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Título

original:
Vagina

Copyright © 2013 by Naomi Wolf

1ª edição — Outubro de 2013

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil
em 2009

Editor e Publisher
Luiz Fernando Emediato

Diretora Editorial
Fernanda Emediato

Produtora Editorial e Gráfica


Priscila Hernandez

Assistente Editorial
Carla Anaya Del Matto

Diagramação
Ilustrarte Design e Produção Editorial

Preparação de Texto
Sandra Dolinsky

Revisão
Vinicius Tomazinho
Taissa Antonoff Andrade
Josias A. Andrade

Conversão para epub


Obliq Press
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)


Wolf, Naomi
Vagina : uma biografia / Naomi Wolf ; [traduzido por Renata S. Laureano]. —
São Paulo : Geração Editorial, 2013.
Título original: Vagina : a new biography.
ISBN 978-85-8130-168-6
1. Feminilidade 2. Mulheres – Comportamento sexual – Estados Unidos 3.
Mulheres – Prazer sexual 4. Vagina 5. Wolf, Naomi I. Título.
13-04872 CDD-305.42

Índices para catálogo sistemático:


1. Mulheres : Sexualidade : História cultural 305.42
2. Prazer sexual feminino : História cultural 305.42
3. Sexualidade feminina : História cultural 305.42

GERAÇÃO EDITORIAL

Rua Gomes Freire, 225 — Lapa


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Telefax: (+ 55 11) 3256-4444

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twitter: @geracaobooks

2013
Para A.
Quão estranho e medonho lhe pareceu ficar nua a céu aberto! Quão delicioso! Sentia-se como
uma criatura recém-nascida, abrindo os olhos num mundo familiar que nunca havia conhecido.
Kate Chopin, O despertar
Sumário

Dedicatória
Epígrafe
Copyright
Agradecimentos
Introdução

PARTE UM - A vagina possui uma consciência?


1 - Conheça seu incrível nervo pélvico


2 - O sistema nervoso autônomo dos sonhos


3 - Confiança, criatividade e o sentimento de interconexão


4 - Dopamina, opiáceos e oxitocina


5 - O que “sabemos” sobre a sexualidade feminina está ultrapassado


PARTE DOIS - História: conquista e controle


6 - A vagina traumatizada

7 - No início a vagina era sagrada


8 - A vagina vitoriana: medicalização e subjugação


9 - Modernismo: a vagina “liberada”


PARTE TRÊS - Quem dá nome à vagina?


10 - A pior palavra que existe


11 - Foi engraçado?

12 - A vagina pornográfica

PARTE QUATRO - A dança da deusa


13 - “O ser amado sou eu”


14 - Prazer radical, despertar radical: a vagina como liberadora

Conclusão
Bibliografia seleta
Agradecimentos

E ste livro jamais poderia ter sido escrito sem a ajuda de muitas outras pessoas,
especialmente os vários cientistas, pesquisadores, terapeutas e médicos
renomados que entrevistei. Essas pessoas partilharam generosamente seu tempo e
conhecimento comigo, com o objetivo de informar melhor os leigos sobre a saúde
e sexualidade das mulheres. Por ordem de entrada no livro, sou muito grata à dra.
Deborah Coady, da SoHo OB/GYN em Nova Iorque; Nancy Fish, da mesma
clínica; dr. Ramesh Babu, do Hospital da Universidade de Nova Iorque; dr.
Jeffrey Cole, do Kessler Center for Rehabilitation in Orange, Nova Jersey; dr.
Burke Richmond, da Faculdade de Medicina e Saúde Pública da Universidade de
Wisconsin; Katrine Cakuls, de Nova Iorque; dr. Jim Pfaus, da Universidade de
Concórdia, em Montreal, Quebec; ao autor de textos médicos, dr. Julius Goepp; e
dr. Basil Kocur, do Hospital Lenox Hill, de Nova Iorque.
Entrevistar os cientistas foi extremamente inspirador, porque pude testemunhar
seu comprometimento com o desenvolvimento de um entendimento maior da
sexualidade feminina, e as entrevistas com os médicos também foram
inspiradoras, porque testemunhei sua sincera dedicação ao avanço dos
tratamentos direcionados à saúde sexual das mulheres. Muitos desses cientistas e
médicos leram o manuscrito em várias versões, e agradeço a eles, de todo meu
coração, por seu tempo, já sujeito a várias demandas, e por seu precioso
feedback. Qualquer erro, é claro, foi por minha conta.
Sou grata a Caroline e Charles Muir e a Mike Lousada, que dedicaram seu
tempo a me ensinar sobre a história e a prática do Tantra.
Muita gratidão também a muitas mulheres e homens que compartilharam suas
histórias pessoais, usando seus próprios nomes ou pseudônimos.
Tenho uma dívida de gratidão para com meus brilhantes editores Libby Edelson
e Daniel Halpern, da Harper Collins, e Lennie Goodings, da Virago. Não poderia
contar com leitores e comentaristas mais perceptivos, desafiadores e inspirados.
Obrigada também a Michael McKenzie e Zoe Hood. A revisora Laurie McGee,
foi meticulosa e paciente. John e Katinka Matson e Russell Weinberger, da
Brockman, Inc., meus agentes, também leram várias versões do manuscrito e
forneceram comentários valiosos.
Minha mais profunda gratidão, como sempre, é para minha família — pais,
parceiro e filhos.
Introdução

O QUE É A VAGINA?

Por que escrever um livro sobre a vagina?


Sempre me interessei pela sexualidade feminina. A forma como qualquer
cultura trata a vagina — quer com respeito ou desrespeito, quer com cuidado ou
agressividade — é uma metáfora para como as mulheres em geral são tratadas
naquele local e naquele momento. E já houve tantas formas de ver a vagina — o
que os estudiosos de história intelectual chamam de “constructos” — quanto
houve culturas. Quando comecei esta jornada, pensava que, se olhasse para a
vagina dessas diferentes perspectivas históricas, aprenderia muito sobre as
mulheres, tanto como objetos sexuais quanto como membros da comunidade; que
esta investigação certamente iluminaria onde estamos hoje. (Também há o fato de
que sou mulher e gosto de prazer, e estava ansiosa para aprender coisas que
talvez não soubesse sobre a sexualidade feminina.) Pensava que encontraria a
verdade sobre a vagina estudando todos esses constructos. Acreditava que alguns
se provariam basicamente precisos, e outros, profundamente imprecisos. Mas,
agora, creio que todos eles são apenas parcialmente verdadeiros e que alguns
constructos — incluindo o nosso próprio — são altamente subjetivos e cheios de
desinformação.
Será que a vagina é o caminho para a iluminação, como o é para os praticantes
do Tantra? Ou um “lótus dourado”, como defende a filosofia chinesa do Tao?
Será que ela é o “buraco” de que os elisabetanos acreditavam se tratar? Ou será o
campo de testes para a maturidade feminina, um órgão cujas reações separam as
mulheres das meninas, como acreditava Sigmund Freud? É o que as feministas
dos anos 1970 em diante alegam ser — um órgão sem grande importância
subordinado ao tão mais glamouroso clitóris? Ou será o que a pornografia de
massa contemporânea alega: um orifício “gostoso”, mas essencialmente
descartável, visualmente disponível aos milhares a qualquer um que tenha um
modem? Ou será o que as pós-feministas, tão diretas em relação ao sexo, dizem
ser: uma fonte rápida de prazer para mulheres libidinosas que demandam
satisfação imediata, seja por meio daquele telefonema de fim de noite para
parceiros casuais, seja pelos brinquedinhos eletrônicos altamente tecnológicos?
Li livros como o dos biólogos evolucionistas Christopher Ryan e Cacilda
Jethá, Sex at Dawn; reli o Relatório Hite: um profundo estudo sobre a
sexualidade feminina,[1] da socióloga Shere Hite; estudei histórias da vagina,
[2]
como A história da V, da historiadora cultural Catherine Blackledge, e dei uma
olhada nos mais recentes estudos sobre o orgasmo feminino em bancos de dados
científicos, tais como The Archives of Sexual Behavior. Viajei a laboratórios,
onde pesquisa de ponta na área de neurobiologia é desenvolvida para determinar
o papel do prazer sexual feminino — como o do dr. Jim Pfaus, da Universidade
Concórdia, em Montreal, Quebec, onde experimentos históricos estão
determinando que o prazer sexual feminino tem um papel importante na seleção
dos parceiros mesmo nos mamíferos inferiores.
Comecei a sentir que todos esses livros, artigos e viagens ofereciam apenas
peças do quebra-cabeça.
Por razões pessoais, assim como intelectuais, comecei a perceber que a
manchete real é aquela raramente mencionada, exceto por um pequeno círculo: a
de que há uma conexão profunda entre o cérebro e a vagina que me parece contar
mais verdade do que tudo o mais que eu estava explorando. O germe deste livro
começou a crescer como uma jornada histórica e cultural, mas rapidamente
evoluiu para um ato de descoberta muito pessoal e necessário. Precisava
descobrir a verdade sobre a vagina por causa de um vislumbre que tive, por
acidente, de uma dimensão de sua realidade que jamais havia visto antes.
Devido a uma crise médica, tive uma experiência revolucionária que provocou
muitos pensamentos e sugeriu uma relação possivelmente crucial da vagina com a
própria consciência feminina. Quanto mais eu aprendia, mais entendia as formas
como a vagina faz parte do cérebro feminino e, portanto, parte da criatividade,
confiança e até mesmo do caráter feminino.
Conforme fui aprendendo mais sobre a neurociência e a fisiologia por trás do
que havia experimentado, as conexões entre o cérebro feminino e a vagina foram
se introduzindo em meu entendimento de outras questões que as mulheres
enfrentam. Depois que provei que essas conexões eram reais, senti que ali estava
a chave para muitas das coisas que aconteceram às mulheres ao longo da história.
Senti, também, que conhecer as informações sobre essas conexões — e os
vislumbres que elas propiciavam sobre o ser e a sexualidade feminina — era
importante para as mulheres de hoje e, sem dúvida, para qualquer pessoa que se
importe com as mulheres, porque ajudam a nos entender melhor e a nos valorizar
da forma devida.
Como parte desta investigação, também queria ouvir o que os homens tinham a
dizer sobre seus sentimentos pela vagina — além da história bidimensional que
nossa cultura saturada de pornografia nos conta. Quando comecei a contar qual
era o tema de meu estudo, vários conhecidos reagiram às minhas perguntas sobre
seu relacionamento com a vagina com respostas encorajadoramente amáveis.
Frequentemente, apesar de nem sempre, palavras como adoração ou até mesmo
amor apareceram nas expressões de homens que queriam descrever seus
sentimentos por essa parte da mulher. Os sentimentos descritos por esses homens,
apesar de não se tratar de homens ou palavras retirados de amostras aleatórias,
estavam muito longe de ser aviltantes ou pornográficos.
Para minha surpresa, muitos homens heterossexuais que se dispuseram a falar
comigo sobre como se sentiam expressaram uma espécie de gratidão holística
(ou seja, não apenas sexual) pela vagina e não enfatizaram aspectos do prazer
isolados do que frequentemente caracterizaram como um sentimento de alívio e
alegria ao serem “aceitos” e “acolhidos” de forma tão completa. De fato,
aceitação e acolhimento foram duas palavras que apareceram repetidas vezes nas
conversas de homens heterossexuais comigo. Suas respostas me fizeram pensar
que as mulheres subestimam a importância que os homens dão à aceitação deles
por elas.
É claro que podemos pressupor que algumas dessas respostas foram mediadas
pelo fato de que uma mulher estava fazendo a pergunta. Mas o fato de que tantos
tocaram na mesma nota emocional repetidas vezes me fez acreditar que havia uma
verdade ali. Quando descrevi as conexões que estava descobrindo entre a vagina
e outros tipos de criatividade e bem-estar, alguns homens replicaram que essas
possíveis conexões estavam de acordo com suas próprias experiências com as
mulheres de sua vida.
Esse conjunto inicial de percepções sobre a conexão cérebro-vagina e as
verdades mais sutis que derivei daí sobre as respostas emocionais e sexuais das
mulheres mudaram minha própria vida, assim como meu relacionamento e minha
forma de ver as coisas, para melhor. Fizeram-me sentir, de uma maneira nova —
sem desrespeito nenhum aos homens — como eu tinha uma sorte incrível por ser
mulher, e isso me ajudou a entender melhor exatamente por que as mulheres têm
sorte de ter nascido em seu corpo.
Uma fonte de desconforto a respeito de ser mulher nesta cultura é o fato de que a
linguagem que usamos para falar sobre nosso corpo, e sobre a vagina em
particular, é tão horrorosa. O mal-entendido comum sobre a vagina como sendo
feita de “mera carne” é a principal razão para esse desconforto. O prazer sexual
feminino, se corretamente entendido, não tem a ver somente com a sexualidade ou
com o prazer em si. Serve também como uma mídia para o autoconhecimento e a
positividade femininos; para a criatividade e a coragem femininas; para o foco e a
iniciativa femininos; para o êxtase e a transcendência femininos; e como uma
mídia para uma sensibilidade que se parece muito com a liberdade. Entender a
vagina apropriadamente é perceber que não se trata apenas de uma extensão do
cérebro feminino, mas que ela faz parte, essencialmente, da alma das mulheres.
Conforme passei a entender melhor esses aspectos da vagina, comecei a fazer
perguntas a mulheres e pesquisadores que exploravam a conexão entre ela e a
criatividade e confiança femininas e um sentido de ligação às coisas e às pessoas.
As respostas que recebi confirmaram que eu estava na direção certa.
Antes de começar minha pesquisa, muitos aspectos da vagina na história e na
sociedade eram misteriosos para mim: desde a questão do porquê de tantas
mulheres escritoras e artistas terem tido suas maiores explosões de criatividade
após um despertar sexual; o porquê de algumas mulheres tenderem a se viciar no
amor; o porquê de as mulheres heterossexuais ficarem frequentemente confusas
entre a atração pelo garoto mau/homem bom; e o porquê — e aí uma nota mais
obscura — de a vagina ter sido alvo de abuso, violência e controle durante a
maior parte da história ocidental.
Quanto mais eu aprendia sobre a neurologia da vagina e a bioquímica que ela
libera no cérebro, mais esses mistérios, que sempre haviam me parecido mais
culturais, eram esclarecidos. Quando se compreende o que os cientistas, nos mais
avançados laboratórios e clínicas do mundo, estão confirmando — que a vagina e
o cérebro formam essencialmente uma rede, ou “um único sistema”, como eles
tendem a colocar, e que a vagina media a confiança, a criatividade e o sentido de
transcendência femininos —, a resposta para muitos desses aparentes mistérios se
encaixa em seu lugar.
Na primeira seção do livro, exploro as formas pelas quais a vagina tem sido
seriamente mal compreendida. Analisando a ciência recente e formulando
perguntas pessoalmente e on-line, descobri que as experiências da vagina podem
— no nível da biologia — aumentar a autoconfiança feminina, ou, da mesma
forma, levar à falta de autoconfiança; podem ajudar a desenvolver a criatividade
feminina ou apresentar bloqueios a ela. Essas experiências podem contribuir para
um sentido de alegria e interconexão da mulher com o mundo material e espiritual
— ou para a consciência dolorosa da perda dessa interconexão. Podem ajudá-la a
experimentar um estado de misticismo transcendental que pode afetar o resto de
sua vida — ou deixá-la no limiar desse estado, com a intuição de que há algo
“mais”. Esta última experiência, por sua vez, pode levar não apenas a uma
diminuição de seu desejo pelo sexo, mas também deixar vestígios pelo resto da
vida do que pode ser chamado de “depressão existencial” ou “desespero”.
A segunda seção deste livro explora como o controle social da vagina e da
sexualidade das mulheres tem sido um veículo para controlar a mente e a vida
interior das mulheres ao longo da história ocidental.
A terceira seção do livro analisa a cena contemporânea e mostra como as
pressões modernas, tais como a prevalência da pornografia, estão
dessensibilizando tanto homens como mulheres em relação a uma “vida” melhor
para a vagina.
A seção final do livro explora como “invocar a deusa” — ou seja, como
reformatar nossa noção da vagina em relação a nós mesmas e nossos parceiros no
contexto de sua real tarefa neurológica de mediadora e protetora do sentido do ser
mais elevado, extático e inquebrável das mulheres. Analisarei o que as mulheres
mais necessitam — para a felicidade e realização sexual, mas também para o
bem-estar em geral —, com base na nova neurociência e no que aprendi com
vários mestres do Tantra, que passam seus dias curando e despertando mulheres
que foram feridas ou estão adormecidas sexual e emocionalmente.
A maior parte dos exemplos deste livro, especialmente sobre a fisiologia da
excitação e do orgasmo feminino, terá implicações que são inclusivas para
mulheres de todas as orientações sexuais — gays , héteros, bissexuais e assim por
diante. Mas um dos meus temas principais é a exploração das interações físicas e
emocionais de mulheres heterossexuais com homens. Alguns dos estudos
científicos focam diretamente a fisiologia do intercurso sexual.
De minha parte, esse foco não acontece porque penso que a excitação sexual, o
orgasmo, as relações ou as conexões mente-corpo lésbicos e bissexuais é menos
fascinante que suas contrapartes heterossexuais. Mas sim porque acredito
(especialmente agora) que as respostas sexuais femininas e a conexão mente-
corpo femininas sejam tão complexas e tão dignas de atenção cuidadosa e
individualizada, que não creio que a abordagem politicamente correta de juntar
todas as experiências femininas em uma só categoria faça justiça a essas
variações. Acredito, sim, que as questões paralelas sobre a fisiologia dos eros
lésbico e bissexual, a conexão mente-corpo lésbica e bissexual e a questão da
vagina nos contextos lésbicos e bissexuais, todas mereçam seus próprios livros.
Tampouco essas questões são direcionadas a mulheres que estão atualmente em
relacionamentos, apesar de que, como dito, vários exemplos sejam centrados no
sexo. Essas observações se aplicam, em primeiro lugar, ao relacionamento sexual
das mulheres com elas mesmas.

O QUE É “A DEUSA”?

Ao longo do livro, vou me referir a um estado mental ou uma condição da


consciência feminina que chamarei, para facilidade de referência, mas também
pelo eco que produz, de “a deusa”. Não pretendo trazer à mente imagens piegas
dos anos 1970 de adoração da deusa pagã em retiros exclusivamente femininos
nos parques estaduais americanos, nem tenho a intenção de criar a imagem da
“autoestima” simplista da cultura pop. Em vez disso, crio um espaço retórico que
ainda não existe quando falamos da vagina, mas que se refere a algo muito real.
O psicólogo William James estabeleceu uma escola de pensamento conhecida
como “consci ência biológica” — ou seja, a exploração de como o corpo físico
afeta os estados da mente. Em 1902, James publicou o clássico As variedades da
[3]
experiência religiosa. Em seu livro, no qual baseio parte de meu argumento,
ele explora o papel da experiência transcendente — da qual muitas pessoas
tiveram apenas um vislumbre ou uma sensação, mas que a atual pesquisa mostra
que já foi experimentada em algum grau pela maioria — na cura dos traumas e
[4]
depressões. Sem fazer nenhum tipo de alegação sobre a natureza objetiva de
“Deus” ou do “sublime”, James abordou a questão da neurologia como um
substrato para essas experiências místicas comuns. Defendeu que, quando o
cérebro experimenta o estado que corresponde a esses conceitos, mesmo que
sejam baseados em experiências físicas, pode haver a transformação da pessoa:
“como fato psicológico, os estados místicos, quando muito pronunciados e
empáticos, são geralmente impositivos sobre as pessoas que os experimentam”.
[5]

James acreditava que esses estados mentais — que ele e nós chamamos de
“místicos” e que o poeta William Wordsworth descreveu como uma sensação que
todos nós temos, em certos momentos, de familiaridade com uma “glória” que
está em algum outro lugar — estejam disponíveis para nós no portal do
[6]
inconsciente.
De fato, os estados místicos não são impositivos simplesmente por serem estados místicos… eles falam
da supremacia do ideal, da vastidão, da união, da segurança e do repouso. Oferecem-nos hipóteses,
hipóteses estas que podemos voluntariamente ignorar, mas que, como pensadores, absolutamente não
[7]
podemos negar.

Esses estados são transientes e passivos, mas James apontou que, como
resultado da experiência de tais estados de consciência, grandes curas, grande
criatividade e até mesmo grande felicidade entram na vida das pessoas. Será que
de fato muitas pessoas se tornaram mais felizes, mais amáveis e mais criativas
como resultado de experiências de “Deus” ou do “sublime”, mesmo que
momentâneas? Quer tenham ou não sido causadas pela “mera” bioquímica? James
defende que sim.
Mesmo antes de a mais moderna neurociência demonstrar que o cérebro
feminino durante o orgasmo revela atividades que levam a uma quebra das
barreiras do ego, uma experiência mística ou semelhante a um transe — talvez
não idêntica à que James investigava, mas não tão diferente em seus efeitos —, os
cientistas já sabiam que há uma antiga conexão entre o orgasmo e a liberação de
opioides no cérebro. Os opioides — uma forma de neuropeptídios — produzem a
experiência do êxtase, da transcendência e da felicidade. Sigmund Freud, em seu
livro de 1930 O mal-estar na civilização, refere-se ao que Romain Rolland havia
identificado como “o sentimento oceânico”. Rolland usou essa expressão para se
referir ao tom emocional do sentimento religioso, a sensação “oceânica” da
[8]
ausência de limite. Freud chamou isso de um anseio infantil.
Mas Freud era homem; e a ciência recente pode indicar que, pelo menos no
orgasmo, as mulheres podem experimentar essa sensação oceânica de uma forma
única. Uma pesquisa recente baseada em ressonâncias magnéticas realizada por
Janniko Georgiadis e sua equipe mostrou, em 2006, que regiões do cérebro
feminino que estão ligadas à autoconsciência, inibição e autorregulação se
[9]
aquietam momentaneamente durante o orgasmo feminino. Para a mulher
envolvida, essa sensação pode se parecer com o desaparecimento de barreiras,
uma perda do ser e, quer excitante ou amedrontador, a perda do controle.
Em geral, muitos neurocientistas dos últimos trinta anos confirmaram que James
estava bioquimicamente correto: sem dúvida, há alterações cerebrais que
correspondem à experiência do “sublime”. Benefícios tremendos — sensações
maiores de amor, compaixão, autoaceitação e conexão — foram evidenciados em
pessoas que cultivaram esses estados da mente, como mostram o trabalho do
psicólogo Dan Goleman sobre inteligência emocional, em seu livro de 1995 de
mesmo nome, e a obra do Dalai Lama sobre meditação. Pesquisadores ocidentais
demonstraram, também, que os estados de êxtase meditativo podem envolver
liberação de opioides. Todas as mulheres, como veremos, têm potencial para ser
multiorgásticas. Portanto, o potencial místico ou transcendente da sexualidade
feminina descrito acima também permite que as mulheres se conectem,
frequentemente e de uma forma única, mesmo que só por alguns momentos, com
experiências de um ser brilhante, “divino” ou superior (ou o não ser, como diriam
os budistas), ou com uma sensação de conexão entre todas as coisas. Produzir o
estímulo necessário para esses estados de mente é parte da tarefa evolucionária
da vagina.
Por séculos, os filósofos falaram do “buraco com a forma de Deus” nos seres
humanos — o anseio que os seres humanos sentem por se conectar com algo que
seja maior que eles próprios e que motive buscas religiosas e espirituais. Como
diz o filósofo do século XVII Blaise Pascal:
O que mais prova todo esse anseio, esse desamparo, além do fato de que houve uma vez no homem a
verdadeira felicidade, da qual tudo que resta agora são a marca e o traço vazios? Esse vazio ele tenta
em vão preencher com tudo à sua volta, buscando em coisas que não estão lá a ajuda que não pode
achar nas que estão, mesmo que nenhuma ajude, já que esse abismo infinito pode apenas ser preenchido
[10]
com um objeto infinito e imutável: em outras palavras, pelo próprio Deus.

Os cientistas eliminaram a hipótese de que esse anseio, esse apetite por


preencher um “abismo infinito”, seja uma capacidade neural com a qual
nascemos, uma habilidade inata para experimentar e se conectar com algo que se
parece, subjetivamente, com transcendência. A obra do Dalai Lama sobre a
meditação, junto com os trabalhos de Dan Goleman, Lama Oser e a pesquisa do
laboratório E. M. Keck para imagem e comportamento funcional cerebral sugerem
que locais específicos do cérebro se iluminam quando os sujeitos experimentam o
estado meditativo. Cientistas de Stanford também estão descobrindo a neurologia
[11]
do êxtase. De modo típico, nesse estado de mente a pessoa sente, entre outras
coisas, que tudo está bem com ela mesma e com o universo, e as negatividades e
limitações do ego desaparecem. Os artistas produziram algumas das mais
grandiosas obras da humanidade nas áreas da música, pintura e poesia após tais
experiências.
Portanto, ao longo do livro defenderei que há uma versão dessa conexão com o
“sublime” — mesmo que esta, assim como a “sensação oceânica” de Rolland,
seja simplesmente um truque neurológico de nossa complicada fiação cerebral
humana — que as mulheres podem experimentar durante e após certos momentos
de elevado prazer sexual. Insisto que esse sentimento está criticamente ligado a
uma experiência de amor-próprio ou autorrespeito e a uma sensação de liberdade
e determinação. É por isso que a questão da sexualidade ser ou não tratada com
amor e respeito se torna tão crucial. Esses momentos de alta sensibilidade sexual
levam à consciência, por parte da mulher, de que ela está em um estado de um
tipo de perfeição, em harmonia e em conexão com o mundo. Nesse estado de
consciência, as usuais vozes interiores que dizem que a mulher não é boa o
suficiente, não é bonita o suficiente ou não é agradável o suficiente para os outros
são caladas, e o sentido grandioso de um conjunto maior de conexões — um
sentido que chamarei, na falta de termo melhor, do feminino universal ou divino
— pode ser acessado.
Grandes insights criativos e um trabalho poderoso podem emergir após uma
experiência de transcendência desse tipo. Acredito que, quando uma mulher
aprende a identificar e cultivar a consciência da “deusa” como é aqui definida,
seu comportamento consigo própria e com suas experiências de vida mude para
melhor — pois a autodestruição, a vergonha e a tolerância a um tratamento
inferior não podem viver em harmonia com esse conjunto de sentimentos.
Mas eu argumentaria, menos literalmente, que a deusa — um sentido do ser a
que se aplica o gênero feminino, que brilha, sem mácula, sem ansiedade ou medo
— é inerente a cada mulher; e argumentaria, ainda, que as mulheres tendem a
intuitivamente saber se tiveram um vislumbre ou tocaram esse estado. Quando as
mulheres percebem a fagulha da deusa nelas mesmas, comportamentos sexuais
mais saudáveis e com mais autorrespeito são notados. A vagina serve,
psicologicamente, para ativar essa matriz de elementos químicos que se parecem,
para o cérebro feminino, com a deusa — ou seja, como uma consciência da
própria dignidade e de um grande amor-próprio como mulher, como uma parte
radiante do feminino universal.
A vagina pode até ser um “buraco”, mas, se compreendido apropriadamente, é
um buraco com a forma da deusa.

1. Shere Hite, The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality (Nova Iorque: Seven Stories
Press, 2004).↵
2. Catherine Blackledge, The Story of V: A Natural History of Female Sexuality (New Brunswick, NJ:
Rutgers University Press, 2004).↵
3. William James, The Varieties of Religious Experience (Nova Iorque: Barnes and Noble Classics, 2004),
366.↵
4. Ib., 329-71.↵
5. Ib., 366.↵
6. William Wordsworth, “Ode on Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood”, em
The Major Works, including the Prelude, Stephen Gill, ed., (Nova Iorque: Oxford World Classics, 2000):
“There was a time when meadow, grove and stream / The earth, and every common sight / To me did
seem / Apparelled in celestial light … trailing clouds of glory do we come / From God, who is our
home”.↵
7. James, The Varieties of Religious Experience, 370.↵
8. Sigmund Freud, Civilization and Its Discontents (Nova Iorque: Penguim Books, 2002).↵
9. Janniko R. Georgiadis e outros, “Regional Cerebral Blood Flow Changes Associated with Clitorally
Induced Orgasm in Healthy Women”, European Journal of Neuroscience, vol. 24 (2006); 3.305-16.↵
10. Blaise Pascal, Pensées (Nova Iorque: Penguin Books, 1996), 148.↵
11. Kamil Dada, “Dalai Lama Talks Meditation with Stanford Scientists”, The Stanford Daily,
www.stanforddaily.com/2010/10/18/dalai-lama-talks-meditation-with-stanford-scientists.↵
A vagina possui uma consciência?
Conheça seu incrível nervo pélvico

O poético, o científico, o erótico — por que deveria a imaginação se importar com a que mestre
serviu?
Ian McEwan, Solar

A primavera de 2009 foi linda. Eu estava emocional e sexualmente feliz,


intelectualmente excitada e recentemente havia me apaixonado. Mas foi uma
primavera em que, lentamente, comecei a perceber que havia algo terrivelmente
errado em mim.
Estava com quarenta e seis anos. Tinha um relacionamento com um homem que
combinava muito comigo em vários aspectos. Por dois anos, ele havia me dado
grande felicidade emocional e física. Nunca tive dificuldade com minhas
respostas sexuais, e tudo sempre correu bem nesse sentido. Mas, de forma quase
imperceptível, comecei a notar uma mudança.
Sempre fui capaz de ter orgasmos clitoridianos; e quando cheguei aos trinta, já
havia aprendido a ter o que provavelmente seria chamado de orgasmo “misto”, ou
orgasmo clitoridiano/vaginal, o que adicionou o que parecia ser outra dimensão
psicológica à experiência. Sempre havia experimentado um fluxo de sentimentos
emocionais e físicos positivos no pós-coito. Depois de fazer amor, quando fui
ficando mais velha, em geral após o orgasmo, enxergava as cores como se
estivessem mais brilhantes; e os detalhes da beleza do mundo natural apareciam
com mais destaque e eram mais atraentes. Sentia as conexões entre as coisas de
forma mais distinta por algumas horas; ficava de bom humor, mais disposta a
conversar e me sentia mais energizada.
Mas, gradualmente, comecei a notar que isso estava mudando. Lenta, mas
progressivamente, estava perdendo a sensibilidade dentro de meu corpo. E isso
não era o pior. Para minha surpresa e desapontamento, se meus orgasmos
clitoridianos eram tão fortes e prazerosos como sempre haviam sido, algo muito
diferente estava acontecendo, depois do sexo, em minha mente.
Percebi, um dia, enquanto olhava as copas das árvores do lado de fora do
quarto de nossa pequena cabana nas montanhas, que o fluxo pós-coito habitual de
certa vitalidade que invadia o mundo, o encantamento comigo mesma e com tudo
à minha volta, a energia criativa que percorria todas as coisas vivas já não se
seguiam ao prazer físico que eu certamente havia acabado de experimentar.
Comecei a notar que o sexo tinha cada vez mais a ver apenas com o prazer físico.
É claro que ainda era muito bom, mas cada vez menos experimentava o sexo
como algo de incrível significado emocional. Tinha um desejo físico — era um
apetite e uma satisfação —, mas não estava mais sentindo aquela dimensão
poética; não sentia a conexão vital com todas as outras coisas de minha vida.
Havia perdido aquele fluxo de sensações, quando era capaz de ver as conexões
entre as coisas; em vez disso, as coisas pareciam apagadas e não mais
relacionadas a mim de uma forma que não era normal; e as cores eram apenas
cores — não pareciam mais vivas após o sexo. Pensei: “ O que está acontecendo
comigo ?”.
Apesar de não haver nada de errado com minha vida — e apesar de meu
relacionamento continuar sendo maravilhoso —, comecei a sentir certa
depressão. E, por baixo de tudo, uma sensa ção de desespero. Era como se fosse
um filme de terror, como se as luzes e fagulhas do mu ndo fossem se esmaecendo
— e não apenas após fazer amor, mas na existência do dia a dia. A dormência
interna progredia. Não podia fingir que estava imaginando aquilo. Havia uma
insensibilidade emocional que progredia de forma inexorável junto com todo o
processo. Senti que estava perdendo, de alguma forma, tudo que me fazia ser
mulher e que não conseguiria viver nessa condição pelo resto da vida.
Não conseguia discernir, de tudo o que havia pesquisado, o que poderia estar
causando essa perda tão traumática e inacreditável. Um dia, tarde da noite, estava
sentada sozinha sentindo a frieza do fogão de lenha, com a mente cheia de
perguntas, sentindo-me desamparada, quando comecei literalmente a barganhar
com o universo, como se faz em momentos de grande crise. Na realidade, rezei,
propondo um acordo: Se Deus (ou quem quer que estivesse ouvindo; eu estava
disposta a ir com qualquer um disposto a aceitar o chamado) de alguma forma me
curasse — de alguma maneira restaurasse o que eu havia perdido — e se eu
aprendesse algo de valioso nesse processo, escreveria sobre isso — se houvesse
uma mínima chance de que o que eu havia aprendido pudesse ajudar alguém.
Com o coração pesado — com medo de ouvir que não havia nada a ser feito
em meu caso — marquei uma consulta com minha ginecologista, a dra. Deborah
Coady. Nesse aspecto, fui muito afortunada, já que ela é uma das poucas
especialistas nessas questões do corpo feminino, que, como acabou acontecendo,
estavam sendo afetadas em mim: problemas com o nervo pélvico.
A dra. Coady é uma mulher adorável, na casa dos quarenta, com um cabelo
castanho-claro que cai na altura dos ombros e um rosto que traz certa expressão
de leve fadiga e receptividade à dor dos outros. Por causa de sua especialidade
nas desordens do nervo pélvico feminino e particularmente em uma de suas
variantes dolorosas chamada vulvodínia, que por sorte eu não tinha, ela vê com
frequência mulheres que estão experimentando uma ampla gama de sofrimentos.
Isso a fez uma mulher especialmente cuidadosa e compassiva.
A dra. Coady me examinou, fez perguntas em uma voz baixa e finalmente me
disse que acreditava que eu estava sofrendo de uma dormência por uma
compressão do nervo. A essa altura, eu sentia um tal pânico a respeito do que
estava perdendo em termos das dimensões emocionais de minha vida e de minha
sexualidade — e tão aterrorizada de perder ainda mais — que ela me levou para
seu escritório particular dentro do consultório.
Ali, em um esforço para me acalmar, ela me mostrou duas imagens de Netter —
ilustrações anatômicas lindamente desenhadas em cores. Frank Netter foi um
talentoso ilustrador médico, cujas imagens de várias partes do corpo humano são
clássicos visuais, colecionadas por alguns neurologistas, ginecologistas e outros
especialistas, para ajudá-los a explicar realidades médicas abstratas de forma
vívida a seus pacientes.
A primeira imagem mostrava a forma como os nervos pélvicos na mulher se
[1]
dividem a partir da base da medula. Outra mostrava como uma ramificação, que
se originava no clitóris e no nervo dorsal e clitoridiano, fazia um arco elegante
para chegar à coluna, enquanto outras ramificações faziam curvas sinuosas,
originadas na vagina e também no colo do útero. As ramificações nervosas que
vêm da vagina e do clitóris vão para um nervo maior, o pudendo, enquanto as
[2]
ramificações que vêm do colo do útero vão para o nervo pélvico. Toda essa
complexidade, como eu aprenderia depois, dá à mulher diferentes áreas em sua
pelve onde orgasmos podem ser produzidos, e tudo isso se conecta à medula
espinhal e depois ao cérebro.
A dra. Coady suspeitava que meu problema era a compressão espinhal de um
desses nervos.
Mas ela queria me garantir que, pela forma como as mulheres são formadas,
não importava a seriedade da compressão espinhal que suspeitava que havia ali,
eu jamais perderia a capacidade de ter um orgasmo clitoridiano. Minimamente
reconfortada, saí do consultório com um pedido de ressonância magnética e uma
indicação para ver o dr. Jeffrey Cole, o homem do nervo pélvico em Nova Iorque.

Encontrei o dr. Cole no Kessler Institute for Rehabilitation, que ele ajuda a
comandar, em Orange, Nova Jersey. Um homem calmo e serenamente divertido,
com maneiras antiquadas e reconfortantes, olhou minhas radiografias iniciais,
examinou minha postura em pé à sua frente e escreveu rapidamente uma receita
para um odioso colete ortopédico.
Duas semanas depois, voltei para a consulta de retorno com o dr. Cole. As
azaleias estavam em flor naquela época — ainda era a mais adorável parte da
primavera —, mas eu estava quase desmaiando enquanto cruzava os bairros
residenciais no banco de trás de um táxi meio acabado. Eu me sentia também
bastante desconfortável, já que, nas duas últimas semanas, havia usado o tal do
colete. Ele ia da linha superior dos meus quadris até a parte de baixo da caixa
torácica e me obrigava a me sentar completamente ereta.
Estava com muito medo de ouvir o que dr. Cole tinha a dizer agora que já sabia
os resultados da ressonância. O exame, informou dr. Cole, mostrava que eu tinha
uma doença degenerativa na coluna: minhas vértebras estavam desmoronando e
comprimindo umas às outras. Fiquei muito surpresa, pois nunca havia sentido
nenhuma dor ou tido nenhum problema nas costas.
Ele me surpreendeu mostrando-me radiografias adicionais que havia tirado na
última consulta: não havia como ignorar ou negar — na L6 e na S1, na região
lombar, minha coluna se parecia com uma torre de Lego que havia deslizado até
certo ponto, exatamente meio caminho para fora do alinhamento central — de
forma que metade das vértebras na pilha estava em contato com a outra, mas a
outra metade flutuava no espaço.
Eu me vesti e me sentei no consultório do dr. Cole. Ele começou a fazer uma
entrevista inesperadamente dura e direta comigo: “Você já sofreu algum golpe na
região lombar?”; “Algo se chocou contra a região inferior de suas costas?”. Disse
que era uma lesão grave e que eu devia ter alguma lembrança do que a havia
causado. Repeti que não tinha lembrança de nenhum trauma. Quando finalmente
percebi o que ele poderia também estar perguntando, confirmei que ninguém
nunca havia batido em mim.
Depois de cerca de cinco minutos desse vaivém, lembrei-me de que sim, de
fato, eu havia sofrido um golpe. Quando eu tinha vinte e poucos anos, escorreguei
em uma loja de departamentos, caí de um lance de escadas e aterrissei sobre
minhas costas. Não senti muita dor, mas fiquei muito trêmula. Chegou uma
ambulância, e me levaram para o hospital St. Vincent, onde fizeram radiografias.
Nada de interesse foi encontrado, e fui liberada.
Dr. Cole registrou a informação e pediu mais uma série de exames de imagem
— dessa vez, radiografias mais detalhadas. Também realizou um exame bastante
desconfortável, no qual aplicou impulsos elétricos em minha rede neural por meio
de agulhas, para ver o que “acendia” e o que permanecia no escuro.
Em nosso terceiro encontro, também na clínica no bairro residencial, voltei
para a mesa de exames. Dr. Cole explicou que o novo conjunto de radiografias
havia revelado exatamente qual era o problema. Eu havia nascido com uma
versão discreta de espinha bífida, uma condição em que a espinha vertebral não
chega a se desenvolver completamente. O trauma de vinte anos atrás havia
fissurado as vértebras já fragilizadas e formadas de maneira incompleta. O tempo
havia tirado minha coluna vertebral de seu alinhamento em volta da lesão, que
agora comprimia uma ramificação do nervo pélvico, uma das que o dr. Cole havia
me mostrado na imagem Netter — justamente aquela que terminava no canal
vaginal.
Eu tivera uma sorte incrível de jamais ter sentido nenhum sintoma até aquele
momento, ele disse. Dada a gravidade da lesão, era uma sorte que, apesar da
dormência cada vez maior, eu não tivesse nenhuma dor. Apesar de odiar
exercícios físicos, parece que toda uma vida tendo que suportar ir à academia
havia impedido que sintomas mais sérios se manifestassem. Mas o tempo fez seu
trabalho: no local onde duas seções de vértebras estavam desalinhadas, o nervo
pélvico estava preso e comprimido, e os sinais que vinham de uma de suas várias
ramifica ções estavam bloqueados e impedidos de chegar ao meu cérebro pela
medula. Os impulsos neurais daquela parte de meu corpo haviam se “apagado”.
Eu me perguntei se isso tinha algo a ver com como me sentia — ou como não me
sentia — após o sexo, apesar de a timidez me impedir de perguntar. Ele me
explicou que eu deveria considerar uma cirurgia para fazer uma fusão das
vértebras e aliviar a pressão sobre o nervo.
Depois de andar à sua frente para que ele checasse minha marcha e se
certificasse de que as pernas não haviam sido afetadas e depois de medir meus
ombros para checar o alinhamento, mencionei — talvez, em parte, para ter uma
segunda opinião, para ter mais segurança — que a dra. Coady havia me garantido
que meus orgasmos clitoridianos não seriam afetados, mesmo se a ramificação do
nervo pélvico lesionada não melhorasse. Ele concordou que ela estava certa:
caso o ramo clitoridiano de minha rede corresse o risco de ser afetado, já o teria
sido. O fato de que aquela ramificação não havia sido afetada era um acidente de
minha formação. E então, explicou casualmente:
Cada mulher tem uma formação diferente. Os nervos de algumas mulheres se ramificam mais na
vagina, outras têm mais ramificações no clitóris. Algumas têm muitos ramos no períneo ou no colo do
útero. Isso leva a algumas das diferenças na resposta sexual feminina.

Quase caí da mesa de exames, tal foi minha surpresa. Então era isso que
explicava os orgasmos clitoridiano versus vaginais? As ligações neurais?Não
era a cultura, nem a criação, nem o feminismo e nem Freud? Mesmo nas revistas
femininas, a variação nas respostas sexuais femininas foi frequentemente descrita
como ditada, em grande parte, pelas emoções, pelo acesso às fantasias ou
preliminares “certas”, pela forma como a mulher foi educada, pela “culpa” ou
“liberação” de cada uma ou pelas habilidades do amante. Nunca havia lido nada
sobre a forma como cada uma chega ao orgasmo sendo moldada pela formação
neural básica. Essa era uma mensagem muito menos misteriosa e subjetiva sobre
a sexualidade feminina: apresentava uma sugestão óbvia de que qualquer um
poderia conhecer mais sobre as próprias variações neurais ou as do(a)
parceiro(a) e simplesmente dominar os padrões da forma especial como eles
funcionam.
— Você percebe — gaguejei, ainda sem minhas plenas faculdades mentais,
surpresa de imaginar que o debate que estava prestes a descrever talvez não
tivesse para ele a urgência que tinha para mim — que acaba de me dar a resposta
para a pergunta que freudianos e feministas e sexólogos têm discutido por
décadas? Todas essas pessoas sempre assumiram que as diferenças entre
orgasmos clitoridianos e vaginais tinham a ver com a forma como as mulheres
foram criadas… ou que papel social se esperava delas… se eram livres para
explorar ou não seu próprio corpo… se tinham ou não a liberdade para adaptar
sua forma de fazer amor às expectativas externas — e você está me dizendo que a
razão é simplesmente que a formação física de cada uma é diferente? Que
algumas têm suas ligações neurais mais propensas a orgasmos clitoridianos; e
outras, para orgasmos vaginais? Que algumas têm ramificações que vão fazer que
sintam mais o ponto G, e outras nem tanto? E que tudo isso é basicamente físico?
— As ligações neurais de cada mulher são diferentes — ele confirmou
gentilmente, como se estivesse falando com uma pessoa ligeiramente
descontrolada. — É por isso que as mulheres têm respostas sexuais tão diversas.
O nervo pélvico se ramifica de forma bastante individual em cada mulher. Essas
diferenças são físicas.
(Mais tarde, eu aprenderia que essa distribuição tão complexa e variada é
muito diferente da formação sexual masculina, que, pelo que sabemos do nervo
dorsal do pênis, é muito mais uniforme.)
Fiquei em silêncio, tentando absorver o que ele havia dito. Acho que as
mulheres fazem muitos julgamentos a respeito de si próprias com base no modo
como chegam ou não ao orgasmo. Nosso discurso sobre a sexualidade feminina,
que não presta nenhuma atenção a essa realidade neural que é o próprio
mecanismo do orgasmo feminino, sugere que, se as mulheres têm problemas para
chegar ao clímax, é — neste momento de liberação feminina —, com certeza, de
alguma forma, por culpa delas: devem ser muito inibidas; talvez não sejam
habilidosas; não são “abertas” o suficiente em relação a seu corpo.
Dr. Cole educadamente limpou a garganta. Polidamente, tentou desviar minha
atenção de volta a meu próprio caso.

Dr. Cole me indicou o dr. Ramesh Babu, um neurocirurgião do Hospital de Nova


Iorque, o que foi outro golpe de sorte. Talvez de forma um tanto irracional, fiquei
mais confortada de ver que o dr. Babu, um carismático médico indiano vestido
elegantemente, tinha em sua prateleira, dentre os textos de neurociência, a
estatueta da deusa chinesa da compaixão, Kwan Yin, a mesma que eu tinha em
minha própria estante. Dr. Babu me ofereceu uma maçã e logo começou a, firme,
mas gentilmente, me repreender sobre a necessidade de agir sem demora. Fiquei
aterrorizada de saber que ele queria colocar uma placa de metal de trinta e
poucos centímetros, com várias articulações metálicas, em minha lombar para
fazer a fusão entre as vértebras danificadas. Afortunadamente, a força de vontade
dele era tão forte quanto a minha.
Marquei a cirurgia. Após uma operação de quatro horas, acordei sentindo-me
horrivelmente grogue, em uma cama de hospital, possuidora agora de uma placa
metálica que prendia as vértebras de minha lombar no lugar com quatro
parafusos. Tinha uma cicatriz vertical cortando minhas costas que meu namorado
definiu — em uma tentativa de me acalmar — como a cara do Nine-Inch Nails,
referindo-se à banda de punk rock. Todas essas mudanças pareciam questões
menores se comparadas com a esperança que eu agora tinha de recuperar aspectos
perdidos de minha mente e de minha vida criativa por meio de meu nervo pélvico
descomprimido.
Depois de três meses, tive autorização para fazer amor de novo. Eu me senti
melhor, mas não plenamente recuperada. Sabia que a regeneração neural, caso
acontecesse, podia levar muitos meses. Continuei a me recuperar continuamente
nos seis meses seguintes, ansiosa e também temerosa de descobrir o que
aconteceria, se é que algo aconteceria, com minha mente depois que meu nervo
pélvico ficasse completamente desobstruído. Será que o nervo se recomporia
completamente? E, mais importante, será que minha mente se recomporia? Será
que voltaria a sentir aquela alegria emocional, será que sentiria aquela união
entre todas as coisas?
Graças ao dr. Babu, e talvez a quem quer que tenha recebido meu chamado
cósmico, tive uma recuperação neural completa, o que era algo que nenhuma das
pessoas na equipe médica podia me garantir que aconteceria. Esse tipo particular
de compressão neural, apesar de não ser completamente desconhecido, é
raramente encontrado na literatura não especializada, e eu agora sou um grupo de
controle vivo para o estudo dos efeitos dos impulsos do nervo pélvico sobre o
cérebro feminino. Por causa da dificuldade de encontrar informações sobre esse
assunto, senti que devia às mulheres um relato do que me aconteceu a seguir.
Conforme minha sensação pélvica foi lentamente retornando, meus estados de
consciência perdidos também retornaram . Lenta, mas progressivamente, minhas
sensações internas despertaram novamente, e quando os orgasmos
clitoridianos/vaginais “mistos”, do tipo a que eu estava mais acostumada
anteriormente, voltaram, o sexo se tornou de novo emocional para mim. A
recuperação sexual foi, para mim, como a transição em O mágico de Oz , quando
Dorothy vai de Kansas em preto e branco para o colorido e mágico reino do Oz.
Aos poucos, após o orgasmo, comecei a ver de novo a luz fluindo no mundo à
minha volta. Mais uma vez, senti uma onda de sociabilidade passando por mim
depois de fazer amor — vontade de falar e rir. Gradualmente, experimentei de
novo uma sensação de profunda conexão emocional, de euforia criativa pós-coito,
de felicidade com o próprio ser e com o amante, de confiança e disposição, como
se tudo estivesse bem em um sentido existencial. E tudo isso eu achei que havia
perdido para sempre.
Comecei de novo, após o sexo, a sentir uma elevada interconexão, que os
poetas e pintores românticos chamaram de o “sublime”: o sentido de uma
dimensão espiritual que une todas as coisas — marcas de uma percepção de todas
as coisas brilhando com a luz. Tudo isso, para minha imensa felicidade, voltou.
Para mim, era suficiente ter esses vislumbres ocasionais.
Eu me lembro de estar de novo no pequeno quarto no andar de cima da cabana
nas montanhas; meu namorado e eu acabáramos de fazer amor. Pela janela, olhei
para as novas folhas nas árvores e o vento balançando seus galhos em grandes
ondas, e tudo me pareceu uma dança intensamente coreografada, na qual toda a
natureza expressava alguma coisa. O movimento das folhas, os galhos ondulantes,
o chamado dos pássaros vindo de lugares invisíveis mergulhados nas sombras:
tudo isso parecia, mais uma vez, estar em comunicação entre si. Pensei: estou de
volta.
A partir dessa experiência, uma jornada: a de entender o que havia acontecido
com minha mente e compreender melhor o corpo e a sexualidade femininos.

Nos dois anos seguintes, aprendi muito mais do que já sabia antes — o que não
foi difícil, já que, como a maior parte das mulheres, eu não sabia nada sobre o
nervo pélvico feminino. E o que acontece é que, de certa forma, ele é o segredo
de tudo relacionado à própria feminilidade.
Quando uso o termo vagina neste livro, é de uma forma diferente da definição
técnica. O significado médico de vagina é apenas o introito, a abertura vaginal,
umas das muitas palavras inadequadas relacionadas a este assunto. Eu a uso, a
menos que claramente especificado, para significar algo o qual, estranhamente,
não temos apenas uma palavra para expressar: ou seja, o órgão sexual feminino
como um todo, dos lábios ao clitóris, do introito ao colo do útero.
Mesmo definida dessa forma mais inclusiva, ainda tendemos a pensar na vagina
em termos limitados: como as partes que podemos ver e tocar na superfície de
nosso corpo, entre nossas pernas: a vulva, os lábios internos e o clitóris — ou as
partes que conseguimos tocar quando exploramos a parte de dentro de nosso
corpo com os dedos: o canal vaginal. Fazemos uma interpretação completamente
errônea da vagina quando restringimos nosso entendimento a essas superfícies de
pele e essas membranas internas.
A vulva, o clitóris e a vagina são apenas as superfícies mais exteriores do que
realmente está dentro de nós. A atividade real é literalmente muito, mas muito
mais complexa abaixo dessas superfícies tácteis. A vulva, o clitóris e a vagina
são, na realidade, mais bem compreendidos como a superfície de um oceano que
é atravessado por redes vibrantes de raios submarinos — caminhos neurais
intrincados e frágeis, com variações individuais. Todas essas redes estão
continuamente enviando seus impulsos à medula espinhal e ao cérebro, que então
envia novos impulsos de volta por meio de outras fibras nos mesmos nervos para
produzir vários efeitos.
Esse denso conjunto de caminhos neurais se estende por toda a pelve, muito
abaixo da pele vulvar externa e da pele vaginal interna (apesar de que essa última
frase também não esteja médica e tecnicamente acurada: a pele de dentro da
vagina é chamada, em um dos muitos termos desagradáveis que temos para nos
referir a algo tão adorável, de membrana mucosa, ou mucosa).
Nas imagens Netter na Internet, você pode ver que sua maravilhosa e
[3]
complicada rede de caminhos neurais está conectada à medula espinhal. Esses
caminhos neurais são continuamente “iluminados”, como os neurologistas dizem,
com impulsos elétricos — dependendo do que está acontecendo com seu clitóris,
vulva e vagina.
Deixe-me usar uma segunda metáfora. Digamos que você encontre um ramo de
algas marinhas na beira da praia e o pegue do chão. As partes mais pesadas vão
continuar sobre a areia como uma malha, mas algumas meadas vão se estender
verticalmente. Essa rede neural tem esse formato: ela se parece com uma malha
embaraçada de centenas de milhares de fios dourados que foram puxados para
cima. A maior parte dos fios se concentra na pelve, mas partes dessa rede vão
para cima em direção à medula e ao cérebro. A imagem Netter 3.093 mostra isso.
[4]

Nos seres humanos, o nervo pélvico se ramifica a partir das vértebras sacrais
números quatro e cinco, ou S4 e S5, que são vértebras da região lombar. A partir
daí, ele se ramifica de novo em três caminhos neurais que vão mais longe, que já
mencionei anteriormente, que se empalham por toda a pelve: um se originando no
clitóris, um nas paredes da vagina e um no colo do útero. Outro feixe de nervos se
origina ao longo do períneo e do ânus. Dentre as muitas coisas incríveis a
respeito de nosso incrível nervo pélvico e sua adorável multiplicidade de
ramificações está o fato de que ele é completamente único para cada mulher,
individual — não há duas mulheres iguais.
Como você pode ver nas imagens Netter, a rede neural pélvica feminina é
altamente complexa. Sua alta complexidade é a razão pela qual há tanta
variabilidade na fiação sexual das mulheres. Em contraste, a rede neural pélvica
masculina, que é formada por uma grade de caminhos neurais muito regulares,
quase esquematizados — um círculo de prazer ao redor do pênis —, parece bem
mais simples. Essa grande complexidade neural sexual das mulheres se deve ao
fato de que temos órgãos que são reprodutivos e sexuais, como o colo do útero e
o útero, que os homens não têm.
Há muito mais redes neurais ligando a pelve feminina até a medula espinhal do
que as redes que vão do pênis à medula. Você pode ver isso nas imagens Netter
de título “Inervações da genitália externa”, “Períneo, inervação dos órgãos
[5]
reprodutivos femininos” e “Inervação dos órgãos reprodutivos masculinos”.
Fica claro que a rede neural feminina é muito mais difusa que a masculina e que
tem muito mais elementos que a masculina: nas mulheres, há um emaranhado de
atividade neural logo acima do útero, nos lados da vagina, acima do reto, acima
da bexiga, no clitóris e ao longo do períneo. Há menos emaranhados distintos de
atividade neural na pelve masculina.
(O períneo é a pele entre o ânus e a vagina: deixe-me enfatizar de novo que há
toda uma rede neural sexual distinta nas mulheres que começa no períneo e que é
essa rede neural sexual, como um médico que leu esta seção comentou alarmado,
“é rotineiramente cortada na episiotomia realizada em partos difíceis. Como
relatei em Misconceptions: Truth, Lies and the Unexpected on the Journey to
Motherhood, nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, episiotomias
desnecessárias são realizadas rotineiramente em partos normais que não o
exigiriam, não fosse pela pressão de tempo e economia dos hospitais, e também
pelo medo de litígio que os hospitais têm. Não é surpresa, então, que nos Estados
Unidos e na Europa Ocidental muitas mulheres relatem sensações sexuais
diminuídas após o nascimento de filhos, especialmente se passaram pela
episiotomia, apesar de que raramente sejam informadas pelos hospitais ou pelos
[6]
médicos de que o procedimento cortará um sistema nervoso sexual.)
Observando o padrão das redes neurais nas imagens Netter e nas ilustrações
neste livro, você verá que as mulheres foram desenhadas para receber prazer e
experimentar gatilhos para o orgasmo, que vão das carícias habilidosas à pressão
rítmica de todos os tipos em muitas, muitas partes de seu corpo. O modelo
pornográfico do coito — e mesmo o modelo convencional de coito em nossa
cultura, que é rápido, orientado ao objetivo, linear e focado no estímulo de uma
ou duas áreas do corpo da mulher — simplesmente não vai servir para muitas
mulheres, ou pelo menos não de forma profunda, pois envolve uma parte muito
superficial do potencial dos sistemas de resposta sexual neurológica das
mulheres. Para algumas mulheres, muitos dos caminhos neurais se originam no
clitóris. A vagina dessas mulheres será menos “enervada” — menos densa em
nervos. Uma mulher desse grupo poderá gostar muito de estímulo clitoridiano e
não tirar muito prazer da penetração. Outras mulheres têm muita enervação na
vagina e vão chegar ao clímax facilmente apenas pela penetração. Outras, ainda,
podem ter muitas terminações neurais nas áreas do períneo e do ânus: estas
podem gostar de sexo anal e até mesmo ter um orgasmo dessa forma, coisa que
deixaria outras mulheres completamente frias e até com dor. A formação da rede
neural está mais próxima da superfície em algumas mulheres, tornando mais fácil
para elas chegar ao orgasmo. A formação de outras pode estar mais submersa em
seu corpo, fazendo que elas próprias e seus parceiros tenham que ser mais
inventivos, já que terão que buscar um clímax mais esquivo.
A cultura e a educação definitivamente também vão ter seu papel na forma
como a mulher goza e podem influenciar a facilidade que ela tem de chegar ao
orgasmo; mas nem tudo dependerá disso. Esse discurso representa muita culpa e
vergonha desnecessárias para milhões de mulheres e, por outro lado, dependendo
do gosto de cada um, faz que se sintam ligeiramente pervertidas. Você sente que
está impondo algo a seu amante se (diferentemente da última namorada dele)
realmente precisa daquele sexo oral “extra” para gozar? Você fica constrangida
de pedir estímulo nos dois orifícios quando faz amor? Será que às vezes leva
mais tempo do que gostaria para gozar, ou de vez em quando é simplesmente
difícil? Veja, pode ser que isso não seja apenas por causa de sua avó que a
obrigava a dormir com as mãos por cima das cobertas, ou das freiras censoras do
colégio. Você não é um ser menos sexual ou não necessariamente mais inibida que
a última namorada dele. O que quer que seja que você goste e precise na cama —
como mulher, com toda aquela variabilidade —, essas preferências podem ser
apenas por causa de sua formação física.

1. Netter image 5.101. “Innervation of Female Reproductive Organs”,


www.netterimages.com/image/5101.htm, e 2.992; compare “Innervation of Male Reproductive Organs”
2.910, www.netterimages.com/image/2910.htm.↵
2. “Innervation of External Genitalia and Perineum”, Ib.↵
3. www.netterimages.com/image/3013.htm.↵
4. “Innervation of Internal Genitalia”, www.netterimages.com/image/3093.htm.↵
5. Ib.↵
6. Naomi Wolf, Misconceptions: Truth, Lies and the Unexpected on the Journey to Motherhood (Nova
Iorque: Doubleday, 2001), 165-67.↵
O sistema nervoso autônomo dos sonhos

O coração palpita em meu peito,


Olho de esguelha, por um momento —
Minha voz cala… meus ouvidos rugem,
Calafrios descem por meu corpo,
Mais verde que a grama
A mim parece
Que estou à beira da morte…
Safo, “Fragmento”

Para as mulheres, a resposta sexual envolve entrar em um estado alterado de


consciência. Essa transformação depende de seu etéreo sistema nervoso
autônomo, que os cientistas chamam de SNA. Esse sistema, que controla todas as
contrações musculares suaves em seu corpo, contém as divisões simpática e
parassimpática. Ele controla ações de seu corpo que estão além de seu controle
consciente. As duas divisões trabalham em conjunto. Nas mulheres, a biologia da
excitação sexual é um pouco mais delicada do que a maior parte de nós chega a
entender e depende significativamente desse sistema sensível, mágico, calmo e
facilmente inibido.
A excitação precede o orgasmo, é claro. Para que a rede neural pélvica faça
seu trabalho maluco, o sistema nervoso autônomo tem que fazer a sua parte. Os
pesquisadores Cindy Meston e Boris Gorzalka descobriram, em 1996, que o
sistema nervoso simpático feminino (SNS) está criticamente envolvido no
[1]
sucesso, ou mesmo na possibilidade da excitação feminina.
O sistema nervoso autônomo prepara o terreno para os impulsos neurais que
vão sair da vagina, clitóris e lábios para o cérebro, e esse fascinante sistema
regula as reações das mulheres ao relaxamento e estímulo que vêm da “dança da
deusa”, o conjunto de comportamentos que o amante usa para excitar sua parceira
ou parceiro. O SNA tem a ver com reações que não controlamos de forma
consciente: ele gerencia muitas das reações físicas ligadas à excitação e ao
orgasmo, incluindo a respiração, o rubor das faces, o fluxo de sangue que flui
para a pele, o preenchimento dos corpos cavernosos — o tecido esponjoso na
vagina que fica encharcado de sangue para produzir a “ereção” do clitóris —, o
preenchimento das paredes vaginais com o sangue que é necessário para a
lubrificação, o aumento dos batimentos cardíacos, a dilatação das pupilas e assim
por diante.
O cérebro afeta o SNA, que, por sua vez, afeta a vagina, e esse é o motivo pelo
qual, se você é mulher, poderá pensar em um amante, ficar excitada e perceber
que ficou molhada. Mas a vagina também afeta o cérebro, que, por sua vez, afeta
o SNA. É um ciclo de feedback contínuo. Um toque que foi experimentado de
forma positiva pelo clitóris ou pela vagina vai mandar um sinal ao SNA para
iniciar uma série de mudanças sutis no corpo da mulher. Se esse toque tem uma
continuidade cuidadosa, habilidosa e que se adapte às respostas da mulher, ele
vai fazer que a respiração dela fique mais pesada, quase que ofegante. Aumenta
seu batimento cardíaco e, portanto, sua circulação, que, por sua vez, causa um
rubor na pele. Seus mamilos ficam eretos, e todo o corpo fica mais sensível. O
batimento cardíaco aumentado, caso os estímulos do amante permaneçam
cuidadosos e atentos, envia fluxos de sangue ritmados a seus vasos sanguíneos
vaginais — pela elaborada rede de distribuição circulatória que perpassa os
lábios, os arredores da vagina e as profundezas da pelve —, inchando-os. Esse
inchaço expande tanto os lábios internos como os externos, o que os torna mais
sensíveis ao prazer. Isso enrijece e aumenta o clitóris, permitindo que ele
transmita prazer de forma mais aguda, e ajuda a lubrificar as paredes da vagina.
Essa ativação otimizada do SNA torna a mulher sedenta por fazer amor e capaz
de ter essa experiência em todas as suas dimensões. Mas, para que esse processo
seja completo e, portanto, plenamente satisfatório, o estímulo não pode ser
apressado e deve ser cuidadosamente sintonizado com o modo como a mulher
está reagindo. O processo requer atenção e tempo. E, como veremos, o
relaxamento aumenta a ativação ideal do SNA — e o estresse “ruim” atrapalha.
Nas mulheres, o “derretimento completo” ou “orgasmo forte” — que eu
definiria (apesar de nossa linguagem para as respostas sexuais femininas ser tão
inadequada) como o tipo de orgasmo que mais intensamente induz ao estado de
transe mais completo e que mais envolve todos os sistemas corporais, de forma
que depois a mulher se sinta a mais realizada possível e experimente o mais alto
grau de atividade cerebral química — é verdadeiramente possível apenas quando
o SNA é plenamente ativado. Em nossa cultura, nós todos sabemos sobre o
engajamento da rede neural pélvica, que é aquilo em que fomos criados para
pensar quando pensamos em “sexo” (apesar de que nosso entendimento geral até
mesmo dessa rede seja, como vimos, superficial demais). Mas o envolvimento
sexual e emocional pleno para as mulheres está centrado em uma ideia que é
distante à nossa discussão sobre o sexo: a ativação. O ideal é a ativação de todo
o sistema autônomo feminino — a respiração, a lubrificação e os batimentos
cardíacos —, que, por sua vez, afeta o intumescimento vaginal, a contração
muscular e a liberação orgástica: estímulos externos enquanto a mulher pensa em
sexo causam a liberação de dopamina, opioides e oxitocina pelo orgasmo. A
maior parte das pessoas em nossa cultura não foi criada para prestar muita
atenção aos níveis de “ativação” de uma mulher. Se a resposta do SNA de uma
mulher é ignorada, ela pode ter relação sexual e até gozar, mas não
necessariamente se sentirá liberada, transportada, realizada ou apaixonada, pois
apenas uma parte superficial de sua capacidade de resposta foi engajada.
O SNA também reage às sensações de segurança ou perigo que a mulher possa
ter. Ele manda sinais ao cérebro, e depois ao corpo, de que a pessoa pode relaxar,
comer e digerir; ou relaxar e dormir; ou relaxar e fazer amor. Esse “relaxamento”
é um fenômeno poderoso identificado no Ocidente pelo dr. Herbert Benson em
1975 (mas muito conhecido em várias culturas orientais), que acontece quando
você relaxa a um ponto que seu cérebro facilita o trabalho de cura do SNA — e
promove a eficácia das coisas que seu corpo faz que não estão sob seu controle
[2]
consciente. Hoje em dia, há literalmente centenas de estudos comprovando o
poder do relaxamento por meio de benefícios ao corpo e à mente que vão de uma
cura mais completa após uma cirurgia até uma capacidade maior de foco e
menores índices de doença cardíaca.
Vários estudos recentes mostram que o relaxamento é mais importante para a
excitação sexual feminina do que pensávamos antes. Como vimos, o estudo do dr.
Georgiadis e sua equipe em ressonâncias magnéticas mostrou que, quando uma
mulher se aproxima mais e mais do orgasmo, os centros cerebrais que regulam o
[3]
comportamento são desativados. Poderíamos dizer que ela de fato se torna,
bioquimicamente, uma mulher selvagem ou uma mênade. Fica tão desinibida e
imune à dor, que é como se estivesse em um estado alterado de consciência.
Durante um orgasmo forte, as mulheres entram mais profundamente nesse estado
de transe que em qualquer outro momento. A capacidade de julgamento fica
suspensa, e nem mesmo a dor é percebida da mesma forma que na consciência
normal.
É o SNA que a leva a esse ponto: ele permite que a mulher relaxe, respire
profundamente, core, envie sangue para todos os lugares corretos, encontre o foco
de energia para ativar a dopamina e entre — seguramente — naquele estado de
transe que descrevi acima. Ela experimenta o mais intenso tipo de contrações
pélvicas, que a deixam exausta, e ao mesmo tempo desfruta de altos níveis de
opioides e oxitocina — êxtase e afeição —, levando essas sensações para sua
vida e seus relacionamentos.
Mas há um detalhe: você não pode forçar o SNA a fazer nada. Você não pode
dizer a ele “me excite”. Isso também se aplica a outros processos que o sistema
nervoso regula. Você não consegue forçá-lo a liberar seu leite, como muitas mães
recentes sabem; não consegue acelerar ou desacelerar a digestão por meio de uma
decisão consciente, ou dar à luz de uma forma mais eficiente. Como muitas
mulheres (e homens) sabem a ponto de se frustrarem, quanto mais você tenta
forçar a excitação, mais difícil é atingir esse estado.
Para entrar nesse estado transcendental que leva o cérebro feminino ao
orgasmo forte, você precisa se sentir absolutamente segura. A salvo do “estresse
negativo”, no sentido de que sabe que está entrando em um estado de transe com
alguém que no mínimo a protegerá, se necessário, não a colocará em perigo ou em
circunstâncias fora de seu controle. O estado de transe é muito agradável em uma
suíte moderna de um hotel no Caribe, mas o que acontecia quando nossas
ancestrais faziam amor furtivamente na moita no meio do mato? Obviamente, era
muito perigoso, e, portanto, sem nenhum valor evolucionário, entrar nesse estado
desinibido de transe nas proximidades de animais selvagens ou agressores de
outras tribos ou qualquer outra ameaça natural corriqueira. Essa conexão
biológica e evolucionária entre o êxtase e a segurança emocional para as
mulheres tem implicações que não podem ser subestimadas. É o relaxamento que
permite a excitação sexual.
Da mesma forma que se sentir valorizada e relaxada aumenta a resposta sexual
feminina, o “estresse negativo” pode interferir drasticamente em todos os
processos sexuais da mulher. Comecei a me interessar pelo papel do estresse no
desempenho ou na ausência de desempenho da vagina — e dos seios e útero — há
uma década, quando estava trabalhando em meu livro sobre o parto,
Misconceptions. Ficou óbvio, com base na pesquisa que fiz na época, que o
útero, o colo do útero, o canal vaginal e o períneo eram altamente beneficiados
pelo relaxamento na realização das difíceis tarefas do SNA durante o parto e a
lactação. Um ambiente de baixo nível de estresse, com luz suave, música
agradável, pessoas atenciosas e a presença amorosa da família, de fato ajuda o
corpo feminino a dar à luz o bebê e alimentá-lo de formas que podem ser
clinicamente mensuráveis. Muitos estudos confirmam, também, que ambientes
hospitalares estressantes, onde as mulheres estão presas a dispositivos
intravenosos ou monitores fetais que consistentemente mostram falsos positivos
para sofrimento fetal, causam tanto estresse nas mães, que as reações biológicas
— e não apenas psicológicas — acabam prejudicando as contrações e inibindo a
[4]
lactação.
Na década que se passou desde que comecei a explorar essa conexão cérebro-
útero, cérebro-seios, esses estudos se multiplicaram. O estresse pode impedir, e,
de fato, frequentemente impede, que o útero se contraia durante o parto; pode
impedir que o canal vaginal empurre o bebê em direção à abertura vaginal; pode
impedir que os músculos relaxem quando precisariam abrir para que o bebê nasça
sem romper o períneo da mãe; pode impedir que as glândulas mamárias se
encham. Ina May Gaskin, famosa educadora alternativa na área de parto e
nascimento e autora do longevo best-seller Spiritual Midwifery, já fez o parto de
mais de quinhentos bebês em casa ou até mesmo em tendas na floresta, com
baixíssimas taxas de complicações. Ela frequentemente orienta os pais para que
diminuam as luzes, coloquem música, e pede ao pai que acaricie a mãe, que a
beije e que se abracem durante o parto, tudo isso porque ela já percebeu que um
ambiente agradável e inclusive sedutor contribui para contrações mais efetivas
para o nascimento, assim como também ajuda o leite a “descer” para a lactação.
“As parteiras da zona rural poderiam nos dar algumas instruções sobre como
beijar de forma mais efetiva”, escreve ela. “Uma boca mais relaxada acaba
relaxando também a vagina, o que faz que o bebê saia mais facilmente.” Ela
ensina as parteiras a orientar os maridos ou parceiros das mulheres em trabalho
de parto a que estimulem os mamilos destas para ajudar nas contrações:
Nosso grupo de parteiras já sabia disso [sobre o estímulo nos mamilos das parturientes] e o usava como
ferramenta já havia dois ou três anos, quando ouvimos que a comunidade médica, em seus
experimentos, havia descoberto que há um poderoso hormônio endócrino chamado oxitocina que é
produzido pela glândula pituitária, que influencia as contrações do útero por meio do estímulo dos seios.
A essa altura, já usávamos isso para iniciar o trabalho de parto (…) ou acelerá-lo. Preferimos fazer por
meios agradáveis a por uma sonda intravenosa.
Segundo ela, a mesma energia sexual que colocou o bebê lá também ajudará a
[5]
fazê-lo sair.
Se analisarmos a neurologia e bioquímica do parto e da lactação, veremos que
não é tão estranho assim, afinal, defender que a vagina envia sinais que resultam
em pensamentos e emo ções, pois o útero no parto e os seios durante a lactação
também enviam sinais que resultam em pensamentos e emoções.
Quando o bebê passa pelo canal vaginal, as contrações produzem oxitocina no
cérebro da mãe, chamada afetuosamente de “química do carinho”. A oxitocina é o
hormônio conhecido por seu papel no nascimento e lactação no período pós-parto
e no estabelecimento dos vínculos entre mãe e filho. Ela também é liberada
durante o orgasmo para os dois sexos e age como neurotransmissor no cérebro,
facilitando a criação de vínculos e da confiança. Hormônios como a oxitocina
podem reduzir o medo ou a inibição comportamental e promover a expressão de
comportamentos sociais, tais como as relações amorosas e comportamentos
sexual e materno. Ratas que jamais tiveram ninhadas anteriormente demonstram
comportamento maternal trinta minutos após a administração de oxitocina, e esses
comportamentos serão completamente abolidos caso essas mesmas ratas sejam
[6]
tratadas com antagonistas de oxitocina. Ratazanas da pradaria tratadas com
oxitocina encontraram seu par mais rapidamente e perderam interesse por ele
assim que o hormônio foi bloqueado. A observação mostra que algumas mulheres
que passaram por cesarianas tiveram problemas, em um primeiro momento, para
estabelecer relações com seus recém-nascidos. Essas mães recentes não tiveram
um trabalho de parto longo o suficiente para permitir que o “amor materno” fosse
estabelecido quimicamente em seus sistemas. Quando o recém-nascido suga, o
reflexo da sucção também leva à liberação de oxitocina no cérebro da mãe. O
bebê cria quimicamente o amor e sentimentos de afeição em sua mãe.
Eu mesma experimentei alguns desses “pensamentos” do útero no ano 2000.
Escrevi como a oxitocina me fez uma pessoa mais gentil, avessa ao conflito e
[7]
basicamente melhor durante a gravidez. Meu útero era responsável por parte
dos meus pensamentos, a despeito de minha vontade, estava mediando meu
cérebro feminista conscientemente autônomo, conscientemente assertivo. Também
passei pela demora na criação de vínculos que as cesarianas podem causar
devido à interrupção na produção de oxitocina que as contrações deveriam gerar.
A ideia de que a biologia pode condicionar a consciência não é radical; está bem
estabelecido que o útero, durante o parto; e os mamilos, na lactação, podem
mediar a consciência feminina. Portanto, não deveria ser estranho dizer que a
biologia da vagina, no contexto do sexo, pode também mediar a consciência
feminina.
Os cientistas de hoje podem confirmar que o “estresse negativo” tem
exatamente o mesmo tipo de efeito negativo sobre a excitação da mulher e sobre a
própria vagina. Quando a mulher se sente ameaçada ou insegura, o sistema
nervoso simpático — o parceiro do sistema nervoso parassimpático no SNA —
entra em cena. Esse sistema regula as reações do tipo “lutar ou fugir”: quando a
adrenalina e as catecolaminas são liberadas no cérebro, sistemas não essenciais,
como o digestório e, sim, as reações sexuais, são interrompidos; a circulação é
limitada, pois o coração precisa de todo o sangue disponível para ajudar o corpo
a lutar ou fugir; e a mensagem para o corpo é “tire-me rápido daqui”. Com base
no trabalho de Meston e Gorzalka, sabemos agora que um ambiente ameaçador —
o que pode até incluir ameaças verbais vagas direcionadas à vagina ou linguagem
negativa sobre ela — pode interromper todo o sistema de reação sexual feminina.
(Adiante, exploraremos o estresse sexual “positivo”.)
Você não precisa confiar em minhas palavras a respeito das evidências da
conexão mente-corpo na sexualidade feminina. Se tiver um amante ou parceiro(a)
que esteja disposto(a), faça um experimento simples. Espere por um momento em
que ele ou ela tenha dito algo bastante elogioso à sua feminilidade ou lhe dado um
sinal de admiração verdadeira; deixe que ele ou ela toque em seus mamilos.
Observe com que rapidez seu mamilo parece ativamente buscar o toque do
amante. Se ele ou ela continuar falando coisas nesse sentido, perceba a prontidão
com que sua vagina responde ao toque — como dizem os mestres do Tantra, ela
parece literalmente ansiar pela mão do amante e se abrir para ela, atraí-la, ou
fazer o mesmo para o pênisdo amante. (Mais uma vez, a mesma conexão entre a
apreciação verbal e os caminhos da excitação pode também se aplicar aos
homens: pesquisadores descobriram que o nível de estresse psicológico dos
homens em conflitos de relacionamento baixa como resposta a palavras de
respeito e admiração por parte das mulheres.)
Tente a experiência de outra forma, em outro momento. Se ele ou ela disse algo
ofensivo, desagradável ou desrespeitoso a você, veja o que acontece se seu
amante tocar seu mamilo; é pouco provável que você consiga tolerar o toque com
conforto, o que dirá apreciá-lo. Muitas pessoas não gostam de ser tocadas quando
estão zangadas, mas parece que as mulheres têm mais problemas que os homens
para se sentir excitadas quando estão chateadas.
As diferenças nas respostas corporais podem tornar a conexão macho-fêmea
especialmente complicada nesses momentos: essa simples diferença nas reações
femininas, dependendo da forma como a mulher é abordada, é um grande motivo
pelo qual a abordagem sexual feita pelos homens às mulheres vai se deteriorando
tanto em relações de longo prazo, para grande tristeza e frustração tanto deles
quanto delas. É comum que a mulher simplesmente não consiga suportar um toque
mais íntimo se seu amante foi recentemente desrespeitoso verbalmente com ela;
ou deixou de seduzir verbalmente a deusa que a habita em algum momento
anterior, preparando a liberação de oxitocina e vasopressina em seu corpo,
preparando o sistema nervoso parassimpático para que faça sua mágica.
No início da corte, os homens em geral tratam suas amantes de formas que as
deixam profundamente relaxadas, reforçando o trabalho do SNS; isso ativa as
redes neurais pélvicas femininas e inicia uma deliciosa atividade hormonal no
cérebro da mulher. Mas, uma vez que o relacionamento esteja garantido, muitos
homens tendem a reduzir as palavras sedutoras e carícias demoradas, ou
simplesmente abandoná-las. Isso é um erro, mas não é surpreendente. O tipo de
sexo que envolve “longas carícias” requer muito mais tempo que aquela
rapidinha, muito mais orientada à meta; alguns diriam que, na verdade, exige mais
“esforço” da parte dos homens; os praticantes do Tantra com quem falei no curso
desta jornada certamente diriam que pede muito mais “foco” dos homens. Nossa
cultura chega a chamar essas palavras e carícias de preâmbulo à ação real — a
ideia está implícita na própria palavra preliminares —, e, assim, são vistas como
“extras” sexuais. Há todo um conjunto de palavras, ações e gestos sem os quais as
mulheres não podem passar e que eu chamo de a dança da deusa, e que em nossa
cultura são vistos como um mero convite ao banquete, e não como o banquete em
si.
Mas, quando você entende o papel do SNA nas mulheres, que é onde o efeito
desses toques aparentemente “não sexuais”, palavras sedutoras ou de admiração e
aquela sensação crucial de se sentir segura e valorizada são registrados, enxerga
que esse é um erro terrível. O sistema nervoso simpático não transmite as
sensações em si. Ele é parte do SNA que produz efeitos opostos ao do “lutar ou
fugir”. Em vez disso, ele manda respostas aos carinhos, palavras e tudo o mais
que estou descrevendo, que influenciam a excitação sexual como um todo. Em
termos de conexão entre o cérebro e o corpo feminino, como o cérebro media o
SNA e é mediado por ele, fica claro que esses gestos, toques, beijos e
palavrasnão são “extras”. Eles são partes integrais da ativação do SNA feminino
— e, por sua vez, essas palavras e gestos dizem ao cérebro feminino que esse é
um ambiente sexual seguro. O modelo de sexo linear e orientado à meta que é tão
convencional em nossa cultura faz muitas mulheres se sentirem frustradas e
existencialmente infelizes com o passar do tempo — mesmo se estiverem tendo
orgasmos. Já que os orgasmos são vistos como a “meta” do sexo em nossa
cultura, isso pode ser confuso. É compreensível que homens bem-intencionados
se sintam desorientados quando veem sua mulher ou namorada cada vez mais
irritada e insatisfeita com esse tipo de sexo perfeitamente adequado culturalmente
falando.
Mas os homens que realmente querem entender suas mulheres e namoradas e
fazê-las existencialmente felizes simplesmente têm que entender o SNA feminino
e buscar um entendimento mais profundo da vida da vagina. Esse homem vai ter
que se tornar mais “tântrico”, mais sensual e romântico na cama, além de,
igualmente importante, ser mais atento ao que sua mulher quer da vida a qualquer
dado momento. Vai ter que esquecer completamente o que ele pensava que
“funcionava” com a última amante e aprender do início, acompanhando as reações
individuais da atual. Terá que ser mais inventivo, criativo e atento do que manda
o modelo heterossexual convencional. O amante masculino de uma mulher, em
outras palavras, tem que ser bem mais paciente e táctil e investir muito mais
tempo do que ele provavelmente foi educado a fazer (e provavelmente muito mais
do que ele está inicialmente inclinado a dar após um longo dia de trabalho). Terá
que se interessar muito mais pelo estado mental em que ela está, por seu nível de
estresse ou relaxamento, pela pele de todo o corpo dela, respirar no ouvido dela e
alternar toques leves e pesados; muito mais interessado em olhar dentro dos olhos
dela; em dar beijinhos e beijos profundos; muito mais interessado em acariciá-la
de uma forma que não pareça à mulher que existe todo um “cerimonial” para se
chegar à meta. Terá que estimular, de forma sensível e habilidosa, qualquer que
seja a combinação de clitóris, vagina, ponto G, lábios, períneo e o colo do útero
que realmente a faz feliz. Talvez tenha que prestar muita atenção para entender se
ela está querendo um sexo suave e longo naquele momento ou um sexo mais
violento, ou alguma outra combinação excitante, pois, em diferentes momentos do
mês — ou dependendo do estado mental dela, que afeta seu corpo —, os desejos
vão variar. Terá que saber a diferença entre o estresse negativo e o positivo. A
penetração pode fazer parte do conjunto do prazer, é claro; o orgasmo é parte do
conjunto do prazer; mas há muito, muito mais.

Como exatamente funciona sua rede neural sexual? Você pode ver na imagem
Netter do sistema nervoso autônomo como os genitais se conectam à parte inferior
[8]
da medula espinhal, que, por sua vez, se conecta ao cérebro.
A imagem Netter mostra um close da medula espinhal e das raízes dos nervos
que conectam os impulsos da medula à vagina, e vice-versa. Esses impulsos
terminam no cérebro feminino. Todos os neurotransmissores mandam sinais do
clitóris, vagina, colo do útero e outros pela medula espinhal, e finalmente esses
sinais chegam ao hipotálamo e ao tronco encefálico.
A glândula pituitária está abaixo do cérebro; e o hipotálamo, logo acima. A
pituitária é chamada de “glândula mestra” porque regula todos os hormônios em
nosso cérebro e corpo — a produção, por exemplo, de oxitocina —, a “fábrica de
amor” química que gera os sentimentos de afeição, confiança e atração. Na
glândula pituitária é onde acontece toda a ação emocional. É o local onde um dos
sistemas de dopamina é regulado, fazendo que você fique mais ou menos excitada;
outro sistema de dopamina, na parte intermediária do cérebro, vai fazer que fique
mais incentivada e focada, antes e durante o sexo. A dopamina é associada à
excitação e ao desejo. A oxitocina e outros hormônios geradores de emoções, que
farão que você ache fofos aqueles hábitos chatos do namorado, são processados
no hipotálamo. E a prolactina, que fará que você finalmente levante da cama e vá
lavar roupa ou fazer alguma outra tarefa doméstica, também é processada no
hipotálamo. Portanto, é correto dizer que a vagina está mandando sinais para o
cérebro, durante o sexo, que mediam a consciência.
Essa malha de fios vivos na pelve feminina — que se comunica tão
intimamente da medula ao cérebro com seu banho químico em constante mutação
— libera opioides e oxitocina após o orgasmo, que, como veremos, faz que
sintamos uma dor física quando começamos a nos apaixonar por alguém. Esse é o
motivo pelo qual as mulheres entram naquele estado de transe tão desinibido e
descontrolado quando gozam de uma forma que envolve diferentes partes do
cérebro.
Apesar de delicada, essa rede que está por trás de nosso clitóris, vulva e
vagina é incrivelmente poderosa: o prazer orgástico gerado ali manda ao cérebro
mensagens tão poderosas que ajudam a regular os ciclos menstrual e hormonal,
que nos tornam mais ou menos férteis, que nos acalmam ao sentir o odor do
amante ou lubrificam nossa vagina quando somos elogiadas. Da mesma forma, o
cérebro também envia sinais ao clitóris, vulva e vagina, indicando qual é o
momento e a situação correta para se lubrificar, corar com fluxos de sangue, gozar
e criar vínculos. Essa rede tem tanta influência sobre todos os sistemas relevantes
de nosso corpo que, se formos negligenciadas sexualmente — ou se nos
negligenciarmos sexualmente, caso não tenhamos parceiro —, as mensagens
enviadas por essas vias ao cérebro e as reações hormonais no cérebro poderão
nos levar à depressão, ou mesmo aumentar o risco de lesões ou doença cardíaca.
Essa rede está continuamente enviando humores, sensações e emoções ao nosso
cérebro e do cérebro para nossa pele interior e exterior; não é a vagina em si, mas
a rede por baixo de tudo que nos leva a sentir grande parte do que sentimos; que
leva cada mulher a tremer de forma diferente, em resposta a diferentes toques; que
levam a própria consciência feminina a flutuar, conforme essas mensagens flutuam
ao longo de suas vias — um fluxo aumentado pela natureza cíclica do desejo
sexual feminino. Se a feminilidade reside em algum lugar, eu diria que é ali,
naquela rede elétrica interior que se estende da pelve ao cérebro. Essas vias
neurais, e outras evidências que analisaremos, explicam o motivo de nossas
noções de sexualidade feminina estarem frequentemente tão erradas. Desde que
Masters e Johnson escreveram Human Sexual Response, em 1966, no qual se
basearam em seus estudos de homens e mulheres tendo orgasmos em condições de
laboratório, nossa cultura aceitou o modelo único de resposta que descreveram da
excitação, momento de estabilidade, orgasmos e resolução, que, argumentaram,
[9]
seria semelhante para homens e mulheres. O sumário que escreveram da vagina
declara que “é preciso explicar que a resposta vaginal (natural ou artificial) aos
estímulos sexuais se desenvolve em um padrão básico, independentemente da
origem do estímulo”, em uma visão que a nova ciência sugere ser muito simplista.
Mesmo hoje, nossa cultura tende a apresentar as respostas sexuais masculina e
feminina como análogas ou paralelas, ao mesmo tempo que reconhece que
algumas mulheres têm mais orgasmos com um “período refratário” de repouso
entre eles menor do que o que os homens precisam. Esse “modelo único para a
sexualidade humana já foi até visto como liberal — afinal, ele reconhece as
necessidades sexuais femininas, assim como as masculinas — e se encaixa na
Segunda Onda do feminismo e da revolução sexual — a que prega a ideia
confortável de que as mulheres são, pelo menos sexualmente, “iguais aos
homens”.
O modelo Masters e Johnson está sendo questionado como simplista demais
quando se trata das mulheres, em vários aspectos. A ciência mais recente —
incluindo pesquisadores como Rosemary Basson, doutora em medicina pela
Universidade de British, Columbia; Irv Binick, da Universidade McGill, em
Montreal, Quebec; e Barry R. Komisaruk, da Universidade Rutgers em Nova
Jersey — está confirmando que há muitas variações para as mulheres, sobre o que
[10]
agora nos parece um modelo básico demais. Seria mais acurado dizer, com
base na nova ciência, que, apesar de a sexualidade feminina conter algumas
analogias superficiais à masculina, ela frequentemente envolve níveis adicionais
[11]
de experiência e sensação. A sexualidade da mulher está, sem dúvida, muito
distante de ser meramente uma versão feminina do que tradicionalmente sempre
foi entendido, de uma perspectiva masculina, como “apenas sexo”. Estão
descobrindo que a vagina e o cérebro não podem ser considerados
separadamente: Basson descobriu que a sensação subjetiva de excitação deve ser
medida na mente, não apenas no corpo; Komisaruk e sua equipe encontraram
[12]
excitação e orgasmos apenas na mente em mulheres que passaram por lesões.
Minha jornada finalmente me levou a concluir que, com exceção de alguns
terapeutas, professores e profissionais da área, mesmo com toda a nossa
“liberação”, ainda enquadramos a vagina em ideologias sexuais que às vezes são
formas novas e sensuais da antiga escravidão e controle. Ou então agimos na
ignorância ativa do papel e dimensão verdadeiros da vagina. Concluí que, ao
contrário do que somos levados a crer, a vagina ainda está longe de ser livre no
Ocidente nos dias de hoje — tanto pela falta de respeito como pela falta de
entendimento do papel que ela exerce.

1. Cindy M. Meston e Boris B. Gorzalka, “Differential Effects of Sympathetic Activation on Sexual


Arousal in Sexually Dysfunctional and Functional Women”, Journal of Abnormal Psychology, vol. 105,
n. 4 (1996): 582-91.↵
2. Herbert Benson, M.D., The Relaxation Response (Nova Iorque: Avon, 1976).↵
3. Janniko R. Georgiadis e outros, “Regional Cerebral Blood Flow Changes Associated with Clitorally
Induced Orgasm in Healthy Women”, European Journal of Neuroscience, vol. 24, n. 11 (2006): 3.305-
16.↵
4. Naomi Wolf, Misconceptions: Truth, Lies and the Unexpected on the Journey to Motherhood (Nova
Iorque: Doubleday, 2001), 165-67.↵
5. Ina May Gaskin, Spiritual Midwifery (Nashville, TN: Book Publishing Company, 2002), 86, 440-41.↵
6. Carter, 1998, citado em Mark R. Leary e Cody B. Cox, “Belongingness Motivation: A Mainspring of
Social Action”, em Handbook of Motivation Science, ed. James Y. Shah e Wendi L. Gardner (Nova
Iorque: Guildford Press, 1998), 37.↵
7. Wolf, Misconceptions, 118, 141.↵
8. Imagem Netter 3.093, www.netterimages.com/image/3093.htm.↵
9. William H. Masters e Virginia E. Johnson, Human Sexual Response (Nova Iorque: Ishi Press, 2010),
69.↵
10. Rosemary Basson, “Women’s Sexual Dysfunction: Revised and Expanded Definitions”, CMAJ, 172, n.
10 (maio 2005): 1.327-1.333.↵
11. A estrutura neural pélvica feminina é tão complexa, que pelo menos uma pesquisadora, Hanny
Lightfoot-Klein, descobriu que mulheres sudanesas que tiveram o clitóris extirpado, ou até mesmo
infibulado, ainda relatam algum tipo de orgasmo. Hanny Lightfoot-Klein, “The Sexual Experience and
Marital Adjustment of Genitally Circumcised and Infibulated Females in Sudan”, Journal of Sex
Research, n. 26, n. 3 (1989): 375-92.↵
12. Barry R. Komisaruk e outros, “Brain Activation During Vagino-Cervical Self-Stimulation and Orgasm
with Complete Spinal Cord Injury: fMRI Evidence of Mediation by Vagus Nerves”: “Mulheres
diagnosticadas com lesão total da medula espinhal (…) relatou-se que perceberam e reagiram com
orgasmos o estímulo mecânico vaginal e/ou cervical”. Brain Research 1204 (2004): 77-8.
www.sciencedirect.com/science/article/pii50006899304011461.↵
Confiança, criatividade e o sentimento de interconexão

A irmã não chegou a entender as aquarelas — deixaram-na confusa — olhou várias vezes —
sempre parecendo questionar — Ela gostou do homem montado a cavalo (…) Levarei para a
escola amanhã — mostrá-las para pessoas que não podem ver dói, mas o farei de qualquer jeito
— (…) É porque há mais animal do que cérebro em mim — que quero estar próxima a você e
dizer o quanto gosto delas — Não — não é o animal em absoluto — é o toque — O toque pode
ser Deus ou o diabo em mim — Só não sei qual (…)
Georgia O’Keeffe a Alfred Stieglitz

Mais ou menos na mesma época em que estava lutando contra minha doença,
voltei à escola para uma pós-graduação em literatura feminina nas eras vitoriana
e eduardiana.
Comecei a notar que muitas mulheres que escreveram entre 1850 e 1920
articularam aspectos da experiência sexual feminina que de fato sugerem uma
conexão entre o despertar sexual e o criativo. Essas escritoras feministas pré-
revolução sexual, pré-Segunda Guerra, como a poetisa lírica vitoriana Christina
Rossetti, a romancista americana da virada do século XX Kate Chopin e a
escritora de memórias que produziu na França na década de 1930 Anaïs Nin,
escreveram sobre a paixão sexual feminina como se fosse uma força avassaladora
que se sobrepõe à vontade e ao autocontrole. Parece-me que elas frequentemente
fazem a conexão entre o autoconhecimento sexual ou o despertar sexual nas
mulheres e o crescimento ou despertar de outros aspectos da criatividade e
identidade femininas. Diferentemente das artistas e escritoras pós-1960, elas nem
mesmo retrataram a sexualidade feminina como “meramente” focada no prazer
físico.
Descobri outra coisa surpreendente: apesar de críticos misóginos terem sempre
sugerido que mulheres brilhantes não podiam ser sexuais — desde o período
medieval, versões das mulheres da Blue Stocking Society, inteligentes e
assexuadas, sempre apareceram aqui e ali — e que as mulheres altamente
sexualizadas não tinham cérebro, as biografias de várias dessas artistas sugerem o
oposto. Observando a vida de artistas, escritoras e revolucionárias, após um
relacionamento sexual ou affair amoroso particularmente liberador — ou pistas
de uma autodescoberta sexual, mesmo que a artista não tivesse parceiro fixo —,
frequentemente se encontra um período de criatividade luxuriante e expansão
intelectual em seu trabalho. E, a julgar por suas cartas particulares, vi que
algumas das mulheres mais criativas e intelectual e psicologicamente livres de
suas eras — de Christina Rossetti a George Eliot, Edith Wharton, Emma Goldman
e Georgia O’Keeffe — eram também, evidentemente, mulheres de grandes
paixões sexuais.
George Eliot descreveu sua heroína Maggie Tulliver, em The Mill on the Floss
(1860), como uma mulher que “se atirava sob a orientação sedutora de vontades
[1]
ilimitadas”. De acordo com seu comentarista, o romancista A. S. Byatt, a
própria Eliot “tinha temores de que se tornasse demoníaca por causa de sua
natureza apaixonada”. Em uma carta a amigos, Eliot escreveu sobre o medo que
tinha de ser consumida pelo desejo sexual: “Tive uma visão horrível de mim
[2]
mesma ontem à noite, na qual me tornava mundana, sensual e demoníaca”.
A poetisa Christina Rossetti escreveu lindamente sobre os tormentos da
tentação sensual feminina: a heroína de “Goblin Market” (1859), Laura, “sentou-
se em um anseio apaixonado / e cerrou os dentes em desejo latente / como seu
coração se rompesse (…)”. A irmã de Laura, Lizzie, que devorou o “fruto do
mercador”, em contraste, fica completamente entusiasmada e viciada, sempre
desejosa de mais: Lizzie grita: “Beija-me, abraça-me, suga estes meus sumos /
Espremidos dos frutos dos duendes para ti / São polpa e são orvalho de duende /
Come-me, bebe-me, ama-me / (…) faz de mim o que quiser (…) / beijou-a sem
parar com a boca ávida”. Os “mercadores marotos e maliciosos” de “Goblin
Market” deram às duas moças frutos que eram como “mel para a garganta / mas
[3]
veneno para o sangue”. A jovem pintora Georgia O’Keeffe escreveu para o
objeto de seu amor, Arthur Whittier McMahon, em 1915: “Parece tão estranho
(…) não me entregar (…) quando o desejo. É ótimo dar amor”. Para o fotógrafo
Paul Strand, cujo relacionamento sexual com a artista coincidiu com um período
de imenso crescimento artístico para ela, Georgia escreveu — comparando
abstratamente a excitação de uma nova empreitada com a de beijar um homem:
“Então a obra… sim, amei…. e o amo… queria muito abraçá-lo e beijá-lo… É
tão engraçada a forma como nem mesmo o toquei quando o desejava tanto. Ainda
estou lhe dizendo que era o que queria… Leve-me para Riverside Drive com
você em uma noite dessas… pode ser?”. Sua biógrafa escreveu que ela termina
essa carta de forma “provocante”, referindo-se a Riverside Drive, onde os
[4]
amantes iam para ficar na escuridão da noite.
Para muitas dessas artistas criativas, o aparente despertar sexual e os surtos
criativos parecem se fundir em alguns momentos-chave em sua vida e parecem
propiciar uma fase em seu trabalho que chega a um nível mais alto de insights e
energia do que o trabalho imediatamente anterior. Esses arcos de realização —
esses “picos criativos” — parecem confirmar ainda mais minha crescente
convicção de que as mulheres experimentam a vagina como uma parte integrante
de seu ser e que ela também pode servir como faísca ou ponto de entrada para um
despertar da sensibilidade que pode, em momentos oportunos, fundir o lado
criativo com o sexual.
As escritoras geralmente descrevem esses momentos de despertar sexual como
uma espécie de névoa que se abre, aumentando o sentido do ser feminino. Em
suas cartas particulares, frequentemente descrevem uma descoberta surpreendente
e fascinante do ser por meio da catálise do amor sexual que estão
experimentando. Como a jovem Hannah Arendt escreveu a seu amante Ernst
Blucher depois que o caso deles começou — um caso que foi descrito como
intensamente engajado intelectualmente e erótico, para uma jovem mulher que
nunca havia sido especialmente atraída pelo aspecto físico antes —: “Eu…
finalmente sei o que é a felicidade… ainda me parece inacreditável que eu possa
alcançar ambos… um grande amor e um sentido de identidade com minha própria
[5]
pessoa. Ainda assim, alcancei um apenas após ter experimentado o outro”. Em
geral, independentemente do quanto sofreram por suas paixões, essas escritoras
heroínas se recusam a se arrepender do despertar sexual que causou o sofrimento:
no romance de Kate Chopin de 1899, O despertar, Edna Pontellier reflete que
“dentre as sensações conflitantes que a assaltam, não havia vergonha nem
[6]
remorso”.
As cartas e livros de Edith Wharton, em particular, sempre me inspiraram a
seguir adiante nessa linha de pensamento. Durante a maior parte de sua vida
adulta, Wharton foi casada com o diletante convencional de classe alta Teddy
Wharton, um homem com quem ela não combinava. De acordo com seus relatos e
os de outras pessoas, a vida sexual do casal era praticamente inexistente. Mas, em
1908, ela passou por um extraordinário despertar sexual, quando começou um
caso extraconjugal com o jornalista bissexual lindo, sedutor e provocante Morton
Fullerton. Em suas cartas de amor particulares, publicadas pela primeira vez na
década de 1980, ela escreve a respeito desse despertar sexual como uma ameaça
de dissolução de seu próprio ser, como uma perda do controle. Ela escreve —
apelando para o francês, a língua na qual descreve o prazer sexual — que o toque
dele a deixa “completamente esvaziada de qualquer vontade”: “je n’ais plus de
[7]
volonte”. Ela se refere ao amor sexual de Fullerton como “um narcótico” —
uma metáfora que teve eco na literatura de ficção pela mão de outras escritoras
desse período. (Edna Pontellier, em The Awakening [1899], também descreve o
toque de seu amante Robert como “um narcótico” — uma metáfora que se tornaria
mais escassa depois que a Segunda Onda da década de 1970 fez que essas
confissões de reconhecida dependência de homens se tornassem presságios
[8]
politicamente incorretos.)
Em uma carta, Wharton descreve uma conversa com Fullerton na qual, depois
de comunicar-lhe o efeito que sentiu após ter começado a ter orgasmos, ele
respondeu que ela começaria a escrever melhor como resultado dessa
experiência. Como ficou provado, Fullerton estava certo: Edith Wharton de fato
produziu o melhor de sua obra após seu despertar sexual. Um ponto interessante é
que, em The House of Mirth , publicado em 1905, não há praticamente nenhuma
descrição de paixão física relacionada às personagens femininas, de forma que
[9]
suas afeições e motivações parecem incompletas. A supressão é bem expressa,
mas a materialização não. Entretanto, em Summer (1917) e The Age of Innocence
(1920), a paixão sexual feminina está presente em várias manifestações.
Após 1908-10, a prosa de Wharton se torna mais rica e táctil; o mundo do
prazer e dos sentidos está mais presente, assim como um sentimento — trágico,
naquela época, necessariamente — do anseio feminino pelo êxtase, pela vida,
pelas sensações, a qualquer custo. O tema da mulher que é modificada e
despertada por sua própria sexualidade — e que não se arrepende das
consequências, apesar de sofrer como resultado do processo — é consistente com
a ficção de Wharton após esse período.
Analisei as biografias dessas e de outras grandes artistas e revolucionárias dos
séculos XVIII, XIX e início do século XX: Mary Wollstonecraft, Charlotte
Brontë, Elizabeth Barrett Browning, George Sand, Christina Rossetti, George
Eliot, Georgia O’Keeffe, Edith Wharton, Emma Goldman, Gertrude Stein — todas
mulheres cuja vida, cartas e escolhas representaram grandes riscos ou sacrifícios
[10]
para elas mesmas, revelando sua natureza intensa e sexualmente apaixonada.
Analisando vida após vida desse círculo mais expandido de artistas, escritoras
e revolucionárias, aparece sempre o mesmo arco: um fluxo de insight e visão
criativa que parece se seguir a um florescimento sexual. É possível identificar
uma mudança de perspectiva cronológica para essas mulheres: suas palhetas
parecem repentinamente se expandir, com a possibilidade de outro mundo
entrando em cena.
George Eliot, depois de iniciar seu relacionamento ilícito com seu amante
George Lewes, escreveu sua primeira importante obra de ficção, Scenes of
Clerical Life (1857). Logo depois que Georgia O’Keeffe começou seu
relacionamento altamente erótico com o fotógrafo Alfred Stieglitz, iniciou sua
audaciosa experimentação de forma e cor representada pela série de flores,
revolucionária para a época. Como escreveu para ele em 1917, conjugando a
excitação artística e sexual,
sinto como se tivesse muitas coisas a fazer… muitas coisas… e uma coisa a pintar… É a bandeira que
vejo flutuar… a bandeira da cor carmim… que tremula ao vento como meus lábios quando estou
prestes a gritar (…) Também há uma linha firme e forte na cena… a postos… abaixo dos lábios… Boa
noite… meu peito dói e estou cansada… não consegui dormir ou comer por excitação lá embaixo… e
[11]
dor… e encantamento… e percepção.

A crítica radical que Emma Goldman fez das normas sociais existentes se
intensificou muito após o início de seu romance apaixonado com Ben Reitman em
1908. Ela tomou atitudes que levaram à sua prisão. Como é típico de uma musa,
Reitman não apenas seduziu Goldman, mas também ofereceu a ela um local, o
hobo hall, para que oferecesse suas palestras quando ela já não conseguia achar
outro fórum. Quando Gertrude Stein conheceu e começou a viver com Alice B.
Toklas — o que lhe permitiu explorar sua vida interior como amante de mulheres
—, seu trabalho avançou muito em termos do nível de experimentação, assim
como em termos de sua sensualidade.
Até mesmo escritoras recentes às vezes parecem fazer essas conexões — e às
vezes em surpreendentes detalhes: em “A Conversation with Isabel Allende”, que
Melissa Block conduziu para a National Public Radio em 6 de novembro de
2006, a repórter perguntou a Isabel sobre a gênese da personagem espanhola do
século XIX tão vividamente recriada, Inés Suárez, heroína do romance de Isabel
Allende Inés da minha alma: “A primeira frase simplesmente saiu de meu útero”,
Isabel respondeu provavelmente a uma interlocutora bastante surpresa.
Não diria que veio de minha cabeça, mas de meu útero. A frase era: “Sou Inés Suárez, moradora de
Santiago de Nueva Extremadura, cidade leal ao reino do Chile”, e era assim que me sentia. Sentia que
[12]
eu era ela e que a história só poderia ser contada em sua voz.
Nas biografias que li, o amante frequentemente faz o papel de musa — nem
sempre é um parceiro estável, mas frequentemente um homem ou mulher que
respeita intelectualmente a artista criativa ou revolucionária, ao mesmo tempo que
a excita eroticamente. Parece que o despertar sexual de tantas grandes mulheres
coincidiu com um período em que assumiram riscos em outros níveis — social e
artístico — e com outros tipos de despertares: da maestria, da expressão e dos
poderes criativos.
Comecei a me perguntar: será que há, talvez, algum tipo de conexão que
vínhamos ignorando até agora entre a liberdade, a criatividade e o despertar na
natureza mais apaixonada de uma mulher?
Eu me pergunto se há algo mais profundo acontecendo aí.

O PEQUENO PINCEL DO PRAZER

Depois de minha cirurgia de coluna e a esperada recuperação da alegria, das


cores, da criatividade, da confiança e de um sentimento de conexão entre as
coisas, não havia como ignorar o fato de que a lesão de consciência que havia
sofrido antes da operação tinha que estar, de alguma forma, relacionada a uma
causa física, já que as mudanças de consciência estavam tão fortemente
relacionadas à lesão e à recuperação de meu nervo pélvico. O que havia
acontecido comigo? E o que isso significava? Será que essa relação de causa e
efeito era apenas uma loucura de minha própria neurologia e bioquímica
subjetiva? Ou seria um entendimento que pode ser generalizado para todas as
mulheres?
Cerca de quatro meses depois, eu já estava praticamente recuperada da cirurgia
e fui convidada para falar com um grupo de jovens mulheres brilhantes em uma
universidade. Para preservar a identidade das pessoas, vou dizer que esse evento
aconteceu na área rural do Canadá, em uma universidade estadual. Muitas das
moças eram estudantes de biologia ou neurociência e decidiram organizar uma
conferência. O objetivo delas era ter algumas conversas sobre as questões que
poderiam enfrentar como mulheres depois que deixassem o ambiente escolar e
entrassem para o “mundo real”.
Era um dia quente, e havia uma leve brisa quando nos reunimos para conversar
na sala de estar de uma cabana em uma fazenda antiga. Havia sofás confortáveis
estofados com um tecido escarlate macio, tapetes carmim já gastos e cestos com
flores secas nas enormes lareiras. Pelas janelas entravam raios dourados de sol
— dali podíamos ver um vale verde-escuro e, um pouco além, as montanhas
banhadas em luz azul.
Depois de uma conversa sobre os projetos delas e a vida que teriam pela
frente, decidimos sair para uma caminhada sob a luz brilhante e acolhedora. Uma
das jovens que conhecia a área nos guiou pelas trilhas de vacas e atravessamos
cercas e pulamos poças de lama na estrada de terra até chegar ao topo de uma
colina. Conforme fomos caminhando pela elevação, vi que era como se
estivéssemos em outro ecossistema. Aquele aconchego doméstico repentinamente
parecia muito distante. A toda a volta, enxergávamos campos de um verde-
acinzentado, enquanto um forte vento soprava continuamente. Decidi apresentar a
elas qual era meu desafio.
— Acho que pode haver uma conexão entre a vagina e o cérebro que a maior
parte de nós não chega a entender. Estou descobrindo que pode haver algum tipo
de relação entre o orgasmo feminino e a confiança e a criatividade. Pode haver,
também, algum tipo de relação entre a vagina — e o orgasmo — e a capacidade
de enxergar as conexões entre as coisas.
As moças ficaram em silêncio por algum tempo. Então, uma das jovens, uma
historiadora, começou a falar.
— Isso é absolutamente verdadeiro para mim — ela disse com convicção. —
Quando tenho um sexo bom, quer dizer, um sexo realmente bom — todas riram,
bem conscientes da diferença —, eu me sinto como se fosse capaz de fazer
qualquer coisa. Eu me sinto ótima comigo mesma. Minha confiança sobe a níveis
estratosféricos. E nem sempre sou assim. E isso aparece em meu trabalho
também, durante algum tempo: vejo coisas que não enxergava antes, conexões que
poderia ter ignorado. Sinto que tenho um domínio maior das minhas percepções.
Outra moça, uma cientista política, concordou:
— Faz que eu me sinta invencível. É como se eu corresse uma maratona. Fico
completamente feliz comigo mesma.
Por alguns momentos, houve um novo silêncio, aquele que acontece quando as
pessoas estão pensando intensamente.
— Eu trabalhava em um laboratório onde minha função era dar prazer sexual a
ratas fêmeas — disse uma jovem cientista.
Ela tinha um sorrisinho malicioso.
— O quê? — todas nós exclamamos.
— É verdade! — Ela riu. — Eu tinha um pequeno pincel. — Ela fez um gesto
com os dedos, como se estivesse pintando um pequeno ponto no ar. — Depois de
um tempo, isso se torna parte de seu trabalho.
— Eu nem sabia que ratas podiam experimentar prazer sexual — falei,
encantada e surpresa por minha própria ignorância.
— Todas as mamíferas têm clitóris — ela explicou no tom calmo de uma
cientista para quem isso chega a ser interessante, porém, não passa de mais um
dado. — Todas elas têm clitóris — repetiu.
Uma vaca inclinou a cabeça e olhou inquisitivamente para a criatura à sua
direita. (De fato, eu viria a saber que dois terços dos clitóris em mamíferas estão
localizados na parede anterior da vagina — como o ponto G humano. Naquele
momento, eu não tinha ideia de que as mamíferas, em geral, têm clitóris.)
Foi um momento marcante; uma neblina havia começado a baixar sobre as
montanhas arredondadas, passando por nós; o vento soprava suavemente. As
mulheres falavam calmamente sobre orgasmos, insights e energia. Fiquei
impressionada de não ter conhecimento desse fato, que agora me parecia bem
óbvio. Todas as mamíferas fêmeas foram desenhadas pelo processo evolutivo
para experimentar um grande prazer sexual.
— As ratas fêmeas, quando querem sexo, fazem assim. — Ela colocou as mãos
para cima como se fossem patinhas e arqueou as costas.
Todas rimos. Foi um gesto que mais tarde eu saberia que se chama “lordose”.
Ela descreveu um pouco mais o laboratório e os resultados obtidos, e eu
concordei em descobrir mais sobre o assunto.
Conversamos durante mais alguns momentos, mas o vento ficou muito forte
para nós. Finalmente, voltamos para o conforto da lareira, dos estofados e do chá,
um pouco tristes por deixar para trás aquele momento ligeiramente selvagem,
ligeiramente inexplicável — quando o vento, a grama e os animais, todos
pareciam ser parte do que estávamos aprendendo sobre nós mesmas: que nós e
nosso prazer feminino específico temos um lugar garantido na ordem natural das
coisas.
Fiquei triste pelo fim daquele momento, mas inspirada pela curiosidade das
moças e pela abertura para descobrir se o que as excitava em seu trabalho
intelectual era parte de outras formas de excitação que tinham, até aquele
momento, isoladamente, entendido isso como algo físico.

O ORGASMO NO PALCO

Nos meses seguintes, outras mulheres, de diferentes áreas, confirmaram a mim


que elas também haviam experimentado uma conexão entre seu bem-estar sexual e
os níveis de confiança e criatividade que experimentavam em sua vida.
Em uma noite, fui a uma festa de pré-estreia lotada de gente em Nova Iorque,
onde fui cercada por profissionais do cinema e do teatro. O barulho era
ensurdecedor. Em pé, no bar cheio, apresentei-me a uma mulher magnífica que
aparentava ter quarenta e poucos anos de idade e que esperava para ser atendida
ao meu lado. Ela tinha uma elegância radiante; usava batom vermelho, pérolas e
um pretinho que evocava as mulheres da belle époque. Contou-me que era atriz
— ela tinha um papel no filme a que havíamos acabado de assistir — e me
perguntou o que eu fazia da vida. Disse a ela que era escritora e que estava
trabalhando em meu próximo livro. Ela me perguntou qual era o tema do livro. “É
um livro sobre a vagina”, disse. Ela sorriu. Suas pupilas se dilataram.
A essa altura, já havia acontecido tantas vezes que eu já sabia que muitas
pessoas tinham reações físicas imediatas, provavelmente mensuráveis, quando me
faziam essa pergunta e ouviam a palavra vagina em minha resposta. Alguns,
homens e mulheres, sorriam imediatamente; sorrisos lindos e sinceros. Outros
pareciam aterrorizados ou enojados, como se eu houvesse tirado uma truta da
bolsa e a colocado na mesa, ou apresentado o peixe para discussão. Outros,
ainda, em geral homens, davam uma gargalhada, quase que raivosa e inesperada,
que contribuía para o constrangimento geral.
Vendo o sorriso sonhador da atriz, algo me disse que eu podia ir adiante.
— Na realidade, agora mesmo — confessei —, estou tentando identificar uma
possível conexão entre o orgasmo feminino e a criatividade.
A atriz ficou pálida e tímida.
— Não acredito que você disse isso — ela disse. — Quero lhe dizer uma
coisa. Algo que nunca disse a ninguém. — Ela respirou profundamente. — Eu
trabalho com o Método para Interpretação para Atores.
Eu sabia que os atores que trabalhavam com o Método usavam a visualização
para encenar “de dentro para fora” — ou seja, invocavam a consciência da
personagem que estavam interpretando para experimentar e então expressá-la
vinda de dentro, em vez de simplesmente “agir” como se fosse aquela pessoa.
— Quando começo a ensaiar para um papel e entro profundamente na
personagem, meus orgasmos mudam. Eles começam a se tornar mais, mais…
Ela gesticulava com a taça de vinho, como em um cosmo imaginado, em busca
das palavras.
— Transcendentais? — perguntei.
— Exatamente. Pergunte ao meu namorado. E então — ela olhou à volta, para
se certificar de que ninguém estava ouvindo —, entro em um estado altamente
erótico quando estou atuando, interpretando uma personagem. — Olhou à volta de
novo, mas prosseguiu como se quisesse deixar aquele entendimento registrado. —
Já tive um orgasmo enquanto estava no palco. Simplesmente por estar nessa fase
altamente criativa.
Apertei a taça de vinho entre meus dedos. Então, não era apenas o orgasmo que
parecia aumentar a criatividade nas mulheres; talvez a criatividade também
contribuísse para o orgasmo.
— É mesmo? — disse eu.
— Sim — disse ela.
— Uau. Você acha que isso já aconteceu com alguma outra pessoa?
— Sei que já aconteceu. Aconteceu, tenho certeza, com outras mulheres das
artes. Conheço mulheres que gozam enquanto estão pintando. E sei que as duas
coisas se alimentam mutuamente: a sexualidade alimenta o trabalho criativo, e o
trabalho alimenta o sexo.
Ela me deu seu cartão e prometeu me apresentar a essas artistas que tinham
orgasmos com seu trabalho criativo.
Agradeci a ela e saí para a noite, abrindo caminho entre as atrizes à volta em
direção à chapelaria, como se fossem pequenos campos de Eros quase desnudos
que podiam entrar em erupção a qualquer momento. Quando olhei para a noite de
inverno estrelada de Nova Iorque, senti minha própria cabeça ficar mais leve.
Naquela noite, comecei a trabalhar em uma pesquisa informal. Criei um
conjunto de perguntas para as mulheres que faziam parte de minha comunidade do
Facebook, que na época tinha 16.800 pessoas. O questionário perguntava a elas
se já haviam experimentado qualquer tipo de conexão aparente entre o sexo e a
criatividade; se alguma experiência sexual que tiveram já havia elevado seus
níveis de confiança e amor-próprio; se alguma experiência já havia feito que
enxergassem melhor a conexão entre as coisas; e se, por outro lado, períodos de
solidão sexual, depressão ou frustração já haviam prejudicado sua confiança,
criatividade e energia. As respostas confirmaram que as jovens cientistas, a atriz
e eu mesma não éramos aberrações em nosso gênero.
Um e-mail típico com perguntas e respostas era assim:
NW: Alguma experiência sexual profunda já afetou seus níveis de confiança?
Respondente: Sim.
NW: Aumentou sua energia?
R: Sim.
NW: Fez que você gostasse mais de si mesma?
R: Sim.
NW: Aumentou sua criatividade? Se sim, especifique como.
R: Sou pintora e fiz uma residência artística em Vermont durante um mês, cerca de um ano atrás. Na
época, fiquei distante de meu marido. Por causa do espaço privativo que me foi cedido, acabei
mergulhando profundamente em memórias [sexuais] que tinham especificamente a ver com
relacionamentos do passado. Ter um bom relacionamento — tanto sexualmente como nos outros
aspectos — aumenta minha autoconfiança e minha motivação para desenvolver meu trabalho artístico
(…) depois de visitar meu marido no meio da residência, retornei [ao trabalho] me sentindo mais
confiante e com mais amor por mim mesma. Alguém na residência comentou “você parece tão bem
hoje”, e eu tenho certeza de que foi porque ver meu marido aumentou minha confiança.
Recebi montes de e-mails enviados por mulheres das mais diferentes áreas de
atuação. Muitas falavam de orgasmos incomumente profundos — não daquele tipo
que se tem todos os dias — como experiências que foram seguidas por períodos
de poder, energia e confiança raros; de amor-próprio; e de um brilho que envolvia
todo o mundo.
“Laura”, uma britânica de trinta e quatro anos, assistente administrativa,
escreveu-me:
Conheci uma pessoa no trabalho, e rapidamente nos sentimos atraídos um pelo outro. Para mim, foi tudo
muito rápido, mas suspeito que ele já estivesse interessado em mim havia algum tempo. De qualquer
forma, fizemos uma tentativa e tivemos uma experiência sexual muito boa, que me mudou
profundamente. A mudança em meu nível de confiança foi imediata; eu me sentia mais alta e passei a
pisar mais forte. Mais energia? Todos os dias, por dois meses, eu acordava e me exercitava
alegremente. Passei a gostar mais de mim também; comecei a ir à pedicure para expressar isso.
Criatividade? Passei a tocar violão todas as noites e aprendi quatro músicas novas. Conexão entre as
coisas? Esse relacionamento restaurou uma capacidade psíquica adormecida que desenvolveu toda
minha forma de pensar desde então. Por outro lado, esse relacionamento não foi adiante.
Recentemente, comecei a me sentir triste e a sentir saudades; principalmente saudades das coisas que
mencionei acima.

Ela continuou: “Estou triste e sinto que as antigas histórias de autoimagem


negativa e rejeição estão voltando. Acho isso estranho, uma experiência
perturbadora”. E concluiu enfaticamente: “Já tentei dormir com outros homens,
mas não senti nada nem próximo a esse influxo [de sentimentos]”.
Laura escreveu que tinha orgasmos com outros homens: de fato, até mais do que
tinha com o homem cuja intimidade causou esse despertar. Muitas outras mulheres
expuseram essa ideia, que o que foi transformador para elas nessas experiências
sexuais profundas não foi a simples questão da quantidade de orgasmos
“estratosféricos”. O que foi transformador para elas foi algo subjetivo a respeito
da qualidade do orgasmo, que fundia o reino físico com o das emoções ou
percepção: a intensidade criada e a confiança e criatividade que resultaram.
Fiz essas mesmas perguntas a uma velha amiga, “Patrice”, uma mulher de
minha idade que era uma executiva de sucesso. Estávamos sentadas no jardim dos
fundos da casa dela, em um bairro residencial muito bonito de, digamos, Ann
Arbor, Michigan — para preservar a identidade da amiga. Ela tinha um jardim
minúsculo, coberto de plantas; sua roupa estava pendurada no sol em um varal à
nossa frente; e o filho de seis anos brincava com um amigo na varanda de vidro
que víamos de onde estávamos sentadas, em uma mesa ao ar livre ao lado de um
canteiro de ervas. Ela parecia uma mãe e esposa absolutamente comum, na casa
dos quarenta. Pode parecer estranho, mas, apesar de termos conversado
francamente sobre nossa vida sexual durante os vinte e três anos que nos
conhecemos, jamais havíamos falado sobre a possível conexão que eu havia
sugerido a ela, simplesmente porque jamais havia me ocorrido. Ela me olhou, de
novo, como outras mulheres já haviam me olhado, com aquela abrupta expressão
de surpresa e reconhecimento.
— Ai, meu Deus — ela disse e começou a rir. — Aiii, Naomi. Uau. Sim,
definitivamente. Eu posso ter um sexo perfeitamente bom na maior parte das
vezes, orgasmos bons, e o que você está descrevendo não acontece. Mas, então,
uma vez ou outra, acontecem aqueles momentos maravilhosos após o sexo,
quando você sente — ah, as coisas ficam cheias de eletricidade! E você tem
insights sobre seu trabalho. É como se adquirisse algum tipo de superpoder. E
você quer sair correndo uma maratona, escrever uma canção ou escalar os Alpes!
Ela estava rindo muito.
— Mas — advertiu-me — não são todas as vezes, de jeito nenhum. Quer dizer,
você nem ia querer que fossem todas as vezes, certo? Porque, se fosse, você não
ia querer fazer mais nada da vida, ou ficaria andando por aí em uma mania
criativa. Se acontecesse todas as vezes, você nunca ia querer sair da cama.
Será que o sexo muito especial, aquele sexo que envolve a vagina, as emoções
e o corpo de uma forma muito específica — formas que incluem tipos muito
concretos de ativação do sistema nervoso parassimpático —, de fato leva à
euforia e criatividade femininas e a um maior amor por si mesma?
Laura, que já conhecemos anteriormente, descreveu eloquentemente essa
transformação de todo seu ser por meio da experiência sexual como algo estranho
e perturbador. Esse sentimento de confusão ou surpresa diante de nossas próprias
reações como mulheres apareceu muitas vezes nos e-mails que recebi. Se nós não
entendermos nossa própria neurologia e bioquímica no sexo e no amor, nosso
próprio ser feminino pode ser muito “perturbador” para nós mesmas.
O que havia acontecido conosco? O que havia acontecido com a atriz que se
transfigurou em um êxtase erótico no palco? O que havia acontecido com a
cientista que agora via novas conexões em seu laboratório e com a executiva que
queria escrever uma ópera?

1. George Eliot, The Mill on the Floss (Londres: Penguin Classics, 2003), 338.↵
2. Ib., 573.↵
3. Christina Rossetti, “Goblin Market”, Poems and Prose (Oxford: Oxford World’s Classics), 105-19.↵
4. Hunter Drohojowska-Philp, Full Bloom: The Art and Life of Georgia O’Keeffe (Nova Iorque: W. W.
Norton, 2004), 115, 135; Sarah Greenough, ed., My Faraway One: Selected Letters of Georgia
O’Keeffe to Alfred Stieglitz, vol. 1. 1915-1933 (New Haven, CT: Yale University Press, 2012), 127,
217.↵
5. David Laskin, Partisans: Marriage, Politics and Betrayal among the New Iorque Intellectuals (Nova
Iorque: Simon and Schuster, 2000), 151.↵
6. Kate Chopin, The Awakening and Other Stories (Oxford: Oxford University Press, 2000), 219. [Edição
brasileira: O despertar; São Paulo, Estação Liberdade, 1994.]↵
7. Hermione Lee, Edith Wharton (Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 2007), 327.↵
8. Chopin, The Awakening, 82.↵
9. Edith Wharton, The House of Mirth (Nova Iorque: Barnes and Noble Classics), 177.↵
10. Gordon Haight, George Eliot: A Biography (Oxford: Oxford University Press, 1978), 226-280;
Greenough, My Faraway One, 216; Candace Falk, Love, Anarchy and Emma Goldman: A Biography
(New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1990), 66.↵
11. Greenough, My Faraway One, 56-57, 217.↵
12. Isabel Allende, Inés of My Soul (Nova Iorque: Harper Perennial, 2006), 8. [Edição brasileira: Inés da
minha alma; São Paulo, Bertrand Brasil, 2007.]↵
Dopamina, opiáceos e oxitocina

Escrevo como amo… os beijos que trocamos às 10 horas da noite daquele sábado, 12 de
outubro… quantos campos de trigo, quantos vinhedos existem entre mim e você! Odeio essa lei…
quero sentir — fazer os outros sentirem…
Exploradora Isabelle Eberhardt, 1902

O que aconteceu conosco foi que a dopamina — entre outras substâncias,


incluindo a oxitocina e os opiáceos — atingiu nosso sistema, antes, durante e
depois de fazermos amor. A dopamina é a substância química mais importante no
cérebro feminino.
Quando o sistema dopaminérgico da mulher é ativado — como acontece
quando há a expectativa de ótimo sexo, um efeito que é aguçado quando a mulher
sabe o que a excita e pensa sobre o assunto, fazendo-a ir atrás disso —, ele
fortalece seu senso de foco e nível de motivação, e isso a incentiva a estabelecer
metas. Todos esses efeitos são causados pela ativação da dopamina. É correto
dizer que, se você, como mulher, ativar seu sistema dopaminérgico por meio de
um ótimo sexo, seu cérebro aplicará essas habilidades aguçadas de energia e foco
em outras áreas de sua vida e em outros esforços.
Mas esse superpoder, esse potencial elevado depende da recompensa:
conseguir o que se quer. Se, como mulher, você estiver sexualmente frustrada, ou
ainda pior, excitada, porém sem poder se aliviar, seu sistema dopaminérgico
poderá diminuir na expectativa do sexo; você acaba perdendo o acesso à energia
positiva que poderia ter, tanto no sexo como, subsequentemente, em outras áreas
de sua vida.
Você provavelmente não conseguirá o que os cientistas chamam de “ativação”
— pobremente traduzido como “excitação” — com nada; poderá ficar deprimida
e talvez sofra de anedonia — literalmente, falta de prazer —, um estado no qual o
“mundo fica em preto e branco”. Com baixa ativação de dopamina, você sentirá
[1]
falta de ambição ou motivação, e seus níveis de libido cairão. Porém, se seus
níveis de dopamina estiverem corretos, você se sentirá confiante, criativa e
comunicativa e confiará em sua percepção.
Um gráfico ilustrado (ver encarte) feito pela pesquisadora de dopamina Marnia
Robinson mostra como essa substância afeta o comportamento humano nos
[2]
relacionamentos e na vida social. Vem sendo comprovado que a energia focada
está relacionada à atividade da dopamina.
A liberação de opiáceos, que pode ser medida em exames cerebrais e que os
meditadores descrevem como estados de “encantamento”, “êxtase” e “união”, é
estimulada pelo orgasmo. Diz-se que as experiências de “sair do corpo”, que
algumas pessoas passam durante uma cirurgia, e as de “quase morte”, que
levaram as pessoas a sentir euforia e felicidade, provavelmente também estão
relacionadas à dopamina e aos opiáceos.
Dentro desse mesmo conceito, uma sensação de liberdade pessoal e um
impulso de buscar mais liberdade e de fazer isso com base no amor-próprio — a
missão feminina e a sensibilidade feminista — são fortalecidos na mulher pela
dopamina pré-orgástica e pelo efeito do orgasmo no cérebro. O sistema límbico,
como já vimos, é o mediador dos hormônios que o cérebro feminino recebe
durante a excitação e produz após o orgasmo (ou na falta dele). Dessa forma, a
vagina é o sistema de liberação para os estados mentais que chamamos de
confiança, liberação, realização e até mesmo de misticismo nas mulheres.
Só porque esses estados são quimicamente mediados, isso não significa que
não seja um amor-próprio “real”, uma ligação “real” à liberdade ou uma
felicidade “real”. Nós, que não somos cientistas, muitas vezes nos esquecemos de
que as substâncias químicas do cérebro são veículos para todas as verdades
humanas mais profundas. Lembra-se de como, depois de minha lesão na coluna,
mas antes de ser diagnosticada e tratada, eu via o mundo como chato, sem cor e
menos interessante do que antes de me machucar? Essa mudança na forma de ver
o mundo foi provavelmente devido à desativação da dopamina e dos opiáceos em
meu sistema, já que uma das ramificações do nervo pélvico que teria causado a
ativação da substância estava paralisada. Por causa do dano aos nervos em uma
dessas seções, havia menos ativação de dopamina, oxitocina e opiáceos que o
normal em meu cérebro. Eu conseguia algum nível de hormônios com orgasmos
clitoridianos, mas sentia falta da ativação total dessas mesmas substâncias no
cérebro que eu teria experimentado com uma rede neural pélvica funcionando por
completo. Como uma das poucas mulheres do mundo — até onde eu sei — a ter,
neurobiologicamente falando, passado pela interrupção desses circuitos e por sua
recuperação, considero minha experiência um controle com uma informação
importante: o mundo parecia diferente, e eu estava diferente.
Conforme notamos, uma mulher com baixa dopamina terá baixa libido e
depressão. Por outro lado, se você for uma mulher e seus níveis de dopamina
estiverem bem ativos, será confiante, criativa e sociável. Você terá opiniões
fortes, limites claros e sentirá orgulho de seu próprio trabalho. Você sentirá bem-
estar e satisfação; terá um senso de direção e persistência para realizar tarefas;
terá fortes sentimentos em relação aos outros. Como disse o dr. Jim Pfaus da
Universidade de Concórdia, em Montreal, Quebec: “Pode-se chamar a dopamina
[3]
de a substância da ‘causa e efeito’”. É possível ativar a liberação de dopamina
de várias formas: praticando exercícios aeróbicos, usando drogas como a
cocaína, socializando, fazendo compras, apostando — e fazendo um bom sexo que
leve ao orgasmo.
A consequência de uma mulher que fortalece regularmente sua percepção
cerebral da conexão direta entre causa e efeito — entre a ação e o resultado
desejado — é óbvia. “O ótimo funcionamento da dopamina em seu cérebro tem a
ver com a flexibilidade ao tomar decisões: ela ajuda a tomar a decisão certa, no
momento certo para você em um mundo em constante mudança”, diz o dr. Pfaus. É
a substância química “decisiva”, a substância envolvida no desenvolvimento da
[4]
liderança e da confiança.
Especialistas como David J. Linden, cujo livro The Compass of Pleasure:
How Our Brains Make Fatty Foods, Orgasm, Exercise, Marijuana, Generosity,
Vodka, Learning and Gambling Fell So Good explora os efeitos da dopamina,
destacam que essa substância faz você se sentir bem consigo mesma, como se
[5]
tivesse um forte ego, e a abre para novos desafios.
A dra. Helen Fisher, antropóloga e autora de Anatomia do amor , descobriu
que o amor romântico não é uma emoção — é uma parte incrivelmente poderosa
do “sistema motivacional” do cérebro, um impulso, parte do sistema de
[6]
recompensa do cérebro. A dra. Fisher descobriu que o amor romântico possui
três componentes químicos diferentes: luxúria, composta por andrógenos e
estrogênio; atração, causada por altos níveis de dopamina e noradrenalina e baixa
serotonina (isso explica as alterações de humor no início de um relacionamento);
e, finalmente, o apego, derivado da oxitocina e vasopressina. Todas essas
substâncias alteradoras de humor podem ser elevadas devido ao potencial
[7]
multiorgástico em algumas mulheres, mais que nos homens. As pesquisadoras
Cindy M. Meston e K. M. McCall, em seu artigo de 2005 “A resposta da
dopamina e da noradrenalina para a excitação sexual induzida por filmes em
mulheres sexualmente funcionais e disfuncionais”, também relataram ter
descoberto uma ligação entre o bom funcionamento do sistema dopaminérgico (e
da noradrenalina) e a forte resposta sexual feminina. Quanto à dopamina e à
noradrenalina, as autoras escreveram, “esses transmissores desempenham um
[8]
papel pró-sexual na sexualidade da mulher”.
O neurocientista francês Claude de Contrecoeur, que analisou (por meio do uso
de diferentes drogas) o efeito da serotonina e da dopamina no comportamento e
nos sentimentos, descobriu que a dopamina tem o efeito oposto da serotonina. Se
você estimular a neurotransmissão da dopamina no cérebro, o que acontece? Sua
mente se torna mais ativa, e você tem vontade de se movimentar. “A dopamina
estimula as motivações e remove a indecisão”, descobriu. Ela aumenta a
autoconfiança, alega ele. “A dopamina alivia a depressão estimulando a ação e
removendo a indecisão”, escreve. “A dopamina ativa o fluxo sanguíneo, que pode
ser um importante fator em sua ação antidepressiva.” Se a dopamina for ativada
[9]
em excesso, alerta ele, a autoconfiança poderá atingir níveis de autoilusão.
Mas também é importante entender a serotonina.
Prescrevem-se a milhões de mulheres e homens inibidores seletivos de
recaptação de serotonina (ISRS), que são a versão moderna dos antidepressivos.
Os ISRS são muito mais prescritos às mulheres que aos homens. Será que esses
mesmos milhões de homens e mulheres são avisados de que os ISRS podem fazer
que sua libido e capacidade de atingir o orgasmo diminuam drasticamente? Os
ISRS produzem um estado de saciedade devido ao aumento do nível de
serotonina; aumentando os níveis de serotonina, você se sente saciado — o que é
agradável —, mas a mesma situação reduz sua motivação. Os ISRS inibem a
captação de serotonina: Contrecoeur descobriu que o aumento de serotonina
anestesia as emoções, suprime ou bloqueia o desejo sexual e deixa as pessoas
sonolentas e menos agressivas — elas até se movimentam menos.
Por outro lado, baixos níveis de serotonina aumentam a atividade da dopamina;
acredita Contrecoeur que, em contraste, leve as pessoas a sentir “estímulo à
[10]
sociabilidade e humor, agressividade e sexualidade”.

As implicações políticas desses dois estados de humor, ou mentais, são óbvias.


As sociedades patriarcais, mesmo sem o benefício do que a ciência atual está
documentando, a meu ver, perceberam a ligação entre a mulher sexualmente
assertiva e consciente e a mulher focada, motivada, energizada e biologicamente
competente.
É por isso que eu digo que a dopamina é a principal substância química
feminina. Se uma mulher está com ótimos níveis de dopamina, é difícil jogá-la
contra si mesma. É difícil co nduzi-la à autodestruição, manipulá-la e controlá-la.
Outros neurocientistas e biólogos evolucionistas também estão confirmando
que algo significativo em relação ao humor ocorre no cérebro quando o fluxo de
dopamina prepara o caminho para o orgasmo. Após o clímax, surgem as
diferenças dos sexos. Nos homens, a dopamina baixa drasticamente após o
orgasmo, e eles perdem o interesse no sexo por um período de tempo. Eles
passam por um período refratário durante o qual não conseguem ficar excitados.
Mas será que a dopamina também baixa dessa forma no cérebro feminino — e a
prolactina surge para dizer que “já chega” para uma mulher, especialmente se ela
tiver orgasmos múltiplos? Não necessariamente. Se uma mulher continuar e tiver
outro orgasmo e depois outro, continuará a estimular a dopamina. E novas
pesquisas mostram que praticamente todas as mulheres são capazes de chegar ao
orgasmo facilmente nas circunstâncias certas.
Por que isso é importante? Porque sugere que todas as mulheres que têm
orgasmos (e especialmente aquelas que têm muitos orgasmos) têm a capacidade
de receber mais dopamina e mais descargas de opiáceos no decorrer de um dia
muito bom do que os homens com quem elas acabaram de dormir e mais do que as
mulheres que não conhecem seu próprio prazer sexual.

Perguntei ao dr. Pfaus: “O orgasmo feminino não causa maior liberação de


opiáceo?”.
“Isso pode acontecer”, disse ele. “Para mulheres que têm orgasmos múltiplos, é
[11]
de se esperar que produzam mais opiáceos.”
O orgasmo feminino surpreendentemente também aumenta os níveis de
testosterona na mulher. Esse é mais um motivo pelo qual um ótimo sexo torna as
mulheres ainda mais difíceis de manipular. A escritora e cientista Mary Roach
destaca que a testosterona “mais que qualquer outro hormônio (…) influencia a
[12]
libido da mulher” e também faz que elas queiram transar mais. Então, o sexo
aumenta o nível de testosterona feminino, o que, por sua vez, aumenta sua libido,
o que, por sua vez, a torna mais assertiva e mais interessada em fazer mais sexo.
(Essa ligação é bem documentada; a terapia da testosterona, por exemplo, um
tratamento controverso para menopausa em mulheres, aumenta seus níveis de
[13]
determinação e sua libido.) Portanto, o medo que os patriarcas sempre tiveram
— de que, se você deixar as mulheres fazerem sexo e elas aprenderem a gostar,
isso as tornará altamente libidinosas e ingovernáveis — é uma verdade biológica!
Não gosto de nenhum tipo de feminismo que coloca um gênero acima do outro,
então, não estou dizendo isso com a intenção de julgar valores. Nenhum gênero é
“melhor”, mas um gênero é teoricamente mais capaz de obter certo nível de
ativação de dopamina e opiáceos durante o sexo, o que causa um efeito muito
específico no cérebro e até mesmo na personalidade. Não podemos fugir do que
essa matemática significa para a sexualidade feminina em seu estado não mediado
e na ausência de interferências: a natureza criou uma enorme diferença entre os
sexos, o que coloca a mulher em uma posição potencialmente de maior autoridade
bioquímica que os homens por meio da satisfação da atividade sexual. (É claro
que não é um jogo que já começa perdido: os homens têm outras formas de
conseguir mais dopamina.)
A boa notícia é que toda essa dopamina tornará a mulher — isso se a mulher e
sua vagina não estiverem machucadas, reprimidas, feridas ou diminuídas — mais
confiante, mais eufórica, mais criativa e mais determinada — possivelmente mais
do que uma sociedade dominada pela vontade dos homens deixaria. As feministas
estão sempre tentando amplificar a “voz” feminina reprimida. A serotonina
literalmente subjuga a voz feminina, e a dopamina literalmente a eleva.
De acordo com os últimos estudos da ciência, a dopamina motiva o foco e a
iniciativa. Os opiáceos provocam a felicidade, a “sensação oceânica”, o senso do
sublime. Você já observou um grupo de pessoas que acabaram de usar cocaína
conversando? É impossível fazê-las calar a boca. A cocaína provoca esses
efeitos estimulando a liberação de dopamina no cérebro; na verdade, o primeiro
caso de abuso de cocaína foi do dr. William Halsted no Johns Hopkins Hospital,
pois ela o fazia se sentir invencível, enchia-o de energia e confiança e diminuía
sua fadiga.
Quantas mulheres heterossexuais, lendo isso, podem se recordar da época em
que faziam amor e depois se sentiam misteriosamente falantes, no mesmo
momento em que seus parceiros do sexo masculino estavam caindo no sono? Você
só queria conversar. Você tinha tanto a dizer! Estudos mostram que um número
embaraçoso de mulheres confessa ter acordado o parceiro para conversar com
ele. Se você já fez isso, sabe do que estou falando — apesar de, na hora, não
entender por que estava fazendo aquilo. Essa é a sociabilidade incontrolável da
dopamina, na expectativa de mais um orgasmo.
Para reforçar o que a essa altura já deve ser óbvio: uma vagina saudável e
sexualmente bem cuidada regularmente provoca uma forte ativação de dopamina
no sistema de recompensa feminino, assim como ondas de oxitocina que motivam
a conexão e os opiáceos que causam a sensação de alegria. Portanto, a vagina
proporciona às mulheres as sensações que as levam a criar, explorar, se
comunicar, conquistar e transcender. E já que as mulheres, potencial e
teoricamente, podem ter mais orgasmos que os homens e podem, teoricamente,
liberar mais oxitocina quando fazem amor, elas também acabam sentindo mais
coisas depois: mais amor, mais apego e mais afeto.
Analisemos apenas a oxitocina — “o hormônio do carinho”. A função da
oxitocina nos humanos é criar laços entre as pessoas para que elas possam
conviver melhor. A oxitocina também permite que as pessoas vejam as relações
entre as coisas e entre as pessoas mais claramente. David J. Linden relata que os
sprays nasais de oxitocina que foram criados para ajudar as mães a produzir leite
na lactação — da marca Liquid Trust — têm sido usados para outros fins.
Aqueles que inalam o spray passam a confiar mais em estranhos, mesmo depois
de terem sido trapaceados em um jogo. Ficam mais dispostos a assumir maiores
riscos sociais. Também conseguem perceber melhor “a ligação entre as coisas”,
ou seja, nesse caso, conseguem perceber melhor o estado emocional dos outros.
Em um famoso experimento, a oxitocina ajudou indivíduos a deduzir corretamente
o estado emocional de outra pessoa — quando se mostravam ao indivíduo
[14]
fotografias de rostos humanos nas quais não se podiam ver os olhos.
A oxitocina é o superpoder emocional das mulheres. Ela induz as contrações do
parto e ajuda a liberar o leite materno, como já vimos; seu papel evolucionário é
nos conectar aos nossos filhos e ao nosso parceiro tempo suficiente para aumentar
as chances de a criança ter os dois pais durante seu longo período de
[15]
dependência. Em experimentos, quando cientistas bloqueiam a oxitocina ou a
dopamina, as mães mamíferas ignoram suas crias. Isso reduz os desejos.[16]
Quando cientistas administraram essa substância em roedores que eram viciados
em cocaína, morfina ou heroína, os ratos passaram a consumir um nível menor de
[17]
drogas e apresentaram menos sintomas de abstinência. “A oxitocina e seus
receptores parecem manter a posição de liderança entre os candidatos a
substâncias da ‘felicidade’”, alegaram Navneet Magon e Sanjay Kalra em “The
[18]
Orgasmic History of Oxytocin: Love, Lust and Labor”. A oxitocina também
acalma — um rato que receber uma dose de oxitocina acalmará uma jaula cheia
[19]
de ratos ansiosos. Ela aumenta a receptividade sexual.[20] Não é de se admirar
que, quando os caminhos neurais do cérebro até a vagina estão danificados, a
pessoa acha que a vida não tem sentido; a verdade é que uma vagina bem tratada é
um meio que libera, no cér ebro feminino, o que podemos chamar, sem exagero,
de componentes químicos do significado da vida.

SERÁ QUE A VAGINA É UMA VICIADA?

Durante aquele mês, eu fui totalmente feliz… Que alegria, meu querido, ao encontrar sua
carta… Não direi que não precisava dela desesperadamente, pois este é meu estado crônico…
Antes disso [momentos felizes com você], eu não tinha uma vida pessoal: desde então você me
deu toda a alegria imaginável. Agora, nada pode diminuir ou tirar isso de mim… [isso] libertou
todo meu ser… Não posso lhe dizer isso, pois quando eu disser você me tomará em seus braços
et alors je n’ais plus de volonte…
[21]
Edith Wharton para Morton Fullerton
Então, a dopamina a torna confiante e faz você acreditar nas recompensas; os
opiáceos proporcionam descargas viciantes de felicidade e bem-estar; a oxitocina
— que, segundo estudos, aumenta durante o orgasmo, e assim mulheres que têm
orgasmos múltiplos podem, teoricamente, produzi-la mais que os homens — faz
você se apegar, sentir atração e confiança e a leva a querer fazer mais sexo.
Isso poderia explicar por que, apesar de a maioria dos viciados em sexo ser
homens, muitas mulheres acham algumas vezes que estão “viciadas em amor”?
Nossa euforia é potencialmente mais eufórica; mas o lado ruim é que, quando
aquela dopamina e os opiáceos deixam nosso sistema, ficamos potencialmente
piores que muitos homens — um estado de abstinência que é exatamente como a
abstinência do ópio. A bioquímica do vício significa que, se tivermos mais
dopamina desde o início, nossa queda será maior. Então, as mulheres têm uma
tendência maior a ser místicas que os homens — devido a todo esse potencial de
produção de dopamina — e correm um risco maior de se tornar viciadas em amor
(diferente do vício do sexo, do qual os homens são mais vítimas). Os níveis
potencialmente maiores de oxitocina e dopamina que podemos produzir — e
potencialmente perder, infelizmente — nos tornam potencialmente dependentes de
nosso objeto amoroso/sexual de maneiras que nem sempre são mútuas.

Procurei mais uma vez os cientistas.


Entrevistei o dr. Jim Pfaus em seu laboratório da Universidade Concórdia no
Canadá. O dr. Pfaus é pioneiro no estudo de novas fronteiras da sexualidade
feminina. Ele notou que era possível ver a ligação entre o orgasmo feminino, a
ativação da dopamina e o aumento do foco e da confiança.
Tive a sorte de testemunhar um experimento fantástico em seu laboratório
quando o dr. Pfaus e sua equipe de graduandos mostraram o papel do prazer
sexual na escolha do parceiro. Esse experimento chocante foi publicado em
março de 2012 no Archives of Sexual Behavior como “Quem, o quê, onde,
quando (e talvez até por quê)? Como a experiência da recompensa sexual liga o
[22]
desejo, a preferência e o desempenho sexual”.
O próprio dr. Pfaus é um cientista jovem com uma atitude enérgica que usa em
suas horas livres uma camiseta, botas e uma jaqueta de couro preta. Seu
laboratório fica em um quarteirão moderno e agradável do campus em Concórdia,
que fica em um lindo bairro de tijolos vermelhos nos arredores da tranquila e
intelectual cidade de Montreal. Em um laboratório iluminado e alegre, com
inúmeros ratos machos e fêmeas bem cuidados em jaulas de plástico limpas e
alinhadas na parede, o dr. Pfaus me apresentou sua ainda mais jovem e altamente
focada equipe de pesquisadores, da qual pelo menos metade era mulheres.
E então, diante dos meus olhos, o dr. Pfaus e sua equipe provaram o papel do
prazer sexual nas preferências de acasalamento entre mamíferos inferiores — o
papel da vagina, do clitóris e do colo do útero na dança evolucionária da busca
pelo prazer.
Uma cientista gentilmente pegou uma “inocente” (ou seja, virgem) rata fêmea
preta e branca e me mostrou, enquanto a acariciava, como ela injetaria no animal
naloxona para prepará-la para não se divertir em sua primeira experiência sexual.
Era de se imaginar, mas, enquanto nós duas observávamos a virgem adolescente
andando para lá e para cá curiosamente após a injeção, uma pitada de melancolia,
de minha parte e da parte da jovem cientista assistindo a sua cobaia, pairava no
ar.
Enquanto um grupo de ratas fêmeas sexualmente inocentes recebia naloxona,
que bloqueia a sensação de prazer, um grupo de controle de ratas fêmeas virgens
recebeu uma solução salina, que não faz nada. Também foram injetados em todas
as ratas hormônios que as fazem ovular, garantindo que, em circunstâncias
normais, elas iriam querer acasalar mais ainda.
As ratas foram, então, colocadas em jaulas criadas por uma cientista: as
gaiolas possuíam quatro pequenas aberturas em uma divisória de acrílico. Isso
permitia que elas corressem para dentro e para fora da área onde os machos as
esperavam (já que os machos são maiores, eles não podiam seguir as fêmeas
pelas portinhas). As portas davam às fêmeas controle sobre o contato.
As fêmeas que receberam a solução salina — ou seja, aquelas que podiam
sentir prazer — foram — e não existe outra forma de dizer isso — extremamente
assanhadas; elas corriam para dentro e para fora do espaço dos machos;
“provocavam” os machos várias vezes (aprendi que ratas fêmeas provocam os
machos fazendo um movimento em direção à cabeça — olhando diretamente nos
olhos dos machos — e depois fugindo); pulavam em volta dos machos, outro sinal
do desejo sexual das fêmeas; apresentavam suas genitais para que os machos
lambessem e cheirassem. Uma fêmea mais atirada ficava tentando montar em cima
do macho em sua gaiola — finalmente, chegando ao ponto em que ela
simplesmente pulou nos ombros dele e montou em sua cabeça . O que era claro
em relação à atividade é o que estava sendo reforçado — as fêmeas “salinas”
estavam obtendo o que queriam dos machos, o que as fez interagir cada vez mais
com eles e ficar ainda mais excitadas. Para o grupo salino, era noite de formatura.
Excitação, atividade, interação!
As fêmeas da naloxona, por outro lado, estavam parecendo personagens de uma
peça de Ibsen. No início, os machos as cheiravam e apalpavam, mas logo as
fêmeas simplesmente desistiam de responder a isso ou iniciar um contato. Dava
para notar o momento no qual faziam isso quase claramente. Depois de algumas
incursões, elas pararam de interagir com seus parceiros; pararam de ir até o lado
dos machos; pararam de fazer o movimento da cabeça; pararam de tentar subir
nos machos. Logo cada fêmea estava olhando desoladamente, a meia distância, de
sua própria área da gaiola à qual os machos não podiam chegar — apesar de um
macho, nunca vou esquecer isso, ter tentado desesperadamente passar pela
portinha minúscula, e praticamente implorando, tentou arrastar sua parceira
segurando o rabo dela com os dentes. Finalmente as fêmeas ficaram
definitivamente “no lado delas da cama”. Elas pararam de se movimentar — nem
olhavam para os machos — e pareciam indiferentes. Não estavam sendo
reforçadas pelo prazer sexual. O que me chocou nessa cena é que não era apenas
o sexo que não estava sendo reforçado para essas fêmeas — nada estava sendo
reforçado; elas não estavam interagindo nem mesmo com seu próprio ambiente.
O experimento mostrou, posteriormente, resultados ainda mais dramáticos: a
essa altura, os cientistas administravam o experimento com a naloxona com um
aroma — como limão ou amêndoas — associado ao rato macho: o aroma era
colocado no pelo do rato macho. Mais tarde, quando as fêmeas jovens e inocentes
que receberam naloxona foram colocadas em uma situação de ménage à trois com
dois machos como possíveis parceiros sexuais — ou seja, em uma situação na
qual as fêmeas podiam escolher —, elas evitavam o macho que tinha o aroma,
mesmo que fosse um novo macho — e mesmo elas já sendo capazes de sentir
prazer. Em outras palavras, as fêmeas tiveram a lembrança de uma experiência
sexual ruim e tomaram sua decisão de acordo com ela. O dr. Pfaus notou que elas
apresentaram muita atividade no córtex pré-frontal durante o experimento: isso
prova que até mesmo mamíferas fêmeas inferiores possuem memória sexual e
querem evitar experiências sexuais ruins ou não prazerosas. Em uma linguagem
surpreendentemente poética para uma publicação científica, ele escreveu que seu
experimento provou “que existe um período crítico, durante as primeiras
experiências sexuais do indivíduo, que cria um ‘mapa do amor’ ou uma gestalt de
características, movimentos, sentimentos e interações interpessoais associados à
[23]
compensação sexual”.
Saí do laboratório naquele dia me sentindo estranhamente validada e exaltada
pelo que vi (apesar de feliz por as ratinhas da naloxona terem uma chance de
receber a solução salina no futuro). A natureza se pronunciou. Aquelas fêmeas do
primeiro experimento — o grupo salino, tão ansiosas por prazer sexual que
montavam na cabeça dos machos sortudos — estavam, conforme destacou o dr.
Pfaus, apenas parcialmente brincando, tomando decisões em um ambiente no qual
ninguém nunca as chamou de vadia, ou abusadas, e me senti estranhamente livre
por ver como a natureza ou a evolução colocou aquele intenso desejo sexual
feminino firmemente estabelecido dentro de toda pequena fêmea mamífera da
Terra.

UM TERCEIRO CENTRO SEXUAL PARA MULHERES?


A sexualidade anda sendo observada em muitos laboratórios, e experimentos
estão proporcionando novas informações sobre a excitação, o desejo e as
emoções femininas.
Achei interessante notar que outros experimentos recentes do dr. Pfaus mostram
que as ratas fêmeas, se puderem escolher, preferem a penetração (ou seja,
penetração que elas podem controlar) — com estimulação clitoridiana, vaginal e
do colo do útero — à “esfregação”, que estimula somente o clitóris.
Os mais recentes experimentos de ressonância magnética no laboratório do dr.
Barry Komisaruk na Universidade Rutgers em 2012 confirmam uma descoberta
possivelmente relacionada a isso em mulheres. A vagina e a entrada do colo do
útero parecem ser moldadas evolutivamente para precisar de “alguma outra
coisa”.
O estudo de ressonância magnética do dr. Komisaruk mostrou que a
estimulação genital (clitoridiana, vaginal e cervical) em mulheres acionava partes
diferentes, porém adjacentes, do córtex e que essas áreas também estavam
relacionadas a diferentes centros funcionais e emocionais. Esse experimento
confirmou, de uma maneira bem vívida — entre outras hipóteses incríveis —, a
existência de um terceiro centro sexual para as mulheres, localizado na entrada do
[24]
colo do útero. (Os experimentos de Beverly Whipple o localizaram
provisoriamente nos anos 1980.)
A ideia de outro centro sexual nas mulheres fez todo o sentido para mim. Eu
mesma pude experimentá-lo, apesar de que, de acordo com nosso conhecimento
da anatomia do orgasmo feminino até então, ele não deveria existir. Faz sentido
do ponto de vista evolutivo, é claro; se, por um lado, é útil para as mulheres
evolutivamente ter o prazer clitoridiano, é supereficiente por razões reprodutivas
que as mulheres obtenham um extremo prazer adicional com a pressão na entrada
do colo do útero, já que esse tipo de prazer incentiva a penetração e a gravidez.
Eu também já sabia que para muitas mulheres, quando ocorre a pressão sexual
contra o colo do útero, os orgasmos podem ser muito mais emotivos — as
mulheres podem chorar depois de orgasmos que atingem a entrada do colo do
útero. Muitas mulheres me disseram ter se tornado emocionalmente “viciadas”
nessa sensação causada por um parceiro.
Um experimento da equipe de Komisaruk que pediu às mulheres que
classificassem os orgasmos confirmou subjetivamente um aumento na intensidade
emocional em relação a algumas áreas sexuais mais do que outras.
Esses experimentos, acredito eu, devem ajudar a mudar radicalmente nossa
noção do que é o “ser”. Desde o século XVIII, o “ser” tem sido descrito no
Ocidente como autônomo, porém, a vagina e o colo do útero até das mulheres
mais independentes não podem optar pela autonomia tão simplesmente assim. A
vagina e a entrada do colo do útero parecem ser evolutivamente manipuladas para
precisar de “outra coisa” e para colocar o cérebro feminino em conexão forçada,
porém necessária, um com o outro.
A vagina e o colo do útero, em sua necessidade implícita “um do outro”,
parecem ser a garantia da evolução para que as mulheres heterossexuais sejam
sempre interdependentes dos homens e estejam dispostas a ter relações sexuais
com eles, apesar de todos os perigos emocionais e físicos. Essa característica
parece garantir que as mulheres sejam motivadas por fortes desejos interiores,
que precisam ser atendidos, a criar laços complexos com outras pessoas, mesmo
colocando sua autonomia pessoal em risco. Portanto, não é nenhuma surpresa
descobrir que muitas mulheres acham que os vibradores ou a masturbação não são
exatamente a mesma coisa que fazer amor com outra pessoa, no sentido
emocional. O dr. Pfaus acredita que talvez nós sejamos “criadas para associar
esse tipo de estímulo a outro indivíduo com o qual tenhamos que trabalhar em
uma relação; e vivenciar esse estímulo sem o outro corpo — apesar de prazeroso
— não proporciona o mesmo grau de prazer que poderíamos obter com outro
[25]
indivíduo vivo”.
E se não houver nada de errado com isso? A dra. Helen Fisher alega que a
biologia e a motivação masculina e feminina surgiram, por razões evolutivas,
para ser interdependentes: para maximizar o sucesso de cada um se os dois
gêneros trabalharem em equipe. E se a sexualidade e a satisfação realmente
exigirem ambas as perspectivas — a autonomia masculina e a interdependência
feminina? E se o desejo da vagina for a maneira de a natureza corrigir o possível
desequilíbrio de uma visão global baseada apenas na biologia masculina?
“Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta”, assegura o
slogan feminista da Segunda Onda, mas talvez não seja bem assim. Hoje em dia,
acho que a negação dessa necessidade de um homem para obter prazer sexual na
vida das mulheres heterossexuais não é exatamente feminista e não as ajuda.
Obviamente, mulheres heterossexuais não precisam apenas de um homem. É um
insulto para essas mulheres ignorar seu desejo por aquele que elas sentem ser o
homem, ou desmerecer seu luto quando eles vão embora. Essa negação do
paradoxo de nossa autonomia feminina, coexistindo inquietantemente com nossa
necessidade feminina por interdependência, também não ajuda as lésbicas e
bissexuais a entender por que a necessidade delas por sua parceira é muitas vezes
tão intensa. Essa ideologia não ajuda em nada as mulheres de qualquer
sexualidade a entender por que, geralmente, o vibrador e um pote de sorvete
podem proporcionar prazer, mas, mesmo assim, outros desejos por conexões
permanecem fortes.
Respeitar o paradoxo central da condição feminina — a necessidade
sexual/emocional da vagina e do colo do útero — pode significar que precisamos
encarar o fato de que as mulheres ficam, de certa forma, mais facilmente viciadas
em amor e em um bom sexo com a pessoa que desencadeia esse banho químico
cerebral, do que os homens. O trabalho do dr. Daniel G. Amen em The Brain in
Love, somado aos de muitos outros neurobiólogos que ainda não tiveram seus
trabalhos “traduzidos” para a cultura tradicional, sugere que os comportamentos
femininos atualmente vistos como carência ou masoquismo são, na verdade, mais
bem entendidos como respostas naturais e provavelmente evolutivas às alterações
cerebrais causadas pelo orgasmo feminino. Em outras palavras, um bom sexo é
realmente viciante, do ponto de vista bioquímico, para as mulheres de uma forma
diferente à experiência vivida pelos homens — ou seja, nós sentimos desconforto
quando o estímulo é removido e um desejo ardente de obtê-lo novamente. Um
sexo ruim — desatencioso, com um parceiro egoísta ou distraído — é realmente
desencorajador e psicologicamente prejudicial, do ponto de vista químico, para
as mulheres de uma forma diferente se comparado à experiência vivida pelos
homens. E veremos por quê.
O neurocientista Simon LeVay, em The Sexual Brain, mostra que o orgasmo
desencadeia, para ambos os sexos, o mesmo mecanismo que o vício e ele observa
que todos os mecanismos que causam dependência são baseados na dopamina.
“Pornografia, acúmulo de dinheiro, ter poder sobre o outro, jogos de azar,
consumo compulsivo, videogames… se algo realmente estimula sua dopamina,
então é potencialmente viciante para você.” Os picos da dependência podem
“sequestrar” nossas conexões cerebrais, deixando-nos com poucas escolhas em
relação a buscar essa sensação repetidas vezes, mesmo que soframos pela
necessidade em outras formas. Entre milhares de substâncias químicas diferentes,
apenas algumas — álcool, cocaína e outros opiáceos e narcóticos — estimulam a
dopamina. Versões altamente estimulantes de comportamentos comuns também
elevam o nível de dopamina, e por isso a prática de exercícios e a pornografia
[26]
podem ser viciantes.
No entanto, estamos vivendo em um mundo pós-feminista que aconselha as
mulheres a “foder como homens” — e diz que fazer isso é um sinal de libertação
— e incentiva jovens mulheres a manter “amizades coloridas” como um ato de
autoconfiança; a cair na cama com a mesma indiferença casual que os homens
vêm tradicionalmente demonstrando.
O ideal masculino da sexualidade desencanada, de “pegar ou largar”, está, a
meu ver, estabelecendo outro ideal impossível no qual as mulheres devem
camuflar suas reais necessidades, violentando a si mesmas. Isso porque o
comportamento sexualmente viciante nas mulheres — ou melhor, o vício em um
amante que seja “certo” para o sistema nervoso autônomo — tem fortes conexões
cerebrais. Esse é provavelmente o segredo não tão bem guardado das mulheres e
do amor: nós falamos sobre ótimas personalidades ou currículos impressionantes,
histórias de vida parecidas ou interesses comuns em possíveis parceiros ou novos
amantes, mas, apesar de essa dimensão de nossa experiência com namoros ser
fundamental, principalmente no começo, a verdade é que, se ele ou ela não nos
fizer sentir aquela maravilha no corpo — se ele ou ela não tiver um cheiro bom
para nós, um gosto bom, se não nos tocar da forma que satisfaça às nossas
necessidades de toque ou nos deixe satisfeitas —, não nos importaremos tanto
assim se ele ou ela nunca mais nos ligar. Se ele ou ela for aquela pessoa que
deixa seu sistema nervoso autônomo em alerta vermelho, que eleva sua dopamina
além de todas as expectativas, que ilumina seu mundo com a liberação de
opiáceos — esse será o homem ou mulher que fará você sofrer de ansiedade
esperando uma ligação. Se essa for a pessoa com o toque certo para ativar sua
rede neural, você ficará em abstinência se ele ou ela não estiver por perto para
fazer isso novamente, e logo. Abstinência real e dolorosa.
Então, quando uma mulher faz sexo bom e satisfatório — o que eu chamo de
orgasmo “pleno”: sexo carinhoso e atencioso que ativa toda a rede neural pélvica
e também trabalha intensamente o sistema nervoso autônomo —, ela vivencia uma
maior plenitude do cérebro.
Esse banho do que são essencialmente drogas prepara o sistema neural
feminino para superar grandes obstáculos a fim de conquistar o ser amado; para
ter um comportamento exagerado na busca do amor e do prazer sexual; e ficar
fisiologicamente incapaz de compartimentar, de se levantar por iniciativa própria,
ou simplesmente “esquecer” ou “desencanar” dele ou dela. Se elas conseguirem
“sair dessa”, será com um esforço sobre-humano, e terá um alto custo. Essa
enorme plenitude cerebral também pode envolver hormônios que provocam
pensamentos obsessivos sobre o ser amado, e isso provoca comportamentos
torturantes e até mesmo de autossacrifício. Essa grande plenitude cerebral é um
fator para ambos os sexos. Os dois sexos, é claro, vivenciam a paixão e sofrem
com um amor não correspondido. E sim, a questão de como as relações sexuais
diferem emocional e fisicamente na masturbação para os homens, no papel do
apego masculino e na relação da sexualidade masculina com o consciente merece
seu próprio livro.
Porém, as mulheres são potencialmente multiorgásticas, o que muda, até certo
ponto, um dos aspectos da equação da “grande plenitude do cérebro”.
Safo escreveu sobre o ciúme: “Dentro de meu peito, todo o coração treme (…)
debaixo de minha pele a tênue chama infunde (…) a febre estremece meu corpo”.
[27]
O autor de Cântico dos cânticos (que muitos estudiosos acreditam ter sido
uma mulher) escreveu: “Fortalece-me com uvas, / refresca-me com maçãs,/ pois
estou fraca de amor (…) Toda noite em minha cama / busquei por aquele que meu
coração ama; / Procurei-o, mas não o encontrei. / Levantar-me-ei agora e irei à
cidade. / Por suas ruas e praças; / Buscarei por aquele que meu coração ama. /
(…) Eu… não o deixarei ir (…) / Sopra em meu jardim, / para que a fragrância se
[28]
espalhe”.
Será que a pesarosa Dido, que abandonou seu amor, Aeneas; a pequena e
empobrecida governanta de Charlotte Brontë, que quase morreu em uma cama em
chamas tentando salvar seu amor em Jane Eyre; Maggie Tulliver de George Eliot
em The Mill on the Floss, que testemunhou sua reputação, seu papel na sociedade
e suas obrigações para com as convenções irem todas por água abaixo quando ela
se permitiu ser levada por um rio rumo ao fracasso com um homem pelo qual
sentia uma poderosa atração física; e você, minha cara leitora, que provavelmente
— para sua surpresa — esperou obsessivamente a resposta de um e-mail ou
sentou ao lado de um telefone que não tocava, assim como eu… será que somos
masoquistas? Patéticas ou de mente fraca? Não, pelo contrário. Em vez disso,
somos objetos de uma força que é extremamente poderosa — uma que talvez
nenhum homem possa jamais entender. Acho que o que nos motiva é um tanto
quanto nobre.
Um paradoxo essencial da condição feminina é que para as mulheres se
sentirem realmente livres é preciso entender a maneira como a natureza nos criou
para sermos apegadas e dependentes do amor, da ligação, da intimidade e do tipo
certo de Eros nas mãos do tipo certo de homem ou mulher.
Acredito que devamos respeitar o potencial para “escravização” do amor
sexual que as mulheres possuem; nosso lugar com Eros e com o amor. Porque
apenas deixando um espaço para isso, em vez de suprimi-lo ou ridicularizá-lo,
poderemos nos esforçar para entendê-lo. Quando uma mulher trava essa luta com
o amor e a necessidade, ela não está “sujeita” à pessoa em questão: ela está, na
verdade, travando uma luta contra ela mesma, para encontrar uma forma de
recuperar sua autonomia enquanto, de alguma forma, tenta não eliminar a parte
dela mesma que foi despertada pelo amado no desejo pela conexão.
Uma mulher lutando contra o apego e a perda de si mesma está travando uma
luta pelo ser de forma tão exigente e rigorosa quanto a de qualquer homem em
uma grande aventura. É claro que a resposta biológica da qual estou falando aqui
foi identificada há muito tempo pela psicanálise e pela literatura; apenas
recentemente a ciência acrescentou novas dimensões e explicações sobre esses
estados mentais elucidados por poetas, romancistas e estudantes da psique.
Uma das minhas gírias favoritas para vagina, nos Estados Unidos, é “ the force
”, ou “a força”. É sobre isso que deveríamos estar falando. As mulheres
realmente levam a sério o amor, o sexo e a intimidade, e não porque a mulher, a
intimidade e Eros sejam triviais, mas porque a natureza em suas ligações
inteligentes e transcendentais entre genitália feminina e seu cérebro forçou as
mulheres a encarar o fato, que é simplesmente mais obscuro para os homens
(apesar de não menos verdade para eles), de que a necessidade por conexão,
amor, intimidade e Eros é, na verdade, maior e mais forte que qualquer outra
coisa no mundo.
Uma cultura que não respeita as mulheres tende a desmerecer ou ridicularizar a
preocupação dela com o amor e Eros. No entanto, muitas vezes estamos
preocupadas com o amado, não porque não temos a nós próprias, mas porque o
amado despertou aspectos fisiológicos de nosso próprio ser.
Não deveríamos, então, ter orgulho de quem somos?
Deveríamos, sim.

1. Veja Stanley Siegel, Your Brain on Sex: How Smarter Sex Can Change Your Life (Naperville, IL:
Sourcebooks, 2011).↵
2. Marnia Robinson: Dopamine chart.↵
3. Dr. Jim Pfaus, entrevista, Universidade Concórdia, Montreal, Quebec, 29 de janeiro de 2012.↵
4. Ib.↵
5. David J. Linden, The Compass of Pleasure: How Our Brains Make Fatty Foods, Orgasm, Exercise,
Marijuana, Generosity, Vodka, Learning and Gambling Feel So Good (Nova Iorque: Viking, 2011), 94-
125.↵
6. Dra. Helen Fisher, Anatomy of Love: A Natural History of Mating, Marriage and Why We Stray (Nova
Iorque: Ballantine Books, 1992), 162. [Edição brasileira: Anatomia do amor; São Paulo, Editora Eureka,
1995.]↵
7. Ib., 175.↵
8. Cindy M. Meston e K. M. McCall, “Dopamine and Norepinephrine Responses to Film-Induced Sexual
Arousal in Sexually Functional and Dysfunctional Women”, Journal of Sex & Marital Therapy, vol. 31
(2005): 303-17.↵
9. Claude de Contrecoeur, “Le Rôle de la Dopamine et de la Sérotonine dans le Système Nerveux
Central”, www.bio.net/bionet/mm/neur-sci/1996-July/024549.html.↵
10. Ib.↵
11. Dr. Jim Pfaus, entrevista, 29 de janeiro de 2012.↵
12. Ver Mary Roach, Bonk: The Curious Coupling of Science and Sex (Nova Iorque: W. W. Norton,
2008).↵
13. Ib., e Susan Rako, The Hormone of Desire: The Truth About Testosterone, Sexuality, and Menopause
(Nova Iorque: Harmony, 1996).↵
14. Linden, The Compass of Pleasure, 94-125.↵
15. Ib., 94-125.↵
16. Marnia Robinson e Gary Wilson, “The Big ‘O’ Isn’t Orgasm”,
www.reuniting.info/science/oxytocin_health_bonding.↵
17. Ib.↵
18. Navneet Magon e Sanjay Kalra, “The Orgasmic History of Oxytocin: Love, Lust and Labor”, Indian
Journal of Endocrinology and Metabolism, Supp. 3 (setembro de 2011): 5156-61. ↵
19. Agren, 2002, citado em Beate Ditzen, Effects of Romantic Partner Interaction on Psychological and
Endocrine Stress Protection in Women (Gottingen, Alemanha: Cuvillier Verlag, Gottingen, 2005), 50-
51.↵
20. C. A. Pedersen, 2002 e Arletti, 1997, citado em Robinson e Wilson, “The Big ‘O’ Isn’t Orgasm”,
www.reuniting.info/science/oxytocin_health_bonding.↵
21. R. W. B. Lewis e Nancy Lewis, The Letters of Edith Wharton (Nova Iorque: Scribner, 1988), 324-36.↵
22. James G. Pfaus e outros, “Who, What, Where, When (and Maybe Even Why)? How the Experience of
Sexual Reward Connects Sexual Desire, Preference, and Performance”, Archives of Sexual Behavior
41 (9 de março de 2012): 31-62: Apesar de o comportamento sexual ser controlado por ações
hormonais e neuroquímicas no cérebro, a experiência sexual induz um grau de plasticidade que permite
aos animais formar associações instrumentais e pavlovianas que predizem os resultados sexuais,
direcionando, assim, a força da resposta sexual. Esta revisão descreve como experiências com
recompensa sexual fortalecem o desenvolvimento do comportamento sexual e induzem preferências de
parceiro e local sexualmente condicionadas em ratos. Em ratos e ratas, experiências sexuais anteriores
com parceiros perfumados com odor neutro ou mesmo desagradável induzem a preferência por
parceiros perfumados em testes de escolha subsequente. Essas preferências também podem ser
induzidas por injeções de morfina ou oxitocina pareadas com a primeira exposição de um rato macho a
fêmeas perfumadas, indicando que a ativação farmacológica dos receptores de opioides ou oxitocina
pode substituir os processos neuroquímicos relacionados à recompensa normalmente ativados pelo
estímulo sexual. Da mesma forma, preferências condicionadas de parceiro ou local podem ser
bloqueadas pelo antagonista de receptores de opioides naloxona. Uma deixa somatossensorial (uma
jaqueta de roedor) pareada à recompensa sexual leva à excitação sexual em ratos machos, de uma
forma que os ratos pareados sem a jaqueta demonstram déficits copulativos intensos. Propomos que a
ativação de opioides endógenos forma a base do sistema de recompensas, que também sensibiliza os
sistemas de dopamina do hipotalâmico e mesolímbico na presença de pistas que predigam a recompensa
sexual. Esses sistemas agem para focar a atenção e ativar o comportamento direcionado à meta para o
estímulo relacionado à recompensa. Assim, existe um período crítico, durante as experiências sexuais
iniciais de um indivíduo, que cria um “mapa do amor” ou uma gestalt de características, movimentos,
sentimentos e interações interpessoais associados à recompensa amorosa.↵
23. www.guardian.co.uk/science/2011/nov/14/female-orgasm-recorded-brain-scans e Barry R. Komisaruk,
PhD e Baverly Whipple, PhD, “Brain Activity During Sexual Response and Orgasm in Women: MRI
Evidence”, apresentação, International Society for the Study of Women’s Sexual Health, 2011, Encontro
Anual, Scottdale, Arizona, 10-13 de fevereiro, Livro do Programa, 173-184.↵
24. Ian Sample, “Female Orgasm Captured in a Series of Brain Scans”, The Guardian, 14 de novembro de
2011, www.guardian.co.uk/science/2011/nov/14/female-orgasm-recorded-brain-scans.↵
25. Dr. Pfaus, entrevista, 30 de janeiro de 2012.↵
26. Simon LeVay, The Sexual Brain (Cambridge, MA: MIT Press, 1993), 71-82.↵
27. Safo, “Fragment”, Sappho’s Lyre: Archaic Lyric and Women Poets of Ancient Greece, trad. Diane J.
Rayor (Berkeley, CA: University of California Press, 1991), 52. “Come to me now again, release me
from/ this pain, everything my spirit longs/ to have fulfilmed, fulfill...”↵
28. “Song of Songs”, 2:5 - 16, The New International Version, www.biblegateway.com.↵
O que “sabemos” sobre a sexualidade feminina está
ultrapassado

Eles riram e fizeram amor e riram mais uma vez…


Nancy Mitford, The Pursuit of Love

Esta jornada me mostrou, para minha surpresa, e apesar de falarmos de sexo o


tempo todo, que a informação que temos sobre a sexualidade feminina está, em
geral, ultrapassada. Se as mulheres tivessem acesso fácil — ou pelo menos mais
fácil — às novas descobertas da ciência que não são amplamente divulgadas,
teriam um entendimento mais profundo de suas próprias reações sexuais e
emocionais — e se sentiriam muito mais vivas e conectadas, sexualmente falando.
Muitas dessas novas descobertas esclarecem nossos sentimentos conflitantes a
respeito de nossa vontade de sermos amadas e se referem diretamente à
necessidade de homens e mulheres de se envolver no que chamo de a “dança da
deusa”, o conjunto de comportamentos que ativam o sistema nervoso autônomo
nas mulheres.
A educadora sexual Liz Topp, autora de Vaginas: Manual do proprietário, em
uma entrevista esclarecedora comigo (na qual ela relatou que as garotas mais
velhas do ensino médio, mesmo nestes tempos modernos, e mesmo em escolas
excelentes, não têm ideia de onde se localizam a vulva e a vagina em um atlas
anatômico — assim como os meninos mais velhos também não têm), referiu-se a
esses comportamentos, meio que brincando, como “as coisas de que as mulheres
[1]
precisam, e os homens não”. A ciência mais recente confirma que esses
“pequenos” gestos e floreios, que tantas vezes são relegados à categoria de
“coisas que as pessoas fazem durante a corte e param de fazer em
relacionamentos de longa duração” — aqueles “aditivos” sexuais ou românticos
que são ótimos para adular as mulheres, mas não são considerados essenciais —,
são, de fato, física e emocionalmente fundamentais para a dinâmica feminina.
Essas práticas aumentam radicalmente o potencial orgástico das mulheres. Mas,
de forma igualmente importante, também ajudam a fortalecer seus
relacionamentos e chegam a ser essenciais para sua saúde mental e paz de
espírito. Juntamente com todos aqueles gestos e atenções, eles compõem a dança
da deusa.
Por que, você poderia se perguntar, mais pessoas não conhecem essas
informações? Há várias razões para essa reticência. Um motivo para isso é que
ainda é considerado um tabu falar e escrever abertamente sobre a vagina e suas
necessidades e experiências, em vez de falar sobre a sexualidade feminina do
ângulo do “conselho sexual”, mais convencional para as revistas femininas.
Outra razão para que essa informação não seja disseminada nas conversas do
mainstream é que ela pode parecer, à primeira vista, terrivelmente politicamente
incorreta. Não é fácil abordar a biologia da sexualidade feminina sem parecer
simplista ou ir contra a política de gênero. Se tentarmos abordar a natureza animal
mais básica nas mulheres, correremos o risco de parecer como se
considerássemos as mulheres apenas como animais, ou mais animais que os
homens.
A parte capciosa é que, se analisarmos a nova ciência, as mulheres são, de
fato, no sexo e de algumas maneiras, mais animais que os homens. A nova ciência
também revela que, no sexo, as mulheres podem ser mais místicas que os homens.
Essas afirmações são controversas, mas, como feminista, acredito que uma
exploração franca dos aspectos animais e místicos potenciais da sexualidade
feminina de forma alguma prejudique as capacidades racional, intelectual e
profissional das mulheres.
Finalmente, essas importantes novas descobertas ainda não são amplamente
debatidas na mídia de massa porque a “solução” para muitos dos problemas
sexuais relatados pelas mulheres não é um novo remédio lucrativo, mas sim uma
mudança nas interações humanas. Especificamente, a solução é frequentemente a
meta menos fácil de ser alcançada — uma mudança radical na forma como a
maior parte dos homens héteros se comporta na cama com a maioria das mulheres
héteros. As grandes empresas farmacêuticas — que são também os principais
anunciantes em jornais, revistas e sites da Internet que abordam o tema da
sexualidade feminina — não vão lucrar nada caso milhões de homens
simplesmente aprendam como tocar suas mulheres, olhem para elas por mais
tempo, agarrem-nas com mais habilidade ou façam que elas tenham orgasmos
mais transformadores.
Mesmo assim, é importante disseminar essa informação pelo mundo, já que
nossa sabedoria convencional sobre a sexualidade está extremamente
desatualizada. A última pesquisa amplamente divulgada que ainda serve como
base para nossas noções sobre a sexualidade das mulheres foi a pesquisa feita em
10 mil ciclos de orgasmos estudados nos clássicos de William H. Masters e
Virginia Johnson, Human Sexual Response (1966) e Human Sexual Inadequacy
(1970), e a pesquisa realizada com 3 mil e quinhentas mulheres por Shere Hite,
The Hite Report on Female Sexuality, (1976 ). Como já mencionei, Masters e
Johnson concluíram que homens e mulheres eram essencialmente similares em
suas respostas sexuais. Concluíram, também, que não havia diferença fisiológica
entre um “orgasmo vaginal” e um “orgasmo clitoridiano”.
Masters e Johnson também incomodaram as feministas ao defender que somente
o movimento do pênis já deveria ser estímulo suficiente para que as mulheres
gozassem. Shere Hite contestou essa conclusão em seu trabalho. Citou dados que
apontavam que dois terços das mulheres não conseguiam chegar ao orgasmo
durante o coito, mas frequentemente gozavam com a masturbação, e apenas um
[2]
terço chegava ao orgasmo apenas pelo coito. As conclusões de Masters e
Johnson sobre a semelhança das respostas dos dois sexos, junto com o interesse
de Shere Hite em destacar a importância do clitóris e diminuir a da vagina —
apoiada como foi por uma onda de feministas que também enfatizavam o papel do
clitóris e diminuíam a vagina, como no ensaio de Anne Koedt “O Mito do
Orgasmo Vaginal” (1970) —, tudo isso nos levou aonde estamos hoje: com a
impressão generalizada de que a sexualidade feminina se parece muito com a
masculina, exceto que algumas mulheres podem ter orgasmos múltiplos; com a
crença geral de que a vagina não é tão importante quanto o clitóris (as colunas de
conselhos femininos ainda ecoam o ensaio vastamente disseminado de Anne
Koedt, informando erroneamente às mulheres que a vagina “tem pouquíssimas
terminações nervosas”); e em consenso acerca de que a boa etiqueta manda que
os homens, como bons cavalheiros, deem às mulheres um pouco de ajuda no
departamento de estímulo prévio (esses gestos, em uma tentativa de dourar a
pílula do coito, ainda são chamados de “preliminares”, para a nossa fúria); mas o
fato é que o ritmo do “sexo” é essencialmente o do ciclo de resposta masculino.
Essas premissas não estão corretas. De fato, as sexualidades feminina e
masculina são muito diferentes. O que acontece é que, para as mulheres, o clitóris
é sexualmente importante, a vagina é sexualmente importante, o ponto G é
sexualmente importante, o colo do útero é sexualmente importante, o períneo é
sexualmente importante e o ânus é sexualmente importante. A pesquisa recente
descobriu que a teoria de Masters e Johnson — de que todos os orgasmos
femininos passam pelo clitóris — está incorreta. De acordo com dados recentes,
tanto o ponto G quanto o clitóris são ambos aspectos de uma única estrutura
neural; e as mulheres têm, como vimos e como as descobertas da pesquisa do dr.
Komisaruk confirmam, pelo menos três centros sexuais: o clitóris, a vagina e um
terceiro no colo do útero (ele acrescenta um quarto, nos mamilos).
Quando ouvi falar pela primeira vez que a nova ciência havia confirmado o
papel sexual do colo do útero, fiquei chocada por jamais ter ouvido nada a esse
respeito em relatórios científicos (apesar de já ter ouvido algo na literatura):
Na parte de trás do útero, há uma carne que pedia para ser penetrada. Curvava-se para dentro, aberta
à sucção. As paredes de carne se moviam como anêmonas-do-mar, buscando pela sucção atrair seu
sexo para dentro (…) Ela abriu sua boca como para revelar a abertura do útero, sua fome, e foi só
então que ele mergulhou fundo e sentiu suas contrações

escreveu Anaïs Nin, que não estava esperando por nenhuma confirmação
[3]
científica, em Delta de Vênus. Essa supressão de informação foi uma das
muitas omissões estranhas com que me deparei nesta jornada, ao encontrar várias
descobertas científicas de grande importância que não haviam recebido
praticamente nenhuma atenção da mídia tradicional. Caso um sexto sentido
desconhecido fosse confirmado pela ciência, caso descobrissem que todo homem
tem, lá no fundo, em algum lugar de sua pessoa, um órgão sexual extra, pelo amor
de Deus — será que isso não sairia nas manchetes dos jornais?
Outro estudo recente revelou que todo o debate “clitóris versus vagina” —
Masters e Johnson versus Shere Hite — está completamente deslocado: o ponto
G, na parede anterior da vagina, está agora sendo entendido por muitos
pesquisadores como parte da raiz anterior do clitóris. A ciência está provando
que o órgão sexual feminino, que inclui todas essas áreas, é bem mais complexo e
muito mais mágico do que o vaivém utilitário defendido por Masters e Johnson,
ou do que o modelo de sexualidade feminina orientado à meta e identificado com
o masculino que até hoje é erroneamente popularizado pelas revistas femininas
que vão da Good Housekeeping à Cosmopolitan.
O fato é que as mulheres foram desenhadas para ter muitos tipos diferentes de
orgasmos; que as mulheres têm o potencial para ter orgasmos ilimitados, a não ser
pela exaustão física; que, se você entende a sexualidade feminina, dá o ritmo de
toda a ação com base nela; e que, mesmo que essa seja uma meta difícil, vale a
pena alcançá-la, pois, se tratadas apropriadamente, algumas mulheres podem
ejacular; porque todas as mulheres, durante o orgasmo, podem entrar em um
estado de transe único; porque o orgasmo das mulheres dura mais que o dos
homens; porque a memória tem um papel na excitação feminina que não tem na
masculina; e porque a resposta feminina à excitação e ao orgasmo é
bioquimicamente muito diferente da dos homens. Superficialmente, podemos até
ser parecidas com os homens em alguns aspectos, mas de várias outras maneiras
somos completamente diferentes deles.
Um dos possíveis motivos pelos quais essas novas informações não foram
amplamente divulgadas tem a ver com as ansiedades do ego masculino, mesmo
que a censura envolvida seja inconsciente. Por que todos os jornais não noticiam
que as mulheres são potencialmente insaciáveis, sexualmente falando? Ou que
muitas delas estão infelizes com o status quo sexual atual? Ou que alguns tipos de
comportamentos sedutores e atenções de seus parceiros podem praticamente
dobrar ou até quadruplicar os “microvolts” do orgasmo no colo do útero ou na
vagina? O que há de errado com essa informação? Talvez a falta de atenção dada
a essa nova informação se deva ao medo de assumir uma nova “tarefa” — a da
musa e artista sexual — que recairia sobre os ombros masculinos, quando a maior
parte dos homens já está exausta e trabalha demais.
Acredito, porém, que essa hesitação subestime o interesse da maioria dos
homens héteros em fazer as mulheres de sua vida verdadeiramente felizes — sem
falar do interesse desses mesmos homens em ter amantes vibrantes e
entusiasmadas, o que, por sua vez, ajudaria a torná-los mais felizes.

UMA EPIDEMIA DE INFELICIDADE SEXUAL FEMININA

Eu agora havia chegado a um ponto no qual passara a acreditar que os mal-


entendidos a respeito do que as mulheres realmente precisam sexualmente —
assim como a forma como o sexo as afeta — houvessem levado a muito
sofrimento sexual para as mulheres de hoje. Os números mostram que temos uma
epidemia entre as mulheres do Ocidente — “livres”, presumivelmente
alfabetizadas sexualmente — que sofrem de um mal sexual terrível o qual pode
ser evitado. Uma a cada três americanas relata que sofre de baixos níveis de
desejo sexual. E para uma a cada dez, essa ausência de desejo é tão grave, que
pode ser clinicamente diagnosticada. De fato, o baixo nível de desejo sexual —
medicamente definido como “desordem do desejo sexual hipoativo” — é a forma
mais comum de “disfunção sexual feminina” relatada nos Estados Unidos.
O artigo de J. A. Simon publicado em 2010 no Postgraduate Medicine, “Baixo
desejo sexual — está tudo na cabeça dela? Fisiopatologia, Diagnóstico e
Tratamento da desordem do desejo sexual hipoativo”, aponta que
O Manual de Diagnóstico e Estatísticas das Desordens Mentais, Quarta Edição, Texto Revisado
(DSM-IV-TR) define a síndrome do baixo desejo sexual feminino como a “deficiência ou
ausência persistente ou recorrente de fantasias e pensamentos sexuais e/ou desejo por atividade
sexual ou receptividade a ela, o que causa perturbação pessoal ou dificuldades interpessoais e
não é causada por doença ou medicação” (…) A função sexual requer a interação complexa de
múltiplos neurotransmissores e hormônios, tanto centrais como periféricos, e o desejo sexual é
considerado o resultado de um equilíbrio complexo entre as vias inibitórias e excitativas do cérebro. Por
exemplo, a dopamina, o estrogênio, a progesterona e a testosterona, todos têm um papel excitativo, ao
passo que a serotonina e a prolactina são inibidores. Assim, um desejo sexual diminuído pode se dever a
[4]
níveis reduzidos de atividade excitativa ou a um nível alto de atividade inibitória ou ambos.

Essas poucas frases são o modelo da meia verdade científica, no sentido em


que usam a linguagem neutra da ciência — que está basicamente dizendo que o
baixo desejo sexual de uma mulher é resultado de desconexões e desequilíbrios
hormonais e de neurotransmissores —, mas não abordam ou ignoram o fato de
que, enquanto a menopausa, medicações e outros fatores imutáveis que os autores
mencionam podem ter seu papel na falta de desejo, há outros milhares de fatores
psicossexuais, interpessoais e até mesmo relacionados aos humores que podem
ser facilmente modificados e melhorados e que também têm um grande papel na
diminuição do desejo sexual de muitas mulheres.
Em minha jornada, aprendi que com frequência o desejo sexual das mulheres
pode ser facilmente aumentado — mas elas não conseguem fazer isso sozinhas de
forma fácil, ou sozinhas com seus médicos. Seus amantes e maridos têm que
prestar atenção ao que vai, em termos tântricos, “acender o fogo”.
Os dados sobre a baixa libido feminina apresentam um conjunto de fatos ainda
mais impressionantes do que parecem à primeira vista. Um número substancial de
mulheres relata insatisfação sexual, mesmo em uma era na qual o “sexo” é
onipresente e a “informação” sexual nunca foi tão facilmente acessada.
De acordo com o simpósio da Associação Psiquiátrica Americana “Sexo,
sexualidade e serotonina”, de 27% a 34% das mulheres — mais que o dobro dos
13% a 17% dos homens — relatam experimentar baixo desejo sexual. O
impressionante percentual de 15% a 28% das mulheres, de uma em cada seis a
uma em cada três, relatam sofrer de distúrbios relacionados ao orgasmo. Esses
percentuais aumentaram nas quatro décadas que se passaram desde o auge da
revolução sexual — 1976 —, quando cerca de 25% das mulheres reclamavam de
[5]
problemas com o desejo.
Um estudo de 2009, a Pesquisa Nacional de Saúde e Vida Social, realizado
pela Universidade de Chicago sob a direção de Edward O. Laumann, relatou que
43% das mulheres — em contraste com 31% dos homens — sofriam do que foi
[6]
identificado como “disfunção sexual”.
J. J. Warnock, em “Distúrbio do desejo sexual hipoativo feminino:
epidemiologia, diagnóstico e tratamento”, escreve que esse distúrbio pode
ocorrer em até um terço das mulheres adultas nos Estados Unidos. A principal
característica do distúrbio é a deficiência ou ausência de fantasias e desejo por
atividade sexual que causa uma grande perturbação ou dificuldade interpessoal.
[7]

Um relatório ainda mais recente, publicado pela Universidade de Indiana em


2010, revela que apenas 64% das mulheres participantes relataram que chegaram
ao orgasmo da última vez que fizeram sexo (o que quer dizer que 36%, quase
quatro a cada dez, não chegaram), mas que 85% dos homens participantes do
mesmo estudo disseram aos pesquisadores que sua mais recente parceira havia
chegado ao orgasmo: os dados foram ajustados para homens que fizeram sexo
com homens — e o ajuste não explicou a lacuna entre o número de mulheres que
os homens pensaram que haviam gozado durante o sexo com eles e o número bem
[8]
menor de mulheres que de fato gozaram.
Não se sabe se o caso é que o fato de tantas mulheres terem experiências
sexuais tão decepcionantes leva vários casais a ter pouca intimidade sexual ou se
a pouca intimidade sexual é que leva tantas mulheres a relatar baixa libido,
tristeza e frustração sexual; mas o fato é que os dados mostram que um casal
hétero a cada cinco mal faz amor em seus relacionamentos.
Temos que concluir, desse e de outros estudos que mostram números
semelhantes, que a revolução sexual ocidental falhou. Não funcionou bem o
suficiente para as mulheres.
Nesta era da liberação, pós-revolução sexual, pós-feminismo, quando as
mulheres podem fazer “o que bem entenderem” sexualmente e ser “garotas más”
sem nenhum estigma — quando qualquer fantasia está disponível a um toque do
controle remoto e qualquer brinquedo sexual é entregue em casa a um clique do
mouse —, uma porcentagem surpreendentemente alta de mulheres normais — que
vai de uma a cada cinco a uma a cada três — ainda relata sentir pouco desejo, ou
ter problemas para gozar regularmente, ou estar zangada a respeito de algo que
envolve a intimidade sexual. Agora que sei mais sobre a forma como a vagina
está conectada ao estado de espírito e à consciência feminina, vou cunhar uma
expressão e dizer que algo entre uma a cada cinco mulheres e uma a cada três
parece sofrer um tipo de depressão sexual, ou vaginal.
O que é estranho é que a nossa cultura, tão ostensivamente voltada para o sexo,
parece sentir-se muito confortável com essa taxa astronômica de infelicidade
sexual feminina. Não há campanhas chamando a atenção para essa epidemia de
ausência e tristeza sexual feminina. O livro da terapeuta sexual australiana Bettina
Arndt The Sex Diaries (2009) vendeu tão bem em parte por abordar diretamente o
problema da baixa libido vivido por tantas mulheres. Bettina Arndt relata que é
muito comum, em sua experiência clínica, que as mulheres queiram sexo com uma
frequência bem menor do que seus maridos e que esse é o segredo não revelado
por trás de tantos divórcios e até mesmo por trás de tanta infidelidade masculina.
Veremos que novos estudos mostram que, quando as circunstâncias são
favoráveis, praticamente todas as mulheres podem chegar ao orgasmo. E se for o
caso de tantas e tantas mulheres estarem sofrendo de baixo nível de desejo, de
frustração e de abstinência sexual, por que — e só há um jeito de dizer isso,
honestamente — tantos homens aprendem sobre as mulheres de uma forma que
na realidade faz que não saibam o que estão fazendo? Esses números devem
significar, também, que, mesmo nesta era pós-revolução sexual, muitas mulheres
não sabem como identificar, e então pedir, o que necessitam e querem.
Se um homem seguir o script sexual desta cultura em que vivemos a respeito do
que é a vagina, do que é a sexualidade feminina e como se relacionar com uma
mulher em geral — a maior probabilidade, contra seus maiores desejos e boas
intenções, é que não saiba, ao longo do tempo, como mantê-la excitada
sexualmente. A coisa mais destrutiva que se ensina aos homens sobre as mulheres
é que a vagina é apenas um órgão sexual e que o sexo para as mulheres é um ato
sexual igual ao que é para os homens. Nem homens nem mulheres são ensinados
sobre a delicada conexão entre mente-coração-corpo que, na realidade, é a
resposta sexual feminina.
Com base no que aprendi sobre um estado ótimo de saúde sexual e emocional
feminina, que leva as mulheres a ser altamente apaixonadas e orgásticas, esse
nível terrivelmente baixo de felicidade e desejo sexual feminino é um marcador
claro de que algo passou despercebido. Os baixos índices de libido femininos
revelados por estudos recentes devem ser lidos como sinais de uma doença
alastrada: sinais de que algo está muito errado com milhões de mulheres em
termos de sua vida sexual.
A próxima parte deste livro mostra como essa desconexão aconteceu no curso
dos milênios — e o que podemos fazer a respeito.

1. Liz Topp, entrevista, cidade de Nova Iorque, 15 de abril de 2010.↵


2. Veja Shere Hite, The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality (Nova Iorque: Seven
Stories Press, 2004); Shere Hite, The Shere Hite Reader: New and Selected Writings on Sex, Globalism,
and Private Life (Nova Iorque: Seven Stories Press, 2006).↵
3. Anaïs Nin, Delta of Venus (Nova Iorque: Penguin Modern Classics, 1977), 140. [Edição brasileira: Delta
de Vênus; Porto Alegre, L&PM Pockets, 2005.]↵
4. J. A. Simon, “Low Sexual Desire — Is It All in Her Head? Pathophysiology, Diagnosis, and Treatment
of Hypoactive Sexual Desire Disorder”, Postgraduate Medicine 122, n. 6 (Novembro de 2010): 128-
36.↵
5. Dra. Helen Fisher e J. Anderson Thompson, Jr., “Sex, Sexuality and Serotonin: Do Sexual Side Effects
of Most Antidepressants Jeopardize Romantic Love and Marriage?”,
www.medscape.org/viewarticle/482059.↵
6. Em 1992, a Pesquisa Nacional de Saúde e Vida Social concluiu que a prevalência de baixo desejo
sexual na população geral dos Estados Unidos era alta e que as preocupações com o baixo nível de
excitação e desejo sexual eram a categoria mais associada com a insatisfação em mulheres:
http://popcenter.uchicago.edu/data/nhsls.shtml. A pesquisa foi atualizada em 2009 e concluiu, ainda, que
43% das mulheres na amostra relataram disfunções sexuais, em comparação com 31% dos homens:
Edward O. Laumann, Anthony Paik e Raymond C. Rosen, “Sexual Dysfunction in the United States:
Prevalence and Predictors”, Journal of the American Medical Association, vol. 281, n. 6 (10 de
fevereiro de 1999): 587. ↵
7. J. J. Warnock, “Female Hypoactive Sexual Desire Disorder: Epidemiology, Diagnosis and Treatment”,
CNS Drugs 16, n. 11 (2002): 745-53. Outro estudo concluiu que um terço das mulheres na menopausa
sofria de baixo desejo sexual: S. L. West, A. A. d’Aloisio, R. P. Agansi, W. D. Kalsbeek, N. N. Borisov
e J. M. Thorp, “Prevalence of Low Sexual Desire and Hypoactive Sexual Desire Disorder in a National
Representative Sample of US Women”, Archives of Internal Medicine, 168, n. 3 (julho de 2008): 1441-
49.↵
8. Corky Siemaszko, “Sex Survey Finds US Men Aren’t the Lovers They Think They Are — and Women
‘Faking It’ Is to Blame”, New Iorque Daily News, 4 de outubro de 2010.↵
História: conquista e controle
A vagina traumatizada

Transformar a vítima em bode expiatório — dizendo que ela causou a situação — é necessário…
assim como a eficácia do ritual de sacrifício já dependeu da ilusão de que a vítima era
responsável pelos pecados do mundo.
Peggy Reeves Sanday, Fraternity Gang Rape

Assim como uma boa experiência sexual na vagina leva à alegria e à


criatividade, o inverso também é verdade, devido às mesmas vias neurais: a
vagina traumatizada, abusada ou que é parte da rede neural que está sendo
negligenciada por um parceiro sexual egoísta ou ausente, literalmente não pode
condicionar o cérebro feminino com as substâncias químicas que constituem as
emoções da confiança, coragem, conexão e alegria.
Então, se for para submeter e suprimir as mulheres de forma que não
precisemos trancá-las em uma jaula ou acorrentá-las — de forma que elas
mesmas o façam, que se anulem, que percam a alegria e a intuição, que não
tenham mais prazer, que desconfiem do poder do amor, que pensem nos laços
humanos como frágeis e inconstantes —, nosso alvo será a vagina.
Quando aprendi sobre a conexão incrível da rede neural pélvica com a mente e
emoções das mulheres, não pude deixar de pensar sobre as que conheci, das mais
diversas áreas da vida, que haviam sido terrivelmente lesionadas de formas que
interfeririam nesses circuitos mente-corpo ou os danificariam. Não conseguia
tirar o rosto delas de minha cabeça. Não conseguia esquecer certas coisas que
haviam dito, certos aspectos de suas emoções que eram compartilhados por tantas
delas. Eu me perguntei se havia conexões para as quais ainda somos cegos na
forma como atualmente interpretamos esse tipo de sofrimento. Percebi que as
mulheres que havia conhecido e que haviam sofrido doenças, traumas ou lesões
vaginais, provenientes de diferentes culturas e de idades variadas, frequentemente
tinham em comum certa maneira de se portar; de ficar paradas e de se mover; e
certa expressão nos olhos. Eu ficava ouvindo a expressão “eu me senti como se
estivesse suja — como se algo houvesse se quebrado” ecoando nas palavras de
tantas mulheres que conheci: desde mulheres em um campo de refugiados em
Serra Leoa, muitas das quais sofriam de fístulas vaginais por terem sido
estupradas em atos de guerra, até mulheres chegando a centros de atendimento de
casos de estupro em Edimburgo, Escócia; além de uma moça que conheci em um
café lotado em Chelsea, Manhattan, que sofria de vulvodínia.
Será que estamos deixando passar o significado do trauma vaginal — assim
como estamos deixando passar o significado do prazer sexual feminino — ao
interpretá-lo como “apenas” físico, ou entendendo o trauma de um estupro
erroneamente como “somente” uma reação de estresse pós-traumático? Será que
estamos ignorando o que poderia ser um entendimento muito mais profundo e
delicado do que está sendo lesionado quando a vagina de uma mulher é ferida?
A essa altura, eu já sabia que para as mulheres o nervo pélvico completamente
funcional é crucial para a produção de dopamina, oxitocina e outras substâncias
químicas que aumentam os níveis de percepção, confiança e positividade. Será
que lesões e traumas na vagina e nervos pélvicos poderiam interferir
materialmente na entrega, pelas ramificações neurais, das substâncias químicas
que alimentam o cérebro feminino? E então, outra perspectiva se abriu: Seria esse
o motivo pelo qual a vagina da mulher tem sido alvo de violência milênio após
milênio? Eu não argumentaria que isso tem sido uma tática consciente. Mas
poderia ter sido estabelecida, inconscientemente, através dos milênios, já que é
uma tática efetiva? É muito difícil reprimir e controlar a maioria da população
humana. E se essa tática foi identificada como uma ferramenta eficiente?
Em outras palavras, assim como os homens, ao longo do curso de gerações e
desde o início da história, teriam identificado o que agora entendemos como uma
ligação biológica entre uma mulher forte sexualmente falando e um alto nível de
felicidade, esperança e confiança, será que também não teriam identificado o
efeito da ligação biológica correspondente entre uma mulher sexualmente
traumatizada e sua capacidade diminuída de viver com felicidade, esperança e
confiança?
Quando você passa algum tempo em um centro de atendimento a vítimas de
estupro, como eu fiz, é difícil deixar de se perguntar se os homens são uns
monstros. Por que o estupro é uma constante em todas as sociedades?
Por que a guerra sempre inclui o estupro em massa das mulheres do inimigo?
Por que tantos homens estupram no contexto da guerra? Feministas como Kate
Millett em Sexual Politics (1970), que argumenta que “o estupro em geral é o
resultado do sadismo masculino e do ódio pelas mulheres”, e Susan Brownmiller
em Against Our Will: Men, Women and Rape (1975), que defende que a guerra
transforma os homens em pervertidos para transformá-los em estupradores,
tendem a seguir a leitura individualizada da sexualidade proposta por Freud.
Portanto, tendem a enfatizar o aspecto psicológico do estupro, que leva à
conclusão potencialmente alarmante de que todos os homens como indivíduos são
potenciais sádicos. Mas e se alguns estupros não forem pessoais, mas sim
instrumentais e sistêmicos?
Em 2004, fui a Serra Leoa para investigar a violência sexual em massa que foi
parte da guerra civil brutal que havia assolado o país. O Comitê de Resgate
Internacional me levou ao territ ó rio recentemente tomado pelos rebeldes,
juntamente com outros jornalistas e simpatizantes da causa: ali, encontramos
centenas de mulheres que haviam sido estupradas na guerra e, em visitas
separadas, encontramo-nos com dezenas de estupradores do conflito. Foi essa
viagem que me convenceu de que o modelo ocidental do estupro — no qual este
resulta de uma disfun ção individual, hostilidade ou perversão — não podia ser
usado para justificar a instrumentalidade do estupro na guerra.
Conhecemos as mulheres em diferentes contextos, mas em uma visita fomos a
um centro de refugiados, um complexo cercado — montado no meio de uma
planície barrenta — que abrigava mulheres vítimas de estupro com violência no
conflito recente. Havia uma única árvore, que produzia uma pequena sombra, e
estruturas simples e baixas, feitas de concreto, cercadas por um pátio. Era um
cenário mal-assombrado, digno do purgatório: mulheres caminhavam lentamente,
sem rumo, a perder de vista, e, exceto por um ou dois ajudantes e guardas de
segurança, não havia um único homem adulto no lugar.
As mulheres demonstraram uma coragem incrível. Montaram uma peça para
nós, na qual usaram elementos de uma dança tribal para dramatizar suas emoções.
Uma mulher, fazendo o papel de estuprador, “atacou” outra. A violência crua da
cena foi impressionante.
Depois da encenação, uma médica nos apresentou a várias mulheres. Uma
delas ficou sentada ali, em um silêncio doloroso, enquanto a médica explicava
que ela sofria de uma fístula vaginal resultante da agressão. “A fístula vaginal”,
explicou a médica, “é um rasgo ou punção na parede da vagina que se conecta
com outro órgão, como a vagina, o cólon ou o reto.” Era uma lesão muito comum
na região. Como não havia antibióticos suficientes na cidade da mulher para tratá-
la, a infecção produzira um odor que fizera que o marido a repudiasse. Esse
também foi o destino de várias outras mulheres naquele local, que também
sofriam de fístula vaginal.
Em outro momento, conhecemos uma mulher — na realidade, uma criança de
quinze anos de idade — que havia sido sequestrada na Libéria (15 mil
adolescentes passaram por isso durante o conflito), mantida como escrava sexual
e estuprada repetidamente. Ela conseguiu enganar seu sequestrador e fugir com
seu bebê de um ano (cujo pai era o captor). Havia caminhado pelo mato,
alimentando-se de vermes selvagens, até atravessar a fronteira e chegar ao
complexo do IRC em relativa segurança.
Essas mulheres eram diferentes das outras que conhecemos e que foram vítimas
de amputações, de tiros ou de trabalhos forçados em minas de diamantes. É como
se uma luz houvesse seapagado dentro delas. Foram rejeitadas por suas tribos e
famílias e se moviam em grandes grupos ao redor de montes de terra, como se
estivessem juntas, à deriva. A despeito de sua coragem individual, era como se
um pedaço de suas almas houvesse sido extraído. Em qualquer mulher, essa falta
de vitalidade já seria notável. Mas, quando identificamos isso em toda uma nação
de mulheres à deriva, é impossível ignorar. Elas passaram por algo sistêmico,
algo que é únicodessetipo de trauma e que exterminou nelas qualquer
possibilidade de engajamento, curiosidade ou vontade.
A médica nos explicou exatamente como essas mulheres haviam passado pelas
lesões: haviam sido rasgadas por dentro deliberadamente. Por pontas de
baionetas, objetos pontiagudos, garrafas quebradas ou facas. Dezenas de milhares
de mulheres feridas exatamente da mesma forma. A médica falou dessas lesões
não como atos isolados perpetrados por tarados ocasionais, mas como uma
consequência comum do conflito.
Por que milhares e milhares de soldados em situação de conflito haviam usado
objetos pontiagudos para destruir a vagina de milhares e milhares de mulheres?
Não havia nada a respeito dos estupros dessas mulheres, com as consequentes
lesões, que se parecesse sexual ou mesmo que seguisse uma psicodinâmica.
Acredito, agora, depois do meu maior entendimento do nervo pélvico feminino e
sua relação com a confiança, força de vontade e criatividade nas mulheres, que
essas dezenas de milhares de homens não danificaram as estruturas pélvicas
internas dessas mulheres somente pelo prazer do ato.
Década após década, mulheres na África e em outras regiões de conflito são
brutalizadas exatamente dessa mesma maneira. Foram os comandantes em Serra
Leoa e na República Democrática do Congo que ordenaram esse tipo de
atrocidade e deram a ordem de estupro às tropas. O IRC entrevistou soldados
individualmente, que explicaram que não tiveram opção a não ser seguir as
ordens — sob a pena de serem eles mesmos mortos. Por que um comandante daria
uma ordem assim durante um conflito armado? Será que esses comandantes deram
as ordens às tropas com base em algum tipo de sabedoria popular? Em outras
palavras, será que esses comandantes mandaram que as tropas realizassem
atrocidades, danificando o nervo pélvico feminino, porque séculos de experiência
mostraram que uma consequência desse tipo de violência é que as mulheres que
passam por isso são mais facilmente subjugadas?
Mais tarde, entrevistei outras pessoas que trabalharam com mulheres vítimas
de estupros violentos durante a guerra. Jimmie Briggs, fundador da organização
antiestupro e antiviolência Man Up (Briggs foi nomeado Homem do Ano 2011
pela revista GQ por seu trabalho em favor das mulheres vítimas de estupro na
guerra), viaja frequentemente à República Democrática do Congo, que é como se
fosse um marco zero para essa prática: a ONU estima que 400 mil mulheres foram
[1]
estupradas durante a recente guerra civil no país. Briggs escreveu um livro
sobre o assunto do estupro na guerra: “Há algo diferente a respeito das vítimas de
estupro violento”, disse. “Farei uma declaração sobre isso. Entrevistei pessoas
que sofreram traumas tão severos quanto esse, e o resultado não é o mesmo. Vi a
diferença no resultado entre esse tipo de trauma e outros. É como se a luz
[2]
houvesse desaparecido dos olhos dessas mulheres.”
Em outro campo de refugiados bem diferente, em uma sala com paredes de
concreto pintadas de verde-azulado, onde uma luz branca entra por altas janelas
sem vidro e algumas frases em inglês foram arranhadas em um arremedo de
quadro-negro, fui apresentada a alguns dos estupradores mais brutais de Serra
Leoa: eram garotos de doze, treze e quatorze anos de idade — garotos-soldados.
Estavam em reabilitação no IRC, que trabalhava para educá-los e oferecer-lhes
um abrigo seguro. Os olhos dos meninos eram toldados de dor; seus shorts
rasgados em trapos; as drogas e o terror prejudicaram seu crescimento. Eram
simplesmente crianças, que foram eles próprios raptados e agredidos, forçados a
estuprar sob a mira de uma arma. Essas crianças, que foram jogar futebol em um
campo de terra depois que falamos com eles, obviamente não fizeram o que
fizeram às mulheres por uma patologia perversa. O modelo freudiano de que o
estupro violento é resultado de desvios sexuais individuais simplesmente não
explica o uso sistêmico do estupro violento na guerra.
As feministas radicais veem o estupro simplesmente como uma demonstração
da relação de poder desigual e assumem como seu mote a afirmação de que tem a
ver com poder, e não com sexo. Isso se aproxima mais do que agora creio ser a
verdade, mas ainda deixa passar o principal: se tem só a ver com poder, por que
envolver o sexo? Por que não apenas bater, ameaçar, matar de fome ou aprisionar
uma mulher? Você pode demonstrar seu poder sobre uma mulher de diversas
formas que não incluem o sexo.
Mas, se sua meta é quebrar uma mulher psicologicamente,é muitoeficiente
praticar a violência contra sua vagina. Vai quebrá-la mais rápido e
completamente do que simplesmente batendo nela — por causa da
vulnerabilidade da vagina como mediadora da consciência. A agressão à vagina
fica profundamente impressa no cérebro feminino, condicionando e influenciando
o resto de seu corpo e mente.
O estupro é parte de uma caixa de ferramentas padronizada na implementação
de táticas militares de genocídio. Isso nos permite entender que muitos homens
que estupram — e provavelmente a maioria dos que estupram na guerra — não
fazem isso por uma perversão pessoal. O estupro é uma estratégia de controle
físico e psicológico sobre as mulheres, traumatizando por meio da vagina como
uma forma de imprimir as consequências do trauma no cérebro feminino.
Se entendermos isso, entenderemos que o que acontece à vagina de uma mulher
é bem mais importante, para o melhor ou para o pior, do que percebemos.
Podemos ver que o estupro é um crime muito mais sério do que um “crime
sexual” ou uma forma de “violência” que tenha a duração do crime em si e que
talvez produza um efeito pós-traumático. Deveríamos entender que, ao mesmo
tempo que a cura é possível, ninguém se recupera completamente de um estupro; a
pessoa nunca mais é a mesma. O estupro, se entendido apropriadamente, é muito
mais uma agressão ao cérebro que uma variante violenta do sexo. O estupro, se
entendido apropriadamente, não é direcionado apenas ao órgão sexual feminino,
mas também ao cérebro das mulheres.

O ESTUPRO FICA NO CÉREBRO DAS MULHERES


De acordo com assistentes sociais, terapeutas corporais e médicos que
entrevistei, assim como segundo pesquisas novas e pioneiras sobre trauma, o
estupro pode modificar os sistemas cerebrais e corporais femininos de formas
complexas e duradouras. Mas será necessário um trauma tão violento como o
estupro das mulheres em Serra Leoa para que a vagina chegue a afetar o cérebro?
A pesquisa do dr. Burke Richmond sugere que não.
O dr. Richmond é um neurologista da Universidade de Wisconsin,
especializado em otorrinolaringologia. Ele estuda problemas neurológicos como
tontura crônica, vertigem (a sensação de desequilíbrio) e o tinido (um assobio
crônico nos ouvidos). Também tem um consultório clínico para pacientes, a
maioria mulheres, que sofrem dessas e de outras doenças. Sua pesquisa sobre
distúrbios da percepção já demonstrou que há várias formas em que o estupro ou
o abuso sexual infantil fica impresso no cérebro e corpo femininos.
Conheci o dr. Richmond no verão de 2010, no barco de um amigo em comum.
Os três filhos do médico brincavam agitadamente no deque do barco. Médico
sério, mas espirituoso, na casa dos quarenta, de cabelos escuros e uma expressão
focada, contou-me que um número desproporcional de pacientes que sofriam de
problemas de equilíbrio tinha histórias de estupro e agressão sexual. Os
problemas de equilíbrio, em geral, permaneciam por anos após a agressão. Ele
havia concluído que, mesmo que a relação causal ainda não estivesse provada —
suas evidências ainda eram baseadas em observação —, havia uma incidência
alta o suficiente da correlação entre pacientes com problemas de equilíbrio e
pacientes com um histórico de estupro ou agressão sexual, com uma relevância
significativa e que pedia mais investigação. Fiquei tão impressionada com as
descrições dele sobre o estupro literalmente afetando as capacidades de algumas
das pacientes de “ficar em pé sobre suas próprias pernas”, que conversei com ele
por duas horas, esquecida do brilho do sol e das escarpas acinzentadas no
horizonte distante.
Suas descobertas confirmaram algo que eu havia notado em meus dez anos
dando treinamento de voz — para falar em público e fazer apresentações — no
Instituto Woodhull, uma academia de liderança para mulheres da qual fui
cofundadora. Parte de meu treinamento envolvia ensinar jovens mulheres a ficar
em pé, “dominando seu espaço” enquanto falavam — ou seja, como ocupar
aquele espaço de um metro quadrado em um palco imaginário. Notei várias vezes,
ao longo dos anos, que havia uma minoria de moças que simplesmente não
conseguia se manter sobre suas pernas — elas não conseguiam ficar paradas,
retas, eretas, não interessa o quanto desejassem fazê-lo, continuavam
imperceptivelmente a balançar de um lado para o outro.
Os ombros dessas mesmas mulheres pareciam ceder, com uma ausência de
energia, sob minhas mãos, sem a resistência natural que os ombros das outras
moças apresentavam quando eu ajustava sua postura. Finalmente, esse mesmo
grupo de mulheres tendia a ter uma voz contrita: a tensão na laringe
frequentemente fazia que sua voz fosse aguda e infantil. Quando praticávamos
exercícios de voz para abrir a garganta e o diafragma, duas coisas aconteciam
quase todas as vezes: sua voz se aprofundava para um registro mais natural e
autoritário, e elas explodiam em soluços.
Era frequente que essas moças, depois de chorar profundamente e depois de
passar com sucesso pelos exercícios de oratória com sua “nova” voz e abrir sua
garganta e peito, passassem por uma incrível transformação — um brilho, uma
radiância, uma nova autenticidade e vitalidade, como se houvessem acabado de
entrar “em foco”. Percebi várias vezes que as jovens mulheres que apresentavam
essa constelação de “sintomas” haviam sofrido agressões sexuais na infância ou
adolescência, ou haviam sido estupradas. Notei que esse grupo de sintomas era
muito diferente dos apresentados pelas outras jovens do programa que haviam
sofrido traumas tão severos quanto as outras, mas que não tinham uma natureza
sexual.
Portanto, quando o dr. Richmond partilhou comigo suas conclusões de que,
entre as pacientes que não resistiam a ser “empurradas”, havia uma alta
incidência de agressão sexual ou estupro, fiquei petrificada.
O dr. Richmond me contou que algumas de suas pacientes chegavam com um
sintoma chamado “balanço postural fóbico” — o que significava que balançavam
sob estresse e podiam ser empurradas com muita facilidade. Outras apresentavam
um “distúrbio de conversão da marcha” — sua marcha variava, apesar de não
haver nada de aparentemente errado com a parte física delas. Outras
apresentavam uma “vertigem visual”, ou seja, sentiam-se tontas sem motivo
óbvio. Outro grupo de sintomas que ele encontrou frequentemente relacionado ao
estupro incluía a sensação de cair continuamente e a náusea matinal.
Em um grupo de mulheres que percebi que caíam com facilidade em um teste no qual as empurrava, eu
perguntava se havia um histórico de abuso sexual — e frequentemente havia. Isso é uma tendência: não
faço essa pergunta a todas as minhas pacientes. Ou melhor, não pergunto àquelas que não apresentam
esses sintomas se foram abusadas sexualmente. Mas é efetivo perguntar sobre abuso sexual quando
esses sintomas aparecem, porque isso pode levar ao teste de diagnóstico correto.

— Ou seja, você pode empurrar mulheres que foram vítimas de estupro e abuso
sexual com mais facilidade que outras? — perguntei.
— Sim — dr. Richmond confirmou. — Se eu peço a essas mulheres que fechem
seus olhos e fiquem em pé, pode haver um pequeno balanço. A maior parte das
pessoas não tem nenhum balanço perceptível. Se você empurra de leve uma
pessoa, ela resiste. Ela não dá um passo para o lado ou cai, ou perde o equilíbrio.
Mas essas mulheres, sim. Se você as empurra, elas caem repetidas vezes. Você as
tem que ajudar a não cair. É uma resposta física desproporcional que não é
congruente com seu funcionamento físico. Elas têm força normal, reflexos
normais, funcionamento físico normal e não têm déficit neurológico objetivo —
não há lesões vestibulares ou cerebrais que poderiam causar achados
semelhantes, por exemplo. Essas mulheres não têm evidência física de problemas
neurológicos, mas seu corpo reage como se tivessem um problema neurológico.
Uma vez as instruí a resistir — completou o dr. Richmond sobre suas pacientes
—, e aí eu podia empurrá-las com toda minha força, e elas ficavam sólidas como
uma rocha.
Isso me surpreendeu: quando você diz a uma sobrevivente de estupro que
resista, seu corpo reage de forma diferente.
— Portanto, é aquela coisa entre o corpo e a mente.
— Exatamente, pelo que dá para perceber. Acho que meu papel como médico e
autoridade “permite” que elas resistam. A estabilidade está lá, uma vez que elas
tenham “recebido a permissão” para resistir. Essas são as mesmas pacientes que,
se empurradas, caem com muita facilidade.
Para reafirmar o que o dr. Richmond estava dizendo: as vítimas de estupro são,
algumas vezes, literalmente “desestabilizadas” pelo estupro.
Eu me perguntei sobre a relação entre essa informação e a conexão vagina-
cérebro: será que a agressão à vagina também afetava o cérebro, ou será que essa
era uma impressão não relacionada, mas igualmente intrigante no cérebro,
originada do abuso sexual?
— Não há dúvidas de que, quando o trauma alcança níveis extremos, você
identifica isso no corpo — prosseguiu o dr. Richmond. — Não pergunto a todas
sobre abuso sexual, mas, quando vejo esse padrão e pergunto sobre o abuso, é
impressionante a frequência da resposta positiva. Digo que é uma variável
interativa. Pode haver outras coisas acontecendo, mas essa questão do abuso
sexual precisa ser incorporada ao tratamento se você quiser uma explicação para
o motivo de esses sintomas aparecerem para essa pessoa nesse momento. Elas
têm várias camadas de problemas médicos que se acumulam ao longo do tempo,
de obesidade e enxaquecas a distúrbios de saúde mental.
— Por causa do abuso sexual? — perguntei.
— Sim — respondeu ele.
— Entendo que você está dizendo que não podemos afirmar que apenas uma
coisa é a causa. Mas me parece que está dizendo que o efeito do abuso sexual
sobre o corpo feminino devia ser um campo de estudo.
Dr. Richmond concordou:
— Ninguém entende plenamente os “distúrbios de conversão” — explicou. —
O termo se refere a uma anormalidade física gerada por um estado mental.
A expressão popular para os distúrbios de conversão é hipocondria, ou “está
tudo na sua cabeça”. Em um distúrbio de conversão, a pessoa sofre um sintoma
real, mas a causa aparentemente não é física.
Diz o dr. Richmond:
— Apesar de aparentemente não haver nada de errado com essas pacientes,
precisamos levar a sério o que está acontecendo com essas mulheres. Seus
sintomas podem ser causados por uma anormalidade no cérebro, gerada por
traços anormais na memória ou um circuito neural anormal. Se uma pessoa é
agredida repetidamente, desenvolve toda uma resposta motora comportamental a
essa agressão. Pode ser que, mais tarde, a vítima consiga dissociar passivamente
e sentir: “alguém está fazendo alguma coisa ao corpo de alguém, mas não é ao
meu corpo”.
Segundo o dr. Richmond, uma resposta aprendida a uma agressão pode ser
carregada por toda a vida.
Contei a ele que estava estudando a mutilação no nervo pélvico em vítimas de
estupro violento em Serra Leoa e a interrupção na entrega de dopamina no
cérebro causada pela lesão. Expliquei que queria entender se e como a agressão
sexual à vagina poderia ter um efeito físico no cérebro feminino.
— Eu argumentaria — disse ele — que é o cérebro que afeta o corpo após o
trauma. Você tem a lesão direta ao nervo durante a agressão vaginal, como no
caso de Serra Leoa, mas é o cérebro que afeta todo o sistema depois disso, ou
separadamente do trauma maior. No Ocidente, você encontra esses efeitos nas
mulheres como resultado de trauma sexual de tipos menos óbvios. O
comportamento é uma resposta global: se alguém a está agredindo, seu sistema
visual é afetado; seu sistema auditivo é afetado; são todos integrados, e seu
cérebro está continuamente aprendendo novas reações ao trauma.
Reafirmei:
— Portanto, é acurado dizer que, se alguém agride uma mulher sexualmente,
mesmo que não haja “violência”, há uma agressão física ao cérebro.
— Sim — ele repetiu. — Acho que é justo dizer isso. — Pensou mais um
pouco. — Eu tive uma paciente que teve uma história de abuso sexual na infância.
Como adulta, ela apresentava aversão a certos sons: essa é uma doença chamada
misofonia, uma resposta emocional espontânea a certos sons. Imagine como você
se sente quando alguém arranha um quadro-negro. Para as pessoas com esse
distúrbio, um clique ou o som de alguém mastigando pode se tornar intolerável,
emocionalmente abrasivo. O distúrbio adulto pode ter alguma ligação original
com o abuso sexual que ela sofreu do pai. Ela se lembrava dele em um canto,
fazendo esses sons, e essa era uma memória conectada ao abuso.
Falei a ele, como resposta a isso, do quebra-cabeça que havia me perseguido
por tanto tempo sobre a recuperação de mulheres vítimas de estupro — tantas
mulheres que, por meio da terapia, haviam lidado intensivamente com os efeitos
psicológicos do estupro, que tinham uma boa resposta sexual antes do estupro,
que tinham parceiros amorosos, carinhosos e seguros e que simplesmente não
conseguiam aproveitar o sexo novamente da mesma forma que antes da violação.
— Então — perguntei ao dr. Richmond —, será que essa descalibração do
sistema nervoso autônomo após o trauma sexual pode explicar o que observei em
sobreviventes de estupro — que podem estar tendo problemas com a excitação e
o prazer sexual depois da agressão em parte por causa de mudanças físicas reais
no sistema nervoso autônomo devido a esse trauma?
— Se o estupro ou a agressão sexual pode induzir a uma modificação
permanente no sistema nervoso autônomo? Pode-se dizer que sim. A literatura
confirma isso cada vez mais. Os sistemas de algumas pessoas podem torná-las
mais vulneráveis a isso. Pode ser que algumas mulheres sejam mais resistentes
que outras, alguns homens sejam mais resistentes que outros contra o distúrbio
pós-traumático, em termos de um possível dano ao sistema nervoso autônomo
após o trauma sexual. Mas qualquer que seja sua ênfase, fica claro que, quando as
pessoas passam por experiências extremas fora do normal, essas experiências vão
ter um efeito sobre as populações vulneráveis e vão afetar o sistema nervoso
autônomo.
De fato, outros estudos recentes confirmam que as mulheres que passaram por
estupro ou foram abusadas sexualmente na infância apresentam diferenças
cerebrais mensuráveis fisicamente em comparação com mulheres que não foram
abusadas. Essas diferenças incluem alterações no tamanho e ativação do
[3]
hipocampo e nos níveis de cortisol.
Em outras palavras, quando uma mulher é estuprada (e aí pode ser um homem
também, apesar de que os dados aqui sejam baseados em vítimas femininas), ou
se ela é sexualmente abusada na infância, seu corpo pode ser reprogramado,
possivelmente pelo resto da vida, de formas que vão incutir medo, respostas ao
estresse liberadas com maior facilidade e uma aversão ao risco latente no próprio
tecido neural de suas respostas ao mundo; e isso, como veremos, no caso das
alterações do hipocampo, pode até interromper sua habilidade de processar a
memória recente que ajudaria a fortalecer seu sentido de ser atual.
Para pelo menos uma das pacientes do dr. Richmond houve um sintoma vocal
associado ao trauma sexual. Ele me disse:
— Tenho um caso muito interessante. Parece que essa paciente tinha episódios
de uma “afasia expressiva”: por longos períodos de tempo, ela tinha uma
incapacidade completa de falar. Ela havia sofrido um abuso horrendo antes dos
dois anos de idade — quando estava na fase pré-verbal. A resposta
comportamental e física dessa pessoa a situações de estresse depois de adulta era
[4]
regressar a essa fase pré-verbal.
Um estudo amplo confirmou que muitos problemas de saúde, aparentemente não
relacionados ao estupro original, podem aparecer após um crime sexual: Roni
Caryn Rabin, que escreveu “Aproximadamente uma a cada cinco mulheres na
pesquisa americana declarou que já foi agredidasexualmente” no TheNew Iorque
Times, relata que muitos problemas de saúde podem se seguir ao estupro: a
Pesquisa Nacional de Violência Sexual e Doméstica, apoiada pelo Instituto
Nacional de Justiça e pelo Departamento de Defesa, disse ela, analisou 16.507
adultos. Um terço das mulheres declarou já ter sido vítima de estupro, agressão
física ou assédio moral, ou uma combinação dessas formas de agressão. Nesse
estudo, o estupro foi definido como “a penetração completamente forçada, a
penetração forçada facilitada pelas drogas ou pelo álcool ou a tentativa de
penetração forçada”. Por essa definição, “a cada ano, 1,3 milhão de americanas
podem ser vítimas de estupro ou tentativa de estupro”. (Um a cada 71 homens já
foi estuprado, segundo o mesmo estudo.) “A maioria das mulheres que declararam
ter sido vítimas de violência sexual, estupro ou assédio relatou sintomas de
estresse pós-traumático.”
Outros problemas de saúde surpreendentes e aparentemente não relacionados
também têm relação com a agressão sexual. As vítimas de violência sexual, em
comparação com as outras mulheres, apresentam taxas mais altas de asma,
diabetes, síndrome do intestino irritado, dores de cabeça, dores crônicas,
dificuldades no sono, limitação da mobilidade ou uma saúde frágil em geral, além
de uma maior incidência de problemas de saúde mental. Essa ligação entre a
violência sexual e outros problemas crônicos de saúde em outros sistemas
corporais aparentemente não relacionados à agressão confirma as descobertas de
estudos menores reportados por Lisa James, diretora médica da organização sem
fins lucrativos Futures Without Violence: seus dados também sugerem que mesmo
um único ato de violência sexual pode afetar cronicamente a vítima com
[5]
problemas de saúde aparentemente não relacionados.
Portanto, será que todo estupro tem a ver com agressão sexual ou neurose
masculina? Ou será que a presença constante do estupro também serve para
reprogramar as mulheres em um nível físico muito básico, para serem menos
corajosas, menos seguras, menos robustas em outros campos e para que passem o
resto da vida, potencialmente, com um sentido do ser menos estabilizado?
Logo depois disso, conversei com um guru do Tantra chamado Mike Lousada,
com uma osteopata chamada Katrine Cakuls, li um livro escrito por uma
[6]
especialista em energia chamada Tami Lynn Kent e entrevistei minha própria
ginecologista, dra. Coady. Todos eles descreveram uma constrição na musculatura
da vagina como resposta ao trauma. A dra. Coady identifica o sintoma como
vaginismo. Mike Lousada descreve “nós” na musculatura vaginal de
sobreviventes de estupro. Tami Kent observa que a constrição muscular na vagina
pode causar outros tipos de desequilíbrio no resto do corpo, além de identificar
que ela está presente em mulheres “rígidas” emocionalmente — mulheres que
passaram por escândalos sexuais ou experiências piores no passado.
Katrine Cakuls é osteopata craniana em Manhattan, com treinamento altamente
especializado na abordagem osteopática craniana, que cura mulheres usando,
entre outros tratamentos, um trabalho interno não sexual na vagina. Ela também
está certa de que as emoções afetam a sensibilidade vaginal feminina e o tônus
muscular e podem exacerbar patologias vaginais e de outros tipos. Com base em
sua prática, ela acredita que, quando “libera” a tensão na vagina, possa liberar
outras questões emocionais na mente feminina que podem ter ficado presas,
soltando áreas da criatividade e saúde sexual de mulheres que sofriam de baixa
vitalidade. Tami Lynn Kent, autora dobest-sellercultWild Feminine: Finding
Power, Spirit & Joy in the Female Body, é uma terapeuta corporal que faz
massagem vaginal não sexual. Ela tem um grupo de seguidores no país todo que
compartilham suas crenças e fazem o mesmo trabalho. Sua visão é de que
diferentes quadrantes da vagina contêm diferentes tipos de emoções bloqueadas e
que estas podem ser liberadas por meio de manipulação interna.
Entrevistei clientes de terapeutas corporais especializados em massagem
vaginal não sexual ou ajuste osteopático, e muitos deles disseram que o
tratamento íntimo e anticonvencional havia efetuado curas emocionais marcantes.
Tudo isso, é claro, teria sido considerado à margem de qualquer tratamento
médico formal até muito recentemente. Mas a medicina e a ciência, em alguns
lugares, estão começando a considerar as evidências empíricas dos osteopatas
cranianos e terapeutas corporais. Yoon et al., como veremos, concluíram
recentemente que o estresse e o trauma de fato afetam o próprio funcionamento da
vagina.
Comentei ao dr. Richmond:
— Parece-me que as mulheres que apresentam sintomas que podem resultar de
abuso sexual são dispensadas por profissionais da medicina como histéricas
quando não há causa física — ou transformadas em casos de loucura patológica
pelos psiquiatras.
— Muitas mulheres diriam isso — ele respondeu. — As mulheres não querem
ouvir dos seus médicos: “está tudo na sua cabeça”, e, da mesma forma, muitas têm
medo de ir ao psiquiatra, pois não querem ser tachadas de loucas devido aos seus
sintomas, quando sabem muito bem que não são. Como o campo crescente da
neuropsicoimunologia demonstra, a conexão mente-corpo é muito real. A ciência
agora está desenvolvendo ferramentas para objetivamente demonstrar essas
mudanças e refletir o nosso maior entendimento das respostas complexas entre
cérebro e corpo: as formas funcionais como as memórias são estabelecidas e as
respostas físicas que acompanham. — E concluiu: — Para mim, é fácil falar:
“Está tudo na sua cabeça”. Ou seja, tudo o que é neurológico é real, e pode estar
tudo na sua cabeça.
O que o dr. Richmond estava concluindo por meio de sua experiência tem sido
documentado em estudos recentes. Há cada vez mais evidências, apesar de
preliminares, de que o estupro e o trauma sexual na infância podem de fato “ficar
no corpo” — até mesmo permanecer na vagina — e modificá-lo no nível mais
íntimo e sistêmico. A recuperação é possível, mas o tratamento deve ser
especializado. O estupro e o trauma sexual infantil podem modificar
permanentemente o sistema nervoso simpático — tão crucial para a excitação
sexual feminina. E se a mulher não tem acesso ao tratamento correto, pode afetar
sua respiração, os batimentos cardíacos, sua pressão sanguínea e suas reações
instantâneas de uma forma que não está em seu controle consciente.
Pelo menos um grande estudo realizado em 2006 confirma que um histórico de
abuso sexual não apenas desregula o sistema nervoso simpático — criando, como
o dr. Richmond viu, uma “linha basal” mais elevada para a ativação do SNS em
mulheres sexualmente traumatizadas —, mas também pode levar a vagina a reagir
diferentemente — menos efetivamente, com menor intumescimento — no
exercício e até mesmo na visualização de material erótico nas mulheres
estudadas.
As pesquisadoras Alessandra Rellini e Cindy Meston, quando estavam no
departamento de psicologia da Universidade do Texas, confirmaram que o trauma
sexual na infância pode realmente afetar e danificar não apenas a psicologia, mas
também a fisiologia da vagina — e da excitação sexual feminina — anos após o
[7]
trauma. Checaram os níveis de cortisol da saliva de mulheres, elevaram as
reações de seu SNS por meio de exercícios e mostraram a elas vídeos eróticos.
Mediram o “pulso vaginal” das mulheres — a facilidade de seu intumescimento
vaginal — por meio da força do fluxo sanguíneo na região.
Rellini e Meston encontraram diferenças significativas nas medidas de pulso
vaginal nas mulheres que passaram por abuso sexual traumático em seu histórico,
comparado com as que nunca sofreram abuso.
Rellini e Meston, como o dr. Richmond, encontraram atividade excessiva na
linha basal do SNS em mulheres que sofreram trauma por abuso sexual. Esse SNS
desregulado, confirmaram, afeta a vida sexual das mulheres posteriormente, já
que um SNS equilibrado (e não excessivamente ativado) é crítico para a
excitação feminina. As autoras concluíram que mulheres com histórico de abuso
sexual apresentam uma atividade aumentada na linha basal do SNS, confirmando
o trabalho de outros pesquisadores.
Em outras palavras, as mulheres podem ficar sexualmente excitadas com maior
facilidade quando o SNS está funcionando bem; e o trauma do estupro ou abuso
infantil parece interferir no equilíbrio do SNS em várias mulheres. (É interessante
analisar esses dados por vários motivos: o corpo de mulheres estupradas não
reage da mesma forma a exercícios. Há uma notável diferença de peso entre as
mulheres estudadas que sofreram abuso e as que não sofreram. As mulheres que
sofreram abuso e estresse pós-traumático são em média quinze quilos mais
pesadas que o grupo de controle. Essa diferença poderia certamente ser explicada
por vários fatores, mas isso requer mais investigação.)
As autoras chamam a atenção para o fato de que não há muita pesquisa sobre o
efeito de trauma sexual sobre os relacionamentos das mulheres e que a pesquisa
que existe tende a se focar em tratamentos cognitivos em vez de investigar a
biologia do trauma.
A despeito do impacto detrimentoso do distúrbio de estresse pós-traumático nos relacionamentos das
mulheres, apenas poucos tratamentos foram desenvolvidos para os casais que sofrem com problemas
[8]
vividos pelas sobreviventes de abuso sexual infantil com distúrbio pós-traumático.
Poucas terapias abordam a disfunção sexual experimentada por essa
[9]
população.
As pesquisadoras fornecem mais explicações para suas descobertas:
Estudos conduzidos em mulheres com um histórico de [abuso sexual infantil e distúrbio de estresse pós-
traumático] apresentam atividade aumentada no sistema nervoso simpático em sua linha basal. Durante
uma experiência estressante, o SNS é ativado e libera catecolaminas, tais como a noradrenalina, que
[10]
aumenta a disponibilidade de glicose, o batimento cardíaco e a pressão sanguínea.
Após um estressor não traumático, o corpo retorna a seu estado original. Entretanto, após um trauma, a
homeostase do indivíduo é frequentemente alterada, e isso é associado com o desenvolvimento do
distúrbio pós-traumático. A literatura sobre veteranos e adultos sobreviventes de maus-tratos na infância
mostra que os níveis basais de atividade do SNS são mais altos em sobreviventes de trauma com
[11]
distúrbio pós-traumático que no grupo de controle de mulheres saudáveis.

Todos nós já vimos filmes sobre veteranos de guerra que se assustam ao ponto
de sentir o coração disparar e hiperventilar com o mero estouro de um
escapamento. De acordo com esse estudo, as sobreviventes de trauma e abuso
sexual infantil apresentam o mesmo tipo de desequilíbrio geral e crônico do
sistema responsável pela respiração, batimento cardíaco e pressão sanguínea:
“Danos ao eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) também são encontrados em mulheres com
distúrbio de estresse pós-traumático; estes incluem altos níveis de hormônio adrenocorticotrófico
(ACTH), níveis reduzidos de cortisol e uma regulagem baixa dos receptores de glicocorticoide (…)
Níveis baixos de cortisol podem levar à atividade excessiva do SNS, que pode causar um alto gasto
[12]
energético e ajuste mal-adaptado aos estressores subsequentes.

Esse pode ser o mesmo desequilíbrio e hiperativação à qual se referia o dr.


Richmond. Ele e outros já ligaram a ativação elevada do SNS a vários problemas
de saúde aparentemente não relacionados ao trauma sexual original, de vertigem e
problemas com controle motor a baixo processamento visual, pressão alta e
respostas instantâneas elevadas. Tradução: as mulheres que passaram por traumas
sexuais passam por modificações cerebrais que danificam o sistema corporal que
regula a reação ao estresse.
Como isso se relaciona com a resposta sexual feminina prejudicada ao longo
do tempo, resultante do trauma sexual? “Estima-se que o SNS tenha um papel
fundamental nos estágios iniciais da excitação sexual feminina”, enfatizam as
autoras.
“Um estudo adicional, conduzido por Meston e Gorzalka em 1996, apoia a
ideia de que pode haver um nível ótimo para a atividade do SNS na facilitação da
excitação sexual e que muita ou pouca atividade do SNS pode ter um impacto
negativo sobre as reações sexuais fisiológicas ”, apontam elas. Em outras
palavras, as mulheres têm que ter um nível equilibrado de atividade do SNS para
se sentir excitadas. Sentir-se apavorada, aterrorizada ou ameaçada
frequentemente prejudica a resposta sexual feminina. Já que os níveis de
atividade do SNS aumentam naturalmente durante o sexo, a hipótese desse estudo
é que para as mulheres traumatizadas, cuja linha basal do SNS é elevada, o sexo
desequilibra o funcionamento do SNS e prejudica a excitação. As autoras
sugerem isso em linguagem científica:
É concebível que, quando mulheres com distúrbio pós-traumático se engajam em comportamento sexual,
suas linhas basais do SNS se tornem excessivamente ativadas (…) Isso pode ter um impacto negativo
em suas respostas sexuais fisiológicas. Hipoteticamente, isso poderia explicar a alta incidência de
dificuldade de chegar à excitação sexual notada em mulheres com um histórico de abuso sexual infantil
[13]
e distúrbio de estresse pós-traumático.
O estudo buscou investigar essa hipótese — e as autoras concluíram que suas
descobertas confirmaram que ela é verdadeira.
Portanto, o trauma do estupro ou do abuso sexual infantil pode levar a um
desequilíbrio do sistema nervoso simpático, que, por sua vez, leva a uma
incapacidade ou deficiência física da vagina de intumescer com sangue mediante
a visualização de material erótico — mesmo que essa excitação esteja
acontecendo muitos anos após o ataque original. Em outras palavras, o trauma do
estupro e do abuso sexual infantil pode, de fato, prejudicar o funcionamento da
vagina. Pode impedi-la de intumescer para o sexo muitos anos depois. Pode afetar
o sistema que, no corpo masculino, permitiria que um homem chegasse à ereção
em diferentes graus.
O estupro e o trauma sexual podem quebrar o delicado equilíbrio físico que dá
suporte ao sistema psicológico da excitação feminina. Parece que o efeito
retardado do trauma sexual pode desregular a fisiologia da excitação sexual —
deixando de lado a psicologia do evento e seus muitos efeitos emocionais.
O estupro tende a ser entendido, até mesmo por promotores de justiça — caso
não haja arma envolvida, nenhuma outra agressão física, nenhum sangue e nenhum
ferimento visível —, como se fosse “apenas” sexo forçado, em vez de um ato
altamente violento que resulta em danos físicos de longa duração. Mas a nova
ciência mostra que o “mero” medo e a “mera” violação, quando impostos à vítima
por meio de uma agressão sexual “não violenta”, até mesmo em um estupro
durante um encontro, podem deixar impressões e lesionar o cérebro e o corpo
feminino de forma mensurável e duradoura. De fato, a dra. Coady acredita que o
abuso e a agressão sexual possam afetar a experiência da dor física mais tarde,
durante a vida da mulher, e novos dados correlacionam o trauma sexual à
percepção de dor crônica aparentemente não relacionada em alguns casos — ou
seja, se você é estuprada ou sofre abuso sexual infantil e mais tarde na vida sofre
uma enfermidade “não relacionada”, sentirá mais dor que as mulheres no grupo de
controle sem isso no histórico. Ela acredita tanto nesse resultado potencial do
estupro que diz que “poderíamos substituir a palavra ‘estupro’ por ‘dor’”.
Com certeza, essa nova ciência nos levará a oferecer algum tipo de apoio às
vítimas de estupro que vá além do aconselhamento verbal, emocional. Talvez nos
leve ao desenvolvimento de práticas padronizadas para o tratamento de vítimas
de estupro “sem violência”, incluindo terapia com profissionais especializados
em transtorno do estresse pós-traumático e em tratamentos
comportamentais/neurológicos, como os usados no Hospital Bellevue na cidade
de Nova Iorque, para ajudar o SNS e o cérebro a se recuperar fisicamente. Outra
possibilidade é a de que os processos civis impetrados por vítimas de traumas
sexuais passem a utilizar evidências de questões médicas tardias ou testes de
reações ao estresse para exigir indenizações de estupradores em casos em que os
tribunais não conseguiram o ressarcimento adequado. Esse trauma e suas
consequências físicas podem ser tratados — mas isso exige um tratamento que
incorpore a ciência do transtorno do estresse pós-traumático.
Se vistos dessa forma e com essas evidências significativas, o estupro e o
abuso sexual, com o consequente trauma, devem ser entendidos não apenas como
uma forma de sexo forçado, mas também como uma forma de lesão ao cérebro, ao
corpo e até como uma variante da castração.

A VULVODÍNIA E O DESESPERO EXISTENCIAL

Para que minha tese se tornasse mais sólida, eu precisava de um grupo de


controle. Obviamente, seria antiético danificar o nervo pélvico de mulheres ou
interferir em seus orgasmos deliberadamente para ver o que acontece com o
cérebro feminino quando as substâncias químicas adequadas não chegam a ele
pela rede neural pélvica. Estudos assim não existem. Portanto, é preciso estudar o
que acontece com as mulheres que sofreram danos a esse sistema mente-corpo por
uma doença, ou que passaram pelo trauma de um estupro. Veríamos alterações nos
níveis de confiança, criatividade, senso de conexão e esperança dessas mulheres
que eu queria investigar? Fazia sentido ter uma conversa com Nancy Fish. Nancy
sabe tudo sobre o trauma à vagina, tanto como paciente quanto como terapeuta de
vítimas de vulvodínia — que significa “dor vaginal” — e dano ao nervo pélvico.
Ela é terapeuta na SoHo Obstetrics and Gynechology, a clínica da dra. Deborah
Coady, a mais avançada em vulvodínia nos Estados Unidos. Nancy lidera o grupo
de apoio a pacientes de vulvodínia na clínica e é coautora, junto com a dra.
Coady, do livro Healing Painful Sex.
A vulvodínia é, em geral, uma doença mal compreendida que afeta, em algum
momento da vida, um número chocante de mulheres — 16% de todas as mulheres,
segundo a pesquisa da dra. Coady e de Nancy Fish. (Uma pesquisa da Newsweek
revelou que entre 8% e 23% das mulheres relatam elas mesmas sofrerem dores
sexuais, e, portanto, os números da dra. Coady e Nancy Fish, que a princípio me
pareceram exagerados, são uma média confirmada.)
Quando uma mulher sofre de vulvodínia, isso significa que alguma coisa está
inflamando ou irritando uma parte de sua rede neural pélvica, causando dor na
vulva, na vagina e até no clitóris, o que leva a um sexo doloroso. Eu sabia, depois
de entrevistar várias mulheres que sofrem de vulvodínia, que elas tinham aquela
mesma qualidade de “uma luz apagada do olhar” todas as vezes que sua doença
piorava e que imediatamente sua radiância retornava quando melhoravam. É claro
que essa é uma observação empírica e não científica, e é claro que ficam
deprimidas por razões claras quando estão sofrendo. Mas eu precisava saber:
será que sua depressão se devia principalmente à própria dor e à consequente
miséria de não ser capaz de ter uma intimidade sexual normal? Ou será que
envolvia também esse grande desequilíbrio neural do loop de feedback entre
cérebro e vagina?
Em uma manhã de maio de 2011, eu me sentei na varanda de minha casa com
Nancy Fish e a entrevistei. Enquanto falávamos, sua voz era baixa — ela própria
estava se recuperando de uma cirurgia de liberação do nervo pélvico pinçado —,
mas ela afinal conseguiu elevar a voz além do nível que sua energia permitia para
responder a todas as perguntas.
Terapeuta treinada na Universidade de Columbia, Nancy Fish tem sua clínica
no condado de Bergen, Nova Jersey, trabalhando com mulheres com vulvodínia,
além de seu trabalho na clínica do SoHo.
— Vejo mulheres jovens, mais velhas, solteiras, casadas, heterossexuais,
bissexuais, de todas as áreas da vida — ela explicou. — Há tal diversidade em
minha clínica, que é uma forma de saber que essa é uma doença médica e não
psicológica.
Nancy fala abertamente do fato de que ela mesma sofreu essa doença por
muitos anos.
Nancy explicou que a vulvodínia é mais uma das consequências do nervo
pélvico pinçado, mas, em vez de causar uma ausência de sensações, a mulher com
vulvodínia experimenta dor. Contei a ela sobre minha teoria de que o nervo
pudendo ajuda a transmitir sentimentos de bem-estar ao cérebro feminino, e assim
a vagina media o senso que a mulher tem de seu próprio ser.
— Será que isso faz sentido, pela sua experiência? Ou é uma teoria louca? —
perguntei.
— Ah, não — ela disse —, isso é inteiramente normal. Sempre que há um
problema na região vulvovaginal, isso afeta todo o sentido do ser. Muitas
mulheres se sentem loucas por achar que todo seu sentido de ser está envolvido
com a vagina, mas digo a elas que não estão. Sentir dor ou desconforto nessa
parte de seu corpo não é como ter dor em qualquer outro lugar. As pessoas falam
a respeito de dor ciática ou enxaqueca e se sentem muito à vontade falando sobre
isso. Mas a maioria das mulheres tem vergonha de falar de dor nessa parte do
corpo. Então, além de você andar por aí com essa dor horrível, não pode falar
sobre o assunto.
— Imagino que a dor vulvovaginal tenha sido “lida” como psicológica nas
últimas décadas.
Nancy concordou:
— O que as mulheres sempre dizem é que é uma coisa da cabeça delas. A
ansiedade e a depressão certamente pioram a dor. Mas jamais encontramos uma
[14]
mulher cujas causas da dor fossem psicológicas. São sempre físicas. A maior
parte dos médicos não tem ideia do que há de errado com essas mulheres. Uma
paciente vai a uma média de sete médicos antes de ter um diagnóstico acurado e
frequentemente ouve as coisas mais estranhas. Fui a uma médica louca que
trabalha nessa área e que se considera uma verdadeira especialista. Ela me disse
que eu tinha uma deficiência severa de vitamina D — ela jamais me examinou
internamente! Jamais mencionou o assoalho pélvico! E ela ainda clinica — apesar
de eu ter aberto um processo contra ela no Conselho de Medicina.
Eu me perguntei se essa ligação tão forte entre o sentido do ser e o bem-estar
da vagina seria evolucionária ou neurobiológica. Já ouvi tantas mulheres de tantas
culturas e classes econômicas diferentes dizerem que se sentem um “lixo” quando
passam por um trauma ou agressão à vagina.
Fui além:
— Com que frequência você ouve a expressão “Eu me sinto um lixo” de suas
pacientes?
— Praticamente de todas as pacientes que vejo — ela respondeu. — É quase
impossível não dizer isso, acho, em certo ponto.
— Sinto — especulei — que há um sentimento de ter a vagina intacta,
saudável, que tem a ver com o âmago de ser feminino. Será que isso é loucura?
— Não — ela me garantiu. — Quando seu pé dói, você pode se sentir
deprimida; mas isso não afeta seu sentido do ser como quando sua vagina é
machucada ou dói.
— Muitas das suas pacientes se sentem deprimidas? — perguntei.
Estava imaginando se a vagina que não está funcionando bem neurologicamente
não leva dopamina ao cérebro das pacientes, o que seria justificado.
— Todas elas se sentem deprimidas. Todastêm depressão — ela enfatizou.
— Você acha que o dano ao nervo na vagina pode ser a causa fisiológica da
depressão? — continuei.
— Quando há dor na vagina, todo seu sistema nervoso central é afetado. Tenho
certeza de que há processos biológicos acontecendo.
— Como essa depressão se manifesta em suas pacientes?
— É como se dissessem: “Por que comigo? Eu sou uma boa pessoa”.
— É uma depressão existencial — comentei.
— Sim. Já vi jovens cuja vida foi destruída. Pode acontecer de um momento
para o outro. Vão da normalidade à dor severa. Tive uma paciente — continuou
—, uma executiva. Um dia antes de embarcar em uma viagem de negócios para a
Índia, ela apareceu com uma horrível dor clitoridiana. Seu nervo pudendo
inflamou. Ela foi para a Índia desse jeito e passou o tempo todo morrendo de dor.
Tentou comparecer a todas as reuniões. No hotel, ela punha um saco de gelo entre
as pernas e começava a beber. Ela disse que, se tivesse que passar o resto da vida
assim, se mataria. A maior parte das minhas pacientes tem ideias suicidas.
— Você está me dizendo — confirmei — que isso é diferente de pacientes que
têm uma dor igualmente severa em outros lugares? Há outra coisa específica
sobre a dor na vagina que faria que essas mulheres quisessem se matar?
— A incapacidade de ter uma intimidade normal torna tudo mais desesperador,
apesar de eu já ter conhecido homens incríveis, que dão muito apoio.
— E como é para as mulheres que nunca foram capazes de usar sua vagina de
forma saudável?
— Não se sentem completas.
— De uma forma diferente que uma pessoa amputada? — continuei a
reformular a pergunta porque queria ter certeza de que estava isolando a dor
vaginal da dor física em geral.
— Sim — ela afirmou. — Enquanto estava passando pela vulvodínia, passei
também por uma mastectomia lateral. Foi muito fácil em comparação à
vulvodínia. Eu me sentia feia, como se meu marido não quisesse me tocar. A certa
altura, disse [ao meu marido]: “Por que você não sai por aí e arruma uma
amante?”. Eu me sentia tão mal por ele não poder ter uma penetração típica.
Minhas clientes me contaram que já disseram a mesma coisa a seus parceiros. As
mulheres acham que seus parceiros vão deixá-las. Elas não se sentem mulheres
completas.
Perguntei a ela se havia alguma mensagem a respeito da vagina que ela
quisesse passar às mulheres que leriam a entrevista.
— As mulheres têm tão pouco entendimento do próprio corpo — porque a
ciência deixa a desejar, é o que estou descobrindo — ela disse. — A ciência
deixa a desejar. Se as pessoas tivessem um melhor entendimento da biologia das
mulheres, essa área seria menos estigmatizada.
— Você está dizendo que a ciência moderna não é distribuída amplamente o
suficiente para que as mulheres entendam sua vagina, vulva e pelve, e, portanto,
as mulheres não entendem a si mesmas?
— Sim — disse Nancy.
— Portanto, a ciência ainda está na idade das trevas em relação à vagina, e as
mulheres também?
— Sim. Estamos enfiados na idade das trevas em termos de cuidados médicos
e entendimento na área da vagina.
— Eu nem sabia que tinha um nervo pudendo — comentei.
— Ah, meu Deus! Quando eu digo “nervo pudendo”, ninguém sabe do que estou
falando. Nem as pessoas da área médica sabem do que estou falando! As
mulheres precisam ficar mais à vontade com sua vagina. Quando as mulheres
começaram a ir ver a dra. Coady, ninguém havia ouvido falar do nervo pudendo,
não sabiam o que eram os músculos do assoalho pélvico, quais eram suas
conexões com a vagina e como isso pode afetar sua vida sexual. Algumas
mulheres não sabem nem onde ficam os lábios da vagina, ou o clitóris. Deb
sempre dá a elas um espelho.
— O que acontece quando as mulheres são curadas e podem usar sua vagina
normalmente de novo? — perguntei.
— Leva tempo — ela respondeu. — Algumas mulheres sempre terão algumas
precauções com a região.
Nancy explicou que algumas das suas clientes diziam que, mesmo depois de
recuperadas, se sentiam como se “sua sexualidade houvesse sido amputada”.
— Elas têm ansiedade — ela continuou. — Têm uma hipervigilância a respeito
de tudo que fazem.
— Então, a experiência da dor ou do trauma na vagina, mesmo depois de
encerrada , deixa algumas cicatrizes psicológicas nas mulheres, ansiedade,
hipervigilância, um sentimento de amputação de um aspecto-chave de seu ser, que
são difíceis de ignorar, mesmo depois que a vagina já esteja “melhor”? —
perguntei.
Pensei de novo em todas aquelas mulheres em Serra Leoa movendo-se como
fantasmas em um acampamento fantasma. Pensei em todas as mulheres que
conheci no Leste Europeu ou nos Estados Unidos, que haviam sido estupradas e
que ainda andavam por aí “sem a luz no olhar”, como diria Jimmie Briggs.
Perguntei a ela se suas pacientes relatavam alguma diminuição no entusiasmo,
excitação ou criatividade quando a vagina delas estava tão — na falta de um
termo melhor — desesperada.
— Ah, sim — ela confirmou com um ar de certeza. — Tudo, tudo fica sem
relevo: os sentimentos a respeito do trabalho, dos amigos, dos parceiros, dos
familiares. A percepção delas muda por causa da forma como se sentem a
respeito delas mesmas. Começam a se sentir lesionadas e projetam isso em todo o
resto. Sem dúvida, o que elas relatam é o desespero: desamparo e falta de
esperança.
— Será que alguém fala em perda de criatividade junto com a lesão vaginal?
Você experimentou uma perda de criatividade? — perguntei.
— Quando estou nos piores dias, sim, tudo fica prejudicado — ela disse com
tristeza. — Eu me sinto menos criativa em tudo: nas interações com as crianças,
com amigos.
— E será que as pessoas recuperam a criatividade e a esperança quando
melhoram? — pressionei.
— Sim, recuperam — disse ela pensativamente. — Como qualquer outra
perda, o trauma permanece com você em algum nível, mesmo depois que melhora.
Mas a esperança, a criatividade, a confiança, elas voltam. Quando as mulheres
começam a se curar, elas começam a, mais uma vez, apreciar as coisas em um
nível mais profundo. — Ficou silenciosa, pensando. — Esperan ça, criatividade,
confiança… — disse quase que para si mesma e ponderou mais uma vez. — Suas
emoções são muito diferentes — confirmou finalmente. — Elas começam a se
sentir como pessoas completas de novo, não como um lixo. Será que parecem
mais entusiasmadas, mais esperançosas? — ela perguntou de novo a si mesma,
conectando minhas perguntas, que eram novas para ela, assim como para mim, à
experiência clínica dela. — Sim, definitivamente — disse depois de uma longa
pausa. — Podem ter relações sexuais de novo. Sua confiança retorna. E quando
recuperam a sensação de serem seres humanos intactos de novo, recuperam um
sentido de significado mais profundo. Coisas que pareciam insignificantes antes,
enquanto sofriam, voltam a ser significativas: as boas coisas, um sentido de
conexão com a família e os amigos.
— E esse sentido de conexão com a família e os amigos se perde ou é
prejudicado quando estão em sofrimento vaginal? — repeti.
— Sim, desaparece.
— O que estou tentando identificar é se sua experiência clínica confirma o que
agora é apenas uma intuição para mim, com alguns aspectos científicos apontando
nessa direção.
— Definitivamente, penso que, com base em minha experiência clínica, o que
você está dizendo é válido, muito válido — ela disse. — Um dos tratamentos
para dor crônica é o ISRS. É claro que sua noradrenalina e serotonina são
afetadas pela dor. Se essa química não está funcionando apropriadamente, isso
provavelmente vai afetar seu humor. Psicologicamente, quimicamente.
Definitivamente, há uma alteração química quando há qualquer tipo de problema
na região da vagina ou vulva. Tem que haver uma alteração química no cérebro
feminino. Tudo está conectado. Você pode ter dor lá, então, pode ter dor no nervo
periférico, e isso pode afetar o sistema de dor no sistema nervoso central. Há
toda uma conexão entre mente e corpo — como um círculo vicioso.
— Seu cérebro está conectado à sua vagina — reafirmei, feliz por ela ter
confirmado, de seu ponto de vista muito mais profundo, a possível conexão que eu
estava investigando.
— Definitivamente sim — ela disse.
— Então, vou dar um salto maior agora — disse eu. — Há países em que todas
as mulheres são colocadas em situações de dor vulvovaginal sistematicamente,
por meio de mutilação genital feminina, o que inclui clitorectomia e infibulação.
Você diria, com base em sua experiência clínica, que isso poria essas mulheres
em um estado de permanente perda de emoções, anedonia (baixa capacidade de
experimentar prazer em geral) e depressão?
— Não vejo como isso possa deixar de acontecer. Tem que haver um dano
permanente ao nervo pélvico. Tem que haver dano psicológico quando alguém
amputa essa parte de seu corpo [Nancy estava usando uma metáfora. O nervo
pélvico fica, na verdade, severamente lesionado]: as mesmas coisas que vejo,
imagino. Desespero e falta de esperança.
— É uma hipótese razoável? — perguntei.
[15]
— Oh, sim, é razoável.
— Se eu puder demonstrar as implicações da ligação cérebro-vagina — refleti
—, bem, isso parece explicar coisas que foram feitas à vagina ao longo da
história e que de outra forma seriam muito estranhas.
O nervo pélvico da vagina — ao qual estou me referindo também como “nervo
pudendo” —, em contraste com o nervo pélvico que termina na próstata, reto e
pênis masculinos, é terrivelmente vulnerável fisicamente. Pode ser lesionado ou
irritado no parto, na episiotomia e de outras formas menos dramáticas. O sistema
neural pélvico da mulher é tão delicadamente exposto ao ambiente, tão pouco
protegido pelas finas membranas vaginais que, em alguns casos, simplesmente por
se sentar por tempo de mais na posição errada, colocando pressão sobre o nervo,
pode haver uma lesão permanente nele. A dra. Coady descobriu que muitas
mulheres estão sofrendo lesões severas ou permanentes simplesmente pelos
alongamentos de perna na ioga e em aulas de dança.
Por causa da diferença na anatomia pélvica feminina e masculina, o nervo
pélvico da mulher é muito mais facilmente atacado e lesionado intencionalmente
do que o masculino. Você teria que literalmente perfurar um homem pelo períneo
para obter o mesmo tipo de dano ao nervo pélvico que acontece durante um
estupro violento ou lesão sexual a uma mulher.
O homem sofreria uma interrupção na alimentação de hormônios do tipo
opioides ao cérebro caso passasse por uma lesão em seu nervo pélvico,
obviamente. E essas lesões de fato acontecem, especialmente em populações
carcerárias, nas quais, é importante dizer, o estupro violento masculino é uma
prática comum e aceita pelas autoridades e nas quais a passividade dos detentos é
valorizada. Mas esse tipo de lesão em homens, por causa da anatomia pélvica
mais bem defendida, é muito mais raro.
Será que esse entendimento sobre a forma como o nervo pélvico afeta o
cérebro feminino muda nosso entendimento do que é o estupro? Deveria. Na
guerra, repetidas vezes ao longo do tempo, as mulheres sofrem a inserção de
objetos pontiagudos, garrafas e baionetas em sua vagina. Os estupros coletivos as
rasgam no lugar onde estaria a próstata no homem, entre a vagina e o ânus — duas
ou três terminações do nervo pélvico. Em diferentes culturas, a clitorectomia
também é praticada — cortando e lesionando a terminação final do nervo pélvico
feminino.
Por tempo de mais, isso foi considerado um crime sexual. Na realidade, é uma
técnica.

O ESTUPRO FICA NA VAGINA

Mike Lousada é o ex-banqueiro de investimentos mais bacana do mundo, que


acabou se dedicando à cura de questões sexuais. Sua missão, segundo ele, é a
cura sexual das mulheres, e ele tem treinamento tanto como terapeuta quanto como
praticante de Tantra. Tem uma clínica renomada em Chalk Farm, Londres, onde já
curou ou aumentou as respostas sexuais de centenas de mulheres por meio de uma
combinação de olhar e toque tântrico com massagem orgástica yoni. (Yoni é a
palavra hindu para “vagina” — significa “local sagrado”.) Lousada faz parte do
crescente número de praticantes de várias disciplinas que trabalham com a
certeza de que a vagina media as emoções e pensamentos femininos. A taxa de
sucesso obtida por ele é tão consistente, que começou a ser convidado, na
Inglaterra e internacionalmente, a frequentar painéis de especialistas médicos que
trabalham com baixo desejo sexual e disfunções sexuais nas mulheres. O dr. Barry
Komisaruk, que pesquisa o orgasmo feminino em máquinas de ressonância
magnética em Rutgers, entrou em contato com ele para estudar sua prática.
Do lado de fora de uma pequena biblioteca no prédio medieval da faculdade,
falei no Skype com o homem que eu estava começando a considerar como
conselheiro para todas as horas em todas as questões relacionadas à yoni .
Conheci Mike um ano antes, quando o entrevistei para um jornal londrino sobre
seu trabalho com massagem yoni, e queria perguntar qual era seu ponto de vista a
respeito do que o dr. Richmond havia me relatado e sobre as questões que
apareceram em relatórios recentes sobre os efeitos do estupro no corpo feminino.
Será que o trauma sexual permanece na vagina de forma física, segundo a
experiência dele? Ele já trabalhou de forma tão íntima com a vagina de tantas
mulheres, muitas das quais haviam experimentado alguma forma de trauma. O que
ele diria?
Estava sentada em uma protuberância baixa que fazia parte da parede no limite
do campo no centro da faculdade. Era o início de junho: rosas carmim
perfumavam o ar, soltando pétalas ao longo do caminho que levava à pequena
biblioteca de pedra. Cerejas ainda pálidas penduravam-se dos galhos de uma
árvore maciça no canto do campo. Essas não eram as cerejas escuras a que eu
estava acostumada nos Estados Unidos, mas cerejas rosadas dignas de
Shakespeare — uma metáfora comum na poesia elisabetana para bochechas ou
lábios adoráveis e para outros aspectos deliciosos das mulheres em geral.
Era a segunda vez que eu conversava com um guru da vagina naquele dia, e
ainda não era nem hora do almoço.
Mais cedo, naquela manhã, havia estudado em outra biblioteca. Na
universidade onde estava trabalhando, hordas de estudantes focavam-se
silenciosamente na análise de Swinburne ou Lawrence. Enquanto tentava abrir um
documento em meu laptop , havia inadvertidamente pressionado o botão play de
um arquivo de som com a entrevista que havia feito com Charles Muir, o guru
tântrico americano. Charles era o homem que alegava ter trazido a consciência do
“ponto sagrado” para as mulheres nos Estados Unidos, nos anos 1970. De
repente, no silêncio da biblioteca, uma voz ressoante com o sotaque do Queens
saiu de meu computador: “Há trilhões de células em uma ejaculação. O homem
típico ejacula com tanta força, que…”. Fileiras de rostos curiosos se viraram em
minha direção simultaneamente. Tentei desesperadamente pressionar o botão stop
, clicando freneticamente no mouse do computador, mas a cadência confiante de
Muir ficava cada vez mais alta: “E todas as vezes que ele ejacula…”. Finalmente,
agarrei meu computador e, rubra, levei comigo a voz de Charles Muir pelas
portas duplas que saíam da biblioteca.
Agora era a voz de Mike Lousada, mais suave e com sotaque londrino, que era
transmitida pelo computador, enquanto perguntava a ele se já havia visto, em sua
experiência, algum marcador físico do trauma sexual em suas clientes. O dr.
Richmond e outros já haviam demonstrado como o trauma vaginal pode deixar
uma marca no cérebro e no sistema nervoso. Agora eu me perguntava se, no loop
de feedback que caracteriza a conexão cérebro/vagina, a memória do trauma
poderia deixar uma impressão física na vagina.
— De acordo com minha experiência — ele disse —, essa teoria faz muito
sentido.
Antes de prosseguir, porém, ele me alertou:
— Quando recebo uma cliente para cura sexual, trabalho com ela em dois
níveis: no físico e no espiritual.
Garanti a ele que entendia o que ele queria dizer.
Ele confirmou que o que eu imaginava era de fato verdadeiro: que havia
diferenças físicas reais entre as mulheres sem experiência de violência sexual e
as que tinham um histórico de estupro ou abuso sexual.
— Como isso acontece? — perguntei. — Por meio de qual mecanismo?
Mike Lousada respondeu:
— A vagina é parcialmente desenhada para o prazer. E aí acontecem nossas
experiências de vida. É como se os tecidos da vagina recebessem as emoções que
são direcionadas a ela. Com mais experiências, as emoções se tornam
compactadas, especialmente se você sentiu dor. A dor, por fim, se torna
dormência vaginal, o que é, na verdade, a dessensibilização, que é muito comum.
Pedi a ele que explicasse o processo em termos mais básicos.
— Quando faço a terapia yoni, se os tecidos vaginais já atingiram algum nível
de dormência, para ajudar minha cliente com seu processo de cura, tenho que tirá-
la da dormência para a dor, para a emoção, para o prazer.
Ele também falou sobre algo que reconheceu que é difícil de descrever: uma
“desconexão energética” no corpo das mulheres que passaram por estupro ou
abuso sexual — a vagina delas parece “energeticamente desconectada” do resto
do corpo, mesmo que tenham muitos orgasmos. (Um médico, que analisou para
mim a perspectiva de Mike Lousada sobre a vagina dessensibilizada, comentou
que não há uma “célula única” para os tecidos da vagina, mas sim uma
multiplicidade de diferentes células arranjadas em vários tecidos que formam o
órgão como um todo — exatamente como a faringe. Células que secretam muco e
altamente sensíveis forram a “cavidade”, com a base de poderosos músculos
constritores que estão em constante comunicação com a mucosa superficial, com a
medula espinhal e o cérebro. O fluxo sangu í neo, a permeabilidade das
membranas celulares, a secreção de fluidos e feromônio e uma série de outros
processos biológicos “locais”, todos interagindo uns com os outros e com o
sistema nervoso central. Não me surpreendeu saber que Mike, com toda sua
experiência, também era sensível a mudanças nessa sinfonia, com notas
dissonantes ou partes da orquestra silenciadas.)
Perguntei a Lousada se era comum em nossa cultura encontrar um estado de
relativa falta de sensibilidade da vagina.
— Muito comum — ele repetiu. — Para algumas mulheres, o toque mais leve
de uma pena já pode ser orgástico. Mas muitas mulheres nesta cultura precisam de
um estímulo semelhante a uma fricção, o que sugere uma perda de sensibilidade
para elas.
Lembrei-lhe a variedade da rede neural nas mulheres, mas ele esclareceu que
essa diminuição na sensibilidade pode acontecer mesmo se não houver nada fora
do comum com a formação da rede neural. Disse também que a sensação vaginal
melhora nessas mulheres após o trabalho que faz com elas (que envolve
massagem orientada à cura na região da vagina e vulva, frequentemente até chegar
ao orgasmo, e outras práticas, como a meditação e visualização). Mike disse que
estudos comprovam que praticamente todas as mulheres podem, teoricamente, ter
orgasmos. Por causa disso, ele acredita que a relativa dormência ou falta de
sensibilidade de muitas vaginas que encontra em seu trabalho seja o resultado de
uma vida inteira acumulando experiências negativas, que vão da ridicularização
de sua sexualidade na infância ao próprio abuso sexual.
“Como essas mulheres descrevem sua situação?”, eu me perguntei. “Será que
acham que suas sensações meio apagadas são normais? Ou será que aparecem na
sala de estar de Mike Lousada descrevendo essa falta de sensibilidade como um
problema?”
— Em geral, elas não dizem: “Não tenho muitas sensações” — ele enfatizou.
— Às vezes elas dizem: “Sabe de uma coisa? Eu nunca tive um orgasmo”. Ou às
vezes dizem: “Tenho vaginismo [contração involuntária e dolorosa da vagina
durante o sexo]”. Em geral, elas dizem: “Eu simplesmente não gosto de sexo”.
Pedi a Mike que fosse mais específico sobre as diferenças que ele havia
observado em vaginas que passaram por traumas emocionais.
— Algumas não têm lubrificação — ele disse. — Algumas se sentem rígidas
— não “rígidas” como antes de ter um bebê, mas a própria qualidade do tecido
parece ser mais densa e rígida que o de outras mulheres. Se você massageia a
parede da vagina dessas mulheres, há nós nos músculos vaginais. O vaginismo,
pela minha experiência, é quase sempre o resultado do trauma sexual.
Custei a processar a narrativa de Lousada — a de que muitas, talvez a maioria,
das mulheres de nossa cultura não sentem tanto vaginalmente quanto poderiam
sentir, por causa das coisas horríveis que aconteceram a elas emocionalmente.
Eu já sabia, depois de trabalhar com sobreviventes de estupro e abuso sexual,
que muitas dessas mulheres chegam a ter dificuldade de ter um sexo carinhoso e
consensual, que desejam ter com os parceiros que amam. Deparam-se, repetidas
vezes, com uma parede implacável e resistente que se interpõe entre suas
intenções e seu próprio prazer sexual.
Essas mulheres estavam em relações amorosas, seguras e estimulantes. Mas,
mesmo assim, ainda lutavam contra a resistência e a recusa sexual em seu próprio
corpo, o que em geral dura anos — ou até mesmo toda uma vida. Será que essa
“parede” emocional é, para algumas mulheres, também uma parede física — de
músculos rígidos cheios de nós?
Se alguns desses efeitos do trauma emocional na vagina forem também físicos e
se não forem tratados, fica claro que persistirão, prejudicando a vida e os
relacionamentos. Pedi a ele que se limitasse a definir trauma sexual no sentido
mais comumente estabelecido e que estimasse a frequência desse fenômeno:
perda de sensação vaginal e clitoridiana devido à agressão sexual, estupro ou
abuso infantil.
— Olhe — ele disse com tristeza. — De 25% a 30% das mulheres reconhecem
que passaram por trauma sexual.
Eu sabia que muitos estudos confirmam que esses números estão corretos.
— A reação mais comum é a perda de sensibilidade na vagina: vaginismo,
desconexão, devido ao trauma. Ou, então, elas podem ir para o caminho opos to:
há mulheres que podem se tornar completamente orgásticas, apesar do histórico
de claro trauma sexual. A atitude é assim: “Ah, tudo bem com o sexo…”. Mas,
quando começo o trabalho com a técnica yoni e estimulo a vagina, ela tem um ou
dois orgasmos, e depois grandes explosões de dor e raiva aparecem. Por tanto, o
corpo está usando o orgasmo para mascarar a dor e o sofrimento.
Eu ainda não entendia o mecanismo biológico, além do ponto óbvio que nós
contraímos nossos músculos quando temos medo. Como esses efeitos podiam
durar tanto tempo no corpo?
Mike me explicou a teoria que ele tem para isso, que disse ser baseada no
trabalho do dr. Stephen Porges. “Porges identificou uma base científica para o
fenômeno”, ele disse. O dr. Porges é professor de psicologia e bioengenharia na
Universidade de Illinois, além de diretor do Brain-Body Center, e desenvolveu
uma análise do trauma que é amplamente reconhecida e chamada de “teoria
polivagal”. Pesquisei a teoria do dr. Porges.
A “teoria polivagal” enxerga uma conexão entre a evolução do sistema nervoso
autônomo e a expressão emocional, incluindo os gestos faciais, a comunicação e o
comportamento social. Ele argumenta que por meio da evolução o cérebro
experimenta uma conexão entre os nervos que controlam o coração e a face. Essa
conexão liga as sensações físicas à expressão facial, à voz e até aos gestos. A
clínica dele ensina terapeutas a entender como a “neurocepção falha” pode ter um
impacto sobre a regulação autônoma e como os “elementos que engatilham
diferentes estados neuroceptivos (segurança, perigo e ameaça de morte)” podem
ser usados, como Lousada os usa, dentro do contexto do tratamento: o objetivo do
terapeuta é ativar os “estados neuroceptivos de segurança” no cérebro da
[16]
paciente.
Se o dr. Porges estiver correto — e seu método de tratamento tiver reputação e
seguidores dentro da comunidade de atendimento a trauma —, isso significa que
muitas dos 16% a 23% das mulheres que passaram por abuso ou agressão sexual
em seus anos de formação têm as reações de personalidade tão comuns em
mulheres na nossa cultura — vivem em um estado de constante ansiedade,
experimentando uma incapacidade de “simplesmente ser”, lutando com vários
tipos de defesas e questões de controle, com a voz presa — todos os estados que
não conduzem a uma experiência de sexualidade ou poder pleno para as mulheres.
Rapidamente, Mike continuou explicando que temos um cérebro “trino”: um
cérebro reptiliano, a amígdala, para lidar com questões de sobrevivência; um
cérebro mamífero, ou emocional; e um cérebro neomamífero — o córtex frontal,
onde as funções sociais sofisticadas, entre outros processos, acontecem. Quando
nos sentimos ameaçados, ele disse, a parte mais antiga do cérebro, a amígdala,
assume. Muitos de nós já conhecemos o impulso de “lutar ou fugir”, que é uma
das respostas da amígdala a ameaças. Mas Porges identificou duas outras:
“paralisar” — às vezes, quando a presa fica paralisada, ela sobrevive , pois o
predador pode assumir que já esteja morta; e “proteger e ficar amigo” — “se eu
fizer algo que faça você gostar de mim, talvez não me mate”.
Lousada adiciona a esse conjunto de reações ao trauma o que ele chama de
“reação de desapego”. “Se um tigre tem seus dentes cravados em você, e não há
nada a fazer, saímos do corpo e vamos para a mente”, ele disse.
Essa reação de “desapego” já é bem estabelecida pela pesquisa sobre o
trauma. Eu já sabia, de meu próprio trabalho com sobreviventes de trauma,
especialmente vítimas de abuso sexual infantil, quão comum é essa experiência de
“sair do corpo” durante uma agressão. Muitas sobreviventes de agressão sexual
com quem trabalhei quando fui voluntária em um centro de assistência para
vítimas de estupro contaram que observaram a agressão sem paixão,
especialmente se foi um episódio de abuso na infância, de um estado
desencarnado, como se fosse com outra pessoa. Depois de algum tempo, a criança
simplesmente aprende a sair do corpo quando está próxima a passar de novo pela
experiência.
A vagina “paralisa”, eu quase podia ouvi-lo dizer isso, como na expressão tão
comum “ficou paralisado de terror”, e a mulher traumatizada também vai se
“desapegar” psicologicamente da “cena do crime” — daquela parte do corpo
dela. “Os médicos vão lhe dizer, então, que um sintoma como o vaginismo está no
corpo. Mas é o cérebro que diz ao corpo o que fazer. O cérebro manda mensagens
para a vagina, dizendo: ‘não é seguro’”, disse Mike. Isso bateu com o que o dr.
Richmond havia dito, apesar de mais especificamente sobre a tensão na vagina.
— Então, eu trabalho com a cliente por meio desses estágios do trauma. Se a
cliente traumatizada é desapegada de seu corpo e se está em sua mente, ela pode
ter dormência ou tensão vaginal. Nós ultrapassamos isso com o toque. Depois,
passo a trabalhar com pontos de pressão na vagina. No vaginismo, pode haver
espasmos. “Ah, mer…, isso dói!”, a cliente pode dizer nesse momento da cura. E
então, há um pulso energético que retorna. E nesse ponto algo é desbloqueado na
vagina. Quando elas se sentem seguras o suficiente para passar da “paralisia” ao
“lutar ou fugir”, provavelmente passarão da dormência à dor ou aos orgasmos
mascarados, à raiva absoluta. Nesse ponto, podem começar a gritar, ou revisitar o
trauma. Mas, dessa vez, com um resultado diferente. Dessa vez, pode ser que
gritem: “Tire essas mãos nojentas de cima de mim!”. Lembranças podem vir à
tona. Talvez passem ao modo de “fuga”: às vezes as pernas começam a tremer
involuntariamente. Depois, passam à resposta social: no fim, são capazes de se
relacionar com alguém de uma forma diferente. Depois de um tempo, a intimidade
não as traumatiza mais. Porges diz que o sistema nervoso traumatizado pode
afetar profundamente os relacionamentos. Em uma reação baseada no medo, as
pessoas literalmente experimentam, por exemplo, uma reação neutra como
ameaçadora; isso já foi demonstrado cientificamente. Portanto, continuo a curá-
las por meio de um toque que transmite empatia, gentileza e amor.
Perguntei a ele se, por sua experiência, uma vagina traumatizada tinha relação
com o risco de depressão para a mulher em questão. “Sim”, ele disse, já que, de
seu ponto de vista, “a depressão é a raiva reprimida”; e “nas mulheres
sexualmente traumatizadas, a reação de luta foi reprimida”, o que levaria à raiva
suprimida. Ele disse que cerca de 10% de suas clientes estiveram ou estão sob
medicação para tratar a depressão. (Em contraste, os Centros para Controle de
Doenças relataram em 2005-2006 que o percentual de pessoas não
institucionalizadas com depressão era de 5,4%.)
— Então, o que acontece sexualmente a elas depois, quando já estão curadas?
— perguntei. — A vagina chega a mudar?
— Quando são curadas, há definitivamente uma mudança nessa área — ele
disse. — Elas sentem a vagina de forma diferente: menos rígida, mais reativa.
Ficam mais orgásticas, ou podem se permitir ter orgasmos pela primeira vez.
Passam a experimentar a intimidade em seus relacionamentos.
Agradeci a Mike Lousada por seu tempo. Ficamos falando sobre tanto
sofrimento e dor humanos. Mas, mesmo tendo falado de tanta tristeza, de alguma
forma o mundo parecia injetado de esperança e com um brilho que parecia
iluminação, algo que parecia ganhar vida com a luz, como uma nuvem iluminada
pelo sol do fim da tarde.
— No Tantra — concluiu ele fechando a entrevista e levando minha atenção de
volta para o que é o foco espiritual de seu trabalho —, isso é um trabalho
espiritual: um homem pode se iluminar somente por olhar a yoni. Há rituais
tântricos em que um homem olha, mas não toca a yoni. Já fiz esse ritual várias
vezes. E tive a experiência de ver a divindade dentro da vagina — veio a mim
uma imagem da Virgem Maria.
Ele explicou que não havia sido criado no catolicismo, ou em nenhuma outra
religião particular, mas que a imagem havia sugerido a ele uma “energia do
arquétipo materno”. “No Tantra, a yoninão é apenas um local sagrado, mas o
[17]
‘trono da divindade’.”
A imagem que descreveu era, sem dúvida, arquetípica. Eu tinha uma breve, mas
impressionante lembrança: na manhã anterior, dr. James Willoughby, um
pesquisador da Universidade de Oxford que trabalhava no registro de antigos
tesouros da New College Library, havia gentilmente me mostrado um volume
extraordinariamente ilustrado, a versão anglo-normanda do Apocalipse de São
[18]
João que havia pertencido ao nobre britânico Joan de Bohun. Havia sido
criado no século XIV e valia cerca de um milhão de libras. Era tão adorável, que
quase trouxe lágrimas aos meus olhos. Dava para ver os folículos do papel velino
na encadernação interna. Depois, descobri que, em várias páginas de pergaminho,
havia um cordeiro sagrado com uma auréola que Willoughby havia chamado de
“mandorla”. Maria também é retratada em sua auréola, entronada em glória. As
maçãs de seu rosto são róseas, a pele é alva, e suas mãos lindamente modeladas
se abrem em compaixão. Ela também aparece frequentemente com o que o dr.
Willoughby chamou de mandorla. Essa mandorla, acompanhando a curva lateral
da cabeça da madona e pontiaguda na parte superior e inferior, continha
gradações infinitamente delicadas de todas as cores do arco-íris.
Na ocasião, tive que morder meus lábios para não perguntar mais sobre a
origem da mandorla, já que era obviamente um arquétipo de forma feminina. Esse
era o arquétipo da energia materna, pensei, do qual emergem todas as cores.
Eu já havia visto aquela forma em outras obras de arte, incluindo outras
auréolas ou molduras com duas pontas, curvadas nos lados, na forma de uma
amêndoa e também pintadas nas cores do arco-íris: à volta dos santos do budismo
nas Tangkas clássicas; na imagem famosa da aparição de Maria no México, do
século XVI — Nossa Senhora de Guadalupe —, que, segundo relatos
contemporâneos, apareceu ao camponês Juan Diego falando em náuatle, o idioma
local. Essa imagem também mostra a Virgem Maria com uma mandorla radiante
com uma forma semelhante, mas não idêntica.
Quando fui investigar a origem da mandorla, descobri que de fato era o
símbolo da vagina que antecedeu o cristianismo — desde a época de Pitágoras
—, mas que também foi usada pelos primeiros cristãos. As primeiras imagens de
Jesus retratavam-no como bebê na vesica (vesícula em latim), ou mandorla, que
representava o útero de Maria. A mandorla também simbolizava a união do céu e
da terra na forma de Jesus — parte homem, parte Deus. Representa uma porta ou
portal entre mundos. Na Idade Média, fazia parte da geometria sagrada das
igrejas. Outras culturas também adaptaram a mandorla. Na cultura hindu, a yoni é
também o símbolo da mandorla: “A yoni é o portal ou a zona de interpenetração,
[19]
onde há a interseção dos dois círculos”.
Podemos ver esse símbolo também horizontalmente, na forma do signo de
Peixes, em adesivos de católicos que querem reafirmar sua identidade religiosa.
Não há dúvida de que são poucos os que percebem o que o símbolo significava
originalmente: uma ilustração esquemática do arquétipo do útero, e relacionado
às primeiras ilustrações do arquétipo feminino divino.
Enquanto Mike Lousada e eu conversávamos; caiu a tarde. Quando desliguei a
sessão do Skype, já estava escuro e grandes nuvens brancas se destacavam contra
o telhado medieval da capela da faculdade. Pareciam castelos sobre castelos,
como as nuvens brancas maciças que eu havia visto, pintadas com pincéis
minúsculos no papel velino, pelas quais o cordeiro sagrado — ou a linda Maria
da Antiguidade — havia subido aos céus, como que explicando o céu à terra,
protegida nas curvas duplas perfeitas do arco-íris.

1. Jonny Hogg, “400.000-plus Women Raped in Congo Yearly: Study”. Reuters, 11 de maio de 2011,
citando estudo de American Journal of Public Health,
www.reuters.com/article/2011/05/11/US_congo_rape_iDU5TRE74A79y20110511. Ver também Jeffrey
Gettleman, “Congo Study Sets Estimate for Rapes Much Higher”, New Iorque Times, 11 de maio de
2011. www.nytimes.com/2011/05/12/world/Africa/12congo.html. A Campanha das Mulheres do Congo
Contra a Violência Sexual confirma números mais baixos, mas informa que quarenta mulheres são
estupradas diariamente no leste do Congo: http://www.rdc-viol.org/site/en/node/35.↵
2. Jimmie Briggs, entrevista, cidade de Nova Iorque, 12 de maio de 2010.↵
3. Douglas Bremner, Penny Randall, Eric Vermetten, Lawrence Staib, Richard A. Bronen, Carolyn
Mazure, Sandi Capelli, Gregory McCarthy, Robert B. Innis e Dennis S. Charney: “Magnetic Resonance
Imaging-based Measurement of Hippocampal Volume in Posttraumatic Stress Disorder Related to
Childhood Physical and Sexual Abuse — A Preliminary Report”, Biological Psychiatry 1, n. 41 (janeiro
de 1997):23-32.↵
4. Dr. Burke Richmond, entrevista, cidade de Nova Iorque, 20 de novembro de 2011.↵
5. Roni Caryn Rabin, “Nearly 1 in 5 Women in US Survey Say They Have Been Sexually Assaulted”,
New Iorque Times, 14 de dezembro, 2011. www.nytimes.com/2011/12/15/health/nearly-1-in-5-women-
in-us-survey-report-sexual-assault.html.↵
6. Tami Lynn Kent, Wild Feminine: Finding Power, Spirit & Joy in the Female Body (Nova Iorque: Atria
Books, 2011), 51-65.↵
7. Alessandra H. Rellini e Cindy M. Meston, “Psychophysiological Arousal in Women with a History of
Child Sexual Abuse”, Journal of Sex and Marital Therapy 32 (2006): 5-22. Ver também Cindy M.
Meston e Boris B. Gorzalka, “Differential Effects of Sympathetic Activation on Sexual Arousal in
Sexually Dysfunctional and Functional Women”, Journal of Abnormal Psychology, vol. 105, n. 4 (1996):
582-91, e Cindy M. Meston, “Sympathetic Nervous System Activity and Female Sexual Arousal”, em
“A Symposium: Sexual Activity and Cardiac Risk”, American Journal of Cardiology, vol. 86 n. 2A (20
de julho de 2000): 30F-34F. Para mais informações sobre a ligação entre relaxamento e excitação
sexual feminina e sobre a ligação entre a ansiedade e a inibição sexual feminina, ver Andrea Bradford e
Cindy M. Meston, “The Impact of Anxiety on Sexual Arousal in Women”, Behavioral Research and
Therapy, vol. 44 (2006): 1067-77: “Uma alta incidência de disfunções sexuais foi registrada em mulheres
com distúrbios de ansiedade”. Hannah Gola e outros mostram que as mulheres que foram estupradas
com violência apresentam alterações nos níveis de cortisol em resposta a gatilhos psicológicos: “Victims
of Rape Show Increased Cortisol Responses to Trauma Reminders: A Study in Individuals with War-
and Torture-Related PTSD”, Psychoneuroendocrinology 37 (2012): 213-20.↵
8. Ver Margaret Buttenheim e A. A. Levendosky, “Couples Treatment for Incest Survivors”,
Psychotherapy, vol. 31 (1994): 407-14. São muitos os estudos que documentam os danos do abuso
sexual, especialmente na infância, às reações sexuais femininas registradas posteriormente durante a
vida. A correlação é forte. Entretanto, a maior parte deles foca-se no trauma emocional e psicológico
como o principal inibidor da resposta sexual em mulheres que já foram vitimizadas. The Abuse of Men:
Trauma Begets Trauma, editado por Barbara Jo Brothers, resume muitos desses estudos: “Courtois
(1988) relatou que 80% das vítimas de abuso sexual infantil experimentaram algum tipo de dificuldade
nos relacionamentos adultos”. Becker, Skinner e Able, citados em Sarwer e Durlak, 1996, calculam em
50% a faixa de relacionamentos afetados: “As dificuldades vão da excitação diminuída à aversão por
genitais e sexo doloroso (...) Buttenheim e Levendosky confirmam [essa questão] quando descrevem o
casamento assexuado como outra manifestação das dificuldades que as sobreviventes têm com a
sexualidade”. Barbara Jo Brothers, ed., The Abuse of Men: Trauma Begets Trauma (Binghamton, NY:
Haworth Press, 2001), 20. Sandra Risa Leiblum, ed., em Principles and Practice of Sex Therapy, cita o
estudo de 1994 de Levendosky e Buttenheim que postula que a disfunção sexual em um relacionamento
que envolve uma sobrevivente de incesto ou abuso sexual é uma “reencenação mútua elaborada” do
incesto original. Sandra Risa Leiblum, ed., Principles and Practice of Sex Therapy (Nova Iorque: The
Guilford Press, 2007), 361.↵
9. M. F. Barnes, 1995, citado em Abrielle Conway e Amy Smith, “Strategies for Addressing Childhood
Sexual Abuse in the Hope Approach”, Regent University Hope Research Study,
www.regent.edu/acad/schlou/research/initiatives.htm#hope.↵
10. J. Douglas Bremner e outros, “MRI and PET Study of Deficits in Hippocampal Structure and Function
in Women with Childhood Sexual Abuse and Posttraumatic Stress Disorder”, American Journal of
Psychiatry 160, n. 5 (1º de maio de 2003): 924-32. Esses pesquisadores descobriram que as mulheres
com histórico de abuso sexual infantil apresentam alterações mensuráveis na área cerebral do
hipocampo — a área do hipocampo passa por diminuição de 16% a 19% e foi encontrada menos
ativação do hipocampo em mulheres que passaram por abuso infantil que no grupo de controle. O
hipocampo é envolvido nas tarefas da “memória declarativa verbal”, assim como na consolidação de
novas memórias e respostas emocionais — o que leva à intrigante questão sobre a possível luz que esse
resultado poderia jogar sobre a habilidade do cérebro, em mulheres que passaram por abuso sexual
infantil, de experimentar facilmente seu “eu” sem mediação. Esse estudo também poderia demonstrar
que o transtorno de estresse pós-traumático induzido por estupro ou abuso sexual pode destruir a
capacidade da mulher de “saber o que ela sabe” e reconstituir certo sentido de ser de forma contínua.
OBJETIVO: Estudos em animais sugerem que o estresse infantil está associado com alterações no
hipocampo, uma área do cérebro que tem um papel crítico no aprendizado e na memória. O propósito
deste estudo foi mensurar a estrutura e a função do hipocampo em mulheres com e sem abuso sexual
infantil e diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático. MÉTODO: Trinta e três mulheres
participaram deste estudo, incluindo mulheres com abuso sexual infantil e transtorno de estresse pós-
traumático (N = 10), mulheres com abuso e sem transtorno de estresse pós-traumático (N = 12) e
mulheres sem abuso e sem transtorno de estresse pós-traumático (N = 11). O volume do hipocampo foi
medido com imagens de ressonância magnética em todos os sujeitos, e sua função foi medida durante a
execução de tarefas da memória declarativa verbal usando tomografia de emissão de pósitrons em
mulheres abusadas com ou sem transtorno de estresse pós-traumático. RESULTADOS: A falha na
ativação do hipocampo e seu volume 16% menor foram registrados em mulheres com histórico de
abuso e transtorno de estresse pós-traumático em comparação com mulheres com abuso e sem
transtorno de estresse pós-traumático. Mulheres com abuso e transtorno de estresse pós-traumático
apresentaram um hipocampo 19% menor em comparação com as mulheres sem abuso e sem transtorno
de estresse pós-traumático. CONCLUSÕES: Estes resultados são consistentes com os déficits da
função e estrutura do hipocampo em transtorno de estresse pós-traumático relacionado ao abuso.↵
11. R. Yehuda, 2003, e S. M. Southwick e outros, 1999, citado em Thomas Steckler, N. H. Kalin, e J. M. H.
M. Reul, Handbook of Stress and the Brain: Integrative and Clinical Aspects, vol. 15, Techniques in the
Behavioral and Neural Sciences (Nova Iorque: Elsevier Science, 2005), 251,272.↵
12. S. M. Southwick, R. Yehuda e C. A. Morgan III, “Clinical Studies of Neurotransmitter Alterations in
Post-Traumatic Stress Disorder”, em Neurobiology and Clinical Consequences of Stress: From Normal
Adaptation to PTSD, ed. M. J. Friedman, D. S. Charney e A. Y. Deutch (Filadélfia, PA: Lippincott-
Raven, 1995), 335-49. ↵
13. Ib.↵
14. K. Stav, P. L. Dwyer e L. Roberts, “Pudendal Neuralgia: Fact or Fiction?” explica o ponto de vista de
Nancy Fish. Obstetrical and Gynecological Survey 64, n. 3 (março de 2009): 190-99.↵
15. Nancy Fish, entrevista, Copake, Nova Iorque, 5 de abril de 2011.↵
16. Veja Stephen Porges, The Polyvagal Theory: Neuropsychological Foundations of Emotions, Attachment,
Communication, and Self-Regulation (Nova Iorque: W. W. Norton, 2011).↵
17. Mike Lousada, entrevista, Londres, Reino Unido, 12 de junho de 2011.↵
18. Dr. James Willoughby, corpo docente da Faculdade de História em New College, Arquivos de New
College, Universidade de Oxford, entrevista, 11 de junho de 2011.↵
19. Juan Eduardo Cirlot e Jack Sage, A Dictionary of Symbols (Nova Iorque: Philosophical Library, Inc.,
1971), 381.↵
No início a vagina era sagrada

No topo do mundo, dou à luz o pai; meu útero está no meio das águas, no oceano. De lá eu
expando através de todos os mundos e alcanço o céu distante com minha grandeza (…) o útero
de Devi (Yoni), às vezes traduzido como “origem” ou “lar”, é seu poder criativo (…) daí emana
o universo inteiro.
Deva Datta k a ¯ L ¯ ı , em Praise of The Goddess: The Devimahatmaya and Its Meaning

Seriam necessários muitos volumes para explicar de forma abrangente a história


da vagina somente no Ocidente; portanto, isto é necessariamente um resumo
conciso, concentrando-se nas mudanças dramáticas de seu significado cultural e
representação.
No início a vagina era sagrada. Há símbolos da vagina entalhados em paredes
de cavernas nos primeiros povoamentos da história. Os artefatos dos primórdios
dos tempos pré-históricos da humanidade representavam vaginas. Estatuetas de
terracota da Europa Central, que provavelmente representavam a fertilidade,
frequentemente exibiam os órgãos genitais de forma exagerada. Não temos como
saber com certeza o que essas vaginas sagradas representavam, mas historiadoras
feministas, como Riane Eisler em O cálice e a espada e outras, têm certeza de
[1]
que elas representavam um estado primordial de matriarcado. Mas a
proeminência dada às representações da vagina quando os seres humanos fizeram
os primeiros trabalhos de arte sugere que a sexualidade feminina e a fertilidade
eram vistas como sagradas. De 25000 a 15000 a.C., as estatuetas de Vênus —
imagens de fertilidade com vulvas pronunciadas — feitas de pedra ou marfim
eram abundantes na Europa, e imagens similares feitas à mão com lama do Nilo
eram comuns no Egito. Sir Arthur Evans, que descobriu a civilização minoica na
virada do século XX, observou que a grande quantidade dessas estatuetas da
fertilidade em tantas diferentes partes do mundo sugeria que a mesma “Grande
Mãe (…) cuja adoração sob diversas designações e títulos se estendia em uma
grande parte da Ásia Menor e nas regiões mais distantes”, era um “fato mundial”.
[2]
Tal como consideram várias historiadoras, como Rosalind Miles em A história
do mundo pela mulher , “ desde o início, quando a humanidade emergia da
[3]
escuridão da pré-história, Deus era uma mulher”.
E desde o início dos registros históricos, cada cultura antiga estudada tinha
uma versão da deusa do sexo, desde o épico criacionista sumério de Gilgamés ,
com Inanna, até as muitas versões de Ashtaroth adoradas na antiga Mesopotâmia;
da deusa fenícia Astarte do século VI que surgiu do culto a Ashtaroth, seguindo
para as culturas da Antiguidade Clássica, Grécia e Roma.
Há 5 mil anos, onde é agora o Iraque, a vulva de Inanna era adorada como um
local sagrado; os hinos sumérios louvavam o “colo de mel” da deusa,
comparavam sua vulva a um “barco do paraíso” e celebravam a abundância que
“brota de seu ventre”. A conexão de sua sexualidade com a fertilidade da terra
era tão direta, que até mesmo os pés de alface eram descritos como sendo os
[4]
pelos pubianos da deusa. A vagina de Inanna era mágica, um local de pura
santidade: “Inanna (…) inclinou-se contra a macieira/ Quando ela se inclinou
contra a macieira sua vulva era maravilhosa de ver/ Regozijando-se com sua
maravilhosa vulva, a jovem mulher Inanna aplaudia a si mesma/ Ela disse, Eu, a
[5]
Rainha do Paraíso, visitarei o Deus da Sabedoria (…)”.
O núcleo da religião suméria era um “casamento sagrado” entre o deus pastor
Tamuz e Inanna: moedas dessa época mostram Inanna com as pernas bem
[6]
afastadas em sagradas relações sexuais com Tamuz. As mulheres adoradoras
dedicavam a Inanna vasos que simbolizavam o útero. Um texto sagrado desse
período observa:
Uma vez que a sagrada Inanna houvesse se lavado/ era aspergida com óleo de cedro./ O rei, então,
orgulhosamente se aproximava de seu colo sagrado./ Ele orgulhosamente se juntava com o glorioso
triângulo de Inanna./ E Tamuz, o noivo, se deitava com ela/ Apertando suavemente seus lindos seios!
A “vagina maravilhosa” de Inanna está relacionada com a busca pela
sabedoria. No final, as principais antigas religiões da deusa incluíam um consorte
masculino com quem a deusa copularia em sagrado matrimônio.
Kadesh, uma variante no arquétipo de Astarte, a deusa fenícia da natureza, da
beleza e do prazer sexual, foi representada como uma mulher nua em pé nas
costas de um leão, com um adorno de cabeça de lua crescente. Era frequentemente
mostrada segurando cobras ou plantas de papiro na mão direita, representando o
pênis; e na mão esquerda, flores de lótus, que representavam a vagina. A
simbologia de serpente frequentemente acompanhava representações de deusas do
sexo. Estatuetas da deusa-mãe minoica também mostravam-na com os seios nus,
segurando uma cobra em cada mão. A história de Eva, tentada pela serpente no
pecado original de sua sexualidade feminina vergonhosa, é uma posterior
transposição negativa hebraica do sagrado simbolismo da deusa com sua
serpente.
Através de todo o Crescente Fértil, a adoração da deusa do sexo
Astarte/Ashtaroth era universal no período anterior à ascensão do Deus patriarcal
hebraico. A adoração da deusa nesse período identificava Astarte com a geração
sexual, mas também com a sabedoria do próprio cosmo. Mas, como o judaísmo se
afastou de seus antecedentes da Suméria, todos os aspectos da adoração da deusa
se transformaram gradativamente em negativos, enquanto a jovem religião
[7]
procurava concentrar seus seguidores em uma versão masculina do Deus Único.
Quando os hebreus desenvolveram o monoteísmo, fizeram-no no contexto das
religiões da deusa, que haviam desenvolvido um sistema de sacerdotisas
sagradas. Em certos pontos do calendário, essas sacerdotisas copulariam com
adoradores masculinos, uma prática considerada um meio de trazer a ordem e a
bondade do divino feminino à comunidade. Os adoradores tratavam as prostitutas
sagradas com reverência e, de forma alguma, como trabalhadoras degradadas do
sexo. Há muitas estelas que retratam essas sacerdotisas tendo relações sexuais,
consideradas sagradas, com seus adoradores masculinos.
A aversão hebraica a essa forma de adoração — que repetidamente tentava as
tribos de Israel —, sua luta política para competir com tal religião e a
consequente hostilidade à tradição da sagrada prostituta são todas evidências do
horror com que os cinco livros de Moisés falam da irrestrita sexualidade feminina
e particularmente sobre “prostituição”. Os hebreus reformularam o que havia sido
considerado uma união divina, vista então como abominação.
A adoração da vagina sagrada e da sexualidade feminina como metáforas para
uma divindade maior expandiu-se para a Europa antes da chegada do
cristianismo. Na Irlanda pré-cristã, e mesmo na era cristã, construtores
entalhavam muitas Sheela na Gigs [entalhes de mulheres nuas] nas paredes
externas das edificações. Nessas esculturas, mulheres nuas — representando as
bruxas sagradas da mitologia celta e, como vimos, simbolizando a liminaridade
— são representadas com as pernas abertas e as mãos segurando os lábios
[8]
vaginais abertos. Alguns historiadores de arquitetura acreditam que mesmo as
grandes pedras pontiagudas que formam as entradas das catedrais europeias
medievais incorporam o imaginário vaginal dessa tradição pré-cristã. (Na
verdade, fiquei espantada uma vez, enquanto vagava pela pacífica e
tradicionalmente sagrada ilha de Iona, nas Hébridas escocesas, quando olhei para
a parte de cima da parede exterior de um antigo convento e vi lábios vaginais
grandes e elegantes esculpidos na parede de pedra do convento, sem nada em
torno deles.) Mas as deusas do sexo não eram só feitas de doçura e luz: em cada
cultura que adorava a deusa, embora esta tivesse um aspecto majestoso e sedutor,
também trazia um lado negro e potencialmente destruidor. Muitas culturas têm
uma versão do que os antropólogos chamam de “vagina dentata ”. Isso significa,
literalmente, “vagina dentada”. Em Teogonia , por exemplo, o poeta grego
Hesíodo descreve o deus Cronos, ainda por nascer, estendendo a mão do ventre
de sua mãe para castrar seu pai, Urano. Na mitologia hindu, o demônio Adi, na
forma da deusa Parvati, tem dentes na vagina. O autor Erich Neumann, em seu
relato da adoração da deusa, A grande mãe, identifica o tema da vagina dentada
na mitologia indígena norte-americana, na qual “um peixe carnívoro habita a
[9]
vagina da Terrível Mãe”. Os mitos inuítes também descrevem mulheres com
cabeça de cachorro onde deveria estar a vagina. A associação arquetípica e
universal (normalmente estabelecida pelos homens) da vagina com a boca torna a
vagina dentada um símbolo universal e atemporal da ansiedade masculina quanto
à deglutição e aniquilação por uma mãe ameaçadora — tão universal, que
Sigmund Freud explorou esse símbolo em Três ensaios sobre a teoria da
[10]
sexualidade. Essas imagens de vagina dentada não refletem uma aversão
pessoal ao órgão humano, creio eu; pelo contrário, são imagens arquetípicas de
um equilíbrio necessário para a reverência pelos poderes da mulher de dar a
vida. Elas abordam o lado negro inevitável da deusa reconhecendo que a
destruição é a outra face da geração, que a encarnação — o ventre, o canal do
nascimento — é um portal para o ser, mas que também, inevitavelmente, leva à
morte.

A VAGINA SE TORNA PROFANA


Enquanto uma parte do poder e da sedução associados com as antigas deusas
ainda aparecia em narrativas gregas do Eros e do desejo feminino, o status de
subordinação das mulheres se completou com o estabelecimento das primeiras
cidades-estados gregas. Algum simbolismo antigo da deusa sobreviveu no
período clássico; em Metamorfoses, de Ovídio, por exemplo, na história de
Cadmo e Aretusa, ela se transforma em uma serpente — que representa
contraintuitivamente a vulva —; e o homem, em uma fonte, representando o pênis.
Outra estatueta que ecoa o simbolismo da poderosa vagina na adoração da deusa
na Antiguidade é Baubo, que levanta a saia para mostrar sua vulva e que faz
Deméter — que perdeu sua filha, Perséfone — rir mais uma vez. A risada de
Deméter ajuda a restaurar a fertilidade em um mundo ameaçado pela esterilidade
de sua tristeza.
Nenhum historiador explicou conclusivamente como as mulheres perderam
status na transição das primeiras civilizações para aquelas da Antiguidade
Clássica. Até a época de Platão (427-347 a.C.), a perfeição sexual era
considerada como a união entre um homem e um menino; as esposas gregas eram
estritamente para reprodução. O prazer para as mulheres era restrito à classe das
heteras, ou cortesãs; as esposas eram bem confinadas atrás dos muros das casas
particulares, emparedadas em casamentos no papel. Uma exceção era a poetisa
Safo, de Lesbos, que celebrava o erotismo feminino, dando-nos as primeiras
metáforas vibrantes na tradição poética ocidental para a excitação e o orgasmo
femininos.
Até mesmo a natureza do desejo feminino tornou-se hipotética e contestada no
período clássico. Hipócrates (c. 460-370 a.C.) acreditava que ambos, homens e
mulheres, precisavam chegar ao clímax — ambos “expulsando a semente” —
para que ocorresse a concepção; mas Aristóteles (384-322 a.C.) observou, em
contrapartida, que as mulheres não precisavam se excitar para conceber.
O médico romano Galeno (c. 129-200 d.C.) acreditava que a vagina era um
pênis do avesso: como Thomas Laqueur expressa o paradigma galênico, “as
mulheres (…) são invertidas e, consequentemente, menos perfeitas que os
homens. Elas têm exatamente os mesmos órgãos, mas exatamente nos lugares
[11]
errados”. A influência de Galeno se estendeu por séculos após sua
redescoberta na Idade Média. (Ele também recomendava que as mulheres
solteiras se masturbassem para o bem de sua saúde.) Os gregos defendiam um
conceito do útero flutuante — acreditavam que o útero viajava pelo corpo da
mulher e desenvolveram a noção de que o aspecto nervoso e outras doenças
femininas eram causados por essas agitações do útero, crença essa que os
romanos adotaram (a raiz dotermo histeria — hyster — vem da palavra grega
para “útero”).

A VAGINA JUDAICO-CRISTÃ: A EVOLUÇÃO DA VERGONHA

A mulher é defeituosa e vil.


Tomás de Aquino, Suma teológica
Enquanto a Bíblia hebraica tinha a intenção de condenar a “devassidão” das
prostitutas sagradas das religiões politeístas que dominavam o Crescente Fértil,
como vimos, ela quase nunca menciona a vagina diretamente, exceto
eufemisticamente. Mas contém passagens que eloquentemente expressam o desejo
sexual feminino. O Cântico dos cânticos contém muitas metáforas sutis da
excitação e do orgasmo femininos. A tradição hebraica não havia promovido uma
separação entre corpo e mente, e o sexo ainda era sagrado dentro dos limites do
casamento.
A exegese rabínica no período pós-exílio insistia que um homem devoto devia
satisfazer sexualmente a sua mulher pelo menos semanalmente, dependendo de sua
profissão.
Mas Paulo, um judeu helenizado, introduziu nas comunidades judaico-cristãs e
pagão-cristãs do século I d.C., ao redor do Mediterrâneo, o conceito helênico de
que a mente e o corpo estão em guerra um com o outro. Suas cartas codificaram a
noção — tão influente nos dois milênios seguintes — de que o sexo é vergonhoso
e errado e que a sexualidade feminina desenfreada, mesmo dentro do casamento, é
particularmente vergonhosa e errada. Com a ascensão da Igreja na Europa e a
expansão do sacro império romano, os ensinamentos de Paulo se tornaram
sinônimos do cristianismo; e o cristianismo, da própria cultura ocidental.

OS PAIS DA IGREJA — A VAGINA ODIOSA

A ascensão de uma ideologia ocidental que classificou a vagina como


especialmente odiosa e que retratou a sexualidade feminina em geral como uma
isca tóxica para a perdição atingiu seu ponto de formação com Paulo e depois
com os Pais da Igreja dos quatro séculos subsequentes. A Bíblia hebraica
certamente condena a sexualidade feminina que viola os limites do casamento —
você pode apedrejar sua filha até a morte por fornicação, por exemplo —, mas
ela também contém palavras duras condenando a infidelidade masculina e o
excesso. Dentro do casamento, a sexualidade feminina e masculina são vistas
como bênçãos. A vagina é abordada no Levítico e na Mishná em termos de
impureza menstrual: as mulheres devem se abster do sexo, tomar banhos rituais, e
a Mishná diz que devem usar “trapos de teste” nas “dobras e depressões” da
vagina para assegurar que fiquem livres de sangue após a menstruação e antes do
[12] [13]
sexo.
Mas a vagina que é odiosa mesmo dentro do casamento e o ideal de virgindade
feminina como status social surgiram apenas nos quatro séculos pós-paulinos,
especialmente ao redor da África do Norte. Os Pais da Igreja, que praticavam
formas muito extremas de ascetismo em ambientes exclusivamente masculinos e
degradavam a carne de várias maneiras, tentavam superar uns aos outros
insultando a carne das mulheres como seres sexuais em particular. Paulo havia
escrito: “Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como
eu [sem sexo]. Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do
que abrasar-se” (1Cor 7:9). Mas Tertuliano levou essa ideia paulina mais
adiante: agora as relações sexuais eram somente para a geração de filhos; e
lançou as mulheres como sedutoras, atraindo os homens para o abismo satânico
[14]
da sexualidade. Para ele, a vagina era um “templo construído sobre um
esgoto”, o “portão do Diabo”.
E sabem que [cada] uma de vocês é uma Eva? A sentença de Deus sobre esse seu sexo vive nesta era:
a culpa vive também da necessidade. Vocês são o portão do diabo; vocês são a descoberta daquela
árvore [proibida]: vocês são as primeiras desertoras da lei Divina (…) por conta de seu deserto — ou
[15]
seja, morte —, mesmo o Filho do Homem teve que morrer. E vocês pensam adornar-se?

A equação de uma “virgem” mulher com alguém que seja “bom” e “puro” é tão
profundamente impressa em nós, que mal pensamos se esses termos têm alguma
relação com a realidade; supomos que a equação é uma noção antiga, mas a ideia
da “pura” virgem cristã é bastante recente. Estudiosos da Bíblia geralmente
concordam que a ideologia da sagrada virgindade de Maria era uma construção
mental muito tardia da Igreja e que não pode ser confirmada nos textos originais
do Novo Testamento, que sugerem que Maria teve vários filhos. O credo
complexo sobre a virgindade de Maria que herdamos foi aceito, na verdade,
somente cinco séculos após os eventos descritos ou narrados no Novo Testamento
[16]
— oficialmente, somente em 451 d.C., no Concílio de Calcedônia.
Pouquíssimas provas sobrevivem acerca de como a vagina foi retratada ou
entendida na Idade das Trevas, e o pouco que existe vem de textos médicos.
Apesar dos Pais da Igreja, durante os primeiros 1.500 anos da era cristã,
considerava-se que as mulheres ocidentais tinham a necessidade de satisfação
sexual se a reprodução acontecesse. A frustração sexual nas mulheres foi
compreendida durante um milênio e meio como causa de doença e sofrimento
mental; na era de Hipócrates, os médicos usavam massagem genital em suas
pacientes ou incumbiam uma parteira de realizar a terapia. A prática de
prescrever massagem genital para o orgasmo, como remédio para “histeria”,
perdurou até os períodos Tudor e Stuart na Inglaterra.
Como observado anteriormente, Galeno, cuja influência ressurgiu na Idade
Média, desenvolveu um modelo da genitália feminina como sendo uma versão da
masculina de fora para dentro. Os antigos gregos também sustentaram que as
mulheres ejetavam sêmen, contribuindo para a concepção. Como se entendia que
o útero migrava pelo corpo, considerava-se que mulheres que não tinham nenhum
escape sexual corriam o risco de sofrer por causa do sêmen não expelido em seus
[17]
ventres, corrompendo seu corpo e enviando “vapores imundos ao cérebro”.
Na Idade Média, uma afeição informal alternava-se com a condenação oficial
da vagina. Uma quantidade razoável de folclore e obscenidades da época trata a
vagina com um tipo de afeição coloquial — como no jogo com a palavraqueynte
em “O conto da mulher de Bath”, de Geoffrey Chaucer, e “O conto de Miller” em
Os contos de Canterbury, que data do fim do século XIV. Em “O conto de
[18]
Miller”, linha 90, lemos: “Discretamente ele a agarrou pela boceta (queynte)”.
(Em 1380, queynte pronunciava-se cunt = boceta.) Em Os contos de Canterbury,
Chaucer usa a palavra boceta não como obscenidade, mas como era comumente
usada naquela época — de uma forma simplesmente luxuriante e descritiva.
Essa época, apesar de ideais do amor cortês, também viu o início de práticas
destinadas a prejudicar ou restringir ainda mais a vagina. O cinto de castidade,
por exemplo, foi inventado no início da Idade Média. Seu uso continuou durante a
alta Idade Média. Não eram peças delicadas, mas travas para o corpo, feitas de
metal. O dispositivo envolvia os quadris de quem o usava com duas bandas de
ferro, e uma terceira ficava entre as pernas. Essa banda era fechada com uma
tranca. O marido de uma mulher o qual desejasse viajar ou estivesse partindo
para a guerra literalmente trancaria a vagina de sua mulher e levaria a chave
consigo. O dispositivo não impedia relações sexuais simplesmente; também
tornava a higiene difícil, causando abrasão severa, e foi mais visto como
instrumento doméstico de tortura.
Nos séculos XIV e XV, a “caça às bruxas” varreu a Europa. Seu efeito era
atacar a sexualidade feminina de novas formas terríveis e múltiplas. De
comunidade em comunidade, as mulheres identificadas como bruxas pelos
inquisidores ou por seus companheiros aldeões eram frequentemente aquelas
vistas como demasiadamente sexualizadas ou livres, e as formas de tortura
focavam sua sexualidade. A pera da angústia era um dispositivo de tortura usado
em vítimas de todos os gêneros. Era um objeto em forma de pera feito de ferro
que se expandia dentro da vítima conforme o torturador virava os parafusos.
Quando infligido em homens, era introduzido dentro da boca. Mas, quando usado
em mulheres acusadas de bruxaria ou de induzir o aborto, era inserido dentro da
vagina e expandido. Durante a caça às bruxas na Europa do século XV ao XVII, a
vagina das mulheres era o alvo das buscas pela “marca das bruxas” ou “marca do
diabo”, procurada nas cavidades de seu corpo. Os inquisidores mutilavam a
[19]
vagina das suspeitas de heresia.
O período do Renascimento na Europa testemunhou a ascensão do estudo de
anatomia e, uma vez mais, o redescobrimento do clitóris. Nesse período, as
mulheres eram vistas como sexualmente incansáveis, e a sexualidade feminina era
tida como mais forte que a resposta sexual masculina. Ainda se dava como certo
que as mulheres tinham que chegar ao orgasmo para conceber.
A dra. Emma Rees, uma acadêmica literária britânica da Universidade de
Chester que escreveu sobre a vagina na literatura elisabetana e vitoriana,
argumenta que os elisabetanos intencionalmente confundiam o significado dos
lábios faciais e vaginais. Ela mostra a similaridade entre duas tecnologias de
controle daquela época — cintos de castidade e “mordaças de repreensão” — e
argumenta que as plateias elisabetanas viam a licença verbal e sexual por parte
das mulheres exatamente da mesma forma. O cinto de castidade trancava os
órgãos genitais femininos rigidamente, argumenta ela, forçando a mulher à
inatividade e ao silêncio sexual. Da mesma forma, a “mordaça de repreensão” era
um dispositivo feito de ferro e couro, que trancava a cabeça da mulher tagarela ou
[20]
argumentativa, amordaçando sua boca.
Shakespeare, o eterno neologista, inovou criando dezenas de termos de gíria
para a vagina, desde “escuridão” em Otelo, a “barco” em Rei Lear. A dra. Rees
analisa todas as vaginas de Shakespeare: ela cita, por exemplo, o “poço que bebe
sangue, escuro e detestado” de Tito Andrônico. Nessa peça, a heroína, Lavínia, é
estuprada, e seus estupradores cortam sua língua. A dra. Rees argumenta que,
nessa mutilação, as imagens dos lábios da boca e dos lábios vaginais colidem:
ambas, a boca de Lavínia e a vagina, são atacadas em atos repetidos de
[21]
silenciamento e controle.
A ideia do corpo feminino como topografia e da vagina como um poço
sulfuroso nessa paisagem ou como fonte bucólica também se tornou um padrão da
retórica do Renascimento. Para uma versão mais agradável da vagina/analogia
paisagística, veja “Vênus e Adônis”, de Shakespeare, quando ela se oferece a ele:
Eu serei o parque e você será meu cervo
Alimente-se onde desejar, na montanha ou no vale
Paste em meus lábios, e se estas colinas estiverem secas
[22]
Perca-se mais embaixo, onde estão as fontes agradáveis.
Em Rei Lear, a dra. Rees interpreta a resistência de Cordélia de fazer aquilo
em que seu pai insiste no contexto da palavra elisabetana nada como gíria para a
vagina. A teoria da dra. Rees é que em Shakespeare há frequentemente um jogo de
palavras com a palavra vagina, e é usada como metáfora para a “diversidade” da
feminilidade, a rebeldia da sexualidade feminina e as naturezas “doentes” e
“contaminadas” de ambos, o corpo e o discurso femininos, como eram entendidos
na época.
CORDÉLIA: O que Cordélia falará? Ame e fique em silêncio.
(Ao lado)… nada, meu Senhor.
LEAR: Nada?
CORDÉLIA: Nada.
LEAR: Como nada virá do nada. Fale novamente.
CORDÉLIA : Infeliz que sou, não posso ter meu coração em minha boca. Eu amo vossa
[23]
majestade de acordo com meu vínculo, nada mais nada menos.

“A vagina”, escreve a dra. Rees, é “emblemática do caos, do ‘can’t’” — esta é


a pronúncia de Midlands para cunt (boceta); a dra. Rees faz um jogo de palavras
dirigido ao “coração da peça”. Ela escreve:
Nada é forçado a assumir a forma de algo por meio do fascínio e insistência de
Lear, antes de sua agonia na charneca: “Nada pode ser feito de Nada” (l.iv. 130).
Mas o que permanece como o tema da peça é o fato de que algo pode ser feito do
nada: se a vagina é a cifra, a ausência, então, o que dizer quando ela dá à luz uma
criança? Quando o Louco diz a Lear “você é um O sem corpo” (l.iv. 183-84), o
“O” pode ser lido como emblema da vagina e pode sugerir o sentido cada vez
[24]
mais presente da emasculação que Lear experimenta.
A emasculação de Lear, escreve ela, levou-o a amaldiçoar os órgãos de
reprodução de uma de suas duas filhas:
Que em seu ventre se transmita a esterilidade
Que sequem nela, os órgãos do aumento
E que de seu corpo decaído [degenerado] nunca floresça
Um bebê para honrá-la (l.iv. 270-73)
Nesse discurso, a vagina e o inferno se tornam um só lugar: “Abaixo está o
demônio/ Há inferno, há escuridão (…) mau cheiro (…)”
Eis que a distância a dama sorrindo timidamente
Cuja face entre seus garfos pressagia neve
Que esmaga a virtude e faz tremer a cabeça
Para ouvir o nome do prazer [IV.vi 116-19]
Da cintura para baixo elas são centauros, embora mulheres em toda a parte de cima
Mas se para a cintura herdam os deuses, abaixo é tudo do demônio:
Há inferno, há escuridão, há o poço sulfuroso, queimando, escaldante, fedor, consumo!
Credo, credo, credo! Dê-me uma onça da algália, bom boticário para adoçar minha imaginação.
[25]

A habilidade especial da vagina para servir como um Rorschach cultural —


refletindo a atração que os outros sentem por ela assim como as ansiedades
frequentemente contraditórias — estreou com o início do período moderno. A
habilidade da vagina de significar paraíso, inferno e absolutamente “nada” — a
suposta ausência existencial feminina — foi estabelecida no Ocidente por volta
dessa época.
Em Rei Lear , os tropos ao redor da vagina revelam que, no período
elisabetano, a perspectiva cristã paulina sobre a natureza hedionda e infernal do
órgão sexual e da sexualidade femininos estava fortemente incorporada na cultura,
da mesma forma que o trabalho de outros autores de letras mostra que, ao mesmo
tempo, outra corrente de referências mais clássicas identificava o mesmo órgão
com deleite pastoral e encanto natural. “O poder simbólico da vagina é
fundamental para entender não somente as preocupações de Shakespeare, mas
também do Renascimento de maneira mais ampla”, escreve a dra. Rees. Na época
de Shakespeare, boceta (cunt) e xoxota (twat) eram ambas consideradas
obscenas; o que levou os dramaturgos da época a usar jogo de palavras e alusão
para comunicar seu significado de maneira suficientemente direta — embora
aparentemente indireta. Nessa passagem bem-humorada do ato 3, cena 2 de
Hamlet , o subtexto é a vagina de Ofélia. A dra. Rees destaca: “No inglês
elisabetano, a palavra colo podia significar regaço, como usamos a palavra
atualmente, ou podia significar ‘vagina’ em código. E lembre-se de que ‘nada’ era
entendido, na época, como significado de ‘vagina’”.
HAMLET: Senhora, devo deitar-me em seu colo? [deitando-se aos pés de Ofélia]
OFÉLIA: Não, meu senhor.
HAMLET: Quer dizer, minha cabeça sobre seu colo?
OFÉLIA: Sim, meu senhor.
HAMLET: A senhora acha que me refiro a assuntos campestres?
OFÉLIA: Não acho nada, meu senhor.
HAMLET: É um pensamento justo, deitar-se entre as pernas de donzelas.
OFÉLIA: Como, meu senhor?
HAMLET: Nada.
OFÉLIA: O senhor está feliz, meu senhor.
HAMLET: Quem, eu?
[26]
OFÉLIA: Sim, meu senhor.
“Assuntos campestres” significava, para uma plateia elisabetana, assuntos
sexuais, ou seja, assuntos animais. Quando Hamlet pergunta a Ofélia o que ela
está pensando e ela responde “Nada” — querendo dizer que não está pensando
em nada, que é intelectualmente submissa ou neutra —, Hamlet responde
incisivamente: “É um pensamento justo, deitar-se entre as pernas de donzelas”. O
órgão genital — o “nada” — é atraente por si só, mas também é atraente quando
não há um pensamento no cérebro feminino, nem experiência ou sabedoria nos
órgãos genitais femininos. Quando Ofélia responde “Como, meu senhor?” — ou
seja, o que é um pensamento justo, deitar-se entre as pernas de uma donzela? Qual
é uma maneira apropriada de ser sexualmente feminina? — e quando Hamlet
responde “Nada”, ele está dizendo que uma vagina — implicitamente, vagina
ignorante, sem experiência, nunca experimentada — é a coisa certa, uma coisa
atraente de achar entre as pernas de uma donzela (da virgem). Shakespeare
conseguiu brilhantemente um espelhamento duplo da conexão entre o cérebro
feminino e a vagina e refletiu a compreensão elisabetana da conexão entre os dois
— brincando com sua ênfase no fato culturalmente compreendido de que nada é
mais atraente que “nada” na mente de uma mulher jovem e que “nada” em termos
de experiência sexual era a prova certa para achar no “nada”, a vagina, que está
entre as pernas de mulheres jovens ou virginais. A aparente ignorância de Ofélia
dos duplos significados de todo o jogo de palavras apenas eleva a mensagem
culturalmente compreendida sobre a atração da ignorância sexual e intelectual das
mulheres “em ambas as extremidades”.
Para o rei Lear, a vagina era um poço sulfuroso; para o poeta John Donne, que
também usava uma metáfora subterrânea, era um tesouro natural abençoado e uma
bênção do Novo Mundo, uma “mina de pedras preciosas”. Em uma época de
grandes descobertas de novas paisagens, minerais valiosos e gemas além-mar,
Donne, em seu poema, “Elegia XIX: Indo para a cama”, compara a parte inferior
do corpo de sua amada, e sua vagina, aos tesouros de um império recentemente
descoberto:
Concede uma licença à minha mão errante,Para ir ao meio, em cima, embaixo, atrás, adiante.Oh, minha
América! Oh, meu novo continente,Meu reino, a salvo porque um homem tens à frente.Tenho aqui
minhas minas, meu império aqui;Que abençoado sou por descobrir a ti!Este acordo liberta a quem ele
[27]
segura;Onde coloco a mão, eu deixo a assinatura.
O significado sexual da vagina como um “reino, em toda a segurança,
conduzido por um homem” está claro. “Onde eu coloco a mão, eu deixo a
assinatura” é outra terna metaforização da vagina: embora seja verdade que o
corpo feminino é conquistado, como novas terras estavam sendo conquistadas e
consagradas à Inglaterra ou Espanha naquela época com o plantio fálico de
estandartes imperiais, não obstante, a conquista, neste caso, é festiva e amorosa.
O poeta está acariciando a vagina de sua amante com a mão, e se você entender o
que a “assinatura” significava para um leitor na época elisabetana — um anel
selo, na época, seria pressionado em cera, para criar uma marca pessoal, uma
assinatura —, a consideração erótica de Donne a respeito da vagina é explícita.
Embora ele esteja reivindicando a vagina como sendo “sua” ao metaforicamente
imprimir um “selo” nela, também é verdade que a cera deve ser levemente
aquecida e derretida para receber e reter a impressão do anel selo.
Essa tensão quanto à natureza infernal ou paradisíaca da vagina era refletida no
fato de que, exatamente quando a anatomia começou a se estabelecer firmemente
como uma disciplina do Renascimento, também o clitóris como órgão começou
um processo que durou um século — que o historiador Thomas Laqueur
identificou e ao qual fiz referência em meu livro Promiscuidades: a luta secreta
para ser mulher — de ser repetidamente perdido e achado por anatomistas. A
história cultural da anatomia ocidental não revela nenhum deslocamento contínuo
ou “esquecimento” da localização, do papel ou da função de outros órgãos no
corpo humano. O pâncreas, sem falar no escroto, uma vez identificado no corpo e
suas funções uma vez entendidas, permanece localizado e entendido — na
verdade, o entendimento da função de outros órgãos só tem melhorado ao longo
dos últimos quatro séculos, enquanto o entendimento do papel do clitóris se
dissipa e se degrada novamente.
Essa jornada intelectual sobre o clitóris, “Aonde ele foi?”, “Para o que era
mesmo?”, também nos reflete a ambivalência cultural ocidental sobre seu papel
não somente como um gatilho para a excitação sexual feminina, mas também como
a porta de entrada ou o catalisador da coragem e da confiança femininas. A
ambivalência sobre a identificação, de uma vez por todas, do clitóris — onde se
localiza e como funciona — pode, certamente — agora sabemos por causa da
conexão cérebro-vagina —, refletir a ambivalência de dar às mulheres, de uma
vez por todas, as chaves do reino da assertividade pessoal e do desejo de
liberdade.
O clitóris tem sido descoberto, “perdido” e redescoberto consistentemente
desde 1559. Naquele ano, Realdo Colombo identificou o local que ele chamou de
“eminentemente a sede do deleite feminino”:
Se tocá-lo, verá que ele se torna um pouco duro e oblongo, a tal ponto que se mostra como um tipo de
membro masculino (…) visto que ninguém discerniu essas projeções e seu funcionamento, se me é
permitido dar nomes a coisas por mim descobertas, deveria chamar-se o amor ou a doçura de Vênus.
Ele acrescentou que, “se o esfregar vigorosamente com o pênis, ou tocá-lo com
seu dedo menor, sêmen mais célere que o ar voa por causa do prazer (…) sem
essas protuberâncias, as mulheres não experimentariam o deleite em abraços
venéreos nem conceberiam nenhum feto”. Em 1671, a parteira Jane Sharp o
identificou mais uma vez observando que ele “se ergue e cai como o pênis e torna
[28]
as mulheres sensuais, deliciando-se na cópula”. The anatomy of human bodies,
um livro médico didático escrito por William Cowper em 1697, mostrou-o pela
primeira vez como um órgão distinto. E Laqueur cita outro livro do século XVII,
em francês, que aponta que o clitóris está “onde o Autor da Natureza colocou a
sede da volúpia — como o fez na glande do pênis —, onde se localiza a
sensibilidade mais requintada e onde colocou as origens da lascívia nas
[29]
mulheres”.
Mas esses “esquecimentos” e redescobertas meramente prenunciam o maior
“esquecimento” que ainda está por vir.

1. Riane Eisler, The Chalice and the Blade: Our History, Our Future (Nova Iorque: HarperOne, 1988), 51.
[Edição brasileira: O cálice e a espada; São Paulo, Palas Athena, 2008.]↵
2. Veja J. A. MacGillivray, Minotaur: Sir Arthur Evans and the Archaeology of the Minoan Myth (Nova
Iorque: Hill and Wang, 2000).↵
3. Rosalind Miles, The Women’s History of the World (Londres: Paladin Books, 1989), 34-37. [Edição
brasileira: A história do mundo pela mulher; Rio de Janeiro, LTC, 1989.]↵
4. Asia Shepsut, Journey of the Priestess: The Priestess Traditions of the Ancient World (Nova Iorque:
HarperCollins, 1993), 62-79.↵
5. Ib., 16.↵
6. Ib., 72.↵
7. Ib., 69.↵
8. Catherine Blackledge, The Story of V: A Natural History of Female Sexuality (New Brunswick, NJ:
Rutgers University Press, 2004), 30.↵
9. Erich Neumann, The Great Mother: Analysis of an Archetype (Princeton, NJ: Princeton University
Press), 168. [Edição brasileira: A grande mãe; São Paulo, Cultrix, 1996.]↵
10. Sigmund Freud, “Three Essays on The Theory of Sexuality”, The Freud Reader, ed. Peter Gay (Nova
Iorque: W. W. Norton, 1989), 239. [Edição brasileira: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade; Rio de
Janeiro, Imago, 1997.]↵
11. Thomas Laqueur, Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud (Cambridge, MA: Harvard
University Press, 1990), 26.↵
12. Levítico 15:19, www.come-and-hear.com/editor/america_3.html.↵
13. Talmude babilônico, Tractate Kerithoth 2B Soncino Edição de 1961, 1, www.come-and-
hear.com/editor/america_3.html.↵
14. Tertuliano, “One the Apparel of Women”, www.public.iastate.edu/~hist.486x/medieval.html; veja
também Kristen E. Kvam, Lina S. Schearing e Valarie H. Ziegler, Eve and Adam: Jewish, Christian, and
Muslim Readings on Genesis and Gender (Bloomington, IN: Indiana University Press, 1999), 131.↵
15. Morton M. Hunt, The Natural History of Love (Nova Iorque: Minerva Press, 1959), 187.↵
16. Ib., 207. Para relato completo sobre a ascensão da ideia de Maria assexuada, veja Jacques Delarun,
“The Clerical Gaze”, A History of Women: the Silences of the Middle Ages, ed. Christiane Klapisch-
Zuber (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1992), 15-36. ↵
17. Mary Roach, Bonk: The Curious Coupling of Science and Sex (Nova Iorque: W. W. Norton, 2008), 214-
15.↵
18. Geoffrey Chaucer, The Canterbury Tales, ed. Nevill Coghill (Nova Iorque: Penguin Classics, 2003), 285.
No texto original em inglês em “The Miller’s Tale”, um dos ajudantes diz a Alison: “If I don’t have my
wish, for love of you, I will die”. “And prively he caughte hire by the queynte, /And Seyde, ‘Ywis, but if
ich have my wille, /For deerne love of thee, lemman, I spille”, Prólogo, 88. No Prólogo de “The Wife of
Bath”, a mulher de Bath diz a um de seus maridos: “For, certeyn, olde dotard, by youre leve,/ Ye shul
have quente right ynogh at eve”. Mais tarde, ela se refere à sua própria vagina como “belle chose” (em
francês, belle chose, coisa bonita). ↵
19. “Case Study: The European Witch-Hunts, c. 1450-1750”, www.gendercide.org/case_witchhunts.html.↵
20. Dra. Emma Rees, “Cordelia’s Can’t: Rhetorics of Reticence and (Dis)ease in King Lear”, Rhetorics of
Bodily Disease and Health in Medieval and Early Modern England, ed. Jennifer Vaught (Londres:
Ashgate, 2010), 105-16.↵
21. Rees, “Cordelia’s Can’t”, 105-16.↵
22. William Shakespeare, The Complete Works, ed. G. B. Harrison (Nova Iorque: Harcourt, Brace and
World, 1958), 1546.↵
23. Rees, “Cordelia’s Can’t”, 110.↵
24. Ib.↵
25. Ib.↵
26. Ib.↵
27. John Donne, The Complete Poetry and Selected Prose of John Donne, ed. Charles M. Coffin (Nova
Iorque: Modern Library, 2001), 85. [Trecho em português extraído da tradução de Augusto de
Campos.]↵
28. Naomi Wolf, “Lost and Found: The Story of the Clitoris”, em Promiscuities: The Secret Struggle for
Womanhood (Nova Iorque: Random House, 2003), 143-53. Também, Catherine Blackledge, The Story
of V: A Natural History of Female Sexuality (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2004),
125. [Edição brasileira: Promiscuidades: a luta secreta para ser mulher; Rio de Janeiro, Rocco, 1998.]↵
29. Laqueur, Making Sex, 4, 239.↵
A vagina vitoriana: medicalização e subjugação

O estado de excitação, que ocorria com muita frequência (…) cessou completamente depois da
cirurgia (…) em 6 de Janeiro de 1865, o ferimento estava completamente curado; e a paciente,
em boas condições (…) e não foi mais incomodada pela excitação sexual.
Ginecologista Gustav Braun, em “A amputação do clitóris e dos pequenos lábios: uma contribuição ao
tratamento de vaginismo”, 1865

A concepção ocidental “moderna” da vagina, tal como a conhecemos hoje —


cheia de vergonha, sexualizada de um modo restrito e funcional, dessacralizada e
cientificamente escrutinada —, foi desenvolvida no século XIX. Como ressalta
Michel Foucault em História da sexualidade, esse foi o século do controle
[1]
medicalizado da sexualidade em geral. A vagina era medicalizada e controlada
de maneiras altamente específicas nessa era como jamais havia sido, mas isso
persiste desde então — e nos foi transmitido, frequentemente, de forma intacta.
A industrialização e o aumento do nível educacional deram origem a uma
crescente classe de mulheres cada vez mais combativas e engajadas, e novas
formas de subjugação trabalharam para reprimi-las. Forças culturais crescentes
procuravam manter as mulheres ignorantes de suas anatomias e reações sexuais,
para desenvolver um estado de “eliminação da paixão” sexual. Muitas forças
novas geraram essa pressão repressiva: comentaristas de jornais, manuais m é
dicos e a ascensão da ginecologia como uma especialidade médica.
Essa época viu a disseminação da teoria de que o clitóris era uma causa de
corrupção moral, que ler romances poderia deixar jovens garotas enlouquecidas
com um desejo incontrolável e que as “boas” mulheres não tinham qualquer
sentimento sexual (especialmente clitoridiano), mas que as mulheres “más”
[2]
poderiam ser arruinadas por seu apetite sexual. Paradoxalmente, esse período
também assistiu à explosão de tratamentos para que as mulheres tivessem
orgasmos sem perder o status social, porque o faziam pelas mãos de médicos.
Alguns médicos simplesmente anunciavam “massagem uterina” para problemas
nervosos — e fizeram fortunas masturbando suas clientes, damas da alta
sociedade, em seus divãs de tratamento. Alguns médicos, sem dúvida exaustos
pela alta demanda, até desenvolveram máquinas de masturbação elétricas que
atingiam o “relaxamento nervoso” das mulheres. Muitos tipos de vibradores
elétricos foram desenvolvidos naquela época também, todos indicados para
[3]
propósitos eufemistas.
A ideia profundamente arraigada de que herdamos “boas” e “más” vaginas — a
primeira, que seria protegida pela sociedade e pelo Estado, e a segunda, um
inimigo legítimo merecedor de punição e violência — descende desse momento.
Foi nesse período que nossa ansiedade singularmente moderna — de que a vagina
“boa” ou respeitável, que por meio de sua respeitabilidade poderia reivindicar
alguma proteção social, não “se degradasse” por nossa própria libertinagem,
atraindo todas as punições que se aplicassem às “más” vaginas — se tornou
codificada. Em meados da era vitoriana, o discurso médico sobre a vagina de
mulheres “respeitáveis” e a pornografia ou a legislação punitiva visando às
vaginas “de má índole” eram praticamente os únicos dois discursos nos quais os
órgãos em questão apareciam em comentários públicos ou particulares.
Nunca é demais ressaltar quantas de nossas ansiedades atuais sobre a vagina e
o prazer sexual feminino foram introduzidas socialmente naquele tempo e chegam
até nós, nos dias de hoje, em modos reconhecidamente remanescentes daquele
período.
Até meados do século XIX, o endemoniamento da mulher — ou, de maneira
menos preconceituosa, sua luxúria — era visto como parte integrante dela. Essa
visão unificada, não especialmente positiva, da sexualidade feminina mudou para
sempre por volta de 1857, e foi uma mudança drástica. Antes de 1857, o ano da
primeira Lei das Publicações Obscenas (ObscenePublicationsAct) na Grã-
Bretanha, uma onda de litografia erótica, assim como gírias e linguagem chula
descreviam a vagina de formas que descendiam da tradição obscena, mas
divertida, de descrever a vagina — a vagina luxuriosa, ativa — como nos
clássicos eróticos do século XVIII, como Fanny Hill ou Memórias de uma
mulher de prazer, de John Cleland de 1748. Mas a fase vitoriana criou nossa
dualidade: uma vagina “boa” e medicalizada, e uma vagina “má”, prostituída e
pornográfica. Os ideólogos de gênero vitorianos rejeitavam o meio-termo
obsceno mais integrado, às vezes idolatrando a vagina e o clitóris, que no século
anterior era tido por certo. A nova disciplina da ginecologia reformulava a
masturbação feminina, que até o momento havia sido raramente divulgada e
debatida, um buraco da vergonha alvo de demasiada obsessão e degradação; e
também reformatava o prazer feminino no ato sexual, que naquela época era
desconsiderado, sendo algumas vezes violentamente atacado como uma quimera,
um estigma proclamado ou uma aberração degradante.
Isso pode ter sido também uma expressão cultural inconsciente de um
reconhecimento inato da conexão dopamina-vagina-cérebro: naquela época, as
mulheres de classe média estavam reivindicando com sucesso um maior acesso a
direitos e influências de todos os tipos. Fizeram campanha pelo direito de se
divorciar de maridos violentos (Lei de Propriedade das Mulheres Casadas,
1857); opuseram-se à detenção e deportação de mulheres acusadas de
prostituição, que eram então submetidas a exames pélvicos brutais (Lei das
Doenças Contagiosas de 1864, 1866, 1869); lutaram por maior controle sobre
seus próprios ganhos e heranças no casamento (Lei de Propriedade das Mulheres
Casadas, 1870) e buscavam o direito de sair de um casamento com seus bens e a
guarda de seus próprios filhos (Lei de Propriedade das Mulheres Casadas, 1882).
No final do século, estavam sendo admitidas nas faculdades femininas em Oxford
e Cambridge e lutando para ingressar em suas profissões. Dado o nexo dopamina-
vagina-cérebro, não é absurdo pensar, agora, em retrospecto, que surgiria uma
ideologia — mesmo que inconscientemente — que progressiva e rigorosamente
impediria essas mesmas mulheres ocidentais de classe média recentemente
educadas, que estavam buscando e obtendo tantos direitos novos, de compreender
como sua própria vagina funcionava e que de fato as puniria de muitas formas se
simplesmente considerassem tocar vagina e clitóris de formas que liberariam
mais da substância subversiva da disciplina, a dopamina.
Em 1850, os formadores de opinião vitorianos na área médica e social estavam
convictos de que a masturbação, para ambos os sexos, levava perigosamente a
“um espectro de doenças psicológicas terríveis”, que acabariam por levar o
masturbador a um estado de loucura. Mas as preocupações com os perigos da
masturbação feminina levaram à violência. A obsessão vitoriana pela erradicação
da masturbação feminina era frequentemente atrelada ao receio de educar as
mulheres e geralmente ligada a imagens de jovens mulheres sendo seduzidas pelo
ato da leitura. (Nos séculos XVII e XVIII, praticamente não havia tal preocupação
com uma potencial conexão entre leitura e masturbação feminina.) No mundo pré-
vitoriano no qual até mulheres da elite em regra não eram educadas e não tinham
direito à propriedade, de fato não importava muito a ninguém se elas se
masturbavam ou não. Essa obsessão do século XIX com os perigos da
masturbação feminina, que surgiu em uma época na qual as mulheres auferiram
sucessivas vitórias legislativas envolvendo o acesso a direitos, pode ser
compreendida como uma reação contra os perigos da emancipação feminina para
a sociedade patriarcal.
O ginecologista William Acton assegurou, em seu importante tratado de 1875,
Functions and Disorders of the Reproductive Organs , que a “masturbação pode
ser mais bem descrita como uma incontinência habitual eminentemente produtora
de doença”. Declarou, no entanto, que a maioria das mulheres (felizmente para
elas) não se sentia muito incomodada com sentimentos sexuais de qualquer tipo.
Acton também acreditava que, “via de regra, uma mulher casta raramente deseje
qualquer gratificação sexual para si. Ela se submete ao envolvimento do marido,
mas principalmente para gratificá-lo (…) a mulher casada não tem o desejo de ser
[4]
colocada na condição de uma amante”.
Muitas mulheres, hoje, sentem que sua sexualidade é algo distinto do resto de
seu caráter e acabam por privar-se dela em prol de outros papéis mais
admiráveis, como o de mães, esposas ou profissionais; algumas se sentem
inibidas na cama por achar que seu apetite sexual, de algum modo, as diminui.
Esse conjunto de crenças não é uma constante humana — nem mesmo é antigo;
isso foi essencialmente inventado quando os críticos culturais na Europa e
Estados Unidos ficaram alarmados pela emancipação feminina, e a sexualidade
da mulher foi entregue a um profissional masculino, o ginecologista. Isso foi
amplamente codificado pela primeira vez cerca de 160 anos atrás. Não estamos
empacados nesse dualismo desde sempre.
O período vitoriano assistiu a uma transição completa sobre como a vagina e
clitóris das mulheres eram tratados em termos médicos. Essa mudança transferiu a
saúde sexual e reprodutiva das mulheres de classe média das mãos de parteiras
para as de médicos homens. Esses médicos criaram associações profissionais de
modo a marginalizar as parteiras. A abordagem das parteiras quanto à
sexualidade e à reprodução era de aconselhar e ajudar nos processos naturais; a
forma dos médicos homens de lidar com a vagina e o útero era, preferivelmente, a
do “heroísmo médico”, ou de intervenções precipitadas, às vezes violentas.
Nos Estados Unidos, Ephraim McDowell, W. H. Byford e J. Marion Sims
também expandiram os limites da nova profissão de domínio masculino: a
ginecologia. Sims criou uma técnica para o reparo de fístulas vesicovaginais; mas
seu legado ambíguo é que ele a desenvolveu praticando em mulheres escravizadas
— sem o uso de qualquer tipo de anestesia. Simultaneamente, no Reino Unido,
Robert Lawson Tait e William Tyler Smith foram os pioneiros da ginecologia
dominada por homens. Essa dominância masculina em um campo de cuidados
médicos que por milênios esteve nas mãos de parteiras ou doulas não foi
questionada até o final dos anos 1890, quando uma das primeiras mulheres
ginecologistas, Helen Putnam, começou a clinicar em Providence, Rhode Island.
Em duas gerações, os britânicos e americanos transformaram completamente as
antigas e caracteristicamente delicadas práticas das parteiras. Deram início a
algumas inovações, como o parto reclinado, que era mais confortável para o
médico que a posição em que parteiras e suas pacientes podiam estar mais ativas
(o parto reclinado exige que o bebê se mova contra a força da gravidade, para
cima no canal de nascimento, uma postura de maternidade desconhecida para o
parto fora da medicina ocidental), mas que é muito mais prejudicial para o
períneo e canal de nascimento da mulher. Esse posicionamento, que
desastrosamente herdamos, foi disseminado em uma época de novos tipos de
lesões ginecológicas entre as mulheres de classe média que podiam pagar pela
assistência médica no parto. Os ginecologistas vitorianos também
convencionaram os exames pélvicos por trás de um manto ou véu; era proibido
aos médicos realmente observar visualmente a vagina ou o colo do útero. Eles
tinham que efetuar seus diagnósticos apenas pelo toque. Por fim, um novo
discurso permeado pelo julgamento e pela vergonha se construiu à volta desse
lugar altamente contestado, a vagina. O tratado de William Acton promovendo a
eliminação da paixão feminina foi reeditado oito vezes em vinte anos; o
historiador Carl Degler o classificou como “indubitavelmente, um dos livros mais
amplamente citados” sobre a questão sexual feminina “no mundo de língua
[5]
inglesa”.
Com o avanço do século XIX, mais e mais debates públicos sobre o papel das
mulheres as rotulam como completamente mediadas por seus sistemas
reprodutivos. O útero da mulher foi cada vez mais responsabilizado por uma
influência negativa sobre o humor de suas portadoras, assim como sua força
cerebral em geral. A menstruação das mulheres foi apresentada por ginecologistas
em matérias escritas em jornais populares como a razão pela qual uma educa ção
de maior nível debilitaria as mulheres jovens. Em 1890, a educação feminina, por
sua vez, era responsabilizada por afetar o sistema nervoso sexual das mulheres,
dando origem à “Nova Mulher” que insistia em uma educação masculina, infértil,
na visão de alguns “especialistas”; ou sexualmente insaciável, nas palavras de
outros, a mulher peluda e fadada à “solteirice”.
“Embora a ideia de esferas separadas não fosse nova no século XIX”, as
historiadoras Ema Olafson Hellerstein, Leslie Parker Hume e Karen M. Offen
escreveram, em Victorian Women: A Documentary Account of Women’s Lives in
Nineteenth-Century England, France, and the United States:
A forma obsessiva como as culturas [francesa, americana e britânica] insistem nessa separação parece
novelesca (…) qualquer mulher que, mesmo longinquamente, rejeitasse o papel que a cultura vitoriana
lhes imprimiu parecia nociva e ameaçadora para seus contemporâneos, como a revolucionária política e
[6]
a anarquista social.

A sexualidade feminina, elas argumentam, era vista como uma ameaça tão
profunda à ordem social estabelecida como o terrorismo ou anarquismo:
Como a sociedade vitoriana queria dar uma experiência educacional às mulheres jovens, mas não a
experiência de ser uma pessoa educada, queria que elas tivessem (nas bases maritais permitidas para os
[7]
propósitos reprodutivos) experiência sexual, mas não a experiência de ser uma pessoa sexual.

De 1860 a 1890, a brutalidade e a natureza punitiva das práticas ginecológicas


masculinas atingiram seu ápice. Nesse período, o uso da clitorectomia se tornou,
se não comum, pelo menos não mais inédito no “tratamento” de garotas que
insistiam naquele vício pavoroso, a masturbação feminina. O dr. Isaac Baker
Brown introduziu a clitorectomia na Inglaterra em 1858, e ainda era muito
[8]
praticada por ele dez anos depois. O dr. Brown se tornou famoso e muito
procurado por sua “cura”, que aplicada em garotas fogosas, após a excisão de seu
clitóris, fazia que voltassem para suas famílias em um estado de docilidade,
mansidão e obediência — um resultado que podemos agora compreender como
inquestionavelmente resultante do trauma e também da interrupção da ativação
neural.
E até mesmo para garotas que não eram ameaçadas com a excisão do clitóris
como punição pelo “vício solitário”, havia manuais morais e até publicações
populares repletas de advertências sobre como uma mulher masturbadora,
incitada por “romances franceses” ou “novelas sensacionalistas”, poderia ser
facilmente identificada por sua lascívia, apatia, palidez, olhos febris e aspecto
geral de dissimulação e insatisfação. Havia o entendimento de que a masturbação
levava as garotas a uma trajetória cada vez mais descendente, com formas ainda
piores de “vício” e lascívia moral; os pais eram aconselhados a ser vigilantes e
rígidos com as garotas que persistissem.
Jeffrey Moussaieff Masson analisou trezentos periódicos médicos europeus de
1865 a 1900. Escreveu:
Essas leituras, todas retiradas de publicações profissionais renomadas e padronizadas, ilustram como
homens com poder sobre a vida das mulheres, em especial sua vida sexual, usam impropriamente esse
[9]
poder para desvirtuar, arruinar, inibir e até destruir o (…) ser sexual das mulheres.
O desconhecimento feminino sobre sua própria anatomia, associado ao intenso
estigma em torno da sexualidade feminina, com frequência levou a terríveis
resultados. Um médico francês, Démétrius Alexandre Zambaco, teve uma jovem
paciente que, ele acreditava, estava engajada em um “vício” — masturbação —
que, ele notou, “se tornou mais e mais profundamente arraigado”. Ele relatou
sentir que era “necessário mudar as táticas e tratá-la com severidade, até mesmo
com a mais cruel brutalidade. Castigos corporais foram indicados, em particular
[10]
o chicote”. Alfred Poulet, o cirurgião-chefe do Hospital Val-de-Grâce em
Paris, publicou em 1880 o segundo volume de seu Treatise on Foreign Bodies in
Surgical Practice. Ali, ele listou os objetos que haviam sido removidos da
vagina de jovens mulheres sob seus cuidados e incluiu em seu relato casos
similares aos que haviam sido relatados na Inglaterra e Estados Unidos. Poulet
relatou que havia removido de útero, uretra e vagina de suas pacientes desde
carretéis de costura, potes de pomada, grampos de cabelo, escovas de cabelo até
objetos como supositórios vaginais e esponjas. Ele acreditava que “malícia” e
“insanidade” tornavam as mulheres adictas no “vício solitário” e as levavam a se
masturbar com esses objetos.
Poulet conta uma história apavorante: uma mulher de vinte e oito anos de idade
estava se masturbando com sua escova de cabelo de cabo de cedro. Quando
alguém entrou repentinamente no quarto, ela rapidamente saltou sobre a escova e
se sentou nela de forma a ocultar o que estava fazendo, e a escova — prepare-se
— “foi repentinamente empurrada através da parede posterior da vagina para o
interior da cavidade peritoneal”. Ela estava tão embaraçada, já que uma “mulher
recatada” nos termos do discurso médico vitoriano jamais se masturbaria, que
manteve seu ferimento em segredo por oito meses, quando o pedaço de madeira já
havia penetrado seus intestinos. Finalmente, quando a dor era grande demais para
suportar, procurou seu médico e contou a ele: a escova foi removida, mas ela
morreu de peritonite quatro dias depois.
Poulet argumenta que nove em cada dez perfurações com que lidou foram
ocasionadas por objetos pontiagudos na vagina, introduzidos pela masturbação
das pacientes. Mas estudiosos contemporâneos acham que isso é improvável e
que, de fato, muitos dos relatos daquele tempo que nos parecem bizarros são de
mulheres sendo feridas por objetos pontiagudos na vagina resultante de seus
esforços para provocar o aborto. Em Ninfomania: História, Carol Groneman
vindica que “as evidências físicas (…) poderiam suscitar múltiplas explicações,
incluindo abuso sexual ou tentativa de aborto. Em vez disso, muitos médicos
viram essas mulheres como incitantes, e não vítimas”. Groneman afirma que os
médicos veem o que escolhem ver e que Poulet via “obstinação (…) hábitos
perniciosos” e “práticas obscenas” como causas desses ferimentos, com “pouca
distinção” entre estas e a vitimização ou desespero na profissão médica daquela
época. Groneman afirma que havia pouca diferença “entre o abuso, aborto e
[11]
masturbação”.
De acordo com a historiadora da Universidade de Yale dra. Cynthia Russett,
prolapsos uterinos eram extremamente comuns no problemático século XIX em
razão das demandas da moda. Por volta de 1840 até 1910, as mulheres elegantes
usavam espartilhos apertados de barbatana de baleia. Russett ressalta que
corpetes ou espartilhos, pela nossa experiência, são feitos de elástico ou
borracha; mas, quando feitos de barbatana de baleia, não dobravam com
facilidade. Esses corpetes — como se pode imaginar — apertavam a cintura e ao
fazê-lo também forçavam os outros órgãos abdominais e pélvicos (intestino
delgado, útero, bexiga) severamente para baixo, exercendo continuadamente
pressão sobre eles. Esperava-se das mulheres que permanecessem fortemente
atadas e mantivessem a cintura até mesmo quando grávidas, o que naturalmente
forçava e empurrava o útero distendido para baixo também, colocando, assim, a
mais terrível pressão no assoalho pélvico. Pessários cervicais eram feitos de
objetos metálicos circulares como diafragmas e introduzidos na vagina de
mulheres que sofriam de prolapso, ocupando o lugar do assoalho pélvico
danificado para mecanicamente evitar que o útero e outros órgãos caíssem sobre
o canal vaginal. Em artigos, livros e poesia, muitas mulheres escritoras fizeram
apelos fervorosos pela mudança na moda, para que a vida das mulheres não fosse
“deformada” — um termo de uso frequente — em modelos artificiais de
propriedade. Elas falavam de uma realidade física, assim como psicológica —
uma moda que geralmente levava à destruição da integridade do útero e do
assoalho pélvico.
Essa epidemia de ferimentos vaginais e uterinos, e a invalidez que causavam,
foi o pano de fundo para as maiores romancistas e poetisas vitorianas — de
Brontë a George Eliot, Elizabeth Gaskell e Elizabeth Barrett Browning — todas
fantasiaram sobre a liberdade física e emocional das mulheres.

O ESTADO VERSUS A “MÁ” VAGINA


Em 1857, a primeira Lei das Doenças Contagiosas foi promulgada na Inglaterra e
ampliada em 1864. Isso deu ao Estado o poder de encarcerar qualquer mulher
suspeita de ser uma prostituta e interná-la compulsoriamente em uma instituição
na qual era compelida a submeter-se a um exame pélvico e vaginal contra sua
vontade — aparentemente, para prevenir a propagação da sífilis, gonorreia e
outras doenças venéreas.
O legado dessas leis foi muito mais influente no inconsciente coletivo das
mulheres do que a história geralmente sugere. Em toda a Inglaterra, especialmente
nas cidades militarizadas, as mulheres que eram vistas como possíveis prostitutas
— uma categoria profissional tão imprecisamente definida no período vitoriano
que compreendia quase todas as mulheres que tivessem cuidado com a aparência,
ou parecessem ou se comportassem como sexualmente ativas fora do casamento
— poderiam ser levadas por agentes masculinos agindo sob disfarce.
Efetivamente sequestradas, elas poderiam, então, ser mantidas sob captura sem
nenhum processo em instituições mais parecidas com prisões, chamadas lock
hospitals (hospitais de isolamento). Lá, eram reprimidas e forçadas a passar por
exames clínicos — realizados por homens desconhecidos. Eram, então,
clinicamente tratadas contra sua vontade. Essas mulheres podiam ser presas —
legalmente — por até oito meses e mantidas afastadas de seus familiares e de seu
[12]
trabalho.
O governo britânico planejou expandir esse programa de prisão e detenção de
mulheres jovens que parecessem ter atividade sexual. Deveria se expandir de
cidade em cidade e chegar até Londres. Como o historiador britânico A. N.
Wilson afirma em The Victorians, a imensa escalada desses sequestros e a
disseminação do terror entre as mulheres que isso gerou refletem-se no fato de
que o próprio médico oficial encarregado da expansão do programa em Londres
argumentou contra ele, porque, se fosse mantida a proporção do número de
prisões que aconteciam no restante do país, teriam que ter sido inaugurados doze
grandes hospitais na capital somente para acomodar as mulheres que seriam
[13]
recolhidas e aprisionadas.
O terror dessa situação, acredito, imprimiu-se profundamente na consciência
feminina anglo-americana, ainda que poucas de nós hoje conheçam essa história.
Por que nós, ainda nos dias de hoje, no Ocidente anglo-americano, sentimos
com tanta frequência que, se reportarmos um estupro ou crime sexual, nosso
tratamento dependerá de termos tido ou não algum tipo de atividade sexual em
nosso passado? Que, se “admitirmos” alguma atividade sexual em nosso passado,
no contexto de um caso de estupro, isso levará a um terrível constrangimento
público de longa duração? Por que as investigações de crimes sexuais, além dos
processos e condenações, tão frequentemente espelham essa situação, com
sentenças maiores em casos em que se possa provar um passado “puro” ou
“inocente” da mulher — mesmo em contextos completamente diferentes do
estupro em si? Por que ainda sentimos que, se formos abertas sobre nossos
desejos e atividades sexuais, isso pode atrair consequências catastróficas?
Josephine Butler, uma das primeiras feministas, promoveu uma campanha
vitoriosa contra a Lei das Doenças Contagiosas, por retratar as mulheres
aprisionadas em uma narrativa cheia de “sedução e traição” — elas não eram
objetos sexuais, mas sim inocentes vítimas de abuso.
Dada a importância da experiência cultural de uma das primeiras vitórias
políticas de uma feminista, não é de causar espanto que o feminismo e as
campanhas feministas em geral tão frequentemente baseiem suas reivindicações
em uma situação de mulheres como “inocentes abusadas”, especialmente quando
se referem a questões sexuais. Nossa história não permitia um contexto mais
matizado. Esse sucesso se tornou uma faca de dois gumes. As feministas
descobriram que conseguiriam simpatia social, status e vitórias judiciais pela
construção de uma narrativa de desamparo e vitimização sexual feminina pelos
predatórios homens brutais. Eu chamo isso de “erros” de narrativa. Se, por um
lado, havia muitas situações que certamente se adequavam àquela narrativa, o
problema para nós é que ela praticamente impediu que se criasse um discurso
paralelo que englobasse o desejo e a atividade sexual feminina.
Ainda vivemos com as consequências dessa história intelectual. Quando eu
busquei discernir em 2011, no caso das acusações de estupro contra Julian
Assange, o que aconteceu com o consentimento sexual dela até certo nível e o que
ela alegava ter acontecido sem seu consentimento depois de certo ponto, fui
atacada pelas feministas como a “traidora da irmandade”. O problema é que a
maioria dos casos de estupro de hoje acontece após um encontro cheio de nuanças
— no qual uma mulher quer isso, mas enfaticamente não quer aquilo. Se formos
incapazes até de falar sobre um encontro sexual sem ter o receio de que duvidem
de tudo que falarmos daí em diante, jamais conseguiremos processar e sentenciar
os estupradores com sucesso.

RESISTÊNCIA

A despeito da brutal supressão da vagina, útero e clitóris naquela época, muitas


mulheres e homens vitorianos procuraram criar contranarrativas para a vagina
nociva e medicalizada. As vitorianas ainda tentavam usar os romances e a arte
para representar as mulheres em si, a sexualidade feminina e a vagina — mesmo
que obliquamente — em uma vertente positiva e atraente, que dissesse a verdade
sobre o desejo sexual e o prazer femininos. Com frequência, essas explorações e
imagens eram altamente metafóricas.
Na obra de George Eliot The Mill on the Floss, por exemplo, Maggie Tulliver
está depressiva e isolada; mas ela é atraída por seu pretendente, Philip Wakem —
em segredo e contra a vontade de seus pais — para uma parte da paisagem que é
chamada de Red Deeps (profundeza vermelha). Nesse contexto, que acontece em
uma configuração de vulva, o desejo sexual é conectado com o anseio feminino de
aprender, de poder e de um mundo mais vasto:
Em seus dias de infância, Maggie lembrava esse lugar, chamado de Red Deeps, com enorme
incredulidade (…) visões de ladrões e ferozes animais assombravam cada canto escuro. Mas, agora,
havia o encanto para ela que qualquer fenda no chão, qualquer pedra ou ravina produzem para os olhos
que em tudo se detêm (…) Em junho, também, as rosas-caninas estavam em sua plenitude, e aquela era
uma razão adicional pela qual Maggie deveria direcionar seus passos para a Red Deeps, mais que para
qualquer outro lugar, no primeiro dia em que era livre para vaguear a seu gosto — um prazer que
adorava tanto, que algumas vezes, em seus ardores de renúncia, pensava que deveria negar a sua
regular indulgência.

Eliot descreve esse “passeio” como intensamente prazeroso, “o retorno do


prazer em um fluxo profundo”. Maggie se pergunta se o segredo com o qual ela
explora a Profundeza Vermelha é uma “maldição espiritual” — “algo que ela
temeria que a descobrissem fazendo” — a mesma frase que regularmente
descreve a masturbação feminina na época; mas, “mesmo assim, a música
[14]
aumentava novamente, como sinos interiores tocando sob a brisa recorrente”.
Aqui, o desejo feminino e o autoconhecimento são como a música que “aumenta”:
como em muitas cenas similares, a imaginação artística ou literária feminina, o
mundo da sensualidade natural e o despertar da sensibilidade da vulva estão
todos juntos.
Cavidades sedutoras, lindas caixas e valiosos baús de tesouro aparecem com
nítidas implicações sugestivas em todos os romances clássicos de mulheres em
meados do século XIX também. A dra. Rees, em “Narrating the Victorian Vagina:
Charlotte Brontë and the Masturbating Woman”, analisa o romance Villette — que
conta a história da quieta e humilde governanta Lucy Snowe e de como ela triunfa
sobre seus adversários em uma escola na Bélgica e encontra a paixão sexual e
finalmente o amor conjugal — e estuda o uso de metáforas da vagina por
[15]
Charlotte Brontë.
Dr. John, o pretendente amoroso “errado” que seduz Lucy antes que ela
encontre um colega mais adequado, dá a ela cartas de amor ilícito, e Lucy
furtivamente as enterra sob uma pereira: “Eu limpei a hera e encontrei o buraco;
ele era suficientemente largo para receber a caixa, e a coloquei no fundo”. “Eu
não estava”, escreve Lucy, “somente escondendo um tesouro — também queria
enterrar uma dor.” “Lucy compulsivamente esconde objetos em caixas, gavetas e
mesas… como as pacientes de Poulet, ela precisa esconder seus desejos.”
Lucy Snowe sinaliza para Paul — o amante “certo” — que ela está pronta para
iniciar uma relação romântica com ele entregando-lhe sua preciosa “caixa” que
“estava pronta em seu colo”:
E pegando a pequena caixa aberta da mesa, coloquei-a na mão dele. “Ela estava pronta em meu colo
esta manhã”, continuei; “e se o senhor houvesse sido mais paciente… — talvez eu devesse dizer
também, se eu houvesse sido mais calma e mais sábia — poderia tê-la, então, entregado.”
Ele olhou para a caixa: Eu vi que seu matiz quente e claro e o contorno azul-brilhante satisfizeram a seu
olhar. Eu disse a ele que a abrisse.
Não se poderia imaginar uma sensação mais clara de prazer e propriedade da
vagina, ainda que as convenções sociais vitorianas fizessem que essas cenas
fossem descritas por meio de metáforas e alegorias.
Conforme o século XIX progrediu, a irmandade pré-rafaelista — que começou
a publicar sua revista The Germ em 1850 — desenvolveu iconografias explícitas
para a vagina. Esse tema era muito nítido nas pinturas populares de Dante
Rossetti, irmão de Christina Rossetti. Dante Rossetti, em geral, pintava romãs
labiais e vaginais botanicamente incorretas, mas anatomicamente corretas. Em seu
retrato de meio-corpo de Beatrice, ele mostra a linda moça segurando uma romã
— com um corte na pele da fruta e lábios abertos em cada lado do corte — e a
mesma romã labial aparecia nas xilogravuras da irmã Christina Rossetti em um
[16]
épico altamente erótico da tentação feminina, Goblin Market. Mesmo que os
pré-rafaelistas se posicionassem como renegados e dissidentes sexuais, é tentador
interpretar sua preocupação com a pintura da vagina — de fato, graficamente
elevando-a e liberando-a de seu contexto usual repressivo do século XIX —
como parte de seu impulso maior no sentido de uma liberdade social e abertura na
expressão criativa.
Em 1860, as mulheres britânicas adoravam um gênero de romance chamado
“romances sensações”. Nesse tipo de ficção, a heroína não era passiva e zelosa
— como na ficção masculina clássica vitoriana e nos romances de Dickens —,
mas, em vez disso, era voluntariosa e determinada. Esses romances davam aos
leitores muitas passagens cheias de descrições sensuais detalhadas dessas
mulheres com sentimentos “voluptuosos”. Os romances sensações eram vistos
culturalmente como extremamente ameaçadores, especialmente para as mulheres
— especialmente para as garotas e mulheres jovens —, porque eram
compreendidos como sexualmente excitantes para elas. “Romances de leitura”,
especialmente os franceses, tendiam a ser ainda mais explícitos sobre sexualidade
feminina e o desejo — eram considerados como metáforas de um portal para a
perdição moral das mulheres, descritos em termos mais usados para advertir às
jovens mulheres que se afastassem da masturbação. Na realidade, os romances
sensações para mulheres e a masturbação feminina eram em geral associados.

A VAGINA ESTÉTICA

Com o passar das décadas de 1880 e 1890, o esteticismo se transformou em um


influente movimento vanguardista, e o esteticismo de vaginas fez suas aparições.
O ilustrador Aubrey Beardsley usou motivos padronizados da vagina como pano
de fundo para as litografias das peças de Oscar Wilde, tais como sua obra
censurada sobre o avassalador e até assassino desejo sexual feminino, Salomé
(1892), assim como nos contos populares dele. (Havia, ainda, motivos de vagina
assustadores nesse período também: autores anônimos, incluindo possivelmente
Oscar Wilde, escreveram em 1893 o romance erótico Teleny , no qual a vagina é
retratada algumas vezes como deliciosa e em outras como sendo viscosa, nociva e
monstruosa.)
A década de 1890, que viu massivas mudanças em termos de educação e
liberação social das mulheres da Europa e Estados Unidos, também viu vaginas
padronizadas, na forma da figura icônica da pena de pavão e do papiro, um tema
que evoluiu para o triângulo invertido da art nouveau e art déco. A pena de
pavão era representada tecnicamente como se fosse uma vulva aberta com o
“coração” da pena como o “coração”, ou o que os doutores chamariam de
“introitos” da vulva.
As décadas de 1880 e 1890 foram um período revolucionário na Europa e
Estados Unidos, com o “esteticismo” e então a “decadência”, movimentos que
subverteram ou questionaram as convenções sociais e sexuais, tornando-se uma
grande tendência. As escritoras do movimento New Woman, como Kate Chopin
em O despertar , Olive Schreiner e George Egerton (uma mulher que escrevia sob
um pseudônimo masculino), começaram a escrever sobre o desejo sexual
feminino. A figura da nova mulher, que se tornou foco de discussão pública, era
vista como sexualmente emancipada e ameaçadora.
Rumando ao final do século XIX, o véu da repressão da sexualidade feminina
foi sendo levemente retirado pelos sexólogos, inclusive Richard von Krafft-
Ebing, que escreveu em 1886 Psychopathia Sexualis, — mesmo que tenha
rotulado o desejo feminino “excessivo” na categoria de “ninfomania” e
argumentado que a maioria das mulheres bem educadas deveria ter níveis de
desejo “reduzidos”; “se assim não fosse”, ele escreveu, “o mundo todo se
[17]
transformaria em um bordel” — e Havelock Ellis, mais liberal, autor deStudies
in the Psychology of Sexem1889.

A VAGINA FREUDIANA

Sigmund Freud e seus seguidores, é claro, introduziram uma grande mudança na


sexualidade feminina e na forma como a vagina foi mais uma vez reinterpretada.
Embora os comentaristas conservadores vitorianos vissem a vagina como um
sistema de entrega mecanicista para reprodução e houvessem definido que o
clitóris transformava as mulheres em obscenas e o útero em loucas e inaptas para
a educação superior, Freud redefiniu a vagina em termos psicodinâmicos. Em
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), ele apresentou o dualismo
clitóris-vagina que tanto influenciou os anos 1970 e tanto nos afeta: “Se
quisermos compreender como uma pequena garota se transforma em uma mulher,
devemos acompanhar as vicissitudes dessa excitabilidade do clitóris”, escreveu.
[18]
Antes de Freud, o clitóris e a vagina eram vistos, mesmo que nem sempre com
admiração, como diferentes aspectos do mesmo sistema sexual/reprodutivo.
Freud popularizou a ideia de que havia uma espécie de luta entre eles em termos
de desenvolvimento feminino e que existem tipos de orgasmos femininos
moralmente “melhores” e “piores”. Segundo seus termos, mulheres “maduras”
tinham mais orgasmos vaginais, ao passo que “imaturas” tinham orgasmos
clitoridianos, uma posição com a qual seus discípulos concordariam e que
ampliariam em meados do século XX — fazendo que muitas mulheres da geração
de nossas mães e avós duvidassem de si próprias ao longo do caminho.
Mas ele também argumentou, em seu ensaio sobre a inveja do pênis, que os
homens viam a vagina como primordialmente castradora; em outro lugar,
descreveu a vagina como a matriz escura dos psicodramas de Édipo. Depois de
Freud, a noção de uma vagina devoradora e castradora como fonte das neuroses
masculinas se tornou uma forte influência durante todo o século XX.
Outros — médicos e psicólogos — levantaram o argumento de que a vagina e o
clitóris tinham uma relevância política e psicodinâmica. No livro de 1926, A
mulher fria: estudo minucioso da frigidez feminina, de Wilhelm Stekel, um
capítulo denominado “A luta dos sexos” atribui ao feminismo o papel de negar o
prazer sexual às mulheres; o autor acreditava que o que ele chamou de
“anesteticismo sexual” feminino se devia aos desejos da mulher contemporânea
de dominação sobre os homens. Ele também viu as necessidades emocionais e
espirituais das mulheres como ligadas a seu potencial de resposta sexual; o
homem deve agradar a algum tipo de espiritualidade feminina, ele escreveu, antes
de ela poder atingir o orgasmo, ao passo que a mulher “moderna” não pode
atingir o orgasmo a menos que seja tratada como uma “nova mulher”, que é —
observou — o “problema de Ibsen com Nora!”. “Com essa exigência
preenchida”, concluiu, “cada inibição que prejudicar sua sexualidade é
[19]
eliminada.” É admirável que, já bem adiante no século XX, as dificuldades
femininas de atingir o orgasmo fossem, em regra, atribuídas pelas autoridades do
assunto a uma instabilidade emocional da mulher — mais que à ausência de
sedução ou técnica masculina.
Mas, ainda que Freud e outros estivessem buscando novos termos — dessa vez,
mais psicodinâmicos que médicos — com que controlar e às vezes condenar a
vagina e o clitóris, depois da Primeira Guerra Mundial algumas mulheres artistas,
dançarinas e cantoras foram à procura de formas de liberar seus significados.

1. Michel Foucault, The History of Sexuality, vol. 1, An Introduction (Nova Iorque: Vintage, 1990), 12.
[Edição brasileira: História da sexualidade; Rio de Janeiro, Graal, 1988.]↵
2. Jeffrey Moussaieff Masson, A Dark Science: Women, Sexuality, and Psychiatry in the Nineteenth
Century (Nova Iorque: Noonday Press, 1988), 63-65.↵
3. Erna Olafson Hellerstein, Leslie Parker Hume e Karen M. Offen, eds., Victorian Women: a
Documentary Account of Women’s Lives in the Nineteenth-Century England, France and the United
States (Palo Alto, CA: Stanford University Press, 1981), 5.↵
4. William Acton, A Complete Practical Treatise on Venereal Diseases (Londres: Ibotson and Palmer,
1866), citado em Suffer and Be Still: Women in the Victorian Age, ed. Martha Vicinus (Bloomington, IN:
Indiana University Press, 1973), 82-83, 84.↵
5. Steven Seidman, Romantic Longings: Love in America, 1830-1980 (Nova Iorque: Routledge, 1993),
33.↵
6. Hellerstein, Hume e Offen, Victorian Women, 3.↵
7. Ib., 5.↵
8. Ib.↵
9. Masson, A Dark Science, 3.↵
10. Ib., 65-90.↵
11. Dra. Emma Rees, “Narrating the Victorian Vagina: Charlotte Brontë and the Masturbating Woman”,
The Female Body in Medicine and Literature, ed. Andrew Maugham (Liverpool: Liverpool University
Press, 2011), 119-34.↵
12. Peter T. Cominos, “Innocent Femina Sensualis in Unconscious Conflict” e E. M. Sigsworth e T. J.
Wyke, “A Study of Victorian Prostitution and Venereal Disease” em Vicinus, Suffer and Be Still, 77-99,
155-72. Veja também A New Woman Reader, ed. Carolyn Christensen Nelson (Nova Iorque:
Broadview Press, 200).↵
13. Veja A. N. Wilson, The Victorians (Nova Iorque: W. W. Norton, 2003). A History of Private Life, vol. 4,
From the Fires of Revolution to the Great War, ed. Michelle Perrot (Cambridge, MA: Harvard
University Press, 1990), 261-337. Havia contracorrentes à hostilidade vitoriana e eduardiana em relação
à vagina: na França vitoriana e eduardiana, um homem prestes a se casar mandava à noiva flores que
lembravam o intumescimento vulvar nas vésperas do casamento: “Seguindo um costume oriental, alguns
homens escolhiam flores que gradualmente ficavam mais vermelhas e na véspera das bodas se
tornavam roxas, como um símbolo de seu amor ardente. Os manuais de etiqueta declararam que essa
nova moda era do pior gosto possível”. Ib., 311.↵
14. George Eliot, The Mill on the Floss (Londres: Penguin, 1979), 318, 338.↵
15. Rees, Narrating the Victorian Vagina, 119-34.↵
16. Christina Rossetti, Poems and Prose, ed. Simon Humphries (Oxford, Reino Unido: Oxford World
Classics, 2008), 105-19.↵
17. Veja Richard von Krafft-Ebing, Aberrations of Sexual Life: The Psychopathia Sexualis (Londres:
Panther, 1951); Havelock Ellis e John Addington Symonds, Sexual Inversion (Nova Iorque: Arno Press,
1975).↵
18. Freud on Women: A Reader, ed. Elisabeth Young-Bruehl (Nova Iorque: W. W. Norton, 1990), 137.↵
19. Wilhelm Stekel, Frigidity in Woman, vol. 2, The Parapathiac Disorders (Nova Iorque: Liveright, 1926), 1-
62. [Edição brasileira: A mulher fria: estudo minucioso da frigidez feminina; São Paulo, Civilização
Brasileira, 1941.]↵
Modernismo: a vagina “liberada”

Cara Janet em cinza e branco… obrigada pelo buquê. O prazer é indescritível — como todo o
encantamento, e há algo triste em ser incapaz de contar o segredo do prazer…
Dolly Wilde a Janet Flanner

N o fim do século XIX, mulheres escritoras lutaram para trazer metáforas e


narrativas do desejo erótico feminino à luz do dia. As mulheres vitorianas se
referiam à sexualidade feminina por meio de códigos e alusões, mas as
modernistas, em seu impulso de quebrar barreiras e estabelecer o novo,
começaram a articular os temas da vagina de forma mais direta.
Nas duas ou três décadas iniciais do século XX, a contracultura liberacionista
começou a defender a sexualidade feminina. Com o modernismo, as mulheres
faziam declarações políticas, sociais e artísticas a respeito de sua sexualidade.
De 1890 a 1920, as autoras mais ousadas da literatura de aconselhamento
conjugal começaram a separar o sexo da reprodução para mulheres. Criticavam o
egoísmo sexual masculino e descreviam técnicas direcionadas a dar mais prazer
às mulheres. O grandebest-seller de Theodore van de Velde, Ideal Marriage
(1926), lamentava a infelicidade conjugal que resultava de não saber “o abc do
sexo” e repudiava o código de silêncio vitoriano a respeito desses assuntos. A
popularidade do livro também pode ser atribuída à abundância de detalhes sobre
o cunilíngua e à atenção dada às técnicas de como efetivamente dar o que chamou
[1]
de “beijo genital” às esposas.
Gertrude Stein, em seu volume de poesia Tender Buttons (1912), fez
[2]
referências oblíquas ao “botão macio” do clitóris. Seu famoso verso “uma rosa
é uma rosa é uma rosa” é muito mais erótico e complexo quando lido em seu
contexto original. O verso está em um poema em prosa em que a “rosa” parece
sexual — de fato, multiorgástica — e os ritmos do discurso ecoam a falta de
fôlego e as cadências de ondas de intensidade tão características da excitação
feminina, que as poetisas vêm tentando capturar desde a época da “língua de
fogo” de Safo:
Suponha, por supor, suponha que uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa
Para supor, supomos que apareça aqui e ali e aqui e ali apareça uma instância de saber que há aqui e há
ali o que vão preparar, e que querem vir de novo.
E assim virão.

Aqui, outra potencial rosa/vagina steiniana: “ROSAS VERMELHAS: Uma fria


rosa vermelha e um róseo corte rosa, um colapso e um buraco vendido, um pouco
[3]
menos quente”.
A artista Josephine Baker, uma dançarina afro-americana que era a queridinha
das casas noturnas parisienses em 1925, apresentou-se com uma saia feita de
bananas artificiais — uma referência sutil à sua própria confiança sexual,
sugerindo que o “dela” era tão bom quanto qualquer número dos “deles”. Sua
personalidade brilhante e confiante — o que seguramente definia a sexualidade
feminina como exótica e “outros” — era um novo tipo de iconografia para a
sexualidade das mulheres: uma sedutora que não tinha a menor vergonha, que era
aberta em relação a seu corpo, segura em seus prazeres. As coreografias de dança
moderna de Loie Fuller nos anos 1900 — nas quais combinava seus passos
inovadores com o movimento de sedas que mais pareciam véus — causaram
sensação em Londres e Paris. Os críticos contemporâneos interpretaram sua
dança como uma declaração sobre o desejo feminino, com os vértices de tecido
de Fuller ondeados em marolas sensuais pelo palco, quase em movimentos
labiais, com a própria Loie girando no centro de tudo. Os contemporâneos viam
Fuller, escreve a historiadora literária Rhonda Garelick, como uma artista que
começava e terminava seus espetáculos com uma “violência profundamente
feminina, semelhante ao nascimento”, com uma “ferida floral sangrenta”.
“Enquanto gira à volta de uma espiral de luz vermelho-sangue, Fuller parece ter
ateado fogo ao próprio ar, abrindo violentamente uma ruptura distintamente
feminina, até mesmo vaginal — uma flor em sangue — no espaço plano ao seu
[4]
redor.”
A pintora Georgia O’Keeffe deixou a fazenda de sua família em Wisconsine
construiu sua própria vida e carreira como jovem boêmia em Manhattan na
década de 1910. Posou audaciosamente para as fotos de nus aspergidos com água
em formas geométricas de seu amante, Alfred Stieglitz, deixando o público e os
críticos de artes chocados e estarrecidos. Suas pinturas de flores, frequentemente
interpretadas como estudos da estética da vagina, aparecem no início da década
de 1920, quando Georgia começa a ser identificada como “musa” de espírito
livre para os modernistas americanos e os rebeldes do Greenwich Village e a
personificar o interesse dessa subcultura pela liberdade sexual feminina. Críticos
de arte de ambos os gêneros reagiram às suas flores com surpresa, afirmando que
as pinturas diziam verdades sobre a sexualidade feminina que nenhuma mulher
havia ousado revelar até então, apesar das declarações de sua biógrafa, Hunter
Drohojowska-Philp, de que Georgia negava terminantemente o conteúdo sexual
dessas imagens. Georgia se distanciava da natureza vaginal das imagens, segundo
Drohojowska-Philp, porque achava que a imagem altamente sexualizada que os
críticos faziam de sua pessoa poderia obscurecer a seriedade de suas intenções
[5]
como artista.
A poetisa Edna St. Vincent Millay, também uma participante da cena boêmia do
demi-monde do Greenwich Village de 1920, rotulava-se conscientemente como
defensora artística da liberdade sexual feminina. Esteve entre as primeiras
mulheres a levantar a bandeira da sexualidade transcendentalista e liberacionista
que havia sido postulada por Walt Whitman sessenta anos antes, em sua
escandalosa publicação de 1855 do poema em prosa Folhas de relva — no que
foi seguido por outros escritores, de Walter Pater a Oscar Wilde, que
desenvolveram essa visão liberacionista e mística da sexualidade inspirados
nele. Millay ficou famosa por escrever a quadra de título sugestivo “Primeiro
Figo” (1922), de sua coleção A Few Figs from Thistles:
Minha vela queima dos dois lados;
E não vai durar a noite toda;
Mas, ah, meus amigos, oh, meus inimigos —
[6]
Que luz adorável ela dá!

Essa imagem destemida da renegada sexual entusiasta e descuidada, que faz


suas próprias escolhas e não se arrepende de nenhum dos seus erros — porque
aprecia o valor da experiência —, está na outra ponta do espectro da tradição de
seriedade e foco na vítima das narrativas sexuais de “sedução e traição” na ficção
vitoriana feita para mulheres. A narradora que voluntariamente, até mesmo
alegremente, jogava tudo para cima — papel social, identidade, a própria vida —
por lealdade a uma paixão sexual violenta estava muito distante dos sonetos
afetados de Elizabeth Barrett Browning de setenta anos antes, quando a paixão
sexual feminina se escondia muito abaixo da superfície da linguagem.
Essas tendências artísticas coincidiram com o simultâneo aparecimento de
motivos vaginais na arte e na arquitetura: o papiro art déco estilizado em
repetições de triângulos invertidos, o ícone da parte exterior do púbis feminino
desde o início das artes visuais feitas pelos homens. Essas imagens foram
incorporadas em prédios, papéis de parede, objetos domésticos e cartazes
publicitários. Nas décadas de 1910 e 1920, quando as “novas mulheres” e
posteriormente as flappers começaram a se rebelar contra os mandamentos da
geração de suas mães, a loucura por tudo que vinha do Egito na arquitetura,
cinema e design de móveis também estilizava o triângulo do púbis por toda parte.
Uma repentina explosão de informações acuradas e positivas sobre a
sexualidade feminina agora substituía o discurso médico impreciso e moralista de
Van de Velde no período vitoriano. As mulheres começaram a poder fazer amor
em seus próprios termos por um motivo muito simples: a tecnologia. Em 1920,
métodos mais confiáveis de contracepção foram disponibilizados: Marie Stopes
abriu sua primeira clínica de controle de natalidade em Londres em 1921, na
mesma época em que Margaret Sanger abriu sua clínica no Lower East Side de
[7]
Manhattan. O sexo casual se tornou muito menos perigoso para as mulheres,
simplesmente por causa dos avanços no processamento da borracha que levaram
a uma disponibilidade e eficácia de preservativos e diafragmas. Osbest-sellersda
dra. Marie StopesMarried Love, What Every Girl Should KnoweWhat Every
Mother Should Knowtambém apareceram nadécada de 1920. As mulheres
passaram a obter informações acuradas de fontes públicas e não censuradas a
respeito de suas próprias respostas sexuais, pela primeira vez na história do
Ocidente.
Mas nem todos os homens modernistas se moveram na mesma velocidade. Eles
certamente viam a sexualidade como algo conectado à criatividade — mas era a
sexualidade masculina e a criatividade masculina que lhes interessava. O dr.
Michael H. Whitworth, em uma palestra em 2011 na Universidade de Oxford
sobre “O Modernismo e o Gênero”, cita o “Translator’s Postscript” de Ezra
Pound para a edição de 1922 de The Natural Philosophy of Love, de Remy de
Gourmont. Pound identificava a criatividade como sexual e masculina:
O cérebro em si é, em sua origem e desenvolvimento, apenas um tipo de grande coágulo de fluido
genital mantido em suspensão (…) Há traços dele no simbolismo das religiões fálicas, com homens
golpeando, cabeça ereta, com o falo ou o espermatozoide, o caos feminino (…) A pr ó pria pessoa pode
sentir, levar qualquer nova ideia para a grande vulva passiva de Londres é uma sensação análoga ao
[8]
que os homens sentem na cópula.

Da mesma forma, para Henry Miller, toda a matriz da realidade era um “útero”
no qual ele se insere: “Quando tudo se retirar de novo para o útero do tempo, o
caos será restabelecido, e o caos é a página sobre a qual a realidade está escrita
(…) Eu ainda estou vivo, dando pontapés em seu útero, uma realidade sobre a
[9]
qual escrever”. Quando os homens modernistas possuíam e inseminavam a
vulva do cosmo com suas ideias, a vulva e o útero eram vistos como positivos;
mas, quando as mulheres, com suas ideias próprias, tentavam possuir sua própria
vulva e útero, esses mesmos órgãos as degradavam. EmTrópico de câncer, de
Miller (1961), quando as mulheres eram criativas, ele tendia a reduzi-las a
“bocetas” e a apetites sexuais; quando Elsa o visita em sua casa e toca Schumann,
Miller escreve: “Uma boceta que toca como ela tem que ter mais noção e parar de
trepar com qualquer cara de pau grande que apareça em seu caminho”. Ou
descreve as artistas expatriadas como “bocetas americanas ricas com caixas de
[10]
tintas penduradas nos ombros. Um pouco de talento e uma bolsa polpuda”.
O dr. Whitworth destaca que os homens modernistas identificavam “o feminino
[11]
como um submarino e o masculino como a terra firme”. Em contraste com as
imagens dinâmicas de Pound e Miller das ideias masculinas eretas, Pound, assim
como T. S. Eliot, tendia a caracterizar a obra de suas colegas mulheres em
metáforas vaginais negativamente molhadas, flácidas ou trêmulas. Eliot acusou a
poetisa do imagismo Amy Lowell, por exemplo, de “flacidez generalizada”, uma
flacidez que tinha, segundo os termos desse movimento literário, “ido longe
demais”. O dr. Whitworth observa que o crítico Conrad Aiken encoraja os
leitores a “passar levemente sobre (…) o tremor tentacular de Mina Loy”, dando
[12]
preferência aos “dotes masculinos” de Eliot e Stevens.
Quando os homens modernistas de fato escreviam sobre a sexualidade feminina
ou sobre o clitóris e a vagina, faziam-no em respostas que demonstravam o
dualismo freudiano emergente: suas reações iam de uma admiração fria — como
na referência de Samuel Beckett à “grande vagina cinza do universo” — ao
aparente espanto de D. H. Lawrence mediante o potencial transcendental do
êxtase sexual feminino, como nas cenas de amor em que Mellors desperta as
sensações vaginais de lady Chatterley, até uma resistência irritada; como na
descrição das “bicadas” clitoridianas da “nova mulher” em outra cena de sexo em
Oamante de lady Chatterley (1928). Mas, além das reações ansiosas por parte
dos homens às questões do clitóris e uma eventual descrição positiva da
sensualidade da vagina nessa era, aparece um novo ponto no espectro,
estabelecido primeiramente por Henry Miller: o dispensável, desprezível e
pornográfico “buraco”. Em sua falta de importância, diferia dos infernais poços
de cobras repletos de pecados de Tertuliano; é a vagina pornográfica moderna:
uma coisa vulgar e barata, que simplesmente não importa.
Na obra de Lawrence, as cenas de excitação clitoridiana têm frequentemente
uma qualidade ameaçadora e em geral são ligadas ao que ele descreve como a
natureza excessivamente intelectualizada das renegadas e feministas sociais do
movimento Nova Mulher: “Você quer uma vida de pura sensação e ‘paixão’”, diz
o personagem Rupert para a “nova mulher” Hermione em Mulheres apaixonadas
(1920),
mas a paixão é uma mentira (…) Não é paixão em absoluto, é sua vontade (…) Você não tem nenhum
corpo real, nenhum corpo escuro e sensual cheio de vida (…) Se seu crânio rachasse, talvez se pudesse
extrair uma mulher espontânea e apaixonada de dentro de você, com sensualidade real. Nessa
cirscunstância, o que você quer é pornografia — olhar para si própria em espelhos (…) para que possa
[13]
(…) tornar tudo mais mental.

A “nova mulher”, com sua sexualidade liberada, até mesmo exigente, não foi
uma imagem facilmente acolhida pelos modernistas.

A DIVISÃO MODERNISTA: TRANSCENDENTAL OU “SÓ UMA BOCETA”?

O dualismo — será que a vagina é o locus do transcendentalismo ou “só uma


boceta”? — é o que herdamos hoje. Desde a década de 1940, a interpretação do
“só uma boceta” ganhou ascendência — temporariamente, espera-se.
Nos anos 1940, Anaïs Nin, contemporânea e amante de Henry Miller, produziu
dentro da tradição sexual transcendentalista das artistas modernistas, que
reverenciavam o potencial imaginativo da vagina. Para Nin, a vagina melhora a
mulher; ela expressa a vontade e sensibilidade da mulher e jamais está separada
dela, sendo ela própria um objeto enquadrado em um contexto amável e delicado.
Nin foi a primeira voz ativa da sexualidade feminina a contribuir para o corpo da
literatura de língua inglesa quando começou a escrever material erótico por
dinheiro, por tantos francos a página. Em sua coletânea de contos Delta de Vênus,
escrita em vários momentos da década de 1940 e publicada após sua morte em
1978, ela frequentemente ligou o Eros feminino à consciência feminina, buscando
explorar todas as dimensões da sexualidade ocultas em uma mulher. Suas
histórias revelam detalhadamente todas as delícias do banquete sexual que
constitui a dança da deusa (que explorarei na última seção deste livro) — olhar,
acariciar, admirar, lubrificar, derreter, abrir e assim por diante — e contrastam
fortemente com a obra de Henry Miller, assim como com a de seus
contemporâneos do sexo masculino.
Em seu conto “Mathilde”, Nin narra a aventura sexual de uma mulher que se
apaixona por um viciado em drogas, Martinez. Mathilde
lembrou-se de Martinez, do jeito dele de abrir o sexo como um botão de flor, as pancadinhas de sua
língua ligeira cobrindo a distância entre os pelos púbicos e as nádegas, terminando na covinha na base
da espinha dela. Como ele amava aquela covinha, que fazia que seus dedos e língua seguissem a curva
descendente e desaparecessem entre os dois amplos montes de carne.
Mathilde se pergunta como Martinez a vê, senta-se em frente a um espelho e
abre as pernas:
A visão era encantadora. A pele era perfeita; a vulva, rosada e plena. Pensou na vulva como uma folha
de grindélia, com seu leite secreto, que a pressão de um dedo podia trazer à superfície, a umidade
odorosa que surge como a umidade das conchas do mar. Foi assim que Vênus nasceu do mar, com essa
pequena amêndoa de mel salgado dentro dela, que apenas as carícias podiam retirar dos recantos
[14]
ocultos de seu corpo.
Mathilde muda de posição em frente ao espelho.
Agora podia ver o sexo pelo outro lado (…) A outra mão foi para o meio das pernas (…) Essa mão
alisou o sexo para frente e para trás (…) A aproximação do orgasmo excitou-a, começou a fazer gestos
convulsivos, como que para puxar o último fruto de um galho, puxando, puxando o galho para trazer tudo
abaixo em um orgasmo selvagem, que veio enquanto se observava no espelho, vendo as mãos se
movendo, o mel brilhando, o sexo e a bunda brilhando, inteiramente molhada entre as pernas.

O tratamento que Anaïs Nin dá à vagina — delicado e reverente — apresenta


um contraste violento com o dispensado por Henry Miller ao mesmo tema. Miller
ajudou a introduzir o “contexto pornográfico” que cerca a vagina até hoje — no
qual a vagina é rebaixada e rebaixa a mulher, completamente descontextualizada
do resto dela. Esse contexto nos é tão familiar, que já o tomamos pela realidade,
mas a verdade é que, historicamente, ele é bem recente. Miller criou o modelo
para esse contexto em uma passagem famosa de Trópico de câncer — avidamente
lida por gerações de meninos de escola — em sua descrição da vagina da
prostituta Germaine. Germaine “avançou alegremente para mim”, Miller escreve:
(…) começou a esfregar a vagina afetuosamente, segurando-a com as duas mãos, dando-lhe
palmadinhas, acariciando-a, acariciando-a. Em sua eloqu ência naquele momento e na maneira como
jogava aquela roseira sob meu nariz, havia algo que permanece inesquecível; falava dela como se fosse
um objeto estranho, um objeto que adquirira por alto preço, um objeto cujo valor aumentara com o
tempo e que agora prezava acima de tudo no mundo. Suas palavras impregnavam-na de uma fragrância
peculiar; não era mais apenas seu órgão privado, mas um tesouro, um tesouro mágico e potente, uma
coisa dada por Deus — nada perdendo por negociá-la dia após dia em troca de algumas moedas de
prata. Quando se jogou na cama, com as pernas bem abertas, pôs as mãos em concha sobre ela e deu-
lhe mais algumas palmadinhas, murmurando todo o tempo, com aquela sua voz rouca e dissonante, que
era boa, bonita, um tesouro, um pequeno tesouro. E era boa, aquela sua vaginazinha! (…) E de novo
aquela sua coisa grande e cabeluda mostrou florescência e magia. Ela começava a ter uma existência
independente — para mim também. Havia Germaine e havia aquela sua roseira. Eu gostava das duas
separadamente e gostava delas juntas (…) Um homem! Isso é o que ela queria. Um homem tendo
entre as pernas alguma coisa que pudesse deleitá-la, que pudesse fazê-la se contorcer em êxtase, que a
fizesse agarrar aquela sua vulva cabeluda com ambas as mãos e esfregá-la alegremente,
jactanciosamente, orgulhosamente, com um senso de conexão, um senso de vida. Esse era o único lugar
onde ela experimentava alguma vida — ali embaixo, onde segurava com ambas as mãos (…) descia-lhe
ardendo entre as pernas, onde as mulheres devem arder, e lá estabelecia aquele circuito que nos faz
sentir de novo a terra sob os pés. Quando ficava lá deitada com as pernas abertas e gemendo, ainda
que gemesse daquele jeito para todo mundo, era bom, era uma demonstra ção apropriada de sentimento.
[15]

Não estou argumentando sobre que tipo de texto é mais excitante. Algumas
mulheres vão reagir mais ao de Anaïs, outras ao de Miller — algumas, sem
dúvida, aos dois ou a nenhum. Minha intenção, em vez disso, é chamar a atenção
para o fato de que são formas culturais muito diferentes de representar a vagina. A
visão masculina modernista das mulheres está toda aqui quando o narrador vê a
vagina de Germaine. A mulher tem desejos sexuais, mas não faz distinção entre os
favores sexuais comprados ou dados de graça. Ela é retratada como morta em
todos os locais, menos em seu centro sexual. É identificada com a vida e com o
vigor, e há metáforas atraentes — “roseira”, “tesouro” —, mas ela tem uma
existência separada de sua vagina e de sua relação com o narrador masculino. A
vagina em si é separada da mulher, em vez de integrar outra dimensão feminina,
como acontece de forma tão delicada no “portal transcendentalista” de Nin.

A VAGINA DO BLUES

Os primeiros anos do século XX abriram caminho para outra vertente: o


florescimento do ragtime na virada do século e depois o jazz e o blues afro-
americanos nas décadas de 1920 e 1930. Esse desenvolvimento musical
atravessou os Estados Unidos e chegou à Inglaterra e Europa Ocidental. O
ragtime, o jazz e o blues eram vistos como presságios da novidade e da
liberdade. Os estilos de dança espontâneos que acompanharam esses novos
ritmos foram identificados com outros tipos de vanguardas, incluindo novos tipos
de rejeição das tradições independentemente de classe e, claro, liberdades
sexuais. Os brancos sofisticados ouviam as vozes e letras afro-americanas de uma
nova forma, assim como novas formas musicais.
O ragtime, o jazz e o blues também introduziram uma nova franqueza na
discussão sobre a vagina e a sexualidade feminina em geral. As letras do blues,
em particular, estão repletas de gírias afro-americanas para a vagina. Por meio
dessa gíria, muito discurso direto sobre a vagina e a resposta sexual feminina em
geral chegou aos salões da sociedade americana e europeia. Essas gírias eram,
em geral, codificadas em metáforas: o clitóris era um sino que precisava ser
tocado; a vagina era uma chapa quente, ou um naco de manteiga que precisava ser
batido, ou um pãozinho de cachorro-quente no qual só faltava a salsicha. Assim,
os brancos de classe média e alta fora da boêmia — homens e mulheres cujas
normas sociais ainda os proibiam de discutir a vagina ou a sexualidade feminina
em público — podiam cantar as letras, divertir-se e repetir seus duplos
significados, sem penalidades sociais.
A penetração das letras dos blues afro-americanos na sociedade branca e mista
foi tão importante, em parte, por causa da grande diferença entre o contexto que
essa música dava à vagina e o contexto criado pelas tradições ocidentais
dominantes. Diferentemente dos ginecologistas daquela época, a gíria do blues
não “medicaliza” a vagina. Diferentemente de Freud, ele não “psicologiza” uma
resposta sexual “melhor” ou “pior” para as mulheres. Em contraste com a teoria
de Freud da ansiedade masculina da castração, mas também em contraste com os
modernistas como Lawrence, a gíria do blues não tem medo da vagina. Em vez
disso, as metáforas que tanto cantores quanto cantoras de blues usavam sobre a
vagina projetam consistentemente uma imagem do desejo feminino como forte,
estável, positivo e às vezes muito engraçado — assim como o desejo sexual
masculino, que muitas vezes é retratado como engraçado — e, obviamente,
necessitado de gratificação, assim como merecedor de satisfação. A vagina
dobluesnão é envergonhada. As palavras que a cercam não são associadas com
neurose. A vagina dobluespraticamente nunca é descrita como uma “fenda” ou um
“nada”, ou uma fonte de vergonha ou doença. As metáforas que o blues usa para a
vagina descrevem algo que é delicioso, atraente ou simplesmente divertido. Na
tradição do blues, essas metáforas incluem geleia, gelatina, açúcar e doce,
frigideira ou chapa, manteiga, sino, pão e tigela. Nas letras do blues, as mulheres
não são vitimizadas por ter vagina, mas são, em geral, retratadas como em plena
posse de sua própria sexualidade e gostando de sua vagina. A sexualidade das
afro-americanas foi possuída e comercializada por outras pessoas durante 400
anos, mas, apesar disso, ou talvez por causa disso, essas letras de música
enfatizam que sua sexualidade pertence a elas mesmas. De forma muito diferente
dos romances vitorianos com suas temáticas de “sedução e traição”, nos quais a
mulher “boa” é a vítima sexual passiva e quase não há narrativa de ação sexual
feminina positiva, na tradição do blues a ação sexual feminina é a história
predominante. As mulheres quase nunca são retratadas como vitimizadas via sua
sexualidade, apesar de que o amor possa sempre partir seu coração.
No blues , os letristas masculinos tendem a mostrar as mulheres em pleno
controle “daquilo”; a mulher é frequentemente descrita como tendo certa maestria
em lidar com sua “coisa”, e o observador/narrador masculino na música é
descrito como o público embasbacado por sua habilidade e poder sexual. Não se
pode dizer que esses papéis — a mulher exibindo sua habilidade e maestria com
sua “coisa”; o homem trovador jactando-se da capacidade dela com “sua coisa”
— sejam inerentemente misóginos. Eu diria que são filóginos, na realidade — em
geral, o narrador masculino dessas músicas parece amar as mulheres. As letras
dos blues são frequentemente filóginas.
Nas letras das famosas cantoras de blues dos anos 1920 aos 1940, há dezenas
de termos codificados para vagina. Lil Johnson cantou a frustração feminina em
“Press My Button (Ring My Bell)”, uma canção em que lamenta a inabilidade do
amante excessivamente confiante em localizar seu clitóris:
Meu homem achava que tinha mandado bem
Eu disse, Me dê isso aqui, você não entende
Onde colocar essa coisa,
Onde colocar essa coisa,
Aperte meu botão, toque meu sino!
Venha cá, meu bem, vamos nos divertir
Coloque sua salsicha no meu pão
E terei aquela coisa, aquela coisa
Aperte meu botão, toque meu sino!
Meu homem está lá fora, na chuva e no frio
Ele tem a chave certa, mas não encontra o buraco
Ele diz, “Onde está aquela coisa? Aquela coisinha?
Tenho apertado seu botão, mas seu sino não toca!”
“Vai fundo, garoto! Venha e molhe meu botão!
Está meio enferrujado!”
Agora me diga, papai, o que quer dizer isso
Tentando ligar a ignição, com uma chave gasta
Não posso usar essa coisa,
Essa coisinha
Tenho apertado seu botão, mas seu sino não toca!
Ouça-me amor, estou sem fôlego
Trabalhei a noite toda, mas não fiz nada ainda
O que tem de errado com essa coisa? Essa coisinha?
Tenho apertado seu botão, mas seu sino não toca!
Ouça-me amor, estou de joelhos
Quero um homem gentil para ouvir minha súplica
E me dar aquela coisa
Aquela coisinha
[16]
Aperte meu botão, toque meu sino!
Em sua canção de 1936/37 “Hottest Gal in Town”, Lil Johnson descreve o forte
desejo feminino em um conjunto de metáforas domésticas, até mesmo comestíveis,
em que a vagina ansiosa é descrita em diferentes momentos como leite, creme de
leite e biscoitos em que o desejo feminino é comparado a uma caldeira acesa. Em
sua música, Lil descreve seu amante ideal, que dedica seu tempo a acordar cedo
todas as manhãs para acender a tal caldeira, aumentando a intensidade de seu
calor, e que deve ter boa aparência e um corpo bom. Em sua série de metáforas,
ele vai bater seu leite, transformar em creme e assar os biscoitos. Ela se foca em
suas características físicas — sua altura e força — e insiste que ele é semelhante
a um canhão. Explica que todas essas qualidades são o motivo de ela o querer em
sua vida — afinal, gaba-se, ela é a mulher mais gostosa da área. A repetição de
diferentes metáforas que caracterizam o desejo e o prazer sexual mútuos enfatiza a
centralidade da reciprocidade em uma experiência sexual satisfatória e as formas
múltiplas em que o desejo feminino busca e manifesta o prazer.
As grandes cantoras do blues por vezes também lamentaram a perda do prazer
sexual. Em “If You See My Rooster”, de 1936, a legendária Memphis Minnie
cantava:
Se você vir meu galo, mande-o de volta para casa.
Se você vir meu galo, mande-o de volta para casa.
[17]
Não achei nenhum ovo em minha cesta, eeh hee, desde que meu galo se foi.

Memphis Minnie lamenta por sua “cesta vazia”. Um ano depois, Bessie Smith,
uma sensação imediata, cantaria “I Need a Little Sugar in My Bowl”. Ela precisa
de açúcar, mas precisa também de uma salsicha em seu pão, precisa que seu
amante mexa um pouco seu dedo, precisa de algo que “se pareça com uma cobra”
e algo para colocar em sua tigela:
Cansada de ser sozinha, cansada de ser triste
Queria ter um homem bom, para quem contar meus problemas
Parece que o mundo todo está errado, desde que meu homem se foi
Preciso de um pouco de açúcar em minha tigela
Preciso de uma salsicha em meu pãozinho
Preciso de um pouco de amor, preciso tanto
Eu me sinto engraçada, triste
Preciso de um pouco de vapor em meu chão
Talvez eu possa consertar as coisas, e elas desaparecerão
Essa é a questão, papai, venha salvar a alma da mamãe
Pois eu preciso de um pouco de açúcar em minha tigela
É isso aí
Preciso de um pouco de açúcar em minha tigela
Preciso de uma salsicha em meu pãozinho
Você está diferente, me disseram
Mexa seu dedo, ponha algo em minha tigela
Preciso de um pouco de vapor em meu chão
Talvez eu possa consertar as coisas, e elas desaparecerão
Levante-se daí, não vejo para onde você está indo!
Está escuro aí!
Parece uma cobra!
Venha até aqui e ponha algo em minha tigela!
[18]
Deixe de ser bobo e ponha algo em minha tigela!

Bo Carter respondeu a essas vozes femininas tão assertivas com sua própria
contra-argumentação cheia de metáforas sexuais. Em contraste com a forma de ver
a sexualidade das brancas vitorianas, cheia de “erros” e “sedução e traição” — a
dominância masculina e a reticência feminina —, no pareamento de pênis e
vagina nas letras dos blues , os dois órgãos ganham um status de igualdade: são
interdependentes e trabalham juntos; cada um precisa do outro. O mundo sexual
do blues é cheio de afeição e intensas necessidades físicas mútuas, no qual nem o
homem nem a mulher estão necessariamente “por cima”. Em “Banana in Your
Fruit Basket”, Carter implora ao seu público por uma mulher que, ao assar seu
pão, faça uso de seu “forno novinho”. Ele jura que, se a dama em questão o deixar
pôr sua “banana” na “cesta de frutas” dela, isso será suficiente para ele. Segue
uma série de metáforas que descrevem pares de objetos que funcionam não
apenas reciprocamente, mas que se encaixam. Carter observa que ele é dono de
uma tábua de lavar roupa, e sua amada tem uma tina — e que, juntos, o casal pode
“esfregar, esfregar, esfregar” —, é claro que tábua de lavar roupa sem a tina
correspondente (na qual ela se encaixa) não tem utilidade. Carter faz uma
comparação semelhante quando fala de sua pá de bater manteiga. Não é por acaso
que sua amada tem o recipiente onde a manteiga é batida. A canção continua em
suas descrições lascivas e adoráveis: Carter tem uma agulha, e a garota tem um
pano, juntos podem costurar “até que os dois possam senti-lo”. Essa série de
conjunções descreve relacionamentos recíprocos nos quais nenhum dos objetos é
útil sem o do parceiro. As metáforas enfatizam a necessidade mútua no sexo.
Carter fecha a música dizendo que, se sua garota tem a “carne”, ele tem a “faca”
— e que, se ela o deixar “fazer seu corte”, isso vai “resolver” a vida dele.
A cantora de blues Blu Lu escreveu e interpretou a sensual “Don’t You Feel My
Leg” em 1938 — uma canção tão quente e com uma letra tão obviamente focada
no desejo sexual do ponto de vista feminino, que foi proibida durante algum
tempo.
Você não sente minha perna?
Porque, se você tocar minha perna, vai querer a coxa.
E se tocar minha coxa, vai querer subir mais.
Então, não quer tocar minha coxa?
Você não vai comprar um drinque?
Porque, se comprar um drinque, vou ficar bêbada.
E se eu ficar bêbada, você vai me contar uma mentira.
Não quer me fazer ficar bêbada?
Você disse que ia me levar para sair e me tratar bem.
Mas sei que há algo que você tem em mente.
Se você continuar bebendo, vai ficar fraquinho.
E vai acabar pedindo um bom peru marrom…
Você não sente minha perna? [Refrão]
Não quer sentir minha perna agora, você sabe por quê.
Porque não vou deixar você tocar minha perna
[19]
Porque você pode querer subir… [Refrão]
Artistas femininas transformaram uma mesma letra sexualmente explícita em
versões ainda mais gráficas, em gravações posteriores. Georgia White gravou
“I’ll Keep Sittin’ on It” (If I Can’t Sell It) em 1936. A música usa o motivo de uma
cadeira para expressar orgulho e autoestima sexual, assim como humor — algo
que facilitava a aprovação pela censura. A música descreve uma mulher
decidindo se vai vender uma cadeira, mas apenas se for pelo preço certo. Se ela
não puder vender sua cadeira, diz White, vai decidir simplesmente continuar a se
sentar nela. O ouvinte tem que comprar a cadeira dela, já que a quer tanto —
White não vai dá-la de graça, independentemente do desejo do candidato a
comprador. De fato, ela se recusa terminantemente a considerar a possibilidade.
A letra pede ao comprador que se manifeste e mostre que ele a valoriza. Georgia
canta com orgulho a beleza do estofamento, feito para durar. Ela observa que, se o
comprador deseja algo de boa qualidade, se espera que contribua com dinheiro, e
ela promete que ele jamais se arrependerá de sua decisão. Ela insiste que não está
falando por falar: faz questão de deixar isso claro. No contexto, a ideia de trocar
“dinheiro” pela “cadeira” não sugere uma metáfora para trabalho sexual, em uma
troca literal de sexo por dinheiro, mas sim uma reafirmação do valor que Georgia
dá a sua própria sexualidade — ela não vai tratá-la como algo sem valor.
A versão de Ruth Brown de quatro anos depois é ainda mais explícita.
Tenho uma loja de móveis de segunda mão
E acho que meus preços são justos.
Mas, um dia, chegou esse homem bem sovina
Viu a cadeira e quis comprá-la
Mas não quis — disse que o preço estava muito alto.
Aí, olhei-o bem nos olhos,
E esta foi minha resposta…
Se eu não puder vendê-la, vou me sentar nela.
Não vou dá-la de graça.
Agora, querido, se você a quer, vai ter que comprar.
E quero dizer justamente isso.
O que você me diz de encontrá-la
Todas as noites esperando-o em casa?
Só foi usada uma ou duas vezes, mas ainda é linda e firme…
Você não vai encontrar um par de pernas melhor na cidade
E um traseiro assim? Nem a quilômetros de distância…
Porque foi feita para seu conforto,
Feita para durar.
Onde mais você vai achar uma cadeira melhor?
É luxo, maciez, conforto e lustro.
Meu bem, uma peça de alta classe não custa pouco…
Olhe o lindo traseiro.
Não cai bem aos olhos?
Garantia de qualidade
Para qualquer tamanho e preço.
[20]
Se não puder vender…
A tradição do blues afro-americano continuou influenciando a música popular
americana: seus descendentes incluem o rock n’roll e o hip-hop. Mas o humor e
caráter explícito do blues, que davam como certa a natureza positiva essencial do
desejo sexual feminino, não sobreviveram nas tradições musicais que
descenderam desse estilo musical. Os produtores brancos, que empacotaram a
música afro-americana para o público branco na década de 1950, limparam todas
as referências nas letras que comercializaram para as massas, e quando o rock e o
hip-hop levaram adiante sua própria iniciativa de cantar sobre o sexo, essa
tradição das letras amistosas às mulheres já havia desaparecido havia muito
tempo.

A VAGINA AUTODEFINIDA DA SEGUNDA ONDA

Os anos pós-guerra, como Betty Friedan documentou em seu clássico de 1963, A


[21]
mística feminina, foram anos de regressão. Os analistas freudianos começaram
a se espalhar pelos Estados Unidos, as mulheres de classe média, pelo menos, e
para sua própria frustração, lutavam para se encaixar em uma satisfação
doméstica centrada em um modelo freudiano (ou seja, não clitoridiano) de
“maturidade” e “ajuste”. Não obstante, tudo mudou novamente em 1965, com a
descoberta da pílula anticoncepcional e o início do que passou a ser chamado de
“revolução sexual”.
Em 1976, Shere Hite publicou oThe Hite Report: A Nationwide Study of
[22]
Female Sexuality. Esse livro criou uma perspectiva radicalmente diferente de
tudo que o precedeu, particularmente o modelo freudiano, já que olhava
diretamente para as experiências das mulheres durante o coito e as apresentava
em suas próprias palavras, em vez de prescrever o que elas deveriam
experimentar. O que Hite descobriu, como mencionado anteriormente, é que dois
terços das mulheres não conseguiam chegar ao orgasmo somente pela penetração
do pênis. Essa conclusão foi uma revelação para milhões de mulheres que, tendo
lido Freud ou a neofreudiana Karen Horney, se achavam insuficientemente
amadurecidas se não conseguiam gozar pela penetração apenas.
As frases coletadas por Shere Hite das mulheres que têm orgasmo com a
penetração — versus as que precisam de estímulo clitoridiano para chegar lá —
estabeleceram uma dualidade política que ainda está entre nós. Temos que
entender agora, como disse na primeira parte do livro, que o clitóris, a vagina e
sem dúvida todos os muitos centros sexuais femininos (por falta de termo melhor;
é mais que um “órgão”) são todos parte do mesmo conjunto neural complexo. E os
dados mais recentes mostram que o ponto G é provavelmente parte da estrutura
do clitóris.
Mas, nos anos 1970, em uma nova acalorada argumentação com Freud, muitas
feministas defenderam o clitóris como se ele estivesse em oposição à vagina.
Feministas como Anne Koedt, em The Myth of the Vaginal Orgasm (1970),
tentaram desbancar a superioridade da vagina sobre o clitóris estabelecida pelo
pai da psicanálise. Essas feministas, em sua defesa bastante razoável da atenção
merecida pelo clitóris, argumentavam que a ideia do prazer vaginal fazia parte de
um enredo patriarcal sinistro. Esse enredo, argumentavam, tentava persuadir as
mulheres de que a vagina era o locus da verdadeira feminilidade; e o clitóris,
insignificante. Se as mulheres fossem persuadidas disso, segundo as feministas,
passariam pela lavagem cerebral da dependência dos homens — e os homens
teriam carta branca para ser preguiçosos e ignorar as necessidades femininas de
atenção ao clitóris.
O sucesso de Shere Hite em 1976 trouxe de volta o glamour do clitóris e
reforçou as muitas formas de estimulá-lo e manipulá-lo descritas por Alex
Comfort em Os prazeres do sexo (1972), que também marcou uma geração. Com
todos esses novos rótulos, a vagina acabou um pouco relegada, pelos trinta anos
que se seguiram, a um segundo plano cultural. A partir dos anos 1970, a vagina foi
redefinida como retrô, característica das donas de casa e ultrapassada — até a
redescoberta do ponto G em 1981, por Beverly Whipple. (No século XXI, o
interesse da indústria pornô pela ejaculação feminina trouxe de volta a atenção à
vagina.) Essa polarização deu às duas partes do sistema sexual feminino — que,
de fato, formam uma única rede — identidades culturais muito diferentes. Por
trinta anos, o clitóris foi visto como mais legal que a vagina, e, mais uma vez, as
mulheres se viram submetidas a uma falsa escolha que minimizava sua própria
complexidade sexual. O clitóris, se fosse personificado, seria Gloria Steinem,
glamorosa em sua minissaia. A vagina seria Marabel Morgan, com seu penteado
ligeiramente ultrapassado, que escreveu o best-seller antiquado A mulher total
(1970).
Logo, a Segunda Onda do feminismo saiu em missão de ensinar as mulheres
reprimidas de classe média a localizar seu clitóris, exigir igualdade orgástica e se
masturbar. Em 1973, Betty Dodson, ativista do feminismo e educadora sexual,
começou a oferecer workshops às mulheres para ajudá-las a “apreciar a beleza de
seus genitais, além de explorar variadas experiências de orgasmo por meio da
[23]
prática de habilidades masturbatórias”. Sua missão era ensinar mulheres “pré-
orgásticas” a se masturbar até chegar ao orgasmo, e foi bem-sucedida. Betty é
uma mulher que tem os pés no chão e uma presença não ameaçadora. Seus
workshops ganharam ampla cobertura da imprensa tradicional e da Ms.
Magazine, levando as mulheres a se familiarizar com a ideia de que é uma
demonstração de poder sentar-se com as pernas abertas de frente a um espelho e
conhecer melhor sua vulva e vagina.
A década de 1970 também viu um grande alarde feminista ao redor do
complexo vaginal — isto é, vagina, lábios e clitóris. Germaine Greer, que atraiu
atenção internacional com seu manifesto retumbante TheFemaleEunuch(1970),
entendeu a conexão implícita entre vagina e liberdade. Devotou um capítulo de
seu livro The Mad-woman’s Underclothes (originalmente publicado em 1986) à
“Política da Sexualidade Feminina”, publicada em 1970, à vagina e à sua
derrogação e conclamou, em um ensaio praticamente mimeografado na revista
[24]
Suck, “Mulheres, amem suas bocetas”.
A vagina feminista, assertiva e autodefinida também estreou na literatura nesta
década primordialmente feminista. Erica Jong, é claro, publicou Medo de voar
em 1973, cunhando o famoso termo que, brinca ela, será inscrito em nossas
lápides: “zipless fuck”, ou a foda sem zíper, que, como argumenta em seu
romance, é a meta fantasiada por toda mulher liberada: sexo bom sem amarras
sexuais e sem bagagem. A heroína de Jong, Isadora Wing, também conecta o
despertar de sua vagina ao seu próprio renascimento criativo e à sua
individualidade como agente de sua vida, no lugar da dependência passiva de
vários homens. O romance de Jong foi publicado em quatorze países. Foi tão
popular precisamente porque foi o primeiro bildungsroman a identificar, em
termos paralelos, a jornada do despertar sexual feminino com a do despertar
psicológico e criativo. O seco e fisicamente reprimido dr. Wing, marido de
Isadora, quem ela trai abundantemente com amantes masculinos sensuais, jamais
conseguiu despertar a escritora/aventureira latente na esposa. A cena final do
livro, na qual Isadora — agora profundamente engajada em sua própria jornada
sexual e criativa — contempla seus próprios pelos púbicos loiros deitada na
banheira, é um tropo da conexão entre a vagina e a imaginação:
Flutuei levemente na banheira profunda, sentindo que algo estava diferente, algo estranho (…) Olhei
para meu corpo. O mesmo corpo. O V rosado das minhas coxas, o triângulo de pelos cacheados, o fio
do Tampax pescando na água como um herói de Hemingway, a barriga branca, os seios meio à tona
(…) Um belo corpo Meu. Decidi mantê-lo. Abracei-me. O que estava faltando era meu medo (…)
Independentemente do que acontecesse, sabia que sobreviveria. Sabia, acima de tudo, que continuaria a
[25]
trabalhar.
A heroína recentemente liberada e criativa contempla seu próprio corpo, sua
própria vagina — e pensa em sua renovada dedicação ao trabalho criativo: essa
cena é uma metáfora para o despertar sexual que também é criativo, assim como
físico, e o despertar criativo, que é sensual, assim como cerebral.
Nas artes visuais, Judy Chicago levou sua exposição The Dinner Party a
museus de todo o país em 1974. Judy retratou trinta e nove mulheres míticas e
reais ao longo da história pintando suas vaginas em pratos colocados em mesas
de jantar triangulares — o triângulo como arquétipo feminino ou o formato da
vulva. Falou do tema da “vulva-borboleta” como tropo da criatividade feminina.
O propósito das várias vaginas era expressar os caracteres individuais dessas
mulheres e representar sua obra. Ela publicou a coleção de pratos como livro de
fotos em 1979. Essa exposição e o livro chocaram na época, atraindo uma
variedade de reações críticas e virulentas. Essas representações das vaginas
hipotéticas de Mary Wollstonecraft e Emily Dickinson não poderiam ter retratado
a conexão vagina-criatividade mais literalmente — mesmo que a natureza dessa
conexão ainda permanecesse intuitiva.
Foi, portanto, uma boa década para a vagina, trazendo à tona sua importância
como locus de prazer em uma definição mais estrita. Os resultados foram
positivos para as mulheres: no final dos anos 1970, a revista Redbook relatou que
70% das respondentes femininas declararam estar “satisfeitas com o aspecto
sexual de seus casamentos”; 90% relataram ter um papel ativo no sexo pelo
menos metade das vezes, e, em vários casos, “sempre”; 64% declararam que
chegavam ao orgasmo regularmente durante o sexo e que sentiam que podiam
comunicar claramente suas necessidades sexuais a seus parceiros. (O número de
mulheres que chegam ao orgasmo durante o sexo não aumentou nas décadas
subsequentes à “revolução sexual” e com a proliferação da pornografia; e os
dados de mulheres que relataram que são honestas em expressar necessidades
[26]
sexuais aos parceiros homens caíram.)
O movimento feminista que defendia a vulva e a vagina não se restringiu à
literatura, pintura e prosa não fictícia. O mercado também aderiu
entusiasticamente: a cultura notou a atenção de consumidores voltada para a
vagina em produtos eróticos, como as produções Vive, que faziam vídeos
pornográficos para mulheres (ritmo lento, mais envolvimento emocional, mais
romantismo) — um gênero que logo se tornou obsoleto, pois as mulheres se
adaptaram à masturbação com o pornô convencional —, e lojas de brinquedos
eróticos para mulheres proliferaram, como as butiques Babeland em Nova Iorque
e as iluminadas e agradáveis lojas da Good Vibrations em São Francisco. (A
gerente da filial do Brooklyn da Babeland — anteriormente Babes in Toyland —
relatou que novos brinquedos sexuais desenhados para estimular o ponto G e
encorajar a ejaculação feminina são continuamente desenvolvidos e que os
estoques voam das prateleiras. “Por que a tendência?” — perguntei. Ela
respondeu que a pornografia havia se focado intensamente na ejaculação
feminina, levando as mulheres a querer explorar o estímulo de seu ponto G.)
Mas há uma diferença real entre esse modo de defender a sexualidade feminina
e o do início do século XX, que, como vimos, testemunhou uma guinada nas vozes
e imagens de mulheres em relação ao prazer sexual feminino. Loie Fuller, Edna
St. Vincent Millay, Georgia O’Keeffe e Edith Wharton escreveram ou pintaram ou
dançaram como formas de expressar verdades sobre o desejo feminino; mas o
desejo sexual, na obra delas, não está separado da transcendência, inspiração e
alegria femininas em outras áreas da vida das mulheres. É um meio para uma
transcendência e criatividade maiores, mais plenas e abrangentes. A defesa da
sexualidade feminina pós-1970, em contraste, é bastante mecânica. Não tem a ver
com o espírito. É muito mais degradada. É sobre o que vibra e como. É
diminuída, acredito, pelo discurso médico de autores como Masters e Johnson,
que enquadram a sexualidade feminina e masculina como uma questão de “carne”,
e também distorcida por pressões da indústria pornográfica que floresceu
juntamente com a revolução sexual.
O historiador da sexualidade Steven Seidman destaca que as décadas de 1960
e 1970 introduziram a noção de “diversão” — não apenas prazer — como uma
importante parte da vida sexual, especialmente nos manuais de sexo mais
[27]
vendidos do mercado. Ele cita David Reuben, o médico de Tudo que você
queria saber sobre sexo(1969), Alex Comfort, deOs prazeres do sexo, e “M”, de
The Sensuous Man (1971), como defensores do sexo consensual como “uma
forma adulta de brincar”; todas as práticas sexuais, incluindo a flagelação,
agressão e fetichismo, ele escreve, passam a ser vistas como igualmente válidas,
e qualquer tipo de fantasia — não importa quão “selvagem ou sanguinária” —
deve ser valorizado e explorado. É claro que isso é um modelo radicalmente
diferente do portal para o paraíso ou inferno da Renascença, ou do dever sóbrio
dos vitorianos, ou da conexão com o divino dos transcendentalistas estéticos.
“Esse sexo pode ser classificado como libertário”, escreve ele, de modo
persuasivo.
Essa é a nossa ética sexual. Não há nada de errado com a “diversão”, é claro.
Mas esse modelo do “para que serve o sexo” — ou para que serve a vagina —
deixou muitas perguntas profundas sobre o papel da sexualidade como meio para
uma intimidade profunda ou profundas alterações de consciência. E o modelo
“sexo como diversão” também levanta todas as questões tocadas pela ética do
“vale-tudo” — por que não, mesmo se a pessoa está em um relacionamento,
assistir a um filme pornô? Por que não ir a um clube de striptease, ou frequentar
salas de bate-papo de sexo? Por que não sexo a três, ou contar detalhes das
fantasias ao parceiro, envolvendo uma terceira pessoa? O que seria, dentro desse
modelo libertário, o raciocínio para traçar qualquer tipo de limite para manter a
energia sexual “sagrada”, de certa forma, entre duas pessoas?
Essa visão da sexualidade “libertária”, “sexo como diversão” e o papel da
vagina dentro disso tudo é nosso complexo legado. Ao que parece, o sexo
libertário pode não ser exatamente a mesma coisa que uma verdadeira liberação
sexual. “Esses manuais [como Os prazeres do sexo]”, continua Seidman,
“encorajam o leitor a não resistir [a qualquer tipo de fantasia] desde que a esfera
sexual represente um cenário ideal para experimentar desejos, medos e tabus (…)
Não bloqueie [suas próprias fantasias] e não tenha medo das fantasias de seu
parceiro; esse é o sonho no qual você está.”
Nesses manuais, observa Seidman, “para colocar o leitor à vontade”, garante-
se a ele ou ela que o comportamento sexual não é um marcador da verdadeira
natureza da pessoa. Essa ideologia — descendente de Walt Whitman e Oscar
Wilde, via (de uma forma degradada) Friedrich Nietzsche — argumenta que a
sensação, até mesmo a mais extrema sensação, é boa por si só. Essa “vontade de
prazer” sexual, adornada por uma boa porção do argumento de Freud de que o
indivíduo tem um “passe” para fazer o que quer que o inconsciente crie — já que
a pessoa não pode ter responsabilidade, e, portanto, não pode ter culpa, pelos
desejos inconscientes —, encaixa-se perfeitamente à economia consumista e
imediatista do pós-guerra no Ocidente. Prepara um solo fértil para o enraizamento
da experiência pornográfica do sexo e da vagina em particular. Acabou se
tornando a forma como pensamos que “é o sexo” — em vez de nos deixar
entender que essa forma de pensar sobre o sexo é apenas mais uma dentre as
muitas ideologias sexuais possíveis. E abriu caminho na mente de homens e
mulheres para a aceitação e posterior interiorização cada vez mais selvagem do
nivelamento moral, dispersão e fixação da pornografia.
Mas será que o que você faz na cama com outra pessoa — com todas as
esperanças, intimidades e possibilidades de dor envolvidas — não passa de “um
sonho no qual está”? As próximas três décadas questionariam essa visão global
do sexo e da fantasia inconsequentes.
Portanto, as ativistas do feminismo dos anos 1970 estavam tentando expressar
uma relação com a vagina que foi descontextualizada pela pornografia produzida
em massa, pelos manuais de sexo libertário e pelos cientistas sexuais. (Os
pôsteres da Playboy eram “rosa” — significa que mostravam pernas abertas e
lábios internos visíveis — já no início dos anos 1970.) Quando a assim chamada
revolução sexual dos anos 1970 tomou seu rumo, até mesmo o discurso feminista
sobre a vagina era enquadrado de uma forma bastante estéril ou “pornô”, já que
as associações do modernismo e do blues à volta da sexualidade feminina,
refletindo um mistério mais profundo que a mera carnalidade e um êxtase que era
mais que físico, haviam sido perdidas.
O discurso otimista sobre a sexualidade feminina que caracterizou o trabalho
de Germaine Greer e Erica Jong não durou muito. As coisas voltaram às trevas na
década de 1980. Em 1985, Intercourse, de Andrea Dworkin, retratou a vagina
como sendo — intrinsecamente — um local de violência sexual masculina. Em
um argumento denso de pessimismo sexual, ela defendia que a relação sexual
hétero tem sempre a ver com a dominância masculina e a submissão feminina:
A pequena e íntima sociedade criada para o coito, uma vez ou muitas, a unidade social que é a foda em
ação, deve proteger a dominância masculina (…) O pênis precisa da proteção da lei, do encantamento,
do poder. A rebelião, aqui, no coito é a morte de um sistema de hierarquia de gênero baseado na vitória
[28]
sexual sobre a vagina.

Nesse ponto, a efervescência dos anos 1930 e 1940, com as bananas e cestas
de frutas, as agulhas e o tecido, o cachorro-quente e a salsicha e a manteiga batida
das letras do blues — metáforas sobre a dependência ou energia mútua, em vez da
dominância e submissão —, havia se perdido no tempo. Para Andrea, a
penetração masculina da vagina sempre foi inerentemente um ato de agressão.
Segundo seu ponto de vista, é impossível que uma mulher queira livremente ser
penetrada. Caso ela de fato deseje a penetração, seria o resultado de ter
interiorizado uma “falsa consciência” sobre a natureza de seu desejo, por ter
interiorizado as normas de seu opressor. Paradoxalmente, da mesma forma que as
mulheres foram atacadas pelos misóginos da era elisabetana por serem “feridas”,
Dworkin fez — na defesa das mulheres — a mesma alegação. Na obra de
Dworkin, a vagina é relegada de volta ao seu status elisabetano de ferida
[29]
alegórica, de uma “fenda”, de lesão pronta à espera do homem agressor.
Mas outros tipos de defesa também apareceram nas décadas de 1980 e 1990.
Em 1993, Joani Blank editou Femalia, uma coleção de fotos coloridas em close
de várias vaginas, incluindo as de algumas mulheres muito conhecidas. (O livro
foi publicado pela Down There Press.) Foi uma atualização do livro de colorir da
ativista Tee Corinne de 1973. As duas mulheres quiseram inserir na cultura
imagens da imensa variação entre vaginas, pois achavam que as mulheres sentiam
vergonha de suas próprias formas de lábios e vulva com demasiada frequência.
Os monólogos da vagina, originalmente uma peça de 1996 de Eve Ensler,
produziu um grande impacto: Eve usou os monólogos de mulheres reais sobre sua
própria vagina para chamar a atenção para questões que ainda eram tabus sobre a
sexualidade feminina e o estupro. Em 1998, Inga Muscio escreveu Cunt: A
Declaration of Independence — tentando reaver a palavra e o conceito,
transformando-o de negativo em emblema de poder.
E hoje? Dependendo de onde se olha, há um movimento generalizado de
mulheres musicistas, artistas e escritoras pintando, tirando fotos, narrando,
liderando e “problematizando” — como se diz na academia — a vagina. E-mails
me alertaram para um círculo de crochê em Toronto, no qual jovens mulheres, em
busca da aquisição de poder, criam vaginas de lã. Uma artista dinamarquesa
pedala em volta de Copenhague com uma escultura de vagina de gesso de dois
metros presa à sua bicicleta. O site de jovens feministas Feministing.com tem uma
seção chamada “I Love My Vagina”. Outro site, Vulvavelvet.com, com muito
charme encoraja as mulheres a postar imagens de sua própria vagina para que
nenhuma mulher se sinta “estranha”. A diversidade labial nas fotos que as
mulheres enviam ao site é verdadeiramente impressionante, e a ampla faixa do
que é “normal” para as mulheres certamente desafia a uniformidade cirúrgica,
assim como a assustadora infantilidade da vagina pornográfica. Como Tee
Corinne e Joani Blank, as fundadoras do site também querem que as mulheres
aceitem nelas mesmas a grande variedade das variações normais e simetrias e
assimetrias complexas nos arranjos labiais. (Vulvavelvet.com também tem uma
página fascinante na qual as mulheres escrevem dicas e truques para uma
masturbação satisfatória. As sugestões variam do uso de uma variedade de
vegetais — excluindo os suspeitos usuais — a formas criativas de se sentar em
máquinas de lavar e coreografias complexas envolvendo o chuveirinho. Em seu
tom informativo e informal — tente isso em casa! —, se parece muito mais com
as “dicas da Palmirinha”, programa de tevê com dicas culinárias, que o fórum da
Penthouse.)
É como se houvesse umzeitgeist em curso, e as mulheres no ambiente público e
no mundo cultural desejassem se juntar a um movimento vago e não específico em
direção a um novo tipo de defesa da vagina — mais delicada, gentil ou
engraçada.
É claro que a motivação para tudo isso é positiva. Mas será uma demanda
profunda o suficiente?

1. Steven Seidman, Romantic Longings: Love in America, 1830-1980 (Nova Iorque: Routledge, 1993), 76-
77.↵
2. Elizabeth Sprigge, Gertrude Stein: Her Life and Work (Nova Iorque: Harper and Brothers, 1957), 128.↵
3. Ib., 94.↵
4. Rhonda K. Garelick, Electric Salome: Loie Fuller’s Performance of Modernism (Princeton, NJ:
Princeton University Press, 2007), 164-65. ↵
5. Hunter Drohojowska-Philp, Full Bloom: The Art and Life of Georgia O’Keeffe (Nova Iorque: W. W.
Norton, 2004), 115, 135. Sarah Greenough, ed., My Faraway One: Selected Letters of Georgia
O’Keeffe and Alfred Stieglitz (New Haven, CT: Yale University Press, 2012), 127.↵
6. Edna St. Vincent Millay, Collected Poems of Edna St. Vincent Millay, ed. Norma Millay (Nova Iorque:
HarperPerennial, 1981), 19. [Trecho extraído da tradução de Carlos Machado.] ↵
7. Ellen Chesler, Woman of Valor: Margaret Sanger and the Birth Control Movement in America (Nova
Iorque: Simon and Schuster, 1992), 272, 343.↵
8. Remy de Gourmont, The Natural Philosophy of Love, trad. Ezra Pound (Londres: Casanova Society,
1992), 205-6.↵
9. Henry Miller, Tropic of Cancer (Nova Iorque: Grove Press, 1961), 2. [Edição brasileira: Trópico de
câncer; São Paulo, Ibrasa, 1963.]↵
10. Ib., 24, 31.↵
11. Michael Whitworth, “Modernism” (Palestra, Departamento de Língua e Literatura Inglesa,
Universidade de Oxford, 10 de maio de 2011).↵
12. Mina Loy, The Lost Lunar Baedeker, ed. Roger L. Conover (Nova Iorque: Farrar, Straus e Giroux,
1997), xv.↵
13. D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas. São Paulo: Abril, 1973.↵
14. Anaïs Nin, Delta of Venus (Nova Iorque: Penguin Modern Classics, 1977), 8-19.↵
15. Miller, Tropic of Cancer, 31.↵
16. Paul Garon, Blues and the Poetic Spirit (Londres: Eddison Press, 1975), 69.↵
17. Memphis Minnie, “If You See My Rooster”, Bluesistheroots, www.youtube.com/watch?
v=UxSjUmGweqg.↵
18. Bessie Smith, “I Need a Little Sugar in My Bowl”,
www.lyricstime.com/bessie_smith_i_need_a_little_sugar_in_my_bowl_lyrics.html.↵
19. Merline Johnson, the Yas Yas Girl, “Don’t You Feel My Leg”, 1938,
www.jazzdocumentation.ch/audio/rsrf/high.ram.↵
20. Ruth Brown, “If I Can’t Sell It I’ll Keep Sittin’ on It (Before I Give It Away)”, 1940, Essential Women
of Blues, compact disk, Hill/Razaf, Joe Davis Music.↵
21. Veja Betty Friedan, The Feminine Mystique (Nova Iorque: W. W. Norton, 2001). [Edição brasileira: A
mística feminina; Rio de Janeiro, Vozes, 1971.]↵
22. Veja Shere Hite, The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality (Nova Iorque: Macmillan,
1976).↵
23. Betty Dodson, “Getting to Know Me”, Ms. Magazine, 1974, em Jeffrey Escoffier, Sexual Revolution
(Nova Iorque: Running Press, 2003), 698.↵
24. Germaine Greer, The Madwoman’s Underclothes: Essays and Occasional Writings (Nova Iorque:
Atlantic Monthly Press, 1994), 74-89.↵
25. Erica Jong, Fear of Flying (Nova Iorque: Signet, 1974), 310-11. [Edição brasileira: Medo de voar; São
Paulo: Nova Cultural, 1973.]↵
26. Siedman, Romantic Longings, 150-51.↵
27. Ib.↵
28. Andrea Dworkin, Intercourse (Nova Iorque: Free Press, 1997), 188.↵
29. Ib.↵
Quem dá nome à vagina?
A pior palavra que existe

— O que é boceta? — ela perguntou.


— És tu, verás: e vai muito além de um animal, não é?
Há até o sexo? Boceta! Essa é a sua beleza, querida!
D. H. Lawrence, O amante de lady Chatterley
O desprezo que temos por nós mesmas se origina nisto: saber que somos uma boceta.
Kate Millett, Sexual Politics

S e entendermos a conexão entre o cérebro e a vagina e como a vagina liberada


se relaciona com a mente e o espírito potencialmente liberados nas mulheres,
podemos também começar a reconhecer por que as palavras, quando empregadas
em relação à vagina, são sempre mais que “meras palavras”. Por causa da
sutileza da conexão mente-corpo, as palavras sobre a vagina são também o que o
filósofo John Austin, em seu livro de 1960 How to Do Things with Words , chama
de “enunciados performativos”, frequentemente usadas como forma de controle
social. Um “enunciado performativo” é uma palavra ou expressão que de fato
realiza algo no mundo real. Quando um juiz diz “culpado” a um réu, ou um noivo
[1]
diz “aceito”, as palavras alteram a realidade.
As palavras sobre a vagina criam ambientes que afetam diretamente o corpo
das mulheres. As palavras que as mulheres ouvem sendo usadas em relação a suas
vaginas mudam, para melhor ou pior, o que elas implicam ou descrevem. Por
causa de seu efeito no sistema nervoso autônomo, as palavras sobre a vagina
podem ajudar ou prejudicar a reação vaginal. Como vimos, estudos recentes
mostram que o sistema nervoso autônomo nas mulheres está diretamente
conectado ao bom funcionamento da excitação sexual nos tecidos vaginais, na
circulação e na própria lubrificação — portanto, ameaças verbais ou expressões
de admiração ou elogios podem afetar diretamente o funcionamento sexual da
vagina. Outro estudo recente, que exploramos a seguir, sugere que um ambiente
estressante pode realmente afetar negativamente os próprios tecidos vaginais.
Esse estresse “negativo” que afeta a vagina pode também inibir o orgasmo e
reduzir os níveis de confiança, criatividade e otimismo nas mulheres.
As mulheres reagem fortemente ao insulto verbal masculino contra sua vagina e
a ameaças implícitas de estupro, mesmo que se tratem de “somente piadas”, por
essas razões — apesar de a maior parte de nós não ter conhecimento da ciência
por trás de nossas “reações intuitivas”, do fato de que esse tipo de insulto é
realmente muito pesado para todas nós.
Essa tática é comum: o filme Terra fria (baseado no livro de 2002 Class
Action: The Story of Lois Jenson and the Landmark Case That
ChangedSexualHarassment Law, de Clara Bingham e Laura Leedy Gansler,
descrevendo o processo de Jenson versus Eveleth Taconite Company) conta o
caso de mineiros de carvão na Pensilvânia e sua resistência contra a entrada de
trabalhadoras mulheres nas minas. Em certo ponto, as trabalhadoras entram em
seu vestiário, e a palavra bocetas está pichada em letras garrafais nas portas dos
armários. Na Universidade de Oxford, em fevereiro de 2012, um dos clubes
universitários criou um “jogo” no qual jovens alunos caçavam alunas vestidas
sumariamente de raposas (nas caçadas britânicas, cavalheiros perseguiam raposas
com matilhas de perdigueiros; quando a raposa era capturada, era morta pelos
cachorros). Em um site de humor colegial no Reino Unido, os editores postaram
uma piada que dizia que apenas alguns casos de estupro levavam à condenação e
que, portanto, “nossas chances são boas”. “Quem colocou pentelhos em minha
Coca?”, teria dito Clarence Thomas a Anita Hill em 1991, alegação esta que ele
negou. Mas, se for verdadeira, com certeza a fez se sentir desconfortável. A
comediante Roseanne Barr descreveu o comportamento dos redatores de tevê do
gênero masculino toda vez que uma mulher tenta entrar na carreira: ela conta que
odeia ir à casa de redatores porque sempre aparecem piadas de “boceta
malcheirosa” nos três primeiros minutos. Quando uma mulher enfrenta um
ambiente de trabalho no qual não é bem-vinda, palavras ou imagens semelhantes
são usadas para atacar ou insultar a vagina: pôsteres de mulheres com as pernas
abertas, com o rosto da mulher em questão superposto no corpo nu sempre
aparecem em algum lugar público.
É claro que há toda uma motivação cultural e psicológica por trás desse tipo de
assédio. Mas o papel da manipulação do estresse feminino no ataque à vagina não
pode ser ignorado. Esse comportamento de ridicularização da vagina faz sentido
instintivamente. Esses atos são frequentemente impessoais e táticos — estratégias
para fazer pressão sobre as mulheres que não são entendidas conscientemente,
mas que podem ser intuídas e que sobrevivem na memória popular como uma
reação neuropsicológica a esse “estresse negativo” que debilita as mulheres.
Em 2010, estudantes do sexo masculino de Yale se juntaram em um evento
chamado “Take Back the Night” (reconquiste a noite), no qual suas colegas
marchavam como um grupo em protesto contra o assédio sexual. Os meninos
cantaram contra as meninas que protestavam: “Não significa sim, e sim significa
[2]
anal”. Algumas das jovens processaram a universidade, argumentando que este
comportamento criava um ambiente educacional desigual. Eticamente, estão em
seu direito e, neurobiologicamente também estão certas. Praticamente todas as
mulheres que tiverem que enfrentar um grupo de colegas homens cantando slogans
assim se sentirão instintivamente em pânico. Em algum nível, entenderão a
mensagem de que podem estar na presença de estupradores em potencial —
tornando quase impossível ignorar os comentários imaturos, como frequentemente
se pede que as mulheres façam. Sentem que há um risco maior ao qual estão
expostas, e de fato há, mas não apenas o risco de assédio sexual. Se forem
regularmente expostas a esse tipo de estresse, vão deprimir toda a sutil e delicada
rede de gatilhos e reações neurobiológicos que as fazem se sentir bem, felizes,
competentes e com uma sensação de autoconhecimento.
Em muitos casos de assédio sexual em ambiente escolar ou profissional, a
vagina é insultada, ameaçada ou ridicularizada. Por que será que essa tática é tão
uniforme, aparecendo em universidades de elite e em ambientes operários
independentemente da classe social e de qualquer outra barreira?
É comum porque é uma forma de agressão verbal contra as mulheres que afeta,
isto é, causa efeitos físicos reais que são mais profundos que outros tipos de
xingamento. O dr. Burke Richmond, como vimos, aponta a conexão mente-corpo
em termos de danos duradouros às percepções sensoriais de algumas mulheres
como resultado de trauma sexual. Mais pesquisa tem identificado novos tipos de
danos permanentes ou disfunções em vários outros sistemas femininos como
resultado do “estresse negativo” sexual — o que um estudo chamou, usando uma
nomenclatura para o que está sendo reconhecido como um padrão médico
reconhecível em algumas mulheres, de “desregulação multissistêmica”.
O corpo feminino reage da mesma forma ao “estresse negativo”, quer o
contexto seja a sala de parto, a universidade ou o escritório. Se o cérebro
feminino sente que o ambiente não é seguro, sua resposta de estresse inibe todos
os mesmos órgãos e sistemas, independentemente do cenário. Muitos dos sinais
que incendeiam ou reduzem o desejo feminino têm a ver com a pergunta feita pelo
cérebro das mulheres: é seguro aqui?
Portanto, se uma mulher vai trabalhar ou estudar em uma atmosfera ameaçadora
dia após dia, corre o risco — por causa do efeito acumulativo de longo prazo do
“estresse negativo” — de inibir a reação de relaxamento, criatividade e abandono
mesmo fora de seu ambiente de trabalho e estudo. A vida reprodutiva e materna
de uma mulher pode ser afetada pelo estresse crônico que ameaça a sexualidade.
O estresse inibe não apenas a capacidade da mulher de se excitar, ficar
lubrificada e chegar ao orgasmo, mas também de dar à luz efetivamente e
amamentar seu bebê. Com o tempo, se sua vagina for agredida verbalmente, seus
batimentos cardíacos, pressão sanguínea, circulação e vários outros sistemas
sofrerão de forma crônica. O estresse ameaça a sexualidade, pois libera cortisol
na corrente sanguínea, que é relacionado à gordura abdominal nas mulheres, com
seu risco colateral de diabetes e problemas cardíacos; estar na parte receptora
desse “estresse negativo” também aumenta a probabilidade de doença cardíaca e
AVC.
Se uma mulher é sexualmente estressada além de certo ponto, com o tempo,
outras partes de sua vida passam a se desviar do rumo; terá dificuldade de relaxar
na cama, assim como na sala de aula ou no escritório. Por sua vez, isso inibirá a
liberação da dopamina que receberia se não fosse por isso, que, por sua vez,
evita também a liberação no cérebro de outras substâncias químicas que a fariam
confiante, criativa, esperançosa, focada — e efetiva, o que é relevante se ela está
competindo acadêmica ou profissionalmente com alguém. Tendo essa dinâmica
em mente, a frase “vou fodê-la” ganha um outro significado.
H. Yoon e seus colegas, pesquisadores coreanos que publicaram “Efeitos do
estresse sobre a função sexual em ratas fêmeas” no International Journal of
Impotence Research em 2005, concluíram que o “estresse físico crônico modifica
o comportamento sexual de ratas por meio de um mecanismo que se acredita que
envolva alterações complexas nos hormônios sexuais, fatores endócrinos e
[3]
neurotransmissores”. Sugerem que
muitas mulheres com estresse experimentam algum tipo de dificuldade sexual, tal como a libido
diminuída, dificuldade de excitação ou de chegar ao orgasmo. Entretanto, nenhuma pesquisa foi
conduzida em relação a alterações no clitóris e vagina quando mulheres são submetidas a um estresse
prolongado. Será que apenas um fenômeno psicológico que ocorre em uma área cortical do cérebro
controla as atividades sexuais? Ou ocorre alguma alteração significativa na vagina, clitóris ou outros
órgãos de resposta sexual que leva à dificuldade de excitação ou orgasmo?
Esse primeiro estudo a analisar o efeito do “estresse negativo” sobre a
excitação de ratas fêmeas — apesar de vários estudos terem focado como o
estresse inibe a vida sexual de ratos machos — descobriu a “metralhadora
química” que explica por que as mulheres precisam relaxar para se sentir
excitadas. É evidente que o óxido nítrico (NO) e a síntese de óxido nítrico (NOS)
têm um papel importante no intumescimento vaginal e clitoridiano — ajudando o
músculo mole da vagina a relaxar e os tecidos vaginais a inchar em preparação à
excitação e ao orgasmo —, e essa substância química e suas ações são inibidas
quando as mulheres são estressadas negativamente.
Explicam os autores:
Neste estudo, propomo-nos a investigar o efeito do estresse físico sobre a função sexual medindo as
alterações em comportamentos sexuais, níveis hormonais no soro e nas concentrações de NOS
neuronal (nNOS) e NOS endotelial (eNOS) nos tecidos vaginais, ambos marcadores importantes do
[4]
relaxamento dos músculos moles e intumescimento vascular e, portanto, da excitação sexual.

Dividiram sessenta e três ratas em três grupos iguais, todas em período estral
(ou seja, em circunstâncias normais, ansiosas para acasalar). Um corrimento
mucoso foi extraído do tecido vaginal de cada rata. “Um rato macho foi, então,
gentilmente introduzido na jaula, e o comportamento sexual foi observado. Todos
os experimentos de comportamento sexual foram gravados em vídeo, os
resultados receberam um escore e foram analisados por um observador cego aos
detalhes do estudo.” Os pesquisadores checaram a “receptividade” das ratas
registrando suas respostas de “lordose”, as costas arqueadas, patas para cima em
sinal de que a fêmea está interessada em acasalar. Qualquer chute defensivo,
empurrão ou corrida foi considerado uma resposta de rejeição. Justo.
Por todo o caminho abaixo na escala de mamíferos, cientistas como os
liderados por Yoon estão confirmando que colocar as fêmeas “no espírito
correto” é um processo cientificamente mais complexo e mais “mente-corpo” que
o análogo em machos:
Em geral, a resposta sexual nas fêmeas requer reações mentais e físicas recíprocas, que são mais
complicadas que nos machos. Portanto, os efeitos do estresse físico e psicológico na atividade sexual
podem ser muito maiores nas fêmeas que nos machos (…) Trabalhamos com a hipótese de que o
estresse físico crônico possa afetar a função sexual feminina e buscamos identificar alterações
fisiopatológicas induzidas pelo estresse crônico. Além disso, investigamos como essas alterações
[5]
poderiam ocasionar dificuldades na excitação e no orgasmo.
Os cientistas encontraram exatamente o que estavam procurando: as ratas
estressadas não foram gentis com seus parceiros e não queriam fazer amor: “As
ratas sob estresse demonstraram uma redução significativa na receptividade a
seus parceiros machos”, escreveram os cientistas; as ratas também exibiram graus
mensuráveis de agressão e irritabilidade. O estresse diminuiu a capacidade física
das fêmeas de se excitar; diminuiu seu fluxo sanguíneo genital:
Em estudos em modelo animal, o estresse mental ou físico aumenta o nível de catecolaminas no soro,
causando, assim, contração vascular, que, por sua vez, reduz o fluxo sanguíneo e leva à disfunção sexual
(…) Como o estresse é concomitante a uma contagem aumentada de catecolaminas no sangue (…)
pode-se concluir que o fluxo sanguíneo nos órgãos genitais é reduzido durante períodos de estresse (…)
medimos a noradrenalina como um índice indireto do nível de catecolamina e concluímos que ela
aumentou no grupo de estresse e diminuiu no grupo de recuperação. Esse resultado indiretamente
[6]
confirma a sugestão de que o estresse afeta o fluxo sanguíneo genital.
O estresse mexe com os hormônios sexuais em ratas e, segundo a hipótese dos
autores, interfere nas ações vaginais basais — neurotransmissão, relaxamento dos
músculos moles e intumescimento dos vasos sanguíneos — necessárias para a
excitação sexual feminina:
O nível de estradiol foi significativamente reduzido no grupo de estresse. É amplamente sabido que os
hormônios sexuais têm papel preponderante na resposta sexual de machos e fêmeas. Nossos dados
mostram que a expressão de nNOS e eNOS vaginais no grupo de estresse foi reduzida em comparação
com o grupo de controle (…) Portanto, postula-se que os níveis menores de nNOS e eNOS causam a
neurotransmissão reduzida, menos relaxamento nos músculos moles e uma redução no fluxo sanguíneo
vascular em resposta ao estímulo sexual no tecido vaginal. Além disso, isso é clinicamente expresso
[7]
como uma dificuldade de resposta de excitação e orgasmo.

Não apenas concluíram que o “estresse negativo” abaixa os níveis de


hormônios sexuais em ratas fêmeas e interfere em seu processo de excitação, mas
também projetaram que as alterações nesse nível fisiológico, se sustentadas ao
longo do tempo, afetam o próprio tecido vaginal. As ratas mal-humoradas,
estressadas e propensas à rejeição sexual, juntamente com as mais receptivas e
desestressadas do grupo de controle, foram todas mortas; e todos os tecidos
vaginais, preparados para amostragem: “Os tecidos foram congelados em
nitrogênio líquido e armazenados (…) até requeridos”. Os resultados da análise
de tecido vaginal mostraram alterações mensuráveis biologicamente no
funcionamento sexual vaginal das ratas; os cientistas da equipe de Yoon chegaram
a projetar que as alterações no tecido vaginal das ratas causadas pelo estresse
aumentariam ao longo do tempo: “Se esse perfil hormonal desequilibrado
persistir por um longo tempo, alterações em tecidos secundários poderiam
ocorrer na vagina”.
Essa é uma versão do entendimento relatado empiricamente por Mike Lousada,
Katrine Cakuls e outros terapeutas vaginais: o “estresse negativo” pode
aparentemente afetar o próprio tecido vaginal.
Mike Lousada não especulou sobre a ciência por trás das alterações no tecido
vaginal. Mas os cientistas têm uma hipótese: “No presente estudo, o estresse
físico em ratas fêmeas induziu a alterações na expressão da NOS vaginal e
hormonal e causou alterações comportamentais sexuais observáveis. Acreditamos
que essas alterações resultem de reações multifatoriais”. Em outras palavras, o
estresse em ratas afeta o sistema neuroendócrino, e isso induz várias alterações na
vagina que afetam a função sexual. “Em ratas fêmeas sob estresse crônico, os
comportamentos sexuais foram alterados. Sugerimos que alterações nos
hormônios sexuais no soro, catecolaminas e expressões de subtipos de NOS em
tecidos vaginais participem na resposta multifatorial em ratas fêmeas estressadas
[8]
cronicamente.”
Em outras palavras: ratas estressadas e, mais cedo ou mais tarde, o
funcionamento de sua vagina — com seu potencial de liberar hormônios de prazer
no cérebro mamífero feminino — sofrerão também.
As mulheres experimentam algo parecido com o pânico quando percebem que
estão presas dentro de um ambiente no qual comentários sexualmente degradantes
são direcionados a elas aleatoriamente. Intuem que sofrerão com essa situação
quando estão presentes ou distantes dela, quando estão tentando se relacionar com
seus filhos e amigos, quando estão tentando se focar em seus maridos ou amantes
na cama, ou quando voltam a seus instrumentos de trabalho. Estão certas.
Como vimos na diferença entre a proteção dos nervos pélvicos feminino e
masculino, a mulher é muito vulnerável fisicamente quando está de pernas abertas
— mais vulnerável que um homem. Por causa disso e porque os homens são
geralmente maiores e mais fortes, a sensação de segurança pode não ser tão
importante para a resposta sexual masculina quanto para a feminina. A vagina
reage à sensação de segurança feminina no sentido que a circulação aumenta
quando a mulher se sente segura; mas os vasos sanguíneos da vagina sofrem uma
constrição quando ela se sente ameaçada. Isso pode acontecer antes que a mulher
conscientemente interprete seu ambiente como ameaçador. Portanto, se você
ameaça ou diminui continuamente a vagina em um ambiente universitário ou
profissional, envia um sinal contínuo ao cérebro e corpo femininos de que ela não
está segura. O estresse negativo aumenta diariamente seu batimento cardíaco,
jogando adrenalina em seu sistema, circulando catecolaminas e assim por diante.
Esses insultos verbais, na verdade, tornam mais difíceis para elas as tarefas
profissionais ou acadêmicas que têm pela frente.
Nos Estados Unidos, o Título IX é a legislação que rege a igualdade de gêneros
que proíbe a criação de “ambientes de trabalho hostis”. Quando uma mulher
enfrenta piadas, imagens, insultos ou ameaças implícitas relacionadas à sua
vagina no trabalho ou na escola, torna-se mais difícil para ela focar em seu
trabalho ou nos livros do que para seus pares masculinos sem distrações desse
tipo. Isso de fato cria uma desvantagem material para elas que tende a ser
discriminatória, simplesmente pela forma como o cérebro e o corpo são
formados. Na verdade, cria um “enunciado performativo” — palavras que criam
um efeito real no mundo real.
A neurociência contemporânea diz que o trauma ou ameaças verbais repetidos
reconectam o cérebro: um cérebro que ouve insultos verbais em geral se torna
mais reativo. Ouvir a vagina sendo degradada parece, em nível de amígdala, uma
ameaça de agressão sexual ou outro tipo de perigo. Insultos verbais ou ameaças
de violência ferem o cérebro. Esse efeito de reconexão é outro motivo pelo qual a
linguagem direcionada à vagina e à sexualidade feminina é tão ofensiva. Agredir
a vagina verbalmente é uma forma — e uma forma socialmente aceitável — de
insultar e atingir o cérebro feminino. Se as mulheres jamais ouvissem uma
linguagem sexualmente ofensiva, seu cérebro seria menos reativo a ameaças.
Politicamente, a mesma coisa poderia ser dita de outra forma: uma mulher que
jamais sofreu bullying por meio de insultos à sua vagina terá seu cérebro menos
intimidado que o cérebro de uma mulher cuja vagina é regularmente atacada.
E a palavra considerada como a mais derrogatória, mais violenta, mais
ofensiva? Na língua inglesa, a palavra cunt . De alguma forma, cada indignidade
que uma mulher sofre passa a ser simbolizada em uma sexualidade cuja
responsabilidade é dela mesma, é sua vergonha… pode ser resumida nessa única
palavra. E a palavra não é foda , é boceta . “Nossa baixa autoestima se origina
aí: em saber que somos uma boceta”, escreve Kate Millett em The Prostitution
[9]
Papers. A tese de doutorado do filólogo Matthew Hunt traça a etimologia de
como a palavra cunt se tornou sinônimo “da pior coisa de que você pode chamar
alguém”. “A censura que se aplica tanto à palavra ‘boceta’ quanto ao órgão que
ela representa é sintomática de medo generalizado — e nojo — da vagina em si”,
[10]
conclui Hunt. Ou será que é, como eu argumentaria, também um sintoma de
medo e nojo do potencial poder feminino? Se você nomeia algo de forma a
impedir o orgulho, a exploração e a descoberta, diminui a probabilidade de uma
mulher liberar a química da confiança, criatividade e tudo o mais que essa
descoberta poderia trazer.
As citações da tese de Hunt confirmam o fato de que a vagina é considerada,
filologicamente, “a pior coisa possível”, pelo menos na tradição ocidental: “A
vagina, de acordo com várias escritoras feministas, é um tabu tão forte, que é
praticamente invisível na cultura ocidental”, escreve a estudiosa de mitologia
comparativa Lynn Holden. “Cunt é provavelmente o palavrão mais ofensivo e
[11]
censurado da língua inglesa.” Ruth Wajnryb comentou em 2004: “De todas as
palavras de quatro letras, cunt é certamente a mais ofensiva”. A jornalista Zoe
Williams escreveu: “É a palavra mais rude que temos em toda a língua”, e o
comentarista Nick Ferrari concorda: “É a pior palavra do mundo (…) é
[12]
verdadeiramente grotesca (…) gutural, chocante, nojenta”. Em seu estudo
sobre as pichações em prisões australianas, Jacqueline Z. Wilson escreve que
“cunt é a palavra de maior confronto no inglês australiano e talvez nas principais
variedades de inglês falado no mundo todo”. Sarah Westland a classifica como “o
pior insulto na língua inglesa”, “a palavra mais grosseira e suja”, “a degradação
[13]
maior” e “a palavra mais horrível que a pessoa pode pensar”. Em seu artigo de
2011, “The C-Word: How One Four-Letter Word Holds So Much Power” [A
palavra com C: como uma palavra de quatro letras tem tanto poder], Christina
[14]
Caldwell classifica cunt como “a mais nojenta entre as palavras nojentas”.
Entendeu? É o pior do pior. Mas a palavra cunt não veio de toda essa infâmia.
De fato, suas origens etimológicas são, como a própria vagina, muito específicas
ao contexto, e variou de uma palavra neutra muito positiva a uma muito negativa.
O linguista Eric Partridge escreveu que o prefixo cu é uma expressão de “a
quintessência da feminilidade”: “Na linguagem pré-histórica não escrita indo-
europeia, ‘cu’ ou ‘koo’ era uma base de palavra que expressava ‘feminino’,
[15]
‘fecundo’ e outras noções relacionadas”. O linguista Thomas Thorne aponta
que “cu” na língua proto-indo-europeia é também um cognato para outros termos
femininos/vaginais, assim como o “cus” hebreu; os árabes “cush”, “kush” e
“khunt”; o nostrático “kuni” (mulher); e o irlandês “cuint” (“cunt”). “Coo” e “cou”
[16]
são gírias modernas para a vagina, baseadas nesses sons arcaicos.
A mesma raiz está relacionada a gud , que em indo-europeu é “recipiente”;
refere-se também a cucuteni ou “vaso romano em forma de útero”. Cu tem
associações com “conhecimento” também: can e ken — ambos significam
“saber” e possivelmente “cognição” — são, segundo Thorne, relacionados a esse
coo . Sexo e conhecimento compartilham uma forte conexão linguística: ken é
“saber” e “dar à luz”. Ken — que se relaciona ao cyn do inglês arcaico e ao g ó
tico kuni — também traz a conotação de vagina: “[‘Kin’] significava não apenas
relações sanguíneas matrilineares, mas também uma fenda ou fissura, a abertura
vaginal da deusa”. O historiador Gordon Rattray Taylor explora as ligações entre
a feminilidade e o conhecimento: “A raiz cu aparece em incontáveis palavras que
vão de cowrie (cauri = molusco), Cypris até chegar a cow (vaca); a raiz cun tem
duas linhas de descendência, uma que enfatiza a mãe; e outra, o conhecimento:
Cintia e cunt , por um lado, e cunning (sábia), do outro”.[17] Na Índia, o nome da
deusa Cunti-Devi sugere que as variantes de “cunt” não se originaram como
insultos, mas como termos de grande respeito. Quefen-t , uma variante de cunt ,
foi usada pelo faraó egípcio Ptah-hotep quando falava de uma deusa. A mais
antiga citação de cunt no Oxford English Dictionary mostra a palavra como parte
de um nome de rua em Londres: por volta de 1230, no bairro chamado Southwark,
[18]
havia uma rua chamada Gropecunte Lane, onde trabalhavam as prostitutas.
De forma interessante, muitas palavras relacionadas a cunt eram originalmente
ligadas à água: cundy é um “canal de água subterrânea”; já menos interessante,
cuniculus significa “passagem” e era usado pelos antigos romanos para descrever
seus sistemas de drenagem. (Cunnilingus, cunilíngua em português, ou “lamber a
vagina” é uma das palavras relacionadas a cuni, é claro). Em
sânscrito,cushi/kunthisignificam tanto “vala” quanto “vagina”. Mas os ecos
neutros e positivos decuntnão sobreviveram amplamente em nossa gíria. Mesmo
o grego e o latim usavam uma linguagem acerca da vagina que começou como
bastante neutra, mesmo que centrada no masculino:vulvasimplesmente significa,
em grego, “matriz”;vaginaé a palavra em latim para “bainha”;lábiaem
latimé“lábios”. (Apesar de quepudendumé a palavra em latim para “vergonha”.)
O desprezo e o nojo não predominavam nos nomes ocidentais para a vagina até
que a gíria vitoriana a transformou em cognato para “o pior”. Sempre houve
nomes negativos para a vagina, assim como positivos; mas o nojo não está
necessariamente implícito na linguagem dela.
Muitas de nós sentem uma espécie de tremor existencial quando vemos a
reiterada conexão moderna entre as palavras cunt e disgusting (nojenta), stupid
(burra) e hateful (odiosa) — ou quando as mulheres são reduzidas a meras
bocetas. Pedem-nos continuamente para “simplesmente relaxar” a respeito de tal
linguagem tão derrogatória, mas há boas razões, relacionadas ao poder dessas
palavras representando atos sexualmente ameaçadores, que podem causar a
“desregulação multissistêmica” em nós, tornando esse “relaxamento”
fisiologicamente impossível.
Experimentei, em primeira mão, o impacto poderoso que as palavras usadas
para comunicar sobre a vagina podem ter no cérebro feminino. O contrato para
este livro acabava de ser assinado com uma editora, e eu estava eufórica, em
termos criativos, para pesquisar e escrever o livro. Ao mesmo tempo, estava
ansiosa para abordar um tabu social tão forte. Em certo ponto, um amigo — que
eu chamarei de Alan e descreverei como executivo, que tem um senso de humor
complicado e adora criar espetáculos sociais que geram tensão — disse que
queria dar uma festa para celebrar o acordo sobre meu livro. A festa virou o tema
da conversa entre os amigos dele, sempre com uma sombra de divertimento —
com algo oblíquo implícito.
“Alan” me disse que serviria uma massa italiana, com a qual os convidados
poderiam fazer a forma da vagina. Achei a ideia charmosa e engraçada,
possivelmente um tributo ao tema do livro, ou pelo menos não era horrorosa,
apesar de não ser uma vertente que eu mesma teria escolhido.
Quando cheguei à festa, entretanto, havia um movimento ligeiramente malicioso
e ameaçador na outra ponta do loft onde estava a cozinha. Alan estava ali,
cercado por um grupo de convidados. Fui até lá com certa excitação. Enquanto
andava até Alan, passei pela mesa onde a máquina de fazer macarrão estava
montada. Um grupo de pessoas estava em volta da máquina — criando, sem
dúvida, pequenas vulvas feitas à mão. Os objetos tinham uma doçura: como a
coisa real, as pequenas esculturas de massa variavam — com a experiência de
cada pessoa (ou talvez o corpo) alimentando a interpretação do convidado ou
convidada. Havia uma energia de respeito e certa forma de celebração vinda da
mesa, envolvendo homens e mulheres. O prato de massa ali na mesa parecia ter
sido arrumado com certo amor: florais ou emplumadas, em forma de flauta ou
mais arejadas, cada pequena escultura era detalhada e distinta: ador á veis
objetos brancos minúsculos contra a pintura azul da cerâmica italiana.
Alan apareceu ao meu lado. “Chamo-as de ‘cuntini’”, disse ele rindo, e meu
coração se contraiu. Um surto de tensão cruzou o rosto de muitas das mulheres
presentes. Os rostos masculinos, que haviam estado tão abertos, e alguns até
gentis, tornaram-se impassíveis. Algo de doce e novo, que mal havia começado a
aparecer, se fechou.
Ouvi um som de algo queimando. Olhei para a cozinha: o som vinha de várias
dezenas de salsichas enormes, arrumadas em uma enorme chapa de ferro em um
fogão industrial. Entendi: Ah, salsichas para combinar com as “cuntini”. Notei
que a energia dos convidados de todos os gêneros presentes ali já não era tão
simples. A sala havia ficado mais tensa — essa tensão que já me era familiar,
naqueles momentos em que as mulheres se sentem diminuídas, mas espera-se que
“entrem no espírito da coisa” e encarem tudo com bom humor. Meu coração se
contraiu mais ainda.
Finalmente, alguém chamou minha atenção para a atração final do cardápio da
noite. Nas bocas traseiras do fogão, vários filés de salmão foram arrumados em
outra grelha. Mais uma vez, entendi a piada. As mulheres e seu cheiro
característico. Cheiro de peixe. Fiquei vermelha, sentindo um tipo de desespero
que era certamente psicológico — uma depressão por um amigo achar que isso
tudo era engraçado —, mas que também me pareceu uma sensação física.
Mas não foi isso que me pareceu realmente interessante sobre aquela noite. Eu
poderia lidar com uma piada inapropriada se essa fosse a única consequência do
evento daquela noite. O que foi realmente interessante para mim foi que, depois
da festa das “cuntini”, não consegui mais escrever uma palavra do livro — nem
mesmo notas de pesquisa — por seis meses, e jamais havia tido um bloqueio
criativo assim. Senti — tanto no nível criativo quanto no físico — que havia sido
punida por “ir a um lugar” aonde as mulheres não deviam ir.
Por causa das evidências das consequências físicas de estressores sexualizados
nas mulheres, entendo melhor agora o que criou a conexão entre a “comédia”
visual, o insulto olfativo público e meus dedos incapazes de digitar. Mas, na
época, os seis meses de bloqueio criativo foram um mistério.
O tema da “mulher abusada” com sua vagina servindo de alvo em vez de seu
cérebro ainda é um tema universal — tanto nas democracias emergentes quanto no
Ocidente “avançado”. No Egito, que já fez parte do império britânico, essa
prática ainda acontece: mulheres protestando com papéis determinantes na
Primavera Árabe e no movimento da praça Tahrir em 2011/12 — e essas mesmas
mulheres “indisciplinadas” agora tornaram-se alvo do estado que as força a fazer
exames vaginais.
Samira Ibrahim, 25 anos de idade, jovem manifestante egípcia, processou o
exército do país em 2011 alegando que havia sido presa na praça Tahrir durante o
protesto e forçada a fazer um exame vaginal contra sua vontade. Grupos de
direitos humanos relatam que isso é sistemático: confirmam que várias
manifestantes foram forçadas a passar pelo “exame” vaginal — ou seja, abusadas
pelo exército egípcio ao ser levadas sob custódia. Samira publicou seu relato em
uma conta do YouTube, descrevendo como ela e outras manifestantes
primeiramente apanharam, foram eletrocutadas, acusadas de ser prostitutas
(novamente o caso da Lei de Doenças Contagiosas de 1864-66 na Inglaterra) e
forçadas a passar por um exame vaginal, o “teste da virgindade” realizado por um
soldado uniformizado do exército em frente a dezenas de estranhos. Um porta-voz
do exército defendeu os “exames” vaginais forçados: “Não queríamos que elas
nos acusassem de estupro ou assédio sexual, então, queríamos provar que elas já
não eram virgens quando chegaram”, explicou uma fonte do exército ao site de
notícias Al Jazira.
“Quando saí, estava destruída, física, mental e emocionalmente”, disse Samira.
[19]

Conhecendo o delicado funcionamento do SNA nas mulheres, a conexão da


vagina ao cérebro e o papel do trauma sexual na biologia do sofrimento crônico,
será que esse não era exatamente o objetivo dos “exames”? Será que isso não é
apenas um sinal de brutalidade aleatória, mas sim uma técnica para suprimir a
revolução, acabar com a formação química de uma revolta potencial?
No Ocidente, onde a agressão vaginal ou “exames” sexuais traumáticos não são
legais, a insurreição verbal feminina é muitas vezes combatida com ameaças de
estupro e ataques contra a vagina. (Contudo, os Estados Unidos podem estar se
movendo em direção à agressão física pelo estado contra a liberdade de decisão
das mulheres, via violação da vagina, em forma de uma proposta recentemente
feita aos estados americanos para legislar um ultrassom transvaginal invasivo
obrigatório se a mulher estiver considerando a hipótese do aborto.)
As mulheres que “se manifestam” no Ocidente também experimentam essa
agressão direcionada ao sexo: Vanessa Thorpe e Richard Rogers, do jornal inglês
The Observer, relataram que as comentaristas femininas recebem frequentemente
ameaças de agressão sexual. Caroline Farrow, blogueira do Catholic Voices ,
contou que recebe “pelo menos cinco e-mails com ameaças sexuais todos os
dias”, que ela vê como resultado de assumir a responsabilidade por seus pontos
de vista postando sob seu próprio nome, com uma foto que, segundo ela, parece
fazer que os agressores a vejam como “um alvo sexual legítimo”. Ela observa que
“um dos ‘menos obscenos’ dizia o seguinte: ‘Você vai gritar quando receber o que
está pedindo. Puta’”. A comentarista do The Guardian e romancista Linda Grant e
a escritora feminista de não ficção Natasha Walter reportaram que, como
resultado de comentários sexualmente violentos direcionados aos seus textos,
escrevem com menos frequência on-line desde então. A jornalista do New
Statesman Helen Lewis-Hasteley confirma que as ameaças de estupro são a
forma mais prevalente de assédio on-line contra as escritoras inglesas: “Sei que
muitas pessoas vão dizer que todo comentarista na Internet é atacado, mas o que
realmente ficou claro para mim quando eu estava analisando a questão [a
experiência de outras mulheres jornalistas] era o modus operandi dos agressores,
que era a ameaça de estupro”. “A ameaça de violência sexual é um ataque em si”,
[20]
conclui o artigo do The Observer . A ciência agora confirma porque isso está
correto.
O medo sexualizado tira a criatividade das mulheres porque extrai uma reação
de tensão; e especialmente nossa criatividade, por causa do papel do SNA,
demanda uma reação de relaxamento. Todas as vezes que a sexualidade de uma
mulher é insultada, sua criatividade sofre — pois o mesmo estado de relaxamento
e foco tem que ser protegido para que essas fontes irracionais sejam exploradas:
o mesmo relaxamento e o mesmo foco permitem que ocorram a excitação e os
orgasmos, os bebês, os livros, as obras de arte, a crítica e a música. Quando você
honra a sexualidade de uma mulher e seu sexo, contribui para o funcionamento
ótimo de sistemas físicos que apoiam sua criatividade intelectual; quando você
ameaça e insulta sua sexualidade e seu sexo, faz exatamente o oposto.

1. John Austin, How to Do Things with Words (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1975), 12.↵
2. Sarah Forman, “Yikes!... Yale Edition”, Yale Daily Herald Blog, 24 de outubro de 2010, blog
dailyherald.com/tag/yale.↵
3. H. Yoon e outros, “Effects of Stress on Female Rat Sexual Function”, International Journal of
Impotence Research: Journal of Sexual Medicine 17 (2005): 33-38.↵
4. Ib.↵
5. Ib.↵
6. Ib.↵
7. Ib.↵
8. Ib.↵
9. Veja Kate Millett, The Prostitution Papers: A Candid Dialogue (Nova Iorque: Avon Books, 1973).↵
10. Matthew Hunt, “Cunt: The History of the C-Word”(PhD), abstract
www.matthewhunt.com/cunt/abstract.html; veja também www.matthewhunt.com/cunt/references.html.

11. Ib. Veja também encyclopedia.jrank.org/articles/pages/657/Cunt.html para história adicional sobre a
palavra cunt.↵
12. Hunt, “Cunt”.↵
13. Ib.↵
14. Christina Caldwell, “The C-Word: How One Four-Letter Word Holds So Much Power”, College Times,
5 de março de 2011.↵
15. Citado em Hunt: “Cunt”. www.matthewhunt.com/cunt/abstract.html; veja também
www.matthewhunt.com/cunt/references.html.↵
16. Ib. www.matthewhunt.com/cunt/abstract.html; veja também
www.matthewhunt.com/cunt/references.html.↵
17. Veja Gordon Rattray Taylor, Sex in History (Nova Iorque: Vanguard Press, 1954).↵
18. Russell Ash, citado em Hunt, “Cunt”. www.matthewhunt.com/cunt/abstract.html; veja também
www.matthewhunt.com/cunt/references.html.↵
19. “Egypt Bans Forced Virginity Tests by Military”, Al Jazira 27 de dezembro de 2011,
www.aljazeera.com/news/africa/2011/12/20111227132624606116.html. ↵
20. Vanessa Thorpe e Richard Rogers, “Women Bloggers Call for a Stop to ‘Hateful’ Trolling by Misogynist
Men”, The Observer, 5 de novembro de 2011. www.guardian.co.uk/world/2011/Nov/05/women-
bloggers-hateful-trolling.↵
Foi engraçado?

P: Qual a diferença entre xoxota e boceta?


R: A xoxota é uma coisa doce, suculenta, quente, divertida e útil. A boceta é a dona da coisa.
jokes4us.com, “Piadas sobre a Vagina”

Q uanto mais eu entendia sobre a vagina e quão sensível ela é ao ambiente


emocional — e também quão francamente precioso é o seu bem-estar criativa e
intelectualmente —, menos capaz eu era de ignorar, repudiar ou ficar insensível
aos insultos casuais e abusos que mesmo as pessoas mais simpáticas em nossa
cultura aceitam como verdadeiros em uma discussão banal. Depois de ter viajado
à Inglaterra na primavera de 2011 e ter terminado minhas entrevistas com o dr.
Richmond, Nancy Fish e Mike Lousada, e ter visto a pesquisa conduzida por H.
Yoon e seus colegas sobre o efeito do estresse na vagina, e a pesquisa de
Alessandra Rellini e Cindy Meston sobre como o trauma sexual eleva as
respostas do sistema nervoso basal das mulheres, e os novos dados sobre trauma
sexual e desregulação multissistêmica e sua relação com a dor crônica em muitas
mulheres, senti que havia chegado a um entendimento mais profundo da
sensibilidade emocional da vagina e sua conexão com a sensibilidade emocional
e intelectual nas mulheres em geral. Estava continuamente reavaliando o
significado do estupro e novamente percebendo seus efeitos sob uma luz muito
mais complexa e permanente.
Fui profundamente afetada por minha entrevista pelo Skype comLousada, sob
as árvores, na belíssima faculdade medieval, e senti que ela havia me
transformado de alguma forma. Retornei a Nova Iorque em junho daquele ano,
sentindo-me excepcionalmente aberta e livre. Não estava absolutamente
interessada em Lousada, romanticamente falando — estava muito apaixonada por
outra pessoa. Mas havia algo sobre ele ser um homem que estava tão empenhado
em realmente testemunhar o sofrimento sexual das mulheres e tão dedicado à sua
libertação sexual, que me fez sentir existencialmente mais esperançosa de que os
homens e as mulheres poderiam finalmente se entender quanto a essas questões.
Alguma coisa em sua discussão sobre como o trauma “tranca” a mente e o corpo
femininos destrancou algo em mim. Embora eu nunca tenha sido atacada
sexualmente, já experimentei minha parte do assédio típico que vemos por aí e
algumas situações assustadoras. Estou cercada, como qualquer mulher, por uma
cultura de desprezo sexual (e vaginal). Eu havia retornado sentindo-me
esperançosa, mas também estranhamente vulnerável e indefesa.
Uma noite, fui até as docas perto de Battery Park para me encontrar com
amigos no mesmo barco em que eu havia entrevistado o dr. Richmond no ano
anterior. Era uma noite fresca de final de primavera. Duas mulheres jovens eram
convidadas do passeio daquela noite, e três amigos meus, que eram mais velhos
que as mulheres jovens, também estavam a bordo. As mulheres jovens não
estavam saindo com nenhum dos homens, mas essa possibilidade pairava no ar.
Saímos da área do ancoradouro junto ao parque e aceleramos no escuro Hudson
sob uma lua quase cheia. Lembro como me senti — renovada, de uma maneira
estranha; leve, rica e fértil de ideias, mas indefesa. Navegamos ao longo das luzes
brilhantes da cidade, passando pelos canhões efervescentes do baixo Manhattan.
Nuvens passavam rapidamente pela face néon brilhante da lua. Eu batia papo com
um amigo que passarei a chamar de Trevor, um dos três homens a bordo. Ele é um
homem carinhoso e gentil, um cidadão com boa situação financeira, com três
filhos e uma esposa adorável. Um amigo, Alex, estava controlando as cordas.
Perguntei a Trevor o que ele estava lendo ultimamente.
— Histórias de guerra — confessou ele. — Tive que parar de ler ficção
moderna. Percebi que a maioria dos livros de ficção moderna é escrita para
mulheres, e não consigo me envolver. Tive que enfrentar o fato de que não era
para mim e que eu gosto de histórias de guerra. Gosto de histórias sobre combate,
tática e sexo.
— Geralmente não há sexo em uma história de guerra — observou nosso amigo
Stephen, que estava pilotando o barco.
— Há estupro — brincaram Trevor e Alex simultaneamente.
Ambos os homens são simpáticos. E parte de meu cérebro, imediata e
rotineiramente, declarou: “Isso foi apenas uma brincadeira. Deixe para lá”. Mas
alguma coisa havia acontecido comigo na Inglaterra. Eu tive um vislumbre de um
mundo no qual os homens respeitavam o que, por falta de uma linguagem melhor,
eu estava começando a pensar como sendo o Sagrado Feminino — ou até mesmo
como “a deusa” — e vi os danos que tal linguagem podia fazer a mim e às
mulheres à minha volta. Dessa vez, não fiquei entorpecida diante das piadas de
sempre, aquelas piadas de estupro, aquelas piadas de xoxota. Senti seus danos
destrutivos. Um grande nó se fez em minha garganta. Pedi licença para descer à
cabine.
Deitei-me em um dos beliches. A cabine balançava sob mim enquanto eu era
conduzida sobre o rio escuro. Fechei os meus olhos. Senti a dor das palavras
cortando novamente, como uma faca rasgando o que eu só posso descrever como
meu campo de energia; uma dor que eu nunca teria nem mesmo notado antes de me
recusar a ouvir aquelas palavras, ou “discutir” intelectualmente com os piadistas.
Eu estava em contato com minhas próprias “emoções pélvicas”, suponho, de uma
maneira não mediada e, então, senti a violência daquelas palavras — palavras
que não tinham sequer a intenção de malícia —, um descuido que só piorava a
situação, de certa forma; palavras que eram “meramente” tão insensíveis a ponto
de ferir a natureza feminina, como eu mesma o havia sido em outras ocasiões.
Respirei profundamente algumas vezes — mas uma coisa muito estranha
aconteceu. Lágrimas começaram a escorrer sob minhas pálpebras fechadas,
rolando por minhas faces. Eu não estava soluçando. Estava simplesmente
inundada por sentimentos. Estava deitada, perfeitamente em silêncio, mas as
lágrimas escorriam cada vez mais por meu rosto e espirravam em meu pescoço e
minha garganta, de uma maneira que nunca havia acontecido antes. Fiquei deitada
assim — relaxada, sem soluçar, cheia de lágrimas mais uma vez, jorrando
lágrimas — por quinze a vinte minutos. Pensei nas mulheres jovens no deque
acima, que também haviam ouvido aquelas palavras e que, agora eu sabia, seriam
para sempre transformadas por elas; que se sentiriam para sempre mais fechadas
fisicamente, ou para sempre feridas espiritual ou criativamente por essas
palavras. Senti essa dor.
As ameaças sexuais codificadas em linguagem hostil centrada na vagina fazem
mais que desencadear reações de estresse em nosso corpo. Conceitos culturais
são incorporados no corpo e cérebro de uma mulher de maneira perceptiva. Como
demonstrou o psicólogo da Universidade de Michigan Richard E. Nisbett, em seu
livro A geografia do pensamento , o cérebro de pessoas de diferentes culturas
neurologicamente codifica diferenças culturais na percepçã o , por meio da
prática diária, ao longo do tempo. Por exemplo, sua pesquisa mostrou que os
ocidentais tendem a perceber os elementos por meio de um estreito foco em
objetos singulares, ao passo que os orientais usam uma lente grande angular e
veem os objetos como incorporados no contexto.
Então, a “concepção” cultural de uma mulher sobre sua vagina também molda
[1]
seu cérebro. Se uma mulher ouve durante toda a sua vida que sua vagina é uma
“boca” ou uma “fenda”, então, a percepção de sua vagina se tornará
neurologicamente codificada desse jeito em seu cérebro; mas, se ela ouve, por
exemplo, que sua vagina é “o Portão de Jade”, seu cérebro e suas percepções se
moldam em volta dessa sensibilidade.
Durante a dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.) na China, ou na Índia de 1.500
anos atrás, ou no século XIII no Japão, quando a vagina era retratada como o
ponto mais sagrado no templo mais sagrado em um universo sagrado, era assim
que o cérebro das mulheres experimentava seu órgão sexual. Quando, na Europa
medieval, durante a caça às bruxas, a cultura anunciou que a vagina era o parque
de diversões do diabo e porta de entrada para o inferno, a mulher naquela cultura
se sentiu construída em volta de um núcleo de vergonha existencial. Se, como na
Inglaterra elisabetana, uma cultura retrata a vagina como um buraco, uma mulher
dessa cultura sente que está centrada no vazio e na ausência de valores; se, como
na Alemanha, na Inglaterra e na América pós-Freud, a cultura da mulher classifica
as reações da vagina como um teste de feminilidade, ela corre o risco de sentir-se
insuficientemente feminina. Quando a cultura da mulher — como vemos nas
revistas femininas atuais de atletismo sexual ocidental — lança a vagina ideal
como uma fábrica de múltiplos orgasmos em eterno plantão, ela se sente
submetida a um teste contínuo e impossível. Quando a cultura de massa representa
qualquer vagina como apenas um em dez milhões dos orifícios disponíveis, como
na indústria pornográfica atual, a mulher sente seu ser sexual como algo
substituível, sem importância e longe da sacralidade.
E tudo isto não é superficial: essas percepções são construídas no nível das
sinapses neuronais. Em outras palavras, o cérebro feminino se transforma
fisicamente, com o passar do tempo, em resposta a esse tipo de gatilho no
ambiente.
Esses gatilhos também afetam sua confiança e seu senso de esperança. Em uma
palestra que dou sobre sexualidade feminina, há um momento em que peço às
mulheres na sala que recordem os nomes usados em relação à sua vagina que
ouviram pela primeira vez quando tinham quatorze ou quinze anos — ao passar
por canteiros de obras ou ao caminhar pelas ruas. Posso sentir o profundo
desconforto de, digamos, 800 mulheres todas de uma vez relembrando onde
estavam naquele momento quando, iniciadas na condição de mulher, ouviram pela
primeira vez — a elas dirigidas — expressões como “senta na minha cara” ou
“me dá um pouco dessa coisa” (ou como uma jovem asiático-americana lembrou,
“me dá um pouco dessa boceta asiática”). “Como você se sentiu?” — perguntei.
“Fez que sentisse: é isso que eu sou, essa coisa vergonhosa — ou vulgar?”
Depois — com aquelas emoções ainda à flor da pele na sala —, tenho o prazer de
ler para elas uma lista de outros termos de outras culturas para vagina. “Lótus de
Ouro”, leio, em uma das poesias de amor das dinastias chinesas Han e Ming.
“Sala perfumada.” “Portões do Paraíso.” “Pérola preciosa.” Os termos taoístas
chineses são sempre bem poéticos: nos textos taoístas sagrados, tal como Art of
The Bedchamber, faz-se referência à vagina como “Portão Celestial”, “Bola
Vermelha”, “Lugar Oculto”, “Porta de Jade”, “Portão de Jade”, “Vale
[2]
Misterioso”, “Portão Misterioso” e “Tesouro”.
Poderíamos ir mais longe: nos textos sagrados tântricos, a vagina é
classificadas em categorias, mas todas bastante afetuosas: a Chitrini-Yoni (a yoni
de uma “mulher elegante”) é “redonda e macia, fácil e rapidamente lubrificada,
com poucos pelos pubianos. Diz-se que seu suco de amor é excepcionalmente
quente, tem cheiro doce e gosto de mel”. A Hastini-Yoni é “grande e profunda e
desfruta com grande estimulação do clitóris”. A yoni da Padmini (“mulher-lótus”)
é “como uma flor e gosta de absorver os raios do sol — ou seja, ser vista à luz do
dia — e da carícia de mãos fortes. Seus sucos têm a fragrância de uma flor de
lótus recém-desabrochada”. A yoni da Shankhini (a “fada” ou “mulher-concha”)
é “sempre úmida (…) coberta com muitos pelos (…) e adora ser beijada e
[3]
lambida”. A iconografia hindu relacionada à vagina às vezes se refere a uma
conexão vagina-mente que o Ocidente parece determinado a obscurecer: um
sinônimo hindu para vagina é: “Lótus de sua sabedoria”.
“E se fosse sempre assim?”, pergunto à minha plateia. “E se as palavras que
vocês sempre ouviram quando meninas e jovens mulheres fizessem que
pensassem em si mesmas — no sentido mais íntimo, sexual — como uma fonte de
sabedoria, como preciosa, perfumada, um tesouro? Cercar as mulheres com uma
linguagem reverente e apreciativa sobre sua sexualidade as tornaria não somente
mais abertas sexualmente, mas também mais capazes de funcionar no mundo de
formas que aumentariam sua criatividade, força e senso de conexão.
Frequentemente leio para as mulheres da sala uma passagem da obra-prima
[4]
chinesa da dinastia Ming, The Golden Lotus, que é bem erótica. Mas é um tipo
diferente de Eros daquele a que elas estão acostumadas: os filósofos e cortesãos
da dinastia Han viam a sexualidade feminina gratificada como a força que
mantinha o universo em ordem harmoniosa. Acreditavam que o auge da saúde,
sabedoria e potencial dos homens pudesse ser alcançado apenas por meio da
maestria em satisfazer às mulheres, desfrutando, assim, da potente essência yin
que emanava somente das partes íntimas de uma mulher verdadeiramente excitada
e plenamente satisfeita. Quando acabo de ler a passagem — quando minha plateia
ouve a linguagem de admiração com que os poetas da dinastia Han descrevem a
arte do amor e, no meio dela, sua adoração pela vagina —, a face de todas está
corada, e as mulheres tendem a manifestar um rompante espontâneo.
Certamente há algo de erótico em pensar sobre nossa própria sexualidade —
nossa própria vagina — em um contexto tão terno e admirador, mas há também
algo de fortalecedor no ato. Tendo feito uma viagem imaginária a outros tempos,
lugares e contextos em que a vagina é referida com reverência, essas mulheres
contemporâneas deixam a sala sentindo-se diferentes. Saem energizadas e
levemente atordoadas, como se recém-apossadas de um segredo maravilhoso.
Posso sentir que elas tomarão decisões diferentes, desfrutando de si próprias de
novas maneiras.
A linguagem é poderosa. Como disse Virginia Woolf, falando sobre outro tipo
de excitação — excitação intelectual —: “Não se pode pensar bem, amar bem,
dormir bem, se não jantou bem. A lâmpada na coluna não se acende com carne
bovina e ameixas secas”.[5]Ela quis dizer — e tinha razão — que o corpo e a
imaginação são interdependentes.
Em nossa cultura, a imaginação sexual do corpo feminino tem que se acender
com uns parcos gravetos linguísticos: a própria palavra vaginaé difícil de dizer.
É uma palavra antierótica de certa forma (aquele zum-zum irritante dov, aquele g
desagradavelmente suave). Quando se pensa vagina em nossa cultura (ou se busca
a palavra no Google ou na Amazon), encontram-se associações clínicas frias ou
repugnantes (“herpes vaginal”, “corrimento vaginal”), ou pelo menos
tediosamente relacionadas à saúde (“tônus vaginal”). No outro extremo do
espectro das associações, é só pornografia. É quase impossível sentir diariamente
a essência de ser excitante como mulher, misteriosa, profunda e complexa, se a
linguagem que ronda o centro de nosso ser é brega ou medicalizada, hostil,
redutora e pesada.
Se você é mulher, faça sua própria experiência. Releia os trechos de Anaïs Nin
e Henry Miller no início do livro. Observe o que acontece dentro de você
enquanto lê o texto — mesmo que lhe cause algum estresse. Ao comparar os de
Nin aos de Miller, observe o que acontece com a sensação de relaxamento ou
tensão em seus músculos e com a frequência cardíaca — ela baixa ou aumenta, ou
não há mudança? Preste atenção ao seu pulso vaginal, se estiver consciente dele;
preste atenção à sua respiração e se sente uma sensação generalizada de calma ou
ansiedade.
Ao longo da pesquisa deste livro, notei que, enquanto lia textos que descrevem
a vagina de diferentes maneiras, as descrições afetavam diretamente minha
sensação de energia e bem-estar generalizado. Após ler Nin pela manhã, por
exemplo, o mundo brilhava. Depois de uma tarde lendo Miller — sentada na
mesma cadeira, ao sol, com a mesma buganvília tremulando sobre minha cabeça
—, eu me senti mal e fraca, com muita vontade de tomar uma ducha.
Quão longe chegamos do mel e das conchas das mulheres modernistas… O
Onlineslangdictionary.com, um dicionário on-line que agrega gírias, lista os
seguintes termos contemporâneos violentos para vagina: “ferida de machado”,
[6]
“ferida de machado de guerra”, “ferida aberta” e “soldado ferido”. Em resposta
à consulta: “quais são as gírias para vagina?”, as respostas no Yahoo.com
incluíram termos de sonoridade violenta como “buraco”, “boca”, “talho”, “fenda”
e assim por diante.
A seguinte conversa aconteceu em um site de discussão de gênero misto quando
foram pedidas gírias para vagina. Não foram pedidas “gírias hostis para vagina”.
Apesar de os entrevistados serem autosselecionados, o site é aberto a todos.
Repito aqui a discussão original, pontuada, para maior clareza. Ouçam a
linguagem de violência e menosprezo.
Andy : Eu vi algumas indicações para a melhor gíria para “vagina” aqui e ali, então, pensei que seria
melhor escrevê-las em um lugar. As minhas duas favoritas são “boca” e “xereca”. A melhor coisa para
boca é que você pode acrescentar outras palavras a ela para descrever o nível de excitação de uma
mulher… “boquinha nervosa”; “A temperatura da boquinha dela está tão alta que deve estar toda
melada”.

David : “Cortina de carne”.
Zoe : “Sanduíche de carne comido pela metade”, “coelho vomitado”, “carne louca com molho
branco”… “broca”, “xana”, “aranha”.
Lewis : “Lata de lixo do açougueiro”.
Steve : “Buraco negro”.
Steven : “Abafador de microfone”, “afoga-ganso”, “amansa-corno ”,…“pomba”.
Anna : [uma das poucas mulheres no site , comentando ironicamente]: “Xô, xereca”: hahahaha.
Josh : [não impedido por esse suave protesto autoirônico]: “perseguida”.
Kin : “Mexilhão cabeludo”, “peixinho”.
Steve : “Perereca”.
Daniel : A mais normal, “aranha cabeluda”, é claro. “Sanduíche de atum”, “bombril”; “kebab”; “bolsa de
truta”; mas, pessoalmente, acho que deveria haver mais palavras para “suco [lubrifica ção vaginal]”.
Andy : “Morcego comedor de fruta” poderia ser usado para uma mulher com grandes lábios; “bolsa de
salsicha de veludo rosa”, “buçanha”.
Steve : “Aguilera” é com certeza da hora, e tem também “xana”, que eu vi no filme Elizabeth.
Andrew : Eu gosto de “kebab malpassado” para uma malcuidada. Mas as melhores são as antigas:
xoxota, xereca e boceta. “Buçanha peluda” é legal.
Andy : Ainda não vi “concha” (ou é “conxa”?) em nenhum lugar aqui ainda… “Mostre a concha para
nós, linda.”
Daniel : Ah, esqueci, “bacalhau”.
Penso que a maioria das mulheres concordaria que os termos acima variam do
tipo horrível para realmente horrível — de se ouvir ou até mesmo de pensar.
(Outro site acrescenta o termo igualmente repulsivo “amigo de bunda” e “ostra
barbada”.)
É impressionante como muitas das gírias dos jovens do sexo masculino para
vagina nesses fóruns de discussão têm a ver com carne: imagens violentas de
carne preparada para consumo, como em “lata de lixo do açougueiro” (na
tradição britânica, o “caixote do lixo do açougueiro” é onde os restos de carne
indesejados e descartados acabariam), ou de mais baixo calão, junkfood, carne
industrializada, também preparada para o consumo: “kebab malpassado”, “bolsa
de salsicha”, “taco mexicano cor-de-rosa”, “comedora de sêmen”. Aqui não se
está invocando champanhe ou caviar, mas esses termos tampouco têm os ecos
insultantes sociais pesados (“boceta”) do passado recente. Em vez disso, a
maioria dos termos é meio bruta, grosseiramente engraçada e apenas denota algo
carnudo que não desperta o apetite sexual. Outros sites listam gírias
contemporâneas que não são violentas ou que fazem referência à carne, mas que
são um pouco tolas: “biscoito de biquíni”, “racha”, “butchaca”, “barbuda”,
“birosca”, “aranha”. Os termos levemente positivos ou enternecedores que vi em
sites de gírias contemporâneas foram “madressilva”, “pomba”, da era
elisabetana, o afetuoso “cale-se, cachorrinho” e “lamba-me, por favor”; e o
carinhoso “maracujá” ou “fruto da paixão” e “Bela do Sul”. “Mapa de
Tassie/Mapatazi [Mapa da Tasmânia]” é popular na Austrália, evidentemente — a
ilha da Tasmânia é um triângulo invertido. Outros sites trazem o miserável “pastel
de pelo”, “sanduíche de bacon vertical” e “triângulo de velcro”.
Outros pouquíssimos sites de gíria têm raros termos menos terríveis. No
Blackchampagne.com, ficamos conhecendo gírias para clitóris que incluem
[7]
“amêndoa açucarada” e a linda gíria afro-americana “língua em pérola”.
Essas gírias sugerem que atualmente as mulheres ocidentais não identificam a
vagina com a magia negra do passado nem com suas associações insultantes mais
cruéis; em vez disso, a maioria dos termos denota baixo calão, junk food
produzida em massa, e não implica um grande efeito emocional. Essa mudança
tem a ver com a maneira como a pornografia retrata a vagina: ou seja, exatamente
como uma “bolsa de salsicha”. Tem a ver com a maneira como a pornografia é
produzida — em massa, como junk food? Ou com a maneira como o sexo é
representado na pornografia, rápido e substituível, como junk food? E com a
maneira como a pornografia é consumida, especialmente por essa geração que foi
sexualmente iniciada nela — casual e repetitivamente, como junk food?
Será que essa gíria revela que a pornografia alcançou o oposto do que Andrea
Dworkin temia? Em vez de incitar os homens a freneticamente estuprar a vagina, a
pornografia leva muitos jovens nela criados a considerar o órgão com uma
distância emocional relaxada ou mesmo dessensibilizada, como algo apenas um
pouco mais atraente, mas com uma embalagem pior do que um burrito de micro-
ondas?
As mulheres estão tentando “responder” ou “retribuir o xingamento”. Um site
de força jovem feminina, Tressugar.com, lista termos femininos gentis para vagina
— sem dúvida, para combater os termos de gíria negativa que existem em
abundância. O site foi montado por mulheres ocidentais na casa dos vinte anos.
Pode-se ver claramente que essas jovens de nosso contexto pós-revolução sexual,
pós-feminismo, não veem sua vagina como obscura ou agourenta, nem como
potente sedutora e esmagadoramente atraente. Em vez disso, elas a veem como
bonitinha e não ameaçadora: a vagina é a amiguinha fofa da Hello Kitty, ou um
doce presente; metáforas se mesclam, como uma caixa de jujubas embalada com
peles e glitter.
O site também encoraja as mulheres a enviar seus próprios termos para vagina
para combater gíria hostil ou desagradável proveniente dos homens. Alguns dos
termos favoritos das jovens evocam seu caráter delicioso: “yamy-yamy”, “pote de
mel”, “balinha”; outros se referem a acessórios de pele ou animais domésticos
fofos: “pelúcia”, “castor”, “gatinha”. Outras lexicógrafas jovens parecem dar
nomes à sua vagina como se fosse uma irmãzinha engraçadinha, do mesmo modo
que os homens têm apelidos afetuosos para seu pênis: “caixinha”, “pombinha”.
Um anúncio de revista feminina atual para desodorante vaginal, reembalado
como “higiene” vaginal — sim, esse produto ressurgiu diretamente das trevas dos
anos 1960 —, mostra uma modelo ruiva sorridente em uma minissaia amarela
brilhante com seus braços para cima, em uma atitude de “poder de suas partes
secretas femininas” saudando e dizendo animada “U-hu para minha Frufru!”. O
anúncio vai adiante: mini, flor, linda, yoni, jardim feminino…”, e continua para
alertar (sempre o alerta)
Você sabia que alguns géis de banho e sabonetes comuns, se usados em suas partes íntimas, podem
diminuir suas defesas naturais, causando secura e irritação? Com sua fórmula de pH balanceado,
especialmente desenvolvida para a pele íntima, Femfresh é uma das maneiras mais suaves de cuidar de
sua gina, moitinha, Laurinha, Julieta! Qualquer que seja o modo como você a chame, certifique-se de
que a ama.
Os criadores do slogan se despedem acrescentando que Femfresh oferece
“Cuidado extra para as partes baixas”.
O mote da vergonha-da-vagina-que-cheira-mal dos anos 1960 foi substituído
por uma animadora linguagem de poder feminino para mais um produto inventado;
mas será que “U-hu, Frufru” ou até mesmo “pelúcia”, “gatinha” ou “yamy-yamy” é
o mais longe que queremos chegar em nossa viagem ao “jardim da dama”? (Não
pude evitar pensar nos personagens do programa de televisão infantil Teletubbies,
criaturas infantis coloridas brilhantes, chamadas Tinky Winky, Ditsy, Laa Laa e
Po.)
Recentemente, nos tabloides ou na imprensa popular, outras abordagens de
poder feminino para dar nomes à vagina vieram à tona: Marian Keyes, a popular
romancista irlandesa, chamava sua vagina, hilariamente, de “croquete de carne”.
Um tabloide americano informa que Jennifer Love Hewitt, a estrela do programa
de sucesso da televisão Ghost Whisperer, “cristaliza” sua vagina — ou seja, põe
cristais em volta dela — antes de um encontro.
Qual o motivo para falar em um contexto de mídia e oferecer nomes mais
positivos para a vagina? Dar nomes em público é diferente de uma ação privada
— tem um elemento político: nomear constrói a realidade. E como as mulheres
sofreram calmamente ao longo dos séculos, é compreensível que agora desejem
fazer valer o direito de dar nomes que são afetuosos, encantadores, ou pelo menos
não tão terríveis.
Há perdas e ganhos no modo como essas mulheres aparentemente fortalecidas
chamam a vagina: o lado positivo é que ela não é mais o abismo, ou a porta de
entrada para o inferno; o negativo é que continua não sendo muito poderosa, e
muito menos o centro do universo.
Alarmante, descartável ou “bonitinha”, as vaginas estão em toda parte na
cultura, como um papel de parede. Mas a magia e o poder da vagina não estão em
quase nenhum lugar na cultura ou nomenclatura ocidental — ou são muito difíceis
de perceber.
Segundo os antropólogos, algumas pessoas no Sri Lanka acreditam que, com a
chegada da luz elétrica, os fantasmas, com seus presságios, fugiram, levando junto
seus maus agouros. Na Irlanda, algumas pessoas dizem que as fadas, com suas
bênçãos, recuaram em face da vida moderna. Da mesma forma, em nosso
vocabulário contemporâneo, a vagina tem sido desnudada de todo seu mistério,
não mais assombrada por fantasmas e demônios, nem mais encantada com a
magia.

1. Richard E. Nisbett, The Geography of Thought: How Asians and Westerners Think Differently... And
Why (Nova Iorque: Free Press, 2003), citado em Marcia Beauchamp, “Somasophy: The Relevance of
Somatics to the Cultivation of Female Subjectivity”, (PhD diss., California Institute of Integral Studies,
São Francisco, 2011), 301-3.↵
2. Douglas Wile, Art of the Bedchamber: The Chinese Sexual Yoga Classics, Including Women’s Solo
Meditation Texts (Albany, NY: State University of New Iorque Press, 1992), 9.↵
3. Sunyata Saraswati e Bodhi Avinasha, Jewel in the Lotus: The Sexual Path to Higher Consciousness
(São Francisco: Kriya Jyoti Tantra Society, 1978), 180-81: “É só por meio da mulher que o homem pode
se iluminar, pois ela é o princípio divino. Portanto, no Tantra, a energia feminina, simbolizada pela mãe
divina, é adorada”.↵
4. Veja Clement Egerton, The Golden Lotus, Trad. Lanling Xiaoxiaosheng (Londres, Tuttle, 2011).↵
5. Virginia Woolf, A Room of One’s Own (Nova Iorque: Mariner Books, 1989), 18.↵
6. Onlineslangdictionary.com/thesaurus/words+meaning+vulva+(‘vagina’),+female+genitalia.html.↵
7. Blackchampagne.com/wordpress/.↵
A vagina pornográfica

Houve provavelmente uns dias em que vi 300 vaginas antes de sair da cama.
Músico de rock John Mayer, Playboy

Não só a vagina perdeu um pouco de sua magia: os homens que estão envolvidos
com ela estão perdendo um pouco de sua própria magia. Torna-se cada vez mais
claro que uma infinidade de vaginas de plantão faz que alguns homens fiquem um
pouco loucos, e não de uma maneira positiva; a pornografia, onipresente agora,
parece reformatar o cérebro masculino.
Um problema crescente para a vagina, e para toda a vida da mulher que a
possui, é que a pornografia afeta os homens neurologicamente, em detrimento
deles. Há provas de que ela está também habituando muitos homens a ficar
entediados com a “dança da deusa” — os muitos gestos e carícias que o sistema
nervoso autônomo (SNA) das mulheres necessita —, e o resultado é que avançam
rapidamente pulando vários passos para chegar até ela.
O sexo “comum” já não é estimulante o suficiente para muitos homens que são
grandes usuários de pornografia. Então, há uma tendência para a penetração anal
(frequentemente violenta) e o clímax anal como o “objetivo” da ação sexual.
Comecei a perceber em que problema sistêmico isso poderia estar se
transformando quando dei palestras em dois diferentes campi universitários no
espaço de poucos meses. Em uma faculdade liberal do estado de Massachusetts,
onde vale tudo, depois de uma discussão focada na cultura do sexo anônimo sob o
efeito do álcool no campus universitário, coloquialmente chamado de “ficadas
rápidas”, uma estudante de terapia na área da saúde, angustiada, levantou-se e
perguntou-me o que eu poderia fazer para ajudá-la com um terrível problema que
ela estava presenciando: o problema médico número um que as mulheres jovens
apresentavam em sua clínica era, para meu espanto, fissuras anais.
“Fissura anal” é um eufemismo para o rasgo anal, um ferimento que as
mulheres jovens podem sofrer devido ao sexo inábil, impessoal, inexperiente, às
vezes inseguro, frequentemente sob o efeito do álcool que é comum em uma
cultura de “ficadas rápidas”. Essas jovens haviam repetidamente dito à terapeuta
que os rapazes no campus esperavam esse tipo de sexo por causa da pornografia
e que elas se sentiam obrigadas a se dispor a fazê-lo assim, especialmente se
quisessem que essa ficada se transformasse em um encontro ou relacionamento
futuro.
No mês seguinte, fiz uma apresentação em uma universidade religiosa mórmon
conservadora no Centro-Oeste. Outra estudante, terapeuta de saúde corporal,
levantou-se e me perguntou o que eu poderia fazer para ajudá-la com o problema
médico número um que as mulheres jovens apresentavam em sua clínica —
fissuras anais. Naquele campus, havia forte pressão social para que as jovens
preservassem sua virgindade até o casamento. Os rapazes estavam incitando as
jovens ao sexo anal como uma maneira de transar, preservando ao mesmo tempo a
“virgindade” das jovens.
Não estou estigmatizando o sexo anal entre adultos com consentimento mútuo e
quando sabem o que estão fazendo (embora o rasgo pélvico de qualquer tipo não
seja bom para a rede neural da mulher ou do homem). Mas existem cada vez mais
provas substanciais de que a onipresença e a facilidade de acesso à pornografia
contemporânea — que se afastou dos tipos de carícias e estimulação que excitam
as mulheres — degradaram a vagina e valorizam a penetração violenta frequente;
promovem o tipo de amor que aumenta a insatisfação sexual e emocional das
mulheres — insatisfação essa que vimos nas pesquisas nacionais de satisfação
sexual dos anos 1997 e 2004. A exposição dos homens à pornografia (e, de forma
crescente, a exposição das mulheres) tem aumentado em quantidades meteóricas
de modo a ser quase que não mensuráveis desde o Relatório Hite sobre a
sexualidade feminina. A satisfação sexual da mulher e a honestidade sexual sobre
as necessidades femininas diminuíram. Poderia haver uma conexão?
Se, como sugere o estudo relatado acima no Daily Mail, em qualquer grupo de
cem casais, 85% dos homens acham que sua parceira sexual atingiu o clímax —
mas apenas 61% das mulheres na verdade atingiram —, será que a frequentemente
bizarra representação pornográfica teatral da resposta sexual feminina poderia
estar conduzindo muitos homens a interpretar mal suas próprias situações íntimas?
O perigo aqui não é apenas como o consumo da pornografia pelos homens pode
afetar sua percepção dos sinais do desejo feminino, excitação e satisfação no ato
sexual imediato. A pornografia também parece apresentar outro problema menos
óbvio, embora grande para as mulheres heterossexuais também: a prova está no
fato de que a masturbação crônica com a pornografia dessensibiliza sexualmente
os homens de forma geral. Quando muitas mulheres reagem instintivamente contra
o uso da pornografia por seus companheiros masculinos, elas podem se sentir
irracionais — especialmente porque nossa cultura tem uma atitude em relação ao
consumo da pornografia de “relaxe e goze”, ou “é inofensivo”, ou até mesmo “é
positivo; apimenta sua vida sexual”. Mas, de fato, dados recentes mostram que
exatamente o oposto acontece: a pornografia lesa a virilidade dos homens, e está
confirmado que assistir a ela é potencialmente viciante para muitos homens que
têm uma vulnerabilidade a esse tipo de resposta aditiva em geral.
Uma vagina heterossexual feliz requer, para afirmar o óbvio, um homem viril.
Atualmente, a suposição geral é que o que acontece no cérebro do homem quando
ele se masturba com a pornografia é de sua própria conta e de mais ninguém. Mas,
de fato, neurologicamente, o que acontece no cérebro masculino naquele momento
pode, no final das contas, ter um efeito negativo em seu corpo e, assim, no corpo
de sua parceira — e depois em seu cérebro também. As mulheres não estão
erradas quando reagem instintivamente — frequentemente com ciúmes — contra o
interesse de seus parceiros pela pornografia, pois ela é, na verdade,
neurologicamente, um rival destrutivo da mulher, lutando pelas capacidades
sexuais de seu homem. Quanto mais sintonizado com a pornografia um homem
estiver, menor vigor sexual ele poderá ter, no final das contas, para ele mesmo ou
para sua amante humana.
Em 2003, escrevi um ensaio chamado “O mito da pornografia” na revista New
Iorque que apontou que os terapeutas e conselheiros de sexo estavam percebendo
uma correlação entre o aumento do uso da pornografia dentre os rapazes e o
aumento nos problemas de disfunção erétil e ejaculação retardada no mesmo
[1]
grupo. Esses rapazes que não tinham nenhum motivo orgânico ou psicológico
para apresentar problemas de virilidade, conforme relataram seus médicos e
terapeutas, estavam tendo problemas para manter ereções, tinham a ejaculação
dificultada ou retardada. A hipótese dentre esses especialistas era que o uso
intenso de pornografia estava progressivamente dessensibilizando esses homens
sexualmente. A ciência por trás dessa evidência qualitativa não foi ainda
completamente estabelecida.
Após a publicação desse artigo, fui inundada por e-mails angustiados — e
angustiantes — de homens relatando que o que eu descrevera havia acontecido a
eles. Estavam desesperados. Escreveram-me dizendo que, com o passar do
tempo, eles sentiam a necessidade de cada vez mais assistir à pornografia para
conseguir se excitar; sentiam cada vez menos o poder de escolha quanto ao seu
uso ou não; e estavam enfrentando crescentes dificuldades sexuais na cama com
suas namoradas ou esposas por quem haviam se sentido muito atraídos
anteriormente. Esses homens eram uma amostra perfeitamente “normal” de
pessoas sem aparentes segundas intenções; não tinham nenhuma objeção
ideológica ao uso da pornografia em geral e nem eram seus “defensores” —
estavam simplesmente assustados e sofrendo. O que realmente me impressionou
quanto aos seus e-mails foi o sentido inquietante que muitos tiveram da perda de
escolha: eram frequentemente homens que estavam no controle perfeito da maior
parte ou todas as outras áreas de sua vida e estavam escrevendo para mim porque
se sentiam à mercê de algo acerca do qual se sentiam impotentes.
Desde que esse texto foi publicado, uma grande quantidade de novos dados tem
se acumulado sobre o efeito da pornografia no sistema de recompensa do cérebro
masculino, o que explica mais concretamente a infelicidade sexual autorrelatada
desses homens e a perda de virilidade. Masturbar-se com a pornografia
proporciona um forte impulso de dopamina de curto prazo no cérebro masculino,
que, por uma ou duas horas depois, melhora o humor dos homens e os faz se sentir
bem em geral. Esse efeito funciona ao longo do mesmo circuito neural, digamos,
como os jogos de azar ou a cocaína. Mas, como os jogos de azar e o uso da
cocaína podem acionar comportamento viciante, da mesma forma o uso da
pornografia também pode quando se torna parte do que o dr. Jim Pfaus chama de
“resposta do tipo TOC” (transtorno obsessivo-compulsivo) da masturbação
crônica com a pornografia que os pesquisadores estão registrando como cada vez
mais comum.[2] Pode parecer linguagem vitoriana, mas os pesquisadores do vício
pornográfico masculino descrevem a “masturbação crônica do tipo TOC” com a
pornografia como a situação em que os homens se sentem atraídos a se masturbar
muitas vezes seguidas, ou finalmente perdem o interesse por outros aspectos de
sua vida e se sentem incapazes de restringir sua necessidade de ver a pornografia
no contexto da masturbação compulsiva.
O dr. Pfaus explica a neurociência do vício pornográfico:
A cada ejaculação, como com o orgasmo, você ativa um período refratário. Sofre os efeitos do opioide,
serotonina e endocanabinoide. Isso produz êxtase, saciedade e sedação. A cada ejacula ção sucessiva,
para os masturbadores crônicos, a inibição se torna mais forte — devido ao a umento da serotonina —
tornando menos provável que esses homens consigam outra ereção e muito menos outra ejaculação.
Para neutralizar isso, esses indivíduos necessitam de acesso aos estímulos que ativarão cada vez mais
seu SNS. É por essa razão que as pessoas que se masturbam cronicamente com a pornografia se
habituam ao material erótico e necessitam cada vez mais de imagens interessantes que ativem o SNS.
A razão pela qual isso acontece a algumas pessoas e não a outras é a frequência do uso. É como fumar
ou beber — o uso eventual é bom; mas o uso crônico, neurológico ou frequente pode viciar. E o vício é
absolutamente sempre um risco do uso. O perigo aqui é “crônico” e é a natureza do distúrbio obsessivo-
compulsivo da masturbação. Não é a pornografia por si só, mas seu uso na masturbação crônica ou
obsessiva. O vício não é, na verdade, em pornografia, mas no orgasmo e na previsibilidade da
[3]
recompensa.
Acrescente a essa imagem o fato de que alguns homens (e mulheres) nascem
com o que é chamado por aqueles que tratam o vício pornográfico de “buraco de
dopamina”: seu cérebro não produz recompensa com a mesma eficiência que
outros cérebros, assim, essas pessoas são muito mais propensas a se tornar mais
facilmente viciadas em pornografia extrema (e outros estimulantes). Essa situação
pode tornar alguns homens com essa vulnerabilidade impotentes ou levá-los a
sofrer ejaculação retardada após a masturbação consistente com a pornografia.
Mas, para outros homens, essa vulnerabilidade combinada com altos níveis de
masturbação com pornografia pode afetar o controle do impulso sexual. Alguns
homens desafortunados podem sofrer de ambos os problemas como resultado da
desregulação de dopamina.
Tal como acontece com qualquer vício, é muito difícil, por razões
neuroquímicas, que um viciado pare de fazer até mesmo as coisas mais
destrutivas que lhe permitem obter a próxima recompensa. Um homem com
processo de desregulação da dopamina, que se masturba cronicamente com
pornografia, pode se tornar mais viciado em salas de bate-papo de sexo que
outros homens, ou envolver-se em outros tipos de simulação sexual dos quais se
envergonha e deseja controlar. Mas, muito mais sério, em termos do nosso foco
aqui, a masturbação com pornografia pode levar os homens em geral a
desenvolver problemas sexuais “habituais” — a dessensibilização que leva a
problemas de ereção ou sua manutenção, ou problemas com a ejaculação. Quanto
maior a quantidade de vaginas com que o homem se masturba em um formato on-
line, sem mediação, por meio do mouse do computador, tanto mais habituado ele
se tornará a esse estímulo e tanto menos será capaz de se envolver no despertar
lento da atenção sustentada e paciente da dança da deusa que o “orgasmo
profundo” da mulher requer.
O biólogo Robert Sapolsky explicou a biologia do desejo e da saciedade em
seu livro Por que as zebras não têm úlceras:
Explosões artificiais de experiência, sensações e prazer sintéticos evocam altos níveis artificiais de
habituação. Isso tem duas consequências: primeiramente, logo quase não mais notamos os sussurros
fugazes do prazer causados pelas folhas outonais, ou pelo olhar demorado da pessoa certa, ou pela
promessa de recompensa que virá após uma tarefa longa, difícil e valiosa. A outra consequência é que,
depois de um tempo, até mesmo nos habituamos a esses dilúvios de intensidade artificiais (…) Nossa
tragédia é que apenas nos tornamos mais famintos.
Graças à maneira como nosso cérebro funciona, a excessiva estimulação crônica falha em satisfazer e
pode deixar uma pessoa quase ávida [por mais níveis de estimulação]. Esse homem passaria a se
perguntar automaticamente sobre cada mulher: “Será que ela se envolveria em…?”. Também, qualquer
diferença entre sua realidade virtual e a física pode levantar dúvidas quanto ao seu parceiro/união,
tornando-o estranhamente irritável e absorvido em si mesmo. Ele vai focar naquilo que seu
relacionamento não oferece, e não no que ele oferece. E a insatisfação não necessariamente para por
aí. Os humanos tendem a projetar tais sentimentos automaticamente em outros aspectos da vida
também (…) Tristemente, a percepção distorcida que nasce da desregulação neuroquímica pode tornar
uma pessoa extremamente resistente a compreender o que realmente a incita ou o que aliviaria seu
sofrimento. Seu cérebro límbico o convence firmemente de que apenas a sua droga predileta vai
proporcionar as sensações boas.
Pode levar um ou dois meses de desconforto para restaurar a percepção normal após a excessiva
estimulação habitual. Mas, à medida que os sentimentos vorazes diminuem, é mais fácil encontrar
[4]
satisfação em todos os aspectos da vida.

Essa escalada da necessidade de estimulação para atingir o mesmo nível de


excitação é a razão pela qual as tendências na pornografia são para imagens cada
vez mais extremas. A luz relativamente suave e o ritmo não violento do filme
Emanuelle para adultos dos anos 1980 deram lugar a sites pornográficos que
satisfazem ao desejo por sexo bastante violento, ou o sexo com mulheres
aparentemente muito jovens, ou situações incestuosas que antes eram
consideradas bastante marginais ou fetichistas. Algumas dessas mudanças no
conteúdo podem ocorrer porque nossa cultura é, em geral, mais sexualmente
aberta e menos investida de julgamentos morais quanto à vida sexual dos
indivíduos do que foi outrora; mas algo dessa escalada de imagens extremas
também é, de acordo com a ciência, o resultado da dessensibilizaçãogeral dos
usuários de pornografia. A natureza do TOC da masturbação crônica com a
pornografia significa que a próxima vez que um usuário de pornografia vir aquela
imagem que o excitou, ela não vai excitá-lo tanto. É por essa razão que as
tendências da pornografia estão se tornando cada vez mais extremas com o passar
do tempo — para, digamos, migrar da posição de sexo consensual tradicional
para o estupro anal violento, ou para imagens que despertam o SNS por meio da
quebra de tabus tais como o incesto ou a sexualização de menores.
Todos os anúncios de clubes de striptease rapidamente evoluíram na direção
de imagens mais extremas. Em Manhattan, o clube masculino Private Eyes anuncia
em placas colocadas nos tetos de táxis. Há alguns anos, o rosto das mulheres
nesses anúncios simplesmente parecia provocante e sedutor. Há cerca de um ano,
as mulheres passaram a olhar para a câmera com um olhar simplesmente
amedrontado ou furioso, como se estivessem confrontando algum tipo de
violação. Recentemente, notei que, sutil, mas certamente, em um anúncio do clube
de striptease Private Eyes em um táxi amarelo nas ruas da cidade — ou seja, não
em um site de fetiche ou escondido em uma publicação sórdida —, na maçã do
rosto de uma linda moça havia agora uma única gota. Seria uma lágrima?
É comum condenar homens heterossexuais por seu interesse em olhar para
mulheres que não são suas parceiras. Mas, de acordo com oSex at Dawn, de
Christopher Ryan e Cacilda Jethá, os homens têm que lidar com o “efeito
Coolidge”, um fenômeno biológico pelo qual os homens podem responder
sexualmente a uma nova parceira com grande excitação. (As mulheres têm um
pico semelhante na excitação com um novo parceiro.) Tem sido demonstrado o
efeito Coolidge em ratos machos; nada anima um rato macho mais prontamente
que a introdução em sua gaiola de uma fêmea desconhecida. Nos humanos, como
demonstrou também a dra. Helen Fisher em Anatomia do amor, a excitação
erótica dispara quando um homem ou uma mulher faz sexo com um novo parceiro,
[5]
mas essa excitação diminui com o passar do tempo. (Poucas pessoas sabem
que, se tudo estiver igual, os ratos machos escolhem a novidade, mas, se eles
estiverem condicionados a associar um perfume com um bom sentimento pós-
orgástico, escolherão suas parceiras pelo perfume que lhes é familiar — que
estão associadas a esse bom sentimento em vez de uma “esposa” nova ou mais
jovem.)[6]
O problema para os homens contemporâneos é que o efeito novidade das novas
parceiras não se desenvolveu em um ambiente em que centenas de milhares de
mulheres nuas ou copulando surgiram a um sinal deles para se exibir visualmente
até que eles atingissem o orgasmo com a visão delas. Em vez disso, o cérebro
masculino evoluiu em um contexto em que a visão de uma mulher nua ou
copulando era extremamente rara, à qual normalmente se chegava de maneira
árdua — tornando-se, assim, muito emocionante. Essa excitação e a resposta da
dopamina estavam ligadas a fazer sexo de verdade com mulheres reais após toda
uma corte que elevava os níveis de dopamina.
YourBrainOnPorn.com, que monitora a ciência do uso e vício em pornografia,
apresenta evidências que confirmam que a pornografia tem o mesmo efeito no
cérebro que a junk food tem no corpo, tudo isso confirmado no livro Cupid’s
Poisoned Arrow, de Marnia Robinson, que administra o site junto com Gary
Wilson.[7] Gary Wilson também apresentou um sumário da pesquisa sobre a
pornografia e os problemas sexuais masculinos em uma TED conferência: “The
Great Porn Experience”.A ciência mostra que, com a ativação da dopamina e a
liberação de opioides, os homens que usam pornografia estão se viciando cada
vez mais nela.
Robinson escreve:
Como o psiquiatra Norman Doidge narra em O cérebro que se transforma, os adultos não fazem ideia
da medida em que a pornografia remodela seu cérebro. Seus pacientes relatam crescente dificuldade de
se excitar com suas parceiras sexuais, namoradas e esposas, embora eles ainda as considerem
objetivamente atraentes. Eles tentam convencer suas amadas a atuar como estrelas pornôs e estão
cada vez mais interessados em “foder” em vez de “fazer amor”. A humanidade está executando uma
experiência maciça, descontrolada, e ainda não conhecemos os resultados. Entretanto, há indícios
crescentes de que nada é de graça.[8]
Ao oferecer “amostras grátis” em abundância, os sites pornôs intencionalmente
procuram incitar essa resposta viciante, a fim de usá-la para aumentar os lucros.
A tática é bem-sucedida: a indústria pornográfica agora é maior que a de filmes
convencionais, CDs, livros e vídeos juntos (e as vendas de Viagra constituem uma
indústria multimilionária em dólar por ano só nos EUA). A vagina pornográfica,
de avanço rápido, produzida em massa está para a vagina real assim como os
alimentos geneticamente modificados ou altamente processados estão para os
alimentos orgânicos ou cultivados lentamente; e ela tem efeitos negativos
paralelos nos consumidores.
Devemos lidar com o dilema do homem moderno — estimulado pelas
indústrias de massa a ter uma relação viciante com a pornografia — com empatia
em vez de hostilidade. Quase ninguém alertou os homens adequadamente sobre os
problemas que podem ter com sua virilidade — e muito menos seu livre-arbítrio
— uma vez que introduzem esse fluxo de imagem grátis e atraente em seu
ambiente neurológico. Os homens que escreveram para mim sobre seu vício em
pornografia e problemas de disfunção erétil não eram monstros; eram homens que
estavam sofrendo, eram maridos e namorados amorosos que odiavam a dor que
estavam causando a suas parceiras e que estavam envergonhados do que então
sentiam como sendo sua inadequação sexual. Depois que escrevi um novo artigo,
em 2011, sobre o efeito viciante da pornografia no cérebro masculino, recebi
vários e-mails de conselheiros do ensino médio e de escolas de período integral
preocupados, pedindo-me mais informações sobre programas de reabilitação para
a pornografia, pois estavam vendo cada vez mais jovens adolescentes do sexo
masculino sofrendo de vícios em pornografia tão graves que, aos 16 ou 17 anos,
estavam interferindo em outros aspectos da vida dos adolescentes, tais como
escola, esportes e amizades.[9] Em uma faculdade na Virgínia, onde me apresentei
em 2012, uma estudante afirmou que a maioria dos homens jovens que ela
conhecia eram, em sua opinião, viciados em pornografia já no momento em que
haviam se formado no ensino médio e que havia forte pressão sobre as mulheres
jovens para aceitar essa situação como sendo “o novo normal”.
No Reuniting.info, um site que oferece aos usuários de pornografia
preocupados ciência e informação para reabilitação, Marnia Robinson e Gary
Wilson relatam, confirmando a análise de Robert Sapolsky, que os membros de
sua comunidade descrevem mudanças “graduais” e “sutis” em sua percepção após
o “desmame” do vício em pornografia. Eles notam que mudanças similares na
percepção podem surgir, como a recuperação da função erétil, que eles chamam
de “um sintoma muito tangível que cada vez mais os grandes consumidores de
pornografia relatam desde que vídeos grátis da Internet se tornaram amplamente
disponíveis, há cerca de cinco anos”.[10] Os autores procuraram comparar o
testemunho dos usuários após vários meses de redução ou interrupção completa
do uso de pornografia com relatos de homens que estavam usando a pornografia
de maneira intensa, para ver se surgiu alguma diferença.
Após vários meses cumprindo etapas para se desabituar do uso de pornografia,
muitos dos homens que viram os mesmos vídeos pornográficos que haviam
despertado seu interesse no passado acharam que eram curiosamente
decepcionantes ou até mesmo desagradáveis.
Um homem desligou seu navegador e observou sua própria reação emocional:
Agora, percebo que muito da pornografia a que tenho assistido ou não é muito emocionante, ou é
basicamente exploração. Minha atitude está mudando. No passado, eu normalmente adiantava
rapidamente qualquer sexo vaginal ou interações emocionalmente positivas para as partes de sexo anal.
Também no passado, eu sentia forte ressentimento por minha esposa não querer imitar a pornografia.
Mas, hoje, sinto remorso pela maneira como a tratei e gratidão por ela ainda parecer me amar
incondicionalmente. Bem, não incondicionalmente, mas sim de modo não egoísta.
Outro viciado que está se reabilitando da masturbação com pornografia relata
no site:
Até recentemente, eu acreditava que não podia fazer sexo o suficiente e que era infeliz porque me casei
com uma mulher que prefere sexo no máximo uma vez em dias alternados e não se adapta à
penetração indiscriminada em cada orifício. Mas, então, eu consegui ficar trinta e um dias sem assistir à
pornografia, masturbando-me apenas minimamente, tentando apreciar genuinamente minha mulher por
sua sexualidade em seus próprios termos, ativamente suprimindo a fantasia/impulsos obsessivos que
progressivamente se insinuaram em minha personalidade na última década.
Após essa redução experimental de minha “expressão sexual”, tornou-se evidente que a ênfase que
nossa cultura coloca na (…) atividade sexual, que eu estava “livre” para desenvolver como um membro
de nossa cultura, tem sido prejudicial para meu desenvolvimento emocional, meu casamento, minha
atitude fundamental com as mulheres como categoria, e isso restringiu minha amplitude de experiência.
Ainda não calculei a quantidade de tempo que devotei à masturbação, à pornografia, à fantasia,
projetando insatisfação sexual como insatisfação com a vida etc., mas provavelmente perdi anos. Ainda
não estou livre da compulsão sexual, mas realmente sinto, pela primeira vez em provavelmente
dezesseis anos, que minha vida ainda tem o potencial de oferecer experiências profundas, significativas,
sem também incluir um componente sexual hiperativo. Essa visão da liberdade da compulsão é
completamente nova.
A fantasia e a insatisfação básica com minha vida sexual não voltaram com sua força habitual. Minha
percepção de minha mulher está mudando também. Ela parece cada vez mais atraente. Isto só pode ser
um desenvolvimento positivo![11]
Adicione a tudo isto, ainda, outra complicação: os centros de agressão e desejo
sexual no cérebro estão próximos um do outro. Muitas das mulheres que
escreveram para mim ou que me confidenciaram sobre o uso de pornografia por
seus namorados ou maridos estavam menos chateadas pela nudez das mulheres
envolvidas que por sua degradação; elas não podiam acreditar que pessoas de sua
própria espécie, parceiros carinhosos, gozavam assistindo a homens urinando em
mulheres, ou degradando-as de outras maneiras. Quando os homens veem, com o
passar do tempo, imagens que ligam o sexo à violência ou à degradação, podem
se tornar cada vez mais despertados pela conexão do sexo à violência ou à
degradação. Isso também pode ser verdadeiro para as mulheres. A
vulnerabilidade a esse tipo de desregulação límbica não é um defeito moral
existencial nos homens, como as escritoras feministas Catharine MacKinnon e
Andrea Dworkin propuseram. Não é porque a maioria dos homens gosta, como
regra geral, de ser violenta ou de degradar as mulheres na vida real. Muitos
homens que estão nos sites das “comunidades de reabilitação”, tentando reduzir
seu vício em pornografia com o apoio de outros homens solidários, nem mesmo
gostam desse aspecto de sua vida masturbatória. O elo potencial entre o desejo
sexual e a agressão é um aspecto do cérebro masculino que uma nova tecnologia
está cinicamente manipulando, objetivando o lucro, à custa dos homens.
As mulheres heterossexuais estão se adaptando — com algum sacrifício de sua
própria riqueza sexual — à ofensiva do ritmo pornográfico masculino no
ambiente. Vimos como a masturba ção com pornografia pode dessensibilizar os
homens com relação à vagina. Mas será que dessensibiliza as mulheres com
relação à sua própria vagina? Estudos recentes indicam que sim. A masturbação
femin ina com a pornografia também pode dessensibilizar as mulheres com
relação à sua própria vagina. As mulheres que entraram em contato comigo
também relataram sua própria dessensibilização depois da masturbação com a
pornografia. Como resultado, elas não respondem mais sexualmente às versões
mais simples de imagens eróticas. Elas também precisam dar um fast-forward
para chegar ao sexo hard-core , ou à parte mais violenta, para ficar excitadas
como as mulheres costumavam ficar nos estudos da geração anterior, com cenas
mostrando a nudez feminina, beijos, afagos, carícias nos genitais e assim por
diante. A resposta sexual feminina está se adaptando ao ritmo pornográfico
masculino — com os consequentes problemas da libido e da excitação nas
mulheres sob estímulos sexuais menos intensos e em detrimento da sexualidade de
ambos os gêneros e sentido de conexão.
Marnia Robinson enviou-me um comentário que uma leitora postou em sua
última publicação do Psychology Today sobre disfunção erétil:
Tenho esse exato problema, com a exceção de que não tenho pênis.
Ao ler isso, percebi que é do que estou sofrendo. Eu não sabia que a pornografia era meu problema.
Assisto à pornografia e sou viciada desde muito, muito jovem. Tenho apenas vinte e quatro anos, e
minha vida amorosa é uma luta, na melhor das hipóteses. Meu marido entende um pouco, mas nunca
pude realmente lhe dizer o que isso estava causando. Não lhe contei sobre meu vício. Começou de
maneira normal, e minha sensibilidade ao toque diminuiu exponencialmente desde que comecei a assistir
à pornografia. Além disso, como disse o artigo, a pornografia que eu via também aumentou na “crueza”
das imagens. Eu costumava me excitar com a nudez e agora [estou] em um estágio no qual me
preocupo com minha sanidade mental.
Tenho dificuldade de chegar a qualquer tipo de orgasmo sem estimulação clitoridiana e muita força de
pensamento de minha parte. Tenho saudades de poder ter relações sexuais e sentir-me bem sem muito
esforço.
Não assisto à pornografia há muito tempo e acabo de recomeçar, e o tempo de afastamento não
aumentou minha libido, mas poderia explicar por que não a tenho. Eu tinha uma libido extrema e mal
podia controlá-la, agora nem mesmo gosto de ser tocada.
Penso que, em meu caso, renunciar à pornografia e aos auxílios visuais seria uma longa e difícil jornada.
Sinto que levaria anos para minha sensibilidade voltar. Só me resta esperar! Obrigada por escrever isso
e trazê-lo não só à minha atenção, mas também à de muitos outros!
Espero que as autoras entendam que as mulheres, juntamente com os homens, usam a pornografia para
se masturbar. Aposto que as mulheres, em segredo, estão muito perto da quantidade e do nível de
gravidade de seu uso pelos homens, e talvez seja por isso que muitas mulheres necessitem de algum tipo
de estímulo para chegar a qualquer coisa. Os vibradores são o demônio, e vou me livrar do meu, com
certeza.[12]

Isso pode não ser uma situação tão rara: de acordo com um estudo publicado
no Journal of Adolescent Research, enquanto nove de cada dez rapazes dizem
usar pornografia, um terço das mulheres jovens admite a mesma situação.[13]
Verifiquei com Pfaus os relatos que estava recebendo das mulheres, dizendo
que o uso da pornografia e de vibradores parecia estar correlacionado à
dessensibilização delas também. Ele observou que os vibradores dessensibilizam
as mulheres com o passar do tempo devido a um fenômeno de habituação natural
— o circuito da coluna vertebral se habitua aos mesmos estímulos repetidos.
Então, na verdade, para as mulheres, as tecnologias de pornografia e dos
vibradores não oferecem substitutos neurobiológicos de longo prazo a um amante
atento e inventivo, ou à própria pessoa que seja inventiva, atenta e imaginativa. A
tecnologia está criando seus próprios problemas.
Há mais maneiras negativas nas quais a pornografia intervém e distorce o
sentimento das mulheres sobre sua própria vagina. Labioplastia — a reconstrução
cirúrgica dos lábios vaginais — é uma nova indústria importante na cirurgia
cosmética. A variação natural das dobras e do arranjo, e até mesmo da simetria,
dos lábios vaginais internos e externos é bastante extensa entre as mulheres. É
muito comum que os lábios vaginais de uma mulher não se pareçam nem
remotamente com as versões padronizadas dos que aparecem em revistas
pornográficas e sites; consequentemente, muitas mulheres que são completamente
normais acham que há algo muito incomum ou até mesmo uma deformação em
seus lábios vaginais longos “demais”, complicados “demais” ou assimétricos
“demais”.[14]
O dr. Basil Kocur, do Hospital Lenox Hill, defensor de seus próprios
princípios e renomado especialista em problemas do assoalho pélvico, que faz as
“verdadeiras” vaginoplastias, licenciadas, credenciadas e medicamente
justificadas, para ajudar as mulheres a se recuperar do prolapso do assoalho
pélvico (afrouxamento das paredes vaginais após o parto e na meia-idade, que
pode envolver o prolapso de outros órgãos), explicou em uma entrevista que a
cirurgia do assoalho pélvico é a onda do futuro na cirurgia: a população feminina
está envelhecendo, e cada vez mais as mulheres querem reconquistar as sensações
sexuais positivas da juventude e ter uma melhor função da região, que pode ser
devolvida pelo aperto corretivo das paredes vaginais e suporte do assoalho
pélvico. (Ele também alertou sobre o fato de que existem “açougueiros” não
credenciados lá fora, explorando o desejo das mulheres por esse tipo de
reconstrução.) Mas também observou que, nos últimos anos, às vezes, quando tem
uma paciente com cirurgia de assoalho pélvico ou vaginoplastia marcada, ela lhe
entrega uma página da revista Penthouse ou Playboy e pede uma labioplastia
também, para “ficar assim” — sendo que não há nada errado com seus lábios
vaginais. Ele acredita que a pornografia deu a muitas mulheres uma ideia irreal de
como sua vulva deve parecer, porque os lábios vaginais perfeitos e simétricos
das modelos pornôs frequentemente foram cirurgicamente reconstruídos.[15]

ANALFABETISMO PORNOGRÁFICO E VAGINAL

Em minhas apresentações, quando elucido a distinção entre a pornografia viciante


centrada no homem em oposição ao discurso oriental e ao erotismo que provocam
a dança da deusa, jovens moças e rapazes falam muito francamente sobre como a
onda da pornografia à sua volta causou um curto-circuito em sua vida sexual e
emocional. Parece claro, pelo que agora entendo sobre a importância do SNA
feminino, que a pornografia pode causar um curto-circuito na resposta orgástica
feminina também.
As mulheres jovens também são diretas, nessas conversas, sobre como a
sexualidade feminina é retratada na pornografia — e como a própria vagina é
retratada na pornografia — e tem exercido, em sua opinião, um efeito
acentuadamente negativo sobre a compreensão do assunto vagina por parte de
seus homens e sobre o que os jovens deveriam idealmente fazer para as mulheres
do ponto de vista sexual. A pornografia está levando os homens a se tornar
amantes mais pobres para as mulheres e, mais especificamente, treinando os
jovens a tratar inadequadamente ou a ignorar a vagina.
Um grupo de mulheres jovens que conversou comigo, no que eu chamarei, para
proteger identidades, de centro comunitário na Costa Oeste, foi até mais
específico: “Eu fico tão brava”, disse Lisa, uma jovem adorável usando calça
skinny e botas de motociclista. Estávamos tomando café em volta de uma mesa
dobrável, e, enquanto falava, ela batia, cada vez com mais força, no café
derramado sobre a mesa. Ela disse:
Eu tive um amante de quem gostei muito em todos os outros sentidos. Mas ele sempre queria fazer
amor com o vídeo ligado e sempre avançava o vídeo direto para o clímax da relação. E eu só queria
pegar o controle remoto dele e fazê-lo assistir a tudo — ou seja, inclusive as preliminares — ou até
mesmo desacelerá-lo.

Fiquei surpresa por ela evitentemente não se importar que o vídeo ficasse em
primeiro lugar. As mulheres mais jovens à mesa não reagiram com absolutamente
nenhuma surpresa ao que Lisa estava dizendo. Eu, é claro, sendo duas gerações
mais velha, fiquei estarrecida por Lisa sentir que o vídeo e seu timing mediavam
o que ia acontecer a ela sexualmente, em vez de sua sexualidade se inflamar ou se
distrair com o vídeo. Mas os comentários que tenho ouvido de muitas jovens
mulheres (e rapazes) agora são que, de fato, o vídeo pornográfico — seu timing ,
suas opções de atividades, suas posições — é o script dominante para o que se
espera entre jovens amantes ocidentais contemporâneos. Agora, para os jovens, a
luta pela pornografia e pelo controle remoto frequentemente é, na verdade, uma
luta pelo comportamento sexual e pelo ritmo.
Ao mesmo tempo que nos dizem que vivemos em uma época de liberação
sexual, isso pode apenas significar mais sexo, ou até mesmo só mais imagens de
sexo — e não um sexo melhor e “mais livre”. Pois é bem provável que, de fato, a
sofisticação dos conjuntos de habilidades e o nível de habilidade geral ensinados
aos homens, de geração em geração, por sua cultura e seus pares, sobre como
agradar às mulheres na cama tenham caído vertiginosamente desde a metade do
século passado, quando se generalizou a pornografia pública e quando a educação
sexual masculina passou de histórias de seus pares e suas próprias experiências
com mulheres reais para o modelo apresentado na nova mídia de mercado de
massa.
Fanny Hill, ou Memórias de uma mulher de prazer, de John Cleland, escrito e
publicado como pornografia em 1748, está recheado da dança da deusa: foi
claramente considerado um guia para os homens do século XVIII sobre como
excitar as mulheres, e a vagina não podia ser descrita com mais apreço em ambas
as vozes, masculinas e femininas:
Diz Fanny Hill ao descrever sua própria vagina:
Esse meu ponto que agora queima inflamou o centro de todos os meus sentidos (…) o cabelo ondulado
que cobre sua fronte de deleite (…) os lábios poderosamente divididos desse canal sedento de prazer
(…) uma parte minha tão vital (…) uma dobra tão rigorosa! Uma sucção tão feroz! (…) essa glutona
delicada, minha boca de baixo.

Contemplando a vagina da amante, o narrador descreve:


Essa fenda de carne deliciosa (…) uma entrada úmida e convidativa (…) delicadamente macia e
fazendo beicinho (…) Agora com a mais terna atenção a fim de não chocar, ou alarmá-la muito
repentinamente, ele, gradualmente, roubou um pouco sua anágua (…) depois, ficou deitada exposta,
para dizer mais corretamente, exibindo o maior desfile na natureza dos encantos femininos. O conjunto
todo (…) parecia deslumbrado, surpreso e encantado como qualquer um poderia estar (…) Belezas tão
excessivas podiam tão somente desfrutar dos privilégios da novidade eterna (…) não! Nada na natureza
pode ser de um corte mais bonito que o umbral escuro do macio musgo primaveril que a domina (…)
um calor comovente, um final terno, além da expressão das palavras (…) com uma mão ele
suavemente revelou os lábios daquela deliciosa boca da natureza (…) o macio laboratório do amor (…)
ele acordou, despertou e tocou-lhe assim o coração (…) até as picadas furiosas do prazer, subindo em
direção ao ponto, deixou-a selvagem com suas sensa ções insuportáveis (…) deitada, perdendo-se no
doce transporte. [16]
O erotismo do século XVIII e do início da era vitoriana — que era equivalente
à pornografia em seus dias, concebida para os homens, sem pretensões morais ou
literárias, com o propósito de excitá-los para o orgasmo — é impressionante em
termos do quanto da dança da deusa encontra-se dentro dele. Mesmo tendo a
vagina sido degradada no discurso público, no erotismo privado consumido pelos
homens ela ainda estava recebendo muita atenção positiva. As mulheres, nesses
romances ilícitos publicados anonimamente, são continuamente beijadas
profundamente, sensualmente afagadas, apaixonadamente acariciadas e
ameigadas; seus seios e mamilos são admirados; sua vulva, tocada e penetrada
manualmente, beijada e lambida; é vista e descrita em tons de admiração; sua
própria excitação é observada cuidadosamente; e seu próprio clímax, descrito
com grande delicadeza e atenção. Aproximadamente um terço da descrição da
atividade sexual em geral consiste na atenção à dança da deusa, e o ritmo não
classifica essa atenção como sendo parte do temido conceito das
“preliminares”,mas como uma parte sensual, mais demorada e deliciosa do
banquete sexual propriamente dito. Cleland escreve que os homens deveriam
tratar as amadas com
mil pequenas e ternas atenções, presentes, carinhos, confidências e esgotá-las com invenção (…) que
modos, que refinamentos de prazer aos quais eles não têm recurso (…) Quando, durante a provocação,
se preocupam (acariciando), manipulando, em passatempos luxuriantes, movimentos lascivos (…)
acendem uma chama no objeto de sua paixão.

Só então podem os homens buscar sua própria satisfação. E a voz feminina


desse mesmo livro confirma essa atenção à excitação feminina: “Beijar-me em
todos os lugares, o mais secreto e crítico, tão longe de ser o esperado (…) seus
toques eram tão requintadamente (…) libertinos, distribuídos com opulência, e,
penetrando às vezes, ele me fez perfeitamente esbravejar em explosões de fogo do
prazer”.[17] Mas, nos sites PonHub ou Porn.com, há pouco desse tipo de toque
que, 260 anos antes da “revolução sexual”, levou Fanny Hill a “perfeitamente
esbravejar em explosões de fogo do prazer”.
Os revolucionários sexuais da década de 1960, incluindo defensores de
materiais “adultos”, tais como Hugh Hefner e Al Goldstein, representaram para
nós a pornografia como um grande radicalizador social. Mas uma nação de
pessoas que se masturbam olhando telas em vez de se olhar — que estão
consumindo sexo como qualquer outro produto e que estão reformatando seu
cérebro para achar cada vez menos abandono e alegria nos braços uns dos outros
e para se ligar cada vez mais aos pixels — é uma população subjugada e não
liberada.
Não é de se estranhar que o capitalismo corporativo avançado, que na verdade
não libera nem os homens nem as mulheres, goste tanto de pornografia, permitindo
que ela colonize o espaço público. Imagens de nudez virtual que teriam sido
consideradas adequadas para a Playboy na década de 1980 são agora cinco
andares de anúncios da Calvin Klein na Times Square. Cenas sexuais bastante
gráficas não são omitidas em filmes para adultos exibidos em voos nos quais as
crianças estão sentadas, e a pornografia é visível para crianças que passam por
bancas de jornais. Filtros de Internet são difíceis para os pais entenderem e
instalarem. A pornografia, assim, invade a imaginação das crianças e penetra
sistematicamente o entretenimento popular. Os pais não são, na verdade, livres
para incutir um modelo de sexo na educação de seus filhos que não seja esse
modelo, que é mais gráfico e chegou lá primeiro. Há muito dinheiro em jogo, mas
parte da razão pela qual quase não houve nenhuma reação contra a colonização do
espaço público pela pornografia — mesmo que até os anos 1960 debates
comunitários ativos estabelecessem limites aos materiais obscenos — é que o
vício pornográfico serve amplamente ao status quo . A pornografia põe as
pessoas para dormir, conceitual e politicamente, bem como eroticamente.
Os conservadores sociais sempre temeram um despertar sexual real porque a
vitalidade erótica tem o poder de conduzir as pessoas a outros tipos de
resistência às normas sufocantes e às rígidas opressões políticas, sociais e de
classe. Eros sempre teve o potencial de verdadeiramente excitar as pessoas,
espiritual e política, assim como fisicamente. A pornografia é, na verdade, uma
droga, mas é um tipo de droga que diminui a individualidade, a imaginação e o
prazer em vez de liberá-lo. O resultado é que a pornografia, no final das contas,
tira a sensualidade do sexo dando lugar à selvageria.
Os “revolucionários” sexuais dos anos 1960 rotularam a pornografia como
sendo um grande liberador da libido — um supressor de repressão, um grande
desmistificador da “vergonha” da sexualidade. Mas — na maior dentre as grandes
ironias — estamos descobrindo que, com o passar do tempo, a pornografia
diminui, em vez de aumentar, a libido; seu efeito no falo é, em última análise,
castrador e depressivo; seu efeito na vagina provoca um curto-circuito do intenso
potencial erótico — o que significa, também, o intenso potencial criativo —
inerente a toda mulher.

1. Naomi Wolf, “The Porn Myth”, New Iorque Magazine, 20 de outubro de 2003,
nymag.com/nymetro/news/trends/n_9437.↵
2. Dr. Jim Pfaus, entrevista, 29-30 de janeiro de 2012.↵
3. Ib.↵
4. Veja Robert Sapolsky, Why Zebras Don’t Get Ulcers: An Updated Guide to Stress, Stress-Related
Diseases, and Coping (Nova Iorque: W. H. Freeman, 1998). [Edição brasileira: Por que as zebras não
têm úlceras; São Paulo, W11 Editores, 2011.]↵
5. Dra. Helen Fisher, The Anatomy of Love: A Natural History of Mating, Marriage and Why We Stray
(Nova Iorque: Ballantine Books, 1992), 182-84.↵
6. Dr. Jim Pfaus, entrevista, Montreal, Quebec, 29-30 de janeiro de 2012.↵
7. Marnia Robinson, Cupid’s Poisoned Arrow: From Habit to Harmony in Sexual Relationships (Berkeley,
CA: North Atlantic Books, 2009), 133-66.↵
8. Ib., 137-66. Para mais informações sobre vício em pornografia, veja J. M. Bostwick e J. A. Bucci,
“Internet Sex Addiction Treated with Naltrexone”, Mayo Clinic Proceedings 83, n. 2 (fevereiro de
2008): 226-30. Veja também Marnia Robinson e Gary Wilson, “Santorum, Porn and Addiction
Neuroscience”, Psychology Today, 26 de março de 2012,
www.psychologytoday.com/blog/cupids_poisoned_arrow/201203/santorum-porn-and-addiction-
neuroscience.↵
9. Naomi Wolf, “Is Pornography Driving Men Crazy?” Project Syndicate, 13 de junho de 2011,
www.project-syndicate.org/commentary/is-pornography-driving-men-crazy.↵
10. Reuniting.info/science/articles/sexual_neurochemistry#reward.↵
11. Ib.↵
12. www.psychologytoday.com/blog/cupids-poisoned-arrow/201107/porn-induced-sexual-dysfunction-is-
growing-problem.↵
13. Jason S. Carroll e outros, “Generation XXX: Pornography Acceptance and Use Among Emerging
Adults”, Journal of Adolescent Research 23, n. 1 (janeiro de 2008): 6-30.↵
14. No Reino Unido, o número de labioplastias realizadas no Serviço Nacional de Saúde aumentou em 70%
em 2009. http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2009/nov/20/cosmetic-vulva-surgery.↵
15. Dr. Basil Kocur, entrevista, Nova Iorque, 26 de fevereiro de 2011.↵
16. John Cleland, Memoirs of a Woman of Pleasure (Oxford: Oxford University Press, 2008), 116-17.↵
17. Ib., 139.↵
A dança da deusa
“O ser amado sou eu”

Sentada sob um lótus, com um lótus nas mãos, é Lakshmi, a deusa (…) trazida em carruagens a
deusa surge (…)
Devi Kavacham, escritura sagrada hindu
Como responder-te, la plus belle Katherine du Monde, mon tres cher et divin deesse?
William Shakespeare, Henrique V

Voltemos aos anos 1970, quando o feminismo de Betty Dodson e Shere Hite e a
oportunidade de mercado explorada por Hugh Hefner e seus colegas pornógrafos
nas décadas seguintes “estabeleceram” nosso modelo ocidental de sexualidade
feminina.
Esse modelo da vulva e vagina feministas — agregado posteriormente à sua
elaboração pornográfica — foi o utilizado na formação das mulheres de minha
geração. A vagina e a vulva foram principalmente entendidas como mediadoras
do prazer sexual. O que importava era a técnica — as técnicas de masturbação da
própria mulher e as habilidades que ela ensinava a seu parceiro. Tanto as
feministas quanto os pornógrafos definiram a vagina e a vulva em termos de
mecânica para se chegar ao orgasmo.
Porém, embora a técnica seja importante, esse modelo deixa de fora boa parte
do “significado” da vagina e da vulva. Deixa de lado as ligações que a vagina tem
com a espiritualidade e a poesia, a arte e o misticismo e o contexto de uma
relação na qual o orgasmo pode ou não ocorrer. Certamente ignora a grande
questão da qualidade da relação da mulher que se masturba com ela mesma.
O modelo Dodson da mulher independente ajudou bastante, mas também causou
alguns problemas. O lado bom é que o feminismo daquela era teve que desbancar
a ideia de que o despertar sexual de uma mulher heterossexual dependia de um
homem. O lado ruim é que aquele feminismo dessa era acabou definitivamente
com a ideia de que o despertar sexual de uma mulher heterossexual depende de
um homem. “Uma mulher precisa de um homem, assim como um peixe precisa de
uma bicicleta”, dizia um adesivo feminista dos anos 1970. O modelo feminista de
sexualidade — que mulheres héteros podem foder como homens ou se virar com
um ótimo vibrador sem nenhuma outra atenção dada ao amor-próprio e ser
simplesmente instrumentalistas em relação a seu prazer — acabou criando uma
nova gama de ideais impossíveis, imposta, na melhor das intenções, às mulheres
“livres”. O feminismo evitou a questão mais complicada de todas: como ser uma
mulher heterossexual livre e aceitar a forte necessidade física da conexão com um
homem. Do jeito como a natureza pensou as coisas, idealmente nós temos um
parceiro para dançar. Se não tivermos um parceiro, temos que dedicar mais amor
a nós mesmas como forma de autocuidado. A simples declaração de que a dança
mudou não resolve o dilema existencial das mulheres héteros, a tensão entre nossa
necessidade de dependência e nossa necessidade por independência.
O problema com esse modelo de sexualidade feminina é que ele reafirma uma
tendência cultural fragmentada e comercializada de ver as pessoas, incluindo as
“mulheres sexualmente livres”, como unidades isoladas e narcisistas e de ver o
prazer como algo que se adquire da mesma forma que se compra um sapato novo,
em vez de como uma forma de profunda intimidade com o outro, ou consigo
mesmo; ou como um portal para uma dimensão superior e mais imaginativa que
inclui e afeta todos os aspectos da vida da pessoa.
Dados recentes coletados em 2009 pelo sociólogo Marcus Buckingham,
derivados de pesquisas realizadas em vários países, mostram que a mulher
ocidental apresenta níveis cada vez mais baixos de felicidade e satisfação,
mesmo com o aumento de sua liberdade e de suas opções, em relação aos homens.
[1]
Tanto feministas quanto antifeministas tentaram encontrar respostas para essa
tendência amplamente difundida: as feministas tentaram argumentar que isso é
culpa da desigualdade, das diferenças de salário nos locais de trabalho e da
“segunda jornada” no lar — mas as pesquisas foram ajustadas para levar em
conta a discriminação de gênero. Os antifeministas obviamente argumentaram que
isso é culpa do feminismo, que faz que as mulheres busquem a realização em
esferas profissionais, o que não faz parte da natureza delas.
Acredito que seja completamente possível, a julgar pela enorme quantidade de
dados que temos visto sobre as necessidades psicológicas das mulheres
(necessidades essas que, no geral, não estão sendo atendidas), que elas estejam
dizendo que estão insatisfeitas porque os “modelos disponíveis de sexualidade”
— os modelos pós-Dodson, pós-Hefner, pós-pornô, casada, dois empregos,
atarefada, ou jovem e solteira bêbada com um estranho em um bar ou em um
quarto de república — são, em longo prazo, fisicamente insustentáveis. Esses
modelos de sexualidade feminina — deixados para nós por uma combinação de
pressões que vão desde o desenvolvimento incompleto do feminismo nos anos
1970, de um mercado que gosta de nos ver sobrecarregadas e dessexualizadas, até
a aceleração do ritmo sexual estabelecida pela pornografia — condenam as
mulheres à dor emocional provocada pela dor fisiológica. Esses modelos de
sexualidade feminina são simplesmente insatisfatórios física, emocional e
existencialmente. (Esse modelo de sexo também pode prejudicar os homens
heterossexuais ocidentais de outras formas, algo que merece seu próprio livro.)
Agora que sabemos que a vagina é a porta para a felicidade e criatividade da
mulher, podemos criar e nos dedicar a um modelo totalmente diferente de
sexualidade feminina, que a estime e valorize. É aí que entra o modelo da deusa,
um que se concentra na dança da deusa — um conjunto de comportamentos e
práticas que devem preceder e acompanhar o ato sexual. Porém, onde é possível
encontrar o modelo da deusa no mundo contemporâneo?
Minha busca para encontrar um modelo funcional da deusa me levou
primeiramente ao passado, às diferenças históricas entre as atitudes ocidentais e
orientais em relação à sexualidade feminina. É claro que as mulheres são
subjugadas no Oriente assim como no Ocidente, porém, em duas culturas em
particular — na Índia dos tântricos, cerca de 1.500 anos atrás, e na dinastia Han,
cerca de mil anos atrás —, as mulheres foram, por algum tempo, elevadas a outro
nível e gozaram de uma relativa liberdade. Essas duas culturas viam a vagina
como provedora de vida e sagrada, e, como destaquei, acreditavam que o
equilíbrio e a saúde dos homens dependiam da excelência com que tratavam a
vagina — e a mulher. Ambas as culturas parecem ter compreendido aspectos da
resposta sexual feminina a que a ciência ocidental só está chegando agora.
Tantra é uma palavra que vem do sânscrito e pode ser traduzida como doutrina.
Surgiu na Índia medieval. O Tantra vê o universo como uma manifestação da
consciência divina em um estado de brincadeira divertida, expresso por meio do
equilíbrio das energias feminina e masculina: Shakti e Shiva . Desenvolveu-se um
braço do Tantra que usou a sexualidade como caminho para a realização do
Divino. No Tantra, a vagina é o assento do Divino, e o fluido ( kuladravya ) ou
néctar ( kulamrita ) originados nos céus.
Do século II depois de Cristo até o século XVIII, foram desenvolvidas na
China uma tradição taoísta de práticas sexuais semelhantes e uma filosofia sexual
relacionada. No Tao, a vagina também era vista como divina e uma fonte de vida.
Encorajavam-se os homens a levar a mulher ao orgasmo com grande cuidado e
habilidade, para que se beneficiassem das essências energéticas do yin. O pênis
era visto como um receptor da longa vida concedida pelos fluidos vaginais
femininos. Os homens recebiam treinamento com base nos textos clássicos do
ioga sexual (“a educação do pênis”) para garantir que satisfizessem a suas
mulheres e concubinas sexualmente com longas preliminares e a penetração
cuidadosamente ritmada, já que a harmonia pessoal e cósmica, juntamente com a
prole saudável, eram vistas como dependentes do êxtase sexual feminino.
Como o historiador Douglas Wile descreve em seu livro Art of the
Bedchamber: The Chinese Sexual Yoga Classics, “no mínimo, o homem deve
retardar seu clímax para se ajustar à diferença no tempo de excitação entre ‘fogo
e água’ para garantir a plena satisfação da mulher”. Wile elucida a filosofia
taoísta ainda mais:
Diz-se que a mulher ama a lentidão (hsu) e a duração (chiu), detesta a pressa (chi) e a violência (pao)
(…) A mulher expressa seus desejos por meio dos sons (yin), movimentos (tung) e sinais (cheng ou
tao). Em suas respostas sexuais, ela é comparada ao elemento água, “demora a aquecer e demora a
esfriar” (…) Longas preliminares são uma pré-condição fundamental para o orgasmo.[2]

Os textos taoístas sobre sexo asseguram que a intensidade sexual feminina é


maior que a de seu parceiro do sexo masculino, e, portanto, foi necessário que os
homens tivessem um treinamento sexual para harmonizar essas desarmonias
inatas. As técnicas ensinadas cultivaram o controle sexual masculino e a crença
em um “fluido de jade” produzido pela mulher que proporcionava saúde.
Os textos taoístas sobre sexo acreditam que as mulheres liberem fluidos
medicinais de diferentes partes do corpo, inclusive debaixo da língua, dos seios e
da vagina. O objetivo do homem, pelo bem de sua saúde, era provocar a
liberação desses fluidos preciosos: o texto sagrado taoísta The Great Medicine of
the Three Peaks explica que o seio feminino fornece “suco de jade”, que, ao ser
sugado pelo homem, nutre seu baço e sua medula espinhal. Ao sugar os mamilos,
ele também abre “todos os meridianos femininos” e “relaxa a mente e o corpo da
mulher”. Essa ação penetra o “poço florido” e estimula o “portal misterioso”
inferior, fazendo que os fluidos do corpo e o chi (energia) transbordem. “Dos três
objetivos de absorção”, escreve o autor, “essa é sua primeira tarefa.” Quando a
relação sexual ocorre, as emoções da mulher são voluptuosas, seu rosto
enrubesce e sua voz se torna trêmula. Nesse momento, seu “portal” se abre, seu
chi é liberado e as secreções fluem. Se o homem empunhar sua “haste de jade”
alguns centímetros e assumir a postura de “dar e receber”, ele, então, estará
aceitando o chi e absorvendo as secreções dela, fortalecendo assim seu próprio “
yang primário” e nutrindo seu espírito.[3]
Esses termos, tão estranhos à nossa cultura, merecem atenção. Uma mulher que
pensa em sua vagina e sexualidade dessa forma — na qual a essência que flui de
sua vagina durante o sexo oral é considerada uma fonte de saúde ao parceiro; na
qual o parceiro aprendeu que seu primeiro dever é relaxar o corpo e a mente da
mulher antes de fazer amor com ela — estaria livre das pressões que muitas
mulheres ocidentais sofrem quando recebem atenção sexual, que vão desde a
ansiedade pela demora de chegar ao orgasmo até a culpa por seu egoísmo sexual.
E esse relaxamento, como já vimos inúmeras vezes, é a chave para a abertura
sexual da mulher.
O islamismo, que o Ocidente considera repressor para as mulheres, possui uma
rica tradição de literatura erótica e de cuidadosa atenção à vagina: o clássico
erótico do século XVI The Perfumed Garden relata pelo menos vinte tipos
diferentes de vaginas: El addad é a “amarga”; El aride, “a grande”; El cheukk
significa “a fenda”, ou “a dura yoni de uma mulher muito magra” sem “nenhum
vestígio de carne”; El hacene é “a bela”, ou uma vagina “que é branca, firme e
arredondada, sem nenhuma deformidade” e “abobadada como uma cúpula”. El
hezzaz, ou “a incansável”, é a vagina “em constante movimento de uma mulher
sedenta por atividade sexual”. El merour, ou “a profunda”, “sempre tem a boca
aberta”. El neuffakh é “a inchada”. El relmoune é a vagina de uma virgem que
tem sua primeira relação sexual. El taleb, ou “a ansiosa”, significa a vagina de
“uma mulher que ficou em abstinência por muito tempo ou que naturalmente
precisa de mais sexo que seu parceiro”. El keuss, ou “a vulva”, é “normalmente
usado para o órgão macio, sedutor, perfeito” e de odor agradável de uma jovem
mulher; arredondado “em todas as direções, com longos lábios e uma grande
fenda”. Nessa cultura, quando se sonhava com a vulva de uma mulher, isso era um
bom presságio: The Perfumed Garden diz que a pessoa que sonhar ter visto a
vulva, feurdj, de uma mulher, saberá que,
se ele estiver com problemas, Deus o libertará; se estiver confuso, logo a situação será esclarecida; e,
por fim, se estiver pobre, logo se tornará rico.
Considera-se um sinal de sorte sonhar com uma vulva aberta (…) Se a vulva estiver aberta de forma
que ele possa ver dentro dela, ou mesmo que esteja escondida, mas ainda assim seja possível penetrá-la,
ele conseguirá cumprir com sucesso as tarefas mais difíceis mesmo depois de ter fracassado a princípio,
e isso ocorrerá em um curto período de tempo, com a ajuda de uma pessoa inesperada.
No geral, ver uma vulva nos sonhos é um bom sinal; assim como é um bom agouro sonhar com o coito,
e aquele que se vê no ato e o termina com a ejaculação terá sucesso em todos os seus feitos.[4]

Apesar de nem todos esses termos serem poéticos ou positivos, esse panorama
cultural diferente em torno da vagina mostra um direcionamento não ocidental de
níveis elaborados de atenção cultural masculina às sutilezas e à estética da vagina
de diferentes mulheres, seus humores, seus apetites variados e suas relações com
a vida da mulher em questão; e uma conscientização nada ocidental de que a
vagina é pluralística, individualista e possui desejos e intenções próprios.
Depois de perceber como a mulher ocidental ainda sofre sexualmente, de
acordo com os dados disponíveis, mesmo depois da “revolução sexual” e depois
de aprender com minha pesquisa mais sobre como o Tantra e as tradições taoístas
veem a vagina de uma forma tão diferente do Ocidente, eu me convenci de que o
Tantra responde a algumas questões em relação a como a sexualidade feminina
pode ser mais bem compreendida, especialmente em relação à ligação do cérebro
com a vagina. Cada vez mais, muitos estudos — tanto históricos quanto
neurobiológicos — apontam a centralidade do “ponto G” — ou “ponto sagrado”
em termos tântricos — na mediação da relação entre a sexualidade e a
consciência feminina. No Tantra, entender o “ponto sagrado” é fundamental para
entender a natureza da deusa, que é vista como uma parte inata de toda mulher.
Sendo assim, a fim de encontrar um tesouro tântrico de sabedoria, fui até um
dos mais conhecidos e conceituados workshopstântricos que aborda
especificamente a “massagem do ponto sagrado”. Oworkshop de dois dias é
ministrado por Charles Muir — cuja voz metálica ecoou na mente de todos
aqueles universitários na biblioteca da faculdade — juntamente com sua ex-
mulher, Caroline Muir (divorciados amigavelmente). O casal realiza o workshop
da “massagem do ponto sagrado” há vinte e cinco anos.
Confesso que, antes de participar do workshop dos Muir, considerava o Tantra
intimidador. Antes de conhecê-lo melhor, quaisquer tesouros que ele pudesse
guardar pareciam obscuros perto de toda aquela ladainha esotérica praticada por
pessoas com excesso de pelos faciais. Eu não tinha dúvida de que aprenderia
coisas interessantes e úteis, mas, para mim, uma mulher ocidental muito ocupada,
o Tantra era uma complicação distante e trabalhosa, que envolvia não só meu
conhecimento sobre toda uma nova gama de abordagens, como o envolvimento de
meu também muito ocupado parceiro. Será que eu poderia absorver a base do que
o Tantra ensinava sobre a sexualidade feminina — e passar adiante de uma forma
acessível para mulheres que não queriam adotar um novo modo de vida que
consumisse ainda mais tempo?

No final de semana em que participei do workshop, ele foi oferecido em um


grande hotel em Midtown, que, apesar de ainda ser elegante, já teve dias
melhores. Durante todo o final de semana, os quarenta participantes, homens e
mulheres, aprenderiam habilidades tântricas voltadas para o bem-estar da mulher.
No sábado à noite, após um dia de conversas e instruções, a mulher caminhou
entre os participantes reunidos para escolher o homem (ou homens) que lhe faria a
“massagem no ponto sagrado” naquela noite em um quarto privado do hotel. A
massagem seria feita de acordo com cuidadosas instruções dadas em um
seminário só para os homens, ministrado por Charles Muir. O tema do seminário?
A massagem do ponto sagrado coloca a mulher em primeiro lugar.
Pareceu claro na discussão que levou à ação em si que esse modelo — o
homem tântrico completamente focado em liberar as energias sexuais e
emocionais da mulher, em todas as suas variações e extravagâncias, e em fazer
que a mulher simplesmente receba esse cuidado sem se preocupar com a
reciprocidade — foi o fator aparentemente transformador para todos os
participantes envolvidos. As pessoas que passaram pelo treinamento descreveram
essa experiência, de uma maneira nada fetichista, como tendo mudado sua vida
em aspectos muito além dos “meramente” sexuais. Isso parece ter confirmado o
que eu já sabia sobre as necessidades neurofisiológicas femininas.
No começo da tarde do sábado, eu me juntei a um grupo de participantes do
workshop para almoçar em um restaurante vegetariano indiano próximo ao hotel.
Fiquei olhando aquela reunião de homens e mulheres, a maioria entre trinta e
cinquenta anos, conversando atentamente. Um brilho de erotismo emanava da
mesa como o vislumbre de uma miragem ao sol. Olhei para aquele cenário, com
sua atmosfera altamente excitante, e tentei descobrir o que ele tinha de tão
diferente. Daí, minha ficha caiu: todos os homens olhavam diretamente nos olhos
das mulheres e davam a impressão de estar dando a elas atenção exclusiva.
Notei ainda outra coisa: enquanto todas as mulheres eram convencionalmente
atraentes, muitos dos homens não eram, mas, mesmo assim, eles hipnotizavam as
mulheres. Será que homens com algum tipo de desvantagem física no jogo da
sedução eram atraídos a finais de semana e práticas como essas para que
pudessem adquirir habilidades extras? Não pude deixar de notar que os homens
que não eram convencionalmente atraentes pareciam se aproximar das mulheres,
não importa o quão convencionalmente atraente elas fossem, com um raro tipo de
confiança — não arrogância, mas um tipo de certeza de seu próprio valor para
uma mulher. Homens altos e com cara de nerd, com canetas presas no bolso da
camisa, olhavam com confiança nos olhos de mulheres magras e sofisticadas;
homens mais velhos e grisalhos olhavam nos olhos de mulheres de todas as
idades; homens de todas as formas, tamanhos e condições físicas eram
extremamente atenciosos com as mulheres e tranquilamente seguros, de forma que,
independentemente de serem ou não dotados dessa qualidade por natureza,
pareciam ser excepcionalmente charmosos. Pensei: incrível o que o conhecimento
de uma massagem no ponto sagrado pode fazer pelo nível de confiança de um
cara.
Comecei a conversar com um modesto empresário australiano de cabelos
castanhos, casado com uma belga. Ele havia viajado meio mundo para participar
do evento: explicou que sua esposa, após vinte e quatro anos de casados,
confessou não sentir mais desejo por ele; ela estava tardiamente entrando em
contato com sua própria sexualidade e se deu conta de algo catastrófico — ela
havia, de alguma forma, secado. Fiquei surpresa com a maneira sincera do homem
de encarar o problema do casal.
“Como eu amo minha companheira”, disse ele, “sempre esperei que as coisas
melhorassem. Foi muito doloroso. Essa caminhada tem tido várias etapas.” Para
não perder seu casamento, esse homem estava ali, no workshop da massagem do
ponto sagrado, para aprender algo que pudesse reacender a chama do casal.
Ele disse que o Tantra já estava ajudando o casal. “Começamos com o toque da
cura — uma massagem não sexual”, confidenciou ele, surpreendentemente
disposto a compartilhar suas descobertas e não hesitando quando peguei meu
bloquinho amarelo e minha caneta. “É uma forma de conexão sem expectativas ou
sem a obrigação do ato, do sexo. O dar e receber de um toque não sexual é tão
poderoso”, explicou ele. A abordagem tântrica da massagem não sexual o ajudou
a “ser mais amigo de sua esposa”. Segundo ele, o casamento deles se tornou
uma ilusão — não era real em relação ao amor íntimo. Estávamos tão ocupados com a família e com a
criação dos filhos — atendendo às expectativas do mundo à nossa volta. Eu era sempre o doador
caloroso; e ela, sempre fria. É ótimo que [a prática tântrica] finalmente permitiu que ela recebesse,
sexualmente e em outros aspectos. Estou aqui porque quero saber mais sobre a arte do amor: quero
aprender essa habilidade. Como garotos e homens, somos ensinados a ejacular em vez de aproveitar o
momento. Somos ensinados que frequência é tudo. A ideia de querer criar momentos íntimos fica em
último lugar, quando na verdade é o que deveríamos realmente buscar.

Outro homem que entrevistei reiterou seu desejo por intimidade não sexual, um
desejo que constituía a base de sua abordagem tântrica. Começamos a conversar
depois que percebi que ele estava sorrindo maliciosamente para mim — ele era
totalmente careca, um tanto atarracado e, no geral, charmosamente inofensivo.
Cruzei meus braços, identifiquei-me como jornalista — o anafrodisíaco universal
— e perguntei o que o levou àquele final de semana.
Ele abriu um sorriso maior ainda.
Ele já havia participado do workshop quatro vezes e estava de volta, segundo
ele, porque “minhas amantes dizem que estou ficando cada vez melhor”.
— Qual é o segredo? — perguntei a ele.
Não pude deixar de sorrir também para sua bravata pueril.
— Eu transmito energia, amor e carinho com meu toque sem fazer algo
necessariamente sexual — disse ele. — É a arte de aproveitar o momento, em vez
de apenas “chegar lá”. Sentir e manter uma conexão, e não fazer algo de forma
ensaiada para satisfazer a uma determinada pessoa, ou para satisfazer a si mesmo.
Todos os homens deviam aprender a técnica tântrica com vinte anos.
Perguntei a ele por que ele havia começado a buscar essas habilidades.
— Descobri que a intimidade sexual sem amor faz me sentir vazio. Não quero
mais passar por essa situação. Descobri que não é uma questão de ejacular [a
princípio].
“Na abordagem tântrica do desejo feminino”, disse ele, “você presta atenção…
você não está em seu próprio mundo. Como isso pode dar errado?” Ele disse que
“os homens sempre reclamam que as mulheres são emocionalmente voláteis, mas
a massagem no ponto sagrado”, disse ele, “ajuda a construir um alicerce
emocional para a mulher”:
— Se você [como homem] estiver presente e der espaço para as emoções dela,
impossível não ter sucesso na relação com uma mulher. As mulheres [que
recebem a massagem no ponto sagrado de um homem] conseguem construir um
alicerce para si mesmas, deixam de se apegar a coisas pequenas e de criar
histórias, como: “Você nunca me dá atenção”. Você presta atenção, pede
permissão para entrar. Os professores tântricos falam sobre quantas terminações
nervosas existem nos lábios vaginais. A maioria das terminações nervosas está
localizada nos primeiros centímetros. Você dá mais atenção. É uma experiência
totalmente diferente. Você passa a apreciar aquela região e não fica apenas
tentando entrar o mais rápido e o mais fundo possível. O que é o pornô? Fundo,
rápido, ejaculação. Por outro lado, o Tantra é: devagar, conexão, explorar cada
centímetro do que você está fazendo.
— Você acha que a maioria dos homens em nossa cultura conhece a vagina? —
perguntei.
— Os homens de nossa cultura não conhecem nem o pênis nem a vagina —
disse ele. — Afinal, com que frequência os homens de nossa cultura exploram
esses órgãos? É entrar, fazer o serviço e sair. A maior parte de nossa
sensibilidade também está nos primeiros centímetros — na cabeça. Charles Muir
fala sobre as sete áreas do pênis — cada uma relacionada a um chacra, mas os
homens não aprendem sobre controle em nossa cultura, nem em relação a seu
próprio prazer. O orgasmo pode ser mais longo, para alguns homens pode durar
dias. Você acha que a maioria dos homens de nossa cultura sabe que o ponto
sagrado da mulher pode ser acessado de diferentes formas, que talvez você tenha
que fazer uma curva ou tentar um ângulo diferente? Por que eles saberiam disso?
— Riu ele. — Ângulo, profundidade, ritmo: cada um desses fatores cria uma
resposta diferente. Mesmo que você não fique excitado no momento, estará
explorando; é um jogo que pode acabar sendo uma das partes mais intensas da
noite.
E prosseguiu:
— Especialmente hoje em dia, os homens mais jovens aprendem com os filmes
pornôs. Você fica assistindo a pessoas se colocando em posições um tanto quanto
esquisitas. Ficando sujeito a todas aquelas imagens, você começa a comparar a
pessoa que está com você com um par de seios ou pernas; você entra nesse lance
de comparação; e também fica se comparando com centenas de caras no mundo
com pênis de vinte e cinco ou trinta centímetros. Os homens não falam muito
sobre sexo, quer dizer, sobre técnicas, detalhes ou emoções. Eles podem até
dizer: “Nossa, estávamos no telhado e foi uma loucura”. Mas não falam muito
sobre o que é realmente útil em relação às mulheres. A maioria dos homens não
conhece essas coisas, porque não está disponível em lugar nenhum dentro de
nossa cultura.
Perguntei ao meu novo amigo tântrico o que surgia na mente dele quando
pensava na vagina. Como muitas pessoas para as quais fiz essa pergunta, ele riu.
E depois disse:
— Ela é ótima. Incrivelmente divertida, um mistério a ser explorado. Um lugar
de diversão, alegria, magia… e confuso, às vezes: se elas [as mulheres] não
chegam ao orgasmo, nós, homens, que somos muito presos ao processo, podemos
pensar: “Mas isso deu certo da última vez!”. É um lugar maravilhoso; por outro
lado, é atormentador ao mesmo tempo.
Ele ponderou:
— Se as mulheres se conhecessem melhor, poderiam explicar o que está
acontecendo: comunicando-se com elas mesmas ou com o parceiro, a fim de
melhorar a conexão entre eles. Seria muito bom se mais mulheres dissessem o que
querem — oferecessem, usassem o reforço positivo.
No sábado à noite, entrei no salão de festas do hotel onde a seleção para a
massagem do ponto sagrado aconteceria. Eu estava ainda mais curiosa depois das
conversas que tive durante a tarde.
Um tangka, uma tapeçaria sagrada, estava pendurado na parede do palco. O
tangka tinha a deusa Shakti em pé dentro de um triângulo invertido, o símbolo
feminino universal. Shakti tinha cabelos longos, pretos e ondulados; segurava um
lótus rosa aberto em cada uma das quatro mãos; e havia uma aura em volta dela.
Ela parecia a irmã mais mundana e morena da radiante Maria do manuscrito de
New College.
No grande e decadente salão de festas no porão do hotel, fora montado um
pódio decorado com rosas amarelas, e havia almofadas confortáveis espalhadas
no chão. Mulheres e homens de todas as idades se esparramavam ou se sentavam
nelas para prestar atenção às instruções. Charles Muir estava em pé no pódio,
falando sobre como os homens deveriam tocar a yoni. Ele tinha um sotaque seco
de Borscht Belt e abria um sorriso a cada frase de efeito. Ressaltou os mesmos
pontos gerais que Mike Lousada abordara em nossas conversas e que eu também
já havia ouvido nas fitas de áudio do próprio Muir: carinho, paciência, respeito,
cuidado, atenção.
Existe um ponto na mulher chamado yoni-nadi, que está localizado dentro dela: atrás dos pelos
pubianos fica o osso púbico; se você penetrar a vagina e curvar seu dedo contra o osso púbico dela, há
um tecido erétil e intumescido de aproximadamente cinco centímetros quadrados. Quando a região é
estimulada, o ponto fica proeminente e se manifesta provocando um orgasmo vaginal. Esse é o ponto
que liga “a parte de baixo” com o cérebro — já que existem muitos circuitos neurológicos ali. Esse é o
polo sul do clitóris, que, por outro lado, é o norte da energia sexual da mulher. (Eu diria que isso
confirma as últimas descobertas anatômicas ocidentais sobre a verdadeira relação do clitóris com o
ponto G — eles são o polo norte e sul da mesma estrutura anatômica.) Paramos no clitóris, pois há
muito prazer ali, mas do outro lado do clitóris existe o ponto G.

Durante todo o workshop, notei que, sempre que a massagem no ponto sagrado
era discutida, era apresentada mais como uma prática para liberar emoções que
como uma forma para dar prazer. Caroline Muir explicou que Charles ensinaria
aos homens
como estar presentes para uma mulher enquanto ela liberava tudo que precisasse liberar — a manter
seu amor mesmo ela estando com raiva (…) Os homens receberão treinamento sobre essa arte da cura
sexual (…) O incentivo, permissão e convite feito por um homem para que ela expresse sinceramente o
que quer que esteja sentindo, e isso leva a uma ótima preliminar, pois ela poderá confiar em você de
verdade. Caso algum dano nos seja causado pelas mãos de um homem, o que já aconteceu com quase
todas as mulheres, precisamos confiar que um homem é capaz de estar com nosso corpo e nossa yoni
sem precisar trepar. São suas mãos, coração, lábios e espírito que trazem a cura.

Charles Muir acrescentou, em relação aos homens: “Sua mensagem é: ‘Hoje


servirei a você. Não importa sua aparência ou o tamanho dos seus seios, eu
servirei à deusa em você’. E as mulheres perguntarão: ‘A deusa me motiva a
escolher um desses homens para receber dele a massagem no ponto sagrado?’”.
Os homens ficaram bem animadinhos.
“A ciência diz que leva quatorze dias para que novas vias neurais sejam
processadas. Eu acho isso uma bobagem. Esse ponto é um fulcro com tantas
terminações nervosas que levam ao cérebro… Será que isso vai virar algo sério?
Ele é um curandeiro, não um amante. Essa é uma coisa só de uma noite.”
Risos.
Charles Muir levou os homens para fora — estavam indo para o quarto 1750.
“Quando voltarem, eles saberão das coisas”, sorriu para as mulheres que
continuaram no salão. “Vocês os verão com mais respeito.”
Os homens acompanharam Muir. Conforme eu os via passar — um grupo de
homens prestes a se reunir para assistir a um vídeo sexualmente explícito
mostrando um corpo feminino —, notei que era um grupo diferente de qualquer
grupo de homens que sairia em uma noite qualquer para ir a um bar, por exemplo.
Eles pareciam — não sei como dizer isso de outra forma — estar se preparando
para tocar o corpo feminino de uma maneira que era, sim, sexual, mas também
respeitosa.
Depois que os homens saíram, Caroline Muir subiu ao palco. Uma mulher
loira, engraçada e atraente de uma forma surreal que parece ter uns quarenta e três
anos, mas que na verdade tem sessenta e poucos — um fato que, quando revelado,
gerou surpresa na plateia, agora composta apenas por mulheres. Naquela noite, o
cabelo dela estava enrolado em mechas soltas, e ela usava uma bata salmão,
jeans branco e sandálias delicadas. Suas unhas dos pés estavam pintadas de rosa.
“Sim, nós mimamos a deusa”, começou Caroline Muir, que em seguida iniciou
uma discussão sobre a “ejaculação feminina”, o termo terrível para definir o
líquido que sai em jatos da uretra de muitas mulheres durante o orgasmo, que em
sânscrito se chama amrita.
— O amrita vem dos domínios celestes — explicou ela —, de acordo com a
tradição tântrica, e sai de nós pela vagina. A energia desce cada vez mais. Você
pode se deixar ir, se tiver uma toalha por perto. Pode passá-lo em seu próprio
rosto. Seu parceiro pode beber e se sentir mais vivo. Sexo oral não é
recomendável tarde da noite, pois ele ficará andando para lá e para cá enquanto
você dorme como um bebê.
— Por quê? — perguntou uma mulher de amarelo. — Tem cafeína nisso?
— É sua força vital. Filmes pornôs reduziram-no de uma experiência sagrada
para: “Fiquei sabendo que você ejaculou. Eu nunca ‘ejaculei’”. Eu liberei muito
amrita. O néctar da deusa — disse ela, com certo orgulho.
Sentei e fiquei imaginando se aquilo ficaria menos bizarro, e ficou.
— O Tantra — ela explicou — diz que você perde o barco do amor quando
vive no hemisfério esquerdo do cérebro, pois o amor é uma experiência mística
que só acontece no hemisfério direito. Faremos uma [niyasa] em um ponto do
corpo chamado yoni-nadi. Ele dá acesso ao núcleo da energia do segundo chacra
— é o ponto que os homens tântricos pressionam para controlar a ejaculação.
Acho que as mulheres têm essa mesma região. Na loucura dos anos 1960, conheci
algumas mulheres escorpianas triplas; naquela época, vi pela primeira vez uma
mulher que tinha orgasmos múltiplos e que ejaculava. Vi minhas amigas
despertarem! Vi mulheres ganharem vida e emoções malucas aflorarem. Eu as vi
sair do estado de dormência para o despertar, ou dos orgasmos para orgasmos
vivos, para dançar no céu. Quando liberavam a energia do segundo chacra, a
paixão pela vida acendia: por seus filhos, pelo trabalho; você se torna capaz de
viver toda sua vida com paixão.
Agora que havia apenas mulheres na sala, uma atmosfera íntima de segredos
compartilhados começou a prevalecer. “A massagem no ponto sagrado começará
a acordar o que está adormecido”, disse Caroline Muir às mulheres, agora mais
próximas umas das outras, sentadas em suas almofadas como em uma festa do
pijama para todas as idades. “As pessoas geralmente exploram o clitóris, mas, na
região do ponto G ou ponto sagrado — que é, mais uma vez, intimamente ligado
ao clitóris —, entraremos nas profundezas da alma de sua sexualidade.” A
massagem do ponto sagrado, continuou ela
é uma ativação do segundo chacra e uma limpeza dos resíduos sexuais do passado. Todos os motivos
dos bloqueios — culpa, medo, vergonha — se localizam nesse chacra. E você aprende a fazer amor
com homens que nunca aprenderam a fazer amor. Com essa massagem, a questão é: que parte de sua
psique vamos tocar?
Para 25% dos homens que vêm ao retiro da massagem do ponto sagrado, quando tocam a vagina pela
primeira vez, o resultado é: nada. Nos lábios, é como visitar Utah: “Nada acontece por aqui”. Está
dormente; está adormecido. Trinta minutos depois, com a mesma yoni : É o Rio de Janeiro! Mardi
Gras!
Esses [vaginas, lábios] são locais de paranoia e desconfiança. Ninguém diz a você, quando é jovem e se
toca: “Dê amor à sua yoni”. Essa prática [da massagem do ponto sagrado] limpa toda a sujeira que
você acumulou em sua yoni durante toda sua vida.
Era como ouvir a neurociência que a dra. Coady havia me apresentado; os
estudos sobre a desregulação multissistêmica nos casos de dor vaginal; a
desregulação dos sistemas do resto do corpo causada pelo trauma sexual; os
estudos que mostram que o estresse afeta até tecido vaginal de ratas fêmeas; a
experiência clínica do dr. Burke Richmond de que o trauma sexual pode causar
uma desregulação perceptível. Eu estava ouvindo as delicadas descrições
tântricas do que parecia ser o mesmo fenômeno. A ideia de que a vagina possui
um banco de memória rico e cheio de nuanças e, sim, uma biografia física e
emocional própria havia sido, enfim, confirmada por dois paradigmas culturais
diferentes.
Caroline Muir continuou:
O clitóris faz analogias ao pênis. Ele quer o alívio. Você se sente melhor após o alívio. Nós aprendemos
a nos excitar rápido e acabar logo antes que o homem termine. Eu só conseguia chegar ao orgasmo por
meio do clitóris. Orgasmos vaginais eram um mistério para mim. Outras amigas diziam: “Nossa, é como
sentir o réveillon de Copacabana lá dentro”.
Descobrimos nosso prazer sexual porque é úmido e gostoso lá embaixo — você gosta. Porém, sua mãe,
ou religião, fez que você sentisse vergonha disso. Não existe uma publicidade ou divulgação muito boa
em relação ao prazer feminino, como dominá-lo e saber que você o merece, aprender o bastante sobre
seu prazer para ensinar um homem a proporcioná-lo.
Quando você começa a despertar por dentro, a região do ponto sagrado revela a você mais sobre sua
verdadeira natureza feminina divina. Quando você se apaixona por seu ser feminino divino, nada será
mais precioso para você. Ela nunca a abandonará, “ela” sendo sua essência. Quando esse ponto e o
clitóris despertam todo seu potencial, é como uma montanha-russa. Não se espera apenas que você
chegue ao orgasmo; isso apenas prova, durante o processo, que as coisas estão funcionando bem.
Muitas mulheres sentem muito mais prazer vaginal com essa massagem; mulheres, acordem! É possível
apreciar melhor a claridade quando a janela está limpa. Isso não é ensinado no curso básico do sexo:
“Você tem uma yoni, sabia? Não é só uma xoxota”.
Caroline Muir demonstrou a técnica da massagem do ponto sagrado curvando
os dedos indicador e médio da mão esquerda. Ela mostrou como a mão direita é
posicionada no clitóris enquanto a esquerda se movimenta no “ponto sagrado”.
“O pênis gosta de intensidade mais que a yoni; somos mais delicadas, como as
pétalas destas rosas.” E apontou para as flores em frente a ela.
Você não deve arrancar essas pétalas para pôr algo lá dentro. Se somos mulheres heterossexuais, não
exploramos outras mulheres. Se você tem a oportunidade de explorar com uma amiga como é uma yoni
que não seja a sua e as sensações que ela proporciona, esse é um dos grandes rituais de passagem.
“Nossa, a sua é bem pequena, mal consigo ver seus lábios internos.” “Nossa, seus lábios internos são
tão voluptuosos!” Precisamos abençoar a yoni sob uma perspectiva feminina.
Essas são as histórias que contamos a nós mesmas:
1. Eu sei que não vou gozar.
2. Eu sei que não vou ficar molhada.
3. Tenho certeza de que ele está ficando entediado.
4. Tenho certeza de que ele quer que termine logo.
5. Tenho certeza de que tenho um cheiro ruim.
6. Tenho certeza de que ele está pensando que minha yoni é feia.
E todas essas coisas que dizemos para nos convencer de que não somos bonitas, nem desejáveis.
Os homens não vão tirar a roupa e ficar nus esta noite. Eles devem ir embora depois de uma hora e
meia. A prioridade aqui são vocês.
Caroline Muir abriu a sessão para perguntas.
Uma mulher com uma tatuagem no bíceps e uma bandana vermelha na cabeça
disse:
— Meus orgasmos não são mais tão intensos. Agora eles são diferentes, sem
contração, são orgasmos de corpo inteiro, ondas de pulsação, não a coisa
tradicional.
Ela levantou a mão e a fechou formando em punho, para demonstrar “a coisa
tradicional”.
Caroline Muir respondeu:
— Essas são ondas de energia orgástica. Quando se tem vinte anos, os
orgasmos são fortes e rápidos. Quando somos mais velhas, eles são mais suaves e
mais intensos. As vias neurais entre os genitais e o cérebro tiveram mais tempo
para despertar. Existem mais vias, então, é diferente do orgasmo clitoridiano
rápido e forte.
— Sinto-me perdida — disse a mulher tatuada — porque eu quero os dois.
— Isso é totalmente normal — disse Caroline. — E mulheres de vinte e poucos
anos, quando não são mães, não precisam colocar toda sua energia nos filhos.
Uma mulher bronzeada vestindo uma roupa cara e usando longas tranças disse:
— Tenho trinta e quatro anos. Quando estava saindo da casa dos vinte, parei de
ter orgasmos poderosos. Eu era viciada em sexo… Usei vibradores
constantemente por anos, todos os dias. Será que causei algum dano a mim
mesma? Já faz anos. Não consigo ter aquilo de volta.
Ela começou a chorar. Fiquei chocada — havia acabado de começar a receber
e-mails de informantes que sabiam que eu estava escrevendo sobre a questão da
dessensibilização por meio da pornografia e dos vibradores.
Caroline Muir respondeu gentilmente:
— Toda vez que nos acostumamos com a velocidade do vibrador e depois
tentamos usar os dedos, temos que nos ajustar. — Uma loura alta segurou o braço
da mulher que estava chorando. — O vibrador é aquela energia jovem, forte e
rápida. As yonisnão gostam disso.
— Você acha que eu causei algum dano a mim mesma? — perguntou a mulher,
ainda com lágrimas nos olhos.
— Não — disse Caroline.
— Tenho cinquenta e cinco anos — disse uma mulher de cabelos curtos de
aparência matronal usando uma blusa de estampa floral clara.
Todos os meus estereótipos estavam ruindo: essa mulher, com sotaque do sul,
se encaixaria perfeitamente em um piquenique da igreja Batista.
— Eu não consigo mais usar um vibrador — disse ela. — Toda vez que tento, é
como ir ao McDonald’s. Eu não queria estar comendo lá.
Ela disse que havia começado a receber a mensagem do ponto sagrado e a
realizar práticas tântricas. E completou:
— A qualidade e diferença dos meus orgasmos é meio que: “O que é isso?”. Eu
nem reconheço o que era aquilo… esses orgasmos são tão diferentes do que eu
estava acostumada. Eu tinha muito menos libido quando era mais jovem, e agora
ela está lá em cima. Ando praticando bastante, sozinha. Minhas mãos são
pequenas, mas eu uso isso: e funciona.
De dentro de sua organizada bolsa preta a mulher tirou um vibrador de quase
trinta centímetros — ou melhor, um dispositivo para masturbação. Feito de
acrílico transparente, não era eletrônico e tinha um formato em S com um botão na
ponta. Todas as mulheres começaram a pedir mais detalhes sobre aquilo, e a dona
passou o objeto pela sala.
Uma mulher de Westchester vestida como a esposa troféu — cardigã, pérolas e
corte de cabelo de pajem — perguntou a Caroline Muir se era possível contratá-
la para realizar massagens particulares na yoni. “Eu faço massagens de yoni em
mulheres. Custa $250 dólares a hora, por duas horas. Não sou bissexual; há
excitação, mas esse não é meu objetivo. Elas choram de emoção: ‘Ah Meu Deus,
que suavidade!’. Nós sentimos falta dessa suavidade.”
Caroline Muir continuou: “A massagem desperta muito a memória. Quando a
recebi pela primeira vez, pude sentir o cheiro de éter da histerectomia que havia
feito aos vinte e seis anos; conseguia me lembrar das minhas transgressões da
infância — um dedinho lá dentro. A massagem do ponto sagrado desperta
lembranças”.
(Em outro momento, Caroline Muir falou que o “ponto sagrado” do homem é no
ânus, contra a próstata — mostrando que, se a ligação da anatomia do ponto
sagrado às defesas, vulnerabilidade emocional e alívio for verdade, isso levanta
questões muito interessantes sobre por que homens heterossexuais são
frequentemente tão avessos à ideia da homossexualidade; porque eles
frequentemente veem a homossexualidade passiva como feminilizante; e porque a
linguagem masculina referente à penetração anal é sinônimo de perda do domínio.
Poderia a ideia da penetração — da liberação do “ponto sagrado” masculino —
ameaçar os homens heterossexuais com uma possível perda do domínio
emocional?)
“O despertar do inconsciente e a liberação de energias por meio da massagem
no ponto sagrado abrem espaço para uma nova vida de prazeres e amor.
Realizamos esse workshophá vinte e cinco anos, e o sucesso dele não é ‘um sexo
melhor’, mas a cura sexual.”
Levantei minha mão e expus para Caroline Muir as ligações que tenho ouvido
falar entre bloqueios ou liberação da vagina e a criatividade feminina.
“Sim”, disse ela enfaticamente. De fato, segundo a explicação dela, a energia
sexual feminina não é a faísca da energia criativa; na verdade ela é a própria
energia criativa:
Shakti, ou a energia sexual feminina, é energia transferível. Shakti é a força criativa. Com a combinação
certa, ela cria a vida. Ou seja: aqui está a força vital criativa, feminina por natureza, e eu melhorei
minha habilidade de transferir essa energia da yoni para meu cérebro. Quanto mais liberação vaginal —
não clitoridiana — uma mulher tem, mais ela vai querer salvar o mundo, salvar seus netos, pintar
quadros, fazer a diferença para o planeta.
A energia que desperta não precisa ser orgástica. Toda vez que você recebe um toque amoroso em seu
tecido vaginal, fica mais desperta. Talvez você não perceba nas primeiras vinte vezes. E de repente:
Uau!

Estava anoitecendo lá fora. Olhei em volta uma última vez: eu ainda não
acreditava que uma noite nas mãos de um estranho pudesse mudar tanto uma vida
— eu não me imaginava nem fazendo aquilo sozinha — e, ainda assim, desejei
que todas aquelas mulheres, em suas comoventes e corajosas jornadas,
encontrassem o que estavam buscando. Cada uma delas estava dizendo uma
verdade interessante e fundamental, de sua própria maneira: aquilo que ela sabia
que lhe havia sido sexualmente dado por nossa cultura não era o suficiente para
refletir quem realmente era.
Conforme eu mergulhava no caos iluminado da Broadway, as palavras de
Caroline Muir para as mulheres que buscam algo ficaram em minha cabeça: “A
maior parte da jornada envolve retirar aquelas camadas de ‘eu não sou o
suficiente’. O ser amado não é o marido ou o amante. O ser amado está em mim.
O ser amado sou eu”.

Eu me convenci de que o Tantra tem algumas respostas para questões que levam a
uma melhor compreensão da sexualidade feminina. Porém, mesmo depois do
retiro da massagem do ponto sagrado, ele ainda me intimidava.
Entrevistei diversas dakinistântricas — mulheres de todas as origens que
participaram deworkshops sobre Tantra e que o praticam em seu dia a dia. De
acordo com as descrições delas, as dakinis eram muito mais orgásticas que
grupos de mulheres parecidos que também me falavam sobre sua vida sexual.
Elas também pareciam mais alegres e com mais energia, e não importava qual era
sua aparência — e, como em qualquer grupo de mulheres, poucas delas pareciam
top models ou tinham uma beleza convencional. Diferente de um grupo de
controle teórico, pareciam muito satisfeitas com sua própria feminilidade e
possuíam certa segurança em relação à sua sexualidade.
Quanto mais eu aprendia sobre Tantra, outro fator ficava mais evidente: notei
que as práticas tântricas em relação à sexualidade feminina combinavam de
maneira interessante com a nova ciência sobre o cérebro e a endocrinologia. Os
mestres tântricos dos séculos passados parecem ter identificado pontos-chave no
corpo da mulher que correspondem a importantes vias neurais: o “ponto sagrado”
corresponde ao ponto G. Os textos taoístas da antiga China encorajavam homens a
sugar os mamilos das mulheres, explicando que dessa forma o corpo e a mente
delas relaxariam; a ciência vem mostrando que sugar o seio da mulher libera
oxitocina, o hormônio do relaxamento. Os mestres tântricos e taoístas
identificaram fluidos importantes na vagina da mulher que, apesar de terem nomes
esotéricos, parecem corresponder ao que a ciência descobriu sobre as substâncias
químicas e hormônios contidos nos fluidos corporais. Os mestres tântricos
identificaram a ejaculação feminina, que só agora tem sido estudada pela ciência
ocidental. E o Tantra simplesmente traz resultados sexuais empíricos fascinantes
para as mulheres que participam desses workshops.
Meu interesse nos segredos divinos do Tantra foi o que me levou até Mike
Lousada, o homem que passei a considerar “meu conselheiro de plantão para
todas as questões da yoni” e cujas conversas tiveram um impacto tão duradouro
sobre mim. O site dele na Internet, Heartdaka.com, é intrigante. No topo da página
inicial, está escrito “A cura sexual sagrada de Mike Lousada em Londres”, e logo
abaixo há uma citação do poeta Rumi: “Sua tarefa não é buscar o amor, mas
simplesmente buscar e encontrar todas as barreiras que construiu dentro de si
mesmo contra ele”.
Uma série de perguntas íntimas confronta o visitante do site: “Você evita estar
em um relacionamento?”; “Você acha que pode conseguir mais do sexo, mas não
sabe exatamente o quê?”; “Você tem dificuldade em chegar ao orgasmo?”; “Você
deseja recuperar a inocência de sua sexualidade?”. Porém, os extasiados
comentários — todos de mulheres — rapidamente neutralizam qualquer possível
ameaça.[5] “Obrigada por abraçar com tanta habilidade minha vulnerabilidade,
srta. D.”; “Depois de me consultar com você, passei a ouvir meu coração bater,
eu me sinto tão viva — uma mulher de verdade (…) Obrigada, srta. S.”;
“Obrigada, Mike. Sinto graça e coragem, feminilidade, proteção, clareza, foco
(…) há um sorriso sereno em meu rosto”, e por aí vai. E no fim da página há um
link para a página do Facebook de Lousada, completo e com foto, como se a
Heartdaka.com fosse um negócio como outro qualquer: um belo homem de barba,
sentado em uma pedra, olhando a meia distância e usando calças hippies.
Por fim, depois de certa hesitação, liguei para Lousada e marquei uma consulta.
Descobri que ele cobrava cem libras por hora (cerca de 150 dólares).
Ele explicou que sua missão era dar poder à mulher sexualmente e que ele
também se concentrava em curar por meio da massagem na yoni a mulher que
tivesse algum trauma sexual. Sua base de clientes incluía mulheres de todas as
origens e idades. Seu histórico é no mínimo impressionante: ele recuperou o
potencial orgástico de centenas de mulheres.
Nossa, eu pensei, isso era bem mais explícito que um vago “workshop” e a
nebulosa “massagem” para a qual eu havia me preparado. Expliquei que, como eu
estava em um relacionamento, não poderia fazer o trabalho na yoni em si, e ele
me garantiu tranquilamente que respeitaria meus limites. O fato de que eu ia
entrevistar um curandeiro sexual/guru da yoni também causou uma reviravolta em
meus reflexos feministas autoritários em relação ao comércio do sexo e sua
moralidade.
Fiquei chocada com minha reação e com a das minhas amigas e colegas depois
de ter marcado a sessão com Lousada. Nenhuma das minhas amigas demonstrou
horror ou aversão à ideia: ou ficaram completamente encantadas ou irritadas por
não poderem ir junto. E uma mãe de dois filhos muito bem casada me mandou um
e-mail: “E aí? Já foi? Como foi?”. Nós não consideramos essa ideia com muita
maturidade. Nossas reações não foram inspiradas nem politicamente corretas. Em
vez disso, voltamos a um estado quase adolescente, quase como um papo de
vestiário feminino.
Ainda assim, Lousada não parecia ser a vítima nem o predador de ninguém:
como eu argumentaria contra a decisão dele de inserir um aspecto de sua
sexualidade dentro de um mercado? Descartei logo a possibilidade da
prostituição, pelo simples fato em si.
“Você se considera um profissional do sexo?”, perguntei em nossa primeira
conversa.
Ele disse que preferia o termo curandeiro sexual (apesar de agora, um ano
depois, falando para um público mais tradicional ou da área médica sobre o
sucesso de suas técnicas, ele se identificar como “terapeuta somático”). Ele disse,
ainda, que trabalhava vestido ou nu, como a cliente preferisse, e que a cliente
também poderia ficar com ou sem roupa, como ela quisesse. Algumas imagens
passaram pela minha cabeça — eu não conseguia acreditar que estava prestes a
encontrar meu primeiro instrutor de yoni, ou profissional do sexo a serviço das
mulheres, ideia que posteriormente constatei ser errônea. Será que o fato de uma
mulher procurar alguém como Lousada significa que as mulheres têm tanto
“tesão” — péssima palavra, mas os sinônimos também não são muito bons —
quanto os homens dizem ter? Ou será que isso é uma pequena prova da tristeza
sexual difundida entre as mulheres ocidentais? Será que as mulheres que podem
pagar contratam homens para encontros sexuais, independentemente de como eles
descrevem a si mesmos — encontros nos quais elas podiam comandar e ditar o
ritmo — porque sua vida sexual com seus parceiros não está indo bem?
O “estúdio” de Lousada é, na verdade, um charmoso chalé reformado próximo
a Chalk Farm, na região norte de Londres. Ele abriu a porta. Como na foto, era um
homem magro, de pele dourada e cabelos cacheados que, para minha surpresa, me
ofereceu um abraço logo de cara. O Tantra deve fazer maravilhas pelo organismo,
já que ele tinha quarenta e três anos, mas parecia ter uns dez a menos. Sentei
apreensiva no chão e olhei em volta: estávamos em uma aconchegante sala de
estar com pilhas de almofadas laranja e vermelhas, um relicário da deusa hindu
Kali em uma mesa baixa e velas e incensos queimando ao nosso redor. Para meu
horror, havia um fotógrafo lá.
Eu havia me comprometido a escrever um artigo para o Sunday Times sobre
minha experiência com Lousada. Um fotógrafo do jornal chegaria ao fim da
sessão, mas Lousada explicou que ele havia pedido ao rapaz que chegasse antes
para evitar que eu me expusesse demais. “Pensei no seu bem-estar”, explicou ele.
“Acontecem algumas coisas na sessão”, continuou ele. “Pode ser chocante. Você
pode despertar um trauma; pode ficar extasiada, ou gritar — ou pode até chorar.”
Fiquei um pouco retraída e me senti um tanto manipulada. Não era para um
curandeiro sexual fazer a pessoa ficar calma em vez de deixá-la mais nervosa
atropelando seus compromissos profissionais?
Lousada, então, conversou com o fotógrafo sobre possíveis fotos e sugeriu que
ficássemos na posição yab-yum. Ele apontou para uma estátua que mostrava
Shiva em êxtase, entrelaçado com uma deusa, suas pernas envoltas na cintura
dele, suas virilhas se tocando. “Eu não vou fazer aquilo!”, soltei. Como eu havia
me comprometido a fazer as fotos, acabamos decidindo por ficar sentados em
posição de lótus um de frente para o outro.
Antes de começar a sessão, Lousada explicou que muitas de suas clientes
haviam sofrido abuso sexual quando crianças, e, como resultado, os efeitos
colaterais variavam desde uma profunda raiva dos homens, que se manifestava
sexualmente, até uma incapacidade de sentir as coisas profundamente ou de ter um
orgasmo. O sexo com ele — ele usava as mãos na maior parte do tempo — as
ajudava, segundo ele, a curar a raiva e a depressão.
Lousada logo começou a me orientar sobre o básico do Tantra. Ele me fez
sentar à sua frente em uma almofada e começou a fazer exercícios de respiração.
Ficamos de frente um para o outro, a centímetros de distância. Ele me fez
visualizar cada chacra, de minha cabeça ao meu “chacra raiz”, que no Tantra é o
centro sexual (e que agora eu sei que corresponde a uma das três ramificações do
nervo pélvico feminino): “Sinta seu chacra raiz se expandir pela terra… Sinta-o
crescer com força… Sua yoni está propagando raízes pela terra… agora as raízes
estão partindo as pedras”.
Caí na risada. E o fotógrafo continuava tirando fotos.
— Nervosa? — perguntou Lousada. — Tudo bem.
— Não — disse eu, mal conseguindo me segurar. — É que é engraçado.
De alguma forma, a ideia de uma yoni poderosa que pudesse partir a terra —
dentro de uma cultura que geralmente odeia e insulta a yoni — era engraçada, não
de uma forma desagrad á vel, mas sim legal; ainda rindo, imaginei, como em uma
animação, uma super-heroína yoni poderosa — uma yoni vingadora.
Então, Lousada me fez olhar fixamente nos olhos dele enquanto respirávamos
em uníssono. A essa altura, eu estava atenta a meus instintos para descobrir se ele
era um doido, um predador ou só uma farsa, mas ele me olhou bem nos olhos, e eu
tive que admitir que confiava nas motivações dele. Meus conceitos estavam indo
por água abaixo, e, quando levei em consideração a repetida reafirmação de sua
missão — que o trabalho de sua vida era curar mulheres que haviam sido
sexualmente feridas —, ficou muito difícil encontrar uma razão para desprezar ou
ridicularizar seu trabalho.
Ao fim da sessão de respiração, ele sorriu e disse: “Bem-vinda, deusa”.
E eu não pude deixar de sorrir também. Pensei em todas as mulheres que estão
em casamentos sem amor, mulheres verbalmente agredidas diariamente com
desrespeito ou puro desprezo. Pensei também no estereótipo da “prostituta com o
coração de ouro” e nos relatos frequentes de muitos homens que procuram
prostitutas apenas para que ela os ouça ou elogie. Para muitas mulheres, o
conhecimento de Lousada sobre o sagrado feminino que há em toda mulher já
valia o preço da consulta. Quantas mães exaustas ou esposas negligenciadas não
ficariam pelo menos tentadas a ouvir um aparentemente sincero “Seja bem-vinda,
deusa” por apenas cem libras, em vez de gastar isso com uma roupa ou corte novo
de cabelo?
— Como exatamente — perguntei a ele — você cura uma mulher sexualmente?
— Eu faço o “esvaziamento da yoni” — disse ele — para encontrar o trauma
armazenado nos genitais. Por inúmeros motivos, incluindo o fato de alguém que
trabalha com o corpo não conseguir uma licença para tocar nos genitais, esses
profissionais geralmente não procuram o trauma nessa parte do corpo —
explicou. — Começo massageando o corpo e, depois, passo a trabalhar na yoni.
Primeiro trabalho externamente. Quando é apropriado, pergunto se posso penetrar
[a cliente] com meus dedos. A yoni é um local sagrado, o santuário de seu corpo.
Ninguém pode entrar sem sua permissão. Pergunto: “Deusa, posso entrar?”. Se
tenho o consentimento, confirmo com a yoni. Coloco meus dedos na entrada dela
e, se ela estiver pronta para me receber, entrarei. Não preciso forçar meus dedos
para dentro, ou “inseri-los”; se a mulher estiver pronta para receber, a yoni me
puxa para dentro, com um tipo de contração ou sucção. Caso [a ação de sucção]
não ocorra quando uma mulher está fazendo sexo, ela estará desonrando sua
própria yoni.
Ele disse, ainda, que aconselha os homens a nunca acreditar no que uma mulher
diz verbalmente sobre estar preparada — entre apenas “se a yoni também disser
que sim”. Achei que esse seria um bom conselho a ser dado a homens mais
jovens, como parte de sua educação sexual básica.
Há relação sexual com as clientes? “No geral, não tenho relação sexual com
minhas clientes, a não ser que seja extremamente terapêutico.” Ele reafirmou que
geralmente trabalha com as mãos. Perguntei se as clientes já ficaram viciadas
nele, e ele respondeu dizendo que toma cuidado para manter os limites
apropriados e que sua intenção é libertar a cliente dos vícios. Ele admitiu que
elas podem desenvolver um apego emocional, mas que ele lida com a situação
como qualquer terapeuta lidaria com a questão da transferência. Acrescentou,
ainda, que teve uma namorada que também fazia trabalhos de cura sexual, muitas
vezes juntamente com ele.
— Suas clientes chegam ao orgasmo? — perguntei.
— Geralmente, sim — respondeu —, mas esse não é o objetivo. Tenho três
tipos de clientes. Mulheres que me procuram porque não estão felizes com suas
relações com seu próprio lado masculino ou feminino. Elas anseiam por um
homem masculino, mas não os atraem, pois elas mesmas estão “em seu
masculino” [forçadas a viver de forma desequilibrada e exigindo muito do lado
masculino de sua personalidade].
Ele falou das pressões da vida profissional moderna sobre as mulheres —
como elas são recompensadas por serem desequilibradas e desencorajadas a
explorar o lado feminino dentro delas. Segundo ele, depois do tratamento, elas
recuperam o equilíbrio feminino e passam a atrair homens masculinos maduros,
responsáveis e protetores. Eu estava cética, e ele se ofereceu para me colocar em
contato com algumas dessas mulheres. Lousada disse que a tarefa de um homem
em relação a uma mulher é “acolhê-la” como uma taça de vinho acolhe o líquido.
Até ali, eu já havia ouvido variações dessa ideia tântrica de que o papel do
homem no sexo é acolher e apoiar o lado selvagem da mulher. “O verdadeiro
estado da mulher é a felicidade oceânica”, disse ele. Um homem precisa deixar
uma mulher “se movimentar e respirar” para que ele possa entrar em “seu fluxo”.
Aquilo estava ficando oceânico demais para mim. Então, perguntei a ele sobre
a segunda categoria de clientes. “A categoria número dois”, disse ele, “são
mulheres que sofreram um grave abuso ou trauma e querem lidar com isso por
estar afetando sua vida de forma ruim.”
Categoria três? “Algumas vezes, minhas clientes são mulheres que apenas
desejam sentir prazer.”
— E se você não as acha atraentes? — perguntei.
— Sempre há beleza em uma mulher — disse ele, de forma cativante.
Explicou que algumas dessas clientes têm entre cinquenta e sessenta anos;
outras têm alguma dificuldade ou deficiência física; muitas delas são sozinhas.
“Em uma sessão”, disse ele, “sempre consigo perceber alguma coisa.”
Ele disse que normalmente são necessárias duas ou três horas para realizar a
massagem na yoni; ele quer que as mulheres sintam que não precisam ter pressa.
Essa carga horária me surpreendeu profundamente, assim como as descrições
que ouvi no workshop dos Muir sobre a parcela de tempo (uma hora e meia)
destinada apenas para a massagem na yoni. Isso, com certeza, era uma ideia
completamente diferente da ocidental da relação entre o prazer feminino e o
tempo.
— Isso não é muito tempo? — perguntei. — Acho que, se você disser a um
homem que precisa dar atenção a uma mulher dessa forma por duas ou três horas,
ele vai imediatamente começar a procurar o controle remoto — brinquei.
— Por isso preciso ensinar os homens — respondeu Lousada, sério.
Ele me ganhou, pelo menos por sua sinceridade. Seguimos para a massagem —
ou, pelo menos, para a parte dela com a qual eu me sentia confortável.
Ele me levou para o andar de cima, para um pequeno quarto sedutor. A essa
altura, o fotógrafo havia ido embora. O quarto era iluminado por velas e
aromatizado por incensos. Lá, mais uma vez, começamos a negociar: ele queria
fazer uma massagem na yoni. Era uma situação explicitamente sexual, diferente de
toda a possibilidade de negação que eu havia imaginado quando entrei no site
dele pela primeira vez e achei que aquilo tinha a ver com algum tipo de massagem
vagamente sensual — eu não podia ir até o fim. Eu estava na cama com um
estranho atraente e não havia como fingir que o que ele estava propondo não era
uma forma de sexo. A boa e monogâmica garota judia em mim, mais uma vez,
impôs um limite.
— Podemos fazer algum tipo de massagem corporal? — perguntei. Ele também
tinha formação em Reiki. — Reiki? — perguntei, esperançosa.
Ele pareceu ofendido:
— Meu trabalho é com a yoni — disse ele, com certo orgulho profissional.
Finalmente, entramos em um acordo: trabalharíamos de forma não sexual, e eu
continuaria vestida. Bem, em trinta segundos, eu estava em um estado de — sim
— felicidade oceânica. Em cinco minutos, eu estava rindo e, depois de dez
minutos, estava em um estado alterado.
O que ele estava fazendo?
“O que você está fazendo ?”, perguntei. Lousada explicou que, com muito
treinamento, ele conseguia projetar sua energia Shakti (masculina) para todas as
partes de seu corpo — incluindo mãos e dedos — e que isso é o que causava o
efeito do toque dele. Explicou que estava buscando com as pontas dos dedos as
linhas dos meridianos em meu corpo — linhas de energia, ou chi , que a medicina
oriental acredita que formem uma rede entre os pontos do chacra. Havia uma
inexplicável carga cinética. Nossa sessão durou uma hora, e, sim, mesmo sem
uma troca sexual, havia algo de eletrizante e enriquecedor sobre “receber” algo
fisicamente daquela maneira tão sem pressa nem programação.
Quando saí do estúdio, estava (agora eu entendo) entorpecida de dopamina. As
cores pareciam mais brilhantes, o mundo parecia repleto de alegria e
sensualidade, e as amigas que me encontraram depois disseram — com um pouco
de raiva — que eu estava corada e radiante.
Voltei a falar com Lousada por telefone para tentar arrancar dele como o
método funcionava — eu queria entender principalmente qual era a ligação entre
a cura de uma mulher com a massagem vaginal e seu resultado em outras áreas da
vida, além da sexual.
“Quando uma mulher se sente segura, ela permite aela mesma — não a mim —
seu prazer orgástico. Um homem leva em média quatro minutos para chegar ao
orgasmo”, disse Lousada novamente.
Uma mulher, dezesseis minutos. A menos que ele seja paciente, ele vai gozar bem antes dela. Então,
quando falamos sobre “sexo normal”, o homem ejacula bem quando o corpo da mulher está começando
a amolecer, a se abrir e relaxar para aquela maravilha (…) e aí acaba. Muitas mulheres desistiram
desse tipo de sexo. As mulheres estão abandonando esse tipo de sexo por chegar à conclusão de que
não é satisfatório.
Muitos homens não gastam o tempo necessário com suas amantes. As mulheres experimentam esse
tipo de sexo e acham que é assim. Em parte, é falta de conhecimento, tanto do homem quanto da
mulher. A sexualidade real da mulher é reprimida pela sociedade. Nossa cultura não permite os mesmos
tipos de respostas para homens e mulheres. Estudos mostram que 29% das mulheres nunca chegaram
ao orgasmo durante uma relação sexual. E 15% das mulheres só chegam lá raramente. Comparado a
0,6% dos homens. Testes em mulheres mostraram que não existe uma razão fisiológica para elas não
terem orgasmos. Isso mostra que a condição pré-orgástica é psicológica.
Nós [homens] precisamos fazer a mulher se sentir segura se quisermos que elas respondam com um
orgasmo. Precisamos de algum conhecimento rudimentar acerca de onde e como tocá-la — é uma
simples questão de anatomia e sensibilidade. Na verdade, uma das coisas mais importantes que os
homens precisam lembrar é que todos nós agimos de acordo com nossas próprias experiências sexuais,
então, os homens fazem com suas esposas e amantes o que eles acham que é gostoso de acordo com
sua própria experiência sexual; e as mulheres não estão dispostas a dizer a eles que existe outro jeito.
Então, quando uma mulher me diz: “Meus amantes não me fazem chegar ao orgasmo”, ela geralmente
não está assumindo a responsabilidade. Poucas das minhas clientes expressam seus desejos sexuais.
Algumas clientes já me disseram: “Queria ter um orgasmo, seria um presente lindo para ele”, ou “até
parece que vou dar a ele meu orgasmo”. Então, sim, existem coisas que os homens podem fazer, mas
as mulheres é que precisam ser curadas. As mulheres entram em contato com seu eu sexual e se
tornam mais criativas; espirituais; artísticas. Elas conseguem empregos diferentes! É uma só uma
questão de liberar sua força vital.

Bem, essa foi uma afirmação séria, e eu precisava de corroboração externa.


Então, pedi a ele que me colocasse em contato com uma de suas clientes que
pudesse confirmar essa alegação tão abrangente.
Ele me colocou em contato com uma mulher articulada e atenciosa na faixa dos
trinta anos, que chamarei de “Angela”.
“Li o artigo dele no Sunday Times e marquei uma consulta”, disse Angela.
Eu estava totalmente desencantada com os homens e passei por um longo período de celibato. Meus
relacionamentos românticos não eram positivos; eu também tive alguns problemas com assédio sexual.
Tive um namorado, mas não era uma relação profunda; não conseguia me abrir fisicamente para ele. Eu
não estava pronta para me abrir sexualmente. Já fazia um tempo.
A sessão com Mike afetou completamente minha criatividade. Eu precisava ser curada por um homem.
Na época, foram cinco sessões, e ainda o vejo a cada mês. As primeiras duas sessões foram
basicamente só de conversa — bem terapêuticas. A partir da terceira sessão, comecei o trabalho na
yoni. A primeira sessão foi de conversa, abraços e lágrimas. Admiti como eu me sentia. A segunda
sessão foi profunda — admiti quanta raiva eu sentia. Mike me fez gritar “VAI SE FODER!” para
liberar minha raiva. Foi algo importante para mim dizer isso para um homem (…) eu tinha certeza de
que, se demonstrasse raiva em um relacionamento, eles iriam me deixar.
Depois dessa experiência, comecei a escrever contos — comecei a ser eu mesma. A terceira sessão de
trabalho com a yoni: eu já tinha ejaculado quando era mais nova — foi muito emocionante aquilo ter
acontecido novamente. A prioridade ali era eu, ele estava interessado em mim, em meu prazer — aquilo
era importante. Tive bastante tempo. Em minhas experiências sexuais anteriores, eu frequentemente
fazia as coisas com pressa — e ficava ansiosa em relação ao que os homens queriam. Eu achava muito
difícil relaxar durante o sexo, apesar de conseguir chegar ao orgasmo, e já tive até orgasmos múltiplos.
Porém, antes, eu meio que desaparecia quando tinha um orgasmo — e não de uma maneira legal, é
claro. Permanecer em meu corpo depois de um orgasmo era algo novo. Muitas emoções surgiram:
traumas passados. Eu me senti segura; por causa da segurança emocional, pude relaxar mais: ele sabia
o que fazer.
Eu nunca havia tido um orgasmo vaginal antes — era sempre clitoridiano —, mas com ele eu tive. Ele
encontrou algum tipo de ponto que deu muito certo. Fui capaz de mergulhar profundamente em minha
sexualidade, deixar fluir de forma intensa — eu sentia raiva, chorava… Ele é um exemplo de homem
respeitoso. Eu queria respeito, mas não sabia o que era isso, como era. Isso me ajudou a ter mais
confiança em relação à minha capacidade de julgar a integridade masculina.
Eu já tivera orgasmos múltiplos antes — umas duas ou três vezes seguidas… mas, com Mike, tive uma
dúzia: eu conseguia sentir paixão. Antes, eu tinha um “bloqueio de energia” — lá, eu fui capaz de gritar.
Em relações anteriores, os homens não me deixavam ser emotiva. Em minha família, eu não podia
expressar sentimentos. Por poder ser emotiva com um homem (…) agora eu consigo me impor muito
mais.
Enfrentei meu gerente. Discuti minhas ideias de maneira mais aberta — eu não teria feito isso antes.
Comecei a perceber que sempre achava que os outros estavam certos; e eu, errada — comecei a
perceber que eu não precisava imitar as pessoas. Podia ser eu mesma. Eu me senti mais confiante. Eu
me sentia melhor quando olhava no espelho. Já me disseram que sou feia. [Depois de trabalhar com
Lousada] eu gostava muito mais de meu rosto. Estou aceitando que sou uma pessoa volátil e
apaixonada. Demonstro isso bem mais. Durante a masturbação, consegui ter orgasmos melhores.
Minhas fantasias sexuais mudaram (…) eu sempre era dominada [nas fantasias anteriores]. Sempre
havia uma visão distorcida da figura paterna. Agora, consigo ter orgasmos sem pensar em um homem
— agora, todo meu corpo sente o orgasmo. Então, para mim, as mudanças físicas acompanharam as
mudanças psicológicas.
Outra coisa — eu sempre quis escrever textos subjetivos; mas voltei a morar com meus pais e estava
trabalhando em um escritório. Depois das sessões com Lousada, consegui trabalhos mais criativos e
sempre tive certeza de que conseguiria.
Criatividade? Dessa vez, criativamente, era como se eu fizesse parte de tudo. Eu estava lá. Meu
cérebro não ficava me distraindo — eu sabia que meu corpo assumiria o controle; eu me senti livre,
com uma sensação de integridade. Meus objetivos eram mais palpáveis. Tenho a sensação de estar
sendo segurada e que não vou cair. Mike fala muito sobre a mulher ser uma deusa; eu, com certeza, me
sinto uma deusa. Tenho escrito histórias sobre a deusa Perséfone. O marido dela a levou para o
submundo, mas isso é algo bom, porque foi ela quem escolheu isso. É uma questão de se conectar com
o lado obscuro. Eu vejo a deusa em mim; vendo a deusa em outras pessoas — vendo o Deus em Mike
—, sinto mais compaixão. Consigo me ver no outro.
Depois dessas sessões com Mike, tudo foi desbloqueado. Foi como um foguete decolando. Estou
atraindo homens muito melhores para minha vida, sinto-me capaz de manter um relacionamento
romântico. Tenho um espaço sexual seguro.
— Você sente que sua emergente sexualidade é reflexo de aspectos emergentes
de seu ser? — perguntei.
— Sim — ela respondeu. E acrescentou: — Algumas feridas que as mulheres
têm só podem ser curadas por um homem.

A descrição de Lousada da vagina “sugando” quando estivesse pronta, que me


pareceu tão estranha a princípio, fazia cada vez mais sentido conforme eu
pesquisava mais sobre a tradição tântrica e taoísta. As tradições orientais veem a
vagina como algo vivo — ou seja, algo que expressa suas próprias vontades,
preferências, influências e ações —, uma visão totalmente estranha para nós e
muito diferente da maneira passiva, receptiva, sem personalidade e sem voz como
a vagina é retratada em nossa cultura.
A própria definição para o “abrir” da vagina, apesar de usarem a mesma
palavra, tem duas interpretações totalmente diferentes nas culturas ocidental e
oriental. Nas tradições orientais como o Tantra e o Tao, o homem se dirige com
carinho e cuidado ao “guardião do portal”, a parte externa da vagina e os lábios,
e espera permissão para entrar, seja com a mão, seja com a língua seja com o
pênis; e a abertura da vagina é um processo complexo, gradual e gradativo, que se
desenvolve com o tempo, depois de muita atenção e respeito. No Ocidente,
“abrir” a vagina significa simplesmente a mulher abrir as pernas, ou a penetração
do homem com o pênis; a vagina abre, no Ocidente, como um mecanismo, ou
como uma porta, cortina ou caixa. Por outro lado, o modelo oriental de abertura
vaginal tem mais a ver com um “desdobramento” ou “desenrolar”, um “despertar”
ou “expansão” — como a fotografia em time-lapse ou como um lótus abrindo ao
sol.
Consegui tirar de minhas explorações tântricas uma expressão maravilhosa.
Como minhas amigas e eu às vezes brincamos — ou meio que brincamos — umas
com as outras, quando narramos uma aventura romântica, “mas e o que a yoni tem
a dizer?”.

1. Veja Marcus Buckingham, Find Your Strongest Life: What the Happiest and Most Successful Women
Do Differently (Nova Iorque: Thomas Nelson, 2009).↵
2. Douglas Wile, Art of the Bedchamber: The Chinese Sexual Yoga Classics, Including Women’s Solo
Meditation Texts (Albany: State University of New Iorque Press, 1992), 9.↵
3. Ib., 140-41.↵
4. Richard Burton, trad., The Perfumed Garden of Cheikh Nefzoui: A Manual of Arabian Erotology
(Londres, Reino Unido: Kama Shastra Society of London and Benares, 886), 129-59.↵
5. Leora Lightwoman, do Diamond Light Tantra, outra professora, dá um alerta sobre o campo crescente
da cura sexual tântrica para mulheres. Em um e-mail, ela escreveu: “A massagem tântrica para
mulheres, incluindo a massagem da yoni, é um ritual lindo a ser compartilhado entre amantes, e
profissionais como Michael oferecem esta oportunidade àqueles que não estão em um relacionamento,
ou cujos parceiros não têm inclinação para o Tantra, para que possam receber essa oferta sexual e
emocional sagrada e deliciosa. E isso é bom. A massagem tântrica pode ser profunda (...) Fico,
entretanto, profundamente preocupada com a reputação do campo da massagem tântrica como um
todo, pois claramente não é uma área regulamentada. Qualquer um pode se autoproclamar um
massagista tântrico. A diferença entre uma massagem tântrica e uma massagem erótica pode ser
nebulosa, até mesmo para as pessoas da área, e eu vejo a coisa como um contínuo.” Ela estabelece a
distinção que vê entre os terapeutas tântricos reais e os de última hora e alerta que o mestre tântrico
tem respeito pela cliente e deve manter um “sentido de inocência” a respeito da transação. Entrevista
com Leora Lightwoman, Londres, Reino Unido, 15 de julho de 2011.↵
Prazer radical, despertar radical: a vagina como
liberadora

Hoje quero pintar a nudez (…) te quero (…) me levaria noite afora — afora na escuridão azul, e
o dia jamais chegaria…
Georgia O’Keeffe

Quanto mais eu ficava sabendo das recentes descobertas da ciência cerebral e


sobre a antiga prática do Tantra, mais me parecia que um grupo de buscadores
espirituais hindus de séculos atrás havia entendido muito bem um conjunto de
insights sobre a conexão mente-corpo na sexualidade que a ciência ocidental só
agora estava começando a entrever.
De fato, essas duas tradições, a médica/sexológica ocidental e a tântrica
oriental, estão começando a trocar informações. Desde que conheci Mike
Lousada, ele vem desenvolvendo uma clínica renomada e apresentando trabalhos
metodológicos para grupos de médicos tradicionais focados na saúde sexual e
disfunções femininas.
Quando Mike olha fundo nos olhos de uma cliente, ele estimula a resposta
neurobiológica preparada nas mulheres pelo olho no olho que elas buscam
instintivamente, como fazem os dois gêneros, para medir por meio das pupilas
dilatadas os níveis de saúde e excitação do parceiro.[1] Quando ele disse “Bem-
vinda, deusa”, tirou o estresse dela, reafirmando no nível do sistema nervoso
autônomo dela que estava sexualmente segura — era respeitada, valorizada e
vista como adoravelmente única por um parceiro potencial. Isso permitiu que seu
sistema ficasse pronto: seus mamilos ficaram eretos; sua pele, ruborizada; e sua
vagina, lubrificada. Por causa das conexões entre os hemisférios do cérebro, mais
fortes no feminino que no masculino, quando Lousada verbalizou imagens
positivas sobre sua vagina, a mente e o corpo dela se prepararam para começar a
processar imagens e pensamentos sexuais.[2] Como as mulheres respondem com
uma resposta de relaxamento muito mais profunda quando acariciadas, os afagos
sem meta definida e isentos de pressão de Lousada ativam o ciclo positivo
feminino de alto relaxamento para alta excitação. O Tantra, visto nessa luz, não
tem nada de misterioso, é uma forma de neurociência aplicada, ativando
intencionalmente as conexões cerebrais com os órgãos sexuais.
O SNA que induz ao misticismo nas mulheres — e todos os outros sistemas
corporais e sexuais da mulher, trabalhando juntos de formas que vão bem além do
que no Ocidente nós identificamos como “sexo”, mas que são, sem dúvida,
essenciais para a felicidade sexual e emocional das mulheres — chamarei de
“rede da deusa”. As coisas que os homens têm que fazer às mulheres para ativar a
rede da deusa — o que a educadora sexual Liz Topp chamou de “coisas de que as
mulheres precisam, e os homens não”, e para as quais nós, de forma bem
reveladora, não temos um único nome — chamarei de “dança da deusa”. Existe
grande probabilidade de identificar como parte da dança da deusa atos ou gestos
ou carinhos confirmados pela interseção da prática básica do Tantra e por
pesquisa científica estabelecida ou recente, apesar de que, sem dúvida, haja
incontáveis variações e adições a esse breve sumário dessa dança.
Os dados das tradições ocidentais e orientais revelam que qualquer homem ou
mulher pode dar o tipo de atenção que a dança da deusa requer para todas as
áreas do corpo feminino que devem, idealmente, ser tocadas e acariciadas. Como
diz Lousada, “paciência e compaixão” da parte dos homens, ao buscar a resposta
sexual nas mulheres, são muito mais importantes para alcançar um estado de
êxtase profundo e liberação emocional que qualquer outra medida superficial de
atributos físicos.
Antes de falar da dança da deusa propriamente dita, quero deixar algo
registrado: as mulheres são estimuladas a ver qualquer debate público sobre a sua
sexualidade como o estabelecimento de uma nova meta, do que fazer ou do que
não fazer. Essa não é absolutamente minha intenção. Direi quantas vezes forem
necessárias: cada mulher é diferente. Quero esclarecer que ofereço esse conteúdo
a título de informação — baseado no que funciona na prática do Tantra e
especificamente no que funciona naquela prática e serve como base para a ciência
mais recente.
Algumas mulheres podem apreciar todos os aspectos da dança da deusa durante
todo o tempo. Algumas vão querer um pouco do que vem a seguir; outras vão
querer muito; ou o que a mesma mulher vai querer vai variar em diferentes
momentos (incluindo, neurobiologicamente, em diferentes épocas do mês). Outras
mulheres jamais reagirão a esse conjunto de gestos e abordagens. Outras, ainda,
apreciarão esses gestos e abordagens frequentemente, mas, em outros momentos,
preferirão um sexo anônimo em uma viela qualquer. Esses gestos e abordagens
são pontos de exploração, e minha proposta é elucidar a conexão mente-corpo na
resposta sexual feminina.

EM PRIMEIRO LUGAR, VALORIZE E AJUDE

A dra. Helen Fisher destacou, em Anatomia do amor, que a necessidade


evolucionária das mulheres de ter um parceiro para ajudá-las durante os dois
primeiros anos mais vulneráveis da vida de um filho as predispõe a valorizar nos
homens um comportamento que indica que elas são apreciadas e eles são
comprometidos. Chamo isso de “comportamento de investimento”. Isso é
diferente, como aponta a própria dra. Fisher, da velha afirmação de biólogos
evolucionários de que as jovens férteis vão reagir sexualmente a homens mais
velhos com dinheiro e poder.[3]
A teoria persuasiva das mulheres que diz que elas se beneficiam em termos
evolucionários reagindo sexualmente a homens que demonstram que podem ser
parceiros efetivos nos anos vulneráveis do bebê e que mostram que podem manter
a mãe e o bebê seguros levou-me a questionar — dado que isso seria tão valioso
evolutivamente para as mulheres, seu corpo e, sem dúvida, sua vagina — se isso
as levaria a notar ou registrar tais ações em parceiros potenciais antes que sua
mente houvesse prestado atenção, da mesma forma que a ciência recente
estabeleceu uma base biológica para a “resposta intuitiva” aos outros.
Tanto o Tantra quanto a ciência recente confirmam que há um pulso na vagina.
De fato, v á rios estudos ocidentais da resposta sexual feminina mediram isso. A
maior parte das mulheres foi educada para não prestar nenhuma atenção a esse
pulso fora do contexto sexual. Quando você atrai a atenção da mulher para esse
pulso vaginal delicado, sempre presente e distinto de tudo o mais, ela vai notá-lo
na maioria das circunstâncias, incluindo contextos não sexuais.
Parece plausível que esse pulso diga a uma mulher muita coisa sobre a
segurança de um contexto emocional e sobre como ela será valorizada e se sentirá
segura dentro dele.
Ninguém com quem falei, on-line ou pessoalmente, jamais ouviu falar do
conceito de pulso vaginal. (Nem eu havia ouvido falar antes de fazer a pesquisa
para este livro.) Os pesquisadores da sexualidade feminina do momento o medem
em unidades padronizadas chamadas “VPA” (em inglês, amplitude do pulso
vaginal), que são medidas por um “fotômetro vaginal”, um dispositivo que envia
um leve sinal para monitorar o fluxo sanguíneo da vagina. Os pesquisadores estão
[4]
descobrindo importantes conexões entre a VPA e a resposta sexual feminina.
Depois que uma mulher ouve falar pela primeira vez do conceito e depois que
falei com elas sobre a conexão cérebro-vagina, nenhuma delas teve nenhum
problema em identificar seu próprio pulso vaginal e em responder às minhas
perguntas.
Pedi às respondentes em minha pesquisa on-line que notassem quando seu
pulso vaginal dava um sinal ou batida particularmente notável em um contexto não
sexual. O que estava acontecendo?
Algumas mulheres confirmaram que esse “salto” ou “pulso mais forte que o
normal”, como duas delas o descreveram, resultou de um comportamento de seu
parceiro ou marido que foi gentil, ou que demonstrou uma capacidade de protegê-
la efetivamente, ou que explicitou um “comportamento de investimento”.
(Infelizmente, não recebi respostas de mulheres que se identificaram como
lésbicas ou bissexuais nessa pesquisa informal; um estudo qualitativo que
mostrasse se mulheres de todas as sexualidades experimentam o pulso da mesma
forma quando seus amantes fazem coisas semelhantes ou se diferentes coisas
estimulam o pulso em mulheres de diferentes sexualidades seria fascinante, é
claro.)
“Senti o pulso vaginal quando meu namorado e eu fomos fazer compras no
supermercado e ele lembrou — eu havia esquecido — que precisávamos de
comida para meu gato.”
“Senti o pulso quando meu marido me levou para jantar em meu aniversário e
puxou a cadeira para mim.”
“Estava acampando e percebi que meu travesseiro tinha cheiro de mofo. Meu
marido me deu o dele e ficou sem nenhum; ele usou o casaco para dormir. Senti o
pulso nessa ocasião. Às vezes, o pulso é tão forte, que é quase desconfortável.
Definitivamente, fiquei com vontade de fazer amor, para aliviar a tensão.”
“Meu marido ensinando nosso filho a consertar sua bicicleta. Sinto o pulso.”
Algumas mulheres relataram sentir o pulso vaginal quando seus maridos
demonstraram força física, criatividade artística ou certos tipos de habilidades ou
domínio e abertura emocional:
“Senti quando estávamos na lixeira! Ele ajoelhou, levantou um sofá velho do
qual queríamos nos livrar e jogou na caçamba do caminhão.”
“Quando estávamos em um evento de família e notei que ele passou um tempo
conversando com minha avó idosa, o que requer muita paciência.”
“Quando começamos a sair e o observava dirigindo habilidosamente por uma
estrada com chuva.”
“Quando o ouvi cantar pela primeira vez.”
“Quando ele faz café da manhã para mim.”
Muitas das respostas a essas perguntas demonstraram que, se a capacidade de
um homem de oferecer segurança emocional e carinho pode ter efeitos eróticos
em mulheres heterossexuais, a capacidade dele para a criatividade, aventura ou
risco também terá o mesmo efeito. O dr. Pfaus explica essa aparente contradição
pela natureza dual do SNA feminino — gosta de ser relaxado e gosta de ser
ativado. Isso certamente ajuda a explicar por que, de geração em geração, garotas
adolescentes e jovens moças gritam de excitação sexual ouvindo serenatas ou
baladas tocadas por roqueiros; a música ativa o SNA. Notou, também, que o SNA
feminino relaxa mais quando está livre do “estresse negativo”, mas que o
“estresse positivo”, como o gerado por situação de perigo excitante da qual a
mulher ainda tem controle, pode ser sexualmente atraente, especialmente para as
mulheres de baixa linha basal da ativação do SNA.
Mas o que eu certamente não esperava ver foram as respostas que revelaram
que as mulheres experimentam o pulso vaginal mais forte em contextos
completamente não sexuais ou mesmo fora do relacionamento — cenários em que
encontraram beleza estética ou natural, em que estavam usando sua criatividade,
ou que demonstraram seu próprio poder ou identidade. Isso sugeriria que a
relação da mulher com sua própria mente e corpo é primeiramente erótica; que
sua excitação existencial por estar viva e reativa ao mundo ao seu redor é erótica
em primeiro lugar; e que esse Eros vem antes de qualquer despertar erótico
gerado pelo “outro”:
“Senti o pulso uma noite, quando estava enchendo o tanque do carro no posto
de gasolina. Olhava para a cadeia de montanhas no parque estadual e notei uma
massa de névoa encobrindo o topo das montanhas. Senti uma batida mais forte
quando percebi a beleza e majestade daquela cena.”
“Estava ouvindo o réquiem de Mozart e, na parte das notas em cascata, senti o
pulso.”
Um homem relatou: “Eu tinha uma amiga que teve um orgasmo enquanto
estávamos escalando, só pela beleza das árvores e a margem do rio onde
estávamos”.
O pulso vaginal apareceu de forma mais acentuada em contextos de
competição, vitória e validação do ego: “Senti o pulso quando um colega de
trabalho, que havia agido de forma não ética — eu sabia, mas ninguém havia
acreditado em mim —, foi desmascarado. Não tenho orgulho disso, mas é
verdade, eu me senti poderosa”.
“Senti quando cruzei a linha de chegada em uma maratona.”
“Senti uma batida mais forte em minha primeira exposição de artes, quando
ouvi as pessoas elogiando meu trabalho.”
“Na pista de corridas.”
É evidente que o pulso vaginal não é apenas uma forma de a mulher discernir
sua excitação sexual: parece ser também uma forma de a vagina a manter
continuamente informada sobre ela própria em vários níveis.

TRAGA FLORES, DIMINUA AS LUZES, RELAXE

No filme de Spike Lee de 1986 She’s Gotta Have It, o seguinte diálogo ocorre
entre um homem e uma mulher que haviam acabado de começar a se beijar.
— Aonde você vai? — pergunta o homem enquanto a jovem Nola se levanta e
sai da cama.
— Pegar as velas — ela responde sedutoramente.
— Tem certeza de que vai ter velas suficientes? — ele aponta para as dezenas
de velas à volta deles, sarcasticamente.
— Você não sente o cheiro delas? São perfumadas — ela responde, ainda em
voz baixa.
— Sim, elas cheiram bem — ele responde abruptamente. — Agora, por que
você não tira a roupa?
Essa é a clássica falta de comunicaçã