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“Que eu seja um

comediante, mas um
comediante que pensa.”
Charles Chaplin
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 4
1º Passo | FOME 5
2º Passo | GULA 7
3º Passo | VÔMITO 10
4º Passo | REESCREVER 14
5º Passo | ENCAIXAR NA BOCA 24
6º Passo | DECORAR E ENSAIAR 26
7º Passo | FASE DE TESTE 28
8º Passo | CORTAR E VALORIZAR 30
9º Passo | DIVIRTA-SE / TEMPO 35
10º Passo | O ÚLTIMO PASSO 36
GALERIA 37
BIOGRAFIA 40

3
INTRODUÇÃO

Existem muitas maneiras para se criar uma apresentação de stand up


comedy. Aqui vai a minha, que não é só minha e que não criei sozinho,
mas influenciado por tudo que testei no palco, vi nos shows, li nos livros
e ouvi dos meus colegas, familiares, alunos e mestres. Muito obrigado a
todos vocês.

Espero que esse material ajude a sua jornada cômica.

Fábio Lins

INTRODUÇÃO 4
1º Passo | FOME

T em fome de comédia? Então coma muito humor. Filmes, peças, shows,


imitações, contadores de piada, seriados, desenhos e principalmente
livros. E tente também sair do lugar comum, busque referências diferentes,
como um filme de humor chinês, um stand up argentino um autor alemão,
enfim, o primeiro passo é consumir muito.

A maioria das pessoas já consome muito cinema e tv. Uma parte menor
consome teatro e shows de humor e uma parte ainda menor consome
livros. E é aí que você pode sair na frente. A base do stand up comedy é a
escrita, por isso mesmo a importância de ler! Se já tem esse hábito, ótimo,
agora foque em ler comédia e sobre comédia. O comediante é autor e
performance de sua obra. Como escritor é essencial ler muito. Não ler e
querer escrever é como um cozinheiro que começa cozinhar sem antes
provar outros pratos. Não precisa necessariamente ler sobre humor.
Num primeiro momento indico que leia humor em geral, charges, gibis,
romances, contos etc. Leia para começar a ter um maior entendimento
do que te agrada e principalmente entender o porque te agrada. Sempre
esteja lendo alguma coisa.

É também o momento de você ver o máximo de piadas, para saber quais


você não pode fazer, por que alguém já está fazendo. Muitos comediantes
tem piadas similares, você não quer ser similar, é mais interessante ser
único. As piadas mais óbvias são fáceis de pensar. É normal isso acontecer
no começo da carreira. O seu trabalho como iniciante é ir além desse ponto,
e trazer novos olhares sobre velhos assuntos ou trazer novos assuntos.

1º Passo | FOME 5
Sugestões de alguns autores; Quino, Veríssimo, Ruy Castro, Léo Lins,
Christopher Moore, Millôr Fernandes, Angeli, Liniers, Bill Watterson.

Coma com os olhos!


Depois de ler pelo menos umas 10 obras relacionadas a humor, vá para o
segundo passo.

Em 2003, com Fábio Silvestre, Hélio Barbosa e Diogo Portugal no show Cabaret do Diogo Portugal,
começando no stand up.

1º Passo | FOME 6
2º Passo | GULA

U ma vez que começou a consumir comédia nas suas mais variadas


formas, naturalmente vai encontrar coisas que te agradam e coisas que
não. Humor é muito amplo e ao mesmo tempo muito pessoal. Ninguém ri
de todas as piadas, cada um tem uma vida e em cima disso constrói suas
referencias que podem ou não se conectar com determinado humor.

Em 2006, no Santa Comédia, primeiro show só de stand up comedy, do sul do Brasil, formado por Fábio
Lins, Léo Lins e Marco Zenni, recebendo os amigos Murilo Gun, Rogério Morgado e Felipe Absalão.

2º Passo | GULA 7
O importante no segundo passo é você entender que tipo de humor te
agrada mais, dentre todos esses que conheceu. Comece a olhar como
espectador e critico. E aí é importante perguntar-se “por que”. Por que
ri disso e não daquilo? Por que é humor besta? Humor político? É o jeito
que o comediante fala? A velocidade? A estranheza? A obviedade? A
naturalidade? A originalidade?

Uma vez que identificou isso é hora de soltar a gula e consumir isso em
exagero, ficar impregnado por esse humor que mais te agrada.

Em geral, desde criança somos ensinados a engolir tudo, entramos na


escola e continuamos a estudar tudo que nos dizem para estudar, vamos
para faculdade e esse processo continua e na maioria dos casos já existe
um caminho pré-determinado do que fazer para se conseguir uma
“estabilidade” na vida. É raro encontrar estímulos para originalidade e
autonomia na nossa educação.

Como comediante todo esse caminho pré-determinado não existe, e


desconfio que não só para quem é comediante, acho isso uma falha no
nosso sistema em geral. O meu ponto é que uma vez que você chegou na
maturidade não precisa mais consumir o que te dizem e pode selecionar
seus “professores”, pode escolher suas influências. É hora de você ser seu
próprio professor.

Então não economize nem tempo e nem dinheiro quando for consumir
a comédia que te agrada. Esse será seu estudo, seu investimento na
carreira de comediante. Se um artista que você gosta for se apresentar
em outro país, dê um jeito e vá assisti-lo, compre todos os filmes, leia
todos os livros, enfim, tenha gula. A ideia é se contaminar por esse estilo

2º Passo | GULA 8
que te agradou. E claro, que você pode curtir mais de um estilo, se for
assim, melhor ainda. Eu mesmo gosto de muitas coisas diferentes e sigo
trabalhando com estilos de humor diferentes, dês de trabalhos mais
teatrais, a palhaço, improviso, esquetes, desenhos animados, roteiro e
etc. E acredite, dedico bastante tempo lendo e vendo tudo que posso
desses estilos.

Então pegue esse estilo de humor gostoso, e tenha gula! Depois de ler/
ver/ouvir/cheirar/tocar umas 10 produções nesse estilo de humor, vá para
o terceiro passo.

2º Passo | GULA 9
3º Passo | VÔMITO

A gora que você já passou algumas semanas enchendo o bucho cômico


de risadas é hora de colocar para fora. Desculpa por chamar esse passo
de “vômito”, é nojento, porém você vai entender onde quero chegar.

Pensa comigo, quando a gente vomita, coloca pra fora não só o quê consumiu,
mas também algo que já estava dentro de nós, como suco gástrico e saliva.

Em 2007, no Programa do Silvio Santos com o personagem Hugo o camelô, SBT

3º Passo | VÔMITO 10
Essas coisas misturadas formam seu vômito, que não é nem o que você
consumiu e nem o que é interno seu, é um produto novo, nojento e original.

É mais ou menos isso que acontece com a gente quando passamos a


consumir muita comédia com um olhar analítico, após passar pelos passos
da “fome” e “gula” é hora de vomitar no papel a sua comédia. Inclusive
gosto de fazer esse processo antes de começar a escrever, se vou fazer um
texto novo de stand up, assisto pelo menos uma hora de vários shows de
comediantes que admiro. Se vou escrever cenas de humor para alguma
série, coloco o dvd do Friends e assisto uns 3 episódios, logo em seguida
vou pro computador e solto os dedos.

Com certeza nesse processo irá trazer suas influências, porém com o tempo
você também irá encontrar sua originalidade, e isso leva tempo mesmo.
Então nos seus primeiros passos como comediante não tenha medo de
soar parecido com alguém, isso acontece com a maioria, mas como disse
antes, você não quer isso para sempre. É normal ver grupos de teatro que
começam com fortes influências de Monty Python, escritores que pareçam
o Veríssimo, “stand upers” que soam como Seinfield ou como por exemplo
o Fábio Porchat. É louco, mas com o passar do tempo você vai parecer mais
com você mesmo, não se preocupe. Com o tempo você encontrará sua
“persona cômica”.

Encontrar essa persona é um processo de auto conhecimento que resulta


na sua maior potência como comediante. Procure vídeos de comediantes
no começo da carreira e compare com os vídeos mais recentes, é nítida
a transformação. A confiança ganha com o tempo de palco muda tudo.
É difícil subir no palco para defender suas ideias com o compromisso de
gerar risadas, então é totalmente natural não ser tão confiante no começo.

3º Passo | VÔMITO 11
E o mais louco é que mesmo piadas fracas podem funcionar dependendo
da sua confiança ao entrega-la.

Para ajudar nessa busca da sua persona cômica recomendo também que
escreva sobre histórias pessoais. Outro ponto positivo nisso é que vai ser
muito difícil alguém ter a mesma história e por mais que você tenha a
influência de algum comediante, pelo menos vai ter uma história original.
Quando contamos histórias nossas no palco, histórias verdadeiras, existe
uma energia diferente, a plateia nota. Você vivência aquilo que está
compartilhando e isso traz mais cor pro seu show. Te aproxima da sua
persona cômica e aproxima a plateia de você, pelo simples fato de você
estar sendo sincero e se abrindo, contando suas verdades.

Então agora escreva sem medo de ser feliz. É extremamente importante colocar
no papel suas ideias sem julgamentos. Primeiro ganhe a prática da escrita,
escreva, escreva e depois escreva mais. Para aprender a escrever comédia
primeiro precisamos aprender a escrever. Então vomite tudo no papel.

É comum ver comediantes novatos parados em frente ao computador sem


ter ideia alguma. Pois o segredo está em não ficar parado, escreva mesmo
sem ter ideia, escreva suas ideias ruins mesmo, escreva qualquer coisa. As
piadas não iram chegar prontas na ponta dos seus dedos. É preciso escrever
essas piadas “lixo” para depois recicla-las. Se não colocar nada no papel não
existirá material para trabalhar. O comediante stand up trabalha reciclando
ideias. Algumas ele usa, algumas ele joga fora, algumas guarda para depois
e algumas ele reformula.

Nesse processo de escrever sem julgamento é possível que você pare


depois de um tempo e fique olhando para a tela sem saber para onde ir.

3º Passo | VÔMITO 12
Nessa hora existem duas opções, a primeira é estudar mais.

Por exemplo, digamos que você esteja escrevendo sobre furacões. E então
ficou sem ideias, pare de escrever e vá estudar mais o assunto, leia um livro,
assista um filme, veja matérias na internet etc. Com mais conhecimento
se constrói mais soluções. É preciso entender o assunto para desenvolver
o raciocínio cômico sobre o mesmo. Saber por exemplo por que furacões
existem, como funcionam, onde existem mais, onde não existem, qual
o maior, qual o menor, porque tem esse nome. Qualquer informação
pode gerar um link para uma piada. Com mais informações mais links. É
como ter um amigo íntimo, você se diverte mais com ele do que com um
desconhecido, certo? Pelo simples fato de conhece-lo melhor, você tem
mais referencias da vida dele e sabe por onde pode brincar. Brincar com
um desconhecido é muito perigoso, você não tem ideia de como é o humor
dele, não tem informações sobre sua religião, seu time, seu partido político,
qualquer piada pode ser mal vista.

E agora vamos para a segunda opção do que fazer quando já escreveu tudo
que podia e está sem ideias; descanse!

Caso já tenha estudado o suficiente, pare e descanse. Vá fazer outra coisa,


dê um tempo na escrita, esfrie a cabeça com a tv, com vídeo game, com
o travesseiro, vá dar um passeio ou sei lá. O importante é desconectar da
escrita e do assunto que está desenvolvendo. Depois de pelo menos meia
hora retome o trabalho e provavelmente irá ver piadas que estavam ali na
sua cara, mas por causa do cansaço não percebia. E esse processo nos leva
para o 4º passo.

3º Passo | VÔMITO 13
4º Passo | REESCREVER

V ocê consumiu muita comédia, aprendeu a consumir tudo que mais


te agrada e agora já colocou no papel suas primeiras ideias. O quarto
passo é revisitar suas próprias ideias. Escrever é reescrever.

O quarto passo na verdade é o passo que vai te acompanhar pelo resto


da carreira em todos os shows que fizer. Todo dia releia e rescreva tudo

Em 2008, no Improriso show de Bruno Motta e Nany People com os amigos Marcos Castro e
Renato Tortoreli.

4º Passo | REESCREVER 14
que não te agrada no seu texto. Nem que seja só uma linha, tudo bem.
O importante é manter contato com o material. Um texto bem feito de
10 minutos demora mais ou menos um mês para ficar pronto no papel,
antes de testa-lo no palco. Esse tempo vai depender da sua dedicação e
inspiração. Já escrevi textos em um mês, em 3 meses e em 3 horas. Algumas
ideias vem com mais velocidade, algumas não.

Agora você tá pensando, “Tá bom Fábio, já escrevi um monte de m#rd@ no


papel mas você ainda não explicou como de fato se constrói uma piada”.
Vamos lá.

No stand up é essencial entender o “set up” e o “punch”.

Set up é a preparação da piada, Punch é o remate. Na preparação você


apresenta um argumento, uma ideia, uma defesa, um raciocínio. No remate
você faz a distorção cômica, você trás o motivo da risada.

Vou dissecar uma piada minha para que você entenda melhor.

Começo perguntando para o público, “Alguém aqui fala com espíritos?


Alguém? Não? Aposto que tem alguém, mas agora o espirito tá assim: não
fala nada, fica quietinho, se falar, hoje a noite você vai ver”.

Vamos lá, esse é o set up “Alguém aqui fala com espíritos? Alguém? Não?
Aposto que tem alguém...”. Nesse momento apresento o assunto e faço as
pessoas questionarem se tem ou não esse tipo de dom. É um assunto que
traz um tipo de tensão específica. Mas até então não existe piada. Cada
tema que abordar traz um nível de tensão, quanto maior a tensão no Set
up, mais arriscada e melhor deve ser o Punch.

4º Passo | REESCREVER 15
Esse é o Punch “...mas agora o espirito tá assim: não fala nada! Fica quietinho,
se falar, hoje a noite você vai ver”. A piada é assumir que independente da
plateia levantar a mão, assumo que existem espíritos sim e que alguém dá
plateia está sobre seu controle naquele exato momento. A piada é provar
que existe o espirito de uma forma ridícula.

Esse foi um exemplo de set up e punch de um tamanho médio. Aqui vai


um mais curto.

“Viu a notícia da mulher que foi presa com algumas gramas de maconha
dentro da vagina? O O.B virou um B.O”. O Set up tem praticamente uma linha
e o Punch nem meia linha. A preparação da piada é a pergunta e o remate
é a resposta. Neste caso a distorção cômica veio com uma surpresa. Usando
um jogo de palavras populares, semelhantes e totalmente desconexas, mas
que agora ganharam um link, O.B e B.O. E isso é cômico. Lembra que falei
sobre os “links” no passo anterior?

Lembre que quanto maior o Set up melhor deve ser o Punch.

Durante esse processo de reescrever o material existem algumas


ferramentas que podem ajudar na construção de piadas. Vou falar
rapidamente sobre cinco delas. Creio que existam milhares, o humor pode
vir de muitos lugares e jeitos diferentes, dependendo da cultura, da hora,
de quem, de quando, de como etc. Mas não se preocupe, com essas cinco
ferramentas, já dá pra começar a brincar.

SURPRESA
Na maioria das vezes comédia é surpresa. Você leva a história para um
caminho e de repente algo de inesperado acontece. Isso produz o riso, que

4º Passo | REESCREVER 16
Em 2007, Santa Comédia recebendo os amigos Carol Zoccoli e Fábio Silvestre.

nesse caso é um parente do susto. Nota-se quando alguém por exemplo,


toma um susto e em seguida começa a rir. Ao perceber que o susto não
tinha uma origem perigosa, ela relaxa e se diverte com sua própria reação
involuntária. E a risada vem relatar que não havia perigo nessa surpresa. Nos
textos de stand up isso acontece mais claramente quando introduzimos
um tema “pesado” e em seguida fazemos uma piada leve. A principio havia
um perigo no tema, a plateia pensa “Ih, espera ai, o comediante vai falar
sobre racismo?”. Mas em seguida nota-se que não aconteceu nada demais,
ou que no fim você de alguma forma concorda com a piada feita, que trouxe

4º Passo | REESCREVER 17
a surpresa. É como se a plateia pensasse “Ufa... Achei que ele ia passar do
limite” ou “E não é que faz sentido isso que ele disse, que louco!”.

O comediante George Carlin fazia isso muito bem, ele tinha um material
sobre como os protetores da natureza são idiotas e prepotentes. No começo
você estranha, a principio ele parece errado, todo mundo concorda que é
preciso salvar o planeta. Mas com o desenrolar do raciocínio ele vai trazendo
a plateia pro seu lado. Acabamos concordando com ele, ao concluir que o
planeta não precisa de ambientalistas, o planeta já passou por coisas muito
piores que excesso de sacolas plásticas, na verdade os seres humanos
que não vão aguentar a pressão. E encerra com a frase “O planeta está
bem, as pessoas que estão fudidas”. Do começo ao fim ele te surpreende
desenvolvendo um novo olhar sobre um velho tema.

Mas isso não funciona somente com temas pesados, funciona com qualquer
coisa, ok? Por exemplo, tenho uma piada onde falo sobre meu nível de inglês,
“Meu professor me disse que vou realmente aprender quando começar a
pensar e sonhar em inglês. E estou muito feliz, porque essa semana eu
sonhei em inglês! Pena que não entendi nada!”. Obviamente a surpresa
veio com a informação de que eu não entendi nada no sonho. Uma vez
que eu estabeleci uma verdade sobre quem estuda e começa a sonhar em
inglês, é surpreendente ter alguém que passe por esse processo e ainda
assim não tenha aprendido. O fato de dizer “e estou muito feliz” fortalece
a expectativa de que eu aprendi de fato, assim potencializa a surpresa da
piada ao dizer que não entendi nada.

EXAGERO
Este princípio é bem notado nos palhaços com seus sapatos grandes,
gravatas gigantes ou coletes muito pequenos espremendo o peito. Vemos

4º Passo | REESCREVER 18
algo descomunal que obviamente não cabe nas nossas expectativas, nos
nossos padrões sociais e isso desperta o riso. O riso funciona como um
alarme alertando que algo está fora do esperado. Como por exemplo, os
7 a 1 na copa. Muitas pessoas sofreram com isso, mas muitas outras riram
muito durante os gols (como eu). Eram tantos gols, tão seguidos, numa
copa do mundo sediada pelo Brasil, o pentacampeão, que de tão absurdo,
rimos. Nesse caso o riso é um parente da descrença. É comum ouvir piadas
do tipo “eu sou tão idiota que... (um exagero)”. “Ela era tão bandida que... (um
exagero)”. Tenho uma piada por exemplo que falo sobre quando o homem
vai se preparar para começar a dar a segunda na cama porque ele foi muito
rápido na primeira. “Então o homem vai lá, pega outra camisinha, da uma
respirada e espera ali uns 30... dias! E vai pra cima”. Neste caso seria óbvio
dizer “30 minutos”, mas aí não haveria exagero, porque esse é um tempo
normal para todos recuperarem o fôlego. Dizendo “30 dias” existe exagero
e assim existe a piada.

COMPARAÇÃO
Todo mundo já se divertiu ao encontrar uma nuvem que parecia algo do
nosso mundo terreno; uma flor, um rosto, um cavalo etc. Rimos ao perceber
que involuntariamente um elemento natural está “imitando” outra coisa.
Nossa imaginação faz o link entre as formas. Assim como brincar de
fazer sombras na parede ou imitar objetos e outras pessoas com o corpo.
Imitadores tiram muitas risadas ao reproduzir alguém, ele nunca será aquela
pessoa, nós sabemos que ele não é, porém nós fazemos uma comparação
na nossa mente, essa comparação gera um “pane” cerebral que produz
o riso. Como se não fosse possível acreditar na comparação, de tão boa.
Pode-se construir isso literalmente também.

Um dos meus textos mais pedidos pelo público é o da “fábrica”. Onde

4º Passo | REESCREVER 19
comparo a relação entre um homem e uma mulher com a relação entre
um fornecedor e uma fábrica. O texto todo é uma grande comparação.
Segue o texto abaixo para entender melhor. Já aproveito e coloco o texto
no formato que eu divido meus textos quando escrevo, com pontos para
cada piada. Cada ponto é uma risada. Nesse formato eu consigo calcular
melhor quantas risadas tenho por página e isso me dá uma média para
entender se o texto está bom ou se precisa de mais pontos.

• Relacionamento de mulher e homem é complicado, né? Mas era para ser


simples. A gente tem um objetivo básico. Reprodução!
• Fabricar seres humanos. A gente é tipo Gremlins.
• Se for pensar assim. A mulher é uma fábrica, e o homem é o fornecedor de
matéria prima.
• Agora pra fábrica receber a matéria prima, não é assim, vai entrando qualquer
um. Não. Primeiro ela quer indicação de outra fábrica.
• Quer ver a documentação.
• Quer saber se você não fornecia pra uma concorrente...
• Aí, depois de ver isso tudo, vai fechar um contrato. E nesse contrato tem,
exclusividade de fornecimento!
• E isso não é um problema, porque com o tempo o fornecedor aprende que
não vale a pena fornecer pra várias fábricas ao mesmo tempo, por que com
isso, a gente gasta muita gasolina!
• O problema não é a exclusividade, é o prazo de entrega. Por que tem que
ser na hora que a fábrica quer!
• Você não manda nada! É um mero fornecedor. Trabalhou a semana inteira,
tá com a carga cheia, louco pra descarregar, chega lá! Tá fechado!
• É recesso, dia do trabalho... Você tenta a porta dos fundos...
• Nada! Você só quer entregar o seu produto. Aí tem que fazer o quê?
Descarregar... sozinho...

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• E a fábrica acha que é fácil descarregar sozinho, que a gente faz isso toda
hora, em qualquer lugar. Mas as vezes não vai. As vezes você precisa... pensar,
em outra fábrica...
• Pegar um catálogo de fábricas...
• Entrar num site de uma multinacional!

REPETIÇÃO
A repetição é uma ferramenta que pode gerar riso tanto na surpresa
quanto no seu conhecimento prévio. Por exemplo, quando Chaplin está
trabalhando na fábrica apertando parafusos constantemente durante
o dia todo, ele nos mostra um trabalhador explorado pela indústria que
entra em um estado de maluquice por excesso de repetição do trabalho.
Assim que ele percebe uma senhora se aproximando, vê que os botões
de seu vestido tem uma enorme semelhança com os parafusos, ele reage
automaticamente apertando os botões encima da bunda da mulher com
suas ferramentas. Ele repete o mesmo movimento e isso é engraçado por
que o mesmo movimento está sendo reproduzido no lugar errado, o riso
nesse caso é um alerta de falha no sistema. Nesse exemplo temos surpresa,
exagero e repetição.

E a repetição pode funcionar sem surpresa, como por exemplo nos famosos
bordões de personagens caricatos da tv. Sabemos que o Professor Raimundo
vai dizer “E o salário oh!” ou que a Lady Katy, da Katiuscia Canoro no antigo
Zorra Total fala “To pagaaando”. Sabemos disso e ainda assim rimos da
repetição, pois prevemos o que virá e acertamos. Esse riso é o triunfo do
conhecimento prévio.

No stand up você pode conversar com a plateia no começo do show, e


digamos que você falou com um membro da plateia que chama André

4º Passo | REESCREVER 21
e descobriu que ele veio do interior assistir o show. Aí lá na frente no seu
texto você tem uma piada que fala sobre algo que aconteceu numa cidade
do interior. Você pode virar para o André e falar algo do tipo “O André sabe
do que eu tô falando”, a plateia vai rir. Você ganha mais uma piada só por
ter boa memória.

Pode-se fazer isso com seu próprio texto também. Usar uma referencia de
algo que você mesmo disse anteriormente. Isso se chama Call Back. Tenho
uma piada onde falo sobre como é sempre mais perigoso viajar para países
que falam espanhol, porque não é “perigoso” lá é “peligroso”. E quando
algo é “peligroso” para mim é mais perigoso.

Aí sigo falando de outros assuntos por alguns minutos, a plateia esquece


a piada do “peligroso” e começo a falar sobre como é tenso hoje em dia
deixar seu celular destravado por que alguém pode começar a ver suas
fotos proibidas. É tão perigoso que chega a ser “peligroso”. E está feita mais
uma piada utilizando a repetição.

PONTO DE VISTA
Digamos que você tem um texto sobre o mal atendimento do call center.
Falar mal do call center é normal, é algo que todo mundo faz. Seu texto pode
servir inclusive como uma válvula de escape para a raiva que a plateia tem
desse serviço. Porém, como disse, isso é o normal, o comediante é aquele
que pode trazer o novo. Seria interessante mostrar para o público os outros
pontos de vista dessa história, o ponto de vista do call center, do chefe dele,
da família dele, do telefone, da cadeira que ele senta, do seu marido.

Isso é engraçado porque revela as várias verdades da vida, mudando o


ponto de vista você trás surpresa e consequentemente risadas. O Cris Rock

4º Passo | REESCREVER 22
começa a falar em determinado show sobre como a comunidade negra
está sofrendo na sua cidade, como todos estão envolvidos com o crack. E
aí ele surpreende dizendo “E todo mundo fala mal do crack, mas ninguém
fala dos benefícios do crack!”. Essa mudança de ponto de vista já causa risos
em parte da plateia, ele segue “É verdade! Ninguém fala dos benefícios do
crack, ninguém fala! Graças ao crack, você consegue comprar um dvd por
5 dólares! Dependendo da hora e se você estiver no lugar certo, consegue
reformar seu apartamento todo por 30 dólares”. É cruel e muito engraçado,
e isso graças ao novo ponto de vista sobre o assunto.

Em 2014, era bem comum na internet um “meme” que mostrava os diferentes


pontos de vista das pessoas sobre a sua profissão ou sobre um assunto, esse
“meme” é um ótimo exemplo sobre pontos de vista na comédia.

4º Passo | REESCREVER 23
5º Passo | ENCAIXAR NA BOCA

C omece a decorar o texto e nesse processo veja o que precisa ser adaptado
para o seu jeito de falar, porque escrevemos de forma diferente da
que falamos. E só depois de começar a decorar vamos perceber isso. Vai
reparar que no texto escreveu “Então eu fui para a praia”, mas no dia a dia
você fala “Aí fui pra praia”, no texto colocou “Olá, eu me chamo Antonio e

Em 2009, no Programa do Jô, Globo

5º Passo | ENCAIXAR NA BOCA 24


me agrada muito falar sobre os animais” e normalmente você falaria “Iaí!
Eu sou Antonio e vim falar do bichos”. Faça esses ajustes.

Nós temos essa tendência de escrever diferente da maneira que falamos,


isso acontece com todo mundo, é natural e resultado do nosso processo de
educação. É muito comum encontrar textos com narrativas semelhantes
a crônicas. Mas no stand up é preciso que o texto soe natural. Escreva com
português que você fala. Inclusive as vírgulas podem ser colocadas onde
serão as pausas cômicas e não ondem iriam de acordo com a gramática.
A organização do material você faz como achar melhor, assim como meu
sistema de dividir com pontos. O texto não é um material para publicação,
é sua ferramenta de trabalho e deve estar no melhor formato possível
para que soe natural na hora de você apresenta-lo.

Importante entender que estou dizendo para escrever do jeito que você
fala no dia a dia e não do jeito que escreve na internet. Não escreva
usando gírias virtuais, isso pode te atrapalhar por exemplo quando for
encaminhar seu texto para avaliação da produção, antes de participar
de um programa na tv. E escrever exatamente como fala também irá
ajudar no próximo passo.

5º Passo | ENCAIXAR NA BOCA 25


6º Passo | DECORAR E ENSAIAR

E sse processo é essencial. Cansei de ver comediantes errando piadas


no palco pelo simples fato de não terem ensaiado o suficiente. Talvez
porque eu seja ator para mim parece mais fundamental o ensaio e a decora
do material do que para um comediante que não estudou teatro. O que
é um erro. O comediante tem que estar com o texto na ponta da língua,
preparado para apresentar a qualquer momento.

Em 2010, no Domingão do Faustão, Globo

6º Passo | DECORAR E ENSAIAR 26


Para decorar você pode simplesmente ler o texto várias vezes até conseguir
dize-lo sem olhar o papel e pode também criar uma “historinha” na sua
cabeça que te ajude a fazer os links entre os temas. Essa história pode
ser feita com associação de imagens pessoais.

Gestos e movimentação de palco também ajudam a memorizar o texto,


você sabe que quando levantar o braço irritado, vai fazer a piada do seu
pai, quando virar a cabeça pra esquerda vai trazer o texto do cachorro etc.
Gestos que ajudem a marcar o texto.

Uma vez que esteja com o texto decorado é o momento de testar


diferentes maneiras de falar uma piada, variar tom, intensidade, intenção,
volume, cara, voz etc. Hora de se divertir e arriscar maneiras diferentes.
O ensaio é importante e prazeroso, não tem compromisso algum em
acertar, é a hora de arriscar mesmo. Ensaie o máximo que puder. Por
que no passo 7 o bicho vai pegar.

6º Passo | DECORAR E ENSAIAR 27


7º Passo | FASE DE TESTE

Hora de testar o material. Sempre registrando com filmagem ou gravação


de áudio. Depois de todo show, escute a gravação com seu texto do lado e
faça as anotações necessárias. “Essa piada funcionou, essa não, por que não?
Essa perdi o tempo, essa forcei, essa falei devagar, essa é ruim mesmo, vou
jogar fora, essa é boa, preciso fazer um call back”. Você será o seu próprio
professor avaliando sua própria prova.

Em 2011, no Tudo é Possível, programa da Ana Hickmann, Record

7º passo | FASE DE TESTE 28


Tente fazer o máximo de shows possíveis para testar o material. Ouça sua
gravação e corte piadas que não funcionam, trabalhe as que funcionam
mais ou menos e valorize as que funcionam bem.

Não tenha dó de jogar piadas foras. É extremamente importante fazer isso.


Ouvir seu material e entender que pra você parece engraçado, mas pra
plateia não, isso acontece sempre. Então teste a piada algumas vezes e
se não derem risada, jogue ela fora. Caso deem risada uma vez e na outra
não, é preciso descobrir qual é o tempo correto de fazer a piada. Toda piada
tem um tempo de entrega justo para funcionar. Onde você vai enfatizar a
pausa, a respiração ou o silêncio, é muito importante para o resultado final.
Isso você só vai descobrir com o “tempo” de palco.

Sendo um comediante iniciante busque espaço para apresentar com


comediantes que já tenham experiência e sempre, sempre, sempre
respeite o tempo que te derem no palco. Se agendarem com você apenas
3 minutos de apresentação, ensaie para isso e não faça nem um segundo a
mais. Isso vai te ajudar a ter controle sobre seu material e não vai queimar
sua cara no mercado. Odiamos iniciantes que extrapolam o tempo. E isso
geralmente acontece ou porque o comediante está indo muito bem ou
porque está indo muito mal. Se está indo bem se empolga e acha que
tem direito de ficar no palco porque a plateia está gostando. E não tem!
O show não é seu e é melhor deixar o gostinho de quero mais. E se está
indo mal, quer ficar mais tempo para tentar levantar a plateia e sair do
palco melhor. Azar o seu, saia mal mesmo e vá melhorar seu material,
isso acontece com todo mundo, melhor respeitar o tempo e ganhar outra
chance do que extrapolar e perde-la.

7º passo | FASE DE TESTE 29


8º Passo | CORTAR E VALORIZAR

F icar com esse material novo e aprimora-lo. Todo texto só fica pronto
mesmo depois de alguns meses de apresentação. Stand up leva tempo
mesmo. Apenas o tempo e a prática tornará o texto orgânico. Nesse período
é bem possível que surjam novas piadas decorrentes do encontro com a
plateia. Tente apresentar o máximo que puder.

Em 2012, no Comedy Central Apresenta, CC

8º Passo | CORTAR E VALORIZAR 30


Diferentes palcos, trazem diferentes públicos que geram diferentes reações
ao seu material. Isso é o ouro do humorista. A piada estará na sua forma
mais potente quando todas as plateias nos mais diferentes lugares derem
risada da mesma maneira, é sinal de que você está dominando o material
e o público.

Como não temos um registro regularizando quem é comediante profissional


e quem não é, as vezes o mercado perde por esta falta de noção. Comum
ver novos comediantes montando shows e fazendo trabalhos ruins. Eles
queimam a cara do stand up, queimam a própria cara e queimam o ponto
onde seria um possível novo local para todos apresentarem, depois dá má
experiência o dono do local não quer mais ver comediantes de stand up
na frente. Isso é mais comum de acontecer do que você imagina. Além de
venderem o show por preços bem mais baixos desestruturando o mercado
todo. Peça ajuda para humoristas e produtores mais experientes na hora
de montar sua noite. É muito importante arriscar sim, e apresentar e errar
e ganhar experiência, porém é também importante encarar isso com
profissionalismo, se não terá um show de humor feito só para seus amigos
que não te ajuda em nada para crescer no mercado.

Num primeiro momento o grande desafio não é nem subir no palco e fazer
as piadas, o problema está na produção do show em si. Como divulgar,
como fechar o acordo com a casa, divisão de bilheteria, como trazer e pagar
convidados, como alinhar a dinâmica do dia do show com os garçons e
demais funcionários. São muitas questões antes de subir no palco. Depois
de subir no palco aparecem ainda mais questões.

Uma das mais óbvias para mim é em relação ao mestre de cerimônias da


noite, ou ao comediante que irá abrir o show.

8º Passo | CORTAR E VALORIZAR 31


Em 2015, MC no TED X SÃO PAULO

O MC
A função dessa figura é preparar o terreno para os humoristas que vem
em seguida. Isso quer dizer, animar o público, quebrar o gelo, porém não
roubar a cena e nem levantar a expectativa demais. O MC não deve fazer
piadas pesadas no começo. Abrir o show já falando muitos palavrões ou
fazendo humor de constrangimento é péssimo. Isso atrapalha o próximo
comediante que pode entrar com um texto falando sobre por exemplo,
meias e sapatos. Um texto leve, sem palavrões com boas piadas, mas por
causa do MC boca suja não irá funcionar tão bem assim, é como passar um

8º Passo | CORTAR E VALORIZAR 32


filme erótico na sessão da tarde e na madrugada uma animação infantil.
As piadas mais pesadas devem sempre ficar para o final.

Muitas vezes o MC tem um ego enorme, quer ser o centro do show e


aproveitar a oportunidade para brilhar na noite por que irá ficar mais tempo
no palco. Aí ele já lança todas as piadas fortes, pesadas e etc na cara da
plateia e não deixa espaço para os outros. Isso é uma cagada egoísta. O MC
não tem nem obrigação de ser tão engraçado, se ele for carismático já está
ótimo. É como um apresentador de tv, ele anuncia as atrações, faz algumas
graças de vez em quando, mas a atração principal será o convidado.

É muito importante que o MC assista seus colegas. Para saber do que falaram
no palco, fazer um link com um assunto, ou para não falar de novo sobre o
mesmo assunto e ficar repetitivo para o público. Essa é uma dica que vale
para todos comediantes, mas principalmente para o MC. É muito normal
assistir shows onde os comediantes se repetem no tema. Parece que o show
inteiro é sobre relacionamentos de casados ou que todos comediantes eram
obrigados a fazer piadas com duplas sertanejas etc. Assistir seus colegas é
essencial para que você entenda como está a plateia e para que escolha
apresentar uma material diferente dos outros humoristas da noite.

O MC deve levantar a público caso um comediante tenha ido mal ou


abaixar o público caso o comediante tenha ido muito bem. Ele nivela
o show para que o próximo encontre uma plateia “neutra” pronta para
receber qualquer coisa. Acredito que o melhor mestre de cerimonias
de shows de humor no Brasil seja o Claudio Torres Gonzaga. Ele treinou
muito tempo isso no show “Comédia em Pé” que dominou o mercado de
stand up no Rio de Janeiro por anos. Havia um grande elenco no show
e o Claudio sabia muito bem manejar da melhor maneira para a plateia.

8º Passo | CORTAR E VALORIZAR 33


Sempre que puder assista ao Claudio como MC, é uma aula.

Não é fácil começar uma noite de humor sem esses conhecimentos. Por
isso reforço que é interessante os novos comediantes terem um tipo de
mentor que os ajude. Existe uma pressa totalmente desnecessária na
maioria dos novatos. Esses apressadinhos geralmente querem fazer humor
para atingir uma suposta fama! Quem entra na arte com essa mentalidade
não vai construir nada de bom, pode até ser que consigam a tal da fama e o
do dinheiro, mas não serão artistas verdadeiramente. Se você ama humor,
faça por paixão e não por fama. Você pode não conseguir ser um artista
famoso, mas pode ser algo melhor; um artista de sucesso!

De tempo ao tempo, entenda seu tamanho no mundo e dedique-se ao


máximo. Chico Anysio dizia que para ser ator, era preciso estudar 5 anos, e
para ser comediante, 10! Então amigo e amiga, paciência e segue em frente.
Concordo totalmente com o Chico. Inclusive só comecei a dar aulas de
stand up depois de 10 anos e comecei a escrever esse material depois de 12.
Alguns textos meus demoraram meses para que eu acertasse exatamente
o tempo. Tanto para construir uma piada como para construir uma carreira
leva tempo. Então sem pressa de acertar, é importante errar.

Como naquela conversa entre o aprendiz e o mestre:

- Mestre, como faço para me tornar sábio?


- Com boas escolhas.
- Mas como fazer boas escolhas?
- Com experiência.
- E como adquirir experiência?
- Com más escolhas.

8º Passo | CORTAR E VALORIZAR 34


9º Passo | DIVIRTA-SE / TEMPO

V ocê estudou, escreveu, decorou e ensaiou, agora sobe no palco e divirta-


se! É importante que se divirta no palco, mesmo que seu texto seja
sobre algo que te irrita, existe uma diversão por trás. Quando você se diverte
de verdade a plateia sente e entra na onda. Não tem problema você rir das
próprias piadas junto com a plateia, assim como não tem problema não rir.
As pessoas foram lá para se divertir, pense nisso e suba no palco sem medo.
Todos os passos até aqui não valerão de nada se você não se divertir. Se seu
show estiver uma merda, pelo menos divirta-se com isso e dê risada de si,
você vai ver a plateia começar a rir imediatamente. Rir é o melhor remédio,
pro paciente e pro médico.

Em 2013, República do Stand up, Comedy Central

9º Passo | DIVIRTA-SE / TEMPO 35


Dar tempo ao tempo. Existe algo que nenhuma dos 9 passos anteriores
vai te dar. A experiência junto ao púbico. Com o tempo de palco você vai
afinando sua escuta com a platéia. Apenas o tempo da tempo de palco. Um
texto de 15 minutos para ficar incrivelmente redondo leva em média, com
dedicação, uns 4 meses para ficar afiado. Então respire e curta a viagem.
Vai ter muito show ruim no caminho? Vai, e sempre vai ser assim, até a
Ellen Degeneres pega platéia fria, mas não quer dizer que ela não é uma
comediante incrível. Todos esses obstáculos no caminho vão formar quem
é você na hora que sobe no palco. Apenas o tempo revela a sua persona
cômica e faz você entender qual é a forma mais confortável que você
encontra para produzir comédia junto ao público.

9º Passo | DIVIRTA-SE / TEMPO 36


10º Passo | VOLTE AO 1º PASSO

P arece pegadinha né? “Volte ao primeiro passo”. Mas não é. De tempos


em tempos surgem novos livros, novos shows, novas referências. Além
disso, você irá mudar. A cidade irá mudar. O país irá mudar. O mundo
muda. E precisamos voltar a consumir comédia, entender qual a novidade
do mercado, como está seu próprio gosto. E sim, voltar a ter fome, ter
gula. Voltar a soltar os dedos no papel, e reescrever e encaixar na boca e
fazer testes e corta e valorizar suas piadas e se divertir. Sim tudo de novo,

Apresentador do Prêmio Multishow de Humor. Nany People, Marcelo Marrom, Dani Valente, Bento
Ribeiro, Natália Klein e Sérgio Malandro.

10º Passo | VOLTE AO 1º PASSO 37


porém dessa vez relaxa, vai fazer isso tudo de forma mais rápida. Será mais
orgânico. Fará parte do seu instinto cômico. Contanto que siga com fico
sabendo o que você quer e se dedicando fique tranquilo que a vida lhe
dará. Acredito na fartura e que existe espaço para todos. O Brasil é um dos
maiores países do mundo, temos São Paulo, a terceira maior cidade do
mundo. Você acha mesmo que vai faltar espaço pra você? Claro que não. E o
legal do mercado da comédia Stand Up é que ele está apenas começando.
Um dia ainda vamos estar como Canadá, EUA ou Inglaterra. Com pelo
menos um clube de comédia em cada capital. Você aí na sua cidade onde
quer que você esteja pode começar um movimento de humor. Eu, junto
com Léo Lins e Marco Zenni tive o primeiro show exclusive de comédia
Stand Up do sul do país. É isso não faz muito tempo. Na época não existem
nem 10 show de comédia Stand up no Brasil todo. Temos muito mais para
crescer no mercado e para amadurecer nos palcos. Podemos conquistar
o mundo. E estamos conquistando. Mhel Marrer, Afonso Padilha e Thiago
Ventura gravaram seus especiais da Netflix que teriam legenda para mais
de 15 países. Isso é uma linda vitória para carreira desses 3 montros, mas
também representa uma vitória para toda nossa classe. E como qualquer
outro mercado a vida do comediante tem altos e baixos. E sempre que
você se perder ou se sentir inseguro, respire e volte ao primeiro passo.
Bom show!

10º Passo | VOLTE AO 1º PASSO 38


GALERIA

Risorama com Guri de Uruguaiana, Murilo Couto,


Em 2014, MC no espetáculo Improvável da Cia
Nany People, Diogo Portugal, Fábio Silvestre,
Barbixas de humor, em Aracaju
Renato Tortoreli, Rafinha Bastos e Tom.

Curitiba Comedy Club

Comedians Club, foto de Tatiana Lima Teatro Regina Vogue, Atira Sarro, foto Daniel Lins

GALERIA 39
Virada Cultural, em São Paulo Turma 1 Curitiba, curso de stand up comedy e da
improvisação

Turma 2 Curitiba, curso de stand up comedy e da Turma 1 Belo Horizonte, curso de stand up comedy
improvisação e da improvisação

GALERIA 40
Turma 1 São Paulo, curso de stand up comedy e da
improvisação

Cartaz do show Atira Sarro

Show Atira Sarro, em São Bernardo do Campo

GALERIA 41
BIOGRAFIA

F ábio Lins é natural de Brasília, mas se formou estudando em Curitiba e


São Paulo. Atua desde os 13 anos e com 17 anos começou no stand up, se
especializou em comédia, improvisação, stand-up comedy e teatro físico.
Hoje, coordena o Espaço da Comédia em São Paulo onde ensina todas
essas técnicas. Além disso Fábio também é apresentador do programa
“Prêmio Multishow de Humor” do canal Multishow.

Fábio Lins também é professor no


curso “Escola da Comédia”. Forma
novos comediantes de stand-up que
após passarem pelo curso, ingressam
no elenco do show que acontece
semanalmente na casa de comédia
Banco Honda Hall.

Conduz também uma pesquisa própria


através do curso IMPROMÍMICA,
focado em teatro físico e improvisação.
Esse curso gerou o espetáculo “Museu
de Histórias” que foi selecionado
para o festival internacional de teatro
IMPRO AMSTERDAM 2018.

Como ator, além de fazer diversas


campanhas publicitárias, protagonizou

BIOGRAFIA 42
o longa metragem de Michael Ruman, “Os Xeretas” e foi antagonista no
filme de Newton Cannito, “Magal e as Formigas”. No teatro, trabalhou em
vários espetáculos entre eles se destacam Improvável, Mirandolina, Noites
de Improviso, Fábrica de Brinquedos, Calígula, PPP, Todos os homens do
Sr. Nelson e Contas Diárias. Este último circulou o país em diversos festivais
recebendo muitos prêmios. É cocriador do espetáculo de improvisação
“Subsolo” que em 2015 foi convidado para o 4O Festival internacional
IMPROLOMBIA, em Medellin.

Na TV, atuou nos programas Punch Tv do canal COMEDY CENTRAL, Disney Cruj
do SBT, 9mm São Paulo da FOX e Quinta Categoria da MTV. Como apresentador
e mestre de cerimônias trabalhou no Ted X São Paulo 2106, Minha Praia
MULTISHOW, Magazine Band Sports e no show Improvável da CIA BARBIXAS
DE HUMOR. Em 2017, teve sua rotina retratada na série “Entre Risos” no canal
Comedy Central, além de ser o apresentador do Prêmio Multishow de Humor.

Como comediante de stand-up comedy já desenvolveu 4 solos de humor até


então: A trilogia “Atira Sarro” e o mais recente show GET UP STAND UP. Formador
dos grupos de humor “Escola da Comédia” , “Santa Comédia” e Fábio Lins e
Amigos. Fez aparições humorísticas no Programa do Jô, Netflix, Domingão do
Faustão, The Noite com Danilo Gentili, CQC, Comedy Central, SNL, Programa
da Ana Hickmann, Fritada e em muitos shows, festivais e clubes de comédia:
Risorama, Virada cultural, Comedians Club, Comédia ao Vivo, Virada Cultural
SP, Clube da Comédia, Hillarius, Banco Honda Hall, Curitiba Comedy Club,
Comédia em Pé, entre outros.

E como roteirista desenvolve diversos roteiros para o canal Comicozinho


e escreveu os curtas “Encontro as escuras” e “O amor de Hugo” premiado
com o troféu RPCTV Melhores em cena.

BIOGRAFIA 43