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RESENHA

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no College de France, pronunciada em 2 de


dezembro de 1970. 15ª. ed. São Paulo: Loyola, 2007. 79 p.

Discurso e poder:
processos de coerção, controle e exclusão social

Aline Maria dos Santos


Mestranda em Letras: Linguagens e Representações na Universidade Estadual de Santa Cruz.

O livro “A discurso enquanto poder, e


ordem do consequentemente, como forma de
discurso” controle, coerção e exclusão social.
apresenta
De acordo com Foucault os discursos na
discussões
sociedade são controlados, selecionados
de Michel
e organizados. Uma das formas de
Foucault
manter esse controle é através das
pronunciad
instituições, as quais instauram e/ou
as em 1970
reproduzem os discursos, Foucault cita
em uma
a Pedagogia, os livros, as bibliotecas, as
aula
sociedades dos sábios de antigamente e
inaugural
os laboratórios atuais como suportes
no Collége
que buscam dominar e conduzir os
de France.
discursos, visando instaurar uma
Foucault verdade.
problematiza o discurso na sociedade,
Além disso, afirma que “os discursos
discutindo questões como: controle
religiosos, judiciários, terapêuticos e,
social, coerção, procedimentos de
em parte também, políticos não podem
exclusão e interdição, ordem e
ser dissociados dessa prática de um
desordem do discurso, sexualidade,
ritual que determina para os sujeitos que
poder, rejeição, razão e loucura, vontade
falam, ao mesmo tempo, propriedades
de verdade, doutrinas, logofilia e
singulares e papéis preestabelecidos”.
logofobia, o discurso no âmbito das
(p.39).
instituições, história contemporânea x
história tradicional e deslocamentos de De acordo com o Foucault os rituais, ou
Jean Hyppolite na filosofia hegeliana. seja, as normas, as regras, presentes nos
âmbitos acima, definem a posição que
Vale ressaltar que essas questões não
um indivíduo deve ocupar em
são discutidas de forma fragmentada,
determinado diálogo, e
pelo contrário, elas se relacionam
consequentemente, os enunciados que
formando uma teia discursiva
deve produzir e o comportamento
interessante e estimulante. Dentre as
adequado. Tais abordagens tornam-se
problematizações citadas acima de
evidentes quando analisamos os
Foucault, deter-me-ei no presente
discursos religiosos e judiciários, por
trabalho às questões relacionadas ao
exemplo, que possuem suas normas,

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concepções, regras de conduta que indivíduo está tão habituado com os
“moldam” o sujeito. costumes que não se dá conta que está
sendo controlado. Nessa perspectiva, as
Foucault afirma que nesse contexto
escolas, os hospitais, as fábricas, dentre
encontra-se também o sistema
outras, exercem um poder unificador,
educacional que mantém e/ou modifica
disciplinando uma sociedade inteira.
a apropriação dos discursos. Ele
defende que a educação, ao mesmo Nessa perspectiva, àqueles que não se
tempo, em que é um instrumento de enquadram nesse contexto discursivo
acesso aos discursos limita o sujeito, limitado (o que se pode e não se pode
prescrevendo o que é e o que não é dizer e fazer) sofrem procedimentos de
permitido. Caracteriza assim, o sistema interdição e de exclusão, sendo
de educação como uma maneira política caracterizados, por exemplo, como
de controlar e conduzir a apropriação loucos.
dos discursos.
De acordo com Foucault, esse
Conclui que o sistema de ensino é uma procedimento de exclusão ocorre por
ritualização da palavra, uma meio de três grandes sistemas: a palavra
qualificação e uma fixação de papéis proibida, a segregação da loucura e a
para os indivíduos que falam, a vontade de verdade.
constituição de um grupo doutrinário, A palavra proibida consiste nos
distribuição e apropriação do discurso. procedimentos de controle, já
Percebe-se que Foucault atribui a esses mencionados, pelos quais as instituições
sistemas um caráter unificador e ditam o que pode e o que não poder ser
controlador que disciplinam o sujeito dito, há pois, um controle dos discursos.
por meio do discurso, notando-se assim, Como afirma Foucault “não se tem o
a presença do poder. direito de dizer tudo, (...) não se pode
Essa abordagem remete-me ao livro falar de tudo em qualquer
“Vigiar e Punir” do próprio Foucault circunstância” (p.9)
(1987) onde ele afirma que a sociedade O segundo sistema, a segregação,
é vigiada e controlada pelo panoptismo, consiste na separação e rejeição do
o qual consiste em “um modelo sujeito, sendo classificados como
generalizável de funcionamento, uma normais ou loucos a partir de seus
maneira de definir as relações do poder comportamentos atrelados às normas
com a vida cotidiana dos homens” sociais.
(Foucault, p. 169;170).
Nessa direção, Foucault discute e
O panoptismo, é pois, uma forma de problematiza o próprio conceito de
poder sutil, que já está instaurado na loucura desde a Idade Média até os dias
sociedade, sendo invisível aos homens. atuais, constatando que esse processo de
Nesse contexto, ele afirma que fazem exclusão é um sistema histórico. Sendo
parte as fábricas, as escolas, os assim, pode-se inferir que a loucura
hospitais, os quartéis, indagando se tais depende do local em que o indivíduo
locais não se parecem com prisões. está inserido, da sua cultura local.
A diferença, de acordo com Foucault, é Por fim, a vontade de verdade, que de
a ausência das grades, pois nessas acordo com Foucault atravessou séculos
instituições o indivíduo está preso às de nossa história. Essa vontade é
normas, tendo que agir e se enquadrar conduzida pela forma como o saber é
às regras do local. Entretanto, o aplicado em nossa sociedade, como ele

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é valorizado e atribuído. A verdade tem dinâmico da língua, sendo esta flexível,
suportes institucionais, tais como livro, mutável, heterogênea, considerando-se,
bibliotecas, dentre outros. Foucault portanto, os diversos usos pelos
salienta que sendo apoiada falantes.
institucionalmente exerce poder de As abordagens expostas de Foucault
coerção sobre outros discursos. realizadas em 1970 propiciaram
Percebe-se, portanto, que discurso e inúmeros estudos acerca dos processos
poder estão imbricados. Acredito que discursivos, sendo discutidas até os dias
Foucault aborda essa questão de forma atuais questões entorno do discurso e
muito sábia quando destaca uma via de poder e servindo de referência para
mão dupla entre o discurso e o poder, de pesquisas cientificas. Percebe-se assim,
acordo com ele “o discurso não é a importância das discussões de
simplesmente aquilo que traduz as lutas Foucault para os estudos de linguagens.
ou os sistemas de dominação, mas
aquilo por que, pelo que se luta, o poder
do qual nos queremos apoderar” (p.10). Referências
O discurso, portanto, não reflete apenas FOUCAULT, M. A ordem do
o controle do poder, mas é curiosamente discurso: aula inaugural no College de
também, o próprio poder, havendo France, pronunciada em 2 de dezembro
assim, uma luta pelo mesmo. de 1970. 15ª.ed. São Paulo: Loyola,
Essas problematizações relacionam-se 2007. 79 p.
com abordagens de Silva (2007) no FOUCAULT, M. Vigiar e punir:
texto “O currículo como representação” nascimento da prisão. 24. Ed.
no qual ele afirma que o discurso exerce Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. 277 p
um grande poder social, sendo que por
meio deste constrói-se “identidades”, SILVA, T. T. O currículo como
cria-se “representações”. Identidade e fetiche – A poética e a política do texto.
representações são, portanto, em sua Autêntica, 2007. 117 p.
concepção, construtos sociais oriundos
de práticas discursivas.
Foucault propõe um questionamento
sobre a busca de verdade, devendo-se
atribuir ao discurso o caráter de
acontecimento, o qual se efetiva sempre
no âmbito da materialidade “ele possui
seu lugar e consiste na relação,
coexistência, dispersão, recorte,
acumulação, seleção de elementos
materiais”. (p.57)
O discurso, nesse patamar, estaria livre
da coerção, da exclusão, da logofobia,
admitindo-se, pois, a sua proliferação, a
desordem, as descontinuidades, a
transformação, o acontecimento e a
casualidade. Penso que o discurso,
nessas condições, reflete o processo

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