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G.K.

CHESTERTON

O HOMEM QUE FOI


QUINTA-FEIRA

Biblioteca São Miguel Arcanjo


http://saomiguel.webng.com/
Biblioteca São Miguel
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CAPITULO I

OS DOIS POETAS DE SAFFRON PARK

Para as bandas do poente de Londres refulgia, como o


vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer, o subúrbio
de Saffron Park. Totalmente edificado com ladrilho brilhante,
ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante
linha de calçadas. Fora obra de um construtor especulativo,
mirão em assuntos de arte, que identificava sua arquitetura
algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com
o estilo Rainha Ana, sob a visível impressão de que as duas
soberanas eram uma só. Com alguma justiça, Saffron Park
passava por colônia de artistas, embora nunca houvesse pro-
duzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Mas, se suas
pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas, suas
pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis.
O visitante, que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrú-
xulas casas vermelhas, seria levado a cogitar desde logo na
singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que
as habitavam. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria
desapontado. O local era não só aprazível, mas perfeito, desde
que não fosse tido em conta de miragem, mas de sonho. Ainda
que os habitantes nada tivessem de "artistas", tudo ali era ar-
tístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de
feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta,
mas era irrefutavelmente um poema. Aquele cavalheiro idoso,
de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e
enxovalhado, um pândego venerável, não havia de ser obriga-
toriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer moti-
vos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como
um ôvo, de pescoço pelado como o. de uma ave, não fazia jus
aos ares de cientista que alardeava. Não descobrira novidades
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em biologia; mas poderia, por acaso, ter descoberto um espé-


cime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso, e so-
mente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demo-
rados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de
artista do que como uma delicada, posto que consumada, obra
de arte. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera
social teria a sensação de estar participando da representação
de uma comédia.
Sua atraente irrealidade avultava de modo especial no
crepúsculo, quando sobre os fantásticos telhados incidiam as
últimas reverberações da luz. Nesses momentos, todo aquele
bairro insano parecia projetar-se no espaço como uma nuvem
flutuante. Esta impressão era ainda mais fortemente verídica
nas muitas noites de festa local; pois, nos recessos dos pequeni-
nos jardins iluminados, enormes lanternas chinesas pendiam de
árvores minúsculas como frutos monstruosos e sinistros. E a
impressão foi excepcionalmente forte naquela noite, da qual
ainda se guardam vagas recordações e na qual o poeta dos ca-
belos de fogo foi o herói. Não se pense que aquela foi a única
noite em que êle figurou como herói. Em muitas outras, os
que passavam em frente ao seu jardim podiam ouvir-lhe a voz
sonora e didática promulgando leis para os homens e, especial-
mente, para as mulheres. Nessas ocasiões, a atitude das mulhe-
res constituía mesmo um dos paradoxos do lugar. Pertenciam
quase todas à categoria das vagamente chamadas mulheres eman-
cipadas e proclamavam ali seus protestos contra a suprema-
cia masculina. Entretanto, estas mulheres modernas consentiam
em regalar um homem com a inusitada cortesia jamais recebida
por êle de uma mulher comum: a de escutá-lo enquanto êle
está falando. E Mr. Lucian Gregory, o poeta dos cabelos ver-
melhos, era um homem digno de ser escutado, mesmo que
devesse a gente rir-se dele no fim. Entoava a velha cantiga da
anarquia da arte e da arte da anarquia com petulante frescor,
o que provocava momentâneo prazer. Ajudava-o, até certo
ponto, a cativante singularidade de sua aparência, da qual êle
procurava tirar o maior efeito. A cabeleira vermelho-escuro,
dividida ao meio, era literalmente igual à de uma mulher: sua-
vemente encaracolada, como a de uma virgem de um quadro
pré-rafaelista. Entretanto, do interior dessa moldura oval, qua-
se piedosa, avançava uma cara insuspeitadamente grosseira e
brutal, e o queixo despontava com aspecto desdenhoso e zom-
beteiro. Essa mistura ao mesmo tempo deleitava e abalava os
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nervos de uma população neurótica. Era uma blasfêmia ambu-


lante, uma fusão do anjo e do macaco.
Aquela noite, se não merece ser lembrada por outro mo-
tivo qualquer, permanecerá, contudo, na memória dos habitan-
tes do lugar em razão do extraordinário crepúsculo que a prece-
deu. Parecia o fim do mundo. O céu se cobrira de plumagem
vivida e palpável; dir-se-ia que as penas que adejavam no ar vi-
riam tocar os rostos das pessoas. No alto da abóbada as penas
acinzentavam-se, tomando os mais raros matizes de violeta e
malva e tons absurdos de rosa ou verde pálido. Mas, para os
lados do oeste tudo era indescritível, transparente, apaixonante.
As últimas plumas escarlates escondiam o sol como se este fosse
uma coisa boa demais para ser vista. Tudo ali se aproximava
excessivamente da terra, como se quisesse contar uma assusta-
dora confidencia. O empíreo mesmo parecia um segredo. Ex-
primia aquela esplêndida pequenez que é a alma do patriotismo
local. O próprio céu parecia pequeno.
Repito, há várias pessoas que só relembrarão aquela noi-
te em virtude do céu opressivo. Outras há, porém, que podem
relembrá-la por ter assinalado a aparição do segundo poeta
de Saffron Park. Por muito tempo, o revolucionário dos cabe-
los vermelhos reinou sem rival. Mas, na noite que se seguiu
àquele crepúsculo assustador, sua solidão teve fim inopinada-
mente. O novo poeta, que disse chamar-se Gabriel Syme, era
um sujeito calmo e cortês, de barbicha pontuda, bem cuidada e
cabelos amarelados. Mas, em pouco tempo, adivinhava-se que
êle era menos manso do que aparentava. Particularizou sua
chegada por diferir de Gregory, o poeta estabelecido, em tudo
quanto dizia respeito à natureza da poesia. Dizia-se um poeta
da lei, um poeta da ordem; ia mais além ainda: dizia-se um
poeta da respeitabilidade. Por isso, alastrou-se, entre os mora-
dores de Saffron Park, a suspeita de haver êle despencado da-
quele céu inverossímil.
Com efeito, Mr. Lucian Gregory, o poeta da anarquia, fa-
rejou um nexo entre os dois acontecimentos.
— Admito, exclamou em seu tom subitamente lírico, ad-
mito que só numa noite assim, de nuvens e cores cruéis, pode-
ria ocorrer na terra um tão grandioso portento, como o é, na
verdade, um poeta respeitável. Você afirma que é um poeta
da lei e eu afirmo que você é uma contradição em termos. Es-
panta-me somente que não tenha havido cometas e terremotos
quando você surgiu neste jardim.
12 G. K. CHESTERTON

O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e


pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa.
O terceiro membro do grupo, Rosamond, irmã de Gregory —
que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos, embora
possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e
reprovação, como habitualmente fazia diante do oráculo fami-
liar.
Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória.
— Um artista é o mesmo que um anarquista, sentenciou.
Você pode inverter a ordem das palavras, se lhe aprouver. Um
anarquista é um artista. O homem que atira bombas é um ar-
tista, porque prefere um grande momento a tudo o mais. Es-
se homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de
uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do
que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. Um
artista afronta todos os governos, omite todas as convenções.
O poeta só está à vontade na desordem. Não fosse assim, a
coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subter-
rânea.
— E é mesmo, confirmou Mr. Syme.
— Absurdo! disse Gregory, que se vendia por muito ra-
zoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. Por que é
que todos os empregados e operários que tomam os trens pa-
recem tão tristes e cansados, tão completamente tristes e cansa-
dos? Eu respondo. É porque sabem que o trem está na rota
certa. Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o
qual compraram os bilhetes. Porque sabem que depois
de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória,
nenhuma outra senão Vitória. Mas eu adivinho o formidável êx-
tase, o brilho astral de seus olhos, o enlevo paradisíaco de suas
almas, se a estação seguinte pudesse ser Baker Street!
— Ê você que é antipoético, replicou o poeta Syme. Se
tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a
lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. O
maravilhoso, o raro está em chegar à meta. O vulgar, o insí-
pido, está em não atingi-la. Sentimos um frêmito épico quan-
do o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distan-
te. Não é também épico quando o homem com uma locomo-
tiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido.
No caos o trem podia ir a qualquer parte, a Baker Street ou a
Bagdad. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con-
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siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória


mesmo. Ora, por favor! Tome todos os seus livros de poesia
e de prosa. A mim deixe-me ler, com lágrimas de orgulho, uma
tabela do horário dos trens. Tome seu Byron, que comemora as
derrotas do Homem. Dê-me Bradshaw, que comemora as vitó-
rias. Dê-me Bradshaw, digo-lhe eu!
— Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente.
— Eu lhe digo, continuou Syme com veemência, que ca-
da vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu
as baterias dos opressores, e que o homem ganhou uma bata-
lha contra o caos. Você diz com desprezo que quando alguém
deixa Sloane Square, chega infalivelmente a Vitória. E eu digo
que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sem-
pre que efetivamente chego a Vitória, tenho a sensação de ter
escapado por um triz. E, quando ouço o guarda gritar: "Vi-
tória", não me parece ouvir um vocábulo desprovido de senti-
do. Para mim, é o grito do arauto anunciando a conquista.
Para mim, é realmente "Vitória". Ê a vitória de Adão.
Gregory, com sorriso lento e amargo, meneou a cabeça
vermelha e pesada.
— Mesmo assim, disse êle, nós, os poetas, perguntamos
incessantemente: "E o que é Vitória, agora que nós a alcan-
çamos?" Para você, Vitória é como a Nova Jerusalém. Para
nós, entretanto, Nova Jerusalém não será melhor nem pior do
que Vitória. Sim, o poeta será um eterno inconformado, mesmo
andando nas ruas do céu. O poeta está sempre em revolta.
— De novo! disse Syme irritado. O que há de poético
nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poé-
tico padecer enjôo no mar. Ê um estado de revolta. Ambas,
a doença e a revolta, podem ser coisas salutares em certas oca-
siões desesperadas. Mas, enforquem-me, se posso ver em que
são elas poéticas! A revolta, em abstrato, é. .. revoltante. É
mero vômito!
A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável, mas
Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela.
— Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou.
Nossa digestão, desde que se mantenha sagrada e silenciosa-
mente normal... eis o fundamento de toda a poesia. Sim, a
coisa mais poética, mais poética do que as flores, mais poética
do que as estrelas, a coisa mais poética do mundo é não estar
doente.
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O homem dos brandos olhos azuis e da barbicha pálida e


pontuda suportou essas rajadas com certa solenidade submissa.
O terceiro membro do grupo, Rosamond, irmã de Gregory —
que tinha deste os cabelos ondulados e vermelhos, embora
possuísse um rosto muito mais afável — riu com espanto e
reprovação, como habitualmente fazia diante do oráculo fami-
liar.
Gregory recomeçou num tom de alta bonomia oratória.
— Um artista é o mesmo que um anarquista, sentenciou.
Você pode inverter a ordem das palavras, se lhe aprouver. Um
anarquista é um artista. O homem que atira bombas é um ar-
tista, porque prefere um grande momento a tudo o mais. Es-
se homem percebe que valem muito mais o súbito clarão de
uma flama viva e o estampido de uma detonação perfeita do
que os simples corpos desarticulados de alguns esbirros. Um
artista afronta todos os governos, omite todas as convenções.
O poeta só está à vontade na desordem. Não fosse assim, a
coisa mais poética do mundo seria a estrada de ferro subter-
rânea.
— E é mesmo, confirmou Mr. Syme.
— Absurdo! disse Gregory, que se vendia por muito ra-
zoável quando outra pessoa tentava o paradoxo. Por que é
que todos os empregados e operários que tomam os trens pa-
recem tão tristes e cansados, tão completamente tristes e cansa-
dos? Eu respondo. É porque sabem que o trem está na rota
certa. Ê porque sabem que terão de chegar ao lugar para o
qual compraram os bilhetes. Porque sabem que depois
de Sloane Square a estação seguinte deve ser Vitória,
nenhuma outra senão Vitória. Mas eu adivinho o formidável êx-
tase, o brilho astral de seus olhos, o enlevo paradisíaco de suas
almas, se a estação seguinte pudesse ser Baker Street!
— Ê você que é antipoético, replicou o poeta Syme. Se
tudo quanto você diz dos empregados é verdadeiro só tenho a
lamentar que eles sejam tão prosaicos como a sua poesia. O
maravilhoso, o raro está em chegar à meta. O vulgar, o insí-
pido, está em não atingi-la. Sentimos um frêmito épico quan-
do o homem com sua seta selvagem atinge um pássaro distan-
te. Não é também épico quando o homem com uma locomo-
tiva selvagem atinge uma estação distante? O caos é estúpido.
No caos o trem podia ir a qualquer parte, a Baker Street ou a
Bagdad. Mas o homem é um mágico e toda a sua magia con-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 13

siste precisamente nisso: êle diz Vitória e — zás — é Vitória


mesmo. Ora, por favor! Tome todos os seus livros de poesia
e de prosa. A mim deixe-me ler, com lágrimas de orgulho, uma
tabela do horário dos trens. Tome seu Byron, que comemora as
derrotas do Homem. Dê-me Bradshaw, que comemora as vitó-
rias. Dê-me Bradshaw, digo-lhe eu!
— Vai viajar? perguntou Gregory sarcàsticamente.
— Eu lhe digo, continuou Syme com veemência, que ca-
da vez que o trem entra numa estação sinto que êle venceu
as baterias dos opressores, e que o homem ganhou uma bata-
lha contra o caos. Você diz com desprezo que quando alguém
deixa Sloane Square, chega infalivelmente a Vitória. E eu digo
que podem acontecer milhares de coisas em vez desta e que sem-
pre que efetivamente chego a Vitória, tenho a sensação de ter
escapado por um triz. E, quando ouço o guarda gritar: "Vi-
tória", não me parece ouvir um vocábulo desprovido de senti-
do. Para mim, é o grito do arauto anunciando a conquista.
Para mim, é realmente "Vitória". Ê a vitória de Adão.
Gregory, com sorriso lento e amargo, meneou a cabeça
vermelha e pesada.
— Mesmo assim, disse êle, nós, os poetas, perguntamos
incessantemente: "E o que é Vitória, agora que nós a alcan-
çamos?" Para você, Vitória é como a Nova Jerusalém. Para
nós, entretanto, Nova Jerusalém não será melhor nem pior do
que Vitória. Sim, o poeta será um eterno inconformado, mesmo
andando nas ruas do céu. O poeta está sempre em revolta.
— De novo! disse Syme irritado. O que há de poético
nessa contínua revolta? Você podia dizer também que é poé-
tico padecer enjôo no mar. Ê um estado de revolta. Ambas,
a doença e a revolta, podem ser coisas salutares em certas oca-
siões desesperadas. Mas, enforquem-me, se posso ver em que
são elas poéticas! A revolta, em abstrato, é . . . revoltante. É
mero vômito!
A moça estremeceu ao ouvir o vocábulo desagradável, mas
Syme estava demasiadamente inflamado para reparar nela.
— Ê a boa marcha das coisas que é poética! Exclamou.
Nossa digestão, desde que se mantenha sagrada e silenciosa-
mente normal... eis o fundamento de toda a poesia. Sim, a
coisa mais poética, mais' poética do que as flores, mais poética
do que as estrelas, a coisa mais poética do mundo é não estar
doente.
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Realmente, disse Gregory com arrogância, os exemplos


que você escolhe.. .
— Oh! Perdoe-me, respondeu Syme, inflexível. Esquecia-
me que tínhamos abolido todas as convenções...
Pela primeira vez um indício de rubor marcou a testa de
Gregory.
— Quer dizer que você não espera, disse êle, que eu ini-
cie a revolução da sociedade aqui neste jardim?!
Syme cravou os olhos nos olhos do outro e sorriu com do-
çura.
— Não, não espero. Mas creio que se você fosse um anar-
quista de verdade era exatamente isso o que faria.
Os enormes olhos taurinos de Gregory relampejaram co-
mo os de um leão enfurecido, e quase se podia imaginar que
sua juba vermelha se encrespara.
— Então você acha, disse com grande dificuldade, que não
levo a sério o meu anarquismo?
— Como? Quer repetir, por favor?
— Que não levo a sério o meu anarquismo? rugiu Gre-
gory com os punhos fechados.
— Ora, meu caro! Não se aflija! respondeu Syme e afas-
tou-se.
Com surpresa, mesclada de curiosidade e prazer, desco-
briu que Rosamond Gregory havia acompanhado seus passos.
— Mr. Syme, começou ela, pessoas como o senhor e meu
irmão, quando falam, estão sempre atentos para o que dizem?
O senhor reparou no que disse?
Syme sorriu e perguntou:
— E a senhorita? Repara no que diz?
— Que quer dizer o senhor? indagou a moça severamente.
— Cara Miss Gregory, disse Syme com brandura na voz,
há muitas espécies de sinceridade e de insinceridade. Quando
você, por exemplo, agradece ao vizinho de mesa que acaba de
lhe passar o saleiro, repara no que diz? Não. Quando diz que
o mundo é redondo, repara no que diz? Não. Está dizendo a
pura verdade, mas não se dá conta disso. Ora, às vezes acon-
tece que um homem quando fala diz, realmente, aquilo que pen-
sa. Pode dizer uma meia-verdade, um quarto ou um décimo da
verdade, não importa. Ê o caso de seu irmão. Ao falar, êle
diz mais do que quer dizer, tal é o ímpeto com que pensa naquilo
que está dizendo.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 15

Rosamond fixou-o demoradamente. Em seu rosto grave


e franco pairava a sombra daquela insensata responsabilidade
que habita o íntimo da mulher mais frívola, daquele desvelo
maternal que é tão velho quanto o mundo.
— Então há razões para julgar Gregory um anarquista?
— Apenas aquelas razões que dei há pouco, ou, se quiser,
aquelas sem-razões.
Rosamond passou alguns momentos matutando, a testa
franzida; de repente, disse:
— Em todo caso, não irá êle atirar bombas ou tomar par-
te em atentados?
Syme rebentou numa gargalhada que parecia grande de-
mais para seu tipo frágil e levemente ajanotado.
— Não, por Deus! exclamou. Essas coisas têm de ser fei-
tas anonimamente.
Os lábios de Rosamond descerraram-se num sorriso. Ela
pensava em Gregory. Sabia-o inconseqüente, mas não precisava
temer pela segurança dele.
Syme afastou-se com ela para um banco no canto do jar-
dim e continuou a expor suas opiniões. Era um homem sin-
cero e, a despeito de suas graças e finezas superficiais, fundamen-
talmente humilde. E é sempre o humilde que fala demais; o or-
gulhoso mede as palavras com muita cautela. Defendia a respei-
tabilidade com ardor e exagero. Apaixonava-se no louvor à
cordura e à decência. Ali, sentado, aspirava a fragrancia dos
lilazes espalhados pelo jardim. Lenta e quase imperceptivel-
mente, começou a subir até êle, vinda de uma rua distante,
a música de um realejo. Parecia-lhe que suas heróicas palavras
engolfavam-se numa delicada melodia emanada talvez de re-
giões subterrâneas ou extraterrenas.
Ao passo que falava, comprazia-se em contemplar os ca-
belos vermelhos e o rosto cândido da moça. Supondo terem
decorrido alguns minutos, advertiu que, em ocasiões como aque-
la, os pares não deviam isolar-se por muito tempo. Com este
pensamento, pôs-se de pé, mas pasmou-se ao ver o jardim
completamente vazio. Há muito tinha saído o último conviva.
Embaraçado, pediu desculpas à moça e tratou de partir o mais
depressa que pôde. Em sua cabeça — e êle não sabia como
justificar essas sensações — boiavam uns como eflúvios de cham-
panha. Nos extraordinários acontecimentos que viriam depois,
a moça não teria nenhuma participação. E êle não voltou a vê-
la senão quando tudo acabou. Entretanto, por entre as temerá-
16 G. K. CHESTERTON

rias aventuras que o aguardavam, a imagem dela havia de sur-


gir, desaparecer e surgir de novo, inexplicavelmente, como o te-
ma de um movimento musical; e o esplendor de sua mara-
vilhosa cabeleira havia de atravessar, como um fio vermelho,
as tramas desvairadas e tenebrosas das tapeçarias da noite.
Porquanto, o que se seguiu foi tão inacreditável que bem podia
ter sido um sonho.
Quando Syme chegou à rua, achou-a deserta sob o céu es-
trelado. Não demorou a descobrir um misterioso silêncio que
era antes um silêncio vivo que morto. No alto do poste, situa-
do defronte da porta, uma lâmpada acesa dourava as folhas da
árvore, cujos galhos debruçavam-se sobre o muro. A um pas-
so do poste, alguém se mantinha de pé, quase tão rígido e imó-
vel como o próprio poste. Tinha a cabeça coberta por um cha-
péu alto e negro e o corpo envolto numa comprida sobreca-
saca negra; na sombra, o rosto era igualmente negro. Todavia,
a meada de cabelos avermelhados, escapos à zona das trevas,
e a agressividade da postura publicavam' no vulto negro o poe-
ta Gregory. Imitava os bravateiros embuçados que, munidos
de espadas, espreitam a vinda do opositor.
Gregory fêz um gesto semelhante a uma saudação e teve
da parte de Syme uma réplica algo mais solene.
— Estava esperando que você chegasse, disse Gregory.
Poderíamos conversar uns dois minutos?
— Pois não. De que se trata? inquiriu Syme um pouco
espantado.
Gregory bateu com a bengala no poste e na árvore, ao
mesmo tempo em que começou a falar.
— Disto e disto. Da ordem e da anarquia. Aí tem você
sua preciosa ordem nessa mesquinha lâmpada de ferro, feia e
estéril. E aqui está a anarquia, opulenta, viva, fecunda. Eis
a anarquia nesta árvore esplêndida nas cores do ouro e da es-
meralda.
— Apesar de tudo, respondeu pacientemente Syme, neste
momento você só pode ver a árvore sob a luz da lâmpada.
Não me consta que em tempo algum você possa ver a lâmpa-
da, sob a luz da árvore. Fêz uma curta pausa e prosseguiu:
mas posso perguntar-lhe se você ficou aqui todo esse tempo
no escuro, só para reabrir agora nossa discussão?
— Não! explodiu Gregory numa voz que ressoou em to-
da a rua. Não fiquei aqui para recomeçar a discussão, mas
para acabar com ela de uma vez.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 17

Caiu novamente o silêncio, e Syme, ainda que não pes-


casse o verdadeiro sentido das palavras do outro, instintiva-
mente pressentiu a gravidade do momento. Gregory voltou a
falar com voz macia e sorriso desconcertante.
— Mr. Syme, esta noite você fêz uma coisa realmente no-
tável. Você fêz comigo o que nenhum homem nascido de mu-
lher jamais conseguiu fazer antes.
— Realmente?
— Aliás, se bem me recordo, disse Gregory pensativamen-
te, outra pessoa também conseguiu fazer a mesma coisa. Foi
o comandante de um vaporzinho vagabundo, em Southend, se
a memória não me falha. A verdade é que você me irritou.
— Lamento muito, respondeu gravemente Syme.
— Mas eu temo que a minha ira e o insulto que você me
fêz ultrapassem os limites do tolerável e não possam ser apa-
gados com uma simples desculpa, disse Gregory muito calmo.
Nenhum duelo poderá apagá-lo. Se eu o matasse, o caso não
estaria encerrado. Só existe um meio de fazer desaparecer o
insulto e esse meio eu já o escolhi. Vou, com o possível sacri-
fício de minha vida e de minha honra, provar que você está en-
ganado em tudo quanto disse.
— Em tudo quanto eu disse?
— Sim. Você disse que eu não levo a sério o meu anar-
quismo.
— Há graus de seriedade, replicou Syme. Nunca pus em
dúvida a sua sinceridade em certas coisas. Por exemplo: você
só diz aquilo que lhe parece digno de ser dito, acredita que um
paradoxo pode despertar a humanidade para uma verdade des-
prestigiada. Neste sentido, nunca duvidei de que você fosse
cabalmente sincero.
Gregory encarava-o firme mas penosamente.
— E num outro sentido, perguntou, você crê na minha
seriedade? Você me toma por um flâneur que deixa cair por
onde passa uma ou outra verdade ocasional. Num sentido
mais profundo, mais intenso, você não crê que sou sério.
Syme bateu violentamente com a bengala na calçada e
bradou:
— Sério! Santo Deus! É seria esta rua? São sérias estas
malditas lanternas chinesas? É séria toda essa mixórdia? Olhe,
aparece aqui um sujeito, diz um montão de tolices e talvez tam-
bém algumas coisas sensatas. .. Está bem. Mas eu não darei
um vintém por êle se no mais fundo do ser não conduzir uma
18 G. K. CHESTERTON

coisa mais séria do que essa tagarelice... uma coisa mais sé-
ria, que tanto pode ser a religião quanto a bebida.
— Muito bem, disse Gregory com o rosto sombrio. Você
vai conhecer uma coisa mais séria do que a bebida ou a religião.
Syme ficou aguardando delicadamente até que Gregory
retomou a palavra.
— Você acaba de falar em religião. É verdade, realmen-
te, que você tem uma?
— Claro! exclamou Syme, com um sorriso radiante. So-
mos todos católicos agora.
— Então posso pedir-lhe que jure por todos os deuses
e santos da sua religião que não revelará a nenhum filho de
Adão e especialmente à polícia o que vou contar? Jura? Se
assume tão terrível compromisso, se consente em sobrecarre-
gar sua alma com um juramento que nunca pensou em fazer e
com um conhecimento de coisas com que jamais sonhou, eu
lhe prometo em troca...
— Você me promete em troca!?! insistiu Syme quando o
outro se interrompeu.
— Eu lhe prometo uma noite muito divertida.
Syme tirou o chapéu e disse:
— Seu oferecimento é tão insensato que não merece re-
cusa. Você diz que um poeta é sempre um anarquista. Dis-
cordo. Mas espero que êle seja pelo menos um cavalheiro. Per-
mita-me, aqui e agora, jurar como cristão e prometer como
bom camarada e companheiro de ofício, que não contarei nada,
seja o que fôr, à polícia. E agora, em nome de Colney Hatch,
de que se trata?
— Acho, disse Gregory com plácida dissimulação, que de-
vemos chamar um fiacre.
Deu dois longos assobios, e um fiacre veio ressoando pela
rua. Entraram em silêncio. Pela portinhola, Gregory deu o en-
dereço de uma obscura taberna situada em Chiswick, à mar-
gem do rio. O fiacre foi posto de novo em movimento e, den-
tro dele, estes dois fantásticos sujeitos deixaram seu não menos
fantástico subúrbio.
CAPITULO II

O SEGREDO DE GABRIEL SYME

Chegado em frente a uma cervejaria particularmente imun-


da e lúgubre, o fiacre parou. Apearam-se e Gregory conduziu
imediatamente o companheiro para um cubículo interior, som-
brio e abafado, espécie de locutório, onde se sentaram à roda de
uma sórdida mesa de pé de galo, toda de madeira. O quarto
era tão pequeno e escuro que do serviçal chamado nada mais
se divisava além da vaga e negra sombra de um vulto corpulento
e barbado.
— Quer cear? perguntou Gregory polidamente. O pâté
de foie gras daqui não é bom, mas posso recomendar a lebre.
Syme recebeu impassível a observação, imaginando tratar-
se de uma pilhéria. Disposto a seguir o filão de humor, respon-
deu com propositada indiferença:
— Ora, me traga maionese de lagosta.
Para sua indescritível estupefação, o criado disse apenas
"Pois não, senhor!" e foi buscá-la.
— Que quer beber? acrescentou Gregory, com o mesmo
ar descuidado mas polido. Como já jantei, vou tomar somente
um creme de menthe. No champanha se pode confiar... Dei-
xe-me servir-lhe ao menos meia garrafa de Pommery.
— Muito obrigado, disse o imóvel Syme. Você é muito
amável.
Suas tentativas, até então frustradas, de manter a conver-
sação, foram enfim cortadas, como por um raio, com a presen-
ça da lagosta. Syme degustou-a, achou-a bastante apetitosa e
logo começou a comer com grande avidez.
— Perdoe-me se manifesto tão claramente minha satisfa-
ção, disse sorrindo a Gregory. Nem sempre tenho a sorte de ter
20 G. K. CHESTERTON

um sonho como este. É uma novidade para mim que um pesade-


lo conduza a uma lagosta. Comumente sucede o inverso.
— Não está dormindo, garanto-lhe, disse Gregory. Ao
contrário; você está à beira do momento mais real e excitante
de sua existência. Ah, olhe aí seu champanha! Admito que
haja uma leve desproporção, digamos, entre o arranjo interior
deste excelente hotel e seu exterior simples e despretensioso.
Mas nisso reside toda a nossa modéstia. Somos os homens mais
modestos que jamais viveram sobre a terra.
— E quem são nós? perguntou Syme, esvaziando o copo
de champanha.
— Muito simples, respondeu Gregory. Nós somos os anar-
quistas sérios, em quem você não acredita.
— Oh! exclamou Syme. Vocês se arranjam bem nas be-
bidas!
— Sim, somos sérios em tudo, respondeu Gregory.
Depois de uma pausa acrescentou:
— Se dentro de alguns instantes esta mesa começar a gi-
rar um pouco, não meta isso na conta das suas incursões no
champanha. Não quero que você cometa uma injustiça.
— Bem, se não estou bêbado, estou louco, replicou Syme
com absoluta calma. Mas confio em que possa comportar-me
como um cavalheiro em qualquer circunstância. Posso fumar?
— À vontade, disse Gregory, apresentando-lhe uma cha-
ruteira. Experimente um dos meus.
Syme aceitou o charuto e, cortando-lhe a ponta com um
corta-charutos que tirou do bolso do colete, levou-o à boca,
acendeu-o vagarosamente e soltou imensa baforada. Credite-
se a seu favor a calma com que efetuou todo este ritual, pois,
pouco antes de iniciá-lo, a mesa tinha começado a girar, a prin-
cípio vagarosamente e depois cèleremente como numa sessão
espírita.
— Não faça caso, disse Gregory. Ê uma espécie de rosca.
'•— Exato! disse Syme plàcidamente. Uma espécie de rosca.
Como é simples!
Um minuto depois, a fumaça do charuto, que até então
ondulava pelo quarto em serpeantes volteios, subiu a prumo
como por uma chaminé de fábrica, e os dois, mais a mesa e as
cadeiras, desapareceram através do assoalho, como se a terra
os tivesse tragado. Foram caindo estrepitosamente por dentro de
uma espécie de chaminé rugidora, tão rapidamente como um
ascensor desgovernado, e de supetão chegaram ao fundo com
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 21

um baque surdo. Mas quando Gregory escancarou as duas fo-


lhas de uma porta e surgiu uma subterrânea luz vermelha, Sy-
me continuava a fumar tranqüilamente, uma perna cruzada so-
bre a outra, e um único fio de seus cabelos amarelos não se ti-
nha desarranjado.
Gregory guiou-o através de um corredor baixo, abobadado,
de onde provinha a luz vermelha. Lá no fundo, presa a uma
pequena e pesada porta de ferro, estava uma enorme lanterna
escarlate, quase tão grande como uma lareira. Na porta ha-
via um tipo de escotilha ou vigia, na qual Gregory deu cinco
pancadas. Uma voz forte, com sotaque estrangeiro, perguntou
quem era. Gregory deu uma resposta mais ou menos inesperada:
"Mr. Joseph Chamberlain". Moveram-se os pesados gonzos.
Evidentemente, tratava-se de uma senha.
Interiormente, o corredor cintilava como se estivesse re-
vestido de uma rede de aço. Num segundo relance, Syme per-
cebeu que a fulgurante parede estava realmente forrada de
várias fileiras de espingardas e pistolas, estreitamente entrelaça-
das ou amontoadas.
— Devo pedir-lhe perdão por todas essas formalidades,
disse Gregory. Temos que ser muito rigorosos aqui.
— Não se desculpe, disse Syme. Conheço sua paixão pela
lei e pela ordem. E entrou no corredor guarnecido pelas armas
de aço. Com seus compridos cabelos louros e sua ridícula so-
brecasaca, era na verdade uma figura singularmente frágil e
fantástica a caminhar naquela rutilante avenida da morte.
Atravessaram vários corredores idênticos e chegaram, por
fim, a um esquisito quarto de aço e de paredes curvas, quase
esférico, mas sugerindo, com suas fileiras de bancos, o aspecto
de um anfiteatro científico. Nele não havia espingardas nem pis-
tolas, mas estavam suspensas nas paredes formas mais ambí-
guas e terríveis, coisas que lembravam bulbos de plantas de fer-
ro, ou ovos de pássaros de ferro. Eram bombas, e o quarto
mesmo assemelhava-se ao interior de uma bomba. Syme bateu
na parede para derrubar a cinza do charuto e entrou.
— E agora, meu caro Mr. Syme, disse Gregory sentando-
se expansivamente no banco situado debaixo da bomba maior,
agora que estamos à vontade, falemos claramente. Mas nenhu-
ma palavra da linguagem dos homens poderá lhe dar a menor
idéia do motivo que me impeliu a trazê-lo até aqui. Foi uma
daquelas emoções puramente arbitrárias, que levam a gente a
pular de um rochedo ou a apaixonar-se. Limito-me a dizer
22 G. K. CHESTERTON

que você foi e, para fazer-lhe justiça, ainda continua sendo um


camarada indizivelmente irritante. Eu quebraria vinte juramen-
tos de sigilo só pelo simples prazer de espezinhá-lo. Esse seu
modo de acender o charuto obrigaria um padre a revelar o
segredo da confissão. Bem. Você dizia que estava perfeita-
mente convicto de que eu não era um anarquista sério. Este
lugar não lhe parece sério?
— Realmente parece encobrir uma moral debaixo de toda
sua gaiatice, assentiu Syme. Mas posso fazer-lhe duas pergun-
tas? Não precisa ter medo de me dar informações. Você deve
estar lembrado de que muito habilmente extorquiu de mim a
promessa de nada contar à polícia... promessa que em verda-
de cumprirei. Portanto, é por mera curiosidade que faço tais
perguntas. Em primeiro lugar, que é que tudo isso significa? O
que é que vocês pretendem? Querem abolir o governo?
— Queremos abolir Deus! disse Gregory abrindo os olhos
de fanático. Não pretendemos somente perturbar alguns despo-
tismos e regulamentos policiais. Esse tipo de anarquismo existe,
mas não passa de um ramo dos não-conformistas. Nós cavamos
mais fundo e vamos fazê-los voar mais alto. Visamos a nega-
ção de todas as arbitrárias distinções, estabelecidas entre o vício
e a virtude, a honra e a traição, que ainda constituem o fun-
damento da rebeldia dos simplórios. Os ingênuos sentimentais da
Revolução Francesa pregavam os Direitos do Homem! Nós
odiámos Direitos e Injustiças. Já abolimos os dois.
— E a direita e a esquerda? perguntou Syme com simplici-
dade. Espero que vocês as eliminem também. Para mim são
muito mais enfadonhas.
— Você falou de uma segunda pergunta, interrompeu Gre-
gory.
— Com muito prazer, disse Syme reatando o fio da con-
versa. Noto que, em todos os atos e circunstâncias presentes,
vocês tentam cobrir-se de mistério. Tenho uma tia que morava
em cima de uma loja, mas esta é a primeira vez que encontro
gente que vive, de preferência, debaixo de uma taberna. Pos-
suem uma pesada porta de ferro e não podem passar por ela sem
se submeter à humilhação de chamar-se Mr. Chamberlain. Cer-
cam-se de apetrechos de aço que tornam o lugar, por assim dizer,
mais sinistro do que acolhedor. Posso agora perguntar-lhe por
que, depois de vencer todos esses obstáculos para entrincheirar-
se nas entranhas da terra, você alardeia os seus segredos, dis-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 23

correndo sobre anarquismo diante de todas as donas desocupa-


das de Saffron Park?
Gregory sorriu:
— A resposta é simples. Já lhe disse que sou um anar-
quista sério, mas você não acreditou. Nem ninguém acredita.
Enquanto não os trouxer a esta sala infernal não acreditarão.
Syme fumava pensativamente e fitava-o com interesse.
Gregory continuou:
— A história que lhe vou contar poderá diverti-lo. Logo
que me fiz membro dos Novos Anarquistas experimentei todos
os gêneros de disfarces respeitáveis. Vesti-me de bispo. Cuidei de
ler tudo o que se relacionava com os bispos em nossos opús-
culos anarquistas. O Vampiro da Superstição e Padres de Ra-
pina. Aprendi neles que os bispos são uns anciãos terríveis e
estranhos que ocultam da humanidade um segredo cruel.
Estava enganado. A primeira vez que, com botas episcopais,
botei os pés num salão e trovejei — "Humilha-te, humilha-te,
presunçosa razão humana" — descobriram, não sei como, que eu
nada tinha de bispo e me apanharam imediatamente. Depois
banquei o milionário, mas defendia o capital com tanta inte-
ligência que qualquer imbecil podia ver logo que eu era muito
pobre. Então, procurei passar por major. Pessoalmente, sou
um humanitário, mas creio possuir bastante largueza intelec-
tual para compreender a posição daqueles que, como Nietzs-
che, admiram a violência, a guerra altiva, feroz da natureza e
tudo o mais que você conhece. Transformei-me, então, num ma-
jor. Constantemente desembainhava e brandia a espada e, sem
nenhum propósito, gritava: "Sangue!", como um homem que
pede Vinho. Repeti muitas vezes: "Pereçam os fracos. É a
lei". Parece que não é assim que procedem os majores. Fui
apanhado novamente. Afinal, desesperado, fui ter com o Pre-
sidente do Conselho Central Anarquista, que é o homem mais
notável da Europa.
-— Como se chama? perguntou Syme.
— Você não pode nem imaginar, respondeu Gregory. E
nisso está a grandeza dele. César e Napoleão empenharam to-
do o seu gênio para se tornarem conhecidos e tiveram êxito.
Nosso Presidente põe todo o seu gênio em conseguir que não
se fale dele, e o conseguiu. Mas você não pode ficar cinco
minutos na mesma sala em que êle estiver sem sentir que na
mão dele César e Napoleão teriam sido dois meninotes.
24 G. K. CHESTERTON

Empalideceu e passou uns momentos em silêncio. De-


pois prosseguiu:
— Qualquer que seja o conselho que êle dê é sempre
uma coisa tão surpreendente como um epigrama e ao mesmo
tempo tão prática como o Banco da Inglaterra. Perguntei-lhe:
"Que disfarce esconder-me-á das vistas do mundo? Que posso
eu descobrir de mais respeitável que bispos e majores?" Êle
me olhou com sua cara enorme e indecifrável. "Você quer um
disfarce que o ponha a salvo de tudo, não é? Você quer um
traje que lhe permita passar por inofensivo; um traje de que nin-
guém possa suspeitar que leva uma bomba escondida?" Assen-
ti com a cabeça. E êle prosseguiu, alteando a voz de leão:
"Pois, então, vista-se como um anarquista, seu idiota!", rugiu
com tanta força que abalou a sala. "E não haverá ninguém
que o julgue um tipo perigoso". E virou-se, dando-me suas
largas costas, sem me dizer outra palavra. Tomei o conselho e
até aqui não me arrependi. Dia e noite preguei sangue e des-
truição àquelas mulheres e — por Deus! — elas me deixariam
guiar o carrinho em que levam os filhos a passeio.
Os grandes olhos azuis de Syme fitavam o companheiro
respeitosamente.
— Você me ludibriou, disse êle. É realmente um embus-
te primoroso.
Fêz uma pausa e acrescentou:
— Que nome tem esse medonho Presidente?
— Nós todos o chamamos Domingo, respondeu Gregory
com simplicidade. O Conselho Central Anarquista se compõe
de sete membros que receberam os nomes dos dias da semana. O
Presidente é o Domingo. Alguns de seus admiradores chamam-
no Domingo, o Sanguinário. É curioso que você tenha tocado
neste ponto, porque nesta mesma noite em que você caiu do
céu (desculpe-me a expressão) nossa seção londrina deve reu-
nir-se aqui nesta sala para eleger um representante que vai pre-
encher a vaga no Conselho. O cavalheiro que desempenhou por
algum tempo, com perícia e aplausos gerais, as árduas funções
de Quinta-feira, acaba de morrer. Por isso, convocamos es-
ta noite uma reunião para escolhermos o seu sucessor.
Levantou-se e começou a passear pela sala, sorrindo com
certo embaraço.
— Syme, de certo modo, eu o sinto agora como se você
fosse minha mãe. Sinto que posso confiar-lhe qualquer coisa,
desde que você prometeu não contar nada a ninguém. De fato,
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 25

vou contar-lhe uma coisa que não teria coragem de contar aos
anarquistas que estarão aqui dentro de dez minutos. Natural-
mente iremos proceder a uma forma de eleição. Não me aca-
nho de dizer-lhe que estou certo do resultado. E baixando mo-
destamente os olhos, disse: Está quase estabelecido que eu se-
rei o Quinta-feira.
— Bravo, amigo! exclamou Syme calorosamente. Congra-
tulo-me com você. Bela carreira!
Gregory sorriu com modéstia e, enquanto atravessava a
sala, falava apressadamente.
— A verdade é que tudo está pronto para mim nesta me-
sa, e a cerimônia provavelmente será a mais curta possível.
Por sua vez, Syme foi até à mesa e viu uma bengala que
um exame mais apurado revelou ser uma bengala de estoque.
Lá estavam também um grande revólver Colt, um embrulho de
sanduíches e uma formidável garrafa de conhaque. Numa ca-
deira, ao lado da mesa, fora atirado um capote.
— Resta-nos somente esperar que se cumpram as formali-
dades da eleição, prosseguiu Gregory com desenvoltura. Uma
vez concluídas, agarro a capa e a bengala, meto as outras coisas
no bolso e abandono esta caverna, saindo por uma porta que dá
para o rio. Lá me espera uma lancha a vapor. Então.. . De-
pois . . . Oh! A alegria selvagem de ser o Quinta-feira! E en-
trelaçou os dedos nervosamente.
Syme, que se sentara uma vez mais com seu habitual lan-
gor insolente, levantou-se com um desusado ar de hesitação.
— Por que é, perguntou de maneira um tanto vaga, que
eu acho que você é um sujeito honesto? Por que é que eu sim-
patizo francamente com você? Parou um instante e depois ajun-
tou, como se o fizesse por pura curiosidade: Será porque você
é um verdadeiro asno?
Ficou meditando em silêncio durante alguns momentos
e por fim exclamou:
— Ora, dane-se tudo! Nunca em minha vida me vi numa
situação mais engraçada do que esta, mas vou comportar-me à
altura. Gregory, antes de entrar aqui eu lhe fiz uma promessa.
E hei de cumpri-la, mesmo torturado por tenazes incandescen-
tes. Você está disposto a fazer, para minha segurança, uma
pequena promessa da mesma espécie?
— Uma promessa? perguntou Gregory espantado.
— Sim, uma promessa respondeu Syme muito sério. Pe-
rante Deus eu jurei que não contaria seu segredo à polícia.
26 G. K. CHESTERTON

Poderá você jurar pela humanidade, ou por qualquer outra as-


neira da sua crença, que não revelará meu segredo aos anar-
quistas?
— Seu segredo? perguntou Gregory estupefato. Você
tem um segredo?
— Tenho, disse Syme. Eu tenho um segredo. Depois de
uma pausa, insistiu: Jura?
Antes de falar, Gregory considerou gravemente o outro por
alguns instantes.
— Você deve ter-me enfeitiçado, mas sinto uma furiosa
curiosidade a seu respeito. Juro. Juro que não contarei aos
anarquistas nada do que você me disser. Mas avie-se. Em dois
minutos eles estarão aqui.
Syme levantou-se e enfiou as mãos brancas e compridas
nos bolsos das calças cinzentas. Quase ao mesmo tempo soa-
ram cinco pancadas na escotilha, anunciando a chegada dos pri-
meiros conspiradores.
— Bem, disse Syme, e continuou a-falar com lentidão. Não
sei como contar-lhe a verdade em poucas palavras, senão di-
zendo que o seu expediente de disfarçar-se como um poeta de-
sorientado não é privilégio seu nem do seu Presidente. Algumas
vezes também temos lançado mão do mesmo embuste na Scot-
land Yard.
Gregory tentou levantar-se de um pulo, mas por três ve-
zes fraquejou.
— Que é que você está dizendo? perguntou aterrado.
— Isso mesmo, disse Syme simplesmente. Sou detetive.
Trabalho para a polícia. Mas. .. creio que seus amigos estão
chegando.
Do corredor vinha um murmúrio de "Mr. Joseph Cham-
berlain", repetido duas vezes, três, trinta vezes, casado ao trotar
daquela multidão de Joseph Chamberlains — o que parecia a
personificação mesma da solenidade.
CAPITULO III

O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA

Antes que assomasse à porta o primeiro recém-chega-


do, Gregory se tinha recuperado da surpresa e do aturdimento.
De um salto pôs-se ao lado da mesa. Rugindo feito uma fera,
apanhou o revólver e apontou-o para Syme. Este, sem vacilar,
ergueu a mão pálida e delicada.
— Não seja idiota, disse com a dignidade efeminada de
um cura. Não vê que não é necessário? Não vê que embar-
camos no mesmo bote e que ambos estamos mareados?
Gregory não podia falar, mas também não podia disparar
a arma; apenas podia considerar em silêncio a situação.
— Não vê que nos pusemos em xeque um ao outro? gri-
tou Syme. Eu não posso dizer à polícia que você é anarquis-
ta. Você não pode dizer aos anarquistas que eu sou da polícia.
Posso apenas vigiá-lo, ciente do que você é; você pode apenas
vigiar-me, ciente do que eu sou. Em suma, trata-se de um soli-
tário duelo intelectual: minha cabeça contra a sua. Eu sou um
polícia privado da ajuda da polícia. E você, meu pobre amigo, é
um anarquista privado da ajuda daquela lei e daquela organi-
zação tão essenciais à anarquia. A única diferença que existe é
a seu favor. Você não está rodeado de polícias inquiridores;
eu estou rodeado de anarquistas inquiridores. Não posso atrai-
çoá-lo, mas poderia eu mesmo atraiçoar-me. Vamos, homem!
Espere para ver como me atraiçôo. Vou fazê-lo primorosa-
mente.
Gregory baixou vagarosamente o revólver, ainda com os
olhos presos em Syme, como se este fosse um monstro ma-
rinho.
28 G. K. CHESTERTON

— Não creio na imortalidade, disse por fim. Mas se, de-


pois de tudo isso, você quebrar sua palavra, Deus fabricará
um inferno só para você gemer lá dentro eternamente.
— Não quebrarei minha palavra, disse Syme severamente,
nem você quebrará a sua. Seus amigos já estão aqui.
A massa de anarquistas entrou pesadamente na sala, a
passo duro e fatigado. Um homenzinho de barba negra e de
óculos — um sujeito mais ou menos do tipo de Mr. Tim Healy
— destacou-se do grupo, agitando numa das mãos um maço de
papéis.
— Camarada Gregory, disse êle, suponho que esse homem
é um delegado, não?
Surpreendido, Gregory baixou os olhos e gaguejou o nome
de Syme; mas Syme, quase petulante, respondeu:
— Alegra-me ver que a sua porta é tão bem guardada que
é dificílimo para alguém que não seja delegado entrar aqui.
Entretanto, o homenzinho da barba negra, visivelmente
suspeitoso, contraiu a testa.
— Qual dos nossos ramos você representa? perguntou
maliciosamente.
— Eu não diria que represento um ramo, disse Syme
rindo. Acho melhor dizer que represento a raiz.
— Que quer dizer com isso?
— A verdade, disse Syme serenamente, é que eu sou saba-
tista. Enviaram-me especialmente para que vocês observem
aqui o devido acatamento ao Domingo.
O homenzinho deixou cair um de seus papéis, e um bru-
xuleio de medo perpassou em todas as fisionomias do grupo.
Evidentemente, o terrível Presidente, cujo nome era Domin-
go, costumava enviar esses embaixadores intempestivos às as-
sembléias secionais.
— Bem, camarada, disse o homenzinho dos papéis, acho
que agiríamos corretamente dando-lhe um lugar em nossa reu-
nião.
— Se você me pede um conselho de amigo, disse Syme
com severa benevolência, acho que é isso que devem fazer.
Quando Gregory notou que o perigoso diálogo terminara,
com inesperada salvação para seu rival, levantou-se imedia-
tamente e começou a caminhar pela sala, mergulhado em pe-
nosos pensamentos. Afligia-o, deveras, uma angústia diplomá-
tica. Era óbvio que, com sua inspirada desfaçatez, Syme ven-
ceria todas as situações difíceis. Por esse lado não havia o que
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 29

temer. Êle mesmo, Gregory, não podia atraiçoar Syme, em


parte por questão de honra, mas em parte também porque,
se êle o atraiçoasse e por um motivo qualquer fracassasse em
destruí-lo, o Syme que escapasse seria um Syme desonerado
de todos os compromissos de sigilo, um Syme que simplesmente
correria a denunciá-lo na Delegacia mais próxima. No fim de
contas, tratava-se de uma única reunião noturna e de um úni-
co detetive que a assistia. Teria o cuidado de evitar o mais pos-
sível, naquela noite, que se mencionassem os planos de ação.
Depois Syme ia embora e o caso estava encerrado.
A passos largos avançou por entre os anarquistas que
começavam a distribuir-se nos bancos, e disse:
— Penso que é tempo de começarmos. A lancha está
esperando no rio. Proponho que o camarada Buttons assuma
a presidência.
Erguendo as mãos, todos aprovaram a proposta. O ho-
menzinho dos papéis enfiou-se na poltrona presidencial.
— Camaradas! começou êle com voz incisiva como dispa-
ro de pistola. Nossa reunião desta noite é importante, mas
convém que seja breve. Esta seção tem, desde sempre, tido
a honra de eleger Quintas-feiras para o Conselho Central Eu-
ropeu. Elegemos muitos e valorosos Quintas-feiras. Todos
lamentamos o triste desaparecimento do heróico trabalhador
que ocupou o posto até a semana passada. Como sabeis, êle
prestou consideráveis serviços à nossa causa. Organizou aque-
la grande explosão de dinamite em Brighton, que, sob circuns-
tâncias mais favoráveis, teria matado todos quantos se encon-
travam no cais. Sabeis também que êle foi tão desprendido em
sua morte como o tinha sido em vida, pois morreu no culto
à fé que depositava numa higiênica mistura de água e giz, em
substituição ao leite, beberagem que considerava própria de
bárbaros pela crueldade que inflige à vaca. E a crueldade,
ou qualquer coisa que lembrasse a crueldade, indignava-o. Mas
não é para louvar suas virtudes que estamos reunidos, e sim pa-
ra uma tarefa mais árdua. Difícil é glorificar o mérito de suas
qualidades; é, porém, ainda mais difícil substituí-las. A vós,
camaradas, compete, nesta noite, escolher, entre os presentes, o
homem que deverá ser Quinta-feira. Espero que um de vós
indique um nome para ser submetido à votação. Se nenhum
nome fôr indicado serei forçado a admitir que aquele querido
dinamitador, que nos deixou para sempre, levou aos abismos in-
sondáveis o último segredo da virtude e da inocência.
30 G. K. CHESTERTON

Houve um movimento de aplauso quase inaudível, tal co-


mo o que se ouve às vezes na igreja. Em seguida, um ancião
corpulento, com uma comprida e venerável barba branca, tal-
vez o único trabalhador real que ali se encontrava, levantou-se
com dificuldade e falou:
— Proponho para Quinta-feira o camarada Gregory. E
voltou a sentar-se com a mesma dificuldade.
— Há alguém que secunde esta proposta? perguntou o
Presidente.
Um tipo pequeno, barbado, vestido com um casaco de ve-
ludo, apoiou a resposta.
— Antes de submeter a matéria à votação, disse o Presi-
dente, convido o camarada Gregory a fazer sua profissão de fé.
Gregory ergueu-se no meio de ruidosos aplausos. A pali-
dez mortal de seu rosto acentuava, por contraste, o esquisito
vermelho de seus cabelos, que pareciam quase escarlates. Mas
sorria e estava inteiramente à vontade. Tinha o espírito prepa-
rado e, diante de si, via o programa que traçara, plano e reto
como uma estrada branca. Estava decidido a fazer um discur-
so ameno e ambíguo a fim de gravar na mente do detetive a
impressão de que a fraternidade anarquista era, de resto, mui-
to suave. Acreditava no próprio talento literário e na sua ca-
pacidade de sugerir belos matizes e usar palavras inconfundíveis.
Julgava que, com cautela e a despeito das pessoas que o ro-
deavam, podia dar da instituição uma idéia sutil e delicadamen-
te falsa. Já uma vez Syme presumira que os anarquistas co-
briam com suas arruaças as mais refinadas tolices. Não podia
agora, num momento de perigo, reforçar a antiga presunção
de Syme?
— Camaradas! começou em voz baixa mas penetrante.
Não é mister dar-vos conta da minha política, pois ela tam-
bém é a vossa. Nossa crença tem sido caluniada, deformada,
totalmente obscurecida e vilipendiada, mas persiste incorruptí-
vel. Os ociosos que falam da anarquia e da ameaça que ela
representa, catam informações ali, acolá, por toda a parte, mas
não nos buscam, não buscam as nascentes, as origens. Sobre os
anarquistas instruem-se nas novelas baratas, instruem-se nos
jornais da bolsa comercial, instruem-se no Ally Sloper's Half-
Holiday e no Sporting Times. Nunca se instruem sobre os anar-
quistas nas próprias fontes anarquistas. Não temos ensejo de
desagravar as montanhas de ultrajes que, de um extremo a ou-
tro da Europa, acumulam sobre nossas cabeças. O homem que
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 31

sempre ouviu dizer que somos pragas vivas nunca ouviu nossa
resposta. É certo que ainda não vai ouvi-la nesta noite, em-
bora a paixão me mande romper o teto com minhas palavras.
Porque é nas profundezas do coração da terra que os perse-
guidos têm permissão para reunir-se, como os cristãos se reu-
niam nas catacumbas. Mas, se por um desses incríveis acasos,
estivesse aqui neste momento um homem que durante toda a
sua vida alimentou imensos preconceitos a nosso respeito, far-
lhe-ia esta pergunta: "Que espécie de reputação moral desfru-
tavam nas ruas de Roma os cristãos que se congregavam nas
catacumbas? Quantas histórias de atrocidades cristãs não con-
tavam os romanos cultos? Suponde (eu pediria a esse homem),
suponde que nós estamos apenas revivendo aquele misterioso
paradoxo da História. Suponde que nós parecemos tão escanda-
losos como os cristãos porque somos realmente tão inofensi-
vos como eram os cristãos. Suponde que parecemos tão loucos
como os cristãos porque somos realmente tão mansos como
eles".
Os aplausos que tinham saudado as primeiras frases de
Gregory foram esfriando gradualmente e ante as últimas pala-
vras sumiram-se de vez. Cortou o repentino silêncio a voz
forte e áspera do homem do casaco de veludo.
— Eu não sou manso!
— O camarada Witherspoon, tornou Gregory, diz que
não é manso. Ah, como êle conhece tão mal a si mesmo! Não
podeis negar que êle usa de expressões extravagantes e que
sua aparência é feroz e mesmo (para o gosto vulgar) pouco
sedutora. Mas somente o olho de uma estima tão profunda
e dedicada como a minha pode perceber as camadas de sólida
mansidão que lhe forram o âmago do ser, camadas tão inescru-
táveis que êle mesmo é incapaz de divisá-las... Repito: So-
mos os verdadeiros cristãos primitivos, só que chegamos muito
tarde. Somos simples como eles eram simples: contemplai o
camarada Witherspoon. Somos modestos, como eles eram
modestos: contemplai-me. Somos clementes...
— Não! Isso não! É demais! protestou Mr. Witherspoon,
o do casaco de veludo.
Gregory repetiu furioso:
— Somos clementes como os primitivos cristãos eram
clementes, o que não impediu que eles fossem acusados de co-
mer carne humana. Nós não comemos carne humana...
— Vergonha! bradou Witherspoon. Por que não?
32 G. K. CHESTERTON

— O camarada Witherspoon, disse Gregory com febril


jovialidade, está ansioso de saber por que motivo ninguém o
come. (Risos) De qualquer modo, no seio de nossa socieda-
de, que o estima sinceramente, que está fundada no amor...
— Não! não! disse Witherspoon, abaixo o amor!
— . . . que está fundada no amor, repetiu Gregory ran-
gendo os dentes, não haverá dificuldade em atingir o objetivo
que visamos como uma corporação, ou que eu visaria se fos-
se eleito representante dessa corporação. A cavaleiro das ca-
lúnias que nos representam como assassinos e inimigos da so-
ciedade humana, demandaremos, com coragem moral e tran-
qüilo impulso intelectual, os perenes ideais de fraternidade e
simplicidade.
Gregory volveu a seu banco e passou a mão pela testa.
Fêz-se um silêncio constrangedor, mas o Presidente ergueu-se
como um autômato e falou com voz incolor:
— Há alguém que se oponha à eleição do camarada Gre-
gory?
A assembléia dava a impressão de estar vaga e subcons-
cientemente desapontada. O camarada Witherspoon mexia-se
intranqüilo em seu banco e resmungava dentro da espessa bar-
ba. Todavia, por mera rotina, a proposta teria sido aprova-
da. Mas quando o Presidente ia abrir a boca para declará-la
aprovada, Syme levantou-se rapidamente e disse com voz sumida
e quieta:
— Sr. Presidente, eu me oponho.
O fator decisivo na oratória é uma súbita mudança de
voz. E Mr. Gabriel Syme evidentemente entendia de oratória.
Tendo pronunciado estas primeiras palavras formais num tom
moderado, breve e simples, fêz com que as seguintes retumbas-
sem e estalassem na abóbada, como se uma das armas hou-
vesse disparado.
— Camaradas! gritou com uma voz que fêz estremecer
os ouvintes. Foi para isto que viemos até aqui? Para ouvir-
mos frases como essas é que vivemos soterrados como ratos?
Bobagens desta ordem podemos escutar nos banquetes das es-
colas dominicais. Revestimos de armas estas paredes e barra-
mos a porta com a morte para impedir que outros venham aqui
ouvir o camarada Gregory dizer-nos: "Sede bons e sereis fe-
lizes", "A honestidade é o melhor princípio" e "A virtude traz
em si mesma a recompensa"? Respondam-me por favor. Não
houve em todo o discurso do camarada Gregory uma única
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 33

palavra que um cura não pudesse ouvir com prazer. (Apoiado,


apoiado) Mas eu não sou um cura (Ruidosos aplausos) e não
o escutei com prazer. (Renovados aplausos) O sujeito talhado
para ser um bom cura não foi talhado para ser um enérgico,
resoluto e eficiente Quinta-feira. (Apoiado, apoiado) O cama-
rada Gregory nos disse, num tom demasiadamente indulgente,
que nós não somos os inimigos da sociedade. Mas eu digo que
nós somos os inimigos da sociedade, e tanto pior para a socie-
dade. Nós somos os inimigos da sociedade, pois a sociedade
é inimiga da humanidade, sua mais antiga e impiedosa inimiga.
(Apoiado, apoiado) O camarada Gregory nos disse, mais uma
vez indulgente, que não somos assassinos. Concordo. Não so-
mos assassinos. Somos carrascos. (Aplausos)
Desde que Syme se levantara, Gregory permanecia fitan-
do-o, com o rosto idiotizado de assombro. Na pausa que se
fêz, seus lábios côr de barro despregaram-se e êle exclamou
com automática e inanimada clareza:
— Maldito hipócrita!
Syme cravou seu olhar azul-pálido nos olhos furiosos de
Gregory e disse com dignidade:
— O camarada Gregory acusa-me de hipocrisia. Êle sabe,
tão bem como eu, que estou mantendo meus compromissos e
que não faço outra coisa senão o meu dever. Falo sem rebuços.
Não simulo. Digo que o camarada Gregory é incompetente
para o cargo de Quinta-feira, apesar de todas as suas amáveis
qualidades. Aliás, êle está incapacitado de ser Quinta-feira em
razão de suas amáveis qualidades. Não queremos o Supremo
Conselho da Anarquia infetado de pieguismo sentimental.
(Apoiado, apoiado) Não é tempo de polidez cerimoniosa,
e menos ainda de cerimoniosa modéstia. Oponho-me ao cama-
rada Gregory como me oporia a todos os governos da Europa.
O anarquista que se dedicou à anarquia esqueceu a modéstia
e esqueceu também o orgulho. (Aplausos) Não sou apenas
um homem. Sou uma causa. (Aplausos renovados) Oponho-
me ao camarada Gregory tão impessoalmente e tão serena-
mente como se tivesse de escolher entre um revólver e outro
numa daquelas prateleiras. E digo mais: em lugar de ter Gre-
gory e seus métodos açucarados no Supremo Conselho, ofe-
reço-me como candidato...
Esta frase afogou-se numa ensurdecedora cachoeira de
aplausos. Aquelas caras, que iam ficando mais ferozes à me-
dida que aprovavam as palavras cada vez mais intransigentes
34 G. K. CHESTERTON

de Syme, estavam agora retorcidas em esgares de expectação


ou fendidas em gritos de regozijo. No momento em que êle
se anunciou como candidato ao posto de Quinta-feira, rebentou
incontrolável bramido de excitação e assentimento. Gregory,
cuja boca espumava, ergueu-se de um salto e berrou para conter
a gritaria.
— Parai! Loucos, parai! gritou com uma voz aguda que
lhe rasgava a garganta. Parai...
Entretanto, acima dos brados de Gregory e acima do ala-
rido geral, ouvia-se a voz de Syme trovejando impiedosamente:
— Não vou para o Conselho com o fim de rebater a
calúnia dos que nos chamam assassinos; ao contrário, lutarei
por merecê-la. (Aplausos estrepitosos e prolongados) Ao pá-
roco que afirma que estes homens são inimigos da religião, ao
juiz que afirma que estes homens são inimigos da lei, ao gordo
parlamentar que afirma que estes homens são inimigos da or-
dem e da moralidade públicas, a todos eles responderei: "Sois
falsos reis, mas sois verdadeiros profetas. Vim para destruir-
vos e cumprir vossas profecias".
O pesado clamor paulatinamente decrescia, mas antes que
cessasse Witherspoon, arrebatado, o cabelo e a barba eriçados,
falou:
— Proponho, como emenda, que o camarada Syme seja
indicado para o posto.
— Parai! Pairai! gritou Gregory frenético. Tudo isso
é uma..,
A voz do Presidente cortou-lhe a palavra com frieza...
— Há alguém que esteja de acordo com a emenda? per-
guntou.
Num dos últimos bancos, um homem alto, cansado, de
olhos melancólicos e de cavanhaque à americana, tentava levan-
tar-se. Gregory, que estivera a esganiçar-se até então, impri-
miu à voz uma nova modulação, mais espantosa do que qual-
quer ganido.
— Vou dar cabo de tudo isso! disse, e sua voz parecia
tão pesada como uma pedra. Este homem não pode ser eleito.
Êle é . . .
— É . . . ? ! repetiu Syme completamente imóvel. Que é
que êle é?
Duas vezes Gregory abriu a boca mas não pôde articular
uma só palavra. Depois, lentamente, o sangue começou a insi-
nuar-se em seu rosto inerte.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 35

— Êle é inexperiente em nosso trabalho, concluiu e sen-


tou-se imediatamente.
Nesse ínterim, o homem comprido e magro, do cavanha-
que americano, conseguira levantar-se e estava repetindo com
monótono sotaque americano:
— Peço licença para apoiar a candidatura do camarada
Syme.
— Como é de praxe, deverá ser apreciada, em primeiro
lugar, a emenda, disse Mr. Buttons, o Presidente, com mecâ-
nica rapidez. Resta saber se o camarada Syme...
Gregory estava novamente de pé, ofegante e arrebatado.
— Camaradas! bramiu. Não sou nenhum louco.
— Oh, oh! interrompeu Mr. Witherspoon.
— Não sou nenhum louco, reiterou Gregory com tão ines-
perada sinceridade que por uns instantes a sala ficou em silên-
cio. Dou-vos um conselho. Chamai-me louco, se quiserdes.
Não, não. Não direi que é um conselho, pois não posso dar-
vos nenhuma razão para o seguirdes. Direi que é uma ordem.
Podeis chamá-la uma ordem louca, mas executai-a. Protestai,
mas ouvi-me! Matai-me, mas obedecei-me! Não elejais este
homem!
A verdade, mesmo agrilhoada, é tão terrível, que por um
momento a vitória louca e frágil de Syme oscilou como um
caniço ao vento. Mas nada se podia adivinhar nos olhos frios
e azuis de Syme. Este se contentou com dizer:
— O camarada Gregory ordena...
Foi o suficiente para desfazer o feitiço. Um dos anarquis-
tas logo interpelou Gregory:
— Quem é você? Você não é o Domingo.
E outro acrescentou em tom mais rude:
— Nem é o Quinta-feira.
Camaradas, gritou Gregory, numa voz semelhante à de
um mártir que, no êxtase da dor, supera a própria dor. Nada
significa para mim que vós me odieis como tirano ou que me
detesteis como escravo. Se não quereis acatar minha ordem,
aceitai minha degradação. Ajoelho-me diante de vós, atiro-me
a vossos pés, imploro-vos: não elejais este homem.
— Camarada Gregory, disse o Presidente ao fim de uma
pausa de consternação. Na verdade, isso não é muito digni-
ficante.
Pela primeira vez, naqueles lances, houve alguns segundos
de silêncio real. Gregory, um esquálido destroço de homem,
36 G. K. CHESTERTON

deixou-se cair em seu banco, e o Presidente, como um relógio


que tivesse acabado de receber corda, repetiu:
— Resta saber se o camarada Syme deve ser eleito para
o posto de Quinta-feira no Conselho Geral.
O alarido cresceu como o mar, as mãos ergueram-se como
floresta, e três minutos depois, Mr. Gabriel Syme, do Serviço
Secreto da Polícia, estava eleito para o posto de Quinta-feira
no Conselho Geral dos Anarquistas da Europa.
Todos os que estavam na sala pareciam pensar na lancha
que esperava no rio, na bengala de estoque e no revólver que
esperavam em cima da mesa. No instante em que a eleição
se concluiu e foi declarada irrevogável e Syme recebeu suas
credenciais, todos se puseram de pé e os fogosos grupos movi-
mentaram-se e confundiram-se na sala. Inesperadamente, Syme
viu-se cara a cara com Gregory, que o contemplava com ódio
e espanto. Passaram muitos minutos fitando-se mutuamente em
silêncio.
— Você é um demônio, disse Gregory por fim.
— E você é um cavalheiro, redarguiu Syme gravemente.
— Foi você que me arrastou a esta cilada, começou Gre-
gory, trêmulo da cabeça aos pés. Foi você que...
— Não diga tolices, retrucou Syme. Quem, senão você,
me trouxe a este demoníaco parlamento? Você me fêz jurar
antes que eu o fizesse a você. Talvez estejamos fazendo o que
ambos julgamos ser justo. Mas, quanto ao que nos parece
justo, possuímos noções tão danadamente contrárias que entre
nós não pode haver nenhuma conciliação. Não temos nada de
comum, exceto a honra e a morte. Ao dizer isso ajustou o
enorme capote sobre os ombros e apanhou a garrafa de cima
da mesa.
— O barco está pronto, disse Mr. Buttons alvoroçando-se.
Tenha a bondade de acompanhar-me.
Com um gesto que revelava o recepcionista de loja, Mr.
Buttons desceu com Syme por um corredor estreito, reforçado
com arcos de ferro. Seguia-lhes febrilmente os passos o tor-
turado Gregory. No fim do corredor havia uma porta que foi
aberta engenhosamente por Buttons, desvendando um quadro
azul-prateado do rio ao luar, semelhante a um cenário de tea-
tro. A poucos passos achava-se uma escura e minúscula lancha
a vapor, que parecia um filhote de dragão, com um olho ver-
melho.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 37

No momento em que ia passar para bordo, Gabriel Syme


voltou-se para o ofegante Gregory.
— Você cumpriu sua palavra, disse cortêsmente, com o
rosto na sombra. É um homem de bem. Muito obrigado. Cum-
priu a palavra até nos pormenores mais insignificantes. Houve
uma coisa especial que você me prometeu no começo desses
sucessos e que realmente me proporcionou.
— De que é que você está falando? bradou o caótico
Gregory. Que foi que eu lhe prometi?
— Uma noite muito divertida, disse Syme, e fêz um cum-
primento militar com a bengala de estoque, enquanto a lancha
começava a deslizar.
CAPITULO IV

A HISTÓRIA DE UM DETETIVE

Gabriel Syme não era simplesmente um detetive que pre-


tendesse ser poeta; era realmente um poeta que se transformara
em detetive. Seu ódio à anarquia não era hipócrita. Syme era
um daqueles homens a quem desde cedo a rematada loucura
da maioria dos revolucionários compele a adotar diante da vida
uma atitude demasiadamente conservadora. Não atingira esse
ponto por via de nenhuma tradição doméstica. Sua respeita-
bilidade era espontânea e imprevisível, uma rebelião contra a
rebelião. Descendia de uma família de excêntricos, em cujo
seio as pessoas mais velhas empolgavam idéias mais novas. Um
de seus tios tinha o hábito de sair à rua sem chapéu, e outro
fizera gorada tentativa de sair de chapéu e mais nada. Seu
pai cultivava as artes e o aperfeiçoamento de si mesmo. Sua
mãe dedicava-se à simplicidade e ao asseio. Por isso o me-
nino, durante os seus mais verdes anos, ignorou totalmente
qualquer bebida entre os extremos do absinto e do licor de
cacau, pelos quais revelava saudável repugnância. Quanto mais
sua mãe pregava uma abstinência mais do que puritana, mais
seu pai se expandia numa incontinência mais do que paga, e
no momento em que ela chegou a propagar o vegetarianismo,
êle já estava a pique de defender o canibalismo.
Assediado desde a infância por todos os tipos concebíveis
de revolta, Gabriel teve de revoltar-se em nome de alguma coisa.
Assim, revoltou-se em nome da única coisa que restava: o
bom senso. Mas dentro dele corria boa parcela do sangue des-
tes fanáticos, o que fazia com que seus protestos de fidelidade
ao senso comum parecessem um pouco ferozes demais para se-
rem sensatos. Sua aversão à desordem moderna foi coroada
por um acidente. Aconteceu que êle passava por uma rua quan-
40 G. K. CHESTERTON

do se deu um atentado a dinamite. Por alguns momentos ficou


cego e surdo e, quando a fumaça desapareceu, pôde ver as
janelas quebradas e os rostos ensangüentados. Depois disto,
continuou como de costume: quieto, cortês, gentil; mas havia
em sua mente um ponto que não estava são. Não considerava
os anarquistas, do mesmo modo que a maioria considera, como
um punhado de sujeitos mórbidos que combinam ignorância
com intelectualismo. Considerava-os como um perigo imenso
e terrível, uma invasão chinesa.
Inundava continuamente os jornais e as cestas de papéis
usados das redações com uma torrente de contos, versos e
violentos panfletos acautelando as gentes contra esse dilúvio
de bárbara negação. Mas parecia ter avançado muito pouco
na direção do inimigo, como, — e isto era muito pior, — pare-
cia ter avançado menos ainda na direção da própria subsis-
tência. Quando vagueava pelo aterro do Tâmisa, pitando amar-
gamente um charuto barato e matutando nos progressos da
anarquia, não havia anarquista, dos de bomba no bolso, tão
selvagem ou tão solitário como êle. Inquietava-o permanente-
mente o desamparo e o desespero do governo, posto entre a
espada e a parede. Era quixotesco demais para ver as coisas
com naturalidade.
Certa vez, sob um crepúsculo vermelho-escuro, Syme pas-
seava pelo aterro. O rio vermelho refletia o céu também ver-
melho e ambos refletiam sua cólera. O céu, de fato, estava
tão carregado e o rio emitia um clarão tão acobreado que a
água parecia deitar chamas mais violentas que as do cre-
púsculo. Era literalmente um caudal de fogo correndo sinuoso
através das amplas cavernas de um mundo subterrâneo.
Nessa época Syme tinha um aspecto andrajoso. Usava
uma antiquada cartola preta e envolvia-se num capote preto
e roto, ainda mais antiquado. Tal combinação tornava-o se-
melhante aos antigos vilões de Dickens e Bulwer Lytton. A
barba e o cabelo amarelados também estavam mais desgrenha-
dos e leoninos do que quando surgiram, muito depois, aparados
e penteados, nos jardins de Saffron Park. Os dentes cerrados
mordiam um mata-rato preto, comprido e fino, comprado em
Soho. Toda a sua pessoa representava um perfeito exemplar
daqueles anarquistas contra quem havia declarado uma guerra
santa. É provável que tenha sido este o motivo que levou o
guarda do aterro a caminhar em sua direção e saudá-lo:
— Boa noite!
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 41

Syme, em plena crise de mórbido temor pela sorte da


humanidade, sentiu-se espicaçado com a simples e mecânica
cortesia do funcionário, que, ali ao crepúsculo, não passava
de uma indistinta figura azulada.
— Será mesmo uma boa noite? disse mordazmente. Vo-
cês são capazes de achar boa a noite do fim do mundo. Veja
este céu, veja este rio: vermelhos, sangrentos! Garanto que
se isso fosse rigorosamente sangue humano, espalhado e cinti-
lante, você continuaria aqui perpètuamente impassível, a ins-
pecionar pobres transeuntes inofensivos e a ordenar-lhes que
se dispersassem. Vocês da polícia são cruéis com os pobres,
mas eu poderia perdoar a crueldade de vocês não fosse esta
calma que vocês afetam.
— Se temos calma, replicou o guarda, é a calma da resis-
tência organizada.
— Ah é? disse Syme admirado.
— O soldado deve ter calma no aceso da batalha, conti-
nuou o guarda. A disciplina de um exército é a cólera de uma
nação.
— Valha-me Deus! As Escolas Públicas! É essa a edu-
cação não-sectária?
— Não, disse o guarda com tristeza. Não gozei nunca
desses privilégios. Não sou do tempo das Escolas Públicas.
Temo que a minha educação tenha sido muito rudimentar e
obsoleta.
— Onde você estudou? inquiriu Syme curioso.
— Oh, em Harrow, respondeu o guarda.
— As simpatias de classe, por mais falsas que sejam, são,
não obstante, para muitas pessoas as coisas mais verdadeiras
do mundo. E Syme sentiu-as explodirem dentro de si antes
que pudesse refreá-las.
— Mas homem, por Deus! Você não devia ser da polícia.
O guarda suspirou e meneou a cabeça.
— Tem razão, disse solenemente. Eu sei que não sou
digno.
— Mas por que você ingressou na polícia? interrogou
Syme com rude curiosidade.
— Exatamente pelo mesmo motivo que você tem de insul-
tar a polícia. Descobri que havia no serviço uma oportuni-
dade especial para aqueles, cujos temores pela sorte da huma-
nidade dizem respeito antes às aberrações do intelecto cien-
42 G. K. C H E S T E R T O N

tífico que aos normais e desculpáveis, ainda que excessivos,


distúrbios da vontade humana. Espero que tenha sido claro.
— Se você se refere a suas opiniões, acho que as expri-
miu claramente, disse Syme. Mas quanto a ter-se explicado
está longe ainda. Como é que um homem como você bota
um elmo azul e vem filosofar aqui no aterro?
— Evidentemente você nada sabe dos últimos desenvol-
vimentos do nosso sistema policial, retorquiu o guarda. Aliás,
isso não me surpreende. Nós os mantemos em segredo, a
coberto das classes cultas, porque são estas que abrigam a
maior parcela de nossos inimigos. Mas parece que o seu espí-
rito já está predisposto... Penso que você podia alistar-se.
— Alistar-me em quê? perguntou Syme.
— Explicarei tudo, disse o guarda calmamente. A situação
é esta: o chefe de um dos nossos departamentos, detetive dos
mais célebres de toda a Europa, vem desde muito tempo sus-
peitando de uma conspiração puramente intelectual que em
breve ameaçará a própria existência da civilização. Está con-
victo de que os mundos artísticos e científicos se unem secre-
tamente numa cruzada contra a Família e o Estado. Por esta
razão, êle ideou uma especial corporação de detetives, dete-
tives que são também filósofos. A função deles é investigar as
origens dessa conspirata e combatê-la, não só no sentido mera-
mente criminal, mas no terreno da controvérsia. Eu sou demo-
crata e creio no valor do homem comum em questões de intre-
pidez e virtudes comuns. Mas não seria aconselhável, obvia-
mente, o emprego do polícia mediano numa investigação que
é, ao mesmo tempo, uma caça à heresia.
Os olhos de Syme brilhavam de curiosidade e simpatia.
— O que é que fazem então? perguntou.
— A missão do polícia-filósofo, respondeu o homem de
azul, é mais arriscada e mais sutil do que a do simples detetive.
O detetive comum vai às cervejarias capturar ladrões; nós nos
dirigimos ao serões artísticos para descobrir pessimistas. Atra-
vés das páginas de um razão ou de um diário os detetives
comuns descobrem que se cometeu um crime. Nós, através
de um livro de sonetos, descobrimos que um crime está para
ser cometido. Temos que seguir desde a origem a pista da-
queles pensamentos terríveis que conduzem os homens ao fana-
tismo intelectual e, por fim, ao crime intelectual. Há pouco,
tivemos de correr bastante para chegarmos a tempo de impedir
um assassínio em Hartlepool. O nosso êxito se deveu exclusi-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 43

vãmente à argúcia do jovem Mr. Wilks, nosso companheiro,


que atinara com o sentido exato de umas oitavas que havia
lido.
— Quer dizer, inquiriu Syme, que há realmente tal cone-
xão entre o crime e a inteligência moderna?
— Você não é suficientemente democrata, replicou o
guarda, mas tinha razão há pouco quando disse que o trata-
mento que dispensamos usualmente aos criminosos pobres é
um tanto brutal. Garanto-lhe que abomino meu ofício quan-
do, algumas vezes, sinto que êle consiste apenas numa guerra
aos ignorantes e desesperados. Mas este nosso novo movi-
mento é uma empresa muito diferente. Procuramos dar um des-
mentido ao pretensioso axioma inglês que diz que os incultos
são os criminosos temíveis. Lembramo-nos dos imperadores
romanos, dos príncipes da Renascença, grandes envenenado-
res. Afirmamos que o criminoso temível é o criminoso culto.
Afirmamos que o criminoso mais temível destes tempos é o
filósofo moderno inteiramente bárbaro. Comparados com êle,
arrombadores e bígamos são homens de moralidade perfeita;
meu coração me leva para o lado deles. Aceitam o ideal es-
sencial do homem; só que o procuram erroneamente. Os la-
drões respeitam a propriedade; só que desejam que a proprie-
dade se torne propriedade deles para que possam respeitá-la
mais e melhor. Mas os filósofos condenam a propriedade en-
quanto propriedade, querem destruir a simples idéia da posse
pessoal. Os bígamos respeitam o matrimônio, ou então não le-
variam a cabo a formalidade altamente cerimoniosa e ritualística
da bigamia. Mas os filósofos desprezam o casamento como ca-
samento. Os assassinos respeitam a vida humana; apenas dese-
jam obter para si mesmos uma abundância maior de vida hu-
mana, com o sacrifício daquelas que lhes parecem vidas me-
nores. Mas os filósofos odeiam a vida mesma, a deles e
a dos outros.
Syme pôs-se a bater palmas.
— Isso é verdadeiro! bradou. Tenho pensado assim desde
a infância, mas nunca pude estabelecer a antítese verbal. O
criminoso vulgar é um mau sujeito, mas é, em todo caso, con-
dicionalmente bom. Desde que um determinado obstáculo —
um tio rico, por exemplo — seja removido, está pronto para
aceitar o universo e louvar a Deus. É reformador, não é anar-
quista. Pretende limpar o edifício e não destruí-lo. Mas o filó-
sofo pernicioso não tenta alterar as coisas; quer aniquilá-las.
44 G. K. CHESTERTON

Sim, o mundo moderno conservou todas aquelas facetas real-


mente opressivas e ignominiosas da função policial, como sa-
quear os pobres e perseguir os infortunados. Abandonou a
obra mais digna: a punição dos poderosos traidores do Estado
e dos poderosos heresiarcas da Igreja. Os modernistas dizem
que não devemos punir os heréticos. Minha única dúvida resi-
de em saber se temos o direito de punir alguém mais.
— Mas isto é absurdo! exclamou o guarda, esfregando
as mãos numa excitação inusitada em pessoas da sua categoria
e dos seus hábitos. Mas é inexplicável! Não sei o que você
fêz, mas sei que está desperdiçando sua vida. Você deve,
com urgência, alistar-se em nosso exército especial para lutar
contra a anarquia. Os exércitos de nossos inimigos estão em
nossas fronteiras. Apertam o cerco. Um momento mais e você
poderá ser excluído da glória de trabalhar conosco e talvez
da glória de morrer com os últimos heróis do mundo.
— Realmente é uma oportunidade que não se deve des-
perdiçar, anuiu Syme. Mas ainda não entendi tudo. Sei, tanto
quanto qualquer outro, que o mundo moderno está cheio de
homenzinhos sem lei e de pequenos movimentos absurdos. Mas,
selvagens como eles são, têm geralmente o mérito de discor-
darem uns dos outros. Como é que você pode dizer que che-
fiam um exército ou organizam uma investida? Que espécie de
anarquia é esta?
— Não a confunda, redargüiu o guarda, com essas for-
tuitas explosões de dinamite na Rússia e na Irlanda, que são
efetivamente as explosões de homens oprimidos, se bem que
desorientados. Falo de um vasto movimento filosófico, com-
posto de dois círculos: um externo e outro interno. Pode dizer-
se mesmo que o círculo externo é o dos leigos e que o interno
é o do sacerdócio. Prefiro dizer que o círculo externo é do
setor inocente e que o interno é o setor supremamente culpado.
Os do círculo externo, que formam a copiosa massa dos sec-
tários, são simples anarquistas, isto é, homens que acreditam
que as normas e as fórmulas destruíram a felicidade humana.
Crêem que todos os funestos efeitos do crime são conseqüên-
cias normais do sistema que lhe deu o nome de crime. Não
crêem que o crime gera o castigo. Crêem que o castigo gerou
o crime. Para eles, o homem que seduziu sete mulheres deveria
naturalmente passar impune como as flores da primavera. Para
eles o punguista é naturalmente um sujeito de sentimentos deli-
cadamente generosos. Estes eu filio ao setor dos inocentes.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 45

— Oh! murmurou Syme.


— É natural, portanto, que estas pessoas falem no ad-
vento de uma era de felicidade, no paraíso do futuro, numa
humanidade liberta da servidão do vício e da servidão da vir-
tude, e de coisas semelhantes. Assim também falam os do
círculo interno, os do sacerdócio sagrado. Também falam para
as multidões aclamadoras da felicidade futura e da humanidade
que um dia será livre. Mas em suas bocas (e aqui o guarda
baixou a voz), em suas bocas essas frases ditosas têm uma
significação aterradora. Eles não têm ilusões; são demasiada-
mente intelectuais para crer que neste mundo o homem possa
libertar-se uma vez sequer do pecado original e do combate.
Suas palavras querem dizer morte. Quando asseveram que a
humanidade há de ser livre algum dia, têm em mente que a
humanidade há de suicidar-se. Quando falam de um paraíso
fora do bem e do mal, têm em mente o túmulo. Visam apenas
dois objetivos: destruir primeiro a humanidade e depois des-
truírem-se a si mesmos. É este o motivo por que lançam bom-
bas em vez de disparar pistolas. A tropa dos inocentes fica
desapontada ao ver que a bomba não matou o rei, mas o alto
sacerdócio regozija-se por saber que matou alguém.
— Como posso unir-me a vocês? perguntou Syme numa
espécie de arrebatamento.
— Sei de certeza que no momento há uma vaga, disse
o guarda, já que tenho a honra de merecer um pouco da con-
fiança do chefe, do qual lhe falei. Você deveria vir vê-lo.
Aliás, não direi que você vai vê-lo, pois que ninguém nunca
o viu; mas poderá falar com êle, se quiser.
— Pelo telefone? inquiriu Syme com interesse.
— Não, respondeu calmamente o guarda. Êle tem o ca-
pricho de viver sempre num quarto escuro como breu. Diz
que assim seus pensamentos ficam mais claros. Venha comigo.
Um pouco confuso e muito animado, Syme deixou-se levar
até uma porta lateral na longa fila de edifícios da Scotland
Yard. Antes de dar pelo que fazia, passou pelas mãos de cerca
de quatro oficiais intermediários e encontrou-se de um mo-
mento para outro num quarto cuja escuridão inesperada feriu-o
como uma centelha. Nada tinha da escuridão normal, em que
as formas pouco a pouco se esboçam; era antes a escuridão
da cegueira instantânea.
— É o novo recruta? perguntou uma voz dura.
46 G. K. C H E S T E R T O N

E estranhamente, visto que nenhum contorno se podia


adivinhar naquela escuridão, Syme compreendeu duas coisas:
a primeira, que a voz procedia de um homem de estatura des-
comunal e a segunda, que o homem estava de costas para êle.
— É o novo recruta? repetiu o chefe invisível, que pare-
cia estar a par de tudo. Está bem. Está admitido.
Syme, assombrado, trêmulo, procurou timidamente lutar
contra esta sentença irrevogável.
— Mas eu, na verdade, não tenho experiência...
— Ninguém tem nenhuma experiência da batalha do Ar-
magedon, disse o outro.
— Também não sei se sou capaz...
— Você quer e isso basta, disse o desconhecido.
— Mas, a verdade, ponderou Syme, é que não sei de
nenhum ofício em que a simples boa vontade seja prova de
aptidão.
— Eu sei, disse o outro. O dos mártires. Eu o estou
condenando à morte. Passe bem.
Foi assim que ao reaparecer com sua deplorável cartola
preta e seu anárquico e deplorável capote na claridade carme-
sim do crepúsculo, Gabriel Syme vinha feito membro da nova
corporação de detetives, fundada para dar combate à grande
conspiração. Seguindo os conselhos do guarda seu amigo (que
era profissionalmente inclinado ao asseio) aparou o cabelo e
a barba, comprou um chapéu novo, vestiu um irrepreensível
terno de verão azul-cinza, enfiou uma flor amarela na lapela
e, em suma, converteu-se naquele sujeito elegante e quase into-
lerável que Gregory veio a conhecer no jardinzinho de Saffron
Park. Antes que êle deixasse os quartéis da polícia, seu amigo
entregou-lhe um cartãozinho azul, onde se lia um número e as
palavras "A Ultima Cruzada", signo de sua autoridade oficial.
Guardou-o cuidadosamente no bolso do colete, acendeu um
cigarro e dali partiu para caçar e acometer o inimigo em todos
os salões elegantes de Londres. Já vimos para onde sua aven-
tura o guiou finalmente. Mais ou menos à uma e meia da
madrugada de um dia de fevereiro, êle se encontrava subindo
o silencioso Tâmisa, armado de bengala de estoque e revólver,
solenemente eleito Quinta-feira do Conselho Central Anarquista.
Quando Syme tomou a lancha, experimentou a esquisita
sensação de estar vivendo num ambiente completamente novo;
não só na paisagem de uma nova terra, mas na paisagem
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 47

de um novo planeta. Isto se devia, em grande parte, à im-


pensada porém firme resolução daquela noite e, um pouco
também, à completa mudança havida no tempo e no céu, desde
que entrara na lôbrega taberna duas horas antes. Todos os
sinais da apaixonada plumagem daquele anuviado crepúsculo
haviam-se desvanecido. Agora a nudez da lua pairava na nudez
do céu. A lua estava tão redonda, tão cheia, que (por para-
doxo que deve ter sido notado inúmeras vezes) parecia um sol
mais fraco. Dava, não a impressão de uma resplandecente
noite de lua, mas a de um mortiço dia de sol.
Sobre toda a paisagem derramava-se um irreal e luminoso
palor, como naquele crepúsculo que, no dizer de Milton, pro-
voca o sol em eclipse. Ê isso veio reafirmar em Syme a con-
vicção de que se achava num outro planeta mais vazio, que
girava em volta de uma estrela mais triste. Contudo, opunha a
esta ofuscante desolação na terra luarenta a sua cavalheiresca
loucura, que chamejava na noite como uma imensa fogueira.
Mesmo as coisas comuns que trazia consigo — a comida, o
conhaque e o revólver carregado — revestiam-se daquela poesia
concreta e material que toca o menino que leva uma espingarda
num passeio ou que vai para a cama com um pedaço de bolo.
A bengala de estoque e a garrafa de conhaque, embora fossem
os utensílios de mórbidos conspiradores, tornavam-se as ex-
pressões de um romance mais saudável. Syme via na bengala
de estoque a espada do paladino e no conhaque o vinho do
trago de despedida. Em verdade, as mais desumanizadas fan-
tasias modernas necessitam, para se firmar, de alguns símbolos
mais antigos e mais simples. A aventura pode ser louca, mas
o aventureiro deve ser são. O dragão sem São Jorge não seria
sequer grotesco. Assim, aquela paisagem só era fantástica pela
presença de um ente realmente humano. Para o espírito exal-
tado de Syme, as casas e os terraços reluzentes e frios das
margens do Tâmisa pareciam tão ermos como as montanhas da
lua. Mas a própria lua só é poética porque há o homem da
lua.
A lancha era manejada por dois homens, e com muito
esforço avançava com lentidão. A lua transparente que alumiara
Chiswick desaparecera no momento em que eles passavam por
Battersea. Ao chegarem diante da portentosa frontaria de West-
minster o dia começava a raiar. Raiava como enormes barras
de chumbo que se racham deixando entrever barras de prata;
e estas esplendiam como fogo alvacento quando a lancha, mu-
48 G. K. CHESTERTON

dando de rumo, derivou para os lados de uma ampla escada


de desembarque localizada um pouco além de Charing Cross.
As grandes pedras do aterro revelavam-se aos olhos de
Syme escuras e gigantescas. Eram negras e descomunais na
infinita alvura da aurora. Contemplando-as, Syme sentia-se co-
mo se fosse desembarcar nas colossais escadarias de um palácio
egípcio. Realmente, a impressão não era despropositada. Êle,
em espírito, ia galgá-las para atacar os sólidos tronos de terríveis
reis pagãos. Pulou da lancha sobre um degrau escorregadio e
ficou, um instante, imóvel, forma escura e delgada no meio
da fabulosa pedraria. Os dois tripulantes se afastaram na lan-
cha, rumando contra a corrente. Não tinham pronunciado uma
única palavra.
CAPITULO V

A FESTA DO MEDO

À primeira vista, a ampla escadaria de pedra pareceu a


Syme tão deserta quanto uma pirâmide; mas, antes de atingir o
topo, descobrira que um homem, debruçado no parapeito, es-
quadrinhava o rio. Quanto à aparência, êle era totalmente con-
vencional. Usava um chapéu alto de seda e envergava um so-
bretudo do tipo de moda mais formalista, com uma flor ver-
melha na lapela. Galgando os degraus um a um, Syme ia-se
aproximando lentamente do desconhecido. E, como este nem
ao menos pestanejava, pôde acercar-se o suficiente para notar-
lhe, sob a luz desmaiada e fosca da manhã, o rosto comprido,
pálido e inteligente, rematado com um tufo triangular de barba
negra na ponta do queixo, que não condizia com o todo capri-
chosamente escanhoado. Esta moita de pêlos parecia obra de
mera negligência e destoava do rosto barbeado com esmero —
rosto aberto, contemplativo e, a seu modo, nobre. Reparando
em tudo isso, Syme abeirou-se ainda mais. Entretanto, o des-
conhecido não se mexeu.
A princípio, o instinto levou Syme a crer que tinha diante
de si o homem com quem devia encontrar-se. Depois, vendo
que não recebia nenhum sinal, cuidou que se enganara. Agora,
porém, tinha fortes razões para convencer-se de que este ho-
mem era um dos comparsas de sua doida aventura. Êle se
mantinha mais calmo do que seria de esperar de alguém sub-
metido a tão indiscreta inspeção. Estava tão imóvel como um
boneco de cera e, como tal, parecia não ter nervos. Syme
insistia em encarar o rosto pálido, grave e delicado, mas o
rosto não se desprendia da contemplação do rio. Então, tirou
do bolso o documento que Buttons lhe dera para comprovar a
eleição, e exibiu-o aos olhos daquele rosto triste e belo. O
50 G. K. CHESTERTON

homem sorriu e seu sorriso foi um choque: rasgava-se numa


linha oblíqua, que repuxava a face direita para cima e a es-
querda para baixo.
Racionalmente falando, nada havia nisto de assombroso.
Muita gente tem o hábito nervoso de entortar o sorriso e, em
muitas pessoas, isso é até atraente. Mas para Syme, os episó-
dios vividos, a fosca madrugada, a sombria missão que lhe fora
cometida e a solidão na majestosa pedraria orvalhada acaba-
vam por tornar aquele sorriso enervante. Havia o rio silencioso
e o homem silencioso, de feições clássicas. De repente, o sor-
riso do homem precipitava o toque extremo de pesadelo.
O espasmo de sorriso foi momentâneo e o rosto logo read-
quiriu sua harmoniosa melancolia. Sem dar nem pedir expli-
cações, o desconhecido pôs-se a falar como quem conversa com
velho colega.
— Se formos diretamente a Leicester Square, disse, che-
garemos a tempo de tomar café. Domingo insiste sempre co-
nosco para que tomemos café bem cedinho. Você dormiu?
— Não, disse Syme.
— Nem eu, continuou o outro familiarmente. Vou ver
se consigo dormir depois do café.
Fala com inopinada urbanidade, mas a voz extremamente
morta contradizia o fanatismo do rosto. A bem dizer, todas as
palavras afáveis eram para êle convenções defuntas e sua vida
era o ódio mesmo. Fêz uma pausa e continuou:
— Naturalmente o secretário de sua seção contou-lhe tudo
que sabia. Mas uma coisa que ninguém nunca pôde saber
é qual terá sido a última idéia do Presidente. Suas idéias vice-
jam como as florestas tropicais. Assim, caso você não saiba,
é bom saber desde já que êle está pondo em prática um novo
plano de esconder-se. Consiste precisamente em não nos escon-
dermos de jeito nenhum. No começo, evidentemente, nós nos
reuníamos numa cela subterrânea, tal como vocês. Depois Do-
mingo ordenou que reservássemos um quarto num restaurante.
Diz êle que se nós não parecemos estar escondidos ninguém
pensará em perseguir-nos. Bem, êle é um homem sem igual
na terra, mas chego a pensar às vezes que seu cérebro imenso,
à medida que os anos passam, vai se tornando um pouco ma-
luco. Pois não é que agora nos pavoneamos nas barbas do
público? Tomamos o café da manhã numa varanda — numa
varanda, veja bem — que dá para Leicester Square.
— E o que diz o povo? perguntou Syme.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 51

— O que o povo diz é muito simples, respondeu-lhe o


guia. Diz que somos um bando de senhores galhofeiros que se
dão ares de anarquistas.
— Tenho para mim que é um plano verdadeiramente as-
tucioso, disse Syme.
— Astucioso! Diabo leve esse seu descaramento! Astu-
cioso! bradou o outro, numa súbita voz aguda e estridente, tão
perturbadora e discrepante como o sorriso torto. Quando, por
uma fraçãozinha de segundo apenas, você vir o Domingo, dei-
xará de chamá-lo astucioso.
E assim foram ter ao fim de uma rua estreita e depararam
com Leicester Square banhada pela luz do sol matinal. Supo-
nho que nunca se saberá por que esta praça parece tão exótica
e, de certa maneira, tão continental. Nunca se saberá se é o
seu aspecto estrangeiro que seduz os estrangeiros ou se são os
estrangeiros que lhe dão semelhante aspecto. Naquela manhã
este exotismo aparecia singularmente nítido. O largo espaçoso,
a folhagem ensolarada, a estátua e os contornos sarracenos do
Alhambra formavam uma réplica de uma praça pública fran-
cesa ou espanhola. E isto vinha confirmar a sensação que, de
todos os modos, tinha invadido Syme no decurso de toda a
aventura, isto é, a sensação sobrenatural de ter-se extraviado
num mundo novo. O fato é que êle tinha comprado, desde os
tempos de garoto, muitos maus charutos em Leicester Square.
Contudo, quando dobrou a esquina e avistou as árvores e as
cúpulas mouriscas, esteve a ponto de jurar que entrara numa
desconhecida Place disso ou daquilo de alguma cidade estran-
geira.
A um canto da praça sobressaía o oitão de um hotel prós-
pero mas sossegado, cuja fachada dava para outra rua. Na
parede via-se uma larga porta-janela que era provavelmente a
entrada de um imenso restaurante. Na parte de fora dessa ja-
nela, praticamente suspensa sobre a praça, erguia-se uma va-
randa apoiada num formidável contraforte, suficientemente es-
paçosa para conter uma mesa grande. De fato, continha uma
mesa de jantar, ou, mais propriamente, uma mesa de café, em
torno da qual se abancavam, em pleno sol e visíveis a toda a
rua, homens barulhentos e palradores, todos vestidos na inso-
lência da moda, com coletes brancos e lapelas floridas. Algu-
mas de suas pilhérias podiam. ser ouvidas no outro lado da
praça. Ao ver o grave Secretário exibir seu sorriso absurdo,
52 G. K. CHESTERTON

Syme compreendeu que esta turbulenta assembléia matutina era


o conclave secreto dos Dinamiteiros Europeus.
Depois, como continuasse a contemplá-los, Syme viu uma
coisa que não tinha visto antes. Sem dúvida não a vira porque
ela era excessivamente grande para ser vista. No ponto mais
próximo da varanda, obstruindo boa parte da perspectiva, ele-
vava-se o dorso montanhoso de um homem descomunal. As-
sim que o viu, o primeiro pensamento de Syme foi que o peso
do homem podia ocasionar o desmoronamento da varanda de
pedra. Sua vastidão não consistia somente no fato de que êle
era excepcionalmente alto e inacreditavelmente gordo. Desde
as proporções originais tal homem devera ter sido planejado
como um gigante, do mesmo modo que uma estátua é delibe-
radamente cinzelada como um colosso. Vista de trás, a cabeça
coroada de cabelos brancos parecia mais volumosa do que uma
cabeça devia ser. As orelhas que se destacavam dela eram
maiores do que as orelhas humanas. Todo êle fora terrivel-
mente ampliado na escala; e este senso das dimensões era tão
desvairado que quando Syme olhava para aquele homem tinha
a impressão de que os outros personagens subitamente mingua-
vam e ananicavam-se. Lá estavam eles sentados como antes,
com suas flores e sobrecasacas, mas agora assemelhavam-se a
cinco garotos entretidos durante o chá pelo homem gigantesco.
Quando Syme e o guia se aproximaram da porta lateral
do hotel, um criado veio atendê-los com um sorriso em que
se lhe viam todos os dentes.
— Os cavalheiros estão lá em cima, disse. Estão conver-
sando e rindo a valer. Dizem que vão lançar bombas no rei.
E o criado afastou-se apressadamente com um guardana-
po no braço, divertido com a singular frivolidade dos cava-
lheiros do andar superior.
Os dois homens subiram a escada em silêncio.
Syme jamais pensara em perguntar se o homem mons-
truoso que quase abarrotava e desmoronava a varanda era o
grande Presidente de quem os outros tinham medo. Soube que
era êle mesmo com inexplicável mas instantânea certeza. Syme
era realmente um desses homens abertos às mais extravagantes
influências psicológicas, num grau um pouco perigoso para a
saúde mental. Totalmente livre do medo aos perigos físicos,
era exageradamente sensível ao cheiro dos danos espirituais.
Já por duas vezes naquela noite pequeninas coisas insignifi-
cantes haviam-lhe exacerbado o espírito, dando-lhe a sensação
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 53

de que se achava a poucos passos dos quartéis-generais do in-


ferno. E esta sensação se tornava opressiva à medida que êle
se aproximava do grande Presidente.
Ela o esmagava sob a forma de uma pueril mas odiosa
fantasia. Ao atravessar uma sala interior para chegar à varan-
da, pareceu-lhe que o rosto imenso de Domingo se dilatava;
e Syme se deixou dominar pelo temor 3e que, quando estivesse
muito próximo, o rosto se tornaria desmesurado e êle, então,
não poderia conter um grito. Recordou que, quando era me-
nino, não ousava olhar para a máscara de Memnon no Museu
Britânico, por ser ela uma cara e por ser tão grande.
Com um esforço mais heróico do que o de saltar sobre
um rochedo, encaminhou-se para o assento vazio a um canto
da mesa e sentou-se. Os presentes saudaram-no com uma cha-
cota jovial, como se o conhecessem desde muito tempo. Acal-
mou-se um pouco ao reparar em seus casacos convencionais
e no sólido e brilhante bule de café. Depois, pousou o olhar
novamente em Domingo: o rosto dele era enorme; mesmo as-
sim, era concebível num ente humano.
Na presença do Presidente a confraria inteira parecia mais
do que insípida. À primeira vista, nada chamava a atenção,
exceto o fato de se acharem todos, por um capricho do Pre-
sidente, vestidos com festiva respeitabilidade, o que dava à
refeição um aspecto de banquete nupcial. A verdade é que,
num breve relance, só um homem se distinguia. Devia ser o
dinamiteiro típico. Trajava o uniforme da ocasião: alto cola-
rinho branco e gravata de cetim. Mas desse colarinho surgia
uma cabeça indomável e inconfundível, com intratável mata de
cabelos e barba castanhos, que quase encobriam uns olhos de
Skye terrier. No entanto, os olhos varavam o emaranhado e
se mostravam como os olhos tristes do servo russo. Essa fisio-
nomia não provocava o mesmo terrível efeito que a do Pre-
sidente, mas possuía todo o sortilégio que pode provir do gro-
tesco absoluto. Se da gravata e do colarinho rijo pulasse ines-
peradamente a cabeça de um gato ou de um cão não causaria
um contraste mais absurdo.
O homem parece que se chamava Gogol. Era polonês e,
neste círculo de dias da semana, recebera o nome de Terça-
feira. Possuía alma e verbo incuràvelmente trágicos, e não
podia forçar-se a representar o próspero e frívolo papel que
dele exigia o Presidente Domingo. Com efeito, no momento
em que Syme entrou, o Presidente, com aquela atrevida des-
54 G. K. C H E S T E R T O N

consideração pela suspeita pública, que era sua política, estava


caçoando da inabilidade de Gogol para adotar modos conven-
cionais.
— Nosso amigo Terça-feira, dizia o Presidente numa voz
profunda mas cheia de quietude e volume, nosso amigo Ter-
ça-feira parece não entender bem a idéia. Veste-se como um
cavalheiro, mas desconfio que é uma alma grande demais para
comportar-se como tal. Insiste nos métodos do conspirador
teatral. Ora, se um cavalheiro de cartola e sobrecasaca passeia
em Londres ninguém vai pensar que êle é um anarquista. Mas
se um cavalheiro bota cartola e sobrecasaca e depois sai a
passear de quatro pés... bem, pode atrair a atenção. E é isso
o que faz o Irmão Gogol. Sai a passear de quatro pés com
tão inesgotável diplomacia que agora está se vendo em grande
dificuldade para caminhar ereto.
— Meu forte não é andar esgondido, respondeu contra-
riado Gogol, com pesado sotaque estrangeiro. Não estou en-
vergonhado da gausa.
— Mas você está. Está sim, meu velho, e a causa tam-
bém está envergonhada de você, continuou o Presidente bona-
cheirão. Você se esconde como os outros; mas, veja bem, não
sabe fazê-lo porque é um asno consumado! Você procura
combinar dois métodos incompatíveis. Quando um chefe de
família dá com um homem debaixo da cama é provável que se
detenha para averiguar o caso. Mas se êle descobre debaixo
da cama um homem de cartola, convenhamos, meu caro Ter-
ça-feira, que êle jamais esquecerá esse fato. Quando você foi
encontrado debaixo da cama do Almirante Biffin...
— Também não sou forte em trapazas, disse lügubremente
Terça-feira, enrubéscendo.
— Exato, meu caro, exato! exclamou o Presidente com
grave cordialidade. Você não é forte em coisa nenhuma.
Enquanto a conversação prosseguia neste tom, Syme pas-
sou a examinar mais acuradamente os homens que o rodeavam.
E, pouco a pouco, foi outra vez dominado por aquele senti-
mento de algo espiritualmente raro.
Pensara, antes, que todos ali tinham a estatura da média
das pessoas e vestiam os trajes comuns, com a evidente exce-
ção do cabeludo Gogol. Contudo, ao observar os demais, co-
meçou a ver em cada um deles exatamente aquilo que vira
no homem à margem do rio: um pormenor demoníaco. Aquele
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 55

sorriso torto, que, de um momento para outro, desfigurava o


belo semblante do homem que lhe servira de guia, era típico
de todos esses tipos. Cada um carregava com alguma coisa,
só percebida talvez na décima ou vigésima olhadela, que não
era normal e que era difícil de ser humanamente concebida.
Syme dizia, para si mesmo, que todos eles tinham o aspecto
de pessoas elegantes e sociáveis, acrescido de uma distorção
conseguida num espelho curvo imperfeito.
Somente os exemplos individuais darão a conhecer esta
semi-oculta excentricidade. O cicerone de Syme recebera o título
de Segunda-feira. Era Secretário do Conselho e nada, exceto
o riso assustador e feliz do Presidente, espalhava maior temor
do que seu sorriso oblíquo. Mas agora que Syme dispunha
de mais espaço e luz para observá-lo, atentava noutras peculia-
ridades. Seu rosto formoso era tão macilento que Syme jul-
gou-o consumido por alguma doença; mas, de certo modo, a
própria ansiedade dos olhos escuros desmentia esta suposição.
Não era enfermidade física que o afligia. Seus olhos ardiam
em tortura intelectual, como se o pensamento mesmo fosse
dor.
Êle era o paradigma da tribo, onde todos partilhavam de
alguma aberração sutil e distinta. Junto dele sentava-se Ter-
ça-feira, o cabeludo Gogol, um homem mais obviamente louco.
Em seguida estava Quarta-feira, um certo Marquês de St. Eus-
tache, personagem suficientemente característico. A uma rápida
inspeção, êle nada revelava de insólito, salvo o fato de ser o
único conviva que vestia as roupas elegantes como se elas
realmente lhe pertencessem. Usava uma barba negra quadrada,
à francesa, e uma sobrecasaca negra ainda mais quadrada, à
inglesa. Mas Syme, sensível a essas coisas, percebeu que
o homem levava consigo uma rica atmosfera — rica e
sufocante — que lembrava, desarrazoadamerite, os narcotizan-
tes odores e as lâmpadas mortiças dos mais sombrios poemas
de Byron e Poe. A isso calhava o seu modo de vestir-se, não
de cores mais suaves, mas de tecidos mais leves; seu negro
parecia mais opulento e mais cálido que as sombras negras que
o cercavam, como se fosse composto de côr mais profunda.
Dir-se-ia que seu casaco negro só era negro por ser púrpura
muito viva, e que sua barba negra só era negra por ser azul
intenso. E, na caliginosa espessura da barba, sua boca verme-
lho-escuro mostrava-se insolente e sensual. O que quer que
êle fosse não era um francês; podia ser um judeu; podia ser
56 G. K. CHESTERTON

algo ainda mais impenetrável no obscuro coração do Oriente.


No deslumbrante colorido dos mosaicos e quadros persas, que
reproduzem os déspotas em caçadas, vêem-se esses olhos amen-
doados, essas azuladas barbas negras, esses lábios carmesins
e cruéis.
Depois vinha Syme e a seu lado um ancião, o Professor
de Worms, que ocupava o posto de Sexta-feira, cuja vacância,
por falecimento do ocupante, era aguardada de uma hora para
outra. A inteligência era a única coisa que se salvava desse
estágio final de decadência senil. Seu rosto era tão cinzento
como sua comprida barba cinzenta e sua testa alteava-se até
fixar-se numa ruga de moderado desespero. Em nenhum outro
caso, nem mesmo no de Gogol, o lustre nupcial do traje
exprimia um contraste mais doloroso. A flor vermelha na lape-
la ressaltava diante de um rosto inteiramente descolorido como
chumbo. O efeito era repugnante, como se uns bêbedos almo-
fadinhas tivessem com suas roupas vestido um cadáver. Quan-
do se erguia ou se sentava, o que fazia depois de muito esforço
e risco, denunciava algo pior do que simples fraqueza, algo
indefinivelmente aliado ao horror de toda a cena. Denunciava
não apenas decrepitude, mas corrupção. Outra odiosa fantasia
cruzou a mente vibrátil de Syme, insinuando que, ao menor
movimento, uma perna ou um braço daquele homem podia sol-
tar-se do corpo.
Na extremidade da mesa achava-se o homem chamado
Sábado, justamente o mais simples e enganoso de todos. Baixo,
atarracado, cara escura, quadrada e barbeada, dizia-se médico
e Buli era seu nome. Surpreendia-se nele aquela combinação
de savoir-faire com uma espécie de solícita rudeza, o que é
mais ou menos encontradiço nos jovens médicos. Usava as
roupas festivas antes com arrogância do que com tranqüilidade
e trazia um sorriso estampado na cara. Não se lhe descobria
outra singularidade além dum par de óculos escuros, quase
opacos. Podia ter sido apenas um crescendo de fantasia ner-
vosa, mas para Syme aqueles discos negros eram terrificantes;
recordava-lhe sinistras histórias meio esquecidas, histórias de
moedas que se colocavam nos olhos dos mortos. Por isso o
olhar de Syme não se apartava dos vidros negros nem do esgar
cego. Usados pelo moribundo Professor ou mesmo pelo pálido
Secretário, não estariam mal empregados. Mas nos olhos do
homem mais moço e mais corpulento eles nada mais eram que
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 57

um enigma. Roubavam a chave do rosto. Não se podia dizer


o que significavam seu sorriso e sua gravidade. Um pouco por
isto e um pouco por ser êle*dono de grosseira virilidade, na
qual os outros eram deficientes, Syme presumiu que o médico
era o mais perverso de todos aqueles homens perversos. E che-
gou até a admitir que os olhos de Buli tinham sido encobertos
porque eram medonhos de ver.
CAPITULO VI

A DESCOBERTA

Tais eram os seis homens que haviam jurado destruir o


mundo. Na presença deles Syme esforçava-se continuamente
para manter o senso comum. Às vezes, via que suas suposições
eram subjetivas, que se achava diante de homens normais, dos
quais um era velho, outro nervoso, outro míope. Mas logo
avassalava-o novamente o sentimento de um simbolismo sobre-
natural. Sob todos os aspectos, aqueles sujeitos pareciam colo-
car-se nos últimos limites das coisas, assim como as teorias
por eles sustentadas se colocavam nos últimos limites do pen-
samento. Compreendia que cada um deles atingira, por assim
dizer, o ponto final de alguma abstrusa via do raciocínio. Não
podia deixar de imaginar, como numa velha fábula, que se
um homem caminhasse em direção ao ocidente, até ao fim do
mundo, encontraria alguma coisa — uma árvore, digamos —
que era mais ou menos igual a uma árvore, uma árvore pos-
suída por um espírito; e que se êle caminhasse em direção ao
oriente, até o fim do mundo, encontraria alguma outra coisa
que não era rigorosamente igual a si mesma — uma torre,
talvez, cuja simples forma era adulterada. Assim, esses homens
pareciam elevar-se, violentos e enigmáticos, sobre um último
horizonte, como se fossem visões da fronteira. As extremidades
da terra se tocavam.
A conversa não foi perturbada com a entrada de Syme;
e não era o menor dos contrastes, naquela desooncertante mati-
nada, o que se verificava entre o tom fluente e despreocupado
da palestra e seu terrível conteúdo. Entregavam-se à discussão
de uma conspirata real e muito próxima. Lá em baixo o
criado dera uma informação exatíssima ao dizer que eles esta-
vam falando de bombas e de reis. Dali a apenas três dias,
60 G. K. CHESTERTON

o Czar ia encontrar-se em Paris com o Presidente da República


da França, e aqui, enquanto comiam toucinho com ovos na
varanda soalheira, esses jubilosos senhores haviam decidido
como dar cabo dos dois potentados. Até o instrumento já fora
escolhido, e coubera ao barbinegro Marquês ser o portador
da bomba.
Usualmente, a imediação de um crime positivo e objetivo
como esse bastaria para despertar e curar Syme de todas as
suas inquietações puramente místicas. Êle não teria pensado
em outra coisa que na necessidade de ir em socorro de dois
corpos humanos ameaçados de despedaçamento pela ação do
ferro e do gás rugiente. Mas a verdade era que agora come-
çava a dominá-lo um terceiro tipo de medo, mais ativo e pun-
gente do que a repulsa moral ou a responsabilidade social.
Muito simplesmente não se amedrontava com o que pudesse
suceder ao Presidente francês ou ao Czar; começava a ame-
drontar-se com o que podia suceder a êle próprio. Bastante
loquazes, aqueles homens pouca atenção lhe davam e dis-
cutiam entre si, com os rostos chegados e quase uniformemente
graves, exceto quando por um instante o sorriso se rasgava oblí-
quo na cara do Secretário, como o denticulado relâmpago se
rasga oblíquo no firmamento. Mas uma coisa havia, tão per-
sistente, que principiou por perturbar Syme e terminou por ater-
rá-lo. Era o Presidente, que o fitava fixamente com desmedido
mas ambíguo interesse. O agigantado homem estava muito
quieto, porém seus olhos azuis saíam fora das órbitas e enfia-
vam-se em Syme.
Syme estava na iminência de pôr-se em pé e saltar da
varanda. Quando tinha sobre si os olhos do Presidente, sen-
tia-se como se fosse feito de vidro. Reconhecia, sem a menor
sombra de dúvida, que Domingo, sossegada e misteriosamente,
tinha descoberto que êle era espião. Alongando o olhar do
parapeito da varanda, viu lá em baixo um polícia a contemplar
distraído os luzentes gradis e as árvores cheias de sol.
Foi então que o assaltou a grande tentação que havia de
atormentá-lo por muitos dias. Diante desses homens poderosos
e repulsivos, que eram os príncipes da anarquia, quase esque-
cera a frágil e excêntrica pessoa do poeta Gregory, simples
esteta do anarquismo. Chegava a pensar nele agora com velha
simpatia, como se tivessem brincado juntos na infância. Mas
lembrou-se de que estava ainda vinculado a Gregory por um
solene compromisso. Prometera não fazer jamais aquela coisa
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 61

que estava a ponto de fazer agora. Prometera não transpor de


um salto aquela varanda para ir falar com o polícia. Retirou
a mão fria do frio parapeito de pedra. Sua alma oscilou ao
sabor de uma vertigem de indecisão moral. De um lado, não
tinha mais que partir o fio de um voto imprudente, feito a
uma súcia de velhacos, para que sua vida pudesse ser tão
aberta e banhada de sol como a praça fronteira. De outro lado,
tinha somente que preservar sua antiquada honradez para ser,
palmo a palmo, triturado pelo poderio desse soberbo inimigo
do gênero humano, cuja inteligência era uma câmara de tor-
tura. Todas as vezes que dirigia a vista para a praça, lá
achava o tranqüilo polícia, um monumento do senso comum,
da ordem comum. Todas as vezes que se voltava para a mesa
do café topava o Presidente estudando-o plàcidamente com seus
olhos enormes e intoleráveis.
Em toda a torrente de seus pensamentos, dois houve, po-
rém, que nunca lhe passaram pela cabeça. Primeiro: nunca
lhe ocorreu duvidar de que o Presidente e o resto do Conselho
pudessem esmagá-lo, caso êle persistisse na idéia de enfren-
tá-los sozinho. O lugar podia ser público, o projeto podia
parecer impossível. Mas Domingo não era um homem que se
arriscasse assim comodamente sem ter antes deixado aberto,
não se sabe como nem onde, seu alçapão de ferro. Com vene-
no anônimo ou com acidente de rua, com hipnotismo ou com
o fogo do inferno, Domingo podia certamente eliminá-lo. Se
desafiasse aquele homem era provável que não sobrevivesse:
ou morreria ali mesmo na cadeira em que estava sentado ou
algum tempo depois, como ao fim de uma doença inocente.
Se chamasse prontamente a polícia e ela os prendesse, se con-
tasse tudo e mobilizasse contra eles toda a força da Inglaterra,
provavelmente escaparia. De outro modo, era impossível. Mas
naquela varanda, no meio de cavalheiros aparentemente ocupa-
dos em contemplar uma praça cheia de sol e de gente, Syme
não se sentia mais seguro do que se estivesse num barco, no
meio de corsários armados, contemplando um mar deserto...
O segundo pensamento que nunca lhe ocorreu foi o de
ser espiritualmente conquistado pelo inimigo. Muitos moder-
nistas, calejados numa impotente adoração da inteligência e
da força, podiam ter afrouxado sua lealdade, sob a tirania de
uma personalidade vigorosa. Podiam ter chamado Domingo
super-homem. E se tal criatura é concebível, sem dúvida era
Domingo quem melhor a corporificava, com seu alheamento
62 G. K. CHESTERTON

sísmico, de estátua ambulante. Podia merecer qualquer nome


sobre-humano, por sua corpulência, que era demasiadamente
óbvia para ser descoberta, e por sua caraça, que era demasia-
damente franca para ser decifrada. Mas essa era uma espécie
de baixeza moderna com que Syme não podia pactuar, mesmo
em extrema depressão. Como qualquer um, êle era bastante
covarde para temer a brutalidade; mas não era tão covarde que
a admirasse.
Os homens comiam e conversavam, e até nisso eles eram
típicos. Dr. Buli e o Marquês, despreocupadamente e com na-
turalidade, provavam das melhores iguarias da mesa: faisão
frio e pastel de Estrasburgo. O Secretário, porém, era vegeta-
riano e, entre meio tomate cru e três quartos de um copo de
água morna, falava fervorosamente do projetado assassínio. O
velho Professor consumia as papas adequadas à sua asquerosa
segunda infância. Ainda aqui o Presidente exercia seu curioso
e maciço predomínio. Comia por vinte homens, comia incri-
velmente, com assombrosa voracidade, de- modo que era o mes-
mo que pôr-se a gente a contemplar o trabalho de uma fábrica
de salsicha. Entretanto, depois de devorar uma dúzia de bolos
e sorver meia canada de café, continuava com a imensa cabeça
inclinada e os olhos fixos em Syme.
Muitas vezes me ponho a pensar, disse o Marquês dando
uma boa mordida numa fatia de pão com geléia, se não seria
melhor para mim fazer uço do punhal. Muitas coisas formi-
dáveis têm sido feitas com êle. E seria uma nova emoção enfiar
um punhal num Presidente da França e depois revolvê-lo por
dentro.
— Você se engana, respondeu o Secretário franzindo as
negras sobrancelhas. O punhal era simplesmente a expressão
da velha pendência pessoal com um tirano pessoal. A dinamite
não é apenas nosso melhor instrumento; é o nosso melhor sím-
bolo. Para nós é um símbolo tão perfeito como o incenso
para as orações dos cristãos. Expande-se; só destrói porque
se expande. Assim também é o pensamento: só destrói por-
que se expande. O cérebro do homem é uma bomba, bradou
abandonando-se subitamente à sua estranha paixão e golpean-
do o crânio com violência. Meu cérebro sente-se como uma
bomba, noite e dia. Precisa explodir! Precisa explodir! O
cérebro do homem deve explodir, ainda que arrebente todo
o universo.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 63

— Não me agradaria que o universo arrebentasse justa-


mente agora, frisou o Marquês. Pretendo cometer uma porção
de barbaridades antes de morrer. Ontem na cama pensei numa.
— Não importa. Já que o fim único de todas as coisas
é o nada, atalhou Dr. Buli com seu esfíngico sorriso, não vale
a pena fazê-la.
O velho Professor, que se distraía a olhar o teto, disse:
— No íntimo toda a gente sabe que não vale a pena fazer
coisa nenhuma.
Houve um silêncio singular. Depois o Secretário falou:
— Mas nós nos afastamos do assunto. A questão está
em saber como Quarta-feira há de dar o golpe. Acho que
todos estamos de acordo na idéia original da bomba. Quanto
aos outros preparativos, eu sugeriria que amanhã de manhã
êle fosse antes de tudo a . . .
A frase foi cortada pelo súbito aparecimento de uma som-
bra vastíssima. O Presidente Domingo se erguera e parecia
tapar o céu que os cobria.
— Antes de discutirmos qualquer desses pontos, disse
numa voz calma e quieta, passemos para dentro. Tenho a di-
zer-lhes uma coisa muito particular.
Syme levantou-se antes dos outros. O instante decisivo
tinha enfim chegado; a pistola apontava para sua cabeça. Po-
dia ouvir o policial ociosamente agitar-se e bater com os pés
na calçada, pois a manhã, apesar de luminosa, era fria.
Na rua um realejo iniciou de repente uma toada jovial.
Em pé, Syme se entesou como se estivesse ouvindo um toque
de cometa antes da batalha. Sentiu-se dono de uma coragem
sobrenatural, que êle não sabia de onde vinha. Aquela me-
lodia vibrante parecia-lhe cheia da vivacidade, da vulgaridade e
da intrepidez dos pobres, que, em todas aquelas ruas imundas,
se apegavam aos pudores e às esmolas da cristandade. A tra-
ves sura juvenil de entrar na polícia tinha desaparecido de sua
mente; não pensava em si mesmo como representante da cor-
poração de cavalheiros que, por capricho, se fizeram milicianos,
nem no velho excêntrico que habitava o quarto escuro. Via-se
como embaixador de todo esse povo humilde e bom das ruas,
que diariamente marchava para a batalha ao som do realejo.
E esta exaltada ufania de ser humano elevava-o inexplicavel-
mente a uma altitude incomensurável, infinitamente acima dos
sujeitos monstruosos que o cercavam. Por um instante, ao me-
nos, olhou sobrarfceiro, do píncaro estelar do lugar-comum,
64 G. K. CHESTERTON

para todas aquelas cambaleantes excentricidades. Diante deles


sentia toda a inconsciente e elementar superioridade que sente
o bravo diante de feras poderosas ou o sábio diante de erros
poderosos. Sabia que não tinha a força intelectual nem a força
física do Presidente Domingo, mas nesse momento isso não lhe
interessava mais do que o fato de não possuir os músculos
do tigre ou um chifre no nariz como o rinoceronte. Tudo foi
tragado pela convicção inabalável de que o Presidente estava
errado e o realejo estava certo. Ressoou em sua cabeça aquele
incontestável e terrível truísmo da canção de Rolando:

Pcüens ont tort et Chrétiens oni droit,


que, no antigo francês nasalado, traduz o tumulto e o fragor
das armas em choque. Liberto o espírito da carga de fra-
queza que o oprimia, adotou a firme decisão de enfrentar a
morte. Se a gente simples do realejo podia desempenhar seus
milenários deveres, também êle poderia-desempenhar os seus.
O próprio orgulho de cumprir a palavra consistia em ter de
cumpri-la para os ímpios. Seu último triunfo sobre aqueles
lunáticos resumia-se em acompanhá-los ao quarto escuro e mor-
rer por alguma coisa que eles não podiam sequer entender. O
realejo parecia tocar uma marcha com a energia e a multiplici-
dade de sons de uma orquestra; e sob os clarins que entoam a
altivez da vida Syme ouvia os profundos rufos cadenciados dos
tambores que compassam a altivez da morte.
Os conspiradores, em fila, começavam a passar para os
cômodos internos. Syme seguia-os, em último lugar, exterior-
mente calmo, mas seu cérebro e seu corpo latejavam num ritmo
apaixonado. O Presidente levou-os por uma sinuosa escada late-
ral (que devia ser utilizada pelos criados) e introduziu-os num
quarto escuro, frio e desabitado, ao qual a mesa e os bancos
imprimiam um aspecto de refeitório abandonado. Depois que
estavam todos lá dentro o Presidente fechou a porta a chave.
O primeiro a falar foi Gogol, o irreconciliável. que pare-
cia estourar de furores inarticulados.
— Zim! Zim! grunhiu com obscura excitação, tornando
o pesado sotaque polonês quase impenetrável. Vozes dizem
que não se esgondem. Dizem que se deixam ver. É jalzo.
Quando têm um azunto importante correm a discuti-lo numa
caixa esgura.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 65

O Presidente dava a impressão de aceitar a crítica incoe-


rente do estrangeiro com total benevolência.
— Você, Gogol, ainda não pode compreender, disse em
tom paternal. Ouvindo-nos dizer bobagens naquela varanda
ninguém procurará saber para onde vamos depois.. Se tivés-
semos vindo primeiro para cá teríamos toda a criadagem no
buraco da fechadura. Você parece não conhecer a humanidade.
— Morro por ela! exclamou o polonês numa agitação
estúpida. Mato zeus oprezores! Mas não gosto dessas brin-
gadeiras de esgonder. Quero matar o tirano na praza públiga.
— Ah, sim, percebo! disse o Presidente aprovando bon-
dosamente, enquanto se sentava à cabeceira da longa mesa.
Primeiro você morre pela humanidade, depois ressurge e mata
os que a oprimem. Correto! Agora quero pedir-lhe que mo-
dere seus inestimáveis sentimentos e que tome seu lugar à mesa
junto aos outros. Pela primeira vez nesta manhã uma coisa
aproveitável vai ser dita. .
Com a inquieta diligência que vinha mostrando desde as
primeiras ordens, Syme foi o primeiro a sentar-se, Gogol sen-
tou-se por último, resmungando dentro das barbas castanhas
sobre gombr omissos. Com exceção de Syme, ninguém parecia
ter a mínima idéia do golpe que estava prestes a ser dado.
Quanto a êle, sentia-se como um homem que sobe a um cada-
falso com a intenção de fazer, a qualquer preço, um bom dis-
curso.
— Camaradas, começou o Presidente, pondo-se em pé
com rapidez. Já fomos longe demais com esta farsa. Reuni-os
aqui para dizer-lhes uma coisa tão simples mas tão surpreen-
dente, que até os criados lá de cima (acostumados a nossas
inconseqüências) poderiam descobrir uma esquisita seriedade
em minha voz. Camaradas, estivemos discutindo planos e ci-
tando lugares. Proponho, antes de mais nada, que esses planos
e lugares não sejam aprovados nesta sessão e que fiquem intei-
ramente sob a direção de um membro digno de confiança. Sugiro
o camarada Sábado, Dr. Buli.
Até aí, todos contemplavam o Presidente; mas depois es-
tremeceram em seus assentos, porque as palavras que se se-
guiram, embora não fossem proferidas em voz alta, possuíam
vivida e sensacional ênfase. Domingo deu um murro na mesa.
— Nem mais uma palavra sobre planos e lugares! Nem
um ínfimo pormenor sobre o que vamos fazer deve ser comen-
tado nesta reunião.
66 G. K. CHESTERTON

Domingo passara a vida atordoando os sequazes, mas pa-


recia que êle nunca os tinha realmente atordoado senão agora.
Todos agitaram-se febrilmente, exceto Syme, que estava duro
no seu canto, com a mão no bolso empunhando o revólver
carregado. Quando viesse o ataque venderia muito cara a vida.
Enfim ia saber se o Presidente era mortal.
Domingo continuou polidamente:
— Sem dúvida vocês compreenderão que só um motivo
pode proibir a livre manifestação do pensamento neste festival
da liberdade. Não importa que os estranhos nos ouçam. Eles
pensam que estamos pilheriando. Mas o que tem importância
capital é que entre nós existe alguém que não é dos nossos,
que está a par dos nossos graves desígnios, mas que não os
compartilha, que...
O Secretário interrompeu-o com um grito agudo, como
uma mulher.
— Não pode ser! exclamou erguendo-se num pulo. Não
é possível!
O Presidente bateu na mesa com a palma da mão, enorme
e gorda como a barbatana de um peixe colossal.
— Sim, disse vagarosamente, há um espião neste quarto.
Há um traidor nesta mesa. Não vou gastar mais palavras. Seu
nome é . . .
Syme começou a levantar-se, com o dedo firme no gatilho.
— Seu nome é Gogol, disse o Presidente. É esse cabeludo
impostor que passa por polonês.
Gogol deu um pulo do banco, segurando um revólver
em cada mão. Com a mesma presteza voaram-lhe três homens
ao pescoço. Até o Professor fêz um esforço para se pôr em
pé. Mas Syme pouco assistiu da cena, cegado por benéfica es-
curidão, e afundou trêmulo no banco, numa apatia de intenso
alívio.
CAPITULO VII

A INEXPLICÁVEL CONDUTA DO PROFESSOR


DE WORMS

— Sentem-se! ordenou Domingo com uma voz só empre-


gada em ocasiões excepcionais, uma voz que obrigava os ho-
mens a depor as espadas desembainhadas.
Os três que se tinham levantado afastaram-se de Gogol, e
este equívoco personagem voltou a seu lugar.
— Bem, meu prezado senhor, disse com energia o Pre-
sidente, dirigindo-se a Gogol como alguém se dirige a um des-
conhecido, quer fazer-me o favor de colocar a mão no bolso
superior do colete e mostrar-me o que traz dentro dele?
O suposto Gogol, um tanto pálido sob o emaranhado de
cabelos negros, meteu, com aparente frieza, dois dedos dentro
do bolso e de lá retirou um cartão azul. Ao ver o cartão,
Syme despertou de novo para o mundo exterior e, embora nada
pudesse ler da inscrição, pois o cartão estava na outra extre-
midade da mesa, notou a alarmante semelhança com o cartão
azul que trazia no bolso e que tinha recebido quando se alistou
na milícia antianarquista.
— Patético eslavo, continuou o Presidente, trágico filho
da Polônia, está preparado para negar, diante desse cartão, que
nesta sociedade você é, vamos dizer, de trop?
— Oh, de modo algum! exclamou o ex-Gogol. Todo
mundo se sobressaltou ao ouvir uma voz clara, comercial e algo
familiar surgir daquela floresta de cabelos estrangeiros. Era
irracional, como se um chinês subitamente entrasse a falar com
sotaque escocês.
— Concluo que você não desconhece a posição em que
está, observou Domingo.
68 G. K. C H E S T E R T O N

— Acertou, disse o polonês. E vejo que é um bocado


incômoda. Tudo quanto tenho a dizer é que não creio que
um polonês pudesse imitar meu sotaque como eu imitei o dele.
— Concordo. Admito que seu sotaque é inimitável. Eu
mesmo tentei praticá-lo no banho. Vê algum inconveniente
em deixar aqui a barba e o cartão?
— Nenhum, respondeu Gogol, e com um dedo arrancou
toda a hirsuta cabeleira, expondo uns fios vermelhos e ralos e
um rosto pálido e petulante. Fazia muito calor, acrescentou.
— Farei a justiça de confessar, disse Domingo não sem
uma espécie de brutal admiração, que você parece ter-se con-
servado inteiramente frio aí debaixo. Agora escute aqui, Eu
gosto de você. Por isso, ficaria desgostoso por uns dois mi-
nutos e meio se viesse a saber que você morreu de suplícios.
Preste atenção: se você algum dia contar à polícia ou a quem
quer que seja as nossas atividades, eu terei esses dois e meio
minutos de desconforto. Do seu desconforto não quero falar.
Passe bem. Cuidado com a escada.
O detetive de cabelos vermelhos que personificara Gogol
ergueu-se sem proferir uma palavra e saiu do quarto com um
ar de total indiferença. Entretanto, o aturdido Syme pôde ve-
rificar que essa tranqüilidade fora adquirida de chôfre. Um
leve tropeço do lado de fora da porta indicou que o despedido
detetive não pensara na escada.
— O tempo voa, disse expansivamente o Presidente de-
pois de lançar um olhar para seu relógio, que, como tudo,
quanto lhe pertencia, parecia maior do que devia ser. Preciso
ir embora imediatamente. Vou ocupar a presidência de uma
reunião humanitarista.
O Secretário voltou-se para êle com semblante carrancudo.
— Não seria melhor, alvitrou um tanto severamente, dis-
cutir os pormenores do plano agora que o espião nos deixou?
— Não, acho que não, retrucou o Presidente no meio de
um bocejo que era um discreto terremoto. Deixemo-lo como
está. Sábado que cuide de tudo. Vou andando. No próximo
domingo, aqui, à hora do café.
Todavia, a turbulência das últimas cenas havia lacerado
os nervos quase nus do Secretário. Êle era um desses homens
que são conscienciosos até no crime.
— Cumpre-me protestar, Presidente, contra esta irregu-
laridade. Temos como princípio fundamental de nossa socie-
dade a discussão de todos os projetos em plenário. É claro
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 69

que aplaudo irrestritamente as suas precauções na presença real


de um traidor...
— Secretário, redargüíu rudemente o Presidente, se você
botar a cabeça para ferver com um nabo ela pode prestar para
alguma coisa. Não dou certeza, mas bem que pode prestar.
O Secretário recuou, tomado de fúria eqüina.
— Realmente não chego a compreender... começou pro-
fundamente ofendido.
— É isso, é isso, disse o Presidente balançando a cabeça
várias vezes. É aí que você fracassa redondamente. Nunca
chega a compreender nada. Ora, asnática criatura, bramiu pon-
do-se de pé, você não queria ser ouvido por um espião, não é
assim? Como sabe que não está sendo ouvido agora?
E com estas palavras abalou do quarto, dando de ombros
com indecifrável desdém.
Quatro dos homens ficaram boquiabertos, sem qualquer
noção aparente dos propósitos de Domingo. Somente Syme
teve tal noção, o que bastou para gelar-lhe os ossos. Se as
últimas palavras do Presidente tinham alguma significação era
mais do que claro que êle, Syme, afinal não estava isento de
suspeita. Elas significavam que, conquanto Domingo não pu-
desse denunciá-lo como fêz com Gogol, não podia também
confiar nele como confiava nos demais.
Os outros levantaram-se resmungando e correram dali à
procura de almoço, pois já passava de meio-dia. Por último,
lenta e miseravelmente, saiu o Professor. Depois que todos se
foram, Syme permaneceu muito tempo sentado, refletindo em
sua esquisita situação. Escapara do raio, mas ainda estava
embaixo de üma nuvem. Ergueu-se por fim e abandonou o
hotel, entrando em Leicester Square. O dia luminoso e frio
tinha-se tornado muito mais frio. Quando Syme chegou na
rua foi surpreendido por alguns flocos de neve. Trazia con-
sigo a bengala de estoque e o resto da bagagem portátil de
Gregory, mas esquecera o capote nalguma parte, na lancha
talvez ou na varanda. Confiado em que a nevada era passa-
geira, retrocedeu um pouco e abrigou-se no limiar de uma pe-
quena e nauseante loja de cabeleireiros, cuja vitrina exibia uni-
camente uma melancólica dama de cera vestida com traje de
cerimônia.
A neve, entretanto, recrudescia. Porque a visão da dama
de cera concorresse para deprimir seu espírito, Syme dirigiu
o olhar para a rua branca e deserta. E não foi pequeno seu
70 G. K. CHESTERTON

assombro ao deparar com um homem imóvel defronte da loja,


de olhos fitos na vitrina. O chapéu do estranho estava empa-
pado de neve como o chapéu do Papai Noel, e os alvos flocos
cobriam-lhe as botas e os tornozelos. Contudo, parecia que nada
haveria de arrancá-lo à contemplação do enfermiço manequim
de traje cerimonioso e sórdido. Que um ser humano se pusesse,
em tal ocasião, a embasbacar para uma loja como aquela era
motivo de grande espanto para Syme; mas esse espanto gra-
tuito mudou-se de imediato em comoção pessoal, ao constatar
que o estranho não era outro senão o paralítico ancião Profes-
sor de Worms. O local é que não parecia adequado a pessoa
idosa e enferma.
Syme estava pronto a crer que todas as perversões tinham
curso na degenerada confraria, mas não podia crer que o Pro-
fessor se enamorara justamente daquele manequim. Admitia
que a doença do homem (qualquer que ela fosse) se manifes-
tava em acessos momentâneos de rigidez ou arrebatamento.
Não se inclinava, porém, a sentir a menor compaixão. Ao con-
trário, folgava com os espasmos e os passos tardos e coxeantes
do Professor, os quais lhe permitiriam fugir e deixá-lo a mi-
lhas de distância. Pois Syme desejava ardentemente libertar-se,
ao menos por uma hora, de toda aquela envenenada atmosfera.
Só assim, poderia concatenar os pensamentos, traçar sua polí-
tica e decidir finalmente se devia ou não devia manter a pro-
messa feita a Gregory.
Abriu caminho por entre o bailado da neve, enveredou
por duas ou três ruas, percorreu outras duas ou três e entrou
num modesto restaurante de Soho para almoçar. Serviu-se de
uns quatro pratos leves, bebeu meia garrafa de vinho tinto e
finalizou a refeição com café e charuto, sempre imerso em
suas meditações. Escolhera uma mesa no primeiro andar re-
pleto do tinido de talheres e do vozeio dos estrangeiros. Re-
cordou que, em outros tempos, tomara esses inofensivos e
amáveis estrangeiros por anarquistas. E teve um arrepio ao
pensar na dura realidade. Mas o arrepio veio misturado à
deliciosa emoção da fuga. O vinho, o alimento habitual, o am-
biente conhecido, as fisionomias de homens normais e palra-
dores levavam-no a quase imaginar que o Conselho dos Sete
Dias não passara de um pesadelo. E embora o Conselho fosse
a toda prova uma realidade objetiva, era, ao menos, remota.
Altos edifícios e ruas populosas punham-se entre êle e sua últi-
ma visão dos sete renegados. Estava livre na livre Londres,
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 71

bebendo vinho no meio dos livres. Um pouco mais tranqüi-


lizado, apanhou o chapéu e a bengala e desceu vagarosamente
a escada.
Quando entrou no salão parou bruscamente e fincou-se no
lugar. A uma mesinha próxima da janela e da rua coberta de
neve sentava-se o velho anarquista Professor de Worms, com
o rosto lívido e as pálpebras abaixadas, diante de um copo de
leite. Por um instante, Syme ficou tão rígido como a bengala
em que se apoiava. Depois, com um movimento atabalhoado,
passou roçando pelo Professor, abriu precipitadamente a porta
e, fechando-a com violência atrás de si, parou do lado de fora
sob o rigor da neve.
— Será possível que esse velho cadáver esteja me seguin-
do? inquiriu-se mordendo o bigode amarelo. Devo ter demo-
rado demais lá em cima. Só assim esses pés de chumbo pude-
ram apanhar-me. A minha felicidade é que me basta andar
um pouco mais depressa para deixar esse sujeito tão longe de
mim como daqui a Tombuctu. Não estarei fantasiando? Êle
estava me seguindo mesmo? Acho que Domingo não seria tão
tolo que mandasse um coxo perseguir-me!
Pôs-se a caminho com passos rápidos, torcendo e rodo-
piando a bengala e tomou a direção de Covent Garden. Ao
cruzar o grande mercado a neve caía de rijo, cegando e des-
norteando, enquanto a tarde começava a escurecer. Os flocos
atormentavam-no como um enxame de abelhas prateadas. In-
vadindo-lhe os olhos e a barba, acrescentavam um incessante
aborrecimento a seu nervos já irritados; e no momento em que
êle, claudicante, atingia a entrada de Fleet Street, perdeu a pa-
ciência: entrou numa casa de chá domingueira para abrigar-se.
Como justificativa pediu uma xícara de café forte. Mal tinha
acabado de fazer a encomenda, o Professor de Worms entrou
coxeando pesadamente, sentou-se com dificuldade e pediu um
copo de leite.
A bengala de Syme caiu no chão, produzindo forte ruído
metálico, revelador do aço oculto. Mas o Professor não se
abalou. Syme, que era normalmente um sujeito frio, estava tão
boquiaberto como um matuto diante de um passe de mágica.
Não vira nenhum fiacre segui-lo; não ouvira barulho de rodas
na rua; segundo todas as aparências o homem tinha vindo a
pé. Mas o ancião só podia andar feito um caracol, e Syme
tinha andado feito o vento. Levantou-se com presteza e agarrou
a bengala, meio enlouquecido com aquela contradição na mais
72 G. K. CHESTERTON

simples aritmética, e arrojou-se por entre as portas de vaivém,


deixando o café intato. Um ônibus que ia para o aterro passou
ruidoso numa rapidez inusitada. Syme teve que correr umas
cem jardas para alcançá-lo; mas conseguiu num pulo guindar-
se ao pára-lama e, depois de breve pausa para tomar fôlego,
subiu para o tejadilho. Fazia cerca de meio minuto que estava
sentando, quando sentiu nas costas um sopro cansado e as-
mático.
Volvendo-se imediatamente, viu elevar-se pouco a pouco
nos degraus do ônibus um chapéu alto, encharcado de neve
gotejante, e, à sombra da aba, a cara míope e os ombros débeis
do Professor de Worms. Com o desvelo que lhe era peculiar,
o Professor meteu-se num banco e enrolou-se até o queixo na
manta de lã.
Todos os movimentos da figura vacilante e das mãos trê-
mulas do ancião, todos os gestos incertos e todas as pausas pâ-
nicas pareciam pôr fora de dúvida que êle estava irremedia-
velmente perdido na degenerescência final do corpo. Movia-se
por polegadas, sentava-se com pequenas agonias de precaução.
Entretanto, a menos que as entidades filosóficas chamadas tem-
po e espaço não tivessem vestígio sequer de existência real,
era incontestável que êle tinha corrido para tomar o ônibus.
Syme pôs-se de pé no carro trepidante e, depois de lançar
um olhar angustiado ao céu invernoso que, a cada instante,
se tornava mais negro, disparou pela escada. Havia repelido
o impulso elementar de atirar-se do alto do ônibus.
Perplexo demais para poder raciocinar, precipitou-se num
dos bequinhos laterais de Fleet Street como um coelho se pre-
cipita num buraco. Teve o vago pressentimento de que na-
quele labirinto de vielas em breve haveria de despistar o velho
e misterioso bonifrate que vinha em seu encalço. Entrava e
saía pelos becos tortuosos, que tinham mais de furnas que de
vias públicas; e no momento em que havia completado cerca
de vinte ângulos alternados e descrito um polígono inconce-
bível, parou para escutar qualquer rumor de perseguição. Não
havia nenhum e na verdade não poderia haver, pois as ruelas
estavam atapetadas de neve silente. Todavia, um pouco atrás
de Red Lion Court deu com um lugar onde algum enérgico
cidadão tinha afastado a neve pelo espaço de umas -vinte jar-
das, deixando à mostra as úmidas e cintilantes pedras do calça-
mento. Não deu muita atenção a isso e internou-se em mais
outro braço do labirinto. Mas quando, cem jardas adiante,
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 73

parou novamente para escutar, seu coração parou também, por-


que daquele trecho de pedras nuas chegavam o tinido da mu-
leta e os passos difíceis do coxo infernal.
Lá em cima o céu, carregado de nuvens de neve, envolvia
Londres num negror e numa opressão prematuros para aquela
hora da tarde. De cada lado de Syme as paredes da viela
estendiam-se lisas e indistintas; não havia janela nem qualquer
tipo de fresta. Sentiu novo impulso para fugir desse cortiço
de casas e ganhar outra vez uma rua ampla e iluminada. Mas
teve de vaguear e dar muitas voltas por longo tempo antes de
acertar com a artéria principal. E quando a encontrou, viu que
tinha saído muito mais longe do que imaginara. Achou-se na
deserta vastidão de Ludgate Circus e avistou a Catedral de
São Paulo assentada no céu.
No primeiro momento admirou-se de encontrar essas lar-
gas avenidas tão vazias como se a peste houvesse assolado a
cidade. Depois admitiu que certo vazio era natural; primeiro,
porque a nevasca era mesmo perigosamente violenta, e segundo,
porque era domingo. E ao pensar na palavra "domingo" mor-
deu o lábio; para êle tal palavra passou a ser desde então uma
coisa assim como um trocadilho obsceno. Debaixo do esbran-
quiçado nevoeiro suspenso no céu, toda a atmosfera da cidade
adquirira um fantástico matiz esverdeado como de homens sob
o mar. O soturno crepúsculo escondido por trás da cúpula de
São Paulo tinha cores esfumaçadas e sinistras — verde mór-
bido, vermelho agonizante e bronze evanescente — bastante
vivas, porém, para salientar a sólida alvura da neve. Acima
destas cores funestas elevava-se o vulto negro da catedral, de
cujo cimo pendia enorme placa de neve, como de um pico
alpino. Caíra ali por acaso, de modo a quase revestir a cúpula
de alto a baixo e destacar em prata pura o orbe majestoso e
a cruz. Diante deste espetáculo Syme empertigou-se e com a
bengala de estoque fêz involuntária continência.
Sabia que aquela figura maligna o rastreava, ora veloz
ora lenta, como se fosse sua sombra, mas não se preocupou.
Parecia um símbolo da fé e da intrepidez do homem que este
ponto eminente da terra estivesse iluminado enquanto os céus
se escureciam. Os demônios podiam ter capturado o céu, mas
não tinham ainda capturado a cruz. Teve vontade de arran-
car o segredo desse perseguidor dançante, saltão e paralítico;
e à entrada do pátio que leva a Ludgate Circus, voltou-se, de
bengala em punho, para enfrentar o inimigo.
74 G. K. CHESTERTON

O Professor de Worms dobrava ronceiramente a esquina


da ruazinha irregular. Seu porte inverossímil, entrevisto sob
uma solitária lâmpada de gás, lembrava obrigatoriamente um
fabuloso tipo das canções de ninar: "o homem torto que an-
dou uma milha torta". Realmente era como se êle tivesse sido
retorcido pelas ruas tortuosas que tinha palmilhado. Vinha-se
aproximando pouco a pouco, com a luz da lâmpada a refle-
tir-se nos óculos e no rosto resignado. Syme esperava-o como
São Jorge esperou o dragão, como um homem espera uma ex-
plicação final ou a morte. E o velho Professor veio em sua
direção, mas passou como um verdadeiro desconhecido, sem
um pestanejo de suas funéreas pálpebras.
Houve algo nesta silenciosa e inesperada inocência que
deixou Syme numa fúria mortal. A cara descolorida e a ati-
tude do homem pareciam assegurar que toda a perseguição
tinha sido mera casualidade. Syme foi galvanizado por uma
energia que se situava entre o azedume e uma explosão de
zombaria infantil. Com gesto estouvado, fêz que ia derrubar
o chapéu do velho e, gritando algo como "Manja!", pôs-se a
correr pelo branco e amplo Ludgate Circus. Agora era im-
possível esconder-se; olhando por cima do ombro divisou a
negra figura do provecto cavalheiro a segui-lo com grandes e
gigantescas pernadas, como quem ganha uma corrida de uma
milha. Mas a cabeça encaixada naquele corpo bambo conti-
nuava pálida, grave e profissional, como uma cabeça de pre-
gador num corpo de arlequim.
Esta irrisória caçada desenrolou-se através de Ludgate
Circus e Ludgate Hill, em torno da Catedral de São Paulo e
ao longo de Cheapside, enquanto Syme relembrava todos os
pesadelos de sua vida. Por fim Syme enveredou para os lados
do rio e foi parar perto das docas. Ao ver as vidraças ama-
relas de uma taberna iluminada, lançou-se para dentro dela e
pediu cerveja. Era uma tasca imunda, povoada de marujos es-
trangeiros, onde se podia fumar ópio e puxar facas.
Segundos depois, o Professor de Worms entrou no recinto.
Sentou-se cuidadosamente e pediu um copo de leite.
CAPITULO VIII

O PROFESSOR EXPLICA

Quando Gabriel Syme se achou definitivamente acomoda-


do numa cadeira e teve em sua frente também definitivamente
acomodadas as sobrancelhas erguidas e as pálpebras pesadas
do Professor, voltaram-lhe todos os temores. Não havia dúvida
de que esse sujeito incompreensível o tinha seguido desde a
reunião do arrogante Conselho. Se êle possuía um caráter como
paralítico e outro como perseguidor, o contraste podia tor-
ná-lo mais sedutor mas não o tornava mais inofensivo. Syme
percebeu que teria irrisória compensação caso não alcançasse
desmascarar o Professor e fosse por êle desmascarado. Esva-
ziou um canecão de cerveja antes que o Professor tocasse no
copo de leite.
Entretanto, uma simples conjetura dava ao seu desamparo
um toque de esperança. Era bem possível que essa correria
não significasse necessariamente que êle estava sob suspeita.
Talvez se tratasse de uma formalidade regulamentar. Talvez
essa corrida desordenada não passasse de um sinal amistoso que
êle devia ter subentendido. Talvez fosse um ritual. Talvez cada
novo Quinta-feira tivesse de ser caçado ao longo de Cheapside
do mesmo modo que é de praxe ir por ali escoltado cada novo
Prefeito. Estava elaborando um ligeiro questionário quando
foi interrompido pelo Professor. Antes que Syme pudesse fazer
a primeira de suas diplomáticas perguntas, o velho anarquista
já se tinha dirigido a êle à queima-roupa:
— É detetive?
Por mais prevenido que estivesse, Syme jamais podia ter-
se prevenido contra uma coisa tão real e contundente como
esta. Sua grande presença de espírito apenas lhe permitiu res-
ponder com um ar de embaraçada jovialidade.
76 G. K. CHESTERTON

— Detetive? Eu? disse rindo vagamente. O que o levou


a pensar que sou detetive?
— Nada de especial, respondeu calmamente o Professor.
Só que achei você parecido com um polícia. E ainda continuo
achando.
— Terei, por engano, trazido de lá do restaurante algum
casquete policial? perguntou Syme, sorrindo frouxamente. Tra-
go por acaso um número? Terão minhas botas aquele terrível
aspecto investigante? Por que você me toma por um polícia?
Tenha paciência, deixe-me ser um carteiro.
O velho Professor meneou a cabeça com severa gravidade,
mas Syme prosseguiu na sua febricitante ironia.
— Talvez me tenham escapado as sutilezas de sua filo-
sofia germânica. Talvez polícia seja um termo relativo. Num
sentido evolucionista, a transformação do macaco em polícia
é tão lenta que é possível não tenha eu captado as cambiantes.
O macaco é apenas o polícia que podia ser. Talvez uma sol-
teirona de Clapham Common seja somente o polícia que podia
ter sido. Não me importo de ser o polícia que podia ter sido.
Não me importo de ser qualquer coisa no pensamento alemão.
— Trabalha na polícia? perguntou o ancião, ignorando
todo o improvisado e desesperado motejo de Syme. É detetive?
O coração de Syme petrificou-se, mas o rosto não se al-
terou.
— Sua insinuação é ridícula, começou. Porque cargas
d'água...
O velho quase quebrou a raquítica mesa com um violento
murro de sua mão paralítica.
— Minha pergunta foi clara. Não a entendeu, espião mi-
serável? guinchou um tanto tresloucado. Você é ou não é
detetive?
— Não! respondeu Syme, como alguém que está à mer-
cê do carrasco.
— Jura? disse o velho, espichando sua cara morta que
parecia asquerosamente viva. Jura? Jura? Sabe que se jurar
em falso será condenado? Sabe que o diabo dançará em seus
funerais? E que o pesadelo vai se sentar em seu túmulo? Não
haverá realmente nenhum equívoco? É, então, um anarquista,
um dinamiteiro? Não é detetive? De modo algum? Não faz
parte da polícia britânica?
Esticou o cotovelo sobre a mesa e levou a mão grande
e frouxa até à orelha.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 77

— Não faço parte da polícia britânica, retrucou Syme


com calma insana.
O Professor de Worms recostou-se em sua cadeira com
uma curiosa expressão de brando desespero.
— É pena, disse êle, porque eu faço.
Syme pôs-se em pé de um salto, empurrando para trás,
com estrondo, o banco em que estava sentado.
— Faz parte de quê? perguntou dificultosamente. Você
é o quê?
— Sou um polícia, respondeu o Professor com seu pri-
meiro riso franco e os olhos brilhando através dos óculos. Mas
como você acha que polícia é um termo puramente relativo,
nada tenho a ver com você. Sou da força policial britânica;
e desde que você afirma que não é da força policial britânica
resta-me apenas dizer que o encontrei num clube de dinamitei-
ros e que nada me cabe fazer senão prendê-lo. E com estas
palavras deixou cair na mesa um perfeito fac-simile do cartão
azul que Syme guardava no bolso do colete, símbolo de seu
poder policial.
Por um segundo, Syme teve a sensação de que o cosmos
se tinha transformado, de que todas as árvores cresciam para
baixo e todas as estrelas se estendiam sob seus pés. Mas, pou-
co a pouco, formou-se nele a convicção oposta. A verdade
é que nas últimas vinte e quatro horas o cosmos estivera real-
mente pelo avesso e só agora é que o subvertido universo vol-
tava ao normal. Esse demônio de quem êle tinha estado a
fugir durante todo o dia não era mais que um irmão mais velho
que agora, do outro lado da mesa, ria zombeteiramente. Não
procurou inteirar-se logo dos pormenores; bastava-lhe saborear
o fato simples e auspicioso de ser esta sombra, que o perse-
guira com a intolerável opressão do perigo, apenas a sombra
de um amigo esforçando-se por alcançá-lo. Compreendeu —
pois que qualquer vitória sobre a morbidez vem sempre acom-
panhada de saudável humildade — que era ao mesmo tempo
um idiota e um homem livre. Em tais condições chega-se a
um ponto em que somente três coisas são possíveis: em pri-
meiro lugar, uma perpetração de orgulho satânico; em segundo,
as lágrimas, e finalmente o riso. O egoísmo de Syme apegou-se
à primeira por alguns segundos, mas logo adotou a terceira.
Retirando do bolso do colete seu próprio cartão azul, atirou-o
na mesa e, sacudindo a cabeça para trás, até que sua barbicha
78 G. K. C H E S T E R T O N

amarela quase apontava para o teto, rebentou numa selvagem


gargalhada.
Mesmo naquele antro abafado, continuamente cheio do
barulho de facas, pratos, latas de conserva, berros, lutas e cor-
rerias súbitas, o júbilo algo homerico de Syme despertou, a
atenção de muitos sujeitos semibêbedos.
— De que é que está rindo tanto, excelência? perguntou
admirado um trabalhador das docas.
— De mim mesmo, respondeu Syme, e recaiu na agonia
de sua frenética reação.
— Componha-se, ordenou o Professor. Do contrário,
ficará histérico. Tome mais cerveja. Beberei com você.
— Ainda não bebeu seu leite, disse Syme.
— Meu leite! escarneceu o outro, num tom de cru e in-
sondável desprezo. Meu leite! Você pensa que eu ligo para
essa droga infame quando estou fora do alcance dos sanguiná-
rios anarquistas? Somos todos cristãos nesta sala, e, lançando
um olhar para a turba de ébrios, acrescentou: embora não
muito perfeitos. Tenho então que acabar meu leite? Com todos
os diabos! Já lhe darei o fim merecido! E arremessou da mesa
o copo, que produziu ao cair um ruído de vidro quebrado e
uma poça de líquido prateado.
Syme fitava-o com encantada curiosidade.
— Agora compreendo, bradou. Naturalmente você não é
um velho.
— Não posso arrancar minha cara aqui mesmo, retorquiu
o Professor de Worms, porque ela é, sem dúvida, uma carac-
terização especial. Quanto a saber se sou um velho, não me cabe
dizer. Completei trinta e oito anos em meu último aniversário.
— Sim, está certo, disse Syme impacientemente, mas o
que quero dizer é que você não padece de nenhum incômodo.
— Sim, disse o outro calmamente, sou sujeito a res-
friados.
O riso de Syme teve nesse ponto uma queda de alívio.
Riu à idéia de ser o paralítico Professor um jovem ator carac-
terizado para a ribalta. Mas sentiu que teria rido do mesmo
modo se o pimenteiro tivesse emborcado sobre a mesa.
O falso Professor bebeu a cerveja e limpou a falsa barba.
— Sabia, inquiriu, que aquele Gogol era um dos nossos?
— Não. Nem suspeitava, respondeu Syme surpreendido.
E você, não sabia?
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 79

— Como é que podia saber? replicou o homem que se


chamava de Worms. Pensei que o Presidente estava falando
comigo e logo me deu uma bruta tremedeira.
— E eu pensei que era comigo, disse Syme, continuando
a rir descuidadamente. Passei todo o tempo com a mão no
revólver.
— Eu também, disse o Professor ainda assustado. E
Gogol também, evidentemente.
Syme deu uma palmada na mesa e soltou uma exclamação.
— Mas éramos três! E três é um número razoável para
dar combate a quatro. Ah, se soubéssemos que éramos três!
O rosto do Professor de Worms entristeceu e êle baixou
a vista.
— Éramos três, repetiu êle. Mas, trezentos que fôssemos
nada poderíamos ter feito.
— Nem se fôssemos trezentos contra quatro? perguntou
Syme, troçando um pouco arrebatadamente.
— Nem assim, disse com serenidade o Professor. Nem se
fôssemos trezentos contra Domingo.
A simples menção deste nome pôs Syme frio e sério. O
riso morreu em seu coração antes de morrer em seus lábios.
A cara do inesquecível Presidente apareceu-lhe tão nítida como
uma fotografia colorida, e nesse instante Syme se deu conta
da diferença que havia entre Domingo e todos os seus saté-
lites. Enquanto as carantonhas destes últimos, por mais fero-
zes ou sinistras que fossem, aos poucos desbotavam-se na me-
mória como outras tantas fisionomias humanas, a de Domingo
parecia tornar-se mais real com a ausência, como se o retrato
de um homem se transformasse com o passar do tempo num
ser vivo.
Ao cabo de alguns momentos de silêncio, Syme pôs-se
a falar com ímpeto igual ao da primeira espumarada de cham-
panha.
— Professor, isso é intolerável! Você tem medo desse
homem?
O Professor ergueu as pesadas pálpebras e fixou em Syme
os olhos grandes, azuis, bem abertos, de uma honestidade quase
etérea.
— Tenho, sim, disse mansamente. E você também tem.
Syme emudeceu. Depois, ergueu-se, empertigando-se como
um homem insultado, e afastou de si a cadeira.
80 G. K. CHESTERTON

— Sim, tem razão, disse com voz indescritível. Eu tenho


medo dele. E por isso mesmo juro por Deus que procurarei
até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo. Se o
céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo, juro que haveria
de liquidá-lo.
— Como? inquiriu o espantado Professor. E por quê?
— Porque tenho medo dele, disse Syme. Ninguém deve
deixar no universo uma coisa de que tenha medo.
De Worms pestanejou estupefato. Esforçou-se para falar,
mas Syme continuou numa voz baixa, tocada de indizível
exaltação:
— Quem haveria de contentar-se com destruir as peque-
ninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebai-
xar-se ao humilde papel de valentão, como qualquer lutador
de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo, como
uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. Lembra-se da
velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos
ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em
seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro, mas vou lhe
dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir
para cima". O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer
ferir as estrelas.
O outro olhava para o teto, num dos sestros de seu disfarce.
— Domingo é uma estrela fixa, disse êle.
— Logo verá nele uma estrela cadente, redargüiu Syme
e pôs o chapéu na cabeça.
O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconsciente-
mente levantar-se.
— Sabe por acaso para onde vai? perguntou, com uma
espécie de benévola desorientação.
— Sei, replicou Syme lacônico. Vou impedir que lancem
a bomba em Paris.
— Já sabe como deve agir?
— Não, disse Syme sem se perturbar.
— Você se lembra, naturalmente, recomeçou o soi-disant
de Worms, cocando a barba e olhando pela janela, de que
quando suspendemos apressadamente a sessão todos os prepa-
rativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao
Dr. Buli. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzan-
do o Canal. Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para
onde êle irá e o que fará. O único que está a par de tudo é
o Dr. Buli.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81

— Diabos o levem! praguejou Syme. E não sabemos onde


êle se encontra.
— Sim, disse o outro, com seu curioso alheamento. Eu
sei onde êle está.
— Poderá dizer-me? perguntou Syme, com os olhos
acesos.
— Vou levá-lo lá, disse o Professor, e tirou o chapéu do
cabide.
Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática ex-
citação.
— Que quer dizer? perguntou desabridamente. Vai comi-
go? Correrá esse risco?
— Jovem, disse o Professor alegremente, divirto-me a
observar que você me toma por um covarde. Sobre isso lhe
digo só uma palavra, e essa mesma em absoluta conformidade
com a sua retórica filosófica. Você pensa que é possível der-
rotar o Presidente. Eu sei que é impossível, mas vou tentar,
e abrindo a porta da taberna, que foi invadida por uma rajada
de ar frio, saíram juntos para as ruas escuras das docas.
Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama
pisada, mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro
grumo mais cinzento que branco. As ruazinhas estavam enla-
meadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas,
irregularmente e ao acaso, como fragmentos de um mundo es-
migalhado. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao
atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras; mas
seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um
ponto no fim da rua, onde uma ou duas polegadas do rio ilu-
minado davam a idéia de uma barra de fogo.
— Para onde vai? perguntou Syme.
— Vou até à esquina, ver se o Dr. Buli já foi para a
cama, respondeu o Professor. É higiênico e deita-se cedo.
— Dr. Buli! exclamou Syme. Êle mora na esquina?
— Não, respondeu o amigo. Na realidade, êle mora um
pouco longe daqui, na outra margem do rio, mas desse ponto
podemos saber se êle já foi para a cama.
Contornando a esquina enquanto falava e contemplando
o rio escuro salpicado de chamas, apontou com a bengala para
a outra margem. No lado fronteiro, em Surrey, sobranceiro ao
Tâmisa, aparecia um maciço agrupamento de enormes edifícios
pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés de
fábrica a uma altitude quase alucinada. Um desses blocos, por
80 G. K. C H E S T E R T O N

— Sim, tem razão, disse com voz indescritível. Eu tenho


medo dele. E por isso mesmo juro por Deus que procurarei
até achar esse homem a quem temo e hei de matá-lo. Se o
céu fosse seu trono e a terra seu escabêlo, juro que haveria
de liquidá-lo.
— Como? inquiriu o espantado Professor. E por quê?
— Porque tenho medo dele, disse Syme. Ninguém deve
deixar no universo uma coisa de que tenha medo.
De Worms pestanejou estupefato. Esforçou-se para falar,
mas Syme continuou numa voz baixa, tocada de indizível
exaltação:
— Quem haveria de contentar-se com destruir as peque-
ninas coisas que não o atemorizam? Quem haveria de rebai-
xar-se ao humilde papel de valentão, como qualquer lutador
de feira? Quem ousaria declarar-se isento de medo, como
uma árvore? Combate-se aquilo que se teme. Lembra-se da
velha história do clérigo inglês que deu os últimos sacramentos
ao salteador siciliano? Lembra-se do que disse o salteador em
seu leito de morte? "Não lhe posso dar dinheiro, mas vou lhe
dar um conselho para toda a vida: polegar na lâmina e ferir
para cima". O mesmo lhe digo eu: ferir para cima se se quer
ferir as estrelas.
O outro olhava para o teto, num dos sestros de seu disfarce.
— Domingo é uma estrela fixa, disse êle.
— Logo verá nele uma estrela cadente, redargüiu Syme
e pôs o chapéu na cabeça.
O gesto resoluto de Syme fêz o Professor inconsciente-
mente levantar-se.
— Sabe por acaso para onde vai? perguntou, com uma
espécie de benévola desorientação.
— Sei, replicou Syme lacônico. Vou impedir que lancem
a bomba em Paris.
— Já sabe como deve agir?
— Não, disse Syme sem se perturbar.
— Você se lembra, naturalmente, recomeçou o soi-disant
de Worms, cocando a barba e olhando pela janela, de que
quando suspendemos apressadamente a sessão todos os prepa-
rativos para a chacina tinham sido confiados ao Marquês e ao
Dr. Buli. A esta hora é provável que o Marquês esteja cruzan-
do o Canal. Mas creio que nem mesmo o Presidente sabe para
onde êle irá e o que fará. O único que está a par de tudo é
o Dr. Buli.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 81

— Diabos o levem! praguejou Syme. E não sabemos onde


êle se encontra.
— Sim, disse o outro, com seu curioso alheamento. Eu
sei onde êle está.
— Poderá dizer-me? perguntou Syme, com os olhos
acesos.
— Vou levá-lo lá, disse o Professor, e tirou o chapéu do
cabide.
Syme ficou a olhá-lo com uma espécie de estática ex-
citação.
— Que quer dizer? perguntou desabridamente. Vai comi-
go? Correrá esse risco?
— Jovem, disse o Professor alegremente, divirto-me a
observar que você me toma por um covarde. Sobre isso lhe
digo só uma palavra, e essa mesma em absoluta conformidade
com a sua retórica filosófica. Você pensa que é possível der-
rotar o Presidente. Eu sei que é impossível, mas vou tentar,
e abrindo a porta da taberna, que foi invadida por uma rajada
de ar frio, saíram juntos para as ruas escuras das docas.
Quase toda a neve se derretera ou se convertera em lama
pisada, mas aqui e ali cintilava na obscuridade um ou outro
grumo mais cinzento que branco. As ruazinhas estavam enla-
meadas e cheias de poças que refletiam as lâmpadas acesas,
irregularmente e ao acaso, como fragmentos de um mundo es-
migalhado. Syme sentia-se quase completamente ofuscado ao
atravessar esta progressiva confusão de luzes e sombras; mas
seu companheiro caminhava com regular desembaraço para um
ponto no fim da rua, onde uma ou duas polegadas do rio ilu-
minado davam a idéia de uma barra de fogo.
— Para onde vai? perguntou Syme.
— Vou até à esquina, ver se o Dr. Buli já foi para a
cama, respondeu o Professor. É higiênico e deita-se cedo.
— Dr. Buli! exclamou Syme. Êle mora na esquina?
— Não, respondeu o amigo. Na realidade, êle mora um
pouco longe daqui, na outra margem do rio, mas desse ponto
podemos saber se êle já foi para a cama.
Contornando a esquina enquanto falava e contemplando
o rio escuro salpicado de chamas, apontou com a bengala para
a outra margem. No lado fronteiro, em Surrey, sobranceiro ao
Tâmisa, aparecia um maciço agrupamento de enormes edifício»
pontilhados de janelas iluminadas e elevados como chaminés ds
fábrica a uma altitude quase alucinada. Um desses blocos, por
82 G. K. CHESTERTON

suas especiais condições, assemelhava-se a uma Torre de Babel


com cem olhos. Syme, que nunca vira nenhum dos arranha-
céus da América, não pode senão pensar que estava sonhando.
Enquanto se embevecia nessa contemplação, a mais alta
luz daquela torre de luzes incontáveis repentinamente se extin-
guiu, como se o negro Argos tivesse piscado para êle com um
dos seus incontáveis olhos.
O Professor de Worms girou sobre os calcanhares e bateu
com a bengala numa das botas.
— Chegamos muito tarde, disse êle. O higiênico doutor
já foi para a cama.
— Como? Quer dizer, então, que êle mora lá em cima?
— Sim, confirmou de Worms. Exatamente detrás daquela
janela que você já não pode ver. Voltemos e vamos jantar.
Amanhã bem cedinho viremos fazer uma visita a êle.
Sem mais conversa, tomou a dianteira, seguindo por vá-
rios atalhos, até que ambos desembocaram em pleno fulgor e
bulício de East índia Dock Road. O Professor, que dava mos-
tras de conhecer toda a circunvizinhança, dirigiu-se para um
local onde a longa fileira de lojas iluminadas era abruptamente
interceptada por uma quieta escuridão. Havia ali, recuado uns
vinte passos da avenida, um velho e mísero albergue pintado
de branco.
— A gente sempre pode encontrar boas estalagens in-
glesas; elas estão em toda parte, como fósseis, explicou o Pro-
fessor. Outro dia dei com uma excelente no West End.
— Suponho, disse Syme sorrindo, que esta é a corres-
pondente dela aqui no East End. Não é mesmo?
— É, sim, anuiu reverente o Professor e entrou.
No albergue jantaram e passaram a noite, dormindo pro-
fundamente. O feijão com toucinho que essa gente extraor-
dinária tão bem cozinhava e a surpreendente aparição do Bor-
gonha, saído de suas adegas, foram para Syme o coroamento
da camaradagem e do bem-estar. Em todas as provações des-
ses últimos dias apenas a solidão o horrorizara, e não há pala-
vras que exprimam o abismo entre a solidão e a companhia
de um aliado. Podemos concordar com os matemáticos em
que quatro é igual a duas vezes dois. Mas dois não- é igual a
duas vezes um; dois é igual a duas mil vezes um. Por isso é
que, a despeito de uma centena de inconvenientes, o mundo
escolherá sempre a monogamia.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 83

Pela primeira vez Syme sentiu disposição para desabafar


toda a sua opressiva história, iniciada no momento em que
Gregory o levou à pequena taberna ribeirinha. E fê-lo exaus-
tivamente, num monólogo exuberante, como quem conversa
com velhos amigos. Por seu turno, o homem que personificava
o Professor de Worms não estava menos expansivo. A história
dele era quase tão inacreditável como a de Syme.
— A sua caracterização é formidável, disse Syme esva-
ziando um copo de Mâncon. Muito mais perfeita que a do
velho Gogol. Desde o momento em que o vi, êle me pareceu
excessivamente cabeludo.
— É uma questão de teoria artística, ponderou o Profes-
sor pensativamente. Gogol era um idealista. Queria represen-
tar o anarquista segundo o ideal abstrato ou platônico. Eu sou
um realista, um retratista. Aliás, retratista é uma expressão
inadequada. Sou um retrato.
— Não estou entendendo, disse Syme.
— Sou um retrato, repetiu o Professor. Um retrato do
célebre Professor de Worms, que vive, creio eu, em Nápoles.
— Quer dizer então que você é uma cópia desse homem,
sugeriu Syme. Mas não sabe êle que você o está arremedando?
— Sabe demais, replicou alegremente o outro.
— E êle, por que não o denuncia?
— Porque eu já o denunciei, respondeu o Professor.
— Explique-se, por favor, pediu Syme.
— Com muito prazer, se não lhe enfada ouvir minha
história, retrucou o eminente filósofo estrangeiro. Sou ator
profissional e me chamo Wilks. Quando trabalhava no palco
costumava farrear com todas as categorias de boêmios e pati-
fes. Estava em todas as partes. Freqüentava a malandragem
dos hipódromos e o rebotalho das artes, e uma vez ou outra
ia ter com os exilados políticos. Foi num desses antros de so-
nhadores refugiados que conheci o grande filósofo niilista ale-
mão Professor de Worms. O que me interessou nele foi a apa-
rência, que era odiosíssima. Logo passei a estudá-la cuidado-
samente. Depois, vim a compreender que êle havia provado
que Deus era o princípio destruidor do universo, por isso insis-
tia tanto na necessidade de uma energia furiosa e incessante
que despedaçasse todas as coisas. Dizia êle que a Energia era
o Todo. Era coxo, míope e parcialmente paralítico. Quando
o conheci estava num dos meus momentos de irreverência, e
tanto êle me desagradou que resolvi imitá-lo. Se eu fosse dese-
84 G. K. C H E S T E R T O N

nhista teria feito uma caricatura. Como eu era apenas um ator,


podia apenas fazer o papel de uma caricatura. E me transfor-
mei no que se poderia denominar um extravagante exagero da
velha e enxovalhada personalidade do velho Professor. Ao en-
trar na sala onde se reuniam seus correligionários, esperava ser
recebido com estrondosas gargalhadas ou, quando muito, com
estrondosos protestos contra o insulto. Não posso descrever
a surpresa que senti quando minha entrada foi acolhida com
respeitoso silêncio, seguido, logo que comecei a falar, de mur-
múrios de admiração. A maldição do artista perfeito tinha
caído sobre minha cabeça. Eu fora sutil demais, verídico de-
mais. Eles julgavam que eu era realmente o grande professor
niilista. Naquele tempo eu era um rapazola ingênuo e confesso
que o fato me abalou profundamente. Mas antes que pudesse
recobrar-me, dois ou três desses admiradores, irradiando indig-
nação, vieram correndo comunicar-me que um insulto público
me tinha sido dirigido na sala contígua. Inquiri deles a natu-
reza do insulto. Parecia que um camarada impertinente se apre-
sentara feito uma despropositada paródia de mim mesmo. Eu
tinha bebido mais champanha do que me era aconselhável, e
num acesso de loucura decidi enfrentar a situação. Desconfio
de que não foi senão para ver de perto os olhares furiosos da
turba, as minhas sobrancelhas erguidas e os meus olhos gela-
dos que o Professor entrou na sala. Não é preciso dizer que
houve uma colisão. Todos os pessimistas que me rodeavam
olhavam ansiosamente de um Professor a outro Professor para
ver qual dos dois era efetivamente o mais débil. E eu venci.
Não se podia esperar que um velho, pobre de saúde como
o meu rival, fosse tão impressionantemente débil como um jo-
vem ator em pleno vigor da mocidade. Veja você: êle era
na verdade um paralítico e, operando dentro desta definida
limitação, não podia ser tão jocosamente paralítico como eu.
Por isso tentou derrotar minha prosápia intelectualmente. Li-
vrei-me com alguma astúcia. Cada vez que êle dizia alguma
coisa que ninguém senão êle mesmo era capaz de entender, eu
replicava com outra coisa que nem eu mesmo era capaz de
entender. "Não me parece", disse êle, "que você possa ter
chegado ao princípio de que a evolução é somente negação,
desde que isso implica na introdução de lacunas que formam
constitutivos de diferenciação". Respondi com o maior des-
dém: "Você leu tudo isso em Pinckwerts; a noção de que a
involução funcionava eugênicamente foi exposta há muito tem-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 85

po por Glumpe". É ocioso dizer que nunca existiram tais pes-


soas como Pinckwerts e Glumpe. Mas os que nos rodeavam,
para minha surpresa, davam sinais de conhecê-los perfeitamen-
te. Vendo o Professor que o método erudito e misterioso dei-
xava-o à mercê de um inimigo ligeiramente deficiente em es-
crúpulos, recorreu a um nível mais popular de argumentação.
"Noto", disse êle escarninho, "que você se distingue como o
falso porco de Esopo". "E você se obscurece", redargüi sor-
ridente, "como o porco-espinho de Montaigne". É preciso dizer
que não há porco-espinho em Montaigne? "Seus estratagemas
estão por terra", disse êle, "e o mesmo vai acontecer com sua
barba". Não tive resposta inteligente para essas palavras, que
eram inteiramente verdadeiras e um pouco mordazes. Mas ri
com satisfação e respondi ao acaso: "Como as botas do pan-
teísta". E sem demora dei meia volta com todas as honras
da vitória. O verdadeiro Professor foi levado para fora, mas
sem violência, ainda que um dos homens tenha tentado muito
pacientemente arrancar-lhe o nariz. Creio que agora êle é re-
cebido em toda a Europa como um delicioso impostor. Como
você pode imaginar, todas as suas manifestações de gravidade e
cólera fazem-no mais divertido ainda.
— Bem, disse Syme, posso compreender que você tenha
posto essas barbas sujas e velhas para o gracejo de uma noite,
mas não entendo porque você não se desfez delas depois disso.
— Eis o resto da história, disse o ator. Quando deixei
o conventículo, debaixo de reverentes aplausos, saí manque-
jando pela rua escura, esperando afastar-me em breve o sufi-
ciente para poder caminhar como um ser humano. Entretanto,
assim que dobrei a esquina fui surpreendido por um toque no
ombro e, ao voltar-me, achei-me à sombra de um enorme
guarda, que me disse que eu estava sendo procurado. Assumi
uma atitude paralítica e bradei com forte sotaque alemão: "Sim,
sou procurado... pelos oprimidos do mundo inteiro. Você
está me prendendo sob a acusação de ser eu o grande anar-
quista Professor de Worms". O guarda impassivelmente con-
sultou um papel que trazia consigo. "Não senhor", disse com
polidez, "não é por isso; ao menos, não é exatamente por isso.
Eu o prendo sob a acusação de não ser o célebre anarquista
Professor de Worms". Tal acusação, se se pode chamar isso
de acusação criminal, era indubitavelmente a mais suave das
duas. E me deixei levar, desconfiado mas não grandemente cons-
ternado. Atravessei certo número de salas e cheguei finalmente
86 G. K. CHESTERTON

à presença de um oficial. Este explicou-me que uma severa


campanha estava sendo iniciada contra os centros anarquistas
e que a minha bem sucedida representação podia ser de con-
siderável utilidade para a segurança pública. Ofereceu-me bom
salário e me deu este cartãozinho azul. Embora nossa con-
versa tenha sido breve, êle me deixou a impressão de ser um
homem de sensatez e humor sólidos; mas não posso dizer muita
coisa sobre a pessoa dele, porque...
Syme abandonou no prato a faca e o garfo.
— Já sei, disse. Porque você falou com êle num quarto
escuro.
O Professor fêz que sim com a cabeça e esgotou seu
copo.
CAPITULO IX

O HOMEM DOS ÓCULOS

— O Borgonha é maravilhoso, disse pensativamente o


Professor, enquanto punha o copo na mesa.
— Não parece que você o aprecia tanto assim, observou
Syme. Toma-o como se fosse remédio.
— Não repare nos meus hábitos, disse o Professor melan-
còlicamente. Minha situação é um tanto curiosa. Por dentro
estou rebentando de alegria infantil, mas de tal modo me inte-
grei no papel do paralítico Professor que já não posso largá-lo.
Mesmo quando estou entre amigos e não tenho nenhuma ne-
cessidade de disfarçar-me, não posso deixar de falar baixo e
franzir a testa. .. como se fosse realmente minha testa. Posso
sentir-me inteiramente feliz, mas só de m o d o . . . paralítico,
compreende? As mais vibrantes exclamações pulsam em meu
coração, mas de minha boca elas saem irreconhecíveis. Você
deveria ouvir-me dizer: "Anima-te, rapaz!" Isso traria lágri-
mas a seus olhos.
— Não há dúvida, disse Syme, mas creio que, fora de
tudo isso, você está um bocado inquieto.
O Professor teve um leve sobressalto e encarou Syme fir-
memente.
— Sujeito muito arguto, você, disse êle. É um prazer
trabalhar com você. Sim, é verdade, tenho uma nuvem pesada
em minha cabeça. Há um grande problema a enfrentar, e en-
terrou a testa nua nas mãos.
Depois perguntou em voz baixa:
— Sabe tocar piano?
— Sei, sim, disse Syme surpreendido. Dizem que não
toco muito mal.
Como o outro não falasse, ajuntou:
88 G. K. CHESTERTON

— Espero que a pesada nuvem se tenha dissipado.


Após um demorado silêncio, o Professor falou de dentro
da sombria caverna de suas mãos:
— Teria servido da mesma forma se você soubesse da-
tilografia.
— Muito obrigado, disse Syme. É bondade sua.
— Escute aqui, continuou o outro. Lembre-se do homem
que temos de ir ver amanhã. O negócio que você e eu vamos
tentar amanhã é muito mais perigoso do que roubar da Torre
as Jóias da Coroa. Vamos tentar arrancar um segredo a um
sujeito muito sagaz, muito forte e extremamente cruel. Acre-
dito que nenhum deles, exceto naturalmente o Presidente, seja
tão medonho e pavoroso como esse fulano dos óculos e dos
dentes arreganhados. Talvez não tenha o pungente entusiasmo
pela morte, pelo martírio, que distingue o Secretário. Aliás,
o próprio fatalismo do Secretário revela um patos humano e
é quase um toque de redenção. Mas o doutorzinho, não. Des-
fruta um bom senso compacto, mais repelente que a loucura do
Secretário. Não notou ainda a sua virilidade, a sua vitalidade
detestável? Êle anda aos saltos como uma bola de borracha.
Fique certo de que Domingo não estava dormindo (eu me per-
gunto se êle já dormiu alguma vez) quando fechou todos os
planos do atentado na cabeça redonda e negra do Dr. Buli.
— E você pensa, disse Syme, que esse monstro sem par
vai ficar bem mansinho quando eu tocar piano para êle?
— Não me venha com asneiras, respondeu-lhe o mentor.
Mencionei o piano porque êle nos proporciona dedos ágeis e
independentes. Syme, se temos de levar a cabo essa entrevista
e sair dela sãos e salvos, precisamos combinar entre nós um
código de sinais que não possa ser descoberto por essa alimária.
Elaborei um tosco alfabeto cifrado, correspondente aos cinco
dedos. É assim, veja (e começou a tamborilar os dedos sobre
a mesa de madeira): M A U , mau, uma palavra que podere-
mos utilizar com freqüência.
Syme bebeu outro copo de vinho e começou a estudar o
método. Possuindo miolo e mãos anormalmente hábeis em que-
bra-cabeças e prestidigitações, não demorou a enviar breves
mensagens sob a forma de tapinhas descuidados na mesa ou
no joelho. E como o vinho e a companhia sempre tivessem o
efeito de aguçar-lhe a comicidade, dentro em pouco viu-se o
Professor a braços com a desadorada energia do novo idioma,
incandescido agora pelo cérebro ardente de Syme.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 89

— Precisamos contar com diversos sinais para palavras,


disse Syme com seriedade, palavras que provavelmente serão
muito úteis, palavras carregadas de matizes. Minha palavra fa-
vorita é "coevo". Qual é a sua?
— Pare de bancar o engraçado, queixou-se o Professor.
Não imagina como isto é sério.
— "Viçoso", também, continuou Syme, movendo a cabe-
ça sagazmente. Precisamos da palavra "viçoso", que se aplica
ao capim, como você sabe.
— Acha então, bradou furiosamente o Professor, que va-
mos falar de capim ao Dr. Buli?
— Há muitas maneiras de tocar no assunto e introduzir
a palavra com naturalidade, considerou Syme. Podemos dizer-
lhe: "Dr. Buli, como revolucionário você não ignora que um
tirano já nos aconselhou a comer capim: e, em verdade, muitos
de nós, contemplando o suculento e viçoso capim primaveril..."
— Não compreende que isto é uma tragédia? inquiriu o
outro.
— Perfeitamente, redargüiu Syme. Nunca se esqueça de
ser cômico numa tragédia. Que diabo é que se pode fazer?
Meu desejo é que essa sua linguagem tenha um mais amplo
objetivo. Não poderíamos, talvez, estendê-la dos dedos das
mãos para os dos pés? Isso, sem dúvida, nos obrigaria a
descalçar os sapatos e as meias, o que, entretanto, realizado
com discrição.. .
— Syme, vá dormir! ordenou-lhe o amigo com áspera
simplicidade.
Syme, entretanto, sentou-se na cama e passou algum tempo
estudando o novo código. Acordou na manhã seguinte, quando
o nascente estava ainda abismado na escuridão, e avistou as
barbas grisalhas de seu aliado, que, de pé à beira da cama,
parecia um fantasma.
Sentou-se pestanejando; voltou a si lentamente, atirou fora
os cobertores e pôs-se de pé. Pareceu-lhe que toda a segurança
e toda a sociabilidade da noite anterior haviam-se apartado dele
com as roupas da cama, e que estava exposto a um perigo
iminente. Ainda depositava inteira confiança em seu compa-
nheiro, mas era a confiança que existe entre dois homens que
marcham para a forca.
— Viva! exclamou Syme, afetando alegria, enquanto ves-
tia as calças. Sonhei com seu alfabeto. Você levou muito tem-
po para criá-lo?
90 G. K. CHESTERTON

O Professor não deu resposta. Fitava-o absorto, com


olhos da côr de um mar invernoso. Syme repetiu a pergunta.
— Estou lhe perguntando se levou muito tempo para
inventar tudo isso. Eu que me julgava bamba nessas coisas
passei uma boa hora estudando. Você dominou isso tudo de
uma só vez?
O Professor continuava silencioso, com os olhos bem aber-
tos e um sorriso fixo mas quase imperceptível.
— Quanto tempo?
O Professor não se moveu.
— Diabos o levem! Não pode responder? gritou Syme
numa raiva súbita, que ocultava um certo temor. Se podia ou
não responder, a verdade é que o Professor não o fêz.
Syme encarou o rosto rijo como pergaminho e os olhos
azuis e vazios. Seu primeiro pensamento foi que o Professor
tinha enlouquecido, mas o segundo foi mais terrível. No fim
de contas, o que sabia desta criatura singular que inconside-
radamente aceitara por amigo? O que -sabia deste homem, ex-
ceto que êle tinha partilhado do festim anarquista e que lhe tinha
contado uma história ridícula? Como era improvável existir
lá outro amigo além de Gogol! Seria o silêncio deste homem
uma maneira espetacular de declarar guerra? Seria, então, este
adamantino olhar o espantável escárneo de um tríplice traidor,
que se bandeava pela última vez? Aguçou os ouvidos no cruel
silêncio. Chegou a imaginar que ouvia lá fora, no corredor,
os passos abafados e solertes dos dinamiteiros vindo capturá-lo.
Mas, depois, ao baixar a vista, rebentou numa gargalhada.
Embora o Professor se mantivesse tão calado como uma está-
tua, seus cinco mudos dedos dançavam vividamente sobre a
mesa morta. Syme acompanhou os velozes movimentos da ver-
bosa mão e leu claramente a mensagem:
— Só falarei" deste jeito. Precisamos habituar-nos.
Tamborilou a resposta com impaciente desabafo:
— Ótimo. Vamos sair para tomar café.
Agarraram os chapéus e as bengalas em silêncio; mas ao
tocar na bengala de estoque Syme teve um sobressalto.
Demoraram-se alguns momentos no botequim, apenas pa-
ra beber café e comer reforçados sanduíches, e depois atra-
vessaram o rio, que sob o clarão cinzento do amanhecer parecia
tão desolado como o Aqueronte. Alcançaram a base do imenso
bloco de edifícios que tinham visto da outra margem, e em
silêncio começaram a subir os nus e inumeráveis degraus de
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 91

pedra, parando de vez em quando para trocar curtas mensa-


gens no corrimão da balaustrada. A cada novo lanço de esca-
da correspondia uma janela e cada janela revelava-lhes uma
pálida e trágica alvorada assomando morosamente sobre Lon-
dres. Vistos das janelas, os incontáveis telhados de ardósia as-
semelhavam-se aos plúmbeos vagalhões do mar cinzento e en-
capelado depois da chuva. Progressivamente, Syme ia-se con-
vencendo de que sua nova aventura tinha de certo modo um
cunho de calculada sensatez, muito mais intolerável do que
as insensatas aventuras já vividas. Na noite anterior, por exem-
plo, os enormes edifícios apareceram-lhe como uma torre num
sonho. E agora que subia esta enfadonha e interminável esca-
daria estava assustado e perplexo com a série quase infinita de
degraus. Mas isto não era o quente horror de um sonho, de
uma fantasia ou de uma alucinação. Tal infinidade era antes
o vazio infinito da aritmética, uma coisa impensável mas neces-
sária ao pensamento. Ou era como os estonteantes cálculos da
astronomia sobre a distância entre as estrelas fixas. Syme su-
punha estar subindo para a morada da razão, coisa mais odiosa
que o próprio absurdo.
Quando chegaram ao patamar do Dr. Buli, a última janela
descobriu-lhes uma aurora amarga, branca, entremeada de mon-
tículos da côr de um vermelho áspero, mais próprio do ver-
melho do barro do que do vermelho de nuvem. E ao entrarem,
o sòtãozinho pobre do Dr. Buli estava cheio de luz.
Em consonância com esses quartos vazios e com esse aus-
tero alvorecer, Syme foi invadido por umas recordações mais
ou menos históricas. Logo que viu o sótão e o Dr. Buli sentado
a uma mesa a escrever, atinou com o sentido das suas recorda-
ções: a Revolução Francesa. Era de esperar que contra esse
amanhecer alvacento e opressivamente vermelho se destacasse
o negro perfil da guilhotina. Dr. Buli estava de camisa branca
e calções pretos; sua cabeça escura e raspada podia perfeita-
mente ter saído de um chino. Êle ficaria bem como um Marat
ou como um Robespierre mais desleixado.
Entretanto, bastava vê-lo de perto para desfazer-se a fan-
tasia francesa. Os jacobinos eram idealistas, e o que caracte-
rizava esse homem era um materialismo homicida. Sua postura
lhe conferia uma nova aparência. A intensa e branca luz da
manhã, entrando de través e adelgaçando as sombras, fazia-o
mais pálido e mais anguloso do que na reunião da varanda.
As duas negras lunetas que tapavam seus olhos podiam efeti-
92 G. K. CHESTERTON

vãmente ser tomadas como negras cavidades em seu crânio,


como se êle não passasse de uma caveira. E, com efeito, se
alguma vez a Morte se sentou a uma mesa de madeira para
escrever não teve outro aspecto senão esse.
Quando os dois homens entraram, Dr. Buli levantou os
olhos, sorriu com visível alegria e ergueu-se com a elástica
rapidez de que o Professor tinha falado. Providenciou cadeiras
para os recém-chegados e, indo até a um cabide atrás da porta,
pôs-se a vestir um casaco e um colete de lã escuro e desbo-
tado; abotoou-se cuidadosamente e voltou a sentar-se à sua
mesa.
A quieta jovialidade de seus modos deixou seus dois opo-
nentes desarmados. Foi com momentânea dificuldade que o
Professor quebrou o silêncio e começou:
— Peço-lhe desculpas por vir perturbá-lo tão cedo, cama-
rada, disse êle, readquirindo cautelosamente os gestos lentos de
de Worms. Sem dúvida você executou todos os preparativos
para o negócio de Paris, não é mesmo? E acrescentou com infi-
nita vagareza: Segundo as informações que recebemos, o atraso
de um minuto poderá ser fatal.
Dr. Buli sorriu outra vez, mas continuou a fitá-los em
silêncio. O Professor, então, recomeçou, fazendo uma pausa
antes de cada uma de suas enfadonhas palavras:
— Por favor não me julgue excessivamente precipitado;
mas aconselho-o a alterar esses planos, ou, se é muito tarde
para isso, a seguir seu agente com toda a proteção que puder
conseguir para êle. O camarada Syme e eu tivemos uma expe-
riência, que, se fosse contada, levaria mais tempo do que este
de que dispomos, embora eu seja de opinião que temos de
agir de conformidade com ela. Por isso, poderei relatar o ocor-
rido em todos os pormenores, mesmo com o risco de perder
tempo, se realmente lhe parece ser o relato essencial para a com-
preensão do problema que vamos discutir.
O Professor arrastava suas frases, tornando-as intolerà-
velmente longas e pausadas, na esperança de que o doutorzinho,
enlouquecido, explodisse de impaciência e pusesse as cartas na
mesa. Entretanto, o doutorzinho não fazia senão encará-lo e
sorrir, o que transformava o monólogo num trabalho espi-
nhoso. Syme já começava a sentir náusea e a desesperar-se. O
sorriso e o silêncio do Dr. Buli não eram como o olhar cata-
léptico e o silêncio arrepiante que, meia hora atrás, havia
surpreendido no Professor. Nas momices e visagens do Pro-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 93

fessor havia sempre algo puramente grotesco, como num boneco


de engonço. Syme recordava os angustiosos temores do dia
anterior como quem se recorda de ter tido medo de duendes
na meninice. Mas agora estava em pleno dia; tinha à sua frente
um homem robusto, espadaúdo, trajado com simplicidade, sin-
gularizando-se apenas no uso de uns óculos deformadores, e
que, sem sobrecenhos ou arreganhos, encarava-os com um sor-
riso fixo e mudo. Tudo ali tinha um sentido de insuportável
realidade. Sob a crescente luz do sol, as cores da tez do Dr.
Buli e o padrão de suas roupas adquiriam excessivo realce,
como nas novelas realistas. Mas seu sorriso era levíssimo, e
cortês a inclinação de sua cabeça; a única coisa inquietante era
seu silêncio.
— Como estava dizendo, tornou o Professor, como um
homem fatigado de andar na areia frouxa e pesada, o incidente
que nos ocorreu e nos levou a tomar informações sobre o Mar-
quês é daquele tipo que precisa de ser narrado; mas como
sucedeu ao camarada Syme antes de mim. . .
Êle parecia escandir suas palavras como se elas fossem as
palavras de uma antífona; mas Syme, que estava atento, viu
que seus longos dedos tamborilavam àgilmente na borda da
mesa rachada, e leu a mensagem:
— É preciso que você continue. Este diabo esgotou as mi-
nhas forças.
Syme lançou-se na brecha com aquela fanfarronada de
improvisação que sempre o acometia quando estava alarmado.
— É verdade, a coisa aconteceu comigo, disse apressa-
damente. Tive a sorte de conversar com um detetive, que graças
ao meu chapéu me tomou por uma pessoa respeitável. Dese-
jando firmar minha boa reputação, levei-o para o Savoy e lá
embriaguei-o completamente. Foi aí que êle se tornou expan-
sivo e me contou, atabalhoadamente, que dentro de um ou
dois dias esperam prender o Marquês na França. Por isso,
a menos que você ou eu decida seguir a pista.. .
O sorriso do Dr. Buli era ainda mais afetuoso, mas seus
olhos anteparados continuavam indevassáveis. Através de si-
nais, o Professor fêz ver a Syme que iria retomar a explanação.
De fato, daí a instantes começou com a mesma deliberada
calma:
— Logo que Syme chegou com esta informação resolve-
mos trazê-la ao seu conhecimento para que você tomasse a de-
94 G. K. CHESTERTON

cisão que lhe parecesse mais conveniente. Entretanto, não tenho


nenhuma dúvida de que é urgente.. .
Durante todo esse tempo Syme estivera a contemplar Dr.
Buli tão fixamente como Dr. Buli contemplava o Professor, mas
sem o sorriso. Os nervos de ambos os irmãos de armas estavam
a ponto de estalar debaixo daquela tensão de imóvel amabili-
dade, quando, de repente, Syme curvou-se, e seus dedos dan-
çaram displicentemente sobre a extremidade da mesa. Enviou
a seu aliado esta mensagem:
— Tenho uma idéia.
O Professor, mal fêz pausa em seu monólogo, tamborilou:
— Então diga.
Syme telegrafou:
— É uma idéia espetacular.
O outro respondeu:
— Ou uma tolice espetacular?
Syme disse:
— Sou um poeta.
O outro retorquiu:
— Um poeta morto.
Syme estava vermelho até à raiz de seus cabelos amarelos,
e seus olhos ardiam febrilmente. Na realidade, tivera um
pressentimento e este se tinha elevado à categoria de delirante
certeza. Voltando a suas pancadinhas simbólicas, explicou pa-
ra o amigo:
— Você não imagina como o meu pressentimento é poé-
tico. Tem aquela força súbita que às vezes sentimos quando
chega a primavera.
Depois leu esta resposta nos dedos do amigo:
— Vá para o inferno!
O Professor prosseguiu em seu monólogo palavroso e ôco,
dirigido ao Dr. Buli.
— Ainda diria, tamborilou Syme, que êle se parece com
aquele inopinado cheiro de mar que podemos descobrir no
coração dos bosques viçosos.
Seu companheiro não se dignou responder.
— Ou ainda, rufou Syme, é real como o intenso cabelo
vermelho de uma bela mulher.
O Professor desfiava sua oração, mas em meio a ela Syme
decidiu-se a agir. Curvando-se sobre a mesa, falou com uma
voz que não podia ser desprezada:
— Dr. Buli!
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 95

A cara mansa e risonha do médico não se mexeu, mas


eles juravam que por baixo dos óculos negros seus olhos dar-
dejaram Syme.
— Dr. Buli, disse Syme num tom peculiarmente preciso
e cortês, poderia fazer-me um pequeno favor? Quer ter a bon-
dade de tirar os óculos?
O Professor agitou-se na cadeira em que estava sentado
e olhou para Syme com uma espécie de gelada e enfurecida
surpresa. Syme, assemelhando-se a um homem que lançou à
mesa a vida e a fortuna, esperava com o rosto afogueado. O
médico não fêz nenhum movimento.
Por alguns segundos houve um silêncio em que se podia
escutar a queda de um alfinete e que foi cortado apenas uma
vez pelo silvo de uma lancha distante, no Tâmisa. Depois, Dr.
Buli ergueu-se vagarosamente, sem perder o sorriso, e tirou os
óculos.
Syme deu um pulo para trás, como um professor de quí-
mica ante uma explosão bem sucedida. Os olhos do outro
brilhavam como estrelas, e por um instante Syme ficou a apon-
tá-los sem pronunciar uma palavra.
O Professor também deu um pulo, esquecido de sua su-
posta paralisia. Arrimou-se depois no espaldar da cadeira e
encarou dubitativamente o Dr. Buli, como se o médico se hou-
vesse convertido num sapo, ali diante de seus olhos. Efeti-
vamente tratava-se de uma portentosa cena de transformação.
Diante dos dois detetives sentava-se agora um moço de
aparência infantil, com olhos da côr de avelã, francos e felizes,
fisionomia alegre, trajado como um simples empregado e de
natural sem dúvida bondoso e até mesmo comum. Conservava
seu sorriso, que bem podia ter sido o primeiro sorriso de um
recém-nascido.
— Eu sabia que era poeta! exclamou Syme como se esti-
vesse em êxtase. Eu sabia que meu pressentimento era tão infa-
lível como o Papa. Os óculos é que fizeram tudo! Tudo estava
nos óculos! Com esses terríveis olhos negros, com essa robus-
tez, com esses ares divertidos, era um demônio vivo no meio
dos demônios mortos.
— Não há dúvida que a diferença é extraordinária, disse
hesitante o Professor. Mas quanto ao plano do Dr. Buli.. .
— Dane-se o plano! rugiu Syme fora de si. Olhe para
êle! Veja a cara dele, o colarinho, as abençoadas botas! Você
não vai pensar que isso aí é um anarquista, vai?
96 G. K. CHESTERTON

— Syme! gritou o outro, agoniado de medo.


— Por Deus! bradou Syme. Correrei o risco. Dr. Buli,
sou um detetive. Eis aqui meu cartão, e atirou o cartão azul
sobre a mesa.
O Professor ainda temia que tudo estivesse perdido; ape-
sar disso, era leal. Tirou seu próprio cartão oficial e colocou-o
junto ao do amigo. Foi quando o terceiro homem soltou uma
gargalhada, e pela primeira vez os outros dois lhe ouviram
a voz.
— Velhinhos, estou contentíssimo com a vinda de vocês,
porque, assim, poderemos partir juntos para a França, disse
êle com a petulância de um colegial. Também sou da polícia,
e acenou-lhes de leve com um cartão azul, como para cumprir
uma formalidade.
Enfiando na cabeça um chapéu claro e repondo suas de-
moníacas lunetas, o médico caminhou para a porta com tal ra-
pidez que os outros o seguiram instintivamente. Syme ia um
pouco distraído e, ao deixar o quarto, provocou um tinido ao
bater com a bengala nas pedras do corredor.
— Deus Todo Poderoso! exclamou Syme. Se meus olhos
não me enganam, naquele amaldiçoado Conselho havia mais
desses amaldiçoados detetives do que dos amaldiçoados dinami-
teiros.
— Podíamos ter lutado com vantagem, disse Buli. Éra-
mos quatro contra três.
O Professor descia as escadas, e sua voz veio de lá de
baixo.
— Não, disse a voz. Não éramos quatro contra três. Não
tínhamos tanta sorte. Éramos quatro contra Um.
Os outros desceram as escadas em silêncio.
O jovem chamado Buli, com a inocente cortesia que lhe
era característica, insistiu em ir por último; mas, quando che-
garam à rua, sua robusta rapidez afirmou-se inconscientemente
e êle tomou a dianteira, andando velozmente em direção ao
gabinete de informações da estrada de ferro e conversando com
os outros por cima do ombro.
— Nada como encontrar uns bons colegas, dizia êle. Já
me sentia meio morto de medo de estar só. Por pouco não
dei um abraço em Gogol, o que teria sido um gesto imprudente.
Espero que vocês não caçoem do diabo dessa minha fraqueza.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 97

— Todos os diabos de todos os infernos também se jun-


taram para minha fraqueza! disse Syme. Mas o pior diabo
era você com os seus antolhos infernais.
O jovem riu lisonjeado e respondeu:
— Não é um primor? É uma idéia muito simples, mas
não foi minha, não saiu da minha cabeça. Vejam bem. Eu
queria alistar-me na polícia, especialmente no serviço de re-
pressão aos dinamiteiros. Mas para este fim eles só queriam
gente que pudesse passar por dinamiteiro; e todos apostaram
que eu jamais ficaria com cara de dinamiteiro. Afirmavam
que até meu andar era respeitável e que, visto de costas, eu
me parecia com a própria Constituição britânica. Diziam que
eu era saudável demais, otimista demais, digno demais, bené-
volo demais. Puseram-me toda sorte de apelidos na Scotland
Yard. Diziam que se eu fosse um criminoso poderia ter enri-
quecido por me parecer exageradamente com um homem ho-
nesto; mas como eu tinha a infelicidade de ser um homem
honesto, perdia a mais remota oportunidade de ajudá-los pas-
sando por criminoso. Mas, enfim, me levaram à presença de
um figurão que era o chefe de tudo aquilo e possuía natural-
mente uma cabeça respeitável. E lá todos eles confessaram-se
desalentados. Um perguntou se uma barba cerrada esconderia
meu sorriso; outro asseverou que se enegrecessem minha cara
eu me transformaria num sombrio anarquista. Mas o tal chefão
saiu-se com uma observação curiosíssima: "Um par de óculos
esfumaçados!" disse categoricamente. "Olhem para êle agora;
parece um angélico moço de escritório. Ponham-lhe um par
de óculos esfumaçados e verão que por onde êle passar os
meninos gritarão aterrorizados". E assim foi, por São Jorge!
Uma vez cobertos os olhos, todo o resto — sorrisos, ombros
largos, cabelo curto, etc. .. — fêz de mim um perfeito diabo.
Depois de feito, foi muito simples. . . como os milagres; mas
a parte realmente miraculosa não foi essa ainda. Houve uma
coisa estupenda nisso tudo. Ainda hoje quebro a cabeça para
entendê-la.
— O que foi? perguntou Syme.
— Vou contar, respondeu o homem dos óculos. Esse
manda chuva da polícia, que tão habilmente me decifrou e
compreendeu que os óculos negros se ajustariam com meu físi-
co, desde os cabelos até às botas, esse camarada, Deus meu,
nem sequer me viu!
Os olhos de Syme relampejaram, e êle perguntou:
98 G. K. CHESTERTON

— Como foi isso? Eu pensei que você tinha falado com


êle.
— Que falei, falei, esclareceu Buli. Falei com êle num
quarto escuro como breu, igual a uma carvoaria. Você não
faz idéia!
— Não posso nem imaginar, confirmou Syme grave-
mente.
— É um caso inédito, murmurou o Professor.
O novo aliado era um furacão no capítulo das coisas prá-
ticas. Na estação, com a rapidez do homem de negócios, in-
teirou-se dos trens que saíam para Dover. Em seguida, en-
talou os companheiros num fiacre e, antes que eles tivessem
tomado fôlego na arrancada, alojou-os e alojou-se também num
vagão. Só quando viajavam no barco para Calais a conversa
voltou a animar-se.
— Já tinha resolvido ir almoçar na França, explicou Dr.
Buli. Agora estou encantado por ter quem almoce comigo.
Vejam: fui obrigado a despachar aquela besta do Marquês, com
bomba e tudo, porque o Presidente não me perdia de vista.
Deus é testemunha! Um dia eu lhes contarei toda a história,
e vocês verão que ela é simplesmente asfixiante. Todas as
vezes que eu tentava escapulir topava com o Presidente, que
sorria para mim da sacada de um clube ou me cumprimentava
do tejadilho de um ônibus. Podem dizer o que quiserem, mas
tenho para mim que aquele sujeito se vendeu ao diabo. Como
é que se pode estar em seis lugares ao mesmo tempo?
— De modo que você teve de despachar o Marquês, não
é isso? inquiriu o Professor. Faz muito tempo? Poderemos
alcançá-lo?
— Sim, retrucou o novo guia. Calculei tudinho. Êle ain-
da estará em Calais quando desembarcarmos.
— Mas quando o alcançarmos em Calais, o que é que
vamos fazer? indagou o Professor.
Esta pergunta anuviou, pela primeira vez, o semblante
do Dr. Buli. Êle refletiu um instante e disse:
— Suponho que, teoricamente, deveríamos chamar a po-
lícia.
-— Suponho que não, objetou Syme. Teoricamente eu
prefiro afogar-me a chamar a polícia. Sob minha .palavra de
honra, prometi a um pobre sujeito, que é um autêntico pessi-
mista moderno, nunca contar nada à polícia. Pouco entendo de
casuística, mas não posso faltar com minha palavra a um pes-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 99

simista moderno. É a mesma coisa que faltar com a palavra


a uma criança.
— É o meu caso, disse o Professor. Já pensei em falar
com a polícia mas não pude, por causa de um juramento idiota
que eu fiz. Enquanto fui ator, era uma espécie de pau para
toda obra. Só não me prestei ao perjúrio nem à traição. Se
eu tivesse cometido esse crime não teria mais noção do bem e
do mal.
— Também passei por tudo isso, confessou o Dr. Buli.
Dei minha palavra ao Secretário. Vocês sabem quem é: o ho-
mem que tem o sorriso de cabeça para baixo. Meus amigos,
aquele é o homem mais infeliz que o gênero humano já pro-
duziu. Pode ser sua digestão, ou sua consciência, ou seus ner-
vos, ou sua filosofia do universo... não sei. Só sei que êle
está condenado, que está no inferno! Não posso trair um ho-
mem desses e atormentá-lo. Seria o mesmo que açoitar um
leproso. Digam que estou louco, mas é o que sinto.
— Não creio que você esteja louco, disse Syme. Sabia
que você assumiria essa atitude, desde aquele momento em
que...
— Sim?! interrogou Dr. Buli.
— Em que você tirou seus óculos.
Dr. Buli sorriu e foi espairecer pela coberta, contemplando
o mar batido pelo sol. Voltou logo depois, pisando com força
e descuidadamente. Um silêncio amigável estabeleceu-se entre
os três homens.
— Bem, disse Syme, parece que adotamos todos o mesmo
tipo de moralidade ou imoralidade. Assim, façamos o possível
para enfrentar as conseqüências.
— Tem razão, assentiu o Professor, tem toda razão; e
apressemo-nos, pois estou vendo o cabo Gris-Nez apontar lá
na França.
— A primeira conseqüência, disse Syme com seriedade, é
esta: nós três estamos sós neste planeta. Gogol foi embora,
sabe Deus para onde. Talvez tenha sido esmagado como um
inseto pelo Presidente. No Conselho somos três contra três,
como os romanos que guardavam a ponte. Mas a nossa posi-
ção é mais insustentável; primeiro, porque eles podem apelar
para a organização deles e nós não podemos apelar para a
nossa, e, segundo, porque...
— Porque um dos outros três homens não é um homem,
disse o Professor.
100 G. K. CHESTERTON

Syme anuiu com um movimento da cabeça e, por um ou


dois segundos, guardou silêncio. Depois disse:
— Tenho uma idéia. Devemos fazer alguma coisa para
conservar o Marquês em Calais até meio-dia de amanhã. Pas-
saram pela minha cabeça mais de vinte esquemas. Estamos de
acordo em que não podemos denunciá-lo como dinamiteiro.
Não podemos levá-lo à cadeia por qualquer acusação trivial,
porque teríamos que ser vistos; êle nos conhece e ficaria com
a pulga atrás da orelha. Não podemos pensar em desviá-lo
para outros negócios anarquistas; êle podia engolir tudo, me-
nos a idéia de ficar em Calais enquanto o Czar passeia livre-
mente em Paris. Podíamos tentar raptá-lo e trancafiá-lo nós
mesmos, mas êle é muito conhecido aqui. Possui uma completa
guarda pessoal, feita só de amigos; é forte e bravo, e o resul-
tado é duvidoso. A única coisa viável, realmente, é tirar pro-
veito dos próprios fatores que estão do lado do Marquês. Vou
aproveitar-me do fato de ser êle um nobre altamente respeitado.
Vou aproveitar-me do fato de ter êle tantos amigos e freqüentar a
alta sociedade.
— Que diabo é que você está dizendo aí? perguntou o
Professor.
— Os Symes vêm mencionados pela primeiras vez no sé-
culo quatorze, afirmou Syme, mas, segundo certa tradição, um
deles foi a Bannockburn na comitiva de Bruce. A partir de
1350 a linhagem está bem determinada.
— Esse aí perdeu o juízo, disse o médico espantado.
— Nosso brasão de armas, continuou Syme calmamente,
está assim descrito: "em campo argentado um chaveirão goles
lavrado com três cruzes recruzadas". O moto é variável.
O Professor abecou rudemente Syme pelo colete.
— Já vamos desembarcar, disse. Você está mareado ou
quer fazer graça?
— Minha explanação é quase dolorosamente prática, res-
pondeu Syme, sem se apoquentar. A casa de St. Eustache tam-
bém é muito antiga. O Marquês não negará que é um fidalgo,
nem pode negar que eu também sou um fidalgo. E a fim de
pôr fora de dúvida a questão da minha posição social, propo-
nho-me a, na primeira oportunidade, arrancar-lhe o chapéu da
cabeça. Mas já estamos no porto.
Saltaram em terra debaixo de um solão que os deslum-
brava. Syme, que agora os conduzia como Buli os tinha con-
duzido em Londres, levou-os por uma avenida ao longo da
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 101

praia, até chegar a uns cafés escondidos na folhagem densa de um


caramanchão e fronteiros ao mar. Como ia na frente dos ou-
tros, caminhava com alguma arrogância e floreava a bengala
como se ela fosse uma espada. Dirigia-se para o ponto extre-
mo da fileira de cafés, mas deteve-se repentinamente. Com
um gesto rápido impôs silêncio e apontou com um dedo enlu-
vado para uma mesa, abrigada embaixo de florida ramagem,
onde se sentava o Marquês de St. Eustache, com os dentes
cintilando por entre a espessa barba negra, e a cara ousada e
trigueira, sombreada por um chapéu de palhinha amarelo, des-
tacando-se contra o mar violáceo.
CAPITULO X

O DUELO

Syme sentou-se com seus companheiros a uma das mesas do


café. Seus olhos azuis resplandeciam como o mar que se esti-
rava lá embaixo. Com alegre impaciência pediu uma garrafa
de Saumur. Tinha suas razões para encontrar-se num estado de
curiosa hilaridade. Sua animação, que já estava num ponto
anormalmente alto, ia subindo à medida que o Saumur baixava
na garrafa; de modo que, meia hora depois, sua conversa era uma
torrente de incoerências. Declarou estar fazendo um rascunho do
diálogo que iria travar com o fatal Marquês, e rabiscava-o às
pressas com um lápis. Dava-lhe a forma de um catecismo, cujas
perguntas e respostas eram declamadas com extraordinária ra-
pidez.
— Aproximo-me. Antes de tirar o chapéu dele, tiro o meu.
Digo-lhe: "O Marquês de Saint Eustache, creio eu". Êle me
diz: "O célebre Mr. Syme, suponho". E acrescenta com
finura e requinte: "Como passa?" E eu lhe respondo também
com finura e requinte: "Oh! Passo e fico!"
— Ora, cale-se! disse o homem dos óculos. Aprume-se e
jogue fora esse papel. Que é que você vai fazer realmente?
— Mas é um esplêndido catecismo, redargüiu Syme paté-
tico. Deixem-me lê-lo. Tem apenas quarenta e três perguntas
e respostas, e algumas respostas do Marquês são maravilhosa-
mente engenhosas. Agrada-me ser justo com meu inimigo.
— Mas para que serve tudo isso? perguntou já exaspera-
do Dr. Buli.
— Para levar-me a meu desafio, compreende? disse Sy-
me radiante. Quando o Marquês tiver dado a trigésima nona
resposta, que diz...
104 G. K. CHESTERTON

— Por acaso ainda não se lembrou, perguntou o Professor


com grave simplicidade, de que o Marquês pode deixar de dar
as quarenta e três respostas que você lhe atribui? Nesse caso,
entendo que os epigramas que você traz engatilhados contra
êle poderão parecer mais do que forçados.
Syme deu uma palmada na mesa, fascinado.
— Oh, é verdade! exclamou. Nunca pensei nisso, Senhor,
tendes uma inteligência incomum. Alcançareis a fama.
— Você está bêbedo como um gambá, disse o médico.
— Cabe-me apenas, continuou Syme impassível, adotar
outro método de quebrar o gelo (se me permitis a expressão)
entre mim e o homem que desejo matar. Uma vez que a dire-
ção de um diálogo não pode ser preestabelecida somente por
uma das partes (como o haveis notado com tão recôndita agu-
deza), suponho que a única coisa que tal parte tem a fazer é
pôr-se a representar todo o diálogo até onde lhe fôr possível.
E é o que vou fazer, por São Jorge! E ergueu-se incontinenti.
Seus cabelos amarelos flutuavam na brisa suave que vinha do
mar.
Num café chantant escondido entre as árvores, tocava uma
banda, e uma mulher acabava de cantar. Na cabeça esbrasea-
da de Syme o estridor das fanfarras lembrava a desafinaçãoda-
quele realejo de Leicester Square, sob cuja melodia êle se pre-
parara para morrer. Dirigiu o olhar para a mesinha onde esta-
va o Marquês. O homem tinha agora dois companheiros: dois
solenes franceses de sobretudo e cartola,"um dos quais osten-
tava a roseta vermelha da Legião de Honra — pessoas, eviden-
temente, de sólida posição social. Ao lado dessas vestes ne-
gras e cilíndricas, o Marquês, com seu chapéu de palhinha e
suas leves roupas primaveris, parecia boêmio e mesmo bárba-
ro; mas se parecia com o Marquês. Em verdade, podia-se di-
zer que êle era o rei, com sua elegância animal, seus olhares
escarninhos e sua cabeça erguida contra o purpúreo mar. Mas
não era um rei cristão, de modo algum; era, antes, um déspo-
ta trigueiro, meio grego, meio asiático, que nos dias em que
a escravidão era coisa natural contemplava no Mediterrâneo suas
galés cheias de escravos lamuriantes. Era assim, pensou Syme
que a cara bronzeada de um tirano surgia entre os olivais ver-
des e umbrosos e o azul candente.
— Vai pedir a palavra? perguntou impaciente o Professor,
vendo que Syme continuava de pé e não se movia.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 105

Syme sorveu o último copo de vinho espumoso e respon-


deu apontando para o Marquês e seus colegas:
— Vou. Vou falar naquela reunião. Ela me desagrada.
Vou puxar o deformado nariz de mogno daquela reunião.
E saiu num passo rápido, ainda que incerto. Ao vê-lo,
o Marquês arqueou surpreso suas negras sobrancelhas assírias,
mas sorriu polidamente.
— O senhor é Mr. Syme, suponho, disse êle.
Syme inclinou-se.
— E o senhor é o Marquês de Saint Eustache, disse Syme
cortêsmente. Permita-me que lhe puxe o nariz.
Curvou-se para executá-lo, mas o Marquês pulou para
trás, derrubando a cadeira, enquanto os dois homens de cartola
agarravam Syme pelos ombros.
— Este homem me insultou! disse Syme, à guisa de ex-
plicação.
— Insultou-o? gritou o cavalheiro da roseta vermelha.
Quando?
— Agora mesmo, disse Syme com atrevimento. Insultou
minha mãe!
— Insultou sua mãe! exclamou incrédulo o cavalheiro.
— Bom, disse Syme reconsiderando, pelo menos insultou
minha tia.
— Mas como pode o Marquês ter insultado agora mesmo
sua tia? perguntou o segundo cavalheiro com legítimo espanto.
Como, se êle esteve sentado aqui todo o tempo?
— Ah, aí é que está! E o que êle disse... ? insinuou mis-
teriosamente Syme.
— Eu não disse nada, redargüiu o Marquês, salvo qualquer
coisa aí sobre a banda. Tudo o que eu disse é que gostava de
um Wagner bem executado.
— Foi uma alusão à minha família, disse Syme com fir-
meza. Minha tia tocava Wagner pessimamente. Qualquer co-
mentário era desagradável. Sempre fomos insultados por isso.
— Isto é absurdo! Extraordinário! bradou o cavalheiro
decore, olhando apreensivamente para o Marquês.
— Asseguro-lhes, disse Syme com energia, que toda a
conversa de vocês estava simplesmente enredada de sinistras alu-
sões à fraqueza de minha tia.
— Isso não tem sentido! exclamou o segundo cavalheiro.
De minha parte, durante meia hora, a única coisa que eu disse
106 G. K. CHESTERTON

foi que gostava da maneira de cantar daquela moça de cabelos


negros.
— Lá vêm vocês de novo! disse Syme indignado. Minha
tia tinha cabelos vermelhos.
— Parece-me, observou o outro, que você está simples-
mente procurando um pretexto para insultar o Marquês.
— Por São Jorge! disse Syme, voltando-se e encarando-o.
Como você é inteligente!
Os olhos do Marquês chamejaram como os de um tigre.
— Insultar-me? gritou. Procura briga comigo! Deus do
céu! Nunca houve ninguém que precisasse procurar tanto. Es-
tes senhores poderão ser meus padrinhos. Ainda faltam quatro
horas para o anoitecer. Batamo-nos esta tarde.
Syme fêz uma esquisita zumbaia e falou:
— Marquês, sua atitude é digna de sua fama e de seu san-
gue. Dê-me licença de consultar, por um momento, aqueles se-
nhores em cujas mãos eu me colocarei.
Com três largas passadas reuniu-se a seus companheiros,
e estes, que lhe tinham visto o cínico ataque e escutado as ab-
surdas explicações, maravilharam-se de seu semblante. Pois,
quando voltou, Syme estava lúcido, um pouco pálido, e falava
baixinho, com apaixonado bom senso.
— Acabei, disse com voz rouca. Vou lutar com a bêsta-
fera. Mas olhem aqui e ouçam bem. Não há tempo para muita
conversa. Vocês são meus padrinhos e têm que aprontar tudo.
Precisam insistir, e insistam com todas as forças, em que o due-
lo se realize amanhã depois das sete. Só assim poderei impedir
que êle tome às sete e quarenta e cinco o trem de Paris. Se
perde a hora do trem, perde a hora do crime. Êle não pode
deixar de concordar com vocês num ponto insignificante como
esse de hora e local. Mas, sem dúvida, escolherá um recanto à
beira da estrada, perto da estação. É bom espadachim e confia
em que me matará a tempo de pegar o trem. Mas eu também
entendo de esgrima e acho que posso distraí-lo até que o trem
tenha passado. Talvez depois êle me mate, para consolo de
suas mágoas. Entenderam? Muito bem. Agora quero apre-
sentá-los a uns encantadores amigos meus.
E, avançando rapidamente para os padrinhos do Marquês,
apresentou-lhes seus amigos sob uns nomes aristocráticos que
eles nunca tinham ouvido antes.
Syme era sujeito a acessos de singular senso comum, o que,
aliás, não era de sua índole. Tais acessos eram (como êle de-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 107

nominou seu pressentimento no caso dos óculos) intuições poé-


ticas que, às vezes, se sublimavam em profecias.
Agora havia calculado corretamente a política de seu an-
tagonista. Quando o Marquês foi informado por seus padri-
nhos que Syme só poderia combater na manhã seguinte, com-
preendeu que se erguia inesperadamente um obstáculo para seus
explosivos afazeres na capital. Não podendo confessar a seus
amigos os motivos de sua oposição, aceitou o plano que Syme
arquitetara. Induziu os padrinhos a escolherem uma campina
perto da estrada de ferro, e se encomendou à fatalidade do pri-
meiro assalto.
Quem o visse chegar tão despreocupado ao campo de hon-
ra não adivinharia que êle tinha pressa de viajar; trazia as
mãos nos bolsos, o chapéu de palhinha deitado para trás e a
cara simpática a queimar-se ao sol. Mas atiçaria a curiosidade
de um estranho a particularidade de aparecerem em seu séqui-
to, não somente os padrinhos com a caixa das espadas, mas
ainda dois criados com uma maleta e uma cesta de comida.
Embora fosse ainda muito cedo, o sol impregnava de ca-
lor todas as coisas, e Syme ficou vagamente surpreso de ver
tantas flores primaveris esparzindo ouro e prata pelo capinzal
em que toda a comitiva estava mergulhada até aos joelhos.
Com exceção do Marquês, todos usavam roupas sombrias
e solenes e chapéus semelhantes a negras tampas de chaminés;
especialmente o doutorzinho, com o acréscimo de suas funes-
tas lunetas, parecia um agente funerário numa comédia. Não
escapou a Syme o cômico contraste entre á fúnebre procissão e
o prado vivo e reluzente, marchetado de flores silvestres. Mas,
de fato, esse cômico contraste entre a floração amarela e ós
chapéus negros era apenas um símbolo do trágico contraste en-
tre a floração amarela e o negro encargo. Viu à direita um
bosquezinhò e, mais longe, à esquerda, a curva alongada da es-
trada de ferro, que êle, por assim dizer, defendia do Marquês,
para quem ela era, ao mesmo tempo, meta e fuga. À sua fren-
te, acima do sinistro grupo de seus adversários, destacava-se, co-
mo uma nuvem colorida, contra a indefinível linha do mar, uma
pequena amendoeira em flor.
O membro da Legião de Honra, cujo nome parece que
era Coronel Ducroix, aproximou-se com grande polidez do Pro-
fessor e do Dr. Buli, e sugeriu que o duelo terminasse pelo pri-
meiro sangue.
108 O. K. CHESTERTON

Entretanto, Dr. Buli, meticulosamente industriado por Sy-


me na política a ser adotada, insistiu, com subida dignidade e
num péssimo francês, pela continuação até o ponto em que um
dos combatentes fosse inutilizado. Syme estava decidido a não
inutilizar o Marquês e impedir o Marquês de inutilizá-lo, ao me-
nos pelo espaço de vinte minutos. Em vinte minutos o trem de
Paris teria ido embora.
— Para um homem como Monsieur de St. Eustache, de
bravura e destreza notórias, disse solenemente o Professor, deve
ser indiferente o método que se abrace, e nosso afilhado tem
fortes razões para exigir o mais disputado encontro, razões
cuja delicadeza me proíbe de ser explícito, mas de cuja probi-
dade e retidão eu posso. ..
— Peste! bradou por trás deles o Marquês, cujo rosto ene-
grecera de repente. Paremos de falar e comecemos, e com uma
cutilada decapitou uma flor.
Syme compreendeu-lhe a rude impaciência, e instintiva-
mente olhou por cima do ombro para-saber se o trem vinha
chegando. Mas não havia fumaça no horizonte.
O Coronel Ducroix ajoelhou-se e abriu a caixa, de onde
sacou um par de espadas que, ao sol, transmudaram-se em
duas listras de alva chama. Ofereceu uma ao Marquês, que a
agarrou sem cerimônia, e outra a Syme, que a recebeu, dobrou e
sopesou tão detidamente quanto lhe permitiu a dignidade. Em
seguida, o Coronel sacou outro par e, tomando uma para si
e dando outra ao Dr. Buli, procedeu à colocação dos homens.
Ambos os combatentes haviam despido seus casacos e co-
letes e empunhado as espadas. Por seu turno, os padrinhos la-
dearam o campo da luta e desembainharam suas espadas, mas
conservaram seus sombrios e escuros agasalhos. Os contendo-
res cumprimentaram-se. O Coronel disse calmamente: — "Em
guarda!", e as duas espadas tocaram-se e tiniram.
Quando o repenique das lâminas entrechocadas repercutiu
em seu braço, todos os fantásticos temores que têm sido o assun-
to desta história abandonaram Syme como os sonhos abando-
nam o homem que desperta. Rememorou-os claramente e por or-
dem, como simples traições dos nervos: o medo ao Professor
fora o medo aos caprichos tirânicos de um pesadelo, e o medo
ao Dr. Buli fora o medo ao vazio irrespirável da ciência. Aque-
le era o medo tradicional de que um milagre acontecesse; este
era o medo moderno, mais desesperançado, de que nenhum
milagre pudesse jamais acontecer. Mas viu que esses medos
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 109

eram puras fantasias, porque se achava em presença do fato


irremediável do medo à morte, com seu grosseiro e impiedoso
senso comum. Sentiu-se como um homem que passa uma noite
inteira sonhando que vai cair num precipício e acorda na ma-
nhã em que vai ser enforcado. Pois tão depressa vira um raio de
sol escorregar na goteira da lâmina escorçada do adversário, e
sentira as duas línguas de aço se tocarem e vibrarem como dois
seres vivos, compreendeu que seu antagonista era um terrível
contendor e que provavelmente o último instante de sua vida ti-
nha chegado.
Sentiu que tudo quanto havia sobre a terra, mesmo a gra-
ma debaixo de seus pés, tinha um estranho e intenso valor.
Sentiu o amor pela vida em todas as coisas. Chegou até a ima-
ginar que escutava o crescimento da erva; chegou até a pen-
sar que, enquanto êle ali se achava, novas flores estavam nascen-
do e desabrochando — flores encarnadas e amarelas e azuis
que rematavam a magnificência da primavera. E toda a vez
que seus olhos se desviavam, por um segundo, dos olhos frios,
fixos e hipnóticos do Marquês, davam com a amendoeira na
linha do horizonte. Disse consigo que, se por um milagre es-
capasse, estaria pronto a sentar-se para sempre diante daquela
amendoeira, sem desejar nada mais do mundo.
Mas, enquanto uma parte de seu espírito se embevecia na
contemplação da terra, do céu e de todo o universo, que tinha
a beleza viva de uma coisa perdida, a outra parte, transparente
como vidro, parava as estocadas do inimigo com uma preci-
são cronométrica, da qual êle não se julgava capaz. Uma des-
sas estocadas lhe arranhou o pulso, deixando um tênue filete
de sangue, mas isso ou não foi notado ou foi tàcitamente igno-
rado. Espaço em espaço êle ripostava, e uma ou duas vezes
supôs até que tocara o antagonista, mas como não havia sangue
na folha nem na camisa presumiu que se equivocara. Logo de-
pois o combate foi suspenso e houve troca de posições.
Com risco de perder tudo, o Marquês, que nem sequer pes-
tanejava, esgueirou um olhar para a via férrea, à sua direita.
Depois, volveu para Syme um rosto endemoninhado e come-
çou a combater como se possuísse vinte espadas. O assalto so-
breveio tão rápido e furioso que aquela espada resplendente pa-
receu uma chuvarada de setas flamejantes. Syme não teve
ocasião de olhar para a via férrea; mas isso não lhe era neces-
sário. A descomedida loucura batalhante do Marqujls não tinha
outro impulso que a avizinhação do trem de Paris.
110 G. K. CHESTERTON

Mas a endiabrada energia do Marquês era ilimitada. Em


duas paradas Syme tirou da liça a ponta de seu contendor e,
na terceira, ripostou tão àgilmente que, desta feita, não teve
dúvida de que o tinha tocado. Em verdade, a espada se lhe
dobrou ao peso do corpo do atingido Marquês. Syme estava
tão certo de haver enfiado sua lâmina no inimigo como o está o
jardineiro que enfia no chão sua pá. Nada obstante, o Mar-
quês saltou para trás sem desaprumar, e Syme, idiotizado, fi-
tou a ponta de sua espada, onde não descobriu a menor gota de
sangue.
Houve um instante de rígido silêncio, findo o qual Syme
caiu sobre o outro enfurecidamente, cheio de ardente curio-
sidade. O Marquês era, deveras, melhor espadachim, como o
admitira Syme desde o princípio, mas agora mostrava-se pertur-
bado e perdia terreno. Desatento e um tanto lerdo, o Marquês
olhava de contínuo para a via férrea, como se tivesse mais me-
do do trem que do aço pontiagudo. Por seu turno, Syme se
batia denodada mas cautelosamente, com o cabeça em fogo,
ávido por decifrar o enigma da inexistência de sangue em sua
própria espada. Com este propósito visava mais a gorja e a
cabeça do que mesmo o corpo do Marquês. Um minuto e meio
mais tarde sentiu a ponta de sua espada penetrar no pescoço do
homem, debaixo da mandíbula. Mas a lâmina saiu limpa. Qua-
se fora de si, acertou nova estocada, que deveria produzir um
talho sangrento na face do Marquês. Mas não houve talho.
Por um instante o céu de Syme voltou a escurecer-se com
terrores sobrenaturais. Sem dúvida o homem tinha o corpo
fechado. Este novo temor espiritual era bem mais terrível que
a simples barafunda espiritual simbolizada na perseguição que
lhe movera o paralítico. O Professor não passara de um duen-
de, enquanto que este homem era um demônio — talvez fosse
o Demônio! Em todo caso, de uma coisa estava certo: três
vezes uma espada terrena o tinha ferido e não o marcara. Com
este pensamento Syme se reanimou, e tudo quanto nele havia
de bom cantou no ar como o vento canta nas árvores. Recor-
dou todas as coisas terrenas de sua aventura: as lanternas chi-
nesas de Saffron Park, a moça dos cabelos vermelhos no jardim,
os honestos marujos encharcados de cerveja à beira do cais, os
leais companheiros que estavam ali a seu lado. Talvez tivesse
sido eleito paladino de todas essas coisas simples e generosas
para terçar espadas com o inimigo de toda a criação. "No fim
de contas", disse para si mesmo, "sou mais do que um demônio;
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 111

sou um homem. Posso fazer uma coisa que o próprio Satã


não pode: posso morrer", e quando estas palavras cruzaram
sua mente, êle ouviu um assobio longínquo e abafado que, em
breve, se transformaria no rugido do trem de Paris.
Entregou-se outra vez à luta com a sobrenatural ligeireza
de um maometano que anela o Paraíso. À medida que o trem se
aproximava, êle julgava estar vendo o povo erigir arcos florais
em Paris; associava-se à vibração e à glória da grande Repúbli-
ca, cujas portas êle estava protegendo contra o Inferno. E seus
pensamentos se engrandeciam ao elevar-se o rugido do trem,
que terminou orgulhosamente por um silvo prolongado e pene-
trante. O trem estacou.
Inopinadamente, para espanto dos presentes, o Marquês,
num salto para trás, escapou do poder do adversário e lançou ao
chão a espada. O salto foi prodigioso, principalmente porque,
segundos antes, Syme o atingira em cheio na coxa.
— Pára! bradou o Marquês, e sua voz exigia instantânea
obediência. Quero dizer uma coisa.
— De que se trata? perguntou pasmado o Coronel Ducroix.
Houve irregularidade?
— Não deixou de haver, disse um tanto pálido o Dr. Buli.
Nosso afilhado feriu o Marquês pelo menos umas quatro ve-
zes, e êle continua ileso.
— O Marquês ergueu a mão, num curioso gesto de reprimi-
da impaciência.
— Por favor, deixem-me falar, disse. É muito importante.
Mr. Syme, continuou, virando-se para seu oponente, se bem
me lembro, estamos lutando porque o senhor exprimiu o desejo
(que reputei irracional) de puxar-me o nariz. Pode agora fa-
zer-me o obséquio de puxar meu nariz o mais depressa possí-
vel? Preciso pegar o trem.
— Protesto! Isso é inteiramente irregular! exclamou o Dr.
Buli indignado.
— De fato isso vai de encontro à praxe, anuiu o Coronel
Ducroix, olhando severamente para o Marquês. Ao que me
consta, registra-se apenas um caso (Capitão Bellegarde e Barão
Zumpt) em que as armas foram trocadas no meio da justa, a pe-
dido de um dos combatentes. Mas não se pode dizer que um
nariz seja uma arma.
— O senhor quer ou não quer puxar meu nariz? perguntou
exasperado o Marquês. Por favor, Mr. Syme! O senhor não
queria fazê-lo? Pois faça-o! O senhor nem imagina como isso
112 G. K. C H E S T E R T O N

é importante para mim. Vamos, não seja tão egoísta! Supli-


co-lhe que puxe meu nariz imediatamente, e inclinou-se de leve
para a frente com um sorriso fascinante. O trem de Paris, arfan-
do e silvando, rangia numa estaçãozinha situada atrás de um
outeiro próximo.
Uma vez mais Syme foi invadido por uma sensação a que
já se habituara no decurso destas aventuras: a sensação de que
um sublime e tenebroso vagalhão se elevara até ao céu e aca-
bava de despencar-se. Movendo-se num mundo incompreensível,
deu dois passos para a frente e puxou o nariz romano de seu
renomado fidalgo. Puxou-o com força, e o nariz veio em sua
mão.
Por alguns segundos ficou solenemente atarantado, segu-
rando entre os dedos aquela venta de papelão, contemplando-a,
enquanto o sol e as nuvens e as colinas arborizadas assistiam a
este ridículo espetáculo.
O Marquês rompeu chistosamente o silêncio.
— Se alguém se interessa por minha sobrancelha esquer-
da, aqui está ela. Coronel Ducroix, queira aceitar minha so-
brancelha esquerda. É o tipo da coisa que poderá ser-lhe útil
um dia, e gravemente arrancou uma de suas castanhas sobran-
celhas assírias, destapando assim cerca de metade de sua testa
morena, e cortêsmente ofereceu-a ao Coronel, que, de raiva, ru-
borizou-se e perdeu a fala.
— Se eu tivesse sabido, balbuciou o Coronel, que estava
assistindo um poltrão que se enchumaça para lutar. ..
— Sei, sei, disse o Marquês, atirando estouvadamente para
um e outro lado do campo vários pedaços de si mesmo. Você
está muito enganado, mas não posso dar explicações agora. O
trem entrou na estação!
— Entrou, disse ameaçadoramente Dr. Buli. Entrou, mas
vai sair. E sai sem você. Sabemos muito bem que obra dia-
bólica. ..
O misterioso Marquês levantou os braços num gesto de
desespero. Ali, de pé, em pleno sol, com uma metade da cara
descomposta e a outra metade reluzente e arreganhada, êle era
um disparatado estafermo.
— Querem levar-me à loucura? perguntou. O trem...
— Você não irá nesse trem, disse Syme com firmeza, em-
punhando a espada.
A estrambótica figura virou-se para Syme e pareceu reunir
suas forças antes de falar.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 113

— Você, seu porcalhão, covarde, pulha, velhaco, pelintra,


estúpido, excomungado, idiota, imbecil! esbravejou sem tomar
fôlego. Mentecapto, trapalhão, palhaço! Você...
— Não irá nesse trem, repetiu Syme.
— Chamas infernais! bramiu o outro. Porque deveria eu
ir nesse trem?
— Sabemos porque, respondeu desabridamente o Professor.
Você vai a Paris para lançar uma bomba!
— E por que não a Jerico? rugiu o outro arrancando a
cabeleira que se despegou facilmente. Estarão vocês todos
amofinados que não possam descobrir o que sou?- Pensavam
realmente que eu queria apanhar esse trem? Por mim, podiam
sair vinte trens de Paris! Danem-se os trens de Paris!
— Então o que é que você quer? inquiriu o Professor.
— O que eu quero? O que eu não quero é apanhar esse
trem; o que eu queria era que o trem não me apanhasse, mas
estou vendo que agora, Deus do céu! êle já me apanhou.
— Lamento dizer-lhe, disse Syme dominando-se, que sua
lábia não me impressiona. Talvez, se você removesse os restos
de sua antiga testa e os poucos vestígios de seu queixo, suas
intenções ficassem mais evidentes. A lucidez mental se realiza
de muitas maneiras. Que vem a ser essa história do trem? Por
que você disse que êle o apanhou? Pode ser pura invenção lite-
rária de minha parte, mas pressinto que isso deve significar al-
guma coisa.
— Significa tudo, disse o outro, e o fim de tudo. Agora
nós estamos à mercê de Domingo.
— Nós? repetiu estupefato o Professor. Que quer dizer esse
"nós"?
— A polícia, naturalmente! exclamou o Marquês, e arran-
cou o couro da cabeça e metade da cara.
A cabeça que surgiu era loura, de cabelos lisos e bem
penteados, cabeça típica do policial inglês, mas o rosto era in-
crivelmente pálido.
— Sou o Inspetor Ratcliffe, disse com uma pressa que
raiava na aspereza. Meu nome é muito conhecido na polícia, e
vejo perfeitamente que vocês pertencem a ela. Mas por via das
dúvidas trago comigo um cartão, e começou a tirar do bolso um
cartão azul.
O Professor fêz um gesto de enfado.
— Oh! Não precisa mostrar-nos, disse enfastiado. Desse
seu nós já temos um naipe quase completo.
114 G. K. CHESTERTON

O homenzinho chamado Buli, como outros homens que


parecem não ir além de uma vivacidade puramente vulgar, saiu-
se com uns inesperados expedientes de bom gosto. Sem dúvida
foi quem salvou a situação. No meio dessa duvidosa cena de
transformação, êle adiantou-se com toda a gravidade e respon-
sabilidade de um padrinho e dirigiu-se aos dois padrinhos do
Marquês.
— Senhores, nós lhes devemos uma explicação satisfatória;
mas asseguro-lhes que não foram vítimas, como estão imaginan-
do, de uma brincadeira de mau gosto, nem de nada indigno de
um homem honrado. Não perderam o tempo; ajudaram a sal-
var o mundo. Não somos truões mas homens desesperados, em
guerra com uma vasta conspiração. Uma sociedade secreta de
anarquistas caça-nos como se fôssemos lebres. Não se trata
desses infelizes loucos que atiram aqui e ali uma bomba, levados
pela miséria ou por alguma filosofia alemã, mas de uma igreja
rica, poderosa e fanática, uma igreja de pessimismo oriental, que
tem por dogma destruir a humanidade como um inseto. Podem
inferir a sanha com que eles nos perseguem do fato de sermos
obrigados a tais disfarces, como esses de que lhes peço descul-
pas, e a tais travessuras, como essas que os senhores atu-
raram.
O mais jovem padrinho do Marquês, um sujeitinho baixo
de bigodes pretos, inclinou-se polidamente e disse:
— Aceito de bom grado as desculpas; mas os senhores
hão de permitir que eu decline de acompanhá-los mais adiante
em suas dificuldades e me despeça aqui mesmo. O espetáculo
proporcionado por um distinto concidadão de nossas relações,
que se fragmenta ao ar livre, é inusitado e, acima de tudo, sufi-
ciente para um só dia. Coronel Ducroix, não desejo interferir
nos seus atos, mas, se o senhor está de acordo em que nossa
presente situação é um tanto anômala, convido-o a voltar comi-
go para a cidade.
O Coronel Ducroix virou-se mecanicamente; mas, depois
de cofiar um momento o bigode branco, revidou:
— Não, por São Jorge! Se esses senhores estão efetiva-
mente embrulhados com uma caterva de assassinos, como dizem
que estão, eu irei com eles até o fim. Já combati pela França;
seria um pusilânime se não combatesse pela civilização.
Dr. Buli tirou o chapéu e agitou-o no ar, dando brados
aclamatórios, como se estivesse num comício.
O HOMEM QUE FQL QUINTA-FEIRA 115

— Não faça tanto barulho, recomendou-lhe o Inspetor


Ratcliffe. Domingo pode ouvi-lo.
— Domingo! exclamou Buli, deixando cair o chapéu.
— Domingo, sim, exclamou Ratcliffe. Êle pode estar com
os outros.
— Que outros? perguntou Syme.
— Os que desceram do trem, respondeu o Inspetor.
— O que você diz parece extremamente desconcertante,
começou Syme. Porque, de fato. .. Mas, Deus meu! gritou
de chôfre como quem vê uma explosão distante. Por Deus! Se
isso é verdadeiro, toda a cambada do Conselho Anarquista es-
tava contra a Anarquia. Todo mundo ali era detetive, exceto o
Presidente e seu secretário particular. Que é que isso significa?
""^ Que significa? repetiu o novo policial com incrível vio-
lência. Significa que estamos perdidos. Você não conhece
Domingo? Não sabe que seus gracejos são sempre tão graves
e simples que ninguém os pode prever? Você pode imaginar uma
coisa mais característica de Domingo que esta sutileza de colo-
car seus mais ferrenhos adversários no Supremo Conselho e de-
pois providenciar para que esse Conselho não seja supremo?
Asseguro-lhes que êle comprou todos os monopólios, capturou
todos os telégrafos, apoderou-se de todas as linhas de estrada de
ferro, especialmente desta linha! e apontou um dedo trêmulo pa-
ra o lado da estação. Todos os movimentos caíram sob seu
controle, e meio mundo estava disposto a lutar por êle. Havia,
somente, cinco ípassoas que ofereceriam resistência.. . e o
velho Demônio colocou-as no Supremo Conselho para que elas
perdessem o tempo vigiando-se mutuamente. Não somos mais
que uns idiotas, e todas as nossas idiotices faziam parte de seus
planos. Domingo sabia que o Professor perseguiria Syme atra-
vés de Londres e que Syme se bateria comigo na França. E en-
quanto êle estava juntando grandes somas de dinheiro e se apo-
derava das grandes linhas telegráficas, nós, os cinco idiotas, per-
seguíamo-nos uns aos outros, às tontas, como um bando de me-
ninos brincando de cabra-cega.
— E agora? perguntou Syme um tanto impassível.
— Agora, redargüiu o outro com súbita serenidade, agora
êle nos encontrou brincando de cabra-cega num campo de
grande beleza rústica e de absoluta solidão. Provavelmente cap-
turou o mundo; só lhe resta capturar este campo e os imbecis
que aqui estão. Já que vocês querem realmente saber qual era
116 G. K. CHESTERTON

minha cisma com a chegada desse trem, eu direi. Minha cisma


era que Domingo ou o Secretário desembarcasse agora mesmo.
Syme proferiu um brado involuntário, e todos volveram os
olhos para a estação. Era inegável que uma grande multidão
parecia dirigir-se para o sítio em que eles estavam. Mas vinha
ainda muito distante e estava mal definida.
— Era um hábito do extinto Marquês de St. Eustache,
disse o novo polícia exibindo um estôjo de couro, andar sempre
com um binóculo. Ou o Presidente ou o Secretário vem em nos-
so encalço no meio daquela turba. Fomos agarrados num re-
canto aprazível e quieto, onde não podemos cair na tentação de
quebrar nossos juramentos chamando a polícia. Dr. Buli, sus-
peito que você enxergará muito melhor através dos meus que
através desses seus óculos sumamente decorativos. .
Entregou o binóculo a Dr. Buli, que imediatamente tirou
suas lunetas e colocou o aparelho nos olhos.
— Não há de ser terrível como você diz, aventou o Pro-
fessor, um pouco abalado. Não resta d.úvida que vem muita
gente, mas é possível que se trate de simples turistas.
— Mas simples turistas, perguntou Buli, com o binóculo
nos olhos, usam máscaras negras?
Syme arrancou violentamente o binóculo da mão do médi-
co e se pôs a observar. A avançadora multidão compunha-se,
em sua maioria, de homens de aparência normal. Mas era evi-
dente também que dois ou três dos que vinham à frente usa-
vam meias máscaras negras quase até à boca. Este disfarce é
perfeito, especialmente à distância. Syme admitiu a impossibi-
lidade de identificar os loquazes possuidores daquelas mandí-
bulas escanhoadas; mas, como todos conversavam e sorriam, pô-
de notar o sorriso torto de um deles.
CAPITULO XI

OS CRIMINOSOS ACOSSAM A POLICIA

Syme afastou dos olhos o binóculo, com alívio quase som-


brio.
— De qualquer modo o Presidente não está entre eles,
afirmou enquanto enxugava a testa.
— Mas o certo é que estão muito longe, disse pestanejando
o desnorteado Coronel, ainda não refeito das apressadas embo-
ra polidas explicações de Buli. Acha que é possível reconhecer
o seu Presidente no meio de todo aquele povo?
— Não poderia eu reconhecer um elefante branco no meio
de todo aquele povo!?! respondeu Syme com uma ponta de irri-
tação. Na verdade é como você diz: estão muito longe. Mas
se êle viesse caminhando com eles... Deus do céu! creio que
este chão sofreria abalos.
Após uma pequena pausa, o novato chamado Ratcliffe dis-
se com lúgubre propósito:
— Com certeza o Presidente não está entre eles. E prou-
vera aos Gêmeos que estivesse! É muito mais provável estar
desfilando triunfalmente em Paris, ou sentado sobre as ruínas da
Catedral de São Paulo.
— Isso é absurdo! exclamou Syme. Algo pode ter aconte-
cido em nossa ausência; mas êle não pode ter capturado o mun-
do com tamanha rapidez. £ indiscutível, acrescentou, de sobro-
lho franzido, examinando dubitativamente o prado distante nas
cercanias da estação, é inegável que uma multidão parece vir
ao nosso encontro; mas ela não é esse exército que você imagina.
— Oh, não, disse desdenhosamente o novo detetive, não
é uma força muito temível. Mas permita que eu fale com fran-
queza: ela foi calculada matematicamente, tendo em vista a nos-
sa importância, e nós, meu caro, não somos numerosos no uni-
118 G. K. CHESTERTON

verso de Domingo. Agora que êle se apoderou de todos os ca-


bos submarinos e de todos os telégrafos, o extermínio do Conse-
lho Supremo lhe parece uma trivialidade, como botar um car-
tão no correio. É tarefa para seu secretário particular, concluiu
o Inspetor, cuspindo na relva.
Em seguida, voltou-se para os outros e disse com certa aus-
teridade:
— Há muito que dizer em louvor da morte; mas se al-
guém tem qualquer preferência pela outra alternativa, aconse-
lho-o fervorosamente a tomar meu exemplo.
Com estas palavras, deu-lhes as amplas costas e, numa
silenciosa determinação, encaminhou-se a passos largos para o
bosque. Os outros, a uma simples olhadela, notaram que a es-
cura nuvem humana se apartara da estação e se deslocava com
misteriosa disciplina através da planície. Já divisavam, mesmo
a olho nu, os borrões pretos que marcavam as máscaras usadas
pelas caras da frente. Deram meia volta e seguiram o chefe,
o qual já se internara no bosque e desaparecera entre as árvores
farfalhantes.
O sol, no relvado, era seco e quente. Assim, ao se lança-
rem no bosque, sentiram o contato refrescante da sombra, como
mergulhadores que se lançam numa piscina sombreada. No in-
terior, o bosque se povoava de réstias despedaçadas e sombras
inquietas, que formavam uma espécie de trêmulo véu, evocati-
vo da trepidação do cinematógrafo. Syme mal podia distinguir
as sólidas figuras que andavam a seu lado sob os dançantes fei-
xes de luz e sombra. Num instante uma cabeça se iluminava à
maneira de Rembrandt, obliterando o resto do corpo; no instan-
te seguinte surgiam alvas mãos, fortes e vibráteis, acompanhadas
de uma cabeça de negro. O ex-Marquês puxara o velho chapéu
de palhinha para cima dos olhos, e a sombra negra da aba divi-
dia-lhe o rosto em duas metades tão perfeitas que êle parecia
trazer uma das negras meias máscaras dos seus perseguidores. A
fantasia coloriu o opressivo pasmo de Syme. Estaria de más-
cara o Marquês? Haveria mesmo alguém de máscara? Existiria
mesmo alguém? Este bosque enfeitiçado, onde os semblantes
dos homens se tornavam alternadamente pretos e brancos, onde
seus corpos, uma vez intumescidos na claridade, sumiam na noi-
te informe, este simples caos do claro-escuro (depois da lím-
pida manhã campesina) afigurou-se-lhe um símbolo perfeito
do mundo em que vivia há três dias, um mundo em que os ho-
mens largavam as barbas, os óculos e os narizes e tomavam ou-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 119

tras aparências. Aquela trágica confiança em si mesmo,


que sentira quando acreditara que o Marquês era um de-
mônio, havia desaparecido estranhamente, agora que êle sa-
bia que o Marquês era um amigo. Depois de todas essas
perplexidades, estava quase inclinado a perguntar o que era
um amigo e o que era um inimigo. Haveria alguma coisa
que subsistisse fora das aparências? O Marquês arrancara o
nariz e se transformara num detetive. Não poderia do mesmo mo-
do arrancar a cabeça e transformar-se num espectro? Tudo não
se assemelhava, de resto, a este bosque de logros, a esta dança
de treva e luz? Tudo não passava de um fugaz resplendor, o
resplendor sempre imprevisto e sempre esquecido. Porque Ga-
briel Syme havia encontrado no coração deste bosque sarapin-
tado de sol o que muitos pintores modernos aí haviam encontra-
do. Encontrara aquilo que os modernos chamam Impressionis-
mo, que é outro nome para o cepticismo definitivo, incapaz de
justificar o universo.
Como aquele que, no meio de um pesadelo, se esforça por
gritar e despertar, Syme lutava por desvencilhar-se desta últi-
ma e mais execrável de todas as suas fantasias. Com duas im-
pacientes pernadas alcançou o homem que usava o chapéu de
palhinha do Marquês, o homem a quem devia chamar de Ratclif-
fe. Numa voz exageradamente alta e galhofeira, rompeu o inson-
dável silêncio e puxou conversa.
— Posso perguntar-lhe para que fim-de-mundo nos diri-
gimos?
Tão autênticos tinham sido os temores de sua alma que êle
se rejubilou ao ouvir a entonação tranqüila e humana de seu
companheiro.
— Temos que alcançar o mar, passando pela cidade de
Lancy. A meu ver é pouco provável que esta região esteja do
lado deles.
— A que vem tudo isso? berrou Syme. Eles não podem
ter conquistado todo o mundo dessa forma. Decerto, nem to-
dos os trabalhadores são anarquistas, e mesmo que fossem, sim-
ples multidões não poderiam vencer os modernos exércitos e
a polícia!
— Simples multidões! repetiu seu novo amigo com um bu-
fo de desprezo. Você fala de multidões e classes operárias co-
mo se elas fossem o nó da questão. Está contaminado por uma
idéia eterna e idiota: se a anarquia vier, virá dos pobres.
Por quê? Os pobres foram rebeldes, mas anarquistas, nunca!
120 G. K. CHESTERTON

Mais do que os outros, têm interesse em que haja um governo


decente. O pobre realmente se enraíza em sua terra. O rico,
não; pode embarcar num iate para Nova Guiné. Algumas ve-
zes os pobres se opuseram aos maus governos; os ricos sempre
se opuseram a qualquer governo. Os aristocratas foram sempre
anarquistas. Basta recordar as guerras dos barões.
— Como preleção sobre história inglesa para meninos,
está excelente, disse Syme, mas ainda não encontrei sua aplica-
ção.
— Já vai encontrá-la, retorquiu o preletor. Quase todos
os braços-direitos de Domingo são milionários americanos e sul-
africanos. Por isso é que êle se apossou de todas as comuni-
cações, e é por isso que os quatro campeões restantes da for-
ça policial antianarquista estão fugindo através de um bosque
como se fossem coelhos.
— O que você diz dos milionários eu compreendo, disse
Syme pensativo. São loucos quase todos. Mas subjugar uns
poucos velhos maníacos e depravados é uma coisa; subjugar gran-
des nações cristãs é outra. Sou capaz de apostar meu nariz (per-
doe a alusão) que Domingo ficaria completamente desampa-
rado ante a tarefa de converter qualquer pessoa normal por aí
a fora.
— Bem, isso depende da pessoa, disse o outro.
— Por exemplo, jamais chegaríamos a converter essa daí,
disse Syme apontando para a sua frente.
Entraram num espaço descoberto e ensolarado, que aos
olhos de Syme representava o retorno do bom senso. E no meio
da clareira havia um homem que bem poderia, com absoluta pro-
priedade, encarnar o senso comum. Queimado de sol e sujo de
suor, e grave, imbuído daquela profunda gravidade inerente aos
singelos trabalhos cotidianos, um rude aldeão francês cortava
lenha com uma machadinha. Algumas jardas adiante jazia sua
carroça, quase cheia de toros; e o cavalo que comia o capim
era, como o dono, valoroso sem ser violento e, como o dono,
altaneiro ainda que quase triste. O homem era normando, mais
alto do que a média dos franceses e muito anguloso. Sua figu-
ra morena recortava-se na quadra ensolarada como uma alego-
ria do trabalho pintada a fresco sobre um fundo de ouro.
— Mr. Syme está dizendo, gritou Ratcliffe para o Coro-
nel francês, que esse homem, pelo menos, nunca será um anar-
quista.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 121

— Mr. Syme tem toda razão, respondeu o Coronel Du-


croix. Quando nada, pelo simples motivo de ter êle uma boa
propriedade a defender. Mas esqueci que na pátria de vocês
camponeses não costumam ser ricos.
— Esse parece pobre, advertiu Dr. Buli suspeitoso.
— Isso mesmo, disse o Coronel. E por isso é que êle
é rico.
— Tenho um idéia, bradou Dr. Buli de chôfre. Quanto
êle cobraria para arranjar-nos um lugar em sua carroça? Aque-
les cães vêm a pé, e logo os deixaríamos para trás.
— Ofereça-lhe o que quiser! disse pressuroso Syme. Te-
nho dinheiro à bessa.
— Não é assim que se faz, explicou o Coronel. Êle nun-
ca lhe terá nenhum respeito se você não quiser justar.
— Mas se êle regatear? começou Buli impaciente.
— Regateia porque é um homem livre, redargüiu o ou-
tro. Vocês não entendem. Êle não perceberia o sentido da
generosidade. Não é de receber gorjetas.
E mesmo quando supunham escutar atrás de si as passa-
das surdas de seus desconhecidos perseguidores, tiveram que
demorar-se, mortos de sofreguidão, enquanto o Coronel fran-
cês e o lenhador francês falavam com toda a pachorra e esper-
teza de um dia de feira. Ao fim de quatro minutos, porém,
viram que o Coronel tinha razão, pois o lenhador acatara a
proposta, não com o vago servilismo do biscateiro bem pago,
mas com a seriedade de um procurador que recebeu os hono-
rários justos. Disse-lhes que a melhor coisa a fazer era toma-
rem o rumo de uma pousada situada nas colinas de Lancy, onde
o hospedeiro, antigo soldado convertido em dévot na velhice,
decerto simpatizaria com eles e talvez assumisse o risco de
ajudá-los. Toda a comitiva então apinhou-se em cima das pi-
lhas de lenha e, ao balanço da rude carroça, dirigiu-se para
a outra banda mais alcantilada do bosque. Embora pesado e
desconchavado, o veículo ganhara bastante velocidade, e pouco
depois tiveram a confortadora impressão do afastamento daque-
les, quem quer que fossem, que os perseguiam. Porque, no
fim de contas, descobrir onde os anarquistas haviam arregi-
mentado tantos sequazes era um enigma ainda indecifrado. A
presença de um único homem era suficiente; eles tinham aba-
lado à vista do sorriso deformado do Secretário. De quando
em quando Syme olhava de esguelha para o exército que vinha
em suas pegadas.
122 G. K. CHESTERTON

À medida que o bosque se rarefazia e estreitava com a


distância, Syme descortinava as encostas resplendentes, por on-
de a quadrada e negra matilha marchava feito um monstruoso
escaravelho. Na vivíssima claridade e com seus vivíssimos
olhos, quase telescópicos, divisava perfeitamente esses vultos
longínquos. Via-os como figuras humanas individualizadas;
mas reparava, com surpresa cada vez maior, que eles se mo-
viam como um só homem. Pareciam usar roupas escuras e
chapéus comuns, como quaisquer pessoas da rua; mas não se
espalhavam, nem se chocavam, nem se distribuíam em vários
sentidos, como seria natural numa multidão ordinária. Mo-
viam-se com a assustadora e maligna rigidez de um pau, como
um horripilante exército de autômatos.
Syme apontou-o a Ratcliffe.
— É, sim, respondeu o detetive, isso é disciplina. É puro
Domingo. Êle está talvez a quinhentas milhas daqui, mas
infunde-lhes tanto temor quanto o dedo de Deus. Marcham
uniformemente, e pode apostar suas botas que eles estão fa-
lando uniformemente e pensando uniformemente. Mas o que
é importante para nós é que eles estão desaparecendo com a
mesma uniformidade.
Syme concordou. Era verdade que a negra mascarada que
os perseguia, pouco a pouco definhava, à proporção que o cam-
ponês chicoteava o cavalo.
O nível da paisagem clara, ainda que quase todo plano,
descambava nos confins do bosque em ondas de lento declive
que se perdiam no mar, à semelhança dos mais baixos declives
das dunas de Sussex. A única diferença era que em Sussex
o caminho deveria ser fragmentado e tortuoso como um rega-
to, enquanto aqui a branca estrada francesa despencava-se
diante deles como uma catarata. No fim da primeira rampa,
a carroça estalou ao fazer uma curva fechada, e em alguns
minutos, com a estrada ainda mais escarpada, contemplaram a
seus pés o minúsculo porto de Lancy e o magnífico arco azul
do mar. A nuvem viageira de seus inimigos desaparecera total-
mente do horizonte.
Cavalo e carroça impetuosamente rodearam um grupo de
olmos, e o cavalo quase deu de focinho no rosto de um velho
que estava sentado num dos bancos da calçada do café "Le
Soleil d'Or". O aldeão grunhiu uma desculpa e apeou-se. Os
outros também desmontaram e um a um saudaram o velho com
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 123

meias frases de cortesia, pois suas maneiras expansivas eviden-


ciavam que êle era o proprietário da tasca.
Era um sujeito encanecido, com cara de maçã, olhos so-
nolentos e bigode pardo, corpulento, sedentário e simplório,
um tipo que se pode com freqüência encontrar na França, mas
é muito mais comum na Alemanha católica. Tudo quanto o
cercava — seu cachimbo, seu caneco de cerveja, suas flores e
sua colmeia — sugeria uma paz ancestral; somente quando
seus hóspedes, dentro da sala de visitas, levantaram a vista de-
pararam com a espada pendurada na parede.
O Coronel, que cumprimentou o estalajadeiro como um
velho amigo, entrou apressadamente, sentou-se e encomendou
um refrigerante. A decisão de seu ato interessou Syme, que
se sentou a seu lado e aproveitou o momento em que o velho
estalajadeiro se ausentou, para satisfazer a própria curiosidade.
— Pode explicar, Coronel, perguntou em voz baixa, por
que viemos para cá?
O Coronel Ducroix sorriu por trás da cerdosa bigodeira
branca.
— Por duas razões, meu prezado senhor, disse êle. Darei,
primeiro, não a mais importante mas a mais vantajosa. Vie-
mos para cá porque este é o único lugar, num raio de vinte
milhas, em que podemos alugar cavalos.
— Cavalos! repetiu Syme, recobrando o ânimo.
— Sim, replicou o outro. Se vocês querem realmente dis-
tanciar-se de seus inimigos só têm uma saída: cavalos! A me-
nos, naturalmente, que tragam nos bolsos bicicletas e auto-
móveis.
— E você nos aconselha a seguir para onde? inquiriu
Syme com alguma descrença.
— Fora de dúvida, redargüiu o Coronel, o melhor que
vocês têm a fazer é correr logo para a delegacia de polícia da
cidade. Tenho para mim que o amigo que apadrinhei em cir-
cunstâncias um tanto equívocas exagera demais as possibilida-
des de um levante geral, mas suponho que nem mesmo êle ne-
garia que entre os gendarmes vocês estão em segurança.
Syme aprovou gravemente com a cabeça. Depois per-
guntou de chôfre:
— E sua outra razão de vir para cá?
— Minha outra razão de vir para cá, disse seriamente
Ducroix, é que é sempre prudente ver um ou dois homens
honestos quando se está praticamente às portas da morte.
124 G. K. C H E S T E R T O N

Syme olhou para o alto da parede e descobriu um quadro


religioso, de cores cruas e patéticas.
— Tem razão, disse, e acrescentou quase em seguida:
Alguém foi providenciar os cavalos?
— Foi, sim, respondeu Ducroix. Fique certo de que dei
ordens no momento em que entrei. Aqueles inimigos de vocês
não davam a impressão de ter pressa, mas na realidade se des-
locavam com incrível rapidez, parecendo um exército bem ades-
trado. Nunca pensei que os anarquistas tivessem tanta disci-
plina. Vocês não podem perder um minuto.
Nem bem acabara de falar quando o velho estalajadeiro
dos olhos azuis e cabelos brancos ingressou cautelosamente
na sala e anunciou que havia seis cavalos selados lá fora.
A conselho de Ducroix, os cinco outros se muniram de
pequenas rações de comida e vinho e, conservando suas espa-
das duelares como únicas armas disponíveis, afastaram-se rui-
dosamente pela estrada branca e alcantilada. Por unânime con-
sentimento, os dois criados, que carregaram a bagagem do Mar-
quês quando êle era marquês, ficaram bebendo no café, o que,
enfim, não contrariava os secretos desejos de ambos.
O sol, nessa hora do dia, começava a declinar para o
ocidente. Através de seus raios, Syme entrevia o velho estala-
jadeiro, cuja robusta figura ia diminuindo aos poucos, embora
continuasse em pé a segui-los mudamente com o olhar, en-
quanto o sol lhe banhava os cabelos prateados. Syme sentia-se
presa de uma fantasia persistente e supersticiosa, depositada em
seu espírito pelo dito ocasional do Coronel: a de que esse
era talvez o último homem honesto que contemplava na terra...
Continuava ainda atento para aquele vulto minguante,
mero borrão pardacento na vasta muralha verde da encosta,
quando, no alto, por trás do estalajadeiro, viu surgir em marcha
um exército de homens vestidos de preto. Parecia pairar sobre
o bom homem e sua casa como uma negra nuvem de gafa-
nhotos. Em boa hora foram selados os cavalos!
CAPITULO XII

A TERRA EM ANARQUIA

Incitando os cavalos ao galope e indiferentes ao áspero de-


clive da estrada, em pouco tempo os cavaleiros retomaram a
dianteira, até que a massa dos primeiros edifícios de Lancy in-
terceptou a visão dos seus perseguidores. Sem embargo, fora
um longo percurso. Quando chegaram à cidade, já o ocidente
se inflamava das cores e da exuberância do crepúsculo. O
Coronel sugeriu que, antes de se dirigirem de vez para a dele-
gacia de polícia, tentassem, de passagem, atrair as simpatias de
mais um indivíduo que podia ser-lhes útil.
— Quatro, dos cinco ricaços deste burgo, disse êle, são
trapaceiros vulgares. Suponho que a proporção é razoavelmente
igual à do resto do mundo. O quinto é um amigo meu. Sujeito
excelente! E o mais importante, do nosso ponto de vista, é
que possui um automóvel.
— Temo, disse o Professor com jovialidade, espreitando
a estrada branca por onde a negra e rastejante mascarada podia
surgir de um momento parp outro, temo que não disponhamos
de tempo para visitas vespertinas.
— A casa do Dr. Renard está apenas a uns três minutos
daqui, insistiu o Coronel.
— Nossa desgraça, objetou Dr. Buli, está a menos de dois
minutos.
— Se cavalgarmos a toda brida, disse Syme, poderemos
deixá-los para trás, porque eles vêm a pé.
— Êle tem automóvel, teimou o Coronel.
— Mas não devemos contar com isso, disse Buli.
— Êle está do lado de vocês.
— Mas pode não estar em casa.
126 G. K. C H E S T E R T O N

— Silêncio, ordenou Syme subitamente. Que barulho é


esse?
Por um segundo todos ficaram tão imóveis como estátuas
eqüestres, e por um segundo — por dois ou três ou quatro
segundos — o céu e a terra pareceram igualmente imóveis.
Depois, todos os seus ouvidos, agoniados de atenção, escuta-
ram pela estrada aquela indescritível vibração que só significa
uma coisa: cavalos!
O rosto do Coronel transformou-se instantaneamente, como
se um raio o tivesse tocado, deixando-o, porém, incólume.
— Pegaram-nos, disse com breve ironia militar. Preparar
para receber carga de cavalaria!
— Onde é que terão conseguido os cavalos? perguntou
Syme enquanto mecanicamente instigava o corcel a um meio
galope.
O Coronel guardou silêncio por um instante. Depois fa-
lou constrangido:
— Fui estritamente exato quando disse que o "Soleil
d'Or" é o único lugar, nessas vinte milhas, onde é possível
conseguir cavalos.
— Não! bradou Syme violentamente. Não creio que êle
o fizesse. Não é possível, não é, com todos aqueles cabelos
brancos!
— Talvez tenha sido coagido, disse com brandura o Coro-
nel. Eles devem ser pelo menos uma força de cem homens.
Essa é mais uma boa razão para procurarmos o meu amigo
Renard, que tem automóvel.
Ao pronunciar estas palavras, galopou para a esquina e
enfiou pela rua com tão fulminante velocidade que os outros,
que já corriam à desfilada, tiveram dificuldade em seguir a
cauda voadora de seu cavalo.
Dr. Renard habitava uma confortável mansão no alto de
uma ladeira. Quando, à sua porta, eles apearam dos cavalos,
enxergaram, varada pela estrada branca, a sólida crista verde
da colina que se alteava acima de todos os telhados da cidade.
Ao constatar que a estrada ainda estava deserta respiraram
aliviados e tocaram a campainha.
Dr. Renard era um homem alegre, de barbas castanhas,
um bom representante dessa silenciosa mas ativa- classe pro-
fissional que a França soube preservar melhor que a Inglaterra.
Quando foi inteirado do assunto, galhofou do pânico do ex-
Marquês. Asseverou, com o sólido ceticismo francês, que não
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 127

havia probabilidade imaginável de um levante geral anarquista,


e concluiu, encolhendo os ombros:
— Anarquia é infantilidade!
— Et ça, bradou de repente o Coronel, apontando por
cima do ombro do outro. Isso é infantilidade?
Todos volveram o olhar e avistaram um arco de negra
cavalaria transpondo o cimo da encosta com todo o ímpeto
de Átila. Observaram que apesar de cavalgar velozmente, a
tropa se mantinha coesa, e que as negras máscaras da primeira
fila avançavam com a mesma regularidade de uma linha de
uniformes. O negro quadrado era, em essência, o mesmo de
antes, embora avançasse com rapidez cada vez maior. Havia,
porém, agora, uma diferença nitidamente visível na rampa da
encosta como num mapa inclinado. Na verdade, o grosso da
cavalaria formava um único bloco; mas à frente da coluna
voava um ginete, cujos movimentos frenéticos de mãos e cal-
canhares fustigando o cavalo talvez induzissem a pensar que
êle não era o perseguidor e sim o perseguido. A despeito da
distância, ressaía em sua figura algo tão fantástico e tão incon-
fundível que prontamente identificava o Secretário.
— Lamento interromper uma discussão erudita, disse o
Coronel, mas você pode emprestar-me seu automóvel agora
mesmo?
— Estou desconfiado que vocês estão todos loucos, disse
Dr. Renard, sorrindo afàvelmente. Mas Deus permita que a
loucura nunca perturbe a amizade. Vamos até à garagem.
Dr. Renard era um homem bonachão e monstruosamente
rico, cuja casa era como o Museu de Cluny. Possuía três auto-
móveis, mas, tendo os gostos simples da classe média francesa,
parecia usá-los muito raramente. Quando seus impacientes ami-
gos foram examiná-los, perderam uma porção de tempo para
certificar-se de que um dos três poderia funcionar. Com difi-
culdade trouxeram-no para a rua, parando-o diante da casa do
Dr. Renard. Fora da escura garagem espantaram-se ao ver que
o crepúsculo já havia descido com a presteza da noite nos tró-
picos. Ou eles se tinham demorado mais do que imaginavam,
ou algum inusitado dossel de nuvens se armara sobre a cidade.
Baixando a vista pelas ruas ladeirosas pareceu-lhes que uma
aligeirada neblina subia do mar.
— Agora ou nunca, disse Dr. Buli. Ouço cavalos.
— Não, emendou o Professor. Um cavalo.
128 G. K. CHESTERTON

E enquanto escutavam, tornou-se-lhes evidente que aquele


ruído, avizinhando-se cèleremente nas pedras retumbantes, não
era o de uma cavalgada, mas o de um ginete que disparara
à frente dos demais: o insano Secretário.
A família de Syme, como a maioria daquelas que findam
na pobreza, possuíra outrora um carro, e Syme sabia tudo
acerca de automóveis. Saltou imediatamente para o assento
do chofer e, com o rosto afogueado, tentou pôr em movimento
o desusado maquinismo. Aplicou toda a sua força numa ala-
vanca e depois disse tranqüilamente:
— Receio que êle não ande.
No mesmo instante um homem retesado, montado num
cavalo veloz, surgiu na esquina com a velocidade e a rigidez
de uma seta. Trazia um sorriso que alongava o queixo como
se este se tivesse deslocado. Passou raspando pelo carro esta-
cionado, dentro do qual a turma se amontoara, parou na frente
e colocou a mão no motor. Era o Secretário, e sua boca se
retificara na solenidade do triunfo.
Syme debruçava-se tenazmente sobre a roda do volante.
Não havia ruído nenhum além do rumor dos outros persegui-
dores que invadiam a cidade. Súbito rebentou um estridor de
ferros entrechocados, e o carro partiu. O Secretário foi arran-
cado da sela como uma faca lançada para fora da bainha. O
carro arrastou-o violentamente umas vinte jardas e deixou-o
estendido na estrada, diante do cavalo espavorido. Quando o
carro dobrou a esquina, fazendo uma esplêndida curva, viram
os outros anarquistas aglomerando-se na rua e erguendo o
chefe caído.
— Não compreendo porque está tão escuro, disse por fim
o Professor em voz baixa.
— Penso que vai haver tempestade, aventou Dr. Buli. É
pena que não tenhamos uma lâmpada neste carro para iluminar
o caminho.
— Temos, sim, afirmou o Coronel, e do fundo do cano
suspendeu uma pesada lanterna de ferro, esculpida e fora de
uso, dentro da qual havia uma lâmpada. Obviamente era uma
antigüidade e parecia que seu uso original fora, de certo modo,
semi-religioso, pois num de seus lados figurava um rude ornato
em forma de cruz.
— Onde você a arranjou? perguntou o Professor.
— Arranjei-a onde arranjei o carro, respondeu o Coronel,
rindo por entre os dentes. Com meu melhor amigo. Enquanto
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 129

aqui o nosso Syme lutava com o volante, subi ligeiro a esca-


daria e falei com Renard, que, como vocês se lembram, estava
de pé no átrio. "Acho", disse eu, "que não há tempo para
conseguir uma lâmpada". Êle ergueu os olhos, piscando amà-
velmente para a primorosa abóbada do vestíbulo. Do teto,
presa por magníficas cadeias de ferro, pendia esta lanterna, uma
das cem preciosidades de sua preciosa casa. Sem perda de
tempo, arrancou a lâmpada do lugar, rachando os painéis e
derrubando dois vasos azuis com sua violência. Entregou-me
então a lanterna e eu coloquei-a no carro. Não tinha eu razão
de dizer que o Dr. Renard merecia ser conhecido?
— Tinha, pois não! confirmou Syme seriamente, e pen-
durou a pesada lanterna na frente do carro. Havia uma certa
alegoria da situação deles no contraste entre o moderno auto-
móvel e a estranha lâmpada eclesiástica.
Até aqui tinham passado pela parte mais quieta da cidade,
encontrando no máximo um ou dois pedestres que não lhes po-
diam dar idéia da paz ou da hostilidade do lugar. Agora, entre-
tanto, as janelas das casas começavam uma a uma a iluminar-se,
produzindo uma sensação maior de acolhimento e humanidade.
Dr. Buli voltou-se para o novo detetive e permitiu-se um de
seus sorrisos naturais e amigáveis.
— Essas luzes deixam a gente mais alegre.
O Inspetor Ratcliffe franziu a testa.
— Somente certas luzes me deixam mais alegre, disse êle,
e são aquelas luzes da delegacia de polícia que estou vendo
no outro lado da cidade. Deus queira que cheguemos lá em
dez minutos.
Então todo o efervescente bom senso e otimismo de Buli
explodiu:
— Mas isso é um alucinado disparate! exclamou. Se você
supõe que essa gente simples é anarquista, então você está mais
louco do que um verdadeiro anarquista. Se resolvêssemos en-
frentar aqueles sujeitos toda a cidade combateria do nosso lado.
— Não, replicou o outro com a mesma simplicidade. To-
da a cidade combateria do lado deles. Haveremos de ver.
Enquanto conversavam* o Professor inclinou-se para a
frente com repentina inquietação.
— Que barulho é esse? perguntou.
— Os cavalos atrás de nós, creio eu, disse o Coronel.
Pensei que os tínhamos vencido.
130 G. K. C H E S T E R T O N

— Cavalos? Nunca! redargüiu o Professor. Não são ca-


valos, nem estão atrás de nós.
Mal concluíra o Professor, quando, à frente deles, no fim
da rua, passaram num abrir e fechar de olhos dois objetos bri-
lhantes e rumorosos. Sumiram num segundo, mas todos viram
que eram automóveis. O Professor ergueu-se empalidecido e
jurou que eram os outros dois automóveis da garagem do Dr.
Renard.
— Eram os dele, repetiu com os olhos esgazeados. Esta-
vam cheios de mascarados!
— Absurdo! vociferou o Coronel. Dr. Renard nunca lhes
daria seus carros.
— Pode ter sido coagido, sugeriu Ratcliffe calmamente.
Toda a cidade está do lado deles.
— Você ainda acredita nisso? perguntou incrédulo o
Coronel.
— Logo todos vocês acreditarão, retorquiu o outro numa
desesperada serenidade.
Por alguns instantes estabeleceu-se uma pausa embara-
çosa, que o Coronel rompeu bruscamente:
— Não, não posso acreditar. Isso é puro despropósito.
O singelo povo de uma pacata cidade francesa...
Foi interrompido por um estampido e um lampejo bem
perto de seus olhos. Quando o carro partiu cèleremente, dei-
xando atrás de si uma flutuante nuvem de alva fumaça, Syme
ouviu sibilar uma bala.
— Deus meu! bradou o Coronel. Alguém nos alvejou.
— Não é necessário interromper a conversa, disse o som-
brio Ratcliffe. Por favor, Coronel, retome as suas considera-
ções. Se não estou enganado, você falava do singelo povo de
uma pacata cidade francesa.
O estupefato Coronel não estava mais para motejos. Cir-
cunvagava os olhos, perscrutando a rua.
— É extraordinário, disse, superextraordinário!
— Uma pessoa rabugenta, disse Syme, poderia achar de-
sagradável. Mas me parece que aquelas luzes acolá, no fim
desta rua, são da delegacia. Em pouco tempo chegaremos lá.
— Não, disse o Inspetor Ratcliffe. Nunca chegaremos lá.
Tinha-se levantado para devassar a distância. Voltou a
sentar-se e alisou a estirada cabeleira com um gesto de fadiga.
— O que é que você quer dizer? inquiriu Buli incisivo.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 131

— O que eu quero dizer é que nunca chegaremos lá, res-


pondeu plàcidamente o pessimista. Eles já atravancaram a es-
trada com dois pelotões armados. Vejo-os daqui. A cidade
está em pé de guerra, como eu predisse. Resta-me somente
aninhar-me no conforto sutil de minha própria certeza.
E Ratcliffe, acomodando-se confortàvelmente, acendeu um
cigarro, enquanto os outros se punham excitadamente de pé e
examinavam a estrada. Syme diminuíra a marcha do carro ao
sentir que seus planos se tornavam inexeqüíveis e, por fim,
parou-o na esquina de uma rua que descia a pique para o mar.
Quase toda a cidade estava recoberta de sombras, mas o
sol ainda não se tinha posto; por onde se derramava seu fulgor
esfatiado, todas as coisas se coloriam de ouro flamante. Sobre
o alto dessa rua transversal o derradeiro clarão do ocaso incidia
tão agudo e estreito como um raio de luz artificial no teatro.
Batia no carro dos cinco amigos, transformando-o numa carrua-
gem fulgurante. Mas o resto da rua, especialmente nas duas ex-
tremidades, imergia no mais profundo crepúsculo. Por alguns
segundos nada puderam ver. Depois, Syme, cujos olhos eram
os mais penetrantes, rompeu num curto e amargo assobio, e
a juntou:
— É verdade. Uma multidão, ou um exército, ou seja lá
o que fôr, está reunido no fim daquela rua.
— Bem, se é assim, disse Buli impaciente, deve haver um
outro motivo: um combate simulado, o aniversário do prefeito,
ou coisa semelhante. Não posso e não quero crer que a gente
simples e alegre de um lugar como este ande com os bolsos
cheios de dinamite. Avancemos um pouquinho, Syme, e olhe-
mos isso de perto.
O carro havia percorrido lentamente umas cem jardas
quando todos se surpreenderam com uma gargalhada do Dr.
Buli.
— Vejam, seus bestalhões! berrou. O que foi que eu
disse? Essa multidão é tão obediente à lei como uma vaca. E
se não é, está do nosso lado.
— Como é que você sabe? perguntou espantado o Pro-
fessor.
— Você é cego como um morcego, berrou Buli outra vez.
Não vê quem os comanda?
Espreitaram de novo, e então o Coronel, com um tremor
na voz, gritou:
— Ora, é Renard!
132 G. K. CHESTERTON

De fato, não se podiam distinguir claramente os vultos


pardacentos que se agitavam na estrada; entretanto, mais adian-
te, num ponto iluminado, via-se, passeando acima e abaixo, o
inconfundível Dr. Renard, de chapéu branco. Sua mão direita
afagava as compridas barbas e a esquerda segurava um revólver.
— Que louco eu fui! exclamou o Coronel. Naturalmente
o meu velho amigo veio ajudar-nos.
Dr. Buli, borbulhando gargalhadas, brandia levianamente
a espada, como se ela fosse uma bengala. Saltou do carro e
saiu a correr, gritando:
— Dr. Renard! Dr. Renard!
Um segundo depois, Syme julgou que seus próprios olhos
enlouqueciam dentro de sua cabeça. Pois o filantrópico Dr. Re-
nard acintosamente apontara o revólver contra Buli e fizera
dois disparos que atroaram a estrada.
Quase no mesmo instante em que a espiral de branco
fumo se desprendeu dessa lastimável detonação, uma longa es-
piral de branco fumo também se desprendeu do cigarro do
cínico Ratcliffe. Este empalidecera como os outros, mas sor-
ria. Dr. Buli, a quem as balas tinham sido dirigidas e que por
üm triz não foi escalpado, parou tranqüilamente no meio da
estrada, sem dar sinal de medo. Depois virou-se lentamente,
caminhou para o carro e subiu, trazendo dois buracos no chapéu.
— Bem, disse sossegadamente o fumante, que é que você
pensa agora?
— Penso, respondeu Dr. Buli sem titubear, que estou
dormindo em Peabody Buildings 217 e que daqui a pouco
acordo e dou um pulo da cama; ou então, penso que estou sen-
tado num cubículo almofadado de Hanwell e que o médico na-
da mais pode fazer no meu caso. Mas se você quer saber o
que eu não penso, vou lhe dizer. Não penso o mesmo que
você pensa. Não penso e não pensarei nunca que a massa de
homens comuns seja um amontoado de ignóbeis pensadores
modernos. Não, meu caro, sou um democrata e ainda não creio
que Domingo possa converter um escavador ou um caixeiro.
Não! Posso estar louco, mas a humanidade não está.
Syme dirigiu para Buli seus claros olhos azuis, com uma
seriedade que comumente não manifestava:
— Você é um sujeito excelente. Acredita que a sensatez
não é um privilégio exclusivamente seu. E tem toda (razão no
que toca à humanidade, aos camponeses e a pessoas como
aquele velho e simpático estalajadeiro. Mas não tem razão no
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 133

que toca a Renard. Suspeitei dele desde que o vi. Ê racio-


nalista e, o que é pior, rico. Se o dever e a religião têm que
ser destruídos, hão de ser destruídos pelos ricos.
— E agora já estão realmente destruídos, disse o homem
do cigarro, erguendo-se com as mãos nos bolsos. Os diabos
se aproximam.
Os ocupantes do automóvel seguiram ansiosamente a dire-
ção do olhar cismarento de Ratcliffe e viram que todo o regi-
mento investia sobre eles desde a ponta da rua. Dr. Renard,
furioso, marchava na frente, a barba voando na brisa.
O Coronel pulou para fora do carro, soltando uma excla-
mação de impaciência.
— Senhores, vozeou, isso é incrível! Deve ser brincadeira.
Se conhecessem Renard como eu conheço... É como chamar
a Rainha Vitória de dinamiteira. Se vocês guardassem na men-
te o caráter desse homem...
— Dr. Buli, atalhou Syme sardônico, guarda-o pelo me-
nos no chapéu.
— Digo-lhes que isso não é possível! berrou o Coronel,
pateando que nem um louco. Renard explicará tudo. Êle vai
explicar-me, sim. E a passos largos foi para diante.
— Não tenha tanta pressa, disse preguiçosamente o fu-
mante. Em breve êle nos explicará tudo.
Mas o sôfrego Coronel já não o ouvia e caminhava para
o inimigo avançador. O exaltado Dr. Renard outra vez apon-
tou a arma, mas, reconhecendo o adversário, hesitou. O Coro-
nel avizinhou-se dele, fazendo uns gestos frenéticos de ad-
moestação.
— É inútil, disse Syme. Nada conseguirá daquele velho
idolatra. Proponho que a gente meta o carro no meio deles,
de surpresa, como as balas que vararam o chapéu de Buli. É
possível que nos matem, mas nós também mataremos um bom
número deles.
— Não topo isso, não, disse Dr. Buli, tornando-se mais
vulgar na sinceridade da sua virtude. Esses pobres camaradas
podem estar enganados. Demos uma oportunidade ao Coronel.
— Devemos voltar, então? perguntou o Professor.
— Não, respondeu friamente Ratcliffe. A outra ponta
da rua também está guarnecida. Parece-me até que vejo lá
outro amigo seu, Syme.
134 G. K. CHESTERTON

Syme habilmente fêz a volta e deu uma olhada para o


caminho percorrido. Avistou, galopando ao seu encontro na
escuridão, um troço irregular de cavalaria. Viu, sobre a sela
da frente, o brilho prateado de uma espada e, pouco depois,
o brilho prateado dos cabelos de um ancião. Num instante,
com tremenda violência, fêz outra volta e, como um homem
que só desejasse morrer, lançou precipitadamente o carro na
ladeira que ia dar no mar.
— Que diabo é isso? bradou o Professor, agarrando-lhe
o braço.
— Caiu a estrela da manhã, respondeu Syme, enquanto
o carro se despencava pela escuridão como uma estrela cadente.
Os outros não lhe entenderam as palavras, mas quando
relancearam os olhos para o alto viram a cavalaria inimiga
dobrando a esquina e descendo a ladeira; na vanguarda caval-
gava o honesto estalajadeiro, corado pela ardente inocência do
rubor crepuscular.
— O mundo está doido! exclamou .o Professor e enterrou
o rosto nas mãos.
— Não, disse Dr. Buli com adamantina humildade, doido
estou eu.
— Que vamos fazer? perguntou o Professor.
— Neste momento, disse Syme com científico desprendi-
mento, vamos despedaçar-nos de encontro a um poste de luz.
Um segundo depois o automóvel esbarrou, com catas-
trófico rangido, num objeto de ferro. No instante seguinte
quatro homens abriam caminho por entre os destroços metá-
licos, e um poste comprido e fino, que antes se erguia desem-
penado à margem da avenida litorânea, quedava-se agora cur-
vado e retorcido como o galho de uma árvore abatida.
— Bem, alguma coisa destruímos, comentou o Professor,
sorrindo pàlidamente. O que não deixa de ser um consolo.
— Você está se tornando anarquista, disse Syme, enquan-
to, impelido por seu instinto de elegância, sacudia o pó da
roupa.
— Todo mundo já o é, disse Ratcliffe.
Enquanto conversavam, o cavaleiro encanecido e seus se-
quazes avizinhavam-se tonitruantes, e quase simultaneamente
uma escura multidão corria gritando ao longo da avenida. Syme
apanhou uma espada e agarrou-a nos dentes, prendeu duas
outras debaixo dos sovacos, segurou uma quarta na mão es-
querda e com a lanterna na mão direita pulou para a praia.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 135

Os outros pularam depois dele, em solidário acatamento


à decisão, deixando para trás os escombros e a turba reunida.
— Temos mais uma oportunidade, disse Syme tirando a
espada da boca. Seja qual fôr o sentido de todo este pande-
mônio, acho que a delegacia de polícia nos ajudará. Não po-
demos alcançá-la porque eles guardam o caminho. Mas ali,
naquele quebra-mar, poderemos resistir tanto quanto Horácio
na sua ponte. Temos de resistir até que venha a polícia. Si-
gam-me.
Os outros seguiram-lhe os passos na rangente areia e, após
um ou dois segundos, suas botas pisavam, não os seixos da
maré, mas lajes grandes e chatas. Tomaram por um extenso
e raso molhe que se lançava num braço do mar negro e enca-
pelado, e quando chegaram ao fim do paredão sentiram que
haviam chegado ao fim de suas aventuras. Voltaram-se e con-
templaram a cidade.
A cidade se transfigurara; era só alvoroço. Em toda a
extensão da avenida atropelava-se uma turva e estrepitosa cor-
rente de seres humanos, com os braços agitados e os rostos
ferozes, a encará-los ameaçadoramente. A comprida e escura
fileira estava ponteada de archotes e lanternas; mas mesmo on-
de nenhuma chama alumiava uma cara enfurecida, eles pres-
sentiam, no perfil mais longínquo e no gesto mais indefinido, um
ódio organizado. Evidentemente eram malditos entre todos os
homens, mas não sabiam por quê.
Como eles já haviam feito, dois ou três sujeitos, que pa-
reciam pequenos e negros como macacos, pularam da calçada
e caíram na praia. Gritando horrivelmente e sulcando a areia
frouxa, tentaram estabanadamente ganhar o mar. O exemplo
foi seguido, e toda a massa negra começou a escorrer e pingar
da calçada como negro melaço.
Entre os primeiros tipos da praia Syme reconheceu o al-
deão que os transportara na carroça. Chafurdava na ressaca,
montado num possante cavalo de tiro, e ameaçava-os, bran-
dindo um machado.
— O camponês! berrou Syme. Eles não se levantam desde
a Idade Média.
— Ainda que a polícia chegue agora, disse melancòlica-
mente o Professor, nada pode fazer com essa multidão.
— Tolice! exclamou Buli desesperado. Na cidade deve
ter ficado muita gente que é humana.
136 G. K. CHESTERTON

— Não, disse o desencantado Inspetor. O ser humano em


breve se extinguira. Somos os últimos espécimes da huma-
nidade.
— Pode ser, disse o Professor distraidamente. Depois
acrescentou com sua voz sonhadora: O que é que está escrito
no fim da Inepcíada de Pope?

Nenhuma chama, pública ou privada,


Nenhuma luz, divina ou maculada,
Fulge em teu Reino, oh Caos devorador!
Morre a Luz sob teu verbo assolador.
Que baixes a cortina, grande Anarca,
Surja a treva total, que o mundo abarca!

— Silêncio! gritou Buli de repente. Os gendarmes vêm aí.


De fato, na delegacia de polícia cruzavam-se vultos dili-
gentes, riscando e ofuscando as janelas iluminadas, e do centro
da escuridão vinha o ruído seco e metálico de uma disciplinada
cavalaria.
— Estão carregando sobre a multidão! gritou Buli entre
extasiado e alarmado.
— Não, disse Syme, estão formados na avenida.
— Apontaram as carabinas, bradou Buli, dançando de
alegria.
— Sim, disse Ratcliffe, e vão dispará-las contra nós.
Em meio a suas palavras soou um demorado crepitar de
fuzilaria e, diante deles, as balas saltitaram nas pedras como
saraivas.
— Os gendarmes uniram-se a eles! exclamou o Professor
e deu uma palmada na testa.
— Estou mesmo no cubículo, disse Buli convictamente.
Houve um longo silêncio. Então, Ratcliffe, olhando para
o encrespado mar purpúreo-acinzentado, falou:
— Que importa saber quem está louco ou quem está
lúcido? Daqui a pouco estaremos todos mortos.
Syme voltou-se para êle e perguntou:
— Você está completamente desesperado, não é mesmo?
Mr. Ratcliffe guardou um mutismo pétreo; ao fim de al-
guns instantes, porém, respondeu calmamente:
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 137

— Não. Ê muito estranho, mas eu não estou completa-


mente desesperado. Resta ainda uma vaga e louca esperança
que não me sai da cabeça. Todos os, podêres deste planeta
estão contra nós, e me espanta que sobreviva esta tola es-
perança.
— Em que ou em quem se baseia sua esperança? pergun-
tou Syme curioso.
— Num homem que nunca vi, respondeu o outro, fitando
o plúmbeo mar.
— Compreendo, disse Syme em voz baixa. O homem do
quarto escuro. Mas a esta hora já deve ter sido assassinado
por Domingo.
— Talvez, disse o outro com firmeza. Mas, nesse caso,
foi o único homem que Domingo achou duro de morrer.
— Ouvi o que você disse, falou o Professor, de costas.
Também estou agarrado a uma coisa que nunca vi.
De repente, Syme, que estava como que enlevado em
visões introspectivas, volveu-se para os outros e gritou como
se despertasse:
— Onde está o Coronel? Pensei que estava conosco!
— O Coronel! repetiu Buli. É verdade, que é feito do
Coronel?
— Tinha ido falar com Renard, disse o Professor.
— Não podemos abandoná-lo no meio dessas feras, bra-
dou Syme. Morramos como cavalheiros s e . . .
— Não tenha pena do Coronel, disse Ratcliffe com um
pálido sorriso de desdém. Êle está bem acomodado. Está...
— Não, não, não! bradou Syme impaciente. O Coronel
também? não! Não acredito!
— Acredita em seus próprios olhos? perguntou o outro
e apontou para a praia.
Muitos dos perseguidores, sacudindo os punhos, haviam
entrado na água, mas o mar bravio impedia-os de chegar ao
molhe. Contudo, dois ou três alcançaram o início da passagem
de pedra e pareciam adiantar-se cautelosamente. O clarão de
uma lanterna iluminou casualmente os rostos dos dois primei-
ros. Um desses rostos trazia uma meia máscara preta, sob a
qual a boca se contorcia com tal demência nervosa que a moita
preta da barba se enrodilhava continuamente, como se fosse um
ser vivo e inquieto. O outro era o rosto vermelho e o bigode
branco do Coronel Ducroix. Ambos se consultavam grave-
mente.
138 G. K. CHESTERTON

— Sim, êle também, disse o Professor e sentou-se numa


pedra. Tudo doido. E eu, doido! Não posso confiar no ma-
quinismo de meu corpo. Sinto que minha mão pode erguer-se
e bater-me.
— Quando minha mão se erguer, disse Syme, será para
bater em outro. E segurando numa das mãos a espada e na
outra a lanterna, saiu pelo molhe ao encontro do Coronel.
Como se quisesse dissipar a derradeira esperança ou a
derradeira dúvida, o Coronel, ao divisá-lo, apontou e disparou
o revólver. O tiro não atingiu Syme, e sim a espada, par-
tindo-a rente à guarda. Syme arremessou-se e deu com a lan-
terna de ferro na cabeça do Coronel.
— Judas perante Herodes! gritou e derrubou o Coronel
nas pedras. Em seguida virou-se para o Secretário cuja boca
medonha estava quase espumando, e suspendeu a lanterna com
um gesto tão rígido e tão arrasador que o outro gelou por
um momento e foi forçado a escutar.
— Está vendo esta lanterna? bramiu Syme numa voz ter-
rível. Está vendo a cruz gravada fora e a lâmpada queimando
por dentro? Não foi gravada por você. Não foi acesa por você.
Homens melhores do que você, homens que podiam crer e obe-
decer, modelaram as entranhas do ferro e preservaram a legenda
do fogo. Não há uma rua por onde você anda, não há um
fio das roupas que você veste, que não tenha sido feito como
esta lanterna, para negar sua filosofia de estéreo e ratazanas.
Você não sabe fazer nada. Você só sabe destruir. Destruirá a
humanidade, destruirá o mundo, mas contente-se com isso.
Porque esta velha lanterna cristã você não destruirá. Ela irá
para onde o seu império de macacos jamais saberá encontrá-la.
E bateu uma vez com a lanterna no Secretário, fazendo-o
cambalear; depois, rodopiando-a duas vezes em volta da cabe-
ça, sacudiu-a no mar, onde ela fulgurou como um foguete e
afundou.
— Espadas! bradou Syme, voltando o rosto inflamado
para seus amigos. Carreguemos sobre esses cães. É chegada
nossa hora de morrer.
Os três companheiros seguiram-no de espada em punho.
A espada de Syme estava partida, mas êle, lançando por terra
um pescador, arrancou-lhe um cacete das mãos. Num mo-
mento eles se teriam arrojado para a multidão e perecido, mas
foram sustados por uma alteração. O Secretário, que desde o
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 139

discurso de Syme jazia como desacordado, apoiando na mão


a cabeça ferida, arrancou subitamente sua máscara preta.
O pálido rosto, assim desnudado e exposto à claridade das
lâmpadas, revelava menos raiva que estupefação. O Secretário
levantou a mão com impaciente autoridade.
— Deve haver algum engano, disse êle. Mr. Syme, pare-
ce-me que você não se compenetra de sua situação. Está preso
em nome da lei.
— Da lei? disse Syme deixando cair o cacete.
— Da lei, sim, disse o Secretário. Sou detetive da Sco-
tland Yard, e tirou do bolso um cartãozinho azul.
— E o que é que você pensa que nós somos? inquiriu
o Professor lançando os braços para o alto.
— Vocês, disse firmemente o Secretário, vocês são, como
é do meu conhecimento, membros do Supremo Conselho Anar-
quista. Disfarçado como um de vocês, e u . . .
Dr. Buli atirou sua espada ao mar.
— Nunca houve nenhum Supremo Conselho Anarquis-
ta, bradou. Éramos todos um magote de policiais idiotas vi-
giando-nos uns aos outros. E todo esse povo excelente que
tem estado a azucrinar-nos com seus tiros pensava que éramos
os dinamite iros. Eu sabia que não podia estar enganado com
as multidões, acrescentou Buli, dirigindo um olhar radiante para
a enorme turba que se espalhava ao longo da praia. As pessoas
comuns nunca são loucas. Sei disso, eu que sou uma pessoa
comum. Bem, agora vou para a terra. Pago um trago para
todos.
CAPITULO XIII

A PERSEGUIÇÃO DO PRESIDENTE

Ao amanhecer, cinco sujeitos desconcertados mas risonhos


tomaram o barco para Dover. O pobre Coronel podia ter al-
guma razão para queixar-se, primeiro por ter sido levado a
combater por duas facções que não existiam e depois por ter
sido derreado por uma lanterna, mas era um cavalheiro mag-
nânimo e, confortado pela evidência de que as duas partes nada
tinham a ver com dinamite, despediu-se deles no molhe com
muita afabilidade.
Os cinco reconciliados detetives tinham uma centena de
ponnenores a esclarecer entre si. O Secretário contou a Syme
que foram obrigados a usar máscaras a fim de se aproximarem
do pretenso inimigo como companheiros de conspiração. Syme
expôs o motivo que os instigou a fugir tão desabaladamente atra-
vés de um país civilizado. Mas acima de todas essas questões, de
minúcias facilmente explicáveis, elevava-se a montanha central
da questão que eles não sabiam explicar. Que significava tudo
isso? Se eles eram inofensivos detetives, o que era Domingo?
E se Domingo não capturara o mundo, que diabo era que êle
tinha feito? Sobre isso o Inspetor Ratcliffe se conservava pes-
simista.
— Estou na mesma situação de vocês, diss» êle. Para
mim, esse joguinho de Domingo não tem pé nem cabeça. Mas
há uma coisa: Domingo pode ser o que quiser, menos um
cidadão inocente. Diabos o levem! Vocês se lembram da cara
dele?
— Confesso, que nunca pude esquecê-la, respondeu Syme.
— Está bem, disse o Secretário. Acho que muito breve
desvendaremos tudo, pois amanhã é dia de nossa reunião.
142 G. K. CHESTERTON

Desculpem-me, acrescentou com um sorriso pavoroso, de estar


tão compenetrado dos meus deveres de Secretário.
— Creio que você tem razão, refletiu o Professor. Supo-
nho que êle mesmo desvendará tudo para nós, mas confesso
que recearia perguntar a Domingo quem êle é.
— Por quê? inquiriu o Secretário. Tem medo de bombas?
— Não, retrucou o Professor. Tenho medo de que êle
me diga quem é.
— Vamos tomar um trago, convidou Dr. Buli, ao fim
de uma pausa.
Durante toda a viagem, de barco e de trem, eles se mos-
traram imensamente sociáveis, mas instintivamente tratavam de
permanecer juntos. Dr. Buli, que fora sempre o otimista do
grupo, fêz o possível para persuadir os outros a tomarem em
Vitória o mesmo fiacre; mas eles rejeitaram a proposta e par-
tiram num côche, em cuja boléia Dr. Buli logo se aboletou e
pôs-se a cantar. Acabaram a jornada num hotel de Piccadilly
Circus, de maneira a estarem perto de Leicester Square quando
amanhecesse. Entretanto, as aventuras do dia ainda não esta-
vam encerradas. Dr. Buli, descontente com a determinação ge-
ral de ir para a cama, saíra do hotel por volta das onze horas
a fim de ver e admirar algumas das belezas de Londres. Con-
tudo, vinte minutos depois estava de volta, atroando o vestíbulo
com seus berros. Syme, que a princípio tentara silenciá-lo, viu-
se por fim obrigado a escutá-lo com renovada atenção.
— Eu o vi! Garanto-lhe que o vi! exclamou Dr. Buli
com pesada ênfase.
— Quem? perguntou Syme de pronto. Não foi o Pre-
sidente!?!
— Não, homem, não. Não ando tão azarado, disse Dr.
Buli com uma risadinha desnecessária, não ando tão azarado
assim. Eu o trouxe para cá.
— Trouxe para cá? Mas quem? tornou Syme impaciente.
— Oj>cabeludo, respondeu o outro lücidamente. O su-
jeito que bancava o homem cabeludo. Gogol! Ei-lo aqui. E
puxou por um relutante cotovelo o mesmo jovem que cinco
dias antes saíra do Conselho com seus ralos cabelos vermelhos
e um rosto pálido, o primeiro de todos os falsos anarquistas a
ser descoberto.
— Por que vocês me importunam? bradou o recém-che-
gado. Expulsaram-me como espião.
— Todos somos espiões! sussurrou Syme.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 143

— Todos somos espiões! gritou Dr. Buli. Venha tomai


um trago.
De manhã, o batalhão dos seis aliados rumou impassível
para o hotel de Leicester Square.
— Isso é muito divertido, comentou Dr. Buli. Seis ho-
mens vão perguntar a um homem o que êle é.
— Parece-me que é mais esquisito que divertido, disse
Syme. Parece-me que seis homens vão perguntar a um homem
o que eles são.
Em silêncio eles entraram na praça e, embora o hotel
estivesse localizado no canto oposto, viram num relance a mi-
núscula varanda e um vulto que parecia grande demais para
ela. Estava só, sentado, com a cabeça inclinada, os olhos pre-
gados num jornal. Mas todos os seus conselheiros, que vinham
com o propósito de destituí-lo, cruzaram a praça como se do
céu centenas de olhos os observassem.
Haviam disputado demoradamente sobre a política que
iriam seguir: deviam deixar de fora o desmascarado Gogol
e começar diplomaticamente, ou deviam levá-lo a deflagrar a
pólvora de uma vez? Por influência de Syme e Buli prevaleceu
o último alvitre. Sem embargo, o Secretário quis saber porque
os dois pretendiam atacar Domingo tão temeràriamente.
— Meus motivos são muito simples, explicou Syme. Pre-
tendo atacá-lo temeràriamente porque tenho medo dele.
Seguindo os passos de Syme, subiram silenciosos a escada
escura até que se acharam ao mesmo tempo sob a ampla cla-
ridade do sol da manhã e sob a ampla claridade do sorriso de
Domingo.
— Encantado! disse este. Tenho muito prazer em vê-los.
Que dia maravilhoso! E o Czar? Morto?
O Secretário, que se adiantara, empertigou-se para expro-
brá-lo com dignidade.
— Não, senhor, respondeu severamente. Não houve car-
nificina. Não lhe trago notícias de espetáculos tão desagra-
dáveis.
— Espetáculos desagradáveis? repetiu o Presidente, com
um sorriso radiante e inquiridor. Que são espetáculos desa-
gradáveis? Os óculos de Dr. Buli?
O Secretário ficou um momento embaraçado e o Presi-
dente prosseguiu num tom de leve censura:
144 G. K. CHESTERTON

— Naturalmente todos temos direito a nossas opiniões


e até a nossos olhos, mas na realidade considerá-los desagra-
dáveis diante daquela pessoa que...
Dr. Buli atirou os óculos na mesa, quebrando-os.
— Meus óculos são indecentes, disse êle, mas eu não
sou. Olhe para minha cara.
— A meu ver é o tipo da cara que pode florescer numa
pessoa, disse o Presidente. De fato, floresce em você. E quem
sou eu para altercar com os frutos silvestres sobre a Árvore
da Vida? Pode ser que um dia ela floresça em mim. Quem
sabe?
— Não temos tempo para frioleiras, esbravejou selvage-
mente o Secretário. Viemos saber o que significa tudo isso.
Quem é você? O que é você? Por que nos ajuntou aqui? Sabe
quem somos e o que somos? É você um excêntrico que se faz
de conspirador, ou um esperto que se faz de tolo? Respon-
da-me.
— Dos candidatos, murmurou Domingo, exige-se apenas
que respondam oito dos dezessete quesitos do questionário.
Tanto quanto pude entender, vocês querem que eu lhes diga
o que sou e o que são vocês, o que é esta mesa, o que é este
Conselho e o que é este mundo, enfim. Pois bem, atrever-
me-ei a rasgar o véu de um destes mistérios. Se desejam saber
o que são, direi que são um bando de asnos moços e sumamente
bem intencionados.
— E você? perguntou Syme, avançando. Você o que é?
— Eu? Que sou eu? rugiu o Presidente, e pouco a pouco
elevou-se a uma altura inacreditável, como um enorme vagalhão
a pique de arquear-se e rebentar sobre eles. Querem saber
o que eu sou? Querem? Buli, você, que é um homem de ciência,
cave em torno das raízes dessas árvores e descubra a verdade
que elas escondem. Syme, você que é um poeta, contemple
e interrogue essas nuvens matutinas. Pois eu lhes digo que
é mais fácil descobrir a verdade oculta na última árvore e na
nuvem mais altaneira do que descobrir o que eu sou. Enten-
derão o mar, e eu permanecerei um enigma; saberão o que
são as estrelas, mas não saberão o que eu sou. Desde o começo
do mundo todos os homens têm-me caçado como se caça um
lobo: reis e sábios, poetas, legisladores, todas as igrejas e todos
os filósofos. Nunca me agarraram, e os céus se despenharão
no dia em que me vir em apuros. De todos tenho escapado e
a todos tenho confundido. E agora farei a mesma coisa.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 145

Antes que qualquer dos presentes pudesse mexer-se, o ho-


mem colossal, como um imenso orangotango, se dependurara na
balaustrada da varanda. Antes de cair, porém, suspendeu-se
como se praticasse numa barra horizontal e, fincando o queixo
volumoso na balaustrada, disse solenemente:
— Há, porém, uma coisa que vou dizer-lhes acerca de
minha identidade. Sou o homem do quarto escuro, o homem
que os fêz detetives.
Dito isto, jogou-se da varanda em baixo, dando pulos
elásticos no calçamento como uma desmesurada bola de bor-
racha e aos saltos ganhou o oitão do Alhambra, fêz um sinal
para um fiacre e pinotou para dentro. Os seis detetives que-
daram fulminados e lívidos ao lampejo de sua última afirmação.
Mas quando o Presidente desapareceu no fiacre, o senso prático
de Syme espertou. Imediatamente Syme transpôs a balaustrada,
saltando tão desastradamente que quase quebrava as pernas, e
chamou outro fiacre.
Êle e Buli tomaram o mesmo fiacre, o Professor e o Ins-
petor entraram noutro, enquanto o Secretário e o ex-Gogol tre-
param num terceiro, justamente a tempo de encalçarem o voan-
te Syme, que, por seu turno, encalçava o voante Presidente.
Domingo levava-os, nessa caçada selvagem, para os lados do
noroeste, e seu cocheiro, evidentemente sob o influxo de indu-
zimentos excepcionais, incitava o cavalo a uma velocidade pe-
rigosa. Mas Syme, que não estava para contemporizações, pôs-
se de pé, gritando "Pega ladrão!", até que as multidões acor-
reram e os guardas começaram a deter as pessoas e a interro-
gá-las. Tudo isso teve influência sobre o cocheiro do Presi-
dente, que logo ficou apreensivo e meteu o cavalo de trote.
Abriu a portinhola para falar ponderadamente com seu passa-
geiro e largou o comprido chicote na boléia. Domingo incli-
nou-se para a frente, segurou o chicote e arrancou-o brutal-
mente da mão do homem. Em seguida, pondo-se êle mesmo de
pé na boléia, deu de açoitar o cavalo e bramir com todas as
forças, de modo que passavam pelas ruas como um furacão.
Através de ruas e praças rodava esse disparatado veículo, no
qual o passageiro fustigava o cavalo e o cocheiro tentava furio-
samente sofreá-lo. Os três outros fiacres perseguiam-no (se a
comparação é válida para fiacres) como galgos arquejantes. Lo-
jas e ruas sucediam-se como setas zunidoras.
146 G. K. CHESTERTON

No auge da corrida, Domingo voltou-se no guarda-lama


em que se encontrava e mostrando a cara imensa, com os
dentes arreganhados, os cabelos brancos esvoaçando no vento,
dirigiu a seus perseguidores uma tremenda careta, como um
ouriço-cacheiro colossal. Então, erguendo àgilmente a mão
direita, atirou uma bola de papel no rosto de Syme e reco-
lheu-se ao fiacre. Conquanto instintivamente desconfiado, Syme
apanhou-a e descobriu que ela consistia em dois papeluchos
amarrotados. Um trazia seu nome e o outro o de Dr. Buli.
Ao seu nome juntava-se uma extensa e de certo modo irônica
enfiada de letras. O sobrescrito de Dr. Buli era, no fim de
contas, consideravelmente maior do que a mensagem, pois que
esta se reduzia às palavras:

Que é feito de Martin Tupper agora?

— Que quer dizer esse velho maníaco? perguntou Buli,


encarando o papel. Que diz o seu, Syme?
A mensagem de Syme era, sem dúvida, muito mais prolixa
e rezava o seguinte:

Ninguém mais do que eu lamentaria qualquer inter-


ferência do Arquidiácono. Espero que as coisas não che-
guem a este ponto. Mas, pela última vez, onde estão suas
galochas? A coisa está preta, especialmente depois do que
disse o tio.

O cocheiro do Presidente parecia estar readquirindo certo


domínio sobre seu cavalo, e os perseguidores estavam mais pró-
ximos quando enveredaram por Edgware Road. E aqui ocorreu
uma interrupção que os aliados julgaram providencial. Todo
o tráfego derivava para a direita ou para a esquerda, ou esta-
cionava, porque do extremo da rua vinha o ruído inconfundível
do carro de bombeiros, que em poucos segundos passou em
disparada como um raio de bronze. Apesar de toda a veloci-
dade, Domingo saltou do fiacre, pulou para o carro, subiu,
aprumou-se e foi visto, ao desaparecer na estrepitosa distância,
falando ao atônito bombeiro com gestos explicativos.
— Depressa! A êle! uivou Syme. Não pode sumir-se ago-
ra. Um carro de bombeiros não engana ninguém.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 147

Os três cocheiros, que se tinham aturdido por um ins-


tante, chicotearam seus cavalos e em breve diminuíram o espaço
que os separava de sua caça fugitiva. O Presidente deu por
essa proximidade e, vindo para a traseira do carro, inclinou-se
inúmeras vezes, beijou as mãos e, ao fim dessas mesuras, atirou
um bilhete, elegantemente dobrado, no peito do Inspetor Rat-
cliffe. Quando este cavalheiro o desenrolou, não sem impa-
ciência, leu estas palavras:

Foge imediatamente. Já se sabe da verdade sobre teus


suspensórios. — Um amigo.

O carro de bombeiros seguia para o norte, rumo a uma


região que eles não identificavam. E quando passava ao longo
de uma fileira de altos paredões sombreados pelas árvores,
os seis amigos viram com surpresa, mas também com satisfa-
ção, que o Presidente saltava do veículo. Mas não sabiam se
deviam atribuir tal ato ao capricho presidencial ou aos reite-
rados protestos dos seus hospedeiros. Contudo, antes que os
três fiacres o alcançassem, êle, como um imenso gato pardo
já havia galgado o paredão e se esvaecera na treva da fo-
lhagem.
Syme, enfurecido, mandou parar seu fiacre, desmontou e
lançou-se também à escalada. Quando tinha uma perna sobre
o muro, volveu para seus amigos um rosto que na sombra
pareceu extremamente pálido.
— Que lugar será este? perguntou-lhes. Será a casa desse
velho diabo? Ouvi dizer que êle tem uma casa no norte de
Londres.
— Tanto melhor, disse sombriamente o Secretário, colo-
cando um pé no estribo. Nós o encontraremos em casa.
— Não, não é isso, tornou Syme, franzindo as sobran-
celhas. Ouço os ruídos mais horríveis, como diabos rindo, es-
pirrando e assoando os diabólicos narizes!
— Naturalmente são seus cães que estão ladrando, alvi-
trou o Secretário.
— Por que não diz que são escaravelhos negros que estão
ladrando?! respondeu Syme furiosamente. Ou caracóis ladran-
do?! Gerânios ladrando?! Você já ouviu um cão ladrar desse
jeito?
148 G. K. CHESTERTON

Levantou a mão e imediatamente subiu da mata um de-


morado grunhido que parecia meter-se debaixo da pele e gelar
a carne — um grunhido abafado e horripilante que provocava
uma palpitação no ar.
— Os cães de Domingo não devem ser cães comuns, disse
Gogol e estremeceu.
Syme já estava do outro lado, mas ainda escutava com
impaciência.
— Escutem, disse êle. Isso pode ser um cão? Quem é
que tem um cão dessa espécie?
Rebentara um rouco alarido, imitante às súplicas e cla-
mores de seres condenados. Depois, ouviram, longínquo como
um eco, um som igual ao de um clarim roufenho.
— A casa dele deve ser o inferno! exclamou o Secretário.
E se é o inferno, eu vou entrar! e quase de um pulo atravessou
o paredão.
Os outros seguiram-no. Caíram num emaranhado de plan-
tas e arbustos e foram sair numa vereda. Nada lhes chamou
a atenção, mas subitamente Dr. Buli bradou:
— Ora, seus burros! Isso aqui é o Jardim Zoológico!
Enquanto eles ansiosamente procuravam qualquer indício
de sua caça fugidia, um guarda uniformizado surgiu correndo
no caminho, acompanhado de outro homem à paisana.
— Êle passou por aqui? perguntou o guarda ofegante.
— Quem? inquiriu Syme.
— O elefante! gritou o guarda. Um elefante que enlou-
queceu e fugiu!
— Fugiu carregando um senhor idoso, explicou o outro
estranho, arfando. Um pobre velho dos cabelos brancos.
— Qual era o tipo desse velho? interrogou Syme com
incontida curiosidade.
— Um velho bem alto e bem gordo, de terno cinza claro,
informou sôfregamente o guarda.
— Bem, começou Syme, se esse velho é mesmo desse
tipo, se você está absolutamente certo de que se trata de um
velho bem gordo e bem alto, de terno cinza, pode ter a certeza
de que o elefante não fugiu com êle. Foi êle que fugiu com
o elefante. O elefante que pudesse levá-lo sem que êle con-
sentisse em fugir ainda não foi feito por Deus. Raios o partam,
lá está êle!
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 149

Não havia dúvida. Cerca de duzentas jardas adiante, pelo


relvado, uma multidão ululante debalde acossava um enorme
elefante pardo, que corria com passadas terrivelmente largas,
de tromba empinada e rija como um gurupés, trombeteando co-
mo a trombeta da condenação. No dorso desse animal osci-
lante e bramador, repoltreava-se o Presidente Domingo com to-
da a placidez de um sultão; mas, com algum objeto afiado, agui-
lhoava a fera, instigando-a a uma carreira desenfreada.
— Façam-no parar! gritava a turba. Êle vai sair pelo
portão.
— Como se pode parar um desmoronamento? disse o
guarda. Êle já saiu pelo portão!
E, no momento mesmo em que falava, um derradeiro es-
trondo e um urro de terror anunciaram que o enorme elefante
pardo havia derrubado o portão do Jardim Zoológico e desem-
bestava por Albany Street como novo e rápido tipo de ônibus.
— Deus Onipotente! bradou Buli. Nunca vi um ele-
fante tão veloz. Voltemos aos fiacres, se não queremos perder
de vista o Presidente.
Quando corriam para o portão por onde o elefante tinha
desaparecido, Syme sentiu-se deslumbrado com o panorama dos
estranhos animais entrevistos nas jaulas, de passagem. Mais
tarde, achou esquisito que os tivesse visto tão claramente. Re-
cordou-se especialmente dos pelicanos, de papos absurdos, pen-
dentes. Perguntou a si mesmo porque o pelicano era o símbolo
da caridade, quando era necessária muita caridade para admi-
rar um pelicano. Lembrou-se também do bucero, que era sim-
plesmente um vastíssimo bico amarelo carregando atrás de si
um minúsculo pássaro. Tudo isso lhe proporcionou a sensa-
ção, cujo vigor não sabia explicar, de que a Natureza entre-
gava-se de contínuo a divertimentos misteriosos. Domingo lhes
dissera que eles o entenderiam quando tivessem entendido as
estrelas. Syme perguntava a si mesmo se os próprios arcanjos
poderiam entender o bucero.
Os seis inditosos detetives meteram-se nos fiacres e foram
no encalço do elefante, compartilhando do terror que êle es-
palhava pelas ruas. Nesse momento, Domingo não se voltava
para fitá-los, mas oferecia-lhes a sólida extensão de suas costas
cegas, que os enlouqueciam mais do que suas anteriores cha-
cotas. Todavia, pouco antes de alcançarem Baker Street, viram-
no atirar qualquer coisa para o alto, como o menino que
150 G. K. CHESTERTON

lança uma bola ao ar e se prepara para recebê-la de volta.


Mas na velocidade em que iam, ela veio cair muito atrás, bem
perto do fiacre em que viajava Gogol; e este, movido ou pela
débil esperança de encontrar uma pista ou por algum impulso
incompreensível, mandou parar o fiacre para ir apanhá-la. Era
uma volumosa bola de papel, a êle dirigida. Ao examiná-la,
porém, notou que todo o seu volume consistia em trinta e
três pedaços de papel velho enrolados uns sobre os outros.
Depois de rasgada a última capa, tudo se reduziu a uma tirinha
de papel, na qual estava escrito:

Parece que a palavra deve ser: rosa.

O homem que antes se chamava Gogol não disse nada,


mas os movimentos de suas mãos e de seus pés foram os de
quem esporeia um cavalo.
Ruas e mais ruas, bairros e mais bairros, eram percorridos
pelo prodigioso elefante voador, que atraía multidões às ja-
nelas e separava o tráfego para a direita e para a esquerda.
E atrás dele, colaborando nesta insana publicidade, corriam
desapoderadamente os três fiacres. Não tardou que fossem to-
mados por participantes de um desfile ou mesmo de um anúncio
de circo. Na pressa em que iam, encurtavam incrivelmente as
distâncias, e Syme viu o Albert Hall em Kensington quando
se julgava ainda em Paddington. O elefante avançou mais ágil
e livremente através das ruas vazias e aristocráticas de South
Kensington e por fim endireitou para aquela parte do hori-
zonte onde a enorme roda de Earl's Court se elevava no Ar-
mamento. A roda pouco a pouco foi-se tornado maior, até que
encheu todo o céu como a roda das estrelas.
A fera derrotou os fiacres. Eles perderam-na de vista, de-
sorientados pelas inúmeras esquinas. Quando se acharam em
frente a um dos portões da Exposição de EarPs Court viram-
se bloqueados por uma grande multidão, reunida em torno de
um enorme elefante que resfolegava e se sacudia, como cos-
tumam fazer essas criaturas disformes. Mas o Presidente havia
desaparecido.
— E o homem, para onde foi? inquiriu Syme, escorre-
gando para o chão.
— Embarafustou pela Exposição a dentro! respondeu o
guarda, embaraçado. E acrescentou com um ar ofendido: É
O MOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 151

um cavalheiro engraçado. Pediu que eu lhe segurasse o cavalo,


e me entregou isso.
E estendeu, com repugnância, um pedaço de papel dobra-
do, dirigido Ao Secretário do Conselho Central Anarquista.
O Secretário, enraivecido, abriu-o e leu o que estava es-
crito:

Quando o arenque vai na corrente,


O Secretário ri contente;
Quando o arenque voa e pinota,
O Secretário bate a bota.
Provérbio Rústico.

— Ora bolas! começou o Secretário. Por que você deixou


que êle entrasse? É comum visitarem sua exposição pessoas
montadas em elefantes malucos? É?
— Vejam! gritou Syme. Olhem aquilo ali!
— Olhar o quê? volveu o Secretário afobadíssimo.
— O baião cativo! disse Syme, apontando frenèticamente.
— Por que eu devo olhar para um balão cativo? bradou
o Secretário. O que é que há de extraordinário num balão
cativo?
— Nada, disse Syme, só que esse não é cativo.
Todos ergueram os olhos. Sobre a Exposição, o balão
pairava enfunado, amarrado a um cordel, como um balão de
brinquedo. Um segundo depois, o cordel se partiu, justamente
debaixo da cesta, e o balão, solto, pôs-se a flutuar, erradio como
uma bôlhã de sabão.
— Com seiscentos mil diabos! guinchou o Secretário. Êle
se meteu ali dentro! e fechou os punhos contra o céu.
O balão, carregado talvez por alguma brisa passageira,
veio colocar-se precisamente em cima deles, e foi-lhes fácil en-
xergar a enorme cabeça branca do Presidente, que os espreitava
com um olhar benévolo.
— Deus me proteja! disse o Professor com a inflexão
senil que nunca pôde desligar de sua barba esbranquiçada e de
seu rosto apergaminhado. Deus me proteja! Parece que senti
alguma coisa cair na copa do meu chapéu.
152 G. K. CHESTERTON

Levantou uma trêmula mão e da aba do chapéu tirou


um papelzinho amarfanhado. Abriu-o negligentemente, apenas
para deparar com o desenho de um nó cego e as palavras:

Tua beleza não me deixou indiferente. — Narciso.

Houve um curto silêncio, e depois Syme falou, mordendo


o beiço:
— Ainda não estou vencido. Esse maldito balão tem que
cair em alguma parte. Sigamo-lo!
CAPITULO XIV

OS SEIS FILÓSOFOS

Cruzando campinas verdejantes e transpondo sebes vivas,


os seis poeirentos detetives afastaram-se cerca de cinco milhas
de Londres. No começo da caminhada, o otimista do grupo
sugerira que seguissem o balão, por todo o sul da Inglaterra,
nos fiaores. Mas logo convenceu-se da persistente recusa do
balão a seguir as estradas e da muito mais persistente recusa
dos cocheiros a seguir o balão. Conseqüentemente, os incan-
sáveis posto que exasperados viajantes atravessaram bosques es-
curos e palmilharam terrenos cultivados, até que cada um se
transmudou numa figura tão desalinhada que podia ser con-
fundida com a de um vagabundo. As verdes colinas de Surrey
testemunharam o trágico desfecho do admirável terno cinza-
claro com que Syme havia saído de Saffron Park. O chapéu
de seda, amassado por um ramo travesso, descera ao nariz, a
sobrecasaca, graças a espinhos agressivos, rasgara-se nos om-
bros, e o barro inglês enlameara seu colarinho; mas êle fazia
avançar a barbicha amarela com taciturna e furiosa obstinação,
sem tirar os olhos daquela flutuante bola de gás, que na ver-
melhidão do ocaso parecia enfeitada como uma nuvem cre-
puscular.
— A despeito de tudo, comentou Syme, não deixa de
ser muito bonito!
— Muito! De uma beleza estranha e singular! disse o
Professor. Eu quero é ver explodir essa estúpida bola de gás,
— Não, atalhou Dr. Buli. Eu não quero não. Isso podia
arrebentar o velhote.
— Que arrebente! redargüiu o vingativo Professor. Que
arrebente! Não ficaria tão arrebentado como no dia em que
eu pudesse abecá-lo. Narciso!
154 G. K. CHESTERTON

— Apesar de tudo, não quero vê-lo arrebentado, disse


Dr. Buli.
— O quê? bradou amargamente o Secretário. Você acre-
dita mesmo naquela história de êle ser também o homem do
quarto escuro? Domingo seria capaz de inventar que era qual-
quer coisa.
— Não sei se acredito ou não acredito, disse Dr. Buli.
Mas não é a isso que me refiro. Não quero que se dê uma
explosão no balão do velho Domingo porque...
— Por quê? indagou Syme impaciente.
— Bem, porque êle mesmo é tão engraçado como um
balão, continuou Dr. Buli, atrapalhado. Não entendo patavina
desse negócio de ser êle o mesmo homem que nos deu os
cartões azuis. Parece-me que isso torna tudo absurdo. Mas
confesso que sempre tive minhas simpatias pelo velho Domingo,
malvado como é. É como se êle fosse um garoto gorducho
e levado da breca. Como posso explicar esta minha esquisita
simpatia? O certo é que ela não me impediria de combatê-lo
até no inferno! Será que me torno mais claro dizendo que
gostava dele porque êle era tão gordo?
— Não, isso não esclarece coisa nenhuma, disse o Se-
cretário.
— Ah, já sei porque era! exclamou Buli. É porque êle
era tão gordo e tão leve. Exatamente como um balão. A gente
acha sempre que as pessoas gordas são pesadas, mas êle eu
acho que poderia dançar ao lado de uma sílfide. Agora sei o
que quero dizer. A força moderada se manifesta pela violência,
enquanto a força suprema está na leveza. Isso faz lembrar as
velhas especulações: que aconteceria se um elefante pudesse
adejar no espaço como um gafanhoto?
— Nosso elefante, disse Syme levantando os olhos, adeja
no espaço como um gafanhoto.
— E por isso, concluiu Buli, é que não posso deixar de
admirar o velho Domingo. Não, não é uma admiração pela
força, ou qualquer tolice dessa ordem. Há nisso uma espécie
de alegria, como se êle trouxesse algumas boas novas. Nunca
sentiram isso num dia de primavera? É verdade que a natureza
gosta de fazer das suas, mas, seja como fôr, um dia de prima-
vera prova que suas brincadeiras são de muito bom gosto. Eu
mesmo nunca li a Bíblia, mas aquela passagem, de que os
outros tanto se riem, é uma verdade integral: "Por que saltais
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 155

assim, altas colinas?" Sim, as colinas saltam mesmo... bom,


ao menos tentam... Porque admiro Domingo?... Como po-
derei dizer-lhes?... Porque êle é tal qual um Saltimbanco.
Houve uma longa pausa, e depois o Secretário tomou a
palavra e falou com um tom de voz estranhamente, torturado:
— Você não sabe quem é Domingo. Talvez seja por
que você é melhor do que eu e não conhece o inferno. Desde
pequeno eu sou elemento deletério e meio doentio. O homem
que vive na escuridão e que nos escolheu a todos, escolheu-me
porque eu tenho o ar desvairado de um conspirador, porque
meu sorriso é torto, porque meus olhos têm um brilho turvo,
mesmo quando estou alegre. Mas também deve haver em mim
algo que corresponda ao sistema nervoso de todos esses anar-
quistas. Quando vi Domingo pela primeira vez, não tive dele
essa impressão de aérea vitalidade, mas de algo grosseiro e
triste, inerente à natureza das coisas. Encontrei-o fumando
num cômodo lôbrego, com as janelas cerradas, um lugar infini-
tamente mais aviltante do que a divertida escuridão em que
vive nosso chefe. Estava sentado num banco, um monte de
carne, escuro e amorfo. Ouviu minhas palavras sem falar nem
se mover. Lancei os apelos mais veementes e fiz as mais elo-
qüentes perguntas. Então, após longo silêncio, a Coisa come-
çou a mover-se, e eu julguei-a movida por uma enfermidade
secreta. Movia-se como uma gelatina asquerosa, mas viva.
No instante lembrei-me de tudo que tinha lido a respeito desses
corpúsculos repugnantes que constituem a origem da vida: se-
res marinhos e protoplasmas. Parecia tomar a forma final de
toda matéria, a mais extravagante, a mais vergonhosa. Diante
de seus estremecimentos, disse de mim para mim que era já
alguma coisa que tal monstro pudesse sentir-se miserável. Foi
quando me dei conta de que aquela montanha bestial estava se
sacudindo de riso solitário, e era de mim que ela ria. E você
ainda vem pedir-me para perdoá-lo!?! Não é pouco sermos
ridicularizados por alguma coisa que é ao mesmo tempo infe-
rior e mais forte do que nós.
— Por certo vocês estão exagerando demais, interrompeu
a voz clara do Inspetor Ratcliffe. O Presidente Domingo é um
troço terrível para a inteligência, mas fisicamente não é essa
curiosidade Barnum que vocês apregoam. Êle me recebeu num
gabinete comum, vestido com um casaco de xadrez cinzento,
em pleno dia. Falou-me de maneira simples. Mas vou dizer-lhe
o que é que chama um pouco a atenção em Domingo. Seu
156 G. K. CHESTERTON

quarto é asseado, suas roupas são asseadas, tudo parece em


ordem; mas ele é distraído. Às vezes seus grandes olhos fu-
gurantes ficam completamente cegos. Durante horas êle es-
quece que você está presente. Reparem que a distração é peri-
gosa num sujeito mau. Para nós o malvado é um homem que
está sempre atento ao que se passa à sua roda. Não podemos
imaginar um malvado que seja honesta e sinceramente um de-
vaneador, porque não podemos imaginar um malvado sozinho
consigo mesmo. Um homem distraído é um homem afável.
É um homem que, ao dar pela nossa presença, nos pede des-
culpas. Mas como imaginar um homem distraído que, ao dar
pela nossa presença, nos mata? É isso que irrita os nervos,
essa combinação de alheamento e crueldade. Algumas vezes,
atravessando florestas virgens, os homens experimentaram essa
sensação, pois sabiam-se cercados de animais inocentes e im-
piedosos, que tanto podiam ignorá-los como matá-los. Quem
seria capaz de passar dez horas mortais numa sala em compa-
nhia de um tigre distraído?
— E você, Gogol, que pensa de Domingo? perguntou
Syme.
— Em princípio, disse Gogol singelamente, não penso em
Domingo, do mesmo modo que não encaro o sol ao meio-dia.
— Está bem, isso é um ponto de vista, disse Syme pen-
sativo. E você, que diz, Professor?
O Professor caminhava de cabeça baixa, arrastando a ben-
gala, e não deu resposta.
— Acorde, Professor! disse Syme alegremente. Diga-nos
o que pensa de Domingo.
O Professor pôs-se, enfim, a falar com muita lentidão.
— O que eu penso não sei exprimir claramente. Ou me-
lhor, nem posso pensá-lo claramente. Mas é mais ou menos o
seguinte. Como vocês sabem, em minha juventude levei uma
vida muito ampla e muito desarrumada. Pois bem, quando vi
a cara de Domingo, acheia-a, como todo o mundo acha, muito
ampla mas também bastante desarrumada. A cara era tão
grande que ninguém poderia enfocá-la ou vê-la como uma cara.
O olho estava tão afastado do nariz, que já não era olho. A
boca era tão individualizada que se poderia tomá-la por uma
coisa à parte. Tudo isso é muito difícil de explicar.
Parou um pouco, arrastando sempre a bengala, e pros-
seguiu:
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 157

— Mas vamos assim mesmo. Uma noite em que eu


caminhava por uma estrada, divisei uma lâmpada, uma janela
iluminada e uma nuvem, que juntas formavam um rosto in-
teiro e inconfundível. Se alguém no céu tiver um rosto como
esse eu o reconhecerei. Entretanto, quando dei mais alguns
passos, verifiquei que não havia rosto, que a janela estava a
dez jardas de distância, que a lâmpada estava a dez centenas
de jardas e que a nuvem estava muito além do mundo. Da
mesma maneira me escapou o rosto de Domingo; correu para
a direita e para a esquerda, como fazem essas miragens for-
tuitas. E assim, o rosto dele forçou-me, de certo modo, a du-
vidar da existência de qualquer rosto. Não sei se o seu rosto,
Buli, é um rosto ou uma combinação de perspectivas. Talvez
um disco negro daqueles seus óculos brutais estivesse bem per-
tinho e o outro cinqüenta milhas além. Ah, as dúvidas do ma-
terialista não passam de tolices! Domingo me ensinou as piores
dúvidas, as mais dolorosas, as dúvidas de um espiritualista.
Sou um budista, suponho; e o budismo não é um credo, é
uma dúvida. Meu pobre Buli, não creio que você possua real-
mente um rosto. Não tenho bastante fé para crer na matéria.
Os olhos de Syme continuavam fixos no orbe errante, que,
avermelhado pelos reflexos do pôr do sol, parecia um mundo
mais róseo e mais inocente.
— Vocês observaram uma particularidade interessante em
todos os seus depoimentos? perguntou Syme. Cada um de vo-
cês vê Domingo de uma maneira bem diferente; entretanto cada
um só achou uma coisa com que compará-lo: o próprio uni
verso. Para Buli êle é como a terra na primavera, para Gogol
é o sol ao meio-dia. O Secretário recordou o protoplasma in-
forme, e o Inspetor a solidão das florestas virgens. O Professor
diz que Domingo é como uma paisagem mutável, É estranho,
mas é ainda mais estranho que eu também faça do Presidente
Uma idéia original, e que também compare Domingo com o
universo.
— Ande um pouco mais depressa, Syme, disse Buli. Não
se importe com o balão.
— Quando vi Domingo pela primeira vez, continuou Sy-
me lentamente, só via as costas. E vendo-as, pressentia que
êle era o sujeito pior do mundo. Seu pescoço e seus ombros
eram brutais, como os de um deus simiesco. Sua cabeça tinha
um toitiço difícil de imaginar num homem. Parecia mais o
158 G. K. C H E S T E R T O N

toitiço de um boi. De fato, logo me passou pela cabeça a re-


voltante fantasia de que ele não era um homem, mas uma fera
vestida com as roupas dos homens.
— Vamos! disse Dr. Buli.
— Foi então que aconteceu o inesperado. Eu vira suas
costas, da rua, quando êle estava sentado na varanda. Depois
entrei no hotel e, ficando diante dele, vi seu rosto em plena
claridade. Seu rosto me assustou, como assustou todo o mundo,
mas não porque fosse brutal, não porque fosse mau. Ao con-
trário, assustou-me porque era belo, porque era bom.
— Syme! exclamou o Secretário. Você está se sentindo
bem?
— Era como o rosto de um antigo arcanjo, distribuindo
justiça depois de guerras heróicas. Havia riso nos seus olhos,
e em sua boca honra e tristeza. Lá estavam os mesmos cabelos
brancos, os mesmos ombros enormes, vestidos de cinzento, que
eu contemplara da rua. Mas, ao vê-lo da rua, convenci-me de
que êle era um animal, e quando me vi diante dele compreendi
que êle era um deus.
— Pan, observou sonhadoramente o Professor, era um deus
e um animal.
— Desde então, continuou Syme como se falasse consigo
mesmo, esse tem sido para mim o mistério de Domingo, e é
também o mistério do mundo. Quando olho para suas costas
horrorosas tenho a impressão de que seu rosto nobre é apenas
uma máscara. Mas se lhe vejo o rosto, mesmo de relance, fico
a pensar que as costas são uma simples zombaria. O mal é tão
mau que só podemos julgar o bem um acidente; o bem é tão
bom que somos levados a crer que o mal poderia ser explica-
do. Mas tudo isso atingiu o auge ontem, quando persegui Do-
mingo no fiacre e me coloquei atrás dele todo o percurso.
— E você ainda teve flmpo para pensar? perguntou Rat-
cliffe.
— Tempo suficiente, replicou Syme, para um pensamento
sinistro. De repente apoderou-se de mim a idéia de que aquele
toitiço cego, liso, era realmente seu rosto, um rosto terrível, sem
olhos, que me fitava. E admiti que aquela figura que corria à
minha frente era realmente uma figura que corria de costas,
dançando enquanto corria.
— Horrível! exclamou Dr. Buli sobressaltado.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 159

— Horrível não é o termo, disse Syme. Foi exatamente


o pior instante da minha vida. E dez minutos depois, quan-
do botou a cabeça fora do fiacre e fêz uma careta parecida com
uma gárgula, percebi que êle se portava como um pai brincan-
do de esconder com seus filhos.
— Essa brincadeira está indo longe demais, observou o
Secretário, e franziu a testa ao contemplar suas botas estragadas.
— Mas escutem! gritou Syme com extraordinária ênfase.
Vou dizer-lhes qual é o segredo do mundo. É que do mundo
só conhecemos as costas. Tudo é visto por trás, e por isso pa-
rece brutal. Isso não é uma árvore, mas as costas de uma ár-
vore. Aquilo não é uma nuvem, mas as costas de uma nuvem.
Não vêem que tudo está voltado de costas e esconde o rosto?
Se pudéssemos dar a volta e ficar de frente...
— Vejam! berrou Buli esganiçadamente. O balão vem
caindo!
Não havia necessidade de gritar por Syme, porque êle não
tinha tirado os olhos do balão. Viu o grande globo luminoso
vacilar no céu, endireitar-se e depois mergulhar vagarosamente
atrás das árvores, como um sol que se põe.
O homem chamado Gogol, que quase não falara durante
essas estafantes jornadas, atirou de repente as mãos para o alto,
feito uma alma penada.
— Êle morreu! exclamou. E agora eu sei que êle era
meu amigo, e vivia no quarto escuro!
— Morreu!? roncou o Secretário. Vocês não o verão
morto assim tão facilmente. Se foi jogado para fora da cesta,
nós o encontraremos espojando-se no chão como um potro e
escoiceando o vento, para se divertir.
— E castanholando os cascos, disse o Professor. Os pro-
tros fazem assim, e Pan também fazia.
— Pan outra vez? disse irrittio Dr. Buli. Você parece
pensar que Pan é tudo.
— E é mesmo, disse o Professor. Em grego, Pan quer
dizer: tudo.
— Não se esqueça, sentenciou o Secretário baixando a
vista, de que êle também significa Pânico.
Syme, que estivera absorto, sem ouvir nenhuma dessas fra-
ses, falou com naturalidade:
— Caiu ali adiante! Vamos para lá!
160 G. K. C H E S T E R T O N

E acrescentou, com um gesto de desconsolo:


— Agora se ele nos enganou e morreu, hem? Seria mais
uma de suas pilhérias.
Com renovada energia encaminhou-se para as árvores dis-
tantes. Seus trapos e retalhos esvoaçavam ao vento. Os outros
seguiram-no a passo mais vagaroso e num ar de dúvida. Quase
simultaneamente os seis descobriram que não estavam sós na-
quele sítio.
Pelo relvado caminhava, em direção a eles, um homem alto,
curvado sobre um báculo comprido e estranho como um cetro.
Vestia-se com apuro, mas usava bragas, à moda antiga. A côr
do traje era aquele matiz tirante a azul, violeta e cinza, que se
vê em certos recantos da mata. À primeira vista e levando-se
em conta suas bragas, tinha-se a impressão de que seu cabelo
grisalho fora empoado. Marchava tranqüilamente; se não fosse
a neve prateada de sua cabeça, êle poderia ser tido com uma
das sombras do bosque.
— Cavalheiros, disse êle, uma carruagem de meu patrão
os espera aqui perto, na estrada.
— Quem é seu patrão? perguntou Syme, quedando-se
imóvel.
— Informaram-me que os senhores sabiam o nome dele,
respondeu o homem respeitosamente.
Depois de uma pausa, falou o Secretário:
— Onde está essa carruagem?
— Ela os aguarda desde alguns momentos, disse o estra-
nho. Meu patrão acaba de entrar em casa.
Syme esquadrinhou o recesso do bosque virente em que
se encontrava. As sebes eram sebes comuns, as árvores pare-
ciam árvores comuns; entretanto, êle se sentia como alguém que
tivesse caido prisioneiro no país das fadas.
Examinou o misterioso embaixador dos pés à cabeça, mas
apenas descobriu que o casaco do homem era da mesma côr das
sombras purpúreas e que o rosto era da mesma côr do céu ru-
bro, escuro e dourado.
— Mostre-nos o lugar, disse Syme lacônicamente. E sem
uma palavra o homem do casaco violeta deu as costas e se di-
rigiu para uma abertura da sebe, que de súbito revelou a bran-
ca luminosidade de uma estrada.
Quando os seis extraviados chegaram a essa passagem,
viram a branca estrada obstruída pelo que lhes pareceu ser uma
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 161

longa fileira de carruagens, semelhantes àquelas que se vêem


nas proximidades das casas de Park Lane. Ao lado das carrua-
gens perfilavam-se magníficos lacaios. Todos trajavam unifor-
me azul-cinza e todos revelavam uma certa categoria de altivez
e liberdade que habitualmente não se distingue nos lacaios de
um fidalgo e sim nos oficiais e embaixadores dum grande mo-
narca. Nada menos de seis carruagens estavam à espera, uma
para cada componente do bando andrajoso e miserável. Todos
os servos (como acontece nas cortes) traziam espadas à cinta
e as desembainhavam para saudar, com um breve resplendor de
aço, cada um que entrasse na carruagem.
— Que significa tudo isso? perguntou Buli a Syme quan-
do se separavam. É outra das brincadeiras de Domingo?
— Sei lá? respondeu Syme enquanto afundava extenuado
nas almofadas de sua carruagem. Mas se fôr, é uma daquelas
brincadeiras de que você fala. É uma brincadeira de bom gosto.
Os seis aventureiros tinham passado por muitas aventuras,
mas nenhuma os impressionara tão fortemente como esta últi-
ma aventura do conforto. Todos eles estavam afeitos a aspe-
rezas; esta repentina suavidade os perturbava. Não podiam
sequer imaginar o que eram as carruagens; era-lhes suficiente
saber que eram carruagens, e carruagens com almofadas. Tam-
bém não podiam supor quem era o ancião que os havia condu-
zido; mas bastava-lhes a certeza de que fora êle quem os con-
duzira para as carruagens.
Syme deixava-se levar, em total abandono, através da mo-
vediça escuridão do arvoredo. Era próprio dele que enquanto ti
vesse de abrir caminho com sua barbicha êle o fizesse com fú-
ria e determinação, e logo que o encargo lhe fosse tirado das
mãos êle se derreasse nas almofadas, vencido por um verdadeiro
colapso.
Muito lenta e vagamente deu tento das estradas suntuosas
por onde a carruagem o transportava. Viu que atravessavam os
portões de pedra do que podia ser um parque, e gradualmente
subiam uma colina que, embora arborizada de ambos os lados,
era um pouco mais ordenada que uma floresta. Então começou
a tomar conta dele, como de um homem que lentamente desper-
ta de um sono reparador, uma sensação de prazer integral. Sen-
tiu que as sebes eram o que as sebes devem ser: muros vivos;
que uma sebe é como um exército humano, disciplinado mas
vivo. Viu os altivos olmos que se elevavam atrás das sebes e
162 G. K. CHESTERTON

vagamente pensou nos meninos felizes que trepavam neles. De-


pois a carruagem tomou por um atalho, e êle avistou, de súbi
to, mas sossegadamente, algo que se assemelhava a uma exten-
sa e baixa nuvem crepuscular e que era uma casa extensa e
baixa, suavizada pelos macios reflexos do crepúsculo. Mais tar-
de os seis amigos cotejariam suas impressões e disputariam en-
tre si; mas conviriam misteriosamente em que este lugar lhes
lembrava a infância. Ou era a copa deste olmo ou aquela vere-
da tortuosa, ou era um trecho deste pomar ou o feitio de uma
janela; o certo é qúe cada um afirmaria que podia recordar este
lugar antes de poder recordar-se de sua mãe.
Quando as carruagens rodaram para um portão largo, bai-
xo e cavernoso, um outro homem, envergando o mesmo unifor-
me, mas usando uma estrela de prata no peitilho cinzento do ca-
saco, saiu a recebê-los. Este impressionante personagem diri-
giu-se ao boquiaberto Syme:
— Refrigerantes o esperam em seu quarto, senhor.
Syme, ainda sob a influência daquele sono mesmeriano de
estupefação, subiu as vastas escadarias de carvalho, atrás do
respeitoso criado, e entrou numa série de cômodos que pare-
ciam estar reservados especialmente para êle. Com o instinto
habitual de sua classe, abeirou-se de um espelho grande para
endireitar a gravata ou alisar os cabelos; foi então que deu pela
figura sinistra em que se transformara: o sangue escorria-lhe
da face, onde o ramo o ferira; os cabelos eriçavam-se como ta-
los amarelos de erva espessa; as roupas estavam desfeitas em
compridos e ondulantes farrapos. Imediatamente viu-se diante de
um enigma, que nascia sob a forma de uma simples pergunta:
como êle conseguira chegar ali e como conseguiria safar-se?
Nesse mesmo instante, um homem de azul, que fora designado
para seu camareiro, disse com toda a solenidade:
— Sua roupa está pronta, senhor.
— Roupa! exclamou Syme sardônico. De roupa só te-
nho esta do corpo, e, segurando duas longas tiras da sobreca-
saca de fascinantes festões, fêz que ia imitar o rodopio de uma
bailarina.
— Meu patrão me incumbiu de avisar ao senhor, disse o
camareiro, que haverá um baile a fantasia esta noite. É desejo
dele que o senhor vista o traje que eu preparei. Como faltam
ainda algumas horas para a ceia, êle espera que o senhor não
recuse uma garrafa de Borgonha e um pouco de faisão frio.
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 163

— Faisão frio é uma coisa boa, disse Syme pensativo, e


Borgonha é uma coisa supinamente boa. Mas o fato é que
eles não me apetecem tanto quanto me apetece saber que diabo
significa tudo isso e que traje é esse que você preparou para
mim. Onde é que êle está?
O criado ergueu de cima de uma espécie de otomana uma
longa túnica azul-pavão, do mesmo feitio de um dominó, esmal-
tado na frente por um vasto sol de ouro e salpicado aqui e ali
de crescentes e estrelas cintilantes.
-— O senhor vai vestir-se de Quinta-feira, explicou o ca-
mareiro afàvelmente.
— Vestir-me de Quinta-feira! repetiu Syme meditativo.
Não me parece uma roupa quente.
— Mas é quente, sim, disse o outro solícito. A roupa do
Quinta-feira é extremamente quente. Vai até ao queixo.
— Bem, não entendo coisa nenhuma, disse Syme suspiran-
do. Estou tão acostumado a aventuras desconfortáveis que as
aventuras confortáveis me abatem. Mas permita-me que eu per-
gunte por que é que estarei vestido especialmente de Quinta-fei-
ra se envergar uma vestimenta esverdeada, toda pintalgada de
sóis e de luas? Esses astros, se não estou enganado, brilham
também nos outros dias. Lembro-me bem de ter visto a lua nu-
ma terça-feira.
— O senhor me permite? disse o camareiro. Temos aqui
uma Bíblia à sua disposição, e com um dedo rígido e respeitoso
apontou uma passagem do primeiro capítulo do Gênesis. Syme
leu-a maravilhado. Era aquela que associa o quarto dia da
semana à criação do sol e da lua. Aqui, entretanto, contavam-
se os dias da semana a partir de um domingo cristão.
—- Isso está indo de mal a pior, disse Syme, enquanto se
sentava numa cadeira. Quem é essa gente que providencia fai-
são frio e Borgonha, roupas verdes e Bíblias? Providencia tudo?
— Tudo, senhor, respondeu o criado gravemente. Devo
ajudá-lo a vestir-se?
— Oh, venha de lá esse timão! disse Syme impaciente.
Embora afetasse desprezo pela fantasia, sentiu uma liber-
dade e uma naturalidade raras em seus movimentos quando o
traje azul e ouro o cingiu; e ao descobrir que tinha de levar uma
espada reviveu um sonho infantil. Ao sair do quarto atirou o
manto por cima dos ombros. A espada destacava-se, formando
um ângulo. Êle tinha toda a galhardia de um trovador, pois
esses disfarces antes revelavam que disfarçavam.
CAPITULO XV

O ACUSADOR

Quando Syme, a passos largos, atravessava o corredor, viu


o Secretário de pé no alto de um majestoso lanço de escada-
ria. O homem jamais parecera tão nobre. Envolvia-o um manto
comprido de intenso negror, em cujo centro incidia uma faixa ou
listão de puríssima alvura, como um único raio de luz. O con-
junto lembrava uma vestimenta eclesiástica muito severa. Não
havia necessidade de Syme explorar a memória ou a Bíblia pa-
rar recordar que o primeiro dia da criação assinalava o apare-
cimento da luz no seio da treva. A própria veste sozinha teria
sugerido o símbolo; e Syme sentiu também quão fielmente este
modelo de alvura e negror puríssimos exprimia a alma do pálido
e austero Secretário, patenteando toda aquela inumana veraci-
dade e todo aquele álgido furor que tão facilmente o levavam
a guerrear os anarquistas e tão facilmente lhe permitiam mistu-
rar-se com eles. Syme quase não se surpreendeu ao notar que,
no meio de toda a comodidade e hospitalidade do novo ambien-
te, os olhos deste homem continuavam encarniçados. Nem o
cheiro da cerceja nem a fragrância dos pomares podia impedir
o Secretário de formular uma pergunta racional.
Se Syme pudesse ver a si mesmo teria compreendido que
êle também, pela primeira vez, parecia ser êle mesmo e nin-
guém mais. Pois se o Secretário representava o filósofo que
ama a Luz primeira e informe, Syme era o tipo do poeta que
aspira sempre a modelar a luz em contornos específicos, a fra-
cioná-la em sol e estrela. O filósofo pode às vezes amar o infini-
to; o poeta ama sempre o finito. Para êle o grande momento
não é a criação da luz, mas a criação do sol e da lua.
166 G. K. CHESTERTON

Quando desciam juntos a larga escadaria deram com Rat-


cliffe, que se vestia de verde primaveril. O desenho de seu tra-
je figurava um exuberante emaranhamento de árvores. Êle cor-
porificava aquele terceiro dia em que foram criadas a terra e as
coisas verdejantes. A isso se acomodava admiràvelmente o ros-
to quadrado e sensível, com seu amistoso cinismo.
Através de outra passagem ampla e baixa foram conduzi-
dos para dentro de um antigo e espaçoso jardim inglês, repleto
de archotes e fogueiras tremeluzentes, onde uma vasta multidão,
exibindo as roupagens mais variadas, bailava como num car-
naval. Syme julgou ver em cada uma daquelas alucinadas fanta-
sias uma imitação das formas da natureza. Havia um homem
vestido de moinho de vento com velas enormes, um outro vesti-
do de elefante, outro vestido de balão; os dois últimos pareciam
conservar o fio de suas grotescas aventuras. Syme viu ainda,
com estranha emoção, um dançarino vestido como um imenso
bucero, cujo bico era duas vezes tão grande como êle mesmo —
o esquisito pássaro que se fixara em seu espírito como uma in-
terrogação viva, desde o momento em que êle corria desenfrea-
do pelo caminho do Jardim Zoológico. Havia, entretanto, mil
outras fantasias do mesmo quilate. Havia um poste dançante,
uma macieira dançante, um barco dançante. Dir-se-ia que a in-
dômita melodia de algum músico louco pusera todas as coisas
comuns, dos campos e das ruas, a dançar uma eterna jiga. E
muito tempo depois, no repouso da maturidade, Syme não podia
contemplar um desses objetos — um poste de luz, uma maciei-
ra, ou um moinho de vento — sem pensar que era um folião
desgarrado dessa folia de mascarados.
Num canto do relvado, animado pelos dançarinos, havia
uma espécie de barranco verde, semelhante aos terraços dos jar-
dins de outrora.
Ao longo desse terraço, dispostas em forma de crescente,
viam-se sete poltronas: os tronos dos sete dias. Gogol e Dr.
Buli já tinham ocupado seus lugares e o Professor ia ocupar o
dele. A simplicidade de Gogol ou Terça-feira, estava bem sim-
bolizada por uma veste que reproduzia a divisão das águas, uma
veste que se abria em sua fronte e caia aos seus pés, cinzenta
e prateada, como um lençol de água. O Professor, cujo dia era
aquele em que os pássaros e os peixes — as formas mais rudi-
mentares de vida — foram criados, vestia uma roupagem violá-
cea, na qual se estendiam peixes de olhos esbugalhados e extra-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 167

vagantes pássaros tropicais, mistura de imaginação ilimitada e


de dúvida. Dr. Buli, o último dia da criação, usava um casaco
coberto de animais heráldicos, em vermelho e ouro, e um capa-
cete onde se via um homem rampante. Rescostava-se na ca-
deira com um largo sorriso — o quadro de um otimista em seu
elemento.
Um por um os viandantes galgaram o barranco e foram
colocar-se em suas estranhas cadeiras. Quando cada um se sen-
tava, vinha da mascarada uma aclamação entusiástica, tal como
aquela com que as multidões recebem os reis. Retiniam as taças,
agitavam-se os archotes e chapéus emplumados eram lançados
para o ar. Os homens para quem esses tronos foram reservados
eram homens coroados com extraordinários lauréis. Mas a ca-
deira do centro estava desocupada.
Syme sentava-se à esquerda dela e o Secretário à direita.
O Secretário, olhando para Syme por cima do trono vazio, disse,
comprimindo os lábios:
— Não sabemos ainda se êle terá morrido no campo.
No instante mesmo em que Syme ouviu estas palavras no-
tou no oceano de fisionomias humanas que se exaltavam dian-
te dele um murmúrio de espanto e admiração, como se o céu se
tivesse rompido em cima de sua cabeça. Era Domingo. Passou
silenciosamente como uma sombra e veio sentar-se na cadeira
do centro. Vestia-se simplesmente, de branco imaculado e terrí-
vel, e seus cabelos eram como uma chama prateada em sua
fronte.
Durante muito tempo — parece que durante horas — a
imensa mascarada saracoteou e sapateou ao ritmo de uma mar-
cha alegre e arrebatadora. Cada par era um romance isolado;
podia ser uma fada bailando com um marco postal, ou uma
camponesa Rançando com a lua; mas cada caso era, de certo
modo, tão absurdo como Alice no País das Maravilhas e tão
grave e delicado como uma história de amor. Por fim, a tur-
ba espessa foi rareando. Pares enveredavam pelos passeios
do jardim, ou se transportavam para aquele recanto do edifício
onde fumegavam, em possantes caldeirões, cálidas e aromáticas
misturas de cerveja velha ou vinho. Acima desses vasos, sobre
uma armação negra do telhado, rugia numa cesta de ferro uma
gigantesca fogueira que iluminava muitas milhas em derredor. O
clarão desse lume doméstico alcançava a face de vastas flores-
tas pardas ou escuras e parecia mesmo encher de calor o vazio
168 G. K. CHESTERTON

da abóbada noturna. Todavia, em pouco tempo, a fogueira tam-


bém arrefeceu; os grupos negros agregavam-se cada vez mais
em volta dos grandes caldeirões, ou entravam rindo em algazarra
nos corredores daquela mansão centenária. Em breve, havia
somente dez ociosos no jardim; pouco depois, apenas quatro.
Finalmente, o último desgarrado folião entrou em casa gritan-
do pelos companheiros. A fogueira apagou, e lentas e fortes as
estrelas brilharam no céu. Os sete estranhos personagens ficaram
sós, como sete estátuas de pedra assentadas em cadeiras de pedra.
Nenhum deles pronunciara uma palavra.
Parecia que eles não tinham pressa de falar. Apenas ouviam
em silêncio o zumbido dos insetos e o canto longínquo de um
pássaro. Então Domingo pôs-se a falar, mas tão suavemente
que se podia pensar que eles antes continuavam que iniciavam
uma conversação.
— Comeremos e beberemos mais tarde, disse. Fiquemos
um momento aqui, juntos, nós que nos temos amado uns aos
outros tão amargamente e nos temos combatido tanto tempo.
Suponho recordar os séculos da guerra heróica em que vocês
foram sempre heróis: epopéia sobre epopéia, ilíada sobre ilíada,
e vocês sempre como irmãos d'armas. Não sei se foi recentemen-
te (porque o tempo nada é), ou no princípio do mundo, que
os enviei para a guerra. Eu estava sentado na treva, onde não
existe coisa criada, e fui para vocês apenas uma voz que exigia
coragem e virtude sobrenatural. Ouviram minha voz no escu-
ro, e não a ouviram de novo. O sol, no céu, negava-a, a terra e
o céu negavam-na, toda a sabedoria humana negava-a. E quan-
do os encontrei em plena luz do dia, eu mesmo neguei-a.
Syme agitava-se vivamente em sua cadeira, mas tudo o
mais continuava em silêncio, e o impenetrável prosseguiu:
— Mas vocês foram homens. Não esqueceram intimamen-
te a noção de honra, embora todo o cosmos, transformado em
máquina de tortura, tentasse extirpá-la de seus corações. Sei
que vocês estiveram às portas do inferno. Sei que você, Quin-
ta-feira, cruzou espadas com o Rei Satã, e que você, Quarta-
feira, invocou meu nome na hora do desespero.
Houve completo silêncio no jardim iluminado pelas es-
trelas, e então o Secretário de negras sobrancelhas,-implacável,
volveu-se em sua cadeira para contemplar Domingo, e pergun-
tou com áspera inflexão:
— Quem e o que é você?
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 169

— Sou o Sabat, disse o outro imóvel. Sou a paz de Deus.


O Secretário ergueu-se de um pulo e com as mãos come-
çou a amarrotar o suntuoso manto.
— Sei o que você é, bradou, e é isso precisamente que não
lhe posso perdoar. Sei que você é contentamento, otimismo,
reconciliação final, ou que outro nome se dê a isso. Pois bem,
não estou reconciliado. Se você era o homem do quarto es-
curo, porque era também Domingo, uma ofensa para a luz do
sol? Se desde o começo você era nosso pai e nosso amigo, por-
que era também nosso maior inimigo? Nós nos lamentávamos
e fugíamos aterrorizados; o ferro penetrou em nossas almas...
e você é a paz de Deus! Oh, eu posso perdoar a Deus Sua ira,
embora ela destrua as nações; mas não posso perdoar a Deus
Sua paz.
Domingo ficou calado; apenas voltou para Syme seu ros-
to pétreo, como se o interrogasse.
— Não, disse Syme, não estou tão enfurecido. Manifes-
to-lhe minha gratidão, não só pelo vinho e pela hospitalidade,
mas também pelas belas correrias e pelos combates leais. Con-
tudo, eu gostaria de conhecer. Minha alma e meu coração sen-
tem-se tão felizes e quietos aqui como este velho jardim, mas
minha razão ainda clama. Eu gostaria de conhecer.
Domingo olhou Ratcliffe, cuja voz clara se ouviu:
— Parece-me tão estúpido que você tenha estado dos dois
lado e tenha combatido a si mesmo!
Buli disse apenas:
— Não entendo nada, mas sou feliz. Na verdade, vou
dormir.
— Não sou feliz, disse o Professor com a cabeça entre as
mãos, porque não compreendo. Você permitiu que eu me per-
desse a poucos passos do inferno.
Gogol falou, então, com toda a simplicidade de um menino:
— Gostaria de saber porque fui tão maltratado.
Domingo continuava mudo e imóvel. Fincava o queixo
poderoso numa das mãos e fitava a distância. Por fim rompeu
o silêncio:
— Ouvi suas queixas uma a uma. Penso que vem aí ou-
tro para lamentar-se, e devemos ouvi-lo também.
O fogo moribundo na grande trempe emitiu um derradei-
ro e alongado clarão, feito uma barra de ouro ardente, que se
espalhou por todo o escuro relvado. Sobre esta meia-lua infla-
170 G. K. CHESTERTON

mada projetavam-se totalmente negras as pernas avançadoras


de um vulto de preto. Parecia usar um belo traje com bragas, do
mesmo modo que os criados da mansão. Só que seu traje não
era azul, mas autêntico sable. Como os criados, trazia uma es-
pada à cinta. Foi somente quando êle chegou muito perto dos
sete homens colocados no crescente e ergueu o rosto para con-
templá-los, que Syme viu, com fulminante nitidez, que o rosto
era o rosto largo, quase simiesco de seu velho amigo Gregory,
com os mesmos exuberantes cabelos vermelhos e o mesmo sor-
riso insultuoso.
— Gregory! arquejou Syme quase de pé. Ah, eis o ver-
dadeiro anarquista!
— Sim, disse Gregory, com um grande e ameaçador cons-
trangimento, sou o verdadeiro anarquista.
— "E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apre-
sentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles",
murmurou Buli, que parecia realmente ter caído no sono.
— Tem razão, disse Gregory, olhando em volta. Sou um
destruidor. Destruiria o mundo se pudesse.
Um sentimento de compaixão, vindo das profundezas da
terra, excitou Syme e levou-o a falar aos borbotões e sem se-
qüência.
— Oh homem infelicíssimo! exclamou. Tente ser feliz.
Você tem os cabelos vermelhos de sua irmã.
— Meus cabelos vermelhos, como as chamas vermelhas,
incendiarão o mundo, respondeu Gregory. Pensei que odiava tu-
do mais do que os homens geralmente odeiam qualquer coisa,
mas estou vendo que não odeio tudo tanto quanto o odeio.
— Eu nunca o odiei, disse Syme melancòlicamente.
Em seguida, os últimos trovões dessa criatura ininteligível
ribombaram.
— Você! gritou êle. Você nunca odiou porque nunca vi-
veu. Sei o que são todos vocês, do primeiro ao último. Vocês
são os poderosos! Vocês são a polícia, os homens gordos, sorri-
dentes, dos uniformes azuis cheios de botões! Vocês são a Lei,
e nunca foram derrotados. Mas haverá uma alma viva e livre
que não deseje derrotá-los, ao menos porque vocês nunca fo-
ram derrotados? Nós, os revoltados, sem dúvida dizemos toda
a espécie de disparates acerca deste ou daquele crime do
Governo. Tudo isso é loucura! O único crime do Govêr-
O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA 171

no é governar. O pecado imperdoável do poder supremo é ser


supremo. Não os amaldiçôo por serem vocês cruéis. Não os
amaldiçôo (embora eu pudesse) por serem bondosos. O que
amaldiçôo é a sua segurança. Vocês se sentaram em suas ca-
deiras de pedra e nunca desceram delas. Vocês são os sete
anjos do céu, e nunca provaram das vicissitudes. Oh, eu lhes
poderia perdoar tudo, a vocês que governam toda a humanida-
de, se uma vez, pelo menos, eu pudesse sentir que vocês sofreram
uma hora de agonia real, tal como a que eu. . .
Syme levantou-se com um salto, tremendo da cabeça aos
pés.
— Compreendo tudo, bradou, tudo quanto existe. Por
que todas as coisas desta terra vivem em guerra umas com as
outras? Por que cada ínfimo ser deste mundo tem de lutar
contra o próprio mundo? Por que deve a mosca combater todo
o universo? Por que deve um dente-de-leão combater todo o uni-
verso? Pela mesma razão que eu tinha para estar só no terrível
Conselho dos Dias. Assim, cada coisa que obedece à lei pode
partilhar da glória e do isolamento do anarquista. Assim, cada
um que combate pela ordem pode ser tão bravo e bom como o
dinamiteiro. Assim, a mentira de Satã pode ser lançada à face
deste blasfemo e assim, pelas lágrimas e pela tortura, podemos
conquistar o direito de dizer a este homem: "Mentes!" Todas
as agonias não dão para comprar o direito de dizer a este acusa-
dor: "Nós também temos sofrido!" Não é verdade que nós
nunca fomos derrotados. Fomos, sim, fomos esmagados. Não
é verdade que nunca descemos destes tronos. Descemos até aos
infernos. Estávamos a lamentar nossas inesquecíveis misérias
no momento mesmo em que este homem entrou insolentemente
para acusar-nos de felicidade. Repilo a calúnia; não temos sido
felizes. Posso responder por cada um dos grandes defensores
da Lei que êle acusou. Pelo menos. . .
E volveu os olhos a fim de observar o enorme rosto de
Domingo, que se abria num estranho sorriso.
— E você, bradou Syme com voz terrível, você terá sofrido
alguma vez?
Enquanto observava, o enorme rosto adquiria uma espan-
tosa proporção, tornando-se maior do que a máscara colossal
de Memnon que o fizera gritar de medo quando menino. O
rosto, cada vez maior, ia enchendo todo o Armamento. Depois,
tudo enegreceu. E antes que a escuridão anulasse completa-
172 G. K. C H E S T E R T O N

mente seu cérebro, Syme julgou ouvir uma voz distante recitar
um lugar-comum ouvido antes nalguma parte: "Podes beber
na mesma taça em que eu bebo?"

* * *

Quando, nos livros, os homens despertam de uma visão,


encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter
adormecido; bocejam, se estão numa cadeira, ou se levantam
com os membros doídos, se estão deitados no campo. A ex-
periência de Syme foi, psicologicamente, muito mais estranha,
visto que houve realmente, no sentido físico, algo de irreal nas
coisas que lhe tinham acontecido. Pois, conquanto mais tarde
lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto
de Domingo, não podia lembrar-se do instante em que voltara a
si. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a natu-
ralidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga
ao lado de um companheiro agradável e palrador. Esse compa-
nheiro fora parte de seu drama recente; era Gregory, o poeta
dos cabelos vermelhos. Caminhavam juntos como velhos ami-
gos e estavam entretidos com alguma banalidade. Mas Syme
sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma
simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que di-
zia ou fazia. Sentia que estava na posse de uma inefável boa
nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade, mas uma adorá
vel trivialidade.
Rompia a aurora, revestindo tudo de cores claras e tímidas,
como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo
e uma primeira tentativa em rosa. Soprava uma brisa tão límpida
e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu,
mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Syme
maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho
os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Não sabia
que andava tão perto de Londres. Instintivamente tomou por
uma estrada branca, onde os pássaros madrugadores gorjeavam
saltitantes, e achou-se defronte do gradil de um jardim. Ali viu
a irmã de Gregory, a moça dos cabelos vermelhos e dourados,
colhendo lilases antes do café, com a gravidade inconsciente e
magnífica das moças.
Biblioteca São Miguel Arcanjo
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