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NÃO CABE MUITO ...

Era um sábado e estava sozinho em São Paulo. Pulei cedo da cama, encaminhei um trabalho na
empresa e mergulhei no trânsito. Para minha surpresa, a poucos dias do Natal, o movimento
estava aquém do que imaginara. Fui ao Cambuci, bairro cujo nome homenageia um fruto que,
infuso em cachaça, gera um líquido do Olimpo. Algo bem perto da infusão maior, a cachaça com
butiá, que aprecio quase imoderadamente. Depois fui ao centro, começando pelo garimpo no
sebo de meu amigo Pedro. Era pouco mais de dez horas e ele já estava turbinado por cachaça -
que livreiros mineiros haviam trazido,- e por cerveja balsâmica num dia quente.
Arrematei uma coleção de Dostoievski que há muito namorava e encontrei alguns livros que
resgatei do abandono. Um deles, de cálculo estrutural, pertenceu a Ítalo Martinelli, arquiteto que
levou à frente, com seu tio, empresário, a construção do Edifício Martinelli, que por muitos anos
foi o mais alto da América Latina. Adquiri o exemplar como souvenir, para lembrar o destino dos
livros que caem em mãos desinteressadas. Encontrar aqueles livros na calçada, quase atirados,
é um testemunho do pouco caso que fazemos, coletivamente, de nossa trajetória.
Entre outros volumes interessantes encontrei “85 anos de História”, assinado por Ivan Ângelo,
publicação alusiva ao aniversário da Sociedade de Cultura Artística, criada em 1912. O autor,
falecido há não muito, descreve o espírito da época. Berço da industrialização acelerada, São
Paulo podia tudo e sua elite tinha aspirações mais elevadas. A palavra elite em geral incomoda a
uns e outros, que imaginam que o mundo possa ser reduzido a um pastiche só, monocromático,
melancólico, igualando os desiguais. Onde isto foi tentado, restou a ruína. Lutar contra a
existência de elites é dar murro em ponta de faca. Assim como não se governa com muitos dos
exaltados que fizeram uma revolução, também não se avança sem a participação da elite, seja
ela intelectual ou material. Qualquer iniciativa em que não predominem os melhores, é medíocre.
Tendo como maioria os frequentadores da Redação de O Estado de São Paulo, contando com a
nata dos “intelectuais, artistas e amantes das artes”, nasceria a Sociedade de Cultura Artística,
cujo objetivo seria “trabalhar pelas artes nacionais, pois as estrangeiras tinham empresários,
mercado e público fiel”. Começavam assim as noites de arte, para diminuir o descompasso entre
o interesse pelos negócios e o relativo desinteresse pelas artes. A associação destinava-se a
“promover a vulgarização das obras de arte e literatura nacionais, pelo meio imediato de
conferências públicas acompanhadas de concertos musicais”. Nestes anos tantos desfilaram
grandes talentos pelos palcos da sociedade, como Bidu Sayão, Guiomar Novaes e mesmo
Catulo da Paixão Cearense, ao violão. Foi no teatro da Cultura Artística que na década de
noventa tive o prazer de ouvir Arthur Moreira Lima, talento maior que tomava uma pinguinha com
a mesma desenvoltura com que interpretava Chopin. Coisas de uma São Paulo em que a elite
econômica gastava com suas veleidades, mas também se sentia excitada pela ideia da
benemerência, dando aos seus tostões um valor que o dinheiro usurário, avarento, desconhece.
Olhemos agora as coisas do nosso chão. A Estação da Cultura de Montenegro é uma conquista
de muitos, que jamais desanimaram diante da decadência e incúria. Gente visionária, de grande
valor, capaz de ver a árvore quando só dispõe da semente. Aliás, a recuperação da antiga
estação - onde menino cheguei a tomar um trem para Maratá,- tem em Pedro Ernesto Bühler um
idealizador a quem a cidade talvez ainda não tenha tributado o devido reconhecimento.
A restauração, porém, empacou. Coexistem o já reformado com a ruína, que a cada dia grita de
seu esquecimento. Daqueles que indago, recebo a mesma resposta: é preciso captar novos
recursos por leis de incentivo à cultura. Acho que esta arenga constitui verdadeiro vício: pessoas
físicas, ou sobretudo empresas, destinam recursos que de qualquer forma despenderiam como
tributo. Isto não elimina o mérito,mas reduz seu brilho. Mal comparando, é como doar aos pobres
apenas o que não mais usamos. Uma camisa puída, um sapato furado, não deixa de ser doação.
Será que empresas e particulares abastados do Vale do Caí não poderiam contribuir muito mais
com as comunidades que os acolhem? Esta história de empurrar tudo para o Estado acalmou a
consciência de muitos, reduziu a pó a compaixão e, em última instância, concedeu um salvo
conduto para os egoísmos. Nossas carências tantas clamam por beneméritos, ainda que sua
paga seja uma coleção de medalhas, diplomas e comendas. Afinal, como me disse Pedro, o
generoso livreiro, com a língua já engrolando, lucidez a meio-pau, tocado pela cachaça: não
cabe mesmo muita coisa no caixão.