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(Aos nossos filhos e) Aos nossos Pais – Todo

amor que houver


Texto de Léo Gomes

CENA I – AOS NOSSOS FILHOS

Pai Eu não queria ser pai. Não estava pronto. Não era o meu momento. Talvez eu não fosse maduro o
suficiente, sei lá! Mas eu não queria. Acho que mais do que ‘não queria’, é ‘não podia’. Eu
estava no auge da minha adolescência! Mulheres, noites, farras, rock, eu estava vivendo da
minha maneira! Um filho, na adolescência, é ter que dar um ‘basta’ em tudo isso! E eu não
estava disposto. E acredito que ninguém que tenha vivido na minha época, se pudesse
escolher, trocaria ‘tudo’ por causa de um filho! (pausa) Eu não tive escolha. Aconteceu,
simplesmente aconteceu. Eu precisei amadurecer, precisei ‘querer’, precisei dar um ‘basta’
em tudo o que eu estava vivendo. Eu precisei ser homem. Aos 16 anos de idade, eu precisei
ser um homem: maduro, responsável, fiel, esposo, trabalhador e pai. (pausa) E hoje eu
agradeço muito a vida por não ter me dado a opção de escolher.

Pai Eu já tinha outros filhos. Dois. Dois é uma quantidade legal! Um brinca com o outro, sem
problemas. Eles nunca pediram um irmão, eu também nunca fiz questão de dar! Daí a vida foi
passando, a casa foi ficando estranhamente maior, o barulho diminuindo, o dinheiro
sobrando... E eu sem entender nada! Um dia desses eles foram lá em casa, almoço de
domingo, família reunida, conversa sobre as besteiras que eles faziam na infância, ‘mãe sua
comida está melhor que nunca!’, ‘pai vamos casar!’. Neste momento a respiração travou,
pressão subiu, minha esposa veio com um copo d’água, ‘Ai que legal casamento!’, e eu ali
sem saber o que dizer. A gente cria os filhos pro mundo, está certo, mas daí os dois de uma
vez só! Se perder um tem o outro, se perder os dois não tem nenhum! E como que eu ficava?!
E a casa que eu construí pra gente?! Fica vazia?! Quer dizer no meio da paternidade é isso que
sobra: a casa vazia?! Eu não conseguia entender... Acho que não queria. Eu fui tão egoísta ao
pensar assim! ‘Casa vazia’. (pausa) Eu já tinha outros filhos. Dois. Dois é uma quantidade
legal! Ganhei mais três. Netos são como filhos! Eles não param quietos. A casa está pequena
novamente, o barulho multiplicado, o dinheiro não sobra mais como antes! Mas de uma coisa
eu tenho certeza: ser avô é mais emocionante que ser pai!

Pai Ser pai sempre foi a minha meta desde criança. Me formar na faculdade, casar e ter filhos; nessa
ordem. Eu me preparei para este momento desde a minha infância. Me formei, casei. Mas me
bateu uma insegurança, um medo de falhar como pai, como pessoa. Medo de não ser para o
meu filho o que o meu pai foi pra mim. Então eu fui adiando meu sonho. E vi que todo o meu
treinamento com cachorros na infância foi em vão! O meu medo me tirava do meu ‘eu’. Mas
ao mesmo tempo eu não queria ser pai tarde, eu não queria que os amigos do meu filho
achassem que eu era o avô. Mas o medo de decepcionar o meu filho era muito maior que
todas as coisas. Quando eu finalmente senti segurança, eu já devia estar com uns 40 e minha
esposa com 37. A gente concordou que era o melhor momento. E quando ele nasceu eu senti a
mesma insegurança. Medo de magoar, de não ser um bom pai. Tive 3 filhos e nos 3 eu senti a
mesma insegurança. E só no 3º eu fui entender que ser pai é isso: é ter medo, o pai é parte
mais forte, ele precisa erguer a família, ele precisa corrigir e não magoar. Se eu tivesse
acordado para isso antes...

Pai Eu nunca desejei nada de absurdo pro meu filho. Eu sempre quis que ele crescesse, fosse um
‘alguém’ na vida, fosse feliz, independente de tudo fosse feliz. E eu dei a ele tudo o que ele
precisava para isso se tornar realidade. Mas isso era o que eu queria. Talvez o meu filho não
quisesse ser ‘alguém’, talvez ele não quisesse ser feliz, ou não quisesse que eu fosse. Meu
filho seguiu um caminho totalmente contrário ao que eu esperava que ele seguisse. Isso me
doeu muito. Não pelo fato dele ter seguido outro caminho. Mas por ele não me ter deixado
seguir com ele ou, ao menos, proteger de longe. Ele se perdeu no mundo e eu fiquei
paralisado sem saber aonde começar a procurar. E o que eu fazia era chorar. Eu rezava pra
Deus trazê-lo de volta, mas parecia que Ele não me ouvia. E então eu comecei a me
questionar: será que eu não fui um bom pai?! Será que desejar a felicidade do filho não
basta?! (pausa) Mas Deus sabe o que faz, sabe o que fez. E eu em nenhum momento quis
saber se meu filho estava bem com a vida que ele escolheu viver. Mas ele estava. Ele é! Mas
acontece que a vida que ele escolheu talvez não seja a que todo pai sonha pro seu filho. Mas
ele é feliz. Trabalha, faz faculdade. E eu percebi que o motivo de meu filho ter sumido da
minha vista foi a minha intolerância, eu me ceguei. Meu filho é feliz, e eu também sou.

CENA II – AOS NOSSOS PAIS

Filho Eu fui um filho rebelde. Quis seguir o meu caminho e ser feliz da minha maneira. Talvez os meus
pais não entendam isso. Mas eu não queria ser feliz ‘para’ o meu pai ou ‘pelo’ meu pai, eu
queria ser feliz ‘com’ o meu pai. Sei que o que eu julgo como felicidade ele julga como, sei
lá, o abismo! Mas assim é a vida. Somos movidos a escolhas, eu fiz as minhas... E só quero
que ele esteja ao meu lado pra me ajudar a levantar quando preciso.

Filho Quando eu era criança, eu achava que meu pai não gostasse de mim. Porque sempre que eu o
chamava para brincar ele dizia que ia trabalhar. Quando somos crianças não temos noção
dessa necessidade. Ele saia e eu chorava, mas quando ele voltava, eu ficava todo feliz! Ele
vinha com histórias e presentes! Pai, não pense que não quero mais ouvi-las, estou aqui,
debruçado na janela esperando você dobrar a esquina e me contar as suas histórias.

Filho Às vezes me faltam palavras para falar do meu pai. Mas eu o amo. E desde sempre falo isso.
Conto com ele para tudo. Somos amigos. Somos pai e filho. Ele é tudo o que eu tenho. Tudo.
E se ele tiver que partir dessa vida, para a vida eterna, será uma despedida pouco dolorosa,
pois aproveitamos todo o tempo que podemos juntos. E em nenhum momento deixamos de
nos amar e demonstrar isso. Se precisarmos nos separar, saberemos exatamente o que
sentimos.

Filho Aonde quer que você esteja, quero que saiba que te amo! Quero eu saiba que te admiro! Longe ou
perto, você será o meu protetor, o meu guia, a minha fonte. Talvez você precisasse ouvir isso
outras vezes, em outros momentos, me desculpe, mas não sou bom com as palavras ditas, só
com as palavras escritas. Escrevo isso para você. Por você... Espero que entenda. Espero que
me ame. Espero que siga o caminho sempre ao meu lado e chore comigo o meu pranto e me
ajude a carregar meu doloroso fardo pelo árduo caminho da vida.
CENA III – TODO AMOR QUE HOUVER

Pai, eu só queria que você compreendesse que eu te amo; que você conseguisse sentir o amor que, por
mim, transborda; que você chorasse no meu ombro; que a distância entre nós dois fosse menor; que
pudéssemos ser amigos.

Peço a Deus para esteja sempre ao meu lado, me guiando, me dando forças, me mostrando o caminho
certo.

Se eu cair quem irá me levantar?! E quando eu precisar de alguém para me proteger da chuva, quem
melhor que você para fazer isso?! Quando eu precisar aprender a ser forte quem irá me ensinar?! Quem
irá me dizer que ter medo de trovões é besteira?!

Ser pai é ter que ser forte e frágil; bruto e manso; amigo e juiz, tudo ao mesmo tempo! É ter que educar da
forma mais correta, menos dolorosa, mais eficaz.

Talvez esconder lágrimas seja a solução encontrada por muitos para que eles não se sintam frágeis.

Peço-lhe que me deixa fazer como quando criança.

Deixe-me repousar a cabeça em seu colo e desabafar minhas dores. Deixe-me contar que meus amigos da
escola pegaram meu lanche e me bateram; deixe-me contar que comecei a gostar da minha amiga, e acho
que estou apaixonado; deixe-me simplesmente chorar ou falar coisas sem sentido; deixe-me deitar em seu
colo e lhe dizer que você é tudo para mim; deixe-me dizer que sou universitário e que já gastei o meu
primeiro salário, que colei na prova de ontem e que tirei ‘zero’ na prova de matemática.

Deixe-me aqui, deitado, passando o tempo, brincando de pai e filho, lembrando meus sonhos.

Deixe-me aqui sendo seu filho, ouvindo suas histórias, imaginando um futuro igual ao seu.

Deixe-me dormir em seu colo e me carregue para a cama quando o filme acabar. Me acorde para ir à
escola antes de ir trabalhar e prepare o meu café da manhã. Ouça as minhas histórias e ria com elas. Me
dê broncas e me coloque de castigo. Diga que não posso bater no colega de classe e chore com a
apresentação de fim de ano. Reze o terço comigo e me leve pra missa.

Diga que o meu avô mais antigo ainda está vivo e se chama Deus.

Diga-me que vai trabalhar, beije a minha testa e me mande um aceno de tchau pela janela. Diga que me
entende e que me ama apesar de tudo. Diga que é feliz por eu estar do seu lado.

Diga que tudo que faço para ter você sempre ao meu lado não está sendo em vão.

Seja meu pai e deixe para sempre ser seu filho.

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