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José~' ·Luiz Fiorin

7
José Luiz Fiorin

O REGIME
DE 1964
Discurso e· Ideologia

1988

SÉRIE LENDO

Coordenação
Beth Brait
Capa: Zildo Braz (sobre arte de Alexandre Martins Fontes)

~ 3AUf Composição: Linoart Ltda.


l~ <}00 E:i9'1-
J:i! l:>.· C~T. - C51l3~
Copyright@ José Luiz Fiorin

Dados de Catalogação na Publlcaçá() (CIP) Internacional


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Fiorin, José Luiz.


F553r O regime de 1964 : discurso e ideologia/ José Luiz Fiorin.
1. ed. - São Paulo : Atual, 1988.
(Série lendo)

Bibliografia.

1. Brasil - História - Revolução de 1964 2. Brasil - Política ·


e governo - 1964- I. Título. II. Série. ·

CDD-981.0B
87-0618 -320.98108

1ndices para catálogo sistemático:


.1. Brasil: Discurso político, 1964- 320.98108
2. Brasil : História, 1964- 981.08
1:3. Brasil : Ideologia política, 1964- 320.98108
4. Revolução de 1964 : Brasil : História 981.08

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NOS PEDIDOS TELEGRAFICOS BASTA CITAR O CóDIGO: ANCL0207T


SUMÁRIO_

INTRODUÇÃO 1

·I - LINGUAGEM E IDEOLOGIA: A BUSCA DA HISTó-


RIA PERDIDA ...................................... . 3
O Objeto da Lingüística ............................ . 3
O Alargamento do Objeto da Lingülstica ............. . 4
Formalistas e ldeologistas ................ :· ......... . 5
O Discurso: Autonomia e Determinação ............. . 6
Formcu;ões Ideológicas e Formações Discursivas ..... . 12
O Social e o Individual: Discurso e Texto ........... . 14
O Problema do Sujeito do Discurso ................. . 15
Conclusão ... ·...................... ; ......... ·.•...... 17
....
O Discurso Lacunar: Algumas Opções Metodológi~as .. 18-
O Discurso Lacunar: Algumas Opções Metodológicas .. 18
O Discurso Construído: Invariantes do Discurso de 64 . 20
O Componente Narrativo e a Semântica do Comp'onente
Discursivo ......... , ......• , ...... : ...............•. 21
Temas e Figuras: Posição de Classe do Narrador e do
Narratário ................... ·..................... : . 118
Alguns Procedimentos Discursivos .................. . 125
O Componente Fundamental ........•................ 133

III - A SACRALIZAÇÃO DO DISCURSO POUTICO ......... 139,


' .

O Discurso Religioso e o Discurso Político ............. · 139 ·


O Problema da Sacralização .......................... 1~7 · ~

CONCLUSÃO ............................. ; . . . . . • . . . . • . . . . . 152

BIBLIOGRAFIA ............ " ........... - ...............................


_,
~
- . 154
1. LINGUAGEM E IDEOLOGIA: Á BUSCA
DA HISTÓRIA PERDIDA

"acabou vendo Joan Brossa


que os verbos do catalão
tinham coisas por detrás
eram só palavras, não."
João Cabral de Melo Neto

O Objeto da Llngilistica

Saussure, em seu Curso de Lingütstica Geral, mostra que a


linguagem é um fenómeno "multiforme e heteróclito", com muitos
níveis e dimensões, uma vez que é física, fisiológica e psíquica,
individual e social. Diante dessa multiplicidade de fenômenos, se-
ria preciso estabelecer o objeto da ciência da linguagem. Propõe
ele, então, a distinção entre língua e fala. A língua é suscetível de
uma definição autônoma, pois é a "parte social da lingut\gem, ex-
terior ao indivíduo, que não pode criá-la nem modificá-la". Para
Saussure, a língua é um produto acabado que o falante registra
em sua memória. Constitui ela um sistema que conhece apenas
sua própria ordem. A líl\,lYlla não é, para Saussure, uma lista de
palavras ou de sons, mas um conjunto de relações. Segundo ele,
na língua não há senão diferenças. Assim, a língua é forma e não
substância. O exemplo do jogo de xadrez ilustra essas concepções.
Não importa para o jogo que as peças sejam grandes ou pequenas,
de marfim ou de madeira, etc. O que importa é o valor que as pe-
ças têm, ou seja, as diferenças que uma tem em relação a todas
as outras, o que lhe dá uma função específica dentro do jogo. As-
sim também, o valor específico de "mala" advém do fato de que
ela é diferente de "bala", "sala", "mata", "mela", etc.
A fala é a atualização do sistema lingüístico (língua) numa
dada situação. Por isso, a fala é individual, é um ato de vontade
e de inteligência, é o lugar da liberdade e da criação. Se a língua
constitui um código, a fala são as combinações pelas quais o indi-
víduo realiza o código da língua com a finalidade de exprimir seu
pensamento. ·
Ao separar a língua da fala, Saussure estabelece que o objeto
da Lingüística é a língua. Afasta, assim, a fala da ciência da lin-
guagem. Ao mesmo tempo, ao verificar a autonomia da língua, põe
à marge1ll da Lingüistica tudo aquilo que ele chama elementos
externos da língua, entre eles as relações entre língua e hist6ri~
As mudanças no sistema lingüístico se dão por razões internas a~

3
pr9prio sistema, como, por exemplo, a instabilidade das oposições
isoladas ou o preenchimento de casas vazias para o estabelecimen·
to~ de correlações perfeitas.
O pensamento saussuriano é bastante complexo e trouxe ine-
gáveis progressos para a ciêncía da linguagem. A distinção de base
de Saussure sorreu alterações, mudanças, ac.réscimos ao longo da
história da Lingüística. Houve mesmo mudanças significativas na
maneira de encarar o objeto da Lingülstica. No entanto, resumin-'
do de uma maneira um tanto esquemática, poderíamos dizer que
a Lingüística moderna desenvolveu durante muito· tempo a Lin·
güística da língua, pautando-se sempre pelo princípio da imanência
e deixando de lado, portanto, os elementos considerados externos.
Tudo na linguagem deveria ser exp1icado pelas relações internas.
Por isso, os campos que conheceram um extraordinário desenvol-
vimento nas últimas décadas foram a fonologia, a .morfologia e
a sintaxe. São esses os níveis em que a língua tem autonomia em
relação à prática social. A semântica, ao contrário, teve até recen·
temente um pequeno avanço, pois o estudo dos significados não
poderia ser feito só na bas.e dos métodos da fonologia.

O Alargamento do Objeto da Llngüístlca

Um dos problemas da Lingüística da língua é que seu limite


é o nível da frase, uma vez que o texto pertence muito mais à fala
do que propriamente à língua. No entanto, a única realidade para
o falante .são os discursos e não os fonemas, os morfemas ou as
frases isoladas.
Com o tempó, esse e outros problemas novos se colocam.
Lembremos, rapidamente, alguns: o problema do uso da lingua·
gem, dos atos de fala, da contextualização, das relações entre lin·
guagem e sociedade, das condições de produção do discurso, da
argumentação, da enunciação, da textualização. O número das no-
vas questões que se discutem é imenso. Os lingüistas sentem as
insuficiências da teoria e a estreiteza de seu objeto de estudos.
Começam a ajuntar os problemas novos ao clássico objeto da Lin-
gilistica como espécies de anexos mais ou menos heterogêneos em
relação ao corpo téórico assentado. A Llngüística inicia sua crise
epistemológica.
Não é nossa intenção discutir todos os problemas que se co-
locam hoje para a Lingüística. Tomaremos apenas um aspecto, o
das relações entre linguagem e história e esboçaremos a respeito
desse problema algumas idéias, que carecelll ainda d~ refinamen1o.
A preocupação com as relações da linguagem com a história
não deriva da opção pessoal de alguns Ungüistas pela novidade in·
conseqüente, nem. de seu gosto por aquilo que se considerou, por

4
muito tempo, como elementos extralingüísticos, nem mesmo de
seu desejo de incorporar a Ciência da linguagem à ciência da his-
tória, mas decorre do. próprio desenvolvimento da Lingüística.
Quando esta começa a estudar problemas como as condições de
produção discursiva, a enunciação, a intertextualidade, etc., surge
o problema da determinação histórica da linguagem. Pode-se dizer
que o aparecimento dessa questão no âmbito da Lingüística tem
sua origem na crise epistemológica da ciência da linguagem, ou
seja, na própria história da Lingilistica.

Formalistas e ldeologlstas

Aqueles que se interessam pelos estudos lingüísticos podem-se


dividir, de maneira esquemática, em duas grandes tendências: o
formalismo e o ideologismo.
A primeira, em termos gerais, concebe a linguagem como uma
·autarcia, ou seja, como um sistema fechado em si mesmo; com-
preende o texto como um todo que se basta a si mesmo, não. se
importando com as relações entre a linguagem e a história. A se-
gunda despreza os elementos lingüísticos e procura relacionar, de
maneira direta e .mecânica, tal ou qual aspecto do texto com a es-
trutura social. Bakhtin (Todorov, 1981), ao fazer um balanço das
duas tendências, mostra que, embora os formalistas estejam fun-
dados sobre pressupostos filosóficos falsos, .eles contribuíram, de
maneira inegável, para o avanço da Lingüística, ao discutir pro-
blemas do funcic::iamento específico da linguagem que não podem
mais ser ignorados. Seu julgamento em relação aos ideolegistas é
muito mais severo: eles não só ajudaram no desenvolvimento dos
estudos lingüísticos, como contribuíram, de maneira poderosa, para
a vulgarização do marxismo. Segundo Bakhtin, é preciso herdar o ,,
formalismo, recolocando-o sobre riovas bases filosóficas.
O primeiro problema do lingüista é, pois, perceber que a lip- •
guagem goza de uma certa autonomia em relação às fo:rmações
sociais, mas, ao mesmo tempo, sofre determinações histórícas. As-
sim, uma teoria geral da linguagem deveria começar por reconhe-
cer os níveis e as dimensões em que a linguagem tem uma certa
autonomia e aqueles em que ela sofre determinações.
A renúncia a considerar a existência dos diferentes níveis de
articulação e as variadas dimensões da linguagem gerou erros en- ·
tre os quais um "sociologismo" e um "historicismo", c9mo os da
teoria marrista, que pretendem explicar toda a linguagem e as
suas mutaçõç_s pelas mudanças na infra-estrutura econômica e que
trazem como conseqüência a impossibilidade de explicar certas
. categorias lingilisticas e determinadas mutações internas que se
operam em alguns níveis. da linguagem, como, por exemplo, no ní-

5
vel fonológico. Não se_poderá explicar a sonorização das consoan-
tes surdas intervocálicas na passagem do latim ao português por
mutações na infra-esttutura. Nota o próprio Engels, em carta a
Bloch, que nem todas as alterações se explicam por causas eco-
nômicas e exemplifica essa afirmação com a mutação consonântica
do alto alemão, que se processa por fatores exclusivamente lingüís-
ticos (Marx e Engels, 1977, 34). Dessa forma, a língua, no sentido
saussuriano, goza de certa autonomia em relação às formações
sociais. O russo e o chinês têm o mesmo sistema fonológico e mor·
fossintático antes e depois da Revolução. O sistema fonológico do
português é fundamentalmente o mesmo do século XVI até nossos
dias. Abandonado, pois, o sistema, voltemo-nos para a fala, para
investigar se ela sofre determinações sociais.
A fala, em Saussure, é o domínio da liberdade e da criação.
Nota Régine Robin (1977, 25) que essa concepção de discurso ar·
ticula-se no interior de uma "filosofia do sujeito neutro", que se
conhece muito bem (uma filosofia anterior a Freud). e da concep-
ção de sujeito como um ser que não. sofre qualquer determinação
sócio-ideológica (uma filosofia de antes de Marx). E. mais uma idéía
de que "eu falo" do que a de que "eu sou falado" por um determi-
nado discurso. Daí tornar-se impossível uma ciência da atividade
lingüística, pois, nesse campo, tudo se passa como se fosse inde-
terminado, como se nada fosse comum, como se não houvesse re-.
petição. No entanto, dois pontos devem ser examinados: a "liber-
dade;, da fala, na maioria das vezes, dissolve-se no interior de falas
estereotipadas (lembremo-nos das pessoas que falam sentenciosa-
mente por meio de provérbios); há determinações que incidem so-
bre a linguagem, levando à criação desses estereótipos.
De agora em diante, não se usará mais o termo fala, mas so-
mente o vocábulo discurso. Esta não é simplesmente uma mudan-
ça terminológica, mas revela uma determinada postura diante do
problema da atividade lingüística, pois a noção de discurso pres·
supõe a de sujeito. Co.qio a linguagem é um fato caracteristica·
mente humano e social, só se pode falar de sujeito no quadro das
relações sociais que se estabelecem no interior de uma formação
social. Assim, falar de discurso é remeter ao problema da relação
da linguagem com a história.

O Discurso: Autonomia e Determinação

Quando se fala em determinação do discurso, pergunta-se ime·


diatamente se ele é um fenômeno de superestrutura. Muitos éon-
sideraram o próprio sistema lingüístico como um fenômeno de
classe. A língua em sr não é um fenómeno de classe, uma vez que
ela existe nas sociedades sem classes, existe nas sociedades de

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classes e continuará existindo quando as classes forem abolidas.
Como mostra E!1gels (s.d.b, 174-175), ela surge da necessidade de
relações sociais, 'que não se reduzem, porém, ao mero intercâmbio
de idéias, uma vez que a linguagem é tão complexa quanto os de-
mais fenômenos sociais. Enfatiza Engels que o trabalho é a cate-
goria fundadora da história e que, a partir do processo de traba· ·
lho, estabelecem-se relações sociais que estão na base da origem
da linguagem. Por seu turno, trabalho e linguagem estão associa-
dos no desenvolvimento da capacidade de pensar, que, por sua vez,
aperfeiçoou a linguagem e os processos de trabalho. Assim, a lin-
guagem não é um .fenómeno de classe, mas recebe as marcas da
existência das classes sociais, ou seja, as classes, ou frações de
classe, apropriam-se da linguagem para transmitir suas represen·
" tações ideológicas e, assim, agir no mundo. Não é a linguagem
propriamente um fenõmeno de superestrutura, mas é o veículo
das manifestações superestruturais que, por isso, moldam nela
suas representações. Determinações sócio-ideológicas estão pre- í.
sentes na linguagem, ou mais precisamente no .diSÇUrso, uma vez
que consideramos o sistema um elemento que goza de relativa
• autonomia em relação às formações sociais. A determinação sobre
o discurso não é, porém, reecânica, mas passa por sucessivas me-
diações, e tem, por isso, também o discurso relativa autonomia.
Dizer que as representações ideológicas moldam o discurso,
mas que há uma relativa .autonomia da linguagem em relação~ à
ideologia, ou seja, que o nível lingüístico -não se reduz ao nível
ideológico, implica distinguir níveis e dimensões do discurso e os
componentes de cada nível.
O discurso não é um amontoado de frases, mas é regido por
' Íeis de estruturação, para que ganhe sentido. Esses mecanismos de
estruturação discursiva, sua sintaxe, são dotados de uma relativa
autonomia em relação às formações sociais. Mecanismos como o
discurso direto, o discurso indireto, o discurso indireto livre, uma
vez criados, podem veicular conteúdos de distintas formações ideo-
• • lógicas. Isso significa que o lugar por excelência da manifestação
ideológica é o nível semântico do discurso. Mas é preciso ir deva-
gar. Diversas objeções já se levantam.
Distinguimos inicialmente uma sintaxe e uma semântica no
discurso. No entanto, há que pensar também que, depois de
Chomsky, a Lingüística não pode mais deixar de considerar a exis·
tência de uma estrutura superficial e uma estrutura profunda.
Assim, deve-se pensar, ao propor um modelo de análise, que a es·
trutura discursiva é constituída de níveis de invariância sempre
crescente, que explicam como ir da manifestação à instância ab
quo da geração do sentido. O modelo de análise vai propor a exis·
tência de um percurso gerativo do sentido.

7
A necessidade de uma análise do discurso por meio de um
percurso gerativo justifica-se na medida em que um investimento
semântico mais abstrato como a conjunção de um sujeito com o
objeto-valor "liberdade" pode ser recoberto por diferentes atores,
temas e figuras. O enunciador pode manifestar o sujeito como um
indivíduo ou uma classe social. A conjunção com a liberdade pode
ser a evasão temporal, figurativizada, por exemplo, pela volta à
infância ou pela volta à Idade Média; a evasão espacial, figurati·
vizada pela ida para. lugares exóticos ou para outros planetas; a
derrubada de opressores; a violação de usos e costumes, figura-
tivizada, por exemplo, pelo uso da "calça velha, azul e desbotada".
Para compreender bem a multiplicidade dos investimentos semân~
ticos concretos, é preciso reduzi-los a investimentos mais abstra·
tos. Entendendo o elemento abstrato e a concretização possível,
não se vai apreender, por exemplo, a "liberdade" e a "democracia"
como elementos indistintos, apareçam onde e como aparecerem.
Na análise do percurso gerativo de sentido, há que distinguir,
em primeiro lugar, a imanência da manifestação. Aquela é o plano
de conteúdo, e esta a· união de um plano de conteúdo com um pla-
no de expressão. Tal distinção se faz necessária, pois o mesmo
plano de conteúdo pode ser veiculado por diferentes planos de
expressão: verbal, visual, etc. O Beijo da Mulher Aranha é livro,
filme e peça de teatro. E. claro que também o plano de expressão
agrega significados ao cónteúdo. Não é totalmente indistinto trans-
mitir um determinado conteúdo por este ou aquele meio .de ex-
pressão. Mas voltaremos a isso mais àdiante.
Em segundo lugar, há que distinguir os diferentes níveis de
generalização do conteúdo.
Greimas (1979, 157-160) propõe um percurso gerativo de sen·
tido (referente, portanto, ao plano do conteúdo), que, embora su-
jeito a críticas~e revisões, revela-s~ operatório para o estudo do
discurso em níveis crescentes de invariância. Poderia ele ser es·
quematizado da seguinte forma:

Componente sintáxico Componente semântieo

Estruturas
·sêmio-narra· Nível Sintaxe Semântica-fundamental
tivas profundo fundamental .
Nfvel da Sintaxe Semântica narrativa
superfície narrativa
1
8
Sintaxe discursiva Semântica discursiva
Discursivização
Estruturas discursivas
actorialilação J
temporaliz:ação
J tematização
figurativização
espacialização

O nível profundo é constituído dos elementos mais abstratos,


responsáveis pela produção, pelo funcionamento e pela compreen-
são do discurso, que pode ser manifestado verbalmente ou não
verbalmente; é a instância ab quo do percurso gerativo. A semân- • •
tica fundamental aparece corno um inventário de oposições se-
mânticas, que serão trabalhadas pelo sujeito da enunciação. Assim,
no romance A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, a categoria
de base com que opera o autor é a oposição /civilização/vs./natu-
reza/. Um dos elementos da categoria semântica de base é consi-
derado eufórico e o outro disfórico. No caso, ao final do romance,
verifica-se que a civilização é o termo disfórico e a natureza o ter-
mo eufórico.
As duas operações da sintaxe fundamental são a negação e a
asserção. Ao negarmos um termo qualquer de urna oposição se-
mântica, que é constituída de termos contrários entre si, temos
um termo contraditório: civilização - não-civilização; natureza -
não-natureza. A asserção permite reunir os termos situados no eixo
dos contrários (ex.: natureza e civílização) ou no eixo dos sub·
contrários (ex.: não-natureza e não-civilização). O mito parece ser
sempre a união de contrários ou· de subcontrários. No interior do
sistema de valores do cristianismo, Cristo é, por exemplo, divino
e humano, enquanto os anjos são não--divinos e não-humanos. Em
A Cidade e as Serras, es~as operações (transformações) são as se-
guintes; afirmação do termo a, civilização (vida em Paris); negação
do termo a, não-civilização (momento da chegada de Jacinto a
Portugal); afirmação do termo b, natureza (descoberta do valor
das coisas simples, em Portugal).
Os elementos do nível fundamental são retoma.dos pelo nível
narrativo, que é constituído de um conjunto de estados (relação
de um sujeito com um objetal e de transformações (alteração da
relação de um sujeito com um objeto). O nível narrativo faz tor-
narem-se um pouco menos abstratas as categorias do nível fun-
damental. Os elementos semânticos do nível fundamental são ins-
critos no objeto do nível narrativo. Assim, no nosso exemplo, a
civilização disfórica é a doença e a infelicidade, enquanto a natu-
reza· eufórica é a saúde e a felicidade. O sujeito, na civilização,
está em relação conjuntiva coin a doenÇa e a infelicidade e, con-
seqüentemente, em relação disjuntiva com a saúde e a felicidade.

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No percurso narrativo, essa relação altera-se e o sujeito entra em
conjunção com a saúde e a felicidade.· A semântica narrativa trata
·dos valores inscritos nos objetos, enquanto a sintaxe narrativa
contém as operações de transformação de ·estados.
A sintaxe discursiva contém as operações de actorialização, de
espacialização e de temporalização, que inscrevem os enunciados
narrativos em coordenadas espaço-temporais e revestem os papéis
narrativos, como sujeito e objeto, de atores discursivas. Isso se
faz pelos mecanismos de enunciação. Nesse nível, colocam-se to-
dos os problemas da relação enunciador-enunciatário, como, por
exemplo, as estratégias argumentativas. As operações da sintaxe
discursiva visam a criar efeitos de realidade e de verdade, com o
objetivo de convencer o enunciatário, de fazê-lo crer. A semântica
discursiva é constituída de temas e figuras, que são dois patama·
res sucessivos de concretização do sentido e que geram, respecti·
vamente, os discursos não-figurativos e os discursivas figurativos.
A tematização é o revestimento de um dado percurso narrativo
com atores e coordenadas espaço-temporais não concretizados. No
nosso exemplo, reveste-se o percurso da busca da felicidade pelo
sujeito com o tema da evasão espacial, que é o deslocamento de
alguém no espaço. A figurativização é o revestimento de um tema
por figuras, que são signos cujo plano de conteúdo remete a ele-
mentos presentes no mundo natural. Em A Cidade e as Serras, o
tema da evasão temporal é figurativizado como: Jacinto deixou
Paris e partiu para Tormes. Como se vê, nesse romance, Paris e
Tormes figurativizam, respectivamente, a civilização e a natureza.
Já dissemos que o componente sintáxico do discurso garante
sua estruturação peculiar e garante sua relativa autonomia em re-
lação às formações sociais. Já o investimento semântico revela o
universo ideológico do sujeito enunciador, pois não é indistinto
o estabelecimento dos objetos "disciplina" ou "liberdade" (cf. os dis-
cursos dos pensadores políticos autoritários e os dos anarquistas),
"riqueza" ou "glória de Deus" (cf. os discursos do Tio Patinhas, de
Walt Disney, e o discurso jesuítiéo que expressava sua finalidade
pela máxima "Ad majorem Dei gloriam").
Por outro lado, a aplicação dos termos eufórico e disfórico às
categorias semânticas fundamentais não é neutra, mas revela um
universo ideológico. Assim, um conto de fadas como A Gata Bor-
ralheira revela uma determinada formação ideológica, ao conside-
rar eufóricas as virtudes da obediência, da submissão e da hu-
mildade, que são recompensadas, e disfóricos o orgulho e a pre-
potência, que são castigados. O romance Justine, de Sade, mostra
um universo ideológico contrário, pois nele disfórkos são o amor
·ao 1pró?'imo, a caridade e a bondade, que são sempre castigados,
enquanto eufóricos são ludibriar os vutros e cometer malvadezas,
que são ações premiadas.

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' O nível por excelência de manifestação ideológica é, porém, o
nível discursivo, ou seja, é no nível da semântica discursiva que,
realmente, as formações ideológ{cas se manifestam, pois um m~s­
mo valor (elemento da semântica narrativa), como a "liberdade",
pode ser tematizado, pela assunção do papel temático do homo
ludens e pela negação do papel temático do homo faber, figurati-
vizados por jovens no espaço e no tempo do lazer. Analise-se, por
exemplo, a peça publicitária de jeans que diz "Liberdade é uma
calça velha, azul e desbotada". Nesse caso, a liberdade é o lazer,
figurativizado pelo não-trabalho, indicado pela roupa. "Liberdade"
pode ser tematizada pelo "direito à diferença", corno no cii.so dos
discursos de minorias sexuais. Pode ainda ser tematizada pela
"não-exploração da força de trabalho produtiva". Essas três tema-
tizações diferentes do mesmo valor pertencem a formações ideo-
lógicas distintas.
As duas primeiras pertencem ao universo ideológico que vê a
liberdade como a -possibilidade de o indivíduo ou de um grupo de
indivíduos libertar-se das coerções sociais. Embora pertençam elas
ao mesmo quadro de valores, são distintas: a primeira coloca-se
no domínio das opções permitidas; a segunda, no das injunções
negativas, ãésejando tornar o que é proibido permitido, numa
dada sociedade. A terceira pertence a outro universo ideológico,
pois vê a liberdade como decorrência da .alteração de todo o sis-
t~ma de relações sociais.
O discurso religioso católico apresenta, em nossos dias, Cristo
em dois papéis temáticos distintos: salvador e libertador. Insiste
no papel temático "salvador" o discurso de parcelas tradicionais
da Igreja. Ressalta o papel "libertador" a facção comprometida
com a chamada "opção preferencial pelos pobres".
Nos discursos não-figurativos, a ideologia patenteia-se num
dado conjunto de temas, enquanto nos discursos figurativos re·
vela-se, de maneira explícita, na relação entre temas e figuras; pois
o mesmo tema, relacionado com figuras distintas, pode aparecer em
formações ideológicas distintas. O tema do "exílio'', em Gonçalves
Dias, aparece relacionado às figuras da natureza em que a pâtria
é maior e melhor que a terra do exílio. Isso reflete o momento da
constituição da nacionalidade. O mesmo tema aparece, em Murilo
Mendes,. relacionado às figuras da dominaÇão cultural estrangeira
("Minha terra tem macieiras da Califórnia,/onde cantam gatura·
mos de Veneza").
A determinação do discurso é bastante complexa, pois há um
campo da manipulação eonsciente e um da determinação incons·
ciente.
O campo da manipulação consciente é o da sintaxe discursiva,
em que o enunciador lança mão de estratégiãs argumentativas e

11
de outros procedimentos para criar efeitos de verdade e -de rea-
lidade, com a finalidade de convencer o interlocutor. O enuncia-
dor organiza a estratégia discursiva em função de um jogo de ima-
gens: a imagem que tem do interlocutor, a imagem que pensa
que o interlocutor tem dele, a imagem que deseja passar para o
interlocutor, etc. (Pecheux, 1975). é em função desse jogo de ima-
gens que ele usa certos expedientes argumentativos e não outros.
Embora consideremos este o campo da manipulação consciente,
pode-se, em virtude de hábitos adquiridos, usar esses recursos
de maneira inconsciente. ·
O campo das determinações inconscientes é constituído·· de
um conjunto de temas e figuras que constituem a maneira domi·
nante de explicar os fatos do mundo numa dada época e que são
oriundos de outros discursos já articulados, cristalizados e cujas
· condições de produção foram apagadas. Este é o campo da deter·
minação ideológica propriamente dita. Conquanto seja incons-
ciente a determinação ideológica, pode ela ser também consciente.
É necessário agora precisar os conceitos de formação ideológica
e de formação discursiva.

Formações Ideológicas e Formações Discursivas

Marx mostra, em O Capital, que há no real um nível de es-


sência e um nível de aparência. No modo de produção capitalista,
a aparência do real é vista como o próprio real. O capitalismo
engendra formas que mascaram sua essêncj.~. Assim, por exem·
plo, no nível da circulação (aparência), todos os homens apare-
cem como iguais, pois todos são detentores de mercadorias, que
são trocadas. Alguns vendem seu trabalho, livres de quaisquer
vínculos de dependência pessoal; são livres para estabelecer rela-
ções contratuais com outros homens e em troca recebem um sa-
lário. Aprofundando-se, no entanto, a análise, nota-se que eles não
vendem seu trabalho, mas sua força de trabalho. Com isso, ob-
serva-se que a jornada de trabalho divide-se em tempo de traba-
lho pago e tempo de trabalho não pago. O capitalista apropria-se
do trabalho não pago, constitutivo da mais-valia. O salário, que
não é senão o elemento destinado à reprodução da mão-de-obra,
apaga a distinção entre tempo de trabalho necessário à repro-
dução da força de trabalho e tempo não pago. O salário, no
nível da aparência, aparece como o pagamento do trabalho e não
da força de trabalho.
Observe-se, então, que, no nível da circulação, as relações so-
ciais aparecem como relações entre indivíduos livres e· iguais.
Entretanto, no nível da !fSsência, essas relações são entre classes
e não entre pessoas. Não existe a troca, mas a exploração. Não

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há, nesse nível, nem igualdade nem liberdade, mas relações de
poder. A partir da produção estabelecem-se as classes, sociais; aí
há exploradores a explorados. O real, no nível da aparencia, põe-
se invertido e é, a partir daí, que se elaboram as repiesentações
que servem para pensar a relação dos homens entre si. Assim,
ideologia é o conjunto de representações elaboradas a partir da
aparência do real, o conjunto de racionalizações que justificam,
no nosso caso, a sociedade burguesa.
No entanto, há a seguinte questão. Por que a Economia Polí-
tica s6 ficou na aparência do real, ao analisar a sociedade capita-
lista, e não chegou à sua essência? A resposta é que ela se identi-
ficava com os interesses da burguesia e, portanto, só poderia ir
até aquelas formas do real engendradas para mascarar a essên-
cia da sociedade capitalista. Isso não quer dizer que a classe he-
gemónica só revele os fatos que lhe interessam, ocultando, deli-
beradamente, outros para ludibriar o proletariado. Embora não
se possa excluir essa possibilidade, as representações ideológicas
estão presentes na maneira de todas as classes pensarem a socie-
dade. Elas justificam· a hegemonia de uma classe para todos os
membros da sociedade. Assim, os problemas que a Economia Po-
lítica clássica se colocava eram aqueles relacionados com a apa-
rência do real. Isso significa que nenhum conhecimento é neutro,
pois ele expressa sempre uma visão de mundo. Dessa forma, há
um corihecimento que sobrepaira as aparências e outro que vai
até a essência do real. Podemos, pois, entender, nesse sentido, a
ideologia como uma visão de mundo, que não é senão o ponto
de vista de uma classe social. Assim, poder-se-ia historicizar o
éonceito de ideologia: são representações que se elaboram a par-
tir da realidade, seja de suas formas aparentes, seja de suas 'for-
mas essenciais.
A partir daí, pode-se observar que não há uma separação en-
tre ideologia e ciência, como queria, por exemplo, Althusser, pois
a ciência que trata das aparências do real analisa também ele-
mentos reais como o salário, a mercadoria, o preço, etc. A ideolo-
gia é assim constituída pela realidade e constituinte da realidade.
Na sociedade burguesa, o ponto de vista burguês é a visão de
mundo elaborada a partir das aparências do real, enquanto a
proletária é organizada a partir de sua essência. Há que observar,
entretanto, que a visão de mundo domina,nte na sociedade bur-
guesa é a cosmovisão burguesa.
Como se materializam essas visões de mundo? Materializam-
se na linguagem em suas di~rentes manifestações: a verbal, a
visual, a gestual, etc. Essas visões de mundo corporificam-se num
estoque de temas e figuras, que constituem a maneira de pensar
o mundo numa dada época. Esses temas e figuras São repetidos
na maior parte dos discursos produzidos numa formação social

13
concreta. Temos, então, que considerar a formação ideológica
como urna visão de mundo, ou seja, o ponto de vista de uma elas·
se presente numa determinada formação• social, e a f armação dis·
cursiva como o conjunto de ternas e figuras que materializam
uma dada formação ideológica.
Ainda resta o espinhoso problema do sujeito que produz o
discurso. Em primeiro lugar, existe o sentimento arraigado de
que o homem é livre para pensar e para produzir enunciados.
Em segundo, nota-se que os textos que os homens produzem não
são iguais, o que invalidaria, segundo certos críticos, a idéia de
que os discursos são determinados pelas formações ideológicas.
Comecemos pela segunda objeção. Para respondê-la é preciso pen-
sar um outro nível da linguagem, o da manifestação.

O Social e o Individual: Discurso e Texto

Até agora estivemos refletindo sobre o plano do conteúdo. O


conteúdo manifesta-se por meio de um plano de expressão. A ma-
nifestação é, pois, o encontro do plano de conteúdo discursivo
com um plano de er:pressão, que pode ser verbal, visual, gestual,
etc. O plano de expressão veicula o significado. Nesse plano, ocor-
rem os efeitos estilísticos e as múltiplas coerções do material uti-
lizado.
Os efeitos estilísticos agregam sentidos da· expressão ao pla-
no do conteúdo. No verso "Pedras, pingos pulam de alegria", do
poema "Chuva de Pedra", de Augusto Meyer, a aliteração do /p/
patenteia o saltitar das "gotas duras". No verso de Garcilaso "ces·
tillos blancos de purpúreas rosas", mostra Dâmaso Alonso que o
vermelho «ias rosas oferecidas à ninfa morta é destacado certa·
mente pelo contraste com o branco dos cestinhos em que eram
trazidos, porém esse contraste é reforçado pela ordem quiástica
das palavras dos dois sintagmas, pelo contraste dos timbres a e u
nos adjetivos e pelos acentos colocados sobre essas duas vogais.
A coerção do material é responsável pelo fato de determina-
dos aspectos do sentido serem mais bem expressos por um plano
de manifestação do que por outro. A cor tem importância muito
·grande no filme "Gritos e sussurros", de Bergman. Há todo um
sentido derivado do contraste entre os tons escuros e os tons
claros e luminosos. Dificilmente esse sentido seria revelado por
um plano verbal de manifestação. Essa coerção ocorre também
quando usamos uma língua e não outra. Daí a dificuldade de tra-
dução do texto poético, que faz ·largo uso dos efeitos estilísticos
de expressão. Se se traduz o verso virgiliano "Stetit illa tremens"
por "E ela parou tremendo", perdemos o valor sonoro do tremor,
dado pela aliteração do /t/.

14
O discurso ·pertence ao plano do conteúdo. :e. o cemponente
do. percurso gerativo p~ sentido em que as formas do componente
narrativo são r~vestidas de temas e figuras, localizadas ac::orial,
espacial e temporalmente. O texto é o lugar da união de um plano
de conteúdo com um plano de expressão.
O texto é também um lugar da manipulação consciente, em '/-
que o falante pode organizar os recursos da expressão para vei-
cular, da melhor maneira possível, certo discurso. A formação
discursiva constitui a matéria-prima. de que um homem de uma
dada formação social dispõe para elaborar seus discursos. Ele,
no geral, reproduz em seus discursos os temas e as figuras pre-
sentes nos discursos dominantes de uma dada época. No entanto,
cada pessoa textualiza diferefl:temente os temas e ~:s figuras -repe-
tidos na maior parte dos discursos produzidos numa certa época,
numa dada formação social. O discurso é o lugar do social, en- i.
quanto o texto é o lugar por excelência do individual.
A ilusão da liberdade discursiva situa-se no fato de que o
texto é individual, ou seja, é único e irrepetível. O discurso símu·
la ser individual, porque o texto, que o veicula e que, enquanto
plano de expressão não tem sentido, varia de pessoa para pessoa.
Entretanto, deve-se ressaltar que, se a textualização é individual,
ou seja, subjetiva, essa subjetividade é objetivada, isto é, essa
individualidade é socializada, uma vez que ela é formada por meio
de operações modelizantes de aprendizagem, que incluem o apren-
dizado da língua, da retórica e dos procedimentos de formas de
elocução.
O mesmo discurso pode manifestar-se por muitos textos di:·
ferentes. Por isso, a liberdade de textualizar é muito grande e
está condicionada apenas pelos processos modelizantes de apren·
dizagem, ou seja, pela tradição textual.

O Prob\ema do Sujeito do Discurso

Muitas vezes se diz, que é !mp~ssível pensar o proble~,a ~ª­


relação entre classe social e discurso, porque o enunciador real
pode simular um discurso que não represerita a formação ideoló-
gica a que ele está ligado. Desse modo, não se pode dizer que
quem pl'Oduziu um discurso seja um burguês ou um proletário .
.. Esse é um falso problema. Senão vejamos. Bakhtin mostra
que a realidade da consciência é a linguagem. Os conteúdos da
consciência são lingüísticos. Segundo ele, sem linguagem. não se
pode falar em psiquismo humano, mas somente em processos
fisiológicos ou processos do sistema? nervoso. Não há, para ele,
uma atividade mental independente da linguagem. O discurso não

15
é expressão de uma consciência, mas esta é formada pelo con-
junto de discur~os interiorizados pelo indivíduo. Se os discursos
são ·sociais, a consciência também o é.
A ideologia burguesa reluta em apoiar a tese de que a cons·
ciência é social, pois repousa sobre o conceito de individualidade
e concebe a consciência como o lugar da liberdade do indivíduo.
No âmago do seu ser, ele estaria livre da opressão social. Desses
conceitos derivam as idéias de uma liberdade abstrata de pensa·
mento e expressão e de uma criatividade que ·seria preciso culti·
var, pois seria a expressão da subjetividade da consciência indivi·
dual. No entanto, como a consciência é constituída de discursos,
ela é social. Não existe a liberdade absoluta do indivíduo preco-
nizada pela ideologia burguesa, pois o indivíduo é produto de
relações sociais.
O enunciador, enquanto ser social, é depositário de várias
formações discursivas que existem numa formação social concre-.
ta dividida em classes sociais distintas, embora, em geral, ele seja
suporté apenas da formação discursiva dominante, aquela que
materializa a formação ideológica dominante. Assim,· a análise do
discurso não se interessa por saber se o enunciador real está re-
velando ou pcultando, com o discurso, sua posição de classe. Aná· •
lise do discurso não é investigação policial. O interesse da análise
é pela ideologia transmitida pelo enunciador inscrito no interior
do discurso, ou seja, aquele que, no discurso, diz eu.
O enunciador real sempre vocafü:a as formações ideológicas
existentes na formação social em que vive. Ao enunciar, revelan·
do ou ocultando sua posição de classe, ele dá voz aos diferentes
agentes do discurso, que são as classes ou as frações de classe de
uma determinada formação social. Tolstoi era aristocrata, mas
em seus romances ele dá voz, por exemplo, ao campesinato. O
que é certo é que um enunciador não foge nunca a uma das for-
mações discursivas da sociedade em que vive.
O discurso não é, portanto, o lugar da liberdade e da criação, ~
mas é o lugar de reprodução dos discursos das classes e das
frações de classe. O indivíduo não fala o que quer, mas o que as
formações discursivas querem que ele fale. Ele não fala, mas é
falado ·por um discurso. Quando se diz, porém, que cada classe
tem o seu discurso, não se pode esquecer que, assim como a ·ideo-
logia dominante é a da classe dominante, o discurso dominante é
o da classe dominante. Não se exclui, evident~ente, a possibili-
dade de o homem forjar discursos críticos, qiferentes, portanto,
dos discursos dominantes. Só que o discurso crítico não surge
do nada, mas está previsto numa formação social.
Se o sujeito do discurso não é um indivíduo, pouco importa•
que seu discurso seja sincero ou mentiroso, ele estará sempre

16
manifestando alguma formação discursiva exfstente na sociedade.
Mesmo quando cria outros mundos, como, por exemplo, na ficção
científica, ele revela os valores, as carências e as angústias )>re- ·
sentes· numa dada formação social.

Conclusão
. . . .

Uma teoria geral da linguagem deve estar atenta. para as de- • • •


terminações sociais que incidem sobre a linguagem e para a rela-
fiva autonomia da linguagem em relação às formações sociais.
Para isso, unia teoria deve começar por distinguir níveis e dimen-
sões determinados ou autônoroos, individuais ou sociais. O lin-
güista deve ter presente a fala de Riobaldo em Grande Sertão:
Veredas;

"Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma


só, e as coisas que há e que estãe> para haver são demais de muitas,
muito maiores diferentes, e a gen.te tem que necessitar de aumentar
a cabeça para o total."

17.
II. O DELITO SEMÃNTICO

"A semântica tortuosa dos demagogos


transmudava o mal em bem e o bem
em mal, prenunciando a trágica noite
da naufrágio de nossas mais puras tra-
dições culturais."

Ernesto Geisel

O Discurso Lacunar: Algumas Opções Metodológicas

A "revolução" produziu uma enorme massa de discursos.


Para tratar esses dados tivemos que tomar algumas decisões meto-
dológicas. Em primeiro lugar, limitamos a nossa tarefa, principal-
mente, ao estudo dos discursos do marechal Castelo Branco. Cre-
mos que seus discursos são representativos do discurso do movi-
mento militar de 64, porque, conforme constatamos, seus temas
e as figuras invariantes estão presentes, em sua plenitude, no dis-
curso do primeiro presidente pós-64 e porque, agindo o presidente,
assim como todos os demais que se lhe seguiram, como delegado
e representante do que se convencionou chamar "sistema", fala·
ria a palavra do núcleo do poder. Ademais, como chefe de um
poder executivo todo-poderoso, que tirou do legislativo muitos
dos seus poderes, submetendo-o a seus desígnios por meio de
uma maioria dócil e da cassação dos mandatos dos insubmissos,
que subtraiu, por meio de atos institucionais, muitas das suas
atividades da apreciação do judiciário, que conseguiu muitas vi-
tórias políticas nos tribunais superiores, cassando alguns dos
seus membros, aumentando ou diminuindo o número de juízes
conforme seus interesses e suspendendo as garantias constitu·
cionais de vitaliciedade e inamovibilidade da magistratura, o pre-
sidente da República imprimia a linha a ser seguida nos discursos
situacionistas. Além disso, todos os presidentes que se segui·
raro ao marechal Castelo Branco apresentaram-se como con-
tinuadores da obra da "revolução de 64" e, assim sendo, não
poderiam falar um outro discurso.
-Em segundo lugar, deliberamos esc~lher, dentro da massa de
dados, os pontos que serão analisados. O ato de conhecer é uma
interação entre o sujeito cognoscente e o objeto. o conhecimento
não é, como queriam os idealistas, apenas produto ou construção
da subjetividad_e, nem como ensinavam os _positivistas, produto
' da realidade objetiva. O sujeito desernpenhà um papel ativo no
processo cognitivo. No entanto, deve-se entender que. o sujeito

18
não é uma subjetividade pura, mas uma consc1encia, que contém
predileções, pontos de vista. _l:nfim, uma visão de mundo, que
resulta das condições materiais de existência. Essa subjetividade
tem origens sociais e, por isso, ela não qualifica apenas um dado
indivíduo. Assim, se ela é resultante dos condicionamentos sociais,
exteriores ao indivíduo, é- uma subjetividade objetiva. Objetividade
e subjetividade fundem-se no processo do conhecimento (Bakhtin,
1972, 21-22, 34; Marx, 1968, 59).
- Se o conhecimento é uma interação dialética do sujeito cog-
noscente e do objeto, não há possibilidade de uma única leitura
dos textos, mas abre-se a possibilidade de diversas leituras que
f> se fundamentam nas escolhas __ que fªz o analist_a. O texto a ser

analisado é um texto construído com base nos diferentes textos·


ocorrência. Com isso, estamos alertando para o fato de que o
texto construído não apresenta todos os programas narrativos,
os temas e as figuras e os processos de enunciação que aparecem
nos textos-ocorrência, mas somente aqueles elementos pertinentes
de cada nível de análise que constituem invariantes do discurso
•• "revolucionário". A marcha da análise é um vaivém do texto cons·
truído para os textos-ocorrência.
Este estudo pretende desvendar as lacunas do cfGcurso do
poder. Como mostra Marilena Chauí (1981, 21), o discurso ideoló·
gico é lacunar e sua coerência não existe, apesar dessa lacuna·
ridade, mas graças a ela. Diz a mesma autora que ele é coerente
e eficaz porque não diz tudo nem pode dizê-lo. O preenchimen·
to das lacunas não corrigiria o discurso ideológico, mas destruí-
lo-ia, porque retiraria dele a condição necessária de sua existên·
eia e de sua força. Esta provém de uma lógica que poderia ser
chamada "lógica da lacuna, lógica do branco". ·
Este trabalho pretende mostrar as lacunas do discurso "revo-
lucionário". Como, porém, mostrá-las, cingindo-se apenas ao tex-
' • , to analisado? Há contradições facilmente demonstráveis no texto.
A presença, entretanto, de um único enunciador garante ·uma cer-
ta homogeneidade ao discurso. Diferentemente, por exemplo, de
uma peça teatral em que há vários enunciadores, manifestando
-diferentes visões- da realidade, e em que não há, senão nas mar-
cas cênicas (ou às vezes no coro que sublinha uma visão do real),
um narrador que exerce uma função veridictória, apresentando
enunciados que determinam o que ~- verdade e o que é mentira,
o discurso político tem um narrador único, presente corno ator
na narrativa. Se não há vários narradores, não há várias visões
da narrativa. Para mostrar a ambigüidade da narrativa, é preciso
• ouvir narradores diferentes. No caso de discursos que têm por
função precípua transmitir uma ideoloiia, é preciso ouvir narra-
dores diferentes, colocados em lugares sociais distintos e q\le te-
nhal11;, por isso, ideologias _diversas. -.

19
Tendo levantado os diferentes conteúdos aII).bíguos, a opção
por uma das versões da narrativa se faz com fundamento numa
postura ideológica. Nota Rastier (1973, 93) que, quando Greirnas,
· no começo da descrição da narrativa mítica, considera que o me-
nino que viola a mãe é um tr.aidor, ele o faz eqm base no conhe-
cimento de uma axiologia social que tem as relações. sexuais
entre mãe e filho na conta de interdições. Nada impede que, den-
tro de outro. sistema social, o mesmo ator seja o· herói. Da mes-
ma forma, os conteúdos investidos no discurso do poder ganham
um determinado valor na versão de um ·enunciador e outro na
de um segundo responsável pela enunciação. O traidor de uma
versão será o herói de outra, o que é eufórico numa será disfó-
rico noutra e assim sucessivamente.
Reconhecemos que nosso estudo é fundado numa visão de •
mundo, pois não admitimos, conforme explicamos em outra par-
te, a neutralidade científica. Há, porém, estudos que ficam na • ·
aparência do real e outros que procuram chegár até sua essência.
Quer este trabalho mostrar que o discurso do golpe de 64 tenta
fazer crer que formas aparentes do real constituíam a realidade
total.

O Discurso Construído: . Invariantes do Discurso de 64

a) O povo elegeu Goulart vice-presidente da República.


b) Goulart tomou posse da presidência na vacância do cargo
por renúncia do seu titular .
.,,, c) Goulart conduz o país para o· caos (subversão política,
estagnação económica e corrupção).
d) A imprensa informa o povo do verdadeiro sentido dos atos
de Goulart.
e) O povo, descontente com a siruação, desqualifica Goulart
e qualifica as Forças Armadas para dirigir o país. ·
.. f) As Forças Armadas depõem Goulart, para .salvar o pals do
comunismo. .
g) As Forças Armadas repõem o país no caminho da ordem
e do desenvolvimento e acabam com a corrupção. O que as Forças
Armadas fizeram foi uma revolução; · não deram um golpe .de
Estado, ·
h) Há algumas dificuldades no presente, mas anuncia-se para
o país uma época· de grande prosperidade e tranqüilidade em que
o Brasil realizará o seu destino histórico de grande potência. Nes-
se tempo, todos os brasileiros colherão os butos do desenvolvi-
ménto.
i) Há alguns antipatriotas que pretendem contestar o regime.
j) O que cada um deve fai:er, dentro do sistema, é trabalhar
para o engrandecimento do Brasil.

21)
1) As realizações da revolução em seu trabalho pelo cresci-
mento do Brasil são X 11 X 2, X 3• • • • X n·
m) O coqflito que se travou no Brasil_ está irlserido na luta
entre a democracia e o comunismo. ·
Ao relacionar. as proposições invarián tes do discurso do po- · • "
der, o que fizemos foi transformar os discursos-oêorrência em
"discurso do descritor", ou sej~, reduzimqs as variantes a inva-
riantes. Os discursos-ocorrência nada mais fazem do que saturar j
semanticamente a forma abstrata acima exposta. '
A redução foi feita, limitando-se as sinonímias parciais. Cons-
tituíram-se, assim, as classes de conteúdo a operar. Essas classes
definem atores e processos. Para. chegar, entretanto, aos enun-
ciados canónicos da narrativa, onde serão identificados estados
e' transformações, . é preciso substituir os enunciados lingüísticos
derivados por sua estrutura de base {Rastier, 1973, 97-98.) Isso
será feito à medida que cada enunciado for sendo analisado. .
Deve-se notar que os enunciados narrativos serão apresen-
tados na ordem de sucessão no tempo da narrativa e não na.
ordem de manifestação no discurso lingüístico.

O Componente Narrativo e a Semântica do Componente Discursivo

A Eleição de Jango

1. O mecanismo democrático

O princípio sobre o qual se fundamentam as democracias


. burguesas é o que está inscrito no artigo primeiro da Constitui-
ção do Brasil: "Todo poder emana do povo e em seu nome é
exercido". Nota Marilena Chauí {1980, 88-89) que o liberalismo
concebe a democracia exclusivamente como um sistema político·
que repousa sobre cinco postulados institucionais:
a) eleição dos governantes por melo de consulta popular pe-
riódica, em que prevalece a vontade da maioria;
b) competição entre posições diversas de homens, gIUJ?OS ou
partidos nas eleições;
c) liberdade de expressão e de divulgação de opiniões diver-
gentes na competição;
d) proteção à maioria contra a perpetuação de um grupo no
poder e à minoria contra o alijamento das assembléias em que
se discutem e decidem questões de. interesse público;
e) proteção dada pelo judiciário ao cidadão contra o arbítrio.
dos governantes e ao sistema 'contra o despotismo, submete_ndo
governantes e. governados ·ao império da lei, ou seja, da corisfi·
tuição.

ll
Não se pretende discutir aqui se esses postulados correspon·
dem ou não à realidade, quais são suas fraquezas e seus pont-os
falhas. Serão aceitas, para efeito de argumentação, da maneira
como estão postos. Teoricamente, numa democracia, o povo é o
detentor do poder. Por isso, nesse sistema político deve haver,
peÍiodicamente, eleições livres em que os governantes são esco·
lhidos pela maioria dos eleitores e as minorias estão represen·
tadas no Parlamento. Isso se faz conjugando-se o sistema de elei·
ções rnajoritárias com o sistema de eleições proporcionais>
O processo democrático pode ser analisado como uma série
de enunciados narrativos. Uma eleição é um contrato entre um
destinador e um destinatário-sujeito. O destinador é a maioria dos
cidadãos de um país, de um Estado ou de um município nas
eleições rnajoritárias ou· uma parte deles nas eleições proporcio-
nais. O destinatário pode ser um homem, um grupo ou um par·
tido. O contrato é unilateral, pois o destinador manifesta urna
proposição que pode ser interpretada como: D1 (destinador) quer
que D2 (destinatário) seja governante e faça aquilo que ele propôs
fazer em seu plano de governo; o destinatário, por sua vez, as·
sume o compromisso que não_ é senão o dever de D2 de execut:rr
o querer de D 1• O contrato unilateral é composto de uma deter·
minação e uma aceitação. Por isso, o contrato altera o. estatuto
de cada participante. No momento em que se dá o contrato (elei·
ção), o destinador torna o destinatário-sujeito competente segundo
o poder, pois lhe transmite o /poder-fazer/ (todo poder emana
do povo), embora não renuncie a ele (o povo é sempre detentor
do poder), mas ao seu exercício direto (o poder é exercido em
nome do povo). Ocorre, aqui, o dom do /poder-fazer/, porque a
uma atribuição do objeto a D2 corresponde uma renúncia por parte
de D 1• O destinador atribui o poder ao destinatário e ren_uncia a seu
exercício.
O contrato estabelece um dever-fazer para D2 (prescrição) e,
ao mesmo tempo, institui um /não-poder-não-fazer/ (obediência),
que implica um /poder-fazer/. Correlacionados o /dever-fazer/ de
D2 , que é conforme com o /querer/ de D1, e o /não-poder-não-
fazer/, que obriga o governante a fazer aquilo que está previsto
no plano de governo, o /poder-fazer/ daí resultante poderia ser
denominado "liberdade vigiada".
No final da execução do fazer do sujeito (fim do mandato).
o destinador (povo) exerce a sua sanção sobre seu fazer. A sanção
executada pelo destinador é cognitiva e pragmática, positiva ou
negativa. Se o sujeito cumpriu as obrigações contratuais recebe
a recompensa (positiva). Em caso contrário, sofre a punição (ne-
gativa). No sistema democrático, se a sanção cognitiva e pragmá-
tica for positiva, o destinador tem como recompensa a ·atri-

22
buição do poder por um outro período determinado (novo man-
daw).,Se for negativa, a punição ser-á,a-cas&açãe,oo:poder atribuído
anteriormente (não-reeleição). O poder e o querer são intrínsecos à
condição de cidadão. -,

Para que haja democracia é preciso que haja competição liV're


entre os concorrentes ao papel de contratante com o povo. O des-
tinador, então, escolhe seu destinatário. Desse modo, o contrato é
precedido por uma outra operação da ordem do saber em que
programas virtuais de fazer (programas de governo) são propos-
tos para o destinador. Essa operação é cognitiva e pressupõe um
fazer persuasivo dos que pretendem ser o destinatário do /poder-
fazer/ atribuído pelo povo e um fazer interpretativo do destina-
dor do poder. Os diferentes candidatos procuram comunicar um
objeto do saber (plano de governo), modalizado como verdadeiro.
Os eleitores exercem um fazer interpretativo que procura avaliar
o objeto a partir da sua visão de mundo. :a um fazer dedutivo,
que tem um estatuto formal comparável ao do raciocínio mate·
mático: "os teoremas que se podem deduzir de um axioma dado
são corretos, mas não são verdadeiros no sentido estrito do ter-
mo; seu valor de verdade depende inteiramente da verdade dos
enunciados constitutívos do axioma" (Greimas, 1976, 188). Assim,
os eleitores estabelecem a verdade/falsidade/mentira do objeto
transferido, com base em valores da sua visão de mundo, tomada
como um axioma. o saber que adquirem, nesse caso' não é neces-
sariamenie verdadeiro, mas é correto em relação à sua ideologia.
Nessa operação de transferência do saber, os candidatos são des-
tinadores e o povo é o destinatário. Os candidatos apresentam-se
como sujeitos competentes segundo o saber. Tendo o povo reali-
zado o fazer interpretativo, realiza a seleção de um dos progra- ',
mas e quer que ele seja executado. Para isso, sendo o destinador
segundo o poder, conced~ a competência /poder-fazer/ ao candi·
dato escolhido, que é o destinatário segundo o poder, o querer
e, agora também, segundo o sâber.
O discurso político é_ essencialmente persuasivo. Distingue-se
em discurso político da situação e da oposição. o discurso situa-
cionista é o diSCW"sa da prestaçãa .de contas, ou seja,. aquele que
visa a persuadir o destinàdor da sanção de que o que foi contratado
foi cumprido e de que, por isso, o sujeito deve receber uma san·
ção positiva no plano cognitivo e no plano pragmático. O díscurso
oposicionista pretende mostrar que o fazer não foi executado ou
que foi danoso ao povo e que, por isso, o sujeito deve sofrer uma
sanção negativa. Além ·disso, propõe a execução de um outro fa.
zer e, para isso, deseja obter o poder de que o povo é detêntor.
Situação e oposição desejam fazer com que o povo atribua a um
partido e não a outro o poder. A eleição é, antes _de mais nada,
um conflito de manipuladores, em que o povo escolhe um deles~

23
É fundamental, para que haja processo democrático, que pos·
sa haver competição entre pessoas, grupos ou partidos, o que im·
plíca a possibilidade de alternância no poder, ou seja, que exista
uma relação entre desapossameI1to_e atribuição do poder. Não
pode, entretanto, haver uma oposição entre desapossamento e
atribuição, pois cada uma dessas operações não é a projeção si- -
métrica da outra. A relação entre elas é, então, urna relação fun.
dada em um princípio de sucessão. No entanto, como cada um
dos termos sucessivos projeta a sua imagem invertida, ocorrendo
uma relação entre desapossamento e atribuição, devem essas trans-
formações estar correlacionadas, respectivamente, com a apropria-
ção e a renúncia. O povo, na eleição, apropria-se do poder que
atribuíra a um destinatário e, por conseguinte, desapossa-o dele.
Em seguida, atribui-o a outro destinatário ou ao mesmo e renun·
:i.;. eia a seu exercício direto. A eleição é o momento em que há
nítida distinção entre o poder' e o seu ocupante, ou seja, entre
objeto modal e sujeito.
As categorias semânticas usadas no discurso são temporali-
zadas e, então, articulam-se numa nova categoria
/permanência/ vs. /incidência/
que é a adaptação ao tempo da categoria
/contínuo/ vs. /descontínu()/.
O discurso aparece, então, como uma sucessão de permanências e
de incidências. Uma incidência deve necessariamente intercalar-se
entre duas permanências, para que elas possam ser tom.adas como
distintas. O tempo articula-se na manifestação com um aspecto,
que é a maneira como um observador percebe a temporalidade.
Para ele, a permanência é durativa, enquanto a incidência é pon-
tual. O encadeamento de /permanência/ e de /incidência/ só se
transforma em processo se a /pontualidade/ é marcada como
o fim (terminatividade) ou o começo (incoatividade) do processo
de /duratividade/. As temporalidades podem ser denominadas e
"' investidas de um conjunto de determinações semânticas. O pe·
riodo é uma "permanência denominada" e o acontecimento é uma
"incidência denominada" (Greimas, 1976, 71-72).
Dentro do processo democrático de transferência de poder, a
eleição é um acontecimento, enquanto o tempo de governo e a
legislatura são um período, A incidência, articulando-se com o va-
lor aspectual /pontualidade/, é início de um período Uini::oativi·
dade/) e fim de outro (/terminatividade/). O que caracteriza o
processo democrático é que o período é re~ar, ou seja, tem um
tempo de duração delimitado a priori. Não se pode, sem que se
resvale na tirania, aumentar a duração do período, enquanto
ele transcorre, sem consulta à população. Da mesma forma, não
se pode diminuir o período. ·

24
2. A eleição de Jânio e de Jango

O discurso "revolucionário" não faz referência ao fato de que


Goulart recebeu o poder do povo dentro de um processo formal-
mente democrático e que sua posse na presidência se deu de
acordo com os mecanismos previstos na Constituição de 1946 para
os casos de vacância do cargo de presidente.
O discurso "revolucionário" escamoteia esse enunciado, por-
que pretende mostrar que Jango é que rompeu a legalidade de-
mocrática. Entretanto, como os elementos constituintes da gramá-
tica sêmio-narrativa se pressupõem logicamente, pode o analista,
por meio de catálises 1, estudar os enunciados implícitos. Como apa-
rece na estrutura de superfície a ruptura do contrato, que será
analisada mais adiante, deve-s~ pressupor seu estabelecimento.
As eleições brasileiras eram, teoricamente, uma disputa entre
partidos ou coligações de. partidos. Concorreram, em 1960, três
candidatos: Jânio da Silva Quadros, candidato do PDC e apoiado
por outros quatro partidos, inclusive a UDN, o maior partido de
oposição na época; o marechal .Henrique Teixeira Lott, candidato
da coligação situacionista formada pelo PSD-PTB e que tinha tam-
bém o apoio dos comunistas, nacionalistas e grupos de direita;
Ademar de Barros, que concorreu como candidato independente,
sustentado pelo PSP. Jânio foi eleito presidente, em 3 de outubro
de 1960, .com 48% do total de votos. A legislação eleitoral bra-
sileira da época determinava que- a votação para presidente e
vice-presidente fosse separada. João Goulart, candidato a vice-pre-
sidente pela coligação PSD-PTB, foi reeleito, derrotando os com-
""" panheiros de chapa de Quadros, Milton Campos (UDN) e Fernan-
. do. Ferrari (PDC). Pelo resultado das eleições, percebe-se que a
disputa entre partidos _era apenas teórica.
Não se pode dizer que houve uma sanção negativa à coligação
PSD-PTB, porque seu candidatÕ à vice-presidência se reelegeu
com 309.000 votos· à mais do que os companheiros de chapa de
Jânio. Houve uma sanção positiva à atuação de Goulart e uma
atribuição de poder a Jânio, que realizou urna campanha perso-
nalista e não vinculada a qualquer partido, baseada, principal-
mente, no tema da "erradicação da corrupção". 2 Os partidos e os
candidatos são os atores do fazer persuasivo que precede o con-.
trato, embora, no Brasil, possa-se dizer que os verdadeiros atores
do prélio eleitoral sejam os candidatos. 3

3. A posse de Jango

No dia 25 de agosto de 1961, Jânio renuncia ao cargo de pre-


sidente da República. A renúncia é uma disjunção reflexiva. Jânio.,
sujeito que estava em conjunção com o objeto modal /poder~

25
fazer/, que lhe fora atribuído pelo povo, disjunge-se dele por "von·.
tade própria". 4
Nessa época Goulart estava viajandp, em missão oficial, pela
China e pelo Oriente Médio. A renúncia apanhou-o em Paris. Ao
lhe ser comunicada a notícia da renúncia de Jânio, Goulart co-
meça sua viagem de volta para o Brasil. De Paris voou para Nova
York (30 de agosto); daí, para Montevidéu (31 de agosto); da Ca"
pital do Uruguai para Porto Alegre (1. de setembro). Chegou de
0

avião a Brasília no dia 5 de setembro.


O presidente interino, Ranieri Mazzilli, notificou ao Congresso
Nacional, no dia 28 de agosto, que os principais líderes militares
eram contrários à ascensão de Jango à presidência por razões de
segurança nacional. Na véspera, o marechal Odílio Denys, minis-
tro da Guerra, declarara que havia chegado a hora de optar en-
tre o "comunismo e o Brasil" (Young, 1973, 125-126). No dia 30,
os ministros militares divulgam 'uma nota conjunta em que ma-
nifestam que o regresso do vice-presidente ao país era um risco,
pois, por suas posições ideológicas, conduziria o país ao caos, à
anarquia e à guerra civil, terminando por entregá-lo ao comunis-
mo, que faria ruir as instituições democráticas e, "com elas, a
justiça, a liberdade, a paz social, todos os mais altos padrões de
nossa cultura cristã". 5 Começa a ruir o discurso "revolucionário",
pois, antes de Goulart tomar posse, ele já estava prejulgado. O
golpe foi abortado e outro começou a ser preparado (Dreifuss,
1981). ·Na realidade, o povo mais uma vez, por meio das suas
lideranças políticas eleitas, qualificava Goulart.
O destinador (povo) havia estabelecido Goulart como o desti-
natário virtual do poder. O cargo de vice é sempre uma posição
virtual, pois ele é um sujeito instaurado antes de sua junção. Ha-
vendo uma disjunção entre o titular do cargo e o poder, ocorre
a conjunção que estabelece a realização. Os "líderes militares"
são oponentes da transformaÇão do sujeito virtual em sujeito
real, enquanto os governadores do Rio Grande do Sul, Goiás,.
Santa Catarina, Paraná, o III Exército, a "cadeia da legalidade",
populares e outras personalidades civis e militares que se pronun-
ciaram a favor da posse de Goulart são os adjuvantes.
Para que houvesse a posse de Goulart (conjunção com o po-
der) houve um contrato unilateral. O Congresso Nacional desa-
possa Goulart de parte do poder (poder executivo de governar)
e atribui esse objeto a um primeiro-ministro; ao mesmo tempo,
atribui a Goulart o poder de chefe de Estado. A relação entre
desapossamento !e atribuição é tematizà'da pela implantação do
regime parlamentarista no Brasil. O querer do Congresso, ex-
presso em emenda à Constituição, implica uma obrigação (/çlever-
fazer /) para Goulart. A determinação do Congresso corresponde
uma aceitação de Goulart.

26
A reforma constitucional determinava que um presidente,
eleito pelo Congressó, oomearia um prill1eir~ministro côm a apro-
vação da Câmara dos Deputados; o primeiro-ministro, como pre-
sidente do gabinete, desempenharia os poderes executivos ante-
riormente exercidos pelo presidente; o Congresso poderia destituir
o primeiro-ministro; um plebiscito seria realizado em 1965 para
que o povo decidisse se o regime parlamentarista continuaria a
existir no Brasil ou não.
O presidente estabeleceria um sujeito virtual do poder-fazer
executivo (nomeação). A virtualidade tornar-se-ia realização pela
vontade da Câmara dos Deputados. A Câmara poderia também
desapossar o sujeito (primeiro-ministro) do poder. O povo, pro-
todestinador do poder, seria chamado a manifestar o seu querer
sobre a transformação que ocorrera, manifestando a sua sanção
positiva. No dia 6 de janeiro de 1963, o povo sancionou negativa-
mente o parlamentarismo e voltou-se ao presidencialismo, onde
não há separação· entre chefia do governo e do Estado. Novamen· ~ '111'; 1

te Goulart foi sancionado positivamente pelo povo. ,,.-

A Beira do Abismo
Começaremos, agora, a anâlise do discurso explícito do 'po-
der. Antes, analisamos alguns elementos implícitos pressupostos
logicamente pelos ç0nteúdos explícitos.
Os papéis narrativos 6 colocados pelo discurso "revolucioná-
rio" e os atores correspondentes são:

• Sujeito de Estado • . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . • . .. . . . . . . . . . . Brasil;


• Objetos-valor ................................ ordem e caos;
e Objeto modal •......• ,. ............................. poder;
e Destinador do poder . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . • . . . . .. . . . . . povo;
e Sujeito do fazer ........................... Forças Armadas;
e Anti-sujeito do fazer .......... , . . . . . . . . . . Governo Goulart.

Goulart opera uma disjunção entre o Brasil e a ordem e uma


conjunção entre o Brasil e o caos. Os parassinônimos 7 do "caos",
que aparecem no discurso do golpe, são; entre outros;•'desordení",
"desrespeito", ''indisciplina", "solapamento da autoridade", ''que-
bra da hierarquia", "subversão", "estagnação econômica", "orgia
inflacionária". '.'anarquia", '.'corrupção", "demagogia", "insolvê:Q.ç~
financeira do país". Goulart levou o Brasil ao caos, porque seu fim
último era ."bolchevizar o país", ou seja, operar uma. disjunção
entre o Brasil e o capitalismo e uma conjunção entre o país e o
comunismo (1, 157; 2, 34; 2, 111; 3, 186; 3, 207; 3, 292).
Diz oJ discurso que a nação estava à "beira do abismo". O
fundo seria o comunismo. Goulart não conseguiu levar a nação
até lá, graÇas à pronta ação das Forças Armadas (2, 261-262). Nem

27
sempre a expressão "à beira do abismo" aparece manifestada.
Entretanto, o seu significado pode ser depreendido de le~emas ou
expressões qué indicam um "quase", como "perigos {tninentes
pairavam-sobre a nacionalidade", "às portas da anarquia'', "pre-
núncio da agonia", do uso do pretérito imperfeito do· indicativo,
que indica uma ação não acabada, como em "marchávamos para
a desordem'', da utilização de expressões como "a Nação esteve
exposta a riscos" (1, 84; 2, 21; 2, 285; 3, 50; 3, 245). Esses tempos
verbais e esses lexemas e expressões remetem para o significado
"à beira". Para perceber o significado "abismo'', temos que opor
o governo Goulart, que fazia o país caminhar para baixo ("afun-
dava o país na corrupção e na subversão"), aos governos "revo-
lucionários", que procuravam levar o país para o alto ("tarefa de
soerguimento nacional" e "emergir do caos financeiro em que
fôramos mergulhados") (2, 33; 1, 14; 1, 21; 1, 65; 2, 47; 2, 68; 2,
89_; 2, 205; 3, 25).
Para descrever a expressão locativa "à beira do abismo", deve-
se recorrer aos procedimentos de aspectualização. Se supusermos,
por enquanto, que o componente fundamental se articula em dois
pólos distintos, /democracia/ vs. /comunismo/, veremos que as ope-
rações de disjunção ocorridas no componente narrativo corres-
pondem a operações lógico-semânticas no componente fundamen-
tal: a disjunção entr~ o Brasil e a democracia corresponde a uma
operação de negação que consiste em negar a democracia, fazendo
aparecer a não-democracia; a conjunção com o comunismo, a uma
operação de seleção, que se resume em escolher a partir da não-
democracia o comunismo. O país, porém, segundo o discurso "re-
volucionário", ainda não era comunista. O comunismo estava pres-
tes a ser implantado. Lexemas ou expressões como "prestes a",
~"em vias de", "à beira de", "próximo", ''muito", "longe", "bastan-
te" manifestam aspectos, acrescentados às operações lógico-se-
mânticas no nível discursivo. Com efeito, procedimentos de tem-
poralização trazem como conseqüência o fato de que a um estado
de natureza lógica corresponde um processo durativo circunscri·
to por duas aspectualidades pontuais, /incoatividade/ e /termina-
tividade/ (Greimas, 1976, 24-25). Um terceiro elemento aspectual
deve ser introduzido: /tensividade/, que é a relação que a dura-
tividade de um processo contrai com a terminatividade, o que
produz o efeito de sentido "tensão" ou ''progressão" (Greimas,
1974, 388). A estrutura aspectual permite analisar as aproxima-
ções em relação às opo~ições sem~ticas de base.·
Em nosso caso específico, o mecanismo aspectual mostra que
a conjunção com o objetivo (comurrismo) é muito próxima (à
beira do abismo), porque uma tensão sobredetermina a relação
aspectual:

28
-
/democracia/------? /comunismo/ - nível lógico
/duratividade/ _,. /tensividade/ .....,.. /terminatividade/ - nível
aspectual.

Isso significa que ·a "comuriização" estava prestes a se com·


pletar.
A análise revela que dois pontos devem mei·ecer a nossa aten·
ção. O primeiro é que o lexema "abismo", figura do supercaos, o
comunismo, é definido pelo dicionário como "profundidade sem
termo". Contém, por conseguinte, os seguintes semas ª:

/verticalidade/ + /inferatividade/ + /não-extremidade/.

O espaço vertical interativo que . não tem extremidade é visto


como disfórico. Em oposição, o espaço vertical superativo é apre-
sentado como eufórico.. A altura conota objetos eufóricos,
enquanto a profundidade conota objetos disfóricos. Isso, provavel-
mente, liga-se aos mitos cristãos do céu (/verticalidade superati-
. va/) e do inferno (/verticalidade inferativa/) e aos valores eufó-
ricos e disfóricos que se vinculam a cada um desses espaços.
O segundo é o problema do destinador. O discurso quer mos-
trar que Goulart rompeu o contrato firmado com o povo e esta-
beleceu um contrato com o movimento comunista internacional,
que passa a ser o novo destinador, instituindo. um novo fazer a
ser executado pelo sujeito; a bolchevização de> país (2, 157; 2, 299;
3, 47; 3, 50; 3, 207; 5, 6). Esse contrato, que corresponde a Um querer
·do destinador, implica um dever do destinatário-sujeito. A ruptu-
ra contratual é tematizada pelo percurso da traição e Goulart
passa a executar o papel temático do traidor (1, 36; 2, 299).
O aparecimento da traição é necessário para garantir a coe-
rência do discurso, pois, sem rUptura do contrato entre 9 povo
e o governC!, não se poderia justificar a deposição de Goulart.
Diz Gofredo Telles Júnior que a faculdade de resistir à opressão
dos governos é uma faculdade natural do homem, que a resis-
tência é um fato "cuja legitimidade (não legalidade) é uma ques-
tão metajurfdica, porque depende diretamente, não da lei, mas
da consonância desse fato com os autênticos interesses da vida
humana" (1965, 105). "Um Governo só é legítimo se for, real·
mente, órgão do Poder. Isso significa que um governo só é legí-
timo se estiver a serviço· da idéia cuja realização a sociedade de-
seja." O governo, mesmo que legitimamente constituído, quando
se desvia da idéia que rege a sociedade, torna-se injusto, pois
"promulgará uma ordem jurídica em desacordo com as aspira·
ções profundas da sociedade e manterá o equilíbrio social por
meio da força e da corrup.ção" (Telles, 1965, 114-116). Eis ai o ar-
gumento que pretende legitimar a deposição do presidente da
República.

29
O programa do -PTB para a cãmpanha presidencial de 1960
reafirmava o direito do trabalhador de fazer greve, -recomendava
que se promulgasse uma legislação mais social, insistia na neces-
sidade da reforma agrária e desejava o controle das remessas
de lucros das companhias estrangeiras sediadas no Brasil (Young,
1973, 86).
Um programa de governo do marechal Lott, definido no dia
27 de maio, num comício em São José dos Campos, consistia em:
"(1) autoridade e moralidade no governo; (2) equilíbrio salarial;
(3) inviolabilidade da Petrobrâs; (4) nacionalização e desenvolvi-
mento das fontes de energia brasileiras; (5) melhorias do bem-
estar. educacional e social; (6) expansão da produção; (7) facili-
dades mais amplas de crédito bancário para os produtores; (8)
desenvolvimento regional melhor e mais equilibrado, com ênfase
no Norte e no Nordeste; (9) integração nacional sob o símbolo
unificador de Brasília; (10) projeção internacional do Brasil e
·desenvolvimento do comércio exterior brasileiro" (Young, 1973,
88). As "reformas de base'' que João Goulart pretendia imple-
mentar estavam dentro do espírito do programa: reforma agrária
com a alteração do parágrafo 16 do artigo 146 da Constituição
Federal, que exigia "prévia e justa indenização em dinheiro" em
caso de desapropriação, para permitir o pagamento dos desapro-
priados em títulos de dívida pública; reforma eleitoral com o
direito de voto do analfabeto, com acesso de cabos, sargentos e.
praças à vida política e com a representação de todas as corren-
tes de opinião; reforma urbana; extinção dos exames vestibulares;
fixação de preços para os produtos industriais; tabelamento dos
gêneros de consumo popular; fixação do preço dos aluguéís de
imóveis vazios ou que viessem a vagar entre um terço do salário
mínimo e um e meio do seu valor; encampação das refinarias
particulares de petróleo (cf. Dines, 194). Essas reformas não iam
contra os interesses dos assalariados, como quer fazer crer o dis-
curso do poder (2, 47). Por outro lado, Goulart não pretendeu
nunca acabar com o capitalismo. A própria defesa da reforma
agrária o comprova, pois ela é uma redistribuição dos meios de
produção e não a sua socialização.
Parece começar a ficar claro o caráter de classe do movimen-
to de 1964.

A Derrubada da Ilusão

Segundo o discurso "revolucionário", o povo reconhece a trai-


ção de Goulart, ou seja, passa de um estado de /não-saber/ sobre
as pessoas e os é,\COntecimentos a um estado de /saber/. O reco-
- nhecimento faz p~rte da dimensão cognitiva da narrativa e enca-
deia sua continua.ção. A imprensa, a Igreja, etc. são os atores que

30
executam o papel temático de "informante" e o papel narrativo de
destinador do saber (2, 22; 3, 60).
No discurso, o reconhecimento é complexo, isto é, não se trata
apenas da passagem do /não-saber/ ao /saber/, mas da passagem
de um primeiro estado, definido como /mentira/, a um segundo
estado, marcado como /verdade/ (cf. Greimas, 1976, 75).
O que os informantes fazem é uma veridicção sobre o governo
Goulart tachando as suas reformas de "demagogia". Demagogia,
no discurso, recobre o conteúdo da mentira (1, 86; 2, 59; 2, 162; 5,
5; 5, 9).
O fazer cognitivo é duplo, persuasivo do ponto de vista do desti·
nadar e interpretativo do ponto de vista do destinatário. De acor·
do com o discurso "revolucionário", Goulart, em seu discurso,
mentia, ou seja, apresentava aquilo que parece mas não é (1, 157;
1, 166; 2, 26; 2, 94; 3, 7; 3, 142). O destinatário de seu discurso é
duplo: o povo e a "elite". O primeiro exerce mal o seu fazer in-
terpretativo, aceitando como verdade aquilo que, na realidade, é
mentira. Esta só existe no pólo de persuasão, pois, quando ela é
aceita como verdade na interpretação, torna-se ilusão. O saber do
povo sobre o governo Goulart era ilusório e o seu fazer (reformas
de base) desenvolvia-se sob <?"signo da ilusão (1, 89). O segundo
destinatário exerce bem o seu fazer interpretativo, traduz aquilo
que parece e não é como sendo mentira e não como sendo verdade.
Esse destinatário, movido pelo desejo da verdàde, quer destruir
as ilusões do povo e exerce um fazer persuasivo para mostrar ao
povo a verdade do fazer de Goulart (1, 14; 1, 157; l, 166; 5, 5).
O fazer do segundo destinatário é uma manipulação, ou seja,
''uma ação de um homem sobre outros homens, visando fazê-los
executar um programa dado" (Greimas, 1979, 220). O destinatá·
rio2 do discurso de Goulart converte-se em destinador da manipu-
lação. No caso, o que se pretende é que o povo desqualifique Gou·
lart. O destinador efetua uma persuasão segundo o poder, pois
propõe objetos negativos ao manipulado (ameaças). Exerce, en-
tão, uma intimidação. Segundo ele, Goulart pretende acabar com
a democracia, a liberdade, e expropriar as propriedades (2, 67; 2,
73; 2, 121; 2, 157; 2, 158; 2, 285; 3, 4; 3, 17; 3, 80; 3, 186).
A intimidação opera a conjunção de um não-poder não-fazer
(obediência) com um dever-fazer. O dever é a desqualificação de
Goulart. O não-poder não-fazer implica um poder-fazer e a conjun·
ção dessas duas posições da modalidade do poder faz aparecer a
''altivez", espécie de subcódigo de honra colocado em jogo pela
manipulação (cf. Greimas, 1979, 220-222). Pretende o discurso mos-
trar que o povo demonstrou altivez ao c!esqualificar Goulart (1,
13; 1, 102).
A concepção de que há um saber ilusório do povo e um saber
não enganoso das elites permeia todo o discurso do poder. Ê um
dos seus subentendidos. O povo precisa, segundo o discurso "ie-

31
volucionário"; ser dirigido e orientado pelos grupos de escol ·para
não ser presa da demagogia e para não incidir em erros. A dema-
gogia é um exercício de "tentação" e de "sedução" (Greimas, 1979,
221), p.ois se apóia em valores positivos e em julgamentos também
positivos sobre a competência do povo. Como este não detém um
saber real sobre as coisas, as pessõas e os acontecimentos, não
é capaz de resistir à manipulação e, exercendo um julgamento
falacioso sobre o que lhe é apresentado, é induzido a executar um
fazer que interessa apenas ao destinador da persuasão (1, 157; 1,
166; 1, 158). .
A elite, detentora de real competência no plano do saber,
tem o dever de apresentar ao povo a verdade e dar bons exem-
plos que possam ser seguidos pelos dominados (1, 14; l, 18; 3, 24;
3, 84).
Dar bons exemplos é executar ações que estejam de acordo
·com a axiologia que permeia a narrativa "revolucionária" e apre-
sentá-las, persuasivamente, como o "bem" e como as ações que
devem ser executadas por todos. O exemplo é uma manipulação
que tem por base um fazer que é marcado positivamente no eixo
axiológico da narrativa e que é elevado à categoria de universal
abstrato.
Subjaz a essa concepção sobre o papel das elites a idéia de
que a sociedade é um eixo vertical, e uns se localizam no espaço
superior e outros no. inferior. Acrescente-se ainda que a elite é
dotada de competência da ordem do saber e o povo não o é. Como
a aquisição do saber é vista, em nossa. sociedade, pelo senso comum
como um ato pessoal de vontade, fundado numa aptidão inata
(inteligência), cujá conjunção com o indivíduod~, de ordem exclu-
sivamente biológica 9 e é requisito indispensável para a obtenção
dessa modalidade de competência, pode-se apresentar a ordena-
ção da sociedade como algo natural. Tem-se aqui o fenómeno da
sobremodalização do saber pelo poder e pelo querer. Temos, en-
tão, um poder-querer-saber. A existência de dominantes não está,
dentro dessa visão de mundo, vinculada a um modo de produção,
mas a um saber que resulta de fatores biológicos e do trabalho.
A ascensão social (passagem do espaço inferior para o espaço
superior) está aberta para todos os que dispuserem dos valores
naturais de inteligência e vontade. O discurso começa a mascarar
a existência de classes sociais e a "naturalizar" o processo· social
(1, 149; 2, 220; 3, 7; 3, 47; 2, 167). Justifica a existência das classes
com o ideologema do self-made man.
Dentro dessa visão. de mundo, a virtude máxima das classes
subalternas é a obediência às decisões emanadas da classe domi-
nante. A obediência, como foi mostrada acima, é um não-poder-
'cnão-fazer aquilo que é desejo de outrem, ou seja, das "elites".
A idéia de que as "elites" sabem o que é melhor para o país
conduz à concepção de que' o povo está despreparado para gerir

32
~

os negócios públicos e que, portanto, as elites devem fazê-lo. A


noção de que o país deve ser tutelado pelas elites está radicada na
concepção de pensadores brasileiros, como Plínio Salgado, ~ que
somos 1Jm "povo-criança" (Trindade, 1974, 94).
Um texto de Gofredo Telles Júnior, ao tratar da eleição dos
senadores, nas justificativas do seu projeto de uma "constituição
:realista para o Brasil", resume de modo lapidar a concepção que
o discurso do poder ou o dos intelectuais ligados ao poder tem do
povo:

"A designação de legisladores - de legisladores que me-


reçam, de fato, este título - é missão que não deve ser
entregue a quaÍquer eleitorado. Como pode o vulgo, a
grande massa popular do sufrágio universal, descaracteri·
zada, indefinida, discernir e apontar os cidadãos aptos a
ditar normas de convivência socíal? Tal mister exige uma
cultura especializada. Fazer a lei não é para qualquer um,
como todos sabem. Mas não é para qualquer um, também,
escolher os que hão de fazê-la" (Telles, 1965, 53).

Com base nessas premissas, o autor conclui que devem esco-


lher os senadores "os professores efetivos em curso superior de
ciências sociais 10, os Désembargadores dos Tribunais de Justiçà e
os Ministros do Supremo Tribunal".
Mesmo sem partilhar da crença no saber inato do povo e na
sua capacidade de se tomar independente "por si", verifica-se que
º·discurso do poder é profundamente autoritário, quando sancio-
na positivamente apenas o trabalho de intelectuais ligados o:rgani·
camente às classes dominantes, tachando o trabalho de organiza-
çã~ popular de demagogia e subversão (3, 20) .
.,,A manipulação feita pelos diversos atores obedeceu a um plano
minuciosamente elaborado, como mostra René Armand Dreifuss,
e o seu destinador último foi a "burguesia financeiro-industrial
multinacional e associada" (1981, 229-338). A imprensa, a Igreja;
grupos estudantis e outros atores foram simplesmente destinado-
res delegados do que foi chamado a derrubada da ilusão.
Mesmo que o discurso considere o povo "vulnerável à subver-
são" e "manipulável pela demagogia", não pode ele descaracterizar
o povo como detentor do poder sem caracterizar o golpe como
golpe. Ora, uma das preocupações dos que tomaram o poder em
março foi justamente qualificar o seu movimento como "revolu-
ção". Para isso, o movimento precisaria de legitimidade popular. 11
O discurso centra, por isso, seu objetivo na constituição de um
destinador capaz de dar legítimidade à deposição de J ango e à ins·
tauração do regime militar. Poderíamos, então, dizer que o discurso
da "revolução" é a narrativa do estabelecimento d seu destinador.
Jso cL~
.· u H \ 33
A Desqualificação de Goulart e a Qualificação das Forças Armadas

Mostramos acima que a relação existente entre povo e gover-


nante, em uma democracia, é uma relação contratual. Ela instaura
o que Greimas chama "espera fiduciâria". O destinador-povo es·
pera que o destinatário do poder, instaurado como sujeito do fa.
zer, realize "suas esperanças" e/ou "seus direitos". Essa espera
inscreve-se sobre o pano de fundo da confiança que o destinador
deposita sobre o destinatário (198lb, 12-13). Assim, o /querer-fazer/
do povo instaura a modalidade deôntica do /dever-fazer/ para o
governante.
Entretanto, como mostra Greimas, não se pode considerar
essa relação como um verdadeiro contrato, mas um "contrato de
confiança" ou. um "pseudocontrato", que repousa sobre experiên-
cias repetidas. Na realidade, a relação fiduciária não se estabelece
entre dois sujeitos, mas entre o sujeito e um simulacro 12, que ele
.,;:onstruiu. O simulacro é identificado como o "verdadeiro" sujeito
do fazer. A relação fiduciária é um crer do destinador em deter-
minada obrigação do sujeito do fazer instaurado por ele.
O sujeito Goulart, segundo o discurso da "revolução", pertur-
bou, por sua· intervenção, o estado •âe espera do destinador povo,
enganando-o. Elé abandonou o /dever-fazer/, instaurado pela rela-
ção fiduciária com o povo, e passou a obedecer a outro.destinador,
o movimento comunista internacional. A relação com o povo im-
plicava estabelecer a conjunção entre o Brasil e a ordem, ao passo
que o que ele fez foi estabelecer a conjunção com o caos.
A imprep.sa, a Igreja, os congressistas, etc. fazem com que o
povo saiba o que Goulart está realmente fazendo. Ocorre, então,
um "choque modal'' entre um querer-estar em conjunção com a
ordem e um saber não estar em conjunção com ela. Isso produz
uma insatisfação. Esta é provocada pela ação do sujeito do fazer,
interpretada como não de acordo com o que se espera dele. O
comportamento do sujeito do fazer, que, "aos olhos do sujeito da
espera fiduciária, era modalizado por um /dever-fazer/, não se rea-
liza, e o crer do sujeito de estado. se revela ao mesmo tempo in-
justificado. A 'decepção' que daí resulta é uma crise de confiança,
não somente porque o sujeito2 mostrou não merecer a confiança
que se Únha depositado nele, mas também - e sobretudo talvez
- porque o sujeito 1 pode acusar-se de ter depositado mal a sua
confiança em alguém" (Greimas, 198lb, 15).
A insatisfação e a decepção são provocadas por uma frustra- ·
ção de. esperanças e de direitos. O descontentamento, ocasionado
pela ação do sujeito do fazer, que passou a obedecer ao querer de
outro destinador, é o pivô passional da narrativa, pois conduz a
um sentimento de falta e à elaboração de um projeto de "liquida-
ção da falta". A insatisfação e a decepção constituem o aspecto
terminativo de uma narrativa marcada por relações contratuais e

34
o aspecto incoativo de outra assinalada por relações polêmícas. Os
dois descontentamentos - insatisfação e decepção - correspon·
del'I! a uma dupla carência: a objetual (disjunção com o objeto-
valor "ordem") e a fiduciária (crise de confiança). Esta correspon·,
de a uma "traição" do sujeito do fazer (cf. Greimas, 198lb, 16-18). ·
A narrativa abre-se parà a liquidação das duas carências. O
povo vai acabar com a falta fiduciária e vai instituir outro sujeito
do fazer, com o qual estabelecerá um novo "contrato de confian·
ça", para liquidar a carência objetual, ou seja, estabelecer a con-
junção entre o Brasil e a ordem. _
Goulart passa a ocupar a posição de sujeito responsável pela
imsatisfação e pela decepção, ou .seja, o papel narrativo do anti-su·
jeito. O povo, detentor do poder, desqualifica Goulart, manifestan·
do o querer retirar-lhe o poder-fazer e qualifica as Forças Armadas
para realizar o seu querer (l, 11; 1, 13-14; l, 31; 1, 102; J, 125; 2, 9;
2, 23; 2, 32-34; 2, 193; 2, 261-262; 2, 279; 2, 285; 3, 5; 3, 17; 3, 54; 3,
60-61; 3, 207; 3, 296; 3, 291-292; 3, 297; 3, 329}.
Na narrativa, ocorrem a afirmação e a negação de valores con·
traditórlos (no caso, ordem vs. caos}. A operação de conversão de
um conteúdo no seu termo contraditório apresenta-se, no nível da
manifestação, como um antagonismo e uma luta entre o "vilão"
e o "herói".
Como o povo é destinador do querer e do poder e como Gou·
lart obedece ao destinador "movimento comunista internacional",
os dois sujeitos que entram em confrontação, segundo o discurso,
são, em última instância, o "povo" e o "movimento comunista in-
ternacional", pois Goulart é simples delegado deste (2, 110-111; 2,
113; 3, 207). O povo quer a ordem (l, 102; 2, 33; 2, 181; 2, 193; 2,
285; 3, S; 3, 54; 3, 297), enquanto o movimento comunista interna·
cional deseja o caos (1, 102; 2, 299; 3, 50). O povo impõe seu que-
rer, desqualificando o delegado do comunismo (2, 193}.
·Em conseqüência, o objeto modal /querer-fazer/ é atribuído
às Forças Armadas, que são constituídas como o sujeito do fazer
delegado do povo (1, 13-14; 1, 31; 2, 34; 2, 279; 3, 17; 3, 49; 3, 296).
Passam elas a ser depositárias da esperança popular (1, 15). A
ação de qualificação e de desqualificação se dá por meio de mani-
festações das "forças vivas da nação", que se expressam por meio
das "marchas da família com Deus pela liberdade" e. dos diferentes
pronunciamentos dos diversos segmentos da sociedade (2, 22; 2,
223).
Conforme dissemos acima, o projeto elaborado a partir do
pivô narrativo da insatisfação é o projeto da "revolução". O des-
tinador do querer, "povo", é que está insatisfeito. É, segundo o
discurso, esse descontentamento que conduz às maniftrstações, que
correspondem à desqualificação e à qualificação do~ sujeitos do
fazer (1, 89; 1, 102; 1, 125; 2, 4; 2, 181; 2, 193).

H 35
Neste ponto da análise, diverso~ problemas começam a aflo-
rar. Os principais são a instauração ilo "povo" como o. destinador
do querer depor Goulart, a validade da desqualificação de Goulart
e da qualificação das Forças Armadas, a oposição entre povo bra-
sileiro e comunismo e seus. agentes, o conteúdo semântico da "or-
dem" e do "caos" e a existência ou não de uma revolução. Conti-
nuaremos a análise e voltaremos a tratar de cada um desses pon-
tos. Entretanto, é. preciso enfatizar, como mostramos acima, que
Goulart não se afastou do seu programa de governo e não passou
a obedecer a Mascou. O que· é chamado "subversão" no discurso
"revolucionário" não são senão tentativas de reformas no sistema
sócio-econômico.
A Deposição de Goulart
1. A aquisição do poder
No discurso "revolucionário", tem·se urna narrativa de priva-
ção, que agrupa estados e transformações que se encadeiam sobre
uma relação entre o "governo Goulart" e o "poder". A narrativa,
apresentada no discurso "revolucionário", é a narrativa de uma
perda, ou seja, é a passagem: de um estado de conjunção para um
estado. de disjunção. O sujeito operador dessa transformação são
as Forças Armadas (1, 232; 2, 9; 2, 23; 2, 261-262; 2, 278; 3, 291-292;
3, 328).
O sujeito operador e o sujeito de estado são recobertos por
atores diferentes (respectivamente, Forças Armadas e Goulart).
Entretantô, como os militares se apropriaram do poder e não o
tomaram para entregar a outrem, o sujeito operador é também
sujeito de estado e a relação de disjunção entre o objeto modal
(poder) e o anti-sujeito (Goulart) equivale a uma relação de con-
junção éntre o objeto e o sujeito Forças Armadas. O enunciado de
estado, nesse caso, é complexo, pois um único objeto está em re-
lação com dois sujeitos. À perda de Goulart corresponde uma aqui-
sição das Forças Armadas (cf. Groupe d'Entrevernes, 1979, 22).
Toda narrativa tem um "caráter polêmico", ou seja, tem uma
estrutura especular. Isso quer dizer que uma transformação con-
juntiva para um sujeito tem como correlato uma transformação
disjuntiva para outro. É possível narrar a transformação, partindo
de um ponto de vista ou de outro (cf. Greimas, 1979, 284). No caso
dos discursos que estão sendo analisados, pode-se narrar a perda
do poder sofrida por Goulart ou a sua aquisição pelas Forças Ar-
madas. A manifestação de uma e não da outra depende de um
ponto de vista ou de uma perspectiva do enunciador.
No caso do discurso "revolucionário", na realidade, não temos
uma narrativa de perda, mas uma narrativa de aquisição. A pers-
pectiva do narrador é a da vitória. As Forças Armadas não tinham
o poder e passam a detê-lo. Embora nos discursos que estão sendo
analisados seja contada, predominantemente, a narrativa de aqui-
sição, não deixa de ocorrer aqui e acolá a narrativa da perda, vista
do ponto de vista do vencedor, para mostrar a derrota que as for-
ças representadas por Goulart sofreram em 1964 (2, 34).
Já se mostrou acima que um mesmo ator (Forças Armadas)
exerce o papel de sujeito operador e de sujeito do estado inicial
disjunto e do estado final conjunto, isto é, que um ator se atribui .
o poder. Dá-se, então, uma operação reflexiva que recebe o nome
de aproprW.ção. 13 Essa operação corresponde, correlativamente, a
uma operação transitiva em que atores distintos exercem o papel
de sujeito operador e de sujeito do estado inicial conjunto e do es-
tado final disjunto. O sujeito do estado inicial é disjungido do
objeto pot outro sujeito. Essa operação se chama desapossamento
(Groupe d'Entrevemes, 1979, 24-25).
As Forças Armadas atribuem-se o poder e, por conseguinte,
despojam dele Goulart. A correlação atribuição e desapossamento
chama-se, de acordo com a terminologia proppiana, prova. Esta
pressupõe um confronto entre dois fazeres distintos. Ainda na ter-
minologia proppiana, a deposição de Goulart é a prova qualificante
em que as Forças Armadas assumem a modalidade do poder.
O discurso do regime implantado depois do movimento de
1964 tem a preocupação básica de desqualificar a tomada do poder
como sendo um golpe de Estado, para caracterizá-la cqmo revolu-
ção (1, 13; 2, 8-9; 2, 23). A leitura, que mostra as Forças Armadas
apropriando-se do poder e despojando dele Goulart; revela um
golpe de Estado clássico, como tantos ocorridos na América Lati·
na, em que um grupo de militares desapossa do poder um gover-
nante eleito e se atribui o poder. Por isso, o discúrso procura
instaurar as Forças Armadas como sujeito do fazer delegado do
querer popular. As ações estão ordenadas com vistas à criação de
uma "ilusão referencial", que revela que não ho,µve um golpe, mas
uma revolução. Poderíamos partir do pressuposto de que o movi-
mento de março foi um golpe, uma quartelada. Entretanto, a "re-
volução" é um referente interno do discurso e é necessário verifi-
car como esse referente foi construido.
Já vimos que um processo democrático pressupõe uma relação
entre desapossamento e atribuição do poder. Não houve, em 1964,
uma transferência de poder segundo as normas clássicas da de-
mocracia, que prevêem eleições secretas e universais e mandatos
com prazo determinado. No entanto, o. discurso instaura o povo
q>mo sujeito operador da transferência do objeto modal poder e
as Forças Armadas como sujeito do fazer delegado que atualiza
o querer popular, que é retirar o poder de Goulart e atribuí-lo aos
mil~tares. Por isso, essa transferência começa a ser chamada "re-
voluÇão" (2, 285) ..
A qualificação das Forças ·Armadas constituiu, segundo o
discurso "revolucionário", uma manipulação. O /querer-fazer/ do

37
povo é transformado em /dever-fazer/ dos militares (3, 328). Numa
narrativa, um ator só se constitui como sujeito assumindo pri-
meiro o papel de destinatdrio que recebe e aceita o querer-fazer
do dest'inador, estabelecendo com este uma relação contratual (cf.
Greimas, 1981a, 97). Segundo o discurso, o /querer-fazer/ do povo
é operar a conjunção ·entre o Brasil e a ordem. Para isso, estabe-
lece um contrato com as Forças Armadas, que devem adquirir um
/poder-fazer/, que é conseguido quando depõem Goulart. As For-
. ças Armadas estão legitimadas em sua ação, porque a conjunção
do Brasil com a ordem e a deposição de Goulart para adquirir a
competência para efetuar a conjunção referida estão respaldadas
no querer popular.
Numa democracia, uma eleição representa a atribuição de uma
competência a um sujeito, porque, nela, o povo é destinador do
poder e o candidato é investido do poder, depois de aceitar um
querer popular. Ora, essa aquisição de competência é regida por
mecanismos constitucionais. Quando um grupo se atribui o poder,
subvertendo os mecanismos constitucionais, temos um golpe de
Estado. Foi isso o que aconteceu em 1964. Para descaracterizar o
golpe como golpe, foi preciso instituir o povo como destinador de
um querer, e o golpe passou a ser chamado "revolução".

2. A instauração do destinador

O destinador do querer é o povo, pois, como a sociedade bur-


guesa nega a existência das classes sociais e dos seus conflitos e,
portanto, fundamenta-se na "igualdade" de todos os cidadãos, não
poderia o discurso "revolucionário" instituir a classe dominante
ou uma fração dela como destinador do querer das Forças Arma-
das, visto que admitiria um caráter antipopular no movimento de
março. Só poderia, assim, aparecer a "nação", que é parassinôni-
mo do povo, como ator a recobrir o papel narrativo de destinador
(1, 167).
A "nação" é um papel narrativo coletivo, e os atores que ela
engloba são também atores coletivos. Mostra Greimas que não são
características de individuação - unicidade e historicidade - que
permitem efetuar a distinção entre um papel narrativo coletivo e
um individual. Para constituir o ator coletivo é preciso que os seus
constituintes (no caso, as classes sociais) percam suas caracterís-
ticas próprias e passem, com base em traços comuns, reais ou não,
a fazer parte de um todo homogêneo. Os constituintes devem per-
der sua identidade para dissolver-se no todo, ou seja, do ponto de
vista da totalidade são levados em consideração apenas os traços
que eles partilham entre si. Nega-se á individualidade de cada
constituinte para afirmar seu caráter partitivo. O ator "coletivo

38
terá qualificações que lhe darão especificidade. Esses atributos são
os traços comuns a todos os constituintes que lhes permitem par·
ticipar da totalidade: · · ~
Há duas espécies de qualificações que podem ser aplicadas
aos atores;
a) qualificações permanentes, que .são atribuídas a eles por ·
meio do verbo "ser" e de seus slnônimos;
b) qualificações transitórias, que são conferidas a eles por
meio do verbo "ter" e de seus sinônimos (cf. Greimas, 1981a, 85-87).
Só nos vão interessar as. quaÚficações permanentes. A "nação"
é concebida como um "todo homogêneo dotado de uma única von-
tade"; é "um único projeto;', é "um desejo de ocupação e de do-
mínio do espa.ç<t'!. "&se proj.ero supõe um poderio: é desejo de
poder" (Comblin, 1978, 28-29). A nação é ainda "uma única pessoa",
um só ser dotado de uma única vontade, que define seus fins e
adapta seus meios (1, 13; 1, 45; l, 167; l, 191; 2, 23; 2, 109; 2, 149-
150; 2, 9; 2, 12; 2, 22; 2, 32; 3, 84). Como se vê, nega-se qualquer
individualidade dentro da nação, ,,.porque todos os integrantes da
nacionalidade só são considerados enquanto partes desse todo.
Os fins da "nação" são os ''objetivos nacionais permanentes",
também chamados "aspirações nacionais", "interesse nacional" ou
"pr<;>jeto nacional". Os objetivos nacionais são a "integridade na·
cional", ou seja, a "consolidação da comunidade nacional" e a
"preservação dos valores cristãos e democráticos que constituem
a índole da sua gente"; a "integridade territorial"; a "democracia
(liberdade)"; o "progresso (desenvolvimento), segundo os modelos
existentes no mundo livre'' (leia-se modelo capitalista); a "paz so-
cial" e a "soberania nacional" (1, 13; 1, 20; 1, 100; 1, 111; 1, 141; 3,
138; 3, 226; l, 230; 2, 91; 2, 109; 2, 112; 2, 123; 2, 217; 2, 244; 2, 249-
250; 2, 261-262; 3, 49; 3' 255; 3, 294).
Como nota Comblin, esses objetivos reúnem elementos bas-
tante divergentes: a "herança dos valores morais e espirituais do
Ocidente", os "valores do caráter nacional" e os "atributos clás-
sicos de soberania (território, autodeterminação, Integridade na·
cional)" (1978, 53).
O aparato verbal do poder considera a nação um querer-ser
ínato e·nomogêneo, expresso pelos objetivos nacionais permanen-
tes. Nega, assim, a existência de interesses ·divergentes das dife-
rentes classes da formação social (1, 167). Além disso, apresenta os
objetivos de uma classe como os objetivos de todos os brasileiros,
pois só à burguesia pode· liiteressar a manutenção do sistema 1
capitalista ou a paz social. O discurso, apresentando a "nação"
como um /querer-ser/ único, pretende ocultar a luta de classes,
integrando numa unidad~ superior aquilo que é diferenciado. Nada·
melhor para isso que apresentar as aspirações da burguesia como
vontade da nação, num processo de universalização abstrata. Como
dí:z; Ro1and Barthes, .ª "~urguesia se dilui na nação" (1957, 225).

39
x A "vontade única" que constitui a nação é inata, porque as
suas qualificações permanentes decorrem da índole do povo bra-
sileiro, que é ordeiro, pacífico e "rejeita ideologias exóticas" (1,
125; 3, 3; 3, 41; 3, 50; 3, 132; l, 103; 5, ~7). Essas são algumas
qualificações atribuídas ao "brasileiro". Têm elas um estatuto an-
tropológico, segundo o discurso "revolucionário", pois constituem
componente do caráter nacional brasileiro (1, 12; 1, 58; 1, 119; 3,
50). Afirmar que o homem brasileiro possui essas características
é inculcar o conformismo, é sustentar que não adianta lutar para
alterar o sistema económico, porque o brasileiro sente repulsa
pela violência e não admite "soluções drásticas para os problemas
da pátria" (3, 50). A Guerra dos Emboadas, a Guerra dos Mascates,
a Inconfidência Mineira, a Revolução Pernambucana de 1817, as
Guerras da Independência, a Confederação do Equador, a Sabina-
. da, a Balaiada, a Guerra do Paraguai e outros episódios da nossa
história desmentem essa concepção. Os esquadrões da morte, as
torturas a presos políticos e comuns, os castigos aplicados a me-
nores internados na Febem não revelam que o brasileiro tenha
uma "índole pacífica e ordeira".
O subentendido que essa afirmação deixa entrever é que o
brasileiro é conservador por natureza, não deseja qualquer alte·
ração da lei e da ordem. Segundo os que falam o discurso do po--
. der, o nosso homem ufana-se da pátria, não vendo nela qualquer
elemento negativo nem qualquer. coisa a alterar. Patriotismo é
assim sinônimo de ufanismo, de alienação.
O ufanismo é a conjunção entre um sujeito e um simulacro
positivo e imutável da pi.iiria. No objeto não há lugar para ele-
mentos negativos. Como todo simulacro, também este é um objeto
imaginário que não tem necessariamente pontos de cantata com
a realidade. Ademais, como é imutável, é a-histórico. Permite ele
forjar um sistema aútorítário para impulsionar o desenvolvifuen·
tismo (2, 9).
A burguesia transmite seu projeto às outras classes por meio
de estereótipos como: "à pátria nada se pede, tudo se dá"; qual·
quer transformação sociàl é imposslvel porque o sistema que aqui
está implantado é natural, dado o estatuto antropológico do seu
povo; o brasileiro é pacífico e ordeiro.
O discurso "revolucionário" investe o ator coletivo apenas . de
qualificações semânticas permanentes, expressas no "projeto· na·
cional". Assim, o discurso nega qualquer possibilidade de mudan-
ça no querer-ser ou querer-fazer coletivo, pois eles não estão an·
corados num processo histórico, mas são naturais e, portanto,
a-históricos~ História supõe transitoriedade, mudanças e não per-
manê:racias. Disso decorre que também o ator coletivo é natural,
porque fundado num querer-ser que tem um estatuto antropológico.

40
O discurso opera, ao instaurar o arquiator (nação), uma reca-
tegorização temática, que é .. uma transformação de conteúdo so-
frida pelos papéis temáticos ao longá do desenrolar do discurso.
Assim, não há, para o discurso, propriamente operários e patrões,··
proletários e burgueses, mas apenas brasileiros. Esse passa a ser
o grande papel temático do discurso. A recategorização tem aqui
a função nítida de operar a unidade daquilo que é diferenciado.
O ator é definido pelo•modelo ideológico comum.
O discursó fala no apoio das "forças vivas da nação" (2, 22; 2,
25; 4, 3). São elas os segmentos que têm consciência nítida do que-
rer-ser que constitui a nacionalidade. Isso deixa patente o caráter
de classe do discurso "revolucionário", que foi legitimado por es-
sas forças, pois, como diz Marilena Chauí, o movimento inicial do
surgimento de uma classe corre "permanentemente o risco de
universalizar-se abstratamente, por exemplo, como 'força viva da
nação'" (1980, 66). Dessa forma, o discurso toma a classe hegemô-
nica como a nação por meio do ator "forças vivas". O arquiator,
que pretende englobar todos os atores da formação social brasilei-
. ra, começa a revelar-se como apenas um deles.
Um dos defensores do movimento, Hernani d'Aguiar, membro
do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil, mostra a
verdade dessa universalização abstrata em relação ao apoio dado
às Forças Armadas para depor Goulart: '
"O 'povo miúdo', a classe pobre e o proletariado não com-
pareceram à 'Marcha com Deus pela Família'. Se pudessem
estariam realizando a sua própria marcha para prestigiar
Jango. E ela provavelmente seria maior que a outra. Isso
porque esse povo, corno entidade sqcial, não tinha conhe-
cimento ou percepção para constatar o quanto ele era de-
magogo. O presidente da República ao levantar a bandeira
das Reformas, afinal, lhes acenava com promessa de me-
lhores dias" (Í976, 182).
3. O deslocamento da nação
O Estado é o "agente da estratégia. nacional, encarregado de
colocar .o poder nacional à disposição dos objetivos Nacionais"
(Comblin, 1978, 53). O Estado encarna a vontade da nação, está a
serviço. d.o bem comum e, portanto, situa~se acima dos interesses
particulares de grupos ou de classes. O governo, que dirige o Es-
tado, é, pois, a encarnação da vontade única da nação (2, 109; 2, 33;
2, 287; 3, 84; 1, 12; 1, 13; 2, 8; 2, 12; 2, 17; 3, 18; 3, 28; 3, 29; 3,
83; 3, 24; 3, 40; 3, 78; 3, 83; 3, 303; 3, 85).
Como a nação é um querer-ser único, uma aspiração, o Estado
é o sinal visível desse querer-ser único e, portanto, uno e indiviso.
Reside aqui um dos pontos cruciais da manipulação discursiva: o
Estado é o sujeito operador que realiza a conjunção entre o sujei-

41
to de estado "Brasil" -e o objeto-valor "ordem" e a nação, sendo
um querer-ser que implica um querer-fazer, é apenas uma modali-
zação do Estado. Assim, a ''nação" é deslocada do seu papel nar-
rativo, que é ocupado pelo "Estado". Este, sendo modalizado sem-
pre por um querer inato e permanente, é naturalizado e colocado
acima e fora das classes. O Estado é erigido em elemento autôno-
mo e separado da sociedade.
Quando um governante quer dirigir o Estado em sentido con-
trário ao /querer-ser/ que constitui a nação, o povo tem direito,
diretamente ou por meio dos seus delegados, de depor o governo
e instituir outro (Telles, 1965, 93-122). Não é isso, evidentemente,
que acontece com o governo "revolucionário", pois, segundo o seu
discurso, ele está em consonância com as aspirações nacionais (l,
12; 1, 94; 1, 220; 3, 29).
O discurso acaba por deslocar a nação de um papel narrativo
para uma modalízação. Em seu lugar, o Estado aparece como su-
jeito operador de mudanças sociais (1, 24; 1, 62; 1, 85; 1, 93; 2, 92-
93; 3, 333; 3, 67-68; 2, 147; 2, 158; 2, 282; 3, 83; 3, 16). Estas são, po-
rém, entendidas como progresso. O discurso da nação acaba sendo
o discurso do Estado, pois a nação nada faz, uma vez que quem
opera é o Estado.
J! preciso desfazer uma contradição do discurso. A nação não
pode ser o destinador da manipulação das Forças Armadas na me-
dida em que ela é uma modalidade. Assim, a casa do destinador
acaba ficando novamente vazia. S preciso descobrir, então, no dis-
curso o destinador que levou as Forças Armadas ao golpe.
Marilena Chauí nota que a legitimação do Estado ocorre quan-.
do se faz com que "o ponto de vista particular de uma classe apa-
reça para todos os sujeitos sociais e políticos como universal ~ não
como interesse particular de_ uma classe determinada". Diz ainda a
mesma autora:

"O social histórico é o social constituído pela divisão de


classes e fundado na luta de classes. Essa divisão, que faz,
portanto, com que a sociedade seja, em todas as suas es·
feras, atravessada por conflitos e antagonismos que expri·
mem a existência de contradições constitutivas do próprio
social, é o que a figura ·do Estado tem como função ocul-
tar. Aparecendo como um poder uno, localizado e visível,
o Estado moderno pode ocultar a realidade do social, na
medida em que o poder estatal oferece a representação·
de uma sociedade, de direito, homogénea, indivisa, idênti-
ca a si mesma, ainda que, .de fato .. esteja dividida. A ope·
ração ideológica consiste em afirmar que 'de direito' a
sociedade é indivisa, sendo prova a existência de um
só e mesmo poder estatal que dirige toda a sociedade e
lhe dá homogeneidade" (1980, 20).

42
E o Estado só é instituído como papel narrativo no momento
em que ele adquire· a modalidade do querer que constitui a nação.
O governo, como dirigente do Estado, deve tei: o mesmo querer
que .este. D/querer-fazer/ do Estado é um /dever-fazer/ do gove:r·
no, que está implicado num dever-ser. Assim, o destinador do de-
ver-fazer e do dever-ser do governo é o Estado e não o povo. Nesse
caso, o discurso é totalitário e não liberal, pois o que justifica o
Estado é a nação, e o que legitima o governo não é o povo, mas
o Estado. ·
Já não soa, então, estranho que os nossos generais tenham
afirmado tantas vezes que o liberalismo morreu ou que um gene-
ral comandante do IV Exécdto tel;lb,a afirmado que o Estado é a
fonte de todo poder e de todo direito.

4. O mesmo e o outro

Ô discurso afirma que o povo legitimou a deposição de Gou-


lart. Concebendo a nação como um "querer único e homogêneo",
torna-se fácil colocar todos os oposicionistas na categoria de opo-
,,.,.pentes, ou seja, de auxiliares do anti-sujeito, que é manipulado
pelo destinador "movimento comunista internacional". Serão, por-
tanto, inimigos internos, traidores da pátria e do "mundo livre"
e, por isso, devem ser exterminados. As oposições ao regime exer-
. cem o papel temático de ·~tIC1.idor", seja por ingenuidade, seja por
má-fé. O traidor não faz parte da nação, pois tem outro /querer-
ser/. Não é, assim, povo, mas antipovo (2, 118; 3, 164; 3, 165; 3, 296;
3, 366).
Opor-se aos desígnios do governo é estar contra a nação, a ser-
viço dos seus inimigos (os comunistas) ou de interesses pessoais
ou de grupos. O governo detém o monopólio do patriotismo, por·
que é legitimado pelo Estado, que realiza as "aspirações nacionais".
Como o governo, erigido em papel narrativo autônomo, conside·
ra-se acima dos interesses pessoais ou de grupos, de que os par-
tidos são representantes, ele se julga guiado pelos critérios im·
pessoais do interesse nacional (1, 220). Afirma o discurso que o
governo "revolucionário" não admite a pressão .do~ interesses po·
líticos e que esses não se misturam à atuação da vida administra-
tiva (3, 28). Quer mostrar-se guiado por uma racionalidade que
pressupõe a "realidade como racional, idêntica e identificável, pre·
visível e contrólá\Tel" (Chauí, 1980, 28). Essa racionalidade é vista
como imanente ao social e isso M: dá porque a realidade social foi
mascarada pela universalidade abstrata da nação. O presidente
Médici podê, então, afirmar que o governo "não fará o jogo de
ninguém, mas o jogo da verdade" (14, 91}. Aoposição ao governo
é sempre resultado da manipulação de grupos ou do movimento
comunista. Isso fica patente quando o discurso afirma que a opo·
síç1.\o é fruto çio "id~aH$tnO va~o, d.o tmdicionalisrno de fórmulas

43
desajustadas da realidade ou do imediatismo de grupos inconfor-
mados" €.~. 78}. Deriva ainda das pressões de grupos e interesses
contrariapos, do pessimismo congénito de alguns, da "mágoa que
certas pe.ssoas sentem pela infidelidade do tempo às suas contra-
dições e do profissionalismo dos agitadores" (3, 83). A classe· po-
lítica quer voltar ao passado (conjunção com o caos que fora ope-
rado p0r Goulart), porque está desatenta às realidades do seu
tempo. Muitos tàmbém são oposiéíonistas porque perderam o
acesso aos cofres públicos (1, 22-23). Como se vê, todo o discurso
é uma .tentativa de desqualificar os oposicionistas, maculando-lhes
a honra e lançando sobre eles a dúvida insinuante de que defen·
dem interesses escusas ou são ignorantes.
Os destinadores da marupulação, de que os oposicionistas são
destinatários, são os "grupos sociais" e o "comunismo". Os pri-
meiros são oposicionistas porque o governo não realizou alguma
ação que eles pretendiam ou efetuou alguma não desejada por eles.
O segundo, porque quer tornar o Brasil comunista. Os oposicio-
nistas dividem-se em ingênuos, os que não sabem que estão sendo
manipulados (os "inocentes úteis"), e os de má-fé, que têm cons-
ciência (saber) da manipulação. Os primeiros não realizam um fa-
zer interpretativo correto sobre a realidade; os segundos o fazem,
mas têm um /querer-ser/ diferente daquele que constitui a pátria.
(2, 116; 2, 117; 3, 66; 3, 78; 2, 75).
O governo afirma que deseja uma oposição. Mas a ela cabe
tecer criticas quanto a aspectos administrativos, uma vez que - en-
tendem os governantes - em torno da administração não pode
haver unanimidade (1, 209-210; 3, 222). A pátria, porém, é uma só
e todos devem unir-se numa só vontade, quando estiverem em jogo
"os supremos ínteresses da liberdade, do desenvolvimento e da
segurança" (12, 8; 17, 16). Como liberdade, no contexto dos pro-
nunciamentos do poder, significa "ausência do totalitarismo co-
munista", desenvolvimento quer dizer "transformação do país em
grande potência segundo os modelos capitalistas" e segurança de-
nota "manutenção do statu quo", verifica-se que é antipatriótico,
porque vai contia a vontade única da nação, postular reformas
políticas, económicas e sociais. O que a oposição pode fazer é su-
gerir alternativas melhores para manter o atual estado de coisas
. e para modernizar o país, a fim de que ele p0ssa cumprir a sua
·vocação histórica (querer-ser), que é se transformar numa grande
potência.
Realiza-se, aqui, wna das contradições sêmicas do texto. O go-
verno dçseja um oponente que seja um adjuvante segundo o saber,
que transmita o seu saber-fazer a quem detém o poder-fazer (1,
209). No entanto, a contradição se desfaz pelo procedimento de
universalização abstrata contido no conceito de"nação"., Como o
Estado encarna o /querer-ser/ que constitui a "nação" e, por con-
segtt.1nte1 l~gltirmi, o ~QV~Plo, k ço:ntra o sovem.o é ser adjuvante
44
do anti-sujeito, que é antinação. Assim, a-oposição aos "altos prop&
sitos" e à "boa vontade" do governo não é senão intriga, injúria,
contestação e irrealismo dos não-patriotas (1, 22-23; 2, 35; 2, 68;
2, 116-117; 2, 122; 1, 34-35; 1, 92; 1, 210; 3, 51; 3, 52; 3, 73; 2, 123; 3, 83).
Para o governo, os Atos Institucionais foram promulgados
para salvaguardar a liberdade, salvar a democracia e ·manter a
segurança (2, 33; 2, 35). Tocia ação do governo é contada como
uma narrativa complexa. Seu enunciado de base é a manutenção
da conjunção entre o Brasil e a ordem, enquanto os outros enun-
ciados, em número indefinido, são narrações de atos pressupostos
e necessários para a realização do elemento de base. Como a con-
junção a que o enunciado de base visa constitui uma efetivação
da vontade única da nação, aquilo que é pressuposto e necessário
para a efetivação desse enunciado também faz parte dessa von·
tade única. Concebida a política como um esquema de meios e fins,
se estes são imutáveis, aqueles são necessários e pressupostos (3,
77-78). A ética da "revolução" é a de que os fins justificam os
meios, ou seja, instaura o movimento de março a ética a-ética.
Assim, a oposição ao AI-5 e a outras medidas "jurídicas" da "re-
volução" constitui crime de lesa-pátria.
A relação oposição/governo deveria ser a confrontação de dois
fazeres persuasivos, ou seja, o debate. O acordo, numa discussão,
só é possível se determinados pontos de divergência são deixados
de lado e as partes situam-se num terreno comum. ·No entantó, o
regime não propõe qualquer acordo, mas a aceitação, que ocorre
·quando uma das partes abandona suas posições e incorpora as
da outra. Assim, a relação governo/oposição não é a relação de
duas partes que se defrontam em igualdade de condições, mas a
de /dominante/ vs. /dominado/. Por conseguinte, não se admite
oposição ao governo, mas oposição do governo. A única oponência
válida é a adjuvância.
Quando o governo acaba por tomar o lugar da nação, é pos-
sível operar o conceito de "fronteiras internas", que divide as
pessoas em nação (situacionistas) e antinação (oposicionistas).
Isso permite falar em guerra interna e engajar as Forças Armadas
em tarefas de repressão, que seriam trabalho da polícia.

5. A isotopia patriótica 1 ~

Uma isotopia patriótica permeia todo o discurso. Aparece não


só nos lexemas "Brasil" e "brasileiros" e seus parassinônimos,
mas em todo o componente narrativo, desde .a modalização do su-
. jeito de estado até a conjunção com o objeto "ordem".
Diz Marilena Chauí que "o discurso do poder é o do Estado
nacional, pois a ideologia nacionalista é o instrumento poderoso
da unificação social, não só porque fornece a .ilusão da comuni-

45
dade indivisa (a nação), mas também permite colocar a divisão
fora do campo nacional (isto é, na terra estrangeira)" (1980, 21).
No discurso "revolucionário", a divisão não é espacial, uma vez
que a nação não é um espaço, mas é ideológica, pois a nação é
uma vontade. Ademais, a isotopia patriótica não tem somente a
função de ocultar a existência das classes sociais, mas também
a de mascarar o destinador do sujeito do fazer "Forças Armadas",
a burguesia financeiro-industrial multinacional e associada, e a
conseqüente internacionalização da economia brasileira (cf. Drei-
fuss, 1981, 417-455, 481-489).
A pátria assume, no discurso "revolucionário", o valor de um
termo complexo que engloba todas as contrariedades e até as
contraditoriedades de classes e unifica todos os interesses diver-
gentes. Tem assim um caráter mítico, pois realiza o que Mircea
Eliade considera o modelo fundamental do mito, a coincidência
dos opostos (1970, 351-352). A quem interessa o mito? Às classes
hegemônicâs, que colocam as suas aspirações como desejo de to- .
dos, a sua vontade como vontade nacional, os seus interesses como
interesses da totalidade. Para a classe hegemônica a pátria é a sua
claSS!".,-.
Como o discurso se baseia numa axiologia simplista, que di-
vide o mundo em bons e maus, democratas e comunistas, tachar
os opositores do regime de comunistas é mostrar que são anti-
patriotas, porque são contrários ao querer único e homogêneo,
que constitui a nação e, portanto, inimigos que estão dentro da
pátria. No governo Médici, um dos slogans mais difundidos foi:
Brasil, ame-o ou deixe-o. Amor é o sentimento em que ocorre
uma identificação entre o sujeito e o objeto. No caso, uma con·
formidade de querer entre o patriota e a pátria. Quem não for
capaz dessa identificação deve afastar-se do espaço da pátria. Esse
afastamento manifesta-se por diferentes figuras discursivas: a
prisão, o exílio e o banimento. Inúmeras vezes, ouviu-se o conse·
lho de burocratas, militares e políticos situadonistas de que quem
não estivesse satisfeito no Brasil (conforme o /querer-ser/ da na-
ção) deveria ir para a Rússia.
A isotopia patriótica justifica a repressão, esconde a interna-
cionalização da economia e legitima o governo (1, 192; 2, 116-117;
2, 122).

6. O poder nacional

O discurso "revolucionário" concebe o poder-fazer do Estado


como o "conjunto de meios de ação dos quais o Estado pode dis-
por para impor a sua vontade". Assim, o podernacional abrange
todas as "capacidades e disponibilidades do Estado, ou seja, re-
cursos humanos, naturais, políticos, económicos, sociais, psico-

46
lógicos e militares". ":S um conjunto de poderes que envolve todos
os setores de ação do Estado", seja na sua ação sobre a natureza
(operação), seja na sua ação sobre os homens (manipulação) para
impor a sua vontade pela lei, pelo prestígio, pela pressão social
ou pela sujeição (Comblin, 1978, 58; cf. 3, 97).
Esses fatores diversos e heterogéneos articulam-se num pro-
jeto de ação global: a guerra ao comunismo (3, 78). Porque o
inimigo ataca em todos os planos, deve-se contra-atacar em todos
os níveis. Assim, "tudo o que é mobilizável é poder" (Comblin,
1978, 59). ,.
O poder nacional possui quafro grandes divisões: militar, po-
lftica, econômica e psicossocial (1, 59; 3, 78). O poder político é
formado de órgãos de ação potrticá e· funções de "direção da '50- •
ciedade política: executivo, legislativo, judiciário e partidos poli·
ticos. O económico compõe-se de recursos humanos e naturais e
instituições econômicas. O militar, das forças de segurança. O
psicossocial tem como fundamento a população, o meio e as
instituições sociais; os seus componentes são a moral nacional, os
meios de comunicação, a opinião pública, os sindicatos, as con·
fissões religiosas, etc. São seus fatores: educação, demografia, saú·
de, trabalho, previdência social, ética, religião, ideologia, habita-
ção, participação na riqueza nacional, organização e eficiência das
estruturas sociais, poluição e problemas urbanos (Comblin, 1978,
60-62). Os governantes "revolucionários" sempre dedicaram bastan·
te atenção ao que se chama dim.e.nsão psicossocial do poder, prin·
cipalmente por intermédio da propaganda, porque a ideologia da
segurançá nacional crê que o destino da "guerra contra o comu·
nismo" se resolverá no plano do poder psicossocíal.
Opera-se com o conceito de poder nacional a grande perver-
são do discurso ''revolucionário". Tudo é poder, ou adjuvante da
ação do Estado, que não pode ser tutelado por ninguém. 15 Assim,
o único sujeito do fazer é o Estado, que encarna a vontade única
da nação~ Os atores deixam o papel de sujeito e tornam-se adju-
vantes do sujeito "Estado". O deslocamento de papel narrativo
deixa nítida a presença de uma "ideologia de dominação". O povo
não é destinador do poder, mas li poder do Estado, QIJ.. seja,_ ag.ju- _ .
vante. Os seus representantes. estão subordinados à execução de
um projeto predeterminado.
O conceito de poder nacional abre caminho para a militari-
zação do ·poder e para a independência das forças de segrcrança
em relação aos poderes clássicos da democracia burguesa, pois o
poder militar está em pé ele igualdade com o poder político, não
podendo, portanto, ser tutelado por este nem sofrer intervenções
deste (1, 59). Ademais, l'! noção de poder está fundamentada numa
rígida hierarquia. Decb{ra Castelo Branco que "o civilismo é uma
concepção que se perde no qevaneio ou que .deseja enfraquecer

47
e trair a democracia". Com isso, entende-se que governar é ames-
ma coisa que dirigir tropas, como afirmou ·também Castelo Bran-
co (3, 79; 2, 389). A relação entre governante e governado passa
a basear-se na híerarqwa e na obediência cega.

7. A ideologia da dominação

O governo, segundo o discurso, é sempre bom, pois ele en·


carna o querer único da nação. As falhas que tem são aquelas
inerentes à condição humana (2, 221; 3, 25). Como tudo é poder
do Estado, dirigido pelo governo, o fazer deste exerce-se segundo
o poder, ou seja, é fundado num /poder-ser/ (ou ser enquanto
poder). Uma vez que o governo é visto como eufórico, o discurso
sobre ele não se centra em valores axiológicos, mas no valor
modal /poder/. Em relação ao governo definido como encarnação
do poder, os governados não podem ser livres. A relação entre
eles é de /dominante/ vs. /dominado/ e constitui um estado per·
manente. O discurso inverte, então, a formulação democrática de
que todo poder emana do povo. Na realidade, o povo é parte do
poder do Estado e não o seu destinador.
O Estado, que detinha o monopólio do querer, possui também
o do poder. Tem ele a característica de "onipotênda", que se
atribui a Deus. Confere-se ao Estado uma dimensão sagrada,
despolitizando-o. Assim como Deus, o Estado é. o destinador de
todo /dever-fazer/.
A dominação é o ser do poder, enquanto o seu exercício sobre
os dpminados é o seu fazer (cf. Greiroas, 1976, 111, 152-153). O
Estado que se define como dominação não pode ser democrático,
ao contrário do que afirma o discurso (2, 285; 2, 291; 3, 4). Por
isso, a democracia é restringida por adjetivos no discurso do po-
-der: democracia relativa, democracia possível, etc., ou seja, é um
"ideal a ser alcançado, um processo sujeito a contínuo enriqueci·
menta, adaptação e aperfeiçoamento" (2, 11), não é algo a ser
praticado, mas a ser preparado (2, 17). A democracia sem adje-
tivos é considerada um saudosismo, pois não é viável num país
subdesenvolvido (15, 62-63), uma vez que ela está vinculada "ao
desenvolvimento econômico e à abertura de oportunidades em
todos. os níveis de participação" (2, 12). A democracia é mais um
símbolo a ser preservado, um ideal a ser alcançado do que algo
para ser vivido. ~ símbolo, enquanto se opõe, segundo o próprio
discurso, ao comunismo (2, 179-180; 1, 210; 1, 105). Ela é vista
como meio e não como fim. Por isso, é ajustável às necessidades
sociais do momento (2, 11). O objetivo a ser buscado é a "promo-
ção da felicidade coletiva" (15, 176). Com o povo reduzido ao papel
narrativo de adjuvante do Estado, a "felicidade coletiva" terá o ,
seu conteúdo determinado pelo Estado. Será a consecução dos
objetivos nacionais permanentes. ·

48-
Faz-se a "revolução" para salvar a democracia e, em nome
dessa salvação, ft!çha-se o Congresso, cassam-se mandatos, apo-
sentam-se e demit~-se funcionários públicos, institui-se a censura
à imprensa, não sê respeitam os direitos individuais inscritos na
Constituição, legisla-se por decretos, retiram-se as garantias de
inamovibilidade e vitaliciedade da magistratura. Esses, segundo o
discurso do poder, são os aspectos secundários. da democracia.
Por isso, podem ser alterados (2, 159; 3, 32). Fica nua a base da X
democracia burguesa: o sistema capitalista. Ele é o princípio e
o fim do Estado totalitário, que é uma das formas de dominação
burguesa. Diz Castelo Branco que a democracia supõe liberdade,
mas não exclui responsabilidade nem importa em licença para
contrariar a vocação política da nação (2, 35).
Na democracia, "ninguém pode identificar-se com o próprio
poder"; na tirania, "o detentor do poder (um homem, um grupo,
. uma classe) se identifica com o próprio poder" (Chauí, 1980, 98).
Na democracia, o poder é uma modalidade; na tirania, o próprio -j
sujeito do fazer é a modalidade. O discurso revolucionário, con-
trariamente a tudo o que foi dito, reconhece o postulado de que
ninguém se identifica com o poder, porque ele pertence à socie-
dade como um todo (2, 290). Mas legitima as suas concepções,
dizendo que, como havia "desvios e distorções" da vontade po-
pular, as Forças Armadas, intérpretes dessa vontade, tomaram o
poder para atualizar, aprimorar e revigorar a vontade popular
(2, 110). Dessa forma, acabaram identificando-se com o poder.
A intervenção das Forças Armadas, por outro lado, justifica-
se porque o país estava assolado por grave "crise" e as Forças
Armadas acabaram com ela, segundo sempre o discurso "revolu-
cionário" (1, 156; 3, 303; 3, 328; 3, 376; 3, 393; 2, 82).

"Crise e desvio são noções que pressupõem um dever ser


contrariado pelo acontecer, mas que poderá set restaura-
do porque é um dever ser. Há exterioridade entre o acon·
tecimento e o sistema, entre a conjuntura e a estrutura,
entre a historicidade e a racionalidade. Longe, portanto,
de surgir como algo que ateste os limites da representa-
ção supostamente objetiva e racional, a noção de crise
realiza a tarefa oposta, que é a tarefa ideológica: confir-
ma e reforça a representação. Assim, a crise nomeia os 1'
conflitos no interior da sociedade e da política para me-
lhor escondê-los. Com efeito, o conflito, a divisão e até
mesmo a contradição podem chegar a ser nomeados pelo
discurso da crise, mas o são com um nome bastante pre-
ciso: na crise, a contradição chama-se perigo. 16 Não é por f
acaso que a noção de crise é privilegiada pelos· discursos ., _
autoritários, reacionários, contra-revolucionáriÜs, pois ne-
les essa noção funciona em dois registros diferentes, mas

49
complementares. Por um lado, a noção de crise serve ~mo
explicação, isto é, como um saber para justificar teorica-
mente a emergência de um sujeito irracional no coração
da racionalidade: a 'crise' serve para ocultar a crise ver·
dadeira. Por outro lado, essa noção tem eficácia prátíca,
pois é ·capaz de mobilizar os agentés sociais, acenando-
lhes com o risco da perda da identidade coletiva, susci-
tando neles o medo da desagregação social e, portanto, o
medo da revolução, oferecendo-lhes a oportunidade para
restaurar uma ordem sem crise, graças à ação de alguns
salvadores. O tema da crise serve, assim, para reforçar a
submissão a um poder miraculoso que se encarna nas
pessoas salvadoras e, por essa encarnação, devolve aquilo
que parecia perdido: a identidade da sociedade consigo
mesma. A crise é, portanto, usada para fazer com que
surja diante dos agentes sociais e políticos um sentimento
que ameaça igualmente a todos, que dê a eles o sentimen·
to de uma comunidade de interesses e de destino, levan·
do-os a aceitar a bandeira da salvação de uma sociedade
supostamente homogénea, racional, cientificamente trans-
parente" (Chauí, 1980, 37-38).

Essa longa citação resume com perfeição o tema do discurso


"revolucionário". As Forças Armadas, apresentando-se como salva-
doras de todos os brasileiros, identificam-se com o poder. Daí
decorre que a "revolução" tem um poder constituinte inerente
(2, 34-35) e que o exercício da presidência é uma missão delegada
pelas Forças Armadas (14, 9-10). Confundidos poder e Forças Ar-
~- madas, temos instaurada no Brasil uma tirania. Nesse caso, só se
pode falar em salvação da democracia se se admite que a tirania
é uma etapa necessária para, num país subdesenvolvido, atin·
gir-se a democracia. Não é outra a idéia implícita nos discursos
da "revolução" (2, 17; 2, 159; 3, 54; 17, 17).
Não havendo instâncias distintas do fazer e do sancionar, o
contrato de veridicção é imposto e o discurso reproduz o modelo
de dominação, sendo o enunciador o dominante e o enunciatârio
o dominado.
O maior crime, no interior da .ideologia de dominação, é
encontrar-se entre os vencidos. "Ao vencido, ódio ou compaixão;
ao vencedor, as batatas" é a lei moral que conota essa ideologia.
As relações de dominação são conotadas sobre o plano moral
como:
/dominante/ vs. /dominado/
/bo~/ /mau/
~

Essa conotação revela ~uma crença no essencialismo da natu·


reza humana. O raciocínio segue tortuosamente, pressupondo que

50
os que são honestos fazem coisas boas. Como os que ocupam
cargos são honestos, fazem sempre o bem. Ocorre que honesti~qe
é produto de circunstâncias históricas e não atributo essencial
dos dominantes. Por outro lado, a honestidade não está. intima-
mente vinculada à feitura do bem, que, ademais, não é um con-
ceito fixo. O essencialismo do discurso nega a história.
Diz Greimas que "a principal virtude do Poder é a de existir,
e a perversão axiológica consiste justamente em erigir a existência
em valor, isto é, não somente em confundir o ser çom o quer~~-.
ser, mas em substituir um pelo outro, consistindo assim uma
ideologia baseada sobre não-valores" (1976, 186-187). O ser oculta-se
sob a asserção de um /dever-ser/, que é uma forma de /querer-
ser / coletivo. - ·
A ideologia do poder manifesta-se sobre a dimensão pragmá-
tica da narrativa e, do ponto de vista da veridicção, revela-se como
a realidade. A idéia da liberdade é vista como uma ilusão (cf. Grei-
mas, 1976, 251). Não passa de sonho de ingênu9s ou vãs tentativas
dos mal-intencionados (3, 83).

8. A aquisição da mOdalidade do saber

No processo da aquisição da competência, mostramos ccmm PS


militares obtiveram as modalidades do querer e do poder. Resta
agora apresentar a consecução da modalidade do saber.
Já apontamos que, na concepção do discurso "revolucionário",
o povo é incapaz de "conceber ou querer os objetivos nacionais",
é "manipulado pelos demagogos" e "vulnerável à subversão" (3,
20). Se o povo não pode ter um /querer-fa:t.er/ porincapacidade
"inata", não pode ser instaurado como sujeito:Por conseqüência,
a elite é que deve ser o sujeito qo fazer. A elite competente para
o exercício desse papel narrativo são os militares, porque os civis
foram incompetentes para dirigir a coisa pública (o seu querer é
o de um grupo e não o da nação), conforme o atesta a herança
recebida pelos governos "revolucionários". Ao longo do discurso,
verifica-se que as virtudes militares são o desinteresse, a coragem,
a incorruptibilidade, a energia, a perseverança e o patriotismo. As
Forças Armadas são a "suprêmã· reserva morai da nação''.'-~tâo
fora e acima dos partidos e classes e a serviço da pátria.
Os governos ·~revolucionários" mostram-se dotados de todas as
virtudes que faltavam ao governo Goulart: objetividade, firmeza,
ausência de demagogia e de deformações ideológicas,, êoragem,
eficiência, patriotismo, seriedade, austeridade:, competência, hones-
tidade, não-comprometimento com interesses subalternos, ener-
gia, determinação, devotamento, tenacidade, racionalidade. A lista
de virtudes é muito grande! (Cf. a título de e.'l'.emplo: 1, 53; 3, 27-
28; 2, 117.) O governo "revolucionário" só tem olhos para os obje-
tivos nacionais permanentes e, por isso, só faz aquilo de que a
nação precisa e não o que é aconselhável eleitoralmente. Tem a
coragem, por isso, de tomar medidas impopulares e não imedia-
tistas (2, 132; 2, 287; 3; · 68-71;. 3, 74; 3, 7; 3, 16; 3, 18; 3, 32; 3,
303; 3, 392; 3, 29; 3, 75).
O que se quer dizer é que o querer dos militares é concorde
com o da nação e que eles sabem quais são os objetivos nacionais
e que. meios deyem ser empregado5 para alcançá-los. Detêm a
modalidade do saber (2, 23; 2, 32; 2, 259; 2, 263-264; 3, 291-292).
A aquisição da modalidade do saber é uma operação transi-
tiva de atribuição (os instrutores atribuem-na aos recrutas) que
se passa ·num espaço e num tempo determinados (nos quartéis,
durante o serviço militar). O fato de pertencer às Forças Armadas
constitui garantia de modalização segundo o saber (2, 263-264; 2,
281; 2, 289-292; 3, 291). Como a instituição militar é fortemente
hierarquizada, conseguir patente superior é adquirir mais saber.
Por conseguinte, galgar os degraus da carreira militar é uma pro-
va qualificante. Assim, um general possui mais saber que um coro-
nel (2, 281).
O quartel é um espaço onde se obtém a modalidade do saber
(3, 291). Um espaço separado, onde se adquire a competência,
pressupõe a existência de um outro lugar em que ocorre ação
principal. Essa localização revela a separação nítida entre civis e
militares, a superioridade dos militares sobre os civis, que não
têm um espaço de aquisição de competêpcia para governar. Ade-
mais, ela aproxima os discursos "revolucionários" das narrativas
míticas em que essa bipartição espacial ocorre.

A V alta às Origens

1. A ação principal no fazer da atribuição da ordem

A performance do sujeito operador é efetuar a disjunção entre


o "Brasil" e o "caos" e a conjunção entre o "Brasil" e a "ordem".
Issà é o que aparecé, no momento, como a ação principal. Cons-
titui-se de duas operações transitivas: um desapossamento e uma
atribuição.
O .Brasil é sempre um sujeito de estado, ou seja, é sempre
passivo, não está dotado de uma essência vital para a ação. Como
o Brasil, ao qual 5e devolveu a ordem, não pode ser o território,
esse lexema: deve ser analisado, inicialmente, como uma metoní-
mia que significa: "os brasileiros". À formação social atribui-se a
ordem e dela se retira o caos. Sendo o governo o sujeito do fazer
e os brasileiros sujeitos de estado, a relação que se estabelece
entre ambos é de dominante · e dominado. líma vez que o su-
jeito do fazer é a encarnação do i>oder, que o seu fazer se exerce
segundo a modalidade do poder, instaura-se como poder-ser (ou:
ser. enquanto poder) (cf. Greimas, 1976, 154). Assim, a relação de

52
dominação entre governantes e governados constitui um estado
permanente.
Por outro lado, o lexema "Brasil" pode manter uma relação
. metonímica com "instituições sociais" existentes no Brasil. Tomar
o continente pelo conteúdo é ·uma possibilidade lingüística..,. Decor-
rendo, porém, da idéia de que a nação é "uma só vontade" e de
que o statu quo econômico-político-ideo]ógico é a encarnação des-
se querer e não das aspirações da classe dominante, a relação
metonímica, tomada como relação "natur:al", serve para ocultar a
existência de classes em confronto dentro da formação social.
Transforma o incidente em permanência e a história em natureza.
As Forças Armadas realizam a ação decisiva, segundo o dis·
curso "revolucionário". Essa ação compõe-se de duas operações
transitivas (o desapossamento do "caos" e a atribuição da "or-
dem"). Essas transformações não são, no entanto, correlatas, mas
uma relação que depende de um princípio de sucessão. Na· análi-
se, deve-se, então, por procedimentos de explicitação dos implici·
tos, buscar a imagem invertida projetada por cada um dos termos
da correlação, ou seja, o seu outro termo. Isso quer dizer que à
disjunção entre o Brasil e o caos não corresponde, como sua ima-
gem invertida, a conjunção com a ordem, mas uma apropriação
que o discurso esconde (cf. Groupe d'Entrevernes, 1979, 26). Se o
ator "Brasil" equivale a "brasileiros", o desapossamento implica
uma apropriação do objeto pelo sujeito do fazer "Forças Arma·
das". :a preciso explicar o conteúdo sêmico do "caos" para saber
de que é que as Forças Armadas se apropriaram. Far-se-á essa
análise em seguida.
Por outzr:; lado, à atribuição da "ordem" não se segue uma
renúncia, ficando, então, caracterizada a existência de uma "co-
municação participativa" (cf. Groupe d'Entrevernes, 1979, 28-29).
Isso significa que não somente o sujeito de estado mas também
o sujeito de fazer ficaram em conjunção com o ·objeto-valor. Esse
fato é explicado, no discurso "revoludonário", por uma relação
hiponímica 17 entre o "povo" e as "Forças Armadas" (15, 97).
Estas, "intérpretes das aspirações nadonais e não de interesses
particulares de grupos", colocaram o país em seu caminho natu-
ral (1, 63; 2, 23; 2, 279; 3, 291; 3, 292; 3, 296-297). Houve, segundo
o discurso, no momento da atribuição, uma comunhão entre
"povo" e "Forças Armadas" (2, 23). Os interesses (querer) que i
moveram as Forças Armadas foram as superiores aspirações da
pátria, que unem a todos (2, 23). Povo é um universal abstrato,
pois reúne termos contraditórios numa entidade superior. Sendo
as Forças Armadas um dos componentes do Aparelho Repressivo
do Estado e sendo o Estado expressão dos interesses da classe
hegemónica (cf. Althusser, s.d., 31-63), os militares entretêm uma
relação hipotáxica 18 com a classe dominante e não uma relação·
hiponímica com todos os brasileiros. Isso explica a presença da

53
"comunicação participativa". A "ordem" atribuída a todos os bra-
sileiros é a da classe dominante que não se dísjungiu dela. O
destinador do querer das Forças Armadas não é o povo, mas uma
classe ou uma fração de classe.
~. pelo menos, original um modelo narrativo em que um des-
tinador constitui um sujeito do fazer para retirar dele um objeto
a que ele poderia simplesmente renunciar. Na realidade, a relação
e ... e pressupõe que o destinador do querer-fazer a conjunção
com a ordem (classe dominante) não era o sujeito em conjunção
com o "caos" e, assim, não poderia renunciar a ele. Reaparece
a contradição existente na formação social que o discurso busca
elidir.

2. A ordem e o caos

O discurso "revolucionário" fala da transformação do "caos"


em "ordem'~ correlacionada com um eixo temporal eJll que há um
"antes" e um "depois".
No discurso, os parassinônimos do "caos" são: desordem,
desgoverno, inflação, subversão, _estagnaçãÕ, demagogia, anarquia,
etc. Os da "ordem" são: disciplina, desenvolvi'..'lento, não-inflação,
tranqüilidade;···hofiestidade, veracidade, respeito à hierarquia, ma-
nutençãõdos valores e instituições adequados à alma brasileira,
etc.
Caos, no discurso "revolucionário", é tudo o que põe em risco
a ordem: greves, pressão política, liberdade de pensamento e ex·
pressão, choque de interesses, desejo de reformas das estruturas
econõr,_nico-sociais (2, 10; 2, 22; 3, 17; 3, 23; 3, 27; 3, 33; 3, 78; 3,
80; 1, 166; 2, 26; 4, 2; 1, 23). No caos, surgiu a "revolução", mo-
mento fulgurante de um consenso quase geral e implantou-se a
ordem (1, 13-14; 3, 22). "Revolução" é, então, a figura que recobre
a função de transformação de um estado em outro; é a passagem
do caos à ordem. Foi ela o fiat lu.x, a cosmogonia do espaço social
brasileiro que foi ordenado no "caos" em que vivia o Brasil.
A ação do governo Goulart é vista pelo discurso "revolucioná-
rio" como uma tentativa de "bolchevizar o país" (2, 34). É, por-
tanto, o prelúdio do grande caos, o comunismo.
A análise sêmica dos parassinônimos da "ordem" e do "caos"
acima elencados, excluídos os lexemas "desenvolvimento" e "es·
tagnação", que analisaremos em seguida, mostra que eles contêm,
entre outros, os seguintes semas:
• Ordem: [unicidade, imutabilidade, superioridade]
• Caos : [multiplicidade, mutabilidade, inferioridade]
Os semas /inferioridade/ vs. /superioridade/ decorrem· da
imagem do "abismo para onde rolava a nação", conforme formu-
lação expressa no discurso (17, 17 e 62). A "revolução" é a "cami·

54
nhada asêencional" do pais e visa "soerguer a Nação" (1, 14; 1, 21;
l, 65; 2, 47; 2, 68; 2, 205; 3, 25; 17, 15; 17, 24-25; 17, 98). Esses
lexemas evidenciam que, nc:> eixo semântico da /verticalidade/, o
regime anterioPa 1964. coloca-se na extremidade inferior e o re-
gime implantado depois ·de 1964· eoloca-se na extremidade superior.
A ideologia que satura semanticamente o espaço superior do eixo
vertical como o lugar da "democracia" e o seu oposto como o do
"comunismo" tem, conforme já mostramos, vinculações com o
mito cristão do céu e do inferno. A "democracia" é o céu, lugar
do bem, e o comunismo é o inferno, lugar do mal '
Os semas /unicidade/ e /multiplicidade/ derivam dos lexemas
"ordem" e "caos", que significam, respectivamente, "regularidade,
disposição uniforme" e ~·confusão de elementos".
/Mutabilidade/ e /imutabilidade/ foram extra1dos dos lexe-
mas "subversão" e "anarquia" e das expressões "respeito à hierar-
quia" e "manutenção dos valores e instituições adequados à alma
brasileira".
Os lexemas "desenvolvimento" e "estagnação" apresentam,
respectivamente, os semas /mutabilidade/ e /imutabilidade/. Pa-
rece haver uma contradição sêmica, pois esses lexemas se vin-
culam, respectivamente, à ordem e ao caos, que têm os· semas
/imutabilidade/ e /mutabilidade/. Essa contradição, no entanto,
desfaz-se quando se analisam mais detidamente os lexemas "de-
senvolvimento" e "estagnação". Desenvolvimento tem como seu
·• correlato o progresso (1, 11; 1, 12; 1, 19; 1, 38; 1, 74; 2, 9). Diz "'
Marilena Chaui que a ideologia neutraliza o perigo da história
por meio dessas duas imagens, que são consideradas a própria
história, a essência da história. A noção de progresso fundamenta.-
se no pressuposto "de algo que já existiria como germe ou como
larva, de tal modo que a história não é transformação e criação,
mas explicitação de algo idêntico que vai apenas crescendo com
o correr do tempo". A noção de desenvolvimento baseia-se no
pressuposto de· que há "um ponto fixo, idêntico e perfeito, que é
o ponto terminal de alguma realidade e ao qual. ela deverá chegar
normativamente". Colocando-se um elemento inicial que deverá
ampliar-se e um ponto final que deverá ser alcançado, retira-se
da história aquilo que lhe é próprio, "o inédito e a criação ,n~pe1':,.
sária do seu próprio tempo e telos". Estabelecendo um elemento
fixo no ponto inicial e um no final do processo, a ideologia assume
compromissos com o autoritarismo, pois a história de uma socie-
dade passa a reger-se por um. devêt-ser. "Passa-se dã história ao
destino,. {1980, 10). ·
Realmente, .o Brasil .no discurso "revolucionário" não tem
história, mas destino, vocação histórica: transformar-se numa
grande potência (1, 21; 1, 23; 1, 24; 1, 95; 1, 103; 2, 17; 2, 108; 2,
261-262; 2, 272; 3, 48; 3, .65; 3, 85; 3; 162; 3, 267; 3, 271; 3, 328). (J
seu futuro éstá fixado, não é mais um /querer-ser/, mas um

55
/dever-ser/. Tem o /poder-fazer/ para isso: território grande,
população enorme para a constituição de um forte mercado in-
terno, maturidade política do povo, luta pelas liberdades demo-
cráticas, características sociais e políticas só encontradas em na- .
ções economicamente avançadas e riquezas naturais (1, 88; 2, 18;
2, 190). O desenvolvimento é iun processo cuja terminatividade é
o Brasil-potência. O modelo para o Brasil ~ão os países capita-
. listas centrais. Progresso, por outro lado, é a multiplicação do já
existente; a. realização de mais coisas: mais escolas, mais estu-
dantes, mais energia elétrica, maior produção industrial e agrícola,
mais meios de comunicação, mais estradas. ~ a realização multi-
plicada dos mesmos fazeres; é a identidade de fatos que se re-
petem e· não a sua alteridade. Por conseguinte, a /mobilidade/
çlo desenvolvimento e do progresso é a repetição do mesmo (cres-
cimento quantitativo) e não uma transformação (mudança quali-
tàtiva) (1, 14; 1, 88; 1, 124; 1, 147; 2, 48-49; 3, 271; 3, 245; 3, 103;
3, 127; 3, 192; 2, 15; 2, 46-69; 2, 59; 2, 189; 2, 206-207). Castelo Bran-
. co · entendia o progresso como. um desdobramento da nossa eco-
nomia (1, 43).
Nesse riível é que se vêem os pressupostos filosóficos do
discurso "revolucionário". O movimento de março está compro-
metido com a imobilidade da sociedade brasileira (manu.tenção
do modo de produção capitalista e crescimento económico depen-
dente e suas partieularidades, que são a repetição do já existente)
-f (cf. Cardoso, 1977, 35). A "revolução" pretende · aquilo que
. René Armand Dreifuss chama "modernização conservadora" (1981;
106-107). O que se quer é o desenvolvimento e o progresso, mas
não a transformàção (1, 47; 2, 10).
O discurso utiliza-se de todo um vocabulário religioso e vita·
lista para definir o governo de Jango e o movimento de março:
"era de redenção ·para o país"; "após longa e áspera caminhada,,
começamos a divisár a terra da promissão"; "crucificação dos
valores democráticos e cristãos da alma brasileira"; "agonia da
disciplina, da ordem, do respeito, da hierarquia, da autoridade";
·a "Revolução nasceu sob o signo da Ressurreição, sua força ins·
piradora foram as luzes da Aleluia". Ela é o "clarão da Páscoa"
que .dilui a "sombra do Calvário", é o ·"começo de um novo tem-
po". O governo Goulart foi a "agonia da Nação, que parecia já
ferida de morte" (1, 89; 2, 28; 15, 87; 15, 93; 17, 61).
Semanticamente, teríamos a oposição /vida/ (ordem) vs. /mor-
te/ (caos). O governo Goulart é um termo complexo, que engloba
os dois elementos em· oposição: /vida/ e /morte/ (crucificação
e agonia). A "revolução" é a vitória semântica da vida sobre a
morte (ressurreição, a nova vida). O país, depois de ter sentido a
presença da morte, vê o início da vida. Como a vida, no discúrso ·
"revolucionário", é o imobilismo, e a morte, a mobilidade,'ª "revo-

56
lução" foi politicamente a vitória do imobilismo sobre o desejo de
mudança. É a vitória da vida que não é vida. :a mais um paradoxo
do discurso.
o governo Goulart não levou o país à morte assim como não
o impeliu até o fundo do abismo, graças à ação das Forças Arma-
das. Em seu governo, o país estava à beira do abismo e agoni-
zante. Assim como se explicou o adjunto adverbial ''à beira do
abismo" por meio da estrutura aspectual, analisár-se-ão os lexe-
mas "agonia" e "ressurreição" por seu intermédio:

/ag9nia/ - /não-morte/ ·/morte/ - nível lógico


/duratividade/ ___,. /tensividade/ ..-,i. /terminatividade/
- nível aspectual

/ressurreição/ /morte/ · /não-morte/ - nível lógicp


/duratividade/ ~ /tensividade/ ..-,i. /terminatividade/
- ruvel aspectual

Agonia não é a morte, mas a aproximação tensiva dela. Ares-


surreição é a passagem da morte para a vida.
/Vida/ e /morte/ são figurativizadas, respectivamente, pela '{ .
"luz" e pela "sombra". "Luz" e "sombra'" conotam "dia" e "noite".
O dia está ligado ao aparecimento do sol, que, figurativa e míti-
camente, representa um ·dos ciclos naturais da vida cósmica. A
concepção cíclica da vida e da morte aplicada à vida social lembra
o "mito do eterno retorno" (cf. Eliade, 1949, 157). A assimilação
da história aos ciclos ·da natureza, oriundos dos moviméntos de
rotação e de translação da Terra, constitui um procedimento de
"naturalização" da história. No discurso, a articulação /cosmoló-
gico J vs. /antropológico/ é qeutralizada, e manifesta-se com valor
englobante apenas o primeiro termo da articulação.
Luz e sombra, dentro do nosso universo cultural, constituído :x
de um conjunto de representações coletivas, são marcadas, res-
pectivamente, com os· valores /euforia/ e /disforia/. Cqmo "luz"
e "sombra" são figuras da "ordem" e do "caos", esse microuniver-
so semântico transforma-se numa axiologia, em que a ordem é o
termo eufórico, e o caos o disfórico.
Se o que a "revolução" chama "caos" é conseqilência do
fazer das classes subalternas, pois mostra a disjunção entre a
"sociedade" e a "unicidade", a "identidade" e a "homogeneidade",
revelando que a sociedade é dividida em classes que estão em con-
fronto, as Forças Armadas o que pretendem, em última instânciá,
ao operar a conjunção entre "sociedade" e "ordem", é suprimir
o fazer das classes não-hegemónicas, impedindo-as de se mante-
rem como agentes do fazer. Ganha sentido, então, a afirmativa
de que o desapossamento do "caos" correspond~ a uma apropria-
ção dele pelas Forças Armadas, sujeito delegado da classe domi-

57
nante. Os militares, na' realidade, pretenderam apropriar-se do
fazer das classes subalternas e atribuir-lhes a "unicidade" e a
"imutabilidade".
O àiscurso "revolucionário" mostra uma tendência ao abso-
luto, decorrente do fato de ser intensamente axiologizado, ou
seja, de o bem ou o mal não serem aspectualizados por elementos
como "quase", "mais ou menos", "um pouco", etc. A sobrevivência
das instituições e ideologias é o bem incontestável, do qual não
se pode querer a destruição (1, 13; 2, 9; 2, 157; 3, 49). Qualquer
conflito .ou contestação contém o germe do mal ilimitado, a des-
truição do Estado. Todo indivíduo e todos os grupos são poten-
cialmente inimigos do Estado (Comblin, 197.8, 213). Para evitar o
mal incondicional, procura-se a ordem absoluta, "estado de re·
pouso sociàl" (Comblín, 1978, 221-226), onde todos trabalham para
fazer do país uma grande potência (1, 14; 1, 20-21; 1, 23; 2, 35; 3,
250).
A ausência total de movimentos é uma "utopia dos dominan·
tes" 19, e "urna utopia concebida pelas elites só se torna realidade
histórica pela força" (Cornblin, 1978, 234). :S. contraditório em rela·
ção à sociedade dizer que ela é homogênea e imóvel, mas ter de
tentar fazê-la_ imóvel, pela força. 20 A utopia da classe hegemõnica
precisa da ditadura, porque o mundo da política é C> mundo social,
dividido em classes, e não o mundo das coisas materiais que po-
dem ser colocadas numa certa ordem que pode ser mantida inde-
finidamente. As aspirações das diferentes classes, seu querer-ser
e seu querer-fazer, devem ser silenciadas por meio das torturas, das
prisões, dos banimentos, da censura, dos assassínios: das interven-
ções nos sindicatos, das tropas de choque, das bombas de gás Ia-
crimogêneo, dos cães amestrados, das metralhadoras, dos fuzis,
dos slogans ufanistas e dos delitos semânticos, para que os obje-
tivos da burguesia, elevados à categoria de universal, possam ser
atingidos.
Para realizar a ordem burguesa, o Aparelho Repressivo do
Estado, sujeito delegado da classe hegemónica, retira a liberdade
das classes subalternas e tira a vida de muitos que se insurgem
contra o regime. Por isso, a "revolução", que se apresenta como
a realização da "vida" e da "liberdade", é, de fato, ·destinadora da
não-liberdade e da morte. Deforma os sentidos de vida e de liber·
dade.
Há diferentes maneiras de dominação càpitalista. Ora a demo-
cracia liberal, ora a guerra civil contra o proletariado para que a
classe burguesa mantenha seu direito à exploração (Trotsky, 1968,
288). Cada uma das formas de dominação depende de um mo-
mento histórico. As ditaduras latino-americanas, mesmo com os as-
pectos originais inaugurados -pela ditadilra brasileira, em que há
rotatividade na ocupação do cargo de chefe do governo e onde o

58
Congresso fica em funcionamento formal, correspondem à utili-
zação dos métodos da guerra civil contra o proletariado. .B uma
das formas de dominação burguesa.

· 3. Revolução ou contra-revolução?

Ó discurso "revolucionário" diz que, no governo Goulart, hou·


ve um "desvirtuamento do regime" e que iminentes perigos ron·
davam a nação; que havia uma "orgia inflacionária", estagnação
económica e subversão; anarquia e desejo de implantar uma dita·
.dura. A. subversão e a corrupção constituíalll. perigos para a nacio-
nalidade (1, 14; 1, 9; 1, 12-13; 2, 8; 2, 17; 2, 22; 3, 80; 2, 21; 2, 23;
3, 24). Na "revolução" todas as forças da nacionalidade lutaram
contra o caos (1, 13-14; 2, 22; 2, 23; 2, 17). Depois dela, o governo
buscou corrigir os males e os erros do passado, as distorções
políticas e econômicas; visou a aperfeiç,oar as instituições políticas,
sociais e econômicas; a reajustar valores e atitudes na economia;
a promover a reconstrução econômica e moral da nação; a destruir
tabus e mitos vigentes por causa da irresponsabilidade dos de.
magogos; a reconstruir e reabilitar o país; a restaurar a solvência
financeira do pafs; a sanear um ambiente viciad0 pela demagogia.
(2, 7; 2, 14; 3, 22; 3, 33; 2, 11; 2, 9; 2, 12; 3, 20; 3, 34; 3, 41; 3, 21; 3,
301).
O léxico que indica os objetivos governamentais é o léxico
que se encontra sob a égide do prefixo re: regeneração nacional;
reintegrar o Brasil nas suas raízes culturais e históricas; recupe-
ração nacional; restaurar a legalidade; reconstrução nacional;
restauração moral; repor o país nos caminhos da ordem consti-
tucional; retomada do desenvolvimento; reerguer a Nação arrui-
nada pela corrupção e enganada pela demagogia (para isso há que
repor pedra sobre pedra); corrigir erros para retomar a marcha
interrompida; restituir o clima de tranqüilidade social anterior-
mente desaparecido; repor o ensino na sua precfpua finalidade:
propiciar· novos .conhecimentos ao estudante; restabelecer, nas
universidades, o. primado do ensino; reajustar a administração;
restabelecer a disciplina na Armada; retomar o adestramento;
restabelecer condições para a marcha do desenvolvimento; resta-
belecer a dignidade do Poder Político .Nacional e sua supremacia
sobre oo· poderes que o integram; repor a nação na .ordem jurídica;
restabelecer à ordem pública e a ética na administração; re:std:urar
a ordem; repor o Brasil no seu verdadeiro caminho;, restabelecer
a tranqüilidade; retomar o qescimento; reorganizar o sistema pre-
videnciário; 'restaurar as· finanças e a economia; reconstrução ·
econômica; recolocar o país na trilha da prosperidade; recupera-
ção econômica, financeira, política e moral do pafo; recuperar o
' setor agrícola; renÕvação ·da vida nàcional; retomar· o ilese1wolvi-
mento interrompido; restabelecer a dignidade da. administração
pública; restaurar as finanças; restaurar o destino democrático 1
do povo brasileiro; restaurar a democracia; restaurar a ordem;
retornar à normalidade política, social e financeira; reorganizar
as empresas· estatais e de economia mista; restaurar a íniciativa
do trabalho; reconstruir as bases do desenvolvimento comprome-
tidas pela indisciplina e pela imprudência; reordenamento interno
da economia; restaurar as instituições políticas e armadas; restau-.
rara ordem política e militar; restaurar a moralidade; redemocra-.
tizar o Brasil, desmontando o processo subversivo; revitalizar a
economia. · ·
Nada há, pois, no vocabulário do poder que indique urna "re-
volução". Pelo contrário, seu léxico mostra que a "revolução" não
passou de uma "contra-revolução", pois o movimento de março
visou à manutenção· de uma ordem implantada, que, segundo a
visão dos dominantes, estava prestes a ser rompida. Os lexemas
iniciados pelo preft;ii:o re e ainda os lexemas "corrigir", "sanear"
etc. apresentam os semas: /volta a um estado anterior/, /ordem/,
/eufórico/.
O movimento de março intitula-se revolução e nega-se como
golpe, dado em nome de uma contra-revolução (1, 13; 2, 8-9; 2, 12),
pára ocultar o. seu ser num parecer, legitimando, assim, seus des-
mandos e garantindo a impunidade dos 'seus dirigentes. Uma re·
volução implica a negação de uhi quadro de valores e a afirmação
de outro. Às vezes, emerge do discurso a afirmação de que o mo-
vimento "revolucionário" deve afastar os conflitos, reformando e
que é arcaico ou inadequado à época atual, e de que deve inau- ·"""
gurar uma era de renovação (2, 10; 3, 79; 3, 83; 3, 84; 2, 7; 2, 8;
2, 11; 2, 12; 2, 17; 3, 83). A renovação e a reforma são a "moder·
nização conservadora" que já analisamos. Por conseguinte, essa
·''revolução" não busca o movimento, mas a imobilidade (2, 10). O
que é apresentado como novo, no discurso, na verdade é o anti·
novo. É a negação das instituições democráticas, que são consi·
deradas arcaicas e ilusórias num país subdesenvolvido, e a afirma-
ção de que o nosso país ter.Luma~democracia .em . novo$ molc!es.
ajustada às necessidades de guerra que se trava. entre o "mundo
livre" e o comunismo (2, 17; 2, 272; 3, 32; 3, 79-80; 3, 186-187; 3,
393; 17, 17.). O discurso que se pretende revolucionário enfatiza a
ordem e fala da necessidade de repor o Brasil no seu verdadeiro
caffiinho (1, 16; 2, 114; 3, 22; 3, 93; 3, 121; 2, 23) .
.;( Denominar o movimento de 64 de revolução implica estabelecer
uma contradição §êmica no interior do discurso, pois o mesmo
fexemâ manifesta um
sema e seu contraditório. Revolução impli-
ca Ilão:0rdem em relação à ordem estabeleci~., Se o movimento
de. março foi feito para recolocar o país no caminho da. ordem
implantada, vista como -um já dado nàtural, não é uma revolução,
mas uma contra-revoluÇão. Isso mos~rà que mesmo o di~curso que >(
pretende mistificar a realidade acaba revelando-a.
Ao usurpar o poder, os contra-revolucionários apossaram-se
de um· termo usado pelos seus inimigos. O movimento designa-se
com o termo "revolução". Para Roland Barthes, a "linguagem
roubada instaura o mito", pois este "é sempre um roubo da lin-
guagem", é urna "fala roubada e restituída". No entanto, "a fala l( x
que se restitui não é exatamente aquela que foi roubada: trazida
de volta, não foi colocada no mesmo lugar. É esse breve roubo,
ess.e momento furtivo de falsificação, que constitui o aspecto en-
regelado da fala mítica" (1957, 211 e 217). O que se fez com o lexe-
ma "revolução" foi esvaziá-lo semanticamente, empregando-o para
nomear uma contra-revolução. Assim começa a ser construída a
retórica do poder.
É preciso notar que repor a ordem estabelecida é o funda-
mento de um programa de cunho fascista e não de um movimento
revolucionário (cf. Trindade, 1974, 111).
O discurso "revolucionário", ao afirmar que não se fez uma
contra-revolução em 64 nem se deu um golpe de Estado (2, 8; 13,
89-90), procura estabelecer distinção entre golpe e revolução. O
golpe, segundo ele, é "fruto da audácia", é "fugaz e reversível";
a revolução emana de "vigorosas aspirações", é "perene e irrever-
sível" (2, 8). A diferença repousa, então, na profundidade volitiva )(
e na duração. A distinção, porém, é outra. O termo "revolução"
significou, durante um certo tempo, "comoção social". Porterior-
rnente, adquiriu um se.ntido mais preciso. A revolução pressupõe
a criação de urna nova sociedade e a direção política de urna clas-
se revolucionária (Marx, 1976, 164-1-66). Segundo Marx, pode-se
dizer que a burguesia é revolucionária só na situação em que des-
trói os laços da sociedade feudal. Lênin retorna o problema da
revolução burguesa e, em sua obra, propõe uma alteração da his-.
toricidade da revolução burguesa e, portanto, da sua sustentação
de classe e direção política: é a luta pelo desenvolvimento mais
rápido e livre das forças produtivas sobre a base capitalista, sob
a direção do proletariado, como etapa para a transformação so-
cialista (1982, 10-11). O texto de Lênin, acima citado, mostra que o
desfecho revolucionário pode estar sob a direção do proletariado,
assumindo, nesse caso, a forma de uma revolução dernocrático-
burguesa ou pode ser uma reacomodação "pelo alto". Essa reaco-
modação das velhas superestruturas é contra-revÓlucionária. Po- X
de-se inferir desse. texto que o destinador da luta revolucionária
é sempre urna clàsse não-hegemónica. Classes hegernônicas não
fazem revolução, mas contra-revolução, para retirar as classes su- ·
balternas da cena das decisões políticas; Ademais, uma revolução
coloca em evidência os antagonismos de classe, ao passo que o
discurso "revolucionário" propõe corno destinador da revolução

61
uma entidade mítica, a nação, que congrega todos contra um "go-
verno corrupto e subversivo", que, nesse caso, não representa
qualquer classe, mas é a antinação (3, 61).
Uni golpe de Estado é a apropriação do poder de Estado pelo
aparelho militar-burocrático, a despeito da classe hegemônica, para
fazer prevalecer os interesses desta (Marx, 1978, 393-404).
>; X Se aceitarmos as conclusões de René Armand Dreifuss sobre
o movimento de março, teremos que admitir que ele foi um "mo-
vimento de classe" e não um "mero golpe militar" (1981, 483489).
Foi o que chamamos contra-revolução, pois visou preservar "a
natureza capitalista do Estado, uma tarefa que envolvia sérias
restrições à organização autónoma das classes trabalhadoras, e
·consolidar um modelo de crescimento denominado profundiza-
ción, isto é, o desenvolvimento de um tipo de capitalismo tardio,
dependente, desigual, mas também extensamente industrializado,
com uma economia dirigida para um sistema de concentração de
propriedade na indústria e integração com o sistema bancário"
(Dreifuss, 1981, 485). O seu. duplo objetivo foi restringir a ação do
proletariado e operar a profundización da economia. ~-.;:;;

+ O que levou muitos estudiosos a interpretar o movimento mi-


litar como uma intervenção bonapartista foi a autonomia "rela-
tiva" do estado de exceção (Dréifuss, 1981, 494). O discurso "revo-
lucionário" afirma que os militares agiram em nome de toda a
nação e não têm, por isso, compromissos com os interesses de
quaisquer grupos, mas com a realização do projeto nacional (2,
23; J, 78). Assim, o discurso acentuà que o governo tem uma au-
tonomia em relação aos "grupos sociais", pois nenhum deles é o
destinador do seu fazer, que é homólogo ao da nação. Já discuti-
mos a função do ator "nação" no discurso. Queremos mostrar
agora que, ao enfatizar a "autonomia" dos militares, o discurso
mostra que houve um golpe de Estado, que se designou revolução,
porque a afirmação da autonomia implica a negação de uma con-
~ ~ tra-revolução, mas não a afirmação de uma revolução. Entretanto,
como essa autonomia só existe no nível do parecer, porque o des·
tinador do sujeito do fazer foram as classes dominantes, a "revo-
lução" foi um golpe em nome de uma contra-revolução.
Afirma ainda o discurso que uma revolução é "perene" (2, 8).
Só afirma a perenidade a história burguesa, que é sempre a tema-
tização do progresso, ou seja, "a infindável explicitação ou desdo-
bramento de um fundo larval idêntico que, por etapas ou fases
sucessivas, busca o amadurecimento" (Chauí, 1980, 212-213) e a
negação da contraditoF-iedade existente na formação social.
Costa e Silva considera a promulgação do Ato Institucional
n.0 5 uma "revolução dentro da revolução" com o escopo de "re-
acender os propósitos do movimento de 1964, acelerar a moraliza-
ção dos costumes político-administrativos e levar a cabo, dentro

62
(
da tradição cristã brasileira, reformas da nossa estrutura sócio-
econômica; que forças desconhecidas procuravam dificultar" (12,
28). O Ato Institucional n." 5 é a expressão de um /querer-ser/
dos militares no poder, que são. agora, o destinador de um querer
que pertencera ao povo. É esse o sentido do lexema "reacender".
Com isso, a promulgação do AI-5 manifesta a "autonomia" (mui·
tíssimo. relativa) das Forças Armadas e caracteriza-se como golpe
· de Estado. É mostrada a promulgação como "revolução dentro da
revolução", porque, segundo·o discurso, o querer que a impulsiona
é o qu~rer anterior do povo, manifestado em 1964. Mas o querer
anterior não é o querer atual, e o discurso começa a enredar-se
nas malhas da contradição. A "revolução dentro da revolução" é ;>r
o absoluto non sense narrativo, pois nela não é mais o destinador
que tra~smite o seu querer ao destinatário, constituindo o sujeito
do fazer, mas este é que instaura aquele com base no querer que
deu origem a outro fazer.
Desgastaram-se muito as palavras no discurso. do poder. Fa-
zer uma revolução tornou-se muito fácil. Basta editar um AI e
uma revolução está feita. Qualquer golpe, mesmo na legalidade
golpista, é denominado "revolução". "Ai, palavras, ai, palavras /
que estranha potência a vossa! / Todo o sentido da vida / princi-
pia à vossa porta: ( ... ) sois o sonho e sois a audácia, / calúnia,
fúria, derrota ... " (Cecília Meireles).
A "revolução dentro da revolução" quer acelerar a moraliza·
ção dos costumes político-administrativos. "Acelerar" é uma figura
de temporalização que implica a realização de um fazer 21 em um
espaço de tempo menor que o espaço previsto quando se projetou
esse fazer. A "revolução dentro da revolução" deseja ainda fazer
reformas que não são senão o que se chamou "modernização
conservadora". A reforma é a negação de um termo e a afirmação .
do seu .contrário. Portanto, sempre dentro do mesmo quadro de
valores. ~ sujeito da reforma não ~ o "herói", mas o "vilão"
(Barros, 1975, 1f3). Ora, a "revolução", feita para manter o statu
quo rompido, considera Goulart "vilão". Este é, então, o reforma·
dor. Os militares não são senão conservadores. Ademais, sua "re·
forma" é o progresso e o desenvolvimento, que são o idêntico
colocado antes e depois do processo. A "reforma", enunciada no
discurso, é a !'volta ao estado natural", rompido pelo "vilão", o
progresso e o desenvolvimento. Restauração da ordem não é re-
forma, é a negação do. reformismo, que é apresentado como "sub·
versão".

4. A subversão

"Quando as elites periféricas designam ações e palavras


como subversivas (venham elas de qualquer ponto da
soc;iedade), deixam claro o que entendem por subversão.

63
É· considerada subversiva toda palavra e toda ação que
atestem o óbvio, isto é, que a sociedade e a 1'9lítica exis·
tem, simplesmente. Admiti-las como existentes é o pri-
meiro pa:Sso para admitir, em. seguida, que possuem con-
flitos e problemas, de sorte que é preciso impedir esse
.segundo passo, condenando de antemão o primeiro. Dis-
curso do limite, o discurso acusatório e condenador é a
forma canónica do discurso dominante bruto porque rea-
liza caricaturalmente (e a alto preço) o mesmo fim a que
se propõe a dominação mais cultivada, isto é, apagar a
realidade social e política como constituída pela luta de
classes" (Chauí, 1980, 52).

Subversão é o ato de negar, no dizer e no fazer, a unicidade


mítica da sociedade. O discurso "revolucionário" é um discurso
acusatório e condenador, porque exerce uma sanção pragmá-
tica e cognitiva negativa, mostrando que determinadas ações não
estão de acordo com o sistema axiológico que os detentores do
poder pretendem que seja o da nação e revelando que quem exer·
ce essa performance é traidor e, por isso, tem que receber uma
punição (3, 50; 3, 164; 3, 165). Mostra que todos os que são contra
o governo são movidos por ignorância ou por interesses escusos
(2, 123; 2, 145; 2. 153; 2, 285; 2, 35; 2, 75; 2, 82; 2, 98; 2, 115; 2,
ll6-117; 3, 24; 3, 50; 3, 73; 3, 74; 3, 78; 3, 83; 3, 164; 3, 185; 1, 22-23;
1, 210).·
"Paz social", o oposto da subversão, é a negação dà existência
da luta de classes. O discurso tem. por função, portanto, ocultar o
real.
'.>(' Enquanto o discurso democrático põe em jogo a tentação e a
sedução, como recursos persuasivos, o ditatorial usa a intimida·
ção e a provocação. É evidente que não existem discursos puros,
mas aqueles em que predomina um ou outro recurso. O discurso
"revolucionário", ao enfatizar o tema da subversão, col~a em jogo
a intimidação (repressão) como recurso persuasivo mais impor-
tante (1, 236; 2, 287; 3, 321; 3, 369; 3, 396; 17, 24-25; 17, 121-122).

5. A legalidade "revolucionária"

Para que a punição do "traidor" não seja considerada vingan-


ça, mas justiça, o movimento de março tem que criar a sua lega·
lidade que só existe segundo o modo de parecer. As normas da
legalidade "revolucionária" embasam-se no argumento "jurídico"
de que uma revolução tem poder constituinte (2, 34-35).
No período dito revolucionário, coexistem duas ordens jurí-
dicas: a institucional, que é transitória e se destina a preservar as
conquistas da "revolução", e a constitucional, que é definitiva e
tem por objetivo estruturar o Estado e assegurar o funcionamento

64
orgãnico dos poderes republicanos (14, 38-39). Os instrumentos
jurídicos transitórios vigirão enquanto não se edificar a ordem
jurídicã definitiva (13, 73-74). A lei é, para o cidadão, um conjunto
de deveres (prescrições e interdições) e de opções previstas (não-
interdições e não-prescrições). Exprime a modalidade do déver.
Em relação ao Estado, ela não só expressa o dever, mas também
o poder-fazer, o poder não-fazer, o não poder-fazer e o não poder
não-fazer. Regula, assim, as relações entre o cidadão e o Estado.
g a lei que permite o poder-punir e estabelecer a punição. A lei
deve ser legítima e a legitimidade emana da classe que é hegemô-
nica na sociedade. Nas democracias burguesas, em que a luta de
classes é ocultadà, a legitimidade decorre do poder legislativo, que
pretende representar as diversas correntes de opinião. Como a
"revolução'' pretende salvar a democracia e deseja manter a hege-
monia burguesa, não se po!ie falar em legitimidade de atos insti-
tucionais e de constituições outorgadas, pois não foram votados
pelo Parlamento. Como todo o discurso desliza da discussão dos
valores axiológicos do governo para a do valor modal do poder de
que ele está investido, no fundo o que faz não é questionar a
legitimidade, mas apenas a legalidade dos atos "revolucionários".
Ora, legalidade constrói-se fazendo leis legítimas e ilegítimas. O -J..
golpe exige uma legalidade, e o termo "revolução'' procura dar-lhe
legitimidade (2, 34).
As duas ordens jurídicas que coexistem são um /poder-fazer/
transitório e um /poder-fazer/ permanente. O que é transitório
torna-se permanente à medida que a guerra contra o comunismo
continua e o inimigo está presente em toda parte, pois não se pode
realizar um fazer sem poder. Qualquer abertura (renúncia do po-
der-fazer transitório) implica, segundo o discurso "revolucionário",
a volta a um passado em que havia o risco de o país cair sob a
dominação comunista. Enfatiza-se, então, a irreversibilidade do
movimento de 64 (3, 24; 2, 83; 13, 88; 14, 12; 17, 65). Irreversibili- '/.
dade e transitoriedade não podem ser atribuídas ao mesmo ob-
jeto, pois possuem incompatibilidade semântica. 72 Se a "revolu-
ção" continua, o seu/-poder~fazer/se mantém. Se aquela é irrever-
sível, este também é. Como o que é irreversível não pode ser tran-
sitório, cria-se uma situação paradoxal no discurso: a transitorie·
dade permanente (cf. COmblin, 1978, 70-72).

6. Narrativa conservadora

O discurso "revolucionário" apresenta, em seu componente


narrativo, a seguinte situação:
a) Existe uma ordem inicial, baseada na propriedape privada

.
.
. . ;., \\
dos meios de produção, de hegemonia burguesa. e~··'e F~usão das
!'~
ii'l ~
' 65.
i chlsses populares das decisões políticas. A ordem é vista como
natural, pois se fundamenta no "caráter nacional brasileiro". Essa
situação é, segundo a narrativa, um estado de equilíbrio e ·de
justiça.
" b) Ocorre uma ruptura da ordem inicial, um dano, conforme
a denominação proppiana das funções da narrativa. O dano leva
a uma situação de desequilíbrio. ·
c) Surge um "herói" (Forças Armadas) que restabelece a or-
dem rompida. O equilíbrio se dá, novamente, quando o "herói"
vence o "vilão" (Goulart) e repara o dano.
O arcabouço da narrativa que se pretende revolucionária con-
tém duas transformações de conteúdo: a negação da regra afirma-
da e a restauração da regra por meio de uma operação de negação
da negação. A narrativa que subjaz ao ·discurso "revolucionário"
mostra o restabelecimento da ordem social rompida. O discurso
que se quer revolucionário é conservador, porque defende, em seu
arcabouço narrativo, a manutenção do statu quo por meio da
reafirmação de um quadro de valores que deve ser mantido inal-
terado.
À medida que a "revolução" opera uma negação da negação,
entende-se a afirmativa, feita por muitos, de que ela não foi·a favor
de nada, foi contra: as reformas que se procurava implantar em
nosso país, que foram rotuladas de atos subversivos do movimen-
to comunista internacional, e a corrupção (1, 13-14; 1, 84; 1, 103; 1,
111-112; 1, 220; 2, 21; 2, 22; 3, 341; 12, 28; 17, 29). Essa última entra
no ideário da "revolução" como um dos temas mais fortes para
captar a simpatia dos pequeno-burgueses, que têm no moralismo
a sua ideologia. O "vilão" é caracterizado como corrupto, enquan-
to o "herói" é marcado como honesto (2, 26; 2, 202; 3, 186; 3. 241;
1, 51; 1, .144; 1, 134; 1, 143-144; 1, 185; .3, 28; 3, 208; 2, 25; 2,
31; 2, 75; 3, 51-52; 3, 54-56; 3, 204). Não é verdade que a "revolu-
ção" tenha comprovado, no governo Goulart, corrupção mai9r do
que aquela que sempre existiu em nossos governos. 2:1 Por outro
lado, os casos de corrupção avolumaram-se depois de março de
1964. 24 A categorização /individual/ vs. /coletivo/ permite marcar
os objetivos da ação do "vilão" e do "herói", respectivamente
(1, 94; 1, IS; 2, 113; 3, 29; 3, 115; 3, 210). Aquele pretendia; com
-0 poder, usufruir benefícios para si. Por isso, é corrupto. As Forças
Armadas tomaram o poder para salvar a nação e estender os bene-
. fícios operados pelo governo para todos. Por conseguinte, o' "he-
rói" é honesto.
· Liganqo o tema das "ref9rmas" ao da "corrupção", o disqurso
tenta descaraçterizar a possibilidade de qualquer programa ~for­
mista ou revolucionário t.er como beneficiário o povo, pois ele· só
servirá para dar vantagens àquele que propõe a reforma ou a revo-
lução. Por ardis discursivos, Goulart vai-se tornando o antiJlovo.

66
O discurso pretende descaracterizar os benefícios do programa rc-
formis ta de Goulart, apresentando-o como corrupto.
O movimento de março caracteriza-se pela negação da negação
e, por isso, é contra qualquer reforma nas estruturas sociais. Em
certos .trechos, emerge essa verdade: a "revolução" defendeu "a
propriedade", pois um dos perigos que os brasileiros corriam no
governo Goulart era a "ameaça de expropriação da terra" (3, 80;
17, 62). Tudo o que se fez em nome da "salvação da democracia''
foi manter intocada a propriedade. Diante da ameaça à proprie-
dade, a "revolução" protegeu-a, afastando os perigos que corriam
os proprietários.
O discurso fala também em reformas (1, 14; 1, 24; 5, 7; 1, 31;
1, 38-39; 1, 61; 1, 62; 1, 67; 1, 85; 1, 93; 2, 10; 2, 91; 3, 333-334;
4, 11; 2, 92; 3, 67-68; 2, 93; 2, 127; 2, 147; 2, 158; 2, 268; 2, 282;
3, 83; 2, 290; 3, 291; 4, 3) com a finalidade de atenuar os desníveis
de renda e as disparidades de desenvolvimento regional (2, 14; 3,
85; 3, 267-268; 1, 14; 2, 28). Os objetivos da "revolução" são desen·
volvimento e segurança (17, 11). No lexema "desenvolvimento" X
existe um sema que indica a conservação de uma metanorma dada
a priori e "segurança" tem como conteúdo a manutenção de um
modelo de crescimento dependente que exige a contenção dos mo-
vimentos das classes subalternas (2, 272; 17, 11). A obtenção das
finalidades das reformas se dará como conseqüência do desenvol-.
vimento que requer segurança. Esta é a modalização segundo o
poder para realizar o desenvolvimento (17, 11). As reformas são
imperativo de segurança nacional, isto é, são formas de conter o
avanço das forças populares e de manter o sistema capitalista
(2, 10; 2, 30; 1, 14; l, 31; 1, 62; 1, 67; l, 167; 5, 7). Como, porém,
os desníveis de renda e as disparidades do desenvolvimento regio-
nal serão suavizados pelo desenvolvimento, é preciso primeiro ter
o que repartir para depois dividir (2, 162; 1, 167; l, 170; 2, 87; 15,
78). Essa é a "teoria do bolo". Primeiro, é preciso acumular. A
acumulação será meio de geração de empregos e de distribuição
de renda por intermédio do pagamento de salários, regulados pelo
mercado, que será, então, o operador da distribuição (2, 317; 17,
85). Os operários são chamados a colaborar no soerguimento da
economia, isto é, na acumulação de capital no mais curto espaço
de tempo (1, 14; 3, 126; 3, 134; 3, 228; 17, 131). O povo, que foi,
aparentemente, instaurado como destinador do fazer político, foi
deslocado, no âmbito da produção, para o seu verdadeiro papel,
adjuvante, cujo fazer "trabalho" servirá para uma acumulação
cada vez maior.
Aceitar que o trabalho possa autovaloriz.ar-se como capital,
gerando salários cada vez maiores, é, segundo expressão de José
Arthur Gianotti, "tomar a parte pelo todo", emprestando-se, "a
cada momento do processo de trabalho, o traço básico da produ-
ção capitalista na sua totalidade". "O capital perde sua medida

67
social para que suas partes adquiram uma medida natural repre-
sentada." Esse_ é o processo de formação de fetiches (78). O dis.
curso é contraditório, pois instaura as classes subalternas como
parte do desenvolvimento e; depois, como sujeito de um fazer au-
tônomo de aquisição de renda, na medida em que diz que o tra-
balho produz melhoria de nível de vida (1, 149; 2, 220; 3, 7; 3, 47;
17, 52-53).
Por outro lado, o desenvolvimento desigual das diferentes re-
giões ou dos diversos setores de produção está presente em toda
sociedade capitalista. As disparidades regionais e setoriais assu-
mem proporções extremamente graves nos países periféricos por-
que, neles, a acumulação de capital se faz de maneira específica,
sendo conseqilência, como mostra Florestan Fernandes, da ''arcai·
zação do moderno" e da "modernização do arcaico" (1975, 46-61).
O desenvolvimento do capitalismo nos países periféricos não exige
·a destruição completa dos antigos modos de acumulação, que dei·
xam vestígios e subordinam-se ao modo de produção capitalista
(Oliveira, 1975, 32).
O componente narrativo do discurso "revolucionário" é tam-
bém uma narrativa conservadora, se analisado segundo proposta
formulada por Claude Brémond (1977, 108-109). Nela, há seis fun-
ções: degradação --+ melhoria; mérito --+ recompensa; demérito
--+ castigo. O "caos" constitui uma degradação em relação a um
.estado anterior, que' ocorre por causa do degradador desmerece-
dor Goulart. A "revolução" representa uma melhoria porque reco-
loca o país no caminho da ordem e do desenvolvimento, o que
acontece graças ao trabalho do prestador merecedor Forças Arma-
das. O degradador é punido com o exfiio e a cáSsação, enquanto o
prestador tem a recompensa no fato de ver a pátria em ordem e
progresso. A sua recompensa é a "satisfação do dever cumprido".
Aqui o discurso "revolucionário" aproxill"!.a-se do discurso do Gê-
nesis, que narra a queda do homem, a falta primordial.

1. A salvação e a perdição

Segundo o discurso "revolucionário", o movimento de 64 visa a


salvar a democracia, a salvaguardar a unidade nacional, a defender
a pátria do comunismo e a desenvolver o país pela elevação do nível
material, moral, educacional e político do seu povo, dentro da es-
tabilidade e da ordem (1, 13; 2, 21-22; 3, 17; 1, 32; 1, 40; 2, 23; 3, 50;
3, 34; 2, 73; 2, 230; 3, 80; 3, 117; 3, 292; 2, 15; 1, 14).
As principais realizações de Goulart e das Forças Armadas são,
respectivamente, a perdição e a salvação.
Na pátria há dois tipos de homens: os amantes da ordem e
da paz e os amantes da desordem e da guerra. Como a ordem faz
parte do caráter da pátria, os amantes do caos são inimigos da

68
pátria. Tomando a ordem como natural, justificam-se os atos dos
"revolucionários" com o patriotismo. Os amantes da paz, tomados
de c6lera sagrada 25 , resolvem executar o querer do. povo e ~alvar
a democracia, a pátria (1, 232; 17, 11). · ~
Salvar é conservar, guardar, poupar, defender, preservai, con·
servar intactõ. Em síntese, salvar é manter um estado e não per-
mitir a sua transformação. Não há, pois, revoluções salvadoras,
pois revolução implica transformação.

A História A-histórica

A retórica do poder acena com "dias melhores no horizonte


·do futuro", com o "amanhecer", com o "glorioso Brasil de ama·
nhã", ao exigir sacrifícios de "todos". Há uma virtualização, pois
o sujeito (todos) e o objeto (tudo o que é necessário para uma
vida digna) são colocados anteriormente a qualquer junção. O tra·
balho de todos é um fazer que visa à realização do que é virtual
(1, 15; 1, 20; 1, 21: 1, 30; 1, 89; 2, 45.46; 3, 196; 2, 125; 3, 127; 3, 231;
14, 40; 17, 30; 17, 65).
Nisso,. o discurso parece-se com o discurso católico tradicio-
nal, que acena com o céu para os que suportarem o sofrimento
neste "vale de lágrimas", ou seja, para os que aceitarem o seu lu·
gar no interior das relações de produção, renunciando ao fazer
transformador.
No eixo /temporalidade/, há três momentos: a preteridade, do
caos; a presentidade, que engloba dificuldades resultantes do pas-
sado e a ordem e o desenvolvimento e a futuridade, onde as con-
tradições serão resolvidas e reinarão a ordem e a prosperidade.
A figura do "amanhecer" permite a seguinte análise:
• Eixo da temporalidade: preteridade/presentidade/futuridade
• Eixo da luminosidade: trevas/trevas e luz/luz
A presentidade é um termo complexo que reúne /trevas/ e
/luz/. Esses componentes sêmicos não estão, todavia, em equilí-
brio, pois /luz/ predomina fortemente sobre /trevas/.
O "amanhecer" é urn conector de planos de leitura, que per-
mite passar do plano político para o plano sagrado, pois o "ama-
nhecer" a que se refere o discurso é a "aurora da Páscoa", que
dilui as "sombras do Calvário" (13, 93). As trevas estão ligadas à
morte de Cristo, e a luz à sua ressurreição; aquelas, ao pecado;
esta, à graça. A possibilidade de uma dupla leitura do texto per·
mite assimilar o "caos" à morte e ao pecado, e a "ordem" à vida
e à graça. Implícito está que o que se fazia no Brasil durante o ;:.
governo Goulart era a ruptura da ordem estabelecida por Deus.
O futuro brilhante continuou sendo prometido pela "revolu·
ção" durante todos os anos· que durou. Agora, o futuro chegou, o
pafs está insolvente, a inflação disparou, a miséria agigantou-se.
A festa do desenvolvimento acabou.

69
Ao projetar para o futuro a superação das contradições do
presente,. o discurso pode defender o statu quo, uma vez que este
passa a ser o caminho da felicidade (1, 39; 3, 196; 3, 221). A pro·
messa de um futuro melhor é uma estratégia discursiva que jus-
tifica a espoliação do presente. Ao culpar o governo Goulart pelos
males do presente, os governos "revolucionários" eximem-se de
qualquer responsabilidade por seus atos, uma vez que a sua per-
formance é determinada por uma "necessidade" e não por um
querer (1, 37; 1, 38; l, 65; 1, 84; 1, 92; 2, 18; 2, 162; 2, 220; 2, 218; 2,
"i-.. 321; 4, 2). A estratégia de futurização e de preterização é a estra-
tégia da inauguração da inocência.
Ao prometer um futuro brilhante para o país, a "revolução"
tematiza a história como progresso, cujo sentido já explicitamos.
A história, no entender da "revolução", não tem transforma-
ção por contraditoriedade, nem sequer por contrariedade, mas
apenas crescimento, ou seja, aumento e modernização do já-dado.
v "A história, reduzida ao tempo empírico, homogêneo, linear e su-
cessivo, é uma história espacializada. Nela, a dimensão do que é
outro. tende a ser figurada de duas maneiras diversas, porém com-
plementares: o outro é tanto o que veio antes ou o que virá depois
quanto o que está 'fora', seja na qualidade do modelo a ser reali·
zado, seja na qualidade do modelo a ser evitado. A espacialização
(como linha temporal ou como exterioridade) leva a urna identifi-
cação entre o real e o dado, o atual (o presente) ou o virtual (o
a
passado ou o futuro), de sorte que realidade é sempre o positivo
determinado. Abolem-se, portanto, a temporalidade da negação e
a dimensão do possível. Com tais abolições desaparece a história
corno movimento reflexivo que constitui o próprio tempo" (Chauí,
1980, 213).
Com efeito, o espaço é o tempo exteriorizado. O passado iden-
tifica-se com um valor que está "fora'', o comunismo, figurativi·
zado pela União Soviética; o futuro, com o desenvolvimento capi·
talista, cuja figura são os Estados Unidos. União Soviética e
Estados Unidos são o outro a ser, respectivamente, evitado e de-
sejado. Sobre a primeira pesa um interdito e, por isso, não deve
ser desejada. Sobre o segundo, recai uma injunção positiva e, por-
tanto, deve ser buscado. A história é reduzida a um tempo linear
e sucessivo, porque é ela apenas a explicitação de um já-dado na-
tural que vai progredindo. O sistema capitalista é que pode pros-
perar em nossa terra. Por isso, o presente, em que há dificuldades,
identifica-se com um passado anterior ao governo Goulart e com
o futuro em que o Brasil realizará o seu destino, tornando-se uma
grande potência, e o bem-estar existirá para todos. No tempo não
existe contqiditoriedade, ou seja, negação do dado, mas apenas
continuidade e, portanto, identidade.
X A realitlàde histórica opõe-se à verdade eterna, que só existe
no âmbifo do sagrado. A naturalidade do sistema social e a eter-

70
nidade das instituições indicam uma ausência de historicidade. O
discurso "revolucionário" não analisa as reals condições históricas
que levam ao desenvolvimento brasileiro. Prefere mostrar as nos-
sas "dificuldades" como erros de outros governantes. Utiliza a
história, negando a sua historicidade. ou seja, usando o anedótice>
para buscar uma moral universal. O que produz a desigualdade
entre homens e nações não reside no sistema econômico, mas na
natureza e na vontade de cada um (Chauí, 1980, 79).. A avaliação
da conjuntura e da desigualdade é· uma avaliação moral, poi5 eia· ·
se deve a maus brasileiros e à falta de vontade de trabalhar.
Uma história, concebida em termos morais, desengajados de I
qualquer coerção social, não é história, pois é o reino da intempo-
ralidade e da eternidade. ·Seus valores são imutãveis e, por isso,
independem das circunstâncias e do solo movediço da história.
A história da "revolução" sai da história, ao eternizar-se, e de-
sengaja-se da polftica, ficando no abstrato, embora pretenda. 'ana-
lisar o concreto. Assim, o discurso vai sacralizando-se e despoliti-
zando-se. ·

Os Oponentes

Embora já tenhamos feito algumas reflexões a respeito do


papel das oposições, estabelecido pelo regime militar, há necessi-
dade de continuaT a reflexão e aprofundá-la.

1. Os traidores da pátria

Os opositores, que se negam a aceitar o papel narrativo de


adjuvante e mantêm-se no papel de oponente do governe>, são con-
siderados traidores da pátria, porque nação, Estado e governo
identificam-se. Divergir do governo é trair (3, 296; 1, 192-193; 3, i3;
3. 78; 2, 180-181; 2, 285; 3, 164-165; 3, 50; 2, 299).
O governo admite oponentes segundo o saber, mas não segun-
do o poder, uma vez que admite críticas, sugestões e conselhos,
mas não pressões. Ao governo cabe julgar a validade ou não do
saber dos outros (3, 222; 1, 209; 1, 40; 3, 207-208; 17, 39-40; 17, 121).
Ora, não existe oponência seguÔdÓ o saber, mas apênas segundo '/.
o poder. O que o governo chama oponentes são, na verdade, adju-
vantes. Isso também demonstra que o discurso é extremamente
au:toritá.rio. .
O discurso estabelece uma oposição entre "nós" e "eles". Essa
posição discursiva homologa a oposição narrativa entre o fazer do
governo e o dos outros. Denominar- "traidor" o oponente é o re-
sultado da interpretação das ações dos oposicionistas pelo go-_
vemo. A leitura, efetuada por este, mostra um programa narrativo
canônico, que não é "senão uma 'verossimilhança sócio-<:ultural',
senão uma organização in abstracto, previsível
.''•.''
e esperada, porque

71
convencional, isto é, sintagmaticarnente estereotipada, dos com·
portamentos humai;ios e dos acontecimentos. Esse esquema sintag·
mático canônico, e_i-igido em modelo de comportamento, é então
suscetível de ser aplicado a grande número de situações concre-
tas" (Greimas, 1976, 181). O esquema canônico prevê que, em tem-
po de guerra, ir contra o comando é trair, pois é ajudar o inimigo.
:ll esse cânon que vê, em todos os movimentos de oposição, o "dedo
de Moscou" e, em todos os desejos de mudança, subversão.
'l( Esse fazer interpretativo tem repercussões sobre o fazer prag-
mático, pois ele desencadeia e justifica toda repressão contra as
~ oposições. Como esse fazer interpretativo não repousa em fatos -
uma vez que, no sentido denotado do termo, o Brasil não trava
uma guerra com a União Soviética, mas fundamenta-se na ideolo-
gia daquele que interpreta, ou seja, num sistema de representa·
ções, que se manifesta num conjunto de esquemas canónicos, que
dão verossimilhança narrativa ao discurso - a narrativa pressupos-
,. ta pelo axioma ideológico é correta, mas não é verdadeira. Da corre-
ção do referente interno provém a sua capacidade de apresentar-se
como verdadeira no modo do parecer. Só a contestação dos axio·
mas permite desmontar o arcabouço narrativo. Como todo racio-
cínio presente no discurso revolucionário, a classificação dos opo-
nentes e adjuvantes é uma interpretação dedutiva, pois não é
{ senão a aplicação de uma ideologia a um caso particular. Aceitar
a identificação da nação, do Estado e do governo ·significa aceitar
que quem se opõe ao governo é traidor.

2. A tipologia dos oponentes

A "revolução" tem inimigos, aqueles que têm o comunismo


como destinador, e adversários, aqueles que não admitem qualquer
mudança no statu quo ou querem mais rigor com os inimigos (2,
30; 2, 272). Os lexemas escolhidos para nomear uns e outros reve-
lam a visão que o discurso "revolucionário" tem de cada um. En-
quanto os primeiros são "minorias trêfegas e transviadas", os ou-
tros são "movidos pelo mais acendrado patriotismo", parecem
"inconformados com os lentos processos de ordem legal" (17, 39;
4, 2). Num caso, temos os traidores (a esquerda); no outro, os que
x o amor à pátria leva a· certos desvios. Os inimigos situam-se para
além das nossas fronteiras ideológicas, estando, portanto, fora da
pátria (3, 296; 3, 165; 13, 80). Os adversários estão fora das reais
necessidades do momento, situando-se, pois, fora do tempo (2, 10;
3, 289). Só o governo situa-se no aqui e no agora, trabalha para
sanar os reais problemas do Brasil num dado momento histórico
(3, 369).
."
Situar o oponente fora do nosso espaço ideológico ou fora do
nosso tempo permite desqualificar a sua ação, tachando-a de trai·

72
ê:;?'
dora e retrógrada e, ao mesmo tempo, qualificar os atos do go- ,~
vemo corno patrióticos e adequados às necessidades do noss~~
tempo. Desqualificar o outro é negar a possibilidade de e:xistênci~
da alteridade e afirmar que só a identidade é possível. .g
A diferença de tratamento dado à direita e à esquerda, reve· ~
·lada pela seleção dos lexemas que lhes dão as qualificações, mostra<::.~
a vinculação do governo à direita, embora o discurso afirme que ~
o governo renega a "direita reacionária" (1, 14).

3. A ideologia guerreira

A política comanda todas as ações do Estado (3, 78-80). Como '/...


dizem alguns, em brincadeira, a ideologia da segurança nacional é
a "revanche de Hegel contra Marx" (Comblin, 1978, 42). A política
é, porém, entendida como uma continuação da guerra. Lexemas
do vocabulário bélico revelam essa posição (1, 58; 1, 203; 1, 241).
Mobiliza-se todo o povo em função de um mito, aquece-se o medo,
falando do inimigo dissimulado que está em toda parte, joga-se
com o terror do desconhecido e continuam as situações de espo-
liação e opressão das camadas subalternas. É preciso que não haja
conflito interno para que todos se dediquem à guerra externa. Por
outro lado, todo conflito interno é expressão da guerra externa
(cf. Comblin, 1!178, 220).
O inimigo deve ser esmagado, pois senão ele será vitorioso.
Essa c.oncepção de mundo, que se chama moral do "olho por olho",
está fundada nmna concepção de sociedade humana assentada so-
bre a violência e o confronto, não de classes, pois que o discurso
não admite a sua existência, mas d~.Jdeologias (13, 80). Essa visão 1' .
de mundo é a ideologia da guerra (cf. Greimas, 1976, 250).
Essa ideologia da guerra justifica a punição aplicada ao trai-
dor, pois o seu programa canônico prevê a punição do oponente.
A punição é uma privação, isto é, uma diminuição ou uma negação -i.
do ser do traidor. Em muitos casos, é uma passagem da /vida/
para a /não-vida/ {Greimas, 1976, 235). ·
A tortura é justificada porque o sujeito precisa penetrar nos
meios inimigos. Precisa obter informações. O fim justifica o meio ..
A obtenção de informações faz-se pelo exercício da força bruta
(tortura) ou pela persuasão segundo o poder, seja a tentação, seja
a intimidação. 16 ·

Às vezes, estabelecia-se uma troca entre governo e oponentes,


"informação" era permutada por "liberdade" (Syrkis, 1980, 208·
211). O valor de troca era, então, a "graça", oferecida pelo governo. 'f-
Para poder propor a graça, é preciso primeiro culpabilizar o seu
eventual beneficiário, colocando-o na posição de "traidor", que
merece a morte. A atribuição da "graça" é a renúncia da vingança. t
A estrutura igualitária da troca é desmentida pelo fato de que um
eixo de poder, oistinguindo as partes contratantes, segundo a ca·
tegoria /dominante/ vs. /dominado/, lhe é subentendido. Com efei-
to, o benefício da "graça" pressupõe o exercício da instância do
poder (Greimas, 1976, 195-197). A "graça" depende de i-dZÕes de
Estado, pois não há qualquer piedade (razões do coração) no trato
com traidores. Os agraciados deveriam, em cadeia de rádio e tele-
visão, aplicar à sua luta e ao fazer da "revolução", respectivamen-
ie, os termos /disforia/ e /euforia/, transformando, assim, micro-
universos semânticos em axiologias. Valorizar positiva e negativa·
mente o fazer de cada sujeito servia para, publicamente, justificar
a repressão. A "graça" é a submissão de um oponente ao fazer do
governo. Sob o parecer de atores não-dominados, os agraciados são
i dominados. Assim, a liberdade só se.consuma no plano da mentira.
Os oponentes não têm liberdade, pois esta, segundo a ideolo·
gia burguesa, situa-se na reunião de um /poder-fazer/ e de um
/poder não-fazer/. Todos os brasileiros estiveram diante de um
> dilema, que se definia como um /não-j>oder não-fazer/, ou seja,
corno uma obrigação de fazer. Ou eram adjuvantes ou eram opo-
nentes. No primeiro caso, renunciavam à liberdade, pois se sub-
metiam à dominação. No segundo, os agentes da repressão tira·
vam-lhes a liberdade. ~?•

4. A moral absoluta

Todos os brasileiros tornam-se objetos de um julgamento mo-


ral. Como o regime parte de uma moral absoluta que coloca em
campos rigidamente separados o mal (o comunismo) e o bem (a
democracia), os brasileiros são adjuvantes ou oponentes, heróis ou
· traidores. Por isso, o discurso é absolutamente maniqueísta. Os
enunciadores percebem, em seu espaço cognitivo, apenas o "ver-
melho" e o "verde". A realidade, porém, apresenta diversos mati-
zes de vermelho, do rosa ao carmesim e ao purpúreo; diferentes
nuanças do verde, do claro ao garrafa. Há tons sobre tÓns, inter-
penetrações de matizes. A "revolução" vê como idênticos a social-
democracia, o trotskismo, o leninismo, o PCB, o PC do B, o MR-8,
a Libelu e até a democracia-cristã.
O mecanismo semântico básico do discurso é a "universaliza-
ção abstrata", ou seja, a negação das diferenças, para afirmar uma
unidade superior, que engloba contrários e contraditórios. Esse
mecanismo foi bastante usado por Hitler, que denominou o seu
-/ partido "nacional-socialista".:e o mecanismo semântico de cons-
trução dos mitos.
Como a significação implica o aparecimento de diferenças na
seqüência de umà operação disjuntiva, a conjunção de identidade
efetuada pelo discurso "revolucionário" pode ser interpretada
como uma forma de abolição do sentido. Portanto, a função da
universalização não é revelar, mas ocultar o sentido.

74
Guimarães Rosa assim se expressa,- falando da realidade da
vida:

"Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que


sempre me invócou, o senhor sabe: eu careço de que o
bom seja bom, e o ruim mim, que dum lado esteja o preto
e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do
bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos
b~m demarcados ... Como é que posso com-este mundo?
A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperan-
ça mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este
mundo é muito misturado".

5. O papel do traidor

O herói, para ser herói, tem necessidade do traidor que é, '!(


assim, de certa maneira, seu adjuvante objetivo. Um duplo fazer
apresenta-se no texto e o fazer do vilão completa o do herói.
Como a dominação burguesa não se pode assumir como tal,
porque o Estado deve aparecer como algo $eparado das classes, o
herói da pátria toda só pode assim aparecer se houver um traidor
real ou imaginário. :e, por isso, que toda ditadura militar latino-
americana se justifica pela iminência de perigos que ameaçam a
pátria (1, 53; 1, 58). Quando a existência do perigo comunista perde '!..
a credibilidade, aparece sempre um "canal de Beagle" ou umas
"Malvinas" para justificar a existência de heróis.

6. A transferência de responsabilidade

À semelhança da fábula do lobo e do cordeiro, o governo nunca x-


é responsável pelo que faz, pois é a oposição que radicaliza, obri-
gando o governo a um fazer defensivo, que visa a salvar a democra·
da. Como na fábula, qualquer argumento serve para quem detém a
força. O fazer do governo deriva da radicalização das oposições,
do fato de o povo não saber votar, etc. (1, 236; 2, 287; 3, 321; 3, 369;
3, 396; 3, 393; 17, 24-25; 17, 119-120; 17, 121-122).
A falha é sempre do outro e o castigo infligido pelo governo
não só é merecido, mas o governo lamenta fazê-lo. As ditaduras
justificam o seu fazer, mudando o esquema narrativo: a sua per· 'i 'l
f ormance torna-se sempre a sanção de um fazer alheio.
A interpretação ilo fazer canónico aplicado a um fazer aqui e
agora consiste em culpabilizar o. oponente e em negar toda a res-
ponsabilidade do sujeito, tornando o seu fazer a expressão de uma
"justiça impessoal" (cf. Greímas, 1976, 185-186).
O verdadeiro responsável pelo fazer é a guer.ça ímpo~ta pelos
comunistas. Obrigado pelo comunismo a agir de tjma determinada
maneira, o governo pode afirmar sua inocência e -_transferir a res·

75
• outras, de natureza transitória, que deveriam perder a va-
lidade em 15 de março de 1967, com a posse do segundo presidente
"revolucionário".
. Nesse ato; apenas parte do /poder-fazer/ tem uma limitação
.temporal.
O AI-5, baixado no dia 13 de dezembro de 1968, restabeleceu
todos os poderes do Al-2 e não estabeleceu nenhuma limitação
temporal para o seu exercício .. O executivo, pelos dispositivos dos
atos institucionais, assume o fazer decisório do legislativo, o fazer
executivo e o fazer sancionador do judiciário. O executivo exerce,
pois, três funções que, na democracia burguesa, não estão em
sincretismo.
'f- A justificativa para a edição dos atos institucionais era evitar
o retrocesso do país à subversão e à corrupção, normalizar a de·
mocracia, evitar a ditadura, preservar as instituições democráticas,
garantir o funcionamento dos três poderes da República. Em sín-
tese, segundo o discurso, foram editados para salvar a democracia
(3, 3-4; 3, 65; 3, 111; 3, 229; 3, 368; 3, 395). Se considerarmos os
pressupostos básicos sobre os quais se funda a democracia formal,
ou seja, consulta popular periódica ciue expresse a vontade majo-
ritária, competição entre posições diversas, liberdade de expressão,
proteção à representação das minorias no Parlamento e existência
de um judiciário autónomo, o que os atos fizeram foi destruir a
democracia. Como explicar a contradição? Na realidade, "demo-
cracia" ocupou o lugar de "capitalismo". O que os atos fizeram foi
propiciar condições para a execução de um determinado modelo
-r.r:f"' de desenvolvimento capitalista' (17, 38). Como isso não pode ser
declarado, "democracia" é o termo que significa aí "capitalismo".
A presidência é vista como missão delegada das Forças Arma-
das (14, 9-10). Isso acarreta duª5 conseqüências: de um lado, o
presidente tem o seu dever-fazer determinado pelas Forças Arma-
das. Assim, a tomada de decisões é de responsabilidade de um
corpo social. De outro lado, como o presidente é representante
das Forças Armadas, tem todos os direitos. Esse direito decorre
do fato de todo o povo ter desqualificado Gciulart e qualificado as
/- Forças Armadas. O raciocínio seria perfeito se não partisse de uma
falácia: o povo delegou a sua soberania às Forças Armadas. Qnde?
Quando? Como? A democracia f_orinal tem apenas um mecanismo
de transferência de poder: consulta popular periódica, com os re-
. quisitos apontados acima. Tudo o mais é golpe, é contra-revolução.
Carece da legitimidade formal da democracia burguesa, dada pelo
Parlamento.
O executivo, encarnando todo o poder, todo o saber e todo o
X querer, torna-se onipotente e onisciente. Assim, o governo passa a
ser um deus, destinador universal de toda a competência. Isso lhe
confere um caráter sagrado. Qualquer poder, saber ou querer do

80·
povo é um dom do governo, A relação governante/governado sem·
pre é pautada pelo dom unilateral e espontâneo do governante,
porque, pará o discurso, o conflito não existe no interior da so-
ciedade, a não ser ocasionado por minorias transviadas. E isso
que permite que o presidente Geisel afirme que a "abertura" é
decorrente da vontade do governo (17, 122), ou que o presidente
Figueiredo declare reiteradamente que há de fazer deste país uma
democracia. O dom patenteia o caráter extremamente autoritário
deste discurso.
Não discutir o valor axiológico do governo, mas o valor modal
/poder/ é não questionar sua legitimidade. Posto nesses termos o
papel do governo, ao povo cabe somente a aceitação. Se o fazer do 'f
governo só se exerce segundo o poder, é definido como a encar-
nação do poder e, nesse caso, o governado nunca será livre. O dis-
curso inverte, então, a fórmula democrática de que todo poder
emana do povo. O poder não reconhece nada fora de si mesmo,
fora do seu poder. Por isso, ele faz a lei e a verdade (2, 33).
Se o governo é onipotente e onisciente, tendo, pois, atributos
divinos, e o povo não é senão destinatário, o discurso sobre o fa-
zer do governo aproxima-se do discurso sobre o fazer de Deus.
Com isso, o discurso despolitiza-se.

A Narrativa Complexa: Realizações "Revolucionárias"

Até o presente momento, analisamos a fase da aquisição da


competência: a apropriação do poder pelas Forças Armadas e o
desapossamento d.e .Goulart. Entretanto, não está completa a aqui-
sição da competência. Para determinar o modelo completo da nar-
rativa relatada pelo discurso, é preciso estabelecer o fazer último:
desenvolvimento do Brasil. Para que esse fazer seja realizado, é
necessário que se desenvolvam outros fazeres que farão parte da
fase de aquisição da competência. Dois desses fazeres são investi-
mentos concernentes à aquisição do /poder-fazer/: financiamento
e saneamento económico; um deles representa a aquisição de um
/saber-fazer/: planejamento. Se "financiamento" e "saneamento
económico" são a performance de uma seqüência narrativa, pres-
supõem logicamente uma competência: "segurança" ou "estabili·
dade social", necessária à realização da performance. Para a efe-
tivação do "planejamento", a competência é um "saber técnico"
já-dado. A fase da competência "estabilidade social" é desdobrada
numa seqüência narrativa: a performance é a "repressão" que
pressupõe uma competência que é o "domínio do Aparelho Repres-
sivo do Estado". Essa fase é desdobrada numa nova seqüência,
cuja performance é a "derrubada de Goulart". Essa pressupõe
uma competência, que não aparece nos discursos, e que, efetiva-
mente, é o poder das armas de que o exército dispõe.
A ocultação da competência que torna, em última instância,
possível a realização da política proposta pelo movimento militar
de 1964 tem uma finalidade precisa: desqualificar o golpe, colo-
cando como poder das Forças Armadas não um /poder-fazer/, :xµas
o /querer-fazer/ da nação. Realiza-se, assim, por essa troca.de mo-
dalizações no discurso, o princípio básico da democracia repre-
sentativa: "Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido".
:e evidente, porém, que não basta um /querer-fazer/ para realizar
uma ação. :e preciso que, além do /querer/, o sujeito da transfor·
x mação tenha também um /poder/. A idéia cie que /querer/ e /po-
der/ são modalidades intercambiáveis é um dos fundamentos da
ideologia burguesa, que preconiza que conseguem fortunas os ho·
mens dotados de vontade férrea, que todos têm acesso à riqueza, aos
postos de mando na sociedade. Basta que a pessoa queira fazer os
sacrifícios indispensáveis para isso. Sabemos, porém, que querer
e poder são modalidades distintas e não intercambiáveis e que só
a representação ideológica pode trocar uma por outra. Poderíamos
esquematizar o modelo narrativo do discurso da "revolução":

Fazer último
Fazeres necessé;;ios para a realização
do fazer último

/\
competência performance
desenvolvimento

performance
financiamento e
saneamento econômico
competência (segundo o poder);
planejamento
/"-..... (segundo o saber)
/ per~mance
· competência segurança ou
~ estabilidade
/ --~ social
competência perfo~ance
~ repressao

/
• .
~.=-~~~rmance
controle do
compl•lenc1a ARE

performance
derrubada de Goulart"
competência
elidida

Tudo o que analisamos até agora começa a ganhar sentido e a


iluminar-se com o estudo da narrativa complexa.

82
1. O financiamento do desenvolvimento

Não se poderia desenvolver o país e modernizar sua estrutura -


económica sem o capital necessário para financiar as obras indis-
pensáveis para realizar tais mudanças. Como se obteve esse capi-
tal? Isso é que é preciso analisar, pois demonstra o papel do
Estado em relação às diferentes classes sociais, Três foram os f,
principais meios de financiar o desenvolvimento: compressão sa-
larial, eliminação dos subsídios a produtos de primeira necessida-
de e elevação das tarifas de serviços públicos, como água, energia
e transportes, e de preços de bens tabelados, como aluguéis e gê-
neros de primeira necessidade.
Dizia o marechal Castelo Branco que o congelamento dos pre·
ços representa um desestímulo à produção e ao investimento. Por
isso, não se desenvolveram, durante o governo Goulart, a agricul-
tura, a pecuária, a construção civil, os serviços de transporte, de
energia elétrica e de comunicações. A correção de preços, por con·
seguinte, nada mais é que um estímulo à produção (2, 76; 3, 20-21;
3, 32; 3, 67-71; 3, 138-140). Por outro lado, afirmava que era preciso
manter os níveis de vencimentos dos funcionários públicos para
aumentar a capacidade- de investimentos, que era preciso conter
os salários e elevar os tributos para obter recursos para os inves-
timentos produtivos (2, 14; 2, 78; 2, 48; 3, 75). A elevação das tari-
fas dos serviços públicos faria crescer o capital para investimentos
produtivos e a elevação dos aluguéis debelaria a crise habitacional,
que decorria da "política demagógica de estagnação dos aluguéis" ,
(2, 14; 2, 16; 2, 49; 3, 22-23; 3, 68-71; 3, 75; 2, 52; 3, 22; 3, 32; 3, 67).
Afiançava o marechal·presidente que não haveria congelamento
salarial, mas que não haveria reajustamentos incompatíveis com
a realidade econôrnica do país (3, 8-9). Quanto aos subsídios, dizia
ele que era necessário acabar com os subsídios para os combustí-
veis, o trigo, o consumo de energia elétrica e outros serviços, pois
eles implicavam uma carência de recursos para a melhoria e am-
pliação dos serviços (3, 6).
O governo realizava, então, uma política de "reajustes correti-
vos" de preços e de corte aos subsídios (4, 6; 4, 14-18) e, elevando
as tarifas dos serviços públicos, realizava uma política de capitali·
zação compulsória, efetivada pelos usuários dos serviços públicos
(4, 8-9; 4, 16-19; 12, 23-24; 17, 42-43). -
:e fácil verificar que essa política de financiamento penaliza, i
primacialmente, as classes subalternas da população, pois são elas
que vivem de salários, não têm casa própria e despendem a maior
parte da sua renda na compra de artigos de primeira necessidade
e no pagamento de tarifas dos serviços públicos. Na narrativa do
financiamento ou do acúmulo de capital, o Estado exerce o papel
de sujeito do fazer, realizando, porém, duas operações distintas:
em relação ao funcionalismo5_público e em relação à elevação dos

83
tributos e das tarifas dos serviços públicos e à eliminação dos sub-
sídios, ele é também sujeito de Estado, é) em relação aos assalaria·
dos das empresas privadas e à elevação dbs aluguéis, não é também
sujeito de Estado, pois esse papel é realizado pela classe hegemó-
nica. No primeiro caso, realiza uma prova, pois desapossa as elas·
ses subalternas de uma parte de sua renda e apropria-se dela. No
segundo caso, não se apropria da renda de que são desapossadas
as classes subalternas, mas oferece competência à classe hegemó-
nica (instrumentos jurídicos), para que ela realize a apropriação
e o desapossamento. Atribui um objeto modal /poder-desapossar/
ao sujeito operador, para que ele· realize a performance principal.
A política económica, sob esse aspecto, é antipopular, Diz, en-
tretanto, o discurso oficial que os sacrifícios áo desenvolvimento
e do saneamento da economia foram repartidos eqüitativamente
entre todas as classes sociais (3, 10; 3, 75; 3, 244). Isso se compro-
varia se o Estado exercesse o papel de sujeito de uma operação de
disjunção em relação às classes hegemónicas, ou seja, se o Estado
desapropriasse a burguesia de alguma coisa.
Castelo Branco diz o seguinte:

"Não basta, porém, a patriótica conformidade com que os


brasileiros têm suportado os inevitáveis ónus da política
de restauração e de emancipação económica do País. :a
também indispensável - e nesse sentido quero dirigir um
. apelo a quantos possuam qualquer parcela de decisão
nesse setor - que muitos se disponham a ganhar menos,
evitando assim a elevação dos preços. ~ necessário que
encontre na produtividade ou na organização e não na
constante majoração dos preços, a compensação que per·
mita obter os níveis de lucro. Espero que, com a consciên-
cia de estar assim colaborando para a mais rápida norma-
lização da vida nacional, muitos ouvirão este apelo, cujo
atendimento é· fundamental para melhor e 'mais breve
contenção do custo de vida" (2, 127; cf. também 2, 141-143).

O discurso oficial faz também um apelo para que os ricos se


abstenham do consumo ostentatório, que representa um acinte
para os pobres (2, 106-107; 3, 33). Apela ainda aos empresários para
,, que não especulem nem soneguem impostos (2, 106-107). Se isso
não fosse uma hábil estratégia discursiva para mostrar que o Es-
tado está acima das classes, diríamos que o discurso "revolucio-
nário" inaugura a inocência, pois. numa economia fundada na
propriedade privada dos meios de produção, cujo motor é o lucro,
só não haverá especulação se as aplicações produtivas gerarem
lucro maior do que as aplicações especulativas. Por outro lado, a
sonegação fiscal faz parte das regras de aumento dos lucros, pois
o qué os capitalistas pagam como impostos não pode ser direta-

84
mente acumulado por eles como capital, mesmo quando parte
substancial das rendas do Estado retoma sob a forma de subsí-
dios e contratos, que lhes devolvem mais do que pagaram.
Observall!OS ~ue o governo em relação às classes subalternas
exerce o papel de sujeito do fazer, mas que, em relação às classes
dominantes, não exerce esse papel: não congelã preços e não. taxa
o consumo supérfluo. Apenas pede que as classes dominantes não
remarquem os preços e não ostentem sua riqueza. O papel exer-
cido pelo governo, nesse caso, é o de destinador da manipulação.
A figura da manipulação utilizada é o apelo. Na manipulação, al- ;J,.
guém quer fazer um outro fazer alguma coisa. Um destinador ins·
taura, pois, um sujeito do fazer. Para instaurá-lo, entretanto, é
preciso que o destinador tenha dele uma imagem positiva, ou seja,
que este apareça para aquele como um sujeito dotado de compe-
tência para realizar um fazer. O destinador constrói um "simula· X
cro do sujeito", antes de lhe confiar uma missão. O que distingue
o apelo da ordem é que, nesta, o destinador possui a modalidade
do /poder fazer-fazer/, enquanto, naquele, não a possui. O destina-
dor-Estado instaura a classe dominante como um sujeito de um
fazer. O Estado concebe a classe dominante como dotada de um
/poder-fazer/. Entretanto, dirige-lhe um apelo, porque não possui -:
em relação a ela um /poder fazer-fazer/.
Como em relação às classes subalternas o Estado exerce o '
papel de sujeito do fazer, mas não o faz em relação às class~ do-
minantes, e como em relação a estas coloca-se como não dotado
de /poder fazer-fazer/, o discurso acaba por revelar o que preten-
de ocultar: o Estado não "representa a vontade da nação" (2, 287;
12, 8), nem "busca interpretar, na sua essência e na sua hi~:r.arquia,
as genuínas aspirações do povo brasileiro" (17, 12), nem ainda está
fora e acima dos interesses de indivíduos, grupos, classes ou re-
giões, estando apenas votado ao atendimento das aspirações do
povo em geral (17, 12), mas representa apenas os interesses de
uma classe e universaliza os objetivos dessa classe como objetivos
de todo o povo. A fonte do poder do Estado reside, pois, na classe
hegemônica. Por isso, em relação a ela, ele não dispõe de um /po-
der fazer-fazer/. Limita-se, portanto, a dirigir-lhes apelos.
O papel de destinador não é, porém, o único que o Estado
exerce em relação à classe hegemônica. :S também, em relação a
ela, sujeito do fazer. Se em relação às camadas populares, no en-
tanto, as suas ações são a apropriação e o desapossamento, em
relação à burguesia exerce um dom. Já vimos que isso ocorreu 1-
quando dotou as classes dominantes de um objeto modal (poder
explorar mais as camadas subalternas), figurativizado por um con-
junto de instrumentos juridicos que permitem realizar a apropria-
ção e o desapossamento. Entretanto, o Estado faz um dom também
de parte de suas rendas. Instaura uma política de concessão de
créàíto subsidiado pelo Tesouro, de isenção ou diminuição de trí-

85
butos, tudo a título de incentivo à industrialização (1, 201-202; 2,
13-14; 2, 187; 2, 191; 2, 220; •3, 72; 3, 106; 3, 117; 3, 211). Para isso,
diversas medidas são tomadas: extinção da tributação sobre os
chamados lucros fictícios, que permite a manutenção de capital
de giro; dedução de impostos para a reposição de equipamentos;
não tributação das operações de aquisição de ações; tributação
extremamente moderada das operações financeiras; eliminação da
incidência em cascata dos impostos estaduais e municipais; aber-
tura de linhas de crédito subsidiado; incentivos fiscai::; (2, 132-133;
3, 245-246; 4, 6; 4, 15-17). A lista de medidas é muito grande. A nós
não interessa estudar uma a uma, para mostrar seus reflexos na
economia brasileira, mas apenas fazer ver que o desenvolvimento
brasileiro é financiado pelas Classes subalternas. O Estado apro-
pria-se de parte de sua renda e atribui o produto dessa apropria-
"' ção às classes dominantes. B ele um repassador de capital para a
burguesia. Os gastos do Estado são, no geral, mais-valia redistri-
buída para ã valorização do capital privado, conforme mostra
Mandel, em sua análise do capitalismo tardio (1982).
Não pára nesse ponto, porém, o dom do Estado. Instala-se um
modelü,econômico tripartite, ou seja, três são os encarregados da
industrialização: as empresas estatais, as empresas privadas na-
cionais e as empresas estrangeiras (14, 15). Ao Estado cabe exe-
cutar os serviços de infra-estrutura necessários à industrialização
(energia, transporte, comunicações e abastecimento de água) e
aqueles empreendimentos em que a realidade econômica, pelo vul-
to dos investimentos exigidos e pela escassa rentabilidade, reclama
a "presença pioneira ou supletiva do governo". Competem ainda
ao Estado aqueles setores em que a lei determina o monopólio es-
tatal (2, 81; 2, 153-154; 2, 314; 3, 68-71; 3, 104-105; 3, 116; 3, 204-206;
3, 212). Ao capital estrangeiro cabem os investimentos relativos à
tecnologia mais avançada, a fim de compensar as "deficiências do
empresariado nacional"; ao capital privado nacional, ·os investi·
mentos que se relacionam à tecnologia nacional (2, 79; 3, 19). O
Estado, segundo o discurso oficial, não atrapalhará a iniciativa
privada, pois à medida que os empreendimentos adquirirem ren-
tabilidade e produtividade deverão passar para a esfera da inicia·
< tiva privada (1, 14; 3, 105). O Estado financia o desenvolvimento,
investindo pesadamente em infra-estrutura e em empreendimentos
não rentáveis para depois entregá-los à iniciativa privada, num
processo que permite uma rápida acumulação de capital.
Os investimentos públicos configuram um duplo dom: de um
lado, arrocharam-se os salários, o que permitiu uma acumulação
mais rápida; de outro, com as encomendas feit_as pelo setor pÚ·
blico e pagas com o dinheiro do contribuinte, permite-se uma pro-
dução em grande escala. Investimento público produtivo é enten-
dido como estímulo à produção industrial (3, 83).

86 -
O programa de eletrificação no Brasil fundamenta-se nos dois
pontos acima mencionados: a energia elétrica é infra-estrutura
para o desenvolvimento e a iniciativa privada, que necessita de
energia elétrica para se desenvolver, não tem condições econômico-
financeiras para empreendimentos dessa natureza. Por isso, coub~
ao governo a construção de enormes hidrelétricas em todo o país
(1, 200-201; 2, 131; 2, 133; 2, 138-139; 2, 148-149; 2, 151-152; 2, 155;
2, 157). As bases da polfüca de eletrificação são também as da po-
lítica de transporte, comunicações, saneamento, abastecimento de
água, etc. (4, 20; 2, 16; 17, HJ6-107; 17, 111).
A política de minérios é um ,bom exemplo da atividade do
Estado no setor de empreendimentos não rentáveis. Segundo o
discurso oficial, a política de minérios assenta-se única e exclusi-
vamente nos reais interesses do Brasil (1, 189). Tem ela dois ob·
jetivos básicos: exportar para obter capital para o desenvolvimen·
to (1, 192) e substituir importações para também liberar recursos
para a aplicação em outras atividades (3, 348-351; 17, 45).
De acordo com o discurso oficial, é preciso acelerar a desco·
berta e a exploração em moldes adiantados, eliminando atividades
que, embora titulares de mineração, mais se assemelham à garim·
pagem (2, 161; 3, 349; 3, 351). Enfim, é preciso modernizar a des-
coberta e a mineração (3, 348). Para isso, o governo executa uma
performance de dom: concede incentivos para a exportação e be-
ll nefícios fiscais para as indústrias. Por outro lado, encarrega-se da
parte onerosa e não rentável de levantamentos geológicos básicos,
de descoberta e de construção de infra-estrutura, para entregar à
iniciativa privada a exploração, que produz pingues lucros (3, 348;
3, 351; 17, 143).
O discurso revela o que pretende ocultar: o caráter de classe
do Estado e a feição antipopular da política económica implantada
pelo golpe de 1964.
Para desenvolver aceleradamente o país, implantou-se uma
política de incremento às exportações para aumentar as divisas
brasileiras em moeda forte e buscaram-se capitais e tecnologia
estrangeiros, internacionalizando-se a economia brasileira em um
graµ bastante acentuado. Em relação aos exportadores e aos in-
vestidores estrangeiros, o Estado concede incentivos fiscais e cré-
ditos subsidiados (2, 79; 2, 101-102; 3, 365; 12, 14; 17, 41-42; 17, 110;
17, 125). O Estado compensa ainda os eventuais prejtúzos que pos-
sam sofrer os exportadores com as variações de preços dos pro-
dutos no mercado internacional (2, 89). O presidente Geisel afir·
mava que precisaríamos de muito capital estrangeiro por causa
da mudança ocorrida na estrutura internacional de preços. Por
isso, era recomendável a manutenção, em áreas não estratégicas,
de uma política de tratamento equânime e até mesmo favorecedor
que vinha sendo concedido ao capital estrangeiro, sobretudo para
capitais de risco, para '.os quais o Brasil constituía uma área de

87
singular atração. A credibilidade do Brasil, segundo ainda o pre-
sidente Geisel, repousava no seu excepcional desempenho econô-
mico e no alto nível das suas reservas cambiais que tornavam
viável o ingresso de recursos económicos provindos do estrangei:-
ro, quer sob a forma de capitais de empréstimo, quer sob a forma
de capitais de risco (17, 41-42). Diz ainda o general Geisel que,
diante da crise. internacional, ofereceriamos à cooperação interna-
cional - a capitais, tecnologia, e trabalho qualificado - "porto
seguro e acolhedor", "num clima de compreensão, estabilidade e
ordem, com equanimidade e verdadeiro espírito de solidariedade
humana" (17, 125).
>( A credibilidade pode ser obtida, no discurso, segt.lndo dois
processos: ou se criam simulacros que se destinam a obter um
efeito de. verdade, ou seja, uma adequação entre o discurso e o
universo de referência de que o discurso se manifesta como repre-
sentação, por meio da criação de uma ilusão referencial, ou cria-se
uma ilusão enunciativa por meio de mecanismos que mostram a
competência dos sujeitos da comunicação (Landowski, 3). O dis-
curso oficial opta por criar uma ilusão referencial sobre a qual faz
repousar a credibilidade do país. Funda-se ela em "simulacros da
realidade": excepcional desempenho econômico e alto , nível das
suas reservas cambiais. E mais ainda: ilha de paz, potência emer·
gente etc. A opção tem um motivo. Se o discurso fundasse a
credibilidade do país no enunciador, mostraria que sua razão não
está nos fatos neutros e objetivos, como quer fazer crer o enun-
ciador, mas no fato de que o governo é confiável para o capital
estrangeiro, ou seja,,favorece o capital internacional em detrimen-
to dos reais interesses do povo. No entanto, isso fica ressaltado
quando se diz que, após a "revolução", houve o fim do hiato dos
investimentos externos, porque. os investidores readquiriram con-
fiança no Brasil (2, 149; 3, 72-73; 3, 208). O Brasil aceitou investi-
mentos estrangeiros por causa dos interesses da sua burguesia,
mas nunca por "solidariedade humana", como afirmava o presi·
dente Geisel. Sentimentos humanos não presidem às relações eco-
nômicas no sistema capitalista. Colocar sentimentos no lugar dos
interesses é tentar ocultar os reais motivos da entrada do capital
estrangeiro no Brasil.
Em relação aos empréstimos provindos do Exterior e à insta·
lação de indústrias estrangeiras, bem como à compra de tecnolo·
gia, o Estado' executa uma troca. Em troca do capital e da tecno-.
logia, pagamos aos investidores juros, royalties e o principal da
'Á dívida e permitimos a remessa de lucros. Toda troca funda-se num
contrato fiduciário em que os parceiros concordam em atribuir
aos objetos trocados o mesmo valor. O discurso apresenta a troca
como um dom unilateral, como algo somente favorável ao Brasil,
'ocultando sua contraparte (2, 120-121). De acotdo com o discurso
"revolucionário", as vantagens seriam só nossas, pois o capital es·

88
trangeiro era necessário para ~a retomada do desenvolvimento e
para a criação de empregos pj-odutivos, inadiável num país. que
cresce em ritmo superior à sua' capacidade de gerar empregos com
a poupança interna (2, 122; 103), para reforçar a infra-estrutura
econôrnica com obras fundamentais, para estimular a expansão do
mercado interno de trabalho qualificado e multiplicar as oportu-
nidades de emprego melhor (2, 149; 3, 216-217; 3, 263-265). Muitos
autores, estudando o problema das trocas em nível mundial, afir-
. maram que a troca entre países subdesenvolvidos e desenvolvidos
será desigual, enquanto persistir a atual estrutura de produção no
mundo. 28
O dom, exercido em relação à classe hegemônica, é sempre
justificado como sendo uma ação em benefício de todos. Os argu-
mentos que se brandem é que as empresas privadas é que consti-
tuem o meio de "propiciar emprego, para os que buscam no tra-
balho o meio adequado de constituir novos lares, e de atender às
crescentes responsabilidades na vida econômica e social do país"
(1, 165; 1, 164). A colaboração entre o governo e a iniciativa privada
é fator de desenvolvimento para o país, pois é criadora de rique-
zas (3, 213; 3, 218; 3, 243). O governo estimula a iniciativa privada,
porque ela constitui a base das mstituições democráticas (2, 152;
2, 187). Partindo do pressuposto de que o único meio de criar ri-
quezas e de servir à causa democrática é ajudar as empresas, nada
há a discutir. Escreveu Schiller que "quando os reis constroem pa-
lácios, os carroceiros têm o que fazer''. Entretanto, as finalidades
da política económica não têm nada a ver com a ciência económi-
ca, mas com interesses de classes sociais. O crescimento de em-
prego não precisa fazer-se pela opulêneia da aristocracia nem pelo
desenvolvimento que só serve à burguesia e a frações das classes
médias. O discurso apresenta seus argumentos como verdades in- x
discutíveis, baseadas numa ciência econômica neutra, que contém
regras fixas que não podem ser impunemente violadas, pois, se o
governo agisse de outra forma, criaria o caos económico (3,9). A X
objetividade da argumentação é obtida por meio da ilusão enun-
ciativa, ou seja, apresenta-se a afirmação no interior de uma es-
trutura não polêmica. A ilusão da objetividade é criada por meca-
nismos enunciativos que serão analisados mais adiante .
.Outro argumento apresentado como verdade indiscutível é: o
desenvolvimento "sem a compressão totalitária do consumo" não
dispensa a colaboração do capital estrangeiro e o fortalecimento
do empresariado nacional, por meio de incentivos fiscais e credi·
tícios (3, 116-117).
A política económica da "revolução" quer acelerar a acumu-
lação. Esta se faz pela minimização dos custos da produção e, mais
que tudo, pela compressão dos salários. O Estado exerce o papel
de "acelerador" da acumulação privada das grandes empresas mo-
nopolistas, p~is parte substancial da sua renda fiscal vai para as

89.
empresas sob a forma de crédito subsidiado, subsídios diretos ou ·
contratos estatais (3, 19; 3, 243; 3, 244-245; 3, 247; 3, 196; 3, 206-207;
3, 209; 3, 215; 3, 221; 3, 227; 3, 231; 3, 234-235; 3, 241; 3, 250; 17, 75-
76; 17, 105).
O intervencionismo estatal na economia faz aluir um dos ali-
cerces da ideologia burguesa, que é a igualdade formal entre os
cidadãos, uma vez que todos são proprietários de mercadoria e
estabelecem entre si relações de troca, pois, como mostra Mandel,
cria "direitos especiais" para certos grupos de proprietários. O
Estado intervém para aumentar a taxa de mais-valia, arrochando
os salários. Ao mesmo tempo, valoriza, por repasse da renda fiscal,
o capital privado (2, 12-133; 3, 98; 4, 6).
Realizou-se uma reforma fiscal, .porque a hipertrofia do apa-
relho estatal por meio da criação de numerosas empresas estatais
gerou a necessidade de aumentar a carga tributária incidente sobre
os cidadãos. Como, no entender da "revolução", os impostos dire-
tos prejudicam a atividade econômica, aumentou-se a carga de
impostos indiretos e criaram-se novos tributos indiretos que, sem
dúvida alguma, penalizam mais as classes subalternas (2, 79-80; 2,
87-89; 2, 93; 4, 15; 4, 18-19). Castelo Branco afirma que se fez a
reforma fiscal para que os ricos pagassem impostos (3, 10). Ora,
isso é uma cândida confissão de que os capitalistas sonegam sis-
tematicamente impostos e que o Estado não tem como evitar essa
· prática, devendo, por isso, transforma,r os impostos diretos em in·
diretos. Os impostos indiretos foram aumentados para que o Es-
tado pudesse manter tão baixos quanto possível os impostos pagos
pelas empresas e, ao mesmo tempo, pudesse garantir a elas lucros
maiores, contratos rendosos e subsídios, o que implica um cresci·
. mento das suas rendas.

2. O desenvolvimento

Já expusemos anteriormente o que significa, nos discursos, o


lexema "õesenvolvimento". Basicamente, o desenvolvimento brasi-
leiro fez-se sobre a base da expansão das indústrias de bens du-
ráveis de consumo (automóveis, eletrodomésticos), da indústria
siderúrgica, da indústria petroquímica, da indústria de insumo,.;
industriais para a agricultura, da metalurgia dos não-ferrosos, da
indústria de telecomunicações, e das indústrias de meios de trans-
porte (navios e aviões) e de armamentos (2, 192; 3, 103; 3, 128; 17,
35). Não é o objetivo deste trabalho discutir os motivos que levaram
o país a experimentar um considerável crescimento na década de
70, mas discutir alguns problemas que o discurso apresenta.
Segundo o discurso, o obJ~tivo último do desenvolvimento é
o bem-estar· de todos os brasifeiros, ou seja, os benefícios do de·
senvolvimento reverterão em frl!nefício de todos (2, 136; 3, 159; 3,
~03; 3, 208-209; 3, 218; 3, 231; 3, 235). Como se dará essa extensão .

QO
dos beneficias a todos? Não será no momento presente em que
todos devem sacrificar-se para que poupança interna e capacidade
de investimentos sofram um aumento (2, 114). No presente, os sa-
lários devem ser reajustados de acordo com a produtividade da
economia. Assim, depois de comprimidos os salários, a participa· /.
ção do trabalhador na riqueza nacional não crescerá, mas apenas
acompanhará o crescimento do capital, mantendo-se, assim, cons-
tante a taxa de mais-valia (2, 14; 2, 91; 3, 5; 3, 7; 2, 162; 2, 319; 3,
302; 17, 52-53). Em segundo lugar, a melhoria de vida dos traba-
lhadores far-se-á pela elevação e progresso da indústria brasileira,
pois esse processo acabará por reclamar mão-de-obra espe·
cializada e, portanto, altamente produtiva, o que a fará alcançar
níveis salariais maiores (2, 317). Ademais, a ampliação da economia
multiplicará as oportunidades de emprego e as possibilidades de
participação das massas trabalhadoras na riqueza nacional, inte-
grando-as numa sociedade cada vez mais humana e justa (4, 2).
Assim, º~crescimento da economia, segundo o discurso, geraria es-
cassez de mão-de-obra e, portanto, aumento de salários. Tudo o
mais, para o discurso, é ilusão, pois o aumento nominal dos salá-
rios faz aumentar a inflação, que os corrói, diminui a capacidade
de investimentos, fazendo decrescer, assim, .~.capacidade de a eco-
nomia criar empregos produtivos (3, 5). Como é preciso aumentar
a produtividade, o governo eleva o tempo de trabalho para a apo-
sentadoria, nega-se a reduzir o número· de horas semanais de tra-
balho e a criar empregos de uma maneira considerada artificial
(3, 56).
O operador da redistribuição de renda será a "mão indivisível j.
do mercado". Ora, isso não ocorreria realmente, como os fatos
recentes estão demonstrando, porque é uma contradição o funcio-
namento do sistema segundo a lei da obrigação de acumular e
segundo a lei qualitativamente diferente da satisfação das necessi-
dades de todos (cf. Mandei, 1982). Sendo performances contradi- -1..
tórias, fazer uma será negar a outra. Entretanto, o discurso não
pode propor sacrifícios por um tempo indeterminado. Tem que
acenar com um tempo em que as contradições serão encerradas,
tempo do paraíso, quando o leão conviverá junto com o cordeiro.
Para o discurso, o sistema acabará por resolver a contradição que,
de fato, é insolúvel, entre máxima economia de meios (produtivi-
dade do trabalho) e fins ótimos (satisfação de todas as necessida-
des dos indivíduos).
Por outro lado, a ênfase na produtividade é inerente ao pró-
prio sistema, porque, se de um lado deve aumentar a taxa de
mais-valia, reduzindo os salários reais; de outro, deve promover o
- aumento da demanda de bens de consumo, sem que a laxa de lu·
cros e, portanto, da mais-valia relativa seja afetada (cf. Mandel.
1982). Ora, para elevar os salários reais, sem que a taxa de mais-
valia diminua, é preciso incrementar a produtividade (3, 303; 3,

91
109-110). Para isso, deve-se modernizar o parque industrial, meca-
nizando-se a indústria.
Ao mesmo tempo, como se importavam capitais sobrantes em
grande escala, era preciso exportar para obter- divisas com que
pagar o serviço da dívida externa. Isso gerava um círculo vicioso,
pois existe uma escala "ótima" de produção e volume de capital
para que os produtos tenham competitividade no mercado externo
(cf. Mandei, 1982). Duas foram as estratégias para obter essa escala
"ótima": internacionalização da economia, com o ingresso acele·
rado de capital e de tecnologia estrangeira, e compressão salarial
(3, 216-217; 3, 248; 3, 215; 2, 190-191; 12, 2-3). .
Há uma contradição básica entre a internacionalização do ca·
pital ·e a soberania absoluta do Estado nacional, pois aquela inte-
gra as economias e toma impossível a programação independente
j, de cada economia nacional (cf. Mandei, 1982). Como os militares
sempre se proclamaram nacionalistas, criaram um nacionalismo
sui generis, o nacionalismo internacionalista. Evidentemente, o
d.iscurso não declara isso. Diz que o ingresso do capital estrangei·
ro é uma troca entre iguais e que aqueles que se opõem ao endi-
vidamento externo são contra a pátria porque querem vê--la sub-
desenvolvida (2, 116; 2, 121-122; 2, 127; 3, 207-208; 1, 192-193). O
discurso não deixa nunca de desqualificar o oponente. A sua tática
·~lançar dúvidas sobre suas intenções. Da mesma forma, as causas
do não desenvolvimento não estão no movimento do capital, m·as
em atos pessoais de governantes anteriores, que eram desonestos,
não planejavam sua ação e não estabeleciam uma continuidade
administrativa (1, 197). Há uma personalização das causas para
· escamotear as causas reais. Fala-se que o desenvolvimento brasi-
leiro foi um milagre: o "milagre brasileiro". O milagre é um "fato
extraordinário que vai de encontro às leis da natureza" ou um "su-
cesso que, pela sua raridade, causa grande admiração". A palavra
é usada no segundo sentido. Tem ela a finalidade de legitimar os
governos militares, pois, segundo o discurso corrente, foram eles
capazes, pela sua eficiência, de provocar admiração no mundo.

3. A racionalidade do planejamento

A compra acelerada de tecnologia estrangeira produz uma


depreciação bastante rápida dos equipamentos industriais e, por-
tanto, um encurtamento do tempo de rotação do capital fixo, o
que implica um pJanejamento empresarial mais cuidadoso dos in-
vestimentos, que determina a centralização do capital mediante a
criação de conglomerados e a previsibilidade. da evolução da eco-
numia como um todo, de forma que o planejámento microeconô-
mico possa ter como base as projeções~ macroeconômicas. Por
isso, o Estado procura estabelecer um planejamento econômico e
planos de desenvolvimento (cf. Mande], 1982). O governo Castelo

92
Branco criou o Ministério do Planejamento e Coordenação Eco-
nómica, hoje Secretaria do Planejamento. Um dos desejos do em-
presariado, por ocasião do movimento militar de 64, era que hou-
vesse um planejamento da ação governamental (Dreifuss, 1981,
426). -
Planejar é estabelecer um fazer na dimensão cognitiva, antes '/..
da sua execução no plano pragmático. É um fazer cognitivo. Como
todo fazer da "revolução", também esse é dedutivo. Parte o plane-
jamento de um axioma que, nesse caso, é a imagem de um país
desenvolvido, e daí deriva todo o fazer cognitivo (3, 253). Insisti- Y-
mos, novamente, no fato de que o fazer cognitivo pode ser correto
em relação ao axioma, sem que seja verdadeiro ou conforme com
a realidade. A "revolução", segundo o discurso, ao contrário da
administração anterior, que era marcada pelo empirismo e pela
irracionalidade, imprime racionalidade à coisa pública (3, 210;
17, 12).
Segundo o discurso, o planejamento é essencial para o gover-
no, pois sem ele a ação governamental seria inócua. g compatível
com o sistema da livre empresa, pois é democrático, uma vez que
é uma coordenação de vontades e decisões e não a imposição de
uma vontade única e imperativa (1, 45; 1, 90-91; 2, 216; 2, 220-221;
3, 254; 3, 264). O planejamento macroeconômico permite o plane-
jamento empresarial, pois atinge os setores público e privado da
economia. Em relação àquele, é normativo e executivo; em rela-
ção a este, é indicativo, pois aponta rnmos, cria incentivos e esta-
belece limitações (1, 91; 2, 213-214; 3, 366). O planejamento permite
coordenar os vários órgãos e setores da administração governa-
mental, àâequar meios e fins e definir uma ação estratégica com
apoio na adequação entre aspirações viáveis e meios disponíveis
para concretizá-las (1, 198; 2, 73; 2, 213-214; 2, 254; 3, 254-255).
O pl~nejamento aumenta a eficiência dos invel)timentos e dá a eles
eficácia e racionalidade (2, 213; 2, 221; 3, 253). O planejamento é
uma necessidade, pois a nação não se pode dar ao luxo de desper-
diçar recursos e realizar trabalhos paralelos (3, 142).
Para o discurso, o planejamento assenta-se em bases técnicas
(1, 94). Com isso, o dizer "revolucionário" parece querer revelar }..
uma neutralidade do planejamento e uma racionalidade imanente
do real, independentemente da intervenção humana. Diz Marilena "
Chauí que o discurso do planejamento racional é o discurso da
presença do Estado na economia (1980, 8-9). Sob ele há a "crença
de estruturas (infra ou supra, pouco importa) que existem em si
e funcionam em si sob a direção de uma racionalidade que lhes
é própria e independe da vontade e da intervenção humana. O
real, a ação e o conhecimento ficam consubstancializados, identi-
ficados. No interior dessa 'substância', isto é, da Organização, os
homens já encontram pré-traçadas as formas de ação e de coope-
ração 'racionais', ou seja, aquelas que lhes será permitido ter". ~

93
um "discurso que não se inspira em idéias e valores, mas na su·
posta realidade dos fatos e na suposta eficácia dos meios de ação".
Tem ele o objetivo de mascarar "sob a capa da científicidade a
existência real da dominação" (Chauí, 1980, 11).
Com efeito, o discurso, ao estabelecer um destino para o
Brasil (tornar-se uma grande potência) e ao naturalizar a ordem
social, só poderia afirmar-se fundado em fatos e na eficácia dos
><: meios de ação. Por isso, o discurso "revolucionário" manifesta-se
como um discurso não ideologizado, uma vez que pretende não se
apoiar em "deformações ideológicas" (2, 8). Desloca a questão do
fim, uma vez que ele é axiomático, para a racionalidade dos meios
(2, 74; 17, 124). Com isso quer mostrar que, sendo estes racionais,
'l aquele também o será. Essa implicação é um abuso lógico, pois a
racionalidade dos meios não implica a do fim.
O discurso "revolucionário" busca identificar o nome com o·
referente, o que a ciência da linguagem já mostrou sei,: um equí·
Y -:;._ voco. A pseudO.identificação do signo com a coisa esconde o pro-
cesso de elaboração lingliística e retira da linguagem a mediação
humana, fazendo dela uma cobertura perfeita do real. O discurso
nega a historiciQ.ade lingliística assim como o fizt::m com a histo-
ricidade do social.
Os temas caros ao discurso "revolucionário" sobre a economia
estão postos: "racionalidade do planejamento" e "eficiência". Esses
temas estão ligados às necessidades do capital, que não pode mais
sobreviver sem a função controladora do Estado. Pensa-se que o
planejamento assegurará o crescimento contínuo e estável da eco-
nomia, dividirá eqüitativamente os benefícios do crescimento e
protegerá cada setor do sistema social e econômico das adversi-
dades de uma economia de mercado pura (cf. Mandei, 1982). No
:.i. entanto, observa-se que o planejamento não dá certo. Culpa-se,
então, as limitações da ciência económica e a precariedade das
estatísticas (2, 215; 2, 217). Mostra-se também que as relações da
causalidade na economia não se podem formular com precisão
comparável à das chamadas ciências exatas (2, 214). O porquê não
se explica. No entanto, reside aí a impossibilidade básica do pla-
nejamento do processo econômico na sociedade capitalista. Como
.\'X diz Mandel, "o cálc~lo e a quantificação exatos. dos processos
económicos, gerados pela universalização da .produção de merca-
dorias, var de encontro à barr~ira intransponível da propriedade
privada e da concorrência capitalista e o resultado é a impossibilida-
de de determinar cóm exatidão as quantidades de trabalho contidas
realmente nas mercadorias" (1982, 356-357). Todas as medidas ..mi-
croeconômicas acabam por levar a resultados macroeconómicos
que conflitam com elas. A prova de que a pretensa racionalidade
do planejamento não resiste à crítica é a situação em que se en·
contra o país. ·

94
O planejamento é fazer segundo o saber e, para a realização
da sua performance, é preciso que o planejador tenha uma com-
petência técnica, seja um especialista.
Paralelo ao tema da "racionalidade do planejarnento" aparece·
o terna da "onipotência da tecnologia", que é vista como um ele-
mento neutro, que age independentemente da estrutura social e
da dominação de classe, como um dado da realidade natural (2,
167; cf. Mandei, 1982). Esse tema tem a finalidade de estabelecer
urna indistinção entre a história natural e a história humana, na-
turalizando aquilo que é decorrência dos interesses de classe.

4. Os gastos sociais

Todos os gastos governamentais, na chamada área social, su- ')..


bordinam-se à lógica do desapossamento das classes subalternas
e do dom às classes dominantes. Parece um paradoxo, mas não é.
Senão vejamos.
A educação passa a ser vista corno um investimento que deve 1
gerar lucros. Por isso é entendida apenas como forma de preparar
os indivíduos para o trabalho, ou seja, o Estado incumbe-se de
preparar a mão-de-obra de que as empresas necessitam. A educa-
ção visa a um aumento da produtividade. Por isso, o Estado obriga-
se a ministrar apenas o ensino de 1.0 grau gratuito. O restante
da educação é deixado a cargo dos indivíduos, que completarão a
sua formação, se quiserem (ou se puçlerern), nas empresas de en-
sino, que proliferam por todo o país, ou nas instituíções oficiais;
que cobrarão anuidades. Nessa lógica, inserem-se o abandono do X
que a tradição escolar brasileira chamou "humanidades" e a im-
plementação de um ensino tecnicista. Todo o planejarnento educa-
cional está voltado para aspectos econôrnicos. O próprio vocabu-
lário dos textos sobre a educação pertence ao jargão econôrnico:
"capital humano", "fatores de produção", "custos de produção",
"produtividade do -ensino", "expansão e contração da demanda e
da oferta do ensino superior". O discurso "revolucionário" afir-
ma que a subversão. foi erradicada das escolas, que se tornaram
lugar de estudo e de pesquisa, que se abandonou o caráter prope-
dêutico das escolas brasileiras, que, assim, se voltaram para a
preparação realista para a vida. A política educacional da "revo-
lução" tem por objetivo: a) a universalização do ensino de 1.0
grau, onde se ensinam as habilidades intelectuais básicas, de que
necessita a mão-de-obra numa economia moderna; b) a formação
dé técnicos de nível médio e superior..Ademais, é intenção dessa
política educacional extirpar das escolas a subversão e o ensino
de "ideologias estranhas à nossa índole" e incukar nos cidadãos
os valores necessários à formação de urna "cultura autêntica",
vale dizer, os ideais "revolucionários". .Foi essa a razão de a junta '/...,
rnilifar, que governou o Brasil em 1969, ter int;rq.c!uziqo ~a Educa- '
'""""',..,.~"-~;--·.
i:-" ,r ~·J. " '
\~) f. ~7
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~-,._; ""''' 95
ção Moral e Cívica nas escolas. Pretende a política educacional
eliminar das escolas o choque de idéias, a polémica. Quer que o
ensino seja· uma .comunicação participativa unilateral, que vai do
mestre ao discente (1, 134-173; 3, 148-186; 2, M; 2,-91-92; 2, 141-142;
2, 165-173; 3, 210-220; 2, 62-63; 3, 35-36; 3, 373; 2, 185).
A educação superior deveria formar técnicos para aplicar e
gerenciar a tecnologia estrangeira que aportava ao Brasil. Por isso,
o que se quer é formar engenheiros, químicos, médicos, agrôno·
mos, dentistas e enfermeiros. Ao mesmo tempo, a necessidade de
expandir os cursos técnicos de nível médio leva a uma aceleração
na formação de professores (2, 65; 3, 373). Não se quer que os
estudantes freqüentem cursos que não estejam voltados para a
modernização do país. Por isso, o presidente Geisel pede que os
estudantes abandonem os cursos inúteis e voltem-se para as disci-
plinas que contribuam para o desenvolvimento do Brasil. A filo-
sofia que preside a essa ênfase na formação da mão-de-obra é o
neopositivismo ou, nas palavras do discurso, um "humanismo
. científico indispensável à própria preservação e sobrevivência de
qualquer povo, .que, sob pena de perecer, não poderá permitir,
mesmo pela ciência, a ruptura das tradições nacionais" (3, 170-171;
cf. sobre o assunto Dreifuss, 1981).
A saúde pública é vista como um "efetivo instrumento no
auxílio ao desenvolvimento". Na política de saúde, deve-se fugir
dos gastos em atividades que não dêem rendimento satisfatório.
Nela, devem-se observar os padrões de produtividade e eficiência.
A. mesma coisa deve ser levada em conta nos gastos com sanea-
mento básico. Dar .aos brasileiros condições sanitárias e de. saúde
tem como finalidade dar-lhes condições de produzir mais. Não
são as razões de solidariedade humana que movem a política
sanitária e de saúde, mas as "frias e pragmáticas razões do de-
senvolvimento" (1, 42; 1, 143; l, 144-146; 2, 60-61; 3, 191; 3, 199;
4, 20).
Na extensão dos benefícios previdenciários a todos os traba-
lhadores, também aos trabalhadores rurais e domésticos, con-
fluem os interesses do desenvolvimento e os imperativos de segu-
rança nacional, pois o homem é o agente essencial do desenvolvi·
mento e ele só produzirá bem se sentir que ele e seus familiares
têm um mínimo de segurança. Também a previdência social está
sujeita aos critérios de racionalidade, eficiência e rendimento (3,
38; 4, 21; 17, 93-95).
Ao Estado competem, pois, os gastos estritamente indispen-
sáveis (excetuados os salários) para a reprodução da mão-de-obra.
Submeter esses gastos ao critério·· de prodtÍtividade significa gas-
tar o mínimo indispensável para que as empresas tenham a mãO-
de-obra de que precisam.

96
5. O saneamento financeiro

O discurso afirma que o governo "revolucionário" saneou as


finanças e a economia do país, debelando a inflação e promoven-
d() a recuperação cambial e a melhora no balanço de pagamentos
(2, 94; 2, 114-115; 3, 392; 3, 369; 1, 64; 2, 8; 2, 46-47; 2, 76-77; 2,
191; 2, 153-154; 3, 22; 3, 148; 3, 245; 3, 210).
Uma das explicações possíveis para o fenómeno da inflação
é que ele aparece com a hipertrofia das máquinas estatais, que
levam à emissão de papel-moeda em quantidades maiores que a
quantidade correspondente de lastro. Por outro lado, o crédito
para a produção de empresas capitalistas e o crédito ao consumi-
dor particular para a compra de bens de consumo durável são
fonte de inflação. A produtividade do trabalho na agricultura e na
indústria cresceu mais do que na produção do ouro. Se as moedas
permanecessem lastreadas em ouro, haveria uma deflação, o que
faria cair a taxa de mais-valia e o lucro. Para preservar as taxas
de lucro do capital produtivo diante de contínuas quedas de pre-
ços, o capital teria que operar com taxas de juro negativas, o
que estimularia o entesouramento e faria desmoronar o sistema
de crédito, e teria que reduzir os salários nominais, o que acir-
raria o ânimo dos trabalhadores. Assim, a inflação adquire uma
funcionalidade para o capital. A multiplicação de créditos mascara
os efeitos da inflação, que vão tornar-se mais tarde efeitos adi-
cionais de inflação. Se a inflação atinge ritmos vertiginosos, sua
funcionalidade cessa, pois a "inflação galopante"· desvia parcelas
cada vez maiores de capital para aplicações especulativas, ocasio-
nando qued~""na acumulação. Ademais, reduz a competitividade
externa da economia, ao elevar os custos dentro do país em pro-
porção cada vez mais rápida do que em outros países (Mandei,
1982, 287-307).
No "Brasil, a inflação atingira ritmo galopante e deveria ser
contida em níveis que se revelassem funcionais para o capital.
Era preciso evitar a aplicação especulativa para aumentar a taxa
de acumulação. Para isso, deveriam ser reduzidos os salários, e
diminuído o déficit orçamentário pela eliminação dos subsídios
ao trigo e a outros produtos básicos e pela elevação dos impostos
e tarifas dos serviços públicos (4, 14; 4, 18; 2, 18; 2, 46; 2, 153-154;
2, 191; 3, 210; 2, 75-76; 3, 22; 3, 138; 3, 245; 2, 77; 2, 102-103; 3, 113-
114). Ora, essa política antiinflacionária penalizava mais as classes
subalternas que a classe hegemónica, pois eliminava os subsídios
a produtos básicos de consumo, mas não os subsídios às empresas.
Estes, pelo contrário, aumentam. Ademais, os impostos indiretos
e o aumento das tarifas dos serviços públicos pesam mais no orça-
mento dos que têm renda menor. g verdade que o crédito foi
reduzido, principalmente no governo Castelo Branco (3, 376). Isso,
porém, tem uma funcionalidade para o capital, pois leva à falên-

97
eia empresas de baixa produtividade, que desperdiçam o trabalho
social, possibilitando a ampliação da reprodução (cf. Mande!, 1982).
Diz o discurso que a inflação é a "ilusão e o flagelo dos po-
bres", pois corrói os salários (1, 14). Entretanto, é bom observar
que a política antiinflacionária não debelou a inflação, mas redu-
ziu-a a níveis funcionais para o capital.
Afirma o discurso que os sacrifícios da política antiinflacio-
nária foram repartidos eqüitativamente entre todos os segmentos
da sociedade. No entanto, enquanto as classes subalternas foram
· desapossadas de parte da sua renda pelo arrocho salarial e pela
elevação dos tributos, os mais ricos, segundo o discurso, também
fizeram sacrifícios: tiveram que pagar impostos, não tiveram cré-
dito para a especulação, nem créditos subsidiados; tiveram que
aceitar a concorrência como meio de eficiência e pagaram mais
impostos pelos latifúndios improdutivos (1, 169; 3, 10; 3, 75; 3,
245-246). Ora, impostos todos os cidadãos têm que pagar. Ademais,
como a carga tributária indireta é maior do que a dir~ta, o paga·
menta de tributos não representa sacrifício maior para os empre·
sários. A afirmação de que os ricos tiveram que pagar impostos
deixa subentendido que, no governo anterior, eles os sonegavam
e foram eles, com essa atitude, que contribuíram enormemente
para o aumento da taxa inflacionária, pois fizeram aumentar o
déficit público. O término do crédito especulativo, a taxação do
latifúndio improdutivo e a aceitação da concorrência como fator
de eficiência inserem-se no rol de medidas necessárias para tornar
a inflação funcional para o capital e, portanto, não representam
ânus, mas ganho para os capitalistas como um todo. O crédito
subsidiado foi eliminado apenas para as empresas que não inte-
ressavam à política modernizadora implantada no Brasil, pois
eram empresas de baixa produtividade. Como se vê, o sacrifício
da política antiinflacionária, que se destinava a tornar a inflação
funcional para o capital, recaiu sobre as classes subalternas que
ajudaram compulsoriamente a aumentar as rendas estatais e a
capitalizar as empresas.
O governo diminuiu o ritmo de emissões e passou a usar re·.
cursos não inflacionários de captação, as ORTNs, bem como em··
préstimos externos (3, 98; 2, 122). As ORTNs e LTNs não são in-
flacionárias apenas no modo do parecer, pois à medida que o
governo capta recursos no mercado, por meio da venda de 'títulos,
faz escassear o dinheiro em circulação, elevando as taxas de juro
e, por conseguinte, aumentando os custos de produção. O endivi-
damento externo produz desordens no balanço de pagamentos.
Assim, o endividamento externo acelerado conflita com a política
de equilíbrio na balança de pagamentos. -
O governo dizia que o descongelamento da taxa de câmbio
- era uma necessidade, pois a taxa congelada gerava uma política
irrealista de preços, principalmente do trigo e dos derivados do

98
petróleo (4,14; 4, 18). Ê verdade que a taxa de câmbio deve flutuar
em taxa equivalente à inflação interna menos a inflação externa.
No entanto, o cruzeiro sofreu diversas desvalorizações (máxis e
mínis) maiores que a proporção apontada acima. Por isso, a ~polí­
tica cambial beneficiou sempre os exportadores, os especulado-
res, os que aplicaram em ORTNs com correção cambial. Sofre-
ram os efeitos dessa política os consumidores de produtos impor-
tados ou montados com componentes adquiridos no estrangeiro,
pois a desvalorização do cruzeiro faz subir os custos de produção,
que são repassados aos consumidores. Ademais, com o aumento
dos derivados do petróleo crescem os custos dos fretes, e os pro-
dutos, de maneira geral, ficam mais caros. O aumento de preços
penaliza mais os que têm renda menor. Por isso, as classes subal·
ternas sofrem mais os efeitos da política cambial.
Pode-se concluir, assim, que as classes subalternas arcaram
com o custo maior do aumento de capital para investimento e
assumiram um ônus maior pela política de saneamento finan-
ceiro.

6. A segurança
j!t,-?"..;.

Para que se implantasse uma política econômica contra as


classes subalternas, era preciso que houvesse estabilidade social.
A segurança seria, então, a competência necessária para promover
o desapossamento das classes populares (cf. :sobre o assunto Com-
blin, 1978).
Os objetivos da "revolução" centram-se no binômio "segu-
rança e desenvolvimento". Esse binômio co11stitui a ampliação e
a atualização, no estilo semântico hodierno, do lema da bandeira
nacional (17, 10; 17, 33-34; 13, 63). Esses conceitos relacionam-se,
segundo o discurso, dialeticamente (17, 80; 2, 13-15; 3, 23). O pre-
sidente Geisel inverteu, em seu discurso de posse, a equação, que
passou a ser "desenvolvimento e segurança" (17, 33). Quando se
diz que segurança e desenvolvimento estão em. relação dialética
pensa-se que eles estão numa relação que Lyons chama recipro-
cidade. 29 Entretanto, como se viu que o desenvolvimento distri·
buirá renda por meio da "mão invisível do mercado" e que é pre-
ciso primeiro acumular para depois redistribuir, nota-se que é
necessário que haja segurança (estabilidade social, isto é, discipli-
na no trabalho), para que depois ocorra o desenvolvimento (1, 23).
A relação entre eles é de causa e efeito e rião de reciprocidade
(17, 16).
Segurança é a segurança nacional, que é a "capacidade que o
Estado dá à nação de impor os seus objetivos permanentes"
(vontade única) a todas as forças antagônicas. Assim, a segurança
é a "capacidade moral, espiritual e material de um povo" para
sobrepor-se aos oponentes (17, U; 17, 16). Tudo, portanto, é obje-

99
a r H
to de segurança nacional e ela passa a ser responsabilidade de
todos. As Forças Armadas são apenas um dos meios de segurança
(17, 10; 1, 165; 2, 278; 3, 79). Nesse caso, a segurança é a totali-
dade do poder do Estado, encarnado pelo governo. Tudo e todos,
sendo fatores de segurança, passam a ser adjuvantes do governo.
Nesse caso, os imperativas da segurança nacional confundem-se
com os ·ideais do governo e os oposicionistas podem ser rotulados
de .traidores da pátria (2, 30).
l( O conceito, sendo tudo, é indefinido, ou seja, é a ausência de
sentido. Nele pode-se articular o sentido que se quiser. Por isso,
é um conceito bastante eficiente. "Segurança nacional" é um ar·
quiconceito onde cabem todos os conceitos do aparato verbal do
x poder. Ele justifica todas as articulações sêrnicas. Assim como
temos arquilexemas muito gerais como "coisa", temos arquicon-
ceitos muito amplos no discurso do poder. "Segurança" é a "coisa"
do discurso do poder.
O Estado tem um poder originário e autónomo que prevalece
sobre os indivíduos em todos os setores da vida. :B por isso que
crimes comuns passam a ser crimes contra a segurança nacional.
Os elencos de tais crimes foram sempre ampliados para que tribu-
nais militares julgassem civis e, além disso, para que "complicadas
e morosas práticas forenses" fossem eliminadas (3, 334). A tipifi·
cação dos .crirbes na lei de segurança nacional é feita de forma
vaga e imprecisa, para que possa ser. enquadrado neles, ao sabor
da conjuntura, aquilo que interess!'!l' aos detentores do poder. Que
significa, por exemplo, "incitar à subversão''?
A organização criada para analis:=".r temas e métodos ligados
aos problemas do Brasil, inspirados nos objetivos da segurança
nacional, para formar a elite dirigente, para estudar e divulgar
os objetivos da nacionalidade, para planejar soluções para os pro-
blemas de diversos setores da vida nacional, para estudar os des-
.tinas do Brasil, integrando as Forças Armadas e identificando civis
e militares, é a Escola Superior de Guerra (1, 90; 2, 109-110; 3, 77;
3, 81). Isso indica que a política é a estratégia da guerra. Tudo é
colocado em função da segurança. Mesmo quando se enuncia a
intenção de elevar o padrão de vida dos trabalhadores, isso é visto
como decorrência da necessidade de elevar a produtividade e de
amortecer as tensões sociais (3, 35-36; 17, 56-57).
O que se entende por segurança é a "estabilidade social", ou
seja, a disciplina do trabalho. que não é senão a ausência de
reivindicações operárias (3, 41). O governo procura, por isso, de-
terminar o /dever-fazer/ dos sindicatos, colocando-se como seu
destinador. Diz o que pode e o que não pode ser reivindicado.
Para o discurso, eles têm um papel no preparo da mão-de-obra
por meio de cursos profissionalizantes e na assistência social aos
associados; não podem, no entanto, reivindicar o que impliqué

100
redução da poupança e do investimento (2, 106; 3, 14; 3, 35}. Os
sindicatos, segundo o discurso, estavam a serviço ·da corrupção e
da subversão da ordem; depois da "revolução", foram restaurados
em-seu funcionamento normal (1, 23; 1, 166; 3, 7). Os sindicatos
só poderão reivindicar aumentos de salários na proporção do au-
mento da produtividade e da riqueza nacional, pois, caso contrário,
. contribuiriam para reduzir o nível de investimento e de emprego
(2, 81; 2, 106-107). Ora, à medida que o desenvolvimento brasileiro
se faz com o incremento de setores intensivos de capital, em que
se realiza a poupança de trabalho social, .a não reivindfção de
maiores salários não gera emprego, mas eleva a taxa de mais-
valia. Conforme o discurso, os sindicatos não podem ser núcleos
de propaganda política, partidária, filosófica e religiosa, mas de-
vem cuidar dos interesses dos associados (2, 318). Como os inte-
resses dos associados são o desenvolvimento do país, nos moldes
fixados pelo governo, os sindicatos reduzem-se ao papel de adjuvan·
tes do governo em seu fazer desenvolvimentista. Cabe-lhes ajudar
a amortecer as tensões sociais e colocar-se a serviço da estabili·
dade social, que propicia o progresso (17, 85-86). Para que as
organizações trabalhistas mudassem do papel de oponentes para
o de adjuvantes, foram submetidas à intervenção governamental
(2, 318).
Para disciplinar a força de trabalho, o governo altera a lei
de greve. Na prática, essa lei extingue o direito à greve. O discurso
diz que as paralisações trabalhistas não podem ser antipatrió-
ticas, ou seja, ocasionar a ruptura da paz social (1, 57; 1, 166;
2, 26; 4, 2). Isso só faz sentido'quando se naturaliza a ordem social.-<
o instituto da estabilidade é derrubado porque acarreta, na ótica
do discurso, indisciplina do trabalho e descaso pela produtivi-
'da.de (3, 10-11). Também se extinguem outros benefícios trabalhistas,
julgados muito <lanosos para os custos da produção (3, 377).
Permeia esse desejo de estabilidade social a visão de que a x
sociedade se organiza como um pacto em função de interesses
maiores que pertencem a todos (2, 73; 2, 318; 17, 85-86). Com base
nessa concepção, nega-se que capital e trabalho sejam antagonis-
tas, ou seja, nega-se a luta de classes e considera-se a luta, exis-
tente no interior da sociedade, como algo implantado de fora por
agitadores (3, 337; 1, 22-23; l, 30; l, 166; 2, 113-114). No entanto,
a ordem social sem conflitos é apenas, para usar a expressão de
Comblin, uma "utopia dos dominantes". A narrativa completa mos·
tra, então, a lógica da "revolução". A "disciplina do trabalho" era "f..
necessária para aumentar a taxa de mais-valia, que levaria a uma
acumulação maior, que propiciaria o desenvolvimento. Para con·
seguir a paz social, era preciso desencadear uma repressão muito
grande (2, 287; 2, 299; 17, 24-25: 17, 121-122}. Para isso, era mister
controlar o Aparelho Repressivo do Estado e, por isso, Goulart

101
-.... foi derrubado. A competência necessária para derrubar Goulart
era o poder das armas. Isso, porém, o discurso oculta e substitui
por uma hip_otética vontade popular.
Por tudo isso, não é verdade que o movimento de 64 foi ape-
nas contra, como já se disse; foi a favor da implantação de um
modelo de acumulação, fundado na concentração acelerada de
renda e no endividamento externo. O movimento de março de 64
obedece, assim, à lógica do. movimento do capital. De um lado, a
valorização do capital privado no Brasil; de outro, a abertura do
país, sem qualquer controle, aos capitais sobrantes dos países
industrializados, que, entre outros fatores, pela queda da taxa de
mais-valia e pela demanda insatisfeita por matérias-primas nos
países industrializados, procuravam oportunidades de inversão
f nos países não desenvolvidos (cf. Mandel, 1982). O movimento de
64 procurou, na expressão de Mandei, oferecer ao capital oportu·
nidades de superlucros.
O estudo do PN complexo mostrou-nos a lógica de tudo, bem
como as lacunas e contraditoriedades do discurso.

7. O mundo pelo avesso

As realizações da "revolução" são a contenção dos movimen-


tos sociais das classes subalternas e a dinamização da a:-umulação
capitalista.
O que nos discursos é dado como novo é a perpetuação do
antinovo. O processo de esterilização semântica do lexema "revo-
lução" corresponde à manutenção do statu quo sob um aparente
processo de reformas. Cada golpe nas conquistas populares é apre-
sentado como mais uma vitória do povo. As sucessivas mudanças
na própria legalidade "revolucionária" são mostradas como "re-
formas políticas para atualizar, aprimorar e revigorar as institui-
ções" e para acabar com os desvios e distorções da vontade po-
pular, que é a fonte de todo o poder (2, 9; 15, 75). A lei de greve,
que é a própria lei antigreve, é apresentada como meio de acabar
com a "agitação sindical" que só trazia prejuízos ao trabalhador
(2, 10). A instituição da correção monetária sobre as parcelas que
devem ser pagas na aquisição da casa própria, que tantas dificul-
dades causou aos assalariados, é exibida como meio de dar a mais
trabalhadores condições de adquirir moradia (2, 10). A liquidação
da estabilidade (instituição do FGTS) é exposta como meio de
garantir a segurança do trabalhador em seu emprego (3, 38-39).
O arrocho salarial é o "fim da mentira salarial", que não era
acompanhada de aumento de produtividade e que, por isso, gera-
va inflação, que corroía os salários (13, 92). -A reforma tributária,
que tornou os Estados e municípios dependentes do poder central,
é mostrada como maneira de tornar efetivo o federalismo {13, 70).
A abertura do país aos capitais estrangeiros é apresentada como

102
necessária à integração do país na economia mundial, para que
ele possa desenvolver-se (13, 67). A intervenção nos sindicatos,
principalmente nos dos estivàdores, e a prisão de líderes sindicais.
são expostas como o término da exploração do homem pelQ homem
(13, 64).
A permissão de compra pelas multinacionais de empresas su-
focadas pelas restrições de crédito impostas no governo Castelo
Branco é vista não como desnacionalização da economia, mas
corno seu saneamento, pois o critério que deve reger as empresas
são a eficiência e a produtividade (2, 82; cf. Dreifuss, 1981, 425).
A reforma político-partidária, que criou a ARENA e o MDB,
que tinha a finalidade de neutralizar pressões regionais que im·
pediam o desenvolvimento eficiente do planejamento econômico,
.é exibida ao povo como forma de criar uma democracia forte
(2, 201; 2, 235; 3, 68; 2, 290; 3, 65; 3, 42; cf. Dreifuss, 1931, 428).
O Estatuto da Terra pretendia, por meio de uma complexa -;.,
tributação pro_gressiva, obrigar os grandes proprietários a moder-
nizar técnicas de produção ou a vender· terras, ou seja, abolir
vestígios dos antigos modos de produção existentes no campo e
implantar relações capitalistas de produção na agricultura, aumen·
tando a.sim a produtividade agrícola (cf. Dreifuss, 1981, 434). Foi
apresentado como uma proposta avançada de reforma agrária (1,
32; 1, 52·53; 3, 122-126). .
A extinção dos IAPs e a criação do INPS, que pretendia
impedir o uso dos grandes recursos· dos institutos contra o patro-
nato ou o governo em "greves políticas" ou de solidariedade, é
mostrado como meio de acabar com a corrupção existente e de
garantir aos segurados serviços previdenciários mais eficientes e
mais seguros (2, 66; 3, 38; 4, 21. cL Dreifuss, 1981, 438).
A apropriação de um valor, operada no âmbito do fazer, é
exibida como uma atribuição no nível do dizer. Como se vê, o
poder instituí a subversão semântica, pois antônímos tranforrnarn-
se em sinônimos e sinônimos em antônimos. O discurso simula
que se faz o bem para ocultar o que realmente ocorre. O discurso
coloca-se no plano do /parecer-/ e /não-ser/ dos atos governa·
mentais.
O que nos permite realizar essa verídicção é o confronto de
textos de discursos "revolucionârios" e textos cujos enunciadores
se encontram em outro "lugar social", Destrói-se o referente in· 1..
temo criado pelo discurso, seja pela contradição enunciada por
ele mesmo, seja pela comparação de textos de diferentes enuncia·
dores que apresentam pontos de vista distintos sobre o mesmo
tema.
Para perpetrar o delito semântico, exposto acima, e inculcá-lo
"no coração e na mente" de todos os brasileiros é que os governos
"revolucionários" dedicam um especial carinho à comunicação
com o povo por meio .dos mass ~edia. A finalidade dessa comuni·

103
cação é que todos "ouçam as razões e. os objetivos do governo"
(13, 79). De·acordo com o discurso, o governo diz toda a verdade
e só a verdaae em seus pronunciamentos, que não visam à promo-
ção pessoal,· mas se destinam a "informar, divulgar e educar", a
"chamar todos à coesão, ao respeito à lei, à produtividade, a mô-
bílizar a vontade coletiva para a obra do desenvolvimento nacio-
nal" (2, 75; 13, 79). A comunicação e a propaganda eram uma das
estratégias da guerra contra o comunismo.
Em pleno governo Médici, quando depoimentos. fidedignos
narravam que a tortura ·estava institucionalizada no interrogató·
rio de presos políticos, o ministro Buzaid desmentiu formalmente
pela televisão a existência de tortu:r:as no Pll;ÍS e atribuiu a divul-
gação desses fatos a maus brasileiros que procuravam denegrir a
imagem do país no Exterior. Não era o país que estava com a
imagem denegrida, mas apenas os governantes. Como, porém, o
discurso julga que o governo, ao comandar o Estado, enca~ a
nação, declara que desmistificar certos atos do governo é macular
o país (cf. também 2, 285).
""- O discurso exerce um fazer interpretativo sobre os fatos. A
interpretação dos fatos, feita pelo discurso "revolucionário'', é
dedutiva e, por isso, é correta, mas não verdadeira, porque se
fundamenta em axiomas ideológicos e seu valor de verdade de.
pende inteiramente da aceitação dos enunciados axiomáticos como
'/ verdadeiros. Os axiomas básicos da interpretação dedutiva são a
existência de uma ordem natural e de um destino histórico que
constituem a nação, a iminência de ruptura dessa ordem e a re.
solução dos problemas do país somente pela via do desenvolvi-
mento capitalista. Negar a validade dos axiomas é destruir a ló-
gica interna do discurso. Não é verdade, por exemplo, que os que
se opõem ao governo desejam trair a democracia (cf. 2, 299).
'I O fazer interpretativo está ligado ao fazer persuasivo. A in-
terpretação busca fundar um saber-verdadeiro, a: fim de que ela
possa ser éomunicada e aceita, corno verdade, pelo destinatário.
Y, "A interpretação integra-se, assim, na persuasão como um sintag-
ma importante de seu programa" (Greimas, 1976, 188). No caso
X dos discursos que estamos analisando há wna auto-interpretação,
ou seja, quem realiza a interpretação é o próprio sujeito do. fazer.
Ele estabelece o que é verdade, falsidade, mentira ou segredo.
Não havendo instâncias distintas para o fazer e o interpretar, o
contrato de veridÍCção é imposto e o discurso reproduz o modelo
da dominação~ sendo o enunciador o dominante e o enunciatário
o dominado.

8. A veridicção

O procedimento para estabelecer a veridicção (a verdade in·


terna do texto) é.ainda a comparação entre o antes e o depois,

1.04
vazada em uma linguagem que se pretende científica porque faz
uso abundante das estatísticas, dos dados econômicos e do jargão
dos economistas. Apenas alguns exemplos:
"Em 1965, pela primeira vez em muitos anos, o Tesouro
não pressionou a caixa do Banco do Brasil, enquanto a
expansão de crédito para o setor privado, comparativa-
mente a 1964, aumentava vinte e quatro por cento no
caso do Banco do Brasil e setenta e oito por cento no
caso dos Bancos comerciais. A isso cabe adicionar quase
cento e sessenta por cento nos aceites das sociedades de
crédito e financiamento e a duplicação das aplicações do
BNDE. Muitos se esquecem também de haver-se criado
toda uma instrumentação de financiamento, 'através dos
fundos especiais como o FIPEME, o FUNDEGE, o FINEP
e o FINACRI, mediante os quais foram canalizados, até
hoje, para a indústria, o comércio e a agricultura, nada
menos de cento e dez bilhões de cruzeiros" (3, 20).
"No tempo decorrido entre estes dois últimos aniversários
da Revolução, o trabalho do nosso povo se fez s~mpre
fecundo. O levantamento das atividades do exercícià pas-
sado revela um crescimento de 9,5% do produto nacional,
que se torna mais expressivo na constatação de que a taxa
da inflação foi a mais baixa nos últimos anos, com um
deficit orçamentário tão insignificante que pôde ser finan-
ciado sem emissões. E, o que é ainda mais promissor, a
receita de exportaçq~s se avizinha dos três bilhões de. dó-
lares, resultando em grande superavit de balanço de pa-
gamentos e em disponibilidade de reservas superior a um
bilhão" (3, 76-77).
~

Como o texto veridictório fundamenta-se em dados estatísticos


para mostrar o acerto da infringência da ordem constitucional,
ele apresenta-se como um saber neutro e, portanto, incontestável.
Emerge dele o pressuposto de que tudo o que é quantificado é -J...
verdadeiro. Só a linguagem· dos números e compatível com o saber
patriótico e imune a interesses de grupos ou de classes que os mili-
tares se atribuem:

"Embora as estatísticas - na sua desnuda e crua lingua-


gem aritmética (grifo nosso) - mostrem o quanto há de
desigualdades, de carência ainda, de miséria até mesmo,
no complexo espectro da vasta e pluralista sociedade bra-
sileira, a nossa pujança, apesar de tudo, não é desmentida,
antes comprovada, pela sobrevivência e capacidade de real
progresso em tão rudes condições de vida e de trabalho"
(17, 64).

105
Citam-se grandes cifras para provar o muito que a "revolução"
fez. Comparam-se as cifras de realizações do governo Goulart e
dos governos "revolucionários" (2, 49; 2, 189; 2, 206-207). Apresen·
taro-se cifras enormes que os ouvintes nem sequer imaginam
'!._ quanto seja (2, 56; 2, 96-97). Ora, as grandes cifras têm uma.fina-
lidade bem nítida: ocultar os fatos que aparentam revelar. Quan-
do se diz, por exemplo, que os gastos com educação foram de
177 bilhões, 532 milhões e 354 mil cruzeiros, isso parece uma
quantia extraordinária para quem lida com cifras correspondentes
'/.. ao salário mínimo. No entanto, a cifra, que parece descomunal,
é i,nsignificante num orçamento de seis trilhões. Por isso, o discur·
so cita, geralmente, números absolutos e não faz comparação dos
gastos com gastos globais e com outros gastos.
'<. ~ muito comum também o discurso apontar a elevação de
gastos em setores sociais de ano para ano, sem levar em conta a
inflação do período. Se se diz que os gastos com educação foram
elevados de Cr$ 177:532.354.000,00 para Cr$ 302.784.333.000,00 de
um ano para outro e oculta-se que a inflação do período foi de
100%, o discurso contou meia-verdade, pois de um ano para outro
os gastos reduziram-se em termos reais.
Ademais, a;,~~statísticas podem ser e foram alteradas diversas
vezes, ao longo dos dezenove anos de governos "revolucionários"
X (Folha de S. Paulo, 20/02/83, 15). São produ~os criados pelos ho·
mens, mas o discurso as apresenta como um "saber transcendente
e separado, exterior e anterior aos sujeitos sociais, reduzidos à
condição de objetos sócio-políticos manipuláveis" (Chauí, 1980, 83).
Por isso, a estatística é apresentada como neutra e incontestável.
E, assim, um instrumento de manipulação. Transforma-se, para-
fraseando Marilena Chauí, em "ópio do povo".
"< O discurso "revolucionário" é um fazer cognitivo sobre as.
realizações do governo Goulart e da "revolução". E. a leitura que
o vencedor faz do fazer do vencido e do seu próprio fazer. :e um
ponto de vista que se apresenta como verdade absoluta, pois o
narrador entrincheira-se atrás dos próprios fatos.

"O que vafo, em verdade, é comparar a situação atual com


a que existia em princípio de 60 e mensurar, adequada·
mente, a extraordinária distância percorrida. E, mais
ainda, verificar quanto resta por fazer-se e a construir,
para a maior grandeza da pátria - poderosa, democrática,
justa - e o crescente bem-estar do nosso povo" (17, 64).

A confrontação de dois fazeres, cujos sujeitos operadores são


personalizados, tem a função de fazer a antítese de coisas mudar
para antítese de pessoas. Para o discurso, a hisj:ória é feita por
grandes personalidades: Goulart, Castelo, Médici, etc. Por isso,

106
pode substituir a confrontação objetiva pela confrontação pessoal,
que se baseia em qualidades morais. Pode também o presidente,
Figueiredo afirmar que deu. a anis tia, realizou eleições para gover-
nadores em 1982 e restaurou a democracia no Brasil.

9. A política externa

A política externa brasileira sofreu uma transformação com


o movimento militar de 1964. O governo brasi1eiro abandonou suas
posições neutralistas ou favoráveis aos países do Terceiro Mundo
e alinhou-se ao lado dos Estados Unidos (2, 175; 2, 179-180; 2, 228;
3, 274; 3, 316-317; 4, 12-13; ver sobre o tema: Dreifuss, 1981, 441-
442).
O fundamento da política externa é que, no mundo, há dois
blocos ideológicos que estão em guerra total: Leste vs. Oeste (15,
82). O primeiro pretende derrotar o segundo. Em nossa época, i.
trava-se uma luta entre capitalismo democrático cristão e comu-
nismo totalitário ateu. Essa oposição coloca em jogo os três n(-
veís da sociedade: o nível económico (capitalismo vs. comunismo),
o nível político-jurídico (democracia vs. totalitarismo) e o nível
ideológico (cristianismo vs. ateísmo). JO O discurso elide o termo ;\
"capitalismo". A visão cj.o mundo dividido em dois blocos poderia
ser estabelecida a partir de outro ponto de vista: Norte vs. Sul.
Nesta, os blocos não seriam de natureza ideológica, mas consti-
tuir·se-iam a partir das etapas de seu desenvolvimento. Ver o
mundo dessa maneira, entretanto, significa enfocar o problema
do imperialismo, o que implica colocar em xeque o statu quo,
uma vez que seria abalado um dos fundamentos do sistema capi-
talista, que é a divisão do trabalho em nível internacional. Alte-
rar essa divisão é atacar os interesses da burguesia dependente e
associada do capital estrangeiro.
Quando o discurso "revolucionário" começa a falar da distin· 'f..
ção Norte/Sul, desloca o problema do âmbito da produção para o
da circulação e passa a pedir condições mais justas de comércio
(13, 71·72).
Ver o mundo como dois blocos em conflito é perceber a his-
tória sob o prisma da rivalidade das nações que são "vontade de
poder e de poderio". As nações· agrupam-se em alianças e cada
uma das alianças é dirigida por uma superpotência. Cada país
deve aliar-se a uma superpotência para realizar seu projeto (Com·
blin, 1978, 31). Como os objetivos nacionais permanentes do Brasil,
detectados a partir da herança cultural do seu povo, do caráter
nacional brasileiro e da sua base física apontam na direção do
,;mundo livre", o Brasil deve aliar-se aos Estados Unidos para
realizar suas aspirações (1, 13;t2, 18; 3, 85; 3, 271; 3, 317). Há uma "J.
identidade nos projetos naciorl.ais do Brasil e d~s E:a~ Unidos.

~ i ~ 107
Por isso, afirmava o chanceler Juraci .Magalhães que o que é bom
para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Os militares que
fazem. profissão de fé nacionalista deslocam o Brasil do papel de
sujeito do fazer para o papel de adjuvante dos Estados Unidos.
De certa forma, essa deslocação contradiz e anula a proclamação
de independência.
Castelo Branco afirma que o país é aliado de todas as nações
"democráticas e livres" e dará apoio a todos os povos que quiserem
ser livres pela democracia (1, 13). Essa afirmação aponta para a
afirmação do intervencionismo do Brasil em assuntos de outros
povos.
No dia 31 de julho de 1964, Castelo Branco define o conceito
de independência:

"A expressão 'política de independência' tem sido detur-


pada e perdeu a utilidade descritiva. (. .. ) No presente
contexto de confrontação de poder bipolar, com radical
divórcio de posição político-ideológica entre dois centros
de poder, a preservação da independência pressupõe a
aceitação de um certo grau de interdependência, quer no
campo militar, quer no econômico, quer no poütico. ( ... )
A política externa brasileira tem, por raro, exibido inde-
terminação, em virtude do caráter irresoluto de certos
dilemas: nacionalismo versus interdependência; negocia-
ção bilateral versus multilateral; socialismo versus livre
iniciativa. ( ... ) Mais recentemente, o nacionalismo detur-
pou-se a ponto de se tornar opção disfarçada em favor
de sistemas socialistas, cujas possibilidades de comércio
e capacidade de inversão na América Latina foram sobres-
timadas. ( ... ) O .Brasil trata de enveredar pela política
da livre empresa e de acolhimento ordenado do capit.Fll
estrangeiro" (1, 109-113).

A mesma fala presidencial mostra que o Brasil, ao abandonar


o conceito de independência, renuncia também à política de "neu-
tralidade" e engaja-se em operações ae segurança do continente
(1, 11).
Diz René Armand Dreifuss que, no momento em que o Ita·
marati aceita as premissas do desenvolvimento dependente e da
hegemonia política dos Estados Unidos no mundo capitalista, pas-
sa a implementar uma política externa que alguns autores deno-
minam subimperialismo. Visava ela à segurança externa e interna
· dos países americanos e envolvia uma divisão de tarefas, nas áreas
económica, política, ideológica e militar, entre os Estados . Uni-
-1-.. dos e o Brasil. Para pôr em prática essa política de divisão inter-
nacional de funções, era preciso, no entanto, que, pelo menos,

108
fossem, taticamente, postos de lado os princ1p1os clássicos de
;iutodeterminação e de não-ihtervenção. Foi em nome da "segu·
rança coletiva" que o Brasil, ao lado dos Estados Unidos, interveio
na República Dominicana em 1965 (1981, 441-442; cf. 1, 175-180;
2, 228)..
Médici, em discurso proferido na Escola Superior de Guerra,
afirma que a diplomacia brasileira levará em conta que o Brasil
pertence à América Latina, à América, ao Hemisfério Ocidental, à
civilização cristã, ao conjunto das nações democráticas, à comu-
nidade dos povos de língua portuguesa e ao mundo subdesenvol·
vida (13, 71). Dizer que o Brasil faz parte do mundo subdesenvol·
vida não significa qualquer alteração da política externa, pois, em
seguida, o presidente diz que a justiça social entre as nações se
fará por meio de condições mais justas de comércio internacional
e de uma política de royalties mais humana, mais aberta, mais
internacional. A desigualdade entre as nações é, no entender de
Médici, uma ameaça à humanidade (13, 71-72). Sua pregação em prol
da justiça social entre as nações não manifesta o desejo de supe-
rar o sistema econômico que produz: as desigualdades, mas revela
a preocupação de que a miséria absoluta constitua o adjuvante
ideal para a difusão da ideologia marxista, ameaçando, assim, a
estabilidade do "Ocidente". Na sua proposta de condições mais
justas de comércio internacional e de uma política de royalties mais
humana está implícita a idéia de que a distribuição eqüitativa
das riquezas não se consegue pela destruição de mecanismos eco-
nômicos vigentes na sociedade, mas pelos favores que os mais
ricos concedem aos mais pobres. O mecanismo de alteração das j..,
situações injustas situa·se no nível da circulação e não da pro·
dução. Propõe uma política conservadora de concessão de peque-
nos favores para conter as massas miseráveis. O 9-om deve amor·
tecer os conflitos. O pacto deve tomar lugar da luta;. A· isso se dá
o nome de "justiça social".
Interesses comerciais brasileiros produziram alterações gra·
dativas na política externa nos últimos anos: reconhecimento de
governos socialistas da Africa, condenação do sionismo e de atos
praticados por Israel, recusa de intervir em guerras de libertação,
denúncia de acordos militares firmados com os Estados Unidos
etc. Durante muitos anos, no entanto, os princípios básicos da
política externa foram:
a) impedir a propagação do socialismo;
b) servir de adjuvante dos Estados Unidos em seu confronto
com a União Soviética.
Para isso, o Brasil renunciou aos valores de 'independência. e
neutralidade e passou a defender a interdependência e o interven·
cionismo. A política externa foi coerente com a política interna.

109
Tinham ambas a finalidade de impedir qualquer transformação
no Brasil e no mundo.

A Narrativa Englobante

1. Democracia vs. comunismo

Segundo o discurso, o que ocorreu no país faz parte de um


confronto ideológico que se trava no mundo entre democracia e
comunismo (2, 113; 4, 12-13). Essa oposição parte da concepção
de que o inundo está dividido em dois blocos antagónicos: o bloco
democrático e o bloco comunista. Este pretende derrotar total·
mente aquele, implantando seu sistema político-econômico em
todo o globo (1, 13).
Três considerações iniciais devem ser feitas em torno da opo-
sição que subjaz a todo o discurso "revolucionário": democracia
vs. comunismo:
a) Essa oposição é uma falácia semântica, ou seja, é uma
oposição impossível de ser feita sem violentar o conteúdo dos le·
xemas, pois, como nos ensina Greimàs, para que dois termos pos·
sam ser apreendidos conjuntamente, isto é, para estabelecer uma
oposição, é preciso que eles tenham algo em comum e algo dife-
rente. A oposição /democracia/ vs. /capitalismo/ não pode ser
estabelecida porque, embora esses lexemas apresentem diferenças,
não revelam nenhuma semelhança que possa servir de base a essa
oposição, uma vez' que "comunismo" corresponde à infra-estrutura
econômica, enquanto democracia está relacionada ao nível jurídi-
co-político da superestrutura. O antônimo de comunismo é capita·
lismo; o de democracia é ditadura.
b) Assimilar o capitalismo à democracia é abrir caminho para
negar que a miséria, o desemprego, etc. sejam frutos desse sistema
económico e, além disso, é pregar a manutenção do statu quo em
nome de um ideal abstrato de liberdade que só serve a um homem
abstratamente considerado.
c) A idéia de que a contradição fundamental do mundo con-
temporâneo não é entre "capital" e "trabalho", mas entre "comu-
nismo" e "democracia", tem a função de, mascarando a luta de
classes, enfraquecer as contradições internas do capitalismo, unin·
do a todos em torno da pátria ameaçada .

. 2. A guerra contra o comunismo

A realidade ·fundamental de nossos dias é que estamos em


guerra total e global com o comunismo~ diz o discurso. Essa
guerra é permanente e foi imposta pelo ~omunismo, sendo, por·
tanto, uma guerra de sobrevivência das democracias do Ocidente.

110
E. uma guerra total, global, fria e revolucionária (1, 109·110; l,
124; l, 102; 2, 113; 2, 180; 1, 111; l, 231).
E uma guerra total e, por isso, deve mobilizar todos os recur·
sos de uma nação (1, 224). É uma guerra global porque é uma
guerra não localizada, que alinha os esforços de muitas nações e
só terminará com a vitória do comunismo ou da democracia (1,
224). A guerra é fria porque evita o confronto armado e pretende
atuar, precípuamente, nos campos económico, político e psicoló-
gico (2, 32). Disse o presidente Médici que a guerra' que hoje se
trava atinge o "coração das nações" e a "mente dos homens", por
meio de armas psicológicas, tendo a guerra, por isso, um caráter
preponderantemente ideológico (13, 80).
A concepção da guerra fria baseia·se na visão de que o comu·
nismo, em seu desejo de controlar o mundo, busca desagregar o
"mundo livre" a partir do interior das nações (13, 80·81). A agres·
são à pátria processa-se pela infiltração e pela subversão. Não
é mais uma guerra de fronteira, a invasão do território nacional
ou o imperialismo político e econômico. E antes o "imperialismo
ideológico que confunde a autodeterminação de um partido com a
autodeterminação de um povo". Devem, por isso, segundo o dis·
curso, ser revistos os conceitos de agressão e de intervenção. São
agressões a gúerrilha e a guerra psicológica. Não constitui inter·
venção a contra-intervenção, decorrente de ação coletiva após
comprovada subversão ideológica antidemocrática. A intervenção
é ''o abuso de poder do mais forte para cercear o direito sagrado
de todos os povos de perseguir, em plena independência, seus
objetivos de progresso, de paz e de liberdade política" (2, 229).
Cada frente de subversão é uma ameaça à nossa retaguarda e põe
em jogo a liberdade de todos os povos, pois os comunistas fir·
roam-se num lugar e depois "escolhem e atacam outra vitima"
(2, 180).
A guerra fria é uma · agressão externa por via interna. Por '1.
isso, essa guerra é revolucionária (2, 22; 1, 180). As fronteiras
que devem ser defendidas tornam-se fronteiras)nternas, pois ata·
cam a nação pessoas inspiradas pelo ódio ou "minorias engana-
das pela falâcia de sistemas de vida incompatíveis com a índole
de nossa gente" (3, 281; 13, 63). Como o comunismo é identificado
com a União Soviética, considera-se que, em qualquer questiona-
mento da ação governamental, existe o "dedo de Moscou" (13,
81; 2, 299). Essa é a chave para a "revolução" entender tudo o
que se passa no mundo. ·
Segundo o discurso, a atuação comunista é "multiforme", a
subversão está "sempre à espreita" e o governo deve criar uma
barreira para conter o avanço do totalitarismo (16, 63). De acordo
ainda com o discurso, a ação comunista exerce-se pela insuflação
do "desrespeito à lei", da "libertação dos instintos", da "violência ·

111
)! destruidora" e da "contestação à autoridade" (13, 80). Em síntese,
os comunistas querem "crucificar os valores democráticos e cris·
tãos da alma brasjleira". (13, 81). Conforme mostraram já vários
autores, essa concepção da guerra contra o comunismo desloca a
oposição "comunismo'' vs~ ''capitalismo" e coloca em seu lugar a
oposição "civilização" vs. "barbárie... ·
Não há, no discurso "revolucionário", diferença entre subver·
são, crítica, oposição política, guerrilha, terrorismo e guerra (2,
21; 2, 23-24; 3, 18; 3, 80; 3, 83; 2, 229; 3, 270; 13, 79; 13, 87-88).
Não se vêem diferenças entre as posições políticas dos partidos,
grupos sociais e nações. O discurso converte a rica diversidade de
concepções político-ideológicas numa rígida dicotomia. Ao instau-
rar como verdade absoluta a "teoria do dominó", passa a consi-
derar o que se passa em outros países como agressão ao nosso
país e justifica o intervencionismo (2, 1~0; 2, 229).
Como já mostramos, os objetivos nacionais permanentes são
bastante heterogêneos. O que une todos eles é que, na visão dos
detentores do poder, estão ameaçados pelo comunismo. Repre-
sentam, pois, o oposto do que é pregado pelos comunistas. Têm, por
isso, um valor meramente simbólico (Comblin, 1978, 53). Estão
esvaziados de sua função sígnica. Como a política é concebida
dentro de um esquema de meios e fins, seria preciso delinear
uma estratégia para alcançá-los (3, 77·78). Fins são o fazer último
da narrativa· relatada e dele decorrem os fazeres anteriores neces-
sários para realizá-lo. Ora, ocorre aqui uma subversão do esquema
narrativo, pojs existe uma estratégia anticomunista, que deriva da
\- idéia de que há uma confrontação entre o 4ste e o Oe51ê. Os
objetivos nacionais permanentes são definidos pela estratégia anti·
comunista, ou seja, os fazeres necessários para realizar o fim últi·
mo é que definem este fazer. Nesse caso, o fim últimq, é impedir
a transformação, ou seja, congelar a história. A história transfor·
ma-se em não-história, a narrativa em antinarrativa. Os objetivos
não são senão justificativas de um fim que é apresentado como
meio (cf. Comblin, 1978, 53-54).
X A medida que todos são mobilizados em torno do mito de
uma guerra fantasma, anula-se a oposição entre. atividades mili·
tares e não militares e militarizam-se todas as ações. A política
interna gira ao redor da política externa. Todos os conflitos sociais
desaparecem, assim como todos os problemas da política interna,
pois qualquer conflito interno não é senão manifestação de con-
fronto entre "nações livres" e "nações totalitárias" (Comblin, 1978,
28-29). A política é assimilada à guerra imposta pelo comunismo.
Assim, anul<i1m-se duas oposições semânticas: /civil/ vs. /militar/
/polícia/ vs. /exército/ (13, 79; 13, 81). Toda a nação está enga·
jada numa única estratégia e, por isso, todos são adjuvantes
comandados pelo "governo". A desobediência às ordens governa·
mentais é traição. Assim recategorizados em seu papel, todos se
tornam responsáveis pela segurança pacional (13, 79). O conceito
de segurança nacional torna-se bastante abrangente, porque todas
as tarefas da sociedade estão em função de uma estratégia bélica
(13, 80). Além disso, como o inimigo está dentro do país anula-se X
a oposição entre polícia e exército, a quem tradicionalmente ca-
biam, respectivamente, as tarefas de manter a ordem interna e
defender a pátria das agressões externas. Por isso, assistimos ao
engajamento do exército nas tarefas de repressão política (cf.
Comblin, 1978, 220-221).
Essa militarização da política é manifestada por um vocabu-
lário bélico para se referir às ações do desenvolvimento e à luta
· anticomunista: "não vos sendo possível desertar na grave conjun·
tura com que o País se defronta"; "devemos convocar quantos
possam ajudar a União nessa batalha decisiva para o futuro do
País" (desenvolvimento dq. Nordeste); "Uma epístola de São Paulo
mostra a conduta na perene batalha cívica por um ideal. Ter na ç-· ,.
mão esquerda um escudo para se defender e, na direita, a espada '\·;:
para atacar, é o modo de ação de quem quer pelejar por causa·"·,'-;:
justa. Contrapor decisivamente a coragem de uma atitude ao medo~::;
de entrar em posição."; "será a vossa terra (Pernambuco), como
é hoje, uma invencível trincheira, em cujos cimos continuará a
tremular a mesma bandeira"; "E a politicagem esquerdista, de
mãos dadas com os mais escusas interesses de grupos, já preli-
bava fartar-se com os despojos da Nação saqueada"; "retomar a
marcha interrompida"; "a campanha apenas começou"; "redobra-
do alento nessa marcha"; "luta incansável de todos os dias para
a construção da grande pátria"; "duros embates" (1, 58; 1, 203; 1,
241; 1, 33; 1, 3}; 1, 87; 1, 103; 1, 104; 17, 30).
Emerge do discurso "revolucionário" uma visão teológica da X
história, que é entendida como o espaço da luta encarniçada entre
o bem e o mal. A expressão "cruzada da redenção" (17, 63), apli·.
cada ao movimento de 64, funde o léxico religioso e o bélico,
dando à "revolução" o caráter de guerra santa contra os infiéis
do mundo moderno.
O discurso está fundado numa série de delitos semânticos. x
Mudam-se os conteúdos dos lexemas e essas alterações garantem
a lógica posterior do discurso. Mostrada a falácia semântiea ini·
cial, o discurso desfaz-se. É, por exemplo, uma fantasia imaginar
que o mundo está dividido em dois blocos que mantêm uma riva· ·
lidade absoluta, pois há muitos pontos de cooperação entre as
nações capitalistas e socialistas. Se isso é fantasia, é uma quimera o
·discurso restante (ver a propósito do mito da guerra Comblin,
209-218).

113
3. O comunista e o comunismo

No discurso "revolucionário", o Outro é sempre comunista.


Um dos chefes do Estado-Maior do Exército, durante reumao de
chefes de Estado-Maior do continente americano, afirmou:

"Hoje em dia enfrentamos, não só em nosso país, mas em


quase todas as nações do mundo livre, uma infiltração
silenciosa e subterrânea em todos os setores da atividade,
a fim de criar contradições, explorar os problemas atuais,
verdadeiros ou fictícios, lançar irmãos contra irmãos e
país contra país, porém mantendo sempre a mesma idéia,
que é o desprezo pelos princípios religiosos, familiares e
patrióticos nos quais se baseia a nossa civilização cristã.
Tentam principalmente conquistar a juventude que, devi-
do a seu idealismo, seu desapego, sua falta de maturidade
e a simpatia natura!. que os jovens despertam em todas as
camadas do povo, constitui a massa de manobra ideal para
seus interesses.
Para essa ação junto aos jovens, os agentes comunistas
utilizam todos os meios, desde a chantagem e a coaçãb
psicológica até o uso de tóxicos e freqüentemente do ape-
lo sexual, pregando e praticando o amor livre ... O inimi-
go é indefinido, serve-se do mimetismo e adapta-se a qual-
quer ambiente, utilizando todos os meios, lícitos ou ilí-
citos, para atingir seus objetivos. Mascara-se de padre ou
professor, de aluno ou camponês, de vigilante defensor
da democracia ou de intelectual avançado ... " (apud Com-
blin, 1978, 48-49).

1-- Esse texto é um dos melhores retratos que um dos expoentes


do regime faz do Outro (cf. também 5, 6). O àparato verbal- do
poder não lança mão da imagem grosseira do comunista, usada
anteriormente, que mostrava o comunista como aquele que judia
dos pais, pratica o adultério e o incesto, tira as crianças dos pais
e entrega-as ao Estado (cf. Chauí e Franco, 1978, 98-100). Alimenta-
i se de criancinhas assadas no espeto, bebe-lhes o sangue. Pelo con-
trário, utiliza-se das categorias semânticas mais sofisticadas do
ser e do parecer, embora ainda coloque o comunista como um
bárbaro que pretende destruir a civilização. No modo de ser, é
um elemento que visa a destruir a civilização cristã, ou seja, pro-
cura liquidar a religião, a família e a pátria, instituições sobre as
quais, segundo o _discurso, fundamenta-se a civilização ocidental
cristã. Ê um bárbaro, um ser carente dos valores básicos da nossa
civilização. O seu traço funcional é, pois, /destruidor da civiliza-
ção/. Além disso, é dissimulado, pois nunca se apresenta tal qual

114
é, age subterraneamente, está travestído de "padre ou prqfessor,
de aluno ou camponês, de vigilante defensor da democracia ou
de intelectual avançado". A /dissimulação/ é o seu traço qualifi·
cacionaL Está em toda a parte e, como o cupim, corrói por dentro
o edifício da civilização cristã~ Apresenta-se como um liberal, uro
paladino da justiça e do respeito aos direitos humanos. Utiliza-se
do embuste ao prometer aqui na Terra o paraíso, onde todas as
contradições serão resolvidas (5, 6). Assim, para o discurso, o co·
munista utiliza-se sempre de uma máscara (nível do parecer) e
atrás dela está o seu verdadeiro ser.
Essa concepção do comunista como um indivíduo que age no
domínio da mentira, isto é, do não-parecer e do ser, e não como
homem que "se nutre de carne de criança" presta dois serviços:
aquece o medo, principalmente da pequena burguesia, conserva-
dora, preconceituosa, temerosa de tudo e de todos; permite exer-
cer uma violência indiscriminada contra todos os que se opõem·
ao sistema, pois qualquer opositor está a "soldo de Moscou". A
imagem que se pinta do inimigo aquece o medo, porque ele está
em toda parte, nos lares, nas escolas, nos locais de trabalho, e
não se sabe quem é ele (17, 63). O desconhecido provoca o medo.
O temor leva a admitir a necessidade do salvador, do homem
forte, das leis de emergência. Insufla-se, com essa imagem, o me·
do generalizado e difuso. Além disso, o desconhecido permite ro- 1.
tular todos os que se queira de comunistas e destruir, metódica
e implacavelmente, todas as vozes discordantes, pois até o libera·
lismo, o desejo de que os direitos humanos sejam respeitados e a
ânsia de justiça são posturas adotadas pelo Outro no nh;el do pa-
recer. No nível do ser, há o desejo de destruir os valores da
Civilização cristã por meio da "ética do prazer" e da "insuflação
da violência".
A imagem do comunista como pessoa que opera no plano da
dissimulação fica evidente até mesmo na figura popular: "melan-
cia": verde por fora (cor que simboliza a pátria e ... o fascismo
caboclo) e vermelho por dentro (cor que marca o comunismo).
A melancia representa a máscara, o plano atrás do plano, o ver-
melho que se oculta sob o verde. No nível do parecer é uma coisa,
no do ser é outra.
Acrescentam-se os traços semânticos qualificacionais exotis-
mo e incompatibilidade com a 'índole da nossa gente ao plano de
conteúdo do lexema "comunismo". O comunismo é uma ideologia
exótica, segundo o discurso,41, 103; 1, 157; 3, 50; 13, 62; 13, 74-75; 13,
80; 13, 89). Deixar subentendido que o habitat do comunísmo são
as "estepes geladas" da Rússia e que o comunismo é incompatível
com a "indole da noss(i gente" e com a "nossa filosofia de vida"
é afirmar que em nosso país ele não vingará, pois o organismo
nacional o rejeitará, porque há "incompatibilidade biológica" en·

115
tre brasilidade e comunismo. Duas observações devem ser feitas:
a) Por que o medo da contaminat;â'o e o aparato de segurança para
evitá-la? b) Se o comunismo é uma doutrina exótica e alienígena,
também o é a democracia, pois ela não nasceu nem tomou suas
feições atuais em nosso país. Se acreditarmos no discurso do p<r
der e pensarmos que a questão do regime político é uma questão
geográfica ou racial, temos também que admitir que estamos fada-
dos a sofrer sob a égide de ditaduras militares, regime não aliení·
gena nem exótico, e que, portanto, temos que nos conformar com
essa fatalidade histórica.
Dentro da concepção que rege fl narrativa é preciso aprofun·
dar a análise do espaço. Existe, na narrativa, um espaço tópico,
que é o espaço de referência a partir do qual outros espaços são
dispostos sobre o eixo da perspectividade, e um espaço heterotó-
pico em relação ao espaço tópico. Na nàrrativa, o espaço tópico
é o espaço do eu e o heterotópico, o do outro (Greimas, 1979,
215·216). No discurso, o espaço tópico é o "mundo ocidental" e o
heterotópico, o espaço do comunismo.
A correlação entre espaço tópico e heterotópico corresponde
à relação entre valores legais (aceitas pela ideologia dominante)
e marginais (negados pela ideologia dominante).
tópico heterotópico espaço perspectivo
----- "" ~ .... ----~--------~~~~----------~

legal marginal espaço humano organizado por. um sis·


tema de valores (cf. Barros, 1975)
,;'... A invasão do espaço tópico pelo oqtro provoca o confronto
entre o eu e o outro. Aquele deve expulsar este, pois, se' o outro
dominar o espaço tópico, converte-o em espaço heterotópico, anu-
lando os valores legais, instaurando os marginais e fazendo, por
;;. conseguinte, desaparecer o eu. O discurso transforma o espaço
geográfico em espaço cognitivo, pois pretende explicar as relações
cognitivas entre os sujeitos (Greimas, 1979, 134). Com isso, pode
transformar as fronteiras externas em fronteiras internas. Isso
permite considerar todos os que não àceitam a ideologia domi-
nante como o "outro", pertencente ao espaço heterotópico. O
"outro" não pertence ao·grupo do eu, é um "desgarrado" (13, 91),
que d·eve ser punido com severidade.
Se o eu se identifica com um espaço tópico e este com certos
valores, há uma relação de conjunto entre individuo e sociedade.
1. Se dividirmos os universos semânticos em duas dimensões: natu- r·
reza e história, aquela definida pelo discurso como os valores ge·
nuínos da alma brasileira, e esta, por aquilo que tenta alterar o
que é natural no Brasil, teremos, no plano social, a dêixis positiva
como o espaço da natureza e a negativa como o espaço da his-
. tória. 31

116

Plano social Plano individual

des~nvolvimento subversão desejo temor

a · b

~
segurança estagnação não-temor não-desejo
O indivíduo estará harmonicamente inserido na natureza do
Brasil, se houver conjunção das duas dêixis naturais (social e
individual), isto é, se ele desejar e não-temer (13, 91) o desenvol-
vimento e a segurança. A conjunção da natureza individual (de-
sejo e não-temor) com a história social (subversão e estagnação)
marca o espaço da transgressão. A da história individual (temor e Y
não-desejo) com a natureza social (desenvolvimento e segurança),
o espaço da alienação (cf. Greimas, 1975, 126-143). Cada homem
poderá fruir os benefícios do sistema, somente se compatibilizar
seus valores com os vigentes no grupo social (3, 85; 17, 30). O dis-
curso que coloca. a "revolução" como paladina da liberdade (1,
102) anula essa liberdade, pois se alguém escolher à disjunção
entre o individual e o social será o outro. A liberdade do indivíduo
é a aceitação da vontade do Estadti. O outro é, pois, todo aquele
que não aceita o espaço "legal", definido pela ideologia domi·
nante. _
O discurso, ao propor a aceitação irrestriti''âa ideologia do-
minante, pretende, em última análise, assegurar a reprodução das
relações de produção.
Uma das estratégias do discurso é trans{ormar os significados X
relativos em significados absolutos, eliminando o destinador de·
um valor e o seu conteúdo semântico. A frase "acredito mais na
liberdade democrática do que na igualdade comunista" (5, 7) é
um primor de universalização, pois seria preciso dizer que Y é
liberdade para z. Onde estão Y e Z? Foram elididos.
Na tentativa de obscurecer o significado do lexema "comu·
nismo" usam-se duas estratégias: uma é tomar os efeitos pelas
causas e outra é elidir diferenças entre dois termos contrários. É
tomar os efeitos pelas causas mudar o problema da estruturação
social do nível da produção para o nível da circulação de merca-
dorias. Assim, para o discurso o que caracteriza o comunismo é
a "compressão totalitária do consumo", pois o povo não compra
o, que quer, mas o quanto e o que o governo quer (3, 106). 32
... O discurso insiste. muito no fato de que a "revolução" é a
continuação da luta pelos ideais da campanha expedicionária. Os
brasileiros combatem o comunismo assim corno combateram o

117
na:z.ismo, pois desejam propagar a democracia em todo o mundo,
restabelecer a autodeterminação dos povos, conseguir a paz uni·
versai e manter a paz no interior de cada nação (1, 101-102; 1, 104;
1, 125; 2, 9; 3, 357-358). O discurso elide a diferença entre comu-
nismo e nazismo, transformando aritônimos em sinônimos. Coloca
os fatos "campanha expedicionária'' e "revolução" numa cadeia
histórica e, por meio de historietas conhecidas e detalhes anedó-
ticos, apresenta a "revolução de 64" como algo natural, correlata
à campanha expedicionária e inerente à cadeia histórica.
x Uma outra estratégia do discurso é circunscrever o universo
conceituai da esquerda como fora do tempo (cf. 5). O discurso
institui um tempo de agora. Aplica a esse tempo a categoria topo-
lógica da concomitância/não-concomitância (Greimas, 1979, 216).
O universo ·conceituai de Marx estaria em anterioridade (não-conco-
mitância) com o tempo do agora, pois não serve para descrever
o atual estado económico e científico, uma vez que os operários
têm um número maior de bens e a revolução tecnológica é a
fonte de produção maciça de bens de consumo e de Uberação do
estafante trabalho muscular de outrora.. Assim, portanto, a luta
operária hoje está centrada, para o discurso, na melhoria do nível
y. de vida, ou seja, na obtenção de artigos de consumo. As diferen-
ças de classe social reduzem-se a diferenças de nível de renda. O
discurso só pode dizer que o universo conceitua! de Marx não é
válido, alterando-o, colocando as reivindicações operárias apenas
no nível da circulação. Ademais, os conceitos marxistas não perten-
cem apenas a um tempo passado, porque o presente "revolucioná-
rio" caracteriza-se por um aumento acelerado da mais-valia.
As leis de exceção justificam-se na medida em que os comu-
nistas não aceitam as normas que regem a democracia, pois dese-
jam destruí-la (3, 296). Assim, se eles não aceitam as leis, elas não
os podem reger e, portanto, toda medida contra eles, por mais
cruel e brutal que seja, está moralmente justificada. Essa argu-
mentação não resiste ao confronto com os mais elementares prin·
cípios do direito burguês: "todos são iguais perante a lei", "nin·
guém será perseguido por convicções". ·
( Por procedimentos de alteração de conteúdo dos lexemas e
por mecanismos enunciativos, o discurso cria uma ilusão referen·
cial e uma ilusão enunciativa que garantem a lógica interna do
discurso "revolucionario".

'!emas e Figuras: Posição de Classe do Narrador e do Narr!'ltárlo


Vimos até aqui analisando.o componente narrativo, preocupa·
dos. fundamentalmente com a recategorização dos papéis narrati-
vos, e analisando e interpretando os temas do componenté discur·
sivo. Ê preciso, agora, retomar os temas principais, elaborando

118
uma síntese, que possa mostrar a posição de classe do narrador
e do narratário. 33
O discurso é preponderantemente não-figurativo, ou seja, \
utiliza predominantemente o componente temático. As figuras que
ocorrem (lugares, datas e pessoas ou instituições) servem para dar
uma ancoragem espaço-temporal aos temas, criando uma "ilusão
referencial" pela construção de uma verdade.
Os percursos· temáticos revestem os programas narrativos.
Como fomos estudando o valor de cada percurso temático e a
--~-~ordem de necessidade a que eles ·respondem, desejamos mostrar
aqui apenas as configurações temáticas a que eles pertencem e a
lógica de todo o discurso, bem como a posição de classe do nar-
rador e do narratário. 34
Como o discurso se pretende fundado num confronto entre
Goulart e as Forças Armadas, ou, ainda, entre o povo e o comu•
nismo, o componente narrativo vai-se construindo de maneira
antitética. Por isso, o subcomponente temático apresenta, implí-
cita ou explicitamente, percursos temáticos em oposição. A antí-
tese é o princípio de construção do discurso, menos no que tange
· à estruturação da sociedade brasileira. Verificamos, além disso,
por força das lacunas presentes na narrativa, que temos, na ver-
dade, um conflito em que, de um lado, está o povo e, de outro,
as Forças Armadas em nome das classes dominantes. Essa antítese
deve, porém, ser ocultada por meio da antítese povo vs. comunismo.

Fazer de Goulart Fazer das Forças Armadas


1. Perdição da democracia 1. Salvação da democracia
(desvio) (restauração) 35
• Crise • Normalidade
• Corrupção • Moralização
• Subversão • Conservação
• Insuflação da luta de • Manutenção do pacto so-
classes cial
• Indisciplina • Disciplina
• Deformação das caracterís- • Manutenção das caracterís-
ticas da alma brasileira ticas da alma brasileira
• Intranqüilidade • Tranqüilidade
• Descristianização • Recristianização
• Fuga do destino do Brasil • Caminhada para realizar o
destino do Brasil
• Escravização dos brasilei- • Manutenção da liberdade
ros
• Entrega. da pátria aos co- • Autodeterminação da pá-
munistas tria
• friação do caos • Manutenção da ordem
(segurança)

119
2. Anormalização política . 2. Saneamento político
o Incitação à desarmonia • Manutenção da harmonia
e Permissão para as ativida- •Derrubada de Goulart
des de comunistas no Con- • Controle do ARE
gresso, nas escolas, nos sin- • Repressão policial
dicatos, no serviço público • Fechamento do Congresso
etc. • Cassação de mandatos
• Suspensão de direitos polí·
ticos
• Reforço do poder executivo
• Aposentadoria, demissões,
reformas. etc., de funcioná-
rios
• Intervenção em sindicatos
• Centralização política • Descentralização política
e ln timidação dos não-comu- • Respeito a todos os brasi-
nistas leiros
• Hostilidade à propriedade • Respeito à propriedade
privada privada
• Descontinuidade adminis- • Continuidade administrati-
trativa va
• Renovação das elites

3. Anormalização econômica 3. Saneamento econômico


e Inflação galopante • Inflação contida
• Paralisação das atividades • Incremento da produção
prod:::aivas (greves)
• Diminuição da . produtivi- • Aumento da produtividade
dade
• Imprevidência administra- • Planej~mento
"tiva
• Aumento da dívida externa · • Diminuição da dívida ex-
terna 36
• Descrédito do Brasil no • Restauração da confiança
Exterior ·· no Brasil
• Estancamento de ingresso • Incremento do ingresso da
da poupança externa poupança externa
• Insolvência financeira do • Solvência financeira do
país país
• Desequilíbrio orçamentário • Equilíbrio orçamentário
• Especulação •Produção
• Ineficiência · • Eficiência
a Indisciplina salarial • Disciplina salarial
e Indisciplina creditícia • Disciplina creditícia
• Indisciplina dos gastos go-- • Compressão dos gastos go--
vernamentais de custeio vernaméntais. de custeio

120
• Manutenção artificial de • Aumento corretivo de pre-
e
preços tarifas -, ços e tarifas
• Desestímulo à prOdução • Estímulo à produção (sub-
sídios, contratos e isenções
de impostos)
• Sobrevalorização do cru- • Recuperação cambial
zeiro
• Diminuição de divisas • Aumento de divisas

4. Estagnação 4. Desenvolvimento
• Não construção de infra- • Construção de infra-estru-
estrutura tura
• Não preparação de recur- • Preparação de recursos hu-
sos humanos manos
• Aperfeiçoamento das insti-
tuições
• Retrocesso • Aceleração
• Atraso • Progresso
• Importação excessiva • Substituição de importa-
ções
• Não modernização da eco- • Modernização dos setores
nomia primário, secundário e ter-
ciário da economia
• Demagogia distributiva • Redistribuição da ·renda
pelo mercado
• Igualdade da política fiscal
• Justiça social
• Ascensão social dos melho-
res
• Democratização do apare-
lho escolar
• Neutralidade do Estado
• Justa concorrência entre
os indivíduos e as empre-
sas
• "Nacionalização" • Internacionalização da eco-
nomia
• "Independência" • Interdependência
• "Neutralismo" 37 • Intervenção em outros paí-
ses

As configurações temáticas e os percursos temáticos indicam


que o discurso propõe, fundamentalmente, a contenção das ca-
madas populares para que se dê um aumento acelerado da mais-
valia. Por isso, ele só pode estar vinculado à formação ideológica
da burguesia associada ao capital multinacional e não à formação
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121
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ideológica do proletariado. Entretanto, a ênfase nos percursos te·
máticos da moralização, da modernização, da ascensão social, da
redistribuição da renda pelo mercado, da manutenção da ordem,
etc. sugere que o problema deva ser um pouco mais aprofundado. 3S
A "revolução" apresenta-se como uma grande mudança sem
riscos de ruptura, isto é, ela não passa pela luta de classes, consi-
derada exógena em relação ao Brasil. E. uma "revolução" a favor
do capital e contra a barbárie, porque se destina a preservar a ci-
vilização cristã ocidental. Interessa, portanto, à burguesia. Segun·
do o discurso, resolver-se-ão os problemas do país pela cooperação
de todos, capital e trabalho. O governo dará a todos meios de as·
cender socialmente, preparando todos para o mercado de trabalho,
e, portanto, a ascensão implica apenas qualidades inatas, trabalho
e constância. O governo pretende moralizar a administração e mo-
dernizar o país.
Por essa junção de temas, observamos que o discurso se di·
rige, antes de mais nada, às classes médias, invocando valores tra-
dicionalmente imputados a elas. Constituem elas o narratário do
discurso .. Não é sem razão que o discurso pretende mostrar que
se deve tornar mais numerosa a classe média rural e urbana, uma
vez que elas são fator de estabilidade do regime (1, 53; 3, 336).
Qual é, porém, a formação ideológica da classe média? Qual é
o seu projeto histórico?
.,Z Trabalhos científicos recentes têm mostrado "que tanto do
ponto de vista histórico efetivo quanto do ponto de vista da posi·
ção estrutural, a classe média não pode ser portadora de um pro-
jeto político autônomo e que, pelo contrário, mesmo quando suas
propostas divergem daquelas defendidas pela classe dominante, a
divergência não chega a constituir sequer um antagonismo real, de
sorte que, bem ou mal, as classes médias estão atreladas às classes
~ dominantes ou a reboque delas. Fundamentalmente, mostra·s~ que
a heterogeneidade da composição e a ambigüidade ideológica, a
despossessão econômica, o medo da proletarização e o desejo de
ascensão fazem da classe média não apenas uma classe conserva·
dora, mas visceralmente reacionária" (Chauí, 1978, 59). Diz Fran-
cisco Weffort que "diferentemente da antiga classe média ameri·
cana, as classes médias brasileiras não tinham a sua principal
atividade social e econômica na pequena propriedade independen·
te, mas em setores subsidiários (administração pública e serviços)
de uma pequena estrutura cuja pauta é dada pela grande proprie·
dade da terra" (1977, 55).
Por ser classe média, as Forças Armadas são porta-vozes do
projeto político da classe dominante em seu propósito de conten-
ção das classesfsubalternas e de modernização económica. A amea-
ça operária, reál ou fictícia, existente no período Goulart, leva essa
classe média a uma prática política contra-revolucionária,. a um

122
desejo de ordem e de volta à "normalidade". Nota Hemani
D'Aguiar que estavam contra Jango as pessoas da "classe média'~
e da "classe mais alta" e que os outros estavam'ª favor dele (1976,
182).
O discurso "revolucionário" alia ao projeto de modernização x_
uma visão do Estado como coisa pública, desvinculada dos inte-
resses de classes ou frações de classes, "fonte impessoal do bem
e da justiça". Além disso, promete ascensão social, dada pela "mão
invisível do mercado" aos que tiverem mérito e tenacidade. Prome-
te a ordem e a normalidade. Acima de tudo, promete acabar com
a corrupção, fonte suprema de todos os males do país.
Por que se pode dizer que esses elementos são próprios de
uma formação ideológica da classe média?
O capitalismo apresenta duas classes fundamentais: burguesia X.
e proletariado. Só essas classes têm projetos políticos próprios,
opostos até o fim. As classes médias, por não serem classe funda-
. mental, não apresentam um projeto político autônomo. Não têm,;<
portanto, uma ideologia própria. A pequena burguesia, em relação
às classes fundamentais, define-se pela negação. É um termo neu-
tro, pois o pequeno-burguês nem é burguês nem é proletário.
Poulantzas afirma que se ·pede falar de um "subconjunto ideoló-
gico pequeno-burguês", constituído dos "efeitos da ideologia bur-
guesa sobre as aspirações próprias dos agentes pequeno-burgueses
relativamente à sua determinação específica de classe". Na adap-
tação da ideologia burguesa, as classes médias inserem temas
específicos que dependem da sua própria determinação de classe
(1975, 314-315). Isso explica por que o discurso revela temas pró-
prios da ideologia burguesa num determinado momento da história
brasileira e temas da classe média.
A contradição do discurso "revolucionário" explica-se também
porque a burguesia não domina diretamente o Estado e o setor
público da economia, que foram ocupados por categorias sociais
pertencentes às classes médias: militares e setores profissionais
de orientação tecnocrática. Por trás do Estado, no entanto, acha-se Y
a aliança entre burguesia local, interesses monopolistas internacio-
nais e setores das classes médias. Essa aliança de classes e frações
de classes "não significa a eliminação dos interesses contraditórios
que elas eventualmente possuam, mas sim a subordinação destas
contradições a outras mais significativas. No fundo trata-se de
uma aliança para, em bloco, tornar possível a oposição a outros
interesses contra os quais convém e é possível estabelecer o acor-
do interno entre as classes dominantes que compartilham algo em
comum. No caso brasileiro, este bloco ~se opõe quase de forma in-
teiriça aos setores populares: trabalhadores do campo e da cidade;
por acréscimo, o novo bloco do poder opõe-se também aos setores
nacional-populistas do passado, mesmo quando burgueses" c(Car-

123
doso, 1977, 80). O discurso também é contraditório, porque o são
'f.. os interesses que esse discurso deve expressar. Defende a espolia-
ção sempre crescente do .operariado e de segmentos de outras
classes assalariadas e fala em. j~stiça social e redistribuição de
x. renda porque deve cooptar grupos das classes médias. Fala a favor
da internacionalização da economia e manipula símbolos nacional-
integradores para mobilizar as classes médias.
O que dá, entretanto, o tom do discurso é o subconjunto ideo-
lógico pequeno-burguês. A classe média é também explorada e
dominada pelo capital, mas de forma completamente diversa da
exploração e dominação sofrida pelo proletariado. A exploração
dessa classe apresenta-se sempre sob a forma do salário. Por isso,
sua grande reivindicação é uma redistribuição de rendas· em seu
Y benefício. A "justiça social" e a existência de uma política social
igualitária é a base do chamado "socialismo pequeno-burguês"
);' (Poulantzas, 1975, 317). Pode, assim, o discurso defender uma ex-
ploração sempre crescente do operariado e uma "redistribuição da
renda" em benefício de segmentos das classes médias. Essa justiça
social, que se dá por meio de melhores salários, elide o papel da
propriedade privada dos meios de produção na exploração e, por
isso, o discurso é sempr~ conservador. ·
X A pequena burguesia é extremamente individualista porque o
seu isolamento da concorrência no mercado de trabalho capitalis-
ta e as suas próprias condições de trabalho não condúzem à socia-
lização dos processos de trabalho e, portanto, à solidariedade de
classe. Por isso, temerosa de se proletarizar e desejosa de se for-
), nar burguesia, aspira à ascensão social individual. Por conseguinte,
está o discurso pontilhado pela crença na ascensão dos melhores
e dos mais capazes, por meio da escolarização. A democracia é,
assim, a "igualdade de oportunidades" aos indivíduos para que os
)( mais aptos participem da "renovação das elites". Quando se fala
em democracia, o discurso não coloca em xeque a questão da es-
trutura do poder político, pois subjaz a ele uma visão pequeno-
burguesa da sociedade: concepção elitista fundada na "meritocra-
cia" e intimamente vinculada às aspirações_ de justiça s,ocial (Pou-
lantzas, 1975, ~17-319).
Já mostramos que o discurso considera o Estado uma força
neutra, cujo papel seria operar uma arbitragem entre as diferentes
classes em função do "interesse geral". Qualquer desvio do Estado
em relação a essa concepção ideal é vista como uma deformação,
corrigível com a racionalização da administração pública. O dis-
curso mostra que, em 1964, o Estado estava deformado pela cor-
rupção e pela subversão, que urgia -extirpar, para que ele voltasse
'!-- a suas verdadeiras finalidades. E_ssa identificação da pequena bur-
guesia com o Estado ocorre porque a classe média está numa
situação intermediária, polarizada entre a burguesia e a classe

124
operária, e.. também por causa do seu individualismo (Poulantzas,
1975, 319). Ademais, "a situação da pequena burguesia em relação '1
ao trabalho intelectual e o fato de que o próprio aparelho do Es-
tado, consagrando a divisão trabalho intelectual/trabalho manual,
esteja situado ao lado do trabalho intelectual; o fato de a organi-
zação estatal apresentar consagração da hierarquia e autoridade
burocratizada à qual está submetida uma grande parte dos agentes
pequeno-burgueses; enfim, o papel dos aparelhos de Estado na
distribuição dos agentes pequeno-burgueses levam a uma identi-
ficação da pequena burguesia com o Estado" (Poulantzas, 1975,
319-320). A corrupção é vista como uma deformação do Estado. Se
ela for eliminada, o Estado poderá cumprir bem seu papel. A visão
política é confusa, estreita e, por isso, o discurso é contraditório.
Defende-se, de um )ado, que o Estado seja um repassador de ren- Y
das para valorizar o capital e, de outro, a justiça social. O discurso V:
é contraditório porque também o é o subconjunto ideológico da
classe que o enuncia.
Na pequena burguesia, freqüentemente, está presente a ênfase
nos "valores morais", na ordem, na disciplina, na hierarquia, na
autoridade etc. (Poulantzas, 1975, 318).
O discurso "revolucionário" é um discurso da e para a classe X
média. Por isso, é conservador, moralista e autoritdrio. Yl

Alguns Procedimentos Discursivos

A Certeza

O discurso utiliza-se de alguns procedimentos para mostrar


que os governantes do período "re:volucionário" dizem a verdade,
enquanto os inimigos da "revolução" não o fazem. Por isso, quando
o enunciador vai expor fatos relevantes para provar o que está
afirmando, não se utiliza da primeira pessoa do singular, que cria
um efeito de sentido de subjetividade, mas retira-se do discurso,
escondendo-se por trás da "neutralidade" dos fatos (diz ."Isso é
assim e assim" e não "Eu penso que isso seja assim e assim").
Esse procedimento cria um efeito de sentido de verdade, pois os
fatos parecem contar-se a si mesmos. Por outro lado, não se loca- 'A
lizam os enunciados num espaço e num tempo precisos. A utiliza-
ção desses procedimentos faz surgirem asserções dogmáticas que
se pretendem eternas e válidas em todos os lugares e que se ma-
nifestam como expressão dos fatos e não como meras opiniões
pessoais.

"Os marxistas, especialistas nessa 'retórica de desagrega-


ção', têm logrado apreciável êxito na tarefa de falseamento

125
de idéias e distorções de julgamento, através da obsessiva
repetição de slogans de intimidação, certos, st'<ffi dúvida, de
que a repetição é a mais importante figura de retórica"
(2, 110).

"O problema da democracia, sobretudo num país ainda


em fase de desenvolvimento, é que ela não pode ser iso-
lada em sua estrutura política. Impõe-se a sua vinculação
ao desenvolvimento econômico - tornado objetivo polí·
tico prioritário - e à abertura de oportunidades em todos
os níveis de participação" (2, 11-12).

Muitas vezes, o enunciador dá indicações do tempo e do espa·


ço em que ocorreram os fatos relatados, mas continua a entrinchei-
rar-se sob os fatos, por meio da criação de efeitos de sentido de
objetividade (não utilização da primeira pessoa do singular).

"A inflação foi o grande trunfo de que se valeram para


acirrar a luta de classes na corrida entre salários e preços,
para desequilibrar as finanças públicas e privadas, para
substituir hábitos de poú'pança por hábitos de consumo
perdulário, para desencorajar investimentos produtivos
em favor de investimentos especulativos" (2, 114).

Se, eventualmente, o discurso usa verbos que significam "di·


zer" utiliza aqueles que indicam certeza total. Não se usa, por
exemplo, o verbo "achar", mas o verbo "afirmar".

"Após um ano de trabalhos ininterruptos, podemos afir-


mar que a Nação está livre da agitação com que se bus-
cava intimidar muitos, anhrtar alguns e, principalmente,
enganar o povo, fazendo-o crer que estávamos às vésperas
de melhores dias, que, na realidade, ficavam cada vez mais
distantes" (l, 26).

A Seleção de Qualificações Semânticas

Quando qualifica os "revolucionários" e os "não-revolucioná-


rios", o discurso usa, respectivamente, palavras conotadas positiva
e negativamente. Em relação a seus inimigos, as qualificações se-
mânticas servem para estigmatizar. Eles são corruptos, traidores,
mercenários, demagogos, etc. Com isso, o que ~se quer é difamar o
inimigo, para que _seus pontos de vista não mereçam sequer exame,
pois eles estão sempre contaminados por interesses subalternos.
Com esse procedimento, pretende-se açular certas parcelas da po-
pulação, para que reajam emotivamente contra certas idéias e

126
certas atividades políticas. Assim, o discurso procura não traba·
lhar com fatores lógicos, mas emocionais. O uso de termos emoti·
vamente conotados converte as afirmações em al,go que o leitor ou
b ouvinte não podem verificar objetivamente. ·

"(O aperfeiçoamento democrático) Dependerá necessaria·


mente de que o espírito de contestação de minorias trê·
fegas ou transviadas, perturbador da vida do país, irres·
ponsdvel ou demagógico, com apelo até as armas do em·
buste, da intriga ou da violência acabe por exaurir-se, ante
o repúdio geral, pelo reconhecimento pleno da realidade
hoje incontestável que é a da implantação definitiva de
nossa doutrina revolucionária" (17, 39).

"Ao aceitar a responsabilidade de Supremo Mandatário da


Nação, procurei comportar-me como o primeiro dos ser·
vidores do povo. Por isso considero-me com autoridade
para um diálogo franco e honesto com os trabalhadores,
cujos sentimentos conheço e cujas aflições partilho (. .. ).
Este governo não agitou publicitariamente a bandeira das
reformas. Executou as que deviam ser executadas, não
contra esta ou aquela classe, mas a favor de todos. Se-
guindo o preceito de Rui Barbosa, o Governo tomou. as
reformas conservadoras onde encontrou o que conservar,
tímidas, onde houve o que respeitar, agressivas, onde hou·
ve o que atacar, e revolucionárias, onde houve o que SU·
perar" (3, 15-16) (os grifos são nossos).

A Mudança Semântica

Existem objetos-valor, que adquiriram uma tal envergadura, X


no transcurso da história, que as forças da reação não estão em
condições de rechaçar ou difamar sem prejuízo para sua campa·
nha. Entre esses, destacam-se "paz", "liberdade'', "democracia". X
Esses elementos, que gozam de valoração universal positiva, são
submetidos a mudanças semânticas por três processüs:
a) Afirma·se que o objeto-valor é desejável, mas, ao mesmo
tempo, reduz-se a sua extensão, por meio de determinações ou de
orações coordenadas adversativas ou por intermédio do estabele·
cimento de condições para que se efetue a conjunção. A análise '.l
desse procedimento permite mostrar os verdadeiros propósitos·,
que são o contrário do que essas palavras exprimem. Essas pala· "
vras que têm uma valoração .universal pos:itiva ~são usadas para
mobilizar os fatores emocionais positivos que sJyinculam a elas.

127
"O anticolonialismo assenta tarito em razões filosóficas ou
morais, como pragmáticas. Deve ser encaradp. como ins-
trumento para a preservação da paz, face iZi. inevitável
ocorrência de guerras de libertação, enquanto persistir o
sistema colonial; como instrumento também auxiliar . . do
desenvolvimento brasileiro, pela extinção de situações de
exploração econômica de certas matérias-primas pelas me-
trópoles, colocando-nos em desvantagem no mercado mun-
dial. ( ... ) Entretanto, a nossa política anticolonial se de-
fronta com o problema dos laços afetivos e políticos que
nos unem a Portugal. ( ... ) Qualquer política realista de
- descolonização não po-de desconhecer nem o problema
específico de Portugal, nem os perigos de um desengaja-
mento prematuro do Ocidente" (1, 113-114).

"A portentosa construção desse futuro realizar-se-á neces-


sariamente .no quadro dv nosso regime democrático, que
- convém aqui destacar - obedece, entre outras, às re-
gras fundamentais: do atendimento das aspirações do t '
povo em geral, excluindo o domínio de interesses de indi-
víduos, grupos, classes ou regiões; da representatividade,
com organização partidária de natureza plural; da substi-
tuição periódica do supremo mandatário, o presidente da.
República.
Tal regime, contudo, é suscetível de natural desenvolvi-
mento, em decorrência de possiJ:>ilidades que venham a
ser criadas pela segurança e pela evolução social. ·
No _aperfeiçoamento do regime e, pois, das estruturas per-
tinentes, dever-se-á, entretanto, evitar o mero formalismo,
impedir o retorno ao passado condenado e não abdicar
das prerrogativas ou poderes que foram atribuídos ao
Governo, enquanto essenciais à realização dos objetivos
concretos e específicos que lhe cumpre perseguir para a
segurança social, econômica e política dos brasileiros. As
modificações necessitam ser realísticas e oportunas, com
franquias que tenham, como contrapartida necessária, a
responsabilidade efetiva, e corresponder incontestavelmen-
te à nossa índole e à vontade política da nação interessada,
sobretudo, em que se não quebre o clima de tranqüilidade
indispensável ao pleno rendimento de seu labor ordenado
e produtivo. Resultarão, basicamente, de progressos que
se realizem na educação do nosso povo e na sua sadia mo-
tivação política, tarefa, essa última, dependente, em larga
escala, da atividade das organizações partidárias" (17, 16-18).

12.R
b) Toma-se um tema do universo temático dos inimigos e l(
dá-se a ele um valor positivo no interior do universo temático con-
trário. o melhor exemplo desse processo, no interior do discurso
que estamos analisando, é o uso do termo "revolução". A "revo-
lução" não dá nomes, que - sejam designadores corretos, a seus
movimentos e que reproduzam de forma condensada suas inten-
ções, mas busca nomes que estejam conectados a emoções positi-
vas amplamente difundidas. J:l por isso que os partidos "revolu-
cionários" foram chamados Aliança Renovadora Nacional e Partido
Democrático Social. ·
c) Dá-se uma valoração negativa a determinadas palavras que i-..
não poderiam ser usadas no universo conceituai "revolucionário'\
Esse processo lembra a 'criação da neolíngua, descrita por Orwell
em seu livro 1984. Assim como da neolíngua se eliminaram todas
as palavras que sugerissem crítica, o discurso "revolucionário"
procura extirpar do seu universo todos os temas que possam tra·
zer problemas a seu ideário.

" ... a modernização das instituições e a reforma dos há-


bitos e costumes necessita ser acompanhada do que eu
chamaria de uma purificação semântica, tanto se alastrou
a intoxicação provocada por slogans viciosos e viciados.
Os marxistas, especialistas nessa 'retórica da desagrega-
ção', têm logrado apreciável êxito na tarefa de falseamen·
to de idéias e distorções de julgamento, através da obses·
siva repetição de slogans de intimidação, certos, sem dú-
vida, de que a repetição é a mais importante figura de
retórica" (2, 11). 41 <<"

"A semântica tortuosa dos demagogos transmudava o mal


em bem e o bem em mal, prenunciando a trágica noite do
naufrágio de nossas .mais puras tradições culturais" (17,
62). <12

O discurso "revolucionário" está em relação dialógica com o ""-.


discurso de seus oponentes. Essa relação dialógica é de natureza
polêmica. À medida que o sistema semântico sobre o quàl repou-
sam os discursos "revolucionários" está fundado sobre uma opo-
sição generalizada ao sistema dos discursos "não-revolucionários",
nenhum elemento do conteúdo escapa à relação polêmica. Mostra-
mos já que todo enunciado narrativo e todo tema do discurso "re-
volucionário" negam o enunciado e o tema correspondentes, ates-
tado ou não, do discurso contrário. Em sua totalidade, o discurso i
constrói-se sobre o pJincípio da antítese e é, portanto, atravessado
pela exclusão do seu "'Outro". As mesmas palavras estão presentes x
nos dois, mas com as mesmas palavras eles não falam das mesmas

129
1.:Ull>é:i~. 1'1.Ud:> l..td dfJ•UCiUC CZ>Ld.UlllUdUC uu:. :.1~11u:o, Ué:i Wilé:i 111com-
patibilidade dos sistemas aos quais é preciso fazer. referência para
interpretar cada signo. Se cada um dos dois pólos da troca polê-
mica 'compreende' os enunciados do outro, ele não o faz senão
traduzindo.os em sua própria grelha semântica" (Maingueneau,
1982, 9-10). .
Castelo Branco traduz, explicitamente, o discurso do outro,
x segundo sua própria grelha semântica. Essa tradução não se faz,
marcando como axiologicamente positivos e negativos os valores
que o outro discurso assinala de modo contrário, pois inverter
pura e simplesmente o positivo e o negativo seria ficar no círculo
do discurso dos oponentes, de que o discurso "revolucionário" se-
ria a imagem especular. Na realidade, ele é um novo sistema de
.,., oposições semânticas. O discurso "revolucionário", para desquali·
ficar o outro, trata os enunciados do adversário como seu próprio
pólo negatívo. O discurso dos oponentes coloca X com semas po-
>: sitivos e não-X com semas negativos. O discurso "revolucionário"
define um novo eixo de oposições: Y vs. não-Y. Para desqualificar
\ X, o discurso "revolucionário" o traduz em não-Y. Assim, ele afas·
ta o sentido "original" do discurso do adversário e chega a um
"simulacro" ao fim de uma transformação semântica que o torna
interpretável e desqualificável, uma vez que o discurso do adver-
sário é traduzido em suas próprias categorias semânticas (cf.
Maingueneau, 1982, 10-12). Faremos uma longa citação de um dis·
curso de Castelo Branco, em que ele retira os conceitos do discur·
so do "outro" de seu sistema semântico e, traduzindo-o, segundo
os eixos do seu discurso, desqualifica-o.

"Nessa estranha linguagem, aqueles que desejall). o desen-


volvimento económico, na medida de uma sociedade de·
mocrática, pregando a cooperação entre as classes e não a
luta de classes, e abertos à cooperação internacional para
evitar a repressão do consumidor, são chamados 'reacio-
nários' e 'entreguistas'; e os que almejam implantar o to·
talitarismo de esquerda, muito menos benéfico à grande
massa trabalhadora do que à oligarquia burocrática do
partido, se intitulam 'as forças populares de vanguarda',
quando não pretendem, com trâgica ironia, ser paladinos
da 'democracia popular'. Alguns empresários que explo-
ramo nacionalismo para proteger a sua ineficiência e pre·
servar posições de monopólio, não hesitando para isso em
apoiar e financiar a esquerda subversiva, passam a ser
membros da 'burguesia nacional progressista'; enqµanto
que outros, preocupados .em absorver recursos e tecnolo-
gia externa, para reforçar nossa poupança e acelerar o
desenvolvimento
.
econômico, são acusados de 'alienados' e ~

130
·ammac1ona1s-. A agressao e a mnnraçao para acorrentar
os indivíduos e nações ao serviço da causa comunista
passam a ser descritas como 'guerras de libertação· nacio-
nal', enquanto os países que preferem resistir a essa sub-
jugação, para decidirem o seu próprio destino, estão ar~
rolados como 'vassalos do imperialismo ocidental'. E que
dizer da suprema deturpação semântica, segundo a qual
os que desejam subordinar nosso sistema de vida e escra-
vizar nossas instituições a ideologias estranhas passam a
ser proprietários e árbitros do 'nacionalismo'? ( ... )
Pois, meus caros amigos, não basta combater a subversão
institucional e a corrupção moral: é necessário, também,
combater a corrupção semântica. (grifo nosso) que distorce
a realidade dos fatos e procura nos impedir a visão obje-
tiva e racional de nossos deveres e de nossas responsabi-
lidades.
Tomemos, para início dessa análise, a raiz de toda a de-
formação de conceitos e de juízos. Nela encontraremos
duas idéias, dois objetivos, que constituem, e devem cons·
tituir, de fato, a motivação mais profunda de todos os
brasileiros: a soberania nacional e o desenvolvimento eco-
nómico. Quem aspira a uma, aspira a outras dessas fina-
lidades, pois não poderá conceber a soberania nacional
construída sobre humilhante dependência econômica. e,
portanto, no campo econômico que as decisões de inde-
pendência política se concretizam e fortalecem. Que assis·
timos, aqui, sobretudo, a partir da metade da década
passada, quando começou a se configurar o irreversível
processo de industrialização do País? Por acaso o comple·
xo político de esquerda passou a refletir igual confiança
em nosso desenvolvimento e em nossa grandeza económi-
ca testemunhada pelos empresários, nacionais e estrangei-
ros, empenhados em abrir i;iovas frentes de· trabalho e
produção? :e preciso atentar para o justo momento em
que surgiram certas teses e interpretações que, pretex-
tando defender nossas riquezas e promover nosso desen-
volvimento, nada mais representavam do que um dissol-
vente de nossa capacidade de afirmação econômica e da
nossa decisão de libertação nacional.
Em linhas gerais, estas teses configuram uma realidade
impossível de ser superada sem a mudança radical do
regime e sem uma política de oposição aos interesses das
democracias ocidentais. Elas descrevem um processo se-
gundo o qual a estabilidade financeira é um instrumento
de injustiça social, por exemplo, e o comércio com os
Estados Unidos uma forma de alienação de nossa sobe-
~ t
f~'i 131
rania nacional e de nossas riquezas minerais. Toda ten-
tativa de ordenar a vida econômica e financeira do país
sofria o anátema de ser submissão aos agentes do impe-
rialismo internacional e, em particular, ao Fundo Mone-
tário lnternaeional. Qualquer tentativa de aproveitar, em
nosso Pa(s,a poupança externa, passava por ser concessão
aos trustes internacionais. Qualquer experiência para ra-
cionalizar o aproveitamento dos recursos minerais do País
passava por ser uma forma de entreguismo desses mes-
mos recursos. A situação cambial do País refletia apenas
o processo de espoliação de que estaríamos sendo vítimas
por força da decisão criminosa das grandes potências im-
perialistas" (2, 110-113).

O Uso de Eufemismos

O discurso "revolucionário" usa, com freqüência, o eufemismo,


que é sinônimo do termo não-eufêmico correspondente enquanto
designador, mas é distinto dele em sua conotação emotiva. Usam-
se, em lugar de arrocho salarial, as expressões "racionalização sa-
larial", "austera política salarial", "fixação do salário mínimo em
nível compatível com as possibilidades da economia", "trégua
quanto ao reajustamento salarial", "manutenção dos atuais níveis
de vencimentos dos servidores públicos para aumentar a capaci-
dade de investimento", "compressão das despesas de custeio"; em
lugar de "inflação galopante", "excitação altista"; em lugar de "re-
cessão", "desaquecimento da economia"; em lugar de "repressão
à classe operária", "recomposição da disciplina produtiva", etc. (1,
14; 2, 13; 2, 14; 2, 75; 2, 78; 2, 87; 2, 95).
O eufemismo diz as coisas sem nomeá-las diretamente. Diz
Cavalcanti Proença que .os militares não são apenas donos do po- .
der, mas "detentores da verdade, donos até da língua portuguesa
e senhores da sua semântica" (1966a, 6).

As Variantes Lingüísticas

O discurso utiliza-se, freqüentemente, de elementos extraídos


do jargão dos economistas, não usa gírias nem termos regionais.
~ Os elementos dos jargões conotam a científicidade e, por conse-
guinte, a objetividade, a neutralidade e a verdade. A não interfe-
·rência de variantes sociais e regionais conota a unidade da nação,
expr-essa na unidade da língua, não dividida em classes ou regiões.
o discurso é o discurso de todos os brasileiros, assim como o são
o governo e a "revolução". A escolha lexical permite mais uma vez
reiterar a ideologia que subjaz ao discurso.

132
O Componente Fundamental
Até agora, estudamos o componente liarrativo e o componente
discursivo. O primeiro ordena os elementos discursivos que a lín-
gua lhe oferece. Os temas ganham sentido à medida que estão
encaixados nas relações que o componente narrativo lhes impõe.
Dado o seu sentido no texto, pudemos relacioná-los com a forma- 'f.
ção ideológica do narrarior e do narratário, que iluminou o seu sen-
tido integral e permitiu que entendêssemos a ordem de necessida-
des a que eles respondem. A partir desse ponto, precisamos encetar
uma outra série de operações: a desmontagem dos temas para com-
preender o sistema que ordena as suas relações. Vamos passar à
lógica que comanda as relações dos elementos no texto, ou seja,
vamos construir o código que ordena aquilo que estudamos nas
estruturas superficiais. Isso implica a passagem de gramática nar-
rativa, que gera a ordenação discursiva, para o patamar profundo
(cf. Groupe d'Entrevernes, 1979, 115).
Devemos decompor as configurações temáticas em traços se-
mânticos:
Perdição da democracia: /operação ativa/ + /transitiva/ + /priva-
ção/ + /desvio/ + /político/ + /ideológico/ + /dbfórico/ ...
Salvação da democracia: /operação ativa/ + /transitiva/ + /volta
ao rumo/ + /político/ + /ideológico/ + /eufórico/ ...
Anormalização econômica: /operação ativa/ + /transitiva/ + /al-
teração da norma/ + /economia/ + /disfórico/ ...
Saneamento econômico: /operação ativa/ + /transitiva/ + /volta
à norma/ + /economia/ + /eufórico/ ...
Anormalização política: /operação ativa/ + /transitiva/ + /alte-
ração da norma/ + /político/ + /disfórico/ ...
Saneamento político: /operação ativa/ + /transitiva/ + /volta à
norma/ + /político/ + /eufórico/ ...
Estagnação: /operação ativa/ + /transitiva/ + /não-aumento/ +
/disfórico/ ...
Desenvolvimento: /operação ativa/ + /transitiva/ + /aumento/ +
/eufórico/ ...
A partir dos traços /desvio/, /alteração da norma/ e /não-au-
mento/, podemos extrair o traço mais geral /alteridade/. Toman-
do os elementos opostos, encontramos /identidade/. A categoria
que possibilita estabelecer relações de identidade e oposição entre
os diversos percursos temáticos e as diferentes configurações te-
máticas é:
/identidade/ vs. /alteridade/
Há, assim, os percursos da Identidade e os da alteridade. Essa
oposição produz efeitos de sentido sobre três lugares semânticos
diferentes: /econômico/, /político/, /ideológico/.

133
O modelo do componente fundamental pode ser assim repre·
sentado:

./ econômico / /econômico/
/político/ /identidade/ /alteridade/ /político/
/ideológico/ /ideológico/
/a/X/b/

/ econômico / /não-b/ /não-a/ /econômico/


/político/ /não-alteridade/ /não-identidade/ /político/
/ideológico/ /ideológico/

A medida que os fazeres de Goulart, segundo o discurso, são


"perder", "estagnar" e "anormalizar", eles correspondem à negação
da identidade. Se conseguisse "comunizar" o Brasil, afirmaria a
alteridade sobre os três planos: económico, político, ideológico. Os
fazeres das Forças Armadas foram "sanear'', "desenvolver" e "sal·
var", "mantendo o capitalismo, a democracia e o cristianismo", ou
seja, l"'l.as negaram a alteridade e afirmaram a identidade. Os per-
cursos de Goulart e das Forças Armadas podem· ser representados
co.mo:

identidade não-identidade alteridade


alterídade não-al teridade identidade

Já vimos anteriormente que o discurso considera a "revolu-


ção" como "luz" e "vida" e o governo Goula,rt como "trevas" e
"morte". A oposição luz vs. trevas é emprestada dos elementos da
natureza. Assim, duas articulações semânticas poderiam surgir:

/natureza/ vs. /história/


/vida/ vs. /morte/ 44

O fazer de Goulart, segundo o discurso, é negar os valores


/vida/ e /natureza/ e afirmar os valores /morte/ e /história/. O
dos militares é o inverso. 45 Os valores /vida/ e /natureza/ são ho-
mólogos ao valor /identidade/; /morte/ e /história/ são homólo-
gos ao valor /alteridade/.
O componente fundamen'tal do texto manifesta a ideologia
que ele veicula: a repetição do mesmo, por meio da negação da
história. A história "revolucionária" é uma anti-história porque
nega qualquer transformação e pretende voltar ao valor inicial,
que deve ser infinitamente repetido. A história é a morte, porqúe
implica mudanças na sociedade, o que deve ser evitado.

134
NOTAS

(1) "Catálise é a explicitação dos elementos elípticos que faltam na· estrutura ·
de superfície. Esse procedimento se efetua com a ajuda de elementos contex-
tuais manifestados e graças à relação de pressuposição que eles entretêm com
os elementos implícitos" (Greimas, 1979, 33).
(2) O seu slmbolo eleitoral era uma vassoura, que figurativi:zava a erradicação
da corrupção. A marchinha que servia para divulgar a sua candidatura come·
çava com os seguintes versos: "Varre, varre, vassourinha; /varre, varre a
bandalheira. /O povo já está cansado/ De sofrer dessa maneira".
(J) Não cabe aqui uma análise detida de todos os lances da campanha de
1960, como, por exemplo, a recusa de Kúbitschek de aiudar Lott em sua
campanha, a ajuda posterior daquele a este; a renúncia de Leandro Maciel
(UDN), candidato à vice-presidência na chapa de Quadros; a indicação de
Milton Campos para concorrer tlO cargo, as denúncias da existência de um
"movimento continuísta" para manter Juscelino no cargo, os programas dos
candidatos.
(4)"Pode haver, no caso da renúncia, um destinador que obriga o sujeito a
renunciar, modalizando-o segundo o dever. Há, então, um /dever-renunciar/.
Pode ocorrer também que um anti-sujeito, na confrontação com o sujeito,
neutralize o poder deste e impeça-o de executar o seu fazer. No caso de Jânio,
o anti·suieito foi figurativizado, na ocasião da renúncia, como "forças terrí-
veis". Cf. Carta de iânio Quadros escrita por ocasiifu da renúncia. Apud
YOUNG, J.M., 1973, 123.
(5) "Nota coniunta dos três ministros militares sobre a posse do Sr. João
Goulart na presidência da Repl1blica." Apud DlNES, Alberto et alii, 1964,
387-388. Não é ainda a nosst;1 intenção analisar a posse de Jango do ponto de
vista' do discurso do poder. Cingir-nos-emos, neste passo da análise, somente
aos fatos e, por isso, dei:wremo.s vazios certos pontos da narrativa, que serão
preenchidos posteriormente.
(6) Uma narrativa é uma sucessão de estados e de transformações. Um estado
é uma relação de disjunção ou de conjunçiÜJ entre um sujeito e um obiefo.
(0 homem não é rico/O homem é rico.) Uma transformação é uma alteração
da relação entre o suieito e o objeto. (O homem tornou-se rico: passagem de
um estado de disjunção com a riqueza a um estado de conjunção com ela.)
Os papéis narrativos são: sujeito de estado é o que está em relação disjun-
tiva ou coniuntiva com um objeto; objeto-valor é o que está em relação com
um sujeito; sujeito do fazer é o que opera qualquer transformação; objeto
modal é o objeto que o sujeito precisa ter para realizar uma transformação
(são eles: querer, dever, saber, poder); destinador é o que atribui os objetos
modais ao sujeito do fazer, que nessa correlação assume o papel de destina-
tário, e o que realiza a sanção.
Como a disiunção para um sujeito corresponde a uma conjunção para outro
e vice-versa (ex.: Dei minha blusa a ela; à minha disjunção com o objeto está
correlacionada uma conjunçifu para, ela), o fater projeta sempre o seu con·
trário. Assim, a um sujeito do fazer corresponde um anti-sujeito, que é aquele
que realiza um fazer contrário ao. do sujeito (cf. Greimas, 1979). O esquema
canónico da narrativa tem quatro fases: manipulação (aquisição de um
querer e/ou dever), compet~ncia. (aquisição de um poder e/ou saber), perfor-
mance (transformação princip~l) e sanção (reconhecimento de que a perfor·
rnance foi executada).
(l) "A parassinonímia (quase-sinonímia) é a identidade parcial de dois ou vá·
rios lexemas, reconhecfvel por sua intercambialidade somente em certos con·
textos" (Greimas, 1979, 268).

135
(8) Sema é um traço distintivo do significado.
(9) Essa conjunção é a manifestação de um poder-ser inato.
(10) No contexto, cursos de Direito.
(11) Não é nossa intenção, neste trabalho, por não ser ele uma análise hist6-
rica do movimento de 1964, mas sim um estudo do discurso do poder, discutir
as. razões da necessidaáe que teve o movimento, que levou Goulart à deposi-
ção, de obter a legitimidade popular. Apresentamos, a título de ilustração, as
razões apontadas por René Armand Dreifuss. Diz esse autor que a burguesia
industrial-financeira multinacional e as?ociada teve que conseguir o apoio de
frações economicamente subalternas que faziam parte do "bloco oligárquico-
industrial", porque este ainda dominava os partidos regionais, as representa-
ções industriais, os media e os governos dos Estados e porque precisava diluir
a presença marcante dos interesses multinacionais no esforço contra o gover-
no ru:r.ckmrd-refelrmista de Jango, porque senão a campanha se tornaria extre-
mamente vulnerável aos ataques da esquerda. Essa incorporação de interesses
economicamente subalternos foi reforçada com um certo apoio dado pelas
classes médias mobilizadas, que fez com que a esquerda perdesse seu objeto
de oposição bem definido e com que a intervenção militar fosse legitimada
em nome do "povo" (1981, 483).
O objeto deste trabalho não permite que discutamos a validade ou não das·
conclusões a que chegou o autor citado, mas nos leva a tentar descobrir o
que fez. o discurso do poder para manifestar essa legitimidade.
(12) Simulacro é um objeto imaginário construído pelo sujeito, que o projeta
fora dele.
(13) Uma operação reflexiva é aquela em que o mesmo ator exerce dpis papéis
narrativos. Uma operação transitiva é aquela em que não ocorre esse sincre-
tismo (cf. Greimas, 1979, 313 e 402}. •
(14) Iso.topia é a recorrência de categorias sêmicas ao longo de um texto. Para
o leitor, é um plano de leitura que torna homogêneo um texto. Por exemplo,
o plano de leitura sobre o qual se deve ler uma fábula é o plano das ações
humanas. Por isso, uma fábula não é uma história de animais (cf. Greimas,
1979, 197-199}. .
(15) Diz. Castelo Branco: "O. Poder Nãdbnal ou. Estatal (observe-se a identifi-
cação do Estado com a nação) assenta-se em fatores palíticos, econômicos,
sociais e militares, não podendo um deles limitar as faculdades do outro, nem
tutelar o pader supremo. Nem mesmo um equilíbrio deverá ser almejado, já
que poderia dar lugar à estagnq,ção e, conseqüentemente, ao desperdício de
forças inocuamente consumidas. Na realidade, a. característica do Poder reside
no dinamismo de cada setor, que, dentro dos limites das faculdades de cada
qual e do dever de mútua cooperação, atua em benefício do País" (1, 59}.
(16) O perigo, no discurso "revolucionário", é o comunismo (cf. 1, 53; 1, 58}.
(17) Relação hiponímica é uma relação parte-todo.
(18) Retaçlla hipotdx{ca ~ uma retação Tilerârquica üganão dois termos perten-
centes a categorias sêmica.s distintas.
(19) A utopia tem aqui o sentido de projeto irrealizável, um /querer-ser/ que
traz consigo um /poder-não.ser/, uma impossibilidade.
(20) Essa imobilidade é. transitória, pois dura até que se agucem as contradi-
ções provocadas por ela.
(21) No caso, o enquadramento dos' costumes numa axiologia determinada,
que estabelece o cânon.
(22) A incompatibilidade semântica define-se em função da relação de contra-
dição entre frases. Se F,, explícita ou implicitamente, nega F:u então, F, e F,
são contraditdrias. Se F1 e Fz diferem apenas em que uma tem uma unidade
lexical X e a outra tem Y, então as duas unidades lexicais são incompatíveis
(Lyons, 1979, 486).
(23) Basta, para isso, consultar as coleções de jornais de 1964, 1965 e 1966 e
verificar as conclusões dos inúmeros JPMs instaurados.

136
(24) Para citar apenas alguns dos mtíltiplos es~ndalos que agitaram 0 país,
depois de 1964, recordemo-nos dos casos Delfin,!"Capemi, Baumgartem, Coroa-
Brastel.
(25) A cólera é a lexicalit.ação de um estado disfórico violento que contém os
semas /disforia/, /intensidade/, /agressividade/. Mesmo os amantes da paz
são tomados de cólera sagrada (cf. O episódio da expulsão dos vendilhões do
templo: lo, 2, 13-17).
(26) A tortura também é uma forma de persuasão segundo o poder. Efetuamos
essa distinção, no entanto, pensando em diferenciar uma persuasão pragmá-
tica de uma cognitiva. ·
(27) Para estabelecer esse modelo narrativo baseamo-nos principalmente nos
seguintes textos: 2, 47; 2, 110; 2, 298, 3, 5; 3, 363-364; 17, 24-25; 17, 85-86; 17, 110.
(28) Não podemos, nos limites deste trabalho, tomar partido na polémica que
se _travou sobre o problema da troca desigual. Com o que afirmamos acima,
quisemos apenas mostrar que as afirmações do discurso oficial brasileiro são,
pelo menos, polémicas. Não são verdades inquestionáveis como quer demons-
trar o discurso "revolucionário". Sobre o assunto, consultar, por exemplo,
MANDEL, Ernest," 1982, Cap. 11, 243-264; EMMANUEL, A. L'échange inégal.
Ver também as notas teóricas de Charles Bettelheim, na obra citada de Emma-
nuel, 297-341.
(29) Reciprocidade entre dois termos se dá quando, afirmando-se um, afirma-se
o outro e, negando-se um, nega-se o outro (11J79, 496498).
(30) Cabe notar, como lembra Comblin, que o cristianismo, nas formulações
dos ideólogos da segurança nacional, não é uma referência à doutrina de
Cristo, mas "um conjunto de slmbolos tradicionais negados pelo comunismo".
Porque são negados pelos marxistas, devem ser defendidos pelos "democratas"
(1978, 71-72). Não passam, porém, de sim!Jolos. Se assim não fosse, parcelas da
Igreja que se opõem ao governo não seriam perseguidas.
(31) Dêixis positiva é a dimensão semântica que reúne por relação de impli-
cação b e a,· dêixis negativa é a dimensão que engloba ã e b.
(32) Tomar o efeito pela_ caúsa é freqüente no discurso. Diz-se, por exemplo,
que a demagogia janguista, interessada em iludir as populações urbanas, deu
as costas ao trabalho e ao clamor dos que vivem no campo, o que propiciou
um acentuado êxodo rural e demasiada concentração urbana, ao mesmo
, tempo que a produção agropecuária não acompanhou o crescimento popula-
' cional e isso levou a uma majoração dos preços (3, 138). As causas do subde-
senvolvimento são, de acordo com o discurso, o fatalismo e a tradição de
dependência em relação ao paternalismo do Estado (3, 211).
(33) Narrador é quem diz eu no interior do discurso; narratárío é o tu inscrito
no discurso.
(34) O percurso temático é a manifestação recorrente e disseminada, ao longo
do discurso, de um tema que pode ser reduzido a um papel temático. Temos,
por exemplo, num discurso cristão, o tema da salvação. Esse tema pode ser
reduzido ao papel temático do salvador. Os percursos temáticos aparecem
como realizações de coflfigurações temáticas que, de certa forma, englobam
um conjunto de percursos temáticos, constituindo um dispositivo de conjunto
(Greimas, 1979, 393, 58-éO).
(35) As configurações temáticas serão· apresentadas numeradas. Embaixo de
cada uma delas, arrolar-se-ão os percursos temáticos que as realizam. Só
foram listados os percursos temáticos mais significativos.
(36) Dizer que, no governo Goulart, houve aumento da dívida externa é con·
tradizer o ·percurso temático de "estancamento do ingresso da poupança ex-
terna", atribuído pelo discurso ao mesmo governo. Ê um exemplo de violação
da lógica das proposições, pois dois percursos temáticos incompatíveis, isto é,
mutuamente exclusivos, são atribuídos ao mesmo ator. Ademais, esse percurso
não está conforme com a realidade, pois Juscelino entregou o governo com
dívidas externas que mon1avam a 3,4 bilhões de dólares, lânio reduziu.as para
3,3 bilhões e Jango para 3,1 bilhões (Folha de S. Paulo, 06/03/1983, p. 31). ·

137
(37) Colocamos os três últimos percursos entre aspas porque mais adiante
veremos como o discurso "revolucionário" os lê. A sua leitura não dd a eles
o sentido que se pode dar, estabelecendo entre esses percursos temdticos e
os percursos correlatos das Força$ Armadas uma relação de contrariedade.
(38} A inspiração para desenvolver este aspecto do nosso trabalho veio-nos da
leitura de um texto de Marilena Chauí (Chaul & Franco, 1978, 49-111);
(39} Embora julguemos que o esboço feito da vinculação entre temas e posição
de classe do narrador e do narratdrío seja correto, é preciso um estudo mais
aprofundado sobre as classes médias no Brasil e sua formação ideológica,
para que a relação seia mais claramente apresentada.
(40) A "revolução" também não se esqueceu de que a repetição é a mais lm·
portante figura de retórica no jogo do discurso político. Por isso, no governo
Midici, usaram-se muitos slogans: "Pra frente, Brasil"; "Brasil: ame-o ou
deixe-o", etc.
(41) Cabe observar que essa frase é, sem dávida alguma, a mais perfeita des-
crição do discurso "revolucionário".
(42) O valor da vida IÍ colocado em relação com uma indicação espacial /alto/,
e o da morte, com a indicação espacial /baixo/. A figura do "abismo" com·
prova essa afirmação.
(43) O que permite estabelecer a oposição /natureta/ vs. /história/ é a afirma·
ção de que Goulart pretendia esmagar os valores da atma brasileira, imp(an-
tando, no Brasil, um regime político baseado numa ideologia exótica, repelida
pelo caráter nacional.

138
lll. A SACRALIZAÇÃO DO DISCURSO
POLÍTICO~

O Discurso Rellgio5o e o Discurso Político

~ extremamente difícil definir o que seja discurso religioso, ·


pois ele apresenta uma enorme variedade. A Bíblia contém discur·
sos proféticos, evangélicos, apocalípticos, epistolares, etc. O discurso
teológico e o discurso militante, o discurso místico, o discurso li·
túrgico da prece e do sacramento também são discursos religiosos.
Que é que unifica todos esses discursos de modo que a eles se
possa aplicar o rótulo de discurso religioso? Os crentes não se co-
locam esse problema. Para eles o discurso religioso é o que fala
de Deus e dos seus propósitos em relação aos homens. O analista,
entretanto, deve explicar quais são os mecanismos que engendram
o efeito de sentido que se denomina "religioso" e a ordem de ne·
cessidades a que responde a produção desse efeito de sentido (cf.
Delorme e Geoltrain, 1982).
Hoje,. na América Latina, a delimitação do que seja discurso 'f..
religioso causa problemas até mesmo para os crentes, pois mem·
bros da classe hegemônica têm acusado, principalmente, certos
setores da Igreja Católica de se afastar da religião e de se imiscuir
em assuntos políticos, pregando a luta de class.es. Dizem que os
padres transformaram os púlpitos em palanques. No entanto, os
"teólogos da libertação" continuam a falar de Deus e de seus de·
sígnios em relação aos homens. A chamada "opção preferencial
pelos pobres", tomada nas conferências episcopais de Medellín e
Puebla, alterou, porém, de alguma forma, o discurso religioso.
Um discurso religioso, que propõe não mais a submissão, mas
a transformação das estrutúras sociais (reforma? revolução?),
apresenta novidades que incomodam a burguesia. Ter-se-á, entre-
tanto, politizado esse discurso, deixando de ser religioso? A res·
posta é matéria de outro trabalho. Fica apenas apontado o pro-
blema. ·
O discurso político, por seu turno, parece apresentar uma
variedade menor. O militante sabe, intuitivamente, que o discurso
político é o que trata qa política nas diferentes acepções que essa

139
palavra assumiu_ Isso parece circunscrever, com certo rigor, o que
é discurso político. No entanto, também a definição do discurso
político passa a tornar-se mais fluidá, quando começam a ser ele-
vados à categoria de discurso político certos discursos sobre prá-
ticas que não estavam presentes· na concepção tradicional de po-
lítica. Fala-se em política do corpo, em politizar a sexualidade, ·etc.
Assim como há reações contra as transformações que ocorrem no
âmbito do discurso religioso, há resistências às alterações no in-
terior do discurso político (cf. Landowski, 1982).
Esses discursos diferem não só em seu conteúdo, mas também
em sua sintaxe. Com base em sugestões presentes nos artigos de
Jean Deforme ·e Pierre Geortrain (1982) e de Eric Landowski (1982),
arrolaremos algumas características do discurso religioso e do dis-
curso político militante. O elenco constitui apenas uma hipótese
que deverá ser testada em um número maior de discursos. Deve-se
observar ainda que só trataremos do discurso religioso cristão.
Não é uma única característica que define o discurso político
ou o discurso religioso, mas sua totalidade. Assim, algumas carac-
terísticas, elencadas para definir o discurso político ou o discurso
religioso, poderão ser encontradas na definição de outro tipo de
discurso. Isso não importa, pois é o conjunto das características
que tem um valor definitório.
X Comecemos por analisar o discurso religioso. Ele apresenta ao
homem, fundamentalmente, um programa de ação. O discurso re-
ligioso opera sobre a dimensão cognitiva, exercendo um fazer per-
suasivo, que propõe ao homem (destinatário) a execução de um
fazer, ou seja, propõe um dever-fazer. É o discurso do fazer-dever-
fazer. Instaurà, então, um sistema de modalidades deônticas que
expressam os termos contrários dever-fazer (prescrição) e dever-
não fazer (interdição). 1
Por outro lado, o discurso comunica um saber sobre o desti-
nador (a divindade). Mostra que sua competência é totalizadora
(onipotente e onisciente). A sua vontade (querer-fazer) não está
submetida à de nenhum outro mandante, em relação ao qual ele
é o executante.. . . .
Recebendo o discurso e aderindo a ele, o destinatário tem a
modalidade do dever e do saber. O poder também tem origem
nesse destinador. O próprio /poder salvar-se/ foi dado ao homem
pelo destinador pór meio do sacrifício de seu Filho, que desfez o
dano primordial. O poder é delegado ao homem e suas ações terão
sucesso à medida que decorrerem da vontade inscrita anterior-
mente pelo destinador. Só há o querer desse destinador.
A manipulação executada pelo discurso é da ordem do poder:
tentações e intimidações são propostas ao mesmo tempo:~
No nível do discurso, o destinador é figurativizado como
"Deus". Ele é o enunciador primeiro, quaisquer que sejam os

140
enunciadores dos textos particulares. Uma característica impor- 1
tante no discurso religioso é que o enunciador primeiro está sem-
pre correlativamente ligado ao papel narrativo de destinador.
As qualificações do ator "Deus" são: não pertença à ordem
dos destinadores (divino e não-humano), onipotência, onisciência,
eternidade e perfeição. O enunciado relembra essas características.
A história da criação do mundo mostra que Deus tem todas as li: ·
características apontadas, pois, nela, conta-se que ele estabelece
uma relação entre sujeito e objeto, sem que antes existissem su-
jeito ou objeto. A narrativa da criação funda o discurso religioso
sobre um a priori histórico.
A enunciação também lembra esses atributos. Se o enunciador
é onisciente, o enunciado deve ser marcado pela modalidade da
certeza total. Ppr isso, não ocorrem elementos gramaticais ou le-
xicais que indicàm dúvida ou incerteza. Se o enunciador é eterno,
seu tempo é o tempo da eternidade, ou seja, o não-tempo e, por
isso, sua palavra é sempre verdadeira e normativa no presente de
cada um a quem o discurso se dirige. Por isso, faltam a esse dis-
curso marcas temporais que localizam a mensagem num tempo
determinado. Da mesma forma ela é válida para todos os homens
de todos os lugares. Por isso não há indicadores de lugar nem es-
pecificadores ou partitivos. O fato de o enunciador primeiro ser
Deus faz com que raramente apareça no discurso a primeira pes-
soa do singular. Esta só aparece em discurso direto: Deus disse:.
- Eu ... Cabe lembrar que geralmente a palavra divina aparece
relatada em discurso dfreto, porque este cria um efeito de sentido
de verdade à medida que sugere que se manteve, na íntegra, a
palavra do outro.
O castigo e o prêmio, figurativizados como "céu" e "i!J~erno",
são uma disjunçao com um papel temático, com um espaço e com
um tempo. A queda primeira ocasionou uma discursivização do
homem, ou seja, uma inserção na história. O seu castigo levou-o a
sofrer as contingências de sua actorialidade (sexualidade e traba-
lho), de sua espacialidade (convivência não harmoniosa com a na-
tureza) e de sua temporalidade (morte). Só não sofrerá as contin-
gências humanas quando for desdiscursivizado, isto é, quando
estiver fora do corpo (ou quando o espírito dominar o corpo na
"ressurreição da carne"), do tempo e do espaço. No final dos tem-
pos, como no princípio, haverá apenas o Logos absoluto, despido
das figuras actoriais, temporais e espaciais. O discurso religioso
proclama o fim da história e, portanto, mostra sua finalidade: ofe-
recer ao homem parâmetros para compreender a história por um
sentido meta-histórico. 2
· Os que aceitam ser deonticamente modalizados são marcados
pelo traço /eufórico/; os outros, pelo traço /disfórico/. No mo-

141
mento da sanção, os primeiros entrarão em conjunçãc:t com Deus,
o Verbo; os outros ficarão em disjunção.
O destinatário é sempre individual. Embora a manipulação
seja proposta para todos, a sanção é individual e incide sobre o
fazer individual. 3
'lo( O discurso religioso teológico ou militante é. um discurso in-
terpretativo sobre um discurso primeiro, explicitamente assumido,
que constitui seu referente.
Segundo Jean Delorme e Pierre Geoltrain, isso traz importan-
tes conseqüências (1982, 113-115):
a) O texto comentado não é fonte nem- matriz dos discursos
que a ele se referem. O comentário não designa o significado do
texto comentado, mas produt signüicantes para oferecer ao texto
um novo contexto, que permite efetuar dois tipos de recategoriza-
ções. De um lado, enunciados narrativos deslocam-se ao longo do
esquema narrativo. De outro, as figuras do texto comentado po-
dem encontrar-se em configurações ·discursivas, no seio das quais
o comentário seleciona outros percursos e outros valores. Por
exemplo, pode-se entender a morte de Cristo como sanção ou atri·
buição de competência; a paixão pode ser lida no percurso da
morte ou do assassinato. Essa recategorização permite variar a
leitura do texto comentado, Em síntese, o discurso religioso mili-
tante designa explicitamente o seu outro, tendo uma função cita·
tiva bem clara, e tira dele sua autoridade, ao mesmo tempo que
torna seus significantes disponíveis para outro uso.
b) No plano da enunciação, o texto comentado funda sua ver·
dade, anulando-se como discurso e afirmando-se como reescritura
do texto citado. Faz isso eliminando a primeira pessoa do singular
e citando a palavra de Deus sempre em discurso direto. Dessa
forma, ele faz os enunciatários do discurso (aqueles a quem a pa-
lavra é dirigida) reconhecerem o enunciador "verdadeiro".
c) O Logos é o enunciador (que fala) e o enunciado (de quem
se fala). O Logos é a categoria fundadora da história e é a própria
história. "No princípio era o Verbo ... " O Verbo, ao se enunciar,
cria a história. É sobre esse discurso primeiro que os outros dis-
cursos falam. Dessa forma, o texto fundador abre novos espaços
de discurso.
d) O caráter atemporal do discurso religioso, que parece afas-
tá-lo das circunstâncias históricas que o engendraram, une o texto
das Escrituras a múltiplas referências históricas porque é utili-
zado como texto de referência e lido em contextos históricos muito
diferenciados. Sem contradição, afirma-se que há um discurso não-
temporalizado e não-espacializado, que se temporaliza e se espa·
cializa no comentário.
· O discurso religioso desencaqleia uma operação fiduciária do-
minada pelo crer. Destina-se a persuadir o destinatário, fazendo·o ·

14?
aderir ao objeto do saber de forma a tornar-se um crente (dever-
ser). Nele, a certeza sobredetermina a necessidade. Se p é indubi-
tável, então deve-ser (Fontanille, 1982). O saber veiculado nos dis-
cursos é um saber sobre o não-saber ("mistério"). Por isso, diz:se
que o discurso religioso pressupõe a crença na revelação.
Finalmente, o discurso religioso propõe um contrato entre
Deus e o homem. Este, por sua vez, lutará contra o "mal", pro-
curando vendê-lo. A História é um contrato; a história é uma luta.
O único agente da História é Deus. A luta contra o mal funda-se
sobre três objetos-valor: pureza, pobreza e obediência. A conjun-
ção com cada um deles implica a disjunção com o seu contrário:
prazer, riqueza e afirmação. O homem luta consigo mesmo, pois
nele está o mal. Assim, as operações de disjunção e de conjunção
são reflexivas.
No componente fundamental, trabalha-se com uma oposição
semântica: /identidade/ vs. /alteridade/. O homem, criado à seme-
lhança de Deus, difere dele pelo pecado. Pela pureza, obediência
e pobre:;;a, assemelha-se ao Criador e volta a seu- seio. O discurso
utiliza-se da união de termos contrários, fazendo aparecer os ter-
mos complexos e os neutro~, para fundar urna nova axiologia:
Cristo (homem e Deus), Maria (virgem e mãe), anjos (nem homens
nem deuses), homem (corpo e alma).
A modalização fundamental do discurso político é o poder. O
discurso político tem dois componentes: um fazer interpretativo,
que trata da "realidade" e que constitui o componente "politoló-
gico" do discurso, e um fazer persuasivo, que é urna maneira de
agir sobre ,um público-enunciatário, visando ao exercício (ou torna-
da) do poder sobre aqueles a quem ele se destinà (Landowski,
1982, 163). Por causa desses dois componentes diz-se que o discurso
político se engendra a partir da realidade e fala do que efetivamen-
te ocorre e não do que deveria ocorrer. Por falar do que acontece,
o discurso político não proclama o fim da história, mas move·se
no interior de urna história real ou fictícia.
O enunciador aparece, no discurso político, explicitamente
como suporte "subjetivo" da narração ou é pressuposto por um
discurso enunciado sobre o modo aparente da "objetividade" (~
preciso ... ). Da mesma forma, as pessoas a quem o discurso se
dirige podem estar explicitamente inscritas no discurso ou não
(Landowski, 1982, 165).
Uma das características que distingue o discurso político do f..-
discurso religioso é que, neste, o enunciatário é o destinatário de
um dever-fazer e o enunciador é o destinador, enquantQ, naquele,
o enunciatário (eleitor etc.) é também, no plano narrativo, um des·
tinador, convidado a transmitir o poder ao candidato; fazendo-o
um sujeito competente, ou a sancionar positivamente o sujeito do
fazer; o enunciador é correlativamente o destinatário. Essa corre·

143
. .
lação entre posições narrativas e discursivas é constante no discur-
so político (Landowski, 1982, 163-165).
O discurso político é um discurso de busca de poder. No en·
tanto, deve ele afirmar um querer-ser e um saber-fazer do enun-
ciador, ou seja, o político que busca o poder deve afirmar seu
desejo de ser investido do poder e sua capacidade (saber) de sa-
tisfazer às necessidades e reivindicações dos atores sociais. Afir-
mando seu querer e seu saber, solicita ao povo que lhe dê o poder.
Mesmo quando o político está investido do poder, ao se dirigir ao
povo pede mais poder, pelo menos sob a forma de renovação da
confiança e do apoio. :aecessári<> para que ele continue a realizar
sua tarefa (Landowski, 1982, 167-168).
Mesmo quando o discurso político se dirige ao enunciatário ·
para propor um dever-fazer, ocorre a busca do poder, na medida
em que pretende colocar o enuncia tário como adjuvante do fazer do
governante.
Deve-se ressaltar que, no momento em que o enunciador é pro-
visoriamente instaurado como sujeito competente, sua competên-
cia não apresenta uma "estrutura monolítica". Os discursos dos
dirigentes, mesmo os mais autoritários, buscam sempre vincular
suas decisões à vontade de algum mandante, em relação ao qual ·
eles não são senão simples executantes. O dirigente, ao colocar-se
como executante, procura mostrar que o Poder não age por sua pró-
pria conta, mas em conformidade com um programa imposto a ele
de fora por uma instância destinadora sobre a qual ele não tem
controle. Essa instância pode ser figurativizada sob a forma de
um destinador social (a nação, a opinião pública, o partido etc.),
que pode prescrever uma linha de ação, ou sob a forma de uma
necessidade (leis econômicas etc.), que obriga o destinador a agir
de uma certa maneirw (Landowski, 1982, 168). Observemos alguns
exemplos:

"Estarrecida ante os extremos a que, em órgãos e servi-


ços ligados .à juventude,. atingira a corrupção e a subver-
são de agente do poder público, a Nação adquirira a
consciência de que a educação constituía um dos focos
em que mais urgente se tornava urna presença saneadora.
Daí os aplausos oom que tem recebido os esforços do
Governo para repor a ordem nesse importante setor da
vida nacional" (2, 166).

"Não se violam impunemente os princ1p1os da economia.


Os que mais falavam, em passado recente, na melhoria do
padrão de vida do trabalhador foram os que mais rapida·
mente destruíram o salário real do operário pela acele-
ração da inflação e mais cruelmente lhe roubaram ,opor-

144
tunidades de emprego e melhoria social pela estagnação
econômiéa" (3, 9).

A respeito de o Poder considerar-se manipulado, diz Lan-


dowski:

"Nominalmente, o Poder permanece o Poder, mas, ao


mesmo tempo, do ponto de vista actancial, ele entra na
lista de um simples agente manipulado: preso entre as
exigências e as resistências do 'real' (entre o· que ele deve
fazer em· consciência e o que deve ser em realidade), ele
não exerce mais do que uma margem muito estreita de
liberdade. Em contrapartida, é aí que reside o risco da
operação; essa situação de sujeição que o Poder ostenta
1 confere à sua ação uma base 'objetiva' e torna a sua
palavra 'legítima' na medida em que uma e outra pro-
curam traduzir diretamente uma ordem superior de valo·
res ou de coisas. Raramente, sem dúvida, o enunciador
do discurso de autoridade se mostra tão abertamente
manipulador como quando se pretende assim 'manipulado'
(1982, 167-169)". 4

Do ponto de vista do saber, o sujeito político apresenta-se


como um expert. Usa os argumentos científicos mais sofisticados
em sua análise da realidade. Não apresenta dúvidas ou contradi-
ções. À medida que se quer racional, o discurso político entra no
campo da polêmica entre especialistas. O discurso. político coloca-
se no interior da racionalidade científica, fala do que é, com vis-
tas à transformação da realidade. Desencadeia uma operação fi.
duciária, dominada pelo saber. Destina-se a convencer o enuncia-
tário, fazendo-o admitir um objeto de forma a tornar-se um "con-
sentidor". No discurso político, a certeza sobredetermina a pos-
sibilidade. Entretanto, parece que colocar o debate no terreno da
argumentação técnica e da controvérsia entre "especialistas" tem
por efeito mascarar uma outra ordem de processo do ponto de
vista dos enunciatários, "porque a despeito de todos os esforços
para racionalizar o debate social e fundar a decisão política na
razão, poder-se-ia dizer que não há mais nessa .matéria 'verdade
reconhecida' senão em função de um reconhecimento prévio do
sujeito que a enuncia: diz verdade aquele em quem eu tenho
confiança". A "personalização" da vida política não tem talvez
outra fonte; vota-se na credibilidade de alguém e não em argu-
mentos objetivos de ordem política. Isso coloca sobre a dimensão
do saber a do crer (Landowski, 1982, 169). "'
O discurso político tem a finalidade de fazer-fazer, ou seja,
seu programa é conquistar "poder". Mobilizam-se as pessoas pro-

145
<luzindo um fazer-crer, por meio de narrativas, destinadas a dar
um sentido à História. O discurso político dispensa qualquer a
priori histórico, mas pressupõe uma visão de mundo. e uma his·
tória do presente (Landowski 1982, 170). A narrativiuçãO dos con-
teúdos políticos pode ser feita de duas maneiras diferentes: o
contrato e a luta. Pode-se dizer que, no campo da política, tal
como tem sido encarada, há dois tipos de configurações sintá·
xicas principais: o discurso "revolucionário" e o "conservador".
O primeiro dá primazia ao combate; o segundo, ao contrato. 5
O discurso polêmico tem como modo de narrativização a
"luta de classes". O seu fazer último, hoje, é a destruição da so-
ciedade de classes e a construção de uma sociedade sem classes.
Ao discurso contratual subjaz a ideologia do liberalismo polí-
tico. As suas categorias básicas são "o acordo das vontades e a
delegação do poder". O discurso contratual dirige-se à :n'ação. O
seu modo de narrativização é a cooperação e o seu fazer último
~é a conservação dos fundamentos da sçiciedade. É evidente que
há vários tipos de discursos contratuais ou polêrnicos.
Esses dois tipos de discurso estão dentro do campo da aceita-
bilidade tradicional do discurso político. Seus temas centrais são,
respectivamente, o "afrontamento das classes sociais e os funda-
0

mentos contratuais do Estado e da expressão da vontade nacio-


nal ".
Vejamos um exemplo de cada tipo:

"A história da Sociedade se confunde até hoje com a


história da luta de classes. Homem livre e escravo, pa-
trício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporações e
companheiro, em outros termos, opressores e oprimidos
em permanente conflito entre si, não cessam de se guer-
rearem em luta aberta ou camuflada, luta que, historica-
mente, sempre terminou ou numa reestruturação revolu·
cionária da Sociedade inteira ou no aniquilamento das
classes em choque. ( ... ) Proletários de todos os países,
uni-vos" (Marx e Engels, 1981).

"Portanto, somente uma real solidariedade entre empre-


gados e empregadores, cada qual entregue à sua tarefa,
mas todos unidos na tarefa comum da grandeza nacional,
permitirá alcançar-se o ideal de uma comunidade em que
todos se sintam enobrecidos pelo trabalho" (2, '318).

No nível discursivo, o discurso político, por dever manifestar


uma "ilusão do real", está repleto de índices espaço-temporais
que dão a. ancoragem histórica do discurso.

146
_O Problema da Sacralização

O discurso "revolucionário" é, s~m dúvida alguma, um dis-


curso político, pois ele apresenta .as características elericadas para
classificar. esse tipo de discurso. Entretanto, em alguns pontos,
apresenta características do discurso religioso. A esse processo de
inserção de marcas do discurso religioso no · discurso político
denominamos sacralização.
Vimos, anteriormente, que a nação é uma única vontade, ex-
pressa nos objetivos naclollllis permanentes. O Estado é o "agen·
te da estratégia nacional, encarregado de colocar o Poder Nacional
a serviço dos Objetivos Nacionais". O Estado é um sujeito e a
nação, uma modalidade desse sujeito (querer). O Estado é cons·
'tituído cõmo sú]eito no momento em que adquire a modalidade
do querer que constitui a nação. O governo, como dirigente do
Estado, deve ter o mesmo querer que este. O /querer-fazer/ do
Estado é um /dever-fazer/ do governo. Constituído como sujeito,
o Estado passa a ser um destinador do dever e fonte de todo o
poder e de todos os direitos. Tudo é poder do Estado. Ele detém
o monopólio do querer e do poder. Por outro lado, é perfeitíssimo,
pois encarna o querer único da nação. É . eterno, pois o querer
nacional é produto da "alma brasileira".
O Estado começa por adquirir as características atribuídas
a Deus: onipotente, onisciente, dotado de um querer anteriormente
inscrito na realidade, eterno e perfeitíssimo. Esse discurso polí-
tico opera, então, segundo o dever. Como se identificam governo X.
e Estado, o enunciador é o destinador, como nos discursos reli·
giosos, e não destinatário, como nos discursos políticos. O enun·
dador-destinador propõe um sistema de modalidades deônticas,
constituído de prescrições e interdições, para o enunciatário-des·
tinatário.
Como no discurso religioso, no discurso "revolucionário",
.resta ao homem o domínio do dever, pois o querer, o poder e o
saber pertencem, respectivamente, a Deus e ao Estado-Nação. Os
dois discursos querem induzir o indivíduo a aceitar seu papel
dentro das relações sociais de produção e a executar os atos cor·
· respondentes a esse papel. A .liberdade aí é a de aceitar uma ordem
social estática, a de reconhecer que as coisas são de uma maneira
e não de outra e a de submeter-se à autoridade constituída.
Se o governo, identificado com o Estado, possui uma compe-
tência totaliza.dora, sua vontade não está submetida à de nenhum
outro mandante em relação ao qual é o executante. O Estado e,
por conseguinte, o governo vão adquirindo um caráter sagrado,
tomando o lugar de Deus no· discurso religioso, e, por conseguinte,
o discurso vai despolitizando-se. O povo perde seu papel de desti-
nador e assume o de destinatdr:io, Ora, sabemos ~ue, em qualquer

147
discurso político, o enunciador é o destinatário. Mesmo no discur-
so das monarquias absolutas, em que era vigente a teoria do
direito divino dos re1s, o monarca era o executante em relação
ao mandanteL. Deus. No discurso "revolucionário", Estado e go.
verno não são modalizados por nenhuma outra instância hierar-
quicamente superior. -
À medida que o querer da nação encarnado no Estado adqui-
re no discurso um estatuto antropológico, ele naturaliza-se e tor-
na-se, por conseguinte, um a priori histórico, pois antecede a qual-
quer fato político.
A idéia do Estado como destinador a organizar a vontade
coletiva por iríeio da arõitra:gem dos diversos interesses sociais
. já se encontrava nos pensadores políticos autoritários. Para Fran-
cisco Campos, por exemplo, só o Estado seria detentor do poder
(1940, 17).
Miéhel Schooyans diz que, no período pós-64, as diferenças
entre Estado e nação se diluíram:

". . . sob a pressão do antagonismo dominante, a dife-


rença entre o Estado e a Nação foi reduzida ao ponto
em que os dois coincidem. O amálgama Estado-Nação
assim formado é erigido em entidade absoluta e transcen-
dente. ( ... ) O Estado é exclusivo intérprete autêntico dos
objetivos permanentes da Nação, em que figura em pri-
meiro lugar a segurança. Por outro lado, é o imperativo
absoluto da segurança que fundamenta a legitimidade do
Estado. É o Estado que define o impacto do antagonismo
dominante sobre a Nação, mas é esse antagonismo que
legitima a concentração de poder do Estado. As ameaças
externa e interna que pesam sobre a comlltlidade nacional
são definidas pelo Estado, que aí encontra o fundamento
de sua .autoridade. O Estado é assim o órgão de expressão
da 'vontade geral', que se traduzirá na definição dos obje-
tivos nacionais" (apud Oliveira, 1978, 4445).

Essa "sacralização" do Estado faz-se necessária na medida em


que a "revolução" tem por finalidade conter a ascensão dos movi-
mentos populares e dinamizar a acumulação de capital, pois não se
poderiam alijar os movimentos populares da participação polí-
tica nem aumentar a taxa de mais-valia se não se partisse da
justificativa ideológica de que o Estado determina os direitos e os
deveres de todos.
TaIQ.bém como no discurso religioso, o discurso "revolucioná-
rio" divíde os homens em dois grupos: os que aceitam o dever·
fazer são marcados pelo traço /euf.órlco/; os outros, pelo traço

148
/disfórico/. O destinatário é sempre individual, pois, embora a
manipulação seja proposta para todos, a sanção é individual ê
incide sobre a performance individual. .~
O programa narrativo proposto é atemporal, porque são atem:
parais os objetivos nacionais permanentes. .
O discurso desencadeia uma operação fiduciária dominada
pelo crer. Destina-se a persuadir o destinatário, fazendo-o aderir
ao objeto do saber de forma a tornar-se um crente (dever-ser).
Nesse discurso, a certeza sobredetermina a necessidade. A opera-
ção do discurso "revolucionário" é: Se p (objetivos nacionais) é
indubitável, então cada brasileiro deve-ser. . . Como esses objeti-
vos não entram na categoria do saber (poder-ser etc.), tornam-se
matéria de fé.
O discurso político trabalha basicamente com um dos d<:>is
modos Ç.e narrativização: a luta ou o contrato. o discurso "revolü-
cionário" trabalha com os dois: a história nacional funda-se no
contrato; a história universal funda-se na luta democracia vs.
comunismo. Esses elementos representam, respectivamente, o bem
e o mal. Para o discurso, a luta, então, não é política, mas é
moral.
Como no discurso religioso, ele trabalha com as categorias
/identidade/ vs. /alteridade/.
Há outros pontos de contato menos importantes entre o dis-
curso "revolucionário" e o discurso católico da salvação:
a) Ambos os discursos fundamentam-se numa · filosofia da
história concebida como degradação em relação a um estado ante-
rior e como melhoramento potencial no presente e real no futuro.
São narrativas de melhoramento.
b) A degradação dá-se por obra de um anti-sujeito (Goulart
e esquerda, no discurso oficial; o próprio homem, no discurso
religioso)'; O castigo de ambos é a expulsão do espaço onde esta-
vam (expulsão do paraíso; prisão, exílio ou cassação).
c) Nos dois casos, diante da ruptura da ordem, há uma em-
presa reparadora (decisão de fazer voltar ao estado de equilíbrio)
e uma deslocação espacial (Deus sai do espaço celeste e vem para
o espaço dos humanos; as Forças Armadas abandonam os quar-
téis e vão para as ruas). É interessante notar que é característica
dos discursos míticos e religiosos a .distinção entre um espaço
onde se realiza a performance modal e um em que ocorre a per·
formance principal.
d) Há uma luta entre o bem e o mal e a vitória do bem (sal-
vação da humanidade e salvação da· pátria, respectivamente). Nos
dois, há uma ênfase muito grande sobre o percurso temático da
.,, salvação". ·
e) Os dois discursos concebem a história como o espaço e o
tempo da luta entre o bem e o.. mal, que são saturados semantica-

149
mente pela~ lei divina, pelo pecado, pela civilização cristã oci-
dental e pelo totalitarismo ateu, respectivamente. Em ambos os
casos, o bem acaba por vencer o mal. Como o mundo é rigida-
mente dividic;!o entre o bem e o mal, o discurso é maniqueísta.
f) Os dois discursos. apresentam uma /presentidade/ posta
entre a /preteridade/ da ordem inicial rompida e a /futuridade/
em que todas as contradições serão resolvidas (respectivamente,
a vida eterna e o Brasil-potência). Em ambos, à /transitividade/
do presente opõe-se a /duratividade/ do futuro, que é seu ponto
terminal.
g) Em ambos, a salvação (melhoria) é feita por um sujeito do
fazer (Cristo e as Forças Armadas), que realiza sua ação, gratuita-
mente, seja por amor à humanidade, seja por amor à pãtria. A
sua recompensa é ver ·salvos os homens e a pátria.
h) Nos dois discursos o homem não participa de nenhuma
relação transitiva em que ele seja o destinador e os outros ho-
mens ou o mundo sejam os destinatários. Excetua-se, no discurso
"revolucionário", a operaÇão modal em que o povo transfere às
Forças Armadas o seu querer. Quando o homem é destinador ê
também destinatário (operação reflexiva). Esses discursos atri-
buem a /transitividade/ a Deus e às elites governantes. e a /refle-
xividade/ ao povo. Isso quer demonstrar que o mundo está pronto,
a estrutura social é natural e ao homem não cabe transformar
o mundo, mas a si mesmo.
i) Os dois discursos partem da idéia da naturalidade da ordem
social, quer porque ela foi criada por Deus, quer porque é con-
forme com o caráter nacional brasileiro.
j) Os dois discursos pretendem ultrapassar a historicidade,
chegando à identidade absoluta.
1) O discurso religioso desenvolve-se sobre dois planos: o da
natureza e o do sobrenatural. Um contêm o corpo e a ·realidade;
o outro, o paraíso, a alma e a eternidade. O mundo é o lugar da
purificação e do enriquecimento. Cristo realiza a mediação entre
os dois mundos. Quando os sucessivos presidentes afirmam que
a democracia é um ideal, o discurso "revolucionário" também
divide o mundo em dois planos: o do real e o do ideal, o do conti-
nuo enriquecimento e o do paraíso a ser alcançado. As Forças
Armadas, por não estarem comprometidas com nenhum interesse
particular do real, realizam a mediação entre os dois mundos.
m) A religião e o ideal da democracia constituem uma totali-
dade uniforme, que domina o particular e reúne, numa unidade
mais alta e absoluta, os opostos. Assim como no paraíso estarão
em perfeita harmonia o lobo e o cordeiro, na "democracia ideal"
conviverão em absoluta concórdia burgueses e proletãrios. A união
de termos contrários faz aparecer complexos e neutros: o termo
"nação" é um complexo, pois é ·a união de ·todas as classes. 5

150
De todas as características apontadas, a mais importante é
aquela que correlaciona os papéis de enunciador e destinador e
enunciatário e destinatário.
O discurso "revolucionário", ao sacralizar o Estado e o gover·
no, funda uma religião da imanência, pois seu discurso fala do
Deus-Estado e de seus desígnios em relação aos homens. No en·
tanto, esse deus, embora se pretenda pertencente à ordem natural,
está preso, em última instância, à estrutura econômica e não a
ultrapassa. A designação "religião da imanência" revela o para-
doxo do discurso "revolucionário": o Estado está além das cJasses,
transcendendo-as no modo de parecer, e está ligado a elas no modo
de ser. "Religião" expressa o parecer; "imanência", o ser.

NOTAS

(1) Observe-se, por e:cemplo, o decdlogo, que é um conjunto de prescrições e


de interdições.
(2) Talvet seja na concepção da história que resida a maior diferença entre o
discurso mítico e o discurso religioso. O tempo mítico caracteriza-se pela
reversibilidade, ou seja, o que aconteceu. torna a ocorrer a cada ciclo tem·
poral. O tempo histórico é assintJlado pela irreversibilidade. O judaísmo e,
por conseguinte, o cristianismo caracterizaram-se por colocar o mito no inte·
rior da história. A inclusão do mito na história corresponde uma limitaçlio
do plano histórico, o que permite compreender a história por um sentido
meta-histórico (Eliade, 1972, 72; 1949).
(3) O discurso da teologia da libertação parece ter alterado diversas das cate·
gorias expostas anteriormente. Ter-se-ia o discurso politizado? Só um trabalho
de confronto entre o discurso da teologia da salvação e o da teologia da
libertação poderia responder a essa indagação.
(4) Essa observação não quer dt'ter que os dirigentes não sejam deonricame:nte
modalizados, mas que os destinadores que eles apresentam em seu discurso
são colocados para encobrir os reais destinadores do poder. Isso ocorre prin·
cipalmente no que tange ao Estado burguês.
(5) S evidente que ao contrato e à luta devem acrescentar-se elementos semân·
ticos, a título de critério de restrição, pois nem todo .combate e nem todo
contrato são políticos.

151
Cf)NCLUSÃO

X O nfvel discursivo, em seus femas e figuras, está ligado a uma


formação ideológica. Um discurso constitui a forma específica, a
linguagem, a retórica de um conteúdo ideológico. Toda transfor-
mação social, todas as contradições do real são acompanhadas
por mutuações temáticas e figurativas.
O discurso "revolucionário" é a retórica da aliança das frações
de classe, que se uniram para derrubar o governo constitucional
de Goulart. Por suas lacunas e contradições o discurso revela o
que deseja ocultar: que é o discurso da classe dominante e que as
finalidades do movimento de março foram a contenção· da parti-
cipação política das classes subalternas e a dinamização da acumu-
lação capitalista. A modernização, impulsionada pela "revolução",
provocou contradições e isso foi expresso por discursos contrários
ou contraditórios ao discurso oficial. Nesses anos todos, assisti-
mos a uma "luta Iingüística", que J1ão é uma luta de opiniões,
idéias e teorias científicas, desvinculadas do real, mas é a expres-
são retórica das contradições do real. Ademais, a "revolução" não
teve, como pode ter dado a entender este trabalho, uma homoge·
neidade retórica total, uma vez que se. aglutinaram frações de
classe, com interesses divergentes, na derrubada do governo
Goulart.
Este trabalho não estudou a luta lingüística, mas apenas um
de seus componentes. Deve-se ressalvar, entretanto, que os efeitos
do discurso "revolucionário" não foram mecânicos, pois não há
reprodução mecânica das relações de produção. Outros discursos
refletiram as contradições do real. Enquanto expressão de ideo-
logia, pode-se dizer que o discurso "revolucionário" criou condi-
ções para o surgimento de seus "outros".
Estudamos as condições de produção, mas não as de recepção
-is. do discurso "revolucionário". A recepção, assim como as condi·
ções históricas de produção, interfere no discurso por coação so-
bre o autor. Fatos como a crítica feita pelo destinatário, o conhe·
cimento da "consciência possível" dos leitores, a necessidade de
lucros, etc. são determinações que tamb~:ui podem incidir sobre
um discurso.
152
No que tange às condições de produção, o discurso é uma X
criação coletiva, porque é a visão de uma classe social. Ele está
vinculado a uma estrutura ideológica determinada, em última
instância, pelo nível econômico. O enunciador veicula uma-_ visão
de mundo que se assenta em uma classe e não na sua individua-
lidade. Ele revela problemas, anseios, temores e contradições de
uma classe. A liberdade discursiva é, assim, mais uma das ilusões 1(
burguesas. No discurso, essa ilusão é criada por mecanismos
enunciativos.
O discurso "revolucionário" cria uma "religião da imanência",
porque depende de uma formação ideológica que considera o
Estado "fonte do bem e da justiça" e, portanto, destinador uni-
versal. A isso se liga a defesa dos valores da "ordem" e, então,
temos o discurso do Estado onipotente e onisciente e do povo
impoterite e insciente.
O discurso "revolucionário", assim como o discurso religioso
tradicional, é o discurso da "impotência política". Retirada a
história da estória, sobra a ordem social como algo natural. O
discurso visa a manutenção do statu quo, quer impedir a trans-
formação, inculcando o conformismo e a resignação, deseja que
uns sujeitos se submetam a outros. A finalidade última do dis-
curso é repetir sempre o mesmo, é reproduzir as relações de
produção.

"Um dia, o capitão Jonathan,


quando tinha dezoito anos,
captura um pelicano, T<'ê"
numa ilha do Extremo Oriente.
Na manhã seguinte,
esse pelicano bota um ovo branquinho.

Dele sai um pelicano


igualzinho ao primeiro.
Este segundo pelicano
bota, por sua vez, um ovo branquinho,
do qual sai um outro pelicano,
que faz a mesma coisa.
Essa cadeia pode continuar por muito tempo,
se não se faz uma omelete."
(Robert Desnos)

Tudo se repetiria indefinidamente se não se quebrasse o ovo


para fazer uma omelete. Fazer omelete, porém, é do domínio da
história humana. O discurso "revolucionário" supôs que os ho-
mens fossem pelicanos e tratou a história humana como história
natural. Ficou na ilusão da reprodução e escamoteou a ruptura,
que gera o novo. Começamos a quebrar o ovo e ainda faremos a
omelete.

153
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