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CIÊNCIAS SOCIAIS
1.1 Realidades sociais

O homem é por natureza um ser social, pois nasce e desenvolve-se inserido


num determinado meio social.
Os indivíduos ocupam um determinado espaço social onde se desenvolvem
relações sociais (homem-homem e homem-natureza) formando assim a sociedade.
Os acontecimentos decorrentes da vida em sociedade são chamados factos
sociais. Ex: a gravidez precoce, se o mesmo acontecer com frequência e com muitas
raparigas será chamado fenómeno social.
Assim, fenómeno social refere-se a qualquer realidade que decorre da nossa
vida colectiva, também designada realidade social (homem-homem e homem-natureza).
Ex: a família, divórcio, empresas, educação, conflito de gerações.
Estas realidades são estudadas pelas ciências sociais.

1.2 Ciências sociais

A ciência é um sistema de conhecimento que abarca verdades gerais testadas


através de método científico.
As ciências devem possuir um objecto, objectivo e métodos.
As ciências sociais estudam os fenómenos sociais resultantes da acção do
homem na sua relação com a sociedade. Dessa forma, o objecto das Ciências Sociais é o
ser humano em suas relações sociais.

Ao mesmo tempo, as Ciências Sociais tem por objectivo ampliar o


conhecimento sobre o ser humano em suas interacções sociais e estudar a acção social
em suas diversas dimensões.

As Ciências Sociais contribuem assim, para um melhor entendimento da


sociedade em que vivemos, fornecendo instrumentos que podem ajudar a transformá-la.

A realidade social é complexa, por isso, que é necessário recorrer à


pluridisciplinaridade (várias abordagens disciplinares) para a análise dos factos e
fenómenos sociais, de forma a adquirir um conhecimento mais profundo e correcto da
realidade1.
Por exemplo: a análise da crise pode ser feita tendo em conta a sua evolução
história, seus aspectos sociológicos (comportamentos), consequências económicas,
relação existente com as políticas económicas.

1
A realidade é a mesma (unidade) porém interessa a várias ciências sociais (pluralidade).

1
As Ciências Sociais são reciprocamente complementares, pois a leitura que
cada uma faz da realidade social completa ou complementa as leituras feitas pelas
outras ciências.
Assim, podemos concluir que os fenómenos sociais são totais pois, interessam
a todas ciências sociais.
Nenhuma disciplina social, isoladamente, pode explicar o social. A sua
explicação estaria incompleta. Só em complementaridade e interdependência com os
conhecimentos das outras ciências sociais se pode ter um conhecimento integral dos
fenómenos sociais.

2. SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIA SOCIAL

2.1 O desenvolvimento histórico da Sociologia

a) Origem
A preocupação com os problemas sociais não começou com surgimento da
Sociologia. Na Grécia antiga já havia o desejo de se entender a sociedade.

Platão (439-341) e Aristóteles surgiram com os primeiros trabalhos mais


reflexivos sobre a sociedade, abordaram a organização do governo ideal ou justo.
Aristóteles já afirmava que o homem é por natureza um ser social.

Na idade média (século V ao XV) as explicações sobre o funcionamento da


sociedade estavam centradas na religião (Católica). Não cumprir uma lei estabelecida
pela sociedade, poderia ser entendido como pecado. Santo Agostinho e Santo Tomás de
Aquino;

Na renascença (século XVI) começa o renascimento, neste período


começavam a surgir homens que de forma mais realista e com uma mentalidade política
pautada na vontade e racionalidade humana começavam a investigar a sociedade.
Maquiavel, Thomas Hobbes, John Locke, Baruch Spinoza.

No iluminismo (século XVIII) acontece a ruptura com o teocentrismo cristão,


o pensamento social se volta para o mundo e para a sociedade mais do que nunca,
entendidos como resultado da capacidade racional de conhecer ou fundamentar. Charles
de Montesquieu, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, Saint Simon, David Hume;

Os precursores do século XIX: a Sociologia nasce na França do século XIX


com o pensamento de Auguste Comte na tentativa de apresentar uma ciência social que
se espelhasse no modelo de entendimento de mundo das ciências naturais, nascia assim
o positivismo sociológico. Outros pensadores importantes: Émile Durkheim, Max weber
Karl Marx.

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b) Fundadores da Sociologia
Auguste Comte (1798-1857) é o criador do termo Sociologia (Física Social).
Tendo em conta a realidade da sociedade francesa após as revoluções do século XVIII,
Comte procurou criar um a ciência da sociedade que pudesse explicar os fenómenos
sociais tal como as ciências naturais explicavam os fenómenos naturais.

Assim a Sociologia alem de analisar a sociedade, deve propor normas de


comportamento, de modos a prever acontecimentos a fim prover (fornecer) soluções e
melhorar o bem-estar. Para Comte a Sociologia deveria analisar a sociedade de uma
determinada época correlacionando-a com a sua História e com a História da
Humanidade.
Comte era defensor do positivismo2, segundo o autor, a ciência deve
preocupar-se com os factos observáveis que ressaltam directamente da experiência,
relacionar causas e acontecimentos da sociedade e assim prever acontecimentos. Mas
Comte não chegou a viabilizar a sua aplicação.

Émile Durkheim (1858-1917) deu à Sociologia um carácter científico,


destacou os factos sociais como objecto de estudo da Sociologia e a metodologia
apropriada
E uma das primeiras coisas que ele fez foi propor regras de observação e de
procedimentos de investigação que fizessem com que a Sociologia fosse capaz de
estudar os acontecimentos sociais de maneira semelhante ao que faz a Biologia

Karl Marx (1818-1893) – Alemão, além de influenciar o pensamento


sociológico tornou-se um marco da história mundial. Marx baseia as suas teorias no
facto dos aspectos económicos serem determinantes de todos os outros aspectos da vida
humana. A sua grande preocupação é a desigualdade social e, nesse sentido, opõe-se a
Comte e Durkheim cuja grande preocupação era a ordem social.

Para Marx a ordem social é transitória e injusta uma vez que assenta na
dominação social de uma classe que explora outra (capitalistas proletários), por isso
para este autor não há que manter a ordem social mas sim promover a mudança social.
Debruçou-se como ninguém sobre o capitalismo e os problemas sociais que ele gera.

Max Weber (1864-1920), ao contrário de Durkheim e Comte, acreditou na


possibilidade da interpretação da sociedade pelo indivíduo que nela vive, ou melhor,
pela verificação das “intenções”, “motivações”, “valores” e “expectativas” que orientam
as acções do indivíduo na sociedade.

2
Fazendo uma pequena observação nas divisões dos três estados, o homem recorria às
entidades abstratas na fé, as ideias, olhando a primeira e a segunda e a última o positivo.

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A ideia de Weber para se entender a sociedade é a seguinte: se quisermos
compreender a instituição igreja, por exemplo, vamos ter que olhar os indivíduos que a
compõem e suas acções. Provavelmente haverá um grupo significativo de pessoas que
agem do mesmo modo, quer dizer, partilhando valores, desejos e expectativas quanto à
religião, o que resultaria no que Weber chama de relação social.

Segundo Weber, as pessoas podem actuar, em geral, mesclando quatro tipos


básicos de acção social. São eles:

A acção racional com relação a fins: age para obter um fim objectivo
previamente definido. O que se destaca, aqui, é o esforço em adequar, racionalmente, os
fins e os meios de atingir o objectivo.

A acção racional com relação a valores, ocorreria porque, muitas vezes, os fins
últimos de acção respondem a convicções, ao apego fiel a certos valores (honra, justiça,
honestidade...).

Na acção afectiva a pessoa age pelo afecto que possui por alguém ou algo. Uma
serenata pode ser vista como uma acção afectiva para quem ama.

A acção social tradicional é um tipo de acção que nos leva a pensar na


existência de um costume. O ato de tomar café ou pedir a bênção dos pais na hora de
dormir são acções que podem ser pensadas pela acção tradicional.

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Contexto histórico de surgimento da Sociologia
O surgimento histórico da Sociologia está ligado a três transformações socio-
históricas.

Hoje quando vemos um objecto caindo, atribuindo a sua explicação a força de


gravidade, mas nem sempre a explicação foi assim, até alguns séculos era a Igreja
Católica no ocidente que responsável por explicar o mundo.

O conhecimento religioso se baseia sobretudo na fé, na necessidade de crer


para aquela afirmação tome sentido.

A ciência se baseia na razão, busca explicações racionais para as questões do


nosso quotidiano. A ciência vai observar, analisar, experimentar com base em
evidências para estabelecer as relações lógicas de causa e efeito, este é o método
científico que surge com a revolução científica no século XVII.

O contexto em que emerge os primórdios da Sociologia é representado pelo


conjunto de mudanças radicais acarretadas pela revolução francesa e industrial.

No século XVIII antes da revolução francesa, a França estava dividida em três


estados: 1º Clero, 2º Nobreza, ambos tinham poder político e em 3º o Povo (burgueses3,
camponeses) que tinham poder económico e eram os únicos que pagavam imposto e
trabalhavam, este cenário gerou clima de conflito entre os três estados.

Este conflito resulta na revolução francesa, derrubando a monarquia,


eliminando a posição social por estamentos (hereditariedade), surgindo as classes
sociais (acumulação de riquezas).

Antes da revolução industrial os trabalhos eram feitos de forma artesanal, ou


seja, eram feitos a mão, o processo era demorado e não havia padronizado, cada artesão
tinha a sua oficina.

O desenvolvimento tecnológico trouxe as máquinas, a indústria e divisão de


trabalho, agora era possível fabricar diversos objectos em massa, com a produção em
massa surge também o consumo em massa, novas formas de trabalho surgiram:

-Trabalhador assalariado que vende a sua força de trabalho em troca de salário


pago pelo patrão. Surge assim o capitalismo.

Para o século XIX as mudanças sociais, políticas, económicas e provocadas no


século XVIII precisam de uma explicação questionadora e racional, assim surge a
Sociologia com o objectivo de compreender o mundo ocidental em transformações.

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Artesãos, banqueiros, comerciantes, profissionais liberais.

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2.2 Sociologia: conceito, objecto e objectivo.
A palavra Sociologia tem a sua origem do latim socius (sócio, companheiro) e
do grego logos (estudo ou tratado).
Assim, podemos definir a Sociologia como: Estudo da associação ou ciência da
sociedade.
A Sociologia nasce com a missão de oferecer condições aos homens para
entender a sociedade em que vivem de maneira racional e questionadora.
A Sociologia estuda as interacções sociais dos homens com os seus
semelhantes e a natureza.
A Sociologia é o estudo da vida social humana, dos sociais das sociedades.
A Sociologia enquanto disciplina científica preocupa-se com os factos sociais
ou fenómenos sociais, sendo este o objecto de estudo da Sociologia. Ex: a família,
divórcio, insucesso escolar, emigração.
Portanto, a Sociologia tem como objectivo conhecer melhor a sociedade e
contribuir com políticas para a construção da sociedade. É tarefa da Sociologia ajudar-
nos a perceber o mundo e a prever o que futuro trará.

A principal preocupação dessa ciência é de entender, explicar e questionar os mecanismos de


produção, organização, domínio, controle e poder, institucionalizados ou não, que resultam em relações
sociais de maior ou menor exploração ou igualdade.

E o papel da Sociologia como disciplina é justamente nos ajudar nesse sentido: a percebermos,
por exemplo, que fatos considerados naturais na sociedade, como a miséria de muitos, o enriquecimento
de poucos, os crimes, os suicídios, enfim, a dinâmica e a organização social podem não ser tão naturais
assim, como o Sol que a cada manhã “nasce” naturalmente.

Seu privilégio está no fato do que você vai adquirir agora: conhecimento! Você poderá avançar
no entendimento de como funciona a sociedade em que você vive, conhecer como trabalham os demais
privilegiados (a elite social) e aumentar sua autonomia de reflexão e de acção diante dos fatos que lhe
cercam.

Sigamos adiante?

A Sociologia não é redentora ou solucionadora dos males sociais, ou dos problemas


intelectuais das pessoas. Ela surge como uma ciência que vai fornecer novas visões sobre a sociedade.

Sua contribuição está no fato de nos dar referenciais para reflectirmos sobre as sociedades.