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Mons.

Luigi de Marchi

l\JOI\11' Stl\JGULAI

Tradução de Fátima V. de Souza

EDIÇõES PAULINAS
Caixa Postal, 8.107 - SÃO PAULO - R. Major Ma.ragliano 287
FORTALEZA - RIO DE JANEIRO - CAXIAS DO SUL
P. ALEGRE - CURITIBA - B. HORIZONTE- PELOTAS

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 Sta. Inês, a homenagem de gratidão

por uma graça recebida pela

Tradutora

São Paulo, fevereiro 1951

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Visto por delegação
do Superior
Pe. G'llÂdo Pettinati
S. Paulo, 10 de Fevereiro de 1951

Nlhil obstat
S. Paulo, 21-V-1951
Pe. Mário P.ompifü
Censor

Imprima-se
t Paulo, Bispo Auxiliar
s. Paulo, 7 de Agosto de 1951

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PREFÁCIO

E screver-se a vida de um Santo é tarefa bastante árdua;


trata-se não sõmente de recolher o que a Hi stória nos trans­
mitiu sôbre o s acontecimentos de. sue. vida, como, também,
de amar a sua pes soa, penetrar o e spirita que lhe deu forma
e torná-lo conhecido e amado pelos leitore s. Deus glorifica
os Santos não só para, através deles , no s patentear a Sua
santidade, como para nos demonstrar, a nó s tão diferentes
por índole ou educação, que a santificação é po s sivel em
quaisquer condições de vida; que 11:le, sapientissimo e fonte
de �das as graça s, di stribui os seus dons em admirável
variedade, dando à sue. Igreja almas maravilho sas, apósto­
lo s e mártires ' doutores e virgens. Enaltece os seus Santo s
entre os douto s e os ignorante s, os rico s e os pobre s, o s
homens da cátedra e o s das armas, em todas a s partes do
mundo, em todo s o s climas e na s mais diversas condições.
Porque a obra da santi ficação se deve ao E spírito Santo que
distribui os seus dons como Lhe apraz.
Mas, repetimos, é mis são árdua e screver a vida de u m
Santo. Certa s vidas há, que não agradam e indispõem, até,
o e spírito do leitor porque, diz Doupanloup (1), não foram
escritas com amor. « Com e feito, - pro ssegue êle - a vida
de um Santo, não é uma biografia comum, ma s uma s érie
de acontecimento s de ordem tôda e special; e o que constitui
a sua parte mais íntima, mais fecunda e por a s sim dizer,
,
o seu supremo prestigio, são a s relações com Deus, o s diá­
logo s com o C éu, aquelas tão delicadas atuaçõe s da graça,
o sublime perfume das virtudes evangélica s, aquela sen sação
da presença de Jesus Cristo, que dela emana.>
Quando o Santo, de que se trata, teve uma vida longa
e exten so campo para manifestar o seu zêlo, atuação deci­
siva ou, pelo menos, preponderante nas vici s situdes da Igreja
ou da sociedade civil, não se torna: difícil para o e scritor

(1) - Carta ao Ab. Bougaud sôbre a vida de Santa Francisca


ode cr.antal.

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diligente, reunir os fatos, ordená-los, estudar o espirito que
lhes dá forma. 1!:, quase, pintar num quadro de grandes
dimensões a vida do herói. Quadro ao qual basta uma leve
moldurQ. para despertar a admiração e, algumas vêzes, o
desejo de emulação.
No nosso caso, poré:m, trata-se de uma jovenzinha de
menos de treze anos, de uma flôr não ainda completamente
desabrochada, arrancada e arrastada pelo tu fão das persegui­
ções; de uma menina de quem os escritores modernos, em­
penhados todos em narrar a glória do martirio, descuidam
as circunstâncias que o precedeu e as particularidades que
tanto iluminam o que é histórico, oferecendo-lhes o meio
de penetrar o intimo do coração e as m ísticas operações do
Espirito Santo. Assim, pois, não podemos compôr um gran­
de quadro, mas devemos contentar-nos com uma miniatura
que nos permita conhecer, com a maior fidelidade possível,
a fisionomia moral da Santa. Com o que a História nos
conta sôbre a sua paixão, o estudo dos costumes daquele
tempo e algumas frases dos escritores contemporâneos po­
deremos argumentar sôbre a educação que Inês receb u no i
seio da familia, bem como a virginal beleza da sua alma.
Ao se querer escrever a vida de Santa Inês, tropeça-se
com outra di ficuldade. Ha quem se atenha sõmente ao que
dela escreveram Sto. Ambrósio, S. Máximo, o poeta Prudêncio
e o papa S. Dâmaso, de quem ainda se conserva, intacta,
uma epigrafe que citaremos mais adiante. São tôdas, po­
rém, breves citações, que se prestam per feitamente para
serem desenvolvidas, como fez ultimamente o Jesuita Juba­
ru, mas, carecem de tôdas as circunstâncias particulares a
nós transmitidas pela tradição e pela liturgia. Não admi­
tindo senão o que se pode provar com os poucos documentos
que nos restam, negam autoridade aos atos do martírio da
Santa, atribuidos a um certo Ambrósio que viveu, talvez,
no século VII. São desta opinião Baronio, Ruinart, Tille­
monti e, entre os mais modernos, o já citado Jubaru e os
compiladores do Dictionnaire d'Archéologie Chrétienne et de
Liturgie, Cabrol e Leclerck. Outros reivindicam para o
santo Bispo de Milão, grande devoto da Santa, os atos do
martiri o que correm com o seu nome, apoiando-se a êles
como a documento absolutamente seguro. Entre êstes últi­
mos está o célebre Bollando e, recentemente, Bartolini que
assim escreve: « Con fesso ter tido algumas dúvidas em acei­
tar o doutor Ambrósio como autor dêstes atos, não tanto
pelo estilo, que não coopera su ficientemente nessa conclusão,
e sim na que os tenha reunido e dado á publicação, quanto

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pela alta estima que dedico às autorizadas personagens que
o excluem; em seguida, porém, melhor ponderando as suas
razões, que, aliás, achei muito fracas, e, por outro lado
levando em consideração o grande amor de Ambrósio por
Inês, bem como a inserção dos atos da Santa na liturgia
por êle organizada para a Igreja milanesa, não posso hesitar
em subscrever a opinião dos Bollandistas.»
Se St9. Ambrósio, primeiro, e S. Gregório, depois, se ser­
viram dos atos para a Liturgia Milanesa e Romana, se tra­
dição s ecular nô-los confirma e o entusiasmo do povo romano
pela sua Santa Concidadã nô-los torna não sõmente acei­
táveis mas, também, queridos, por que não havemos de nos
servir dêles com segurança ?
E, lembremos ainda que as circunstâncias do seu mar ­
tírio, narradas de maneira um tanto dispersiva nos próprios
atos, são tôdas elas citadas, ainda que ràpidamente, em to­
dos os escritores contemporâneos.
Assim, a idade da Santa ao sofrer o martírio é clara..
mente indicada por Sto. Ambrósio. S. Dâmaso diz que aos
primeiros furores da perseguição, abandonou a proteção da
ama (nós julgamos melhor dizer governante) para se apre­
sentar ao tribun al e confessar, publicamente, a sua fé em
Cristo.
A condenação à fogueira, encontra-se, também, em S.
Dâmaso: urere curo flammis volulsset nobile corpus, não
nos persuadindo absolutamente a opinião dos que afirmam
ter sido a referida condenação, pura ameaça. A frase da­
masiana, contida em uma brevíssima epigrafe, onde se refe­
rem, apenas, as circunstâncias mais importantes, tem fôrça
mais convincente.
Assim, pois, o verso: nada.que profusum crinem per mem­
bra dedisse, não julgamos se refira a um ato extremamente·
pudico da virgem, o de cobrir com os cabelos o pescoço nú
para receber o golpe do carrasco. l!i muito pouco, princi­
palmente se se observa o verso seguinte: ne Dominl templum
facies peritura videret. Templo de Deus é o corpo do cris­
tão; reduzi-lo apenas ao colo, parece-nos um tanto exage­
rado.
A autorizada revista «La C iviltá Cattolica» (N.9 1921
de junho de 1930) depois de d izer que o Autor desta «Vida
de Santa Inês» «teve bem presentes os critérios necessários
para a tornar edificante para os le itores e, sobretudo, a
qualidade a que se refere no comêço, o amor pela perso­
nagem», acrescenta: « Se o autor conseguiu superar as difi­
culdades históricas, que devem ser levadas em conta, mes-

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mo nas vidas populares, não estamos seguros de o poder
a firmar. As fontes mais seguras, Sto. Ambrósio, S. Dâ­
maso, não estão perfeitamente de acôrdo com a «Passlo»,
posterior, a quem o Autor recorreu largamente. Por ex.:
como conciliar o relato de S. Dâmaso (v. App. 3) que nos
descreve Santa Inês uma rapariguinha desprezando «espon­
tâneamente» minas rabiemque tyrannl, com o da «Passio•
descrevendo a virtude da Santa Martir em luta com as
aspirações do filho do prefeito de Roma, que lhe pedia a
mão? De qualquer maneira, pQrém, pode o Autor defen­
der-se observando que, nem mesmo o mais cuidadoso e douto
dos historiadores modernos, o Pe. Jubaru S.J., conseg'uiu
tornar aceitas por todos as suas hipóteses. Resta-nos, pois,
certa liberdade no adorno da narrativa.•
Depois de termos estudado o assunto, quanto foi passi­
vei, parece-nos podermos concluir, com probabilidades de
ct>rteza, que nenhum ato do martirio da nossa Santa tenha
sido redigido pelos Escrivães Apostólicos, imediatamente de­
pois da sua morte. As circunstâncias eram conhecidas em
tõda Roma. Sômente algum tempo mais tarde, os pais de
Inês informaram sõbre o que lhes foi perguntado a respeito
da sua santa filhinha: fama refert sanctos dudum retulisse
parentes. J!l de se supõr. pelo menos , que o poeta Prudêncio
tenha colhido as informações que consignou, entre testemu­
nhas bem informadas: sunt qul re tuleri nt , dando-se o mesmo
com Sto Ambrósio de Milão, S. Máx·mo, Sto. Agostinho. Não
cause pois estranheza se, permanecendo intactas as circuns­
tâncias principais, encontremos algumas variantes nas parti­
cularidades. S. Dâmaso não poderia tudo relatar em ape­
nas alguns versos, mas, o .castigo da fogueira e a ameaça
de desonra são por êle claramente expressos. Desta amea­
ça. da qual o Senhor a livrou prodigiosamente, fala também
S. Ambrósio (não porém na "Pass'o" controversa) dizendo
que na alternativa de perder a castidade ou a vida, con-
servou a primeira e trocou a segunda por outra melhor.
Quid de Sancta Agnes quae ln duarum maximarum rerum
posita per lculo, castitas et salntls, castitatem protexit, sa­
lutem cum immortalitate commutavit (De o f f. ministr. I, 41).
E o gesto tão espontâneo da santa pequena que, aos
primeiros rumores da perseguição, abandona a governante
e, corajosamente, se apresenta ao tirano, não significará o
heroico ardor da santa que enfrenta mina s rabiemque ty­
ro.nnl assim que é descoberta como cristã ?
O Dictionnaire d' Archéologie, jâ citado, procura fazer
uma concordância·· entre os primeiros historiadores da Santa

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da seguinte maneira: Inês foge de casa e se apresenta ao
tirano (S. Dâmaso); êste, ou alguém do seu séquito, lhe
propõe matrimónio ( S. Ambrósio). Para assustâ-la amea­
,
çam-na com a fogueira (S. Dâmaso). A decidida reéusa
expõe-na à desonra ( S. Dâmaso e Prudêncio) . Deus defen­
de-a; é decapitada (Ambrósio e Prudêncio) ou degolada..
O ponto mais contr overtido é o do pedido de matrimõnio
pelo filho do pre feito de Roma, porque e. êle não se re ferem
nem S. Dâmaso, nem Prudêncio. 11: de .se notar, por ém , que
nenhum dêles pretendeu narrar os fatos que precederam o
martirio da Santa. Aliãs, tanto a êles, como aos demais
autores contemporâneos, bastou-lhes cantar o triunfo finaL
Por outro lado, que de notável, digno de ser historiado, po­
deria ter feito uma criança de apenas treze anos ? Não
narram, porém, nenhuma circunstância que esteja em franca
contradição com os Atos, nem mesmo a idade, bastante
próxima à legal para validez das núpcias . A ela se referem
Sto. Ambrósio e Prudêncio. O primeiro, no livro de Virg lnl­
tate, diz que Santa Inês nem mesmo estava madura para o
casamento: matura nondum nuptils»; o segundo, que mal a
atingira: jugali vix habllem toro. Essa vaga referência à
idade, essa maneira de a exprimir, tão acorde entre os dois
escritores, não poderia ter algwna relação com o que se
relata -nos Atos?
E a qui vem em nosso auxilio, com têrmos clarissimos,
S. Máximo, contemporâneo e amigo de Sto. Ambrósio. Diz
éle que Santa Inês foi pedida em casamento -.;>or um jovem
de nobre famHia, o qual lhe ofereceu ricos presentes, desde­
nhosamente recuse.dos pela donzela porque já. prometida. ao
Cristo: «Turbatur iuvenis a puella contemptus et se mune­
ribus complacere posse e:xistimans aurum, gemmas, conge­
mine.os vestes praedia pretiosa convectat. Sed qula Christl
charitas pretium pecuniarum non habet Virgo sacratissima
in suo gradu usque ad sanguinls effuslonem permanslt quo­
niam suo illam sanguine subharraverat Chrlstus». (1)

(1) - Tlllemont, com argumentos mais atraentes do que


verldicos, quis provar não ser de Máximo êsse sermão, mas foi
vitoriosamente refutado pelo Editor das Obras do Santo Bispo
de Turim (V. Migne. Patrolog. T. XVII).
A prova mais forte aduzida por Tillemont é a de que os
beneditinos, que publicaram as obras de Sto. Ambrósio, extrafdas
de três Códigos, atribuem ao Bispo de Milão, o Sermão que nos
interessa. Quer seja de S. Máximo ou de Sto. Ambrósio, para
nós pouco importa: é suficiente seja digno de fé histórica.

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E , conforme o que dizem os atos, afirma que, quando
o jovem quis desrespeitar a virgem, foi estrangulado pelo
demónio; ressuscitou pelas orações da Santa, a pedido do
Prefeito; e, tendo morrido impuro, ressuscitou casto.
Aliás, se bem refletirmos, também Sto. Ambrósio diz que
Inês era desejada para espôsa, por muitos: quantorum vota
ut sibi ad nuytias perveniret? (1)
Assim, os atos que correm com o nome de Ambrósio,
seja êle o santo Doutor Bispo de Milão ou qualquer outra
pessoa, são confirmados, em tõdas as circunstâncias princi­
pais, por autores contemporâneos, dignos de fé. E, se as
palavras não são exatamente as pronunciadas pela Santa,
os fatos se apresentam acima de qualquer dúvida.
Tendo assim desimpedido o caminho, podemos continuar
seguros a nossa história, sem temer um desmentido. E a
figura de Inês paira na história como na ábside da sua ve­
tusta basilica, adornada de ouro em seus trajes majestosos,
radiosa figura, verdadeira preciosidade da Igreja Católica e
de Roma.
Assim escrevemos, não para as almas pias, às quais ê,
principalmente, dedicado êste modesto trabalho, porquanto
não buscam elas, nas vidas dos Santos que a pró.pria edifi­
cação, mas para justificar o nosso modo de proceder perante
os que, conhecendo mais ou menos o estado atual dos estudos
críticos e das descobertas arqueológicas, quisessem acusar­
-nos de infidelidade histórica.

Todos os fiéis que buscam na vida dos Santos alimento


salutar para a sua piedade e virtuosos exemplos a serem
imitados, muito têm para aprender na vida da virgem e
mártir romana.
O nosso livro, porém, mira, especialmente, as jovens
cristãs que desejam sinceramente preservar-se ilibadas no
turbilhão das paixões humanas, seja porque querem consa­
grar-se inteiramente a Deus, seja porque, não se sentindo
chamadas a uma vida perfeita, se contentem viver no mundo
uma vida não mundana. Assim também as associadas das
Pias Uniões das Filhas de Maria e da Ação Católica, muito

(1) - �ste fato é referido até no Prefãcio da Missa de Santa


Inês, nos ritos gregoriano e ambrosiano.

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aproveitarão lendo e meditando a vida da sua exemplar
padroeira, que lhes ensinará como é possivel viver na terra
a vida do Céu. Necessitam as familias, moças e rapazes
de sentimentos elevados, e, quem deseja cooperar no sanea­
mento da sociedade corrompida, deve pensar na formação
de familias integralmente cristãs, onde, como todos sabem,
é sobremaneira importante o papel da mulher filha, espõsa,
mãe.

Mons. LUIGI DE MARCBI

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FAMÍLIA PAGÃ E FAMÍLIA CRISTÃ

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Não é possível compreender uma pessôa,
se não se conhecer, de alguma forma, a sociedade
em que viveu e desenvolveu a sua obra. Quem
tem a felicidade de ter nascido em um país cristão,
numa família piedosa, respirar, direi, a fé e
a devoção quer em casa como na Igrej a, onde
tudo lhe fala de Deus, em lugares onde, sem consti­
tuir exceção nem contraste, se podem fazer as
mais esplêndidas manifestações de piedade e culto,
não sabe quanto é penoso viver entre os infiéis,
onde, as mais nefandas superstições, transmitidas
de geração em geração, lançaram tão profundas
raízes que são necessários séculos para as extirpar
de todo.
Quais eram as condições religiosas, sociais,
familiares de Roma, quando veio ao mundo Sta.
Inês?
S. Leão, o Grande, pinta-nos a metrópole do
Império, como uma selva de animais frementes que,
depois de ter subjugado os demais povos, acolhera
tôdas as suas superstições até as mais tôlas ou in­
fames.
Todos os deuses que a fantasia humana pudera
criar, encontraram um lugar no seu Panteon; ti­
nham altares, sacerdotes e recebiam sacrifícios.
Somente o verdadeiro Deus não era conhecido. E,
quando, vindo da Galiléia, chegou Pedro para O
anunciar, somente o Seu culto foi proibido como
contrário às leis do Estado.

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Roma, se se quiser dar crédito a Tácito (Ann.
livr. XI, c. 25), chegou a abrigar entre os seus mu­
ros - no ano 801 - quase sete milhões de habi­
tantes, divididos em diversas classes sociais perfei­
tamente distintas: nobres, patrícios, ricos que resi­
diam em palácios de grandeza e luxo desconhecidos
em nossos dias, e cujos vestígios ainda se encontram
nas ruínas da própria Roma, nas escavações de·
Pompéia, Herculano e outras cidades. Colunas dos
mais preciosos mármores, assoalhas e paredes de
mosaicos, baixelas de preços fabulosos que serviam
para ceias em que se dispendiam patrimônios in­
teiros e se ostentava nos trajes um luxo inverossí-
milr.
'\. Bastaria recordar o que nos conta Plínio (His-
tória nat. 1. IX, c. 28) referindo-se a Lellia Paulina
- que se apresentou a uma festa ornada com ouro
e pedras preciosas no valor de quase oito milhões
de cruzeiros !
Perguntareis: aonde conseguiram tanto di­
nheiro?
Em primeiro lugar, quem conseguisse ser no­
meado governador de uma das inúmeras provín­
cias do Império, por um ano que fôsse, saberia
"espremer" e taxar os súditos de tal forma a poder
mandar para o tesouro público, com pontualidade,
o tributo anual, ao mesmo tempo que aumentar
amplamente o próprio.
Havia também as frequentes guerras e suas vi­
tórias que, com os botins, enriqueciam a cidade e
os vencedores.
Outra fonte de riqueza eram os escravos. Pri­
sioneiros de guerra, ou comprados no mercado pú­
blico, estavam sujeitos aos mais pesados trabalhos
de construção e trabalhos agrícolas. Pertenciam
ao dono como os cavalos, e assim também os seus

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filhos ; e êle os podia vender, maltratar ou matar, a
seu bel prazer.
Ricos havia que os possuiam aos milhares:
escravos de luxo, para a casa; acorrentados nas pri­
sões, nos domínios agrícolas. E a remuneração era
apenas o miserável alimento que recebiam.
Havia patrões mais humanos; também êles,
porém, concebiam o escravo como lhe pertencendo
corpo e alma; eram uma "coisa" de sua proprieda­
de. Pela morte do dono humano e generoso, po­
deriam, porém, passar, por herança, a mãos cruéis.
Ora, quais poderiam ser os costumes dos ricos,
sem freio de religião e de sã moral? Que nô-lo
digam os livros que ainda nos restam da literatura
pagã: costumes ímpios e licenciosos ao extremo.
Outra classe a considerar é a do povo, da plebe
romana que vivia, podemos dizer, às expensas das
províncias. Gente ociosa, sempre pronta para as
revoltas, que pedia panem et circenses, pão e os
divertimentos do circo e, frequentemente, preocupa­
va o Imperador e o Senado com a sua petulância e
pretensões.
Não podiam ter idéias morais, nem ser melho­
res que os nobres e os ricos.
Os _escravos, então, - a menos honrosas
exceções - eram o que de mais degradante pode
ter a sociedade humana.
E a família , esta primordial e preciosa célula
da sociedade, poderia ser melhor?
A família cristã funda-se sôbre um grande e
santo sacramento; sôbre um único vínculo consa­
grado por Deus, fonte de graças, e tem por modêlo
a Santa Família de Nazaré. O homem é o che­
fe da família; não o senhor ou o tirano; a mulher
não é a sua escrava, de que pode dispor conforme
os seus caprichos e despedi-la quando bem enten-

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der, mas uma auxiliar, uma colaboradora, sua se­
melhante. Se o homem é o rei, a mulher é a
raínha da família.
Para os pagãos, para os romanos do império,
porém, não era assim. O homem era o senhor
absoluto da casa, de tudo dispondo e podendo por
qualquer pretêxto despedir a espôsa, divorcian­
do-se. E, quando, também às mulheres, foi con­
cedido o direito de pedir divórcio, o lodo moral da
metrópole chegou, então, ao auge.
E os filhos? Com êsses exemplos, entregues
a preceptores sem fé, em contacto com jovens de
péssimos costumes, frequentemente confiados à
custódia de algum escravo, de que outra maneira
poderiam crescer, senão mal acostumados, prepo­
tentes e rebeldes?
No tempo de Sta. Inês, isto é, no fim do século
3.0 depois de J. C., muitas famílias de Roma, entre
as quais havia nobres, eram inteiramente cristãs
e, por viverem em meio aos pagãos, em tempos de
mais ou menos franca perseguição, empenhavam­
-se o mais possível para permanecer sempre fiéis
a Deus.
Temos esplêndidas instruções sôbre a direção
das famílias e a maneira de educar os filhos, na­
queles tempos, que nos dizem da grande cultura
religiosa alcançada, então, pelos cristãos. Citemos
alguns exemplos que nos ajudarão a conhecer o
gênero e o nível da educação recebida pela nossa
santa, para não nos admirarmos da sabedoria das
suas respostas, da firmeza do seu caráter, da sua
fé e constância perante as .mais terríveis ameaças,
aos mais tremendos suplícios.
Tendo sempre presente que os filhos são um
tesouro a êles confiados pelo Criador, os pais
cristãos empenhavam-se com todo o cuidado em

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firmá-los no caminho da virtude, desde a mais
tenra idade. Sabendo que o ócio é o pai de muitos
vícios, jamais os deixaram desocupados, a,lternan­
do o trabalho com o estudo ou a oração. Candi­
datos ao Céu e cidadãos da terra, os jovens cristãos
aprendiam a viver a dupla vida que os aproximava
cada vez mais do Modêlo escolhido, enquanto o
espírito, fortificando-se dia a dia, aprendia a do­
minar a carne e os sentidos. O levantar-se antes
da aurora, a oração em comum, a assistência ao
divino sacrifício, a comunhão com o Deus dos for­
tes e das virgens, eis o princípio dos seus dias!
As mães compreenderam perfeitamente que o
seu dever não era, apenas, o de formar cidadãos
para a terra mas, sobretudo, santas para o céu.
E, com relação às filhas em particular, eis o que
escreve S. João Crisóstomo (Super illud: Vidua non
eligatur): "Oh! mães, não vos fieis de ninguém,
senão de vós mesmas, para a educação das vossas
filhas. �sse cuidado não será muito difícil se a s
mantiverdes a o vosso lado, n o santuário d a famí­
lia. Sobretudo, acostumai-as à piedade, às práti­
cas da religião, ao desprêzo das riquezas e da
faceirice. Assim, não apenas as salvais, como
estais preparando um tesouro para a família que
as receberá um dia. Não espereis que o fogo das
paixões se alastre; preveni o mal. E' preciso vi­
giar as primeiras impressões (tão difíceis de se
apagarem), e impor o freio às paixões enquanto
não tenham ainda fôrça '!Jara o romper; procurai
curvar o jovem coração ao jugo do dever, formar
o caráter, medicar a ferida enquanto recente, ar­
rancar os espinhos quando começam a crescer em
volta dessa delicada planta, não esperando que
criem raízes profundas, isto é, que as paixões,
fortificadas por um desenvolvimento rápido, se

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tornem tão fortes que já não será possível dar-lhes
remédio."
Estas rápidas citações sôbre as condições de
vida das famílias da Roma pagã e cristã, foram por
nós julgadas úteis como preâmbulo à breve vida
de Sta. Inês, •por diversos motivos.
Ante a pavorosa corrupção moral da metró­
pole do mundo antigo, claro se torna que a fé de
Jesus Cristo é coisa absolutamente divina se con­
seguiu fazer germinar, florir e frutificar as mais
belas e difíceis virtudes em tal sentina de vícios;
se conseguiu curvar a cabeça de orgulhosos Qui­
rites, sob o jugo de um Deus crucificado e introdu­
zir o amor à castidade e à virgindade voluntária
em corações de onde, outróra, extravasavam tôdas
as imundícies; fazer amar a pobreza, a generosida­
de, a caridade a uma geração egoísta, dominadora
e faustosa.
S. Pedro, em pouco tempo, conseguiu tantos
prosélitos que tornou célebre a Igreja de Roma e
penetrou, até, no palácio dos Césares. Alguns
sécu!os mais tarde, o apologista Tertuliano podia
escrever com tôda a verdade: "Somos estrangeiros,
entretanto, apoderamo-nos das vossas casas, das
vossas cidades, dos vossos castelos, domínios, as­
sembléias, dos próprios exércitos, das tribus e das
decúrias, do palácio (imperial). do Senado e do
Forum. Não vos deixamos mais que os templos." Is­
so, após séculos de ferozes perseguições que faziam
correr rios de sangue cristão e davam aos idóla­
tras a ilusão de ter sufocado no sangue a religião
de Cristo. "A Igreja, escreve S. Leão, o Grande,
lone-e de se enfraquecer. fortificou-se com as perse­
guições; os grãos que caem na terra um a um, re­
nascem multiplicados." E Tertuliano, há pouco

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citado, já havia expresso a mesma opinião: "O san­
gue dos mártires é semente de cristãos."
. Outro dos motivos que nos animaram, foi o
de ressaltar, por entre as densas sombras da cor­
rupção pagã, a beleza, o heroísmo, o esplendor das
famílias e das almas cristãs. "Não é grande mé­
rito, observa S. Gregório Magno, ser bom entre os
bons; é-o, ao invés, sê-lo entre os maus."
Mesmo hoje lamentamos a facilidade com que
çrianças e jovens, educados na piedade e morige­
ração no seio de famílias cristãs, se perdem mal
entram em cantata com o mundo. E' que a
e?ucação recebida está muito longe da que os cris­
taos dos primeiros séculos administravam aos
filhos. E se êstes sabiam permanecer santos no
J!!.eio de um mundo pagão, por que não o podem
os nossos num mundo que, mesmo não sendo bom
é, 1 porém, infinitamente melhor do que aquele em
que viveram tantas almas heróicas que despertam
tôda a nossa admiração através dos séculos?

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D

A ÚLTIMA PERSEGUIÇÃO - PAZ RE­


LATIVA DA IGREJA-DIVISÃO DO IM­
PÉRIO-CONSEQUÊNCIAS - GALÉRIO'
E SUA DESASTROSA OBRA - CASTIGO
DO PERSEGUIDOR- AURORA DE PAZ

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Para quem desconhece a história da Igreja,
Julgamos oportuno descrever, em rápidas palavras,
as condições do cristianismo frente às leis do Im­
pério na segunda metade do 3.0 século. Colocare­
mos, assim, Sta. Inês em sua moldura histórica e
poderemos, melhor, apreciar-lhe a inocência, fir­
meza de caráter, excelência da educação recebida
na família.
Desde o seu aparecimento na terra, a Igreja
de Cristo - assemelhando-se nisso ao divino
Mestre - foi sempre o alvo de maiores ou menores
perseguicões por parte dos judeus e dos pagãos .
.Já o predissera o seu Fundador: "Se me persegui­
ram, vos perseguirão também. Se vós pertencesseis
ao mundo, o mundo amar-vos-ia; odiar-vos-á, po­
rém, porque não sois do mundo."
Sto. Agostinho, assim como muitos outros, cita
dez tiranos perseguidores: Nero, Domiciano, Traja­
no, Marco Aurélio, Setímio Severo, Maximino, Dé­
cio, Valeriano, Deocleciano que fez correr rios de
sanl;l.J.e na esperança de nêles afogar a verdadeira
religião.
A de Deocleciano foi a última, a mais longa e
a mais terrível das perseguições.
E' sôbre esta que desejamos falar. (1)
Durante os períodos de paz, os fiéis se multi-

(1) - Bollando e outros, opinam tenha Sta. Inês sofrido o


martfrlo durante a persegulçã.o de Valerlano, enquanto terceiros
apontam a de Deocleciano. .Julgamos m ais provável esta segunda

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plicavam, erigiam capelas, e tinham até, assembléias
públicas. Eram, porém, tolerados apenas, por­
quanto ninguém tinha, ainda, revogado os decretos
imperiais que consideravam os cristãos fóra da lei,
e o cristianismo uma religião ilícita e passível de
pena. Gallieno (v. Allard, "Le Christianisme et
l'Empire Romain") revogou essa lei injusta com um
édito geral, dando aos sacerdotes liberdade para de­
sempenharem o seu ministério. Restituiu-lhes as
igrejas e os bens sequestrados por Valeriano e lhes
concedeu o direito à vida e à propriedade. Parece,
até, que os próprios cidadãos, por sua ordem, te­
nham sido indenizados dos bens confiscados.
Gallieno, porém, não soube ou não pôde im­
por-se a todo o esfacelado Império.
Aqui e acolá, como depois de um incêndio mal
extinto, por obra de prefeitos ou procuradores
inimigos dos cristãos, de tempos em tempos, levan­
tava-se a labareda de alguma perseguição. Eram
acontecimentos breves e locais. O fogo não se ex­
tinguiu nunca completamente, e se reanimou,
generalizado e terrível, por obra de Galério.
Durante os períodos de tranquilidade, porém,
os cristãos aproveitaram-se para erigir igrejas e
capelas, e aumentar o esplendor do culto. Em
a.I�ns luf:1;ares, não eram êles apenas tolerados,
mas, também, honrados. Entraram para o exército
e a magistratura; puderam, mesmo, ter acesso aos
altos cargos da côrte.
S. Sebastião foi comandante da guarda de
honra de Deocleciano.

opinião. S. Dâmaso, na sua inscrição, dêle fala como de acon­


tecimento recente, e Sto. Agostinho parece afirmar que a Santa.
foi martirizada na mesma perseguição em que morreu Sta. Cria­
plna, a qual sofreu o martlrio sendo proconsul Annullno, e im­
perador Ileoclecie.no. (Serm. 354 J. T. V. col. 1377).

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t:ste imperador, que tinha a côrte em Nicomé­
dia, tratava com tanto respeito o clero cristão,
que ousou, até, construir uma magnífica catedral,
enquanto, porém, o clero cristão de Roma, escar­
mentado com os exemplos do passado, contentava­
-se em erigir simples capelas e aumentar e embele­
zar as catacumbas.
A paz, porém, ao mesmo tempo que tornava a
vida, para os cristãos, menos arriscada e difícil,
serviu para lhes afrouxar os costumes, e os Santos
Padres daquelas épocas tiveram muitas queixas da
conduta dos fiéis, de então.
Foi nessa época que viveram os pais de Sta.
In��. os auais mereceram muitos elogios por terem
conservado o fervor da piedade em meio ao enfra­
quecimento dos demais.

Para assegurar a unidade do Império, consu­


mido interiormente pelo luxo e consequente disso­
lução; ameaçado nas fronteiras por povos turbulen­
tos, Deoclecia...l'lo pensou dividi-lo em dois, reservando
para si o Oriente, e dando- o Ocidente ao coléga
Maximiano, criando, ao mesmo tempo, dois Césa­
res : Galério e Constâncio Cloro. Reservou para
seu auxiliar, o primeiro, a quem confiou o govêrno
das províncias danubianas, dando o segundo, Cons­
tâncio Cloro, a Maximiliano que o enviou ao go­
vêrno da Gália e da Espanha.
Gálerio foi o gênio mau de Deocleciano. As­
tuto e feroz, foi o instigador da última e grande
perseguição. Vejamos como Galério, pastor da
Dácia, feito soldado e, depois, pela ousadia, pela
fôrça e pela astúcia, chegado ao supremo gráu da
hierarquia, alimentava no coração um ódio instinti­
vo e feroz contra a religião cristã. Nomeado César,

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lugar-tenente e braço direito do Imperador, deci­
diu desafogar os seus vis sentimentos trabalhando
sorrateira e astuciosamente junto ao espírito ma­
leável e supersticioso de Deocleciano.
Com o pretêxto de restabelecer a disciplina no
exército, obteve dêle um decreto pelo qual, todos
os oficiais, depois das vitórias, deviam tomar parte
no oferecimento de sacrifícios aos deuses, sob pena
de degradação ou morte aos mais recalcitrantes.
O decreto foi publicado, também, na parte oci­
dental do Império, mas Constânéio Cloro que tinha
por espôsa a que foi Sta. Elena, mãe do grande
Constantino, era bem diferente do bárbaro Galério.
Também Cloro reuniu os oficiais e lhes comu­
nicou o decreto.
Entre os oficiais cristãos houve os que, para
não perderem o emprêgo, se declararam prontos a
apostatar a fé, esperando, do César, proteção e
honras. Qual não foi, porém, a sua admiração,
quando Cloro, com aspecto desdenhoso e ameaça­
dor, os expulsou violentamente da sua presença
com estas altivas palavras: "Saiam daqui! Quem
é capaz de trair o seu Deus, é, também, capaz de
trair o seu Imperador!"
Entrementes, Galério prossegue, com astúcia
diabólica, o seu plano, mandando consultar o orá­
culo de Delfos cuja resposta é contrária aos cris­
tãos. Galério dela se vale para obter a permissão
de os perseguir embora não podendo aplicar-lhes a
pena de morte. Não desanima, porém; incita in­
diretamente a corrupta plebe pagã, que acaba
assaltando a Catedral, o templo máximo dos cató­
licos, e a reduz a um monte de ruínas.
Pouco tempo depois, um incêndio, imediata­
mente dominado, ameaça o palácio imperial. Há
quem suponha, e não sem razão, que o próprio

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Galério tenha sido o causador do mesmo, mas, qual
novo Nero, culpa os cristãos e incita Deocleciano a
vingar-se energicamente.
Não quís ainda o imperador, assinar o édito de
perseguição sanguinária, mas vetou as assembléias
cristãs e mandou destruir tôdas as igrejas e os
livros sagrados; ordenou aos cristãos abandonarem
a sua fé sob pena, para os nobres, de perderem os
direitos civis, e, para a plebe, ser reduzida à es­
cravidão.
Nessa ocasião, muitos cristãos sofreram mar­
tírio por se terem recusado a entregar aos infiéis
os livros sagrados.
No ano de 303, foi publicado um édito que de­
terminava a prisão dos bispos, sacerdotes e minis­
tros investidos das ordens menores, sem, porém,
constrangi-los a abjurar a fé.
Assim era que, passo a passo, o infame Galé­
rio, conduzia o imperador para o último decreto,
emanado em 304, pelo qual todos, indistintamente,
eram obrigados a trair a própria fé, dando, assim,
início à terrível perseguição com a qual pensava
Galério varrer de sôbre a terra o nome de Cristo.
Foi nesta que Sta. Inês combateu e triunfou.
Permitiu Deus tanto derramamento de san­
gue para purificar e fortificar a sua Igreja; mas,
como já fizera com os ímpios Antíoco, Herodes,
Nero e outros perseguidores, puniu Galério que,
minado por repugnante moléstia, cruciado por
inenarráveis espasmos, foi obrigado a suspender
a perseguição e implorar as orações dos gloriosos
confessores de Cristo.

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III

A FAMÍLIA DE INÊS-NASCIMENTO
DA SANTA

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Descritas a largos traços a situação do Impé­
rio e da Igreja, no fim do século III, cabe-nos
dizer algo sôbre a família de Sta. Inês. Entretan­
to, nada nos é possível dizer com certeza. Concor­
dam os escritores ·em dizê-la nobre e rica; filiam-na
uns, à gente Ulpia, à Turrânia ou Flávia, outros.
Armellini, sempre tão claro, e com provas bastante
convincentes, a diz pertencente à família Clódia.
Tôdas, famílias da mais alta nobreza romana.
A gens Clodia, não era daquelas famílias que
provinham de algum liberto de César: de domo
Caesaris, e sim uma família nobre desde a origem:
gens ingenua. Uma inscrição encontrada em
Bréscia e outra em Anagni, na Itália, recordam
um Lúcio Clódio Crescêncio prefeito municipal.
Mais adiante falaremos das catacumbas de Sta.
Inês, mas é bom recordar, desde já, que o seu pri­
meiro núcleo é o hipogeu ou túmulo da família
Clódia, que abraçou o cristianismo desde os seus
primeiros tempos, isto é, desde quando os Príncipes
dos Apóstolos anunciaram Cristo no Cemitério
Ostriano.
Muito provàvelmente, é Inês oriunda da famí­
lia Clódia que, mesmo se não fôsse nobre de ori­
gem, generosa ao abraçar a fé cristã, o ter dado
à Igreja uma flôr maravilhosa como Inês, bastaria
para ostentar aos olhos do mundo tôda a nobreza
da virtude. Sim, porque "pelo fruto se conhece a
ârvore", diz o Senhor, e o constata a nossa expe­
riência cotidiana. E o fruto que contemplamos

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só podia vir de uma família de fé sólida e burilados
costumes. Vimos que entre uma e outra perse­
guição, diminuia o fervor dos cristãos; muitos, até,
confiando em demasia na própria inteligência,
orgulhosa e indócil, acarretaram à Igreja, aborre­
cimentos e preocupações, interessando-se por dou­
trinas erfôneas e contrárias aos ensinamentos da
cátedra de S. Pedro. Os santos livros, que todos
os fiéis consultavam e tinham sempre à mão, co­
mo a palavra de Deus aos homens, êsses livros,
lidos com espírito superficial, sofístico e orgulhoso,
se tornavam, para alguns cristãos recém-converti­
dos, um obstáculo ou um empecilho para o seu pro­
gresso.
A Igreja de Roma, porém, diretamente gover­
nada pelo Sumo Pontífice, a qual enviara para
tôda a Europa os Bispos que deviam reger as
Igrejas nascidas entre os gentios, permaneceu imu­
ne de quaJquer êrro, e, em Roma - nô-lo atesta o
grande número de mártires ilustres - havia, com
certeza famílias nobres que conservavam em todo o
seu esplendor o fogo da fé e da caridade cristã.
Na cidade eterna, entre Montecitório e a pra­
ça Navona, na área atualmente ocupada pelo
Colégio Capranica, de acôrdo com uma tradição
popular, levantavam-se as casas dos parentes de
Inês. Para que não perecesse a memória dêsse
lugar santificado pela estadia da virgem mártir,
aí foi edificado - em outros tempos - um orató­
rio, que ainda hoje se conserva como capela do
referido Colégio. (1)
Dissemos acima, as casas e não a casa ou o
palácio, porque os ricos tinham à disposição das
suas famílias verdadeiros quarteirões, limitados

(1) - Sta. Inês noa trabalhos de S. Ambrósio, pg. 78.

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por muros, pórticos, e abrigando jardins, largos
quintais, as dependências da família pràpriamente
e as dos escravos que, em algumas casas, se con.
tavam aos milhares.
É-nos grato imaginar a ampla_ residência de
Inês - em virtude da doutrina de Cristo que a
todos iguala perante Deus - como não tendo es­
cravos forçados e maldizentes do seu destino, mas
servos sinceramente afeicoados aos seus senhores.
No mais recôndito, mas não menos nobre, recanto
da casa, um rico oratório onde se faziam, em co­
mum, as orações e a leitura dos livros sagrados, e
- em tempo de perseguição - se conservava a
S. S. Eucaristia. Em todos os semblantes, a ex­
pressão de paz, desconhecida nas casas pagãs.
Foi nesse jardim inebriado por tôd.as as virtu­
des, que floresceu o cândido lírio de quem deseja­
mos falar: a pequena virgem Inês. (2)
Nasceu a santa, lá pelo ano de 290 da nossa
redenção, e foi chamado ou quis chamar-se Inês.
Dizemos ou quis chamar-se, porque os patrícios
romanos, abraçando o cristianismo - como que
a demonstrar a nova vida para a qual renasciam
pelo batismo - depunham o nome dos ilustres
antepassados para aceitarem outro, que lembrasse
as virtudes e os mistérios do cristianismo. De
onde, observa De Rossi, muitos nobres eram co­
nhecidos por um nome na vida civil e por outro
na vida particular e doméstica. De fato, muitas
das esclarecidas matronas romanas eram conheci­
das, na sociedade dos fiéis, com o nome de Lucina,
alusão à luz produzida nas almas, pelo Batismo.

42) Ne Sacramento Gelaslano, encontramos:


- 21 de ja­
neiro: Natale B. Agnetls Virgines de passione; 28 de janeiro: Na,..
tale S. Agnetls de nati'Vitates. Isso nos faz supor tenha S. Inêa
nascido a 28 de janeiro.

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Encontramos, também, frequentemente, nomes
simbólicos como: Sapiência, Fé, Caridade, Espe­
rança, Paz, Irene, Redento, Renato. Pode, pois,
ter-se dado que a nossa santa virgem tivesse dese­
jado seguir êsse exemplo bastante difundido no
fim do terceiro século e, tendo alguma liberta da
família adotado o nome de Agnes, tenha querido
também recebê-lo, com o que fazia um ato de
:hrnnildade tornando-se, no nome, semelhante a
pessoas de condição inferior, ao mesmo tempo que
se impunha um como que constante lembrete do
candor em que devia viver mergulhada a sua vida
a Deus consagrada pelo voto de castidade virgi­
nal." (Or. d., 66) p.
Em qualquer hipótese, tenha-lhe o nome sido
imposto pelos pais, ou o tenha escolhido ela mes­
ma, o certo é que dêle foi digna em tôda a extensão
do seu significado! "Inês, escreve a êsse respeito
S. Agostinho (Serm. 273), era, na realidade, o que
o seu nome indica: Inês, em latim Hagnella, na
língua grega significa casta. Era o que o seu
nome significava e foi, por isso, justamente coroa­
da." Em seguida, para demonstrar que à mansi­
dão e castidade Inês acresceu heróica fortaleza ao
defender a própria fé e virgindade, acrescenta:
"Que vos direi, meus irmãos, daqueles homens que,
quais deuses, foram cumulados de honras pelos pa­
gãos, receberam honras divinas, templos, sacerdo­
tes, altares, sacrifícios? Direi que não suportam a
comparaGão com os nossos mártires? Seria gran­
de injustiça feita aos Santos a simples enunciação
da idéia. Aquêles sacrílegos não podem ser com­
parados sequer ao comum dos fiéis, embora im­
perfeitos, ainda mundanos e ignorantes. Quem é
Juno, comparada a uma velhinha animada pela
verdadeira fé? Que resta de Hércules, mesmo com­
parado a um fraco e trêmulo velhinho cristão?

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Hércules venceu Caco, venceu o leão, o terrível cão
Cérbero; o mártir venceu o mundo. Inês, criança
de treze anos, venceu o diabo."
Os atos do martírio da Santa não relatam a
época em que tenha recebido o batismo; mas não
erraremos, por certo, ao pensarmos que ainda
criança tenha sido resgatada para o Cristo, em
vista da religiosidade da sua família e do hábito
já bastante generalizado na Igreja.
Os pais de Inês não ignoravam, por certo, que
as crianças, pelo batismo, tornavam-se filhos de
Deus, irmãos de Jesus Cristo e herdeiros do Céu;
participam de todos os méritos conquistados pela
Igreja, especialmente pelo sacrüício da Missa, e
que, portanto, retardando o batismo, deixamos uma
alma afastada de Deus, em perigo constante de
perder a felicidade eterna do Paraíso. Não, Inês,
não correu êsse risco; ela mesma o proclamou a
alta voz perante o tribunal, quando disse ter sido
consagrada a Deus desde o berço: ab ipis incuna­
bulis.
Sólidos foram os princípios dessa flôr encan­
tadora que perfumou a terra com o exemplo das
mais esplêndidas virtudes. A fé, a esperança, a
caridade e tôdas as demais virtudes semeadas em
sua bela alma, desde o ingresso neste mundo, fe­
cundadas pela graça divina, cultivadas com a
maior diligência pelos pais, protegidas com todo
o amór, qual precioso tesouro, e preservadas da
corrupção do século, concorreram para tornar Inês
um verdadeiro anjo, do qual o mundo não era
dígno e que, por isso, para o meio dos anjos foi
logo chamada.
Para a santidade de Inês concorreram, como
sempre, a graça de Deus e a constante boa von­
tade da Santa. Não devemos porém esquecer a

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influência do bom exemplo, a vigilância e os cor-·
retivos dos pais. Sabendo que a filha era um te­
souro que lhe tinha sido confiado para que o cui­
dassem e educassem, fácil é imaginar todo o cari­
nho com que lhe vigiavam os atos e as palavras,
a diligência em descobrir e corrigir-lhe os pequenos
defeitos, especialmente a vaidade, tão importante
no coração das moças. Tão fundo calaram no
coração de Inês os ensinamentos dos pais que, tôda
entregue ao embelezamento da sua alma, não se
preocupava com a beleza das formas corpóreas,
chegando mesmo a lamentá-la corno um incentivo
ao pecado. Assim pois, quanto mais procurou
agradar a Deus e aos anjos, tanto mais procurou
desagradar aos homens. É o que nos afirma S.
Máximo, quando diz: "Quantum sciebat quod ani­
mam suam pulchram faceret, tantum in sua carne
erubescebat se esse formosam: tantumque studuit
displicere camaJibus in carnis aspectu quanto
Christo institit, et eius angelis complacere.
Quando Inês, pedida em casamento, recusou
os esplêndidos presentes que lhe eram oferecidos,
dizendo ter já outro espôso que a adornara com
jóias muito mais preciosas, mostrou evidentemente
o desprêzo que nutria pela vaidade do mundo e a
importância que dava à graça de Deus. Qual a
moça de hoje que faria o mesmo?
Entretanto, mistér é acrescentar: - Onde en­
contramos, hoje em dia, pais tão ricos de fé como.
os de Inês?

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IV

PRIMEIRA EDUCAÇÃO DE INÊS

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Se os exemplos do mundo são permc10sos à
juventude depois de quase vinte séculos de cris­
tianismo, que dizer dos perigos que uma jovem
inexperta encontraria em Roma, em pleno paga­
nbmo? Os pais de Inês, conhecendo as dificulda­
des, souberam prestar-lhe em tempo, os oportunos
remédios. O primeiro cuidado de sua boa mãe,
que, não pôde alimentá-la ao próprio seio, foi o de
buscar-lhe uma ama da qual não pudesse receber
nenhum exemplo prejudicial, quer nas palavras
como nos atos, no que era bem diferente das senho­
ras pagãs, as quais deixavam os filhos entregues à
corrupta criadagem e aos mais estranhos capri­
chos.
Quando a suave criança começou a falar, que­
remos crer lhe tenha logo ensinado os doces nomes
de Jesus e Maria, e os cânticos e as orações usadas
nas funções litúrgicas. Ensinava.,.lhe a vida de
Nosso Senhor; falava-lhe da Sua infância, dos
Seus milagres, da Sua paixão e morte, da Sua res­
surreição e do reino a que ::6:le chama os eleitos.
Lia-lhe os mais belos trechos do Seu Evangelho;
as parábolas tão claras e convincentes do Bom Pas­
t or, das dez virgens, do Juízo Final, enquanto Inês,
alma cândida e aberta à virtude bebia àvidamente
essas verdades, sem nunca dizer: basta!
Falava-lhe também das santas virgens que,
na última perseguição haviam unido a palma do
martírio à corôa da virgindade; de Sta. Cecília
que, levada ao rnatrimônio, contra a vontade, re-

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velou ao espôso pagão, o voto feito de permanecer
virgem, assim como a proteção do Anjo. E o es­
pôso, Valeriano, creu também, foi batizado, viu o
Anjo de Cecília e morreu mártir de Jesus Cristo.
Falava-lhe da virgem catanesa S. Agata; de S.
Tarcísio que preferiu ser massacrado pelos mole­
ques pagãos a entregar a S.S. Eucaristia que levava
aos cristãos prisioneiros, e de cem outros exemplos
de que tanto ainda se falava em Roma ou fóra
dela. E, quando já mocinha, levava-a às cata­
cumbas e cemitérios subterrâneos onde repousavam
as relíquias dos mártires, parece-nos ver aquela pie­
dosa mãe soerguendo a filhinha para que beijasse o
frio mármore onde estava inciso o nome dos glorio­
sos Confessores da nossa fé. A família e as cata­
cumbas, eis as escolas em que Inês se educou.
Para melhor imaginarmos a infância e educa­
ção de Inês, julgamos licito aproximá-la de uma
alma irmã da sua, que viveu em nossos tempos e,
na flôr da idade, levantou vôo para o Céu de onde
viera, levada nas asas do seu seráfico amor a
Deus e se chamou: Tcrczinha do Menino Jesus.
Também ela recebeu, na família, uma educação
perfeitamente cristã; igualmente, consagrou o seu
coraC'ão a Jesus, irrevogàvelmente, assim que
aprendeu a conhecê-lo; também a pequena de Li­
sieux, sempre feliz e sorridente. fez de si uma per­
feita imolação ao divino Cordeiro e foi, como São.
Luiz Gonzaga, mártir desconhecida; finalmente,
ela também foi excelente na confiança em Deus
de quem se dizia a pequena flôr e filhinha. A sua
vida mortal amadureceu mais tarde que a de Inês,
mas grande era nela o desejo do martlrio e, se vi­
vesse em outros tempos, não teria demonstrado,
por certo, menos firmeza que a virgem romana,
nem menor confiança no apôio divino.
Dela escreve o cardeal Vico: "A virtude (de

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Tereza) impõe-se com a majestade incrível; a
menina torna-se numa heroina; a virgem de mãos
cheias de flôres surpreende-nos com a sua coragem
viril. " ( 1 )
Ninguém pode alcançar um gráu heróico de
virtude senão combatendo as más inclinações, e
exercitando-se nas virtudes que contrastam os
instintos desregrados. Nos pequeninos sacrifícios
de todos os dias, de tôdas as horas até, a alma se
adestra para o heróico e completo sacrifício de
si mesma. Se Davi, quando pequeno pastor não
se tivesse exercitado no tiro com a funda por di­
vertimento, e para defender o rebanho paterno,
não teria conseguido mais tarde, abater com um
só golpe o gigante Golias.
"Quem é fiel nas coisas pequenas, diz Nosso
Senhor (Luc. XVI, 10) é fiel também nas gran­
des; e quem é injusto nas coisas pequenas, sê-lo-á
também nas grandes." Se Sta. Tereza alcançou
tão alto gráu de perfeição, foi pelo caminho do
Calvário, o caminho traçado pelo Divino Mestre;
e se Sta. Inês foi impávida ante os tiranos, se con­
seguiu recusar o amor humano com as suas rique­
zas e as suas pompas, foi porque desde pequena
a prendeu a avaliar em fumaça e lôdo as honras e
as riquezas do mundo e a aspirar ao Céu como
sendo a sua pátria.
Naqueles tempos de perseguição, os fiéis ti­
ni"l.am muita dificuldade em compreender o ensi­
namento do Apóstolo: Não temos aqui em baixo
a nossa morada permanente, e buscamos sempre
a outra, na vida futura; somos aqui em baixo, não
i>enhores, mas hóspedes e peregrinos. Conceito
êsse que Sta. Tereza exprimiu em duas belas fra-

(1) -O Espfrito de Sta. Tereza do Menino Jeeus (Prefácio).

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ses : "A vida é uma noite a passar em máu alber­
gue. O tempo é a tua nave não a tua morada."
Daí o recolhimento e o amor à oração ; daí a
repugnância àqueles folguedos que constituem a
alegria da infância. S. Jerônimo afirma-nos que
Sta. Inês, demonstrando precoce naturalidade,
aborrecia as horas de recreio. Também Sta. Te­
reza do Menino Jesus recebeu êste dom, e escreve:
"Não sabendo fazer algazarra como as demais
crianças, percebia não ser uma companheira
agradável, e por mais que me esforçasse em i.mitá­
-lás, nunca o consegui." ( 1 )
Essa foi a manhã do brevíssimo dia de Inês
na Terra.
Uma pequena e delicadíssima flôr despontada
no jardim fechado de uma família cristã, cuidada
com terna preocupação, mas sempre pronta para
receber as restauradoras barrascas do céu e os
raios do sol; cândida pela inocência, perfumada
pelas virtudes que nela se iam desenvolvendo. Je­
sus preparara a espôsa para as lutas e robustecia
aquela alma preparando-a para o martírio. Ela
se deixava conduzir, ou melhor, levar pela graça
com a confiança de uma criança que repousa sô­
bre o seio materno, j amais opondo à secreta obra
de Deus, aqueles pequenos caprichos que se sóe
lamentar mesmo nas almas inocentes. O amor
divino que tão fàcilmente se acende nos corações
que não sofreram contato com o mundo, a ilimi­
tada confiança em Deus, despertaram em Inês,
vivíssimo desejo de lhe ser fiel, e santo horror pela
mínima culpa. :mste é o segrêdo da santidade
que culminou, mais tarde, com o ato heróico do
martírio.

(1) - Hlstõria de uma Alma, M.

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Quando em uma alma inocente, como num
terreno bem cultivado, se semeiam as sementes
divinas das virtudes cristãs, quem poderá dizer as
maravilhas que Deus ai fará brotar? Vem a pro­
pósito, uma observação psicológica de Sta. Tere­
zinha. Estava na casa de seu tio Guerin e, visi­
tando uma mãe de família pobre e doente, pôde
observar sôbre os filhinhos da mesma: "Ocupei­
-me bastante com as suas filhinhas, a mais velha
das quais não tinha, ainda, sete anos. Que prazer
para mim observar o candor da fé que depunham
nas minhas palavras ! Os germens das virtudes
teologais, depositadas nas almas pelo Santo Ba­
tismo, devem ser muito fecundas uma vez que a
esperança dos seus futuros é suficiente, mesmo na
infância, para fazer aceitar voluntàriamente qual­
quer espécie de sacrifício. Quando queria ver ver­
dadeiramente unidas entre elas, aquelas crianci­
nhas, em lugar de recorrer às promessas de dôces
e brinquedos, falava-lhes das recompensas eternas
que o Menino Jesus daria aos meninos bons. A
maiorzinha, cuja inteligência já se entreabia,
olhava-me com expressão viva e alegre, fazendo­
-me mil perguntas interessantes sôbre o pequeno
Jesus e o seu Paraíso. Acrescentava, a seguir, que
cederia sempre ante a irmãzinha e não queria, ja­
mais, esquecer as lições da "senhorita grande" co­
mo costumava chamar-me." Se isso pode acon­
tecer em nossos tempos, em que a indiferença reli­
giosa e os máus costumes intoxicam grande nú­
mero de famílias, que poderemos dizer da pequena
Inês, crescida qual flor de estufa, numa família
de santos, quando os cristãos podiam ser chama­
dos,. a qualquer hora para prestar contas da sua
fé e dar-lhe o sigilo do próprio sangue?
Outra coisa que observamos em Sta. Terezi-

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nha, e· que nos pode auxiliar no conhecimento da
alma jovem de Inês, é o espírito de oração.
"Quando da preparação para a minha pri­
meira comunhão - diz ela - desejava que me
ensinassem como meditar, porquanto Maria, mi­
nha irmã mais velha, achando que eu já era bas­
tante devota, permitia-me, apenas, as orações vo­
cais. Uma dia, uma das minhas professoras pergun­
tou-me sôbre as minhas ocupações nos dias feria­
dos. Respondi-lhe, timidamente: - Senhora, cos­
tumo refugiar-me em um cantinho do quarto, que
posso, fàcilmente rodear com os cortinados da
cama, e lá, ponho-me a pensar. - Mas no que
pensa você? - acrescentou. Penso em Deus, na
brevidade desta vida, na eternidade; enfim, penso.
Tempos depois, minha professora, falando do tem­
po em que eu pensava, perguntava-me sempre se
ainda costumava pensar. Agora compreendo ter
feito naqueles tempos, verdadeira meditação, em
que o Mestre Divino, tácita e suavemente instruía
o meu coração."
Esta precoce facilidade ao recolhimento, êste
dom da oração, que vem diretamente do Espírito
Santo, vamos encontrá-lo em muitos outros -santos.
O Senhor compraz-se neles, a divina Sabedo­
ria que foge das almas orgulhosas e mendazes,
chama a si os pequenos: " quem é criança venha
a mim. E aos que não têm juízo (isto é: àqueles
que ainda não alcançaram o pleno uso da razão) ,
diz ela, a Sabedoria: "vinde, comei o meu pão e
bebei o vinho que preparei para vós. Abandonai
a infantilidade e vivereis; seguí os caminhos da
prudência." (Provérbios IX, 4-6)
O julgar-se sem juízo, diz S. Gregório o Gran­
de, deve entender-se de acôrdo com os sentimentos
íntimos de humildade que deve nutrir em seu co-

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ração quem quer se tornar verdadeiramente sábio;
porque quem não se despreza a si mesmo, não
abraçou ainda a humilde sabedoria de Deus, con­
forme a palavra de Cristo: "Escondeste estas cou­
sas aos sábios e prudentes e as revelaste aos pe­
queninos. " (Mat. XI, 25) .
Tudo isso nos conduz a conhecer o vaior da­
quela infância espiritual que tanto brilha na vida
e nos escritos de Sta. Terezinha, e aquela fôrça
de vontade pela qual, quando nos aprofundamos
nos segrêdos divinos, sabemos subjugar ao dever
as paixões, adquirir sôbre elas absoluto domínio e
buscar aquela tranquilidade que só nos pode advir
de Deus, tornando a alma insensível aos argumen­
tos do mundo, intrépida ao afrontar a dór, as per­
seguições e a morte.
Cremo-nos plenamente autorizados a pensar
que Inês, desde criança tenha tido o dom da ora­
ção e da íntima união com Deus. Podemos argu­
mentar êsse ponto de vista pelo sorriso que sem­
pre resplandecia em todo o seu semblante, pelas
sensatas respostas que deu ao juiz e pela confiança
em Deus que demonstrou nos momentos das mais
tremendas ameaças.
As verdadeiras e virís virtudes (a frase é de
S. Francisco de Sales) , as damas romanas as hau­
riam nas Sagradas Escrituras que tanto preza­
vam. De Sta. Cecília conta-se que as levava, dia
e noite, sôbre o peito, assim como de muitos outros
mártires que preferiram a morte a ceder aos pro­
fanos os livros sagrados. Naturalmente foi neles
que se inspirou a mãe de Inês ao educá-la. Dêles,
por sua vez, deve ter se servido Inês, para meditar.

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V

A COMUNHÃO

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Não apenas a sã doutrina, mas, os sacramentos,
também, são necessários ao incremento espiritual
da alma, particularmente a Eucaristia que é o seu
pão por excelência. Quando começou a recebê-lo
a nossa santa?
Eis a resposta, cheia de candor e mistério, que
deu, quando eleita para núpcias terrenas: "Meu
espôso (J. Cristo) já assinalou meu rosto. me é
mel e leite que suguei da sua bôca; em castos am­
plexos já me atraiu a si, e o seu sangue enrubesce
as minhas faces."
"Estas frases, escreve o douto arqueólogo Ar­
mellini, em sua obra "Cemitério de Sta. Inês", res­
sentem-se da índole dos tempos anteriores à paz, e
nos apresentam a forma daquela linguagem arcãi­
ca, com a qual se ocultara aos olhos dos profanos,
nos séculos de perseguição, os mistérios da fé. A
mim me parece que aquelas expressões, aparente­
mente enfáticas, se referem, literalmente, ao hábito
de fazer provar ao neófito, recém-saído da pia ba­
tismal, o leite e o mel, como testifica Tertuliano,
cerirnônia pela qual se queria manifestar que o
novo fiel adquiria, com o batismo, o direito ao in­
gresso na verdadeira Terra Prometida." "E, dizen­
do que se incorporou ao espôso, cujo sangue lhe
enrubescera as faces, refere-se, acrescenta Bertol­
lini, o mistério da divina Eucaristia, por meio da
qual conseguira tão admirável união, aludindo, tam­
bém ao antigo rito da Igreja que, às crianças, ime­
diatamente após o batismo, se ministrava a SSma.

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Eucaristia colocando-lhes uma gota do sangue di­
vino nos lábios. Pois, durante as perseguições quís
a nossa dedicada mãe, a Igreja, que seus filhos
fossem revigorados com o pão celeste, o pão dos
fortes, para, corajosamente, poderem enfrentar o
terrível momento da luta. Não excluiu as crian­
ças porque era muito comum ver-se crianças de
peito arrastadas com os pais para as prisões pelo
ódio ao nome cristão."
No Sacramentário Ambrosiano vamos encon­
trar que se dava, ao novel-batizado, uma partícula
da hóstia consagrada embebida no precioso sangue
com a seguinte fórmula: Corpus Domini nostri Jesu
Christi sanguine suo tinctum conservet animam
tuam in vitam aeternam amem. Isto é: o corpo de
N. Senhor Jesus Cristo embebido em seu precioso
sangue conserve a tua alma para a vida eterna.
Assim seja.
Em seguida, dava-se ao recém-batizado, ãgua
misturada com leite e mel, dizendo-se : lbi mandu­
cabis panem qui confirmat cor hominis, mel gus­
tabis quo tuorum dulcescat meatus facium: virum
bibes cum lacte hoc est cum splendore et sinceri·
tate. Isto é : lá (na vida eterna) co;merás o pão
que fortüica o coração do homem, provarás o mel
que te adoçará a bôca, beberás vinho com leite, isto
é com esplendor e pureza.
Não devemos nos admirar que Inês tenha fa­
lado de maneira obscura perante os pagãos; êsse
era o uso comum dos cristãos, para não expôr à
profanação os mais sagrados mistérios da fé. Al­
gumas verdades, principalmente a da presença real
de N. Senhor na SS. Eucaristia, não eram dadas a
conhecer aos recém-convertidos senão quando sufi­
cientemente instruídos e fortificados na fé. Inês,
porém, cristã desde os seus primeiros dias, conhe-

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cera e amara desde a mais tenra idade êsse inefá­
vel mistério. Quem pode dizer dos impulsos amo­
rosos daquele coração virginal para com Jesus ocul­
to sob os véus eucarísticos? No mais acêso das
perseguições, os sacerdotes confiavam aos cristãos
as sagradas espécies para serem conservadas no
oratório particular, afim de poderem êles, todos os
dias, receber a S. Comunhão, ou quando, por cau­
sa da vigilância e espionag�m dos pagãos, não po­
diam dirigir-se às catacumbas muito distantes.
Inês deve ter com frequência hospedado Jesus em
sua própria casa. E se as crianças boazinhas de­
monstram tanto prazer e bôa vontade em enfeitar
com flôres o altar onde se conserva a SS. Eucaris­
tia, que não terá feito Inês? Quem poderá des­
crever o êxtase da sua alma pura, as belas palavras
que dirigia a Jesus, e as que Jesus lhe dizia no
segrêdo do seu coração?
Ainda hoj e, os jovens e as jovens que temem
a Deus estão sujeitos à maldade do mundo e às
insídias de Satanás que tenta roubar-lhes as vir­
tudes, a prática da vida cristã e a fé. Imitemos
Sta. Inês visitando Jesus no seu tabernáculo e re­
cebendo-o frequente e devotamente em nosso co­
ração. Jesus é o pão dos fortes, o vinho que anima
as virgens; dt:le vem essa fôrça admirável que ven­
ce o mundo !

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VI

O VÉU DAS VIRGENS - APOSTOLADO,

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Em seu primeiro livro "das Virgens", propõe
S. Ambrósio, como exemplo, a Virgem Inês, da qual
tece esplêndido elogio dizendo, entre outras coisas,
que nada tinha para ocultar, isto é; que a sua vida
era tão pura que ninguém teria podido dizer dela
qualquer mal.
Compreender-se-á isso muito bem, se se con­
sidera que a rapariga, acostumada a viver na pre­
sença de Deus e com �le conversar com filial con­
fiança e abandono na oração, assim como recebê-lo,
com frequência, no próprio coração, em nada mais
pensasse que em Lhe agradar e ganhar o Céu. Daí
a máxima simplicidade e modéstia no vestir, o re­
cusar ornar-se com j óias e outros enfeites, tão agra­
dável às outras raparigas da sua idade, a máxima
verecúndia no olhar e nas palavras, e aquela sere­
nidade do semblante que revela a paz interior, da
alma, e a sua constante união com Deus.
Assim como o vício, principalmente o impuro,
imprime na fronte um estigma de infâmia e turva
o olhar, tornando repugnante até mesmo um rosto
bonito, assim a castidade dá à fisionomia das crian­
ças e das jovens um esplendor divino que os torna
'SUlllamente amáveis.
Inês sorria sempre, onde quer que estivesse,
mas, principalmente, em casa e nas reuniões pie­
dosas. Imaginamos até, que quando as virgens
elevavam os seus cantos ao Esnôso celeste, a voz de
Inês devia tornar-se mais cãlida pelo divino amor
que lhe ardia no peito.

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Desde a mais tenra idade, inconsciente de qual­
quer malícia mas, guiada por um divino instinto,
compreendera quanto é preciosa e agradável a Deus,
a virgindade. Jurou, por isso, em seu coração, que
não pertenceria senão a Jesus. E, quando sôbre
essas virtudes ouvia os Pontífices ou os Sacerdotes,
sentia-se feliz pelo seu voto e se algo pedia a Deus
era a graça de perseverar no santo propósito de
selá-lo com o martírio. Sublime anseio de uma
jovem dotada com os mais esplêndidos dons da
natureza: beleza, inteligência, riqueza, que dão tão
fácil acesso ao prazer e ao fausto do mundo. Pa­
recia, até, que se sentisse feliz em possuir tanto no
mundo, pelo único prazer de poder sacrificar tudo
ao seu Espôso celeste.
Muitas jovens, em Roma, tinham, também,
ouvido a voz do Senhor chamando-as para a vida
perfeita. Muitas deixaram a própria casa para
viverem em comunidades, sob uma regra comum e
a orientação das diaconisas; outras, ligadas pelos
sagrados votos, viviam na própria casa, depois de
terem recebido das mãos do Bispo o véu das vir­
gens. Entre estas estava a nossa Santa.
Faziam, primeiramente, o pedido para serem
recebidas entre as virgens sagradas; passavam, de­
pois, por um determinado período de observação,
de experiência, e, por fim, eram aceitas. O dia da
vestição era, par1:1. elas, o dia das místicas núpcias
com o Cordeiro que se apascenta entre os lírios.
Dia longamente sonhado e desejado, e, para o qual,
se preparavam com penitências, orações, esmolas
e prática de tôdas as virtudes. Essas boas obras eram
as jóias com que se ornamentavam, numa santa
rivalidade entre si, para mais agradar ao Espôso.
Na cabeça costumavam usar uma guirlanda de
flôres frescas e perfumosas, único enfeite sôbre o

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cândido e simbólico véu que as declarava mortas
para o mundo e seus prazeres; vivas só para o amor
de Deus e do próximo.
Nas reuniões, as virgens sagradas tinham lu­
gares reservados à parte, e menção especial nas
orações: pro devoto femineo sexu, devendo notar-se,
aqui, que, devoto, quer dizer unido a Deus por um
voto. Vivendo nas próprias casas, porém, usavam
os trajes comuns.
O voto era solene e perpétuo; violâ-lo consti­
tuia um sacrilégio.
Na Africa eram admitidas ao voto, com 25 anos
e na Espanha com 40. Em circunstâncias especiais,
como nos tempos de perseguição, eram aceitas mes­
mo antes dessa idade como aconteceu com Sta. Inês.
A cerimônia da entrega dos véus cabia ao Bis­
po e se realizava nas festas maiores, com grande
solenidade. No sacramentârio Leoniano encontra­
mos um excelente Prefâcio para essa solenidade e
a liturgia gaulêsa acrescenta-lhe ritos comoventes,
como a entrega do anel, o subharratio, ao qual
Sta. Inês se refere quando diz: anulo suo subbarra­
vit me, a coração, o cortêj o das paraninfas.
A comunidade dos cristãos dedicara-lhes a ma­
xima veneração.
S. Ciprião, no seu livro "Tratado sôbre o vestir
e o viver das virgens" honra singularmente a con­
dição das mesmas, chamando-as a flôr da Igrej a, o
ornamento e o brilho da graça espiritual, a perfei­
ção da honra e da glória, a imagem de Deus, cor­
respondente à santidade do Senhor e parte mais
ilustre da grei de Jesus Cristo.
"Elas, acrescenta, vêm logo depois dos márti­
res, e, justamente porque é grande e sublime a sua
glória, grande e contmua deve ser a sua vigilância
sôbre si próprias."

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Inês não necessitava de emulações para a prã­
tica do bem, a grande caridade para com Deus, que
lhe ardia no coração, qual fogo que se não pode con­
ter nem encobrir, manifestava-se na caridade para
com o próximo. Quisera que todos participassem
da sua fé e da sua felicidade, e , se quisermos dar
crédito aos atos gregos e sírios da santa, empenhou­
-se ela com tôda a diligência em tomar conhecida,
dos pagãos, a fé em Jesus Cristo. Em alguns dos
documentos do seu martírio, publicados pelo douto
cardeal Bartolini, diz-se que uma das causas do
mesmo, foi o ter ela pregado publicamente, a reli­
gião de Cristo. Não é provável que uma nobre don­
zela da sua idade pregasse às multidões, embora o
tenham feito, alguns séculos mais tarde, Sta. Rosa
de Viterbo e Sta. Catarina de Siena; mas, intrépida
e coraj osa, ansiando sempre dar a vida por Jesus
Cristo, não ocultava, por certo, a sua fé, procuran­
do torná-la cada vez mais conhecida e fazê-la abra­
çar por todos. E, palavras tão doces e insinuantes,
ditas com sorriso e candor angélico que seduzia,
confirmadas pelo exemplo de uma vida mais divina
que humana, não podiam deixar, certamente, de
produzir os mais copiosas frutos.
Ninguém era mais feliz do que a nossa santa
virgenzinha quando conseguia convencer alguma
rapariga a deixar as superstições dos gentíos para
inebriar-se com a luz da graça, do amor de Cristo.
Ah! se as nossas j ovens se inspirassem nos
exemplos de Sta. Inês, que de vantagens para a
moral pública, a fé, a paz e a honra das famílias!
Verdade é que, o ser chamada para o serviço de
Deus no estado virginal é uma graça singular, e se
o mundo necessita de almas de oração, e de vida
continente, não menos verdade é a necessidade de
boas mães de família. Estas, porém - verdadeiro

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prêmio que Deus concede a um j ovem bom - não
se formam na vaidade e na liberdade de costumes,
com os maus romances e teatros. Se Inês se pre­
parou pela oração e boas obras aos seus esponsais
com Deus, as j ovens destinadas a serem espôsas e
mães, sabendo que para a boa ordem da família é
necessária a graça de Deus, porquanto tudo o que
não é construído pelo Senhor, em breve ruirá, de­
vem preparar-se para o casamento, não com os noi­
vados excessivamente prolongados e semeados
de faltas, mas com orações, modéstia e meditação.
Quanto às privilegiadas, que ouvem a voz de
Deus chamando-as para uma vida mais perfeita,
que ouçam e atendam a êsse chamado por qualquer
prêço ! Não serão, como pensam alguns, inúteis à
sociedade; bem pelo contrário, pois existem milha­
res de crianças que não conheceram o sorriso ma­
terno e estão à espera dos seus cuidados, velhos
enfraquecidos de quem serão o apôio; enfermos a
quem levarão o lenitivo às suas dôres, e infiéis que
necessitam do seu apostolado.
Outra espécie de apostolado está confiado à
juventude da Ação Católica, mas, em muito, seme­
lhante ao realizado pela sua celeste Padroeira: além
da própria santificação, trabalharão pela santifica­
ção dos que a rodeiam. É o seu fervor na oração,
a fôrça da sua fé, a assiduidade à Mesa Eucarística,
um verdadeiro fóco de caridade que lhe sugerirá os
mil recursos necessários para reconduzir a Cristo
outros j ovens, quem sabe, os próprios irmãos ou, até,
os próprios pais, se afastados de Deus. Qual hon­
ra o seu chamado a essa forma de apostolado, tão
humilde e modesto em sua aparência, mas, tão útil
à Igrej a e tão querido por Deus!

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VII

PRIMíCIAS DA PROVA

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Quiseram, os pais de Inês, recebesse ela uma
educacão de acôrdo com a nobreza da família, sen­
do por isso enviada à escola. E' de crer, porém, não
frequentasse ela uma escola pagã e, sim, uma das
que as diaconisas mantinham para as crianças
cristãs. Nela era ensinado tudo o que convinha a
uma nobre donzela. O estudo dos poetas era
substituído pelo da poesia dos santos livros .
Aprendiam a lêr e a escrever; recebiam noções de
aritmética, para servirem, mais tarde, à economia
doméstica; raciocinando ante uma frase ou fato
importante, aprendiam um pouco de lógica. Quem
mais desejasse, instruir-se-ia com poesia, filosofia e
música. As crianças pertencentes às famílias dis­
tintas, eram acompanhada's pelo pedagogo e segui­
.
das por um escravo que levava os livros e as tábuas
para a escrita. Essas pessoas eram, sempre, pes­
soas de confiança. ( 1 ) Pecebe-se, daí, que os pró­
prios pagãos temiam, para os filhos, os perigos das
más companhias. Que dizer, então, dos cristãos?
Inês, como as demais, tinha a sua escolta para
ir à escola e voltar. Para ela, porém, a defesa
mais firme, encontrava-a no seu Anjo da Guarda e

(ll - A acompanhante podia ser a ama ou uma escrava, que,


por Incumbência dos pais, cuidavam das raparigas até o dia do
matrimõnlo e, às vezes, até mais tarde (Juvenal) . Em uma carta,
S. Jerônimo lamenta o mal causado pelas almas corruptas.
Inês, com certeza, recebeu uma boa vigilante, e foi justa­
mente d ela que fugiu, certo dia, não para a prática do mal mas,
para confessar heroicamente a sua fé diante dos tribunais.

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no santo temor de Deus. Era a sua habitual mo­
déstia que a preservava de qualquer perigo.
Quando a alma está habituada a considerar-se,
sempre, na presença de Deus, conserva-se pura
mesmo em meio a tôdas as seduções do mundo, evi­
tando-as o quanto possível ou, se obrigada ao seu
contato, saindo ilesa como os três j ovens que na
fornalha de Babilônia não se queimaram, nem fo­
ram sequer incomodados pelas terríveis chamas,
ou, ainda, como a casta Judite que se demorou di­
versos dias no campo do Holfernes, saindo ilibada
porquanto por uma nobre causa é que se expusera,
e o Anjo do Senhor a acompanhou.
Quando, porém, falta o temor de Deus, vã é
qualquer vigilância, porque a paixão que arde
no coração sabe sugerir, como ninguém, as as­
túcias e meios de enganar. Os pais não percebem a
infelicidade, a ruína dos filhos, senão quando o re­
médio j á se tornou ineficaz, por tardio.
Um dia em que Inês voltava da escola, sorriden­
te, modesta e solícita, como de costume, encontrou
por acaso, o filho de Simprônio, Semprônio ou
Semproniano, como lhe chamam os historiadores.
Deixemos aos eruditos a discussão sôbre o seu ver­
dadeiro nome ; chamemô-lo Sinforiano. Do filho,
a História não nos legou o nome. Sto. Afonso de
Liguori, baseando-se em Sto. Anselmo, chama-o Pro­
cópio. Adotaremos o mesmo nome.
Portanto, Procópio, j ovem, nobre, rico e orgu­
lhoso, assim que viu a menina, que mal ultrapas­
sara os doze anos, ficou imediatamente preso à
sua casta e ingênua beleza. Nenhuma das nobres
donzelas romanas, ainda que vestidas de sêda e
ornadas de ouro e j óias pareceu-lhe poder ser com­
parada à Inês, tão singela em seu vestido branco,
sem adôrnos nem j óias. Não teve mais um minu-

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to de tranquilidade. Seguiu-a para saber a que
família pertencia, e, tendo-a visto entrar no palácio
dos Clódia, compreendeu que era nobre, rica e dig­
na de unir o seu destino ao do filho do prefeito de
Roma.
De volta à própria casa, declarou ao pai, talvez
entre soluços, não poder mais viver longe daquela
meiga e encantadora criatura que lhe roubara o
coração.
O prefeito, tomadas as devidas informações,
aprovou plenamente a escolha e, talvez, êle mesmo
tenha se encarregado da missão de falar aos pais
da jovem para pedir-lhe a mão para o filho. E,
como é comum, nêsses casos, não poupou argu­
mentos, os mais persuasivos em favor da causa
que defendia, salientando as qualidades do filho,
a riqueza e nobreza da sua família, o alto pôsto
por êle mesmo ocupado, enfim, tôdas as razões
que um coração paterno pode inspirar para con­
seguir a felicidade do filho. Tudo, porém, foi em
vão.
Os pais de Inês, não querendo revelar a um
infiel o segrêdo da filha, usaram de todos os pre­
textos que puderam imaginar. Com certeza, entre
outros, a pouca idade da rapariga, concluindo com
uma recusa cortês, mas firme.
Qual tenha sido a decepção do jovem talvez
sej a impossível descrever. Quem sabe julgou que
o pai agira incompetentemente.
"Irei eu mesmo ; levar-lhe-ei ricos presentes e
veremos se a jovem saberá resistir à minha insis­
tência", terá dito.
Assim é que, em seus melhores trajes, fez-se
anunciar em casa de Inês. Em presença da jo­
vem, terá sentido aumentar-lhe ao extremo a pai­
xão que o assaltara. O que não terá êle dito, para
convencê-la ? Supondo que a firmeza da negativa

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se apoiava num descontentamento quanto ao valor
dos presentes ofertados, voltou novamente tra­
zendo, desta vez, um verdadeiro patrimônio em
j óins maravilhosas. Continuou o seu insistente
assédio, diréta e indiretamente, através de paren­
tes e amigos, fazendo as maiores promessas iina­
gináveis.
Mas, falara por êle, não o casto e ordenado
amor, mas a desfreiada e sensual paixão, e a santa
donzela, j á cansada, declarou-lhe finalmente os
seus verdadeiros sentimentos. Expulsou-o da sua
presença dizendo: "Afasta-te, fonte de pecado, ísc.:i.
malígna, alimento de morte. Vai-te para longe
de mim que pertenço a outro mais nobre por ori­
gem e dignidade. Ofereceu-me :Êle dons mais pre­
ciosos que os teus, e colocou em meu dedo o anel
de espôsa. 10rnou-me a dextra com uma pulseira
de inestimável preço, e o colo rodeou-me com pe­
dras preciosas, às orelhas prendeu esplêndidas
pérolas e todo o meu corpo, enfeitou-o com pe­
dras vivas e faiscantes. Vestiu-me com uma veste
de ouro e mostrou-me tesouros incomparáveis.
Tudo isso me prometeu se lhe íor fiel. E, para que
a outrem não dê o meu amor, assinalou-me a fron­
te. A ninguém mais posso amar, sem traí-10 .
Nunca mais poderei abandoná-10, pois jurei que
amaria a t:le sàmente. A sua generosidade é maior,
o seu poder mais forte, o aspecto mais belo e o
amor mais suave do que qualquer graça, e mais
eloquente. Já me preparou o tálamo; ressoam aos
meus ouvidos as harrnônicas vozes dos seus instru­
mentos musicais; j á iniciam os seus cantos as vir­
gens que O acompanham. Suguei junto à Sua
bôca, leite e mel; em castos amplexos j ã me atraiu
a Si e o Seu sangue enrubesce as minhas faces.
Sua mãe é virgem, seu pai não conhece mulher, os

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anjos O servem, o sol e a lua admiram-lhe a beleza.
Revivem os mortos somente ao Seu perfume; novas
fôrças infunde aos enfermos ou apenas o roçar das
Suas mãos, jamais lhe falta o poder, e as Suas
riquezas j amais diminuirão. Somente a �le serei
fiel, n�le somente confio. Amando-O sou casta,
tocando-O sou pura, possuindo-O sou virgem".
Ninguém melhor do que Sta. Ambrósio poderia
repetir as misteriosas palavras da estática rapari­
ga, que, falando, parecia ver, como o prato martir
.Sto. Estêvão aberto o céu com todos os seus esplen­
dores, Jesus, o espôso das virgens, infundindo-lhe
no coração o desprêzo mais profundo pelas coisas
do mundo e um desejo ardente de subir até lá,
imolando com grande alegria, a flôr da sua vida
para se mostrar digna do espôso celeste per nós
morto na cruz. Inês multiplica a enumeração dos
dons recebidos e prometidos pelo espôso, porque a
língua humana não tem palavras para dar uma
idéia das delícias do Céu.
Aprendei, ó virgens! - diz aqui S. Máximo
- Com o exemplo da heróica menina, a rechassar,
com tôdas as fôrças, os dons que vos poderiam si:: r
oferecidos pelos homens; recusai-os com todo 'l
horror que se teria pela dentada de um cão raivo­
so."

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VIII

TENTATIVAS INFRUTÍFERAS

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A medida que falava, a fisionomia de Inês ia
se animando cada vez mais, as faces enrubesciam,
os olhos brilhavam de luz não humana. As pala­
vras que saiam dos seus lábios, sempre mais ve­
ementes, e o mistério que ocultavam, feriam o jo­
vem patrício diretamente no coração.
Quem seria aquêle rival tão belo, tão rico, tão
poderoso que lhe contendia o coração da amada
rapariga? Conhecia bem os jovens da alta socie­
dade romana, e em nenhum reconhecia as qualida­
des enumeradas por Inês; nenhum podia com êle
competir em poderio e riqueza. Se, pelo menos,
Inês lhe desse um pouquinho de esperanças! Nada,
apenas a firme recusa. E essa mesma recusa
tornava-a ainda mais querida aos seus olhos.
Comparadas a ela, as demais donzelas não eram
mais do que fantoches a quem a vaidade e a futi­
lidade tiravam todo o valor. Nenhuma tinha o
esplendor de Inês que encantava mesmo na sim­
plicidade do seu trajar. O pobre rapaz não sabia
que tôda aquela beleza provinha da alma virginal
da jovem; e era para êle, filho do Prefeito, suma­
mente humilhante e doloroso ver-se assim recusa­
do e obrigado a se retirar.
Aprendam as jovens cristãs, que a beleza do
corpo, tão pouco duradoura aliás, nada é sem o
reflexo da alma. E' inútil buscar o prazer nos
artifícios, na moda, nas futilidades - de nada vale
um belíssimo cofre se não abrigar j óias; qual o
valor de uma linda cabeça sem cérebro, de uma

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bela aparência que carece, porém, de virtudes? O
homem que carece de virtudes morais, pode ter
certo valor se é inteligente ou corajoso, mas a mu­
lher que, pura e virtuosa, pode ser um anj o e um
verdadeiro tesouro, se não possui a virtude e bons
costumes, assemelha-se à borboleta que, tendo
perdidas as asas multicores não passa de um inseto
repugnante.
Raparigas, espelhai-vos em Inês, sêde anjos
para não serdes demônios 1
Sinforiano, profundamente aflito com a enfer­
midade do filho, recorreu aos médicos que foram
unânimes em declarar, depois do exame, tôda a
impotência dos seus recursos, pois a doença que
minava o enfermo era a febre do amor.
Para um orgulhct.so patrício, ocupando alto
pôsto, era coisa bem árdua humilhar-se, mas o
amor paterno era mais forte, e êle mesmo voltou à
casa de Inês para suplicar à jovem que se compa­
decesse do pobre moço. Inês não podia dar outra
resposta que a que dera ao filho, e assim repetiu:
"Estou comprometida com outro e não posso trai-
10. "
Se aos cristãos de pouca fé é tão difícil com­
preenderem o motivo de tão duros sacrifícios, como
o poderia compreender um pagão?
Chegamos, agora, a um ponto importante da
nossa história. Vimos Inês crescer no seio do lar
e da Igreja, qual lírio imaculado, alimentado com
o alimento divino da oração e da SS. Eucaristia;
vimo-la, irradiante de virginal beleza, acender de­
senfreada paixão no coração do jovem filho do
Prefeito de Roma, recusando o seu pedido e os pre­
ciosos presentes oferecidos, para se conservar fiel
ao espôso celeste.
Nós, que, graças a Deus, fomos instruídos nas

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verdades da fé, podemos de certo modo compre­
ender o coração de Inês e conhecer o segrêdo da
sua virtude. Como, porém, poderiam tê-lo com­
preendido os pagãos para quem, geralmente, a vir­
tude era uma palavra vazia, sem sentido, ou coisa
tão bela teoricamente quanto impossível de ser
praticada?
Sinforiano conhecia os cristãos através dos
comentários que corriam a respeito dos mesmos .
Para êle, o cristianismo não era mais do que uma
seita de feiticeiros vindos do oriente, capazes das
coisas mais impressionantes. Inês não era senão
uma feiticeira que, sob a aparência de simplicida­
de e virtudes, encantara o filho irremediàvelmente.
Como era costume, recorreu aos sacerdotes dos
seus falsos deuses, acérrimos inimigos do nome
cristão e que não tiveram dúvidas em aconselhá-lo.
Não fôra, há pouco, assinado o decreto de perse­
guição contra os cristãos? Não deviam ser êles
exterminados da face da terra? :mie, como prefeito
da metrópole estava, assim, obrigado a dar o exem­
plo da observância à ordem dos divinos imperadores.
:msse foi o conselho recebido, essa era a arma que
os deuses punham em suas mãos para destruir a
feiticeira e o seu encanto. Ou Inês cedia ou pa­
garia com a morte a sua obstinação.
Enquanto tudo isso se tramava, a santa vir­
gem preparava-se para o combate, multiplicando
as suas orações e jamais perdendo a paz do espí­
rito. Lembrava-se a todo o momento das palavras
do Redentor: "Não temais os homens que podem
matar o vosso corpo e nada mais podem fazer de­
pois; temei ao Senhor que, depois da morte pode
mandar vosso corpo e vossa alma para o inferno".
Julgamos, porém, que mais que o temor, era
o amor quem fortüicava a pequenina santa. Em

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tôdas as respostas que dá ao tirano, ante tôdas as
ameaças com que tentam amedrontá-la, inclusive
a mais temível para uma virgem, qual seja a da
desonra, mostra-se ela tão segura e serena, como
se visse continuamente ao seu lado, defendendo-a,
o próprio Jesus e os seus anj os. As belas palavras
do Salmo que frequentemente ouvia na igrej a, ou
ela própria cantava no côro das virgens, se lhe
imprimiram na mente e no coração para sua maior
segurança: "Quem confia no auxilio do Altíssimo,
viverá sob a proteção do Deus do céu. Ê:le dirá ao
Senhor: és o meu defensor e o meu refúgío; Ê:le é
o meu Deus e nÊle esperarei. Livrou-me da ar­
madilha dos caçadores e de duros sofrimentos .
Proteger-te-á com os seus braços e sob as suas asas
viverás tranquilo. A sua promessa te cobrirá co­
mo um escudo e não temerás os perigos noturnos .
Confiou-te à custódia dos seus anjos e êles te guar­
darão incessantemente. Andarás sôbre serpentes
lagartos, e pisarás o leão e o dragão. Porque êle
(diz o Senhor) esperou em mim, eu o livrarei;
protegê-lo-ei porque conheceu o meu nome. Le­
vantará a mim a sua voz e eu o atenderei ; estou
com êle na tribulação, libertá-lo-ei e o glorificarei.
Saciá-lo-ei com longos dias (na vida eterna) e
mostrar-lhe-ei o Salvador. " (Salmo 90)
A fé dos primeiros cristãos era vivíssima. Aliás,
como dizia S. Paulo, viviam de fé. E, consideran­
do tudo sob o ponto de vista da fé, usufruíam do
mundo só o que era necessário à vida, recusando
o supérfluo; as coisas pertenciam-lhes como uma
vestimenta de que podemos nos despojar sem dôr
alguma. Entre essas coisas contava-se, também,
uma, que faz parte do nosso sêr: o corpo. Esta­
vam sempre dispostos a sacrificá-lo quando Deus
lho pedisse. Nada buscavam além da graça, da
amizade, da posse de Deus. Nada temiam, além

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do pecado que é a perda de Deus. O confisco dos
bens não conseguia senão torná-los mais despren­
didos para mais fàcilmente voarem para o seu
Deus. Santüicavam as prisões, tornando-as re­
cintos de oração e recolhimento, qual águia que
contrài as penas para lançar-se ao vôo pelos es­
paços infinitos. O patíbulo não era para êles se­
não o altar onde sacrificavam o que pertence à
carne, para obter a vida eterna do espírito. E,
lembrando-se da ressurreição final, sacrificando o
corpo com passageiros tormentos, sabiam estar
subtraindo-o ao perigo do eterno tormento do in­
ferno e garantindo-lhe as puríssimas e sublimes
delícias do céu.
Reflita essa verdade quem se deixa levar pelas
violentas paixões do mundo; quem, para contentar
a avareza, a luxúria, a ambição, fica reduzido a
servo e miserável escravo de si mesmo, da matéria,
e se lembra que êsse é o caminho que conduz à
perdição da alma e do corpo.
Se a alma que confia em Deus, e lhe é fiel,
vive sincera e tranquila sob a sua proteção, a alma
escrava do pecado tudo teme; e o remorso, qual
lima surda e inexorável lhe tolhe a paz para
sempre.

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IX

PROMESSAS E AMEAÇAS

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Sinforiano sabe, agora, que Inês é cristã, e,
de acôrdo com a ordem recebida, deveria obrigá-la
a apostatar ou morrer. É pai, porém, e mais do·
que as leis, importa-lhe a saúde do filho. Está
pois disposto a fechar os olhos ante o problema da
religião da moça, desde que ela se curve aos dese­
j os do filho, que se debate entre o amor, os ciúmes,
a invej a e a vergonha da humilhação recebida.
Não se dignará porém, o Prefeito, de renovar
as súplicas; manda, agora, vir a j ovem e seus à
sua presença, escoltados por um bom número de
soldados. Inês é acusada de grave delito contra
as leis da pátria que proibem servir o verdadeiro
Deus. Ela bem compreende que a luta cada vez
mais se torna áspera e difícil. Antes, era-lhe pe­
dido o livre consentimento para se tornar espôsa
de Procópio; agora querem-na obrigar, pela fôrça,
sob pena de ser julgada e condenada como cristã,
de acôrdo com as leis imperiais que, em Roma, ti­
nham aceito oficialmente tôdas as religiões su­
persticiosas, excluindo apenas a religião verdadei­
ra, a de Cristo. E o motivo é fácil de compreender,
para quem observar que tôdas as demais religiões,
com os seus ídolos e ritos, prestavam culto a Sata­
nás, enquanto a religião do Cristo é a única que
visa varrer da superfície da Terra tão maléfico
domínio.
Sinforiano recebeu a rapariga com tôda a
pompa do seu cargo, para a intimidar; vendo-a,

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porém, calma e sorridente como na própria casa,
chamou-a à parte e, usando . de tôda a eloquência
de que é capaz um pai que ama verdadeiramente o
seu filho, procurou persuadí-la a aceitar a mão de
Procópio. Talvez tenha unido às súplicas as lá­
grimas, prometendo-lhe permissão para adorar
livremente o seu Cristo se se curvasse ao pedido
do filho. Não conhecia êle a fôrça e a constância
de que são capazes as virgens cristãs, e julgava
capricho o que não era senão firmeza inabalável
no santo propósito. Inês repetia sempre a mesma
resposta : "Estou comprometida com outro espôso,
mais nobre, rico e amável. Roubou-me o coração;
nem humanas promessas me seduzem, nem amea­
cas me atemorizam. Sou fiel ao meu único aman­
º
ié, n:f!:le confio com tôda a minha alma."
Que fazer? Por que desperdiçar palavras?
Sinforiano manda que a rapariga se retire e cha­
ma os pais da mesma, esperando que, mais
práticos nas coisas do mundo, e amando profun­
damente a filha, fôssem mais acessíveis e colabo­
rassem com êle para fazê-la ceder.
Qual engano ! :f!:les a tinham assim educado
para Cristo, como poderiam ser incoerentes? O seu
grande amor por Inês era mais divino que humano ;
amavam-lhe a alma, e nela a graça de Deus, bem
düerente, infelizmente, de muitos pais que cumula­
ram de carícias aos filhos esquecendo-se de lhe
aformosearem o espírito de onde, somente pode
provir a felicidade para o homem.
Sinforiano, profundamente indignado e humi­
lhado pelas duas novas recusas, quer dar vasão ao
ódio que lhe convulsiona a mente; mas em se tra­
tando de pessoas tão importantes e, pensando no
filho, busca outro recurso.

84
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Entrementes, manda pôr em liberdade a filha e
os pais.
í:stes j á antevêem perfeitamente o fim para o
qual se encaminham, e encorajam a jovem. A
oração e a Santa Comunhão completam a obra.
Sabem que todo o bem nos vem de Deus e a í:le
convem pedi-lo. Anelando e martírio, preparam ·
-se para esta sublime prova de amor e fidelidade.
Inês não teme a morte. A sua curta vida, ange­
licamente vivida, torna-a confiante ao extremo .
Aquele dia há tanto sonhado e desejado, não
será de luto, mas de gáudio completo ; será o dia
das núpcias com o espôso celeste. Assim como
as noivas, nas vésperas do casamento, procuram
terminar o enxoval e preparar as mil coisinhas
que poderão aumentar os seus encantos perante
o espôso, assim também Inês multiplicava as suas
boas obras e esmolas, aperfeiçoava as já esplên­
didas virtudes de que era tão rica, para melhor
agradar ao espôso celeste. Era a inocente pom­
binha preparando-se para Jevantar vôo para um
ninho mais seguro e mais belo. E, como Sta. Lú­
cia, pediu à mãe que distribuísse entre os pobres
o que destinava ao seu enxoval ; corno S. Louren­
ço, quando previu que iria morrer pela sua fé em
Cristo, dispensou aos indigentes os tesouros da
igreja, dos quais era depositário, acreditamos que
também Inês assim tinha feito, e já mais nada
a prendeu à terra. A sua fisionomia sempre tão
doce, tomava-se cada dia mais amável, fazendo
transparecer a paz interior e a alegria que lhe
ia n'alma, como brilha a neve nos cimos dos mon-
tes aos primeiros raios do sol.
Era uma alma, da qual teria dito S. Paulo,
o mundo não era digno de possuir.
E, se na vida de muitos santos, principal-

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mente dos inocentes, !emos que gozavam da in­
tilna conversa com Jesus, a Virgem e os anjos,
por que não supor que dela gozasse, especialmente
em seus últimos dias, a nossa ingênua virgenzi­
nha?
Se estivéssemos escrevendo um romance em
vez da história de uma vida, poderíamos deter­
-nos em fantasiar os devaneios do j ovem Procópio
e as inúteis consolações que procurava proporcio­
nar-lhe o desolado pai. Talvez o exortasse a se
esquecer da teimosa rapariga, ou prometesse tentar
mais uma vez convencê-la antes de acusá-la peran­
te os tribunais.
O que quer que imaginemos, devemos concor­
dar, era bem pouco para quem não pedia vingança
e sim amor.
Mais uma vez é Inês chamada à presença do
Prefeito que, porém, a ela se dirige na qualidade
de pai aflito, procurando comovê-la antes de ate­
morizá-la. Fala-lhe da febre que consome o filho
desde o dia em que a viu pela primeira vez. Julga-o,
até, condenado à morte.
Todos êsses argumentos deviam, com certeza,
comover a rapariga e qualquer outra coisa que se
lhe pedisse teria ela dado prazeirosa para aliviar o
sofrimento do infeliz moço; mas trocar Jesus
Cristo por Procópio, nunca !
Sirva êsse exemplo às raparigas cristãs para
que se mantenham firmes na virtude e no temor
de Deus, em lugar de ceder à ameaças ou lisonjas.
A sua firmeza •na virtude torna-as mais estimáveis
e, poroue não o dizer, maiores aos olhos não apenas
das pessoas honestas mas, mesmo dos libertinos
que, para com as moças fúteis têm, na realidade,
íntimo desprêzo.
Quando, finalmente, Sinforiano compreendeu
que para Inês a virgindade era mais querida do

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que a própria vida, sem, contudo, poder ter sequer
urna idéia ainda que vaga da excelência da vir­
gindade .no cristianismo, disse à mocinha: "Se
prezas tanto a virgindade, apressa-te em entrar
para o templo da deusa Vesta, onde velarãs dia e
noite os seus altares e o fogo sagrado."
Segundo a crença pagã, Vesta era a senhora
do fogo, símbolo da eternidade ; motivo, porque o
fogo devia arder ininterruptamente ante o seu
altar.
Para tal, percebendo os pagãos não ser digno
de servir a Deus quem não é puro, deputaram algu­
mas virgens sob pena de serem sepultadas vivas
no caso de traírem o seu juramento. Em recom­
pensa a essa virgindade, que não era nem perpétua
nem espontânea, recebiam elas honras e privilégios
particularíssimos.
Inês não podia senão compadecer-se da igno­
rância e simplicidade do Prefeito e, por isso, res­
pondeu-lhe: "Se desprezei o teu filho, o qual,
apesar da violenta paixão que o agita é um sêr
vivo, e o fiz pelo amor que dedico a Jesus Cristo,
como poderia eu venerar ídolos surdos, mudos, in­
consciêntes, sem alma?"
Ante esta resposta, declarou o Prefeito : "Se
não fosses tão jovem e, por isso, incapaz de racio­
cinar, ninguém me impediria de te castigar por
essa blasfêmia. Pensa bem antes de falar a fim
de não incorrer na ira dos deuses."
Inês, porém, não se amedronta: "Não supo­
nhas que por causa da minha tenra idade preze
tanto o teu favor ; a fé não se manifesta na idade
mas nos sentimentos, e o Deus onipotente dã valor
antes ao espírito que à idade. Quanto aos deuses,

87
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de cujo furor quererias defender-me, deixa-os ira­
rem-se a seu bel-prazer; que falem, mandem, se
me imponham se forem capazes, de se moverem,
me intimem a adorá-los ! . . .
Eu sei, e tu também o percebes, que isso é im­
possível ; faz, pois, o que melhor te agradar".

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X

PERANTE OS TRIBUNAIS

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Sinforiano sabe, agora, que Inês é cristã, e,
de acôrdo com a ordem recebida, deveria obrigá-la
a apostatar ou morrer. É pai, porém, e mais do·
que as leis, importa-lhe a saúde do filho. Está
pois disposto a fechar os olhos ante o problema da
religião da moça, desde que ela se curve aos dese­
jos do filho, que se debate entre o amor, os ciúmes,
a inveja e a vergonha da humilhação recebida.
Não se dignará porém, o Prefeito, de renovar
as súplicas; manda, agora, vir a j ovem e seus à
sua presença, escoltados por um bom número de
soldados. Inês é acusada de grave delito contra
as leis da pátria que proíbem servir o verdadeiro
Deus. Ela bem compreende que a luta cada vez
mais se torna áspera e difícil. Antes, era-lhe pe­
dido o livre consentimento para se tornar espôsa
de Procópio; agora querem-na obrigar, pela fôrça,
sob pena de ser julgada e condenada como cristã,
de acôrdo com as leis imperiais que, em Roma, ti­
nham aceito oficialmente tôdas as religiões su­
perst.iciosas, excluindo apenas a religião verdadei­
ra, a de Cristo. E o motivo é fácil de compreender,
para quem observar que tôdas as demais religiões,
com os seus ídolos e ritos, prestavam culto a Sata­
nás, enquanto a religião do Cristo é a única que
visa varrer da superfície da Terra tão maléfico
domínio.
Sinforiano recebeu a rapariga com tôda a
pompa do seu cargo, para a intimidar; vendo-a,

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pm·ém, calma e sorridente como na própria casa,
clmmou-o. à parte e, usando . de tôda a eloquência
llt• que é cupaz um pai que ama verdadeiramente o
Ht'U f llho, procurou persuadí-la a aceitar a mão de
Procópio. Talvez tenha unido às súplicas as Iã-
1.{t'lmus, prometendo-lhe permissão para adorar
livremente o seu Cristo se se curvasse ao pedido
do tuho. Não conhecia êle a fôrça e a constância
de que são capazes as virgens cristãs, e j ulgava
capricho o que não era senão firmeza inabalável
no santo propósito. Inês repetia sempre a mesma
i
resposta: • Estou comprometida com outro espôso,
mais nobre, rico e amãvel. Roubou-me o coração;
nem humanas promessas me seduzem, nem amea­
cas me atemorizam. Sou fiel ao meu único aman­
·
te, nt:Ie confio com tôda a minha alma,"
Que fazer? Por que desperdiçar palavras?
Sinforiano manda que a rapariga se retire e cha­
ma os pais da mesma, esperando que, mais
práticos nas coisas do mundo, e amando profun­
damente a filha, fôssem mais acessíveis e colabo­
rassem com êle para fazê-la ceder.
Qual engano ! :mies a tinham assim educado
para Cristo, como poderiam ser incoerentes? O seu
grande amor por Inês era mais divino que humano;
amavam-lhe a alma, e nela a graça de Deus, bem
diferente, infelizmente, de muitos pais que cumula­
ram de carícias aos filhos esquecendo-se de lhe
aformosearem o espírito de onde, sõmente pode
provir a felicidade para o homem.
Sinforiano, profundamente indignado e humi­
lhado pelas duas novas recusas, quer dar vasão ao
ódio que lhe convulsiona a mente; mas em se tra­
tando de pessoas tão importantes e, pensando no
filho, busca outro recurso.

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Entrementes, manda pôr em liberdade a filh11 e
os pais.
�stes j á antevêem perfeitamente o fim para o
qual se encaminham, e encoraj am a jovem. A
oração e a Santa Comunhão completam a obra.
Sabem que todo o bem nos vem de Deus e a Êle
convem pedi-lo. Anelando e martírio, preparam ·
-se para esta sublime prova de amor e fidelidade.
Inês não teme a morte. A sua curta vida, angê­
licamente vivida, torna-a confiante ao extremo .
Aquele dia há tanto sonhado e desejado, não
será de luto, mas de gáudio completo ; será o dia
das núpcias com o espôso celeste. Assim como
as noivas, nas vésperas do casamento, procuram
terminar o enxoval e preparar as mil coisinhas
que poderão auinentar os seus encantos perante
o espôso, assim também Inês multiplicava as suas
boas obras e esmolas, aperfeiçoava as já esplên­
didas virtudes de que era tão rica, para melhor
agradar ao espôso celeste. Era a inocente pom­
binha preparando-se para levantar vôo para um
ninho mais seguro e mais belo. E, como Sta. Lú­
cia, pediu à mãe que distribuísse entre os pobres
o que destinava ao seu enxoval ; como S. Louren­
ço, quando previu que iria morrer pela sua fé em
Cristo, dispensou aos indigentes os tesouros da
igreja, dos quais era depositário, acreditamos que
também Inês assim tinha feito, e já mais nada
a prendeu à terra. A sua fisionomia sempre tão
doce, tomava-se cada dia mais amável, fazendo
transparecer a paz interior e a alegria que lhe
ia n'alma, como brilha a neve nos cimos dos mon­
tes aos primeiros raios do sol
Era uma alma, da qual teria dito S. Paulo,
o mundo não era digno de possuir.
E, se na vida de muitos santos, principal-

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mente dos inocentes, !emos que gozavam da ín­
tlmu conversa com Jesus, a Virgem e os anjos,
pm· que não supor que dela gozasse, especialmente
''m sous últimos dias, a nossa ingênua virgenzi­
nho.?
Se estivéssemos escrevendo um romance em
vez da história de uma vida, poderíamos deter­
-nos em fantasiar os devaneios do jovem Procópio
e as inúteis consolações que procurava proporcio­
nar-lhe o desolado pai. Talvez o exortasse a se
esquecer da teimosa rapariga, ou prometesse tentar
mais uma vez convencê-la antes de acusã-la peran­
te os tribunais.
O que quer que imaginemos, devemos concor­
dar, era bem pouco para quem não pedia vingança
e sim amor.
Mais uma vez é Inês chamada à presença do
Prefeito que, porém, a ela se dirige na qualidade
de pai aflito, procurando comovê-la antes -de ate­
morizá-la. Fala-lhe da febre que consome o filho
desde o dia em que a viu pela primeira vez. Julga-o,
até, condenado à morte.
Todos êsses argumentos deviam, com certeza,
comover a rapariga e qualquer outra coisa que se
lhe pedisse teria ela dado prazeirosa para aliviar o
sofrimento do infeliz moço; mas trocar Jesus
Cristo por Procópio, nunca!
Sirva êsse exemplo às raparigas cristãs para
que se mantenham firmes na virtude e no temor
de Deus, em lugar de ceder à ameaças ou lisonjas.
A sua firmeza •na virtude torna-as mais estimâveis
e, poraue não o dizer, maiores aos olhos não apenas
das pessoas honestas mas, mesmo dos libertinos
que, para com as moças fúteis têm, na realidade,
intimo desprêzo.
Quando, finalmente, Sinforiano compreendeu
ouc para Inês a virgindade era mais querida do

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que a própria vida, sem, contudo, poder ter sequer
uma idéia ainda que vaga da excelência da vir­
gindade no cristianismo, disse à mocinha: "Se
prezas tanto a virgindade, apressa-te em entrar
para o templo da deusa Vesta, onde velarãs dia e
noite os seus altares e o fogo sagrado."
Segundo a crença pagã, Vesta era a senhora
do fogo, símbolo da eternidade; motivo, porque o
fogo devia arder ininterruptamente ante o seu
altar.
Para tal, percebendo os pagãos não ser digno
de servir a Deus quem não é puro, deputaram algu­
mas virgens sob pena de serem sepultadas vivas
no caso de trairem o seu juramento. Em recom­
pensa a essa virgindade, que não era nem perpétua
nem espontânea, recebiam elas honras e privilégios
particularíssimos.
Inês não podia senão compadecer-se da igno­
rância e simplicidade do Prefeito e, por isso, res­
pondeu-lhe: "Se desprezei o teu filho, o qual,
apesar da violenta paixão que o agita é um sêr
vivo, e o fiz pelo amor que dedico a Jesus Cristo,
como poderia eu venerar ídolos surdos, mudos, in­
consciêntes , sem alma?"
Ante esta resposta, declarou o Prefeito: "Se
não fosses tão jovem e, por isso, incapaz de racio­
cinar, ninguém me impediria de te castigar por
essa blasfêmia. Pensa bem antes de falar a fim
de não incorrer na ira dos deuses."
Inês, porém, não se amedronta : "Não supo­
nhas que por causa da minha tenra idade preze
tanto o teu favor ; a fé não se manifesta na idade
mas nos sentimentos, e o Deus onipotente dá valor
antes ao espírito que à idade. Quanto aos deuses,

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de cujo furor quererias defender-me, deixa-os ira­
rem-se a seu bel-prazer ; que falem, mandem, se
me imponham se forem capazes, de se moverem,
me intimem a adorá-los ! . . .
Eu sei, e tu também o percebes, que isso é im­
possível ; faz, pois, o que melhor te agradar".

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X

PERANTE OS TRIBUNAIS

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"Por minha causa sereis levados à presença de
governadores e reis, para dardes testemunho dian­
te dêles e dos gentíos. Quando, pois, vos entrega­
rem, não vos inquieteis com o modo, nem as pala­
vras que havereis de dizer ; porquanto nessa hora
vos será dado o que haveis de dizer ; porquanto
não sois vós que falais, mas o espírito de vosso Pai
que fala em vós." (Mateus X, 18)
Estas grandes palavras as proferiu Jesus para
os apóstolos e fiéis e são verdadeiramente maravi­
lhosas as respostas que os confessores da fé, fre­
quentemente ignorantes, mulheres e crianças, têm
sabido dar aos tiranos que, por sua vez, não sa­
biam retrucar senão com inj úrias e flagelos. Basta
ler os atos do martírio de S. Romano. Não saben­
do mais como convencer o j uiz Asclepíades, pois j á
usara os argumentos mais evidentes, chegando até
a falar depois de lhe terem amputado a língua,
disse por fim: "Agora me calarei, porquanto é-me
vedado atirar aos animais imundos as pedras pre­
ciosas do Cristo, porque não sejam elas pisadas por
êsses impuros. Mas, embora não me seja permiti­
do discutir contigo com razões profundas, usemos
de argumentos mais simples : interrogue-se o juízo
do senso comum não pervertido, e sej a árbitro quem
não sabe enganar. Chama uma criança de sete
anos, ou menos se quiseres, que não sabe nem en­
ganar nem adular, e vejamos o que nos diz a res­
peito das coisas que se devem crêr."
Asclepíades, concordou e mandou vir à presen-

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ça do mártir uma criança mal saída da primeira
infância. Voltando-se para Romano, mandou que
êle mesmo a interrogasse. Perguntou-lhe o már­
tir: "Meu filho, que te parece mais justo: adorar
um só Cristo e em Cristo o Pai, ou invocar os mui­
tos deuses dos pagãos?" A criança respondeu
sorrindo: "O sêr, qualquer que seja que os homens
chamam Deus, deve ser um só e único sob todos
os aspectos. Nem as crianças crêm em muitos
deuses".
Ficou o tirano muito admirado e enrubesceu
de vergonha. Como punir uma criança de tão
tenra idade por ter dito o que êle não desej ava
ouvir? Entretanto, dando vasão ao furor que o
dominava, perguntou : "E quem foi que te ensinou
a falar assim?"
- "Minha mãe - respondeu francamente o
inocente - e à minha mãe, foi Deus. Instruída
pelo Espírito Santo. com o leite ela me deu a fé
em Cristo ( 1 ) .
Que resposta dar a tão franca e maravilhosa
profissão de fé? Só a única arma dos tiranos e
prepotentes. Aquela criança foi martirizada, des­
membrada, morrendo nos braços da mãe que em
sua imensa dôr sentia-se, porém, feliz de dar a
Cristo tão precioso penhor da sua fé e acrescentar
um filho ao glorioso exército dos mârtires de Jesus.
Se nos ativermos à epígrafe com que o Papa
S . Dâmaso celebra a nossa santa mártir, devemos
pensar que os pais de Inês tenham j ulgado melhor
manter a rapariga em casa como que escondida.
Nunca é demasiada a prudência quando se trata
da salvação dos filhos, e bem sabim êles que, Inês,
i�orante da perversidade do mundo, comprome-

(1) - Rulnart - Ato dos Mé.rtires - Vol. III

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ter-se-ia fàcilmente. Quando, porém, se esparglu
a notícia de que a fúria impetuosa das perseguições
chegara a Roma, e que o decreto do extermínio
dos cristãos fôra publicado, j á começando a correr
novamente o sangue cristão, ninguém mais a con­
teve. Quantas vêzes, ouvindo contar a inabalável
firmeza dos santos confessores de Cristo, não pal­
pitara o seu coração pelo desej o de os imitar, e
reunir a corôa do martírio à da virgindade! Quan­
tas vêzes, em orações e nas Comunhões, não terá
ela pedido a Jesus a graça de lhe sacrüicar o pr�
prio sangue inocente!
O certo é que, um dia, iludindo a vigilância
dos pais, fugiu de casa e, intrepidamente, apre­
sentou-se aos tribunais declarando abertamente
ser cristã e estar absolutamente resolvida a per­
manecer fiel a Cristo até o seu último alento, mes­
mo à custa do seu sangue e da sua vida.
Foi, então, ordenada a sua prisão, e a virgem,
seguindo o exemplo do divino Mestre, vai sorri­
dente ao encontro dos soldados estendendo-lhes es­
pontaneamente os pulsos para serem manietados .
Mas, por mais que os soldados experimentem fazê­
-lo, não o conseguem, porque as correntes escorre­
gavam das mãos da rapariga cuj os pulsos demais
delicados mereciam bem outros braçaletes. Assim,
pois, livre, embora escoltada por soldados, foi ela
conduzida perante Sinforiano. :S:ste, humilhado
pelas recusas anteriores da jovem, entristecido com
o desespêro do filho, lembrou-se de recorrer a um
meio autorizado pelos antigos costumes e sancio­
nado pelo direito romano que vedava condenar à
morte as virgens.
Pensou o infame: Inês morrerá, mas não co­
mo virgem! Sugestão que, por certo, lhe terá feito
o demônio.

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Mas, Jesus Cristo, que venceu o demônio na
sua própria pessoa, fê-lo outra vez, na pessoa de
Inês. Eis como:
Quando a menina chegou à presença do Pre­
feito, não apenas intrépida, mas sorridente, como
sempre, com aquêle sorriso que brilha só nos lá­
bios dos inocentes, e, talvez, também, nos dos
anjos, disse-lhe êle:
"Recusas adorar os nossos deuses imortais e
obedecer ao decreto dos invíctos imperadores;
recusas prestar culto a Vesta, com as demais vir­
gens a ela consagradas. Não cedeu a tua obstina­
ção até agora; é chegado, porém, o momento de
te decidires definitivamente. Escolhe : ou oferecer
sacrifícios aos deuses, com as outras virgens, ou
ser arrastada ao bordel, com as mulheres perverti­
das. Lá não te seguirão, por certo, os cristãos que te
embeberam a alma com as suas magias até faze­
rem-te crêr capaz de suportares com alma intrépi­
da tão grande desventura ! Sacrifica, pois, à deusa
Vesta, com honra para a tua ilustre família; ou, pelo
contrário, cobri-la-ás com o lôdo da ignomínia em
que serás lançada."
Pavorosa alternativa! Execranda ameaça!
Quantas mulheres honestas e virgens cristãs se
salvaram da desonra com a morte! E, será êste
puríssimo cordeirinho lançado ao lôdo sem que al­
guém pense ou possa defendê-lo?
Inês, porém, não confia nas fôrças humanas,
pois bem sabe que quem nelas se apoia, está se
apoiando em caniço quebradiço. Ama a Jesus e
sabe-se por ::&:le amada ; que deve temer?
Assim é que respondeu a Sinforiano : "Se co­
nhecesses o meu Deus, não falarias assim. Eu,
porém, que conheço o poder do meu Senhor Jesus
Cristo, desprezo as tuas ameaças. Tenho certeza

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que não sacrificarei aos teus ídolos e não­
serei, também, contaminada pela imundície. Comi­
go está o Anjo do Senhor, para guardar o meu
corpo, e o Filho Unigênito de Deus, que tu desco­
nheces, é para mim uma muralha inexpugnável,
guarda que nunca dorme, defesa que nunca fa­
lha. Os teus deuses, porém, ou são de bronze,.
que melhor teria sido utilizado fazendo caçarolas,
ou são de pedra que, com mais vantagens, podiam
ser usadas para o calçamento das ruas e, assim,
proteger-nos da lama.
A divindade não habita em pedras ou no bron­
ze, ou em qualquer outro metal, mas lá em cima,
no reino dos céus. A ti e aos teus semelhantes,
pois, se não abandonares êsse culto ainda em tem­
po, ameaça o mesmo fim. Corno êles foram tra­
balhados e fundidos no fogo, assim os seus adora­
dores serão lançados em um eterno incêndio, não
para se fundirem mas para que sejam confundidos
e pereçam."
Inês ameaçou com essa terrível verdade sôbre
o Inferno, a Sinforiano e todos os adora.dores dos
ídolos. Os cristãos, longe de esconder a própria
fé, professavam-na abertamente perante os juízes
e os instrumentos de martírios; e se não falavam
aos pagãos, dos mais sagrados mistérios, como o
da Eucaristia, para não dar - bem de acôrdo com
o preceito de Nosso Senhor - as coisas santas aos
çães e não lançar as pérolas diante dos porcos,
falavam, porém, claramente de um único Deus
verdadeiro e da encarnação de Seu filho, Jesus
Cristo; anunciavam a eternidade do prêmio reser­
vado aos bons e do castigo que aguarda os maus.
E, se esta franca profissão de fé, raramente con­
vencia os tiranos, quase sempre causava profunda
impressão entre o povo pagão que assistia ao jul-

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gamento e que, depois da morte do mãrtir, em
grande número se tornou cristão. Impossível,
pensavam, não ser verdadeira uma fé que dava
tanta eloquência, tanta convicção, tanta fôrça,
não apenas a homens maduros e fortes ante o sa­
crifício, mas a alquebrados velhos, tímidas mulhe­
res, delicadas jovens, tenras crianças. Realizava­
-se o que disse Tertuliano: "O. sangue dos mãrtires
é semente de cristãos."

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XI

CASTIGO INFAMANTE

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Os Padres da Igreja - principalmente os que
viveram entre o IV e o V século, como S. Jerônimo,
Sto. Ambrósio, Bispo de Milão, S. Máximo, Bispo de
Turim e o poeta cristão Prudêncio, - não poupam
adjetivos e argumentos ao tecer o elogio de Sta.
Inês, propondo-a como preclaro exemplo de intré­
pida virgindade. Virgindade essa que não foi
admirável só pelo zêlo meticuloso com que a conser­
vou a santa menina, como também pela maneira
pela qual Deus a protegeu.
Que a prova a que foi submetida a nossa pe­
quena virgem, não escandalize as almas de cons­
ciência delicada, mas antes aprendam, com êsse
exemplo, a serem fortes pela confiança que d�vem
depositar no Senhor, que nunca abandona as al­
mas que nt:le confiam. No dia em que, contra a
sua .vontade, Sta. Cecília foi entregue a um jovem
pagão, não teve o menor receio em declarar-lhe :
"Cuida, Valeriano, de m e respeitar, pois tenho sem­
pre ao meu lado um Anjo do Senhor, que vela pelo
meu corpo com o máximo zêlo." Conseguiu man­
ter-se virgem, converter o seu marido e o irmão
dêste, Tibúrcio, ambos mártires, mais tarde. Sta.
Lúcia, quando ameaçada de desonra, não se per­
turbou; e o Espírito Santo que habitava na sua
alma, tornou-a tão pesada que ninguém conseguiu
tirâ-la do lugar em que estava. Foi por isso que
S. Jerônirno, ante a extrema relutância da virgem
Demetríade em comparecer em público, temendo,

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assim, ofuscar o candor da sua alma, lhe escreveu:
''Que ó isso, Demetríade? Por que defendes com
tu.ntu timidez o teu pudor? E' preciso ser corajo­
sa. Se és tão temerosa em tempo de paz, que
1u.l'hu1, cntà.o, se devesses padecer martírio? Tu
que não és capaz de suportar a presença de teus
ig·uais, que farias ante o tribunal dos perseguido­
res? Se não te comovem os exemplos dos homens,
sirva-te de estímulo o exemplo da beata mártir
Inês, que soube vencer a própria idade, e o tirano
consagrou-lhe o título de virgem com a palma do
martírio." O Santo doutor não pensava, por cer­
to, impelir a discípula para o meio mundano, onde
uma j ovem que se respeita a si própria não deve
deter-se despreocupadamente; nem pensaria, tam­
bém, em dispensá-la da modéstia das vistas que é
espêlho da pureza da alma. Queria, apenas, que
a sua piedade tivesse mais desenvoltura e amabi­
lidade; queria dizer-lhe : evita, sim, os perigos, mas,
quando contra a tua vontade, te vires por êles
ameaçada, nada temas, Deus saberá bem defender­
-te. Bem a propósito, invocou o exemplo de Inês
que foi protegida pelo Senhor de maneira ainda
mais prodigiosa do que Cecília e Lúcia.
Sinforiano, profundamente ofendido com as pa­
lavras da virgem, enfureceu-se e ordenou, inconti­
nente, fôsse ela despida em plena rua, aos olhos
da multidão e conduzida pelas ruas da cidade, pre­
cedida de um batedor que iria proclamando em
altas vozes ter sido ela condenada à desonra por
ter blasfemado contra os deuses. Que prova mais
atroz? Atravessar assim, as populosas ruas de
Roma, ela sempre tão modesta e recatada em sua
atitude, a ponto de não ter sequer urna vez olhado
o filho do Prefeito que tantas vêzes a procurara!
Tão grande, porém, era a confiança em Deus,

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naquela alma angélica, que nem por um 1 1 1 1-1 t.n 1 1 t.c•
se sentiu perturbada. Pedira tan�o a proleçno de•
Jesus, com tanta fé procurara a Santa Comunhao
com essa intenção, que nenhuma dúvida lhe re.s­
tava a êsse respeito; contava absolutamente com n
intervenção divina no momento oportuno. Assim
é que, quando lhe tiraram as vestes, os seus cabe­
los cresceram miraculosamente cobrindo-a com
um manto de fios de ouro até os pés; e enquanto
percorria tranquila e intrépida as ruas da cidade,
a sua pessoa irradiava uma luz divina, tão ofus­
cante, que nenhum olhar profano ousou pousar-se
sôbre ela. Assemelhava-se não a uma ré conduzi­
da ao suplício, mas antes uma rainha com tôda a
pompa e majestade, acompanhada ao real palácio.
E aquêle lugar, até então infestado pelas mais
depravantes torpezas, ao entrar Inês pareceu mu­
dar-se, repentinamente, num santuário. Um anj o
do Senhor, todo resplandecente de luz divina guar­
dava a porta. Nenhum pagão podia atravessar
aauela luz; entrou sàmente a virgenzinha, cujo
primeiro gesto foi prostrar-se ao solo para agrade­
cer ao Senhor que assim a havia protegido. E
enauanto expandia a sua gratidão, apareceu-lhe
uma veste cândida com que logo se cobriu, dizendo :
"Ae:radeco-Te, meu Senhor Jesus Cristo, que, acei­
tando-me entre as tuas servas, mandaste me fôsse
preparada esta veste." E era ela tão bela e estava
tão bem talhada para o seu corpo que foi julgada
obra de mãos angélicas.
A multidão aue acompanhara a nobre e santa
donzela, composta de pagãos entre os quais não
faltavam, por certo, os jovens libertinos, com:ori­
rnia-se ante a porta, mas os aue ousavam diri�r o
olhar curioso para o interior daquêle quarto, fi­
cavam imediatamente ofuscados pelo resplendor

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da luz que de dentro se irradiava. E' conveniente
dizer-se que se sentiam, então, apoderados por um
sentimento até então estranho para êles; temor ou
veneração, pela criatura que lá dentro estava tôda
absorvida em seu Deus. Talvez, para mais de uma
pessoa, tenha sido êsse espetáculo insólito, o ponto
de partida de uma futura conversão. O que suce­
dia ao redor de lnês, não se podia atribuir nem à
magia, nem a artes diabólicas: uma nesga de céu
abrira-se por sôbre a virgem que Sinforiano conde­
nara ao extremo insulto. Era visível que Deus, o
Deus em quem ela acreditava, aquele Je$us tão ar­
dentemente invocado, estava ali, presente com o seu
poder, com a sua proteção visível. Uma criança
inexperta das artes do mundo, confiante apenas no
auxílio sobrenatural, mantinha impotente, os
curiosos. os soldados, o Prefeito de Roma. Do lugar
até então infame, parecia emanar o perfume dos
lírios: Inês santificara-o.
"Onde o diabo lhe preparara a perdição - diz
nessa altura S. Máximo - o Senhor preparou a
palma e a coroa da virgindade. A isto é que se pode
chamar vencer o inimigo em suas próprias teias.
Urna virgem é a.rrastada até urna casa onde reina
a libido, e vence, com a sua pureza, quem a aprisio­
nou. Corôa-se a virgindade onde sempre naufra­
gara a castidade. E os que a seguiram, com as
piores intenções, por certo, aprenderam, ainda que
a contragôsto a admirar a castidade. O diabo para
lá os levava impuros, corno servos seus, e eis que
de lá voltavam puros e servos de Deus".
Eis, porém, que um j ovem procura abrir-se
passagem, denodadamente, por entre aquela multi­
dão, chamando covardes a todos os que não tinham
ousado entrar na cela. A oaixão desenfreada, a ira,
o ódio tumultuavam-lhe rio coração. Clamava com

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tôdas as suas fôrças, pela vingança da recusa de
Inês: queria humilhar até o extremo a altiva pa­
trícia; direi quase, reabilitar-se perante os com­
panheiros que não o pouparam ante a derrota
sofrida.
"Ao ver, dizem os Atos, que os que haviam
entrado antes dêle saiam maravilhados e cheios
de veneração, Procópio insultava-os de incapazes,
vís, fracos, imbecís. Sem mais esperar, entrou
resolutamente na prisão onde a virgem estava a
orar. Também êle percebeu a luz que iluminava o
ambiente, mas não se atemorizou, e j á se aprestava
a pôr a mão sôbre a jovem, quando caíu de bruços
sufocado pelo diabo. A sua demora deu a entender
aos companheiros que êle conseguira o infame
intento, e alguém, que lhe era mais íntimo, adian­
tou-se para com êle se congratular. Mas, ao deparar
eom o amigo morto, pôs-se a gritar com tôdas as
fôrças de que dispunha: "Acorrei ! acorrei! roma­
nos. Com suas artes mágicas ela matou o filho do
Prefeito".
Aquêle grito encontrou imediato éco no meio
da multidão que não poupava ofensas à "feiticeira",
à "sacrílega assassina". Outros, entretanto, com­
·
preendendo a proteção que o Céu lhe concedia,
:aclamavam-na inocente e vítima de terrível injusti­
ça. Imediatamente espalha-se a noticia que chega
até o Prefeito o qual, como se atingido por u m
ráio, abandona correndo o palácio, chorando deses­
peradamente pelo filho perdido. Chegando à prisão
e constatando o cadáver do filho no chão, excla­
mou: "és a mais cruel das mulheres! Fizeste do
meu filho a vítima das tuas artes da magia?" E,
insultando e se lastimando, indagava qual a causa
daquela morte.
Respondeu-lhe Inês: "O demônio que domi-

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nava o teu filho impelindo-o ao pecado, levou-o
consigo. Porque os demais que aqui também esti­
veram continuam, entretanto, sãos e salvos? Por­
que todos souberam dar glória a Deus que me
enviou o seu anjo, que me vestiu com esta veste
e velou pelo meu corpo. a Cristo consagrado desde
b berço. Todos viram e adoraram o enviado do
Céu, e se retiraram ilesos. Ele, porém, assim Clue
entrou começou a me insultar e já estendia a su a
mão quando o Anjo do Senhor derrubou-o para
sempre".
Replicou, então, o Prefeito: "Acreditarei que
tudo isso não aconteceu por arte das tuas magias ..
somente se pedires ao teu anjo que restitua a vida
a meu filho".
Inês: "A vossa incredulidade, não merece
tanto do Senhor, mas como iá é tempo de oue se
manifeste o poder de Jesus Cristo, afastai-vo�
todos para que eu possa orar".

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XII

O PRODÍGIO E A PROFISSÃO DE FÉ

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Quanto tempo durou a oração da virgem? A
JI_istória não o diz. Estava certa, porém - assim
o dão a entender as suas palavras já citadas -
de obter a graça que ia pedir.
Que negaria a tão fiel e intrépida espôsa, o rei
do Céu? E ela confiava no anjo a quem costumava
oferecer as suas orações para serem apresentadas
a Jesus.
Imagine o leitor o estado de ânimo de Sinfo­
riano e os comentários dos demais, enquanto durou
a oração de Inês. O pobre pai estaria mais aflito
pela morte do filho ou consolado pela confiança
que demonstrara a jovem em sua oração? Difícil
era a sua situação, sem dúvida. Se Inês falhasse,
condená-la-ia à morte, sim, mas qual mísero con­
fôrto para a perda de um filho ! E se conseguisse
o seu intento? Seria obrigado a reconhecer a oni­
potência do Cristo . . . a adorá-lo, talvez, até, e
deixar o alto cargo que ocupava?
E a multidão? Rapidamente se espalhara a
promessa de Inês e, como sóe acontecer, as opiniões
eram as mais variadas.
Os fatos que se haviam sucedido aos olhos
de todos, eram indiscutíveis e tinham impressio­
nado mesmo aos mais empedernidos. Os cabelos
que salvaram o decôro da virgem, todos tinham
visto crescer; a luz, que enchia o antro para onde
a lf�varam, e a cândida veste que a cobria, todos
podiam ver.

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De onde viera tão linda roupa e tão bem
amoldada ao corpo da j ovem? Quais as causas da
morte de Procópio?
Os sacerdotes dos ídolos, porém, não se que­
riam dar por vencidos e procuravam agitar o
povo, repetindo que tudo era obra de magía; que
se devia cumprir em Inês a lei que mandava quei­
mar as feiticeiras.
De repente, por sôbre o murmúrio daquela
multidão ecôa um grito que a todos estremece:
"Deus é um só, e· é o Deus dos cristãos". Vãos são
todos os templos, vãos todos os deuses que neles
se adoram, incapazes de auxiliarem-se a si próprios
ou a quem quer que seja". Quem emitira grito.
tão sincero? Procópio. Exultaram os admiradores
de Inês e empalideceram de raiva os pagãos obsti­
nados. Muito evidente era o milagre, para poder
ser negado. Recorrer ao argumento da magia era
bem cômodo mas poderia tornar-se ridículo. Pro­
cópio, o perseguidor de Inês, o jovem pagão liber­
tino, lá estava são e salvo, arrancado à morte pelas
orações de Inês. Por onde andara o seu espírito
quando separado do corpo? Que vira? De onde
arrancara aquela franca e audaz profissão de fé
cristã?
Se. grande era a impressão causada no povo.
que dizer em Sinforiano? Reaver o filho com um
prodígio tal, era algo que sobrepujava a sua ima­
ginação, e Inês de quem já admirava a virtude
passou a ter a seus olhos proporções de gigante.
Procópio era-lhe devolvido não apenas vivo, mas
curado da violenta paixão que o dominara. Aliás,
é bem verossímil que além do dom da vida tenha
o jovem recebido o da fé, e nele se tenha realizado
mais esplendorosa ressurreição: a do espírito. O
que lhe tenha sucedido em seguida não nô-lo conta

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a História, mas é consolador pensar na probabilida­
de de que êle, que esperava de Inês uma felicidade
terrena, tenha, pelas suas orações, obtido a felici­
dade eterna ! Para nós, não menos consolador é
ver esta puríssima virgenzinha interceder com
tanto amor por um homem tão manchado pelos
pecados, conduzindo-o à fé e ao amor de Cristo ( 1 ) .
A purificação de um sítio infame; a conversão
e por isso a purificação de um jovem viciado; a
conversão, talvez, de tôda uma família, e muitos
espectadores, eis os maravilhosos efeitos da oração
de Sta. Inês. Prova isso, com tôda a evidência o
quanto é irresistivel a Deus a oração dos inocentes.
Fato tão importante deve ter repercutido de
maneira bastante profunda no espírito dos pagãos
que o presenciaram ou dele tiveram notícias, mas,
bem mais profunda e fértil deverá ter sido para
os cristãos, para os quais a vitória de Inês era a
vitória de Cristo e da Sua Igreja. Por certo louva­
ram condignamente o Senhor, que se serve de
pessoas aparentemente fracas, fortes, porém,, na
fé, para operar maravilhas. Terminada a perse­
gllição, que foi, aliás, a última, adquiriram o lugar
santificado pela virgem, e nele edificaram um
magnifico santuário de que se faz menção desde
o século VIII. Em j aneiro de 1 123, foi essa igreja
novamente consagrada pelo Papa Calixto II (o que
prova que a igreja precedente pela sua antigmdade
ameacava ruir) sob o título de "Ecclesia S. Agnetis
de criptis agonis ou de agone". Em 1384 foi ai
batizada a célebre Francisca Romana, cujo corpo
se conserva na Igreja nova de Sta . Maria no
Palatino. Nessa ocasião era a igreja de Sta. Inês,

(1) - Afirma-o também S. Mâ.ximo : "!:le que entrara lúbrico


ressurge casto : o libertino torna-se campeão da fé."

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igreja paroquial, sendo elevada ao grau de título
cardinalício por Leão X.
Inocêncio X, da ilustre família romana Pam­
phili, em 1652 mandou derrubá-la dando início à
construção de uma obra grandiosa, terminada pelo
célebre arquiteto Borromini que levantou a facha­
da característica de travertino ornada com colunas
grego-romanos e 2 campanários. O interior da
igreja é todo de mármore até a moldura das pare­
des, contendo preciosíssimos alto-relevos, um dos
quais representa Sta . Inês entre as chamas, e,
outro, Sta. Emerenciana apedrejada sôbre o
sepulcro da santa.
Por um lado da capela de Sta . Inês vai-se ao
subterrâneo no qual a jovem santa foi milagrosa­
mente salva da ignomínia. Uma estátua, feita por
mão de mestre, representa o prodígio com tanta
arte, verdade e devoção, que se tem a impressão de
presenciar realmente aquela comovedora cena. Os
antigos "affreschi" do subterrâneo foram recente­
mente restaurados pelo mestre na arte, Eugênio
Cisterna.
Assim quis a Igreja honrar, na terra, a virtude
de Inês, que teve tanta glória no céu e deixou para
os pósteros ilustre exemplo de fortaleza ao defen­
der o que deve ser mais precioso a uma jovem: a
sua virgindade.
Roma cristã, que tantas maravilhas tem para
exibir aos que a visitam, não se esqueceu do com­
bate e da vitória da sua cidadã, e a igreja que lhe
foi dedicada na estupenda praça Navona, sobressai­
-se por entre os demais edifícios pelas suas formas
graciosas, lançando aos céus a cruz dos seus cam­
panários como a nos dizer: Daqui levantou Inês
o seu vôo para o eterno repouso.

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XIII

SACRIFÍCIO CONSUMADO

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Os chefes da sinagoga, quando Jesus ressus­
citou Lázaro, tiveram o seguinte raciocínio:
"Ê!ste homem faz milagres, portanto . . . é
preciso eliminá-lo" Essa foi, sempre, a lógica dos
sequazes de Satanás, desde Caim até nós. Ou negar
o milagre, sempre que possível, ou suprimir quem
o opera, para não ser obrigado a crer e praticar o
bem.
O mesmo sucedeu no caso de Inês. Os sacer­
dotes e pontüices pagãos perceberam imediata­
mente a profunda impressão que o clamoroso
acontecimento produzira no espírito do povo;
outrossim, conheciam perfeitamente êsse povo, e
sabiam que no meio dêle havia celerados que
seriam capazes de atear fogo até no céu se lhes
fôsse possível. Serviram-se pois desses elementos,
para incitar os ânimos contra Inês, aparentar uma
sedição, afim de obrigar o Prefeito a pronunciar
contra a rapariga a sentença capital. Clamavam
a altas vozes: "Morte à feiticeira! Morte à malig­
na, que transtorna os espíritos e faz perder o
juizo ! "
Sinforiano, que se sentia satisfeito por ter
recuperado o filho e se propunha mandar pôr em
liberdade a mocinha, fica alarmado ante aquêles
gritos sediciosos. Conhece bem os sacerdotes e sabe
do que são capazes, e quão grande é a sua influên­
cia sôbre o povo. Por outro lado, j á se comprome­
tera em prender a jovem e, não sabendo como

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sair-se na questão, partiu, encarregando Aspásio,
o seu secretário de, se possível, acalmar o tumulto
e resolver a situação.
Aspásia não perdeu tempo. Ordenou que se
amontoasse, imediatamente, grande quantidade de
lenha para a foguei:ra que deveria ser lançada a
virgem.
As ordens foram prontamente obedecidas; a
fogueira está pronta; Inês é amarrada. Mais uma
vez, porém, quis Deus manifestar· o Seu poder. As
chamas dividiram-se sem ousar tocar, siquer, o
corpo da jovem, espalhando-se para os lados
exteriores da fogueira, queimando mesmo alguns
espectadores, que mais tinham se aproximado
para melhor apreciar os espasmos da vítima.
Inês, então, as mãos unidas, os límpidos olhos
voltados para o céu, assim orou: "Deus onipotente
e terrível, digno de tôda a adoração e honra, Pai
de N . S . Jesus Cristo, eu te bendigo porque por
Teu Filho unigênito, escapei às ameaças dos
ímpios e caminhei com pé imaculado por entre as
imundícies do demônio. Eis que agora o Espírito
Santo me rodeou com celeste rajada que extingue
o fogo ao meu redor, divide as chamas e o ardor
dêste incêndio se volta contra quem o preparou .
Eu te bendigo, Pai, digno de todos os louvores,
porque mesmo entre as chamas me convidas para
a tua companhia. Vejo agora tudo o que cri; possuo
o que esperei, abraço afinal tudo que tanto desej ei.
Confesso-te com os lábios e com o coração. Eis que
vou a Ti; a Ti, Deus verdadeiro e uno, que com
N . S . Jesus Cristo vive e reina por todos os séculos
dos séculos. Assim seja."
Admirável e comovedora oração, que nos faz
cada vez melhor conhecer o ânimo forte e as san­
tas aspirações da virgem. Percebe-se que j á se

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sente próxima à glória em que serã coroada a sua
virtude e o seu amor satisfeito plenamente. Quase
percebe, j á, o céu aberto e todo luz, onde Jesus a
convida para subir à eterna beatitude, que lhe
importa o mundo, as suas delícias e as suas honras
fugazes? Pisou-as sempre porque, desde pequena
soube avaliar-lhe tôda a vaidade.
E, enquanto o povo, ébrio de ódio grita
acusando-a, sempre, de feitiçaria ela chora a ce­
gueira daquela multidão que voluntariamente fe­
cha os olhos à verdade, e o coração a todo o senti­
mento de humanidade no meio daquelas pessoas
estão os seus pais, alguns cristãos e muitos pagãos
as quais a graça tocou, convencidos todos da sua
inocência e apiedados da dura prova que a espera;
que podem eles, porém, contra aquêle populacho
sedento de sangue? O próprio Aspásio, vendo o
prodígio do fogo que não conseguira queimar a
vítima, nem obscurecer-lhe o candor das vestes,
impressionado com o que lhe contara Sinforiano,
apressadamente, antes de partir, hesita, não quer
manchar-se com sangue inocente. A turba, porém,
fremia e ameaçava; os soldados mostravam-se inca­
pazes de frea-la, e êle imitou Pilatos, condenando
à morte quem sabia inocente.
Pronunciada a sentença, um urro ferino de
satisfação, qual o de uma vitória conquistada,
rcssôa no ar. O verdugo ao lado de Aspásia, recebe
ordens de cumprir a sentença.
Aquele coração endurecido no infame ofício,
�ente, porém, inexprimível comoção. Aquêle braço
que truncara tantas vidas impàssivelmente, treme
ngora. Olha a sua vitima. Lá está ela serena, e
resplandecente em suas vestes cândidas, com os
cabelos ainda soltos a lhe cairem pelo corpo, os
olhos azuis e serenos fixos no céu: O seu delicado

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pescoço poder-se-ia partir qual caule de delicada
flor. Porque, porém, truncar tão bela e tão santa
juventude? Hesita. Desejaria subtrair-se a tão
ingrata missão, mas o povo reclama a vítima, e
a própria Inês, curvando a cabeça e afastando os
cabelos convida-o a golpea-la. Fazendo, então,
violência contra si próprio, êle ergue a espada e
vibra o terrível golpe que atravessa o colo inocente,
fazendo j orrar em todas as direções o sangue
virginal.
Até mesmo nessa ocasião, mostrou, Inês, quão
maravilhosa era a sua modéstia. "Preocupada
escreve Sto. Ambrósio, com o seu pudor, juntou as
vestes de modo a impedir ficasse descoberta a
mínima parte do seu corpo; velara o rosto com a
mão, e ao cair, caiu de j oelhos."
Morta a virgem, os pais reclamam ansiosa­
mente - o seu corpo, e, enquanto Aspásio se retira
e a multidão se dispersa, de todos os lados acorrem
cristãos que procuram empapar naquela preciosa
relíquia pedaços de fazenda que passarão de gera­
ção em geração.
Quantas jovens companheiras de Inês não
terão reafirmado o proposito de se manterem fiéis
a Cristo até à morte! Mais uma vez tinham pre­
senciado como Deus protege e coroa a inocência.
Acabaram de conquistar mais uma protetora
no céu e um modêlo de virtudes. O Sumo Pontífice
inscreveu então o nome de Inês entre os dos santos,
fixando a celebração da sua festa em 21 de janeiro.
Mais tarde o seu nome foi inscrito entre os poucos
que o têm no Cânon da missa, durante a qual,
todos os sacerdotes do mundo católico o invocam
diariamente; e, depois, na ladainha de todos os
Santos, entre as maiores heroínas de Cristo.

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XIV

GLÓRIA NO CÉU E NA TERRA

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O poeta Vicenzo Monti, imagina a alma de
Ugo Basseville, assassinado pelo povo romano e
condenado a ver as ruinas semeadas pela revolução
francesa, lançando cheio de espanto e confusão,
um último olhar ao corpo crivado de feridas.
Não assim o grande poeta cristão Prudêncio,
que viveu no século da nossa santa. Comovido e
impressionado pelas virtudes que resplandeceram
em Inês, não diz que a alma deixou o corpo confusa
e espantada, mas descreve com toda a solenidade o
seu feliz ingresso no Céu. Que diferença!
Agora, lá do alto, é-lhe possível olhar a Roma
grande e perversa, forte ante os demais povos,
fraca ante os vícios; senhora do mundo, escrava
das mais torpes paixões; ninguém mais a poderá
agora perseguir ou prender. O seu desejo de feli­
cidade eterna está satisfeito completamente.
Abandonou-se no mar de todas as delícias porque
soube repelir desdenhosamente todos os prazeres
vãos e as passageiras delídas dêste mundo.
O seu corpo cândido pela perda de sangue foi
reverentemente disposto no túmulo preparado
com tôda a diligência e amor nas catacumbas
que ficam próximas à casa paterna, na "via"
Nomentana. 1!:sse túmulo é um altar no sentido
mais completo da palavra. Quer a Igreja que o
sacrifício da missa seja realizado sôbre o tumulo
dos Mártires em que Jesus Cristo continua e con­
tinuará a viver a sua paixão através dos séculos
até o fim do mundo. Até aquele grande dia, bem

1 H�
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triste para muitos, em que as cinzas dos Santos,
vivificadas pelo sôpro divino, recomporão os corpos
que a morte desfizera e, reunil.t.do-se à alma glo­
riosa, hão de ver a realização plena da justiça
divina. E diante dos mártires que se assentarão ao
lado do trono de Cristo, passarão os demônios
arrastando os perseguidores e tiranos para que
vejam a glória das suas vítimas antes de serem
tragados pelo inferno.
Oh! como há de ser linda e resplandecente a
jovem Inês, coberta com as joias do Espôso das
virgens, por amor de quem recusou os tesouros
que lhe ofereciam Sinforiano e Procópio! Oh!
como se sentirá feliz por ter rechassado o amor de
um j ovem impuro para poder conservar o lírio da
sua virgindade !
Inútil é, porém, esforçar-nos por querer des­
crever aquela glória celeste que S. Paulo disse ser
indescritível por língua humana. Contentemo­
nos em citar a que Inês teve, mesmo na terra,
desde o dia do sepultamento do seu corpo.
O seu túmulo tornou-se, quase que imediata­
mente, meta de piedosas peregrinações para os
cristãos. Crêmos, até, ser-nos lícito supor que os
pagãos, também, a eles se misturassem por curio­
sidade talvez, ou já atraídos pelas virtudes e mila­
gres da pequena virgem. Não conheciam ainda a
Cristo, senão através do resplendor daquela discí­
pula o que já lhes fazia compreender que um Deus
que tem semelhantes criaturas, as quais preferem
a morte, já não digo à desonra o que seria pouco,
mas as núpcias legítimas, criaturas tão desapegadas
da vaidade até recusar joias e riquezas, ambição e
poder; tão poderosas, até ressuscitar os mortos,
devia ser, sem dúvida, um Deus verdadeiro. E,
relembrando o grito de Procópio ao voltar à vida.

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que pensar? Aquêle grito espontâneo que fizera
tremer os ministros do demônio, não podia ser
senão a voz da verdade. E se entre êles estivessem
Sinforiano e Procópio, qual não devia ser a sua
dôr por serem os causadores da morte daquela
angélica rapariga? Imaginamos, até, Procópio, não
ainda bem instruido na religião do Cristo, abra­
çado ao frio mármore do túmulo da mártir, cho­
rando amargamente, e pedindo mil vezes perdão
por tê-la feito sofrer tanto, prometendo-lhe, talvez,
tornar-se discipulo de Jesus, a fim de lhe ser con­
cedida a paz, o perdão e a esperança de voltar a
vê-la, um dia, no céu.
O certo, porém, é que dia a dia aumentava o
número de cristãos que iam rezar junto ao sepulcro
da Santa, para fortificar a sua fé e preparar-se
talvez para o martírio. Entre êles estaria, por
certo, Emerenciana, a irmã de criação da pequena
mártir.
Ainda não batizada, mas j á inscrit&. entre o
número dos catecumenos, isto é; dos que se prepa­
ravam para o batismo, sofria . intensamente com
u ausência da santa irmã e amiga. Fôra ela quem
lhe soubera, melhor do que ninguém, inspirar o
nmor a Jesus Cristo, e, mais com o exemplo do
que com a palavra, lhe ensinará a prática das vir­
tudes. Como poder olvidá-la?
Os pagãos, principalmente os rapazes, os
corrompidos já pelos vícios, e, por isso, impossibi­
l i tados de compreenderem o procedimento dos
cristãos, perceberam o número sempre crescente
ele peregrinos às catacumbas e começaram a insul­
tú-los e atacá-los com pedras.
Os cristãos se dispersavam, mas um dia, os
moleques quiseram ir além e penetrar na gnita
onde se achava o túmulo da mártir. A entrada,

12 l
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porém dcpnrnram-se com uma rapariga que cho­
ra va e , apesar da sua fraqueza, não teve receio em
rcprrcnclê-los com estas palavras : "Inúteis, mise­
n'l.vels, covnrdes e crueis! Matai os que adoram o
Deu:-i onipotente, e para defender as pedras (refe­
riu-se aos ídolos de pedra) assassinai os homens
inocentes! " Corajosa menina que, embora ainda
não batizada ousa expôr-se, assim, à ira dos pagãos
para defender a fé em Jesus Cristo.
Os molecotes detiveram-se primeiramente
aturdidos ante aquelas palavras, mas, em vista da
fraqueza da criatura que tinham diante de si (pois
não podiam vêr além do que os olhos materiais lhe
permitiam) começaram a lançar grandes pedras
sôbre a pobre Emerenciana que caiu e ficou sepul­
tada sob as pedras como o proto martir, Estevão,
e como êle recomendando a Jesus a sua alma
batizada no próprio sangue e orando pelos seus
perseguidores que, orgulhosos da grande obra rea­
lizada, como se tivessem acabado de aniquilar uma
serpente venenosa, correram a contar o feito aos
demais.
Não ficaram, porém, sem o devido castigo. O
Senhor cuidou de vingar e glorificar imediata­
mente a sua fiel serva.
Assim descrevem os atos, o acontecimento:
"Justamente nesse momento sentiu-se terrível
terremoto, e não obstante o céu estar límpido, foi
tão grande o número de raios, trovões e relampa­
gos que a maior parte daquela estulta multidão
morreu de mêdo. Desde então, ninguém mais teve
coragem de incomodar os que iam rezar junto ao
túmulo de Inês. Os pais desta, vieram em compa­
nhia dos sacerdotes, à noite, e sepultaram o corpo
de Emerenciana perto do da bem-aventurada Inês.
A Igreja declarou Emerenciana batizada em seu

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próprio sangue e designou-lhe o dia 23 de j aneiro,
dois dias após a festa de sua amiga e protetora,
Hob o duplo título de virgem e mártir.
S. Tomaz, falando do tríplice batismo da água,
do desejo e do sangue, ressalta a excelência dêste
ú l timo porque provindo de um excelente e herói­
co ato de amor de Deus, conforme a palavra do
Divino Mestre : "Ninguém tem maior caridade do
c1ue aquele que dá a vida pelos seus amigos". E,
tendo Emerenciana encontrado morte tão cruel
pela sua fé e amor a J . Cristo, foi imediatamente
recebida entre o número dos Santos.
Quanto às palavras dos Atos: "a maior parte
daquela estulta multidão morreu de mêdo",
não devemos traduzir como sendo a população da
cidade mas dos pagãos que perseguiam e maltra­
tuvam os cristãos que acorriam ao túmulo de Inês,
especialmente os molecotes que lapidaram a pobre
F.merenciana.
O Céu castigou imediatamente os culpados e
a lição serviu a todos os pagãos que não ousaram
mais aproximar-se do local.
O sepulcro de Sta. Emerenciana pemaneceu
l �orado - não para os primeiros cristãos - até
o ano de 1 876 quando, a 1 0 de dezembro, foi des­
coberto pelo célebre arqueólogo Armellini. E' uma
cela bastante ampla, iluminada por claraboia. No
fundo, fica o sepulcro da santa e, sôbre êle, uma
t.rlbuna com ornatos de estuque, onde Armellini
« IPscobriu a epígrafe que recorda Emerenciana.
Hôbre um "arcosolio" à direita dois cordeirinhos
n n inhados diante de um lírio; incrustada na pare­
' ' " · à esquerda, uma cátedra de pedra vulcânica,
c·rH1uanto sôbre umit mesa sustentada por muitas
l'ol unas repousava o prato, sôbre o qual ardiam as
tn.mpadas.

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Nas paredes, diversas inscrições lembram
nomes e orações dos piedosos visitantes e peregri-
·

nos do IV século.
Dois cordeirinhos, postados diante de um
lírio ! Como não reconhecer nesse delicado simbolo,
Inês e Emerenciana, simples e puros cordeirinhos,
aos pés de Jesus que disse: "Eu sou o lírio dos
vales?" Por sua vez, Inês e Emerenciana são, tam­
bém, lírios cândidos pela intrépida virgindade. A
êste respeito, também, podemos referir a Jesus
aquelas palavras: "Cordeiro que se apascenta entre
os lírios".
Se o mundo, não obstante a profunda corrup­
ção do espírito e do coração, não foi ainda aniqui­
lado pela divina justiça, deve-o, j ustamente, a
tantas almas virginais que, como a flôr do lGtus,
boiam imaculadas por sôbre a podridão humana.

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XV

A APARIÇÃO

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Os cristãos visitavam com frequência o túmulo
de Inês e os pais, não podendo esquecê-la um só
momento, ai passavam longas horas do dia e até
da noite. Bendiziam ao Senhor por lhes ter dado
tão querido anjo, embora se lhes enchessem os
olhos de lágrimas ao recordar os seus padeci­
mentos.
Uma noite em que, como de costume oravam
e velavam j unto ao túmulo viram desfilar ante
seus olhos um cortêjo de virgens, todas vestidas de
ouro e rodeadas de luz. Atônitos ante o inesperado
espetáculo procuraram, contudo, a filha querida
entre as demais, e tiveram a suprema felicidade de
a ver rodeada por luz celestial, num manto dou­
rado caindo-lhe dos ombros e, no braço direito,
um cordeirinho mais cândido do que a neve. Dete­
ve-se, como as demais virgens, diante dos pais que
não podiam voltar a si tal a sua admiração, e lhes
dirigiu estas palavras: "Não me choreis como
morta; pelo contrário, alegrai-vos e regozij ai-vos
porque, como estas que me acompanham, fui
recebida na luz e alcancei no Céu Aquele, a quem,
na terra, amei com tôda a minha alma". Assim
dizendo, desapareceu.
Como dizer a consolação que a visão e as
palavras devem ter trazido à alma daqueles pais !
Se j á não mais podiam ver a filha querida aqui na
terra, tinham, porém, a certeza de revê-la, um
dia, no Céu. Não morrera para esta vida que passa,

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senão para renascer para a eternidade ; e quão
diferente das jovens mundanas nas quais já não
vive a virtude e a graça, e acabam por arrastar
pela lama a sua vida e o bom nome da família. A
estas sim, devemos chorar, porque exceto por
-uma graça especialíssima de Deus, estão perdidas
também para a eternidade!
O acontecimento da aparição, logo divulgado,
causou grande impressão entre os cristãos que,
cada vez mais numerosos, vinham ao túmulo da
mártir de Cristo, implorar proteção e se robuste­
cerem na fé, para enfrentar nova perseguição que,
engrossava as fileiras dos santos no Céu, mas
privava a Igrej a, na terra, das suas mais preciosas
j oias.
Julgamos único o fato de ter querido a própria
Igrej a recordar a aparição com uma festa especial,
fixada em 28 de janeiro e chamada : Sanctae Agne­
tis secundo, isto é ; Sta. Inês pela segunda vêz.
Isso nos prova qual foi, desde então, a veneração
dos fiéis pela santa virgem.
Da circunstância de, na sua aparição, trazer
ela um cordeirinho nos braços, originou-se a tradi­
ção de representá-la sempre assim ou com o car­
neirinho aos pés, bem como o uso de benzer esses
animaizinhos no dia da sua festa.
O ritual tem sua origem nos primeiros tempos
de paz concedidos à Igreja pelo edito de Constan­
tino, com a liberdade para o culto católico. Desde
havia três séculos, viviam os cristãos em contínuo
sobressalto, obrigados a se refugiarem nas cata­
cumbas e manter a sua fé oculta, não apenas a
estranhos como, também, frequentemente aos
próprios familiares. Sucedia muitas vêzes, um
marido cristão ter uma espôsa pagã; ou vice-versa,
assim como se encontravam misturados servos e

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escravos de ambas as situações religiosas. S. Paulo
afirmou que até mesmo no palácio imperial existia
uma fervorosa comunidade cristã.
Deocleciano, autor da última perseguição
geral -- em que a nossa Santa conseguiu a palma
do martírio - desejou sufocar a religião de Cristo
no sangue dos seus fiéis. O massacre foi imenso e
pavoro:so; quando, porém, apenas dez anos mais
tarde, Constantino concedeu liberdade à Igrej a e
os cristãos puderam sair dos seus esconderijos e
professar abertamente a própria fé, admiraram-se
êles mesmos de serem em tão grande número, e
vs pagãos ficavam boquiabertos.
O Imperador ainda não era cristão ; era a sua
mãe, Helena, que lhe inspirava sentimentos gene­
rosos para com a Igreja. Foi então que se ergueram
as primeiras basílicas ao Salvador, aos Apt>stolos
Pedro e Paulo;, bem como aos demais santos.
O Pontífice S. Silvestre contou nessa obra,
com o valioso apôio do imperador.
Começaram então a ser escritos os atos dos
mártires e recordados os seus gestos, as suas vidas
e as suas mortes gloriosas.
Talvez, então, para perpetuar a memória da
aparição de Inês, se tenha instituido a cerimonia
de benção dos cordeirinhos.
Eis como é ela, ainda hoje, celebrada:
No dia consagrado à santa, um Prelado cele­
bra solenemente o Santo Sacrifício, num altar
próximo ao sepulcro daquela pura ovelhinha do
Senhor na basílica a ela consagrada, na "via
Nomentana". Terminada a missa, são colocados
sobre o altar duas ovelhinhas ricamente adornadas,
as quais são aspergidas com agua benta e incen­
sadas pelo celebrante, enquanto são cantados
como antifanas, trechos extraidos dos atos de Sto.

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Ambrósio : Stans a dextris eius agnus nive candi­
dior, Christus sibi sponsam et martyrem conse­
cravit. O capítulo de S. João de Latrão manda três
emissários que recebem os cordeirinhos para levá­
-los ao Sumo Pontífice que, após lhe ter dado a
benção apostólica os emiia ao Decano dos Auditores
da Santa Roda, e êste os confia a um convento de
virgens onde serão cuidados. Na quarta-feira da
Semana Santa são êles tosados e da sua lã, tecidos
os sagrados pálios que, depois de tocados no Se­
pulcro de S. Pedro, são entregues aos novos
Patriarcas e arcebipos com a fórmula ritual :
desumptum de B. Petri corpore.
Assim, os principais pastores do rebanho de
Cristo, nas funções pontüicais, usam essa tira de
lã branca em que sobressaem pequenas cruzes
negras, recordando a todo o mundo, não apenas
Jesus, o cordeiro de Deus imolado pela salvação do
gênero humano, mas i gualmente Inês, a ovelhinha
pura que tanto amou Jesus Cristo e que por êle
expôs a sua vida aos tormentos e à morte. E a
sua cândida figura atravessa os séculos e as gera­
ções, sem perder o esplendor, porquanto as obras
de Deus não so�rem as vicissitudes do tempo. Assim
como S. Tomaz de Aquino resplandece ante os
olhos dos estudantes, indicando o caminho da
verdadeira ciência, S. Luiz Gonzaga é esplêndido
modelo de castidade e mortificação para os jovens,
assim também Inês, após tantos séculos é dada
pela Igrej a, às j ovens cristãs, como modêlo e es­
pecial protetora da Pia União das Filhas de Maria.

Imitem-lhe elas, a piedade, a obediência, a


simplicidade que repudia o luxo e as pompas mun­
danas, e, especialmente, o amor pela castidade,
pérola puríssima, tão difícil de ser conservada,
hoje em dia, entre a nefanda corrupção do século�

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XVI

CONSTANCIA

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Sta. Terezinha do Menino Jesus prometeu
que, ao subir ao Céu, faria cair uma chuva de
rosas sôbre a terra, o que não ficou sem cumpri­
mento como todos sabemos.
Sta. Inês, se não fez semelhante promessa,
tem, entretanto, cumulado a Igreja com preciosas
graças desde o dia que partiu para os Céus.
A sua aparição aos pais, foi largamente pro­
pagada pela cidade, e, durante muitos anos, era
transmitida de pessôa a pessôa . Assim é que, dez
anos mais tarde, quando Constantino, após vencer
Maxêncio, ocupou o trono imperial, falava-se ainda
a respeito. A memória de Inês estava sempre viva
no coração dos romanos, muitos dos quais acor­
riam com frequência ao seu túmulo.
Constantino tinha uma filha jovem, chamada
Constância, virgem mas pagã, vitimada por ter­
rível moléstia - lepra, talvez - que lhe abria
chagas em todo o corpo. O mal era incurável e a
pobre rapariga "Iria-se excluída do convívio dos
demais, consumindo-se lentamente na flôr da
idade.
Certa ocasião, talvez por intermédio de algu­
ma empregada cristã, ouviu falar de Inês, da sua
virtude, do seu martírio, da sua glória e das gra­
ças que alcançava para os seus devotos. Desejou
então, recorrer a ela para alcançar o inestimável
rlom da saúde. Pensava assim:. "Sou pagã, é ver­
dade, mas se tem o bom coração de que me falam,
<� é tão poderosa diante de :b eus, creiÕ não que-
·

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rerã abandonar-me ao desespêro. Assim pensando,
a nobre rapariga, simplesmente, sem cortêjo, pediu
para ser levada ao túmulo da nossa santinha.
Chegou à noitinha, e entre gemidos e lágrimas
implorou o auxilio da mártir de Cristo. Aos poucos,
adormeceu tranquilamente, como há muito não o
fazia. Em sonho, pareceu-lhe ver abrir-se o céu,
dele descer Inês toda fulgurante de luz e dirigir-lhe
estas palavras: "Anima-te e sê constante, Cons­
tância; crê que Nosso Senhor Jesus Cristo Filho de
Deus é o teu Salvador, e que, por Ele, ficarás
curada de todos os teus sofrimentos".
Após estas palavras, a rapariga acordou e
sentiu um bem-estar geral, em tôda a sua pessôa.
Estaria ainda sonhando? Não pôde crêr ao que
vê. O coração palpita-lhe desordenadamente entre
a alegria e o temor. Finalmente, convencida da.
magnífica realidade, num ímpeto de gratidão,
lança-se sôbre o frio mârmore que guarda os restos
mortais da sua benfeitora, e é de se crêr que, por
entre comovidas expressões de agradecimento, ali,
àquela hora noturna, em meio ao mais profundo
silêncio humano tenha formulado o primeiro ato
de fé, daquela fé que Sta. Inês lhe ordenara: "Sim,
CTeio, creio que Jesus Cristo, Filho de Deus, é o
Salvador, Ele é quem me curou tão prodigiosa­
mente".
O milagre era evidente. Quando Constância
chegou ao palácio, toda resplandecente de saúde
e juventude, difícil serã dizer a impressão que o
fato causou ao Imperador, à côrte e todo o povo.
Os cristãos exultaram e louvaram ao Senhor; os
pagãos ficaram confundidos, e os seus sacerdotes
perceberam, atemorizados, os progressos da reli­
gião do Nazareno enquanto os altares dos ídolos
cada vez mais iam caindo no esquecimento.

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É-nos licito pensar que Elena, a piedosa mãe
de Constantino, se servisse do fato para uma ativa
propaganda em prol da verdadeira fé, e renovasse
os seus pedidos ao filho para se tornar cristão.
:l!:ste j á o fizera em espírito, desejava, porém,
receber o batismo nas águas santüicadas do Jor­
dão. Diz-nos a História que o seu desejo não foi
satisfeito, porque, dirigindo-se a Nicomédia, adoe­
ceu, recebendo o sacramento às portas da morte.
Com a propagação da fé em Roma e na côrte
I mperial, propagava-se também a devoção à peque­
na virgem, a quem cabia tanto mérito pelos mes­
mos. Constância, por <!erto, não cessava de ben­
dizer a sua celestial benfeitora, e, recebido o ba­
tismo, resolveu imitar-lhe as virtudes e consagrar
a Deus a flôr da sua virgindade. Quantas vêzes,
confundida por entre a turba dos fiéis, visitara o
túmulo da mártir, para invocar a sua proteção !
Se o seu primeiro desejo foi o de edüicar sôbre o
sepulcro da Santa, uma imponente basílica, acres­
centou-lhe imediatamente outro: o de ser sepul­
tada ao seu lado.
Os leitores, por certo, terão prazer em conhe­
cer alguma coisa a êsse respeito. Aliás, tendo sido
Inês sepultada na catacumba que tem o seu nome,
diremos algumas palavras sôbre a origem e estru­
tura das catacumbas romanas, para falar, depois,
da de Sta. Inês e da basílica que se lhe sobrepõe,
um dos mais bem conservados edifícios antigos da
Roma cristã.

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XVII

AS CATACUMBAS
A Basílica de Sta. Inês

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As catacumbas são verdadeiros labirintos
subterrâneos, corredores mais ou menos altos, qua­
se sempre muito estreitos, que se cruzam e se in­
terceptam em todos os sentidos, estendendo-se até
por diversos quilômetros. Não são senão cemitérios
em que os cristãos depunham os corpos dos mortos
em arcas, umas ou nichos escavados na rocha,
fechando-os com um lastro de pedra em que era
inciso o nome do defunto, às vêzes acrescido do
da família, da 1dade, alguma invocação, ou qual­
quer outra circunstância.
Frequentemente acrescentavam-lhe um sim.­
bolo ou um pensamento de fé.
Aos cristãos era grato repousar para sempre
junto ao túmulo de um mârtir, como se assim
pudessem ser mais favorecidos perante o tribunal
divino. Muitas epígrafes, ainda conservadas, nos
provam essa predileção, bem como o desêjo de não
ecrem perturbados na paz do sepulcro.
Citamos duas, apenas:
"Adiuro vos onmes christiani et te, custode
br.ati Juliani P. Do et pro tremenda die iudicil
lume sepulchrum nunquam ullo tempore violetur,
•md conservet usque ad finem mundi ut possim
Rlne impedimento in vita redire cum venerit qui
·

lmllcaturus est vivos et mortuos.


Essas palavras, qu:e nada têm de elegantes,
rl lzem, porém, que o morto, colocado sob a proteção
<lc S. Julião, esconjura a quem quer 9ue intente

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perturbar a paz dos seus ossos, para que possam
aguardar na tranquilidade do sepulcro a vinda
d.Aquele que há de julgar os vivos e os mortos.
A segunda inscrição é a que se lê no túmulo
do sub-diácono Ursiniano, o qual quis ser colocado
junto aos sepulcros dos santos para se vêr prote­
gido do furibundo tártaro e do eterno castigo:
Ursiniano subdiacono (?) sub hoc tumulo ossa
quiescunt
Qui meruit sanctorum sociari sepulcris Quem
nec ta1·tarus ferrens nec poena saeva, nocebit.
Além das inscrições lápidares, ternos o teste­
munho claro dos santos Bispos e Doutores contem­
porâneos. S. Máximo escreve: "Os mártires velam
por nós enquanto vivemos, nos recebem quando
partimos desta vida para que não sejamos absor­
vidos pelo lôdo dos pecados, nem sepultados nos
horrores do inferno.
Por isso, os nossos antepassados adotaram o
sistema de sepultar os fiéis próximos aos santos,
a fim de que, pelo temor que o demônio tem dêstes
últimos, não ouse causar-lhes danos; e, enquanto,
Cristo os reveste de luz, se afaste de nós a caligem
das trevas."
Sto. Ambrósio, falando da morte de Sátira, seu
irmão, escreve : "Sentir-me-ei mais seguro se puder
repousar os meus ossos sobre o corpo de um
santo".
Dissemos que o féretro virginal de Inês foi
colocado no pequeno sepulcro da família, em uma
pequena possessão (agelleis) na via Nomentana.
Quando Constância mandou edificar a basílica,
houve aí um reboliço, que provocou a destruição
do túmulo primitivo. O corpo da mártir, porém,
permaneceu no mesmo lugar, junto às primeiras
grades do cemitério. Uma pequena lápide de már-

140
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more branco (cm. 66x33) , conservada no museu
nacional de Nápoles, indicada no catálogo como
proveniente da coleção Borgia de Vellet-i - e dt>
origem certamente romana - parece ser o már­
more que cobria o túmulo da virgem mártir.
AGNE - SANCTISSIMA
O epíteto sanctissima é um elogio raramente
adotado pelos incisores cristãos. Se os fiéis, desde
os primeiros tempos, foram chamados santos, isto
quer apenas dizer, que eram todos irmãos em
Cristo: Neste caso particular, porém, o titulo desig­
na uma personagem honrada com o culto público;
o que demonstra que o culto de Sta. Inês sucedeu
imediatamente ao seu sepultamento.
· Na última perseguição, inúmeros foram os
cristãos de todas as idades, sexo e condições, que
deram a vida por Cristo. Se a nossa santa, apesar
de seguida por tão copiosa messe de mártires bri­
lhou tanto, a ponto de despertar particular entu­
siasmo e especial devoção, e ser cantada e cele­
\Jrada pelos grandes Bispos e Doutores contem­
porâneos, isso indica que as circunstâncias da sua
vida e da sua morte foram verdadeiramente sin­
gulares. O obscuro gravador que tão grosseira­
mente gravou sôbre a pedra tumular de Inês o
título singularmente glorioso de sanctissima, ex­
primiu o sentimento de tôda a Igreja Romana; foi
uma solene canonização feita pelo próprio povo.
Assim que Inês foi deposta no túmulo para
ela preparado, pelos pais, nos seus domínios da via
Nomentana, muitos cristãos, entusiasmados pelas
virtudes por ela praticadas em vida e, principal­
mente, pelo seu martírio, mandaram logo construir
os seus sepulcros próximos ao dela, de onde, então,
ae originou a Catacumba que lhe leva o nome, ou,
pelo menos, o seu alargamento.

14J
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Parece-nos que parte da catacumba - a que
se estende para a esquerda da Basílica - seja
anterior ao III século, mais recente que a que se
estende entre a Basílica, a via Nomentana e Santa
Constância, formando dois grupos de galerias do
IV século, ainda muito bem conservadas.
Quando mais acesa ia a perseguição, as cata­
cumbas serviam de refúgio ao Pontífice - que ai
celebrava os divinos mistérios - ao clero e ao
povo que, então, de maneira particular, costumava
visitar o túmulo dos mártires.
Nos intervalos, entre uma e outra perseguição,
visitavam aquelas tumbas, especialmente nos ani­
versários do sepultamento, dia que passou a ser
consagrado à memória do santo. O Pontífice ai
celebrava a missa; cantavam-se hinos ao Mártir e
se lhe teciam louvores. O costume manteve-se,
depois, mesmo em tempos de paz. Quando foi pos­
sível levantar basílicas e celebrar publicamente os
Santos Mistérios, o Pontífice, seguido pelo povo,
dirigia-se à Igreja dedicada ao Santo a quem era
consagrado aquêle dia, e fazia-se o que ainda hoje
se chama "statio". Os que dispõem de um missal,
podem ler, logo abaixo do título da Missa de certos
dias, a seguinte nota : Statio ad Sanctum Petrum,
ad Sanctum Paulum, ad Sanctam Coeciliam . . .
Anastasiam. O que equivale a : hoj e o Pontífice
celebra nesta ou naquela Igreja.
Depois destas breves notas, falemos da basíli­
ca de Sta. Inês, pràpriamente.
Dissemos que foi construída por ordem de
Constância, em sinal de gratidão, pela graça re­
cebida, e de veneração pela Santa. Não se
sabe exatamente o ano em que foi iniciada a sua
construção. Certo é, porém, que existia antes de
358. Somos levados a crêr que a piedosa princesa

1 42
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tenha se apressado a cumprir a sua promessa logo
após a assinatura do decreto que concedia paz à
Igrej a. E, enquanto o imperador, seu pai - aconse­
lhado pelo Papa S. Silvestre - pensava na cons­
t rução da basílica ao SS. Salvador, Constância
pensava na sua querida Sta. Inês, tomando tôdas as
precauções para que o templo, que mandara cons­
trmr sóbre o túmulo da santinha, fôsse rico em
mármore, como convinha à invícta heroína de
Cristo, a quem queria dedicar-se, e à munificência
da imperial princesa, sua idealizadora.
A atual basílica, porém, embora antiquíssima�
não é exatamente a de Constância, porquanto,.
prejudicada pelo tempo ou pelas inúmeras inva­
sões dos exércitos inimigos, foi reconstruída por
diversas vêzes, no século V e VII, pelos Pontífices
Simmaco e Onório I.
Desde essa época, por se achar fora dos muros
de Roma, foi vítima das incursões dos Longobardos,
Frederico II e do saque de Roma em 1524. Foi,
porém, sempre restaurada e embelezada pelos Su­
mos Pontífices e pelo povo, que j amais esqueceu
a sua Santa, orgulho e glória da nobreza e juven­
tude romana.
A Basílica é precedida por um âtrio fechado,
õestinado, de acôrdo com os costumes antigos, aos
catecúmenos e penitentes; ao lado do templo, exis­
te outro átrio, pequeno, rodeado de roseiras multi­
cores, que dão à austeridade do edüício uma nota
de brejeirice.
Desce à Igreja, por uma escada de 43 degreus
divididos em 8 lances. Ao fundo da escada, numa
lápide, estão gTavados os versos em que o Papa S.
Dâmaso - do século IV - recorda as virtudes da
santa. Vale a pena reproduzí-los:

143 ·
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Fama refert sanctos dudum retulisse parentes
Agnem cum lugubres cantus tuba concrepuisset
Nutricis gremium subito liquisse puellam
Sponte tro eis calcasse minas rabiemque tyranni
Urere cum flammis voluisset nobile corpus
Viribus immesum parvis superasse timorem
Undaque profusum crinen per membra dedisse
Ne Dornini templum facies peritura videret
O venerando mihi sanctum decus alma pudOl'is
Ut Damasi precibus faveas precor inclita mar.t:yr.

O Santo Pontífice começa salientando a cora­


gem de Inês que, aos primeiros rumores da perse­
guição, longe de atemorizar-se ou esconder-se,
afrontou a ira do tirano e desprezou as amt"l:l.Ças e
os tormentcs, porque quão frágil e de�icado nos
parecia o seu corpo, assim forte era a sua alma.
Relembra o milagre das chamas que a poupa­
ram e o prodigioso crescimento dos cabelos até
co1Jr i1·cm-lhe todo o corpo - que chama à seme­
-

lhanç� de S. Paulo templo do Senhor -e iermina


reeb11 1endando-se ao patrocínio da Santa Mártir,
glória e exemplo das virgens a Deus ccnsagradas.
Qufm - descendo a longa escadaria - entra
no vetusto templo, não pode evitar a profunda
impressão que causa a sua severidade solene. No
fundo da ábside resplandece um rico mosaico do
VII século, estilo bizantino, cuj a figura c·�ntral é
S. Inês adornada de vestes reais, onde brilham o
ouro e pedras preciosas. E' a figura predominan­
te; aí repousam os seus ossos, enquanto aguarelam
a gloriosa ressurreição final, depositados 30b um
altar em que quatro colunas de porfírio susten tai'"ll
o tabernáculo. Junto às relíquias de Inês, foram

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colocadas as de Emérenciana, para que este� am
também unidas no túmulo as que tanto o foram
em vida.
Da nave esquerda da igrej a, por uma escada
cavada na rocha vai-se às catacumbas que recebe­
ram o nome de Inês, e se estendem por sob a Ba­
sílica e além. São as mais bem conservad .� ;.
Profunda é a impressão que causa ao visitante e,
se êste conhece a história, não pode deixar de pen­
sar e meditar nos mártires que aí rezaram e aí
foram sepultados. Quantos Pontífices nesse m :s­
mo lugar reuniram o seu rebanho e celebraram os
Santos Mistérios ! Quantas raparigas, entusias­
madas pelo exemplo de Inês, aí juraram eterna
fidelidade a Jesus Cristo, Rei dos Mártires e das
Virgens Santas. Ainda hoje, depois de 1.600 anos, a
memória da Santa fala-nos com a mesma vivacida­
de de outrora. O seu túmulo recebe inúmeras vi­
sitas, está sempre coberto de flôres e o seu nome
é invocado com confiança, cumprindo-se, nela tam­
bém, as palavras do Espírito Santo : "A memória do
justo será eterna."
As suntuosas residências dos imperadores e
dos Césares, que faziam tremer o mundo ruiram;
delas não restam que grandiosas ruínas frequente­
mente cobertas de hervas e espinhos. Os mártires,
porém, cujos ossos foram depostos, às escondidas,
na obscuridade das catacumbas, tem hoj e, resplan­
decentes basílicas que encantam o mundo e são a
méta de peregrinação incessantes.
Urna fôrça misteriosa atrai pessoas de todos
os recantos do mundo aos altares dos primeiros he­
róis do cristíanismo, aos quais Roma, sempre
magnífica nas suas manifestações, dedicou o que
de mais precioso pode haver no material e na arte.

14�
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Por êsse motivo e por ser - em consequência
de um Decreto Divino - a séde do vigário de·
Cristo, Roma tornou-se para o mundo o que Jeru­
salém era para os judeus: a Cidade Santa, o centro­
da religião, a fôrça divina que une povos de dife­
rentes raças, línguas, hábitos, em maravilhosa uni­
dade de fé, pela qual - diria Dante - Cristo é
romano - cada católico, ainda que provindo das.
mais longínquas paragens, ao chegar a Roma, sen­
te-se romano, sente-se em sua própria casa, porque
aí encontra o Pai comum dos fiéis, os Príncipes dos
Apóstolos, os Mártires mais ilustres, a memória dos
Santos mais celebres da Igreja. Os Santos que
nasceram em outras regiões, principalmente os
fundadores de Ordens religiosas, foram atraídos a
Roma, não somente pela necessidade de obter do
Sumo Pontífice a aprovação das suas regras, mas,.
igualmente, para aí haurir a inspiração e a fôrça
que necessitavam. Entre outros contamos : S. Do­
mingos, Sto. Inácio de Loyola, S. José Calasanzio,..
que em Roma espalharam os tesouros da sua pie­
dade e zêlo, e aí viram crescer, de maneira inespe­
rada, a Ordem que fundaram em outros lugares.
onde cresciam tão vagarosamente.

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XVIII

OS MILAGRES - O CULTO

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O exemplo, embora tenha sido ilustre e pode­
roso durante a vida, depois da morte é quase sem­
pre esquecido. A sua memória é como o som que
aos poucos vai-se difundindo e apagando até desa­
parecer. Os mesmos que o adularam e colocaram
sôbre um trono de vaidade e fumaça, são os pri­
meiros a esquecê-lo. O justo, porém, começa a
viver verdadeiramente, quando deixa esta terra.
Então, Deus revela ao mundo - que fica admirado
- as suas virtudes; das suas cinzas faz surgir
fôrça prodigiosa e fonte de graças; o seu sepulcro
transforma-se em altar glorioso, sôbre o qual se imo­
la o imaculado Cordeiro, cátedra que nos ensina
tôda a verdade, e incita à prática da virtude.
Assim foi o sepulcro de Sta. Inês. Constância
quís edificar nas suas proximidades o seu domicilio,
quando, batizada, consagrou a Deus a flôr da sua
virgindàde. A ela uniram-se muitas outras j ovens
desejosas de seguir o exemplo da virgem mártir.
Entre elas estavam duas irmãs de nobre familia :
Attica e Artemia, filhas do glorioso mártir S. Galli­
cano. Durante mais de mil anos o túmulo de Inês
foi rodeado e quase guardado por virgens; até o ano
1 503. Foi o Papa Julio II quem, vendo aquelas j o­
vens sempre expostas ao perigo por parte da solda­
desca desenfreada que frequentemente sitiava a
cidade eterna, as transferiu para o mosteiro de S.
Lourenço, situado dentro dos muros de Roma. O
convento por elas deixado foi comprado aos cône-

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gos regulares do S. S. Salvador, que o conservam
até hoje.
Dissemos que as relíquias dos Santos são fontes
de graças e prodígios pelos quais o Senhor os glo­
rifica e ilustra. Recordaremos alguns dos opera­
dos pela intercessão da nossa Santa.
Inês, sobrinha do imperador Marciano, que
viveu em continência junto à virgem Sta. Pulché­
ria, sua espôsa, vivia obcecada por terrível tenta­
ção, que a tornava objeto de desgôsto e temor de
tôda a família imperial. Baldados todos os esfor­
ços de cura, foram ordenadas públicas e solenes
procissões pela cidade, ouvindo-se, então, uma voz
do céu que indicava se recorresse à intercessão da
santa que permanecera incólume entre as chamas.
Que santa seria essa?
Aumentaram as súplicas e a mesma voz de­
clarou ser a virgem mártir Inês, cujo corpo se ve­
nerava em Roma. Pensou então em transferir
para Constantinopla as relíquias da santa e o im­
perador, assim como a espôsa, tudo fizeram para
conseguí-lo, mas os romanos absolutamente não
cederam. Recorreram ao Sumo Pontífice que, por
fim, concordou em lhes conceder uma insígne re­
líquia, transportada com grande pompa e solenida­
de para a cidade imperial, que a recebeu por entre
grandes expressões de júbilo.
A energúmena princesa foi logo leva<la à pre­
sença da relíquia. Caindo por terra imediàtamen­
te, gritava: "Por que me atormentas Inês? Por que
me expulsas?"
Livre do mau espírito que a dominava, a jo­
vem levantou-se logo depois como . alguém que
desperta de longo e penoso sonho. Perguntaram­
lhe o que se passara enquanto, caída ao chão, gri­
tava, e ela respondeu ter-lhe parecido ver uma

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angélica rapariga que, com voz enérgica, ordenava
ao espírito malígno que a atormentava, para que
se fôsse sem nunca mais ousar voltar, desaparecen­
do em seguida. Dissera-lhe a jovem, ser Inês . A
admiração do imperador foi tal que, imediàtamen­
te, ordenou se erigisse magnífica igreja em honra
de Sta. Inês, da qual, aliás, permaneceu singular­
mente dovoto o resto da vida.
Conta-se que a célebre relíquia, com o correr
do tempo, tenha sido doada a Guilherme, conde de
Viena, depois ido para a França e Espanha, onde
foi colocada numa igrej a próxima de Manresa,
sendo essas transladações acompanhadas de mui­
tos milagres. Isso tudo quem nô-lo afirma é o
historiador Bollando. O certo é que naquelas re­
giões,a devoção à nossa Santa, propagou-se ràpi­
damente e muitas foram as graças obtidas pela
sua intercessão.
Mabillon narra, nos "Anais Beneditinos" , que
o corpo da nossa Santa j unto ao da virgem Sta.
Fara, foi levado por tôda a França em peregrina­
ção a fim de se conseguirem fundos para restaurar
o mosteiro de Brieg. Em um manuscrito encon­
trado na basílica de S. Martinho de Tour - devoto
fervoroso de Sta. Inês, que mais de uma vez lhe
apareceu em visões - narra-se que quando aí fo­
ram colocadas algumas relíquias da Santa, realiza­
ram-se doze milagres em presença da multidão alí
reunida. E' êsse mais um testemunho da geral e
profunda devoção daquêles povos para com a
Santa.
Sta. Brigida, em suas revelações, narra ter ti­
do, mais de uma vez, a consolação de vêr a virgen­
zinha Inês e ouvir-lhe consoladoras palavras.
Certa vez, colocou-lhe na cabeça uma corôa com
sete pedras preciosas, como prêmio pela paciência

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com que suportava as duas cruzes que Deus lhe
envluvu pnra pôr à prova a sua virtude; outra vez.
apurcccu-lhc rezando por ela à grande Mãe de
Deus.
Não devemos estranhar que Sta. Brígida, nas­
cida e educada na Suécia fôsse grande devota de
Sta. Inês. Residiu algum tempo em Roma, numa
casa da "Piazza Farnese" onde escreveu as suas
maravilhosas revelações. Vivendo na cidade eter­
na onde sempre vivo é o culto à menina mártir,
teve muitas oportunidades de visitar a Basílica e
orar sôbre o seu túmulo.
Não podemos passar em silêncio o fato relata­
do pelo célebre historiador Muratori e narrado por
frei Ptolomeu de L�ca, amigo e discípulo de S.
Tomaz de Aquino. ·

Tendo o Santo Doutor partido de Roma, em


regressando de Nápoles dirigiu-� a Mollara, em
um castelo do Cardeal Ricardo, onde foi tomado
pela febre terçã, enquanto o seu inseparável com­
panheiro, frei Reginaldo, o foi pela febre contínua
Os médicos, não conseguindo vencer a obstinada mo­
léstia já faziam, entre si, funestos prognósticos .
Foi então que o Santo Doutor, entregou ao enfer­
mo a relíquia de Sta. Inês, que levava sempre con­
sigo, recomendando-lhe tivesse muita confiança .
Assim fez o bom padre e num instante, ante a sur­
prêza de todos, sentiu-se curado. �ste foi, para S.
Tomaz, um novo motivo para aumentar a sua de­
voção e confiança em Sta. Inês, dispondo-se, tam­
bém, a celebrar, anualmente, com tôda a soleni­
dade a festa da mártir. Pôde fazê-lo, porém, uma
única vez, porquanto logo no ano seguinte vôou
para o Céu.
A proteção da querida Santinha se manifestou
também, indubitàvelmente, nêstes últimos tempos,

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em favor do angélico Pontífice Pio IX, a 12 de
abril de 1855. Fôra êle, pela primeira vez, visitar
a Basílica e o Cemitério de Sta. Alexandre, recen­
temente descoberto, há sete milhas da Porta Pia
- antiga Porta Nomentana - nwna propriedade
da Sagrada Congregação de Propaganda. Convi­
dou, para acompanhá-lo, alguns bispos, idos a Ro­
ma para a solene proclamação do dogma da Ima­
culada Conceição, assim como outras ilustres per­
sonagens. Estavam presentes cinco Cardeaes, e ,
entre êles, o Patriarca de Lisbôa, os Arcebispos de
Dublin, Sydney (Austrália) , Newport, Burlington,
Viena e outros Prelados. Após a visita, ofereceu
aos seus convidados, um banquete na grande sala
que fica sôbre a entrada lateral da Basílica de Sta.
Inês. A noite, cheg·aram os alunos do Colégio de
Propaganda, foram admitidos à presença do Sumo
Pontífice em uma sala contígua a em que fôra
levantado o trôno papal. Estavam reunidas nessa
sala, cêrca de cento e vinte pessoas. Eis que, de
repente, o assoalho, que repousava sôbre traves
velhas e apodrecidas, cede e vem abaixo tudo o que
sôbre êle se encontrava : pessôas, móveis, madeiras
etc. Grande foi o susto e a confusão, mas nada
mais do que isso. Exceptuando-se duas ou três
pessoas que receberam algum pequeno ferimento,
todos os mais se reergueram são e salvos, atribuin­
do tal felicidade à intercessão de Sta. Inês que sô­
bre êles velava.

"Se considerarmos, diz um escritor, o número


de pessôas, a exiguidade do espaço, a altura de que
caíram, o esfacelamento das traves, tijolos, már­
mores e o mobiliário da sala do andar térreo, não
se pode deixar de considerar prodigioso o salva­
mento de todos, inclusive duas ou três pessoas que
receberam ligeiros ferimentos e puderam, logo em

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seguida à catástrofe, assistir ao solene Te Deum
entoado pelo próprio Sumo Pontífice Pio IX no
coréto da Igreja de Sta. Inês. Reconheceu o Santo
Padre dever a sua salvação, e a dos demais, à in­
tercessão, principalmente, da Santa heroína, orde­
nando, então, grandes restaurações, construção de
uma casa, bem como fôsse aquêle lugar, de tantas
memórias, habitado por uma comunidade de Cô­
negos Regulares em lugar do simples Pároco que
lá vivia.
As graças gue Deus concedeu por intercessão
da Santa, deve-se à singular devoção que o povo
cristão sempre lhe dedicou, devoção essa aprovada
e sancionada pela Igrej a, colocando Inês entre os
santos mais ilustres e dignos de admiração.
Não apenas aos milagres, porém, se deve atri­
buír tão honorífica distinção; a vida de Inês, tão
breve e esplêndida, finda não por doença, mas pela
mão de um algoz, as virtudes mais heróicas de que
se mostrou ornada naquela idade, em que as al­
mas mais bem educadas soem vacilar ao sopro das
paixões incipientes; a serenidade e alegria do es­
pírito, mantidas mesmo nos momentos mais difí­
ceis, tornaram-na sobremaneira querida. O que
disse de si própria Sta. Terezinha do Menino Jesus
poderia tê-lo dito Sta. Inês: "Sou flôr da primave­
ra que o Senhor do jardim colhe para seu gáudio."
Todos somos flores plantadas nesta terra e colhi­
das por Deus, no devido tempo, uns antes, outros
depois; eu, porém, vou primeiro . . .
Sta. Inês teve como panegeristas Sto. Ambrósio,
Bispo de Milão, S. Máximo, Bispo de Turim, S. Je­
rônimo, Sto. Agostinho, o poeta Prudêncio. Todos
unânimes em elevar ao máximo a beleza e virtuo­
sidade da vida da pequena mártir.
A Igreja Romana, sem mais delongas, inseriu

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o seu nome no Album dos Santos e enviou a tôdas
as demais Igrejas a notícia do triunfo da santa
virgenzinha que começou a ser invocada em todos
os países. O seu nome - privilégio concedido a
bem poucos santos - foi inserido no Cânon da
Missa, na Ladaínha dos Santos e nas Aclamationes
para a eleição dos Sumos Pontífices ( 1 ) . Tem um
ofício próprio que recorda as principais fases do
seu martírio, não se recitando nêle os Salmos pró­
prios das santas mulheres, mas os dos mais valo­
rosos campeões de Cristo. Porquanto, se pela ida­
de era apenas uma criança, a sua conduta, porém,
foi a de uma alma viril e heróica. A Igreja Grega
celebra a sua festa a 5 de julho, mas o Martirológio
Anglo e Gótico-Espanhol fá-lo a 2 1 de janeiro,
mais conforme ao Calendário romano. Apenas
a Igrej a de Terragona antecipa de um dia a festa
para a celebrar no seguinte à dos Santos Frutuoso,
Augúrio e Eulógio, mártires terragoneses.
A liturgia de S. Gregório tem para a sua Missa,
um Prefácio próprio, e o rito Mozarábico - dos
espanhóis que viviam nas províncias ocupadas pe­
los árabes muçulmanos - dedica-lhe uma Missa
longa, que começa recordando o seu espírito in­
vícto: "Sabemos, caríssimos irmãos, que a beatíssi­
ma virgem Inês foi mais forte de alma que de
corpo, mais peJa fé que pela nobreza de sangue,
mais pela energia do espírito que pela da idade.
Tendo Cristo por espôso, não se deixou vencer pe­
las persuasões, nem dobrar pelos donativos do
amor humano. Peçamos ao Deus onipotente para
que, Aquêle (J. Cristo) que foi o espôso espiritual
desta virgem nos inspire inabalável amor à casti­
dade."

(1) - Ver Sacramentário d e S. Gregorio Magno.

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O Senado romano fez voto de oferecer anual­
mente, à igrej a de Sta. Inês, na Praça Navona, em
Roma, no dia a ela dedicado, com pompa solene,
um cálice de prata com pátena e quatro velas de
cêra branca. Tudo isso, como recorda uma inscri­
ção que se lê numa das paredes da sacristiâ, ob
mrmificam in clivam Agnetem pietatem, pela gran- ·

de devoção à Santa Mártir.


Nem o decorrer dos séculos tem enfraquecido
o culto à santa rapariga. Durante a Idade Média,
os poetas cristãos reevocaram a sua delicada fi­
gura.
Na Inglaterra, Adelmo, bispo de Sherbone,
(675-709) em seu poema em louvor da castidade,
dedica-lhe bela página; em França, Adão de S. Vic­
tor, que viveu no século XII, com grande arte e
eficácia canta-lhe a glória.
Os artistas, mesmo os mais célebres, preferi­
ram sempre representá-la com o simbólico cor­
deirinho ou em alguma fase do seu martírio.
Mesmo em nossos dias, apesar da fúria desen­
freada das paixões humanas, a estrêla de Inês
continúa fulgurante e ainda mais bela desde que
proposta pela Igreja como modêlo e . protetora das
j ovens de boa vontade que militam sob o estandarte
da Virgem Mãe de Deus na Pia União das Filhas de
Maria ou da Ação Católica. Assim como Inês imi­
tou Maria Santíssima, assim as virgens cristãs, ins­
pirando-se nos seus exemplos aprenderão a guardar
a pérola preciosa da castidade e o tesouro da fé,
por entre os mil perigos do mundo.
Aprendam as jovens da Ação Católica, imitando
Inês, a ser, não apenas devotas e morigeradas, mas
a professar de fronte erguida a própria- fé, instruir­
-se sôbre as verdades da nossa santa Religião e resis­
tir às seduções do mundo que, pela moda provocan-

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te, imprensa ímpia e obscena, espetáculos irreveren­
tes e liberdade desconhecida dos nossos mais velhos,
arrasta para a perdição tantos jovens e atenta
contra a solidez e san.tidade da família cristã. No
antigo Prefácio Gregoriano da missa de Sta. Inês,
dizia-se : "É verdadeiramente digno, justo, racional
e salutar que sempre e em todo o lugar vos renda­
mos graças, Pai onipotente, eterno Deus, e relem­
brar solenemente o dia santificado pelo martírio
da beata Inês, a qual, desprezando as lisonj as da
generosidade terrena, mereceu a glória do Céu;
recusando-se a constituír uma família humana,
associou-se ao consórcio do Rei eterno, e vencendo
com morte preciosa a fragilidade do seu sexo, pro­
fessando fidelidade a Cristo, passou a participar
da Sua eternidade da Sua glória".

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XIX

O MODELO

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Os poetas pagãos e cristãos, que se inspiram
na nútologia ou nos relatos autênticos ou lendários
da história romana, soém para excitar os ânimos
a emular as proezas e virtudes das personagens
neles celebrados: Nós, cristãos, não temos necessi­
dade de recorrer a tais exemplos. Os nossos santos
não nos servem, apenas, de emulação, mas sobre­
pujam de muito tudo o que de belo, generoso e
grande fizeram os pagãos.
Sto. Agostinho, depois de exaltar, maravilhosa­
mente Platão, pelo que escrevera sôbre Deus>
conclue que o mais miserável dos cristãos, é-lhe,
no entanto, superior, pela verdade que recebeu
com a revelação divina e graça que os méritos de
N. S . J. Cristo lhe infundiram.
Vimos Inês crescer, qual flôr, inocente e pura
entre a pavorosa corrupção pagã, então no auge.
Se hoje, depois de tantos séculos de cristianismo,
devemos lamentar tantas desordens, que pensar
então daquela época em que os próprios deuses a
quem se rendia culto, além de não proibirem o
vício, eram os primeiros a darem dele o exemplo?
Assim pois, tanto mais admirável se nos revela
a inocência de Inês, quanto uma luz divina por
entre as trevas da corrupção.
Os pais zelaram cuidadosamente por ela, não
ha dúvida, mas não lhes terá sido possível impedir
que se deparasse com parentes .e amigos, não
apenas pagãos, mas obstinadamente contrários ao

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cristianismo. E ela não soube, apenas, conservar­
-se pura e fiel a Deus, mas, igualmente, expandir
à sua volta, uma atmosfera de virtude que encan­
tava mesmo às almas mais endurecidas.
Com isso se revela não somente a boa educa­
ção, mas, também, a fortaleza da sua alma habi­
tuada à mortüicação dos sentidos, das paixões,
que na juventude se revelam, às vêzes, tão insis­
tentes e violentas, o espírito de recolhimento na
oração a par de filial e ilimitada
- confiança em
Deus.
Tudo pode provir de índole naturalmente in­
clinada à virtude, unida à graça que trabalha e se
desenvolve nas almas dóceis; mas, supõe, também,
uma fôrça e constância de vontade que, secun­
dando o trabalho da graça, infrange todos os mo­
vimentos oriundos da paixão, foge de tudo o que
possa ofuscar o candor da alma, abraça tudo o
que - ainda que repugnante para a natureza -
serve para enriquecer a alma com novos méritos
e torná-la agradável a Deus.
As virtudes heróicas não se chega muito
facilmente. São elas o produto de contínuas morti­
ficações e renúncias, às quais a alma se habituou
com ínfinita diligência e constância.
Se Inês preferia a simplicidade do trajar, fu­
gindo às pornpas e ornamentos que tanto agradam
as mocinhas, mesmo piedosas, ela que pertencia
a uma família nobre e rica, não nos deve isso
fazer pensar que o fizesse conscientemente, para
mortificar a vaidade tão natural nas donzelas?
Dissemos, também, que Inês agradava pela
sua simplicidade, isto é, porque não se preocupava
em agradar aos demais; aos homens, é claro, pois
o seu desejo era agradar sempre e unicamente a
Deus. Para conservar essa simplicidade, porém,

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como deve ter sido cautelosa e vigilante, com os
seus pensamentos e os seus sentidos, ela cujo
coração era tão temo e amante ! Intuia, natural­
mente, que o coração apaixonado obscurece a
inteligência, perturba os sentidos e pode conduzir
à perdição. Sabem-no, infelizmente por dolorosa
experiência, muitos dos nossos j ovens, que cega­
mente deixaram arrastar por algum afeto impuro
e não dominado a tempo.
Se admirarmos em Inês, o seu grande amor
pela virgindade, devemos lembrar-nos que ela,
também, era feita da mesma argila e sujeita às
mesmas fraquezas, tentações, e se pôde conservar­
-se pura foi pela graça de Deus que implorava
continuamente e com a qual cooperava evitando
as ocasiões de pecado, mortificando-se. Para
conservar tão preciosa pérola, para obter a fôrça
necessária contra qualquer insídia, recorria à fonte
de tôdas as graças, ao próprio Jesus, recebendo-o
com frequência na Santa Comunhão.
Sta. Lúcia, contemporânea de Sta. Inês disse
ao juiz que a interrogava sôbre se possuía em si
o Espírito Santo : "A alma pia e casta é templo do
Espírito Santo". Que maravilhas não terá operado
esse Santo Espírito de criação e santificação, na
alma pura de Inês?
Cristãos houve que redimiram com o martírio,
uma vida de pouco fervor e até de pecados. Com­
pará-los-iamos ao bom ladrão, que terminou assal­
tando o Céu. Inês, porém, com o martírio não fez
senão acrescentar mais uma preciosíssima jóia às
mil que ornavam a sua alma, tão agradável a
Deus. A sua breve j ornada na terra, não conheceu
nuvens nem tempestades. O seu poente não foi
senão um mergulhar em outra luz, infinitamente
mais esplendente.

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Como não admirar a paz imperturbável do
seu coração? Provinda, naturalmente, do seu
grande e profundo amor a Deus, não cremos, po­
rém, errar, se a atribuirmos, também, ao fato de
Inês nada pedir ao mundo, nada temer perder,
senão a graça de Deus, seu único tesouro. A perda
de todos os bens terrenos não a teria siquer impres­
sionado, como não a impressionou a perda da vida.
Inês foi grande, foi excelsa, porque tinha o mundo
a seus pés.
A quem não tem fé, ou a possue fraca e está­
tica, não é possível compreender certas maravilhas
da vida espiritual.
Quem, porém, crê e j á gozou alguma vez, das
invej áveis alegrias do amor de Deus, êsse pode
compreender os Santos. Compreende-lhe o desprê­
zo por tudo o que, acaríciando os sentidos, extingue
a vida espiritual; comprende-lhe os anseios pela
vida verdadeira, por aquela que nunca terá fim.
Sta. Tereza do Menino Jesus, ao receber pala­
vras de resignação para a morte, respondeu que ela
precisava de resignação para viver, pois o gáudio
eterno era a sua con stante aspiração. Com certeza
terá ela bem meditado as palavras de S. Paulo aos
hebreus: - " . . . . desembaracemo-nos também nós
de qualquer empecilho, mormente do pecado, e
corramos com perseverança ao certame que nos
espera - a santificação e a vida eterna
- com os
olhos em Jesus, autor e consumador da nossa fé,
o qual recusando o gozo que se lhe oferecia, abra­
çou a cruz". (Hebr. XII - 1-2)
Um exilado que suspira por reabraçar na
pátria os entes queridos; um prisioneiro que anseia
pela liberdade, eis o que são os Santos, nesta vida.
A terra é para êles um caminho. E, como o vian­
dante desejoso de chegar breve à casa, não se preo-

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cupa com as curiosidades e distrações que encontra
em meio do caminho; para poder ser mais ligeiro,
leva apenas o estritamente necessário, assim tam­
bém, êles, em viagem para o Céu, não pedem à
tP.rra mais do que seja necessário ao honesto
;;nstento.
"O tempo, dizia, Sta. Terezinha, é o nosso
navio não a nossa morada. Sirva-nos a frase para
encer:ar êste modesto trabalho e como norma para
bem viv�r. à imitação da grande e querida Virgem
Mártir Sta. Inês.

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1 AP�NDICE

Em 1605, procedendo o Cardeal Sfondrati ao


reconhecimento do corpo de Sta. Inês, foi êste en­
contrado j unto ao de Sta. Emerenciana, faltando­
-lhe, porém, a cabeça. O douto jesuita P. Florian
Jubaru, autorizado por S. S. Leão XIII e com o
beneplácito do Cardeal Satolli, fez diligentes buscas
em S. João de Latrão, sentindo-se muito feliz ao
encontrar a cabeça da santa com uma inscrição que
atestava a sua autenticidade: Honorius p. p. III
fieri fecit pro capite beatae Agnetis.
"Quando, escreve Jubaru, no Sancta Sancto­
rum de Latrão, conseguimos encontrar e segurar
entre as mãos a cabeça da pequena mártir, quando
Inês deixou de ser, para nós, uma simples concepção
ideal, e tomou forma concreta e tangível, conside­
rando as frágeis paredes do crânio de transparência
de madrepérola, as suturas das juntas, tão tenras
ainda, os pequenos dentes não de todo crescidos
nos seus alvéolos, sentimo-nos tentados em per­
guntar: era ela mais do que uma criança?"

II APÊNDICE

Tomamos a liberdade de transcrever as pala·


vras com que o Pe. Jubaru, feliz descobridor da
cabeça de Sta. Inês, profundo e elegante narrador,
conclue a vida da Santa.
"Sta. Inês não é uma mártir obscura que
devesse a sua celébridade a urna circunstância

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fortuita, isto ·é; o achar-se o seu túmulo próximo
a uma "vila" ou um mausoléu da família imperial,
nem conseguimos encontrar nenhum sinal dos
segundos lflávios, nesta região da via Nomentana.
Quanto ao mausoléu, em lugar de ter dado ocasião
a construção da basílica constantiniana sôbre o
túmulo da santa, foi ao contrário e evidentemente,
anexado àquele edifício. A escolha do lugar e a
ereção da basílica só podem ser atribuídas à devo­
ção especialíssima de Constantina (ou Constância)
pela mártir, j á célebre.
A filha de Constantino, não fez senão associar­
-se ao culto verdadeiramente excepcional prestado
a Sta. Inês, por Roma e por todo o mundo latino.
Não o criou ela. Esse culto era tal, que não podia
ser modificado senão por razões absolutamente
pessoais da santa.
De fato, somente Inês, entre as virgens roma­
nas, teve uma basílica edificada pela munificência
imperial e o dia da festa solenisado de maneira
especial. Em Milão, Sto. Ambrósio pronuncia o seu
pa negírico perante as virgens reunidas em home­
nagem a ela ; em Cartago, Sto. Agostinho fala da
santa "aos Continentes" de ambos os sexos reuni­
dos na grande basílica para celebrar o aniversário
de 21 de janeiro; e não se pode duvidar que Cartago
estivesse, assim seguindo, nesse ponto, como em
outros, o uso da metrópole romana.
Nenhuma outra virgem romana teve a sua
imagem popularizada entre as que adornavam os
vasos dos fiéis, do túmulo honrado com inscrições
dos papas do IV século ; nenhuma foi celebrada
por Prudêncio e apresentada como patrona tutelar
dos Romanos. ( 1)

(1) - Flortan .Tubaru S. .T. : Saint Agnês . . . dºaprés d e nouvellea


rechercbes. Cfr. clviltà cattõllca, anno 1938 quad. 1383.

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,

I N D IC E
pãg.
Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

I Familia cristã e familia pagã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

U A última perseguição - Paz relativa da IgrejQ -


Divisão do Império - Consequências - Galério e sua
desastrosa obra - Castigo do perseguidor - Aurora
de Paz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

m A família de Inês - Nascimento da santa . . . . . . . . 33

IV Primeira educação de Inês . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4:1

y A comunhão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51

VI O véu das virgens - Apostolado . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57

VII Primlcias da prova . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65

VIll Tentativas infrutifera.s . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73

IX Promessas e 8.llleaça.s . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81

X Perante os tribunais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89

XI Castigo infe.m.a.nte . . . . . . . .. . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97

xn o prodígio e a profissão de fé . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105

XIII Sa.crificio consumado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111

XIV Glória no céu e na terra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117

XV A aparição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125

XVI Constância . . . . . . .. .. . . .. . . . . . . .. . . .. . . . . . . . . . . 131

xvn As catacumbas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137

XVIIl Os Milagres - O culto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 7

XIX O Modêlo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . 159

Apêndice . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . · · · · · · · · . · . . . . . . . . . . . . 167

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- 7 de Dezembro de 1 95 1 -
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