Você está na página 1de 6

ESTRUTURAÇÃO E SISTEMATIZAÇÃO DO TERRENO ARROZ

Estruturação da lavoura

A lavoura orizícola necessita de uma peculiar estruturação, principalmente devido


ao sistema de irrigação por inundação contínua. Entende-se por estrutura da
lavoura todo o sistema de distribuição da água de irrigação e de drenagem, bem
como o sistema que possibilite a circulação de veículos, máquinas e implementos,
ou seja, estradas internas. Na fase de projeto, o primeiro passo é locar o canal
principal, que é localizado estrategicamente, passando preferencialmente pelos
locais mais elevados do terreno, de forma que a água de irrigação atinja todos os
pontos da lavoura. Desse canal são derivados os canais secundários e desses, os
terciários, e assim sucessivamente, de forma que a lavoura possua uma estrutura
que possibilite a irrigação o mais ágil possível, condição requerida por vários
procedimentos de manejo da cultura do arroz. Entre os canais secundários,
demarcam-se estradas internas com seus respectivos drenos laterais.

Um exemplo esquemático de lavoura de arroz irrigado com uma proposta de


estruturação é apresentado na (Figura 1), embora se saiba que cada lavoura é um
caso particular, devido às suas características próprias. A área de cultivo que fica
delimitada por estradas internas, canais e drenos é o módulo ou unidade de
produção, normalmente denominada de quadro ou quarteirão, comumente de 15 a
30 ha, já que áreas maiores podem tornar muito prolongado o tempo entre o início
e o fim da irrigação, tempo necessário para formar uma lâmina de 10 cm, por
exemplo. Todo quadro deve possuir estrutura, de forma a torná-lo uma unidade de
produção independente, ou seja, chegada de água de irrigação, drenagem para o
exterior da lavoura e acesso direto de máquinas e implementos. Para a
estruturação da lavoura de arroz irrigado, é necessário levar em conta a forma
mais adequada e eficiente para a execução das práticas culturais, tais como:
semeadura, irrigação, drenagem, aplicação de defensivos, adubação de cobertura e
colheita. Sem dúvida, a lavoura orizícola tem as mais diversas formas, tamanhos,
características de solo, clima e topografia, que fazem de cada propriedade um caso
particular. Com isso, os seguintes aspectos devem ser considerados na elaboração
de um projeto:

Demarcação de estradas:

As estradas internas da lavoura de arroz irrigado são importantes, pois é por elas
que é feito todo o deslocamento de veículos para transporte de insumos, como
sementes e adubos, máquinas e o escoamento da produção para fora da lavoura. É
aconselhável que sejam marcadas no sentido do declive do terreno, se esse não for
muito acentuado, o que evita a construção de bueiros. O espaçamento
recomendado entre elas deve ser de aproximadamente, 500 m (Figura 1).

Locação de canais de irrigação e drenos:

O sistema de irrigação e drenagem deve ter eficiência de tal forma que facilite o
manejo da água e outras práticas, como a aplicação de herbicidas e nitrogênio em
cobertura. Para um bom manejo da água de irrigação, recomenda-se a demarcação
de um canal, quando possível, a cada 400 ou 500 m de distância, com uma faixa de
abrangência de 200 a 250 m para cada lado, intercalados por uma estrada, com
seus respectivos drenos (Figura 1). De acordo com o terreno, pode ser necessária a
demarcação de drenos perpendiculares às estradas, com espaçamento variável
conforme a dificuldade de drenagem. No caso de necessidade de controlar o lençol
freático, o espaçamento deve ser calculado.

Nos sistemas de cultivo de arroz pré-germinado e transplante de mudas, a


estruturação é realizada de forma diferente, devido à necessidade de um rigoroso
controle no manejo da água. Nesses casos, o arroz é cultivado em terreno
sistematizado.

Fonte: Parfitt et al., 2004.

Figura 1. Exemplo de área estruturada com estradas internas,


canais e drenos para implantação de lavoura de arroz irrigado.

Sistematização do terreno

A sistematização dos solos de várzea consiste no processo de adequação da


superfície natural do terreno, de forma a transformá-la num plano ou numa
superfície curva organizada, de modo que a lavoura passa a ter declividade
continua num mesmo sentido. Quando a sistematização é realizada segundo um
plano, esse pode ser com ou sem declive. Atualmente, no Rio Grande do Sul e
Santa Catarina, está se preferindo sistematizar em planos sem declive,
denominados comumente de “cota zero”, pois o arroz irrigado por inundação
contínua é a cultura básica do sistema produtivo. Esses planos constituem os
módulos de produção ou os quadros das lavouras.

A profundidade máxima de corte é determinada pelo relevo do terreno e pelas


características do solo. De acordo com esses aspectos, são definidos os quadros de
sistematização. Para o funcionamento eficiente do sistema de produção, é
conveniente que cada quadro possa ser irrigado e drenado de maneira
independente, bem como possua seu próprio sistema de acesso, ou seja, estrada
interna da lavoura. O projeto de sistematização de um terreno, na maioria das
vezes, condiciona a locação das estruturas de irrigação, drenagem e vias de acesso
à lavoura. Com isso, é comum o uso do termo sistematização com mesmo
significado que estruturação da lavoura.A sistematização propicia vários benefícios
à lavoura orizícola:

 Melhor manejo e menor consumo da água de irrigação;


 Maior eficiência no uso de máquinas e na aplicação de insumos;
 Uso mais intensivo da área, com o cultivo do arroz irrigado contínuo ou com
rotação de culturas.

Esse último caso requer uma boa drenagem interna da lavoura e também
possibilita o uso da irrigação por superfície para as culturas.

Projeto de sistematização

Um projeto de sistematização de um terreno, para ser bem sucedido e eficiente,


depende de um cuidadoso planejamento no momento da escolha dos planos, a qual
deve ser baseada nos seguintes critérios técnicos:

Profundidade de corte

A profundidade de corte máxima depende do “tipo” de solo. Em muitos casos, os


solos de várzea são rasos e apresentam limitações para cortes superiores a 10 cm
de profundidade; entretanto, quando o solo é profundo, pode-se cortar
profundidades maiores. Nos locais de corte ocorre decréscimo no teor da matéria
orgânica e, consequentemente, nos teores de fósforo e enxofre, o que torna
necessária correção via adubação química e/ou orgânica. A profundidade de corte
deixa de ser um critério técnico quando, naqueles locais onde os cortes excedem a
uma determinada magnitude, remove-se a camada superficial, fazendo-se o corte
na camada inferior e, a seguir, repõe-se a camada superficial sobre a área cortada.
Tamanho do plano ou quadro

O tamanho do plano ou quadro de sistematização tem como limite superior a


totalidade do terreno e, como inferior, aquelas dimensões que ainda possibilitam
realizar com facilidade a condução da lavoura. Para o cultivo do arroz no sistema
pré-germinado ou no de transplante de mudas, tem-se utilizado, como módulo
mínimo, áreas em torno de um hectare, geralmente de forma retangular.

Custos

O custo da sistematização é dado em função do volume de terra a movimentar que,


por sua vez, depende da topografia do terreno e do tamanho do plano. Uma
estimativa aproximada seria R$ 2,00 por metro cúbicode terra removido. A
sistematização pode ser considerada um investimento na propriedade, pois é
realizada uma única vez, com pequenos ajustes posteriores, principalmente no
primeiro ano após sua realização, devido à acomodação do solo nas partes
aterradas. Para fins de planejamento, é importante se ter uma estimativa do
retorno financeiro que a sistematização proporcionará.

O ponto de partida de um projeto de sistematização é o levantamento plano


altimétrico da área. A partir daí, confecciona-se um mapa com curvas de nível
traçadas com pequenas diferenças de cotas. O mapa permite uma visualização mais
clara da topografia do terreno, destacando-se os locais mais planos e os mais
declivosos pela observação da distância horizontal entre as curvas de nível. No caso
da sistematização com planos horizontais, denominados de “cota zero”, como a
utilizada para o cultivo de arroz no sistema pré-germinado, ou de transplante de
mudas, o método de cálculo consiste em determinar a cota média do terreno. A
partir da cota média, calculam-se os cortes e aterros e o volume de terra a
remover.

Para a sistematização com declive para áreas quadradas ou retangulares, o método


mais comum para o cálculo é o do centróide que é baseado no método matemático
dos mínimos quadrados, o qual consiste em:

a) Colocar as cotas do terreno em planilha eletrônica numerando as linha e colunas


(Excel);
b) Identificar a posição do centróide da área o qual está no cruzamento das
diagonais da área, sendo a sua cota a média das cotas de todos os pontos;
c) Calcular as médias das linhas e colunas;
d) marcando a linha/coluna das médias e a numeração da linha/coluna, introduzir
gráfico de dispersão de pontos;
e) Clicar sobre os pontos e adicionar linha de tendência linear e a equação do
ajuste. O coeficiente angular da reta do ajuste representa a declividade média do
terreno no sentido NS/LO (médias das linhas/colunas) expressa em unidades em
que estão as cotas/distâncias entre pontos do levantamento topográfico;
f) Calcular todas as cotas projeto dos ponto a partir do centróide adicionando-se as
declividades conforme o caminhamento seguido;
g) Calcular as diferenças entre as cotas reais e as cotas projeto, caso
positiva/negativa representa corte/aterro no terreno, as somas de corte devem ser
iguais as de aterro;
h) Realizar ajuste (rebaixamento das cotas projeto, r) de forma que a relação
corte/aterro seja 1,2(u) pela seguinte equação r = (u x Σaterros – Σcortes)/(u x
pontos com aterro + pontos com corte);
i) Considerando o cálculo anterior, calcular novamente os cortes e aterros e
construir o mapa de cortes e aterros com o movimento de terra (Figura 2);
j) Calcular o movimento de solo por unidade de área pelo produto da somatória dos
cortes pela área que representa cada ponto.

Métodos de sistematização

Definidos todos os quadros, realiza-se, então, a execução da sistematização do


terreno pelos seguintes métodos:

Método do esquadro

Consiste em colocar uma estaca alta ao lado de cada piquete (pontos topográficos),
na qual marca-se um nível de referência, por exemplo, 0,5 m do nível do solo
original. A partir dessa referência, pinta-se na estaca uma faixa com magnitude
igual à do corte ou do aterro, com cores diferentes. Se for corte da referência para
baixo e se for aterro da referência para cima. Dessa forma, os operadores das
máquinas se orientam durante a realização dos trabalhos. O movimento de solo é
monitorado por um auxiliar de campo munido de um esquadro e de um nível de
pedreiro, para controlar os cortes ou aterros junto às estacas. Esse método se
aplica adequadamente quando o movimento de solo é elevado, isso é, os cortes são
grandes, acima de 20 cm.

Método do nível topográfico inclinado

Consiste em dar a mesma inclinação do plano projeto de sistematização ao plano


de visão de um nível topográfico de plano (não serve nesse caso nível de
autonivelação), pode ser com ou sem declive. Uma vez posicionado o nível na
inclinação desejada, o topógrafo e uma pessoa munida de uma mira topográfica,
com uma marca na distância exata entre os dois planos, controlam o movimento de
solo, mostrando aos operadores das máquinas os pontos de corte e os de aterro.
Esse método é muito útil no caso em que os cortes e aterros são pequenos ou
também para dar acabamento quando os trabalhos forem realizados pelo método
anterior (método do esquadro). Tem a vantagem de dispensar o uso de estacas,
que dificultam o trabalho do trator, podendo esse movimentar-se em qualquer
direção. Entretanto, apresenta como desvantagem a necessidade do
acompanhamento de um topógrafo e de um auxiliar durante todo o processo.

Método com utilização de nível de raios laser

Necessita de maior investimento inicial que os demais, entretanto, os custos finais


são semelhantes, considerando-se a vida útil do equipamento, com a vantagem de
ter um perfeito acabamento da sistematização. A metodologia consiste também em
colocar o plano do fluxo de raios laser paralelo ao plano projeto de sistematização.
No equipamento de arraste de solo, plaina ou scraper, é instalado um mastro
receptor que permanece ajustado ao plano estabelecido pelo feixe de raios laser,
independentemente da altura do terreno. Esse receptor comanda o sistema
hidráulico do trator, mantendo a lâmina de corte na cota do plano projeto de
sistematização, cortando o solo quando esse estiver com cota superior ao plano e
descarregando em caso contrário.

Método de operação de água

Usa a água como referência de nível no controle do movimento de terra. Com isso,
somente é aplicável na sistematização sem declive, ou seja, a denominada “cota
zero”. Após o preparo inicial do solo com grade niveladora ou enxada rotativa,
coloca-se água, cobrindo em torno de 1/3 da área. A partir daí, remove-se a terra
da parte alta, que não está submersa, para a parte baixa, submersa, até que se
tenha uma pequena lâmina de água uniforme em todo o terreno. Devido à condição
de alta umidade em que são realizados os trabalhos, em muitos casos as máquinas
apresentam problemas de sustentação, sendo necessário equipar os tratores com
sobre-rodas ou rodas gaiolas. Para a movimentação do solo na água, utiliza-se uma
plaina de madeira denominada alisador. Esse método tem grande vantagem na
economicidade do investimento em máquinas. Tem como desvantagem a grande
desestruturação do solo que causa flutuação dos colóides na água. Por isso,
recomenda-se não drenar a área logo após o trabalho de sistematização, a fim de
se evitar perdas consideráveis de solo fértil.

É importante salientar que, independente do método empregado, a sistematização


deverá ser retocada algum tempo depois, devido ao acomodamento do solo nas
partes aterradas, que ocorre normalmente após a primeira chuva intensa. A
sistematização é permanente e deverá ser avaliada a necessidade de novo retoque
num período de 8 a 10 anos.

Fonte: Parfitt et al., 2004.


Figura 2. Mapa de cortes e aterros (cm) e fluxo de movimento de terra.

FONTE:
http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/arroz/arvore/CONT000fojvokoc02wyiv80
bhgp5pn8x03de.html