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PORTUGUÊS, 9º ANO

PROF. ANTÓNIO ALVES


Os Lusíadas, Luís de Camões
- Análise do episódio do Gigante Adamastor -

Estrutura externa - Canto V (estrofes 37 a 60)-
Estrutura interna - insere-se na Narração
Plano narrativo - plano da viagem
Classificação do episódio - episódio simbólico

Já no meio da viagem, os portugueses encontram-se face a face com o maior dos perigos e dos medos:
o gigante Adamastor.
Vasco da Gama narra também este episódio ao rei de Melinde, revelando toda a sua experiência e
sentimentos (narrativa principal).
Antes de mais, é importante considerar que se trata de um episódio simbólico.

O ADAMASTOR É O SÍMBOLO DOS PERIGOS E DAS DIFICULDADES QUE SE APRESENTAM AO HOMEM que sente o
impulso de conhecer, de descobrir. Só superando o medo, o Homem poderá vencer (vd. Humanismo).
O Adamastor é, portanto, uma figura mitológica criada por Camões para representar todos os perigos
e dificuldades que os portugueses iriam encontrar e superar.

Não é por acaso que o episódio do Adamastor ocupa o lugar
central no poema épico. O Canto V marca o meio da obra e é com
ele que termina o primeiro ciclo épico da narração. O Adamastor
marca também a passagem do mundo conhecido para o
desconhecido, a passagem o Ocidente para o Oriente.

A viagem decorria calmamente quando, de repente, surge a figura gigantesca e tremenda do
Adamastor. Há um grande contraste entre a atmosfera amena em que decorria a viagem inicialmente,
apresentada na estrofe 37, e o terror que logo de seguida é apresentado, levando o capitão a invocar a
proteção divina para os momentos que se iam seguir.
Nas estrofes 39 e 40, é feita a descrição do gigante, realçando-se sobretudo a adjetivação utilizada:
figura "robusta e válido,/De disforme e grandíssima estatura", "rosto carregado”, "barba esquálida",
"olhos encovados", "postura medonha e má”, a cor “terrena e pálida", "Cheios de terra e crespos os

Publicado em http://linguaportuguesa9ano.wordpress.com por António Alves


cabelos", "boca negra", "dentes amarelos” e um “tom de voz... horrendo e grosso"'. Tendo em conta esta
descrição, podemos compreender a razão do medo dos navegadores.
Como se isso não bastasse, este gigante ainda profetiza, a partir da estrofe 41, num discurso
assustador, graves perigos e mortes para os navegadores. Uma profecia diz respeito a um
acontecimento futuro (prolepse).
O gigante começa por se dirigir aos navegadores com uma apóstrofe "Ó gente ousada?", revelando
conhecer bem a coragem daqueles a quem se dirige, procurando intimidá-los com o seu discurso
ameaçador e castigador.
Mas, na estrofe 49, Vasco da Gama dá mais uma prova da ousadia da gente lusitana, mesmo diante das
trágicas profecias, dirigindo-se ao gigante e perguntando-Ihe quem era. Esta simples pergunta "Quem és
tu?" provoca uma brutal mudança na intenção, na postura e até no tom de voz do Adamastor que, da
estrofe 50 à estrofe 59, narra a história da sua vida, contando a sua triste história de amor.

SIGNIFICADO E SIMBOLISMO DO ADAMASTOR
a) Geograficamente – simboliza o Cabo das Tormentas, posteriormente chamado da Boa Esperança;
b) Mitologicamente – gigante apaixonado pela deusa Tétis, transformado em promontório pelos
deuses, que não toleram ousadias; símbolo da frustração amorosa;
c) Simbolicamente – representa toda a série de perigos e dificuldades que os portugueses tiveram de
enfrentar e vencer.
No dizer de Amélia Pinto Pais, este episódio “ é uma espécie de abóbada arquitetónica do Poema, em
que vêm concentrar-se as grandes linhas da epopeia: o real – maravilhoso (…); existência de profecias
(…); é igualmente um episódio lírico (…); por outro lado, é igualmente um episódio trágico (…). É
sobretudo um episódio épico, em que se consolida a vitória do homem, “bicho da terra”, sobre uma
“natureza poderosa”.

Evolução do comportamento das personagens Gigante e Vasco da Gama, que se encontram frente a
frente:

Gigante:
1º - mostra-se rancoroso, vingativo, ameaçador;
2º - dor profunda, raiva, desespero; humaniza-se, reconhece a sua derrota;
3º - desaparecimento.

Vasco da Gama:
1º - amedrontado: “arrepiam-se as carnes e o cabelo”;
2º - sem medo, de cabeça erguida (alçado), num tom de igual para igual, quase de desafio;
3º - atitude de fé: no momento em que o Gigante, a chorar, desaparece, Gama pede a Deus que
“removesse os duros / casos, que Adamastor contou futuros”.

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