na sociedade ou sua constituição mediante
contrato, permanecem as normas caracterizadoras da relação pesso­
al: a presença da boa-fé (jides) no contrato e a pena de infâmia em
caso de descumprimento; a limitação da execução do devedor, atra­
vés do benejicium competentiae; a dissolução da sociedade em caso de
vicissitude pessoal do sócio, entre outras53 . A relevância da pessoa do

50 Cf. CAMERLYNCK, De l'i ntuitus . . . , c i t . , p. 6, e DALMARTELLO, L 'esclusione . . . , c i t . , pp.


9 1 -94. Sobre o intuitus personae nas sociedades, cf. SPADA, La tipicità dei/e società,
Padova, CEDAM, 1 974, p. 239 e ss . . Para visão geral de intuitus personae em contra­
tos, CONTAMIN E-RAYNAUD, L 'i ntuitus personae dans les contrats, tese, Paris li, 1 974
e KRAJ ESK, L 'intuitus personae dans les contrats, tese, Tou louse 1, 1 998.
51 Cf. MORIN, " lntuitus. ." , cit., pp. 3 1 0-3 1 5 .
.

52 Sobre a origem e o vínculo intuitus personae n o d i reito romano, cf. CAMERLYNCK, De


l 'i ntuitu 5 . . . , cit., p. 1 e 55 . .
53 Para u ma breve visão da origem e das principais características da societas romana, cf.
R I B E I RO, "Societas": a responsabilidade dos sócios no direito romano e seus reflexos
no direito moderno, dissertação, São Paulo, FDUSP, 1 996, pp. 62-77, e bibliografia
nela i n dicada.

46
R ENATO VENTURA RIBEIRO

sócio mantém-se nas sociedades da Idade Média54 , influenciando


também a disciplina das sociedades comerciais.
Atualmente o caráter intuitus personae pode ser expresso por di­
versas formas, como a importância e contribuição pessoal do sócio;
cláusula de extinção da sociedade em caso de morte, interdição, ina­
bilitação ou incapacidade do sócio; uso de firma no nome comercial;
exclusividade de administração pelos sócios; proibição de concorrên­
cia à sociedade, entre outras.
Embora todas as manifestações acima elencadas revelem a exis­
tência de vínculo pessoal entre os sócios, é mais apropriado o critério
da livre cessibilidade da participação social para precisar a sociedade
caracterizada pelo vínculo intuituspersonae. A figura do sócio sempre
é importante para a sociedade, pois é ele quem contribui à sua exis­
tência, ainda que somente com dinheiro. Enfatizam-se as qualidades
pessoais do sócio e o que ele pode desenvolver em prol da sociedade,
para justificar sua importância. Mas nem sempre o intuitus personae
traz como conteúdo ação positiva, podendo ser expressão de uma
proibição, como a de não-concorrência55 •

A cláusula de extinção da sociedade no caso de falecimento ou


mudança do estado pessoal do sócio perde importância como traço dife­
rencial em razão das convenções de continuação da sociedade, com ou
sem os herdeiros, no caso de tais eventos. O uso de firma como nome
comercial de uma sociedade não indica o pleno caráter intuituspersonae,
pois não significa a inexistência de sócios apenas capitalistas ou não co­
merciantes, além de não trazer obrigatoriamente o nome de todos eles.
Tampouco a administração exclusiva por sócios, pois a exigência legal da
condição de acionista para o membro do Conselho de Administração56

54 Para maiores detalhes, cf. Parte l i , cap. l i , 2, abaixo.


55 Sobre o dever de não concorrência, cf. Parte I l i , Capítulo 1, 2.4 abaixo.
56 Cf. Lei 6 .404/76, art. 1 46. Apesar da util ização da norma legal como argumento, acre­
ditamos que deva ser modificada, para permitir a participação de não acionistas no
Conselho de Administração, cuja colaboração, em razão da experiência ou capacidade

47
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÔNIMAS

nas companhias e nem mesmo alguns diretores acionistas não as des­


caracteriza como sociedades intuituspecuniae. A cláusula de não con­
cor�ência, ao contrário de reconhecer a relevância do trabalho pessoal
do sócio, p ode indicar apenas forma de proteção à sociedade.
Por isto, a melhor expressão do vínculo intuituspersonae da socieda­
de é a restrição à transferência da participação social. Resta apurar a
razão de tal limitação. A princípio, justifica-se alegando que se a presen­
ça do sócio ou de determinado sócio é relevante à sociedade, suas quotas
ou ações só poderão ser transferidas a critério dos demais sócios ou de
órgãos de administração, representando os interesses da sociedade. Uma
objeção a tal idéia faz-se com a seguinte indagação: se a presença do
sócio é importante à sociedade, porque sua saída pode ser permitida? A
resposta é múltipla. O sócio pode não ter mais relevância à sociedade,
por alteração em sua condição pessoal, não desejar mais continuar como
tal ou deixar de gozar da confiança dos demais, explicando assim o con­
sentimento para a sua retirada ou até a própria exclusão.
No entanto, a restrição à cessibilidade da participação social diz
mais respeito à figura do sócio ingressante. Como na sociedade intuitus
personae é relevante a pessoa do sócio, não é qualquer pessoa habilitada a
dela fazer parte ou com ela contribuir. Daí a necessidade de concordân­
cia dos demais sócios. Logo, o elemento distintivo de sociedade intuitus
personae é a concordância dos sócios ao ingresso de outros.
A restrição à livre cessibilidade das quotas como principal ca­
racterística determinante do vínculo intuitus personae da sociedade
não significa a completa desconsideração das demais manifestações
de relevância da figura dos sócios na análise dos casos concretos.

pode ser de maior valia do que a dos acionistas, ainda mais em mercado competitivo.
Quanto à composição, o caráter institucional ista do legislador foi bastante tímido, pela
admissão somente de acionistas e pessoas físicas, em lugar de aceitar também não
acionistas, pessoas jurídicas e representantes dos trabalhadores. A propósito, por todos,
cf. TOL EDO, O Conselho de Administração na sociedade anônima, São Paulo, Atlas,
1 997, pp. 78-84 e 1 02-1 06.

48
RE NATO VENTURA RIBEIRO

2 . ESPÉCIES
O vínculo intuitus personae revela-se de diversas formas nas so­
ciedades, como apresentado a seguir.

2 . 1 . fNTUITUS PERSONAE ABSOLUTO E RELATIVO

Cabe distinguir, na sociedade, se a importância da pessoa do


sócio diz respeito somente aos sócios originais ou aos atuais. A razão
da distinção diz respeito está relacionada à solução a ser adotada na
falta ou vicissitude pessoal de algum sócio.
Sendo relevante somente a figura dos sócios constituintes e,
portanto, de nenhuma outra pessoa, a morte, a mudança no estado
pessoal (interdição, inabilitação, interdição, incapacidade) ou a su­
perveniência de qualquer fator perturbador dos negócios e relações
sociais descaracteriza o vínculo original, implicando a dissolução da
sociedade. Tem-se vínculo pessoal levado ao extremo, por serem re- ·

levantes à sociedade apenas as pessoas dos sócios originais, insubsti­


tuíveis por quaisquer outras. Trata-se de escolha de pessoa certa, como
a regra geral do direito romano: quia qui societatem contrahit, certam
personam sibi elegit57 .
Tal infungibilidade da ação pessoal do sócio e a intransmis­
sibilidade de. suas obrigações podem decorrer de vários fatores,
como trabalho altamente qualificado, condição pessoal ímpar e cré­
dito ou prestígio pessoal junto a terceiros, essencial ao exercício da
atividade social58 • No caso de morte ou alteração na condição pes­
soal do sócio, o único caminho é a dissolução da sociedade, não
havendo exclusão de sócio, por ela não conseguir desenvolver suas
atividades com outras pessoas. Daí a denominação de intuitus per­
sonae absoluto.

57 Cf. /. 3 , 2 5 , 5 e C. 3 , 1 52 .
58 Cf. PERRINO, L e tecniche , cit., p. 202.
...

49
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADES ANÓNIMAS

Sociedades com intuitus personae absoluto representam um pe­


queno número de casos, nos quais seu funcionamento está direta­
mente relacionado a habilidade específica (e talvez exclusiva) dos
sócios.Já no direito romano, por razões práticas, foi admitido o pacto
de continuidade da sociedade com os demais sócios59 • Hodierna­
mente, a conservação da sociedade justifica-se também pelo princí­
pio da preservação da empresa. É certo que se pode dar continuidade
à empresa através de outra sociedade ou por exploração individual,
mas a praticidade recomenda a manutenção da sociedade.
No caso das atividades sociais serem exercidas em função da
figura dos sócios, mas haver a possibilidade da substituição de um ou
mais deles (a critério dos demais, evidentemente), está caracterizada
a importância dos sócios. Mas não de forma absoluta, imprescindível
e insubstituível. A possibilidade de substituição do sócio caracteriza
o intuitus personae relativo: a figura do sócio é importante enquanto
sócio, mas não imprescindível e insubstituível por outra pessoa. É a
forma mais comum de intuitus personae.
Não há impedimento legal à disposição estatutária com previ­
são de dissolução da sociedade no caso de falecimento ou vicissitude
pessoal de acionista60 • Ou seja, de constituição de sociedade anôni­
ma com vínculo intuitu personae absoluto. A lei das sociedades por
ações prevê a dissolução por motivos estabelecidos no estatuto (art.
206, I, b). Na prática, os estatutos das companhias limitam-se a repe­
tir as hipóteses legais61 • Mas disposição estatutária em tal sentido
pode até trazer o reconhecimento pelos acionistas da hipótese legal
de impossibilidade de preenchimento do fim social62 .

59 Cf. D. 1 7, 2 , 65, 9 e /. 3 , 2 5 , 5 .
60 CARVALHOSA, Comentários ... , cit., vol. IV, t. 1 , p. 42.
61 Cf., por todos, PENTEADO, Dissolução e liquidação de sociedades, 2ª ed., São Pau lo,
Saraiva, 2000, pp. 1 84-1 86.
62 Cf. Lei 6.404/76, art. 206, 11, "b", com a diferença de que a apuração da impossib i lidade
de preenchimento do fim comum é feita judicialmente. No entanto, isto não significa a

50
RENATO VENTURA RIBEIRO

O caráter intuitus personae absoluto, contudo, apresenta contra­


dição com algumas características das sociedades anônimas, como o
seu perfil institucional e de agrupamento de capitais, a livre trans­
missão de ações, entre outros. Por isto, ao referir-se às companhias
personalistas, o presente trabalho cuida do vínculo intuitus personae
relativo, somente fazendo menção ao intuitus personae absoluto, ao
tratar da exclusão por vicissitudes pessoais do acionista (cf. Parte III,
Capítulo 1, item 3).
Pode-se questionar o caráter intuitus personae da sociedade en­
quanto pessoa jurídica, por haver distinção entre a sociedade e os
sócios. No entanto, tal separação diz respeito ao patrimônio e não à
atividade63 , justificando inclusive a sociedade unipessoal. Não há
impedimento à existência de sociedade cuja atividade dependa es­
sencialmente do trabalho de um ou mais sócios.
Também não se pode negar certo intuitus personae relativo nas
companhias, como, por exemplo, a exclusividade de acionistas na
composição do Conselho de Administração64 .

2.2. fNTUITUS PERSONAE POSITIVO E NEGATIVO

O vínculo intuitus personae manifesta-se não só pela exigência


de contribuição ativa do sócio, como também pela abstenção da prá-

exclusividade de via judicial para determi n ação da impossib i l idade do objetivo social,
podendo tal impedimento ser previsto estatutariamente, permitindo procedimento mais
rápido, além de ser talvez até mais confiável, dada a avença pelos próprios i nteressados.
63 Se a pessoa j urídica é d i sti nta da figura dos sócios, e não se admit i r que vicissitudes
pessoais dos sócios possam levar à extinção da sociedade, restam então duas soluções:
ou a ausência de personal idade juríd ica das sociedades intuitus personae, como ocor­
re em a lguns casos na Alemanha e Itália, ou, caso constituam pessoas juríd icas, os
i nfortú nios pessoais serem apenas causa de alteração do contrato e não de d i ssolução.
64 Cf. CAMERLYNCK, De /'i ntuitus .. ., cit., p. 1 6. No d i reito brasi leiro, tal personal ização
não só é reconhecida, como alvo de críticas, como a sua i ncongruência com o caráter
i nstitucional conferido pela lei às companhias. Cf. CARVA LH OSA e LATOR RACA, Co­
mentários . . ., cit., v. I l i , pp. 1 67-1 68; TOLEDO, O conselho . . , cit., p. 8 2 . N a lei brasi lei­
.

ra do anonimato, a ú nica exceção legal à presença de acionistas no Conselho de Ad­


m i nistração é a possibil idade de eleição de um representante de empregados (Lei 6.404/
76, art. 1 40, parágrafo único).

51
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADEs ANÔNIMAS

tica de certos atos, justificando, por exemplo, a exclusão de sócio por


violação do dever de não concorrência65 •
No caso do sócio colaborar com a atividade social com ações
positivas e suas qualidades pessoais serem relevantes ao desempenho
da sociedade, identifica-se intuitus personae positivo.
Mas também pode ser exigida do sócio a abstenção da prática
de certos atos e atividades. O reconhecimento da relevância da figura
do sócio ocorre não só pelo trabalho desenvolvido, mas pela absti­
nência de prática de atos que possam causar prejuízo à sociedade,
explicando a noção de intuitus personae negativo, caracterizado pela
falta de atos e intenções contrários ao interesse social66 •

2 . 3 . fNTUITUS PERSONAE LEGAL E CONVENCIONAL

A lei atribui importância à pessoa do sócio, ao exigir determina­


da qualidade de sócio ou de categoria de sócios, como, por exemplo,
ao conferir importância aos sócios de instituições financeiras e segu­
radoras (CF, art. 192, III) e de empresas de comunicação (CF, art.
222). Ou então, ao vedar o exercício de certas atividades em razão de
nacionalidade (Lei 6.8 15/80, arts. 105 e 106) e de local, como em
regiões de fronteira ou áreas de segurança nacional (Decreto-lei n.
941/69, art. 118, VI), exigindo, nas últimas que a maioria do capital
seja de titularidade de brasileiros (Lei 6.634/79, art. 3°). Todos os
casos acima podem ser classificados como intuituspersonae legal, pelo
reconhecimento em lei da importância do sócio.
Tem-se o intuitus personae convencional quando a relevância da
pessoa dos só.cios ou de parcela deles é estabelecida no contrato, esta­
tuto social ou acordo de acionistas.

65 A respeito, cf. Parte Ili, Cap. 1, item 2.4. abaixo.


66 É parte do que CAMERLYNCK, De /'i ntuitus .. ., cit., p. 23, denomina intuitus personae
novo est i lo, para enfatizar também o plano espi ritual, as qual idades i ntelectua i s e mo­
rais, ao contrário do antigo modelo, que identifica como i mportância apenas a partici­
pação ativa do sócio (idem, p. 1 8).

52
RENATO VENTURA RI BEIRO

A importância da distinção consiste na inderrogabilidade, por


disposição contratual ou estatutária, das normas fixadoras do intui­
tus personae legal.

2 .4. fNTUITUS PERSONAE GERAL E PARTICULAR

Denomina-se sociedade com intuitus personae geral aquela cuja


totalidade das pessoas dos sócios é considerada relevante ao desen­
volvimento da atividade social. Há intuitus personae particular quan­
do é destacada a importância da figura de apenas alguns sócios67 •
Mesmo nas sociedades de pessoas tradicionais, apenas uma cate­
goria de sócios pode ser importante para a sociedade. É o caso dos
sócios comanditados nas sociedades em comandita (simples e por ações),
dos comerciantes nas sociedades em nome coletivo, do sócio ostensivo
na sociedade em conta de participação. A relevância dos sócios de tais
categorias é explicitada pela exigência da condição de comerciantes,
prática dos atos de gestão, obrigatoriedade da inserção de seu nome na
firma social e, em alguns casos, pela exclusividade da responsabilidade
ilimitada68 . Os sócios das demais categorias (comanditários, não co­
merciantes nas sociedades em nome coletivo e ocultos) são meros pres­
tadores de capitais. Não fosse o vínculo contratual, presumindo a
concordância dos demais sócios com seu ingresso, a pessoa dos sócios
prestadores de capitais é indiferente à sociedade.
Porém, pode-se entender que, nas sociedades contratuais, a ne­
cessidade de concordância dos sócios para ingresso de outro membro
justifica o caráter personalista. Tanto os sócios meros prestadores de
capitais como os que contribuem com algo a mais estão ligados por
um vínculo pessoal, caracterizando a relevância da confiança pessoal

67 CAMERLYNCK, De /'intuitus . . . , cit., p. 23 e ss., designa intuitu personarum in abstracto


e intuitu personae singulae para o que chamamos, respectivamente, de intuitus personae
geral e particular.
68 Como é o caso dos sócios comanditados nas sociedades em comandita e dos ostensi­
vos nas sociedades em conta de participação.

53
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÔNIMAS

de todos os sócios. Exemplo de tal relação encontra-se nas legisla­


ções que determinam a dissolução da sociedade ou permitem a ex­
clusão de qualquer sócio atingido por vicissitude pessoal, mesmo que
tenha responsabilidade limitada e contribuído apenas com capital.
Qyem defende tal posição admite, portanto, que todas sociedades
por quotas de responsabilidade limitada no direito brasileiro, no re­
gime inicial do Decreto n. 3.708/19 são caracterizadas pelo vínculo
intuituspersonae. E somente com a possibilidade de alteração do con­
trato social pela maioria e de livre cessibilidade de quotas (novo Có­
digo Civil, art. 1.057), as limitadas deixam de ser exclusivamente
personalistas.
Qyer se conclua pela relevância de todos os sócios das socieda­
des contratuais ou somente daqueles que não são meros prestadores
de capitais, o problema não está resolvido, em razão das sociedades
em comandita por ações. Nelas reconhece-se a importância dos co­
manditados e a irrelevância da pessoa dos comanditários, não só pela
sua única utilidade de fornecer capitais, como pela possibilidade de
livre transferência da participação acionária.
Conclui-se que a sociedade intuitus personae não se caracteriza,
necessariamente, pela importância de todos os sócios, mas pelo reco­
nhecimento da relevância da pessoa de um sócio, no mínimo.
Em sociedades anônimas também pode ser detectada a impor­
tância pessoal de acionistas69 , com relação intuitus pecuniae para a
grande ma� sa de capitalistas e outra intuitus personae para outros. É o
caso das companhias com restrição à transferência de ações ou obri­
gações acessórias apenas para determinados acionistas. Por isto, em
princípio70 , deve ser considerada personalista a sociedade cuja pre-

69 Cf. nota n. 1 2 acima.


70 Retoma-se a discussão no item n . 3 abaixo, apresentando uma dupla poss i b i l idade de
postura acerca das companhias com parte dos acionistas com laços intuitus personae e
outra com víncu lo intuitus pecuniae.

54
RENATO VENTURA RIBEI RO

sença de um único acionista seja relevante, mesmo sendo de capital


aberto e constituída por milhares de sócios71 •
Não se deve considerar personalista somente a companhia na qual
é relevante a pessoa de todos os sócios, ou seja, com intuitus personae
geral. Além dos motivos já expostos, há outro argumento de ordem prá­
tica. Caso se entenda como sociedade anônima personalista apenas aquela
com intuitus personae geral, como classificar as companhias nas quais é
relevante somente a presença de um ou de alguns acionistas? Se não
podem ser sociedades anônimas "de pessoas", também não podem ser
consideradas como puras sociedades "de capitais'', indicando um tercei­
ro tipo, as sociedades anônimas "mistas", com vínculo intuitus personae
para alguns acionistas e intuitus pecuniae para outros.
Seja como for, a princípio a conseqüência prática deve ser a
mesma: somente estarão sujeitos às regras especiais os acionistas com
vínculo intuituspersonae.

CAPÍTULO I l i : /NTUITUS PERSONAE NAS SOCI EDADES


ANÔNIMAS

Contra o reconhecimento do vínculo pessoal nas companhias,


não se pode alegar o fato do intuituspersonae ser justificado nas soci­
edades contratuais pela responsabilidade solidária e ilimitada dos
sócios, implicando necessidade de confiança mútua. Isto porque nas
companhias intuitus personae, apesar da responsabilidade limitada, a
pessoa dos sócios é importante, com sua presença refletindo direta­
mente na atividade.
A existência do intuitus personae nas companhias implica em
regramento especial. Tome-se, p or exemplo, o direito de recesso, cu­
j as hipóteses estão taxativamente previstas em lei. Deve-se discutir a

71 Sobre a compatibil idade entre capital aberto e víncu lo pessoal de acionistas, cf. item
3 . 2 abaixo.

55
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANóNIMAS

possibilidade de acréscimo, no estatuto, de outras hipóteses, como a


saída (voluntária, por força de lei ou até por exclusão) de importante
acionista. Prevendo-se motivos para exclusão de sócio no estatuto
social, deve ser permitida a possibilidade de direito de recesso do
acionista contrário à exclusão. Até como forma de sua proteção72 ,
permitindo a retratação da maioria.
Para melhor exame do intuituspersonae nas companhias, devem
ser analisadas algumas transformações na realidade econômica e suas
conseqüências no âmbito do direito societário, em especial no uso
das companhias.

1 . N OVAS PERSPECTIVAS DAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

1 . 1 . DAS COMPAN H IAS DA REVOLUÇÃO I N DUSTRIAL ÀS NOVAS


SOCIEDADES DA ERA DA I N FORMAÇÃO

A história das sociedades anônimas é curiosa. Embora haja muita


controvérsia em relação à origem das companhias, o grande impulso
à sua utilização deu-se por ocasião da Revolução Industrial, dada a
necessidade de acumulação de considerável quantidade de capitais
para permitir a instalação de indústrias capazes de produção em sé­
rie. Mas muito antes as companhias já eram constituídas com o esco­
po de aglutinação de capitais para grandes empreendimentos. Pode-se
dizer, inclusive, que o instituto das sociedades anônimas foi essencial
à concretização da Revolução IndustriaF3 •

72 Nas sociedades por quotas de responsabilidade lim itada, o direito de retirada com maior
amplitude é forma de proteção ao sócio, sendo justificado pela maior dificu ldade de
cessão das quotas. Nas sociedades anônimas o direito de recesso é restrito em razão da
possibil idade do acionista descontente ter l iberdade e maior fac i l idade para alienar suas
ações. Por isto, em tese, o direito de retirada nas companhias é l i mitado às hipóteses que
podem originar uma desvalorização no preço das ações, pois pouco adianta o acionista
vender suas ações por valor mais baixo, em razão da del iberação da qual é dissidente.
Desta forma, conclui-se ser o d i reito de retirada forma de proteção ao acionista.
73 Cf. RIPERT, Aspects juridiques du capitalisme moderne, 2ª. ed., Paris, LGDJ, 1 95 1 , pp. 5 1 -53.

56
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Após a fase industrial, torna-se crescente a participação do setor


de prestação de serviços na economia, cujo maior reflexo, no campo
do direito comercial, é o desenvolvimento do conceito de empresa,
abrangendo também atividades do terceiro setor. Some-se a isto ele­
vado desenvolvimento tecnológico posterior e a utilização da infor­
mática. Na nova fase da história mundial, aqui denominada Era da
Informação, tem-se como características, entre outras, o aumento da
quantidade de informações e produtos, com diversificação de ativi­
dades e especialização em todos os campos do saber. Com isto, em
alguns setores e pela primeira vez na história econômica, o conheci­
mento passa a ser mais importante do que o capital.
Em razão da presença dos investidores institucionais (princi­
palmente fundos de pensão, de investimento, seguradoras), tem-se
um "capital de espera"74 disponível para novas oportunidades de in­
vestimento, em grande parte concentrados na área de prestação de
serviços.
A implicação da nova realidade é direta no campo das socieda­
des anônimas. Cada vez mais empresas menores organizaram-se sob,
a forma de companhias, muitas sem a necessidade de vultosos capi­
tais. Com a maior participação do setor de serviços na vida empresa­
rial moderna, a especialização e diversificação de atividades e a
crescente importância da capacidade intelectual, surgem diversas pe­
quenas sociedades anônimas, algumas até para atrair capitalistas dis­
postos a investir em novo projeto tecnológico.
Tal realidade reflete-se no mercado de capitais através da cria­
ção de mercados próprios, como a bolsa eletrônica Nasdaq nos Esta­
dos Unidos e o Techmark em Londres, para negociação, dentre outras,
de ações de sociedades emergentes e que tem por objeto as áreas

74 Tal como denom i n ado por R I B EIRO, " Investimento estrangei ro n � mercado de capitais
brasi leiro", in Os negócios e o direito, F RANCO (coord.), São Pau lo, Maltese, 1 992, pp.
1 2 3-1 5 6, à p. 1 23 .

57
ExcLUSÃO DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÓNIMAS

relacionadas à "Nova Economia". Mas a opção pela constituição de


sociedades anônimas de menor porte não é privilégio do ramo de
tecnologia, sendo extensiva a outras atividades do setor de prestação
serviços.
Tem-se o paradoxo da Era da Informação. Pela necessidade de
otimização de custos e maciços investimentos em tecnologia, há uma
tendência de concentração empresarial em grandes companhias. De
outro lado, a nova realidade da organização do mercado, com tercei­
rização e redes de empresas, juntamente com crescente especializa­
ção, há significativo número de pequenas empresas.
O mesmo paradoxo ocorre em relação à sociedade anônima. Sua
criação objetivava junção de capitais para grandes empreendimentos.
Porém, atualmente, é cada vez mais a forma adotada por pequenas e
médias empresas.
No atual estágio da economia mundial, com a crise do Estado
(tanto o modelo de "Estado social" como do socialismo), as grandes
corporações empresariais (principalmente as transnacionais) ampli­
am a sua influência como importantes agentes econômicos mundi­
ais. Mas não é errado dizer que a relevância das pequenas e médias
empresas se equipara à dos grandes conglomerados empresariais.

1 .2 . Ü NOVO PARADIGMA DA ERA DA I N FORMAÇÃO


Assim como a Revolução Industrial, a Era da Informação re­
presenta novo modelo, rompendo radicalmente o paradigma anteri­
or, com todos os problemas decorrentes da mudança.
No campo econômico, afastam-se idéias clássicas, como a rela­
ção entre crescimento e inflação. Até então, acreditava-se que o cres­
cimento diminuía o índice de desemprego e a maior demanda por
trabalhadores ocasiona aumento dos salários, naturalmente refleti­
dos nos preços dos produtos e serviços, gerando inflação. O novo
fenômeno do aumento de produtividade decorrente das novas con-

58
RENATO VENTURA RIBEIRO

dições tecnológicas ou não exige maior carga laboral ou não produz


acréscimo nos preços, em razão do barateamento dos custos de pro­
dução pelas técnicas modernas.
A crise do emprego, gerada pela extinção de postos de trabalho
em decorrência do desenvolvimento tecnológico acentua a impor­
tância da empresa como fonte produtora de emprego.
Destaca-se ainda a assunção do setor de serviços à condição de
detentor da maior parte da movimentação econômica e o único com
capacidade de criação de novos empregos, tendo em vista a mecani­
zação da agricultura e a robotização da indústria. Não só em decor­
rência do fechamento de postos de trabalho nos setores primário e
secundário da economia, como para preenchimento do tempo ocio­
so, em razão da maior produtividade obtida em razão da tecnologia.
No campo empresarial, surgem os fenômenos da terceirização,
quarteirização e redes de empresas, redundando na criação de inú­
meras pequenas e médias empresas de prestação de serviços, muitas
das quais organizadas sob a forma de companhias, além das empre­
sas com atividades relacionadas à "Nova Economia".
A grande transformação no direito empresarial é a utilização
das companhias como forma para exploração de pequenas e médias
empresas, especialmente no setor de serviços, como nova forma de
organização societária.

2 . A SOCIEDADE ANÔNIMA COMO ESTRUTURA


ORGANIZATIVA DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS

2 . 1 . A NOVA REALIDADE: SOCIEDADES ANÔNIMAS PARA


EXPLORAÇÃO DE PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS

Um dos objetivos da criação das sociedades por quotas de res­


ponsabilidade limitada é a instituição de forma societária com res­
ponsabilidade limitada dos sócios sem a complexa estrutura da

59
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÓN IMAS

sociedade anônima. Enquanto a forma de companhias é adotada para


grandes empresas, pequenos e médios empresários devem utilizar-se
das sociedades limitadas para restringir sua responsabilidade.
No entanto, o modelo teórico proposto nem sempre correspon­
de à realidade. Há muito tempo, pequenos e médios empresários
optam pelas sociedades anônimas em lugar das sociedades limita­
das 75 . Atualmente, por diversos motivos, amplia-se a escolha da for­
ma de sociedade anônima para pequenas e médias empresas.
Atenção especial deve ser dada às sociedades anônimas consti­
tuídas por profissionais liberais, tendo por objeto social o exercício
conjunto da atividade de forma empresarial. A prestação de serviços
pelos profissionais liberais de forma organizada modifica as relações
com seus clientes, caracterizadas anteriormente pelo vínculo intuitus
personae. A confiança pessoal era o único elo entre o cliente e o pro­
fissional liberal. Com a organização empresarial dos profissionais li­
berais, o cliente não busca mais aquele profissional determinado, em
quem confia, mas um membro daquela organização.
O fenômeno da organização empresarial dos prestadores de ser­
viços tende a crescer, mas já é visível e reconhecido no meio jurídico.
Há algum tempo, permite-se a renovação compulsória do contrato
de locação de sociedades de profissionais liberais, indicando a im­
portância do "ponto" e não mais a procura do profissional em razão
de suas qualidades pessoais76 •

75 Há mais de meio século, ASCAREL LI, Problemas . . , cit., p. 345, já havia diagnosticado
.

tal situação: " . . . o benefício da responsabil idade l i m itada levou também pequenas
emprêsas a constitui r-se como sociedades anônimas; multiplicaram-se as sociedades
anônimas fam i l iares; os negócios individuais se transformaram em sociedade anôni­
ma, para faci litar assim a sua continuidade depois da morte dos fundadores, ou em
conseqüência desta; negócios i ndividuais constitu íram-se, por meio de óbvios artifíci­
os, como sociedade anônima para gozar do benefício do exercício do comércio com
responsa b i l idade limitada. Nem sempre a existência da sociedade por quotas de res­
ponsa b i l idade l i m itada exclui essa utilização da sociedade anônima".
76 RT l 82/454, 6 1 7/1 1 1 .

60
RENATO VENTURA RIBEIRO

A advocacia não é caso isolado. Nos Estados Unidos, grandes


e médios escritórios são organizados como empresas. Na França, a
lei das sociedades de profissionais liberais (Lei 90-1258, de 31. 12. 90)
permite o exercício de tais atividades civis por sociedades comerci­
ais, inclusive anônimas, embora cada sócio responda com seus bens
pessoais em razão dos atos profissionais por ele praticados (art. 16) .
Apesar da aparente incoerência, limita a responsabilidade do sócio
aos atos por eles praticados e não a eventuais prejuízos causados
por outros sócios, representando considerável vantagem. Na Ale­
manha, recente decisão aceita a falência de escritório de advocacia,
equiparando-o a uma empresa77 , sendo uma das razões da altera­
ção na legislação em 3 1 de ago sto de 1998, para permitir a consti­
tuição de sociedades de advogados por meio de sociedade por quotas
de responsabilidade limitada78 , tidas como de capitais no direito
alemão.
No Brasil, embora as normas legais e deontológicas reguladoras
da profi s são conceituem a advocacia como uma atividade civil, in­
compatível com o anonimato e a mercantilização79 , o exercício da pro­
fissão deixou de ser feito exclusivamente de forma pessoal, individual e
autônoma. Até por força das novas exigências empresarias80 prolife­
ram-se grandes escritórios e a tendência parece ser a de concentração
de profissionais, nos moldes americanos. Com isto, é questão de tem­
po a discussão sobre a possibilidade de exercício da advocacia por em­
presas organizadas e até sob a forma de companhias.

77 ZIP, 1 994, p. 1 .868 (=NJW 1 995/1 9 9), e 1 997, pp. 1 01 -1 06.


78 Cf. BCBP 3 1 .8.98, 1, p. 2 .600. A propósito, cf. H ENSSLER, " Die Rechtsanwalts ... ", cit., pp.
305-3 3 1 ; DITTMANN, "Uberlegungen zur Rechtsanwalts - GmbH", ZHR 1 61 (1 997),
pp. 3 3 2-336 e HELLWIG, " Die Rechtsanwalts - GmbH", ZHR 1 6 1 (1 997), pp. 3 3 7-365.
79 Cf. Lei 8.906/94, arts. 1 5 e 1 6, Código de É tica e Disciplina ( DJU de 1 . 3 . 9 5 , Seção 1, pp.
4.000-4.004), art. 5º e 28 e seguintes.
80 Sobre a i nfluência do modelo empresarial nos mais d iversos campos, cf. COMPARATO,
"A reforma da empresa", ROM 50 (1 983), pp. 57-74 (= Direito empresarial, São Paulo,
Saraiva, 1 990, pp. 3-26), à p. 57.

61
ExnusÃo DE Sócios NAS SocirnADES ANÔNIMAS

Diante de tal quadro, não se pode enfocar a sociedade anônima


tendo em conta somente a grande empresa. Enquanto grande maio­
ria dos estudiosos do direito societário dedica-se somente às macro­
companhias, pouca atenção é dispensada ao exame das sociedades
anônimas de menor porte.

2 . 2 . Ü RECONHECIMENTO LEGAL DAS PEQUENAS E MÉDIAS


COMPANHIAS

A nova situação fática é reconhecida hodiernamente pela lei em


vários países.
No Japão, final da década de oitenta, o número de sociedades
anônimas chegou próximo do número de sociedades por quotas de
responsabilidade limitada, sendo que noventa por cento das compa­
nhias eram empresas de pequeno e médio porte. Na reforma da lei
das sociedades anônimas em 1990, foram criadas regras específicas
às pequenas e médias companhias, simplificando o processo de cons­
tituição, apesar da exigência de capital social mínimo81 •
Em 1994, a França institui a société pars actions simplijiée (Lei
94-1, de 3.1. 94, modificada pela Lei 99-587) e a Alemanha edita a
lei das pequenas sociedades anônimas (kleine Aktiengesellschaft). Ou­
tros países seguem o mesmo caminho, como Áustria, Suíça, Itália e
Espanha.
A lei brasileira do anonimato, no artigo 298, segue o caminho
inverso, ao pretender direcionar a transformação das companhias
menores em sociedades por quotas de responsabilidade limitada.
Resta a indagação: por que justamente em países nos quais as
sociedades por quotas de responsabilidade limitada, por sua discipli­
na legislativa, são reguladas de forma bem aproximada ao modelo
das "sociedades de capitais", estando aptas a desenvolver o mesmo

81 Cf. MIYAJIMA, " A nova l e i ... " , cit., p. 8 5 .

62
RENATO VENTURA RIBEIRO

papel de companhia fechada, há a escolha pela adoção de sociedades


anônimas de menor porte?

2.3. SOCIEDADES LIMITADAS OU ANÔNIMAS?


Algumas vantagens apontadas82 são comuns a ambas as formas,
como a capacidade jurídica, a limitação da responsabilidade, a conti­
nuidade da empresa independentemente de vicissitudes pessoais dos
sócios. Assim, a resposta deve ser buscada a partir da diferença entre
ambos os modelos83 .
Por mais que se aproximem, a sociedade limitada sempre será
contratual e não oferece o acesso ao mercado de valores mobiliários.
.
.

A necessidade de captação de recursos no mercado - via ações, de-


bêntures ou outros valores mobiliários - influencia na escolha da for­
ma societária. Não obstante a pequena sociedade anônima ser
disciplinada como sociedade fechada, deve ser tida como embrião de
futura companhia aberta.
Outro fator é o status84 , pois a forma de sociedade anônima é
relacionada à empresa de maior porte. Há ainda a facilidade de trans­
ferência da participação societária sem alteração da estrutura da so­
ciedade, mais compatível com a necessidade de dinamismo e rapidez
das relações no mundo moderno.
As desvantagens são bastante relativas, variando de acordo com
a legislação de cada país, como eventual tributação diferenciada85 , e
devem ser apuradas conforme o caso concreto, considerando as con­
dições nacionais e as características da sociedade. No direito brasilei-

82 Cf. FRIE DEWALD, Die personalistische Aktiengese/lschaft, cit., p. 2 1 .


83 Sobre a d istinção entre sociedades por quotas de responsa b i l idade l i m itada e compa­
nhias fechadas, cf. ARMANNO, La società a responsabilità limitata tra società di capita li
e società di persone, Padova, CEDAM, 1 990, pp. 9-1 4.
84 Como i de nt i f i c ado n a A l e m a n h a , p o r F R I E D EWA L D , Die persona listische
Aktiengese/lschaft, cit., p. 2 1 , e no Japão, por M IYAJ IMA, "A nova lei ... ", cit., p. 82.
85 No Brasi l, por exemplo, as sociedades anônimas não gozavam dos privi légios previstos
no antigo Estatuto da Microempresa (Lei 7.256/84, art. 1 º, entre outros).

63
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÔNIMAS

ro, tem-se a livre cessibilidade das ações, possibilitando o ingresso de


sócios não desejados86 • No direito alemão, entre outros, a co-gestão.
Qyanto à publicidade, a lei brasileira somente favorece algumas com­
panhias (cf. Lei 6.404/76, art. 176, § 6°). Outras desvantagens po­
dem ser comuns às duas formas, como a pouca influência dos sócios
na gestão e o risco de alienação da participação societária de outros
sócios.

2.4. Ü PROBLEMA NO DIREITO BRASILEIRO

2 .4 . 1 . A INSUFICl�NCIA DA DISTINÇÃO ENTRE COMPANH IAS ABERTAS


E FECHADAS

Antes do tratamento simplificado para pequenas companhias,


as principais legislações, à exceção da alemã, estabeleciam única dis­
tinção entre as sociedades anônimas, tomando por base a captação
ou não de recursos no mercado de capitais87 •
Não se pode incorrer no erro de associar macrocompanhia com
sociedade aberta e de microcompanhia com sociedade fechada. Muitas
pequenas sociedades anônimas abrem o seu capital, para captação de
recursos no mercado de capitais. Por outro lado, há macrocompanhi­
as com capital fechado. Com a mundialização da economia, verifica­
se um processo de fechamento de capital de grandes sociedades,
algumas com tradição de muitos anos e de considerável liquidez nas
bolsas de valores. É justificado o fechamento do capital de socieda­
des adquiridas por grupos estrangeiros, inclusive por privatizações,
pois o acesso ao mercado de capitais é feito através de suas controla­
doras, as empresas matrizes, de capital bem mais elevado e com con­
dições de captação de recursos superiores no país de origem, cujo

86 No art. 1 .0 5 7 do novo Código Civil, a anuência dos demais sócios para a l ienação de
quotas é mitigada, permiti ndo-se, n a omissão do contrato, a cessão das quotas a outro
sócio, sem a concordância dos demais, ou a estranho, se não houver a oposição de
titulares de mais de um quarto do capital social.
87 Para uma breve resenha, cf. COMPARATO, Direito empresarial. . , cit., pp. 1 58-1 59 .
.

64
R ENATO VENTURA RI BEIRO

volume movimentado no mercado de capitais movimenta é bem


maior. Além disto, não se deseja divulgação de informações e proble­
mas com minoritários.
Apesar da necessidade de regras específicas para as companhias
abertas e fechadas e da importância de tal diferenciação, deve haver
distinção de tratamento legal entre macro e microcompanhias88 •
Contra, pode ser alegado "inchaço" legislativo, dada a pluralidade de
regramentos das companhias, o que poderia levar a uma confusão na
aplicação das normas. No entanto, a multiplicidade de tipos de socie­
dades anônimas, com as mais diversas e até opostas características é
realidade que os profissionais do Direito não podem negar e para a
qual devem estar atentos. Além disto, bastam dois diplomas legisla­
tivos para a disciplina de todas as companhias: uma lei para regular
as macrocompanhias, abertas ou fechadas, papel que a Lei 6.404/76
já desempenha, e outra específica para pequenas companhias, com
tratamento simplificado, com a determinação da obrigatoriedade de
capital fechado das sociedades por ela reguladas89 • Resta somente a
elaboração da lei disciplinadora das pequenas companhias, como foi
o caminho seguido em vários países (cf 2.2 acima).
O intuitus personae tende a ser mais acentuado nas sociedades
anônimas fechadas e nas microcompanhias, porém isto não deve ser
tomado como regra geral (para maiores detalhes, cf 3.2 abaixo). Como
já dito, a relevância da figura de determinado acionista ou de certas
qualidades de acionista pode ser identificada em algumas sociedades
abertas, através da restrição à transmissão de ações de acionista ou de
determinado grupo ou categoria de acionistas, estabelecida por lei ou
por acordo de acionistas, ou da estipulação de prestações acessórias.

88 Na defesa de estatuto próprio para macro-empresas, COMPARATO, Aspectos jurídi­


cos. . ., cit., p . 5 6 .
89 Até porque, no caso de companhias abertas, a disciplina legal tende a ser mais complexa,
em razão da necessidade de maior publicidade e proteção aos i nvestidores do mercado de
capitais, acionistas ou não, sendo incompatível com um tratamento simplificado.

65
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SomDADES ANÔNIMAS

Tratando-se de sociedade de capital aberto, o intuitus personae é par­


ticular. E em algumas macrocompanhias, abertas ou fechadas, po­
dem estar presentes elementos identificadores de seu caráter
personalista.

2 . 4 . 2 . A TOTAL INDI FERENÇA E A NECESSIDADE DE MUDANÇA

Como já visto (1.1. acima) , enquanto as legislações e os dou­


trinadores tendem a apresentar a sociedade anônima como forma
de organização de grandes empresas, com a orientação pela utili­
zação das sociedades por quotas para pequenos e médios empre­
endimentos, a realidade é oposta: é cada vez maior a opção pela
forma de sociedade anônima para exploração de pequenas e mé­
dias empresas.
Com isto, desloca-se o foco do problema. Ao invés da discussão
sobre as vantagens ou conveniências da escolha pela forma de socie­
dade anônima fechada ou sociedade por quotas, deve-se deixar de
lado o modelo ideal e reconhecer a nova situação fática. Mesmo para
aqueles que acreditam ser - ou deva ser - função econômica da soci­
edade anônima a organização de grandes empresas, o importante papel
das pequenas e médias companhias no desenvolvimento do país, por
si só, justifica um tratamento especial e simplificado.
Não sem dificuldades. O reconhecimento de outros tipos ou
subtipos de sociedades anônimas, inclusive com características opos­
tas, importa na necessidade de revisão considerável da legislação, por
não se poder tomar por base modelo único de companhia90 •
A lei das sociedades anônimas brasileira e suas alterações são
alheias à nova realidade, assim como considerável parcela da doutri­
na. Talvez até por força de atraso no processo de difusão de pequenas
e médias sociedades anônimas.

90 Sobre alguns dos problemas, COMPARATO, Direito empresarial.. ., cit., p. 1 60; PERRINO,
Le tecniche ... , cit., pp. 4 1 -54.

66
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Duas únicas exceções na lei das sociedades anônimas são as com­


panhias com as características previstas nos artigos 1 76, § 6° e 294.
Ambas tratam de sociedades com patrimônio líquido inferior a um
milhão de reais. A disciplina do art. 1 76, § 6°, com nova redação dada
pela Lei 9.457/97, simplifica os procedimentos contábeis. Já o artigo
294 traz alguma simplificação nas regras referentes à convocação de
assembléia, publicidade e pagamento de administradores, sendo apli­
cável a companhias com até vinte acionistas91 • Contudo, faltam nor­
mas simplificadoras para constituição e administração, entre outras.
Sobre a opção pela forma de sociedade anônima fechada ou de
limitada para determinadas empresas92 , houve breve discussão após
a edição da atual lei brasileira do anonimato, cujo artigo 298 faculta­
va às companhias, no prazo de um ano, a transformação em socieda­
des por quotas de responsabilidade limitada. Trata-se de dirigismo
legal, sugerindo a adoção da sociedade por quotas para pequenas e
médias empresas, pois o legislador pretende a utilização da forma de
sociedades anônimas apenas para grandes empresas.
É hora de começar a pensar num regramento simplificado para
pequenas sociedades anônimas, seguindo-se os modelos alemão e
francês, com lei específica para pequenas companhias, pois são in­
suficientes as normas das sociedades anônimas fechadas (cf. 2 . 4 . 1
acima)93 •

91 O texto original estabelecia valor máximo de patrimônio l íquido. F o i suprimido pela


Lei n . 9.457/97, que adotou o critério do número de acionistas, o que permitiri a a
aplicação da regra a sociedades de grande porte, com menos de v inte acionistas. Tal
equívoco foi corrigido pela Medida Provisória n. 1 .681 (art. 1 2) e suas reedições e,
posteriormente, pela Lei 1 0. 303/0 1 , estabelecendo o valor do patrimônio l íq u i do infe­
rior a um m i lhão de reais, a lém de companhia fechada com menos de vi nte acionistas.
Para maiores detal hes, CARVALHOSA, Comentários. , cit., v. IV, t. 1 1 , pp. 481 -483.
..

92 Uma análise comparativa das sociedades anônimas fechadas e das sociedades l i mita­
das no Rras i l é apresentada por M É LEGA, "As sociedades anônimas e as sociedades
por cotas de responsabil idade l i m i tada. Confronto de eventuais vantagens e desvanta­
gens", ROM 25 (1 977), pp. 1 1 9-1 32.
93 Sobre as normas específicas para companhias fechadas, COMPARATO, "A natureza ... ",
cit., pp. 1 1 7- 1 1 9 e CARVALHOSA, Comentários ... , cit., 1 , pp. 3 2 - 3 3 .

67
ExcLUSÃO DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÔNIMAS

3 . SOCIE DADES ANÔNIMAS INTUITUS PERSONAE

3 . 1 . ELEMENTOS CARACTERIZADORES DAS SOCIEDADES


ANÔNIMAS PERSONALISTAS

Nas companhias, o vínculo intuitus personae pode ser reconheci­


do por lei, previsão estatutária ou convenção entre acionistas94 • Ou
até ser preexistente, como no caso de companhia originária de trans­
formação de sociedade de pessoas95 •
O caráter intuitus personae apresenta-se de diversas formas: li­
mitação à circulação de ações, exigência de prestações acessórias, res­
trição ao recrutamento de membros em razão do objeto social,
exigência de qualidades dos sócios (ex: nacionalidade ou determina­
da condição), relações diferenciadas entre a maioria e a minoria96 ,
envolvendo maior presença dos sócios na administração, acordos de
voto e preferência em caso de alienação de ações, restrição ou discri­
minações em relação a direitos de gestão, voto privilegiado97 , cláusu­
la de recompra ou compra forçada de ações, hipóteses para direito de
retirada além das previstas em lei, entre outras regras características
de sociedades de pessoas98 . Não implica, necessariamente, contri-

94 No caso de pactos de acionistas, as cláusu las mais comuns dizem respeito à transmis­
são de ações. Sobre o assunto, cf. 3 . 1 . 1 abaixo.
95 Cf. CAMERLYNCK, De /'l ntuitus ... , cit., p . 2 8.
96 Para COMPARATO, "Restrições ... ", cit., p. 66, diferenciando as "sociedades anônimas
de pessoas" das "sociedades anônimas de capitais", aponta como caracterlsticas pecu­
l i ares das primeiras, além da l i mitação à c i rcu lação das ações (quer no estatuto, quer
em acordo de acionistas), o quórum mais elevado do que o legal para determi nadas
q uestões (tanto na assembléia geral quanto no conselho de admi nistração), conferindo
um poder de veto à mi noria; distribuição eqüitativa de cargos administrativos entre os
sócios e grupos de sócios e a solução arbitral de l itígios societários.
97 Cf. MAZEAUD, L e vote... , cit., pp. 238 e 269 e seguintes.
98 Para MORIN, " lntuitus. ", pp. 3 1 6-3 1 9, a oferta pública de aqu isição de ações é mani­
..

festação de intuitus personae nas companhias, não só por representar manifestação da


vontade dos majoritários contra a permanência dos demais acionistas, como oportu n i ­
d a d e dos mi noritários de al ienar suas ações p e l a não confiança n o s controladores.
Porém, o motivo da permanência ou não dos minoritários na sociedade não parece ser
a questão da confiança pessoal nos demais, e sim econômico. Não se trata de restrição
do majoritário às pessoas dos minoritários, mas a sua vontade de não possu i r outros

68
RENATO VENTURA RIBEIRO

buição pessoal do acionista. Pode estar relacionado a outros fatores,


como a manutenção do controle da companhia99 , justificando a res­
trição à circulação de ações.
Em outros casos, a figura do sócio perde importância. Dentre os
quais, têm-se as sociedades anônimas com outros objetivos, como
estudo, patriótico, beneficência, esporte e propaganda, sendo o even­
tual lucro destinado à consecução das finalidades mencionadas100 .
A presença isolada de um dos elementos �ndicativos da impor­
tância da figura de um ou de um grupo de acionistas já deve ser sufi­
ciente para determinar o caráter personalístico de uma sociedade
anônima.
Descarta-se, no entanto, como marca do caráter intuitus perso­
nae de companhia a limitação do número de sócios e a presença de
capital fechado (com mais detalhes, n. 3.3.1 abaixo). No caso das
sociedades unipessoais, a presença de único acionista, por si só, não
deve caracterizar o vínculo intuitus personae, sendo também necessá­
ria a presença de, pelo menos, um elemento identificador da relevân­
cia do sócio.
Dentre as formas de identificação da sociedade anônima intui­
tuspersonae, destacam-se a restrição à circulação de ações e a existên­
cia de prestações acessórias.

sócios. Quanto aos m inoritários, a aceitação da oferta nem sempre representa rejeição
ou falta de confiança pessoal nos controladores. O problema, na maioria das vezes,
parece ser econômico, representando oportu n idade para venda de ações sem liquidez
ou discordância não em relação à pessoa dos demais sócios, mas quanto à política a
ser adotada pela sociedade.
99 A propósito, vide 3 . 1 . 1 abaixo.
1 00 Como lembra ASCARELLI, Problemas . , cit., p. 1 5 1 , exempl i fi cando à nota n. 1 6 1 : "V.,
. .

por ex., os estatutos da "Società Italiana per la Propaganda Turística a l l ' Estero", Boi!.,
1 929, fase. 5 1 , pág. 30, cujo escopo é o de "esercitare al l'estero l a propaganda per la
valorizzazione turística ita l i ana", da "Società Etna", Boi/., 1 929, fase. 5 1 , pág. 1 45 ,
para a valorização turística do Etna; da "S.A. lmmobi liare Littorio i n Legnano", Boi!.,
1 929, fase. 5 1 , pág. 94, cujo escopo é o de erigir e administrar edifícios destinados ao
uso de i nstituições de caráter público, patriótico, etc., e cujos lucros podem ser destina­
dos pela assembléia a objetivos morais ou patrióticos.".

69
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnAms ANôNIMAS

3 . 1 . 1 . RESTRIÇÕES À CIRCULAÇÃO DE AÇÕES

A livre cessibilidade das ações101 era uma das principais caracte­


rísticas da sociedade anônima102 , estando associada à sua condição
de sociedade de capitais. Em razão da evolução das companhias, as­
sim como o caráter exclusivamente intuitus pecuniae, o princípio da
livre cessibilidade tornou-se relativo103 , não importando na comple­
ta liberdade de transmissão. Todas as principais legislações permi­
tem o estabelecimento, nos estatutos, de cláusulas restritivas à
transferência de ações, contanto que não impeçam, na prática, a ne­
gociação da participação acionária.
No direito brasileiro, a principal manifestação normativa do in­
tuituspersonae nas sociedades anônimas é a permissão para o estatuto
impor limitações à circulação das ações nas companhias fechadas104 •
Apesar da restrição à transferência de ações, na lei brasileira, só po­
der ser prevista nos estatutos de companhias fechadas105 , pode ser

1 01 Sobre o tema, cf. RAY, L imitaciones a la transferencia de acciones, Buenos A i res,


Abeledo-Perrot, 1 960; PONT, Restricciones estatutarias a la libre transmisibilidad de
acciones, Madrid, Tecnos, 1 963; COMPARATO, O poder de controle na sociedade
anônima, 3 a ed., São Paulo, RT, 1 983, pp. 1 40-1 49; CARVALHOSA, Comentários... ,
cit., 1, pp. 2 6 1 - 2 7 1 .
1 02 Para COMPARATO, O poder de controle. . , cit., p. 1 40, a possibilidade de transferên­
.

c i a das ações constitui d i reito essencial do acionista, embora não expressamente pre­
visto em lei.
1 03 Para u m a visão de tal mudança, cf. RAY, L imitaciones... , cit., p. 32 e ss.; PRAT, Les
pactes d'actionnaires ... , cit., p. 6, e CARVALHOSA, Comentários. . , 1 , p. 2 62 e ss . .
.

1 04 Lei n. 6.404/76, art. 3 6, segu i ndo a orientação do art. 27, § 2º do diploma anterior e da
revogada Resolução Bacen 1 06, de 1 1 de dezembro de 1 968.
1 05 COMPARATO, na primeira edição de O poder de controle na sociedade anônima, São
Paulo, RT, 1 975, p. 1 54, opina pela proibição de qualquer l i mitação à c i rculação de
ações em companhia aberta, a contrario sensu da norma do di reito projetado de então,
que deu origem ao art. 36 da Lei 6.404/76. Posteriormente, o autor muda sua opinião,
afi rmando que a referida norma não comporta analogia, ou seja, não podem os estatu­
tos de companhias abertas estabelecer restrição à c i rculação de ações, cf. O poder de
controle . , cit., 3a ed., p. 1 49. A revisão é pertinente. De acordo com o texto legal,
..

apenas os estatutos de companhias fechadas podem prev er cláusul as restritivas à trans­


_
ferência de ações. No entanto, a lei e convenções extra-estatutárias, como acordo de
acionistas, podem impor condições à transmissibi lidade de ações nas companhias aber­
tas, como de fato veio a ocorrer, anos após a mudança de opi n i ão do autor, principal­
mente no caso de sociedades recém-privatizadas. O que reforça a idéia da existência
de intuitus personae também em companhias abertas (cf. 3.2 abaixo).

70
RENATO VENTURA RIBEIRO

estabelecida nas sociedades de capital aberto através de lei ou acordo


de acionistas.
A intransmissibilidade da participação societária, em razão
do intuitus personae nas sociedades, tem origem no direito roma­
no, no qual a regra geral era a dissolução da sociedade. Adiante,
por razões de cunho prático e com base no princípio da preserva­
ção da empresa, surgem alternativas à dissolução, como a concor­
dância com o ingresso de novos sócios, a exclusão de sócio e o
direito de retirada.
No direito francês, há cláusulas de agrément e de préemption,
disciplinadas nos artigos 274 a 277 da lei societária de 1. 966. Na
primeira, tem-se restrição à circulação de ações, que somente pode­
rão ser cedidas mediante prévia autorização. A sociedade anônima
tem a mesma disciplina das sociedades contratuais, em relação à ces­
são da participação societária, pela necessidade da concordância dos
demais sócios. A cláusula de préemption submete a alienação da par­
ticipação acionária ao Conselho de Administração. E, para evitar que
o acionista seja impedido pelos demais de transferir suas ações, em
caso de não aprovação do órgão, deve a companhia adquiri-las 1 06 .
Sob tal aspecto, apresenta-se como aperfeiçoamento do agrément,
impossibilitando objeções à livre transmissibilidade das ações 1 07 • Al­
guns estatutos e pactos extrasociais trazem a cláusula de rachat, se­
gundo a qual, no ato da aquisição, o sócio se compromete a vender a
participação social, ocorrendo determinada condição, como, por exem­
plo, o término de sua relação de trabalho com a sociedade108 .
A lei instituidora da société pars actions simplifiée (Lei 94-1,
de 3 . 1 .94) permite a inclusão no estatuto de cláusulas de inalie-

1 06 Quanto a problemas em relação ao preço de aquisição, vide CAM ERLYNCK, De


/'intuitus . . . , cit., pp. 60-62.
1 07 Cf. CAMERLYNCK, De /'i ntuitus .. ., cit., p. 56.
1 08 A respeito, cf. RIPERT, Traité. ., cit., p. 9 3 3 .
.

71
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANôNIMAS

nabilidade das ações por até dez anos, de exclusão de sócio e de


agrément109 •
O Código Civil italiano estipula a obrigatoriedade da restrição à
circulação das ações vinculadas a prestações acessórias (arts. 2.345, 2 e
2.355), podendo o estatuto estabelecer outros casos, como a clausola di
gradimento, equivalente ao agrément do direito francês, submetendo
o ingresso do acionista à autorização da sociedade110 •
São diversas as formas111 e os objetivos das restrições estatutári­
as à cessibilidade das ações. Porém, nem sempre a limitação da trans­
ferência da participação está relacionada à importância da pessoa de
determinado acionista tendo servido, inclusive, para évitar a cessão
de ações ainda não integralmente liberadas.

1 09 Cf., respectivamente, art. 262- 1 4, 1 7 e 1 5 , da lei das sociedades de 1 . 966, com nova
redação pela lei de 1 .994.
110 A clausola di gradimento é objeto de inúmeras críticas, como as de MESSI N EO, " La
c l ausola di gradi mento all'al ienazione delle azioni e di ritti inerente a l i a qual ità di sacio",
Riv. Soe. 5 ( 1 960), pp. 1 8-26. Decisões da Suprema Corte de Cassação italiana (ns.
2 . 365, de 1 5 .5 . 78, e 5. 567, de 2 5 . 1 0.82) declaram nula cláusu la estatutária atribui ndo
ao Conse l ho de Adm i n i stração poderes para autorizar ou não a transferência de ações.
A ú ltima deu origem à recomendação da CONSOB, em maio de 1 983, nos seguintes
termos: "Oggetto: c l ausola statutari a di grad imento. Si rende noto che qu esta
commisione, nel quadro di una generale riconsiderazione delle problematiche connesse
a l i a presenza sul mercato di titoli soggetti a l i m itazione di trasferimento, há ritenuto
pregi u d i zi a le, ai fi ni del l'ammissione a l i a quotazione, la ri moz ione delle clausole
statutarie che, come nel caso di codesta Banca, condizionanno l a trasferibi l ità dei le
azioni a i potere d i screzionale del l'organo di amm i n i strazione. L a determ i n azione
anzidetta si rico l lega a l ie esigenze connesse a l i a migl iore fu nzional ità dei mercato e
trova specifico supporto anche nella piu recente giu risprudenza della Suprema Corte
di Cassazione (sentenza n. 2 365 dei 1 5 maggio 1 978 e n. 5567 dei 25 ottobre 1 9 8 2 . "
Para ma iores detalhes, cf. bibl iografia referida p o r COL ETTA, Espropriazione s u quote
di società di capital!, Padova, CEDAM, 1 9 89, p. 20, nota n. 36, à p. 2 1 .
111 RIPERT, Traité. . , cit., p. 93 1 , com i ndicação bibliográfica e j u risprudencial, elenca a l ­
.

g umas formas restritivas à transmissão d e ações, como as cláusulas de agrément, de


préemption, compromi sso de não ampliação da participação social através da aqu isi­
ção de títu los novos (pacte de non-agression), l i mitação da porcentagem das ações
com direito a voto ou do capital social (c/ause de plafonnement) e de inalienabil idade
por u m determinado período (clause d'inaliénabilite}. Já COMPARATO, O poder de
controle . . , cit., p. 1 40, menciona as cláusulas estatutárias de submissão da transferên­
.

cia ao consentimento (p/acet) de um órgão da sociedade, impedimento à participação


na sociedade por razões pessoais (nacional idade ou profissão, por exemplo), opção e
preferência ou prelação na venda de ações.

72
R ENATO VENTURA RI BEIRO

Uma finalidade é a estabilidade do controle da companhia112 ,


objetivando a sua manutenção e o equilíbrio de forças entre os contro­
ladores, impedindo que um se sobreponha ao outro, tornando-se ma­
joritário. Busca-se atender mais aos interesses dos controladores do
que ressaltar a importância do sócio. Por isto, a priori, a relação intuitus
personae decorrente da restrição à transferência de ações não deve ser
entendida como dever de colaboração pessoal do acionista113 •
Em outros casos, é nítida a relação entre a restrição estatutária e
a importância do sócio. Notadamente, quando o objetivo é maior
garantia do cumprimento das prestações acessórias ou barrar o in­
gresso de acionistas que possam prejudicar os negócios da compa­
nhia, por serem estranhos ou concorrentes. Há também, por questões
internas ou externas à sociedade, a vontade de permitir apenas a en­
trada de sócios com determinadas condições, como nacionalidade.
Hodiernamente, a presença de alguns acionistas (governos, grandes
grupos empresariais ou financeiros, fornecedores e até clientes) é
importante meio de apresentação, abono e recomendação da socie­
dade, justificando, em seu favor, a restrição estatutária à alienação de
suas ações, inclusive nas companhias abertas. Sem contar as hipóte­
ses de órgãos de comunicação, entidades confessionais, sociedades
familiares ou exigência de nacionalidade brasileira dos sócios para
exercício de determinadas atividades.
A restrição à circulação de ações, como a exclusão de sócio, é
tema limítrofe entre o interesse da sociedade e os direitos individuais
dos acionistas. Seu tratamento deve ser bastante criterioso, pesando-

112 Cf. CHAMPA U D, L e pouvoir de concentration de la société par actions, Paris, Si rey,
1 962, p. 3 1 ; PASCUAL, "Le personne physique . . . ", cit., p. 2 77. Para COMPARATO, O
poder de controle. . . , cit., p. 1 4 1 , a garantia do controle é a ú n ic a final idade das c láusu­
las restritivas à transm issão de ações.
113 Ao contrário das sociedades de pessoas, nas quais a razão prática do intuitu personae
é o recíproco empenho e recíproca expectativa de uma válida e operosa colaboração,
com uma efetiva contribuição pessoal, em razão de capacidade, experiência ou garan­
tias pessoais, como aponta DALMARTELLO, L 'esclusione. , cit., pp. 9 1 -94.
..

73
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SomDADEs ANóNIMAS

se a finalidade almejada pelo instituto e o resguardo dos direitos dos


sócios. Ainda mais em sociedades anônimas, nas quais a limitação à
transferência da participação societária é urna exceção ao princípio
da livre cessibilidade.
Com tal ótica, três aspectos merecem destaque especial. Primei­
ro, deve ser obrigatória a fundamentação da decisão do órgão da so­
ciedade que indefere a cessão de ações. Assim, é possível detectar
eventual abuso de poder ou impedimento injustificado de transfe­
rência das ações, possibilitando eventual recurso judicial, não tanto
para suprir a autorização negada (que é prerrogativa da companhia),
mas para pedido de perdas e danos causados pela decisão. Ou, nos
casos de recusa injustificada, a obrigatoriedade da companhia ou de
seus acionistas adquirir as ações nas mesmas condições. Porém, a
fundamentação não deve ficar restrita às hipóteses previstas no esta­
tuto. A negação da permissão pode ter outros motivos, desde que
relacionados ao objetivo da restrição estatutária. As legislações são
omissas quanto à exigência de decisão fundamentada, passando a idéia
de que se trata de direito potestativo da sociedade114 , posição que
deve ser combatida, pelos motivos já expostos115 •
Outro problema é a estipulação de limitação à transmissão de
ações após a constituição da sociedade. Daí o acerto da lei brasileira
(art. 36, parágrafo único) ao submeter a restrição superveniente à
concordância dos titulares das ações mediante averbação no livro de
registro de ações nominativas. Tratando-se a livre circulação das ações
de princípio das sociedades anônimas, inclusive das fechadas, altera­
ção estatutária de tal porte equivale ao rompimento das bases essen-

114 U m a exceção parcial é a lei alemã, cujo § 68.2, ao afirmar que o estatuto "pode"
i nd icar os motivos, confere apenas facu ldade de prever algumas hipóteses.
115 U m exemplo de excesso de poder discricionário aqui criticado é encontrado no d i reito
i ngles (Companies Actde 1 948, art. 28, a): "The directors may, i n their absolute discretion
and without assigni ng any reason therefor, decline to register any transfer of any share,
whether or not it is a fu l l y paid share".

74
RENATO VENTURA RIBEIRO

ciais da sociedade. E nem eventual direito de recesso serve de meio


de proteção àquele acionista que deseja permanecer na sociedade,
mantendo sua possibilidade de livre cessão da participação acionária.
Por fim, a questão da preferência para aquisição das ações do
sócio retirante, que deve ser disciplinada no estatuto, estabelecendo
se caberá à sociedade ou aos demais acionistas e em que condições116 •
Delicado problema, em tais casos, é a fixação estatutária ou não do
preço da ação117 • O valor patrimonial ou qualquer outro, pode não
corresponder ao justo preço da ação, fazendo com que ou o compra­
dor pague mais ou o vendedor receba menos. Representa prejuízo
para a companhia que paga mais do que valem as ações ou, em caso
contrário, a alienação por valor inferior ao da ação importa em restri­
ção à transmissão da participação acionária - o que a lei objetiva
coibir, pois o acionista pode optar em permanecer na sociedade ao
invés de ceder suas ações a preço abaixo do valor real ou de mercado.
Parece mais plausível a fixação do preço entre as partes e, na impos­
sibilidade de acordo, a aplicação de critérios legais, como os previstos no
art. 45 da lei do anonimato, sem descartar a possibilidade de realização
de perícia para apuração do valor da participação acionária, utilizando­
se, por analogia a regra do art. 8° da Lei 6.404/76, com a indicação de
um perito pelo comprador, outro pelo vendedor e o terceiro pelos dois
peritos nomeados. Após a apuração do preço, cabe ao acionista a opção
de vender ou não suas ações. Dessa forma, estão resguardados os inte­
resses de ambas as partes, sem a necessidade de recurso a outros remé­
dios, como pedido de "dissolução parcial" da companhia.

116 CARVALHOSA, Comentários. . . , cit., 1, p. 266, lembra algumas possibilidades: " . . . o es­
tatuto deve especificar a favor de quem é outorgada a preferência e se haverá ordem
no seu exercício: assim, v.g., se a preferência é para a própria sociedade, já que pode
ela adqu i r i r suas próprias ações com reservas e saldos de lucros (art. 30); ou se a prefe­
rência é para a generalidade dos acionistas, mediante critério de rateio proporcional às
ações possuídas; ou se ta l preempção somente poderá ser exercida pe los titu lares de,
v.g., 1 0% ou mais do capita l social; ou, a i nda, se a opção refere-se apenas às ações
votantes ou também às não votantes".
117 Para m aiores detalhes, vide CARVALHOSA, Comentários . , cit., 1 , pp. 2 66-269.
. .

75
ExnusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAs

3 . 1 . 2 . PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS

A sociedade anônima intuitus personae também é identificada


pela previsão estatutária de contribuições acessórias de todos ou al­
guns acionistas. Como diz o próprio termo, trata-se de obrigação de
caráter acessório, não excluindo a principal1 1 8 , a contribuição para
integralização do capital social119 • Como exemplos de prestações aces­
sórias, tem-se o compromisso do sócio de oferecer tecnologia indis­
pensável à produção de determinados bens ou serviços, fornecer
matérias-primas escassas no mercado ou cessão de patente, nome ou
marca comercial120 •
S endo a contribuição principal pecuniária, para integralização
do capital social, a maioria das legislações traz as prestações acessóri­
as como não pecuniárias, gratuitas ou onerosas, proibindo obriga­
ções acessórias pecuniárias121 . No entanto, na ausência de vedação
legal, devem ser admitidas prestações acessórias pecuniárias, como
concessão de créditos, desde que não contribuam p ara integralização
do capital, não constituindo, portanto, obrigação principal.
Do ponto de vista econômico, apesar de não pecuniária e aces­
sória, tal obrigação pode ser mais importante do que a principal, es­
pecialmente se o valor da participação social for ínfimo diante da
relevância da prestação exigida. No entanto, juridicamente é consi­
derada acessória122 •

118 Como expressamente previsto n a Aktiengesetz, § 54.


119 Contrariando a idéia aqui exposta, pode-se alegar que como a obrigação pri ncipal do
acion i sta sujeito à prestação acessória é él pecuniária, a existéncia de outra obrigação
não descaracteriza o caráter intuitus pecuniae da sociedade anônima. No entanto, a
obrigação de contribuição com capital não é característica excl u siva de acionista d a
sociedade anônima, mas s i m d e todo sócio de sociedade comercial.
1 20 Cf. PI NTO JR ., "Exclusão de acionista", cit., pp. 86-87.
1 21 É o caso da Alemanha (Aktiengesetz, § 55), Itál ia (Codice Civile, art. 2.345) e Argentina
(Ley 1 9. 550/72, art. 50). Em Portugal, o Código das Sociedades Comerciais fal a em
prestações "não pecuniárias" tanto nas sociedades anônimas (art. 287-2) como nas
sociedades por quotas (art. 209-2).
1 22 Cf. COMPARATO, "Restrições ... ", cit., p. 68.

76
R ENATO VENTURA RI BEIRO

As leis reguladoras das prestações acessórias prevêem a restri­


ção à transferência das ações sujeitas a elas, estabelecendo que sua
cessão deve ser objeto de permissão. Divergem apenas quanto ao
órgão autorizador. O § 55 da Aktiengesetz fala em concordância da
sociedade, o art. 2.345 do Código Civil italiano em administrado­
res e o art. 50 da lei argentina (Ley 19.550, de 1.972) em diretoria.
Tal limitação indica a confiança pessoal na figura do acionista, de­
monstrando que não basta ter condições de cumprir com as obriga­
ções acessórias, mas é necessária a fidúcia da sociedade, o que
alimenta a importância do sócio.
Não se deve confundir as prestações acessórias (Nebenleistugen),
não pecuniárias, com prestações sur,lementares (Nachschüsse, no di­
reito alemão) . As primeiras são obrigatórias, não pecuniárias e regu­
ladas na lei das sociedades anônimas. As outras, facultativas, em
dinheiro e previstas apenas na lei das sociedades limitadas alemã ( Gm­
bHG, § § 26 a 28) e aplicáveis em sociedades contratuais nos outros
países123 , embora nada impeça sejam previstas em acordos de acio­
nistas . No entanto, salvo previsão contratual, não se pode impor aos
sócios prestações suplementares, sob pena de afronta à limitação da
responsabilidade124 •

Em contrapartida às obrigações acessórias, têm-se as sanções


para o caso de seu inadimplemento ou cumprimento parcial. As le­
gislações citadas não estipulam seu conteúdo, facultando aos estatu­
tos a fixação das sanções. Trata-se da melhor solução, pois se múltiplas

1 23 Entre outros, na Espanha, arts. 25 a 28 da lei das sociedades de responsab i l idade


l i m itada (Ley 2/95); em Portugal, arts. 2 1 0-2 1 3 do Código das sociedades comerc i ais;
n a Suíça, arts. 777, 2 e 803 do Código das Obrigações e, n a Argentina, a rt. 1 5 1 da
Ley 1 9 .55 0/72 .
1 24 No B rasi l, no ú nico caso conhecido, j u lgado pelo STF, foi admitida a val idade de p res­
tações suplementares em sociedade civil de responsabil idade l i mitada, com base no
art. 1 .396 do Código Civi l (cf. ROM 39 ( 1 980), pp. 1 92-200, com nota em apoio de
G U E R R E I RO). No entanto, não deve servir de parâmetro, por envolver a velha polêmi­
ca de aceitação ou não da sociedade civil de responsabi lidade l i m itada.

77
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADEs ANôNIMAS

são as possibilidades de prestações acessórias, diversas podem ser as


sanções. Se as legislações não estabelecem sequer exemplos de pres­
tações acessórias, menor razão teria a estipulação de sanções. Ade­
mais, as demais normas de cada país e o recurso ao Judiciário eliminam
qualquer risco de sanção abusiva, como, por exemplo, cláusula penal
com percentual exagerado.
No Brasil, apesar da influência do diploma germânico de 1.965,
a lei do anonimato não cuida das prestações acessórias. Talvez até
pelo tratamento institucional conferido às sociedades anônimas. O
que, evidentemente, não impede a adoção de tais obrigações nos es­
tatutos das companhias, bem como das sanções por seu incumpri­
mento, inclusive a exclusão de sócio. Até porque, mesmo para
macrocompanhias pode ser importante o estabelecimento de presta­
ções acessórias, como fornecimento de matéria-primas ou de tecno­
logia, facilidade em importação ou exportação, aquisição ou
distribuição de produtos. Por isto, a lacuna deve ser suprimida, lem­
brando-se o importante papel da doutrina no aperfeiçoamento da
legislação.
A disciplina legal da matéria também pode solucionar eventu­
ais problemas, como alteração estatutária para inclusão de obriga­
ções acessórias (por ex. , a proibição de não concorrência) . Nem
sempre poderá ser alegado abuso de maioria, mormente se a pres­
tação acessória alcançar todos os acionistas. Como a obrigação aces­
sória vem associada à restrição à circulação de ações, o melhor
caminho é a aplicação analógica do parágrafo único do artigo 36 da
lei, pois a obrigatoriedade deve alcançar somente os acionistas com
ela concordantes125 •
Mas isto não resolve o problema. Pode ser aprovada pela assem­
bléia geral a criação de nova classe de ações, cujos titulares ficam

1 25 Por todos, cf. bibl iografia citada por COLETTA, Espropriazione , cit., p. 6, nota
... n. 1 2.

78
R ENATO VENTURA RIBEIRO

sujeitos a prestações acessórias, e aumentado o capital social medi­


ante subscrição de ações da nova classe. Ou o acionista aceita a obri­
gação acessória ou vê sua participação diluída, inclusive com a perda
de direitos assegurados por percentual do capital social ou votante.
Afastando a discussão sobre eventual abuso da maioria na delibera­
ção que, por seu turno, pode justificar-se com base na proteção dos
interesses sociais, o acionista dissidente não é protegido nem se hou­
vesse a possibilidade de direito de recesso, pois pode ter interesse,
por razões de ordem pessoal ou econômica, em permanecer na soci­
edade, com os direitos assegurados pelo percentual de sua participa­
ção societária à data da decisão.
Assim como na hipótese de exclusão, tem-se mais um aspecto a
ser disciplinado legalmente, no qual estão em confronto direitos in­
dividuais e o interesse social.

3 .2 . SOCIEDADES ANÔNIMAS INTUITUS PERSONAE E FECHADAS:


DIFERENCIAÇÃO

Não se pode identificar caráter intuitus personae com todas as


companhias fechadas.
A companhia fechada caracteriza-se unicamente pela não ad­
missão à negociação de seus valores mobiliários em bolsa ou no mer­
cado de balcão (Lei n. 6.404/76, art. 4°), independentemente de ser
constituída por subscrição particular ou pública126 e ter ou não limi­
tação à circulação de ações ou ao número de acionistas.

1 26 O parágrafo ú n i co do art. 4º da Lei n. 6.404/76 d istingue a d istribuição no mercado da


negociação em bolsa ou no mercado de balcão. Somente a possib i l i dade de negocia­
ção caracteriza a companhia aberta, conforme o caput do referido artigo; daí a conclu­
são de que a d istribuição de ações no mercado, até por subscrição públ ica, não impli­
ca na caracterização de sociedade aberta. O registro na Comissão de Valores Mob i l iá­
rios refere-se somente à d istribuição de títu los no mercado e não i nd ica, necessaria­
mente, a abertura de capital . Assim também a compan h i a fechada emissora de debên­
tures: necessita de registro na C.V.M., mas não impl ica em abertura de capital . Por fim,
não há que se confu n d i r a distribuição primária de valores mobi l iários com o mercado
secundário de bolsa ou de balcão.

79
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SornDADES ANÓNIMAS

O caráter personalista de uma companhia é determinado por


um dos elementos acima relacionados (cf. 3 . 1 supra), não importan­
do se a sociedade é de capital aberto ou fechado. Se o estatuto de
uma companhia aberta estipula obrigações acessórias a determina­
dos acionistas, sua pessoa é relevante à sociedade, não se podendo
negar o traço personalístico. Por outro lado, em companhia fechada,
sem a presença dos referidas características personalistas, a figura do
sócio é irrelevante e indiferente, tanto que ele pode livremente trans­
ferir suas ações a qualquer pessoa.
A possibilidade não só de ingresso como da permanência de
acionista contra a vontade dos demais nas companhias fechadas im­
plica sua não caracterização como sociedade personalista. Só haverá
vínculo intuitus personae no caso de restrição estatutária à livre circu­
lação de ações.
A favor da identificação do vínculo intuituspersonae em todas as
companhias fechadas, invoca-se a possibilidade legal e abstrata da
estipulação de restrições à transmissão das ações127 . Mas isto não é
correto, pois se trata de regra excepcional e não geral. Como nem
toda companhia fechada tem restrição à circulação de ações, torna-se
indiferente a figura dos sócios. Por outro lado, a classificação genéri­
ca, de acordo com o tipo "companhia fechada" incorre no mesmo
equívoco de associação de todas as sociedades anônimas, em razão
de sua forma, com sociedades de capitais, invalidando a própria di­
cotomia (cf. 1 .2 supra). E o argumento perde a sua força diante da
possibilidade de limitações à circulação de ações nas companhias
abertas, por força de lei ou acordo de acionistas.
Por fim, o capital fechado não implica em recíproca confiança e
relevância da figura dos acionistas. Basta recordar no direito brasilei­
ro que a sociedade pode fechar seu capital quando ações representa-

1 27 Cf. REQUI Ã O, Curso .. ., cit., pp. 28-29.

80
RENATO VENTURA RIBEIRO

tivas de 95% do capital social se encontram na titularidade dos con­


troladores. E acionistas minoritários discordantes do preço proposto
em oferta pública de aquisição de ações permanecem com suas ações,
em sociedade de capital fechado. Apesar do fechamento de capital,
os minoritários continuam sendo mero prestadores de capitais e não
há relação pessoal ou de confiança entre os acionistas. Sem um dos
elementos característicos do vínculo intuitus personae, a sociedade
fechada não deve ser tida como personalista.

3 . 3 . As COMPANHIAS FAMILIARES

Até pouco tempo no Brasil eram comuns as chamadas "compa­


nhias familiares"128 . Parte da doutrina identifica a vulgarmente cha­
mada "sociedade familiar" como espécie de companhia fechada129 ,
quando constituída sob a forma de anônima por pessoas ligadas por
laços familiares 130 .
No direito italiano,'a idéia de sociedade familiar abrange socie­
dade composta somente por pessoas ligadas por laços de parentes­
co131, com vínculo intuitus personae strettissimo132 , e regramento legal
próprio133.
Mas o conceito de sociedade familiar deve ser buscado no con­
trole e não na figura dos sócios, considerando-se familiar a sociedade
controlada exclusivamente ou em sua maioria por pessoas (ou socie­
dades controladas por pessoas) vinculadas por laços familiares.

1 28 Sobre o conceito e elementos de sociedade fami l iar, cf. B EISSWI N G E RT, Die franzósische
société anonyme ais Familiengesellschaft, tese, Regensburg, 1 997, pp. 3-7.
1 29 O conceito de sociedade fami l iar para ASCARELLI, Problemas . . , cit., p. 346, nota n .
.

1 00, parece ser bem m a i s amplo, abrangendo a s sociedades c o m poucos sócios, rela­
cionados entre si, não necessariamente por laços fami l i a res.
1 30 A idéia de laços fam i l iares é mais abrangente do que o conceito j u rídico de parentesco,
decorrente dos arts. 330, 3 3 1 e 333 do Código Civ i l .
1 31 A propósito, cf. S IMON ETTO, " L ' impresa fam i l i a re, dubbi i nterpretative e l acuna
normative", Riv. Soe. 2 1 ( 1 976), 3-4, pp. 505-5 2 5 .
1 32 Cf. S IMON ETTO, "L'impresa fami liare . . . ", cit., p. 5 1 9.
1 33 Codice civile, art. 230 bis.

81
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANóNIMAs

Mesmo em sociedades fechadas constituídas exclusivamente por


familiares pode haver o ingresso de estranhos, pois nelas também
vigora o princípio da livre cessibilidade de ações. O capital fechado
não é fator impeditivo para que um acionista aliene suas ações, inclu­
sive para terceiros não parentes. O ingresso de terceiro, não parente,
com participação ínfima, não é suficiente para descaracterizar uma
sociedade familiar, justificado o conceito de sociedade familiar com
base na titularidade do controle. Contra, poderia ser invocada a pos­
sibilidade de restrição à circulação de ações nas companhias fecha­
das. Porém, a limitação à transferência acionária apenas caracteriza
sociedade intuitus personae, que, como será visto a seguir (3.3.1.), não
coincide, necessariamente, com a sociedade familiar.
O conceito de sociedade familiar deve, pois, ter por base o con­
trole e não a composição exclusiva por pessoas de mesma família,
desfazendo-se os equívocos de associação da sociedade familiar com
companhias fechadas e caráter intuituspersonae . Já a empresa famili­
.

ar pode ter tratamento legal específico, como no direito italiano ( Go­


dice civile, art. 230-bis).
3 .3 . 1 . DISTI NÇÃO ENTRE SOCIEDADES FAMI LIARES E INTUITUS

PERSONAE

Não obstante a relação familiar e pessoal dos sócios (caracterís­


tica, aliás, do primitivo consortium ereto n.on cito do direito romano e
das sociedades medievais), deve haver um critério objetivo para en­
quadrar as sociedades como personalistas ou não, qual seja, a presen­
ça de uma das características acima elencadas (cf. 3.1 acima) .
A pessoa do sócio pode ser indiferente se a sociedade constituída
por membros de uma família não tem, por exemplo, uma cláusula de
restrição à circulação de ações. Assim, não há razão para se falar em
intuitus personae. Até porque o acionista membro da família, ao ceder
livremente suas ações a terceiro, permite seu ingresso na sociedade, sem
alterar sua estrutura e independentemente da concordância dos demais.

82
RENATO VENTURA RIBEIRO

Apesar do vínculo pessoal dos sócios, a companhia familiar não


é intuitus personae, caso não tenha restrição à circulação de ações ou
prestações acessórias. A societas romana e as sociedades medievais
são intuitus personae não por serem formadas por pessoas da mesma
família, mas sim por suas regras que estabelecem a importância dos
sócios, como, por exemplo, a dissolução compulsória pelo falecimen­
to de um deles, a pena de infâmia e o beneficium competentiae, entre
outras características134 •
Prova disto encontra-se na própria evolução da societas romana.
No primeiro momento, é formada pelos herdeiros para exploração
em comum dos bens do falecido. Depois, admite-se o ingresso de
terceiros. Mesmo na segunda fase, com o ingresso de não familiares,
a societas permanece inclusive com traços de intuituspersonae absolu­
to. Logo, não é a composição exclusiva por parentes que caracteriza a
sociedade personalista.
Por fim, como até companhia aberta pode ser intuituspersonae ( cf.
3.2., supra), qualquer pessoa (parente ou não dos controladores) pode
ser acionista, mediante aquisição de ações no mercado secundário.

3 . 3 . 2 . ÜISTINÇÃO ENTRE SOCIEDADES FAMILIARES E COMPANH IAS


FECHADAS

Pelo conceito exposto de sociedade familiar, tendo por base a


titularidade do controle, tanto companhias abertas quanto fechadas
podem ser consideradas familiares. A idéia de companhia familiar é
independente da abertura ou não do capital.
É errônea a associação de sociedade familiar com a não abertura
de capital. Mesmo nas companhias fechadas há, salvo disposição em
contrário, a livre cessibilidade das ações, podendo haver o ingresso
de não parentes. E a nova composição acionária pode não ser sufici-

1 34 Para uma breve visão da manifestação do vínculo intuitus personae nas sociedades
romanas e medievais, d. Parte li, Capítu lo li, ns. 1 e 2, abaixo.

83
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SocirnADES ANÓN IMAS

ente para descaracterizar a companhia como familiar, notadamente


se a participação de não parentes não influir no controle.
Se há restrição à circulação de ações, a sociedade é personalista.
Se não há, pode haver o ingresso de não parentes. Daí ser indiferente
a companhia familiar ter ou não capital aberto.
Até recentemente, parte considerável das sociedades com ações
negociadas em bolsa eram controladas por membros de uma mesma
família. Em muitos casos, houve alienação de controle. Mas, enquanto
companhias familiares, a participação de terceiros, não parentes, e a
abertura de capital pouco influenciava o centro da tomada de deci­
sões da sociedade. As deliberações provinham dos controladores, li­
gados por laços familiares (não necessariamente de parentesco, no
sentido jurídico), o que, por si só, é o bastante para identificar uma
sociedade familiar. A falta de características de vínculo intuitusperso­
nae ou a abertura de capital não descaracterizam a companhia como
familiar.

3 .4 . SOCIEDADES U N IPESSOAIS NÃO PERSONALISTAS

Embora alguns autores135 enumerem as sociedades unipessoais


como exemplo de sociedades personalistas, ambos os conceitos não
devem ser associados, pois a contribuição do único acionista pode ser
apenas com o ingresso de capital. Reforçam tal argumento a limita­
ção da responsabilidade, a separação entre propriedade e controle,
com a gestão dos negócios sociais por terceiros, a falta de previsão de
obrigações acessórias e até a inspiração institucional da lei brasileira,
que introduz a sociedade unipessoal originária.
Mesmo quando há o reconhecimento legal da relevância do só­
cio, como no caso da restrição à circulação de ações prevista na lei
brasileira, é explícita a necessidade de previsão estatutária da limita-

1 35 Como F R I E D EWAL D , Die personalistische Aktiengesellschaft, cit., pp. 1 1 - 1 2 .

84
R ENATO VENTURA RIBEIRO

ção. Por tal critério, somente as companhias unipessoais cujos esta­


tutos trazem a restrição à transmissibilidade de ações devem ser con­
sideradas personalistas. Pode haver alienação das ações sem a
concordância do único acionista, como nas hipóteses de desapropria­
ção ou penhora, com posterior venda em hasta pública de parte das
ações e a conseqüente ampliação do número de sócios. A sociedade
unipessoal não tem obrigatoriamente o capital representado por única
ação. A lei fala em divisão do capital em ações (Lei 6.404/76, art. 1 º).
Pelo exposto, as companhias unipessoais podem ser ou não per­
sonalistas, dependendo da importância da ou não da pessoa do sócio.

4. CARÁTER J U RÍDICO DAS SOCIEDADES ANÔNIMAS


INTUITUS PERSONAE

Um dos problemas do subtipo da companhia com vínculo per­


sonalista é o seu caráter jurídico. Se já há dificuldades em relação às
grandes companhias, com feição intuituspecuniae e semelhança com
o modelo idealizado pela doutrina, desafio torna-se maior diante de
tipo particular e bem diferenciado - para não dizer oposto - do pa­
drão. Urge enfrentá-lo, não só como problema teórico, mas real, dado
o elevado número de pequenas e médias sociedades anônimas, mui­
.
tas com caráter personalista.
Em tema de exclusão de sócio, é de fundamental importância a
definição do caráter jurídico das companhias intuitus personae, pois o
tratamento da matéria pode ter resultados diferentes em virtude do
enfoque conferido à sociedade. Se, por exemplo, a sociedade anôni­
ma personalista tiver o caráter contratual, à exclusão dos acionistas
podem ser aplicados os princípios contratualistas, como a resolução
por inadimplemento contratual. Se for concebida como instituição,
os caminhos a serem seguidos devem levar em conta tal perspectiva.
Dos assuntos versados, a identificação da natureza jurídica é tal­
vez um dos mais difíceis, com a agravante de comportar várias mo-

85
ExcLUSÃO DE Sócios NAS Soc1mADES ANÔNIMAS

nografias para cada visão. Pela limitação do tema e espaço, serão abor­
dados sucintamente os principais tópicos da matéria, evitando repe­
tições sobre a velha discussão sobre o caráter jurídico das sociedades,
e com atenção centrada nos aspectos necessários para exame da ex­
clusão nas companhias.

4 . 1 . TEORIAS CONTRATUALISTAS

Desde o direito romano tende-se a identificar a sociedade com


obrigação contratual136 • Apesar da sociedade anônima ser bem dife­
rente da societas romana, a tese contratualista encontra muitos defen­
sores. Os mais antigos identificam as companhias até como contrato
bilateral, tese superada pela idéia de contrato plurilateral137 •
Da noção de contrato plurilateral, consagrada legislativamente,
interessam alguns aspectos em particular. Pela possibilidade de mais
de duas partes, o contrato plurilateral é um contrato "aberto" e os
vícios138 e inadimplemento na adesão139 individual de uma parte não
afetam todo o contrato, apenas o vínculo daquela parte. Assim, a não
execução da obrigação de uma parte, ao contrário de acarretar a nu­
lidade por impossibilidade superveniente ou a resolução total do con-

1 36 O conceito romano de contractus é d iverso do atual e alvo de controvérsia, pois além


de haver dúvidas se o elemento consensu está presente em todos os contratos ou ape­
nas naqueles c l a ssificados como consensuais, pelo que se pode entender como
contractus qualquer obrigação não derivada de um delito ( C. 3, 88), inclusive u n i l ate­
ral. Uma breve resenha da questão, com indicação bibliográfica, encontra-se em RI­
B E I RO, "Societas". . . , cit., pp. 9-1 4 . A societas romana exige o consenso, sendo consi­
derada pela doutrin a majoritária como contrato, com base em textos como C. 3, 1 35 .
Sobre a polêmica sobre o caráter da societas romana, cf. bibliografia mencionada por
R I BE I RO, idem, pp. 68-72 . .
1 37 Curiosamente, um romanista, ARANG IO-RU IZ, diz ser o primeiro a afirmar o caráter
plurilateral do contrato de sociedade, na obra Corso d'istituzioni di diritto romano 1, 1 •
ed., Napoli, 1 .92 1 , p. 240, nota n. 1 (cf. do mesmo autor, La società, p. 74, nota n. 1 ).
Mas a base teórica se deve a comercialistas, ao aplicarem o conceito de contrato
p l u r i l ateral às sociedades comerciais. Por todos, cf. ASCARELLI, Problemas. . , cit., pp.
.

2 5 5 -3 1 2, e bibl iografia i nd icada por PERRI NO, Le tecniche. . . , cit., p. 1 1 4, nota n. 1 36.
1 38 Sobre a distinção entre vícios do contrato e vícios das adesões i ndividuais, cf. ASCARELLI,
Problemas. . . , cit., p. 287, com exemplos.
1 39 Apesar da util ização do termo "adesão", o contrato plurilateral não é, necessariamente,
contrato de adesão, pela possibilidade das múltiplas partes discutirem seu conteúdo.

86
RENATO VENTURA RIBEIRO

trato, como nos contratos normais, tem por efeito a resolução parcial
em relação à adesão da parte inadimplemente. Aos contratos plurila­
terais não se aplica o princípio da exceptio inadimplenti contractus dos
contratos bilaterais: a inadimplência de um dos contratantes não de­
sobriga os demais.
O contrato plurilateral, em contraposição aos contratos de per­
muta, tem por função instrumental disciplinar a organização dos bens
para alcançar o fim comum almejado14º . A obrigação de cada parte é
para com todas as outras, para atender à finalidade comum. Em ra­
zão de suas regras como contrato de organização, permite a tomada
de decisões pela maioria.
A grande crítica à teoria contratualista diz respeito ao acordo de
vontades, que caracteriza o contrato. Primeiro, pela possibilidade de
múltiplos interesses divergentes entre os sócios, durante a existência
do contrato141 , como na repartição de lucros e tomada de decisões
quanto aos negócios a serem efetuados pela sociedade (ex. : gestão
mais arrojada ou mais conservadora) . Há o interesse comum das par­
tes no máximo lucro da sociedade, mas pode haver divergências na
forma de obtê-lo. Além disto, cada sócio pode ter em vista não maior
lucro da sociedade (a ser distribuído por todos), mas o seu máximo
proveito individual, com o mínimo desembolso de esforços.
Outro problema é a possibilidade de alteração da vontade inicial
pela maioria, podendo acarretar situação não desejada por sócios no
ingresso na sociedade.
Contra tal mudança, nas sociedades contratuais do Código Co­
mercial tem-se a possibilidade do pedido de dissolução e nas limita­
das, também o direito de retirada. Havendo desacordo de um sócio, há

1 40 A função i nstrumental de organização é expl icada por ASCARELLI, Problemas. . , cit., .

pp. 2 7 1 -274.
141 Ao contrário do que precon i za VIVANTE, Tratatto. . , cit., p . 303, para quem o s i n teres­
.

ses são divergentes apenas até a celebração do contrato.

87
EXCLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS

remédios contratuais para o término do vínculo, pelo que podem todas


as sociedades mencionadas serem compreendidas como contrato.
O mesmo não ocorre nas sociedades anônimas. A limitação do
direito de recesso significa desrespeito à vontade inicial da parte, pelo
que não se pode entender a companhia como um acordo de vontades
(contrato). Nas companhias a livre cessibilidade das ações explica a
inexistência de outras medidas para desvinculação do acionista des­
contente, que pode livremente vender sua participação, desfazendo o
vínculo social. Apesar do princípio da livre transmissão das ações, a
sociedade anônima não deve ser vista como contrato. Nas compa­
nhias fechadas e nas abertas com ações de pouca liquidez, o acionista
descontente terá dificuldades para desfazer-se de sua posição, per­
manecendo como sócio contra sua vontade. Mesmo tendo facilidade
para alienar suas ações, o efeito da decisão da sociedade pode trazer
significativa desvalorização do preço das ações, atingindo o acionista
discordante de tal deliberação que talvez jamais tivesse ingressado na
sociedade se previsse a alteração.
Pode-se contra argumentar afirmando que o acionista, ao in­
gressar na sociedade, manifestou sua vontade de submeter-se às de­
cisões da maioria, aceitando a potestividade do contrato, estando
sujeito ao poder dos demais contratantes. Mas não se questiona o
princípio majoritário e sim a permanência do acionista na sociedade
contra a sua vontade, mesmo temporariamente, numa realidade não
consentida quando de sua entrada na sociedade.
Sendo a sociedade um contrato, a alteração da vontade inicial
permite a exclusão de um sócio (dissociação por vontade da socieda­
de, ou das demais partes no contrato plurilateral de sociedade) , como
deve possibilitar a dissociação por vontade do sócio (uma das partes
do contrato plurilateral) . Como visto, as sociedades que permitem a
dissociação de uma parte quando alteradas as condições iniciais, via
p edido de dissolução ou amplo direito de retirada, constituem um
contrato. Qyanto às anônimas, a falta de tal possibilidade de dissoci-

88
RENATO VENTURA R I B EIRO

ação, salvo poucas hipóteses de recesso, descaracteriza sua estrutura


contratual.
Contra a argumentação exposta, pode ser invocado que o con­
trato de sociedade é celebrado com base na vontade inicial das par­
tes, não exigindo o consentimento permanente. Sem entrar no mérito
da polêmica sobre a sobrevivência ou não do conceito de affectio soci­
etatis e, portanto, da necessidade de consentimento permanente do
sócio como elemento da sociedade, a alegação pode ser rebatida, no
plano da teoria geral do Direito, com a anulabilidade do ato jurídico
por vício de consentimento, haja vista que o contratante não houvera
previsto a possibilidade de alteração das condições iniciais ou que
fora induzido a erro pelos demais. O argumento não é dos mais for­
tes, até porque quando de seu ingresso, o sócio sabia da regra de
tomada de decisões pela maioria e deveria ter previsto a possibilida­
de de alteração radical da sociedade, mesmo remotamente. Porém,
sendo a sociedade um contrato, a teoria geral dos contratos, quando
da alteração das condições iniciais, traz como remédio a possibilida­
de de revisão das bases do negócio. No caso da sociedade anônima,
salvo nas poucas hipóteses de direito de recesso, não há tal possibili­
dade, indicando, portanto, não se tratar de um contrato, nem mesmo
o plurilateral142 •
Embora as sociedades de pessoas possam ter várias característi­
cas contratuais, isto não é suficiente para configurar as companhias
intuitus personae como contrato plurilateral. Primeiro, porque mes­
mo considerando as sociedades como instituições, apresentam elas
alguns traços contratuais, como toda instituição. S egundo, porque
algumas características contratuais de companhias personalistas de­
rivam de acordo de acionistas e, neste caso, é contratual a avença

1 42 O conceito de contrato plurilateral é mais adequado às sociedades por permitir, entre


outros, a dissociação sem a dissolução total do víncu lo. Mas, como no d i reito brasi lei­
ro, não há a ampla l i berdade de d i ssociação nas companhias, elas não devem ser
consideradas um contrato plurilateral .

89
ExcLusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANôNIMAS

entre os acionistas e não a sociedade. Por tais motivos e com apoio


no caráter institucional conferido pela lei brasileira às companhias,
não se deve vislumbrar as sociedades anônimas como contrato pluri­
lateral, ao contrário da doutrina pátria dominante143 •
Ainda que os obstáculos acima fossem superados, as socieda­
des anônimas constituídas com intuitus personae absoluto não po­
dem ser explicadas pela tese do contrato plurilateral. A teoria parte
da premissa de que a sociedade é contrato "aberto", permitindo re­
solução parcial. No entanto, as companhias com intuitu personae
absoluto não formam estrutura aberta e nem admitem resolução
parcial.
Qpando as sociedades comerciais são entendidas como contra­
to plurilateral, a exclusão é justificada como forma de resolução par­
cial, por motivos supervenientes ou inadimplemento da obrigação
do sócio. Já a exclusão nas sociedades anônimas, deve ser explicada
sob outra ótica.

4 . 2 . TEORIAS INSTITUCIONALISTAS

A noção de instituição surge no direito público, para explicar o


caráter jurídico do Estado, em lugar de explicação com base contra­
tualista tendo por base a idéia de organização social de poder para
realização de um fim, constituindo estado de direito144 • Sua aplica­
ção ao direito societário tem o mesmo escopo de substituir a explica­
ção contratualista145 •

1 43 A doutri na bras i l e i ra simpatiza com a idéia da sociedade anônima como contrato


pluri lateral . Cf., entre outros, REQU IÃO, A preservação ... , cit., pp. 65-80, concluindo,
à pp. 79-80 que o contrato plurilateral explica a estrutura j urídica das sociedades co­
merciais - sem fazer qualquer d isti nção; J Ú N IOR, "Exclusão de acionista", cit., p. 83;
PENTEADO, Dissolução . , cit., p. 3, nota n. 6.
. .

1 44 Sobre as diversas teorias i nstitucionalistas, d. JAEGER, L 'interesse sacia/e, Mi lano, Giuffré,


1 964, pp. 1 7-87.
1 45 Cf. RATHENAU, " L a realtà dei la società per azioni - Riflessioni suggerite d a l l'esperienza
degli affari", Riv. Soe. 1 1 ( 1 966), p. 9 1 2 (tradução do livro Von Aktienwesen - Eine
geschaftliche Betrachtung, Berli n , 1 .9 1 7).

90
RENATO VENTURA RIBEIRO

A mais forte crítica dos opositores146 da teoria da instituição é a


equiparação da noção de instituição ao contrato, não só pelas suas
semelhanças como pela ausência de traços distintivos significativos,
o que tornaria a idéia de instituição mera adaptação do contrato, com
a aceitação convencional da regra da maioria147 • No entanto, o prin­
cípio majoritário não é característica de instituição, pois os estatutos
podem exigir deliberação unânime em certas matérias. E na institui­
ção 'pode não haver resolução do contrato por inadimplemento.
Outra objeção é a prevalência da vontade dos acionistas, com fim
lucrativo, o que não configura o perfil institucional da sociedade anô­
nima. E a percepção de salários pelos trabalhadores descaracterizaria o
fim moral da instituição148 • Porém, mesmo considerando o escopo lu­
crativo dos acionistas e o interesse econômico dos trabalhadores como
seu único interesse na sociedade, ambas as categorias tem um fim co­
mum, o interesse na permanência da empresa, o que a caracteriza en­
quanto instituição. Sem contar os demais interesses envolvidos, como
o do Estado (geração de empregos, desenvolvimento econômico e re­
ceita de impostas), dos fornecedores e dos consumidores.
No caso das companhias, a teoria é mais apropriada do que as teses
contratualistas, para justificar a dissociação entre propriedade e controle
e os interesses de terceiros, como o dos investidores no mercado de capi­
tais, fornecedores e consumidores. A instituição como organização tam­
bém explica melhor a sociedade como forma jurídica da empresa.
Porém, a caracterização das sociedades anônimas intuitus perso­
nae como instituição é alvo de dúvidas. Não obstante a índole insti­
tucional das companhias, atribuída pela lei e pela doutrina, até mesmo
no caso de sócios com forte vinculação e restrição à circulação de

1 46 Cf. REQUIÃO, A preservação... , cit., pp. 5 7-63.


1 47 Cf. LE CAN NU , La société anonyme à directoire, Paris, L G DJ , 1 979, p. 1 79 e ss ..
1 48 Embora reconheça tendência à i nstitucionalização da empresa, L E CAN NU, La société
anonyme .. , cit., pp. 1 84-1 92, opõe-se ao caráter i nstitucional da sociedade, a legando
.

ausência de uma final idade comum.

91
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADEs ANÓN IMAS

ações149 , respeitáveis autores vêem as sociedades anônimas persona­


listas como autênticas sociedades contratuais15º .
Como um meio-termo entre ambas as correntes expostas, surge
a idéia de contrato-organização.

4 . 3 . TEORIA DO CONTRATO ASSOCIATIVO OU CONTRATO­


ORGAN IZAÇÃO

A teoria do contrato-organização151 apresenta nova concepção de


contrato, adequada ao fenômeno societário. Parte da diferenciação en­
tre dois tipos de contrato: o comum ou de permuta, caracterizado pela
existência de prestações correspectivas e atribuição de direitos e obri­
gações individuais entre as partes, e o associativo152 , caracterizado pela
formação de organização153 , fixando as regras para desenvolvimento
da atividade comum, base do fenômeno associativo154 •

1 49 Como, por exemplo, a posição de LÉGAL e B R ETHE DE LA GRESSAYE, Le pouvoir


disciplinaire dans les institutions privées, Paris, Sirey, 1 938, p. 78: "Sans doute arrive-t-il que
les sociétés par actions soient constituées par un petit groupe de personnes qui ont i ntérêt à
conserver l'affaire entre leurs mains, parce que c'est un bien de fam i l ie, ou une entreprise à
laquelle il convient de maintenir une orientation donnée (journaux politiques, oeuvres
confessionnel les); et pour parvenir à ce résultat, écarter les intrus, les fondateurs prévoient
dans les statuts que l'actionnaire qui voudra céder ses actions sera tenu d'obtenir l'agrément
du Conseil d'administration, ou de réserver la préférence aux administrateurs de la société.
Mais il n'y a là qu'une simple restriction à la l ibre cessibilité des actions, et il n'en reste pas
moins que la personne des actionnaires peut changer sans que la société doive être dissoute,
da sorte que la société par actions a bien la permanence qui caractérise l'institution".
1 50 Por todos, cf. COMPARATO, "A natu reza da sociedade anônima . . . ", cit., p. 1 20.
151 A respeito, vide FERRO-LUZZI, I contratti associativi, 2ª ed., Mi lano, Giuffré, 1 976, pp.
2 1 7-388. Sobre a sociedade anônima como organização, PAI L LUSSEAU, La société
anonyme, technique d'organization de /'entreprise, Paris, Sirey, 1 967.
1 52 Sobre a d iscussão da d iferença ou não entre contrato associativo e contrato pluri lateral
com comunhão de escopo, cf. PERRI NO, Le tecniche.. ., cit., p. 1 1 3, nota n . 1 3 5 .
1 53 PERRI NO, Le tecniche . ., cit., pp. 1 1 2- 1 1 3 , explica o sentido de organização, relacio­
.

nada à atividade comu m : "Si parla, altresl, di organizzazione ( ... ) come complesso d i
regale del l'attività, relative cioé a l i a programmazione degli obiettivi, d e l le modal ità d i
esercizio, dei meccanismi di desti nazione e percezione, da parte d e i membri d e i gruppo,
dei risultati dell"ttività comune i ndividuara ai nucleo dei fenomeno associativo".
1 54 Sobre o conceito e importância da atividade comum nas sociedades, SENA, "Contralto di
società e comunione di scopo", Riv. Soe. 1 ( 1 956), 4-5, pp. 730-746; FERRO-LUZZI, /
contratti associativi, cit., pp. 1 88-2 1 5 e 242-279; SPADA, La tipicità dei/e società, Padova,
CEDAM, 1 974, pp. 1 27-1 8 1 ; ANGELICI, La società nu/la, Mil ano, Giuffré, pp. 55 e 89 e ss ..

92
R ENATO VENTURA RIB EIRO

A sociedade é vista com base na atividade comum, uma de suas


características essenciais e importante elemento diferenciador entre
sociedade e comunhão155 . Rejeita-se a aplicação do modelo de con­
trato de permuta, com suas características de sinalagma, prestações
correspectivas e dever de colaboração.
Na atividade, não há só o interesse individual dos contratantes1 56 ,
sendo, portanto, inadequado falar em prestações recíprocas e sinalág­
ma. A prestação de uma parte não satisfaz imediatamente o interesse
da outra, servindo para o desenvolvimento da atividade social. A soci­
edade, em razão de sua característica própria de atividade, deve ter por
molde o contrato associativo, centrado na idéia de organização.
A partir da idéia de organização, leva-se em conta a atividade e não
o direito subjetivo de cada parte, os interesses de várias partes ou o fim
comum. A organização não é a coincidência de interesses da pluralidade
de partes. Não havendo atribuição de direitos subjetivos, o interesse so­
cial não é mais o do sócio, nem o da maioria dos sócios, e sim o da
organização, podendo ser definido por lei ou vontade das partes.
Com isto, pode-se reconhecer não só o interesse dos sócios pelo
lucro como também um interesse público, inclusive externo, como o
previsto no art. 1 1 6 da lei das sociedades anônimas brasileira. Mais
ainda, o próprio interesse da organização em sua preservação.
Assim, por interesse da organização, entre os quais o de sua auto­
preservação, pode-se entender também a preservação da empresa.
A tese, em certos aspectos, concilia caracteres contratuais e ins­
titucionais e aproxima os conceitos de sociedade e empresa, por vis­
lumbrar na sociedade uma atividade organizada. A sociedade é a

155 Sobre a relevâ n c i a d a atividade n a d istinção entre sociedade e com u nhão, cf.
P ESCATORE, A ttività e comunione nelle strutture societarie, M i lano, G i u ffre, 1 974, pp.
92-1 1 4 e 1 29-1 50, e SPADA, La tipicità . .. , cit., pp. 2 0 1 -2 1 6.
1 56 Para uma nova visão do interesse social, cf. SALOMÃO F ILHO, O novo direito societário,
São Paulo, Malheiros, 1 998, p. 1 3 e ss.

93
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÓNIMAS

personificação jurídica da empresa. Com a diminuição da importân­


cia da personalidade jurídica e valorização da atividade (empresa), o
conceito de sociedade enfraquece. Passa a ser relevante a empresa, ou
seja, a organização. Daí a concepção da sociedade como organização
e não como instituição.

4.4. TEORIA DOS SISTEMAS

A teoria dos sistemas, utilizada principalmente em análises so­


ciológicas e políticas, é invocada para explicar a estrutura da socieda­
de anônima157 • Parte-se do conceito de sistema como reunião de
componentes individualizáveis que têm relações dinâmicas entre eles
e com o todo158 •
O proponente da teoria, apesar de reconhecer que a idéia de
sistema é mais conveniente a conjuntos político-econômicos do que
a construção jurídica particular, considera-a adequada para caracte­
rizar a sociedade anônima como sistema micro-jurídico159 • No en-

1 57 A tese é proposta por LE CAN N U , La société anon yme ... , cit., p. 1 77 e ss ..


1 58 O conceito central de sistema é assim anal isado e posto por LE CANN U, La société anonyme... ,
cit., p. 1 99: "La notion de systême est en effet une notion assez dél icate à manier. Elle a jusqu'ici
été utilisée essentiel lement dans l'analyse politique ou économique, et l'on a pu parler pour les
années récentes d' une "mode systémique" dans ces domaines. Notre désir n'est pas, l 'on s'en
doute, d'étendre cette "mode" au droit des sociétés, mais simplement de profiter du
"renouvellement partiel" qu'elle permet. L'intérêt essentiel de cette notion est d'apporter
une vue dynamique, de "mesurer les changements au niveau du fonctionnement global,
par la stabil ité ou la variation des relations réciproques des éléments variables composants".
Car on peut défi nir le systême comme la réu nion de composantes i ndividual isables qui ont
des rapports dynamiques entre el les et avec le tout. li s'agit d'une notion três ouverte,
puisque chaque composante peut el le-même être analysée en terme de systême.".
1 59 Cf. La société anon yme ... , cit., p. 200:
"Le systême micro-ju ridique peut être caractérisé par ses sources, sa forme et sa fonction.
Le traitement classique des sources peut suffire dans une premiêre approche, mais il est
intéressant d'expliquer la forme et la fonction pour si ngulariser une société commerciale.
En effet, dans la forme, s'i nsêre la structu ration. A cet égard apparalt l'attrait principal
de la notion de systême vis-à-vis de l a sociêtê à directoire: l'analyse permet d'établ i r les
changements réels par rapport à la société de type ancien et les capacités dynamiques
de l'organisation nouvelle. La structuration est considérée comme un élément actif,
flexible, q u i dépend du reste du systême, de sa fonction et des mouvances q u ' i l subit de
l'extérieur. Le systême se détermi n e non seulement par sa structure i nterne, mais par la
capacité d'accueil et de production de cette structure, par ses "entrées" et ses "sorties".

94
R ENATO VENTURA RIBEIRO

tanto, é cabível ao conceito de sistema a mesma crítica feita por seu


autor às teses institucionalistas, quanto à imprecisão160 . Ademais,
embora a sociedade possa ser considerada um sistema, a última no­
ção, até prova em contrário, não contribui ao aperfeiçoamento do
conceito de sociedade e de sua aplicação não resultam efeitos jurídi­
cos aparentes161.
No mais, apesar das críticas às teorias contratualistas e instituci­
onalistas162 , tanto o contrato quanto a instituição constituem meca­
nismos capazes de estruturar a sociedade como uma organização e de
forma a permitir uma criação contínua de normas, com flexibilidade
suficiente para sua preservação e exercício de sua função econômica.

4 . 5 . NOSSA POSIÇÃO

Não há caracterização jurídica uniforme nem das variadas for­


mas de sociedades, nem das companhias. Principalmente nos dias
hodiernos, nos quais a sociedade anônima é a forma adotada tanto
por grandes como por pequenas e médias empresas. Por isto, a defesa
de tratamento legal diferenciado não só com base no porte, como
também nas relações entre os sócios.
Não obstante o caráter institucional conferido às companhias
pela lei brasileira, é inevitável o reconhecimento do fenômeno da
"contratualização" da sociedade anônima163 .

En outre, la notion de systéme permet, s'agissant de sa fonction, d'appréhender en plus


de l'ensemble abstrait (mais non figé parce que riche de tant de v i rtu a l i tés) de la
réglementation, u n autre ensemble qui est l'appl ication de cette réglementation. E l le
i ntroduit a i nsi à une "praxéologie" dont la société à d i rectoire n'est pas la seute à
demontrer l'i ntense nécessité.".
1 60 Nas palavras de CORREIA, Os administradores de sociedades anónimas, Coimbra,
Almedina, 1 993, pp. 1 82-1 89, à p. 1 88: a noção "é tão ampla, vaga e i mprecisa que se
torna, em si, pouco esclarecedora neste campo.".
1 61 Cf. CORREIA, Os administradores... , cit., pp. 1 88-1 89.
1 62 Cf. LE CAN N U , La société anonyme... , cit., p. 1 79 e ss ..
1 63 Por todos, cf. R E I N HARD, "Société . . . ", cit., pp. 304-306, e HONORAT, "La société par
actions simplifiée ou la résurgence de l'élément contractuel en droit français des sociétés,
Petites Affiches, 1 996, n. 99, 4 e 1 00, 4, e a síntese de FRIEDEWALD, Die personalistische

95
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADEs ANôNIMAS

No entanto, o vínculo pessoal entre os sócios e o estabelecimen­


to de normas estatutárias ou extra-estatutárias não implicam na alte­
ração nem da lei nem do caráter da companhia.
Por isto, nas sociedades anônimas personalistas, o interesse so­
cial, até por força de lei (Lei 6.404/76, art. 1 1 6) , não se restringe
somente aos direitos subjetivos dos acionistas. Pelo contrário, conti­
nua sendo interesse público. Mesmo na ausência de disposição legal,
o interesse social continua sendo público, não se limitando a interes­
ses privados. Isto porque a companhia continua sendo importante
forma de organização empresarial geradora de empregos e progres­
so, principalmente no momento atual, quando inúmeros postos de
trabalho são extintos em razão do progresso tecnológico.
Como a companhia intuitus personae envolve interesse público e
é organização voltada à atividade empresarial, com a possibilidade
de estabelecimento de regras entre os particulares, a teoria com a
qual ela se identifica é a do contrato-organização.

5 . TRATAMENTO APLICÁVEL ÀS SOCI EDADES ANÔNIMAS


INTUITUS PERSONAE NO DIREITO BRASILEIRO
Assim como nos demais países já mencionados, há a necessida­
de de estabelecimento de normas legais específicas às sociedades anô­
nimas intuituspersonae, incluindo normas sobre exclusão de acionistas.
Tal medida evita alguns inconvenientes, como o caso de diver­
sas hipóteses particulares de exclusão nas companhias, como o gru­
pamento de ações, inexistente nas sociedades contratuais. Ou a
necessidade de socorro, de forma supletiva, às normas das sociedades
disciplinadas pelo Código Civil.

Aktiengesellschaft, cit., p. 4: "Damit ist in der personal istischen Ahtiengesel l schaft das
Spannu ngsverhaltnis zwischen dem Wunsch der Gese l lschafter nach Gestaltu ngsfreiheit
und der aktienrechtl i chen Formenstrenge vorgezeichnet"

96
R ENATO VENTURA R I BEIRO

Apesar de tais problemas, enquanto não editada norma especí­


fica ou diante de lacuna, pode haver a aplicação subsidiária das regras
das sociedades de pessoas e limitadas na resolução de casos concretos
das companhias personalistas, em razão do intuitus personae. Tal hi­
pótese não é nova, sendo inicialmente aventada em caráter excepcio­
nal164 , mas hoje estando prevista na lei (Código Civil, art. 1 .089).
Até porque, em análise histórica, ver-se-á que as sociedades li­
mitadas na Alemanha surgem e são consideradas sociedades de capi­
tais, embora modeladas conforme princípios de sociedades de
pessoas165 . Outro não é o caso das companhias intuitus personae, dis­
ciplinadas como sociedades de capitais, mas com a admissão de prin­
cípios de sociedades de pessoas.
O raciocínio inverso também é válido. Segundo o critério da livre
transmissibilidade da participação social, as sociedades limitadas con­
jugam princípios de sociedades de capitais e de pessoas. O mesmo em
relação à regência supletiva, que pode ser tanto pelas normas de socie­
dades simples como de anônimas (Código Civil, art. 1 . 053).
Tal simbiose ocorre em razão da não possibilidade de confusão
entre forma. e tipo de sociedade (cf Capítulo I, 1 .2 acima). Daí a
existência de sociedades com caracteres até opostos, capitalistas e
personalistas, abrigadas pela mesma forma166 e ainda sujeitas às mes­
mas normas legais.
Por isto, a possibilidade e até necessidade de aplicação subsidiá­
ria de princípios de sociedades de pessoas às companhias intuitus
personae.

1 64 Cf. I N NOCENTI, L 'esclusione... , cit., p. 1 3 3, nota n . 1 .


1 65 Por todos, cf. F RANCO, "Dissolução parcial e recesso nas sociedades por quotas de
responsab i lidade l imitada. Legitimidade e procedimento. Critério e momento de apu­
ração de haveres", ROM 75 ( 1 989), pp. 1 9-30, à p. 2 2 .
1 66 Cf. 1 .2 acima.

97
Parte II - Fundamentos
da Exclusão de Sócio
R ENATO VENTURA RIBEIRO

PARTE l i - F U NDAMENTOS DA ExcLusÃo DE Sócio

CAPÍTULO 1: PRECISÕES TERMI NOLÓGICAS

1 . EXCLUSÃO EM SENTIDO AMPLO E ESTRITO (EXPULSÃO)


Por exclusão compreendem-se, no presente trabalho, todas as
técnicas de afastamento do sócio ou eliminação, total ou parcial167 ,
de sua participação social, independentemente de sua vontade.
Não se confunde com a privação da qualidade de membro168 ,
embora possa coincidir na maior parte dos casos. No caso do sócio
não integralizar parcialmente a parte do capital a que se obrigara,
pode ser privado apenas da participação social em mora. Continua
sócio, mas com participação social reduzida.
Deve-se distinguir ainda o conceito amplo de exclusão, acima
referido, com a expulsão, que é o afastamento do sócio em razão da
vontade da sociedade ou dos demais sócios, em procedimento ex­
trajudicial ou judicial. A expulsão é, portanto, uma espécie do gêne­
ro exclusão169 • Isto, por haver casos de exclusão automática de sócio,
sem deliberação dos demais, como no caso do sócio declarado fali­
do ou cuja quota tenha sido liquidada (Código Civil, art. 1.030,
parágrafo único).

1 67 A hi pótese de elimi nação parcial da participação social apl ica-se nos casos de sócio
remisso. Se, por exemplo, um acion ista subscreve novas ações e não as i ntegraliza no
prazo, sofre os efeitos da exclusão somente em relação aos títulos não i ntegralizados.
1 68 Como defi nem, entre outros, L É GAL e BR E T H E DE LA G R ESSAYE, L e pouvoir
disciplinaire . , cit., p. 2 1 4.
..

1 69 Pela dist i nção entre exclusão e expu lsão, COMPARATO, "Exclusão de sócio nas socie­
dades por cotas . . . ", cit., p. 46.

1 01
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

Para solucionar a divergência doutrinária e tentar a unificação


do conceito de exclusão, a alternativa é a classificação da exclusão de
sócio em sentido amplo e sentido estrito. No primeiro caso, abran­
gendo todas as formas de eliminação, total ou parcial, da participa­
ção social, tal como o sentido utilizado no presente trabalho. Nem
sempre a exclusão de sócio implica em expulsão, como no caso de
grupamento de ações, aquisição de ações do espólio, entre outras. No
segundo, os casos de expulsão decorrentes de iniciativa da sociedade
ou de um dos sócios. A classificação acenada soluciona dúvidas quanto
aos casos de exclusão automática170 , em razão de previsão legal em
alguns países, em casos como falência ou liquidação da participação
social a pedido de credor particular do sócio.

2 . EXCLUSÃO E EXPU LSÃO

A distinção entre exclusão e expulsão é importante, porque se


tende a tomar por exclusão apenas os casos de expulsão de sócio.
Embora a doutrina seja dividida quanto à inclusão de hipóteses de
afastamento de sócio como casos de exclusão171 , a diferenciação existe
em algumas legislações.
No direito alemão, distinguem-se duas hipóteses de exclusão:
direta (unmittelbarer) e indireta (mittelbarer)172 • No Código Comer­
cial alemão, a exclusão voluntária (AusschliefJung) prevista no § 1 40,
tem, inclusive, denominação diversa da exclusão automática (Auss­
cheiden) em caso de recesso, morte ou falência do sócio disposta no §
138 e da dissolução da relação social requerida por credor particular
do sócio (Kündigung durch den Privatglaubiger) , com base no § 135.

1 70 Parte da doutri na entende não ser a exclusão automática exclusão em sentido técnico,
quer por não haver deliberação dos sócios (G RAZIANI, Diritto dei/e società, 2ª ed.,
Napoli, Morano, 1 952, p. 70), quer por haver proteção de interesses estranhos à socie­
dade (PERRINO, Le tecniche ... , cit., p. 2 2 2, nota n. 87).
1 71 Cf. nota acima.
1 72 Sobre a diferenciação, GRUN EWALD, Der Aussch!uB. . . , cit., p. 2 9 1 . Em especial sobre
a exclusão i n d i reta, R E I N I SCH, Der Ausschluss ... , cit., p. 1 3 1 e ss.

1 02
RENATO VENTURA RIBEIRO

Qianto à nomenclatura, a doutrina diferencia as hipóteses de expul­


são de sócio (com o uso dos AusschlzefS e AusschliefSung) dos casos de
saída de sócio com amortização de sua quota e continuidade da soci­
edade com os demais membros (Austritt e Ausscheiden) .
No direito italiano, há casos de exclusão voluntária, por iniciati­
va dos sócios, e de direito ou automática ( Godice Civile, art. 2.288),
nos quais se opera a exclusão independentemente da vontade dos
demais sócios. O novo Código Civil brasileiro introduz a exclusão
automática nos casos de falência e liquidação da quota de sócio (art.
1 .030, parágrafo único).
Por expulsão pode-se entender os casos de exclusão decorrentes
de deliberação dos demais sócios ou por eles provocada (como em
ação judicial) . Os motivos podem ser variados, desde a falta de inte­
gralização do capital social até problemas em relação a determinado
sócio. Não abrange, portanto, decisões válidas a todos os sócios, como
no caso de grupamento de ações, que venham a gerar a perda da
qualidade de membro de alguns.

3 . DISTINÇÃO ENTRE EXCLUSÃO E D ISSOLUÇÃO PARCIAL


Algumas legislações, como a italiana, a espanhola e o novo Có­
digo Civil brasileiro mencionam a exclusão como dissolução da rela­
ção social limitada a um sócio. A jurisprudência brasileira firma o
uso da expressão dissolução parcial173 .
No entanto, exclusão e dissolução parcial são institutos distintos.
Qiando muito, a exclusão de sócio é causa de dissolução parcial174 •

1 73 Defendendo a expressão "dissolução parcial", embora com reservas, FONSECA, "Dis­


solução parcial", in Revista do Advogado, São Paulo, AASP, 2000, pp. 69-77, à p. 69.
Entre outros, BARBOSA, parecer publicado por FARIA, Da exclusão de sócios. . , cit., p. .

44, e I N NOCENTI, L 'esclusione . . . , c it., p. 74, vêem final idades e pri ncípios opostos nas
d i ssoluções total e parcial.
1 74 CF. LUCE NA, Das sociedades por quotas ... , cit., p. 636.

1 03
ExcLusÃo DE Sócios NAS SocirnADEs ANÓNIMAS

Historicamente, a exclusão de sócio deriva da dissolução da so­


ciedade175 . No entanto, tornou-se um instituto autônomo, bem dife­
renciado da dissolução176 , quer pela finalidade de conservação da
sociedade177 , quer diversidade de causas. Por isto, a exclusão de sócio
não deve gerar a dissolução da sociedade, sendo impróprio associar o
conceito de exclusão de sócio ao de dissolução de sociedade, mesmo
parcialmente. Enquanto a dissolução põe término à sociedade, a ex­
clusão objetiva a preservação da sociedade e da empresa por ela exer­
cida. Uma demonstração da diferença entre exclusão de sócio e
dissolução da sociedade encontra-se na possibilidade de exclusão na
sociedade com dois sócios, pois a continuidade da sociedade com
apenas um sócio, mesmo temporariamente, indica o interesse da pre­
servação da empresa a ser protegido.

4. D ESPEDI DA E SAÍDA

O revogado artigo 339 do Código Comercial menciona "sócio


que se despedir ou fôr despedido". De sua leitura, deve-se entender
por despedida, no direito comercial brasileiro, não só a saída volun­
tária como a forçada. Por incoerência legislativa, no direito do traba­
lho o termo "despedida" é utilizado para extinção do contrato de
trabalho motivado pelo empregador (de forma direta ou indireta),
usando-se a palavra "demissão" aos casos de pedido do empregado178 .

1 75 Sobre a relação entre d issolução e exclusão, vide DALMARTEL LO, L 'esclusione. . . , cit.,
pp. 1 8- 1 9.
1 76 Pela diferença entre os princípios da exclusão e da dissolução, cf. MOSSA, Trattato dei
nuovo diritto commerciale l i : società commerciale personali, Padova, CEDAM, 1 95 1 ,
p. 324.
1 77 Para os contratualistas, a dissolução da sociedade e a exclusão de sócio tem como
fundamento ú n ico a resolução do contrato, embora com efeitos diversos, a primeira
d i sso lve e a segu n d a co nserv a a soc i ed a d e . Por todos, cf. D A LMARTE L LO,
L 'esclusione . . , cit., p. 1 06.
.

1 78 Como exemplos de uti l ização do conceito de "despedi r", Constituição Federal, art. 7º,
1 e Consolidação das Leis Trabalhistas, art. 479; já o termo "demissão" é encontrado no
artigo 477, § 1 º e § 6º, "b". Na doutrina, por todos, NASCIMENTO, Iniciação ao direito
do trabalho, 2 1 ª ed., São Paulo, LTr, 1 994, p. 3 79.

1 04
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Não se deve confundir despedida com saída. A primeira parece


indicar o afastamento do sócio por exclusão ou retirada179 . Já a saída
abrange todas as formas de dissociação, como alienação da participa­
ção social, exercício do direito de retirada, operações com o capital
da sociedade etc.

CAPÍTULO l i : ÜRIGEM E EVOLUÇÃO H I STÓRICA DO


I N STITUTO

Na Antigüidade as sociedades políticas dispunham de instru­


mentos para banir membros indesej áveis, como o ostracismo do di­
reito grego e outros institutos de direito público, como o exílio, o
aqua et igni interdictio e a deportatio1 80 • No direito privado, apesar das
sociedades comerciais terem surgido na Idade Média e o instituto da
exclusão de sócio ser desconhecido na Antigüidade, o exame da dis­
ciplina societária em Roma fornece-nos subsídios para o exame das
sociedades, em especial daquelas com caráter personalista.

1 . DIREITO ROMANO

A societas romana é fundada em forte vínculo intuituspersonae e na


vontade contínua dos sócios (consensus)1 81 • Por isto, qualquer alteração
no vínculo original, ou seja, no quadro social (�orte182 ou renúncia183 )
ou estado pessoal dos sócios (capitis deminutio1 84 ou insolvência185 ) re-

1 79 Porém, para TEIXEIRA, Das sociedades por quotas. . , cit., p. 2 7 2 , a noção de despedida
.

alcança qualquer forma de afastamento do sócio.


1 80 Cf. AZEVEDO, Dissociação. . . , cit., p. 1 2 3.
1 81 /. 3, 2 5 , 4; C. 4, 3 7, 5; D. 1 7, 2, 1 9; D. 1 7, 2, 65, 3 e 9, e G. 3, 1 5 1 .
1 82 /. 3, 25, 5; D. 1 7, 2, 52, 9; D. 1 7, 2, 59, pr; D. 1 7, 2, 60, pr; D. 1 7, 2, 65, 9 e D. 1 7, 2, 65, 1 1 .
1 83 D. 1 7, 2, 65, 3 .
1 84 G. 3, 1 53. A capitis deminutio do sócio é equiparada à sua morte (G. 3, 1 0 1 e 1 53). Mais
tarde, somente a capitis deminutio máxima e média (O. 1 7, 2, 63, 1 O e D. 1 7, 2, 65, 1 1 ).
1 85 Cf. G. 3, 1 52-1 53; D. 1 7, 2, 4, 1 ; D. 1 7, 2, 5 2 , 9; D. 1 7, 2, 59 pr.; D. 1 7, 2, 63, 1 O; D. 1 7,
2, 65, 3 e 9; /. 3, 25, 4-5. A perda dos bens pode ocorrer por quebra (/. 3, 25, 8; D. 1 7, 2,
65, 1) ou confisco de todos os bens ( O . 48, 20, 1 pr; D. 46, 1 , 7 1 pr; /. 3, 2 5 , 7). O confisco
de todos os bens também é igualado à morte (/. 3, 25, 7; D. 1 7, 2, 65, 1 2; G. 3, 1 53.

1 05
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANóNIMAS

sulta na dissolução da sociedade186 (D. 17, 2, 4, 1). Um sócio não


pode ser substituído, nem a sociedade continuar na ausência ou mo­
dificação do status de seu membro.
O caráter intuitus personae da societas encontra explicação em sua
origem. Provavelmente derivada do consórcio familiar (consortium ere­
to non cito) 187 , a societas é agrupamento de indivíduos e não de capi­
tais188 , podendo ser apenas conjunto de bens189 , sem o propósito de
lucro ou de exercício de atividade econômica. Baseia-se nas relações
pessoais entre seus membros, com estreitos vínculos de recíproca con­
fiança e a presença da fides190 , o que explica algumas de suas regras,
como a pena de infâmia191 , a relação fraternal (ius quodammodoJrater­
nitatis)192 e o benejicium competentiae, limitando a condenação do sócio
ao que ele possa pagar (in id quodfacere socius potest) 193 .

1 86 Ao contrário de hoje, no d i reito romano não há a disti nção entre dissolução, liqu ida­
ção e extinção. Para a liquidação, uti l izava-se a actio pro sacio, cf. ARANG IO-RU IZ,
L a società in diritto romano, Napo l i , Jovene, 1 9 50, p. 1 73 e ss; TALAMANCA,
Enciclopedia dei Diritto X L l l , M i lano, G iuffrê, 1 990, verbete "Società (di ritto romano)",
pp. 8 1 4-860, em especial, pp. 850-854.
1 87 Para a doutrina romanística majoritária, ao menos a societas omnium bonorum teve
origem no consórcio fami l i a r (consortium ereto non cito), formado pelos herdei ros que,
após o falecimento do paterfami/ias, conservavam o patrimônio, explorando-o em co­
mum. A evolução do consórcio fam i l i a r para o contrato de sociedade passa por duas
etapas. Inicialmente, há a i ntrodução do elemento vontade, com a existência de uma
sociedade consensual, regu lada pelo ius gentium. Após, admite-se a partici pação de
terceiros, não fami l iares, numa segu nda forma de sociedade que podi a ser criada pelo
mero consentimento das partes, através de uma legis actio (G. 3, 1 54-b). Para uma
v i são da origem da societas romana, cf. R I B E I RO, Societas . ., cit., pp. 62-68, com indi­
.

cação bibl iográfica.


1 88 Cf. D E L C H IARO, Le contrat de société en droit privé romain sous la République et au
temps des jurisconsultes classiques, Paris, Si rey, 1 928, p. l i .
1 89 O. 1 7, 2, 5; O. 1 7, 2, 7-1 3 e O. 1 7, 2, 52, 1 3.
1 90 G. 3, 1 35 .
191 O. 3 , 2, 1 ; G. 4, 1 82 e /. 4, 1 6, 2 .
1 92 O. 1 7, 2, 63 pr.
1 93 Cf. D. 1 7, 2, 63 pr.; O. 42, 1 , 1 6; /. 4, 1 6, 2 e /. 4, 6, 38. No d i reito clássico, o beneficium
competentiae v i sa evitar a execução pessoal do devedor, em face da responsabi l idade
não apenas patrimonial, mas também pessoal pelo adimplemento das obrigações. Como
privi légio pessoal, ati nge apenas os membros da societas omnium bonorum, em razão
da derivação da comunhão hereditária. A benevolência é apenas patrimonial, pois,
não obstante a redução da dívida, permanece a pena de infâmia. No d i reito justin i a neu,

1 06
RENATO VENTURA RIBEIRO

O consenso dos sócios pode ser manifestado de qualquer for­


ma 194 , mas deve ser permanente195 e não se presume196 , sendo ex­
presso com o animus contrahendae societatis ou ajfectio societatis197 •
A idéia de fraternidade, combinada com a necessidade de von­
tade contínua, é incompatível com a idéia de exclusão de sócio198 ,
justificando a solução romana de dissolução da sociedade.
Alguns dos motivos de dissolução da sociedade no direito roma­
no coincidem com razões da exclusão hodiernas, como a mudança no
estado do sócio (D. 17, 2, 4) e a violação de deveres sociais (D. 17, 2,
14), derivados da idéia de recíproca confiança entre os sócios199 • Em
D. 17, 2, 63, 10, são apontadas como causas voluntárias e ipso iure de
extinção do contrato de sociedade, de quatro tipos200 : em razão das
pessoas (morte, capitis deminutio ou quebra de um sócio201 , como nos
casos de bonorum venditio, bonorum cessio ou confisco de todos os bens);
das coisas (realização integral ou impossibilidade de cumprimento da
finalidade social, perecimento ou transformação dos bens que com­
põem o patrimônio social em res extra commercium); da vontade dos
sócios (a qualquer momento ou no fim do termo ao qual o contrato se
subordina)2º2 ou de um só sócio (renuntiatio )203 e em razão de ação

a finalidade do instituto é evitar que o devedor seja privado dos meios indispensáveis à sua
sobrevivência, motivo pelo qual abrange todas as sociedades, cf. ARANGIO-RU IZ, La società. .. ,
cit., p. 1 83, e ALVES, Direito romano l i , 5a ed., Rio de Janeiro, Forense, 1 995, p. 38.
1 94 D. 1 7, 2, 4 pr. e C. 3, 1 54.
1 95 Vide textos mencionados na nota n. 1 81 supra. Por isto, j ustifica-se também a d i sso lu­
ção da sociedade quando cada sócio atua por si, i nd icando a falta de affectio societatis,
como aponta D. 1 7, 2, 64.
1 96 D. 1 7, 2 , 5 2 , 6 .
1 97 D. 1 7, 2, 3 1 e 3 2 ; D. 1 7, 2, 37; D. 1 7, 2, 44; G. 3, 1 5 1 ; C. 4, 37, 2.
1 98 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. ., cit., pp. 2-3; PERRI NO, Le tecniche .. ., cit., p. 6 1 , nota 2.
.

1 99 Cf. ARANG IO-RU IZ, La società .. ., c it., p. 1 5 1 .


200 Maiores detalhes podem ser encontrados em ALVES, Direito Romano li, cit., pp. 203-204.
201 Cf. D . 1 7, 2, 65, 1 , que fala e m extinção d a sociedade quando todos os bens do sócio
são vendidos pelos credores.
202 D. 1 7, 2, 6 5 , 3; D. 50, 1 7, 35.
203 Exceto no caso de renüncia intempestiva, sem justa causa ou fraudu lenta, caso em que a soci­
edade continua com os demais sócios. Ainda que se tenha convencionado que o sócio não
poderia renunciar, tal avença é nula (D. 1 7, 2, 1 4), pois se exige o mütuo consenso permanente.

1 07
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADEs ANôNIMAS

(quando um sócio pleiteia a dissolução da sociedade por meio da


actio pro sacio)204 •
O falecimento era causa de dissolução da sociedade, em razão da
escolha pessoal dos sócios (quia qui societatem contrahit, certam personam
sibi e!egit)2º5 • No caso de morte de sócio, se os demais quisessem conti­
nuar sócios, deveriam constituir nova sociedade206 • Nas sociedades pri­
vadas não era válida a convenção para ingresso dos herdeiros como
sócios207 • Mais tarde foi admitida a estipulação, no contrato de socieda­
de, de cláusula permitindo a continuidade da sociedade com os sócios
sobreviventes, em caso de falecimento de um deles208 , porém era vedada
a convenção de continuidade da sociedade com o sobrevivente e os her­
deiros do sócio falecido209 • Apesar de regra excepcional, aplicada so­
mente na hipótese de morte de sócio e não nos demais casos de dissolução,
trata-se de primeira e tímida afirmação do princípio conservativo21º .
Também na societaspub!icanorum211 e na societas vectiga!is não há a extin­
ção da sociedade pela morte de sócio (D. 17, 2, 59 pr.; 63, 8).

204 D. 1 7, 2, 65 pr. Para CANCELLI, Novissimo Digesto Italiano XVII, Torino, UTET, 1 970, p.
2 2 1 e ss, à p. 5 1 3, a extinção ex actione não é necessariamente procedimento judicial e
sim fórmula que pode ser tanto negocial quanto processual. A extinção da sociedade atra­
vés da actio pro sacio é bastante questionada, a começar pelo fato de MODE5TI NO, em D.
1 7, 2, 4 não mencioná-la na enumeração das causas. ARANGIO-RUIZ, La società . . , cit,.

pp. 1 74-1 79, sintetiza a opi n i ão dos críticos, alegando d iversas razões: suspeita de
i nterpolação de O. 1 7, 2, 65 pr; que a vontade interna só é característica da doutrina pós­
clássica e a extinção depende de uma declaração; se o sócio pode renunciar, não se
justifica a existência de forma i ndireta; o fato do Direito regular duas situações jurídicas
d iversas, como a extinção da obligatio ex contractu por efeito da litis contestatio e a
renuntiatio como formas de extinção da sociedade e a ausência de fórmulas processuais.
205 Cf. /. 3, 25, 5 e C. 3, 1 52 .
206 /. 3, 25, 8; O. 1 7, 2, 3 5; O. 1 7, 2, 59, pr. e 1 , e C. 3, 1 5 3 .
207 D. 1 7, 2, 5 9 pr.
208 O. 1 7, 2, 65, 9 e /. 3, 25, 5 .
209 O. 1 7, 2, 3 5 pr; O. 1 7, 2, 52, 9; D. 1 7, 2, 59, pr.
21O Cf. BRINZ, Lehrbuch der Pandekten, citado e apoiado por DALMARTELLO, L 'esclusione.. .,
cit., p. 4; VILLAVERDE, La exclusión .. , cit., p. 3 1 . Não obstante falar-se em princípio
.

conservativo, parece que a finalidade da regra não é a proteção da empresa, mas a razão
prática de evitar que os sócios remanescentes tenham que constituir nova sociedade.
21 1 As societas publicanorum eram formadas por publicanos, agentes do Tesouro encarre­
gados do l ançamento e da arrecadação de tributos. Representam uma espécie particu­
lar no direito romano, apresentando diversas características peculiares, que se aproximam

1 08
R ENATO VENTURA RIBEIRO

A contribuição dos romanos em matéria de exclusão de sócio é


a preocupação em evitar que um membro causasse prejuízo aos de­
mais. Em D. 1 7, 2, 14, infine, questiona-se a situação de sócio mo­
lesto e prejudicial, difícil de ser tolerado. Outras hipóteses já previstas
são o perecimento de bem conferido à sociedade212 e por perdas de
bens por motivos alheios às atividades sociais213 .
A preocupação com os demais sócios é mais visível nas regras
sobre a renúncia do sócio. Como a sociedade exige mútuo consenso,
não há como impedir a renúncia de sócio. Daí o estabelecimento de
regras para defesa dos demais sócios, para evitar a renúncia intem­
pestiva214 , fraudulenta ou com o propósito de prejudicar os demais
sócios215 . A renúncia deve ser justificada216 , como a conduta intole-

das atuais companhias, como personalidade jurídica. No entanto, a matéria não é pacífica na
doutrina, como aponta CIMMA, Ricerche sul/e società di publicani, Mi lano, Giuffre, 1 98 1 , p.
1 63 e ss., que nega a personalidade jurídica na época republicana, mas não descarta a possibi­
lidade de desenvolvimento de embrião (personalidade incipiente), dados alguns fatores, como
o caráter representativo do magistere dos decumani - membros de um conselho de adminis­
tração, a não extinção pelo falecimento de sócio, a incomunicabilidade dos bens da socieda­
de e dos sócios, o que demonstra uma limitação na responsabilidade individual e a possibili­
dade de alienação das partes sociais a terceiros (CICERO, P. Vat. interr., 1 2, 29; pro Rab. Post.
2, 4). Sua administração é confiada anualmente a um ou mais magistri, que cuidam da gestão
dos negócios sociais, sendo assistidos por conselho administrativo composto por certo número
de sócios principes et quasi senatores publicanorum (CICERO, in Verr. 2, 2, 7 1 , 1 75).
-

Apesar de parcela da doutrina enxergar na societas publicanorum um germe das atuais


sociedades anônimas, as diferenças são grandes e essenciais: a societas publicanorum
demanda o exercício de função pública, a situação do socius não é comparável à do
acionista (por exemplo, em matéria de d i reitos essenciais), nem a pars tem as caracte­
rísticas e o regime de transmissão das ações, razões pelas quais não se pode conceber
a sociedade anônima como produto de sua evolução, como explica CORREIA, Os
administradores ... , cit., p. 78 e notas, com indicação bibl iográfica.
212 Cf. D. 1 7, 2 , 58, pr e 1 .
213 O. 1 7, 2 , 59, 1 .
214 A renú nc i a i ntempestiva caracteriza-se pela saída de sócio antes d o prazo determinado
no contrato. Como a sociedade caracteriza-se por um consenso contínuo, a falta de
i ntenção de permanecer como sócio provoca a d i ssolução da sociedade. No entanto,
quem ren u nc i a desobriga os demais sócios e a sociedade, mas não se l i bera de suas
obrigações, exceto se a ren ú nc i a for fundada em justo motivo (O. 1 7, 2, 65, 3 e 6).
215 O. 1 7, 2 , 65, 3; /. 3 , 25, 4.; C. 3 , 1 5 1 . Como a societas romana podia englobar todos os
bens ( C. 3 , 1 48), no caso de um sócio receber um determinado proveito, como uma
herança de um terceiro, e renunciar à sociedade, para não dividir o valor recebido
com os outros sócios, fica obrigado ao ressarcimento dos demais.
216 O. 1 7, 2 , 1 6 pr.; O. 1 7, 2 , 65, 6.

1 09
EXCLUSÃO DE SóCIOS NAS SOCIEDADES ANÔN IMAS

rável de um ou mais sócios217 , desentendimento entre os sócios218 e


ausência de sócio219 • Em caso de renúncia em momento não favorá­
vel à venda dos bens da sociedade, deve o renunciante responder pe­
los prejuízos22º .
O direito romano, portanto, procura preservar o direito privado do
sócio, evitando prejuízos causados por outro membro. Mas não se nota a
preocupação com interesse da empresa, noção, aliás, desconhecida à época.
Tivessem os romanos a preocupação com a preservação da empresa, não
seria vedada a constituição de sociedade in aeternum (D. 17, 2, 70), nem
tido como nulo o pacto de não dissolução (D. 17, 2, 14).

2 . 1 DADE MÉDIA

Também na Idade Média a sociedade típica é a familiar, carac­


terizada pela solidariedade e pela indivisão, em razão da necessidade
de continuação da vida em comum entre os filhos após a morte dos
gestores, agravada pelas condições políticas e sociais: a mínima auto­
ridade estatal, gerando a falta de garantia dos bens particulares pelos
poderes públicos, o sistema feudal e a falta de segurança após o fim
do Império Romano do Ocidente. Não obstante o novo regime jurí­
dico vigente na Idade Média, a disciplina da sociedade segue a orien­
tação do direito romano, com ligeiras modificações. Prevalecem as
regras consuetudinárias sobre as contratuais221 •
O vinculum fraternitatis é intenso, tanto nas sociedades entre
herdeiros quanto naquelas entre estranhos, havendo no último caso
uma fraternidade artificial (affratatio). Na constituição da sociedade

217 0. 1 7, 2, 1 4, ao fi n a l .
218 O. 1 7, 2 , 65, 3 .
219 O. 1 7, 2 , 1 7, 1 ; D. 1 7, 2 , 2 . Quando o sócio deva se ausentar por longo período em razão
de causa pública, ele só poderá administrar a sociedade através de outra pessoa, desde
que seja muito solvente (o sócio) ou fáci l a gestão da sociedade por outro (O. 1 7, 2, 1 6).
220 O. 1 7, 2, 65, 5 .
221 Sobre a sociedade fam i l iar medieval, cf. VILLAVERDE, L a exclusión . , cit., p. 3 3 e ss . .
. .

110
RENATO VENTURA RIBEIRO

é comum a promessa de "non partiti", indicando relação forte e dura­


doura. Mas, a morte dos sócios não mais é motivo para sua dissolu­
ção, os herdeiros ingressam na sociedade, o que demonstra
preocupação com a permanência da sociedade222 •
A sociedade familiar medieval dá origem às sociedades civis e
comerciais, ocorrendo, na Idade Média, a transição do modelo da
societas romana ao das sociedades comerciais, com o realce ao escopo
lucrativo nas últimas.
A exclusão de sócio é incompatível com o conceito medieval de
sociedade, por romper a rigorosa idéia de fraternidade, solidariedade
e união223 . Enquanto no direito romano a impossibilidade de exclu­
são de sócio deriva da instabilidade da sociedade, no direito medieval
é a estabilidade224 •
Para permitir a conservação da sociedade, evitando a adoção da
medida radical da exclusão, e ao mesmo tempo manter a estabilidade
necessária ao desenvolvimento da sua atividade, tem-se a solução da
expulsão do sócio prejudicial aos negócios. A exclusão surge corria
forma de conciliação das necessidades de estabilidade e continuida­
de da sociedade, através da eliminação do elemento perturbador do
vínculo social, sem dissolvê-lo integralmente225 •
O marco inicial parece estar na Lei das Sete Partidas (Las Siete
Partidas), prevendo a "rescisão parcial" da sociedade, com a exclusão
do sócio de má índole, cujo comportamento torne impossível sua
permanência na sociedade, por exercício de serviço público, falta de
condições e uso de bens da sociedade226 •

222 Cf. V I L LAVERDE, La exclusión . . , cit., p. 3 9 , com i n dicação bibliográfica à nota n. 1 8.


223 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione .. , cit., pp. 5-6; VILLAVERDE, L a exclusión.. , cit., p . 33-36.
. .

224 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione.. ., cit., p. 7; PERRI NO, L e tecniche . . , c i t . , p. 68.


.

225 Cf. PERRI NO, Le tecniche... , c i t . , p p . 68-69.


226 Cf. Partida V, Tit. X, L e i 1 4. Na doutrina, defendendo a exclusão de sócio nos casos d e
n ã o pagamento, abandono, enfermidade ou outro obstáculo impeditivo de trabalho e m
prol da sociedade, como prodigalidade e demência, DOMAT, Loix civiles 1 , V I I I , 5, 1 2,

111
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADEs ANÔNIMAS

3 . EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA DISCIPLINA DA EXCLUSÃO DE


SÓCIO NAS LEGISLAÇÕES MODERNAS

A primeira legislação moderna a prever o instituto da exclusão


foi o Código Prussiano de 1 . 794227 , seguido pelo Código Civil aus­
tríaco de 1 . 8 1 1228 • Ambos admitem a exclusão independentemente
de previsão contratual, nos casos de grave inadimplência e alteração
no estado do sócio229 •

Apesar de nascido no âmbito do direito civil em ambas as legis­


lações o instituto da exclusão é mais desenvolvido nas sociedades
comerciais do que nas civis, pois nas últimas a perturbação das rela­
ções no vínculo social é mais grave, em razão da maior dependência
do crédito e da clientela230 .
No desenvolvimento do instituto da exclusão de sócio, há três
fases, conhecidas por modelos germânico, espanhol e italiano231 •

No modelo germânico, a exclusão surge não como instituto au­


tônomo, mas como derivação da dissolução por motivos relaciona-

apud DUQUESNOY, La dissolution des sociétés pour justes motifs: étude de /'article
7877 du Code Civil, L i l le, G iard, 1 92 6, pp. 3 1 6- 3 1 7. FELICIUS, Tractatus de Societate,
Veneza, 1 6 1 O, apud DALMARTELLO, L 'esclusione . . ., cit., p. 1 97, fal a em afastamento
do socius rixosus.
227 A llgemeines Landrecht für die Preussischen Staaten, "§ 2 7 3 . E i n M itglied, welches sich
der Erfü l lu ng sei ner Pflichten beharrlich entzieht, kann noch vor Ablauf der Zeit, oder
von Beendigung des Geschafts, von der Gesel lschaft ausgeschlossen werden.
§ 2 74. Noch mehr ist die Gesellschaft dazu berechtig wenn ein Mitglied betrüglich
gegen d i eselbe gehandelt hat, ais ein Verbrecher bestraff, oder für e i n verschwender
gerichtlich erklart worden ist.".
228 Allgemeines bürgerliches Cesetzbuch für das kaiserthum Ôsterreich: "§ 1 .2 1 O . Wen n
e i n M itgl ied die wesentlichen Bedingu ngen des Vertrages n icht erfü l let; wenn e s i n
Concurs verfal l t; a i s Verschwender gerichtlich erklaret, oder überhaupt u nter d i e Cu ratei
gesetz w i rd; wen n es durch e i n Verbrechen das Vertrauen verliert; so kann es vor Ablauf
der Zeit von der Gesellschaft ausgeschlossen werden.".
229 Sobre a d iscip l i na do i nstituto nas l e i s pioneiras e sua i nfluência n o d i reito germânico,
cf. G R U N EWALD, Der AusschluB ... , cit., p. 1 9 e ss.
230 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. ., cit., p p . 1 3- 1 4; PERRI NO, Le tecniche .. ., cit., p .
.

70, nota 2 3 .
231 Para maiores detalhes, cf. DALMARTELLO, L 'esc!usione. , cit., pp. 1 8-27; V I LLAVERDE,
..

La exc!usión .. ., cit., p. 40 e segu i ntes.

112
R ENATO VENTURA RIBEIRO

dos à pessoa do sócio. A exclusão é possível nas mesmas hipóteses


cabíveis para dissolução e subordinada à concordância de todos os
sócios em permanecer na sociedade.
No direito espanhol a exclusão aparece com individualidade pró­
pria. Os motivos de exclusão e dissolução são distintos. Porém, há
relação formal com a dissolução: é chamada de "rescisão parcial" e
tratada como forma de dissolução.
Somente no sistema italiano a exclusão de sócio é disciplinada
como instituto com identidade própria, formal e substancialmente
desvinculado da dissolução.

4. EXCLUSÃO DE SÓCIO EM DIREITO COMPARADO: DAS


SOCIEDADES DE PESSOAS ÀS SOCI EDADES ANÔNIMAS

4 . 1 . DIREITO ALEMÃO

Por influência do direito prussiano e austríaco, tanto o Código


Comercial de 1.861 (§ 128) quanto o de 1897 permitem a exclusão de
sócio, mesmo sem previsão contratual, fundada em motivo grave232 • A
exclusão aparece como variação da dissolução por motivos dependen­
tes da pessoa do sócio, objetivando a conservação da sociedade.
O Código Civil alemão prevê somente causas de dissolução so­
cietária, embora manifeste preocupação com a preservação da socie­
dade. Permite a continuidade da sociedade na ocorrência de algumas
hipóteses de dissolução, quando há previsão contratual específica (§§
723-725, 728 e 736). E, acompanhando decisões da jurisprudência,
reconhece a validade dos pactos de exclusão (§ 736). A exclusão de
sócio fora das hipóteses de dissolução da sociedade é condicionada à
previsão contratual e deve ser motivada.

232 Para uma resenha da evolução do i nstituto no d i reito alemão, GRUN EWALD, Der
AusschluB. . ., cit., p. 1 9 e ss.

1 13
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÓNIMAS

Já o Código Comercial traz hipóteses diversas de dissolução da


sociedade e exclusão de sócio. Prevê a exclusão no § 1 40, permitindo
aos sócios pedir judicialmente a exclusão do sócio, em lugar da disso­
lução da sociedade nas hipóteses previstas no § 133 (casos de disso­
lução), quando há a concordância dos demais sócios. Assim, a
dissolução da sociedade é medida a ser tomada somente em último
caso, pois há remédios para se eliminar o problema relativo a deter­
minado sócio.
O § 138 disciplina a dissolução parcial em razão de recesso, morte
ou falência do sócio (Ausscheiden), estabelecendo que a sociedade pode
continuar depois da falência do sócio se previsto no contrato social ou
decidido após o evento, em tempo adequado, embora não fixado em
lei. O § 1 35 trata de liquidação da quota por credor particular do sócio
(Kündigung durch den Privatglaubiger). Além disto, o Código Comer­
cial prevê alternativas às hipóteses de dissolução da sociedade233 •
A Lei das sociedades por quotas de responsabilidade limitada cuida
apenas a exclusão do sócio constituído em mora (§§ 2 1 e 22). A partir
da norma do § 34, que dispõe sobre a amortização de quotas, a juris­
prudência reconhece o direito à exclusão de sócios, havendo previsão
contratual234 e justa causa, para preservação da sociedade235•

233 Quando houver previsão contratua l , a continuação da sociedade no caso de morte (§


1 3 1 , 4), falência (§§ 1 3 1 , 5; 1 38 e 1 4 1 , 2), execução de dívida do sócio (§§ 1 35 , 1 4 1 ,
1 ) . N o caso d e pedido d e renúncia de sócio por grave motivo (§ 1 3 1 , 6), a exclusão do
sócio causador do problema (§ 1 33, 2).
234 Por todos, cf. KESSELMEIER, AusschlieBungs- und Nachfolgeregelung in der GmbH­
Satzung, Kõl n , Berl in, Bonn, Mü nchen, Heymann, 1 989, p. 67 e seguintes. Pela exclu­
são sem necessidade de previsão contratual, SPITZE, Der Aussch/u(I, eines GmbH­
Gesellschafters aus wichtigem Grund bei Schweigen der Satzung, Berl i n , Du ncker und
Humblot, 1 985, pp. 30-33.
235 Marco fundamental foi a decisão do BGH em 1 º.4.53 (Cf. BGHZ 9/1 57, NJW 1 53/780
e comentários de H U ECK, "Esclusione di un sacio da una società a responsabi l i tà
limitata", NRDComm. 6 ( 1 953), 1, pp. 225-229). /\pesar da dúvida i nicial quanto à
nova orientação (cf. autores citados por H U ECK, idem, p. 225), o Tribunal alemão
consolidou a opinião pela possibilidade de exclusão de sócio em decisões posteriores,
como as i nserias em BGHZ 1 6/3 1 7 e 32/57. Para tanto, a lguns, como H U ECK, idem, p.
2 2 6, defendem a necessidade de via judicial.

1 14
R ENATO VENTURA RI BEIRO

A lei das sociedades anônimas, apesar de disciplinar as obriga­


ções acessórias (§ 55), somente prevê a exclusão dos acionistas em
mora ( § § 64 e 65). Mas admite o resgate de ações, previsto no esta­
tuto social antes da aquisição dos títulos pelo acionista, para redução
do capital social (§ 237).
A jurisprudência estende a aplicação da hipótese do § 140 do
Código Comercial às sociedades de capitais, permitindo a exclusão
do sócio prejudicial ao invés da dissolução da sociedade236 •

4.2. ÜIREITO ESPANHOL237

Tirante o precedente histórico da Lei das Sete Partidas, após a


Prússia e a Áustria, a Espanha foi o próximo país a disciplinar a ex­
clusão, influenciando as legislações da América Latina238 •
O Código espanhol não fala em exclusão de sócio, apenas em
dissolução parcial da sociedade. Apesar da relação formal com a dis­
solução, o instituto da exclusão aparece com individualidade própria
(como "rescisão parcial") em relação àquela239 , afirmando a idéia de
conservação da sociedade. Fala-se em autonomia porque as causas
de rescisão parcial do contrato social são diversas daquelas geradoras
da dissolução.
No Código Comercial de 1 . 829, as regras principais encontram­
se nos artigos 326240 a 328, que, como dito, não prevê a dissolução
total da sociedade para algumas hipóteses autorizadoras da expulsão

236 Cf. G R U N EWALD, Der Aussch/ufL, cit., p. 4 6 .


237 Para u m a visão histórica mais ampla da exclusão no d i reito espanhol, cf. VILLAVERDE,
L a exclusión ... , cit., p. 77 e ss.
238 Cf. DALMARTELLO, L 'esc/usione .. , cit., p. 2 1 ; N U N ES, O direito de exclusão. . . , c it., p.
.

47, nota 47.


239 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione.. , cit., p. 2 9 .
.

240 Eis seu texto: "Art. 326. Puede rescindi rse e l contrato de compafíia mercantil parcial­
mente: 1 ) Cuando un sacio usa de los capitales comunes y de la firma social para
negocios por cuenta propia; 2) lntroduciéndose á ejercer funciones administrativas de
l a compafíia el sacio á quien no completa hacerlas segun los pactos dei contrato de
sociedad. 3) S i a lg u n sac i o adm i n istrador cometiere fraude en l a administracion ó

115

ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADEs ANÓNIMAS

do sócio. Além disto, não subordina à concordância unânime dos


sócios e nem substitui algumas hipóteses de dissolução total.
O Código Comercial de 1 865 manteve as linhas gerais do ante­
rior, em seus artigos 2 1 8 a 220241 , acrescentando uma hipótese geral
de inadimplemento das obrigações (art. 2 1 8 , 7°). Ao disciplinar os
deveres do sócio, outras disposições referem-se a hipóteses já enu­
meradas no artigo 2 1 8 , como falta de aporte (art. 1 70), uso de firma
e capital social para negócios por conta própria (art. 135), concorrên­
cia à sociedade (art. 136 e ss.) e mau cumprimento da função de
gerência (art. 132).
A exclusão nos casos previstos no art. 218 do Código Comercial
exige culpa do sócio, podendo ser feita extrajudicialmente242 • Já o
caso previsto no art. 132 independe de culpa, razão pela qual exige
procedimento judicial243 •
No caso de sociedades civis, o artigo 1 .707 do Código Civil pre­
vê a denúncia do contrato de sociedade civil por justos motivos, como

contabi l idad de la compaíiia. 4) Dejando de poner en la caja comu n de la sociedad el


capital que cada uno estipulá en el contrato de sociedad, despues de haber sido reque­
rido para verificaria. 5) Ejecutando u n sacio por su cuenta operaciones de comercio
que no le sean l icitas com arreglo á l as d isposiciones de los articu las 3 1 2, 3 1 3, 3 1 4,
3 1 5, y 3 1 6. 6) Ausentándose un sacio que estuviere obl igado á prestar oficias personales
en la sociedad, si habiendo sido requerido para regresar y desempenar sus deberes, no
lo verificase, ó acreditare en su defecto una causa justa que le impidiese hacerlo tem­
poralmente". No Código de 1 .885, o artigo 2 1 8 reproduz as d isposições do art. 3 2 6 do
d iploma anterior, acrescentando mais uma h ipótese, como cláusula geral : "7) Por faltar
de cualqu ier outro modo uno ó varias socios a i cu mp l i miento de las obl igaciones que
se impusieron en el contrato de compaíiia.".
241 Além do acréscimo referido na nota anterior, houve mínimas a lterações de redação,
como aponta VI L LAVERDE, La exclusión. . , cit., p. 90, nota n . 1 2 7. Sobre outros casos
.

de exclusão em sociedades específicas, cf. VILLAVERDE, idem, p. 90 e ss.


242 Cf. B E RDEJO, "Exclusión de sacio. No es necessaria una previa declaración judicial
( Reso lución de 7 de febrero de 1 95 3)", i n Revista de Derecho Notarial, 1 954, I l i , pp.
2 5 3-2 6 1 ; V I L LAVE R DE, "EI ejercicio dei derecho de exclusión en las sociedades de
responsabi l idad l imitada", i n Estudios de derecho mercantil en homenaje ai Profesor
Antonio Polo, Madrid, Reunidas, 1 98 1 , pp. 2 4 1 -262, às pp. 242-246, e autores menci­
onados à p. 243, nota 5.
243 Entre outros, cf. R U B IO, "EI principio de la conservación de la empresa y la d i solución
de sociedades mercantiles en derecho espaíiol", RDP 2 2 ( 1 935), pp. 2 88-306, em es­
pecial pp. 304-306.

116
R ENATO VENTURA RIBEIRO

não cumprimento de obrigações, inabilitação para negócios sociais


ou qualquer outro, a critério da autoridade judiciária, sendo aplicável
o dispositivo aos casos de exclusão de sócio244 •
A lei das sociedades limitadas de 1953 admite como causas de
exclusão apenas a violação do dever de concorrência (art. 12, § 2º) e
as previstas nos números 1º, 2º e 7º do Código Comercial, ou seja,
uso dos capitais comuns e da firma social para negócios por conta
própria, ingerência indevida na administração e falta de cumprimen­
to de obrigações previstas no co ntrato.
A nova lei das sociedades limitadas (Ley 2195), no seu art. 98,
prevê a exclusão por causas legais e convencionais . Estão expressa­
mente estabelecidas em lei, além da não integralização de quotas, as
hipóteses de não cumprimento de prestações acessórias, violação do
dever de concorrência por sócio gestor e condenação judicial do ad­
ministrador a indenizar a sociedade por atos contrários à lei, ao con­
trato ou com violação do dever de diligência. Além de tais motivos, a
lei admite como causas aquelas estabelecidas pelos sócios no contra­
to social (art. 98). A principal diferença é supressão da cláusula geral
prevista na lei de 1953, através da aplicação do art. 218, 7° do Código
C omercial, estipulando casos típicos para exclusão de sócio, mere­
cendo críticas da doutrina245 • Também sofre crítica a previsão, como
hipóteses de expulsão, de situações relacionadas à administração da
sociedade e não à condição de sócio246 .
O artigo 99 da lei regulamenta o procedimento extrajudicial de
exclusão de sócio, exigindo aprovação da assembléia geral, a ser con­
vocada pelos administradores ou sócios representativos de, no míni­
mo, cinco por cento do capital social. A deliberação deve ser tomada

244 Cf. V I L LAVERDE, La exclusión ., cit., p. 1 03 .


..

245 Cf. L ENZANO e TREJO, Sociedades de responsabilidad limitada, Madrid, Dykinson,


1 99 7, p. 1 09 .
246 Cf. L ENZANO e TREJO, Sociedades . . , cit., p. 1 1 O.
.

117
ExnusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANàNIMAS

por sócios gue representem, no mínimo, dois terços do capital social


(art. 53, 2, b), podendo o contrato estabelecer percentual maior ou
condicionar a decisão ainda a apoio de um determinado número de
sócios (art. 53, 3). Caso o sócio a ser excluído tenha participação de
mais de um quarto do capital social, necessária a via judicial, poden­
do a ação ser proposta em nome da sociedade por qualquer sócio que
votou a favor da expulsão, caso a mesma não tome as medidas cabí­
veis (art. 99, 2).
Qyanto à exclusão em sociedades anônimas, a doutrina en­
contra-se dividida247 , embora a tendência seja a sua aceitação em
outras hipóteses além da não integralização do valor das ações. A
lei das sociedades anônimas de 1951 estabelece, no art. 44, triplice
opção no caso de acionista moroso: exigir o cumprimento da obri­
gação em via ordinária, acrescido do ressarcimento de danos causa­
dos pela mora; executar do valor devido, tendo por base o documento
de subscrição; vender as ações por conta e risco do acionista. E o
artigo 100, regulando a redução do capital social, mediante agru­
pamento de ações, permite à sociedade declarar a nulidade dos tí­
tulos não apresentados no prazo para troca, bem como emitir e
vender ações para substituição das ações anuladas. O produto lí­
quido da venda das ações deve ser depositado e permanecer à dis­
posição dos interessados.
Além de manter as hipóteses da lei anterior, a lei do anonimato
de 1989 permite a estipulação de prestações acessórias, justificando a
exclusão de acionista por não cumprimento de tais obrigações quan­
do prevista no estatuto248 •

247 Sobre a exclusão de acionistas no d i reito espanhol, cf. SASTRE, "Exclusión de un


accionista ... ", cit., RDP 59 (1 975), pp. 473-490 (junio) e pp. 589-600 (ju lio/agosto);
VILLAVER D E, La exclusión ... , cit., pp. 244-253 e bibliografia indicada à p. 244, nota n. 373.
248 A respeito, cf. LENZANO e TREJO, Sociedades ... , cit., p. 28 e autores e obras mencio­
nados à nota 30.

1 18
R ENATO VENTURA RIBEIRO

4 . 3 . DIREITO ITALIANO

A exclusão aparece como instituto autônomo, sem relação com


a dissolução, no Código Comercial de 1 . 865 (arts. 124 e 125), sendo
mantida no Código de 1 . 882 (arts. 186- 1 8 7 e 191). As hipóteses de
exclusão de sócio são diversas das de dissolução da sociedade. Há
preocupação com a preservação da empresa, com a culpa e as vicissi­
tudes pessoais do sócio legitimam apenas a aplicação do remédio da
exclusão. Não subordina a exclusão ao litisconsórcio ativo de todos
os demais sócios.
O Código de 1 .865 traz norma aberta, ao falar em grave inadim­
plência das obrigações de sócio. No Código de 1 . 882, há dúvida na
doutrina se o elenco é taxativo ou exemplificativo249 •
Atualmente a matéria está disciplinada nos arts. 2.286 a 2.290
do Código Civil de 1 . 942. A exclusão é voluntária (art. 2.286) ou de
direito (art. 2.288). Dentre as hipóteses de exclusão voluntária, des­
taca-se a regra geral de exclusão por grave inadimplência de obriga­
ções de lei ou do contrato social (art. 2.286). A exclusão voluntária
somente produz efeitos após trinta dias da comunicação ao sócio ex­
cluído (art. 2.287). A exclusão de direito ou automática abrange as
hipóteses do sócio declarado falido e de liquidação da quota por cre­
dores particulares do sócio (art. 2.288).
No caso das sociedades anônimas, o Código Civil prevê a exclu­
são do acionista moroso através da venda de ações ou, caso não seja

249 A doutrina italiana mais antiga tende a defender a taxatividade das hipóteses legais e conven­
cionais, em razão da supressão da expressão "em geral" no art. 1 86 do Código Comercial de
1 .882, em comparação com o art. 1 24 do Código de 1 .865 (por todos, cf. CALAMANDREI,
Dei/e società e dei/e associazioni commerciali: commento ai libra 1, tito/o IX dei nuovo
Codice di Commercio Italiano 1, Torino, UTET, 1 884, p. 2 1 9). Porém, a expressão foi retira­
da por ser supérflua, podendo o sócio ser excluído por grave inadimplemento, pois o elen­
co é exemplificativo, como aponta DALMARTELLO, L 'esclusione... , cit., p. 1 8 e nota n. 36.
Ainda defendendo a interpretação extensiva, RAMELLA "Dell'esclusione dei soei nelle società
ed associazioni", li Diritto Commerciale, Serie li, 6 (1 9 1 4), parte 2•, pp. 5 1 -63, à p. 58; DE
G REGORIO, Codice di commercio commentato IV: Dei/e società e dei/e associazioni
commerciali, 6ª ed., Torino, UTET, 1 938, p. 638.

1 19
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SomDADEs ANÔNIMAS

efetuada a venda por falta de compradores, há o instituto da decaden­


za dos direitos de sócio, com a retenção dos valores recebidos. As
ações não vendidas e não colocadas em circulação no mesmo exercí­
cio da pronúncia da decadenza, devem ser eliminadas, com a conse­
qüente redução do capital social (art. 2.344).

4.4. DIREITO FRANC�S

O Código Civil francês de 1 804250 traz apenas hipóteses de dis­


solução da sociedade, seguindo a orientação romanística251 . Não há a
previsão da exclusão de sócio, limitando-se a estabelecimento da
possibilidade de continuidade da sociedade em alguns casos de dis­
solução252 . No Código Civil, prevê-se a saída do sócio em caso de
incapacidade ou vício de consentimento, para evitar anulação do ato
constitutivo da sociedade (art. 1 . 844-12).
A exclusão surge inicialmente na Lei de 24 de julho 1 867, so­
mente no caso das sociedades de capital variável253 , quando prevista no

250 Na Françà as sociedades comerciais são disciplinadas n o Código Civil, conforme disposto no
artigo 1 8 do Código Comercial de 1 .807, prevendo que o contrato de sociedade será regula­
do pelo direito civil, pelas leis particulares do comércio e pelas convenções das partes.
251 Como exemplos de regras oriundas d o d i reito romano, tem-se a dissolução d a socieda­
de no caso de morte de um sócio, exceto por convenção em sentido contrário (art.
1 865, 3 e 1 .868), em grave alteração do estado pessoal do sócio (art. 1 .865, 4 ou 5) e,
nas sociedades a termo, quando houver j usta causa, como i nadimplemento ou i ncapa­
cidade para gestão dos negócios sociais (art. 1 .8 7 1 ).
252 Cf. arts. 1 .865, 3 e 4 , 1 .868 e 1 .871 . O art. 1 .865 prevê a dissolução da sociedade nos casos
de falência e i nterdição. No caso de falecimento de sócio, se convencionado entre as partes,
a sociedade pode continuar com seus sobreviventes (art. 1 .868), constituindo modo de exclu­
são convencional de pleno direito, cf. CAILLAUD, L 'exclusion. , cit., p. 1 01 e ss, em especial
..

pp. 1 1 2-1 1 3 . Apesar da classificação, somente a hipótese do art. 1 .865 é caso de exclusão,
pois o art. 1 .868 trata de dissolução. Parece não haver incoerência do art. 1 .865 nem com o
art. 1 .868, nem com o espírito do Código, que não cuida de exclusão de sócio. A previsão de
continuidade da sociedade com os sócios remanescentes é de nítida inspiração romanística.
E o não reconhecimento da exclusão pelo Código, assim como no direito romano, não con­
tradiz com a regra da continuidade da sociedade com os demais sócios. Possível incoerência
é tratar de forma distinta os casos de falecimento e i nterdição. Talvez a intenção do legislador
fosse separar o termo final da vida de outras vicissitudes nas quais o sócio permanece em
vida, embora não possa mais atuar na sociedade, justificando a dissolução.
253 As sociedades de capital variável, d isciplinadas n o Títu lo I l i da L e i de 24 de julho d e
1 867, são aquelas cujo contrato o u estatuto prevêem a possibi l idade de variação do

1 20
R ENATO VENTURA RIBEIRO

estatuto (art. 52, 2, 1), desde que determinada pela maioria em assem­
bléia geral (e não por outros órgãos)254 e motivada255 • Foi seguida pela
lei belga das sociedades comerciais de 1 8 de maio de 1.873, também
permitindo a exclusão somente no caso de sociedades de capital variá­
vel, mas mesmo quando não prevista no contrato social, no caso de
inadimplemento das obrigações contratuais (arts. 88, 2º, 89, 2º, 91, 95).
A doutrina francesa mais antiga sempre apresentou forte objeção ao
instituto da exclusão, entendendo somente ser possível nas sociedades de
capital variável, em virtude da referida lei256 • Mas a previsão legal somente
àquelas sociedades não autoriza a interpretação de que haja vedação nas
demais, sob pena de se entender que é proibido tudo o que não é permiti­
do por lei, hermenêutica contrária aos ideais de liberdade da própria Re­
volução Francesa. E, com base no princípio da liberdade das convenções, a
jurisprudência e a doutrina aceitam pactos de exclusão257, inclusive em

capital social, quer por aumento (feito pelos sócios ou pelo i ngresso de outros) ou
redução, geralmente ocasionada pela saída de sócio, justificando a poss i b i l idade de
exclusão. A c l áusula de capital variável era permitida em qualquer t i po de sociedade
(art. 48, ai. 1 ), tendo como l imite a observância ao capital m ín imo determi nado. Para
breve visão, cf. RIPERT, Traité. . , cit., p. 1 .2 2 4 e ss.
.

254 Cf. RIPERT, Traité... , c i t . , p. 1 .2 2 7, c o m i nd icação jurisprudencia l .


255 Cf. RIPERT, Traité... , cit., p. 1 .2 2 7, com referênci a a decisões judiciais, entendendo
como abuso do poder de maioria a aplicação da medida em casos não justificados.
256 Cf. PIC, Tra ité général théorique et pratique de droit commercial 1 : des sociétés
commerciales, 1 2ª ed., Paris, Rousseau, 1 92 5 , p. 732, e THALLER, Traité élémentaire
de droit commercial: a l'exclusion du droit maritime, Paris, Rousseau, 1 9 1 O, p. 2 4 7,
ambos entendendo como nula a cláusula de exclusão numa sociedade com capital
fixo e admiti ndo somente a d issolução total da sociedade, nas hipóteses previstas na
lei. Para PIC, idem, ibidem, a lém de humi lhante, não se justifica o controle moral recí­
proco nas sociedades com fins lucrativos, somente nas sociedades de capital variável e
cooperativas, pela sua mutual ista. Tal doutrina, porém, numa idéia embrionária de
preservação d a empresa, sustentava como solução a constituição de uma nova socie­
dade, aproveitando o estabelecimento anterior e, dependendo do caso, até a razão
social (PIC, idem, p. 7 3 1 , THALLER, idem, p. 246). É uma forma mais complexa, lenta
e onerosa de continu idade da empresa, que poderia ser a lcançada com a exclusão de
sócio, como esclarecem DUQUESNOY, La dissolution ... , cit., p. 302, e REQU IÃO, A
preservação da sociedade . , cit., p. 1 24.
..

257 A decisão da Corte d e Cassação Civil d e 1 0.4.1 854 (5., 1 85 5 , 1 .672) parece ter tido
influência decisiva, sendo �eguida de outras citadas por CAI LLAU D, L 'exclusión ... , cit.,
p. 242, nota n. 4. Na doutrina, cf. BAU DRY-LACANTINERIE e WAH L, Traité théorique et
pratique de droit civil IX: de la société, du prêt, du dépot, 2ª ed., Paris, Larose, 1 900, p.
2 70; ARTH UYS, Traité des sociétés commerciales li, 3ª ed., Paris, Sirey, 1 9 1 7, p. 428;

121
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SornDADEs ANÔNIMAS

sociedades anônimas258 • Na ausência de estipulação expressa, outros


admitem a decisão pelos tribunais, com base na regra geral de resolu­
ção dos contratos prevista no art. 1 . 1 84 do Código Civil259 •
Com a cada vez maior preocupação com a conservação da em­
presa, a lei das sociedades de 1966 permite a cláusula de rachat260 nas
sociedades em nome coletivo (arts. 21-22), conferindo aos sócios o
poder de adquirir a participação do sócio vítima de vicissitudes pes­
soais (morte, falência, interdição ou incapacidade) ou que tenha re­
querido a dissolução judicial por justa causa. E o art. 365 da mesma
lei prevê a exclusão de sócio por nulidade de subscrição261 ou vício de

LACOUR e BOUTERON, Précis de droit commercial 1 , 2ª ed., Paris, Dalloz, 1 92 1 , p.


1 99; HOUPIN e BOSVI EUX, Traité général théorique et pratique des sociétés civiles et
commerciales et des associations I, 7ª ed., Paris, Sirey, 1 935, pp. 276-277; DUQUESNOY,
L a dissolution . . . , cit., pp. 3 1 9-3 20; LEPARG N E U R, "L'exclusión . . . ", cit., pp. 262;
H UG U ET, Ou droit pour les associations d'exclure un de leurs members, Paris, L G DJ,
1 929, p. 44; DEBEN EST, La retraite volontaire.. ., cit, pp. 97-99, aceitando a modificação
estatutária para inclusão de cláusula de exclusão de sócio com apl icação imediata, às
pp. 99-1 00; RENAU D, "De l'exclusion . . . ", p. 1 49; LÉGAL e B R ETHE DE LA G RESSAYE,
Le pouvoir disciplinaire. . ., cit., p. 76 e p. 224 e ss.; LYON-CAEN, R E NAU LT e AMIAU D,
Traité .. ., cit., p. 347; ESCARRA e RAULT, Traité théorique et pratique de droit commercial:
Les sociétés commerciales 1, Paris, Sirey, 1 950, p. 303; HAMEL e LAGARDE, Traité de
droit commercial 1, Paris, Dal loz, 1 .954, p. 589; RIPERT, Traité... , cit., pp. 652-653, 932-
933 e 1 .227; CAILLAUD, idem, pp. 30-33 e 36, 238 e 239-260; STORCK, "La continuation
d'une société par l'élimination d'un associé", Revue des Sociétés, 1 982, pp. 2 3 3-26 1 , à
p. 246. LEPARGNEUR, idem, pp. 263-264 e HOUPIN e BOSVIEUX, idem, p. 2 77, admi­
tem, inclusive, a exclusão ad nutum em casos excepcionais.
258 Cf. decisão da Corte de Apelação de Rouen, i n RTOCo. 2 7 ( 1 974), p. 2 9 .
259 Cf. B A U D RY- LACANTI N E R I E e WAH L, Traité . . ., c it., p . 2 70; D U Q U E S N OY, La
dissolution. . ., cit., pp. 302, 306-3 1 1 e 3 1 9 e ss.; LEPARGNEUR, "L'exclusion ... ", cit., em
especial pp. 266 e 282; LÉGAL e B RETHÉ D E LA GRESSAYE, Le pouvoir disciplinaire.. .,
p. 2 24, em relação às sociedades de pessoas, e CAI LLAU D, L 'exclusion .. ., cit., pp. 2 3 8 e
2 6 1 -268, só não aceitando a exclusão nas sociedades de capital variável, pelo seu cará­
ter i nstitucional (p. 263, nota n. 3). Já PARDESSUS, Cours de Oroit Commercial, 6ª ed.,
1 833, p. 1 95, admite a exclusão do sócio que prejudica a sociedade, embora não escla­
reça a forma, bem como sua responsabilização por perdas e danos. Contra a exclusão no
si lêncio do pacto social, do ponto de vista jurídico, mas reconhecendo sérias inconveni­
ências no aspecto prático, ESCARRAe RAULT, Traité.. ., cit., p. 303.
260 D i scute-se se a cláusula de rachat é uma modal idade de exclusão de sócio. Embora o
sócio deixe de fazer parte da sociedade, a saída não decorre da deliberação dos de­
mais e sim da aceitação pelo membro da venda de sua participação social se verificadas
determinadas condições. Cf. RIPERT, Traité ... , cit., p. 933.
261 A hipótese de n u lidade de subscrição não deve ser tratada como h ipótese de exclusão.
Como o ato nulo de subscrição não produz efeitos, o subscritor não é sócio, pelo que
não se deve falar em exclusão de sócio. Cf. Parte I l i, Cap. 1, n . 1 , abaixo.

1 22
RENATO VENTURA RIBEIRO

consentimento. No último caso, a exclusão deve ser pronunciada quan­


do não sanada a irregularidade.
Até hoje a legislação francesa não traz regras gerais sobre a ex­
clusão de sócios. Há apenas disposições sobre casos específi c os, como
nas sociedades de capital variável (Lei de 24.7.1 867, art. 35), coope­
rativas (Lei de 10. 9.47, art. 7), de profissionais liberais (Lei de
3 1 . 12.93, art. 21), por ações simplificadas (Lei de 24.7.66, art. 262-
1 7) e cotadas (Lei 96-597, de 2.7.96, art. 33, 4º) .
A lei de nacionalização, de 1 1 .2.82, institui a expropriação em
razão de utilidade pública, obrigando o proprietário a transferir ao
Estado a propriedade das ações (art. 2º).
A Lei n. 85-98, de 25 . 1 . 85, reguladora da recuperação judicial
de empresas, estabelece a possibilidade de exclusão judicial, podendo
o juiz ordenar a cessão de ações ou participação social a preço fixado
por perito (art. 23) .
A Lei n. 93-1444, de 3 1 . 12.93, disciplina a exclusão de minori­
tários nas sociedades cotadas no mercado oficial, em processo de oferta
ou pedido de resgate se os títulos restantes em poder da minoria
representarem menos de cinco por cento do capital social ou votan­
te262 . Trata-se de expropriação privada, retraitforce a pedido dos ma­
j oritários (art. 1 6-I). A indenização deve ser baseada em critérios
objetivos, fixados no regimento geral do Conselho das Bolsas de
Valores, levando em conta o valor econômico, o preço do momento
da oferta pública ou do pedido de resgate.
Nas sociedades por ações simplificadas (sociétépars actions sim­
plifiée) a lei permite a estipulação de cláusula estatutária de exclusão
de acionista, havendo justa causa (Lei 66-537, art. 262 - 1 7).

2 62 Sobre o assunto e com exemplos, cf. COZIAN e VIANDER, Droit des sociétés, 9• ed.,
Paris, Litec, 1 996, pp. 409-41 O.

1 23
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÓN IMAS

4.5. D I REITO PORTUGU�S

No Código Comercial de 1 881 prevê-se a exclusão de sócios


somente para as sociedades cooperativas (arts. 221º e 222º), seguindo
a orientação já adotada na Lei de 2.7.867 (art. 7°, § 7°). O Código
Civil traz o instituto nos arts. 1 . 003º a 1 .006.
A antiga lei das sociedades por quotas de 1901263 prevê apenas a
exclusão do sócio remisso (art. 12°) e por falta de cumprimento de
prestações suplementares (arts. 1 8° e 1 9°). No caso de sócio remisso
só é possível a exclusão após a concessão de prazo mínimo de trinta
dias para pagamento do valor devido, mediante carta registrada (art.
12º). No caso de exclusão, o sócio perdia os valores dos pagamentos
parciais já efetuados das cotas em mora (art. 12º, § 1 º) .
Com o passar do tempo, a doutrina e a jurisprudência passaram
a admitir não só a validade de cláusulas estatutárias de exclusão de
sócio, como também a exclusão sem prévia estipulação contratual,
desde que fundada em justa causa264 .
No Código das Sociedades Comerciais de 1 986, a exclusão não é
tratada como norma geral e sim nas regras particulares de cada espécie
de sociedade. Nas sociedades em nome coletivo, é considerada justa
causa para exclusão a destituição de sócio da gerência por fato culposo
capaz de causar prejuízo à sociedade (art. 1 86°, 1, a). O quórum míni­
mo para deliberação é de três quartos dos sócios restantes (art. 1 86º, 2).
Nas sociedades com dois sócios a exclusão deverá ser feita judicial­
mente, salvo nos casos de interdição, inabilitação, declaração de falên­
cia ou de insolvência. Qyando o credor do sócio se opõe ao retorno à

263 Lei de 1 1 de abril de 1 90 1 , art. 1 2 e § l º.


2 64 Sobre o posicionamento da doutrina e jurisprudência portuguesas, cf. a apresentação à
obra de N U N ES, O direito de exclusão de sócios nas sociedades comerciais, São Paulo,
Cultural Pau l i sta, 2 00 1 , pp. 8-1 1 , na qual se enfoca a i nfluência do autor na alteração da
lei, doutrina e jurisprudência lusitana, com menção a diversas obras e julgados. Na dou­
trina, cf. ainda VARELA, "Cláusula de exclusão de sócios em estatutos de sociedades",
parecer, 1 987, apud PIMENTA, Exclusão e retirada de sócios.. , cit., pp. 1 46-1 47.
.

1 24
RENATO VENTURA RIBEIRO

atividade de sociedade em liquidação, cabe à sociedade optar entre a


exclusão do sócio e a continuação da liquidação (art. 1 96º, 2). Ressalte­
se o direito de retirada, no caso de voto vencido em decisão de não
exclusão de sócio quando há justa causa (art. 1 85-2, b).
Nas sociedades por quotas, o Código (artigo 204°) mantêm as
regras da lei anterior já referidas. Entre outras soluções, permite a
venda pública da quota do sócio excluído (art. 205º). Ao lado da ex­
clusão decorrente de previsão legal ou contratual (art. 241 º), tem-se a
judicial, nos casos de comportamento desleal ou grave perturbação
no exercício das atividades, que traga ou possa trazer prejuízo à soci­
edade (art. 242º). A exclusão processa-se pelas regras da amortização
de quotas e, no caso de exclusão judicial, tem-se o prazo de trinta
dias, sob pena de ineficácia da exclusão (art. 242°-3). Também há o
direito de retirada, não só em face da decisão como no caso da socieda­
de não promover a exclusão judicial (art. 240°- 1 , b).
Qianto às sociedades anônimas, o único caso de exclusão é a
não integralização do capital em dinheiro. No caso de inadimple­
mento, o acionista deve ser interpelado pela sociedade, por meio de
anúncio, com prazo de trinta a sessenta dias para pagamento, após o
qual se inicia a mora (art. 285°-2 e 3). Faculta-se aos administrado­
res, após o início da mora e mediante carta registrada, a concessão de
novo prazo, não inferior a noventa dias, com o acréscimo de juros,
sob pena de perda, em favor da sociedade, das ações e dos pagamen­
tos parciais relativos a elas já efetuados (art. 285°-4).
O descumprimento de prestações acessórias só acarreta a exclu­
são se houver previsão estatutária. Na falta de tal estipulação, o inadim­
plemento das obrigações acessórias não atinge o status socii (art. 287°-4).

4.6. DIREITO BRASILEIRO

A construção doutrinária e jurisprudencial do instituto da ex­


clusão de sócios foi fundamental no direito brasileiro, tendo em vista
a minguada disciplina legal.

1 25
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

O Código Comercial, influenciado pelo diploma francês, não


disciplina a exclusão como instituto autônomo. Previa expressamen­
te duas hipóteses: inadimplemento da contribuição para o capital
social como causa de "rescisão da sociedade a respeito do sócio" (art.
289) e exercício do comércio fora da sociedade, sem permissão, pelo
sócio de indústria (art. 3 1 7). Adiante, tratando de dissociação265 , fa­
lava em "sócio que se despedir, ou fôr despedido com justa causa"
(art. 339), sem especificar quais seriam tais motivos. Deixa a dúvida
se a referência à causa justificada diz respeito às hipóteses legais an­
teriores (arts. 289 e 3 1 7) ou a qualquer outra razão relevante.
A doutrina pátria opta pelou segunda interpretação, passando a re­
conhecer duas espécies de exclusão: a legal e a convencional266 • A pri­
meira, nos casos expressamente previstos em lei (arts. 289 e 317 do Código
Comercial), aos quais foram acrescidos a exclusão do sócio remisso nas
sociedades por quotas de responsabilidade limitada (Decreto n. 3.708/
19, art. 7º) e a do sócio falido, em lugar da dissolução da sociedade pela
falência de um sócio, quando acordado no contrato social (pelo revoga­
do Decreto-lei n. 7.661/45, art. 48)267 • Nas sociedades cooperativas, a
exclusão processa-se nos casos e na forma estabelecida no estatuto.
O reconhecimento da exclusão convencional deve-se à inter­
pretação sistemática das normas do Código Comercial. Com base na
autonomia contratual (Código Comercial, arts. 129, 2; 291 e 302, 7),
a doutrina concluiu pela validade de pacto de exclusão, quando hou­
ver justa causa, esta última exigida pelo art. 339268 •

2 65 Sobre o sentido de d issociação, AZEVEDO, Dissociação . , cit., p. 39 e segui ntes.


. .

2 66 Por todos, cf. REALE, "A exclusão de sócios . . . . ", cit., p. 4 6 1 .


267 Como se vê, a disciplina na revogada lei falimentar, derrogando as regras dos artigos 335,
2 do Código Comercial e 1 .399, IV do Código Civil, representou avanço no sentido da
preservação da sociedade, separando a sociedade das vicissitudes pessoais dos sócios,
como mostram VALVERDE, Comentários à lei de falências: Decreto-lei n. 7. 66 1, de 2 1 de
junho de 1 945 1, 4ª ed., atualizada por J. A. Penalva Santos e Paulo Penalva Santos, Rio de
Janeiro, Forense, 1 999, pp. 361 -362, e LEÃES, "Exclusão extrajudicial. .. ", cit., p. 86.
268 Cf. os pareceres de BARBOSA, VISCONDE DE O U RO PRETO, P E R E I RA e VIAN NA,
transc r itos por FARIA, Da exclusão de sócios . . , cit., pp. 3 9-58; FARIA, idem, p . 2 3 ;
.

1 26
RENATO VENTURA RIBEIRO

Como o art. 339 não exigia previsão contratual, mas tão somen­
te justa causa, mais recentemente é admitida a exclusão na falta de
pacto expresso, quer pela ocorrência de motivo grave269 ou com

MEN DONÇA, Tratado. . . , cit., p. 1 49; FERREIRA, Sociedades por quotas, cit., p. 1 2 1 , Com­
pêndio... , cit., p. 1 29, Tratado ..., cit., p. 1 60; PEIXOTO, A sociedade por cotas de responsa­
bilidade limitada: doutrina, jurisprudência, legislação e prática 1, 2ª ed., Rio de Janeiro,
Forense, 1 958, p. 2 76; MIRANDA, Tratado de direito privado: Parte especial XLIX: Contrato
de sociedade. Sociedades de pessoas, 3a ed., reimpressão, Rio de Janeiro, Borsoi, 1 972, p.
1 36; BATALHA, Direito processual societário, Rio de Janeiro, Forense, 1 986, p. 23 1 . REALE,
"A exclusão de sócios ... ", cit., à p. 462, opina pela desnecessidade de cláusula contratual,
em caso de exclusão judicial. Na jurisprudência, STF-Ag. 1 8.380, j. 2 7 . 1 1 .56, DJU 22.4.57,
p. 1 . 1 68 (caso de sociedade civil), O Direito 4/3 1 O, RT 1 64/248, 1 66/845.
Atribui-se a paternidade da idéia a MENDONÇA, o que é um equívoco, pois tal posi­
ção já foi defendida anteriormente. Para MARTI NS, "A exclusão de sócio ... ", cit., p.
1 32, M E N DONÇA não se manifestou pela obrigatoriedade de cláusula contratual, ape­
nas opinou pela lic itude de tal avença. No entanto, o tratadista, na obra e página acima
citadas, afirma: "A exclusão do sócio póde dar-se nos casos segui ntes: ( ... ), 3º Se fôr
pactuado no contracto social que a maioria dos socios póde destituir ou excluir qual­
quer del les em dadas c i rcunstâncias". Da leitura, vê-se que o autor aponta as hipóteses
de exclusão, sendo as duas primeiras legais e a terceira, mediante convenção contratual.
269 U m dos autores pioneiros a defender tal posição foi FERRE I RA, em razões de apelação
(RF 1 1 7/476, à p. 482), inclusive reformu lando opinião anteriormente defendida. Cf.
também T E I X E I RA, Das sociedades por quotas... , cit., pp. 2 74-275; PEIXOTO, A socie­
dade por cotas. , cit., pp. 2 7 7-278; L EME, "Sociedade por quotas . . . ", c i t., p. 1 0 1 ; PI­
..

MENTA, "Demissão de diretor em sociedade por quotas de responsabil idade l i mitada",


RT5 1 6 ( 1 9 78), pp. 3 7-42, à p. 39; MARTINS, "A exclusão de sócio ... ", cit., pp. 1 32- 1 33
e 1 40; MORAES, Sociedade civil estrita, São Paulo, RT, 1 986, pp. 328-335; LENZ, "A
exclusão de sócio na sociedade por quotas de responsabi lidade l imitada", Rf 306 (1 989),
pp. 29-32; B U LGAREL L I, Sociedades comerciais: sociedades civis e sociedades coo­
perativas: empresas e estabelecimento comercial: estudo das sociedades comerciais e
seus tipos, conceitos modernos de empresa e estabelecimento, subsídios para o estudo
do direito empresarial, abordagem às sociedades civis e cooperativas, 6ª ed., São Pau­
lo, Atlas, 1 996, p. 1 64; FONTES, "Sociedade por quotas de responsa b il idade l imitada:
a exclusão de sócio pela maioria", i n LIMA (Coord.), Atualidades Jurídicas, vol. 3 , Belo
Horizonte, Dei Rey, 1 993, pp. 1 9 1 -203 e autores mencionados n a próxima nota.
FARIA, em Da exclusão de sócios ... , cit., p. 23, admite a exclusão de sócio somente nos
casos previstos em lei ou contrato, independentemente de via judicial. Mais tarde,
versando sobre caso concreto, em Pareceres e Comentários, São Pau lo, Revista dos
Tribunais, 1 933, p. 1 1 6, admite a existência de c láusu la reso lutiva tácita, com base no
art. 1 .092 do Código Civil, por entender ser a sociedade contrato bi lateral .
REALE esclarece a posição adotada n o parecer de 1 .944: "Já é bem outra a questão
quando a sociedade e os sócios i ngressam d i retamente em J u ízo, com fundamento no
citado art. 339 do Código Comercial, o qual só exige o pressuposto da justa causa.
I nstaurado o l itígio perante o juiz, com a ampla garantia assegurada pelo processo
contraditório, tendo as partes pleno direito de produzir provas, de aduzir e constestar
razões de fato e de d i reito, nada justifica que se exija cláusu la expressa no contrato: o
que i n teressa, em ú l tima análise, é a comprovada existência de justa causa legitimadora
da exclusão" (cf. "Exclusão de sócio das sociedades comerciais", cit., p. 96).

1 27
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SornDADEs ANÓNIMAS

fundamento nas regras gerais de resolução contratual por inadimple­


mento, aceitando-se a existência de condição resolutiva tácita270 , fir­
mando-se jurisprudência a respeito271 . Suprimir a possibilidade de
expulsão do sócio sem previsão legal ou contratual equivale a reduzir
as soluções para problemas prejudiciais à sociedade causados por sócio
a duas apenas: ou a retirada do sócio ou a dissolução total272 • Eventual
arbitrariedade na exclusão de sócio pode ser corrigida judicialmente,
inclusive com perdas e danos. Mas, permitir a permanência do sócio
prejudicial na sociedade, por falta de previsão legal ou contratual, gera
conseqüências graves e irreversíveis, como o fim da empresa. O novo

Pela necessidade da via judicial, cf. REQU IÃO, A preservação da sociedade ... , cit., p.
206, COMPARATO, "Sociedade por quotas ... ", cit., pp. 33-39 e CRISTIANO, Socieda­
de limitada . . . , cit., pp. 1 88-1 89, entendendo o ú ltimo quem a exclusão de sócio deve
ocorrer por via judicial ou mediante distrato e não por a lteração do contrato soc i a l .
Em sentido contrário à exclusão de sócio sem prévia estipulação legal ou contratual,
B EVI L Á CQUA, " N u l idade de clausula de contracto socia l . Exclusão de socio", Solu­
ções praticas de direito, Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1 929, pp. 2 6 7-269; COSTA,
"Modificação do contrato da sociedade limitada por maioria de capital", ROM 25 ( 1 977),
pp. 77-87, às pp. 86-87, e BATALHA, Direito processual... , cit., p . 2 3 1 , para quem a
expressão "causa justificada" do art. 339 do Código Comercial não confere d i reito de
exclusão de sócio em hipóteses não previstas na lei ou no contrato.
M I RAN DA, Tratado . , cit., p. 1 36, somente admite a exclusão de sócio sem c láusu la
..

expressa nos casos justificadores de dissolução da sociedade, pois "quem pode o mais
pode o menos".
2 70 Cf. FARIA, Pareceres .. , cit., p. 1 1 6 (vide também nota anterior sobre a posição do
.

autor); REQU IÃO, A preservação da sociedade ... , cit., pp. 250-257 e 269; AZEVEDO,
Dissociação. . . , cit., p. 1 2 7; COMPARATO, "Sociedade por quotas ... ", cit., pp. 3 3-39;
FONSECA, "A exc lusão de sócio da sociedade por quotas de responsabil idade l i m itada
no d i reito brasileiro", i n Sociedade por quotas de responsabilidade limitada, São Pau lo,
AASP, 1 987, pp. 69-83, às pp. 75-76, "Dissolução total", cit., p. 70 e Dissolução parci­
al .. ., cit., pp. 4 7-52; GOMES, "Exclusão de sócio . . . ", cit., pp. 244-245; LATORRACA,
Exclusão de sócios... , cit., p. 1 O; LEÃES, "Exclusão extrajudicial. .. ", cit., pp. 88-89;
L U CENA, Das sociedades por quotas... , cit., pp. 600-601 .
271 N a j u risprudência, decisões i lustrativas estão e m RTJ 70/777, 85/742, 1 28/886, à p . 902
(=RT640/242); RSTJ 28/454, 1 03/240; REsp. 26.950-0/DF, 4ª T., rei. Min. Torreão B raz, j.
8.1 1 .93, DJU 6 . 1 2 .93, p. 26.666; REsp. 33.670-7/SP, 3a T., DJU 2 7.9.93, p. 1 9.820; RMS
8.1 1 0-SP, rei. Min. B arros Monteiro, j . 23 .9.97, DJU 1 0. 1 1 .97, p. 5 7.767; RT 4 5 1 /1 5 1 ,
5 1 0/1 3 1 , 5 1 6/1 1 4, 61 9/1 94 (=RF 298/2 5 1 ), 63 1/1 22, 705/1 1 7, 475/1 2 1 e 768/2 1 3, os
dois últimos tratando de sociedades civis; RJTJESP-Lex 1 38/2 74; JTJ-Lex 1 48/2 1 1 ; julga­
dos do TACivSP-Lex 20/9 1 , 4 1 /262. Pela possibilidade de exclusão de sócio, mas somen­
te mediante decisão judicial, RTJ 1 1 8/400 (=RT 6 1 1 /2 75). Em sentido contrário, pouco
antes da promulgação da lei de registro empresarial, ju lgados do Tribunal de Justiça de
São Paulo, Emb. i nf. n . 1 64.462-2, j. 8. 1 0.9 1 ; Ap. Civ. n. 1 99 . 1 25-2, j. 30. 1 1 .93.
272 Cf. COMPARATO, "Sociedade por quotas ... ", cit., p. 39.

1 28
RENATO VENTURA RIBEIRO

Código Civil (art. 1.085) restringe as possibilidades de exclusão extra­


judicial às sociedades limitadas e desde que haja previsão contratual.
Ao contrário dos demais países, nos quais a exclusão de sócio é
disciplinada nas leis societárias específicas, no Brasil, quiçá pela anti­
güidade do Código Comercial e da lei das sociedades limitadas, a ma­
téria passou a ter importante regulação nas normas de registro de
comércio. As regras anteriores de registro de comércio permitiam o
arquivamento de contratos sociais mesmo na falta da assinatura de
algum sócio, quando permitida contratualmente deliberação de sócios
representantes da maioria do capital social273• Posteriormente, admi­
tiu-se o arquivamento de instrumentos de contrato social sem a assi­
natura de todos os sócios, nos casos de exclusão de sócio previstos em
lei274• A atual lei de registro público de empresas mercantis permite a alte­
ração contratual pela maioria, na ausência de cláusula em contrário275, in-

273 Cf. Lei n. 4. 726, d e 1 3 de j u l ho d e 1 965, art. 3 8, V e Decreto n. 57.65 1 , d e 1 9 de


janeiro de 1 966, art. 62, § 2º e 7 1 , V.
2 74 Cf. Lei n. 6.939, de 9 de setembro de 1 98 1 , art. 6", 1, c, revogada pela Lei 8.934/94 (art.
67). A Instrução Normativa n. 7, de 1 6 de setembro de 1 986, do Departamento Nacio­
nal de Registro de Comercio, com a redação dada pela I n strução Normativa n. 1 7, de
1 3 de agosto de 1 987, permite a exc lusão do sócio prevista em lei, mesmo sem cláusu­
la permissiva (art. 1 º, Il i). É segu ida pela Instrução Normativa n . 29, de 1 8 de abri l de
1 99 1 , do Departamento Nacional de Regi stro de Comércio, cujo art. 1 3 prevê a possi­
bilidade de alteração contratual pela maioria, incl usive com exclusão de sócio. Já o art.
1 4 da referida Instrução Normativa, nos moldes do art. 2º da IN 7/86, exige, para arqui­
vamento do ato de exc lusão, a indicação do motivo e a destinação da participação no
capital da sociedade, a que tiver d i re ito o sócio exc l u ído, procurando evitar a exc lusão
sem justa causa. A Junta Comercial do Estado de São Paulo, com base no parecer n.
5 2 1 /84, de 1 5 . 1 0.84, da Procurado ria Regional, i nstitui a Del i beração n. 1 1 /84, de
2 4 . 1 0.84, perm iti ndo o arquivamento de i nstrumentos de exclusão de sócios, por deli­
beração majoritária, com indicação de causa e menção de fatos que permitam ao
exc l u ído i mpugnar em j u ízo a eventual i nj ustiça ou i mprudência da exc lusão, e indi­
cação do destino das quotas do excluído (tanto o referido parecer quanto a deli beração
estão publ icados no Boletim }UCESP n. 2 0 1 , de 1 . 1 .84). Ainda na vigência das normas
anteriores, parecer do Procurador Regional da J unta Comercial do Estado de São Paulo,
nos autos do proc. 5 0.450, de 1 9 79 "B", datado de 15 de outubro de 1 979, transcrito
por B U LGARELLI, Sociedades Comerciais.. ., cit., pp. 1 65-1 66.
275 Cf. Lei n . 8.934/94, art. 3 5 , VI; Decreto n. 1 .800/96, arts. 5 3 , VII, e 5 4 . Mesmo havendo
cláusula restritiva de alteração contratual por deliberação majoritária, PEREIRA, "Regime
dissolutório do Código Comercial. Dissolução total e dissolução parcial. Dissolução judicial e
extrajudicial", ROM 1 00 (1 995), pp. 63-84, à p. 75, defende a possibilidade de exclusão
extrajudicial de sócio, havendo motivo grave, como no caso de condenação a pena que
vede o exercício de atividade empresarial, tendo em vista os i nconvenientes da via judicial.

1 29
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANôNIMAs

clusive para exclusão de sócio, mesmo sem assinatura do dissidente


ou excluído276 . Conjugando-se as normas do revogado art. 339 do
Código Comercial, com previsão de "causa justificada" e a lei de re­
gistro empresarial, conclui-se pela possibilidade de exclusão de sócio
pela maioria, desde que haja fundado motivo. No entanto, compete à
Junta Comercial apenas o exame das formalidades necessárias ao ar­
quivamento da alteração contratual, não podendo adentrar ao mérito
da decisão, examinando a ocorrência ou não de justa causa277•
Da decisão, o sócio excluído pode recorrer administrativamente, no
âmbito da Junta Comercial278, no caso de falta de preenchimento das for­
malidades necessárias (cf. Decreto-lei 1.800/96, art. 54), como ausência de
prévia convocação ou de quorum legal ou contratual. Porém, o órgão de
registro empresarial não pode se manifestar sobre o mérito ou conveniên­
cia da deliberação de exclusão, pois sua competência abrange apenas a
análise das formalidades legais. Contra o mérito da decisão, somente é
cabível recurso ao Judiciário, inclusive com pedido liminar ou de tutela
antecipada, a ser deferido quando preenchidos os requisitos legais.
Ao contrário do Código Comercial, alguns projetos para sua
reforma tratam de forma explícita da exclusão de sócio, inclusive com
elenco de justa causa279.
O novo Código Civil prevê expressamente a exclusão nas asso­
ciações, mediante justa causa, em procedimento que assegure direito
de defesa e de recurso, nos termos previstos no estatuto (art. 5 7)280 •

2 76 Cf. REsp. 26.95 0-0/DF, 4ª T., re i . Min. Torreão Braz, j. 8. 1 1 .93, OJU 6 . 1 2 .93, p. 26.666;
REsp. 1 5 1 .838-PE, 3ª T., rei. Min. Carlos Alberto Direito, OJU 8 . 1 0.01 , p. 2 1 O.
277 Cf. R Esp. 1 5 1 .838-PE, 3ª T., rei. Min. Carlos Alberto D i reito, DJU 8 . 1 0.01 , p. 21 O.
278 Conforme a Lei 8.934/94, são possíveis três recursos, a serem interpostos no prazo de
dez dias da publicação do ato gerador da interposição: pedido de reconsideração,
recurso ao plenário e recurso ao Min istro de Estado da I ndústria e Comércio. Ao exclu­
ído, é possível a i nterposição dos dois ú l timos. O primeiro pode ser interposto pela
sociedade, no caso de i ndeferimento do arquivamento da deci são da sociedade.
279 É o caso do Projeto de T E I X E I RA DE FREITAS, Esbôço de Código Civil, que será exami­
nado no Cap. IV, 2.7 abaixo.
280 O texto original do artigo previa a possibil idade de exclusão também na omissão do
estatuto, bem como recurso à assembléia geral. Ei-la:

1 30
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Nas sociedades simples, no caso de sócio remisso, prevê sua ex­


clusão ou a redução da quota ao montante j á realizado (art. 1.004,
parágrafo único), após o prazo de trinta dias para purgação da mora,
após a notificação pela sociedade. Admite ainda a exclusão judicial,
mediante iniciativa da maioria dos demais sócios281 , por falta grave
no cumprimento de obrigações ou incapacidade superveniente, bem
como exclusão automática no caso de falência ou liquidação judicial
da quota, em caso de sua penhora (art. 1 .030 e parágrafo único). Pre­
vê a exclusão de direito nos casos de penhora das quotas do sócio em
processo de execução movido por credor particular (art. 1 . 026), fa-

"Art. 5 7 . A exclusão do associado só é admissível havendo justa causa, obedecido o


d i sposto no estatuto; sendo este omisso, poderá também ocorrer se for reconhecida a
existência de motivos graves, em del i beração fundamentada, pela maioria absoluta
dos presentes à assembléia geral especialmente convocada para esse fim.
Parágrafo ú n i co. Da decisão do órgão que, de conformidade com o estatuto, decretar a
exclusão, caberá sempre recurso à assembléia geral".
Foi dada nova redação ao artigo e suprimido o parágrafo ú nico pela Lei n. 1 1 . 1 27/05,
que assim ficou redigido:
"Art. 57 A exclusão do associado só é admissível havendo justa causa, assim reconhe­
cida em procedimento que assegure d i reito de defesa e de recurso, nos termos previs­
tos no estatuto."
O novo texto é i mpreciso e gera dúvidas. Parece ter sido a i ntenção do legislador
permitir a exclusão n a ocorrência de justa causa, com ou sem previsão estatutária. Mas
as expressões "justa causa" e "nos termos previstos no estatuto" podem levar ao enten­
d i mento de que só será possível a exc lusão na ocorrência de motivos previstos
estatutariamente.
É positiva a previsão expressa de d i reito de defesa. Ao contrário das sociedades, nas
quais a deliberação de exclusão deve ser tomada em assembléia geral, nas associações
não há tal necessidade. À assembléia geral compete somente a apreciação de recurso
contra a decisão. Mas isto não deve imped i r que o estatuto possa prever a deli beração
de exclusão em assembléia geral, h ipótese na qual não se justifica a possib i lidade de
recurso.
Como a lei exige sejam assegurados d i reito de defesa e de recurso, nos termos previstos
no estatuto, tende-se a entender que somente será possível a exclusão havendo estipu­
lação estatutária de procedimentos (não de justa causa). Sem tal previsão parece não
ser possível a exclusão do associado.
281 No d i reito brasileiro anterior, conjugando o d isposto n o s revogados artigos 3 3 1 e 486
do Código Comercial, conclui-se que, por maioria dos sócios, deve-se entender a soma
da maior participação soci a l e não do número de sócios. O atua l Código Civil menci­
ona expressamente, em outra norma sobre exclusão de sócios (ar!. 1 .085), a maioria do
capital social e não do número de sócios. Em posição mi noritária, entendendo que a
deliberação deva ocorrer pela maioria do número de sócios e não do capital social, cf.
PIMENTA, Exclusão e retirada de sócios. . . , cit., pp. 84-85.

131
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANôNIMAS

lecimento (art. 1 .028) e decretação de falência do sócio (art. 1 .030 e


parágrafo único).
O novo Código Civil, a exemplo do artigo 217 do Código Co­
mercial de 1 850, também prevê a exclusão, nas sociedades simples,
do sócio cuja contribuição consista em serviços que se empregar em
atividade estranha à sociedade, salvo convenção em contrário, além
de privá-lo dos lucros da sociedade (art. 1 .006) .
No caso de sócio remisso em sociedades limitadas, além das al­
ternativas previstas para as sociedades simples, pode a sociedade to­
mar a quota para si ou transferi-la a terceiros, devolvendo o valor
pago, deduzidos os juros da mora, prestações estabelecidas no con­
trato e despesas (art. 1 .058).
Nas sociedades limitadas é possível a exclusão extrajudicial quando
prevista no contrato social, no caso do sócio estar pondo em risco a
continuidade da empresa. Para tanto, deve a exclusão ser deliberada
por sócios titulares de mais da metade do capital social, em reunião ou
assembléia especialmente convocada para esse fim, com prévia convo­
cação do sócio a excluir e garantido o direito de defesa (art. 1 .085 e
parágrafo único)282 • Qyanto à possibilidade de exclusão extrajudicial,
houve uma restrição em relação ao entendimento anterior da lei e da
jurisprudência, que não exigia previsão em cláusula contratual.
O montante da participação do sócio excluído deve ser liquida­
do tomando-se por base o valor patrimonial à data da decisão, apura­
do em balanço especialmente levantado, salvo cláusula contratual em
sentido diverso (art. 1 .03 1). O valor apurado deve ser pago em di­
nheiro, no prazo de noventa dias a partir da liquidação, exceto se
houver acordo ou previsão contratual em contrário (art. 1 .031, § 2°).
Se os demais sócios não suprirem o valor da participação do excluí­
do, o capital social deve ser reduzido (art. 1 .03 1 , § 1 °) .

282 Para breve análise da exclusão de sócio no novo Código Civil, d. GU IMARÃES, "Exclusão
de sócio em sociedades l imitadas no novo Código Civil", ROM 1 29 (2003), pp. 1 08-1 20.

1 32
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Aplicam-se ainda às sociedades limitadas hipóteses de exclusão


previstas para as sociedades simples (Código Civil, art. 1 .053), ou
seja, penhora das quotas do sócio em processo de execução movido
por credor particular (art. 1 .026) e decretação de falência do sócio
(art. 1 .030 e parágrafo único).
Apesar do Código Civil ter entrado em vigor recentemente, há di­
versas propostas de sua alteração, inclusive em matéria de exclusão de só­
cio. O PL 7.160/02 amplia a possibilidade de exclusão extrajudicial de
sócio, permitindo não só a medida nas sociedades simples283 como nas
limitadas quando não há previsão contratual. Nas sociedades limitadas o
projeto restringe as hipóteses de expulsão de sócio às previstas no contrato,
mas, na ausência de tal estipulação, permite a exclusão extrajudicial do
minoritário, desde que haja justa causa284 , seguindo o estabelecido na lei
de registro empresarial (Lei 8.934/94, art. 35, VI) e a jurisprudência ante­
rior ao novo Código Civil. Por fim, prevê a oitiva dos sócios remanescen­
tes no caso de credor de sócio requerer a liquidação da quota do devedor285 •

A lei das sociedades anônimas estipula a exclusão do acionista remis­


so (arts. 106 e 107, II) e a possibilidade de resgate de ações (art. 44). Por

283 Através de nova redação do art. 1 .030: "Art. 1 .030. Ressalvado o d isposto no art. 1 .004
e seu parágrafo único, pode o sócio ser excl u ído, por deliberação dos sócios, tomada
por maioria absoluta de votos, se verificada justa causa prevista no contrato social, falta
grave no cumprimento de suas obrigações ou, ai nda, i ncapacidade superveniente''. O
texto original prevê a exclusão j ud icial do sócio. Com a redação proposta, conjugada
com a a lteração sugerida no art. 1 .085 (cf. nota acima), havendo ou não previsão
contratual, poderá ser feita a exclusão extraj udicial de sócio minoritário, desde que
haja deliberação por maioria absoluta de votos. Não se faz referência à exclusão de
sócio majoritário, pelo que deve ser entendido que sua exclusão somente será possível
judicialmente, assim como nas sociedades com dois sócios com igual participação.
2 84 Isto mediante nova redação proposta ao art. 1 .085: "Art. 1 .085 . A exclusão de sócio
somente será admitida nas hipóteses expressamente previstas no contrato social e, sen­
do este omisso, poderão os sócios, desde que representem mais da metade do capital
social, del iberar a exclusão por j usta causa, fundamentando as razões de sua decisão".
2 85 A ser feita mediante alteração do parágrafo único do art. 1 .026 para: "Parágrafo único. Se a
sociedade não estiver dissolvida, pode o credor requerer a liquidação da quota do devedor,
cabendo ao juiz decidir, depois de ouvida a sociedade. Em caso de decisão pela liquidação
total ou parcial da quota, o seu valor será apurado na forma do art. 1 .03 1 , sendo depositado em
dinheiro, no juízo da execução, até noventa dias após aquela l iquidação, salvo estipulação
contratual d iversa quanto ao prazo e condições de pagamento dos haveres do sócio".

1 33
ExnusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANÓNIMAS

força do disposto no artigo 1.089 do Código Civil, as hipóteses de exclu­


são de sócio nele previstas podem ser aplicadas às companhias. Além disto,
podem ser estipulados no estatuto outros casos de exclusão de acionista.

CAPÍTULO I l i : F U NDAMENTOS

1 . TEORIAS
Para entendimento mais apurado do fundamento jurídico do
instituto, ao invés da tentativa de traçar uma evolução histórica, é
melhor a análise individual de cada teoria286 • Tradicionalmente os
autores287 apontam três grandes correntes: poder corporativo disci­
plinar, disciplina taxativa legal e contratualista. Mas há outras teses.
A busca do fundamento jurídico da exclusão enfrenta várias ordens
de problemas. Na maioria das vezes, as opiniões dos autores refletem sua
visão em face das normas legislativas vigentes em seu país, em apreciação
concreta e não de legeferenda. Como as teorias tiveram o seu maior desen­
volvimento na doutrina italiana, algumas justificativas de posições basei­
am-se na legislação daquele país à época em que as obras foram escritas.
Além disto, a concepção da exclusão está diretamente relacio­
nada ao caráter da sociedade288 • Por isto, desde a antiga até a mais
recente doutrina, parte da discussão está centrada na relação entre
exclusão de sócio e resolução do contrato289 . Aqueles que concebem
a sociedade como contrato e, geralmente, tratam da exclusão somen­
te nas sociedades de pessoas, tem a exclusão como forma particular
de resolução na relação societária ou, diante da heterogeneidade das
hipóteses de exclusão, com a necessidade de justificações diversas

286 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione .. ., cit., p . 38.


287 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione.. ., cit., pp. 38-39; N U N ES, O direito de exclusão .. .,
cit., pp. 2 3-28; PERRI NO, Le tecniche .. ., cit., p. 78 e ss.
2 88 Cf. LEÃES, "Exclusão extrajudicial. . . ", cit., p. 85 .
289 Cf. PERRI NO, Le tecniche.. ., cit., p. 75.

1 34
R ENATO VENTURA RIBEIRO

para explicar a peculiaridade de casos diversos, acabam por identifi­


car a exclusão como remédio às superveniências contratuais290 •
Afora incoerências, que serão apreciadas a seguir, outro problema
é a não justificativa a abrigar todas as hipóteses de exclusão. Primeiro,
em razão da diversidade de motivos que podem originar exclusão ( des­
cumprimento de vínculo contratual, estado pessoal dos sócios, reorga­
nização societária etc). Segundo, pelo fato de muitos autores estarem
preocupados apenas com a exclusão nas sociedades de pessoas, pouco
sendo tratado sobre o instituto nas sociedades de capitais291 •
Com a ciência de tais problemas, será apresentada análise das
diversas teses, principiando por resumo de seus fundamentos, e depois
considerações críticas.

1 .1 . TEORIA DO PODER CORPORATIVO DISCIPLI NAR292

Os defensores293 da tese294 caracterizam a exclusão como ma-

290 Cf. PERRI NO, Le tecniche. . . , cit., p. 86.


291 Cf. PERRI NO, Le tecniche . . , cit., p. 75.
.

292 PERRI NO, L e tecniche... , cit., p. 78, nota 34, atribui a paternidade da denomi nação
"poder corporativo d isci pl i nar" a DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p. 59 e ss .. Mas
.

RAM ELLA, " De l l 'esc lusione . . . ", cit., pp. 58 e 6 1 , já emprega a expressão "poder disci­
p l i nar", como anota o próprio DALMARTELLO, idem, p. 60, nota n. 34.
293 Na Itá l i a, LESSONA, "1 diritti dei soei nelle associazioni private", RDComm. 8 (1 9 1 0), 1, pp.
378-3 9 1 , às pp. 386-387; RAMELLA, "Del l'esclusione ... ", cit., pp. 56-63; NAVARRINI, Dei/e
società e dei/e associazioni commerciali, Commento ai Codice di commercio, Mi lano,
Val lardi, 1 924, pp. 697-698 e 800-801 ; ASCARELLI, Appunti di Diritto Commerciale li:
Società ed associazioni commerciali, 3ª ed., Roma, Foro Italiano, 1 936, pp. 1 33 e 205; DE
GREGORIO, Codice. . ., cit., pp. 637-638. Na França, LÉGAL e B RETHE DE LA GRESSAYE,
Le pouvoir disciplinaire.. ., cit., em especial p. 2 1 8 e ss., entendendo o poder discipl inar
como manifestação de autoridade de instituição (p. 21 e ss.), admitem sua aplicação nas
sociedades de capitais (pp. 78-79 e pp. 225-228) e nas sociedades de pessoas com capital
variável (pp. 77-78), mas não nas demais sociedades de pessoas, nas quais a exclusão
decorre da ruptura contratual (p. 76-77 e 2 1 8 e ss.). Dentre os tratadistas, HAMEL e LAGARDE,
Traité. . . , cit., p. 590. Já GAILLARD, Le pouvoir en droit privé, Paris, Economica, 1 985, pp.
70-72, parte da diferença entre sociedades de capital variável e de capital fixo, concluindo
que a possibil idade de n u lidade de cláusula permitindo a exclusão de sócio não permite
falar em poder disciplinar espontâneo nas ú ltimas. Porém, como reconhece o próprio autor
(p. 70, nota n. 75) a n u lidade de tal cláusula é bastante discutível (pela validade da avença,
entre outros, CAILLAUD, L 'exclusion. . ., cit., p. 239 e ss.), o que enfraquece suas ilações. No
Brasil, falando em poder disciplinar em sociedade civil, decisão publicada em RT626/81 .
2 94 Sobre os fundamentos e críticas da teoria, ver DALMARTELLO, L 'escfusione.. ., cit., pp. 59-62; NUNES,
O direito de exclusão.. ., cit., pp. 23-24 e pp. 29,33, e PERRINO, Le tecniche.. ., cit., pp. 78-89.

1 35
ExctusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

nifestação de um poder disciplinar295 da sociedade, por ela ser ente


autônomo, separado dos sócios, e exercer predomínio sobre eles296 .
A soberania é explicada pela necessidade de sujeição de cada
sócio enquanto membro de ordenamento jurídico, no caso a socieda­
de297 , sendo meio de defesa do ente, para sua preservação298 .
Como poder soberano é discricionário299 , não podendo, quanto
ao mérito, ser apreciado judicialmente300 . Até porque os sócios têm
melhores condições para averiguar a conveniência da medida e suas
conseqüências para a sociedade. Somente seria cabível a via judicial
para verificação das condições previstas na lei ou no estatuto e da
regularidade no procedimento301 .
Se o associado tem por dever ou função trabalhar colaborar com
o escopo social, não pode ser obstáculo à consecução dos fins sociais.
O predomínio da sociedade sobre os sócios, inclusive com o poder de
exclusão, permite instaurar a disciplina dos sócios, fazendo com que
eles cumpram seus deveres e respeitem o ente coletivo.
Alguns aspectos são controvers os entre os próprios defenso­
res da tese. O primeiro diz respeito aos limites do poder discipli­
nar. Para alguns, como o poder da sociedade é soberano, pode ser
aplicado sem previsão anterior302 . Para outros, por tratar·-se de

295 Sobre o conceito e extensão do poder disciplinar, LÉGAL e B R E T H E DE LA G RESSAYE,


Le pouvoir disciplinaire. . . , e GAI L LARD, Le pouvoir.. ., ambos já citados.
296 Nas palavras de NAVARRINI, Dei/e società .. ., cit., pp. 800-80 1 , "e l'affermazione dei l a
separazione da u n lato, e d e i predomi nio, dall'altro, del l'ente sui singo l i " .
297 Cf. ASCARELLI, Appunti. . . , c i t . , p. 205.
298 Cf. NAVARRINI, Dei/e società . . ., cit., p. 800; DE G REGORIO, Codice .. ., cit., p. 637.
299 Quanto aos riscos do poder discricionário, RAMELLA, "Dell'esclusione . . . ", cit., p. 6 1 ,
acredita ser menos prej udicial a exclusão através de procedimento i nterno, mesmo equ i­
vocado ou não totalmente i mparcial, do que a exposição pública dos problemas internos
da sociedade: "Meglio esporsi ad un prowedimento i n qualche caso erroneo o non dei
tutto imparziale ma emanente dai guidizio interno dei proprii pari che esporre ad u n a
pubblicità danosa l e disscnsioni i ntestine d e i l a società o \e colpe di u n o d e i suoi membri".
300 Cf. RAME LLA, "De\l'esclusione ... ", cit., p. 61 ; NAVA R R I N I, Dei/e società . ., cit., p. 703;
.

DE G REGORIO, Codice .. ., cit., p. 640 e nota 1 , ASCARELLI, Appunti.. ., cit., p. 205.


301 Cf. RAME LLA, "Del \'esclusione . . . ", c i t . , pp. 61 -63.
302 Cf. D E G REGORIO, Codice . . ., cit., p. 638.

1 36
RENATO VENTURA RIBEIRO

pena303 , somente poderia ser exercido nos casos previstos na lei ou


no estatuto304 , sendo a delimitação motivada pela necessidade de ob­
servância ao princípio nulla poena sine lege3°5 • A previsão legal seria
reconhecimento do poder disciplinar da sociedade pelo legislador e
não restrição. Até porque não há incompatibilidade entre o poder de
império e sua regulamentação, nem com a sua submissão à aprecia­
ção de sua legalidade pelo Judiciário306 • E as disposições estatutárias
constituem o poder de império, expressão da vontade comum sobre a
individual.
Ponto positivo a ser destacado é, desde aquela época, a preocu­
pação e a identificação do instituto com a continuidade da socieda­
de, ainda que de cunho privatística e não publicista. Neste aspecto,
a exclusão revela-se como inteligente alternativa à dissolução total
do contrato pela aplicação dos princípios gerais da resolução dos
contratos307 •
A principal objeção à teoria é o questionamento de poder disci­
plinar nas sociedades comerciais. Tal poder tem por escopo a preser­
vação da sociedade e fundamenta-se na soberania e personalidade
jurídica, esta última tornando a sociedade ordenamento jurídico ao
qual estão suj eitos seus membros308 .
A idéia de soberania apresenta alguns problemas. Apesar de de­
ver prevalecer o interesse comum sobre o interesse individual de cada
membro, não se pode, por isto, afirmar que todos os sócios estão
suj eitos a um poder soberano. Uma primeira obj eção é o reconheci-

303 Mais precisamente, uma das penal idades que podem ser previstas no estatuto, como
apontam RAM E L LA, "Del l 'esc l u sione . . . ", pp. 5 8-59, e LÉGAL e B RETH E DE LA
G RE55AYE, Le pouvoir disciplinaire. . . , cit., p. 2 1 3 e ss ..
304 Cf. RAME L LA, "Dell'esclusione . . . ", cit. pp. 5 7-58; NAVARRI N I, Dei/e società . . . , cit., p.
805; ASCARELLI, Appunti .. , cit., p 205; HAMEL e LAGARDE, Traité.. . , cit., p. 590.
.

305 Cf. RAME LLA, "Dell'esclusione ... ", cit., p. 58, embora admita q u e a sociedade pode
modificar seus estatutos a qualquer momento.
306 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . , cit., p. 32 e nota n. 1 2.
..

307 Cf. N U N ES, idem, cit., p. 23.


308 Cf. ASCARELLI, Appunti. . . , cit., p. 205.

1 37
ExcLusÃo DE Sócios NAS SornDADEs ANÔNIMAS

mento de poder de supremacia fora do campo público309 . Havendo so­


berania da sociedade, seu poder de exclusão seria discricionário, inde­
pendente de previsão legal ou contratual e sem estar sujeito ao controle
judicial310 • Mas mesmo alguns defensores da teoria entendem que a so­
ciedade só pode exercer o seu poder de supremacia nos casos previstos na
lei ou no contrato, deixando-nos a dúvida se há limitação do poder dis­
ciplinar (pois o poder de império pode ser regulamentado) ou sua pró­
pria inexistência, dada a observância da vontade do legislador e não da
sociedade no elenco das hipóteses de exclusão311 • O direito de exclusão
de sócio decorre da lei e não da soberania da sociedade312 • As delimita­
ções legal ou estatutária implicam o não reconhecimento da soberania
da sociedade, que tem mera faculdade de excluir ou não o sócio313 •
A outra base do poder disciplinar, a personalidadejurídica, também
apresenta problemas. Primeiro, saber se a personalidade jurídica existe
só para efeitos externos ou também para relações internas. Segundo, apurar
a sociedade, apenas por ser dotada de personalidade jurídica, pode ser
considerada ordenamento jurídico314 • Mesmo admitindo-se a plurali­
dade de ordenamentos jurídicos, fica difícil explicar a exclusão de sócio
nas sociedades sem personalidade jurídica315 . O fundamento do poder
disciplinar sofre duro golpe no Código Civil italiano de 1942, que não
atribui personalidade jurídica às sociedades de pessoas, embora perma­
neçam como sujeitos de direito e dotadas de autonomia patrimonial316 •

309 Cf. SANTI ROMANO, apud l N NOCENTI, L 'esclusione . .. , cit., p. 1 8 1 . Afi rmando a exis­
tência de poder d i sci p l i nar de di reito privado, L É GAL e B R ETH E D E LA G RESSAYE, Le
pouvoir disciplinaire . . , cit., p. 49 e ss ..
.

310 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione , cit., p . 62.


...

311 Cf. DALMARTELLO, L 'esc/usione... , cit., pp. 60-61 .


312 Cf. DALMARTELLO, I rapporti giuridici interni nelle società commerciale, Mi lano,
G i uffrê, 1 9 37, pp. 57-58, e L 'esc!usione . . . , cit., p. 65.
313 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione... , cit., p . 67.
314 Cf. DALMARTE L LO, L 'esclusione . . , cit., p. 62; I N NOCENTI, L 'esc/usione . , cit., p .
. . .

1 8 1 ; N U NES, O direito de exclusão. . . , cit., p . 29.


315 Cf. I N NOCENTI, L 'esc/usione. . . , cit., pp. 1 70-1 7 1 .
316 Vide a respeito, indicação bibliográfica e jurisprudencial mencionada por PERRINO,
Le tecniche... , cit., p. 82, nota n. 54.

1 38
RENATO VENTURA RIBEIRO

Eventual poder disciplinar discricionário e soberano deveria ser


ilimitado. Porém, há limites. A exclusão de sócio justifica-se somen­
te para proteção da empresa e não por outras razões317 • � utra restri­
ção é a garantia de acesso ao Judiciário, para apreciação dos motivos
e do mérito da exclusão, como aponta a jurisprudência majoritária318 ,
inclusive com a reforma de decisão da sociedade. Mesmo quando o
contrato contém cláusula conferindo poder de exclusão ad nutum, tal
regra pode ser questionada em juízo319 •
Ainda que se admita a existência de poder disciplinar, a exclu­
são de sócio teria o caráter de pena, que pressupõe culpa (em sentido
amplo) do sócio excluído.
O caráter penal da exclusão é bastante discutível320 . Se a exclu­
são é pena, sanção de culpa, a teoria não compreende os casos nos
quais não há culpa do sócio excluído, nem cabe falar em responsabi­
lidade objetiva321 •
Qyando há culpa, a sanção da exclusão, como pena, deveria ter
caráter obrigatório e não facultativo, ser dever e não faculdade ou

317 Cf. DALMARTELLO, I rapporti. . . , cit., p. 77.


318 Apenas algumas decisões afirmam a existência de poder disciplinar da sociedade. Na Itália,
julgado da Corte de Apelação de Genova, de 1 2. 1 . 1 9 1 4, in // Diritto Commerciale 1 9 1 4, pp.
5 1 -56, em especial à p. 54, com nota de RAMELLA em apoio, pp. 56-63, entendendo que a
deliberação de expulsão decorre da autonomia da sociedade, somente podendo ser discuti­
da em juízo a legalidade do procedimento e não seu mérito. Também a Corte de Milão, em
decisão de 1 6.5.1 933, FI 1 934, 1, e. 354, à e. 356. Outra decisão, afirma ser a exclusão sanção
disciplinar aplicável ao sócio considerado culpável de atos de indisciplina, mediante prévio
procedimento disciplinar com contraditório (Dir. fal/. 1 954, li, p. 565, apoiado por INNOCENTI,
cit., p. 65, nota n. 4). Não tão explícitas, mas parecendo entender pela existência de poder
disciplinar da sociedade, decisão da Corte de Cassação em 1 7. 3 . 1 955, F/ 1 956, 1, 78 e da
Corte de Apelação de Milão, 1 .9.1 962, RDComm., 1 963, li, p. 77.
319 Cf. Capítulo IV, 2.7, abaixo.
320 N a jurisprudência, a Corte d e Cassação ita liana já proferiu decisões d i vergentes. E m
1 .950 considerou a exclusão uma verdadeira pena, n ã o podendo s e r executada quan­
do não prevista em lei ou no pacto social (FI 74 ( 1 9 5 1 ), 1, c. 8 9 1 -902, à c. 896), mas
c inco anos depois entendeu que a exclusão não tem o caráter nem de procedimento
d isciplinar nem de sanção por ato i l ícito (RDComm. 53 ( 1 955), l i , pp. 349-3 5 8, às pp.
3 5 6-357). Sobre a discussão do problema, a resenha de N U N ES, O direito de exclu­
são . . . , cit., p. 3 6, nota n. 2 2 .
321 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . ., cit., p. 3 2 .
.

1 39
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

poder322 • E nem todos os casos de sanção por descumprimento de obri­


gações são apenados, como, por exemplo, a resolução do contrato323 •
Por outro lado, se a sociedade realmente tivesse poder discipli­
nar de aplicar pena ao sócio prejudicial à sociedade, tal poder deveria
compreender não só a possibilidade de exclusão como a de impor o
reembolso dos prejuízos causados pelo sócio excluído324 e não seria
alvo de controle judicial, quanto aos procedimentos e ao mérito325 •
Outra dificuldade é o estabelecimento da vontade social. Se de­
terminada pela maioria do capital social, não se poderá excluir o só­
cio majoritário, indicando a não sujeição de todos os membros à
soberania, o que implica sua própria inexistência. Uma relação de
subordinação dos sócios às deliberações da sociedade não fere a igual­
dade entre eles, pois a sociedade é a titular de direitos326 , desde que a
vontade da sociedade não se confunda com a do grupo majoritário.
Há contradição entre o alegado fundamento da soberania - proteção
ao interesse público através da preservação da sociedade - e sua for­
ma de exercício, como poder subjetivo e discricionário decorrente de
autonomia privada decidindo sobre o interesse público. E as obriga­
ções dos sócios, cujo inadimplemento pode ensejar sua exclusão, não
derivam da soberania da sociedade327 •
Nos casos de exclusão com base em texto legal, não se tem a
vontade da sociedade e sim a do legislador. Qyando a previsão é con-

3 22 Como expressa a própria lei, ao usar o termo "puà" (Codice Civile, art. 2 . 287). Cf.
INNOCENTI, L 'esclusione , cit., pp. 1 75-1 76; PERRI NO, Le tecniche . . . , cit., pp. 92-93.
...

323 Cf. DALMARTELLO, L 'esc/usione . . . , cit., p . 45.


324 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . , cit., p . 29.
..

325 Bastante ilustrativo acórdão publicado em RJT}ESP 5/28, admitindo poder d iscipl i nar das
associações privadas (no caso concreto, um clube), mas reconhecendo a possibil idade
do Judiciário de aferi r a legal idade da sanção tipifica em norma estatutária. Ressalta tam­
bém que os estatutos devem respeitar os princípios básicos do direito comum e da ordem
pública e, na falta de normas em tais condições, caberá ao juiz a integral verificação da
legalidade, oportunidade, justiça e graduação da pena imposta aos associados.
326 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . , cit., p. 32.
. .

327 Cf. I N NOCENTI, L 'esclusione . . , cit., p. 1 8 1 .


.

1 40
R ENATO VENTURA RIBEIRO

tratual ou estatutária, a exclusão não decorre da vontade do ente so­


ciedade, mas da vontade dos contratantes, originalmente estabeleci­
da ou modificada328 •

Por fim, do ponto de vista da origem e evolução histórica do ins­


tituto, os fundamentos da teoria também são insuficientes. A exclusão
de sócio tem por antecedente a dissolução total da sociedade, que po­
dia ser requerida por sócio, no exercício de seu direito potestativo. O
sócio podia requerer a dissolução da sociedade, mas não o oposto. Logo,
não há soberania da sociedade em relação aos sócios, mas poder do
sócio sobre a sociedade, decorrente de tal direito potestativo329 •

1 .2 . TEORIA DA DISCIPLINA TAXATIVA LEGAL

Para os partidários330 da teoria, o fundamento jurídico da exclu­


são é a vontade do legislador, inspirado na finalidade publicística de
preservação da empresa social331 •

Alguns autores também justificam a disciplina taxativa legal em


razão do caráter penal, restritivo e excepcional do instituto, pois a
aplicação de remédio de tão graves conseqüências deve ocorrer so­
mente diante de expressa previsão legal332 •
A denominação atribuída à teoria, fundamento com base na lei
e no interesse público de preservação da empresa induz ao entendi­
mento no sentido de adoção da exclusão apenas em situações legal­
mente previstas. Mas seus defensores admitem a estipulação de novas

328 Com maiores detalhes, a crítica de DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p p . 6 1 -62.


.

329 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione... , cit., pp. 67-68.


330 Entre outros, cf. CALAMANDREI, Dei/e società ... , cit., p. 2 1 7; V I DARI, Le società e /e
associazioni commerciali: trattazione sistematica secando il nuovo codice di commercio
italiano, M i l ano, Hoelpi, 1 889, p. 685; MOSSA, "L'escl usione dei sacio nel l a società di
due soei", i n RDComm., 1 9 1 5, li, pp. 637-644, e Trattato... , cit., pp. 324 e 648; VIVANTE,
Tratatto . . . , cit., p. 3 97; SOPRANO, Trattato teorico-pratico dei/e società commerciali l i ,
Torino, UTET, 1 934, p. 880 e 884.
331 Com anál ise crítica da teoria, cf. DALMARTELLO, L 'esclusione.. , cit., pp. 39-59; N U N ES,
.

O direito de exclusão . , cit., p. 25 e pp. 3 3-38, e PERRINO, Le tecniche. . . , cit., pp. 88-93.
..

332 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . . , cit., p. 3 9 .

141
ExcLUsÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANôNIMAS

hipóteses em cláusulas estatutárias ou a adoção da exclusão com base


em regras implícitas do contrato, para alcance do propósito de pre­
servação da empresa333 •
A tese representa um avanço no sentido de enxergar finalidade
publicística na exclusão do sócio. Porém, a intervenção do legislador
não implica, necessariamente, proteção de interesse público334 , um
dos motivos, mas não a razão fundamental da disciplina normativa
da exclusão335 . O principal interesse a ser protegido pode ser o inte­
resse privado e patrimonial dos sócios336 na conservação da empresa,
coincidente, inclusive, com o interesse público em muitos casos.
Se a exclusão tivesse por base principal o interesse público, seria
dever e não poder ou faculdade da sociedade337 • A possibilidade dos
sócios optarem ou não pela exclusão indica a predominância do inte­
resse privado. Os casos de exclusão de direito ou automática de sócio,

333 MOSSA, "L'escl usione . . . ", cit., p. 640, admite a exclusão de sócio mesmo no silêncio
contrato. Pel a val idade da exclusão, havendo pacto expresso, SOPRANO, Trattato . . . ,
cit., p. 884; VIDARI, Le società . . . , cit., p. 685; VIVANTE, Trattato . . . , cit., p. 397;
ASCARELLI, Appunti. . . , cit., p. 205; F ERRARA, "Le deliberazioni d i esc lusione dei soei
ed il si ndacato giudiziario", RDComm. 29 ( 1 93 1 ), 11, pp. 2 3 7-245, à p. 245.
334 Cf. DALMARTEL LO, L 'esc/usione ... , cit., p. 4 2 .
335 Cf. DALMART E LLO, L 'esc/usione. . . , cit., p. 4 2 : " L ' i nnegabi l e uti l ità pubbl i cistica
dell'esclusione puó esser stata perció semplice motivo, non causa, dell'intervento dei
legislatore. A tutelare le decisive finalità privatistiche, cui l'esclusione tende i n via diretta ed
immediata, i l legislatore puó essere stato spinto dai la considerazione dei riflesso favorevole
che l'esclusione há sulla pubblica economia, conservando ai Paese le imprese sociali
minacciate dalle vincende o dalle colpe di un singolo socio: ma non bisogna scambiare
l'occasione con la ragione fondamentale dell'instituto". Adiante, com apoio em VIVANTE:
" U na concreta visione delle cose deve, quindi, portare a questa conclusione: se ê vera che
l'esclusione ê un rimedio benefico dai punto di vista dei la util ità generale, in quanto assicura
la massima stabilità delle imprese sociali, fonti di produzione e di lavoro, ê anche vera che
tale sua funzione ê meramente secondaria ed accessoria, e che la sua finalità primaria ed
essenziale e quella di venire incontro agli i nteressi particolari e patrimoniali dei soei, onde
allontanare dai capo di tutti il danno imputabile a taluno di essi".
336 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione . ., cit., pp. 4 1 -42; I N NOCENTI, L 'esclusione . . , cit.,
. .

pp. 1 70 e 1 75 ; P E R R I NO, Le tecniche .. ., cit., p. 93.


337 Poder que pode até ser d i scric ionário dema i s e levar à d issolução da sociedade, como
alerta PERRI NO, Le tecniche. . . , cit., p. 93: "la fi nal ità pubblicistica di conservazione,
che si ritiene perseguita dai legislatore, non puó conc i l iarsi com l'ampia d iscrez ional ità
concessa ai soei, che quel l a final ità possono anche disattendere e rendere vana, dando
luogo a l l o sciog l i mento dei la società".

1 42
RENATO VENTURA RIBEIRO

nos quais a exclusão independe da vontade dos demais, não indicam


a presença majoritária do interesse público, ao menos em tais hipóte­
ses. Se assim fosse, implicaria reconhecer o interesse privado nas de­
mais hipóteses, por depender a exclusão da vontade dos sócios.
O argumento de que a fi nalidade publicística da exclusão de­
corre de ela ser alternativa preferível à dissolução vem enraizado na
concepção romanística e contratual de sociedade338 . A conservação
da empresa não se contrapõe necessariamente à dissolução da socie­
dade. Mesmo com a sociedade dissolvida, a empresa pode continuar
sendo exercida por outra sociedade ou até individualmente339 E, em •

alguns casos, a exclusão de sócio, ao invés de conservar, pode condu­


zir à dissolução da sociedade.
Ademais, se o interesse pela continuidade da empresa realmen­
te fosse público e prevalecesse sobre o dos membros, a sociedade não
pode ser dissolvida por eles, cessando a atividade empresarial, pois
dano ao interesse público gerado pelos sócios que deliberam a disso­
lução da sociedade (ainda que no exercício de seu direito de proprie­
dade) pode ser até maior do que o do sócio relapso.
A taxatividade legal apresenta contradição em relação à vontade
dos sócios. Se o poder de deliberar sobre a exclusão do sócio no caso

3 38 Com base na evolução do instituto, DALMARTEL LO, L 'esclusione. . . , cit., pp. 43-44,
entende não se j ustificar o fundamento do i nteresse público, pois no d i reito romano,
quando ocorri a algum problema relacionado à pessoa do sócio, a sol ução é a d issolu­
ção da sociedade. Como o autor entende que a exclusão tem os mesmos fu ndamentos
e é derivada da d issolução e a última não levava em consideração o i n teresse públ ico,
pela regra da di ssolução da sociedade e não de sua conservação. Discordamos de tal
posição. No d i reito romano, não existe a idéia de empresa, tal como na moderna dou­
trina comercialista. A noção de empresa traz um novo posicionamento, com a idéia de
d issol u ção parcial. Para o autor, o princípio da conservação da empresa justifica a
conve rsão de um remédio maior (dissol ução) em outro (exclusão), mas não explica a
razão da medida reso lutiva em si, pelo que entende serem comuns.
339 Cf. AUL ETTA, "Riso luzione d e i rapporto sociale per i nadempi mento", RTDPC9 (1 955),
pp. 5 2 2 -5 3 1 , à p. 530, n. 26: "non sempre a l lo scioglimento dei la società consegue lo
scomparire di un organismo produttivo, perché, se l'azienda sociale viene acquistata
da altri che i ntenda gesti rla, al l'impresa sociale si sostituisce, nel la economi a nazionale,
un'altra i mpresa", apoiado por PER RI NO, Le tecniche . . , cit., p. 9 2 .
.

1 43
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SooEDADES ANÔNIMAS

concreto é exercido pela vontade privada dos sócios, também deveria


ser permitido o estabelecimento de hipóteses de exclusão no contrato
ou no estatuto social. É louvável a preocupação em evitar o abuso de
alguns sócios em prejuízo de outros. Mas isto não se resolve com a
estipulação de hipóteses de exclusão taxativas na lei. Há outros remé­
dios, como o recurso ao Judiciário e a repressão ao abuso da maioria.
A noção de taxatividade das hipóteses legais ou contratuais jus­
tifica o que se pretende como pena, mas por outro lado pode afastar
o instituto da exclusão do mencionado escopo de preservação da
empresa. A limitação do remédio da exclusão apenas às hipóteses
legais pode impedir a expulsão de sócio que prejudique a sociedade
por motivo não expressamente previsto em lei340 , ocasionando, para­
doxalmente, até a necessidade de dissolução da sociedade. A restri­
ção dos casos de exclusão às hipóteses legais pode impedir a própria
finalidade do instituto, a conservação da empresa.
O caráter penal, restrito e excepcional do instituto é questiona­
do até por defensores da tese341 • A idéia da exclusão como pena, des­
cabida pelo já exposto na análise da teoria anterior, também não se
coaduna com a possibilidade de sua aplicação facultativa pela socie­
dade e, inclusive, na ausência de culpa do sócio excluído. Se fosse
pena, a aplicação seria obrigatória e não facultativa342 • E não poderia
ser adotada sem culpa do sócio.
A exclusão também não pode ser vista como instituto de caráter
restritivo do livre exercício de direito. Restringir um direito é privar
o seu titular de usufruí-lo. No caso da exclusão, não há restrição, mas
a extinção do direito de permanecer como sócio. A exclusão não é
produto, mas conseqüência.

340 Cf. L UCENA, Das sociedades por quotas .. ., cit., p. 596.


341 MOSSA, Diritto Commerciale 1, Mi lano, Editrice, 1 93 7, p . 1 4 1 , aponta como funda­
mento mais a conservação da empresa do que a violação das relações soci ais.
342 Cf. N U N ES, O direito de exclusão .. . , cit., p. 36.

1 44
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Não procede o atribuído caráter excepcional da exclusão de só­


cio. No direito comercial, a regra geral é a preservação da empresa. E
a exclusão de sócio, um dos modos para alcançar tal objetivo, conci­
liando duas regras gerais sobre a empresa: a necessidade de sua pre­
servação e o fim personalístico343 .

1 . 3 . TEORIA CONTRATUALISTA

Formada pela mais ampla e numérica corrente de autores344 , con­


grega aqueles que concebem a sociedade como contrato e vêem na ex­
clusão de sócio forma particular de resolução por inadimplemento345.
Combina-se a condição resolutiva com o princípio da preservação da
sociedade, para que haja apenas a resolução do vínculo social do inadim­
plente346 . Representa meio-termo entre a rigidez da teoria da disciplina
taxativa legal e a elasticidade da tese do poder corporativo disciplinar347 •

As hipóteses legais e convencionais de exclusão constituem con­


dições resolutivas ou pactos comissórios expressos. Além destas, todo
contrato de sociedade traz implícito um pacto comissório tácito 348 .

343 Cf. DALMARTELLO, L 'esc/usione . , cit., pp. 5 1 -59, em especial p. 51 e 59; IN NOCENTI,
..

L 'esc/usione ... , cit., pp. 1 76-7; N U N ES, O direito de exclusão . . , cit., p. 36.
.

344 Os principais fundamentos são encontrados em FERRARA, "Le deliberazioni ... ", cit.,
pp. 2 3 7-245; DALMARTELLO, L 'esclusione .. , cit., pp. 69-1 28, / contratti dei/e imprese
.

commerciali, 3ª ed., Padova, CEDAM, 1 958, p. 2 1 6; A U LETTA, // contratto di società


commerciale, Mi lano, Giuffré, 1 936, p. 56 e ss . . Na doutri na italiana posterior ao Códi­
go Civil de 1 .942, ROCCHI, "ln tema di esclusione dei sacio di società di persone", FI
75 (1 952), cais. 1 .246-1 .25 1 , à c. 1 .250; M ICCIO, "1 rapporti giuridici i nterni nelle
società commerc i a l i ", RTOPC 8 ( 1 954), pp. 660-688; A U LETTA, "Risoluzione . . . ", cit.,
pp. 5 24-5 2 7 . Para visão crítica, N U NES, O direito de exclusão . . . , cit., pp. 26-28 e 38-
47, e P E RR I NO, Le tecniche ... , cit., pp. 94-1 07.
345 Cf. PERRJNO, Le tecniche... , cit., pp. 93 e 11 O e ss. A autora, no entanto, adverte que a
aproximação ao instituto da resolução por inadimplemento é, em geral, mais uma atitude
metodológica do que o reconhecimento da contratualidade da sociedade (idem, p. 1 09).
346 Cf. DALMARTELLO, L 'esc/usione.. , cit., p. 1 05 : "l'istituto della risoluzione dei contratto
.

per i nadempimento, adattato ai contralto pluri laterale di società commerciale, cioé


contemperato com i l principio conservativo del l a impresa".
347 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione .. , cit., p. 69; N U NES, O direito de exclusão. , cit., p. 26.
. ..

348 Cf. F E R RARA, "Le deliberazioni . . . ", cit., p. 240; DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit.,
em especi a l pp. 1 22-3 e pp. 2 5 1 -3, e autores por e l e citados à p. 1 23, nota n . 1 74. Na
F rança, cf. Capítu lo l i , 4.4 acima. No d i reito ita l iano, a idéia do pacto comissário tácito
era defend ida com base no art. 1 . 1 65 do Código Civ i l de 1 .865, que presum i a nos

1 45
EXCLUSÃO DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÔNIMAS

Seu desenvolvimento - em grande parte, pela doutrina italiana -


é marcado por duas fases bem distintas, relacionada à legislação da­
quele país: na vigência do Código Comercial de 1882 e após a edição
do Código Civil de 1942 .
No direito anterior, um dos desafios dos juristas foi a tentativa
de fixar todas as hipóteses legais do Código Comercial de 1.882,
como condições resolutivas expressas, por ser difícil falar em inadim­
plemento motivador da resolução nos casos de falência, interdição e
inabilitação do sócio ilimitadamente responsável previstos naquele
Código (arts. 186, 3 e 191) , sendo formuladas diversas explicações349 •
Prevaleceu a idéia da existência de um dever de colaboração350
dos sócios como obrigação contratual, pelo que todas as hipóteses de

contratos bilaterais uma condição resolutiva tácita, que, na hipótese de i nadimplemento


de uma parte, legitimava a outra a pedi r judicia lmente o adimplemento ou a resolução
do contrato. No Brasil, mu itos autores manifestam apoio à idéia da reso l ução por
i nadi mplemento, aceitando a idéia de cláusula resolutiva tácita, como os menciona­
dos no Capítu lo li, 4.6 aci ma.
349 FE RRARA, " Le del iberazioni. . . ", cit., p. 240, disti ngue as condições resolutivas em re­
solução por i nadimplemento (pacto comissário expresso) e por fatos de outra natureza
ou heterogêneos (identificados como condição resolutiva "vera e propria"), os ú ltimos
justificando as h ipóteses legais não redutíveis aos casos de i nadimplemento das obriga­
ções sociais. Porém, algu ns casos elencados como condições verdadei ras e próprias
podem ser incluídas nos contratos e, porta nto, como voluntárias (condicio fact/), não
são condi ções de d i reito (condicio iuris), não se podendo falar também que a lei i nte­
gra a vontade das partes supletivamente. DALMARTELLO, L 'esclusione. . . , cit., pp. 7 1 -
74 que, à p. 7 1 , nota n . 58, argumenta que ta l problema sequer é corrigido com a
q u a l i ficação das hipóteses legai s como condicio iuris.
Uma anál ise de diversas outras teses é fe ita por DALMART E L LO, idem, pp. 75-9 1 .
Também não se pode alegar falta de causa (pela quebra do intuitus personae) ou falta
de consenso, porque estes i mpl icam na n u lidade do contrato e não na exclusão, como
apontam DALMARTELLO, idem, pp. 78-82 , e N U N ES, O direito de exclusão .. , cit., p.
.

2 7, nota 9. Nem as teorias da pressuposição e superveniência contratual ou apl icação


da tácita clausula rebus sic stantibus, com a revogação do consenso original, que justi­
ficam apenas o d i reito de recesso, mas não a exclusão, cf. DALMARTELLO, idem, pp.
8 2 -88, em especi a l à p. 88. O mesmo ocorre na fundamentação baseada no consenso
continuativo ou affectio societatis, com o problema adicional dos contratos com vonta­
de conti nuativa, como mandato, permitirem, salvo raras exceções, revogação ou a
renúncia ad nutum, o que não acontece com a sociedade (idem, pp. 88-90).
350 Sobre o conceito de dever de colaboração, ver ainda DALMART E L LO, idem, p. 1 5 7.
Em relação à existência de dever de colaboração nas sociedades, cf. autores e julgados
mencionados por N U N ES, O direito de exclusão ... , cit., p. 82, nota 97. Em sentido
contrário, I N NOCENTI, L 'esclusione ... , cit., pp. 89-1 03 .

1 46
R ENATO VENTURA RIBEIRO

exclusão são conseqüências do inadimplemento dos deveres soci­


ais351 . Ao menos nas sociedades com caráter intuitus personae o de­
ver de sócio não se esgota na integralização do capital social,
importando também em sua contribuição pessoal ao desenvolvi­
mento da atividade352 , sendo elemento que diferencia a sociedade
de outros contratos de união353 . Caso o sócio não pos.sa arcar com
sua obrigação de colaborar com a sociedade, caracteriza-se o inadim­
plemento das obrigações sociais, ainda que sem culpa354 . Assim, a
alteração na condição pessoal do sócio, no caso de falência, interdi­
ção ou inabilitação, atinge a possibilidade de cumprimento do de­
ver de colaboração, uma de suas obrigações sociais . No entanto, a
teoria perdia força na medida em que a sociedade pode continuar
com o falido, interdito e inabilitado355 .
Uma forte objeção à tese de resolução por inadimplemento do
dever de colaboração parte daqueles, inclusive contratualistas, que
concluem pela resolução total do contrato, em caso de inadimple­
mento, e não pela resolução parcial via exclusão. Rebatendo as críti-

351 R e d u z i ndo os casos de e x c l u sã o d e sóc i o à falta de dever d e c o l abo ração,


DALMARTELLO, L 'esclusione .. . , cit., pp. 9 1 -94, I contratti dei/e imprese commercia/i,
3ª ed., Padova, CEDAM, 1 958, p. 2 1 6; FERRARA JR., G/i imprenditori e /e società, 3ª
ed, Mi lano, Giuffrê, 1 95 2 , p. 1 9 7; JANN UZZI, "Questioni in tema di controversie d i
esclusione d i sacio d i società personali diferite a d arbitro", G / 1 02 (1 950), parte 1, seção
2, cais. 1 1 3- 1 1 8; A U LETTA, "li di ritto assoluto d'esclusione nel l e società di persone", i n
Scritti giuridici i n onore di Francesco Carnelutti I l i , 1 95 0, p p . 669-683, à p. 670, e
"Risoluzione ... ", cit., pp. 5 2 2-53 1 ; G IORDANO, "Concorso fra una causa di esclusione
ed una causa d i recesso da una società persona le", ROComm. 5 3 (1 955), li, pp. 349-
358, à pp. 3 5 7-358. Na F rança, DUQUESNOY, La dissolution ... , cit., p. 55 e segui ntes.
Parece haver contradição na obra de DALMARTELLO, L 'esclusione . , cit.. O autor ..

reduz todos os casos de excl usão à falta de dever de colaboração (p. 93) e admite o
dever de colaboração nas sociedades anônimas (p. 1 99). No entanto, parece não acei­
tar a exclusão nas companhias por falta de dever de colaboração, ao afi rmar que a
viol ação do dever de colaboração nas sociedades anôni mas traz como conseqüências
apenas a d i ssolução da sociedade e o recesso dos acionistas lesados e não a excl usão
do sócio (pp. 200-201 ).
352 Cf. DALMARTEL LO, L 'esclusione .. , cit., pp. 9 1 -94, em especial à p. 9 1 .
.

353 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p. 9 3 .


.

354 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione , cit., pp. 9 2 e 94-95 .


...

355 Cf. BRACCO, "Recensioni", ROComm. 37 (1 93 9), 1, pp. 520-503, à p. 503.

147
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADES ANÔN IMAS

cas, invoca-se a idéia da sociedade como contrato plurilateral, conju­


gado com o princípio de preservação da empresa356 •
,Numa segunda fase, tem-se a consagração legislativa da idéia
germânica do contrato plurilateral nos artigos 1 . 420, 1 . 446, 1 . 459,
1 . 460, 1 .466 do Código Civil italiano de 1942, segundo as quais o
inadimplemento ou a impossibilidade superveniente da prestação de
uma parte nos contratos com mais de duas partes objetivando escopo
comum não implica resolução total, reforçando a argumentação dos
partidários da corrente contratualista. Ao contrário do anterior, que
falava somente em resolução por inadimplemento, o Código de 1 . 942
diferencia a resolução por inadimplemento (arts. 1453-1 .462) e por
impossibilidade superveniente (arts. 1 .463 - 1 .466), a última nos ca­
sos de causas alheias à vontade do devedor. Por isto, a doutrina majo­
ritária acolheu a idéia da exclusão como forma de resolução do
contrato de sociedade por inadimplemento357 • A tese, contudo, tem
sido repelida pela própria jurisprudência italiana358 , por entender não
ser a sociedade contrato de prestações correspectivas359 .
Os artigos 1 . 030 e 1 .085 do novo Código Civil brasileiro têm
nítida influência da legislação italiana, ao prever a exclusão de sócio

356 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . . , cit., pp. 1 05-1 06. A necessidade de conservação
da empresa j ustificaria a não aplicação da exclusão, em lugar do recesso do sócio
adimplente e da dissolução da sociedade (idem, pp. 1 2 6-1 28).
357 Cf. bibliografia mencionada por N U N ES, O direito de exclusão . . . , cit., p. 2 8 , nota n . 1 O .
358 Cf, p o r e x . , a s decisões da Cassazione de 1 7. 3 . 5 3 , F I 1 95 3 , 1 , e . 830; 2 0 . 2 .54, FI
1 95 5 , 1, e . 7 1 O; 1 5 .6.55, Massim. Foro it. 1 95 5 , e. 677; 1 6.7.58, Dir. fa!lim. 1 958, 1 1 ,
p. 632; 2 1 . 1 1 .59, Ciust. Civ., 1 960, 1, p . 263; 8 . 3 .6 1 , Ciur. lt., 1 96 1 , 1 , 1 , p . 696;
1 2 .6.73, Ciust. Civ., 1 97 3 , 1 , p. 1 .476, ROCiv., 1 974, l i , p. 1 5 e Oir. fall., 1 9 74, 1 1 , p.
94, e decisões de outros tribunais c i tadas por PERRINO, "Su l l ' i nammissib i l ità dei la
risoluzione dei contralto d i società", Ciur. Comm. 1 7 ( 1 990), li, pp. 699-72 1 , à p.
700, nota 2. A d isti nção entre a resolução por inadimplemento do contrato e exclu­
são de sócio é exp l íc ita na decisão de 1 2 .6.73, acima c itada, n a qual foi negada a
resol ução requerida com base no art. 1 .453 do Codice Civile, e determi nada a excl u ­
s ã o de sócio c o m base no art. 2 . 286 do mesmo Código.
359 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . . . , cit., p. 38, nota 24. Sobre a d isti nção entre
exclusão de sócio e reso lução do contrato de sociedade, cf. PER R I NO, L e tecniche. . . ,
cit., pp. 1 42 - 1 5 7.

1 48
R ENATO VENTURA RI BEIRO

p or falta grave no cumprimento das obrigações ou por incapacidade


superveniente.
Em razão da importância da presença do sócio, o direito de re­
solução do contrato em relação ao inadimplente tem caráter potesta­
tivo360 , cabendo aos demais sócios avaliar a conveniência ou não da
exclusão do inadimplente.
Outro obstáculo à tese é o fato da importância da empresa ex­
trapolar o interesse dos sócios361 , justific ando as hipóteses legais de
exclusão. Embora possa se falar que a lei presume falta do dever de
colaboração nos casos de exclusão automática, a realidade pode ser
diversa. Em alguns casos, o trabalho do sócio pode ser essencial para
a sociedade e, mesmo falido (em decorrência de outros negócios)
tem condições de colaborar como antes, mas, por força de lei, deve
ser excluído. Com isto, demonstra-se que nem sempre a exclusão
decorre do inadimplemento do dever de colaboração362 . Nem se tra­
ta de impossibilidade superveniente, em razão de não ter havido al­
teração da contribuição do sócio.
Do ponto de vista teórico, a equiparação da exclusão à resolução
por inadimplemento não é exata363 . Como ponto em comum, há o
efeito da dissolução parcial. Porém, conceitualmente, a resolução é
técnica de demissão, exoneração ou remoção de contrato e não de
sua conservação364 , podendo implicar dissolução da sociedade em
caso de inadimplemento de sócio. Nos contratos com duas partes, o
inadimplemento de uma extingue o contrato, mas na sociedade com ,
dois sócios a saída de um deles não impede a continuidade do ente

360 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . . , cit., pp. 97- 1 0 1 ; PERRI NO, Le tecniche. . , cit., p.
.

86, nota 63.


361 Cf. N U N ES, O direito de exclusão. . . , cit., pp. 48-49.
362 Embora alguns autores entendam que alteração no estado pessoal do sócio, e m qual­
quer si tuação, impl ica i mpossibi l i dade do dever de col aboração. Cf., por todos,
DALMARTELLO, L 'esclusione. . . , cit., pp. 94-9 7.
363 Sobre a diferença, cf. PERRI NO, "Su ll'i nammissibil ità . . . " , c i t . , p p . 7 1 9-72 1 .
364 Cf. P E R R I NO, Le tecniche... , cit., pp. 1 1 9 e ss., em especial à p. 1 2 2 .

1 49
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÓNIMAS

social, justificando-se a dissolução parcial em função da atividade co­


mum365 . As causas de resolução por inadimplemento e de exclusão de
sócio são distintas366 , havendo hipóteses de exclusão não causadas por
falta de cumprimento das obrigações sociais. Nos casos de exclusão de
direito, não prevalece a vontade dos sócios, não se podendo, portanto,
falar em resolução, pois esta depende da vontade da parte prejudicada.
Além disto, a exclusão de sócio é executada em nome da sociedade e
não dos sócios, não se podendo falar em direito dos sócios à resolução
por inadimplemento. Tome-se à caso de um sócio pretender a exclu­
são do outro, por descumprimento de suas obrigações. Os demais só­
cios podem até reconhecer o inadimplemento, mas descartar a exclusão
do sócio, por ser mais conveniente mantê-lo na sociedade.
Afalta de efeito retroativo da exclusão, como na resolução por
inadimplemento, justifica-se por ser a sociedade contrato de execução
contínua367 e por sua atividade comum368 , produzindo resultados até a
deliberação da expulsão, momento até o qual o excluído faz jus a parte
dos resultados sociais. Em razão da atividade social, a liquidação da par­
ticipação do sócio faz-se mediante soma em dinheiro e não na devolu­
ção dos bens utilizados para integralização da sua parte no capital369 .
Problema não solucionado é a existência do sinalágma nos con­
tratos de sociedade370 . Uns não vislumbram sinalágma no contrato

365 Cf. PERRI NO, Le tecniche . ., cit., p. 1 30.


.

366 Cf. PERRI NO, Le tecniche . . ., cit., p. 1 84. A título exempl icativo, tome-se a legislação
da Itália, país no qual a teoria contratualista é aceita pela doutrina majoritária. Os
motivos de reso lução por i nadimplemento, previstos no art. 1 .453 e seguintes do Cód i ­
g o Civil, n ã o coincidem c o m a s causas de exclusão previstas n o s artigos 2 . 286 e 2.288.
367 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione . , cit., p . 1 1 3-1 1 4; SIMONETIO, "ln tema di esclusione dei
..

sacio", RDCiv. 6 (1 960), li, pp. 49-64, à p. 57; NUNES, O direito de exclusão , cit., pp. 45-46.
...

368 Para uma análise mais aprofundada, cf. PERRI NO, Le tecniche... , cit., p. 1 26 e segu intes.
3 69 Ta l questão é analisada na Parte I l i , Cap. I l i , infra.
3 70 Na defesa da idéia de s i n a lágma nos contratos de sociedade, DALMART E L LO,
L 'esclusione , cit., pp. 1 1 0-1 1 3 . BOLAFF I , La società semplice ... , cit., p. 92, vislumb ra
...

s i n a l agma direto nos contratos pluri l aterais, com a ressalva de que nem todas as pres­
tações são essenci ais. Contra, FERRO-LUZZI, I contratti associativi, cit., p. 2 1 7 e ss.,
por ser a sociedade não um contrato de prestações, mas de organ ização.

1 50
R ENATO VENTURA RIBEIRO

de sociedade, nem genético nem funcional371 , pois se fosse derivado da


prestação do sócio, o não adimplemento de um contratante justificaria
a exoneração das obrigações do outro372 . Mas os defensores da socie­
dade como contrato de prestações correspectivas explicam a particula­
ridade do sinalágma nos contratos de sociedade, quer pela pluralidade
de partes, quer pela obrigação de fim comum, pois vêem o contrato de
sociedade como sinalagmático plurilateral e não bilateral373 . Cada só­
cio tem interesse e direito de exigir o cumprimento da prestação do
outro não em razão de sua prestação, mas em função do escopo co­
mum da sociedade, em razão do qual terá uma vantagem, pois o não
cumprimento das obrigações de uma parte afeta o lucro das demais.
Com isto, o inadimplemento de um sócio, apesar de representar a falta
de sinalágma, não provoca a dissolução do contrato, mas tão somente
se desfaz o vínculo em relação ao sócio não cumpridor de seus deve­
res374 , desde que a prestação não cumprida não seja essencial para rea­
lização do fim comum375 . Nos contratos normais, a não execução gera
a resolução por inadimplência ou impossibilidade superveniente. Nos
plurilaterais, a resolução somente em relação à adesão da parte. A teo­
ria tem valia ao distinguir os vícios do contrato daqueles das adesões
individuais, permitindo a resolução parcial376 .
No entanto, mesmo para alguns autores que identificam sina­
lágma nos contratos de sociedade, a exclusão não é solução pacífica,
pois a falta de cumprimento deve gerar a resolução total do contrato.
Mas a exclusão de sócio é alternativa à dissolução da sociedade, com

371 São d isti ntos o sinalagma genético, resultante da constituição da sociedade e assunção
das obrigações pelos sócios, e o sinalágma funcional, produto da execução da ativida­
de soc i a l . A propósito, cf. autores citados por DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., p.
1 1 0, nota n. 1 4 1 .
372 Cf. A U LETTA, // contratto . , pp. 46-53, e " Riso l uzione ... ", cit., pp. 5 2 3-524.
..

373 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., pp. 98-99.


3 74 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione .. ., cit., pp. 98-99.
375 Cf. N U N ES, O direito de exclusão.. , cit., p. 4 3 .
.

3 76 Cf. ASCARELLI, Problemas .. ., cit., p. 287.

151
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADEs ANôNIMAS

o propósito de conservação da empresa, inclusive na sociedade com


dois sócios, com a continuidade da sociedade com um só sócio377 .
No caso das sociedades anônimas, tirante os problemas de sua
natureza contratual ou não e da existência ou não do dever de cola­
boração dos acionistas e seus limites, mesmo defensores da idéia de
exclusão como decorrência da falta do dever de colaboração enten­
dem que a violação de tal dever não acarreta necessariamente a ex­
clusão do acionista, em razão da existência de outros remédios, como
a dissolução e o recesso de acionistas lesados378 .

1 .4 . A TESE DA VONTADE SOCIAL

Derivada da teoria do poder corporativo disciplinar, afirma que


a exclusão decorre da vontade social379 . Como a exclusão é relação
entre sociedade e sócios (e não apenas entre sócios), dependendo da
vontade coletiva - que apreciará a oportunidade, conveniência e mo­
mento da medida, seus defensores afirmam cuidar-se de ato de von­
tade social no qual se manifesta o poder corporativo.
Seu fundamento está na lei (Godice Civile, art. 2.287, § 1 º ) que,
ao exigir a deliberação da maioria, indica a necessidade da presença
da vontade do organismo social, diferentemente da resolução por
inadimplemento, na qual a vontade de um só membro pode levar à
dissolução380 •

377 Muito antes do reconhecimento da sociedade u n i pessoal temporária, a doutrina j á


defendia t a l posição. Cf. A U LETTA, "La risoluzione . . . ", cit., p. 5 2 5 .
378 ..
Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione . , cit., pp. 200-2 0 1 .
379 A tese foi formu lada por VENDITI, Collegialità e maggioranza nelle società di persone,
Napoli, Jovene, 1 95 5 , pp. 1 07 e 1 1 1 - 1 1 2, e "Nuove riflessioni sull'organ izzazione
collegiale delle società di persone", i n Diritto e Ciurisprudenza, 1 962, p. 397, e BOLAFFI,
La società semp/ice: contributo afia teoria dei/e società di persone, Mi lano, Gi uffre,
1 975, pp. 628-630.
3 80 .
A propósito, BOLAFFI, La società semplice . . , cit., pp. 629-630: "l'esclusione avviene
non in vi rtu di u n'azione spettante individualmente a ciascu n socio, ma i n v i rtu di una
delibera di maggioranza: esso e quindi u n atto dei l a società, intesa come ente col lettivo".
..
Cf. também P E RR I NO, Le tecniche . , cit., pp. 83-84.

1 52
RENATO VENTURA RIBEIRO

Ao contrário da doutrina anterior, não se funda na personalida­


de jurídica, pois as sociedades podem não ser personificadas, mas no
fato do ente social ser sujeito de direito, centro autônomo de impu­
tação, com autonomia patrimonial e distinto da pessoa dos sócios.
A importância da vontade do ente social é reafirmada na exclusão
em sociedade com dois sócios. Se a exclusão fosse aplicação do princí­
pio da resolução dos contratos, a sociedade poderia ser dissolvida. Mas
a conservação da empresa social é feita pelo exercício do poder de ex­
clusão da sociedade sobre seus membros, seja ou não através de via
judicial, sendo tal poder expressão da vontade social381 Daí a desne­ •

cessidade de convocação do sócio a ser excluído para a deliberação382 •

A teoria traz problemas da tese do poder corporativo disciplinar


ainda não superados, como a própria existência de tal poder nas soci­
edades privadas e o não impedimento da discussão em juízo, incom­
p atível com idéia de poder soberano. També m não consegue
fundamentar as hipóteses de exclusão por decisão judicial e automá­
tica ou de direito, nas quais a vontade social não se manifesta383 • Tam­
bém não explica a exclusão quando não há culpa do sócio, na qual
não se deve falar em poder disciplinar.
Outro obstáculo é o próprio conceito de vontade social. Não
basta a deliberação majoritária para caracterização da vontade co­
mum. Cuida-se de saber, no caso, se há realmente vontade social ou
somente conjunto de vontades individuais dos sócios a produzir efei­
tos jurídicos para a sociedade384 •
No caso da sociedade com dois sócios e participações iguais,
fica difícil diferenciar a vontade social da vontade individual do sócio

381 Cf. V E N DITTI, Collegialità . ., cit., p. 1 07; BOLAFFI, La società semplice . . . , cit., p. 630.
.

382 Cf. V E N DITTI, Collegialità . . , cit., p. 1 1 O; decisão da Corte de Cassação italiana de


.

6.3.53, F!, 1 95 3 , 1 , c. 474.


383 A vontade social pode não se manifestar nem na propositura da ação, quando movida
por sócio ou tercei ros.
3 84 Cf. PERRI NO, Le tecniche . . . , cit., pp. 87-88.

1 53
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÔNIMAS

que solicita a exclusão. O suposto poder da sociedade sobre o mem­


bro excluído decorre não da sociedade, mas do outro sócio. Além
disto, a preservação da sociedade é explicada pelo contrato plurilate­
ral, cujo inadimplemento produz efeito em relação a uma só parte.

1 .5 . A POSIÇÃO DE I N NOCENTI : DISCIPLINA TAXATIVA


LEGAL BASEADA NO INTERESSE PRIVADO

Partindo da importância do escopo social385 e reconhecendo a


necessidade de proteção do interesse privado pelo Estado386 , o autor
defende a aplicação da teoria da disciplina taxativa legal, fundada na
defesa de particulares para alcançar a finalidade social387 e não no
interesse público, como originalmente concebida.
Para o autor, a exclusão é meio de defesa legislativa do escopo
social, quer de forma direta, quer como aplicação do princípio perso­
nalístico388 . A tutela do interesse privado mediante a exclusão não se
dá no plano da auto-regulamentação da sociedade, mas sim nas hi­
póteses determinadas em lei, para evitar o que chama de "perigoso
jogo de interesses" nas sociedades de pessoas, a favor de sócios mais
espertos e menos escrupulosos, que poderiam estipular hipóteses de
exclusão389 . Por isto, a melhor forma de proteção do interesse priva­
do é através do Estado, mediante a fixação de hipóteses taxativas de
exclusão em lei, não se permitindo aos particulares o elenco de casos
de exclusão no contrato ou no estatuto social.
A tese anula a crítica à disciplina legal taxativa, que é a busca de
seu fundamento no interesse público quando há também interesses
privados. Mas peca por ver na exclusão exclusivamente a defesa de
interesses privados, esquecendo-se dos interesses públicos. Além disto,

3 85 Cf. I N NOCE NTI, L 'esclusione . .. , cit., pp. 1 8 1 - 1 83.


386 Idem, pp. 1 83-1 84.
387 Idem, p. 1 85 .
3 88 Idem, p. 1 82 .
389 Idem, pp. 1 83-1 84.

1 54
RENATO VENTURA RIBEIRO

embora o autor, coerentemente com sua posição, não reconheça, o in­


teresse público também justifica a exclusão mesmo nas hipóteses não
previstas em lei, eliminando o conceito das hipóteses legais taxativas390 .
Mesmo sob a ótica privada, a taxatividade dos casos previstos em
lei esbarra em alguns problemas. Nos casos em que o sócio representa
entrave ao desenvolvimento dos negócios e não há previsão legal especí­
fica391 , a tutela do interesse privado fica prejudicada. Uma forma de aper­
feiçoar a teoria seria permitir a apreciação do caso concreto pelo Judiciário.

1 .6. A POSIÇÃO DE N U NES

O autor concebe a sociedade como contrato de fim comum e


organização econômica a ser preservada392 , em razão da importância
social da empresa393 e para proteção do interesse geral e dos próprios
sócios.
Partindo da tese contratualista e considerando a importância da
preservação da empresa, o autor retoma a idéia de uma cláusula táci­
ta394 em todos os contratos de sociedade, como conseqüência de sua
própria estrutura e meio de defesa e preservação. Daí a exclusão como
conseqüência necessária da própria sociedade como contrato de fim
comum, organização econômica que se quer estável, no interesse geral
e dos próprios sócios395 . Fundando-se a exclusão de sócio em cláusula

390 Por todos, cf. N U N ES, O direito de exclusão . , cit., p. 48 e ss.


..

391 Como exemplo, o caso de sócio súdito de país i n imigo, a ser exami n ado na Parte Ili,
Cap. 1, 3 . 7.
392 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . . , cit., p. 5 2 .
.

393 O autor, em O direito de exclusão , cit., pp. 50-5 1 , relaciona a idéia de preservação d a
...

empresa a teses institucionalistas. Mesmo havendo fundamento comum embasando ambas


as teorias, a relação deve ser vista com reserva. A concepção de empresa e a necessidade
de sua p reservação surgem antes do i nstitucional ismo, cujo marco inicial é atribuído a
RATHENAU, "La realtà . . . ", cit.. Embora as teses i nstitucional istas visem a p roteção e
p reservação da empresa, antes e depois da obra de RATHENAU d iversos contratual istas
ressaltam a importância da empresa e a necessidade de sua manutenção.
394 Cf. O direito de exclusão ... , c it., p. 5 6 e ss., desenvolvendo i d é i a s de MOSSA,
"L'esclusione ... ", cit., pp. 639-640, e SCHLOZ, AusschlieBung uns A ustritt . , cit., p. 2 3 .
. .

395 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . . , cit., p. 56.


.

1 55
ExnusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAS

implícita396 , é cabível a medida na falta de previsão contratual expressa


ou de lei.
Outras duas premissas do autor, ambas com base na tese con­
tratualista, são a existência de dever geral de colaboração de todos
os sócios e a aplicação às sociedades do princípio geral da resolução
nos contratos sinalagmáticos, considerando o sinalágma nas socie­
dades com base no contrato plurilateral397 • O descumprimento das
obrigações de um sócio desobriga os demais do compromisso de
tê-lo como membro da sociedade, podendo excluí-lo398 • Assim, o
direito de permanecer como está relacionado ao dever de colaborar
com o fim comum, constituindo abuso de direito a presença do
sócio sem colaboração. A exemplo de outros, o autor reduz os casos
de exclusão à falta do dever geral de colaboração399 , haja ou não
previsão contratual, seja o inadimplemento intencional ou não, com
ou sem culpa.
Portanto, a exclusão resultaria da falta do dever geral de cola­
boração, implícito no contrato de sociedade, possibilitando a ex­
pulsão do sócio violador de tal obrigação, inclusive nas sociedades
anônimas400 •

Em suma, o autor procura conciliar a tese contratualista da re­


solução por inadimplemento do dever de colaboração com as idéias
institucionalistas da empresa, que justificam sua preservação.

396 Nas palavras do autor, em O direito de exclusão . . . , cit., p. 59, grifos do origi nal: "a
exclusão do sócio justamente into lerável pode sempre considerar-se como a efectivação
de uma cláusula do pacto: cláusu l a que os sócios expressamente fixaram; ou com que
tácitamente concordaram; ou que provàvelmente teriam estipulado se tivessem pensa­
do n a h ipótese; ou que deveria ter sido aceita, de acordo com a mais razoável i nterpre­
tação dos i nteresses em jogo feita agora, dentro dos cânones da boa fé contratual"
397 Idem, p. 59 e ss.
398 Idem, pp. 60-62 . Contra a idéia, entendendo pela não aplicação do princípio da exce­
ção de contrato não cumprido na sociedade, AZEVEDO, Dissociação . . . , cit., p. 1 28.
399 N U N ES, O direito de exclusão . . . , cit., pp. 79-8 1 .
400 Sobre o dever de colaboração nas sociedades anônimas, cf. N U N ES, O direito de ex­
clusão . . . , c i t., p. 86 e ss.

1 56
-RENATO VENTURA RIBEIRO

Trata-se de um avanço na concepção contratualista e uma apro­


ximação da noção que seria desenvolvida mais tarde da sociedade
como contrato de organização. Mas nem todos os problemas da teo­
ria contratualista são superados, como a discussão sobre a presença
ou não de sinalágma nas sociedades e a equiparação da exclusão de
sócio à resolução por inadimplemento (cf. 1.3 acima).

1 . 7. A TESE DE PERRI NO: A EXCLUSÃO NO QUADRO DOS


CONTRATOS ASSOCIATIVOS

A autora concebe a sociedade como contrato associativo, em


contraposição ao contrato de permuta401 • Como a teoria contratua­
lista é edificada em torno da idéia da sociedade como contrato de
permuta, a autora formula novo enfoque, baseado na organização402
da atividade comum. A exclusão é, pois, meio de tutela da atividade
comum, base central do fenômeno associativo403 •
Em razão da atividade comum, são privilegiados os interesses
não individuais da organização, com a preocupação na fixação de
regras de desenvolvimento da empresa. Tem-se uma visão objetiva,
fundada na organização da atividade comum, em lugar da subjetiva,
baseada nos interesses individuais404 •
A autora mostra as deficiências de princípios contratuais e ques­
tiona a sua aplicação no âmbito das sociedades.
Sob a ótica do contrato plurilateral, a exclusão aparece como
forma de resolução por inadimplemento. Mas isto é insuficiente para
explicar a exclusão em algumas hipóteses, como aquelas nas quais

401 Cf. Parte 1, C a p . I l i, 4.3 acima.


402 A autora, L e tecniche_ . . , cit., p. 1 1 3, define organização como "complesso di regole
dell'attività, rei ative cioe alla programmazione degli obiettivi, delle modalità di esercizio,
dei meccanismi di desti nazione e percezione, da parte dei membri dei gruppo, dei
risu ltati dell 'attività comune i n dividuata ai nucleo dei fenomeno associativo".
403 Cf. PERRI NO, Le tecniche ... , cit., p. 1 30 e ss ..
404 Sobre a idéia de atividade comum, cf. PERRI NO, Le tecniche ... , cit., p. 1 1 2 et seq.

1 57
ExnusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANôNIMAS

não há inadimplemento ou impossibilidade superveniente da presta­


ção, como o caso de problema pessoal do sócio ligado à sua naciona­
lidade. O enfoque do contrato associativo permite a justificação da
exclusão em mais casos, com base no prejuízo acarretado à atividade
social405 • E na exclusão em sociedade com dois sócios, não há como
aplicar a regra geral de conservação dos contratos plurilaterais. As­
sim, a mantença da sociedade, mesmo com um único sócio, somente
é explicada em razão de sua atividade406 •
O trabalho da autora representa importante passo para afasta­
mento da tese contratualista, permitindo melhor fundamentação da
exclusão de sócio nas sociedades anônimas. Porém, pode ser aperfei­
çoado, com a adição da idéia de eficiência empresarial à finalidade de
tutela da atividade comum.

1 .8. A POSIÇÃO DA DOUTRINA ALEMÃ: DISSOLUÇÃO DA


RELAÇÃO JURÍDICA DE CONTRATO CONTIN UADO POR
MOTIVO RELEVANTE ( WICHTIGER GRUND)4º7
Apesar de práticos e avessos a algumas discussões doutrinárias408 ,
os alemães fundamentam as hipóteses legais de exclusão no princí­
pio da dissolução da relação jurídica de contrato continuado por
motivo grave ou relevante ( wichtiger Grund)409 • Trata-se de cláusula
considerada implícita nos contratos410 •

405 Cf. PERRINO, Le tecniche ... , cit., p. 1 30.


406 Cf. PERRINO, Le tecniche. . . , cit., pp. 1 29-1 30.
407 Para visão geral da doutrina alemã, entre outros, cf. R E I N ISCH, Der A usschluss. . . , cit.,
pp. 35-1 08. Sobre a evolução h istórica do conceito de motivo relevante ( wichtiger
Crund), cf. SPITZE, Der AusschlufL, cit., pp. 22-27.
408 Por todos, cf. R E I N ISCH, Der Ausschluss.. . , cit., p. 35, taxando de briga improdutiva a
d iscussão sobre as bases dogmáticas do d i reito de exclusão de sócio.
409 Sobre o conceito de motivo relevante, cf. STAUF, Wolfgang. Der wichtige Crund bei der
personengesellschaftlichen Auflosungs- und Ausschlie&ungsklage: Eine Untersuchung zu dem
Tatbestandsmerkmal "wichtiger Crund" in den §§ 733, 1 40, 142 HCB, Cottingen, 1 980;
SOUFLEROS, Ausschlie&ung... , cit., pp. 28-32; SPITZE, Der Ausschluf5 .. ., cit., pp. 30-33;
GRUNEWALD, Der Ausschlu&.. ., cit., pp. 60-78; REINISCH, Der Ausschluss.. ., cit., pp. 42-1 08.
41 O Cf., por todos, SOU FLEROS, Ausschlie&ung... , cit., p. 20, e SPITZE, Der Ausschlu& . . . ,
cit., pp. 30-33 .

1 58
RENATO VENTURA RIBEIRO

O conceito de justo motivo é extraído do projeto de lei das soci­


edades limitadas de 1971 (§ 207, I, 2), que o define como "qualquer
comportamento ou circunstância pessoal do sócio excluído que, va­
lorando todas as circunstâncias do caso, traga impossibilidade ou
ponha em perigo a consecução do fim social ou que de qualquer ou­
tra forma torne inadmissível aos demais a permanência do sócio na
sociedade"411 •
D o conceito de motivo relevante, vê-se que a medida pode
ser tomada não só em casos de descumprimentos graves de obri­
gações sociais, como naqueles nos quais um fato relativo à pes­
soa do sócio prejudica a sociedade . L ogo, o sócio pode ser
excluído, tenha ou não culpa, seja ou não maj oritário ou não,
tenha ou não culpa e até em sociedade com dois sócios4 1 2 . Mas,
em todas as hipóteses, somente em casos extremos (ultima ra­
tio), quando a presença do sócio se torna inadmissível. Um ou­
tro dado importante é a valoração que deve haver por parte dos
sócios, para apurar não só a gravidade dos fatos como a conveni­
ência da exclusão. Como a definição não engloba os casos de
dissolução, verifica-se também a distinção entre tal instituto e a
exclusão de sócio.
Como o vínculo societário é relação jurídica, é possível sua
dissolução, mesmo parcial, fundada em motivo importante. Sendo
a exclusão de sócio medida extrema, não só deve ser fundamentada
em razão relevante como ser aplicada como último remédio ( ultima
ratio) 4 13 • Outro desdobramento da teoria é a vedação de estabeleci-

41 1 Cf., entre outros, SOUFLEROS, A usschlie6ung. . . , cit., p. 28, e G R U N EWALD, Der


Ausschlu6 .. ., cit., p. 6 1 .
412 Cf. SOU F L E ROS, Ausschlie6ung. . ., cit., p . 70; SPITZE, Der Ausschlu6 . . . , cit., p . 89;
G R U N EWALD, Der Ausschlu6 . . ., cit., p. 70.
413 Cf., entre outros, BCHZ 4/1 08. Sobre o conceito d e ultima ratio, cf. SOU F L EROS,
A usschlie6ung. . . , c it., p . 40; G R U N EWAL D, Der A ussch/uf5. . ., cit., p . 79 e ss.;
R E I N I SCH, Der A usschluss . . . , cit., p p . 94- 1 0 3 ; G E H R L E I N, Der Ausschlu6 .. . , cit.,
p p . 49-5 1 .

1 59
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SociEDADES ANÓNIMAS

menta de cláusulas no estatuto com a previsão de exclusão sem


motivo (ad nutum)414 •
A maior dificuldade é a definição de motivo relevante. Há ra­
zão relevante quando os interesses da sociedade colidem com os do
membro. Assim, justifica-se a exclusão de acionista por prevalece­
rem os interesses da sociedade, incluindo o caso de mudança de con­
trole acionário415 , além das hipóteses de violação dos deveres do
acionista (integralização de capital, prestações acessórias e dever de
fidelidade, abrangendo o último os casos de abuso de direito) . Apon­
ta-se ainda como razão relevante a quebra da confiança entre as par­
tes, pressupondo, portanto, relações pessoais entre elas416 •
Nas companhias, admite-se a exclusão de acionista baseada em
motivo relevante417 •
A grande dificuldade da tese é o enquadramento do caso con­
creto no chamado motivo relevante, gerando receio de eventual abu­
so da maioria na decisão de exclusão de sócio. Porém, a possibilidade
de controle judicial minimiza tal perigo. Um dos problemas é centrar
a idéia de grave motivo na quebra da confiança dos sócios, pois a
idéia de confiança é subjetiva, tanto para embasar deliberação da so­
ciedade como eventual decisão judicial. Melhor é justificar o remé­
dio da exclusão de sócio pela tese da quebra da base objetiva do
negócio, que engloba a razão relevante da doutrina alemã (cf. item 3
abaixo) .
Por outro lado, a tese não explica a exclusão de sócio em opera­
ções de reorganização societária, como o grupamento de ações, pois
não há justa causa.

414 Por todos, cf. SPJTZE, Der AusschlufL, cit., pp. 47-49.
415 Cf. R E I N ISCH, Der Ausschluss... , cit., p . 49.
416 Cf. REINISCH, Der Ausschluss , cit., p . 36.
...

41 7 Cf. deci sões e autores mencionados na I ntrodução, nota n. 2 3 .

1 60
R ENATO VENTURA RIBEIRO

2 . CRÍTICAS COMUNS ÀS TEORIAS EXPOSTAS E PREMISSAS DE


NOSSA POSIÇÃO

2 . 1 . EXCLUSÃO, EMPRESA E SOCIEDADE

A exclusão de sócio tem sido enfocada das mais variadas formas,


como meio de sanção418 , de defesa da empresa419 , de exercício de auto­
tutela dos interesses sociais420 , de conservação da sociedade421 , e alter­
nativa à dissolução por motivos relacionados a seus atos ou situação422
e instrumento para melhor organização e gestão social423 .

2 . 1 . 1 . EXCLUSÃO E PRESERVAÇÃO DA EMPRESA

É comum a afirmação de que a exclusão de sócio prejudicial tem


por escopo a preservação da empresa424 • Embora não se negue a im­
portância da atividade empresarial, cuja influência extrapola o campo
das relações privadas, o vínculo entre o instituto da exclusão e o princí-

418 Além dos partidários d a teoria do poder corporativo d i sc i p l i n a r, d., entre outros,
CALAMAN DREI, Dei/e società . . . , cit., p. 2 1 9, e SCH LOZ, Ausschlief5ung uns Austritt. . . ,
cit., p. 4.
419 Cf. VIVANTE, Tratatto. .. , cit., p . 465; DALMART E LLO, L 'esclusione. . . , cit., p . 1 05;
CAN DIAN, "Riflessione i n tema di esclusione dei socio", RDComm. 3 9 ( 1 94 1 ), 1, pp.
3 5 7-363, à p. 361 ; B R U N ETTI, Trattato dei diritto dei/e società 1 : Parte generale. Società
personali. Società di armamento, 2ª ed., Mi lano, Giuffre, 1 948, p. 403; N U NES, O direito
de exclusão.. . , cit., pp. 52-53; GHIDI NI, Società personali, Padova, CEDAM, 1 972, pp.
550 e 552; AGU ILA-REAL, "La exclusión de socios", i n Tratando de la sociedad limitada,
PAZ-ARES (Coord.), Madrid, Fundación Cultural dei Notariado, 1 997, pp. 885-930, à p.
892. Na jurisprudência, decisão da Corte de Cassação italiana de 1 6. 7 . 5 3 , Ciur. ft., 1 954,
p. 768. Para PERRI NO, Le tecniche.. . , cit., pp. 90-91 e 1 30- 1 34, a exclusão de sócio
protege a atividade, exceto nos casos de exclusão automática, nos quais se tutela o inte­
resse dos credores, ao se buscar a conversão da participação societária em dinheiro.
420 Cf. CAI LLAUD, L 'exclusión . , cit., p. 269; G H I D I N I, Società personali, cit., p. 5 5 3 .
..

42 1 Cf. BOLAFF I , La società semplice . , cit., p. 630.


..

422 Cf. TEIXEIRA, Das sociedades por quotas . . ., cit., p. 275; REQU IÃO, A preservação da
sociedade. . . , c i t, pp. 203-204; MARTIN, "L'exclusion d'un actio n n a i re", Revue de
}urisprudence Commerciale, numéro spéc i a l : La stabilité du pouvoir et du capital dans
les sociétés par actions 34 ( 1 990), pp. 94-1 1 5, pp. 1 00-1 0 3 . Na jurisprudência, entre
outras, decisões citadas por MARSHALL, "Temas polêmicos da sociedade por quotas -
Posição da j u risprudência. Cessão de quotas, responsab i l i dade e exclusão de sócios",
ROM 1 02 ( 1 996), pp. 94- 1 08, à pp. 1 05-1 08.
423 Cf. CAI L LAUD, L 'exclusion . . , c i t . , p. 94.
.

424 Por todos, d. autores citados por N U N ES, O direito de exclusão .. . , cit., p. 50.

1 61
EXCLUSÃO DE SóCIOS NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS

pio da preservação da empresa deve ser analisado com maior cuidado.


A exclusão de sócio, ao contrário de preservar a empresa, pode levar ao
encerramento da atividade. A saída do sócio pode inviabilizar a em­
presa, quer por sua importância pessoal na atividade, quer pela dimi­
nuição do capital, para pagamento do reembolso da participação social.
De outro lado, a extinção da sociedade pode não impedir a continui­
dade do exercício empresarial, pelo que se deve questionar o papel da
exclusão de sócio como remédio para preservação da empresa e da
sociedade. Por fim, cumpre verificar se a exclusão de sócio, relacionada
à idéia de preservação da empresa, é medida a ser tomada somente
quando há o risco de fim da atividade empresarial.
2 . 1 . 1 . 1 . A N ECESSIDADE DE APURAR A CONVENl�NCIA OU NÃO DA
EXCLUSÃO DO SÓCIO

Paradoxalmente, a exclusão de sócio, ao invés de preservar, pode


gerar o fim da empresa. É o caso de algumas hipóteses previstas em
lei, como na insolvência ou interdição de um sócio. Tomando a de­
terminação legal como norma cogente, a atividade pode ser inviabi­
lizada pelo desembolso de capital para pagamento da participação
do sócio excluído. Do ponto de vista da importância da pessoa do
sócio, a colaboração do membro excluído pode ser essencial ao de­
senvolvimento da atividade e a sua exclusão pode tornar a empresa
inexeqüível. Um sócio, mesmo insolvente, pode ser fundamental, entre
outro s, por seu relacionamento com a clientela ou pela qualidade de
seu trabalho, ainda mais no mundo moderno, caracterizado pela ele­
vadíssima especialização, fazendo com que, em muitas localidades
sejam raros os profissionais com tal perfil.
Para evitar tal problema, ao lado da aferição dos requisitos le­
gais, deve-se verificar a conveniência ou não da exclusão do sócio,
pois, apesar de motivos graves a justificar a medida, a saída do mem­
bro pode representar prejuízo maior à sociedade do que a sua perma­
nência. Sob pena da exclusão de sócio, ao invés de conservar, acarretar
o fim da empresa.

1 62
RENATO VENTURA RIBEIRO

2 . 1 . 1 . 2 . A EXCLUSÃO DE SÓCIO COMO MEDIDA PARA MELHORAR A


EFICl�NCIA EMPRESARIAL E NÃO APENAS A PRESERVAÇÃO DA
EMPRESA

Fundamentar a exclusão como medida de preservação da em­


presa pode implicar em admitir a medida apenas nos casos em que os
prejuízos causados à sociedade pelo sócio são suficientes para impe­
dir a continuidade da atividade empresarial. Ou seja, se os danos
causados à empresa por ato ou situação de sócio afetam a atividade,
mas sem o perigo de provocar a quebra da sociedade, não haveria a
necessidade de exclusão do sócio prejudicial.
No entanto, entendendo-se como finalidade da exclusão a efici­
ência da atividade empresarial, havendo prejuízo ou possibilidade de
prejuízo à sociedade425 , gerados por sócio, deve o mesmo ser excluí­
do, havendo justa causa426 • Não para preservar a empresa, mas para
eficiência da atividade empresarial.
Por isto, justifica-se a exclusão de sócio cuja permanência na
sociedade, embora não seja letal à empresa, gere prejuízos à atividade
social.
2 . 1 .2 . EXCLUSÃO DE SÓCIO E CONSERVAÇÃO DA SOCIEDADE

A exclusão de sócio aparece relacionada à preservação da em­


presa. No entanto, processa-se de forma a manter a sociedade como
empresária.
Em razão da distinção entre empresa e sociedade, questiona-se
se a extinção da sociedade afeta ou não a empresa427 • A dissolução e
extinção da sociedade não implicam, necessariamente, o fim da em­
presa428 . A atividade empresarial deixa de ser exercida pela socieda-

425 Cf. G H I D I N I , Società personali, cit., p . 55 0.


426 Sobre o conceito d e justa causa, cf. Cap. IV, 1 . 1 , abaixo.
427 Cf. COMPARATO, "Exclusão d e sócio ... ", cit., p. 3 9 .
428 Cf. AULETIA, "Risoluzione ... " , cit., p . 530, nota n . 2 6 .

1 63
ExcLUsÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÔNIMAS

de, mas pode continuar a ser desenvolvida por outra sociedade ou


por iniciativa individual429 •
Uma das formas para manutenção da empresa pode ser o próprio fim
da sociedade, com a continuidade do exercício empresarial por um sócio
individualmente. Tem-se o fim da sociedade, mas a preservação da empresa.
A exclusão de sócio, mais do que forma de preservação da empresa, é
meio de conservação da sociedade430 • Tem por escopo não só a continuidade
da empresa, mas de seu exercício pela sociedade. Inclusive nas sociedades
constituídas para a prática de um só negócio, antes de preenchido o seu
fim431 , pode excluir o sócio, para não prejudicar aquela atividade empresarial.
A exclusão de sócio é, portanto, meio de preservação da explo­
ração da atividade pela sociedade, tutelando concomitantemente a
empresa e a sociedade.

2 . 1 . 3 . EXCLUSÃO COM ESCOPO DE EFICl � NCIA EMPRESARIAL DA


SOCIEDADE

A finalidade da exclusão de sócio não é só a preservação


'
da em-
presa, mas a eficiência na exploração da atividade empresarial pela
sociedade432 (cf. item 2 . 1 . 1 .2 acima) .

429 Para DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., pp. 40-4 1 , a sociedade constitui, via de re­
gra, uma empresa mais forte e importante do que o empreendimento individual. A
empresa deve sobreviver aos problemas relacionados com a pessoa do sócio, através
da exclusão de quem prej ud ica o seu funcionamento normal. Por isto, conc l u i o autor,
o legislador, como intérprete da final idade econômica, intervém visando a proteção da
empresa, com a possibi l idade da exclusão. Porém, as razões do autor procedem parci­
al mente, pois não se pode descartar a h ipótese de, em alguns casos, a empresa i ndivi­
dual ser mais eficiente do que a exploração da atividade mediante sociedade.
430 Cf. MOSSA, Trattato.. ., cit., p. 324 e p. 648, nota n. 28, na qual cita em apoio a posição da
doutrina alemã mais antiga, representada por MÜLLER-ERZBACH, WIELAND, H U ECK e
WÜRDIRGER. Como frisado por MOSSA, "L'esclusione ... ", cit., p. 637, e Tratatto.. . , cit., p.
648, não se busca apenas a conservação da sociedade, como defende NAVARRI NI, Dei/e
società . . . , cit., p. 698, mas a proteção da empresa social. G H I DINI, Estinzione e nullità dei/e
società commerciali, Padova, CEDAM, 1 93 7 p. 65, fala em defesa da estrutura social.
431 Cf. N U NES, O direito de exclusão ... , cit., p. 5 1 , nota n . 54.
432 Como bem sustenta PERRI NO, Le tecniche... , cit., p. 1 40, a exclusão é i nstrumento
p ara "\'estromissione di quel sacio la cui permanenza nel gruppo possa - per fatti a \ u i
personalmente relativi - compromettere i l vantaggioso esercizio de\l'attività

1 64
R E NATO VENTURA RIBEIRO

Isto justifica a exclusão situação gerada pelo sócio, com ou sem


culpa, que tenha afetado ou possa prejudicar a atividade social, mes­
mo sem o risco de fim da empresa.
A elevada competitividade do mundo empresarial hodierno exige
eficiência433 , ou seja, maximização de resultados, para obtenção de
menor custo e melhor qualidade. Da melhor eficiência decorre o su­
cesso da atividade empresarial.
Por isso, devem ser evitadas as situações que afetam a eficiência
da empresa, justificando a exclusão de sócio não só quando prejudi­
cial à eficiência, mas também quando sua saída pode ocasionar me­
lhora da atividade empresarial.

2 . 2 . I NTERESSES ENVOLVI DOS NA EXCLUSÃO. A EXCLUSÃO


COMO FORMA DE PROTEÇÃO DE INTERESSES PÚBLICOS E
PRIVADOS

Para compreensão e aplicação do instituto da exclusão é neces­


sária sua análise funcional, levando em conta as finalidades visadas e
os bens e interesses a serem protegidos. A princípio, o que se busca é
o interesse da sociedade, conduzindo o pensamento à complexa e
inacabada discussão sobre o conceito de interesse social.
A disparidade de posições sobre o interesse social é relevante
em termos de exclusão, pois o tratamento da matéria varia conforme
com a posição adotada. Analisando as principais teorias do interesse
social, pode-se perceber seus reflexos em tema de exclusão.
A idéia de interesse social varia em função da concepção de so­
ciedade. Os contratualistas tendem a identificar o interesse social

programmata, in guisa da salvaguardare ai tempo stesso (a fronte d e l l ' i n adeguatezza i n


t a l senso dei rimedi d e i d i ritto generale d e i contratti) gli effetti del l'attività rea lizzata e,
i nsieme, le prospettive dell'attività futura".
433 A eficiência, embora com outros propósitos, tornou-se até princípio da adm i n i stração
pública, através da Emenda Constitucional n. 1 9, de 4.6 . 1 998, dando nova redação ao
caput do artigo 37 da Carta Magna.

1 65
ExcLusÃo DE Sócios NAS SornoAoEs ANÓNIMAS '

com a vontade dos contratantes, ou seja, com o interesse comum dos


sócios. Identificado o interesse social como interesse comum dos só­
cios, somente aos sócios cabe a iniciativa da expulsão.
Para os institucionalistas, o interesse social abrange também interes­
ses extrasocietários, como o interesse público, em razão da função social da
�mpresa. Tomando-se o interesse social como interesse da coletividade, o
objetivo almejado é a proteção de todos aqueles afetados pela atividade
empresarial, destacando-se fornecedores, consumidores, funcionários e seus
dependentes, o Poder Público e até credores434 . Se a exclusão de sócio tiver
por escopo a proteção da coletividade, natural sejam legitimados para re­
querê-la qualquer um dos interessados e até mesmo o Ministério Público.
Neste caso, o procedimento deve ser judicial, representando uma interfe­
rência externa nas relações sociais internas.
Sem enfrentar a delicada questão do conceito de interesse social,
deve-se distinguir interesse comum dos sócios do interesse social. En­
quanto os sócios, tanto atuais como futuros, tem interesse comum na
eficiência da empresa social, para alcance da finalidade de obtenção de
lucros, o interesse social abrange outros diversos dos sócios.
Nas companhias, a finalidade não é só lucro, mas interesse so�ial
reconhecido legalmente (Lei 6.404/76, arts. 1 16 e 1 17, § 1 º). Dentro
de tal concepção, na empresa há interesses públicos e privados. A pre­
servação e a eficiência da empresa é objetivo de todos as pessoas rela­
cionadas à atividade empresarial, especialmente os trabalhadores,
consumidores, fornecedores e o Estado. Ao lado da finalidade lucrati­
va, a companhia possui papel social, não podendo a busca do lucro
sobrepor-se aos interesses da comunidade435 •

434 Sobre o i nteresse público na conservação da sociedade e em alguns casos específicos,


d. N ICCOLI N I, lnteressi pubblici e interessi privati nella estinzione dei/e società, Mi lano,
Giuffre, 1 990, pp. 50-90.
435 Como bem si ntetizado por COMPARATO, O poder de controle. . . , cit., p. 2 9 7, "O d i rei­
to ao lucro ou à expansão da empresa não é garantido contra os i nteresses da comu­
n i d ade local, regional e nacional em que ela se insere", apoiado por LEÃES, Estudos e

1 66
RENATO VENTURA RIBEIRO

2 . 3 . EXCLUSÃO E SUPERVENl�NCIA DE CAUSAS

A exclusão de sócio somente pode ser justificada por fato super­


veniente ao seu ingresso na sociedade. Se os sócios conhecem deter­
minada situação relacionada a outro membro e mesmo assim admitem
seu ingresso e permanência na sociedade, assumem os riscos e os
ônus da escolha. Não podem, pois, reclamar. Na lição do direito ro­
mano, quem escolhe mau sócio só de si deve se queixar436 •

A causa justificadora da exclusão deve ser mudança no compor­


tamento ou de condição original do sócio, por fato superveniente
modificador da situação original.
De outro lado, como a exclusão funda-se na quebra das bases
essenciais da sociedade (cf. n. 3 abaixo), tal ruptura decorre de fato
superveniente, não possível de ser detectado ou conhecido quando
do ingresso do sócio.

3 . TESE PROPOSTA: A EXCLUSÃO DE SÓCIO COMO


D ECORR�NCIA DA QUEBRA DA BASE OBJETIVA DO
N EGÓCIO POR FATO SUPERVENIENTE

A exclusão de sócio pode ser explicada a partir da teoria da que­


bra das bases essenciais do negócio437 , fundamentada na tese da base
objetiva do negócio jurídico, objeto de breve exame a seguir, antes da
exposição da tese proposta.

pareceres sobre sociedades anônimas, São Paulo, RT, 1 989, pp. 1 3-1 4. Ainda na l ição de
COMPARATO, O poder de controle. .. , cit., p. 30 1 , " . . . não obstante a afirmação legal de
seu escopo lucrativo (art. 2º), deve este ceder o passo aos i nteresses comunitários e naci­
onais, em qualquer hipótese de conflito. A l i berdade i ndividual de i n i c i ativa empresária
não torna absoluto o d i reito ao lucro, colocando-o acima do cumprimento dos grandes
deveres de ordem econômica e social, igual mente expressos na Constituição".
436 O. 1 7, 2, 72; /. 3 , 2 5 , 9.
437 Alguns autores já asssociam a exclusão com a quebra das bases essenciais da socieda­
de. Para CAI LLAUD, L 'exclusion . . , cit., p. 238, a exclusão de sócio sem cláusula
.

estatutária expressa justifica-se, mediante procedi mento j udicial, em razão de altera­


ção nas bases da sociedade. FERRI, Trattato di diritto civile italiano X , t . 3: L e società,

1 67
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANóNIMAs

A teoria da base objetiva do negócio foi concebida para funda­


mentar a revisão de contratos, nas hipóteses de fatos supervenientes
que pudessem alterar a situação de equilíbrio entre as prestações dos
contratantes438 , com fulcro nos princípios da boa-fé contratual e da
vedação do enriquecimento sem causa439 • Segundo a tese, pode ocorrer
a revisão do contrato se for rompida -a relação original de equivalên­
cia entre prestação e contraprestação ou a finalidade objetiva do con­
trato não for atingida, mesmo quando possível o adimplemento pelo
devedor440 •
Em qualquer negócio jurídico as partes externam sua vontade
na celebração, considerando as circunstâncias nas quais ele é realiza­
do. Sendo outro o contexto, talvez não houvesse o interesse de uma
ou de ambas as partes na sua realização. Para evitar subjetivismo, não
se considera o que cada parte pensa internamente (base subj etiva do
negócio), mas sim a realidade externa do negócio (base objetiva do
negócio), tendo por base a capacidade mediana a ser exigida do cele­
brante, que pode ser tanto a de um homem como de um profissional
médio, conforme o caso concreto.
Havendo alteração nas circunstâncias nas quais o negócio foi
realizado (base do negócio), fica afetada a vontade das partes mani­
festada na sua celebração. Mesmo não sendo expresso, entende-se
que a intenção das partes era a feitura do negócio no contexto pre­
sente por ocasião da declaração de vontade. Cuida-se de cláusula
geral implícita nos contratos. Assim, a alteração da base negocial que

Tori no, UTET, 1 97 1 , pp. 224-225, aponta a exclusão como remédio para saída de sócio
cujo comportamento modifica substancia lmente as bases originais nas quais sua parti­
ci pação foi consentida ou a relação social foi i nstituída.
438 Sobre os fundamentos i n iciais da teoria, cf. OERTMANN, Die Ceschaftsgrundlage: ein
neuer Rechtsbegriff, Leipzig-Erlangen, 1 92 1 .
439 Tais princípios encontram-se normatizados tanto no Código Civ i l a lemão (§§ 242 e
8 1 2) como no brasi leiro (arts. 422 e 884).
440 Cf. LARENZ, sem titulo original, trad. espanhola de Jaime Santos Briz, Derecho de
obligaciones \, Madrid, Editorial Revista de Derecho Privado, 1 958, pp. 3 1 4- 3 1 9, à p. 3 1 8.

1 68
R ENATO VENTURA RIBEIRO

importa desequilíbrio entre as prestações com onerosidade excessiva


ou desvio da finalidade do contratual implica modificação do negó­
cio a partir do fato superveniente, mediante revisão de cláusulas (CC,
art. 3 1 7) ou resolução do contrato (art. 478).
Atualmente a teoria da base objetiva do negócio encontra reforço
no princípio da função social do contrato. A noção de função social
indica um poder-dever do sujeito de exercer a atribuição não somente
no interesse subjetivo ou próprio, mas no interesse objetivo, ou seja, de
terceiros441 . A função social do contrato indica, portanto, que o con­
trato é celebrado não só no interesse próprio como no do contratante.
Havendo modificação na base negocial, o contrato pode deixar de sa­
tisfazer o interesse pretendido pelo contratante, o que exige sua revisão
ou resolução por não cumprimento de sua função social.
Qier se entenda a sociedade como contrato ou não, a relação
original deve ter estado de ânimo contínuo, permanecendo nas mes­
mas bases iniciais. Sendo a sociedade personalista ou não, quando o
sócio ingressa na sociedade, quer na sua constituição ou posteriormen­
te, aceita a situação dos demais sócios. Assim, alteração posterior gera­
da por sócio e prejudicial ao exercício da atividade empresarial,
afetando gravemente as bases do negócio original, pode justificar a
exclusão do sócio danoso.
A maioria das teses foi elaborada com base na exclusão em socie­
dades de pessoas. Com a admissão da exclusão de sócios em socieda­
des de capitais, há outros fatores não explicados pela relação contratual,
indicando a insuficiência das teses contratualistas a justificar a exclu­
são de sócio nas companhias e até nas sociedades de pessoas442 .

44 1 Cf. ROMANO, Princippi di diritto costituzionale generale, 2ª ed., M i lano, Giuffre, 1 946,
p. 1 1 1 e COMPARATO, "Função social da propriedade dos bens de produção", ROM
63 ( 1 986), pp. 7 1 -79 ( Direito Empresarial: estudos e pareceres, São Paulo, Saraiva,
=

1 990, pp. 2 7-37), à p. 75.


442 Cf., por exemplo, a insuficiência da tese contratualista para explicar a exclusão em socie­
dade de dois sócios, como exposto por PERRI NO, Le tecniche. . ., cit., pp. 1 2 9- 1 30.

1 69
ExnusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANóNIMAS

Surge também a dúvida quanto ao tratamento diferenciado da


exclusão de sócio nas sociedades de pessoas e de capitais. Embora
seja instituto único, com objetivo de preservação da empresa em ambos
os casos, alguns autores enxergam fundamentos distintos para a ex­
clusão de sócios nas sociedades de pessoas e de capitais443 •
A adoção da teoria da quebra da base objetiva do negócio como
fundamento da exclusão de sócio soluciona não só as questões não
explicadas pelas teses contratualistas, como também permite um
conceito e fundamento único para as sociedades de pessoas e de
capitais.
No entanto, nas companhias a idéia de bases essenciais decorre
da adoção do princípio majoritário444 • Nasce a partir da polêmica
sobre a necessidade ou não da concordância unânime dos acionistas
para alteração do estatuto original. Para alguns, o pacto inicial só
poderia ser alterado pela concordância de todos os sócios, sob pena
de violação do princípio da imutabilidade dos contratos, exceto se
houvesse previsão no ato constitutivo de modificação pela maioria.
A aplicação da tese tende a trazer imobilismo à sociedade, razão pela
qual foi descartada. De outro lado, aceitar qualquer tipo de alteração
do estatuto pelo voto da maioria em assembléia geral significaria sub­
meter a minoria à vontade majoritária, inclusive para realizar subs­
tanciais modificações na estrutura da companhia. Como meio termo
entre ambas as posições, tem-se a prevalência da vontade da maioria,
respeitando-se os direitos de minoria e as bases essenciais da socie­
dade, bem como as limitações legais e estatutárias. No caso de altera­
ção das bases essenciais da sociedade, uma das formas de proteção
aos minoritários é o direito de recesso. Qyando um acionista ingres­
sa na sociedade, concorda em ser membro da companhia com as re­
gras estatutárias estabelecidas. A modificação de regras relevantes,

443 PERRI NO, Le tecniche . ., cit., pp. 75-76.


.

444 Cf. L EÃ ES, Do direito do acionista ao dividendo, São Paulo, s/ ed., 1 969, pp. 2 62-264.

1 70
RENATO VENTURA RI BEIRO

que podem motivar ou não o ingresso de acionista, deve ensejar o


direito de recesso, pois se o acionista que concordou em ser membro
de sociedade com determinadas condições não pode ser obrigado a
permanecer em companhia com características diversas. Assim, o
direito de recesso é importante instrumento de proteção aos minori­
tários, contra alteração em bases essenciais da sociedade.
Pela teoria das bases essenciais , há dois tipos de cláusulas esta­
tutárias: as que podem ser livremente modificadas pela maioria, por
serem menos relevantes, e as que constituem as bases essenciais da
sociedade, cuja alteração implica substancial mudança, devendo ser
objeto de deliberação de maioria qualificada e ensejar direito de
recesso.
Uma dificuldade é o estabelecimento de quais são as bases es­
senciais da sociedade. Deve-se entender como tal as que exijam mo­
dificação por maioria qualificada e confiram direito de recesso ao
minoritário dissidente.
Havendo fato superveniente que altere a base essencial da soci­
edade, acarretando ônus aos demais sócios ou dificultando o alcance
da finalidade social (obtenção de lucros e realização do interesse so­
cial) em decorrência de fato, ato ou situação imputável a determina­
do sócio, deve o mesmo ser excluído.
Sob tal aspecto, cabe um paralelismo entre a exclusão de sócio
e o direito de recesso, institutos simetricamente opostos445 • No di­
reito de recesso, o sócio descontente com alteração essencial na so­
ciedade solicita sua saída. Na exclusão de sócio, a sociedade ou a
lei, por modificação na condição original na relação social, pode
determinar a saída do membro para melhor exercício da atividade
empresarial.

445 Cf. I N NOCENTI, L 'esclusione. , cit., p. 5 6 .


..

1 71
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SoCJEDADEs ANôNIMAS

4 . CRÍTICAS A POSSÍVEIS OBJEÇÕES

Algumas objeções podem ser opostas à tese da quebra das bases


essenciais. Nenhuma, porém, afasta a aplicação da teoria como funda­
mento da exclusão em todas as sociedades, contratuais ou não, perso­
nalistas ou não.

4 . 1 . APLICAÇÃO DE TEORIA CONTRATUAL A SOCIEDADES NÃO


CONTRATUAIS

A teoria da base objetiva do negócio foi desenvolvida centrada e


para aplicação em contratos. Por isso, alguns podem defender sua
aplicação somente às sociedades contratuais.
Mas instituições ou organizações também são fundadas em ba­
ses fundamentais. Mesmo entendendo-se a sociedade como institui­
ção ou organização, convém lembrar que instituições e organizações
são formadas com fulcro em determinadas bases essenciais.
Tais bases são objetivas e previamente definidas (cf item seguinte).
Por base essencial pode-se entender, entre outras, a relação original na
qual o negócio societário foi concebido e a sua finalidade objetiva. A
alteração em base essencial do negócio em sociedades com caráter insti­
tucional e organizacional, sejam personalistas ou não, justifica a exclusão
do membro prejudicial, para manutenção da condição original.

4.2. ÜIFICU L DADE DE PRECISÃO DAS BASES ESSENCIAIS DA


SOCIEDADE

É difícil definir quais as bases essenciais. Mas todas as socieda­


des baseiam-se em determinadas condições, como as bases e os obje­
tivos nos quais o vínculo social foi instituído. É também importante
a noção de causa de ingresso e permanência do sócio na sociedade .
Através de tais dados, que devem ser explicitados no contrato
ou estatuto social, bem como do contexto negocial, pode-se auferir
quais as bases essenciais da sociedade, do ingresso e permanência dos
sócios e quais os fatos modificadores a justificar a exclusão de sócio.

1 72
R ENATO VENTURA RtBEIRO

Como será visto adiante (Cap. IV, 1 e 2. 7), a exclusão de sócio


exige causa justificada, não se aceitando cláusulas potestativas que
permitam a expulsão de membro pela vontade injustificada dos de­
mais. No entanto, se a determinado empregado foi concedida parti­
cipação social, como forma de incentivo e premiação ao trabalho
dedicado à sociedade, a saída do funcionário justifica a sua exclusão
da sociedade, tendo em vista o desaparecimento da causa de seu in­
gresso como sócio.
Nos casos legais de exclusão de sócio, caso não haja disposição
em contrário dos sócios, tem-se parte das bases essenciais da socie­
dade definidas em lei.
Toda sociedade é formada a partir de uma causa e todo sócio
nela ingressa com propósito específico, determinando a base do ne­
gócio. A modificação da causa da sociedade ou do ingresso do sócio
que alterar substancialmente a relação original e a finalidade da soci­
edade, modificando a base essencial do negócio, justifica a exclusão
do membro danoso.
Como são peculiares as causas de cada sociedade e do ingresso
de cada sócio, cabe verificar em cada caso concreto quais as bases do
negócio societário e se a ruptura provocada é de gravidade a exigir e
justificar a exclusão de sócio.

4 . 3 . Ü DIREITO DE PERMANECER ACIONISTA E SUAS


LIMITAÇÕES446

Como o direito de continuar sócio não é direito essencial, o só­


cio prejudicial pode ser expulso. No entanto, seus direitos nãQ po­
dem ser subtraídos447 •

446 Sobre o d i reito à conservação da condição de sócio, cf. CAI L LAUD, L 'exclusion ., cit.,
..

pp. 245-247; PERRI NO, Le tecniche . ., cit., pp. 3 7-40.


.

447 Até porque, como acentua GODON, L es obligations , cit., p. 243, a exclusão de sócio
. .

não é forma de represál ia.

1 73
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÓNIMAS

A forma de conciliação de ambos os interesses a serem protegidos


- os da sociedade e os do sócio - é a delimitação da exclusão pela lei,
não só em relação às causas, mas também quanto aos procedimentos e
efeitos448 . Protegem-se os direitos dos sócios, evitando-se decisões de
exclusão arbitrárias ou imotivadas. Tutela-se a organização social e os
seus sócios contra elementos perturbadores da atividade empresarial e
até contra o desvio de finalidade de aplicação do instituto449 •
Com isto, conjugam-se dois princípios essenciais nas socieda­
des anônimas: o majoritário, para prevalecer a vontade da maioria, e
a proteção das minorias, evitando-se a opressão dos minoritários pela
maioria. Em outras palavras, a decisão da maioria não pode violar
direitos individuais dos minoritários, como o direito de ser sócio450 .
A favor da aplicação do instituto, a necessidade de preservação
da empresa451 . A exclusão não é pena nem tem por objetivo o descré­
dito público do sócio. Apenas demonstra, por alguma incompatibili­
dade, que o sócio traz desvantagens para determinada sociedade, não
obstante possa ser bastante útil em outras. Porém, além de repercus­
são na esfera patrimonial, a exclusão também repercute moralmente,
podendo afetar a dignidade da pessoa humana. No passado, chegou
a ser qualificada de humilhante452 • Por isto, deve ser aplicada com

448 Cf. PERRI NO, Le tecniche ... , cit., p. 1 86.


449 Cf. PERRI NO, Le tecniche ... , cit., p. 1 86.
450 Cf. BERR, L 'exercice du pouvoir dans les sociétés commerciales, Paris, Si rey, 1 961 , p. 222.
451 Por todos, cf. N U N ES, O direito de exclusão. . . , cit., p . 47.
452 Cf. PIC, Traité... , cit., p. 732, que acrescenta ser injustificável o controle moral recíproco dos
sócios; THALLER, Traité Élémentaire de Oroit Commercial, 4ª ed., Paris, Rousseau, 1 .91 O,
p. 43 1 ; LACOUR e BOUTERON, Précis. . . , cit., p. 1 99. Contra a idéia, REQU IÃO, A preser­
vação da sociedade .. ., cit., p. 1 2 1 , por entender que a exclusão, por ser conseqüência de
ato do sócio prejudicial à sociedade, não atinge, por si só, a honra do sócio excluído, ainda
mais quando convencionada no contrato social. Mesmo quem enxerga um caráter humi­
lhante na exclusão entende que isto não é motivo para proibir sua previsão contratual,
desde que não seja contrária a nenhum princípio jurídico, como LYON CAEN e RENAULT,
Traité... , p. 347; HOUPIN e BOSVIEUX, Traité... , cit., p. 276. Ou, nas palavras de GON­
ÇALVES, Comentários ao Código Comercial português 1, Lisboa, J B, 1 .9 1 4, p. 296, "humi­
lhante mas não ilegal". Também não há injúria, em razão da convenção, como i ndica
COSTA, apud REQUIÃO, A preservação da sociedade ... , cit., p. 1 7 1 .

1 74
R ENATO VENTURA RIBEIRO

prudência e em casos graves como medida extrema, tida como últi­


ma solução (ultima ratio)453 •

Uma vez iniciado o processo de exclusão de sócio, devem ser ofe­


recidas todas as garantias e preservados os direitos do excluído, como o
reembolso em dinheiro de sua participação social no dia da exclusão454 ,
evitando ser a sua exclusão ato de expropriação indevida e injusta.
A exclusão não deve ser vista sob a ótica da conveniência de cada
sócio isoladamente, mas com base na atividade da sociedade. Não se
deve verificar o que é bom para cada sócio e sim o fim da sociedade.
O direito de permanecer na sociedade não diz respeito somente
ao sócio cuja exclusão é proposta. Também os demais sócios possuem
o direito de ser membro da sociedade dentro das condições presentes
quando de seu ingresso, excetuando-se os riscos inerentes à ativida­
de. Pretender a permanência do sócio indesejado pode até caracteri­
zar abuso de direito em detrimento dos demais455 .

CAPÍTU LO I V: CONSEQÜ�NCIAS DA APLICAÇÃO DA TEORIA


PROPOSTA NA EXCLUSÃO DE SÓCIOS NAS SOCIEDADES
COMERCIAIS E, EM PARTICULAR, NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

1 . EXCLUSÃO E J USTA CAUSA 456

1 . 1 . N ECESSIDADE DE JUSTA CAUSA

Como a exclusão de sócio objetiva a melhor exploração da ativi­


dade, somente deve ser aplicada quando um membro estiver prejudi-

453 Além da doutrin a alemã mencionada no Cap. I l i, 1 .8 acima, cf. SCHMI DT, Les droits de
la minorité dans la société anonyme, Paris, Soufflot, 1 970, pp. 1 9 1 - 1 92 .
454 Por todos, d. ASCARELLI, Appunti. . ., cit., p. 206.
455 Cf. N U N ES, O direito de exclusão. . . , cit., p. 2 76.
456 A doutrina diferencia causa e motivo. Para MIRAN DA, Tratado... , cit., vol . I l i, 4ª ed., São
Paulo, RT, 1 974, pp. 97-1 00, motivo é situação fática, a pré-intenção que dá origem ao

1 75
ExcLusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANÓN IMAS

cando o exercício da empresa, em razão de motivo superveniente ao


seu ingresso na sociedade. A decisão de exclusão de sócio deve ser
motivada, após verificação de justa causa, decorrente de fato super­
veniente ao ingresso do membro a ser excluído.
No direito comparado, as legislações exigem justa causa para
exclusão de sócio (cf. Capítulo II, 4 acima). A possibilidade de exclu­
são pelos sócios majoritários sem justos motivos é arbitrária457 • A
previsão, pelo legislador, da necessidade de causa justificada objetiva
impor limites à medida extrema da exclusão de sócio e evitar o arbí­
trio da maioria na deliberação de expulsão de sócio, bem como espé­
cie de "denúncia vazia" do vínculo societário458 .
O critério legal também permite maior controle judicial sobre a
decisão de exclusão, pois sua ausência implicaria livre possibilidade
de exclusão de sócio pela maioria. Cabe ao excluído a demonstração
de que a expulsão é injusta e contrária à lei ou aos estatutos459 •
No direito brasileiro, embora o revogado artigo 339 do Código
Comercial mencionasse causa justificada, chegou-se a vislumbrar
possibilidade de exclusão de sócio sem motivo, baseado na permissão
para alteração do contrato social pela maioria nas sociedades por
quotas de responsabilidade limitada (Decreto 3.708/19, art. 15, tam­
bém revogado)460 . No entanto, prevaleceu, na doutrina e na jurispru­
dência, a exigência de justa causa (cf. Capítulo II, 4.6 acima), quer

negócio, que pode ou não ter relevância ju rídica. Causa é o fundamento j u rídico do
negócio. O motivo pode ou não ser uma causa, dependendo de ter conseqüências
j urídi cas ou não. Assim, o correto é falar em causa e não em motivo.
457 Cf. PERRINO, L e tecniche . . ., cit., p. 1 84. No entanto, há decisões isoladas em sentido
oposto, como a da Corte de Cassação ita l i a n a, de 2 3 . 6 . 4 5 , apud J A N N U Z Z I ,
"Questioni . . . " , p. 1 03 , entendendo q u e nas sociedades de capitais a exc lusão pode ser
a rbitrária. Rechaçando a possibil idade de exclusão sem justa causa, cf., por todos,
G R U N EWA L D, Der Ausschluf3. . . , cit., pp. 236-239.
458 Cf. COMPARATO, "Exclusão de sócio nas sociedades por cotas ... ", cit., p. 47.
459 Cf. M E N DONÇA, Tratado ... , cit., p. 1 49, com base nos citados pareceres de BARBOSA
e P E R E I RA; REALE, "A exclusão de sócio da sociedade civil . . . ", c i t., p. 3 1 6; RT l 5 5/687.
460 Cf. F E RREIRA, Tratado . , cit., p. 1 62 e razões de apelação em RT 1 64/248; GOME S,
..

"Exclusão de sócio ... ", cit., p. 244; RTJ 1 28/886; RJTJSP 1 1 4/34 3 .

1 76
RENATO VENTURA RIBEIRO

com base na legislação anterior (art. 339 do Código Comercial) como


na atual, que expressamente prevê a necessidade de motivo grave
(Código Civil, arts. 1 .030 e 1 .085).

1 .2. CONCEITO DE JUSTA CAUSA


A idéia de justa causa pode ser expressa das mais variadas for­
mas, como falta grave, forte motivo, motivo grave, motivo legítimo,
ato irregular, justo motivo, grave inadimplência, inegável gravidade
etc461 Inúmeros fatos podem caracterizar causa justificada para ex­

clusão de sócio.
Diversas legislações enumeram as hipóteses de exclusão de só­
cio. Exceto em normas específicas462 , o revogado Código Comercial
aludia somente a causa justificada, sem tipificar quais as situações
concretas nem a definição. Com isto, coube à doutrina463 e à juris­
prudência a tarefa de definir e enumerar as hipóteses de justa causa.
A preocupação também consta de projetos de reforma do Código464 •

461 Cf. LUCENA, Das sociedades por quotas... , cit., p. 6 1 6.


462 Cf. Código Comercial, arts. 2 89 e 3 1 7; Decreto 3 . 708/1 9, art. 7º; Decreto-lei 7.66 1 /45,
art. 48 e Lei 6.404/76, art. 1 06, todos, exceto o ú ltimo, revogados.
463 Cf. TEI X E I RA DE FREITAS, Esbôço .. ., cit., artigo 3 .2 2 0; FARIA, Da exclusão de sócios. . .,
cit., pp.25-28; R EALE, "Exclusão de sócio das sociedades comerciais", cit., p. 1 00.
MARTINS, "A exclusão de sócio ... ", cit., p. 1 3 1 , anota que a lei apenas prevê justo
motivo, sem especificar quais são as causas, "deixando a apreciação das mesmas às
partes ou aos pri ncípios gerais de d i reito".
464 O Esbôço de T E I X E I RA DE F R EITAS, no art. 3 .2 1 9 prevê a exclusão pelos outros sócios
em duas h ipóteses: nos casos estabelecidos no contrato social e por j usta causa (art.
3 .058, n. 1 ). No artigo seguinte, o jurista precisa a noção de justa causa:
"Artigo 3 . 2 20 - Haverá justa causa para qualquer dos sócios ser exc l u ído da sociedade
- (art. 3 .2 1 9, n . 2):
1 º -Quando violar alguma das estipu lações do contrato social, como no caso do art.
3.212.
2 º Quando não cumprir alguma d e suas obrigações para com a sociedade (arts.
-

3 . 1 55 a 3 . 1 73), ou para com os sócios (arts. 3 .2 1 7 e 3 . 2 1 8); tenha ou não havido culpa.
3º Quando lhe sobrevier i ncapacidade e não se ter prevenido no cor,itrato social que
-

em tal caso a sociedade continue com o representante do sócio incapaz.


4º Quando decair da confiança dos outros sócios por i nsolva b i l i dade, fuga, ausência
-

para l ugar não sabido, perpetração de crime, má conduta, descrédito, i n im i zade com
qualquer dos sócios, provocação de d iscórdia entre êles, desinte l i gências cont i nuadas,
e outros fatos análogos.

1 77
ExnusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANÓN IMAS

O antigo Código Civil, de aplicação subsidiária às leis comerci­


ais de então465 , tipifica como causa para exclusão de sócio a renúncia
de má-fé, definindo-a como o caso no qual o sócio pretende se apro­
priar exclusivamente dos benefícios que os sócios tinham em mente
colher em comum (cf arts. 1 . 404 e 1 .405).
A justa causa também deve abranger as hipóteses legais de disso­
lução de sociedade, salvo no caso de dissolução por vontade dos sócios.
A exclusão de sócio e a dissolução de sociedade são institutos distintos,
inclusive com diversidade de causas e fundamentos. No entanto, a ori­
gem histórica da exclusão, derivada da dissolução, justifica sua adoção
quando verificados alguns motivos de dissolução, como forma de pre­
servação da sociedade. Ademais, causa motivadora de medida mais
ampla (no caso, a dissolução de sociedade) pode servir de justificativa
para adoção de remédio mais restrito. Muito antes da construção pre­
toriana da dissolução parcial, o Código Comercial alemão ( § 140) per­
mitia ao juiz optar entre a dissolução total da sociedade ou a exclusão
do sócio. A mesma solução é aceita em outros países466 e no Brasil467
como forma de preservação da atividade empresarial pela sociedade.

-
5º Quando exigir a d i ssolução da sociedade por d i reito que a isso tenha, e os outros
sócios q uiserem nela continuar"
Pela abrangência de tratamento, apenas alguns anos após a edição do Código de 1 .850,
o projeto é merecedor dos elogios recebidos de REALE, "A exclusão de sócios... ", c i t.,
p . 46 1 , e REQU IÃO, A preservação da sociedade. . ., cit., p. 1 55 . Até porque nenhum
outro projeto posterior, como os de l nglez de SOUZA, Projecto de Codigo Commercial
1: lntroducção, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1 9 1 5, art. 203; FERREIRA, Código das
sociedades comerciais, e o esboço de Florêncio de ABREU, tratou do tema de forma tão
detalhada. Para uma breve visão dos projetos, cf. REQUIÃO, idem, pp. 1 55-1 5 9 .
465 Cf. o revogado art. 1 2 1 do Código Comercial.
466 Na Itá l i a, por todos, G H I D I N I, Società personali, cit., p. 563. Na França, DUQUESNOY,
La dissolution. . . , cit., p. 302.
467 Cf. Código Comercial, arts. 3 3 5 , 2 , 4 e 5; 3 36, 2 e 3 , revogados; Lei 6.404/76, art. 206.
Na doutrin a, cf. Bento de FARIA, Direito comercial, Rio de Janeiro, 1 948, l i , 1 ª parte, p.
1 86, e MI RAN DA, Tratado . . . , cit., p. 1 26, entendem como justificadores de exclusão
apenas os motivos de d issolução de sociedades com prazo determinado, previstas no
art. 3 3 6 do Código Comercial. Mas a corrente majoritária conclui pela inclusão das
h ipóteses de d issol ução de sociedades com prazo i ndeterminado previstas no art. 3 3 5 ,
como REQU IÃO, A preservação da sociedade . . ., cit., p. 2 0 5 ; LATORRACA, Exclusão
de sócios .. ., cit., pp. 20-2 1 ; LUCENA, Das sociedades por quotas . . . , cit., p. 6 1 O.

1 78
R ENATO VENTURA RIBEIRO

O Código Comercial brasileiro somente tipifica a justa causa


para hipóteses de despedida de tripulação de embarcações (art.
555) . Tais hipóteses são aplicáveis aos sócios por analogia. Mas o
rol é insuficiente, pois trata de relações profissionais, não abran­
gendo motivos justificadores de ruptura de vínculo social. Com a
mesma limitação por cuidar de relação laboral, há os critérios pre­
vistos no artigo 482 da Consolidação das Leis Trabalhistas, apli­
c áveis sub s idiariamente, por força do revogado art. 1 2 1 d a
codifi cação mercantil.
Atualmente, o Código Civil (art. 1 .085) fala em atos de inegá­
vel gravidade, que põem em risco a continuidade da empresa como
causa justificativa para a exclusão de sócio.
Diante da dificuldade de enumeração de todas as hipóteses de
justa causa, devem ser estabelecidos critérios para enquadramento
de situações fáticas em tal conceito. Assim, por justa causa deve-se
entender todo motivo grave e superveniente ao ingresso do sócio
que prejudique ou dificulte o exercício da atividade empresarial,
causado ou não por sua culpa, impedindo a convivência harmonio­
sa em sociedade.
Como a justa causa envolve um motivo grave ou relevante, resta
analisar o que se entende como tal.

1 .3 . Ü CONCEITO DE MOTIVO GRAVE

Como a exclusão de sócio é m edida extrema, deve ser apli­


cada somente em casos graves . As diversas legislações ress al­
tam a idéia de mo tivos graves : o Código Civil italiano fala em
grave inadimplência (art. 2 . 2 8 6 ) , o Código Comercial alemão
menciona infração a obrigações essenciais (§ 1 3 3 ) o Código
Comercial brasileiro cita causa justificada (no revogado art.
3 3 9 ) e o novo Código Civil (art. 1 . 0 8 5 ) atos de inegável gravi­
dade (art. 1 . 0 8 5 ) .

1 79
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÔNIMAS

A noção de gravidade é difícil de ser apurada. O ideal seria a de­


finição pelo legislador468 • Tratando-se de exclusão, como eventual con­
ceito ou elenco de motivos graves tende a ser incompleto, fixou-se apenas
o parâmetro da gravidade, a ser apurado no caso concreto. Mesmo
havendo a fixação de hipóteses de exclusão de sócio em lei, o elenco
deve ser exemplificativo469 , diante da pluralidade de situações.
A necessidade de interpretação do conceito de falta grave não
implica na obrigatoriedade da via judicial para determinação de ex­
clusão de sócio. Os próprios sócios ou órgãos da sociedade podem
verificar, no caso concreto, a gravidade da falta. Até porque, se hou­
ver abuso ou interpretação equivocada da lei, o excluído pode recor­
rer ao Judiciário, para a correta aplicação da lei470 •
Isto posto, cumpre delinear a idéia de falta grave471 A doutrina •

que melhor desenvolveu a idéia de motivo relevante foi a alemã, con­


ceituando-o como qualquer comportamento ou circunstância pesso­
al do sócio excluído que, valorando todas as circunstâncias do caso,
traga impossibilidade ou ponha em perigo a consecução do fim soci­
al ou que de qualquer outra forma torne inadmissível aos demais a
permanência do sócio na sociedade472 •
Infrações da lei473 , do contrato ou do estatuto parecem, em prin­
cípio, motivos graves. Porém, nem toda violação ao contrato ou ao

468 Por todos, cf. as conclusões n. 49 e 3.9, respectivamente do 1 e li Si mpósio sobre a


Reforma da Legislação das Sociedades por Cotas, ambas aprovadas por unanimidade.
Cf. "Si mpósio sôbre a reforma da legislação das sociedades por cotas de responsabi l i ­
dade l imitada", i n ROM 2 ( 1 9 7 1 ) , pp. 99- 1 02, à p. 1 01 , e B U LGARELLI, " l i Simpósio
sobre a reforma da legislação das sociedades por cotas de responsabi l idade l i m itada,
do Rio Grande do Sul", ROM 25 ( 1 977), pp. 1 1 3- 1 1 7, à p. 1 1 6.
469 Cf. COMPARATO, "Exclusão de sócio nas sociedades por cotas ... ", cit., p. 47.
470 Contra, antes da Lei 8.934/94, entendendo que a necessidade de justa causa exige deci­
são judicial, COMPARATO, "Exclusão de sócio nas sociedades por cotas. . . ", cit., p. 47.
471 Sobre o s critérios de valoração de grave i nadimplência, I N NOCENT/, L 'esclusione . , . .

cit., pp. 72-74.


472 Cf. Capítulo 111, 1 .8 acima.
473 No entanto, em razão do princípio da presunção de i nocência (CF, art. 5º, LVI/), não se
pode exc l u i r sócio por prática crimi nosa antes do trânsito em julgado de eventual sen­
tença penal condenatória ( RT 720/1 26).

1 80
R ENATO VENTURA RIBEIRO

estatuto pode ser forte o suficiente para ensejar a expulsão do sócio474 •


Deve ser apurado o grau de gravidade, tendo como critérios o funda­
mento da exclusão de sócios e a finalidade que se pretende com ela
atingir475 , a conveniência para a sociedade e o potencial danoso às ati­
vidades da sociedade476 • A gravidade deve sempre estar relacionada ao
objeto da sociedade477 ou a atos ou situações ensejadores da perda de
confiança em determinado sócio478 • Em outras palavras, falta grave é o
ato do sócio que, se conhecido antes da constituição da sociedade ou
de seu ingresso nela, inibiria os demais de participarem da sociedade.
Podendo a infração comprometer a atividade da sociedade, deve
o sócio ser excluído. Não se requer dano efetivo à sociedade, mas
somente a possibilidade de que tal venha a ocorrer479 • Por isto, qual-

474 A analogia com a Lei de Locação é válida. O art. 7 1 , li da Lei 8 . 2 45/91 exige, como
condição para a renovação judicial do contrato, "prova do exato cumpri mento do
contrato em cu rso" (grifo nosso). Em tese, qualquer descumprimento do contratual é
fato i m peditivo da procedência da ação da renovatória, pois, segundo a mens legis, só
deve ter d i reito à renovação compu lsória o locatário cumpridor de seus deveres. Mas,
a ju risprudência i nterpreta de forma d iversa, d i stingui ndo dois tipos de violação
contratua l : as faltas leves, que não prejudicam o locador e, portanto, não i mpedem a
renovação e as faltas graves, que, por afetarem o locador, são impeditivas da renova­
ção. O critério pretoriano para a decisão de permanência ou não do locatário no i mó­
vel deve ser também aplicado à permanência do sócio na sociedade, somente gerando
a exclusão os graves descumprimentos contratuais ou estatutários.
475 Cf. N U N ES, O direito de exclusão... , cit., p. 1 70; VILLAVERDE, La exclusión... , cit., p. 1 06.
476 Cf. SIMON ETTO, " l n tema d i esclusione ... ", cit., p. 50. I N NOCENTI, L 'esclusione ... ,
cit., pp. 86-87, sugere a apl icação dos critérios da relatividade e objetividade. Levan­
do-se em consideração o escopo da sociedade, considera grave i nadimplência aquela
que afeta o fim social.
477 Segundo N U N ES, O direito de exclusão... , cit., p p . 1 70-1 7 1 , " ... a gravidade não deve
ligar-se a qualquer ju ízo de reprovação moral ou jurídica, mas deve antes defi n i r-se ten­
do em atenção o objeto da sociedade e a posição dos sócios no seio desta, a necessidade
de cada um colaborar, de uma forma ou de outra, na rea l ização do escopo comum. Para
fi ns de exclusão de sócios, nem todos os i nadimplementos serão relevantes, mesmo que
tragam prejuízo à sociedade. É necessário que o i nadimplemento seja de tal importância,
em relação aos fins sociais, que perturbe sensivelmente a economia do contrato, rom­
pendo a relação sinalagmática entre a contribuiçã o dos sócios e o escopo comum".
.
418 Cf. LEITÃ O, Pressupostos da exclusão.. ., cit., pp. 56-58.
479 Neste sentido, decisão da Corte de Cassação ita l i ana em 1 3 . 8. 1 960, Riv. Soe. 7 (1 962),
p. 1 .062 (= Dir. fall., 1 960, li, p. 848), no caso de u m sócio de sociedade em nome
coletivo que assumiu diversas obrigações em nome da sociedade sem ter poderes.
Mesmo a sociedade não tendo sofrido nenhum prej uízo material, a gravidade da falta
j ustifica a exclusão.

1 81
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAS

quer falta de aporte motiva a exclusão. Mesmo sendo valor mínimo


face ao capital social, a não expulsão do inadimplente representa es­
tímulo ao comportamento moroso dos demais.
A doutrina e a jurisprudência edificam o conceito de justa causa
para exclusão de sócio. No entanto, não justifica a exclusão de sócio o
pedido judicial de exibição de livros contábeis, para apurar eventuais
irregularidades administrativas e desvio de poder480 ; a não concordân­
cia com alteração contratual, por discordância da deliberação481 ; nem a
denúncia de irregularidades, comprovadamente verídicas, mesmo pro­
vocando eventual descrédito da sociedade junto a terceiros482 •
No caso de companhias abertas, um dos parâmetros para apura­
ção de justo motivo para exclusão de acionista é o conceito de ato ou
fato relevante, consistente em situação ocorrida nos negócios sociais
capaz de influir de modo ponderável na cotação dos valores mobiliá­
rios da sociedade, na decisão dos investidores de negociá-los ou de
exercerem quaisquer direitos inerentes à condição de titular de valo­
res mobiliários emitidos pela companhia483 • Se a conduta ou situa­
ção do sócio no caso concreto gerar tais reflexos, com prejuízo à
eficiência da empresa, pode-se entender como caracterizada a justa
causa, sem prejuízo dos demais motivos.
Qyanto à conveniência da exclusão, deve ser verificado se é mais
prejudicial a saída do excluído ou o ato por ele praticado.
Por fim, sempre há a possibilidade de recurso ao Judiciário, não
só para verificação da legalidade procedimental, como do mérito, com
a apreciação da gravidade da causa e necessidade da exclusão, inclu­
indo-se também a coibição de eventuais abusos pela maioria e a apu-

480 Cf. RT} 1 28/886, à p. 887 (=RT 640/229), determi n ando a produção de prova perici a l
para verificação ou n ã o d e justa causa.
481 RT 599/85.
482 RT 626/8 1 , relativo a sociedade civil .
483 Cf. art. 2º da I nstrução CVM n. 358, de 3 . 1 .2002.

1 82
RENATO VENTURA RIBEIRO

ração do justo valor da participação do sócio excluído (c( item 9


abaixo) .

2. PREVISÃO LEGAL OU ESTATUTÁRIA

2 . 1 . POSSIBILIDADE DE FIXAÇÃO DE HIPÓTESES E


PROCEDIMENTOS DE EXCLUSÃO NO CONTRATO OU ESTATUTO
SOCIAL

Além das hipóteses legais de exclusão, podem ser convenciona­


dos outros casos no contrato ou no estatuto social484 , dada a autono­
mia da vontade das partes. A falta de previsão legal não significa a
vedação da exclusão de sócio pelo legislador485 • O Código Comerci­
al Brasileiro, no revogado artigo 29 1, reconhecia a possibilidade do
contrato ou estatuto social estipularem novos casos de exclusão. Con­
jugando tal dispositivo com o então artigo 339, que exige causa jus­
tificada, concluía-se que a convenção da sociedade só deve permitir
novos casos de exclusão motivados, com justa causa486 •

O ideal seria a previsão em lei de todos os casos de exclusão.


Dada a dificuldade de enumeração de todas as hipóteses ensejadoras
da exclusão487 , devem as legislações estabelecer critérios delineado­
res da idéia de suas causas justificadoras. A melhor técnica legislativa
indica um sistema misto, com o elenco dos casos mais comuns, de

484 Por todos, cf. VIVANTE, Trattato ... , cit., pp. 396, 397 e 466; ASCARELLI, Appunti .. , cit.,.

p. 205; AULETTA, ""Derogue contrattual i alia d isci p l i na del l'esclusione nel le società di
persone", i n Annali dei Seminario Ciuridico dell'Università di Catania l i ( 1 948), p. 1 44
e ss., e " l i diritto assoluto . . . ", cit., pp. 669-683; G RAZIANI, Diritto dei/e società, cit., p.
68; G H I D I N I , Società personali, cit., pp. 562-563; BOLAFF I , La società semplice . . . , cit.,
p. 4 7 1 . No Brasil, entre outros, MENDONÇA, Tratado .. , c i t., p. 1 49 .
.

485 Cf. GONÇALVES, Comentários ... , cit., p. 296.


486 Ou, no d izer de DUQUESNOY, La dissolutíon .. , cit., p. 2 68, motivo justo, mas não
.

i nj usto.
487 Como j á observado por V I L LAVERDE, La exc!usión . . , cit., p. 1 04: "Creo que, aparte de
.

l levar a u n p lanteamiento exageradamente casu ístico y , por lo tanto, com gran pel igro
de d ispersión, la vida es más rica que la previsión dei pensamiento y siempre habría el
temor razonable de un estudio i ncompleto".

1 83
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

forma exemplific ativa, e regras gerais (como o inadimplemento gra­


ve de deveres sociais ou graves prejuízos à sociedade), como o adota­
do no art. 218, 7°, do Código Comercial espanhol de 1 . 865, no art.
2.286 do Código Civil italiano ou do art. 1 . 085 do novo Código
Civil brasileiro.
A previsão contratual ou estatutária também evita a alegação de
arbitrariedade, pois todos os sócios aderem livremente às regras soci­
etárias488 , além de facilitar eventual controle judicial489 .
Pode ser também modificado, por via convencional, o procedi­
mento de exclusão previsto em lei, quer para torná-lo mais comple­
xo, quer para simplificá-lo490 , desde que não viole normas de ordem
pública.

2 . 2 . VALIDADE DAS CONDIÇÕES ESTABELECIDAS EXTRA­


ESTATUTARIAMENTE

Nas companhias, cabe discutir a validade de hipóteses de exclu­


são previstas fora do estatuto social491 • A forma apropriada para esta­
belecimento de condições de venda de participação social e exclusão
de sócios é o acordo de acionistas, com observância das disposições
do art. 1 1 8 da lei brasileira do anonimato.
Como o acordo de acionistas versa sobre compra e venda de
ações e preferência para adquiri-las, a exclusão de sócio, como venda
coativa de participação societária, está englobada nas matérias que
podem ser objeto da avença.

488 Como observa MONTEI RO, in Sociedade de advogados ... , cit., p. 203, grifos do origi­
nal: "Al iás, dentro desse ponto de vista, como fonte de obrigações, o contrato é até
mais v igoroso do que a lei, visto como é ele aceito pelos contraentes, ao passo que a
lei é imposta, não há como fugi r ao seu comando".
489 LÉGAL e B R ET H E D E LA G RESSAYE, Le pouvoir disciplinaire. , cit., p. 76.
..

490 Cf. FERRI, Trattato ... , cit., p. 234.


491 Para breve resenha da questão no d i reito francês, cf. GODON, Les obligations . , cit.,
. .

pp. 2 39-240.

1 84
R ENATO VENTURA RIBEIRO

No entanto, em razão da liberdade de convenções, devem ser


admitidos acordos parassociais, mesmo não formalizados492 •

2 . 3 . NÃO TAXATIVIDADE DAS H I PÓTESES LEGAIS E ESTATUTÁRIAS

Apesar da tipificação legal e também contratual ou estatutária


das hipóteses de exclusão de sócio, os casos previstos expressamente
não devem ser tidos como taxativos e sim como elenco exemplifica­
tivo, mesmo na ausência de cláusula geral sobre inadimplemento dos
deveres sociais.
Neste sentido, deve ser considerada implícita em todo pacto so­
cial, contratual ou estatutário, uma cláusula de exclusão de sócio por
motivo grave, considerando-se como tal aquele que reduza a eficiên­
cia ou coloque em risco a continuidade da atividade empresarial (cf.
n. 2.4 abaixo).
Para atender a própria finalidade do instituto de conservação da
sociedade e o melhor exercício da atividade social, a enumeração le­
gal e contratual deve ser tida como exemplificativa493 . São os funda­
mentos do instituto que autorizam a sua aplicação, mesmo em
hipóteses não expressamente previstas em lei ou no estatuto social,
havendo falta grave ou violação da boa-fé. Até porque a possibilida­
de de discussão judicial afasta eventuais tentativas de arbitrariedade
na exclusão de sócios.
Além disto, não se pode confundir norma taxativa com cogente.
A idéia de taxatividade da norma indica apenas a vedação de ampli­
ação do elenco por analogia, mas não implica proibição de inclusão,
por via convencional, de novas hipóteses. Se os sócios podem prever
hipóteses mais graves, como casos de dissolução, podem também
convencionar motivos de exclusão, não só menos graves como obje-

492 Cf. PI NTO JR., "Excl usão de acion ista", cit., p. 87.
493 Por todos, cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p. 1 30; N U N ES, O direito de exclu­
.

são . . , cit., p. 59 e 2 6 5 e ss.


.

1 85
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS

tivando evitar a dissolução. Somente a regra cogente não pode ser


objeto de acréscimo por estipulação contratual494 • De outro lado,
quando a lei estipula norma genérica, como grave inadimplemento,
pode ser fixado contratualmente elenco exemplificativo495 •
A maior resistência a tal ponto de vista encontra-se entre os
defensores da teoria da disciplina legal taxativa, já superada como
analisado acima.
No Brasil, a doutrina mais antiga entende pela taxatividade das
hipóteses previstas na lei ou no contrato496 • Posteriormente, passou-se a
admitir a exclusão de sócio na ausência de previsão contratual, através da
conjugação do princípio da resolução contratual por inadimplemento
(Código Civil revogado, arts. 1 19 e 1 .092) e a necessidade de justa causa
(Código Comercial, art. 339, revogado), além da possibilidade de altera­
ção contratual pela maioria (Dec. 3.708/19, art. 15, revogado)497 , tanto
na doutrina498 como na jurisprudência, influenciando as normas do Re­
gistro de Comércio, que também passaram a prever expressamente tal
possibilidade (sobre tal histórico, cf. Cap. II, 4.6 acima).
Por isto, mesmo na ausência de expressa previsão legal ou conven­
cional, havendo fatos graves e supervenientes justificadores da exclusão
de sócio, deve ser possível a exclusão de sócio, para melhor exercício da
atividade empresarial, como também será visto no item seguinte.

494 Sobre a d i sti nção entre norma taxativa e cogente, BOLAFFI, La società semplice . . , cit.,
.

pp. 63 1 -63 2, apoiado por B R U N ETTI, Tratatto ... , cit., p. 403, o ú ltimo revendo opinião
anteriormente exposta.
495 Cf. BOLAFFI, La società semplice. . . , cit., p. 632.
496 Cf. MEN DONÇA, Tratado ... , cit., p. 1 49, FARIA, Da exclusão de sócios, cit., p. 26, com
posição revista posteriormente; REALE, "A exc lusão de sócios. . . ", cit., pp. 4 6 1 -462;
M I RAN DA, Tratado . . , cit., p. 1 26; RT 1 64/248, 545/230. Contra, BARBOSA, in FARIA,
.

idem, p. 4 1 .
497 Contra, R EALE, "A exclusão de sócios ... ", cit., p. 279.
498 Cf. T E I X E IRA, Das sociedades por quotas.. ., cit., pp. 2 74-5; GOMES, "Exclusão de só­
cio ... ", cit., pp. 244-5. MARTINS, "A exclusão de sócio . . . ", cit., p. 1 3 5 , acrescenta que,
como a c láusu la de exclusão não é obrigatória, por não estar prevista no art. 302 do
Código Comercial, não há necessidade de previsão contratua l .

1 86
RENATO VENTURA RIBEIRO

2 .4. POSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO NA FALTA DE PREVISÃO LEGAL


OU CONVENCIONAL

É ainda controversa a existência de cláusula implícita de exclu­


são nos atos constitutivos das sociedades. Para alguns autores499 , o
direito de exclusão decorre do próprio contrato de sociedade, desde
que haja justa causa. E, apesar da condição tácita, há a previsão ex­
pressa de cláusulas de exclusão, não só para explicitar a vontade das
partes, mas, sobretudo, para possibilitar a exclusão extrajudicial.
A questão é polêmica, tanto no direito comparado quanto no
brasileiro.
Decisão do Tribunal Federal Alemão entendeu como ficção a exis­
tência de acordo tácito. Argumenta que se as partes não previram ex­
pressamente, é porque assim não desejavam. Mas o julgado não encontra
total apoio na doutrina500 • A falta de previsão no contrato ou no esta­
tuto social não implica, necessariamente, na não aceitação, pelos sóci­
os, de cláusula de exclusão. Pelo contrato, havendo silêncio a respeito,
pode-se concluir que os sócios possivelmente incluiriam tal cláusula se
tivessem discutido ou previsto a hipótese501 Até porque estando em •

risco a própria sociedade e a empresa, os sócios devem tomar medidas,


como a exclusão de sócio prejudicial, para alcance da finalidade co­
mum. Se a medida for tomada através de via judicial, o magistrad�
pode-se valer da técnica da integração contratual, inserindo no pacto
social disposição disciplinadora da exclusão de sócio502 •

499 Cf. MOSSA, "L'esclusione ... ", cit., p. 640; DALMARTELLO, L 'esclusione... , cit., p. 1 28;
H U ECK, "Esclusione di un sacio ... ", cit., p. 225 e ss.; NU NES, O direito de exclusão... , cit.,
pp. 5 1 -5 3 , 56 e ss., em especial p. 59, 89, 267 e ss., 2 77; SPITZE, Der AusschluB ... , cit., pp.
30-33; AGUILA-REAL, "Conflictos intrasocietarios (Los justos motivos como causa legal no
escrita de exclusión y separación de un sacio en la sociedad de responsabilidad limitada)",
Revista de Derecho Mercantil ( 1 996), pp. 1 .079-1 . 1 4 1 , e "La exclusión . . . ", cit., pp. 894-
900 e, entre nós, pelos autores e decisões referidos nas notas ns. 2 70 e 2 7 1 acima.
500 Por todos, cf. SPITZE, Der AusschluB ... , cit., pp. 30-33 .
501 G:f. N U N ES, O direito de exclusão . . , cit., p p . 5 6-59, e m especi a l p. 5 9 .
.

502 Daí a conclusão de N U NES, O direito de exclusão . . . , cit., p. 5 9 : " . . . a exclusão do sócio
j ustamente i ntolerável pode sempre considerar-se como a efectivação de uma cláusula

1 87 ,
EXCLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS

Na Itália, a Suprema Corte já entendeu pela taxatividade das hi­


póteses legais e contratuais, mas também com críticas da doutrina503 .
No direito português, na vigência da lei anterior, o Supremo
Tribunal de Justiça proferiu decisões contraditórias. Em 1983, en­
tendeu anulável a deliberação de exclusão pela falta de previsão con­
tratual504 , para admiti-la dois anos após, se fundada em justa causa505 .
Na Suíça, demonstrada a justa causa, o Código das Obrigações,
no art. 685, admite a exclusão, mediante procedimento judicial, mes­
mo não havendo previsão contratual ou até quando o contrato proíba
a exclusão de sócio.
Na Espanha, a orientação predominante é pela exclusão extra­
judicial de sócio na falta de previsão legal ou contratual, desde que
haja j usta causa506 .
No Brasil, defendia-se a cláusula implícita com base na idéia de
condição resolutiva tácita e do princípio da exceção de contrato não
cumprido507 . Posteriormente, a lei de registro empresarial permitiu a
exclusão extrajudicial, mediante deliberação pela maioria, devidamen­
te justificada, mesmo na ausência de cláusula expressa de exclusão
(Lei 8.934/94, art. 35, VI).

do pacto: cláusula que os sócios expressamente fixaram; ou com que tàcitamente con­
cordaram; ou que provàvelmente teriam estipulado se tivessem pensado n a hipótese;
ou que deveria ter sido aceita, de acordo com a mais razoável i nterpretação dos inte­
resses em jogo feita agora, dentro dos cânones da boa fé contratual".
503 Decisão de 2 3 .6.45, F/ ( 1 944-46), 1 , e . 1 3 . Contra, A U LETTA, "Deferi mento ad arbitri
d e l l e controversie s u l l'esclusione dei so e i , RTDPC 4 ( 1 950), pp. 1 . 1 05 - 1 . 1 1 2, à p.
"

1 . 1 06.
504 BM} 3 2 8/5 9 3 .
505 BM} 348/44 1 .
506 Cf. autores e obras citados por VILLAVERDE, La exclusión .. ., cit., p. 2 1 9, nota n. 327;
SASTRE, " Exclusión de u n accion ista ... ", cit., p. 489 e AG U I LA-REAL, "Confl i ctos
intrasocietarios (Los justos motivos como causa legal no escrita de exclusión y separación
de u n sacio en la sociedad de responsabilidad limitada)", Revista de Derccho Mercan­
til (1 996), pp. 1 .079-1 . 1 4 1 .
507 Com base, respectivamente, nos arts. 1 1 9 e seu parágrafo único e 1 .092 do Código
Civil de 1 9 1 6, correspondentes aos arts. 1 2 6, 474 e 476 do di ploma atu a l . Para maiores
detalhes, cf. Cap. li, 4.6 acima.

1 88
R ENATO VENTURA RIBEIRO

O novo Código Civil dissente de tal orientação. Exige exclusão


de sócio por via judicial nas sociedades simples, expressando os mo­
tivos autorizadores da expulsão (falta grave no cumprimento de obri­
gações ou incapacidade superveniente). Nas sociedades limitadas,
permite a exclusão extrajudicial somente quando há previsão contra­
tual (art. 1.085).
Antes do novo Código Civil, parte da doutrina e jurisprudência
admitia a possibilidade de exclusão de sócio sem previsão legal ou
convencional apenas mediante decisão judicial508 • A princípio, tal
postura representa garantia ao sócio. Porém, traz enorme prejuízo à
sotiedade e atenta contra os próprios fundamentos da exclusão de
sócio, que objetiva melhor exploração empresarial. Condicioná-la à
decisão judicial, mesmo em hipóteses não previstas na lei ou no esta­
tuto, significa gerar situação de enorme incerteza por longo período
de tempo, dada a morosidade da tramitação processual, acarretando
prejuízos à própria atividade social5°9 • O interesse público na manu­
tenção da atividade social deve prevalecer sobre o interesse privado
do sócio. Daí a possibilidade de exclusão extrajudicial na ausência de
previsão legal ou convencional. Isto, sem prejuízo ao excluído, pois
caso se julgue prejudicado, pode recorrer ao Judiciário, tanto para sua
reintegração, como para eventual indenização por perdas e danos.
Mas, para não prejudicar a atividade social, a intervenção judicial
deve ser feita a posteriori.

508 Cf., entre outros, REQUI ÃO, A preservação da sociedade ... , c i t . , p. 206, COMPARATO,
"Sociedade por quotas . . . ", cit., pp. 3 3-39 e CRISTIANO, Sociedade limitada . ., cit., pp.
.

1 88-1 89. Na jurisprudência, o STF entendeu como absurdo os sócios, mesmo por justa
causa, dec i d i rem quando existe ou não causa e se ela é ou não j ustificação para exc lu­
são de membro, acrescentando que "a n i nguém é dado fazer justiça pelas próprias
mãos" (RT} 1 1 8/400, à p. 402; também publ icado em RT6 1 l /2 74 ) . Também do Excelso
Pretório no mesmo sentido, mas determinando reali zação de prova pericial para apu­
ração ou não de justa causa, decisão publ icada em RTJ 1 2 8/886 (=RT 640/242) Porém,
não adm iti ndo a exc lusão sem previsão legal ou contratual, RT 545/230.
509 Nem a possi bil idade de concessão de tutela antecipada para afastamento i mediato do
sócio, prevista no art. 273 do Código de Processo Civil, e l i m i na a possibilidade de
i ncertezas e de prej u ízos à atividade social.

1 89
ExcLusÃo DE Sócios NAS SornDADEs ANÓNIMAS

Outro problema delicado é a possibilidade da maioria alterar o


ato constitutivo, para inclusão de novas hipóteses de exclusão de só­
cio. Tais alterações são questionáveis, caso afetem sócios que ingres­
saram com as regras anteriores510 • Nas sociedades contratuais de
pessoas pode-se defender a necessidade da concordância unânime
dos sócios, com base no princípio da imutabilidade das convenções5 1 1 •
Nas sociedades por quotas de responsabilidade limitada, há a possi­
bilidade de direito de retirada, para proteger o sócio da alteração con­
tratual pela maioria. Mas o direito de retirada não é remédio eficaz,
no caso do sócio desejar continuar a fazer parte da sociedade.
Nas sociedades anônimas, prevalece o princípio majoritário, sem
a possibilidade de recesso pelo dissidente. No último caso, a adesão à
companhia implica aceitação do princípio majoritário, com a possí­
vel alteração estatutária pela maioria. Para proteção do acionista, tem­
se a fixação de quórum qualificado, permitindo bloqueio de minoria,
a estipulação de uma espécie de "cláusula pétrea" proibindo certas
modificações no estatuto ou, no caso de introdução de novas regras,
a sua aplicação somente para acionistas novos ou aqueles que com
elas concordarem. Por fim, resta o recurso ao Judiciário, caso haja
mudança estatutária com eventual abuso de maioria.

2 . 5 . A LICITUDE DE CLÁUSULA PROIBITIVA DE EXCLUSÃO NAS


HIPÓTESES LEGAIS

Discute-se a possibilidade dos sócios, no contrato ou estatuto


social, poderem res_tringir os casos legais de exclusão.

51O Sobre o problema, cf. CAI LLAU D, L 'exclusión . . , cit., pp. 30-33, 36 e 2 50-2 5 1 . Nas soci­
.

edades contratuais, o autor defende a necessidade da concordância unânime dos sócios,


entendendo que a i nserção de nova cláusul a no curso da vida social para apl icação
imediata equivale a uma exclusão sem previsão anterior (idem, p. 36). No entanto, nas
sociedades por quotas de responsabi l idade limitada e nas anôni m as, em razão do princí­
pio majoritário para del iberações, admite a modificação estatutária pela maioria, éom
imediata aplicação, salvo hipótese de abuso de d i reito (idem, pp. 2 5 0-2 5 1 ).
511 Cf. CAI L LAU D, L 'exclusión . . , cit., p. 36.
.

1 90
RENATO VENTURA RIBEIRO

Parcela da doutrina, entendendo que o contrato de sociedade aten­


de predominantemente interesses privados, apóia a restrição conven­
cional das hipóteses legais de exclusão de sócio, em razão da autonomia
contratual512 • A cláusula restritiva das hipóteses legais somente não
seria permitida se houver expressa proibição legal513 ou violar normas
de ordem pública, como a exclusão pela falência de sócios, nas quais
estão protegidos direitos de terceiros, como credores514 •
A exclusão de sócios visa não só a proteção de interesse privado,
como de público na melhor exploração da atividade empresarial, com
repercussões na geração de empregos, pagamentos de impostos, de­
senvolvimento econômico, entre outros. Em matéria de sociedades
anônimas, o interesse social fi c a mais patente, por decorrer da dispo­
sição legal do parágrafo único do art. 1 16 da Lei 6.404/76.
Em razão da proteção de interesses públicos, as hipóteses legais de
exclusão são normas cogentes e, portanto, não derrogáveis por disposição
dos sócios515 • Somente devem ser tidas como normas dispositivas se assim
expressamente previstas em lei. Bastante exemplificativa a norma do art.
685 do Código das Obrigações suíço, prevendo a exclusão do sócio por
justa causa, mesmo havendo cláusula em contrário no contrato social.
Assim, restrições a hipóteses legais de exclusão só podem ser esti­
puladas no caso de não serem vedadas por lei516 •

512 Cf. VIVANTE, Trattato . . . , cit., p. 468. Para G H I D I N I, Società personali, cit., pp. 5 62-
5 64, pode até ser vedada a exclusão (p. 5 63), mesmo n a h i pótese de falta de
i n tegral i z ação (p. 564). No d i reito espanhol a posição é defendida por J I M É N EZ,
"Separación y exclusión de sacias", in Comentarias a la ley de sociedades de
responsabilidad limitada, ARROYO & EMB I D (Coords.), Madrid, Tecnos, 1 997, pp. 943-
1 00 1 , à p. 976.
513 Cf. L U CENA, Das sociedades por quotas .. , cit., p. 6 2 1 . FREITAS, no Esboço de Código
.

Civil, afastava a possibil idade de restrição dos casos de exclusão: "Art. 3.058 Proíbe­
-

se outrossim estipular, qualquer que seja a espécie de sociedade: 1 º Que qualquer


-

dos sócios não possa renu nciá-la, ou ser excl u ído, havendo para isso justa causa".
514 A respeito, cf. Parte I l i , Cap. 1 , 3 . 5 , abaixo.
515 Para CAI L LA U D, L 'exclusión . . . , cit., p . 66, a exclusão de pleno d i reito não é norma de
ordem pública, podendo ser derrogada por disposição estatutária.
516 Cf. LUCENA, Das sociedades por quotas... , cit., p. 62 1 .

1 91
ExctusÃo DE Sócios NAS SomDADES ANÓN IMAS

2.6. A LICITUDE DA DELIBERAÇÃO DE NÃO EXCLUSÃO DE


SÓCIO MESMO DIANTE DE CAUSA JUSTIFICADA

Em caso concreto, pode a maioria deliberar pela não exclusão


do sócio, mesmo diante da comprovação de hipótese legal ou con­
vencional. Isto porque a decisão dos sócios deve ser baseada não só
na causa gerada pelo sócio a ser excluído, como também na conveni­
ência para a sociedade.
Parcela da doutrina defende o direito do dissidente da delibera­
ção de não exclusão de sócio, mesmo com causa justificada, recorrer
à via judicial para revisão da decisão517 • Apesar da tipificação legal ou
contratual, a análise da conveniência ou não da exclusão de sócio
cabe aos sócios e não ao Judiciário. Trata-se de decisão econômica e
não jurídica. E, para tanto, são os sócios mais legitimados e capacita­
dos. Até porque são os diretamente alcançados pela opção.
A discussão sobre a conveniência da exclusão de sócio está atre­
lada aos fundamentos do instituto. A exclusão objetiva a melhor ex­
ploração da atividade, ou seja, evitar prejuízo ao exercício da empresa
em decorrência da presença de determinado sócio. Contudo, por ve­
zes, a expulsão de sócio pode ser mais prejudicial à sociedade do que
a sua permanência. É o caso do sócio com grande relacionamento
com clientes, fornecedores, estabelecimentos de crédito. Também
aquele único possuidor de determinada para auxílio da sociedade,
como conhecimentos técnicos específicos ou habilitado a preenchi­
mento de requisitos para concessão de fiança ou aval à sociedade. Há
também o caso de sócio com expressiva participação societária, cuja
exclusão e o conseqüente pagamento dos haveres pode provocar subs­
tancial perda de capital. Caso os demais sócios não tenham condi­
ções de ampliar sua participação no capital social, ou não se consiga

517 Cf. CANIZARES, Las sociedades de resposabilidad limitada en e/ nuovo derecho espafiol,
Madrid, 1 954, pp. 340-3 4 1 .

1 92
RENATO VENTURA RIBEIRO

o ingresso de novos sócios, a redução patrimonial pode acarretar sé­


rios prejuízos à atividade.
Apesar da exclusão de sócio objetivar a preservação da atividade
empresarial da sociedade, em certos casos a medida pode causar gra­
ves e irreparáveis danos à própria atividade que se pretende defender.
Daí a importância da análise da conveniência da medida pelos de­
mais sócios justificando, inclusive, a não adoção da medida mesmo
diante de causa justificada tipificada no contrato ou na lei.
Havendo a deliberação pela não exclusão de sócio, mesmo dian­
te de causa justificada, em sociedades limitadas deve caber direito de
retirada aos dissidentes518 • Já em sociedades anônimas, o direito de
recesso em tal caso só é cabível quando expressamente previsto na lei
ou no estatuto. Com a agravante da rediscussão sobre se o ato do
sócio cuja exclusão estava em deliberação caracteriza ou não causa
justificada. E na assembléia para ratificar ou não a decisão geradora
da dissidência, a análise da conveniência também consiste em verifi­
car o menor prejuízo à sociedade: se a expulsão ou não do sócio cuja
exclusão se discute ou a saída dos dissidentes.

2 . 7. A VALIDADE DA PREVI SÃO ESTATUTÁRIA DE EXCLUSÃO SEM


JUSTA CAUSA

A exclusão fundamenta-se na proteção da atividade empresarial


e não na vontade privada dos sócios, razão pela qual só pode ocorrer
quando fundada em justa causa, impeditiva ou prejudicial ao bom

518 A lei anterior garantia o di reito de retirada em razão de voto vencido (Dec. 3 . 708/1 9, art.
1 5). O atual Código Civi l garante o direito de retirada no caso de deliberação de exclusão
de sócio, em razão da modificação do contrato (Cód igo Civil, art. 1 .077). Por isonomia,
também deve haver o d i reito de retirada no caso de decisão pela não expulsão. A decisão
de não exclusão pode ser considerada justa causa para fins de exercício de d i reito de
retirada, condição para saída nas sociedades simples (Código Civil, art. 1 .029). Além disto,
a manutenção do sócio pode ser equiparada à modificação do contrato social, que é uma
das causas do direito de retirada. Porém, não deve haver d i reito de retirada quando o
dissidente é o sócio que requereu o pedido de exclusão de outro membro, para evitar que
um sócio desprovido do direito de retirada crie condições para que possa adquiri-lo.

1 93
ExnusÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÓN IMAS

funcionamento da empresa. Ou seja, não é possível a exclusão sem mo­


tivos (ad nutum), sendo nula cláusula com tal previsão519 • A liberdade
contratual esbarra na disposição legal de exigência de justa causa (Códi­
go Civil, art. 1.085), para evitar arbítrio e abuso de poder da maioria520 .
Mas o problema requer exame mais acurado, pois, às vezes, a
justa causa está implícita. Como exceção à regra geral deve-se per­
mitir a determinado sócio escolher sobre a manutenção ou não de
outros sócios na sociedade. Tal exceção exige o cumprimento de dois
requisitos. Primeiro, que a escolha caiba a um ou a alguns sócios
apenas e não à maioria. Segundo, a exceção deve ser permitida nos
casos em que se pode entender que a presença do sócio na sociedade é
condicionada. Logo, sua exclusão decorre de cláusula resolutiva, ou
seja, não deixa de haver causa. Como casos de participação social con­
dicionada temos o de trabalhadores em razão da atividade que desen­
volvem, de parentes em empresas familiares e de financiadores que
desejam uma garantia maior ou participação em lucros521 • Há outros
casos de sócios em razão de determinada condição, como técnicos, pro­
prietários arrendadores de imóvel à sociedade, fabricante concedente
de exclusividade de venda522 • Nestes casos também, o fim da relação
que deu origem à entrada do sócio justifica a sua exclusão.

519 Contra a exclusão ad nutum, CAILLAUD, L 'exclusion . . . , cit., p . 2 5 5 e G R U N EWAL D,


Der Ausschlul5. .. , cit., pp. 236-239. A favor, L EPAR G N E U R, " L'exclusion . . . ", cit., pp.
263-2 64; decisão da Corte de Cassação italiana de 2 9 .6.30, FI, 1 930, nn. 4 1 9-42 1 .
A U LETTA, " l i d i ritto assoluto . . . ", cit., p. 682, parece ter posição i ntermediária, admitin­
do a exclusão de sócio por qualquer motivo, desde que previsto no contrato, mesmo
não havendo justa causa: " . . . perche il d iritto nasca anche da eventi, da cui deriva u n
i nteresse extrasociale del la maggioranza dei soei a l l a esclusione, e necessario c h e detti
eventi siano determinati nominatim nel contratto".
520 Para VIVANTE, Tratado . . , c i t . , p. 466, a inclusão de cláusu la contratual d e exclusão de
.

sócio sem fundamento ofende a ordem pública, ao deixar a facu l dade de exclusão ao
arbítrio de alguns sócios, sendo também incompatível com a própria existência do
contrato.
521 O s exemplos são d e AGU I LA-REAL, "La exclusión . . . ", cit., p. 907 e nota n . 3, q ue,
apesar de entender como nulas as cláusulas de exclusão ad nutum, admite tais exce­
ções, quando a presença do sócio é condicionada.
522 Cf. CANIZARES, L a s sociedades . , cit., p. 3 4 1 .
. .

1 94
RENATO VENTURA RI BEIRO

Mesmo caracterizando direito potestativo de um ou de alguns


sócios, tais cláusulas são válidas .
A origem das duas espécies de condições potestativas aparece
no direito francês para explicar aparente contradição entre os artigos
1 . 1 70 e 1 . 1 74 do Código Civil napoleônico. O primeiro define con­
dição potestativa, indicando uma possível licitude. O segundo diz ser
nula a obrigação com cláusula potestativa. A doutrina francesa expli­
ca a discrepância pela existência de duas espécies de condições potes­
tativas. O art. 1 . 1 70 refere-se às condições que também dependem
de evento alheio à vontade do contratante e por isso são válidas. Já o
art. 1 . 1 7 4 trata das condições puramente potestativas ou de mero
capricho que, por sujeitarem o ato apenas à vontade de uma das par­
tes, são nulas.
A dualidade de condições potestativas foi incorporada pela dou­
trina brasileira, ao aceitar dois tipos de condições potestativas: as con­
dições puramente potestativas ou de mero capricho, vedadas pela lei,
e as simplesmente potestativas, não abrangidas na proibição legal
como, por exemplo, a opção de compra de ações e o direito de reces­
so. Cuida-se de saber, portanto, em que tipo se enquadra a estipula­
ção da exclusão de sócio pela vontade dos demais, para saber se ela é
ou não potestativa.
A análise deve ser feita no caso concreto. Parte da doutrina mais
antiga entende pela não potestatividade523 • A opinião deve ser rela-

523 Bem exemplificativa é a posição d e TEIXEIRA DE F R E ITAS, a o prever tal possibi l idade
no Esboço de Código Civil, no art. 3 .2 1 9, § 1º "quando no contrato soc ial se tiver
estipu lado a exclusão a arbítrio dos outros sócios, ou de algum deles, nos casos previs­
tos". A justificativa para tal posição é bem si ntetizada por RODRIGU ES, Sociedade de
advogados. . . , cit., p. 243 : "não constitui uma cláusula puramente potestativa daquelas
defesas em lei. Isso porque uma série considerável de fatores deve interferir na forma­
ção do convenci mento da maioria, tais, por exemplo, a conveniência para a sociedade
de manter tal sócio em face da conjuntura dos negócios, o próprio comportamento do
sócio excluído, a conveniência objetiva de renovação dos elementos, e mu itas outras
circunstâncias externas às pessoas dos componentes da maioria". A favor, FERREIRA, RT
1 64/248-256, à p. 254, posição revista posteriormente, em Tratado. . . , cit., pp. 1 60-1 6 1 ;

1 95
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAS

tivizada, em razão do contexto histórico. À época, não era raro, convite


para empregados serem sócios. Neste caso, o status socii é condicionado
não tanto à contribuição ao capital, mas em razão dos serviços presta­
dos. Se o ingresso do sócio é devido, por exemplo, à sua condição de
trabalhador, a sua exclusão em razão do término da relação laboral re­
presenta justa causa, devendo-se concluir pela potestatividade admitida
pela lei524 • Hodiernamente, o problema parece superado por outros mei­
os para prestigiar e recompensar os funcionários, como a participação
nos lucros, opção de compra de ações e partes beneficiárias.
Tirante os casos nos quais a potestatividade está ligada a uma
razão, deve ser rejeitada a cláusula de exclusão sem justa causa.
Sob o enfoque teleológico, em princípio, pode-se admitir cláu­
sula potestativa para permitir exclusão de sócio. Nas sociedades com
restrição à transmissão de participação social o ingresso de novos
sócios está condicionado à concordância dos demais. Ora, se os de­
mais sócios podem decidir sobre o ingresso do sócio, deveriam tam­
bém poder deliberar sobre sua permanência na sociedade. No entanto,
isto não deve ocorrer. Primeiro, para que o sócio não fique submetido
ao arbítrio dos demais. Segundo, porque, ao ingressar na sociedade, a

P E I X OTO, A sociedade por cotas . . . , cit., pp. 268-269 . Contra, entendendo pela
potestividade da cláusula e pela apl icação do então art. 1 1 5 do Código Civil, REALE,
"A exclusão de sócios ... ", pp. 469 e 472; LUCENA, Das sociedades por quotas, c i t., p.
6 1 6; RT 1 64/248.
524 Neste sentido, aresto em RT 1 38/26 1 : "Examinando o contrato social, verifica-se que
em lugar de ser a cláusula de exclusão contrária à essência do fi m social, o u humi l han­
te como se alega, concorre ela para a formação da sociedade e seu progresso em
harmonia na admi nistração da firma. É que o negócio começou pelo esfôrço e capital
do sócio havido como chefe e só mediante a referida cláusula consentiu êle que seus
antigos empregados ficassem seus sócios, i ntegrando o capital pelo trabalho esforçado
de cada um, agindo ai nda sob certa disciplina". No mesmo sentido, RT 1 47/681 . Na
doutrina, reconhecendo o d i reito de exclusão pelos mesmos motivos expostos na pre­
sente nota, GUIMARÃES, "Da exclusão de sócios nas sociedades em nome coletivo.
Cláusu la atribui ndo ao sócio principal o direito de excluir outro sócio. Exclusão por meio
de sentença judicial ou por i nstrumento assinado pelo sócio principal e demais sócios
remanescentes. Conceituação de condição potestativa", RF 76 ( 1 9 3 8), pp. 444-448, em
especial à p. 445. Em RF 47/343, entendeu-se como válida c láusu la em contrato de
sociedade em comandita permitindo ao único sócio solidário exc l u i r os comanditários,
tendo em vista ser a condição para o consentimento do solidário em associar-se.

1 96
RENATO VENTURA RIBEIRO

pessoa realiza não só investimento financeiro, mas deposita esperan­


ça e cria expectativas no negócio, sendo injusta a sua frustração em
decorrência de expulsão imotivada pelos demais sócios.
A deliberação de exclusão do sócio deve ser sempre justificada,
não só porque a sociedade age como juiz5 25 e como tal deve motivar
suas decisões, mas também para permitir ao excluído recurso ao Ju­
diciário para verificação ou não da existência de justa causa exigida
por lei para a exclusão de sócio. Ademais, a permissão para exclusão
imotivada de sócio facilita a utilização do instituto para atendimento
de fins particulares e extra-sociais, como mero capricho da maio­
ria526 , ao contrário de sua finalidade relacionada à exploração da ati­
vidade. Não se pode permitir o uso do mecanismo da exclusão para
finalidades estranhas aos interesses empresariais, ainda que isto seja
anseio da maioria dos sócios527 •

3 . ÜESNECESSI DADE DE CULPA DO SÓCIO EXCLUÍDO

A justificativa para a exclusão é o dano causado à sociedade ou


sua possibilidade, e não a ocorrência ou não de culpa528 . Apenas se
a exclusão fosse entendida como pena é que se poderia falar em
imprescindibilidade da culpa. A importância da culpa diz mais res­
p eito à responsabilidade patrimonial do sócio pelo prejuízo causa­
do à sociedade529 .
Alguns entendem que tendo a exclusão o caráter de sanção pelo
não cumprimento das obrigações sociais, pressupõe a existência de

525 Por todos, cf. PEIXOTO, A sociedade por cotas, cit., p . 2 76.
526 Cf. NU N ES, O direito de exclusão . , cit., p. 2 5 1 -2 5 2 .
..

527 Cf. N U N ES, O direito de exclusão .. , cit., p. 2 5 2 .


.

528 Pela desnecessidade de culpa do sócio excluído, cf., entre outros, DALMARTELLO,
L 'esclusione , cit., pp. 1 90-1 9 1 ; NU NES, O direito de exclusão. . , cit., p. 1 89; LUCENA,
... .

Das sociedades por quotas . . , cit., pp. 602-603 e PIMENTA, Exclusão e retirada de
.

sócios. . . , cit., pp. 99- 1 02.


529 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . . , cit., pp. 79-80; G H I D I N I, Società persona/i, cit.,
.

pp. 5 6 1 -562; LUCE NA, Das sociedades por quotas . . , cit., pp. 655-660.
.

1 97
ExnusÃo DE Sóoos NAS SornDADES ANÓNIMAS

culpa do cxcluído530 • No entanto, o fundamento do instituto é a pre­


servaçào da empresa e não a punição do excluído. Já para os contra­
tualistas, a exclusão é remédio tanto para inadimplemento com culpa
como para impossibilidade superveniente da prestação531 •

Do ponto de vista hermenêutico, se o legislador não distingue, pre­


vendo a necessidade de culpa do sócio, não cabe ao intérprete distinguir.
Como são inúmeras as hipóteses legais de exclusão e algumas exigem
culpa e outras não, os legisladores tendem a não mencionar expressa­
mente a necessidade de culpa. Somente quando a lei exige expressamen­
te a culpa ou dolo do sócio (como, por ex., no caso de fraude), sua expulsão
depende da prova de culpabilidade. Nos demais casos, ocorrendo causa
prevista em lei ou no contrato, cabível a exclusão sem a necessidade de
discussão quanto à existência ou não de culpa532 •
Sob a ótica teleológica do instituto da exclusão, havendo preju­
ízo à atividade empresarial deve o sócio ser excluído, independente­
mente da existência de culpa533 •

4. A EXCLUSÃO D E SÓCIO MAJORITÁRIO

Preliminarmente, há de se ressaltar que a maioria do capital so­


cial não implica maior interesse no êxito da sociedade. Pelo contrá­
rio, um sócio majoritário pode até ter interesse em prejudicar a
sociedade. Tome-se, por exemplo, o caso de um sócio majoritário
com pouco mais da metade do capital social. Ao invés de dividir os
lucros com outros sócios, pode ser mais interessante inviabilizar tal

530 Tal posição encontra apoio e m b o a parte da doutri na espanhola, como CAN IZARES,
L as sociedades . . , cit., pp. 2 1 0- 2 1 1 e autores mencionados por VI LLAV E R D E , L a
.

exclusion... , cit., p. 207, à nota n . 3 1 5 .


531 Por todos, cf. DALMARTELLO, L 'esclusione.. , cit., pp. 1 45 e 1 50. T E I X E I RA D E FREITAS,
.

Esboço de Código Civil, art. 3 . 2 20, prevê como justa para exclusão o não cumprimen­
to de obrigações para com a sociedade ou os sócios, tenha ou não havido culpa.
532 Cf. VILLAVER D E, La exclusion ... , cit., pp. 1 1 7- 1 1 8.
533 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p. 1 66-1 67.
.

1 98
RENATO VENTURA RIBEIRO

empresa, para adquirir a parte dos demais por valor baixo, ou explo­
rar a atividade social através de outra sociedade. O majoritário tam­
bém pode efetuar negócio lesivo à sociedade, corno alienação de bens
a preço vil534 • Já ocorreu caso de sociedade de três sócios, na qual dois
conjuntamente violam o dever de não concorrência, prejudicando o
terceiro535 •
Corno a exclusão de sócio objetiva a preservação da empresa,
pouco importa se o sócio é ou majoritário536 • Havendo justa causa a
fundamentar a saída do sócio, mesmo que majoritário, é cabível sua
expulsão. A exclusão justifica-se para maximização da exploração
empresarial e não pela proteção do majoritário. Defende-se a socie­
dade e os sócios. Os sócios inocentes podem pleitear a exclusão do
sócio danoso537 , em nada importando o fato de serem minoritários. Se
o sócio causa prejuízo ao fim social deve ser expulso, mesmo sendo
majoritário, até para preservar a sociedade. A razão de ser do instituto
da exclusão de sócio não é a autonomia da vontade, que justifica deli­
beração majoritária e sem justa causa538 , nem a defesa da rnaioria539 ,
mas a proteção da atividade empresarial ou até poder resolutório540 •

534 Cf. ROM 1 08/1 97.


535 Cf. I RUJO, "Exclusión u n i l ateral de socios en la sociedad de responsabi l idad l imitada",
La Ley 3 ( 1 994), pp. 3 59-363, e VILLAVERDE, "Exclusión de los sócios mayoritarios de
una SRL por i nfri ngir el deber de no concurrencia con la sociedad", RdS 3 ( 1 994), pp.
2 8 1 -292.
536 Cf. REsp. 5 3 . 2 85 -0-RS, rei . M i n . R u y Rosado, j . 2 5 . 1 0.94, DJU 2 8. 1 1 .94. Fundamenta­
do na preservação da empresa, o Superior Tribuna l de Justiça, REsp. 6 1 . 2 78-SP, rei .
M i n . César Asfor Rocha, DJU 6.4.98, p . 1 2 1 , decidiu pela improcedência de ação d e
d isso lução total proposta por sócios majoritários, admitindo a conti nuidade da socie­
dade pelos m i noritários.
537 Cf. VIVANTE, Trattato . . , cit., p. 468. E m apoio, FARIA, D a exclusão de sócios . , cit., p .
. . .

2 2 ; F E R R E I RA, Sociedade por quotas, cit., p. 1 1 8.


538 Cf. COMPARATO, "Exclusão de sócio . . . ", cit., p p . 47-48.
5 39 Cf. FRANCO, Manual de direito comercial, São Paulo, RT, 2 00 1 , p. 226.
540 Cf. COMPARATO, "Sociedade por quotas... ", cit., p. 38: " ... na hipótese de expu lsão de
sócio por sentença, o fundamento da decisão não é a deliberação da maioria e sim o poder
resolutório conferido aos prejudicados pelo inadimplemento do dever de colaboração so­
cial, sejam eles, ou não, majoritários. A maioria não se confunde nunca com a sociedade,
e o seu interesse próprio pode contrastar com o da empresa por ela explorada.".

1 99
ExnusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANÔNIMAS

Ademais, a possibilidade de exclusão do majoritário também re­


presenta posição de paridade entre os sócios: quer minoritários ou
não, podem ser excluídos para evitar prejuízo à atividade empresari­
al. Todavia, em defesa da empresa, na deliberação de exclusão do
majoritário, acentua-se a importância do debate sobre a conveniên­
cia da medida.
No direito comparado a exclusão de sócio majoritário até hoje é
alvo de polêmica541 . No direito brasileiro, apesar do escasso trata­
mento da matéria, a doutrina542 e a jurisprudência admitem a expul­
são do majoritário543 .
Embora a exclusão do majoritário tenha sido defendida com
base em descumprimento de obrigações544 , também se justifica em
caso de abuso de poder de controle ou por causar ou poder causar
prejuízos à empresa.
No Brasil, a exclusão de acionista majoritário nas companhias é
possível mediante deliberação assemblear, mas deve ser feita prefe­
rencialmente por via judicial. Isto para evitar eventual abuso de mi­
noria, tendo em vista que o majoritário fica impedido de votar, em
razão de conflito de interesses (Lei 6.404/76, art. 1 15, § 1º), ou até
conflito de interesses da própria minoria que requereu a medida.
Um problema é a competência legal para convocação da assem­
bléia. Se a exclusão de acionista estiver prevista na lei ou no estatuto,

541 Cf. WOL, "Abberufung u n d Ausschlu& in der Zweimann-GmbH", ZCR ( 1 998), p. 92 e s s. .


542 Cf. R EALE, "A exclusão de sócios ... ", cit., p. 4 5 7; COMPARATO, "Exclusão de sócio na
sociedade por cotas ... ", cit., p. 48, "Sociedade por quotas ... ", cit., p. 3 8; FONSECA,
"Dissolução parcial", cit., p. 70; FRANCO, Manual. . , cit., pp. 200 e 2 26; LUCENA,
.

Das sociedades por quotas . . , cit., pp. 655-660; LOPES, Empresa & exclusão de só­
.

cio. . . , cit., pp. 1 1 5 e 1 53 .


543 RT 599(79.
544 Neste sentido, decisão que parece pionei ra, conclui: "Se um sócio ou grupo de sócios
é quem provoca a crise da sociedade, comprometendo a real ização dos fins sociais, a
solução que se impõe é a exclusão do grupo, e não a extinção da sociedade, pouco
importando o fato de serem majoritários, pois o que prevalecerá é a i ndisc i p l i n a
contratual e n ã o o voto majoritário . . . " ( R T 599/79-8 1 ).

200
R ENATO VENTURA RIBEIRO

caberá ao órgão competente a convocação, a qualquer acionista ou a


acionistas titulares de mais de cinco por cento do capital social, no caso
das situações previstas no art. 123, caput, e parágrafo único, alíneas b
e e da Lei 6.404/76. Na hipótese de exclusão não prevista em lei ou no
estatuto, não havendo a convocação pelos administradores, somente pode
ser convocada por acionistas representantes de mais de cinco por cento
do capital social (Lei 6.404/76, art. 123, parágrafo único, e) . No caso de
não ser possível a convocação de assembléia para exclusão do acionista
majoritário, a única via possível será a judicial, inclusive, com possibi­
lidade de pedido de afastamento de administradores.
O assunto torna-se mais delicado diante da possibilidade de
abuso da minoria. Como o majoritário, cuja exclusão está em pauta,
não possui direito de voto, em razão do conflito de interesse (Lei
6 .404176, art. 1 15, § 1 º), há o risco de abuso da minoria. Tal abuso
caracteriza-se pelo exercício do direito de voto com o propósito de
causar prejuízo a outro acionista e, eventualmente, à companhia (art.
1 15 da lei societária) . A necessidade de motivação da exclusão e a
possibilidade de discussão judicial servem de proteção ao majoritá­
rio, evitando decisões injustas, sem impedir a exclusão do sócio, quan­
do pertinente, resguardando, assim, tanto a sociedade quanto os
minoritários.

5. EXCLUSÃO EM COMPANHIA EM FASE D E LIQUIDAÇÃO OU


APÓS UMA CAUSA DE DISSOLUÇÃO DA SOCIEDADE

Em princípio, a dissolução da sociedade rompe com a affectio


societatis dos sócios, não se justificando a discussão sobre o afasta­
mento do sócio. Entendendo-se que a dissolução põe fim ao status
socii e, por conseqüência, aos direitos e obrigações dos sócios, e que o
direito ao recebimento dos valores a serem apurados na liquidação
decorre de crédito e não de relação societária ainda existente, não se
1

deve admitir a exclusão do sócio na fase de liquidação, pela ausência


de vínculo social.

201
ExcLusÃo DE Sócios NAS SoornADES ANÔNIMAS

No entanto, o término da sociedade - e, portanto, dos vínculos


societários - ocorre na fase de extinção, após a liquidação (Lei 6.404/
76, art. 219) . Até então permanecem as obrigações e direitos dos
sócios, dentre os quais o direito ao reembolso do capital. Assim, há
que se admitir a exclusão de sócio na fase de liquidação.
Na Alemanha, aceita-se a exclusão de sócio para evitar preju­
ízos à fase de liquidação545 . A possibilidade de exclusão de sócio na
fase de liquidação encontra alguma resistência em parte da doutri­
na546 e da jurisprudência italianas547 . Mas é aceita pela doutrina

545 Por todos, cf. H U ECK, "Esclusione di un sacio . . . " cit., p. 226 e nota n . 2 G R U N EWALD,
Der Ausschlu!L, cit., pp. 29-3 1 e SOUFLEROS, AusschlieBung. . ., cit., pp. 44-45.
546 Em especi a l, cf. FORCI ERI, "Su l l ' i nammissi bil ità dei la domanda do escl usione d i sacio
posteriore a l l a deliberazione di messa i n 1 iquidazione dei la società", FI, 1 937, 1 , pp.
1 . 1 82 - 1 . 1 83; STOLFI, La liquidazione dei/e società commerciale, Mi lano, Giuffre, 1 938,
p. 1 87, e autores mencionados por N U N ES, O direito de exclusão . . ., cit., p . 1 66, nota
n. 79, d. O principal argumento dos opositores à exclusão de sócio em fase de liquida­
ção é a falta de fundamento, pois acreditam ser a exclusão u m meio para evitar a
dissolução da sociedade, não se justificando a med ida quando a e l a j á está di ssolvida.
Pela possibil idade de tal exclusão, para evitar preju ízos à liqu idação da sociedade,
MOSSA, Tratatto .. ., cit., p. 605 e G H I D I N I , Estinzione .. ., cit., p. 65, e Società personali,
cit., p. 870 e ss .. Ver também próxima nota.
547 Sentença da Cassazione de 25 .6.80, aponta uma i ncompati bil idade lógico-jurídica na
exclusão na fase de liqu idação, com base em quatro argumentos principais: sistemáti­
co, anotando que a lei cuida da dissolução e da dissolução em relação a um sócio em
normas disti ntas (cf. arts. 2. 272-2.273 e 2.284-2.290 do Codice Civi/e), demonstrando
se tratar de duas situações diferentes, não se devendo cogitar de uma situação, quando
prevista outra; lógico, pois se a relação se d i ssolve l i mitadamente a u m sócio, no caso
d a exclusão, deve conti nuar em relação aos demais, o que não ocorre na fase de l iqui­
dação, na qual todos os sócios possuem d i reito à l iquidação da sua partici pação;
conceituai, por se aplicarem princípios ju rídicos e econômicos disti ntos, pois na exclu­
são é considerado o valor do aviJmento e os fluxos de caixa futuros, o que não ocorre
na liquidação da sociedade; textual, com base no art. 2 . 270 do Codice Civile, que
prevê o pagamento da quota l iqu idada ao credor pessoal dentro de três meses, salvo se
deliberada a d issolução da sociedade, conc luindo-se que a liqu idação da participação
de um sócio não pode ser feita na fase de liquidação, porque estão em l i q u i dação as
quotas de todos os sócios. Acrescenta ainda a decisão que na sociedade dissolvida não
mais se pode falar em status de sócio e, portanto, em exclusão de sócio. Por fim, susten­
ta não haver i n teresse na exclusão, po is o sócio não pode obstar a liqu idação, vez que,
em caso de desacordo, o l iqu idante é nomeado judicialmente. No entanto, não há
i ncompatibi l idade entre dissolução da sociedade e do vínculo de sócio. A pessoa do
sóc io pode ser relevante na fase de liqui dação, quer por facil itá-la, quer por dificu ltá­
\ a, levando-se em conta decisões a serem tomadas pelos sócios na fase de l iquidação.
A exc lusão não é uma sanção e sim uma forma de fac i l itar a l iquidação. No caso, a
l i quidação separada da participação do sócio deve ser fe ita após a da sociedade. Sobre

202
RENATO VENTURA RIBEIRO

espanhola548 •

Por outro lado, em alguns casos, a dissolução é revogável549 , como


na hipótese de deliberação dos sócios pela cessação do estado de li­
quidação (Lei 6.404/76, arts. 122, VIII e 136, VII), no caso de falên­
cia convertida em concordata suspensiva (Decreto-lei 7.661/45, art.
1 77) e cessação de estado de liquidação extrajudicial (Lei 6.024/74,
art. 19). Mesmo quando a dissolução é irreversível, a presença de um
sócio pode dificultar a liquidação da sociedade, com prejuízos aos
demais, justificando a sua exclusão. Assim, justifica- se a exclusão do
sócio após a verificação de causa de dissolução da sociedade, quando
necessário para não prejudicar a fase de liquidação.
Uma forma de reduzir a possibilidade de ingerência dos sócios é
a concessão de maiores poderes ao liquidante550 . A medida diminui a
ação dos sócios, mas a sua capacidade de perturbar o andamento da
liquidação também é minimizada.
Aspecto prático, no caso da exclusão em fase de liquidação, é o
pagamento ao sócio excluído antes dos demais sócios e até de alguns
credores, o que poderia dar margem a fraudes. Qyanto aos credores,
isto pode ser solucionado pela constituição de uma provisão para
pagamento de dívidas futuras, bem como pela responsabilidade dos
acionistas e do liquidante, em relação ao credor não satisfeito (Lei
6. 404176, art. 2 1 8).
Resta saber se o credor não satisfeito pode exigir, com base no
art. 2 1 8 da Lei 6. 404/76, o pagamento do seu crédito do acionista

a decisão da Corte italiana, cf. BOERO, "Su l l 'esclusione . . . ", cit., pp. 1 1 7-1 25; PERRI NO,
Le tecniche ... , c i t., p. 241 , nota n. 1 42 . Em sentido contrário, D I CH IO, "Sul la possibilitá
di escludere u n sacio di una società di persone durante lo stato di liquidazione", Giur.
Comm., 1 981 , li, pp. 24 1 -252; BOERO, idem, ibidem; B UCCELLATO, "Liquidazione
di società personale ed esc lusione dei sacio", Giur. Comm., 1 984, l i , p. 1 87.
548 Cf. AGU ILA-REAL, "La exc lusión . . . ", cit., p. 9 1 3 .
549 Cf. CARVALHOSA, Comentários . . . , cit., 11, p. 720.
550 Cf. BOERO, "Sul l 'esclusione per gravi inadempienze di un sacio dopo lo sciogli mento
di una società di persone", 56 ( 1 98 1 ) , 1, pp. 1 1 7- 1 25, à p. 1 25 .

203
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADEs ANÔNIMAS

excluído na fase de liquidação. Trata-se de sucessão ope legis, com a


transferência das obrigações da sociedade para os acionistas, após
"encerrada a liquidação", segundo expressão utilizada no referido ar­
tigo. Por tal ótica, o acionista excluído não é mais sócio no momento
do encerramento da liquidação, não se operando, em relação a ele, os
efeitos da sucessão. Permaneceria somente a regra geral de responsa­
bilidade do excluído pelo prazo de dois anos após a averbação da
medida (Código Civil, arts. 1 .032, 1.086 e 1 .089).
Por outro lado, ao mencionar o liquidante, a citada norma indi­
ca que a responsabilidade decorre em razão da liquidação, atingindo,
portanto, todos os atos praticados naquela fase. Tal entendimento é
reforçado pela equiparação da partilha entre os acionistas com a dos
herdeiros551 • �ando a norma legal menciona "encerrada a liquida­
ção", indica que o credor pode exigir dos acionistas o crédito não
satisfeito após a liquidação, mas não a responsabilidade apenas da­
queles sócios no momento do encerramento da liquidação.
Outro problema é a inclusão ou não do aviamento nos haveres
do sócio excluído. A favor da inclusão tem-se o argumento da possi­
bilidade de revogação da dissolução, com a continuidade da ativida­
de empresarial. No entanto, além de tal situação ser excepcional, o
cômputo do valor do aviamento na apuração de haveres do excluído
representa desigualdade em relação aos demais sócios, pois no valor
a ser por eles recebido é calculado com base no patrimônio líquido e
não considera a expectativa de continuidade da empresa.
No caso de acionista excluído antes da dissolução, o pagamento
dos haveres pode ser feito na fase de liquidação, antes da divisão do
patrimônio entr� os sócios, pois o expulso não mais ostenta a condi­
ção de acionista, figurando como credor. Ou, para evitar os proble­
mas acima mencionados, estabelecer no ato constitutivo que o excluído

551 P o r todos, cf. CARVALHOSA, Comentários . . . , cit., v . 4, 1 , p. 1 5 8. N a j u risprudência,


RF 94/1 07.

204
RE NATO VENTURA RIBEIRO

na fase de liquidação receberá o valor de sua participação conjunta­


mente com os credores ou com os demais sócios.

6. A EXCLUSÃO EM SOCI EDADE COM DOIS SÓCIOS

Eis um assunto cuja opinião dos autores está diretamente rela­


cionada ao seu conceito de sociedade552 . Os autores que entendem
ser pressuposto da sociedade a existência de dois sócios, no mínimo,
tendem a concluir pela impossibilidade da exclusão de um deles e
sim pela dissolução da sociedade553 •
Porém, mesmo na sociedade com dois sócios, a exclusão de um
deles deve ser admitida, para evitar danos à atividade empresarial,
descrédito e liquidação da sociedade554 • Ademais, a proibição de ex­
clusão do sócio violador do dever de concorrência pode representar­
lhe até benefício, pois, além de prejudicar a sociedade com o ato de
deslealdade, também lhe seria permitido o pedido de sua dissolução,
eliminando a concorrente555 •
A exclusão de sócio só deve ocorrer quando não inviabilizar a
sociedade, quer pelo dispêndio de recursos para pagamento do ex­
cluído, quer por ele ser de elevada importância à empresa. Apesar
dos problemas causados pelo sócio, majoritário ou não, cumpre pri­
meiramente avaliar a oportunidade e conveniência da medida. Se a

552 Sobre o debate em torno da possib i l i dade da exclusão em sociedade c o m d o i s sócios,


cf. DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., pp. 29-34 e 3 23-330; SALANDRA, "li contratto
p l u ri latera l e e la società di due soei", RTDPC 3 ( 1 949), pp. 836-842; F E RRI, "La
com u n io n e d i d u e soe i'', RTDPC 6 (1 952), pp. 609-6 1 8; ASCARELLI, "Contralto
p l u ri l aterale; comunione di interessi; società di due soei; morte di u n soc i o in una
società personale di due soei", RTDPC 7 ( 1 953), pp. 7 2 1 -745 ( Saggi di diritto
=

commercia le, M i l a no, Giuffrê, 1 955, pp. 325-358); GR ISOU, La società con un solo
sacio. A n a lisi dei dati di una ricerca comparatistica, Padova, CE DAM, 1 9 7 1 ;
S O U F L E ROS, Ausschlief5ung. . . , c it., p. 70; SPITZE, Der Ausschluf5. . . , cit., p. 89;
G R U N EWALD, Der Ausschluf5. .. , cit., p. 70 e WOL, "Abberufung und Aussc h l ufL.",
cit., p. 92, e AGU I LA-REAL, "La exc lusión . . . ", cit., p. 91 O.
553 Cf. I N NOCENTI, L 'esclusione ... , cit., p. 1 1 6 et seq.
554 Cf. VIVANTE, Trattato . . . , cit., p. 468.
555 Cf. VIVANTE, idem, ibidem.

205
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SomDADES ANÔNIMAS

exclusão do sócio resultar em motivo para dissolução, será o caso de


pedido de dissolução e não de exclusão556 .
No Brasil, a polêmica em torno da matéria557 está superada em
relação às sociedades anônimas e por quotas de responsabilidade li­
mitada, em face da possibilidade de unipessoalidade temporária (Lei
n. 6.404/76, art. 206, I, d) .
Olianto ao procedimento, a doutrina mais antiga defende a exclusão de
sócio com a continuidade da empresa social individualmente pelo outro558.

556 Todavia, para R I BUTTI, "Riflessioni su u n caso l i m ite: la società d i due soe i ", Ciur.
Comm. 5 ( 1 978), 1, pp. 5 59-588, em razão do princípio da preservação da empresa,
nenhum sócio isoladamente tem o poder de dissolver totalmente a sociedade, devendo
ser possível a conti nuidade do empreendimento com o sócio remanescente. A mesma
posição é adotada pela jurisprudência brasileira mais recente, p rincipalmente através
da apl icação da noção de dissolução parc i a l . A respeito, d. a nota abaixo.
557 A doutrina e jurisprudência brasileiras dividem-se e m três posições. Negando a possibil ida­
de de exclusão, apontando como uma solução a dissolução da sociedade, PEIXOTO, A
sociedade por cotas. . ., cit., p. 272; REQU IÃO, Curso. . , cit., p. 289; RJT}RJ 4/274. Aceitando
.

a exclusão, mas com a dissolução da sociedade e continuição da atividade da empresa de


forma individual, VAMPRÉ, Tratado elementar de direito commercial, Rio de Janeiro, 8riguiet,
1 92 1 , p. 4 1 4, exceto se a sociedade dependia da capacidade técnica do excluído, deven­
do ser dissolvida por impossibilidade do preenchimento do fim social; MEN DONÇA, Trata­
do. . . , cit., p. 1 55; GUIMARÃES, "Da exclusão de sócios . . . ", cit., pp. 446 e 448; RT 487/1 78;
COMPARATO, "Exclusão de sócio nas sociedades por cotas. . . ", cit., pp. 45-46 e 48. A
favor, FARIA, Da exclusão de sócios . . , cit., pp. 2 1 -22; FERREIRA, Sociedades por quotas. . . ,
.

cit., pp. 1 1 7-1 1 8, e Tratado .. , cit., p. 1 65, admitindo a medida somente por via judicial;
.

CARNEIRO, "Sociedade por quotas. Dissolução por morte de um dos sócios. lnexistencia.
Subsistencia apenas de um unico quotista. Dissolução immediata. Inadmissibilidade. Da
forma de l iquidação judicial. Do pagamento aos herdeiros do socio p re-morto", RT 1 01
( 1 936), pp. 353-359; REALE, "A exclusão de sócios ... ", cit., p. 474; ESPÍNOLA e VALVERDE,
i n RT l 65/3 1 1 ; FONSECA, "A exclusão de sócio ... ", cit., pp. 82-83, e Dissolução parcial... ,
cit., pp. 20-23, com menção a diversas decisões judiciais à p. 2 1 , nota 8. Na j u risprudência,
o Supremo Tribunal Federal, que antes negava a possibil idade (RTJ 33/744, 94/637 RT =

544/282), passou a admiti r a dissolução parcial (RT} 1 1 4/85 1 ). Nos outros Tribunais foram
também i númeras as decisões anteriores negando a possibilidade de exclusão em socieda­
de de dois sócios, como, entre outras, as mencionadas por FONSECA, idem, ibidem e RT
588/99. O Superior Tribunal de Justiça admite a dissolução parcial, garantindo ao sócio
remanescente o di reito de recompor o quadro social, no prazo de um ano, com admissão
de outro sócio, ou atuar como firma individual, sob pena de dissolução de pleno d i reito (d.
REsp. n. 3 8 1 -MG, 3ª T., rei. Min. Waldemar Zveiter, j. 1 2. 1 2. 1 989, DJU 1 9. 2 . 1 990, p. 1 .043;
REsp. 1 38.428-RJ, 4ª T. , rei. Min. Ruy Rosado, j. 1 8 . 1 2.97, DJU 30.3.98). Ainda pela
admissibilidade da exclusão em sociedade de dois sócios, R}T}ESP 87/2 1 1 , 1 32/224. Cf.
a i nda COSTA, "A dissolução ... ", cit., p. 377 et seq.
558 Cf. MOSSA, "Le esclusione ... ", cit., p. 637 e ss., Diritto commerciali, cit., p. 1 4 1 ; VIVANTE,
Trattato. . . , cit., p. 468; DALMARTELLO, L 'esclusione. . . , cit., pp. 29-34 e 3 2 3-330 e FON­
SECA, Dissolução parcial... , cit., p. 22, com referências a decisões judiciais na nota n. 1 1 .

206
RENATO VENTURA RI BEIRO

Outros admitem a expulsão apenas por via judicial559 e uma tercei­


ra corrente opina pela possibilidade de exclusão pela maioria560 •
A disparidade de opiniões reflete nas legislações. Em alguns
países, exige-se a via judicial para pronunciamento da exclusão em
sociedades de dois sócios561 • Pela lei brasileira, há dupla solução. Sendo
prevista no ato constitutivo a possibilidade de exclusão pela maioria
havendo justa causa, a medida pode ser tomada extrajudicialmente
(Código Civil, art. 1.085). Nos casos de falta de previsão expressa,
cláusula contratual restritiva de deliberação majoritária do capital
social, sócios com iguais participações e de majoritário, a exclusão
deve ser feita por via judicial562 •
A exclusão mediante procedimento judicial pode ser mais segu­
ra, mas apresenta o grave inconveniente da não celeridade, gerando
insegurança aos negócios, podendo inviabilizar a própria empresa que
se pretende proteger. Assim, sempre que possível, deve optar-se pela
exclusão extrajudicial, através da inserção de cláusula contratual em
tal sentido. Até porque eventual ilegalidade ou abuso na medida pode
ser revisto pela via judicial.
A solução do direito brasileiro, permitindo exclusão extrajudici­
al pelo sócio majoritário tem como principal crítica a possibilidade
decisão abusiva, sem objetividade563 , representando uma "denúncia
vazia" do contrato, embora tenha havido concordância do sócio mi­
noritário e seja necessária a ocorrência de justa causa. Tal risco é afas­
tado pela não inclusão de tal cláusula, bem como pelo recurso ao
Judiciário, no caso de exclusão injustificada ou abusiva.

559 Cf. NAVARRI N I, Dei/e società ... , cit., p p . 702-703; FERRARA, "Le deliberazioni . . . " , cit.,
p. 2 3 8.
560 Cf. ASCARELLI, Appunti. . . , c i t . , p. 285; DE GREGOR IO, Codice . . . , c i t . , p p . 638-639 e
nota n. 2 .
561 Cf. Código d a s Obrigações suíço, a rt. 579; Código Civil ita l iano, art. 2 .287, 3 .
562 Cf. LUCE NA, Das sociedades por quotas . . . , cit., p. 650.
563 Por todos, cf. AULETTA, Deroghe... , p. 1 63: ... si e ritenuto che non esista presunzione
"

d i obiettività q uando l'assemblea si riduce ad un solo sacio".

207
ExnusÃo DE Sócios NAS SocrrnADEs ANóNJMAS

A exclusão na sociedade com dois sócios traz outras questões


práticas. Após a exclusão, deve ser reconstituído o mínimo de dois
sócios no prazo de seis meses para sociedades contratuais (Código
Civil, art. 1 . 033, IV, 1.044 e 1. 087) e um ano para companhias (cf
Lei 6.404/76, art. 206, I, d). Mesmo na pendência de ação judicial, o
sócio remanescente tem prazo para inclusão de outro sócio, sob pena
de dissolução da sociedade. Na hipótese do excluído ganhar a causa,
em seu retorno à condição de sócio, poderá encontrar uma empresa
bastante modificada (inclusive desvalorizada), em fase de liquidação
ou até extinta. Sem contar a condição do sócio ingressante para pre­
enchimento do número mínimo legal: deve ou não ser afastado pelo
retorno do excluído por decisão judicial? Tais problemas devem ser
previstos no ato constitutivo da sociedade ou na sentença de reinte­
gração do excluído564 •
Paradoxalmente, a exclusão de sócio, ao invés do seu escopo de
conservar a sociedade, pode gerar sua dissolução. Em caso de exclusão
em sociedade de dois sócios, não ficou provado o alegado comporta­
mento de um deles, contrário aos interesses da sociedade. Pela impos­
sibilidade de convivência harmônica e não apuração da responsabilidade
pela desarmonia, decidiu-se pela dissolução da sociedade565 •

7. A EXCLUSÃO EM SOCIEDADE U N I PESSOAL


Desconhecendo discussão sobre a exclusão de sócio de socieda­
de unipessoal, deve-se concluir pela possibilidade de adoção da me­
dida, como forma de eficiência da atividade empresarial.
Nem toda sociedade unipessoal é intuitus personae566 • Exceto no
caso de sociedade com intuitus personae absoluto, em que é impres­
cindível determinada pessoa para realização da atividade empresari-

564 Sobre os efeitos da exclusão, cf. 9.2 abaixo.


565 Cf. RJTJESP-Lex 87/2 1 1 .
566 Cf. F R I E D EWALO, Oie personalistische Aktiengesel/schaft, cit., p. 4.

208
R ENATO VENTURA RIBEIRO

al, pode haver a substituição do único sócio. Na sociedade unipessoal


com intuitus personae relativo, o sócio exclusivo é importante, mas
não insubstituível.
Sob o enfoque teleológico do instituto da exclusão de sócio, como
o interesse social é diverso e mais amplo do que o interesse do sócio567 ,
se o sócio de sociedade unipessoal estiver prejudicando o exercício de
sua atividade social, pode e deve ser excluído. Assim como o sócio
majoritário prejudicial à sociedade, também deve ser excluído o único
sócio, pelo mesmo fundamento de proteção à atividade empresarial.
Pode parecer estranho, mas não se deve descartar a possibilida­
de do sócio único prejudicar a atividade empresarial, quer por má
administração, quer involuntariamente, principalmente em razão de
suas condições pessoais.
A propriedade exclusiva da participação social não serve de inibi­
dor para exclusão do sócio prejudicial. Na sociedade unipessoal o úni­
co sócio desenvolve sua atividade de gestão dos bens sociais não como
proprietário, mas como uti socius, não exercendo poder imediato sobre
a sociedade como domínio, mas poder indireto, como se fosse em qual­
quer sociedade pluripessoal568 • Como a propriedade não é direito ab­
soluto, é possível cogitar-se de expropriação do controle569 , quando a
ineficiência do empresário gera graves prejuízos à atividade570 , bem

567 Cf. SALOMÃO F I LHO, A sociedade unipessoal, cit., pp. 53-54.


5 68 Cf. ANGELICI, La società nu/la, M ilano, Giuffre, 1 975, p. 1 48.
569 Além de COMPARATO, O poder de controle . , cit., p. 398, SZTAJ N, Contrato de soci­
. .

edade e formas societárias, São Paulo, Saraiva, 1 989, p. 297 e ss.


570 Cf. o d i agnóstico de COMPARATO, "A reforma da empresa ... ", cit., p. 73, embora com
solução mais conservadora do que a p roposta no presente trabalho, concl ui ndo ape­
nas pelo afastamento do empresário i neficiente e não pela expropriação do poder de
controle: "Ponto nevrálgico de toda regu lação estrutural da grande empresa é a ques­
tão d a legitimidade pessoal dos empresários ao exercício do poder e a possibilidade de
cessão desse poder de comando.
Mu ito embora nas grandes empresas seja bem marcada a d istinção de funções entre
empresários, capitalistas e trabalhadores, isto não significa que todo empresário, pelo
simples fato de exercer o poder, goze de um certificado perene de aptidão e competência.
Vinculando-se o controle à propriedade do capital i nvestido, torna-se difíci l sancionar a

209
ExcwsÃo DE Sócios NAS SomDADES ANôNIMAS

como do questionamento da alienação de controle por minoritários,


administradores e terceiros571 •

Isto é desdobramento da noção de função social da propriedade.


Sem adentrar na longa discussão sobre a busca de seu conteúdo, por
vezes objeto de embates ideológicos, a idéia de função indica um
poder-dever de agir no interesse de outrem572 o que, em matéria de
propriedade, aponta para o exercício do direito de forma a também
trazer benefícios alheios. Assim, justifica-se a expropriação de pro­
priedades improdutivas.
Como corolário da função social da propriedade tem-se a fun­
ção social da empresa573 , expressa tanto na legislação societária (Lei
6.404/76, arts. 1 1 6, parágrafo único, 154 e 165) como na falimentar
(Lei 1 1 . 101/05, art. 47). A função social da empresa representa o
poder-dever do controlador e dos administradores de respeitar e aten­
der os interesses daqueles envolvidos com a atividade empresarial,
em especial os trabalhadores e a comunidade (Lei 6.404/76, arts. 1 1 6 ,
parágrafo único) . N a falta d e tal atendimento, tem-se a ocorrência de
justa causa a embasar a exclusão do sócio único.
Por não haver distinção pelo legislador, todas as empresas estão
sujeitas ao cumprimento de função social, inclusive as sociedades

i ncompetência do empresário. A legislação fa limentar francesa deu a melhor solução


para o problema, no estado atual do di reito, ao atribu i r ao Judiciário, na h ipótese de
i nsolvab i lidade da empresa, o poder de compe l i r os empresários ("dirigentes de d i reito
ou de fato, aparentes ou ocu ltos, remunerados ou não") a ceder suas ações ou quotas
de capital, podendo destinar o produto dessa venda ao pagamento dos débitos sociais.
(. .. )
A disti nção entre empresários e capitalistas, conseqüente à desvinculação entre propri­
edade do capital e poder de controle, enseja o afastamento do empresário i n eficiente
ou desonesto, sem necessidade de se passar pela via da expropriação"
No entanto, em outra obra, COMPARATO, O poder de controle . ., cit., p. 3 98, conclu i
.

p e l a possibil idade de expropriação d o poder de controle.


571 Cf. SALOMÃO F I L H O, O novo direito societário, cit., p. 1 3 7.
572 P o r todos, cf. COMPARATO, "Fu nção social. . . ", p. 75.
5 73 Cf. LEÃES, Comentários à lei das sociedades anônimas l i : arts. 52 a 7 20, São Paulo,
Saraiva, 1 980, p. 254; COMPARATO, "Estado, empresa e função social", cit., pp. 43-44.

210
R ENATO VENTURA RIBEIRO

unipessoais. Embora tal poder-dever relacione-se com todas as em­


presas, servindo de base para exclusão de sócios nas demais sociedades,
é na sociedade unipessoal que a função social da empresa fica mais
evidente, por representar o privilégio do reconhecimento de diversos
outros interesses sobre a vontade exclusiva do,único proprietário.
Em razão da função social da empresa, no direito francês, a lei de
recuperação judicial da empresa admite a expropriação das ações de con­
trole, na tentativa de continuidade da atividade (Lei 85-98, art. 23). Não
é nova a idéia de assunção da empresa, pela massa operária, através de
sindicatos, no caso de dissolução ou falência da sociedade. Em matéria
de exclusão de sócio, prevalece a finalidade de preservação da empresa
sobre o interesse particular de sócio, mesmo sendo sócio único.
E, se do ponto de vista teórico, admite-se até sociedade sem
sócio574 , com menos esforço deve-se aceitar a expropriação do con­
trole de único sócio.
Tratando-se de medida duplamente extrema, não só por ser ex­
clusão, mas de sócio único, deve ser feita mediante procedimento
judicial e com cautela. Caberá ao magistrado apurar a legitimidade e
o interesse de agir dos proponentes da medida, verificando se e como
são atingidos pelo prejuízo causado à atividade empresarial, bem como
apurar a ocorrência ou não de motivo grave a justificar a exclusão do
sócio exclusivo.

8. EXCLUSÃO EM SOCIEDADES DE FATO E IRREG U LARES


Como sociedade de fato é reconhecida na legislação e jurispru­
dência, deve permitir a exclusão de seu sócio, na ocorrência de justa
causa. O mesmo deve ocorrer em sociedades irregulares575 Ambas •

5 74 Cf., entre outros, COMPARATO, Aspectos jurídicos.. , cit., pp. 2 7-30; SALOMÃO F I LHO,
.

A sociedade unipessoal, cit., pp. 61 -66.


575 Em sentido contrário, SOPRANO, Tratatto . .. , cit., p . 884.

21 1
ExcLUSÃO DE Sócios NAS Soc1mADES ANÓNIMAS

são sociedades e, preenchidos as condições, pode e deve o sócio ser


excluído, para preservação e eficiência da empresa576 .

9 . LIMITES À EXCLUSÃO

A exclusão de sócio encontra limites em determinadas situa­


ções, que podem ensejar a dissolução da sociedade, como em casos
de exigência de capital mínimo, número mínimo de sócios ou quan­
do a sociedade depende do trabalho, capital ou condição pessoal do
sócio, não conseguindo substituir as condições necessárias à conti­
nuação da atividade577 •
Tem-se um paradoxo da exclusão de sócio, por poder acarretar a
dissolução do ente social. Deve-se ter em primeiro plano a proteção
da sociedade. Com a exclusão, a sociedade pode ser dissolvida. Man­
tendo -se o sócio, a atividade social fica prejudicada.
Há alternativas para operar a exclusão do sócio prejudicial sem
prejudicar a sociedade ou provocar a sua dissolução. No caso de exi­
gência, por disposição legal, convencional ou negocial, de capital
mínimo, pode-se excluir o sócio mediante a aquisição de sua partici­
pação social pela sociedade ou pelos demais sócios. Qyando a lei
estipula número mínimo de sócios, ou deve prever possibilidade de
continuação temporária com número inferior ou a continuidade da
empresa pelos demais sócios.
Outro limite é o controle judicial da deliberação de exclusão de
sócio (cf Parte III, Cap. II, 8). Não se pode coibir o recurso ao Judi­
ciário para discussão do problema, em razão da garantia do direito
constitucional de ação (CF, art. 5°, XXXV ).

576 Afirmando que a exc lusão arbitrária d e sócio não i nterrompe a continuação da socie­
dade, mesmo sendo ela i rregu lar ou de fato, RE 24.369, j. 1 9. 1 1 . 5 3 , DJU 1 0.6.5 4, p.
6.639; RJTJESP-Lex, 1 32/2 24.
577 Cf. CAI LLAU D, L 'exclusión ... , cit., p. 44 et seq.

212
Parte III - Exclusão de
Acionistas nas S ociedades
Anônimas
RENATO VENTURA RIBEIRO

PARTE I l i - EXCLUSÃO DE ACIONISTAS NAS SOCI E DADES


ANÔN IMAS

CAPÍTU LO 1: CAUSAS

As causas de exclusão de acionistas nas companhias abrangem


as típicas das sociedades contratuais (Código Civil, art. 1 .089) e os
casos específicos das anônimas. Serão examinados os principais tópi­
cos, com a advertência de que, dada a multiplicidade de situações que
podem ocorrer, o elenco não é completo.

1 . N U LIDADE DE SU BSCRIÇÃO

Pode ocorrer nulidade de subscrição de ações, em razão de in­


capacidade, vício de consentimento ou defeito de representação.
S endo o ato nulo, é caso de nulidade e não de exclusão de sócio.
Como o ato nulo sequer produz efeito, o subscritor não assume a
condição de acionista. Logo, não há exclusão de sócio e sim nulidade
do ato de subscrição.
Em caso de vícios sanáveis, quando não solucionada a irregula­
ridade, o ato de subscrição pode ser anulado. Porém, como produz
efeitos até a anulação, o subscritor é sócio, podendo-se, no caso de
atos anuláveis, falar em exclusão de sócio.
Curiosa a incoerência da legislação brasileira na regulação da
anulação de constituição de pessoas jurídicas e sociedades anônimas.
A Lei 6.404/76, em seu art. 285, prevê prazo de um ano, a partir da
publicação dos atos constitutivos, para ação de anulação de consti­
tuição de companhia, enquanto o novo Código Civil estipula prazo
decadencial e de três anos para as demais pessoas jurídicas de direito
privado, inclusive outras formas de sociedades comerciais (arts. 44 e 45,

215
ExnusÃo DE Sócios NAS SocirnADES ANôNIMAS

parágrafo único). Talvez a disparidade possa ser explicada pela ne­


cessidade de maior segurança jurídica nas relações comerciais, que
justifica a existência de prazos de prescrição mais curtos no direito
comercial.

2 . D ESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES

No direito romano, a falta de cumprimento das obrigações sociais


é motivo para a dissolução da sociedade (D. 1 7, 2, 14). No direito mo­
derno, a grave inadimplência constitui motivo para exclusão de sócio,
compreendendo o não cumprimento ou o cumprimento irregular da
obrigação, com defeito ou fora do prazo. Não se exige culpa do sócio.
Leva-se em conta o prejuízo ou possibilidade de danos à sociedade e
não a culpa do sócio, pois a exclusão objetiva a preservação da empresa
e não a punição do sócio (cf Parte II, Cap. IV, 1 a 1. 3).
O não cumprimento de obrigações como causa de exclusão de
sócio limita-se às obrigações decorrentes da condição de sócio e não
o inadimplemento perante terceiros.
Não há necessidade de constituição em mora do sócio inadim-
plente, salvo disposição expressa em contrário e no caso de sócio re­
.
misso quando o estatuto e o boletim forem omissos quanto ao
montante da prestação e ao prazo ou data de pagamento (Lei 6.404/
76, art. 106).
Discute-se a conveniência ou não da previsão legal em cláusula
geral de inadimplência das obrigações sociais, como no Código Co­
mercial espanhol (art. 218, 7) e no Código Civil italiano (art. 2.286,
1) e no novo Código Civil (art. 1 .085), tendo em vista não ser taxati­
vo o elenco das hipóteses de inadimplência das obrigações sociais
previsto nas diversas legislações578 . Mas, no mínimo, serve de indica-

5 78 CL DALMARTELLO, L 'esclusione. .,, cit., p. 1 66; VILLAVERDE, La exc/usión . . . , cit., p. 1 6.

216
RENATO VENTURA RI BEIRO

tivo para permitir a exclusão de sócio, evitando alegações, por parte


do excluído, de falta de previsão legal.

2 . 1 . f ALTA DE I NTEGRALIZAÇÃO DO CAPITAL SOCIAL

2 . 1 . 1 . MORA NA I NTEGRALIZAÇÃO DO CAPITAL SOCIAL

Por falta de aporte de capital deve-se compreender não só a au­


sência de integralização em dinheiro, como em bens (Lei 6.404/76,
art. 8°) .
As legislações tratam de forma diversa a falta de integralização
nas sociedades contratuais e nas anônimas.
No direito alemão das sociedades limitadas a não integraliza­
ção no prazo acarreta, obrigatoriamente, a exclusão, cabendo ao
gerente a comunicação ao sócio excluído. Não há necessidade de
aviso de mora, mas deve haver notificação quando se pretender ex­
cluir o sócio ( GmbH, § 2 1 ) . Nas sociedades anônimas, deve haver
notificação dos remissos pela imprensa, com concessão de prazo
para pagamento, sob pena de perda da condição de titular das ações
e do valor já pago. Em lugar das ações não integralizadas, serão
emitidas outras, cabendo ao novo adquirente o pagamento do valor
residual. Em caso de nova inadimplência, a sociedade deverá ven­
der as ações em bolsa ou, na falta de negociação no mercado, em
hasta pública, com notificação do acionista excluído e do novo ad­
quirente (AktG, § § 64 e 65) .
N o direito espanhol, no caso das sociedades contratuais o
inadimplemento permite tríplice opção: exigência do cumprimento
com perdas e danos, execução e rescisão do contrato, com perdas e
danos (Código Comercial, art. 1 70). Nas companhias, além das duas
primeiras opções, a possibilidade de venda das ações por conta e ris­
co do acionista moroso.
No direito francês das sociedades contratuais, salvo disposição
em contrário, aceita-se a idéia de condição resolutiva tácita, aplican-

217
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANôNIMAS

do-se o artigo 1 . 1 84 do Código Civil. Nas companhias é comum a


previsão estatutária de execução em bolsa579 .
Na Itália, há exclusão nas sociedades de pessoas e decadenza nas
sociedades de capitais580 • Nas sociedades anônimas, em caso de inadim­
plência, pode ser feita a exclusão do acionista moroso através da venda
de ações ou, caso não seja efetuada a venda por falta de compradores, a
decadenza dos direitos de sócio, com a retenção dos valores recebidos.
A decadência dos direitos do acionista não extingue as ações, que po­
dem ser alienadas para terceiros (Godice Civile, art. 2.344).
No Brasil, o novo Código Civil confere tratamento dúplice nas
sociedades contratuais. Nas sociedades simples, a possibilidade de
exclusão do remisso ou a redução da quota ao valor já pago (art. 1 .004
e parágrafo único). Nas sociedades limitadas, além das alternativas
anteriores, pode a sociedade adjudicar a quota ou transferi-la a ter­
ceiros, devolvendo o valor pago, deduzidos os juros da mora, presta­
ções estabelecidas no contrato e despesas (art. 1 .058).
A lei das sociedades anônimas prevê duas possibilidades: a exe­
cução do valor devido ou a venda de ações em bolsa de valores, por
conta e risco do acionista (art. 107). Tal opção não pode ser subtraída
da companhia. No caso do estatuto ou boletim de subscrição preve­
rem a eliminação de uma das formas de cobrança, não terá validade
para a companhia, mas o subscritor de boa-fé poderá propor ação em
face dos responsáveis pela estipulação (art. 107, § 1º).
Deve haver a exclusão do sócio remisso mesmo quando for ínfi­
mo o valor em mora e não causar maior prejuízo à sociedade. Não só
por ser grave o descumprimento de obrigação, como para desestimu­
lar o inadimplemento dos demais581 .

579 Sobre a cláusula de execução em bolsa, cf. bibl iografia mencionada por CAI L LAUD,
L 'exclusion . , cit., p. 254; RIPERT, Traité. . . , cit., pp. 882-883.
..

580 Cf., por todos, I N NOCENTI, L 'esclusione ... , cit., p. 1 3 3, n. 1 .


581 Para N U N ES, O direito de exclusão , cit., p p . 1 7 1 - 1 72, a falta de aporte sempre carac­
...

teriza grave falta. SIMONETTO, "ln tema di esclusione ... ", cit., p. 51 defende maior

21 8
RENATO VENTURA RI BEIRO

Qyanto à perda do valor pago, como visto acima, a matéria é


objeto de tratamento diverso nas legislações . No Brasil, a multa deve
ser fixada no estatuto social e rião podendo ser superior a dez por
cento do valor da prestação (Lei 6.404/76, art. 106, § 2º) . Parece boa
orientação, pois a perda total do valor pago pode gerar enriqueci­
mento indevido da sociedade.
No direito brasileiro, a necessidade de interpelação do remisso
para constituição em mora nas sociedades contratuais era discutí­
vel582 . Na ausência de prazo para pagamento, aplicava-se o previsto
em lei (Código Comercial, art. 138 e Código Civil, art. 960, ambos
os artigos revogados)583 . O novo Código Civil resolve a dúvida, ao
prever a obrigatoriedade de notificação, com prazo de trinta dias (art.
1.004). A notificação garante defesa do sócio, pois o pagamento pode
ter sido efetuado e não contabilizado ou creditado à sociedade.
Já nas companhias, a mora é automática no vencimento (Lei
6.404176, art. 106, § 2º), salvo disposição expressa em contrário e no
caso de sócio remisso quando o estatuto e o boletim forem omissos
quanto ao montante da prestação e ao prazo ou data de pagamento
(Lei 6.404/76, art. 106) .
As condições para integralização de ações subscritas são fixadas
no estatuto social ou no boletim de subscrição, não podendo a as­
sembléia geral ou o boletim de subscrição estabelecem regras contrá­
rias ao estatuto social.
Se o estatuto ou o boletim de subscrição forem omissos quanto
ao valor da prestação ou prazo para pagamento, deverá ser feita pu-

rigor em caso de inadimplemento. Com dúvidas a respeito, VILLAVERDE, La exclusión . , ..

cit., pp. 232-234.


582 A favor da prévia i nterpelação, MEN DONÇA, Tratado . . . , cit., p . 1 49; TEI X E I RA, Socie­
dade por quotas ... , cit., pp. 273-274; LUCE NA, Das sociedades por quotas , cit., p.
...

652, no caso de sociedade com dois sócios. Pela não obrigatoriedade, salvo previsão
contratual, RJTJRCS 3/1 89- 1 90.
583 Neste sentido, RTJ 87/2 67.

219
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

blicação em órgãos da imprensa584 , por, no mínimo, três vezes, fixan­


do prazo para pagamento, não inferior a trinta dias (Lei 6.404/76,
art. 106, § 1 º) . É devido é o preço de emissão e não o valor nominal
da ação, tendo em vista a possibilidade de emissão de títulos com
ágio. O não pagamento acarreta a constituição em mora, tanto no
caso de inadimplência com culpa, como no caso de impossibilidade
da prestação por culpa do subscritor, tendo em vista não haver dis­
tinção na norma legal.
No caso da única acionista de subsidiária integral encontrar-se
em mora, deve o administrador tomar as providências previstas em lei.
A não cobrança ou execução do sócio remisso caracteriza falta
do dever de diligência dos administradores (Lei 6.404/76, art. 153).
Na ausência de providências dos administradores, cabe discutir se os
credores podem se substituir à sociedade no exercício do direito de
exclusão do remisso. A opção pela exclusão ou não do remisso é fa­
culdade da sociedade. Mas causar prejuízos aos credores pela ausên­
cia de providências quanto ao sócio remisso caracteriza exercício
abusivo de direito585 • Tendo em vista o interesse dos credores na in­
tegralização do capital social, eles têm legitimidade para propositura
de ação para tomada de providências pela sociedade quanto aos sóci­
os remissos, bem como para sua exclusão586 •

No caso de liquidação da companhia emissora, é devido o valor


da subscrição somente se o ativo não for suficiente para pagamento
do passivo, competindo ao liquidante efetuar a cobrança (Lei 6.404/
76, art. 210). Se a companhia emissora tiver sua falência decretada, o
valor da subscrição é devido, cabendo ao administrador judicial pro­
ceder à cobrança.

584 No caso, o órgão oficial da U nião ou do Estado ou do Distrito Federal, conforme o


l ugar da sede da companhia, e em outro jorna l de grande c i rcu lação editado no local
da sede da sociedade, como preceitua o artigo 289 da Lei 6.404/76.
585 Cf. N U NES, O direito de exclusão . , cit., pp. 1 04- 1 05 .
. .

586 Idem, pp. 1 02 - 1 03 .

220
RENATO VENTURA RIBEIRO

Como as companhias podem ser constituídas com integraliza­


ção de apenas dez por cento do capital social em dinheiro, o não
pagamento das ações subscritas pode causar prejuízos à sociedade,
sendo até possível a dissolução da sociedade por falta de preenchi­
mento do fim social587 . Além da exclusão do subscritor moroso,
não deve ser descartada a hipótese de responsabilização por perdas
e danos.
No caso de simulação de integralização do capital social, medi­
ante empréstimo da sociedade ao sócio, justifica-se a exclusão não só
pelo não efetivo ingresso de recursos como pelo procedimento de
má-fé do sócio588 .
O sócio remisso pode ter seu direito de voto suspenso até que
seja cumprida integralmente sua obrigação (Lei 6.404/76, art. 120).
2 . 1 . 2 . PERECIMENTO DA COISA OFERECIDA PELO ACIONISTA EM
CON FER�NCIA DE B ENS

Pode ser feita conferência de bens in natura589 , de coisas futuras,


de concessões administrativas, de nome ou marca comercial, e até de
crédito590 • Mas há hipóteses de integralização somente em dinheiro,
como no caso de instituições financeiras.
Os bens dados em conferência transferem-se à companhia a
título de propriedade, salvo disposição em contrário, sendo a res­
ponsabilidade do subscritor idêntica à do vendedor (Lei 6.404/76,

587 No d i reito comparado, outras legislações também admitem mais de uma possibi l idade,
como aponta VILLAVERDE, La exclusión ... , cit., p. 1 3 3.
588 Rf 1 9 1 /248.
5 89 Sobre a problemática da conferência de bens in natura, cf. ASCARELLI, " l n tema d i
conferimenti i n natura", Riv. Soe. 4 (1 95 9), 3-4, p p . 482-502; F E R RARA JR., "Ancora sui
conferimenti i n natura nella S.p.A., Riv. Soe. 1 O ( 1 965), 2, pp. 2 62-285; PAVON E-LA
ROSA, "Gli i nteressi tutelati dai la disc ip l i na del l'art. 2343 e . e . " , Riv. Soe. 1 O ( 1 965), 2,
p . 765-806; OLIVIERI, I conferimenti in natura nel/a società per azioni, Padova, CE­
DAM, 1 989.
590 A respeito, cf. CAGNASSO, "Problemi interpretativi in tema d i garanzia e rischi dei
conferimenti in natura", Riv. Soe. 19 ( 1 9 74), 5 , pp. 753-801 , à p. 782, e TESTI, "Sul
conferimento di crediti i n società", RDC 1 8 ( 1 972), 1, pp. 3 59-378.

221
ExcLusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

arts. 9º e 10). Responde, portanto, o subscritor por vícios redibitó­


rios e evicção.
Os meios de tutela são diversos591 : restitutória ou represtinató­
ria (com a extinção da relação social em relação ao sócio inadimplen­
te), conservatória (redução da contraprestação), ressarcitória de danos
e satisfatória (medidas e ações objetivando adimplemento ou exato
adimplemento).
Em conferência de bens de execução instantânea os riscos passam
a ser da sociedade após a entrega da coisa. Sendo a conferência de bens
com obrigação de execução continuada, como a cessão de marca, sócio
deve assegurar à sociedade o uso e gozo pelo tempo estabelecido ou
enquanto durar a sociedade592 • Na conferência de estabelecimento co­
mercial, salvo convenção em contrário, deve o sócio abster-se de con­
corrência por cinco anos (Código Civil, art. 1 . 147)593 .
Por perecimento deve-se entender não só a destruição material
da coisa, mas também indisponibilidade jurídica por parte da socie­
dade ou inutilidade ao preenchimento do fim social, em razão de
eventos que lhe alterem a identidade ou destinação594 • Pode ser par­
cial, como no caso de defeitos, entrega de outros bens, com garantia
real ou vínculos restritivos (como direitos reais sobre coisa alheia),
diferença ou falta qualidade prometida ou essencial, consignação de
coisa diversa, medida diversa de bens imóveis, entre outros.
Havendo culpa do sócio no perecimento da coisa conferida, além
da exclusão, pode haver a responsabilização por perdas e danos595 •
Na inexistência de culpa, tem-se a exclusão do sócio por impossibili­
dade superveniente da prestação.

591 Cf. PERRI NO, L e tecniche. . , cit., p. 1 64.


.

592 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione . . , cit., p. 1 5 2.


.

593 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p. 204.


.

594 Cf. PERRI NO, L e tecniche . , cit., p. 21 O.


. .

595 Cf. PERRI NO, L e tecniche . .. , c ít., p . 2 1 1 .

222
RENATO VENTURA RIBEIRO

Se a coisa perece por culpa de administrador, sendo ele o sócio


conferente da coisa ou não, a sociedade deve arcar com o prejuízo.
Pode, no entanto, responsabilizar o administrador por falta de dili­
gência. Responde como administrador e não como sócio.
No caso de perda parcial ou total, para evitar a exclusão do só­
cio, a critério da sociedade, há alternativas, como a substituição do
bem, eliminação dos defeitos pelo conferente e redução do valor da
conferência. Sendo possível, deve-se permitir a substituição do bem
conferido ou outra solução, como redução do valor da integraliza­
ção, para evitar a exclusão de sócio. Não havendo a possibilidade de
substituição, o caminho é a exclusão de sócio. Tratando-se de con­
trato associativo, a importância da prestação é medida em razão da
atividade comum596 • Se somente interessa à sociedade o bem dado
em conferência e não aporte de capital ou sua substituição, resta
somente a exclusão de sócio, sem prejuízo de ressarcimento por
perdas e danos.
Tratando-se de bem essencial à atividade da sociedade, sem o
qual não se pode haver o exercício da empresa, e não havendo a pos­
sibilidade de sua substituição, a sociedade pode ser dissolvida por
falta de preenchimento do fim comum.

2 . 1 .2 . 1 . CONFER�NCIA DE BENS ESTRANHOS AO OBJETO SOCIAL DA


COMPA N H IA

Na conferência de bens à sociedade, deve-se considerar a questão


não sob a ótica de contrato de permuta, mas sim de com as particulari­
dades de contrato associativo, em especial considerando ser o bem con­
ferido instrumento para desenvolvimento da atividade social597 •
A exemplo do art. 2.247 do Código Civil italiano, a lei brasileira
não admite a conferência de bens estranhos ao objeto social da com-

596 Cf. PERRI NO, L e tecniche . , cit., p. 1 1 8.


. .

597 Cf. PERRJNO, / e tecniche , cit., p. 1 60 e nota n . 2 5 .


...

223
ExnusÃo DE Sócios NAS SornDADEs ANôNIMAS

panhia, caracterizando tal ato como exercício abusivo de poder (art.


1 17, § 1º, h).
Embora o legislador pátrio haja incluído a vedação no rol de
modalidades de exercício abusivo de poder pelos controladores, não
só a subscrição daqueles, mas de qualquer acionista com conferência
de bens estranhos ao objeto social é vedada598 • Isto por não contri­
buir com o escopo da sociedade e poder propiciar fraudes, prejudi­
cando, entre outros, credores e concorrentes (por ex. , no caso de
participação em licitações).
A conferência de bens em desacordo com o texto legal é nula,
podendo ser argüida por qualquer acionista, credor, concorrente ou
outro interessado. Deve ser feita a substituição do bem integralizado.
Se a totalidade da participação do acionista for integralizada com
bens estranhos ao objeto social e não houver a substituição, a nulida­
de da conferência importa a saída do sócio.

2 . 1 . 2 . 2 . PRESTAÇÃO TORNADA IMPOSSIVEL

A prestação pode tornar-se impossível, física ou juridicamente.


Como exemplos, a conferência de minério de patente para explora­
ção de determinado remédio, cuja utilização ou comercialização pas­
sam a ser proibidas.
Se a prestação era impossível à época da subscrição, cuida-se
de nulidade do ato. S e posterior, trata-se de impossibilidade su­
perveniente, podendo o sócio ser excluído, tendo oU não culpa,
após ser notificado da mora599 e não havendo possibilidade ou
aceitação pela sociedade da substituição da obrigação (cf. 2 . 1 .2
acima) .

598 O ideal, para evitar quaisquer dúvidas, é a i nclusão da proibição como parágrafo ú nico
do art. 7º da Lei 6.404/76.
599 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . . , cit., p. 99, acrescentando ser a notificação o
.

primei ro passo para a exclusão do sócio, somente podendo ser feita a expu lsão após
findo o prazo para pagamento da prestação.

224
RENATO VENTURA RIBEIRO

2 . 1 . 2 . 3 . PERECIMENTO DA COISA ANTES DA TRANSFER�NCIA DA


PROPRIEDADE

Se sócio obriga-se a transferir a propriedade de bem e a coisa


é perdida antes da transferência da propriedade, por sua culpa,
pode ser feita sua exclusão, sem direito a ressarcimento600 • Ha­
vendo culpa do sócio, cuida-se de impossibilidade superveniente,
justificando também a sua exclusão sem direito à liquidação da
participação social.

2 . 1 . 2 . 4 . PERECIMENTO DA COISA APÓS A TRANSFER�NCIA DA


PROPRIEDADE

Após a aquisição da propriedade, a sociedade deve suportar o


risco por perda não imputável ao sócio. O sócio responde somente
por vícios redibitórios e evicção.
No caso de vícios redibitórios, a companhia pode optar por
substituição do bem por outro ou por dinheiro, redução do valor
da integralização ou por exigir do subscritor sej am sanados os de­
feitos. No caso de perda de bem em razão de evicção, caberá à
companhia decidir se aceita a substituição do valor em dinheiro
ou por outro bem. Procura-se, assim, evitar a medida extrema de
exclusão do acionista. Todavia, não interessando outras opções à
sociedade, em razão de sua atividade, pode decidir pela exclusão
do sócio.
Discute-se se convenção pode restringir a responsabilidade do
subscritor601 A responsabilidade por evicção pode ser suprimida, se

a sociedade conhece e assume o risco, inclusive com aquisição do


bem por valor inferior.

600 Cf. INNOCENTI, L 'esclusione . ., cit., pp. 97-98, e BOLAFFI, La società semplice, cit., p. 476.
.

601 Para P E R R I NO, Le tecniche.. ., c it., p. 1 79 e nota 2 78, a garantia pode ser suprimida por
d i sposição contratual.

225
ExcwsÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÓNIMAS

2 . 1 . 2 . 5 . (ONFER�NCIA DE BENS MEDIANTE CRÉDITO NÃO SATISFEITO


PELO DEVEDOR6º2

Na conferência de crédito o subscritor responde pela solvência


do devedor (Lei 6.404/76, art. 10, parágrafo único)603 • Consideran­
do a necessidade do crédito para a atividade comum da sociedade,
seu valor pode e deve ser exigido do subscritor imediatamente após o
vencido e não pago604 • Mas é devido pelo subscritor o valor subscrito
e não o valor integral do crédito, caso tenha havido deságio na confe­
rência, acrescido das despesas com a cessão e cobrança (Código Ci­
vil, art. 297)605 .
2 . 1 .2. 6. (ON FER�NCIA MEDIANTE GOZO DE BENS6º6

A conferência de gozo de bens pode ser feita ou não como pres­


tação acessória. Trata-se de obrigação de execução contínua. Haven­
do falta de possibilidade de continuidade do gozo, o sócio está
inadimplente, podendo ser excluído por não cumprimento da obri­
gação, mesmo sendo parcial6º7 •

2 . 2 . fALTA DE CUMPRIMENTO DE PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS

As legislações prevêem a fixação estatutária da sanção por não


cumprimento ou cumprimento defeituoso de prestações acessórias608 •

602 Cf. TESTI, "Sul conferimento ... ", cit., p. 364.


603 CARVALHOSA, Comentários ... , cit., l i , p. 8 1 , exc l u i a responsab i l idade no caso de
títulos emitidos em massa, como debêntu res e outros valores mob i l iários. Parece não
ser a posição mais acertada, pois a norma legal não prevê nenhuma exceção.
604 Para CARVALHOSA, Comentários.. . , cit., li, p. 8 1 , a responsabi l idade do subscritor é
subsidiária e não solidária, devendo a sociedade primeiro executar o devedor para,
uma vez provada impossíve l a execução, cobrar o subscritor. O texto legal não afirma
expressamente a solidariedade. Mas estabelece garantia não como forma de restitu i­
ção, mas pagar à sociedade valor da conferência, tal comü substituição, como i ndica
PERRI NO, Le tecniche .. ., cit., p. 1 82 . Mesmo a sociedade recebendo em conferência
crédito com deságio, o risco do recebimento é do subscritor e não da sociedade.
605 Cf. CARVALHOSA, Comentários . ., cit., li, p. 80.
.

606 Sobre o tema, cf. MENG H I, "Conferimento di beni in god imento e liqu idazione della
quota", Ciur. Comm., 1 985, 1 1 , pp. 756-769.
607 Cf. G H I D I N I , Società personali, cit., p. 561 .
608 Cf., por todas, AktC, § 55.2; Codice civile, art. 2.345.

226
RENATO VENTURA RIBEIRO

No direito brasileiro, na ausência de disposição estatutária e tendo em


vista a falta de previsão legal de prestações acessórias nas companhias,
deve-se aplicar, por analogia, as normas relativas ao acionista remisso609 •

Pela razão da instituição de prestações acessórias, a sanção na­


tural, além das perdas e danos, é a exclusão do acionista. As obriga­
ções estatutárias são estabelecidas em função da necessidade para
exercício da atividade social. Se o acionista não satisfaz suas obriga­
ções de sócio, não há razão para continuar como tal. Pouco importa
qual seja, se a integralização do capital subscrito ou prestação acessó­
ria, pois mesmo nas companhias o sócio não cumpridor dos seus de­
veres, como o remisso, é afastado. No caso das prestações acessórias,
o inadimplemento pode ser até mais grave do que o do acionista
moroso, principalmente se for obrigação a ser prestada exclusivamente
pelo inadimplente ou representar prejuízo maior do que a não inte­
gralização de capital.

2 . 3 . ÜEVER DE COLABORAÇÃO E DE FIDELIDADE

2.3 . 1 . DEVER DE COLABORAÇÃO

O dever de colaboração está relacionado ao princípio da boa-fé,


caracterizado pela lealdade recíproca e pela colaboração na execução
do contrato, considerando a finalidade econômica do contrato (Có­
digo Civil, arts. 421 e 422).
No direito romano, a.fades impunha não só que as partes satisfi­
zessem a prestação devida, como também evitassem tudo o que pu­
desse frustar ou impedir o seu cumprimento610 • D ada a sua

609 Sobre a exclusão por falta de cumprimento de prestações acessórias, DALMARTELLO,


L 'esclusione. . . , cit., p. 1 44; NUNES, O direito de exclusão... , cit., pp. 1 1 2-1 1 3; VILLAVERDE,
La exclusión. .. , cit., p. 1 38 e bibl iografia i ndicada à p. 1 39, nota n. 204; COTTINO,
"Prestazioni accessorie e poteri dell'assemblea", Riv. Soe. 7 (1 962), 1 , pp. 1 6-26.
61 O · Cf. KASER, Das Romische Privatrecht 1: das altromische, das vorklassische und klassische
recht, München, Beck, 1 .955 (tradução espanhola da 5ª ed. por José Santa Cruz Teijeiro,
Derecho Romano Privado, 2ª ed., Madrid, Reus, 1 982, p. 1 67).

227
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SornDADES ANóNIMAS

fundamental importância, os romanos chegavam a equipara-la à coi­


sa sacra611 .
No direito moderno são reconhecidos dois tipos de boa-fé: a sub­
jetiva, relacionada ao estado psicológico do indivíduo e caracterizada
pela boa crença ( Glaube, na doutrina alemã) e a objetiva, que é o padrão
de conduta esperado, o motivo para confiar, englobando não só a boa
crença como a lealdade negocial (Treu und Glauben). A última eviden­
cia a boa-fé como princípio e não como estado subjetivo, sendo o mo­
delo normalmente aplicado no direito contratual hodierno.
Na sociedade, o dever de colaboração consiste não só em cum­
prir todas as obrigações, bem como não opor obstáculos e atuar para
o desenvolvimento da atividade social. Caracteriza violação do dever
de colaboração não só o descumprimento de obrigações612 , como a
colaboração defeituosa613 e colocar vantagem pessoal acima dos in­
teresses da sociedade. Abrange também animosidade, discórdia, fa­
vorecimento de interesses alheios, frustração de medidas de proteção
da sociedade, como impedir exclusão de sócio614 ou destituição de
administrador indigno.
Nas sociedades anônimas, é discutível a existência de dever de
colaboração de acionista615 . Como sociedades de capitais, a única
colaboração exigida do acionista é o aporte de capital. Entretanto, ao
lado da colaboração ativa, pode-se incluir a abstenção de atos dano-

61 1 Cf. CICERO, in Verrem., 2, 3, 3, 6: "Fidem sanctissimam in vita qui putal''.


61 2 Cf. FERREIRA, Tratado ... , cit., pp. 1 5 1 -1 52 .
613 DUQU ESNOY, L a dissolution . . . , cit., pp. 72-73, exemplifica, com base em decisões
judiciais, casos de colaboração defeituosa ordens contraditórias aos empregados e outras
atitudes geradoras de perda de autoridade, falta de rapidez e conclusão de projetos.
614 Sobre a falta d e dever colaboração por recusa para exclusão d e sócio i n digno, cf.
G H I DI N I , Società personali, cit., p. 5 5 7, notas 208 e 209, com indicação bibl iográfica
e jurisprudenci a l .
615 ..
N o di reito comparado, cf. a resenha de N U N ES, O direito de exclusão . , cit., p . 86,
nota 99. No d i reto a l emão a idéia de dever de colaboração do acionista também não é
.
pacífica, como indica bibl iografia indicada por COLETTA, Espropriazione. ., cit., p. 3 1 ,
nota n . 54.

228
RENATO VENTURA RIBEIRO

sos à sociedade, como voto injustificado prejudicial ao desenvolvi­


mento da atividade social, ou a não aprovação imotivada de balanço
social, impedindo distribuição de dividendos.
2 . 3 . 2 . DEVER DE FIDELIDADE

A idéia do dever de fidelidade do acionista ( Treuepjlicht) foi de­


senvolvida pela doutrina alemã616 . Tal dever decorre do princípio
geral de boa-fé617 e exige comportamento de forma honesta, hon­
rada, digna e leal, com relações harmoniosas entre os sócios , não
sobrepondo interesses pessoais aos interesses sociais618 • Compre­
ende principalmente condutas negativas, devendo o acionista abs­
ter-se de prejudicar a sociedade no exercício de seus direitos, como
o de voto, não agir com comportamento perturbador nas assem­
bléias ou defesa de interesses contrários à sociedade619 , não dene­
grir imagem, com fatos, atos ou operações suscetíveis de atentar contra
o nome e o crédito da sociedade620 , não violar o dever de não concor­
rência, manter sigilo das informações obtidas em razão da condição
de acionista ou membro de órgão social, não utilizar bens sociais em
proveito próprio, entre outros6 21 •

61 6 Sobre o dever de fidel idade nas sociedades de capital na doutrina germânica, cf.
WORCH, Treuepflichten von Kapitalgese/lschaftern untereinander und gegenüber der
Cesellschaft: Eine rechtsvergleichende Darstellung des deutschen und amerikanischen
Rechts, Frankfurt am Main, Bern, New York, Lang, 1 983; H E NZE, "Treupflichten der
Gese l l schafter i m Kapitalgesellschaftsrecht", ZHR 1 62 ( 1 998), pp. 1 86-1 9 6 .
617 Para BETTI, Teoria generale dei/e obbligazioni 1, M i/ano, Giuffré, 1 95 3 , p. 93, enquanto
nos contratos bilaterais a boa-fé diz respeito ao sinalágma, nos contratos plurilaterais,
está associada ao necessário para al cance do escopo comum, apresentando-se, antes
de tudo, como dever de fidel idade.
61 8 .
Cf. REQU I ÃO, A preservação da sociedade . . , cit., p. 243.
61 9 Cf. FOSCH I N I, "Sul di ritto di discussione i n assemblea", Riv. Soe. 7 ( 1 962), pp. 5 3-67.
620 .
Cf. CAI LLAUD, L 'exclusion .. , cit., p. 252, nota n . 2.
621 Em alguns negócios, como joint ventures, o dever d e fidel idade é maior. Nesse sentido
o leading case Meinhard v. Salmon: "Joint adventures, l i ke co-partners, owe to one
another, while the enterprise continues, the duty of the finest loyalty. Many forms of
conduct permissible i n a workday world for those acting at arm's lenght, are forbidden
to those bound by fiduciary ties. A trustee is hold to something stricter than the morai s of
the market p lace. Not honesy alone, but the puncti l io of an honor the most sensitive, is
then the standard of behavior" (248 N .Y. 458, 1 64 NE 54 (1 928), p. 463).

229
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANóN IMAS

Para os contratualistas, a falta de dever de fidelidade caracteriza


o não cumprimento dos deveres sociais. Mesmo não havendo previ­
são específica na legislação, o dever de fidelidade está implícito na
idéia de sociedade.
Fora da doutrina alemã há controvérsia quanto à existência do dever
de fidelidade nas sociedades anônimas622 • Mas não é rara a aceitação de tal
dever mesmo nas companhias puramente de capitais, como condição para
permanência do acionista na sociedade, sob pena de exclusão623 .
Uma objeção à aceitação do dever de fidelidade nas sociedades é
seu conteúdo amplo e indeterminado, podendo ser alvo de julga­
mento subj etivo. Não prospera a crítica. Outros motivos justificado­
res de exclusão de sócio também podem ser alvo de apreciação
subjetiva. Por outro lado, a possibilidade de discussão judicial da de­
liberação de expulsão reduz o risco de arbitrariedades.
A sociedade é união de esforços em prol de fim comum. Consi­
derando a atividade social, nas companhias, além da colaboração ativa,
o acionista tem também o dever de não prejudicar o desenvolvimento
da empresa, sob pena de exclusão.

2 .4 . A CONCORR�NCIA DO SÓCIO À SOCIEDADE

É antiga a preocupação com o dever de não concorrência624 . O


Código Comercial alemão de 1 .861 (arts. 96-97) e o atual (arts. 1 12-

622 Uma visão panorâmica da questão é trazida por M I N E RV I N I, "Società per azioni:
Rassegna di d i ritto comparato italo-svizzero", RTDPC, 4 ( 1 950), pp. 222-245, à pp.
235-236. Para DÍEZ, Deber de fidelidad de los administradores de sociedades mercantiles
y oportunidades de negocio, Madrid, Civitas, 1 996, pp. 2 7-58, o dever de fidel idade
abrange a conduta de não desviar oportunidades de negócio para a sociedade, enten­
dendo-se como tais as atividades competitivas, as convenientes para alcance da fi nali­
dade social e aquelas nas quais a sociedade mani festa interesse.
623 Entendendo pelo dever de fidelidade em sociedades de capitais, GAR R I G U ES, "La
exclusión ... ", cit.; SASTRE, "Exclusión de u n accionista ... ", cit., p. 473. Para SCH LLING,
"L'evoluzione dei d i ritto delle società nel dopoguerra i n Germania", i n Riv. Soe. 2
( 1 9 5 7), pp. 1 77-1 92, à p. 1 8 1 , nas sociedades de pessoas a relação de fidelidade deve
ser entre os sócios e nas sociedades de capitais entre a sociedade e os sócios.
624 Falando dos precedentes no direito romano, VIVANTE, Trata/to . . . , cit., p . 1 29 e nota.

230
R ENATO VENTURA RI BEIRO

1 13) cuidam da interdição da concorrência (Konkurrenzverbot)625 • Na


Itália, o Código Comercial de 1 . 8 82, seguindo exemplo do anterior
(Código de 1 . 865, arts. 1 15-1 17), proíbe o sócio de sociedade em
nome coletivo, com responsabilidade ilimitada de participar como
sócio de outras sociedades, sancionando tal prática com a exclusão
(art. 1 86, 3 , b) .
A interdição de concorrência abrange a exploração de atividade
por conta própria626 ou alheia (através de pessoa jurídica ou de ter­
ceiros)627 , bem como a participação como sócio, representante ou
agente comercial em sociedade concorrente628 .
Inicialmente, deve-se perquirir os lindes do conceito de concor­
rência629 . Em sentido mais restrito, por concorrência pode-se enten­
der apenas a identidade de objeto social, explorada direta ou
indiretamente. Embora, aparentemente, pareça fácil verificar a iden­
tidade de atividade, tal situação deve ser apurado no caso concreto,
considerando se o mercado é ou não afetado pela concorrente. Para
verificação do mercado, deve-se levar em conta a possibilidade ou
não de substituição dos produtos, a dimensão geográfica e a tempo­
ral ou conjuntural630 •
Duas sociedades podem ter o mesmo objeto social e não serem
concorrentes, pois os produtos podem ser diferentes e não necessaria­
mente substituíveis uns pelos outros. Como exemplo, o caso de duas

625 É preferível util izar o termo "i nterdição" em lugar de "proibição" de concorrência. Pelo
princípio constitucional da livre iniciativa, não se pode proibir um sócio de exercer
qualquer atividade, mas tão somente responsabi l izá-lo excluí-lo da sociedade caso
esteja em desacordo com as normas contratuais ou estatutárias.
626 O Código das Sociedades Comerciais português, no art. 1 80º, 4, equi para a exercício
por conta própria a participação de, no mínimo, vi nte por cento no capital ou nos
lucros de sociedade, na qual o sócio possui responsabil idade l i mitada.
627 Cf. VILLAVE R D E, La exclusión ... , cit., p. 1 80 e nota 264.
628 Cf. N U N ES, O direito de exclusão . . , cit., p. 1 58; ROM 1 05/203.
.

629 Sobre o dever de não concorrência, d. DALMARTELLO, L 'esclusione . , cit., p. 1 76 e ss.


. .

630 A propósito das três dimensões, cf. SALOMÃO FI LHO, Direito concorrencial: as estru­
turas, São Pau lo, Mal heiros, 1 998, pp. 90- 1 1 9.

231
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÔNIMAS

sociedades cujo obj eto social é a produção de vinhos, sendo uma pro­
dutora somente de vinhos brancos e a outra somente de vinhos tin­
tos631 . Apesar da identidade de objeto, poderá não haver prejuízo, se
constatado tratarem-se de dois mercados distintos. Assim, não há
que se cogitar da interdição de concorrência, salvo se uma das socie­
dades resolver produzir o outro tipo de vinho. Caso contrário, se um
tipo de vinho puder tomar o mercado do outro, estará caracterizada a
concorrência.
Mesmo com a identidade de objeto social, pode não haver na
concorrência entre as empresas, em razão da dimensão geográfica.
Tome-se, por exemplo, o caso de empresas de comunicações, servi­
ços públicos (ex: transporte público e coleta de lixo), telecomunica­
ções, com concessões para atuação em localidades diversas . A
identidade de objeto não representa concorrência.
C om significado mais amplo, tem-se qualquer forma de contri­
buir ao exercício da atividade632 de concorrentes, como através do
fornecimento de matérias-primas e serviços. Sendo tal fornecimento
aos concorrentes da sociedade em condições de igualdade aos de­
mais clientes, não se deve cogitar de concorrência à sociedade. No
entanto, se há fornecimento em condições benéficas ou alguma obri­
gação estatutária está violado o dever de não concorrência.
O sócio que ingressou na sociedade mediante conferência de
estabelecimento comercial deve abster-se de concorrência633 , salvo
disposição em contrário. A interdição da concorrência deriva da obri­
gação de conferência. O novo Código Civil estipula o prazo de cinco
anos de dever de não concorrência, sem autorização expressa (art.

63 1 Os exemplos podem ser os mais vari ados, como também o caso de moi nhos, mencio­
nado por B E N E D ETTI N I , "L'esclusione di sacio per i l lecita concorrenza", in // Oiritto
Commerciale, 8 ( 1 9 1 0), p. 1 5 3 e ss., à p . 1 5 7.
632 Embora fale em "atividade", a proibição da concorrência deve abranger incl usive a
prática de ato isolado.
633 Cf. DALMARTELLO, L 'esc/usione ... , cit., p . 1 77, nota n. 78.

232
R ENATO VENTURA RIBEIRO

1 . 147). Trata-se de prazo coerente com o da ação renovatória de loca­


ção. Bem lembrada a possibilidade de autorização expressa, pois com
ela a alienação do estabelecimento pode ser feita por menor preço.
Tomando-se a interdição da concorrência como proibição do
sócio em participar de outras sociedades, deve-se indagar seus fun­
damentos. Nas sociedades de pessoas, cogita-se da proibição da con­
corrência dos sócios de responsabilidade ilimitada para maior garantia
aos credores, com a não exposição do patrimônio do sócio a outros
riscos634 ; por serem tais sócios, normalmente, administradores e co­
nhecedores das técnicas e segredos da empresa, evitando-se assim
sua divulgação635 e para dedicação do sócio com exclusividade. Ne­
nhuma das razões aplica-se às companhias, não só pela responsabili­
dade limitada dos sócios, como pela disciplina específica dos deveres
dos administradores, que não são, necessariamente, acionistas.
Assim, os fundamentos da interdição da concorrência nas soci­
edades de responsabilidade limitada devem ser resumidos na prote­
ção da atividade empresarial da sociedade, evitando fatores que
prejudiquem os resultados e retardem o alcance dos objetivos sociais.
Especificamente, os vários motivos são de duas ordens: econô­
mica e moral636 • As razões de cunho econômico podem ser resumi­
das no escopo de proporcionar o melhor desempenho da atividade
empresarial637 , o que é obtido com o resultado do trabalho e da habi­
lidade específica do sócio somente em prol da sociedade, menor con­
corrência e eliminação ou minimização de problemas, como a
possibilidade de traição, divulgação dos segredos e informações ad­
ministrativas e a perda ou diminuição de confiança no sócio e o con-

634 Cf. B E N E D ETTI N I , "L'esclusione . . . ", cit., p. 1 54.


635 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., p. 1 77 e p. 1 78, nota 1 0 1 .
636 Cf. a d istinção feita por DALMARTELLO, L 'esclusione. .. , cit., p . 1 74.
637 Cf., entre outros, B E N E D ETTI N I, "L'esclusione ... ", cit., pp. 1 54-1 55, com ampla cita-
ção bibliográfica; DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p. 1 77.
.

233
ExcLusÃo DE Sócios NAS SoornADEs ANÔNIMAS

seqüente reflexo na harmonia das relações internas, a má repercussão


para a sociedade de resultados negativos de negócios particulares de
sócio e conflito de interesses entre sócio e a sociedade.
Como fundamentos morais, a preservação da confiança entre os
sócios, essencial em relação intuitu personae, observância aos princí­
pios da boa-fé contratual, evitando o caráter desleal da concorrência
do sócio e o predomínio do coletivo sobre o individual, sem a obten­
ção de ganho individual do sócio em detrimento dos demais.
Nas sociedades anônimas intuitu personae a interdição da concor­
rência justifica por ambas as ordens de fundamentos acima enumera­
das. Os contratualistas, por sua vez, também justificam a proibição da
concorrência em razão do dever de colaboração dos acionistas638 • Nas
companhias puramente de capitais, o dever de colaboração dos acio­
nistas é restrito ao aporte de capital, levando à conclusão da possibili­
dade deles serem sócios de sociedades concorrentes. Nas companhias
personalistas com obrigações acessórias, o dever de colaboração do sócio
pode ser limitado à integralização de suas ações e ao cumprimento das
prestações específicas. Por isto, a interdição da concorrência deve ser
baseada na proteção da atividade empresarial.
A questão da interdição da concorrência envolve o estabeleci­
mento dos limites do livre exercício de atividade econômica pelos
sócios, que deve ser exercida dentro dos parâmetros legais (CF, art.
1 70, parágrafo único). Dois os valores a serem conciliados: a liberda­
de econômica dos sócios e o melhor desenvolvimento da atividade
empresarial da sociedade.
A interdição da concorrência deve restringir-se às situações que
afetem a atividade da sociedade. Não pode impedir o exercício, pelos
sócios, de atividade econômica não prejudicial à sociedade639 •

638 Cf. autores mencionados por DALMARTELLO, L 'esclusione . . ., cit., pp. 1 74-1 75 e nota
n. 93, e N U N ES, O direito de exclusão. . , cit., p. 1 49, nota n. 66.
.

639 A propósito, cf. a resenha de NU NES, O direito de exclusão . . , cit., p. 1 50, nota n. 67.
.

234
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Sob tal ótica, a interdição da concorrência limita-se às ativida­


des previstas no objeto social640 , mesmo que a coincidência seja ape­
nas parcial641 • De forma mais restritiva, a proibição da concorrência
deve reduzir-se às atividades efetivamente exercidas pela sociedade e
não a todas aquelas previstas no objeto social642 , tendo em vista a
inexistência de prejuízo. Somente caso a sociedade passe a atuar em
outras atividades constantes do objeto social justifica-se a interdição
da concorrência643 •
Havendo identidade de objeto, mas sem possibilidade de desvio
de clientela, impedindo ou dificultando a atividade social, pela exis­
tência de mercados distintos, não se justifica a interdição da concor­
rência, por não existir prejuízo à sociedade.
Se no objeto social é incluída atividade já exercida pelo sócio,
sem o seu consentimento, a interdição da concorrência somente pode
ocorrer se houver previsão estatutária anterior estabelecendo a possi­
bilidade de extensão do dever de não concorrência a outras ativida­
des. Caso contrário, prevalece o livre exercício da atividade econômica
pelo sócio. Sem falar em eventual possibilidade de abuso de poder,
com o propósito de prejudicar o sócio. O fato de ser membro de
sociedade não pode representar um aprisionamento nem restrição às
suas atividades644 •

640 Cf. ASCA R E L L I , Teoria dei/a concorrenza e dei beni imaterialli, M i l ano, G iuffre, 1 956,
p. 49. O Código das Sociedades Comerciais português, no art. 1 80º, 3, define como
atividade concorrente toda aquela prevista no objeto social, mesmo não sendo exercida
pela sociedade.
641 Cf. BARRETO F I LHO, Teoria do estabelecimento comercial: fundo de comércio ou
fazenda mercantil, 2ª ed., São Paulo, Saraiva, 1 988, p. 255; RT 1 93/874 e 340/358.
642 N U N ES, O direito de exclusão ... , cit., p. 1 54.
643 Há casos mu ito particulares nos quais a exploração de determi nada atividade por uma
empresa pode i nviabi l i zar ou prejudicar atividade futura de outra. Nesta h ipótese, es­
tando prevista a atividade no objeto social, mesmo a sociedade não a exercendo efeti­
vamente, deve haver abstenção da concorrência. O critério é a possibil idade de preju­
ízo à sociedade.
644 CECCOP I ERI, " D ivieto di concorrenza nelle società i n nome col lettivo", NRDComm. 1
( 1 947-48), l i , p. 7 1 , chega a afirmar que a sociedade não é gleba de que os sócios
se1am servos.

235
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÔNIMAS

Nas sociedades contratuais, o dever de não concorrência atinge


os sócios gestores645 e os de responsabilidade ilimitada. O sócio não
gestor, mas detentor de informações da sociedade em razão da sua
condição de sócio, não pode utilizá-los em benefício próprio, nem
realizar negócios para si. Nas companhias, a interdição de concor­
rência deve abranger os administradores e os acionistas detentores
de informações que podem ser utilizadas em empresas concorrentes,
não atingindo os demais acionistas.
No caso de sócio administrador, são diversas as razões que fun­
damentam a proibição de concorrência com a sociedade: eventual
dedicação exclusiva à sociedade; relação de confiança entre adminis­
trador e sociedade; dever de lealdade e fidelidade do administrador;
vedação de ocorrência de conflitos de interesses e concorrência des­
leal, com o uso de informações privilegiadas646 .
Havendo proibição legal647 ou estatutária, para exclusão do ad­
ministrador como sócio deve bastar o mero exercício de atividade
concorrente ou análoga, não importando se houve danos econômi­
cos ou não648 . Mesmo sendo majoritário, o sócio gestor pode ser ex­
cluído649 através de via judicial.
No caso do sócio pretender afastar-se da sociedade para atuar
em outra, seja própria ou não, mesmo antes da atuação inicial os
preparativos ocultos para a saída denunciam falta de boa-fé, abuso de
confiança como a ausência de intenção no sucesso da sociedade650 ,

645 Cf. N U N ES, O direito de exclusão. . . , cit., p. 1 45, nota n . 63.


646 A respeito dos fu ndamentos, cf. LARRUBIA, Prohibición de competencia de los administra­
dores de las sociedades de capital, Bolonia, Real Colegio de Espafia, 2003, pp 78-1 OS.
.

647 U m exemplo é a vedação expressa no art. 65 da lei espanhola das sociedades l i mitadas.
648 Cf. J I M É N EZ, "Separación y exclusión . . . ", cit., p. 974; L ENZANO e TREJO, Separación
y exclusión . , cit., p. 1 1 8, com referênc ias a três decisões do Tribunal Supremo, e
. .

LARR U B IA, Prohibición de competencia . . , cit., p. 1 04 e nota 1 69.


.

649 Cf. !RUJO, "Exclusión uni latera l . . . ", cit., pp. 359-363; V I L LAVERDE, "Exclusión de los
sócios mayoritarios . . . ", cit., . 2 8 1 -292. Vide ainda Parte l i , Cap. IV, 4 acima.
650 O que DALMARTELLO, L 'esclusione . , cit., p. 1 75, chama de "dovere de agire a favore".
..

236
RENATO VENTURA RIBEIRO

justificando sua exclusão651 •


Com expresso consentimento da sociedade, não se deve falar em
violação do dever de não concorrência. Presume-se haver autorização
se os demais sócios tinham conhecimento de que o sócio já exercia a
atividade antes de seu ingresso na sociedade652 • Por outro lado, a soci­
edade não pode negar a autorização a sócio quando não existe dano653 •
A cláusula estatutária ou de acordo de acionistas estabelecendo
dever de não concorrência deve ater-se ao objeto social e à finalidade
do instituto, nas hipóteses nas quais pode haver prejuízos à sociedade,
não podendo privar o sócio de seu direito de livre iniciativa. Mesmo
não havendo previsão estatutária ou em acordo de acionistas, sendo
caracterizada ª concorrência sem autorização dos demais sócios, com
.
prejuízos à sociedade, pode haver a responsabilização do sócio.
Como sanção ao sócio violador do dever de não concorrência,
além da exclusão, a responsabilização por perdas e danos e até a de­
volução de ganhos obtidos indevidamente em favor da sociedade,
sem prejuízo da responsabilidade do sócio na condição de adminis­
trador, se o caso.

3 . VICISSITU DES PESSOAIS DO SÓCIO

Até no direito romano, no qual prevalece o forte vínculo pessoal


entre os sócios e a intransmissibilidade das obrigações, já é admitida,
ainda que em caráter excepcional, a continuidade da sociedade em
razão de eventos relacionados à pessoa dos sócios.

65 1 Caso interessante ocorreu no B rasil, envolvendo tradicional escritório de advocacia.


Em apenas três d ias após a del iberação da exc lusão, os exc l u ídos já estavam i nstalados
em escritório (próprio) e no efetivo exercício de suas atividades, com matriz, fi lial,
telefones e telex, i ndicando que o novo empreendimento foi premeditado anterior­
mente à exclusão. As principais peças e pareceres do p rocesso estão reproduzidos em
obra dedicada ao tema, Sociedade de advogados. , citada.
..

652 Nesse sentido, o Código Comercial a l emão, § 1 1 2, l i e o Código Civ i l ita l iano, art.
2.30 1 , 2 .
653 Cf. VILLAVERDE, La exclusión . , cit., p. 1 8 1 .
..

237
EXCLUSÃO DE SôCIOS NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

Mas, paradoxalmente, no direito societário moderno não há ve­


dação à constituição de sociedade anônima com intuitus personae ab ­
soluto, revigorando a idéia da escolha de determinada pessoa (certam
personam sibi elegit). Como visto654 , pela ausência de vedação legal, o
estatuto de companhia pode prever sua dissolução no caso de vicissi­
tude pessoal de sócio.
Se o estatuto pode até prever a dissolução da companhia, com
maior razão o estabelecimento de hipóteses de exclusão por motivos
pessoais de sócio nas anônimas personalistas, permitindo a continui­
dade da empresa.

3.1 . FALECIMENTO

Assim como nas tradicionais sociedades de pessoas, cujo con­


trato estabelece as conseqüências em caso de falecimento de sócio655 ,
nas companhias podem ser previstas estatutariamente várias solu­
ções: dissolução; continuidade da sociedade com os herdeiros ou sem
eles; a admissão dos herdeiros a critério ou não dos demais sócios ou
de órgãos da sociedade e resgate de ações. A primeira solução é apro­
priada para os casos de vínculo in tuitu personae absoluto. A continu­
ação automática com os herdeiros é própria das sociedades puramente
de capitais. A continuidade sem os herdeiros, seja ela automática ou
não, é caso de exclusão, merecendo atenção. Todas as soluções são
aplicáveis mesmo em sociedade com dois sócios.
Apesar de possíveis juridicamente (Lei 6. 404/76, art. 36), talvez
sejam raros os casos de disposições estatutárias com previsão de não
ingresso dos herdeiros ou condicionando sua entrada sociedade à
aprovação dos demais acionistas ou de órgãos sociais. No entanto,
mesmo sem previsão expressa sobre o falecimento de sócio, outras

654 Cf. Parte 1, Cap. 1, n. 1 .2 . 1 . acima.


655 Mas há mu ito tempo é criticada, nas sociedades contratuais de pessoas, a relação entre
morte do sócio e dissolução da sociedade. Cf. VIVANTE, Tratatto . , cit., p. 624.
..

238
RENATO VENTURA RI BEIRO

regras estatutárias podem ocasionar a exclusão da participação do


acionista decorrente, ainda que indiretamente, de tal motivo.
É o caso da restrição à transmissão de ações. A não concordân­
cia dos demais sócios ou do órgão responsável pela autorização, con­
duz a três caminhos (excluída a hipótese de dissolução) : venda da
participação do de cujus a pessoa habilitada a adquiri-las (em razão de
determinação condição ou consentimento dos acionistas ou da soci­
edade) , compra ou resgate das ações pela sociedade ou exclusão da
participação hereditária, com diminuição do capital social. Caso a
participação social do acionista falecido esteja sujeita a prestações
acessórias e os herdeiros não tenham condições de cumpri-las, seu
destino também pode ser o não ingresso na sociedade.
Qyer direta, quer indiretamente, a morte de acionista é hipótese de
exclusão de sócios nas companhias, tendo em vista o melhor exercício da
atividade empresarial. Aliás, a finalidade da maximização do desempe­
nho da sociedade justifica o ingresso ou não dos herdeiros na sociedade,
dependendo do caso concreto. Sendo mais viável a presença dos herdei­
ros na sociedade, não se justifica sua não aceitação na sociedade.
Se o estatuto não trouxer a previsão de solução em caso de fale­
cimento, não podem os acionistas estabelecer após a morte de sócio
introduzir cláusula restritiva à circulação de ações ou não ingresso de
herdeiros aplicável a caso passado656 •

No caso de opção pela exclusão, há o problema da determinação


do dia a servir de base para elaboração de balanço e avaliação do
valor das ações. Havendo previsão estatutária expressa sobre o não
ingresso dos herdeiros na sociedade, não resta dúvida de que deve ser
considerada a data do falecimento do acionista.

656 Uma vez admitido o espólio como sócio, i nc lusive com i ntegral ização de aumento de
capital, não pode ser exc l u ldo com base no falecimento do sócio, conforme decisão do
TJSP, Ap. Civ. n. 2 1 2 .335-2, j. 7 . 1 2 .93.

239
ExcLusÃo DE Sócios NAS SocirnADEs ANôNIMAS

No entanto, se o estatuto sujeitar o ingresso dos herdeiros como


acionistas ao consentimento dos demais ou de órgão da sociedade,
provavelmente o veto à entrada dos herdeiros seja posterior. Neste
caso, deve ser considerada a data da deliberação da exclusão dos her­
deiros ou a do falecimento do acionista? Em tese, a lógica indica a
data da morte do sócio, por ser a causa da exclusão, sendo este o
critério adotado nas principais legislações e na maioria dos contra­
tos. Até porque se o estatuto submete o ingresso dos herdeiros a um
placet, os mesmos não se tornam sócios, devendo a participação que
lhes cabe ser calculada com base no valor à data do falecimento.
A realidade dos negócios, entretanto, é bem diversa. Entre a data
de falecimento do acionista e a deliberação da não aceitação dos her­
deiros na sociedade, podem ocorrer significativas mudanças no valor
econômico das ações. Ainda que decorram poucos dias entre ambos
os eventos, no intervalo a sociedade pode ter concluído importante
negócio, como o fechamento de contratos de fornecimento de bens
ou serviços ou êxito em processo licitatório. Como o acionista finado
deve ter contribuído para o êxito da sociedade, não é justo que seus
herdeiros fiquem privados dos valores agregados às ações. Ao preva­
lecer a situação da sociedade à data do falecimento, os acionistas po­
dem deliberar pelo não ingresso dos herdeiros apenas com o propósito
de não repartir os proveitos dos novos negócios. Por outro lado, se for
considerada a data da deliberação de não aceitação, na hipótese de
queda no valor da ação também não é justo que os herdeiros sofram
diminuição patrimonial relativa ao exercício da atividade empresari­
al pelos sócios restantes.
Por isto e como a decisão do não ingresso dos herdeiros compe­
te aos acionistas ou à sociedade, por eqüidade e para resguardo do
patrimônio dos herdeiros deve ser pago a eles pelas ações o maior
valor dentre o apurado à data do falecimento do sócio e o da decisão
da deliberação da exclusão. Até porque, durante o período os recur­
sos do falecido permaneceram na sociedade, pelo que os herdeiros

240
RENATO VENTURA R IBEIRO

merecem uma compensação pela indisponibilidade, não apenas os


juros (enquanto custo de oportunidade), mas um prêmio pelo risco
de quebra da sociedade. O único inconveniente é a elaboração de
duas avaliações patrimoniais, mas plenamente explicável peh busca
de valor justo. O que, aliás, não inviabiliza acordo entre as partes
interessadas sobre o montante a ser pago, dispensando, inclusive, um
ou ambos os balanços.
De qualquer forma, é importante que a lei ou o estatuto fixe um
prazo máximo para a deliberação de aceitação ou não dos herdeiros
na sociedade e que o mesmo seja o mais abreviado possível, evitando
maiores distorções entre as situações patrimoniais nas datas do fale­
cimento e da decisão de exclusão.
Adotado o critério da data do óbito, resta apurar como precisar
o dia exato do evento, mormente em situações como desaparecimen­
tó, seqüestro seguido de morte, entre outras nas quais é ditícil a de­
terminação do momento657 • Neste caso, as soluções também variam,
indo desde a data do desaparecimento ou início do evento relaciona­
do à morte, passando pelo dia marcado na certidão de óbito ou até o
da comunicação do ocorrido aos sócios remanescentes. Descartamos
a última, por ser um expediente que permite aos herdeiros o retarda­
mento do fim da relação social658 • Deve-se seguir a data adotada em
inventário ou na certidão de óbito.
Um outro problema diz respeito ao cálculo dos haveres dos her­
deiros. No Brasil, jurisprudência mais antiga previa o pagamento com
base no valor a ser recebido na dissolução total, em razão da extinção
do vínculo. No entanto, como a sociedade continua, a melhor solu­
ção é a inclusão do valor referente ao fundo de comércio (a respeito,
cf. Cap. III, 1 abaixo). Para evitar maiores discussões, recomenda-se

657 Para maiores detalhes sobre o problema, cf. IN NOCENTI, L 'esclusione... , cit., pp. 37-40.
658 Cf. I N NOCENTI, L 'esclusione . , cit, pp. 38-39, com apoio em BOLAF F I , La società
..

semplice. . , cit., p. 474 e ss.


.

241
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANôNIMAS

ainda que o critério de apuração dos haveres venha estabelecido no


estatuto social.

3 . 2 . Aus�NCIA

Por definição legal ausente é a pessoa desaparecida, da qual não


há notícias (Código Civil, art. 22)659 • O novo Código também traz a
noção de morte presumida, nos casos em que for extremamente pro­
vável o falecimento de pessoa em perigo de vida e desaparecidos de
guerra ou prisioneiros não encontrados após dois anos do fim do
embate (art. 7°). Equiparada à morte, para fins de abertura de suces­
são definitiva, tem-se ainda o caso dos ausentes com mais de oitenta
anos e mais de cinco anos sem notícias (art. 38).
A definição legal não abrange a ausência temporária nem a falta
de prestação de atividade660 . Qiando a ausência é prolongada, em
razão de doença grave, pode o sócio ser afastado caso traga prejuízos
à sociedade e não consiga cumprir com suas obrigações.
Nas companhias, só pode haver exclusão do acionista por au­
sência em caso de não cumprimento de prestações acessórias ou
caso fiquem comprovados prejuízos à atividade social decorrentes
da ausência.

3 . 3 . I NCAPACIDADE FÍSICA OU JURÍDICA. I NTERDIÇÃO E


I NABILITAÇÃO

Interdição está relacionada à falta de capacidade para prática de


atos civis.
Inabilitação é a ausência de condições físicas ou jurídicas661 , como
requisito formal essencial para atividade, como a carteira de habilita-

659 Considera-se também ausente pessoa envolvida em atividades pol íticas, desaparecida
há mais de u m ano, nos termos do art. 6º da Lei 6. 683/79 ( ROA 1 3 7/426, RF 267/450).
660 Cf. VIL LAVERDE, La exclusión .. ., cit., p. 1 84.
661 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione . . ., cit., p. 1 89; VILLAVE RDE, La exclusión . . , cit., PP ·
.

1 1 3 e ss., e 1 28.

242
RENATO VENTURA RIBEIRO

ção para condução veículos ou a inscrição em órgão de classe para


exercício de profissão.
Nos casos de interdição e inabilitação, são considerados não só
problemas mentais, mas também os físicos que impeçam o acionista
de colaborar com a sociedade662 , notadamente no caso daquele que
se obrigou a efetuar prestações acessórias. Como visto, a exclusão
independente de culpa. A apuração da culpa é relevante somente para
efeitos de responsabilidade do acionista663 •
As razões de tal causa de exclusão nas sociedades de pessoas são
a perda da confiança no sócio, a impossibilidade de sua contribuição
na atividade comum e o descrédito da sociedade, bem como evitar
entraves ao desenvolvimento da atividade comercial, como no caso
da presença de incapaz quando se requer decisão unânime. Por isso,
nas sociedades contratuais a interdição ou inabilitação de qualquer
sócio, mesmo não administrador, é causa de exclusão664 Os sócios •

não são obrigados a aceitar nem a colaboração de interdito ou inabi­


litado. Nem através de estranho que figure como curador ou tutor,
menos pela falta de confiança e mais pela desfiguração da importân­
cia pessoal do sócio.
Como nas companhias intuituspersonae é importante a contri­
buição pessoal do sócio, por suas qualidades profissionais, morais e
intelectuais, cabível a exclusão do acionista cuja interdição ou inabi­
litação possa prejudicar a atividade social. Em sociedades, inclusive
as anônimas, nas quais a figura do sócio é relevante ao desenvolvi-

662 F E R R E I RA, Sociedades por quotas, c it., p. 375, fala em incapacidade civil ou moral do
sócio, apontando como exemplo situações como "a i nabi lidade técnica, a ebriedade
habitual, o descrédito públ ico, a prodigalidade, a enfermidade prolongada, a loucura,
a ausência".
663 DALMARTELLO, L 'esclusione , cit., p. 1 9 1 , d istingue a i nterdição judicial, decorrente
...

de caso fortuito (ex: doença), da i nterdição legal, derivada da culpa e prática de atos
i l ícitos. Mas adverte que a diferenciação é apenas para efeitos de responsab i l i dade,
pois ambas justificam a exclusão do sócio.
664 Cf. Código Civil itali ano, art. 2 .286.

243
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADES ANÓNIMAS

mento da atividade, quer por sua capacidade técnica, relacionamento


pessoal com a clientela, financiadores, fornecedores, ou qualquer ou­
tro motivo, a interdição ou inabilitação do sócio acarreta a diminui­
ção do aviamento, além de possível descr�dito da sociedade665 , pela
presença de incapaz.
O estatuto pode prever que, em caso de interdição ou inabilita­
ção, apenas cessam as obrigações de prestações acessórias do acionis­
ta. Nesta hipótese vicissitude pessoal do sócio funciona como condição
resolutiva não de sua permanência na sociedade, mas de seus deveres,
não sendo, portanto, caso de exclusão. E a companhia, ao menos em
relação ao acionista afetado, retoma a conformação intuitus pecuniae.
O caráter de sociedade intuitus personae, conforme os elementos que
a caracterizam (cf. Capítulo I) não é absoluto: companhia persona­
lista pode transformar-se em intuitus pecuniae e vice-versa.
A inabilitação é motivo para expulsão do acionista quando pre­
judicar as atividades da sociedade. Não abrange, apenas o sócio ges­
tor ou aqueles obrigados à prestações acessórias. No caso de sociedade
de profissionais liberais, a inabilitação de qualquer sócio pode impe­
di-lo de cooperar ou até continuar na sociedade.
Se as condições mentais do sócio estão afetadas e isto está pre­
judicando a sociedade, ele pode ser excluído, mesmo antes da inter­
dição judicial666 •
No caso de sócio acusado de crime, o prejuízo à atividade em­
presarial, efetivo ou potencial, fundamenta sua exclusão por justa cau­
sa. Pode-se refutar tal posição, baseando-se no princípio da presunção
de inocência até o trânsito em julgado de sentença penal condenató­
ria (CF, art. 5°, LVII) . No entanto, a norma aplica-se em matéria
penal e não em questões empresariais. Para fins de exclusão de sócio,

665 Cf. P E R R I NO, Le tecniche . . . , cit., p. 207.


666 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione ., cit., p . 1 92.
..

244
RENATO VENTURA RI BEIRO

é relevante o prejuízo à empresa e não a inocência do sócio. A


condenação de sócio, com sentença transitada em j ulgado, pode
até não prejudicar a sociedade, não justificando a sua exclusão.
Em outra situação, o mero fato do membro da sociedade estar
sendo acusado pode causar enormes danos à sociedade '. Opinião
intermediária defende a exclusão do sócio após sentença conde­
natória, mesmo não transitada em julgado, para defesa da empre­
sa, quando há prejuízo, mesmo sem dolo ou culpa do sócio667 •
Porém, os mesmos argumentos utilizados para justificar a exclu­
são do sócio com sentença condenatória fundamentam a expulsão
do acusado. Para evitar maiores danos à empresa, impõe-se desde
logo a exclusão de sócio prejudicial, sem necessidade de aguardar
decisão judicial condenatória.
3 . 3 . 1 . I NTERDIÇÃO OU I NABILITAÇÃO TEMPORÁRIAS

3 . 3 . 1 . 1 . I NTERDIÇÃO TEMPORÁRIA DE OFÍCIOS PÚBLICOS

A interdição temporária para exercício de ofícios públicos pode


prejudicar a imagem da sociedade, causando-lhe descrédito, justifi­
cando a exclusão do sócio668 • Trata-se de pena acessória no direito
brasileiro e implica perda da capacidade de agir.
No Brasil as normas de registro empresarial proíbem o arquiva­
mento de atos constitutivos e de alteração de sociedades em que fi­
gure como titular ou administrador pessoa condenada por crime cuja
pena vede o acesso à atividade mercantil669 .
Só deve haver a exclusão quando a interdição do acionista pre­
j udicar a sociedade, como nos casos de descrédito da sociedade pe­
rante terceiros e prejuízos nas perspectivas e resultados670 •

667 Cf. G H I DI N I , Società personali, cit., p. 560.


668 Cf. B R U N ETTI, Trattato. . . , cit., p . 407; IN NOCENTI, L 'esclusione . . , cit., pp. 94-95.
.

669 Lei n . 8.934/94, art. 3 5 , l i e Decreto n . 1 .800/96, art. 5 3 , 11; Código Civil, art. 1 .0 1 1 , § 1 º.
670 Cf. P E R R I NO, Le tecniche. . , cit., p. 209.
.

245
ExcLUSÃO DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÓNIMAS

3 . 3 . 1 . 2 . SUSPENSÃO DO EXERC1CIO PROFISSIONAL

Nas profissões regulamentadas por lei, o profissional pode ser


apenado, entre outros, com suspensão ou cancelamento da inscrição.
As sociedades cujo objeto social abrange atividades de profis­
sões regulamentadas podem ou não, dependendo da lei, ser constitu­
ídas somente por profissionais inscritos em órgãos de fiscalização
profissional.
Mesmo no caso de não se exigir que todos os sócios pertençam
à profissão regulamentada, se a punição disciplinar do sócio causar
prejuízos à sociedade, como descrédito perante terceiros, é caso de
sua exclusão.
Exigindo a presença de todos os sócios de determinada profis­
são, a pena de cancelamento da inscrição no órgão profissional não
só justifica a expulsão, como esta deve ser automática. No caso de
profissional suspenso, não necessariamente deve ser excluído. Somente
não pode exercer atividade durante o período da suspensão. No en­
tanto, a pena de suspensão e os fatos que a originam podem justificar
a exclusão do sócio. Caberá aos sócios decidir sobre a conveniência
ou não da expulsão.
S endo revista, por decisão judicial, a pena disciplinar de cance­
lamento da inscrição, pode o excluir retornar à sociedade. Já no caso
de nova inscrição671 , caberá aos sócios aceitar ou não o ingresso do
antigo membro.

671 Nas leis regu lamentadoras de conselhos de fiscalização profissional, é comum a pena
de exclusão ou cancelamento do exercício profissiona l . Trata-se de pena máxima no
âmbito disc i p l i n ar, podendo ser acrescida de mu lta pecuniária. Questão bem i nteres­
sante é a d i scussão se o cancelamento é perpétuo ou se o punido é passível de reabi l i­
tação e, portanto, de nova inscrição. Como existe a pena de suspensão como proibição
temporária do exercício profissional, o cancelamento poderia ser entendido como proi­
bição perpétua do exercício profissional. No entanto, a pena de cancelamento não
deve ser impeditiva de reabilitação, após determinado período, medi ante nova i nscri­
ção, preenchidos os requisitos legais. Isto porque a Constituição Federal pro1be penas
perpétuas (art. 5º, XLVl l, b). Questionável somente o prazo de reabi l itação. Tratando-se

246
RENATO VENTURA RI BEIRO

3 . 3 . 1 . 3 . L ICENÇA PARA OCUPAR CARGO INCOMPATÍVEL

Qyando o sócio está impedido temporariamente de exercer,


mesmo parcialmente, a sua profissão, em razão de ocupar cargo in­
compatível com a atividade social, gera prejuízo à sociedade, pela
impossibilidade de atuação.
Em alguns casos, a ausência do trabalho do sócio é compensada
pelos clientes por ele deixados e até pelo prestígio do cargo por ele
ocupado. Apesar de licenciado, sua falta pode trazer mais benefícios
do que prejuízos à sociedade, ainda que após seu retorno.
Porém, se a licença causar mais danos à sociedade do que bene­
fícios e se assim for julgado conveniente, o sócio pode ser afastado,
em prol da eficiência da atividade empresarial.

3 .4. Sócios MENORES

Em princípio, por serem as companhias sociedades de capitais,


não há nenhum inconveniente na presença de acionistas menores.
No entanto, a existência de prestações suplementares impede a
presença do acionista menor, pois não podem ser exigidas de sócios
menores obrigações que ultrapassem os limites da simples adminis­
tração (Código Civil, art. 1 .691).
Havendo prestações acessórias, se não puderem ser cumpridas '
pelo acionista, devem acarretar a sua exclusão ou a sanção prevista no
estatuto. A menoridade pode não ser impedimento para cumprimento
'
de obrigação acessória, como, por exemplo, no caso do menor ter
direitos sobre determinada marca, objeto de prestação acessória vin­
culada às ações.

de pena d iscip l i nar, deve ser aplicado por analogia o prazo previsto na lei penal de
quatro ou oito anos, no ú ltimo caso para reincidente (Código de Processo Penal, art.
743). Porém, no di reito empresarial o prazo para reabi l itação na lei fal imentar é de
c i nco anos (Lei 1 1 . 1 0 1 /05, art. 1 8 1 , § 1 º).

247
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÔN IMAS

No caso de prestações acessórias nem sempre há a vedação pre­


vista no art. 1.691 do Código Civil. Embora tragam obrigações além
da simples administração, podem ser aceitas, mediante autorização
judicial, por necessidade ou eventual utilidade da prole. Por vezes, o
ônus da prestação acessória, como no referido exemplo, pode ser ín­
fimo diante do benefício da titularidade das ações.

3 . 5 . I NSOLV�NCIA OU FAL�NCIA

Um dos avanços da lei falimentar brasileira de 1. 945, mantido


na lei atual, é a separação entre a falência do sócio e a dissolução da
sociedade. Embora a sociedade não mais se dissolva com a falência
do sócio672 , o falido deve ser excluído automaticamente (Código Civil,
1 .030, parágrafo único), prejudique ou não atividade social, tendo
em vista que a lei não traz diferenciação673 • Ou seja, pelo atual Códi­
go Civil a justa causa para exclusão do falido é a simples declaração
de falência e não o prejuízo gerado à sociedade.
Em princípio, a falência de um sócio não deve afetar uma
sociedade anônima, dada a irrelevância da pessoa do acionista,
cuja única obrigação é o aporte de capital. No caso das compa­
nhias com traços intuitu personae, as conseqüências podem ser
variadas: o estatuto pode prever a dissolução da sociedade, a ex­
clusão do falido, ou deixar a critério da sociedade a opção entre
dissolução ou exclusão.

672 Cf. o revogado Decreto-lei n. 7.66 1 /45, art. 48, prevendo apenas a apuração de have­
res do fa l ido e não a d i ssolução da sociedade, ao contrário do revogado art. 335, 2 do
Código Comercial. No d i reito comparado, há a mesma orientação. Na Alemanha, a
sociedade pode continuar após a falência do sócio, caso previsto no contrato social ou
decidido após a vicissitude (HGB, § 1 38). Na Itália, mesmo quando a falência era
causa legal de exclusão, prevista no art. 1 9 1 do Código Comercial, eram aceitas con­
venções de conti n u idade da soci edade sem o sóc i o fa l ido (d. DALMARTE L LO,
L 'esclusione . ., cit., p. 5 7) e atualmente a falência não mais é causa legal de d issolução
.

e sim de exclusão de d i reito do sócio (art. 2 .288).


673 REQU IÃO, A preservação da sociedade . ., cit., p. 2 1 1 , na vigência da lei antiga, opina­
.

va pela exclusão do fal ido apenas quando prejudicasse a atividade soci a l .

248
RENATO VENTURA RIBEIRO

Para melhor compreensão do tema, deve-se inicialmente per­


quirir os fundamentos da exclusão nas sociedades contratuais674 •
Uma das principais razões apontadas para a exclusão do sócio
falido nas sociedades de pessoas é a responsabilidade ilimitada675 , pois
com a falência os bens particulares do sócio deixam de constituir ga­
rantia aos credores, com sobrecarga sobre os demais sócios. Sob tal
enfoque, é descabida a exclusão de acionista falido, pois, como nas com­
panhias há a limitação da responsabilidade ao preço de aquisição das
ações (Lei 6.404/76, art. 1 º), a falência de acionista não afeta a garantia
das obrigações da sociedade. Poder-se-ia até questionar se a referida
norma instituidora da limitação da responsabilidade é cogente ou per­
mite disposição estatutária diversa, como obrigação acessória de ga­
rantia ou conferência de bens particulares de um ou mais sócios676 •
No entanto, há várias indicações de que a ratio legis da exclusão
do falido nas sociedades de pessoas não é a responsabilidade ilimita­
da. Algumas legislações, como os Códigos Civis italiano (art. 2.288)
e brasileiro (art. 1 .030, parágrafo único) prevêem exclusão automáti­
ca do falido, tenha ou não responsabilidade ilimitada, pelo que se
deduz ser norma cogente677 , não sendo a responsabilidade do sócio o

674 Sobre o tema, em especial SPADA, La tipicità .. ., cit., pp. 3 28-339.


675 Em algumas legislações a falência de sócio de responsab i l idade i l i mitada é causa de
dissolução da sociedade, embora modernamente o princípio da preservação da em­
presa i nd ica que a dissolução só deva ocorrer em ú l timo caso. Uma a n á l ise do proble­
ma no d i reito comparado é feita por N U N ES, O direito de exclusão .. ., cit., p. 1 38, nota
n. 57. Embora nas companhias a figura dos sócios deva ser indiferente à sociedade, em
se cuidando de sociedade anônima intuitus personae pode-se admitir que a falência de
acionista (assim como a morte ou outra vicissitude pessoal) conduza à d issolução da
sociedade, desde que prevista no estatuto, justificando-se a d i ssolução não com base
na falência do acionista, mas em previsão estatutária (lei 6.404/76, art. 2 06, 1, "b").
676 Como a responsabi l idade l i mitada é característica fu ndamental das compan h ias, é fá­
c i l compreendê-la nas "sociedades anônimas de capitais", restringi ndo a responsabi l i ­
dade dos investidores ao preço de aquisição d a s ações. Entretanto, n a s pequenas soci­
edades anônimas e mesmo nas sociedades por quotas de responsabi l i dade limitada,
uma das condições para obtenção de crédito, em muitos casos, é garantia pessoal dos
sócios. Por isto, a cogitação da previsão de tal obrigação em cláusula estatutária, trans­
pondo para o ato constitutivo aqu ilo que, n a prática, já existe.
677 Cf. INNOCENTI, L 'esclusione . ., cit., p. 99.
.

249
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADES ANôNIMAS

principal motivo do afastamento678 • Some-se a isto outros fatores,


como a total disponibilidade dos bens do sócio de responsabilidade
ilimitada. Se todos os bens podem ser livremente alienados, a garan­
tia aos credores é restrita679 •
Por outro lado, se a declaração de falência é suficiente para a
exclusão, mesmo restando bens para pagamento de todos credores
do falido680 , a responsabilidade ilimitada não serve de justificativa
para a exclusão do sócio que, embora falido, possui bens para garan­
tir os credores da sociedade. No outro extremo, pode-se ter sócio
com endividamento superior à sua capacidade de pagamento, por­
tanto, em estado de insolvabilidade, mas sem ter tido a sua falência

678 Cf. I N NOCENTI, L 'esclusione. . . , cit., p. 1 04. Sobre a evolução do pensamento da dou­
trina italiana qu anto aos fundamentos da exclusão do fa li do, vide P E R R I NO, Le
tecniche ... , cit., p. 2 1 4 e ss. No d i reito ita l iano, a falência do sócio é caso de exclusão
automática do sócio. Além da proteção aos sócios, em razão do descrédito da socieda­
de em virtude do sócio falido (único motivo para G H I D I N I , Società persona/i, cit., p.
59 1 ), também e talvez principalmente fundamenta a exclusão automática o i nteresse
dos credores do fali do em transformar em d i nheiro a participação do fa l ido. Isto porque
em outros casos de descrédito da sociedade em razão de vicissitude pessoal de sócio,
como i nterdição ou inabil itação, a exclusão é volu ntária. Por outro l ado, a exc l usão
automática do art. 2 .2 88 abrange não só o sócio fal ido como a liquidação da quota a
pedido do credor particular do sócio. Assim, a ratio legis da exc lusão automática é o
i nteresse dos credores particulares. No caso do sócio de i ndústria, sua falência não
afeta a garantia dos credores, dada a não responsabilidade perante os credores da
sociedade. Mas, como possui direito à l i qu idação da sua partici pação, sua exclusão
justifica-se pela proteção dos interesses dos credores particulares. Fala-se em l i q u i da­
ção da partici pação social, para apuração do valor justo. Como dito por PERRINO, Le
tecniche ... , cit., p. 2 1 7, " ... é qui essenzialmente tutelato, i n altri term ini, in considerazione
del l e caratteristiche e delle final ità dei la procedura fal l imentare, !'interesse dei creditori
personali alla monetizzazione dei la quota dei sacio loro debitore". No entanto, ao lado
do interesse dos credores do falido, também se vislumbra proteção aos interesses dos
sócios (cf. AUL ETTA, "Deroghe ... ", cit., p. 1 47 e ss.). Para PERRINO, idem, p. 2 2 2 , não
há fundamento comum para a exc lusão volu ntária e a automática. Observa a i nd a a
autora, p. 2 2 2 , nota n. 87, não se tratar a ú ltima de autêntica exclusão, mas de dissolu­
ção automática da relação social l i m itada a um sócio, por razões estranhas aos interes­
ses da organização societária.
679 Cf. SPADA, La tipicità . , cit., p. 3 3 1 . Mas, como lembra DALMARTELLO, L 'esclusione. . . ,
..

cit., p. 1 85, a possi bil idade de disposição dos bens não representa uma falta total de
garantia aos credores. Entendendo i nadm issível exc lusão de sócio não falido, mas com
patrimônio i ndisponível, por ter sido adm in istrador de instituição financeira insolvente,
ju lgado em RT 546/2 26.
680 Cf. NU N ES, O direito de exclusão . , cit., p. 1 42.
..

250
R ENATO VENTURA RIBEIRO

decretada. O sócio continua na sociedade, mas seus bens podem não


constituir garantia efetiva.
Outro fundamento lembrado para a exclusão do falido é a per­
da da confiança no sócio. Mas. nem sempre o acionista falido fica
privado da confiança dos demais. Não obstante a falta de êxito em
uma atividade empresarial, a capacidade técnica e a experiência pro­
fissional do falido, em sua área de conhecimento, não só pode con­
tinuar recebendo o crédito dos demais, como ser útil à sociedade68 1 •
B asta imaginar um especialista em informática, bem sucedido na
atividade de programação, mas infeliz em outro negócio. Mesmo a
confiança na capacida d e econômica e financeira do sócio pode per­
manecer, como no caso de um empreendedor bem sucedido que,
por condições adversas de mercado ou até risco de negócio mal
calculado, veio a ter decretada a quebra em sociedade da qual era
sócio. A história registra casos de grandes e respeitados empresários
que faliram ou realizaram negócios bastante prejudiciais, porém não
deixaram de ter seu mérito, alguns, inclusive, recuperando-se de tal
situação.
Desta forma, não mais se encontra justificativa no caráter intui­
tu personae da sociedade, quer sob o elemento patrimonial (garantia),
quer sob o elemento pessoal (confiança)682 . Tampouco no caso de
liquidação judicial das quotas do falido, pois em se cuidando de in­
tuitu personae relativo, caberá à sociedade decidir se aceita ou não o
adquirente das quotas como sócio, e, na hipótese de intuitu personae
absoluto, o caminho é a dissolução da sociedade.

681 Em tais, a permanência ou não do sócio, sua importância e a poss i b i l idade de sua
colaboração devem ser apurada no caso concreto. Deve-se afastar a opin ião, quiçá
majoritária, de que a a lteração no estado pessoal do sócio, em q u alquer situação, im­
p l ica falta de dever de colaboração, como defende, entre outros, DALMARTELLO,
L 'esclusione.. , cit., pp. 94-97.
.

682 A d isti nção entre e lemento patrimoni a l e pessoal do intuitus personae é feita por
SIMON ETTO, "Fal imento dei sacio ed esclusione", Riv. Soe. 4 ( 1 959), p. 1 98 e ss.
Contra a exclusão do falido, fundada no intuitus personae, SIMON ETTO, idem, p. 2 1 O.

251
ExcLUSÃO DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

Caso o sócio falido não consiga cumprir suas obrigações pessoais


(como, por exemplo, prestações acessórias) justifica-se a sua exclusão,
não pela decretação da falência, mas sim pelo não cumprimento de
suas obrigações para com a sociedade. A perda da condição de comer­
ciante somente é relevante no caso do acionista ser também adminis­
trador, ficando impossibilitado do cumprimento de suas funções.
Há quem veja na exclusão do falido também o interesse dos
credores pessoais do falido, pois a sua saída da sociedade, com o con­
seqüente pagamento de seus haveres, facilita o recebimento dos cre­
dores particulares do sócio excluído683 • Tal percepção diverge do
escopo da exclusão de sócios que objetiva a proteção da empresa e
não de terceiros com interesses estranhos a ela.
Também não se justifica pela falta do dever de colaboração684 •
Entendendo-se tal dever como obrigação de caráter estritamente
pessoal e fiduciário, explica-se a exclusão do falido por não auxiliar
ou contribuir negativamente com a sociedade. Todavia, tomando-se
o dever de colaboração nas sociedades anônimas apenas como a con­
tribuição para integralização do capital, não se justifica a exclusão do
falido proprietário de ações integralizadas por falta de colaboração.
Defende-se também a exclusão do falido em razão do interesse
público que prima pela correta gestão empreendedora, sendo a me­
dida sanção acessória à declaração de falência685 .
Conclui-se que a exclusão do sócio falido não se explica pelos
motivos acima apontados, mas sim pela necessidade de proteção da

683 É o posicionamento de considerável parcela da doutrina moderna, para expl icar a


exclusão automática prevista no art. 2.288 do Codice Civile, em contraposição à exclu­
são voluntária. A propósito, entre outros, A U LETTA, "Derogue ... ", cit., p. 1 47 e ss.;
SIMON ETTO, "Falimento dei socio. . . ", cit., pp. 200 e 210 e ss.; GRAZIANI, Diritto dei/e
società, cit., p. 70; SPADA, La tipicità . . , cit., p. 3 3 7; BOLAFFI, La società semplice ... , cit.,
.

p. 4 7 1 ; VI LLAVERDE, La exclusión . , cit., p. 1 65; PERRI NO, Le tecniche ... , cit., p. 2 1 6.


..

684 Como entendem os contratualistas, como DALMARTELLO, L 'esclusione. . , cit., p. 1 82. .

685 Cf. BOLLINO, "Le cause di esclusione . . . ", cit., p. 375 e ss.

252
R ENATO VENTURA RIBEIRO

sociedade, evitando-se danos à sua atividade empresarial, fundamento


do instituto da exclusão.
A falência de sócio pode afetar a sociedade quando a prejudica,
causando-lhe descrédito perante terceiros e redução no volume de
negócios.
Havendo prejuízo ou possibilidade de danos à sociedade, deve o
acionista falido ser excluído, não importando se a falência decorreu
ou não de sua culpa, pois a apuração da última somente é relevante
para efeito de responsabilização do excluído pelos danos causados686 •
Ocorrem prejuízos à sociedade, justificadores da exclusão do aci­
onista, quando a sociedade, pela vicissitude pessoal do sócio, tem sua
credibilidade abalada. Neste caso, o problema não decorre dos efeitos
da quebra, mas é a própria decretação da falência, suficiente para a
companhia perder confiança. Mesmo o sócio falido não sendo admi­
nistrador, nas companhias intuituspersonae o forte vínculo pessoal en­
tre os sócios indica que os demais, no mínimo, não souberam escolher
bem com quem se associar. E, relembrando as lições dos romanos, quem
não sabe escolher bem um sócio, só de si pode se queixar687 .
A exclusão do falido justifica-se ainda para evitar o ingresso de
terceiros na sociedade, que venham a conhecer sua situação financei­
ra e obter informações.
Pelo novo Código Civil (art. 1 . 030, parágrafo único), nas socie­
dades contratuais, a falência acarreta a exclusão automática do sócio,
devendo, para fim de apuração de haveres, ser considerado o dia da
causa da exclusão, ou seja, da decretação da falência688 • O valor da
participação social do acionista excluído em razão da falência deve
ser pago à massa falida e não a credores, pois na falência um ou mais

686 Cf. DALMARTEL10, L 'esclusione. . . , cit., p. 1 88.


687 O. 1 7, 2 , 72; /. 3 , 25, 9.
688 No mesmo sentido, BOLAFFI, La società semplice ... , cit., p. 476.

253
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADES ANôNIMAS

credores não podem se apropriar da participação societária do excluí­


do689 . Mesmo falido e excluído, o sócio não fica excluído da respon­
sabilidade pelas obrigações sociais anteriores, até dois anos depois de
averbada sua saída (Código Civil, art. 1 .032) .
Nas companhias as ações do falido passam a integrar os bens da
massa falida. Se a presença de sócio falido causar prejuízo à socieda­
de anônima personalista, quer pela falta de prestações acessórias, quer
pelo descrédito, a solução pode ser a sua exclusão, com o pagamento
da liquidação da sua parte à massa falida.
Qyestão bastante discutível é o confronto entre o interesse dos
credores do sócio e da sociedade. A liquidação da participação social
do falido atende aos interesses dos credores do sócio. Mas, provocan­
do redução do capital social, acaba por prejudicar os credores da so­
ciedade.
Resta saber se a insolvência de sócio não comerciante, a liquida­
ção extrajudicial e o pedido de concordata ou recuperação judicial de
sócio justificam sua exclusão da companhia. Tudo o que foi dito so­
bre a falência pode ser estendido aos casos de liquidação extrajudici­
al, pois também se trata de insolvência empresarial.
Como a razão da exclusão do falido é a proteção da sociedade,
justifica-se a exclusão de acionista concordatário ou insolvente quando
não haja previsão estatutária somente nas hipóteses de estarem cau­
sando ou poderem causar danos à sociedade.
Embora a falência de sócio não seja motivo de dissolução da
sociedade, os demais podem pedir a dissolução da sociedade caso
verifiquem a inviabilidade do fim social em razão do evento (Lei
6.404/76, art. 206, II, b).

689 A respeito, c r i t i cando duas deci sões em sent ido contrá r i o no d i reito ita l i ano,
PARTESOTTI, "Esclusione dei sacio ed eccezione di compensazione nel fal l i mento",
RDC 29 ( 1 983), l i , pp. 630-64 1 .

254
R ENATO VE NTURA RIBEIRO

3 . 6. LIQU IDAÇÃO DAS AÇÕES POR CREDORES PARTICU LARES

A questão envolve duas ordens de interesse: o dos credores em


monetizar o valor do crédito e o da sociedade, pela não conveni�ncia
do ingresso de terceiro estranho ou pelo desembolso de capital a ser
efetuado.
Sendo relevante a figura do acionista, a penhora das ações de com­
panhia personalista pode afetar a sua estrutura. Nas sociedades contra­
tuais, há três correntes a respeito da possibilidade de penhora de cotas
sociais690 • A primeira, em sentido negativo, entendendo pela impor­
tância da pessoa do sócio e a necessidade de alteração do contrato so­
cial, de competência exclusiva dos sócios. Outros admitem a penhora e
alienação das cotas sociais, ficando a critério da sociedade aceitar o
novo proprietário ou pagar-lhe o valor de sua participação em dinhei­
ro. Por fim, uma terceira corrente admite não a penhora da cota social,
mas dos fundos por ela representados691 , como os lucros distribuídos e
o pagamento de haveres no caso de dissociação e dissolução. No últi­
mo caso, a adjudicação da participação social penhorada não represen­
ta transmissão da qualidade de sócio, mas apenas de direitos dirigidos
à solução da dívida, mesmo à custa da dissolução da sociedade692 . É a
solução prevista no novo Código Civil, que acrescenta a alternativa de
liquidação da quota do devedor (art. 1.026 e parágrafo único).
Antes do Código Civil, a jurisprudência orientava-se pela pos­
sibilidade de penhora de cotas sociais, por falta de vedação legal693 ,

690 Para v i são gera l do problema, cf. L E Ã ES, "Sociedade por cotas. Cota soc i a l .
Penhorabilidade", ROM 2 ( 1 9 72), pp. 1 1 6-1 24; ABRAÃO, Penhora de cotas de socie­
dade de responsabilidade limitada, 2ª ed., São Pau l o, RT, 1 9 9 1 , e C O E L H O,
"Penhorab i l i dade das cotas sociais", ROM 82 ( 1 9 9 1 ), pp. 95-1 0 1 .
69 1 Por fu ndos l íquidos, entende-se "a parte ou cota que, na l i q u i dação da sociedade,
couber ao sócio, uma vez pago o passivo social", como explica LE Ã ES, "Sociedade por
cotas ... " , cit., p. 1 1 9 .
692 Cf. RT} 95/837, RT520/1 59.
693 Embora pudesse haver o entendimento de que era exempl ificativo o el enco de bens
impenhoráveis do artigo 649 do CPC.

255
ExcLUSÃO DE Sócios NAS Soc1EDADES ANÓNIMAS

sujeitando os efeitos da penhora ao disposto no contrato social, quanto


à alienação das quotas. Ou seja, adquiria-se o status de sócio caso não
houvesse restrição no contrato social694 • Havendo restrição, era fa­
cultado à sociedade remir a execução ou o bem ou deve conceder
preferência na aquisição à sociedade ou aos sócios ( CPC, arts. 1 . 1 17
a 1 . 1 19).
O novo Código Civil, a exemplo do art. 2.270 do diploma itali­
ano, prevê a exclusão automática no caso de falência de sócio ou li­
quidação judicial da quota (arts. 1 .026 e 1 .030, parágrafo único).
Nas companhias intuitus personae, mesmo havendo restrição à
circulação de ações ou prestações acessórias, os fundos relativos às
ações podem ser objeto de penhora695 • Na inobservância da ordem
de �omeação prevista no art. 655 do Código de Processo C ivil, cabí­
vel a apresentação de embargos à penhora pela sociedade, na condi­
ção de terceira interessada.
Caso as ações sej am objeto de alienação judicial e a sociedade
não aceite a substituição do acionista, o remédio é a liquidação da
participação social, mediante resgate ou aquisição de ações pela soci­
edade, transferência forçada ou "dissolução parcial".

3 . 7. EXCLUSÃO EM FUNÇÃO DE OUTRAS CONDIÇÕES PESSOAIS

Determinada condição do sócio, como nacionalidade ou mem­


bro de determinada instituição, pode afetar a atividade da sociedade,
motivando a expulsão.

694 Entre outros, cf. REsp. 30.854-2, 4ª T., rei. Min. Sálvio de Figuei redo, j. 8.3 .94, DJU
1 8.4.94, RT 71 2/268; REsp. 37.452 -2-SP, 4ª T., rei. Min. Fontes de Alencar, j . 1 .3 . 94,
RSTJ 60/345; REsp. 3 9 . 609-3, 4ª T., rei. M i n . Sálvio Figueiredo, j. 1 4.3 .94, DJU 6.2. 95,
RT 7 1 9/2 75; ROM 1 1 2/1 04; RT655/1 72.
695 Para VILLAVERDE, La exclusion ... , cit., p. 1 63, em caso de penhora deve ser feita a
exc lusão de sócio, por falta de aporte e i ncumprimento de dever de fidelidade. Como
a penhora pode ser revertida, mediante substituição do bem penhorado, pagamento,
novação de d ívida, anul ação, entre outros, o momento de se discutir a exclusão de
sócio não é o da penhora e sim na al ienação judicial da participação social.

256
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Um problema diz respeito à participação na sociedade de sú­


ditos de nações inimigas, em razão de conflitos bélicos696 ou diplo­
máticos. Além da desinteligência entre os sócios, prejuízos por perda
de clientela ou dificuldades em relações negociais, há o problema
de eventual seqüestro de bens de estrangeiros, afetando o sócio.
Apesar de algumas decisões terem, ainda que parcialmente, cunho
político697 , a exclusão do sócio é tida como opção à dissolução total
da sociedade698 •
Em outros casos, há exigência legal de sócios ou da maioria do
controle em mãos de pessoas nacionais ou do Estado, como no caso
da lei de nacionalização francesa de 1 . 982, com exclusão de sócio
através da expropriação da participação social.
Na Itália, tem-se caso de exclusão de sócio mafioso, excluído de
banco, por afetar a credibilidade e os negócios da instituição699 •
A lei ou cláusulas estatutárias podem determinar certas exi­
gências para ingresso e permanência do sócio na sociedade. A per­
da da condição legal ou estatutária implica necessidade de exclusão
do sócio. É o caso da exigência da nacionalidade (cf. exemplos men­
cionados na Parte I, Cap. II, 2.3) ou da inscrição em conselho de
fiscalização profissional, como no caso de exercício de profissões
liberais.
Pode ainda ser estabelecida cláusula de exclusão de sócio em
razão de mudança de objeto social ou de cessação de determinadas
atividades, tendo em vista a não necessidad� da permanência do só­
cio com condições técnicas para tal exercício700 • Em tal hipótese, fica

696 Cf. DUQU ESNOY, La dissolution .. , cit., pp. 9 1 -1 1 0; F E R R E I RA, A exclusão do sócio
.

súdito. . , citada.
.

697 Cf. REQU IÃO, A preservação da sociedade... , cit., p. 1 30.


698 Cf. DUQUESNOY, La dissolution ... , cit., p. 302.
699 Cf. AB BADESSA, "Sequestro antimafia di azioni d i banca populare ed esclusione dei
sacio", Rivista di Diritto Privato 2 (1 997), 1, pp. 1 04-1 08.
700 Cf. LAMETHE, "L'"i ntuitu personae" des sociétés anonymes . . . ", cit., p . 264.

257
ExnusÃo DE Sócios NAS SomDADEs ANÔNIMAS

claro o condicionamento da presença do sócio em razão de determi­


nada habilidade técnica.

4. ABUSO DE DIREITO OU DE PODER

O novo Código Civil, em seu art. 187, tipifica o abuso de direito


como ato ilícito, conceituando-o como exercício de um direito exce­
dendo manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico
ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
O abuso de direito é um desvio no uso regular de direito ou
situação jurídica subjetiva, por falta de legítimo interesse para seu
exercício ou por não observância da finalidade social para a qual foi
concedido701 . Em sua concepção subjetiva, deve haver o animus no­
cendi, ação culposa (incluída a conduta negligente) e a inexistência
de interesse sério ou legítimo. Na concepção objetiva, caracteriza-se
pelo exercício anormal de um direito subjetivo.
No caso de sociedades702 , o abuso de direito representa ainda o
exercício em desacordo com a função e o interesse sociaF03 , prejudi­
cando o alcance do fim social. Pode objetivar benefício de uns em
detrimento de outros704 , ou até nenhum benefício próprio, mas ape-

701 Cf. L E Ã ES, "Conflito de interesses. O i nteresse soc ial e o i nteresse da empresa. Voto
confl itante e vedação do exercício do di reito de voto. Abuso do d i reito de voto e abuso
do poder de controle", in Estudos e pareceres sobre sociedades anônimas, São Paulo,
RT, 1 989, pp. 9-27, em especial, pp. 1 6-1 7.
702 Sobre a noção de abuso de direito em matéria de sociedades, cf., entre outros, COPPENS, De
/'abus de majorité dans les sociétés anonymes, tese, Paris, Fonteyn, 1 955; GUGLIELMUCCI,
"Abuso dei diritti sociali", Riv. Soe. 8 (1 963), p. 755 e ss; TRICOT, "Abus de droits dans les
sociétés: abus de majorité et abus de minorité", RTDCo. 47 (1 994), 4, pp. 61 7-627.
703 J u lgado da Corte de Cassação francesa, Rev. Soe., 1 999, 1 , p. 1 03, entendeu como
comportamento egoístico e prejudicial à sociedade, posição de sócio com igual parti­
ci pação em sociedade de dois sócios, que votou contra inclusão de lucros em reserva,
para d i m i n u i r necessidade de empréstimo bancário, e i ngressou com ação judicial
requerendo a distribu ição de lucros, classificando a posição do sócio como abuso de
igua ldade, por sobrepor o interesse pessoal ao i nteresse social. Em apoio, LUCENA,
Das sociedades por quotas.. , cit., p. 65 1 .
.

704 A Corte de Cassação francesa aponta duas condições para identificação do abuso,
quer de maioria ou mi noria: ser a deci são contrária ao i nteresse geral e favo recer os

258
RENATO VENTURA RIBEIRO

nas causar danos a terceiros.


Pode haver abuso de direito no estabelecimento de cláusulas ou
alterações do ato constitutivo da sociedade. É o caso da aplicação de
cláusula de exclusão de um herdeiro como sucessor do sócio falecido,
redigida à época em que a sociedade era familiar para evitar o ingres­
so de estranhos, após a transformação da sociedade familiar em uma
estrutura capitalista. Ou quando a causa da exclusão é provocada pela
própria sociedade, incitando credor a pedir a penhora da participa­
ção do sócio, para poder excluí-lo, embora sua dificuldade financeira
seja transitória705 •

A lei brasileira do anonimato tipifica o abuso de direito de voto,


considerando como tal aquele exercido com o propósito de causar
dano à companhia ou a outros acionistas, ou de obter, para si ou para
outrem, vantagem a que não faz jus e de que resulte, ou possa resul­
tar, prejuízo para a companhia ou para outros acionistas (art. 1 1 5 da
Lei 6.404/76) . Pode haver abuso de direito de voto tanto de majori­
tários como de minoritários. No caso de abuso de direito de voto por
parte de usufrutuário, cabível a suspensão do direito e não a exclusão
do acionista, pois não é o último que está causando problemas à socie­
dade. No entanto, se a constituição do usufruto foi com propósito de
prejudicar a sociedade, é o caso de exclusão do acionista.

4.1 . ABUSO DE PODER DE CONTROLE

A lei brasileira do anonimato estabelece, no artigo 1 1 7, diversas


hipóteses de exercício abusivo de poder dos acionistas controlado-

membros da maioria em detrimento da m i noria. A caracterização do abuso de maioria


está em julgado de 1 8.4.6 1 , RTDCo 14 (1 961 ), p. 634, com nota de HOUIN, também
citado por LESOURD, "L'annulation pour abus de droit des délibérations d'assemblées
générales", RTDCo 1 5 (1 962), pp. 1 -20, à p. 5. Os mesmos critérios são aproveitados para
identificar abuso de minoria, mais de trinta anos após, em 1 4. 1 .92, inserto em Rev. Soe.,
1 992, p. 44 e RTDCo 1 .992, p. 636, com notas, respectivamente, de M ERLE e REINHARD.
705 Os exemplos são da j urisprudência alemã, trazidos por AGU ILA-REAL, "La exclusión . . . ",
cit., p. 9 1 1 , à nota n . 5 1 .

259
ExcLusÃo DE Sócios NAS SomDADEs ANóNrMAS

res706 , prevendo a responsabilização por perdas e danos pelas condu­


tas enumeradas. No entanto, em casos extremos, a sanção pode não
ser suficiente, exigindo medidas mais enérgicas a inibir eventuais
comportamentos prejudiciais à empresa707 •
Apesar da lei não prever expressamente a sanção de exclusão de
acionista controlador por abuso de poder, isto é possível. Foi visto
acima que é possível a exclusão de sócio majoritário, havendo justa
causa708 • Isto porque o poder de controle não é absoluto e a função
social da propriedade e da empresa impõe deveres aos controladores,
inclusive através de previsão legal (Lei 6.404/76, art. 1 16, parágrafo
único, e 1 1 7, § 1 a)709 • Por isto, além da responsabilização por per­
º,

das e danos e da suspensão do direito de voto, no caso de ocorrência


ou risco de graves prejuízos à companhia por abuso de poder de con­
trole, as condutas ilegais são passíveis de outras sanções, como a ex­
propriação do poder de controle710 e até a exclusão do acionista ou
dos acionistas prejudiciais711 •
A medida de exclusão dos acionistas controladores, por abuso
de poder, por não ter previsão legal ou estatutária e para evitar abuso
dos minoritários, deve ser objeto de decisão judicial.
No caso do abuso de poder de controle, a lei prevê responsabilida­
de específica (Lei 6.404/76, art. 1 1 7) . Mas também será cabível a ex­
clusão se caracterizada justa causa para tal, com motivos graves que
prejudicam a empresa. Na inexistência de justa causa, descabe a exclu­
são, sendo pertinente apenas a responsabilização do controlador.

706 Cf. PREITE, L "'abuso" dei/a rego/a di maggioranza nelle deliberazioni assembleari dei/e
società per azioni, Mi lano, Giuffré, 1 992.
707 Cf. COMPARATO, "Exclusão de sócios ... ", cit., p. 46.
708 Cf. Parte li, Cap. I V, item 4.
709 Cf. Parte li, Cap. IV, item 7.
710 Idem.
71 1 I nfelizmente, é difíc i l a forma de sancionar abusos de maioria, sem reflexos à socieda­
de ou aos mi noritários. A propósito, o di agnóstico de PE NTEADO, Dissolução.. . , cit., p.
222: " ... os mecanismos da di ssolução tota l, da exclusão de sócio e do d i reito de recesso

260
R ENATO VENTURA RIBEIRO

4.2. ABUSO DE MI NORIA

O abuso de minoria caracteriza-se por exercício abusivo dos di­


reitos de voto, de minoria e de qualquer outro direito de acionista:
O exercício abusivo do direito de voto caracteriza-se, entre ou­
tros, pela oposição injustificada à política dos majoritár�os, contra a
aprovação de determinada deliberação benéfica aos negócios sociais,
paralisação do funcionamento ou obstrução de perspectivas de de­
senvolvimento, exigência de vantagens indevidas para tal aprovação712 •
Em razão do quorum qualificado para determinadas decisões, confe­
rindo a minoria poder de bloqueio713 , o voto em contrário do mino­
ritário pode inviabilizar a atividade social, dificultá-la ou impedir o
seu desenvolvimento, prejudicando a sociedade.
O voto em contrário nem sempre implica em abuso de minoria.
O minoritário não é obrigado a votar a favor de todas as proposições.
Deve-se verificar se há ou não intenção de prejudicar a sociedade714
ou de obtenção de ganhos indevidos, pois a oposição pode ter moti-

têm sido reputados mal-adaptados para sancionar os abusos perpetrados pela maioria,
ou para resolver i nsuperáveis desinteligências entre os sócios que ponham em risco a
conti nu idade da empresa. A dissolução, porque conduz à extinção da empresa; a ex­
clusão, porque pode levar à expu lsão dos acion istas majoritários, sem os quais é pouco
provável a subsistência do empreendimento; e o d i reito de recesso porque não pode
ser admitido com demasiada abertura, na medida em que pode tornar i nviável, tam­
bém, se exercido em l a rga escala, o prosseguimento da atividade socia l ''. Sobre o de­
samparo dos m inoritários no B rasi l, cf. LIMA, O acionista minoritário no direito brasi­
leiro, Rio de Janeiro, Forense, 1 994.
71 2 Cf. BRANCH UT, Les abus de mínorité dans la société anonyme, tese, Paris l i , Paris,
1 9 74, em especi a l p. 76 e ss.; BOIZARD, "L'abus de minorité", cit., pp. 368-375.
713 LOPES, Empresa & exclusão de sócio. . . , cit., pp. 1 1 3- 1 1 4, relaciona os seguintes proce­
d imentos de bloqueio: "a) obstar ou impedi r as modificações contratuais ou estatutárias,
quando houver necessidade de total idade ou a sua participação é necessária em razão
de quorum; b) obstar ou impedir que seja real izada transformação de tipo j urídico, ou
cisão, ou i ncorporação, ou fusão, quando essencial ao desenvolvimento da empresa;
c) promoção de ações judiciais tendentes a host i l izar a empresa, os administradores e
a maioria que os sustenta, principal mente através de medidas l i m i nares que possam
para l isar ou d i ficu ltar a atividade social da empresa; d) criar obstáculos para aprovação
da prestação de contas dos administradores, quando seu voto é necessário para ta l fim;
e) constantes pedidos de informes causídicos, em flagrante abuso do d i reito de infor­
mação; f) repassar ao mercado i n formações confidenciais''.
714 Cf. PERRI NO, L e tecniche . . . , cit., p . 1 1 9, nota n . 1 9.

261
ExcLusÃo DE Sócios NAS SornDADES ANóNIMAs

vos sérios e justificados. Nem sempre um negócio proposto, como


incorporação de outra sociedade, pode ser benéfico ao desenvolvi­
mento da sociedade. Às vezes é o início da ruína.
Em outros casos, não é difícil demonstrar o espírito sistemático de
oposição do acionista. Como exemplos, tem-se o voto a favor de maior
distribuição de lucros em momento de dificuldade financeira ou por
motivos egoísticos, a recusa injustificada negócios de interesse da socie­
dade715 , o abuso de direito de impugnação de operação de fusão716 •
O abuso de minoria dá-se ainda por outras iniciativas abusivas,
como denúncias e ações judiciais infundadas, convocação indevida
de assembléias, provocação de incidentes em assembléias e na utili­
zação de direitos de minoria717 •
A sanção pode ser a reparação de danos causados, bem como a
exclusão do acionista718 . Mas ambas as primeiras podem ser inefica­
zes. O patrimônio do minoritário tende a ser insuficiente para o res­
sarcimento dos prejuízos. E o acionista pode adquirir novas ações,
em nome próprio ou de terceiros719 • No caso, o remédio adequado
para evitar a continuidade do abuso é a suspensão, total ou parcial,
dos direitos de acionista, por abuso de poder, e sua exclusão.
Não há necessidade de previsão estatutária720 . Deve ser apurado
apenas motivo grave para justificar a exclusão de acionista.
Como a presença do acionista nas assembléias gerais é facultati­
va e direito e não dever do acionista, a ausência, mesmo proposital,

71 5 Cf. BOIZARD, " L'abus de mi norité", cit., pp. 3 73-3 7 5 .


71 6 Cf. BGHZ 1 1 2/9 (= NJW 1 990/2 . 747 e ZIP 1 990/985).
71 7 Sobre os d i versos tipos de abuso de mi noria, cf. BOIZARD, "L'abus de mi norité", Rev.
Soe. 1 06 ( 1 988), pp. 365-380, e FERRARI, L 'abuso dei diritto nelfe società, Padova,
CEDAM, 1 998, pp. 1 25 - 1 5 2 .
71 8 Cf. B RANCH UT, Les abus de minorité.. , cit., pp. 2 79-28 1 .
.

719 Cf. B E R G IER, L 'abus de majorité dans les sociétés anonymes, Vevey, Sauberlin e Pfeiffer,
1 93 3 , p. 268.
720 Em sentido contrário, TRICOT, "Abus de droits ... ", cit., p. 6 2 5 .

262
R ENATO VENTURA RIBEIRO

não é motivo para sua exclusão, salvo se caracterizar exercício abusi­


vo do bloqueio de minoria, prejudicando o desenvolvimento da ati­
vidade social.

5. Q U ESTÕES RELACIONADAS À ADM I N ISTRAÇÃO

5.1 . FALTA GRAVE DE SÓCIO ADMINISTRADOR

A lei das sociedades por ações diferencia os deveres dos acionis­


tas e dos administradores (art. 153 e ss.), entre outros, pelo fato da
condição de acionista nem sempre ser requisito para exercício da fun­
ção de administrador. Mesmo no caso do exercício de cargo de ad­
m i n i s trador exigir a condição de s ó cio, s ã o d i s ti n tas as
responsabilidades do administrador e do sócio.
Na análise do cabimento ou não da exclusão do sócio adminis­
trador por falta cometida na gestão, cumpre verificar a relação entre
o fato e as condições de sócio e de administrador721 Para alguns, nas •

sociedades de pessoas, o poder de administrar é inerente à condição


de sócio722 , fazendo parte do dever de colaboração723 . Relacionam o
vínculo intuitus personae dos sócios com a administração da socieda­
de, defendendo a exclusão do sócio por fatos decorrentes de sua ati­
vidade como gestor. Ou pode ser excluído até em razão de situações
como terceiro724 , se a prestação como tal (por exemplo, financiamen-

721 Para uma visão geral d o problema, LEO, "L'esclusione d e i sacio dai la società d i persone
quale potere estintivo u n i l aterale dei rapporto", in Recesso e risoluzione nei contratti,
aos cuidados de G iorgio de Nova, M i l ano, Giuffre, 1 994, pp. 1 . 1 4 7 - 1 .200, à pp. 1 . 1 77-
1 . 1 82; PERRI NO, L e tecniche... , cit., p. 1 88 e nota n . 1 O.
722 Cf. B R U N ETTI, Tratatto ... , cit., p. 393 ..
723 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., p. 1 60 e ss.; DE GREGORIO, Codice. . . , cit., p.
1 77; N U N ES, O direito de exclusão .. , cit., pp. 1 1 5 e 1 73, acrescentando que caberá à
.

sociedade optar entre a simples destituição da admi nistração e a exclusão da socieda­


de ( idem, p. 1 74), e autores e decisões citadas por LEO, "L'esclusione dei sacio . . . ", cit.,
à p. 1 . 1 79, nota n . 1 1 9. Em sentido contrário, V I LLAVERDE, La exclusión . . , cit., p. 1 20.
.

Para DALMARTELLO, idem, p. 1 63, se o administrador é i n d i cado no contrato de soci­


edade, a má gestão é uma violação do próprio contrato.
724 Cf. G H I D I N I , Società personali, cit., p. 559.

2 63
ExcLusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANóNIMAS

to, garantia ou cessão de marca) é condição para ser sócio ou admi­


nistrador. Outros distinguem as condições de sócio e de gestor, de­
fendendo apenas a destituição do administrador e não a sua exclusão
do quadro sociaF25 • Uma terceira corrente advoga a exclusão somen­
te nos casos de falta grave cometida pelo administrador, por caracte­
rizar inadimplência dos deveres sociais726 •
Optar pela exclusão do sócio por falta cometida na administra­
ção em qualquer circunstância é equiparar e tratar igualmente as con­
dições de sócio e administrador. No direito italiano, o Código Civil
de 1942 traz nítida diferença entre falta de administrador e de sócio.
Primeiro, ao eliminar como motivo de exclusão a falta de sócio ad­
ministrador, prevista nos Códigos Comerciais anteriores (art. 124 do
Código de 1 865 e art. 1 86, 2 do texto de 1 882) e em projetos de
reforma727 • Depois, ao prever duas sanções: destituição do adminis­
trador (art. 2.259) e exclusão do sócio por inadimplência dos deveres
sociais (art. 2.286)728 • Por outro lado, é questionável a tese de que a
administração da sociedade faz parte do dever de colaboração, pois
pode ser uma faculdade729 •
Embora distintas as condições de sócio e administrador, algu­
mas faltas cometidas pelo sócio gestor constituem faltas de sócio,

725 Cf. FERRI, Trattato . . . , cit., p. 2 2 7; G H I D I N I , Società personali, cit., p. 5 58; G R ECO, La
società nel sistema legislativo italiano, Torino, Giappiche l l i, 1 959, p. 3 2 , e autores men­
cionados por LEO, "L'esclusione dei sacio . . . ", cit., p. 1 . 1 80, nota 1 20. A conclusão dos
autores decorre do fato do art. 2 .286 do Código Civil italiano não prever como causa
de exclusão o abuso da firma social, a ausência injustificada e a fraude na administra­
ção, como dispunha o art. 1 86, 2 do Código Comercial revogado. Cf. também decisões
da Corte de Cassação italiana, de 1 4.4.58, ROComm., 1 959, l i , p. 25, e de 3 0 . 1 .80,
Ciur. Comm., 1 980, li, p. 3 1 9.
726 Cf. FERRARA, Cli imprenditori. . ., cit., p. 275; TARANTINO, " Revoca ed esclusione dei
socio amministratore nell e società personali", i n Ciur. Comm. 7 (1 980), 1 1 , pp. 303-3 1 8,
à p. 3 1 5; LEO, "L'esclusione dei socio . . . ", cit., p. 1 . 1 8 1 .
727 Como n o s projetos d e Código Comercial de VIVANTE (art. 2 5 1 , 2 ) , D'AMELIO (art.
245, 2) e ASQ U I N I (art. 1 5 5, 3), como aponta PERRINO, L e tecniche .. ., cit., p. 1 88,
I nota n. 1 0.
728 Cf. TARANTINO, "Revoca ed esclusione dei socio . . . ", cit., pp. 304 e 3 1 3 .
729 Sobre a discussão da administração da sociedade ser dever ou faculdade dos sócios, cf.
V I LLAVERDE, La exc/usión . . . , cit., pp. 1 1 8-1 2 2 .

2 64
RENATO VENTURA RIBEIRO

justificando a dupla sanção de destituição da administração e exclu­


são de sócio. É dever do sócio e não apenas do administrador, por
exemplo, não utilizar bens sociais, inclusive o nome comercial, em
proveito próprio ou para fins diversos da sociedade730 , evitando o
aproveitamento particular do patrimônio social731 Em algumas le­ •

gislações, determinadas faltas graves732 do sócio gestor constituem


motivo para sua exclusão da sociedade, como o uso da firma ou do
capital social para fins estranhos à sociedade733 .
Apurar a gravidade no caso concreto leva a dupla solução, po­
dendo-se sancionar o administrador com destituição do cargo ou com
exclusão da sociedade.
Para evitar abuso, limitando a escolha de sanções pelos sócios,
somente deve haver exclusão de sócio por falta cometida como admi­
nistrador nas hipóteses previstas em lei ou quando a permanência do
administrador excluído como sócio prejudicar a atividade social. A fal­
ta menos grave do sócio gestor motiva a simples destituição do cargo e
a de maior gravidade também justifica a exclusão como sócio.
Em alguns casos, a lei estabelece quais condutas do administra­
dor podem também gerar sua exclusão como sócio. O melhor exem­
plo é a lei das sociedades limitadas espanhola (art. 98), que prevê três
casos para exclusão de sócio administrador: descumprimento de pres-

730 No direito italiano, é dever do sócio de sociedade simples a não uti lização, sem con­
sentimento dos demais sócios, de bens sociais para fi ns estranhos aos da sociedade (art.
2.2 56), o que explica a exclusão (decisão da Corte de Cassação, de 3 0 . 1 .80, Ciur.
Comm. 7 ( 1 980), 1 1 , pp. 3 1 9-3 2 1 , citada). Na Espanha, a vedação aplica-se também aos
sócios e não apenas aos admin istradores, como aponta V I L LAVER D E, La exclusión ... ,
cit., p. 1 75 e nota n . 257.
731 Cf. VILLAVERDE, La exclusión . . , cit., p. 1 75 . Ou, n o dizer de TROPLONG, apud
.

DALMARTELLO, L 'esc/usione. . , cit., p. 1 73, a i nvasão de i n teresses privados em detri­


.

mento do interesse comum.


732 Sobre os casos de grave i nadimplemento de sócio administrador, cf. LEO, "L'esclusione
dei socio ... ", cit., pp. 1 . 1 77-1 . 1 82.
733 N a Itália, a regra vinha prevista tanto no Código Comercial de 1 .882 (art. 1 86, 2) como
no Código Civ i l atual (art. 2 .286). Na Espanha, tanto no Código Comerci a l de 1 .829
(art. 3 2 6) como no de 1 .885 (art. 2 1 8, 3).

2 65
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1EDADES ANôNIMAS

tações acessórias734 , concorrência com a sociedade735 e condenação


em ação de responsabilidade por atos contrários à lei, ao contrato ou
por falta de diligência.
Cabe destituição do administrador por falta grave e perda de confi­
ança, tenha praticado atos com dolo ou culpa736 , ou até mesmo sem culpa,
como em casos de doença prolongada ou afastamento por serviço públi­
co737 . Além da destituição e de eventual exclusão de sócio, pode haver
outras sanções, como a devolução dos ganhos obtidos irregularmente e
perdas e danos. No caso de exclusão do sócio administrador, discute-se se,
por ocasião do pagamento das ações a sociedade tem direito de retenção,
para reembolso de prejuízos causados (cf Cap. III, 3, abaixo).

5 . 2 . I NGER�NCIA NA ADMINISTRAÇÃO

Embora o assunto seja bastante tratado em relação às socieda­


des contratuais, não é incomum nas companhias, principalmente nas
familiares.
É caracterizada pela intromissão indevida nas funções dos ad­
ministradores. Como, por exemplo, tratar dos negócios sociais com
terceiros, dar ordens ou contra-ordens a funcionários sem autoriza­
ção dos gestores, realizar tarefas próprias dos administradores, inclu­
sive com contra-ordens às determinações daqueles, cumprir atos de
direção técnica738 .
Mesmo com anuência ou ciência do administrador, há ingerên­
cia indevida quando se trata de competência indelegável ou que ne­
cessite da concordância dos demais.

734 O descumprimento de prestações acessórias abrange cumprimento parcial ou defeitu­


oso, mas deve ser relevante, cf. LENZANO e TREJO, Separación y exclusión . , cit., p.
. .

1 1 1 e autores por eles citados à nota 1 92 .


735 A respeito, cf. 2.4 acima.
736 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione... , cit., p. 1 66 e nota n. 72.
737 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., p. 1 67 e nota ns. 73 e 74.
738 Cf. DALMARTELLO, L 'esclusione ... , cit., pp. 1 68-1 69 .

266
R ENATO VENTURA RIBEIRO

Não caracteriza a ingerência o exercício de direitos do acionista,


como o de fiscalizar os negócios sociais (Lei 6 .404/76, art. 109, III) e
o de informação (art. 157, § 1º) 739 .
Pouco importa o percentual das ações das quais o acionista
sej a titular, pois o poder de administrar compete aos administrado­
res. É característica das companhias a dissociação entre proprieda­
de e controle.
A ingerência justificadora da exclusão deve ser grave, capaz de
prejudicar os negócios sociais ou as relações internas da companhia,
entre administradores e acionistas.

6. ÜESARMONIA ENTRE OS SÓCIOS

A discórdia grave entre os sócios justifica a dissolução judicial


da sociedade, por impossibilidade de preenchimento do fim social
(Código Civil, art. 1 .034, II e Lei 6.404/76, art. 206, II, b)740 , inclu­
sive a pedido judicial de sócio minoritário74 1 • Procurando a preserva­
ção da empresa, como alternativa à dissolução total, a jurisprudência
admite a dissolução parcial, com a exclusão do sócio culpado pela
desavença742 • Neste sentido, o direito romano j á admitia a renúncia
quando há sócio prejudicial e difícil de tolerar743 •

739 Cf. DALMARTEL LO, L 'esclusione ... , cit., p. 1 69; N U N ES, O direito de exclusão .. , cit.,
.

p. 1 72; V I L LAVERDE, La exclusión .. . , cit., p. 1 24 e nota n . 1 79, com referência a outros


autores.
740 Por todos, cf. os autores e j u lgados citados em RJT}ESP-Lex 1 32, pp. 247-248.
741 Cf. RJTJESP-Lex 1 1 0/333.
742 Cf., entre outros, REsp. 7.1 83-AM, 4ª T., rei. Min. Barros Monteiro, j . 1 3.8.9 1 , DJU 1 6. 1 0.91
e RSTJ 28/454; RMS 8. 1 1 0-SP, 4ª T., rei. Min. Barros Monteiro, j . 23.9.97, DJU 1 0. 1 1 .97;
REsp. 66.530-SP, 4ª T., rei. Min. Sálvio de Figueiredo, j . 1 8. 1 1 .97, DJU 2 . 2 .98; RT 51 O/
1 3 1 , 6 1 9/1 94 (=RF 298/25 1 ), 475/1 2 1 e 768/2 1 3, os dois ü ltimos cuidando de socieda­
des civis; RJTJESP-Lex 87/2 1 1 , 89/262, 1 03/25 1 , 1 30/253, 1 32/245; RF 264/1 92. N a dou­
trina brasileira, entre outros, TEIXEIRA, Das sociedades por quotas. . . , cit., p. 2 75; REQU IÃO,
A preservação da sociedade... , cit., p. 263; L E ÃE S , "Exclusão extrajudicial. .. ", cit., pp. 95-
97; LUCENA, Das sociedades por quotas. . . , cit., pp. 660-664.
743 D. 1 7, 2, 1 4.

267
ExnusÃo DE Sócios NAS Soc1rnADES ANÔNIMAS

C9mo é natural divergência entre os sócios, em sociedade de


pessoas ou de capitais744 , somente é motivo de exclusão desentendi­
mento grave, capaz de afetar e por em risco a atividade745 , impossibi­
litando ou dificultando o alcance do fim social. Enquanto a união faz
a força, a discórdia arruína as melhores empresas746 •
No direito comparado, a desarmonia entre sócios é causa para
expulsão do culpado. Mas com enfoques diversos. Na Itália, situa-se
grave violação dos deveres sociais prevista no art. 2.286 do Código
Civil. No direito francês é alternativa à dissolução da sociedade747 •
A exclusão do sócio culpado por desarmonia grave não exige
previsão estatutária748 • Mesmo havendo tipificação, pode ser incom­
.
pleta, dadas as variadas hipóteses de desinteligência. Como exem­
plos, reconhecidos há tempos pela doutrina e jurisprudência, tem-se
injúrias (acrescente-se calúnia e difamação) proferidas por um sócio
contra outro, insultos, ameaças ou agressões físicas749 , adultério de
um deles com a mulher de outro750 , mau tratamento, vigilância ex­
cessiva sobre sócio, subterfúgios empregados por sócio para subtrair­
se ao controle dos outros, desacordo sobre decisões importantes,

744 Cf. DUQUESNOY, La dissolution ... , cit., pp. 73-76 e pp. 76-78, respectivamente, sobre
a desarmonia entre sócios nas sociedades de capitais e intuitus personae.
745 Como aponta N U N ES, O direito de exclusão .. , cil., pp. 1 70-1 7 1 , a gravidade deve ser
.

entendida no contexto societário de colaboração. Ou, nas palavras de DUQUESNOY,


La dissolution . ., cil., pp. 80-8 1 , tornar impossível a relação entre os sócios.
.

746 Cf. TROPLONG, apud REQU IÃO, A preservação da sociedade.. ., cit., p. 2 6 1 .


747 No d i reito francês, cf. DUQU ESNOY, La dissolution ., c i t., p. 71 e ss.; LEVET, La
..

mesintelligence entre associés, cause de dissolution antecipée des sociétés, tese, Paris,
1 954; B L UM E NTHAL, La mésintelligence entre associés, tese, Paris, 1 97 1 ; PASCUAL,
"La personne physique ... ", cit., pp. 2 92-298, o último texto discorrendo sobre a d iversi­
dade de opiniões, dada a posição de parte da doutrina e da jurisprudência pela disso­
l ução da sociedade em lugar da exclusão de sócio.
748 D a mesma forma, nas sociedades contratuais, a doutrina majoritária entende pela
desnecessidade de cláusula expressa a respeito, por haver condição reso l utiva tácita
ou i m p l íc i t a . E ntre o u t ros, DA LMART E L LO, L 'esclusione . . . , c i t . , pp. 2 5 1 -5 3 ;
OUQUESNOY, La dissolution .. . , c it., p . 306; REQU IÃO, A preservação da socieda­
de ... , cit., p. 250 e ss.
749 Cf. Ar. 2936, de 26.6.59 do Superior Tribunal da Espanha (STS).
750 Cf. também DUQUESNOY, La dissolution . . ., cit., p. 80.

2 68
RENATO VENTURA RIBEIRO

oposições numerosas e mal fundadas de um sócio aos atos dos de­


mais, comprometimento da atividade, estado de guerra entre países
de nascimento de sócios751 e a separação do casal, únicos sócios de
sociedade752 .
Para fins de exclusão de sócio por desarmonia, deve ser levada
em consideração, entre outros, a falta do espírito e dever de colabora­
ção753 , a sobreposição de interesses individuais sobre os sociais, abu­
s o d e direito e gestão irregular n o c a s o d e gerentes e
administradores754 .

7. DESCUMPRIMENTO DE ACORDO DE ACION ISTAS

O não cumprimento de obrigação prevista em acordo de acio­


nistas, devidamente arquivado, é motivo para exclusão do acionista,
quando causar ou puder prejuízos à atividade social.
Nos casos de acordo de voto, o absenteísmo do acionista não
justifica sua exclusão, por não acarretar prejuízos, dado o direito da
parte prejudicada de votar com as ações pertencentes ao ausente ou
omisso (Lei 6 .404/76, art. 1 1 8 , § 9°) . Já o voto em sentido contrá­
rio ao estabelecido, mesmo desrespeitando convenção entre acio­
nistas, é motivo para exclusão quando gera prejuízos à sociedade,
quer pelo mérito do voto, quer pelo dano causado pela discórdia
entre acionistas.

75 1 Os exemplos são de BAUDRY-LACANTI N E R I E e WAHL, Traité .. ., cit., p. 273 com base


em decisões judiciais. A maioria também é mencionada por Bento de FARIA, Direito
comercial .. , cit., p. 1 86 e Soares de FARIA, Da exclusão de sócios. . . , cit., pp. 2 5-26.
.

Esposa de sócio perturbador excl u ído também deve ser excl u ída, como aponta LEME,
"Sociedade por quotas ... ", cit., p. 1 0 1 .
752 Decidiu-se pela dissolução parcial de sociedade entre marido e mulher, após separa­
ção j udicial, com a continuidade da sociedade por um deles, entendendo-se como
i rrelevantes as razões da desavença do casal (RJTJSP-Lex 1 40/1 36).
753 Sobre a desarmo n i a entre sócios como v i o l ação do dever de col aboração, vide
DALMART E L LO, L 'esclusione . . . , c i t . , p . 94, nota n. 1 1 1 , e L EÃES, " Ex c l u são
extrajudicial. .. ", cit., p. 95.
754 Cf. DUQU ESNOY, La disso/ution .. ., cit., p. 72 .e ss.

2 69
ExctusÃo DE Sócios NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS

Embora a lei fale em acordo sobre compra e venda de ações,


para alcance da finalidade da norma deve-se entender abrangida qual­
quer forma de alienação. Para evitar dúvidas, é recomendável a ex­
tensão das obrigações do acordo de acionistas aos titulares de ações
oriundas daquelas que são obj eto do acordo, mediante bonificação,
desdobramento, grupamento ou subscrição755 .

8. PROCE DIMENTOS DE EXCLUSÃO IN DIRETA D E SÓCIO

8 . 1 . REORGAN IZAÇÃO SOCIETÁRIA E OPERAÇÕES COM O


CAPITAL DA SOCIEDADE

8. 1 . 1 . GRUPAME NTO DE AÇÕES

O grupamento ou reagrupamento é a diminuição do número de


ações em razão da troca das ações antigas por número menor de no­
vas ações, da mesma classe ou não756 • Normalmente, é medida toma­
da em casos de economias inflacionárias, fixação de valor nominal
mínimo ou eliminação de classe de ações757 .
Na operação de grupamento, nem sempre a quantidade de ações
antigas do acionista corresponde a número exato necessário para recebi­
mento das novas ações, restando frações. Qgando o número ou a sobra de
ações antigas detidas pelo acionista é inferior ao número exigido para
troca por uma ação nova, em princípio restam duas alternativas, ambas
heterodoxas: ou o arredondamento do número de ações antigas, para fins
de aquisição da nova ação, ou a exclusão do acionista, pm não possuir a
quantidade