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Crianças atingidas pela

Ditadura Militar no Brasil

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Assembleia Legistativa do Estado de São Paulo
17ª Legislatura
Samuel Moreira – Presidente
Enio Tatto – 1° Secretário
Edmir Chedid – 2° Secretário

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”


Membros efetivos
Adriano Diogo (PT) - Presidente
Marcos Zerbini (PSDB)
André Soares (DEM)
Ed Thomas (PSB)
Ulysses Tassinari (PV)
Suplentes
João Paulo Rillo (PT)
Mauro Bragato (PSDB)
Estevam Galvão (DEM)
Orlando Bolçone (PSB)
Regina Gonçalves (PV)
Assessoria
Amelinha Teles
Ivan Seixas
Renan Quinalha
Ricardo Kobayaski
Thaís Barreto
Tatiana Merlino
Vivian Mendes

Coordenação e produção editorial: Tatiana Merlino


Preparação: Ricardo Kobayaski
Produção: Vivian Mendes e Tatiana Merlino
Pós-Produção: Renan Quinalha e Vivian Mendes
Edição de arte e diagramação: Camila Sipahi Pires
Pesquisa iconográfica: Camila Sipahi Pires e Tatiana Merlino
Tratamento de Imagens: Camila Sipahi Pires e Thais Cechini
Revisão: Pádua Fernandes e Ricardo Kobayaski
Foto de capa: Sheila Oliveira
Imagens: Arquivo Público do Estado de São Paulo, acervo pessoal,
Douglas Mansur, Revista Brasileiros

São Paulo (Estado). Assembleia Legislativa. Comissão da Verdade


do Estado de São Paulo "Rubens Paiva"
Infância Roubada, Crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil.
/ Assembleia Legislativa, Comissão da Verdade do Estado de São
Paulo. – São Paulo : ALESP, 2014.
316 p.

ISBN

1. Ditadura militar

CDU 321.86(81)

1ª edição
São Paulo, 2014

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Infância
Crianças atingidas pela
Ditadura Militar no Brasil

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Sumário
Prefácio Apresentação Introdução Identidade, nome
Samuel Moreira Adriano Diogo Amelinha Teles Filho do Zorro
Andre Almeida Cunha Arantes 22 e o paradoxo
da liberdade 26
9 11 13 Priscila Almeida Cunha Arantes

A felicidade “Por que você é tão “Vivi intensamente


interrompida
da “menina ruim”
Rita de Cássia Resende
36 tristinha?”
Marta Nehring 42 o exílio...”
Carlos Eduardo Ibrahin 50

“O exílio do meu pai Adotados pela


56 62 74
“Faria tudo igual a ele” Revolução Cubana
foi a nossa despedida”
Célia Coqueiro
Suely Coqueiro Virgílio Gomes da Silva Filh0

Infância Condenado
A inocência perdida
Ângela Telma Oliveira Lucena 82 resgatada
Adilson Lucena 86 Palavras presas
Denise Oliveira Lucena 89 à morte
Ariston Oliveira Lucena
90

Duas pátrias, O novo arrimo Adolescência Amor


duas mães
Ñasaindy Barrett de Araújo 100 de família
Jaime M. Sobrinho 104 perdida
Edson L. Martinelli 107 silenciado
Rosa M. Martinelli
109
“Que um dia “Até hoje sou uma “Fomos levados

120 128 134


ninguém mais pessoa completamente para o DOPS. Até
pense assim” sem identidade” hoje é doloroso”
Dora A. Rodrigues Mukudai Zuleide Aparecida do Nascimento Luis Carlos Max do Nascimento

“Los niños nacen O testemunho


138 152 160
A lua de Leta
para ser felices” do que eu sei, li, vi...
Leta Vieira de Sousa
Ernesto C. Dias do Nascimento Maria Eliana Facciolla Paiva

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“Sou Ernesto “A ditadura Saudade é ser
O ídolo que não
Guevara, sou filho
de guerrilheiro”
Ernesto José Carvalho
170 tinha rosto
Irineu A. de Seixas
178 nos forçou a
virar soldados”
Ivan A. de Seixas
182 depois de ter
Iara e Isabel Lobo 192
“Tive muita dificuldade “Ainda hoje não
“O sequestro da
com a expressão dos
meus sentimentos”
Paulo de Miranda Sipahi Pires
196 minha memória”
Camila Sipahi Pires 200 se dão conta do
que significou...”
Aritanã Dantas
212

“Filho dessa raça Crime: ser filho O bêbe que


não deve nascer”
Paulo Fonteles Filho 216 de resistente
André de Santa Cruz Leite
222 a ditadura
separou da mãe
José Paulo De Luca Ramos
228

“Seu pai não era um Três gerações “Cuide da mãe que


ladrão, era um herói”
Grenaldo Edmundo Mesut 234 de militância
Cecília Capistrano Bacha
242 um dia eu volto
para te buscar”
Clóvis Petit
248
“Quem é essa pessoa “Dói gostar dos A história que o
que tem a voz da
minha mãe?”
Edson Teles
256 outros”
Janaína Teles 260 menino não queria
ouvir a mãe contar
João Carlos Grabois
270

Reconstruindo “Não tem luto.


A bêbe sequestrada
Carmen S. Nakasu de Souza 278 Gildo
Tessa Moura Lacerda
284 São vazios”
Igor Grabois Olímpio
292

“Sou a prova de
“Ele lutou muito...”
Carlos Alexandre Azevedo 300 que mesmo na
guerra...”
Lia Cecília da Silva Martins
304 Lembranças
Valter Pomar 308

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Prefácio
Este livro representa o cumprimento de um compromisso da Democracia Brasileira com uma geração
pouco conhecida, formada por crianças e adolescentes filhos de perseguidos políticos e desaparecidos
durante o período autoritário, de 1964 a 1985. Seus pais sumiram de uma hora para outra. A espera durou
uma noite, duas, um mês, um ano ou mais. Ninguém sabia quando, e se, voltariam. Mesmo com tantas
dúvidas, não deveriam comentar nada com ninguém.
Cresceram à sombra do medo, angustiados pela incerteza e expectativa de reaparecimento do pai ou da
mãe ou de ambos. Viveram dias, meses, e depois, anos à espera deles. Privados de brincar com os pais,
passear, ter um almoço em família ou receber ajuda numa lição. Muitos tiveram a vida consumida por esta
dúvida, sem que afinal tivessem direito sequer a um esclarecimento oficial sobre o destino de seus pais,
um processo que deixaria marcas indeléveis.
O livro traz um olhar diferenciado sobre o período ditatorial no Brasil. É o olhar das crianças que tiveram
sua Infância Roubada. Como uma geração de brasileiros, eles cresceram em um período de graves vio-
lações de direitos humanos e agressões ao direito da cidadania. Mas receberam marcas profundas e par-
ticulares. Não tinham responsabilidade pelas opções políticas dos pais nem pela situação do país. Seus
relatos, sempre emocionados, traduzem o que conseguiam compreender daqueles dias tão difíceis para o
país e para suas vidas.
Os depoimentos foram colhidos pela Comissão da Verdade Rubens Paiva, da Assembleia Legislativa do
Estado de São Paulo, num trabalho marcado por desafios incomuns. A começar pela sensibilização dos
depoentes a falar, em sessões públicas, de momentos dolorosos, que muitos preferiam esquecer. Deixá-
-los à vontade para “abrir o baú de lembranças” foi, com toda certeza, um exercício de sensibilidade e
paciência, importante não só pelo respeito a eles devido por todos, mas também para que os depoimentos
pudessem ser compartilhados com outras pessoas e gerações.
Este livro tem exatamente esta aspiração: oferecer uma nova fonte de consulta, reflexão, divulgação e
conhecimento sobre o período autoritário. Com este trabalho, o Poder Legislativo Paulista espera con-
tribuir para aprofundar a compreensão tanto do cidadão comum, como da sociedade civil, governos, insti-
tuições, organizações sociais, academia, historiadores e estudiosos em geral.
A construção da Democracia Brasileira é um processo permanente e vivo, que precisa ser continuamente
semeado. Para que as liberdades duramente conquistadas sejam apropriadas por toda a população.
O conhecimento sobre o passado é capaz de iluminar o presente e abrir caminho para um futuro em
que os direitos sejam respeitados e os deveres cumpridos por todos. O olhar daquelas crianças aponta
na direção do fortalecimento do Estado de Direito Democrático e da construção de uma cultura de total
respeito aos Direitos Humanos.

Deputado Estadual Samuel Moreira


Presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

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Apresentação
Esta obra é resultado do ciclo de audiências “Verdade e Infância Roubada”, realizada pela Comissão da Ver-
dade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” entre 6 e 20 de maio de 2013. Na ocasião, foram ouvidos cerca
de 40 testemunhos de filhos de presos políticos, perseguidos e desaparecidos da ditadura. Hoje, adultos na
faixa de 40, 50 anos, cujas histórias ainda não haviam sido contadas. Os depoimentos foram marcados por
lembranças da prisão, do exílio, do desamparo, de questionamentos em relação às suas identidades, de medo,
insegurança, isolamento, solidão e vazio que, em muitos casos, são traumas não superados.
Eles foram sequestrados e escondidos em centros clandestinos de repressão política da ditadura militar bra-
sileira (1964 – 1985). Afastados de seus pais e suas famílias ainda crianças, foram enquadrados como “elemen-
tos” subversivos pelos órgãos repressivos e banidos do país. Foram obrigados a morar com parentes distantes,
a viver com nomes e sobrenomes falsos, impedidos de conviver, crescer e conhecer os nomes verdadeiros de
seus pais. Foram, enfim, privados do cuidado paterno e materno no momento mais decisivo e de maior necessi-
dade, que é justamente a infância.
Levados aos cárceres da ditadura militar, foram confrontados com seus pais, nus, machucados, recém-saídos
do pau de arara ou da cadeira do dragão. Foram encapuzados, intimidados, torturados antes mesmo de nascer.
Filhos de guerrilheiros que hoje estão desaparecidos nasceram em prisões e cativeiros. Sofreram torturas físi-
cas e psicológicas, como Carlos Alexandre Azevedo, que com 1 ano e 8 meses apanhou e foi levado ao Dops.
Anos depois, em fevereiro de 2013, aos 39 anos, não aguentou mais as dores da vida e se suicidou.
Passados quase 30 anos do fim da ditadura, num país onde a transição para a democracia segue inconclusa,
onde ainda há corpos insepultos, arquivos não abertos, histórias não contadas e uma Comissão da Verdade
tardia, o acolhimento de testemunhos de filhos de ex-presos políticos é fundamental para se ter um panorama
da perversidade do aparato implantado pelo Estado de exceção.
A obra nasce dessa necessidade que a Comissão da Verdade de São Paulo “Rubens Paiva” sente em colocar
luz sobre a dimensão da violência cometida pela ditadura. Se o inventário de violações de direitos humanos
que nos foi legado do regime de 1964 é extenso e profundo, fato é que esse capítulo das violências contra cri-
anças e adolescentes é uma das faces mais perversas desse poder repressor. São crimes contra a humanidade
que devem ser apurados com a devida punição dos responsáveis.
Durante esse ciclo de audiências públicas, nem todos os convidados conseguiram comparecer. Às vezes, che-
garam a confirmar, mas não apareceram. Alguns vieram, mas tiveram dificuldade de falar sobre o assunto. As-
sim, na obra, há, também, outros testemunhos, colhidos por escrito ou por meio de entrevistas. O livro conta
também com dezenas de fotografias da época que ilustram todos os testemunhos. São imagens obtidas por
meio de extensa pesquisa iconográfica em arquivos pessoais, familiares, internet e acervos públicos.
Esperamos que esta publicação, que o leitor tem em suas mãos, contribua para o momento privilegiado de
nossa história, no qual a busca pela verdade, memória e justiça em relação ao período da ditadura se torna
fundamental para o fortalecimento de nossa incipiente democracia. Só assim poderemos garantir um futuro
melhor às novas gerações de crianças e adolescentes de nosso país.

Deputado Estadual Adriano Diogo


Presidente da Comissão da Verdade do Estado
de São Paulo “Rubens Paiva”

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Introdução
por Amelinha Teles

1. Mulheres e crianças inimigas do Estado

... Talvez uns cinco homens me torturaram. da verdade e da justiça. No entanto, como falar os homens e, principalmente, para as crianças.
Eu nunca mais voltei a ser a mesma... [...] Não há das crianças sequestradas, abandonadas, tortura- Quando as crianças foram abruptamente arran-
palavras para explicar [...] Estou tentando agora das ou nascidas nos centros clandestinos da re- cadas de suas mães, como ocorreu com o empre-
superar [...] Quando me sequestraram, meu filho pressão sem considerar a questão das mulheres, go deliberado da truculência dos DOI-Codis que
tinha 10 meses. Fazia pouco tempo que tinha militantes mães e das mães não militantes, que usaram de violência inclusive contra as crian-
deixado de amamentar. Quando sai da prisão, por sua vez eram companheiras de militantes ças, elas perderam tudo isso de uma vez só: a
meu filho tinha 2 anos. No momento em que políticos. Isso porque não houve crianças atingi- segurança afetiva e os cuidados mínimos, o que
se pôs de pé, perdeu os pais: eu fui sequestrada das pelo aparato repressivo que não estivessem as marcou profundamente por toda a vida. Cada
e o pai foi assassinado... vivendo com suas mães militantes e, via de re- uma teve ou tem ainda que lidar com essa ferida,
gra, tinham um forte vínculo com as suas mães, que muitas vezes sangra, incomoda. Todo esse
Teresa Meschiatti, “Tina”, sofrimento das crianças foi também usado como
sejam militantes ou não. Suas mães de alguma
guerrilheira da Argentina forma de torturar as mães militantes ou mães
forma foram perseguidas, presas, sequestradas,
assassinadas/desaparecidas pela ditadura e seus não militantes. Assim, neste capítulo devemos
agentes. Ora, as crianças dependem dos adul- ressaltar que é impossível falar das crianças
tos para serem cuidadas, limpas, alimentadas sem tratar do quanto as mães, militantes ou não,
e precisam de atenção, de amor e devem ser so- foram afetadas por tudo isso que aconteceu no
A Comissão Estadual da Verdade “Rubens cialmente introduzidas junto a outras crianças Brasil, durante a ditadura.
Paiva” da Assembleia Legislativa do Estado de e outros adultos para crescerem em afetividade, A ditadura militar (1964–1985) acarretou radi-
São Paulo realizou uma série de audiências em dignidade e cidadania. Essas atividades têm sido cal mudança na política brasileira e nos países
que crianças, que sofreram nas mãos da repres- historicamente de responsabilidade das mulhe- da região que acabaram também por implan-
são política da ditadura, direta ou indiretamente, res embora estas tenham convocado os homens tar ditaduras similares. A repressão atingiu as
puderam relatar suas experiências e como con- para assumirem também essas tarefas, dividin- forças populares organizadas, sobretudo sindi-
seguiram enfrentar e superar tamanha trucu- do-as igualitariamente, tanto no âmbito domés- calistas, camponeses, estudantes, professores,
lência. Assim, o trabalho que ora apresentamos tico como em relação aos cuidados. Tais fatos, intelectuais e artistas. Um número incalculável
visa dar conta dos relatos dessas pessoas que ainda que falte muito da presença dos homens, foi preso, exilado ou passou a viver na clandes-
eram crianças à época da ditadura e da impor- vêm concorrendo para fortalecer e melhorar a tinidade. A Editora Vozes publicou2 , em 1988, o
tância desses depoimentos para a construção vida em sociedade, seja para as mulheres, para livro Perfil dos Atingidos, organizado a partir de

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estudos baseados nos processos da Justiça Mi- tica – Soledad Viedma Barret (1945 – 1973)3 foi caso de Ieda Reis, guerrilheira da VAR-Palma-
litar, movidos contra presos políticos. Das 7.367 assassinada durante o episódio conhecido como res. Ela ficou exilada durante dez anos logo após
pessoas processadas, 88% eram homens e 12% Massacre da Chácara São Bento, em Recife (PE). ter seu filho, que só veio conhecer quando ele já
mulheres. Estudo feito em 1970, pelo Estado Suspeita-se de que estivesse grávida na ocasião estava com 10 anos de idade, no momento em
Maior do Exército, a partir de um levantamen- de sua morte. Mas ela teve uma filha antes, Ña- que ela retornou ao Brasil. Ambos tiveram que
to dos presos que se encontravam à disposição saindy, que na época estava com um ano e oito passar por um doloroso e inconcluso processo
do Exército em todo o território nacional, che- meses. A filha de Soledad não conheceu a mãe de reconhecimento e convivência. Por um longo
gou a um total de mais de quinhentas pesso- ou não se lembra, por conta da tenra idade. Mais, tempo, um olhava para o outro e não sabia o que
as: 56% eram estudantes ou haviam deixado igualmente não conheceu o pai, José Maria Fer- dizer, o que fazer.
recentemente a atividade estudantil. A idade, reira de Araujo, assassinado (e desaparecido) no
Outras crianças nunca conheceram os pais,
em média, era de 23 anos. Do total de presos, DOI-CODI/SP, em 23 de setembro de 1970. De
por exemplo, Vanúsia, nascida na clandestini-
20% eram mulheres, sendo que no Rio de Janei- acordo com Elio Gaspari, no livro A Ditadura
dade, em 27 de agosto de 1969, filha de Ranúsia
ro a porcentagem de mulheres atingia 26%, no Escancarada4 , “[...] a mitológica Dina (Dinal-
Alves Rodrigues (1945–1973) , guerrilheira, pre-
Nordeste 11% e no Sul não era mais do que 2%. va Oliveira Teixeira: 1945–1974) foi assassina-
sa, torturada e assassinada, cujos restos mortais
O Dossiê de Mortos e Desaparecidos Políticos da grávida. Ela estava sob o controle do major
nunca foram entregues a seus parentes. Vanú-
apresenta um total de 437 militantes mortos Curió [do Exército]”. Esses são exemplos, outros
sia foi criada por duas mulheres que moravam
e desaparecidos, sendo que 11% são mulheres. apresentamos mais à frente, cujos números são
na comunidade da Mangueira, na cidade de
Na região do Araguaia existiram pelo menos incalculáveis, que mostram como a infâmia da
Recife (PE). Somente aos 23 anos viu uma foto
setenta guerrilheiros desaparecidos, dos quais ditadura atingiu crianças, roubando-lhes a in-
da mãe, publicada no Dossiê dos Mortos e De-
doze são mulheres, ou seja, 17%. fância inclusive ao se abater sobre suas mães.
saparecidos Políticos. Igualmente as meninas
De qualquer forma, a participação de mulhe- Muitas das crianças que aqui tratamos, filhas Isabel e Iara não souberam de seus pais quando
res não pode ser considerada desprezível nem de militantes políticas(os) sequestradas(os), fo- vivos; à época do assassinato do pai, Raimundo
na época, e muito menos se comparada aos dias ram mantidas em cárceres clandestinos, nascidas Gonçalves Figueiredo (1939–1971), em 28 abril de
atuais. Ainda hoje, com os resultados eleitorais em cativeiros, torturadas ou ameaçadas de serem 1971, tinham respectivamente 2 anos e 1 ano de
de 2012, as mulheres estão sub-representadas submetidas a torturas, algumas foram arrancadas idade. Um ano depois foi assassinada a mãe delas,
na política. Na Câmara de Deputados são ape- dos braços de suas mães, impedidas de serem Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo (1938–
nas 9%, no Senado 10% e nas cidades do Rio de amamentadas e afagadas, outras chegaram a ser 1972), em 29 de março de 1972. Elas não têm
Janeiro e São Paulo as vereadoras somam 15% torturadas mesmo antes de nascer, ou assistiram lembranças concretas de seus pais, procuram
e 10% respectivamente. No Brasil ainda preva- às torturas em seus pais ou, então, viram os pais preencher as lacunas das memórias afetivas ou-
lece uma mentalidade de que política é coisa serem assassinados. Quase todas eram filhas e fi- vindo relatos de parentes e militantes da época.
de homem. Nesse diapasão, imagine como era lhos de mulheres militantes políticas.
O absurdo da ditadura produziu, ainda, o ab-
tratada a participação de mulheres nos subter- Crianças também nasceram em cativeiro. Lia surdo de prender e banir crianças, fichando-as
râneos clandestinos da política, nas décadas Cecília foi uma delas. Hoje com 39 anos, nasci- como subversivas, considerado-as “perigosas
de 1960/1970. Segundo o relatório da Inter- da em 1974, na região da guerrilha do Araguaia, à segurança nacional’. Elas cresceram e se
Parliamentary Union – organização que reúne filha de um guerrilheiro do Araguaia, desapa- formaram fora do país. É o caso dos meninos
os parlamentos de 162 países, o Brasil ocupa, recido, Antonio Teodoro de Castro (1945–1974), criados pela “tia” Tercina Dias de Oliveira,
no ranking de 190 países, o 119º posto em re- que era conhecido na área da guerrilha como militante do movimento guerrilheiro na área
lação à participação das mulheres na política. Raul. Sobre sua mãe, não há nenhuma informa- do Vale da Ribeira (SP): Ernesto Carlos Nasci-
O Brasil tem partidos políticos sexistas que ção, mas encontra-se desaparecida desde aquela mento (nascido em 1968), aos 2 anos de idade
não oferecem condições mínimas para a parti- época. Teria Lia nascido no cativeiro e seus pais foi preso, em 1970, pelos agentes do DOPS, em
cipação das mulheres, embora tenhamos uma mortos em seguida? Haveria outras crianças da São Paulo; Zuleide Aparecida do Nascimento
mulher de esquerda, militante na luta de resis- região do Araguaia com história semelhante à (nascida em 1965) estava com 4 anos e 10 me-
tência à ditadura, na Presidência da República, de Lia? Haveria outras crianças nascidas nos ses; Luis Carlos Max do Nascimento, irmão de
Dilma Rousseff. campos de concentração, criados pelos milita- Zuleide, nascido em 1963, com 6 anos e 7 me-
Quando se olha para o movimento de resis- res, na região da guerrilha? São perguntas para ses de idade; e Samuel Dias de Oliveira tinha
tência à ditadura, não existe uma estimativa de as quais até hoje não há respostas. São situações quase 9 anos. Todos foram banidos do Brasil
quantas militantes eram mães ou foram seques- que não foram devidamente esclarecidas. Cabe sob alegação de que eram elementos perigosos
tradas grávidas. Mas houve militantes políticas, ao Estado brasileiro esclarecer esses fatos. e inimigos do Estado.
mães e/ou grávidas que foram sequestradas, Algumas crianças puderam ir com suas mães Não apenas adultos, mas também crianças
torturadas, bem como crianças que também para o exílio, mas houve aquelas cujas mães par- foram sequestradas e ficaram nas dependências
sofreram os efeitos perversos da atuação dos tiram sozinhas sem que seus filhos pudessem ir dos centros de tortura onde seus pais e outros
órgãos públicos voltados para a repressão polí- por questões econômicas ou de segurança. É o presos eram torturados e seviciados. Como, por

1
Marta Diana. Mujeres Guerrilleras: Sus Testimonios en la militancia de los setenta, Editora Booket, Buenos Aires, 2007, p.44. Tradução livre.
2
Maria Amélia de Almeida Teles, Breve História do Feminismo no Brasil, Editora Brasiliense, São Paulo, 1993, p.64.
3
Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos (1964-1985), Imprensa Oficial, São Paulo, 2009, p. 413.
4
Idem, p. 583.

14 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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exemplo, os irmãos Janaína e Edson Teles, de 5 sinado sob torturas pelo DOI-CODI/SP, sendo da humilhação de ser uma mulher estuprada e
e 4 anos de idade, que estiveram por vários dias Virgílio um desaparecido político, pois seus ainda mãe de uma criança filha de um estupro
no DOI-CODI/SP e num centro clandestino da restos mortais até hoje não foram entregues a cometido por torturadores. E a questão perma-
repressão, em São Paulo, onde ouviam os gritos seus familiares para um sepultamento digno. nece interdita. Se ainda prevalece a ideia de que
de tortura de seus pais e de outros presos que ali Os filhos de Virgílio eram crianças e foram a palavra das mulheres não é crível nos dias de
se encontravam. presos com a mãe, que não era militante, Ilda hoje, o que dizer naqueles anos de chumbo quan-
Martins da Silva. Ilda foi interrogada, tortura- do mulher era assunto proibido e considerado
Houve crianças que foram torturadas para
da e separada dos filhos: “subversivo”. A revista Realidade, de janeiro de
forçar seus pais a denunciarem outros compa-
1967, n. 10, teve sua edição especial dedicada à
nheiros. Gino Ghilardini, à época, com 8 anos “Eu não queria me separar deles de jeito
situação das mulheres apreendida pela censura.
de idade, filho de Luis Ghilardini (1920–1973), nenhum, veio uma freira, pegou-os e os levou
O jornal Movimento, n. 45, foi totalmente censu-
comunista assassinado sob torturas no DOI-CO- para o DOPS/SP. Eles ficaram dois dias lá e
rado, por realizar uma edição voltada para “O
DI/RJ, foi preso juntamente com a mãe, Oran- depois foram levados para o Juizado de Meno-
Trabalho da Mulher no Brasil”. São exemplos
dina. Ambos foram torturados. O menino Gino res, onde permaneceram por dois meses. Isa-
mostrando que o fato de falar sobre as mulheres,
conta que era violentado para o pai falar o que bel, a mais nova, era um bebê de 4 meses, foi
revelando dados de sua realidade na família, no
sabia: “Eu ouvia meu pai ali perto gemendo, eu hospitalizada e quase morreu. Eu fiquei presa
trabalho, na educação e na sociedade causava
escutava, mas não podia fazer nada”. Passados por nove meses e estive incomunicável, não
muita preocupação às autoridades militares que
uns dias, Gino foi encaminhado e ficou durante podia ver meus filhos ou saber deles. E eu não
eram extremamente misóginas. Tanto é que é
vários meses na Fundação Nacional do Menor tinha participação política em nada”.
um dos ditadores (General Figueiredo, 1978-
no Rio de Janeiro.
Muitas das crianças aqui tratadas se tornaram 1985) chegou a dizer em público que: “... mulher
Pais foram assassinados diante de suas crian- adultos atormentados, vítimas de um sofrimen- e cavalo a gente só conhece quando monta”.
ças, tal qual ocorreu com a família Lucena. An- to mental permanente, devido à tamanha vio- Deve-se ressaltar, também, que a violência
tonio Raimundo Lucena (1922 – 1970) foi assas- lência cometida contra eles. Não suportaram e sexual acarreta consequências de longo prazo
sinado em 20 de fevereiro de 1970 na frente de acabaram morrendo. É o caso de Carlos Alexan- não só às vítimas como para todo o grupo so-
seus filhos de 3 e 6 anos, respectivamente. O fi- dre Azevedo (Cacá) que se matou aos 39 anos cial a que elas pertencem, inclusive pode levar
lho mais velho, de 18 anos, estava sequestrado de idade. Filho de pai e mãe, militantes, Cacá, à infertilidade.
e sofria torturas no DOI-CODI/SP. Sua esposa, quando tinha 1 ano e 8 meses, teve sua casa in-
Damaris Lucena, foi presa, torturada e banida vadida por policiais do DOPS/SP, no dia 15 de Ainda nos dias atuais, as militantes que so-
do país juntamente com os filhos pequenos. janeiro de 1974. Como começou a chorar, os po- breviveram não se sentem fortalecidas e com
liciais deram-lhe um soco na boca que começou garantias para denunciar os torturadores/es-
Houve crianças cujas mães foram sequestra- tupradores e ver a apuração de tais crimes. Há
a sangrar. Com o corte nos lábios, sangrando,
das por serem esposas de militantes comunis- uma ausência de ações políticas no sentido de
foi levado para o DOPS/SP e passou por mais
tas. Assim aconteceu com Marilda, esposa do oferecer oportunidade para uma narrativa pú-
de 15 horas em poder dos homens da repressão.
militante comunista Carlos Nicolau Danielli blica sobre o estupro cometido dentro de ór-
No DOPS/SP, os pais ouviram relatos de outros
(1929 – 1972), assassinado sob torturas no DOI- gãos policiais. Não vamos aqui descrever os
presos de que ele teria levado também choques
-CODI/SP. Ela foi sequestrada e seus filhos, casos, mas não podemos deixar de reconhecer
elétricos. Mais tarde, o bebê foi entregue aos
Vladimir, Valdenir e Vladir, com 9, 7 e 6 anos sua existência. Registrar que houve o estupro
avós maternos, em São Bernardo do Campo
de idade, sofreram muito por se sentirem sozi- como prática de tortura nos órgãos de repressão
(SP). Como disse o pai anos depois:
nhos e abandonados. O mesmo aconteceu com durante a ditadura militar é o começo para des-
a esposa de Rafael Martinelli, dirigente do mo- “Na verdade, em vez de entregue, ele foi jo- velar os horrores cometidos contra as mulheres
vimento sindical. Enquanto ele foi perseguido gado ao chão. Acabou com um machucado a durante a ditadura.
e sequestrado pelos agentes da repressão, ela mais na cabeça. Isso me foi contado. O certo
foi levada para as dependências do DOI-CO- é que ele ficou apavorado. E esse pavor tomou Embora desde o século XV, possam ser encon-
DI, do jeito como costumava ficar em sua casa, conta dele. Entendo que a morte dele foi o limi- tradas referências ao estupro como violação das
descalça. A esposa de Martinelli não tinha ne- te da angústia”7. normas relativas à guerra e passível de punição,
nhuma participação política. Mas seus três fi- o que ainda se constata são os grandes entra-
A ignomínia de crianças nascidas de estupros ves para se fazer a denúncia desses crimes. Não
lhos ficaram sós e abandonados enquanto ela
praticados por agentes do Estado existiu, ainda há nenhuma política reparatória nesse sentido
estava submetida aos interrogatórios e torturas
que não se toque nesse assunto, presas políticas no Brasil8.
naquele órgão.
foram insultadas em sua dignidade e violenta-
Outro caso emblemático da violência da das nos chamados DOI-CODIs e outros centros
ditadura sobre as crianças é o dos filhos de de tortura. O silencio é permanente em torno da
Virgilio Gomes da Silva (1933 – 1969), militante questão. As razões para o silêncio permanente
da ALN – Ação Libertadora Nacional –, assas- que paira sobre o assunto são muitas: a profun-

5
Idem, p.411.
6
Revista Brasileiros, nº.68, março de 2013: “Subversivos: Acredite”. “Estas crianças foram presas e banidas do Brasil. Mais de quarenta anos
depois elas contam como sobreviveram. Há quem não tenha conseguido, quando meninos são fichados como terroristas”, Luiza Villaméa, p.54.
7
Idem, p.64, matéria de Luiza Villaméa.
8
Adriana Sader Tescari, Violência Sexual contra a Mulher em Situação de Conflito Armado, Editora Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 2005, p.38.

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2. Denúncias de mulheres grávidas publicadas
pelo projeto “Brasil Nunca Mais”

Muitas mulheres que, nas prisões brasileiras gestação e permaneceu detida como elemento de Luíz Andréa Favero, 26 anos, professor, pre-
tiveram sua sexualidade conspurcada coação moral sobre o interrogando; (...)”. so em Foz do Iguaçu, declarou na Auditoria
e os frutos do ventre arrancados, certamente Militar de Curitiba, em 1970, o que ocorrera a
Helena Moreira Serra Azul, 22 anos, estudante,
preferiram calar-se, para que a vergonha sua esposa: “(...) o interrogando ouviu os gritos
no Conselho de Justiça, em Recife (PE) , ao ser
suportada não caísse em domínio público. de sua esposa e, ao pedir aos policiais que não
interrogada, relatou: “(...) que o marido da interro-
Hoje, no anonimato de um passado marcante, a maltratassem, uma vez que a mesma se en-
ganda ficou na sala já referida e ela ouviu, do lado
elas guardam em sigilo os vexames e as contrava grávida, obteve como resposta uma
de fora, barulho de pancadas; que, posteriormente,
violações sofridas. No entanto, outras risada; (...) que ainda neste mesmo dia, teve o in-
foi reconduzida à sala onde estava o seu marido,
optaram por denunciar na Justiça Militar terrogando noticia de que sua esposa sofrera uma
que se apresentava com as mãos inchadas, a face
o que padeceram, ou tiveram seus casos hemorragia, constatando-se posteriormente, que
avermelhada, a coxa tremendo e com as costas
relatados por maridos e companheiros.9 a mesma sofrera um aborto; (...)”.
sem poder encostar na cadeira; que o Dr. Moacir
Sales, dirigindo-se à interroganda, disse que, se ela Regina Maria Toscano Farah, estudante, 23
não falasse, ia acontecer o mesmo com ela; (...) na anos, ao depor, no Rio, declarou: “(...) que molha-
Delegacia, todos já sabiam que a interroganda es- ram o seu corpo, aplicando consequentemente
O projeto Brasil Nunca Mais consistiu na pri-
tava em estado de gestação; (...)”. choques elétricos em todo o seu corpo, inclusive
meira pesquisa realizada a partir dos processos
contra presos políticos transitados no Superior Helena Mota Quintela, vendedora, 28 anos, em na vagina; que a declarante se achava operada
Tribunal Militar (STM) no período de abril de 1972, em Recife, denunciou: “(...) que foi ameaçada de fissura anal, que provocou hemorragia; que se
1964 a 1979, sob a responsabilidade da Comissão de ter o seu filho ‘arrancado à ponta de faca’; (...)”. achava grávida, semelhantes sevícias lhe provo-
de Justiça e Paz. O conteúdo do Projeto reuniu caram aborto; (...)”.
Hecilda Mary Veiga Fonteles de Lima, 25 anos,
707 processos completos e dezenas de outros in- estudante, ao depor, relatou como se deu o nasci-
completos num total de um milhão de documen- As marcas da tortura permanecem, como mos-
mento de seu filho: “(...) ao saber que a interrogan- tra o testemunho de Isabel Fávero, ex-militante
tos. O estudo desses processos e a sistematização da estava grávida, disse que o filho dessa raça não
das informações foram realizados de 1979 a 1985. da VAR-Palmares, presa em 5 maio de 1970, em
devia nascer; (...) que a 17.10 foi levada para prestar Nova Aurora, cuja denúncia foi feita, quarenta
No final dos trabalhos, foi publicado um livro com outro depoimento no CODI, mas foi suspenso e, no
o nome Brasil: Nunca Mais, que reúne denúncias anos antes, pelo seu marido, Luiz Fávero11. Ela
dia seguinte, por estar passando mal, foi transpor- relata com detalhes o abortamento sofrido e de-
contidas nos autos dos processos de militantes tada para o Hospital de Brasília; que chegou a ler
políticos, mulheres e homens, nas auditorias mi- nunciado pelo seu marido na época: “Eu ficava
o prontuário, por distração da enfermeira, cons- horas numa sala, entre perguntas e tortura física.
litares, na época da ditadura militar. tando do mesmo que foi internada em estado de Dia e noite. Eu estava grávida de dois meses, e
Militantes ou esposas de militantes, grávidas, profunda angústia e ameaça de parto prematuro; eles estavam sabendo. No quinto dia, depois de
foram vitimas do aborto forçado, praticado por que a 20/2/1972 deu à luz e 24 horas após o parto, muito choque, pau de arara, ameaça de estupro
agentes policiais dos DOI-CODIs. Muitos desses disseram-lhe que ia voltar para o PIC (Policia de e insultos, eu abortei. Depois disso, me colocaram
abortamentos foram denunciados nas audiências Investigações Criminais); (...).” num quarto fechado, fiquei incomunicável”.
da Justiça Militar. Eis o relato de alguns desses Maria José da Conceição Doyle, estudante de
casos: Medicina, em 1971, em Brasília: “(...) que a inter- Outra mulher e militante política, Nádia Lu-
roganda estava grávida de 2 meses e perdeu a cia do Nascimento, integrante do MR-8, presa
O auxiliar administrativo José Ayres Lo- em São Paulo, em 1974, grávida de seis meses,
criança na prisão, embora não tenha sido tortura-
pes, 27 anos, preso no Rio, declarou em 197210: no DOI-CODI/SP, foi colocada na “cadeira
da, mas sofreu ameaças; (...)”.
“(...) que, por vezes, foram feitas chantagem com de dragão” pelo torturador conhecido por Ca-
o depoente em relação à gravidez de sua esposa, Maria Cristina Uslenghi Rizzi, 27 anos, secretária, pitão Ubirajara (delegado da polícia civil de
para que o depoente admitisse as declarações, denunciou à Justiça Militar de São Paulo: “(...) so- São Paulo, que integrava as equipes de tortu-
sob pena de colocar sua esposa em risco de abor- freu sevícias, tendo, inclusive, um aborto provoca- radores do DOI-CODI/SP, cujo nome oficial é
to e, consequentemente, de vida; (...)”. do que lhe causou grande hemorragia, (...)”. Aparecido Laerte Calandra). Depois de arranca-
O estudante José Luiz de Araújo Saboya, de Olga D´Arc Pimentel, 22 anos, professora, em da a roupa, ela levou choque elétrico por todo o
23 anos, no Rio, denunciou: “(...) que durante o 1970, no Rio: “(...) sevícias, as quais tiveram, como corpo, o que fez com que abortasse. Ficou duran-
período em que esteve no DOPS, em seguida no resultado, um aborto provocado que lhe causou te dias com fortes hemorragias e dores, sem se-
CODI, a sua esposa se encontrava em estado de grande hemorragia, (...)”. quer um atendimento médico12.

9
Brasil: Nunca Mais, Editora Vozes, 1986, Petrópolis, p.43.
10
Idem, pp.48-50.
11
Idem, p 50.
12
Testemunho dado à Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva” da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo

16 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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3. Maternidade, infância, clandestinidade
e terror de Estado

... me espanta a capacidade que se crianças pequenas das tarefas políticas e/ou mi- vidade da época. De qualquer forma, as ativida-
tem de sobreviver ao horror.13 litares, no sentido de impedir que acontecesse des domésticas recaíam mais sobre as mulheres.
... à ameaça de morte, podemos responder
o pior: a mãe ter sua criança torturada e/ou se- O comando era sempre dos homens, mesmo que
com uma nova vida.14
questrada, usada como refém pelos agentes da as mulheres tivessem desempenho igual ao dos
repressão, assim como as crianças assistirem homens. Eram eles que estavam nas direções das
suas mães ou seus pais sendo torturadas (os). A organizações, com raríssimas exceções, mas as
A maternidade foi usada, das mais diversas relutância em aceitar as mães como militantes mulheres agiram com coragem e criatividade.
formas, pela repressão política como meio de não era sem razão. A repressão política não pou-
tortura, para enlouquecer e aniquilar militantes, Dessa vez as mulheres não precisavam vestir-se
pou nem crianças nem mulheres grávidas. Mui-
o que acarretou uma sobrecarga pesada do pon- de homem para ir à guerra como fez Maria Qui-
tas mulheres abortaram nas dependências dos
to de vista emocional e físico, de forma especial, téria em outros tempos. Embora muitos coman-
DOI-CODIs de tanto apanharem e levarem cho-
às crianças e às mulheres, que, ao serem violen- dantes esperassem que as mulheres se compor-
que na barriga, vagina e demais partes do corpo.
tamente reprimidas por sua militância de con- tassem como homens. Segundo a ex-guerrilheira
testação à ditadura, ou por serem filhas de mi- Assim como existiram mulheres que tiveram Crimeia, muitas mulheres que optaram pela luta
litantes, eram submetidas às mais vis torturas, seus partos, na mais ferrenha clandestinidade, ou- política aprenderam a afirmar a diferença e bus-
sejam psicológicas ou físicas, por serem mães tras tiveram seus filhos na cadeia, como Hecilda, car novas formas de fazer política. Afinal, dessa
e terem seus filhos pequenos, ou simplesmente Crimeia Schmidt, Linda Tayah. Todas foram pre- vez as mulheres foram à luta por conta própria,
porque eram crianças, filhas de “comunistas”. sas grávidas e, mesmo sendo muito torturadas, por sua própria decisão e ali entraram para valer.
permaneceram grávidas e seus filhos nasceram Suzana Lisboa, militante da ALN na década de
As militantes na luta contra a ditadura militar, sob a ameaça de torturas sendo que algumas des- 1970, considera que “(...) era vantajosa, do ponto
de um modo geral, pertenciam a organizações sas crianças sofreram a tortura ainda na barriga de vista do desempenho da organização, a inte-
políticas clandestinas, pois era taxativamente de suas mães. Nessa seara, temos o caso do Joca, gração de mulheres na luta armada (...)”.
proibido se organizar e se expressar de maneira João Carlos Schmidt de Almeida Grabois. Sua
pública sob a vigência dos governos militares. mãe, Criméia, foi presa com sete para oito meses Ela afirma que numa sociedade machista em
Portanto, as normas dessas organizações eram de gravidez. Levou choques elétricos, foi espanca- que a mulher não era reconhecida e considerada,
bastante rígidas devido às questões de seguran- da em diversas partes do corpo e sofreu socos no uma guerrilheira teria mais facilidade de sair de
ça. A militância clandestina precisava de escon- rosto. Quando os carcereiros pegavam as chaves uma ação militar e se confundir na multidão. As
derijos para se encontrar, planejar atividades para abrir a porta da cela e levá-la à sala de tortura, mulheres tinham mais facilidades de obter do-
cotidianas. Eram casas/residências, conhecidas o seu bebê ainda na barriga começava a soluçar. cumentos falsos. Não precisavam de atestado de
como “aparelhos”. Para manter uma fachada le- Nasceu na prisão e, mesmo anos depois, quando reservista. E com isso tornava-se mais fácil con-
gal era conveniente destacar um casal de mili- ouvia o barulho de chaves, voltava a ter soluços. seguir um emprego e manter uma fachada legal.
tantes jovens para cuidar do “aparelho”. Diante Muitas chegaram a ser citadas pelos agentes da
As crianças que viviam na clandestinidade, de repressão, que eram pegos de surpresa ao se de-
de um casal com essas características as suspei-
um modo geral, moravam nos “aparelhos” que frontarem com mulheres dispostas a enfrentar o
tas junto à vizinhança eram bem menores.
poderiam ser invadidos, vasculhados e seques- inimigo com tanta ousadia e destreza. Eles se as-
As mulheres militantes, ao decidirem pela trados os que ali se encontravam, pelos agentes sustavam com o fato de que essas mulheres rom-
maternidade, eram advertidas de forma sistemá- dos órgãos de repressão. A perseguição policial, piam, sistematicamente, com os papéis sociais
tica sobre o que poderia lhes advir caso caíssem ora velada, ora aberta, era constante na vida da que lhes eram e ainda são impostos de submis-
nas garras da repressão. Havia reações negati- militância. O risco era permanente. As crianças, são, dependência, falta de decisão e coragem.
vas em relação à escolha pela maternidade. As na sua maioria, precisavam ter nomes falsos. Não
organizações, de um modo geral, não adotavam sabiam o verdadeiro nome de seus pais por ques- A vida política realizada às escondidas da
nos seus planos de ação o enfrentamento dos tão de segurança. As distintas tarefas partidárias ditadura e da repressão política aproximava os
problemas do cotidiano, considerados menores que compunham uma ação política ou armada militantes e era comum entre eles uma conversa
e que deveriam ser postergados para quando de maior envergadura se faziam de forma com- sobre assuntos mais íntimos. A clandestinida-
houvesse o triunfo da revolução. Por outro lado, partimentada e, muitas vezes, era pouco o tempo de e a perseguição constante os tornavam mais
existia o compromisso, nas mais diversas cir- para se preparar e tomar conhecimento do perigo afetivos e mais próximos. A igualdade entre os
cunstâncias, de proteger mulheres e crianças iminente. As mulheres militantes participavam sexos era, como ainda é hoje, uma proposta a ser
das garras perversas da repressão. Algumas igualmente da concretização das tarefas políticas alcançada. Cada minuto vivido era intenso, por-
organizações excluíam as grávidas ou mães de e militares, o que talvez tenha sido a grande no- que o perigo e a morte rondavam por perto.

13 Susel Oliveira da Rosa, Mulheres: Ditaduras e Memórias, Editora Intermeios, São Paulo, 2013, Carta de Danda Prado, p.180. (Coleção Entregêneros).
14 Fala de Crimeia Alice Schmidt de Almeida, ex-guerrilheira do Araguaia, publicada no livro já citado: Breve História do Feminismo no Brasil, p.72.

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4. Mudanças profundas na vida das mulheres
sob a égide do autoritarismo

... A inserção do feminismo no movimento pela Nos anos de 1970, no mundo ocidental, vivia-se tiva. As mulheres mães, por sua vez, enfrenta-
recuperação da democracia passava por uma o auge da segunda onda feminista, na qual as mu- ram a dupla ou talvez tripla opressão (enquanto
critica ao autoritarismo não apenas como lheres conduziram bandeiras que reivindicavam pertencentes ao sexo feminino, como parte do
o sistema político-militar que governava a o direito de decidir sobre o próprio corpo, que as povo em luta e como mães) sem deixarem de ser
maioria dos países latino-americanos, mas questões do plano pessoal deveriam ser tratadas “sujeitos políticos”, conscientes de suas ações e
ampliava essa crítica identificando o também no campo político. Tratavam de temas seus significados.
autoritarismo como sistema de relações de como corpo, sexualidade, prazer sexual, aborto e O corpo, a sexualidade e a maternidade ocu-
disciplinamento e de dominação que a maternidade. Queriam desfazer a ideia de que pam lugares centrais no processo histórico de
aprofundava a situação de subordinação tinham um único destino selado, o de serem mães. discriminação contra as mulheres. A subordi-
e opressão das mulheres no continente...
Tais ideias circulavam junto às militantes, ain- nação e opressão das mulheres se dá, em gran-
Lilian Letelier 15
da que com mais dificuldade, devido à falta de de medida, pelo controle do corpo feminino. A
liberdade e a perseguição constante que as im- expressão maior deste controle é a violência
pediam, muitas vezes, de discutir questões do contra as mulheres – prática tão antiga e natu-
cotidiano. Acreditava-se que somente após a ralizada que, naqueles anos de ditadura, preva-
Entretanto, surgiam fatores que aceleravam revolução socialista haveria oportunidade para lecia o ditado popular: “Em briga de marido e
mudanças de hábitos e costumes na sociedade cuidar de assuntos do campo pessoal, cultural. mulher não se mete a colher”, “embora fossem”
brasileira. O capitalismo se desenvolvia rapida- Portanto, a questão das mulheres ficaria para violentadas/espancadas e assassinadas as mu-
mente com o aumento excessivo da exploração depois. Paradoxalmente, as mulheres que deci- lheres. Assim como também se entendia que
da mão de obra, o achatamento salarial, o incen- diram pela militância de oposição à ditadura, os homens tinham uma necessidade irrefreável
tivo e os subsídios estatais para a instalação de eram, de um modo geral, pessoas que tinham e incontrolável de sexo. Daí a justificativa da
multinacionais. A partir da expulsão da popula- maior independência e autonomia. Tiveram que prática da violência sexual contra as mulheres.
ção do campo, há uma transferência abrupta de enfrentar muitas barreiras de ordem pessoal, A culpa de serem estupradas recaía sobre as
um grande contingente da população da área ru- familiar, profissional, para assumir a posição próprias mulheres vítimas. Daí a dificuldade de
ral para as áreas urbanas em busca de trabalho e política de enfrentamento ao autoritarismo. As- se denunciar os estupros. A desigualdade entre
sobrevivência. As mulheres, em geral, passaram sumiram o papel histórico de protagonistas de os sexos tem sido estruturalmente estabelecida
a ter novas atribuições, seja na chefia da família ações libertárias, tornando-se sujeitos políticos, ainda nos dias de hoje. O que dizer de quase
ou na competição para o mercado de trabalho, atuantes na construção de uma sociedade justa meio século atrás? Quando nem mesmo havia
fazendo crescer a participação da mão de obra e democrática. A maioria delas exerceu de forma sido conquistada a igualdade jurídica e formal.
feminina. Elas passaram a ter mais possibilida- destemida o direito de escolha nos mais diver- No Código Civil daquela época, o homem podia
des de controlar o número de filhos que queriam sos campos da vida inclusive em relação a ser ou pedir a anulação do casamento se a mulher não
ter. A pílula anticoncepcional, descoberta em não mães. Mas insistiram em tratar as questões fosse virgem e não tivesse avisado a ele com a
1960, começou a ser popularizada. As mulheres pessoais no plano político das organizações. Fo- devida antecedência e precaução. O pai podia
começaram a exercer o direito ao prazer sexual ram, ainda que nem todas estivessem conscien- deserdar a filha “desonesta”. A honestidade das
sem necessariamente ficarem grávidas. As mu- tes disso, as pioneiras do feminismo dos anos de mulheres significava uma sexualidade reprimi-
lheres, então, travaram um movimento de rup- 1970 no Brasil e região. da. Tanta tirania atingia as mulheres como um
tura do tabu da virgindade. Passaram a exercer todo, reforçava e justificava as ações repressivas
uma maior liberdade sexual subvertendo a or- As militantes tiveram que romper com os este-
nos espaços públicos como privados.
dem dada pelo acirramento da repressão política reótipos femininos e se empenharam em ações
e moral. Desse modo, a maternidade começa a ser que eram restritas a homens, como o manejo de Some-se a isso o fato de que havia uma campa-
exercida como um direito de escolha. A média de armas, a elaboração de estratégias de resistên- nha de controle da natalidade incentivada pelos
filhos por mulher era em torno de seis em 1960 cia para driblar o inimigo, entre outras. Não se Estados Unidos – baseada na ideologia imperia-
e caiu para cerca de dois, no final do século 20. deixaram intimidar, de ter desejos e manifestá- lista – contra o nascimento de filhos de pobres no
Assim, as mulheres lograram por se tornar mais -los, não recusaram tarefas por causa da mens- Brasil e em diversos países, denominados à época
independentes, a assumir mais atividades nos es- truação, de um abortamento, da gravidez ou como países do Terceiro Mundo17.
paços públicos, seja nas escolas ou no mercado de aleitamento. E aquelas que caíram nas garras O estado ditatorial patrocinava iniciativas de
trabalho. Aproximavam-se, mesmo sem ter cons- do inimigo, grávidas ou não, de um modo geral, controle da natalidade promovidas pela Bemfam
ciência plena, das incipientes ideias feministas. enfrentaram seus algozes de maneira firme e al- – Sociedade Civil de Bem Estar Familiar –, criada

15
In Maria Betânia Ávila (org.), Textos e Imagens do Feminismo: Mulheres Construindo a Igualdade, SOS-Corpo, Recife, 2001, p.198. Revista Brasileiros, nº.68, março de 2013.
16
Hoje creche é um direito constitucional da criança pequena à educação. Mas há mais de dez milhões de crianças brasileiras que vivem no Brasil, sem poder usufruir deste direito
por falta da construção de creches. (N. da A.)
17
Países do Terceiro Mundo eram os países pobres ou subdesenvolvidos. Segundo a teoria terceiro mundista, o mundo era dividido em países capitalistas (Primeiro Mundo),
socialistas (Segundo Mundo) e os demais eram do Terceiro Mundo. (N. da A.)

18 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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durante a ditadura militar, em 1965, e reconhecida doenças gravíssimas de hipertensão. Os índices Nesse contexto, as militantes políticas que
como órgão de utilidade pública. O governo mili- apresentados naquela época já eram altíssimos: decidiram ser mães, o fizeram em condições de-
tar assumiu um caráter ambíguo: mantinha uma em Pernambuco, 18,9% das mulheres de 15 a 44 safiadoras tanto por lutarem contra a ditadura
postura oficial de não intervencionismo na vida anos se encontravam esterilizadas (trompas liga- militar como ainda pela ousadia de se engravi-
das pessoas quanto à decisão de ter ou não ter fi- das) enquanto 12,5% usavam pílulas; em Manaus, darem. Tomaram o caminho da descoberta do
lhos. Mas na prática abria caminhos, com subsí- 33% das mulheres estavam com as trompas liga- corpo, se apropriaram dele, de sua sexualidade
dios e facilidades substanciais para ações antina- das; 17% no Piauí; e 15% das paulistas. Estavam ex- e das próprias decisões tanto em relação à re-
talistas, com acordos entre as secretarias de saúde cluídas desses cálculos as mulheres esterilizadas produção como ao exercício da sexualidade e da
e a Bemfam nos diversos estados brasileiros, prio- por outros motivos, como abortos mal feitos ou atividade política. Assim também como aquelas
rizando os mais pobres, impondo, de forma crimi- pelo uso inadequado de pílulas ou do DIU (Folha que decidiram o aborto e o realizaram em condi-
nosa e irresponsável, a esterilização em massa. de São Paulo, edição de 17 jul. 1983). A ação da ções de clandestinidade: sem lei e sem recursos
Por outro lado, os serviços públicos de saúde Bemfam e de outras entidades congêneres, com materiais. Foram mulheres que ousaram exercer
não ofereciam sequer informação e muito menos o suporte do Estado brasileiro, reduziu drastica- o direito de escolha até as últimas consequências.
orientação quanto ao uso dos meios contracepti- mente os índices de fertilidade no Brasil, inclu-
vos. Essa postura contribuiu enormemente para sive em áreas com baixa densidade demográfica
a expansão das esterilizações femininas e de como na Amazônia.

5. Mas afinal, o que é gênero?

Não se nasce mulher, torna-se. par o seu lugar no mercado de trabalho e bus- desigualdades sociais, econômicas e políticas.
Simone de Beauvoir, em 1949 car formação profissional e política tiveram que As desigualdades são fruto da arbitrariedade e
arcar com o ônus de exercer, ao mesmo tempo, das injustiças sociais, o que cria condições de
as atividades do mundo privado e do público, o inferioridade para alguns segmentos e classes
que lhes têm ocasionado uma enorme sobrecar- sociais. Enquanto as diferenças são biológicas e
Hoje, com o avanço das ciências sociais e da ga de trabalho e de responsabilidade. Ocorre a devem ser respeitadas, as desigualdades devem
ciência, em geral, pode-se contar com recursos chamada dupla jornada de trabalho (o trabalho ser erradicadas.
teóricos e políticos valiosos para enfrentar a dis- na produção e na reprodução), o que traz difi- O conceito de gênero, articulado às demais
criminação histórica contra as mulheres. A cate- culdades para sua participação na sociedade. categorias, clássicas ou não, como raça, etnia,
goria gênero, entendida aqui como instrumento Assim podemos perceber que a divisão sexual geração, orientação sexual, classes sociais, apro-
de análise da construção social e das relações do trabalho impõe uma divisão dos papéis so- funda a compreensão da realidade e desconstrói
entre os sexos, ao ser usada para dimensionar ciais masculinos e femininos, que são construí- a ideia de que o homem é o paradigma da huma-
as causas estruturais e sociais das desigualda- dos culturalmente e que determinam uma maior nidade. Inscrevem-se, portanto, nos paradigmas
des entre mulheres e homens, desconstrói como valorização dos homens em detrimento das mu- da humanidade, mulheres e homens porque am-
naturais e/ou próprias da natureza humana, a lheres. As mulheres têm sido, assim, impedidas bos são humanos. Desse modo são constituídos
subjugação, discriminação e opressão das mu- de exercerem o poder de decisão. Por exemplo, novos atores e novos sujeitos políticos, revelam-
lheres. É necessário que no uso da categoria tanto a mulher quanto o homem podem dar ba- -se métodos transformadores que devem nos le-
gênero deva ser incorporado o conceito de divi- nho no bebê ou trocar sua fralda. Não se trata de var a mudanças profundas e compatíveis com a
são sexual do trabalho, pois esta se encontra no um problema físico ou hormonal. Se as mulheres diversidade e as necessidades humanas. A sub-
centro do poder que os homens exercem sobre têm sido mais eficientes nesse trabalho é porque missão das mulheres ao poder dos homens, vista
as mulheres. Observa-se que a divisão sexual do se capacitaram para isso por muito mais tempo. até então como processos naturalizados, passa a
trabalho é uma realidade em todas as socieda- Com isso queremos mostrar que as desigualda- ser questionada e ressignificada.
des humanas e é a base da desigualdade social des entre homens e mulheres não são naturais.
entre os sexos. Os homens têm ocupado por um Foram historicamente construídas. A categoria Hoje, graças às lutas feministas de mulheres,
longo período histórico os espaços públicos, vin- gênero vem justamente mostrar que as desigual- há nos diversos níveis do Estado brasileiro (fe-
culados à produção e adquirindo o poder econô- dades podem ser desnaturalizadas e descons- deral, estadual e municipal) ações e políticas pú-
mico e político enquanto as mulheres ficaram truídas. Empregar a categoria gênero na análise blicas para efetiva equidade de gênero e igual-
por muito tempo restritas aos espaços privados, da realidade aprofunda o conhecimento e leva dade de direitos. Na ditadura, a situação era o
incumbidas de realizar as tarefas domésticas e a rejeitar o determinismo biológico. Não são oposto.
de cuidados. As mulheres, ao saírem para ocu- os aspectos biológicos e sexuais que criam as

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6. A construção da verdade sob a perspectiva de gênero

Os danos e violações de direitos humanos co- aram nem deixaram de defender as liberdades Angel que denunciou insistentemente o desapa-
metidos contra as mulheres pela ditadura militar sejam de ordem pessoal ou de ordem política. recimento do seu filho. Outras enlouqueceram
devem ser dimensionados sob a ótica de gênero, As desigualdades históricas entre homens e com tamanha dor e perseguição policial.
para que se alcance com profundidade a verdade mulheres foram reelaboradas e aprofundadas
dos fatos, registrando-se que as militantes políti- Houve muitas e muitas que lutaram no anoni-
pela ditadura, que não admitia, em nenhuma mato e que a história terá de trazer à tona a par-
cas, ou não, se recusaram a reproduzir o papel so- hipótese, que mulheres desenvolvessem ações
cial de submissão e de dependência dos homens, ticipação para que se alcance a verdade. Junto a
não condizentes com os estereótipos femininos elas, muitas crianças também sofreram e não ti-
contribuindo de maneira fundamental para a de submissão, dependência e falta de iniciati-
construção de uma democracia de fato, e isso num veram suas histórias inscritas na história política
va. As mulheres, militantes políticas da época, do país, não tiveram o reconhecimento nem re-
período em que tudo o que faltava era democra- subverteram a ordem patriarcal tão solidamente
cia. Desse modo, nossa frágil democracia não se paração. Gostaríamos que sua dor e sua tenacida-
acomodada na ideologia ditatorial. Ao ingressa- de para resistir se espalhassem na cultura e nas
consolidará, dentre outras coisas, sem que se faça rem para as lutas da oposição política, das mais
justiça às mulheres e às crianças que lutaram e/ou ações do povo de modo a não mais autorizarem
diversas maneiras, as mulheres pegaram em que tais fatos se repitam.
foram atingidas pela ditadura. armas ou apoiaram ações políticas de protesto,
Nessa seara, constatamos que na atividade sejam armadas ou não, mantiveram a segurança Ao buscar a verdade, a Comissão deve anali-
política clandestina, houve também avanços de “aparelhos” que escondiam a militância e o sar os fatos e suas circunstâncias, numa pers-
nas relações de gênero. Existiram ocasiões em material de luta, participaram da imprensa clan- pectiva de gênero, ou seja, considerando que as
que se quebrou a lógica até então aceita como destina, escreveram, fizeram funcionar as gráfi- desigualdades entre os sexos levaram a conse-
natural, dito noutras palavras, ao homem o espa- cas e distribuíram as publicações produzidas de quências e sequelas distintas entre mulheres e
ço público e à mulher o espaço privado. Muitas forma artesanal e em condições muito precárias. homens, em decorrência das brutalidades co-
vezes, os homens foram obrigados a ficarem es- Cuidaram da saúde e da segurança de militan- metidas pela ditadura militar. As mulheres e
condidos em aparelhos, devido à intensa perse- tes e familiares. Tiveram suas crianças na clan- as crianças serão não apenas lembradas como
guição enquanto as mulheres, devido a levanta- destinidade, nas prisões. Viram suas crianças reconhecidas como pessoas com direitos inalie-
rem menos suspeição, foram às ruas no preparo expostas às sessões de tortura, ameaçadas ou náveis à dignidade, às manifestações afetivas, à
e no desencadeamento de ações políticas e mili- mesmo torturadas. Sofreram abortos dolorosos liberdade e à justiça.
tares. Por consequência disso, existiram homens devido aos espancamentos e chutes dos tortura-
que aprenderam a lavar suas roupas, a fazer sua dores. Foram impedidas de amamentar seus be-
própria comida, tomando à frente das atividades bês nos cárceres, menstruaram de forma exces-
domésticas. Mas foram exceção, infelizmente: siva ou escassa conforme as sessões de torturas.
“A participação feminina nas organizações mili- Foram estupradas e sofreram violência sexual.
tantes pode vir a ser tomada como um indicador Tiveram seus corpos nus expostos para os tortu-
das rupturas iniciais que estavam ocorrendo nos radores espancá-los, queimá-los com pontas de
papéis tradicionais de gênero18 ”. cigarro ou com choques elétricos, enfiarem fios
elétricos em suas vaginas e ânus, arrebentarem
De inicio a ditadura, ao considerar que o ini- seus mamilos e cometerem estupros.
migo se encontrava no seio do povo e ao estabe-
lecer que qualquer pessoa estava sob suspeição, Houve militantes assassinadas cujos cadáve-
teve, como alvo principal, os homens guerri- res, em muitos casos, encontram-se desapareci-
lheiros. Com o desenvolvimento da luta contra dos até os dias atuais. Muitas dessas mulheres
a ditadura, a participação das mulheres tornou- foram levadas à morte, por meio de um assassi-
-se mais incômoda para a repressão que usou de nato friamente calculado, com atos de estupro,
métodos os mais perversos, reforçando o mora- mutilação inclusive genital. Outras foram assas-
lismo e preconceito machistas para desmorali- sinadas com o uso da coroa de cristo, como era
zar a participação das mulheres. Na tortura, as chamado um método de tortura, que, por meio
militantes eram tratadas pelos policiais, de um do emprego de uma cinta de aço, apertava-se o
modo geral, como putas, amantes, amasiadas e crânio até esmagá-lo.
justificavam assim os estupros nas dependên- Outras foram mortas em acidentes estrategi-
cias dos DOI-CODIs. Mesmo assim, não recu- camente planejados, como foi o caso de Zuzu

18
Ingrid Gianordoli-Nascimento, Zeidi Araujo Trindade e Maria de Fátima de Souza Santos, Mulheres e Militância, Editora UGMG, Belo Horizonte, 2012, p.44.

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Depoimentos
44 testemunhos colhidos pela
Comissão da Verdade do Estado de São Paulo
“Rubens Paiva”, no mês de maio de 2013,
durante o “Seminário Verdade
e Infância Roubada”

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Filho do Zorro
por Andre Almeida Cunha Arantes

Era 1965, meus pais Aldo e Maria Auxiliadora de manhã perceberia que o castelo era legal. Eu, minha mãe e minha irmã ficamos quatro
estavam curtindo o frio do inverno Sul-Ameri- Quando despertei no outro dia, estava em meses presos. Meu pai, que foi preso dias de-
cano na praia de Punta Gorda, em Montevidéu. um quarto pequeno e cinza, cheio de grades. pois, ficou seis meses na prisão. No final desse
Não foi uma escolha voluntária, até porque a período meus pais foram levados a julgamen-
melhor época para aproveitar as praias uru- Mudamos algumas vezes de “endereço”. to, em Recife. Durante a sessão, eu e minha
guaias é no verão, entre os meses de janeiro Depois do “castelo” fomos para Escola de irmã, que nessa época tinha 2 anos, ficamos
e fevereiro. Por outro lado, o melhor mesmo Aprendizes de Marinheiro de Alagoas. Uma correndo por toda sala e fazendo uma bagun-
seria ter ido para Punta del Este que é a praia vez por dia descíamos para brincar em um ça danada. Vendo essa confusão, um militar do
mais bonita e mais procurada desse pequeno pátio, cheio de lixo e ratos, que minha mãe Conselho de Sentença procurou saber o que
país. Mas o motivo não era passar férias e sim apelidou carinhosamente de Jerry. O Jerry estávamos fazendo ali. O escrivão que já estava
uma imposição do momento político no Brasil, era o ratinho esperto de um desenho anima- sensibilizado com a nossa situação disse que
que acabava de mergulhar em um período de do da época que vivia fugindo de seu algoz, estávamos presos com nossos pais. Durante o
ditadura militar que duraria aproximadamente o gato Tom. Como era pequeno, não percebi, julgamento não se tocou em nossa presença.
duas décadas. mas o “Tom” tinha nos pegado. Estávamos Todavia, o mesmo militar questionou um co-
detidos em uma prisão da marinha. Comia no ronel da PM de Alagoas por que minha mãe
Em 13 de junho de 1965, durante esse perío- restaurante dos oficiais até o dia em que um estava presa. Ele respondeu que em Alagoas
do de férias forçadas, no Sanatório Americano, oficial pediu que a minha mãe me deixasse quando não encontravam o marido prendiam
minha mãe ficaria feliz de me ver chorar pela com ele e a esposa, já que ela não tinha futu- a mulher. Com isso nossa advogada pediu a
primeira vez. Moramos no Uruguai quase um ro pra me oferecer. O que o oficial não sabia é libertação de nossa mãe. Acatado o pedido,
ano. Depois voltamos para o Brasil e fomos que o mundo dá voltas. Mais do que depres- fomos os três libertados. Meu pai ficou preso
morar em São Paulo. Mais tarde, dentro da po- sa, minha mãe me pegou pela mão e saiu dali. mais algum tempo e depois fugiu da prisão du-
lítica de integração na produção, fomos morar No dia seguinte, já estávamos comendo no rante um jogo de futebol entre os dois princi-
no Nordeste. restaurante dos soldados e dias mais tarde fo- pais times de Alagoas.
mos transferidos para outra prisão.
Tinha 3 anos e lá estávamos em mais uma
situação estranha. Durante a noite, uns “ami- Depois dessa aventura ficamos algum tempo
gos” de meus pais vieram nos buscar em nossa em Goiás, na casa de meus avós paternos. As-
pequena casa que ficava no interior de Alago-
“Uma vez por dia sim que as coisas esfriaram fomos para São Pau-
as, mais precisamente em Pariconha, distrito descíamos para brincar lo, onde um novo capítulo começava. Durante
esses anos de ditadura, o contato com nossa
de Água Branca no alto sertão. Nos levaram
de jipe para um castelo (Policlínica da PM de em um pátio, cheio família foi muito pequeno. Era uma questão de
Alagoas), em Maceió. Lembro que achei aqui- de lixo e ratos, que segurança. Conhecia apenas alguns poucos tios
e um casal de primos que moravam em São Pau-
lo estranho. Como era noite, o castelo pareceu
meio sombrio. Acreditei que quando acordasse minha mãe apelidou lo, sendo que o contato era esporádico. Sempre
passávamos as festas – aniversários, Natal e Ré-
carinhosamente veillon – sozinhos, sem contato com outros fa-
de Jerry”
À esquerda, Andre aos 5 anos
e Priscila aos 4 anos miliares. Mesmo assim, o Natal era uma gran-
no Parque do Ibirapuera
em São Paulo, 1970 de festa cercada de expectativas.

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Lembro que recebia muitos presentes, mas Eu me sentia o próprio “Zico”. Esses coelhos “Você não tem cara de Aldo e sim de Roberto”.
nunca sabíamos direito quem os havia dado. eram meus heróis. Então, em um determinado Este era o nome frio do meu pai.
Eram dos tios e tias, vários que não fazia a me- dia, meu pai insistiu que eu não deveria con-
nor ideia que existiam. Mas não parava para tar aos primos onde morávamos. Aí eu disse: Entre 6 e 11 anos, moramos na Zona Leste de
pensar nisso, só queria curtir os presentes, era “Pai, você ensina para a gente que não é para São Paulo. Vila Formosa, rua Itaquera, Mooca,
um momento mágico. mentir e agora está me pedindo para mentir”. Vila Manchester eram os lugares que frequen-
Meu pai arregalou os olhos, pensou um pouco távamos. Nesse período, fiz natação no Clube
O tempo foi passando, fui crescendo e per- e disse: “Olha, filho, você vê o seriado do Zor- da Vila Manchester. Era um clube da prefeitu-
cebia que a gente mudava bastante de casa. ro, não vê? Você acha que o Zorro pode sair ra de São Paulo, bem equipado com pista de
Basicamente, por vários bairros da periferia contando para todo mundo qual é a identida- atletismo, campo de futebol, quadras cobertas
na Grande São Paulo. Aquilo parecia normal, de verdadeira dele?”. E eu, “Lógico que não, sala de ginástica e a piscina. Passava a tarde
tinha uma família, estava na escola, fazia na- pai, só o Mudinho sabe disso. Se o Sargento nadando. Fiz muitos amigos, treinei bastante
tação em um clube da prefeitura de São Pau- Garcia souber a identidade do Zorro, vai pren- e, como todos, tinha um sonho : treinar nata-
lo... Tudo fluía bem até que dois acontecimen- der ele”. “Pois é, filho, esta é nossa situação”, ção no melhor clube da cidade, o Corinthians.
tos me chamaram atenção. disse meu pai. “Já entendi, pai, pode deixar Sonho que não durou muito... explico.
O primeiro foi quando meus pais resolveram que eu vou guardar segredo”, disse. Acompa-
nhado desse diálogo, veio a seguinte explica- Com essa história de ser “filho do Zorro” e
que eu e minha irmã tínhamos que conhecer
ção: existiam os barrigudões (tipo Sargento ter que manter a identidade secreta da famí-
os nossos primos e tios de Belo Horizonte.
Garcia) e o povo. Havia uma briga entre estes lia, eu “entendi” que não poderia aparecer. Isto
Anualmente, todo esse pessoal ia de trem para
dois grupos, assim como no filme do Zorro, significava que se ficasse bom e fosse para o
uma casa em Angra dos Reis. Era muita gente.
nós estávamos lutando do lado do povo contra Corinthians, ia acabar entregando minha fa-
Só de primos de primeiro grau devia ter mais
os barrigudões. Bom, para mim a explicação mília. Então desenvolvi um certo sentimento
de quinze na casa. Durante uma brincadeira
estava mais do que boa. Vi que tinha desven- de ir me distanciando deste desejo de melho-
em que cada um tinha de fazer sua apresenta-
dado o segredo da família e ainda por cima rar e ir nadar no Corinthians.
ção, ocorreu um problema. Cada primo reuni-
do ali na sala levantava e dizia o nome e o que descobri que era “filho do Zorro”.
No final do ano de 1976, bem perto do Na-
gostava de fazer. Quando chegou a minha tal, meu pai foi preso em um episódio chama-
vez, falei meu nome “frio”. Na verdade, o nome
era Andre mesmo, mas o sobrenome era “frio”
“Um dia no quarto/ do “Chacina da Lapa”. Fomos acordados bem
cedo pela minha mãe, pegamos algumas coi-
e bem diferente do dos primos. Quando eu escritório do meu pai, sas, colocamos na mochila e nos mandamos
acabei, um dos primos levantou e disse que eu
falara meu sobrenome errado, pois não guar-
achei caneta e li o de táxi para casa de meu tio em Santo Amaro,
um bairro de São Paulo. Era um tio que eu já
dava relação com sobrenome de nossa família. sobrenome do meu avô. conhecia, irmão da minha mãe. Ele e minha
Como sempre, onde há muitas crianças juntas,
a história acabou em briga, pois me senti ofen-
Percebi que o sobrenome tia Tei, também irmã de minha mãe, eram pra-
ticamente os únicos parentes que víamos de
dido pelo fato de alguém dizer que eu mentia dele não era parecido vez em quando. Minha mãe não contou nada
com relação ao meu sobrenome. Já de volta a
São Paulo, relatei o ocorrido em casa. Meus com o nosso” para a gente a respeito do ocorrido com meu
pai. Ficamos alguns dias nessa casa imaginan-
pais não falaram nada, mas também nunca do que já estávamos saindo de “férias”. Certa
mais pusemos os pés em Angra dos Reis. O segundo momento “estranho” foi quando manhã, minha mãe me chamou com uma re-
Já tinha em torno de 8 anos. Não queria meu avô paterno faleceu. Eu tinha quase 10 vista na mão e pediu que eu lesse a matéria.
pressionar meus pais, pois tinha muito cari- anos. Foi enviado para meu pai a caneta do Era uma matéria que trazia fotos de meu pai
nho por eles, mas a certeza de que aquilo que meu avô que tinha seu nome inscrito na lateral. e alguns amigos que foram presos na mesma
meus primos falaram em Angra dos Reis a res- Um dia no quarto/escritório do meu pai, achei reunião. Ele estava com o rosto tão machuca-
peito do nome da nossa família fosse verdade a caneta e li o sobrenome do meu avô. Percebi do que nem o estava reconhecendo.
foi aumentando. que o sobrenome dele não era parecido com o
nosso. Aí disse: “Descobri, descobri que o so- A partir daí, tudo foi devidamente esclare-
Mais ou menos nesse período, tive uma con- brenome do vovô Galileu é Arantes. O nome cido. Dias depois, eu e minha irmã fomos le-
versa franca com meu pai. No caminho da es- de nossa família é Arantes”. Diante disso, meus vados pelo meu tio para Belo Horizonte, onde
cola, ele sempre ia contando histórias sobre pais contaram a razão de nosso sobrenome tro- moraríamos por um ano com minha avó ma-
os três irmãos coelhos: Zico, Zeca e o Zoca. cado. Naquele dia, fiquei sabendo que o nome terna, enquanto meu pai seguia sendo tortu-
Eram três coelhinhos espertos e de muito bom de meu pai era Aldo e o de minha mãe era Ma- rado e minha mãe foragida da repressão, em
caráter. Eram corajosos e nunca mentiam. ria Auxiliadora. Virei para o meu pai e disse: algum lugar que não sabíamos.

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O período em Belo Horizonte foi um mo- Estávamos em meados de 1986. Meu pai conferências mundiais nos Estados Unidos.
mento de “transição”. Sem meus pais, mas fora reeleito deputado federal e morávamos Em 2003 fui convidado, pelo então Ministro
conhecendo uma infinidade de tios e primos, em uma quadra só para deputados federais na de Esporte do Governo Lula, Agnelo Quei-
que eu nunca soubera que existiam. Estranhei Asa Norte. Isso tudo deixou bem claro que a roz, para ser Secretário Nacional de Esportes
um pouco, pois além de estar sem meus pais, situação mudara e havia se consolidado. Nós de Alto Rendimento. Nesta função, estive em
era tudo muito diferente. já não éramos do time dos perdedores. Esta- missão oficial nos Jogos Pan-Americanos de
va liberado para vencer. Essa foi a senha para Santo Domingos na República Dominicana
Depois de um ano, as coisas se acalmaram e voltar para o esporte e tentar vencer. Já não e nas Olimpíadas de Athenas, Grécia. Como
voltamos a nos encontrar com minha mãe. Re- tinha mais amarras, já não precisava mais me Diretor da SNEAR, participei dos Jogos Pan-
tornamos todos para São Paulo. Mas agora o esconder, eu queria agora era aparecer. Foi um -Americanos do Rio de Janeiro em 2007. Hoje,
endereço era outro, já estávamos na Bela Cin- momento de mudança radical em minha vida. sou Diretor da Secretaria Nacional de Esporte
tra, uma das boas ruas da capital paulistana. Sentia-me integrado, em casa. Tinha desco- de Alto Rendimento do Ministério do Esporte
berto o que eu queria. Queria vencer. e dou aulas de Educação Física no Centro Uni-
A rotina era estudar, treinar no Paulistano versitário UniCEUB.
ou Pinheiros, sair com os amigos e no final de
semana visitar meu pai na prisão. Percebi que “Olhando para trás, vejo Olhando para trás, vejo como esporte e po-
apesar de estar em clubes bons, não tinha mui-
to desejo de competir e vencer. Aos poucos, fui
como esporte e política lítica estiveram entrelaçados em minha vida.
Quando criança, minha leitura das questões
percebendo que me sentia fazendo parte do estiveram entrelaçados sempre passou pelo corpo: alguém falava em
superar obstáculos e eu me imaginava saltan-
time dos que estavam sendo oprimidos, que
perdiam. Os opressores eram os vencedores,
em minha vida. Quando do barreiras em uma pista de atletismo. Diziam
aqueles que tinham torturado meu pai, nos criança, minha leitura que era preciso ser forte, e eu me imaginava
prendido, separado a família. Tinha este sen- levantando um grande peso; que era necessá-
timento dentro de mim. O desejo de vencer es- das questões sempre rio ser resistente, e eu me imaginava em uma
tava cada vez mais longe, como algo proibido. passou pelo corpo” maratona. Enfim, era um jeito muito particular
de sentir as coisas, como foi também relacio-
Em agosto de 1979, foi aprovada e sanciona- nar a vitória à opressão e o perdedor aos opri-
da a Lei da Anistia. No mesmo dia da sua pu- Resolvi fazer triathlon (natação, ciclismo e midos. Decidir não “aparecer” por medo que
blicação, meu pai foi libertado do presídio de corrida). Treinei muito, consegui ganhar provas minha família fosse descoberta. Enfim, cabeça
presos políticos em São Paulo, o Barro Branco. em Brasília, Goiás e Espírito Santo. Participei de criança fantasia muito e estas coisas ecoam
A família se encontrou novamente e passou a de campeonatos brasileiros, fui selecionado na adolescência. Esta foi a minha história, com
viver junto. Esse foi um momento muito bom. para fazer parte da Seleção Brasileira em cam- cicatrizes geradas pela ditadura e com oportu-
Meu pai foi eleito deputado federal por Goiás peonatos Sul-Americanos, Pan-Americanos e nidades criadas pela democracia.
em 1982 e fomos todos morar em Brasília. Tudo Mundiais. Estive na Argentina, Estados Unidos,
diferente. Uma situação bem diferente. Acredito que no peito da minha mãe, lá no
Canadá, República Dominicana, México, Cuba,
fundinho, ela tem vontade de encontrar com
Ilhas Virgens, Espanha e Austrália competin-
Estava com 18 anos e já tinha parado de trei- aquele oficial da marinha que disse que ela
do e representado nosso país. Sabia que podia,
nar natação e outros esportes também. Como não teria futuro para me dar e dizer : “Tá ven-
sempre soube, mas tinha que ser no momento
todo adolescente nesta idade, não sabia muito do, eu tinha certeza que o futuro do meu filho
em que não pusesse minha família em “perigo”.
bem o que queria. Sentia que as coisas tinham seria melhor comigo...”
mudado, mas ainda não tinha entendido o que Acabei entrando no curso de Educação Fí-
havia dentro de mim. Entrei na faculdade, pri- sica em 1988 (D. Bosco), fiz especialização
meiro em Economia, depois em História, mas em Treinamento Esportivo em 2001, na Uni- ANDRE ALMEIDA CUNHA ARANTES nasceu em 13
de junho de 1965. É filho de Maria Auxiliadora de
nada me agradava. Revolvi mudar para São versidade de Brasília, Mestrado em Educação Almeida Cunha Arantes e Aldo Arantes. Ex-triatleta,
Paulo. De São Paulo, fui de bicicleta para o Rio Física pela Universidade Católica de Brasília, doutorando em ciências do desporto, professor uni-
de Janeiro pela recém-inaugurada Rio-Santos. em 2005, e hoje em dia faço Doutorado em versitário e diretor de Esporte de Alto Rendimento do
Nessa viagem, senti gostos que já tinha esque- Ciências do Desporto na Universidade do Ministério do Esporte.

cido. O gosto da liberdade, do esforço físico, Porto em Portugal. De 2000 a 2005 fiz parte
do contato com a natureza. Acabei ficando no do JGSPINNING, maior programa em ciclis-
Rio de Janeiro e fui trabalhar com cinema, mo de academia no mundo, convidado pelo
que era uma das paixões que eu tinha. Fiquei próprio fundador do programa Johnny Gol-
um ano no Rio de Janeiro e acabei voltando dberg. Estive representando o programa em
para Brasília. vários países da América do Sul e em duas

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Identidade, nome e o paradoxo
da liberdade: carta aos meus pais
por Priscila Almeida Cunha Arantes

Antes de iniciar meu depoimento, gostaria e meu irmão quando tinha 3 anos de idade, o resto da vida. Escolher, dar um nome a uma
de recorrer a um mito antigo que versa sobre no sertão de Alagoas, apesar de não ter lem- criança é fazer uma espécie de doação de uma
a história de um sobrevivente. Refiro-me ao brança desse episódio – deixo aqui meu depoi- história simbólica familiar. Doação que a inse-
poeta Simônides, considerado o inventor da mento na esperança que possa contribuir não re na continuidade de uma filiação, a inscreve
arte da memória na Grécia antiga. Diz o mito somente para a construção de uma memória nas linhagens maternas e paternas: uma espé-
que o poeta teria estabelecido as bases da mne- coletiva mas que, de alguma forma, ele possa cie de fio de Ariadne que lhe indica um cami-
motécnica – a arte da memória – em função de servir de dispositivo para que essa história nho, sem traçá-lo de antemão.
um acidente vivido por ele próprio. Simônides não se repita nunca mais no nosso país.
foi o único sobrevivente do desabamento do Priscila Almeida Cunha Arantes. Foi este
o nome que os meus pais me deram em 1º de
teto do salão de um banquete onde se come-
morava a vitória do pugilista grego Skopas.
“Muitas vezes quando maio de 1966 quando nasci, mas não foi este

O que importa nessa história é o que aconte-


ouvia meu pai escutar o nome que utilizei até meus 11 anos de idade,
quando, então, meu pai foi preso e minha mãe
ceu após tal tragédia. Os parentes das vítimas, a Internacional em seu ficou foragida, na época da ditadura militar
que queriam enterrar seus familiares, não con-
seguiam reconhecer os mortos que se encon-
rádio pequeno, em seu em nosso país.

travam totalmente desfigurados pelas ruínas. quarto, bem baixinho, Até os meus 11 anos, sempre fui Priscila
Guimarães Silva; uma criança feliz que vivia
Recorreram, então, a Simônides, o único sobre-
vivente, que graças à sua memória conseguiu
ficava uma pergunta no como muitas outras de minha idade na perife-
se recordar dos participantes do banquete, na ar: por que ele tem de ria de São Paulo com a família.
medida em que se lembrou do local ocupado
por cada um deles durante a comemoração.
escutar o som tão baixo?” Existia, por vezes, uma sensação velada que
talvez, pela minha idade na época, não conse-
Se a história de Simônides está muito distan- guia entender. As janelas da casa na avenida
Recentemente meu pai me pediu um depoi-
te do nosso tempo, por outro lado, ilustra bem Itaquera eram forradas de papel e sempre me
mento sobre as memórias da minha infância.
o embate contra o esquecimento da história. davam a impressão que estávamos esconden-
Gostaria então de compartilhar aqui alguns
do algo que eu não tinha muito claro o que era.
trechos desta carta que recebeu o título de
Aquele que testemunha, de certa forma so- Muitas vezes quando ouvia meu pai escutar a
Identidade, Nome e o Paradoxo da Liberdade:
breviveu a uma situação limite, traumática, Internacional em seu rádio pequeno, em seu
Carta aos meus Pais.
no meu caso e de meus familiares: à época da quarto, bem baixinho, ficava sempre uma per-
ditadura militar no Brasil. Como filha de pais Talvez um dos dispositivos mais antigos gunta no ar: por que ele tem de escutar o som
que foram presos, torturados, foragidos e clan- da humanidade seja o de dar nome às coisas. tão baixo? Mas os natais eram sempre muito
destinos – e eu mesma presa com minha mãe Dar nome às coisas significa dar a elas vida, gordos ao meu olhar. Recebia sempre várias
À esquerda, Priscila com 4 anos no Parque do Ibirapuera história, identidade. É assim que uma criança roupas que, apesar de serem usadas, vinham
em São Paulo, 1970 recebe um nome ao nascer, carregando-o para sempre envoltas em um lindo papel celofane

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“Fui acometida por vermelho, que somente a minha mãe sabia fa- avenida Itaquera, tinha comentado comigo
zer. A casa da avenida Itaquera tinha um quintal e meu irmão que nosso sobrenome não era
uma série de desmaios, grande que, apesar de receber, às vezes, a visita Guimarães Silva. Naquela época, apesar da
pequenos lapsos de de alguns amigos indesejáveis, enormes ratos – surpresa, o comentário não teve significado
só recentemente vim a saber que vivíamos nos nenhum para mim. Eu continuava sendo Pris-
consciência, talvez um fundos de um açougue –, brincava com minhas cila Guimarães Silva, vivendo com meus pais
desejo real de esquecer, bonecas e com meu exército de formigas, mi- na avenida Itaquera.
nhas companheiras inseparáveis.
por um pequeno espaço Também foi em Belo Horizonte que uma
Certo dia, fomos tirados às pressas da ave- nova realidade se abriu para mim. Talvez hoje,
de tempo, algo que nida Itaquera e levados por meu tio Bruno, mais madura, eu possa reconhecer o paradoxo
me incomodava em irmão da minha mãe, de carro, até Belo Hori- daquela sensação. Por um lado pude descobrir
zonte para a casa de minha avó materna. Não que tinha um nome de fato real, outro, este sim
profundidade” entendia ao certo porque estávamos indo para verdadeiro, que trazia consigo uma família, uma
Belo Horizonte e muito menos o que de fato história; uma outra identidade. Era um mundo
acontecera. Mas sabia que era algo muito gra- completamente novo que se abria para mim.
ve, e alguma coisa acontecera ao meu pai. Ele
e minha mãe tinham combinado de que se o Mas ao mesmo tempo, e talvez este fosse o
meu pai não voltasse de uma viagem em uma fator que mais me assustou, assumir a minha
determinada época é porque alguma coisa ti- verdadeira identidade e meu nome trouxe a
nha ocorrido. E de fato ocorreu. Meu pai fora perda da convivência com meus pais. E mais
capturado em plena estação Paraíso, do Metrô do que isto: a consciência de que eles estavam
– nome engraçado! – pelos militares, em de- em uma situação de perigo iminente. É exata-
zembro de 1976. mente no momento que nossos nomes podiam
ser utilizados, que meu pai foi preso e minha
Não me lembro desse dia com detalhes. Mas mãe ficou foragida.
me recordo do desespero de minha mãe, levan-
Obviamente este paradoxo de identidade se
do-nos às pressas, eu e Andre, à casa de tio Bru-
tornou mais acentuado em um momento de
no. Na viagem a Belo Horizonte fomos parados
adolescência quando essas questões já são co-
por um policial. Acho que o tio Bruno dirigia
locadas à mesa. Para além de uma mera crise
muito rápido e senti um nervosismo grande no
de identidade era uma real crise de identidade:
ar. Chegamos à casa da minha avó. A casa era
seria melhor continuar sendo Priscila Guima-
muito grande, tinha quase quarenta cômodos, e
rães Silva e poder viver clandestina com meus
fomos acolhidos em clima de festa e com muito
pais em liberdade? Ou seria melhor ser Pris-
carinho pela família de minha mãe, uma família
cila Almeida Cunha Arantes e poder viver em
que, no entanto, eu nunca tinha visto (a única
liberdade com os meus pais presos? Pois, para
exceção era a querida Tia Tei, que nos acompa-
mim, os dois estavam presos. Só depois soube
nhou por diversas vezes na época da clandesti-
que minha mãe estava escondida no Rio de Ja-
nidade). Eu e Andre moramos por lá até minha
neiro. Independentemente da minha opção na
mãe poder viver em liberdade.
época, eu não tinha escolha real a fazer.
Encontramo-nos, acho, somente um ano
Essa sensação paradoxal veio acompanhada
depois, na casa da tia Diva. Minha mãe esta-
por outra experiência que foi muito marcante
va magra, pálida, fruto da dieta forçada em
na minha adolescência. Estávamos em Belo
macrobiótica que teve de passar quando ficou
Horizonte quando dois ou três homens entra-
escondida na casa de conhecidos no Rio de
Janeiro. Seu corpo enfraquecido me chamou a ram na casa da vovó Isa dizendo que eram ami-
atenção naquela época. Uma imagem que eu gos de meus pais. Não me lembro exatamente
jamais esquecerei. quem foi me avisar das supostas visitas. Olhei
à espreita por uma das portas da sala e tendo
Foi em Belo Horizonte que pude de fato me a nítida sensação de que aquela visita vinha
tornar Priscila Almeida Cunha Arantes. Anos carregada de alguma ameaça, me escondi de-
antes, meu pai, quando ainda morávamos na baixo de uma das mesas redondas que havia

28 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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na sala de minha avó. Foi exatamente em volta Mas, talvez, um dos dias mais marcantes de
dessa mesma mesa que minha avó, minha tia e minha vida, foi o dia em que meu pai foi solto,
os dois visitantes sentaram-se para conversar. o mesmo da aprovação da Lei da Anistia. Ele
Fiquei ali um bom tempo a escutar a conversa descia a rampa do presídio, com uma peque-
que não vou esquecer nunca mais: a conversa, na mala na mão. Estávamos ali, novamente, a
em tom de ameaça – pois o que eles queriam família reunida, fora do espaço confinado das
saber era onde a mamãe estava – descrevia quatro paredes da prisão.
com minúcias e detalhes a tortura recebida
pelo meu pai: espancamento, pau de arara, cor- Hoje, tenho 47 anos e com muito orgulho me
po inchado... quase morte. Anos depois vim sa- chamo Priscila Almeida Cunha Arantes, filha
ber que esses visitantes faziam parte da equipe do Aldo e da Dodora, irmã de Andre, casada
de torturadores de meu pai. com Wagner e mãe de Tiago e Carolina.

Nessa época fui acometida por uma série de Para muitos, o nome é um bem. A continui-
desmaios, pequenos lapsos de consciência, tal- dade do nome como referente da pessoa pode,
vez um desejo real de esquecer, por um peque- em alguns casos, não se interromper com sua
no espaço de tempo, algo que me incomodava morte necessariamente. Alguns nomes perma-
em profundidade. necem vivos na memória de outros homens,
principalmente quando se referem a nomes
que contribuíram para a construção de uma
“Trago comigo esta história coletiva.

história marcada por Trago comigo esta história marcada por um


um duplo nome: um duplo nome: um nome clandestino e um nome
verdadeiro. Sinto orgulho dos meus pais: pes-
nome clandestino soas, nomes, que lutaram e contribuíram para
e um nome verdadeiro” a construção de um mundo melhor e que pos-
sibilitaram a mim, Priscila Almeida Cunha
Arantes, desfrutar da vida em liberdade! Andre aos 5 anos e Priscila aos 4 anos
no Parque do Ibirapuera em São Paulo, 1970
Meu grande refúgio, no entanto, eram as au- Priscila Guimarães Silva: presente!
las de pintura. Certa vez fomos à casa da tia
Leda. Em uma das salas de sua casa, vislum-
brei uma tela em branco presa num cavalete. PRISCILA ARANTES, formada em Filosofia pela Univer-
Ao seu lado, um pequeno livro que continha, sidade de São Paulo, é pós-doutora em Arte Contempo-
na sua capa, a imagem do carteiro de Van rânea pela Penn State University (EUA). É professora
universitária em cursos de graduação e pós-graduação
Gogh. Não tive dúvida: peguei um carvão e de-
na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e dire-
senhei na tela em branco a imagem do pintor tora e curadora do Paço das Artes, Museu da Secretaria
impressionista. A partir desse dia Tia Leda me de Estado da Cultura de São Paulo. Entre suas publica-
matriculou em um curso de pintura. Esse con- ções destaca-se Arte @ Mídia: perspectivas da Estética
Digital, finalista do 48 prêmio Jabuti, Arte: História, Crí-
tato com o mundo das artes, nessa época, tal-
tica e Curadoria (org.). e Re/escrituras da Arte Contem-
vez tenha sido uma das molas propulsoras de porânea: História, Arquivo e Mídia (prelo).
minha profissão atual e de meu interesse pelo
mundo das artes.

Assim que voltamos de Belo Horizonte fomos


morar na Bela Cintra. Nessa época eu, minha
mãe e meu irmão íamos, com frequência, visitar
o meu pai no presídio Barro Branco. Lembro-me
da ambrosia, dos desenhos em pirogravura, das
conversas com o Ariston, das pinturas do Guer-
ra, da revista da polícia, da greve de fome vivida
pelo meu pai.

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Aldo Silva Arantes nasceu no dia 20 de de-
zembro de 1938, em Anápolis (GO). Iniciou suas ativida-
des políticas no movimento estudantil secundarista. Família Arantes
Estudante de direito da Pontifícia Universidade Cató- 1. Aldo, 25 anos, e Dodora, 24 anos,
lica, do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da União em lua de mel, Poços de Caldas (MG), 1963
Nacional dos Estudantes (UNE) em julho de 1961. 2. Dodora grávida de Priscila com Andre no
colo em São Paulo, 1966
Em dezembro de 1963 casou-se com Maria Auxiliadora
de Almeida Cunha Arantes. Após o golpe militar de 31 3. Aldo com Andre recém nascido,
São Paulo, 1965
de março de 1964, que derrubou o presidente Goulart,
exilou-se em Montevidéu.
De volta ao Brasil em 1965, passou a viver na clandes- 2 3

tinidade. Em 1968, quando realizava trabalho político


junto aos camponeses no sertão de Alagoas, foi preso.
Após cinco meses e meio fugiu da prisão.
Em 1972, juntamente com a maior parte dos militan-
tes da AP, ingressou no Partido Comunista do Brasil
(PCdoB), cujo comitê central passou a integrar.
Em dezembro de 1976 foi novamente preso quando par-
ticipava de uma Reunião do Comitê Central do PCdoB,
no bairro da Lapa, em São Paulo, episódio conhecido
como Chacina da Lapa.
Em julho de 1977, foi condenado a cinco anos de prisão.
Permaneceu preso até agosto de 1979, quando foi bene-
ficiado pela anistia aprovada pelo Congresso.
1
Em 1979, filiou-se ao partido do Movimento Democrá-
tico Brasileiro (MDB). Exerceu o mandato de deputado
federal por quatro vezes e foi constituinte em 1988.
Autor dos livros : História de Ação Popular – da JUC ao
PCdoB, co-autor, com Haroldo Lima (1984) ; O FMI e a
Nova Dependência (2002); Meio Ambiente e Desenvolvi-
mento - em busca de um compromisso (2010); Alma em
Fogo – memórias de um militante político (2013).
[Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed.
Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001]

Maria Auxiliadora de Almeida Cunha


Arantes, a Dodora, nasceu em 5 de novembro de
1940, em Belo Horizonte (MG). Foi uma das fundadoras
da organização Ação Popular (AP), na década de 1960.
Em 1968 foi presa em Alagoas junto com seus filhos
Priscila e Andre. Após sair da prisão seguiu com a mili-
tância clandestina de combate à ditadura militar.
4 5 6
Foi uma ativa e importante militante da luta pela anis-
tia no Brasil. Participou da fundação do Comitê Brasi-
leiro pela Anistia de São Paulo (CBA/SP) e foi dirigente 4.Dodora e Andre com 2 anos
dos Movimentos Nacionais pela Anistia (1978-1982). Guarujá (SP), 1966
Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica e Doutora em 5.Dodora e Priscila com 1 ano,
Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica Guarujá (SP), 1966
de São Paulo (PUC-SP). Psicanalista membro do Depar- 6. Andre com 2 anos, Guarujá
(SP), 1966
tamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.
7. Andre com 3 anos e Priscila
Foi coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secre-
com 2 anos, São Paulo, 1968
taria de Direitos Humanos da Presidência da Repúbli-
ca (2009-2010). Foi membro das Comissões de Direitos
Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São
Paulo e do Conselho Federal de Psicologia ( 2004-2008
e 2011-2013).
Autora dos livros: Pacto Re-Velado: Psicanálise e Clan-
destinidade Política (1994) e Tortura (2013)

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11

11, 12 e 13. Publicação na imprensa sobre a Queda


da Lapa, dezembro de 1976; histórico político
produzido pelos orgãos de repressão; foto
de Aldo, com sua mãe Maria de Lourdes Silva
Arantes (D. Quita) – documentos encontrados
nos prontuários de Aldo do DOPS no Arquivo do
Estado de São Paulo

12

8. Andre com 4 anos, Priscila


com 3, a priminha Ana e os 13
avós paternos, D. Quita e Sr.
Galileu em Anápolis (GO) dias
após a libertação da prisão em
Alagoas, 1969
9. Andre e Priscila na mesma
data acima
10. Históricos escolares com
os nomes frios: Andre e Priscila
Guimarães Silva

10

Solorio tem fugianis


accum, iscil ipient ut adi-
tatium aut aut unt, que
rest parcilitest pliquis
volupienis sim conse
velitiis dolut officillant
endit pos exererspedi
nis ni oditas ut et fugitat
la dolutem quidus
volore auditaq uodigent
od exceatur?

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À direita, Ato Político pela Anistia organizado, entre
outras pessoas, por Dodora, em 22 de agosto de 1979
Foto: Ricardo Malta
Abaixo, fichas do DOPS que retratam a vigilância
sobre os parentes de presos políticos mesmo após
a Anistia

Ao lado, portão de saída do Presídio do


Barro Branco em São Paulo. Aldo foi
beneficiado pela Anistia – foto
publicada no dia 30 de agosto de 1979 na
Capa da Folha de São Paulo

32 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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Uma conversa escrita
por Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes

No início dos anos 1960 participei da fundação


da organização política Ação Popular, de matriz
católica, que ampliou suas posições no campo
marxista-leninista e passou a ser denominada
APML (Ação Popular Marxista-Leninista). Mais à
frente, a Organização abraçou concepções maoís-
tas que influenciaram política e ideologicamente
seus militantes e suas práticas. Casei-me com Aldo
Arantes, também fundador de AP, em dezembro
de 1963 e recebemos convite para integrar o go-
verno de João Goulart em Brasília.
Chegamos a Brasília em janeiro de 1964. No
dia 1º de abril de 1964 ocorreu o golpe militar. Eu
estava dentro da nossa casa em Brasília e, de re-
pente, a casa começou a tremer, o chão do quintal
tremia, vi ratos correndo na rua, para lá e para cá.
Um barulho diferente e trepidante provocado por
um desfile de tanques de guerra que seguia para
a Esplanada dos Ministérios. A partir de então co-
meçaram a ser editados os primeiros Atos Institu-
cionais. Aldo poderia ser cassado e preso. Saímos
de Brasília imediatamente, deixei tudo na casa.
Saímos de Brasília para uma longa noite que foi
terminar somente quinze anos depois. De 1964
até 1979, vivi entre o exílio, a prisão e a militância
clandestina severa. Passei a usar nomes frios com
identidades falsas. Nesse momento não tínhamos
filhos e nossa primeira decisão foi ir para o exílio.
Os exilados de primeira hora que tinham inten-
ção de voltar imediatamente ao Brasil seguiram
para o Uruguai, que era mais perto. Fiquei grávi-
da do meu primeiro filho, o Andre, que nasceu em
Montevidéu. Foi um dos primeiros filhos de exila-
dos políticos brasileiros, nasceu em 13 de junho
de 1965. Decidimos voltar logo para continuar no
país, a luta de resistência. Já no Brasil, na cidade
de São Paulo, em 1º de maio de 1966, nasceu nossa
Andre com 3 anos, Dodora com 28 e Priscila com 2, São Paulo, meses antes de
serem presos em Alagoas, 1968 filha Priscila.

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A situação política foi recrudescendo rapida- der. Vocês são professoras, seus maridos, gente de jaram-nos na ala dos oficiais. Na primeira noite
mente e houve uma decisão da APML: os militan- São Paulo. Vamos levar todo mundo. Resolveram almoçamos na sala dos oficiais, a contragosto.
tes e os dirigentes deveriam partir, como militan- que tínhamos que ir presas. Argumentamos sobre Em um desses dias, ao final da refeição, o oficial
tes clandestinos, para a integração na produção. as crianças, que queriam que deixássemos para do dia aproximou-se de mim e disse: “Estive con-
Aldo e eu seguimos para a integração na produ- trás. Afinal, depois de muita conversa, decidiram versando com minha esposa e como não temos
ção no campo. Tomamos um ônibus na rodoviá- que eu iria só com eles. Rosa ficaria com as três filhos, resolvi pedir que a senhora me dê seu fi-
ria em São Paulo e partimos para o interior do es- crianças. lho. Podemos criá-lo muito bem. Olhe bem para a
tado de Alagoas. O Andre tinha 3 anos, a Priscila senhora. Que futuro a senhora tem? Seu marido
tinha 2. Fomos para Água Branca. E de lá, para Partimos para uma viagem que me parecia está preso, a senhora está presa, ninguém da sua
um subdistrito de Água Branca, Pariconha. Era interminável. O tempo todo ouvi gracejos e família apareceu, não vai ter condição nenhuma
uma região de camponeses pobres e meeiros que perguntas. Não disse uma palavra. Chegamos a de educar esta criança”. Emudeci, não consegui
plantavam feijão. Maceió. Era dia 14 de dezembro de 1968. Fiquei responder, não gritei, não chorei, fiquei petrifi-
dormindo no quarto dos investigadores. Estava cada. Fui andando para trás, segurando o Andre,
Fomos morar com Gilberto, Rosa e a filha Rita, exausta. Entravam e saiam o tempo todo, falavam até sair da sala. Não voltamos a ver esse oficial,
de 7 anos, que nos antecederam na integração alto, faziam comentários. Perguntavam por Aldo, nunca mais entramos nessa sala. Pedimos para
nessa região. Tínhamos diferentes funções. Eu quando voltaria de São Paulo. Fiquei quatro ou almoçar na cozinha com os marinheiros. O resto
fui designada para ser professora de alfabetiza- cinco dias em Maceió. Fui levada de volta para do dia ficávamos no quarto. Depois conseguimos
ção de adultos na região. Era o ano de 1967. Atra- Pariconha. Um ou dois dias depois, Aldo chegou circular pela escola quando já havia terminado o
vessamos o ano e entramos em 1968. Tínhamos tarde da noite. Soube na estrada o que acontecera. expediente. Estávamos profundamente debilita-
o hábito de ouvir, todas as noites a Hora do Bra-
Nesta mesma noite, 22 de dezembro, fomos to- dos. Nessa época, estávamos novamente com a
sil. Anoitece cedo no campo, às 21 horas, já era
dos presos: Aldo, eu, Andre e Priscila, Gilberto, Rosa e a Rita, duas mulheres e três crianças. Du-
noite alta no dia 13 de dezembro de 1968. Ouvi-
Rosa e Rita. Prenderam também toda a liderança rou pouco a estadia aí. A Marinha não queria se
mos passos no jardim e no quintal. Na varanda,
camponesa militante. Passamos o Natal entre as envolver mais.
vozes de homens. Rosa e eu nos levantamos. As
três crianças dormiam. A porta da frente foi sa- cadeias de Água Branca e de Maceió. Começou Resolveram então nos levar para o hospital
cudida com violência. Abram a porta. Aqui é o uma noite longa, para nós, especialmente para os da Polícia Militar, no centro de Maceió. Era um
Coronel. Tínhamos acabado de ouvir no rádio, o pequeninos presos. Ficamos todos, nos primeiros hospital antiquíssimo, cheio de torres, perto da
decreto do A1-5 e mal havíamos assimilado suas dias no DOPS de Maceió, as crianças e eu na mes- cadeia pública conhecida como Presídio da Mor-
implicações, ao anotar apressadamente seus ar- ma cama e no mesmo quarto dos investigadores. te onde Aldo ficou preso com os demais compa-
tigos. Não houve tempo. Conhecemos na prática Depois do Ano Novo, Andre, Priscila e eu, fo- nheiros. Fomos confinados num quarto, sobre o
seu significado. Não abriremos a porta, responde- mos deslocados para uma delegacia de bairro. qual havia uma porção de histórias, era o quarto
mos. Estamos sós com as crianças. Com os gritos Apesar de a cela ter uma das paredes totalmente onde ficavam os desenganados. Um quarto gran-
e as violentas pancadas, na porta da frente, dos de grade, ficávamos sufocados, trancados o dia de, muito abafado, ao lado de um outro quarto
fundos e nas janelas, as crianças acordaram. A todo, sem que qualquer brisa ou vento amenizas- menor, sem iluminação, sem janela, cuja porta
gritaria aumentou, e com nossos filhos nos bra- se o calor. Tivemos problemas gravíssimos de dava para o quarto do capitão Fontes, que saía
ços, vimos a porta ser violentamente sacudida saúde. Todos os três desidratados tivemos esto- cedinho, voltava à noite.
e finalmente arrombada, a pontapés e golpes de matite e Priscila teve uma crise aguda de difteria.
fuzis. Entraram vários homens, não sabíamos a Os dias pareciam intermináveis. Não sabíamos
Quase não conseguimos nos alimentar. Priscila
princípio quantos. As lamparinas de querosene o que fazer com as crianças. Só podíamos sair
ficou magrinha, só aceitava leite em pó, às colhe-
estavam apagadas. Percebemos que eram muitos. do quarto por quinze minutos para as refeições.
radas. Os dois tiveram furunculose. Andre chegou
Nossa casa foi revirada. Colchões, armários pra- Conseguimos licença para um banho de sol, de-
a ter vinte furúnculos enormes e Priscila, outros
teleiras, tudo vasculhado. Perceberam que havia pois das 16 horas. Nesta hora, o pátio de descarte
tantos. Não tínhamos qualquer espécie de atendi-
apenas roupas, mantimentos e brinquedos. Onde do hospital não recebia mais o sol, apenas um fa-
mento médico ou de saúde. Ficamos, literalmente
estão as armas? perguntavam aos berros. Disse- cho fugidio que caía sobre os degraus da escada,
depositados, sequestrados até o final de janeiro.
ram que iam nos levar para Água Branca e depois onde as crianças ficavam sentadinhas, vendo ra-
Maceió. Temos ordens. Agora tudo é permitido. Depois fomos levados para a Escola de Apren- tos enormes brincarem de entrar e sair pelos res-
Foi feito um decreto e tudo o que achamos suspei- dizes de Marinheiros nos arredores da cidade. tos de pernas e braços de gesso, entre curativos
tos, vamos investigar. Gente suspeita, vamos pren- Um lugar cheio de coqueiros à beira-mar. Alo- usados, caixas vazias, bandagens, cacos de vidro,

34 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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tudo jogado no meio de um mato que crescia. A gente anos. As crianças foram para um parquinho da
dizia para as crianças que os ratos eram os primos do prefeitura e depois foram alfabetizadas em esco-
Jerry dos desenhos animados. Mesmo assim, com as la do estado e da prefeitura. Fizeram toda a esco-
energias recuperadas, não conseguimos cansá-los. la com nomes frios: Andre e Priscila Guimarães
Silva. Esse tempo teve fortíssimo impacto sobre
Dentro do quarto-cela, inventamos uma programa-
eles, pois já estavam maiores e percebiam que
ção rígida de ginástica, brincar de roda, joguinhos. De-
havia muito segredo e muito não dito sobre as
pois vinham as atividades de contar as tampas de bor-
coisas e as situações que vivíamos. Somente saí-
racha coloridas dos vidros de antibióticos, empilhar
mos da clandestinidade quando o Aldo foi nova-
caixas de remédio vazias, formar uma carreira com as
mente preso no episódio conhecido como Chaci-
serrinhas de seringas. Depois do almoço as crianças
na da Lapa que massacrou dirigentes do PCdoB
dormiam, e o que sobrava de tempo passavam dentro
então reunidos.
de uma banheirinha de plástico debaixo do chuveiro.
Às quintas-feiras visitávamos o Aldo na cadeia. De- Sobre a vida clandestina, posso afirmar que foi
pois de algum tempo apareceu uma advogada contra- uma experiência que até hoje reverbera na alma.
tada pelos nossos companheiros. Hoje percebo com mais clareza o quanto marcou
o Andre e a Priscila e a mim mesma. Tanto é que,
Quando finalmente conseguimos ir à primeira au-
quando retornei à universidade, após a anistia
diência da Auditoria Militar de Recife, Andre e Pris-
de 1979, fiz minha dissertação sobre a experiên-
cila fizeram tanta bagunça na Audiência que o juiz,
cia da clandestinidade política, através de uma
irritado, mandou que se retirassem da sala os três
abordagem psicanalítica. A incidência que teve
menores. Dra. Lygia lhes comunicou: “Excelência, es-
sobre a vida dos meus filhos, somente agora, pas-
tas crianças são presas. Foram presas em dezembro
sados quase quarenta anos é que posso perceber
juntamente com suas mães”. Fomos dispensadas, os
melhor, a partir do que eles mesmos contam em
homens continuaram presos. Saímos da Auditoria,
seus testemunhos. Sempre nos surpreendemos
voltamos para Maceió e de lá para São Paulo. Aldo
negativamente com as reverberações que a dita-
ficou preso ainda na delegacia de Maceió de onde
dura civil-militar impôs a todos nós e que ainda
fugiu juntamente com o Gilberto, em uma operação
continuam pulsantes.
montada por APML.
Exatamente dez anos depois, em dezembro de
1976, Aldo foi preso na Lapa, em São Paulo, no epi-
sódio conhecido como Chacina da Lapa. Andre e
Priscila, com 12 e 13 anos, passaram a frequentar no-
vamente os presídios, agora como visitantes de seu
pai, durante dois anos e seis meses até a Anistia de
1979. Eu me integrei de corpo e alma à construção da
campanha pela Anistia ampla, geral e irrestrita.
Sobre minha prisão com meus dois filhos tenho
hoje a clareza de que fomos sequestrados, não há
qualquer notícia da prisão das crianças, não consta
de nenhum documento. Consta meu julgamento e a
absolvição. Sobre eles, nada. Poderiam ter sido su-
mariamente sequestrados sem papéis que comprovas-
sem sua presença no cativeiro. Depois que saímos da
prisão e do Nordeste, voltamos para São Paulo, con-
tinuamos a militância clandestina, fomos morar nos
bairros mais periféricos, no Morro Grande, Itaquera,
Vila Formosa, e permanecemos clandestinos mais oito

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36 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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A felicidade interrompida
da “menina ruim”
por Rita de Cássia Resende

Em 1968, aos 5 anos de idade, fui morar


com meus pais Gilberto e Rosemary em um
do pelas calhas do prédio velho. Havia muita “Mães e crianças
sujeira e hoje sei que era lixo hospitalar jo-
povoado camponês chamado Pariconha, no gado a céu aberto no pátio do Hospital do ficamos mais de cinco
interior de Alagoas. Ali, eles eram chamados 20º Batalhão da Polícia Militar de Alagoas. meses presas. Para
de “Juarez” e “Rosa”.
Mães e crianças ficamos mais de cinco me- mim, representou uma
Minha mãe me explicou que eles deveriam
ser chamados por esses nomes para a nos-
ses presas. Para mim, representou uma eter-
nidade. Sei que sofri muitas perdas, mas sem-
eternidade. Sei que sofri
sa segurança e que isso seria nosso segredo. pre me recusei a aprofundar nesta questão, muitasp erdas,
Pelo que me lembro, apesar da pobreza do
lugar, as pessoas eram boas e eu brincava
talvez por fuga, medo... Apesar dos esforços mas sempre me
de meus pais, depois que saímos dali só con-
com a meninada como uma criança normal. segui me alfabetizar aos 9 anos de idade. recusei a aprofundar
Fui feliz ali até o dia que aconteceu algo que
uma criança não pode entender, nem su- Durante anos me fechei e não suportava po-
nesta questão...”
portar sem sentir pavor e insegurança. Foi lítica e polícia. Depois, entendi que a causa de
uma noite de pesadelo. Acordei com batidas meus pais era nobre. Lutaram por um ideal de
fortes na porta, gritos, depois porta caindo, justiça e igualdade social. Quando criança e
a casa sendo invadida por soldados forte- mesmo adolescente sentia que me tiravam o
mente armados. Hoje eu diria que foi um direito à vida. A advogada que nos defendeu
filme de terror. Depois, a prisão. E a falta de falou aos militares no julgamento que nós,
tudo: acabou o sol, as brincadeiras, comida crianças presas, éramos uma ameaça à segu-
pouca e ruim. rança nacional.

Eu gostava de correr, mas tinha que ficar O tempo passou e apesar de tudo que me
parada. Tínhamos quinze minutos para al- foi tirado, hoje sou uma pessoa feliz dentro
moçar em um refeitório que saía para um do possível. Tenho uma filha, Maria Tereza,
pequeno pátio. Corríamos para lá, a Priscila, e um neto de 2 anos, Joaquim, que propor-
o André e eu, crianças presas políticas, que- cionam muitas alegrias e completam minha
rendo brincar. Víamos ratos enormes subin- vida. Penso que hoje eles vivem em uma so-
ciedade melhor e que eu inconscientemente
À esquerda, Rita quando criança contribuí para isso.

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Fragmentos de memória
Em Pariconha lembro que brincava de fa- Ela falou que eu precisava ir ao banheiro No cômodo que ficamos tinha pouco es-
zer carro de boi com cacto e palito de dente, então leu as cartas e jogou fora. paço. E ainda pisei em um prego enferruja-
fazia guerra de mamona. Ganhei um pote do. Nessa mesma prisão, um agente carce-
de barro para carregar água na cabeça, mas No mesmo lugar, andando no pátio da rário deu para mim, para o André e para a
quebrou. Brincava com coisas simples da prisão, vi várias celas pequenas e em uma Priscila os presentes que ele tinha ganhado
região, pois não tinha brinquedo. delas estava meu pai deitado em um ban- de Natal para seus filhos na Campanha de
co de madeira. Tentei a todo custo abrir a Natal. O que eu escolhi foi um barco azul
Na primeira prisão, lembro que chegou grade da cela, então no tanque ao lado ti- e branco. Isso significou muito para mim.
uma mala cheia de coisas. Fiquei desespe- nha uma faca enorme. Peguei a faca e falei Era como se eu visse o brilho de uma jóia
rada para ver o que tinha dentro. Por sorte, para o agente que eu ia matar todo mundo. na lama.
me deixaram pegar alguns brinquedos: um Ele olhou pra mim e disse “menina ruim”.
boneco chamado “Bonitão”, que vestia uma Fiquei muito brava aquele dia. Nesse dia,
roupinha azul e era de plástico, fogãozinho meu pai escreveu uma carta para mim por-
e panelinhas. Foi onde minha mãe achou que era meu aniversário. Até hoje tenho RITA DE CÁSSIA RESENDE nasceu em 1 de abril de
1962. É filha adotiva de Rosemary Reis Teixeira e
cartas de Goiânia com a verdadeira identi- uma cópia da carta. (Porque a original se Gilberto Franco Teixeira. É funcionária pública esta-
dade de meus pais biológiocos e escondeu. perdeu com o tempo). dual em Goiás.

Carta que Gilberto escreveu à filha no seu aniversário de 7 anos.


Pai e filha estavam presos

“A Ritinha tem apenas 7 anos de idade e está presa, juntamente


com sua mãe e seu padrinho, pelo governo. É uma ameaça
à segurança nacional. Hoje, 1o de abril (seu 7o aniversário),
decorridos mais de três meses, você vem me visitar no
“presídio da morte”, para onde fomos transferidos. Apesar de
sua proximidade, pois você se encontra numa outra prisão, a
enfermaria da polícia militar de Alagoas, a uma quadra de onde
me encontro, todas as dificuldades são encontradas para que
você não venha ver-me”

38 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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Álbum de família
1 e 2. Rita com 1 ano de idade,
em Goiânia (GO), 1963
3. Aos 9 anos, em Goiânia (GO)
4. Em Goiânia (GO), 1974
5. Rita e sua irmã Uliana,
em Brasília (DF), 1974
6. Rita (ao centro), no dia de seu
casamento, em fevereiro de 1981,
junto com a família
7. Rita (ao centro), com a família:
a irmã Uliana (primeira à esquerda), sua
filha Maria Tereza e seu irmão Juarez, em
Goiânia (GO), 1990
1 2

3 4 5

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2
1

Rosemary
osemary Reis Teixeira
nasceu em 26 de março de 1944, em
Goiânia (GO). Filha de Maria Reis
Resende e Joaquim Resende Barros.
Em agosto de 1962, conhece Gilberto
Franco Teixeira, com quem começa
a se relacionar (o casal segue junto
até os dias atuais). Influenciada pela
militância do avô, Pedro Doca, que foi
do Partido Comunista, iniciou sua mi-
litância na Juventude Estudantil Cató-
lica (JEC), em 1963.
Depois, passou a militar na organização
Ação Popular. Em 1965, ingressa no curso de Ciências
Sociais da Universidade Federal de Goias (UFG). Em
março de 1967, com o acirramento da repressão, Rose-
mary e Gilberto casam às escondidas e entram para a
clandestinidade. Em abril do mesmo ano, o casal e a fi-
lha adotiva Rita vão viver em Pariconha, interior de Ala-
goas. Lá, Rosemary passa a usar o codinome de Rosa e
Gilberto assume o codinome de Juarez Echeverria. Em
Pariconha fazem trabalho de base com os camponeses
do sertão alagoano. Rosemary atua na alfabetização
de camponeses por meio do método Paulo Freire e na
politização das mulheres da região. Em dezembro de
1968, é presa junto com sua filha e com Dodora Arantes
e seus dois filhos. Seu marido também é preso. Após
cinco meses de prisão, voltam para Goiás e seguem na
vida na clandestinidade.
Em maio de 1971, nasce a segunda filha do casal, Ulia-
na Reis Teixeira. Nessa época, Rita estava com 11 anos.
No mesmo ano Rosemary retorna à faculdade, onde é
impedida de colar grau com a turma sob o argumento
de que o histórico escolar dos dois primeiros anos não
foi encontrado. A colação de grau ocorreu somente
em 1988 quando, depois de anos de busca, um amigo
professor encontrou os referidos documentos “esque-
cidos” em uma gaveta da universidade. Em 1982 nasce
o terceiro e único filho homem do casal, Juarez (nome
escolhido em homenagem ao pai Gilberto por sua atua- 3
ção política com esse nome na clandestinidade). Juarez
viveu 10 anos e faleceu em em 1992. Hoje, Rosemary é
servidora pública estadual aposentada.
4

Gilberto Franco Teixeira nasceu em 18 de 1 e 2. Fichas e fotos de Rosemary e Gilberto


nos órgãos de repressão
junho de 1941, em Goiânia (GO). Filho de Anita Lombar-
di Teixeira e Adolpho Sindulpho Teixeira. Militante do 3. Reportagem sobre a militância do casal
em Pariconha (AL)
movimento estudantil secundarista do Liceu de Goi-
4. “Esta foto foi tirada em meados de 1984
ânia. Em 1963 inicia a militância na JEC junto com sua portanto 16 anos após termos sido arrancados
companheira Rosemary. No ano seguinte, ingressa na daquele lugar pela repressão. Quando
Faculdade de Direito da UFG. É eleito presidente do resgatamos o nosso direito de ‘ir e vir’
centro acadêmico XI de Maio, onde atua intensamente. voltamos à Pariconha para rever o povo
e o lugar. É difícil expressar em palavras a
Com o golpe militar de 1964, participa da luta do mo- emoção sentida. Foram três dias de intensa
vimento estudantil contra a intervenção Federal em movimentação. A mulher que está na foto
abraçada comigo é a Maria Rosa do
Goiás e a destituição do Governador. Em 1965, é preso
Nascimento conhecida como ‘Maria do Antônio
em São Paulo com mais 13 militantes da Ação Popular Agostinho’ que eu vi sair da obscuridade,
e levado ao DOPS. Em 1966, é decretada a prisão de Gil- se alfabetizar em nossas aulas noturnas e
berto em função de sua atuação no XI de Maio da Facul- se transformar em líder das mulheres de
dade de Direito. Assim, interrompe o curso e entra para Pariconha, juntamente com ‘Helena de Moça’
(que está na foto, na porta do Clube de Mães,
a clandestinidade para evitar a prisão. de blusa vermelha). Elas levaram em frente
Depois do período de trabalho de base junto aos campo- o trabalho iniciado naquele tempo, com
a garra que somente mulheres forjadas
neses de Pariconha e da prisão, já de volta a Goiás, Gil- na adversidade são capazes de ter”, diz
berto volta à universidade e termina o curso de direito. Rosemary Reis

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“Vivi as dificuldades da minha filha
como se fossem minhas”
por Rosemary Reis Teixeira

O ideal de uma pessoa jovem é muito forte. Eu tuações que foram frutos da minha escolha. Eu tilhei com ela na mesma intensidade. Em tempos
era jovem e possuía essa força. Desejava mudar, escolhi lutar por uma sociedade mais justa e sa- difíceis, vivemos momentos muito marcantes.
corrigir erros, fazer justiça. Lutar por um mundo bia que isso envolvia risco, mas o ideal nos mo- Devo registrar aqui um desses momentos. Faço
melhor, eliminar as diferenças. Ver pessoas des- via para a frente e o filho é parte de nós, não tem uma homenagem à solidariedade humana.
protegidas doía na minha consciência de jovem como separar a vida de pais e filhos.
A solidariedade é um sentimento que penetra
idealista, que acreditava ser possível transformar
O instinto de proteção de uma mãe não tem fundo na alma e que vive para sempre em quem
a sociedade e viver em um mundo mais justo.
limites e eu me via impedida de exercê-lo, impo- foi beneficiário dela. Eu vivi essa experiência.
Em função da repressão advinda da ditadura tente numa prisão com a minha filha sem saber o
militar, eu e Gilberto [Gilberto Franco Teixeira] Ao sair da prisão fui orientada a seguir para
que poderia acontecer no dia seguinte. A solução
tivemos de optar por deixar a vida normal e viver São Paulo com minha filha e encontrar, nessa ci-
foi viver um dia após o outro tentando minimi-
na clandestinidade. Isso naturalmente acarretou dade, em uma determinada praça, a pessoa que
zar o sofrimento da criança com um suprimento
mudanças radicais para nós e para nossa filha. me ajudaria naquele momento. Eu estava frágil e
muito grande de carinho, paciência, dedicação.
desorientada após cinco meses de prisão e tinha
Nessa época, Rita era uma menina de 5 anos, Foi uma experiência muito difícil. Quando a Rita
pouquíssimo dinheiro. São Paulo, em 1969, vivia
saudável, alegre, vivia em Goiânia, em um porto dormia, eu podia extravasar os meu próprios sen-
seus piores momentos de repressão.
seguro. Rodeada por uma família grande, muitos timentos: medo, angústia, ressentimentos, impo-
primos da sua idade, amigos. tência, receios. Apareceria uma doença amanhã? Sentada em um banco da praça com minha
O dente doeria? E se os militares tirassem a me- filha, vi se aproximar de nós e se apresentar,
Com a ditadura, para sobreviver à repressão, nina de mim? Ou me levassem para longe dela? aquele homem alto, de olhar bondoso que me
nós, Gilberto e eu tivemos que adotar outra iden- Nossa família em Goiânia não sabia da nossa pri- inspirou confiança. Seu nome era João. Tem-
tidade: “Juarez e Rosa”, e nos mudamos para o são porque fomos presos com outra identidade. pos depois soube que se tratava do Paulo Stuart
sertão alagoano. Não havia como esperar ajuda. O que restava era Wright, ex-Deputado Federal pelo Paraná, tor-
Essa mudança de vida, o convívio com pessoas apreensão e temor, dia após dia. Se os militares neiro mecânico e líder operário que estava sen-
muito pobres (camponeses sem terra e sem o mí- descobrissem nossa verdadeira identidade tudo do caçado por toda a cidade. Andamos a pé por
nimo necessário à sobrevivência) foi o lado bom, poderia piorar ainda mais. um longo tempo e nos lugares onde o clima de
o lado benéfico de toda essa história. Aprendi O pai da Rita, Juarez (Gilberto) também pre- guerra se acalmava ele carregava a Rita no colo e
muito nessa época, principalmente em termos de so em outra unidade carcerária, conquistou a demonstrava a ela todo o seu carinho. Em outros
relacionamento humano. Por incrível que pareça, confiança de um agente e através dele conse- momentos, ele caminhava à frente e nos orienta-
aprendi com a Rita, a criança que imediatamente guiu uma advogada para nos defender. Essa foi va a segui-lo à distancia até chegarmos à casa de
se integrou com todos, com a criançada do lugar, a fagulha de luz diante daquele futuro incerto. sua irmã onde nos deixou em segurança.
com a pobreza, com a alimentação diferente e É com agradecimento e grande carinho que falo Essa lembrança me emociona muito, prin-
escassa. Aprendeu a brincar com as coisas que dessa jovem advogada, destemida, valente, que cipalmente por saber que pouco tempo depois
o lugar oferecia. Para crianças, não existem fron- sem obter qualquer vantagem financeira evitou ele foi preso e torturado até a morte. Deixo mi-
teiras ou obstáculos para se viver com as diferen- que o pior acontecesse. O nome dela é Maria nha homenagem ao grande homem Paulo Stuart
ças, seja de cor, religião, situação econômica e Ligia Januzzi Jablonca. Wright que muito lutou pelo povo brasileiro.
social. A relação social é profunda, pura, sincera.
Eu já me norteava por esses princípios, mas vi Após cinco meses de prisão, conquistamos a Hoje estamos aqui, vivas, minha filha Rita e eu,
através da Rita que a prática vai muito além da liberdade, mas não o direito à vida normal, pois para contar essa história. Quantos ficaram pelo
teoria, tudo é muito simples e verdadeiro. Se nós, tivemos que viver com várias restrições por mais caminho, quantos tiveram seus sonhos rompidos,
adultos, aprendêssemos mais com as crianças, alguns anos. Tive, como mãe, que lutar para ajudar quantas vidas perdidas.
certamente teríamos um mundo melhor. minha filha a vencer seus medos, inseguranças, li-
mitações, inclusive na aprendizagem escolar pois Dizem que o tempo cura todos os pesares.
Se eu pudesse, falaria somente do lado bom da Acredito que as feridas provocadas pelas atroci-
ela somente se alfabetizou aos 9 anos de idade.
história mas não seria a história verdadeira. O es- dades da repressão nos tempos da ditadura per-
trago foi muito grande. A repressão militar des- Muitas coisas ainda poderiam ser ditas, pois a manecerão abertas para sempre na lembrança
truiu sonhos e projetos de vida que previam uma missão de uma mãe é ver o filho se realizar como de todos aqueles que foram atingidos, seja pela
vida digna para todos. Causou muitas feridas e pessoa e o trabalho para alcançar esse objetivo perda da liberdade, pela infância roubada ou pela
deixou muitas cicatrizes. nos acompanha durante toda a vida. morte prematura de muitos cujos familiares não
Minha experiência de mãe nessa época foi Vivi as dificuldades enfrentadas pela minha fi- tiveram sequer a chance de enterrá-los com a
muito sofrida. Sofri por ver a Rita passar por si- lha como se fossem minhas. As conquistas eu par- dignidade que o ser humano merece.

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“Por que você é tão tristinha?”
por Marta Nehring

Eu nasci em janeiro de 1964, o ano do Gol- tória política dos meus pais e esta, por sua
pe. Minha mãe, à época, tinha 20 anos e es- vez, à trajetória da ALN – Ação Libertadora
tudava Ciências Sociais na USP, que nessa Nacional. Inclusive, se eu tenho algum avô
época ficava ainda na Maria Antônia. Meu paterno, é o Toledo, Joaquim Câmara Fer-
pai, também jovem, trabalhava na Pfizer, reira, que estava sempre em casa e a quem
como técnico industrial e fazia pós-gradua- reencontramos em 1969 em Havana, Cuba.
ção em Economia, na USP. Ambos eram de
esquerda e militavam juntos, porém apenas No que diz respeito à repressão política,
o meu pai partiria para a luta armada. não me lembro de nenhum evento especial-
mente traumático. Ainda assim, até hoje
Minha mãe teve uma criação liberal. Meu tenho pesadelos horríveis. Com frequência
avô era um livre pensador, foi dono de livra- acordo – anteontem mesmo aconteceu – com
ria. E a minha avó, que tivera um pai repres- a certeza de ter alguém
sor e violento, teve por no quarto. Depois fiquei
princípio jamais levan- “No que diz respeito sabendo que, numa das
tar a mão para os filhos.
Juntando os dois lados, à repressão política, vezes em que a polícia
esteve em casa, reviran-
resultou que eles cul- não me lembro de do tudo, entraram no
tivaram a irreverência quarto onde eu dormia,
como modo de ser. Tan- nenhum evento acho que devia ter uns
to, que o meu tio João, especialmente 4 anos. E me lembro, na
irmão mais velho da mi-
nha mãe, também entra- traumático. Ainda mesma época, de chegar
na vila onde a gente mo-
ria para a guerrilha. Já assim, até hoje rava, no Itaim, e as crian-
na família do meu pai
o espírito era outro. Mi-
tenho pesadelos ças virem correndo me
contar que a polícia tinha
nha avó vinha de uma horríveis” estado na minha casa.
história triste, perdera Teria sido quando meu
o marido cedo, quando pai foi preso? Não sei se
meu pai tinha apenas 3 anos de idade – ele tem a ver, mas o fato é que até hoje acordo
era o primogênito. Meu avô paterno morreu com essa sensação de ter alguém estranho
num desastre aéreo na Baía da Guanabara, no quarto.
deixando minha avó viúva e grávida do ter-
ceiro filho. Aliás, toda vez que eu pouso no No meu aniversário de 5 anos, meu pai con-
aeroporto Santos Dumont, morro de medo. seguiu sair da prisão – ele foi liberado, por al-
guma razão. Tinha uma festinha na casa da
Enfim, nasci e logo depois veio o Golpe. De minha avó e eu me lembro dela chamando
forma que minha infância foi ligada à traje- “Marta, tem uma surpresa para você”. Ela me
levou até o andar de cima e lá estava meu pai.
Marta e sua mãe Maria Lygia
Guardo a imagem dele ali, de camisa verme-
em Cuba, 1970 lha, sorrindo, pronto para me abraçar.

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Depois só fui revê-lo em Cuba, para onde adestrada a não me fazer de coitadinha, a se- finalmente o lado de lá atendia, tinha que fa-
partiu ao fugir do Brasil. Ele fazia treina- guir adiante e olhar para frente, hoje me de- lar rápido, porque era muito caro. De forma
mento militar e minha mãe e eu fomos para paro com um rombo enorme. Talvez o mais que ligar para o Brasil era ao mesmo tempo
lá, também. Mas mesmo em Cuba, nós de- terrível seja que nunca me permiti sequer uma glória e um tormento: só dava pra dizer
moramos para encontrá-lo, pois ele estava imaginar o que teria sido nossa vida se meu “Vovó, tô com saudade” e tinha que desligar.
nas montanhas e nós em Havana. Lembro pai não tivesse morrido. Esse é o legado mais Era um negócio de louco. Acho que o mais
de uma ou outra cena com ele e de sua preo- estranho: perdi o espaço do sonho. É certo excruciante, durante o exílio, foi a saudade
cupação em me passar valores éticos: o que que a morte do meu pai é uma questão de da família, que ficara no Brasil, e do meu pai.
é certo, o que é errado; cuide de suas coisas; Estado: foi morto porque combateu um regi- Foi horrível. Mas eu me adaptei e afinal fui
ajude a sua mãe; não dê trabalho; faça a sua me ditatorial. Mas mesmo assim, sem ele... A feliz, aprendi várias línguas, fiz amigos nas
ginástica; limpe os seus lápis de cor; não vida ficou mais árida. escolas que frequentei. Então veio o Golpe
misture as cores da aquarela. Aliás, a aqua- de 1973 e tivemos que fugir do Chile.
rela eu guardo até hoje e os lápis de cor tam- “Tenho pensado muito
bém. Acredite! Todos limpinhos. E assim o E assim voltamos para a França. Era adap-
que mais lembro dele é essa tentativa – hoje
sobre quem era meu tação o tempo todo: língua, escola, colega,
entendo – de ser pai. No meio daquela corre- pai e o tamanho da dor vizinhança. Mas eu também fui feliz nesse
ria toda, ele tentando me dar um norte. retorno à Europa. Primeiro, era ótima aluna e
de tê-lo perdido, sobre querida pelos meus colegas. Ademais, ser exi-
E teve aquele episódio no Malecón – para o que significou ter lado político era bem-visto, eu não precisava
quem não sabe, o passeio à beira-mar de Ha- mentir sobre minha identidade, podia dizer
vana. Como estava programado que meu pai crescido sem pai” que meu pai era um guerrilheiro que morreu
voltaria ao Brasil, para retomar a luta, ele de- na luta contra os fascistas. Os pais dos meus
veria mudar de identidade: “Teu pai vai apa- Tempos depois do meu pai voltar ao Brasil, coleguinhas achavam o máximo: “Oh, que
recer disfarçado”, me disseram. E toca minha clandestino, minha mãe e eu fomos para a legal! Ela é filha de guerrilheiro”. Mas eu aca-
mãe, eu e mais um cubano (cujo nome esque- França. Ele foi assassinado quando nós ain- lentava o sonho de voltar para o Brasil. Tinha
ci), esperando meu pai. E aí vinha vindo um da estávamos em Cuba, conforme falei, mas muita, muita saudade da minha família. E
negão de “dois metros e meio” e os adultos não soubemos. Foi enterrado pela repressão mesmo sendo bem quista, continuava sendo
brincavam: “Ah, esse é o teu pai”. Detalhe: o no cemitério da Vila Formosa, com nome estrangeira. Cheguei a brigar na escola com
meu pai era loiro de olho azul. Eles se diver- falso. A polícia só contou da sua morte me- uma menina xenófoba. Em suma, o exílio não
tindo à minha custa. Eu ficava olhando “Não. ses depois, quando já estávamos na França, era só glória, também havia aqueles que não
Não é o papai”. Aí vinha um anão, “Esse é o o reconhecimento foi feito por meio da arca- iam com a sua cara porque você era brasileira
teu pai”. Não foi só tragédia. Pensando bem, da dentária, não permitiram autópsia. Lem- e, pior ainda, filha de comunista.
até que podia ser muito engraçado. E, de re- bro da minha mãe e da minha avó chorando
pente, para minha surpresa, apareceu meu e eu, na verdade, acho que estava confusa, Voltamos para o Brasil em 1975, ainda
pai ali na calçada... A única diferença era o não entendia direito, pois chorávamos um durante a ditadura. Para minha enorme de-
cabelo pintado de preto. morto que já estava ausente há meses e sem cepção, foi quando a coisa realmente ficou
um corpo do qual eu pudesse me despedir . horrível. A começar, não podia dizer quem
Finalmente ele viajou e mandou cartas dos eu era. Tinha que mentir que meu pai havia
países por onde passou antes de aportar no Aí começou o exílio e... Sei lá, eu tinha que morrido num acidente de automóvel e que
Brasil, Checoslováquia e depois Itália. A gen- me adaptar, ponto. Tempos depois o socia- éramos uma família de diplomatas, daí mo-
te não sabe exatamente a data na qual ele de- lista Salvador Allende foi eleito presidente rarmos no exterior. Se alguém perguntasse
sembarcou no Rio, mas sabemos que, na noi- e lá fomos nós para o Chile, minha mãe, o mais alguma coisa, mudava de assunto.
te em que foi assassinado, eu tive uma febre segundo marido dela e eu. O Chile era per-
muito grande e fui parar no hospital, ainda tinho do Brasil, a família poderia nos visitar Pra completar, em 1974 teve a Revolução
em Havana. E essas coincidências marcam. e os telefonemas seriam bem mais baratos. de Abril, em Portugal, que acabou com a
Hoje parece ridículo, mas, na época, para ditadura do Salazar e libertou as colônias.
A bem da verdade, ultimamente tenho pen- fazer uma chamada internacional tinha que Um momento histórico maravilhoso, sem
sado muito sobre quem era meu pai e o ta- pedir para a telefonista e esperá-la comple- dúvida, porém que redundou na vinda a São
manho da dor de tê-lo perdido, sobre o que tar a ligação, o que podia demorar horas. Paulo de levas de direitistas egressos tanto
significou ter crescido sem pai. E apesar de Enquanto isso, ficava todo mundo de plan- de Portugal quanto da África. Ou seja, não
ter negado essa dor a vida inteira, porque fui tão ao redor do telefone de bakelite. Quando só eu não podia contar quem eu era, como

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tinha que aguentar na minha classe angola-
nos, moçambicanos e portugueses brancos
em português, eu respondia em espanhol. Na
época, tudo isso me parecia muito natural.
“A Aliança Anticomunista
de extrema direita, que eram vistos como Brasileira mandou
Mas voltando ao Brasil, o fato é que so-
“os coitadinhos obrigados a abandonar suas
casas por culpa dos comunistas”. E havia brevivi. Mas é difícil avaliar o quanto isso uma carta à minha mãe
aquele clima opressivo de ditadura, que é custou... Eu era menos alegre que os meus ameaçando a mim, caso
colegas, não conseguia ter aquela coisa
tão difícil de explicar para quem não viveu.
que brasileiro tem, de abraçar todo mundo. ela não parasse com
Esse “não poder dizer quem se é” fica terri-
velmente entranhado na gente. Sentia-me terrivelmente francesa. Primeiro, a militância”
Logo minha mãe passou a escrever no
Movimento e no Em Tempo, que eram jornais
de esquerda. A AAB (Aliança Anticomunista
Brasileira) mandou para ela cartas ameaçan-
do a mim, caso não parasse com a militân-
cia. Então ela achou por bem me botar numa
escola de rico, acreditando que ali eu estaria
protegida. E lá fui para o Nossa Senhora do
Morumbi – antigo Des Oiseaux – um colégio
de freiras onde o pesadelo bateu o auge, por-
que convivi com a juventude do milagre bra-
sileiro endinheirado, para quem a ditadura
era uma glória. Enfim, eu era a pessoa errada
no lugar errado.

No primeiro colegial me transferi para o


Colégio Palmares, que pelo menos era uma
escola de esquerda, onde os professores
sabiam mais ou menos quem eu era, o que
facilitou muito minha vida. Lá eu estudava
com os filhos da Dodora, o André e a Pris-
cila Arantes. Mas a gente sequer se cum-
primentou no intervalo ao longo dos dois
anos em que estudei lá! Eram tão sérias as
regras de segurança, era tanto o medo, que
nunca trocamos uma palavra. Inclusive, eu
evitava contato para não ser vista perto de-
les, e vice-versa, acho eu. Convém deixar
claro, eu não me sentia perseguida. Eu me
sinto, até hoje.

Mas as obrigações dessa quase clandesti-


nidade não eram uma imposição. Era uma
questão de sobrevivência. Em Cuba, por
exemplo, eu tive nome falso, Sofia, e passava
por portuguesa. De tal forma que – eu descre-
vo esse episódio no filme 15 Filhos – eu fui
capaz de encontrar meu pai no elevador do
hotel em que morávamos e fingir que não o
conhecia. Eu tinha apenas 5 anos de idade.
Carta enviada à mãe com
No hotel, quando as pessoas falavam comigo ameaça à Marta Nehring

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porque de fato tinha uma formação europeia, num regime de exceção. Logo depois de os Mas enfim, quando surgiu a necessidade
mais reservada fisicamente. Segundo, não integrantes serem nomeados, tornou-se ne- de organizar a mesa para debater a ques-
entendia da onde vinha aquela alegria toda. cessária uma pressão pública para que sua tão dos filhos, fui procurar a Maria porque
Para mim era inconcebível como as pessoas atividade fosse efetivada. Aliás, como está a gente “tinha aquela história em comum”
podiam estar risonhas, felizes, tão abertas acontecendo em relação à Comissão da Ver- e ela trabalhava efetivamente com cinema.
umas com as outras! E assim eu fui me sen- dade, com as devidas diferenças: a sociedade Decidimos gravar depoimentos de vários
tindo ainda mais excluída, porque não dava pressionando o governo por resultados. “filhos” e depois editar para, quem sabe, jun-
conta de ser tão feliz quanto eram as pessoas tando as memórias, que a gente conseguisse
ao meu redor. Eu era aquela que estava sem- Assim foi que a minha mãe organizou um passar para as pessoas da plateia algo que
pre de cara fechada. E isso me era cobrado: evento na UNICAMP, “A Revolução Possí- resultasse no retrato de uma experiência co-
“Por que você é tão tristinha?”. vel”, para acender o debate. Estavam lá or- mum – que nós mesmas não sabíamos qual
ganizações de direitos humanos, familiares era, pois cada uma vivera “aquele história”
E assim fui tocando a vida até que engravi- dos mortos e desaparecidos, ex-guerrilheiros no mais absoluto isolamento.
dei da minha primeira filha, a Cleo, em 1991. etc. Eu fiquei a cargo de montar uma mesa
Foi quando senti a urgência de recuperar a para debater a questão dos filhos. O que era Mas uma coisa era certa: todo mundo tinha
história do meu pai. Não foi a primeira vez um problemão, porque eu só dispunha das as suas memória de infância. Contudo, a me-
que fizemos essa tentativa, claro. Por volta de minhas memórias de infância. Quem tinha o mória é uma coisa tortuosa e nem eu, nem
1977, estimulada pelo exemplo da família de que dizer eram nossos pais, que haviam op- a Maria, íamos sentar diante da plateia para
Vladimir Herzog, que havia entrado com um tado pela luta e poderiam fazer um balanço falar das nossas pequenas lembranças. Era
processo contra o Estado, minha mãe procu- da situação. necessária uma síntese. O primeiro passo foi
rou um advogado para provar que meu pai fazer uma autoanálise: o que, das nossas in-
também fora assassinado. Mas este advogado “Por volta de 1977, fâncias, tinha a ver com a opção política dos
nos disse que pelas vias da justiça criminal estimulada pelo exemplo nossos pais? Ou seja, nós tentamos desco-
isso nunca seria possível, porque faltavam brir o que era específico da nossa experiên-
testemunhas. Ou seja, continuei com o ates- da família de Vladimir cia sendo a Maria filha de ex-presos políticos
tado de óbito de um suicida, no qual constava Herzog, que havia entrado e eu de um guerrilheiro assassinado, que vi-
que meu pai se enforcara com uma gravata vera o exílio.
fantasia no Hotel Pirajá. Continuei a carregar com um processo contra
O pessoal da Comissão dos Familiares de
comigo a mentira oficial, literalmente. o Estado, minha mãe Mortos e Desaparecidos Políticos, sobretudo
Quando fiquei grávida da minha Cleo, sur- procurou um advogado a Amelinha e a Crimeia, nos ajudou a con-
giu desejo de recuperar a história da famí- tatar outros “filhos”. Gravamos com quem
lia. Cheguei a conhecer o malfadado Hotel
para provar que meu pai pôde ir nos dois dias de estúdio que a Maria
Pirajá, que se tornara uma pensão. A pesqui- também fora assassinado” conseguiu emprestado. Optamos por fundo
sa resultou num projeto de filme, no qual con- neutro e exibir em preto e branco, para uni-
taria a história do meu pai: Procura-se uma Foi aí que entrei em contato com a Maria formizar ao máximo a imagem, aplainando
Testemunha era o título. Mostrei o roteiro Oliveira, filha de um casal de ex-presos po- as diferenças de tipo físico, cor da roupa,
para meu querido padrinho Juca Kfouri, que líticos, Eleonora Menicucci e Ricardo Pra- cenário de fundo etc. A proposta foi anular
deu a dica: o mais interessante seria contar a ta. Maria e eu éramos do mesmo grupo de as diferenças para destacar as falas e, assim,
história para os jovens, que ignoravam o que amigos, a gente já tinha até passado férias constituir um corpo de depoimentos capaz
acontecera durante a ditadura militar. Enga- na Bahia, na mesma pousada. Os amigos co- de reproduzir uma experiência comum. E aí
vetei o projeto, mas o roteiro acabou sendo mentavam em baixa voz, para mim, que ela saiu o 15 Filhos, o filme que não era pra ser
útil como o primeiro passo para a realização tinha uma história parecida com a minha. filme, que foi exibido em março de 1996 na
do dossiê sobre meu pai, que anos depois E eu sabia, pela minha mãe, que era filha UNICAMP, e depois percorreu o mundo e
encaminhamos para a Comissão Especial de presos políticos. Do lado da Maria, acho ganhou prêmios.
sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. que foi a mesma coisa. Mas, entre nós, nun-
ca tocamos no assunto. O engraçado é que Eu comecei este depoimento falando sobre
A criação dessa Comissão Especial, em os amigos ficavam discretamente espiando a dor, o trauma, o buraco. O 15 Filhos foi o mo-
1995, no governo de Fernando Henrique Car- quando a gente conversava, para ver se saía mento no qual os “filhos” descobriram que
doso, marcou uma nova etapa da recupera- “aquele” assunto, e as duas mudas. Porque tinham uma experiência coletiva. Faziam par-
ção da verdade: ganháramos um foro para essas coisas de clandestinidade, de sigilo, te da mesma tribo. Para mim, foi o primeiro
avaliar os crimes cometidos pelo Estado, elas colam. Não tem como sair falando. passo em busca da minha identidade, porque

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ficava sempre a dúvida: eu era “tristinha” por- ra a religião africana, recusando-se a ser ba-
que nasci assim, ou como resultado da clan- tizada. Era uma revolucionária nata, aliou-se
destinidade, exílio etc.? É muito difícil sepa- à Revolta dos Malês e à Sabinada. Quando
rar o que é da índole e o que é da vida. Tem Luiz Gama tinha cerca de 10 anos de idade,
gente que é tímida. Tem gente que é bom alu- ela foi deportada para o Rio e, ao que pare-
no. Você não é tímido e bom aluno porque o ce, presa quando fazia um ritual de candom-
teu pai morreu na tortura, entendeu? blé. Desde então desapareceu, junto com os
demais participantes do ritual. A verdade é
Quer dizer, qual era a minha identidade? O que desaparecido político, nesse país, tem
que era meu e o que era da história? Realizar faz tempo. Mas Luiz Gama logrou superar a
o 15 Filhos ajudou muito. E acho que foi um dor e foi ser advogado, mesmo sendo negro
passo importante para entender que a gente, em tempos de escravidão. Se hoje não é fácil,
apesar de não ser ativa na história – a gente imagina naquele tempo?
era “filho” –, temos um legado difícil de admi-
nistrar, exatamente porque ele independeu da
nossa escolha. Na verdade, o 15 Filhos foi um
“O 15 Filhos foi o
tremendo alívio. Pelo menos para mim, toda momento no qual os
vez que assisto o filme fico alegre, é uma an-
gustia a menos: “Ok, eu não estou mais sozi-
‘filhos’ descobriram
nha. Eu faço parte desse grupo. Essa é a minha que tinham uma
turma”. Não sou o único ET. Têm vários etezi- experiência coletiva”
nhos espalhados por aí.

Mas é um processo. E se nem todo processo Mas porque estou falando da questão da
é lento, esse em todo caso o foi, e ainda está violência nestes termos? Porque a violência,
em curso. Após mais de trinta anos de terapia, para nossa sociedade, não é um detalhe. A
descobri que carrego em mim dor e violência cada geração somam-se os “desaparecidos”
que não consigo processar. Tendo a crer que da repressão gerada por um Estado que tem
ter vivido uma infância assombrada por uma por prática perpetrar o terror, de uma polí-
instância arbitrária a ponto de matar meu pai, cia que tortura e some com as pessoas, e o
me expôs a uma tremenda fragilidade e po- pior é que muitas vezes o policial também é
tencializou todos os medos. E talvez a pior se- negro, também é bisneto de escravo e carre-
quela dessa violência seja a própria violência ga dentro de si uma violência que ninguém,
que sinto em mim agora. A verdade é que eu no fundo, consegue engolir, quem dirá dige-
não aceitei o que foi feito à minha família. Se rir. E assim vamos, tentando ser felizes. Afi-
engoli, não digeri. nal, não é o samba filho da dor?
Essa é, acho eu, a natureza profunda da
Hoje, leio minha dor e minha tristeza no
violência que está aí a nos assombrar. E é
olhar das minhas filhas, toda vez que entro
por este motivo que eu acredito que vale a
em erupção. Tanto, que não precisou muito
pena falar disso para vocês. Porque se eu
para convencê-las a participar comigo das
não visse em mim o horror... Talvez não con-
Clínicas do Testemunho. E para mim é muito
seguisse entender as suas raízes em nossa
importante que elas ouçam os depoimentos
sociedade. E acredito que é algo que mere-
de outras pessoas do grupo de terapia como
ce ser olhado, a fundo, se pretendemos fazer
forma delas me entenderem, da mesma for-
do Brasil um país melhor para se viver.
ma como eu preciso do olhar delas para me
entender.
MARTA NEHRING nasceu em São Paulo, em janeiro de
Outro dia minha filha caçula, Sofia, me 1964, filha de Norberto Nehring e Maria Lygia Quartim
mostrou a biografia do advogado e poeta de Moraes. Estudou literatura e cinema, trabalha como
Cenas do documentário 15 Filhos, de Maria de Oliveira
roteirista de cinema e televisão.
Luiz Gama, que estava lendo para a escola. e Marta Nehring, que retrata a época da ditadura
militar no Brasil por meio da memória dos filhos de
Ali consta que a mãe do Luiz Gama mantive- miltantes presos, mortos e desaparecidos

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1 2 3

Álbum de família
1. Norberto Nehring, morto em
24 de abril de 1970
2 e 5. Marta e a mãe Maria Lygia,
em São Paulo, 1964
3. Marta e o pai Norberto,
em São Paulo, 1964
4. Ficha de Norberto do DOPS
6. O casal Norberto e Maria Lygia
com Marta, em São Paulo, 1964

5
4

tasse trabalhar enquanto seguiria os es- (...) Especialmente dotado para matemática, Norberto
tudos universitários à noite. se distinguiu na faculdade recebendo várias ofertas para
ser instrutor (...)
Norberto foi meu primeiro namorado, aos
16 anos. Juntos começamos a participar Uma vez formado na USP (...), começou imediatamente a
da vida intelectual nos primeiros anos da década dos trabalhar em planejamento econômico, no Grupo de Pla-
sessenta (...) nejamento Integrado – GPI, um dos primeiros do gênero,
Norberto Nehring nasceu em 20 de setem- Em 1963, começa nossa vida adulta: Norberto já traba- formado por economistas e arquitetos competentes (...)
bro de 1940, em São Paulo (SP). Era o filho mais velho lhava, entramos ambos na USP (ele, Economia, e eu, Ao mesmo tempo, sua militância na ALN intensificava-
de Walter Nehring e Nice Monteiro Carneiro Nehring. Ciências Sociais) e nos casamos. Em janeiro de 1964 -se. Integrava o grupo da “casa de armas”, dado seus co-
Morto em 24 de abril de 1970. Militante da Ação Liber- nasceu Marta (...) nhecimentos de química e a enorme confiança pessoal
tadora Nacional (ALN). Mas 1964 também trouxe tristezas: o golpe militar de que nele depositava a coordenação da organização (...)
Era economista e professor da Universidade de São 1º de abril. (... ) Tínhamos ingressado no PCB assim que Na manhã do dia 7 de janeiro de 1969 uma cena insólita
Paulo. Maria Lygia Quartim de Moraes, sua esposa, entramos na faculdade. perturbou a tranquilidade da vila em que morávamos:
escreveu uma pequena biografia a seu respeito: Filiei-me primeiro, o que era fácil, na medida em que a nossa casa foi cercada por um grupo de policiais do
Norberto ficou órfão de pai muito cedo, mal chegara esmagadora maioria dos meus colegas já pertenciam DOPS, que levaram Norberto preso. Logo que foi solto,
aos 4 anos. Foi criado, assim como seus dois irmãos ao PCB. Na Faculdade de Economia as coisas eram bem após mais de dez dias na carceragem do DOPS, Norberto
menores, pela mãe e pelos avós maternos (...) mais complicadas: a esmagadora maioria do corpo do- “passou para a clandestinidade” sabendo que voltaria a
cente era de direita. (...) Foi através do marido de uma ser preso e torturado como aconteceu com todos os acu-
Uma pessoa marcante na sua adolescência foi um vi-
colega minha, que por coincidência era colega de Nor- sados do mesmo caso.
zinho, judeu-comunista e empresário, Simão, que lhe
berto, que o contato com o PCB concretizou-se (...)
revelou as atrocidades nazistas e o despertou para a Muitos dos acusados estavam sendo brutalmente
causa do socialismo. Norberto sempre foi interessado Norberto militou no PCB até a ruptura do grupo Mari- torturados e houve uma tentativa de suicídio numa tar-
e aplicado. Estudou nas boas escolas públicas da épo- ghella – passou, então, a fazer parte do grupo que tra- de em que fui visitá-lo. Além da equipe do DOPS, Nor-
ca. Terminando o ginásio, optou por um curso técnico balhava diretamente com Joaquim Câmara Ferreira, “To- berto foi interrogado por um “polícia federal”, que já
de química industrial no Mackenzie que lhe possibili- ledo” ou “Velho”, na coordenação da ALN em São Paulo. gozava de grande consideração entre os torturadores do

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7 8

7 e 8. Marta em
Itanhaém, litoral de
São Paulo, 1967
9. Marta e Maria Lygia,
Cuba, 1970
10. Marta e os pais,
Norberto e Maria Lygia,
interior de São Paulo,
1968

9 10

DOPS, e que veio a se tornar muito conhecido no país: tos, seu sogro foi até o hotel e lá soube que ali nin- dicalmente a vida do país e de seus pais. O casal inte-
Romeu Tuma. guém se suicidara. O próprio inquérito contribui para grava a Ação Libertadora Nacional (ALN) e, em janei-
desmentir a versão oficial. Na requisição de exame, ro de 1969, Norberto foi preso vindo posteriormente
Em abril de 1969, Norberto saiu do país com destino a consta que teria se afogado, e no laudo necroscópi- a fugir do país. Em julho do mesmo ano, Maria Lygia e
Cuba. Marta e eu fomos ao seu encontro alguns meses co ali citado, mas nunca localizado, consta a infor- Marta foram se encontrar com ele em Cuba onde per-
depois. Ele retornou ao Brasil em abril de 1970, depois mação de que a morte se dera por asfixia. Norberto maneceram por quase uma ano. Norberto foi preso e
de uma estada em Praga, desembarcando no aeropor- foi enterrado com nome falso no Cemitério de Vila morto ao regressar ao Brasil, em abril de 1970.
to do Galeão. As circunstâncias exatas de sua morte Formosa, em São Paulo, mas a família foi comunica-
nunca puderam ser estabelecidas (...) Marta e Maria Lygia viveram no Chile até o golpe de
da apenas três meses depois. Após a exumação do Estado que derrubou Salvador Allende e depois fo-
Ficamos sabendo da morte de Norberto na França, corpo, realizaram seu reconhecimento por meio da ram viver na França. Retornaram ao Brasil em julho
através de mensagem que recebi de Toledo, segundo a arcada dentária, comprovando sua identidade. Seus de 1975.
qual, no dia 24 de abril, um caixão teria saído da OBAN restos mortais foram transferidos, então, para o jazi-
A partir de então, Maria Lygia adotou o nome de
carregando Norberto, morto na tortura, nas mãos go da família.
Maria Moraes e ajudou a criar o jornal feminista
da equipe do delegado Fleury. Um dos documentos
Nós Mulheres. Também foi jornalista na publica-
encontrados nos arquivos do DOPS/SP é uma nota à
ção O Movimento e uma das fundadoras do jornal
imprensa, assinada por Romeu Tuma, confirmando a
versão oficial de suicídio (...) Maria Lygia Quartim de Moraes nasceu Em Tempo.
em São Paulo (SP), em 18 de maio de 1943. Aos 8 anos Doutorou-se em Ciência Política pela USP (1982) ini-
A versão oficial é de que se suicidou, enforcando-se de idade conheceu Norberto Nehring que foi seu ciando sua carreira como professora universitária na
com uma gravata no quarto que ocupava no hotel Pi- maior amigo e primeiro namorado. Em 1963 casaram- Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi professo-
rajá, então conhecido bordel de policiais no centro de -se e iniciaram suas vidas universitárias. Ela cursou ra da UNESP-Ar e ingressou na UNICAMP em 1993.
São Paulo. Não foram encontrados a perícia de local, Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) Publicou livros, capítulos de livros e artigos no país
o laudo necroscópico nem as fotos do corpo. (1963-66) e ingressou no Partido Comunista Brasilei- e no exterior. A partir de setembro de 2013, preside
A versão de suicídio consta no inquérito feito pelo ro (PCB) também em 1963. a Comissão da Verdade e Memória Octavio Ianni da
delegado Ary Casagrande, onde há um bilhete que Marta, única filha do casal, nasceu em janeiro de UNICAMP.
Norberto fizera à família. Buscando esclarecer os fa- 1964, antes do golpe de Estado que viria a mudar ra-

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50 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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por Carlos Eduardo Ibrahin

Meu nome é Carlos Eduardo Martins era diretor do sindicato. Com 20 anos, ele foi do todos os dias, pau de arara, choque e etc.
Ibrahin. Sou filho de José Ibrahin e Tereza eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgi- Foi trocado pelo embaixador americano. Foi
Cristina Denucci Martins. cos de Osasco. Nossa família começou a tra- para o México, foi para Cuba. A intenção de
balhar muito cedo. Aos 10 anos, sem precisar morar em Cuba era justamente se aprimorar
Meu pai foi líder sindical e minha mãe trabalhar, eu catava jornal na vizinhança para na luta armada, para voltar para o Brasil. De
atuou na luta armada no MR-8. Ela era do vender para o peixeiro embrulhar peixe na Cuba, foi para o Chile porque a ideia dele,
movimento estudantil, foi do grupo do Vla- feira. O Gabriel, meu irmão, também sempre depois de três anos em Cuba, era aprender
dimir Palmeira. Eu nasci no Panamá. Era teve essa consciência. Meu pai começou a luta como é que o Allende estava trabalhando lá.
para eu ser chileno, porque fui concebido política muito cedo. Com 20 anos de idade ele E aí aconteceu o que aconteceu. Conheceu
no Chile, mas como houve aquela fatalidade já era presidente do maior Sindicato de Me- minha mãe, tiveram que ir para o Panamá.
do golpe contra o [Salvador] Allende, meus talúrgicos daquela região, de maior liderança. Na Bélgica ele coordenou junto com pesso-
pais tiveram que invadir a Embaixada no as como [Leonel] Brizola e Cesar Maia, entre
Panamá. E então eu nasci no Panamá. outros, um processo político para pressionar
“Meu pai foi demitido por na redemocratização do Brasil. Desde o Chi-
Quando eu tinha quarenta dias de vida, fo-
mos expulsos do Panamá e deportados para justa causa, foi preso, ficou le ele já vinha fazendo isso.
a Bélgica, que foi o país que aceitou asilo sete meses no DOPS, Ele criou na Bélgica, junto com a Organiza-
político do meu pai, da minha mãe e o meu. ção das Nações Unidas, a Casa Latino Ame-
Vivemos ali por cinco anos, até a anistia. O torturado todos os dias, ricana, que tinha como objetivo abrigar, dar
primeiro marido da minha mãe foi morto na pau de arara, choque” suporte psicológico, social e financeiro para
ditadura militar. Meu pai é o segundo mari- os exilados políticos da América Latina. A
do dela, eles se conheceram no Chile. Minha partir desse trabalho, a Casa Latino Ameri-
A estratégia dele de greve era muito sin-
mãe fugiu e meu pai foi trocado pelo embai- cana pôde salvar muitas vidas, trazer muitos
gular. Ao invés dele estruturar o Sindicato,
xador americano. Todos vocês conhecem companheiros que estavam nas ditaduras,
trabalhar o Sindicato de cima para baixo,
essa história marcante. sofrendo com perigo de morte.
ele fez ao contrário. Procurou montar Co-
Meu pai começou a trabalhar com 5 anos de missões dentro das fábricas. Por isso que a Com a anistia, voltamos ao Brasil. Eu não
idade, foi engraxate. E com 14 anos foi traba- greve dele na verdade foi uma greve geral queria sair da Bélgica. Minha mãe trabalha-
lhar na Cobrasma. Fez o SENAI, e aos 16 já de metalúrgicos, porque não foi só Osasco va no Mercado Comum Europeu, meu pai
que parou, foi Guarulhos também e outras estava presidindo a Casa Latino Americana
regiões que pararam em solidariedade. Aí pela ONU, enfim, ganhando bem, com uma
meu pai foi demitido por justa causa, foi pre- estrutura. E a Bélgica é um estado de bem
À esquerda, a chegada da família
ao Brasil, após a Anistia de 1979 so, ficou preso sete meses no DOPS, tortura- estar social dos mais exemplares que existe

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na história do mundo. Então eu não queria, nasci no Panamá, Goiás. Só assim pude tirar eu vou escanear e mandar para vocês, ela
mas tive que voltar. Era pequeno, tinha 6 anos. o meu título de eleitor. Inclusive, por conta me dá a cidadania nata, mas está escrito as-
disso, por esse argumento eu entrei com um sim, “Por força do ato tal, folha tal, folha tal,
A minha infância foi muito difícil. Primei-
pedido de Anistia Política e indenização na folha tal...”. Quer dizer, isso foi forçado.
ro, eu só consegui minha cidadania nata aos
23 anos de idade porque entrei com uma Comissão de Anistia do Ministério da Justi-
Isso aconteceu não só comigo, muitos fi-
ação contra a República. Minha certidão era ça. Por conta de o Estado ter rasgado a Cons- lhos de exilados sofreram muito. Inclusive
provisória. Para eu tirar meu título de eleitor tituição, o direito Constitucional, o meu di- os nossos telefones eram grampeados pelo
tive que ser subversivo. Um amigo de Goi- reito de ser cidadão nato, eu tive que entrar SNI. Até o governo Collor, a vida do meu pai
ás me disse: “Aqui no Estado de Goiás tem com uma ação, gastei dinheiro com advoga- e da minha mãe e a minha eram controla-
uma cidade chamada Panamá”. Então, eu te- do, tudo para receber minha cidadania nata. das. Só depois do governo Collor que isso
nho uma carta de identidade que diz que eu Tanto é que minha certidão de nascimento, parou. Então, toda essa conjuntura teve um
impacto muito forte nos filhos dos exilados.
Quando voltamos ao Brasil, eu morei dois
anos em Osasco, com meu pai e minha mãe
e aí eles se separaram. Meu pai estava na-
quela de montar o PT e a CUT. Ele foi o Pri-
meiro Secretário Geral do PT, e se preparava
para ser candidato a Deputado Federal, nas
eleições de 1982. E logo depois das eleições
eu fui morar no Rio.
Meu avô [Dirceu Martins] também era
uma pessoa muito politizada. Durante a
ditadura militar ele foi tesoureiro chefe do
Banco Central. Era uma pessoa também en-
gajada politicamente, de um outro lado, mas
engajada. Ele fazia o desenho do passaporte
que vocês têm na mão hoje, porque foi pre-
sidente da Casa da Moeda, que fazia o pas-
saporte. O que ele fazia? Ele pegava vários
passaportes desmontados, levava para casa,
montava direitinho e dava para as pessoas
fugirem. Ele ajudou muita gente a sair do
Brasil pela fronteira.

Depois, eu mesmo tive minha vida polí-


tica. Fui presidente do meu Grêmio, diretor
secretário-geral do DCE da PUC por muito
tempo, vice-presidente nacional da juven-
tude do PSDB durante oito anos, trabalhei
muito tempo com Franco Montoro.

Minha mãe morreu em 2011. Eu resolvi


dar uma parada, cuidar da minha vida pes-
soal. Agora em 2013 meu pai falece. Então
no prazo de um ano e dez meses mais ou me-
nos eu perdi os dois.

À esquerda, a certidão de nascimento


de Carlos Eduardo

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Minha mãe morreu de uma maneira que da Comissão de Erradicação do Trabalho to amigo do meu pai. Enfim, com o próprio
ninguém gosta de morrer, sofrendo, e meu Infantil no Rio de Janeiro e consegui man- Lula, em especial também o José Dirceu,
pai morreu como um anjo, dormindo. Então, dar prender muita gente que fazia trabalho que até hoje é amigo da família, enfim, e de
duas mortes diferentes, completamente dife- escravo no Rio de Janeiro. muita gente do Movimento Sindical.
rentes. Mas o fato é o seguinte: eu estou dis-
posto, com meu irmão, a dar continuidade à Então essa questão do mundo do trabalho Estou disposto a trabalhar junto com a Co-
vida pública do meu pai, a imagem do meu foi também minha atuação. E eu quero con- missão para a verdade realmente aparecer.
pai, e eu, particularmente, tanto da imagem tinuar com isso. Eu e meu irmão queremos Muitas injustiças foram cometidas aqui nes-
do meu pai quanto da minha mãe. Dar conti- continuar com esse trabalho dele. Tanto é te país e a justiça tem que vir à tona para
nuidade ao trabalho que ele estava fazendo. que estamos criando um espaço vivo sobre todos nós.
a memória do José Ibrahin. E como pano de
Minha mãe, Tereza Cristina Denucci Mar- fundo, o mundo do trabalho e a democratiza- Ontem [5 de maio 2013] eu falei para três
tins, foi guerrilheira, sabia atirar como nin- ção do Brasil. Futuramente, será criado um mil pessoas no aniversário de 50 anos do
guém. O primeiro marido dela, Paulo Bastos, espaço do José Ibrahin no Museu da Cidade Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos,
foi morto na ditadura, jogado vivo na Baía de de Osasco e no Sindicato dos Metalúrgicos onde meu pai foi homenageado e fomos re-
Guanabara. Isso criou uma confusão muito de Osasco. ceber uma placa. E eu falei para os trabalha-
grande porque eu não consegui minha cer- dores que meu pai foi torturado fisicamen-
tidão de nascimento de primeira mão, que te, mas que a maior tortura psicológica que
era a provisória. Porque o primeiro marido “Estou disposto a fizeram foi na vida das famílias brasileiras.
da minha mãe era considerado vivo. Estava trabalhar junto com Os trabalhadores foram duramente repreen-
didos nessa época. Comentei que a ditadura
morto. E o meu pai era considerado morto e
estava vivo. Logo, eu seria filho do Espírito
a Comissão para a militar era um câncer, que até hoje a gente
Santo. Então eu só consegui a cidadania pro- verdade realmente não conseguiu curar porque para muita gen-
te não interessa que a verdade venha à tona.
visória depois que saiu o atestado de óbito do
primeiro marido da minha mãe. E até então
aparecer. Muitas
eu tinha já uns 10 anos de idade. Ou seja, até injustiças foram
os 10 anos de idade eu não existia, entendeu?
Hoje, eu tenho 39, mas eu não tenho 39, eu
cometidas aqui neste CARLOS EDUARDO IBRAHIN nasceu em 21 de novem-

tenho 39 menos 10, que só com 10 anos eu país e a justiça tem bro de 1973, filho de José Ibrahin e Tereza Cristina
Denucci Martins, formado em História (PUC RJ),
passei a existir. que vir à tona para Mestre em Engenharia de Produção com foco em Enge-
nharia de Financiamento Social (COPPE/URFJ) e Douto-
Estamos dispostos a continuar essa luta, todos nós” rando em Economia (Universidade de Coimbra – Portu-
gal), tem uma empresa de consultoria em projetos.
não só na Comissão da Verdade, mas no Mo-
vimento Sindical e no Movimento Partidário.
Meu pai atuou em três focos: Movimento da Eu vivi intensamente o exílio, intensamen-
Organização Social Civil, redemocratização te a redemocratização do Brasil. Fui subver-
e Partido Político. Ele foi filiado ao PT, PDT sivo e tirei meu título de eleitor para votar
e o último partido no qual ele militou foi o no Roberto Freire. Queria votar nele de qual-
PV. Foi fundador, por exemplo, junto comigo quer jeito. Depois eu me engajei como vice-
do CEAT, que é o Centro de Atendimento ao presidente nacional da juventude do PSDB,
Trabalhador. Durante muito tempo meu pai me engajei na eleição do Fernando Henri-
foi Secretário Geral do Conselho Consultivo que. Viajei o Brasil inteiro com essa bandei-
do CEAT. Tinha esse trabalho na área das ra. Fui assessor do senador Artur da Távola.
organizações não governamentais, e tem Fiz história na PUC e depois fiz mestrado
todo o trabalho internacional do meu pai. em Engenharia de Produção na UFRJ.
Até hoje ele é o sindicalista mais conhecido
no exterior. Eu tive a oportunidade, por ter a sorte de
ter nascido do José Ibrahin e da Tereza Cris-
Meu pai foi vice-presidente da Comissão tina, de conhecer não só meu pai e minha
de Educação para o Trabalho na OIT. Teve mãe, mas muita gente que fez, que faz parte
uma atuação grande na disseminação do da história política do nosso Brasil. Tive a
trabalho digno. Eu também tive a oportuni- oportunidade de ter um relacionamento ínti-
dade de contribuir nisso. Quando eu traba- mo com Mário Covas, com Franco Montoro,
lhei no governo Marcelo Alencar, fiz parte com Brizola, com Jacó Bittar, que era mui-

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1

1. Documento da PM de São Paulo que


relata a vigilância de José Ibrahin durante sua
estada no Chile
2. Fotos de Ibrahin retiradas do relatório do
CIE, Indivíduos Banidos do Território Nacional,
1970, distribuído aos orgãos de repressão, para
reconhecimento dos mesmos
3. Ficha de Ibrahin do DOPS
(Os documentos acima foram encontrados em
prontuários do DOPS, no Arquivo do Estado
de São Paulo)

4. José Ibrahin, Carlos Eduardo, Tereza Cristina e


um amigo do casal, em Bruxelas, Bélgica, 1977
5.Carlos Eduardo, aos 7 anos, com o pai,
durante fundação do PT em Osasco, 1980
6. Foto dos presos políticos libertados e
banidos, entre eles Ibrahin, na troca do
2 embaixador americano Charles Burke
Elbrick, 1969

José Ibrahin nasceu em 3 de setembro de 1947 São Paulo, onde trabalhou na organização sindical Integrou a luta armada, militando no Movimento Re-
em São Paulo (SP) e cresceu em Presidente Altino, hoje entre Osasco e São Paulo, até que em 1969 foi preso e volucionário 8 de Outubro (MR-8). Participou da orga-
município de Osasco. Aos 14 anos começou a trabalhar levado ao DOI-Codi, onde foi torturado. nização do sequestro do embaixador norte-america-
como operário na Companhia Brasileira de Materiais Em setembro de 1969, com o desfecho do sequestro no Charles Burke Elbrick, em 4 de setembro de 1969.
Ferroviários (Cobrasma), ao mesmo tempo em que es- do embaixador americano no Brasil, Charles Burke Foi casada com o mineiro Paulo Costa Ribeiro Bastos,
tudava no Ginásio Estadual de Presidente Altino. Aos Elbrick, foi um dos quinze presos políticos liberta- também militante do MR-8, desaparecido em julho de
17 anos, chegou ao posto de inspetor de qualidade. dos na troca, também foram libertados José Dirceu, 1972, após ser de preso por agentes da ditadura.
Aos 18 anos, em 1965, fundou ilegalmente a primeira Flávio Tavares, Vladimir Palmeira, Ricardo Zarattini, Exilada no Chile, Tereza passou a viver com José
comissão de fábrica, na Cobrasma, experiência que entre outros. Foi para o exílio, permanecendo por dez Ibrahin. Com a queda de Salvador Allende, em setem-
serviria de base para reorganização, dois anos depois, anos fora do país, vivendo no México, Cuba e Chile. bro de 1973, o casal invade a embaixada do Panamá
do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Osas- Em 1979, com a Anistia aos perseguidos políticos da e segue para o país andino, onde nasce o filho deles,
co (até então na ilegalidade). ditadura, Ibrahin retorna do exílio e foi um dos arti- Carlos. Com 40 dias de vida do bebê, a família é ex-
culadores da fundação do Partido dos Trabalhadores, pulsa do Panamá e consegue ser recebida na Bélgica,
Entre 16 e 21 de julho de 1968 liderou a primeira greve
em 1980 e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), onde ficaram até a Anistia.
de trabalhadores durante a ditadura militar no Bra-
sil, por melhores condições de trabalho e contra a em 1983. Em 1991, Ibrahin foi um dos principais arti- Na Bélgica, fez mestrado, doutorado e pós-doutora-
política de arrocho salarial, imposta pelos militares culadores da criação da Força Sindical. Posteriormen- do em ciência política e relações internacionais pela
desde 1964. Além dos trabalhadores da Cobrasma, te desentende-se com a cúpula da Força Sindical e Universidade Livre de Bruxelas.
operários das empresas Braseixos, Barreto Keller, filia-se a União Geral dos Trabalhadores (UGT), onde
No Brasil, trabalhou no Instituto de Pesquisas Tec-
Granada, Brown Boveri e Lanoflex aderiram ao movi- torna-se Secretário de Formação Política. Ibrahin fa-
nológicas (IPT) coordenando o setor de transferência
mento grevista. Ao todo, 22 mil trabalhadores aderi- leceu na madrugada do dia 1º para o dia 2 de maio de
de tecnologia. Criou e coordenou a coordenadoria de
ram à paralisação. 2013, aos 66 anos.
Ciência e Tecnologia da prefeitura do Rio de Janeiro,
Ibrahin tinha apenas 21 anos de idade na época em hoje Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia. É
que comandou a greve. Foi demitido e com os direitos Tereza Cristina Denucci Martins fundadora da Fundação BioRIO. Foi gestora de proje-
políticos cassados, caiu na clandestinidade e passou nasceu em 23 de outubro de 1947, em Araxá (MG). Es- tos no Sebrae-RJ e participou de diversos projetos com
para a militância armada, ingressando na Vanguarda tudou história na Faculdade Nacional, hoje Universi- foco na difusão de ciência e tecnologia e transferência
Popular Revolucionária (VPR). A VPR o destacou para dade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). internacional. Trabalhou na área de qualificação.

54 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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4 5

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56 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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por Suely Coqueiro

Sou filha de Aderval Alves Coqueiro, assassi- meiras lembranças, apesar de vagas, são dos Nós moramos no Mato Grosso, na Bahia, vol-
nado pela ditadura em 1971 e o primeiro preso desaparecimentos, porque de vez em quando tamos para São Paulo. Mudávamos constan-
político banido – enviado à Argélia – a retor- ele sumia por uns dias, não havia muita expli- temente, não podíamos ficar em uma mesma
nar ao Brasil após o seu exílio. Ele foi um dos cação para isso. E, por vezes, havia algumas escola o tempo todo. Tínhamos muito medo,
quarenta presos políticos trocados pelo embai- reuniões lá em casa. E quando a situação foi muita insegurança. Depois comecei a enten-
xador alemão Von Holleben, em junho de 1970. ficando mais aguda e começaram as persegui- der que eu podia perder o meu pai. Eu acho que
ções mesmo, aí começaram a se dispersar. foi aí que comecei a sentir mais medo. Quando
Essa é a primeira vez que nós filhos somos ou- meu pai teve que ir para a clandestinidade, a
vidos. É a primeira vez que temos a oportunida- vida ficou complicada.
de de abrir o coração e falar sobre essas mazelas “Comecei a perceber o
e sobre um momento histórico que para nós, Quando tivemos que nos mudar de Diadema,
crianças naquela época, foi muito difícil. que estava acontecendo eu tinha 7 ou 8 anos. Nós fomos de Kombi para
Nós, como crianças, não tínhamos capacidade
quando tivemos que o Mato Grosso e ficamos na casa de um primo
da minha mãe ou meu pai, que tinha um sítio,
de compreender tudo. Isso é um pouco proble- fugir para valer pela onde moramos por um tempo. Meu pai ficou um
mático, e o momento histórico era aterrorizante.
primeira vez” período curto conosco, logo depois voltou para
A importância deste momento é conseguir- São Paulo. Eu acho que a maior preocupação
mos relembrar e falar pela primeira vez sobre dele naquele momento era garantir a segurança
os efeitos daqueles momentos difíceis nas nos- Foi nessa época que começamos a deixar um da minha mãe e das filhas.
sas vidas. Eu nasci em 1960, tinha 4 anos quan- pouco de viver a vida familiar, porque cada vez
No regresso a São Paulo, numa noite, foi alu-
do se deu o golpe. menos dava para vivermos juntos. E comecei a
gada uma casa, em Santo Amaro. Lá não tinha
ouvir que tínhamos que ter cuidado com o que
Na época, acho que ainda estávamos em Bra- fogão, camas, geladeira. Porque a gente sim-
falávamos na escola, não podíamos brincar com
sília, porque meu pai era baiano e migrou para plesmente mudava de um minuto para o outro.
a amiguinha da vizinha, não podíamos ficar fora
Brasília quando eu era muito pequena. Foi can- Alugamos a casa num dia, e na manhã seguinte,
do portão na rua brincando. Era uma série de
dango lá e viemos para São Paulo quando eu num posto de gasolina, os companheiros foram
coisas que não conseguíamos entender na épo-
ainda era muito pequena. Em São Paulo, come- avisar que meu pai tinha sido preso. Nós tive-
ca. Eu tinha 7 anos e não conseguia entender o
çou a trabalhar como operário, no ABC. mos que sair novamente da casa por questões
porquê daquela situação.
de segurança.
Lembro bem da nossa vida a partir do mo- Comecei a perceber o que estava acontecen- Quando meu pai ainda estava preso, me ma-
mento que moramos no ABCD, em Diadema. do quando tivemos que fugir para valer pela goou muito eu não poder vê-lo em todas as visi-
Ele já era integrado à luta, porque foi em Bra- primeira vez, porque o meu pai já estava sen- tas na cadeia porque tinha que estudar. Eu tinha
sília que entrou no movimento. Minhas pri- do procurado. E nós tínhamos que começar a que avançar no estudo porque estava atrasada.
viver nos chamados aparelhos, que eram casas
À esquerda, Suely e Isaura no Hotel
e apartamentos clandestinos, considerados Quando ele foi preso, passou-se um tempo
Havana Libre em Havana, Cuba, 1973 mais seguros. sem que ninguém soubesse dele. Minha mãe

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“Uma vez perguntei saía constantemente, de delegacia em delega- para nós ele ainda estava no exterior. Nós não
cia, porque ela sabia que ele tinha sido preso, sabíamos que ele tinha voltado. Ele foi banido
por que ele estava só que não sabia se estava vivo, morto, em que em 1970, e demorou coisa de um ano para voltar.
de óculos escuros. lugar ele estava. Lembro-me desta procura
Nós recebíamos cartas, não com frequência.
constante.
Ele me respondeu Eu tenho cópia de várias cartas que ele manda-
va para a minha mãe. Em todas, falava o tem-
que era porque tinha Foi um alívio quando ficamos sabendo que
estava preso, foi a confirmação de que ainda po todo que morria de saudades de nós. Ele era
jogado bola e a bola estava vivo. Mas ele estava na condição de in- uma pessoa muito ligada à família. E os compa-
comunicável, não podíamos ir visitá-lo. nheiros que encontramos aqui e em Cuba falam
tinha batido que ele falava muito em nós, constantemente.
no rosto” Logo que começamos visitar o meu pai, ele
Tenho certeza que essa volta rápida para o
tinha sido muito torturado.
Brasil ocorreu porque ele não conseguia viver
As visitas continuaram por um tempo, e de- longe de nós. Ele tinha uma dificuldade enor-
pois a troca dele pelo embaixador alemão, jun- me com isso. Quando ele foi assassinado, no
to com outros companheiros, que foram para Rio de Janeiro, nós ficamos literalmente per-
a Argélia. E veio o medo novamente, porque didos, perdemos o chão. A pessoa está no ex-
achávamos que como ele havia sido banido e terior e de repente você recebe a notícia que o
desterrado, não fôssemos vê-lo nunca mais. ser que você ama tanto está morto e está no teu
país e você sequer chegou a vê-lo novamente.
Além disso, naquela época, financeiramen-
te, ao menos para nós, uma viagem, era algo Meu avô, que na época não era perseguido,
inalcançável, não éramos de família rica ou de nos deu muita força. Ele falou para a minha
família de classe média, que tinha condições mãe: “Nós vamos enterrar o meu filho”. Aí fo-
de pagar uma passagem internacional para vi- mos para o Rio de Janeiro. Acho que por muitos
sitar o pai no exterior. anos fiz questão de não lembrar desta viagem.

Quando meu pai foi banido, a sensação foi Quando chegamos ao Rio, era Carnaval. Fica-
de mistura de um sentimento de felicidade, mos num hotel pequeno e barato, numa rua mo-
porque ele não ia mais ser torturado, não ia vimentada cujo nome também não lembro. Meu
ser mais magoado, não ia ser mais ferido, com avô foi ao IML para fazer o reconhecimento.
uma sensação de perda, porque eu achei que Tudo aconteceu de forma muito rápida, não ha-
não o veria nunca mais. Ou, talvez, que fos- via tempo para fazer o luto. Acho que nenhum
se vê-lo apenas quando fosse uma adulta e de nós teve tempo de viver o luto na época.
fosse visitá-lo, porque ele não poderia voltar
Meu avô reconheceu o corpo, e na hora do
nunca mais.
enterro, abriram o caixão, a minha mãe beijou-
Para mim, o exílio do meu pai foi uma perda lhe a mão, eu olhei, fecharam o caixão, levaram,
porque não havia possibilidade de vê-lo nunca enterraram e nós voltamos para São Paulo. Foi
mais. Como efetivamente não houve. Só tornei uma coisa super rápida, sem tempo de assi-
a vê-lo já no caixão para enterrar. milar, sem tempo de trabalhar na cabeça sem
tempo de pensar.
Então, para mim, o exílio do meu pai foi re-
almente a despedida. Porque a segunda des- Depois, em São Paulo, não demorou muito
pedida foi a mais cruel, já no caixão, pois ele para nós recebermos a informação de que es-
foi assassinado depois que retornou ao Brasil tavam procurando a minha mãe, pelo menos
em 1971. O momento do enterro do meu pai foi foi o que ouvimos na época. Nós não tínhamos
muito complicado, porque deu-se a notícia nos estrutura psicológica, não tínhamos condi-
meios de comunicação, com manchetes, como: ções de continuar morando na cidade. Aí veio
“Terrorista banido volta ao Brasil e morre”. o processo de organização para nos levar ao
Chile. Este processo também foi terrível. Não
Meu pai não era terrorista, para mim ele nun- tivemos tempo de luto, de nada. Nem tempo de
ca foi terrorista. O choque foi enorme, porque despedir da nossa família.

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Nós sempre tivemos uma dificuldade enor- boicotava. Nessa época, os grandes empresá- fomos entendendo que em Cuba a polícia real-
me de relacionamento com a minha própria fa- rios estavam junto com a direita, com o [Au- mente representava a proteção e não agressão,
mília biológica, como tias, tios, primas, primos gusto] Pinochet. E quando se percebeu que no não assassinato como acontecia no Brasil. Foi lá
porque não tivemos contato com eles. Chile estava havendo uma articulação de gol- que realmente eu comecei a ter infância porque
pe, fomos para Cuba. aqui não tinha, nós não tivemos infância.
Nossa viagem para o Chile foi de horror, parte
de Kombi e outra de ônibus. E os companheiros Um dia à noite chegaram em casa e disse- Lá, eu comecei a estudar, a ter círculos de
que nos levaram eram clandestinos também. ram: “Vocês vão para Cuba”. Com 11 anos, o amigos pela primeira vez na vida. Amigos da
Para chegar ao Chile, passamos pela Argentina. que significava ir para Cuba? Eu só sei que minha idade, amigos que podia marcar para se
Eu lembro do vento gelado das Cordilheiras dos tudo aconteceu muito rápido. Mais uma vez saí encontrar embaixo do prédio onde morava, fa-
Andes, até chegar em Santiago, isso tudo uma da escola. Nós morávamos em uma casa junto zer grupinho de teatro juntos. Os sobrinhos do
coisa atrás da outra. com outra família de exilados, com a tia Ilda Guevara inclusive moravam no mesmo prédio
Gomes da Silva e moramos também com a tia que a gente e faziam parte do mesmo grupinho
Quando chegamos ao Chile, eu tinha 10 anos. Dina (Pedrina Carvalho) Aí, um dia nós pega- de teatro. E onde morávamos tinha muitos exi-
Quando pensamos que teríamos um pouco de mos a Cubana de Aviación em Santiago e no lados da América Latina, os bolivianos, argen-
tranquilidade, veio a preparação do golpe mili- outro dia estávamos em Havana. tinos, tinha chilenos e mais os cubanos.
tar. Chegamos lá um ano e pouco antes do gol-
pe e ficamos por um ano. Também não tenho Começamos a ter uma vida normal, a apren-
boas lembranças de quando comecei a estudar, “Meu avô reconheceu der como é ter uma vida normal, a gente tinha
e nem do país, por diversas razões, como essa o corpo, e na hora do liberdade de ser criança. Os nossos anos em
vida de insegurança, ainda não tínhamos nem Cuba foram maravilhosos. Lá tínhamos vários
tempo de viver o luto e tivemos que chegar lá enterro, abriram o tios e primas, que a gente foi construindo com
e continuar tocando a vida. Esta situação cons- caixão, a minha mãe o tempo, porque eram pessoas que viviam as
tante de estar de um lado para o outro mais as mesmas experiências, as mesmas dores, vi-
inseguranças e os medos, refletiram para o res- beijou-lhe a mão, eu viam nos mesmos lugares e com quem a gente
to de minha vida. olhei, fecharam o caixão, tinha uma identificação muito grande, como
a tia Ilda, a tia Dina a tia Cida, tem a tia Cla-
Somos gratos ao Chile da época do presiden- levaram, enterraram ra, mulher do Marighella, tia Damaris, enfim
te [Salvador] Allende, que foi o único país que
naquele momento acolheu muitas pessoas, não e nós voltamos para construímos laços.

só brasileiros. Mas a nossa experiência anterior São Paulo. Foi uma Nós nunca tivemos antes oportunidade de
aqui no Brasil tinha sido muito amarga. conversar sobre isso ou colocar para fora esta
coisa super rápida” ferida que a gente carregou e estamos carregan-
Eu, na condição de criança, não estava pre- do há tantos anos. Porque foram momentos de
parada para nada naquele momento. Você A chegada em Cuba foi na condição de crian- terror e perda na vida da gente que nós carrega-
não tem infância e o fato de não ter infância, é ça que não sabe o que lhe espera, depois de mos a vida toda.
perder referências, não ter raízes verdadeiras. tanta coisa que aconteceu. Mas foi a melhor
Quando criança, a gente precisa de uma refe- coisa que aconteceu conosco. Lá nós fomos Nós não falamos sobre isso porque é um pro-
rência de pessoas com quem se conversa, que muito bem atendidos, recebidos, acolhidos. cesso, quando se é uma criança, primeiro você
vão guiar o teu caminho de certa forma. quer esquecer. Quando você já passou por tan-
Aí eu já estava com 11 para 12 anos. Acho que to terror, medo, perda, quando você chega num
E, como mudávamos muito, a gente não ti- minha irmã tinha 5, 6 anos. Em Cuba, tinha os lugar onde encontra paz, você quer esquecer
nha isso. Porque lugares são referências. Eu companheiros milicianos que usavam calça o que aconteceu, prefere não falar, prefere não
fui entender muito tempo depois porque pas- verde, camisa azul. Eu tinha medo de polícia tocar no assunto e quer desfrutar ao máximo
sei por isso, o quanto é importante para uma aqui no Brasil, no Chile eu tinha medo de po- esta paz e segurança que te é oferecida.
criança seguir o curso, ficar bastante tempo na lícia e claro, quando eu cheguei em Cuba, eu
mesma escola, com os mesmos amigos, com as tinha medo de polícia. E foi o que todos nós encontramos em Cuba.
mesmas relações. A cada mudança rápida na Aí eu retorno para o Brasil, veio a Anistia, aí já
vida são referências que você vai perdendo e Os companheiros brasileiros falavam, “Olha, não éramos mais crianças, já éramos todos jo-
não recupera mais. desta polícia aqui você não precisa ter medo. A vens. Todo mundo tinha 18, 19, 20 anos, maiores.
polícia aqui é amiga, eles não fazem nada, ao Aí vem a proposta do retorno ao Brasil.
Depois, a situação no Chile, a sobrevivência, contrário. Mas eu lembro que a gente, eu acho
foi ficando muito crítica, porque começaram a que não fui só eu, mas na época a gente queria A partir de 1979, 1980 começamos a voltar.
faltar coisas no supermercado, porque a direita manter distância de polícia”. Com o tempo, nós Se tivessem me dado a possibilidade de esco-

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“Com o tempo, nós lha, eu não teria voltado, porque as lembranças gostava. Acho que trazia à tona muitos trau-
de quando nós saímos daqui não eram boas. mas e lembranças amargas.
fomos entendendo Acho que foram as piores experiências da vida
que em Cuba a polícia de cada um de nós, e a volta sem perspectiva Aí depois a gente passa para uma etapa que
quer lembrar porque depois de adulto começo
nenhuma, em mim, provocou medo.
realmente representava a tentar entender o que tinha acontecido real-
a proteção e não Você volta sem família porque perdeu a sua
família biológica, criou novas famílias no ex-
mente comigo. Com alguns medos e insegu-
ranças que eu tenho até hoje, eu queria saber
agressão, não terior, que são os companheiros exilados. E as de onde eles tinham vindo. Aí você começa a
perceber que são daquela época. Mas isso nun-
assassinato como crianças dos exilados que estão lá que são os
teus primos, os adultos passam a ser seus tios, ca foi ouvido por ninguém também.
acontecia aqui passam a ser suas tias. Você é livre, estuda,
aprende, enfim, passa a ser gente, respeitado Primeiro, foi a sensação de insegurança. No
no Brasil” e de repente volta para o lugar que é teu país, início, eu não conseguia me adaptar de todo
mas é o lugar que te causou as maiores dores aqui no Brasil. Eu tive um problema sério de
de sua vida. E esse processo de retorno é muito adaptação. Mesmo depois que eu voltei de
difícil, para mim foi extremamente difícil. Cuba, eu morei muitos anos fora do Brasil. Fui
para a Nicarágua, como Brigadista de Solida-
Depois do nosso retorno ao Brasil, essa mo- riedade à Nicarágua. Voltei para o Brasil e re-
çada que foi criança para Cuba e voltaram cebi uma proposta de voltar para lá e trabalhar
jovens, parece que nos dispersamos de novo. com o Centro de Educación y Promoción Agrá-
Sempre digo que foi a segunda vez que perde- ria. Aí trabalhei lá por dois anos que foi quando
mos a família. Porque a família que nós tínha- eu conheci o meu ex-marido. Depois fui para
mos feito lá se dispersa novamente no retorno. a Alemanha, trabalhei, estudei, morei lá, en-
Aí é outra ruptura na sua vida. fim, vários anos. Voltei definitivamente para o
Brasil em 2006. Foi aí quando eu finalmente
Depois de alguns anos a gente começou a se percebi que não tinha uma boa relação com
procurar, porque cada um viveu as suas expe- o Brasil. Aí eu consegui entender isso, perce-
riências, se refez de certa forma, trabalhou, fez bi porque comecei sentir uma necessidade de
família. Cada um criou as suas famílias, casou, voltar para o Brasil.
separou. Mas todo mundo conseguiu, achou o
seu caminho, mesmo com dificuldades. Esta- Essa necessidade que eu senti de voltar para
mos querendo criar uma espécie de grupo dos o Brasil não é porque eu consegui resolver to-
Pátrias, da turma que esteve em Cuba. Porque dos os traumas do passado, porque eu acho
Cuba, sem dúvida, é o nosso país também. que jamais ninguém de nós vai conseguir re-
solver completamente tudo o que aquela situa-
Em Cuba, a última escola que eu estudei foi ção nos provocou, mas pelo menos você enten-
a Héroes de Varsovia. E, antes eu estudei lá na de “Eu sou assim por conta de tal situação... a
Orestes Gutierrez que era do primário a secun- minha vida ficou muito mal resolvida de tal a
dário. A Héroes de Varsovia era uma escola tal época, por isso... eu nunca consegui resolver
onde eu ficava a semana toda. Só aos finais de a minha vida naquela época por tal situação”.
semana eu ia para casa. E lá nós tínhamos tra- Ou seja, todas as experiências ruins que prefe-
balho voluntário, estudávamos, tinha atividades rimos esquecer por anos e anos refletem-se na
culturais, uma escola mesmo. Não era só tempo vida adulta, de alguma forma.
integral, mas era interna.
Eu acho que esse trabalho que está se fazen-
E aos finais de semana quando a gente ia do hoje de nos ouvir, para mim especialmente,
para casa de vez em quando tinha atividade, está sendo fundamental. Porque a gente con-
porque os companheiros brasileiros exilados segue falar pela primeira vez com o coração,
organizavam atividades. Eu não achava nem sobre isso... sobre aquela época.
muito agradável ir a essas atividades, ia mais
por uma questão de compromisso político em O meu avô foi um homem muito especial. Ele
relação aos companheiros, mas não porque eu era um operário e apesar de não entender direi-

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to o que acontecia, ele dava apoio incondicional pai por causa disso. Ele fez o que achou certo e “Eu não acho que
ao meu pai, ficamos muito tempo sem contato eu o respeito e admiro, mas logicamente se ele
com ele. No que precisamos dele, ele esteve pre- tivesse ficado no exterior e tivesse trabalhado o Brasil seja um país
sente. Cheguei a vê-lo vivo depois que voltamos um pouco mais este sentimento, talvez estivés- que proporciona
de Cuba. Ele ainda estava vivo e nós tivemos a semos juntos hoje.
felicidade de conviver um pouco com ele. segurança para
Eu não acho que o Brasil seja um país que
E como eu disse, foi uma pessoa muito proporciona segurança para ninguém. Eu nun- ninguém. Eu nunca
importante na minha vida, que sempre nos ca tive a sensação de acolhimento aqui. É uma tive a sensação de
apoiou muito. Inclusive, foram ele e uma pri- coisa que eu tento entender até hoje, não con-
ma minha que nos deram o maior apoio de- versei isso com o resto dos amigos, dos com- acolhimento aqui.
pois que nós voltamos de Cuba, porque nós panheiros da minha geração que voltamos do É uma coisa que eu
não tínhamos para onde ir, não tínhamos casa. exílio, mas tenho certeza de que cada um de
Você volta sem casa, sem família, sem raízes, é nós tem esta sensação. Apesar de ter volta- tento entender
um horror. Até hoje eu sinto a sensação e sem do, todos nós tivemos uma dificuldade muito até hoje”
dúvida nenhuma Cuba para mim representa o grande de readaptação.
meu porto seguro. E eu me propus ir a Cuba
todos os anos, se der. Primeira dificuldade que nós tivemos é que
você sabe da história da colonização da Amé-
Eu estive lá em novembro do ano passado e a rica Latina pelos espanhóis, aprende história
primeira coisa que fiz foi ir em frente ao prédio não com Pedro Álvares Cabral, mas com Cris-
que eu morava. Quando eu chego lá é assim: tóvão Colombo. Aprende literatura, mas estu-
grito o nome de um ou de outro e o pessoal da Rodolfo Becker, Cervantes (literatura es-
já sai dos apartamentos, vem, abraça, a gente panhola). Nós saímos daqui daquela maneira
morre de rir e relembra os velhos tempos. O como crianças, fomos exilados, de forma invo-
mais impressionante para mim é que mesmo luntária e quando você volta ao seu país, o seu
com os anos fora de Cuba, cada vez que a gen- próprio Estado, o Ministério da Educação olha
te chega lá é como se tivesse continuado lá. para você diz: “Não, o que você estudou não
Essa sensação é muito boa. serve, nós não vamos reconhecer”. Você se sen-
te novamente rejeitado, se sente novamente
Se hoje eu pudesse fazer a escolha, eu mora- não filho deste país. Se você se forma em Cuba,
ria em Cuba, sem dúvida. Tenho grandes ami- reconhecer o diploma aqui é uma dificuldade.
gas lá, amigos, e pessoas que são muito impor-
tantes para mim. Uma coisa para mim foi crucial: a emoção
que eu sinto cada vez que eu volto para o Bra-
Eu tenho uma filha, a Janaína, que está moran- sil. Comecei a entender de forma mais profun-
do na Alemanha. Ela nasceu aqui mas cresceu lá da porque Cuba para mim é muito mais pátria
e ficou difícil para ela voltar quando eu decidi que o Brasil. O meu sentimento com relação a
retornar. Agora moro em Brasília e minha mãe Cuba cada vez que eu desembarco lá e o meu
em Campinas, no interior de São Paulo. sentimento cada vez que eu desembarco no
Acho que sem dúvida nenhuma, um dos Brasil são diferentes, emoções diferentes. Por-
pontos fundamentais que levaram à volta do que lá eu fui acolhida, eu fui respeitada, aqui eu
meu pai ao Brasil foram as saudades que ele nunca fui realmente acolhida.
sentia. Há pouco tempo eu li um livro Seu Ami- Quero expressar a minha gratidão aos com-
go Esteve Aqui – A História do Desaparecido panheiros que ficaram no Brasil e continuaram
Político Carlos Alberto Soares de Freitas, de a luta de resistência contra a ditadura, presos ou
Cristina Chacel, em que um dos companhei- soltos e clandestinos, foram parte fundamental
ros que esteve com ele na época fala sobre para a redemocratização do nosso país.
isso. Ele conheceu bastante o meu pai e disse
que duas coisas que fizeram meu pai retornar
ao país foram: um era a saudade insuportável SUELY COQUEIRO nasceu em Prado (BA), em 29 de
da família e a outra coisa era a necessidade de novembro de 1960. Atualmente mora e trabalha em
continuar a luta. Eu jamais vou culpar o meu Brasília (DF).

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por Célia Coqueiro

Meu nome é Célia Silva Coqueiro, sou filha de to fuzilado em 6 de fevereiro, seis dias depois Eu tinha só 3 anos e meio, mas me lem-
Isaura Silva Coqueiro e Aderval Alves Coqueiro. de sua entrada no Brasil, em 30 de janeiro. Na bro de uma cena muito clara. Minha mãe me
Meu pai era militante. Primeiro ele foi do Parti- verdade, o aparelho onde ele estava no Rio de conta que isso realmente aconteceu. Está-
do Comunista, fez um trabalho de base com os Janeiro foi entregue por um dos companheiros vamos muito próximas do presídio, já quase
metalúrgicos do ABC, participou da Fundação com quem treinou em Cuba e que retornou an- entrando. Minha mãe me vestia com aquelas
do Sindicato dos Metalúrgicos e com o avanço tes ao Brasil. E, naquele momento, trabalhava calcinhas cheias de renda e ela enfiou os
do golpe ele acabou caindo na clandestinidade para a repressão. maços de cigarro na calcinha para poder dar
e participando das organizações armadas. En- ao meu pai.
tão foi para a Ala Vermelha do PCdoB, e depois, Quando eu nasci, em julho de 1965, meu pai
numa divergência, fundou com o Devanir de militava tanto no sindicalismo como na Ala Ver- Também me recordo que, enquanto meu
Carvalho o Movimento Revolucionário Tira- melha do PCdoB. Ele era muito ativo dentro das pai estava preso, minha mãe tinha pontos
dentes (MRT), que foi a última organização na atividades políticas e, portanto, muito visado com os companheiros de organização de meu
qual meu pai militou. Ele foi preso em maio de pelas forças de direita, pela polícia política. Lem- pai, como o Devanir. Ele pedia para a minha
1969, quando eu ainda não tinha 4 anos comple- bro-me muito pouco disso porque era muito pe- mãe passar informações para o meu pai. E,
tos. Foi preso pelo delegado Sérgio Paranhos quena. Minha irmã, que é cinco anos mais velha, numa determinada época, ele passou um bi-
Fleury, levado ao DOPS/SP e torturado. Ficou deve se lembrar de muito mais coisas do que eu. lhete todo enroladinho. Minha mãe costurou
três meses incomunicável, sendo torturado, e esse bilhete na barra da saia dela para poder
depois foi levado para o presídio Tiradentes, “As pessoas me perguntam levar essa informação, que nem ela podia ler,
para o meu pai.
onde ficou mais uns sete meses. se me lembro do meu
No total, ele ficou preso um ano e só saiu tro- pai e o que eu posso dizer Eu não me recordo da fase em que meu pai
saiu banido, em junho de 1970, trocado pelo
cado pelo Embaixador alemão. O rapto do em-
baixador alemão ocorreu em junho de 1970, um é que me recordo de Embaixador alemão. Mas minha mãe conta
que nós não fomos ao aeroporto. As notícias
ano depois da prisão de meu pai. O nome dele uma visita que fiz a ele saíam no jornal, e meu pai escrevia muito
foi um dos que foi solicitado entre quarenta
presos políticos trocados pelo embaixador. Ba- quando foi preso” para nós da Argélia. Eu tenho todas as car-
nido, foi para a Argélia e de lá para Cuba, fazer tas, que anexei junto ao processo de Anistia
treinamento de guerrilha porque a ideia dele Acho que o nosso psicológico é muito estra- dele. Tem uma das cartas, inclusive, que ele
era retornar ao Brasil para continuar a luta. nho. Às vezes apagamos coisas que não quere- manda para os companheiros do presídio
mos lembrar e lembramos de coisas que que- Tiradentes. Eu as guardo com muito cuida-
Depois do treinamento em Cuba, ele retor- remos. As pessoas me perguntam muito se me do, já estão todas amarelinhas, se desfazendo.
nou ao Brasil num esquema da VAR-Palmares, lembro do meu pai e o que eu posso dizer é que Ele sentia muitas saudades, e as cartas eram
que foi comandado pelo James Allen. Foi mor- me recordo de uma visita que fiz a ele quando muito íntimas. Ele sabia que todas as cartas
foi preso. Eu fui ao presídio Tiradentes, onde seriam interceptadas, e por isso não falava
era proibido receber cigarros e o meu pai fu- além do que tinha que falar, de saudades da
À esquerda, Célia no Hotel Havana Libre
em Havana, Cuba, 1973 mava muito. família, das filhas.

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Num dos meus aniversários ele me man- dele. Você é a esposa dele”. E minha mãe fez
dou um cartão com um cachorrinho. Eu tive exatamente isso. Lembro-me que foi uma
um cachorrinho dado por ele e que se cha- Kombi que nos levou até a rodoviária para
mava Brinquedo, mas, sem querer, meu pai embarcarmos para o Rio de Janeiro. A única
acabou o matando atropelado. Tenho esse coisa que eu me recordo desse dia é a minha
cartão até hoje. Tenho todas as coisas, como mãe chorando. Quando a vizinha foi avisá-
uma caneta que ele fez para nós no Presídio -la, ela abaixou a cabeça e eu deitei no colo
Tiradentes. São coisas que a gente guarda dela para ver porque ela chorava. Eu não
com muito carinho. Na verdade, é um tesou- sabia que o meu pai estava morto, a minha
ro familiar. Papai sabia que as cartas esta- mãe não falou.
vam sendo interceptadas. Ele mandou uma
para os companheiros do presídio Tiraden- Minha mãe é uma pessoa muito forte, ra-
tes, principalmente direcionada aos Car- ramente chora. Então eu acho que essa mi-
valhos, com quem tínhamos uma relação nha reação de deitar no colo dela e olhar é
muito especial. Éramos como uma família, porque eu queria ter certeza que ela estava
da mesma organização política e tínhamos chorando. Só fiquei sabendo da morte quan-
um vínculo muito forte de amizade. Meu pai do chegamos no Rio. Foi uma viagem muito
mandou cartas para minha mãe mesmo sa- longa, nós fomos de ônibus, chegamos de
bendo que seriam interceptadas. Ele envia- madrugada. Logo cedo fomos procurar pelo
va as cartas de Cuba para Argélia e de lá um corpo do meu pai. Era semana de Carnaval,
companheiro mandava com endereço da dia seis, sete de fevereiro e me lembro que
Argélia para a minha mãe. Então ela acha- chegamos e tivemos de retornar para São
va que ele, de fato, estava na Argélia. Nós Paulo sem ver meu pai. Chegando lá, mi-
nunca imaginamos que eles estivessem nha mãe falou: “Mataram o pai de vocês. Ele
em Cuba treinando. Ele ficou pouco tempo Postal enviado por Aderval para Célia voltou [para o Brasil] e fuzilaram ele e nós
na Argélia. Foi para lá em julho e no final estamos aqui para poder enterrá-lo”. No Rio,
do mesmo mês, começo de agosto, já tem disseram para minha mãe e para o meu avô,
registro dele em Cuba, visitando a Damaris, pai do meu pai, que não poderiam entregar o
a tia Tercina. Ele ficou uns três, quatro meses “Uma vizinha foi até corpo, porque era Carnaval, feriado e eles esta-
vam fechados.
em treinamento em Cuba. Foi um treinamento a casa da minha mãe
meio relâmpago e então ele pediu para o James Primeiro minha mãe foi ao DOPS, onde fa-
fazer um esquema de retorno ao Brasil. e disse “Isaura, o seu laram: “Nós não sabemos, ele deve estar ali
Recebíamos essas cartas e realmente acháva- marido é Aderval Alves no IML em frente”. Ela foi ao IML e lá disse-
ram que não iriam atender. “E quando vocês
mos que meu pai estava na Argélia, até porque Coqueiro? Acabaram podem atender?”, minha mãe perguntou. “Nós
dizia que estava preparando a nossa ida para
lá: “Sinto muitas saudades, mas estou me esta- de matar ele no Rio de podemos atender quando passar o Carnaval”,
disseram. Retornamos a São Paulo, esperamos
bilizando para poder trazê-los, uma vez que es- Janeiro, num tiroteio” passar três, quatro dias e voltamos ao Rio no
tou banido”. Ele sabia que a repressão lia essas
cartas e as escrevia de propósito. primeiro dia útil com o meu avô. Lá, falaram
que era melhor o meu avó entrar para reco-
Minha mãe recebia cartas do meu pai sema- no aqui no Brasil, não sabia que meu pai estava nhecer o corpo, porque a minha mãe estava
nalmente e por isso estranhou quando ficou retornando. A Pedrina, viúva do Devanir, conta muito mal e o corpo estava muito machucado.
quinze, vinte dias sem notícias, nem carta, nem que quando ele soube a notícia no aparelho e Meu avô entrou. Acho que ele ficou com essa
cartão. Ela pensou que talvez ele estivesse via- ele levou um susto tão grande quanto a minha impressão na cabeça dele até os últimos dias
jando pelo interior da Argélia. E, então, ficou mãe. Ele ficou enlouquecido quando viu a no- de sua vida porque sempre que me via, falava:
sabendo da morte dele por uma vizinha, que viu tícia no jornal. Ele jogou o jornal em cima da “Minha filha, quando puxaram a gaveta onde
no noticiário, e foi até a casa da minha mãe e mesinha de centro e começou a chorar. Essa foi seu pai estava, tinha sangue embaixo, o san-
disse “Isaura, o seu marido é Aderval Alves Co- a reação que ele teve. gue estava coalhado”. Porque passaram muitos
queiro? Acabaram de matar ele no Rio de Janei- dias e o corpo dele parecia uma renda.
E a minha mãe leva um susto tal que a pri-
ro, num tiroteio”. O Vitor Papa Andreu, que foi a
meira reação dela foi ligar para a Dra. Nina, Meu avô comparava o corpo do meu pai
pessoa que entregou ele, sabia desse esquema.
advogada que dava apoio à Ala Vermelha, como uma renda. Foram mobilizados cinquen-
Inclusive o próprio companheiro de organi- MRT. Ela falou “Isaura, pegue as meninas, o ta homens para pegá-lo. Foi uma operação tão
zação, o Devanir que também estava clandesti- seu sogro, vá ao Rio de Janeiro e peça o corpo gigantesca, tão absurda para pegar um homem.

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E eles abriram fogo mesmo, como os vizinhos ela: “Isaura, esses documentos não me servem logo depois o meu pai corria de aparelho para
contam. Ano passado fui visitar o aparelho para mais nada, guarde que para você talvez aparelho, porque estava clandestino e a polícia
onde meu pai estava, e a companheira que le- algum dia sirvam”. podia chegar a qualquer momento, toda vez
vava alimentação no aparelho, contou que pro- que caía um companheiro preso, que sabia a
curou os vizinhos, que contaram que ele ten- Então os companheiros acharam melhor co- localização do aparelho, a gente saía correndo,
tou fugir, pulou o muro, correu e quando estava meçar a fazer a articulação da nossa saída para largava tudo, tinha que procurar outro espaço.
subindo, escalando o muro, que era muito alto, fora do Brasil. O viável seria o Chile, onde es- A sensação de insegurança me acompanhou
abriram um fogo assim sem tamanho e o fuzi- tava o Salvador Allende. O pessoal que corria por muitos anos, inclusive no Chile, que era
laram. Então ele estava muito furado mesmo. perigo aqui no Brasil acabava indo para lá, que um lugar em que estava o Salvador Allende, e
Imagino que foi por isso que o meu avô ficou era um governo democrático, muito aberto e tal. a gente podia se sentir segura. Mas só fui me
com essa impressão. Ele ficou falando isso até Acabamos indo para lá. Meu pai foi morto em sentir segura quando cheguei em Cuba, em
os últimos dias de vida. Toda vez que ia visitá- fevereiro de 1971 e nós saímos só em novembro 1973, por sorte cinco meses antes do golpe do
-lo no aniversário ou no Natal ele falava isso. desse mesmo ano, porque a minha mãe tinha Pinochet, e foram os cubanos, inclusive, que
Morreu há cinco anos. Meu pai era o filho ca- muita resistência a sair do Brasil, ela não que- providenciaram nossa ida para lá.
çula. Eram duas meninas e um menino e nós, ria. Na verdade, ela queria ficar com o meu avô,
mas os companheiros acharam que era melhor Meu pai morreu muito cedo, com 33 anos,
nem o meu avô, nem minha mãe, nunca mais
assim por uma questão de segurança. E fize- mas devo dizer que ele foi muito afortunado,
fomos os mesmos depois desse fato.
ram muito bem, afinal depois ficamos sabendo porque teve os melhores amigos e companhei-
Eu me lembro do meu pai no caixão e da mi- que muitas viúvas acabaram sendo presas e ros que um homem poderia ter. Nós fomos
nha mãe se debruçando, se jogando em cima e até torturadas. E tudo porque achavam, embo- muito, muito amparados pelos companheiros,
passando a mão na testa dele, onde havia um ra não soubessem, que as esposas sabiam coi- foram a minha família. Eu digo que cresci no
hematoma muito grande. Não sei se bateram sas. Tanto que a minha mãe conta que quando exílio, cresci em Cuba e as minhas tias são a
nele depois dos tiros ou se o machucado foi o meu pai foi preso, que ela ia ao DOPS pedir minha família da Revolução, dos companhei-
porque ele caiu. Inclusive o meu avô disse que o informações e falavam que ele não estava lá. E ros que foram presos com o meu pai, que fo-
corpo também estava muito machucado, tanto eles perguntavam para a minha mãe “Mas você ram torturados e que lutaram pela mesma cau-
que a gente tinha dúvidas se não tinham leva- sabia das ações do seu marido?” “Não sabia de sa, uma causa justa. Porque meu pai não era
do ele vivo e o torturado. Depois é que ficamos nada”, ela dizia. Aí eles chegaram a falar assim: terrorrista, só queria a justiça social, acabar
sabendo que não, realmente ele morreu na hora. “Ela não sabe de nada agora, mas na hora que com a exploração, queria que todos pudessem
Lembro-me dela se debruçando em cima do cai- ela cair aqui dentro, fala tudo”. ter uma vida digna, que, diga-se de passagem,
xão e me lembro muito claramente da cor dele, naquela época os operários não tinham a vida
que era violeta escura. que têm hoje, porque de lá para cá já tivemos
“Eu perdi o meu pai, muitas conquistas.
E aí nós o enterramos, eu me lembro da
caminhada dentro do cemitério, o caixão na
mas acho que não foi Eu perdi o meu pai, mas acho que não foi
frente. Retornamos naquela situação terrível. em vão ele ter lutado em vão ele ter lutado tanto. O preço foi alto,
Também havia um monitoramento em cima mas nós ganhamos a guerra moral. Perdemos
da casa do meu avô. Nós morávamos com ele tanto. O preço foi alto, a guerra bélica; mas ganhamos a guerra moral.
em Diadema e ele foi levado, inclusive, porque mas nós ganhamos a Estamos aqui denunciando os assassinos, fací-
achavam que a minha mãe e o meu avô sabiam noras, torturadores, que não respeitaram nem
do retorno do meu pai. Quando levaram o meu guerra moral. crianças, porque até as crianças dos compa-
avô para interrogatório, os companheiros co- Perdemos a guerra nheiros eram presas.
meçaram a ficar com medo de também leva-
rem a minha mãe, que estava em frangalhos. bélica; mas ganhamos Falamos da família da Revolução porque
crescemos juntos, foi essa família que eu co-
Todos estávamos, mas ela nunca se recu- a guerra moral” nheci. Só fui conhecer a minha família de san-
perou, nunca conseguiu recompor a vida gue com 14 anos, depois da Anistia. Eu não te-
amorosa, nunca mais se casou. Ela ficou com Então existia essa ameaça em cima das espo- nho vínculo muito forte com a minha própria
um trauma muito violento. Guardou por mui- sas dos militantes, até dos próprios filhos. Fi- família de sangue porque a ditadura me tirou
tos anos uma camisa do meu pai, a última cávamos muito vulneráveis, porque não sabía- isso. Claro que tenho o outro lado, a riqueza
camisa. Ela devia ter essa camisa guardada mos o que podia acontecer conosco, existia um dos companheiros, como eu falei, o meu pai foi
até pouco tempo. Temos também todos os medo muito grande. Eu só consegui me sentir afortunadíssimo, porque teve companheiros
documentos do meu pai (carteira de reservis- totalmente segura quando cheguei em Cuba. que arriscaram as suas vidas para nos tirar dos
ta, identidade, carteira de trabalho) até hoje Nem no Chile me sentia totalmente segura. aparelhos, quando o meu pai foi preso, como
guardados. Meu pai quando caiu na clandes- Sentia-me tão insegura nessa situação de ter foi o caso do Roberto, do James Alley, que nos
tinidade entregou para a minha mãe e disse à que correr, porque a minha vida foi essa: nasci, tirou do aparelho. E temos os companheiros

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que articularam a nossa saída do Brasil, os que ginásio no Colégio Equipe. Depois continuei dos (o meu pai, inclusive, porque as marcas das
nos receberam no Chile como o Rafael de Fal- fazendo colegial, fui prestar vestibular, fui torturas eram evidentes quando íamos visitá-
co Neto, figura fantástica. Ele até aconselhou a aprender o português, porque falava portu- -lo na prisão). Mas nunca se acostuma a escu-
minha mãe, que queria voltar do Chile para o guês com a minha mãe em casa, mas não sa- tar. Sempre que escutamos um novo relato é
Brasil: “Não, Isaura, vá para Cuba, lá as meninas bia escrever, não tinha gramática. Fui alfabe- muito doído, dói demais. E é uma sequela que
vão poder estudar, vocês vão ter tranquilidade”. tizada em espanhol. Então, a minha primeira se leva, mas também levamos essa experiên-
língua pode-se dizer que foi o espanhol. Dessa cia, essa bagagem toda.
Um ano, um ano e meio depois da morte do forma, cheguei no Brasil e fui aprender a es-
meu pai a minha mãe ainda estava totalmente crever o português, eu fui aprender geografia, Postei a foto do meu pai uma vez, tirada
desnorteada e ficou por muitos anos assim. Es- história brasileira. Até então eu sabia a his- no Presídio Tiradentes, e o Gregório, filho do
tou falando o nome de alguns companheiros, tória, geografia de Cuba, os heróis cubanos, Virgílio, que cresceu com a gente em Cuba,
mas evidentemente temos inúmeros, inclusive Antonio Maceo, José Marti, mas não sabia perguntou para mim “O que você diria para
os companheiros cubanos, que nos receberam quem era Tiradentes. Então, com 14 anos co- esse jovem, porque hoje você é mais velha do
com tanto amor e nos deram tudo. mecei a aprender o que era o meu país. Nos foi que ele?”. Porque meu pai era jovem, tinha 30
tirada muita coisa, sim. anos quando foi preso. Eu respondi: “Faria
Em agosto de 1979, retornei ao Brasil com a exatamente igual a ele, nem um milímetro
Anistia. Foi incrível, porque voltamos nos dia diferente, nada”. Acho que ele foi um grande
em que foi decretada a Anistia. O advogado “A ditadura nos guerreiro. Eu o perdi, mas tenho certeza que
Idibal Pivetta foi a Cuba justamente para po- até o momento do último suspiro ele não se
der formatar, estruturar o nosso retorno para tirou a infância, arrependeu, porque estava lutando por aqui-
o Brasil, porque como nós não tínhamos nem
passaporte, precisávamos retornar com o sal-
nos tirou metade lo que acreditava. Ele me deixou esse legado
“Lute toda a sua vida por aquilo que você acre-
vo conduto da ONU. A Anistia estava para sair da juventude, nos dita, por aquilo que você acha justo. Mesmo
e o Idibal sabia disso. Ele alertou a minha mãe,
mas ela não queria esperar, “Não, eu quero re-
deixou com sequelas. que isso signifique a sua morte, nunca deixe
de fazer isso”. É a entrega total de um ser hu-
tornar”, já retornaram outros companheiros, Nos tirou nossos mano para uma causa, isso não tem preço. É
faltavam cinco meses para a Anistia e a minha
mãe falou “Não, pode fazer o meu retorno” e aí
pais guerreiros, um orgulho total dele e dos companheiros
dele. Faria tudo igual a ele, acho que ele fez
o Idibal começou a trabalhar nisso. militantes, tios” tudo certinho.
Quando saímos de Cuba, ficamos uma se-
A ditadura nos tirou a infância, nos tirou me-
mana no Peru aguardando o salvo conduto da CÉLIA SILVA COQUEIRO nasceu em 25 de Julho de 1965
tade da juventude, nos deixou com sequelas.
ONU, as passagens e tudo. E aí chegaram as em São Bernardo do Campo (SP). Filha de Aderval Co-
Nos tirou nossos pais guerreiros, militantes, queiro e Isaura Silva Coqueiro, começou a estudar bal-
passagens e, no dia que íamos embarcar, fo-
tios. Paradoxalmente, nos deu uma bagagem let clássico em Cuba e continuou no Brasil. Trabalhou
mos ao centro de Lima, porque a minha mãe na ASTC (Asociación Sandinista de Trabajadores de La
de vida, que poucos têm, porque nós, hoje,
queria fazer umas compras. E quando retor- Cultura) em Manágua/Nicarágua durante o processo da
temos maturidade. Nós, essas crianças, aca-
namos, escutamos no rádio do táxi: “No Brasil Revolução Sandinista (1987 a 1990). Trabalhou no Brasil
bamos amadurecendo à força, a ferro e fogo. implantando projetos de formação de técnicos na área
acabou de ser decretada a Anistia ampla”. Ou
Com 13 anos, eu lia A Revolução dos Bichos e cultural focado na dança para crianças carentes no Para-
seja, nós embarcamos meia-noite, chegamos ná e em São Paulo. Hoje faz faculdade de Gestão de Polí-
1984. Porque o povo cubano é muito culto. Eles
cinco, seis horas da manhã e fomos os primei- ticas Públicas e trabalha no Poder Público de São Paulo.
podem não ser ricos financeiramente, mas é
ros a pisar no solo brasileiro, já com a Anistia
um povo muito culto, porque se promove mui-
decretada. E o meu pai foi o primeiro banido
to a leitura, o debate. Até nisso na escola, na
a retornar morto.
volta ao Brasil, eu era muito mais madura que
Aí fomos reestruturar toda a nossa vida no as minhas colegas. Foi muito difícil entender a
Brasil, que não foi fácil. No meu caso, conhecer linguagem, por exemplo, porque enquanto eu
a família de sangue, que eu não conhecia, por- falava de militância política, elas falavam de
que saí muito pequena do Brasil. A família que outras coisas que para mim eram totalmente
conhecia era a dos companheiros de luta dos alheias ao meu conhecimento.
meus pais. Tivemos infância perdida e meia ju-
ventude perdida também, porque a gente leva Isso é o que me lembro da minha infância.
sequelas, que não são poucas, são muitas. Foi uma infância dolorida. Tivemos uma perda
grande. Não só a do meu pai mas a de outros
Voltei de Cuba com 14 anos. Já estava termi- companheiros. Eu cresci escutando histórias
À direita, Célia se prepara para
nando o ginásio, cheguei aqui e fui concluir o de companheiros que foram mortos, tortura- apresentação de ballet clássico

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Aderval Alves Coqueiro nasceu em 18 de julho
de 1937, em Aracatu (BA). Filho de José Augusto Coqueiro
e Jovelina Alves Coqueiro. Morto em 6 de fevereiro de 1971,
no Rio de Janeiro. Militante do Movimento Revoluvioná-
rio Tiradentes (MRT). Casado com Isaura Silva Coqueiro,
com quem teve duas filhas, Suely e Célia.
Como candango, participou da construção de Brasília
(DF). Desde 1961, passou a viver em São Paulo, onde tra-
balhava como operário da construção civil. Iniciou cedo
sua militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Desligou-se desse partido e passou a integrar o Comitê
Regional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cen-
trando suas atividades na zona rural. Posteriormente, in-
gressou na Ala Vermelha, uma dissidência do PCdoB. Pas-
sou a viver em São Bernardo e Diadema, na grande São
Paulo, quando trabalhou como operador de máquinas e
vendedor autônomo.
Preso em 29 de maio de 1969, na 2ª Companhia da Polí-
cia do Exército (PE), em São Paulo, foi transferido para
o DOPS/SP e torturado pelo delegado Sérgio Paranhos
Fleury. Finalmente, permaneceu encarcerado no Presídio
Tiradentes. Em junho de 1970, foi banido do território bra-
sileiro, por ocasião do sequestro do embaixador da Ale- Família Coqueiro
manha no Brasil, Ehrenfried von Holleben, ocorrido em 11
1. Foto em família, Aderval
de junho de 1970, dirigindo-se para a Argélia com outros
em pé com a mão no ombro
39 presos políticos. Deslocou-se para Cuba, onde realizou de Isaura
treinamento de guerrilha, e retornou ao Brasil como inte- 2. Suely em Brasília (DF), 1961
grante do MRT. 3. Célia em Brasília (DF), 1961
Coqueiro foi o primeiro banido a retornar ao país. Regres- 4.Coqueiro tocando violão com
sou ao Brasil em 31 de janeiro de 1971, indo morar em um amigos, em Brasília (DF), 1963
apartamento no bairro Cosme Velho, Rio de Janeiro, onde
foi localizado e morto em 6 de fevereiro de 1971. 1
Segundo testemunhas, uma grande área do bairro foi cer-
cada pelos agentes policiais com o objetivo de evitar sua
fuga. Assim que os policiais do DOI-CODI/RJ invadiram o
apartamento, começaram a atirar. Coqueiro foi abatido
pelas costas no pátio interno do prédio.

Isaura Silva Coqueiro nasceu em Almenara,


pequena cidade de Minas Gerais, em 21 de abril de 1941.
Filha de José Américo Alves da Silva e Amélia Alves da Sil-
va. Ainda pequena mudou-se para o sul da Bahia com a
família, onde conheceu e casou-se com Aderval Alves Co-
queiro, sendo a cerimônia religiosa realizada quando ela
tinha 17 anos. No final de 1960 nasceu a primeira filha do
casal, Suely. Mudaram-se para Brasília em 1961, cidade na
qual se realizou a cerimônia civil de casamento em 17 de
julho de 1962.
Em 1963 a família decidiu se mudar para São Paulo em 2 3
busca de melhores oportunidades de trabalho. Em 1965,
em São Bernardo, região metropolitana paulista, nasceu
a segunda filha, Célia.
Quando Aderval foi preso, em 1969, e banido do país na
troca do embaixador alemão em 1970, Isaura permaneceu
no Brasil com as filhas.
Saíram do Brasil somente um ano após o assassinato de
seu marido, em 1971. Permaneceram durante um ano no
Chile e, após o golpe militar chileno, mudaram-se para
Cuba. Lá ficaram por 7 anos, retornando ao Brasil após a
da Lei da Anistia em 1979.

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6

5. Em Diadema, onde 7
Aderval fundou a
primeira Sociedade
de Amigos de Vila
Nogueira
6 e 7. Fotos de Aderval
Coqueiro tiradas no
5 DOPS, pouco antes do
banimento

Os documentos
8. Documentos de Aderval entregues à
Isaura antes de entrar na clandestini-
dade: “Isaura, esses documentos não
me servem para mais nada, guarde que
para você talvez algum dia sirvam”
9. Fichas de Aderval do DOPS

A manchete
10. Manchete de jornal onde a família tomou
conhecimento da volta cladestina de Aderval ao
Brasil e sua morte imediata – documento encontrado
em prontuário do DOPS, no Arquivo do Estado
de São Paulo

10

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(Transcrição da carta à direita)

Argel, 14 de julho de 1970.

Querida Isaura

Beijos com muito amor para você, Suely e Célia.


É com muitas saudades que passo a escrever-te
esta cartinha, para dar-te minhas notícias e ao
mesmo tempo desejando obter as tuas. Nós
estamos bem de saúde.
O tratamento aqui é ótimo, o povo é cem por
cento, mas temos o problema de não falar
a mesma língua, mas já começamos a nos
adaptar, o que mais prejudica é a saudade,
tenho saudades de tudo, tenho saudades até
das visitas, daqueles papos que nós batíamos,
não consigo esquecer um minuto de ti, das
meninas, de pai e dona Amélia. Lembro também
e sinto saudades dos companheiros que ficaram
presos, enfim sinto saudades de tudo, só não
sinto saudades desta maldita prisão, é lógico,
não posso sentir saudades de um ambiente tão
horrível, porque gosto muito da liberdade não só
para mim, mas para todos, todo ser humano tem
direito à liberdade e tem o direito de ser feliz.
Dê lembranças a todos os parentes e amigos,
abraços para o velho e dona Amélia, sempre com
esperança, despeço, beijos na Célia e Suely por
mim, e mais beijos de quem tanto te ama.
Aderval

(Transcrição da carta à esquerda)

Argel, 16 de julho de 1970.

Prezados companheiros do Presídio Tiradentes, Daniel José de Carvalho e mais todos,

Desejo que ao receber esta, estejam todos bem de saúde, pois isto para mim é motivo
de satisfação. Penso que a situação para vocês deve ter piorado, depois dos últimos
acontecimentos, mas mantenham calmos, com calma e coragem tudo se vence.
Companheiros, a nossa viagem foi boa, um pouco cansativa devido à distância, muitas
horas de viagem, mas aqui as coisas são diferentes, já estamos todos recuperados quem
estava rebentado foi submetido a tratamento, também estão bons. Agora depois das
festas da alegria e da emoção, vem a saudade, a preocupação com a situação de vocês e
de nossas famílias, ainda não recebi cartas de casa, já enviei duas cartas e um telegrama,
tudo isto deixa a gente preocupado, mas espero que tudo seja resolvido. Podem estar
certos de que não esqueço vocês, sofremos juntos um bom tempo e isto deixa na gente
um apego aos companheiros. Envio abraços a todos vocês, um abração a Pereira, Beto,
Takao, Manoel Cirilo, Fernando, Marujo e mais todos sem exceção. A Joel, Jairo, Ancelmo
e você. Aquele abraço de um companheiro que podem estar certos não esquece vocês.

Aderval Alves Coqueiro

Um abração aos dois Sérgios, Takaoka, Alípio,


Roque, enfim a todos.

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A vida em Cuba...
1. Célia com Domingos Leon, combatente venezuelano
e amigo da família
2. Suely aos 12 anos (fazendo 3 com os dedos), Isaura,
Isabel, filha de Virgílio e Ilda Gomes com 3 anos, e Célia
com 7 anos no Hotel Havana Libre onde viveram
ao chegar em Havana, Cuba, 1973
3. Na sequência, Suely e Isabel, 1973

1 2 3

4. Isaura no prédio onde moravam


em Havana, Cuba, 1973

5. Célia com a Maria Antonia, filha de


Antonio Benetazzo, falecida de choque
anafilático aos 3 anos e meio, em
Havana, Cuba
6. Festa de 15 anos de Suely e dos
gêmeos Denise e Ailton Lucena, em
Havana, Cuba, 1975
4 6

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“Minhas filhas
por Isaura Coqueiro

O impacto da ditadura na vida das minhas fi-


lhas foi muito grande, muito difícil. Vivíamos
clandestinos, mudando de um lugar para outro,
nunca parávamos. Foi difícil para a mais velha,
Suely, começar na escola. Ela foi estudar mesmo
só depois que o pai foi preso porque naquele tem-
po não podia usar o sobrenome dele na escola,
porque ele estava sendo procurado. A outra, Cé-
lia, era menor, mas mesmo assim sofreu porque
essas mudanças impactavam nosso sistema ner-
voso. O marido sendo procurado, a qualquer hora
podia ser preso, como foi mesmo. E gente não
sabia se ele estava vivo ou morto.
Embora minhas filhas não reclamassem, a gente
sentia que não era fácil, ir de um lugar para outro,
elas não tinham liberdade para brincar com ou-
tras crianças. Quando a gente alugava uma casa,
aparelho, elas não podiam fazer amizade com os
vizinhos, visitar os vizinhos nem receber visita.
Era assim em São Paulo e no Mato Grosso. Porque
fomos para o Mato Grosso por um ano, antes de
ele ser preso. Meu marido ficava em São Paulo e
nos mandou primeiro para a Bahia e depois para
o Mato Grosso. E ia nos ver a cada três meses. De-
pois, na época que ele estava muito procurado em
São Paulo, fomos de novo para o Mato Grosso. Fi-
camos lá os meses de fevereiro, março e abril de
1969. No dia 29 de maio de 1969 ele foi preso.
Eu não sabia se ele estava vivo ou morto, só
sabia que tinha tido um tiroteio. Comprei um jor-
nal, onde não se dizia se ele estava vivo ou mor-
to. Depois de muito tempo que eu fiquei sabendo
que ele estava preso, que o pai dele já estava fa-
zendo visitas.

Isaura e Suely em Brasília (DF), 1963

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ficaram numa espécie de prisão”

Voltamos para São Paulo. Fomos morar clandes- entrado em contato comigo ainda, ele estava no o povo cubano é muito solidário, muito alegre.
tinos e as meninas não podiam nem estudar nem Rio e eu em São Paulo. Lá era tranquilo, as meninas puderam estudar, a
brincar com os vizinhos. E elas se ressentiam de gente tinha tudo, os cubanos davam tudo, casa,
não poder brincar com as meninas da vizinha. Tivemos que ir para o Rio. Levei as crianças, moradia, escola das meninas. Foi a época que fi-
que viram o pai morto no caixão. A Célia, que ti- camos mais tranquilas.
Durante a clandestinidade elas ficaram numa nha 4 anos, fala: “Eu não lembro muito do meu
espécie de prisão. Não era em todo lugar que eu pai, não lembro muito da cadeia. A lembrança Eu não fui presa, mas não podia voltar para o
podia levá-las para passear. Isso afetava a gente e maior que eu tenho é dele no caixão”. Brasil, porque tinha a morte do meu marido e po-
afetava as crianças também. Sobre o pai estar dis- dia ser presa.
tante, eu explicava para as meninas que ele estava Foi muito difícil para mim, para as meninas, para
o meu sogro. Foi um susto muito grande, a gente Aí chegou a época da Anistia e foi quando vol-
trabalhando. Eu dizia “o pai foi para São Paulo”.
não esperava que ele estivesse no Brasil e de re- tei ao Brasil. Fui a segunda pessoa a voltar, pri-
A Suely começou a estudar com 8, 9 anos; quan- pente vimos na tevê que tinha sido assassinado. meiro veio uma amiga nossa, e depois nós. Che-
do o pai foi preso eu matriculei ela na escola. Meu Foi a vizinha que viu a notícia com o nome do meu gamos no dia da Anistia. Tinha um advogado, o
marido ficou preso por um ano. Eu levava elas para marido envolvido e foi em casa me chamar. Idibal Pivetta, aqui no Brasil que esteve em Cuba.
visitar o pai na prisão. A mais velha ia a cada quin- Conversamos com ele, que ficou preparado para
ze dias por conta da escola, para não faltar na aula Como podiam ficar perseguindo a mim e às receber pessoas que estavam voltando do exte-
todas as vezes que íamos visitá-lo. A pequena eu meninas, nós fomos embora do Brasil. Fomos rior, de Cuba. Ele nos recebeu, nos esperou no
levava toda vez que ia, às quartas-feiras. para o Chile, onde moramos um ano e pouco. aeroporto.
Depois decidimos ir para Cuba, que era o único
Elas se ressentiam muito de o pai estar preso. lugar onde eu sabia que estaríamos seguros, que Quando cheguei, houve uma pequena inves-
Não podíamos falar o motivo da prisão, tinha que as meninas poderiam estudar e ter tudo que o tigação no aeroporto. Me perguntavam o mo-
inventar uma desculpa, não podia mentir nem governo cubano dava. Mandaram um convite de tivo de eu ter ido à Cuba, aquelas provocações.
falar a verdade. Quando nós chegamos do Mato Cuba e eu fui com elas. Moramos sete anos lá e Falei que tinha sido muito bem tratada em Cuba.
Grosso, já fazia três meses que ele estava preso. Eu um ano e pouco no Chile. Foram, no total, oito E quando saí, a minha família estava no aeropor-
vi fotos dele no jornal com a cara toda inchada. anos fora do Brasil. Quando voltamos, a Célia es- to nos esperando. Na chegada, a gente leva um
tava com 14 anos. impacto, principalmente as meninas que ficaram
Quando alguém caía, volta e meia ele ia para
fora do país por tantos anos. Elas sentiam muita
a tortura. Mas quando nos encontramos, senti
Já tínhamos muitos amigos que estavam em falta de Cuba e depois, com o tempo, foram se
ele muito abatido, muito magro, estava com uma
Cuba, os Carvalho, a Dina, viúva do Devanir, os adaptando.
costela quebrada, com problema no ouvido.
filhos da Dina. No começo, as meninas sentiram,
De tudo que as meninas passaram, a prisão do
Ele ficou um ano na cadeia e quando foi para mas logo aprenderam o idioma, sentiram intimi-
pai marcou muito. Mas a morte foi o que mais
a Argélia, banido, conversávamos por cartas. dade com o espanhol, eu que demorei a aprender.
marcou, para mim também. Fiquei sabendo
Quando fez oito meses que ele estava fora do Lá elas brincavam com as meninas da vizinha.
como ele entrou no Brasil agora quarenta anos
Brasil, ele entrou clandestino no país. Eu não sa- Tinha aquela saudade da família e tal. Para mim
depois. Eu nem sabia como ele tinha entrado,
bia que ele estava vindo. foi difícil. Fui mais por causa delas, mas sincera-
qual era organização que ele estava, como ele
mente, eu senti muito.
Foi quando foi morto. Fiquei sabendo que ele tinha morrido.
estava no Brasil na hora da notícia da morte dele, Em Cuba aí sim me senti segura, com as me-
no Rio. A gente nem sabia, ele ainda não tinha ninas seguras. O clima de lá é igual ao da Bahia,

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74 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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Adotados pela Revolução Cubana
por Virgílio Gomes da Silva Filho

Eu sou Virgílio Gomes da Silva Filho, filho Fomos retirados às pressas da casa e levados meu pai. Eles não se dirigiam tanto a mim, mas
de Virgílio Gomes da Silva. Há minutos atrás para o carro da polícia. Quando passei por um ao meu irmão, perguntando onde estavam as
um companheiro me perguntava se notamos dos carros, vi uma outra imagem muito forte armas, onde estava o meu pai, quem eram os
que tínhamos ficado com alguma sequela por que ficou gravada na minha memória. Foi de companheiros do meu pai, quem visitava a mi-
conta do que aconteceu conosco. Eu falo que uma pessoa que eu não reconheci, que estava nha casa. E obviamente não tínhamos respos-
não. Porém, sempre que tocamos nesse tema sentada no banco de trás do carro, todo amorda- tas para essas perguntas. É totalmente absurdo
eu não consigo falar. Mas vou falar. O que sem- çado, ensanguentado. Estava sem camisa, com pessoas que se diziam profissionais da lei inter-
pre me vem à memória é a nossa relação fami- uma faixa no peito, olho todo roxo. Depois eu rogar crianças sobre uma coisa para as quais
liar. Assim como a vida de qualquer família da vim saber que esse era o meu tio Francisco Go- elas sabiam que não tínhamos resposta. Não sei
classe operária naquela época, nós tínhamos mes da Silva, o Chiquinho, irmão do meu pai. qual era o objetivo deles fazendo tais perguntas
poucas coisas, mas éramos felizes. O convívio Isso me marcou muito. Acho que me marcou em tom de interrogatório, de intimidação.
era bom e alegre. Foi assim até que comecei tanto porque eu percebi que a brutalidade que
a perceber que o meu pai não estava tão pre- eles cometeram entrando em casa iria resultar Eu tinha 6 anos, o Vlademir 7 e pouco, o Gre-
sente. Muitas vezes ele tinha que se ausentar e no que eu estava vendo dentro do carro. O que gório tinha 2 e a Isabel quatro meses. O curio-
hoje sabemos o porquê. A luta dele exigia isso fizeram lá dentro com o Manoel Cyrillo ia se tor- so é que nessa data em que fomos sequestra-
para a segurança da família. nar aquilo que eu estava vendo dentro do carro. dos pela polícia, o meu pai já tinha sido preso e
provavelmente já estava até sendo morto. Mas
Na época, eu tinha 6 anos de idade já com-
pletados. Estávamos em São Sebastião num dia
“Eles não se dirigiam eles continuavam perguntando pelo Virgílio.
Não dá para entender. Acho que era um negó-
chuvoso, ansiosos para ir à praia, mas a chuva tanto a mim, mas ao meu cio mórbido, doentio. Eu imagino que quando
não nos deixava. Na esperança de que o sol apa-
recesse, eu e meu irmão [Vlademir] estávamos
irmão, perguntando onde prenderam o Virgílio automaticamente todo
mundo ficou sabendo do troféu que eles ti-
sentados na varanda da casa quando vimos se estavam as armas, onde nham conseguido, mas ainda assim continu-
aproximar uma comitiva de três ou quatro car-
ros pretos. Eles desciam na frente de uma casa,
estava o meu pai, quem aram torturando as pessoas, perguntando por
alguém que já tinham matado. Então, da Ope-
todos entravam e saíam, entravam no carro de eram os companheiros ração Bandeirante fomos levados ao Juizado
novo, voltavam, andavam mais, desciam em ou-
tra casa e assim iam fazendo batidas em cada
do meu pai, quem visitava de Menores, uma casa com muitas crianças.

casa. Isso até chegar na frente da nossa, onde a minha casa” [Neste instante, Ilda Martins da Silva, mãe
entraram. Alguns pela janela, outro pelos fun- de Virgílio, interrompe e diz:] “Acho que antes
dos, outro pela frente. Foram empurrando tudo. Estava chovendo na estrada e a forma impru- vocês estiveram no DOPS por dois dias. O Vla-
Estavam todos armados com metralhadoras, re- dente como dirigiam ocasionou um acidente. demir diz isso”.
vólveres. O que eu mais lembro na época, o que O carro rodopiou e capotou. Minha mãe estava
mais me marcou foi o jeito que eles entraram com a Isabel nos braços e a preocupação com Na minha memória de 6 anos, tem coisas que
e pegaram o Manoel Cyrillo. Jogaram-no no ela era tão grande que minha mãe se esqueceu eu me perco. Lembro que a gente ficou num
chão, começaram a dar chutes nele. Eram cinco de se proteger. Ao final, ela acabou desmaian- lugar que dava para ver o Minhocão, mas não
ou seis em cima do Cyrillo e o resto tudo ba- do. Isso nos apavorou ainda mais, ver a minha sei se foi antes ou depois. Mas sempre acom-
gunçando a casa. Aquilo era um caos na minha mãe desacordada com a Isa nos braços e nós panhado por aquela mulher e outro cara. Mas,
cabeça. Não sabia o que estava acontecendo. Es- não sabíamos o que fazer. a partir daí, o que mais me marcou foi o Juiza-
távamos minha mãe, o Vlademir, a Isabel e eu. do de Menores, que era um lugar onde tinha
Não sei o quanto de tempo isso durou. Aí me lembro de nós já na Operação Bandei- muitas crianças. Dormíamos todos numa sala
rante. Estávamos sentados numa sala pequena, onde havia camas separadas. E em outro quar-
eu e o meu irmão Vlademir. Nesse momento, a to minha irmã ficava num berçário, onde tinha
À esquerda, Virgílio Filho, na casa
dos tios, durante a prisão de sua
Isabel já não estava mais conosco. E uma mu- outras crianças de berço também. Era numa
mãe, em São Paulo, 1969 lher insistia muito em perguntar onde estava casa, que não sei onde, não sei o endereço.

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Também nunca procurei saber onde foi isso, Eu ainda não tinha noção da morte do meu pai. voltei de Cuba o meu primo tinha ela guardada
mas era uma casa grande como se fosse uma E minha mãe ficou mais nove meses presa. Até num canto da sala da casa, envernizada. Aquilo
casa normal, com quintal nos fundos, onde as nossa saída do Juizado, não tínhamos visto a me emocionou muito.
crianças brincavam. Todos as crianças que minha mãe, não sabíamos dela. Tenho meio que
chegavam lá tinham a cabeça raspada, aque- um bloqueio mental com relação a isso, não sei Não tínhamos mais condições de morar no
la coisa para não proliferar piolho. Mas eu me em que momento foi, se transcorreu muito tem- Brasil com essa forma de sobrevivência. As-
revoltei e não deixei cortarem meu cabelo. Fui po para começarmos a ter contato com a minha sim, companheiros orientaram e falaram para
o único que ficou com o cabelo comprido ali. mãe. Nós éramos levados até uma esquina pró- a minha mãe que nos ajudariam a sair do país.
Lá, de dia, as atividades das crianças eram xima do presídio Tiradentes, de onde minha Isso foi em 1972. Saímos com destino ao Chile.
normais. O ruim mesmo era de noite. Eu não mãe conseguia nos ver desde uma torre do pre- Todo mundo com nome frio, documento fal-
queria que a noite chegasse, porque tínhamos sídio. Ela tirava a mão por uma frestinha, uma so. Moramos um ano no Chile no período do
que ser separados e tínhamos medo de não janelinha bem estreita e abanava um jornal. E Salvador Allende.
nos vermos mais. Além disso, era de noite que minha avó ficava ali com a gente naquela esqui-
batia a saudade da nossa mãe e da casa, sem- na. E quando aparecia o jornal a minha avó fa- Em março de 1973 fomos para Cuba. Lá foi
pre que escutávamos choros e soluços de lava: “Dá tchau que a sua mãe está vendo vocês onde conseguimos ter vida digna, infância
outras crianças. agora”. A gente dava tchau para a minha mãe, feliz. Mesmo com a ausência do pai, nós tive-
mas nós não a víamos. Nessa época, minha mãe mos todo apoio, todo suporte da Revolução
O pessoal que cuidava das crianças nos leva- estava incomunicável. Cubana, a solidariedade de todos os cubanos.
va para passear durante o dia, mostrando ca- Graças à Revolução Cubana hoje somos forma-
sas e perguntando se queríamos morar numa dos, profissionais. Sou engenheiro mecânico e
casa daquelas grandes, bonitas, com famílias
que podiam dar melhores condições para nós,
“O pessoal que cuidava engenheiro industrial. Tenho pós-graduação
em construção de maquinário. Meus irmãos
onde havia brinquedos mais bonitos. E nós, das crianças nos levava também são formados. Vlademir é engenheiro
na nossa relação, eu e o meu irmão Vlademir,
tínhamos um código natural onde eu sempre
para passear durante geólogo, hoje concursado da Petrobrás; Isabel
é engenheira geóloga também e Gregório en-
deixava a resposta para ele. Eu sempre optei o dia, mostrando casas genheiro civil. Ou seja, o que todo pai faz pelo
pelo silêncio. E o meu irmão sempre foi muito
maduro para a idade. Ele conseguia lidar com
e perguntando se seu filho, o que é dever de um pai, dar assistên-
cia econômica e garantir a educação do filho
essa situação melhor do que eu. queríamos morar para se tornar um homem de bem, um homem
Então, hoje, depois de muito tempo eu enten- numa casa daquelas produtivo, a Revolução Cubana fez com a gen-
te. Fomos literalmente adotados pela Revolu-
do por que de noite ele ia na minha cama, me
levantava e me levava para o berço da Isa. E a
grandes, bonitas” ção Cubana.
gente dormia debaixo do berço dela. Também Mesmo lá em Cuba, apesar da colônia de
lembro que, várias vezes, como eu era mais ágil O que me lembro de visitas ao presídio foi
exilados brasileiros, existia a vontade de vol-
que o meu irmão, ele me levava na cozinha da de um período mais à frente. Nós recebíamos
tar, de continuar a luta. Começamos a militar
casa e fazia pegar a lata de leite Ninho, prepa- presentes e lembranças dos presos políticos,
na juventude do Partido Comunista cubano.
rava a mamadeira da Isabel e dava de noite artesanatos que eram fabricados por eles mes-
Estudamos, nos prepararmos politicamen-
para ela. Ele tinha essa lucidez. mos lá dentro. Teve até uma bicicleta que ga-
te para poder continuar a obra daqueles que
nhamos, que foi presente dos companheiros do
tinham caído. O nosso sonho era poder fazer
Ficamos lá por uns três meses, até que os presídio. Aí sim me lembro que íamos visitar e
isso, poder ver realizada aqui no Brasil o que
meus tios conseguiram nos resgatar. E como fazer tipo um piquenique lá dentro, era como
estávamos vivendo em Cuba. Havia aulas de
éramos quatro irmãos não dava para ficar todo uma festa para mim lá.
português, geografia, história. O Takao Ama-
mundo com um parente só. Fomos distribuí-
Durante esse período de prisão da minha no, e vários outros eram nossos professores
dos, repartidos pelos meus tios. Eu fiquei com
mãe nós permanecemos com meus tios. E naquela época. Tínhamos a parte política e a
a minha tia Nair, irmã da minha mãe, o Vlade-
quando ela saiu da prisão nós fomos morar parte educacional também, aprendíamos por-
mir ficou com meus tios Nora e Miguel, tam-
em Poá, num terreno que um tio meu tinha tuguês, porque eu praticamente fui alfabetiza-
bém irmão da minha mãe. O Gregório com a
cedido. Começamos a construir uma casa ali. do em espanhol. Havia grupos culturais, sendo
minha tia Iraci e a Isabel com a minha tia Geni.
Minha mãe não conseguia emprego em lugar que um dos mais entusiastas era o Pedro Pres-
Comecei a estudar na escola Carlos Gomes,
nenhum e nós tínhamos que tentar sobreviver tes, filho de Luís Carlos Prestes. Também havia
em São Miguel Paulista. E começamos a ver
de algum jeito. Minha avó fazia paçoca, amen- um grupo musical e assim éramos introduzi-
a crua realidade da sociedade capitalista. Eu
doim doce para vendermos. Em São Miguel dos à cultura brasileira. Era muito forte e isso
vendia sorvete na rua, depois da escola. Mas às
Paulista, quando a minha mãe ainda estava alimentava todo dia a nossa vontade de voltar.
vezes comia mais do que vendia.
presa, uma das minhas atribuições foi ser en- E o retorno aconteceu em novembro de 1993,
Quando saímos do Juizado de Menores eu graxate. A gente tinha uma caixinha de engra- quando houve um choque cultural enorme.
já tinha completado 7 anos e o meu irmão 8. xate, que depois de vinte e tantos anos, quando Ainda hoje eu não me acostumo.

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Em Cuba, primeiro moramos num hotel du- 1 e 2. Vlademir e Virgílio
3. Vlademir, Gregório e Virgílio
rante três anos, sem pagar um centavo. Minha
4. Virgílio, em São Paulo, 1969
mãe tinha que brigar para trabalhar de volun-
Sequência de fotos feita por
tária no hotel para poder se sentir útil. Mas não Zilda, amiga da família, na casa
queriam deixar ela fazer nada. Davam escola, dos irmãos de Ilda no período
da sua prisão para que soubesse
habitação, e tudo no hotel era de graça. Nós que seus filhos estavam bem.
apenas tínhamos que assinar o que consumí-
amos. Depois de três anos, o governo cuba-
no nos ofereceu um apartamento com quatro A partir da aparição do laudo de necrópsia do
quartos, sala, cozinha, banheiro, totalmente meu pai em 2004, onde dizia que ele tinha sido
mobiliado com tudo, sem pagar um centavo. encaminhado do IML para o cemitério de Vila
Nesse apartamento, moramos durante dezoito Formosa, ficou demonstrado que ele realmen- 1
anos. Quando falo em choque cultural é por- te tinha sido encaminhado para lá. No livro de
que lá nunca passamos o trinco na porta, os entrada dos corpos na Vila Formosa dessa data
vizinhos não precisavam bater na porta nem há uma página arrancada. Então não se sabe em
anunciar visita, entravam como se fossem da que quadra ele foi sepultado e isso proposital-
família e o mesmo ocorria na casa deles. Se fal- mente, claro. Um dos funcionários do cemitério
tava açúcar numa casa, na outra tinha. Se falta- Vila Formosa relatou que há uns tempos atrás
va café numa casa, na outra tinha. Todo mundo havia sido feita uma remoção de ossos, quando
se pergunta como a Revolução consegue, como jogaram ácido para corroer os ossos e impedir
o povo cubano consegue sobreviver nesse blo- a identificação numa das quadras e que prova-
queio econômico tão feroz que tem sobre ele. E velmente poderia ter sido a quadra que tinham
um país que não tem nada de recursos naturais. sido sepultados os “terroristas” da época. E que
Eles conseguem sobreviver e estão felizes e é tinha sido feito um ossário debaixo. Mas lá há
isso, a solidariedade alimenta. Nós fomos tes- uma laje, uma escada e um monte de sacos
temunhas disso daí e chegando aqui no Brasil cheios de ossos, sem identificação nenhuma.
foi um choque enorme, tão grande, que até hoje Ali é um descaso total, é a coisa mais vergonho-
a gente não se acostuma. Em Cuba, tinha uma sa que pode existir. 2

rua e uma escola com o nome dele. O mais im-


pressionante era isso, o meu pai lá em Cuba era
um herói. “Impossível aceitar
Eu acho que o mais importante agora é dar
pessoas que mataram
continuidade nesse processo de resgate da ocupem cargos públicos,
verdade, memória, tomar o exemplo de países
como Argentina, Chile e Uruguai que conse-
sejam exemplos de
guiram colocar no banco dos acusados aqueles cidadania, para
que são responsáveis por tantas mortes, tantas
torturas. É algo que temos que exigir, é impos-
gerações e gerações”
sível aceitar pessoas que mataram ocupem
cargos públicos, sejam exemplos de cidadania, O pessoal acha que está lidando com sei lá
para gerações e gerações. Isso é ultrajante, hu- o quê, com qualquer objeto, menos com res-
milhante e inaceitável. E usando da mentira, tos mortais E o local é impressionante, por- 3
da amnésia que a história brasileira tem a res- que lembra até aqueles ossários da Segunda
peito desse período. Guerra Mundial, dos campos de concentração
nazista de tão desorganizados que era aquele
Outra coisa super importante é chegar ao negócio, tão assombroso... Aquilo me chocou
encontro dos restos mortais dos desapareci- muito, como pode ser que ainda exista hoje em
dos. Essa luta tem de continuar, não importa dia um negócio desses? Então, para mim foi
quanto tenha de escavar, alguém tem que sa- complicado.
ber onde estão. Não falo só do meu pai, falo de
outros vários que estão desaparecidos até hoje.
VIRGÍLIO GOMES DA SILVA FILHO nasceu em São Pau-
E eu ficaria feliz se nos livros de história, ama-
lo (SP) em 20 de novembro de 1962. Filho de Virgílio
nhã, eu visse que estão ensinando para as no- Gomes da Silva e Ilda Martins da Silva. Formado em En-
vas gerações que no período de 1964 até 1979 genharia Mecânica e Industrial trabalha numa Empresa
se matou muito aqui no Brasil. metalúrgica em Indaiatuba, interior de São Paulo.

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Virgílio Gomes da Silva nasceu em 15 de agosto Família de Virgílio
de 1933 em Sítio Novo, em Santa Cruz (RN), filho de Sebastião
Gomes da Silva e Izabel Gomes da Silva. Desaparecido em 29 de 1. Ilda e Virgílio namorando, em São Paulo, 1960
setembro de 1969, em São Paulo. Dirigente da Ação Libertadora 2. Virgílio aos 17 anos, no Rio Grande do Norte
Nacional (ALN). 3. Ilda, grávida do Virgílio e Vlademir no Zoológico
em São Paulo, 1962
Era metalúrgico e casado com Ilda Gomes da Silva, com quem teve
4. Virgílio e Vlademir no bairro de São Miguel
quatro filhos. De uma família pequena e humilde, Virgílio e seus
Paulista, São Paulo, 1962
parentes vagaram por várias partes do país depois de deixarem o
5. Vlademir, na casa onde viviam em Poá (SP), 1965
Rio Grande do Norte. No Pará, a família trabalhou em um grande
6. Vlademir e Virgílio, na mesma casa, 1963
seringal da companhia estadunidense Ford, em Fordlândia. Em
1945, Virgílio voltou ao seu estado natal com a mãe e dois irmãos.
A mãe passou a viver da agricultura de subsistência em um pedaço
de terra em Sítio Novo. Em 1951, sem perspectivas, Virgílio seguiu
para São Paulo. Na capital paulista, trabalhou como garçom bal-
conista, mensageiro e guarda. Comprou um bar com as economias
trazidas pela mãe, quando ela veio morar em São Paulo. Sua mãe
não se adaptou ao clima da cidade e retornou ao Nordeste, em
1957. Virgílio vendeu o bar e foi morar no bairro de São Miguel Pau-
lista com os irmãos, tornando-se operário da Nitroquímica.
Ainda em 1957, ingressou no PCB e passou a integrar o Sindicato
dos Químicos e Farmacêuticos de São Paulo, exercendo liderança
também entre os trabalhadores da Lutfalla. Em 1963, comandou
uma greve de três mil operários da Nitroquímica, durante a luta
pela conquista do 13° salário. Ao buscarem apoio dos empregados
da Lutfalla, forçaram a entrada, quando o dirigente da empresa
atirou em um operário e em Virgílio, ferindo-o gravemente. Assim
mesmo, os operários conseguiram entrar na fábrica e paralisar as 1 2
máquinas. Depois disso, Virgílio foi transferido para a sede do sin-
dicato, de onde só saiu após o golpe de 1964. Nessa época, foi preso
por quinze dias. Seis meses após sua prisão, percebeu que estava
sendo seguido e fugiu para o Uruguai. Lá permaneceu por pouco
tempo, pois, preocupado com sua atividade política no Brasil e
com seus familiares, retornou ao país. Em 1967, seguindo a orien-
tação de Carlos Marighella, integrou a Dissidência do PCB. Entre
outubro de 1967 e julho de 1968 fez treinamento de guerrilha em
Cuba como integrante da Ação Libertadora Nacional (ALN).
No início de setembro de 1969, comandou a ação do sequestro
do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Burke Elbrick,
obtendo a libertação de quinze prisioneiros políticos brasileiros.
Foi preso em 29 de setembro de 1969, na Avenida Duque de Caxias,
em São Paulo, por agentes da Operação Bandeirante (OBAN) em
setembro de 1970. Virgílio chegou à sede da OBAN encapuzado,
vindo a morrer 12 horas depois.

Ilda Martins da Silva nasceu em 30 de maio de 1931


em Lucianópolis (SP). Mudou-se para a cidade de São Paulo em
1941, e foi trabalhar na empresa Nitroquímica de São Miguel
Paulista. 3 4

Foi no movimento sindical que ela e Virgílio se conheceram. Ca-


sados, tiveram quatro filhos.
Em 29 de setembro de 1969, Virgílio foi preso, Ilda foi sequestra-
da em São Sebastião, no litoral de São Paulo, junto três de seus
quatro filhos: Vlademir, Virgílio e Maria Isabel, um bebê de qua-
tro meses. Gregório, então com dois anos, não foi levado por não
estar em casa. Ilda permaneceu presa por nove meses, ficando
incomunicável sem qualquer notícia dos filhos por quatro meses.
Na Operação Bandeirante, foi torturada. Depois, foi transferi-
da para o DOPS e, por último, esteve no Presídio Tiradentes. As
crianças foram enviadas ao Juizado de Menores e ameaçadas por
agentes da ditadura de serem entregues para adoção.
Perseguida após sair do Presídio Tiradentes, seguiu um ano de-
pois para o exílio, inicialmente no Chile, por um ano, e depois
em Cuba, de onde retornou após a formatura dos quatro filhos,
em Havana. Desde então, Ilda e seus filhos seguem lutando por
memória, verdade e justiça. Hoje, vive em São Paulo (SP).

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7. Capa do Jornal Última Hora, com manchete
que noticia a caça aos sequestradores do
embaixador norte-americano, 1969
8. Francisco, irmão de Virgílio, com sua mãe
Isabel durante visita na prisão
9. Virgílio em uma manifestação do
Sindicato dos Químicos de São Paulo
10. Francisco, irmão de Virgílio, na prisão

8 9

7 10

11. Isabel, 1969. Foto feita pelos tios Geni, irmã de


Ilda, e Dagoberto, que cuidaram dela durante a
prisão de sua mãe, em São Paulo
12. Ilda, Isabel, Vlademir, Virgílio e Gregório na rua
onde moravam durante o exílio no Chile, 1972

11 12

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A vida em exílios...
1. Gregório, Isabel e Virgílio na casa da Iara Xavier, no
aniversário do seu filho Arnaldo, em Cuba, 1976. Ao fundo foto
de Carlos Marighella coberta por bexigas verde e amarela
2. Ilda e Virgílio dançando, Cuba, 1985
3. Cédula de Identidade de Isabel Gomes, Chile, 1972
4. Gregório em Cuba, 1983
5. Vlademir em Cuba, 1982
6. Vlademir, Ilda, Teresa, esposa do Vlademir,
e Isabel em Cuba, 1984
7. Carteira de estudante de Virgílio, Cuba, 1978
8. Ilda e Isabel em Cuba, 1986
9. D. Isabel, mãe de Virgílio, em viagem à Cuba, com Isabel,
Gregório, Ilda, Virgílio, Niurkis e um amigo da família.
Foto tirada em frente ao prédio onde a família morava, 1985
10. Gregório, Isabel, Virgílio, Ilda e Vlademir no Brasil, 2010

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“Diziam que eu era muito perigosa”
por Ilda Martins da Silva

Acho que a minha história todo mundo já meses, embora eu ainda estivesse incomuni-
conhece bem, então só vou reforçar. Fui pre- cável, deixaram a Isa entrar no presídio. Ela
sa em São Sebastião, com três dos meus qua- era bebê, tinha uns oito meses, ainda não
tro filhos. O Gregório não foi preso porque andava. Eu fiquei louca com a minha filha lá.
estava com a minha sogra. Foram presos o Passeava com ela, mostrava para uma, para
Virgílio, com 6 anos, o Vlademir, com qua- outra. Até que caí na escada. Havia uma es-
se 8 e a Isabel, com quatro meses. No cami- cada da torre para outras celas e torci o pé e
nho de São Sebastião para São Paulo houve caí. Chamaram a polícia, que veio, me alge-
um acidente sobre o qual eu nunca falei. O mou, me colocou numa maca e levou para
carro capotou, eu desmaiei, os meus filhos o hospital. Na saída, entreguei a Isa para a
estavam junto comigo e viram o acidente minha irmã que estava lá esperando. Meus
também. Fui levada ao hospital para ver se filhos estavam lá também, mas acho que
tinha me machucado. Depois viemos para eles não me viram deitada na maca.
São Paulo e fomos diretamente para a Ope-
ração Bandeirante, onde começaram a me Tem também a história do álbum de fo-
interrogar, fazer perguntas sobre o Virgílio. tografias. Quando me entregaram as foto-
grafias no presídio para ver os meninos, as
Eu falei para eles que tinha as crianças carcereiras vieram na hora que terminou a
pequenas, que a Isabel precisava se ali- visita e queriam que eu entregasse as foto-
mentar e eu precisava de alimentação para grafias porque eu estava incomunicável. En-
eles. Então deram uma mamadeira para a tão as companheiras todas se revoltaram, fa-
Isa e depois fui separada dos meus filhos. laram: “Como que iam pegar a fotografias?”
Sei que eles sofreram. E eu sofri ainda mais, Disseram que fotografia não transmitia
porque não sabia nada e aquela situação nada, que eram apenas os meus filhos. Uma
era dura para mim, sozinha na Operação das carcereiras falou que não, que eu não po-
Bandeirante, sem ter notícias de ninguém e dia ficar com as fotos deles porque estava in-
perder o que era mais querido para mim, os comunicável. Mas as companheiras todas se
meus filhos. revoltaram e eu consegui ficar com as fotos.

Fiquei incomunicável por quatro meses São coisas que vão marcando, a gente vai
no presídio. Todo mundo tinha visita, mas lembrando aos poucos e aí cada coisa é uma
eu não. Diziam que eu era muito perigosa mais dura que a outra, mais triste, e cada coi-
e não podia ter visita. Meus filhos iam todo sa que a gente vai lembrando é como se desse
domingo me visitar, mas não deixavam eles uma punhalada. Eu peço desculpas. A gente
entrarem. Até que um dia, depois de quatro chora é porque é duro mesmo, quem passou
por isso sabe que é difícil a gente relembrar
Ilda, ainda solteira do passado sem chorar.

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A inocência perdida
por Ângela Telma Oliveira Lucena

Sempre que a gente fala desses assuntos, desapareçam. Porque se a polícia chegar a para mim”. Nós fomos formando uma fa-
as pessoas têm uma tendência a achar que gente tem que sair correndo”. Parece ma- mília. Não era uma família biológica, mas
filho de comunista é amargurado, mal-hu- luco dizer isso para crianças. Mas quem é foi mais importante e mais significativa do
morado, irritadiço. Somos seres humanos filho de nordestino entende. Nordestino fala que a nossa própria, com quem nós não
como todos os outros. Passamos por um claramente com os filhos. Nossos pais eram convivemos.
processo difícil, sem dúvida nenhuma, mas muito claros, muito objetivos quando con-
isso não nos tornou monstros e nem insen- versavam com a gente. Eu era perdidamente apaixonada pelo
síveis. Temos a nossa dor, claro. Todos nós Bacuri, porque ele tinha olhos lindos. Ele
temos. Até os filhos dos comunistas. Ao “Nós perdemos me pegava no colo e eu ficava olhando para
contrário do que dizem, que comunista a inocência muito aquele homem. Acho que meu sonho era ca-
sar com um homem de olho claro por conta
não tem sentimento.
cedo. Porém, perder a do Bacuri. Eu olhava para ele, aquele ho-
Sou Ângela Telma Oliveira Lucena. Sou mem tão bonito. E falava para minha mãe:
filha do Doutor, que era o apelido do meu
inocência não significa “Ele é tão bonito, não é?” Muitos anos de-
pai. Como ele era um cara de extrema in- que nós também não pois, casei com um homem de olhos azuis.
teligência, as pessoas o chamavam assim,
apesar de ele ser analfabeto. Minha mãe, fôssemos crianças Então, fomos tendo várias famílias, vários
Damaris Oliveira Lucena, era operária e a e tivéssemos irmãos, primos, tios. Para falar a verdade,
nossa casa sempre foi um ponto de reunião de muita gente eu vim a descobrir o nome
dos companheiros e de muito movimento. momentos felizes” recentemente. Eu não sabia como eles se
chamavam. Essa convivência com os com-
Assim, eu poderia dizer que nós perde- Então, no momento em que ficamos panheiros foi muito forte, muito marcante,
mos a inocência muito cedo. Porém, perder clandestinos, para lá e para cá, aconteceu porque eles faziam o papel dos pais que
a inocência não significa que nós também uma coisa muito curiosa. É uma lembrança não estavam ali. Ficávamos nos aparelhos,
não fôssemos crianças e tivéssemos mo- muito boa que eu tenho, porque, na verda- dormíamos aqui e acordávamos ali. Um
mentos felizes. O que tínhamos era muita de, eu tive muitos pais. E tem um pai em penteava o cabelo e o outro escovava os
clareza sobre a atividade dos nossos pais. especial que eu quero destacar aqui, que dentes. Você dormia com um companheiro
Sabíamos no que eles estavam envolvidos, me tratou com muito carinho, com muito de noite e quando acordava já era outro.
embora não imaginássemos a magnitude respeito, que era o Eduardo Leite Bacuri.
e os desdobramentos que poderiam trazer. Ele frequentava muito a nossa casa, tinha Tem algo que eu gostaria de destacar.
muita paciência, me pegava no colo, tro- As pessoas sempre colocam em dúvida
Mas a nossa mãe sempre dizia: “Olha, não cava minhas fraldas, me dava comida. Eu se eu realmente consigo lembrar da morte
se afastem muito de casa, brinquem aqui tive a possibilidade de contar isso para a do meu pai. Foi um fato para mim muito
perto, cuidado com o que vocês falam, não Duda [Eduarda, filha de Bacuri]. E ela falou marcante. Eu tinha 3 anos e meio e as pes-
que tinha uma dor muito grande. E disse: soas questionam e dizem: “Alguém com 3
À esquerda, Denise, Adilson e Ângela Telma, Cuba, 1970 “Eu queria que o meu pai tivesse feito isso anos e meio não pode lembrar disso”. Eu

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gostaria muito de poder apagar esse mo- braços dela. Eu lembro exatamente como
mento do assassinato do meu pai da minha aconteceu. Então, a nossa inocência, a mi-
vida. Mas eu não posso, eu não quero e eu nha, particularmente, foi perdida ali naque-
não consigo. E eu não vou. Porque a única le momento. Mas isso não me transformou
memória que tenho do meu pai é exatamen- em uma pessoa amargurada, nem frustrada,
te o momento da morte. Foi muito violento nem triste. Talvez uma pessoa mais intros-
para mim. Foi muito triste. Eu tive, daquele pectiva, talvez uma pessoa com excesso de
momento em diante, fortes crises de enxa- responsabilidade, talvez uma pessoa que,
queca. Eu sonhava todas as noites com uma às vezes, raciocina muito porque sabe qual
coisa que não sabia exatamente o que era. é o peso de levar o sobrenome Lucena. Não
Eu não conseguia ver filme de guerra, mas é fácil ser filha da Damaris e do Doutor. Não
não deixava que minha mãe percebesse. é fácil fazer parte de uma história de dois
Não queria que ela percebesse que a gente heróis da nação brasileira. De saber que
estava sofrendo. Porque sofrer também fa- para estar viva aqui, hoje, contando a nos-
zia parte da nossa história. Foi difícil? Foi. sa história, muita gente morreu. Quantas
Foi duro? Foi. Mas eu não quero apagar. Eu pessoas tiveram que dar a vida para que a
lembro perfeitamente. Eu lembro como ele gente tivesse esta democracia? Vivemos um
estava vestido. Eu lembro exatamente como conflito, mas é um conflito que tem um lado
tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava muito positivo.
no colo da minha mãe, e quando fui cres-
cendo, durante muitos anos ficava pensan- Quando fomos presos, nos levaram para
do se tinha sonhado aquilo ou se era real- o juizado de menores e as pessoas falavam:
mente um fato que tinha ocorrido. “Poxa, mas ela é muito pequena, ela não
lembra”. É lógico que lembro. As nossas
Eu vivia um conflito entre apagar, riscar camas eram molhadas. A gente dormia na
aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tem- cama molhada. Os filhos dos terroristas. En-
po, sabia que se fizesse isso, estaria riscan- tão a gente ficava ali, víamos que todas as
Ângela Telma, Cuba, 1970
do a história da minha família. E eu não crianças nos olhavam de uma forma estra-
queria isso. nha e nos sentíamos estranhos também. Eu
pensava: “Puxa vida, eu estou vivendo isso
Quando nós saímos do Brasil, a minha aqui, que não vai acabar nunca”. Eu não ti-
“Eu gostaria muito mãe teve uma oferta do governo cubano nha noção de tempo, mas tinha muito claro
de poder apagar esse para que fôssemos ao psicólogo. E minha
mãe disse: “Meus filhos não precisam de
que tinha muito a ver com a atividade dos
meus pais.
momento do assassinato psicólogo. Eles próprios vão administrar e
Eu não queria causar mais dor e sofrimen-
do meu pai da minha eu vou ajudar os meus filhos a administrar
a situação. Porque eu nunca menti para os to para minha mãe do que ela já tinha tido.
vida. Mas eu não posso, meus filhos. Eu sempre disse para os meus Então não conversava sobre esse assunto
com ela, que já tinha sua parcela de dor, de
eu não quero, e eu não filhos qual era a nossa atividade”. Isso não é
uma crítica a quem vai ao psicólogo. De jei- culpa, de responsabilidade. Por várias vezes
consigo. E eu não vou” to nenhum. Mas eu consegui administrar a ela disse para a gente que se sentia mal de
situação à minha maneira. Acho que meus ter colocado os filhos na luta. E um dia eu
irmãos também devem ter administrado da disse “Não se sinta mal. Nós somos produ-
maneira deles. tos do meio e da luta que vocês tiveram e
temos orgulho do que somos. Nós estamos
A morte do meu pai mudou completamen- com vocês. Nós temos orgulho do nome de
te a minha vida. A partir daquele momen- vocês. Nós queremos levar a luta de vocês
to sabia exatamente de quem eu era filha, adiante. Vocês foram capazes de pegar em
como meu pai tinha morrido. Eu vi minha armas para defender os ideais de vocês. Vo-
mãe muito torturada. Ela começou a apa- cês acreditaram naquilo. Isso para nós é a
nhar no momento em que meu pai foi mor- coisa mais importante. É o maior legado que
to, ali na nossa frente. Me arrancaram dos alguém pode transmitir para os filhos”.

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Quando ela diz que nunca disse para a mos disso. Eu acho que é a primeira vez que todas as famílias que não tiveram a possibi-
gente, “ah, vocês precisam ser comunistas, cada um de nós conta a sua experiência para lidade de enterrar os seus mortos. Inclusive
ou revolucionários ou de esquerda”, é verda- o outro. No entanto, o que é importante para meu pai, que é desaparecido. Eu não quero
de. Ela nunca disse. O comportamento que nós, primeiro, é a oportunidade de falar para mais que meu pai seja uma estatística como
ela tinha, a maneira como ela agia mostrava as pessoas o que é que nós vivenciamos para tantos outros pais que estão por aí. Nós que-
para a gente o que ela era, como ela acre- que isso nunca mais aconteça. Para que não remos a abertura dos arquivos. Queremos
ditava. A vida inteira ela foi coerente com se repita. Para que as pessoas saibam que saber de que forma, em que circunstâncias
o que defendia. Minha mãe sempre foi uma a única maneira da gente realmente modi- os nossos pais foram assassinados. Nós te-
pessoa que lutou, compartilhou, dividiu ficar uma sociedade, transformar, é pela mos esse direito. Qualquer nação séria vê
tudo o que ela tinha com as outras pessoas. educação. A gente precisa ter consciência. E dessa maneira. Então, quando nós dizemos
E ela não poderia ter caído em um lugar me- isso foi uma coisa que a Revolução Cubana aqui, viemos a público, todos os filhos, fa-
lhor do que Cuba. permitiu que a gente tivesse. Consciência lar, o que nós queremos é uma coisa muito
política. Nós temos muito claro o que nós simples. Nós queremos saber aonde foram
O meu pai, quando era vivo, viu o triunfo queremos para o nosso país. parar os nossos pais. É um direito que nós
da Revolução Cubana. E ele dizia para mi- temos como seres humanos. Em qualquer
nha mãe “O meu sonho é que os meus filhos
estudem em Cuba”. Mal sabia ele que ia ter
“Somos pessoas cultura as pessoas têm o direito não so-
mente de chorar pelos seus entes queridos,
que dar a própria vida para que aquilo fos- que pagamos um mas também a possibilidade de saber como
se possível. Então, para nós, é muito signi-
ficativo. Dizem que os desejos, às vezes, se preço pela escolha, aconteceu.
transformam em realidade. Eu acho que no pela ideologia dos Nós temos muitos desaparecidos neste
fundo eles dois sabiam que, de certa manei- país. Nós não queremos que eles continuem
ra, o que eles estavam dando para a gente nossos pais. Isso, desaparecidos. Então, por favor, eu faço um
era uma nova possibilidade de vida. de forma alguma apelo aqui, público, quem souber qualquer
informação, quem souber qualquer dado
Nós perdemos, de fato, a nossa inocên- é negativo” que possa ajudar os familiares a descobri-
cia, perdemos o nosso pai. Fomos parar em
rem as circunstâncias da morte dos seus en-
Cuba. Eu cheguei com 3 anos e meio, fui para
É evidente que temos alguns momentos de tes queridos, a gente pede, que mesmo de
creche. Aprendi a falar espanhol, e acho que
angústia, de dor. Todo mundo passa por isso. forma anônima, a pessoa mande esses da-
hoje falo melhor espanhol do que português
Isso é do ser humano. Mas eu queria deixar dos para a gente. Nós queremos. Nós preci-
porque fui alfabetizada em espanhol. Então a
presente uma mensagem em meu nome e dos samos. Enquanto nós não soubermos como
gente viu que aquele sonho de liberdade, de
meus irmãos também. Quem deu um golpe, tudo aconteceu, enquanto os arquivos não
uma sociedade mais justa, era possível. Tudo
rasgou a Constituição depois de um presiden- forem abertos, enquanto a gente viver com
o que o meu pai falava, “Existe um país que se
te democraticamente eleito não fomos nós. essa dúvida, não podemos ter tranquilida-
chama Cuba, que fez uma revolução”, e aqui-
Nós apenas nos defendemos. Em nenhum de. É um fantasma que nos atormenta.
lo era possível. E a gente via aquilo aconte-
momento nós provocamos uma situação que
cendo. Então foi muito representativo.
justificasse a violência da qual nós fomos ví-
A solidariedade do povo cubano, a im- timas. Uma violência de Estado. Agora, quan-
ÂNGELA TELMA OLIVEIRA LUCENA nasceu em 10
portância que eles davam para o estudo, do a gente fala de vítima, infelizmente é uma de outubro de 1966. Filha de Antônio Raymundo
a importância que eles davam para que a coisa que se repete. Quando a gente vitimiza de Lucena e de Damaris Oliveira Lucena. Mestre em
gente mantivesse a nossa cultura, a nossa o ser humano é quando a gente não deixa que Língua Portuguesa. Graduada em Letras com habi-
litação dupla Espanhol/Português pela Pontifícia
identidade. Nós nunca fomos tratados como ele se expresse.
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Estu-
coitadinhos, porque não somos. Somos pes- dante de Direito. Trabalha como Jornalista e Tradu-
O Brasil fala que é uma democracia, no en-
soas que pagamos um preço pela escolha, tora freelance.
tanto, pessoas continuam sendo torturadas,
pela ideologia dos nossos pais. Isso, de for-
os desaparecidos continuam desaparecidos,
ma alguma é negativo. Ao contrário, eu vejo
os arquivos continuam fechados. Nós não
de uma maneira muito positiva. É evidente
sabemos onde nossos familiares foram pa-
que, cada ser humano tem uma apreciação a
rar. Nós queremos, exigimos uma resposta
respeito das coisas.
para isso. Queremos enterrar os nossos mor-
Mas eu lutei muito, tive alguns conflitos tos. É um direito que temos, como seres hu-
internos, e nós, entre os irmãos não faláva- manos. Falo aqui, eu acho, que em nome de

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Infância resgatada
por Adilson Lucena

Eu acho que, de certa forma, esta infância Então, todos nós que passamos por lá nos que a gente foi parar em Atibaia. E como não
roubada que nós tivemos, por conta da dita- tornamos marxistas, porque Marx é uma ferra- conseguíamos mais frequentar a escola por
dura, nós começamos a recuperar em Cuba menta para a gente entender o que acontece conta dessa clandestinidade, a Damaris esta-
e, com a ajuda da Damaris, que foi esse muro nesta sociedade. Mas acho que, com certeza, va nos alfabetizando no dia em que a casa foi
poderoso, mesmo ela não estando muito bem nos tornamos martianos. cercada. Foi muito rápido. Muito nervosismo.
de saúde na época em que saiu da cadeia. Ela Todo mundo sabe o que acontecia com os mi-
nos ajudou muito a superar a nossa infância “Os cubanos sempre litantes quando caíam na mão da polícia. E o
roubada. E, principalmente, eu quero fazer um meu pai, de origem nordestina, dizia: “Nunca
agradecimento à Revolução Cubana, que foi a lutaram para que vou me deixar pegar vivo!”. E, de fato, foi o que
pátria de muitos brasileiros e a casa de muitos os nossos pais não aconteceu. Eles entraram e houve um tiroteio
brasileiros que lá estiveram. dentro de casa. Acho que eu fui o primeiro a
deixassem a gente sair quando cessou o tiroteio. E quando eu
A gente começa a relembrar das nossas fases
em Cuba, e me lembro também que lá, inclusi-
esquecer o nosso saí, ele estava sentado ao lado do tanque. Acho
que ele já estava praticamente morto. Estava
ve, nós chegamos a instituir, com a ajuda dos idioma pátrio” sem camisa. Tinha tomado muitos tiros. E eu
cubanos, uma escolinha onde a gente aprendia fiquei desesperado, enlouquecido.
Português, História do Brasil, Geografia. Acho Quem aqui não escutou a Guantaname-
que até conseguiram uns discos. A gente can- ra com os versos de Martí? Então, todos nós A minha mãe saiu com a Telma no colo e de-
tava o hino do Brasil e comemorávamos o 7 de saímos de lá amantes do Martí. E aprendemos pois atrás veio a Denise. Depois entramos de
Setembro no ICAP (Instituto Cubano de Amiza- esse sentido da dignidade em Cuba, de valo- novo e aí se gerou aquele impasse dentro de
de com os Povos). Os cubanos sempre lutaram rizar o ser humano em primeiro lugar. A res- casa porque eles nos encurralaram em um can-
para que os nossos pais não deixassem a gente peito da nossa vida, não guardo mágoas. Todos to da cama. Uns achavam que deviam matar
esquecer o nosso idioma pátrio. E nunca falta- nós somos pessoas muito alegres. Atualmente, a gente ali mesmo. Outros, diziam: “Não, va-
vam comemorações pátrias nossas, quando nos eu agradeço a Cuba porque sou professor de mos esperar, vamos aguardar”, e ficava aque-
reuníamos para cantar as nossas músicas. espanhol. Cuba também me deu um idioma, le impasse, aquela tortura em cima da gente
me deu a cultura. Agradecemos muito, apren- com as armas apontadas. Talvez, pelo fato
Lembro-me que o grande herói da Revolução demos muito da cultura cubana, aprendemos de quererem tirar informação do que estava
Cubana, das lutas pela independência, José muito do Brasil em Cuba. Os cubanos sempre acontecendo, naquele momento foi poupada a
Martí, dizia que ele queria colocar na Consti- tiveram essa preocupação. nossa vida.
tuição de Cuba, quando triunfasse a luta contra
o colonialismo espanhol, que a lei primeira da E a respeito da nossa vida na clandestinidade, Depois, quando nós saímos lá da casa, a
República fosse a dignidade do homem. E isso eu lembro das muitas mudanças de casa quan- região estava toda cercada de soldados do
nós encontramos em Cuba. O eixo principal da- do os meus pais entraram na clandestinidade. Exército. Eu nunca tinha visto tantos solda-
quela sociedade é a dignidade plena do homem. E sempre aquela agitação, muitas reuniões nas dos em minha vida. Inclusive, no caminho
casas por onde a gente passou. Estivemos em que nos levava até a estrada principal, eles
À esquerda, Adilson, Cuba, 1970 Santos, em Embu Guaçu e outros lugares, até postaram soldados a cada dez metros. De lá,

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nós fomos levados para a delegacia de Ati- nhou, nos vestiu uma roupa mais ou menos e moço que cuidava da gente, o comandante. Ele
baia. Parece-me que o fato se tornou público e, disse que a gente ia sair do país. E fomos em encheu uma sacola.
quando chegamos à delegacia, tinha milhares direção ao DOPS. Pela primeira vez em vinte e
de pessoas na porta para ver a gente, como se tantos dias de cativeiro, nós vimos a Damaris. [Neste momento, a mãe de Adilson, Damaris
fôssemos selenitas. Ficamos na delegacia até Estava magra, a coitada. E macabra. Acho que Lucena, o interrompe e complementa:]
a noite. Até que nos tiraram de lá (primeiro fo- a Telma nem a reconheceu de tão magra que Era o comandante do avião. Ele encheu uma
mos levados para o lar Mariquinha Lopes que ela estava. cesta de frutas, de doces e disse: “A senhora
era um orfanato em Atibaia). Posteriormente, leva porque não sabe onde vai parar com essas
ficamos sabendo que a Damaris começou a ser Entramos no ônibus. Havia uma escolta mui-
to grande. Estavam os companheiros que saí- crianças pequenas. Leva isso aqui para eles e
torturada ali mesmo na delegacia. E lá perma- a senhora comerem”. Não sei se ele era de es-
necemos uma etapa da nossa prisão. ram naquele sequestro e fomos em direção do
aeroporto. Acho que era Congonhas. Quando querda, sei que ele ficou muito penalizado. Ele
E de vez em quando, acho que umas duas ou nós subimos no avião, estava lá o Mario Japa ficou com a Telma no colo na hora de descer.
três vezes, a polícia veio me buscar para me le- sentado. Anos depois ficamos sabendo que Eu estava tão fraca que não aguentava segurar
var na casa novamente. Aquilo era massacran- entraram escondido com ele por trás do avião a menina. Aí ele pegou a menina no colo e me
te para mim. Eu tinha estado ali uma pequena porque ele não conseguia andar, tinha sido deu a cesta de lanche. Para mim, foi uma ação
parte da minha infância. Cheguei lá e vi toda muito torturado. E aí tinha outros companhei- muito humana.
a casa revirada. A poça de sangue do meu pai ros também – a Madre [Maurina Borges da E aí nós fomos para o hotel, onde estava toda
ainda estava ali. E eles queriam que eu desse Silveira], o Diógenes [Carvalho de Oliveira], o aquela movimentação. E, de repente, a minha
conta de um buraco de lixo que nós tínhamos Otávio Ângelo. mãe falou: “Bom, agora estão convidando a gen-
num canto da casa. Eles consideravam que tal- te para ir para Cuba”. Nós éramos pequenos,
vez tivessem armas ali e eles me bateram com “Pela primeira vez mas imagine o significado para ela, que lutou
a bainha de facão do meu pai para eu contar
o que tinha naquele buraco. Como eu não sa- em vinte e tantos toda uma vida, ser convidada para ir para Cuba!
bia, chorei e acho que, talvez, eles deixaram de dias de cativeiro, Eu acho importante a gente revelar a nossa
lado porque pensaram que de fato não sabia se dor às novas gerações, aos jovens, aos que não
havia alguma arma naquele local. nós vimos a Damaris. vivenciaram essa etapa a história do Brasil.
Posteriormente, nós fomos tirados desse or- Estava magra, Pobre do povo que deixa esquecer sua memó-
ria. Fiquei muito contente quando vi recente-
fanato e levados para São Paulo. Lembro que a coitada. E macabra” mente aquela juventude fazendo escrachos na
percorremos várias instituições religiosas e porta dos torturadores porque a gente pensou:
eu via que as irmãs acenavam negativamen- “A nossa causa está garantida, não vão deixar
te com a cabeça. Eles queriam nos deixar na- E eu lembro que, também, no avião, foram
dez policiais da Polícia Federal para o Méxi- morrer nossa memória”.
quelas instituições e as irmãs não queriam
aceitar. E eu escutava os comentários, que co. E eles queriam, inclusive, algemar Dama- O meu consolo é que a juventude está carre-
diziam que nós éramos filhos de terroristas. ris e ela fez o maior escarcéu. E aí ela já bri- gando essas bandeiras. E deixar aqui para as
Então, em vários lugares, realmente, não fo- gou com eles dentro do avião e até que eles novas gerações a memória histórica do país.
mos admitidos. acabaram não algemando. Nós chegamos ao Até agora nós tínhamos a versão dos tortura-
México. Lá, aquela movimentação da imprensa dores e estamos aqui para ter a versão do povo,
Até que nos levaram para um Juizado de internacional e houve uma briga dos policiais contar a sua história e vamos deixar esta me-
Menores, em São Paulo. Tive muita má im- brasileiros, inclusive uma pancadaria porque mória para as gerações futuras.
pressão porque quando chegamos lá de noi- a gente queria descer do avião para falar com
te, dormiam três crianças em cada cama. E a imprensa e a Polícia Federal não queria. Até
lá permanecemos durante toda a prisão, com que acabamos descendo e fomos falar com
castigos constantes. Às vezes, a gente ficava a imprensa. ADILSON LUCENA nasceu em São Paulo no dia 2 de ou-
na sala de tevê, mas tínhamos que ficar com tubro de 1960. É Graduado em Letras com Habilitação
a cabeça para baixo sem poder assistir à TV. A Damaris deu as primeiras declarações em Português e Espanhol pela PUC-SP (Pontifícia Uni-
Imagine uma criança que gosta de ver TV não que, aliás, foram muito importantes porque versidade Católica de São Paulo). Trabalha como pro-
poder ver as coisas que gosta. Foi realmente acabou salvando a vida da Eliana Rollemberg. fessor de espanhol. Dá aulas particulares e atua como
professor voluntário em vários movimentos sociais.
muito massacrante. Denunciou para a imprensa internacional que
a companheira estava sendo muito torturada.
Até que um belo dia, a Valquíria, que era a De lá do aeroporto, nós fomos para o hotel.
diretora da instituição, foi nos buscar, nos ba- Lembro-me também como foi solidário aquele

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Palavras presas
por Denise Oliveira Lucena

Meu nome é Denise Oliveira Lucena. Eu sou


gêmea de Adilson Oliveira Lucena. Minha mãe
engravidou de mim e um mês depois engravi-
dou dele. Nós nascemos no mesmo dia, na mes-
ma hora, mas ele é mais novo que eu um mês.

Acho que a maioria das coisas o meu irmão


já falou. Mas foi realmente muito duro para
nós sairmos daqui em 1970 da maneira que foi.
Meu pai foi morto na nossa frente. Eu fiquei
com muito medo. Na hora que eu saí de dentro
de casa, ele estava caído no chão. Fiquei com
muito medo. Foi uma situação muito difícil
para nós porque a gente só tinha 9 anos.
A gente foi para o juizado de menores em São
Paulo. Fomos muito maltratados. Sofremos mui-
to, mas, hoje as coisas mudaram. Então eu acho
que a gente tem que resgatar a história deste
país e a gente também faz parte da história des-
te país.

Então é um momento que já passou. E eu não


consigo falar mais.

DENISE OLIVEIRA LUCENA nasceu em São Paulo no dia


2 de outubro de 1960. É técnica de enfermagem e, no
momento, está impossibilitada de trabalhar por uma
questão de saúde.

Denise, Cuba, 1970

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Condenado à morte
por Ariston Oliveira Lucena

Meu nome é Ariston de Oliveira Lucena, nas- me torturar com choques elétricos por todo conhecido como “Tenente Ramiro”, que possuía
cido em 6 de outubro de 1951 em São Pau- o corpo. Eu estava pendurado no pau de ara- uma âncora tatuada no braço) Dalmo Lucio Mu-
lo. Sou filho de Damaris Oliveira Lucena e ra. Fui torturado por algum tempo, mas não niz Cirillo, entre muitos outros.
Antônio Raymundo de Lucena, ambos líderes sei precisar a quantidade de horas. Quando
sindicais desde a década de 1950 e ativistas me tiraram do pau de arara, não podia andar, Certo dia, apareceu um homem me inqui-
políticos da Vanguarda Popular Revolucioná- contudo, mesmo assim saíram comigo em dili- rindo. Disse-me que se fosse à auditoria para
ria (VPR). Damaris foi têxtil e Antônio, meta- gências por São Paulo, para cobrir pontos, com a audiência e se confessasse o que eu estava
lúrgico. Comecei a minha militância muito companheiros da minha organização. A polícia passando na Operação Bandeirante, pagaria
cedo, pois a minha casa era um local de reu- não conseguiu nada, pois eu já me encontrava as consequências. Eu disse que faria isso mes-
niões da organização. Decidi sair de casa aos preso fazia vários dias. Os meus companheiros mo. Ele me ameaçou dizendo que eu iria “ver
17 anos para me juntar aos companheiros da já sabiam da minha prisão. Quero esclarecer, o que é bom”. Qual não foi a minha surpresa,
VPR. Não sabia que o meu destino seria o Vale que, no dia em que fui preso, eu estava junto quando fui prestar depoimento na auditoria.
do Ribeira sob o comando do Capitão Lamar- com um companheiro que conseguiu fugir. O referido senhor que havia me insultado era
ca. Os meus pais disseram que eu era muito o procurador da Justiça Militar, Sr. Durval
jovem para assumir aquela luta. Respondi que Ayrton Moura Araújo que funcionou como
esse era o meu desejo e que a minha ideologia “Soube da morte do meu acusador dos militantes.
tinha sido forjada com o exemplo deles dentro
de casa. Fui para o Vale no dia 7 janeiro onde pai e da prisão da minha Em meados de outubro de 1970, fui levado de
permaneci até 31 de maio de 1970. mãe pelo rádio. Fiquei helicóptero para o Vale do Ribeira, pelo Coro-
nel Antônio Erasmo Dias, para fazer a recons-
Soube da morte do meu pai e da prisão da transtornado e quis vir tituição de nossa fuga. Lá chegando, Erasmo
minha mãe pelo rádio. Fiquei transtornado e
quis vir para São Paulo, mas Lamarca me con-
para São Paulo, mas ameaçou de me jogar do helicóptero se eu não
contasse fatos que possibilitassem a prisão de
teve. Fiquei no treinamento de guerrilha por Lamarca me conteve” outros companheiros meus. Colocou-me na
quatro meses no Vale. Escapamos de um cerco cova onde havia sido executado o tenente da
policial feito pelo coronel Erasmo Dias ao Vale Na quinta-feira, fui levado para a Opera- Polícia Militar Alberto Mendes Jr., em maio de
do Ribeira. Saímos dirigindo um caminhão do ção Bandeirante pelo capitão do Exército, 1970. Dias simulou um fuzilamento disparan-
Exército que nos trouxe para São Paulo onde Maurício Lopes Lima. Fui direto para a sala do rajadas de uma metralhadora Thompson ao
nos dispersamos. Cada um tomou um rumo di- de torturas e prontamente colocado na ca- redor do meu corpo para me intimidar. Aliás,
ferente e ignorado pelo outro. deira do dragão. Comecei a ser torturado o Coronel assumiu esse episódio em declara-
novamente pelo Capitão Benoni de Arruda ções feitas ao jornal Folha da Tarde.
Fui preso no dia 20 de agosto de 1970, em Albernaz e outros policiais da OBAN. Aos
uma batida policial de rua no bairro da Vila poucos, fui sendo destroçado pelas sevícias. Fui condenado a trinta anos de prisão, conde-
Mariana. Levado para uma delegacia no mes- Passei mais ou menos dois meses na Operação nado também à pena de morte (posteriormente,
mo bairro, fui espancado pelos policiais de Bandeirante. Fui massacrado por várias equipes transformada em prisão perpétua). Acumulei
serviço. Isso ocorreu em uma quinta-feira, per- de policiais da OBAN. O comandante desse ór- trinta anos e, por último, mais vinte pelas mi-
maneci na cela até segunda-feira pela manhã, gão era o Tenente-Coronel Valdir Coelho, que nhas atividades políticas. Saí em julho de 1979,
quando fui transferido para DOPS. Lá chegan- ordenava as torturas aos presos políticos. portanto fiquei nove anos encarcerado.
do, fui encaminhado para uma sala de torturas,
onde o escrivão Samuel Pereira Borba e outro Havia outros torturadores: o Capitão Homero Quero reafirmar que não me arrependo do
policial que não sei identificar, começaram a César Machado, Pedro Mira Grancieri (também que fiz. Sinto muito orgulho por ter pegado em

90 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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“Aos poucos, fui sendo
destroçado pelas
sevícias. Passei mais
ou menos dois
meses na Operação
Bandeirante”
armas para lutar contra a ditadura instaurada
no Brasil. Essa consciência foi adquirida no
convívio com meus pais Antônio Raymundo
de Lucena e Damaris Oliveira Lucena. Meus
velhos, apesar de terem baixo nível de esco-
larização, tinham uma profunda consciência
de classe. Conheciam muito bem as mazelas
dessa sociedade, onde pobres, negros, e des-
validos, são as maiores vítimas do capitalismo
nacional e internacional.

Minha família não possui riquezas mate-


riais, mas, é detentora de um excelente capital
intelectual que é a plena consciência dos pro-
blemas deste país. Fizemos a opção pelo povo
e sabemos da necessidade de educar e cons-
cientizar a massa para que possa lutar em prol
dos seus direitos.

São Paulo, 9 de maio de 2013

ARISTON DE OLIVEIRA LUCENA nasceu em São Paulo


no dia 6 de outubro de 1951. Seu último trabalho foi
técnico do INCRA. Aposentou-se por invalidez em 2012,
pois era diabético, hipertenso e tinha sido submetido
à uma angioplastia. Faleceu em 25 de maio de 2013 de
infarto agudo do miocárdio. Suas cinzas repousam no
assentamento onde residia, em Tremembé (SP).

Ao lado, Ariston preso, São Paulo, 1970

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3

1. Antônio no Maranhão, 1947


2. Antônio em São Paulo, 1957
3. Diretório do Partido Comunista durante visita de Luís Carlos Prestes em
São João Clímaco, São Paulo, 1958
4. Damaris e Joana, irmã de Antônio, em Caxias (MA), 1945
5. Retrato de Damaris aos 12 anos, em Caxias (MA), 1939
6. Damaris em encontro com Prestes, São Paulo, 1958
7. Greve por aumento de salário em São Paulo, Doutor e Damaris estão em
4 5
destaque na foto, 1963. Imagem cedida pelo Arquivo Última Hora/AESP

Antônio Raymundo de Lucena nas- casal participou da campanha “O Petróleo é Nosso”. militar estabelecido na área de treinamento de guer-
ceu em 11 de setembro de 1922, em Colina (MA), filho Nessa época, ele e sua esposa eram operários na Ja- rilha da VPR, no Vale do Ribeira (SP).
de José Lucena Sobrinho e Ângela Fernandes Lima fet, indústria têxtil localizada no bairro do Ipiranga. Em 20 de fevereiro de 1970, por volta das 15 horas,
Lucena. Morto em 20 de fevereiro de 1970. Militante Em 1954, ingressou no Partido Comunista. a porta do sítio onde a família morava em Atibaia
da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). (SP) foi golpeada violentamente por militares. Lu-
Lucena aposentou-se em 1964 por invalidez. Como
Aos 12 anos de idade teve uma úlcera ocular que lhe era cego de um olho, teve o direito a uma banca na cena dormia. Começaram a atirar. Lucena tombou
ocasionou a perda da visão do olho direito. Nessa feira isenta de impostos. Damaris tirou carta de gravemente ferido e, logo em seguida, recebeu mais
época, começou a ocupar-se de atividades de ins- motorista e logo adquiriu uma perua, para facilitar tiros. Foi assassinado, na presença de sua família.
talações elétricas, serviços de pedreiro e mecânica. o transporte do material de trabalho. Lucena foi sepultado como indigente no Cemitério
Aos 17 anos, assumiu a função de mestre de oficina de Vila Formosa, em São Paulo.
mecânica. Apesar de não ter terminado os estudos, Em 1968, passaram a fazer parte da VPR, tendo Lu-
Antônio era uma pessoa bastante inteligente e habi- cena participado de diversas ações armadas. Em
lidosa. Por conta disso, recebeu dos conhecidos a al- 1969, o casal já vivia na clandestinidade com os fi- Damaris Oliveira Lucena nasceu em
cunha de “Doutor”. Ao casar-se com Damaris, Lucena lhos, em Atibaia (SP), e era responsável por guardar 22 de agosto de 1925 em Codó, (MA). De família po-
começou a trabalhar como mestre de serraria e ela os fuzis FAL subtraídos por Lamarca quando fugiu bre, começou a trabalhar aos 7 anos. O trabalho no
como fiandeira. do quartel de Quitaúna (SP), em janeiro de 1969. campo estendeu-se até os 16 anos.
Em março de 1950, embarcou em um caminhão pau Seu filho mais velho, Ariston, também militante da Durante cinco anos trabalhou como fiandeira e
de arara para a cidade de São Paulo. Ainda em 1953, o VPR, foi preso em 1970, após ter escapado do cerco depois encarregada de compras na indústria ma-

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nufatureira. Por conta dos baixos salários, decidiu Em 1967, pediu afastamento por tempo indeter- nacional: Chizuo Osava, Madre Maurina Borges
mudar-se para São Paulo onde acreditava que as minado do Partido Comunista. Tinha uma intensa da Silveira, Diógenes José de Carvalho de Oliveira,
condições de trabalho seriam melhores. Chegou militância mesmo sem estar vinculada a nenhum Otávio Ângelo e Damaris, que seguiu com os três
à cidade onde o marido Antônio Raymundo de partido. No final de 1967 entrou para a Vanguarda filhos menores: Adilson Oliveira Lucena, 9 anos, De-
Lucena já estava, em 1º de junho de 1950. Popular Revolucionária (VPR) e logo seu marido en- nise Oliveira Lucena, 9 anos, e Ângela Telma Oliveira
trou para a clandestinidade. Com a prisão de vários Lucena, 3 anos e meio para o México, onde ficou por
Trabalhou na empresa de tecelagem Jafet por um
militantes no início de 1969, foram obrigados a en- dezenove dias.
ano e posteriormente foi transferida para a creche
trar definitivamente para a clandestinidade. Logo depois, recebeu o convite de Fidel Castro para
como cozinheira.
No dia do assassinato de seu marido, Damaris esta- viver em Cuba. Damaris chegou à Cuba e permane-
Damaris filiou-se ao Sindicato dos Têxteis em 1950. va em casa com as crianças. Ela conta que Lucena, ceu internada por vários meses para se tratar das
Pela sua atuação junto aos trabalhadores recebeu o atingido, caíra ao lado do tanque, já fora da casa, torturas sofridas nos cárceres brasileiros. Na Ilha
cargo de delegada sindical. Participou do Congresso quando um último tiro foi disparado em sua têm- viveu e criou seus filhos. Voltou ao Brasil em maio
de Mulheres Operárias realizado no Rio de Janeiro pora, na presença dela e dos filhos. Damaris foi bar- de 1980 onde seu filho Ariston tinha permanecido
em 25 de maio de 1956. Na volta, foi demitida “por baramente torturada na OBAN e seus filhos foram preso por 9 anos.
causar distúrbios na população fabril”. Passou a mi- levados ao juizado de menores.
litar no Partido Comunista.
Saíram da prisão por ocasião do sequestro do côn-
Em 1958, no governo de Jânio Quadros, ajudou na sul japonês na capital paulista, Nobuo Okuchi, em
organização da greve dos dez dias. março de 1970. Assim foram banidos do território

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1. Matéria Jornal da Tarde do dia 23 de fevereiro
de 1970, após o assassinato de Antônio e a prisão
de sua família
2.Adilson, Ângela Telma e Denise no DOPS,
São Paulo, 1970
3. Damaris durante sua prisão no Brasil
4. Damaris com Ângela Telma no colo,
Diógenes Oliveira, Adilson, Shizuo Ozawa,
madre Maurina Borges, Denise e Otávio Ângelo,
na chegada ao exílio, México, 1970

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6

5. Ariston em São Paulo, 1953


6. Família Lucena no final de 1966
7 e 8. Ariston preso em São Paulo, 1970

10

9. Condenação à pena de morte de


Ariston
10. Fichas de Ariston do DOPS
11. Ariston no presídio do Barro
Branco, São Paulo, 1977
12. Salvo conduto de Ariston

11 12

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1

A vida em Cuba

1. Damaris e Adilson em Cuba, 1970


2. Denise, Ângela Telma e Adilson, Cuba, 1972
3. Marina Lamarca, Isaura Coqueiro, Damaris Lucena, prefeito da Ilha de
Piños e Ilda Martins Gomes da Silva, Ilha de Piños, Cuba, 1975
4. Damaris nos dias de hoje. Atrás, prêmio La Utilidad de La Virtud,
que recebeu da entidade cubana La Sociedad Cultural José Martí em
reconhecimento a sua trajetória e vida dedicada à militância
5. Ângela Telma, Cuba, 1970
6. Ângela Telma, Cuba, 1973
7. Ñasaindy Barrett de Araújo, Trinidad e Ângela Telma
Cuba, 1976
8 e 9. Denise, Cuba
10. Ângela Telma, Denise e Adilson na festa de 15 anos dos
gêmeos Denise e Adilson, Cuba, 1975
11. Adilson, Cuba, 1972
12. Denise e Adilson, Cuba, 1974
13. Adilson, Cuba, 1973

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Revolucionária,
por Damaris Oliveira Lucena

Meus parentes por parte de pais são africanos.


Meu bisavô foi vendido aqui no Brasil com toda
a família. Só ficou um pequenininho com minha
bisavó. Então eu sou de gente que não se conforma
com injustiça. Fui crescendo sempre achando que
as coisas não eram daquele jeito. Que era injustiça
que se fazia. E me casei com um homem também
que não gostava de injustiça. No fim, paramos em
São Paulo. A minha história está aí, todo mun-
do sabe. E aí nos envolvemos com a luta armada
e com a reforma deste país, deste grande Brasil,
desta maravilha que é este país, cheio de riqueza,
cheio de gente boa, cheio de cultura. Mas, infeliz-
mente a riqueza deste país é mal dividida, a cultu-
ra é mal dividida, tudo é aqui é mal dividido. Mas
nós vamos tocando. Quem sabe amanhã ou depois
de amanhã isso será bem dividido.
Eu cheguei em São Paulo, me envolvi com os
movimentos sindicais, fui para o Rio de Janeiro,
e todo esse itinerário de vida aí no meio de todo
mundo que lutava. Eu assisti à Segunda Guerra,
achava aquilo terrível. Eu lia os jornais para meu
pai. Quando a guerra começou, eu tinha 12 anos.
Quando terminou, eu tinha 17.
Sempre fui uma mulher lutadora contra a injusti-
ça. E graças à minha disposição de luta, fui presa,
fui torturada, mataram meu marido, maltrataram
meus filhos, torturaram meu filho. As freiras “ba-
tiam cabeça”, não queriam nossos filhos, que eram
os filhos terroristas. As freiras, imagine, as religio-
sas, as irmãs de caridade, tudo de chapeuzinho
branco na cabeça, se benzendo toda hora.
E eu parei em Cuba, graças à Revolução Cubana.
Estudei, botei meu pé dentro de uma faculdade,
que para mim foi uma das coisas mais maravilho-
sas que eu já vi, entrar em uma faculdade. Uma
faculdade Cubana. Estudei. Faltou só um aninho
para eu me formar. Acho que eu ainda volto lá em
Cuba para me formar. De forma que eu sempre fui
uma mulher batalhadora. Procurei educar meus fi-
lhos não dizendo para eles serem comunistas, ou
revolucionários.

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operária, mãe e companheira

“Houve coisas terríveis estão pedindo esmola. E lá em Cuba não tem isso, Houve coisas terríveis na minha vida: quando eu
graças à Revolução Cubana. Nós tínhamos tudo vi meu marido morto e eles com a arma em cima
na minha vida: quando do bom e do melhor. de mim, dizendo: “Mata ela! Mata os filhos dela!”.
eu vi meu marido morto Então, foi uma coisa assim, deram um golpe bru-
Outra vez quando tiraram meus filhos e disseram
que iam nos matar. Foi muito triste, eu estava pre-
e eles com a arma em tal, mas brutal. Quando nós demos conta, a costa
brasileira estava cheia de navio americano. Olha,
sa junto com a Drª Eliana Rollemberg, chegou a
polícia com o Capitão Homero [César Machado] e
cima de mim, dizendo: o presidente se não tivesse ido embora ele tinha
não sei quem mais com os meus filhos. Eu estava
sido assassinado como assassinaram o [Salvador]
‘Mata ela. Mata os filhos Allende lá no Chile.
em uma janela, e quando os vi, me deu uma crise
tão grande que quase morro. Teve um momento
dela’. Foi, para mim, uma Quando chegamos no México, o Mário Japa, que eu pensei que eu ia perder o juízo. Eu pensei:
coisa muito terrível.” [codinome de] o Shizuo Osawa, foi ao consulado
cubano e lá tinha uma carta do Comandante Fidel
“Vieram torturar os meus filhos para eu ver, e falar
onde estavam os meus companheiros”. Para mim
Castro oferecendo asilo para mim e as crianças. foi uma das coisas mais tristes da minha vida. Eu
Uma vez eu vi meu pai conversando com uma
Que se eu quisesse, eu podia ir para Cuba. Quan- pensei: “Se torturarem os meus filhos aqui, eu
russa e ela falou para ele: “Senhor Manoel, os ver-
do ele me falou isso, foi uma das maiores satisfa- morro”. Eu falei para eles: “Olhem, me matem e
melhos tomaram o poder lá na Rússia”. Os ver-
ções da minha vida, receber um convite de um matem os meus filhos. Está tudo terminado”. Para
melhos? Eu pensei: “Será que eles tinham a pele
estadista. Eu, que era uma simples trabalhadora, mim foi muito terrível. Foi um momento duro da
vermelha?” Eu tinha 7 anos quando saiu a Revo-
semianalfabeta. Foi uma das maiores alegrias que minha vida. Eu procuro esquecer, mas, de vez em
lução Russa.
eu tive na minha vida. quando, eu lembro das barbaridades da ditadura.
Eu vim escutar a palavra comunismo aqui em
São Paulo, quando eu cheguei. Eu perguntei: “gen-
te, o que é comunismo?”. “Ah, companheira, co-
munismo é as pessoas que querem que as pessoas
tenham escola, tenham alimento, hospital”. Ah
bom, então eu pensei. “Eu sou comunista porque
eu quero que tenha tudo isso para todo mundo”.
Então, por isso eu me envolvi com a luta de bene-
ficiar todo mundo.
E para nós foi muito duro. E no governo do Pre-
sidente João Goulart, todo mundo na rua lutando
por reforma. Reforma agrária, reforma urbana, re-
forma educacional. Nem ninguém falava em co-
munismo, nem ninguém falava em religião. Se fa-
lava na reforma. Nosso entusiasmo era tão grande
pela reforma, e ninguém queria criar partido, criar
religião. Aí uma boa parte da igreja, com o senhor
Lincoln Gordon, representante máximo daquela
grande potência norte-americana aqui no Brasil,
dono do mundo, dono da maior riqueza, que hoje
À esquerda, Damaris, São Paulo, 2013.
Foto de Celso Imperatrice
À direita, família Lucena reunida em São Paulo

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Duas pátrias, duas mães
por Ñasaindy Barrett de Araújo

O processo histórico brasileiro da ditadura Chacina da Chácara São Bento, em Pernam- dos meus pais. E a partir daí comecei a sofrer
me conectou à família Lucena de uma forma buco, naquele conhecido episódio, devido à isso com mais força. E também, ao mesmo
muito forte. Hoje eu sou uma integrante da traição do Cabo Anselmo. tempo, desejei saber quem eram eles, como
família e fico muito honrada. eles eram, onde eles estavam, se estavam vi-
Em Cuba, as notícias chegavam para nós
vos ou mortos. Mas, mesmo assim sempre
Eu sou Ñasaindy Barrett de Araújo. Já fui assim: “Morreu, não morreu, desapareceu,
estive muito acolhida com a Damaris, com os
Ñasaindy de Oliveira Lucena. Eu tive uma foi preso, não foi preso”. Ou seja, a gente não
irmãos. É a minha família.
certidão de nascimento que tinha esse nome. tinha uma verdade definitiva. Não havia cor-
E foi com essa certidão que eu vim para o pos. Então, eu fui ficando, ficando, ficando E hoje eu continuo convivendo com a mi-
Brasil como se fosse filha legítima da dona com a Damaris. Ela foi me assumindo como nha família, com a Damaris, cada vez mais
Damaris. filha, eu fui assumindo ela como mãe, e os fortalecendo os nossos laços, que não são
filhos dela como os meus irmãos. Essa afeti- fáceis, porque foram muito polêmicos em
Sou filha biológica de Soledad Barrett vidade foi se compondo e se fortalecendo. E algumas situações. Por exemplo, como você
Viedma e José Maria Ferreira de Araújo. Os meus pais nunca voltaram. querer assumir o nome dos seus pais biológi-
meus pais se conheceram em Cuba, onde cos e, ao mesmo tempo, não rejeitar o nome
também nasci. Um ano após meu nasci- da sua mãe adotiva. Recuperar a sua identi-
mento, Damaris Oliveira Lucena chegava dade não quer dizer que você vá abrir mão de
com sua família em Cuba, no exílio. E foram uma identidade que você construiu junto, ao
colocadas na convivência em conjunto, na lado dela, como família.
mesma casa.
Nossa chegada no Brasil, em 1980, foi cheia
Quando eu tinha 1 ano e dois meses, meu de dificuldades. Inclusive a Damaris preci-
pai saiu de Cuba e veio para o Brasil dar con- sou esticar por mais um ano a permanência
tinuidade à sua militância, na guerrilha. Dois dela no exílio, justamente porque não tinha
meses depois, em setembro, ele foi preso e uma solução muito definitiva para o meu
morreu sob tortura. caso. Foi uma situação complexa. Eu não era
filha legítima, mas também não tinha como
Minha mãe ficou mais um pouco em Cuba
dizer que não era filha.
e depois de uns quatro meses, mais ou me-
nos, ou seja, em dezembro do mesmo ano, Eu não me lembro exatamente dos fatos, Bom, no final das contas consegui vir para
1970, ela partiu também para dar seguimen- mas eu sabia que tinha alguma coisa diferen- o Brasil, o que para mim foi um choque, para
to à sua militância. Eu permaneci em Cuba, te na minha própria condição de criança em quem viveu em Cuba e conhecia a dignidade
em companhia da Damaris e dos seus filhos, Cuba com os outros exilados. A Damaris sem- martiniana e a ética do respeito ao ser huma-
já bem integrada, porque já morávamos jun- pre me disse quem eram os meus pais, mas eu no. Para quem compreendia alguns valores
tos há alguns meses. me lembro de um momento em que isso ficou da vida, da igualdade, da solidariedade.
Então, a minha mãe seguiu na militância. mais visível.
Quando cheguei ao Brasil, caí na real mes-
Isso era fim de 1970. E ela faleceu em 1973, na Eu tinha 10 anos quando alguém fez um mo do que era ter saído de Cuba. Aí foi bem
quadro com fotos dos meus familiares. Acho complicado. Eu tinha 11 anos. E vivi dezesseis
Ñasaindy à esquerda com 6 anos e, ao centro, com 4.
Ambas fotos em Cuba
que foi ali que eu tomei consciência da perda anos no país com uma dificuldade enorme de

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documentação, porque ainda era a ditadura Quando a gente pensa na infância, tem colo de uma pessoa que eu já amava, eu que-
e havia toda uma dificuldade de acessar os a questão da ausência e do exílio, que eu ria morrer. E isso eu fiquei sabendo depois.
órgãos responsáveis pela questão de RG, do- acho que é muito forte. Estar fora da sua pá- E durante toda a minha vida, e talvez ainda
cumento. Então eu fiquei 16 anos clandestina tria, longe dos seus familiares, é uma coisa até hoje seja ainda o que eu ainda quero. En-
no Brasil, desde a data que chegamos. Só fui que marca muito. No caso da Damaris, por tão é muito difícil para a gente lidar.
adquirir minha identidade com meu nome le- exemplo, ela tinha ainda um filho que esta-
gítimo em 1996. E tem a forma como ela foi assassinada,
va preso, que é o Ariston. A segurança dele
todo esse cenário, isso tudo também, de al-
estava sempre em risco, sempre tinha essa
São trinta e tantos anos de uma terapia au- guma forma, faz a gente tocar nessa questão
preocupação, como ele estaria vivendo, o
todidata, feita à base da experiência, de um da violência. É muito forte.
que ele estaria vivendo dentro da prisão. Já
autorreconhecimento, de autoconhecimento. se sabia de tantas barbaridades.
Eu tenho quatro filhos. Os próprios filhos fa- Eu tenho certeza e costumo dizer que eu
zem a gente refletir muitas coisas. Fazem a não tive infância. Eu sempre fui uma pes-
gente se sentir criança. E eu tenho muito or- “No momento em que, soa isolada. Brinquei um pouco, mas não o
gulho de ser filha de Soledad Barrett Viedma, ou eu perdi a minha mãe quanto poderia, vamos dizer assim. Sempre
me vi, na fase da adolescência, como um ex-
de José Maria Ferreira de Araújo e de Dama-
ris Oliveira Lucena. E de ter meus irmãos. Te-
ou na minha despedida, traterrestre, totalmente distanciada, muito
nho muito a agradecer a eles. quando eu soube que eu solitária. Muito, muito, muito mesmo. Eu vi-
via em um mundo totalmente à parte.
Tudo o que aprendi, a mulher que eu sou não veria mais a minha
Então, realmente, acredito que filhos [de
hoje, é por causa da Damaris. A Soledad tem mãe, mesmo estando perseguidos, desaparecidos e assassinados
a sua força. Foi uma mulher incrível, que
cada vez que eu conheço mais, gostaria mui- no colo de uma pessoa pela ditadura] vivenciaram uma dificulda-
de de adaptação, de identidade, de autoco-
to de tê-la conhecido, com certeza. Eu acho que eu já amava, eu nhecimento. Estamos meio atrasados na
que ela tem aspectos muito contemporâneos
que foram calados. Ela era uma mulher mui- queria morrer” vida. De alguma forma ou de outra você se
to livre. Estudar a Soledad é falar da mulher, atrasou. Eu pelo menos me considero muito
Essa coisa dela com o filho, essa preocu- atrasada. Eu me formei faz dois anos.
do feminismo, da importância da educação.
pação, de como ele estaria, isso permeou
É falar de um monte de coisas. E, ao mesmo tempo a gente vê que a maio-
a minha infância. E a ausência dos meus
pais biológicos, legítimos, ficou muito pre- ria das pessoas está de alguma forma en-
Mas, no dia a dia, na convivência, na edu-
sente quando eu tomei consciência disso. gajada, comprometida com a sociedade. E,
cação, na criação, muitos valores foram
Isso passando pelos conflitos, de todo um nós, com certeza, fazemos questão de dar
transmitidos pela Damaris, pela família. E
processo de questionamento das escolhas continuidade a essa luta dos nossos pais.
eu tenho muito a agradecer.
deles, a experiência histórica. Eu não tive Isso é uma coisa, é um comprometimento e,
Quanto à questão da Comissão da Verda- essa consciência, essa memória que a Telma mais do que isso, é uma coisa que está den-
de, é maravilhoso que esteja acontecendo, [Telma Lucena, irmã adotiva] tem. Ela era tro da gente. Pelo menos dentro de mim. O
que tenham pessoas assistindo, presentes. tão jovem e lembra como tudo foi. Ela é uma meu caminho, a escolha principal é a edu-
Que seja, de alguma maneira, replicado. Não pessoa que tem uma dimensão, um nível de cação, com certeza. Educação é, a princípio,
existe situação melhor para a gente refletir, consciência e de memória muito aflorado. um grande caminho. Mesmo assim pode ser
inclusive sobre a nossa responsabilidade bem desvirtuado. Mas, é muito importante
como testemunhas, como pessoas vivas da Eu não. Eu fui diferente. Eu, consciente- que nós não deixemos de atuar, que a gente
experiência. mente, não tenho nenhuma lembrança. Nem sempre se coloque, se posicione, diante de
de estar com meu pai e nem com a minha todas as situações. Que mantenha esse cará-
Tem essa coisa que é incrível: passam os mãe. Mas, nos meus processos terapêuticos, ter ético constante de fazer a sua ação a sua
anos e, quando se desperta, de repente en- vamos dizer assim, tive oportunidade sim palavra, a sua palavra a sua ação.
contramos alguém que fez parte daquele mo- de me encontrar com o que seria o momen-
mento com você, mas que você não reconhe- to de despedida da minha mãe. E, pelo que
ceria na rua. Se não fossem esses momentos, parece, não sei se é memória ou inventado ÑASAINDY BARRETT DE ARAÚJO nasceu em 4 de abril
esses encontros, da gente estar se recuperan- – porque chega uma hora que você não con- de 1969, em Havana, Cuba. É Filha de Soledad Barrett
Viedma e José Maria Ferreira de Araújo. Filha adotiva
do, se aproximando, dando as mãos... E esse segue mais saber identificar muito bem –, de Damaris Oliveira Lucena. É pedagoga e faz es-
círculo cresce muito. Cada vez mais, na hora nesse momento eu escolhi morrer. No mo- pecialização em “Artes Visuais, Intermeios e Edu-
que você inclui os netos, os jovens que estão mento em que perdi a minha mãe ou na mi- cação”. Atualmente trabalhando como capacitado-
ra em um Portal Educativo. É mãe de Yalis Lucena
aí hoje e que estão próximos a essa história nha despedida, quando eu soube que eu não Drummond, Ivich Barrett Queirolo, Habel Davi de Araújo
por nossa via. Isso é muito importante. veria mais a minha mãe, mesmo estando no López e Diana de Araújo López

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2

José Maria Ferreira Araújo, ou Araribóia,


nasceu em 6 de junho de 1941, em Fortaleza (CE), filho de
João Alexandre de Araújo e Maria da Conceição Ferreira de
Araújo. Desaparecido em 23 de setembro de 1970. Militan-
te da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Preso em 23 de setembro de 1970 pelo DOI-CODI/SP e le-
vado às câmaras de tortura, morreu em consequência das
mesmas. Vários presos políticos testemunharam as tor-
turas a que foi submetido e sua morte, segundo denúncia
feita pelos presos políticos de São Paulo enviada à CNBB,
em fevereiro de 1973, encontrada nos arquivos do DOPS/
1
SP. Seu nome constava como Edson Cabral Sardinha, pois
a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Polí-
ticos não tinha contato com seus familiares.
Com o nome de Edson Cabral Sardinha, sua morte foi de-
nunciada na carta escrita pelos presos políticos do Presí-
dio do Barro Branco encaminhada ao presidente da OAB,
Dr. Caio Mário da Silva Pereira, em 25 de outubro de 1975,
segundo a qual “foi assassinado pela equipe do capitão
Benoni de Arruda Albernaz”.
Seu paradeiro foi descoberto por meio de pesquisas reali-
zadas nos arquivos do IML/SP pela Comissão de Familia-
res de Mortos e Desaparecidos Políticos, onde constava
ter sido enterrado com o nome falso de Edson Cabral
Sardinha na quadra 11, sepultura 119, do Cemitério de Vila
Formosa I. No laudo necroscópico, o nome de Edson Ca-
4 bral Sardinha está identificado por um T em vermelho (de
“terrorista”), recurso utilizado pelos órgãos de segurança
para diferenciar os corpos dos ativistas políticos dos de-
3 mais que por lá passavam. Somente com a abertura da
vala clandestina do cemitério D. Bosco, de Perus, na cida-
de de São Paulo, em 1990, seu verdadeiro nome foi divul-
5 gado e seus familiares localizados.
José Maria conheceu Soledad Barrett Viedma em Cuba,
onde realizou treinamento de guerrilha quando era mi-
litante do MNR. Soledad foi assassinada em janeiro de
1973, em Pernambuco, junto com outros companheiros
delatados pelo Cabo Anselmo – José Anselmo dos Santos
–, um agente dos órgãos de segurança infiltrado nas orga-
nizações de esquerda.

Soledad Barrett Viedma, ou Viejita, nasceu


em 6 de janeiro de 1945, em Laureles, no Paraguai, filha de
Alex Rafael Barrett e Deolinda Viedma Barrett. Morta em
6
8 de janeiro de 1973, no Massacre da Chácara São Bento,
município de Paulista (PE). Militante da Vanguarda Popu-
lar Revolucionária (VPR).
Foi casada com o militante da VPR, José Maria Ferreira de
Araújo (desaparecido em 1970), com quem teve uma filha,
1 e 2. José Maria Ferreira de Araújo, pai de Ñasaindy, era militante Ñasaindy Barrett de Araújo, que cresceu em Cuba e hoje
da VPR e desapareceu em 23 de setembro de 1973 vive no Brasil.
3 e 4. Soledad Barrett Viedma, mãe de Ñasaindy, foi morta no Soledad vivia com o seu companheiro Cabo Anselmo, cuja
episódio conhecido como Massacre da Chácara São Bento
participação como agente policial infiltrado no Massacre
5. Ñasaindy ainda bebê nos braços do pai, Cuba
da Chácara São Bento foi relatada de forma detalhada
6. Ñasaindy aos 9 anos com seu cachorrinho de pilha
no documento intitulado “Relatório de Paquera”, encon-
trado no DOPS/SP. Suspeita-se de que estivesse grávida
dele, quando levou quatro tiros na cabeça e dois no pes-
coço, após ter sido presa e levada à chácara. Tinha marcas
de algemas nos pulsos e equimoses no olho direito, o que
desmentiu a versão oficial de morte em tiroteio. Junto com
ela, mais cinco militantes da VPR foram mortos no Massa-
cre. Soledad foi enterrada como indigente, sem qualquer
identificação, no Cemitério da Várzea, no Recife.

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104 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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O novo arrimo de família
por Jaime Martinelli Sobrinho

Eu sou o mais velho dos irmãos, portanto o fizesse lá, conversar com ele e dizer que não carnezinho. Imagine, uma pessoa que foi ami-
que não sofreu o que eles sofreram. Eu fui mais fosse rebelde, porque eu controlava o dinheiro. go do Presidente da República, amigo do João
cobrador do meu pai, tinha 15 anos em 1964. De- [Ele] tinha uma namorada, que é a esposa dele Goulart, nessa situação.
pois do golpe, fomos distribuídos na casa de es- hoje, mas o dinheiro, quem separava para ele ir
tranhos, depois parentes ficaram com cada um ao cinema era eu, o Jaime. Era eu que fazia as Ele nunca quis nada para ele, sempre lutou
dos irmãos, até que meu avô nos reuniu numa funções ruins da família. pelo bem do povo brasileiro e hoje isso parece
casa de aluguel. E só quando ele [o pai, Raphael uma utopia. Hoje, a gente vê tudo que acon-
tece aí, uma pessoa que nem o próprio Lula,
Martinelli] apareceu voltamos a conviver. “Fui filho único por que sai de uma condição de nada e hoje é um
Ele era um líder sindical conhecido nacional- quatro anos e pouco milionário. Não que a gente quisesse isso para
mente. Eu, na época, era só o colecionador de nós, mas meu pai merecia um reconhecimento,
fotos da revista O Cruzeiro, do homem que pa- e depois ele já [estava] meu pai merecia.
rava o Brasil com um telefonema. E não tinha metido em política.
noção do tamanho da grandeza do meu pai. E o que eu acho é que é uma pessoa que gra-
Logo nós percebemos que eu tinha que arru- Meus outros irmãos ças a Deus temos tempo para consertar todos
mar meu primeiro emprego. E assim aconte- sofreram, não esses erros de não entendê-lo. Nós passávamos
Natais com todos os irmãos dele, aquela farra
ceu. Ele, por ser uma pessoa que sempre lutou
contra a ditadura foi preso na sede do Inocoop. conheceram esse de família italiana, que ele adorava e nós não
E eu já estava trabalhando. pai que eu conheci” conseguimos ter essa união pela falta dele.

Ele não foi preso e localizado, ele foi pre- Eu tive sorte que meu nome não tem a ver
so e sumido. A história é meio longa, mas foi E comecei a ser um questionador do meu pai. com a política dele ainda, pois os outros todos
através de uma tia que conhecia uma pessoa Eu ia visitá-lo, mas não tantas vezes. Comecei a tiveram. O meu irmão é Edson Lenin Martinelli
de alta patente do Exército que morava na rua ter revolta pelo fato de ele ter sido líder políti- e carregou isso na escola. Eu acho que meu pai
que ela morava que conseguimos localizar co, cassado, procurado. E passada aquela fase, deveria ter tirado esse carimbo dos filhos. A
onde ele estava. Ela pediu para a família ir até ele se envolveu com a luta armada e acho que gente não merecia isso, mas ele era um idealis-
a porta da OBAN levando roupa, para ficarem ele não pensou tanto na família. Nós não sabí- ta, e paciência. E comigo e meus irmão ele teve,
sabendo que o tínhamos localizado. E assim a amos o que ele fazia. Eu não sei se isso foi uma o que adora, que são os netos. Junto dos netos
vida foi, para mim, um pouco difícil porque eu defesa para a família. Se nós tivéssemos sido pe- a gente vê isso. Ele é um moleque junto dos
passei a ser arrimo de família e comecei a con- gos, torturados, não teríamos o que falar do meu netos, tem uma saúde de ferro para brincar, e
trolar os meus irmãos, que em seguida foram pai. Nem a mãe e nenhum dos filhos sabíamos eu passei por isso como filho.
tendo funções também na empresa que eles o que ele estava fazendo.
começaram a trabalhar. E aquela velha história Fui filho único por quatro anos e pouco e de-
de pegar os envelopes de pagamento, põe tudo Fomos descobrindo tudo com o processo, so- pois ele já [estava] metido em política. Meus ou-
aqui na mesa, passei a ser o pai deles. bre as torturas, eu questionava muito que ele tros irmãos sofreram, não conheceram esse pai
não devia ter se metido novamente naquilo. Eu que eu conheci. Eu tenho certeza que o maior
A gente tem um rompimento de amor por acho que um idealista não devia ser pai. Mas cobrador dele de tudo, fui eu. Hoje nós já tira-
causa dessas coisas de inversão de papeis. Tem como ser humano, como alguém que o conhe- mos algumas barreiras da frente, mas ele sabe
uma carta, inclusive, que a Rosa me passou, há ça, que conversa, vira fã do velho. Ele é uma que eu fui o filho mais incompreensível.
pouco tempo, que eu escrevi ao meu pai dizen- pessoa rara que passou por altos cargos e não
do isso, que ele precisava, na visita que o Edson teve um tostão na vida. A casa que ele teve foi Uma coisa que eu queria deixar claro, e eu
graças aos filhos pagarem as mensalidades do acho que a Comissão da Verdade está batendo
À esquerda, Jaime, ao centro, com a mãe Maria Augusta e o pai
Raphael Martinelli, São Paulo, 1952 Inocoop, ele iniciou, mas nós que pagamos o muito nessa tecla, é Tortura Nunca Mais. Meu

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pai foi torturado de maneira bárbara. Ele era Tanto é que dois de nós, três se divorciaram, Eu comprovei que o João Goulart era amigo
treinado para isso também, não podemos dizer voltaram para casa adulto, pai de filhos. E a do meu pai, porque quando ele esteve na lista
que era nenhum bobinho. Ele foi treinado para maior alegria dela foi nos receber, as ex-noras para ser trocado pelo cônsul, ele se recusou a ir
tudo isso, mas ele esteve em um programa ficaram horrorizadas ao verem que ela podia porque queria cumprir o que devesse e ele devia
agora, recentemente, do Antônio Abujamra, cuidar de nós de novo. Que foi o que ela soube mesmo, porque na ocasião ele lutava contra a
Provocações, onde falou uma coisa que eu ouvi fazer a vida inteira. Ela não queria nenhuma ou- ditadura. Então ele quis pagar no Brasil o que
pela primeira vez e que marcou muito. Foi per- tra coisa que não cuidar dos filhos. Sobre nós, os estava fazendo de errado, quis cumprir a pena
guntado por que ele era da linha stalinista, que quatro irmãos se formaram, trabalhando e pa- dele aqui como cumpriu. A gente estava naque-
para mim sempre foi um criminoso dos maio- gando seus cursos superiores. E pudemos fazer la situação muito ruim na Lapa de Baixo [Em
res que teve nessa humanidade. Ele foi ques- o inverso com os nossos filhos, graças a Deus. São Paulo], morando de aluguel, sendo ajudado
tionado pelo Abujamra: “Mas, stalinista?” E por parentes. E aí um amigo do João Goulart
ele falou: “Sim, porque Stalin matava, mas não “Tortura é a coisa mais veio em casa conversar com minha mãe para fa-
torturava”. Tortura é a coisa mais absurda que lar que o João Goulart estava chamando para a
existe no mundo. E eu acredito que só quem absurda que existe no gente viver no Uruguai, ter emprego para o meu
tenha passado, e ele passou, pode dizer isso mundo. E eu acredito que pai lá, para a gente largar tudo e ir embora. E ele
logicamente como é, não aceitou. Mas, teve esse
com todas as letras. É muito mais fácil matar
do que torturar. Então, essa coisa horrível que só quem tenha passado, único amigo que reconheceu mesmo e sabia
algumas pessoas estão passando aqui pela Co-
missão da Verdade tentando se defender, as
e ele passou, pode dizer que meu pai estava passando as necessidades.
E essa pessoa subiu na Lapa de Cima, porque
pessoas não podem ser humanas fazendo tor- isso com todas as letras” viu a situação que a gente vivia, que não tinha
turas com seres humanos. nada, comprou uma máquina de lavar e mandou
entregar em casa.
Não pode ter uma inteligência, por exemplo, Sobre o meu pai, ele deve ser uma pessoa
de uma ditadura colocada naquele momento muito decepcionada com amizades, o que Nós nos amamos, mas temos problemas en-
que tenha que se fazer dessa coisa absurda, criou para mim um problema seríssimo. Eu te- tre irmãos. Hoje contei para o Edson uma pas-
dessa coisa abominável para que se possa ven- nho um amigo só, que é meu compadre. Não sagem de como a gente saiu do Rio de Janeiro
cer uma mentalidade contra o atual regime da tenho mais porque hoje em dia é uma dificul- e ele não lembrava, porque era bem menor que
época. Então, é isso que eu queria deixar gra- dade ter amigos. Eu lembro do meu pai falando eu. Então, tem algumas coisas que eu conheço
vado. A Comissão da Verdade eu tenho acom- bem de Lula em casa, quando era líder sindical e eles não conhecem. É falta da convivência de
panhado e espero que tenha bastante frutos. e estava viajando o mundo, sendo acusado por irmãos. Mas o que eu queria dizer é isso, que
Tem algumas pessoas aí com a idade do meu isso. E meu pai defendendo, dizendo que ele tenho dificuldades para amizades.
pai, que podem dar depoimentos e dizer quem tinha feito a mesma coisa para os filhos lá em
realmente são torturadores, quem realmente casa. “Eu fiz a mesma coisa (quando líder sin- Outra coisa que meus irmãos talvez não sai-
fizeram essas coisas horríveis. dical), conheci o mundo sendo convidado sem bam é do meu pensamento. Com dificuldades
ter um dinheiro no bolso, sendo chamado, e o eu trabalhei em multinacionais, vivi, cresci,
Acho que a nossa [vida] ainda foi privilegiada. Lula está fazendo a mesma coisa”. E não era. comprei minha casa própria, meu carro, edu-
A nossa não teve nascimento em cela de tortura, quei meus filhos, tudo, e a gente assistiu que
mães dando a luz em cárceres, a nossa ainda foi Eu fico imaginando a decepção dele com o esse mundo não é para pessoas que nem meu
privilegiada. Graças a Deus estamos todos com José Dirceu, com o Genoíno, com o Luiz Eduar- pai, honesto. A gente teve na nossa frente um
saúde, com netos, e aí tocando a vida. do Greenhalgh. Quando eu estava divorciado, monte de caminhos errados para seguir para
[morando] na minha mãe, atendia telefonema ficar muito bem de vida. Eu recusei todos. E te-
Espero maior sucesso para a Comissão da dessas pessoas procurando pelo meu pai. De- nho certeza que por algumas conversas que eu
Verdade e que realmente vocês prestem aten- vem ter usado todo o conhecimento que ele tive com o Edson, ele igualmente. Nós tivemos
ção, esse homem não vai estar mais muito tem- teve como líder sindical, como tudo que ele esse problema de não triar, se for em benefí-
po entre nós, apesar de ter uma saúde melhor conhecia de ferrovia e conhece até hoje, e está cio próprio, fazer alguma coisa contrária à lei,
que a minha, mas é uma figura rara, na política sempre atualizado. E essas pessoas estão usan- conforme a honestidade que meu pai nos criou
brasileira é uma figura rara. do isso até hoje. é uma herança fantástica para nós, a gente
não triou. Não lamento nem um pouco isso e
O meu compadre, que nas ausências dos Ele, como idealista, uma pessoa com capa-
graças a deus estou como o Edson falou, estou
meus irmãos é um irmão também, falou uma cidade enorme sem ter feito nenhuma fortuna
feliz com a minha vida. Podendo abraçar meu
coisa sobre a minha mãe, uma coisa que me alheia, não pegando nada que não era do nosso
pai, tendo tempo de falar aqui, eu te amo, pai.
marcou pelo resto da minha vida. Ele diz que país, e esses sem vergonha dessa bandidagem
Ainda está em tempo de falarmos isso.
ela tinha que ser canonizada viva. Ele conhe- toda que ele considerava como pessoas dignas,
ceu ela como frequentador da nossa casa, e ela e esse papelão. Então, imagine meu pai, nunca
não era uma pessoa que por ser apolítica, não perguntei isso para ele porque a gente não tem JAIME MARTINELLI nasceu em 15 de março de 1949.
era sem vida. Eu tenho certeza absoluta que ela essa liberdade, mas a decepção que ele tem com Filho de Raphael Martinelli e Maria Augusta Martins
era uma mãe galinha. pessoas que ele confiava. É uma coisa terrível. Martinelli, é economista aposentado.

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Adolescência perdida
por Edson Lenin Martinelli

Tudo começou em Jundiaí (SP). Nós nas- da prisão por quatro anos e tortura de nosso Hoje sou um cidadão com 60 anos de idade,
cemos lá, meu pai era ferroviário, minha mãe, pai. Fomos pré-adolescentes que tivemos que perdendo a esperança em ver o que sobrou do
doméstica. Fomos crianças normais, brinca- ir ao trabalho mais cedo para sustentar a nos- meu pai, e o que ele e eu sonhamos de alguma
mos na rua, em campos de malha. Enquanto sa casa. Paramos de brincar e de viver o fogo forma para essa vida. Perdi um pouco da infân-
isso, meu pai iniciava nas causas sindicais e da idade. Tivemos que nos policiar no traba- cia, um pouco da adolescência, e um pouco da
socialistas. Fomos crianças que curtimos a mu- lho para não sermos taxados como burgueses, convivência do meu pai. Perdi um pouco de di-
dança para o Rio de Janeiro e continuamos a também tinha essa dualidade. nheiro que queria ter, um pouco da convivência
brincar na rua e passear em Copacabana, para com os meus irmãos, perdi e perdemos muito.
onde nossos pais nos levavam todos os do- Perdemos partido, perdemos vozes que nos dão
mingos. Enquanto isso, meu pai se destacava “Às vezes, no nosso a esperança em ação. Perdemos governantes no
na federação dos ferroviários e na greve da
classe ferroviária.
egoísmo a gente achava sentido eficiente da função. Perdemos opção de
votos e perdemos os eleitos.
Fomos crianças que viajamos pelas praias
que esse amor do meu
Perdemos o cumprimento das leis e suas
da Bahia, Pernambuco, ficamos hospedados pai pela luta não vinha punições. Perdemos saúde, gentileza, educação,
em casa de frente para o mar enquanto meu
pai era ovacionado nos palanques das ruas e
para nós, só ia para os decência e por aí afora. Mas ganhamos. Ganhei
meus filhos, minha esposa, minha moradia,
praças. Fomos crianças que vivenciamos o pri- outros. E a gente tinha a vida longa do meu pai. Ganhei meus irmãos
meiro terror de ter que fugir na madrugada de
março em 1964, enquanto meu pai fugia para
raiva do meu pai por e amigos, ganhei consciência, dignidade e
honestidade.
outros destinos que não o nosso. causa disso aí”
Ganho em viver e poder dizer agora que as
Fomos crianças instaladas em casas de es- perdas fazem parte da nossa vida e que futu-
tranhos em cidades desconhecidas ao fim da Fomos adolescentes e parceiros do meu pai na ras gerações de filhos e pais sindicalistas, po-
fuga. Fomos crianças separadas em casas de formação e campanha do novo partido constru- líticos ou não, de alguma forma, contribuíram
tios diferentes e deles dependentes. Fomos ído para nós, o PT. Fui namorado de uma única para a construção de uma vida melhor. Essa
crianças com dificuldades em diferentes es- mulher, me apaixonei e com ela casei. Enquanto semente sob a forma de tortura, ideal, luta, ou
colas naquele ano. Enquanto, por um ano, não meu pai levantava a bandeira do PT e por ela por simplesmente educar seus filhos de forma
conseguimos saber onde estava o nosso pai. lutou até a posse do seu líder maior. amorosa foram plantadas por mim, minha es-
E felizes por poder viver com ele novamente posa, meus irmãos, minha adorada mãe, meu
após essa ausência assustadora. Fui eleitor do José Dirceu, José Genoino e
querido pai.
Lula, enquanto meu pai não conseguiu nenhu-
Fomos filhos que voltaram a brincar nas vár- ma única função de liderança dentro do gover- Sou uma célula viva com capacidade de aju-
zeas da Lapa de Baixo, mas fomos crianças que no do PT. A vida foi acontecendo. Fui, acredito dar nas transformações para um mundo feliz.
tiveram que justificar dezenas de vezes o por- que sou um bom marido, bom pai e perdi minha
quê desses nomes e sobrenomes associados mãe. Enquanto meu pai perdeu a esposa, per- No nosso egoísmo a gente achava que esse
à esquerda. Enquanto meu pai continuava na deu a oportunidade de ajudar intensivamente o amor do meu pai pela luta não vinha para nós,
luta da esquerda brasileira. Fomos pré-adoles- nosso Brasil por não governar, não deixarem ele só para os outros. E a gente tinha raiva do meu
centes assustados e horrorizados com a notícia participar do processo do PT. pai por causa disso aí. Eu principalmente.

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Maria Augusta com os três filhos, no Rio de Janeiro, 1962. Da esquerda para direita, Luiz Carlos
aos 5 anos, Maria Augusta (grávida de Rosa Maria), Edson aos 8 anos e Jaime com 13 anos

O sobrenome Lenin, por exemplo, hoje você aconteça isso aí. Prejuízos, a gente teve alguns
vê a estátua do Lenin caída no chão. Que ho- prejuízos. Trabalhar muito cedo, vida dura, dei-
“Eu tive que ficar por menagem foi essa? Isso confunde até hoje. xar todo o dinheiro em casa até os 23 anos de
vários anos escondendo Por que derrubaram a estátua do Lenin? Ele idade. Você não viver mesmo o fogo da adoles-
merecia isso aí? E eu tive que ficar por vários cência, a gente sofre um bocado, mas a coisa
esse Lenin no meu anos escondendo esse Lenin no meu sobreno- forte que fica é como eu coloquei. Fica a digni-
sobrenome. Eu tive me. Eu tive um professor que era sargento que dade, a honestidade, é ter esse exemplo de pai
que não tirou um tostão de ninguém. Hoje eu
me olhava de uma forma estranha nas aulas de
um professor que era educação física. sou uma pessoa feliz. E feliz de estar do lado do
sargento que me Muita coisa se perde. Eu acho que a gente
velho até hoje, com 89 anos. Sofri mas sou feliz,
como diz aquela música.
olhava de uma forma perdeu a adolescência, perdeu muita coisa.
EDSON LENIN MARTINELLI nasceu em 21 de agosto de
estranha nas aulas Mas a gente idolatra muito meu pai. Apesar
de falhas como pai, porque nós somos órfãos
1953. Filho de Raphael Martinelli e Maria Augusta Martins

de educação física”
Martinelli, formado em Administração de Empresas, tra-
com pai, porque o idealismo dele faz com que balha como consultor em empresas.

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Amor silenciado
por Rosa Maria Martinelli

Na primeira vez que tivemos ver que aquele homem ali na minha
que fugir do Rio de Janeiro para frente era meu pai, ele era uma pes-
São Paulo, eu tinha só 2 anos. soa fisicamente diferente.
Meu pai estava sempre viajando,
e quando ele retornava, sempre Ele chegou bem próximo de mim,
tinha uma bonequinha, uma coisa colocou a mão na minha cabeça e
assim. E da primeira vez, quando foi nesse instante que eu vi que era
ele foi preso em 1970 eu vi que ele ele. Eu não entendia nada, mas lem-
demorava a voltar, e eu sentia que bro de uma coisa que me chamou a
as pessoas em volta, as pessoas atenção, quando eu fecho os olhos e
próximas queriam me poupar de lembro desse dia, era a camisa dele
saber exatamente o que estava abotoada errada. E as mãos tremiam
acontecendo com ele. Eu era mui- muito. E, novamente, eu caio naque-
to menina e apegada a ele, sentia la palavra silêncio porque na minha
que as pessoas cochichavam e es- curiosidade infantil queria pergun-
condiam de mim. tar: “E aí, pai, o que está acontecen-
do? O que é aqui?” Me lembro da mi-
Acho que se tem alguma coisa nha tia falando “xiu”, e então, foram
que aprendi quando eu era pe- duas coisas muito marcantes.
quenininha, foi silenciar. Silenciar
é a palavra que me vem imedia- A segunda situação que eu lem-
to na cabeça. Era sempre “xiiiu, bro já foi no presídio Tiradentes, eu
não pode falar”. Eu perguntava, passava em revista junto com minha
e falavam “psiu”. Era sempre um mãe. Numa das vezes, meu pai fazia
silêncio e eu chorava muito por- aniversário e minha mãe quis fazer
que sentia a falta dele. E lembro um bolo, passamos praticamente a
quando a minha tia, irmã do meu sexta-feira inteira fazendo aquele
pai ficou sabendo que ele estava bolo. Tínhamos pouco dinheiro e
no DOPS. Eu nem sabia o que era aquilo era um acontecimento. E o
DOPS, achava que ia visitá-lo em dia seguinte era um sábado, quando
algum lugar, tinham encontrado Rosa Maria e sua professora do aconteciam as visitas. Fomos até lá,
meu pai.
Grupo Escolar, em São Paulo, 1968 eu e minha mãe. E nos meus olhos infantis, era
inconcebível ver aquela mulher [do presídio]
Fui com minha tia. Ela me levou porque eu era des escuras. Cheguei muito feliz porque ia re- cortando o bolo em pedaços. Ela praticamente
uma criança que não estava mais dormindo à ver meu pai. Essa é uma cena muito marcante destruiu o presente que a gente ia dar para o
noite, e ela quis me aliviar. E eu me lembro que na minha memória, porque quando meu pai fi- meu pai. E mais uma vez eu perguntei, “Mãe,
foi uma cena muito marcante nesse dia porque nalmente apareceu, dois homens o amparavam porque ela está fazendo isso?” E minha mãe
eu cheguei num lugar muito escuro, com pare- e ele estava irreconhecível. Eu não conseguia me mandou fazer silêncio de novo.

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Rosa na horta da casa de sua família no bairro da Lapa, São Paulo, 1968

Eu passava na revista feminina e aquilo era recentemente eu tive a felicidade de reencon-


para mim uma coisa absurda. Eu era criança, trar um senhor que esteve preso junto com o
“Eu passava na revista tinha que abrir a boca, tinha que abrir as per- meu pai. Na época, ele era estudante, jovem.
nas, eles vasculhavam meu corpo todo para Eu pedia que deixassem ele andar comigo pelo
feminina e aquilo poder entrar. Mas ali era sempre uma coisa boa pátio, porque ele era um grande contador de
era para mim uma para mim. Eu ficava feliz de ir até lá porque sa- histórias. Eu tive a felicidade de reencontrá-lo
bia que ia vê-lo e podia brincar. Era um pátio e de promover também o encontro dele com o
coisa absurda. Eu era enorme, eu lembro dos dois pavilhões, onde, de meu pai, o senhor Luis Paulino. Foi muito emo-
criança, tinha que um lado, ficavam os presos políticos e do outro, cionante o encontro porque meu pai nunca nos
os presos comuns. E eu sempre estava perto dos fala sobre tortura.
abrir a boca, tinha presos comuns, porque eu fazia umas brincadei-
Através desse senhor eu soube que eles se co-
que abrir as pernas, ras, eles me jogavam colares, jogavam pulseiras
nheceram exatamente num dia em que meu pai
e eu ficava feliz.
eles vasculhavam estava indo para os porões, estavam entrando
Ali eu conheci outras pessoas como meu pai, juntos para a tortura. Eles não se conheciam e
meu corpo todo para mais jovens, com quem eu tinha afinidade por ele, muito amedrontado, diz ao meu pai: “Puxa,
poder entrar” histórias. Sempre gostei de ouvir histórias, e eu tenho uma placa de metal na minha cabeça,

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eu fui operado. E eu tenho muito medo que eles que recebemos de meu pais e que enviamos caras vão pagar pelo que eles fizeram”. Esses ca-
me batam e eu possa morrer”. Ele mesmo me para ele. Eu tinha 8, 9 anos. Ali pude ir forman- ras sádicos, psicopatas, não sei nem que nome
contou essa história. Meu pai tem uma grande do o meu quebra cabeças. Fui lendo, relendo e dar para isso. Finalmente eles vão lá sentar e ser
dificuldade de falar nisso. Ele disse: “quando eu sentindo o tamanho daquilo que era para mim julgados pelos crimes que cometeram, aí eu me
entrei, a primeira coisa que o seu pai fez foi fa- naquela idade. E posso dizer que foi maravilho- desiludo. Esse assunto para mim é muito visce-
lar: ‘não bata nele. Não bata na cabeça dele. Ele so. Era um privilégio poder ver toda a história ral. Eu me incomodo profundamente da Lei da
tem um problema assim, assim’”. E ele acha que dos quatro anos que meu pai ficou no presídio. Anistia ter perdoado esses monstros, gostaria
ele foi salvo por conta de o meu pai ter dito isso. Meu pai, como todo revolucionário, tem essa que essa lei pudesse ser novamente revista. É
veia poética. Ele não gosta que fale isso, mas olhar para os vizinhos, Argentina, Chile, eles
O aniversário dele de 70 anos foi no ano pas- ele tem. Ele foi o cara que através das cartas julgaram seus atrozes, eles realmente julgaram.
sado e ele quis muito que meu pai fosse. Eu o me empurrava a escrever, a fazer rimas. E todo Por que o Brasil não revê isso? Famílias foram
levei, e ele colocou essa história publicamente. sábado quando eu ia visitá-lo a gente trocava destroçadas, então, falar da gente aqui, falar da
Eu achei muito bacana porque mostra bem a ideias sobre a leitura, sobre o que eu tinha es- própria dor é sempre muito difícil. Mas eu con-
pessoa do meu pai, que é esse cara que sem- crito, aquele versinho, enfim. Eu acho que par- sigo ver a amplitude disso.
pre é pelos outros. Muitas vezes nós, filhos, fi- tiu dele isso.
camos muito a parte da vida dele, porque ele Até o que ficou em relação ao meu pai é sem-
queria nos poupar de saber tudo que estava pre assim, existe uma certa distância. Existe
algum lugar que dá para chegar no meu pai,
acontecendo. Eu, por muito tempo, não quis
saber dessa história.
“Meu pai tem uma e em outros momentos, ele mantém uma dis-
fragilidade emocional tância que é própria dele, de não querer falar
Por volta dos meus 30 anos, tive a curiosi- no assunto, não querer te machucar, mas de
dade de recolher umas fitas cassete que meu muito grande. Ele não toda forma quem passou por uma tortura, pa-
pai deixava para alguns jornalistas na época. quer falar no assunto, rece que já passou pela pior coisa do mundo.
Eu praticamente roubei essas fitas para ouvir. Então, para nós que somos filhos, muitas vezes
Eram cinco. E na segunda eu já não conseguia ele sai de cena. Hoje, temos problemas, fica difícil chegar nele com
mais parar de ouvir, ele falava muito da histó- com um pouco mais de aquele seu probleminha. Parece sempre pe-
ria dele e ali ele contava das torturas. Aquilo quenininho, porque diante do que ele passou,
foi tão forte dentro de mim, aquele rombo de idade ele está um pouco não existe coisa pior no mundo. Então, sempre
imaginar que um ser humano possa ser capaz
de fazer isso com outro que eu tive uma ca-
mais flexível, eu diria” colocamos essa distância em relação a ele.

tarse, eu queria entender como isso podia ter Meu pai tem uma fragilidade emocional
acontecido a ele. Quando eu olho aquelas cartinhas, vejo a muito grande. Ele não quer falar no assunto,
menina que eu era naquele período. Eu dizia: ele sai de cena. Hoje, com um pouco mais de
Meu pai fala pouco a respeito disso, mas a “eu te amo meu papai, papaizinho, você é meu idade ele está um pouco mais flexível, eu diria.
marca que ficou foi muito grande em todos galã, você é meu príncipe”, essas coisas que Ele se preocupa mais, quer que a gente ligue,
nós, os filhos. Porque você tem que recolher uma criança diz ao pai. Então, é como se eu ti- enfim. Então, esse movimento que a gente faz
tudo isso para criar uma certa identidade, por- vesse feito isso naquele período, e de lá para para se aproximar passa por esse traço que fi-
que você veio dali. O que eu posso dizer é que cá eu não sei como se faz esse caminho. Eu cou, que é um traço pesado. Talvez a memória
nesse tempo todo eu vim perguntando a ele não sei como se faz esse caminho com irmãos, daquele período tenha um peso tão grande que
toda a história e fui sempre me interessando com filho. Se tem algum lugar que a ditadura, nos dificulta esse acesso hoje.
por tudo isso. Não só a história dele, mas a his- a história me alterou, foi aí. Eu acho que foi no
tória da ditadura no Brasil ou em qualquer ou- amor que eu não sei expressar. Eu não consigo Para se ter uma ideia de como eu sempre tive
tro lugar, eu sempre tive um grande interesse, nem com o amor maior do mundo que é amor relacionamentos difíceis, casamentos difíceis,
eu queria saber, esmiuçar, esmagar aquilo den- de filho e ele sofre com isso também. Eu sei alguns terapeutas chegaram à conclusão de
tro de mim. Fiz terapia durante muitos anos e o quanto eu o amo, mas não consigo expres- que quando eu amo, eu amo a distância, porque
retomei porque eu tinha esse medo, medo da sar. Eu tenho essa barreira. Eu acho que aí eu quando meu pai foi preso eu vivia em pleno
noite, medo deles irem embora, de pegarem realmente tenho as sequelas desse período, Édipo. Toda menina é apaixonada pelo seu pai,
meu pai, minha mãe, meus irmãos. Eu acho não é só pelo distanciamento do meu pai e e exatamente nesse momento ele saía de cena.
que eu convivi com esse medo. E acho que só tudo mais. É como se eu não pudesse falar por- Então, eles chegaram à conclusão de que eu
conseguia colocar esse medo para fora quando que o silêncio era a coisa mais importante na- amo o distante. Quando esse distante se apro-
escrevia. E aí eu comecei a escrever, muito. Es- quele período. Eu aprendi direitinho o silêncio, xima de mim, eu não sei o que fazer. Até é en-
crevia compulsivamente. e eu queria me livrar dele. E é difícil conseguir. graçado porque nos meus relacionamentos eu
Até os 50 eu não consegui. ficava pensando: “puxa, esse cara tem o quê? Ele
Quando adoeci, em 2007, tive um câncer de deve ter alguma coisa muito problemática para
mama e ganhei de presente do meu pai todas Quando tudo começou a vir à tona na Comis- eu poder estar gostando dele”. Enfim, falar de
as nossas cartinhas. São quatro anos de cartas, são da Verdade, pensei “puxa, que bacana. Esses mim é falar um pouco disso porque essa relação

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com o outro sempre foi difícil para mim, e para A minha mãe faleceu em 2003. Ela era des- Então, ele nunca falava para ela as coisas que
o outro, claro, também. cendente de português e toda a família dela fazia. E nós ficamos muito a parte. Minha mãe
era de Jundiaí. Acho que minha mãe era a pes- era quem trazia aquela coisa de família, do al-
Claro que hoje aos 50 anos, eu trabalhei tudo soa da família que mais expressava o amor. Era moço de domingo, de reunir os filhos, de ligar
isso e não estou curada, mas me sinto muito a que nos unia. Ela sempre deu a vida pelos para cada um. Depois, os meninos casaram, e
mais consciente de que isso veio daquela época, filhos. Ela não queria saber onde estava o meu ela sempre estava em constante contato que-
porque eu amei meu pai à distância. Para se ter pai, ela não queria saber das coisas que meu rendo que eles passassem por lá. Ela tinha esse
uma ideia, eu nunca disse ao meu pai que eu o pai fazia. Ela não queria saber. Então, o meu pai apego, esse amor. Eu não sei por que a gente
amava. Nunca. Não consigo. É como se falar de tinha uma vida completamente a parte. Quan- não aprendeu com ela.
amor fosse falar de uma coisa muito frágil e que do ela perguntava, “onde você estava?”, ele
pudesse quebrar. A história dele é uma história respondia “É melhor não saber por que eu não Ela era a expressão máxima da humildade,
toda de amor, pelo seu povo, pelo seu país, é um quero que eles venham aqui, peguem vocês e tanto que existe uma história que meu pai con-
cara que teria dado a vida pelo Brasil. vocês sob tortura, contem”. ta que, durante a tortura, em um dos momentos
em que ele estava apanhando muito, os tortura-
dores falaram: “Já foram lá? Já viram a mulher
dele? Vamos trazer a sua esposa aqui”. E aí um
dos torturadores disse: “Ela não vale a pena, é
uma mulher que anda descalça, maltrapilha”. E
minha mãe não era uma maltrapilha, mas anda-
va descalça. Era uma mulher humilde, simples,
sem atrativo, uma mulher sem vaidade.

E por conta desse silêncio verbal que toda a


nossa família tinha que ter, eu posso dizer que
eu me salvei através de tudo que eu escrevi.
Para mim, é bastante difícil falar sobre isso. Eu
gosto mais de escrever. Então, eu queria termi-
nar o meu depoimento lendo um conto que foi
o meu primeiro conto publicado.

Quando eu fiquei doente, escrever para


mim foi muito importante. E no meu primei-
ro conto, eu escrevia coisas para mim mesma.
Coisas que eu guardava. Até que um dia resol-
vi publicar e uma pessoa falou, “Rosa, deixa eu
publicar seu conto”. E eu deixei. E esse conto
expressa bem a minha visão de menina quan-
do visitava meu pai no Tiradentes. O conto
chama “Anos Setenta”.

ROSA MARIA MARTINELLI nasceu em 16 de julho de


1962, em Jundiaí (SP). Filha de Raphael Martinelli e
Maria Augusta Martins Martinelli (falecida em 2003) é
formada em Educação Física e trabalha como personal
trainer.

Carta redigida por Raphael


Martinelli para sua filha
Rosa, de 8 anos, durante
o período de sua prisão, 1970

112 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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ANOS SETENTA
1

Mãos firmes a revistavam...tinha apenas se enfiava entre os vãos das pernas enor- – São presos “comuns”... é como são cha-
9 anos. Pode abaixar as calças? Afasta as mes... Posso ver? Perguntava. mados.
pernas! Muito bem! Levante os braços, Lá vinha ele... um homem baixo, loiro, ros- – O senhor também é um preso comum?
abra a boca, cabelos...(tudo numa agilida- to bonito,músculos fortes... e com aquele Pois eu não acho... acho que é um preso im-
de troglodita e sem pausa). sorriso... um sorriso conhecido e querido, portante, o mais importante de todos!
Pode vestir... a saída é por ali... olhos muito claros que a fitavam com sau- – Neste prédio que estou são só presos po-
Por ali era um portão verde de ferro que dades. líticos... somos divididos.
dava para outro portão de grade, que dava O coração ia aos pulos, quase tropeçava – Preso político? É alguma coisa ruim?
para um pátio enorme que tinha chão de entre aquelas fardas... tentando se apro-
concreto quebrado. Ia feliz, sem entender. ximar. Mas, o que era aquilo? Porque ele – Não é não... e sorriu aquele sorriso cal-
tinha aquelas argolas rodeando seus pu- mante.
Para o seu tamanho, aqueles dois pavi-
lhões que rodeavam o pátio eram verda- nhos? – Mas pai, por que tá preso?
deiros monumentos, cheios de janelinhas Já muito próxima, a menina atônita já não – Ainda é pequena pra entender.
gradeadas e com mãos acenando. era feliz, por tentar entender. – Mas não tô feliz agora... queria que voltas-
Quem seriam aqueles? Pai!!!! Abraçava, pulava no colo, puxava sua se pra casa.
Passeava num passo de dança... dois pra mão... quase o amassava. – Quando for embora, vai parar lá na Av.
cá, dois pra lá... até chegar noutro portão – Pai, o que era aquilo? Porque aqueles ho- Tiradentes, sabe qual é?
onde a escuridão do lado de dentro lembra- mens prenderam seus braços? – Sei. Essa que fica em volta do prédio...
va os medos de dormir. – São algemas e servem pra que a gente – Então, vai contar três andares, de baixo
Homens fardados barravam a entrada de não tente fugir. para cima e olhar pra janelinha da direita.
um dos prédios grandes e curiosa que era – O senhor quer fugir? Vou acenar pra você, com uma toalha bran-
– Não. Mas eles pensam que sim. ca. Vai imaginar um pássaro, que vai voar
até seus ombros... e o levará sempre junto
– Pai, aprendi um novo passo... quer ver? pra onde quiser.
Aposto que não sabe fazer... quer tentar?
Dança comigo? – Puxa! Verdade?
Imagem surreal de alegria, num retângulo (silêncio)
de vidas cortadas. – Já sei porque tá aqui, pai, e nem preciso
– Gostou? crescer tanto. Está preso porque sonha bo-
nito. Eles quiseram trancar suas palavras
Nem percebeu que das janelas com mãos assim. Mas isso não é roubo?
desconhecidas lhes jogavam colares, pul-
seiras... coisas bonitas. ...
– É pra mim? – Tenho um pai passarinho poeta preso –
mas não conta pra ninguém.
– Claro que sim! Pode dançar mais pequena
bailarina? – O quê?
Lá ia ela fazendo rodas, cantarolando, fa- – Que ele tem asas.
zendo estrela e sendo a própria.
“O portão do Tiradentes ainda existe, a meni-
– Quem são eles pai? na também... e o pássaro continua voando"

1
Rosa Maria Martinelli, “Anos Setenta”, in: Entrelinhas: Anto-
logia de Contos e Microcontos, Andross Editora, São Paulo,
2008, pp. 123-125.

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Família Martinelli
1. Raphael Martinelli, aos 20 anos, ainda solteiro, em São Paulo, 1944
2. Maria Augusta, aos 19 anos, em Jundiaí (SP), 1944
3. Martinelli aos 23 anos, em São Paulo, 1947
4. Maria Augusta, aos 22 anos, em São Paulo, 1947

4
3

1 2

5 6 5. Casamento de Maria Augusta e Martinelli,


em 27 de dezembro de 1947, São Paulo
6. Lua de mel do casal, em Santos (SP), 1947
7. Maria Augusta com Jaime, em São Paulo, 1949
8. Jaime em Jundiaí (SP), 1950
9. Jaime, aos 14 anos, e Rosa, Rio de Janeiro,
antes do Golpe, 1964

8 9

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10. Jaime aos 12 anos,
Rio de Janeiro, 1961
11. Luiz Carlos aos 10 anos,
São Paulo, 1966
12. Edson aos 6 anos,
São Paulo, 1958
13. Rosa aos 6 anos,
10 11 12 São Paulo, 1968

13

14

15 16

14. Aniversário de Rosa, 6 anos, São Paulo, 1968


15. Maria Augusta, Luiz Carlos aos 5 anos, Edson aos 8 anos
e Jaime aos 13 anos, Rio de Janeiro
16. Rosa aos 6 anos, e seu cachorro Faísca, “almoçando
fora de casa”, São Paulo, 1968
17. Martinelli e sua filha Rosa
18. A família reunida

17 18

INFÂNCIA ROUBADA 115

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Raphael Martinelli nasceu em São Paulo (SP), em
16 de outubro de 1924. Filho de Maximino Martinelli e Yoli
Pistorezzi Martinelli.
Começou a trabalhar aos 12 anos numa empresa de anilina
(Produtos Químicos Sucuri), depois numa vidraria (Santa Na luta
Marina) e em seguida como ajudante de ferreiro, na empre- 1. Martinelli discursando na frente da
sa de produtos de aço Tupi. Câmara Federal, Rio de Janeiro, 1963
Em 1941, entrou para a Estrada de Ferro São Paulo Railway. 2. Martinelli preso em São Paulo.
Apaixonado por futebol e bom de bola, jogou em times da Quando se recusou a sair do país na
troca do Embaixador
várzea paulistana até que a ferrovia e a militância ocuparam
3. Em Cuba, Martinelli em palestra no
a maior parte de seu tempo. Militante do Partido Comunista
movimento operário cubano, 1961
Brasileiro (PCB) desde a adolescência, seguindo os passos de
4. Foto feita pelos órgãos de repressão
seu pai, filia-se ao sindicato dos ferroviários. da ditadura, durante a prisão 1
Foi dirigente da Federação Nacional dos Ferroviários e um
dos mais importantes líderes sindicais do Brasil até 1964.
Quando houve o golpe, foi cassado por dez anos. Foi para a
clandestinidade e entrou na luta armada.
Junto com Carlos Marighella, foi um dos fundadores da
Ação Libertadora Nacional (ALN). Preso em 1970 foi levado
à Operação Bandeirantes (OBAN).
Ficou preso durante três anos, três meses e 10 dias.
Hoje é advogado e presidente fundador do Fórum dos Ex-
-Presos Políticos e Perseguidos de São Paulo. Tem quatro
filhos, sete netos e quatro bisnetos.

Maria Augusta Martins Martinelli, caçu-


la de seis irmãos, nasceu em Jundiaí (SP), em 1925. Filha de
Amélia e João Martins, ambos portugueses. Casou-se com
Raphael Martinelli em 1947.
Faleceu em novembro de 2003, aos 78 anos, quando ia
completar 56 anos de casamento com Martinelli. De acor-
do com Rosa, sua filha, era uma “cozinheira maravilhosa.
Quem compartilhou da sua mesa, sabe. Fazia o melhor ca-
peletti in brodo que se tem notícia. O fazia artesanalmen-
te. Sua felicidade era nos ver repetir o prato. Todas as noi-
tes, até mesmo quando estava doente, esperava meu pai
para colocar a conversa em dia. Ela nasceu para ser mãe,
era muito presente e afetiva”. De acordo com Martinelli, a
parceria da esposa “foi essencial para minha história como 3
2
revolucionário”.

Ao lado, ficha do
Raphael no DOPS

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“Os filhos sofrem, mas temos que dar
continuidade à vida”
por Raphael Martinelli

Após o golpe de 31 de março, eu tive que ir para “quem é esse cara?”. Foi um encontro clandesti- avisou. Aí, depois de 24 horas esse que foi preso
a clandestinidade. No dia do golpe, fiz um discur- no, no bairro da Lapa. Nessa época, eles estavam abriu o meu nome, como se fosse ter uma reunião
so na rádio para a minha área ferroviária. Se eu morando em Jundiaí. comigo.
demorasse um pouco mais para ir embora, teria
sido preso, porque os militares tomaram a rádio Depois fui ficar clandestinamente onde meu pai Quem estava lá era o [Benoni de Arruda]
também. E eu cheguei a ser denunciado como es- morava, no bairro da Lapa, em São Paulo. E meu Albernaz que era um assassino e era difícil sair
pião russo pelo ministro do trabalho. filho Luiz Carlos ficava comigo. Combinamos que, vivo. Mas sobrevivi porque eu entrei como alguém
por segurança, ele nunca me chamasse de pai. que tinha participado de reunião, de questão de
Mesmo na clandestinidade eu continuei mo- Convivi muito com ele. De vez em quando eu dava cooperativa, sindicato. E eu no pau de arara, com
rando no Rio de Janeiro. Nem pude ir mais para uma escapada em Jundiaí para ver a família. o tira, fazendo esse jogo comigo. Aí chegou aquele
a minha casa, que ficou cercada o tempo todo. da Ultragás, o [Henning Albert] Boilesen, eu vi ele.
Eles estavam à minha espera, para me prender. Eu nunca parei. Eu e meu irmão compramos O cara disse: “Agora só falta pegar o Marighella”.
Lá, moravam minha mulher e meus quatro filhos, um Ford 29 e eu ia para as reuniões clandesti-
sendo que a mais nova, a Rosa Maria, tinha um namente com aquele carro. Nosso partido tinha O companheiro que me abriu não aguen-
ano e pouco. terminado com a educação revolucionária e eu tou e começou a abrir, abrir, e abriu o trem pa-
viajava explicando que o partido tinha que ter or- gador. Eu estava arrebentado. Só abri o trem
Resolvi voltar para São Paulo, apesar da pres- ganização revolucionária. pagador quando me mostraram fotos de um cara
são dos companheiros do comitê central do Par- morto. Quando vi que todos os compas que par-
tido Comunista Brasileiro (PCB), que me pressio- Nessa época, eu estava morando no fundo do ticiparam estavam mortos, eu acabei abrindo. Eu
navam, querendo que eu fosse para o Rio Grande quintal da casa do meu pai e meus filhos e mu- só não fui morto porque nunca foi aberto que eu
do Sul. Eu disse que não ia a lugar nenhum. Eu lher também vieram para cá. A repressão sabia era dirigente da ALN.
queria ir para São Paulo, porque era a minha área, onde eu estava e todo Primeiro de Maio eles iam
me prender, me buscavam em casa e eu ia para E porque eu tinha uma cunhada, ela falava para
eu comandava a ferrovia Santos Jundiaí.
a Polícia Federal. Minhas prisões eram só no burro. Ela conhecia um oficial e falou de mim:
Enquanto eu estava na clandestinidade, no Rio, Primeiro de Maio, mas eu nunca parei de atuar “Poxa vida, ele é diretor do sindicato. Será que
não conseguia encontrar a minha família. Monta- na organização. Havia vários companheiros que ele está preso, podia ver isso?”. Aí o cara deu o
mos um esquema para levar todos para São Pau- tinham as mesmas ideias, como o [Carlos] Mari- serviço para ela: “Ele está na OBAN”. Aí ela foi
lo. Com um caminhão de mudança, meu irmão ghella. Reunimos o comitê estadual e pergunta- me levar roupa na OBAN, para ficarem sabendo
levou todas as coisas da família para São Paulo. mos “qual é a saída?” “O comitê central não dá que ela sabia que eu estava preso lá.
mais, a ditadura está aí”. Então criamos a Ação
Primeiro eles ficaram em Bragança, num sítio e Libertadora Nacional, a ALN. Fiquei doze dias na OBAN. O meu companhei-
depois foram para Jundiaí, onde morava a famí- ro falou coisas graves de mim, e eu fui arrebenta-
lia da minha mulher. Depois que fiquei sabendo Na casa do meu pai, a família vivia modesta- do. Uma noite, saí da cela forte e encontrei com
as dificuldades que eles passaram. mente. Criavam coelho, no quintal tinha cabra, ele. Usei aquela posição de dirigente comunista,
galinha, tudo. E meus filhos frequentavam o gru- disse que ele estava falando demais. Aí, nessa
A minha família foi primeiro para São Paulo e po escolar. madrugada, mesmo eu estando arrebentado, eles
depois fui eu, que fiquei em outra área clandes- me torturaram de novo. Não sei se foi ele que fa-
tina. Fiz todo o esquema contrariando o partido As consequências foram mesmo quando eu fui lou ou se tinha microfone.
e fui chamado de irresponsável. Vim para São preso em 1970, aí sim a família sofreu, passou di-
Paulo por minha conta. Eu assumi essa respon- ficuldade. Fui levado diretamente para a OBAN. Depois fui para o DOPS, onde sofri ainda mais.
sabilidade. A minha opinião era que a direção do Apanhei muito mais do que na OBAN. O DOPS
Eu fui preso onde trabalhava. De acordo com a tinha minha vida todinha, viagem à URSS, cur-
partido estava errando, que de 1955 para a frente,
nossa organização, mesmo fazendo organização sos, Cuba, viagem, conferências. Se eu tinha apa-
desde a morte do [Joseph] Stalin, não havia mais
revolucionária, se possível tinhamos que ter um nhado na OBAN, me arrebentaram no DOPS.
educação revolucionária.
emprego. E eu trabalhava na Cooperativa Habi- Costumo dizer que não é o pau de arara, e sim o
Primeiro, fiz um esquema clandestino, sem con- tacional União Sindical, que era dos ferroviários. que eles fazem em cima de nós, no pau de arara,
tato com a minha família. E quando fiz contato Quando cheguei no trabalho, a OBAN já estava e isso era diariamente.
com a minha mulher, fui encontrá-los e a minha lá, com metralhadora e o diabo. Fui preso porque
menina não me reconheceu. Ela tinha um ano e um companheiro caiu e o outro conseguiu fugir. Fiquei dezoito dias lá, mais doze na OBAN. Fo-
pouco. Coitadinha, ela me olhou como quem diz Ele pediu para outro companheiro me avisar. E ele ram 30 no total. Minha última estada no DOPS

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foi quando arrebentaram o Olavo Hanssen. De-
pois, ele apareceu morto. Sempre elogiei a posi-
ção do Hanssen, a resistência dele. O DOPS era
isso, uma máquina de matar.

No dia seguinte à morte dele, fui para o Tira-


dentes, era maio. Fui preso em abril de 1970. Lá,
eu tive visita. Na visita, eu estava arrebentado,
porque na OBAN levei um soco inglês nas cos-
tas. Fiquei com as costas arrebentadas. E na cela
forte, sem assistência. No DOPS, levei pauladas
na cabeça. O [Maurice] Politi me emprestou
uma blusa de lã para eu me enfaixar com ela. Eu
estava tão machucado que a minha família não
podia me abraçar.

A família da gente sofre no lar, sofre na so-


ciedade. Eu recusei sair no sequestro do embai-
xador suíço, e então minha fotografia saiu no
jornal como terrorista. Aí ficam achando que
a gente é terrorista mesmo e isso mexe com a
família.

Com esse troço de terrorista, quem dava as


aulas de educação moral e cívica nas escolas
eram os capitões. E um capitão colocou meu
filho Edson na frente e começou a arrebentar
com os terroristas. E ai disse: “O Martinelli teve
a coragem de dar o nome de Lenin para esse
menino, vejam só”.

Mandei entregar um livro para meu filho,


dizendo: “Leia Lenin e veja porque botei seu
nome de Lenin, veja o bandido que ele é”. Ele
tinha 7 anos, ele nasceu em 1953.

A família sofre muito com as consequências.


Na cadeia, eu fazia cestas de vime, uma por dia,
e eles vendiam para ajudar com as despesas da
família.

Minha mulher, filha de portugueses, tinha os


filhos sempre em primeiro lugar. Nesses três
anos e meio, todos foram muito bons filhos.

Tem uma carta do meu filho mais velho [Jai-


me] que é uma coisa espetacular. Ele escreveu
para o Médici arrebentando e colocando o pai lá
em cima: “Onde já se viu, esses homens que de-
viam estar governando o Brasil”. Esse meu filho
quase nunca ia me visitar, ele não aguentava.
Ele não queria me ver preso. Os filhos sofrem,
mas temos que dar continuidade à vida. Painel fotográfico feito
por Rafael Rossi
Martinelli, cineasta e diretor
de fotografia, neto de
Raphael Martinelli,
em homenagem ao avô.
A obra ficou exposta na
Galeria Olido,
em São Paulo, 2010

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por Dora Augusta Rodrigues Mukudai

Quando recebi a mensagem por e-mail me pada de tudo. Eu não vi nada”. Felizmente como os pais da Priscila [Arantes] e do André
convidando para participar [da Audiência não perdi meu pai, porque apesar de tudo o [Arantes], da Iara [Lobo], da Raquel [Rosa-
sobre as crianças atingidas pela ditadura], que passou, ele está vivo. A minha mãe fez len], são pessoas que a gente tem de respeitar
num primeiro momento pensei que não ti- de tudo para transformar nossas vidas em e admirar. Que tinham um ideal e passaram
nha nada para contribuir, que não tinha vidas normais. o que passaram para hoje, quarenta e poucos
nada que pudesse ajudar porque eu conhe- anos depois, nós termos um país melhor.
ci crianças, especialmente quatro crianças, “Felizmente não Até hoje eu não sei tudo que o meu pai pas-
e diante dessa situação que eu sei que eles
viveram, eu achava que não tinha muito a perdi meu pai, sou. Durante esses onze anos de vida fora do
país, e depois, quando voltamos, em 1980,
acrescentar. Um deles, que tem a minha ida- porque apesar de para o Brasil, não sabíamos – meu irmão e
de, aos 2 anos de idade foi fichado no DOPS
como subversivo perigoso, o Ernestinho [Er- tudo o que passou, ele eu – exatamente o que estava acontecendo,
nesto Nascimento] e os seus primos. está vivo. A minha mas sabíamos que alguma coisa ruim esta-
va por trás daquela situação toda.
Eu nasci em 1968, em Osasco, em plena mãe fez de tudo
A Iara Lobo mencionou uma coisa muito
greve geral. Uma confusão, um caos no país, para transformar importante, que é a questão do respeito à
especialmente na região de Osasco. O meu
pai, Darcy Rodrigues, servia no quartel de nossas vidas em imagem dos nossos pais. Hoje, na internet,
tem muita coisa que eu descobri sobre o
Quitaúna. Era sargento na época e lugar te- vidas normais” meu pai que ele não contou para nos poupar.
nente do Capitão [Carlos] Lamarca.
Quando eu tinha seis meses de idade, meu Eu estava com seis meses e a minha mãe Lembro-me que, em 1999, tinha o hábi-
pai, ciente da gravidade da situação, tentou, encontrava-se grávida na época. Ela não sa- to de ler a revista IstoÉ, pela internet, toda
e conseguiu, obviamente, poupar a minha bia, nem meu pai, que meu irmãozinho es- segunda-feira. Fazia isso no meu horário de
mãe e eu de qualquer problema que ele sa- tava chegando. Nós fomos para o exterior, almoço e não lia a revista inteira porque não
bia que estava por vir e nos mandou para passeamos por alguns lugares – passeamos dava tempo. Numa segunda-feira, abri a re-
a Europa no mesmo voo com a esposa do entre aspas – até conseguir asilo político em vista numa reportagem de capa que falava
Capitão Carlos Lamarca e seus filhos. Cuba, onde fomos todos, a esposa do Lamar- sobre o assalto ao cofre do Ademar de Bar-
ca, os filhos, minha mãe, eu e meu irmãozi- ros. Comecei a ler a matéria e pensei: “Não
Então, quando recebi esse convite, pensei: nho que nasceu lá. me interessa”. E continuei lendo a revista, as
“O que é que eu tenho para falar? Eu fui pou- outras matérias. Mas fiquei com aquilo na
Vivi minha infância inteira em Cuba até cabeça porque eu não sabia o que era o as-
meus 11 anos de idade. É um país que eu amo, salto ao cofre do Ademar, mas alguma coisa
que me deu a base para o que sou hoje. Um me falava que já tinha ouvido aquela histó-
À esquerda, Darcysito e Dora de uniforme escolar, Cuba país onde aprendi que pessoas como meu pai, ria, que aquilo tinha a ver comigo.

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“Era muito difícil Eu li outras partes da revista e quando Nós passamos dez, onze anos em Cuba vi-
acabava minha hora de almoço, resolvi vol- vendo como cubanos. Estudamos em escolas
receber informações tar à matéria. Eu não sabia o que era, mas, de como cubanos. Mas tinha um grupo grande
naquela época, as repente, vi a foto do meu pai naquela repor- de brasileiros exilados que se reunia com al-
tagem. Dezenove anos depois de eu estar de guma periodicidade e ouvia o hino do Brasil
correspondências volta ao Brasil, ainda não sabia o que tinha com muita emoção, ouvia gravações da Voz
chegavam todas acontecido com meu pai. Eu me assustei. do Brasil e trocava informações. Porque, na
Não sabia de nada daquilo e, por ter passa- época, era muito difícil ter notícia do que
violadas, fotografias do todos os anos da minha infância com os acontecia no Brasil, ter notícias dos familia-
chegavam rasgadas meus pais me protegendo, até hoje não corro res. Eu lembro que quando chegavam corres-
atrás de certas informações. Eu as descubro pondências dos nossos familiares, elas eram
e demoravam meses a conta gotas em livros, pela internet. motivo de muita alegria e de muita apreen-
para chegar” Alguns sites falam do meu pai de uma ma-
são. Era muito difícil receber informações na-
quela época, as correspondências chegavam
neira muito pejorativa e triste. Isso magoa todas violadas, fotografias chegavam rasga-
demais, porque eu sei que meu pai é guerrei- das e demoravam meses para chegar.
ro, é briguento, é bravo. Quando se trata de
justiça ele é muito bravo. E tenho muito or- Em uma dessas correspondências che-
gulho dele, por saber que não teve medo de gou a notícia de que eu tinha perdido meu
fazer justiça. Não me interessam os métodos avô materno, que não cheguei a conhecer.
que usou, mas ele tentou fazer justiça. Meu E lembro dessa sensação, que eu acho que
pai sempre foi muito honesto. E é isso que eu é a mesma que a Priscila menciona, de que
levo de toda essa história. Que a esperança, a gente não sabia exatamente o que aconte-
como disseram os demais nesta Audiência, cia, mas que a gente sabia que alguma coisa
e a justiça sejam feitas; e a esperança de que ruim ainda podia acontecer.
nós não tenhamos mais pessoas que enxer-
gam a verdade que querem enxergar, e não a Os meus pais sempre deixaram claro para
verdade de fato. mim e para o meu irmão que aquele não era
o nosso lugar e que a qualquer momento po-
O André [Arantes] comentou que dife- díamos ir embora, que precisávamos voltar
rentes olhares trazem diferentes visões do para o nosso país. Então, nós passamos dez
mesmo fato. E a gente sabe que muita gente anos da nossa vida sem poder nos apegar a
neste país ainda acha que pessoas como os amigos, a brinquedos, a lugares, aos profes-
pais do André e da Priscila, os pais da Iara e sores, a escola, porque a qualquer momento
da Raquel, os meus pais, os pais das quatro iríamos embora.
crianças que eu mencionei, são terroristas.
O que eu mais quero com essa Comissão Queríamos muito ir embora, porque sen-
da Verdade é que um dia ninguém mais pen- tíamos a paixão dos meus pais pelo país, a
se assim. necessidade que tinham de voltar, além do
desespero de voltar para o convívio dos fa-
Nós chegamos em Cuba quando eu tinha miliares aqui.
mais ou menos 6 meses de idade. O meu ir-
mão, Darcy, nasceu em Cuba. Meu pai ficou Em 1980, quando voltamos para o Brasil,
aqui no Brasil, na clandestinidade, no Vale do fomos morar no interior de São Paulo, em
Ribeira. Ele esteve preso, foi torturado e foi um Bauru. Eu lembro que foi uma época muito
dos quarenta que foram trocados pelo embai- difícil porque depois de mais de dez anos
xador alemão. Entre esses quarenta, estão as fora do país os meus pais não tinham mais
quatro crianças que mencionei. E o meu pai casa, não tinham mais nada do que eles dei-
finalmente chegou a Cuba quando eu já tinha xaram aqui. Além de que, nenhuma escola
2 anos de idade e o meu irmão já tinha um em Bauru queria matricular a mim e a meu
ano de nascido. irmão. Por dois motivos: porque era tudo

122 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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muito recente, as pessoas tinham medo E eu sou muito grata a ele e à minha filha,
elegância. Apoiou o meu pai até hoje, que
de envolvimento com pessoas perigosas; e porque eles sempre entenderam e tiveram
é minha mãe. Hoje eles estão separados,
também porque o Ministério da Educação orgulho dos meus pais e da minha família.
mas são muito, muito amigos, e ela sempre
demorou para validar os estudos que fize- E queria também agradecer uma pessoinha
apoiou meu pai, apesar de não ter sido muito
mos em Cuba. muito especial, que meu pai tentou poupar
ativa em todo esse processo.
o tempo inteiro, pela sua fisionomia e seu fí-
Mesmo assim, felizmente, com a ajuda de
sico frágil, delicadinha, professora. Meu pai
companheiros, conseguimos assistir, parti- DORA AUGUSTA RODRIGUES MUKUDAI nasceu em
poupou muito essa mulher, sem saber que
cipar em uma escola como pessoas transpa- 6 de agosto de 1968. Filha de Darcy Rodrigues e de Rosa-
ela é uma pessoa extremamente guerreira. lina de Freitas Anselmo. É bacharel em Ciência da Com-
rentes. A diretora do SESI de Bauru aceitou
Ela segurou toda essa onda com muita, com putação e trabalha com gestão de pessoas na área de
que eu e meu irmão assistíssemos às aulas
muita garra e com muita classe, com muita Tecnologia da Informação.
na série em que meu pai afirmava que nós
estávamos, independente do MEC validar
ou não. E ficamos por um período, eu na sex-
ta série e meu irmão na quinta série, sem ter
o nome na lista de chamada, fazendo as pro-
vas às escondidas, separadas e, obviamente,
com isso tudo sabíamos que éramos vistos
como diferentes, apesar do meu pai e da mi-
nha mãe tentarem nos fazer acreditar que
estava tudo bem.
O André também comentou sobre a che-
gada de um momento em que ele podia “ser
quem ele era”, contar para as pessoas quem
ele era. Da sexta série até o colegial eu tam-
bém vivi esse momento de não poder falar
muito porque eu tinha morado em Cuba,
quem eu era, quem era meu pai. Só depois de
alguns anos que percebemos que as pesso-
as começaram a entender melhor. E quando
eu entrei no colegial, eu estudei no Colégio
Técnico da UNESP em Bauru, tinha uma
professora de história que nos mandou ler o
livro Feliz Ano Velho.
Até então eu tinha muito medo de falar do
meu passado. E fiquei muito feliz de saber
que tinha uma professora que incentivou o
debate e que, finalmente, eu podia falar o que
pensava daquilo tudo, que finalmente eu ti-
nha encontrado pessoas que eram solidárias
a tudo isso e aceitavam toda essa situação.
Então eu fico feliz de ser a última aqui [a fa-
lar] porque, juntando o depoimento de todos,
descobri que eu tenho coisa para falar.
Queria comentar que hoje eu sou casada,
meu marido é Jorge Mukudai, descendente
de japoneses, pessoas simples, uma família
Rosa com Darcysito no
que não tinha, nunca teve participação po- colo e Dora, Cuba
lítica, nem entendimento político nenhum.

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Darcy Rodrigues nasceu em 19 de novem-
bro de 1941, em Avaí (SP). Sargento do Exército, re-
sistiu ao golpe de 1964 junto com militares resisten-
tes. A aproximação com o capitão Carlos Lamarca,
no Quartel de Quitaúna, em Osasco, fortaleceu o
grupo. Em 1969, já ligado à Vanguarda Popular Re-
volucionária (VPR), abandonou a carreira militar.
Darcy e Lamarca foram os principais atores da fuga
do Quartel de Quitaúna, em janeiro de 1969.
Foi preso em abril de 1970, junto com José Lavechia,
numa área rural do Vale do Ribeira, onde a VPR fazia
treinamento de guerrilha. Ficou preso por 57 dias, 2
3
sendo torturado diariamente. Saiu do país em 15
de junho de 1970, trocado junto com outros presos,
libertados no sequestro do embaixador alemão,
Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben.
1, 2, 3 e 6. Fotos de Darcy em prontuários
Levado inicialmente para a Argélia, depois exilou-se de órgãos de repressão
em Cuba, onde sua mulher e filha já viviam desde 4. Dora fichada no DOPS aos 4 meses,
pouco antes de deixar o Exército. Morou dez anos em 17 de dezembro de 1968
em Cuba, onde trabalhou como professor e estudou 1 5. Ficha de Rosalina no DOPS
Economia. Lá, nasceram dois dos seus quatro fi- 6 e 7. Foto e ficha de Darcy em prontuários de
lhos. A família voltou ao Brasil em 1980, onde Darcy órgãos de repressão
estudou direito. Em 1983 exerceu o primeiro de mui- 8. Militantes banidos na troca do
tos cargos públicos na cidade de Bauru, onde vive embaixador da Alemanha no Brasil. Darcy
é o número 11. Imagem do relatório do CIE,
até hoje. Em 2010, Antonio Pedroso Junior, lançou
Indivíduos Banidos do Território Nacional,
o livro: Sargento Darcy, Lugar Tenente de Lamarca, 1970, distribuído aos orgãos de repressão, para
sobre a trajetória do militante. reconhecimento dos mesmos

Rosalina de Freitas Anselmo nasceu 4


em 7 de setembro de 1943, em Três Lagoas (MS),
onde se formou professora. Casou com Darcy Ro-
drigues em 1963. Foi para Cuba em janeiro de 1969
onde se especializou em educação infantil e traba-
lhou como professora. Retornou para o Brasil em
1980 indo morar em Bauru (SP). Tem quatro filhos
e duas netas.

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6

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1

1. Darcy, Darcysito com 3 anos,


Rosalina e Dora com 4 anos, Cuba
2. Rosalina com Darcysito, Rosa
e os filhos de Carlos Lamarca,
Claudia e César, no parque
Almendares, Havana, Cuba
3. Dora, Darcy, Darcysito e
Rosalina grávida do terceiro filho,
Havana, Cuba, 1979

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“A possibilidade de
nunca mais vê-los martirizava
nossas mentes”
por Darcy Rodrigues

Quando decidi conjuntamente com o Capitão No momento da ação, me encontrava junta- dura militar, acabei sendo preso em abril de 1970,
Carlos Lamarca abandonar as fileiras do Exér- mente com o camarada José Araújo Nobrega, durante treinamento de guerrilha no Vale do Ri-
cito Brasileiro e aderir à luta armada contra o tentando resgatar armas, munições que se en- beira, tendo sido libertado em 14 de junho, jun-
arbítrio e a tirania, instalado em nossa pátria contravam no aparelho utilizado pelo compa- tamente com outros 39 companheiros em troca
pelos militares, o primeiro pensamento foi ga- nheiro Pedro Lobo, preso em Itapecerica. Por da liberdade do embaixador alemão, sequestrado
rantir a integridade e a segurança de nossos ironia do destino, o embarque de nossos fami- por um grupo de combate da VPR, comandado
familiares. liares estava previsto para o dia 24, às 20 horas, pelo saudoso camarada Eduardo Leite, o Bacuri.
Em discussão com lideranças da Vanguarda no aeroporto de Congonhas, com o destino
inicial sendo a Itália. Sem nada combinar com Fomos levados para a Argélia e de lá, pouco
Popular Revolucionária (VPR), decidimos en-
o camarada Lamarca, decidi ir ao aeroporto, tempo depois segui para Havana, em Cuba,
viar Rosalina e Dora Augusta, minha esposa
despedir-me de Rosa e Dora Augusta, e acabei onde após um ano e meio de separação, reen-
e filha, juntamente com Maria Pavan, César e
encontrando com Lamarca, que decidira igual- contrei com Rosalina, Dora Augusta, e Darcy-
Claudia, esposa e filhos de Lamarca, para o ex-
mente despedir-se de seus familiares. sito. Não sabíamos, quando Rosa saiu do Brasil
terior, mais precisamente para Cuba, mantendo-
que ela se encontrava grávida de nosso segun-
-as afastadas de nosso país, enquanto durasse a Como relato pitoresco desta nossa ida ao ae- do filho, que veio a nascer em território cubano.
guerra revolucionária. roporto, à época a TV Excelsior estava exibindo
Em decorrência da prisão de companheiros uma novela, onde existiam cenas de violência e A separação dos familiares e o pior, a possibi-
que estavam pintando um caminhão com as co- tiroteios, sendo que uma das cenas estava sen- lidade de nunca mais tornar a vê-los, martiriza-
res do Exército, em uma propriedade rural em do gravada nesta noite no aeroporto de Congo- vam nossas mentes durante todo o tempo.
Itapecerica da Serra, fomos obrigados a anteci- nhas. Ao ouvirmos os tiros e policiais correndo,
Decorridos mais de quarenta anos dos fatos,
par a ação expropriatória a ser realizada no IV RI chegamos a pensar que tínhamos sido locali-
tenho que necessariamente fazer uma severa
de Quitaúna, na cidade paulista de Osasco. zados pela repressão e rapidamente colocamo-
autocrítica, pois por questões de segurança, e
-nos em posição de defesa, já que não tínhamos
Acabamos a realizando de forma parcial, no sempre buscando preservar meus familiares,
a mínima intenção de sermos capturados.
dia 24 de janeiro de 1969, quando o camarada jamais comentei com eles detalhes de minha
Lamarca, em companhia do cabo Mariane e do Para nosso alívio, eram somente cenas de uma militância política, fazendo com que eles fos-
soldado [ Carlos Roberto] Zanirato, saíram com novela. Esta foi a última vez que Lamarca viu a sem descobrindo somente na adolescência e na
munição e 63 fuzis daquela unidade militar. esposa e filhos. Engajados na luta contra a dita- juventude detalhes de minha atuação política.

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por Zuleide Aparecida do Nascimento

Eu sou a Zuleide, uma das miniterroristas,


que é a maneira como fomos taxados [pela di-
“Do período que ficamos Quando fomos sequestrados, fomos levados
para uma casa que eu não lembro onde era. Lá,
tadura]. Nascemos em Osasco, somos filhos de no Juizado, o que me ficamos por cinco dias. Meu irmão Luis Carlos
Sebastião Rivom do Nascimento, que é filho da conta que era uma casa grande e bem mobi-
tia Tercina e irmão do Manuel Dias do Nasci-
lembro é que fizeram uma liada. Ficamos trancados num quarto de onde
mento. Minha mãe chamava Maria do Perpétuo trança no meu cabelo. não podíamos sair. Depois, nos levaram para o
Socorro do Nascimento, mas nós fomos criados Juizado de Menores. E o Samuel, que era nosso
pela vó, Tercina Dias de Oliveira, chamada de Eu tinha um cabelo de irmão de criação, foi levado para um local onde
Tia, desde que éramos pequenos. comprimento abaixo da ficavam meninos infratores. Ele apanhou mui-
to, foi torturado.
Na época da greve [de Osasco], eu tinha cintura e ele foi cortado”
3 anos de idade. Depois dessa greve, a família O Samuel ficou careca porque teve o cabelo
toda começou a ser perseguida porque o tio, raspado, foi tratado como menor infrator, apa-
o Manuel Dias de Oliveira, o Neto, foi um dos Depois da greve, fomos morar no Vale do Ri- nhou. E além de ter sofrido a agressão psicoló-
cabeças, um dos líderes da greve junto com o beira. Lá, era a vó quem dava estrutura para o gica que todos nós sofremos, ele ainda sofreu
José Ibrahin. Com muito orgulho eu falo que Capitão Lamarca. Quando as pessoas que sa- agressão física.
a greve de 1968 foi planejada na casa da minha biam da existência do aparelho do Vale come-
Do período que ficamos no Juizado, o que
avó, lá em Osasco. Ela dava todo apoio. çaram a ser presas, a organização fez por bem
me lembro é que fizeram uma trança no meu
nos tirar de lá, porque sabia que a qualquer mo-
cabelo. Eu tinha um cabelo de comprimento
O meu tio Manuel conheceu o Zequinha mento o aparelho poderia ser estourado. Quan-
abaixo da cintura e ele foi cortado. Tinha uma
Barreto nas fábricas. Aí o Zequinha passou a do saímos do Vale, o [José] Lavechia se separou
pessoa cortando e outra do lado falando: “Me
militar na VPR e meu tio também. Depois ele de nós e entrou para as tropas do Lamarca, foi
dá essa trança que eu quero fazer uma peruca”.
também levou a minha avó para a organização. integrado à linha de frente da VPR. E nós fomos
Eu não lembro de muita coisa porque era pe-
O tio Manuel se filiou ao sindicato com 15 anos levados para um aparelho em Peruíbe.
quena, mas desse fato eu lembro.
de idade, por incentivo da minha avó, que tinha
A estratégia da ditadura, depois que ocupa-
um espírito libertário. Quem teve a oportuni- Para mim, foi realmente uma grande violên-
ram o Vale do Ribeira, foi manter a casa com a
dade de conhecê-la, sabe a figura que ela era, o cia. Eu era uma criança de 4 anos de idade. O
mesma rotina de quando estávamos lá. De ma-
espírito de luta que tinha. que uma menina gosta? De ter cabelo compri-
nhã, colocavam as roupas das crianças no varal,
do. Para mim, isso foi uma tortura. E foi tam-
davam comida para os bichos, abriam a casa e
bém uma tortura terem me separado da minha
ficavam lá dentro. Isso servia de armadilha para
avó, que era a única mãe que eu conhecia.
À esquerda, Zuleide fichada antes outros companheiros que chegavam ao local
do banimento do país, 1970.
Foto de acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo,
pensando que estava tudo bem, que a Tia estava E eu tinha que ser forte. Minha avó olhava
reprodução de Luiza Villaméa, Revista Brasileiros lá. Mas ao chegarem, eram presos. para mim e falava: “Seja forte, resista, não abai-

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“Cuba é o meu país e xe a cabeça”. E eu tendo que me segurar, tendo Quando voltei ao Brasil, me engajei no movi-
que segurar o tranco vendo minha avó partir. mento sindical. Trabalhei em muitos sindica-
não tem como deixar Para mostrar segurança, ela nem olhou para tos, até porque também eu não tinha condições
de ser. Foi o país que trás quando se separou de nós. de procurar emprego em outro lugar. Quando
tentei fazer ficha de emprego em muitos lu-
nos acolheu. Foi pai Só conseguimos sair do Brasil porque mi- gares, inventei que tinha estudado em uma
nha avó brigou muito para nos tirar, porque o
e mãe para nós. caminho natural não seria esse. Nós seriamos
escola em Pernambuco, mas que meus papéis
tinham se queimado no barraco da favela onde
Eu brinco que o Fidel adotados. Quando ela ficou sabendo que ia ser eu morava.
extraditada, que tinha que sair do Brasil, ia ser
Castro era o meu pai” banida, disse: “Cadê meus netos?” E disseram Nesses meios também tive uma válvula de
que apenas ela iria embora. No período em que escape para o enfrentamento contra aqueles
estávamos no Juizado de Menores, não me lem- que me massacraram. Quando fui para o mo-
bro bem como foi o fato, mas sei que de repente vimento sindical, fui participar de greve geral
acordei e o Ernesto estava lá. Ele não tinha sido e acabei indo para o embate com a polícia. Fui
preso conosco e sim com o pai e a mãe dele. para a linha de frente receber gás na cara. En-
frentá-los foi também uma forma que eu tive
Quando enfim resolveram nos liberar, dis- de falar: “Aqui estou eu, entenderam? O que
seram para minha avó: “Está bem, aqui estão fizeram, eu também estou enfrentando vocês,
seus três netos”. E ela: “Não, eu quero meus entenderam?”
quatro netos. Estou sabendo que o Ernesto
está lá dentro também, e ele é meu neto e vai Quando voltei ao Brasil, em 12 de janeiro de
comigo. Entrei aqui com três, mas eu vou sair 1986, tinha 20, 21 anos. Meu irmão [Luis Car-
daqui com quatro”. E assim foi. los] voltou um pouco antes de mim. O Samuel
voltou depois, em 1983. A vó e o Ernesto volta-
Quando fomos libertados, a única coisa que ram comigo.
me lembro é que me vi dentro de um helicópte-
ro e lá na frente um monte de milicos armados. O tio [Manoel Dias do Nascimento] já ha-
Foi quando foi feita a foto dos quarenta. [Em 15 via voltado ao Brasil assim que foi decretada
de junho de 1970, quarenta militantes foram ba- a Anistia. Ele veio fazer o meio de campo para
nidos do Brasil e enviados à Argélia em troca nós, foi atrás dos nossos documentos, porque
do embaixador alemão Ehrenfried Von Hollen- quando saímos do país, não tínhamos nenhum
ben]. Aí nós fomos para a Argélia, onde ficamos documento. E então, quando meu tio mandou
um mês e pouquinho. Depois fomos para Cuba, meu registro de nascimento lá para Cuba, foi
que foi o país que nos acolheu. Ficamos lá du- impressionante. Só então descobri minha ida-
rante dezesseis anos. Estudamos, terminei o se- de real. Quando eu cheguei em Cuba, coloca-
gundo grau e depois voltei ao Brasil. ram como se eu tivesse nascido em 1966, quan-
do na realidade eu nasci em 1965.
Havia muitas crianças que nasceram no Bra-
sil, no Chile e que depois foram para Cuba. E a Eu não sabia minha data de nascimento, por
casa da vó, era a casa da avó de todos. As crian- exemplo, nem meu nome direito. Quando en-
ças iam passar as férias escolares lá na casa da trei na creche, usei o nome de Zuleide Lucena,
vó, então, às vezes, tinham umas doze crianças que era o sobrenome da Damaris Lucena, viúva
lá. Os filhos do Virgílio [Gomes da Silva] foram do [Antônio Raymundo] Lucena, que já estava
criados juntos conosco. Ficávamos todos juntos. lá com os filhos quando chegamos. O gover-
no cubano nos colocou para morar na mesma
Também tínhamos uma relação muito boa casa que a Damaris porque ia ser mais fácil, in-
com as crianças cubanas. Na nossa casa, éra- clusive para as crianças dela conviverem com
mos em oito crianças. Todas as brincadeiras outras crianças. Nós fomos criados como uma
aconteciam lá. Os vizinhos cubanos vinham grande família. Na casa, morávamos a Dama-
brincar com a gente e todos eles conheceram ris, a vó e as oito crianças. Era ela que cuidava
as nossas histórias. de todos nós, e a Damaris que nos levava ao

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“Aconteceu de
crianças realmente
serem taxadas
de terroristas,
como se a gente
fosse perigo para
a sociedade.
Crianças foram
torturadas de fato,
isso aconteceu
no Brasil”

Ângela Telma, filha de Damaris Lucena,


Zuleide e Ernestinho, Cuba
médico, à escola. Foi ela que me matriculou Chamarem a minha avó de Tia foi uma forma
na escola e como não tinha documento, deu o carinhosa criada pelos próprios companheiros.
nome de Zuleide Lucena. Assim fui chamada Eu imagino que como ela era a mais velha, a
durante muito tempo. A questão do meu nome mais idosa, as pessoas carinhosamente a cha-
era uma confusão. Uma hora eu era Zulmara, mavam de tia. E pegou. Inclusive quando ela foi
outra vez Zuleide. Outra hora era Zuleide Lu- presa, os milicos a chamavam assim. E isso foi um pai. A gente sentava, ele brincava com a
cena, outra ainda Zuleide Aparecida. integrado ao nome dela: Tercina de Oliveira, a gente, lia histórias. Isso no pouco tempo que
Tia. Ela era a cozinheira e costureira do Lamar- ficava ali com a gente.
Essa identidade nós nunca achamos. Até ca, no Vale do Ribeira.
hoje sou uma pessoa completamente sem Ele matava com a gente a saudade que tinha
identidade. Eu sei que sou brasileira, porque Nós conhecemos o Lamarca, guardo bem dos filhos, a Claudinha e o César. Ele nos aju-
nasci brasileira. Mas não me sinto brasileira isso na memória. Quando ele chegava do mato dou a suprir um pouco a necessidade de pai e
e sim cubana. Sei que não sou cubana, então depois de quinze, vinte dias – porque havia um nós o ajudamos a suprir um pouco a necessi-
é uma confusão muito grande. Aí eu costumo revezamento do pessoal que estava no mato, dade dele de filhos.
dizer que como tenho na veia a herança de mi- no treinamento e ele vinha buscar o outro pes-
litância, digo que sou latino-americana. Acho soal que chegava e a casa servia de ponte – ele Eu estava em Cuba quando ele foi morto [La-
que fica muito mais fácil. sentava no chão da cozinha lá de casa, tirava marca foi assassinado em 17 de setembro de
a bota e falava: “E aí Tia, você quer um touci- 1971]. Eu olhei para a minha avó e perguntei:
Cuba é o meu país e não tem como deixar de nho aí para colocar no feijão para dar um gos- “Vão fazer com ele que nem fizeram com o Che
ser. Foi o país que nos acolheu. Foi pai e mãe tinho?” Ele estava falando do próprio pé, que [Guevara]? Vão arrancar as mãos do Lamarca
para nós. Eu brinco que o Fidel Castro era o estava há vinte dias dentro de uma bota. Ele também?” O que soubemos foi que ele estava
meu pai. Porque durante dezesseis anos nos brincava com a vó. Eles tinham um relaciona- no sertão da Bahia com o Zequinha [Barreto],
apoiou e nos deu tudo, a formação que a gente mento muito gostoso de mãe e filho. É uma fi- que foi perseguido lá, e que tinham consegui-
tem hoje devemos a Cuba. gura que jamais esquecerei. Para mim, ele foi do encurralar e matar ele.

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Quero contar um pouco a história to, que para ele é importante falar. “Vai, vai ser eu quero que amanhã meu filho saiba direito o
do Samuel. bom, você fala muito poucas vezes sobre isso”. que aconteceu. Ele tem 9 anos de idade. Quan-
Dizem que quando a gente solta, vai tirando do as crianças são pequenas, o que ensinamos
Ele era do Rio de Janeiro, foi criado pela mãe, um pouco de cima. Eu, quando faço isso que a elas? Que se você rouba, é preso. Se mata, é
tinha irmãs mais velhas. A mãe saía para traba- estou fazendo hoje [testemunhando], o resto preso. Um dia, estávamos eu e o tio Manoel no
lhar, as irmãs também. Ele ficava sozinho, brin- do dia fico como se tivesse passado um trator carro, conversando e falando: “Sabe fulano, que
cando pelo cemitério do bairro onde morava. em cima de mim. Já o Ernesto dorme até três esteve preso com cicrano, com a Vó, não sei o
Ficava na rua. Minha avó, que sempre criou vá- dias seguidos. quê”? Aí meu filho olhou para mim e pergun-
rias crianças, foi passar um tempo lá no Rio de tou: “Você já foi presa? O tio já foi preso? A
Janeiro e conheceu essa criança na rua. Ela foi Mas realmente ele não quer falar. Ele disse: bisa já foi presa?” O menino levou um susto.
à casa da mãe e pediu para cuidar dele. A mãe “Eu não quero, tenho que trabalhar. Aqui nin-
deixou. Aí quando a vó retornou para São Paulo guém conhece a minha história, aqui eles não Hoje em dia eu explico porque fomos presos.
trouxe o Samuel junto. conhecem de onde eu vim, para onde eu fui, E ele fala: “Na época da guerra, né mãe?” Mas
quem eu fui, quem eu sou, nada. E eu não que- isso tem que ser corriqueiro nas escolas por-
Ele passou por toda a nossa história, foi de ro que saibam, não quero, não quero”. Eu acho que realmente essa é a história do Brasil, isso
aparelho em aparelho, foi para o Vale do Ribei- que ele não quer falar. aconteceu de fato, é a história da gente.
ra. Além da dor psicológica que a gente sofreu,
ele passou por tortura física. Fomos para Cuba e Hoje o Samuel é uma pessoa super retraída. Apesar de todo o sofrimento, dou graças a
quando o tio Neto voltou, resgatou a identidade Nós que somos irmãos dele, que nos criamos Deus de ter saído do Brasil na época, de ter
do Samuel, que na volta, foi procurar a família com ele, sentimos a diferença dele antes de sido banida do Brasil, ao invés de ter que ficar
biológica e começou a resgatar a história dele. Cuba e em Cuba. Lá foi o período em que ficou aqui como aconteceu com muitos, com pai pre-
Reencontrou a mãe e teve condições de ter o mais descontraído, mais à vontade. Depois que so, mãe presa, e eles nas escolas sofrendo o que
nome dela no registro. Quando saiu do Brasil, voltou, a gente percebe que ele tem um blo- hoje se chama bullying, sendo discriminados e
usava o nome da vó, Samuel Dias de Oliveira, queio muito grande. sofrendo o que sofreram na escola.
até porque todo mundo saiu sem documento. Para mim, é muito doloroso contar e lembrar Eu pelo menos não passei por isso. Fui para
Ele só teve condições de ter registro de nasci- da minha história. Mas eu faço pela importância. um país onde pude ter o resto da minha infân-
mento quando voltou, porque foi com a mãe Acho que esses fatos que aconteceram têm que cia em paz e não ter essa vida massacrada e
[biológica] ao cartório e se registrou. Hoje, ele ser revelados, falados. Quero parabenizar o traba- sendo seguida o tempo todo como aconteceu
se chama Samuel Ferreira, que é o sobrenome lho da Comissão porque são coisas que precisam com várias crianças que ficaram aqui.
da mãe. Porque na época em que se registrou ser faladas, abertas, jogadas ao mundo.
no Brasil, o pai já tinha falecido. A vó faleceu há dez anos, em oito de março
Eu me orgulho de ter esta história, de ter, de de 2003. Ela tinha um registro de nascimento
Em 2009, 2010, quando foi julgado o nosso certa forma, participado de tudo isso. E tam- que constava como data de nascimento o dia
processo em Brasília, fui defender o processo bém é a única história que eu conheço, o úni- 2 de novembro. Então eu costumo falar que
do Samuel que, quando entrou com um pro- co jeito de vida que conheço. Para mim, é tão minha vó nasceu no dia dos finados e faleceu
cesso de anistia, apresentou o nome de Samuel natural ter esta história e ter passado por tudo no Dia Internacional da Mulher, oito de março.
Ferreira. E aí existia um conflito, porque todos isso. Não é que eu goste de falar, há uma ne- Ela teve câncer de útero. Acho que ela faleceu
os documentos que juntávamos era de Samuel cessidade de se falar, a necessidade de gritar com 93 anos. Não temos certeza da idade, por-
Dias de Oliveira. ao mundo. Aconteceu isso sim, aconteceram que havia uma confusão de data.
Eu costumo falar para o Samuel que tenho essas barbaridades sim, de matarem pai de fa-
mais carinho e cuidado por ele do que tenho mília, de matarem mães de família, aconteceu
ZULEIDE APARECIDA DO NASCIMENTO nasceu em 5 de
pelo meu próprio irmão de sangue. Ele me li- de crianças realmente serem taxadas de ter-
agosto de 1965. Osaco (SP). Filha de Sebastião Rivom do
gava e falava: “Você é a única irmã que eu te- roristas, como se a gente fosse perigo para a Nascimento e Maria do Perpétuo Socorro do Nascimen-
nho, a minha família de sangue aqui não quer sociedade. Crianças foram torturadas de fato, to, estudou em Cuba e trabalha como secretária.
saber de mim. Eles não me procuram, eu não isso aconteceu no Brasil, na América Latina e
tenho contato com eles”.Na semana passada não pode voltar a acontecer. SAMUEL FERREIRA nasceu no bairro do Éden em São
João do Meriti (RJ). Filho de criação de Tercina, era con-
eu falei com ele, para vir aqui dar depoimen- Nenhum ser humano tem o poder de tortu- siderado neto da família instalada na entrada do sítio
rar, de acabar com a vida de outro ser huma- que servia de fachada para a área de treinamento de
À esquerda, Samuel fichado antes do banimento do país, 1970 guerrilha. Tinha quase 9 anos quando foi banido e, sem
no. Em nome de quê? Por isso que eu acho documentos, ganhou o sobrenome de Tercina. Só conse-
Foto de acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo,
reprodução de Luiza Villaméa, Revista Brasileiros importante e por isso que eu vim hoje. Porque guiu regularizar seus papéis em 1982.

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134 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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por Luis Carlos Max do Nascimento

Meu nome é Luis Carlos Max. Sou um dos Lá, nós conhecemos o Carlos Lamarca, coi- abaixar a cabeça. Isso porque não podíamos
quatro netos da Tia Tercina [Dias de Oliveira]. sa de que tenho muito orgulho. Ele morava lá reconhecer o lugar para onde estávamos indo.
Somos eu, minha irmã Zuleide, tem o Ernesto, no meio do mato mesmo. A morte dele foi uma
e meu irmão de criação, que é o mais velho, o perda muito dolorosa. Da mesma forma que ele Aí fomos para Peruíbe. E foi lá que fomos
Samuel. Nós fomos criados com minha avó des- era rígido por ser um comandante de uma or- presos. A tensão maior foi quando de madru-
de cedo. Depois que minha mãe adoeceu, nós ganização, era doce também. Ele nos deu uma gada a polícia chegou em casa, foi em março
fomos viver com a nossa avó. grande formação. Ele nos ensinava muita coisa ou abril de 1970. Estávamos eu, vó, Samuel e
e o tenho como um pessoa muito querida. Zuleide. O Lavechia já não estava mais lá. Ali
Na época da greve de Osasco eu tinha 5 anos. sim percebemos que a coisa era pesada mes-
Logo em seguida, minha avó teve que entrar na Quando o Vale do Ribeira caiu e a polícia fi- mo. Vimos a brutalidade daquela invasão. A
clandestinidade, junto com meu tio, que era sin- cou sabendo da existência do local, a situação já minha avó ficou muito tranquila. Ela sempre
dicalista e foi cassado. Nessa época, a vó era do não podia mais se sustentar, então tivemos que foi muito bem preparada para isso e sempre
Partido Comunista – que foi cassado. sair de lá e fomos para uma casa em Peruíbe. nos preparou. Era de madrugada quando nos
Desde criança nós tínhamos noção do perigo, acordou: “Olha, não está acontecendo nada,
Ficamos indo de um aparelho para outro, fu- éramos preparados para isso, vivíamos nessa recolham as coisas, arrumem as roupas, nós
gindo da polícia, até que fomos para o Vale do tensão. Não éramos crianças comuns que po- vamos ter que sair”. E nós tranquilamente fi-
Ribeira, no final de 1969. O Vale do Ribeira era diam brincar na rua. zemos isso. Mas sentimos a invasão, a polícia
um centro de treinamento de guerrilha, para chegando, entrando e revirando as nossas coi-
preparar o pessoal para a luta armada. Quem
chefiava era o Carlos Lamarca. Nós não mo- “Desde criança nós sas todas. Foi pesado.
rávamos na cidade nem no povoado, e sim no tínhamos noção Depois disso, os militares e a polícia invadi-
vale, dentro do mato. Ali não podia entrar nin- ram o Vale do Ribeira, teve tiroteios, bombar-
guém, era escondido. do perigo, éramos deios. Ficou uma linha de fogo mesmo. Se esti-
Lá, vivíamos minha avó e nós três – eu,
preparados para isso, véssemos ali, não sei o que iria acontecer. Mas
o Lamarca nos tirou dali. Quando os militares
Zuleide e o Samuel, irmão adotivo que minha vivíamos nessa tensão. estouraram a casa, foi muito sigiloso, não era
avó criou desde pequeno. O Ernesto ainda não
estava conosco. Estava em outro aparelho com Não éramos crianças todo mundo que sabia. A casa serviu de arma-
dilha para outros companheiros que chegas-
o pai e a mãe. Só encontramos com ele quando comuns que podiam sem ali sem saber que havia sido invadida. Aí
fomos presos e levados ao Juizado de Menores.
E tinha o Nicolas, que era o codinome do José brincar na rua” chegavam lá e já eram presos.
Lavechia. Éramos uma família de camponeses Fomos levados para São Paulo, para o DOPS.
de fachada. Ficamos lá mais ou menos três A gente ficava dentro de um aparelho. Era Até hoje, quando me lembro, é doloroso. Fo-
meses. Nessa época, eu estava com 6 anos, a complicado. Não podia fazer barulho porque o mos colocados em uma sala e sabíamos o que
Zuleide com 4 e o Samuel com 9. vizinho de baixo sabia que tinha crianças. Vol- estava acontecendo. A situação estava ten-
À esquerda, Luis Carlos fichado antes do banimento do país, 1970
ta e meia tínhamos que sair de uma casa para sa. Hoje eu vejo meus filhos com 6, 7 anos...
Foto de acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo,
outra. Nós íamos dentro do carro sem poder Eu não vejo neles o preparo psicológico que
reprodução de Luiza Villaméa, Revista Brasileiros olhar para a rua, tínhamos que fechar os olhos, tínhamos. Aí falamos: “Mas com 6 anos você

INFÂNCIA ROUBADA 135

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“No DOPS, foi uma fazia isso, fazia aquilo, você sabia o que estava quatro dias. Era uma casa comum, muito chi-
acontecendo?” A gente vivia aquilo, tinha que que, com móveis caros, de madeira, com tape-
crueldade quando nos saber. De uma forma ou de outra, os nossos tes. Não vimos ninguém além de uma senhora
colocaram em uma sala companheiros também não deixavam que as que cuidava de nós. Ela não nos maltratava,
dores maiores chegassem até nós. mas também não nos dava carinho nem nada.
e nos separaram da vó.
Minha avó nos orientava: “Olha, vocês não Eu, por ser mais rebelde, saía do quarto cor-
Eu, que sempre fui o podem falar alto”, “Agora seu nome será X”. Eu rendo e ela dizia: “Não, não pode sair do quar-
mais rebelde dos irmãos, não podia mais chamar minha irmã de Zuleide, to”. Ela levava comida para nós. Só saíamos de
tinha que ser Zulmara. E ela não podia atender lá para ir ao banheiro. E dali nos levaram para
me agarrei muito na pelo nome de Zuleide. E eu passei a ser chamado o Juizado de Menores, onde ficamos uns dois
minha vó e comecei a de João Carlos. Essa era a preparação que tínha- meses mais ou menos.
mos. Acho que todas as crianças que estavam
chorar. Aí dois policiais com seus parentes na clandestinidade também Lá, praticamente só havia crianças, tinha até
pegaram a minha avó receberam esse preparo. A minha avó sempre bebês. Então ficávamos brincando o dia todo.
A única coisa com a qual me senti muito mal
passou segurança para nós, sempre foi dura, ca-
pelo braço e outro me rinhosa na hora que era para dar carinho e dura foi que tiraram os nossas pertences, cortaram
desgarrou dela” quando necessário. Pela vida que levávamos, a o cabelo da Zuleide e tiraram o brinquinho de
ouro dela, uma argolinha que minha avó havia
minha avó não podia ser mole conosco. Aliás,
ninguém podia ser mole naquela época, então dado a ela.
a minha avó sempre falou olhando nos nossos
Um belo dia chegaram e disseram: “Olha,
olhos e sempre falou sério quando era neces-
vocês estão indo embora”. Foi uma alegria.
sário. Ela era nossa referência de seriedade, de
Nos levaram não sei para onde, não sei se foi
tudo. A melhor referência que tenho é a da mi-
de novo para o DOPS, mas reencontramos a
nha avó, que no caso todo mundo chama de Tia.
nossa avó. Todo esse tempo ficamos sem sa-
No DOPS, foi uma crueldade quando nos co- ber nada dela. Quando nos reencontramos, a
locaram em uma sala e nos separaram da vó. alegria foi imensa. E junto com ela estavam os
Eu, que sempre fui o mais rebelde dos irmãos, companheiros, inclusive o Nicolas.
me agarrei muito na minha vó e comecei a cho-
Nós fomos fichados, tiraram uma série de
rar. Aí dois policiais pegaram a minha avó pelo
fotografias, tiraram as digitais. Depois ficamos
braço e outro me desgarrou dela. Ela me disse:
sabendo que estávamos saindo do Brasil. A po-
“Carlinhos, fique tranquilo que não vai acon-
lícia não estava querendo liberar as crianças e
tecer nada, tá? Depois a gente se vê”. Mas eu
minha avó disse: “Sem as crianças eu não vou”.
fiquei muito mal, porque a partir dali eu não a
Nós não tivemos passaporte. Quando você é
vi mais. Ficamos horas e horas naquela sala. E
banido, não tem passaporte, não tem documen-
depois fomos levados para o Juizado de Me-
tação nenhuma. É expulso mesmo. Nós, por es-
nores. Eu fiquei muito mal, mas muito mal. Eu
tarmos junto com nossos companheiros, fomos
não queria me alimentar, não queria brincar
fichados como terroristas. Não somos nós que
com as outras crianças que estavam lá. Nunca
estamos dizendo isso. São os documentos do
tinha me separado dela. Lembro disso até hoje.
DOPS que diziam que éramos terroristas.
Eu e a Zuleide, como éramos menores, fomos
Tiraram nossas digitais para caso retornás-
levados ao Juizado. Não fomos maltratados lá.
semos ao Brasil, já saberiam. Se retornássemos
Mas o Samuel, como já tinha mais de 9 anos,
para o Brasil é porque iríamos fazer guerrilha,
foi levado para uma instituição de crianças in-
como teve companheiros que voltaram e fo-
fratoras, onde foi maltratado. Mas antes de nos
ram assassinados. Então fomos banidos mes-
levarem para o Juizado de Menores, nos leva-
mo, exilados.
ram para uma casa muito grande. Não sei qual
era a intenção de fazer isso, se era para depois Parece que essa noite nós dormimos no
alguém nos adotar. Ficamos ali uns três ou DOPS ou no aeroporto. Aí fomos para o Rio de

136 COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SÃO PAULO “RUBENS PAIVA”

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“Quando voltamos ficava com medo de ver polícia, de ver militar,
achava que estava sendo vigiado. A minha irmã
Nós fomos muito bem aceitos, mas não éra-
mos cubanos, éramos brasileiros e estávamos
para o Brasil, não tremia quando via a polícia. Treme até hoje. com muita vontade de voltar para o Brasil e
foi de uma forma Eu voltei ao Brasil um pouco antes da
reencontrar as nossas identidades. Até hoje eu
não achei minha identidade.
segura. Havia um Zuleide. Cheguei em 1982, tinha 18 para 19
anos. Nós tínhamos um problema de identi- Moro no Rio de Janeiro e hoje vim especial-
medo muito grande. dade muito grande. Fui saber meu nome ver- mente para São Paulo. Meu filho mais velho, de
Sempre tivemos dadeiro quando o meu tio Neto voltou para o
Brasil para preparar o campo para nosso retor-
25 anos, me perguntou: “Pai, o que você vai fa-
zer em São Paulo?” Eu respondi: “Meu filho, eu
aquele temor da farda no. Não tínhamos casa aqui, não tínhamos do- tenho que resgatar uma coisa do passado para
cumento nenhum. Então enviaram para Cuba todas aquelas pessoas que não conheceram o
verde dos militares” a nossa certidão de nascimento. Aí que eu fui que aconteceu no Brasil, na época que todo
ver realmente meu nome verdadeiro, porque mundo estava cego com futebol. Na década de
Janeiro, onde chegamos à noite. Dormimos no até então não sabia. 1970 teve a Copa do Mundo, nas ruas estava se
saguão do aeroporto, em uma sala onde esta- comemorando o jogo do futebol. Nem sei se o
vam todos os companheiros, os quarenta. Era Recebi a certidão de nascimento em 1980. Brasil foi campeão na época, mas a maioria dos
uma sala imensa, com um montão de colchões Foi quando preparamos toda a documentação brasileiros também não sabia que nos porões
no chão e dormimos ali. No dia seguinte de para retornar ao Brasil. Até então, eu tinha uma da ditadura pessoas eram assassinadas, até
manhã, embarcamos para a Argélia. Antes de confusão de nomes. Eu não sabia mais qual era crianças foram torturadas na época”. Foi isso
sairmos, tiraram aquela foto que todo mundo meu nome, se era João Carlos, se era João Car- que falei para os meus filhos.
já conhece. Fomos num avião comum, da Va- los Dias, se era Luis Carlos Dias.
rig, até hoje me lembro. Porque nos livros, nas escolas, as crianças
Em Cuba, nossa convivência com as crian-
não sabem que isso aconteceu. Eu e minha
Na Argélia, também havia um problema polí- ças cubanas era normal, porque estudávamos
irmã, assim como muitas outras crianças, so-
tico, então não podíamos estar muito expostos. praticamente numa escola interna. Tínhamos
mos a prova viva do que realmente aconteceu.
Depois o Fidel Castro ficou sabendo da situa- uma ligação também muito grande com as
ção e disse: “Quero que essas crianças venham crianças brasileiras que moravam lá. Eram os Fisicamente as coisas vão se apagando,
para Cuba. Eu me responsabilizo por elas, vou filhos da Damaris Lucena, do Lamarca, que como o companheiro Zé Ibrahin que morreu
dar educação e saúde para elas”. Foi o próprio eram o Cesar e a Claudinha, os filhos do Darcy esta semana [José Ibrahin, líder sindical, fale-
Fidel que nos fez esse convite. [Rodrigues] também estavam lá. A nossa casa ceu em 2 de maio de 2013]. Mas temos que ir
era praticamente um território brasileiro, pois levando as memórias para o futuro. Da mesma
Aí pegamos outro avião e fomos para Cuba, todos os brasileiros exilados em Cuba que mo- forma que se guardou as histórias da Segunda
onde fomos acolhidos pelo governo e pelo povo