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A VIDA DE CRISTO

AMBIENTE DE JESUS — A NAÇÃO E A ÉPOCA


A. Contexto histórico-político-geográfico da Palestina no início da Era Cristã
a. A plenitude dos tempos
B. Evidências da existência histórica de Jesus
a. Historicidades
b. Fontes
C. Panorama dos quatro evangelhos; aspectos biográficos dos quatro evangelistas
D. Os títulos de Cristo nos evangelhos
E. Profecias do AT sobre o Cristo citadas nos Evangelhos
F. A genealogia do Messias
G. A divindade preexistente de Jesus
H. Síntese da Vida de Cristo

I. NASCIMENTO E INFÂNCIA DE JESUS


Apêndice 1: O nascimento virginal

II. A PREPARAÇÃO PARA O MINISTÉRIO PÚBLICO DE JESUS


Apêndice 2: A vida de João Batista

III. MINISTÉRIO INICIAL DE JESUS NA JUDÉIA

IV. JESUS EVANGELIZA A MULHER SAMARITANA E A ALDEIA DE SICAR

V. O LONGO MINISTÉRIO DE JESUS NA GALILÉIA

VI. JESUS NOVAMENTE EM JERUSALÉM

VII. O MINISTÉRIO DE JESUS ALÉM DO JORDÃO (NA PERÉIA)

VIII. FIM DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE JESUS — NARRATIVA DA PAIXÃO

IX. A RESSURREIÇÃO E APARECIMENTOS DIVERSOS DE JESUS

X. NARRATIVAS PÓS-RESSURREIÇÃO
A. O suborno dos guardas pelos sacerdotes para encobrir o fato da ressurreição
B. A grande comissão
C. A ascensão de Jesus
D. O significado da ressurreição

Anexo 1. Esboço sumário de um estudo harmonístico dos evangelhos


Anexo 2. Jesus: Seu lugar ímpar na história da humanidade

Bibliografia

1
I. O AMBIENTE DE JESUS — A NAÇÃO E A ÉPOCA

A. CONTEXTO HISTÓRICO-POLÍTICO-GEOGRÁFICO DA PALESTINA NO INÍCIO DA


ERA CRISTÃ

O mundo do Novo Testamento é muito diferente do AT. As mudanças que ocorreram no


decurso de quatro séculos afetaram todas as áreas da vida. Muitas dessas mudanças têm correlação
entre si.1

Mudanças políticas e culturais


• Os romanos agora dominam a Palestina, em vez dos persas.
• Agora são o pensamento e a cultura dos gregos (helenismo) que ameaçam desviar o povo de
Deus, em vez dos deuses dos cananeus como Baal e Moloque.

Mudanças geográficas
• A Palestina está dividida nas regiões da Judéia, Galiléia e Samaria; no lado oriental do rio
Jordão estão Peréia e Decápolis. Além disso, passaram a existir comunidades judaicas (algumas de
tamanho considerável) em algumas das principais cidades do Império Romano, tendo cada
comunidade as suas sinagogas. Essas comunidades são chamadas coletivamente Diáspora ou
Dispersão.

Mudanças religiosas
• Partidos religiosos: Os partidos dos fariseus e dos saduceus (bem como os partidos políticos
dos zelotes e dos herodianos) não existiam no Antigo Testamento.
• Funcionários religiosos: Mestres da lei (“escribas”) e rabinos (professores) desempenham
um papel de importância. Os principais sacerdotes, como um grupo com identidade própria, não se
acham no AT.
• Instituições religiosas: O Templo e toda a respectiva área foram transformados, tomando-se
por base a estrutura modesta construída pelos judeus que regressaram do exílio na Babilônia, em um
complexo magnífico. Além disso, cada cidade agora tem uma sinagoga, um lugar para prestar culto
e para estudar a Palavra de Deus.

Idioma e escritos
• O idioma comum na Palestina já não é o hebraico, mas o aramaico. O idioma do comércio e
das comunicações em todo o Império Romano é o grego.
• Essas mudanças de idioma exigiram traduções da Bíblia hebraica (nosso AT): a Septuaginta,
uma tradução para o grego, e os targuns, paráfrases em aramaico.
A seguir, um detalhamento dessas mudanças:

Quatro séculos de mudanças políticas

1. O período persa, 430-332 a.C.


A história do Antigo Testamento termina por volta de 430 a.C., com o profeta Malaquias. Os
babilônios, que tinham destruído Jerusalém em 586 a.C., foram conquistados pelos medos e persas.
O rei persa, Ciro, permitiu que os judeus regressassem a Jerusalém em 536 a.C. Sob a liderança de
Esdras e Neemias, o Templo e os muros da cidade foram reconstruídos. Portanto, no fim do Antigo
Testamento, Judá era uma província persa.
Não se sabe muita coisa a respeito da história judaica nesse período — somente que o
domínio persa foi, na maior parte, brando e tolerante.

2. O período grego, 331-167 a.C.


1
Panorama baseado no Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001 (edição revista e ampliada), p. 408-425.
2
Até esse tempo, as grandes potências mundiais tinham estado na Ásia e na África. Mas
avultava ameaçador no horizonte ocidental o poder da Grécia, em plena ascensão.
Os primórdios da história da Grécia estão envoltos em mitos. Acredita-se que tiveram início
por volta do século XII a.C., a época do livro dos Juízes. A Guerra de Tróia, imortalizada na Ilíada e
na Odisséia de Homero, foi travada em torno de 1000 a.C. — no tempo de Davi e de Salomão.
O início da história da Grécia geralmente tem sido contado a partir da primeira Olimpíada, em
776 a.C. (poucos anos antes da fundação da cidade de Roma que, segundo a tradição, ocorreu em
753 a.C.). A cultura e a arte gregas foram extraordinariamente originais e criativas (ao contrário da
arte romana posterior, que era muito mais rústica e imitativa). A cultura grega alcançou o apogeu na
cidade de Atenas no século V a.C., a Idade de Ouro da Grécia. A esse período pertenceram os
grandes estadistas, filósofos e dramaturgos (Péricles, Sócrates, Demóstenes, Platão).
Alexandre, o Grande, era filho do rei Filipe da Macedônia, no norte da Grécia. Em 336 a.C.,
aos 20 anos de idade, assumiu o comando do exército grego e avançou impetuosamente contra os
países que tinham estado sob o domínio do Egito, da Assíria, da Babilônia e da Pérsia. Já em 331
a.C., o mundo inteiro jazia aos seus pés.
Quando Alexandre invadiu a Palestina em 332 a.C., tratou os judeus com grande
consideração, poupou Jerusalém e lhes ofereceu incentivos para se estabelecerem em Alexandria, no
Egito. Fundou cidades gregas em todos os domínios que conquistou, com o intuito de disseminar a
cultura e o idioma gregos em todas as partes do mundo. Depois de um breve reinado, morreu em
323 a.C., aos 33 anos de idade. Seu império não perdurou, mas o seu sonho, sim: o idioma e a
cultura gregos (o helenismo) dominariam o mundo por muitos séculos.

Sob o domínio egípcio (os ptolomeus)


Depois da morte de Alexandre, o Grande, seu império foi dividido entre quatro de seus
generais. A Palestina ficava entre a Síria e o Egito, os dois segmentos orientais do império. A Síria
foi destinada a Selêuco (que passou a ser o primeiro da dinastia selêucida), e o Egito, a Ptolomeu (o
primeiro dos ptolomeus). A Palestina foi dominada primeiramente pela Síria, mas pouco depois
passou para o Egito (301 a.C.) e permaneceu debaixo do controle egípcio até 198 a.C.
Sob o governo dos ptolomeus, a condição dos judeus foi em geral pacífica. Nesse período,
Alexandria, no Egito, veio a ser um centro influente do judaísmo.

Sob o domínio sírio (os selêucidas)


O rei Antíoco, o Grande, da Síria, retomou a Palestina, em 198 a.C., que assim passou de
volta aos reis da Síria, os selêucidas. Inicialmente, os selêucidas foram tolerantes com os judeus,
mas essa situação não tardou a se alterar.
Antíoco IV Epifânio (175-164 a.C.) ficou frustrado porque os judeus se recusaram a abrir mão
de sua religião e de sua identidade. Passou a ser violentamente rancoroso contra eles e decidiu
exterminar os judeus e sua religião. Devastou Jerusalém (168 a.C.) e profanou o Templo ao
sacrificar no altar uma porca (animal cerimonialmente impuro segundo a Lei de Moisés). Em
seguida, levantou um altar a Zeus — o principal deus dos gregos, chamado Júpiter pelos romanos
—, proibiu o culto no Templo, proibiu a circuncisão sob pena de morte, vendeu milhares de famílias
judaicas à escravidão, destruiu todos os exemplares das Escrituras que pudessem ser achados,
trucidou qualquer pessoa que fosse descoberta na posse das Escrituras e recorreu a todas as torturas
concebíveis a fim de forçar os judeus a renunciarem sua religião. Essa situação deu ocasião a uma
das façanhas mais heróicas da história — a revolta dos macabeus.

3. Um século de independência (o período macabeu, 167-63 a.C.)


Esse período é chamado macabeu ou asmoneu. Matatias, sacerdote de intenso patriotismo e de
coragem ilimitada, ficou enfurecido com a tentativa feita por Antíoco Epifânio no sentido de
destruir os judeus e sua religião. Reuniu um grupo de judeus leais e levantou o estandarte da
revolta. Teve cinco filhos heróicos e guerreiros: Judas, Jônatas, Simão, João e Eleazar.
Matatias morreu em 166 a.C., sendo sucedido por seu filho Judas, um guerreiro de notável

3
gênio militar. Capturou Jerusalém em 165 a.C. e purificou e rededicou o Templo. Essa foi a origem
de Hãnuká, que significa Festa da Dedicação (também chamada Festa das Luzes). Judas uniu em si
mesmo a autoridade sacerdotal e civil, e assim estabeleceu a linhagem dos governantes sacerdotais
asmoneus que, durante os 100 anos que se seguiram, governaram a Judéia independente. Foram
eles: Matatias (167-166 a.C.); Judas, seu filho (166-161); Jônatas, irmão de Judas (161-144); Simão,
irmão de Jônatas (144-135); João Hircano (135-106), filho de Jônatas; e Aristóbulo e seus filhos
(106-63), que foram indignos do nome dos macabeus.

4. O período romano (63 a.C.-636 d.C.)


Dois rivais que aspiravam ao cargo de sumo sacerdote apelaram igualmente a Roma, pedindo
apoio. O general romano Pompeu chegou em 63 a.C. e resolveu solucionar a disputa, tornando a
Palestina uma parte do Império Romano. Antípater, um idumeu (edomita, descendente de Esaú), foi
nomeado governante da Judéia. Foi sucedido pelo seu filho, Herodes, o Grande, que foi rei da
Judéia de 37 a 4 a.C. Herodes era um político astuto que conseguiu conquistar o favor dos judeus.
Um dos meios que empregou para isso foi reconstruir e expandir o Templo com beleza espetacular.
Era, porém, brutal e cruel. Mandou matar a primeira esposa, Mariana, e também, posteriormente,
três de seus próprios filhos. Esse é o Herodes que governava a Judéia quando Jesus nasceu, e foi ele
quem mandou matar os meninos de Belém.

OS GOVERNANTES DA FAMÍLIA DOS HERODES


Governante Vínculo familiar Área de Datas Referências
responsabilidade bíblicas
Herodes I (o Grande) Filho de Antípatro Rei da Judéia 37—4 a.C. Mt 2:1-22; Lc 1:5
Herodes Arquelau Filho mais velho de Etnarca da Judéia, 4 a.C.—6 d.C. Mt 2:22
Herodes, o Grande Samaria e Iduméia
Herodes Filipe Filho de Herodes, o Grande Tetrarca da Ituréia e de 4 a.C.—34 d.C. Lc 3:1
com Cleópatra de Jerusalém Traconites
Herodes Antipas Filho mais novo de Herodes, Tetrarca da Galiléia e 4 a.C.—39 d.C. Mt 14:1-11; Mc 6:14-29;
o Grande. Segundo marido Peréia Lc 3:1, 19; 13:31-33;
de Herodias. 23:7-12
Herodes Agripa I Neto de Herodes, o Grande Rei da Judéia 37—44 d.C. At 12
Herodes Agripa II Bisneto de Herodes, o Tetrarca e rei de Cálcis 44—100 d.C. At 25:13—26:32
Grande (rei a partir de 48)

Mudanças geográficas
1 . A Palestina
No fim do período do AT, a Palestina era uma província persa. No tempo de Cristo, a terra da
Palestina era dividida em três regiões ou províncias: a Galiléia ao norte, Samaria no centro e a
Judéia ao sul. A leste do rio Jordão estavam Peréia e Decápolis.
A história desempenhou um papel de grande importância na maneira como os habitantes
dessas regiões se consideravam mutuamente.
A Galiléia era uma região de aproximadamente 80 por 48 km; fértil, atravessada por
importantes rotas comerciais. Quando o reino de Davi e Salomão foi dividido, o Reino do Norte,
que se separou, consistia num território aproximadamente equivalente ao que o NT chama Galiléia e
Samaria. Quando o Reino do Norte foi conquistado pelos assírios em 722 a.C., a população foi
deportada para a Assíria e, no seu lugar, imigrantes pagãos foram trazidos para colonizar a região. É
por isso que a região é mencionada como “Galiléia dos gentios” (Is 9:1; Mt 4:15).
É possível que o ambiente não-judaico pudesse ter tido um impacto negativo sobre o culto dos
judeus e as respectivas práticas religiosas entre os galileus, que eram facilmente identificados pelo
sotaque e pelo dialeto (Mt 26:73). Os habitantes da Judéia desprezavam os galileus, conforme
demonstra a pergunta de Natanael: “Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de lá?” (Jo 1:46), bem
como a idéia de que nenhum profeta poderia surgir da Galiléia (Jo 7:52). Foi ali, porém, que Jesus
passou a maior parte do seu ministério.
Samaria era um pouco menor que a Galiléia. A cidade de Samaria foi destruída pelos assírios
4
em 722 a.C., e seus habitantes foram deportados. Nos dias de Jesus, a população de Samaria, assim
como a da Galiléia, consistia numa mistura de israelitas que, de alguma maneira, tinham conseguido
evitar a deportação e de novos imigrantes de origem não-israelita. Os samaritanos desenvolveram
um tipo próprio de adoração a Iavé, baseado exclusivamente nos cinco livros de Moisés, e
construíram um templo no monte Gerizim. (Ainda hoje existem samaritanos que celebram a Páscoa
no monte Gerizim, perto das ruínas de seu templo.)
Quando os judeus regressaram sob a liderança de Esdras e Neemias, os samaritanos queriam
participar da reconstrução do Templo, mas foram repudiados. Aproximadamente naquela mesma
época, um grupo de dissidentes judeus partiram de Jerusalém e foram residir em Samaria. Tudo isso
levou a um rompimento religioso e político permanente entre os judeus e os samaritanos. Os judeus
evitavam viajar através de Samaria a não ser que não houvesse outra saída, e é fácil subestimar quão
extraordinária foi a viagem de Jesus ao passar por Samaria (Jo 4:1-42) e quão fortes foram as
emoções conflitantes geradas pela parábola do Bom Samaritano (Lc 10:30-37).
A Judéia equivalia, aproximadamente, ao território do antigo reino de Judá (Judéia é a forma
latinizada de Judá). Tinha cerca de 88 por 88 km de área, embora as fronteiras nunca tenham sido
fixadas com precisão. Depois da morte de Herodes, seu filho Arquelau passou a ser o governante,
mas foi banido pelos romanos, que anexaram a Judéia à província da Síria. A Judéia ficou debaixo
do domínio direto de Roma até 37 d.C., quando Herodes Agripa I tornou-se o rei da Judéia.
Decápolis (literalmente, “dez cidades”) era um grupo de dez cidades fundadas pelos gregos
em conseqüência das conquistas de Alexandre, o Grande. Desfrutavam de considerável
independência sob a proteção de Roma. Perto de Gadara, uma das referidas cidades, Jesus permitiu
que os demônios passassem para uma manada de porcos (Mc 5:1-20). Jesus passou a desfrutar de
popularidade em Decápolis (Mt 4:24-25; Mc 7:31-37).
A Peréia era o pequeno território a leste do rio Jordão, oposto a Samaria e à Judéia. Sua
população era basicamente judaica. Nos evangelhos, nunca é mencionada nominalmente, mas é
referida como a terra “além do Jordão” (cf. Mt 4:15,25; 19:1; Mc 3:7-8). João batizava em Betânia,
“do outro lado do Jordão” (Jo 1:28). Jesus ministrou muitos de seus ensinos na Peréia, e foi a partir
dali que fez a última viagem para Jerusalém (Jo 10:40; 11:54).

2. A Diáspora ou Dispersão
Diáspora refere-se aos judeus que residiam fora da Palestina sem deixar a fé religiosa. As
duas deportações — primeiramente do Reino do Norte, Israel, pelos assírios, em 721 a.C., e depois
do Reino do Sul, Judá, pelos babilônios, em 586 a.C. — tinham dispersado os judeus. Muitos
daqueles que foram levados à Babilônia, juntamente com seus descendentes, não voltaram a
Jerusalém com Esdras e Neemias, mas optaram por ficar.
Depois, Alexandre, o Grande, induziu muitos judeus a se mudarem para a recém-fundada
cidade de Alexandria, no Egito, e a partir daquela época muitos milhares de judeus emigraram para
países vizinhos, com propósitos de negócios e comércio. Na época do NT havia, provavelmente,
mais judeus morando fora da Palestina do que nela. Atos 2:5-12 demonstra a extensão da Diáspora.
No Antigo Testamento, o Templo era o centro da vida religiosa dos israelitas. Depois do exílio
babilônico, no entanto, judeus tementes a Deus puderam mudar para outros lugares, distantes de
Jerusalém, por causa das sinagogas, que tinham alcançado uma posição de destaque no cativeiro
babilônico. Quase todas as cidades de alguma importância no Império Romano tinham uma colônia
judaica, tendo cada uma a sua sinagoga. Esse foi um fator importante na disseminação do
cristianismo nas primeiras décadas da Igreja, visto que Paulo invariavelmente ia à sinagoga de cada
cidade que visitava e ali pregava respeito de Jesus.
Nota: A Diáspora nos quatro séculos antes de Cristo foi, em grande medida, voluntária.
Entretanto, depois que Jerusalém e o Templo foram destruídos pelos romanos em 70 d.C. e os
judeus perderam o direito à Palestina, a Diáspora passou a ser um meio obrigatório de viver.
Quando o Estado de Israel foi fundado em 1948, tornou-se possível a volta de muitos judeus, mas a
Diáspora continua para a vasta maioria dos judeus, embora ela seja, de novo, voluntária.

5
Mudanças religiosas
Alexandre, o Grande, queria fazer mais que conquistar o mundo — queria disseminar a língua
e a cultura gregas por toda parte. Ele foi bem-sucedido, mesmo depois de seu império ter sido
dividido e posteriormente absorvido pelo Império Romano. O nome dessa difusão da língua, cultura
e pensamento grego é helenismo (derivado de Hellas, o nome grego da Grécia). O propósito do
helenismo foi, pelo menos em parte, político: mediante a criação de uma só cultura unificada, seria
possível governar um império que consistia em nações e culturas numerosas e diversificadas.
O grego realmente veio a ser, em maior ou menor grau, a língua auxiliar de comunicação do
mundo civilizado. E a cultura grega — embora se misturasse com elementos locais — produziu
uma coerência de pensamento e valores que persistiu mesmo depois de o Império Romano ter
abocanhado o que sobrou do império de Alexandre, o Grande.
O helenismo era cosmopolita em suas atitudes. Procurava reduzir ao mínimo os pontos de
vista locais e bairristas e substituí-los por uma perspectiva helenística, cosmopolita.
Parte da população judaica (até mesmo muitos dos líderes) apoiava o helenismo, ao passo que
outra parte (especialmente os cidadãos comuns) resistia fortemente a ele. (Um dos motivos por trás
da profanação do Templo por Antíoco Epifânio foi que ele perdeu a paciência com a insistência dos
judeus em permanecerem diferentes e se excluírem da cultura mais cosmopolita, de modo que
resolveu forçar a situação, sendo que nisso subestimou grandemente a profundidade das convicções
judaicas.) Foi a partir dessa luta contra o helenismo, luta que era política, bem como cultural e
religiosa, que surgiram os dois principais partidos do judaísmo na época de Jesus: os fariseus e os
saduceus. Dois outros partidos são mencionados no NT: os zelotes e os herodianos. Eram de
natureza mais política que religiosa.

1. Partidos religiosos
SEITAS JUDAICAS NO NOVO TESTAMENTO
Épocas em Segmentos Referências
que existiram Nome Origem da sociedade Convicções selecionadas Atividades
FARISEUS
Surgiram sob Fariseus = “os Provavelmente Eram o partido Eram monoteístas. Reconhe- Mt 3:7-10; Desenvolviam a tradição oral. Ensina-
Jônatas (160-143 separados, descendentes (ou seita) ciam a autoridade de todo o 5:20; 9:14; vam que o caminho para Deus era a
a.C.) com três espirituais dos judaico com Antigo Testamento (Torá, 16:1, 6-12; obediência à lei. Transformaram o
Seu poder decli- sentidos hasidins (que mais adeptos. Profetas e Escritos). Criam que 22:15-22, judaísmo de uma religião de
nou sob João possíveis: lutavam pela Escribas e a verdadeira adoração era 34-46; sacrifícios para uma religião da lei.
Hircano (134- 1) Separa- liberdade estudiosos da estudar a lei. Aceitavam tam- 23:2-36 Pensavam progressivamente,
104 a.C.) vam-se das religiosa na lei. bém a lei oral. Interpretavam a Mc 3:6; 7:3-5; adaptando a lei às situações.
Começaram a pessoas época de Judas Membros da lei de modo mais liberal do que 8:15; 12:13-17 Opunham-se a Jesus porque não
ressurgir sob 2) Separa- Macabeu) classe média, os saduceus. Estavam muito Lc 6:7; aceitava os ensinos da lei oral como
Salomé Alexan- vam-se para na maioria atentos à guarda correta do 7:36-39; obrigatórios. Fundavam e con-
dra (76 a.C.) estudar a lei homens de sábado, do dízimo e dos rituais 11:37-44; trolavam as sinagogas.
(“dividindo” negócios, de purificação. Criam na vida 18:9-14 Exerciam um grande controle sobre o
ou “sepa- comerciantes. após a morte e na ressurreição Jo 3:1; povo em geral. Serviam de autoridade
rando” a física (com recompensa 9:13-16; religiosa para a maioria dos judeus.
verdade) divina). Criam na realidade de 11:46, 47; Transferiram várias cerimônias do
3) Separa- anjos e demônios. Eram ciosos 12:19 templo para o lar. Enfatizavam a ética
vam-se das da igualdade entre as pessoas. At 23:6-10 em detrimento da teologia. Eram
práticas pagãs Tinham postura missionária em Fp 3:4b-6 exclusivistas em relação à lei e à
relação à conversão dos sociedade (chamavam de impuro
gentios. Criam que cada pessoa quem não era fariseu). Tendiam a uma
era responsável pela vida que atitude auto-suficiente e arrogante.
levava.
SADUCEUS
Provavelmente a Três traduções Desconhecida. Aristrocracia – Aceitavam apenas a autoridade IISm 8:17; Estava a seu cargo o templo e seu
partir de 200 são possíveis Alegavam ser eram os des- da Torá (Gn a Dt – a lei escrita 15:24 serviço. Eram politicamente ativos.
a.C. para descendentes cendentes ricos por Moisés). Praticavam a IRs 1:34 Exerciam grande controle político por
Desaparecem em “saduceus”: de Zadoque, o da linhagem do interpretação literal da lei. Sua ICr 12:26-28 meio do Sinédrio, ou sobre muitos
70 d.C. (com a 1) “Os justos” sumo sacer- sumo sacerdote postura em relação à lei era Ez 40:45-46; dos seus membros. Davam apoio ao
destruição do – a raiz é a da dote na época (todavia nem rigidamente conservadora. 43:19; poder governante e ao status quo.
templo) palavra de Davi (ver todos os sacer- Enfatizavam a observância 44:15-16 Simpatizavam com o helenismo (a
hebraica IISm 8:17; dotes eram estrita da lei. Seguiam crenças Mt 3:7-10; difusão da influência grega), razão
assim tradu- 15:24) e saduceus). e tradições do passado. Opu- 16:1, 6-12; pela qual o povo judeu comum os
zida. Salomão (IRs Possivelmente nham-se à obrigatoriedade da 22:23-34 desprezava. Opunham-se aos fariseus
2) “Os zado- 1:34-35; ICr eram descen- obediência à lei oral. Criam na Mc 12:18-27 e a Jesus porque estes aceitavam um
queus” – 12:28). dentes dos liberdade absoluta da vontade Lc 20:27-40 cânon mais amplo (acatavam a
simpatizantes É possível que sacerdotes humana – que cada pessoa Jo 11:47 autoridade de outros livros além da
ou possíveis tenham tido asmoneus). pode fazer o que quer, sem At 4:1-2; Torá). Opunham-se a Jesus
6
descendentes ligação com Provavelmente depender de Deus. Negavam a 5:17-18; especialmente por temer ameaças à
do sacerdote Arão. não eram tão providência divina. Não 23:6-10 sua riqueza e posição e o apoiassem.
Zadoque. Provavelmente refinados aceitavam o conceito da vida
3) “Juízes” ou tornaram-se quanto sua após a morte e da ressurreição
“fiscais” – como grupo posição eco- do corpo. Não aceitavam o
com base na por volta de nômica na vida conceito da recompensa e
palavra grega 200 a.C. como sugeria. punição após a morte.
syndicol. o partido dos Negavam a existência de anjos
sumos sacer- e demônios. Eram
dotes. materialistas.
ZELOTES
Três possibili- Faz referência (Segundo Ala extremista Semelhante às dos fariseus, Mt 10:4 Opunham-se extremamente ao
dades para o seu ao seu zelo Josefo) Os dos fariseus. com uma exceção: criam Mc 3:18 governo romano sobre a Palestina.
surgimento: religioso. zelotes surgi- firmemente que somente Deus Lc 6:15 Opunham-se radicalmente à paz em
1) Durante o Josefo usou o ram com Judas tinha o direito de governar os At 1:13 Roma. Recusavam-se a pagar
reinado de termo para (o Galileu), judeus. Patriotismo e religião impostos. Protestavam contra o uso da
Herodes, o referir-se aos filho de tornaram-se inseparáveis. língua grega na Palestina. Utilizavam
Grande (a partir envolvidos na Ezequias, que Criam que a obediência total práticas terroristas contra os romanos
de 37 a.C.). 2) revolta ju- liderou uma (implementada por medidas e outros de quem discordavam em
Durante a daica contra revolta no ano físicas drásticas) precisava ser termos políticos. (Os sicários,
revolta contra Roma em 6 6 d.C. por evidente antes de Deus conhecidos por usar punhais [sicas]
Roma em 6 d.C. d.C., liderada causa de um inaugurar a era messiânica. para assassinar adversários políticos,
3) No por Judas, o censo feito Eram fanáticos em sua fé ju- eram um grupo zelote extremista que
movimento dos Galileu. com o propó- daica e sua devoção à lei – até perpetrava ações terroristas contra
hasidins ou dos sito de cobrar o ponto do martírio. Roma).
macabeus (por impostos.
volta de 168
a.C.). Sua des-
truição ocorreu
entre 70-73 d.C.
com a conquista
de Jerusalém
pelos romanos.
HERODIANOS
Existiam na Baseado em Origem exata Judeus ricos e Não eram um grupo religioso, Mt 22:5-22 Apoiavam Herodes e a dinastia
época da dinastia seu apoio aos incerta influentes na mas político. Seus membros Mc 3:6; 8:15; herodiana.
herodiana (que governantes política que provavelmente eram represen- 12:13-17 Aceitavam a helenização.
começou com herodianos defendiam tantes de várias perspectivas Aceitavam o governo estrangeiro.
Herodes, o (Herodes, o Herodes Anti- teológicas.
Grande em 37 Grande e seus pas (e outros
a.C.). descendentes) descendentes
Fim incerto. de Herodes, o
Grande) como
governante da
Palestina
(Judéia e
Samaria esta-
vam sob gover-
nadores roma-
nos na época
dele)
ESSÊNIOS
Provavelmente Origem Prossivel- Dispersos pelos Eram ascetas muito rígidos. Nenhuma Dedicavam-se à cópia e ao estudo dos
surgiram na incerta mente desen- povoados da Eram monges: a maioria fazia manuscritos da lei. Viviam em comu-
época dos maca- volveram-se Judéia (possi- voto de celibato (adotavam nidade, com propriedades comuns.
beus (por volta como reação velmente meninos para dar continuidade Impunham um longo período de
de 168 a.C.), no ao sacerdócio incluindo a ao grupo), se bem que alguns prova e um batismo ritual aos que
mesmo período saduceu comunidade de casavam (com o propósito de queriam filiar-se. Eram altamente
dos fariseus e corrupto. Têm Qumran). procriar). Seguiam rigidamente virtuosos e justos. Eram
saduceus. Fim sido identifi- (Segundo Filo e a lei (com uma interpretação extremamente disciplinados. Eram
incerto, possi- cados com Josefo) literal dos ensinos éticos). artesãos diligentes. Davam muita
velmente em 68- vários grupos: Havia mais ou Aceitavam a autoridade de importância ao culto diário. Seguiam
70 d.C. com o hasidins, menos 4.000 na outros livros além das Escritu- leis rígidas para o sábado. Mantinham
colapso de zelotes, influ- Síria palestina. ras hebraicas. Criam e pratica- um sacerdócio não levítico.
Jerusalém. ência grega ou vam o pacifismo. Rejeitavam o Rejeitavam os prazeres mundanos por
iraniana. culto e os sacrifícios no templo considerarem-nos malignos. Re-
por acharem-nos corruptos. jeitavam o matrimônio, mas não
Criam na imortalidade da alma, proibiam outros de casar.
sem ressurreição do corpo.
Tinham orientação
apocalíptica.

2. Funcionários religiosos

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Mestres da Lei (escribas)
Na Antigüidade, os escribas eram uma classe especial de pessoas que copiavam documentos e
registravam informações. Eram secretários governamentais e copistas que produziam exemplares
manuscritos das Escrituras. No decorrer do tempo, tornaram-se cada vez mais influentes e passaram
a assumir posições de liderança no governo.
Quando os habitantes de Judá foram deportados para a Babilônia, viram-se, de repente, em
circunstâncias inteiramente novas, e nem sempre ficava claro como a Lei de Deus se aplicava a
novas situações específicas. Foi então que os escribas se tornaram intérpretes e mestres da Lei.
Faziam, agora, o que os profetas tinham feito antes do Exílio: ensinavam o povo a viver como o fiel
povo de Deus. Esdras era escriba, além de ser sacerdote, e assumiu a tarefa de ensinar a Lei ao povo
que voltara da Babilônia.
Quando, no período helenístico, muitos dos sacerdotes prevaricaram contra os ensinos da Lei
ao aceitar idéias e costumes pagãos, os escribas passaram a ser os defensores da Lei e os
ensinadores das massas. Agiam, na realidade, como se fossem a nobreza (ver Mt 23:5-7; Mc 12:38-
39; Lc 11:43; 20:46).
No zelo de proteger a Lei, os escribas chegavam a lhe aumentar as exigências — eles
“levantavam uma cerca em redor da Lei” na forma de mandamentos detalhados e específicos que
impediriam o povo de até mesmo chegar perto de quebrar a Lei. Por exemplo: a “jornada do
sábado” — uma distância que a pessoa podia percorrer no sábado — foi instituída para garantir que
o povo não violaria o mandamento do repouso sabático. Mas, conforme Jesus indicou, eles eram tão
zelosos no cumprimento da letra da Lei que deixaram de compreender a própria Lei e de
implementar o espírito da Lei. Jesus recusou-se a ser limitado pelos acréscimos que os escribas
fizeram à Lei, e assim ficou sendo alvo da inimizade deles (Mc 12:40; Lc 20:47).

Os sacerdotes
Segundo o Antigo Testamento, todos os sacerdotes deviam ser descendentes de Arão, irmão
de Moisés, da tribo de Levi. Os sacerdotes eram divididos em “grupos”, dos quais cada um servia
no Templo uma semana por vez, duas vezes por ano. A maioria dos sacerdotes morava fora de
Jerusalém (por exemplo, Zacarias; Lc 1:8-9). Os sacerdotes que moravam em Jerusalém e que
tinham vínculos de dedicação integral com o Templo eram considerados muito mais importantes
que os sacerdotes comuns.

O sumo sacerdote
O sumo sacerdote devia ser um descendente direto de Arão, o primeiro sumo sacerdote. Era
um cargo hereditário.
No século de independência sob o governo dos asmoneus, o sumo sacerdote era, ao mesmo
tempo, o líder religioso e político. Esse sistema acabou levando ao desastre quando o cargo passou a
ser secular na prática. No período romano, o sumo sacerdote era nomeado de modo semelhante aos
demais oficiais do governo. Desde o tempo de Herodes, o Grande, até a destruição de Jerusalém em
70 d.C., houve nada menos que 28 sumos sacerdotes!
É interessante notar que, possivelmente, os próprios líderes judeus tenham continuado a
respeitar um sumo sacerdote que já não exercia o cargo, como se ainda tivesse uma posição oficial,
embora tivesse sido deposto. Afinal de contas, segundo a Lei de Moisés o sumo sacerdote
permanecia no cargo até a morte. Quando Jesus foi detido, ele foi enviado primeiramente a Anás
(que já fazia 15 anos que deixara o cargo!) e só então a Caifás, que era sumo sacerdote naquela
época. Em Atos 4:6, Anás é chamado sumo sacerdote, embora já não o fosse, tecnicamente.

Sacerdotes principais
Não fica totalmente certo quem eram os sacerdotes principais. É provável que tenham sido
sumos sacerdotes do passado e do presente, ou até mesmo membros da familia do sumo sacerdote
(ver At 4:6). Ou podem estar inclusos os sacerdotes que formavam o quadro permanente de
funcionários do Templo. Seja como for, constituíam um grupo bem definido.

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Rabi
“Rabi” [heb., rabbi] significa “meu mestre”, “meu senhor”. Era empregado como um termo
geral de respeito. Os discípulos de João Batista referiam-se a ele como rabi e Jesus era chamado
“rabi” pelos seus discípulos. João explica o termo “rabi” dizendo que significa “mestre” (Jo 1:38;
20:16). Jesus adverte seus discípulos de que não devem ser semelhantes aos escribas profissionais
que desejavam ser chamados “rabis” (Mt 23:2-12).
“Rabi” não passou a ser um título oficial senão muito mais tarde. O rabino [heb. Rabbenû,
“nosso mestre”] profissional, ordenado e assalariado apareceu na Idade Média.

O Sinédrio
No reinado dos reis helenistas, a Palestina tinha certa autonomia. Um concílio aristocrático de
anciãos mantinha as rédeas do governo, presidido pelo sumo sacerdote. Esse grupo posteriormente
veio a tornar-se o Sinédrio, que consistia em anciãos, principais sacerdotes e mestres da Lei.
No período romano, o governo interno da Palestina estava, em grande parte, nas mãos do
Sinédrio, e sua autoridade era reconhecida até mesmo na Diáspora (At 9:2; 22:5; 26:12).
É provável que a autoridade do Sinédrio fosse limitada à Judéia depois da morte de Herodes,
o Grande, de modo que o Sinédrio não pôde alcançar Jesus enquanto este estava na Galiléia. O
Sinédrio foi abolido depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C.

3. Instituições religiosas
O Templo
A primeira “casa de Deus” que os israelitas construíram foi o Tabernáculo, uma tenda portátil
que podia ser transportada de um lugar para outro nas peregrinações no deserto imediatamente após
o Êxodo.
O primeiro Templo foi planejado pelo rei Davi e construído pelo seu filho, o rei Salomão, por
volta de 950 a.C. Quando os babilônios invadiram Judá, o Reino do Sul, em 586 a.C., eles
destruíram Jerusalém e o Templo e deportaram os habitantes para a Babilônia. Esse foi o início do
exílio babilônico.
Depois de o rei Ciro ter permitido que os judeus voltassem para Jerusalém sob a liderança de
Zorobabel e Esdras, a primeira coisa que fizeram foi reconstruir o Templo. Mas o segundo Templo
era menos imponente que o primeiro, o qual muitos daqueles que regressaram do cativeiro nunca
tinham visto, pois nasceram na Babilônia. Entretanto, tinham ouvido muita coisa a respeito dele e é
possível que tenham desenvolvido uma idéia um pouco exagerada a respeito do esplendor do
primeiro Templo.
Quando Herodes, o Grande, tornou-se rei, uma das primeiras coisas que fez para conquistar o
apoio do povo foi ampliar e embelezar o templo. Visto que o Templo ocupava o topo de uma colina,
a única maneira de aumentar a área do Templo foi levantar enormes muros de retenção e aterrar o
espaço entre os muros, criando-se assim uma grande plataforma. Herodes duplicou o tamanho da
plataforma original do templo de Salomão. Parte do muro que Herodes construiu continua sendo
visível e é chamado Muro das Lamentações, o que revela quão notável e impressionante o Templo
deve ter sido.
Herodes morreu em 4 a.C., quase setenta anos antes de o complexo do Templo ter sido
completamente terminado (64 d.C.). Lamentavelmente, o Templo terminado, com todo o seu
esplendor, ficou em pé meros seis anos. Em 66 d.C., os judeus se revoltaram contra Roma, e quatro
anos depois, em 70 d.C., Jerusalém e o Templo foram destruídos. Hoje, o Domo da Rocha, uma
mesquita, ocupa o lugar no qual, em tempos antigos, existia o Templo.
Um pouco fora da área do Templo, na esquina do noroeste, Herodes, o Grande, construiu uma
fortaleza e a chamou Antônia, em homenagem a Marco Antônio (mais conhecido por ter se
apaixonado pela rainha Cleópatra do Egito). A torre dava vista para dentro do Templo e dos pátios, e
os romanos a usavam para vigiar possíveis perturbações da ordem pública na área do Templo e na
cidade. A Fortaleza Antônia serviu ao seu propósito original quando uma multidão ficou fora de

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controle e estava a ponto de matar Paulo (At 21:30s.). Existiam dois lances de escadas que faziam a
ligação entre a fortaleza e a área do Templo: foi por essas escadarias que o comandante romano e
suas tropas desceram correndo e foi dali que Paulo se dirigiu à multidão.

As sinagogas
No Novo Testamento, há sinagogas em toda parte, tanto na Palestina como em todo o Império
Romano. Aonde quer que Paulo fosse pregar, dirigia-se primeiramente à sinagoga daquela cidade.
A sinagoga foi “inventada” no exílio babilônico. O templo de Jerusalém — o local central de
culto para todos os judeus — tinha sido destruído. Por isso, sempre que havia um grupo de judeus,
eles se reuniam para ler e estudar as Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento). Essas reuniões
passaram, então, a ser formalizadas na instituição da sinagoga.
Ao contrário do Templo, onde os sacrifícios ocupavam um lugar central, na sinagoga o
enfoque recaía sobre a pregação. Qualquer homem presente podia ser convidado para ler as
Escrituras — primeiramente o Pentateuco e depois os Profetas — e qualquer homem presente podia
ser convidado para pregar. Foi assim que Jesus pôde pregar na sinagoga (Lc 4:16-30), e
posteriormente Paulo também o fez (por exemplo, At 13:l5ss.).
O culto cristão (bem como o muçulmano) segue o padrão adotado na sinagoga.

Idiomas e escritos da época do Novo Testamento


1. Idiomas
O aramaico substituiu o hebraico como o idioma comum na Palestina depois do exílio na
Babilônia. É uma língua semítica correlata com o hebraico, porém diferente o suficiente para não
poder ser facilmente compreendida pelos judeus em geral do tempo do Antigo Testamento (ver II Rs
18:26 e Gn 31:47, onde Labão emprega o aramaico, e Jacó, o hebraico). O aramaico era a língua do
comércio e da diplomacia nos séculos anteriores a Alexandre, o Grande. É por isso que se acham no
livro de Esdras vários documentos oficiais em aramaico, e não em hebraico (Ed 4:8-6:18 e 7:12-26;
Esdras também escreveu em aramaico os versículos que fazem conexão entre os documentos).
O hebraico é o idioma do Antigo Testamento. Porém, já no tempo do Novo Testamento,
passara a ser, em grande medida, a língua da religião, visto que a Bíblia hebraica foi escrita nesse
idioma. Muitas pessoas ainda conseguiam ler e escrever o hebraico, mas já não era sua língua
cotidiana.
O latim era o idioma de Roma, mas, embora fosse o idioma dos documentos oficiais do
império, não era falado comumente em todas as partes do império.
O grego era a língua auxiliar de comunicação que mantinha os vínculos dentro do Império
Romano. Seu papel era semelhante ao do inglês no mundo moderno. Alexandre, o Grande,
conseguira tornar a língua — e também, em grande medida, a cultura — grega predominante em
todas as partes de seu império, e teve tanto sucesso nisso que o grego, como língua comum,
sobreviveu ao seu império por vários séculos.
Podemos tomar por certo, sem a mínima dúvida, que Jesus lia e talvez falava o hebraico (Lc
4:17), mas que geralmente falava o aramaico. (A ordem que deu ao ressuscitar a filha de Jairo foi
talita qûmî, (Talita cumi), que em aramaico significa “Menina, levante-se!”.) É provável que Jesus
também falasse pelo menos um pouco de grego, embora não haja comprovação disso.
Os apóstolos escreveram em grego, embora algumas das cartas certamente tenham sido
escritas por pessoas que não o dominavam como língua materna. Existem também “semitismos” no
Novo Testamento — expressões semíticas (hebraicas ou aramaicas) na sua forma que teriam soado
estranhas para quem falasse grego como língua materna.
Pensa-se que Mateus possa ter escrito o seu evangelho em aramaico e posteriormente o tenha
traduzido para o grego.

2. Escritos
O Antigo Testamento foi escrito em hebraico, mas o povo falava principalmente o aramaico

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ou o grego. Na realidade, em cidades como Alexandria, no Egito, existiam muitos judeus cujas
famílias tinham residido ali por muitas gerações e que falavam somente o grego. Para o judaísmo
sobreviver, seria necessário que as pessoas pudessem ler e compreender o AT. Com esse propósito,
foram feitas algumas traduções que eram usadas na época de Jesus: a Septuaginta para os judeus
que falavam o grego e os targuns para os judeus que falavam o aramaico.

A Septuaginta
A Septuaginta é uma tradução do Antigo Testamento hebraico para o grego, feita em
Alexandria. Segundo a tradição, 70 judeus, lingüistas peritos, foram enviados de Jerusalém para o
Egito, a pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C.), e completaram a tradução em 70 dias.
Na realidade, a tradução foi feita ao longo de certo período de tempo. A Torá — Gênesis a
Deuteronômio — foi traduzida primeiro, e, posteriormente, os demais livros do Antigo Testamento
foram sendo acrescentados. Era chamada Septuaginta por causa dos 70 tradutores que,
reputadamente, a começaram (septuaginta = “setenta” em grego; a abreviatura comum de
Septuaginta é LXX, algarismos romanos que representam 70). A qualidade da tradução da Torá
(Pentateuco) é excelente, mas os demais livros variam consideravelmente quanto à qualidade.
A Septuaginta era comumente usada nos dias de Cristo. Muitas das citações do AT no NT
(que foi escrito em grego) foram retiradas dela.

Os targuns
Os targuns são traduções dos livros do Antigo Testamento hebraico para o aramaico. Eram
originariamente traduções orais, paráfrases e interpretações que tiveram origem no cativeiro
babilônico, quando o hebraico perdeu a condição de língua primária dos exilados e foi substituído
pelo aramaico. Essas paráfrases orais foram posteriormente registradas por escrito e se tornaram
cada vez mais necessárias à medida que o uso do aramaico passava a predominar na Palestina. Na
sinagoga, um trecho bíblico era freqüentemente lido em hebraico, seguido pelo targum daquele
mesmo trecho.

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a. A PLENITUDE DOS TEMPOS (Gl 4:4 )
Está em pauta “o momento em que todo o período pré-messiânico se completou, como que
trazendo à luz a manifestação primeira do Messias. A era messiânica, pois, foi o ‘pleno
complemento’ da era precedente, bem como aquela que ‘completou’ a expansão de tempo que Deus
havia determinado que transpirasse, antes da era da graça vir tomar o seu lugar. Quando chegou o
‘momento exato’ para ser inaugurada a grande dispensação e a revelação da graça, Deus enviou o
seu Filho. Foi o tempo determinado pelo Pai.”2
Como vimos, os seguintes principais elementos presentes nesse ‘exato momento’ foram:
a) Um governo central consolidado que atingisse a maior área possível do mundo civilizado
de então;
b) Um idioma que fosse mais ou menos conhecido entre as nações para haver melhor
compreensão entre os homens;
c) Paz entre os povos e raças que proporcionasse o entendimento da vinda de Jesus (o Império
Romano, dominador de uma área maior que dos outros impérios, implantou a Pax-Romana: um
acordo que proporcionava paz entre os povos);
d) Algum conhecimento de Deus na terra e respeito ao Santo nome do Senhor (os judeus,
detentores das Escrituras, filhos da promessa a Abraão, foram usados para falar sobre Deus às
nações, na dispersão, levaram a fé e dela davam testemunho aos povos fazendo com que cressem no
Deus Criador e na promessa do Messias);
e) Anseio pelo Libertador, pelo Messias.

NADA FOI DE SURPRESA!


“Conforme está escrito no profeta (...)” (Mc 1:2). Com esta citação de Isaías (40:3) e
Malaquias (3:1), Marcos faz uma estreita ligação entre a pessoa de Jesus e as esperanças de Israel.
“Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1:1). Esta declaração une
Cristo às duas alianças que Deus fez com Davi (consistia na promessa de um Rei que se assentaria
no seu trono para sempre) e com Abraão (prometia que através dele todas as famílias da Terra
seriam abençoadas). Mateus procurava convencer os judeus de que Jesus era o cumprimento de
todas as profecias feitas a respeito do seu Messias prometido. No plano de Deus, tudo estava certo.
Mas será que as pessoas da época em que as promessas foram cumpridas estavam realmente
preparadas? Os evangelistas e, em especial Mateus, procuram mostrar que os acontecimentos da
vida de Jesus não ocorreram por acaso, mas tudo estava predito nas Escrituras. Não foram apenas os
evangelistas quem tiveram a fé firmemente estabelecida nas promessas do Antigo Testamento, mas
toda a Igreja primitiva. Os pregadores sempre buscavam no AT as provas da verdade de sua
pregação (veja o exemplo do sermão de Estevão em Atos 7 e o de Pedro em Atos 2).
O “princípio do evangelho” foi profundamente marcado pela certeza de que Deus cumpre
Suas promessas. Deus não falhou em coisa nenhuma, pois o que aconteceu estava inteiramente “de
acordo” com o que Ele havia previsto. Se o povo esqueceu, Deus não. A diferença entre Deus e o
povo era que o tempo de Deus não é medido pelo relógio, mas pela oportunidade certa, a ocasião
oportuna. Deus viu que tudo estava preparado para o envio de seu Filho.
As condições políticas, econômicas, sociais, morais, espirituais etc. pediam uma intervenção
divina na História para que houvesse uma esperança para os homens. Embora o Império Romano
desfrutasse uma certa tranqüilidade, devido ao programa que César Augusto implantara anos antes
da vinda de Jesus (denominado de Pax Romana), a situação dos dominados não era tão fácil assim.
Os impostos eram pesados, a religiosidade popular e a do Estado não conduziam o homem a lugar
nenhum, pois eram marcadas por grossa licenciosidade, e não atraíam uma parcela da sociedade,
que ansiava por uma vida mais ética. O judaísmo havia caído num legalismo extremo por parte de
uns e por religiosidade aparente por outra parcela dos que desejavam apenas tirar proveito da fé que
o povo ainda procurava manter em Deus.
Outro aspecto a realçar é a condição cultural do povo: uma língua era falada em todos os
lugares, o que tornava mais fácil comunicar uma mensagem. Com base em tudo isso é que Paulo
2
Russell N. Champlin. O Novo Testamento Interpretado (vol. 4), p. 482.
12
diz: “(...) mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido
debaixo de lei (...)” (Gl 4.4).
“Se alguém não tivesse capacidade para analisar os acontecimentos, nem perceber que o
mundo estava preparado política, cultural, social, moral e espiritualmente para a vinda de Jesus,
bastava olhar para os profetas, pois eles repetidamente se referiam à Sua vinda. É por isso que
Marcos começa pelos profetas. Ele poderia referir-se a todos os acontecimentos, mas a sua fé estava
firmada na Palavra de Deus, e era a partir dela que ele queria começar a escrever o Evangelho.”3

3
Os ensinos de Jesus (o Evangelho de Marcos), Jonas Celestino Ribeiro. JUERP, 2000, p. 60.

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14
15
B. EVIDÊNCIAS DA EXISTÊNCIA HISTÓRICA DE JESUS

a. Historicidade
Tem havido, e provavelmente sempre haverá, aqueles para quem Jesus nunca existiu, e eles
vão continuar providenciando palhas para as pessoas se agarrarem quando não quiserem crer nele. 4
Como Alister McGrath destaca: “O fato é o mesmo: essas pessoas não são levadas a sério pelos
conhecedores imparciais da história” (Understanding Jesus, p. 18 – citado por Max Anders, p. 133).
“Se aceitarmos os testes que comprovam a existência de Júlio César, Constantino ou
Alexandre Magno e aplicarmos esses testes de maneira imparcial a Jesus, concluiremos que Ele
existiu. Se negarmos Sua existência, então, para sermos coerentes, teremos também de negar a
existência de Júlio César, de Constantino e de Alexandre Magno.”5
O fato histórico de Cristo está inexoravelmente estabelecido. As tentativas que têm sido feitas
para provar o contrário, durante os últimos duzentos anos, têm falhado inteiramente. Não somente o
Novo Testamento inteiro está baseado sobre o Cristo histórico; mas também a elevação e o
progresso da Igreja Cristã, e, de fato, o curso da história do mundo durante os últimos vinte séculos,
seriam inexplicáveis à parte do fato histórico do Cristo que viveu, morreu e ressuscitou.
O fato que registros seculares existentes até hoje, pertencentes aos primeiros cem anos depois
do ministério de Cristo, contêm apenas algumas poucas referências a Ele, é algo perfeitamente
natural. O cristianismo foi apenas um dos muitos cultos religiosos que se originaram no Oriente, no
mundo romano dos dois primeiros séculos de nossa era, e pouco havia em Cristo que atraísse o
interesse dos historiadores pagãos. Somente quando o Cristianismo entrou em conflito com o estado
é que se tornou digno de ser mencionado naqueles dias recuados, e os primeiros escritores pagãos a
fazerem menção do mesmo, em tal contexto, todos mencionam significativamente o nome de Cristo
como fundador do Cristianismo.

1. Provas de escritores seculares da época de Jesus


Alguns escritores não-cristãos mencionam Jesus desde o começo. A seguir, citamos as
principais fontes seculares de informação sobre a existência historicamente comprovável de Jesus:
Cornélio Tácito – Senador e historiador romano cujo período de vida coincidiu com o do
apóstolo João. Nasceu por volta de 55 d.C., sobressaiu como grande orador e morreu depois de 116
d.C. Ele descreve os principais acontecimentos dos reinados dos imperadores romanos até aquela
época. No ano de 64 d.C., grande parte de Roma queimou-se até os alicerces. A idéia predominante
é que Nero, megalomaníaco e neurótico, queria criar uma renascença arquitetônica em Roma e
incendiou uma grande área do centro da cidade para construir seu palácio e outros grandes edifícios.
Seja isso verdade ou não, não temos certeza, mas os rumores predominaram. Tácito escreve em seus
Anais:
“Para acabar com os rumores, Nero apresentou falsamente como culpadas algumas
pessoas popularmente conhecidas como cristãos, cujas atividades eram malvistas, e impôs-lhes
os mais cruéis castigos. O originado desse nome, Cristo, fora executado quando Tibério era
imperador, por ordem do procurador Pôncio Pilatos. Mas a seita exagerada, embora reprimida por
algum tempo, estava explodindo agora não apenas na Judéia, local de origem desse mal, mas por
toda a Roma, onde todas as idéias perversas e desagradáveis de todo o mundo penetravam e
encontravam prontos seguidores (Anais 15:44).”
Tácito obviamente não gostava do cristianismo, mas essa narrativa confirma alguns
acontecimentos históricos. A saber, que Jesus existiu, que era da Judéia, que viveu durante o reinado
de Tibério (14-37 d.C.), e foi executado por Pôncio Pilatos, que governou a província da Judéia de
16-36 d.C. Essas datas todas concordam com o registro bíblico, mas Tácito provavelmente não
utilizou os registros bíblicos para a sua informação, considerando o desprezo com o qual mencionou
o cristianismo e Cristo. Provavelmente utilizou registros romanos. Além disso, ele declara que Jesus
4
As duas biografias mais antigas de Alexandre, o Grande, foram escritas por Ariano e Plutarco depois de mais de 400
anos da morte de Alexandre, ocorrida em 323 a.C., e mesmo assim os historiadores as consideram muito confiáveis.
5

Max Anders, Jesus em 12 lições. Editora Vida, 2001, p. 132.


16
tinha muitos seguidores que estavam bem estabelecidos em Roma no tempo de Nero, na década de
sessenta.
Tácito referiu-se aos cristãos novamente em seu livro Histórias. Esse livro não existe mais,
mas um fragmento dele se encontra em outro livro, no qual um escritor cita as Histórias de Tácito.
Nesse livro, Tácito é citado dizendo que o cristianismo começou como seita do judaísmo porém, se
tornou um movimento separado e distinto, até mesmo desagradando o próprio judaísmo. Ele
menciona a destruição de Jerusalém pelo imperador Tibério em 70 d.C., e especula que Tito destruiu
o templo judeu em Jerusalém, esperando, com essa destruição total, acabar tanto com o cristianismo
quanto com o judaísmo.
Embora desejássemos que Tácito tivesse escrito mais sobre o cristianismo e Cristo,
precisamos ter em mente que ele pode tê-lo feito, mas suas obras não foram preservadas. Ele
obviamente escreveu coisas das quais não mais temos registros. Deu-nos o que foi, por muito
tempo, a única citação secular da existência de Pôncio Pilatos e com isso conferiu grande
credibilidade à história bíblica. Mais recentemente, dois terços do nome de Pôncio Pilatos foram
encontrados em uma inscrição em Cesaréia, cidade no litoral mediterrâneo do atual Israel.

Gaio Plínio Cecílio Segundo (Plínio, o Novo) – Senador e historiador romano; nasceu cerca
de 61 d.C. e morreu por volta de 115 d.C.; foi advogado, diplomata e ilustre cavaleiro. Escreveu em
um latim elevado sobre acontecimentos de significado social e histórico. Governou a Bitínia, ao
norte da Turquia, em 112 d.C. Essa região teria sido alcançada pela primeira vez pelo cristianismo
por meio das viagens do apóstolo Paulo. Enquanto estava sob a autoridade do imperador Trajano,
Plínio escreveu uma carta mais ou menos longa a respeito dos cristãos e os problemas que estava
enfrentando por causa deles no governo da Bitínia. A seita estava-se espalhando rapidamente por
toda a região da atual Turquia, transformando-se em um problema econômico, provocando por isso
inquietação civil. Os templos pagãos estavam sendo fechados por falta de freqüentadores, as festas
pagãs não estavam mais sendo suficientemente freqüentadas para que fossem mantidas com
credibilidade, e a demanda de animais para os sacrifícios havia praticamente cessado, provocando
grandes dificuldades econômicas para os que estavam envolvidos no fornecimento de bens e
serviços para aquelas atividades religiosas e instituições pagãs.
Em um ato horrível de desespero, Plínio executou os que abertamente confessavam o
cristianismo, mas ficou com problemas de consciência. Por isso estava escrevendo a Trajano.
Queria orientação quanto ao que devia fazer. Os cristãos não estavam fazendo nada de mau.
Simplesmente deixaram de dar apoio à religião existente. Ele escreveu que a vida deles era
exemplar, que não se encontravam no meio deles fraude, adultério, roubo ou desonestidade.
Circularam rumores de que praticavam canibalismo durante seus rituais religiosos, difamação
sobre a prática da comunhão, na qual os cristãos tomavam o pão e o vinho na cerimônia que
representava o sangue e o corpo de Cristo. Depois de investigar, Plínio relatou que em sua “refeição
comunitária” os cristãos comiam um alimento “comum e inocente”. Por meio de uma perseguição
selvagem e desnecessária contra os cristãos, Plínio conseguiu salvar a economia que rodeava as
práticas pagãs e, com isso, acabou com o problema financeiro criado pelo cristianismo na região.
Embora Plínio não nos dê informações sobre o próprio Jesus, está claro que o cristianismo foi
um movimento importante naquela região do país, e ninguém duvida que o movimento remonta ao
seu fundador, Jesus, que viveu no governo de Pôncio Pilatos nos reinados de César Augusto e de
Tibério.
Excetuando uma passagem em Josefo (Antiguidades xviii. 3.3), Jesus não é mencionado
diretamente nos escritos judaicos não-cristãos referentes àquele período. O motivo disso certamente
é a hostilidade e o ressentimento que Sua memória provocava nos líderes judeus de Seu tempo.
Entretanto, existem referências indiretas a Ele, nos primeiros escritos rabínicos, que fazem menção
razoavelmente reconhecível sobre Ele, como um transgressor em Israel, que praticava magia,
zombava das palavras dos sábios, fazia o povo desviar-se, e disse que viera para fazer adições à lei,
além de ter alterado a Páscoa, e cujos discípulos efetuavam curas de doentes em Seu nome.

17
Josefo – O historiador Josefo escreveu próximo de 70 d.C. Ele apresenta a fonte secular sobre
Jesus mais poderosa da época. Josefo foi um judeu que se opôs à presença dos romanos em
Jerusalém e na Judéia entre 66 e 70 d.C. Ele foi capturado e levado a Vespasiano, comandante
romano. Josefo, ou José, como era o seu nome judeu, era homem esperto e inteligente para
sobreviver. Ousadamente profetizou que Vespasiano e seu filho Tito seriam imperadores de Roma.
Vespasiano ficou tão profundamente impressionado com essa profecia (provavelmente por causa da
superstição que nutria) que manteve Josefo vivo até poder ver se a profecia se realizaria ou não.
Ela se realizou. No final de um distúrbio civil causado por lutas faccionais, Vespasiano
tornou-se imperador de Roma. Josefo parecia saber das coisas. Por isso Vespasiano o “latinizou”,
mudando seu nome para Flávio Josefo. Flávio era o nome de família de Vespasiano, e Josefo,
naturalmente, é a versão romana de José. Daquele momento em diante, o destino de Josefo estava
garantido. Ele se dispôs a escrever uma história dos judeus e, com sua narrativa preconceituosa,
evidentemente tentou restaurar a reputação de seus conterrâneos para a posteridade. Ele menciona
nomes comuns na Bíblia: Herodes, o Grande, Herodes Antipas, Caifás, o sumo sacerdote durante a
vida de Jesus, João Batista e Tiago, “o irmão de Jesus, chamado de Cristo”. Além disso, Josefo
registra a declaração mais extensa sobre Jesus fora da Bíblia em Antiguidades judaicas:
“Nessa época [falando do governo de Pôncio Pilatos], apareceu Jesus, um sábio, se é que
podia ser chamado homem, pois foi o realizador de obras espantosas e mestre dos que aceitavam
a verdade com prazer. Ele converteu muitos judeus e muitos gregos. Era o Messias. Pilatos,
mediante a acusação de nossos líderes, condenou-o a ser crucificado, mas os que o amaram
primeiro não desistiram. No terceiro dia ele lhes apareceu vivo novamente, pois os profetas de
Deus haviam profetizado sua ressurreição e inúmeras outras coisas espantosas a respeito dele. E
até os dias de hoje a raça dos cristãos, que receberam o seu nome, ainda não desapareceu
(18.3.3).”
Versões dessa declaração variam um pouco, e certas palavras aqui e ali são colocadas em
dúvida se foram realmente escritas por Josefo, e não por algum revisor cristão. Mas a declaração
como um todo permanece diante dos estudiosos clássicos seculares. Por exemplo, quando Josefo
chama Jesus de Messias, isso pode ser explicado. Poderia estar sendo sincero, o que não é provável,
ou estava mencionando o que outras pessoas diziam a respeito de Jesus, não esclarecendo se essa
era a sua opinião. Outra possibilidade é que um revisor cristão tenha acrescentado a declaração ou
modificado a original. Mas, quando toda a ilustração secular é examinada, até mesmo os estudiosos
seculares (não os da Bíblia, que poderiam ter um interesse oculto no resultado do estudo) dizem que
o âmago da declaração permanece. “Como dizem os advogados, ‘o caso está encerrado’” (Jesus
Christ, man or myth [Jesus Cristo, homem ou mito] de E. M. Blaiklock, p. 31 – citado por Max
Anders, p. 138.
Um testemunho tão poderoso de um historiador judeu que provavelmente seria antagônico a
Jesus e a seus discípulos é uma confirmação totalmente confiável das verdades fundamentais a
respeito de Jesus e do cristianismo, proveniente de uma fonte secular que concorda com o registro
bíblico. Como Michael Green observou: “Continua sendo uma declaração sólida e confiável de
Josefo (cuja vida é praticamente contemporânea à de Jesus) sobre o fundador do cristianismo, sobre
a aceitação dele como Messias, aceitação de sua sabedoria, de seus ensinamentos, de seus milagres,
de seus muitos convertidos, de sua morte e ressurreição — sem mencionar a existência contínua do
seu movimento” (Who is this Jesus? p. 117-8).

“Nos primeiros séculos d.C., nem mesmo os mais amargos inimigos do cristianismo tinham
qualquer pensamento de negar que Jesus vivera e morrera na Palestina, e que realizou realmente
obras maravilhosas, qualquer que fosse a explicacão que davam ao poder mediante o qual Ele
realizava essas coisas. Nem, nos dias atuais, qualquer historiador objetivo nega o fato histórico de
Cristo. Não são os historiadores que brincam com a fantasia do mito-de-Cristo. Não apenas a Sua
morte, mas também a Sua ressurreição, devem ser levadas em consideração como os mais bem
confirmados fatos históricos que existem.”6

6
J. D. Douglas (organizador), O Novo Dicionário da Bíblia. Edições Vida Nova, 2002 (2ª ed., reimp.), p. 819.
18
2. Algumas provas arqueológicas muito antigas, como as referências históricas da época
A descoberta de “(...) várias peças primárias da evidência arqueológica do Jesus terrestre
confirmam diversas pessoas e eventos nos evangelhos, revelando a precisão dos escritores dos
evangelhos e a probidade da mensagem histórica que professavam”.7
a. O recenseamento mencionado por Lucas. Segundo Lucas 2:1-5, César Augusto decretou
que todos os habitantes do Império Romano pagassem impostos e que cada um retornasse à sua
cidade para pagar esse imposto. Em decorrência disso, Maria e José viajaram para Belém, a cidade
natal de José. Foi exatamente por isso que Maria deu Jesus à luz em Belém, não em Nazaré, e assim
cumpriu a profecia do Antigo Testamento. Evidências arqueológicas citadas por Gary Habermas em
Ancient evidence for the life of Jesus [Evidências antigas da vida de Jesus] dão apoio ao
recenseamento e aos impostos no período em que Jesus nasceu (p. 152-3).
b. Símbolo cristão antigo. Muito conhecido entre as descobertas arqueológicas está o emprego
comum do símbolo do “peixe”, desenho simples utilizado porque a palavra grega traduzida por
peixe era Ichthus. Os cristãos simbolicamente atribuíram uma palavra grega a cada uma das letras:
“Iesous Christos Theou Huios Soter, que significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Até que
se tornasse conhecido, foi um sinal secreto com o qual os cristãos podiam se identificar mutuamente
de modo que os que não eram cristãos não o soubessem. Quando o cristianismo se tornou legal, o
peixe foi largamente utilizado como símbolo cristão.

b. Fontes 8
Quanto aos detalhes essenciais da vida de Cristo, temos que depender inteiramente do Novo
Testamento. Conforme já foi dito, não se pode aproveitar muito do estudo da literatura pagã ou
judaica das primeiras décadas d.C., e, quando nos voltamos para a literatura cristã extra-bíblica,
pertencente ao mesmo período, encontramos bem pouco que já não esteja registrado no NT. A
maioria dos evangelhos apócrifos é tão obviamente produto da imaginação que só nos podem
prestar qualquer ajuda, por meio de contraste, para provar o caráter histórico dos Evangelhos
canônicos; porém, não adicionam coisa alguma ao nosso conhecimento sobre a vida do Senhor.
Os Evangelhos não são biografias no sentido comum da palavra. Cada um dos quatro
evangelistas tinha um propósito específico com seu livro, tendo feito uma seleção apropriada dentre
a informação à sua disposição, com referência à vida de nosso Senhor. Embora existam muitas dife-
renças quanto à ênfase, no tocante a certos aspectos de Sua vida, todos os quatro Evangelhos
proclamam um só e o mesmo Cristo, como Senhor e Salvador, o perfeito Filho do homem e o Filho
unigênito de Deus.
Visto que os Evangelhos não são biografias no sentido ordinário do termo, mas antes,
proclamações das boas novas concernentes a Jesus como Salvador e Senhor, não devemos buscar
neles um arranjo estritamente cronológico. Por outro lado, o propósito religioso dos evangelistas
não os conduziu à negligência do caráter histórico da vida de Jesus. Os autores sagrados estavam
perfeitamente cônscios da urgente necessidade de tornar conhecida a verdade acerca de Jesus
Cristo. Para eles e para seus irmãos crentes, a fé em Cristo era questão de vida e morte. Dessa
maneira, não podiam permitir que sua fé repousasse sobre fantasias, mitos, ou lendas. Urna fé como
a daquelas gerações iniciais de crentes cristãos exigia absoluta lealdade a Cristo — até à morte, se
necessário fosse. Tal fé só podia ser edificada em face de fatos certos. Além disso, os escritores dos
Evangelhos estiveram num contacto tão íntimo e vivo com muitos que haviam ouvido e visto a
nosso Senhor, que tiveram oportunidade sem igual de verificar esses fatos. Acresce que os fatos
históricos eram conhecidos em primeira mão por tantas pessoas que não podiam arriscar-se a
apresentar relatos fictícios.
Embora Lucas tenha encorporado grandes seções de Marcos em seu Evangelho, e que João
bem poderia ter conhecido os três primeiros Evangelhos, a verdade é que nossos quatro Evangelhos

7
Randall Price, Pedras que clamam. CPAD, 2001, p. 259. Consulte neste livro citado, em todo o seu capítulo 16, “A
arqueologia e Jesus”.
8
J. D. Douglas (organizador), O Novo Dicionário da Bíblia. Edições Vida Nova, 2002 (2ª ed., reimp.), p. 819-820.
19
são essencialmente quatro fontes independentes de informação no tocante à vida de nosso Senhor.
Cada um desses relatos frisa certos aspectos de Sua vida e ministério mais que os demais relatos,
porém, é sempre essencialmente o mesmo Cristo que encontramos em todos os quatro. Isso é
verdade tanto no tocante ao livro de João como aos três Evangelhos sinóticos. O Evangelho de João
suplementa os outros e, em resultado de muitos anos de reflexão, e de um discernimento mais ama-
durecido quanto ao significado filosófico e teológico mais profundo da história do Evangelho, João
se ocupa mais em ensinar o ensinamento de nosso Senhor no tocante à Sua divina Filiação; porém,
não proclama outro Cristo além do Cristo proclamado pelos três primeiros evangelistas.
Em suma, temos nos quatro Evangelhos canônicos, as melhores e mais dignas fontes de
informação referentes à vida de Jesus Cristo. Embora o restante do Novo Testamento não adicione
muito aos detalhes históricos do Evangelho, é importante observar que o livro de Atos, as epístolas
e o livro de Apocalipse, estão todos edificados sobre o fato que Jesus viveu, ensinou, sofreu e
triunfou conforme os Evangelhos afirmam. Visto que algumas das Epístolas do Novo Testamento
foram escritas tão cedo como 50 d.C. (ou talvez um pouco mais cedo ainda) — I e II
Tessalonicenses e Gálatas, e, possivelmente, Tiago — somos assim levados a recuar até não mais de
vinte anos depois da data da crucificação de Jesus. Levando em consideração o fato que um dos
primeiros escritores neotestamentários, Paulo, foi um figadal perseguidor dos seguidores de Jesus,
mas convertido tão cedo como 32 ou 33 d.C., e que a epístola de Tiago foi escrita pelo irmão de
Jesus, percebemos quão íntimo era o contacto entre o tempo da vida de nosso Senhor sobre a terra
(cerca de 6/4 a.C.-30 d.C.) e aquela geração de crentes em cuja vida os primeiros documentos do
Novo Testamento foram escritos. O sumário apresentado por Paulo sobre a pregação apostólica, em
I Co 15:1-8, se reveste de grande significação:
“Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda
perseverais... Antes de tudo vos entreguei o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados,
segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia... E apareceu a Cefas, e, depois, aos
doze. Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até
agora, porém alguns já dormem. Depois foi visto por Tiago, mais tarde por todos os apóstolos, e, afinal,
depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora do tempo”.
Nessa passagem Paulo não somente proclama essencialmente o mesmo evangelho que o
fazem os quatro evangelistas, mas também revela quão íntima era a relação entre a Igreja Cristã
Primitiva e os apóstolos e outras testemunhas oculares da vida de nosso Senhor. Dessa maneira, não
é surpreendente descobrir que nossos quatro Evangelhos, apesar de toda sua ênfase diferente e da
escolha variada de detalhes, proclamam o mesmo Cristo que veio buscar e salvar aos perdidos, o
Senhor divino a quem todo poder foi dado no Céu e sobre a Terra (Mt 11:27; 28:18; Mc 1:11; 8:29;
Lc 1:32, 35; 2:11; 9:35; 10:22; Jo 1:1; 10:28 etc.).
Não admira, portanto, que após mais de um século de criticismo agudo e rude, o caráter digno
de confiança de nossos quatro Evangelhos canônicos tenha ficado mais firmemente estabelecido
que nunca. Uma teoria após outra, e sucessivas escolas de pensamento, que têm lançado dúvidas
sobre a fidelidade dos Evangelhos, têm se despedaçado perante a irrefutável historicidade da vida
de Jesus que os mesmos historiam. Embora os Evangelhos façam silêncio no tocante a muitos
detalhes que naturalmente gostaríamos de saber, os quatro Evangelhos, confirmando-se e
suplementando-se entre si, nos fornecem todos os fatos referentes a Jesus Cristo que precisamos
saber a fim de que possamos confiar nEle como “Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo,
tenhais vida em seu nome” (Jo 20:31).

20
C. PANORAMA DOS QUATRO EVANGELHOS (Mateus, Marcos, Lucas e João)

Os quatro evangelhos são a parte mais importante da Bíblia — mais importantes que os
demais livros que a compõem, mais importantes que todos os livros do mundo inteiro somados. Isso
porque poderíamos passar bem sem o conhecimento das demais coisas que sem o conhecimento de
Cristo.
Os livros da Bíblia que antecedem os evangelhos, ou seja, os livros do AT, prevêem a
personagem central dos quatro evangelhos, que é Jesus Cristo. Os livros seguintes o explicam. 9 —
Os evangelhos são a base sobre a qual algumas epístolas constroem. O livro de Tiago, por exemplo,
é como se fosse um comentário do Sermão do Monte.

Por que existem quatro evangelhos? 10


Em certa época, existiram mais evangelhos que os quatro que possuímos (Lc 1:1). Jesus viveu
num período de grande atividade literária — a era das autobiografias militares (Júlio César), dos
escritos filosóficos (Cícero e Sêneca), das grandes poesias (Virgílio, Horácio, Lívio, Plutarco e
Plínio) e dos historiadores (Tácito). Dentro de uma só geração, a história de Jesus disseminara-se
por todo o mundo conhecido e conseguira milhares de seguidores dedicados. Naturalmente, havia
muita procura das narrativas escritas da vida de Jesus.
O próprio Deus, segundo cremos, participou da preparação e da conservação desses quatro
evangelhos específicos, que contêm o que ele queria que todos soubessem a respeito de Jesus. No
Antigo Testamento existem algumas narrativas duplicadas referentes aos séculos da monarquia de
Israel (nos livros de Samuel, Reis e Crônicas). Aqui, porém, temos quatro livros inteiros da Bíblia
que (excetuando-se quatro capítulos do total de 89) abrangem o período de cerca de três anos e
meio os últimos anos da vida de uma pessoa: Jesus de Nazaré. Esse fato significa, necessariamente,
que essa história é de importância superlativa.
Quaisquer outros escritos que tenham existido narrando a vida de Jesus desapareceram — em
grande parte, por certo, durante as perseguições imperiais dos três primeiros séculos. Os que sobre-
viveram são os que possuímos no Novo Testamento — aqueles que Deus, na sua providência,
vigiou e conservou por serem suficientes para transmitir sua Palavra a todas as gerações futuras.

Quatro autores
Mateus era cobrador de impostos; Lucas, médico; João, pescador. Não sabemos qual era a
profissão de Marcos.
• Mateus e João eram discípulos de Jesus.
• Marcos era companheiro de Pedro; seu evangelho contém o que ouvira Pedro contar
repetidas vezes.
• Lucas era companheiro de Paulo; seu evangelho contém o que Paulo pregara de uma
extremidade do Império Romano até a outra — coisas que averiguou por meio de investigações.
Todos contaram a mesma história. Viajaram grandes distâncias em várias direções.
Freqüentemente iam juntos. João e Pedro trabalharam juntos. Marcos foi companheiro tanto de
Pedro quanto de Paulo, e Lucas e Marcos estiveram juntos em Roma entre 61 e 63 d.C. (Cl
4:10,14).

Quatro públicos
Os quatro evangelhos são, em última análise, para toda a raça humana, mas cada um foi
originariamente escrito para uma audiência mais específica, imediata:
• O original de Mateus, segundo se pensa, pode ter sido escrito para os judeus, a igreja de
Jerusalém, de onde outras igrejas obtiveram cópias.
9
NOTA: É aconselhável a leitura do cap. 6 do livro Entendes o que lês? (Edições Vida Nova), cujo título é: “Os
Evangelhos — uma história, muitas dimensões”; aborda questões como: A natureza dos Evangelhos; o contexto
histórico; o contexto literário; e algumas observações hermenêuticas dos Evangelhos.
10
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001 (edição revista e ampliada), p. 449-451.
21
• Marcos pode ter destinado seu evangelho para os romanos, a igreja de Roma. Por certo,
cópias devem ter sido enviadas a outras igrejas.
• Lucas escreveu seu evangelho para os gregos e, especialmente, para alguém chamado
Teófilo, que era possivelmente um alto oficial do governo romano. (Lucas também escreveu o livro
de Atos dos Apóstolos para o mesmo Teófilo.)
• João escreveu a todos os homens, a fim de que creiam; pensa-se que o evangelho segundo
João foi escrito originariamente para a igreja de Éfeso.
Deus inspirou esses homens a escrever exatamente o que Ele queria que escrevessem, para o
uso de todas as pessoas em todas as gerações. Mesmo assim, eles mesmos forçosamente estavam
pensando no ambiente de seus leitores imediatos, o que pode ter influenciado a escolha do
material.11

Quatro perspectivas
Não somente os quatro evangelistas escreveram para leitores diferentes, mas também cada um
refletiu a própria personalidade ao escrever. Todos tinham a mesma história para contar — a história
de um homem: como Ele viveu, o que fez e disse. Cada um, porém, está absorvido com algum
aspecto da pessoa e obra de Cristo e o desenvolve com poder convincente. E é o desdobramento
dessa visão particular da obra de Cristo que marca o propósito de cada livro, e é isso o que explica
as diferenças entre os evangelhos.
• Mateus, escrevendo para cristãos de origem judaica, apresenta Jesus, o Messias, que cumpre
as profecias do AT. A cultura dos judeus tinha sido edificada ao redor de suas Escrituras — o nosso
AT. Por isso, Mateus apela a essas Escrituras.
• Marcos ressalta o Servo, a ação mais que os ensinos. Apresenta Jesus, o Maravilhoso; ser
rejeitado, sofrer e morrer era parte essencial da sua missão. A civilização romana gloriava-se da
idéia do governo e do poder. Por isso, Marcos concentra a atenção nos milagres de Jesus como
demonstração de seu poder sobrenatural.
• Lucas apresenta Jesus, o Filho do Homem, que traz a salvação ao identificar-se com a
humanidade em todas as suas fraquezas. Ele cura os enfermos e busca os que foram rejeitados pela
sociedade. A civilização grega representava a cultura, a filosofia, a sabedoria, o raciocínio, a beleza,
a educação. Por isso, a fim de apelar à mente grega pensativa, culta e filosófica, Lucas, numa
história completa, ordenada e clássica, apresenta a gloriosa beleza e a perfeição de Jesus, o homem
ideal e universal. Além disso, Lucas inclui mais referências a diferentes classes de pessoas e
identifica mulheres e crianças mais que qualquer outro escritor dos evangelhos.
• Depois, João acrescentou seu evangelho a esses três para que ficasse registrado de modo
inconfundível que Jesus era Deus em forma humana. Apresenta o Filho de Deus; começa com a
preexistência de Jesus e focaliza a união entre Jesus e Deus, seu Pai.

Baxter faz a seguinte síntese:12


Mateus — O Prometido está aqui; veja as suas credenciais.
Marcos — Era assim que Ele operava; veja o seu poder.
Lucas — Ele tinha este aspecto; veja a sua natureza.
João — Este é quem Ele realmente era; veja a sua divindade.

11
Henriquetta Mears adverte: “Observe que a inspiração não destrói a individualidade. Na introdução do evangelho de
Lucas (1:1-4), o elemento humano aparece em conexão com a revelação de Deus.”
12
J. Sidlow Baxter, Examinai as Escrituras (vol. V). Edições Vida Nova, 1995, p. 335.

22
13
A VIDA DE JESUS NOS QUATRO EVANGELHOS
Mateus Marcos Lucas João Duração Localização
aprox.
Existência de Jesus antes da encarnação 1:1-3
Nascimento e juventude de Jesus 1e2 1e2 30 anos Belém, Egito,
Nazaré
Preparação para o ministério Rio Jordão e
João Batista 3:1-12 1:1-8 3:1-20 1:6-42 deserto
O batismo de Jesus 3:13-17 1:9-11 3:21-22
A tentação de Jesus 4:1-11 1:12-13 4:1-13
Milagre preliminar 2:1-11
Ministério inicial na Judéia 2:13—4:3 8 meses Judéia
Visita a Samaria 4:4-42 Samaria
Ministério na Galiléia 4:12—19:1 1:14—10:1 4:14—9:51 4:43-54; 6 2 anos Galiléia

Visita a Jerusalém 5:1-47


Ministério posterior na Judéia 10:1—13:21 7:2—10:39 1 mês Peréia e
Judéia
Ministério na Peréia 19:1—20:34 10:1-52 13:22—19:28 10:40—11:57 4 meses Peréia e
Judéia
A última semana: 21—27 11—15 19:29—24:1 12—19 7 dias Judéia,
crucificação e ressurreição Jerusalém
Aparecimentos pós-ressurreição 28 16 24 20 e 21 40 dias Jerusalém,
Galiléia

EVANGELHOS SINÓTICOS
Mateus, Marcos e Lucas são chamados evangelhos sinóticos (ou simplesmente sinóticos)
porque oferecem a mesma visão geral (sinopse) da vida de Cristo e registram, até certo ponto, as
mesmas coisas.
Os três primeiros Evangelhos foram pela primeira vez chamados “evangelhos sinóticos” por J.
J. Griesbach, um estudioso da Bíblia de nacionalidade alemã, no final do século XVIII. O adjetivo
“sinótico” vem do grego (synopsis), que significa “ver em conjunto”. Griesbach escolheu a palavra
devido ao alto grau de semelhanças entre Mateus, Marcos e Lucas em suas apresentações do
ministério de Jesus, e indica que eles são melhor compreendidos quando estudados juntos. Essas
semelhanças, que envolvem estrutura, conteúdo e enfoque, são visíveis mesmo ao leitor desatento.
Elas servem não apenas para unir os três primeiros evangelhos, mas também para separá-los do
evangelho de João.

Definição do problema sinóptico


O professor Broadus ensina: “O Problema Sinótico entra em foco quando a seguinte
estatística é observada: entre 94 e 95 por-cento do Evangelho de Marcos é reproduzido em Mateus e
Lucas. Dos 661 versículos contidos em Marcos, todos, exceto cerca de 30, são encontrados nos
outros dois Sinóticos. A substância de 606 versículos pode ser encontrada em Mateus
(correspondendo a 500 por causa de diferente disposição do conteúdo). Lucas reproduz cerca de
320 versículos de Marcos, incluindo 24 que Mateus não usou. Isto significa que, dos 661 versículos
contidos em Marcos, somente 30 não aparecem nos outros dois Sinóticos.” 14
Broadus cita um quadro desta informação numa base percentual:
Peculiaridades Coincidências
Marcos 7 93
Mateus 42 58
Lucas 59 41
João 92 8
João está incluído para mostrar quão grande é a divergência de material entre ele e os
13
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 429.
14
Broadus David Hale, Introdução ao Estudo do Novo Testamento. Editora Hagnos, 2001, p. 54.
23
Evangelhos Sinóticos. O quadro acima não significa que as coincidências estejam em ordem verbal
exata, mas, sim, que as coincidências são tão estreitas, que tanto mostram uma relação quanto uma
origem comum.

O professor Carson sintetiza:15 Mateus, Marcos e Lucas estruturam o ministério de Jesus de


acordo com uma seqüência geográfica geral: ministério na Galiléia, retirada para o norte (tendo por
clímax e ponto de transição a confissão de Pedro), ministério na Judéia e Peréia quando Jesus se
dirigia para Jerusalém (algo não tão claro em Lucas) e o ministério final em Jerusalém. Essa
seqüência está praticamente ausente em João, evangelho que se concentra no ministério de Jesus em
Jerusalém durante as visitas que periodicamente fazia à cidade. Quanto ao conteúdo, os três
primeiros evangelistas narram muitos dos mesmos acontecimentos, concentrando-se nas curas,
exorcismos e ensinos por meio de parábolas realizados por Jesus. João, embora narre algumas curas
significativas, não traz qualquer relato de exorcismo nem parábolas (pelo menos das do tipo
encontrado em Mateus, Marcos e Lucas). Além disso, muitos dos acontecimentos que consideramos
característicos dos três primeiros evangelhos estão ausentes em João: o envio dos Doze, a
transfiguração, o sermão profético, a narrativa da última ceia. Ao apresentarem Jesus
constantemente em atividade e ao sobreporem ações — especialmente milagres — e ensinos
(geralmente) curtos, os primeiros três evangelistas criam um clima de ação intensa e ininterrupta. 16
Isso contrasta claramente com o clima mais contemplativo de João, que narra bem menos
acontecimentos do que os evangelistas sinóticos e prefere apresentar Jesus fazendo longas
dissertações em vez de parábolas curtas ou declarações breves e expressivas.

As semelhanças entre os sinóticos têm levado alguns estudiosos a indagar como os três
evangelhos chegaram a ser tão semelhantes entre si em alguns trechos, porém tão diferentes em
outros trechos. Os autores aproveitavam matérias uns dos outros ou empregaram uma fonte
documental comum que não mais possuímos? Essas perguntas e outras tantas semelhantes são
comumente denominadas “problema sinótico”.
Alguns acham que o mais antigo dos evangelhos foi o de Marcos; Mateus o expandiu e Lucas
valeu-se dos evangelhos de Mateus e de Marcos. Outros acham que Mateus foi o primeiro a
escrever e que Marcos compilou uma edição abreviada do evangelho de Mateus.
Não é necessário, porém, pensar que Mateus, Marcos e Lucas citaram os evangelhos uns dos
outros, ou que fizeram qualquer uso deles. Os acontecimentos da vida de Jesus e os seus ditos foram
repetidos oralmente durante anos pelos apóstolos e por outros e tinham circulação geral entre os
cristãos. Eram a essência da pregação diária dos apóstolos.
Além disso, não devemos nos esquecer que, nos dias de Jesus, as pessoas não ficavam
expostas a torrentes intermináveis de palavras e imagens da mídia e de outras formas de
comunicação. Histórias como essas a respeito da vida de Jesus tinham muito mais probabilidade de
se alojar na memória das pessoas, talvez até as palavras exatas.
Ao mesmo tempo, é provável que, desde o início, muitas dessas coisas tenham sido
registradas por escrito, algumas talvez de modo meramente fragmentário e outras de forma mais
completa. E, quando Mateus, Marcos e Lucas escreveram os evangelhos, cada um escolheu, do
conjunto de conhecimentos orais e escritos que estava em circulação geral entre os cristãos, o que
mais se encaixava nos respectivos propósitos. Além disso, Mateus fora testemunha ocular da maior
parte do ministério de Jesus, Marcos ouvira Pedro contando as histórias repetidas vezes e Lucas fez
pesquisas cuidadosas, devendo talvez ter falado longamente com testemunhas oculares.
Ao longo dos últimos 200 anos, os eruditos têm esmiuçado os evangelhos sinóticos a partir de
variados ângulos e têm chegado a diferentes conclusões. Esse é um resultado inevitável da
15
D. A. Carson (e outros), Introdução ao Novo Testamento. Edições Vida Nova, 1997, p. 19-20.
16

Nenhum dos evangelhos reivindica precisão cronológica nos relatos da vida de Jesus. Relatam acontecimentos,
conhecidos como perícopes, na ordem em que o autor escolheu, pensando ser a melhor forma de apresentar um retrato
de Jesus. Papias, escritor cristão do início do segundo século d.C. (citado por Eusébio, História Eclesiástica), chega a
dizer que Marcos registrou os ensinamentos de Pedro “não na ordem dos fatos, mas conforme ia se lembrando.”
24
importância fundamental que esses livros têm para a fé e a vida cristãs. Nesses livros, encontramos
a história da vida dAquele que é o instrumento escolhido especialmente por Deus para fazer-se
conhecer aos seres humanos. O significado da história e o destino de cada indivíduo dependem dos
acontecimentos descritos nesses livros: a morte e ressurreição do Messias, Jesus.

NOTA: “O fato de que Deus providenciou quatro Evangelhos no cânon significa que não
podem ser legitimamente lidos em isolamento total uns dos outros.”17 Gordon D. Fee & Douglas
Stuart aconselham: “Se você se interessar por um estudo sério dos Evangelhos, precisará referir-se a
uma sinopse (uma apresentação dos Evangelhos em colunas paralelas).” No Apêndice desta
apostila, você encontra uma sinopse.

Contradições nos evangelhos?


Os evangelhos sinóticos revelam um elevado grau de coerência acerca do curso geral do
ministério de Jesus e também sobre muitos incidentes desse ministério. Algumas das maiores
divergências não sugerem contradições, mas, sim, relatos que não têm quase nada em comum (tal
como as narrativas de Mateus e Lucas sobre o Jesus recém-nascido). Em tais situações, é
relativamente fácil de se obter coerência histórica. No entanto, é impossível chegar a uma harmonia
histórica plenamente satisfatória da vida de Jesus. O fato é que os evangelistas não tiveram a
intenção de nos fornecer o tipo de dados que precisaríamos para tal estudo. Eles oferecem bem
poucos indicadores cronológicos precisos, e aqueles que de fato temos (expressões genéricas como
“depois destas coisas”, “quando”, e “imediatamente” [esta última muito usada por Marcos]) são
muitas vezes genéricas para serem de real utilidade para o historiador. Os evangelistas narram fatos
históricos, mas escolhem, organizam e apresentam esses fatos de tal forma que sobram bem poucas
informações para reconstruir uma vida detalhada de Jesus. Esse fato, entretanto, não põe de modo
algum em dúvida os evangelhos como fontes históricas exatas. Devem ser julgados por aquilo que
de fato nos dizem, não pelo que não nos dizem.
Halley confessa: O fato de existirem pormenores diferentes e leves variações na descrição do
mesmo incidente torna ainda mais fidedigno o testemunho dos vários escritores, pois exclui a
possibilidade de conluio, de terem contado uma versão previamente combinada entre eles dos fatos
da vida de Jesus.

“... EVANGELHO... ”
Nas páginas da Bíblia e na literatura antiga encontramos os seguintes usos dessa palavra: 18
1. No grego mais antigo, como nos escritos de Homero, significava “recompensa por trazer boas novas”.
2. No AT há dois usos: o de “boas novas”, propriamente ditas, e o sentido que aparece no grego antigo (cf. Item 1,
acima).
3. Termo técnico para “boas novas de vitória” (ver Plutarco, Demet. 17, 1: 896c).
4. No culto imperial, esse vocábulo era usado para indicar as proclamações ao imperador divino, as proclamações de
“boas novas”, que davam vida ou salvação ao povo.
5. No grego antigo, e também posteriormente, significa “sacrifício oferecido por causa de boas novas” (ver Aristófanes,
Eq. 658).
6. Na Septuaginta (LXX), como também em outras obras gregas de data mais recente, essa palavra indicava as
próprias “boas novas” (ver II Rs 18:20,22,25).
7. No NT, refere-se às “boas novas de salvação”, ao anúncio sobre o reino de Deus, à mensagem de perdão que Deus
enviou aos homens, à mensagem sobre toda a nova esperança que Deus forma nos corações dos crentes.
Especialmente nos escritos de Paulo, o termo significa “boas novas”, sobretudo no que se relaciona com as igrejas:
o plano de Deus para a sua igreja, o destino e grande privilégio da mesma, incluindo os meios de salvação, o
perdão de pecados, a justificação etc., como elementos que incluem as boas novas.
De modo geral, pode-se afirmar que a palavra “evangelho” tem atravessado três fases, no decorrer da história,
isto é: 1. Nos antigos autores gregos: “recompensa por trazer boas novas”. 2. Na Septuaginta e outras obras: as
17

Gordon D. Fee & Douglas Stuart, Entendes o que lês? Edições Vida Nova, 2000 (2ª ed., reimp.), p. 106.
18
R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado (vol. III), p. 573-574.
25
próprias “boas novas”. 3. No N.T., as “boas novas sobre Cristo”, ou ainda, os livros neotestamentários que falam sobre
essa boa mensagem acerca de Jesus Cristo.
A palavra evangelho, aplicada aos livros de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João, como titulo, não foi
empregada pelos seus respectivos autores sagrados, como se esses fossem os títulos daquelas peças literárias. Mas
muitos autores posteriores têm chamado esses livros por essa designação, ficando tal nome consagrado pelo uso.
O evangelho de João não contém esse vocábulo. O evangelho de Lucas se utiliza apenas da forma verbal,
“evangelizar”, em formas gramaticais diversas, por dez vezes. O evangelho de Mateus encerra a forma nominal por
quatro vezes, e a forma verbal por uma vez. O evangelho de Marcos estampa a forma nominal por oito vezes, mas
nunca usa a forma verbal.
---------------------------------
A palavra “evangelho” nunca é usada no NT para designar um livro, mas é sempre usada com o sentido
exclusivo de “boas novas”. Quando falamos, por exemplo, do Evangelho de Mateus, queremos significar as boas novas
de Jesus Cristo registradas por Mateus. Existe somente um Evangelho e quatro apresentações do Mesmo. É por isto
que em nossas bíblias se lê: O Evangelho segundo (de acordo com) Mateus, Marcos, Lucas e João. É o mesmo
Evangelho, conforme foi apresentado pelos diferentes evangelistas. Apresentam quatro retratos de um Cristo só, e o
valor se encontra no testemunho independente e harmônico que dão quanto ao Messias. Vamos, portanto, ocupar-nos
com as boas novas da Pessoa e da Obra de Cristo, porque Ele, de fato, personifica o Evangelho cristão. Este é o
sentido da frase freqüentemente citada: “O Cristianismo é Cristo”. Jesus não veio para pregar um evangelho já
existente, mas sim para que pudesse haver um Evangelho a ser pregado.
Embora evangelho signifique “boas novas”, continuaremos naturalmente a chamar Evangelhos a esses quatro
livro iniciais do NT, porque eles nos oferecem, em forma escrita, a história da vida de Jesus Cristo sobre a terra, vida
que constitui o fundamento da “boas novas” a que nós chamamos Cristianismo.

Aspectos biográficos dos quatro evangelistas

MATEUS 19
Esse evangelho não menciona seu autor pelo nome, mas foi aceito como obra de Mateus
desde os primeiros pais da igreja, a partir de Papias, que foi discípulo do apóstolo João.
Quase nada sabemos a respeito de Mateus, também chamado Levi. Ele é mencionado nas
quatro listas dos doze: Mateus 10:3; Marcos 3:18; Lucas 6:15; Atos 1:13. A outra menção a ele é
seu chamado para seguir Jesus (Mt 9:9-13; Mc 2:14-17; Lc 5:27-32).
A única outra coisa que Mateus diz a respeito de si mesmo é que ele era um cobrador de
impostos para os romanos. Esses cobradores de impostos forçosamente tinham bastante dinheiro,
pois sua obrigação era pagar adiantados os impostos de cada ano, e então eram autorizados a
recuperar o montante, com juros, do povo. Embora as taxas dos juros fossem limitadas, pelo menos
em teoria, a uma soma razoável, a realidade era que os cobradores de impostos cobravam mais do
que deviam. O verdadeiro problema, entretanto, era que a Lei de Moisés proibia rigorosamente a
cobrança de quaisquer juros que fossem entre os judeus (Lv 25:36; Dt 23:19-20). Por isso, os
cobradores de impostos normalmente eram considerados pessoas que não se importavam com a Lei
de Moisés e eram desprezados de modo geral.
Como cobrador de impostos, Mateus estava acostumado a manter registros, e foi companheiro
pessoal de Jesus na maior parte do ministério público dele. Lucas nos conta que Mateus ofereceu
um grande banquete a Jesus e abriu mão de tudo a fim de seguir o Mestre. Mas Mateus, no seu
evangelho, nem sequer credita a si mesmo essa atitude. Ele perde de vista a si mesmo no esforço de
contar a história de seu Mestre. Nós o amamos por sua humildade que colocou o próprio ser em
segundo plano e ficamos maravilhados diante da graça de Deus ao escolher semelhante homem para
ser o autor do livro que, segundo se declara, é o mais lido no mundo inteiro, o primeiro livro do
Novo Testamento.
A tradição diz que Mateus pregou na Palestina por alguns anos e depois viajou para outros
países. Pensa-se que escreveu o evangelho originariamente em hebraico e que, alguns anos mais
tarde, por volta de 60 d.C., produziu uma edição mais completa em grego.

19
Resumos biográficos de Mateus, Marcos e João baseados no Manual Bíblico de Halley, p. 460, 494, 514, 575 e 546.
26
MARCOS
Desde o início, e mediante uma tradição ininterrupta, esse evangelho foi considerado obra de
Marcos. João Marcos era filho de uma mulher chamada Maria, cuja casa em Jerusalém era um local
de reuniões para os discípulos de Jesus (At 12:12). Sendo primo de Barnabé (Cl 4:10), é possível
que fosse levita (At 4:36). Pensa-se ter sido o jovem que fugiu nu na noite em que Jesus foi preso
(Mc 14:51-52). A mãe de Marcos deve ter sido uma pessoa bastante influente na igreja de
Jerusalém. Foi à sua casa que Pedro se dirigiu depois que o anjo o libertou da prisão (At 12:12).
Por volta de 44 d.C., Marcos acompanhou Paulo e Barnabé a Antioquia (At 12:25) e partiu
com eles para sua primeira viagem missionária, mas não demorou muito para deixá-los e voltar para
casa (At 13:13).
Mais tarde, cerca de 50 d.C., Marcos quis acompanhar Paulo na sua segunda viagem
missionária, mas este se recusou a levá-lo. Esse fato levou à separação entre Paulo e Barnabé (At
15:36-39). Marcos, então, acompanhou Barnabé até Chipre.
Cerca de doze anos depois, provavelmente em 62 d.C., Marcos aparece em Roma com Paulo
(Cl 4:10; Fm 24) e quatro ou cinco anos mais tarde Paulo pede que Marcos se encontre com ele (II
Tm 4:11). Parece, portanto, que Marcos, mais tarde na sua vida, passou a ser um dos cooperadores
mais íntimos de Paulo.

LUCAS
O nome de Lucas é mencionado apenas três vezes no NT: em Cl 4:14, onde é chamado
“Lucas, o médico amado”; em Filemom 24, onde é chamado cooperador de Paulo; e em II Tm 4:11,
onde Paulo indica que Lucas estava com ele nas horas tenebrosas do martírio que se aproximava.
Essas três passagens mencionam Marcos, o que daria a entender que Marcos e Lucas trabalharam
juntos.
Na história das viagens de Paulo em Atos dos Apóstolos, o emprego variado dos pronomes
“eles” e nos indicam que Lucas esteve com Paulo durante parte da segunda viagem missionária de
Paulo — desde Trôade até Filipos —, que, cerca de seis anos depois, reencontrou-se com ele em
Filipos na parte final da terceira viagem missionária de Paulo e que o acompanhou durante seu
encarceramento em Cesaréia e em Roma.
Pouca coisa se sabe a respeito de Lucas. Cl 4:11, 14 parece subentender que Lucas era um
gentio, o que faria com que ele fosse o único escritor não-judeu de um livro da Bíblia.
Eusébio diz que Lucas era natural de Antioquia. É reconhecido como homem de cultura e
educação científica, um médico, alguém que dominava bem a língua grega.
Aparece pela primeira vez como o homem que levou Paulo de Trôade para Filipos. Foi um
líder da igreja de Filipos durante os seis primeiros anos da existência desta, e depois se juntou a
Paulo (At 16:10; 16:40; 20:6), permanecendo na sua companhia até o final da narrativa de Atos.
Segundo as evidências contidas nos seus escritos, Lucas era um historiador da mais alta
competência. Fica claro que um dos propósitos básicos de Atos foi apresentar um relato histórico
dos 30 anos que se seguiram à fundação da igreja cristã, até a expansão do evangelho aos gentios.
Lucas, com sua capacidade de documentar os pormenores de datas, lugares e pessoas da igreja
primitiva, forneceu o firme alicerce histórico que continua sendo confirmado pelas descobertas
arqueológicas. O relato de Lucas foi provado e comprovado no decurso do tempo e dá credibilidade
impressionante à fundação da igreja cristã.
A ênfase especial do Evangelho de Lucas é a humanidade de Jesus. Ao representar Jesus
como o Filho de Deus, Lucas descreve sua bondade para com os fracos, com os que sofrem e com
os marginalizados.

JOÃO
O nome de seu pai era Zebedeu (Mt 4:21). Sua mãe parece ter sido Salomé (Mt 27:56; Mc
15:40), que possivelmente era irmã de Maria, a mãe de Jesus (comparar com 19:25). Nesse caso,
João era primo de Jesus e teria aproximadamente a mesma idade deste; por certo, conheciam-se
desde a infância.

27
João era homem de negócios de certo vulto. Era um dos cinco sócios em um empreendimento
de pesca que empregava assistentes assalariados (Mc 1:16-20). Além da empresa de pesca em
Cafarnaum, ele possuía uma casa em Jerusalém (19:27) e conhecia pessoalmente o sumo sacerdote
(18:15-16).
Era discípulo de João Batista (1:35,40). Se era primo de Jesus, conforme parece estar
subentendido nos textos citados acima, também tinha parentesco com João Batista (Lc 1:36) e
certamente conhecia as proclamações dos anjos a respeito de João Batista e de Jesus (Lc 1:17, 32).
Quando, pois, João Batista apareceu proclamando que o Reino dos Céus estava próximo, João, o
filho de Zebedeu, estava pronto para tomar uma firme posição ao lado do Batista.
Aceitando o testemunho dado por João Batista, João tornou-se imediatamente discípulo de
Jesus (1:35-51) — um dos cinco primeiros — e voltou com Jesus para a Galiléia (2:2,11). Depois,
segundo parece, retornou à pesca. Posteriormente, talvez um ano depois, Jesus o chamou para
deixar os negócios e acompanhá-lo nas suas viagens. A partir de então, esteve continuamente com
Jesus e foi, portanto, testemunha ocular do que está escrito nesse evangelho.
Jesus o alcunhou “filho do trovão” (Mc 3:17), o que parece indicar que ele tinha o
temperamento veemente e violento. O incidente em que proibiu um desconhecido de usar o nome
de Cristo na expulsão de demônios (Mc 9:38) e o desejo de pedir fogo do céu contra os samaritanos
(Lc 9:54) lançam luzes sobre seu temperamento. Mas parece ter conseguido dominar esse aspecto
de sua natureza.
Era um dos três discípulos do círculo mais íntimo de Jesus, sendo reconhecido como o que
ficava mais próximo do Mestre. Cinco vezes é mencionado como “o discípulo a quem Jesus amava”
(13:23; 19:26; 20:2; 21:7, 20). Deve ter sido um homem com raras qualidades de caráter.
João e Pedro vieram a ser os líderes reconhecidos dos doze e geralmente ficavam juntos,
embora fossem de índole muito diferente (20:2; At 3:1,11; 4:13; 8:14).
Parece que João residiu em Jerusalém durante alguns anos. Segundo uma tradição bem-
estabelecida, seus anos posteriores foram passados em Éfeso, onde viveu até idade bem avançada.
Nada se sabe de suas atividades ou paradeiro nesse ínterim. Em Éfeso, escreveu seu evangelho, três
cartas e possivelmente o Apocalipse.
A data do evangelho de João geralmente é colocada em torno de 90 d.C.

28
QUADRO COMPARATIVO DOS QUATRO EVANGELHOS

MATEUS MARCOS LUCAS JOÃO


Data em que Ano 63 d.C. Final da década de 50 ou Anos 64 a 70 d. C. Anos 69 a 90 d. C.
foi escrito início da de 60
Fonte de Testemunha ocular Companheiro e auxiliar de Maria informou Lucas Testemunha ocular
informação Pedro. At 12:12 fala de suasobre a infância de
mãe Maria, em cuja casa Jesus. Amigo devotado
os crentes estavam orando de Paulo. Teve contato
por Pedro quando este foi pessoal com os
liberto do cárcere. apóstolos e com outras
A fonte informativa básica testemunhas oculares.
foi a igreja cristã de Roma.
Leitor da Septuaginta.
Rica bagagem cultural.
Escritor Chamado Levi. Chamado João Marcos; Gentio convertido. Judeu; pescador; irmão de
Coletor de impostos. parente de Barnabé. Companheiro de Paulo. Tiago, filho de Zebedeu.
Discípulo de Jesus. Companheiro de Barnabé e Escritor de Atos dos Discípulo amado.
Era judeu. Paulo na primeira viagem Apóstolos. Possível escritor das três
missionária. Médico (Cl 4:14). Epístolas e do Apocalipse.
Filho na fé de Pedro Homem culto, de espírito Escreveu em idade avançada,
(I Pe 5:13). científico, talvez fosse só alguém bem íntimo poderia
Eruditos sustentam que o pintor. Amigo de pessoas escrever assim.
evangelho de Marcos foi o importantes.
primeiro a ser escrito.
Cristo é Rei. Mostra Jesus Servo. Enfatiza os atos de Filho do Homem. Deus. Mostra Jesus como Filho
apresentado como “o rei Cristo e não apenas as Apresenta Jesus como o unigênito de Deus. Revela a
como messiânico e o seu palavras. Cristo como o Homem perfeito, que doutrina da pré-existência de
Reino”. Inicia com a conquistador das salvaria a humanidade. Cristo, a doutrina do Espírito
Apresentação genealogia e termina tempestades, dos Mostra seus Santo e o mistério da unidade
do livro com a declaração do demônios e das sentimentos de de Jesus com o Pai.
Rei já vencedor sobre enfermidades; Ele é o compaixão, ternura e Apresenta milagres e discursos
a morte, possuidor de Senhor sofredor porém amor. que provam ser Jesus o Filho de
toda autoridade no triunfante. Deus.
Céu e na Terra,
ordenando a
conquista do mundo.
Destinatários Sabendo que os Escreveu aos romanos, Escreveu aos gregos, O mundo todo. Queria
(público-alvo) judeus aguardavam o povo cujo ideal era o povo cujo ideal era o convencer seus leitores de que
Messias prometido domínio e o governo. desenvolvimento Jesus Cristo é a única
apresenta Cristo como Apresenta Cristo como o intelectual, moral e esperança e o Salvador de todo
tal. Mostra aos judeus grande vencedor que físico. Apresenta Cristo aquele que crê. Tinha em mente
que o Reino destrói os inimigos internos como a expressão exata a necessidade da Igreja em
messiânico haveria de do homem e estabelece o deste ideal, Cristo, como todo o mundo.
vir em poder espiritual, reino de Deus em seus Homem perfeito.
antes de vir em glória. corações.
Idioma Hebraico e Aramaico Grego Grego Grego
original
Introdução do A genealogia Introdução informal. Introdução formal. Introdução teológica. Diferenças
livro; Marcos é o menos literário. Preocupação com o entre João e os sinóticos:
peculiaridades Linguagem comum, porém alcance aos gentios; seu a) Contém uma mentalidade
cativante. livro é chamado para homens não espirituais.
O livro de Marcos é Evangelho das mulheres b) Dá relevo ao ministério de
chamado o Evangelho das e das crianças e do Jesus na Judéia e não apenas
crianças. louvor. na Galiléia.
c) Os sinóticos falam dos
ensinos de Jesus sobre o seu
reino; João fala sobre a pessoa
de Jesus.
Símbolo Leão Touro Homem Águia
Ênfase Soberania Ministério Humanidade Divindade

29
D. OS TÍTULOS DE CRISTO NOS EVANGELHOS 20

Os evangelhos contêm duas categorias de títulos: os que Jesus mesmo atribui a si e os que os
outros lhe conferem. Os estudiosos têm discutido muito a natureza exata do primeiro grupo, mas
temos de permitir que as evidências das Escrituras falem por si mesmas. Jesus usou certos títulos
para si mesmo e permitiu a seus seguidores que o chamassem de certas maneiras. Esses títulos nos
esclarecem como Ele entendia a si mesmo e sua missão.

Filho do Homem
Esse era o título preferido que Jesus aplicava a si mesmo. Ele se originou do Antigo
Testamento (Dn 7:13-14) mas foi usado durante o período intertestamentário e escolhido por Jesus
para definir sua missão messiânica. O título era adequado por ter um tom messiânico. Também era
suficientemente flexível para permitir que Jesus lhe atribuísse o sentido que quisesse. Precisou fazer
isso porque a idéia corrente de Messias em seu tempo era a de um herói militar, ao passo que ele
viera para ser o Salvador do mundo.
Jesus usou o título Filho do Homem de quatro maneiras diferentes. Primeira, como sinônimo
freqüente de "eu". Jesus estava simplesmente referindo-se a si mesmo (ver, por exemplo, Mt 26:24).
Em segundo lugar, o Filho do Homem exerce autoridade divina (ver, por exemplo, Mt 9:6). Em
terceiro lugar, o Filho do Homem cumpre sua missão terrena pela morte e ressurreição (ver, por ex.,
Mt 12:40; 17:9, 12, 23). Em quarto lugar, o Filho do homem retomará em grande glória para
consolidar seu reino (ver, por exemplo, Mt 16:27-28; 19:28). Dessa maneira Jesus definiu quem ele
era como Filho messiânico do homem.

Filho, Filho de Deus, Filho unigênito


O título "Filho de Deus” ou apenas "Filho" também é um título messiânico extraído do Antigo
Testamento (II Sm 7:11-16). Todavia, ele recebe uma posição mais elevada quando usado por Jesus
ou em relação a ele. Ele significa, no fundo, que Jesus possui as qualidades da natureza divina. Isso
ficou bem evidente quando a voz celestial disse bem alto a Jesus, por ocasião do seu batismo, que
ele era amado e aprazível (Mt 3:16-17), afirmação reiterada na transfiguração de Jesus (Mc 9:7).
A compreensão que o próprio Jesus tinha da sua relação singular com Deus como seu Filho
pode ser vista em Mateus 11:25-27 e Lucas 10:21-22. Jesus expressou a mesma idéia quando
confundiu os fariseus (Mt 22:41-46). No evangelho de João (3:16), Jesus é chamado "Filho
unigênito” de Deus, termo que significa “único da sua espécie" ou "singular”.

Senhor
Esse era um título de honra dado a Jesus, equivalente a “mestre”, uma forma de tratamento.
Contudo, podemos vislumbrar nele algum significado maior (Mt 8:5-13; Mc 2:23-27). No judaísmo,
"Senhor" tornara-se a palavra usada quando o nome pessoal Javé aparecia nas Escrituras. "Senhor",
portanto, significa "Deus". Mais tarde, a igreja, diante da morte e da ressurreição de Jesus, usou-o
para dizer que Jesus era ninguém menos que Deus.

Cristo (Messias)
Jesus relutou em aceitar esse título, por causa das idéias populares erradas que circulavam
sobre o Messias, girando em torno da esperança de um rei que ocuparia o trono de Davi. Em
circunstâncias apropriadas, porém, Jesus estava disposto a confessar que era realmente o Ungido de
Deus (Mt 16:13-20; 26:62-64; Jo 4:25-26). Esse título tornou-se tão comum mais tarde na igreja que
praticamente acabou se transformando num nome para Jesus; assim, "Jesus, o Cristo" tornou-se
simplesmente "Cristo" (Ver, por exemplo, a mudança no uso de nomes e títulos em II Co 1—2).

20
Manual Bíblico Vida Nova, p. 596-597.
30
Verbo
Nos evangelhos esse título é encontrado apenas em João (1:1-14). A expressão "verbo de
Deus" é comum tanto no Antigo como no Novo Testamento para definir como Deus se expressou e
o conteúdo dessa comunicação. Ao referir-se a Jesus, ela torna a revelação de Deus pessoal. Jesus
como o verbo de Deus revela de maneira suprema quem é Deus. Se quisermos conhecer a Deus,
devemos olhar para Jesus, a própria expressão (Palavra, Verbo) de Deus. "Quem me vê a mim vê o
Pai” (Jo 14:9), disse Jesus.

Salvador
Está bem claro no Antigo Testamento que, assim como existe somente um Deus, também há
apenas um Salvador (ver Is 43:3, 11; 45:21). Esse também é o caso no Novo Testamento (I Tm 2:3:
4:10; Tt 1:3; 2:10). Por isso é tão importante que Jesus seja apresentado como o Salvador de Israel
(Lc 2:11) e do mundo (Jo 4:42) nos evangelhos. Entendeu-se que Jesus encarnava a redenção
divina, e foi isso que a igreja primitiva proclamou (At 5:31; 13:23; I Jo 4:14).

O Santo de Deus
Esse é um termo aplicado a Jesus especificamente por seres sobrenaturais malignos, como
aquele que é puro e santo (Mc 1:24; Lc 4:34; Jo 6:69). Como tal, ele selou o destino deles, pois ele é
totalmente justo, e eles são totalmente malignos. Esse título identificou Jesus com o Deus santo
(compare com Is 6).

Filho de Davi
Esse é um título messiânico atribuído com freqüência a Jesus nos evangelhos (Mt 1:1; 9:27;
15:22; 20:30-31; 21:9,15). Ele expressa esperança. O Filho de Davi, que era maior que Davi (22:41-
45), haveria de trazer libertação para aqueles que estavam aprisionados sem esperança.

JESUS NOS LIVROS DO ANTIGO TESTAMENTO


Em Gênesis, ele é a “semente da mulher”.
Em Êxodo, ele é o cordeiro pascal.
Em Levítico, ele é o sumo-sacerdote.
Em Números, ele é a coluna de nuvem de dia e a coluna de fogo à noite.
Em Deuteronômio, ele é o profeta prometido.
Em Josué, ele é o líder da nossa salvação.
Em Juiz, ele aparece como nosso juiz e legislador.
Em Rute, ele é resgatador.
Em Samuel, Reis e Crônicas, ele é o Rei.
Em Esdras e Neemias, ele é nossa força e nosso restaurador.
Em Ester, ele é o Advogado.
Em Jó, ele é chamado de nosso Salvador eternamente vivo.
Em Salmos, ele é nosso bom pastor.
Em Provérbios e Eclesiastes, ele brilha como nossa sabedoria.
Em Cantares, ele é o noivo que nos ama, o Amado de nossa alma.
Em Isaías, ele é chamado de “Príncipe da Paz”.
Em Jeremias, ele aparece como o “renovo de justiça”.
Em Daniel, ele é o quarto homem na fornalha ardente.
Em Joel, ele é o que batiza com o Espírito Santo e com fogo.
Em Amós vemos Jesus como aquele que carrega nossos fardos.
Em Obadias, ele é poderoso para salvar.
Em Jonas, ele está diante de nós como o grande missionário para os gentios.
Em Ageu, ele é o restaurador da herança de Deus.
Em Zacarias, ele é apresentado como a fonte aberta da casa de Davi que purifica as impurezas.
Em Malaquias, ele se mostra como o “sol da justiça” com a “salvação nas suas asas”.

31
E. PROFECIAS DO AT SOBRE O CRISTO CITADAS NOS EVANGELHOS
Mateus emprega com abundância as profecias do AT. Ele deseja demonstrar que os incidentes
da vida de Cristo são cumprimentos das predições proféticas do AT. Segue-se uma lista das
profecias do AT que são citadas nos quatro evangelhos, principalmente em Mateus, por terem sido
cumpridas em Cristo. A maior parte delas se refere muito claramente ao Messias. Umas poucas não
são tão óbvias, porém são citadas pelos escritores inspirados do NT como profecias messiânicas.

 Devia ser da família de Davi (Mt 22:44; Mc 12:36; Lc 1:69-70; 20:42-44; Jo 7:42/IISm
7:12-16; Sl 89:3-4; 110:1; 132:11; Is 9:6-7; 11:1).
 Nasceria de uma virgem (Mt 1:23/Is 7:14).
 Nasceria em Belém (Mt 2:6; Jo 7:42/Mq 5:2).
 Passaria algum tempo no Egito (Mt 2:15/Os 11:1).
 Moraria na Galiléia (Mt 4:15/Is 9:1-2).
 Moraria em Nazaré (Mt 2:23/Is 11:1).
 Sua vinda seria proclamada por um arauto semelhante a Elias (Mt 3:3; 11:10-14; Mc 1:2-3;
Lc 3:4-6; 7:27; Jo 1:23/Is 40:3-5; Ml 3:1; 4:5).
 Sua vinda levaria ao assassinato dos meninos de Belém (Ml 2:18/Gn 35:19-20; 48:7; Jr
31:15).
 Proclamaria ao mundo um jubileu (Lc 4:18-19/Is 58:6; 61:1; para uma explicação do
jubileu).
 Sua missão abrangeria os gentios (Mt 12:18-21/Is 42:1-4).
 Seu ministério seria de cura (Mt 8:17/Is 53:4).
 Ensinaria por meio de parábolas (Mt 13:14-15/ Is 6:9-10; Sl 78:2).
 Os governantes não creriam nele e o rejeitariam (Mt 15:8-9; 21:42; Mc 7:6-7; 12:10-11; Lc
20:17; Jo 12:38-40; 15:25/Sl 69:4; 118:22; Is 6:10; 29:13; 53:1).
 Faria uma entrada triunfal em Jerusalém (Mt 21:5; Jo 12:13-15/Is 62:11; Zc 9:9; Sl 118:26).
 Seria como um pastor ferido (Mt 26:31; Mc 14:27/Zc 13:7).
 Seria traído por um amigo em troca de trinta moedas de prata (Mt 27:9-10; Jo 13:18/Zc
11:12-13; Sl 41:9).
 Morreria com criminosos (Lc 22:37/Is 53:9, 12).
 Seria sepultado por um rico (Mt 27:57-60/Is 53:9; o fato é declarado sem a citação da
profecia).
 Dariam a ele vinagre e fel (Mt 27:34; Jo 19:29/Sl 69:21).
 Lançariam sortes sobre suas roupas (Jo 19:24/Sl 22:18).
 Até mesmo suas palavras ao morrer foram preditas (Mt 27:46; Mc 15:34; Lc 23:46/Sl 22:1;
31:5).
 Nenhum de seus ossos seria quebrado (Jo 19:36/Êx 12:46; Nm 9:12; Sl 34:20).
 Seu lado seria traspassado (Jo 19:37/Zc 12:10; Sl 22:16).
 Ressuscitaria dentre os mortos ao terceiro dia (Mt 12:40; Lc 24:46; nenhum texto específico
do AT é citado quanto a isso, mas Atos 2:25-32 e 13:33-35 citam Salmos 16:10-11 como
predição de que ele ressuscitaria dentre os mortos). Jesus disse que estava escrito que ele
ressuscitaria ao terceiro dia (Lc 24:46). Por certo, tinha em mente Oséias 6:2 e Jonas 1:17, bem
como o fato de Isaque ter sido livrado da morte ao terceiro dia (Gn 22:4).
 Sua rejeição seria seguida pela destruição de Jerusalém e pela grande tribulação (Mt 24:15;
Mc 13:14; Lc 21:20/Dn 9:27; 11:31; 12:1, 11).
 O próprio Jesus tinha consciência de que, na sua morte, estava cumprindo as Escrituras (Mt
26:54, 56).
Nesta relação, vemos que a história completa da vida de Jesus — com seus principais
aspectos, eventos e incidentes correlatos, até mesmo nos pormenores mais minuciosos — é
plenamente prevista no AT. Não nos parece isso uma evidência esmagadora da existência e operação
de uma Mente que transcende a mente humana, a tal ponto que ficamos tomados de reverente
temor?

32
F. A GENEALOGIA DE JESUS

O advento de Cristo à Terra tinha sido previsto desde o princípio. Nos primeiros dias da
história da humanidade, Deus escolhera uma família, a de Abraão e, posteriormente, dentro da
família abraâmica maior, a de Davi, para ser a família por meio da qual seu Filho entraria no
mundo.
Os judeus tinham um orgulho todo particular em poder traçar sua descendência desde os
patriarcas; e todos eles davam grande ênfase a registros genealógicos completos sobre suas famílias.
A genealogia de Cristo está disposta por Mateus desde Abraão, e por Lucas de José a Adão,
abrangendo um espaço de mais de quatro mil anos. Entre Davi e Jesus, eles apresentam linhagens
separadas de descendência, que são iguais somente nas pessoas de Salatiel e Zorobabel.
Os primeiros dois terços dos nomes nesta lista podem ser encontrados na Septuaginta (a
versão grega do Velho Testamento) de I Cr 2:1-15; 3:5-24 e Rt 4:13-21. Após Zorobabel, Mateus
contou com os relatos públicos não encontrados no Velho Testamento. Uma documentação
detalhada assim existia em abundância; Mateus teria encontrado pouca dificuldade para extrair a
informação.21 Guardadas cuidadosamente no decurso de longos séculos de mudanças e de
reviravoltas, elas preservam a linhagem familiar por meio da qual uma promessa foi transmitida ao
longo de quatro mil anos, fato que não tem paralelo em toda a história universal. Interessantemente,
nenhum judeu do séc. XXI pode provar que ele ou ela é um descendente direto de Davi, pois os
registros genealógicos foram destruídos por repetidos holocaustos.
Mateus estava particularmente interessado em apresentar Jesus como o cumprimento de
muitas promessas que Deus fez aos judeus como o povo do pacto de Deus. Em Lucas, a linhagem
de Jesus passa por Davi através de Natã, filho de Davi (ver Lc 3:31), mas o registro de Mateus
passa por outro filho de Davi, Salomão (ver II Sm 5:14). Essas e outras diferenças são melhor
explicadas em parte distinguindo uma descendência de sangue de uma descendência de sucessão ao
trono. Lucas traça a primeira, a verdadeira linhagem de José; Mateus apresenta a outra, o caminho
pelo qual a linhagem dos descendentes reais de Davi acaba caindo no final das contas sobre José,
mesmo que ele não fosse o verdadeiro pai de Jesus. Existe evidência independente de que Maria,
também, era uma descendente de Davi (ver Lc 1:32); porém as genealogias passam por José, pois a
linhagem masculina estabeleceria legalmente o direito de Jesus ao trono.
Os estudiosos têm sugerido várias explicações para as diferenças que há na genealogia de
Jesus em Mateus e em Lucas. A solução mais provável é que Lucas tenha apresentado a ascendência
real de Jesus, através de Maria, Sua mãe, embora tivesse substituído o nome dela pelo de seu
marido (“Era, como se cuidava, filho de José”, Lc 3:23), porquanto não era costumeiro incluir os
nomes femininos nas linhagens ancestrais. Por outra parte, Mateus expõe a linhagem do pai de
criação de Jesus, porquanto na sociedade judaica (e Mateus escreveu para os judeus) os direitos
legais, como por exemplo a reivindicação ao trono messiânico de Davi, passava pelo pai, apesar
deste ser apenas um pai de criação. Sem embaraço, a verdade é que tanto José quanto Maria
descendiam de Davi, e, naturalmente, de Abraão. Maria era, com toda a probabilidade, prima de
José, de modo que, de fato, embora não formalmente, ambas as genealogias são tanto de Maria
como de José.
“A opinião comumente aceita é que Mateus cita a linhagem de José e assim demonstra que
Jesus é o legítimo herdeiro das promessas feitas a Abraão e a Davi, e que Lucas cita a linhagem de
Maria, demonstrando a descendência física de Jesus, ‘que, como homem, era descendente de Davi’
(Rm 1:3).”22
21

Atribui-se a Esdras a fama de ter realizado o trabalho de estabelecer a ascendência das famílias judaicas. – Era
necessário assentar e continuar os registros genealógicos em vista do fato de que, para o serviço no santuário, podiam
ser admitidos somente homens de origem segura e imaculada (cf. Ed 2:61-63; Ne 7:63-65). – Era competência do
Sinédrio (o supremo conselho) examinar minuciosamente a legalidade das tabelas genealógicas, as quais eram sempre
apontadas na literatura judaica.
22

Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 461.


33
O professor Carson23 destaca: Três características notáveis fazem com que esta genealogia em
Mateus se sobressaia mais como um relato que aponta para Jesus do que uma simples linhagem
familiar:
1. A divisão relacionada a três épocas especiais da história de Israel, as quais são: a
monarquia, o cativeiro e o Messias. Os dois pontos críticos que dividem a genealogia fazem menção
de Davi — Rei Davi, Mateus enfatiza com cuidado (1:6) — e do começo do exílio Babilônico (Mt
1:11-12) quando a monarquia foi destruída e o que restou da nação foi transportado para a Babilônia
em 587 a.C. Daquele momento em diante, nenhum herdeiro de Davi sentou no seu trono. Mas
agora, Mateus estava argumentando, um descendente de Davi, Jesus o Messias, havia chegado para
tomar nas mãos as rédeas reais mais uma vez.
Na realidade, isso cumpriu a profecia. O profeta Isaías aguardava um tempo quando “então
brotará um rebento do tronco de Jessé (o pai de Davi)” (Is 11:1). Isto é, a linhagem representando a
monarquia seria colocada abaixo até restar apenas um tronco, todavia daquele tronco aparentemente
morto e arruinado surgiria um novo “rebento” que cresceria para se tornar uma árvore sólida. O
exílio deixou apenas um cepo; mas agora o Filho maior de Davi emergiu do mesmo tronco como o
Rei prometido.

2. A divisão da genealogia em três séries de catorze gerações, é reconhecida universalmente


como sendo parcialmente artificial. Nomes foram deixados de fora. Entre Jorão e Uzias (Mt 1:8)
veio Acazias, Joás, e Amazias (II Rs 8:24; I Cr 3:11; II Cr 22:1,11; 24:27). Existem outras omissões
também. A expressão traduzida “nasceu de” muitas vezes significa “era o ancestral de” ou “era o
progenitor de”; e por essa razão as brechas não são de se surpreender.
a) De Abraão a Davi (14 gerações) = Governo Teocrático; durou 1000 anos.
b) De Davi à deportação babilônica (14 gerações) = Governo Monárquico; durou 400 anos.
c) Da deportação até Cristo (14 gerações) = Governo Hierárquico; durou 600 anos.
No entanto, as divisões bem arranjadas que resultaram na genealogia, além de tornarem a lista
mais fácil de se decorar, tem provavelmente a intenção de nos dizer algo. É quase certo que a
cuidadosa ênfase dada ao número 14 (Mt 1:17) incentivaria os leitores judeus a se lembrarem de
que o valor numérico do nome de Davi em hebraico era 14. (No Hebraico, cada letra tem um valor
numérico. Por isso, na palavra dwd (Davi), em que d = 4 e w = 6, temos 4 + 6 + 4, que é igual a 14).
Noutras palavras, esta é uma maneira sutil de se enfatizar a importância de Davi — e, portanto, a
verdade que Jesus é o Filho prometido de Davi. Um dos três conjuntos de catorze está com uma
geração a menos. Foram apresentadas várias sugestões do porque disso, nenhuma delas inteiramente
convincente; alguns sugerem que a própria Maria seria a décima-quarta.

3. A mais intrigante característica da genealogia é a menção de quatro mulheres: Tamar,


Raabe, Rute e Bate-Seba. A maioria das genealogias judaicas não incluía mulheres. Mais
importante, a escolha dessas mulheres em particular, em vez de grandes matriarcas como Sara,
Rebeca e Léia, prova que Mateus estava nos dando algo mais do que mera informação biológica.
Tamar seduziu seu sogro Judá para dentro de um relacionamento incestuoso (ver Gn 38); Raabe
salvou os espiões e juntou-se aos israelitas, mas ela era uma prostituta pagã (ver Js 2:5); Rute era
uma moabita, não apenas uma gentia, e sim, um membro de uma raça freqüentemente em oposição
implacável aos israelitas; e Bate-Seba que, embora sendo judia, pode muito bem ter sido
considerada por alguns como uma hitita, pois ela casou-se com Urias, o heteu. Não obstante, ela
entrou na linhagem messiânica devido um caso de adultério com Davi (ver II Sm 11).24
Gundry comenta: “Evidentemente Mateus queria desarmar, logo de entrada, os preconceitos
23

D. A. Carson, Deus conosco: Tópicos do Evangelho de Mateus. PES, 2000, p. 13-16.


24

A escritora norte-americana Francine Rivers retratou em romance as mulheres na linhagem de Cristo – “Elas
enfrentaram momentos de ansiedade e de impaciência. Tiveram coragem. Assumiram riscos. Fizeram o inesperado.
Levaram vidas destemidas. Cometeram alguns erros – erros grandes. Não foram perfeitas. Apesar disso, Deus, em Sua
infinita misericórdia, usou-as em Seu desígnio perfeito para trazer o Cristo, o Salvador do mundo.” – Os romances são
publicados no Brasil pela Editora Mundo Cristão.
34
arrogantes contra as circunstâncias nas quais Maria deu à luz a Jesus, lembrando seus leitores
judeus acerca de incidentes que envolveram mulheres em sua própria preciosa história, incidentes
esses que bem poderiam lançar reparos aos olhos de pessoas de fora. Outrossim, todas aquelas
quatro mulheres haviam sido gentias. A inclusão delas, nesta genealogia, aponta para o motivo da
salvação universal que figura no restante do evangelho.”25
Carson conclui: Os reis e os príncipes deste mundo exibem com orgulho sua nobre linhagem,
suas ligações com duques e duquesas, presidentes e czars, primeiro-ministros e magnatas. Mas
Mateus se esforçou para chamar a atenção ao fato de que Jesus, o Rei, incluía na Sua linhagem
prostitutas e estrangeiros. Isso demonstra não somente Sua imensa humildade, como também aponta
para o fato de que Ele veio para salvar “o seu povo dos seus pecados” (Mt 1:21), e ser o Senhor e
Salvador não apenas dos judeus, e sim também de homens e mulheres sem discriminação racial,
cumprindo a promessa feita a Abraão de que nele todos os povos da Terra seriam abençoados (ver
Gn 12:1-3).

25

Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova, 2001 (2ª ed., reimp.), p. 129.
35
G. A DIVINDADE PREEXISTENTE DE JESUS

O Verbo tornou-se carne (Jo 1:1-18)


Nenhum outro livro da Bíblia tem um prólogo tão teológico como o evangelho de João. 26
Primeiro, João faz uma declaração clara e incisiva sobre a natureza de Jesus: “O Verbo era Deus” e
“o Verbo se fez carne” (1:1, 14). João queria que todos soubessem que Jesus Cristo era plenamente
Deus em forma humana. Esse é o sentido da “encarnação”, palavra derivada do latim que significa
“tornar-se carne”. Deus se manifestou por meio de Cristo (1:18-19). Cristo era ao mesmo tempo
“Verbo” e “carne”, não uma coisa com exclusão da outra, e por isso era o perfeito e único Deus-
homem. Cristo “habitou” entre nós traduz uma idéia no original que significa “tabernaculou”,
mostrando que Deus veio literalmente até a humanidade. Esse termo não deve passar despercebido
para o leitor; porque o tabernáculo do Antigo Testamento era uma construção terrena preenchida
com a glória de Deus (Êx 40:34-35).
Ao usar o termo “Verbo” (logos), João estava se valendo de um termo conhecido tanto para
judeus quanto para gregos, apesar de cada grupo lhe atribuir um sentido diferente. Para a mente
grega, “Verbo” referia-se ao princípio racional que rege ou governa o universo. Para os judeus,
“Verbo” era uma referência a Deus. Com isso, João quis equiparar o “Verbo” a Deus, ao mesmo
tempo em que o distingue do Pai. João declarou que Jesus estava com Deus “no princípio” e que,
por meio de Cristo, “todas as coisas foram feitas” (1:2-3). Por isso Jesus é considerado co-eterno
com Deus e Criador.
Em seguida, João explica o objetivo do Verbo em tornar-se carne, que é o fato de Cristo trazer
vida, a qual serve como “luz” para todos os povos (1:4). A vida que Cristo oferece está além da
mera vida humana; é vida eterna com Deus. Por essa razão, Jesus trouxe a luz da verdade e a vida
da salvação. As perguntas e preocupações deste mundo que não têm uma resposta definitiva são
respondidas pela Luz que afasta a escuridão com o brilho da verdade; essa verdade, porém, foi
rejeitada.
A amarga ironia desse fato não deve passar despercebida para o leitor. João a enfatizou,
afirmando que, apesar de Cristo ter criado o mundo, o mundo não o reconheceu. Apesar de Ele vir
para o que era seu, o que era seu não o recebeu (1:10-11). Deus veio ao mundo para proporcionar
aceitação e relacionamento. Aqueles que aceitam a luz, que crêem na mensagem que Cristo
proclamou sobre Si mesmo, recebem “o poder de serem feitos filhos de Deus” (1:12). Nascer no
reino de Deus não é algo que se obtém pela força humana (1:13; cf. Ef 2:8-9), mas pela graça do
Deus vivo, por intermédio de Jesus Cristo. Isso deve ser equilibrado com a ênfase na necessidade de
“receber” Cristo (1:12). Apesar de não apresentarmos nada para Deus e de não contribuirmos com
nada para a nossa salvação, a dádiva depende da nossa disposição de recebê-la das mãos de quem a
oferece.

26
Manual Bíblico Vida Nova, 645-646.
36
H. SÍNTESE DA VIDA DE CRISTO
Sete eventos de suprema transcendência ocorreram na vida terrana de Jesus:
1) Seu nascimento, 2) Seu batismo, 3) Sua tentação, 4) Sua transfiguração,
5) Sua crucificação, 6) Sua ressurreição, 7) Sua ascensão.

O nascimento de Cristo é relatado em Mateus (caps. 1—2) e Lucas (caps. 1—2). Nos dois
relatos, a sua vinda é anunciada de antemão. Além disso, os dois autores incluem uma genealogia, a
fim de mostrar que Jesus descende de Abraão e Davi. Com exceção do debate de Jesus, aos doze
anos de idade, com os líderes no templo (Lc 2:41-50), os evangelhos silenciam sobre os anos em
que Jesus cresceu em Nazaré.
Um breve período preparatório precedeu o início do ministério público de Jesus. Esse período
abrange o ministério de João Batista, o precursor (Mc 1:2-13) que anunciou a vinda iminente do
reino de Deus. O ponto de partida do ministério público de Cristo foi seu batismo, quando ele tinha
trinta anos de idade (Lc 3:23). Este foi seguido pelas tentações da parte de Satanás, que provaram a
obediência de Jesus como Filho de Deus.
O evangelho de João é o único que registra um tempo de ministério de Jesus na Judéia,
seguindo ao seu batismo. Seu ministério na Galiléia, contudo, é relatado pelos quatro evangelistas.
Isso inclui o chamado dos discípulos (Mc 3:13-19). Foi também um período de intenso ensino
público. Cristo desafiou seus ouvintes com as exigências éticas do Sermão do Monte. Ele pregou a
necessidade de arrependimento (Mc 1:15) e a chegada do reino de Deus (Lc 11:20).
Durante essa fase, Cristo gozou de alta popularidade com as pessoas (Mt 4:23-25). Mesmo
assim, essa popularidade não significava que o povo entendia a missão de Cristo. Ele simplesmente
estava maravilhado com sua capacidade de fazer milagres. Os poderes de Cristo manifestavam-se
em suas curas (Mt 8:1—9:34), exorcismos (Mt 8:28-34) e milagres na natureza (por exemplo,
quando ele acalmou a tempestade, em Mc 4:35-41). Esses acontecimentos mostraram o controle que
Cristo tinha sobre as esferas natural e sobrenatural.
À medida que as notícias sobre os feitos de Cristo se espalhavam, a oposição a ele foi
tomando forma. Por exemplo, os fariseus acusaram Jesus de expulsar os demônios pelo poder de
Belzebu, o príncipe dos demônios (Mt 12:24). Apesar da ampla atividade de Cristo, ele também
estava preparando os discípulos para as suas responsabilidades. Os evangelhos sinóticos registram
as instruções de Jesus aos discípulos antes de enviá-los para pregar (por exemplo, Mc 6:7-13).
A mudança de rota no ministério de Jesus se deu em Cesaréia de Filipe (Mt 16:13-20; Mc
8:27-38; Lc 9:18-27), quando ele aceitou afirmar ser o Cristo. Com isso, informou seus discípulos
da sua morte iminente. A verdadeira identidade de Jesus foi confirmada pela transfiguração, quando
ele foi transformado na presença de Pedro, Tiago e João (Mt 17:1-8).
A viagem de volta para Jerusalém marca o período seguinte na vida de Cristo. Lucas dedicou
mais da metade do seu evangelho aos fatos posteriores à partida de Jesus da Galiléia. Um aspecto
predominante nessa fase é que Cristo concentrou seu ministério nos discípulos. Os quatro
evangelhos relatam a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém. Os últimos dias antes da sua
crucificação contêm mais controvérsias com os líderes religiosos (Mt 21:23—22:46), instruções aos
discípulos quanto ao futuro (Mc 13) e a última ceia (Mt 26:17-30).
Na noite em que foi traído, Cristo foi preso no jardim de Getsêmani. Depois foi julgado
perante Anás, pelo Sinédrio, por Herodes Antipas e, por fim, nas mãos de Pôncio Pilatos.
Condenado por afirmar ser o Messias (Mc 15:26), foi crucificado na véspera do sábado, em um
lugar chamado Gólgota (Mc 15:22) e sepultado no túmulo que pertencia a José de Arimatéia (Jo
19:38). Ressuscitou no domingo, que é o terceiro dia (Lc 24:1-7). Depois de aparecer aos seus
seguidores, permaneceu neste mundo por quarenta dias e depois subiu ao céu (At 1:1-11).

37
A PESSOA DE CRISTO 27
Pré-Encarnado Natureza Divina Natureza Humana União das Caráter
Naturezas
Existiu eternamente Possui atributos divinos Teve um nascimento Teantrópica Absolutamente santo
antes da Criação Ele é eterno (Jo 1:1; 8:58; humano A pessoa de Cristo A sua natureza humana
Desde o “princípio” (Jo 17:5) Nasceu de uma virgem é teantrópica; Ele foi criada santa
1:1; I Jo 1:1) Ele é onipresente (Mt 28:20; (Mt 1:18—2:11; Lc tem duas naturezas (Lc 1:35)
“Com Deus” (Jo 1:1-2) Ef 1:23) 1:30-38). (divina e humana Ele não cometeu
“Antes que houvesse Ele é onisciente (Jo 16:30; em uma só pecado (I Pe 2:22)
mundo” (Jo 17:5) 21:17) Teve um pessoa). Ele sempre agradou o
O Verbo “se fez carne” Ele é onipotente (Jo 5:19) desenvolvimento Pai (Jo 8:29)
(implica em uma Ele é imutável (Hb 1:2; 13:8) humano Pessoal
existência pré- Continuou a crescer e União hipostática, Possui amor genuíno
encarnada, Jo 1:14). Possui ofícios divinos a fortalecer-se (Lc constituindo uma só Ele entregou a sua vida
Ele é criador (Jo 1:3; Cl 2:50, 52). substância pessoal; (Jo 15:13).
Participou da Criação 1:16) duas naturezas, O seu amor ultrapassa
“Façamos o homem” Ele é sustentador (Cl 1:17) Teve os elementos uma pessoa. todo o conhecimento.
(Gn 1:26) essenciais da
O “arquiteto” (Pv 8:30) Possui prerrogativas natureza humana Inclui qualidades Verdadeiramente
O “primogênito de toda divinas Corpo humano (Mt e atos humilde
a criação” (Cl 1:15) Perdoa pecados (Mt 9:2; Lc 26:12; Jo 2:21) humanos e Ele tomou a forma de
Todas as coisas foram 7:47) Razão e vontade (Mt divinos servo (Fp 2:5-8).
criadas “por meio dele” Ressuscita os mortos (Jo 26:38; Mc 2:8) Tanto as qualidades
(Jo 1:3; Cl 1:16) 5:25; 11:25) e os atos divinos Inteiramente manso
O mundo foi criado “por Executa julgamento (Jo Teve nomes quanto humanos (Mt 11:29)
intermédio dele” (Jo 5:22) humanos podem ser
1:10; I Co 8:6) Jesus (Mt 1:21) atribuídos a Jesus Perfeitamente
Todas as coisas foram Ele é identificado com Filho do Homem (Mt Cristo sob qualquer equilibrado
criadas “para ele” (Cl Iavé do Antigo 8:20; 11:18) uma de suas Ele foi sério sem ser
1:16) Testamento Filho de Abraão (Mt naturezas. melancólico.
Tudo subsiste “nele” (Cl “EU SOU” (Jo 8:58) 1:1) Ele foi alegre sem ser
1:17) Visto por Isaías (Jo 12:41; Presença frívolo.
8:24,50-58) Teve as limitações constante
Manifestou-se após a da natureza humana, tanto da Teve uma vida de
Criação (Antigo Possui nomes divinos sem pecado humanidade oração
Testamento) “Alfa e Ômega” (Ap 22:13) Ficou cansado (Jo 4:6) quanto da (Mt 14:23; Lc 6:12)
Como “Iavé” “EU SOU” (Jo 8:58) Sentiu fome (Mt 4:2; divindade
A Abraão (Gn 18) “Emanuel” (Mt 1:22) 21:18) As suas naturezas Trabalhador
Em julgamento (Gn 19) “Filho do Homem” (Mt 9:6; Sentiu sede (Jo 19:28) não podem ser incansável
Em promessas (Os 1:7) 12:8) Foi tentado (Mt 4; Hb separadas. Realizou as obras do
“Senhor” (Mt 7:21; Lc 1:43) 2:18) seu Pai (Jo 5:17; 9:4).
Como o “Anjo de Iavé” “Filho de Deus” (Jo 10:36)
A Hagar (Gn 16) “Deus” (Jo 1:1; II Pe 1:1) Foi muitas vezes
A Abraão (Gn 22) chamado de homem

27
H. Wayne House, Teologia Cristã em Quadros. Editora Vida, 2000 (2ª imp.).
38
A Jacó (Gn 31) Possui relações divinas (Jo 1:30; 4:9; 10:38)
A Moisés (Êx 3:2) É a imagem expressa de
A Israel (Êx 14:19) Deus (Cl 1:15; Hb 1:3)
A Balaão (Nm 22:22) Ele é um com o Pai (Jo
A Gideão (Jz 6) 10:31)

Aceita adoração divina


(Mt 14:33; 28:9; Jo 20:28-29)

Reivindica ser Deus


(Jo 8:58; 10:30; 17:5)

I. NASCIMENTO E INFÂNCIA DE JESUS

Somente Mateus e Lucas relatam o nascimento e a infância de Jesus. Lucas conta a história
mais detalhadamente que Mateus e cada um narra fatos diferentes. A seguir, uma provável
seqüência cronológica desses dados:

7 ou 6 a.C. O nascimento de João anunciado a Zacarias Lucas 1:5-25


6 meses depois Anunciação a Maria Lucas 1:26-38
Visita de Maria a Isabel; o cântico de Isabel e o de Maria Lucas 1:39-56
3 meses depois Maria volta a Nazaré Lucas 1:56
Anunciação a José Lucas 1:18-24
Nascimento e juventude de João Batista Lucas 1:57-80
6 ou 5 a.C. Nascimento de Jesus Mateus 1:25; Lucas 2:1-7
Anunciação aos pastores Lucas 2:8-20
8 dias depois Circuncisão de Jesus Lucas 2:21
32 dias depois Apresentação de Jesus Lucas 2:22-38
4 a.C. Visita dos magos Mateus 2:1-12
Fuga para o Egito Mateus 2:13-15
Morte dos meninos de Belém Mateus 2:16-18
3 a.C. Regresso a Nazaré Mateus 2:19-23; Lucas 2:39
Os anos passados em Nazaré

A. OS PRIMEIROS ANOS DE JOÃO BATISTA, O PRECURSOR DO MESSIAS

Predito o nascimento de João Batista (Lc 1:5-25)


vs. 5-7 Lucas data sua narrativa no reinado de Herodes Magno (37-4 a.C.). Aquilo que
descreve aconteceu perto do fim daquele reinado. Estava a ponto de acontecer o evento para o qual
convergiam todas as profecias do AT: a chegada do Messias. Isaías predisse que a voz de alguém
clamando no deserto prepararia o caminho para o Senhor (Is 40:3) e Malaquias, no último livro do
AT, profetizou: “Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim”
(Ml 3:1). Era costume no antigo Oriente Médio enviar previamente um representante real a fim de
preparar o caminho para a visita de um rei. 28 Um anjo agora notifica Zacarias, o piedoso e idoso
sacerdote, de que o filho deste, que ainda nascerá de sua esposa estéril, Isabel, é aquele para o qual
apontavam as profecias (v. 17). 29
vs. 8-10 Zacarias (“Jeová se lembrou”), um sacerdote de uma região do interior (vs. 39-40),
que revezava com os demais o ministério do Templo. Os sacerdotes eram divididos em 24 divisões,

28
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 515.
29

Zacarias estava casado com Isabel (“Deus faz um pacto” ou “Deus do pacto”), que era filha de sacerdote. Ter uma
esposa de descendência sacerdotal era uma bênção adicional para um sacerdote. A piedade deste casal é ressaltada com
os adjetivos justos e irrepreensíveis, que quer dizer, serviam fielmente a Deus. Por isso, era difícil para eles entenderem
sua situação de não terem filho, pois as pessoas sustentavam naqueles tempos que Deus abençoaria Seus servos fiéis,
dando-lhes filhos. A menção da idade deles indicava que não podiam esperar qualquer mudança na situação.

39
das quais a de Abias era a oitava (I Cr 24:10).30 Cada divisão estava de plantão duas vezes por ano,
durante uma semana em cada ocasião. “Havia muitos sacerdotes, e não havia deveres sagrados em
número suficiente para todos eles no único templo; lançava-se sortes, portanto, para ver quem
cumpriria cada função (I Cr 24:16). Oferecer o incenso era considerado um grande privilégio. Um
sacerdote não podia oferecer o incenso mais de uma vez na sua vida inteira, e alguns sacerdotes
nunca receberam o privilégio. Por isso, a ocasião em que Zacarias ofereceu o incenso foi o
momento mais importante da sua vida.”31
vs. 11-13 O anjo apareceu à direita do altar do incenso. O anjo primeiro reestabeleceu a
confiança de Zacarias: “Não temas!” E continuou: “A tua oração foi ouvida”. O papel do sacerdote,
naquele culto solene, era orar pela nação. Certamente, Zacarias, em tempos passados, havia orado
por um filho.
vs. 14-17 Gabriel anuncia a missão do precursor: Preparar o caminho do Messias. João se
assemelharia a Elias — “no espírito de Elias”: no mesmo caráter, na mesma virtude, na mesma
autoridade, no mesmo poder, nas mesmas características ministeriais. João foi o último nazireu.
“Será cheio do Espírito Santo desde o ventre” Essa expressão indica que a unção recebida
pelos profetas, reis e sacerdotes no AT foi concedida a João desde o ventre. João não inaugura a
presença constante do Espírito entre os homens, pois isto só veio acontecer após a ascensão de
Jesus.
Anjo Gabriel (“homem de Deus”). Anjo de alta categoria, enviado a Daniel, a Zacarias e a
Maria; era responsável em transmitir as mensagens do coração de Deus. Anunciou que a concepção
de João seria fruto de um milagre, pois em Isabel “já havia cessado os costumes das mulheres”.
Esse nascimento foi predito em Isaías (40:3; cf. Ml 3:1; 4:5).
v. 18 “Como terei certeza disso?”, ou seja, o que me garante que você está falando a verdade?
Zacarias turbou-se; sua fé não estava à altura de suas súplicas. Sua dúvida foi pecaminosa, porque
era oriunda da falta de fé. Deus transforma a falta de fé de Zacarias num castigo instrutivo; ele ficou
mudo e assim permaneceu até o nascimento de João Batista.
A mudez de Zacarias foi logo notada por todos, pois era costume depois da queima do
incenso os sacerdotes se reunirem para pronunciar a bênção sobre o povo (Nm 16:22-27).

O nascimento de Jesus anunciado a Maria (Lc 1:26-38)


Maria: descendente da tribo de Judá, tribo do louvor. Nascida em Nazaré, de origem familiar
pobre, moça piedosa, temente a Deus.
vs. 26-27 Maria é descrita como desposada, estado este que era mais obrigatório entre os
judeus daqueles dias do que um noivado entre nós. Era uma promessa solene de casamento, e tão
obrigatória que seria necessário o divórcio para desmanchá-la.
vs. 28-29 Maria turbou-se pela saudação do anjo Gabriel que a exaltou: “Salve, agraciada; o
Senhor é contigo” — significa “dou gratuitamente, outorgo graça a, cerco de favor divino, honro
com bênção”. Provém de sharis (graça). Maria não compreendeu a saudação, mas creu. Ela nada
pediu mas foi um vaso escolhido. Maria tinha conhecimento da palavra profética que dizia: “Eis
que uma virgem conceberá” (Is 7:14). Ela creu na palavra do anjo, o qual recordou a profecia de II
Sm 7:12-16. Maria recebeu essa visita angelical no sexto mês da gravidez de Isabel.
Maria recebeu graciosamente de Deus, o Criador e Doador de todas as coisas e de todas as
bênçãos, a graça de ser a mãe de Jesus — favor esse que nenhuma outra virgem poderá jamais
receber. Por isso, Maria, a virgem de Nazaré, é “bendita entre as mulheres”, conforme o anjo
proclamou.32
v. 34 “Como se fará isto, visto que não conheço varão?” Maria queria apenas saber o modo
pelo qual a mensagem se cumpriria. Sua pergunta difere da de Zacarias. Ela não compreendeu a
concepção impossível, humanamente falando, mas não descreu do cumprimento daquele anúncio.
30
Na realidade, somente quatro divisões voltaram do Exílio (Ed 2:36-39), mas as quatro eram subdivididas para refazer
as vinte e quatro, com os nomes antigos.
31
Leon L. Morris. Lucas: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 2000, p. 66.
32
Egidio Gioia, Notas e comentários à Harmonia dos Evangelhos. JUERP, 1981 (2ª ed.), p. 28.
40
v. 35 Filho de Deus – Não foi o nascimento virginal de Jesus que fez dEle o Filho de Deus.
Este foi o meio pelo qual o Filho pré-existente revelou Sua Deidade (cf. Jo 1:1, 14).

Estágios da experiência de Maria: a) temeu (Lc 1:29); b) ficou perplexa (v. 34); c) apossou-se
da graça divina; d) obedeceu resignadamente (v. 38).

O nascimento virginal: Acredita-se que Lucas obteve da própria Maria a história que ele
narra acerca do nascimento de Jesus. Mateus provavelmente obteve a sua da parte de José. Os dois
afirmam de modo claro, explícito, inconfundível e inequívoco que Jesus nasceu de uma virgem.
Desde o início, numa seqüência ininterrupta, assim tem sido a crença da Igreja — isto é, até o
surgimento da crítica moderna, que tenta desacreditar esse milagre de Deus. Repudiamos essa
última opinião.
“Se cremos na divindade de Jesus e na sua ressurreição dentre os mortos, qual seria a
vantagem de desacreditarmos no nascimento virginal? O plano divino da redenção requeria que
Jesus nascesse de uma virgem. Desde a Queda de Adão, toda a raça humana possui, desde o
nascimento, uma natureza pecaminosa que faz separação entre o homem e Deus. O homem mortal,
portanto, era incapaz de reconciliar com Deus a totalidade da raça humana. A redenção necessitava
de um homem de natureza piedosa, conforme o era Adão antes da Queda, a fim de pagar a
penalidade pelos pecados da humanidade. Era, portanto, necessário que Jesus nascesse de semente
divina e incorruptível. O Espírito Santo engravidou Maria com o Filho de Deus feito carne. Isso é
um símbolo ou tipificação de como o Espírito Santo habita no coração dos cristãos nascidos de
novo. Chamar Jesus de filho ilegítimo é blasfêmia!”33

Maria visita Isabel (Lc 1:39-45)


vs. 39-40 Uma noiva não podia expor-se a uma viagem como esta sem a companhia de um
membro da família. Maria, entretanto, perplexa com o anúncio do anjo, viaja quase quatro dias até a
região montanhosa da Judéia, a fim de verificar urgente e pessoalmente a gravidez de Isabel, sua
prima, e compartilhar com ela as experiências similares.
vs. 41-45 No momento em que Maria saudou seus parentes, a criança estremeceu no ventre de
Isabel. Movimentos de feto não são incomuns; mas, nesta ocasião, Isabel estava possuída do
Espírito Santo e, sob Sua inspiração, saúda Maria como sendo Bendita... entre as mulheres, que
quer dizer: “a mais bendita das mulheres”. Esse evento trouxe uma prova divina que contribuiu para
o fortalecimento da fé das duas. Em Israel, os anciãos eram muito respeitados. Portanto, o
testemunho de Isabel foi significativo para Maria.
v. 42 Isabel reconheceu em Maria a mãe do Messias.
A dúvida de Zacarias tirou-lhe a voz, enquanto que no coração de Isabel a fé genuína deu
origem a um cântico profético. Isabel, falando pelo Espírito, reconhece a glória que se liga à Maria
em virtude do favor de Deus, que a tinha eleito para ser a mãe do seu Senhor. Sob a influência dessa
mesma inspiração, reconhece a fé piedosa de Maria e anuncia-lhe o cumprimento da promessa que
Deus tinha feito. Assim, tudo que se passa é um glorioso testemunho prestado Àquele que devia
nascer em Israel e entre os homens.

O cântico de Maria — o Magnificat de Maria (vs. 46-56)


Baseado quase inteiramente no cântico de Ana (ver I Sm 2:1-10). “...Minha alma ...minhas
emoções se derramam em louvor; a minha mente e a minha vontade quebram-se no altar. Meu
espírito exulta em Deus meu Salvador... O que eu sou realmente, minha parte imortal te louva.” O
coração de Maria se derrama em ações de graça. Reconhece Deus, seu Salvador, na graça que a
enche de alegria. Maria reconhece esta graça, ao mesmo tempo em que tudo é graça para com ela.
Maria diz ser Deus Santo porque as obras dele são de um padrão moral perfeito. Ela realça a
misericórdia divina e enaltece a aliança de Deus com Israel. Maria deu graças pela bondade do
Senhor e pelo favor de que era objeto — ela criatura, de tão baixa condição social, em relação com
33
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 515.
41
as esperanças e a bênção de Israel. Maria é grande enquanto não é nada; mas sendo favorecida de
Deus de uma maneira sem par, todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Realça a santidade de
Deus, o padrão moral perfeito de Suas obras, e realça também a Sua misericórdia. “A graça do
Senhor tira a falta, mas a misericórdia tira a miséria.” (J. C. Hylle)
Note, ainda, o que Maria expressou acerca de si mesma e de seu povo, Israel, neste seu cântico
inspirado:
a) Que ela é uma humilde serva do Senhor (v. 48a).
b) Que, desde agora, todas as gerações chamá-la-iam bem-aventurada (v. 48b).
c) Que o Poderoso lhe fez grandes coisas (v. 49).
d) Que “a Sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem” (v. 50).
e) Que Deus é onipotente e justo (vs. 51-52).
f) Que Deus ampara os famintos e os enche de bens e que “auxiliou a Israel, seu servo,
lembrando-se de misericórdia para com Abraão e sua descendência para sempre” (vs. 53-
55).
Terminado o cântico, Lucas nos informa que a visita de Maria durou cerca de três meses, e,
depois, voltou para casa. Tudo indica que elas mantinham uma boa comunhão e que Isabel auxiliou
Maria no início da sua gravidez.
Nota: As mensagens pronunciadas por Isabel, Zacarias e Maria eram uma clara confirmação
das expectativas dos judeus de que um Filho de Davi apareceria literalmente, a fim de libertar seu
povo de seus inimigos e trazer grande bênção e salvação para Israel.

HERESIAS COM RELAÇÃO À MARIA (MARIOLATRIA)

1. Perpetuidade da virgindade de Maria 5. Objeto de adoração, pois não viu corrupção


2. Livre do pecado original (imaculada conceição) 6. Co-redentora com Jesus Cristo e rainha do céu
3. Esmagadora de cabeça da Serpente 7. Mãe de Deus
4. Foi assunta aos céus 8. Possuidora do dom ou virtude do Espírito Santo

O nascimento de João Batista e sua nomeação (Lc 1:57-66)


O nascimento foi de interesse generalizado entre os familiares e amigos da mãe, e muitos
vieram compartilhar da alegria dela. João nasce e este evento promove a cura de Zacarias; cumpre-
se Lc 1:14. E cumpre-se a palavra do anjo quando diz que muitos se regozijariam (v. 58).
A lei estipulava que um filho menino devia ser circuncidado no oitavo dia da sua vida (Gn
17:12; Lv 12:3). No caso das meninas, isto não acontecia, mas as Escrituras não afirmam que elas
ficavam fora da aliança de Deus com Abraão. Elas tinham o direito por causa do pai.

A questão do nome: João (“dádiva de Deus”). Cria-se que o nome devia ser apropriado ao
indivíduo de acordo com a posição social, circunstâncias do nascimento, tradição de família. A
alteração do nome era um problema sério para Israel.
Gundry resume: Por ocasião da cerimônia da circuncisão, quando os bebês recebiam seus
nomes, ao oitavo dia após o nascimento, amigos e parentes sugeriram que a criança recebesse o
mesmo nome de seu pai. Os próprios progenitores, entretanto, insistiam sobre o nome “João”, que
significa “O Senhor é gracioso”, nome mui apropriado devido à avançada idade de seus pais.34

O cântico de Zacarias (Lc 1:67-80)


A alegria de Zacarias transborda num cântico inspirado, conhecido como O Benedictus. As
palavras de Zacarias devem ser entendidas como resultado da vinda do Espírito Santo sobre ele. São
palavras de profecia, palavras que expressam a revelação de Deus. Pode ser dividido em quatro
estrofes:
vs. 68-70 Ações de graças pelo Messias. Deus visitou e redimiu.

34
Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova, 2001 (2ª ed., reimp.), p. 130.
42
vs. 71-75 A grande libertação, a fim de que o povo de Deus possa adorá-lo sem temor e servi-
lo em santidade e justiça.
vs. 76-77 A posição de João: preparar o caminho do Senhor, ser o precursor do Messias —
João chamaria os homens ao arrependimento e lhes contaria acerca dAquele que podia salvá-los.
vs. 78-79 A salvação vindoura, messiânica, através da entranhável misericórdia de Deus.

“o sol nascente das alturas” ou “a aurora lá do alto”: uma alusão a Malaquias 4:2, sendo esta
uma figura para descrever o despontar de uma nova era, um novo amanhecer, o raiar do dia. Cristo,
em II Pe 1:19, é chamado “Luzeiro da Manhã” (Estrela da Alva).
Champlin:35 Este versículo ensina-nos que o ministério do Messias nos traz uma nova aurora,
um novo dia, e que esse dia vai brilhando a partir da luz da presença do Deus Altíssimo. É o dia de
Deus, a sua nova manhã, a sua nova brilhante revelação. Tudo isso é a expressão da grande
misericórdia de Deus, que deseja que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da
verdade. O quadro é de uma grande, bela e brilhante aurora, sobre um mundo enegrecido pela mais
escura das noites, a noite da morte espiritual. A noite caracteriza este mundo. A grande aurora
caracteriza a intervenção de Deus na história humana, por intermédio de Cristo. A expressão está
baseada na maneira de falar do V.T., como também se dá com a totalidade do cântico de Zacarias, e
conforme vemos paralelos nas expressões de Isaías 60:1: “...a glória do Senhor nasce sobre ti”, ou
de Malaquias 4:2: “...nascerá o sol da justiça”.

35
Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado (vol. II), p. 74.
43
B. OS PRIMEIROS ANOS DE JESUS CRISTO

Mateus Marcos Lucas João


O nascimento de Jesus explicado a José 1:18-25
O nascimento de Jesus 2:1-7
O louvor dos anjos e o testemunho dos pastores 2:8-20
A circuncisão de Jesus 2:21
Jesus apresentado no Templo; Simeão e Ana 2:22-38
A visita dos magos 2:1-12
A fuga para o Egito; assassinato dos meninos em Belém 2:13-18
A volta a Nazaré 2:19-23 2:39
O crescimento e juventude de Jesus 2:40
A primeira Páscoa de Jesus em Jerusalém 2:41-50
Jesus chega à idade adulta 2:51-52

O nascimento de Jesus é anunciado a José (Mt 1:18-25)


Como José soube da gravidez? Deus fala a José por uma linguagem comum no VT: os sonhos.
José creu na fidelidade da mensagem, a qual trazia a profecia de Is 7:14. Tal qual Maria, José
submeteu-se à vontade de Deus.
v. 19 A palavra “justo” não está no sentido absoluto, sem pecado. Para os judeus, justo era
aquele que zelava pela observância dos mandamentos da lei de Deus. O sentido da palavra justo no
grego é “inocente”. No texto de Mateus a palavra está indicando que José era inocente quanto à
gravidez, isto é, não houve a participação dele.
v. 20 “José, filho de Davi” Essa é a forma hebraica para expressar “descendente de Davi”.
Isso faria com que José recordasse sua linhagem e as profecias relacionadas a ela (Gn 49:8-12; II
Sm 7-16). Essa expressão denota o direito que José possuía de criar o Messias.
v. 24 As dúvidas de José cederam lugar à confiança após a intervenção divina.
v. 25 José recebeu o direito de dar nome ao filho, como todo pai.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. A mensagem que vem de Deus não deixa dúvidas em quem a recebe. 2.
Receberemos soluções do Céu se buscarmos a direção do Céu.

A questão do noivado, segundo a lei judaica


a) O noivado em Israel era válido como um casamento e o pai do noivo participava ativamente da escolha da noiva. Os
rabinos aconselhavam a família a respeito da companheira conveniente;
b) Nas outras tribos judaicas, após o noivado poderia haver a consumação do casamento se assim quisessem. Porém,
na tribo de Davi o costume era diferente, eles aguardavam as bodas (conforme Dt 22:23-24). A noiva que adulterasse
morreria apedrejada e se o noivo não cumprisse o costume da tribo teria que pagar um dote aos pais da noiva e
assumir a culpa;
c) No caso de adultério da moça, o rapaz poderia perdoar e dar-lhe carta de divórcio. José não relacionou
conjugalmente com Maria até que Jesus nasceu (Mt 1:18). Não sabemos quanto tempo José gastou projetando deixar
Maria. Sendo ele piedoso, fiel e justo, procurou agir de maneira não constrangedora.

O nascimento de Jesus (Lc 2:1-7)


O Messias seria da família de Davi e nasceria em Belém (Mq 5:2-5). Porém, os que foram
escolhidos para ser pais do Messias moravam a 160 km de Belém. Então um decreto de Roma
exigiu que fossem a Belém justamente quando o menino estava para nascer. Dessa maneira, Deus
faz do decreto de um império pagão o instrumento para que se cumprissem as profecias divinas.
Cada homem deveria se dirigir ao local onde estivesse o registro de sua família paterna. Mais
uma prova da descendência davídica de Jesus (Lc 2:4).
Nota histórica: O recenseamento romano consistia essencialmente de duas partes: 1.
Declaração dos nomes das pessoas, sua ocupação, esposa, filhos, servos e propriedades. 2.

44
Declaração do valor de suas propriedades, do dinheiro e outros recursos com que esperavam
contribuir para a manutenção do governo, o fornecimento de homens (para o exército) e dinheiro.
“Entre aqueles a quem o edito de Augusto atingia, de pontos longínquos, havia dois humildes
habitantes de Nazaré da Galiléia — José, o carpinteiro da aldeia, e Maria, sua esposa. Tinham de
empreender uma jornada de perto de cem milhas, a fim de se inscreverem no aludido registro, pois,
apesar de camponeses, corria-lhes nas veias o sangue de reis, visto pertencerem à antiga e real
cidade de Belém, situada no extremo sul do país. A vontade do imperador obrigava-os, qual mão
invisível, a percorrer dia a dia o tedioso caminho, até que subiram finalmente a ladeira que conduzia
à porta da cidade, ele presa de grande ansiedade e ela quase desfalecida de cansaço. Chegaram à
estalagem, mas acharam-na cheia de gente, que, havendo empreendido viagem pelo mesmo motivo,
chegara primeiro do que eles. Sem contar com uma pessoa amiga que os recolhesse em sua casa,
deram-se por satisfeitos com um canto do pátio da hospedaria, que era destinado aos animais dos
numerosos viandantes. Ali, naquela mesma noite, deu ela à luz seu Filho primogênito, e, porque lhe
faltasse a mão de uma mulher que a assistisse, e um berço onde deitasse o recém-nascido, envolveu-
o em faixas e depô-lo numa manjedoura.”36

v. 7 Diz a tradição que Jesus nasceu numa caverna; nesta região existiam cavernas de pedras
calcárias que serviam de celeiro ou estábulo onde o gado era abrigado. Manjedoura: Tabuleiro de
madeira ou de pedra em que se põe comida para os animais nas estrebarias (Is 1:3; Lc 2:7),
celereiros ou estábulos. No interior do Brasil é chamada de cocho. “Muitas hospedarias (ou
estalagens) tinham estrebarias em lugar separado da casa; foi num lugar como este que a virgem
Maria deu à luz o seu filho Jesus.” Estrebaria (ou estábulo): Construção onde animais são abrigados
e alimentados (II Cr 32:28).
José participou do parto de Maria contrariando a cultura judaica. Certamente outras pessoas
dividiam com eles esta caverna ou esta estrebaria. Jesus nasceu sem assepsia, sem privacidade, um
lugar aberto ao povo, o que evidencia o caráter de sua missão.

BELÉM 37
A cidade está localizada quase 10 km ao sul de Jerusalém. Belém era chamada Efrata nos dias de Jacó, e foi ali
que ele sepultou Raquel (Gn 35:16,19; 48:7). Era a cidade natal de Ibsã, o décimo juiz (Jz 12:8-10); de Elimeleque, o
sogro de Rute (Rt 1:1-2), bem como de Boaz, marido desta (Rt 2:1, 4). Davi foi ungido rei por Samuel em Belém (I Sm
16:13, 18) e foi por isso que Belém também era conhecida por “a cidade de Davi” (Lc 2:4, 11).
Nessa cidade, nasceu o Messias (Mt 2:1; Lc 2:1-7) e foi por isso que ela, “pequena entre os clãs de Judá” (Mq 5:2),
alcançou grande fama. Seus meninos de dois anos para baixo foram assassinados quando Herodes tentou matar o Rei
dos judeus (Mt 2:16). Hoje, a cidade tem como maior atração a Igreja da Natividade, essencialmente uma estrutura
construída pelo imperador bizantino Justiniano na primeira parte do século VI sobre uma igreja mais antiga construída
no reinado do primeiro imperador cristão, Constantino, e dedicada em maio de 339 d.C. Sob o altar dessa igreja há uma
gruta que, segundo a tradição local, é a caverna onde nasceu Jesus. Numa câmara subterrânea próxima, Jerônimo, o
latinista, trabalhou 30 anos na tradução da Bíblia para o latim.

Os anjos e os pastores (Lc 2:8-20)


É provável que Jesus era uma das expectativas desses pastores. Neste verso temos mais uma
prova que o nascimento de Jesus ocorreu na primavera dos hebreus. Há uma nota no Misnah
(Código de Leis Cerimoniais dos judeus) indicando que as ovelhas para o sacrifício eram levadas a
pastar nos campos que circundavam Belém. Tudo indica que estes pastores exerciam a tarefa de
pastorear as ovelhas do sacrifício. Geralmente os pastores eram desconsiderados pelos rabinos por
exercer um trabalho que os impedia de cumprir compromissos religiosos, por exemplo, a guarda do
sábado. Possivelmente os pastores aguardavam a vinda do Messias.
“sinal de fácil distinção” A caverna era muito conhecida por servir de abrigo para viajantes.

36
James Stalker, A Vida de Cristo. Imprensa Batista Regular, 1985, p. 7-8.
37

Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 516.


45
v. 14 Os anjos estão dizendo que Deus trará paz “para os homens sobre os quais repousa Seu
favor”. Significa a paz entre Deus e os homens, a cura da alienação causada pela maldade humana.
A adoração a Deus traz paz aos homens.
vs. 15-18 A atitude dos pastores. Largaram tudo para ir ao encontro de Jesus: fé e adoração
imediatas. Voltaram cheios de louvor a Deus pela notícia que tinham ouvido e por sua confirmação
pessoal.

Em que data Jesus nasceu?


Início da primavera, no último mês do calendário hebraico, mês de Adar (março/abril) a cidade estava
superlotada e Jesus nasceu em meio a publicidade.
O Natal, conforme o conhecemos, é uma invenção um tanto moderna. O dia natalício de Cristo não foi celebrado
senão depois de decorridos mais de 300 anos, durante cujo período se perderam os registros exatos de nascimentos
(se houvesse tais registros). Ninguém na igreja primitiva possuía informações confiáveis sobre o mês e dia do
nascimento de Jesus. A igreja primitiva lembrava-se da ressurreição de Cristo dentre os mortos e a celebrava, que era
mais importante; mas a igreja demorou para acrescentar o Natal ao rol das datas dignas de reconhecimento.
Uma festa pagã, Natalis Invicti, era uma turbulenta ocorrência celebrada no dia 25 de dezembro, quando o sol
entrava no solstício de inverno. Os adoradores do deus sol romano, cheios de entusiasmo arrastavam seus amigos
cristãos para a festividade. Em 386 d.C., os dirigentes da igreja estabeleceram a celebração da “Missa de Cristo”
(“Vinda de Cristo”), de sorte que os cristãos pudessem participar das atividades festivas sem curvar-se ao paganismo.38
Depois de dissolvido o Império Romano, os cristãos continuaram o costume de comemorar o natalício de Cristo
em 25 de dezembro.

O menino Jesus (Lc 2:21-40)


a) A circuncisão (v. 21). Era este o sinal da aliança de Deus com Abraão (Gn 17:9-14; cujo
preceito foi renovado a Moisés, Lv 12:3); consistia na remoção do prepúcio (pele que cobre a
glande do pênis). Deveria ser realizada no oitavo dia após o nascimento. Jesus foi circuncidado na
sinagoga de Belém, tornando-se filho da lei — nasceu “sob a lei, para resgatar os que estavam sob
a lei” (Gl 4:4-5).

b) A apresentação no Templo (vs. 22-24). A lei levítica estipulava que, após o parto, a mãe
ficaria impura durante os sete dias até a circuncisão do menino, e que, por mais trinta e três dias,
devia manter-se afastada de todas as coisas sagradas (para uma filha, o tempo era dobrado). Na
ocasião de sua purificação, devia sacrificar um cordeiro e uma pomba ou rola. Se fosse família
muito pobre, bastaria oferecer uma segunda pomba ou rola (Lv 12:1-13). A oferta de Maria,
portanto, foi a dos pobres.
Provavelmente, José e Maria ficaram em Belém para cumprir os dias da purificação, de
acordo com a lei mosaica (Lc 2:22), o que teria sido um período aproximado de 40 dias.

c) O cântico de Simeão (vs. 25-32). A presença de Simeão no Templo na hora da apresentação


de Jesus, bem como sua profecia não dão margem para afirmar que era ele um sacerdote. O que o
texto nos informa é que era homem justo, temente a Deus, tinha o Espírito Santo e aguardava a
consolação de Israel. Simeão promove firmeza para a fé do humilde casal.
Simeão apresenta uma unção especial do Espírito revelada na profecia mencionada sobre a
grandeza universal do Salvador. É um cântico missionário, que realça a glória de Israel e o alcance
dos gentios. “Gentios” deriva-se da raiz grega etho = estar acostumado; designa os povos
interligados por hábitos e costumes similares.

d) A profecia de Simeão (vs. 33-35). Reafirmação da profecia de Isaías 8:14-15. A espada


que traspassará a alma de Maria refere-se à dor que ela sentiria pela morte do filho. Cremos que
José falecera antes do ministério público de Jesus. Maria, então, acompanhou todo o sofrimento de

38
O Mundo do Novo Testamento, Editora Vida, 2001 (7ª imp.), p. 106.

46
Jesus. O v. 34 remete-nos ao seguinte provérbio: “O sol que endurece o barro é o mesmo que
amolece a cera”. Que tipo de material eu sou?

e) As ações de graças de Ana (vs. 36-38). “Estava também ali presente uma venerável anciã,
crente fiel e profetisa do Altíssimo, Ana. Sua maior alegria era viver no templo, em comunhão com
Deus, em oração. Ouvindo as palavras inspiradas de Simeão, profundamente emocionada e plena de
gozo espiritual e inspirada também pelo Espírito Santo, rende a Deus ações de graças e louvor pela
dádiva de seu Filho à humanidade perdida e pela redenção de Jerusalém, a redenção do povo
escolhido.”39 Ana e pertencia à tribo de Aser, cujo território ficava na região da Galiléia. Deus
permitiu que o remanescente fiel da Galiléia testificasse a vinda do Messias.

Magos do Oriente visitam o menino (Mt 2:1-12)


Reconhecimento por representantes não-judeus acerca de Jesus como sendo o “Rei dos Judeus”.
Magos Plavra de origem persa; presente contexto significa “astrólogos”. Pode ser que esses
magos pertenciam a uma ordem de sacerdotes e filósofos que existia desde a Antigüidade — é
possível que os de Daniel (1:20) pertencessem a mesma ordem. Eram conselheiros das cortes reais;
um dos seus deveres era estudar as estrelas a fim de antecipar o nascimento de qualquer novo
governante. “vindos do Oriente” Segundo os eruditos pode significar Arábia, Pérsia, Caldéia, Pártia
ou outros lugares próximos.
Quanto ao número dos magos: A Bíblia não diz quantos magos eram, alguns crêem que foram
12 por causa das 12 tribos, outros 7 por causa da perfeição, e outros acreditam ser três pelo fato de
que houve três presentes. Desde o século VI, a Igreja ocidental estabeleceu três magos referindo-se
à Trindade ou as três raças principais: branca, preta e parda. Cristãos do séc. XII deram-lhes os
nomes de Gaspar, Melquior e Baltasar.

Interpretações e argumentos sobre a natureza dessa estrela:


1. Uma rara conjunção de Saturno e Júpiter.
2. Um fenômeno divino dado só aos magos, pois ninguém, além deles, podia vê-la.
3. Um tipo de astro especialmente preparado por Deus, para guiar os magos.
4. Um cometa.

vs. 3-4 Os magos conheciam as profecias sobre o Messias; Herodes perturbou-se porque
também as conhecia, mas jamais admitiria a presença de um rei rival seu entre os judeus. Herodes
tinha receio de perder o trono. “e com ele toda a Judéia” Os judeus estavam na expectativa da
chegada do Messias esperado pela nação; entretanto, temiam o que Herodes poderia fazer contra
eles num momento de fúria.
vs. 4-5 Herodes indaga ao grupo de autoridades judaicas e possíveis membros do Sinédrio
onde havia de nascer o Cristo. Responderam-lhe citando Miquéias 5:2. A seriedade com que
Herodes encarou os problemas que o menino lhe poderia causar se reflete nos métodos que adotou
para livrar-se dele. Os questionamentos de Herodes para com os magos têm um teor hipócrita e sua
atitude de indagar o tempo exato em que haviam visto a estrela pela primeira vez revela sua má
intenção quanto à matança das crianças relatada no verso 16.
vs. 9-11 Retornaram, então, diretamente à sua terra, tendo sido providencialmente notificados
para que não retornassem à presença de Herodes. A duração da viagem dos magos foi de 4 a 5
meses. Lucas não faz referência sobre os magos nem sobre a fuga para o Egito.
vs. 11-12 Os presentes: As visitas aos soberanos usualmente eram acompanhadas da oferta de
dádivas. Os presentes dos magos têm sido interpretados de vários modos. Veja no quadro a seguir:
OURO INCENSO MIRRA
CARACTERÍSTICAS Metal de grande valor, Resina de certas árvores; substância Resina de certos arbustos,
conhecido acre, odorífera; era fonte de riqueza usada como perfume, para
universalmente. para os negociantes do passado. untar (Ez 30:32-33), bem como
Às vezes era mencionada como ungüento usado nos
39
Egidio Gioia, Notas e comentários à Harmonia dos Evangelhos. JUERP, 1981 (2ª ed.), p. 38.
47
símbolo de fervor religioso (Ml 1:11). sepultamentos.
INTERPRETAÇÕES 1. ouro para sua humanidade. 1. incenso para sua divindade. 1. mirra para indicar seus
E SÍMBOLOS 2. ouro por ser ele rei; para 2. incenso por ser ele Deus. sofrimentos e morte.
indicar a realeza. 2. mirra por ser ele mortal.

48
APÊNDICE 1
O NASCIMENTO VIRGINAL40

O anjo Gabriel declarou que "para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas" (Lc
1:37). Fazer os idosos Zacarias e Isabel conceber foi tão fácil para Deus como fazer Maria de Nazaré
conceber um filho sem pai humano. "Nascimento virginal" é a expressão teológica para a geração, pelo
poder do Espírito Santo, do menino Jesus por Maria, que era virgem. Lucas, que coletou testemunhos
oculares apurados com cuidado (1:1-4), incluiu vários detalhes que confirmam a gravidez de Maria sem que
o pai fosse humano:
1) Maria é descrita como virgem (parthenos), noiva de um homem de nome José (1:27).
2) Maria disse que não podia engravidar porque "não tenho relação com homem algum" (1:34).
3) O anjo disse que a gravidez aconteceria quando o Espírito Santo viesse sobre Maria e "o poder do
Altíssimo" a envolvesse "com a sua sombra" (1:35).
4) Jesus é descrito, "como se cuidava, filho de José" (3:23). Mateus acrescenta a isso:
5) José, quando descobriu que sua noiva Maria estava grávida, quis romper o noivado (1:18-19).
6) O nascimento virginal é o cumprimento de Isaías 7:14 (Mt 1:22-23).
7) José não teve relações sexuais com Maria antes do nascimento de Jesus (1:25).
8) O restante do Novo Testamento tem diversas alusões possíveis ao nascimento virginal. Os
inimigos de Jesus perguntaram sobre seu pai (Jo 8:19, 41). Alguns dos vizinhos de Jesus de Nazaré o
chamaram "o filho de Maria" (Mc 6:3). Paulo disse que ele era "nascido de mulher" (Gl 4:4) e é o "homem
celestial" (I Co 15:45, 48).
Via de regra, parthemos se refere a uma mulher jovem que ainda não se casou e, portanto, não teve
relações sexuais. Por exemplo, as quatro filhas de Filipe são chamadas parthenos (At 21:9). O termo
também se aplicava a homens jovens solteiros, que não haviam mantido relações sexuais. Paulo contrasta
a pessoa virgem com a pessoa casada (I Co 7:25-28), e os 144.000 em Apocalipse 14:4 são homens
virgens.
Mateus referiu-se à gravidez de Maria e ao nascimento de Jesus como cumprimento de Isaías 7:14.
quando o rei Acaz, de Judá, se recusou a pedir um sinal de Deus, este lhe deu o sinal assim mesmo: "A
virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel". Antes que essa criança atingisse a idade
da responsabilidade (doze anos?), a terra dos dois reis que ameaçavam Acaz ficaria deserta (Is 7:16).
Isaías e sua esposa, a profetisa, logo depois tiveram um filho a quem chamaram Maher-Shalal-Hash-
Baz (Rápido-Despojo-Presa-Segura), como sinal de que em breve Damasco e Samaria seriam
conquistadas pelos assírios (Is 8:1, 4, 18). As duas cidades caíram no período de treze anos depois da
profecia (732 e 722 a.C.). Assim, a profecia em Isaías tem pelo menos dois cumprimentos: um no filho dele
e outro em Jesus. Isaías talvez tenha esperado um cumprimento mais perfeito no futuro, já que ele e sua
esposa não chamaram seu filho "Emanuel", apesar de "Deus" ter estado "com eles" para proteger Judá dos
seus adversários.
O nascimento virginal do filho de Maria tornou-se cedo um ponto importante da doutrina cristã,
porque garantia que Jesus era realmente "santo", "filho de Deus" (Lc 1:35). Por ter mãe humana, Jesus era
plenamente humano. Gerado pelo Espírito Santo, Jesus era plenamente Deus. Por isso, Jesus podia ser o
intermediário perfeito entre Deus e a humanidade e o representante desta (Hb 2:17; 4:15; 7:26-28).
Inácio, bispo de Antioquia que viveu no primeiro século d.C., mencionou o nascimento virginal pelo
menos cinco vezes em suas oito cartas que foram preservadas. Por exemplo, aos cristãos de Esmirna ele
escreveu: O Senhor Jesus Cristo "é verdadeiramente da família de Davi segundo a carne, Filho de Deus
pela vontade e poder de Deus, realmente nascido de uma virgem" (1:1; ver também Aos efésios 7:2; 18:2;
19:1).
Justino Mártir, que viveu no segundo século d.C., explicou em sua Primeira apologia que Jesus "foi
gerado por Deus como a Palavra de Deus de maneira singular além do nascimento comum" (22). "Porque
'a virgem conceberá' significa que ela daria à luz sem ter tido relações sexuais. (...) O poder de Deus (...) a
fez conceber, enquanto era ela ainda virgem" (33). O Novo Testamento não apresenta o nascimento virginal
de Jesus como um fato estranho mas simplesmente como cumprimento de uma promessa que o Deus
Todo-poderoso fez a uma mulher hebréia pobre e devota. Do mesmo modo que a glória shekinah encheu o
tabernáculo e assim como uma águia abriga seus filhotes sob suas asas (Êx 19:4; 40:35; Sl 91:4), o Espírito
de Deus a cobriu "com sua sombra" (episkiadzo) e Maria concebeu (Lc 1:35). Apesar de um judeu
considerar "a mais hedionda impiedade" a possibilidade de "Deus tornar-se humano" ou de "um ser humano
tornar-se Deus" (Filo, Embaixada a Gaio XVI), Maria creu (mesmo sem talvez entender plenamente),
porque assentiu que "para Deus não há impossíveis em todas as suas promessas".

40
Manual Bíblico Vida Nova. Edições Vida Nova, 2001, p. 626-627.
49
C. INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA DE JESUS

Fuga ao Egito; os meninos de Belém mortos por Herodes (Mt 2:13-18)


Nesse episódio, a providência divina e a obediência humana caminham juntas.
O Egito incluía a Península do Sinai, que era próxima de Belém. Estariam fora do poder de
Herodes, e muitos judeus moravam no Egito naquela época (I Rs 11:40). Permaneceram no Egito
até a morte de Herodes, o Grande.
v. 15 “A citação descritiva de Oséias (11:1) no verso 15 “Do Egito chamei o meu Filho”
parece ter a intenção de sugerir ao leitor que o Messias, que é a personificação do verdadeiro Israel,
repetiu em sua própria vida a experiência do Israel antigo; e também que ele era um segundo
Moisés, maior que o primeiro. Sua suprema obra de salvação tinha como modelo o poderoso ato de
salvação realizado por Deus através de Moisés a favor do povo escolhido.”41
A matança dos infantes. As criancinhas mortas eram não só de Belém, mas também das
aldeias vizinhas, pois Herodes quis ter a certeza de que o filho de Maria não escaparia.
Estando Raquel na posição de mãe de Israel, simboliza o lamento pelo cativeiro de Israel (Jr
31:15) e pelo massacre dos infantes de Israel. Ramá (atualmente Er-Ran) ficava a 8 Km de
Jerusalém, onde o povo fora reunido para ser deportado para a Babilônia.

A volta do Egito para Nazaré (Lc 2:39; Mt 2:19-23)


A morte de Herodes: A notícia da morte de Herodes propagou-se por todo mundo da época. A
tradição diz ter ele morrido louco. Champlin afirma: “Herodes morreu de hidropsia, gangrena e uma
enfermidade aviltante, em Jericó, com a idade de 70 anos. Poucos dias antes tentara o suicídio, e
apenas cinco dias antes de sua própria morte ordenara a execução de Antípatre, seu filho.”42
A morte de Herodes, o Grande, resultou na divisão de seu reino em quatro partes: duas
ficaram para Arquelau, incluindo as terras da Judéia, Samaria e Iduméia (Edom). Antipas recebeu a
Galiléia e a Peréia. Filipe recebeu Betanéia, Traconites e Auranites. Esses eram chamados
“tetrarcas”, que significa “governadores de uma quarta parte”.
José foi divinamente orientando para que se retirasse para a Galiléia, longe do domínio de
Arquelau. E ele foi habitar em Nazaré. José exerceu o papel de guardador da criança, como
acontecia no lar dos hebreus.
Nota: “Ele será chamado Nazareno” Essa expressão não é citação direta do AT, mas vem de
textos como Is 11:1, que tem a palavra ramo (da qual vem o termo “Nazaré”), referindo-se ao
Messias. Outras profecias sem a palavra exata, mas que expressam a mesma idéia, provavelmente
formaram a base dessa “citação” (ver Jr 23:5; 33:15; Zc 3:8 e 6:12).
Assim, o evangelista quer mostrar que Jesus pertencia à família de Jessé, que era o “Renovo”
de Davi, e que o lugar onde morou em criança e onde deu início ao seu ministério fora escolhido
por Deus, apesar das diversas circunstâncias que poderiam ter servido de obstáculo.
“Jesus de Nazaré”: tal designação foi no início um termo de escárnio e desprezo (ver Jo 1:46).
Isaías já tinha profetizado que o Servo do Senhor seria desprezado pelos homens. Parte do
“cumprimento”, portanto, está no desprezo por Jesus demonstrado pelas autoridades religiosas de
Israel quanto a essa origem provincial.
Nota: “avisado em sonho por divina revelação” Houve quatro visitas angelicais a José (Mt
1:20; 2:12; 2:19 e 2:22).

LIÇÃO PARA HOJE: As circunstâncias estavam fora do controle de José, mas não das mãos de Deus.

A infância de Jesus (Lc 2:40)


“enchendo-se de sabedoria” Essa expressão no original revela uma aprendizagem
progressiva. Como toda mente humana, a de Jesus seguiu de um processo gradual e contínuo. Seu

41
R. V. G. Tasker, Mateus: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1980, p. 33.
42
R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado (vol. I), p. 282.
50
desenvolvimento físico, intelectual e espiritual não foi resultado de um milagre. Quanto a sua vida
espiritual, como menino, teve de aprender a orar, a confiar e a depender da graça de Deus que sobre
ele estava. Seu crescimento, pois, foi normal, equilibrado, completo, diante de Deus e dos homens.
Jesus compartilhou de nossa natureza e de nossa existência, a fim de que pudéssemos compartilhar
de sua natureza e de sua vida celestial (Hb 2:18—4:15).
Jesus aprendeu a escrever como toda criança judaica. Quase todos os comentadores
reconhecem que Jesus aprendeu três línguas: falava hebraico na escola, aramaico nas conversas
diárias 43 e, posteriormente o grego.
A Bíblia diz pouca coisa a respeito da infância de Jesus: em primeiro lugar, uns poucos meses
como bebê em Belém, em seguida, um ou dois anos no Egito, e depois o regresso a Nazaré. O único
evento mencionado em todo o período entre o regresso a Nazaré e o início do seu ministério público
quase 30 anos depois é o incidente no templo quando Jesus tinha doze anos, que indica que ele era
um menino notavelmente precoce.
As poucas outras coisas que sabemos da vida de Jesus em família, encontramos em outras
partes dos evangelhos. Jesus era o mais velho de uma família de sete filhos. Viviam dos proventos
de carpinteiro, que sustentava as despesas em casa, com um rendimento familiar provavelmente
considerado médio. É provável que Jesus, junto com as outras crianças da família, tenha aprendido
desde cedo a responsabilidade.

NAZARÉ 44
Nazaré está situada numa depressão no lado sul de uma colina, 350 m acima do nível do mar. Do cume dessa
colina, após dez minutos de escalada, obtemos uma vista que não tem igual em toda a Galiléia. Ao norte, há uma linda
visão de colinas e vales férteis, com cidades prósperas espalhadas pela região, e do monte Hermom, com seu pico
coberto de neve, à distância. Mais perto, a 5 km de distância, estava Gate-Héfer, antiga moradia do profeta Jonas. Ao
sul, fica a planície de Esdrelom (vale de Jezreel), que se estende desde o Jordão até o Mediterrâneo. Dezesseis
quilômetros a oeste de Nazaré surge plenamente visível o monte Carmelo, onde Elias invocou fogo do céu ao enfrentar
Baal (I Rs 18:16-46).
A sudoeste, aproximadamente à mesma distância, está o desfiladeiro do Armagedom, que é citado em
Apocalipse 16:16 como o local da grandiosa batalha final das eras, na qual o próprio Jesus levará os seus à vitória.
Treze quilômetros ao sul de Nazaré fica Suném, onde Eliseu ressuscitou o filho da viúva sunamita (II Rs 4:8-37).
Nas vizinhanças, está o rio Quisom, onde Débora e Baraque subjugaram os cananeus (Jz 4); a fonte de Harode, onde
Gideão, com 300 homens, desbaratou os midianitas (Jz 7); En-Dor, onde a feiticeira invocou o espírito de Samuel a
pedido de Saul (I Sm 28:1-24); o monte Gilboa, onde o rei Saul se suicidou (I Sm 31:1-6); e Jezreel, onde a infame
Jezabel encontrou o seu trágico fim (II Rs 9:30-37).
Jesus foi criado na pequena aldeia de Nazaré, apenas 5 km ao sul da capital, Séforis. Embora a própria Nazaré
fosse pequena e insignificante, seus habitantes provavelmente tinham numerosos contatos com seus vizinhos, mais
cosmopolitas. Com toda a probabilidade, entraram em contato com algumas das caravanas e com comerciantes gentios
de língua grega que passavam por Séforis ao norte ou pelo vale de Esdrelom ao sul. Escavações nas proximidades da
atual Igreja da Anunciação em Nazaré revelaram algumas ruínas de silos, prensas de azeite, armazéns e casas do
século I.

Jesus aos doze anos de idade, visita Jerusalém e é achado entre os doutores da lei (Lc 2:41-50)
Esta festa da Páscoa comemorava a libertação de Israel do Egito (Êx 12:1-20). Ocorria na
primavera, anualmente, e sua celebração, que incluía a festa dos pães asmos, durava oito dias. Nessa
época, Jerusalém abrigava cerca de 120.000 habitantes.
v. 41 Todos os judeus homens tinham a obrigação de freqüentar o Templo pelo menos uma vez
no ano, a fim de participar de uma das três festas: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculo (Êx 23:14-17).
Era o costume de José e Maria subir a Jerusalém na Páscoa.
vs. 42-45 A Mishna estipula que o menino deveria ser levado ao Templo um ou dois anos

43
Qualquer bom judeu falava o aramaico, estudava o AT no hebraico e conhecia a Septuaginta, em grego, que é também
muito citada, até pelos autores do NT, inclusive Pedro, Marcos e João, além de outros que não tinham instrução formal
avançada.
44
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 519.
51
antes de completar 13 anos de vida, de modo que pudesse ser preparado. Talvez fosse essa a
circunstância vivida por Jesus no momento.
Jesus estava com 12 anos de idade. Acredita-se que essa tinha sido sua primeira viagem a
Jerusalém. Ele ficou tão interessado e absorto com as palavras dos mestres que durante três dias não
notou a falta dos pais depois de terem partido. E eles, por sua vez, durante um dia inteiro não
notaram que Jesus não estava presente no grupo com que viajavam — só sentiram sua falta quando
estavam para pernoitar. Por certo, o grupo deve ter sido bastante grande, estendendo-se por boa
distância ao longo da estrada. Os pais estavam certos de que o filho, de modo um pouco
independente, estava em algum lugar entre os viajantes e tinha capacidade para cuidar de si mesmo
durante o dia. Além disso, naqueles dias, os amigos e vizinhos eram quase uma família ampliada —
eles não o perderiam de vista.
v. 44 As viagens eram feitas em caravanas; as mulheres iriam na frente com as crianças
pequenas, enquanto os homens seguiriam com os meninos maiores. É possível que tanto José como
Maria pensassem que Jesus estava com o outro. Quando pararam para dormir, Jesus foi dado em
falta. Depois de um dia de jornada e outro mais de volta, Ele foi encontrado no terceiro dia em um
dos pátios do Templo onde havia passado cada um daqueles dias em sua ansiedade de aprender com
os doutores da lei, os quais estavam acostumados a dar instrução em público durante as festas.
“passados três dias” Não significa que passaram todo este tempo procurando em Jerusalém.
Pode ser que três dias foram computados desde o momento em que os pais deram por falta do
menino. Isso porque Jerusalém não era uma cidade muito grande, e Jesus não estava escondido, mas
sim, em lugar de destaque, no recinto do Templo, no lugar comumente usado para o ensino.
v. 47 O conhecimento que Jesus tinha do AT. Naquele tempo, O AT constituía a Palavra de
Deus escrita.45 Jesus o amava. Sua familiaridade com ele, já aos 12 anos de idade, deixou atônitos
os grandes teólogos do Templo. Ele vivia pela Palavra de Deus. Posteriormente, empregou-a para
resistir ao tentador (Mt 4:4,7,10). Foi até a cruz a fim de cumprir o AT (Mt 26:54). Na sua agonia
mortal, citou-o ainda (Mt 27:46).
v. 49 Na casa de meu Pai, literalmente, “nas coisas de meu Pai” ou nos assuntos do Pai. Os
judeus só usavam o termo Pai acrescentando a expressão “DO CÉU”, ou então no plural “NOSSO
PAI”. Com a expressão “na casa de meu Pai” Jesus estava indicando que possuía um
relacionamento estreito (sem igual) com o Pai. “Essas palavras deixaram a mãe de Jesus um tanto
perplexa, mas tudo havia sido predito pelo anjo (Lc 1:35). É provável que ela ainda não lhe tivesse
contado a respeito da natureza do seu nascimento. Ela acabara de falar em José como o pai de Jesus
(v. 48). A resposta deste, incluindo sua referência a Deus como “meu Pai”, possivelmente deu a ela
um indício de que ele conhecia o segredo.”46
v. 50 Aqui está revelada a vida íntima de uma criança que não tinha vontade própria. Suas
palavras não subentendem uma consciência de sua própria natureza divina, mas sim a consciência
de uma natureza humana não decaída. Isso se dá em conta seus pais não terem compreendido o que
queria dizer.
Nota: Esta é a última referência que Lucas faz a José.

JESUS AINDA EM NAZARÉ, DOS DOZE AOS TRINTA ANOS DE IDADE (Lc 2:51-52)
v. 52 Correlaciona com Lc 2:40; dezoito anos da vida de Jesus resumem-se neste verso.
Segundo a tradição, ele aprendera o ofício do pai: carpinteiro. Como homem autêntico, Jesus
aprendeu e amadureceu. É provável que José tivesse falecido nesse período, ficando Jesus
responsável por sua família, sendo ele primogênito. Curiosidade: Justino Mártir (250 d.C.) afirma

45
Aos escritos do AT foi acrescentado outro grupo de escritos, o NT, que gira em torno da vida do próprio Jesus. Se a
parte da nossa Bíblia que Jesus já possuía era tão preciosa para Ele, é de se imaginar que o que nós possuímos — os
dois Testamentos — deve ser preciosíssimo para nós.
46
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 520.
52
que objetos de madeira feitos por Jesus eram muito procurados naquela época, diz ainda que sua
especialidade era confeccionar cangas e arado.

A educação de Jesus
Podemos apenas esboçar as condições estruturais gerais em que Jesus adquiriu seus
conhecimentos:
1. Uma instituição educacional de significado decisivo foi a casa paterna. Aí ocorreu a
educação religiosa elementar no contar histórias, decorar textos escriturísticos e passagens
litúrgicas; e aí o filho aprendeu o oficio do pai (compare-se Mc 6:3 com Mt 13:55). No caso de
Jesus, alguns indícios — os nomes bíblicos dos filhos, o irmão devoto Tiago — apontam uma
família firmemente ancorada nas tradições de Israel.
2. “Há registro histórico de uma sinagoga em Nazaré (Mc 6:2; Mt 13:54; Lc 4:16). Como tal
ela possuía pelo menos um rolo da Torá, além disso — dependendo de sua riqueza —, muito
provavelmente um rolo de Isaías (cf. Lc 4:17), um saltério, como também traduções (targumim). A
cada sábado, no culto das sinagogas, eram lidos, traduzidos e comentados a Torá e os profetas, o
que para as crianças (cf. Ant 14,260) era o caminho mais natural para obter conhecimentos
escriturísticos. Também era possível organizar o ensino da leitura (e da escrita?) para as crianças no
contexto das sinagogas, o que ficava a cargo do pai ou da mãe, dos funcionários da sinagoga, de
professores ou de quem soubesse ler.”47
3. Uma série de indícios provam que Jesus sabia ler:
• Em várias discussões, aparece na boca de Jesus a fórmula “Então nunca lestes...?”, o que
naturalmente pressupõe que Ele mesmo soubesse ler (Mt 12:5; 19:4; 21:16, 42; 22:31; Mc 2:25;
12:10, 26).
• Sem dúvida, Jesus ensinou nas sinagogas como se descreve em Lc 4:16ss: depois da leitura
das Escrituras, realizada possivelmente por Ele próprio. Seu ato de ensinar nas sinagogas é visto
como um traço típico de sua atividade (cf. Mc 1:39 etc.). É dificil imaginar que Jesus pudesse ter se
envolvido em ensinar numa instituição tão marcada pela audição da palavra escrita, se não estivesse
em condições de assumir o serviço da leitura quando convidado.
• De acordo com Jo 7:15, os ouvintes se maravilham com o modo de ensinar de Jesus: “Como
ele conhece as letras, se nunca estudou?” Aqui se refere à capacidade de Jesus de comentar e
empregar argumentativamente a Escritura, sem ter passado por uma educação formal com um
professor conhecido (cf. também Mc 6:2; Mt 13:54). No entanto, isso sempre pressupõe uma capa-
cidade de ler.
4. Possivelmente, a família participou de peregrinações anuais a Jerusalém — nessa época, o
centro dos escribas judeus. Talvez Jesus tenha conhecido a forma e o conteúdo da educação grega e
judaica como artífice itinerante nas sinagogas e nas praças de cidades maiores.
“As Suas subseqüentes visitas a Jerusalém deviam ter influído poderosamente para o
desenvolvimento do Seu espírito. Se continuou a ir ouvir as preleções dos rabinos naquela espécie
de universidade que havia no templo, havia de, por fim, descobrir quão pouco profunda era a
ciência deles, não obstante os pontos longínquos a que a fama da mesma tinha chegado. Foi
provavelmente devido a essas visitas anuais que Ele descobriu a completa corrupção da religião
daquele tempo e a necessidade de uma reforma radical, tanto das doutrinas como dos costumes, to-
mando nota dos procedimentos e das individualidades que Ele havia de atacar com a veemência da
Sua santa indignação.”48

O preparo global de Jesus foi influenciado pelas seguintes circunstâncias:


Seu lar As reuniões sociais
A natureza As sinagogas

47
Gerd Theissen, O Jesus Histórico. Edições Loyola, 2002, p. 382.
48
James Stalker, A Vida de Cristo. Imprensa Batista Regular, 1985, p. 19-20.

53
As Escrituras A comunhão com o Pai

ASPECTOS DA EDUCAÇÃO JUDAICA

Períodos distintos do crescimento segundo os judeus


1. Aos 3 anos, ocorria o desmame e pela primeira vez era permitido o uso de vestes especiais
(Nm 15:38-40). Elas deveriam ser usadas em ocasiões especiais, como as festas em Jerusalém.
Eram vestes memoriais, traziam lembranças dos feitos de Deus à nação israelita. Nesse período
dava-se início à educação da criança.
2. Aos 5 anos, a criança começava a aprender a lei mediante o ensino catequético (explicação
curta e metódica de doutrinas) nas escolas.
3. Aos 10 anos, iniciava-se o estudo da Mishna (código das leis cerimoniais). Eram 613 leis
acrescentadas pelos judeus, na intenção de explicar a Lei (Mt 23:4).
4. Aos 12 ou 13 anos, o garoto se tornava “filho da lei”, ficando responsável pessoalmente
pela observância das ordenanças.
5. Aos 18 anos, poderia iniciar o estudo do Gemara (coleção ampliada das tradições e
declarações judaicas).

Maria 49
Depois das histórias do nascimento de Jesus e de sua visita a Jerusalém aos doze anos de idade, bem pouco se
diz a respeito de Maria. De acordo com Mateus 13:55-56, ela foi mãe de pelo menos seis filhos além de Jesus. Foi por
sugestão dela que Jesus transformou a água em vinho em Caná — sendo esse seu primeiro milagre (Jo 2:1-11).
Posteriormente, há menção de ela tentar chegar até ele no meio da multidão; as palavras de Jesus naquela ocasião
indicam com clareza que o grau de parentesco que ela possuía com ele não lhe conferia nenhuma vantagem espiritual
especial (Mt 12:46; Mc 3:31; Lc 8:19). Maria esteve presente na crucificação, e Jesus a entregou aos cuidados de João
(Jo 19:25-27). Não há registro do aparecimento de Jesus a ela depois da ressurreição — embora a ausência desse fato
na narrativa não signifique que não aconteceu. A última menção de Maria acha-se em Atos 1:14, quando estava orando
com os discípulos. É só isso que as Escrituras têm a dizer a respeito de Maria. Podemos, entretanto, imaginar Maria
como uma mulher quieta, contemplativa, dedicada e prudente, que partilhou das preocupações e cuidados que as mães
têm em comum. Nós a admiramos, honramos e amamos por ter sido a mãe de nosso Salvador. Só podemos imaginar o
impacto sentido na vida de Maria ao ser escolhida por Deus para dar à luz, de modo sobrenatural, o Salvador do mundo.
Que mulher bem-aventurada! Quem foram os irmãos e irmãs de Jesus mencionados em Mt 13:55-56 e Mc 6:3? O
significado claro, singelo e natural desses textos é que eram os próprios filhos de Maria e José. Essa é a opinião
geralmente sustentada entre os comentaristas da Bíblia.

49
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 462.
54
II. A PREPARAÇÃO PARA O MINISTÉRIO PÚBLICO DE JESUS
Assuntos: João Batista; o batismo e a tentação de Jesus
Referências: Mt 3:1—4:11; Mc 1:1-13; Lc 3:1—4:13; Jo 1:6-42

COMEÇO DA PREGAÇÃO DO EVANGELHO


A Bíblia coloca Malaquias como o último profeta do VT. Sua voz foi a última a ser usada por Deus no Cânom do
VT. Sua profecia termina com a promessa da “vinda de Elias”, apontando portanto para João Batista (Ml 4:5-6).
Depois de Malaquias, passaram-se 400 anos sem nenhum registro da revelação divina. Foram esses anos, o
período do silêncio divino que agora estava sendo quebrado pela “VOZ DO QUE CLAMA NO DESERTO”, o precursor
do Messias.

A pregação de João Batista (Mc 1:1-8; Mt 3:1-12)


“No deserto da Judéia” Foi enquanto Jesus ainda estava morando em Nazaré que João
apareceu no deserto da Judéia como pregador.
A pessoa de João Batista: A infância e a mocidade de João Batista resumem-se numa única
frase (Lc 1:8). Ele evitava morar em sociedade e vivia na solidão da região desértica, ao oeste do
Mar Morto. Ele sabia desde menino que o evento do século estava para acontecer e que ele nascera
para anunciar tal evento. Sabendo que seria o Elias profetizado (Lc 1:17; Mt 11:14; 17:10-13; cf. Ml
4:5), talvez copiou os hábitos e a maneira de trajar daquele profeta. Alimentava-se de gafanhotos e
de mel silvestre (Mt 3:4). Os gafanhotos eram usados desde os tempos primitivos como alimento. A
classe mais pobre da Palestina, principalmente a classe que habitava nas proximidades do Mar
Morto, usavam tal alimento. Ele era frito com azeite e tinha sabor de camarão ou lagosta. — Todo
este cenário e contexto contribuíram para a formação do caráter do precursor do Messias.
Ministério de João Batista: Seu ministério teve início aos 30 anos de idade. A Nação sofrida
ficou perplexa com a mensagem daquele profeta esquisito, rude e corajoso. Sua área de ação foi no
Baixo Jordão, em frente a Jericó, numa das principais via de acesso a Jerusalém. Pregava o batismo
do arrependimento e a aproximação do reino de Deus, obtendo êxito popular. Multidões vinham ao
seu encontro (Mt 3:5).
Max Anders comenta:50 João era muito compassivo com os arrependidos. Ele não ralhava com
eles, nem os censurava. Entretanto, foi implacável com os líderes religiosos da época. Nunca
ninguém se atrevera a falar dessa maneira com esses homens. Eram a elite de suas comunidades.
Eram os que “faziam e aconteciam” na nação. “Se vocês são justos, provem com seus atos, não
apenas sendo batizados”, é o que João estava dizendo. Ser judeu não era suficiente. Visitar o
templo, celebrar as festas e participar da sinagoga local não bastava. A questão era a purificação
interior. O Messias logo virá, e, considerando que ele também vai pedir arrependimento, preparem-
se agora. Preparem o coração para a vinda de Deus à terra. Essa era a mensagem de João Batista.”

O rito do batismo: Lavagens rituais, sempre ligadas à purificação, eram usadas pelos judeus
com muita freqüência (Êx 19:14; 30:20; 40:12; Lv 15:16; Nm 19:18). Além dessas cerimônias de
lavagem do corpo, também eram batizados os prosélitos convertidos ao judaísmo.
O batismo de João se diferenciava em seu significado, pois visava a transformação da vida
moral mediante o arrependimento. Era um sinal exterior manifestando o desejo do povo em realizar
o retorno para o Senhor. O arrependimento precede o batismo.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Como arautos de Cristo, nosso testemunho deve ser fiel e verdadeiro; autêntico. 2. O
arrependimento é a maior alternativa que Deus dá ao homem.

Jesus é batizado (Mc 1:9-11; Mt 3:13-17; Lc 3:21-23; Jo 1:32-34)


“Tendo em vista que o batismo pressupunha arrependimento, e este o pecado, nada é mais
natural para João Batista do que indagar a razão de ter que batizar a Jesus. Ele não tinha pecado, e o
batismo era sem sentido para Ele. Por que, então, ser batizado? A resposta é que Jesus quis se
identificar completamente conosco e “cumprir toda a injustiça”. Jesus é chamado no Novo
50
Max Anders, Jesus em 12 lições. Editora Vida, 2001, p. 61.
55
Testamento de “nossa justiça”. Ele “se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1:14). Ou seja, Ele se
tornou como cada um de nós. Não tinha pecado para confessar, e nada tinha de que se arrepender.
Contudo Ele veio para tomar nosso lugar e se identificar de forma completa conosco.”51
“O batismo de Jesus marca Sua solidariedade, como o Servo messiânico, com o Seu povo.
Toma sobre Si, mediante este ato cultual, a condição e o sofrimento deles. Ele Se torna
representante deles. Chegando a eles para falar-lhes, Ele toma o Seu lugar com eles. A encarnação
não é somente vir à Terra, mas também assumir o fardo da vida na carne. Ele não somente fala com
eles, mas também fala em favor deles. O Filho passa a ser o intercessor diante do Pai. O significado
do batismo de Jesus é exposto em termos incisivos por Paulo: “Àquele que não conheceu pecado,
ele o tez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (II Co 5:21). O batismo é o
ato formal de “esvaziar-se a si mesmo” (Fp 2:7), de “tornar-se pobre” (II Co 8:9).”52
Jesus foi batizado no Jordão próximo a Betânia. João identificou Jesus pelo sinal que lhe fora
dado: a pomba (Jo 1:37) — antigo símbolo de pureza, inocência e mansidão (Mt 10:16). No VT, o
Espírito vinha sobre os profetas para que realizassem seu ministério, agora veio sem medida sobre
Jesus, no início de seu ministério.
“em quem me comprazo” O texto grego significa “em quem o meu prazer está” ou seja,
“aquele no qual o meu plano para a salvação da humanidade está centralizado”.
Nota-se a presença da Trindade na ocasião do batismo de Jesus: o Filho sendo batizado; o Pai
envia uma voz testemunhando do Céu; o Espírito Santo manifesto em forma de pomba.

LIÇÃO PARA HOJE: Jesus identificou-se com os homens, contudo não perdeu sua identidade.

A tentação de Jesus (Mc 1:12-13; Mt 4:1-11 e Lc 4:1-13)


Todos os evangelhos sinóticos indicam que a tentação de Jesus se deu imediatamente após o
seu batismo.
Local: Região desértica, ao sul da Judéia.
O tentador: O diabo (que significa caluniador, e indica uma das características de Satanás), a
antiga serpente do jardim do Éden. As tentações feitas pelo diabo tinham o propósito de desviar
Jesus da cruz.
Propóstio: “foi levado pelo Espírito” Esta expressão indica que era da vontade de Deus que
Jesus, agora plenamente cônscio de sua filiação única, bem como de seu chamamento para ser o
Servo ideal de Deus, fosse tentado a ser desobediente às implicações dessa vocação e, vencendo
essa tentação, estivesse capacitado a entrar num ministério que teria como clímax a sua obediência
até a morte na cruz (Hb 5:8 nos informa que Jesus aprendeu a obediência por aquilo que padeceu.
As tentações vencidas no deserto tiveram grande parte neste aprendizado). A maior luta de Jesus foi
a das forças espirituais. Uma das indicações da submissão voluntária de Cristo ao Espírito, durante
seu ministério terreno, consiste em ter sido levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado;
“levado” não quer dizer ser transportado, mas guiado ou impelido; o Espírito Santo aparece como
agente da situação difícil que traria júbilo.
Natureza da tentação: vs. 5 e 8 “o Diabo o levou... e mostrou-lhe” Os detalhes da história da
tentação indicam a existência de circunstâncias literais mescladas com visões.

As etapas da tentação:
Primeira tentação: Um apelo ao apetite do corpo. Satanás propôs um milagre de utilidade à
sobrevivência e incentivou a confiança em Deus. Satanás não pretendia induzir Jesus a duvidar de
sua filiação, pois a palavra “SE” nos versos 3 e 6 podiam ter o sentido de “desde que” ou “uma vez
que”. A real intenção do tentador era induzir Cristo a agir por Si mesmo, independente de Seu Pai,
tentando-o mostrar-se indisposto para prestar ao Pai a completa obediência que a verdadeira filiação
exigia. Jesus resiste a esta tentação citando Dt 8:3 — o Pai, que o havia chamado e submetido à

51
Jonas Celestino Ribeiro, Os ensinos de Jesus (o Evangelho de Marcos). JUERP, 2000, p. 63.
52
Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã (vol. 1). Edições Vida Nova, 1993, p. 161.
56
tentação, haveria de prover a bom tempo as necessidades físicas de Seu Filho.

Segunda tentação: Um apelo ao sentido nervoso, propondo um milagre sem utilidade, um


incentivo à presunção. Satanás queria levar Jesus a duvidar de que o Pai, que o havia chamado, o
capacitaria a ser fiel à sua vocação, em face da ampla oposição que Ele sofreria durante seu
ministério. Sendo assim Ele deveria provar a fidelidade de Deus lançando-se do “pináculo do
templo” (uma das alas do templo de Herodes) para ver se Deus o socorreria. Jesus contra-ataca a
sugestão do diabo relembrando o episódio referido em Dt 6:16, na certeza de que o Pai o guardaria
em todos os seus caminhos desde que permanecesse obediente à Sua vontade.

Terceira tentação: Um apelo à ambição, ao poder, e incentivo ao materialismo. Satanás queria


desviar Jesus do caminho da cruz pela desobediência à sua vocação de Servo Sofredor e rejeitado
pelos homens sobre quem recairia a iniqüidade de todos nós. Foi a mais forte e persistente tentação
de Jesus.
“tudo isto te darei” Satanás alegou posse do mundo inteiro. Jesus não negou esta afirmação, e
em outros textos Jesus mesmo faz tal declaração (ver Jo 12:31; 14:30; 16:11). O testemunho das
Escrituras (ver Ef 6:12) é que o mundo dos espíritos é real. Parece, pois, que a oferta feita por
Satanás era séria.
“se prostrado, me adorares” Jesus foi tentado a aceitar a doutrina diabólica de que os fins
justificam os meios, ou seja, que uma vez obtida a soberania universal no final, não importava como
ela houvesse sido atingida. A tentação visava o estabelecimento de um acordo, com concessões
principalmente de justiça, a fim de adquirir poder e prestígio. Essa tentação ensina que o fim não
justifica os meios. Sem dúvida Jesus haverá de conquistar os reinos do mundo, mas não por esse
método.
v. 10 A citação de Jesus se alicerça em Dt 6:13, enfatizando que a adoração deve ser prestada
exclusivamente a Deus.

As refutações: Jesus baseou suas respostas nas Escrituras: “Está escrito!” Jesus usou a
Palavra de Deus, a espada de dois gumes que esmaga Satanás e seus intentos. Foi a Palavra e não o
esforço de Jesus que lhe concedeu vitória. O inimigo não desistiu de tentar ao Mestre, apenas
retirou-se até ocasião oportuna.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Tentação à incredulidade, presunção e orgulho. O inimigo procura atingir-nos nas áreas em que
estamos expostos. O quanto temos da Palavra em nossa mente, teremos de êxito num momento de tentação. 2. A
alegria advinda da resistência aos apelos de Satanás deve ser mais almejada do que os prazeres momentâneos que
ele oferece.

Jesus jejuou 53
Jesus jejuou durante 40 dias (4:2). Moisés jejuou durante 40 dias no monte Sinai, quando foram dados os Dez
Mandamentos (Ëx 34:28). Elias jejuou durante 40 dias a caminho do mesmo monte (IRs 19:8). Moisés representava a
Lei; Elias, os Profetas. Jesus era o Messias apontado pela Lei e pelos Profetas. Do alto do monte onde jejuava, Jesus
podia ver, ao olhar para o leste, do outro lado do Jordão, as cordilheiras de Nebo, de onde, séculos antes, Moisés e
Elias tinham subido ao céu.
Uns três anos depois dessa confrontação com Satanás, os mesmos três homens, Moisés, Elias e Jesus, tiveram
um encontro, em meio às glórias da transfiguração no monte Hermom, 160 km ao norte — primeiramente,
companheiros no sofrimento, e depois, companheiros na glória.

O testemunho de João acerca da identidade de Jesus (Jo 1:19-34)


1. João e a delegação de Jerusalém (vs. 19-28).
O sistema religioso de Jerusalém enviou uma delegação para interrogar João Batista. Essa
comissão era formada por sacerdotes e levitas pertencentes ao grupo dos fariseus. O local da

53
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 467.
57
entrevista foi Betânia de além-Jordão. Dois motivos provocaram a ida dessa delegação de Jerusalém
a Betânia:
a) A forte pregação de João que cativava multidões (Mt 3:5).
b) A atividade que exercia — o batismo (Jo 1:26).
As respostas de João à delegação dão-nos uma lição de lealdade, integridade e humildade:
— “não sou o Cristo” Muitos assim pensavam; João não aceitou o caminho curto da
autopromoção (lealdade); “não sou Elias” Possuía suas qualidades e hábitos, porém não era o Elias
reencarnado (integridade); “não sou profeta” O próprio Jesus veio a dizer mais tarde que João era o
maior dos profetas nascidos de mulher (humildade).
João não ousou fazer declaração alguma sobre si mesmo. A insistência da delegação fez João
apenas afirmar: “sou a voz”, sou o eco e nada mais; não sou a causa, sou o efeito. João anuncia
Aquele que era a razão de seu ministério, um maior que ele estava para se manifestar em Israel.

LIÇÃO PARA HOJE: A nossa missão de arauto, não nos dá o direito de revelar outro que não seja Aquele que
queremos anunciar. Quando interrogados sobre nós mesmos, qual tem sido nossa resposta? A glória do que realizamos
tem sido dirigida para Deus? A quem temos atribuído nosso sucesso? Será que temos confiado no que somos, temos e
podemos realizar, acima do que Deus pode em nós?

2. A identidade dAquele que vem (vs. 29-34).


Quando Jesus procurou o batismo de João, o Batista não o reconheceu. Ele havia recebido um
sinal de identificação de Deus. Um sinal preparatório para o advento; a regeneração do homem seria
espiritual (vs. 31,34). Batismo porque era um sinal de purificação.
João deu três testemunhos acerca de Jesus:
1. Jesus é o cordeiro de Deus: sua missão seria redimir o homem, substituí-lo como oferta
pelo pecado. A história (Êx 12:3) e a profecia (Is 53:7) juntam-se para fornecer este título a Jesus.
Cristo satisfez plenamente as exigências divinas para ser o Cordeiro de Deus, imolado em lugar do
pecador (I Pe 1:18-19). Por trás da linguagem de João podemos discernir o Servo do Senhor, que
sofreu “como cordeiro levado ao matadouro”, e que se deu “como oferta pelo pecado” (Is 53:7, 10).
Aqui o pecado que o Cordeiro de Deus remove é do mundo (kosmos); este tom universal soará
novamente durante a narrativa do evangelho (por exemplo 3:16s., 4:42, 6:51) e na primeira carta
(2:2, 4:14). O mundo engloba todos, sem distinção de raça, religião ou cultura (ver Jo 12:32).
2. Jesus é aquele que batiza com o Espírito Santo: “Na profecia de restauração de Ezequiel,
Deus promete purificar seu povo com água pura, e também conceder-lhes um novo espírito — seu
próprio Espírito (Ez 36:25-27). A purificação com água podia ser aplicada ao ministério de João,
mas a concessão do Espírito estava reservada para alguém maior que João. Agora este Batizador
mais importante estava manifesto diante deles. Aquele que fora ungido pelo Espírito com um sinal
tão claro era o único qualificado para repassar a mesma unção ao seu povo — apesar de que, como
este evangelho deixa claro mais adiante, a concessão completa do Espírito só ocorreu depois que
Jesus foi glorificado (Jo 7:39).”54
3. Jesus é o Filho de Deus: só Ele era digno de adoração e reverência. A atuação de Jesus
como Messias tinha sua base no fato de Ele ser o Filho eterno de Deus.

O chamado dos primeiros discípulos (Jo 1:35-51)


O termo discípulo (mathêtês) é correlativo de mestre (didaskalos). Na época de Jesus, o
aprendizado não era só escolar ou intelectual, mas o discípulo pretendia assimilar o estilo de vida do
mestre, seguindo seu ensino e exemplo. João Batista tinha muitos discípulos; alguns deles
apressaram-se para se juntar a Jesus.

54
F. F. Bruce, João: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1997 (reimp.), p. 59.
58
ANDRÉ disse: Achamos o Messias. Valoroso, primeiro discípulo nacional e familiar, ganhou a
seu irmão SIMÃO: Jesus “fixando nele o olhar”, viu uma pedra dura e bruta que precisava ser
burilada; posteriormente, em seu discipulado recebeu profunda transformação de caráter.
A troca do nome de Pedro: Jesus saudou Simão como Kepha, uma palavra aramaica que
significa “rocha” — a palavra aramaica foi traduzida para a forma grega Petros.55
FILIPE: convidado a juntar-se aos seguidores de Jesus, por sua vez fala de Jesus a
NATANAEL (v. 45). Filipe refere-se a Jesus, o Nazareno, e o descreve como alguém de quem
Moisés e os profetas escreveram. Natanael também era galileu, de Caná (ver Jo 21:2) e não acredita
que de Nazaré saia algo bom. A cidade era de pouca importância. A pergunta em tom de zombaria
feita por Natanael recebeu de Filipe a única resposta adequada: Vem, e vê. Um preconceito quase
impediu que Natanael conhecesse a Jesus.
Para surpresa de Natanael, Jesus, ao vê-lo, saudou-o como se o conhecesse muito bem: “Eis
um verdadeiro israelita em quem não há dolo!” — isso quanto à nacionalidade e a religião;
verdadeiro israelita no corpo e na alma; “alguém que é completamente Israel e nem um pouco Jacó”
(cujo nome é associado tradicionalmente a engano). Jesus referia-se ao caráter do israelita na
íntegra, sua sinceridade e conhecimento das profecias. “Eu te vi quando estavas debaixo da
figueira” — era esse, provavelmente, um lugar de adoração para Natanael (At 16:13), onde ele
individualmente buscava a presença de Deus. O mestre revela sua onisciência e revela a sinceridade
de Natanael diante do Deus de Israel.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. O homem não se esconde de Deus. 2. Como testemunhar: a. Dar a maior importância à pessoa
de Cristo (v.36); b. apelar aos amigos (vs 41 e 45); c. convidar outros após sentir a emoção da descoberta pessoal (v.
45); d. não debater apenas com argumentos mas com desafio à investigação (v. 46); e. não perder tempo.

56
O DISCÍPULO

O termo discípulo implica diversas idéias importantes nas Escrituras. A ênfase principal da palavra está nos
vários aspectos de toda a experiência cristã. O termo que usamos é derivado do latim discipulus. No primeiro século,
ele significava simplesmente aluno ou aprendiz. Era usado com freqüência no mundo filosófico para referir-se ao aluno
de um filósofo. O equivalente exato do termo grego usado no Novo Testamento tem a mesma idéia de aprendiz ou
aluno. Na Septuaginta, o termo é usado em sua forma básica em Is 8:16 e I Cr 25:8. A idéia de aprendiz é predominante
nessas duas passagens do AT. O termo atinge seu sentido pleno, porém, no Novo Testamento.
A palavra é bastante usada nos quatro evangelhos. Os discípulos de Moisés (Jo 9:28) e os seguidores de João
Batista (Mc 2:18) são exemplos clássicos. A palavra designa também os discípulos dos fariseus (Mt 22:16), mas é claro
que os autores do NT estão pensando mais nos discípulos do Senhor Jesus Cristo, geralmente com a idéia de aprendiz
ou aluno. Aqueles que encontraram Jesus e se tornaram seus seguidores comprometidos e seus aprendizes eram
conhecidos como discípulos. Está claro que as muitas pessoas que foram ao Senhor tinham graus variados de
determinação e lealdade. Por isso, o termo tem uma conotação ampla e outra estreita nos quatro evangelhos. Nos
evangelhos, o conceito mais elevado de discípulo está ligado aos Doze (Lc 6:12-18).
Em Atos dos Apóstolos, a palavra assume uma conotação definidamente absoluta, era a descrição aceita
daqueles que tinham demonstrado fé e compromisso pleno com Jesus Cristo.
Por volta do segundo século, era comum que todos os crentes se chamassem discípulos na situação de martírio.
Caso clássico é o de Inácio, que se identificou assim numa situação dessas. A idéia principal parece ser que a morte
por Cristo provaria que a pessoa é um discípulo autêntico do Senhor.
Todo esse tema pode ser resumido assim: um discípulo era 1. alguém que se tornou crente (At 11:26); 2. alguém
que se tornou um aprendiz de Cristo, seu seguidor ou aluno; 3. um crente disposto a sofrer e a adotar um estilo de vida
sacrificial por amor a Jesus Cristo (Lc 14:26-27, 33); e 4. alguém que cumpre a obrigação básica de ser discípulo e
fazer mais discípulos (Mt 28:19-20). Isso inclui levá-los à fé em Jesus Cristo, batizá-los e ensinar-lhes as verdades de
Cristo. Discípulo é quem se identificou com Jesus Cristo no batismo e foi instruído na comunidade da fé. É evidente que
discípulo é um termo que envolve arrependimento e fé para a salvação, para a vida cristã consagrada e sacrificial,
identificação com Cristo, prontidão para seu serviço e divulgação das boas novas aos outros.
55
Nota: Pedro não é a rocha e sim tem a natureza da rocha; Cristo é a Rocha (Mt 16:18; Mc 3:16). Os apóstolos foram
pedras vivas, fundamentais na construção da Igreja.
56
Manual Bíblico Vida Nova, p. 634.
59
O primeiro SINAL ou MILAGRE: Jesus transforma água em vinho (Jo 2:1-11)
Tudo indica que este casamento era de algum membro da família de Maria, pelo fato de ter
ela dado falta do vinho, ficando preocupada com o assunto.
v. 4 Mulher era um título respeitoso segundo os costumes daquele tempo. Jesus o empregou
de novo na cruz, circunstância na qual não poderia haver o mínimo indício de desrespeito (Jo
19:26). A razão de ser dessa observação de Jesus parece ser: “Se o vinho acabou, o que tenho eu
com isso? Não é assunto meu”. É possível que Jesus tivesse acabado de contar a sua mãe a respeito
dos novos poderes miraculosos que recebera mediante a descida do Espírito Santo sobre Ele quando
foi batizado. Maria viu naquela situação uma oportunidade para Jesus. Embora Jesus tenha operado
esse milagre por sugestão dela, a hora para o emprego geral de seus poderes miraculosos não
chegou senão quatro meses depois, no início oficial de seu ministério público em Jerusalém, na
ocasião da Páscoa (v. 13).
v. 5 A única ordem de Maria em toda Bíblia. Jesus não realizou o milagre publicamente, mas
no recôndito da casa, entre poucas pessoas. Possivelmente apenas Maria, os serventes ou garçons,
os quatro discípulos e os irmãos de Jesus presenciaram o fato.
Nota: As festas de casamento chegavam a durar sete dias. No dia da cerimônia, a noiva saía
de sua casa seguida por um cortejo, que era formado por seus amigos e parentes. O noivo saía de
qualquer outro local escolhido por ele, fazendo-se também acompanhar por um cortejo. Ambos se
dirigiam para a casa do pai do noivo, onde se realizaria a cerimônia e teria lugar a festividade. Os
noivos tinham direito a padrinhos (Jz 14:20 e Jo 3:29). Tradicionalmente, a noiva deveria usar um
véu sobre o rosto, que só seria removido quando os dois estivessem a sós. Os convidados usavam
roupas festivas ou vestes nupciais (Mt 22:11).
v. 6 Jarros de pedra. Sua função: a) permitir aos hóspedes enxaguarem as mãos; b)
possibilitar a lavagem dos utensílios usados na festa; c) prover água para as purificações, as
lavagens cerimoniais, obrigatórias para os judeus religiosos (Mc 7:3-4). A referência às purificações
dá a chave para o sentido espiritual dessa narrativa. A água, que servia para a purificação que a lei e
os costumes judaicos exigiam, representa toda a antiga ordem do cerimonial judaico, que Cristo
haveria de substituir por algo melhor.
Fazendo encher as talhas de água, Jesus revela Sua vontade de purificar (restabelecer a
relação com Deus), o que a antiga instituição (lei) não conseguia fazer.
Cada jarro continha entre 65 e 115 litros de água. Metreta era um medida grega; cada metreta
equivalia aproximadamente a 40 litros de água. Os seis jarros (ou seis talhas de pedra) somados
deviam conter entre 390 e 690 litros, o equivalente a entre 550 e 840 das garrafas de vinho de hoje.
“A relevância desse milagre é que Jesus acabara de se submeter, durante 40 dias, a toda
sugestão que Satanás tinha a capacidade de fazer no tocante a como esses poderes milagrosos
deveriam ser usados, e Jesus se recusara, com perseverança, a usá-los em prol de suas necessidades.
Em seguida, depois de ter saído do deserto, Ele foi diretamente para um casamento. E, embora seus
milagres subseqüentes servissem, majoritariamente, para aliviar o sofrimento, esse primeiro milagre
foi realizado numa festa de casamento, uma ocasião festiva. Jesus ministrou à alegria humana,
tornando as pessoas felizes, como se quisesse proclamar, desde o início de seu ministério, que a
religião que estava começando a introduzir no mundo não era uma religião ascética, mas a religião
da alegria natural. Foi, também, a bênção de Jesus sobre o casamento.”57
Uma visita de Jesus a Cafarnaum (Jo 2:12; Mc 6:3)
O registro dos evangelhos mostra que Jesus teve irmãos — são os filhos de José e Maria. A
crença na virgindade perpétua de Maria é um acréscimo histórico não-bíblico.
Cafarnaum foi fundada, provavelmente, após a a volta do cativeiro babilônico. Era centro de
cobrança dos impostos (Mt 2:1-14) e posto militar do Império Romano (Mt 8:5-13). Porto para
pescadores, grande centro pesqueiro, cidade de Pedro, André e Filipe. Parece que toda a família
(José, Maria e filhos) mudou de Nazaré para Cafarnaum, onde Jesus teve seu quartel-general

57
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 549.
60
durante a maior parte do seu ministério na Galiléia. Hoje é identificada com a localidade conhecida
em árabe como Tell-Hum.
A razão da visita: Possivelmente, essa visita rápida de Jesus a Cafarnaum foi para tratar de
assuntos ligados ao colégio apostólico que estava para ser fundado. Mais tarde, Cafarnaum tornou-
se a sede do ministério (Mt 9:1).

61
APÊNDICE 3

Aspectos biográficos de João Batista

A pregação de João Batista é contada pelos quatro evangelhos (Mt 3:1-12; Mc 1:1-8; Jo 1:6-8, 19-28).
O relato de Lucas é o mais completo.
Ele habitava na solidão da região selvagem e desolada a oeste do mar Morto. Sabia desde a infância
que o maior evento de todos os tempos era iminente e que ele mesmo nascera para anunciar sua chegada.
Sabendo que tinha de fazer o papel do Elias da profecia (1:17; Mt 11:14; 17:10-13; Ml 4:5 — embora
não fosse Elias em pessoa, Jo 1:21), ele imitou, talvez de propósito, os costumes e o modo de vestir de
Elias. Alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre (Mt 3:4). Os gafanhotos têm sido usados como
alimento desde os tempos mais antigos. Eram assados ou secados ao sol.
O chamado de João Batista aconteceu quando tinha 30 anos de idade. A nação ficou eletrizada com
a voz daquele eremita estranho, tosco e destemido, proclamando nas ribanceiras do Jordão que o
Libertador predito havia muito estava para chegar.
O conteúdo essencial de sua mensagem era: “Arrependam-se”. Sua pregação era imensamente
popular e bem-sucedida. O país inteiro foi sacudido unicamente por suas palavras, visto que não realizava
milagres (Jo 10:41). Grandes multidões vinham para ser batizadas por ele (Mt 3:5). Até mesmo Herodes
gostava de ouvi-lo falar (Mc 6:20). O historiador Josefo diz que João Batista exercia bastante influência
sobre o povo, que parecia disposto a fazer qualquer coisa que ele lhe aconselhasse.
Ele exigia que aqueles que professavam o arrependimento fossem batizados — o prenúncio da
cerimônia posterior do batismo cristão.
No auge de sua popularidade, João batizou Jesus e proclamou que este era o Messias. Depois,
cumprida sua missão, retirou-se de cena. Despertou a nação e apresentou o Filho de Deus. Sua missão
estava cumprida.
João Batista, entretanto, continuou a pregar e a batizar por mais alguns meses, mudando-se para
Enom, mais ao norte (Jo 3:23).
Cerca de um ano depois de ter batizado Jesus, João Batista foi lançado no cárcere por Herodes, é
para satisfazer os caprichos de uma mulher perversa (Mt 14:1-5). Isso aconteceu no fim do ministério inicial
de Jesus na Judéia (Mt 4:12; Jo 3:22; 4:35).
Não é mencionado o lugar em que ficou preso. Acredita-se que foi em Maquera, a leste do mar Morto,
ou em Tiberíades, na costa oeste do mar da Galiléia. Herodes tinha uma residência em cada um desses
locais. João Batista foi decapitado aproximadamente por ocasião da segunda Páscoa (Mt 14:12-13; Jo 6:4).
Estranhamos as dúvidas de João Batista (Mt 11:3), após ele ter se mostrado tão confiante e positivo
ao declarar que Jesus era o Cordeiro de Deus e o Filho de Deus (Jo 1:29-34). Agora, porém, refletindo
sozinho num calabouço, ele estava perplexo. Jesus não estava fazendo o que João pensava que o Messias
deveria fazer. Segundo parece, João compartilhava da noção popular do reino messiânico político. Deus
não lhe revelara tudo a respeito da natureza desse reino. Até mesmo os doze foram lentos em assimilar o
que significava o Reino.
Supondo-se que João Batista começou o seu ministério pouco antes de batizar Jesus, sua obra
pública durou cerca de um ano de meio. Ele viveu 30 anos em isolamento, dedicou um ano e meio à
pregação pública, passou um ano e quatro meses na prisão — e então a cortina desceu sobre sua vida.
Esse é o resumo da vida do homem que apresentou o Salvador do mundo e a respeito de quem Jesus
disse que não nascera ninguém maior que ele (Mt 11:11).

62
III. MINISTÉRIO INICIAL DE JESUS NA JUDÉIA
Duração: cerca de oito meses. Referências: Jo 2:1—4:42

Nota: Este incidente da purificação do Templo (Jo 2:13-22), colocado pelo evangelista João
como ato inaugural do ministério público de Jesus, é identificado pelos comentaristas com o mesmo
incidente verificado nos Evangelhos sinóticos, realizado no clímax do ministério público de Jesus
(Mt 21:12-13; Mc 11:15-17 e Lc 19:45-46). O evangelista João vê imensa significação no fato de
que, para ele, o incidente se constitui em a chave da controvérsia entre Jesus e as autoridades
religiosas judaicas.

Em Jerusalém na primeira Páscoa, a purificação do templo (Jo 2:13-22)


A Páscoa, que comemora a libertação de Israel do Egito, era celebrada em cada aniversário do
evento, no dia 14 do mês nisan (a lua cheia de março/abril), e era seguida imediatamente pela festa
dos Pães Asmos, de uma semana (15-22 de nisan). João menciona três páscoas, as outras duas em
6:4 e 11:55ss.; o relato sinótico só menciona a última. A primeira Páscoa provavelmente era a de 28
d.C.; Jesus veio a Jerusalém para comemorá-la como tinha sido ensinado desde criança (ver Lc
2:41).
Na purificação do templo, Jesus mostrou os padrões de Deus quanto ao certo e errado.
Presente para a Páscoa, período em que era lembrada a libertação de Israel do Egito, Jesus
encontrou pessoas que estavam lucrando com a festa religiosa. Judeus que haviam viajado longas
distâncias precisavam comprar animais para sacrificar bem como trocar dinheiro pela moeda local.
Para tanto, eles encontravam negociantes que ofereciam os dois serviços. “Jesus denunciava o
legalismo e afirmava a santidade. O problema não estava no negócio ou no lucro em si, mas na
zombaria feita com todo o sistema de sacrifícios do templo e na exploração de homens e mulheres
consagrados por pessoas gananciosas que tiravam proveito do sentimento religioso.”58
Esse espetáculo provocou a indignação dos judeus. Eles questionaram não o aspecto moral, se
os vendedores e cambistas deviam estar ali, mas com que base Jesus assumiu a responsabilidade de
expulsá-los. Os judeus pediram um “sinal”, e Jesus respondeu: “Destruí este santuário, e em três
dias o reconstruirei” (2:19). Ele estava se referindo ao templo do seu corpo, mas os adversários
judeus associaram seu comentário com o edifício do templo, o que deu motivo para algumas
zombarias e ridicularizações que Jesus teve de suportar quando estava pendurado na cruz (Mt
27:40; Mc 15:29).
Nota: Bois, ovelhas e pombas eram os principais animais usados no culto de sacrifícios do
templo. Era muito conveniente para quem ia prestar culto poder comprá-los o mais próximo
possível do lugar onde seriam sacrificados. Os estábulos construídos com o propósito de recolhê-
los, no pátio externo do templo, devem ter ocupado um grande espaço que poderia servir a
propósitos mais dignos. Os cambistas também prestavam um serviço conveniente para os visitantes
do templo, que traziam todo tipo de moedas que precisavam ser trocadas por dinheiro local. Muitas
pessoas aproveitavam a oportunidade da visita ao templo nesta época para pagar o meio-siclo anual,
que os judeus com mais de vinte anos de idade de todo o mundo entregavam para a manutenção do
templo. A única moeda aceita para este fim era de Tiro (por causa da pureza excepcional do seu
conteúdo de prata); freqüentemente dois judeus pagavam juntos sua contribuição com o estáter ou
tetradracma tírio (a moeda usada na contribuição conjunta de Pedro e seu Mestre, em Mt 17:27).
Cerca de vinte dias antes da Páscoa, eram colocadas mesas de câmbio com este fim em Jerusalém.
A comissão recebida no câmbio podia chegar aos 12,5%.

Zacarias 14:21: “Naquele dia já não haverá mercador na casa do Senhor dos Exércitos”. Esta
passagem podia realmente estar se cumprindo no protesto de Jesus. Bruce comenta: 59 “O que Jesus
fez pode ser melhor classificado como um ato de simbolismo profético. Se ele tinha Zacarias 14:21

58
Manual Bíblico Vida Nova, p. 648.
59

F. F. Bruce, João: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1997 (reimp.), p. 75.
63
tem mente quando protestou em favor da casa de seu Pai (ver Lc 2:49), transformada em um
supermercado, podemos lembrar que os versículos anteriores em Zacarias 14 contam como todas as
nações subirão a Jerusalém para adorar. O único espaço aberto a pessoas de “todas as nações” no
templo (além dos israelitas) era o pátio externo (às vezes chamado de “pátio dos gentios”); se esta
área estava sendo ocupada para o comércio ela não poderia ser usada para o culto. A ação de Jesus
reforçou seu protesto verbal.
v.17 O zelo pela casa de Deus, que Jesus manifestou nesta ocasião, acabaria causando sua
morte.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Quanto à ousadia de Jesus, Calvino afirmou: “Ele conhece as raízes das árvores. Nós só
conhecemos as árvores pelos frutos”. 2. Irreverência vai além do fato de conversar no momento do culto; está muito
ligada à conduta interior. Cada vez que nos dirigimos ao culto com intenções secundárias que não são de adoração a
Deus, estamos nos portando irreverentemente.

Fé superficial (Jo 2:23-25)


Após a demonstração de Sua autoridade no Templo, Jesus atrai muitos seguidores. Porém,
tendo conhecimento perfeito das motivações humanas, não podia confiar naqueles cuja fé era
apenas superficial. Os possíveis tipos de seguidores de Cristo são: a) os curiosos; b) os que
desejavam a bênção sem compromisso; c) os que queriam matá-lo; d) os sinceros na busca da
verdade.
Jesus fez uma distinção clara entre aqueles que estavam impressionados superficialmente, por
terem visto meros sinais, e aqueles que penetraram sob a superfície e compreenderam a verdade que
os sinais representavam (ver Jo 6:26). Nicodemos chegou a conclusões positivas sobre Jesus por
causa dos sinais que este fez, mas era lento para avaliar sua profundidade espiritual. Há dois níveis
de fé (crer) no nome de Jesus — aquele descrito em João 1:12, que possibilita a alguém tornar-se
filho de Deus, e este descrito aqui. O primeiro nível implica em uma entrega pessoal sem reservas, a
aceitação prática de Jesus como Senhor, mas não é alcançado enquanto “vemos sinais mas não
vemos quem os faz”.
Somente aqueles cuja fé e dedicação estavam fora de dúvida Ele admitiu ao segredo mais
íntimo da Sua pessoa e do Seu propósito. Vemos a mesma coisa no relato sinótico, onde só depois
que os apóstolos, apesar de todas as vozes em contrário, o confessaram espontaneamente como
Messias (através de seu porta-voz, Pedro), é que Jesus “começou a ensinar-lhes que era necessário
que o Filho do homem sofresse muitas coisas” (Mc 8:31).
Bruce comenta: “Aquele que é o Verbo encarnado capta imediatamente os mistérios e
complexidades da natureza humana. Ele não depende de palavras faladas, como indicadores dos
pensamentos e sentimentos íntimos; as profundidades ocultas de cada coração estão expostas diante
de Sua avaliação penetrante. Isto se torna evidente em uma conversa após outra nos capítulos
seguintes — por exemplo, a que Ele teve com Nicodemos, com a mulher de Sicar, ou com o
inválido em Betesda. Em cada caso Ele vai direto à raiz do problema. Por isso Ele dá pouca atenção
à saudação elogiosa de Nicodemos, nas primeiras sentenças do capítulo 3, mas insiste na verdade
que Nicodemos mais precisava aprender — a necessidade de nascer de novo.”

Nicodemos entrevista Jesus (Jo 3:1-21)


Nicodemos é um nome grego que significa “conquistador do povo” ou “vitorioso sobre o
povo”. É descrito como um fariseu e um dos principais dos judeus (um membro do Sinédrio);
homem culto e religioso. Ele vai ao encontro de Jesus à noite provavelmente para não ser visto
pelos membros do Sinédrio.
“Rabi, sabemos que és Mestre vindo da parte de Deus” Rabi, título de honra que significa
“mestre”. Nicodemos, um mestre entre os judeus, reconhece em Jesus o caráter de um verdadeiro
Mestre. Esta expressão enfática distingue Jesus dos demais mestres formados nas escolas de ensino
religioso da época.
“nascer de novo” A pergunta de Nicodemos suscitou de Jesus vários ensinos sobre o Novo
Nascimento. A palavra grega traduzida “de novo”, pode ser traduzida “de cima”, ou seja, tem
64
origem em Deus. Uma mudança radical do coração é imprescindível e essa mudança se descreve em
termos de “um nascimento vindo do alto”, “desde o início” (isto é, modificação nas condições
interiores, — de filhos das trevas para filhos da luz).60
v. 5 “da água e do Espírito” Há duas correntes de interpretação: uma crê que a água faz
referência ao batismo de João, e que a advertência de Jesus quanto ao Espírito é para alertar do
perigo de se cair no ritualismo oco sem a eficácia do Espírito Santo. A outra corrente diz que a água
faz referência ao poder purificador da Palavra de Deus (I Pe 1:23) e ao Espírito que gera nova vida
(Tt 3:5). A interpretação mais provável, segundo Davidson, é que Jesus está fazendo uma alusão à
necessidade de arrependimento (representado pelo batismo de João em água) e a necessidade de fé
(representada pelo seu próprio batismo no Espírito, o qual traz a fé).
v. 6 “O que é nascido da carne, é carne” A vida espiritual não se transmite por processo
natural, nem se identifica com qualquer existência carnal. Para tornar-se membro da família de
Deus, para receber a natureza espiritual que é o único meio de ser admitido em Seu reino, um
nascimento “do alto” torna-se necessário.
v. 8 “o vento sopra” A mesma palavra (pneuma) se usa no grego, para “espírito” e “vento”.
Jesus usa a figura do vento para explicar a ação do Espírito. Assim, como a presença do vento é
reconhecida pelos seus efeitos, também o Espírito torna-se manifesto pela sua operação. Os
movimentos do Espírito são soberanos. A origem e o destino da vida do cristão, em quem o Espírito
de Deus tem forjado sua obra criativa, são desconhecidos pelo mundo (v. 8).
Davidson comenta:61 Nicodemos não entende tal ensino (v. 9). Jesus expressa-se surpreso pela
sua ignorância (v. 10). Associando-se com seus discípulos e a totalidade do testemunho profético do
passado, Jesus afirma que eles têm visto e conhecido a obra do Espírito e, portanto, são idôneos
para dar testemunho da sua atividade (v. 11). Se os judeus rejeitam o seu testemunho concernente às
coisas terrestres, ainda que sua origem esteja nos céus (note-se a referência ao novo nascimento),
como poderão receber as bênçãos celestiais a respeito da máxima revelação de Seus eternos
conselhos? (v. 12). Ninguém subiu ao céu, entretanto, Deus quis que alguém descesse do céu ao
mundo (v. 13). Jesus veio do céu, com perfeito conhecimento de Deus, a fim de revelá-Lo aos
homens.
Jesus prossegue, então, ensinando a Nicodemos as “coisas celestiais” (v. 12). Explica que o
propósito de Sua vinda foi salvar o mundo (vs. 17-19) e não condenar, pois isso é algo que nós
mesmos fazemos mediante nossa livre rejeição de Cristo.
v. 16 Wilbert F. Howard (citado por Champlin) abre uma importante linha de pensamento ao
asseverar (in loc): “Este famoso v. 16, que Lutero denominou de evangelho em miniatura, não se
contenta em declarar a medida do amor divino; mas também assevera o seu resultado, no plano da
história. Contudo, o resultado da encarnação não é um ‘fiat’ arbitrário na esfera da redenção.
Confronta todos os homens com um dilema moral. Em face da alternativa da vida ou da perdição, o
homem se torna o responsável direto de sua escolha, a qual determina seu destino. A fé é uma
atividade da personalidade inteira. Não é meramente intelectual, mas é moral em sua natureza. A
antítese da fé não é a dúvida, e, sim, a desobediência. (ver o v. 36). O propósito de Deus, na missão
de seu Filho, não era a condenação, mas a salvação (v. 17); contudo, a reação dos homens a essa
revelação da luz é que determina o fim deles (v. 18), porque é o caráter essencial do indivíduo que
será levado a juízo (v. 19). E o teste desse caráter é a atitude para com a luz.”
“não pereça” O perecer, em seu aspecto mais sério, consiste em perder o grande destino que o
homem possui, na pessoa de Cristo, porquanto esse destino é infinitamente glorioso; mas somente
os indivíduos regenerados podem participar de tal destino.

Nota: Nicodemos, posteriormente, defende Jesus no Sinédrio (Jo 7:50-50; 19:39-40).

60
Sobre este assunto, é muito sugestivo o livro Como nascer de novo, de Billy Graham (Editora Betânia).
61
F. Davidson (editor), O novo comentário da Bíblia. Ed. Vida Nova, 2000 (3ª ed., reimp.), p. 1068.
65
Os ministérios de Jesus e João em paralelo (Jo 3:22-36)
Comparar com a atitude de Jesus, em João 4:1-3.
Depois disto, foi Jesus para o interior do país com seus discípulos; ali permaneceu com eles, e
batizava (v. 22). João Batista, por sua vez, vai a um lugar chamado Enom, perto de Salim — fica a
64 Km do rio Jordão (Jo 3:23). Ambos pregavam que o reino do céu estava próximo e que era
necessário o arrependimento. Jesus logo se viu seguido de maior multidão do que a de João, isto
porque Ele efetuava milagres o que João não fazia, e também por ser Ele o Messias proclamado
pelo próprio João e por sua personalidade mais impressionante.
As condições do paralelismo entre os dois ministérios:
1. A mesma mensagem: o reino de Deus62
2. O mesmo ritual: batismo de arrependimento
Choque entre os dois grupos de discípulos:
1. Debate acerca da purificação do VT (Lv 17:15; 22:4-6).
2. Ciúmes por Jesus atrair maior número de pessoas.
A popularidade de Jesus causa ciúmes no coração dos discípulos de João, que resolve a
questão em absoluta lealdade a Jesus, com humildade e discernimento, relembrando-os a natureza
preparatória da sua própria missão, e sua subordinação a Jesus (Jo 3:28). Dá testemunho de si
mesmo: é apenas arauto e amigo do noivo, e dá testemunho acerca de Jesus, mostrando a excelência
de Sua vida e missão: “veio do Céu e é sobre todos”.

“O amigo do noivo” Bruce comenta:63 Em um casamento, o padrinho não fica triste por não
ser o noivo; ele está ali para ajudar o noivo e certificar-se de que tudo dê certo, enquanto este se une
à noiva de sua escolha. O padrinho fica satisfeito se o casamento transcorre com sucesso e o novo
casal se alegra na companhia um do outro. Desta maneira, João está satisfeito por ter apresentado
Jesus aos fiéis em Israel. No tempo do A.T. (e em algumas outras culturas) o rei — especialmente o
rei divino de Israel — era considerado casado com seu povo ou sua terra; este é o centro da
promessa a Sião em Isaías 62:4s: “Chamar-te-ão: Minha-delícia (Hephzi-bah); e à sua terra:
Desposada (Beulah); porque o Senhor se delicia em ti; e a tua terra se desposará... como o noivo
se alegra da noiva, assim de ti se alegrará o teu Deus”. Por isso, as palavras de João podem conter
um segundo sentido, de que Jesus é o verdadeiro Rei e Messias de Israel. (Pode haver a mesma
implicação nas palavras de Jesus em Mc 2:19 de que os convivas do casamento não podem ser
obrigados a jejuar “enquanto o noivo está com eles”. João foi o precursor que preparou a entrada em
cena do Messias, e pode agora retirar-se satisfeito, já que o Messias veio e começou a ser aceito por
seu povo. João não traz nenhum sentimento de inveja ou rivalidade.

62
O REINO: A palavra “reino” ocorre mais de 40 vezes em Mateus; acha-se em todos os capítulos menos nos dois
primeiros e nos capítulos 14, 15 e 17.
Um reino político, no qual a nação judaica, com seu Messias, governaria o mundo, era o que o povo judeu esperava.
Herodes partilhava dessa noção, e tentou destruir Jesus enquanto este ainda era criança porque pensava que o Reino do
Messias seria um reino político rival, o que representaria uma ameaça contra o seu reino. João Batista era da mesma
opinião, e quando Jesus não deu nenhuma indicação de ser um rei desse tipo, João começou a duvidar se Jesus era
mesmo o Messias (Mt 11:3). Os doze apóstolos partilharam dessa noção mesmo depois da ressurreição de Jesus. A
última pergunta que postularam a Jesus foi: “Senhor, é neste tempo que vais restaurar o reino a Israel?” (At 1:6). Suas
mentes concentravam-se na independência política para sua pátria, mais que na salvação pessoal eterna.
Que reino Jesus veio fundar? Não um reino político, mas a soberania de Deus nos corações das pessoas, que lhes
controlará e transformará a vida. O coração é o âmbito no qual Jesus veio reinar. Ele veio para que toda a raça humana o
ame — ele então nos transforme segundo sua imagem. Toda a beleza e conforto da vida, a transformação do caráter e a
regeneração da alma crescerão a partir da afeição por Jesus, da dedicação a ele e da adoração a ele.
A palavra “reino”, conforme é usada no Novo Testamento, tem uma ampla gama de significados. A idéia básica da
palavra subentende o domínio de Jesus no coração do seu povo por todas as eras, até a eternidade. Mas às vezes se
refere especificamente a um dos vários aspectos ou etapas desse domínio: às vezes parece significar o Reino de Deus no
indivíduo; às vezes, o reino geral da justiça entre os homens; às vezes, a Igreja; às vezes, a cristandade; às vezes, o
milênio: e às vezes, o céu. — Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 477.
63

Joao: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1997 (reimp.), p. 92.


66
Aquilo que foi motivo de ciúmes para os discípulos de João, foi para ele motivo de alegria,
pois o concurso das multidões em torno de Jesus constituía o selo do seu próprio ministério (Jo
3:29). A estrela da manhã entra em ocaso quando nasce o sol na sua glória. É assim que o porta-voz
João cede lugar para o Cristo.

67
IV. JESUS EVANGELIZA A MULHER SAMARITANA E A ALDEIA DE SICAR
Um ministério de dois dias (Jo 4:4-42)

Algumas razões para Jesus deixar a Judéia (Mc 1:14; Mt 4:12; Lc 3:19-20; 4:14; Jo 4:1-3)
1. O aprisionamento de João Batista constituiu-se um alerta para Jesus. Herodes Antipas,
provavelmente passaria a perseguir Jesus pela semelhança do ministério e pelo grande número de
seguidores que vinha adquirindo. Prudentemente, retira-se a fim de cumprir cabalmente sua missão.
2. O mesmo Espírito que impeliu a João Batista a fim de que testificasse contra o pecado de
Herodes (sua união ilícita com Herodias, mulher de seu irmão Filipe), guiou Jesus até a Galiléia.
Passou por Samaria pois estava fora do domínio de Antipas.
3. Para evitar aparência de rivalidade com João Batista (Jo 4:3). Muitos discípulos de João
passaram a ser discípulos de Jesus e alguns começaram a pensar que o ministério de João havia sido
falho e ineficaz.
Talvez como medida de segurança, Jesus voltou para a Galiléia através de Samaria, em vez de
seguir a rota mais comum, que era o percurso pela Peréia, subindo através do Vale do Jordão. Não
era esta a rota comumente usada pelos judeus, pois nutriam uma rivalidade com os samaritanos.
Samaria estava fora da jurisdição de Herodes, que acabara de prender João Batista. Jesus estava
simplesmente de passagem, e sua conversa com a mulher samaritana não estava prevista, mas nem
por isso esse incidente deixa de ser um dos mais belos e reveladores da vida de Jesus.

Caracterização dos samaritanos


Os samaritanos provinham da mistura racial entre os poucos israelitas que foram deixados ali
quando as tribos do Reino do Norte foram deportadas pelos assírios e povos de outras regiões que
os assírios, 700 anos antes dos dias de Jesus, trouxeram para repovoar o país (II Rs 17:6, 24, 26, 29;
Ed 4:1, 9-10). Das Escrituras, os samaritanos só aceitavam o Pentateuco — os cinco livros de
Moisés: Gênesis até Deuteronômio. Esperavam que o Messias fizesse de Samaria, e não de
Jerusalém, a sede de seu governo.
Jesus era alvo das suspeitas das autoridades da própria nação, mas aqui os desprezados
samaritanos o acolheram com alegria. Um dos contrastes que se repetem mais freqüentemente nos
evangelhos é o repúdio de Jesus por parte dos líderes religiosos de sua nação e sua aceitação pelos
marginalizados, pelos pecadores e pelo povo comum.

A fonte da vida
Condições do encontro: Jesus cansado e sedento fisicamente; a mulher cansada e sedenta
espiritualmente. A mulher estranhou o fato de Jesus dirigir-se a ela, por ser ele judeu (não falavam
com os samaritamos) e Mestre (não ensinavam a mulheres).

A questão do local para o culto: Não no Templo (como criam os judeus), nem no Monte Gerizim
(como criam os samaritanos). Adorar a Deus em espírito e em verdade era a nova concepção de
culto instituída por Jesus.

v. 6 “hora sexta” — é igual ao meio dia, um horário impróprio para alguém buscar água, pois
o sol estava a pique. A samaritana (sendo ela prostituta, discriminada pelo povo) escolheu este
horário justamente por não haver ninguém junto ao poço. A mulher não esperava ver um homem ali,
àquela hora, nem que um judeu conversasse com ela.
v. 9 O espanto da mulher em ver que Jesus quebra um preconceito de tantos anos.
v. 10 “se conheceras” Ela não podia compreender porque não conhecia a sublimidade daquele
que falava com ela. Sendo prostituta, era acostumada a ser interpelada pelos homens para prazeres
sexuais, sendo comumente humilhada pelas pessoas devido a sua posição social. Ela não conhecia
porque não podia ver nem a superioridade da água nem a superioridade daquele que falava com ela.
“o dom de Deus” É o próprio Jesus, a vida eterna, a graça (que satisfaz todas as necessidades
do homem), o Espírito como agente da Salvação.
68
“tu lhe pedirias” Recebe a graça aquele que suplica, aquele que anela por ela.
“água viva” O próprio Jesus, a salvação. Ele é a água viva a jorrar pelo Espírito Santo. A
mulher não teve compreensão espiritual daquilo que Jesus falava. Não fez distinção entre a “água
do poço” e a “água viva”.
v. 12 “nosso pai Jacó” A grandeza de Jacó é referida: ele foi um dos patriarcas, o primeiro
dono do poço, aquele que deu o poço.
v. 14 A água que Jesus oferece é viva, satisfaz, e torna-se uma fonte perene a “jorrar para a
vida eterna”, a fluir do Espírito Santo constantemente, produzindo a vida de Deus nos crentes.
Portanto, “nunca terá sede”. Quando encontramos Jesus, nós nos satisfazemos com Ele. Não é
preciso buscar outra fonte.
vs. 19-24 Davidson comenta: Há salvação em Jerusalém ou em Gerizim? Os motivos da
samaritana em apresentar o problema parecem ser mistos. Jesus agora fala de um culto que não se
limita a nenhum lugar. Jesus apresenta a fé judaica como superior, dizendo “a salvação vem dos
judeus”, em contraste com a fé dos samaritanos, com seu culto ritualista destituído de valores
espirituais. No v. 23 Jesus define a verdadeira natureza do culto. O local é secundário; o que
importa é a realidade espiritual. O advento messiânico dá um golpe mortal aos preconceitos raciais.
O culto deve ser pessoal e espiritual, oferecido a Deus pela inspiração do Espírito. Os requisitos
indispensáveis para o verdadeiro culto são definidos como sendo realidade na vida íntima e
sinceridade quanto ao propósito espiritual.
Posteriormente, o testemunho desta mulher levou outras pessoas a Jesus (Jo 4:28-30).
v. 26 Eu sou o Messias. Essa foi a única vez, antes de seu julgamento, que Jesus declarou ser
o Messias.
v. 35 Vede os campos. Jesus quebra o nacionalismo dos discípulos, apelando para que
percebessem os campos brancos para a ceifa (os samaritanos). Alguns acham que o incidente
ocorreu em dezembro ou janeiro, quatro meses antes da época normal da colheita. Neste caso o que
Jesus quis dizer era: “Vocês dizem que quatro meses precisam passar até que a seara esteja madura;
mas olhem para esta seara pronta para ser colhida!” — referindo-se às pessoas em Sicar que
estavam vindo para o poço, a fim de vê-lo.
Toda a cidade recebe com espanto as Boas Novas transmitidas pela mulher (a primeira
missionária). Essa visita de Jesus lançou os alicerces para a calorosa recepção do evangelho pelos
samaritanos, poucos anos depois (At 8:4-8).

LIÇÃO PARA HOJE: Estrategicamente, Jesus alcança a capital dos samaritanos, onde o orgulho nacional era maior.
Não se deteve ante as restrições dos discípulos, nem teve medo de expor-se.

NOTA ARQUEOLÓGICA: O poço de Jacó


O poço de Jacó, de 30 m de profundidade e de 2,7 m de diâmetro, é um dos poucos locais da vida de Jesus que
se pode identificar com certeza e precisão. Está situado no sopé do monte Gerizim, que era (e ainda é) o centro do
culto samaritano. Escavações recentes no cume do monte Gerizim começaram a revelar ruínas de um antigo templo
samaritano.

Ele exige adoração verdadeira 64


A mensagem de Jesus reprova tanto a auto-justiça de um fariseu quanto o estilo de vida libertino de
uma adúltera devassa. O ministério de Jesus descrito nos capítulos 3 e 4 de João cobre os dois extremos do
espectro moral.
Tudo o que sabemos do passado daquela mulher é que a sua vida era um emaranhado de adultérios e
divórcios. Na sociedade de então, isso fazia dela uma pessoa rejeitada e proscrita, com um status social igual
ao de uma prostituta comum. Ela parecia tudo, menos um alvo prioritário para evangelização! Para chamá-la
a Si mesmo, Jesus teve de forçá-la a encarar a sua própria indiferença, lascívia, egocentrismo, imoralidade, e
preconceito religioso.

64
John F. MacArthur, Jr., O Evangelho Segundo Jesus. Editora Fiel, 1999 (3ª ed.), p. 54-55.
69
Esta mulher é um contraste vívido com relação a Nicodemos. Os dois são extremos opostos.
Nicodemos era judeu; ela, samaritana. Ele era homem; ela, mulher. Ele um líder religioso; ela, uma adúltera.
Ele era culto; ela, ignorante. Ele era membro da classe mais distinta; ela, da mais baixa — mais baixa até do
que a dos párias de Israel, pois ela era um pária de Samaria! Ele era rico; ela, pobre. Ele reconheceu que
Jesus era Mestre vindo da parte de Deus; ela não fazia a menor idéia de quem Ele era. Dificilmente os dois
poderiam ser mais diferentes!
Todavia, foi o mesmo Cristo poderoso e onisciente que se revelou a ela. Observe: não se trata aqui,
basicamente, da história de uma mulher samaritana. Antes, trata-se do relato da autorevelação de Jesus
como Messias. Dentre todas as ocasiões para manifestar quem era, Jesus escolheu dizê-lo primeiro a esta
samaritana desconhecida. Podemos estranhar, perguntando-nos por que Ele não foi ao centro de Jerusalém,
ao templo, e anunciou aos líderes reunidos que Ele era o Messias. Por que o revelou primeiro a uma mulher
anônima e adúltera?
Com toda a certeza, Jesus queria demonstrar que o evangelho é para o mundo todo, e não apenas
para a raça judia, e que o Seu ministério visava os pobres párias tanto quanto a elite religiosa. O fato de ter-
Se revelado a uma samaritana adúltera, ignorando os líderes judeus que esperavam o seu Messias,
constituiu-se numa censura a eles. Quando, afinal, Ele desvendou a verdade para os líderes de Israel, estes,
de qualquer forma, não creram.

Nota: Passados dois dias, Jesus partiu dali para a Galiléia (Jo 4:43).

70
V. O LONGO MINISTÉRIO DE JESUS NA GALILÉIA

Prefácios sinóticos do grande ministério na Galiléia (Mc 1:14-15; Mt 4:12,17; Lc 4:14-15)


Neste ponto é reiniciada a viagem para a Galiléia, que podemos observar, em seu começo,
em Jo 4:3. Jesus abandonou a área de Jerusalém por causa da ameaça de perseguição religiosa,
movida pelas autoridades judaicas perturbadas ante o ministério de Jesus, em face de suas
crescentes proporções, pois agora Ele vinha recebendo mais generalizada aclamação popular do que
o próprio João Batista. João fora posto na prisão, e aguardava a execução. Portanto, Jesus deve ter
pensado que a ocasião era propícia para seu afastamento daquele território. Assim sendo, partiu para
a Galiléia; e esta parte conta-nos como a reputação de Jesus já chegara antes dele à Galiléia, e como
Ele iniciou ali o seu ministério de pregação e de milagres.

A mensagem de Jesus
Jesus inicia seu ministério pregando a mesma mensagem de arrependimento antes pregada por
João (Mc 1:15):
“o tempo está cumprido” A promessa feita por Deus, na ocasião da queda do homem,
propagada pelos profetas e aguardada por todo Israel, é cumprida na pessoa de Jesus. Ele era a
semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente.
“o reino de Deus está próximo” Jesus se manifestou para desfazer as obras do diabo. Jesus
vence o Maligno e implanta o reino. — Provas visíveis da chegada do reino: Jesus prega o
evangelho; opera milagres; vence o maligno; dá a posse da salvação; é o Cristo. Através do
ministério de Jesus, ficava patente o fato de Satanás estar perdendo o domínio sobre a vida do
homem, o que denota a presença de um novo reino.
“arrependei-vos” O arrependimento é o primeiro requisito para entrar no reino de Deus.
Arrependimento é mudança de mente, deixar o caminho do pecado e seguir as veredas da fé,
abandonar o mal e seguir a justiça.
“e crede no evangelho” Evangelho significa “boas novas de salvação”. Jesus não era só o
porta-voz das boas novas, Ele mesmo era a mensagem que pregava. Sendo assim, crer no evangelho
é crer em Deus, porque o evangelho é de Deus. É crer no Filho de Deus, porque Jesus pregou o
evangelho de Deus. É crer no Espírito Santo, porque o Espírito Santo ungiu Jesus para pregar o
evangelho.

LIÇÃO PARA HOJE: Cristo deu continuidade à tarefa de João (exemplo de um trabalho em equipe). Jesus podia deter-
se em pregar outras doutrinas, descrever as glórias do Céu para comover os homens e levá-los ao arrependimento,
mas preferiu falar da maior alternativa que Deus concede ao pecador — começar de novo mediante o genuíno
arrependimento.

Cura do filho de um oficial do rei (Jo 4:46-54)


Após o encarceramento de João Batista, Jesus partiu para a Galiléia passando por Samaria
(Mc 1:14) e chega a Caná da Galiléia, onde havia transformado água em vinho (Jo 4:46). Nessa
cidade, foi procurado por um dos representantes de Herodes em Cafarnaum o qual lhe solicitou que
curasse seu filho. Jesus, mesmo estando em Caná, cura o menino estando este em Cafarnaum (à
distância de 31 km). A esperança que o oficial tinha de conseguir que Jesus curasse o seu filho
baseava-se no contato que tivera com os galileus, os quais creram no Senhor, pelos milagres que
operava. Era predito que o Messias viria praticando sinais e prodígios.
“creu nele” Jesus não precisou ver nem tocar fisicamente o menino para curá-lo. Sua fé foi
confirmada pela experiência. Esta fé contaminou toda a sua casa.
“segundo sinal miraculoso” (v. 54) significa a segunda ocasião em que foi operado um sinal
na Galiléia. No período intermediário, Jesus realizara sianis em Jerusalém (Jo 2:23).
Saindo de Caná, Jesus dirige-se para Nazaré.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Jesus não necessita de tempo ou espaço para curar. É bastante fé e obediência para Deus agir.
2. Vemos as palavras de Jesus encontrando eco entre os grandes da corte.
71
Jesus prega em Nazaré. É rejeitado pelos seus (Lc 4:16-30; Mt 13:54-58; Mc 6:1-6)
Esse parece ter sido o primeiro retorno de Jesus a Nazaré desde seu batismo, mais de um ano
antes. Pelo que sabemos, Ele passou o período intermediário no deserto, em Caná, em Cafarnaum e
na Judéia (Jo 2:1, 12; 4:46).
Cultos na sinagoga: Eram realizados aos sábados, pela manhã, às vezes indo até à tarde. Fazer
a leitura dos livros era algo honroso, tanto que muitos compravam este direito. Lucas deixa claro
que Jesus freqüentava costumeiramente as sinagogas, onde Ele divulgava a chegada do reino de
Deus. Participantes do culto eram solicitados para ler as Escrituras e fazer os devidos comentários.
O livro citado: Ali recebe o livro do profeta Isaías para ler. Aparentemente Jesus não
selecionou o livro do qual leu, pois este lhe foi entregue pelo chefe da sinagoga (Lc 4:17). A
passagem porém pode ter sido selecionada pelo chefe da sinagoga ou pelo próprio Jesus, como
sugere Lucas 4:17b. Jesus lê Isaías 61:l-2a, seguido por 58:6. As palavras faziam referência a uma
profecia messiânica. Após a leitura, afirmou que essa profecia que acabara de ler estava sendo
cumprida, isto porque as palavras de Isaías aplicavam-se ao ministério que Ele estava começando
(Lc 7:22).
“Hoje se cumpriu” Os contemporâneos de Jesus não duvidavam que o reino de Deus viria
algum dia; porém, não se aperceberam que ele já era presente, por esta razão, quando ensinavam
sobre ele davam sempre um teor de algo futuro. Jesus tratava do reino de Deus como algo presente,
mostrava Deus agindo no presente, na obra do Filho, isto é, na vida e no ministério de Jesus. “Não
numa era futura, mas agora o poder do cativeiro do pecado haveria de ser quebrado, a comunhão
com Deus estabelecida, e a vontade de Deus feita.” (frase do comentarista Manson, citada por
Morris).
“Não é este o filho de José?” Esta pergunta mostra que aquelas pessoas não sabiam nada
sobre a real origem de Jesus, não compreendiam o caráter de Sua missão. Escritores afirmam que,
apesar de pobre, José era muito conhecido por causa do ofício de carpinteiro. As pessoas ficaram
maravilhadas com a personalidade atraente e poderosa de Jesus ao falar. Elas estavam atônitas —
dificilmente conseguiam acreditar que se tratava do menino que viram crescer. Mesmo naquela
cidadezinha, Jesus vivera uma vida tão quieta e pertencera a uma família tão humilde, que os
vizinhos congregados na sinagoga mal o reconheceram (v. 22). O povo conhecia sua origem terrena,
porém desconhecia Sua filiação divina.
vs. 25-27 Jesus ilustra Seu argumento com referências a dois grandes profetas: Elias e Eliseu,
os quais tinham sido enviados a gentios, e não a israelitas — indício da própria missão de Jesus.
Elias foi ajudado, não por uma das muitas viúvas israelitas dos seus dias, mas por uma mulher de
Serepta de Sidom (cf. I Rs 17:8ss). E Eliseu curou, não um dos muitos leprosos em Israel, mas, sim,
Naamã, o sírio (II Rs 5:1-14).
vs. 28-30 A ira propagou-se pela congregação inteira. Esse fato — bem como os milagres
operados em outras cidades, e não na própria cidade — ofendeu de tal maneira o bairrismo bitolado
do povo judeu que foram tomados de fúria e tentaram matar Jesus. Após esta rejeição, o Mestre
destaca que o seu ministério seria entre os gentios.

Seqüência dos fatos ocorridos na sinagoga:


— Jesus faz a leitura de Isaías (61:1-2);
— Jesus aplica a passagem em Sua própria vida;
— A admiração do povo em vê-lo falar tão bem, ou tão profundamente a cerca de Deus, tendo
nascido em Nazaré e ali sido criado;
— Jesus revela aquilo que ia no coração do povo (Lc 4:23);
— Jesus menciona casos da graça de Deus sendo demonstrada aos gentios (Lc 4:25-27);
— A ira do povo por Jesus ter mencionado a graça de Deus alcançando gentios (Lc 4:28-29);
— Jesus escapa da fúria do povo, simplesmente passando entre eles e indo embora (Lc 4:30).

Nota: Muitos estudiosos concordam no fato de que Jesus nunca mais voltou a Nazaré, considerando

72
então as passagens de Marcos 6:1-6 e Mateus 13:54-58 como relato do mesmo acontecimento.

Residência em Cafarnaum (Mt 4:13-16; Lc 4:31)


Cafarnaum se tornou o lar de Jesus pelo resto de seu ministério, apesar de viajar
constantemente e não residir de fato com sua família. Cidade marítima, nos confins de Zebulom e
Naftali — refere-se à Galiléia dos gentios. Isaías profetizou: “O povo que vivia em trevas viu uma
grande luz”.
Nota histórica:65 Durante o primeiro grande cativeiro, a maior parte da população do território da
Galiléia foi levada para a Assíria. Depois, a população dessa região ficou ainda mais misturada com
diversas raças. Essas condições afetaram todos os elementos da vida na Galiléia. O idioma adquiriu
um sotaque bastante diferente do da Judéia (ver Mt 26:73). As idéias religiosas foram modificadas.
O povo se tornou dotado de um espírito de independência e talvez até de alienação. A distância
entre essa região e a capital impedia a participação política e religiosa com os outros judeus. Assim,
a Galiléia foi considerada parte inferior do país (Jo 7:41; 1:46).

Cafarnaum: A sinagoga e a casa de Pedro 66


O sítio arqueológico de Cafarnaum, a “base de operações” de Jesus durante seu ministério terreno (Mt 4:13; Mc
2:1), localiza-se no litoral noroeste do mar da Galiléia. Ele realizou muitos milagres ali (Mt 8:5-13; Mc 2:1-13; Jo 4:46-
54). Três dos discípulos provinham de Cafarnaum, e Pedro e André tinham se mudado para lá, provenientes de
Betsaida (Mc 1:29). A pesca era provavelmente a principal atividade comercial, embora seja possível que implementos
de basalto (tais como prensas de azeitonas e moedores de grãos) também fossem produzidos. A aldeia ocupava os dois
lados da rota comercial internacional que ligava o mar Mediterrâneo à Transjordânia e Damasco, e parece que havia ali
um posto alfandegário por causa da proximidade do rio Jordão e do território de Filipe, o tetrarca (Mt 9:9; Mc 2:14).
A despeito das obras e doutrinas notáveis de Jesus, o povo não se arrependeu, e Jesus predisse que Cafarnaum
“desceria até o Hades” no Dia do juízo (Mt 11:23-24; Lc 10:15).
A sinagoga: A grande e bela sinagoga de pedra calcária branca é conhecida há muitos anos, e sua data
provavelmente remonta ao século IV d.C. Em anos recentes, os franciscanos que escavaram embaixo dessa sinagoga
descobriram os alicerces, feitos de basalto negro e tendo quase um metro de altura, de uma sinagoga ainda mais antiga
— cuja data remonta provavelmente ao século I d.C. Esta, na realidade, pode ter sido a própria sinagoga edificada pelo
centurião (Lc 7), na qual Jesus pregou.
A casa de Pedro: Nas escavações da área residencial da aldeia de Cafarnaum, os franciscanos descobriram
uma construção muito especial do século I, na qual existia um cômodo que era venerado. Nas paredes rebocadas
desse cômodo havia rabiscos mencionando o “Senhor Jesus Cristo”, “Cristo” e cruzes. Segundo parece, cristãos judeus
do século I d.C. veneravam esse cômodo por ser a casa de Pedro, o discípulo de Jesus, o lugar em que, por certo,
Jesus se hospedara em muitas ocasiões. No século IV, uma igreja foi construída sobre a casa, e no século V foi
levantada uma igreja octogonal e assim, o “cômodo” ficou bem no centro da igreja.

Chamada de André, Simão, Tiago e João (Mc 1:16-20; Mt 4:18-22; Lc 5:1-11)


Mar da Galiléia: Massa de água potável a 213 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo. A
área tem um clima semitropical. Esse mar, que realmente é um lago, tinha outros nomes, como mar
de Quinerete (Nm 34:11); mar de Quinerote (Js 12:3); lago de Genezaré (Lc 5:1); mar de
Tiberíades (Jo 21:1), por causa de uma das principais cidades que havia em suas margens. Seu
nome moderno é Yam Hinneret. O lago tem cerca de 20 quilômetros de comprimento por 11 de
largura. No tempo de Jesus a indústria da pesca era muito importante naquela região, e muitas vilas
e cidades estavam localizadas às margens do lago.
Lc 5:2 “lavando as redes” Sempre faziam isto pela manhã, após uma noite de pescaria.
Depois de uma noite de trabalho infrutífero, recebem o convite de Jesus. Uma chamada em
duas dimensões: “Vinde a mim”, chamada para a salvação, e “Vinde após mim”, um convite
específico para o ministério público dos discípulos, cujo treinamento inspecionado seria dado pelo
próprio Mestre. Nem todos são chamados para um ministério específico, mas todos são chamados
para ganhar almas.
65
R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado (vol. I), p. 295.
66
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 496.
73
Dois desses homens tinham sido discípulos de João Batista e chegaram à fé em Jesus um ano
antes, depois de João ter batizado Jesus (Jo 1:35-42). Agora são chamados para se tornar discípulos
e companheiros de viagem de Jesus.
“Eu vos farei pescadores” O Cristo que chama, qualifica o discípulo, autentica suas obras e o
faz produzir fruto. Jesus inicia o discipulado de Pedro, Tiago, João e André na cidade onde eles
eram conhecidos como pescadores. O treinamento dos discípulos envolvia, entre outros aspectos, a
autoridade que deveriam ter sobre o poder das trevas e sobre as enfermidades.
O nome destes quatro discípulos encontra-se, posteriormente, na lista dos apóstolos (Mc 3:13-
19; Lc 6:12-16; Mt 10:2).

Jesus não chamou ociosos


ANDRÉ E SIMÃO, pescavam; TIAGO E JOÃO, consertavam as redes; MATEUS, cumpria seus deveres na
coletoria. No VT, diversas vezes vezes Deus chamou pessoas que labutavam: MOISÉS, apascentava o rebanho do sogro
(Êx 3:1-8); GIDEÃO, malhava o trigo (Jz 6:11); ELIZEU, arava com doze juntas de bois (I Rs 19:19-21), e outros.
Todos podem tornar suas ocupações em oportunidades de serviço para Cristo.

A libertação de um endemoninhado (Mc 1:21-28; Lc 4:31-37)


Halley sintetiza: Nesse relato, vemos que o espírito maligno tinha a capacidade de tomar
posse do corpo de um homem com a intenção de atormentá-lo e destruí-lo. O demônio falou através
do homem, reconheceu a divindade de Cristo e chamou-o “o Santo de Deus”. Jesus ordenou que o
demônio se calasse e saísse do homem. O espírito maligno, reconhecendo a autoridade de Jesus
sobre Satanás e todos os espíritos demoníacos, obedeceu imediatamente à ordem de Jesus e deixou
o corpo do homem. Jesus não deixava os demônios falarem a respeito de sua divindade. Queria,
sim, demonstrar ao povo, mediante seus ensinos e ações, que ele era o Messias aguardado havia
muito tempo; depois Ele se declararia o Filho de Deus.

A cura da sogra de Pedro e outros milagres (Mc 1:29-34; Mt 8:14-17; Lc 4:38-41)


Notas: 1. Talvez a febre tifóide dos dias de hoje; essa febre era muito comum no norte da
Galiléia. 2. Esse fato evidencia que Pedro era casado. Outra evidência: Paulo mencionou que Pedro
levava a esposa para as viagens missionárias (I Co 9:5).
“Ao pôr do sol” marcava o fim do sábado judaico, possibilitando assim que os enfermos
fossem carregados para serem medicados pelos sacerdotes, sem se contrariar a lei mosaica.
“impondo as mão sobre cada um” (Lc 4:40) Cristo nunca perde de vista o indivíduo, mesmo
quando uma multidão o envolve. As curas realizadas por Jesus eram cumprimento parcial de Isaías
53:4. Jesus realizou milagres para ajudar as pessoas a crer no que Ele dizia.67

Nota: Jesus, em meio a estas atividades “se levantou alta madrugada” e afastando-se da agitação da
cidade, buscou um lugar de oração (Mc 1:35).

A purificação de um leproso (Mc 1:40-45; Mt 8:2-4; Lc 5:12-16)


A palavra grega traduzida por “lepra” pode se referir a várias enfermidades que afetam a pele,
incluindo a própria lepra. O leproso vivia com outros fora do arraial, segundo a Lei ordenava.
Aproxima-se de Jesus quebrando a Lei. A atitude de Jesus foi não rejeitar o enfermo, mas curá-lo
imediatamente. Jesus mandou o leproso mostrar-se ao sacerdote a fim de receber a declaração
oficial de sua cura, pois assim exigia a Lei (Lv 13 e 14). Também lhe ordenou que não saísse
falando a respeito da cura que recebera, pois não queria que ficasse fora de controle o movimento
que desejava convocar Jesus para fazer dele um rei político. A razão dos milagres era demonstrar a
compaixão de Deus, e não conquistar o poder político. Jesus buscava a fé entre o povo, e não a
fama.

67
O livro “Teologia dos Milagres de Jesus” (João Ferreira Santos, JUERP) traz o interessante capítulo: “As Narrativas
de Milagres e a Intenção dos Evangelistas”.
74
As conseqüências da desobediência do leproso (Mc 1:41): a) Causou inconvenientes a Cristo;
b) Impediu que os sacerdotes recebessem maior luz quanto à autoridade de Jesus sobre as doenças.

Um paralítico é perdoado e curado em Cafarnaum (Mc 2:1-12; Mt 9:1-8; Lc 5:18-26)


Fé individual e fé coletiva. Jesus elogia a fé dos companheiros do paralítico (Mc 2:5). Fizeram
uma abertura no telhado68 e baixaram o paralítico em seu próprio leito.
“O que é mais fácil?” (Mc 2:9) Jesus recompensa a fé daqueles homens perdoando o
paralítico, curando-o e restituindo-o à sua família.
“Na qualidade de redentor e libertador da humanidade, Jesus foi nomeado para anular o poder
inteiro do mal entre os homens, ferindo-o nas raízes, bem como em seus ramos, e tanto em seus
efeitos quanto em suas causas.” (frase de Gould, citada por Champlin).
Estratégia missionária de Jesus: envia o ex-paralítico como testemunha entre os seus.

69
OS MILAGRES DE JESUS
Milagre Passagem bíblica
Água transformada em vinho Jo 2:1
Muitas curas Mt 4:23 Mc 1:32
Cura de um leproso Mt 8:1 Mc 1:40 Lc 5:12
Cura do servo de um centurião romano Mt 8:5 Lc 7:1
Cura da sogra de Pedro Mt 8:14 Mc 1:29 Lc 4:38
Tempestade no mar Mt 8:23 Mc 4:35 Lc 8:22
Cura do endemoninhado em Gadara Mt 8:28 Mc 5:1 Lc 8:26
Cura do paralítico Mt 9:1 Mc 2:1 Lc 5:18
Cura da mulher com hemorragia Mt 9:20 Mc 5:25 Lc 8:43
Ressurreição da filha de Jairo Mt 9:23 Mc 5:22 Lc 8:41
Cura de dois cegos Mt 9:27
Cura de um homem possesso Mt 9:32
Cura de um homem com a mão atrofiada Mt 12:10 Mc 3:1 Lc 6:6
Multiplicação dos pães Mt 14:15 Mc 6:35 Lc 9:12 Jo 6:1
Anda sobre o mar Mt 14:22 Mc 6:47 Jo 6:16
Cura da menina siro-fenícia Mt 15:21 Mc 7:24
Segunda multiplicação dos pães Mt 15:32 Mc 8:1
Cura de um menino endemoninhado Mt 17:14 Mc 9:14 Lc 9:37
Cura de dois cegos em Jericó Mt 20:30
Cura de um homem com espírito imundo Mc 1:23 Lc 4:33
Cura de um surdo e mudo Mc 7:31
Cura de um cego em Betsaida Mc 8:22
Cura do cego Bartimeu Mc 10:46 Lc 18:35
Pesca milagrosa Lc 5:4 Jo 21:1
Ressurreição do filho de uma viúva Lc 7:11
Cura de uma mulher corcunda Lc 13:11
Cura de um homem hidrópico Lc 14:1
Cura de dez leprosos Lc 17:11
Cura da orelha de Malco Lc 22:50
Cura do filho de um oficial do rei Jo 4:46
Cura de um paralítico em Betesda Jo 5:1
Cura de um cego Jo 9:1
Ressurreição de Lázaro Jo 11:38
SINAIS E MILAGRES NO NOVO TESTAMENTO
De uma perspectiva bíblica, milagre é uma ação extraordinária de Deus, que pode transcender os poderes comuns da
natureza. Em toda a Bíblia, os milagres acontecem mais em momentos de crise na história da salvação. Eles confirmam a

68
Tipicamente, as coberturas das casas eram feitas de barro amassado, lançado sobre uma teia de ripas e ramos.
69

Manual Bíblico Vida Nova, p. 652 e 659.


75
presença de Deus nos fatos históricos. A terminologia básica do Novo Testamento usada para descrever esses fatos vai
desde "sinais" (Jo 2:11; 10:41) até "prodígios" (Mt 24:24, Mc 13:22), "milagres" (Mt 7:22; Lc 10:13) e "obras" (Lc 24:19; Jo
5:20).
Jesus destacou a relação entre seu ministério miraculoso e a vinda do reino de Deus (Mt 12:28). Sua atividade
sobrenatural significou a chegada de uma nova época nos planos de Deus (Lc 4:18-21). Apesar da natureza de revelação dos
milagres de Cristo, seu testemunho nem sempre foi reconhecido; eles tinham de ser interpretados pela fé.
Os relatos de milagres nos evangelhos revelam temas teológicos diferentes. Marcos deu mais ênfase nas ações de
Cristo que os outros escritores dos evangelhos. Conseqüentemente, dos quatro evangelhos, Marcos contém a maior
proporção de milagres. Em Marcos, o enfoque dos milagres abrange tensões e confrontos, quando Cristo discutia com seus
opositores e até com seus discípulos. Enquanto Mateus destaca os milagres de cura, Marcos se concentrou nos exorcismos;
Cristo é aquele que "amarra" Satanás (Mc 3:27).
Todavia, apesar do poder evidente nas ações de Cristo, os milagres podem ser compreendidos somente pela fé; eles
não geram fé. Os discípulos não entenderam os elementos miraculosos do ministério de Cristo (4:40; 6:52). Eles precisavam
do ensino de Jesus e da sua pessoa para entender corretamente esses acontecimentos (4:40; 5:34).
Marcos destaca as ações de Jesus; Mateus mostra mais seu ensino. Por isso os milagres são agrupados em trechos
de instrução com propósitos teológicos. Em Mateus, os milagres revelam o poder soberano de Jesus e sua capacidade de
perdoar pecados (Mt 8—9). Também mostram sua autoridade sobre a lei e sobre Satanás (Mt 12). Além disso, Mateus usou
os milagres para mostrar a transição no ministério de Cristo. Os discípulos estavam envolvidos na atividade de Cristo (Mt 14—
15). À medida que aprendiam com seus atos, tornaram-se um meio pelo qual o ministério de Jesus foi ampliado.
Os milagres em Lucas expressam principalmente a autoridade de Jesus sobre as forças da natureza e sobre o mundo
dos demônios. Em Lucas, os milagres têm uma força de legitimação maior do que nos outros evangelhos. Eles autenticam a
fé em Jesus (Lc 7:16; 9:43). Quando as pessoas testemunhavam o poder de Deus atuando em Jesus, ao mesmo tempo
"viam" (10:23-24; 19:37) e "temiam" (5:26; 8:35) a verdade divina nele.
O evangelho de João registra apenas sete milagres ou "sinais" do ministério de Cristo. Como sinais, esses milagres
servem de símbolos do verdadeiro significado de Jesus. Todavia, enquanto muitos se maravilhavam com as realizações
sobrenaturais de Cristo, apenas os verdadeiros crentes viam as implicações espirituais desses sinais. Eles confrontavam os
ouvintes de Jesus com a necessidade de tomar uma decisão. Enquanto alguns rejeitavam o verdadeiro sentido dos sinais
(2:23-25; 4:45), outros cresciam em entendimento por causa desses fatos (2:11; 11:42).

Viagens evangelísticas por toda a Galiléia: fama, multidões e milagres (Mc 1:35-39; Mt 4:23-
25; 9:35-38; Lc 4:42-44)

Jesus fazia muitas viagens curtas, sempre voltando para Cafarnaum. Halley informa: “A
Galiléia era cortada por famosas estradas internacionais, ao longo das quais os comerciantes
viajavam entre o Egito e o Eufrates. Uma dessas estradas passava por Cafarnaum. Posteriormente,
os romanos pavimentariam algumas das estradas internacionais mais importantes que passavam
pela Palestina, mas nos dias de Jesus todas as estradas ainda eram de terra: poeirentas no verão e,
em alguns lugares, lamacentas na estação das chuvas.”
Jesus realizou três viagens por toda a Galiléia, visitando suas aldeias. À medida que sua fama
crescia, Ele estendia seus termos a outras vizinhanças (Mc 1:35-36).
O intuito de Jesus nas cidades era anunciar ao povo a chegada do Reino e o arrependimento
dos pecados e não “fartar” o povo de sinais e prodígios. Ele nunca realizou um milagre sem ter para
isso um objetivo; nunca buscou a sua glória, mas sim a do Pai (Jo 17:4).
O ministério de Jesus embora fosse exercido em toda a Galiléia, estava confinado quase
exclusivamente ao povo de Israel. Foi nas sinagogas que a maior parte de seus ensinos foram
ministrados, tendo sido entre o povo judeu que Sua mão estava estendida para curar (Mt 4:23). Mas
a notícia do que Ele fazia em toda a Galiléia, se espalhou por toda a Síria (Mt 4:24), ao norte e
nordeste da Palestina. Aonde quer que Jesus fosse, grande multidão o seguia: não apenas galileus,
mas peregrinos das cidades gregas livres e do sudeste do Mar da Galiléia, conhecidos como
Decápolis, de Jerusalém da Judéia e da Transjordânia.
Nota: Lucas especifica “sinagogas da Galiléia”, porém existem traduções bíblicas que trazem
“sinagogas da Judéia”. Sendo assim, devemos entender a palavra Judéia referindo-se a toda
Palestina (Lc 2:35).

A par da fama de Jesus, cresce também a hostilidade por parte dos escribas e fariseus.
76
O Sermão do Monte (Mt 5—7; Lc 6:20-49)
Mateus coloca o Sermão do Monte como introdução à sua história do ministério na Galiléia,
embora as palavras pareçam ter sido pronunciadas alguns meses mais tarde, na ocasião em que
foram escolhidos Os Doze (Lc 6:12-20) — se, na realidade, Lucas está relatando o mesmo sermão.
O fato deve ser que Mateus considerava o Sermão do Monte resumo dos ensinos de Jesus e que
todo o ministério de Jesus foi uma ilustração desse sermão.
Entende-se, em geral, que o relato de Lucas é uma forma abreviada do mesmo sermão que
está registrado em Mateus de 5 a 7. Os dois registros diferem um pouco entre si. Não podemos ter
certeza se são relatos diferentes do mesmo sermão ou substancialmente o mesmo sermão pregado
em ocasiões diferentes. Jesus ensinava continuamente, e é provável que tenha pronunciado essas
palavras, de formas variadas, centenas de vezes. Talvez se trate aqui de uma coletânea (um tipo de
condensação) de seus ditos mais característicos, um tipo de resumo de seus ensinos principais. Sua
beleza literária, bem como sua didática, é sem igual em toda a literatura existente.
Halley admite: “Visto que o Sermão do Monte contém a própria essência dos ensinos de
Jesus, podemos considerá-lo, em relação ao NT, semelhante ao que os Dez Mandamentos
representam no AT. Todo crente deve ler o Sermão do Monte, familiarizar-se com ele e esforçar-se,
com toda a sinceridade, por viver segundo os seus ensinos.”
John Stott sintetiza: “O Sermão do Monte é o esboço mais completo, em todo o Novo
Testamento, da contracultura cristã. Eis aí um sistema de valores cristãos, um padrão ético, uma
devoção religiosa, uma atitude para com o dinheiro, uma ambição, um estilo de vida e uma teia de
relacionamentos: tudo completamente diferente do mundo que não é cristão. E esta contra-cultura
cristã é a vida do reino de Deus, uma vida humana realmente plena, mas vivida sob o governo
divino.”70

As bem-aventuranças: o caráter do cristão (Mt 5:1-12)71


Bem-aventurados, felizes, são os pobres em espírito, os que choram, os humildes, os que têm
fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores e os perseguidos
por causa da justiça. Esses padrões são totalmente opostos aos padrões do mundo.
— “Nesses versículos, Jesus revela o padrão de vida para os cristãos, e ao assim fazer,
receberem prosperidade espiritual, transbordando de prazer e alegria no favor e na salvação de
Deus. Tudo isso a despeito de como o mundo avalia as condições externas do cristão. Por causa
desse conceito mundano, as bem-aventuranças com muita freqüência são entendidas como se Cristo
estivesse propondo que os cristãos vivam em condições infelizes e deprimentes a fim de serem
abençoados no céu. Muito pelo contrário! Jesus passa a dizer, nos versículos que se seguem, que os
cristãos devem ser o sal da terra, e ordena que deixem sua luz brilhar diante de todos. Por outras
palavras, Jesus está ensinando que se vivermos como servos, com o coração humilde e reto,
seremos ricamente abençoados aqui na terra, como também no céu. Jesus quer abençoar os cristãos
de tal maneira que os descrentes sejam atraídos para eles e, em conseqüência disso, possam ser
levados à salvação em Cristo.”72

Sal e luz do mundo: a influência do cristão (Mt 5:13-16)


Significa o que preserva e guia. O próprio Jesus é a luz do mundo (Jo 8:12). Seus seguidores
refletem Sua luz e glória. A motivação maior que uma pessoa pode ter é que sua maneira de viver
leve outros a glorificar a Deus. — “Não darei muito valor à sua religião até que possa vê-la. As
lâmpadas não falam, mas brilham.” (Charles H. Spurgeon)

70
John R. W. Stott, A mensagem do Sermão do Monte. ABU Editora, 1989 (2ª ed.), p. 6.
71
Uma boa sugestão para leitura complementar é o livro A Felicidade segundo Jesus — reflexões sobre a bem-
aventurança, de Russell P. Shedd (Edições Vida Nova).
72
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 469.
77
Jesus e a Lei: a justiça do cristão (Mt 5:17-48)
Jesus veio, não para abolir a Lei, mas para cumpri-la. Não há contraste aqui entre o ensino de
Jesus e o ensino de Romanos, Gálatas e Hebreus — epístolas que nos ensinam que somos salvos
pela fé em Cristo, e não pelas obras da Lei. O que Jesus quer dizer é que a Lei moral de Deus é uma
expressão da santidade do próprio Deus e, portanto, uma obrigação eterna do povo de Deus. Na
realidade, Jesus veio a fim de dar à Lei o significado mais profundo, que não exigia meramente atos
exteriores, como também mudança no íntimo do coração humano (o que, logicamente, tinha sido o
propósito da Lei desde o princípio). Ele passa, então, a ilustrar esse fato com cinco exemplos: o
assassinato, o adultério, os juramentos, a vingança e o ódio aos inimigos.
Homicídio (vs. 21-26). A lei contra o homicídio era um dos Dez Mandamentos (Êx 20:13;
19:18; Dt 5:17). Jesus proíbe que as pessoas alimentem ira no coração, pois isso equivale ao ato do
assassinato.
Adultério (vs. 27-32). A lei contra o adultério também era um dos Dez Mandamentos (Êx
20:14; Dt 5:18). Jesus nos proíbe de nutrir a lascívia que leva ao ato. Em conexão com a ira e com a
lascívia, Jesus adverte quanto ao risco de ir para o fogo do inferno (vs. 22, 29-30). Ele não somente
nos adverte que devemos vigiar nossos sentimentos íntimos como também vai muito além de
Moisés nas restrições ao divórcio (v. 32; Dt 24:1-4).
Juramentos (vs. 33-37). Jesus aqui se refere aos juramentos em juízo e aos votos. A Lei de
Moisés deixava claro que um voto não podia ser violado e que o juramento somente podia ser feito
em nome de Deus (“Temam o Senhor, o seu Deus, e só a ele prestem culto, e jurem somente pelo
seu nome”, Dt 6:13). Mas, no decurso dos séculos, foi desenvolvido todo um sistema de distinções,
segundo o qual um voto ou um juramento era um compromisso definitivo somente na medida em
que se relacionava com o nome de Deus. Jurar pelo céu e pela terra não era obrigatório, nem o era
jurar por Jerusalém — mas jurar em direção a Jerusalém era um compromisso irrevogável. Jesus
diz que todas as coisas estão relacionadas com Deus — não há questão de maior ou menor grau. E
devemos viver com tamanha integridade que os juramentos serão supérfluos.
Vingança (vs. 38-42). A legislação do “olho por olho” fazia parte da lei civil, administrada
pelos juízes (Êx 21:22-25; Lv 24:20). Aqui, Jesus não está legislando para os tribunais de justiça. O
governo civil é ordenado por Deus (Rm 13:1-7) para proteger a sociedade humana de seus
elementos criminosos. Aqui, porém, Jesus está ensinando princípios mediante os quais um
indivíduo deve lidar com os outros.
O ódio aos inimigos (vs. 43-48) não foi ensinado no AT. Pode ter ficado subentendido na
maneira como os inimigos de Israel foram tratados em alguns trechos do AT, mas o AT também
ensina compaixão para com os inimigos: “Não se alegre quando o seu inimigo cair, nem exulte o
seu coração quando ele tropeçar” (Pv 24:17) e “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se
tiver sede, dê-lhe de beber” (Pv 25:21). Jesus aprofunda o requisito da compaixão, incluindo
também o amor. Jesus também dá a entender que orar pelos nossos inimigos é uma das maneiras de
podermos expressar o amor piedoso (5:44).

Motivos secretos da vida: a piedade do cristão (6:1-18)


Religiosidade autêntica oposta à hipocrisia. São ilustradas aqui, em três áreas específicas, as
ações que levam ao crescimento e à maturidade espirituais:
1. Ajudar os necessitados (vs. 2-4). Contribua da mesma maneira que você contribui para
Deus; não faça alarde disso.
2. Oração (vs. 5-15).
3. Jejum (vs. 16-18).

Tesouros no céu: a ambição do cristão (6:19-34)


Jesus opõe a riqueza transitória e terrena à riqueza permanente e celestial. Os cristãos devem
ficar livres das ansiedades materiais ego-centralizadas e, em lugar disso, devem dedicar-se à

78
expansão do governo e da justiça de Deus. Quem dá a Deus a posição central em sua vida, gozará
do Seu cuidado onipotente e eterno (Rm 8:32).

Critérios sadios: os relacionamentos do cristão (7:1-20)


Não julgar os outros, mas servi-los (vs. 1-5).
Não atirae pérolas aos porcos (v. 6). Deemos evitar oferecer o Evangelho àqueles que
decididamente o rejeitam. Isso significa que devemos usar bom senso e diplomacia ao falar a
respeito de nossa fé — de outra forma, talvez façamos mais mal que bem à nossa causa.
Persistência na oração (vs. 7-11).
A Regra Áurea (v. 12).
O caminho apertado (vs. 13-14). Devemos tomar cuidado com os falsos profetas, que
impedem que muita gente encontre a porta estreita e o caminho difícil. Muitos se perderão e poucos
serão salvos — poucos, isto é, em comparação com o número dos perdidos. No fim, entretanto, os
salvos não deixarão de ser “uma grande multidão que ninguém podia contar” (Ap 7:9).

Obediência ao Senhor: uma dedicação cristã (7:21-27)


O obstáculo mais devastador ao progresso do cristianismo tem sido a corrupção deste por
aqueles que alegam que foram enviados por Deus, mas ensinam falsas doutrinas. Eles podem ser
reconhecidos porque não produzem bom fruto.
Edificando sobre a rocha (vs. 24-27). Uma declaração muito nítida de que é inútil nos
chamarmos cristãos, a não ser que pratiquemos as coisas que Jesus ensinou no Sermão do Monte.
Há apenas duas respostas possíveis à pregação de Jesus: obediência ou rejeição.

SERMÃO DO MONTE
(Atividade complementar de pesquisa a ser feita pelo estudante)

O chamado de Levi (também nomeado Mateus) (Mc 2:13-17; Mt 9:9-13; Lc 5:27-32)


Jesus estrategicamente chama este homem influente entre os publicanos para romper o
compromisso com Roma e segui-lo. Mateus era um judeu a serviço de Roma e a área que ele atuava
era a que mais oprimia o povo, principalmente os pobres — cobrança dos impostos. Por essa razão,
crê-se que Mateus era odiado por muitos e marginalizado pela maioria da sociedade judaica. O fato
de Jesus recebê-lo em sua companhia, evidentemente animou a outros das classes desprezíveis a
segui-lo; com isso, aumentou o ódio dos fariseus contra Jesus. Vê-se isso por ocasião do banquete
que Mateus deu a Jesus logo após sua conversão, quando muitos publicanos e pecadores ali
compareceram,73 provocando a crítica dos fariseus (Mt 9:11). A qual Jesus respondeu: “Eu não vim
chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento”. Ele ordena que os escribas e fariseus
exerçam a misericórdia em lugar de sacrifícios vazios.

LIÇÃO PARA HOJE: Jesus preferiu ser compassivo em lugar de ser observador articuloso das tradições judaicas. O
Evangelho compromete, reabilita e inquieta opositores. O Evangelho invariavelmente atrai.

Uma pergunta sobre o jejum (Mc 2:18-22; Mt 9:14-17; Lc 5:33-38)


A lei estabelecia apenas um dia de jejum obrigatório para toda a nação, e este acontecia no
Dia da Expiação (Lv 23:27-29; At 27:9). Essa observância estava originalmente ligada ao episódio
da adoração do bezerro de ouro, e o jejum servia de ato de arrependimento em vista disso. Além
deste jejum anual os judeus jejuavam todas as 2ª e 5ª feiras (Lc 18:12). Os fariseus e os discípulos
de João tinham a prática de jejuarem duas vezes na semana, porém os discípulos de Jesus tinham
isto como facultativo e não obrigatório, a não ser no Dia da Expiação.
Ao que parece, os fariseus e os discípulos de João estavam jejuando no mesmo dia em que
Jesus com seus discípulos comiam com Mateus (Mt 9:11 e 14). Daí surge a pergunta: “Por que
motivo jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os teus discípulos não jejuam?” (Mc

73
Ryle: “O homem convertido não desejará ir para o céu sozinho”.
79
2:18). Os discípulos de João criticaram os discípulos de Jesus por não serem rigorosos quanto ao
jejum judaico.
É provável que essa questão tenha surgido porque Jesus participou da festa de Mateus, o que
surpreendeu os discípulos de João Batista, os fariseus e provavelmente até mesmo alguns dos
próprios discípulos de Jesus. Festejar era tão diferente da maneira como João Batista vivera! Há
tempos de crise em que o jejum seja uma expressão apropriada de humildade, arrependimento e
devoção religiosa. Além disso, havia uma relevância especial no jejum, no caso de João Batista.
Entretanto, os religiosos do tempo de Jesus exageravam nessa área. Jesus não atribuía muita
importância ao jejum conforme era geralmente praticado (Mt 6:16-18), embora Moisés, Elias e o
próprio Jesus tenham jejuado, cada um deles, durante 40 dias (Êx 34:28; I Rs 19:8; Mt 4:1-2).
Todavia, o jejum era praticado em períodos de grande tensão. As três metáforas — o noivo, a
roupa rasgada e os odres — parecem indicar que existem ocasiões, que em geral envolvem grande
tristeza, em que ele é apropriado.
Na metáfora do noivo rodeado de convidados, Jesus se identifica claramente com o noivo
(Jo 3:29), e os discípulos com os convidados à festa do casamento. Essa analogia se refere aos
costumes judaicos do casamento, que sempre envolvem alegres celebrações. Os convidados de um
casamento nunca pensariam em jejuar durante as celebrações festivas. Esse relato é um dos muitos
nos quais Jesus prediz aos seus discípulos que haverá um tempo em que Ele será tirado do meio
deles e que nessa ocasião eles jejuarão entristecidos.

Análise da resposta de Jesus:


a) vs. 34-35 “Os hóspedes num casamento não jejuam”. Os filhos das bodas termo hebraico
que refere-se aos convidados ou ao padrinho e outros amigos íntimos do noivo. Os judeus
compreendiam a era do Messias como uma alegre festa de casamento. O jejum, por sua vez, era
símbolo de tristeza, e sua motivação era abreviar a vinda do Reino. Os discípulos de Jesus não
precisavam jejuar pela vinda do reino, pois sabiam que ele estava presente. Entristecer-se enquanto
as festividades das bodas estavam ainda em andamento, seria incoerente. Contanto a crescente
oposição das autoridades judaicas a Jesus, o Noivo, logo dariam fim às festividades. Então seus
discípulos experimentariam uma profunda tristeza e jejuariam. A expressão “será tirado” é uma
referência à cruz.
b) v. 36 A segunda ilustração deriva-se da prática comum do lar, de remendar roupas. Refere-
se a um remendo de pano novo, não encolhido, costurado numa roupa velha. É possível que Jesus
esteja sugerindo que os apóstolos, que representam o remendo novo, precisam romper com as
antigas práticas religiosas judaicas, que tinham se tornado tradições religiosas, servindo mais como
propaganda da suposta santidade da pessoa que adoração sincera a Deus (Mt 6:16-18). Jesus queria
dizer que era impróprio tentar remendar ao sistema velho um sistema novo. As velhas cerimônias do
judaísmo se romperiam com o novo caminho proposto pelo cristianismo. O cristianismo era uma
nova revelação e não poderia se enquadrar nem se fundir nos costumes e tradições judaicas
(conforme o demonstram o livro dos Gálatas e Atos capítulo 15).
c) vs. 37-39 Outra ilustração é tirada dos odres: Vasilhas ou recipientes feitos de pele
(geralmente, couro de cabra), muito usados no Oriente para guardar ou transportar líquidos. O
processo de fermentação do vinho novo rebentaria odres velhos que teriam perdido sua elasticidade.
Isto quer ilustrar que: O vinho novo do perdão messiânico não seria conservado nos velhos odres do
legalismo judaico. O velho legalismo não comportaria os novos ensinos de Jesus; o velho Israel
paralisado pela justiça própria e sobrecarregado de vãs regulamentações não combinava com o novo
Israel humilhado pela consciência do pecado, buscando perdão; não comportaria as novas
manifestações da graça.
A nova revelação que surgira com Cristo exigia diferente forma de adoração. Vinho novo
colocado em odres novos, refere-se à Palavra de Deus que está sendo ensinada a crentes novos. O
crente novo deve tornar-se uma nova criatura em Cristo e deixar para trás as crenças do mundo, a
fim de permitir que haja crescimento espiritual.

80
A cura de um homem no sábado, junto ao tanque de Betesda, em Jerusalém (Jo 5)
“Jesus passou pelo tanque de Betesda, onde jaziam vários inválidos. A água, quando agitada,
tinha um suposto poder de cura. Jesus fez uma pergunta curiosa a um homem que estava ali havia
trinta e oito anos: “Queres ser curado?” Muitos dependiam da doença para receber ajuda financeira
de pessoas ricas. Outra possível razão para a pergunta tem a ver com o espírito do homem: muitos
que passam por longos períodos de dor e infortúnio perdem até a vontade de superar sua condição
de vida. Quando o inválido disse a Jesus que lhe era difícil entrar no tanque para ser curado, Jesus
anunciou: “Levanta-te, toma o teu leito e anda” (v. 8). O homem ficou curado no mesmo instante.”74
Nota: A fonte intermitente era considerada de valor curativo. Esperando que ... doença que
tivesse (v. 3b, 4). Este fragmento é omitido nos melhores manuscritos e pode ser uma interpolação
acrescentada a fim de explicar o vers. 7. Por outro lado, é bem possível que o trecho fez parte do
texto original, e foi omitido “para não dar apoio às práticas pagãs, muito em voga, celebradas em
poços sagrados” (comentário de Hoskyns).

Os argumentos de Jesus quanto à quebra do sábado


O AT continha leis severas a respeito da observância do sábado, mas a tradição judaica tinha
acrescentado tantas restrições para evitar a violação da Lei que o sábado quase se tornou um fardo,
em vez de ser um dia de repouso espiritual, mental e físico. A asseveração de Jesus de que ele era
Senhor do sábado era equivalente à reivindicação de sua divindade.
1. Jesus declara Sua divindade (vs. 19-20): é Filho de Deus; depende do Pai; mostra igualdade
com o Pai.75
2. O privilégio do Filho (vs. 21-30): Vida inerente; ressurreição; juiz.
3. As credenciais do Filho. O testemunho sobre Jesus (vs. 31-47) inclui: João Batista; as obras
de Jesus; o próprio Pai; as Escrituras e Moisés.
Nesse ponto, Jesus estabelece uma clara distinção entre o testemunho humano e o testemunho
de Deus quanto ao que tem valor (Jo 5:34), e entre o valor do louvor humano comparado com o
louvor que vem de Deus (5:41, 44).
“O conflito entre Jesus e o sistema religioso em Jerusalém, iniciado neste capítulo com sua
afirmação de ser o Filho de Deus, continua intensificando-se através do evangelho de João, até
alcançar seu clímax na narrativa da paixão: “De conformidade com a lei, ele deve morrer, porque a
si mesmo se fez Filho de Deus” (19:7).”76

Colheita de espigas (grãos) e cura no sábado (Mc 2:23—3:6; Mt 12:1-14; Lc 6:1-11)


A ação dos discípulos em colher e comer grãos deu início a uma disputa que levou ao
pronunciamento notável de Jesus de que Ele é Senhor do sábado.
Deuteronômio 23:25 dá ao viajante o direito de colher alimento, com a mão, no campo alheio
a fim de saciar a própria fome. O viajante não poderia levar como provisão, mas poderia colher o
suficiente para se satisfazer. Era proibido o uso da foice na seara por outro, porque indicava roubo e
trabalho. A crítica dos fariseus não foi ao ato em si, mas, sim, à sua realização no sábado,
quebrando o quarto mandamento (Mc 2:23-28).
A tradição judaica acrescentou ao VT restrições tão extremas concernentes à observância do
sábado (um tratado inteiro na Mishna é dedicado a ele) que desvirtuou a intenção original de Deus
(Jo 7:22-23).

A justificativa de Jesus:
1. O rei Davi comeu os pães da proposição (I Sm 21) que eram destinados somente para o uso
74
Manual Bíblico Vida Nova, p. 651.
75
Se eu não compreender que Jesus era Deus, não compreenderei qual é a natureza do Cristianismo. Não serei tocado
pela mensagem do Novo Testamento e pelos ensinamentos de Cristo. Se eu não sei que Jesus era Deus, ainda não sou
cristão, meus pecados ainda não foram perdoados e não tenho garantia de vida após a morte. — Max Anders.
76
F. F. Bruce, João: introdução e comentário. Edições Vida Nova, p. 129.
81
no culto do templo. O erro de Davi não respaldava os discípulos. O que Jesus queria realçar é que
Davi não havia sido punido.
2. O exemplo dos sacerdotes. Trabalhavam no sábado imolando animais, fabricando pães
asmos e fazendo circuncisão.
3. Jesus, o Filho do homem, é Senhor do sábado.
“é lícito, nos sábados, fazer o bem?” Se dissessem que atos de misericórdia eram permitidos
no sábado estariam apoiando Jesus e contrariando a Lei de Moisés.
Mc 3:6 Fariseus e herodianos, dois inimigos unidos para derribar um inimigo maior.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Jesus advogava a causa dos discípulos com espontaneidade. Não faz Ele isso por mim? 2.
Temos somado esforços para combater Satanás, ou as barreiras denominacionais têm nos feito presas fáceis?

Uma cura no sábado (Mc 3:1-6; Mt 12:9-14; Lc 6:6-11)


A cura no sábado do homem que tinha a mão atrofiada irritou de tal maneira os fariseus e os
herodianos (influentes membros judeus do partido político que apoiava orei Herodes — pessoas que
os fariseus normalmente evitavam) que eles começaram a planejar como poderiam matar Jesus.
Para esses religiosos profissionais, o mais simples ato de bondade, praticado no sábado, era um
crime terrível, quanto mais esse ato tão incomum. Existem nos registros dos evangelhos sete curas
feitas por Jesus no sábado.

CURAS NO SÁBADO
São registradas sete curas no sábado:
 O endemoninhado em Cafarnaum (Mc 1:21-27)  A mulher encurvada (Lc 13:10-17)
 A sogra de Pedro (Mc 1:29-31)  O homem com hidropsia (Lc 14:1-6)
 O paralítico em Jerusalém (Jo 5:1-9)  O cego de nascença (Jo 9:1-14)
 O homem com a mão atrofiada (Mc 3:1-6)

Multidões e muitos milagres (Mc 3:7-12; Mt 12:15-21)


Marcos 3.7-12 declara que as multidões vinham não somente da Galiléia, mas também da
Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, de além do Jordão e da região de Tiro e Sidom. Dessa maneira,
numa época em que as pessoas viajavam geralmente a pé, numerosas pessoas que tinham ouvido
falar dos milagres de Jesus percorriam uma distância de até 160km do norte, do sul e do leste,
trazendo seus enfermos, e Jesus curava todos eles (v. 15).

A profecia de Isaías 42:1-3 “(...) nem se ouvirá pelas ruas a sua voz”: Jesus não seria líder de
nenhum movimento político, a mudança que Ele veio operar era invisível e total. Jesus não gritava
nas praças liderando algum movimento político. Não fez coisa alguma a fim de ostentar-se.
"não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega" Trataria o homem com
misericórdia, vendo-o como uma cana que com um pequeno toque se quebraria, ou como um pavio
que emitindo uma fraca centelha apagar-se-ia com facilidade. Não veio sobrecarregar o homem mas
aliviá-lo. O evangelho não é peso, mas prazer.

Grande parte da população israelita vivia em condições de extrema pobreza. A cegueira


acometia a muitos, provavelmente por causa da areia do deserto. A limitada medicina daquela época
não conseguia acompanhar o constante aumento das doenças, provocado sobretudo pela falta de
saneamento básico. As multidões que vinham a Jesus queriam que seus enfermos fossem curados.
Entre as multidões que seguiam a Jesus, estavam:
— Os curiosos: queriam ser beneficiados com os milagres.
— Os inimigos: fariseus, saduceus etc.
— Os fiéis: os discípulos e os que aceitavam Sua mensagem. Havia a expectativa popular de
que Ele era o Messias.
Marcos 3:1l Não eram os espíritos que se prostravam, mas as pessoas por eles controladas que
involuntariamente confessavam que Jesus era o Senhor. Os demônios pretendiam que as pessoas
82
reconhecessem Jesus como o Messias e assim o levassem para o trono. Jesus os advertia “que o não
expusessem à publicidade” (Mc 3:12) porque sabia a concepção errônea que os judeus tinham do
Messias, a qual provinha de uma escatologia elaborada a partir de uma hermenêutica errada. O
Messias não deveria ir para o trono mas para a cruz.

A escolha dos Doze — um colégio apostólico (Mc 3:13-19; Lc 6:12-16; Mt 10:1-4)


Uma noite em oração: Os discípulos seriam o alicerce da Igreja (Ef 2:20). Antes de cada
decisão importante, Jesus se consumia em oração até que a resposta fosse gerada.
Ao amanhecer, Jesus chamou a si os seus discípulos. “Deve tratar-se de um grupo de pessoas
que se ligaram a Ele de modo informal. Um discípulo era um aprendiz, um estudante. No século I, o
estudante não estudava simplesmente uma matéria; estudava com um mestre. Há um elemento de
ligação pessoal no “discípulo” que falta no “estudante”. Deste grupo maior de aderentes, Jesus
escolheu doze. Este é o número das tribos de Israel, número este que significa que Jesus estava es-
tabelecendo o povo de Deus, o verdadeiro Israel. Em Jesus e nos Seus seguidores “as pessoas
podiam ver uma dramatização do quadro vétero-testamentário de Deus trazendo as doze tribos de
Israel à terra prometida” (comentário de Tinsley). Jesus nunca estabeleceu uma organizaçao. Estes
doze homens representam a totalidade da Sua máquina administrativa. Alguns deles eram
claramente homens de destaque, mas, de modo geral, parecem ter sido nada mais do que medianos.
A maioria deles deixou pouquíssimas marcas na história da igreja. Jesus preferia operar, naqueles
tempos como também agora, através de pessoas perfeitamente comuns.”77
A estes doze Jesus deu o nome de apóstolos. O termo é derivado do verbo “enviar” e significa
“uma pessoa enviada”, “um mensageiro”. A função primária dos apóstolos era “estarem com Jesus”
e “servirem de testemunho de Cristo”, testemunho baseado em anos de conhecimento íntimo,
experiências preciosas e treinamento intenso. A qualificação para ser apóstolo era ter sido discípulo
de Jesus, desde o batismo de João à ascensão de Jesus. Seria alguém familiarizado com todo o
decurso do ministério e obra de Jesus (At 1:21-22).

O termo “os Doze” logo se converte em título oficial, usado mesmo em casos quando nem
todos estão presentes (I Co 15:5). A escolha deles foi absolutamente soberana: Jesus chamou os que
Ele quis (Mc 3:13). Esta escolha dependia da Sua vontade, não da deles. Do seu livre arbítrio eles
responderam e vieram a Ele. Vêem-se as diferentes facetas do seu novo cargo: comunhão e
companheirismo — para que estivessem com Ele; comissão — para que mandasse a pregar (Mc
3:14); autoridade delegada — para que tivessem poder de curar (Mc 3:15).

A razão da escolha. Os inimigos de Jesus estavam aumentando e um dia o matariam. Jesus


precisava de um grupo que continuasse sua obra depois dele. Os discípulos fariam o papel das
testemunhas (At 1:8).

Os doze escolhidos por Jesus:78


SIMÃO, chamado PEDRO, que significa “rocha”, era filho de João ou Jonas (Jo 1:42),
conhecido pescador da Galiléia. Enérgico, impulsivo, franco, sincero, ele encabeça a lista dos
apóstolos, nos sinóticos, o que sugere certo grau de consideração por parte dos escritores. De fato,
Pedro emergiu como líder mais influente da comunidade primitiva. Eusébio dá o ano de 68 d.C.
para a morte de Pedro, e segundo relato do mesmo autor, existe um número considerável de
evidências extrabíblicas que aludem ao fato de Pedro ter passado os últimos dias de sua vida em
Roma, onde morreu crucificado de cabeça para baixo, nos jardins de Nero, e foi sepultado no local
onde atualmente se encontra a “Basílica de São Pedro”.
ANDRÉ (“varonil”). A tradição afirma que ele era fisicamente forte¸ homem devoto e fiel. Era
irmão de Pedro, com o qual morava na mesma casa (Mc 1:29), era pescador, discreto, inquiridor e

77
Leon L. Morris, Lucas: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 2000 (reimp.), p. 118.
78
O capítulo 7 do livro “O Mundo do Novo Testamento” (Editora Vida) traz uma síntese biográfica dos Doze.
83
prestativo. Viveu seus últimos dias na Cítia, ao norte do Mar Negro. Foi crucificado, na Ásia
Menor, numa cruz em forma de X, a qual a tradição denominou de “cruz de Santo André”.
TIAGO, filho de Zebedeu e Salomé, primo de Jesus, irmão de João o apóstolo, aos quais Jesus
colocou o nome de Boanerges, que significa: filhos do trovão. Era pescador, trabalhava em
sociedade com Pedro e André. Foi o primeiro a sofrer como mártir, durante o governo de Herodes
Agripa I. Morto ao fio da espada (At 12:2), no ano 44 d.C. Diz a tradição que ele foi o primeiro
missionário na Espanha; a tradição católica romana crê que seus ossos estão sepultados na atual
cidade de Santiago, ao Nordeste da Espanha.
JOÃO. Ver página tal
FILIPE (“domador”), um dos primeiros discípulos. Era da mesma cidade de Pedro e André.
Conduziu Natanael ao Mestre. Tinha uma mente prática. Segundo a tradição, pregou na Frigia e em
Hierápolis.
BARTOLOMEU (“dádiva de Deus”). Acredita-se que era o sobrenome de Natanael, que veio
de Caná. Talvez tenha sido por meio dele que Jesus foi à festa de casamento.
TOMÉ ou DÍDIMO. Um gêmeo. Cauteloso, reflexivo, inquiridor, possuidor de dúvidas
honestas. A tradição diz que ele trabalhou na Síria, Pártia, Pérsia e Índia.
MATEUS. Ver página tal.
TIAGO, filho de Alfeu. Chamado o menor para diferenciar entre os doze.
JUDAS, chamado Tadeu, filho de Alfeu, irmão de Tiago, o menor, (Obs.: Escreveu a
epístola). A tradição diz que foi enviado a pregar na Síria, Arábia e Mesopotâmia.
SIMÃO. Apelidado o zelote (grego) ou cananeu (aramaico). Nada se sabe dele. Os zelotes
eram uma seita nacionalista.
JUDAS ISCARIOTES. O traidor. Iscariotes provavelmente significa “homem de Queriote”,
uma cidade na Judéia (Js 15:25) ou em Moabe (Jr 48:24). Se for assim, Judas era o único não-
galileu entre os Doze. Era mesquinho, avarento e desonesto; tudo indica ter sido o tesoureiro do
grupo apostólico. Após a traição, ele se enforcou (Mt 27:5). “A dificuldade na escolha de Judas não
passa de um fragmento da dificuldade maior de reconciliar a presciência de Deus com o livre
arbítrio do homem.” 79

LIÇÃO PARA HOJE: “Precisamos aprender que somos homens no mundo sem jamais deixar de ser homens de Deus.”
(Calvino)

A escolha e o preparo dos doze apóstolos 80


A esses homens Jesus estava confiando os resultados da obra de sua vida. Ele sabia, logicamente, que ele
mesmo, a partir do céu e por intermédio de seu Espírito, os orientaria, dirigiria e ajudaria. Nem por isso Jesus deixou de
ponderar as características e talentos naturais deles. E, antes de fazer sua escolha final, Jesus passou a noite inteira
em oração ao Pai.
Depois de lhes dar dois anos de treinamento, Jesus os enviou para ser suas testemunhas até os recantos mais
distantes da Terra. O NT fala só um pouco da obra deles na Palestina, na Ásia Menor, na Grécia e em Roma.
É possível que os Doze tivessem concordado entre si que sairiam em direções diferentes. Ou também é possível
que cada um tenha sido orientado para ir até onde melhor lhe parecia. Durante certo tempo, saíam aos pares. Por
certo, cada um visitava os trabalhos dos outros.
Por volta de 62 d.C., Paulo disse que o evangelho tinha sido pregado “a todos os que estão debaixo do céu” (Cl
1:23). Portanto, 30 anos depois, a história de Cristo tinha sido contada em todas as partes do mundo então conhecido.
Várias tradições — nem todas de igual fidedignidade — declaram que a maioria dos Doze selou seu testemunho de
Cristo com o martírio.
Considerando, até mesmo a presença de um traidor no grupo, a escolha e o treinamento dos doze por Jesus foi
um grande sucesso.

79
James Stalker, A Vida de Cristo. Imprensa Batista Regular, 1985, p. 143.
80
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 524 e 448.

84
O preparo dos doze — O primeiro envio dos doze (Mt 10:1-42) foi parte do preparo e também fez parte do
método utilizado por Jesus para anunciar à nação que o Messias havia chegado. Não havia meios de comunicação — a
única maneira de divulgar a notícia era pela palavra falada. (Mais tarde, foram enviados 70 seguidores com o mesmo
propósito.) Esses homens autenticaram sua mensagem com milagres especiais, não somente para atrair a atenção,
mas também para indicar à nação a natureza extraordinária daquele a quem proclamavam.
Seu preparo não foi tarefa fácil, pois eles estavam sendo treinados para uma obra totalmente diferente do que
imaginavam ser o objetivo do treinamento. Eles começaram a seguir a Jesus sem qualquer intenção de se tornarem
pregadores. Esperavam que, por ser o Messias, ele estabeleceria um império político mundial do qual eles seriam os
administradores (ver Mt 13).
O método pelo qual Jesus mudou o conceito deles acerca da obra que ele e os doze tinham de fazer foi
apresentar-se a eles com toda a plenitude de sua glória divina, de modo que, não importando quão diferente fosse sua
maneira de falar e agir do modo pelo qual eles esperavam que o Messias falasse e agisse, ainda assim cressem que
ele era o próprio. Essa é uma das razões pelas quais ele realizou milagres e foi transfigurado diante dos olhos deles (Jo
20:30-31).
Porém, até mesmo no fim, os doze não entenderam algumas das coisas mais importantes que Jesus tentara
ensinar-lhes. Jesus lhes disse que seria executado — no entanto, quando isso aconteceu, ficaram arrasados, porque
não haviam compreendido que isso tinha de acontecer no plano de Deus. Jesus também lhes disse que ressurgiria
dentre os mortos depois de três dias no túmulo — mas, quando aconteceu, eles não acreditaram. Ironicamente, os
líderes judeus que fizeram com que Jesus fosse morto se lembraram do que ele havia dito sobre sua ressureição e
puseram guardas na frente do túmulo! (Mt 27:63-65).
Foi somente após a ressurreição e a descida do Espírito Santo que os doze finalmente compreenderam que
seria um reino no qual Jesus reinaria no coração dos homens e que sua parte seria simplemente contar a história de
Jesus. Isso é tudo. A história faria seu trabalho. Se os homens verdadeiramente ouvirem a história de Jesus, eles o
amarão, porque a história de Jesus mostra por meio de palavras e pelo exemplo que Deus os ama.
Esses doze homens — mais tarde chamados “apóstolos” (enviados) em vez de “discípulos” (seguidores) —
tornaram-se os fundadores da igreja cristã. O grupo como um todo (com exceção de Judas) deve ter sido composto de
homens do mais alto nível, pois Jesus conhecia e compreendia as pessoas. Que homens magníficos devem ter sido!

Jesus em Cafarnaum cura o servo de um centurião romano (Mt 8:5-13 e Lc 7:1-10)


O evangelista Lucas escrevendo aos gregos sempre observa a participação dos gentios na fé
judaica, porque queria preparar seus leitores como alvo da era messiânica também.
Centurião: oficial do Império Romano, comandante de uma centúria ou seja 100 soldados (o
posto de centurião correspondia a sub-tenente).81 Caráter do centurião a despeito da crueldade dos
romanos: mostra amor a seu servo e relacionamento com a nação judaica. Jesus recompensou a fé
sem paralelo do comandante gentio, curando seu servo, transpondo as fronteiras judaicas da
impureza étnica.
Entre os relatos de Mateus 8:5-9 e Lucas 7:6-7 percebemos um estágio na aproximação do
centurião a pessoa de Jesus: não sentia-se digno de ir ao Mestre, coloca-se como um servo, foi
como um servo.
O elogio de Jesus: “nem mesmo em Israel achei fé como esta”. Onde a lei de Deus era
conhecida, e onde, durante séculos, os ensinamentos de Deus eram divulgados entre o povo, onde
Deus já demonstrara suas obras, na história da nação, e onde o Messias já anunciara o reino de Deus
— nem mesmo entre esse povo Jesus encontrou fé como a daquele gentio. No grego a expressão é
vigorosa, e indica “nenhum” caso ou exemplo. Diante deste fato, Jesus anuncia que o seu
ministério se estenderia aos gentios.
Poder da palavra de Jesus: “Vai-te, e seja feito conforme a tua fé”.
“filhos do reino lançados para fora” (Mt 8:12; ver Mt 3:9): Indica os judeus que rejeitaram a
Jesus; Paulo, em Romanos 9, reconhece o valor dos privilégios do povo de Israel, mas também não
concorda que sem a aceitação por parte do indivíduo, ele obtenha daí qualquer bênção; pelo
contrário, isso resulta apenas em julgamento mais severo.

81
Naquele tempo, a Palestina já estava sob o domínio romano havia cerca de cem anos. Os oficiais romanos, com
demasiada freqüência, eram homens brutais e desprezados. Alguns deles, porém, influenciados talvez pela religião
judaica, eram homens bons. O primeiro gentio a ser recebido na igreja foi um centurião chamado Cornélio (At 10).
85
Nota: Há um milagre quase idêntico a esse em Jo 4:46-53, com detalhes similares. Todavia, ali a
pessoa é um filho, enquanto aqui é um “escravo”. Ali o homem insistiu para que Jesus viesse à sua
casa; aqui o centurião não se julgou digno de receber a Cristo em sua casa. O milagre não foi menos
notável, mas, a despeito de ter sido grande a fé daquele pai, no relato em João, não se comparava à
fé do centurião.

A ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7:11-17)


Naim: Pequena aldeia a 8 Km de Nazaré; aparece na Bíblia apenas essa vez.
“filho único de uma viúva” Sem o filho, ela ficaria à mercê da sociedade. Morris comenta:
“Esta é uma situação comovente. A mulher agora estava sozinha no mundo. Sem um protetor e
ganha-pão masculino, ela deve ter ficado em dificuldades. Havia poucas oportunidades para uma
mulher ganhar a vida no século I. E além da dificuldade e do senso de solidão e tristeza, havia o
conhecimento de que a linhagem da família se acabara.”
v. 13 “o Senhor se compadeceu” Champlin ensina: A palavra “se compadeceu”, neste caso, se
deriva do termo grego que indica os intestinos, o que era usado pelos antigos mais ou menos como
atualmente usamos a palavra coração. Provavelmente isso foi motivado pela observação que as
emoções afetam grandemente o estado e a função dos intestinos. Jesus ficou comovido até às
maiores profundezas do seu ser: isso é o que se depreende dessas palavras. “Não chores!” disse Ele.
“Que consolo, para milhares de aflitos, tem dado este simples versículo, de século para século”.
“...tocou o esquife... parando...” Esquife: Cesto em forma de caixão usado pelos mais pobres.
Jesus tocou no esquife, dessa maneira contaminando-se, de conformidade com as leis cerimoniais
referentes aos mortos, mas não se importou com isso; tinha uma missão de misericórdia a cumprir.
Notamos que Ele não requereu fé da parte da mãe do morto, a qual faria qualquer coisa, naquele
instante, para que seu filho retornasse à vida. Jesus não exigiu fé porque foi tomado de compaixão,
e o poder de Deus tomou conta de todo o seu ser.
Nota: Essa é uma das três ressurreições registradas. As outras são a da filha de Jairo (Mc 5:22) e a
de Lázaro (Jo 11:1). Jesus pode ter ressuscitado ainda outros (Lc 7:22). Ele comissionou os Doze
para ressuscitar mortos (Mt 10:8). Em todas as ressurreições de mortos, sobre as quais somos
informados nas páginas do NT, Jesus proferiu alguma palavra poderosa de ordem: “Mocinha,
levanta-te” — “Jovem, eu te mando: Levanta-te” — “Lázaro, sai para fora”. Era a palavra do
Príncipe da vida.

ÚLTIMA COMUNICAÇÃO ENTRE JOÃO BATISTA E JESUS (Mt 11:1-19; Lc 7:18-35)


João estava sendo lentamente esquecido por causa do ministério de Jesus, que vivia o auge de
sua popularidade. Os rumores do milagre em Naim deveriam ter chegado à fortaleza de Maqueros,
junto ao Mar Morto, onde João estava preso. E João envia mensageiros até Jesus para interrogá-lo,
se era realmente o Messias de Israel. Ninguém sabe ao certo as razões que levaram João a tomar
este posicionamento. Segundo parece, João estava esperando um Messias político; ele não
conseguia compreender por que Jesus não estava adotando postura apropriada para essa finalidade.
As explicações mais comuns são:82
a) Em João mesmo não havia dúvida alguma, mas seus seguidores duvidavam. A fim de
fortalecer as convicções destes, João os envia até Jesus para ouvirem da boca do próprio Jesus que
Ele era o Cristo, e assim crescem nEle.
b) A fé que João tinha em Jesus vacilou um pouco. O confinamento na prisão de Herodes não
era nada agradável e, com a incerteza de um dia vir a ser solto, até mesmo este homem corajoso
pode ter desanimado.
c) Não era a fé de João que falhara, mas, sim, a sua paciência. Profetizara que Aquele que
havia de vir faria umas obras notáveis de julgamento (Lc 3:16-17). Mas Jesus estava totalmente
ocupado em obras de misericórdia. Outra pessoa, portanto, realizaria as obras de julgamento? João
queria saber.

82
Mencionadas por Leon L. Morris, Lucas: introdução e comentário. Ed. Vida Nova, 2000 (reimp.), p. 134.
86
A resposta de Jesus aos homens de João foi dirigir a atenção deles àquilo que estava
acontecendo: ajuda estava sendo dada aos cegos (Is 35:5), aos coxos (Is 35:6), aos leprosos, aos
surdos (Is 35:5), aos mortos e aos pobres (Is 61:1). Os paralelos vétero-testamentários parecem
demonstrar que os milagres de cura e a pregação aos pobres têm significado messiânico. São a
autenticação da missão de Jesus. Jesus indica que considerava os milagres uma evidência suficiente
de ser Ele o Messias. Era em tais obras de misericórdia e não nas vitórias espetaculares sobre os
exércitos romanos que a obra do Mestre seria realizada. Jesus pregara acerca disto na sinagoga em
Nazaré (Lc 4:18ss.). Mas esta verdade não está aberta à percepção de todos os homens. Deste modo,
Jesus pronuncia uma bênção sobre aquele que não achar em mim motivo de tropeço.
Em sua resposta, Jesus adverte a João no sentido de que este não se escandalize com a
maneira dele conduzir seu ministério. Neste caso, escandalizar significa desviar-se ou fazer errar.
Dizendo isto, Jesus satisfaz as indagações de João e testemunha aos seus discípulos acerca do reino
messiânico.

Jesus elogia João Batista


Jesus, após responder aos mensageiros de João, elogia-o publicamente, dizendo à multidão:
a) Que saístes a ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Jesus quis dizer que João era
homem severo dos desertos, de convicções firmes e que mesmo preso permanecia fiel; não era
como as canas dos pantanais que inclinavam-se, não se mantendo em uma única posição.
b) “Um homem vestido de roupas finas?” Jesus observa que João era um homem do povo,
capaz de suportar dificuldades.
c) “Um profeta?” Entre os hebreus, um profeta era o mais alto tipo de líder. Jesus estabelece
João como maior e último dos grandes profetas, o arauto de uma nova dispensação, a qual ele não
chegaria a ver totalmente realizada.
“nascido de mulher não surgiu outro maior que João Batista” Esta grandeza está relacionada
com o ministério desempenhado por João. Muitos profetas profetizaram a vinda do Messias, porém
só João pôde ver cumprido aquilo que profetizara. João viu a era do Messias; por esta razão, diz
Jesus ter sido ele o último e o maior dos profetas.
“aquele que é menor no reino dos céus é maior do que ele” No período em que João viveu,
Jesus ainda não tinta consumado Sua obra. A vitória total sobre Satanás ainda estava por vir, pois
ela nos seria assegurada totalmente após a morte de Jesus Cristo na cruz. O sacrifício de Jesus por
nós, traz bênçãos sem medida, das quais João não pôde desfrutar integralmente, quando estava entre
os homens. Estas bênçãos estão hoje à disposição de todos os súditos do reino, do maior até o
menor.
Após responder acerca de João Batista, Jesus faz uma célebre comparação entre seus
contemporâneos e as crianças de Israel, dizendo que como as crianças, os homens eram
caprichosos, obstinados, volúveis. Mostrando assim o quanto o caráter deles se diferenciava do
caráter estável do precursor do Messias.
Jesus compara “esta geração” com crianças que tocam flauta e querem que as pessoas
dancem, mas ninguém o quer. Então, cantam um lamento, mas ninguém quer se fazer de triste. Em
outras palavras, “esta geração” — os incrédulos — queriam que os mensageiros de Deus, João
Batista e Jesus, se comportassem de modos mutuamente exclusivos. É um dilema: João “não comia
nem bebia”, e os incrédulos diziam: “Queríamos que você celebrasse”. Jesus veio comendo e
bebendo, e eles diziam: “Queríamos que você lamentasse”. Tanto Jesus quanto João Batista
recusaram-se a fazer o que “esta geração” queria ou esperava que fizessem. As ações de João e as
ações de Jesus foram condenadas porque não se enquadravam nas noções e expectativas
preconcebidas dos judeus incrédulos.

“o reino do céu é tomado por força” (Mt 11:2) Este é um versículo de difícil interpretação.
Descarta-se a possibilidade do uso da força física para a tomada do reino, pois não se pode apoderar
das coisas espirituais usando armas carnais. O verbo grego neste texto traduzido por “é tomado à
força” (biazetai), pode ser construído como voz média ou como voz passiva. Sendo assim, a Versão

87
Padrão Americana traz na margem: “tem estado vindo violentamente”, isto é, nas expulsões de
demônios e outras poderosas obras de Jesus. Desta forma, podemos dizer que não é o homem que
toma o reino à força, mas o reino de Deus está sendo implantado pela força do próprio Deus. Outros
traduzem: “todo o homem o trata com violência”, indicando a resistência que os homens empregam
contra o Reino. Como, por exemplo, matando os profetas e rejeitando a própria pessoa de Jesus.
Porém, esta interpretação é pouco provável. Há quem pense que o “tomado por violência” interpreta
o entrar apressadamente no reino “com a máxima sinceridade, abnegação e resolução, como se
fosse com violência espiritual” (comentário de Geldenhuys). Knox traduz: “Todos que querem têm
pressa de entrar nele”. Ou ainda, o Reino dos céus é considerado um prêmio que vale o esforço — a
participação no Reino celestial procurada com interesse e paixão ardente.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Deus é conhecedor do caráter de seus filhos. 2. João era o maior dos profetas, Jesus coloca o
humilde como superior. 3. A dúvida de João não o rebaixou na estima de Jesus: “Não surgiu ninguém maior”, disse
Jesus. Apesar disso, os menores no Reino de Cristo são maiores que João quanto aos seus privilégios. Que comentário
sobre o privilégio de ser cristão!

Lamento do Messias por cidades impenitentes: Corazim, Cafarnaum e Betsaida (Mt 11:20-30)
CORAZIM: aldeia às margens do mar da Galiléia. Atualmente tem sido identificada como
kerazem, a 4 km ao norte de Cafarnaum.
CAFARNAUM: cidade importante situada ao noroeste do Mar da Galiléia, era sede de uma
coletoria de impostos. O fato da cidade contar com um centurião (Mt 8:5) provavelmente significa
que era um posto militar dos romanos. Por ela passava a grande estrada de Damasco ao
Mediterrâneo. Achava-se segura e próspera, satisfeita e auto suficiente.
BETSAIDA: nome de uma cidade à beira do lago de Genezaré, situado no Vale ao lado do
Jordão. Foi reedificada pelo tetrarca Filipe que lhe deu o nome de Júlias, em homenagem à filha do
imperador Augustos. — A passagem de João 12:21 tem levantado questões em torno da possível
existência de uma outra cidade com este mesmo nome, pois diz que Filipe era de Betsaida da
Galiléia, a qual ficaria então a oeste do Jordão.
Foram estas cidades onde Jesus realizou a maior parte de seus milagres e ministrou muitos de
seus ensinos, porém sua população permanecia com o coração endurecido, estava cega, sem poder
ver a luz da revelação na pessoa de Jesus. Jesus ensina que cada privilégio espiritual requer de nós
mais responsabilidade.
v. 22 “menos rigor” dá idéia de que no julgamento todos os condenados ao inferno
receberiam diferentes formas do cumprimento de suas sentenças.
v. 23 Jesus cita uma passagem de Isaías (14:13-15), relacionada à Babilônia, e a aplica a
Cafarnaum. “eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono” Faz referência à
soberba da cidade, que estava colocando sua confiança nos bens materiais, pois era uma cidade rica
e em pleno desenvolvimento. Porém, sua realidade era bem outra, porque se ela não se curvasse em
sujeição, humildade e obediência a Deus seria precipitada ao inferno. Jesus afirma que Sodoma com
toda sua perversidade e promiscuidade teria se arrependido caso tivesse visto as obras que Ele
operou em Cafarnaum e no arrependimento teria sido poupada (Jonas 3:5-10).
Os habitantes de Cafarnaum pensavam que não provariam a morte. Jesus afirma que todos
morreriam, desceriam ao Hades (lugar dos mortos).
Os ais proferidos por Jesus não possuíam um tom vingativo, mas sim de pesar e tristeza por
conhecer a condenação que aguardava no juízo final as cidades impenitentes (não arrependidas). Ele
cita três cidades gentílicas: Tiro, Sidom (más e iníquas, denunciadas várias vezes no VT) e Sodoma
(perversa e depravada), as quais, mesmo assim, teriam uma disposição de fé superior àqueles que
ufanavam por serem filhos de Abraão e detentores das promessas.
Mt 11:24 traz a idéia de que Deus nos julgará de acordo com o nível de revelação que
recebemos dele (Lc 12:48). Por esta razão, Cafarnaum que viu a glória do Messias, será julgada

88
com mais rigor do que os de Sodoma, os quais não tiveram tal privilégio.
Mt 11:25-26 registra uma oração de Jesus. “Muitas vezes é nas orações de uma pessoa que os
seus mais autênticos pensamentos sobre si mesma vêm à superfície. Por esta razão, a ação de graças
de Jesus aqui registrada, é uma das mais preciosas peças de autobiografia espiritual que se acham
nos evangelhos sinóticos.”83
Moneide diz: “Jesus estava agradecido não porque os sábios eram ignorantes, mas porque os
bebês sabiam”. Os sábios e entendidos são os que imaginam que a mente de Deus pode ser
conhecida pela razão humana desassistida pela revelação. Os pequenos são os receptíveis e abertos,
seja qual for a idade. Os sábios se preocupam tanto com o natural que são incapazes de reconhecer
o sobrenatural: para os pequeninos, o sobrenatural é tão real como o natural.

Amoroso convite (vs. 25-27): Jesus abre parênteses no discurso sobre estas cidades para
mostrar que a compreensão espiritual de Cristo e de seu Reino não se alcança por meio do intelecto
ou através da realização de muitos milagres. A sabedoria de Deus não anula o seu amor e a sua
justiça. Jesus observa que a compreensão espiritual do seu Reino é uma ação soberana do Pai.
Este amoroso convite “vinde a mim os cansados e oprimidos” foi dirigido, a princípio,
àqueles que desejavam a comunhão com Deus, porém as exigências impostas pelos fariseus para
adquiri-la era por demais pesada e acabava por desanimá-los no meio do caminho. Jesus, porém,
revela que existe um jugo mais leve do que a lei — a sua graça, a qual habilita o homem a ter plena
comunhão com Deus. A leveza do jugo está no fato de que a obediência a Ele (Jesus) não se baseia
em ordenanças externas, mas sim, no amor e na lealdade à sua pessoa (Dt 15:12-18). Estar no
mesmo “jugo” que Jesus implica em trilharmos o caminho da vida que Ele deseja que seus
discípulos sigam que é Sua própria vida. Entretanto, conforme comenta Maher: 84 “O zelo deles em
suportarem o ‘jugo da Torá’, seu desejo genuíno de viverem de acordo com a verdade revelada na
Lei, impediram-nos de aceitar a palavra de Jesus e de confiar totalmente em sua Pessoa.
Consideravam desnecessária a Sua oferta de um jugo novo, e recusaram o novo caminho da
salvação que Ele lhes indicou.”

A pecadora que ungiu os pés de Jesus, na casa do fariseu Simão (Lc 7:36-50)
O fariseu: Alguns pensam que ele queria homenagear a Jesus, porém sua real intenção era
encontrar alguma falha no caráter do Mestre. A falta de hospitalidade com a qual ele recebe Jesus é
prova disto; pelo costume dos judeus, o fariseu deveria cumprir o seguinte cerimonial:
a) Lavar ou providenciar a lavagem dos pés do visitante. Era este um gesto de boas vindas,
numa região poeirenta em que as estiadas muitas vezes tornavam a viagem a pé uma experiência
dolorosa (Gn 18:4; Jz 19:21). O costume da purificação exterior na casa de cada judeu: Existiam
talhas para lavar os pés, as mãos e o rosto. Simão não ofereceu a Jesus esta água.
b) Dar-lhe o beijo de boas vindas (Gn 29:13; 45:15).
c) Ungir a cabeça dos hóspedes com azeite.
Mulher pecadora: Não é Maria Madalena, nem é Maria, irmã de Lázaro. Este episódio
aconteceu na Galiléia. O banquete oriental era uma espécie de acontecimento público. O fato de a
mulher entrar na casa do fariseu não quer dizer que ela a invadiu; o fato é que Jesus atraiu uma
multidão para aquele lugar. No seu trauma, com suas lágrimas limpou os pés de Jesus, o que o
fariseu não fez, e os ungiu com bálsamo.
Vaso de alabastro: Frasco de gargalo comprido que era quebrado quando se queria usar o
conteúdo. Os vasos nem sempre eram feitos de alabastro (mármore branco e sensível), mas este era
o melhor material. O conteúdo era usado de uma só vez.
v. 46 “Não me ungiste a cabeça com óleo” Unção na Bíblia não tem apenas sentido de
separação, mas também de descanso (Sl 133; Sl 23). Bálsamo: óleo perfumado que continha
propriedades curativas (Jr 4:11) e freqüentemente usado como cosmético. Era também empregado

83
R. V. G. Tasker, Mateus: Introdução e Comentário. Edições Vida Nova, 1980, p. 96.
84

Dicionário Internacional de Teologia do NT (vol. II). Edições Vida Nova, 1989 (reimp.), p. 507.
89
para simbolizar livramento de desastre nacional (Jr 8:22; 51:8).
A posição de Jesus: As pessoas não se sentavam à mesa; elas se reclinavam em divãs baixos,
apoiando-se no braço esquerdo, com a cabeça em direção à mesa, e o corpo esticado para fora desta.
As sandálias eram removidas antes de inclinar-se. Devido a esta posição, a mulher não teria
dificuldade em aproximar-se dos pés de Jesus. Nota: Os divãs eram comumente encontrados na casa
dos ricos; os pobres colocavam uma pele de animal no chão e sentavam-se sobre ela.
A unção dos pés: Tratar dos pés era tarefa atribuída a um escravo; sendo assim, a atitude da
mulher está marcada pela humildade. Beijos nos pés: O beijo era algo comum na sociedade judaica
e, dependendo da situação ou da parte do corpo que era beijada, tinha um significado. Os discípulos
beijavam seus mestres nas mãos. O ato da mulher beijar os pés de Jesus era símbolo de profunda
honra, pois há exemplos de os pés de um rabino especialmente honrado serem beijados, mas não era
um ato comum. Provavelmente, a intenção da mulher era somente ungir os pés de Jesus, mas, ao
fazê-lo, foi tomada de forte emoção e suas lágrimas começaram a cair sobre os pés dele.
O ato de enxugar com os cabelos: não era costume as mulheres judias soltarem os cabelos em
público. Este ato levaria as pessoas a questionarem sobre sua moral. Esta mulher estava tão
envolvida por suas emoções que não levou em conta a opinião pública.

As lições dadas por Jesus


a) A parábola dos dois devedores, mostrando a razão do amor daquela mulher. Jesus não quis
com esta parábola dizer que há níveis de pecado, mas sim, que há nível de consciência do pecado.
Muitos justificam suas atitudes, outros arrependem-se delas reconhecendo sua pequenez e a
necessidade do perdão divino (vs. 40-43).
b) Repreensão ao fariseu pela falta de hospitalidade (vs. 44-46).
c) Mais uma vez mostra Sua deidade, perdoando os pecados da mulher, pois só Deus pode
perdoar pecados (v. 47) — “Vai-te em paz” (v. 50) No original grego é “vai para dentro da paz”.
Uma despedida apropriada aos vivos.
d) Mostra que o amor da mulher era a conseqüência da sua salvação, e não a causa (v. 50).

LIÇÃO PARA HOJE: Devemos ver sempre o melhor das pessoas. “Quem anda em sinceridade anda seguro”.

JESUS INTENSIFICA A PROPAGANDA DO REINO:


VIAJA, CURA E INSTRUI POR MEIO DE PARÁBOLAS
(Sua segunda viagem pela Galiléia)

As mulheres que serviam a Jesus (Lc 8:1-3)


Depois disto Jesus saiu numa viagem de pregação. Nesta ocasião, foi acompanhado pelos
Doze e por algumas mulheres as quais curara. O texto parece indicar que juntamente com os Doze,
e talvez com outros companheiros de jornada, certo número de mulheres se fez presente nos
diversos circuitos de Jesus, de uma aldeia para outra.
Os rabinos recusavam-se a ensinar as mulheres, e geralmente lhes atribuíam um lugar de
inferioridade. Jesus, porém, livremente as admitia à comunhão e aceitava o serviço delas. É possível
que as mulheres nomeadas especificamente fossem conhecidas dos leitores de Lucas. Parece
estranho que viajassem com o grupo. No entanto, elas tinham a responsabilidade de suprir o
alimento necessário para Jesus e os Doze; elas cuidavam da ajuda material que era recebida e
também das roupas de todo o grupo. Três delas são mencionadas pelo nome, embora houvesse
muitas outras:
“Maria, chamada Madalena” Vinda da cidade de Magdala, ao sul da planície de Genezaré;
liberta de possessão demoníaca.
“Suzana” — Nada mais se sabe sobre ela.
“Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes” A palavra traduzida procurador pode

90
denotar o mordomo das fazendas de Herodes, ou pode indicar um cargo político. Pode ter sido este
o oficial cujo filho Jesus curou (Jo 4:46ss), razão esta que levou Joana a seguir Jesus. Outros
acreditam que a própria Joana fora liberta de espíritos imundos por Jesus, e em gratidão servia o
Mestre. Estava entre as pessoas que foram ao túmulo (Lc 24:10).

A controvérsia sobre o pecado imperdoável (Mt 12:24-37; Mc 3:20-30; Lc 11:14-26; 12:8-10)


A cura de um endemoninhado cego e mudo (Mt 12:22-23; Mc 3:20-30) causa espanto a todos
que a testemunharam e leva grande multidão a seguir o Mestre, até a casa onde estava.
Primeira acusação: “Ele está fora de si” (Mc 3:21). Veio de sua própria gente (amigos e
parentes). Queriam prendê-lo, pois não criam em seu ministério.
Acusação por parte dos fariseus: “Ele expele os demônios pelo poder de Belzebu”. Os fariseus
não podiam negar os milagres e o poder sobrenatural de Jesus. Recusavam-se, no entanto, a crer que
este poder emanava de Deus, pois nesse caso teriam de aceitá-lo como sendo o Messias. O orgulho
deles impedia isso. Numa tentativa de destruir sua popularidade entre o povo eles o acusavam de
agir sob as ordens de Satanás.

A defesa de Jesus, em três argumentos:


a) Mc 3:23 É suicídio lutar contra si mesmo. A guerra civil sempre tem resultados desastrosos,
e isto é verdade tanto na esfera espiritual como na esfera física. Uma disputa interna somente
enfraquece o reino e Satanás não é tolo a este ponto.
b) Mt 12:27 Naquele tempo já havia a prática do exorcismo (cf. At 19:13-16). Exorcisar =
acalmar. Jesus chama os discípulos dos fariseus (“vossos filhos”) de exorcistas; assim, a arma dos
fariseus se volta contra eles mesmos.
c) “é pelo espírito de Deus que expulso” Esse argumento mostrou que Jesus e Satanás são
inimigos e não opostos. No ato de expulsão do demônio por parte de Jesus, o próprio Deus está em
ação exercendo o seu domínio sobre o reino do mal e sobre o seu príncipe. O poder do Senhor sobre
os demônios era evidência da sua identidade messiânica (Lc 4:18). A sujeição dos demônios a Jesus
é prova contundente da chegada do reino de Deus.
Mt 12:28 “A palavra traduzida por “é chegado” (ephthasen) significa no grego moderno “já
está chegando”. Aqui implica em que o reino chegou num sentido muito real, não porém, em sua
plenitude. Jesus estava de fato realizando obras do reino, mas a suprema obra do reino, a sua morte
e ressurreição, estava ainda no futuro.”85
Mt 12:30 Jesus ensinou que na grande luta da luz contra as trevas não pode haver
neutralidade. A pessoa estará sendo influenciada por Deus ou por Satanás. Há uma divisão definida
entre dois reinos. Cada qual deve tomar partido, de um lado ou do outro. Esses dois reinos são
incompatíveis. Por esta razão Jesus diz: “quem comigo não ajunta, espalha”.
Os fariseus, por muito que odiassem a Jesus, não negavam a existência de seus milagres, que
eram por demais numerosos e bem atestados. Embora todos esses milagres servissem de ajuda e de
cura, os fariseus lhes atribuíram uma origem satânica. Os fariseus tinham diante de si uma escolha
simples — ou reconheciam os milagres como provenientes de Deus, e nesse caso teriam que aceitar
a Jesus, ou sustentavam que os milagres eram realizados pelo poder de Satanás, pois estava fora de
dúvida que eram de origem sobrenatural. A escolha feita pelos fariseus quase os colocava fora do
alcance da redenção.

O pecado imperdoável (Mt 12:31-32; Mc 3:29; Lc 12:10)


A rejeição completa ao Espírito Santo no testemunho a respeito de Jesus. É a pessoa dando
glória ao diabo por uma obra feita pelo Espírito Santo. Este pecado, a rejeição propositada de Cristo
e sua salvação é o único que, pela natureza, priva o homem da possibilidade de perdão; trata-se de
uma atitude íntima de incredulidade e recusa a arrepender-se. A rejeição contínua e deliberada da
obra do Espírito Santo é blasfêmia.
85
R. V. G. Tasker, Mateus: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1980, p. 104.

91
Chamar ao mal bem, e à luz trevas, como os fariseus estavam fazendo, tinha sobre si uma
maldição pronunciada pelo profeta Isaías (5:20), e agora é denunciada por Jesus como blasfêmia
contra o Espírito Santo.
— “Em Lucas 12:10, o pecado imperdoável está vinculado à negação de Cristo. Jesus parece
fazer distinção entre o pecado contra ele mesmo e o pecado contra o Espírito Santo (Mt 12:32). Um
modo freqüente de entender o pecado imperdoável é o seguinte: podia ser perdoada a rejeição a
Cristo enquanto ele estava na terra, com sua obra ainda inacabada, quando seus discípulos não o
compreendiam. Mas, depois de completada a obra de Cristo e após a vinda do Espírito Santo, a
rejeição deliberada e definitiva da oferta de Cristo como Salvador, feita pelo Espírito Santo,
consiste no pecado eterno para o qual nunca haverá perdão. Um pecado semelhante é referido em
Hebreus 6:6 e 10:26 e em I João 5:16. Entretanto, nem sempre são os opositores declarados de
Cristo que cometem o pecado imperdoável. Paulo era mais veemente e ativo contra Cristo que
qualquer outro, mas Jesus o chamou pessoalmente para ser seu apóstolo. A rejeição deliberada e
definitiva da oferta de Cristo, feita pelo Espírito Santo, tem mais probabilidade de resultar em
indiferença total que em oposição aberta contra Cristo.”86

Os frutos das árvores comparados com as palavras dos homens (Mt 12:33-37)
— A palavra é algo peculiar ao homem e tem grande poder;
— As palavras revelam o caráter do homem;
— Daremos conta não só da palavra propositadamente má como também da palavra vã;
— As palavras contribuem para determinar o nosso futuro eterno.
Toda palavra inútil (Mt 12:36) é mencionada aqui em conexão com o pecado imperdoável.
Nossas palavras demonstram o nosso caráter (v. 34). Toda palavra nossa, bem como toda ação feita
em secreto, está sendo registrada como evidência para o Dia do Juízo.

O pedido de um sinal: o sinal de Jonas (Mt 12:38-45; Lc 11:29-32)


Os mesmos que acusaram Jesus de agir pelo poder de Belzebu, pedem agora um sinal para
que assim eles puderam crer que ele é o Messias. É evidente que este pedido significaria Jesus fazer
algo maior do que Ele tinha feito até então. Não bastaria para eles vê-lo curando ou expulsando
demônios. Seria um sinal não originado diretamente por Jesus, isto é, que não partisse dele, de sorte
que não haveria nenhum engano quanto à possibilidade de ser obra de alguém que pudesse ser
considerado como um homem comum dotado de poderes mágicos.
Jesus assevera que não será dado nenhum sinal da espécie que os fariseus estavam pedindo,
exceto quando seu Pai o levantar dos mortos. Ele ilustra esta verdade fazendo alusão à estada de
Jonas por três dias no ventre do grande peixe.
Jesus lhes prometeu um sinal ainda mais assombroso, ao qual deu o nome de “sinal do profeta
Jonas”: sua própria ressurreição dentre os mortos, o maior sinal de todos os tempos.
Os contemporâneos de Jesus sofrerão mais no dia do juízo em comparação com os ninivitas e
a rainha de Sabá, por rejeitarem aquele que é maior do que Jonas e Salomão. A pregação do
arrependimento feita por um profeta como Jonas a uma cidade pagã e a enunciação de dizeres
profundos feita por um sábio como Salomão, eram inferiores ao estabelecimento do reino de Deus
pelo Messias.
O espírito imundo: o povo cria que o deserto era o lugar de encontro dos demônios. E Jesus,
usando essa crendice popular, dá uma ilustração dizendo que quando um espírito imundo sai de um
homem, dentro dele fica um vácuo que deve ser preenchido pelo Espírito de Deus; quando isto não
acontece, este mesmo demônio retorna trazendo outros piores do que ele, e o estado daquele homem
fica pior do que anterior.
Esta ilustração também pode estar fazendo referência ao fato de que os judeus, embora
purificados da idolatria durante o cativeiro babilônico, mostraram uma incredulidade e dureza de
coração que produziram um pior estado moral do que aquele que antes possuíam, quando eram
idólatras antes do cativeiro.
86
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 475.
92
A nova família de Jesus (Mt 12:46-50; Mc 3:31-35; Lc 8:19-21)
A família de Jesus teve conhecimento do que estava se passando com Ele; que não podia
comer nem descansar, devido à multidão que o seguia; soube também da maneira como Jesus era
oprimido por parte dos líderes religiosos; ainda não tinha compreendido o seu ministério e tão
pouco entendido quem ele era na realidade; por essa razão, pensavam estar ele fora de si. Por isso,
mandou chamá-lo, mas Jesus sabendo o que estava acontecendo, não os atendeu. O sentimento
humano ou o zelo familiar não podia competir com o cumprimento da árdua mas gloriosa missão
que Cristo estava desempenhando (Ef 1:10). “Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos?” —
Jesus revelou que não estava preso a sentimentos humanos de parentesco e sim ao sentimento maior
que o regia, fazer a vontade do Pai.
Nota: A omissão de José junto à família nos leva a crer que este já havia falecido.
A expressão “seus irmãos” pode ter duas interpretações: a) Serem estes filhos legítimos de
Maria e José; b) Serem estes primos de Jesus, pois era costume chamar os primos de irmãos. É este
o pensamento da Igreja Católica Romana. Os evangélicos, em sua grande maioria, cremos que
Maria, após ter concebido Jesus, teve um relacionamento conjugal com José, seu esposo, do qual
nasceram filhos e filhas (Mc 6:3).
Esta passagem indica que nem todos rejeitavam Jesus; existia um grupo de seguidores fiéis
que nutriam uma comunhão tão fraterna com Jesus a ponto de serem comparados com seus próprios
familiares.

O PRIMEIRO GRANDE GRUPO DE PARÁBOLAS


(Atividade complementar de pesquisa a ser feita pelo estudante)

AS PARÁBOLAS DE JESUS 87
Talvez a característica mais distintiva do ensino de Jesus tenha sido seu emprego de parábolas.
Desde o começo do seu ministério público até os últimos dias em Jerusalém, encontramos suas parábolas.
A palavra de Mateus é válida e abrangente: "Muitas coisas lhes falou por parábolas" (Mt 13:3). Uma
parábola tem sido definida como uma comparação a partir da natureza ou da vida diária, com o objetivo de
ensinar uma verdade espiritual.
As parábolas e o ensino
Todo mundo gosta de uma boa história. Jesus criou histórias de cenas familiares e de idéias que
revelam verdades sobre a natureza de Deus, oração, valores espirituais, administração dos bens,
julgamento e o reino de Deus. Ele usou as parábolas como um recurso didático com seus discípulos, com
lideres religiosos adversários e com as pessoas comuns. Os evangelhos sinóticos contêm entre cinqüenta e
sessenta dessas histórias. Podemos acrescentar-lhes dez histórias curtas que se encontram no evangelho
de João. Algumas são muito curtas, como as parábolas da pérola de grande valor, do fermento, do tesouro
escondido. Algumas histórias são bem desenvolvidas, como as parábolas do bom samaritano, dos talentos,
do semeador e dos tipos de solo, do rico tolo, do filho perdido e outras.
As parábolas e a vida diária
Jesus era o mais arguto observador da vida diária. Tirou lições de agricultores que semeavam o
campo, de costumes de pequenas cidades sobre casamento, de pastores e ovelhas, e de banquetes.
Lembre-se que seu público geralmente era formado de pessoas simples e iletradas, como pescadores,
camponeses e aldeões. Elas podiam entender com facilidade suas lições sobre o juiz injusto ou sobre o
amigo que batia à porta no meio da noite. Jesus usou boas histórias para transmitir verdades divinas sobre
redenção, sobre o reino de Deus e sobre valores éticos. Essas histórias não estão presas ao tempo e são
muito belas. Sempre trazem alguma lição marcante sobre Deus e sobre sua vontade para a vida de hoje.
As parábolas do reino
Muitas parábolas falam do reino de Deus, uma das principais mensagens que Jesus procurou
transmitir a Israel. Mateus 13 é o grande capítulo sobre esse tema. Ali Jesus emprega uma série de
parábolas para proclamar as ações de Deus em seu próprio ministério.
As parábolas sobre a natureza de Deus
Algumas parábolas ilustram de modo inesquecível a natureza de Deus, já que Jesus veio para revelar
essa verdade essencial. Ao falar do amor de Deus aos fariseus que reclamavam dos cobradores de

87
Manual Bíblico Vida Nova, p. 588.
93
impostos e dos pecadores à volta dele, Jesus criou algumas parábolas memoráveis em Lucas 15. Essas
parábolas de Jesus sobre a natureza de Deus são exemplos excelentes de como ele entendia verdades
simples no contexto da vida diária. Por exemplo, ele falou da preocupação do pastor com unia ovelha
perdida, da mulher procurando uma moeda, da queda do filho pródigo, tão terrível que estava cuidando de
porcos quando caiu em si (Lc 15:17).
Os temas das parábolas
Apesar de não seguir um tema constante em seu ensino por parábolas, Jesus tratou de alguns dos
principais temas do seu ministério por meio de parábolas. Falou da relação da antiga aliança com a nova,
nas parábolas da figueira sem frutos e do grande banquete. Seu ensino sobre oração foi ilustrado pelas
parábolas do amigo que bate à porta no meio da noite e do juiz injusto. Administração dos bens foi outro
tema importante, como se vê nas histórias do administrador desonesto e do rico tolo. Em sua parábola das
moças sábias e das imprudentes e na parábola dos talentos encontramos os ensinos solenes de Jesus
sobre o julgamento. As parábolas de Jesus tocam fundo ao falar de morte e ressurreição, como as do rico e
Lázaro e do agricultor perverso.
Como estudar as parábolas
Estudos contemporâneos da Bíblia insistem que os estudiosos que procuram a mensagem de Jesus
em suas parábolas precisam entender o contexto da história. Também é importante compreender que a
parábola, via de regra, tem uma lição importante a ensinar. Interpretar as parábolas como alegorias não é
nem apropriado nem exato. Quem estuda as Escrituras deve procurar uma lição principal em cada parábola.
A reputação de Cristo como grande mestre certamente vem da substância e do conteúdo das suas lições
inspiradas e verazes. Quando pensamos na forma singular dessas lições por meio de parábolas, chegamos
rapidamente à conclusão mantida há séculos sobre o ensino de Jesus: “Estavam as multidões maravilhadas
da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade” (Mt 7:28-29).

Leia: 1. “As Parábolas — você percebe a lição?” (cap. 7 do livro “Entendes o que lês?”, (Edições Vida
Nova). 2. As Parábolas de Lucas, de Kenneth Bailey (Ed. Vida Nova), procura atingir o significado das
parábolas através de um estudo literário-cultural.

OBRAS PODEROSAS
À série de parábolas segue outra de milagres, assim sugerindo que as ações de Jesus
confirmam Suas palavras.
Todos os Evangelhos sinóticos registram os quatro milagres seguintes e na mesma ordem. São
milagres representativos e pertencem aos quatro diferentes domínios em que Jesus executou Suas
obras poderosas. O amainar da tempestade no mar manifestou o Seu poder sobre o mundo natural; a
libertação do gadareno demoníaco manifestou Sua autoridade sobre o mundo do espírito; a cura da
mulher que tocou Suas vestes mostrou Seu poder no domínio de nossa natureza física; e a
ressurreição da filha de Jairo revelou Sua autoridade sobre o domínio da morte.

Jesus acalma uma tempestade (Mc 4:35-41; Mt 8:18,23-27; Lc 8:22-25)


Nesse relato, Jesus demonstra a autoridade da sua palavra sobre a criação. Geralmente o mar
da Galiléia é calmo e sereno, mas de vez em quando surgiam violentas tempestades. Dizem que o
temporal na Galiléia é uma experiência terrível para qualquer viajante. Os ventos do Norte são
maiores que os do Sul. Jesus repreende, primeiramente, a incredulidade dos discípulos e depois a
tempestade.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Deus freqüentemente nos conforta mudando não as circunstâncias mas a nossa atitude. 2.
“Quem nunca foi ferido zomba das cicatrizes.”

Dois gadarenos (ou gesarenos) endemoninhados (Mc 5:1-20; Mt 8:28-34; Lc 8:26-39)


Gadara era cidade opulenta e rica; situada ao oriente do Jordão, 8 Km da foz, quase defronte
ao mar da Galiléia.
Esse evento é narrado nos três evangelhos sinóticos, mas Marcos e Lucas mencionam somente
o homem que mais se destacava, o mais violento entre os dois homens que foram curados (Mc 5:2;
Lc 8:27; cf. Mt 8:28).
Homem oprimido: lunático perigoso; desnudo entre os túmulos e no deserto; mutilado,
bramindo de dor. O demônio dava a si mesmo o nome de “Legião” (a legião era uma unidade do
94
exército romano composta por 6 mil homens). Havia, portanto, muitos demônios nos dois homens,
sendo que provavelmente a maioria deles estava no homem mais violento.
Atitudes do inimigo para com Jesus: reconhecimento; coragem de ir a Seu encontro; adoração;
atormentado pela Sua gloriosa presença. Seu reconhecimento de Jesus e da Sua autoridade é
característica da maioria de tais casos (cf. Mc 1:24; 3:11).
Motivo do diálogo entre Jesus e o inimigo: para que muitos testemunhassem do poder de
Deus; pedido do inimigo: entrar nos porcos, os quais podiam se precipitar no abismo, para que
mais tarde o povo fosse excitado contra Jesus. O seu alvo era trazer problemas para Jesus.
O fato que os habitantes possuíam porcos, animais proibidos aos judeus, sugere que uma
população mista morasse naquela área.
Observe que os demônios preferiam habitar nos porcos a serem mandados para o castigo
eterno, “para o Abismo” (Lc 8:31). De qualquer forma, eles não demoraram a ir para lá; eles podiam
controlar os homens, mas não os porcos. Não foram eles que impeliram os porcos para dentro do
mar. Nem os porcos nem os demônios queriam cair no mar. Os porcos entraram em pânico com a
presença dos demônios dentro deles e perderam todo o controle na encosta escarpada da colina.
Uma vez em debandada ladeira abaixo, não conseguiram mais parar.
Não houve só prejuízo material (dois mil porcos mortos), mas espiritual também, pois
acabaram por expulsar Jesus de seus termos.
A população local quis que Jesus saísse de seu país. Jesus curara seus vizinhos
endemoninhados, mas, ao assim fazer, também acabou com os seus porcos. Os habitantes tinham
mais estima pelos bens que pelas pessoas. Esse tipo de gente continua existindo ainda hoje!
Nota: Jesus ordenara que o leproso nada contasse a respeito da sua cura (Mt 8:4), mas, no
presente caso, mandou o homem liberto dos demônios sair e contar às pessoas como fora libertado
(Mc 5:19). A razão dessa diferença foi que Jesus ainda não era conhecido na região a leste do mar
da Galiléia, ao passo que na Galiléia sua publicidade já estava fora de controle, havendo um
movimento popular que queria proclamá-lo rei político.

LIÇÃO PARA HOJE: Satanás sabe que é perdedor mas insiste. Sabemos que somos vencedores e muitas vezes nos
acovardamos.

Ressurreição da filha de Jairo; a mulher com hemorragia (Mc 5:21-43; Mt 9:18-26; Lc 8:40-56)
A mulher com uma hemorragia constante era um pária da sociedade, incapaz de tomar parte
nas cerimônias da religião judaica, de entrar no templo ou de tocar em outras pessoas. Era requerido
pela lei mosaica (Lv 15), que ela se mantivesse separada até mesmo de seu marido. 88 O costume
oriental de chamar todos os médicos disponíveis na esperança de que pelo menos um deles pudesse
curá-la, havia exaurido todos os recursos financeiros da mulher. Jesus tornou pública a cura dela,
em parte para remover de sobre ela o estigma social, e assim facilitar sua reentrada na vida da
sociedade.
Marcos e Lucas dão-nos a impressão que Jairo disse que sua filha estava prestes a morrer.
Mateus apresenta-o como quem disse que ela acabara de falecer. Mas Mateus simplesmente
encurtou a narrativa, pelo que em sua versão abreviada, a notícia sobre a morte da jovem aparece
quase de imediato, ao passo que essa notícia pode ser guardada para mais adiante, nos relatos mais
detalhados e longos de Marcos e Lucas. As carpideiras profissionais, na casa de Jairo,
ridicularizavam a Jesus, quando este disse que a menina estava apenas dormindo. Jesus, porém,
sabia que viera ressuscitá-la dos mortos, pelo que aludira à morte dela como se fora mero sono. Em
adição a isso, o confronto entre a morte e o sono era uma comparação comum no mundo antigo,
mesmo à parte da expectação de ser alguém ressuscitado dentre os mortos. “Talitha cumi” são as
palavras aramaicas que significam “Menininha, levanta-te”. E o fato que ela se alimentou,
comprova a realidade de sua ressurreição.

88
Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova, 2001 (2ª ed., reimp.), p. 164-165.

95
“A narrativa da ressurreição da filha de um chefe, que contém o relato da cura de uma mulher
que padecia prolongada hemorragia, retrata a Jesus como ‘o Senhor e doador da vida’, que exerce o
seu poder restaurador em resposta à fé — seja, como no caso da mulher, a fé própria do sofredor,
seja, como no caso do chefe, a fé dos parentes chegados ou amigos ... O poder para curar procedeu
de Jesus, e dele somente, como o indica a referência de Marcos à consciência que Jesus teve de que
saíra poder dele no momento em que a mulher fora curada (Mc 5:30). Não obstante, a fé em Jesus
desempenhou papel vital na liberação da sua atividade divina.”89

Jesus cura dois cegos e um mudo endemoninhado (Mt 9:27-34; cf. Mc 8:22-26)
Em cada cinco pessoas adultas, uma era afetada na vista. As causas eram diversas: O pó
finíssimo das areias do deserto; os raios solares e sua luz ofuscante; o dormir ao céu aberto e outras
causas tornaram a doença dos olhos quase epidêmica.
“tem compaixão de nós, Filho de Davi” Eles sentiram a necessidade de um auxílio
compassivo, humano e divino. O milagre se realizou sob duas condições fundamentais: o poder da
palavra do Senhor e o poder da fé que aqueles homens haviam recebido de Deus — “A vossa fé não
ficará decepcionada” (v. 29).
Isso aconteceu em Betsaida, no litoral norte do mar da Galiléia, onde Jesus operara muitos
milagres (Mt 11:21), perto de onde alimentara os cinco mil. Daí sua advertência ao homem no
sentido de que evitasse publicidade desnecessária.
A mudez do homem era provocada por um demônio. Jesus expulsou a ação demoníaca e o
homem passou a falar. A multidão ficou admirada, mas em vez de dar glória a Deus, fez uma
acusação blasfema contra Jesus — o modo como Jesus contestava esta constante crítica dos fariseus
pode-se ver em Mt 12:25-30.

JESUS PROSSEGUE SUA ATIVIDADE DE DOUTRINAÇÃO E EVANGELIZAÇÃO


(Sua terceira viagem pela Galiléia)

Jesus é rejeitado em Nazaré; Sua última visita à cidade (Mc 6:1-6a; Mt 13:54-58)
Em Lc 4:16-30 está relatada uma visita feita por Jesus à cidade de Nazaré. Muitos estudiosos
concordam no fato de que esta fora a primeira e última vez que Jesus esteve nesta cidade. Estes
estudiosos consideram as passagens de Mc 6:1-6; Mt 13:54-58 e Lc 4:16-30 como relato do mesmo
acontecimento. Alguns intérpretes opinam que a rejeição de Jesus, conforme foi registrada por
Lucas, apresenta uma rejeição anterior em Nazaré, e que Mateus e Marcos falam de uma segunda
rejeição na mesma localidade.
“escandalizavam-se nele” Literalmente é “tropeçavam nele” ou “voltavam-se contra ele”.
Nenhum nazareno teria a sua sabedoria, nem mesmo os rabinos de Jerusalém. Não aceitavam Jesus
ter a sabedoria divina-messiânica.
Jesus afirma: “Profeta não tem honra em sua própria terra”. Champlin afirma: “Esse adágio
pode ser encontrado não só na literatura judaica, mas também na de diversos povos antigos, sendo
assim um refrão universal”. Jesus proferiu esse adágio sob outras circunstâncias, para além do
território da Galiléia, como vemos em Jo 4:44.
“não fez ali muitos milagres” Champlin considera: Às vezes Jesus operava milagres sem a
participação da fé da pessoa curada, pois era movido por pura misericórdia, mas às vezes requeria a
prova da fé, provavelmente por causa de seu desejo de ensinar, com os milagres físicos, certas
lições espirituais, especialmente que se deve ter plena confiança em Deus, ou, quiçá, em certos
casos, a fim de que as pessoas curadas demonstrassem que o aceitavam como o Messias.
Matthew Henry declarou: “A incredulidade é o maior obstáculo ao favor de Cristo. Se em nós
não são operadas obras maravilhosas, não é devido à falta de poder e graça da parte de Jesus, mas
por causa da nossa falta de fé”.
Starke comentou: “De fato, Jesus é o filho do carpinteiro, mas daquele Carpinteiro que fez o
céu e a Terra. Preconceitos sem fundamento, vezes sem conta, são empecilhos no caminho da fé”.
89
R. V. G. Tasker, Mateus: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1980, p. 79-80.
96
Heubner disse: “Jesus não necessita da aceitação de seu amor e de suas bênçãos. O orgulho traz
consigo o seu próprio julgamento”.

De dois em dois, os Doze são enviados pela Galiléia (Mc 6:6b-13; Mt 9:35—11:1; Lc 9:1-6)
Era plano de Deus que o evangelho fosse pregado primeiro aos judeus para que a Palestina se
tornasse o centro da obra missionária para todo o mundo.
Os Doze comissionados foram chamados, treinados e agora enviados. A convocação foi feita
pelo próprio Jesus, o que determina autoridade concedida de agirem em Seu nome.
As instruções dadas:
a) Pouca bagagem, a fim de fazerem uma viagem rápida. O sustento dos discípulos deveria vir
de donativos feitos pelos beneficiários das ministrações.
b) Aceitar hospedagem de boa mente.
c) Ser prudente e paciente na perseguição.
A razão da chamada:
a) Para que estivessem ao Seu lado permanentemente, recebendo instruções especiais (Mc
3:13-15).
b) Para que fossem adiante de Sua face logo que necessário, com a mensagem da aproximação
do reino de Deus (Mt 10:5-7).
c) A fim de prepará-los para o ministério futuro, quando eles seriam testemunhas diante do
mundo (Mt 10:16-18).
Os discípulos tiveram conhecimento de Jesus por três aspectos:
— Como o Cristo visível que andava entre eles.
— Como o Cristo glorificado, após a ressurreição.
— Como o Cristo invisível da experiência cristã.

Decaptação de João Batista e temores de Herodes Antipas (Lc 9:7-9; Mc 6:14-29; Mt 14:1-12)
O relato da morte de João Batista provê o pano-de-fundo para o terror culposo de Herodes
Antipas de que Jesus seria o mesmo João, que teria regressado de entre os mortos.
Como aconteceu? Herodes tinha prendido João e queria matá-lo, mas temia o povo. No dia do
seu aniversário, Herodes ofereceu um banquete para seus grandes amigos e, em meio à festa,
dançou a filha de Herodias, sua cunhada com quem ele vivia ilicitamente. Herodes agradou-se tanto
da dança que disse à jovem que pedisse o que desejasse e lhe seria feito. A moça instruída por sua
mãe, pediu a cabeça de João Batista, num prato. Embora com temor, mas forçado pela promessa
que havia feito, Herodes mandou degolar João no cárcere e sua cabeça foi trazida num prato e dada
à moça, que a levou a sua mãe.
Herodes Antipas era governador da Galiléia e Peréia. Foi justamente no território onde ele
governava que Jesus realizou a maioria de Seus milagres. Com certeza, as notícias sobre os feitos de
Jesus chegaram até ele e possivelmente, também os feitos dos 12 apóstolos os quais Jesus havia
enviado de dois em dois a pregarem o Reino de Deus.
A fama de Jesus crescia cada vez mais e as opiniões a Seu respeito eram por demais
versificadas. Alguns acreditavam ser Ele Elias, pois criam que Elias seria o precursor do Messias.
Outros acreditavam ser Ele um dos profetas. Havia também o grupo que acreditava ser Ele João
Batista ressuscitado. A este grupo pertencia Herodes Antipas, cujo duplo temor era:
1. Herodes pensava que em Jesus se confrontava de novo com João Batista, de quem
imaginava ter ficado livre para sempre quando o decapitara;
2. O fato de saber que João ressuscitara dos mortos aguçara sua consciência culposa.
Herodes não tivera nenhuma demonstração de que João fosse um operador de milagres. Mas
se, como supunha, João ressuscitara dos mortos, seria inevitável que ele havia de possuir poderes
sobrenaturais. Segundo Mt 5:14 e Mc 6:20, Herodes sabia no íntimo que João era um homem justo
e santo. Sendo assim, ele havia matado um inocente, e tinha consciência disto.90
90
O relacionamento entre João e Herodes e Herodias nos faz relembrar do relacionamento paralelo entre Elias e Acabe
e Jezabel, sobretudo quando se recorda que João Batista viera “no espírito e poder de Elias”.
97
Nota: Cronologicamente, Mt 14:13 segue-se imediatamente a Mt 14:2. O que o texto diz que Jesus
ouviu (v. 13) não é a notícia da morte de João Batista, mas a notícia da idéia que dele fizera
Herodes. Foi isto que levou Jesus a partir dali, num barco, para um lugar à parte. De fato, o martírio
de João aconteceu muito antes, mas o modo particular de Mateus, de agrupar o seu material, não lhe
dera até aqui ocasião de registrá-lo.

A ÉPOCA DAS RETIRADAS: UM PERÍODO DE INSTRUÇÃO AOS DOZE

Devido ao seu grande ministério na Galiléia, tanto a fama quanto a hostilidade contra Jesus
cresceram assustadoramente. Essa situação fez com que Jesus se afastasse da multidão, juntamente
com os discípulos. E suas viagens de retirada tornaram uma ocasião especial de instruções
específicas ao colégio apostólico.

PRIMEIRA RETIRADA E EVENTOS SUBSEQÜENTES


Sua primeira retirada aconteceu quando veio a saber que Herodes pensava ser ele João
Batista ressuscitado (Mt 14:2, 13). A seqüência da narrativa de Mateus nos leva a crer que o
objetivo primário da retirada de Jesus era evitar os domínios de Herodes. Marcos nos faz saber que
Jesus tinha a intenção de afastar-se do tumulto causado pelas multidões, a fim de, na calmaria,
poder dar instruções aos Doze apóstolos (Mc 6:31). Lucas informa que eles partiram para uma
cidade chamada Betsaida (possivelmente a Betsaida Julias) (Lc 9:10). João acrescenta que o lugar
deserto para onde foram ficava do outro lado do Mar da Galiléia (Jo 6:1). Era esse um lugar
sossegado e pouco povoado, ideal para Jesus ficar um período com seus discípulos.
Nota: Depois de sua segunda estada em Nazaré (apesar de muitos acreditarem que Jesus só
esteve na cidade uma única vez), Jesus envia os Doze para pregar o evangelho e sobe a Cafarnaum
(pode ser que Ele os tenha enviado já estando nesta cidade, fato é que o envio foi entre o episódio
de sua expulsão de Nazaré e a chegada a Cafarnaum. Quando o grupo dos Doze retorna de sua
missão eles encontram com Jesus na cidade de Cafarnaum, de onde partiram para Betsaida Julias, a
fim de descansar e receber instruções por parte de Jesus.
Foi impossível, para o Mestre, ficar a sós. Uma grande multidão o seguiu. Enquanto Jesus
passava para Betsaida Julias via marítima, a multidão seguia por terra, numa caminhada de mais ou
menos 8 km.

Jesus alimenta cinco mil homens (Mc 6:32-44; Mt 14:13-21; Lc 9:10-17; Jo 6:1-15).
Jesus não se queixou da grande multidão que o seguia, antes teve compaixão daquela gente,
porque eram como ovelhas sem pastor. Mateus, Lucas e João narram que no meio da multidão havia
muitos doentes. Jesus ensinou a multidão e curou enfermos.
Os discípulos disseram para Jesus despedir a multidão, por causa da hora já avançada, a fim
de que pudesse ir aos sítios e aldeias em redor comprar para si o que comer — possivelmente não
estavam dentro de Betsaida, mas nas suas proximidades, em um retiro.
Atitude de Filipe: Sendo ele natural de Betsaida (Jo 1:44), foi o primeiro a tentar solucionar o
problema (Jo 6:7). Segundo ele, nem 200 denários de pão seriam suficientes (um denário equivalia
a um dia de trabalho).
Atitude de André: Apenas informou sobre a alimentação de um rapaz (cinco pães de cevada e
dois peixes secos ou assados), sem perspectiva do que aquilo poderia representar para o Mestre.
O número de pessoas: Duas palavras são usadas nesta passagem para indicar homens, uma é
“anthopoi” que faz menção a todo povo, e “andres”, usada por João, faz referência a uma pessoa do
sexo masculino. Jesus diz: “Fazei o povo (anthopoi) assentar-se”, mas João acrescenta que os
(andres) assentaram-se. Mateus destaca este aspecto acrescentando “mulheres e crianças”. Só de
“andres” — isto é, homens — havia cinco mil.

98
O método de Jesus: Dispor a multidão em grupos para facilitar a distribuição do alimento, o
que também dá idéia de comunhão.
Início da grande operação: Jesus toma os alimentos e dá graças ao Pai. Ele inicia da maneira
que os judeus normalmente comem uma refeição. O verbo traduzido por “os abençoou” é o verbo
grego “eucharisteo” de onde deriva o termo eucaristia, ou seja, “ação de graças”. O que Jesus fez
aqui não foi transmitir uma bênção para estes objetos físicos. O significado é que Jesus pronunciou
uma oração de ação de graças. Este tipo de oração era iniciada pelos judeus da seguinte forma:
“Bendito és tu, ó Senhor...”, seguida pela menção daquilo em prol do que a ação de graças estava
sendo oferecida — nesse caso específico, tratava-se dos pães e dos peixes. Jesus poderia ter orado
assim: “Bendito és, ó Senhor nosso Deus, Rei do universo, que produzes pão na terra”. Segundo os
sinóticos, depois de ter orado, Jesus ia entregando os pães aos discípulos que os passavam à mão da
multidão, até que todos se fartaram.
“e tomando... abençoou, partiu... e deu” (Lc 9:16) Conforme Jesus foi partindo o alimento,
ele foi multiplicando-se (dividir é o começo da multiplicação). É insensato pensar que o pedaço que
cada um comeu era suficiente para nutrir sua fome. A Bíblia diz que sobraram 12 cestos de pedaços,
isto implica em que o povo comeu até fartar-se. O que ocorreu é que quanto mais os discípulos
distribuíam, mais pão e peixe existiam.
Os pães que sobraram: depois de toda multidão ter se fartado, o que sobrou era mais do que se
tinha quando começou a distribuição. Há quem faça uma relação entre os doze cestos e os doze
apóstolos, interpretando que a lição deixada por Jesus neste episódio foi que Ele não só pode suprir
as necessidades dessas “ovelhas perdidas de casa de Israel”, mas tem o suficiente para todas as doze
tribos.
Época: A relva indicava a primavera, período próximo à Páscoa. Isso aconteceu cerca de um
ano antes da morte de Jesus.

Jo 6:14-15 — O dito popular é: “O caminho mais perto do coração é o estômago”. Ora, ter um
rei que, com toda a facilidade, podia alimentá-los, sem trabalho, um rei que pudesse curar todo o
tipo de enfermidade, seria maravilhoso. O que mais lhes faltavam a não ser vê-lo subjugar os ro-
manos e libertar Israel da opressão.
“Jesus já demonstrara seu poder de curar doenças; agora mostrara poder também para
expulsar a fome. Se agora ele mostrasse seu poder de libertar seu povo, nada o poderia conter. Este
certamente era o líder que eles estavam esperando; com ele como general e rei, vitória e paz
estavam garantidas! Se ele não tomava a iniciativa de apresentar-se como líder, eles o levariam a
fazê-lo. Porém, Jesus viu na atitude deles uma reincidência das suas tentações no deserto. Ele sabia
que não seria desta maneira que deveria cumprir a vontade de Seu Pai e conquistar a libertação do
Seu povo. Por isso, evitou a multidão retirando-se para as colinas de Golã — desta vez sem os
discípulos.” 91

Jesus anda sobre as águas (Mt 14:24-33; Mc 6:47-52; Jo 6:16-21)


“A quarta vigília da noite”, durante a qual Jesus andando por sobre as águas, aproximou-se
dos discípulos que lutavam contra o vendaval, era aproximadamente entre as três da madrugada e
as seis da manhã. A narrativa nem glorifica à fé de Pedro, por ter andado também por sobre as
águas, como fazia Jesus, e nem critica a hesitação de Pedro e seu afundamento. Antes, magnifica a
graça e o poder de Jesus.

Multidões em Genezaré (Mt 14:34-36; Mc 6:53-56)


Após a travessia do mar e Jesus ter andado sobre as águas, eles se dirigem para Genezaré —
era a planície semicircular no litoral, noroeste do mar da Galiléia. Quando os moradores desta
cidade reconheceram Jesus, trouxeram-lhe todos os enfermos da vizinhança, para que ele os
curasse. O povo depositava tamanha fé em Jesus a ponto de pedir que pelo menos Ele os deixasse
91
F. F. Bruce, João: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1997, p. 133.

99
tocar na orla de seu vestido — é certo afirmar que este povo não ficou decepcionado.
Jesus volta para Cafarnaum.

Discurso de Jesus sobre o Pão da Vida (Jo 6:22-71)


A multidão que havia sido alimentada, da qual Jesus havia fugido para não ser aclamado Rei,
encontrou-o na sinagoga em Cafarnaum, no dia seguinte.
Provavelmente Jesus havia lido, nesse dia, a passagem referente ao maná, a comida que Deus
havia providenciado durante todo o percurso de Israel pelo deserto.
A multidão questiona: “Rabi, quando chegaste aqui?” Após esta pergunta, desenrola-se um
diálogo entre Jesus e o povo, ocasião em que Ele profere o discurso sobre o Pão da Vida.92

Jesus repreende a multidão:


Mt 6:26 “me buscais, não porque vistes sinais, mas porque comestes do pão e vos saciastes”.
Não estavam ali porque entenderam a revelação dada quando Ele multiplicou o pão, mas pelo
simples fato de terem sido alimentados com o pão. E pensavam que Jesus iria continuar
multiplicando alimentos... Identificaram Jesus com Moisés, e pensavam que da mesma forma como
Moisés alimentou o povo de Israel, no deserto, Jesus estaria alimentando o povo agora. Jesus seria
um supridor de necessidades materiais.
v. 27 “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para vida
eterna”. Pode ser que o raciocínio era: Precisamos trabalhar para ter dinheiro e comprar nosso
alimento diário; sendo assim, Deus deve ter determinado um tipo de atividade para realizarmos a
fim de ganharmos este alimento que não perece. Mas Jesus esclarece a multidão, dizendo que a
única maneira de se conseguir o alimento que não perece, o alimento espiritual, é exercitando a fé, e
uma fé dirigida ao Filho do Homem — o representante autêntico e autorizado por Deus para
oferecer este alimento que dá vida.
v. 34 A multidão pensava que Jesus falava de um pão terreno que nunca se esgotaria, um pão
miraculoso.
v. 35 “Eu sou o pão da vida” Jesus é, ao mesmo tempo, o doador da bênção e a própria
bênção. É Ele quem dá o pão e Ele mesmo é o pão — “Jesus nos alimenta com aquilo que Ele
mesmo é”. Ele veio dar-se a si mesmo para que as pessoas vivam através dele. A multidão precisava
alimentar-se dele, não do que Ele podia fazer. Para participarmos do pão da vida, precisamos crer
nele. O segredo da vida eterna e da satisfação perpétua da alma é entregar-se totalmente a Cristo,
apropriando-se dele pela fé.
Benefícios daqueles que se alimentam dele: satisfação contínua (v. 35); proteção permanente
(vs. 37,39); vida eterna — mais que vida sem fim; é a qualidade da vida de Deus (v. 40).
v. 54 “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei
no último dia”. Toda essa conversa estava acontecendo dentro da sinagoga (v. 59 — Uma das
estratégias missionárias de Jesus era participar das sinagogas para ensinar a verdade ao povo).
Cristo atrai, mas nem todos se aproximam. Com certeza, lá estavam fariseus e saduceus, os quais
divergiam entre si em algumas doutrinas. A afirmação de Jesus tinha três pontos críticos, causando
polêmica no meio da multidão:
1. Comer a carne de um homem — seria a prática do canibalismo, o que não era permitido em
Israel.
2. Usar o sangue como alimento — isto era proibido por lei.
3. A ressurreição dos mortos — ponto doutrinário que causava polêmica constante entre
fariseus e saduceus (At 23:6-8).
Com a expressão “comer a carne e beber o sangue”, Jesus estava usando uma linguagem
92
Há um paralelo interessante entre esse diálogo de Jesus com a multidão e o diálogo de Jesus com a mulher
samaritana. Assim como a água do poço não podia dar refrigério à alma, como a “água viva” faz, também o alimento
que “desaparece com o uso” pode sustentar a vida física, mas não transmite vida eterna. A multidão não conseguia
entender a profundidade desse ensino de Jesus. Eles racionavam no âmbito material. Jesus se aprofunda na revelação
assim como fez com a mulher samaritana, a ela Jesus diz claramente que ele é o Messias, e à multidão Ele diz
claramente que ele próprio é “o pão da vida” vindo de Deus (Jo 6:35).
100
figurada, em que o comer e o beber significavam vir a Ele e crer nele. São os que assim agem que
têm a vida eterna e ressuscitarão no último dia. Nessas palavras estranhas e fortes aos ouvidos dos
judeus, estava contida uma poderosa metáfora para o ato de vir a Cristo e crer nele (v. 35) e
apropriar-se dele pela fé. A união pela fé, entre nós e Cristo, coloca-nos em intimidade com Ele (I Jo
3:24; Jo 15:4-5). A fraseologia empregada faz lembrar as palavras da instituição da última Ceia.
v. 63 A essência do ensino93 de Jesus: ESPÍRITO E VIDA.

A afirmativa de Pedro (Mt 6:67-69)


O discurso não foi difícil de entender, mas duro de aceitar. A doutrina da expiação que seria
realizada por Jesus tornou-se motivo de escândalo para muitos (vs. 60-65). Jesus não procurou
comprovar suas afirmações. O tempo mostraria toda a verdade. No alvoroço que foi formado ante à
incredulidade, muitos abandonaram o Mestre. Diante desse fato, Jesus pergunta aos Doze: “Queres
vós também retirar-vos?”. Pedro toma a dianteira do grupo e diz: “Senhor, para quem iremos nós?
Tu tens as palavras de vida eterna”. Com isso, Pedro queria dizer que eles não só entenderam mas
creram no que o Mestre havia dito.

AS DECLARAÇÕES “EU SOU” NO EVANGELHO DE JOÃO


Declaração Referência em João
Eu sou o pão da vida 6:35-48
Eu sou o pão vivo 6:51
Eu sou a luz do mundo 8:12
Eu sou lá de cima, vós sois cá de baixo 8:23
Eu sou a porta das ovelhas 10:7
Eu sou o bom pastor 10:11, 14
Eu sou a ressurreição e a vida 11:25
Eu sou o caminho, a verdade e a vida 14:6
Eu sou a videira verdadeira 15:1, 5
Eu sou rei 18:37

SEGUNDA RETIRADA E EVENTOS SUBSEQÜENTES


Foi nessa retirada que Jesus atravessou as fronteiras de Israel visitando a costa do
Mediterrâneo; chegou aos termos de Tiro e Sidom, na Fenícia. Esse território fazia limites ao Norte
e a Oeste com a Galiléia; e hoje é o atual Líbano.

Pureza espiritual; Jesus e as leis cerimoniais (Mt 15:1-20; Mc 7:1-23)


As autoridades de Jerusalém já haviam resolvido matar Jesus (Jo 5:18). Por certo, já tinham
ouvido a respeito do declínio da Sua popularidade na Galiléia (Jo 6:66). Agora enviam de Jerusalém
uma delegação de fariseus para reforçar a propaganda, na esperança de tornar Jesus impopular entre
os próprios discípulos, visto ser provável que muitos deles se apegassem às mesmas tradições dos
fariseus. Essa delegação procurou envolver Jesus em uma controvérsia sobre a natureza da
“pureza”; para tanto, acusava os discípulos de Jesus de quebrarem uma tradição: comer sem lavar as
mãos.
Mãos impuras: A lavagem das mãos aqui referida não visava propósitos higiênicos; era um
ritual religioso, não um preceito da Lei, mas mera interpretação dos mestres da Lei. Jesus lhes disse
que semelhantes ritos não tinham valor e que a verdadeira “impureza” está no coração. Em seguida,
condenou-os abertamente por terem tornado a Palavra de Deus sem efeito por meio de tradições que
eram de origem estritamente humana. Para os fariseus, todo contato com os pagãos se constituía
uma imundície espiritual.

Tradição dos anciãos: Refere-se à interpretação oral e expositiva da Lei de Moisés, mais tarde
codificada no Mishna (Mc 7:5). Jesus recebe a acusação de quebrar a tradição dos anciãos.
93
A pedagogia de Jesus: paidéia = tutoria, acompanhamento ao aluno desde criança. Didaskalia = ensino que leva o
discípulo a ajuntar-se ao mestre e querer ser como ele é.
101
Jesus defende os discípulos, fazendo uma pergunta para o grupo dos fariseus: “E vós, por que
transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?” Os judeus possuíam a Mishna
(código das leis cerimoniais); para explicarem a Lei de Moisés, acrescentaram mais 613 leis (Mt
23:4). E, em alguns pontos, eles fugiram da real interpretação da Lei — é a isto que Jesus se refere
em Mt 15:4-5.
Mc 7:6-7 Hipocrisia é fingir ser o que não se é. Jesus chamou os fariseus de hipócritas porque
eles não adoravam a Deus por amá-Lo, mas por ser proveitoso, fazendo-os parecer santos e
elevando seu “status” ou posição na sociedade. Tornamo-nos hipócritas quando (1) damos mais
atenção à reputação do que ao caráter, (2) seguimos cuidadosamente certas práticas religiosas
enquanto permitimos que nosso coração se mantenha distante de Deus, e (3) enfatizamos nossas
virtudes e apontamos os pecados dos outros.
Mc 7:9-13 Substituíram o mandamento de honrar pai e mãe (isto significava mantê-los
enquanto vivessem), pelo termo corbã, que quer dizer: oferta de dedicação ao uso sagrado. Ao
pronunciar tal palavra, a oferta que um filho estivesse dedicando ao templo (tesouraria) seria
santificada, mesmo não sendo entregue no momento. Muitos filhos para não cuidarem dos pais
faziam esta negociação com a tesouraria do Templo — Devido a esta prática do corbã ser constante
naqueles tempos, a tesouraria recebia o nome de Corbã.
“Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta ao Senhor” Mc 7:11. Corbã é
palavra de origem aramaica, a qual Mateus usa no grego significando “oferta ao Senhor”. Descreve
uma espécie de voto ou maldição que legalmente significava a proibição de que os bens de um
homem o beneficiassem em detrimento daquele por ele mencionado no voto. Em outras palavras, a
tradição dos anciãos dizia: “Se eu consagrei meus bens a Deus, não preciso socorrer meus pais nas
horas de necessidade, mesmo que eles estejam passando fome, pois fiz voto de dar meu dinheiro no
Templo”. Jesus estava dizendo que esse costume dos anciãos estava indo contra à genuína ordem de
Deus que era honrar pai e mãe.
LIÇÃO PARA HOJE: Essas palavras de Jesus têm aplicação direta a muitas das práticas que, no
decurso dos séculos, foram se infiltrando na igreja cristã. É de estarrecer a engenhosidade usada por
muitos líderes eclesiásticos para descobrir na Palavra de Deus alguma fonte para práticas que
reconhecidamente são de origem humana. Há quem empregue a Palavra de Deus para justificar
aquilo que, muitas vezes, está em direta oposição a ela própria.
A fé da mulher siro-fenícia (Mt 15:21-28 e Mc 7:24-30)
Em Mateus, ela é chamada “mulher cananéia” — os fenícios descenderam dos cananeus,
primitivos habitantes da Palestina. Marcos diz: “Esta mulher era grega, de origem siro-fenícia”, 94
indicando que era gentia e não praticava o judaísmo.
Mt 15:24 O evangelho devia ser oferecido primeiramente aos judeus. Jesus aqui teve cuidado
de não dar a impressão de que estava fugindo do propósito messiânico.
Gundry afirma: “Jesus testou a fé da mulher siro-fenícia. No diálogo que houve, “filhos” alude
ao povo judeu, “cachorrinhos” refere-se aos gentios. Os judeus regularmente chamavam os gentios
de “cães”. Mas a forma da palavra usada por Jesus significa “cachorrinhos”, animais domésticos de
estimação. A mulher apegou-se esperançosamente a essa expressão, a fim de argumentar que até os
gentios esperavam uma migalha da graça de Deus, caída da mesa do banquete messiânico. Foi
preciso grande fé da parte dela para conceber que o livramento de sua filha seria, para Cristo, o
equivalente apenas a uma migalha.”95
Com essa expressão, Jesus quis dizer à mulher que o que ela recebesse dele seria fruto da
graça divina. Jesus seria glória para os judeus e revelação para os gentios. A revelação é fruto da
graça.
Multiplicação de pães para os quatro mil (Mt 15:29-38 e Mc 8:1-9)

94
Nota: Existiam a Fenícia Siríaca e a Líbio-Fenícia ao Norte da África.
95

Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova, p. 168.


102
A excursão pela Fenícia e o retorno ao Mar da Galiléia devem ter durado uns dois a três
meses. Agora Jesus estava de volta à região na qual haviam tentado fazê-lo rei. Por isso, ao curar ali
um surdo-mudo (Mc 7:31-37), pede para o homem manter-se calado, a fim de evitar publicidade.
Após o diálogo sobre judeus e gentios, Jesus realizou outro milagre de multiplicação de pães
— desta vez para uma multidão de quatro mil pessoas, incluindo muitos gentios. Conforme os
judeus foram rejeitando a Jesus mais e mais, os gentios, em números sempre crescentes, foram
participando das bênçãos.
A segunda multiplicação se difere da primeira nos seguintes pontos:
PRIMEIRA MULTIPLICAÇÃO SEGUNDA MULTIPLICAÇÃO
1. A multidão estava há um dia com Jesus. 2. 1. A multidão estava há três dias com Jesus. 2. O número era de quatro
O número era de cinco mil homens (Mc 6:44). mil homens (Mc 8:9). 3. O número de pães e peixes era maior: sete
3. Cinco pães e dois peixes foram pães e alguns peixes (Mc 8:5,7). 4. O local era Decapólis,
multiplicados (Mc 6:38). 4. O local era em um provavelmente (Mc 7:31). 5. A sobra foi de sete cestos (alcofas).
lugar deserto; Galiléia, provavelmente (Lc Lição para hoje: a) Jesus reprova a falta de empatia com o mundo
9:10). 5. A sobra foi de doze cestos. gentílico em suas necessidades; b) Jesus ensina que o campo em que
Lição para hoje: Jesus ensina aos o reino de Deus terá de ser proclamado é o próprio mundo (ver Mt
discípulos a dependerem completamente 13:38; 28:19), pois o mundo todo é o objeto do seu amor (ver Jo 3:16).
dele, sempre.
Novo pedido de um sinal messiânico (Mt 15:39—16:4 e Mc 8:10-12)
Esse incidente ocorreu em Dalmanuta (Mc 8:10), lugar desconhecido hoje em dia. Alguns
crêem que Dalmanuta fosse uma praia de Magadã. Mateus 15:39 registra Magadã (ou Magdala), a
cidade de Maria Madalena que ficava na região chamada Dalmanuta, na extremidade norte do
litoral oeste do mar da Galiléia.
Nem bem Jesus regressara à Galiléia, e seus inimigos estavam de prontidão, apelando a todos
os truques imagináveis para desacreditá-lo aos olhos do povo. Queriam ver um sinal. Durante dois
anos inteiros, Jesus estivera curando, quase sem interrupção, muitíssimas pessoas que sofriam todo
tipo de enfermidade. Além disso, Jesus multiplicara os pães para milhares de pessoas. E os fariseus
ainda queriam um sinal... Jesus também estava desgostoso com a lentidão dos discípulos em
entender a relevância de seus milagres, de modo que os repreendeu por se preocuparem com
alimentos enquanto estavam com Ele (Mc 8:7-12).
Este segundo pedido de um sinal dos céus se diferencia do primeiro (Mt 12:38-48) pela
presença dos saduceus e pela reprimenda registrada em Mt 16:2-3.
“um sinal vindo do céu”: uma prova milagrosa de Sua autoridade, como Elias demonstrou no
Monte Carmelo.
Os judeus sabiam discernir os “sinais dos tempos”, mas não sabiam discernir a operação de
Deus entre os homens. O “sinal de Jonas” é uma referência à ressurreição corporal de Cristo, o
maior dos milagres, abrangendo a todos. Jesus ataca os saduceus que não criam na ressurreição.
Indica também o mesmo sinal da pregação de Jonas: o arrependimento.
Os judeus não criam que demônios podiam operar sinais. Entretanto, em outro episódio,
haviam acusado Jesus de expulsar demônio por Belzebu. Estavam, portanto, em contradição.
“geração má e adúltera”, por ter rompido os laços com Jeová (em Mt 12:39, encontramos as
mesmas palavras).

O fermento dos fariseus e saduceus (Mc 8:13-21; Mt 16:5-12)


Após a conversa com os fariseus e saduceus, Jesus vai com os discípulos para o outro lado do
Mar da Galiléia, dirigindo-se para a cidade de Betsaida (Mt 16:22). Ainda no barco, os discípulos
comentam entre si que, em sua pressa, tinham-se esquecido de trazer pão. Eles pensavam que Jesus
estava chateado por eles não terem provido de pão para a viagem — eles esqueceram os sete cestos
de pães que haviam sobrado (como judeus, consideravam que aqueles pães por terem sido tocados
por gentios estavam agora impuros cerimonialmente). Jesus lhes explica Suas verdadeiras razões, já
que a mente dos discípulos não ia além do pão físico.

103
fermento dos fariseus e saduceus Com esta expressão Jesus referia-se à doutrina deles — o
legalismo ou tradicionalismo rígido e os sofismas casuísticos dos fariseus; o oportunismo político e
o materialismo mundano dos saduceus. O “fermento de Herodes” e o “fermento dos saduceus” são a
mesma coisa, pois os sustentadores políticos da família dos Herodes eram saduceus por convicção
religiosa. Mc 8:19-21 Jesus adverte os discípulos quanto à infecção do espírito de falsidade e
hipocrisia dos religiosos judeus. Fermento dos fariseus é uma má influência que corrompe tanto os
ensinos como os que o acolhem.
Fermento: Judeus evitavam o uso de levedura na semana imediata após a Páscoa. Nos ensinos
de Jesus, a levedura simbolizava a hipocrisia e perversidade crescente por parte dos fariseus.

A cura de um cego em Betsaida (Mc 8:22-26)


Nota de Champlin: Este milagre é o segundo dos dois milagres de Cristo registrados
exclusivamente no evangelho de Marcos. Os evangelhos registram cerca de quarenta milagres
realizados por Cristo. Desses, Marcos registrou dezoito. E, desses dezoito, apenas dois lhe são
peculiares — este e o da cura do surdo-mudo, dado em Mc 7:31-37. Pode-se observar que este
milagre tem diversos pontos de semelhança com o de Mc 7:31-37. Em ambos os casos, a pessoa a
ser curada foi trazida a fim de ser “tocada” ou a fim de que Jesus lhe impusesse as mãos. Em ambos
os casos, Jesus levou a pessoa para longe da multidão. Em ambos os casos, o Senhor empregou
saliva. Por essas razões, alguns estudiosos têm chegado a pensar que na realidade a narrativa é
apenas uma, e que duas versões da mesma chegaram até nós, uma delas envolvendo um surdo-
mudo, e a outra envolvendo um cego. Todavia, existem diferenças que distinguem as duas
ocorrências, especialmente as localizações geográficas, porquanto o primeiro caso (do capítulo
sétimo) teve lugar no território geral de Decápolis, ao passo que este segundo caso é definidamente
localizado em Betsaida.
“vês alguma coisa” (v. 23) Alguns acham que a recuperação da visão, de uma só vez, poderia
prejudicar o homem. Na realidade, a lição que Jesus quis ensinar foi a metodologia do milagre
paulatino, trabalhando na fé do cego. Russell Shedd: “Neste único milagre de Jesus operado em
duas etapas, a primeira talvez tivesse apenas restaurado a função dos olhos, e a segunda, a ação no
cérebro que lhe dava percepção mental daquilo que os globos oculares captavam. “claramente” (v.
25) Restabelecida a boa focalização visual, ele viu perfeitamente.”

TERCEIRA RETIRADA E EVENTOS SUBSEQÜENTES


Jesus vai à região de Cesaréia de Filipe, ao norte da Galiléia, cerca de 25 km do Mar da
Galiléia. Cesaréia de Filipe veio do costume de nomear uma cidade de destaque com o nome de
César (Herodes Filipe). Seu nome outrora era Panéias, pois adoravam ao deus Pã. Jesus mais uma
vez vai para o ambiente gentio, longe da constante oposição dos religiosos judeus.

A confissão de Pedro (Mt 16:13-20; Mc 8:27-30; Lc 9:18-20)


Desde o início do ministério, Jesus vinha suportando os mal-entendidos por parte do povo e
a oposição dos líderes religiosos. Todavia, quanto a seus discípulos, Ele não queria decepcioná-los.
Como um meio de fortalecer-lhes a fé, o Senhor os levou a Cesaréia de Filipe a fim de orarem um
pouco. Desta época em diante, Jesus tem os discípulos no primeiro plano de Seus ensinos.
Jesus, em Cesaréia de Filipe, teve a oportunidade de ficar sozinho com seus discípulos a fim
de instrui-los sem ser interrompido pela multidão. Após um período de oração (Lc 9:18), inicia uma
conversação com os discípulos e pergunta-lhes: “Quem dizem as multidões que sou eu?”. Os
discípulos responderam: “uns dizem João Batista; outros Elias; e ainda outros dizem ser um dos
antigos profetas”. A variedade de opiniões mostrava também que ninguém queria comprometer-se
diante dos líderes. Jesus os questiona novamente: “Mas vós quem dizeis que eu sou?” 96
“És o Cristo de Deus” — A resposta de Pedro reconhece que Jesus era o “ungido” de Deus, o
Libertador por quem o povo de Deus estava ansiando há tanto tempo. Pedro entendeu que Jesus não
96
Aquilo que os homens pensam determina o que são e o que fazem. Faça a si mesmo esta pergunta. Ninguém pode
escapar dela. Uma resposta neutra é impossível...
104
era mais um profeta. Ele era o Filho de Deus e como Filho conhecia a mente e os propósitos do Pai.
Declara o caráter messiânico de Jesus e Sua deidade.
“não foi carne ou sangue que te revelou, mas meu Pai” Essa revelação que Pedro recebeu de
Deus, com relação à pessoa de Jesus, não foi algo instantâneo, durante aquele período de conversa
entre Jesus e os discípulos. Foi uma revelação progressiva, iniciada quem sabe na ocasião do
chamado do apóstolo, quando ele diz: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador”; através da
observação dos milagres, da profundidade dos ensinos e da autoridade com que o Mestre falava. A
confissão de Pedro não foi uma repetição de opiniões de terceiros, pensamentos que homens e
mulheres tinham a respeito de Jesus, mas sim, o fruto de uma experiência pessoal com o Mestre. O
local da confissão de Pedro foi Cesaréia de Filipe, uma cidade que aceitava muitos deuses. Era esse
o lugar ideal para os discípulos reconhecerem a identidade de Jesus como Filho de Deus.
“que a ninguém dissessem que ele era o Cristo” Podem existir duas razões para a ordem de
Jesus (Mt 8:4 tem uma advertência semelhante):
1. Os discípulos estavam tendo os olhos aclarados quanto à pessoa de Cristo, isto é, quem Ele
era — “o Cristo, o Filho do Deus vivo”, porém não haviam tido uma compreensão correta de como
iria se desenvolver Seu ministério. Na realidade, ainda não a tinham quando Jesus foi crucificado.
Sendo assim, eles poderiam passar para o povo uma meia verdade.
2. Por causa da idéia errônea, revolucionária, ligada ao falso conceito messiânico.

“e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” O texto (Mt 16:18) traz duas palavras que se
assemelham: Petros – nome próprio que significa um pedaço de rocha —, e Petra – que significa
uma rocha. Não está indicando que Pedro seria o alicerce da igreja. Cristo é a pedra fundamental,
angular (I Pe 2:4-8). Os apóstolos são pedras fundamentais (Ef 2:20), no sentido de serem porta-
vozes e testemunhas do evangelho. A Igreja seria alicerçada na pessoa de Cristo com base no
seguinte testemunho de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A divindade de Jesus é o
alicerce sobre o qual a Igreja se assenta, é o credo fundamental da cristandade.
“minha igreja” É esta a primeira vez que a palavra “IGREJA” aparece no NT. Ela é uma
palavra grega EKKLÉSIAN e significa “assembléia escolhida”.
A declaração de que as portas do inferno (hades, “lugar dos mortos”) não prevaleceriam
contra a Igreja significa que, por causa da ressurreição para a vida eterna, a morte não será capaz de
vencer a Igreja. A interpretação mais usada para este verso é que os poderes do mal nunca poderão
prevalecer sobre a Igreja de Cristo; porém, o sentido mais real do texto, com base no original, é que
a morte nunca vencerá finalmente os crentes, visto que todos ressuscitarão um dia.
“dar-te-ei as chaves do reino dos céus” (Mt 16:19) Este verso não nos leva a crer que Pedro
seria o cabeça da igreja cristã, como interpreta a Igreja Católica Romana. É bom observar que o
texto não diz as “chaves da igreja”, mas sim, “as chaves do reino dos céus” no sentido do capítulo
13 de Mateus, isto é, da esfera da profissão cristã. A interpretação comum desse versículo é que
Pedro simbolicamente abriu a porta da oportunidade cristã a Israel no Dia de Pentecoste (At 2:38-
42) e posteriormente aos gentios, na casa de Cornélio (At 10:34-48). Não lhe foi concedido o poder
para perdoar os pecados, mas para proclamar as condições do perdão. Seja qual for a autoridade
assim outorgada a Pedro, foi também outorgada aos demais apóstolos (Mt 18:18; Jo 20:23) — e isso
somente no sentido de poderem declarar o perdão da parte de Cristo. Todo servo do Senhor que
ganha almas, exerce o mesmo poder sobre as chaves (I Co 16:19).
Nota: Nunca houve nenhuma presunção da parte de Pedro de obter qualquer outra autoridade
(At 15:7-11). O concílio, parece que foi Tiago e não Pedro que o presidiu (At 15:19; Gl 12:11-14).
Pedro reivindicou ser nada mais que um apóstolo por dom (I Pe 1:1) e um ancião por ofício (I Pe
5:1).
“o que ligares na Terra será ligado nos céus” A tradução mais correta seria: “o que você ligar
na Terra terá sido ligado nos céus”, indicando assim que o comando está no Céu e não na Terra. As
coisas acontecem primeiro no Céu e são evidenciadas na Terra.
As chaves do reino, juntamente com a idéia de liberar e reter os pecados, é uma alusão à
autoridade de admitir ou de recusar admissão à Igreja, com base na reação das pessoas para com o

105
evangelho. — “Ao ser investido dessa autoridade, Pedro representava o grupo apostólico inteiro;
porquanto o poder de liberar ou reter pertence igualmente a todos os apóstolos, de acordo com
Mateus 18:18. E na verdade, se a liberação ou retenção se refere à declaração das condições para o
perdão, exaradas no evangelho, então tal autoridade pertence a todos os crentes; pois todos eles
devem proclamar o evangelho.”97

Predição da paixão e o levar a própria cruz (Mt 16:21-28; Mc 8:31—9:1; Lc 9:22-27)


Pedro compartilhava do comum e errôneo ponto de vista judaico sobre o Messias. Quando
Jesus começou a predizer Sua própria morte e ressurreição, que já se avizinhava, Pedro levantou
objeção. Em tons ríspidos, porém, Jesus declarou a Pedro que este não entendia o plano de Deus.
Em seguida, Jesus exortou a todos os discípulos para que tomassem de suas cruzes e O seguissem.
O indivíduo condenado à crucificação era forçado a levar a trave horizontal da cruz ao lugar da
execução, passando por entre as multidões que vaiavam, cuspiam e amaldiçoavam. Tomar a própria
cruz, e seguir a Jesus, portanto, significa expor-se voluntariamente à hostilidade do mundo
incrédulo, ao risco de perder a própria vida.

Método: renunciar a si mesmo, levar a cruz (levar a própria cruz, não os anseios de outros).
Motivos: a) a perda em seguir a Jesus é temporal, o lucro é eterno.
b) a perda em deixar de segui-lo é para todo sempre irremediável.

A vinda de Cristo em glória e poder: O dia do Senhor será de escuridão e tristezas para quem
não o conhece. Mas para os que realmente o conhecem, será como “a alva espalhando sobre os
montes”. Será o clamor do “Levanta-te, e resplandece, porque já vem a tua luz, e a glória do
Senhor vai nascendo sobre ti”. A glória de Jesus fará divisão entre seu povo e os ímpios. A glória e
o poder de Jesus tiveram vários estágios de revelação em seu ministério terreno: A transfiguração, a
ressurreição, a ascensão e, finalmente, a Sua segunda vinda.
Qual o significado das palavras de Jesus quando afirmou que alguns dos discípulos veriam o
reino chegar? (Mt 16:28) Este versículo é claramente profético, mas há idéias diversas sobre o seu
sentido exato: Ele podia estar prevendo Sua transfiguração, Sua ressurreição e ascensão, a vinda do
Espírito Santo no Pentecostes, ou a divulgação do cristianismo. A dificuldade em discernirmos o
que significa a “vinda do reino de Deus” neste contexto, torna impossível um posicionamento
definido quanto ao sentido exato pretendido. Há quem pense que a última hipótese seria a mais
viável. Os discípulos chegariam a compreender finalmente que a cruz que serviu de tropeço no
início era de fato o sinal e o segredo da conquista do coração humano, pelo qual o reino estabelecer-
se-ia.

As raposas têm suas tocas; sinceridade exigida na disposição de seguir a Cristo (Lc 9:57-62)
Há cerca de um ano, Jesus dissera a mesma coisa ao escriba que se ofereceu para segui-lo até
o outro lado do mar (Mt 8:19-22).
"alguém lhe disse: Seguir-te-ei...” Jesus nunca fez a aceitação de Sua pessoa parecer atrativa.
Ele queria que calculassem o valor do discipulado para que não desperdiçassem seu tempo, nem o
fizessem de tolo. As outras duas respostas seguintes de Jesus apresentam mais duas qualidades
necessárias ao discipulado: um espírito disposto a sacrificar-se e a obediência imediata.
v. 58 Nem pobreza, nem desconforto, mas sim, instabilidade quanto ao lugar de morada. Vida
de peculiar sacrifício e abnegação.
— “É provável que Ele tenha dado essa mesma resposta muitas vezes aos que esperavam
privilégios que Jesus não tinha para oferecer. A resposta de Jesus ao segundo e ao terceiro homem
não significa, naturalmente, que devemos desconsiderar as responsabilidades do dia-a-dia para com
o nosso próximo. A Bíblia ensina repetidas vezes que uma das características autênticas do cristão é
ser atencioso e prestimoso em todos os relacionamentos familiares, especialmente em momentos de
pesar. É provável que, se o pai do segundo homem já tivesse morrido, ele estivesse ocupado com os
97
Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova (2ª ed., reimp.), p. 169.
106
preparativos para o enterro. Jesus sabia que, muito pelo contrário, o homem estava sugerindo que
gostaria de voltar para casa e cuidar do pai até este morrer — de adiar qualquer serviço a Jesus até
surgir a ocasião mais conveniente na sua vida atarefada. O que Jesus quer dizer é que compartilhar a
Palavra de Deus com outras pessoas é de importância infinitamente maior que todas as nossas
responsabilidades cotidianas e que, na hipótese de conflito entre as duas coisas, não deve existir a
mínima hesitação — Deus sempre está em primeiro lugar.”98
“despedir-me dos de casa” No grego, “separar-se de uma incumbência, desengajar-se”.
Denota que este discípulo em formação queria primeiro arrumar a vida, pôr em ordem os seus
negócios, para depois seguir o Mestre. Jesus não viu nisso um mero ato de cortesia, e, sim, uma
tática procrastinadora; o homem estava indeciso, hesitante.
“Ninguém que, tendo posto a mão no arado...” A tarefa de arar a terra requer a atenção
ininterrupta do lavrador. Jesus ilustra aqui que “existem lealdades superiores do que aquelas dos
laços de família. O propósito de tornar-se discípulo é vão e sem sentido se esse propósito não for
levado às suas últimas conseqüências, de maneira correta. A primeira relação entre o discipulado e a
ação de arar, nas Escrituras, é vista na chamada profética de Eliseu (I Rs 19:9, 21), onde se verifica
que Eliseu foi chamado quando arava a terra. Posto que a ação de arar requer uma atenção
exclusiva, assim também sucede no discipulado cristão.” 99
“A imagem empregada por nosso Senhor, como era usual, vai direto ao âmago da experiência
pessoal de seus ouvintes. Estes pertenciam à classe de aldeões afeitos aos problemas da terra, os
quais sabiam que o olho de quem ara não pode desviar-se para que o trabalho seja bem feito. O
homem que desvia a atenção, fica desqualificado para trabalhar no reino de Deus” (Ellicott, in loc).
“Não pode servir a Deus e às riquezas, aos seus próprios interesses e aos interesses de Cristo; não
pode realizar corretamente a obra do ministério, ao mesmo tempo que os seus pensamentos e o seu
tempo estão absorvidos nas coisas deste mundo.” (John Gill, in loc – ambos citados por Champlin.)

LIÇÃO PARA HOJE: Nossas obrigações familiares vão até onde forem nossas obrigações para com Deus.

COMO JESUS FINANCIAVA SUA OBRA? 100


Jesus não parecia ser um homem rico. Não era dono de um aposento que pudesse considerar seu (Lc 9:58) e
não se interessava por vaidades deste mundo, quer fossem roupas, quer fossem outros bens. Durante cerca de três
anos, viajou por muitos lugares, em grande parte do tempo com uma comitiva de tamanho considerável; e pelo menos
duas vezes organizou grandes expedições de pregação (Lc 9 e 10). Até certo ponto, Jesus e seus discípulos
dependiam da hospitalidade do povo (Mt 10:11). Recebiam ofertas dos mais abastados e de outras pessoas (Lc 8:3).
Jesus poderia ter acumulado fortuna e vivido como a realeza com as doações recebidas das multidões que o seguiam
e dos enfermos que curara — se tivesse optado por fazer assim. Mas ele não precisava de riquezas acumuladas,
porque tinha fé completa e total de que Deus sempre supriria suas necessidades e de seus seguidores. Todas as suas
necessidades e desejos eram atendidos. Que testemunho para nós — se tão-somente confiarmos totalmente no
Senhor!
A transfiguração de Jesus (Mt 17:1-13; Mc 9:2-13; Lc 9:28-36)
A narrativa sobre a transfiguração de Jesus aparece imediatamente depois da predição de que
“alguns” dos discípulos veriam a gloriosa vinda do Cristo e do reino. É lógico concluirmos que a
transfiguração cumpriu a promessa de Jesus. “Alguns” dos discípulos — Pedro, Tiago e João —
foram testemunhas oculares desse evento. E isso foi uma prelibação (provar antes) particular da
glória do reino de Deus sobre a Terra, quando do retorno de Cristo.101
O lugar e o tempo: O mais provável é um local perto de Cesaréia de Filipe, talvez um dos
picos do monte Hermon. Outros crêem que tenha sido no monte Tabor. Pouco depois de Jesus partir
da Galiléia, pela última vez, cerca de quatro meses antes de Sua morte.
98
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 529.
99
Russell N. Champlin. O Novo Testamento Interpretado (vol. II), p. 101.
100
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 529.
101

Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento, p. 170.


107
“Transfigurado” A gloriosa forma de Jesus que geralmente se encontrava oculta, foi exposta
rapidamente.
Moisés e Elias: Os representantes ilustres da LEI e dos PROFETAS. Homens que deixaram o
mundo em circunstâncias fora do comum: Moisés foi sepultado pela mão de Deus (Dt 34:5-6) e
Elias foi arrebatado (II Rs 2:11).
A conversa entre eles: Lc 9:31 observa que falavam da morte de Jesus.
A reação de Pedro (Mt 17:4-5): desejo de prolongar esta experiência.
Um dos propósitos da transfiguração: Fortalecer a fé dos discípulos quanto à natureza divina
de Cristo. Isso aconteceu num período de instrução especial ao Doze; todo o ensino visava à
firmeza dos próximos líderes, continuadores da obra iniciada por Jesus. Tinham que ter em mente
que Jesus era o maior líder, superava os ilustres mencionados, até na forma da morte — Jesus
provou a morte como Moisés, mas ressuscitou.
A recomendação de que não contassem a visão (Mt 17:9): Quanto mais perto da cruz, mais
consciente de que tinha que evitar a popularidade.
A vinda de Elias: os judeus aguardavam o segundo aparecimento do profeta (Ml 1:4-5); Jesus
demonstrou que João Batista era o cumpridor desta profecia (Mt 17:13).

A cura de um jovem endemoninhado (Mt 17:14-20; Mc 9:14-29; Lc 9:37-43a)


“Sofre muito” É lunático (literalmente, “batido pela lua”, vem da antiga idéia de que as
pessoas sofriam influências das fases da Lua). Trata-se, provavelmente, de um tipo de epilepsia,
talvez complicado por sinais de insanidade, não de origem natural, mas mediante a influência de
algum espírito imundo. Esse foi um caso bastante grave de possessão demoníaca que deixou os
discípulos perplexos.
Supomos que antes de Jesus chegar, os escribas e a multidão discutiam acerca da situação do
rapaz e suas manifestações malignas, segundo relata Marcos.
A incredulidade do pai do moço (Mc 9:22-24). Jesus respondeu-lhe com uma exclamação: “Se
podes!” Era como se Jesus dissesse: “Eu posso; tu podes crer?” Foi então que Jesus expeliu o
demônio, o que fora tarefa impossível para Seus discípulos, devido à ausência de oração confiante
— Alguns manuscritos antigos acrescentam “lágrimas e jejum” ao texto de Mc 9:29.
Enquanto Jesus estava com os discípulos no monte da transfiguração, o restante do grupo
estava no sopé do monte, onde este episódio aconteceu. Destaca-se o contraste entre a experiência
no alto do monte e a experiência no vale. Os discípulos foram repreendidos pelo Mestre, pois já
haviam recebido lições na área de expulsão de demônios. Era de se esperar que fossem aprovados.
“Este monte” (que poderia ser removido mediante a fé, ver Mt 17:20) era o monte próximo da
transfiguração, provavelmente o monte Hermon, ao norte da Galiléia, e que neste caso representava
qualquer tarefa ou problema de solução impossível para os homens.

A volta secreta pela Galiléia; mais um anúncio da paixão (Mt 17:22-23; Mc 9:30-32; Lc 9:43b)
“achando-se eles na Galiléia” (Mt 17:22) A Versão Padrão Americana traduz a palavra grega
sustrephomenón para “quando se reuniam”. Então a idéia seria: enquanto Jesus estava em
Cafarnaum com os 12 discípulos, os demais começaram a chegar à cidade e juntavam-se a eles,
preparando-se assim, uma caravana para descerem a Jerusalém para a Festa dos Tabernáculos.
Durante os preparativos para a viagem a Jerusalém, mais uma vez Jesus prediz Sua morte e
acrescenta dizendo que Ele seria entregue nas mãos dos homens (Mt 17:22). Os discípulos
desconheciam o combate espiritual que estava sendo travado, entre o reino das trevas e o reino de
Deus, que Jesus estaria sofrendo a oposição das forças do mal.
Pela imaturidade dos discípulos no acontecimento do jovem possesso, acima citado, Jesus
resolveu instruí-los mais diligentemente (Mc 9:30-31). Nesta fase, focaliza os ensinos em Sua morte
e ressurreição. Ele visava fortalecer os discípulos para os maus dias. A partir de agora, porém,
queria que seus discípulos compreendessem com clareza o que lhe iria acontecer.102
102
Entre a confissão feita por Pedro e a chegada em Jerusalém, Jesus lhes contou, pelo menos em cinco ocasiões
(registradas), que Ele seria morto e ressuscitaria dentre os mortos:
108
Mc 9:32 Por temerem o que estavam ouvindo, os discípulos não interrogaram a Jesus. Eles
optaram pelo silêncio quanto às notícias tristes que estavam recebendo.

Nota: a) Durante todo o período das retiradas, Jesus procurou ensinar constantemente os discípulos.
Essa foi a principal ocupação do Senhor. O centro desse ensino era Sua morte e ressurreição.
b) Cada vez que Jesus se retirava, dava a entender que as bênçãos do Seu ministério se
estenderiam também para os gentios.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Aprender leva tempo. O crescimento espiritual não é instantâneo, qualquer que seja a qualidade
da experiência ou do ensino. 2. Um mestre nunca deve ocultar dos discípulos a realidade integral de seu ensino. Um
ensino sofismável (encaminhado com astúcia, ilusão ou falsidade) pode gerar discípulos sofismáveis.

DE VOLTA DA TERCEIRA RETIRADA, JESUS PASSA ALGUNS DIAS EM CAFARNAUM,


COM OS DOZE, ANTES DE SUBIR À FESTA DOS TABERNÁCULOS

O dinheiro do imposto do Templo; um estáter é encontrado na boca de um peixe (Mt 17:24-27)


Taxa obrigatória para cobrir gastos com sacrifícios, rabinos e manutenção geral do templo. Era
um tipo de imposto individual, anual, em benefício do templo, cobrado de todo homem maior de 20
anos (Êx 30:11-15). Os que moravam em Jerusalém pagavam por ocasião da Festa dos
Tabernáculos; os demais podiam pagar por ocasião de qualquer uma das festas realizadas em
Jerusalém.
“dos filhos ou dos alheios” (v. 25) Jesus aqui faz uma referência aos familiares do Imperador
Romano, que eram isentos dos impostos – “os filhos”. Os impostos dos reis não envolviam a família
real, e, assim, o imposto do templo de Seu Pai não podia ser cobrado de Jesus, o Filho do Rei. Jesus,
porém, pagou o imposto, para não escandalizar os judeus e para ensinar aos discípulos sobre
fidelidade nos deveres civis e religiosos. Os ALHEIOS: para os judeus eram os estrangeiros ou
gentios.
Estáter: Moeda grega que valia 2 didrácmas, ou seja, 4 dracmas (que correspondiam, por sua
vez, a 4 denários — um denário era o pagamento por um dia de trabalho). Um estáter era suficiente
para pagar o imposto de duas pessoas; Jesus então pagou o imposto por Ele e por Pedro: uma
didrácma para cada um deles.
A excelência do milagre: O peixe, a hora e a quantia exatos.
O argumento usado por Jesus é que a nova era do reino de Deus já havia sido inaugurada, pelo
que o templo se tornara ultrapassado, devido à presença de Jesus.

Atitude infantil e discipulado


Os Doze contendem pela preeminência no reino: “Quem será o maior?” (Mt 18:1-14; Mc
9:33-50; Lc 9:46-50)
Uma lição de humildade: “De todos os homens, nenhum deve ser tão humilde quanto o
cristão” (frase de Ryle). O homem verdadeiramente grande é o homem humilde. Humildade não é
complexo de inferioridade, o que não cabe em um caráter digno. Também não quer dizer
passividade ou acanhamento. Falsa modéstia é falsa humildade.
A criança revela caráter simples, dócil, amável, acessível, humilde e puro. A criança que Jesus
tomou em Seus braços representa o discípulo confiante (ver Mc 9:42), em toda a sua debilidade in-
fantil, sem defesa, perseguido e humilde, em contraste com o conceito dos Doze, que pensavam no
discipulado como se fora uma auto-promoção. Receber uma criancinha em nome de Cristo significa
aceitar e crer no testemunho dado por um discípulo de Cristo (a “criancinha”).

1. Depois da confissão de Pedro (Mt 16:21; Mc 8:31; Lc 9:22)


2. Depois da transfiguração (Mt 17:9, 12; Mc 9:9, 12)
3. Depois da cura do endemoninhado (Lc 9:44)
4. Enquanto atravessava a Galiléia (Mt 17:22-23; Mc 9:31)
5. Perto de Jerusalém (Mt 20:17-19; Mc 10:32-34; Lc 18:31-34)
109
O desconhecido operador de milagres suscita de Jesus lições sobre os tropeços:
“Fazer tropeçar” significa “induzir ao pecado”. O ensino sobre a necessidade de decepar a
própria mão, quando esta nos leva a pecar, ilustra o uso que Jesus fez de hipérboles. Mas o
mandamento não deve ser levado menos a sério, por causa do exagero envolvido!
Marcos 9:49-50 contém um jogo de palavras sobre o duplo simbolismo do sal: a) o sal
exemplifica o tempero da punição eterna (“salgado com fogo”); o estado de consciência de cada
pessoa no inferno, eternamente queimando sem se consumir; b) e exemplifica as virtudes
incorruptíveis do discipulado, como a santidade (incluindo as provas que sobrevêem a cada cristão)
e a graciosidade, as quais, por sua vez, produzem a paz de espírito (“Tende sal em vós mesmos, e
paz uns com os outros” — Como entre os apóstolos, a ambição causa a maior parte da confusão e
contenda entre os crentes).
Mt 18:8-9 Russell Shedd comenta: “Qualquer capacidade física, mental ou espiritual que nos
leve ao afastamento de Deus deixa de cumprir sua principal finalidade e é, até, um impecilho
mortal.”
Mc 9:39-41 Existem os que querem a Jesus mas não se comprometem com a cruz — devemos
ser tolerantes com estes. E existem os que dizem ter poder, mas não possuem fruto — devemos
entregá-los à justiça divina.
“um destes pequeninos” Tanto os de pouca experiência espiritual (os novos convertidos —
neófitos na fé — ou os fracos na fé), como os de poucos anos de idade. O escândalo e o desprezo a
estes novos teria efeito negativo no exemplo ou ensino, afastando-os da fé. O provocador de
escândalos receberá o mais severo julgamento de Deus (Mt 6:7). “Seus anjos” Os anjos têm um
ministério especial de cuidar dos que não podem cuidar de si mesmos (cf Hb 1:14).
Mc 9:43 “ires ao inferno” Esta expressão indica o inferno em chamas, ou as chamas da
consciência até a confissão (isto para os salvos).

Reconciliação e perdão (Mt 18:15-35)


Um talento (v. 24) equivalia a 6 mil dracmas (o nome grego) ou denários (o nome romano).
Visto que uma dracma valia o equivalente ao salário de um dia, o trabalhador médio levaria quase
20 anos para ganhar um talento. Dez mil talentos, portanto, equivaliam à totalidade de tudo quanto
os habitantes de várias aldeias grandes, somados, pudessem ganhar na vida inteira. A esse homem
foram perdoadas 60 milhões de dracmas, mas ele não queria perdoar 100 dracmas. É assim que
Jesus faz a comparação entre os nossos pecados contra Deus e os pecados que outros cometem
contra nós. Notemos a declaração de Jesus no sentido de não haver esperança de perdão a não ser
que nós mesmos perdoemos (v. 35).

Quatro princípios básicos com relação ao espírito de conciliação e perdão com que se deve
tratar a um irmão ofendido:
1. Conduta cristã nas questões pessoais e com relação ao corpo de Cristo (vs. 15-17).
2. Jesus não estava falando que quando alguém é “eliminado” de uma igreja, é eliminado do
rol do livro da vida; o Mestre fala das decisões tomadas segundo a vontade de Deus (vs. 18-20).
3. Perdão está ligado à qualidade e não a quantidade. O número 7 indicava conta perfeita para
o judeu: o que Pedro tinha em mente era que a perfeição do perdão encerrava-se nesta conta. O
Mestre ao falar que seria 70 x 7, revela o exercício do perdão. Depois de perdoar 490 vezes a
mesma pessoa, dificilmente nos ofenderíamos com ela. Jesus queria que Pedro aprendesse que
perdoar é esquecer, começar novamente. No novo começo tudo é novo, então ele nunca sairia do
primeiro perdão (vs. 21-22).
4. Com a medida que medir, será medido (vs. 23-35).

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Perdão não está ligado à minha paciência, mas à minha misericórdia. Quanto tem de amor e
piedade, tanto tem de justiça e abominação para com o pecado. 2. Se Reino dividido não subsiste, um corpo dividido,
como será?

110
111
VI. O MINISTÉRIO EM JERUSALÉM
Duração: 3 meses — Da Festa dos Tabernáculos à Festa da Dedicação
Referência: João 7:1—10:39

I. A Festa dos Tabernáculos (7:1—8:59)


1. Jesus e seus irmãos (7:1-9)
2. Entusiasmo na festa (7:10-13)
3. Jesus na festa (7:14—8:59)
a) Moisés e Cristo (7:14-24)
b) As reivindicações messiânicas de Jesus (7:25-31)
c) Interlúdio: a tentativa de prender Jesus (7:32-36)
d) A água viva: continuação do debate messiânico (7:37-44)
e) Descrença em alto nível (7:45-52)
f) A luz do mundo (8:12-20)
g) “Eu sou” (8:21-30)
h) Os descendentes de Abraão (8:31-59)
II. A cura do cego (9:1-41)
1. O Tanque de Siloé (9:1-12)
2. O interrogatório feito pelos judeus (9:13-17)
3. Os pais são interrogados (9:18-23)
4. O segundo interrogatório (9:24-34)
5. A confissão de fé (9:35-38)
6. A cegueira judicial (9:39-41)
III. O pastor e o rebanho (10:1-39)
1. A parábola do Bom Pastor (10:1-21)
2. O encontro no templo (10:22-30)
3. Mais conflitos (10:31-39)

Jesus rejeita o conselho de membros de sua família quanto à publicidade da obra (Jo 7:1-9)
Festa dos Tabernáculos (Lv 23:34) Última das festas anuais, no sétimo mês (setembro). Por
sete dias os judeus habitavam em tendas (Lv 23:42) feitas de ramos de árvores, relembrando as
tendas nas quais habitaram na peregrinação do deserto. Comemoravam a bondade de Deus para
com Israel no deserto e a sua misericórdia em enriquecê-los com o fruto da terra durante o ano da
colheita.
O conselho familiar: “Se você é realmente o Messias, vá para Jerusalém, porque este é o
lugar apropriado para você se manifestar publicamente a Israel como tal e convidá-lo que o
reconheça”.
Bruce comenta: Os discípulos mencionados pelos seus irmãos são as pessoas que estavam
inclinadas a crer em suas visitas anteriores a Jerusalém (ver Jo 2:23); certamente está implícito que
sua fé incipiente precisava ser reforçada pela visão de milagres maiores do que os que Jesus fizera
até então em Jerusalém — talvez como os que marcaram seu ministério recente na Galiléia. O que
estes irmãos não perceberam é que a fé destes discípulos era imperfeita exatamente porque estava
baseada nos sinais externos, sem uma compreensão da verdade interior que eles queriam transmitir;
este tipo de fé não seria reforçada pela visão de milagres maiores ou mais numerosos.
Para os irmãos parece inacreditável que alguém que tinha certeza de ser o Messias evitasse
intencionalmente a publicidade. Ninguém que deseja ser um personagem público permanece na
obscuridade de um lugarejo do interior, como Jesus (na opinião dos irmãos) tinha feito agora já
durante um ano. Sem dúvida, Ele tinha operado coisas maravilhosas na Galiléia, mas por que não
repeti-las em Jerusalém, no coração do mundo judeu?

Resposta de Jesus: O tempo do cumprimento de um propósito divino na vida de alguém


depende exclusivamente da direção de Deus. Ele regulava Seus movimentos pelo cronograma de

112
Deus, e não segundo considerações de popularidade. Além disso, Ele tinha por destino ser alvo do
ódio do mundo, e não receber aclamações populares. De conformidade com isso, pois, esperou por
algum tempo, antes de subir secretamente a Jerusalém.

LIÇÃO PARA HOJE: Os decretos de Deus são inalteráveis e cumprem-se dentro do seu tempo e modo.

Jesus muda de itinerário; a rejeição pelos samaritanos irrita os discípulos (Lc 9:51-56; Jo 7:10)
Quando os samaritanos perceberam que Jesus e seu grupo vêm na direção de Jerusalém,
recusaram-se em atender o pedido de hospedagem feito pelos mensageiros que Jesus enviou à
frente. O historiador do primeiro século, Josefo, informa que os samaritanos maltratavam os
peregrinos que subiam a Jerusalém, até ao ponto de assassiná-los em algumas ocasiões.103
A decisão de Tiago e João (Lc 9:54) — Não foi sem razão o nome citado em Mc 3:17
“Boanerges”, filhos do trovão. Eram exaltados e ignorantes quanto à graça de Deus. Esqueceram-se
de que as circunstâncias alteram os fatos. A ação que numa ocasião pode ser boa e justificável, na
outra pode não ser. Queriam pedir fogo do céu, a exemplo de Elias com os adoradores de Baal.
Desejavam os dois irmãos atrair uma punição miraculosa, de acordo com o precedente do VT, que é
descrito em II Reis 1:10-12.
vs. 55-56 Jesus os repreendeu. Não é assim que Seus seguidores se comportam. E sem dar
qualquer passo em oposição aos samaritanos, passaram para outra aldeia, talvez judaica.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Quando o cálice vir da mão do Pai, por mais amargo que seja, bebamos pacientemente. 2. É
possível termos zelo por Cristo, todavia demonstrá-lo de modo ímpio e anticristão. “O zelo sem prudência é como um
exército sem general.” 3. O mesmo João que nessa ocasião pede fogo, em Atos dos Apóstolos pede o Espírito Santo
para os samaritanos (At 8:14-17).

Jesus na Festa dos Tabernáculos exercita seu ministério de ensino (Jo 7:11-52)
“os judeus o procuravam na festa” Por razões da crescente perseguição dos judeus, Jesus vai
à festa em oculto.
A festa. Durava oito dias, do décimo quinto dia até o vigésimo primeiro dia do mês sétimo
(etanim = outubro). Neste período, toda região próxima a Jerusalém ficava coberta de barracas em
que os peregrinos e cidadãos moravam. Lembrava o período em que foram peregrinos, caminhando
pelo deserto antes de ocuparem a terra prometida. De noite realizavam extraordinária festividade no
templo; os músicos levitas tocavam alaúdes e címbalos nos 15 degraus que levavam ao pátio dos
homens, tinha início uma dança com tochas enquanto o povo cantava.

Autoridade para ensinar a verdade (vs. 14-29)


v. 15 “Como este sabe letras?” Refere-se ao ensino formal dos rabis, à erudição rabínica.
Sabiam que Jesus não era treinado em alguma das grandes escolas rabínicas da época. Como, pois,
podia exibir tão grande sabedoria e capacidade de debater?.104
A erudição rabínica:
1. Envolvia o domínio das Escrituras.
2. Mais tarde, envolvia o domínio do Talmude, as leis, a história, as interpretações e a teologia
dos judeus.105
103
Após a deportação das dez tribos (Reino Norte), o rei Esar-Hadom da Assíria, trouxe povos da Babilônia para habitar
em Samaria, junto com os israelitas que haviam ficado na terra. Neste período, houve mistura de raças, sendo essa uma
razão da inimizade entre samaritanos e judeus (Esdras 4:2-10; II Rs 17). Outro ponto nevrálgico no relacionamento era
a questão religiosa. Os samaritanos adoravam no Monte Gerizim e não no Templo em Jerusalém.

104
Obs.: Sabedoria = Arte de colocar em prática o saber adquirido.
Inteligência = Disposição de aprender, facilidade de aprendizagem.
Conhecimento = Bagagem de informações obtida através dos anos e das experiências.
105

Erudição dos judeus: Antes dos dias de Jesus se vinha dando grande ênfase a paráfrases, exposições, homílias e
intricados sistemas de interpretação, com o acompanhamento de segredos, preceitos e tradições dos anciãos. Hilel I,
113
3. Ainda mais tarde, a erudição passou a envolver outros campos de conhecimento, como a
retórica, a legislação e a filosofia. A Jesus faltava a erudição dos homens, mas em seus olhos
rebrilhava a sabedoria dos séculos, pois era a Luz de Deus, o seu Messias, o seu Logos.

Qualidade do ensino (v. 16): Jesus não é identificado como discípulo de alguma escola
rabínica conhecida. Sua autoridade para ensinar (ensino em Israel significa “expor, a partir da
Torah, a verdade de Deus”) não foi ratificada por uma escola do judaísmo. Era culto e sábio. O
ensino de Jesus era divino; ensino que procede d’Aquele que o enviou.
A fim de concluir o seu argumento, Jesus se refere novamente à sua missão divina. O Pai
enviou o Filho ao mundo e essa declaração subentende as seguintes verdades: 1. A preexistência de
Cristo; 2. a sua missão messiânica e divina, na redenção do homem; 3. a sua união com o Pai; 4. a
sua autoridade, recebida da parte do Pai; 5. o fato de que Ele é o representante das regiões celestes.
Esse tema de que Ele foi enviado pelo Pai é de ocorrência freqüente no evangelho de João. A
insistente repetição desse tema (mais do que quarenta vezes) no quarto evangelho, mostra a sua
importância aos olhos do autor sagrado.
v. 17 O ensino não existe somente para se descobrir a vontade de Deus, mas também para
executá-la. Se alguém direciona suas ações nesse objetivo, certamente poderá fazer um julgamento
correto do ensino de Jesus — Ele condena o mecanismo educacional do judaísmo.
v. 18 A característica principal do seu ensino é que não exalta a Si mesmo diante do povo, mas
a Deus. Diferente dos rabis que se vangloriavam das suas teologias. Quem é fiel Àquele que o
autorizou a ensinar, também é humilde o suficiente para o glorificar.
v. 19 Jesus desmascara seus acusadores, no sentido de que o conteúdo do ensino deles não era
respeitado. Prova de que eles não desejavam verdadeiramente fazer a vontade de Deus.
v. 20 Acusações de que Ele está possuído de demônios.
vs. 21-24 Se a Lei permite que um homem seja mutilado no sábado, por que não considerar
também a sua restauração? O julgamento dos judeus era superficial.

Duas concepções messiânicas (vs. 25-27): Reconhecimento por parte das autoridades da
nação. O Messias deveria ser aprovado pelos estudiosos do assunto ou pelos guardiães das
Escrituras. A origem do Messias marcada pelo misticismo judaico popular tem uma característica de
obscuridade. Entretanto, a ortodoxia acreditava que sua procedência fosse de Belém, conforme
relato dos profetas.

A repercussão desse discurso (vs. 30-32): Os ensinos trazem reivindicações que provocam
maior rejeição à Sua pessoa, ao ponto de Jesus não poder permanecer mais entre eles. Houve dupla
reação: a) Os sacerdotes e os fariseus enviaram guardas para prendê-lo (certamente a polícia do

que ocupou o cargo de presidente do Sinédrio em 30 a.C., e Akiba, seu sucessor, completaram juntos a compilação da
Mishnah, a lei oral que assim recebeu, finalmente, forma escrita. A Gemara foi compilada pelos rabinos, de 200 a 500
d.C., com base na Mishnah, e se compõe de comentários. Juntas, essas duas obras vieram a constituir o que recebeu o
nome de Talmude.
Na Mishnah, a lei foi arranjada em seis categorias, e essas, por sua vez, foram subdivididas em tratados. Abordam 1.
leis agrícolas; 2. o sábado e as festividades; 3. leis domésticas; 4. jurisprudência — leis civis e criminais; 5. leis do
templo e dos sacrifícios; 6. leis sobre as impurezas. O rabi Judá, o Patriarca (135-220 d.C.) reuniu as diversas
compilações, algumas das quais provenientes de escolas rivais, dando-lhes a forma escrita final. Por sua vez, a Gemara
(nome esse que significa erudição) consiste na discussão e nos comentários da Mishnah. Juntamente, essas duas obras
— que perfazem o Talmude — se tornaram um código e um compêndio das academias judaicas da Palestina e da
Babilônia, que eram os centros da erudição dos judeus, e, subseqüentemente chegaram até aos tempos modernos na
forma dessas duas compilações essenciais. Além disso, havia a obra chamada “Midrash”. Trata-se esta de tratados sobre
as Escrituras, e está dividida em tratados expositivos e homiléticos. Seu nome significa “perscrutar”. Existem dois tipos
de Midrash: o Midrash Halkah, que trata das seções legais da Bíblia, e o Midrash Hagadah, que trata das questões não-
legais. Toda essa atividade compilatória chegou ao seu fim pouco depois de ter ficado completo o Talmude babilônico.
Com o tempo, a obra chamada Midrash foi substituida pelas disciplinas da história, da gramática e da teologia.
Alicerçados no fato dessa atividade oral e literária, podemos perceber claramente que o centro de toda a antiga
erudição judaica eram as Escrituras do AT, e nenhuma outra nação se tem distinguido como essa, no tocante ao estudo
dos seus livros sagrados. — Champlin, O Novo Testamento interpretado (vol. II), p. 350.
114
templo). A crença popular aumentando, aumenta também a ameaça para os fariseus, principalmente
no aspecto político. b) Outros creram nele por causa dos sinais.

DISPERSÃO (v. 35): Grupo de israelitas espalhados entre os estrangeiros (Lv 26:33-37). O
cativeiro das dez tribos e parte das outras duas confirmaram o cumprimento dessa profecia. A
maioria deles imigrou para o império de Alexandre, o Grande, para os reinos do Egito e da Síria.
Em todo o mundo conhecido se encontram os judeus da dispersão, com a sua sinagoga e os seus
cultos (At 2:5-11). Um exemplo é a dispersão dos discípulos provocada pela perseguição em que
Paulo fazia parte (At 8:1-4).

A fonte da água viva (vs. 37-43)


Durante a Festa dos Tabernáculos, todas as manhãs o sacerdote ia com a multidão em
procissão ao Tanque de Siloé, levando consigo um cântaro de ouro. Tirava água do tanque e trazia
ao Templo onde derramava sobre um altar de pedras, relembrando o milagre da água no deserto. Ao
retornar para o Templo com o cântaro cheio, a multidão procedia com júbilo e louvor a Deus.
Entretanto, no último dia, o sacerdote não mais ia acompanhado da multidão, nem tão pouco
voltava com água, simbolizando que a Festa estava terminada e que o júbilo perene somente
aconteceria por ocasião da chegada do Messias. Foi nesse contexto que Jesus exclamou ser a ÁGUA
VIVA que dá condições de um fluir perene. Ele mostra que na Sua Pessoa, o segundo grande
milagre realizado por Moisés é cumprido.
1. O Espírito Santo é esta fonte perene de água viva.
2. Pré-requisitos para alguém tomar desta água: Crer = Fé com base bíblica; Vir a Cristo =
Arrependimento.
3. Dissensão entre os ouvintes: sempre houve e sempre haverá dissensões em torno de Jesus. É
impossível alcançar 100% da humanidade para Cristo.

O testemunho dos policiais do templo (vs. 44-47)


Frustração dos planos dos fariseus: Os soldados declararam o caráter sem-par dAquele que os
membros do Sinédrio desejavam prender e matar.

A mulher surpreendida em adultério (Jo 8:1-11)


Os comentadores acreditam que o encontro de Jesus com o grupo de escribas e fariseus,
trazendo a mulher adúltera, não aconteceu durante a festa dos Tabernáculos, mas sim, em outra
ocasião. João intercala a narrativa deste acontecimento entre a declaração de Jesus dizendo-se a
“água da vida” e a outra quando Ele se apresenta como “a luz do mundo”, ambas declarações
ocorreram durante a festa dos Tabernáculos. Acredita-se que João intercale este episódio para dar
base à afirmação feita por Jesus em Jo 8:15.
A mulher condenada: A preocupação dos escribas e fariseus não era o adultério em si. Eles
tentaram, nesse episódio, envolver Jesus num dilema quanto à punição que recomendaria para o
caso. Se Jesus recomendasse a pena de morte, de acordo com o Código Mosaico (Dt 17:7),
poderiam acusá-Lo de voltar-se contra a Lei Romana, que vigorava para os judeus proibindo-os de
imporem a pena de morte. Se Jesus não recomendasse a pena de morte, as autoridades poderiam
destruir Sua reputação, no sentido de propagar que Ele não era leal a Moisés. Vemos que o objetivo
real dos judeus era que Jesus transgredisse a lei civil e religiosa, dando a eles, assim, oportunidade
para acusá-lo e levá-lo a julgamento.
“Quem não tem pecado atire a primeira pedra” Era costume que o acusador mais idoso fosse
o primeiro a atirar a pedra. À medida que o mais idoso se retirava, os outros iam embora: Jesus
lança para a consciência de cada um o direito de julgamento. Os escribas e fariseus percebem que
seus motivos íntimos têm sido julgados. Jesus deixa de lado o aspecto legal e frisa o significado
moral nas suas próprias vidas.
“foram saindo um a um” Com a saída de todos, a mulher fica emocionalmente restaurada;
ninguém a acusou. Jesus a fez ver que ela era igual aos outros (Rm 3:23) e tanto ela quanto os

115
escribas e fariseus precisavam do perdão divino. Ele não nega o pecado dela, mas perdoa-lhe.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Ninguém tem direito de julgar ninguém. Todos nós pecamos, mas Deus nos deu condição de
alcançar o perdão. 2. Lei = Espelho que mostra ao homem sua situação de pecado, revela o que o homem é, mas não
resolve o seu problema. Graça = Poder de Deus que dá condição interior ao homem para fazer a vontade de Deus.

Jesus continua o discurso sobre Sua divindade; Ele declara-se a Luz do Mundo (Jo 8:12-20)
Jesus ilustrava Seus ensinos, na maioria das vezes, com algo pertencente à cultura e aos fatos
do dia-a-dia dos judeus, ou usava um episódio, como foi o encontro com a mulher samaritana, e o
ensino sobre o pão da vida, para a multidão que participou da multiplicação dos pães; Ele ensinou
sobre a água da vida, no momento em que os judeus relembravam o milagre da água no deserto, por
ocasião do êxodo. — O ensino sobre a Luz do mundo seguiu este princípio didático de Jesus.
Durante a festa dos Tabernáculos, o recinto do templo era iluminado de forma especial, com
muito mais luzes do que nos dias comuns (Mishna, artigo sukkah 5.3). Lembrava a coluna de fogo
no deserto. O ritual era realizado entre júbilos e danças. Jesus aproveitando-se deste particular,
apresenta-se como a “Luz do mundo”, como sendo a coluna de fogo suficiente que dirige não só os
descendentes de Abraão, mas a humanidade inteira ao destino celeste.
“Eu sou a luz do mundo” Esta é uma afirmação muito forte aos ouvidos dos judeus, pois a
expressão EU SOU indica o Deus eterno; e a afirmação de ser Ele a Luz, coloca-o em uma
intimidade perfeita com Deus, isto porque no VT muitas passagens relacionam Deus como sendo a
Luz do seu povo, como Sl 27:1 e Nm 6:24-26. Jesus é identificado como: Sol da justiça (Ml 4:2);
Luz dos gentios (Is 42:6); Luz para iluminar as nações (Lc 2:32).
A luz é a figura do conhecimento e da verdade. Podemos compreender a expressão “luz” em
três esferas:
1. na esfera física: a luz natural – “E disse Deus haja luz...” (Gn 1:3-4)
2. na esfera intelectual: a luz da razão – o conhecimento intelectual
3. na esfera espiritual: a luz que ilumina o interior dos homens – “Deus é a luz” (Jo 1:4-8)

Controvérsia sobre a autoridade de Jesus (Jo 8:21-59)


Nota: É bem provável que esta secção seja uma forma de sumário ou de ajuntamento de
material informativo em um bloco só, apresentando-nos declarações de Jesus que foram proferidas
em várias ocasiões, em controvérsia com os oficiais religiosos dos judeus; e é à base dessas
controvérsias, pois, que podemos compreender o profundo ódio que passaram a votar contra Jesus,
e por qual razão, eventualmente, chegaram ao extremo de crucificá-lo.

Os judeus tomaram Jesus como um blasfemo, em face do que lhes parecia suas reivindicações
extravagantes, tanto acerca de sua própria pessoa como no tocante à sua missão.
Jesus defende Sua missão (vs. 42 e 54). Revela Sua procedência divina. Apresenta-se como
Filho de Deus, possuindo a mesma natureza do Pai, o qual Ele identifica como sendo o Deus Jeová,
o Deus dos hebreus. Essa declaração implica em quatro verdades:
a) Na divindade e eternidade de Cristo; Sua pré-existência (v. 58);
b) Sua singularidade de Filho e sua dignidade;
c) Prova Sua união perfeita com o Pai e implica na doutrina da Trindade;
d) Prova sua missão messiânica.

Sérias acusações contra os fariseus:


v. 23 “Vós sois de baixo” (designando a origem terrena/carnal dos judeus, contrapondo-se
com a espiritual); v. 34 escravos do pecado; v. 37 assassinos; v. 44 filhos do diabo; vs. 36 e 46
incrédulos; vs. 54-55 ignorantes sobre Deus.
Revolta dos fariseus. Eles fazem as seguintes acusações contra Jesus:
v. 13 Tu dás testemunho de ti mesmo
v. 19 Onde está teu Pai?
v. 25 Quem és tu?
116
Jesus sabia de onde Ele vinha, e também o que lhes responder, mas os fariseus não conheciam
o lugar de onde procedia Jesus, eles não consideravam o fato extraordinário da encarnação de
Cristo. Os fariseus eram insensíveis diante das realidades espirituais, estavam formando opiniões
próprias sobre o Mestre sem conhecê-Lo a fundo. Jesus dava testemunho do Pai, Ele sabia que seu
Pai estava com Ele, e Deus confirmava a favor dele; por isso afirmou que o seu testemunho era
verdadeiro.

A verdade que liberta (Jo 8:31-41)


Jesus deixou claro que seguir seus ensinos é indispensável para alguém poder dizer que é um
dos seus discípulos (8:31). Além disso, seus ensinos têm de ser aceitos como verdade absoluta. Essa
verdade, e nenhuma outra, tem poder para libertar uma pessoa (8:32). “Muitas filosofias e
ideologias alegam ser a verdade, mas toda verdade é verdade de Deus, e por isso todas essas
alegações têm de ser julgadas segundo a verdade e o conhecimento revelados por Deus. Abraçar
uma falsa visão da realidade significa ser mantido cativo pela ignorância. Viver separado do
domínio de Deus significa ser mantido cativo pelo pecado.” 106 A verdade de Jesus liberta de todo
cativeiro (8:34). Os judeus se recusaram a ouvir a verdade de Jesus e insistiram em se apegar às
suas próprias idéias. Talvez o versículo mais eloqüente tenha sido aquele em que Jesus disse: “...a
minha palavra não está em vós” (8:37).

Quem é o pai de vocês? (Jo 8:42:47)


Se Deus fosse realmente o Pai deles, eles o amariam. Jesus deixou claro que sua origem era
divina, sua missão, planejada por Deus, e seu objetivo, da vontade de Deus.
Ninguém pode ouvir o que Deus tem a dizer se não pertence a Deus (8:47). Se a pessoa
prefere ouvir o maligno quanto ao que se considera verdade (8:43-44), está excluindo a voz de
Deus. A vocação básica de Satanás é de mentiroso, perversor da verdade, enganador de todos os que
o deixam dirigir sua vida e seus pensamentos.

O Eu Sou eterno (Jo 8:48-59)


No desespero de pôr Jesus em descrédito, os judeus o acusaram de ser samaritano e possuído
por demônios (8:48). Jesus negou essa acusação e imediatamente retomou sua acusação de que
estavam vivendo longe de Deus (8:49). E acrescentou que quem guardar a sua palavra “não verá a
morte, eternamente” (8:51). Com isso os judeus ficaram furiosos. Jesus estava se colocando acima
até de Abraão. Em uníssono, perguntaram, indignados: “Quem, pois, te fazes ser?” (8:53). Jesus
respondeu que Deus o glorificara, que conhecia a Deus e que obedecia à sua palavra. Além disso,
Abraão “alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se” (8:56). A multidão mostrava-se cada
vez mais incrédula. Eles o questionaram, porque Jesus — sem contar nem com cinqüenta anos de
idade — estava afirmando ter visto Abraão.
Jesus deu uma das respostas mais importantes a qualquer pergunta feita a Ele em todo o
evangelho de João: “Em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, Eu Sou” (8:58). O que
Jesus estava dizendo? Que ele era o prório Deus! A única outra ocasião em que a frase “Eu Sou” foi
usada para descrever alguém está em Êxodo 3:14, onde Deus a empregou como seu próprio nome.
Aqui Jesus aplicou o nome a si mesmo. Nenhuma declaração de identidade poderia ser mais clara
que essa. Jesus afirmava ser o próprio Deus em forma humana. Os judeus não responderam com
palavras, mas, pegando em pedras, tentaram matá-lo por blasfêmia (ver Lv 24:16). Jesus se ocultou
e retirou-se da área do templo (8:59).
v. 59 “pegaram em pedra para apedrejar-lhe” Era proibido apedrejamento dentro da cidade,
principalmente no recinto do templo, lugar da conversa entre Jesus e os fariseus. Em um momento
de ira, os fariseus estavam dispostos até a passarem por cima da Lei — a arma dos covardes é
sempre a violência.
“ocultou-se” Esta expressão no original não significa necessariamente invisibilidade; o que
ocorreu foi uma confusão entre os perseguidores e o perseguido. Neste momento, Jesus passa
106
Manual Bíblico Vida Nova, p. 656.
117
desapercebido por eles.

A cura do cego de nascença (Jo 9:1-41)


Na saída do Templo, por ocasião da festa dos Tabernáculos, Jesus cura um cego. A cura de
cegos está relacionada com a missão messiânica (Mt 11:3-5; Is 61:1-3; Lc 4:18-21). Quando Jesus
vê o cego, relaciona o problema daquele homem com a Sua missão. A cegueira, mais do que
qualquer outra deficiência era considerada conseqüência de pecado pelo judaísmo. Isto porque a
cegueira impedia o estudo da Lei, deixando o homem ignorante quanto à vontade de Deus. Em
outras palavras, a cegueira física causava também a cegueira espiritual (Is 29:18). O Messias viria
curando os cegos para que eles conhecessem o caminho de Deus através da Lei.
A cura do cego de nascença é o sexto sinal escolhido por João; expõe o problema básico do
pecado e sofrimento, como pano de fundo do debate sobre a identidade de Jesus. O sinal
solucionava um problema de nascença. Jesus sendo Luz do mundo cumpre a esperança
messiânica.107
A curiosidade para saber quem pecou: Os discípulos estavam sempre buscando explicações
para tudo. Alguns judeus acreditavam que o pecado teria sido cometido ainda no ventre materno ou
na preexistência. Acreditavam também no sofrimento dos filhos como castigo aos pais (Êx 20:5; Ez
18:2). Jesus nega que aquela cegueira fosse punição direta dos pais ou da vítima; era para glorificar
a Deus.
Contraste entre a postura de Jesus e a dos discípulos:

DISCÍPULOS JESUS
1. Procuraram alguém que se responsabilizasse pela 1. Procurou a solução para a tragédia; 2. Interessou-se
tragédia (o culpado); 2. Interessaram-se pela causa da pela ação divina; 3. Viu os homens como objeto da
tragédia; 3. Viram os homens como objeto de misericórdia e do poder de Deus.
especulação.

vs. 4-5 “enquanto é dia... a noite vem...” Na literatura rabínica, significa o período da vida e
da morte. Aqui, a expressão é usada no sentido de urgência em fazer as obras do Pai, pois o tempo
que Ele lhe concedera estava se completando. Enquanto se espera a Sua segunda vinda, só se vê a
luz real pela fé. LUZ DO MUNDO exprime a natureza da iluminação espiritual.

v. 7 Siloé (“enviado”). Era o tanque na extremidade de um túnel escavado por Ezequias,


quando ameaçado por Senaqueribe, usado para abastecer a cidade de água. Essa é uma piscina
termal, situada ao Sul do templo, a qual recebe água da fonte de Gulom (II Rs 20:20). Medidas: 58
pés de comprimento; 18 pés de largura; 19 pés de profundidade. As águas cerimoniais foram
extraídas daí, simboliza o fato de que Cristo é o enviado de Deus, quem se lava no Seu sangue
purificador ganha iluminação salvadora.

Repercussão do milagre:
vs. 8-12 Testemunho diante dos vizinhos; o cego identifica Jesus apenas como “o homem
chamado Jesus”.
vs. 13-14 Testemunho diante dos fariseus: o cego foi levado perante os fariseus, o que indica
um comparecimento formal diante de autoridades, em razão da cura ter-se processado no sábado.
Ao fazer o milagre, Jesus supostamente havia infringido a Lei Mosaica em três pontos:
a) Curar quando não representava uma emergência;
b) Misturar saliva e terra, uma ação que implica em trabalho;
c) Fazer o cego caminhar e se lavar no tanque — outra espécie de trabalho (induziu outro a
pecar).

107
C. H. Dodd, em 120 páginas dedicadas ao estudo dos milagres de Jesus no Evangelho de João, denomina o
Evangelho de “Livro dos Sinais”, e os milagres como sinais pelos quais Jesus revelou Sua glória (C. H. Dodd, A
interpretação do Quarto Evangelho. Editora Paulinas, 1977).
118
Se Jesus era suficientemente bom para fazer milagres, como poderia ser tão mal a ponto de
violar o sábado?
1ª hipótese: Se Ele transgride a Lei não pode ser enviado de Deus;
2ª hipótese: Se Ele faz milagre e maravilhas só pode proceder de Deus.

Da cegueira à perseguição (vs. 15, 17, 26): A insistência dos fariseus objetivava obter um
testemunho contra Jesus no próprio tribunal. Os pais do rapaz seriam testemunhas ideais (vs. 18-
21). v. 22 Quem não quisesse perder os privilégios da comunidade judaica, deveria trair Jesus. O
cego confessa:
1. É um homem chamado Jesus
2. As controvérsias farisaicas suscitam no cego uma segunda conclusão sobre a pessoa de
Jesus: “É PROFETA”.
3. Torna-se um adorador de Deus. O ponto culminante se vê na adoração. v. 24 “dá glória a
Deus” tem o sentido duplo de: a) Agradecer (Lc 17:15-18); b) Dizer a verdade (Js 7:19). v. 25 “Eu
era cego e agora vejo” Espiritualmente mostra distinção absoluta entre as trevas e a luz. Quem vê,
não mais precisa de provas; toda discussão e debate não convencem como a experiência.

A defesa de cego é direcionada de tal modo que deixa os fariseus sem obter o testemunho
esperado, além de pressioná-los a reconhecerem Jesus como procedente de Deus, o que eles fariam
a partir de um julgamento baseado no próprio ensino deles. Esta defesa está baseada em três
argumentos:
1. O milagre é um fato e contra fatos não há argumentos que provem sua inexistência (vs.
11,15 e 25). A fé daquele homem baseava-se num encontro pessoal com Cristo. Ele jamais poderia
fazer “vista grossa” ao que tinha acontecido com ele mesmo. Ele não poderia distorcer o fato para
encaixá-lo na tradição rabínica, nem poderia ser juiz... “Se é pecador não sei...”
2. Tamanha insistência sobre a pessoa de Jesus deveria ter uma motivação maior, que eles não
queriam admitir ou queriam sufocar. Jesus não fazia parte do círculo farisaico. Daí a ironia do ex-
cego: “Quereis fazer-vos também seus discípulos?” (v. 27). Neste caso, o preconceito falou mais
alto: “este nem sabemos de onde é...”. Anteriormente, perante Nicodemos, disseram: “és tu
também da Galiléia? Examina e vê que da Galiléia não surge profeta” (Jo 7:52 e também o v. 41).
3. A suposta dúvida dos fariseus sobre a procedência de Jesus era espantosa ao cego. Aqueles
mestres ensinavam sobre os que procediam de Deus e os que não procediam dEle, em suas
sinagogas. Como poderiam desconhecer a procedência de Jesus? Ao mostrar a incoerência entre
teoria e prática dos seus ensinos, o argumento utilizado pelo ex-cego foi considerado um insulto.
v. 28 Endurecimento de coração dos fariseus: a) Começa no pré-julgamento de Jesus; b)
Incredulidade ante os fatos e atribuição da doença ao pecado; c) Fecham os ouvidos; d) Lançam
injúrias; e) Expulsão daqueles que discordam.
v. 33 A Bíblia declara que são inseparáveis o culto a Deus e a prática de Sua vontade.
v. 34 A complacência e auto justificação orgulhosa dos judeus impedem o recebimento da
verdade.
vs. 39-40 Jesus fala em termos espirituais: os que não vêem, os que não têm visão espiritual,
mas têm consciência de sua necessidade. Os que vêem refere-se aos judeus que reconhecem a sua
necessidade espiritual.
A expulsão do ex-cego indicou sua perda de privilégios na comunidade israelita.
Jesus não abandonou aquele que se expôs por causa dele. Procurou o homem e o reintegrou à
aliança com Deus, mediante a fé no Messias, o Cristo (vs. 34-35).

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Devemos nos preocupar com o cristianismo prático e não apenas teórico. 2. Não devemos
esperar que Deus faça o que é de nossa responsabilidade, e nem querer fazer o que só Deus pode fazer. 3. Os
milagres são importantes, mas a salvação espiritual, a transformação de vida, é muito mais.

A parábola do Bom Pastor (Jo 10)


119
Jesus deu este ensino também durante a festa dos Tabernáculos (Jo 7:14). Na parábola do
Bom Pastor Jesus, pela primeira vez, refere-se à Igreja como sendo um rebanho — esta passagem é
conhecida como o Salmo 23 do NT.

As figuras da parábola:
O APRISCO: pequena área descoberta cercada com muros de pedras, tijolos ou varas
trançadas. O aprisco é figura de proteção e abrigo, é o próprio Cristo e não a Igreja como afirmam
os católicos romanos. Não é a Igreja porque ela depende de uma proteção – a proteção do Noivo.
LIÇÃO PARA HOJE: Jesus como meu aprisco esconde-me do inimigo sem sufocar. O aprisco não tinha teto pois o teto
asfixia a ovelha. Minha vida é também um aprisco e nela devo controlar as entradas e saídas.

A PORTA DO APRISCO: geralmente não era muito visível, somente o pastor e o porteiro a
conheciam. A porta era reforçada, capaz de resistir a ventos e ataques de lobos. O porteiro dormia
em cima do muro (o muro possuía uma largura suficiente para isto), próximo à porta. Caso o
aprisco fosse de varas trançadas, o pastor ou o porteiro dormia do lado de dentro do aprisco, em
frente à porta. As próprias ovelhas eram o alarme que indicava a presença do inimigo.
LIÇÃO PARA HOJE: Jesus conhece quando estamos sendo afligidos.

OVELHA: símbolo de pureza, inocência, dependência, impotência e mansidão. A ovelha não


bebe água em fontes agitadas, pois ao ver seu reflexo balançando nas águas, ela corre o risco de cair
nas águas e morrer afogada. Não come capim seco porque se engasga (Sl 23:2 – “deitar-me faz em
pastos verdejantes; guia-me mansamente a águas tranqüilas”). Uma ovelha ao ser tosquiada ela
sabe que dói, mas este é um cuidado preventivo do pastor, pois o peso da lã pode matar a ovelha.
LIÇÃO PARA HOJE: Muitas vezes o tratamento de Deus em nossa vida, tirando as escórias (orgulho, auto-suficiência
etc.) dói muito, porém é este um cuidado do Pai zelando por nossa vida espiritual, para que possamos ter um perfeito
amadurecimento nele.

O PORTEIRO: guardava a entrada do aprisco e só deixava entrar pessoas autorizadas. Se


alguém fosse visto escalando o muro, por algum dos lados, não havia erro em considerá-lo um
intruso com más intenções. Para desestimular estas pessoas, o muro era coberto de espinhos.
Acontecia de em um aprisco abrigar mais de um rebanho. Bastava então o pastor chegar à
porta e chamar suas ovelhas e estas reconhecendo sua voz aproximavam-se dele (Jo 10:3-4). Jesus
veio ao aprisco judaico e chamou seus discípulos para fora. Alguns comentaristas afirmam que o
porteiro seria o Espírito Santo, que conduz-nos a toda a verdade.

Nota: Em Israel, os pastores geralmente eram pobres, e não podiam pagar o serviço de um
porteiro; por esta razão, na maioria das vezes o pastor era o próprio porteiro.

O PASTOR: a palavra deriva-se da raiz cujo sentido indica protetor, guardião. A maioria dos
pastores do Oriente abraçavam este ofício por amor ao indefeso animal. Havia uma familiaridade
entre o pastor e seu rebanho. O bom pastor era conhecido pelas ovelhas por pequenos gestos e
simples palavras. Ele possuía um cajado que era um bastão de madeira com a parte superior
arqueada, como cabo de guarda-chuva. A extremidade reta do cajado servia para disciplinar uma
ovelha rebelde. A parte arqueada servia para socorrer uma ovelha em perigo. Com o mesmo
instrumento, o pastor corrigia e socorria. Jesus faz isto conosco hoje, Ele nos corrige e nos consola.
As características do pastor de ovelha do Oriente deveriam ser presentes na vida do ministro
do evangelho. O pastor não era bem remunerado, mas ele sabia que um bom tratamento para com
suas ovelhas determinaria sua renda.

O LADRÃO: Satanás.
O LOBO: Qualquer ameaça às ovelhas.
MERCENÁRIO: Trabalhador por salário, interesseiro.

120
Nota: Jo 10:40-42 “Além do Jordão” Nesse lugar Jesus passara oito meses no início de seu
ministério público (Jo 3:22). Dessa vez, Ele ficou ali durante provavelmente dois meses. Era uma
região densamente povoada, com muitas cidades romanas prósperas, governada por Herodes e fora
do alcance das autoridades de Jerusalém.

CONTINUAÇÃO DO MINISTÉRIO NA JUDÉIA, FORA DE JERUSALÉM

Confiança a caminho (Lc 9:51—12:48) 108


Mais de 40 por cento desse trecho contém material exclusivo de Lucas. Há uma concentração elevada de ensino
e parábolas. De fato, há 17 parábolas nessa unidade, das quais 15 são exclusivas de Lucas. A “viagem” não é uma
caminhada cronológica em linha reta, pois em 10:38-42 Jesus está perto de Jerusalém e mais adiante Ele está de volta
ao norte. Antes, é uma viagem pelo tempo, no contexto da necessidade da implementação do plano de Deus.
Jerusalém e o destino que ali aguardava a Jesus se aproximavam. O trecho explica como Jerusalém e a cruz
aconteceram. Observações sobre a viagem espalham-se pelo texto (9:51; 13:22; 17:11; 18:31; 19:28, 44). Jesus viajou
ao encontro do destino traçado para Ele em Jerusalém (13:31-35). A lição da passagem é que Jesus propõe uma nova
maneira de seguir a Deus, diferente da liderança judaica. Seu tema é: “ A ele ouvi” (9:35). Portanto, esse trecho explana
que relação o ensino de Jesus tinha com o judaísmo da época. Jesus cumpriu a promessa e é o Caminho, mas seu
caminho é diferente do caminho da liderança de Israel. A diferença desencadeia forte oposição, tema que domina Lucas
9—13. Todos são convidados, mas alguns recusam o convite. À medida que o novo caminho é desvendado, as
sementes do descontentamento que levam à morte de Jesus também se manifestam.
A viagem começa com os discípulos aprendendo os elementos básicos do discipulado: missão, compromisso,
amor a Deus, amor ao próximo, dedicação a Jesus e a seu ensino, e oração (9:51—11:13). Vemos o desafio para ser o
próximo no exemplo do Bom Samaritano. A decisão do samaritano é surpreendente, já que os samaritanos não eram
respeitados em Israel. Mais uma vez Jesus mostra sua receptividade para as diferentes raças. Temos o exemplo de
Maria escolhendo “o melhor”, que era sentar-se aos pés de Jesus e ouvi-lo. Jesus revela sua dedicação e submissão a
Deus quando ensina aos discípulos a Oração Dominical, que na verdade deve ser a Oração da Comunidade. Em
destaque também há observações sobre a liderança dos judeus (11:14-36) e sua condenação radical por Jesus (11:3-
52). O caminho deles não é o caminho de Deus. A essência de ser discípulo está em confiar em Deus, não em pessoas,
riquezas ou qualquer outra coisa, e manter-se fiel a Ele (12:1-48). Se Deus é soberano e cuida da criação, tema-o e
confie nele.

A missão dos setenta (Lc 10:1-24)


Segundo Gundry,109 a missão dos setenta discípulos provavelmente teve lugar, em sua maior
parte, na Peréia (sul da Transjordânia), e não na Judéia. O número setenta talvez corresponda ao
cômputo rabínico das nações gentílicas, que seriam em número de setenta. Tal missão, pois,
prefigurava a futura missão mundial da Igreja, entre os povos gentílicos. Tal como na missão dos
Doze, pela Galiléia, era de grande importância o senso de urgência. Não havia tempo para os longos
rapapés das saudações orientais, e nem para inquisições sobre pureza cerimonial de alimentos, na-
quela área tipicamente gentílica. A afirmação de Jesus “Eu via a Satanás caindo do céu como um
relâmpago”, provavelmente significa que, no exorcismo praticado pelos discípulos, Jesus via o
prenúncio da derrocada de Satanás, o que ocorrerá no final da era presente.

A parábola do Bom Samaritano (Lc 10:25-37)


“E eis que se levantou certo doutor da lei” Jesus provavelmente estaria ensinando um grupo
de pessoas. Os mestres ensinavam assentados e seus discípulos também permaneciam nesta postura.
No Oriente Médio o aluno fica em pé para dirigir-se ao professor, por cortesia. Nesta passagem, o
doutor da lei não só se levanta para falar a Jesus mas também lhe dá o título de mestre. O uso deste
título é uma afirmação de que Jesus é pelo menos igual a ele — A lei do amor é interpretada a um
doutor da lei.
Notamos que há uma contradição básica nas ações do doutor da lei: o ato de levantar-se
mostrou cortesia social e saudação de respeito; porém, na realidade ele não queria aprender com a
108
Manual Bíblico Vida Nova, p. 633-634.
109
Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova, p. 178.
121
resposta de Jesus, mas sim colocar Jesus em prova, “para testá-lo”, para ver se Ele responderia à
altura, demonstrando assim má intenção, provinda de um coração corrupto.
Há duas perguntas básicas:
a) sobre como herdar a vida eterna — Jesus responde com outra pergunta: “o que está escrito
na lei?”. A resposta é: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de
todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo”. Jesus
afirma: “Faze isso e viverás”.
b) sobre uma questão teológica muito discutida entre os judeus, cuja problemática estaria em
se determinar quem seria “o próximo” — Todas as correntes teológicas conservavam a idéia básica
de que o próximo seria sempre um israelita, nunca um estrangeiro. A idéia do amor para com a
humanidade não tinha chegado a eles.
Esta parábola foi contada ao intérprete da lei, em resposta à sua segunda pergunta: “E QUEM
É O MEU PRÓXIMO?”, e não à pergunta “QUE DAREI PARA HERDAR A VIDA ETERNA?”.
Cabe frisar esta distinção para que ninguém pense que a vida eterna é adquirida por boas obras. A
vida eterna é conseguida por fé em Deus, mediante seu Filho Jesus.

Personagens da parábola:
Um viajante: possivelmente referindo-se a um judeu, pois os samaritanos não residiam em
Jerusalém nem tão pouco em Jericó. Este fora tomado por assalto e estava gravemente ferido. A
estrada de Jerusalém para Jericó, cerca de 28 km, passa por um declive íngrime em terras desertas,
estrategicamente aproveitadas pelos salteadores.
Um sacerdote: O homem que fora atacado estava semi morto, moribundo. Os sacerdotes se
tocassem em algum morto ficariam imundos por determinado tempo (eles só poderiam tocar no
corpo morto de seus parentes). O sacerdote provavelmente não poderia ter certeza se o homem
estava vivo ou não sem tocá-lo. Porém se tocasse e ele estivesse morto, então teria incorrido na
contaminação cerimonial (Lv 21:1-3). Para conservar sua pureza cerimonial, o sacerdote deixou o
homem ferido continuar como estava. Não somente deixou de ajudá-lo, mas foi para o outro lado da
estrada.
Um levita: Era também um personagem religioso do qual se esperaria um ato de
solidariedade.
Um samaritano: Homem marginalizado pelos israelitas, tido como herético e pagão.
Provavelmente, a inclusão de um samaritano nesta história pegou os judeus de surpresa, pois
poderiam estar esperando a inclusão de um judeu leigo. A lição de amor dada pelo samaritano:
a) Gastou tempo e expôs sua vida ao perigo para ajudar um desconhecido.
b) Abriu mão de seus bens a favor do estranho:
— vinho: todo viajante possuía vinho para limpar ferimentos. O vinho tinha o efeito da água
oxigenada e ajudava a cicatrizar.
— azeite: usado para untar juntas cansadas, produzia alívio aos músculos.
c) Desprendimento: deu dois dias de salário (2 denários), dinheiro suficiente para dois meses
de hospedagem, aproximadamente. E ainda deu carta branca para se gastar tudo o que fosse
necessário para o restabelecimento do viajante.
Os “judeus próximos” tornaram-se estranhos, e o samaritano tornou-se exemplo de amor.

LIÇÃO PARA HOJE: O próximo do homem foi o samaritano. Fomos salvos para fazer boas obras. O nosso próximo é
aquele que necessita de nós. É preciso amor para realizar amor.

Marta e Maria (Lc 10:38-42)


“Acredita-se que esse evento ocorreu no final da grande campanha evangelística de Jesus,
quando descia pelo vale do Jordão, com os 72 viajando adiante dele a fim de anunciar a sua
chegada. Agora, aproximava-se de Jerusalém, talvez para a Festa da Dedicação (Jo 10:22). Maria e
Marta moravam em Betânia, na vertente oriental do Monte das Oliveiras, a uns 3 km de Jerusalém.
122
Esse incidente é registrado para demonstrar que Jesus considerava muito mais importante
concentrar-se na Palavra do Senhor e crescer espiritualmente que toda a incessante atividade que
prejudica o aprimoramento de nosso relacionamento com Deus. Jesus quer que deixemos de lado
algumas das coisas que sobrecarregam nosso dia a fim de descansarmos calmamente em sua
presença, permanecendo nele e na sua Palavra.”110
Maria “também” se assentou aos pés de Jesus. Em outras palavras, ela conversava com Jesus,
mas o servia, por igual modo; ao passo que a atarefadíssima Marta somente servia a Jesus.

MARTA MARIA
Não era de todo condenada; ela teve iniciativa de Símbolo do celestial, característica do servo.
hospedar o Mestre. Vemos em Marta a imagem do que é Preocupação com o Senhor do trabalho.
terreno. Preocupação com a beleza interna; a beleza interna por si
Preocupação com o trabalho. só se exterioriza.
Preocupação com a beleza externa. Tranqüila aos pés do Senhor; a tranqüilidade é produzida
Inquietação, ansiedade. Quando estamos ansiosos, Deus pela confiança no Senhor. Salmo 131 ensina que, como
não trabalha em nós. crianças, precisamos descansar em Deus.

Uma lição de oração (Lc 11:1-13)


Em certa ocasião, quando Jesus estivera orando, um dos discípulos perguntou-lhe como orar.
Ele lhes deu um modelo — que conhecemos como “a oração do Senhor”. Lucas a registra (vs. 1-4)
de forma mais resumida do que o relato de Mateus no Sermão do Monte (Mt 6:9-13). Provavel-
mente Jesus ensinou-a aos discípulos em diferentes ocasiões.
Devemos nos aproximar de Deus, vendo-o como Pai amoroso. Quando o filho obedece, sua
atitude honra e glorifica ao Pai; Deus tem prazer em nossa obediência (I Sm 15:22).
Pão: Busquemos o básico para a saúde, o essencial, não o supérfluo. Não fiquemos
ensimesmados, Deus restaurou Jó quando ele orou pelos amigos (Jó 42:10). Antes de buscar o
perdão, perdoe.
Gundry esclarece:111 O viajante, desta parábola a respeito da oração, havia jornadeado durante
a noite, a fim de evitar o calor da tarde, e por essa razão chegou à meia-noite, muito tarde, segundo
os padrões dos orientais antigos, que se recolhiam cedo. A “lei da hospitalidade” dos povos orientais
ensinava que o hospedeiro de um viajante acordasse a um vizinho seu, à meia-noite, à cata de
alimentos. Os três pãezinhos, que ele pediu, eram considerados uma refeição para uma pessoa. A
relutância do vizinho foi agravada pelo fato que, na Palestina, as famílias dormiam todos os
membros em um só aposento, sobre esteiras, pelo que levantar-se e destrancar a porta era ato que
acordaria a família inteira. A ausência, na resposta dele, de qualquer tratamento polido, como
“amigo”, mostra-nos o quão contrariado estava. Mas, se a persistência triunfou em uma situação
como aquela quão mais eficaz será a persistência nas orações dirigidas a um Deus gracioso, que de
modo algum se mostra relutante em atender os nossos pedidos!

Jesus critica aspectos da prática farisaica (Lc 11:37-54)


O fariseu surpreendido porque Jesus não exerceu o ato costumeiro da lavagem cerimonial
recebe repreensão pela exterioridade de suas práticas religiosas e seu espírito de vanglória.
v. 41 Deixar limpo o lado interior do copo e do prato significa doar seu conteúdo aos
necessitados, ou seja, a caridade é superior à pureza cerimonial.
v. 42 Guardavam minuciosas regras religiosas, mas negligenciavam a justiça e o amor de
Deus. Dizimavam parte de todas as hastes das ervas do jardim, detalhe este não estipulado por lei
— a própria Mishna dizia que a arruda era isenta do dízimo. Estavam indo além do necessário. Essa
atitude dos fariseus não deve ser confundida com a obediência elogiável aos mandamentos divinos.
v. 43 O orgulho social e religioso (cf. Mt 23:5). Gostavam de obter “as melhores cadeiras” nas
sinagogas, ou seja, um banco semicircular, dando frente para a arca e para a congregação; sendo
110
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 530.
111

Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. p. 180-181.


123
assim, a pessoa que ali se sentava era vista por todos e era considerada com distinção. A complexa
saudação em praça marcava aqueles que a recebiam como homens aos quais se devia mostrar
deferência.
v. 44 Como os túmulos que não são vistos (cf. Mt 23:27-28). Entrar em contato com uma
sepultura ou tocar em morto caracterizava uma contaminação cerimonial. Os israelitas encontravam
um problema no que se refere a esta contaminação, pois existiam alguns cemitérios clandestinos,
cadáveres enterrados em certos locais que passavam desapercebidos pela maioria das pessoas. Podia
acontecer de uma pessoa estar em cima de uma sepultura sem saber disso. Jesus relacionou a
sepultura com os ensinos dos fariseus — assim como o contato com a sepultura traz a impureza
cerimonial, o contato com os ensinos hipócritas dos fariseus traz a impureza moral.

Jesus profere denúncias contra os intérpretes da lei (escribas):112


1. Exigiam de outros o cumprimento de tarefas difíceis e não os ajudavam. Cargas adicionais
impostas: “jugo da lei” (v. 46; cf. Mt 23:4). A Mishna determina que é mais importante observar as
interpretações escribais do que a própria Lei (Sanhedrin 11:3). Os intérpretes da lei deveriam fazer
uma tal exposição da Lei de Deus que ajudasse e inspirasse aos homens. Pelo contrário, fizeram
dela um fardo cansativo.
Fardos — Muitas interpretações e aplicações dos preceitos da lei se tinham “acumulado”
desde os dias de Esdras. Finalmente, assumiram forma escrita na Mishnah (século II d.C.). Portanto,
muitíssimas obrigações (que não faziam parte original da lei) foram adicionadas às exigências já
pesadas da lei. Certos mestres impunham rigorosamente todos esses preceitos e acréscimos ao povo,
embora não os ajudassem a observá-los; e não eram poucos os que nem pessoalmente os observam,
embora os forçassem sobre outros. Quando muito, honravam fanaticamente a “letra da lei”, mas
perdiam totalmente de vista ao seu “espírito”. Isso é muito comum nas organizações religiosas.

2. O tratamento que tinham dado aos profetas (vs. 47-51; cf. Mt 23:34-36). Defendiam que
honravam os heróis da fé ao edificar túmulos esplêndidos para eles. Entretanto, apenas estavam
completando a obra daqueles que os mataram. O pai mata e o filho enterra; em outras palavras, os
pais mataram os profetas por não acreditarem neles, e os filhos (os escribas) agora torcem seus
ensinos. O que Jesus estava salientando era a motivação interior; os edificadores dos túmulos dos
profetas eram do mesmo espírito dos assassinos.
v. 51 “Desde o sangue de Abel até ao de Zacarias”, quer dizer: “Desde o primeiro mártir do
AT até o último” — Zacarias, filho de Jeoiada, sumo-sacerdote durante o reinado de Joás, de Judá,
não deve ser confundido com o profeta menor pós-exílico do mesmo nome (II Cr 24:20-22). Os
livros das Crônicas são os últimos no Cânon hebraico e Gênesis vem em primeiro lugar; assim, os
dois assassinatos que Jesus menciona aparecem no princípio e no fim da Bíblia judaica.

3. Tomaram a chave que destrava o significado da Escritura e leva os homens ao


conhecimento de Deus (v. 52; cf. Mt 23:13). Transformaram a Escritura em um livro de enigmas,
dificultando sua compreensão a ponto de somente os “peritos” poderem decifrá-la. Ficavam tão
envolvidos com os mistérios que eles mesmos criaram, que não percebiam a verdade da revelação
que Deus estava trazendo, e suas complicadas interpretações impediam os mais simples de
descobri-la.

Conclusão: Os escribas e fariseus passaram a argüir Jesus a respeito de muitos assuntos,


buscando algo que eles pudessem torcer e mal interpretar, a fim de levar à tona uma acusação contra
Ele (vs. 53-54).

112
Os intérpretes da lei eram homens que se entregavam ao estudo da Lei do Antigo Testamento. Eram homens
religiosos, e muitos deles eram fariseus. Havia uma diferença nisto: o intérprete da lei como tal era um membro de uma
profissão erudita, e os fariseus eram membros de um partido religioso. Havia um vínculo no fato de que a posição
farisaica essencial baseava-se num estudo esmerado da Lei. — Leon L. Morris (obra citada, p. 193).
124
Uma série de discursos (Lc 12:1—13:9)
Davidson observa:113 Esta seção contém um número de pronunciamentos de Cristo que podem
ser encontrados em diferentes partes de Mateus, quer seja no Sermão da Montanha (Mt 5—7), ou no
encargo que deu aos Doze (Mt 10), ou também na profecia do monte das Oliveiras (Mt 24). Lucas
registra-os aqui como uma série contínua de discursos com intervalos nos vs. 13, 22 e 54.
Todo o capítulo décimo segundo, entrando até o trecho de Lc 13:9, é uma secção que contém
declarações de Jesus que indicam as responsabilidades e os privilégios do discipulado, oferecendo
ainda diversos avisos, encorajamentos e conselhos aos discípulos.
1. O fermento dos fariseus (12:1-3)
Mais uma vez Jesus preveniu seus ouvintes contra a hipocrisia dos fariseus. Quando foi
convocado a dar solução a uma disputa por motivo de herança, Jesus não anuiu o pedido. Antes,
advertiu acerca da cobiça, que provocara a disputa, e exortou os homens a aguardarem Sua segunda
vinda, ao invés de desgastarem todas as suas energias com preocupações materiais.
vs. 1-3 Jesus ensina aos discípulos que assim como o fermento age ocultamente até que a
massa cresça, assim é o caráter dos hipócritas. Se a quantidade de fermento (hipocrisia) for grande,
toda massa terá o gosto do fermento.
“o que em trevas dissestes” o que vocês são no recôndito da casa, será descoberto (será
exposto).
2. Estar pronto para o julgamento (12:4-12)
vs. 4-5 Jesus adverte os discípulos de que não deveriam temer os perseguidores nem a ação
satânica, porém temessem ao Justo Juiz. Os que “matam o corpo” (v. 4) fala dos perseguidores; é
um reflexo histórico da missão da Igreja primitiva, pois os falsos líderes religiosos da época seriam
os piores perseguidores dos cristãos.
“dois asses” (v. 6) Moeda romana de valor insignificante. Jesus dá aos discípulos uma lição de
importância pessoal. O valor deles ultrapassa o valor de muitos passarinhos, porque o preço pago
por eles seria o próprio sangue de Jesus.
v. 10 Notar que a blasfêmia contra o Espírito Santo não é um pecado específico, mas uma
oposição constante e persistente para com a graça de Deus que procura alcançar o homem através
do Espírito Santo. É atribuir a Satanás as obras que Deus faz através do Espírito Santo. Depois
disso, Deus nada pode fazer pelo homem (Mt 12:31; Mc 3:29).
vs. 11-12 Os discípulos não deviam ficar ansiosos ao serem levados aos tribunais, pois o
Espírito Santo ajudá-los-ia em seu testemunho.
3. A parábola do rico insensato (12:13-21)
vs. 14-21 Jesus pronunciou uma advertência contra a avareza, “Guardai-vos” é adotar ação
positiva para repelir um inimigo. E ensina sobre o uso correto das posses materiais, com um
princípio: “a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui”. As terras do
homem rico foram abençoadas com a colheita abundante, porém ele não tinha pensamento algum
para com as coisas de Deus e estava fazendo planos para gozar sua riqueza por muitos anos. Até que
um dia iria prestar contas a Deus. Tal é o homem que armazena riquezas para si mesmo, interessado
apenas na auto-satisfação, e não recebe das riquezas de Deus.

4. Buscar o reino (12:22-34)


vs. 22-30 Os discípulos não deviam ficar ansiosos quanto à manutenção pessoal, mas confiar
no terno cuidado do Pai, que supre todas as necessidades.
v. 32 Nosso tríplice relacionamento com Deus — PASTOR: cuida de nós; PAI:
responsabiliza-se por nós; REI: exalta-nos.

5. A vinda do Filho do homem (12:35-40)


Jesus aqui faz referência à sua segunda vinda: ela é certa. Acontecerá realmente, mas a hora
deste grande evento ninguém sabe, ela é desconhecida aos filhos dos homens. Será “a uma hora em
113
O Novo Comentário da Bíblia, 2000 (3ª ed., reimp.), p. 1043.
125
que não cuidais” — todos devemos estar prontos para este acontecimento, independente de
conhecermos ou não o momento que ele ocorrerá.

6. A responsabilidade dos servos (12:41-48)


Como porta-voz dos Doze, Pedro perguntou se a promessa que Jesus havia feito (v. 37) era
somente para eles ou para os outros discípulos. Jesus não respondeu diretamente, mas lembrou-os
da responsabilidade especial de serem mordomos fiéis e sábios durante a ausência de seu Senhor e
advertiu-os contra o perigo de não estarem preparados para o Seu retorno. Quando do juízo final, os
“poucos” ou “muitos açoites”, de acordo com os respectivos graus de conhecimento, apontam para
diferentes graus de punição, na eternidade.

7. Fogo sobre a terra (12:49-53)


v. 50 “tenho, porém, um batismo” O batismo do sofrimento que seria cumprido no Getsêmani
e na cruz. "lançar fogo” O fogo, que purifica e divide as famílias e a sociedade (v. 52 ss) é o
Espírito Santo, que é o medianeiro da mensagem julgadora do reino (cf Jo 16:7ss). Após o batismo
de Cristo no sangue (crucificação, Mc 10:38; cf. I Jo 5:6-8), o Espírito será derramado em poder (At
1:8; 2:1ss). Aqueles que rejeitarem Seu apelo serão condenados ao juízo do fogo eterno (cf. 3:16;
Mt 25:46).

8. Os sinais dos tempos (12:54-59)


Não fica claro se estas palavras foram faladas na mesma ocasião das palavras anteriores. Não
há nenhuma conexão óbvia, e Mateus cita um dito semelhante como resposta a um pedido por um
sinal. Provavelmente Lucas está relatando um dito sem indicar seu contexto.
vs. 54-55 Jesus comenta a capacidade dos Seus patrícios de prever o tempo. Tinham
aprendido como interpretar as nuvens e os ventos, e suas previsões eram exatas.
v. 56 Eram, porém, hipócritas. Concentravam-se naquilo que era superficial. Sábios quanto ao
clima, não podiam discernir as nuvens de tempestades que mesmo então estavam se aglomerando e
que estavam para romper-se no cataclisma de 66-70 d.C. Entendiam os ventos da terra, mas não os
ventos de Deus; podiam discernir o céu, mas não os lugares celestiais. Seu externalismo religioso os
impedia de ver o significado da vinda de Jesus.
vs. 57-59 Morris comenta:114 Jesus encoraja Seus seguidores a fazer sua paz com Deus. Em
questões terrestres, os homens obtêm o melhor acordo que podem fora dos tribunais, ao invés de
insistirem em levar até ao fim uma causa jurídica sem esperança. Ou, num país como a Judéia, onde
havia duas jurisdições, a romana e a judaica, o homem que provavelmente se veria em dificuldades
com uma jurisdição poderia apelar à outra com sucesso. Mas os pecadores, não deviam ser
embalados num senso de falsa segurança, pensando que embora sua causa contra Deus é
desesperadora, têm uma boa causa na justiça da terra. Se confiarem nisto, poderão acabar perdendo
tudo diante do único tribunal que importa, o de Deus, pois no fim não poderia evitar Sua jurisdição.
Portanto, não deviam poupar esforço algum para ficarem de bem com Deus. Quando Ele finalmente
condena um homem, a penalidade será aplicada até às últimas conseqüências.

9. O arrependimento (uma lição a partir de dois acontecimentos contemporâneos) (Lc 13:1-9)


vs. 1-5 Homens que pereceram
“a respeito dos galileus” Provavelmente foi um grupo de judeus da própria Judéia, que fez
menção deste acontecimento envolvendo homens galileus. O texto não revela a razão destas pessoas
informarem Jesus acerca deste acontecimento; porém, existe a possibilidade deles o terem citado
para intimidar Jesus. Eles lembraram que Pilatos, governador da Judéia, matou um grupo de
galileus que provavelmente estava causando tumulto (ativistas políticos). A morte destes homens
aconteceu quando eles foram sacrificar, por isto a referência quanto ao sangue deles ter-se
misturado com o sangue dos sacrifícios, isto é, dos animais.
“antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” Isto não significa
114
Leon L. Morris, Lucas: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 2000 (reimp.), p. 208.
126
necessariamente que todos seriam mortos por Pilatos ou que uma torre cairia sobre todos. Jesus
poderia referir ao modo da morte destes dois grupos, que não lhes deu tempo para arrependerem-se.
“dezoito sobre os quais desabou a torre de Siloé” Jesus responde citando outro fato
acontecido em Jerusalém: A torre de Siloé desabou sobre dezoito pessoas.115

vs. 6-9 A parábola do homem procurando fruto


Aparece somente em Lucas, embora tenha semelhanças com a narrativa que aparece em Mc
11:12-14 e Mt 21:18-22). Ilustra a paciência de Deus com Israel, cuja condenação se aproximava
rapidamente. Na parábola da figueira estéril, tal árvore é representação simbólica de Israel
(comparar com Jr 24:3; Os 9:10 e Jl 1:7), na qual Jesus projetou a falta de Israel em reagir
favoravelmente ao paciente tratamento divino com a nação e descobriu seu julgamento vindouro. O
proprietário corresponde a Jeová como Deus de Israel, e o viticultor a Jesus, como o Messias.
Estrume (adubo): A morte de Jesus, o testemunho dos apóstolos e a ação do Espírito Santo. O
proprietário aconselha paciência. Talvez um tratamento do solo e a aplicação de estrume por mais
um ano traga resultados. Dará à árvore uma última chance para produzir. Por semelhante modo,
Israel haveria de ter mais uma oportunidade para produzir fruto agradável a Deus. Essa
oportunidade chegou a seu fim no ano de 70 d.C., quando Deus permitiu que os romanos
extirpassem a nação judaica. Esta parábola ressalta tanto a necessidade de arrependimento quanto a
longanimidade de Deus quanto a castigar. Mas adverte que a oportunidade para o arrependimento
não dura para sempre.

Jesus utilizou-se dos dois acontecimentos acima referidos para falar sobre a necessidade de
arrependimento. Os judeus de modo geral sustentavam que a desgraça era um castigo pelo pecado.
Jesus, porém, esclarece que tanto as vítimas de Pilatos, quanto as do acidente com a Torre de Siloé,
não eram mais culpadas do que os demais homens (Lc 13:2 e 4). Ele adverte que todos os homens
são pecadores e de igual modo necessitam de arrependimento. Como ocorre em outros trechos,
Jesus toma a pecaminosidade universal como fato básico.

Sobre hipocrisia (Lc 13:10-17)


Jesus, num sábado, cura uma mulher encurvada, e defende esse ato diante da crítica liderança
da sinagoga. À luz do fato de que se podia dar de beber aos animais no sábado, Jesus mostra ao
chefe da sinagoga que a sua resistência pretendia opor a Lei à Graça. Jesus expôs a hipocrisia dele e
assim o deixou ficar envergonhado diante do povo. “(...) Jesus argumentou que o sábado era o dia
da semana que melhor se prestava para atos de compaixão, por ser um dia de alívio semanal da
carga, do labor e um prenúncio da libertação final e completa de todos os maus efeitos do
pecado.”116

vs. 18-21 As duas parábolas, a do grão de mostarda e a do fermento, também são contadas em
Mt 13:31-33 e Mc 4:30-32). São duas parábolas semelhantes que ilustram o humilde começo do
Reino de Cristo, seu crescimento paulatino e imperceptível, tanto no indivíduo quanto no mundo em
geral, e sua majestosa presença final, que permeará todas as instituições, filosofias e governos.

Nota: Jesus depois de ter descido para a festa dos Tabernáculos, provavelmente permaneceu na
Judéia cerca de dois meses — do mês de Tisri (setembro/outubro) até o mês de Quisleu
(novembro/dezembro). O escritor não faz referência alguma ao fato de Jesus ter viajado para a festa,
deixando implícito a idéia de que Ele já estaria nas proximidades de Jerusalém.

115
A torre de Siloé ficava próxima ao poço de Siloé, lugar de onde Jesus mandou um cego ir e lavar os olhos, os quais
Ele havia untado com barro; durante o procedimento da lavagem, o cego passou a ver. Era este também o lugar onde o
sacerdote, durante a festa dos Tabernáculos, tirava água com um vaso de ouro, e, em procissão, a conduzia até o templo,
Jo 9:6-7.
116

Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Ed. Vida Nova, 2001 (2ª ed., reimp.), p. 182.
127
Na Festa da Dedicação (Jo 10:22-39)
Festa da Dedicação (também chamada Festa das Luzes) acontecia em dezembro, e
comemorava a reconsagração do Templo de Jerusalém por Judas Macabeus, após ter sido profanado
por Antíoco Epifânio.117 Os judeus rodearam a Jesus para obter dele uma declaração formal sobre a
Sua identidade messiânica. Uma declaração dessa categoria poderia levá-Lo à prisão, sob acusação
de blasfêmia.
v. 24 “Até quando nos deixarás perplexos? Se tu és o Cristo, dize-o abertamente” Esta era a
segunda vez que Jesus estava na Judéia, desde que iniciou seu ministério público, e até então Ele
não havia se apresentado de maneira clara como sendo o Messias, isto é, Jesus até então não havia
feito uso do título “Messias” para designar Sua pessoa.
Nota: Jesus sempre evitou o uso deste termo devido à distorção que os judeus fizeram do
mesmo. A perplexidade, o suspense ou a inquietação do povo em saber se Ele era ou não o Messias
alicerçava-se na idéia errônea que tinham da obra do Messias. Os judeus na sua maioria
aguardavam o Messias político-militar que conduziria a nação israelita para um confronto contra as
tropas romanas e a subseqüente tomada do poder. Na mente dos israelitas havia uma ligação muito
estreita entre o comportamento e o ministério do Messias e o reinado do grande rei Davi, em cujo
período Israel conquistou muitas nações, alargando de forma considerável seus limites territoriais, e
conseguiu o respeito internacional. Esse período introduzido por Davi foi denominado como o
período do Reino Unido de Israel. Sendo assim, as interpretações das profecias messiânicas feitas
pelas autoridades israelitas e pela maioria do povo eram voltadas inteiramente para o contexto
político-militar e não para o religioso ou espiritual. Enquanto aguardavam a implantação do reino
terrestre, físico, Jesus já havia iniciado a implantação de um reino celestial e espiritual e já estava
em pleno combate contra as hostes inimigas, Satanás e seus demônios.

A resposta de Jesus:
v. 25 “Já vô-lo disse, e não credes” Jesus afirma que já havia dito que era o Messias, pelos
feitos realizados. Suas obras eram evidências óbvias de Seu ministério, porém a incredulidade e
cegueira espiritual impossibilitavam os judeus de discernir esta realidade.
vs. 26-29 Mais uma vez, Jesus usa a figura da ovelha para simbolizar Seus seguidores. Ele
deixa claro que a característica daquele que o segue é a fé (crer). Fala sobre a unidade que existe
entre Ele e os que crêem em seu nome (Jo 1:12). Enfatiza o tipo de vida que Seus seguidores
herdam dele — a expressão grega “zoe aionios” denota uma qualidade de vida que é definitiva, a
vida do mundo vindouro, diferente por sua natureza e qualidade da vida que é própria deste mundo.
A condição para se receber a vida é a adesão a Jesus em sua condição de homem levantado ao alto
(Jo 3:14s) e de Filho único de Deus (Jo 3:16). Jesus fez menção da segurança que gozam aqueles
que crêem nele, “ninguém os arrebatará das minhas mãos”.
v. 29 “meu Pai, que mas deu, é maior do que todos” Há estudiosos que acreditam que a
melhor versão seria: “aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo”, referindo-se então ao
rebanho de Cristo, a Igreja, sendo esta maior do que todas as forças que se lhe opõem.
v. 30 “Eu e o Pai somos um” Implica em co-existência, em possuir a mesma essência, a
mesma natureza, o mesmo desígnio e a mesma vontade. Para a mente de um judeu, era difícil
aceitar que o Deus Eterno, o Santo de Israel, o el-Shaday fosse um homem igual a Jesus. Na mente
de um israelita a aceitação de Cristo como Deus tinha um teor idólatra pagão, trazendo à lembrança
do povo o pecado que sempre esteva às portas de Israel e foi a razão de sua queda e escravidão. Era

117

Antíoco Epifânio, oitavo governador da casa dos Selêucidas, 175 a 164 a.C., excitou grande irritação do povo judeu,
por ter roubado os objetos do Templo e levantado no Santo dos Santos a estátua de Júpiter e mandado sacrificar suínos
(porcos) no altar do sacrifício. Foi ele que suscitou a Revolta dos Macabeus, os quais reconquistaram o lugar sagrado e
reconsagraram o Templo ao seu uso apropriado; isto aconteceu no dia 25 do mês quisleu (= 14 de dezembro) de 164
a.C. A Festa da Dedicação, que comemora este evento, é realizada até hoje em Israel com o nome de Festa das Luzes,
isto porque os judeus comemoravam a data acendendo lâmpadas ou candeeiros em suas casas.
Nota: Outras ocasiões em que houve dedicação do Templo: a) Salomão: I Rs 8:1-66; b) Ezequias: II Cr 29:1; c)
Zorobabel e Esdras: Ed 6:13-22.
128
esta a principal razão da ira tão violenta contra a pessoa de Cristo. Pois os judeus jamais poderiam
supor que o Messias seria o próprio Deus da Nação encarnado. Somente a atuação poderosa de
Deus no coração do homem é que pode convencê-lo desta tão grande revelação: “o Verbo se fez
carne e habitou entre nós”.

Mais conflitos (Jo 10:31-39)


v. 31 “pegaram outra vez em pedra para o apedrejar” Deuteronômio cap. 17 informa o
processo do apedrejamento:
a) A vítima deveria ser ouvida pelo Sinédrio, diante de testemunha.
b) O apedrejamento ocorria fora da cidade.
c) Só uma obra má justificava o apedrejamento.
d) Havia a necessidade de duas testemunhas no mínimo.
v. 32 “por qual destas obras ides apedrejar-me?” Haviam pedido para Jesus falar abertamente
sobre quem Ele era na realidade, mas quando Jesus afirma que Ele e o Pai eram um, os judeus não
suportam o comprometimento dessa revelação. Consideraram as palavras de Jesus ainda mais
atrevidas do que Seus atos (estes atos foram todos os milagres que Jesus realizou nos dias de sábado
e que às vistas dos judeus implicavam em quebra da Lei). Os judeus informam que não era por
nenhuma obra boa que eles o iriam apedrejar, mas sim, por blasfêmia, pois Jesus sendo homem se
fazia Deus.
Jesus se defendia:
a) citando o Antigo Testamento — v. 34 “Não está escrito na vossa lei: Vós sois deuses?” Esta
referência está no Salmo 82:6. A interpretação do Salmo seria que Deus como supremo Juiz se
coloca no meio dos corrompidos governantes e juízes de Israel, a fim de repreendê-los e condená-
los (II Cr 19:6; Ez 45:9; Am 5:12; Mq 7:3). Os juízes terrenos eram chamados “elphim” (deuses)
porque o ofício que ocupavam e o julgamento por eles exercido, realmente são de Deus (Dt 1:17).
Eles não interpretavam as palavras “vós sois deuses” fora do contexto das funções exercidas por
aqueles que a recebiam (ancião, sacredote, rei — autoridades para aplicar a Lei). Por que tomavam
as palavras de Jesus fora do contexto de Seus milagres e sinais? Se os dirigentes dos judeus são
chamados deuses, em virtude da sua divina comissão e da autoridade e ofício sagrado outorgado nas
Sagradas Escrituras, como poderiam acusar Jesus de blasfêmia, sendo Ele ungido e enviado ao
mundo pelo Pai?
b) apelando ao bom senso — v. 38 “embora não me creiais a mim, crede nas obras”: Ele diz
que suas ações correspondem a seus ensinos. As suas obras em si mesmas constituem evidências em
favor de suas reivindicações. Em outras palavras, se vocês não acreditam no que estou dizendo,
então não me julguem pelas minhas palavras mas pelos meus atos, pelo meu procedimento, pela
minha vida. Estavam dispostos a reconhecer e festejar um altar que fora dedicado a Deus (Festa da
Dedicação), mas não reconheciam uma vida santificada a Deus. Era mais fácil reconhecer um
objeto do que uma pessoa dedicada a Deus.

Nota: v. 40 Depois deste diálogo durante a Festa da Dedicação, Jesus deixa Jerusalém e vai
para além do Jordão.

Provando que Jesus foi o Messias


Talvez a razão central pela qual o evangelho de João foi escrito foi demonstrar que Jesus era o
Messias, tendo cumprido todas as exigências de seu caráter messiânico, e que, em sua própria pessoa, ele
possuía as qualificações necessárias a esse oficio. O autor sagrado emprega uma polêmica cuidadosamente
desenvolvida, nessa demonstração. Entre os itens destaca-se aquele que é frisado em Jo 10:38 — Suas
obras poderosas só poderiam ter sido realizadas se Deus estivesse com Ele e houvesse dirigido a sua vida.
Champlin118 listou as muitas maneiras, pelas quais, o autor deste evangelho procurou comprovar a
autenticidade das reivindicações messiânicas de Jesus:
1. O testemunho de João Batista, que o povo de Israel considerava como grande profeta (primeiro
118
R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado (vol. II), p. 455.
129
capítulo).
2. O testemunho dos primeiros discípulos de João Batista, que se tornaram os primeiros discípulos de
Jesus, como testemunhas de sua grandeza (primeiro e segundo capítulos).
3. Um círculo crescente de discípulos, que testificou acerca da mesma verdade (Jo 2:11).
4. Grande número de pessoas da área de Jerusalém, as quais reconheceram a grandeza de Jesus (Jo
2:23).
5. Nicodemos, um dos membros do sinédrio, que acolheu a Jesus primeiramente como profeta, e então
como o próprio Cristo (Jo 3 e 19:39-40); e José de Arimatéia, também membro do sinédrio, que recebeu a
Jesus como o Messias (Jo 19:38-41).
6. A samaritana e os samaritanos, em grande número, apesar do fato de que os samaritanos eram
inimigos figadais dos judeus, mas que receberam a Jesus como o Messias (quarto capítulo).
7. A influência de Jesus chegou até mesmo à corte de Herodes, e ele tinha seguidores até mesmo ali
(Jo 4:46-54).
8. Os seus próprios discípulos, além de vários outros, na área geral de Jerusalém, que permaneceram
na companhia de Jesus sob as circunstâncias mais adversas, demonstrando assim a sua confiança nele (Jo
6:67 e 7:31).
9. Vários elementos da polícia do templo de Jerusalém, os quais puderam reconhecer a sua grandeza,
sentindo-se incapazes de aprisioná-lo (Jo 7:44-47), tendo dito: Jamais alguém falou como este homem.
10. Por semelhante modo, os muitos e poderosos feitos de Jesus, evidentes para todos, testificavam
seu caráter messiânico (Jo 5:36; 10:38 e 14:11).
11. O testemunho das Escrituras do AT, que dizia respeito à natureza de sua vida, testemunho esse
que assumia a forma de profecias, as quais foram perfeitamente cumpridas na pessoa de Jesus (Jo 5:39).
12. Assim, pois, o testemunho de Moisés também o favorecia (Jo 5:45-46).
13. Jesus exerceu o conhecimento todo especial que era esperado da parte do Messias, podendo ler
os pensamentos e demonstrando um conhecimento sobre todas as coisas (Jo 1:48; 13:19 e 16:4,30).
14. Notáveis milagres, como o da ressurreição de Lázaro (décimo primeiro capítulo).
15. O Espírito Santo, que viria testificar a seu respeito (Jo 14:16 — as declarações de Jesus sobre o
divino “paracleto”. aparecem nesta altura da narrativa; esse é o ministério do Espírito, como prova do caráter
messiânico de Jesus).
16. As muitas aparições do Senhor Jesus, após a sua ressurreição dentre os mortos, também
comprovaram a realidade de sua ressurreição. Essa foi de todas a obra mais poderosa de Cristo, o maior
sinal que, mais do que qualquer outro, comprovava a validade de suas reivindicações (vigésimo capítulo).
17. Finalmente, a ascensão de Jesus aos lugares celestiais provou o fato de que Deus estava com ele,
tendo aceito o seu ministério salvador (Jo 20:17).

130
VII. O MINISTÉRIO DE JESUS NA PERÉIA (Do outro lado do Jordão)
A fase final do ministério de Jesus no mundo, desde a Festa da Dedicação
até a semana antes da Sua última Páscoa

Jesus vai para além-Jordão (Jo 10:40-42)


PERÉIA: Região da palestina designada no NT como “a outra banda do Jordão”, ou “as terras
d’além Jordão” ou “Transjordânia”. Compreende a faixa de terra que se estendia ao longo do Jordão
desde um pouco ao Sul de Pela até o Amon. Segundo o historiador Josefo, a região se inter-
relacionava com Decápolis, pois ele considerava Gadara, sua capital e contava Otopos, em lugar
daquela, na Confederação das cidades antigas. A Peréia estava sob o domínio de Herodes Antipas, o
mesmo que governava a Galiléia. Era a rota preferida pelos judeus que viajavam entre a Galiléia e a
Judéia, porque evitava o território dos samaritanos.
Nesse lugar Jesus passara oito meses no início do ministério público (Jo 3:22). Dessa vez, Ele
ficou ali cerca de dois meses. Era uma região densamente povoada, com muitas cidades romanas
prósperas, governada por Herodes e fora do alcance das autoridades de Jerusalém. Provavelmente
ficou ali os meses de inverno, entre a Festa da Dedicação (dezembro) e o princípio da estação da
Páscoa (março). É notável que mesmo após a morte de João Batista, suas palavras de testemunho
ainda frutificavam no meio do povo.119 Muitos foram ter com Ele, e não podia descansar. Terminou
sua peregrinação espiritual no lugar onde começara com tanto sucesso (Jo 3:26).

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Cristãos (oficiais e leigos) que dão bom testemunho de Cristo são procurados com sinceridade por aqueles
que necessitam de alívio para a alma.
2. Somos reconhecidos por nossas obras: nossa vida falará mais alto a despeito das críticas. Se nossa motivação for justa,
com certeza as pessoas perceberão isto.
3. Embora Jesus tenha encontrado ali fé em sua pessoa, voltou a Jerusalém a fim de cumprir integralmente Sua missão.
Nenhuma tentação poderia ser mais forte do que permanecer onde era aceito. Uma decisão interesseira de trabalhar onde há mais
chance de sucesso pode revelar o descompromisso com a vontade de Deus.

Ensino durante a viagem (Lc 13:22-35)


Ao sair de Betânia, além-Jordão, Jesus ensina em cidades e aldeias da Peréia.
Nota: Lucas, capítulo 13, faz uma ligação de fatos que ocorreram em situações diferentes; ele não
se preocupa com a cronologia dos fatos, mas sim com a conexão que há entre os assuntos
abordados. Sendo assim, o que se segue do verso 22 adiante está desvinculado cronologicamente
dos versos anteriores.

1. Quem está dentro do reino? (vs. 22-30)


“Senhor, são poucos os que se salvam?” Havia previsão de que o Reino Messiânico seria
inaugurado por ocasião da ida de Jesus a Jerusalém. A pergunta procede de uma preocupação
existente quanto ao número de pessoas a serem incluídas no Reino Messiânico. Este assunto era
largamente debatido nos círculos de estudos do judaísmo. Seriam salvos todos os judeus, ou apenas
um grupo seleto? (como ensinavam os fariseus). Esta foi uma pergunta sobre salvação universal:
Este germe da doutrina universal (arbitrária e antibíblica), havia sido inserida no contexto da crença
geral dos rabinos judeus que afirmam que todos os judeus seriam finalmente salvos porquanto eram
nação escolhida de Deus.

v. 24 Jesus destrói a falsa segurança daquele ouvinte que se considerava salvo e este é
levado a se classificar com os que estão do lado de fora. Por isso, Jesus o manda “porfiar” (estar
interessado a entrar no reino). Deus abre a porta entre duas eras: a Lei e a Graça. Pela graça é
possível passar de uma para outra, contudo a porta é estreita porque não se entra com facilidade.

119
Outra semelhante atitude é narrada em Jo 4:39-42, em que os samaritanos confirmam o testemunho da mulher
samaritana porque tiveram uma experiência pessoal, direta com Ele. Há um contraste hábil entre a incredulidade dos
judeus em Jerusalém com a fé dos habitantes do além-Jordão que ainda lembravam do testemunho sobre Jesus dado
pelo Batista.
131
“Porfiai...” Descreve o esforço extremo, contínuo, intenso, doloroso, exigido de um atleta
numa competição. Também me afadigo, esforçando-me o mais possível... É um presente do
imperativo, que significa “continuar porfiando”. O termo não indica concorrência, ou que outro vai
passar à minha frente. Indica o valor dado àquilo que está adiante para ser alcançado. Não indica
que a ação divina foi anulada, isto é, que eu corro e avanço com esforço próprio, mas sim que eu
estou cooperando com a força que já foi revelada; eu tomo posse da força de Deus que me é
outorgada pelo Espírito Santo, mediante o sacrifício de Jesus no Calvário, e corro pela fé alicerçada
na força do próprio Deus.
Porta estreita: A porta estreita era uma ilustração da salvação; muitos procuravam entrar no
Reino, mas não poderiam fazê-lo se rejeitassem o Filho de Deus e os princípios por Ele
estabelecidos. A porta é estreita no sentido de que por ela se entra tão somente com a exclusão de
todos os interesses próprios e a separação do mundo com seus cuidados e diversões, o que tornam a
porta e o caminho estreitos. Há dois destinos do homem, dois caminhos, o mais espaçoso é cômodo
para as multidões. Como alcançar a porta estreita? Renunciar o comodismo pecaminoso, os maus
hábitos, abominar o coração carnal, e enfrentar Satanás e suas hostes malignas. A porta está aberta a
todos, mas virá o dia em que será fechada. Agonizar por entrar agora; não confiar apenas na
realidade histórica de Jesus, mas na integralidade do Evangelho: JESUS CRISTO é a porta estreita
da salvação.
Nota: Talvez Jesus estivesse pensando na porta chamada Agulha que existia nos muros da cidade de
Jerusalém, por onde os mercadores passavam quando a porta central estava fechada. Esta porta era
tão pequena que os mercadores tinham que deixar de fora os camelos e as bagagens e passarem
sozinhos. Da mesma forma que os mercadores tinham que deixar do lado de fora suas cargas, os
judeus deveriam se despojar de seus preconceitos, orgulho espiritual e auto-suficiência.
“procurarão” e “porfiai”: indica que os que se esforçam agora, entram. Isto é, os que no
período da graça, enquanto a porta se mantém aberta, depositarem a fé no Filho de Deus herdarão o
Reino. Jesus deixa claro que, dos que com sinceridade buscam a Deus, nenhum será excluído do
Reino. Há, porém, inevitavelmente, um limite de tempo quanto à oferta da salvação. Quando a porta
da oportunidade for finalmente fechada, será tarde demais.

vs. 25-30 (Os versos 25-27 têm paralelo em Mt 7:21-23 e 25:11-12. E os versos 28-29 têm
paralelo em Mt 8:11-12) — Jesus observa que a oportunidade de salvação cessaria e adverte quanto
à religiosidade formal e sem vida. Ele adverte que os que ficarem de fora desejarão ardentemente
entrar e usarão como argumento a estada deles com Jesus, mas estes homens nada mais poderiam
pleitear do que a proximidade física, pois nunca comprometeram-se com a Pessoa e os ensinos de
Jesus, nunca receberam-no como Senhor de suas vidas reconhecendo nele o Deus eterno e a única
fonte de salvação. Os que haviam desprezado o Senhor, procurarão dizer que tiveram um
relacionamento com Ele, que conheceram e que ouviram os seus ensinamentos, mas suas
declarações superficiais não valerão nada. Os que escarneciam do carpinteiro o chamarão Senhor.
“Choro e ranger de dentes” expressão de desespero e tristeza dos que ficarão de fora. Na era
vindoura, Deus mudará os valores e categorias: Os excluídos são incluídos e os incluídos são
excluídos. Os publicanos e as meretrizes entram no Reino de Deus antes dos religiosos, não por
causa do pecado deles mas porque reconheciam que eram pecadores. Os gentios tomarão o
privilégio dos judeus e serão os primeiros e os judeus os últimos.

LIÇÃO PARA HOJE: 1. Jesus atrai não as massas mas um a um, para um relacionamento pessoal com Ele. 2. O
esforço por entrar pela porta estreita não é a concepção dos rabinos judeus, nem a do romanismo, espiritismo ou
qualquer outro ismo religioso que se baseia em méritos humanos. 3. No Evangelho de Jesus, o pecador é alcançado
pela palavra da graça, mas quem se apóia na justiça própria será alcançado pela palavra de julgamento.

A “raposa” Herodes Antipas (vs. 31-33)


Herodes Antipas, por ter decapitado João Batista, temia uma revolta do povo em favor de
Jesus. E os fariseus, cheios de ódio, queriam chantagiar Jesus e assustá-Lo para que saísse do

132
território de Herodes, tinham intenção de acovardá-Lo. Mas Jesus não se deixa intimidar, pois sabia
que o Seu tempo não tinha chegado.
“Ide e dizei a essa raposa” Champlin comenta: “Raposa era uma metáfora comum entre os
judeus e os gregos para indicar um homem astucioso; mas com freqüência, na literatura rabínica,
simplesmente significava um indivíduo destituído de importância, sendo usado como um termo de
menosprezo.” 120 A raposa, que no contexto tem a ver com o caráter de Herodes, é um animal hábil e
artificioso na defesa, devastador, sagaz, solitário. É possível que a forma feminina de “raposa”, no
grego, talvez desse a entender que Herodes era dominado por sua esposa ilegítima, Herodias, que
também era sagaz (ela usou de astúcia para pedir a cabeça de João Batista). O que Jesus queria dizer
é que era independente tanto dos esquemas de Herodes como dos planos dos fariseus, e que seu
destino não podia ser determinado por qualquer plano de Herodes, por mais cruel que fosse.
v. 32 “Eis que vou expulsando demônios e fazendo curas” Jesus não interromperia seu
ministério; Ele estava caminhando deliberadamente para Jerusalém, consciente de que lá morreria;
contudo, mesmo ao caminho do “matadouro”, continuaria obedecendo ao querer do Pai e exercendo
efetivamente Seu ministério.
“hoje e amanhã, e no terceiro dia serei consumado” Ele explica que Seu ministério terreno é
temporal. “no terceiro dia” significa “dentro em breve”, ou “no fim de um período específico”, ou
ambas as coisas. Depois Jesus “terminará”. A palavra (teleioumai) pode denotar o fim da Sua obra
naquela região ou a conclusão da Sua obra de redenção. Jesus está dizendo que completará o curso
destinado a Ele. Deus, e não Herodes, determinará quando Ele há de morrer. É uma expressão usada
para significar que seu fim estava próximo, mas o caminho eterno do Messias já estava determinado
e ninguém, nem potestades humanas, nem poderes infernais, poderiam mudar ou impedir seu curso.
Ele cumpriria sua missão e ao terceiro dia seria consumado — estava falando de sua morte e
ressurreição.
v. 33 — Diz Bruce: “Com efeito, é como se Ele tivesse dito: Não serei expulso da Galiléia
pela força de ameaças. Mas continuarei trabalhando até chegar a hora. Não obstante, tranqüilizem-
se, príncipes e fariseus! Não demorará para eu ter de enfrentar a sorte que cabe aos profetas, e não
aqui. Terei de enfrentá-la no lugar apropriado, embora não porque temo a qualquer de vós.”

Jerusalém, Jerusalém! (vs. 34-35 é trecho paralelo a Mt 23:37-39)


Jesus faz referências à cidade de Jerusalém, por ser ela a capital e o centro religioso de toda a
nação; servia como sede do supremo tribunal judaico, o Sinédrio, sendo assim, era o local oficial
onde se processavam os julgamentos. Ali o destino dos profetas era decidido.
Antes do Cativeiro Babilônico não existia o judaísmo, ele surgiu em decorrência do próprio
cativeiro. Jerusalém, porém, já existia e foi o lugar de habitação da maioria dos reis de Israel. No
AT, verificamos a morte de muitos profetas em Jerusalém ou mortos em decorrência de uma ordem
que partiu desta cidade, isto é, dos reis que ali habitavam (II Rs 21:16; II Cr 24:21: Jr 26:20-21).
Jerusalém era, portanto, o local apropriado para que a atitude da nação para com Jesus
tomasse caráter oficial e definitivo. Ali Jesus seria julgado em conformidade com a lei judaica e
romana, acarretando assim um processo legal, isto é, o processo de acusação e morte de Jesus seria
registrado em documentos oficiais. (Na documentação romana do primeiro século existe um
registro oficial da morte do Galileu chamado Jesus. Portanto, a morte de Jesus é um fato histórico).
É profunda a lamentação de Jesus sobre Jerusalém, cujo povo estava rejeitando e planejando
Sua morte, estava lançando no abismo os privilégios e bênçãos que Deus misericordiosamente lhes
oferecera (Mt 23:39).
v. 34 Jesus declarou a Herodes que não poderia furtar de Jerusalém o privilégio de tirar-lhe a
vida, pois, lá era o local apropriado para o martírio dos profetas! Deus deixaria vazio o seu Templo
em Jerusalém, razão pela qual seria destruído, em 70 d.C. E assim sucedeu.

120
Nota: Herodes é a única pessoa de que há registro, a quem Jesus tratou com desprezo. Mais tarde, lemos que queria
ver Jesus operar um milagre, e que quando Jesus foi colocado diante dele, o Mestre não lhe dirigiu palavra alguma (Lc
23:8-9). Quando Jesus nada tem para dizer a alguém, a posição daquela pessoa é desesperadora. – Morris.
133
v. 35 “Vocês não me verão mais até que digam: Bendito...” Esta afirmação parece significar
que a volta do Senhor aguarda o arrependimento nacional de Israel (At 3:19-21); outros
comentaristas pensam referir-se à segunda vinda ou ainda ao juízo final. “Temos aqui um quadro do
triunfo final do propósito de Deus. Nenhuma Jerusalém terrena e obstinada poderá distorcer sua
santa vontade. O v. 35b pode referir-se à entrada triunfal em Jerusalém, ou então (como se vê em
Mateus), à segunda vinda de Cristo, ou à vitória do reino messiânico. Sem importar qual a
interpretação exata, significará a vitória de Deus.” (comentário de Buttrick, citado por Champlin.)

LIÇÃO PARA HOJE: As autoridades são ministros de Deus para o bem do povo (Rm 13). Muitos não reconhecem que
a autoridade vem do Senhor e cometem crimes contra Deus e contra os homens.

O lamento sobre Jerusalém


Os sinóticos registram três lamentações de Jesus sobre Jerusalém: Lc 13:34; 19:41-44 e Mt 23:37-39. Podemos
entender que Jesus só fizera uma lamentação sobre a cidade, e os evangelistas nos seus relatos citaram-na no
momento que acharam mais adequado, levando em conta a narração que vinham fazendo dos acontecimentos sem
preocuparem-se com a cronologia dos fatos. Pois a probabilidade maior é que esta lamentação sobre Jerusalém tenha
ocorrido quando Jesus se aproxima da cidade, a uma distância tão pequena que lhe possibilitasse avistá-la. Podemos
também entender que Jesus fizera por três vezes lamentações sobre Jerusalém. Tomando este argumento por
verdadeiro, devemos compreender, então, que cada uma foi aplicada com propriedade à ocasião em que foi proferida.

Vários ensinos (Lc 14:1-35)

No sábado, a cura de um hidrópico e o jantar com um fariseu (vs. 1-14)


Hidropisia é acúmulo anormal de líquido (soro) no tecido celular ou em uma cavidade do
corpo. É uma enfermidade que incha parcial ou totalmente o corpo, não tendo, porém, sinal de
inflamação.
“É lícito curar no sábado, ou não?” Pergunta de difícil resposta: a) Se respondessem SIM,
poderiam ser acusados de que eram “frouxos” quanto à aplicação da lei; b) Se respondessem NÃO,
poderiam ser acusados da indiferença ao sofrimento humano.
v. 5 O argumento de Jesus baseava-se no fato de que o sábado foi instituído para o bem do
homem e que atos de misericórdia devem ser praticados no sábado.

A parábola das desculpas (vs. 15-24)


Fariseus e judeus em geral realizavam festas e banquetes sociais no dia de sábado;
naturalmente, o alimento era preparado na véspera. Era costume mandar o convite na última hora, e
se este fosse rejeitado equivaleria a um insulto.
Jesus aceitou o convite de um dos chefes dos fariseus para comer pão, como se fosse um
privilégio reservado a fariseus extremamente religiosos, e isto no dia santificado. Trata-se de um
banquete especial com uma lição de hospitalidade (sem olhar aparência ou posição social) e uma
lição de fraternidade (moderar o hábito egoísta de convidar apenas parentes e amigos, esquecendo-
se dos mais humildes e necessitados).
Esta parábola expressa a verdade de que todos são convidados à salvação; o Evangelho é
universal, todos podem participar dele. O Evangelho é uma grande festa de perdão, paz, alegria e
outros privilégios. Se o pecador rejeitar este convite, perderá a maior riqueza que possui, que é sua
preciosíssima alma. Já que os judeus desprezaram o privilégio, agora seriam convidados aqueles a
quem eles desprezaram — os gentios.
Hoje esta ordem continua: nós, gentios rejeitados pelos judeus, temos a honra de ser enviados
a todo o mundo, para fazer o grande convite da salvação aos pecadores.
O veredito do Senhor é santo e justo, tremendo e terrível.

LIÇÃO PARA HOJE: Quantos hoje estão na mesma situação deplorável daqueles fariseus? Tomar humilde e
sinceramente o último lugar é um princípio de nobreza para a conduta do homem, enquanto que buscar o primeiro lugar
demonstra egoísmo, orgulho e presunção.

134
Advertência quanto ao custo do discipulado (vs. 25-35)
O Senhor Jesus revela aos discípulos as condições do discipulado, sob três aspectos:
1. Uma escolha de lealdade a ser feita pelo discípulo: Aborrecer não significa odiar ou
desprezar; é no sentido de amar menos do que a Cristo; lealdade a Cristo é o princípio fundamental
do cristianismo.
2. O genuíno discípulo está pronto a suportar tudo por amor a seu Salvador e Mestre e por
amor à bendita causa do Evangelho;
3. O preço do discipulado deve ser o sacrifício da própria vida; “tomar a cruz e seguir”; deve
ser pago com inteligência, nobreza, honra, renúncia, auto-sacrifício e louvor a Deus. O autêntico
discípulo renuncia a tudo quanto possa vir a interferir em sua dependência unicamente em Cristo.

v. 26 “não aborrecer” O verbo grego traduzido por aborrecer é “odiar”. Levando em conta a
totalidade dos ensinos de Jesus, não podemos entender esta expressão como um desprezo aos entes
queridos, pois Ele sempre ensinou o amor, inclusive a amar até mesmo os inimigos (Mt 5:44). Para
melhor entendermos o ensino de Jesus neste texto devemos fazer uso de passagens paralelas, como
por exemplo Mateus 10:37 que diz: “quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de
mim”. Em outras palavras: Jesus exige de mim que eu coloque meu relacionamento com Ele acima
de todos os demais relacionamentos na vida, quer seja com pai, com mãe, com mulher, com filhos
ou com o próprio “eu”. Ele exige o primeiro lugar sem concorrência. Então, aborrecer pai, mãe...
não significa odiá-los, mas sim exercer amor maior a Deus do que aquele que vota à família. Aquele
que não tem tal amor não sofrerá oposição por parte da família ao querer tornar-se discípulo.
v. 27 “leva a cruz” (Mt 10:38; Mc 8:34) Muitos têm interpretado que carregar a cruz é
suportar e conviver com um marido alcoólatra e agressivo, ou conformar-se com uma enfermidade
etc. Para melhor compreender esta expressão, com o uso da Hermenêutica, verificamos o que a
“cruz” significava no tempo de Jesus. Há dois mil anos, cruz significava apenas uma coisa:
MORTE, maneira de matar. A passagem paralela de Lc 9:23 nos ajuda entender mais claramente Lc
14:27: “Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me”.
Lucas 14 e Lucas 9 deixam claro nas expressões “levar” e “tomar cada dia”, respectivamente, que a
nossa cruz representa uma morte diária. O apóstolo Paulo entendeu esta verdade e testemunha dela
em I Co 15:31: “(...) morro todos os dias”, não referindo-se à morte física, mas sim a um negar-se a
si mesmo. Levar a cruz significa uma morte para si mesmo, para as próprias idéias, ambições,
desejos e querer; é um abrir mão do suposto direito de mandar na própria vida. E esta atitude tem de
ser renovada cada dia.
v. 33 “renuncia a tudo quanto possui” Este verso é introduzido pela breve parábola do
construtor da torre e do rei que se prepara para a guerra, duas ilustrações dadas por Jesus nos versos
28-30 e 31-32, para ilustrar ainda mais a seriedade do discipulado, e como só deve ser aceito após a
reflexão séria e intensa meditação e determinação. O ato de se colocar ou entrar na condição de
discípulo deve ser consciente e estudado, um ato do arbítrio. Pois o que Jesus exige do discípulo é
uma renúncia completa.
Cada uma das três condições focaliza um aspecto diferente da vida: uma está relacionada com
“o relacionamento”, a outra com “as ambições” e a terceira com “as coisas”.

Três parábolas sobre a graça ressaltam o júbilo de Deus quando o pecador perdido é achado:
A ovelha perdida, a moeda perdida e o filho pródigo. Duas sobre a mordomia: O
administrador infiel e o rico e Lázaro. E três virtudes recomendadas: magnanimidade, fé e
modéstia cristã (Lc 15:1—18:1-10).

MINISTÉRIO NA PERÉIA É INTERROMPIDO PELA MORTE DE LÁZARO


Essa narrativa inclui a doença, morte e ressurreição do amigo de Jesus
e a reação do judaísmo oficial diante do milagre.

135
Jesus ressuscita Lázaro (Jo 11)
É provável que esse fato tenha ocorrido cerca de um mês antes da morte de Jesus. E representa
o apogeu do seu ministério público. A ressurreição de um cadáver é, para nós, humanos, um dos
milagres mais portentosos do Senhor Jesus. Foi a terceira ocasião em que Ele ressuscitou alguém
dentre os mortos (a filha de Jairo, Mc 5:21-43; o filho da viúva de Naim, Lc 7:11-17; e agora,
Lázaro), sendo que as três ocorrências seriam coroadas pela morte e ressurreição de Jesus, que
nunca mais morreria. Esse milagre foi o ensejo para o Sinédrio decidir matar Jesus (v. 53), que
retirou-se para a região montanhosa de Efraim, cerca de 20 km ao norte de Jerusalém, para aguardar
a Páscoa no convívio reservado com os Doze.
Lázaro era membro de uma família muito amiga de Jesus, em cujo lar muitas vezes se
alimentava e descansava de seus labores e viagens, especialmente quando ia a Jerusalém.
v. 9 “Não são doze as horas do dia?” Jesus mais uma vez deixa claro que Ele tem uma missão
a cumprir e o tempo necessário para desempenhá-la. Quando comparamos esta passagem com João
9:4 que diz: “importa que façamos a obra daquele que me enviou enquanto é dia; vem a noite,
quando ninguém pode trabalhar”, compreendemos que “o dia” refere-se ao período de seu
ministério público, enquanto “a noite” faz referência à Sua paixão.
Jesus se apresentou como a Luz do mundo (no contexto da cura de um cego); nesta ocasião,
vs. 9-10, faz referência ao andar de dia (na luz). LUZ e DIA, respectivamente, fazem alusão ao
relacionamento do homem com Cristo, a verdadeira LUZ que alumia o homem interior trazendo-lhe
o conhecimento de Deus e o conhecimento que o habilita a caminhar seguro na vida (I Co 2:14-16).
Os que ignoram ou não crêem nas obras e/ou na Pessoa de Cristo são os que caminham de noite,
pois estão fora da Luz que é Cristo, andam sem conhecimento (Mt 15:14).
“esta enfermidade não é para morte, mas para a glória de Deus” A demora de Jesus foi de
acordo com o plano de Deus, não para fazer prova da fé das irmãs do enfermo. A ressurreição de
Lázaro demonstraria a glória de Deus ainda mais que a sua recuperação de um leito de enfermidade.
Jesus declara o propósito da viagem: “Vou despertá-lo”. Os discípulos interpretaram a palavra
“sono” literalmente e acharam que havia esperanças para sua recuperação. Mas Jesus usou a palavra
“dorme” num sentido especial referindo-se à morte.
vs. 17 e 39 “já sepultado, havia quatro dias” Jesus chega a Betânia quatro dias após o
falecimento de Lázaro. Provavelmente Lázaro havia morrido no mesmo dia em que chegara o
mensageiro a Jesus, a fim de anunciar a enfermidade. Havia uma crença antiga entre o povo, de que
a alma das pessoas falecidas pairava sobre o túmulo durante os primeiros três dias, esperando para
ver se havia qualquer possibilidade de reentrar no corpo, mas o deixava definitivamente do quarto
dia em diante, quando então a morte se tornava irreversível. Essa circunstância, de que fora
sepultado havia quatro dias desde que falecera, foi mencionada a fim de mostrar que ele estava
realmente morto.
v. 25 “Eu sou a ressurreição e a vida” Havia uma discórdia entre fariseus e saduceus quanto a
este tema, porém há evidência de que a maior parte dos judeus cria na ressurreição (Jo 11:24). Jesus
por várias vezes ensina sobre a ressurreição no último dia (Lc 14:14; Jo 5:29; Mt 22:30). Desta vez,
Ele aprofunda o ensino sobre a ressurreição, quando revela que Ele mesmo é a ressurreição; não é
apenas o que ressuscita, o que dá a vida; Ele é a própria vida e a própria ressurreição — da mesma
forma como Ele não é somente o que dá o pão, mas Ele mesmo é o pão, o pão que desceu do Céu.
Todas estas revelações usando a expressão “EU SOU” identificam-no como o Deus encarnado (Jo
1:14).
Sepulcro cavado na rocha. O cadáver era colocado na urna, envolto em alvos lençóis de linho,
à semelhança de múmia, ungido com óleos ou ungüentos. Uma grande e pesada pedra roliça
fechava a boca da sepultura.
“tirai a pedra” Jesus fica em pé em frente do sepulcro e manda tirar a pedra. Marta achava
isso inconveniente, pois “já cheira mal”. Jesus repreende a falta de fé com uma declaração que ela
há de testemunhar a glória de Deus; a morte estaria vencida. Jesus ergue os olhos e dá graças a

136
Deus, já antecipando a resposta à sua prece: “Pai, graças te dou porque me ouviste ... eu sabia que
sempre me ouves”.
“Lázaro, vem para fora” Jesus chamando um morto para a vida — a morte foi transformada
em vida pela autoridade e poder divino. A palavra de autoridade de Jesus trouxe vida a Lázaro.

AS ORAÇÕES DE JESUS 121


Jesus, em todas as orações registradas, dirigiu-se a Deus como “Pai”
(Mt 6:9; 11:25; 26:39, 42; Lc 11:2; 23:34; Jo 11:41; 12:27-28; 17:1, 5, 11, 21, 24, 25).
No batismo (Lc 3:21) Pelas crianças (Mt 19:13)
Num lugar solitário (Mc 1:35) Antes de ressuscitar Lázaro (Jo 11:41-42)
Nos desertos (Lc 5:16) No Templo (Jo 12:27-28)
A noite inteira, antes de escolher os Doze (Lc 6:12) Na última ceia (Mt 26:26-27)
Antes do convite: “Venham a mim” (Mt 11:25-30) Por Pedro (Lc 22:32)
Ao alimentar os cinco mil (Jo 6:11) Pelos discípulos (Jo 17)
Depois de alimentar os cinco mil (Mt 14:23) No Getsêmani (Mt 26:36-44)
O “Pai-nosso” (Lc 11:1-4) Na cruz (Lc 23:34)
Em Cesaréia de Filipe (Lc 9:18) Em Emaús (Lc 24:30)
Antes da transfiguração (Lc 9:28-29)

A trama contra a vida de Jesus (vs. 45-54)


O milagre da ressurreição de Lázaro repercutiu grandemente, com dupla conseqüência: a)
muitos creram que Jesus era o Messias; b) os principais sacerdotes e fariseus convocaram o
Sinédrio com o propósito de tramarem contra a vida de Jesus.
O Sinédrio era o supremo tribunal dos judeus. Na época do Novo Testamento, ele se
compunha de três grupos: os principais sacerdotes, os anciãos e os mestres da lei. O número de seus
membros chegava a setenta e um, sendo o sumo-sacerdote o presidente. Sob jurisdição romana, o
Sinédrio recebeu muito poder, mas não podia impor a pena capital (Jo 18:31).
Eles estavam preocupados com a autopreservação. Se Jesus continuasse a agir daquela
maneira, cada vez mais pessoas colocariam sua fé nele como o Messias. Então, se os romanos
soubessem que os judeus estavam anunciando um Messias, viriam para pôr fim à ameaça, incluindo
o Sinédrio (v. 48). Por essa razão, boa parte da oposição a Jesus era de natureza sociopolítica.
Nesse período, o sumo sacerdote era Caifás (genro de Anás, o qual foi sacerdote entre 6 e 15
d.C.). Porém, o povo em geral, particularmente o Sinédrio, tinha muito respeito por Anás
considerando-o ainda sumo-sacerdote, mesmo depois que os romanos elegeram Caifás para o cargo
em 18 d.C. (Jo 18:33; Lc 3:2; At 4:6; Jo 11:49). Caifás permaneceu como sumo-sacerdote da nação
israelita por 18 anos, um dos períodos mais longos no cargo.

A preocupação do Sinédrio:
1. A adesão em massa da população à crença de que Jesus seria o Messias tão esperado pela
nação judaica (Jo 11:47-48a);
2. O perigo da população aclamar Jesus como rei, e isso suscitar uma represália romana sobre
toda a nação (Jo 11:48b).

A solução encontrada pelo Sinédrio:


O raciocínio é lógico: já que Jesus está causando tantos problemas e colocando toda a nação
em perigo, a decisão mais sábia é tirá-lo de circulação; desta forma, as multidões seriam dispersas,
acabariam as expectativas de ser Ele o Messias de Israel, voltando a calmaria na nação e
conseqüentemente sua segurança diante da ameaça romana.

A profecia de Caifás, o sumo-sacerdote (Jo 11:51):


Ao sugerir que Jesus morresse em lugar da nação israelita, Caifás queria apenas livrar a nação
israelita de uma possível represália romana. Era melhor morrer um único homem do que toda a
121
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 531.
137
nação. Caifás coloca a prudência na frente da justiça: era triste que um homem tivesse que morrer
injustamente; porém, se isto fosse para o bem de uma nação inteira, este ato era justificável. Caifás
entendeu a dimensão política melhor que os outros, que estavam pensando em termos de culpa ou
inocência. “Para Caifás não importava se Jesus era culpado ou inocente. O que importava era que a
morte de um homem valia a viabilidade da nação judaica sob domínio romano (11:50). Em termos
históricos, Caifás errou, porque, apesar da morte de Jesus, a nação judaica pereceu em 70 d.C.” 122 A
profecia de Caifás era mais verdadeira do que ele podia imaginar. Ele profetizou a morte de Jesus
pela nação judaica a fim de atenuar as tensões políticas, sem saber que essa morte efetuaria a
salvação espiritual da nação judaica e do mundo.
Nota: Quem cita a argumentação de Caifás como sendo uma profecia é o próprio evangelista João;
pois no período em que ele escreveu, sua visão quanto à obra redentora de Jesus tinha-se alargado e
João pôde compreender o significado profético das palavras de Caifás, ditas tempos atrás.

v. 53 “tomavam conselho para o matarem” Eles passaram a arquitetar planos, os quais


deveriam convencer o governo romano de que Jesus era réu digno de morte. Os judeus não tinham
liberdade para sentenciar ninguém à morte, esta decisão cabia somente ao governo romano.
v. 54 De alguma forma, Jesus ficou sabendo da deliberação do Sinédrio. Daí por diante, não
andou mais manifestadamente entre os judeus. Partiu de Betânia para a região montanhosa de
Efraim, cerca de 20 km ao norte de Jerusalém, para aguardar a Páscoa no convívio reservado com
os Doze.

A PARTIDA FINAL DA GALILÉIA


Alguns comentaristas acreditam que Jesus, após ligeira permanência em Efraim, foi em
direção à Galiléia. Se Ele chegou a entrar no território galileu, não sabemos, acredita-se que não.
Se Jesus caminhou rumo ao norte da Palestina, é provável que Ele estava nesta região quando
o povo inicia a peregrinação para Jerusalém a fim de participar da festa da Páscoa. Jesus e seus
discípulos juntam-se à multidão. É justamente no percurso do norte para o sul da Palestina, na altura
da divisa de Samaria e Galiléia que Jesus cura dez leprosos, dos quais um apenas retornou para
agradecer (Lc 17:11-19).
Durante a caminhada para Jerusalém, diversos atos aconteceram: Jesus é interrogado pelos
fariseus sobre a vinda do reino de Deus (Lc 17:20-37). A pergunta poderia ter um cunho de
legitimidade, pois Jesus ensinava muito sobre o Reino e os fariseus teriam interesse em conhecer
seu ponto de vista sobre o assunto. A resposta de Jesus é resumida em dois pontos: a) a certeza do
julgamento final; b) a importância de cada um estar preparado. Jesus ainda ensina duas parábolas
sobre oração: a da viúva importuna e a do fariseu e o publicano. Fala sobre o divórcio; abençoa
algumas crianças (Lc 18:1-14; Mc 10:1-16; Mt 19:1-12) e fala a um jovem rico sobre o perigoso
apego às riquezas (Mc 10:17-31).
Nota: É bom lembrar que os judeus não passavam pelo território dos samaritanos, mas sim
pelo território da Peréia, do outro lado do Jordão. A partir de agora, Jesus, seus discípulos e a
multidão de peregrinos atravessam o Jordão na altura de Jericó, entrando no território da Judéia.

Jesus cura dez leprosos (Lc 17:11-19)


Dez leprosos: A lei hebraica proibia os leprosos do contato social, eram obrigados a trazer
vestidos rasgados, cabeça descoberta, lábio superior coberto, e a gritarem, quando alguém se
aproximasse: Imundo, imundo!. Estes se esquecem do orgulho racial e social e somente contemplam
sua triste e desolada situação. A própria infelicidade e tristeza os leva a pedir misericórdia.
Atitude de Jesus: Estavam a uma distância tal que Jesus não os percebeu até que chamaram.
Ele os enviou aos sacerdotes. Ao obedeceram, alcançaram a purificação e a sua fé foi demonstrada.
Aceitaram a cura como obra já realizada, ainda quando não a tivessem sentido.
Jesus mostrou seu desapontamento com os nove ingratos. A gratidão sempre foi mais difícil de
se encontrar do que a fé. O único dos dez que expressou sua gratidão foi um samaritano desprezado,
122
Manual Bíblico Vida Nova, p. 659.
138
de quem os judeus piedosos nada esperavam. Todos receberam cura física, e somente um foi curado
espiritualmente.

A vinda do reino de Deus (Lc 17:20-37)


Lucas tem aqui uns ditos que são peculiares a este Evangelho, e alguns que são
compartilhados com Mateus 24. A passagem ressalta a certeza do julgamento e a importância de
estar preparado.
Tanto João Batista como Jesus pregaram que o Reino de Deus estava próximo: os fariseus
esperavam que se Jesus fosse o Messias, Ele introduziria seu governo com uma súbita declaração de
poder e uma conquista visível do país.
“O reino de Deus está dentro de vós” (v. 21) A natureza da manifestação do reino de Deus
seria no íntimo dos homens. Jesus usualmente considera que o reino “está entre vós”, isto é, está
presente na Pessoa e no ministério de Jesus.
Ansiedade pelo reino: Jesus advertiu aos discípulos para não serem levados no caminho errado
por falsos rumores, pois que seria um acontecimento visível e universal depois que ele tivesse
passado pelo sofrimento e fosse rejeitado. Ele olhava para sua morte em Jerusalém como parte de
sua Missão Messiânica.
“os abutres” (v. 37) Onde se acharem os espiritualmente mortos, ali haverá julgamento. Ele
queria falar do súbito julgamento de Cristo sobre a humanidade decadente e ímpia — os abutres são
velozes para alcançar a sua rapina.

A pergunta sobre o divórcio (Mc 10:2-12; Mt 19:3-12; Mt 5:31; Lc 16:18)


“Alguns fariseus...” João Batista fora morto por causa da questão do divórcio. Alguns fariseus
também tentaram a Jesus sobre o assunto. Entre eles havia tantos adeptos da escola de Samai, que
só permitiam o divórcio em caso de infidelidade conjugal, como os da escola de Hilel, que
permitiam o divórcio quase por qualquer capricho do marido. Ambos os grupos ansiavam por saber
o que Jesus diria, esperando descobrir algum pretexto que pudesse ser usado contra Ele. Posto
contarmos com palavras anteriormente proferidas por Jesus sobre a questão, em Mt 5:31, sabemos
que Ele deve ter falado sobre isso por mais de uma vez. As palavras que aqui lemos, “por qualquer
motivo”, ilustram a atitude de muitos judeus, isto é, alguns se divorciavam “por qualquer motivo”,
ainda que tudo se resumisse no fato do marido ter encontrado uma mulher mais bela que a sua, ou
por causa de qualquer coisa insignificante.
Champlin comenta: “Desde os dias de Moisés que o divórcio era permitido entre os judeus, as
leis referentes a essa questão se tornaram cada vez mais liberais e favoráveis ao homem. A
interpretação que os judeus davam às suas leis (e a matéria dos comentários sobre as Escrituras) e
os costumes da sociedade judaica, geralmente tinham duplo padrão, isto é, eram tolerantes para com
os homens e severos para com as mulheres. Dt 24:1 diz: “Se um homem tomar uma mulher e se
casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado cousa indecente nela, e
se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão e a despedir de casa...”. Esse versículo era
interpretado de forma extremamente liberal por algumas autoridades religiosas dos judeus, e quase
qualquer motivo era suficiente para um homem dizer que achara “cousa indecente” em sua esposa,
criando assim uma razão legal para o divórcio. Segundo as provisões da lei, também era muito fácil
a um homem tomar uma concubina. Mas todos esses grupos concordavam em que o homem é
dominante, ficando assim criado um duplo padrão na sociedade judaica. Se Jesus tivesse dado uma
explicação rigorosa sobre o problema, não deixando nenhuma liberdade para o divórcio, teria
ofendido a Herodes e aos discípulos de Hilel, entre os fariseus. Se tivesse exposto uma explicação
liberal, teria ofendido aos discípulos de Samai.123 Os vs. 4-6 mostram que Jesus deu uma resposta
tão elevada que estava acima da discussão que rugia entre as escolas judaicas de pensamento. Não

123
Nos dias em que Cristo veio ao mundo, os líderes das duas escolas de pensamento dentro do farisaísmo eram os
famosos doutores Shammai e Hilell. Toda vez que surgia uma disputa sobre a aplicação da Lei, esses dois discordavam
por completo — foram registrados 300 pontos de discórdia entre ambos. Largueza de mente era a marca da Beth Hillel;
exatidão rígida a da Beth Shammai.” — Henri Daniel-Rops, A vida diária nos tempos de Jesus. Ed. Vida Nova, p. 254.
139
entrou diretamente no debate, mas esclareceu o problema com uma explicação criada segundo os
princípios originais de Deus com relação ao matrimônio, vinculados aos propósitos divinos na
criação.”124
1. Jesus baseou seus argumentos em citações de Gênesis (1:27 e 2:24).
2. Jesus esclareceu que o homem e a mulher foram criados para benefício um do outro, de
modo compatível entre si.
3. A natureza do matrimônio indica que marido e mulher se tornam uma só carne, e que a
dissolução desse vínculo só pode ocorrer pela morte.
4. Jesus mostrou que o casamento deve ser maior do que uma necessidade biológica ou uma
prática social, ou ainda uma exigência psicológica: deve ter base em finalidades espirituais, teístas e
metafísicas. A própria natureza requer uma união indissolúvel.
5. O casamento deve incluir a idéia de que aquele homem e aquela mulher foram criados um
para o outro, e que os seus destinos e razões de existência estão ligados. Esse tipo de união,
naturalmente, é indissolúvel.

“Por que mandou então Moisés?” Permitiu por causa da condição espiritual insatisfatória do
homem. Foi uma tentativa de regular e controlar o divórcio e não encorajá-lo, sendo este uma
proteção para mulheres contra os caprichos dos homens, não uma autorização para os maridos
divorciarem à vontade.
“não sendo por causa de relações sexuais ilícitas” Se formicação deve ser entendido também
como adultério então nosso Senhor permitiu o divórcio só em caso de infidelidade da mulher. Entre
os judeus, só os maridos podiam se divorciar. Marcos, escrevendo para leitores gentios, declara
também o oposto (Mc 10:12). Entretanto, se fornicação tem de ser tomado no seu sentido
costumeiro, referindo-se aqui à falta de castidade da noiva durante o compromisso, então Cristo não
deixou lugar a qualquer tipo de divórcio entre pessoas casadas. Assim Ele não concordou nem com
Samai, nem com Hilel.

Jesus abençoa algumas crianças (Mc 10:13-16; Mt 19:13-15; Lc 18:15-17)


“trouxeram” O sentido da palavra no grego sugere que continuamente as crianças de colo
eram trazidas pelos pais. A atitude dos discípulos era movida pela idéia materialista que tinham
sobre o reino, ignorando a sua verdadeira natureza. Portanto, iam afastando as crianças de Jesus,
baseando-se no conceito de que o tempo era precioso demais para ser desperdiçado com crianças.
“deixai” A proibição de Jesus significa, literalmente: parem de impedi-las. E não é preciso
que a criança chegue à vida adulta antes de participar do reino; ao contrário, é o adulto que há de
converter-se e tornar-se como criança para entrar no reino. O exemplo da criança não salienta a
inocência nem a humanidade dela, mas sua receptividade e dependência.
Halley comenta:125 “Jesus acabara de se referir ao publicano que já estava a caminho da
salvação por sentir-se profundamente desgostoso com os próprios pecados. Aqui, Jesus indica que o
céu será povoado por pessoas que possuem certas qualidades infantis. No céu, não haverá pessoas
que fazem pose e agem como se fossem donas do Universo. Na igreja terrestre, existem muitas
delas — mas não lá no céu. Jesus disse francamente que, se não nos tornarmos como crianças,
nunca entraremos no Reino dos céus (Mt 18:3). A criança está disposta a ser ensinada, confia nos
outros, está isenta de orgulho intelectual e de sofisticação e é amorosa. Os discípulos não davam
importância suficiente às crianças para dedicar atenção a elas. Jesus ficou indignado com isso, pois
amava as crianças (Mc 10:13-14).”

O jovem rico: Jesus alerta contra o apego às riquezas (Mc 10:17-31: Mt 19:16-30; Lc 18:18-30)

124

R. N. Champlin, O Novo Testamento interpretado (vol. I), p. 478.


125
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 539.
140
Este jovem rico e religioso, “homem de posição”, praticamente é o exemplo de milhões de
pessoas de todas as condições sociais e religiosas. Sua mentalidade é um reflexo da mentalidade
religiosa da raça humana depois do pecado.
“Que farei de bom?” Este jovem interrogador tinha por certo que a vida eterna se obtinha
através da realização de feitos. Tasker comenta:126 “Sua consciência o perturba, e, ao que parece, o
motivo é que ele está cônscio de que falhou completamente na guarda do décimo mandamento. Esta
a razão por que lhe falta alegria e sua vida não tem sabor. Suas riquezas aumentaram, e ele pôs
nestas o seu coração. Fez-se escravo dos bens que possui. Há muita riqueza na casa, mas pobreza na
alma. Portanto, há patética emoção em sua pergunta: Que me falta ainda? Jesus sabe disso e lhe diz
que se ele quiser ser perfeito (teleios), não no sentido de ser melhor do que os outros, mas de atingir
a meta por ele visada, terá de fazer um ataque direto à cobiça que o mantém cativo.”
“vai, vende tudo que tens e dá aos pobres” O Senhor chamou o homem a este passo, posto
que seria a prova mais certa de sua sinceridade. A exortação para desfazer dos seus bens
rapidamente revelou como o jovem se encontrava longe de entender o espírito dos mandamentos
divinos, pois, o mandamento concorda com o princípio bíblico que o cristão deve possuir somente o
que é necessário para a vida diária e para o trabalho de Deus em que se ocupa.
Jesus ordenou que lhe desse tudo o que tinha. Jesus não estava querendo dizer que todos
devem abrir mão de todos os seus bens a fim de poder segui-lo. Zaqueu ofereceu-se para distribuir a
metade, e Jesus ficou contente com ele (Lc 19:9). Esse jovem rico, entretanto, estava
demasiadamente apaixonado pelas riquezas para ser de qualquer utilidade no Reino de Cristo.
“retirou-se triste” A perspectiva de abandonar seus bens perturbou-o tanto que ele deixou de
atingir o alvo procurado.

O fracasso do jovem, não conseguindo livrar-se das garras da sua cobiça, leva Jesus a fazer
aos seus discípulos a solene asseveração: “um rico dificilmente entrará no reino dos céus”.
“passar um camelo pelo fundo de uma agulha “Representa, segundo pensam alguns, uma
portinhola para pedestres, na porta ou perto da porta grande da cidade, através da qual um camelo
poderia passar ajoelhado e sem carga. A grande maioria entende que se trata de uma agulha literal.
De qualquer maneira, Jesus se referia a algo impossível (Lc 18:27). Em seguida, apontou para a
única solução viável: o que é impossível para os seres humanos é possível para Deus.”127
“nós deixamos tudo” Aqui Pedro se compara ao jovem rico que tinha recusado a renunciar
seus haveres. “... que recebemos?”, refere-se à promessa do Senhor de um tesouro no céu.
Sucintamente Jesus declarou que a salvação é obra de Deus — sem o poder de Deus, ninguém pode
ser salvo.
Mt 19:29-30 Jesus acrescenta que na agremiação do povo de Deus estará todo aquele que tiver
feito sacrifícios materiais e pessoais por amor dele durante sua peregrinação na terra. E o versículo
final da secção indica que os que chegarem por último no reino de Deus serão tratados em
igualdade de condições como os que chegaram primeiro, verdde que Jesus passa a ilustrar na
parábola dos trabalhadores na vinha.

JESUS NOVAMENTE NA JUDÉIA, APÓS ENCERRAR MINISTÉRIO NA PERÉIA


Deixando a Peréia, Jesus atravessa o Jordão, perto de Jericó, demora um pouco nesta cidade e
continua sua viagem na companhia dos Doze.

Outra profecia da paixão (Mc 10:32-34; Mt 20:17-19; Lc 18:31-34)

126
R. V. G. Tasker, Mateus: introdução e comentário. Edições Vida Nova, p. 149.
127
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 540.
141
Morris lembra que esta é freqüentemente referida como sendo a terceira predição de Jesus do
Seu sofrimento, mas é, na realidade, a sétima que Lucas registra, seguindo outras em 5:35; 9:22, 43-
45; 12:50; 13:32-33; 17:25.128
Pela primeira vez, Jesus profetizou que Sua morte seria através das mãos dos gentios e que
estes usariam de escárnio, açoites e crucificação. Ainda mais uma vez os discípulos não podiam
compreender, como se vê no seguinte pedido dos filhos de Zebedeu. Contudo, o cumprimento dessa
profecia minuciosa fortaleceria a fé dos discípulos.

Ambição descabida: ensino sobre “grandeza no reino de Deus” (Mc 10:35-45; Mt 20:20-28)
Halley comenta: O que há de mesquinho nesse pedido de prestígio e poder é que foi uma
reação diante do anúncio que Jesus estava caminhando para a cruz. A resposta de Jesus lembrou-
lhes um dos temas centrais de Seu ministério — que a chave para a recompensa celestial é o grau de
nossa atitude de serviço e amor ao próximo na Terra.
Tiago e João, apóstolos, filhos de Zebedeu, tendo noção errada acerca do reino de Deus,
julgando ser este reino temporal, fazem ao Mestre um pedido, cuja origem estava em sua descabida
ambição. E para dar mais força ao pedido dos dois apóstolos, interfere a própria genitora deles, que
adorando-o, insiste no pedido dos filhos. O Senhor reconhecendo sua ignorância, começou a
mostra-lhes que tais prêmios têm que ser ganhos.
Cálice e batismo falam do sofrimento de Jesus.
As honras da direita e da esquerda não podiam ser distribuídas como favores aos amigos. Tais
recompensas tinham de ser dadas àqueles que as obtém pela fidelidade na vida e no serviço. Jesus
então corrige aquela noção errada, ensinando que o reino dos céus não era de caráter político, mas
espiritual; e os discípulos deveriam estar preparados a sofrer como súditos desse reino; e quanto à
posição de cada súdito no reino de Deus, caberia àquele que fosse capaz de arcar com o respectivo
encargo.
Tasker resume: No reino de Deus, dado que o próprio Rei é servo, o título “grande” se reserva
para os que, inspirados por Seu exemplo, gastam-se livre e alegremente a serviço de outros.129

A cura de um cego, perto de Jericó (Mc 10:46-52; Mt 20:29-34; Lc 18:35-43)


Mateus fala de dois cegos sendo curados enquanto Jesus saía de Jericó (sabe-se que é
improvável que um cego estivesse totalmente sozinho). Marcos menciona um cego, citando seu
nome, Bartimeu, curado enquanto Jesus saía desta cidade. Lucas não dá o nome do homem e
localiza o milagre na ocasião da entrada de Jesus na cidade. Há pouca dúvida de que todos os três se
refiram ao mesmo incidente, embora com as informações que atualmente possuímos talvez seja
impossível dar uma explicação satisfatória destas diferenças. Alguns pensam que houvesse dois
cegos, dos quais Bartimeu era o mais destacado ou mais conhecido na igreja. É ressaltado também
que havia duas Jericós, a antiga, famosa no Antigo Testamento, e a nova, estabelecida perto por
Herodes Magno. Alguns sustentam que a cura foi realizada enquanto Jesus saía de uma delas para
entrar na outra. — Comentário de Leon L. Morris
“Filho de Davi” Bartimeu é a primeira pessoa no Evangelho de Marcos que se dirige a Jesus
pelo uso do título messiânico. A crença de que o Messias seria um descendente de Davi era comum
entre os judeus daquele tempo. Anteriormente, Jesus tinha proibido o seu uso público, mas agora, ao
se aproximar de Jerusalém, está pronto a proclamá-Lo.
“Que queres que eu te faça?” Dois propósitos são apresentados:
1. O homem foi obrigado a definir sua necessidade;
2. Foi demonstrado à multidão que desta vez ele não estava pedindo esmolas.

Jesus visita Zaqueu (Lc 19:1-10)

128
Leon L. Morris, Lucas: introdução e comentário. p. 253.
129

R. V. G. Tasker, Mateus: introdução e comentário. Edições Vida Nova, 1980, p. 154.


142
Zaqueu, maioral dos publicanos, era um dos poucos chefes de cobradores de impostos, com
autoridade do Império Romano, em Jericó, e, provavelmente, em outras províncias, cidades e vilas.
Os judeus odiavam esses funcionários; existem algumas razões para isso, uma delas é que exerciam
violência e extorsão no exercício de suas funções.
A cidade de Jericó, situada na fronteira da Transjordânia (Peréia), deve ter sido um ponto bom
para um coletor de impostos: uma rota comercial importante de Jerusalém para o Oriente passava
por lá, e possuía um ativo comércio, além das famosas plantações de bálsamo que ali abundavam.
Sicômoro: Indica uma espécie de figueira, freqüentemente plantada à beira do caminho,
comum na Palestina; era de porte grande, com galhos esparramados. O ato de Zaqueu mostrou que
ele tinha vontade de ver Jesus — era homem de pequena estatura: não poderia ver por cima das
cabeças das pessoas, e poucos dariam caminho para um homem tão impopular.
“Jesus, olhando para cima” Homens comuns não costumam ver o que está acima do nível de
seus olhos quando à sua volta há coisas que os interessam ou distraiam. Jesus estava ciente da
presença de Zaqueu e interessado em alcançá-lo com sua mensagem. 130 Jesus convidou-se a si
mesmo para ser hóspede de Zaqueu – “me convém ficar...”. A multidão criticou este ato de Jesus,
porém o contato pessoal com Cristo resultou em revolução completa na vida do publicano e na
salvação de sua casa.
“restituo quatro vezes mais” Esta foi uma das penalidades extremas impostas pela Lei,
quando um homem era compelido a fazer uma reparação do que havia roubado. Zaqueu impõe
sobre si a penalidade devido às suas ações injustas como publicano.

130
NOTA: Buscando o Salvador; o Salvador que busca — Zaqueu “procurava ver quem era Jesus” (v. 3). Está claro que
o Espírito de Deus havia dado início, no coração de Zaqueu, ao processo de atraí-lo a Jesus. Não poderíamos amá-Lo se
Ele não nos houvesse amado primeiro (cf. I Jo 4:19).
143
131
OS DISCURSOS DE JESUS
Local Tipo ou estilo Dirigidos a quem Lição a ser aprendida Referência
1. Jerusalém Conversa Nicodemos É preciso “nascer da água e do Espírito” Jo 3:1-21
para entrar no reino de Deus
2. No poço de Jacó Conversa A mulher “Deus é espírito” e deve ser adorado em Jo 4:1-30
samaritana espírito e em verdade
3. No poço de Jacó Conversa Os discípulos Nossa comida é fazer sua vontade Jo 4:31-38
4. Nazaré Sermão Adoradores Nenhum profeta é bem-vindo em sua cidade Lc 4:16-31
de origem
5. Um monte na Sermão Os discípulos As bem-aventuranças; deixar a luz brilhar Mt 5—7;
Galiléia e o povo diante das pessoas; os cristãos como luz do Lc 6:17-49
mundo; como orar; benevolência e
humildade; contraste entre tesouros
celestiais e terrenos; regra áurea.
6. Betesda, um tanque Conversa Os judeus Quem ouve e crê em Jesus terá vida eterna Jo 5:1-47
7. Perto de Jerusalém Conversa Os fariseus Trabalhos necessários não são errados no Mt 12:1-14;
sábado Lc 6:1-11
8. Naim Louvor e O povo Grandeza dos últimos no céu; cada um será Mt 11:2-29;
denúncia julgado de acordo com a luz que recebeu. Lc 7:18-35
9. Cafarnaum Conversa Os fariseus O pecado imperdoável é contra o Espírito Mc 3:22-30;
Santo Mt 12:22-45
10. Cafarnaum Conversa Os discípulos A providência de Deus; proximidade de Mc 6:7-13;
Cristo com os que o servem Mt 10:1-42
11. Cafarnaum Conversa Mensageiro Relacionamento dos que fazem a vontade Mt 12:46-50;
de Jesus Mc 3:31-35
12. Cafarnaum Sermão A multidão Cristo como pão da vida Jo 6:22-71
13. Cafarnaum Crítica e Os escribas e Não são as condições exteriores que nos Mt 15:1-20;
reprimenda fariseus contaminam, mas o que procede do coração Mc 7:1-23
14. Cafarnaum Exemplo Os discípulos A humildade e a característica da grandeza; Mt 18:1-14;
não ser pedra de tropeço Mc 9:33-50
15. Templo / Jerusalém Instrução Os judeus Não julgar segundo a aparência exterior Jo 7:11-40
16. Templo / Jerusalém Instrução Os judeus Seguir a Cristo é andar na luz Jo 8:12-59
17. Templo / Jerusalém Instrução Os fariseus Cristo é a porta; ele conhece suas ovelhas e Jo 10:1-21
dá a vida por elas
18. Cafarnaum Acusação Os setenta A necessidade do serviço cristão; não Lc 10:1-24
desprezar os ministros de Cristo
19. Betânia Instrução Os discípulos A eficácia da oração séria Lc 11:1-13
20. Betânia Conversa O povo Ouvir e fazer a vontade de Deus; a situação Lc 11:14-36
do que volta atrás
21. Casa de um Reprimenda Os fariseus O significado da pureza interior Lc 11:37-54
fariseu
22. Além do Jordão Exortação A multidão Cuidado com a hipocrisia, ambição e Lc 12:1-21
blasfêmia; vigiar
23. Peréia Lição Os discípulos Estar atento; o reino de Deus é de Lc 12:22-34
concreta importância primordial
24. Jerusalém Exortação O povo Morrer para viver; o caminho da vida eterna Jo 12:20-50
25. Jerusalém Denúncia Os fariseus Evitar hipocrisia e fingimento Mt 23:1-39
26. Monte das Profecia Os discípulos Sinais da vinda do Filho do homem; cuidado Mt 24:1-51;
Oliveiras com falsos profetas Mc 13:1-37
27. Jerusalém Exortação Os discípulos Lição de humildade e serviço Jo 13:1-20
28. Jerusalém Exortação Os discípulos A prova do discípulo; segunda vinda Jo 14—16

131
Manul Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 631.
144
VIII. FIM DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE JESUS — NARRATIVA DA PAIXÃO

A ÚLTIMA SEMANA DE JESUS EM JERUSALÉM


Acontecimento Dia Referências
A entrada triunfal em Jerusalém Domingo Mt 21:1-11; Mc 11:1-10; Lc 19:29-40;
Jo 12:12-19
Maldição da figueira Segunda-feira Mt 21:18-19; Mt 21:12-13
Jesus purifica o templo
A autoridade de Jesus é desafiada no templo Terça-feira Mt 21:23-27; Mt 21:28; 23:29
Ensino nos átrios do templo
Os gregos pedem para ver a Jesus
O Sermão das Oliveiras
Unção da cabeça de Jesus
Conspiração: Judas decide trair Jesus Quarta-feira Mt 26:6-13
A Bíblia não diz o que Jesus fez neste dia; provavelmente
permaneceu em Betânia com os discípulos.
A última Ceia Quinta-feira Mt 26:14-16; Mt 26:17-29;
Jesus fala aos discípulos no Cenáculo Mc 14:22-25; Lc 22:14-20;
Oração sacerdotal Jo 14:1; 16:33; Jo 17:1-26;
Oração no Getsêmani Mt 26:36-46; Mc 14:32-42;
Jesus é traído e preso Lc 22:39-46; Jo 18:1;
Mt 26:47; 27:26
Jesus é julgado
Jesus é crucificado Sexta-feira Mt 27:27-56; Mc 15:20-41;
Sepultamento Lc 23:26-49; Jo 19:17-30
Mt 27:57-66
A ressurreição Domingo Mt 28:1-10; Mc 16:1-11; Lc 24:1-12; Jo
20:1-18
De domingo até quarta-feira, Jesus passou todas as noites em Betânia, que ficava a três quilômetros de
Jerusalém, do outro lado do Monte das Oliveiras. Ele provavelmente hospedou-se na casa de Maria, Marta e Lázaro.
Jesus passou a noite de quinta-feira orando no Jardim de Getsêmani. Nas noites de sexta-feira e sábado o corpo de
Jesus ficou no Túmulo do Jardim.

Ler João 11:55—l2:1, 9-11


Estava próxima a Páscoa, e Jesus, no meio da multidão de peregrinos a caminho de Jerusalém,
passa por Betânia, onde permanece dois dias.
Os peregrinos continuavam chegando em Jerusalém, provenientes da Galiléia e de outras
regiões, para a festa da Páscoa.
v. 55 “subiram muitos a Jerusalém, antes da Páscoa, para se purificarem” Nenhum homem
impuro cerimonialmente (Nm 9:6-12) poderia participar da Páscoa. O historiador Josefo confirma
que os peregrinos subiam uma semana antes da Páscoa (Guerra Judaica 6.290), a fim de purificar-
se seguindo os rituais de purificação apropriados.
vs. 56-57 Aí está a preocupação do Sinédrio em encontrar Jesus a fim de prendê-lo; para tanto,
deu ordem ao povo para que vendo Jesus o denunciasse imediatamente. A maioria sabia que o
Sinédrio desejava prender Jesus, porém nem todos tinham conhecimento de que intencionavam
matá-lo. O Sinédrio também conspirara acerca da morte de Lázaro, devido à força de convicção
exercida pelo fato de que ele fora trazido de volta à vida por Jesus. Para os saduceus, era esse um
testemunho vivo contra aquilo que eles pregavam e criam; e os saduceus eram a maioria no
Sinédrio.

Jesus ungido por Maria em Betânia


Gundry observa: Em sua harmonia, Archibald T. Robertson adia a unção de Jesus, por Maria,
até a terça-feira da semana da paixão, em aparente concórdia com Marcos e Mateus. As observações
cronológicas do evangelho de João, entretanto, requerem que tal evento seja situado na noite de
sábado, antes do domingo de Ramos, imediatamente após o fim de sábado, ao pôr-do-sol (ver Jo
145
12:1, 12). Marcos e Mateus demoram em narrar o episódio a fim de demonstrar a relação entre esse
incidente e a barganha feita por Judas, para trair a Jesus. As muitas diferenças quanto aos detalhes,
entre essa unção e uma unção similar, feita por uma mulher pecadora, segundo o registro de Lucas
7:36-50, impedem que confundamos os dois incidentes. Ler Marcos 14:3-9; Mateus 26:6-13 e João
12:2-8.

“Se porventura esteve presente a essa refeição, Simão deve ter sido um leproso curado. De
outro modo, devido à impureza cerimonial, ele estava ausente, e a casa é meramente identificada
como sua. Talvez ele fosse o pai de Lázaro, Marta e Maria. João complementa a narrativa de
Marcos e Mateus, adicionando o detalhe que o perfume foi derramado sobre os pés de Jesus, tanto
quanto sobre a Sua cabeça. O perfume custara, no mínimo, trezentos denários, ou seja, o
equivalente ao salário de um ano inteiro de trabalho de um operário comum, porquanto um denário
constituía o pagamento por um dia de trabalho. Judas Iscariotes expressou a idéia de alguns dos
discípulos, e sobretudo dele mesmo, de que o perfume deveria antes ter sido vendido para ser
arrecadado o dinheiro. O apóstolo João ajunta uma nota editorial, dizendo que Judas Iscariotes não
se interessava em distribuir esmolas entre os pobres, mas antes, queria furtar o que fosse posto no
tesouro comum dos apóstolos, do qual estava encarregado (sua aparente preocupação pelos pobres
era uma máscara para sua própria avareza). Jesus replicou a Judas que aquele ato de terna adoração
não fora um desperdício, sob hipótese nenhuma, porquanto Maria havia começado a embalsamar o
Seu corpo, em antecipação a Seu sepultamento. Talvez Maria tivesse realmente entendido que Jesus
estava prestes a morrer. Por outro lado, ela pode ter tencionado que aquela fosse a unção de um rei
governante. Nesse caso, Jesus desejou que se entendesse que, quer ela o houvesse compreendido
quer não, ela o tinha ungido para o Seu sepultamento. 132 O fato que Judas ficou embaraçado, ante a
reprimenda pública a que Jesus o submeteu, o amargurou até o ponto que, poucos dias mais tarde,
ele se ofereceu para trair a Jesus em troca de certo preço.”133
“tendo a bolsa” (Jo 12:6): Esta expressão indica que Jesus e seus discípulos recebiam oferta
de pessoas interessadas em manter Seu ministério, como, por exemplo, a das mulheres mencionadas
em Lc 8:2-3.
"bálsamo de nardo puro” um dos perfumes mais caros da época, importado do norte da Índia.
Uma libra correspondia a 300g e cada grama valia um denário. O valor total do nardo derramado
por Maria era, portanto, 300 denários, que equivalia a um ano de trabalho de um trabalhador
comum. “vaso de alabastro” O termo significa “sem alças”. Em seu uso helenístico e romano,
132
UNGIR: A prática de ungir o corpo friccionando-o com óleo e outros ungüentos era vulgar no clima quente da
Palestina, tornando-se uma necessidade para saúde, conforto e bom aspecto pessoal. O ungir a cabeça com óleo ou
ungüento era prova de consideração que o hospedeiro algumas vezes dava aos seus hóspedes (S1 23:5; Mt 26:7; Lc
7:46; Jo 11:2; 12:3). Quando se punha de parte o costume, era sinal de luto ou de desgraça (Dt 28:40; Mq 6:15). O
modo de manifestar o respeito a um morto era ungi-lo com óleo (Mt 26:12; Mc 16:1; Lc 23:56). Isaías (21:5) refere-se
ao costume de untar o escudo com azeite, antes de o guerreiro ir para a batalha. O objetivo desta operação era fazer
deslizar os golpes que sobre ele caíam.
O óleo era empregado em várias observâncias religiosas. O tabernáculo foi dedicado a Deus com o “óleo da santa
unção”. Foi empregado em Arão e seus filhos, quando foram consagrados ao sacerdócio, e todas as vezes que um levita
ascendia ao lugar de sumo sacerdote, era nessa ocasião ungido (Lv 16:32). Saul, por expressa determinação de Deus, foi
ungido para exercer o seu real cargo, estando também escrito na Biblia que receberam a devida unção os reis Davi,
Salomão, Jeú e Joás. Com efeito, foi Davi ungido três vezes (I Sm 16:13; II Sm 2:4; 5:3). A frase “meus ungidos” usa-se
como equivalente a “meus profetas” em Sl 105:15; I Cr 16:22.
É desta prática de ungir com óleo os que são consagrados ao serviço de Deus, que deriva o título hebraico de
“Messias” e o seu equivalente grego “Cristo”; e Cristo é o ungido “profeta, sacerdote e rei”, ungido na verdade com o
Espírito Santo e com virtude (At 10:38). Também se diz dos que seguem a Cristo que são “ungidos” por Deus (II Co
1:21; I Jo 2:20, 27). – A. R. Buckland, Dicionário Bíblico Universal. Editora Vida, 1993 (7ª imp.), p. 438.

UNGÜENTO: Consistia de azeite de oliveira, mirra, canela, cálamo e cássia; os ingredientes sólidos provavelmente
eram pulverizados e fervidos no azeite de oliveira. O ungüento com o qual Jesus foi ungido era um produto do nardo.
Segundo Plínio, os ungüentos eram preservados com melhores resultados em receptáculos de alabastros. Nestas
condições, os ungüentos melhoravam com a idade, e se tornavam valiosíssimos depois de alguns anos.
133

Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova, 2001 (2ª ed., reimp.), p. 198.
146
refere-se aos frascos de qualquer tipo de material, sem alças, contendo perfume. Existem aqueles
cujo material era a calcita, uma forma compacta e cristalina de carbonato e cálcio, de cor branca ou
entre o amarelado e branco. Os frascos transparentes se constituíam artigos de luxo.

Ética judaica em banquetes ou jantares: Quando recebia convidados em sua casa, era costume
do anfitrião ungir a cabeça do convidado e lavar seus pés (tarefa designada aos escravos e às
mulheres). Em caso de unção, colocava-se na cabeça do visitante um pequeno cone de um material
à base de óleo, cheio de perfume. Em contato com o corpo, o cone se derrete lentamente e o
perfume é exalado, além do líquido pingar na roupa da pessoa. Contudo, apesar desta prática ser
usual não foi o caso aqui citado, do jantar em Betânia. Todavia, todos os Evangelhos concordam
com o pensamento de Jesus sobre este gesto de Maria (conf. Mt 26:10-13; Mc 14:6-9; 10:12, 7-8)

“antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura” Jesus tinha predito Sua morte em várias
ocasiões. Possivelmente Maria tivesse entendido o propósito da vinda de Cristo ao mundo como “o
Servo sofredor” (Is 53), e assim ela derrama o óleo sobre Sua cabeça como se estivesse ungindo um
Rei. O costume de se colocar perfume no corpo do defunto e também à sua volta estava ligado ao
fato de que os familiares e amigos visitavam o sepulcro, durante o primeiro ano de sepultamento, e
o perfume do nardo ajudava amenizar o mau cheiro causado pela putrefação do cadáver.
Diferenças entre essa unção e a de Lucas 7:36-50:

PRIMEIRA NARRATIVA DE UNÇÃO SEGUNDA


TEXTO: Lc 7: 36-50 TEXTO: Mc 14:3-9; Mt 26:6-13; Jo 12:1-8
LOCAL: Casa de um fariseu. Geralmente os banquetes LOCAL: Casa de Simão, o leproso; uma ceia oferecida por ele.
eram aberto ao público. UNÇÃO: Maria de Betânia, irmã de Lázaro. Ela usou nardo
UNÇÃO: Uma mulher pecadora, conhecida na cidade puro e ungiu a cabeça de Jesus.
pela sua má reputação. Ela usou ungüento e ungiu os RESULTADO: Onde for pregado em todo o mundo o
pés de Jesus. Evangelho, será também contado o que ela fez, para sua
RESULTADO: A mulher é perdoada de seus pecados. memória.

Entrada triunfal em Jerusalém: Jesus se declara o Messias (Mc 11:1-11; Mt 21:1-11, 14-17; Lc
19:29-44; Jo 12:12-19)
Foi no domingo anterior à sua morte. Jesus aparecera como o Messias predito há muito tempo.
Durante Seu ministério, ele se proclamara à nação com viagens e milagres incessantes, e também
por meio das viagens e milagres dos Doze (Mt 12) e dos 72 (Lc 10). Jesus sabia que os governantes
da nação já haviam tramado sua morte. Estava pronto para isso. Numa grande demonstração pública
que servia de notificação final para a Cidade Santa, ele entrou em Jerusalém em meio às aleluias e
hosanas das multidões cheias de expectativa.
Diversos aspectos da entrada triunfal de Jesus, em Jerusalém, no domingo de Ramos,
excitaram as esperanças messiânicas dos judeus. A recente ressurreição de Lázaro reativara as
esperanças deles de que Jesus, afinal, mostraria ser um Messias exibidor de poder. Uma vez mais,
tal como quando Jesus multiplicou pães para os cinco mil homens, era o período da Páscoa,
exatamente a época do ano em que os judeus esperavam que o Messias se daria a conhecer. E Jesus
iniciou Sua entrada triunfal em Jerusalém partindo do monte das Oliveiras, o lugar de onde Zacarias
predissera que o reino messiânico seria estabelecido (ver Zc 14).
Jesus veio montado em um jumentinho destreinado, o qual jamais fora usado antes com esse
ou outro propósito, e, por isso mesmo, apropriado para esse uso sagrado. Podemos inferir, do relato
de Mateus, que para manter na linha o jumentinho destreinado, a mãe do animal era mantida a seu
lado. Gundry informa que os ramos de palmeiras, que as multidões espalharam pelo caminho,
simbolizavam o nacionalismo judaico, conforme fica demonstrado nas moedas cunhadas com
palmeiras, emitidas pelos judeus daquele período. A utilização de ramos de palmeiras, nesta
oportunidade, demonstrou que as multidões ainda tinham em mente o aparecimento de um Messias

147
nacionalista e político.134 Porém, ao invés de entrar a galope na cidade, em um cavalo de guerra, de
conformidade com as idéias do povo, Jesus entrou em um jumentinho, como se fora um manso e
pacífico monarca espiritual (um sinal positivo de seu caráter messiânico, contudo, consoante a
declaração profética que se acha em Zacarias 9:9). A exclamação “Hosana!” era mais ou menos
equivalente ao moderno “Deus salve o rei!” E quando os fariseus pediram de Jesus que fizesse
silenciar os gritos de Seus discípulos, Ele retrucou que se Seus discípulos não proclamassem Sua
missão messiânica, as próprias pedras o fariam. Jesus pode ter querido dar a entender que, do ano
70 d.C. em diante, as pedras derrubadas de Jerusalém e seu templo haveriam de testificar com
eloqüência de Seu caráter messiânico. Por certo, Jesus não estava mais procurando manter esse fato
como um segredo; pois a crise já chegara.
Jumenta e jumentinho: Parece que eles esperavam que o proprietário do jumentinho soubesse
quem era o Senhor e estivesse pronto a emprestar-lhe o animal. Em outras ocasiões, Jesus
costumava andar a pé; aqui, a distância não era mais de duas milhas, indicando a importância do
acontecimento. Cumprimento de Zc 9:9 foi a motivação dessa atitude, embora os discípulos não
tomassem consciência disso antes da ressurreição (Jo 12:16). Os judeus geralmente consideravam
essa passagem como sendo messiânica. O jumento era um animal humilde e nenhum rei judeu
montara um deles oficialmente. Mas a brandura e humildade eram sinais inequívocos do Messias
preditos por Zacarias, que agora se cumpriam.
Hosana: Uma expressão hebraica que significa “Viva agora”. “hosana nas maiores alturas”,
significa: “Salve, agora, tu que estás nos mais altos céus”. É uma exclamação endereçada ao próprio
Deus. Os gritos da multidão, empregando as frases do Salmo 118:25-26, transforma-se em termos
de louvor e aclamação, como também um pedido de ajuda. Proclamavam suas esperanças em Jesus
como Messias, o Filho de Davi. Anteriormente, Cristo se esquivou a tais demonstrações públicas —
embora confessando sua messianidade a indivíduos (Jo 4:26; Mt 16:16-20), mas agora Ele fizera
cuidadosos preparativos para uma inconfundível apresentação pessoal à nação.
“Quem é este?” A aclamação messiânica provocou a pergunta da parte daqueles que talvez
não conhecessem Jesus.

Jesus chora sobre Jerusalém (Lc 19:41-44)


“Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou” Ele via profeticamente as misérias que
sobreviriam a Jerusalém depois de sua rejeição.
CHOROU: A palavra subtende pranto ou choro audível, diferente do choro em Jo 11:35, onde
ele derramou lágrimas silenciosas. Seu grande e magnânimo coração se comove profundamente e,
não podendo conter as lágrimas, chora, soluçando. Lamentou a oportunidade perdida.
Morris comenta: Estes homens tinham a revelação que Deus fizera conhecida nas Escrituras
do Antigo Testamento. Tinham a evidência continuada que Deus estava ativo na vida e no mi-
nistério de Jesus. Podiam perceber que nEle Deus não Se esquecera do Seu povo. Havia toda razão
para eles darem as boas-vindas a Jesus conforme fizeram os Seus discípulos. Recusaram-se, no
entanto, a aceitar toda esta evidência. Rejeitaram o Messias de Deus. Agora teriam que agüentar as
conseqüências da sua rejeição. Foi isto que provocou as lágrimas de Jesus.
“não deixarão pedra sobre pedra” O cerco e a tomada final de Jerusalém pelos romanos, sob
ordens de Vespasiano e Tito, no ano 70 d.C., com exceção de alguns alicerces meio enterrados,
quase não há vestígios da Jerusalém daquele tempo.

Nota: E tal como agiu durante a maior parte dos dias da semana da paixão, Jesus regressou a
Betânia, para ali passar a noite, a fim de retomar a Jerusalém no dia imediato.

O templo purificado; a figueira amaldiçoada (Mc 11:12-19; Mt 21:12-13, 18-19 e Lc 19:45-48)


Como Messias Jesus entrou em Jerusalém, e como Messias Ele purificou o templo.
Alguns estavam trocando dinheiro; outros estavam vendendo animais para os sacrifícios.
Parece que estavam fazendo seus negócios no átrio dos gentios, o único lugar no Templo onde um
134
Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento, p. 199.
148
não-judeu poderia ir para orar e meditar. Se o sistema do Templo tinha de continuar, era necessário
que fossem providenciadas tais dependências. Mas não era necessário que funcionassem no recinto
do Templo, e foi isto que deu origem às objeções de Jesus. Expulsou os que ali vendiam. Lucas não
menciona os que compravam, nem os cambistas, mas Mateus e Marcos nos dizem que Ele tratou
deles também. Jesus repreendeu os negociantes ao indicar a diferença entre a desonestidade deles
(cf. Jr 7:11) e a verdadeira natureza do Templo como casa de oração (cf. Is 56:7).
Taker comenta: A figueira que Jesus defrontou ao voltar de Betânia para Jerusalém, na
segunda-feira bem cedo, tinha toda a aparência de poder satisfazer-lhe a fome. Como normalmente
algum fruto aparecia numa figueira antes das folhas, quando uma árvore dessas estava com toda a
sua folhagem, quem dela se aproximasse muito naturalmente esperaria encontrar boa colheita. Do
mesmo modo, a nação judaica apresentava perante o mundo a promessa de que era rica de frutos
espirituais. Ainda podia mostrar muitos sinais externos de que era religiosa. Mas, estava ficando
infrutífera por causa do seu legalismo estéril e do seu cerimonialismo superficial. Uma árvore assim
sem fruto, apesar de parecer viva estava de fato morta; e Jesus prediz a sua destruição.
A expressão “Porque não era tempo de figos” significa que ainda os figos, naquela época,
estariam verdes. As figueiras da Palestina, entretanto, normalmente retinham alguns figos verdes
(ou de inverno), que não haviam amadurecido durante os meses de outono.

Alguns gregos procuram entrevistar Jesus (Jo 12:20-36)


Bruce: Estes gregos podem ter vindo de qualquer parte do mundo de fala grega,
possivelmente de uma cidade grega da própria Palestina. Como em outras partes do NT, o termo é
usado para indicar gentios de língua grega. Sem dúvida, estes eram gentios tementes a Deus, como
Cornélio de Cesaréia (At 10) ou aquele outro centurião de Cafarnaum que amava o povo judeu e
lhes construiu uma sinagoga (Lc 7:5); em outras palavras, eles pertenciam àqueles gentios que se
adaptavam ao estilo de vida judeu e ao culto na sinagoga, sem se tornarem completamente
prosélitos ou convertidos ao judaísmo. Estas pessoas ocasionalmente subiam para Jerusalém para
adorar nas festas (como o eunuco etíope em At 8:27); eles podiam entrar no pátio exterior do templo
que, por isso, era chamado de “pátio dos gentios”. A passagem para os pátios interiores era proibida
aos gentios, sob pena de morte, e havia placas de advertência afixadas na mureta — “o muro da
separação” — que separava os pátios interiores do pátio exterior, para que não esquecessem de
guardar distância.
No templo, alguns gregos — evidentemente prosélitos gentios ou tementes-a-Deus 135 — que
tinham feito uma peregrinação para participar das festividades pascais, solicitaram de Filipe (um
nome grego) que lhes fosse concedida uma audiência por Jesus. Filipe transmitiu o pedido a André
(outro nome grego) e, juntos, aproximaram-se de Jesus. Jesus respondeu — embora não tenha sido
esclarecido se aos gregos ou se a Filipe e André — que a hora de Seu sofrimento e exaltação fi-
nalmente havia chegado. Comparou Ele a Sua morte, sepultamento e ressurreição, e a vida eterna
resultante em prol de todos quantos cressem, a uma semente que cai por terra, germina e cresce na
forma de uma vida multiplicada. Ora, quando Jesus aludiu à Sua morte, os judeus objetaram,
dizendo que, nesse caso, Ele não poderia mesmo ser o Messias. Conforme o conceito dos judeus, o
Messias não morreria (cf. Is 9:7; Ez 37:35; Sl 72:17). Daí, portanto, concluíram que o moribundo
Filho do homem, de quem Jesus falava, necessariamente tinha de ser diferente do Messias imortal, e
que Jesus por certo se estava afirmando ser o Filho do homem, e não o Messias.

“Agora está angustiada a minha alma” Jesus pressente dores atrozes que o esperam: ser
preso, amarrado, esbofeteado, chicoteado, ridicularizado, crucificado e morto — e tudo isto é
135
Os prosélitos do sexo masculino tinham de ser circuncidados. Todos tinham de batizar-se na presença de
testemunhas e (idealmente) oferecer um sacrifício no templo de Jerusalém.
A despeito de seu espírito intensamente nacionalista, o judaísmo atraía grande número de prosélitos, nome aplicado
aos plenamente convertidos, e de tementes a Deus, que eram gentios dispostos a praticar o judaísmo ao menos em parte,
embora não quisessem passar pelo rito da circuncisão nem observar os tabus mais estritos do judaísmo. Esses gentios
achavam que a teologia judaica é superior ao politeísmo e às superstições gentílicas, porquanto os judeus davam ênfase
à crença monoteísta em um único Deus e se opunham à idolatria. — Robert H. Gundry.
149
terrivelmente sério. Todas as coisas pelas quais Ele tem de passar constituem a razão da Sua vinda;
Ele precisa enfrentá-las todas. E ora para que o nome do Pai seja glorificado em tudo o que o Filho
tem de passar “nesta hora”. A sua oração foi autenticada por uma voz celestial; recebe nesta hora a
confirmação celestial que o caminho da obediência o levará à glória final. O Pai confirma
publicamente a obediência do Filho. Quando o povo procura saber o que significa o som nos céus,
Jesus lhes declara que aquela voz falou por causa deles ou para benefício deles. Ele não precisava
de confirmação audível do plano do Pai, mas para eles isto servia de sinal de que o ponto de
referência de todos os tempos estava diante deles, o julgamento do atual sistema do mundo. Através
da sua vitória iminente, Jesus traria bênçãos universais. E, quando Ele tiver sido levantado, exaltado
e glorificado, Ele (como um ímã espiritual) atrairá para si gentios e judeus, sem distinção. Já foi
feito alusão a isto quando Jesus falou das “outras ovelhas” que serão reunidas com as que o Pastor
de Israel chamar do rebanho judaico (Jo 10:16), e dos “filhos de Deus, que andam dispersos” que
Jesus irá “reunir em um só corpo” com sua morte (11:52). Portanto, esta é a sua resposta à pergunta
dos gregos, sintetiza Bruce: Dentro de pouco tempo eles poderão achegar-se a Ele com a mesma
liberdade dos (no momento) seus discípulos judeus. Sua morte eliminará todas as barreiras raciais e
religiosas. Para usar a linguagem de Lucas 12.50, Ele estava limitado até passar pelo batismo que
lhe estava ordenado; vencido isto, todas as limitações haveriam de desaparecer.

DOUTRINA DA CRUZ Ver Jesus, no sentido mais profundo, significa vê-lo pela fé, como o
Filho Unigênito de Deus que se fez carne e cumpriu a gloriosa missão de oferecer a Deus o
sacrifício da cruz. Sofreu insultos, escárnios, tristeza até a morte; foi preso, encravado na cruz pelos
pecados da humanidade, para salvar os pecadores. E significa, ainda, ver, pela mesma fé, sua vitória
sobre a morte, sua ressurreição e sua glorificação assentando-se à destra do Pai, intercedendo por
nós.

A figueira infrutífera é encontrada seca (Mc 11:19-25; Mt 21:19-22 e Lc 21:37-38)


Na manhã seguinte, a caminho de volta a Jerusalém, os discípulos notaram que a figueira que
fora amaldiçoada por Jesus se tinha secado. Como noutros trechos, Mateus abreviou a sua narrativa,
de tal modo que, em seu evangelho, a impressão que se tem é que o incidente inteiro ocorreu em um
único dia. O confronto com Marcos demonstra que o termo “imediatamente”, em Mateus 21:19,
deve ser tomado em sentido lato, como uma referência ao dia seguinte. Muitos estudiosos acreditam
que a maldição contra a figueira estéril simboliza o julgamento divino contra Israel (comparar com
Lc 13:1-9). Porém, tudo o que o próprio Jesus extraiu do incidente foi uma lição a respeito da fé,
provavelmente a fim de fortalecer a Seus discípulos, por causa de Sua morte iminente e de Seu
retorno aos céus.

De volta ao templo, Jesus é interrogado


Visto que a presença de multidões simpáticas a Jesus, formadas por peregrinos provenientes
da Galiléia, impedia que Ele fosse detido em público, pelos membros do Sinédrio, os líderes judai-
cos (três grupos afluentes: a hierarquia espiritual, os representantes da congregação, e os intérpretes
da lei escrita e da tradição oral — Mt 21:15 e 23) procuraram destruir a Sua influência, lançando-O
no descrédito através de um debate teológico. Foi assim que uma batalha de espirituosidade se
desenrolou nos átrios do templo:
a) Interrogado pelos principais sacerdotes e anciãos quanto à autoridade com que Ele agia
(Mc 11:27—12:12; Mt 21:33—22:14 e Lc 20:1-19):
“Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa autoridade?” Somente eles se
consideravam com autoridade em questões de religião, pois faziam parte do Sinédrio; portanto,
quem quisesse ensinar religião precisava obter licença, doutro modo, seria mestre espúrio e falso.
RESPOSTA DE JESUS: Usou um contra-desafio que consistiu de pertinente indagação
acerca da origem da autoridade de João Batista. Como não deram resposta à pergunta de Jesus,
significou que a iniciativa do debate sobre a autoridade passou agora para Ele, e Ele a aproveitou
contando três parábolas. Em cada uma delas, o tema é o desprazer divino com os representantes

150
oficiais da nação judaica.
1. Os dois filhos: O pai representa Deus. O filho, que dissera que não obedeceria a seu pai,
mas que posteriormente se arrependeu e obedeceu, representa os judeus não religiosos que estavam
se arrependendo e entrando no reino de Deus, em resultado do ministério de Jesus. E o filho que
dissera que obedeceria, mas não obedeceu, simbolizava os líderes judeus, justos a seus próprios
olhos, que se recusavam por aceitar o governo de Deus na pessoa de Jesus, o Messias.
2. A vinha: Parábola baseada em Is 5:1-2 e, possivelmente, também no Sl 80:8-18. O
proprietário da terra é Deus, a vinha é o reino de Deus (Lv 21:43), os servos são os profetas, o filho
é Jesus, os lavradores são os justos que se opõem a Jesus, a morte do filho é a crucificação, e a
remoção dos lavradores é a transferência do reino para um novo povo de Deus, que inclui os
gentios.
3. As bodas: Essa parábola profetiza a destruição de Jerusalém como resposta à rejeição de
Jesus pelos judeus (Lc 22:1-10), mas também a ameaça de condenação a todos os futuros cristãos
que se recusassem a vir a Cristo sob Suas condições (vs. 11-14).

b) Interrogado pelos fariseus e herodianos sobre o imposto pago a César (Mc 12:13-17; Mt
22:15-22; Lc 20:20-26):
“Foi uma tentativa de enredar Jesus, de levá-lo a fazer algum tipo de declaração que pudesse
ser usada como evidência de deslealdade ao governo romano e assim servir de pretexto para
entregá-lo a Pilatos. Jesus, com um golpe de mestre, proclamou a separação entre a igreja e o
Estado. Os cristãos devem ser obedientes ao seu governo, mas o governo não tem o direito de
determinar a religião de seus súditos.”136
RESPOSTA DE JESUS: “Dai a César o que é de César” Essa ordem expressava o fato de ser
lícito pagar o tributo, pois César era o soberano imperador, e era dever do povo sustentá-lo no seu
alto posto e no seu trabalho pelo governo do povo. “e a Deus o que é de Deus” Não somente o
povo deveria pagar o tributo de meio siclo para o serviço do templo, conforme ordens divinas (Êx
30:13), mas devia dar a Deus mais do que isso: Bens, afeição, gratidão, deveres espirituais etc. “A
obediência a César não é senão a aplicação do princípio fundamental da obediência a Deus, de
quem deriva qualquer autoridade”. Quem, pois obedece a Deus, obedece também a César, se César
obedece a Deus.

c) Interrogado pelos saduceus sobre a ressurreição (Mc 12:18-27; Mt 22:23-33 e Lc 20:27-40):


A história hipotética que narraram baseava-se na lei levita de casamento (Dt 25:5-10), cuja
finalidade era evitar que alguém morresse sem posteridade.
RESPOSTA DE JESUS: Os saduceus não criam em qualquer doutrina que não pudesse ser
derivada do Pentateuco. Jesus respondeu-lhes, provando a ressurreição a partir de Êxodo 3:6, depois
de afirmar-lhes que não haverá casamento no céu. Na ressurreição, a vida não é material, mas
espiritual; os corpos dos ressuscitados são espirituais e não físicos; são como anjos do céu. O Deus
de Abraão, de Isaque e de Jacó é Deus de vivos e não de mortos, porque se revela aos vivos que o
buscam sinceramente, como Abraão o buscava (Gn 12:1-3), pois Deus lhes conhece as inclinações e
pensamentos de seus corações.
“Mas as multidões, ouvindo isso, se maravilhavam de sua doutrina”. É que a doutrina do
Mestre é verdade, e os que têm o coração inclinado à verdade aceitam-na alegre e humildemente.
d) Interrogado por um dos intérpretes da lei sobre o grande mandamento (Mc 12:28-34; Mt
22:34-40):
RESPOSTA DE JESUS: O mandamento que Jesus citou como o primeiro acha-se em Dt 6:4-
5; o segundo acha-se em Lv 19:18. Observe que Jesus colocou Deus em primeiro lugar e nosso
próximo em segundo. O que existe de mais importante na vida é a atitude para com Deus. Tudo
depende disso. Jesus é Deus encarnado, e a única coisa que Ele deseja é que o amemos até mais do
que amamos nossa própria vida. Posteriormente, depois da ressurreição, a única coisa que Jesus

136
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 507.
151
finalmente quis saber de Pedro — e lhe perguntou três vezes em seguida — foi: “Você me ama?”
(Jo 21:15-17).
A resposta do Mestre foi a divina síntese de todos os mandamentos da Lei de Deus, sendo o
amor a essência de um só princípio divino. E tal foi a autoridade, o peso da resposta do Mestre, que
ninguém ousava mais interrogá-lo.

Messias divino e davídico: Jesus confunde os inimigos (Mc 12:35-37; Mt 22:41-46; Lc 20:41-44)
Jesus encerrou sua sessão de ensino no templo invertendo a situação contra seus
questionadores, propondo uma pergunta sobre Salmos 110:1 137 — ao indagar por que Davi teria se
referido ao Messias como “meu Senhor”, Jesus está deixando entendido que o Messias deveria ser
divino, tanto quanto humano.
Foram colocados num dilema irrespondível, a menos que ratificassem seu conceito parcial. “O
Messias é, ao mesmo tempo, inferior a Davi como seu filho segundo a carne, e superior a ele como
Senhor de um reino do qual Davi mesmo era súdito, e não soberano. Se haviam convencido de ser
Ele, Jesus, tão superior a eles em doutrina, em sabedoria, em argumentação, qualquer disputa
ulterior não faria senão pôr às claras a ignorância deles e cobri-los de vergonha.”
Se na ótica dos escribas o Messias era simplesmente filho de Davi, ou seja, descendente de
Davi, ele, o Messias, seria então menor do que Davi. Jesus levanta esta questão levando em conta o
pensamento da época de que as gerações anteriores eram consideradas maiores e mais sábias do que
a geração presente. Davi era o rei ideal, e seus descendentes eram por definição menores do que ele.
Jesus tenta aqui corrigir uma interpretação errônea acerca da profecia messiânica, e deixa claro que,
se Davi o trata por Senhor, o Messias na verdade era maior que Davi. Jesus não está negando que o
Messias seria da descendência de Davi, está apenas esclarecendo que o Messias não era somente
filho de Davi, mas que também era Filho de Deus, ou seja, o Messias tinha a natureza terrena e
divina (cf. Lc 1:26-38). Esta análise tão sábia do Salmo emudece os fariseus, os quais daqui para
frente não mais se atrevem a interrogar Jesus.

Denúncia contra os escribas, no último discurso público (Mc 12:38-40; Mt 23 e Lc 20:45-47)


Na mesma terça-feira dos quatro interrogatórios anteriores, Jesus acusa os escribas, em geral,
de exibição, avareza e hipocrisia — poder moral e espiritual valem mais que vestes sagradas e
ostentação.
Tantas crostas de tradição, hipocrisia, injustiça e apatia revestiam o casco do navio do
judaísmo (a fé judaica) que, da perspectiva de Jesus, ele estava ameaçado de afundar. “Vocês
ensinam as tradições dos homens como se fosse a lei e com isso estão transgredindo a lei!”, Ele os
acusou. Em uma clássica comparação, em Mateus 23, Jesus falou a uma grande multidão, que
incluía escribas e fariseus (líderes religiosos) e dirigiu sete “ais” diretamente a eles, citando-os
nominalmente. O que Ele queria dizer denunciando-os era que eles guardavam tradições de homens,
mas não guardavam a lei de Deus. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque...
• vocês não entrarão no reino dos céus,
• por meio dos seus ensinamentos impedem que outros entrem nele,
• aproveitam-se de pessoas em desvantagem,
• andam muito para buscar convertidos,
• mas os pervertem como vocês são pervertidos,
• guardam pequenas porções da lei, mas ignoram a maior parte,
• são justos por fora, mas injustos por dentro,
• parecem justos diante dos homens, mas estão cheios de hipocrisia e ilegalidades,
• honram profetas do passado com monumentos, mas matam os profetas atuais.”
Isso é o que se pode chamar “Repreensão causticante”. Jesus os chamou de hipócritas, guias
cegos, sepulturas caiadas, serpentes, raça de víboras e homicidas. Mas, na maior parte, a repreensão

137
Salmos 110:1 é o texto vetero-testamentário mais constantemente citado no Novo Testamento. Tanto Jesus quanto os
fariseus reconheciam tratar-se de uma profecia messiânica, proferida por Davi, sob a influência do Espírito Santo. Os
judeus não criam, de modo geral, que o Messias haveria de ser um ente divino.
152
caiu em ouvidos de mercador.
O “assentar-se na cadeira de Moisés” é uma figura de autoridade, isto é, os escribas e
fariseus tomaram o lugar de mestres e também de certa autoridade oficial, nas sinagogas, para
ensinar e aplicar a Lei de Moisés. Daí o Mestre ensinar a seus discípulos que respeitassem a
autoridade a eles conferida pela lei civil e praticassem o que eles ministravam desde que fosse de
acordo com a Lei de Deus.
Os “filactérios” eram uma pequena caixa de couro, de formato cúbico, que continha quatro
pedaços de pergaminhos com partes da Lei de Moisés. Era amarrada à testa, entre as sobrancelhas, e
outra no braço esquerdo, junto ao cotovelo, durante a oração. O Senhor Jesus critica não o costume
em si, mas o espírito que o corrompeu.

Jesus destaca, com louvor, a pequena oferta da viúva pobre (Mc 12:41-44; Lc 21:1-4)
Jesus ainda estava no recinto do Templo e, cansado, foi sentar-se defronte ao tesouro, onde
havia 13 gazofilácios, cada um designado para colocação de determinadas ofertas ou dízimos ou
impostos, para o sustento dos administradores do Templo, sendo umas ofertas voluntárias, outras
obrigatórias (IIRs 12:9; IICr 24:8; Mc 3:10). Portanto, ricos e pobres faziam ali suas contribuições.
E o Senhor, vendo uma pobre viúva lançar num dos gazofilácios duas pequenas moedas, chamou a
atenção de seus discípulos, como que dizendo: “Veja aí o contraste entre os fariseus que, em nome
da religião, devoram a casa das viúvas para se enriquecer, e esta pobre viúva, que está oferecendo
de espontâneo amor, dando a Deus tudo quanto possui”. Jesus olha para o motivo do contribuinte,
suas prioridades; o valor essencial da pura oferta reside no sacrifício, e cada contribuição tem seu
valor relativo e não absoluto.
Foi o último ato de Jesus no Templo.

Por que os líderes judeus se opunham a Jesus 138


1. Por ciúmes — ele era aceito prontamente pelas pessoas comuns.
2. Por sua autoridade — ele ensinava com autoridade que se opunha à deles.
3. Por pressentirem perigo — ele fazia afirmações messiânicas.
4. Por suas atitudes liberais — ele simplificava a lei e rejeitava suas regras.
5. Por sua atitude social — ele se associava às pessoas erradas.
6. Por sua falta de educação formal — ele não tinha sido educado apropriadamente e não tinha credenciais.
7. Pelo embaraço que lhes causava — ele os contradizia publicamente.
8. Por seu poder — ele fazia uma obra milagrosa que eles não conseguiam fazer.
9. Por seus medos políticos — ele se mantinha neutro em relação ao domínio romano.
10. Por seu convite ao arrependimento — ele negava a justiça deles.
11. Por seu conhecimento — ele vencia debates citando as Escrituras.
12. Por sua popularidade — multidões viajavam para ouvi-lo.

JESUS, À SOMBRA DA CRUZ, AINDA PROCURA PREPARAR


OS DISCÍPULOS PARA O QUE HAVIA DE ACONTECER

O discurso escatológico do monte das Oliveiras (Mc 13; Mt 24 e 25; Lc 21:5-36)


Ante a exclamação que alguém fez, relativamente à beleza e aos ornatos do templo, 139 Jesus
retrucou fazendo negra predição sobre sua futura destruição: “Não ficará pedra sobre pedra”.
Alguns dos discípulos, diante disso, indagaram quando isso ocorreria e como poderiam saber que se
aproximava o fim da nossa era e a parousia.140 A longa resposta de Jesus é conhecida como “o
Pequeno Apocalipse”, ou o “Discurso do Monte das Oliveiras”, por causa do monte desse nome,
138
Walter A. Elwell, Descobrindo o Novo Testamento. Editora Cultura Cristã, 2002, p. 124.
139

Esse Templo era o terceiro edificado em Jerusalém: o primeiro foi construído por Salomão e destruído por
Nabucodonosor; o segundo foi construído por Herodes, o Grande. Vários escritores da antiguidade mencionam que este
terceiro Templo foi construído de grandes blocos de pedras brancas e que tinha o telhado e as paredes ornados de ouro e
prata. As pedras eram tão brancas que “pareciam um monte coberto de neve” (historiador Josefo).
140

153
onde ele foi proferido. Jesus previu doutrinas falsas, guerras, terremotos, fomes, pragas e
perseguições. Porém, em meio a todas essas calamidades, o evangelho, finalmente chegará a todas
as nações. A angústia chegará a seu ponto culminante de intensidade durante a tribulação, os
últimos e poucos anos, antes do retorno de Cristo em poder e majestade.
Antes de responder detalhadamente quanto aos sinais dos últimos tempos, Jesus teve o
cuidado de prevenir os discípulos contra os falsos profetas e contra falsas heresias que surgiriam,
procurando desviar os fiéis da verdade do Evangelho. Uma mesma recomendação foi feita para
duas épocas distintas.
a) Heresias que os apóstolos e os primeiros discípulos iriam enfrentar (Mt 24:4-5; Mc 13:5-6).
b) Heresias que nós mesmos temos enfrentado nos últimos dias (Mt 24:23-36; Mc 13:21-23).

A abominação da desolação
Comentário de Gundry:141 As instruções de Jesus a Seus seguidores parece ter visado so-
bretudo àqueles que estarão vivendo na Palestina durante a tribulação. Esses deverão aguardar “a
abominação desoladora”, predita por Daniel (9:27; 11:31 e 12:11). Essa expressão se refere à
contaminação do templo, o que fará com que o mesmo venha a ser olvidado por judeus piedosos, tal
como no período dos Macabeus, quando Antíoco Epifânio ordenou que fosse erigido um altar
dedicado a Zeus, no templo, e um animal imundo foi sacrificado sobre esse altar, com o resultado
que os judeus ortodoxos se recusaram a adorar ali até que Judas Macabeus purificou e reconsagrou
o templo. Alguns sustentam que Jesus estava aludindo à futura profanação do templo, mediante a
imagem do imperador romano, nas insígnias usadas pelo exército romano que capturou e destruiu a
cidade de Jerusalém no ano de 70 d.C. Porém, o confronto com os trechos de Dn 9:27; II Ts 2:4 e
Ap 13:11ss. favorece a idéia que Jesus se referia ao ato de um ímpio governante, chamado “anti-
cristo”, “homem do pecado” ou “besta”, e que será o déspota mundial do período ainda futuro da
tribulação. Esse ato romperá um acordo feito com os judeus, forçando-os então a cessar os
sacrifícios oferecidos a Deus em seu templo (reedificado) e exigindo deles que adorem a imagem do
anti-cristo, ali levantada.
Conforme disse Jesus, ao ocorrerem tais acontecimentos, os Seus seguidores de Jerusalém e
da Judéia deveriam fugir para as montanhas. Uma vez mais, alguns têm visto o cumprimento dessas
palavras na fuga dos judeus cristãos, de Jerusalém para Pela, na Transjordânia, pouco antes do cerco
de Jerusalém, no primeiro século cristão. Porém, embora o caminho atravessasse regiões
montanhosas, a própria Pela não estava situada em terreno montanhoso. E Jesus ajuntou, sem
detença, que “logo em seguida à tribulação daqueles dias” Ele retornaria, com o acompanhatnento
de certos fenômenos celestes. Não obstante, Jesus não retornou então, e agora o ano 70 d.C. faz
parte da história antiga. Os eventos do ano 70 d.C. e proximidades talvez tivessem prefigurado o
que Jesus aqui dizia, mas dificilmente cumpriram as Suas predições. Para beneficio de seus leitores
gentios, Lucas alterou a difícil expressão judaica, “abominação desoladora”, apresentando, em seu
lugar, uma descrição sobre o cerco, captura e pilhagem de Jerusalém, por parte de povos gentílicos.
Porém, o mais provável é que nem mesmo Lucas se referisse ao ano 70 d.C., e ao prolongado
período de controle gentílico sobre Jerusalém, porquanto ele conserva a ordem que ordena a fuga
para os montes, em contrário do que os cristãos judeus fizeram naquele tempo. Antes, as referências
existentes em Lucas, tal como em Marcos e Mateus, apontam para a futura dominação de Jerusalém
pelos gentios, durante a porção final da tribulação.

A segunda vinda (Mc 13:1-37; Mt 24 e 25 e Lc 21:5-36)


O fim de nossa era terá lugar em meio a perturbações cósmicas. A conflagração de guerra e a
fumaça das cidades incendiadas e dos campos de batalha haverão de obscurecer a luz do sol e da
lua. Os meteoritos (estrelas cadentes) haverão de riscar o firmamento noturno. Então Jesus retornará
Parousia é termo grego comumente usado para indicar o segundo advento de Cristo, e significa presença, chegada,
vinda especialmente a chegada de um rei ou imperador, ou uma visita real; portanto, palavra mui apropriada para
indicar a vinda de Cristo em glória real.
141

Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento. Edições Vida Nova, 2001 (2ª ed., reimp.), p. 206-207.
154
a este mundo, na qualidade de Filho do homem. “Essa geração” — isto é, a geração que começar a
contemplar os prodígios da tribulação 142 — poderá estar certa de que o fim está verdadeiramente
próximo, embora o dia e a hora específicos continuem incertos. Nem mesmo Jesus sabia então qual
a ocasião precisa.143
Ao salientar quão inesperada será a Sua volta, no que concerne aos iníquos, Jesus estabeleceu
uma comparação com a geração de Noé. O dilúvio apanhou aquela gente inteiramente de surpresa,
no decurso de atividades humanas normais — “comiam e bebiam, casavam e davam-se em
casamento”, embora de forma alguma estas devam ser entendidas em mau sentido. Assim também o
retorno de Cristo, para julgar, surpreenderá aos espiritualmente despreparados, quer sejam
incrédulos confessos, quer seja, como no caso do mau servo da parábola contada neste trecho,
algum indivíduo que falsamente se professe discípulo. Todos os verdadeiros seguidores de Jesus
serão vigilantes, viverão retamente, e, em resultado disso, estarão preparados para a Sua volta.

SOBRE OS SINAIS DO FIM DO MUNDO (Mt 24:14, Mc 13:10): Como sinal específico do
fim, o Senhor citou a preparação do Evangelho. Jesus não só ordenou esta pregação (Mc 16:15-20)
como também preparou os seus para efetuarem sua ordem (At 1:7-8). O Senhor começou a obra em
Jerusalém e ela se estendeu por todas as terras (Is 29:13-24; At 13:41).
Cumpre-se já em nossos dias (Am 8:1). Aproveitemos esta oportunidade!

Eventos esperados na Judéia (destruição de Jerusalém) e aplicados à grande tribulação


futura (Mc 13:14-23; Mt 24:15-22; Lc 21:20-23)
Recomendações dadas por Jesus especificamente para este acontecimento (Mt 24:15-28):
1. A abominação no lugar santo (v. 15): Indica o exército romano que usava o brasão de César
como verdadeira idolatria e também sacrifícios pagãos em Jerusalém, ao proclamar Tito como
Imperador;
2. Fugir para os montes (v. 16): Como foi no tempo dos Macabeus, em que os judeus se
escondiam em cavernas das montanhas;
3. Quem estiver no eirado, não desça. Através do eirado seria mais fácil fugir, porque as casas
eram anexadas umas nas outras.
4. Quem estiver no campo, não volte. A fuga teria de ser rápida; não podia perder tempo;
5. Ai das grávidas e das que amamentam, pois não poderiam correr, seriam mortas.
6. Nem no inverno, nem no sábado. No inverno, as estradas estariam danificadas pelas chuvas.
No sábado, o judeu só poderia andar dois mil côvados (mais ou menos 900 metros).
7. Tribulação tão grande e dias abreviados (vs. 21-22):
a) Nunca um exército foi tão cruel como o de Tito, e Deus abreviou o sofrimento por causa
dos Seus que lá estavam;
b) O período chamado Grande Tribulação não se referindo a uma tribulação qualquer ou
uma série de acontecimentos dificultosos. Porém algo que assolará toda a face da Terra
(Jr 30:4-7; Dn 12:1; Ap 3:10).
8. O cadáver e os abutres. Jerusalém espiritualmente morta, sendo devorada pelos romanos.

NOTA HISTÓRICA: No ano 70 d.C., o general Tito (filho de Vespasiano, imperador de Roma)
marchou com seu exército sobre Jerusalém. A princípio não parecia que os romanos tomariam a
cidade. Após vários dias, o exército romano destruiu os muros, os palácios, as melhores casas e
arrasou com o Templo. Dizem os antigos que cavaram até as pedras dos alicerces, para retirar o
142
A ambigüidade das palavras “esta geração” deixa em aberto a possibilidade para que cada geração, depois da de
Cristo em diante, seja aquela que experimente os acontecimentos finais desta era. — Robert H. Gundry.
143
Isso parece subentender que, embora Jesus sempre tivesse tido a capacidade de valer-se de Sua onisciência divina (e
de Sua onipotência), Ele só o fazia quando isso era parte de Seu ministério messiânico. Assim, por exemplo, Ele teve de
aprender como se fora uma criança, e nessa oportunidade preferiu permanecer desinformado, ao mesmo tempo que
exibia um conhecimento sobre-humano, conforme a ocasião o exigisse. Por semelhante modo, Ele se cansava e se sentia
sedento, embora exercesse o poder de curar os enfermos e de ressuscitar aos mortos.
155
ouro, cumprindo-se assim o que Jesus profetizara: “Não ficará pedra sobre pedra”. Quando os
discípulos notaram o exército romano cercando a cidade lembraram-se da recomendação de Jesus e
fugiram para a Péreia ou Transjordânia, salvando-se, assim, da catástrofe que assolou a cidade.
Observação: A destruição de Jerusalém foi um marco no Reino Messiânico. Separou, distintamente,
o judaísmo do cristianismo.

Contra a “falsa parousia” (Mt 24:23-28)


Champlin comenta: A mensagem geral desta secção é que a vinda (ou parousia) do Filho do
homem não será uma ocorrência secreta, e, sim, universal e bem conhecida. Portanto, é tolice
alguém dizer, por necessidade de provocar agitação revolucionária etc., “Cristo está na casa de certo
zelote, no outro lado da cidade; vamos reunir-nos a ele para podermos resistir aos inimigos; e então
ele se revelará a todos”. Jesus advertiu contra as falsas auroras. Lê-se que nas áreas árticas, após a
longa noite de seis meses, algumas vezes surge a aurora; mas então as trevas engolfam tudo
novamente. Finalmente, porém, aparece a verdadeira aurora, mas somente no tempo certo. Assim
sucederá quando da vinda de Cristo — haverá muitas auroras falsas, muitas reivindicações
ilegítimas, muitos movimentos e milagres, muitos sinais e prodígios, mas todos eles anunciando
falsas “parousias”.
É interessante observar que os falsos profetas (Mt 24:11) é que criarão as dificuldades, e que
em seguida os falsos cristos (vs. 23-24) oferecerão saídas para essas dificuldades. Suas vítimas
iludidas criarão religiões e lançarão o grito: Ei-lo aqui! Contudo, os “eleitos” terão o discernimento
necessário para não dar ouvidos a tais indivíduos.

Sinais da verdadeira parousia (Mt 24:29-31)


Jesus passa a relatar diversos tipos de sinais que precederão de perto a “parousia”. A
mensagem geral é que o advento do Filho do homem será anunciado por certos desastres cósmicos
que não envolverão a vontade humana ou que não serão resultantes de qualquer ação humana; e que
por isso mesmo terão que ser considerados como uma intervenção divina. Há explicações amplas
desses acontecimentos, como nos capítulos oitavo, nono e décimo do livro de Apocalipse. Tais
eventos serão as dores de parto da “parousia”. A volta de Cristo ocorrerá com tribulações, confusões
e sofrimentos sem paralelo, e o próprio firmamento entrará num estado caótico. Haverá tremendos
terremotos, mas também surgirão grandiosos sinais no céu, períodos incomuns e prolongados de
trevas. O trecho de Ap 16:10 descreve um período incomum de trevas (escurecimento do sol), que
haverá de ter lugar.

O exemplo dado pela figueira (Mt 24:32-33; Mc 13:28; Lc 21:29)

O tempo exato da parousia é imprevisível (Mt 24:34-36)


Essa predição de Jesus é usada para acautelar os cristãos contra a tentativa de estabelecer
datas.

Preparando-se para a parousia (Mt 24:37—25:13)


a) A maioria será tomada de surpresa (vs. 37-41)
b) Os discípulos devem estar preparados (vs. 42-44)
c) Bons e maus servos (vs. 45-51)
d) Parábola das Dez Virgens: ilustração do preparo (25:1-13)

Mateus 24:36 — este versículo pode ser considerado a primeira de muitas implicações que
formam a segunda metade do discurso do monte das Oliveiras (24:36—25:46). Aqui Jesus entrelaça
uma série de parábolas e metáforas para enfatizar um tema central: os crentes têm de estar sempre
preparados para a volta de Cristo, não importa quando ela aconteça.
Tasker comenta: Por outro lado, Jesus deixa claro que não há meios de predizer os eventos
precisos que precederão o fim do século e a vinda final do Filho do homem, pois esses eventos

156
serão tão imprevisíveis e inesperados como a vinda do dilúvio nos dias de Noé, ou o arrombamento
de uma casa feito por um ladrão. Os homens e as mulheres estarão envolvidos em suas ocupações
habituais, cultivando campos, moendo cereal nos moinhos, fruindo o convívio da companhia
humana, casando e dando os seus filhos em casamento, quando, num momento em que Ele é menos
esperado, o Filho do homem virá. A pergunta suplementar dos discípulos, registrada no v. 3, e que
sinal haverá da tua vinda e da consumação do século?, mostra-se, portanto, irrelevante e
irresponsável. Mas há uma lição moral de suma importância que se deve aprender do próprio fato
de que ela é irrespondível. Como Jesus deixa claro nos vs. 42-44, os seus discípulos precisam estar
preparados para o inesperado; não devem ser como o pai de família roubado que deixou que a sua
casa fosse assaltada porque não se dera conta de que os ladrões não avisam de antemão a hora da
sua chegada! Sobretudo, como a subseqüente parábola do servo fiel e do infiel mostra, os que foram
colocados por seu Senhor em posições de responsabilidade especial, os líderes e mestres da igreja
cristã, devem estar tão constante e fielmente ocupados com o seu trabalho que, quando Ele voltar,
os ache prestando serviço a seu Senhor, “alimentando” os membros da sua família. Por outro lado,
se eles “tirarem proveito” do aparente atraso do retorno do seu Senhor, e intimidarem aqueles que
lhes foram confiados, e fizerem da satisfação dos seus apetites o seu interesse primário, o seu
destino último não será melhor do que o dos fariseus hipócritas, tão severamente denunciados nos
capítulos anteriores.

Os dois servos (Mt 24:45-51)


Servo fiel e prudente: Descreve o que fora colocado por seu senhor sobre os outros servos da
sua casa. O desempenho fiel de suas obrigações trará privilégios e responsabilidades aumentados
quando o seu senhor vier.
Servo mal: É apenas um servo de nome, pois ele zomba das instruções do seu senhor
(deficiência doutrinária), e assume ele mesmo autoridade (deficiência ética). Ele confunde a
incerteza da hora da vinda do senhor com a certeza de que ele não virá logo.

Eventos (sinais) que precederão a segunda vinda de Jesus

A Bíblia menciona diversos sinais que precederão a volta de Cristo. Aqui estão mencionados somente os que
foram preditos por Jesus, lembrando que os sinais apresentados por Ele não têm a finalidade de nos fornecer um
calendário detalhado de todos os eventos que deverão culminar em Sua vinda:
 Inúmeras religiões surgidas no mundo (Mt 24:23-24; Mc 13:6, 21-23)
 A volta de Israel para sua terra (Lc 21:24: Mt 24: 32-35; Mc 13:28-31). Israel, a figueira.
 Sinais (espantosos e grandes) no céu (Mt 24:29; Mc 13:24-25; Lc 21:25-26). Alguns afirmam que esses sinais
são cósmicos e que passarão desapercebidos aos incrédulos e aos discípulos indolentes. Outros dizem que esses
sinais são apenas uma figura da angústia humana diante da convulsão política e social do mundo.
 Comparação do tempo de Noé com a segunda vinda de Cristo (Mt 24:36-39).
 Pessoas intimamente ligadas serão separadas (Mt 24:40-41).
 Apostasia (Mt 24:10)
 O surgimento do anticristo (Mt 24:5, 23,26)
 Traição (Mc 13:12; Lc 21:16)
 Terremotos (Mt 13:7; Mc 13:8)
 Falsos cristos (Mt 24:5, 24; Mc 13:6, 21-23)
 Falsos profetas; falta de amor, escândalos e heresias no meio da Igreja (Mt 24:10-12, 24; Mc 13:21-23)
 Falsos sinais e milagres (Mt 24:24; Mc 13:22)
 Fome (Mt 24:7)
 Aumento da maldade (Mt 24:12)
 Perseguição de crentes (Mt 24:9; Mc 13:9-13; Lc 21:12-19)
 Peste (Lc 21:11)
 Sofrimento sem precedentes (Mc 13:17-1 9)
 Guerras e rumores de guerras; conflitos internacionais (Mt 24:6; Mc 13:7)
 Pregação mundial do evangelho (Mt 24:14; Mc 13:10)

157
As dez virgens (Mt 25:1-13; comparar com Lc 12:35-37)
A parábola das dez virgens144 é útil para ilustrar melhor ainda o contraste entre os preparados e
os despreparados. O noivo e seus amigos se tinham dirigido à casa da noiva, para escoltá-la até à
casa do noivo, onde as festividades matrimoniais teriam lugar. No entanto, demoraram-se até à
meia-noite, provavelmente porque a família da noiva insistia em que o noivo e seus familiares
brindassem a noiva com um dote mais rico. Isso exibe a relutância da família da noiva em desistir
de sua filha, mas também elogia ao noivo por haver escolhido uma jovem tão destacada, que
merecia um dote maior. Finalmente, porém, o noivo e seus acompanhantes trouxeram a noiva, em
cortejo, até à casa do noivo.
Naquele intervalo, as dez virgens (segundo Gundry, a natureza exata do relacionamento entre
elas e a noiva ou o noivo é desconhecida) tinham ficado a esperar munidas de lâmpadas, as quais
podiam ser ou tochas de trapos enrolados em um pau, que tinham sido mergulhadas por repetidas
vezes em azeite, ou então turíbulos de cobre, cheios de pixe, azeite e trapos, como combustível, ou
mesmo lamparinas de barro, com tubos, pavio e azeite de oliveira, como combustível. As virgens
conservavam acesas as suas lâmpadas porque não lhes seria fácil reacendê-las às pressas, se o
cortejo chegasse repentinamente. Cinco das donzelas tolamente negligenciaram a possibilidade de
demora, as suas lâmpadas ficaram sem combustível. O suprimento extra de azeite, trazido pelas ou-
tras cinco virgens, prudentes que eram, representa o estado de preparação para a volta de Cristo. Ao
chegar o noivo, as cinco jovens insensatas se tinham ido, para comprar mais azeite de oliveira. Mas,
onde? Era meia-noite. Esse traço irrealista dramatiza o fato que, chegada a parousia, será tarde
demais para alguém preparar-se. As virgens loucas são os que abraçam a “vida de crentes”, mas
sem Cristo na vida. Depois da “meia-noite” (fechada a oportunidade) clamarão mas não serão
respondidas.145

Riqueza confiada (Mt 25:14-30; Lc 19:11-27)


Um homem de negócio que vai para o estrangeiro entrega a três homens a seu serviço somas
de capital para que negociem com elas de maneira rendosa durante a sua ausência. O valor das
quantias dadas aos diferentes homens varia de acordo com a sua comprovada capacidade para os
negócios. Os dois que receberam as quantias maiores as empregaram em transações rendosas e
assim dobraram o seu valor, enquanto que o homem que recebeu a quantia menor ficou com tanto
medo de perdê-la, que a enterrou no solo, onde sabia que ao menos estaria fora do alcance dos
ladrões e não estaria sujeita aos azares do mercado financeiro flutuante.
A cautela exagerada do terceiro servo é tratada como uma quebra da confiança, pois ele não
estava lidando com dinheiro dele mas com dinheiro alheio; e a soma a ele confiada é transferida
agora para o homem que provou que era mais empreendedor.
Tasker comenta: No intervalo entre as duas vindas de Jesus, os discípulos devem, com o
empenho da sua vontade, fazer constante e prático uso dos dons do Espírito de que são dotados,
quer sejam os dons mais notáveis que variam com os diferentes indivíduos, quer sejam os dons de

144
Notas: 1. Entre os judeus, não se realizavam cultos na sinagoga, não se cumpriam atos de circuncisão, não se comia
a Páscoa, nem se realizavam casamentos, sem ter presentes ao menos dez pessoas. Exemplo: Rute 4:2.
2. Os que seguem a Cristo são chamados de “virgens” (II Co 11:2).
145

“A escatologia dos evangelhos não nos oferece ensinamento claro sobre a ordem dos eventos que precederão o fim,
nem bases para marcar futuras datas para eventos preditos. Por outro lado, não devemos esquecer as repetidas
advertências de Jesus Cristo quanto aos perigos do engano, do esfriamento do amor, o querer fugir da perseguição por
qualquer meio, a perda do amor às almas, a falta de visão missionária, a infidelidade no ministério aos irmãos em Cristo
em conseqüência da demora do Senhor que se ausentou por longo tempo.
Se realmente queremos nos encaixar dentro da visão escatológica de Jesus Cristo, nós os crentes, teremos de tomar a
sério o desafio que Jesus lançou para Pedro na noite da traição: “Orar e vigiar para não cair na tentação” (Mc 14:38;
Lc 22:40-46). Aos discípulos disse Jesus: “Esta noite todos vós vos escandalizareis comigo...” (Mt 26:31). Discípulos e
cristãos nunca ficam tão seguros que não necessitam desta advertência: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso
adversário, anda em derredor, como leão que ruge, procurando alguém para devorar” (I Pe 5:8). — Russell P. Shedd,
A Escatologia do Novo Testamento. Edições Vida Nova, p. 28. Desta obra citada, leia o excelente capítulo 2:
“Escatologia nos Evangelhos”.
158
amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade e fé, chamados pelo apóstolo Paulo “o
fruto do Espírito” e concedidos em algum grau a todos os cristãos. Deixar de lutar por expressar
estas virtudes nos quefazeres práticos da vida traz consigo a penalidade de que os dons são retirados
(tirai-lhe, pois, o talento); e uma vez retirados, os homens e as mulheres ficam sem nada que os
habilite a entrar no gozo do... Senhor; é-lhes negada a bem-aventurança do reino dos céus; são
servos inúteis, destinados a ficarem fora, nas trevas, no lugar em que haverá choro e ranger de
dentes, em vez de desfrutarem a luz da presença de Deus que é fonte de alegria.
Esta parábola ensina que a preparação não consiste apenas de uma atitude mental, mas
consiste igualmente do investimento da vida inteira do crente (o uso de nossas capacidades) a
serviço de Cristo — com os riscos que esse serviço envolve.

As ovelhas e os bodes (Mt 25:31-46)


O julgamento das nações, sob os símbolos das ovelhas e dos bodes, tem sido alvo de diversas
interpretações. A cena pode estar retratando o juízo final, no que concerne aos destinos eternos de
todos os homens, nada tendo a ver com a entrada em algum reino terreno e temporário.
“Qualquer que seja o tempo da volta de Cristo, ele julgará toda a raça humana, separando as
pessoas em apenas duas categorias: ovelhas e bodes, discípulos que serão recompensados com a
vida eterna e descrentes que estarão eternamente separados de Deus (25:31-46). O critério para
determinar quem vai aonde é como a pessoa agiu com cada um desses “pequeninos irmãos” de
Jesus (Mt 25:40, 45). Uma interpretação atualmente popular é que Jesus estava ensinando que
julgará com base na atitude para com os pobres e necessitados do mundo, sejam quem forem.
Todavia, o ponto de vista mais comum em toda a história da igreja, apoiado pelo uso uniforme que
Mateus faz das palavras “irmãos” e “menores” ou “pequeninos” em outras passagens é que os
irmãos de Jesus são os cristãos. Aqueles que recebem bem os missionários itinerantes, suprindo suas
necessidades físicas (como em 10:11-14, 40-42), demonstram que também aceitaram a mensagem
cristã.”146
Entre as interpretações mais comuns desse juízo, segundo Halley, temos: 1) que ocorrerá no
início do Reino milenar de Cristo na Terra (vs. 31,34; Ap 20), com o propósito de determinar quem
poderá entrar no Reino (v. 34) com base na maneira como trataram o povo judeu (“meus menores
irmãos”) durante o período da tribulação (vs. 35-40,42-45); 2) que o juízo pode ser aquele que
ocorrerá diante do grande trono branco no fim do reino milenar (Ap 20.11-15). O propósito desse
juízo seria determinar quem entrará na salvação eterna no céu e quem será entregue ao castigo
eterno no inferno (vs. 34,46).
a) Jesus ensinou sobre os pecados de omissão e os julgamentos que recairiam sobre os
mesmos.
b) O juízo final, ocorrerá por ocasião da segunda vinda de Cristo que será em esplendor e
majestade, acompanhada por todos os anjos.
c) Cristo assentar-se-á como Rei e Juiz, em glória e poder.
d) Todos comparecerão perante Jesus.
e) Haverá separação entre as ovelhas (os remidos do Senhor) e os cabritos (os que rejeitariam
a Jesus neste mundo).
f) A base do julgamento: a vida frutífera em boas obras que são sinal exterior da presença de
Cristo no coração de quem sinceramente crê nele.

Jesus ungido para a sepultura, numa ceia em Betânia (Mc 14:3-9; Mt 26:6-13; Jo 12:2-8)
Aconteceu, segundo parece, na tarde do sábado anterior à entrada triunfal (Jo 12:2,12). Mateus
e Marcos, porém, narram a unção em conexão com a trama dos sacerdotes, como um motivo para
Judas Iscariotes trair a Jesus.

A trama para tirar a vida de Jesus (Mc 14:1-2, 10-11; Mt 26:1-5, 14-16; Lc 22:1-6)

146
DIG. 601-602 (MANUAL BÍBLICO VIDA NOVA)
159
Desta vez, claramente, Jesus revela que será crucificado. A medida de ódio dos inimigos de
Jesus já transbordava. Os membros do Sinédrio fizeram conchavos contra Ele; procuravam prendê-
Lo à traição, para matá-lo. Entretanto, quando se entregasse, Ele o faria de modo voluntário. O
desejo deles e a predição de Jesus tiveram cumprimento quando Judas Iscariotes se ofereceu para
ser o traidor, provendo ao Sinédrio a oportunidade de deter a Jesus secretamente, por ocasião da
festa da Páscoa.
O papel de Judas era entregar Jesus aos líderes quando não houvesse multidões por perto —
especialmente as multidões vindas da Galiléia, que o admiravam. Não ousavam prendê-lo
abertamente, para não serem apedrejados pelo povo. Judas levou os líderes até Jesus depois de os
cidadãos terem adormecido.
Jesus sabia desde o início que Judas o trairia. O motivo por que Judas foi escolhido é um dos
mistérios da providência divina. É possível que Judas tenha pensado que Jesus empregaria seus
poderes milagrosos para se libertar. Aos olhos de Deus, porém, essa ação era iníqua, pois Jesus disse
que teria sido melhor para Judas nunca ter nascido (Mt 26:24). A transação inteira foi profetizada de
modo assombroso (Zc 11:12-13; “Jeremias”, em Mt 27:9-10 pode ser erro de escriba ou pode ter
sido usado porque todo o conjunto dos livros proféticos às vezes era chamado pelo nome de
Jeremias).
Ao final do jantar, Judas se revela como o traidor: procura os sacerdotes para entregar Jesus e
recebe por isto 30 moedas de prata.
“entrou então Satanás em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, que era um dos doze”
(Lc 22:3; cf. Jo 13:2). Judas foi escolhido por Jesus para fazer parte do seu colégio apostólico e
recebeu o mesmo treinamento que os outros. Como explicar então este comportamento tão avesso
aos ensinos do Mestre? A assimilação do ensino implica na obediência e submissão; o fato de
ouvirmos os ensinos do Mestre não nos torna discípulos, mas sim nossa disposição interior de
buscar o comportamento transformado continuamente mediante os princípios estabelecidos pelo
Seu ensino.
A situação de Judas quanto à traição de Jesus:
1. Traiu o Filho de Deus por sua própria decisão, entregando-o nas mãos dos soldados
romanos (Lc 22:48).
2. Ele era um ladrão (Jo 12:6).
3. Jesus conhecia muito bem o caráter de Judas (Jo 6:70).
4. A traição de Jesus fazia parte do plano soberano de Deus (Sl 41:9; Zc 11:12-13; Mt 20:18;
26:20-25; At 1:16-20).
5. O fato de Jesus saber que Judas iria traí-lo não significa que Judas fosse um fantoche nas
mãos de Deus. Judas fez sua escolha. Deus sabia qual seria esta escolha e a confirmou.
6. Judas não perdeu seu relacionamento com Jesus; pelo contrário, ele jamais tinha conhecido
a Jesus.
7. Era chamado “filho da perdição” (Jo 17:12) — não seria essa uma indicação de que ele na
verdade nunca fora salvo?

Diversos pensamentos com relação a Judas:


1. alguns o odeiam ardentemente pela traição;
2. outros se compadecem dele por não ter compreendido o que estava fazendo;
3. há quem o qualifique de herói por sua participação no término da missão terrena de Cristo;
4. existem os que questionam a justiça divina, permitindo que um homem suportasse tal peso
de culpa.
Pontos positivos e realizações de Judas:
1. Foi escolhido como um dos doze discípulos de Jesus; o único que não era galileu.
2. Guardava a bolsa de dinheiro para as despesas do grupo.
3. Teve capacidade de reconhecer o mal em sua traição de Jesus.
Pontos negativos e erros:
1. Cobiça (Jo 12:6).

160
2. Traição.
3. Cometeu suicídio em vez de pedir perdão.

TRINTA MOEDAS DE PRATA 147


Uma das mais infames histórias da Bíblia é a de Judas Iscariotes, o discípulo que traiu a Cristo por trinta moedas
de prata. Embora seja difícil determinar exatamente quanto valiam trinta moedas de prata, sabemos que não era uma
fortuna.
O denarius romano era a moeda mais comum usada durante o tempo de Jesus. Cunhada de prata, esta moeda
trazia uma estampa com a cabeça do imperador. Por esse motivo, não se permitia ao povo judeu usar moedas como
ofertas nos serviços religiosos; convertiam suas moedas em peças de prata. Os cambistas convertiam o denário ou
siclo em prata mediante uma taxa de 12%.
O denário valeria cerca de quarenta centavos de dólar no mercado hodierno, segundo seu peso e teor de prata.
Mas naquele tempo um denário equivalia ao salário de um trabalhador braçal, de modo que tinha significativo poder de
compra. Mesmo assim, verificamos que Judas traiu a Cristo pelo salário de um mês — difícilmente uma fortuna.
O livro de Zacarias profetizou que tal quantia seria paga pelo Messias (Zc 11:12). Ao aceitar trinta moedas de
prata pela vida de Cristo, Judas cumpria a proferia (Mt 26:15). A quantia era tambem o preço típico de um escravo ou
servo naquele tempo.

A última ceia
Nota: 1. Terça-feira à noite Jesus retorna a Betânia, onde participa de um jantar na casa de
Simão, o leproso. Muitos acreditam que o jantar era em comemoração à ressurreição de Lázaro,
pois este também era um convidado ilustre no jantar. 2. A Bíblia não registra dados sobre os
acontecimentos da quarta-feira. Acredita-se que Jesus nesse dia, permaneceu em Betânia junto com
os discípulos. Na quinta-feira, Ele retorna a Jerusalém para a comemoração da Páscoa.

Jesus e os preparativos para celebrar a Páscoa (Mc 14:12-16; Mt 26:17-19; Lc 22:7-13)


Os autores dos sinóticos dizem que Jesus mandou fazer os preparativos no primeiro dia dos
Pães Ázimos, esta era uma outra festa que tinha início no dia 14 de Nisã, o dia em que se imolava o
cordeiro pascoal. Apesar de ser outra festa, ela era intimamente ligada à festa da Páscoa, a ponto dos
israelitas chamarem a Páscoa de Pães Ázimos e vice-versa. Esta festa tinha início no 14º dia (há
quem diga que ela se iniciava no 15º dia) e durava sete dias, durante os quais não se podia comer
pão com fermento e nem fazer qualquer trabalho servil (Êx 12; Lv 23:4; Nm 28:16). Indicava o
agradecimento pelo início da colheita: “Aquilo que vem da natureza é santo, como algo que vem de
Deus. Portanto, deve-se oferecer e Ele antes que se possa utilizá-lo”. Jesus deu ordem para que se
preparasse a Páscoa na quinta-feira (14 de Nisã), antes do pôr-do-sol (Mc 14:12; Mt 26:17; Lc
22:7).148
Jesus instruiu a dois de Seus discípulos que entrassem em Jerusalém, procurassem um homem
147
O Mundo do Novo Testamento. Editora Vida, 2001 (7ª imp.), p. 117.
148

A PÁSCOA E SEU SIGNIFICADO POR OCASIÃO DA MORTE DE JESUS


Uma das três festas da peregrinação. De acordo com Dt 16:16 “todos os vossos varões se apresentarão diante do
Senhor vosso Deus no lugar em que tiver escolhido: na Festa dos Ázimos, na Festa das Semanas e na Festa das
Tendas”. À páscoa segue-se a Festa dos Ázimos, ambas fazem parte da mesma semana, onde no primeiro dia se celebra
a Ceia Pascal. Um dia antes, ocorrem os preparativos. Primeiro, as pessoas se colocam em fila diante dos sacerdotes que
sacrificam os cordeiros e levam o sangue ao altar, em sinal a Deus. Depois, cada pessoa volta para sua casa, onde se
esfola o cordeiro e o assa. Durante este tempo, a dona-da-casa já retirou todo o pão fermentado e o substituiu pelo não-
fermentado. Também é preparado um composto de ervas amargas. No Êxodo, a refeição fora digerida às pressas. O
vinho é obrigatório; se alguém é pobre demais para consegui-lo, o Templo lhe fornece as quatro taças regulamentares.
Durante a refeição, são cantados os salmos de Hilel (Sl 114—119), entrecortados pelas bênçãos do pai de família, ou
daquele que faz a vez dele. Os filhos, surpresos ou simulando surpresa, perguntam? “Por que tudo isto”, “Em que esta
noite é diferente das outras?”. Então, o pai explica o sentido dos diferentes ritos e as intercessões de Deus em favor do
povo.
Por ocasião da Páscoa, cerca de 180 mil peregrinos subiam a Jerusalém, na época neo-testamentária. Como todos eles
não podiam se alojar na cidade, as aldeias vizinhas abrigavam as pessoas. A presença de autoridades políticas ou
diplomáticas ocorria com freqüência, ocasião em que a polícia era reforçada. Esta polícia era a romana, presidida pelo
Procurador. Eram muito comuns os ataques dos zelotes; o Procurador era responsável por manter a ordem.
161
que estivesse carregando um cântaro de água, seguissem-no até certa casa, e, ali, preparassem a
festa da Páscoa. Pode ser que o dono da casa não fosse o mesmo que estava carregando o cântaro. O
que sabemos é que o dono da casa já tinha reservado um local para o acontecimento (Lc 22:11-12);
possivelmente este homem era um discípulo de Jesus. Gundry registra: “Ordinariamente os homens
transportavam odres de água, e mulheres carregavam cântaros. Um homem levando um cântaro de
água, portanto, era algo extremamente incomum. A ausência de nomes e o fato que o cenáculo já
estava preparado, sugerem-nos que Jesus fizera arranjos de antemão, com alguma pessoa conhecida,
na cidade de Jerusalém. O mais provável é que Jesus não queria que Judas Iscariotes soubesse onde
haveriam de celebrar a refeição pascal, a fim de que Judas não informasse às autoridades judaicas
antes demais e Jesus não tivesse tempo para participar da refeição da Páscoa, para instituir a Ceia do
Senhor e para proferir o Seu discurso do cenáculo, como é chamado.”149
Jesus seria entregue ao Sinédrio, porém no momento determinado por Deus e não por Judas
ou por qualquer outro. Sendo assim, Jesus dá um jeito para que nenhum dos discípulos, incluindo
Judas, soubesse onde Ele estaria comemorando a Páscoa.

O procedimento de Cristo quanto ao cerimonial da Ceia


Possivelmente Jesus entra e toma o lugar do Messias à mesa da Páscoa, pega o pão do meio, o
pão de Isaque e partindo-o diz: “Isto é o meu corpo”. Jesus toma o cálice do Messias e colocando
vinho nele diz: “isto é o meu sangue, o sangue do pacto, o qual é derramado por muitos”.
“Tomai, comei” Mt 26:26 — O mastigar e engolir o pão estava simbolizando a entrada da
vida de Cristo neles: “A minha vida entra na vossa e a vossa vida entra na minha”.
“Bebei dele todos” O vinho, que simbolizava o sangue de Jesus, entra e mistura-se com o
sangue dos discípulos. A mistura do sangue faz parte de um cerimonial de aliança.
A ceia simbolizava a vida de Cristo em nós e a nossa vida nele. Jesus se identifica com o
homem pecador e agora parte para morrer em seu lugar. Ele morreria nossa morte para que
pudéssemos viver Sua vida. Aí está a grandeza da aliança de Deus para com os homens: uma
identificação profunda com Deus. Somos um com Ele, em Cristo Jesus. A Páscoa tornou-se uma
refeição de aliança, da nova aliança no sangue de Jesus.

A CEIA DO SENHOR
(Mt 26:17-29; Mc 14:12-25; Lc 22:7-38; Jo 13 e 14)
Foi na véspera da morte de Jesus. Houve duas ceias: a ceia da Páscoa e a Ceia do Senhor. A Ceia do Senhor foi
instituída no final da ceia da Páscoa. Lucas menciona dois cálices (22:17-20). Mateus, Marcos e Lucas mencionam as
duas ceias; João menciona somente a da Páscoa.
Durante 1400 anos a Páscoa havia prenunciado a vinda de Jesus, o Cordeiro pascal. Jesus comeu a Páscoa,
substituiu-a pela própria Ceia e em seguida Ele mesmo foi sacrificado como o Cordeiro pascal. Jesus morreu na cruz no
mesmo dia em que os cordeiros pascais estavam sendo imolados no Templo.
A Páscoa já servira aos seus propósitos, e agora devia ceder lugar à nova Ceia que devia ser observada em
memória de Jesus, até que Ele venha de novo (I Co 11:23-26).
Assim como a Páscoa lembrava o passado, quando Israel foi liberto do Egito, e também indicava o futuro — o
Advento de Jesus em graça, também esse memorial lembra sua morte passada e, no futuro, sua Segunda Vinda.

Quando Deus instituiu a Páscoa, deu ordem para que em todas as gerações ela fosse comemorada como memorial ao
livramento que outorgara aos primogênitos de Israel e, conseqüentemente, à própria libertação do povo israelita do jugo
egípcio. O povo de Israel até hoje comemora a Páscoa. Vejamos no tempo de Jesus como era o cerimonial:
1. Eles trazem três bolsinhas e em cada uma delas um pão.
2. Na mesa, são colocados quatro cálices para o vinho. Um deles fica emborcado, sendo considerado o cálice do
Messias, e ninguém toca neste cálice.
3. São colocados três pães sobre a mesa: um pertence a Abraão, outro a Isaque e outro a Jacó. Porém, acredita-se que
seja um simbolismo da Trindade divina, mesmo que os israelitas não tenham esta consciência.
4. Um dos assentos à mesa fica vago, este é o lugar do Messias e ninguém se assenta nele, pois Israel aguardava a
presença desse tão esperado libertador.
149
Robert H. Gundry, Panorama do Novo Testamento, p. 210.
162
Observação: A partir do capítulo 13, inicia o “livro da paixão” do Evangelho de João. O
evangelista apresenta com detalhes, as últimas instruções de Jesus aos discípulos. Tais ensinos
refletem a preocupação do Mestre com o destino dos seus seguidores e o mesmo está elaborado
mediante três formas de preparo para a provação a que seriam submetidos:
a) Um exemplo pessoal de humildade (O lava-pés), como uma parábola referente ao
significado da cruz (Jo 13:1-30);
b) Uma instrução detalhada sobre a existência cristã na era posterior à sua morte (Jo 13:3—
16:33);
c) A intercessão de Jesus, para situar o destino dos discípulos num contexto eterno, por meio
da oração de consagração (Jo 17:1-26).

Jesus lava os pés dos discípulos (Jo 13:1-20)


A ocasião foi a contenda entre os discípulos sobre quais deles exerceriam as funções mais
importantes no Reino. Tratava-se de um problema que surgiu em várias ocasiões entre eles. A
despeito de Jesus declarar repetidas vezes que estava para ser crucificado — declarações que eles
entenderam até o fim como parábolas ou metáforas, e não como fatos concretos — eles pareciam
imaginar que a entrada triunfal, cinco dias antes, indicava que estava quase na hora de ele levantar
em Jerusalém o trono de um império mundial.
No fim, Jesus precisou colocar-se de joelhos e lavar-lhes os pés — o serviço de um escravo, a
fim de deixar inculcado nas suas mentes que Ele os vocacionara para servir, e não para mandar. Oh!
quanto a Igreja sofre por causa de líderes que se deixaram consumir pela mania de grandeza!
Organizações poderosas e altos cargos são criados para satisfazer as ambições mundanas e egoístas
dos homens. Grandes líderes eclesiásticos, em vez de servir a Cristo com humildade, usam o nome
dele para proveito próprio.
v. 4 Sugere a voluntariedade com que Jesus abriria mão de sua vida e o poder com que Ele a
tomaria de volta — “(...) Ele não era uma vítima desesperada, mas sim o grande Eu Sou”
(Broadman 381:1)
É contundente o exemplo dado por Jesus. A prática de lavar os pés dos convidados era comum
antes das refeições e não durante a mesma. A tarefa era executada por escravos não judeus, por ser
considerada humilhante. No primeiro século, a humildade não era vista como virtude, mas Jesus fez
dela a “marca registrada” do discipulado.

Os dois extremos de Pedro:


1. Recusa uma nova abertura para o futuro, na presunção de que seu compromisso já se
completara (v. 8);
2. Abre-se completamente para o futuro, não levando em consideração o compromisso
realizado no passado, mesmo com suas limitações (v. 9).
Jesus ilumina a mente de Pedro para compreender a dinâmica de uma fé em formação: não era
necessário recomeçar tudo para superar as limitações anteriores do discipulado. Mas, necessário
prosseguir em descobertas mais profundas e essenciais do cristianismo (v. 10).

Nota: Em Lc 22:24-30 está registrado o episódio da discussão entre os discípulos sobre qual deles
parecia ser o maior. O evangelista coloca esta discussão no jantar da Páscoa, e ao que parece, a
mesma suscitou de Cristo a lição de humildade, descrita pelo evangelista João. A partir daqui, João
prossegue detalhadamente as últimas instruções.

Jesus indica o traidor (Jo 13:21-30)


Judas Iscariotes guardara seu segredo com tanta astúcia que nenhum dos discípulos suspeitara
dele. Judas sabia que Jesus conhecia seu segredo. Mas, com o coração totalmente endurecido, levou
adiante seu crime covarde. — “No momento em que Jesus apontou para Judas como seu traidor, a
Bíblia nos diz que “entrou nele Satanás”, e Jesus disse: “o que pretendes fazer, faze-o depressa”
(13:27). Esta é a única vez que se usa o nome “Satanás” no evangelho de João, e não está claro se
estamos diante de possessão ou de uma simples motivação satânica para o mal. Os outros discípulos
163
não entenderam a que Jesus estava se referindo e pensaram que se tratava de alguma coisa
relacionada com as responsabilidades de Judas como tesoureiro do grupo (13:28). Jesus tinha de ser
traído, mas Judas não precisava ser esse traidor. Vários intérpretes têm dito que a diferença entre
Judas e Pedro, que também traiu Jesus, é que Pedro buscou o perdão, e Judas não.” 150
v. 21 A simples menção de um traidor “turbou o espírito” de Jesus. É referente à angústia pela
perda de alguém amado. O grupo precisava tomar conhecimento sobre a traição, mas não
necessariamente quem trairia. Esta atitude tem caráter protetor: protege da fúria dos companheiros,
suscita nos discípulos a necessidade de auto-exame e dá uma chance a Judas de mudar de atitude.
v. 26 O bocado de pão molhado representava um favor especial do hospedeiro. O fato de Jesus
tê-lo dado a Judas ratificava o amor do Mestre por ele e constituía um último apelo de amor àquele
que estava à beira da traição.

Instruções sobre vantagens da era pós-ressurreição (Jo 13:31—14:1-31)


Após a saída de Judas (v. 30), Jesus compartilha com os discípulos a glória do Filho do
Homem. A seção a partir do v. 31 encontra-se assim dividida:
1. A existência e o apoio de uma comunidade de amor (Jo 13:34-35)
2. A preparação de um lugar na casa do Pai (14:2-3)
3. O conhecimento do caminho de salvação (14:4-6)
4. O poder para efetuar obras maiores que as de Jesus (14:12)
5. O privilégio da oração intercessória (14:13-14)
6. A ajuda do Parácleto ou Espírito da Verdade (14:16-17, 25-26)
7. O retorno pessoal de Jesus e seu Pai para fazerem morada em seus amados (14:18-23)
8. A provisão de uma paz que o mundo não conhece (14:27).

Outros princípios defendidos:


1. O Jesus ressurreto se relacionará com os crentes da mesma forma que o Pai se relacionava
com Ele (Jo 14:20);
2. A presença do Espírito Santo concedida pelo Pai a Jesus era a presença do Pai com Ele; da
mesma forma que a presença do Espírito concedido à Igreja deve ser entendida como a presença do
Senhor com ela (Jo 14:3, 18-32);
3. “Não se turbe os vossos corações” Motivos para corações turbados: um do grupo haveria de
traí-lo; outro, negá-lo; Ele iria para um lugar onde eles não poderiam segui-lo.

Nota: O capítulo 14 de João é conhecido como O Discurso do Cenáculo.

Discurso a caminho do Getsêmani (Jo 15—16)


Halley sintetiza: As idéias que se repetem continuamente nesses capítulos são as de que os
discípulos devem amar uns aos outros, guardar os mandamentos de Cristo, permanecer nele e saber
que passarão por apertos e serão perseguidos, que era necessário que Jesus fosse embora, que o
Espírito Santo substituiria a presença de Jesus, que a tristeza deles seria transformada em alegria e
que, na ausência de Jesus, respostas milagrosas seriam dadas às orações deles. O Mestre bendito,
descendo até as profundezas da própria tristeza e sofrimento, estava fazendo o possível para
consolar os atordoados discípulos.

A oração intercessória ou oração sacerdotal de Jesus (Jo 17)


1. Jesus ora por si mesmo (vs. 1-5) Ao orar por si mesmo, Jesus destacou a sublime certeza de
que Deus lhe dera autoridade sobre toda a humanidade. A hora do seu destino era chegada e se
constituía a concretização da vontade de Deus, a fim de que os homens conhecessem a vida eterna.
Ele conclui pedindo que sua glória pudesse novamente tornar-se como fora quando preexistia com
Deus, antes que o mundo existisse.

150
Manual Bíblico Vida Nova, p. 661.
164
2. Jesus ora pelos discípulos (vs. 6-19) Ao orar pelos discípulos, destacou: a) A quem eles
pertenciam “de fato” e “de direito” — a Deus e seu Cristo; b) A necessidade de serem guardados do
mundo: a base da segurança era a guarda “no nome” que Deus lhe dera; c) A santificação necessária
ao serem enviados ao mundo: a unidade é descrita em termos de missão.

3. Jesus ora pelos futuros crentes (vs. 20-26) Ao orar, Ele destacou que a obra da redenção não
estava limitada ao tempo e ao espaço; pelo contrário, seria válida para as pessoas de todos os
tempos e espaços. Que revelassem uma unidade baseada na fé compartilhada na unidade de Deus e
de Cristo, como enviante e enviado. A unidade da Igreja é descrita em termos do motivo, o amor —
que o mesmo amor com que Deus amou Jesus estivesse presente na Igreja, assim como em Cristo
estivera. A razão para tal perfeição da Igreja seria o testemunho perante o mundo: a missão.

A PRISÃO E O JULGAMENTO DE JESUS


Jesus no Getsêmani (meia-noite da quinta-feira)

Agonia, traição e aprisionamento. Lucas registra que a agonia do Mestre, na oração ali realizada,
traduziu-se no suor vertido com gotas de sangue. Este fenômeno é denominado pela Medicina de
diapédesi e é considerado um fenômeno resultante de profunda comoção mental, angústia e tristeza.
“Orai, para que não entreis em tentação” (Mt 26:41; Lc 22:40). A palavra “tentação” é
melhor traduzida por provação; abrange toda qualidade de prova de fé e obediência. Jesus poderia
estar falando sobre a tentação ao pecado, ou, um período de provação severa. Daqui a pouco Jesus
será morto e os discípulos entrarão em profunda tristeza e desânimo. “O Senhor foi tentado a
retirar-se da plena vontade de Deus, em face do preço tremendo que haveria de pagar para cumpri-
la. Era sua natureza humana, sua carne, que era imaculada, que repelia a cruz. Seu espírito estava
pronto e desejoso. Este conflito ocorre, em certa forma, em cada discípulo.”151
“Pai, se queres afasta de mim este cálice” (Mt 26:42; Lc 22:42). O cálice no Antigo
Testamento tem associações com o sofrimento e com a ira de Deus (cf. Sl 11:6; Is 51:17; Ez 23:33).
Outra maneira de compreender esta frase seria a seguinte: o cálice não estaria fazendo referência à
morte, pois houve homens na história que enfrentaram a morte com tranqüilidade e calma. O cálice
seria então a angústia profunda que permeava a alma de Jesus, devido ao tipo de morte que seria
sujeito, ou seja, o abandono de Deus e o pecado da humanidade sobre Ele (cf. Mc 15:34; II Co
5:21). Podemos dizer que representa a angústia da sua alma imaculada que Deus “fez pecado por
nós” (II Co 5:21), e sendo exposta à ira divina contra o pecado, ela experimentou toda a amargura
daquela morte, que é o salário do pecado, para que todos os que confiam nEle nunca tomassem da-
quele cálice (Hb 2:9). A Sua experiência nos leva muito além da nossa, pois só Ele era sem pecado.
Hb 5:7-8 diz que Jesus foi atendido pelo Pai quanto ao seu pedido de socorro. Cremos que o
conforto trazido pelo anjo vindo do Céu foi justamente a libertação da angústia que o consumia (Lc
22:43). A tônica da oração não é a passagem do cálice que estava para ser bebido, mas o “faça-se a
tua vontade”. Jesus foi tentado, mas saiu vencedor por meio da obediência à vontade de Deus, que
sempre foi a marca de Sua vida.
“Havia em Jesus uma vontade humana real, separada da vontade do Pai, mas sempre submissa
a ela. Experimentalmente, a súplica denota o Seu triunfo de modo que a vitória da cruz foi ganha de
antemão em oração no jardim, permitindo que fosse vitoriosamente ao Calvário. O arqui-inimigo do
homem introduziu o pecado e a morte, estribando-se na sua própria vontade contra a de Deus (Is
14:13-14). A aceitação da vontade de Deus é sempre uma vitória, enquanto o exercício da vontade
própria nos leva infalivelmente para a derrota.”152

O relato de Lucas referente à agonia é o mais resumido dos três (não é registrado por João),
porém somente ele conta que um anjo do céu apareceu a Jesus e o confortava (v. 43), e que o Seu

151
F. Davidson (editor), O Novo Comentário da Bíblia. Edições Vida Nova, 2000 (3ª ed., reimp.), p. 981.
152
F. Davidson (editor), O Novo Comentário da Bíblia. Edições Vida Nova, 2000 (3ª ed., reimp.), p. 1021.

165
suor era como gotas de sangue (v. 44). Em sua história da traição e aprisionamento, só Lucas é
quem narra a maneira pela qual Jesus curou a orelha do servo do Sumo Sacerdote. A ordem do
Senhor: Deixai, basta (v. 51), foi um lampejo de poder e dignidade inerente, compelindo-os a parar
até que Ele executasse este ato de misericórdia antes de Ele mesmo se entregar a eles.
Estando em agonia A única explicação adequada da experiência de Jesus conforme é descrita
neste verso é a que Sua natureza total foi encolhida devido ao fardo misterioso da culpa do mundo
que estava sendo posta sobre Ele (cf. II Co 5:21; Is 53:6).
Aprisionamento de Jesus (Mc 14:43-52; Mt 26:47-56; Lc 22:47-53 e Jo 18:2-12)
Depois da meia noite da quinta-feira. Os soldados romanos, a polícia levítica do templo e
servos pessoais dos dirigentes judeus, que tinham vindo aprisionar a Jesus no horto do Getsêmani,
tinham-se preparado para uma possível resistência armada por parte dos discípulos.
“aproximando-se de Jesus, disse: Rabi! E o beijou” Mc 14:45 — O beijo serviu como um
sinal de identificação, não porque os da multidão não conhecessem Jesus, mas sim por estar escuro
o local onde Jesus e os discípulos se encontravam, tanto é que a multidão trazia consigo lanternas
(Jo 18:3). O beijo é sinal de afetividade, amizade, respeito de um discípulo para com o seu mestre
— os discípulos beijavam seus mestres nas mãos. A palavra utilizada aqui é Katafilein, a mesma
utilizada no momento em que o pai do filho pródigo o recebera com grande amor.
“amigo, a que vieste?” A melhor tradução é: “faze aquilo para que vieste”, pois Jesus bem
sabia que Judas seria o traidor e tinha lhe dito isso horas antes: “o que pretendes fazer, faze-o
depressa”.

O Getsêmani 153
Jardim localizado no sopé da vertente ocidental do monte das Oliveiras, imediatamente a leste da cidade de
Jerusalém. É possível que Jesus e seus discípulos não estivessem totalmente sozinhos no jardim das Oliveiras, visto
que, no período da Páscoa (abril), milhares de peregrinos entravam em Jerusalém, e é provável que muitos deles
acampassem no monte das Oliveiras durante a noite. É digno de nota que Jesus poderia ter feito uma caminhada de
apenas quinze minutos para o leste, passando pelo topo do monte, e desaparecido dentro do deserto da Judéia.
Entretanto, Ele optou por não fugir, mas ficar esperando sua captura, julgamento, tortura, humilhação e crucificação,
para nossa salvação.

153
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 543.
166
SÍNTESE BIOGRÁFICA DAS PERSONAGENS RESPONSÁVEIS
PELA PRISÃO, SOFRIMEMTO E MORTE DE JESUS

PILATOS. Pôncio Pilatos154 foi procurador romano na Judéia de 26 a 36 d.C.. Procurador era o título dado
ao governador de uma província romana sob controle direto do imperador. Pilatos, portanto, respondia ao
imperador Tibério César pelas ações militares, financeiras e judiciais na judéia.
O imperador supervisionava pessoalmente algumas províncias, como a Judéia e o Egito, por causa da
instabilidade ou da importância dessas províncias para Roma. A Judéia estava nessas duas categorias, como
a faixa de terra que servia de ponte até o Egito, celeiro de Roma, e como população rebelde que ansiava por
um domínio judeu independente (ver Jo 8:31-33; Mc 15:7).
Um procurador tinha autoridade delegada pelo imperador chamada imperium. O imperium era o
poder de vida e morte sobre indivíduos da população sujeitada. Pilatos deixou isso bem claro quando disse a
Jesus: "Não sabes que tenho autoridade para te soltar, e autoridade para te crucificar?" (Jo 19:10).
A responsabilidade que Pilatos tinha de manter paz e ordem era a razão de ele estar em Jerusalém na
época em que Jesus foi preso. No período da Páscoa os judeus comemoravam a libertação do Egito (Êx
12:1-36), e nessa época do ano o patriotismo judaico estava no seu auge.
Pilatos, cuja residência ficava em Cesaréia, na costa do Mediterrâneo, estava em Jerusalém para
assumir pessoalmente o comando das forças romanas sediadas em Jerusalém, caso acontecesse algum
levante ou ato de rebelião na maior cidade judaica da Judéia. Ele interrogou Jesus pessoalmente em vez de
delegar isso a um juiz comum (por exemplo, ver Mt 5:25; Lc 18:2-6) porque Jesus fora acusado de alegar
ser rei — acusação que presumia que ele estivera tentando recrutar forças revolucionárias para desencadear
uma rebelião contra a autoridade romana (ver Mt 27:11-14; Mc 15:2-5; Lc 23:2-5; Jo 18:33-38). Pilatos
sentenciou Jesus à morte apesar de perceber que a acusação era falsa (Mt 27:18), mas os soldados
acreditaram claramente que tinham um líder revolucionário sob custódia e zombaram de Jesus (Mt 27:27-
31; Mc 15:16-20; Lc 23:11; Jo 19:2-3).
Pilatos não foi nobre ao tratar Jesus assim, revelando indiferença com a vida humana e uma
disposição maligna de cooperar com os líderes judeus numa execução baseada em acusações falsas (Mt
27:18).
Outras informações de fontes não cristãs sobre Pilatos reforçam o retrato do seu caráter mostrado no
NT. Filo conta que Tibério ficou furioso com Pilatos por sua insensibilidade no governo e o acusou de
receber suborno e de efetuar numerosas execuções sem julgamento ( Embaixada a Gaio, 302-304).
Josefo relata dois incidentes em que o próprio Pilatos provocou manifestações dos judeus em
Jerusalém — uma por exibir imagens romanas do imperador em equipamento militar e a outra por tentar
confiscar fundos do templo para obras que ele queria fazer relacionadas com o suprimento de água para
Jerusalém (Antigüidades, 18:55-62).
O incidente que resultou na ordem de Tibério para Pilatos retornar a Roma no ano 36 d.C. foi a
execução a sangue frio de vários aldeões samaritanos que peregrinavam para o monte Gerizim
(Antigüidades, 18:85-87). Nada se sabe de Pilatos depois de sua volta a Roma em 36 d.C., mas diversos
relatos de ficção dos seus últimos anos apareceram durante os séculos seguintes. Alguns deles dizem que
Pilatos se tornou cristão, enquanto outros destacam seu remorso pela maneira como tratou Jesus.

BARRABÁS. Mateus o chama de “preso notório”; os outros evangelhos concordam sobre o motivo da
prisão: sedição e homicídio. João acrescenta que era salteador. Há forte possibilidade de Barrabás ter
pertencido ao grupo dos zelotes, cujos seguidores costumavam levantar por ocasião das festas.

ANÁS (forma grega do nome Ananiah). Sogro de Caifás, nomeado sumo-sacerdote pelo procurador romano
Quirino e deposto do cargo por Valério Grato, em 15 d.C. O título dado a ele, na época da crucificação,
refere-se à sua posição anterior. Muitos historiadores o consideram como líder do partido dos saduceus,
portanto o principal mentor da conspiração contra Jesus.

CAIFÁS. Foi nomeado sumo-sacerdote por Valério Grato, em 18 d.C. e deposto por Vitélio em 36 d.C.
Exercia o controle “de fato” sobre o sumo sacerdócio.

HERODES ANTIPAS. Atuou como um espião para Tibério César, junto aos oficiais romanos e reis satélites.
Provavelmente, deve-se a esta atividade a inimizade de Pilatos (Lc 23:12) e Vitélio, o legado da Síria. Sua
primeira esposa foi a filha de um rei nebateu, Aretas. Posteriormente, desprezou-a para ficar com Herodías,
mulher de seu irmão Filipe (ou Boethus), da qual teve a filha Salomé.

154
Manual Bíblico Vida Nova, p. 666.
167
JESUS SENDO PROCESSADO

Logo depois do beijo traiçoeiro de Judas Iscariotes, no jardim do Getsêmani, Jesus foi preso
(Mt 26:49-57; Mc 14:45-53; Lc 22:54; ver Jo 18:2-13) e, em seguida, julgado pelos líderes judeus e
romanos.

1. O julgamento dos judeus (Jo 18:13-14, 19-24)


a) Diante de Anás
João registra um interrogatório preliminar feito por Anás (sumo sacerdote 6-15 d.C.), sogro do
sumo sacerdote Caifás (18-37 d.C.). Anás interrogou Jesus sobre seus discípulos e sobre seus
ensinamentos. Jesus nada respondeu; foi maltratado e enviado preso a Caifás.

b) Diante do Sinédrio
Mateus (26:57) dá a idéia que o Sinédrio já estava reunido quando foram prender Jesus. Na
casa de Caifás foi realizada uma reunião dos principais sacerdotes, anciãos e escribas, a primeira
das duas fases do julgamento de Jesus pelo Sinédrio (Mt 26:57-68; Mc 14:53-65; Lc 22:54, 63-65).
Os principais sacerdotes procuraram alguém que pudesse testemunhar falsamente contra
Jesus, para poderem matá-lo. Por fim, dois homens concordaram em depor que Jesus afirmara que
destruiria o templo e o reconstruiria em três dias. O sumo sacerdote indagou Jesus sobre isso, mas
ele nada respondeu. Então, o sumo sacerdote perguntou a Jesus se afirmava ser o Cristo, o Filho de
Deus. Jesus respondeu dizendo que era o Cristo e ampliou a resposta, dizendo ser o "Filho do
Homem" e predizendo, a partir de Daniel 7:13 e Salmos 110:1, que seu papel futuro seria estar
sentado à direita de Deus, posição de quem governa, e que voltaria nas nuvens.
Caifás, rasgando sua túnica, interpretou a afirmação de Jesus como equiparação com Deus,
blasfêmia passível da pena de morte. Os soldados zombaram de Jesus e cuspiram nele.

As negações de Pedro:
Espremida entre as duas audições de Jesus perante o Sinédrio, temos a narrativa da negação
de Jesus, por parte de Pedro, por nada menos de três vezes. O Sinédrio se reunia no palácio do sumo
sacerdote. Pedro foi capaz de penetrar no palácio devido à influência de um discípulo não designado
por nome, mas que era “conhecido do sumo sacerdote”. O sotaque galileu de Pedro levou os
circunstantes a suspeitarem que ele também seria discípulo de Jesus, porquanto era de
conhecimento geral que Jesus era muito popular na Galiléia (ver Mc 14:54, 66-72; 15:1; Mt 26:58,
69-75, 27:1; Lc 22:54-62, 66-71; Jo 18:15-18, 25-27).

c) Uma segunda reunião do Sinédrio ocorreu na manhã seguinte, sexta-feira, com o fim de dar
alguma aparência de legalidade ao veredicto da noite anterior e de fazer um relatório oficial ao
governador romano Pôncio Pilatos (Mt 27:1-2; Mc 15:1; Lc 22:66—23:1).
De acordo com o relato de Lucas, o julgamento da manhã repetiu o julgamento noturno, com
exceção das testemunhas falsas. A única acusação levantada contra Jesus foi a de blasfêmia.
Todavia, ao Sinédrio faltava o poder para executar a pena de morte, prerrogativa do governador
romano (Jo 18:31). Por isso, levaram Jesus a Pilatos.

O suicídio de Judas (Mt 27:3-10; ver At 1:18-19).


Mateus interrompe o relato do julgamento perante Pilatos para registrar a história ainda
corrente em Jerusalém, da sinistra morte de Judas. Ele não apenas reconheceu que era culpado de
traição, mas que a pessoa traída era inocente (Mt 27:4). O dinheiro que ele devolveu acabou se
tornando como o preço de compra de um campo cerimonialmente poluído onde estrangeiros ao
pacto de Israel podiam ser enterrados; e lá Judas acabou com a própria vida (Mt 27:5-10).

2. O julgamento das autoridades romanas


O processo de julgamento de Jesus diante das autoridades romanas ocorreu em três etapas:

168
a) Diante de Pilatos (Mt 27:11-14; Mc 15:2-5; Lc 23:2-5; Jo 18:29-38)
Blasfêmia incorria em pena de morte, segundo a lei judaica, mas isso pouco importava para
Roma. Para Pilatos, era necessário formular novas acusações.
Três acusações contra Jesus apresentadas a Pilatos: subverter a nação, proibir o pagamento de
impostos a César e autoproclamar sua condição de rei (Lc 23:2). Pilatos se preocupou apenas com a
última. Interrogou Jesus diretamente sobre isso, mas este não lhe respondeu.155
Suspeitando dos motivos das acusações dos líderes judeus (Mt 27:13, 18; Mc 15:4, 10),
Pilatos concluiu que Jesus era inocente. Os líderes judeus insistiram que Jesus sublevara o povo da
Judéia e da Galiléia. Quando Pilatos soube que Jesus era da Galiléia, enviou-o a Herodes Antipas,
que governava sobre a Galiléia mas estava em Jerusalém para a Páscoa (Lc 23:5-7).

Nota: Segundo a lei romana, o acusado tinha de ser julgado na província em que cometera os
crimes. Entretanto, Herodes Antipas havia recentemente informado Tibério de que Pilatos causara
uma rebelião desnecessária em Jerusalém (Filo, Legatio ad Gaium, 299-305). Por isso, Pilatos não
queria cometer outro erro, que Herodes pudesse delatar ao imperador Tibério.

b) Diante de Herodes (Lc 23:6-12)


Herodes, por sua vez, também não queria cometer um erro que desse a Pilatos oportunidade
de denunciá-lo. Na verdade, tanto Pilatos como Herodes perceberam que qualquer denúncia feita
por um contra o outro poderia colocar ambos em risco, de modo que fizeram as pazes e se tornaram
amigos (Lc 23:8-12). Não é difícil entender por que não houve avanços nesse julgamento.
“Ora, quando Herodes viu a Jesus, alegrou-se muito” — Há outras indicações do interesse de
Herodes por Jesus, nas passagens de Lc 9:7-9 e 13:31. Champlin comenta: Herodes já ouvira muitos
rumores acerca de Jesus, e chegava mesmo a temer que Ele fosse João Batista redivivo. Ficara
impressionado com as conversas acerca dos grandes poderes que atuavam em Jesus, com os
prodígios que Ele vinha fazendo por todos os territórios de Israel, e compreendia que narrativas
insistentes sobre tão grandes milagres não podiam ter origem no ludíbrio, na fraude ou na
imaginação dos homens. O próprio Herodes era filho de um judeu e um prosélito do judaísmo, e,
embora fosse homem ímpio, deve ter tido algum sentimento religioso. A princípio tremera ante as
notícias sobre os notáveis poderes de Jesus; mas agora se sentia um tanto mais à vontade, talvez
tendo assumido até mesmo uma atitude zombeteira, porque agora Jesus estava debaixo do poder das
autoridades, e nenhuma revolta se materializara. Herodes sobremaneira se alegrou, não por pensar
que derivaria algum proveito espiritual de seu contato com Jesus, pois a verdade é que não lhe
interessava tal proveito; mas antes, ficou excitado por esperar alguma modalidade de diversão,
diante de um esperto revolucionário, que poderia realizar alguns truques em sua presença.

c) Diante de Pilatos novamente (Mc 15:6-15; Mt 27:15-26; Lc 23:13-25; Jo 18:39—19:16)


Jesus foi devolvido a Pilatos. Como os líderes judeus não foram apaziguados com o envio de
Jesus a Herodes, Pilatos tentou eximir-se mandando açoitar e soltar Jesus (Lc 23:16, 22). Por fim,
tentou libertá-lo como um gesto de clemência na Páscoa.
Apesar de Pilatos repetidas vezes declarar a inocência de Jesus (Lc 23:14-15, 22), a multidão
não ficou satisfeita até que ele soltou Barrabás, açoitou Jesus e o entregou para ser crucificado.
Nota: O açoitamento geralmente antecedia a pena capital. No presente caso, segundo parece,
Pilatos esperava que a multidão considerasse suficiente esse castigo (Mt 27:26). Halley informa que
os açoites eram aplicados com um chicote feito de várias tiras de couro, guarnecidas com pedaços
de chumbo ou pontas metálicas cortantes. A vítima era despida até a cintura e depois amarrada em

155
Nota: O evangelho de João registra três diálogos principais entre Jesus e pessoas que estavam sendo confrontada
com a verdade e com as exigências do evangelho. Em João 3, Nicodemos era um homem religioso que procurou Jesus
para obter respostas às suas perguntas espirituais. A mulher samaritana em João 4 não era nem religiosa nem cética, mas
representante do mundanismo em sua forma mais comum. Ela era indiferente ao mundo espiritual, vivendo em
licenciosidade moral. Pilatos, por sua vez, representa o secularismo moderno. Endurecido para aquilo que poderia falar
à sua alma, ele não estava nem aberto para o evangelho nem interessado nele.
169
posição encurvada sobre um poste e chicoteada nas costas desnudadas com o açoite, até as carnes
ficarem rasgadas. Às vezes, resultava em morte.
A decisão de Pilatos em crucificar Jesus é baseada em dois fatos:
1. Medo de perder suas regalias diante do imperador (Jo 18:12-13).
2. Fazer média com o povo judeu (Mc 15:15).
“lavou as mãos diante da multidão” (Mt 27:24) — O ato de lavar as mãos era símbolo de
remoção de culpa (Dt 21:6-7; Sl 73:13). Pilatos era o tipo de pessoa que faria qualquer coisa que lhe
parecesse vantajosa no momento.

Resumindo: O julgamento de Jesus Cristo se dividiu em duas partes, a judaica e a romana, e


em cada uma delas houve três audições:
1. Diante de Anás, o sumo-sacerdote (Jo 18:12-14,19-24)
2. Diante de Caifás (Jo 18:24-28)
3. Diante do Sinédrio (Mt 26:57-68; Mc 14:53-65; Lc 22:66-71)
4. Diante de Pilatos (Mt 27:1-2,11-26; Mc 15:1-15; Lc 23:1-7; Jo 18:28—19:16)
5. Diante de Herodes (Lc 23:8-12)
6. Diante de Pilatos (Lc 23:13-25)

Irregularidades no processo de julgamento de Jesus


1. O Sinédrio só poderia reunir-se de dia, entre o primeiro e o segundo sacrifício do Templo (os dois holocaustos
diários) e nunca à noite. Eles julgaram Jesus na madrugada da sexta-feira.
2. O Sinédrio não poderia reunir-se em dias de sábado ou em dias festivos. Eles julgaram Jesus em plena festa
da Páscoa.
3. A sentença não poderia ser proferida no primeiro dia de julgamento, mas sim no dia seguinte. Eles
sentenciaram Jesus à morte no mesmo instante do julgamento.
4. O Sinédrio não poderia condenar ninguém à morte. Nota: Dizem alguns que, no período de Jesus, os romanos
abriram exceção para que os próprios judeus condenassem à morte, até mesmo um romano, caso a afronta fosse
contra a integridade do Templo. Se isso for verdade, explica o por que as testemunhas acusaram Jesus de ter dito que
destruiria o Templo.
5. Houve no processo duas testemunhas falsas.
6. Mudança de libelo.156 No Sinédrio, Cristo foi acusado, julgado e condenado à morte por blasfêmia, sacrilégio.
No Pretório, com Herodes, foi julgado por sedição contínua. No primeiro libelo, diziam que Jesus blasfemava contra a
religião judaica e cometia sacrilégio, desrespeitando seus princípios; no segundo, apontavam-no como subvertedor
contumaz e habitual da ordem pública, abalando a paz social da Palestina.
7. Não houve possibilidade de defesa por parte do acusado.
8. Não houve prazo legal para apelação, entre a condenação e a execução.
9. Houve falta de unidade processual. Quatro juízes — a) Anás: ex-sumo sacerdote com grande influência sobre
o Sinédrio; b) Caifás: sumo sacerdote oficial e presidente do Sinédrio; c) Herodes Antipas: governador da Galiléia e
Peréia, o incestuoso, o assassino de seu precursor; d) Pôncio Pilatos: governador da Judéia.
10. O Direito Hebraico não permitia nem testemunha singular nem juiz singular.
11. Absolvido por Pilatos, volta a julgamento.
12. Não havia idoneidade no Sinédrio para julgar Jesus, pois o Sinédrio pagou a Judas para acusar Cristo.
13. Considerado culpado e condenado à morte, por que também foi flagelado? Houve, então, duplicidade de
pena.

A CRUCIFICAÇÃO
Em que dia do mês Jesus foi crucificado?
Os evangelhos sinóticos concordam que Jesus foi crucificado no dia 15 de Nisã, pois todos
eles se referem ao primeiro dia dos Pães Ázimos, que era o dia 14 de Nisã (Mt 26:17-20; Mc 14:12;
Lc 22:7-8), como o dia em que Jesus comeu a Páscoa e que foi crucificado no dia seguinte;
portanto, 15 de Nisã, sexta-feira.
A hora da crucificação
156
Libelo: Exposição articulada daquilo que se pretende provar contra um réu, apresentada após a sentença de
pronúncia, à qual se deve conformar.
170
Marcos 15:25 informa que Jesus foi crucificado à hora terceira (9:00 da manhã); Mateus e
Lucas concordam em dizer que as trevas começaram na hora sexta (meio-dia). João 19:14, porém,
diz que na hora sexta Jesus ainda estava recebendo a sentença por intermédio de Pilatos. Como
explicar tal discordância? É que Marcos se utilizou da maneira hebraica de computar as horas.
Marcos 15:33 diz que trevas cobriram a terra da hora sexta à hora nona, ou seja, do meio-dia às 15
horas (3:00 da tarde).
O evangelho de João foi o último a ser escrito, o que ocorreu no final do século primeiro,
quando o método judaico de contagem do tempo não estava mais em uso, e sim o método romano
que fora adotado em toda a Ásia Menor. João não escreveu especificamente para os judeus; sua
intenção era ser compreendido pelo povo da Ásia Menor. Então, para alcançar essa região, usou em
seus escritos alguns costumes romanos, a fim de se fazer entender. E, entre eles, a marcação do
tempo, a qual era computada de meia-noite à meia-noite. Sendo assim, sexta hora, na marcação
romana, corresponde à hora judaica, ou seja, 6:00 horas da manhã.

O local da crucificação
Segundo o registro dos evangelhos, Jesus foi levado para fora da cidade e crucificado no
chamado “lugar da Caveira” (Mt 27:33; Mc 15:22; Lc 23:33; Jo 19:17; “Calvário” é derivado da
palavra latina, e ‘Gólgota”, da palavra aramaica que significa “caveira”). Ele foi sepultado em um
sepulcro que pertencia a José de Arimatéia.
Halley registra:157 Em Jerusalém hoje existem duas localidades que reivindicam ser o palco
desses acontecimentos. A primeira é o Calvário de Gordon, ao norte da atual Porta de Damasco,
com o Túmulo do Jardim nas proximidades. Embora esse local fique fora dos muros da cidade,
tanto dos antigos quanto dos atuais, e seja condizente com certos tipos de piedade, não existe razão
que nos obrigue a pensar que se trata do Calvário ou do sepulcro. Na realidade, o Túmulo do Jardim
talvez remonte à Idade do Ferro (1000-586 a.C.) e, portanto, não pode ter sido um túmulo “no qual
ninguém ainda fora colocado” (Lc 23:53).
A sugestão que tem mais evidências a seu favor, embora não sejam inabaláveis, é que a Igreja
do Santo Sepulcro marque o local desses eventos dramáticos. É provável que esse sítio histórico
ficasse fora da cidade murada nos dias de Jesus e que realmente fosse um lugar de sepultamento.
Tradições cristãs muito antigas, que remontam pelo menos aos dias de Eusébio (séc. IV d.C.), suge-
rem que essa igreja marca o mais provável dos dois sítios.

As trevas. Durante três horas — do meio-dia às quinze horas, quando Jesus expirou (v. 45) —,
a natureza inanimada escondeu o rosto, envergonhada diante da indizível iniqüidade dos homens. A
intenção de Deus pode ter sido que as trevas fossem o luto simbólico da criação por Jesus, enquanto
este sofria, em nosso favor, as penas dos perdidos.

O terremoto. O terremoto, as rochas partidas e as sepulturas que se abriram (vs. 51-55) foram
a saudação de Deus ao Salvador triunfante. Rasgar o véu do Templo (v. 51) foi a proclamação do
próprio Deus de que, na morte de Cristo, desaparecera a barreira entre Deus e o homem (Hb 9:1-14;
10:14-22). Os santos ressuscitados (vs. 52-53) foram a evidência e a garantia de que se rompera o
poder da morte. Somente Mateus menciona essa ressurreição dos santos. Observe-se que até mesmo
o centurião, o oficial comandante dos soldados romanos que crucificaram Jesus, ficou convicto de
que Jesus era realmente o Filho de Deus (v. 54).

A cruz
Quando os líderes religiosos da nação judaica e os soldados se uniram no seu grande pecado
de matar Jesus, pensaram só em trazer uma grande humilhação e vergonha sobre Ele, silenciando os
Seus lábios e parando Suas mãos. Na opinião deles, Jesus era somente um criminoso que sofreu a
morte dum criminoso. Consideraram a morte por crucificação como uma morte desprezível,
merecida somente aos escravos e traidores.
157
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 510.
171
A cruz era um lugar de sofrimento horrível. Quando o juiz condenava um homem a tal morte,
logo era despido de suas roupas, atado a um poste à altura da cintura, e açoitado com chicote de
couro incrustado com pedaços de osso e metal. Às vezes o chicoteador era tão severo que o
prisioneiro morria logo. Depois que as mãos e os pés eram pregados na cruz era possível viver até
três dias. Pela Lei de Moisés (Dt 21:22-23), aos judeus crucificados era permitido terminar seus
sofrimentos antes do pôr do sol. Faziam isso incendiando a cruz, ou por quebrar os braços e as
pernas com um martelo pesado, ou até mesmo ferindo o corpo com uma lança.
A crucificação era a pena capital, oriunda dos cartagineses, aplicada por Roma aos escravos,
aos criminosos, aos prisioneiros de guerra, aos desertores e sobretudo aos revoltosos vencidos.
Causava a morte mais agonizante e ignominiosa que uma era de crueldade podia inventar. Pregos
eram cravados nas mãos e nos pés, e a vítima era deixada suspensa em agonia, passando fome, sede
intolerável e excruciantes convulsões de dor. A causa da morte não era a perda de sangue, mas a
parada cardíaca. A vítima dessa crudelíssima pena ficava, muitas vezes, em agonia durante 48 horas
ou mais, conforme a resistência do crucificado. No caso de Jesus, tudo acabou em seis horas,
quando Jesus declarou “Está consumado!” e voluntariamente entregou seu espírito.
Havia três tipos principais de cruzes:
cruz comissa cruz decussata cruz imissa 
O Senhor foi crucificado numa cruz imissa, porquanto puseram no topo da cruz uma inscrição
que declarava o motivo por que fora crucificado. Os historiadores afirmam que Jesus teve de
carregar a barra horizontal (patíbulo); a haste vertical da cruz esperava o condenado no lugar do
suplício.
Puseram o Senhor estendido sobre o madeiro e encravaram-lhe as mãos e os pés. Ele sentiu
toda dor física na sua realidade perfeita e absoluta, como qualquer corpo humano sentiria. Jesus era
perfeitamente homem, em sua natureza física, e perfeitamente Deus, em sua natureza espiritual.
Para os cristãos, a cruz tornou-se um símbolo de bênção, da vitória e de regozijo. Paulo
escreveu “longe esteja de mim, gloriar-me, senão na cruz do meu Senhor Jesus Cristo” (Gl 6:14).
Ele estava dizendo que a cruz mais do que qualquer coisa, foi a razão de seu regozijo e exultação.
Ele nos diz porque: “Pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. Foi por
causa do que Cristo cumpriu por nós na cruz que nos regozijamos nela. A morte de Cristo foi o
maior evento no universo todo, no tempo e na eternidade. Toda providência de Deus para com o
homem é baseada na obra de Cristo.

A CRUCIFICAÇÃO DE JESUS
Segue-se um esboço hipotético da seqüência dos eventos da crucificação, conforme Halley:158
 Às nove da manhã, Jesus chega ao Gólgota. Quando estão a ponto de atravessar suas mãos e seus pés com
pregos, oferecem-lhe vinho misturado com mirra para deixá-lo entorpecido e para embotar o senso de dor. Ele,
porém, o recusa.
 Enquanto o pregam na cruz, Jesus diz: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”. Para nós é
difícil controlar a ira contra os assassinos, mesmo quando simplesmente lemos a respeito disso. Ele, porém, estava
totalmente isento de ressentimentos.
 Suas roupas são divididas entre os soldados. Uma placa com os dizeres “Rei dos judeus” é colocada acima
de sua cabeça. Está escrita em três idiomas: hebraico, latim e grego, a fim de que todos possam ler e entender de
que crime é acusado.
 Recebe as zombarias, vaias e desprezo dos principais sacerdotes, dos anciãos, dos escribas e dos soldados
— uma multidão desumana, brutal, desprezível e de coração empedernido.
 Depois de talvez uma ou duas horas, Jesus diz ao criminoso arrependido: “Eu lhe garanto: Hoje você estará
comigo no paraíso”.
 Jesus diz à sua mãe, referindo-se a João: “ Aí está o seu filho”. A João, ele diz: “Aí está a sua mãe” (Jo 19:26-
27). Que morte gloriosa! Orou pelos seus assassinos, prometeu o paraíso ao criminoso e providenciou um lar para
sua mãe — sendo esta sua última ação na terra.
 As trevas caem e duram desde o meio-dia até as três horas da tarde. Suas primeiras três horas na cruz foram
158
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 435.
172
marcadas por palavras de misericórdia e de bondade. Agora Jesus entra na etapa final de seu sofrimento pelo
pecado humano. É possível que as trevas simbolizem o distanciamento de Deus. Nunca neste mundo poderemos
saber o que Jesus sofreu naquelas três horas finais pavorosas.
 Suas quatro últimas declarações são feitas enquanto está expirando:
“Meu Deus! Deus meu! por que me abandonaste?” Sozinho, nas dores do inferno, a fim de livrar-nos de irmos para lá.
“Tenho sede.” A febre ardente e a sede excruciante acompanhavam normalmente a crucificação. As palavras podem ter
sido mais do que isso (ver Lc 16:24). Oferecem-lhe vinagre. Passados os sofrimentos, ele o aceita.
“Está consumado!” Uma exclamação de alívio e alegria triunfantes. Foi rompido o longo reinado do pecado e da morte
humanos.
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”
 Um terremoto, a cortina no Templo é rasgada ao meio, os túmulos se abrem.
 O centurião crê. As multidões ficam aflitas.
 Sangue e água fluem do lado de Jesus.
 José e Nicodemos pedem o corpo de Jesus para o sepultamento.
 E assim a noite cai sobre o crime mais sinistro e hediondo da História.

AS ÚLTIMAS PALAVRAS DA CRUZ

1. PERDÃO. Quando os soldados romanos estavam pregando as mãos e pés do Senhor na


cruz, Ele orou por eles dizendo: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34).
Naturalmente, sabiam que o estavam crucificando, mas não entenderam que estavam crucificando o
Senhor da glória. Tinha sido profetizado centenas de anos antes que Jesus “intercedeu pelos
transgressores” (Is 53:12). Apesar de serem homicidas Ele rogou a Deus pelo perdão deles.
Nós também somos culpados de sua morte, porque foi por causa dos nossos pecados que Ele
morreu. Nós também precisamos de perdão, e somente por causa dele e da Sua intercessão por nós é
que somos perdoados (At 13:38-39; Cl 1:14; Jo 17:20).

2. SALVAÇÃO. Isaías profetizou que o salvador seria contado entre os transgressores (Is
53:12). Isso foi cumprido quando Jesus foi colocado entre os malfeitores que foram crucificados ao
mesmo tempo. Nos dois malfeitores vemos o tratamento de todos os homens com o Senhor Jesus.
Aquele que zombou e rejeitou o Salvador morreu nos seus delitos e pecados. Mas o outro creu em
Jesus e foi logo ficar com Ele no paraíso. Havia um escrito pregado acima da cabeça de Jesus, que
em três línguas e dizia: “ESTE É O REI DOS JUDEUS”. Talvez o ladrão não tivesse visto outra
palavra fora destas dizendo que Cristo era um Rei o que tinha um reino... Porque pediu a Jesus que
se lembrasse dele quando entrasse no seu reino. Ele confessou que estava recebendo o que merecia
mas também creu que Jesus era inocente de qualquer mal. Por causa do reconhecimento do seu
próprio pecado e por causa da sua fé, que Cristo era o rei dos judeus, Jesus disse-lhe: “Em verdade
te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23:39-43).
Neste homem vemos a nós mesmos, porque todos nós somos malfeitores, somos ladrões de
Deus. Tudo que temos Ele nos tem dado, mas não lhe devolvemos. Antes usamos nosso tempo,
força e dinheiro, etc, no serviço de Satanás e para os nossos próprios interesses. Mas como o ladrão
podemos crer nas palavras: “Este é o rei dos judeus”. O ladrão não podia usar mãos, pés, mas podia
procurar andar no caminho do Senhor, não podia fazer serviço nenhum para Deus, somente podia
chegar como era, um pecador, mãos vazias, sem possibilidade de dar ou fazer alguma coisa para
Deus. Somente podia crer, e foi isso que precisou fazer. Tinha o uso dos lábios e coração, e creu
com o coração e confessou com a boca (Rm 10:9-10). No meio da zombaria e desprezo da multidão
ele tinha a coragem de confessar a sua fé no seu Senhor.

3. AFLIÇÃO. Quando o Senhor Jesus completou 40 dias de idade de idade, foi levado ao
Templo; lá um ancião chamado Simeão se regozijou em vê-lo e falou uma profecia maravilhosa a
seu respeito. Mas também disse a Maria: “uma espada traspassará a tua própria alma”. Quando
Maria presenciou a morte vergonhosa e terrível do seu filho, sofreu como nenhum, outro. Com

173
amor, coragem e reverência ficou ao lado da sua cruz enquanto seus inimigos zombavam e
insultava-No. O Senhor Jesus sendo perfeito em tudo, nos deu um exemplo aqui, como todos os
filhos devem honrar os seus pais. O mandamento de Êx 20:12 é repetido em Ef 6:1-2. Honrar os
pais é manifestar amor, gratidão e muito respeito. Toda sua vida Jesus tinha feito tudo isso. Agora
na cruz quando ia deixar esse mundo e não podia confortar mais a sua mãe com a sua presença
corporal, Ele a entregou àquele discípulo o qual achou mais apropriado para cuidar dela; porque
certamente ninguém O amou mais do que eles dois. Apesar de estar consumado a redenção do
mundo não se esqueceu da sua mãe, vendo-a ao lado do discípulo amado, João, Jesus disse a ela:
“Mulher, eis aí o teu filho”, e a João: “Eis aí tua mãe” (Jo 19:25-27). Na mesma maneira que Jesus
estava ciente da necessidade de sua mãe, também está ciente da minha necessidade, porque Ele “me
amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2:20), e certamente somos objeto do seu amor e
cuidado. Não há necessidade que ele não possa e não queira suprir (Fl 4:19).

4. ANGÚSTIA. No nosso lugar, sofrendo pelos pecados de todos, o Senhor Jesus suportou
ambos: nossos pecados e a nossa morte; os quais são uma separação de Deus. Isso foi o cúmulo do
seu sofrimento. Enquanto Ele, pela primeira vez desde a eternidade, estava na comunhão com o Pai,
houve trevas na terra toda, apesar de ser meio-dia. Ao fim deste tempo Ele gritou com uma grande
voz, expressando a angústia que foi quase mais do que podia suportar. Este grito vemos no Sl 22:1,
e a resposta se encontra no verso 3 do mesmo Salmo. Jesus gritou: “Deus meu, Deus meu, por que
me desamparaste?”. E a razão foi: “Tu és santo”. Sim, Deus é infinito na sua pureza e santidade que
não pode contemplar a iniqüidade” (Hb 1:13). A razão porque Jesus foi desamparado por Deus, foi
porque estava levando sobre si o pecado do mundo. O Deus santo que tinha que julgar apesar de ser
encontrado, no seu próprio Filho. Jesus deu este grande clamor para que pudéssemos entender, em
parte, ao menos, uma coisa que estava sofrendo por nós. Fazendo-se pecado, suportando a ira de
Deus, desamparado por seu Pai, feito uma maldição por nós (II Co 5:21; Gl 3:13). Oh, como é
grande a prova do seu amor para conosco! Apesar de Ele mesmo ser desamparado, nenhum dos seus
tem sido desamparados e nunca serão, porque Ele tem prometido: “de maneira alguma te deixarei,
nunca jamais te abandonarei” (Hb 13:5). Mas todos aqueles que rejeitam este Salvador maravilhoso
serão lançados fora da sua presença eternamente (II Ts 1:7-9; Ap 20:15)

5. SOFRIMENTO. O Senhor Jesus foi verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem.


Quando veio ao mundo não cessou de ser Deus, mas tomou sobre si aquilo que não tinha antes — a
humanidade perfeita (I Tm 3:16; Fl 2:6,7). Era uma pessoa com duas naturezas, a divina e a
humana. Deu muitas provas infalíveis de sua deidade pelo seu poder, sabedoria, santidade, amor e
conhecimento. Também deu provas incontestáveis da sua humanidade — muitas vezes estava
cansado, com fome, dormia, chorava, orava, gemia, maravilhava-se e regozijava-se. Na cruz
ouvimos as suas Palavras: “Tenho sede!” (Jo 19:28). Este clamor expressava a intensidade do seu
sofrimento físico. Vamos lembrar o sofrimento que tinha experimentado: o Getsêmani, o tribunal, as
chicotadas, os cravos, as três horas no sol ardente e as três horas sob a ira de Deus. Mas apesar de
tudo isso não falou uma palavra de queixa. Suportou tudo em silêncio como sua pena justa por ser à
oferta do pecado. Tudo isso é o que você e eu merecemos. Lembrando Ele que a profecia do Sl
69:21 ainda não fora cumprida, gritou “tenho sede” para que os homens pudessem ter a
oportunidade de cumprir aquela profecia. Por causa de ser verdadeiramente homem, levando nossas
dores e tomando nossas iniqüidades, Ele sabia como simpatizar conosco em toda experiência que
aparecesse na vida (Hb 2:17-18; 4:15). Quando passamos por duras experiências, precisamos
lembrar que Ele experimentou as mesmas lutas.
Jesus sentiu sede não somente de água, mas de comunhão com o seu Pai, e comunhão com os
seus discípulos. Ele almeja nosso amor e devoção.
Há uma sede no seu coração, um almejo que não tem sido cumprido? O Senhor Jesus disse:
“aquele que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede” (Jo 4:14); “Oh! provai e vede
que o Senhor é bom” (Sl 34:8); “Ele dessedenta a alma sequiosa” (Sl 107:9).

174
6. VITÓRIA. “Quando Jesus tomou o vinagre, disse: “Está consumado!” (Jo 19:30). O que
foi consumado? Tudo o que tinha trazido do céu para a terra para fazer. Tudo que foi necessário
para revelar o caráter de Deus, tudo o que foi necessário para remir o homem. As primeiras palavras
de Jesus recordadas na Bíblia são: “Convém-me tratar dos negócios da casa de meu Pai”, e agora
Ele disse: “Está consumado”. A grande obra da redenção está cumprida, não houve nada mais para
adicionar. Para provar que foi cumprido com certeza Deus rasgou em dois pedaços o grande e
bordado véu que ficava pendurado à porta do santo dos santos, a sala anterior do Templo. Assim
mostrou que o caminho à Sua Presença seria pôr meio do sacrifício de seu Filho.
Então provou que estava satisfeito com a Obra de Jesus, por ressuscitá-lo dos mortos e por
glorificá-Lo a Sua destra. Neste grito de triunfo vemos o fim dos nossos pecados, tem sido
transferido ao nosso substituto (Is 53:6). Para o crente, o salvo, não há mais culpa nem condenação,
nem pena. Deus não se lembra mais dos nossos pecados. Mas o descrente (incrédulo) ainda tem os
seus pecados sobre si mesmo e está sob a ira de Deus (Jo 8:24; 3:36). O problema do pecado foi
resolvido no Calvário, mas não podemos aproveitar daquela obra até recebermos o Filho. No
momento em que fazemos isso, nossos pecados são perdoados e não temos mais nada com a culpa e
sua penalidade.

7. SATISFAÇÃO. Depois do seu grito de triunfo, Jesus disse: “Pai, nas tuas mãos entrego o
meu espírito!” Então entregou o seu espírito e morreu fisicamente. Isso também, foi um
cumprimento da profecia (Sl 31:1-5). Agora estava mais uma vez em comunhão com o seu Pai.
Tinha passado doze horas nas mãos dos homens vis, sofrendo vergonha e humilhação (Mt 17:22-
23; Lc 24:22-23; At 2:23), mas agora está mais uma vez nas mãos do seu Pai, aquele que o
ressuscitou dos mortos e O assentou à sua dextra e que um dia o enviará mais uma vez a êste
mundo. Naquele tempo, os homens estarão nas mãos do Filho porque será o Juiz (At 17:31), e a
todos os incrédulos Ele dirá: “Apartai-vos de mim”. O seu convite hoje é: “Vinde a mim” e todos os
que o atendem irão para um lugar de refúgio, de segurança e de repouso para sempre.

Sepultamento de Jesus (Mt 27:57-66; Lc 23:50-56; Mc 15:47)


Todos os Evangelhos concordam que José de Arimatéia tomou a dianteira no sepultamento de
Jesus, e que algumas mulheres estavam associadas com ele. Era membro do Sinédrio, mas Lucas
deixa claro que não tinha dado seu consentimento à execução de Jesus; também se refere ao seu
bom caráter e diz que “esperava o reino de Deus”. Este é provavelmente o modo de Lucas nos
contar que José de Arimatéia era um seguidor de Jesus (cf. Mt 27:57; Jo 19:38). Ele era um
discípulo no anonimato.
A lei judaica mandava que os crucificados fossem retirados da cruz e sepultados no mesmo
dia. Além do mais, era véspera do Sábado e da grande festa da Páscoa. José de Arimatéia reuniu
coragem para pedir a Pilatos o corpo de Jesus a fim de sepultá-lo.
Nicodemos, outro membro do Sinédrio, e considerado um dos mestres líderes do judaísmo
naquela época, também deu um passo à frente e declarou sua fé nesse mestre como Messias. Esses
dois homens influentes sabiam que, ao se associarem ao sepultamento de Jesus, eles seriam vistos
pelo resto do Sinédrio como simpatizantes dos ensinos de Jesus. Mas o choque da morte violenta de
Jesus e certamente o seu conhecimento de que Ele havia cumprido tantas profecias messiânicas fez
com que esses dois homens se identificassem publicamente com Jesus.
Quando esses dois irmãos recém e mutuamente descobertos tomaram o corpo de Jesus e se
ajoelharam para prepará-lo para o sepultamento no túmulo privativo de José de Arimatéia, eles
estavam, talvez, concentrados demais com a perda de seu Mestre e não perceberam que se
encaixavam no cumprimento da profecia de Isaías feita 700 anos antes: “Com o rico esteve na sua
morte” (Is 53:9).
Assim, sem saberem, esses homens prepararam o palco dos acontecimentos de tal forma que,
três dias mais tarde, providenciariam evidências circunstanciais irrefutáveis para a ressurreição de
Jesus. Nicodemos trouxe mais ou menos 50 quilos de uma perfumaria composta de mirra e aloés,

175
própria para sepultamentos. Esses ingredientes custavam o equivalente ao salário anual de um
homem comum.
“É importante notar certas coisas sobre a natureza dessas duas especiarias. De acordo com
Arndt e Gingrich, autoridades da língua grega, mirra era um material resinoso parecido com uma
cola com um forte perfume. O aloés era um suco de uma planta aromática de secagem rápida. Esses
dois ingredientes eram misturados e usados para embeber faixas de linho de mais ou menos sete
centímetros de largura. Essas faixas embebidas com as resinas perfumadas foram então
cuidadosamente enroladas em volta de cada parte do corpo de Jesus, de acordo com o costume do
sepultamento judaico. Uma vez que os aloés se secaram, as tiras se transformaram em um casulo em
volta do Seu corpo.”159
Depois dessa preparação, eles colocaram Jesus no túmulo de José de Arimatéia, recém-cavado
na rocha, e o trancaram rolando uma pedra na canaleta já previamente cavada na rocha em frente à
porta (Mt 27:60). Os estudiosos estimam que essa pedra, grande o suficiente para fechar uma porta
de um metro por um metro e meio, pesaria aproximadamente uma tonelada.

159
Hal Lindsey, O Messias – esperança para o futuro. “Obra Missionária Chamada da Meia-Noite”, 1997, p. 136.
176
IX. RESUMO SOBRE A RESSURREIÇÃO, AS APARIÇÕES E A ASCENSÃO DE JESUS

Quanto tempo Jesus ficou no túmulo?


A permanência de Jesus no sepulcro foi desde sexta-feira até a madrugada do domingo. Jesus
predisse que ficaria três dias e três noites, ou seja, ressuscitaria após três dias. As expressões são
sinônimas e podemos deduzir claramente que não abrangem três dias completos, mas três dias
cronológicos: parte do primeiro dia, o segundo dia total (sábado) e parte do terceiro dia. Para os
judeus, esta contagem de dias era normal.
O terceiro dia (v. 64) é citado aqui como período idêntico a “depois de três dias” (v. 63).
Halley informa que, no uso lingüístico hebraico, as partes de dias no começo e no fim de
determinado período eram contadas como dias (Et 4:16; 5:1). “Três dias e três noites” (Mt 12:40; cf.
I Sm 30:12-13), “depois de três dias” (Mc 8:31; 10:34; Jo 2:19) e “o terceiro dia” (Mt 16:21; 17:23;
20:19; Lc 9:22; 24:7, 21, 46) são expressões intercambiáveis para o período que Jesus passou no
sepulcro, desde sexta-feira à tarde até domingo de manhã.

O tempo da ressurreição:
O primeiro dia da semana. Na harmonia dos evangelhos, Lc 24:1 e Jo 20:1 são textos
paralelos a Mc 16:2. Então Mt 28:1 seria uma visita antes do pôr do sol, no sábado, para ver o
sepulcro. Depois do pôr do sol, as duas Marias e Salomé compraram seus aromas (Mc 16:1). Cedo,
na manhã seguinte, foram ao túmulo (Mc 16:2; Lc 24:1; Jo 20:1). A ressurreição, precedida pelo
terremoto (Mt 28:2), já havia acontecido antes que elas chegassem. É esta a ordem provável dos
eventos.

O fato do sepulcro aberto:


Maria Madalena e a outra Maria foram as primeiras a verem a pedra removida, mas não
pensaram que Jesus havia ressuscitado. Não poderia ter sido os discípulos que abriram o sepulcro
para roubar o corpo de Jesus (Mt 28:13), pois a pedra sobre ele era muito pesada. A grande pedra foi
removida sobrenaturalmente. Esperavam encontrar um morto, e encontraram um mensageiro da
vida. Deus nos surpreende!
Homens, ou anjos e o número deles:
— Mateus diz que o anjo removeu a pedra (28:5)
— Lucas diz que havia dois varões de vestes resplandecentes (24:4)
— João diz que eram dois anjos (20:12)
— Marcos diz que era um moço vestido de branco (16:5)

Cinco aparecimentos no primeiro dia:


Os quatro relatos da ressurreição têm em si todos os sinais de testemunhos oculares de uma
experiência arrebatadora. Um exame dos relatos, feito por Halley, 160 conforme são apresentados nos
quatro evangelhos, demonstra quão diferente é a perspectiva de cada um deles:

As mulheres visitam o túmulo


Mateus Jesus aparece às mulheres
Os guardas são subornados
Jesus aparece aos onze na Galiléia

As mulheres visitam o túmulo


Jesus aparece a Maria Madalena
Marcos Jesus aparece a dois discípulos na estrada de Emaús
Jesus aparece aos onze em Jerusalém, no primeiro entardecer
Ascensão

160
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 436.
177
As mulheres visitam o túmulo
Pedro corre até o túmulo
Lucas Jesus aparece aos dois e a Pedro
Jesus aparece aos onze em Jerusalém, no primeiro entardecer
Aparecimento final, 40 dias depois
Ascensão

Maria Madalena visita o túmulo


Pedro e João correm até o túmulo
João Jesus aparece a Maria Madalena
Jesus aparece aos onze no primeiro entardecer; Tomé está ausente
Jesus aparece aos onze uma semana depois; Tomé está presente
Jesus aparece aos sete no mar da Galiléia

Existem várias maneiras de harmonizar os relatos acima. A seguinte é geralmente aceita como
uma possibilidade:
1. Na primeira luz do amanhecer, dois ou mais grupos de mulheres saem dos lugares em que
estão hospedadas, em Jerusalém ou em Betânia, a uma distância de dois ou três quilômetros, e
começam a caminhar até o túmulo.
2. É provavelmente nessa hora que Jesus está saindo triunfante do túmulo, acompanhado por
anjos que tiram a pedra e dobram com cuidado a mortalha.
3. Os guardas, entrementes, assustados e confusos, fogem e contam aos sacerdotes que os
tinham colocado ali.
4. Ao nascer do sol, quando as mulheres se aproximam do túmulo, Maria Madalena —
chegando antes de seu grupo, vê o túmulo vazio sem, porém, ver o anjo nem ouvir a proclamação de
que Jesus ressuscitou (Jo 20:13,15) — volta e corre para contar a Pedro e a João.
5. As outras mulheres chegam mais perto, vêem e escutam os anjos e se apressam, por outro
caminho, para contar ao grupo principal dos discípulos.
6. Nesse ínterim, Pedro e João chegam ao túmulo e entram. Vêem a mortalha vazia e vão
embora João crendo e Pedro se admirando.
7. Maria Madalena, enquanto isso, seguindo Pedro e João, volta ao túmulo e fica sozinha,
chorando. Então ela vê os anjos e o próprio Jesus aparece a ela.
8. Pouco depois, Jesus aparece às demais mulheres que estão a caminho para contar aos
discípulos ou quando, tendo contado a eles, voltam ao túmulo.

Os dez aparecimentos em ordem:


São narrativas diferentes nos seus detalhes, mas se harmonizam entre si fortificando a
credibilidade na ressurreição de Cristo.161 Os escritores sagrados não tratam a ressurreição do
Senhor como algo duvidoso. Todos afirmam que Jesus ressuscitou.
1. Jesus aparece a Maria Madalena, mandando uma mensagem por ela aos discípulos (Mc 10:9-11; Jo 20:11-18).
2. Jesus aparece a diversas mulheres, mandando por elas outras mensagens aos discípulos (Mt 28:9-10).
3. Jesus aparece a Cleopas e seu companheiro no caminho de Emaús (Mc 16:12-13; Lc 24:13-33).
4. Jesus aparece a Simão Pedro (Lc 24:34-35; I Co 15:5a).
5. Jesus aparece a um grupo de discípulos, estando Tomé ausente (Mc 16:14; Lc 24:36-43; Jo 20:19-20).
6. Jesus aparece de novo aos discípulos; desta vez, Tomé estava presente (Jo 20:24-29; I Co 15:5b).
7. Jesus aparece a sete dos discípulos à margem do Tiberíades (Jo 21:1-14).
8. Jesus aparece aos discípulos e a uma grande multidão (Mt 26:32; 28:7, 16-17; I Co 15:6).
9. Jesus aparece a Tiago (I Co 15:7).
10. Jesus aparece, pela décima vez, aos discípulos.

161
Ver secções 180 a 184 de Harmonia dos Evangelhos.
178
Nota: Os movimentos de Jesus, durante quarenta dias: Ele ficou em/ou perto de Jerusalém por
uma semana; depois, provavelmente, partiu para a Galiléia (Mt 28:7; Mc 16:7); ao terminar os 40
dias, está novamente em Jerusalém.

Os guardas prestam relatório e são subornados (Mt 28:11-15)


Os soldados romanos tinham sido colocados diante do sepulcro a pedido do Sinédrio, como
precaução contra a possibilidade de ser roubado o corpo de Jesus. Aterrorizados com o terremoto,
com o anjo e com a ausência do corpo de Jesus do sepulcro, fugiram e foram relatar o ocorrido ao
Sinédrio. O Sinédrio os subornaram para que dissessem que tinham adormecido. Dormir no posto
de sentinela podia significar para eles a execução sumária; por isso, os sacerdotes garantem aos
guardas que acertarão tudo com o governador, caso Pilatos fique sabendo de algo a esse respeito.
Esse conhecimento em primeira mão do que aconteceu no sepulcro deve, por certo, ter pesado na
balança quando um grande número de sacerdotes se converteu algum tempo depois (At 6:7).

Você me ama? (Jo 21:15-25)


Depois da refeição matinal na praia do mar de Tiberíades, Jesus voltou-se para Pedro e fez
uma série de perguntas relacionadas com a consagração de Pedro. A palavra traduzida por “amar”
nas duas primeiras perguntas de Jesus se refere a um amor que envolve a vontade e a personalidade.
O segundo tipo de amor, indicado pela palavra usada na terceira pergunta de Jesus, refere-se mais às
emoções que à vontade.
A despeito da importância que possamos conferir a essas distinções entre as palavras, a
questão central é o amor por Cristo, e Pedro o expressou com segurança. Suas três negações
anteriores são respondidas aqui com três declarações de amor e serviço. Jesus queria claramente que
o amor por Ele incluísse vontade e emoções, fosse demonstrado na vida de discípulo e na dedicação
à Igreja.

As três comissões finais de Jesus 162


a) João 20:21-23
b) Marcos 16:15-18 e Mateus 28:18-20
c) Lucas 24:44-49

A comissão em Mateus 28:18-20


— Toda a autoridade;
— Cristianismo como uma religião missionária;
— Discipular ou fazer discípulos;
— Internacional;
— Batismo em nome de Jesus;
— A fórmula e o desígnio do batismo;
— A promessa no fim.
A conclusão do Evangelho de Mateus é dada com as palavras da autoridade, do serviço e da
onipresença.

A última vez que Jesus foi visto (At 1:6-11)


O último encontro que Jesus teve com os discípulos foi em Jerusalém (At 1:4); dali, Jesus os
conduziu até Betânia (Lc 24:50).
“Vais restaurar o reino a Israel?” (v. 6). A independência política da nação continuava
ocupando a mente deles. Entenderam melhor depois do Dia de Pentecoste.
“Não lhes compete saber os tempos ou as datas” (v. 7). Os discípulos queriam que Jesus lhes
contasse quando voltaria. A declaração também serve como lembrança para a Igreja hoje, que
aguarda ansiosamente a segunda vinda de nosso Senhor.
Os confins da Terra (v. 8): essas foram as últimas palavras de Jesus, antes de passar para além
162
Ver secções 186, 192 e 195 de Harmonia dos Evangelhos, e comparar com Atos 1:9-12.
179
das nuvens.163 Não foram esquecidas. Os apóstolos, em sua maioria, segundo a tradição, morreram
como mártires em terras distantes.
“Voltará da mesma forma como o viram subir” (vs. 9, 11). Do topo da colina, acima de
Betânia, Jesus subiu para além das nuvens — e voltará com as nuvens, de forma visível para o
mundo inteiro (Mt 24:27, 30; Ap 1:7).
"C e r t a m e n t e, v e n h o s e m d e m o r a!
M a r a n a t a! v e m, S e n h o r J e s u s!”

A LENTIDÃO DOS DISCÍPULOS EM CRER QUE JESUS RESSUSCITARA 164


Eles não esperavam que Jesus ressuscitasse dentre os mortos, embora Jesus lhes tivesse dito repetidas vezes,
e com toda a clareza, que ressuscitaria ao terceiro dia (Mt 16:21; 17:9, 23; 20:19; 26:32; 27:63; Mc 8:31; 9:31; Lc 18:33;
24:7). Por certo, tinham entendido suas palavras como alguma parábola ou metáfora de sentido misterioso, além do seu
alcance.
Quando as mulheres foram ao túmulo, não era para ver se Jesus ressuscitara, mas para preparar-lhe o corpo
para o sepultamento permanente. Somente João, entre todos os discípulos, creu ao ver o túmulo vazio (Jo 20:8).
Maria Madalena só podia pensar que alguém retirara o corpo (Jo 20:13, 15). A notícia da ressurreição de Jesus
parecia tolice aos discípulos (Lc 24:11). Quando os dois que voltaram de Emaús contaram aos onze que Jesus aparecera
a eles, os discípulos não acreditaram (Mc 16:13). Pedro relatou que Jesus havia aparecido a ele (Lc 24:34). Mas ainda
assim eles não creram (Mc 16:14).
Jesus o predissera repetidas vezes. Os anjos o anunciaram. O túmulo estava vazio. Seu corpo havia
desaparecido. Maria Madalena vira a Jesus. As outras mulheres também o viram. Cleopas e seu companheiro o viram.
Pedro o vira. Mesmo assim, o grupo, em conjunto, não acreditava. A todos eles parecia incrível.
Então, quando Jesus apareceu aos dez naquela noite, repreendeu-os pela recusa obstinada em crer nos que o
tinham visto (Mc 16:14). Mesmo assim, pensaram ser ele mero fantasma, e ele os convidou a examinar de perto suas
mãos, seu lado e seus pés e a tocar nele. Em seguida, pediu comida e comeu na presença deles (Lc 24:38-43; Jo 20:20).
Depois de tudo isso, Tomé — desalentado e cheio de dúvidas — ainda estava convicto de que havia algum
engano no meio de tudo isso, e não creu senão quando viu Jesus pessoalmente uma semana depois (Jo 20:24-29).
Portanto, os primeiros a proclamar a ressurreição de Jesus estavam totalmente despreparados para crer nela,
determinados a não crer, mas vieram a crer, a despeito de si mesmos. Esse fato torna insustentável qualquer
possibilidade de essa história ter surgido da imaginação empolgada e cheia de expectativas. Não há maneira concebível
de explicar a origem dessa história senão que foi um fato. Um dia, nós também, pela graça de Jesus, ressuscitaremos.

EVIDÊNCIAS DA RESSURREIÇÃO

Toda a vida cristã, incluindo seu testemunho, sua mensagem, seus valores, sua ética etc.,
depende do ato de Deus em ressuscitar Cristo dentre os mortos. A ressurreição de Jesus Cristo é a
suprema prova da divindade de Cristo, é o fato central e o sustentáculo da fé cristã, e dela depende a
salvação. Sua importância é muito bem afirmada pelo Apóstolo Paulo em I Co 15:17: "Se Cristo
não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados."
A realidade e a natureza da ressurreição têm sido debatidas desde a época de Jesus até o nosso
tempo.
Entretanto, cremos na ressurreição literal, física — Jesus de Nazaré foi ressuscitado
literalmente, de modo sobrenatural. O túmulo estava realmente vazio, e Jesus, em várias ocasiões,
apareceu a seus seguidores, até subir ao céu (ver Lc 24:50-53; At 1:6-11). É verdade que ninguém
viu a ressurreição acontecendo no túmulo. Todavia, são mais que suficientes as evidências que
apontam para a ressurreição literal do corpo, como a melhor explicação para as informações
bíblicas e históricas. Observam-se as seguintes evidências:165

163
1. Jesus está agora no céu, assentado à direita de Deus-Pai.
2. Jesus está orando ao Pai a favor dos seus filhos, e está preparando o céu para a nossa chegada.
3. Jesus está edificando a sua igreja na Terra.
164
Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001, p. 563.
165
Manual Bíblico Vida Nova, p. 641.
180
1. As teorias naturalistas são fracas e forçadas para explicar as evidências, devido à sua
rejeição de tudo o que é sobrenatural.
2. O nascimento da Igreja durante esse período.
3. A transformação dos discípulos em testemunhas audazes, dispostas a morrer por sua fé.
4. A mudança do dia de culto, de sábado para domingo, por pessoas que cresceram como
judeus devotos.
5. As mulheres como primeiras testemunhas a verem o Senhor ressurreto. (O testemunho de
uma mulher tinha pouco ou nenhum valor legal no primeiro século. Que elas foram as primeiras a
ver Cristo é a melhor explicação para o testemunho das Escrituras para a historicidade do fato.)
6. O túmulo vazio e os panos encontrados nele.
7. A improbabilidade das alucinações de massa.
8. O fato de que as aparições relatadas duraram quarenta dias e depois pararam de modo
repentino e completo.
9. Intervalo de cinqüenta dias entre a ressurreição e sua proclamação no Pentecostes em
Jerusalém (ver At 1—2).
10. A natureza inesperada da ressurreição.
11. O caráter de Jesus e suas declarações de que ressuscitaria.
12. O fato de que nem os romanos nem os líderes judeus puderam provar que a ressurreição
não aconteceu, apresentando o corpo.
13. A conversão de céticos como Tiago (meio-irmão de Jesus) e, mais tarde, de adversários
como Saulo de Tarso (ver At 9:1-31).
Esses treze casos, e outros que poderiam ser mencionados, são extremamente difíceis de
explicar, alguns até impossíveis, a não ser pela ressurreição de Jesus Cristo. Juntando e avaliando
todas as informações, podemos concluir que a ressurreição física de Jesus é tanto uma realidade
histórica como o alicerce da fé cristã.

OS RESULTADOS DA MORTE DE CRISTO 166


Substituição dos pecadores Afastamento dos juízos divinos
Jesus tomou o nosso lugar; Ele sofreu a punição dos Deus vê o pecado como julgado na morte do seu Filho. O
nossos pecados (Lc 22:19-20; Jo 3:36; 6:51; 15:13; crente está protegido pelo sangue redentor de Cristo
Ef 1:3; Hb 2:9; I Pe 3:18; I Jo 5:11-12). (Rm 2:4-5; 4:17; 9:22; I Pe 3:20; II Pe 3:9, 15).
Cumprimento da Lei Remoção dos pecados cobertos por sacrifícios antes da
A justiça imputada de Jesus torna-se a justiça do cruz
crente diante de Deus como o perfeito cumprimento da Os pecados cometidos entre a época de Adão e a morte de
lei (At 15:10; Rm 1:16-17; 3:21-22, 31; 4:5, 11, 13-16, Cristo na cruz foram cobertos pelos sacrifícios. Em Cristo eles
23-24; 5:19; 10:4; II Co 5:21; Gl 3:8; 4:19-31; 5:1). são removidos (At 17:30; Rm 3:25; Hb 9:15; 10:2-26).
Redenção do pecado Salvação nacional de Israel
O próprio Deus pagou o resgate do pecado humano O futuro Israel crente terá seus pecados removidos (Rm 9-11,
por meio da morte do seu Filho (At 20:28; Rm 3:23-24). especialmente 11:25-29).
Reconciliação do ser humano com Deus Bênçãos milenais e eternas sobre os gentios
A atitude de Deus para com o mundo mudou As bênçãos terrenas milenais, que estão asseguradas a
completamente (Rm 5:10-11; II Co 5:18-20; Ef 2:16; Cl Israel, serão partilhadas pelos gentios (Mt 25:31-46; At 15:17;
1:20-22). Ap 21:24).
Propiciação em relação a Deus O despojamento dos principados e potestades
A justiça e a lei de Deus foram vindicadas (satisfeitas) Na cruz Cristo obteve uma vitória legal direta sobre Satanás e
(Rm 3:25; Hb 4:16; I Jo 2:2; 4:10). suas hostes (Jo 12:31; 16:11; Ef 1:21; Cl 2:14-15).
Julgamento da natureza pecaminosa O fundamento da paz
A natureza pecaminosa foi julgada na cruz e agora A cruz produziu a paz entre Deus e os seres humanos
pode ser controlada pelo Espírito na vida do crente. Em (Rm 5:1; Ef 2:13-14a; Cl 1:20);
termos de sua posição, o crente participa da entre judeus e gentios (Ef 2:14-18; Cl 3:11)
crucificação, morte, sepultamento e ressurreição de e paz universal (I Co 15:27-28; Ef 2:14-15; Cl 1:20).
Cristo.

166

H. Wayne House, Teologia Cristã em Quadros. Editora Vida, 1999.


181
Perdão e purificação Purificação das coisas no céu
O crente em Jesus tem perdão e purificação tanto na As “coisas” celestiais foram purificadas por causa do sangue
justificação quanto na santificação por meio do sangue de Cristo (Hb 9:23-24).
e da contínua intercessão de Cristo nos céus (I Jo 1:1
—2:2).

A importância da ressurreição
1. Ela cumpre as previsões feitas por Jesus de que ressuscitaria (Mt 12:40; 20:18-19; Lc 9:22; Jo
10:17-18; Jo 2:19-22; Mt 16:20-21; Mt 26:32).
2. O Antigo Testamento prenunciou que o Messias se levantaria dentre os mortos (por exemplo, Sl
16:9-10; cf. At 2:32).
3. A ressurreição corpórea de Jesus era a mensagem central do evangelho pregado pela igreja
primitiva e continua sendo a doutrina fundamental da Bíblia para a igreja atual (At 1:21-22; 3:26;
4:12-17).
4. Todas as principais doutrinas da fé cristã dependem da ressurreição corpórea de Jesus
a. A salvação pela fé depende da ressurreição (I Co 15:3-4, 14).
b. A doutrina de que temos um Advogado, um intercessor diante do Pai, dia e noite, depende
da ressurreição (Hb 7:23-27; I Jo 2:1-2).
c. Nossa justificação perante Deus e a provisão da “paz com Deus” são dependentes da
ressurreição (Rm 4:24—5:1).
d. A promessa da segunda vinda é predita com base na ressurreição (Fp 3:20-21).
e. O julgamento final depende da ressurreição (At 17:30-31).
f. A “bendita esperança” da igreja de que Cristo nos ressuscitará e também a nossos entes
queridos depende da ressurreição física dele (I Co 15:18; Rm 8:11).
5. Os rituais da Ceia do Senhor e do batismo são baseados na ressurreição (I Co 11:26; Rm 6:3-6,
8-9).

“O que tem sido experimentado por milhões de almas resgatadas por Ele, tanto de si mesmas
como do mundo, prova que a História foi cortada ao meio pela aparição dum Regenerador, que não
era um simples elo na cadeia dos seres humanos, mas Um a quem a raça, com os seus próprios
recursos, não poderia ter produzido — o perfeito Tipo, o Homem dos homens.” 167

167
James Stalker, A Vida de Cristo. Imprensa Batista Regular, 1985, p. 132.
182
Anexo: ESBOÇO SUMÁRIO DE UM ESTUDO HARMONÍSTICO DOS EVANGELHOS

Mateus Marcos Lucas João


Prólogo de Lucas 1:1-4
Prólogo de João 1:1-18
As genealogias 1:1-17 3:23-38
I. NATIVIDADE E INFÂNCIA DE JESUS
Anunciação a Zacarias, do nascimento de João Batista 1:5-25
Anunciação a Maria, do nascimento de Jesus, e a visita de Maria a
Isabel com o Magnificat 1:26-56
Nascimento, outorga do nome e infância de João Batista. 1:57-80
Anunciação, a José, do nascimento de Jesus 1:18-25
Nascimento de Jesus e visita dos pastores 2:8-20
Circuncisão, outorga do nome e apresentação de Jesus no templo,
com a homenagem de Simeão e Ana 2:21-38
Adoração dos Magos, fuga da santa família para o Egito, o retorno e
residência em Nazaré 2:1-23
A visita ao templo 2:40-52
II. PRIMÓRDIOS DO MINISTÉRIO PELA PALESTINA
Ministério de João Batista 3:1-12 1:1-8 3:1-18
O batismo de Jesus 3:13-17 1:9-11 3:21-33
A tentação de Jesus 4:1-11 1:12-13 4:1-13
Testemunho de João Batista sobre Jesus 1:19-34
Os primeiros discípulos 1:35-51
Primeiro milagre: transformação de água em vinho 2:1-12
A purificação do templo 2:13-22
Nicodemos e o novo nascimento 2:23—3:21
Ministérios batizadores paralelos de João Batista e Jesus 3:22-36
Encarceramento de João Batista e retirada de Jesus para a Galiléia 4:12 1:14 3:19-20; 4:1-4
4:14
A mulher samaritana 4:5-42
III. O GRANDE MINISTÉRIO GALILEU
Chegada na Galiléia, descrição do ministério de pregação e curas de
Jesus, cura do filho do nobre e nova residência de Jesus 4:13, 17 1:14-15 4:14-15 4:43-54
Chamamento posterior dos primeiros discípulos 4:18-22 1:16-20 5:1-11
Doutrinamento, curas e exorcismos, inclui o livramento do
endemoninhado na sinagoga de Cafarnaum e a cura da sogra de Pedro 8:14-17, 1:21-39 4:31-44
23-25
Purificação de um leproso 8:2-4 1:40-45 5:12-16
Perdão e cura de um paralítico 9:1-8 2:1-12 5:17-26
Chamamento de Mateus-Levi 9:9-13 2:13-17 5:27-32
Questão sobre o jejum 9:14-17 2:18-22 5:33-39
Cura, em dia de sábado, à beira do tanque de Betesda, com defesa da
autoridade de Jesus 5:1-47
Os discípulos colhem espigas e as comem em dia de sábado 12:1-8 2:23-28 6:1-5
Cura do homem de mão mirrada, em dia de sábado 12:9-14 3:1-6 6:6-11
Jesus afasta-se das multidões 12:15-21 3:7-12
A escolha dos Doze 3:13-19 6:12-16
O Sermão da Montanha 5:1—8:1 6:17-49

183
A fé do centurião e a cura do seu criado 8:5-13 7:1-10
Ressurreição do filho único da viúva de Naim 7:11-17
João Batista e suas dúvidas 11:2-19 7:18-35
Ais contra as “cidades privilegiadas” da Galiléia e um convite 11:20-30
Jesus é ungido por uma meretriz 7:36-50
As mulheres que sustentavam a Jesus e Seus discípulos 8:1-3
Defesa de Jesus contra a acusação de ser capacitado por Satanás 12:22-37 3:19-30
O sinal de Jonas 12:38-45
Os parentes espirituais de Jesus 12:46-50 3:31-35 8:19-21
Parábolas do reino: a semente e os solos, a semente em
desenvolvimento, a semente de mostarda, o fermento, o tesouro, a
pérola, o joio e o trigo, os peixes bons e maus, e o dono de casa 13:1-53 4:1-34 8:4-18
Jesus acalma a tempestade 8:18, 23-27 4:35-41 8:22-25
Os endemoninhados gerasenos (ou gadarenos) 8:28-34 5:1-20 8:26-39
Cura da mulher hemorrágica e ressurreição da filha de Jairo 9:18-26 5:21-43 8:40-56
Cura dos dois cegos e do endemoninhado mudo 9:27-34
Rejeição de Jesus em Nazaré 13:54-58 6:1-6 4:16-31
A missão dos Doze 9:35— 11:1 6:6-13 9:1-6
Decapitação de João Batista e temor culposo de Herodes Antipas 14:1-12 6:14-29 9:7-9
Multiplicação dos pães para os cinco mil homens 14:13-23 6:30-46 9:10-17 6:1-15
Jesus anda por sobre as águas 14:24-36 6:47-56 6:16-21
Discurso sobre o pão da vida 6:22-71
Pureza ritual e pureza real 15:1-20 7:1-23 7:1
A fé da mulher siro-fenícia e a cura de sua filha 15:21-28 7:24-30
Multiplicação dos pães para os quatro mil homens 15:29-38 7:31—8:9
Discussão sobre os sinais messiânicos 15:39—16:4 8:10-12
O fermento dos saduceus e dos fariseus 16:5-12 8:13-26
Confissão de Pedro sobre a missão messiânica de Jesus, a bem-
aventurança de Pedro, o alicerce rochoso da Igreja, as chaves do
reino, a liberação e a retenção de pecados 16:13-20 8:27-30 9:18-21
Predição da paixão, reprimenda a Pedro e palavras sobre discipulado 16:21-26 8:31-37 9:22-25
Transfiguração de Jesus 16:27—17:8 8:38—9:8 9:26-36
João Batista e Elias 17:9-13 9:9-13 9:36
Livramento de um menino endemoninhado e observações sobre a fé 17:14-20 9:14-29 9:37-42
Predição sobre a paixão 17:22-23 9:30-32 9:43-45
A taxa do templo 17:24-27
O espírito de criança e o discipulado 18:1-14 9:33-50 9:46-50
Reconciliação e perdão; a parábola do servo sem compaixão 18:15-35
Natureza do discipulado, em resposta a voluntários 8:19-22 9:57-62
Jornada para atender à festa dos Tabernáculos 9:51-56 7:2-10
IV. MINISTÉRIO POSTERIOR NA JUDÉIA E PERÉIA
Debate durante a festa dos Tabernáculos, incluindo a reinvindicação
de Jesus de ser aquele que dá a água da vida e a luz do mundo, e 7:11-52;
discussão sobre a descendência de Abraão 8:12-59
Cura e exclusão do cego de nascença 9:1-41
Discurso sobre o Bom Pastor 10:1-21
A missão dos setenta 10:1-24
A parábola do Bom Samaritano 10:25-37

184
Maria e Marta 10:38-42
A oração do Pai Nosso e a parábola do amigo importuno 11:1-13
Defesa de Jesus contra a acusação de ser capacitado por Satanás,
incluindo a parábola da casa vazia, o sinal de Jonas e observações
sobre uma hígida visão espiritual 11:14-36
O farisaísmo 11:37-54
Observações sobre a hipocrisia, a confiança em Deus, a cobiça
(Incluindo a parábola do rico insensato), a vigilância (Incluindo a
parábola dos servos sábios e insensato) e a crise messiânica 12:1-59
O arrependimento e a parábola da figueira estéril 13:1-9
Cura da mulher corcunda, em dia de sábado; as parábolas da semente
de mostarda e do fermento 13:10-21
Jesus afirma sua deidade 10:22-42
O número dos salvos e a morte próxima de Jesus, em Jerusalém 13:22-35
Cura do hidrópico, em dia de sábado, observações sobre a humildade
e a parábola do banquete messiânico 14:1-24
Observações sobre o discipulado 14:25-35
Parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e dos filhos: o
pródigo e o mais velho, em defesa do ministério de Jesus para com os
pecadores 15:1-32
Parábolas do administrador injusto e de Lázaro e o rico, sobre os usos
correto e errôneo do dinheiro 16:1-31
Observações sobre as ofensas, o perdão, a fé e a obediência 17:1-10
A ressurreição de Lázaro 11:1-44
Conspiração do Sinédrio contra Jesus 11:45-54
A cura dos dez leprosos 17:11-19
A presença e a vinda do reino 17:20-37
Duas parábolas sobre a oração, a viúva e o juiz injusto, e o fariseu e o
publicano 18:1-14

Doutrinamento sobre o divórcio e o casamento 19:1-12 10:1-12


As crianças e o reino de Deus 19:13-15 10:13-16 18:15-17
O jovem rico 19:16-30 10:17-31 18:18-30
A parábola dos trabalhadores da vinha 20:1-16
Predição da paixão, com o pedido de Tiago, João e a mãe deles,
quanto a lugares de honra no reino 20:17-28 10:32-45 18:31-34
Cura do cego Bartimeu e seu companheiro 20:29-34 10:46-52 18:35-43
Zaqueu 19:1-10
Parábola das minas 19:11-28
V. A SEMANA DA PAIXÃO
Chegada dos peregrinos da Páscoa em Jerusalém e conspiração do 11:55—12:1,
Sinédrio contra Jesus e Lázaro 9-11
Unção de Jesus por Maria de Betânia 26:6-13 14:3-9 12:2-8
Entrada triunfal em Jerusalém 21:1-11, 11:1-11 19:29-44 12:12-19
14-17
A figueira é amaldiçoada e o templo é purificado 21:12-13, 11:12-18 19:45-48
18-19
Gregos pedem entrevista com Jesus, e reação de Jesus ante Sua morte
e sua significação 12:20-50
A figueira estéril se seca 21:19-22 11:19-25 21:37-38
Debate sobre a autoridade de Jesus 21:23-27 11:27-33 20:1-8

185
A parábola dos filhos obediente e desobediente 21:28-32
Parábola da vinha 21:33-46 12:1-12 20:9-19
A parábola das bodas 22:1-14
Questão do pagamento de taxas a César 22:15-22 12:13-17 20:20-26
A dúvida dos saduceus sobre a ressurreição 22:23-33 12:18-27 20:27-40
Os mais importantes mandamentos 22:34-40 12:28-34
O Messias divino e davídico 22:41-46 12:35-37 20:41-44
Denúncia contra os escribas e os fariseus 23:1-39 12:38-40 20:45-47
A oferta da viúva pobre 12:41-44 21:1-4
Discurso do Monte das Oliveiras: tribulação, abominável desolação,
parousia, parábolas do dono da casa, do servo fiel e do infiel, das dez
virgens, dos talentos e do julgamento das ovelhas e dos bodes 24 e 25 13:1-37 21:5-36
A barganha da traição entre Judas Iscariotes e o Sinédrio 26:1-5, 14:1-2, 22:1-6
14-16 10-11
Preparativos para a última Ceia 26:17-19 14:12-16 22:7-13
A última Ceia: 26:20 14:17 22:14-16, 13:1-20
1. Jesus lava os pés dos discípulos 24-30
2. A retirada de Judas Iscariotes 26:21-25 14:18-21 22:21-23 13:21-30
3. Observações sobre o amor mútuo, as vindouras negações de Pedro
e a volta à vida normal 26:31-35 14:27-31 22:31-38 13:31-38
4. Instituição da Ceia do Senhor durante a refeição pascal 26:26-29 14:22-25 22:17-20
5. O discurso do cenáculo 14—16
6. Oração sumo sacerdotal de Jesus 17
Jesus ora, no horto do Getsêmani 26:30, 36-46 14:26, 32-42 22:39-46 18:1
Detenção de Jesus 26:47-56 14:43-52 22:47-53 18:2-12
VI. O JULGAMENTO E A CRUCIFICAÇÃO
Aspecto judaico do julgamento de Jesus:
1. Audição perante Anás 18:12-14,
19-23
2. Audição perante Caifás e o Sinédrio 26:57, 59-68 14:53, 55-65 22:54, 63-65 18:24
3. Interlúdio: as negações de Pedro 26:58, 69-75 14:54, 66-72 22:54-62 18:15-18,
25-27
4. Condenação formal de Jesus, pelo Sinédrio, depois da alvorada 27:1 15:1 22:66-71
Suicídio de Judas Iscariotes 27:3-10
Aspecto romano do julgamento de Jesus:
1. Primeira audição perante Pilatos 27:2, 11-14 15:1-5 23:1-5 18:28-38
2. Audição perante Herodes Antipas 23:6-12
3. Segunda audição perante Pilatos e condenação de Jesus 27:15-30 15:6-19 23:13-25 18:39—19:16
4. A crucificação 27:31-36 15:20-25 23:26-33 19:16-18
5. Divisão das vestes de Jesus, o título condenatório, os dois
criminosos, os escárnios, o vinagre e as sete últimas palavras de Jesus 27:37-50 15:26-37 23:34-46 19:19-30
O véu se rasga de alto a baixo, além de outros fenômenos 27:51-56 15:38-41 23:45, 47-49
O sepultamento de Jesus 27:57-66 15:42-47 23:50-56 19:31-42
VII. A RESSURREIÇÃO, O MINISTÉRIO PÓS-RESSURREIÇÃO
E ASCENSÃO
O túmulo vazio 28:1-4 16:1
As mulheres no túmulo 28:5-8 16:2-8 24:1-8 20:1
Pedro e João no túmulo 24:9-12 20:2-10
Jesus aparece a Maria Madalena, no jardim 20:11-18

186
Jesus aparece a outras mulheres 28:9-10
O Sinédrio suborna soldados romanos que guardavam o sepulcro 28:11-15
Jesus aparece a dois discípulos (incluindo Cléopas) na estrada de
Emaús, além de aparecer a Pedro 24:13-35
Jesus aparece aos onze, com a ausência de Tomé 24:36-43 20:19-25
Jesus aparece, uma semana mais tarde, estando Tomé presente 20:26-31
Jesus aparece, às margens do mar da Galiléia, a alguns discípulos
pescadores, e a restauração de Pedro 21
Outras aparições de Jesus aos onze, aos quinhentos irmãos, a Tiago, e
a outorga da Grande Comissão 28:16-20
Ascensão de Jesus