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A problemática do telemóvel: reflexão e procedimentos.

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Alexandre Henriques March 18, 2015

A aula decorre com o aluno a olhar fixamente para as pernas e com as mãos debaixo da
mesa. O professor é obrigado a interromper o raciocínio e …

– João, larga o telemóvel!

– Só estava a ver as horas professor…

– Não precisas de saber as horas, quando tocar sabes que a aula terminou. Desliga o
telemóvel se fazes favor.

Este é apenas um exemplo das inúmeras ocorrências que acontecem todos os dias nas
salas de aula. Algumas levam a situações mais gravosas como já vimos no passado.

O novo estatuto do aluno mostra a preocupação que até a tutela tem sobre esta matéria,
incorporando quatro alíneas nos deveres do aluno. Aqui surge o primeiro problema, a
alínea q), Art. 10º, do estatuto do aluno, proíbe a posse dos aparelhos tecnológicos dentro
da escola. Claramente o legislador não teve em consideração a realidade social, criando
um dever que é impossível de cumprir e que, em escolas mais radicais, pode causar uma
autêntica revolução. Ainda para mais, quando a alínea seguinte permite o uso de
aparelhos tecnológicos com o consentimento expresso do professor. Ambiguidades
legislativas…

Atualmente, os “gadgets”, principalmente os telemóveis, estão profundamente enraizados


na nossa sociedade. Portugal é dos países que apresentam uma das taxas mais elevadas
no número de telemóveis por habitante. Em 2013, existiam mais de 13 milhões de
telemóveis e, como podem ver na imagem abaixo, as SMS reinam.

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Todos nós experienciámos a adolescência e sabemos bem a importância da socialização,
da imagem, e a necessidade constante de estar em contacto. Até tínhamos uma
linguagem própria, como se fosse um código, percetível só para alguns. O telemóvel
permite isso tudo e muito mais, é um autêntico canivete suíço da era moderna. Impedir a
sua posse é como cortar o cordão umbilical que liga os jovens ao resto do mundo, é uma
amputação tecnológica.

Nomofobia. “É uma fobia ou sensação de angústia que surge quando alguém se sente
impossibilitado de se comunicar ou se vê incontactável estando em algum lugar sem seu
aparelho de celular ou qualquer outro telemóvel.”Nomofobia – wikipedia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Nomofobia.

É real! Ela existe e está presente nas nossas escolas. Pais e educadores devem estar
atentos e saber o que fazer nestes casos. O blog SOS Nomofobia, indica os sintomas de
um nomofóbico, bem como os efeitos da privação do telemóvel. Além disso, disponibiliza
um teste, para que possamos saber se somos ou não nomofóbicos. Aceitam o desafio?

Nos tempos do quadro negro e do giz, o computador e a Internet eram vistos com enorme
desconfiança, sendo hoje algo comum nas salas de aula. Depois da resistência, surgiu a
aceitação do seu potencial, tendo entrado definitivamente nas salas de aula no governo de
José Sócrates. Talvez os telemóveis façam o mesmo percurso. A comunidade educativa
precisa de debater este tema e ponderar se os prós são superiores aos contras. Em 2014 a
UNESCO aconselhou a utilização dos telemóveis nas escolas, mas países como França,

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Brasil, Inglaterra e Portugal, entre outros, são contra a sua utilização. Estamos portanto
num impasse, onde duas ideologias se confrontam, algo tão típico nas questões
disciplinares.

A sala de aula continua a ser o domínio do professor, e é muito difícil para estes deixarem
entrar algo que não conseguem controlar. Aqui surge mais um conflito: os encarregados
de educação querem estar em contacto constante com os seus educandos e por diversas
vezes não respeitam nem aceitam, que os seus filhos estejam incontactáveis durante as
aulas. Alguns, até se esquecem que as escolas têm telefones e que no seu tempo era
assim que eram contactados.

Esta matéria também reflete um choque geracional. Se para muitos de nós já foi difícil
adaptarmo-nos ao choque tecnológico, o telemóvel, com as suas milhentas “apps” e
terminologia própria, leva-nos a um novo patamar, que nem todos estão preparados e/ou
dispostos a aceitar.

Existem vantagens na utilização do telemóvel, é inegável! O telemóvel pode ser uma


ferramenta importante na sala de aula e colaborar no processo de ensino-aprendizagem
de diferentes formas, como por exemplo:

Retirado do slideshare Telemóvel na sala de aula: distração ou canivete suiço,


por Adelina Moura.
Está na altura da comunidade educativa tomar uma decisão. Prolongar esta situação, é
agudizar uma problemática que pode e deve ser resolvida. Para tal, terá de escolher uma
de três hipóteses: acesso total, acesso condicionado, ou a sua proibição total e assumir a
decisão de forma peremtória.

Sou da opinião que a nossa sociedade ainda não tem maturidade suficiente para permitir
que os alunos acedam sem restrições ao telemóvel. Inevitavelmente, assistiríamos a um
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abuso da confiança dada e, do proveito ao caos, seria um passo demasiado curto.

Por outro lado, estamos numa fase em que já ultrapassámos o ponto sem retorno. É
escusado alimentarmos a esperança que ainda é possível controlar a avalanche
tecnológica que entra pela sala adentro. Hoje é o telemóvel mas amanhã serão os
óculos da google ou mesmo os telemóveis relógios. A sua proibição, além de
contraproducente, causará focos de tensão e fará aumentar as ocorrências disciplinares.

É preciso avançar e evoluir, aceitando as vantagens que os telemóveis trazem, mas


impondo regras específicas para a sua utilização.

A minha proposta é o uso condicionado, o que implica algumas alterações, a saber:

Eliminar a alínea q), do art. 10º, do estatuto do aluno. Recentemente houve uma
alteração mas foi pena terem desperdiçado essa oportunidade.
A escola não deve ignorar a situação, deixando que cada professor/diretor de turma
resolva as ocorrências que vão surgindo. A escola é uma comunidade e a questão
deve ser resolvida enquanto tal.
Não resolver os problemas à posteriori, com processos disciplinares e medidas
sancionatórias. O desgaste que causará e as consequências que daí advirão (ex:
reprovação por faltas) obrigam a uma abordagem mais ponderada. Além disso, o
seu efeito será sempre de curto prazo, pois a dependência é tão grande que esta
estratégia por si só, estará condenada ao insucesso.
Incluir os alunos na definição de regras específicas para a utilização do telemóvel.
Os alunos, enquanto grupo, conseguem ter o senso necessário para estabelecer
limites. Desvalorizar este capital humano é ignorar os visados, aumentando as
dificuldades da implementação das medidas.
Responsabilizar e diferenciar. Depois de estipuladas as regras, todos os
intervenientes devem ter acesso às mesmas liberdades. Porém, a quebra das regras
implementadas deverá responsabilizar/sancionar não só o visado mas também toda
a turma. Sim, é polémico, eu sei. Só que deste modo, além do professor, serão os
próprios alunos a pressionarem o infrator, diminuindo o foco de tensão no professor
e ajudando-o no controlo da regra.
As sanções que refiro no número anterior, não se tratam de medidas sancionatórias,
pois tal seria injusto para com os restantes colegas. O que defendo é que o aluno
infrator, e consequentemente a turma, fiquem privados da utilização do telemóvel na
sala de aula, sendo estes colocados no início de cada aula num recipiente destinado
para o efeito.
A privação do seu uso, seria durante um tempo determinado e se não houvesse
reincidência durante esse tempo, a “suspensão tecnológica” terminaria.
Se durante essa suspensão houvesse algum aluno que voltasse a utilizar o
telemóvel ou outros, tal seria apreendido e entregue ao encarregado de educação.
Em novo ato de reincidência, o aparelho tecnológico deveria ficar apreendido até ao
final do ano letivo.

Sobre este último ponto, surge um problema, pois esta situação não está contemplada na
lei. A escola não possuí autoridade para apreender algo que não é dela. Se os alunos
tiverem menos de 18 anos de idade, legalmente não possuem bens, logo, todos os
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aparelhos tecnológicos, em particular os telemóveis, pertencem aos respetivos
encarregados de educação. Atualmente, a escola só pode reter o telemóvel e entregá-lo
aos seus proprietários, os pais.

Muitos códigos de conduta e regulamentos internos são apenas copy/paste do estatuto do


aluno. Certas questões deveriam constar nestes documentos, e esta é uma delas. A
autonomia das escolas é pouca, eu sei, mas ainda permite algumas coisas…

Penso que a proposta apresentada incentiva a responsabilização e autonomia do aluno,


mas salvaguarda regras essenciais para que o processo de ensino-aprendizagem decorra
com normalidade. Fica a minha proposta, certamente haverá outras…

Qual é a vossa?

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