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Redes Wi-fi I: Radiofrequência

Esse capítulo se faz presente pelo fato das redes wireless utilizam
as ondas de rádio para serem propagadas através do meio físico,
que no caso, é o ar. Onde será citada uma breve fundamentação
da rádio frequência e também os principais tipos de modulação e
técnicas de Radio Frequência (RF) para as redes wireless.

Definição

São correntes alternadas de alta frequência que passam pelos


cabos condutores e que chegando até as antenas onde são
convertidas em ondas eletromagnéticas (OEM) e irradiadas pelo ar.

No lado do receptor lê capta essa energia OEM e o transforma em


sinais elétricos, para ser compreendido pelos rádios na informação
útil transmitida, fazendo o processo inverso do transmissor.
Conforme ilustra a Figura 10 uma OEM possui as seguintes
características:

• Amplitude: tensão máxima em volts que pode atingir.


• Período: é o tempo em segundos que uma onda leva para
completar um ciclo (em segundos).
• Comprimento de onda: espaço em metros que a onda
percorre entre dois sinais a partir do qual ela se repetiu. Ou
seja, o espaço que essa onda percorre em um período.
• Frequência: numero de ciclos que a onda percorre no
tempo, ou seja, em um segundo, sua unidade é o Hertz (H). A
frequência é inversa do período.
Figura 10: Forma de uma onda senoidal
Fonte: o autor

Espectro de Frequência

Para evitar sobreposições no uso de ondas de rádio, foram criadas


faixas de frequência disponíveis para cada tipo de aplicações, e que
podem se visualizadas no Quadro 2.

Quadro 2: Frequências utilizadas em telecomunicações


FAIXA DE
DENOMINAÇÃO DENOMINAÇÃO
FREQUÊNCIA EXEMPLOS DE UTILIZAÇÃO
TÉCNICA POPULAR
(Hz)

300 a 3000 E.L.F (Extremely Low Ondas Comunicações para submarinos,


Frequency) Extremamente escavações de minas etc.
Longas

3k a 30k V.L.F (Very Low Ondas Muito Comunicações para submarinos,


Frequency) Longas escavações de minas etc.

30k a 300k L.F (Low Frequency) Ondas Longas Auxílio a navegação aérea, serviços
marítimos e radiodifusão local.

300k a 3M M.F (Médium Ondas médias Auxílio a navegação aérea, serviços


Frequêncy) marítimos e radiodifusão local.

3M a 30M H.F (High Ondas tropicais/ Radiodifusão local e distante,


Frequency) ondas curtas sistemas marítimos (estações
costeiras)
30M a 300M V.H.F (Very High Micro-ondas Transmissão de TV, sistemas
Frequency) comerciais e particulares de
comunicação, serviços de segurança
pública (Polícia, Bombeiros etc.)

300M a 2G U.H.F (Ultra High Micro-ondas Transmissão de TV, sistemas


Frequency) comerciais e particulares de
comunicação, serviços de segurança
pública (Polícia, Bombeiros etc.)

2G a 3G U.H.F (Ultra High Micro-ondas Comunicação publica a longa


Frequency) distância: sistemas interurbanos e
internacionais em radiovisibilidade,
tropodifusão e satélite.

3G a 30G S.H.F (Super High Micro-ondas Comunicação publica a longa


Frequency) distância: sistemas interurbanos e
internacionais em radiovisibilidade,
tropodifusão e satélite.

30G a 300G E.H.F (Extremely Micro-ondas Comunicação publica a longa


High Frequency) distância: sistemas interurbanos e
internacionais em radiovisibilidade,
tropodifusão e satélite.

Fonte: LIMA JUNIOR, 2003.

Como pode ser visto no Quadro 2 as faixas em que estão alocadas


as WLAN’s são: a Ultra Alta cuja frequência destinada a essa faixa é
300MHz – 3GHz; e a faixa Super Alta que varia de 3GHz – 30GHz.
Pois é onde se alocam os equipamentos de 2.4GHz e 5.8GHZ.

Banda Industrial Scientific and Medical – ISM (Industrial,


Científica e Medica)

Em 1985 o órgão regulamentador do uso de espectro de


frequência dos Estados Unidos da América, o Federal
Communicatios Commission (FCC – Comissão de Comunicação
Federal), liberou a banda conhecida como ISM. Isso proporcionou
aos fabricantes um impulso na fabricação dos seus equipamentos,
pois os usuários dos equipamentos nessa banda não necessitariam
de qualquer licença do órgão regulamentador, no caso o FCC,
porem deveriam atentar para os limites de potência desses
equipamentos.

Figura 11: Faixa do espectro da Banda ISM


Fonte: Adaptado de SANTOS JUNIOR, 2009.

Como a Figura 11 mostra, foram liberadas 3 faixas de frequência


em ISM:

• A primeira faixa com 900 a 928 MHz com largura de banda de


26 MHz
• A segunda faixa com 2,4 a 2,4835 GHz com largura de banda
de 83,5 MHz
• Já a terceira faixa em 5 GHz foi subdividida em três: de 5.15 a
5.35 GHz com uma largura de banda de 100 MHz, de 5.470 a
5.725 GHz com uma largura de banda de 100 MHz e 5.725 a
5.850 GHz com uma largura de banda de 100 MHz.
Totalizando uma largura total de banda de 300 MHz.

Os limites de potência ficam a critério do órgão regulamentador de


cada país. No Brasil o órgão responsável pelos limites de potencia é
a Agencia Nacional de Telecomunicações (ANATEL).
Resolução da Anatel

A ANATEL divulgou em 1º de julho de 2008 a resolução N° 506. Em


suas seções IX e X, ela trata dos limites de potencia para as faixas
de frequência em que operam as redes wireless. Dentre algumas
especificações citadas estão:

No Artigo 39, 2° paragrafo cita: “equipamentos cujas estações


utilizem potência e.i.r.p (Equivalent Isotropic Radiated Power:
Potência Efetivamente Irradiada pela Antena, que é igual a potência
do transmissor somado ao ganho da antena) superior a 400 mW,
em localidades com população superior a 500.000 habitantes,
deverão ser licenciadas na Agência (...)”. ”Na faixa 2400-2483,5 MHz,
será admitido apenas o uso de Tecnologia de Espalhamento
Espectral ou Tecnologia de Multiplexação Ortogonal por Divisão de
Frequência – OFDM”.

No Artigo 41, para sistemas utilizando sequência direta ou outras


técnicas de modulação digital, o inciso II determina: “a potência de
pico máxima de saída do transmissor não pode ser superior a 1
Watt;”

No Artigo 43, o inciso I determina “sistemas operando na faixa de


2.400-2.483,5 MHz e utilizados exclusivamente em aplicações
ponto-a-ponto do serviço fixo podem fazer uso de antenas de
transmissão com ganho direcional superior a 6 dBi, desde que
potência de pico máxima na saída do transmissor seja reduzida de
1 dB para cada 3 dB que o ganho direcional da antena exceder a 6
dBi”. No Inciso II determina: “sistemas operando na faixa 5.725-
5.850 MHz e utilizados exclusivamente em aplicações ponto-a-
ponto do serviço fixo podem fazer uso de antenas de transmissão
com ganho direcional superior a 6 dBi sem necessidade de uma
correspondente redução na potência de pico máxima na saída do
transmissor.”
No Artigo 46, para sistemas de acesso sem fio em banda larga para
redes locais, operando na faixa 5.150-5.350 MHz, no inciso I cita “as
emissões devem estar confinadas aos ambientes internos das
edificações”. No inciso II determina “o valor médio da potência
e.i.r.p. é limitado ao máximo de 200 mW.”

No artigo 47, para sistema de acesso sem fio em banda larga para
redes locais, operando na faixa 5.470-5.725 MHz, o inciso
determina “a potência na saída do transmissor é limitada ao
máximo de 250 mW”. O inciso II determina “o valor médio da
potência e.i.r.p. é limitado ao máximo de 1 W”;

Sistemas de Comunicação

Informação: ela em si é transmitida em banda base, ou seja, na


frequência que originalmente que foi gerada. A informação pode
ser analógica ou digital, vide Figura 12, no caso das redes wireless o
sinal é digital. Em telecomunicações o sinal onde se encontra a
informação é chamado de sinal modulante.

Figura 12: Tipos de informação


Fonte: o Autor

Meio físico: para se transmitir a informação devemos usar um


meio físico, seja ele o ar, fios ou qualquer meio físico que possa
transmitir uma informação.
Onda portadora: é ela que transporta a informação, e
normalmente tem frequência diferente e maior que a da
informação base. A portadora pode ser a luz, sinal de micro-ondas,
sinais elétricos e etc. Assim como o sinal modulante podem ter
sinais digitais ou analógicos.

Modulação: ela capta o sinal que se quer transmitir e modifica


uma onda portadora de acordo com as variações de estados. No
caso das redes wireless modificando em função dos sinais base, 0s
ou 1s já que usa um transmissor digital.

Os sinais modulantes, também chamados de sinais base, alteram


um dos parâmetros da onda portadora, (fase, amplitude ou
frequência) para poder transmitir a informação, o resultado dessa
alteração é o sinal modulado.

Sinal modulado: é o sinal resultante da modificação da onda


portadora através da variação de estado da onda de banda base
(sinal modulante) feita através da modulação, é nele que o receptor
irá tirar a informação que deseja.

Tipos de Modulação

Em uma LAN cabeada os sinais base que trafegam na rede são


digitais, sendo esse transmitido em uma portadora analógica, que
nesse caso são os cabos. Caso semelhante ao das WLAN’s, com a
única diferença no meio físico que é o ar e não cabos.

Quando o sinal é digital e a portadora é analógica refere-se a esse


tipo de modulação como chaveada, as mais conhecidas
são: Amplitude Shift Keying (ASK – modulação por chaveamento de
amplitude), Frequency Shift Keying (FSK – modulação por
chaveamento de frequência) e Phase Shift Keying (PSK – modulação
por chaveamento de fase). Todas podem ser visualizadas na Figura
13.

Figura 13: (a) Um sinal binário e Modulações (b) ASK (c) FSK (d)
PSK
Fonte: TANEBAUN, 2003.

Os tipos de modulação mais usadas nas WLAN’s de alta velocidade


são o Binary Phase Shift Keying (BPSK – modulação por
chaveamento de fase binário), Quadrature Phase Shift Keying (QPSK -
modulação por chaveamento de fase em quadratura), ambas são
subdivisões da modulação PSK e o Quadrature Amplitude
Modulation (QAM – Modulação por Amplitude em Quadratura).

BPSK

“Para a implementação da modulação BPSK é utilizada uma


inversão de fase de um estado para o outro entre 0 e 180 graus.”
(NETO, 2005, p. 151).
QPSK

“O sinal digital binário é combinado em conjunto de dois bits –


DIBITS. Para uma combinação binária são possíveis quatro DIBITS.
Para cada DIBITS há uma inversão de fase do sinal da portadora
senoidal, também conhecida como quadratura.” (NETO, 2005, p.
152).

QAM

A modulação QAM (Quadrature Amplitude Modulation – Modulação


por Amplitude em Quadratura) é um sistema otimizado de
modulação, que modifica simultaneamente duas características da
portadora; sua amplitude e sua fase. Com isso obtêm-se grande
rendimento e grande performance nas altas velocidade (SILVEIRA,
1991, p. 33).

Com essa modulação é possível conseguir maiores taxas de


transmissão. Para cada grupo de quatro bits (TETRABIT), a
portadora assume um valor de amplitude e fase. A Figura 14 ilustra
as modulações QPSK e QAM.

Figura 14: (a) QPSK (b) QAM-16 (c) QAM-64


Fonte: TANEBAUN, 2003
Os demais tipos de modulação com portadora analógica podem
ser vistos de forma resumida na Figura 15.

Figura 15: Tipos de modulação com portadora analógica

Propriedades da Radiofrequência

Apresentam-se a seguir as propriedades das radiofrequências.

Relação Sinal-ruído

A relação sinal-ruído (SNR) descreve a potencia do sinal comparado


com o ruído de fundo. Em analogia é como se alguém estivesse
ouvindo uma música ou assistindo televisão em algum ambiente,
seja em casa, no trabalho ou até mesmo em um bar, e por um
algum barulho (carros, motos, equipamentos de som, etc.) já não
se ouviria perfeitamente o som do aparelho.

Assim são os receptores de rádio, eles precisam ter um nível


mínimo de energia de sinal para poder diferenciá-lo do ruído. Uma
SNR descreve a relação da potência do sinal recebido comparada
com a potência do sinal de fundo, sendo assim, quanto maior for a
SNR melhor é a potencia do sinal.
Atenuação

“Perdas de potência do sinal que se propaga em um meio de


transmissão.” (JUNIOR, 2003, p. 412).

Existem diversos motivos para a atenuação entre elas estão:


absorção do material, espalhamento de Rayleigh, perdas no espaço
livre, perdas nos cabos, e outras variações que um sinal pode
sofrer.

Se tratando em atenuação em cabos essa pode ocorre com


qualquer tipo de sinal transmitido, tanto digital quanto analógico.
Quanto maior for o comprimento do cabo, maior será a atenuação.

Ganho

O ganho pode ser entendido como o aumento da amplitude de um


sinal de RF, ele é dado em referência a uma antena padrão,
normalmente uma antena isotrópica, onde o ganho é expresso
em dBi. Uma antena isotrópica irradia o sinal igualmente bem em
todas as direções. Porem essa antena não existe, ela fornece
apenas padrões teóricos com os quais as antenas reais podem ser
comparadas.

O ganho de antena em uma dada direção é a quantidade de


energia irradiada naquela direção, comparada com a energia que
uma antena isotrópica iria irradiar na mesma direção quando
alimentada com a mesma potência. Usualmente, estamos apenas
interessados no ganho máximo, que é o ganho na direção para a
qual a antena está irradiando a maior parte da potência. Um ganho
de antena de 3 dB, comparado a uma antena isotrópica, é
representado por 3 dBi (http://wndw.net/, p. 104).

Deve-se ressalta que qualquer antena real provavelmente irá


irradiar mais energia em algumas direções do que em outras.

Desvanecimento

“Ocorre devido a algum problema de propagação, geralmente


pelas ondas de multipercurso e dutos. O sinal recebido flutua, varia
de intensidade a cada instante, aumenta e diminui passando por
nulos e zeros de tensão.” (MEDEIROS, 2007 p. 85).

Formação de Dutos no Percurso de Onda

Para SANSHES (2005, p. 74) o duto é um fenômeno atmosférico de


inversão térmica, que ocorre paralelamente a superfície terrestre
podendo atingir a ordem de dezenas de quilômetros. É capaz de
alterar o curso de um feixe de ondas e de mantê-lo “canalizado” em
parte, daí o nome duto. Como esse estudo se aplica a uma rede
WLAN mais especificamente em um Campus esse conceito está um
pouco fora do nosso contexto, porém um fenômeno em redes
WLAN que se assemelha muito com os dutos é a canalização ou
guiamento de onda que ocorre no interior construção
principalmente em corredores mais exigentes.

“Em corredores ou túneis a perda por propagação é menor que no


espaço livre devido à soma de todas as reflexões (...)” (SANSHES,
2005, p 165).

Múltiplos Caminhos
“O múltiplo caminho ocorre quando há mais de um caminho
disponível para a propagação do sinal de rádio. O fenômeno da
reflexão, difração e espalhamento dão origem a caminhos
adicionais de propagação entre transmissor e receptor.” (SANCHES,
2005, p. 158).

As ondas secundárias de diferentes percursos, por isso


denominadas ondas de multipercurso, chegam a antena
receptora com diferentes intensidades, defasadas entre si e da
onda principal. Para o receptor o sinal resultante é a soma vetorial
dos diversos sinais captados pela antena. Esse sinal varia de
intensidade a cada instante, aumenta e diminui, passa por um nulo
ou zero de tensão, resultado da composição vetorial instantânea. O
fenômeno da propagação é conhecido
como desvanecimento ou fading, em inglês (MEDEIROS, 2007, p.
84. Grifo do autor).

Reflexão

A reflexão de uma onda quando feitas em certas superfícies pode


ocasionar a inversão completa (inversão de 180) ou parcial da fase
da onda, quando essa onda refletida combinada com a onda
original e chega ao receptor pode ocasionar interferências e
degradação do sinal. Dependendo do tempo que a onda (refletida
e a onda original) chega ao receptor e da inversão de fase que
houver, o sinal original pode ser completamente cancelado.

Refração

Desvio sofrido por uma onda de rádio ao passar por meios de


diferentes densidades. Por exemplo, uma luz que incide sobre a
água que sofre um desvio, para links de longa distância esse
fenômeno é prejudicial, pois dependendo das mudanças
atmosféricas o sinal pode ser desviado. A Figura 16 ilustra um sinal
de origem que sofre com a reflexão e a refração.

Figura 16: Reflexão e refração de ondas de rádio


Fonte: FARIAS, 2006

Difração

A difração se assemelha a uma pedra jogada no lago, que cria


ondas e que se propagam na água, e que quando se deparam com
os obstáculos essas ondas tem a tendência de contornar esses
obstáculos, vide Figura 17.

O princípio de Huygnes (Christian Huygens) estabelece que os


pontos da frente de onda inicial, ao tocarem um obstáculo, se
tornam fontes secundárias de ondas esféricas e a combinação
entre elas produz uma nova frente de onda que se estende em
todas as direções com a mesma velocidade, frequência e
comprimento de onda, que a frente de onda que as precede
(SANSHES, 2005, p. 64).
Figura 17: Difração de uma onda em uma montanha
Fonte: http://wndw.net/

Espalhamento

Ocorre em superfícies irregulares onde as dimensões são menores


que comprimento de onda. Ele é difuso (vide Figura 18) e é
produzido normalmente por superfícies muito ásperas, por
pequenos ou por folhagem (nesse caso só se deve considerar o
efeito das folhagens para instalações de rede sem fio externa).

“O espalhamento acontece quando no meio pelo qual as ondas


viajam existem objetos com dimensões pequenas quando
comparados ao comprimento de onda, e onde o numero desses
objetos por volume de unidade é muito grande. O espalhamento
das ondas é produzido por superfícies ásperas, objetos pequenos,
folhagens, etc.” (SANSHES, 2005, p. 159).

Figura 18: Espalhamento de sinal


Fonte: FARIAS, 2006
Absorção

É quando o sinal de da OEM atingi um objeto e é absolvido pelo


material, sem atravessar, refletir ou contorna. Quando ondas
eletromagnéticas penetram alguma coisa, elas geralmente
enfraquecem ou deixam de existir. O quanto elas perdem de
potência irá depender de sua frequência e, do material que
penetram.

Interferência

Quando trabalhamos com ondas, estamos sujeito a interferências


do ambiente e de outros sistemas que atuam na mesma área e/ou
frequência. A interferência é como o nome sugere, ela interfere e
prejudica a comunicação entre sistemas. Assumem-se dois tipos de
interferência, ambas são ilustradas na Figura 19: a construtiva,
quando os picos acontecem simultaneamente; e a destrutiva, é
inverso do que acontece com a interferência construtiva.

“Para que trens de ondas possam ser combinados, cancelando


perfeitamente um ao outro, eles necessitam ter exatamente o
mesmo comprimento de onda e uma relação fixa de fase, ou seja,
posições fixas entre os picos de uma onda e a outra.”
(http://wndw.net/, p.21).

Figura 19: Interferência construtiva e destrutiva


Fonte: http://wndw.net/.
Rede Celular: HSPA e Cobertura

High Speed Packet Access (HSPA) é o termo adotado pelo UMTS


Forum para se referir aos avanços realizados no domínio de PS dos
padrões 3GPP Release 05 e 06. Para downlink, é conhecido
como High Speed Downlink Packet Acess (HSDPA), e para uplink, é
conhecido como High Speed Uplink Packet Acess (HSUPA). Os
desenvolvimentos do HSDPA (Release 05) e do HSUPA (Release 06)
definiram uma nova interface para envio de dados com a
introdução de canais HS - high-speed., permitindo transmissões de
dados a uma velocidade de até 14,4 Mbit/s.

O aumento considerável da taxa de transferência foi possível com a


implementação de algumas características de transmissão. Uma
delas é a redução do TTI (Transmission Time Interval) de 10 ms (em
média) no Release 99, para valores de 3 a 1 ms. O Release 05
também permite alocação de múltiplos códigos OVSF (Orthogonal
Variable Spreading Factor) para cada usuário. São reservados de 1 a
15 códigos com diferentes tamanhos (chamado de code set), dando
maior flexibilidade ao serviço de dados.

O HSPA utiliza um esquema codificação e modulação mais


apropriado para suportar maior capacidade celular, empregando a
modulação 16-QAM (16 Quadrature Amplitude Modulation).
O Release 05 ainda apresenta métodos de codificação em alta
velocidade, chamados de turbo coding, além da implementação das
transmissões rápidas baseadas nas técnicas de Hybrid Automatic
Response reQuest (HARQ) em que os pacotes corrompidos são
retransmitidos em até 10 ms.

Existem limitações na atuação desta tecnologia, dadas as


características particulares (relativas à alta modulação e aos
ganhos de codificação, principalmente), que merecem ser
estudadas para efeito de cobertura celular final.
Link Budget UMTS 2100/HSPA em Uplink

Baseado nos cálculos de link budget feitos anteriormente para a o


padrão UMTS no sentido crítico de uplink, um outro cálculo deve
ser feito com a introdução da tecnologia HSPA com suas
características típicas de operação. A tabela 6 exibe o link
budget HSPA no sentido de uplink.

Tabela 6: Link Budget UMTS/HSPA no sentido de uplink.

Sentido Descrição Valor Unidade

TX Máxima potência de transmissão 19 dBm

Perdas nos cabos e nos conectores


TX 0 dBm/100m
de TX

TX Ganho da antena em TX 0 dBi

TX ERP máximo 19 dB

TX Temperatura 290 K

TX Densidade de ruído térmico -174 dBm/Hz

Taxa de informação (serviço de


TX 1200 Kbit/s
dados - PS)

Taxa de informação [dB] (10 x


TX 60,8 dB
Log(B))

TX Figura de ruído do receptor 7 dB


Carga (35 a 40% para serviço de percentual
TX 0,4
dados) (%)

Margem de interferência (ou da


TX -2,2 dB
carga)

Relação Sinal-Ruído requerida


TX 3,4 dB
(Eb/Nt)

-
TX Sensibilidade do Node B dBm
100,6

RX Ganho da antena em RX 15 dBi

Perdas nos cabos, combiner e nos


RX -3 dB
conectores de RX

Total de perdas e ganhos em RX 12 dB

percentual
Cell edge probability (ε) 0,9
(%)

TX Desvio padrão (σ) 8 dB

Desvanecimento Log-Normal -10,3 dB

Ganho de Handover (softhandover) 4,1 dB

TX Ganho de diversidade 0 dB

Atenuação por penetração


TX -20 dB
(edificações/ veicular)

Atenuação corporal (aparelho não


TX 0 dB
fica junto ao corpo)
Total dos componentes de
-26,2
propagação

Perda máxima permitida em


105,4 dB
percurso (MAPL)

Comportamento da Rede UMTS/HSPA

As condições de operação do HSDPA se diferenciam do Release 99


ao ponto que este emprega forte controle de potência mantendo a
taxa de envio com a modulação e codificação fixa, enquanto que os
canais HS empregam uma potência de transmissão relativamente
estável e taxa de codificação e esquemas de modulação variáveis.

Em função disto, existem três principais características que alteram


o link final. A primeira é a redução da potência de transmissão do
aparelho de 21 dBm para 19 dBm. Isto porque agora com três
diferentes códigos OVSF empregados, a média final da potência
oscila com maior freqüência podendo superar os limites definidos
para interferência.

A segunda característica é o aumento da taxa de informação que


influencia diretamente no ruído térmico, diminuindo a
sensibilidade do receptor. Para ilustrar, o serviço de chamadas, de
12,2 Kbit/s resulta numa sensibilidade final do Node B de -115,9 dB.
No domínio de transferência de pacotes, para uma taxa de 384
Kbit/s, a sensibilidade final é de -105,7 dB, e para o máximo teórico
de 5,76 Mbit/s (com a tecnologia HSUPA), a sensibilidade resultante
cai para –93,8 dB.

A última característica que também irá afetar a sensibilidade do


receptor é a relação sinal-ruído requerida que diminui bastante em
função da taxa de informação, inicialmente de 7,2 dB na
comutação de circuitos (AMR) para 3,2 dB na comutação de
pacotes com taxas maiores ou igual a 384 Kbit/s. Essa redução é
uma vantagem em termos de cobertura, porém considerando os
demais fatores, a introdução do HSPA implica em uma redução de
no mínimo 66% da cobertura original UMTS.

Somando a esses fatores pode-se considerar ainda que para o


serviço de dados o aparelho geralmente é mantido a uma altura
mais baixa do que ao nível da cabeça, em torno de 1,3 metros, o
que de acordo com a fórmula de Okumura-Hata também contribui
para degradação da cobertura final, como é mostrado da tabela 7.

Tabela 7: Cálculo da cobertura HSPA (uplink) pela fórmula de


Okumura-Hata.

Parâmetro Valor

2100
Freqüência de Transmissão
MHz

50
Altura Efetiva da Estação Base
metros

1,3
Altura da Antena do Aparelho Celular
metros

Fator de Correção da Antena da Estação Base (Ch) -0,6

105,4
MAPL Mínimo (caso limitante em uplink)
dB

123,8
Distância de Atuação do Node B para o Mínimo MAPL
metros
Pode-se concluir então que embora seja possível obter taxas
altíssimas, é necessário primeiramente avaliar como serão
aproveitados estes recursos, já que a cobertura celular é
inversamente proporcional à taxa de informação. Por isso é
importante saber quais são as aplicações, e como atender os
requisitos da qualidade de serviço do público alvo, para cobrir
determinada área com eficiência.

O gráfico da figura 1 demonstra a degradação da cobertura em


função do aumento da taxa de transferência requerida.

Figura 1: Degradação da cobertura com o aumento da taxa de


transmissão.

Rede Celular: Simulações

Foi feita uma simulação computacional, com base nos dados


utilizados nos cálculos de link budget, para avaliar a qualidade de
serviço em termos de cobertura para uma rede UMTS, e comprovar
os resultados obtidos. O trabalho de predição foi realizado pelo
software Celplan Celsite, da Cellplan Technologies Inc. utilizado na
CTBC Telecom S/A.

Projeto GSM 1800

A partir da rede GSM da CTBC em operação atualmente, foram


selecionados três sites localizados no centro de Uberlândia,
chamados de ULCE (Uberlândia Centro), ULCF (Uberlândia
Condomínio Fabiana) e ULCM (Uberlândia Cícero Macedo). Todos
estes são sites externos, instalados no topo de edificações (rooftop),
tipicamente com três setores, e com uma alta demanda de tráfego.

Para adequar a simulação aos cálculos realizados anteriormente, o


mesmo link budget definido anteriormente foi utilizado como
parâmetro de entrada na simulação para todos os setores de todas
as células. O software faz a predição da cobertura, levando em
consideração as informações reais de topologia e morfologia. A
figura 2 a seguir mostra a cobertura indoor de cada site em uma
predição composta. A área de cobertura a ser considerada é a
representada pela cor verde, onde o nível de sinal é maior que –75
dBm.
Figura 2: Cobertura dos sites ULCE, ULCM e ULCF no sistema GSM 1800.

Projeto UMTS 2100

Com o propósito de analisar e comparar a cobertura final da atual


rede GSM foi definido um novo projeto UMTS, utilizando os
mesmos sites adotados na simulação anterior. A configuração
do Node B determina que a potência seja definida através do
cálculo de link budget, cujos parâmetros de entrada foram
definidos seguindo o cálculo teórico feito anteriormente. Esta
simulação ilustra a redução da cobertura celular UMTS 2100
quando comparada com o projeto GSM 1800, como mostra a figura
3.

Figura 3: Cobertura dos sites ULCE, ULCM e ULCF no sistema UMTS


2100.

Uma solução para o problema de cobertura do sistema 3G é a


adoção da portadora de 850 MHz. Para ilustrar tal efeito, um novo
projeto foi criado com a mesma configuração UMTS anterior,
mantendo os três sites e o link budget. A figura 4 mostra o
resultado da simulação do projeto UMTS 850.

Figura 4: Cobertura dos sites ULCE, ULCF e ULCM no sistema UMTS 850.

Rede Celular: Considerações


Finais

Modelos de Transição

Como já foi discutido anteriormente, o WCDMA foi desenvolvido


para interagir intimamente com a rede GSM, aproveitando toda a
plataforma já implantada. É claro que a transição deve ser feita (e
está sendo feita mundialmente) de forma gradual, justificando esta
relação de compatibilidade entre os dois padrões. Desta forma
seria natural imaginar a simples sobreposição 1:1 da rede,
economizando gastos em estruturas físicas, e aproveitando todo o
planejamento da cobertura celular GSM.

Este modelo de implementação não é recomendável porque as


opções de otimização de um sistema ficam limitadas às do outro
sistema, criando-se uma interdependência de projeto, que é
prejudicial para ambas as redes. Como pode ser observado a partir
da análise do link budget, o padrão UMTS/HSPA possui
características distintas que influenciam no planejamento celular,
tanto em termos de cobertura quanto em termos de capacidade.
Outro fator importante é a portadora adotada, que na freqüência
de 2100 MHz é responsável por uma redução na área de atuação
da célula, e perdas de penetração indoor.

Por isso, outra maneira de se estabelecer uma transição entre os


modelos é a criação de um novo plano de rede WCDMA de
sobreposição, porém de forma independente, definindo ilhas de
atuação chamadas de “hotspots” em locais estratégicos onde há
demanda por tráfego e por serviços de banda larga.

É importante deixar claro que nesta discussão do modelo de


implementação, a rede GSM continua em operação atendendo aos
usuários que são exclusivos do sistema. Pelas diferenças de
propagação entre as portadoras de 900 MHz e de 2100 MHz, e os
demais fatores apontados ao longo do tutorial, a cobertura GSM
tende a ser dominante em relação ao UMTS. As características de
penetração das ondas eletromagnéticas também priorizam o
sistema GSM em edificações fechadas.

Sendo assim, aproveitando do fato de que os aparelhos recém


lançados são dual mode, ou seja, operam sobre os dois sistemas,
os clientes UMTS não estarão fora de área de serviço em locais sem
cobertura pelos Node Bs, já que é possível e praticável
o handover entre os sistemas 3G e 2,5G. O handover entre sistemas
é conhecido como Inter-System Handover (ISHO) para o caso de
chamadas, e Inter-System Cell Reselection (ISCR) no caso de serviços
de dados. Nas suas especificações é determinado que estes sejam
pelo menos tão eficientes quanto um handover ou re-seleção de
células GSM.
Portadora para o UMTS

O WCDMA foi originalmente desenvolvido para a banda de 1920-


1980 MHz em uplink e 2110-2170 MHz em downlink, sendo definido
pelo IMT-2000 como o padrão europeu para atuar em conjunto
com a rede GSM 900/1800. No WRC-2000 (World
Radiocommunication Conference do ano de 2000) foram adicionadas
novas faixas espectrais para o IMT-2000, incluindo 1900 MHz, 1800
MHz, 850 MHz e 800 MHz.

As operadoras de serviço celular demonstraram o interesse junto a


ANATEL, em implementar a tecnologia 3G do padrão UMTS na
portadora de 850 MHz. Essa preferência tem dois motivos
principais como justificativa: primeiramente a questão burocrática
do licenciamento do espectro. Desta forma, não haveria a
necessidade de aguardar o leilão de nova faixa espectral feito pela
ANATEL, pagar pela utilização da banda, e novamente aguardar a
autorização para oferecer o serviço.

Outro motivo é a facilidade do planejamento de rede, já que na


freqüência mais baixa, a propagação tem maior alcance e maior
penetração. Como esta freqüência é utilizada no TDMA (já
ultrapassado), este sistema seria então descontinuado, e
aproveitado este espectro para o sistema 3G.

Em relação a essa questão, primeiramente deve-se atentar para o


fato de que o padrão GSM adotado no Brasil segue o modelo
europeu e asiático com a portadora de 900 e 1800 MHz. Seria
natural manter a orientação inicial e alinhar a rede nacional com a
tendência mundial de implementação do novo modelo em 2100
MHz.

O handover entre sistemas 2G em 900/1800 MHz e 3G em 850 MHz


é praticável embora seja incomum. Um exemplo é a operadora
TELSTRA, líder no mercado australiano, que também adotou a
banda 850 MHz para o UMTS, em uma sobreposição da rede GSM
900/1800 MHz.

A inter-operação entre sistemas é um fator decisivo que poderia


inviabilizar o projeto da rede 3G. Portanto, a disponibilidade de
aparelhos diferenciados adaptados especificamente para a atuação
em 850 MHz merece toda a atenção, já que hoje a maior parte dos
celulares dual mode oferece o serviço de rede GSM 900/1800 e
UMTS 2100. De acordo com o Diretor de Desenvolvimento Técnico
da QUALCOMM, Paulo Breviglieri:
“Existem combinações de freqüências regionais muito particulares.
No Brasil e na Austrália, por exemplo, encontramos a combinação
de faixas UMTS tipicamente utilizadas nas Américas (850 MHz) e
faixas GSM tipicamente utilizadas na Europa, Ásia e África (900,
1800 MHz). A oferta de aparelhos com suporte a estas
combinações de faixas já é muito extensa. A título de ilustração,
segundo a GSA (The Global Mobile Suppliers
Association, www.gsacom.com), 88 dispositivos operando na faixa
de 850 MHz eram oferecidos ao mercado em abril de 2007. O
universo de modelos disponíveis já é significativo e não deve
representar problema para operadoras que implementem redes
nestas freqüências. (BREVIGLIERI, Paulo 2007 www.teleco.com.br).”
Também em relação à compatibilidade de atuação entre os
sistemas, deve-se observar a questão de roaming nacional. Uma
vez adotada uma portadora de freqüência, esta deve ser
padronizada em escala nacional para garantir a cobertura em todo
o território brasileiro. Já existem também aparelhos 3G quadri-
band UMTS 850/2100 GSM 900/1800, possibilitando
o roaming entre operadoras que adotam diferentes freqüências.

Mas, da mesma forma que o handover entre sistemas,


o roaming estaria refém da disponibilidade de oferta destes
modelos diferenciados. A definição sobre a portadora deve ser
conjunta com as operadoras que atuam no território nacional para
maior compatibilidade entre elas podendo inclusive optar por uma
operação com as duas freqüências como foi feito no sistema GSM.

Referências
1. CHEVALLIER, C. (edit.) et al. WCDMA (UMTS) Deployment
Handbook England: John Wiley & Sons Ltd, 2006.
2. HALONEN, T. (edit.) et al. GSM, GPRS and EDGE Performance
– Evolution Towards 3G/UMTS England: John Wiley & Sons
Ltd, 2005.
3. KORHONEN, Juha. Introduction to 3G Mobile
Communications 2a Edição EUA, Artech House Inc., 2003.
4. TS 22.129. Handover Requirements between UMTS and GSM
or other Radio Systems. 3GPP; 1999.