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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL

A BIOLOGIA MORAL DA ATENÇÃO


A constituição do sujeito (des)atento

Luciana Vieira Caliman

RIO DE JANEIRO
2006
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL

A BIOLOGIA MORAL DA ATENÇÃO


A constituição do sujeito (des)atento

Luciana Vieira Caliman

Tese apresentada como requisito parcial para


obtenção do grau de Doutor em Saúde Coletiva,
Curso de Pós-graduação em Saúde Coletiva – área
de concentração em Ciências Humanas e Saúde do
Instituto de Medicina Social da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro

Orientador: Francisco Javier Ortega

Rio de Janeiro
2006
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 2

A BIOLOGIA MORAL DA ATENÇÃO


A constituição do sujeito (des)atento

Luciana Vieira Caliman

BANCA EXAMINADORA:

______________________________________________________________________________
ORIENTADOR: FRANCISCO JAVIER GUERERO ORTEGA
Professor Adjunto – Instituto de Medicina Social – UERJ

______________________________________________________________________________
BENILTON CARLOS BEZERRA JUNIOR
Professor Adjunto – Instituto de Medicina Social – UERJ

______________________________________________________________________________
JURANDIR SEBASTIÃO FREIRE COSTA
Professor Titular – Instituto de Medicina Social – UERJ

______________________________________________________________________________
MARIA CRISTINA FRANCO FERRAZ
Professor Titular – Universidade Federal Fluminense

______________________________________________________________________________
VIRGINIA KASTRUP
Professor Adjunto – Universidade Federal do Rio de Janeiro
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A Rô, meu amor


A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 4

AGRADEÇO

A Rogério, por todas as intensidades, densidades e levezas das atenções deliciosamente


partilhadas.

À minha família, pela confiança e paciência ilimitada. A meu pai, todo amor.
A Francisco, por mais uma de tantas conquistas divididas durante todos estes anos, e à
Bethânia, pela credibilidade e carinho sempre tão especiais.

A Fernando, por tornar tudo isso possível. Pela amizade e confiança únicas de quem
respira e transpira vida. Por fazer de minha estadia no Max muito mais que uma
experiência profissional extraordinária.

À Dana, Naomi, Zeynep, Elodie, Claire, “Katrins”, Olivie, Bernhard, Hartmut, Carola,
Regina, Deny... e tantos outros que fizeram dos anos no Max uma experiência
inesquecível.

Pelas presenças vindas de tantos cantos do mundo que fizeram de Berlim uma casa, um
lugar para se viver. À Angélica, Johannes, Hugo, Sissi, Margrit, Kirill, Stefan, Davi...
todo meu afeto.

À Lucy, Florian, Dirk e Scott, pela acolhida tão acolhedora em Londres.

Akinobu, KK e Jorge, o que seria do Wellcome sem vocês?!

À Lukind, surpresa brasileira nas terras germânicas, pelo afeto e confiança.

À Cris, por tantas histórias compartilhadas. Agradeço o carinho seu e do Omar.

Virgínia e Arthur, pelas trocas de atenção e de olhares.

A Beni, pelo incentivo à vida.

Ao PEPAS e em especial a Jurandir, por expandirem minha janela de possíveis e minha


forma de ver e viver o mundo.

Às instituições que tornaram possível a realização deste trabalho e que me acolheram.


Meus agradecimentos ao IMS, à FAPERJ, ao DAAD, ao Instituto Max Planck de História
da Ciência e ao Centro Wellcome de História da Medicina.
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“A fábula da liberdade inteligível. A história dos sentimentos, mediante


os quais tornamos alguém responsável, portanto, dos chamados
sentimentos morais, decorre nas seguintes fases principais. Primeiro,
chama-se boa ou má a cada uma das ações, sem qualquer consideração
pelos seus motivos, mas unicamente devido às conseqüências úteis ou
prejudiciais. Mas em breve se esquece as origens dessas designações e se
imagina que a qualidade de “bom” ou de “mau” é inerente às ações em
si, sem ter em conta as suas conseqüências; cometendo o mesmo erro,
segundo o qual a linguagem designa a própria pedra como dura, a
própria árvore como verde – portanto, entendendo como causa aquilo
que é efeito. Em seguida, introduz se nos motivos o ser bom ou o ser mau
e considera-se os atos em si como moralmente ambíguos. Vai se mais
longe e aplica-se o predicado bom ou mau já não ao motivo isolado, mas
a todo o caráter de uma pessoa, a partir do qual sai o motivo tal como a
planta brota da terra. Assim, se torna o homem responsável,
sucessivamente, pelos seus resultados, depois pelas suas ações, depois
pelos seus motivos e, enfim, pelo seu caráter. Ora, por fim, descobre-se
que tão pouco esse caráter pode ser responsável, na medida em que ele é
integralmente conseqüência necessária e se constituiu a partir dos
elementos e das conseqüências de coisas passadas e presentes; por
conseguinte, que não se pode tornar o homem responsável por nada, nem
pelo seu caráter, nem pelos seus motivos, nem pelas suas ações, nem
pelos seus efeitos. Com isso, se chega a conclusão que a história dos
sentimentos morais é a história de um erro, do erro da responsabilidade
que se baseia no erro da liberdade da vontade (…) ninguém é responsável
pelos seus atos, ninguém o é pela sua índole. O axioma é tão claro como
a luz do sol e, contudo, neste caso, toda a gente prefere voltar às trevas e
à mentira, com medo das conseqüências” (NIETZSCHE, Humano,
Demasiado Humano, Aforismo 39)
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A BIOLOGIA MORAL DA ATENÇÃO–


A constituição do sujeito (des)atento

RESUMO
Esse trabalho analisa a constituição do indivíduo atento e do indivíduo desatento no interior do
processo histórico de biologização moral da atenção. Em nossa tese, a história da biologia moral
da atenção está dividida em três momentos principais: a segunda metade do século XVIII; a
segunda metade do século XIX; as últimas três décadas do século XX. A investigação do terceiro
momento está no centro da pesquisa. Nele, damos prioridade a análise da constituição do
diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH. Nos três períodos
analisados, os interesses pelos estudos da atenção se intensificaram e seu controle e gestão
tornaram-se objeto das tecnologias morais, sociais, econômicas, médicas e psicológicas. Neles a
capacidade de controle da atenção passou a ser o que distinguia o sábio do tolo; o indivíduo
senhor de si do alienado; o sujeito ativo, mestre no controle de seu corpo e de sua vontade, do
impulsivo, portador de um corpo descontrolado e de uma vontade fraca. No século XVIII, a
atenção era a direção ativa da mente que possibilitava o conhecimento racional do mundo e de si.
Ela deveria ser treinada, incitada e estimulada. Aos que se dedicavam à sua disciplina e mestria
era concedido um lugar privilegiado. A moral da atenção se constituía. Ao vinculá-la aos
conceitos de inibição e de vontade, o século XIX lhe outorgou uma outra função: o controle do
comportamento. Além de ser importante para a constituição do conhecimento, a atenção tornou-
se responsável pela regulação da ação. Um novo valor da atenção se constituía. O século XIX
também possibilitou que sua moral fosse naturalizada, atada ao corpo e, em seguida,
“cerebrizada”. O século XX vinculou a atenção à moral do sucesso e da produtividade e
radicalizou o processo de sua cerebrização. No processo de moralização e valorização da atenção,
as histórias da constituição do sujeito (des)atento são extremamente diversas. A versão analisada
em nosso trabalho dialoga com a história do sujeito cerebral. A constituição do sujeito atento e do
sujeito desatento é analisada nos espaços fronteiriços criados entre a moral e a biologia cerebral
da atenção.

Palavras-chave: atenção, moral, cérebro, Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade


(TDAH).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 7

THE MORAL BIOLOGY OF ATTENTION

The constitution of the (in)attentive individual

ABSTRACT

The objective of this work is to analyse the constitution of the attentive and inattentive individual
within the historical process of the moral biologisation of attention. This thesis divides the history
of the moral biology of attention into three main phases: the second half of the eighteenth
century; the second half of the nineteenth century; the last three decades of the twentieth century.
The third phase is at the heart of this investigation. Here, we focus on analysing the establishment
of the diagnosis of Attention Deficit/ Hyperactivity Disorder –ADHD. In the three periods
analysed, interest in the study of attention has intensified and it’s control and management has
become the object of moral, social, economic, medical and psychological technologies. Through
them this ability to control attention has separated the wise from the foolish; the master of self
from the alienated; the alert person, a master in the control of his body and will, from the
impulsive person, who has no control over his body and is weak-willed. In the XVIII century,
attention was considered to be the active manager of the mind, making rational knowledge of the
world and of the individual himself possible. It required training, arousal and stimulation. Those
who dedicated themselves to controlling and dominating it occupied a privileged position. The
moral of attention had begun to be established. In the XIX century inhibition and will were
linked, thus endowing it with another function: that of controller of behaviour. No longer was
attention only important in the formulation of knowledge but it also became responsible for the
regulation of action. Attention gained a new value. The XIX century also made it possible for its
moral to be naturalized, tied to the body and then "cerebilised". The XX century linked attention
to the moral of success and productivity and fixed the process of cerebralisation. During this
process where attention gained value, the histories of what constitutes an attentive individual are
extremely varied. In this work the history of the cerebral individual is discussed. The constitution
of the attentive and inattentive individual is analysed in the borderlands between the moral and
the cerebral biology of attention.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 8

SUMÁRIO

1. Introdução ........................................................................... Error! Bookmark not defined.


2. Os Valores da Atenção ...................................................................................................... 18
2.1. Os Corpos da Atenção................................................................................................ 24
2.2. A Neurofisiologia Moral da Atenção.......................................................................... 29
2.3. As Patologias da Atenção........................................................................................... 36
2.4. Conclusão .................................................................................................................. 44
3. Celebridades e Cerebridades Executivas na Economia da Atenção..................................... 46
3.1. As Celebridades Executivas e a Gestão da Atenção.................................................... 49
3.2. Aparências Atentas, Atentos às Aparências ................................................................ 60
3.3. Conclusão .................................................................................................................. 66
4. O Economia Biomédica da Atenção e o “fato TDAH” ...................................................... 70
4.1. O TDAH na Economia da Atenção ............................................................................ 73
4.2. O Estilo de Pensamento da Psiquiatria Atual e o TDAH............................................. 80
4.3. O “Fato TDAH” na Década de 90 .............................................................................. 84
4.4. O Discurso da Legitimidade....................................................................................... 89
4.5. Conclusão .................................................................................................................. 99
5. O TDAH antes do TDAH ................................................................................................ 104
5.1. George Still e a Biologia da Moral no Início do Século XX...................................... 111
5.2. A Encefalite Letárgica na História do TDAH ........................................................... 119
5.3. Conclusão ................................................................................................................ 122
6. As “Cerebridades Executivas” e o TDAH ........................................................................ 125
6.1. As Desatenções do TDAH ....................................................................................... 127
6.2. As Cerebridades Executivas Prudentes e o TDAH.................................................... 130
6.3. As (des) Temporalidades do Indivíduo TDAH ......................................................... 135
6.4. A Biologia Moral do TDAH..................................................................................... 138
6.5. As (Im)Potências do Querer ..................................................................................... 143
6.6. Conclusão ................................................................................................................ 148
7. Considerações Finais ....................................................................................................... 151
8. Referências...................................................................................................................... 158
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 9

1. INTRODUÇÃO

“As manifestações do estado que normalmente


chamamos de atenção são proteônicas. Nenhuma
parte do indivíduo é intocada por elas. Elas se
estendem a todas as partes do organismos e estão
entre os fatos mais profundos da mente. As
ramificações da atenção são tão numerosas e variadas
que encontramos autoridades competentes que a
definem como um estado de contração e adaptação,
como uma atividade mental pura, como uma emoção
ou um sentimento e como uma mudança na clareza
das idéias” (PILLSBURY, 1908, p. 1)

A atenção pertence ao grupo dos conceitos nômades que descrevem fenômenos não
totalmente apreensíveis, nos diz WALDENFELS (2004). O “fenômeno da atenção” não se situa
em nenhum lugar preciso dentro ou fora do corpo humano e não obedece a nenhuma lei natural
ou espiritual rígida, posterior à experiência. O autor continua: O que é a atenção? Um
acontecimento? Um incidente? Um ato? Uma disposição? Uma decisão consciente? Uma
habilidade? Um dever e uma obrigação? Um presente? Em sua fenomenologia, ela se tornou um
pouco de tudo isso. Se é possível situá-la em algum espaço, este é o das interseções móveis, das
dobras formadas pelas relações entre as esferas conscientes e inconscientes do homem e o mundo
por ele habitado. Mas tudo aquilo que não ocupa um lugar preciso e não obedece a uma lei clara,
em nossas sociedades, acaba sendo alojado em algum lugar, enquadrado em algum sistema.
Assim ocorreu e ocorre com a atenção até os dias de hoje.
Por outro lado, se o mundo conceitual nem sempre é tolerante ao nomadismo de certos
fenômenos, ele também se alimenta da flexibilidade que os caracteriza. Os conceitos nômades
são estratégicos. Em certos momentos, algumas de suas características e alguns dos espaços por
eles ocupados assumem um status ontológico que, no entanto, é também temporário. Quando a
ontologia estabelecida não é mais eficiente ou interessante, ela é substituída por outra sem com
isso abdicar de seu vínculo com a realidade fenomenológica descrita. Assim aconteceu e acontece
com a atenção. Ela foi identificada à experiências perceptivas diversas, assumiu faces opostas, foi
localizada em espaços imateriais e materiais.
A primeira característica da atenção que destacamos é, portanto, seu nomadismo. Quando
olhamos para os significados da atenção nos séculos XVIII e XIX, não encontramos um lugar
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 10

comum. Em suas diversas definições, ela foi considerada subjetiva, objetiva, natural, espiritual,
ativa e passiva. Descrita como uma força de atração exercida sobre os indivíduos pelo mundo
externo, ela também foi definida como uma força mental imaterial, internamente e ativamente
gerada; ela oscilou entre ser considerada um fenômeno puramente objetivo e automático e, por
outro lado, necessariamente subjetivo e voluntário; seus automatismos normativos foram
separados de seus traços libertadores e criadores; importante para a afirmação da arte realista, ela
também fez parte da experimentação diversa do expressionismo; no discurso científico que se
opunha ao subjetivismo artístico, ela era também aclamada e feita dependente da vontade
racional e consciente. Em certos momentos de sua história, seu nomadismo foi reconhecido e
seus aspectos aparentemente opostos foram integrados em uma fenomenologia única.
Devido à face nômade da atenção, dificilmente poderíamos falar de uma única história do
indivíduo atento/desatento, especialmente quando consideramos a miríade de espaços e discursos
que, ao menos nos últimos 300 anos das sociedades ocidentais, fizeram da atenção e de sua
“falta” um valor moral, político e econômico. Há os que investigam a constituição do seu valor
na história da psicologia, da percepção e da fenomenologia; no desenvolvimento da mídia e das
tecnologias de atração e de entretenimento; na história da arte e da literatura; na história das
religiões; na história da observação científica e de seus objetivismos; na história da patologia
mental1. Alguns historiadores acreditam que ela sempre esteve presente na história da filosofia e
do conhecimento como um tema de destaque. Outros afirmam que foi primeiramente a partir da
segunda metade do século XIX que seu controle tornou-se importante para a vida moderna. Este
é o ponto de vista de Jonathan CRARY (1999), um dos mais famosos historiadores da atenção
nos dias de hoje. Em sua análise, as últimas décadas do século XIX delimitaram o momento

1
Para uma análise atual da atenção na história da percepção e da psicologia, consultar CRARY (1999, 2000),
HAGNER (1998, 1999, 2001), HATFIELD (1998), ROSSELÓ (1993, 1998), SÁNCHEZ (1993) e MIALET (1999).
São vários os autores do século XIX que também nos oferecem uma análise histórica do tema, dentre eles sugerimos
UHL (1889), DEWEY (1897), BRAUNSCHWEIGER (1899), TITCHENER (1894, 1908), PILLSBURY (1908),
NAYRAC (1906) e BRITAIN, (1907). Para uma análise da atenção mais focada na história da fenomenologia e da
filosofia, ver WALDENFELS (2004). Sobre a constituição do olhar atento na história do desenvolvimento das
tecnologias midiáticas, consultar MAYE (2005), MATUSSEK (2001) e SIEGFRIED (2001), GOLDHABER (1996a,
1996b, 1996c, 1997a, 1997b, 1997c, 1998a, 1998b, 1998c); na história da arte, CRARY (1999, 2000) também é uma
referência importante. Para uma discussão sobre a história da atenção e da distração, no vocabulário religioso cristão,
ver WALDENFELS (2004, especialmente p. 15-24), MOOS (2001) e LERCH (2005). Sobre a história das
tecnologias visuais de entretenimento e da disciplina do olhar, consultar CRARY (1991, 2002), GORMAN (2004),
BIGGER, (2004), DETTELBACH, NORTON, (2004) e MORUS (2004). Para uma análise dos regimes da atenção
científica e de suas relações com a história da objetividade, consultar DASTON e GALISON (2005, 1992) e
DASTON (1995, 1999a, 1999b, 2000a, 2000b, 2001, 2004). Ver também FRANCK (1995, 1998) para a análise do
processo histórico de racionalização e “economização” da atenção. No capítulo seguinte, analisamos principalmente
a história da atenção que a vincula ao processo de biologização da vontade e das patologias da ação.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 11

político, econômico, social e tecnológico no qual a capacidade de focalização e de fixação da


atenção foi vista como necessária à integração da experiência subjetiva e à adaptação eficiente ao
mundo.
Há os que defendem que a importância da atenção para as sociedades ocidentais é mais
antiga e remonta às práticas iluministas e românticas de observação e experimentação do eu. Para
HAGNER (1998, 1999, 2001, 2003), a habilidade de controle da atenção passou a ser importante
para a subjetividade moderna quando, no final do século XVIII, as técnicas de auto-
experimentação e de auto-observação tornaram-se fundamentais para a constituição do
conhecimento do eu burguês e quando o processo de racionalização do tempo se iniciava.
Quando o foco de análise é a história das ciências, um outro percurso é construído. Assim,
DASTON (2000b) nos conta que, na história das ciências, a observação minuciosa necessária ao
trabalho de descrição, registro e comunicação do fato observado sempre esteve relacionada à
função da atenção. Mas na medida em que a observação científica possui uma história e que nela
o observador atento assumiu diferentes perfis, na psicologia científica, a atenção dedicada à
atenção nem sempre foi a mesma. Muitas vezes, o que se compreendia por controle da atenção
em uma época era totalmente estranho, e mesmo oposto, ao que era enfatizado na época seguinte.
Nas ciências, ela foi primeiro vista como dependente do interesse e do admirar-se; passou a ser
um resultado da disciplina da razão, foi atada ao esforço da vontade consciente e, por fim, foi
vinculada ao trabalho misterioso da intuição.
Os estudos acima citados nos contam histórias da constituição do valor da atenção ou da
atenção como um valor nos últimos 300 anos da história ocidental, mas o que eles compreendem
por “atenção” é tão diverso e tão plural que uma unidade discursiva dificilmente pode ser
mantida. Eles descrevem perfis de indivíduos atentos que nem sempre se assemelham e o mesmo
acontece com os indivíduos desatentos. Na maior parte das vezes, eles apenas compartilham a
definição imprecisa e dúbia de serem sujeitos atentos ou desatentos. Por outro lado, assumir que a
“história da atenção” é marcada por esta diversidade conceitual não é o mesmo que dizer que nela
a atenção é uma entidade abstrata que inclui tudo. O fenômeno da atenção também possui
características que se mantém e são compartilhadas por suas histórias. Na diversidade revelada,
encontramos uma certa “fenomenologia mínima da atenção”: ela é um ato que direciona a mente
e o corpo para um objeto ou para uma idéia, selecionando-os entre os demais e inibindo os que
não serão atendidos; ela torna o objeto de sua escolha mais distinto e claro; ela aumenta a
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 12

acuidade sensorial do objeto percebido; é limitada; ela é um estado de fixação ou suspensão que,
em maior ou menor grau, é marcado por oscilações e deslocamentos.
Além da fenomenologia mínima da atenção, há um ponto de acordo que tomamos
emprestado de Crary, de Hagner e de outros historiadores e que colocamos no centro de nossa
análise: nos estudos da atenção do século XIX, a sua materialidade corporal ganhou relevo. Foi
nesta época que a atenção ganhou um corpo, ou melhor, vários corpos: o corpo cerebral, o corpo
neurofisiológico, sensorial e motor, o corpo relacional, social, estético e emocional. Mas foi
também nesta época em que o corpo neurofisiológico foi destacado entre os demais e que a
medida de seus aspectos corporais fez parte do processo de objetivação e externalização da
subjetividade.
A biologização e encarnação da atenção pertenceu à história mais abrangente de
moralização do natural e de naturalização da moral2. Para JACYNA (1981), estava em voga a
construção de uma compreensão naturalista do homem no interior da qual a natureza passava a
ser vista como auto-suficiente. A central reguladora da ação humana deveria ser encontrada no
mundo natural interno ou externo ao homem. Se no século XVIII a regulação e o controle da
mente e do corpo foram entregues a Deus, à alma ou à razão desencarnada, em um certo discurso
das ciências fisiológicas e psicológicas do século XIX, o agente ordenador ganhou um corpo. O
processo de naturalização da regulação humana foi extremamente diverso e trouxe consigo
diferentes concepções de natureza, corpo, mente, vontade e atenção. Mas quando olhamos para as
concepções da patologia mental, principalmente na segunda metade do século XIX, o corpo
neurofisiológico e cerebral foi privilegiado. Não é por acaso que, ao analisar os discursos sobre a
afasia desta mesma época, JACYNA (2000) fala do predomínio de um certo “craniocentrismo”
no contexto científico da época.
Mas para compreendermos a constituição do “craniocentrismo” do final do século XIX, é
preciso retornar um pouco mais no tempo. Ao analisar a história da constituição da figura
antropológica do sujeito cerebral (brainhood) no ocidente, VIDAL (2005a, 2005b) demonstra
como, no século XVII, o debate filosófico sobre a sede da alma e da pessoalidade ofereceu os
alicerces sob os quais a “brainhood” se constituiu3. Estava em voga o desenvolvimento do

2
Para uma análise geral sobre o processo de valorização e moralização do natural, consultar especialmente o livro
editado por DASTON e VIDAL (2004).
3
Fernando Vidal e Francisco Ortega são atualmente os coordenadores do projeto internacional de pesquisa “O
sujeito Cerebral: Brainhood”, financiado pelo DAAD e realizado entre o Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro IMS/UERJ e o Instituto Max Planck de História da Ciência, Berlim. Para
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 13

processo de desencarnação da pessoalidade no qual Locke foi o personagem central. Naquela


época, o debate filosófico e teológico sobre as relações mente-corpo trouxeram consigo pelo
menos três diferentes questões: o problema da razão, o problema da pessoalidade, e o problema
da consciência. Em Locke, os dois primeiros, razão e pessoalidade, foram subordinados ao
problema da consciência. Em certo sentido, a capacidade de conhecer e a identidade humana
tornaram-se dependentes do fato de se possuir uma consciência que era, sobretudo, desencarnada.
Nas análises do filósofo inglês, a identidade pessoal, ou seja, o sentimento de ser a mesma pessoa
no decorrer do tempo, era garantida pelo trabalho das funções psicológicas vinculadas à
consciência, como a memória e a atenção4.
Os desdobramentos do debate sobre a pessoalidade e a identidade humana foram muitos.
As questões nele discutidas não eram interessantes e importantes apenas para um grupo de
filósofos. Alimentando-o estavam querelas políticas, sociais, legais, médicas, éticas e espirituais
caras à época, como o problema da responsabilidade individual do criminoso e do insano. A elas,
o século XVIII acrescentou novos elementos e as bases para a conversão do sujeito consciente em
sujeito cerebral se estruturavam. Não demorou muito, o debate sobre a consciência e a identidade
pessoal foram reescritos no interior das ciências empíricas fisiológicas e neurofisiológicas. No
século XIX, a frenologia, os estudos sobre a localização cerebral das funções mentais e as teorias
da neurofisiologia e da psicologia fisiológica foram aspectos decisivos5. Em certo sentido, a
identidade pessoal passou a coincidir com a identidade cerebral. No decorrer do século XX e
XXI, outros acontecimentos radicalizaram de forma diversa este processo.
A constituição do sujeito cerebral começou com a psicologização e desencarnação da
pessoalidade no discurso filosófico do século XVII, se fortaleceu no século XVIII e ganhou
novas bases empíricas com as ciências neurofisiológicas e o “craniocentrismo” do século XIX.
Na primeira metade do século XX, as teses que a fundamentavam foram colocadas em questão
pelas teorias psicodinâmicas e psicanalíticas, mas ela continuou seu percurso. As últimas décadas
do século XX lhe concederam uma nova força e um novo perfil. A década de 1990 ficou
conhecida como “a década do cérebro”. A esperança publica e oficialmente declarada era que, no

maiores detalhes sobre a noção de “brainhood” e as pesquisas que vêm sendo realizadas sobre o assunto, consultar o
site do projeto.
4
Consultar UDO (2006) e WALDENFELS (2004, p. 21).
5
Nos comentários sobre a constituição dos saberes neurológicos, neurofisiológicos e cerebrais do século XIX,
baseamos nossa análise nos trabalho de BRAZIER (1971); CLARKE e JACYNA (1987); HARRINGTON (1987);
JACYNA (1981, 2000); MACMILLAN (1992); SMITH (1973, 1981, 1991, 1992a, 1992b), VIDAL (2005a, 2005b);
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 14

século XXI, todos os segredos do ser humano, escondidos no órgão mais complexo e mais
importante do corpo, seriam revelados. Curiosamente, a história nos conta que, para que a
identidade fosse alojada no cérebro, primeiro o corpo teve que ser esquecido, em seguida
redescoberto, invadido, analisado, visualizado e fragmentado pelas ciências médicas e, enfim,
desvalorizado pelo discurso da primazia das funções cerebrais. Na história do sujeito cerebral, o
processo rico e diverso de naturalização e corporificação da subjetividade, que teve início na
virada do século XIX, foi reduzido à sua cerebrização.
A identificação da pessoalidade à consciência e desta ao cérebro nos revela aspectos
importantes da versão histórica da constituição do indivíduo atento/desatento que será analisada
ao longo de nosso trabalho. Para a psicologia do século XVIII, a memória era o que mantinha a
unidade do eu e permitia que sua identidade fosse mantida. Quase sempre abordada nos capítulos
sobre a memória, a atenção estava intimamente envolvida com o processo mnemônico. Era ela
que oferecia a matéria e o conteúdo que seriam registrados na memória. O curso natural da vida
mostrava que a percepção, quando não controlada pela atenção racional, era uma experiência
passiva, facilmente capturada pelas forças externas e internas ao eu. Somente no estado da
atenção racional e consciente a mente era descrita como sendo capaz de ativamente dirigir as
forças perceptivas.
No século XVII e XVIII, a esfera espiritual, consciente e racional da atenção foi valorizada,
afirmada e descrita como uma das faculdade mais nobres do ser humano. Ao ser identificada a
direção ativa da mente, junto com a memória, a atenção permitia que a identidade pessoal fosse
garantida. Uma certa forma de estar atento foi valorizada e racionalizada, quando ela atingiu seu
ápice na escala dos valores humanos existenciais e sociais e tentaram alojá-la no cérebro. O “ater-
se” que dela se diferenciava ou que a ela impunha limites, era descrito como um “não ater-se”,
uma falta ou um defeito da atenção que, na maior parte das vezes era visto como prejudicial e
patológico, com ou sem a “prova empírica” de suas bases corporais e materiais.
Dissemos que muitas são as histórias da atenção. Falamos que a versão que dialoga com a
constituição do sujeito cerebral fez parte de um processo histórico mais geral de naturalização
dos valores e de valorização da natureza. Preceitos morais e espirituais da época, como a
importância de se ter uma vida ordenada, moderada, racional e prudente, eram descritos como
necessários ao processo de evolução rumo à civilização. Para que esta disciplina de vida fosse

YOUNG (1968, 1970); e na análise direta da obra de alguns autores como FERRIER (1876) e MAUDSLEY (1867,
1883).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 15

alcançada, o corpo deveria ser governado. O controle dos instintos e dos impulsos era visto como
uma capacidade humana superior, vinculada à razão e ao exercício voluntário da atenção.
Teoricamente, todo homem, através de esforço e persistência, poderia desenvolver esta
habilidade. Mas havia os que eram dela privados por fraqueza moral ou constituição natural, por
culpa e/ou por destino natural. Mesmo quando a vontade e a atenção foram vistas como funções
mentais determinadas pela natureza corporal, a culpa moral e a “desculpa” natural dos homens de
vontade fraca e de atenção vacilante nunca foram separadas. A atenção e a vontade continuavam
situadas nas fronteiras imprecisas e obscuras entre a naturalização da moral e a moralização do
natural.
Em nosso trabalho mostraremos como, em seu nomadismo, a biologia e a moral da atenção
nunca foram desvinculadas. Contudo, demonstraremos também que o discurso científico atual
sobre as patologias e disfunções da atenção e da vontade se apóiam na ilusão desta separação. Por
outro lado, as teorias neurobiológicas defendem que, ao localizar as causas da patologia no
cérebro e no corpo, o indivíduo afetado é poupado do julgamento moral, psicológico e social que
o responsabiliza pelos danos causados por sua doença. Ele é, enfim, liberto. Mas veremos que,
diferentemente do que o discurso científico defende, a biologia da atenção e da vontade
transformou e alterou o julgamento moral dos indivíduos acometidos por suas patologias, mas
nunca os eliminou. Além disso, o discurso neurobiológico apóia-se no argumento da neutralidade
científica e na separação entre o estudo da natureza humana e de seus valores morais e nos diz
que a biologia revelada pela ciência neurobiológica é isenta de julgamentos morais e históricos.
Ela é porque é. Veremos que este também não foi e não é o caso. As biologias da atenção e da
vontade incorporaram e incorporam determinados modelos morais de ser e de fazer ciência
específicos de seu tempo. Mais do que isso, como tecnologias subjetivas, elas participaram e
participam ativamente da produção e afirmação de tais modelos.
A história dos diálogos estabelecidos entre as biologias e as morais da atenção está
dividida em três momentos principais: a segunda metade do século XVIII; a segunda metade do
século XIX; e as últimas três décadas do século XX até os dias atuais. Nestes momentos, os
interesses pelos estudos da atenção se intensificaram e seu controle e sua gestão tornaram-se
objeto das tecnologias morais, sociais, econômicas, médicas e psicológicas. Estas épocas foram
marcadas por diferentes regimes científicos e cada um deles criou e propagou valores epistêmicos
específicos, formados por práticas e métodos também específicos e todos eles participaram da
constituição dos valores da atenção. Na ciência do século XVIII, ela era uma habilidade
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 16

necessária à construção do conhecimento “verdadeiro”; na segunda metade do século XIX, ela


possibilitava a objetividade científica; no século XX, ela vinculou-se à escolha intuitiva do
cientista. Cada uma dessas fases criou formas específicas de medir o gasto da atenção, controlá-lo
e julgá-lo.
A investigação do último e mais atual momento histórico da atenção estará no foco de
nosso trabalho. A ele dedicamos a maior parte de nossas análises, pois ele delimita a época na
qual uma “patologia específica” da atenção foi legitimada: a Desordem do Déficit de Atenção e,
atualmente, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade - TDAH. No próximo capítulo,
começaremos com a análise do processo de constituição do valor da atenção, na psicologia da
segunda metade do século XVIII e na vida científica e social da época. Em seguida, analisaremos
o problema da atenção na segunda metade do século XIX e sua importância nas descrições das
patologias da ação e da vontade.
No século das luzes, a iluminação era alcançada através da observação atenta, inspirada
pela razão. A importância das práticas de observação crescia em diferentes domínios. Na vida
social burguesa, o conhecimento de si era adquirido através da observação atenta de si. Na prática
científica, o controle da atenção tornou-se uma habilidade a ser aprimorada pelo esforço do
cientista e os primeiros tratados sobre a prática da observação eram publicados. Esta foi a fase
epistemológica da atenção na qual ela se vinculava exclusivamente ao processo de conhecimento
do mundo e de si. Nela, a atenção era quase sempre descrita como um ato ativo da mente. O
“corpo não corporal” da atenção era aquele que dialogava com as exigências da razão e da
imaginação e optava pela primeira. Os atentos eram os indivíduos iluminados, mas assim o eram
devido à adesão a uma certa disciplina de vida. O gasto indevido da atenção também começava a
ser um signo patológico, alvo do julgamento médico e moral.
Na psicologia da segunda metade do século XIX, veremos que o problema teórico,
prático, científico, político, moral e existencial da atenção mudou consideravelmente. Ao tornar-
se uma das funções responsáveis pelo processo de adaptação do indivíduo ao mundo, o controle e
a inibição do comportamento lhe foram concedidos. A atenção passou a ser a função mental e
corporal responsável pela adaptação do homem ao mundo; ela ocupou o lugar de mediação e
integração entre a mente e o corpo, entre a moral e a ciência, vinculando-se intimamente à função
neurofisiológica da inibição e ao poder espiritual e mental da vontade. O discurso médico
psicológico da época dizia que as patologias mentais, corporais e morais derivavam de sua
dissolução. Elas eram descritas como reações negativas ou mórbidas do corpo ou da mente que
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 17

impediam a adaptação eficiente ao mundo. No processo histórico de biologização da vontade, a


atenção foi a função mediadora que possibilitou que os discursos morais e científicos
coexistissem, mesmo quando tentaram alojá-la no cérebro, seu vínculo com o discurso moral não
foi enfraquecido.
A história das biologias morais da atenção, que analisaremos, nos conta como a inibição
do comportamento foi vista como o valor por excelência da espécie humana. Ela demonstra que
nos últimos 200 anos das sociedades ocidentais, ser mais ou menos sadio, produtivo, bem
sucedido e feliz passou a depender do exercício do autocontrole. Ela também nos relata como
esta mesma capacidade de controle e constituição de si foi feita parcialmente dependente de
nossa constituição genética e biológica e, em última instância, de nossos sistemas cerebrais.
Contaremos uma parte desta história. Nela, buscaremos analisar o processo de somatização e
biologização do que Foucault um dia chamou de tecnologias de si. Procuramos compreender
como os discursos sobre a inibição comportamental, o autocontrole e a atenção se conectaram
historicamente e, num período mais recente, participaram da constituição do diagnóstico do
TDAH e da condição existencial que ele descreve.
A história da cerebrização e moralização da atenção é parte do processo histórico de
constituição do sujeito cerebral. Encontramos continuidades e descontinuidades entre as fases que
delimitam este processo. Muitas das antigas questões que o alimentavam continuam presentes em
seu debate atual, embora o tempo e o contexto de sua aparição, suas repostas e suas
conseqüências sejam outras. Como definir o que se mantém o mesmo e o que com o tempo
tornou-se outro? Na história do sujeito cerebral não encontramos uma resposta única para essa
pergunta. Mas veremos que a análise da constituição da biologia moral da atenção nos oferece
algumas pistas.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 18

2. OS VALORES DA ATENÇÃO

Em seu livro sobre a atenção de 1908, Edward Bradford Titchener (1867-1927)6 fazia uma
avaliação dos benefícios trazidos pela nova psicologia experimental para a pesquisa da atenção:
“a psicologia do século XIX foi quem primeiro “descobriu a atenção””, dizia o autor. Para
Titchener, isto significava dizer que pela primeira vez no ocidente o verdadeiro problema da
atenção era explicita e cientificamente formulado e, finalmente, sua importância para a vida
mental era reconhecida7. A pesquisa psicológica empírica havia encontrado na atenção seu objeto
e seu método e a previsão era de que ela se ocuparia de seus estudos por muito tempo. Até 1908,
ano em que Titchener publicou seu livro, poucos eram os consensos encontrados, muitas eram as
dúvidas. Mas as expectativas eram positivas: o futuro da pesquisa empírica da atenção era
promissor.
À postulação “histórica” de Titchener, HATFIELD (1998) dirige sua crítica. Ele acusa a
nova ciência psicológica, em particular a figura de Titchener, de total desconsideração da
psicologia do século anterior8. Na opinião da maioria dos “novos psicólogos”, a psicologia do
século XVIII era apenas um corpo teórico em organização e, no que dizia respeito ao tema da
atenção, o interesse era ainda incipiente. Contra esta interpretação, Hatfield argumenta que o
primeiro espaço de difusão de uma psicologia da atenção e de reconhecimento de sua importância
para a vida psíquica foi a primeira metade do século XVIII. Em 1889, Lemon Uhl e, dez anos
depois, David Braunschweiger (1899) defendiam um argumento semelhante: desde 1730, a
atenção tornou-se um capítulo importante nos manuais de psicologia e Christian Wolff9 foi quem
primeiro formulou um corpo teórico sistemático sobre o assunto. Com o seu trabalho, o tema da
atenção foi introduzido nos estudos psicológicos do século XVIII.

6
Titchener foi aluno de Wilhelm Wundt em Leipzig e é visto como o “fundador” da psicologia experimental nos
EUA. Ele ficou conhecido como um dos mais proeminentes psicólogos estruturalistas de seu tempo.
7
“O que eu quero dizer com a “descoberta” da atenção é a formulação explícita do problema; o reconhecimento de
sua importância fundamental; a descoberta de que a doutrina da atenção é o nervo de todo sistema psicológico e que
o julgamento dos homens diante do tribunal geral da psicologia dependerá de como a atenção é por eles julgada”
(TITCHENER, 1908, p. 173).
8
Para uma análise geral sobre a importância da psicologia do século XVIII no contexto científico da época e sobre
seu “esquecimento” pela psicologia do século seguinte, sugiro VIDAL (2000, 2005c).
9
Em nossas referências ao conceito de atenção de Wolff, nos apoiamos nas obras de BRAUNSCHWEIGER (1899),
UHL (1889) e HATFIELD (1998). Para uma análise geral sobre o lugar da psicologia wolffiana no contexto
científico do século XVIII, consultar VIDAL (2000).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 19

Titchener não desconhecia os autores da psicologia do século XVIII. Em seu livro, ele
também citava a dissertação de Braunschweiger. No entanto, a seu ver, a psicologia de seu tempo
havia descoberto uma nova forma de colocar o problema da atenção e de investigá-lo.
Certamente, esta não era apenas uma outra forma. Na visão do novo psicólogo, ela era a melhor e
mais científica formulação do problema. Mas se deixarmos de lado o tom cientificista e
desenvolvimentista do argumento de Titchener, ele nos revela um aspecto importante. Não há
dúvidas de que se compararmos a ênfase dada à atenção pela psicologia da segunda metade do
século XIX àquela do século XVIII, veremos que o século XIX foi, por excelência, o espaço de
expansão nos estudos da atenção, mas a comparação entre estes dois momentos nos oferece
outras informações. Como Titchener argumentava, um novo problema da atenção havia sido
formulado. As questões, as perguntas, as respostas e os métodos que sustentavam a pesquisa da
atenção haviam mudado consideravelmente desde sua inclusão nos manuais de psicologia do
século XVIII. Neste sentido, o autor estava correto. No entanto, Titchener havia se equivocado ao
dizer que a psicologia de seu tempo foi a primeira a reconhecer a importância da atenção para a
vida mental.
A atenção tornou-se importante para as teorias psicológicas quando, no século XVIII, ela
foi compreendida como um ato mental que exercia um papel ativo no processo de constituição do
conhecimento e na formação da identidade pessoal. No século XVII, cientistas naturais como
Descartes, Newton, Bacon e Robert Hooke acreditavam que a alma, voraz em sua curiosidade,
dificilmente era apreendida por um objeto. A não ser que ele fosse da ordem do extraordinário, a
alma continuaria sua peregrinação inquieta e insaciável, sem se ater a nada por muito tempo. Por
esse mesmo motivo, a prática científica naturalista ocupava-se do extraordinário e do incomum.
Era dito que, anterior à atenção e a condicionando estava o admirar-se por alguma coisa10.
Uma mudança ocorreu na psicologia científica do século XVIII: a fixação da atenção
passou a ser vista como um poder que poderia ser desenvolvido através da disciplina da mente.
No controle da atenção, o exercício e a disciplina eram adicionados ao maravilhar-se e ao
admirar-se. Na filosofia e na psicologia do século XVIII, essa transformação afetou diretamente a
compreensão do sujeito epistêmico. Para DASTON (2000), ela marcou uma mudança altamente
significativa nos sistemas de pensamento e na pragmática dos modos de vida. Para as teorias da

10
Na segunda parte do seu Tratado das Paixões, no artigo 70, Descartes oferece a seguinte definição de admiração
“A admiração é uma surpresa súbita da alma que faz com que ela considere com atenção os objetos que lhe parecem
raros e extraordinários” (DESCARTES, 1982-1991, p. 380)
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 20

época, o eu era um emaranhado de funções e estados mentais, extremamente vulnerável em sua


integridade, constantemente ameaçado por inimigos internos e externos: de dentro, vinham as
seduções da imaginação; de fora, as associações apressadas que produziam as percepções falsas11.
A atenção bem direcionada era a solução para os dois perigos, ela era “a direção ativa da mente”
que deveria ser treinada, estimulada e desenvolvida. Em certa medida, uma parte da
responsabilidade pelo desenvolvimento da razão e pela manutenção da integridade do eu era
entregue ao indivíduo. A terapia indicada era o treino da paciência e da concentração.
A atenção ativa e racionalmente direcionada a um objeto o tornava mais distinto e claro e
era fundamental ao alcance do verdadeiro conhecimento de si e do mundo. Não por acaso, dentre
todos os aspectos da atenção, Wolff elegeu a clareza como seu efeito mais importante. Nas teses
iluministas, conhecer era sinônimo de tornar as idéias claras e distintas. A atenção era a
faculdade, o estado ou função da mente diretamente conectada a este ideal. Para Wolff, a clareza
orientada pelo entendimento era o que distinguia a espécie humana dos demais animais e o
homem guiado pelos sentidos do sábio orientado pela razão12. UHL (1889) atribuía o sucesso e a
popularidade da teoria da atenção wolffiana ao seu aspecto moral. Não somente para Wolff, mas
para muitos psicólogos de sua época, o indivíduo racional, consciente e atento era o fermento da
civilização13.
Ao tornar-se um valor moral, o dispêndio da atenção passou a ser observado, analisado e
julgado. Desde os tempos antigos, era constatado que a atenção era limitada. Quando traduzido
para o código moral do século XVIII, seu efeito seletivo se encaixou perfeitamente na
constatação de que, de uma forma ou de outra, alguns aspectos da vida sempre seriam
privilegiados sobre os outros. Para HAGNER (2003) e para FRANCK (1995, 1998), a moral da
atenção se constituiu no interior do processo de racionalização e “economização” do tempo,
quando seu dispêndio passou a ser medido e julgado14. Na economia do tempo e da atenção que

11
O tema da imaginação estava no centro da psicologia, filosofia e medicina do século XVIII. As faculdades da
razão e da imaginação competiam pelo controle do conhecimento e do eu. A atenção ativamente dirigida era uma
arma contra os perigos da imaginação. A batalha não era fácil e nem sempre a razão era vitoriosa. Na base das
descrições da insanidade estavam as patologias originadas do predomínio da imaginação.
12
“A atenção possibilita a clareza do conhecimento e a clareza do conhecimento distingue o homem da besta, o
entendimento dos sentidos (…) a atenção é um ato da vontade que limita e concentra a consciência de acordo com as
preferências internas (…) ela marca a diferença entre o ser humano e o animal” (Wolff apud UHL, 1889, p. 20).
13
Sobre o valor moral da atenção na psicologia wolffiana, Lemon enfatizava “ela diferencia os homens dos animais e
as faculdades mais altas das mais baixas; ela distingue os homens uns dos outros em suas habilidades; ela é o
primeiro passo para o conhecimento e mede os poderes da mente (…)” (UHL, 1889, p. 47-48).
14
No vocabulário inglês, os usos da língua revelam dados importantes e esclarecem um pouco mais o que os autores
chamam de processo de racionalização e “economização da atenção”. Antes do século XVIII, os verbos que
acompanhavam o emprego da palavra atenção eram dar e emprestar. Alguém dava atenção (to give attention) para
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 21

se constituía, o que deveria ser priorizado era decidido pelo pacto social. Na prática científica, o
excesso de atenção e de tempo dedicado ao objeto analisado tinha como conseqüência danosa o
esquecimento de todos os demais aspectos da vida, colocando em risco os valores da família e do
convívio social. Esta era a acusação dirigida a muitos homens da ciência.
Mas a crítica aos “cientistas excessivamente atentos” do século XVIII também
direcionava-se ao objeto do ater-se. O dispêndio da atenção com um objeto banal não era
tolerado. A mesma atitude atenta era aceita e vista com bons olhos quando o motivo do interesse
era justificado. Este foi o caso de muitos artistas obcecados por seus objetos de criação. O ato de
sua adoração era aceito e mesmo aclamado por motivos que eram, sobretudo, estéticos. O objeto
do ater-se merecia o tempo e a atenção a ele dedicados. No século XVIII, o excesso de atenção
também foi assunto médico. Em 1768, o médico suíço Samuel Auguste Andre David Tissot
(1728-1797) descrevia o excesso de concentração como uma doença característica de escolares e
cientistas, que deveria ser prevenida já na infância15. Era necessário evitar o tipo de aprendizagem
que envolvesse uma atenção prolongada da mente, sem pausas e sem distrações. Não eram
poucos os relatos que exortavam que o excesso do comportamento atento, característico dos
homens que se dedicavam ao trabalho intelectual e mental, levava ao sentimento de melancolia.
O paradoxo que sustentava o julgamento médico, moral e social do gasto da atenção
estava sempre presente: seu excesso era, ao mesmo tempo, indesejado e desejado. Na fisiologia
da época e principalmente em Tissot, acreditava-se que a concentração da mente em uma idéia ou
objeto impedia a distribuição do fluido nervoso para as outras fibras do cérebro e outras partes do
corpo. Neste estado, nenhuma outra expressão externa ou interna poderia ser registrada na alma.
A energia sensorial e emocional era direcionada para o único ato de concentração. Esta
explicação fisiológica justificava as maravilhas e os perigos da atenção. Ao objeto atendido
direcionavam-se os afetos, os sentidos e o intelecto tornando-o mais claro, distinto e belo. Mas
como a atenção era vista como uma fonte limitada de energia, seus excessos levavam à falência

alguma coisa ou para um outro alguém; alguém emprestava atenção (to lend attention). O verbo dispor ou fornecer
atenção (to afford attention) também era utilizado. Somente a partir de 1760 o termo “prestar atenção”, em seu
sentido mais econômico (pay attention to), começou a ser empregado. Nesta época, as sociedades inglesas viveram
um crescente processo de comercialização. Os indivíduos começavam a ser vistos como entidades comerciais e o
processo de racionalização econômica da atenção tinha seu início. Agradeço particularmente à Ciaran McMahon
pelas informações sobre a história do conceito de atenção e seus usos na língua inglesa.
15
Samuel Auguste Andre David Tissot foi um dos mais famosos médicos do Iluminismo. Em suas descrições
médicas, as doenças eram predominantemente „nervosas“ e afetavam a relação entre a alma e o corpo. Ele descrevia
a doença dos sábios (Gens de lettres) como uma monopolização dos nervos pela alma, causada pelo trabalho
excessivo da mente (VIDAL, 2004). Na análise de DASTON (2000, 2005), a descrição médica de Tissot e a
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 22

dos sentidos. A direção unilateral e excessiva da mente era o que causava a ruína das funções
corporais e a alienação do mundo natural.
A moral da atenção cresceu num terreno repleto de ambivalências. Na ciência natural do
século XVIII, ela ocupava um lugar contraditório ao unir em uma mesma prática coragem,
paciência, disciplina, destreza manual, prazer, sedução, renúncia, abdicação e sacrifício. No
modelo do indivíduo atento, a razão, a disciplina, as emoções e a sedução criaram entre si
relações diversas, não necessariamente de oposição e exclusão. No contexto histórico da ciência
psicológica de Titchener, o valor da atenção foi transformado. Ele era alimentado por dois
problemas intimamente vinculados e estranhos ao cenário científico do século anterior: a
necessidade científica de separação e distinção dos aspectos subjetivos e objetivos do
conhecimento e a moral vitoriana do controle e domínio dos sentimentos e dos impulsos pela
força da vontade e treino da atenção16. A psicologia do século XIX também queria compreender
as relações entre a atenção, a razão, a vontade, os sentimentos e as emoções, mas suas respostas
foram diferentes daquelas do século anterior. O que viria primeiro? Ebbinghaus acreditava que a
atenção dependia e era condicionada pelos sentimentos e interesses. Titchener, fiel seguidor do
evangelho científico da época, declarou seu espanto ao deparar-se com esta posição: “Eu
acreditava que o “interesse” era pensado como uma condição da atenção apenas nas psicologias
populares”17 e, acrescentaríamos, nas psicologias do século XVIII.
Na psicologia científica do século XIX e para o discurso moral da época, o interesse, o
prazer e a emoção não eram capazes de sustentar a atenção. Eles deveriam ser substituídos pelo

constatação popular sobre os perigos dos excessos da atenção podem ser vistas como os primeiros indícios de uma
patologização da atenção.
16
A partir da segunda metade do século XIX, a distinção entre os aspectos objetivos e subjetivos do conhecimento
esteve na base da prática científica. De certa forma, ela teve suas origens na filosofia kantiana. Kant retomou a antiga
distinção escolástica entre objetivo e subjetivo e lhe deu um sentido completamente diferente. Na língua latina, os
primeiros usos do par objetivo/subjetivo foram introduzidos na filosofia escolástica do século XIV por Duns Scotus e
William de Occam. Originalmente, os termos significavam quase o oposto de seus usos atuais. As “coisas” objetivas
eram aquelas presentes na consciência e as subjetivas eram “as coisas por elas mesmas”. Até o século XVIII, muitos
ecos destes sentidos foram preservados. O objetivo continuava sendo visto como o que era objeto da mente. Mas os
usos dos termos nos séculos XVII e XVIII foram quase sempre técnicos e pouco difundidos. Kant os trouxe
novamente à cena. Os significados que o filósofo lhes atribuiu também não foram os mesmos do discurso científico
que os apropriou. Para Kant, os limites entre o objetivo e o subjetivo eram situados entre o a priori e o a posteriore e
não entre a mente e o mundo. A validade objetiva era determinada pela razão e não pela natureza das coisas.
Somente a partir do início do século XIX, o par objetividade/subjetividade foi amplamente compreendido
respectivamente como “relativo a um objeto externo” e “relativo ao pessoal e interno ao sujeito”. De forma geral,
esta foi sua transcrição para o mundo científico (DASTON, 1995, 2000; DASTON e GALISON, 2005). Para uma
análise sobre como esta problemática esteve vinculada às oposições morais entre atenção/vontade e emoção,
consultar especificamente DASTON e GALISON (2005).
17
TITCHENER, 1908, p. 294, (grifo nosso).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 23

esforço da vontade. Para NAYRAC (1906), esta não foi apenas uma “substituição”18. “A emoção
e os sentimentos são os inimigos mais sérios da atenção”, dizia o autor. Eles eram seus
adversários internos mais profundos com os quais não havia possibilidade de integração.
Tornava-se dever moral e científico da atenção inibi-los e controlá-los. Nayrac era claro, “o
desenvolvimento da atenção voluntária possibilitou o desenvolvimento da ciência”, era de seu
exercício que o saber científico sobrevivia, se expandia, crescia19. A moral e a ciência dividiam a
natureza humana em duas partes. De um lado, estavam os instintos, as paixões naturais, as
emoções fortes e a satisfação imediata dos desejos do corpo. Do outro, estavam a vontade, a
razão e a atenção conscientemente controlada. As relações de poder e de controle traçadas entre
estas partes do eu definiam o caráter do indivíduo, seu estado de saúde e de doença e seu lugar na
escala moral e social. O conhecimento científico também dependia desta separação: os aspectos
subjetivos do eu deveriam ser suprimidos e controlados e esta era a tarefa da atenção voluntária.
Mas se o esforço, a vontade e a atenção estiveram sempre juntos na psicologia do século
XIX, nunca houve um consenso sobre os seus significados. O discurso científico e moral
dominante era o do poder da vontade racional, mas sua soberania também foi ameaçada20. As
pesquisas neurofisiológicas argumentavam que as funções mentais complexas, dentre elas a
atenção voluntária, não eram completamente dependentes dos estados conscientes e racionais. O
controle do comportamento era entregue à função cerebral inibitória. Outras vozes vindas das
análises da fisiologia, dos estudos da percepção e dos sentidos buscavam romper com a oposição
entre as esferas voluntárias e automáticas da atenção por outras vias. Mas a pluralidade das
teorias da atenção, no discurso sobre suas disfunções, predominou uma explicação ambígua que
unia seus determinismos naturais ao seu poder espiritual e moral. Na aparente contradição entre
estes pontos de vista havia um consenso: a vida era descrita como um processo adaptativo no
qual as relações internas deveriam ser ajustadas às relações externas. A patologia moral, mental
ou cerebral era uma reação negativa e ineficiente do corpo ou da alma ao mundo externo,
caracterizada pela falência moral e fisiológica da vontade e da atenção.

18
Paul Nayrac não é um nome de destaque na história da psicologia, mas sua monografia sobre a atenção reuniu boa
parte da literatura sobre o assunto produzida nas últimas duas décadas do século XIX. Seu trabalho nos é valioso por
oferecer uma análise geral do ponto de vista sobre a atenção mais aceito e divulgado em sua época.
19
O nascimento da ciência coincidiu com o nascimento da atenção voluntária, ambas possibilitaram o domínio da
natureza impulsiva e lhe dirigiram de acordo com a necessidade, “C’est de la lutte opiniâtre entre la Nature et sa
nature qu’est née la plus belle oeuvre de l’homme, c’est-à-dire la science (e a atenção voluntária)” (NAYRAC, 1906,
p. 221).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 24

2.1. OS CORPOS DA ATENÇÃO


Os séculos XVII e XVIII foram marcados pelo desenvolvimento do processo de
psicologização da identidade (VIDAL, 2005a, 2005b). A nosso ver, em seu estágio inicial, a
constituição do valor da atenção esteve intimamente vinculada a desencarnação da identidade. Da
análise panorâmica do tema da atenção, na psicologia filosófica do século XVIII, pelo menos três
aspectos devem ser ressaltados: 1) como ato mental, ela garantia a clareza necessária ao
conhecimento racional; 2) como uma função ou um estado da consciência, ela era a força ativa do
processo de integração do eu; 3) por ser prioritariamente um estado ou uma função psíquica, seus
atributos fisiológicos eram quase desconsiderados. No diagnóstico de UHL (1889), até o século
XVIII, a fisiologia da atenção foi pouco destacada, enquanto seu aspecto psíquico e espiritual
sempre foi realçado21. Este é um aspecto relevante quando observamos a importância concedida à
sua fisiologia no século XIX22. O corpo da atenção foi colocado no centro de seu debate. A
“ciência natural” da alma, que pouco dizia sobre os aspectos corporais, estreitava seu diálogo
com as ciências fisiológicas e biológicas.
Para YOUNG (1968, 1970)23, estava em voga o início de um processo de biologização e
fisiologização da psicologia. Pelo menos quatro linhas de pensamento e de práticas o
impulsionaram: as teorias da localização cerebral e suas suposições sobre a organização funcional
do cérebro; a defesa da sensação e do movimento como categorias centrais na análise fisiológica
do sistema nervoso; a crença que o princípio de associação de idéias era a lei fundamental da
atividade mental; a mudança de ênfase de uma psicologia informada pela filosofia para a
psicologia fisiológica de bases evolucionistas e dinâmicas.
O processo de encarnação da psicologia iniciado na virada do século XVIII para o XIX
não significou apenas a consideração do papel ativo do corpo na constituição do conhecimento.
Um outro deslocamento não menos importante se iniciava: o que precisava ser explicado pela
psicologia não era mais a representação da realidade pela mente, mas o processo de adaptação,

20
DASTON (1982) distingue os três maiores ataques às teorias da vontade e do controle consciente da atenção: o
associacionismo; o reducionismo fisiológico; e o paralelismo psicofísico. Nos capítulos seguintes, nos atemos mais
especificamente ao reducionismo fisiológico devido à sua importância na história da constituição do sujeito cerebral.
21
UHL (1889, p. 47).
22
Apenas como curiosidade, citamos alguns dos tópicos destacados nos estudos da atenção no final do século: a
atenção e a respiração; a atenção e a circulação; a atenção e a pulsação; a atenção e as mudanças químicas corporais;
a atenção e os glóbulos vermelhos; a atenção e a fadiga; a atenção e a expressão facial; a atenção e a vaso dilatação; a
atenção e os sentidos; a atenção e o córtex cerebral; etc. (NAYRAC, 1906).
23
Para uma revisão crítica interessante sobre o livro de Young de 1970, recomendamos BRAZIER (1971).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 25

vivido por corpos psicodinâmicos que pensavam e sentiam (YOUNG, 1970). Através de
percursos analíticos distintos, mas complementares, STAROBINSKI (2001), JOAS (1996) e
BERRIOS (1995, 1996b) demonstram que, no século XIX, a vida passou a ser compreendida
prioritariamente como um fenômeno de reação do corpo e da mente às demandas ambientais e
sociais. Mesmo os projetos de resistência às tentativas de normatização do corpo apoiaram-se em
propostas reativas.
No estilo de vida que passava a ser caracterizado pela conformação e adaptação do corpo
às condições políticas, econômicas e sociais emergentes e pelos projetos de resistência à essa
adaptação, o problema da atenção e da dispersão ganhava evidência e importância. O corpo, na
maior parte das teorias fisiológicas e psicológicas, deveria modificar e controlar seus impulsos e
necessidades naturais de acordo com as exigências externas. Era preciso revelar os mecanismos
responsáveis pela adaptação da ação humana ao mundo físico, político e social da época e a
atenção logo seria vista como um deles. A partir de então, o corpo atentivo esteve na base dos
projetos sociais e estéticos de normatização e de liberação da subjetividade. Os meios de controle
e gestão da atenção eram tecnologias subjetivas extremamente potentes e foram usadas para fins
diversos. Na esfera urbana que se constituía, o desenvolvimento da atenção racional e voluntária,
da capacidade de focalização e concentração da mente e de controle do corpo era visto como
necessário à integração do eu, fragmentado pelos excessos da vida metropolitana. Contra esta
exigência, filósofos, artistas e poetas acreditavam que a distração e a expressão livre da natureza
humana deveriam estar na base do novo fazer artístico e estético. Contra as exigências da
atenção, a distração era instigada; contra o projeto adaptativo, a resistência às normas; em
oposição à ação racional, a expressão das emoções e dos sentimentos naturais era exaltada24.
Mas se podemos falar que o processo de corporificação da atenção nasceu e se
desenvolveu ao logo do século XIX, ele não foi linear. Em sua fase inicial, o debate sobre a
atenção foi fortemente influenciado pelas teorias psicológicas, filosóficas e teológicas do século
anterior. Esta foi a fase integracionista do processo de naturalização da mente, quando as teses
metafísicas e cristãs não eram separadas das teorias fisiológicas. Nos estudos neurofisiológicos, a
busca era também de integração. A noção que a mente existia como um ente separado e diferente
do resto do mundo material deveria ser abandonada sem que sua esfera ativa e indeterminada

24
Ver, por exemplo, BENJAMIM (1983) sobre Charles Baudelaire e SIMMEL (1979).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 26

fosse colocada em risco25. A vontade livre ganhou um corpo, mas este não era um corpo
determinado pelas leis naturais e físicas.
Nos estudos integracionistas do início do século XIX, em certo sentido, as faces corporais
e espirituais da atenção não se opunham e a separação entre suas esferas objetivas e subjetivas
não era uma exigência científica. Vimos que na descrição da psicologia do século XVIII, o
esforço necessário à manutenção da atenção e à fixação da mente era descrito como uma ação
racional da alma (ou da mente) sobre si mesma, inspirada pela vontade de Deus, pela razão ou
por uma entidade metafísica. No início do século XIX, outras interpretações surgiram na pesquisa
fisiológica dos sentidos e da percepção. Uma parte das teorias do esforço descreviam-no como
uma força muscular, um “sentido de movimento” ou um “sentimento corporal de ter agido”. O
esforço necessário à direção da mente e ao controle da ação estava, de alguma forma, relacionado
à materialidade corporal, era dela dependente e nela interferia. Para muitos, como Maine de
Biran, esta era uma materialidade controlada por uma força natural e vital, ativamente presente
em todos os seres da cadeia viva26. Nestas descrições, o corpo não era visto como uma esfera
natural reativa que deveria se adaptar às exigências de um mundo a ele externo e distinto. Um
corpo relacional e cinestésico era colocado na base da subjetividade e do eu. No final do século
XIX, foram estas análises naturalistas integracionistas que inspiraram o pragmatismo americano
de William James e de John Dewey e a filosofia de Henri Bergson27.
O século XIX propiciou que as esferas normatizadas e livres da vida fossem colocadas em
oposição. Ao mesmo tempo, ambas foram descritas como fenômenos reativos. Mas no rico
cenário político, econômico, estético e epistemológico da época, outras propostas se
desenvolveram. Para JOAS (1996) e para CRARY (1999, 2000), neste século foram
experienciadas formas extremamente ricas e plurais de experimentação do corpo e da percepção.
No eixo intelectual destas experiências, a filosofia de vida européia e o pragmatismo americano
defendiam a existência de uma dimensão criadora em toda ação humana. Em ambas, era
estabelecido um outro vínculo entre atenção, ação e criação. Nestas filosofias, a atenção não era
necessariamente oposta à distração e a adaptação não impedia e não limitava a dimensão criadora
da vida. A atenção era analisada no espaço paradoxal a ela outorgado pelos dilemas do mundo

25
Sobre a fisiologia psicológica e a neurofisiologia integracionista do século XIX, principalmente nos países de
língua inglesa, consultar SMITH (1973); CLARKE e JACYNA (1987) e DANZIGER (1982).
26
O texto de DEWEY (1897) sobre as diferentes interpretações do sentimento de esforço é esclarecedor. Sugiro
também o livro de BERTRANDE (1889) e a discussão histórica de SMITH (1973).
27
Desenvolvo a análise do conceito de atenção em James, Dewey e Bergson em dois artigos não incluídos nos
capítulos dessa tese e que serão posteriormente publicados.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 27

moderno: ela possibilitava o pertencimento do indivíduo ao mundo social e moral, mas também
permitia que ele, o indivíduo, o modificasse de forma criadora, agindo no mundo e sendo por ele
transformado.
Para CRARY (1999), pelo menos três modelos de manejo e de descrição da atenção se
distinguiram a partir da segunda metade do século XIX: o modelo reflexo, que a descrevia e a
analisava como um ato mecânico e automático; o modelo inconsciente, que oscilava entre
considerá-la um resultado e um efeito das funções neurofisiológicas centrais e de causas
inconscientes desconhecidas; o modelo da ação, proposto pelo pragmatismo americano e pela
filosofia de vida francesa que acreditava na possibilidade de colaboração e integração entre as
esferas automáticas e voluntárias da atenção28. PILLSBURY (1908) distinguia seis vertentes
teóricas, não necessariamente opostas aos modelos de Crary, mas mais específicas. Na
classificação do autor, para alguns psicólogos, ela era uma sensação corporal intensa, causada
pelas qualidades de certos objetos. James Mill estaria incluído nesta corrente. Para outros, como
Alexander Bain, ela era condicionada pelos sentimentos de dor e prazer. Ribot a fez dependente
do movimento motor e, na corrente mais espiritualista, ela era identificada à vontade imaterial ou
a um agente inconsciente que, escondido em algum lugar fora da consciência, a controlava e a
dirigia. Por outro lado, havia os que a vinculavam necessariamente à consciência.
Pillsbury acusava todos os pontos de vista listados de serem reducionistas. Cada um deles
elegeu um elemento da fenomenologia da atenção e dele derivou sua causa primordial. O autor
incluía sua própria teoria em um outro grupo. Nele, todos os aspectos da atenção eram
considerados. Como um estado, ela era clareza. Como uma causa, ela era a expressão de todas as
coisas que o indivíduo havia experimentado e conhecido em sua vida, acompanhada de
sentimentos de interesse, de esforço e de movimento. Para compreendê-la, as disposições
biológicas deveriam ser consideradas bem como o processo educativo e social vivido pelo
indivíduo. Para Pillsbury, as condições que definiam, direcionavam e controlavam a atenção eram
idênticas àquelas que determinavam a identidade pessoal. A atenção confundia-se com o ser, era
por ele determinada e, ao mesmo tempo, participava da sua determinação.

28
A classificação de Crary abrange apenas as teorias da atenção da segunda metade do século XIX. Quando o autor
se refere ao modelo reflexo, por exemplo, os estudos da primeira metade do século são desconsiderados. Como
CLARKE e JACYNA (1987) comentam, naquela época, as teorias reflexas explicavam apenas a ação simpática e
não incluíam as funções mais altas do sistema nervoso. Estas, como a vontade, eram reguladas por um princípio
imaterial e metafísico. Naquela época, as teorias reflexas não excluíam a possibilidade de um princípio inconsciente
regulador das açãos mais complexas. Somente na segunda metade do século esta separação foi rompida e o reflexo
foi visto como a unidade fundamental de toda ação humana.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 28

Uma classificação completa dos modelos teóricos e práticos da atenção não terminaria por
aqui. Na segunda metade do século XIX, em quase todo manual de psicologia, um capítulo era
reservado ao seu estudo. O tema era também discutido no interior de outros tópicos importantes
como a memória, o hábito, a vontade, o pensamento e o eu. Ao descrever o contexto dos estudos
da atenção, DEWEY (1897) atacava criticamente o atencionismo característico da época, “A
psicologia havia escapado do associacionismo e caído no atencionismo”, dizia o autor29. O
interesse pelo assunto também extrapolava o campo psicológico e invadia as esferas
educacionais, legais, médicas, artísticas, políticas e econômicas.
Dificilmente poderíamos traçar um panorama completo sobre o problema da atenção
característico da segunda metade do século XIX. Mas no discurso sobre a patologia mental, as
suas teses reativas predominaram, principalmente àquelas que vinculavam a atenção ao poder
inibitório da vontade. Em seu Dicionário de Filosofia e Psicologia, BALDWIN (1901/1902)
distinguia também o modelo inibitório da atenção, estritamente neurofisiológico e
localizacionista, representado principalmente por David Ferrier. Este foi o modelo que mais
influenciou os estudos das patologias da atenção e da vontade. Mas outras teses “voluntaristas”
influenciaram a pesquisa patológica.
BERRIOS (1996) separa as teorias reducionistas das anti-reducionistas. Nas primeiras, o
autor inclui as teorias reflexas e neurofisiológicas que, ao localizarem a vontade no cérebro e no
corpo, eliminaram sua esfera indeterminada. Na segunda, são inseridas as teorias que descreviam
a vontade como um poder espiritual, moral, individual e autônomo, responsável pelo domínio das
paixões do corpo. Veremos que elas encontraram um solo comum: no final do século XIX e
início do século XX, as compreensões dominantes das patologias da atenção, da vontade e da
ação se alimentaram do seu encontro. Nas descrição da patologia e nas práticas terapêuticas
contra ela sugeridas, a vida era descrita como um fenômeno reativo. O corpo e a mente deveriam
reagir e se adaptar às exigências externas, para tanto, a razão e a vontade eram responsáveis pelo
controle das esferas espontâneas do corpo. A patologia era a falha deste processo, uma “reação
moral negativa” da mente e do corpo que, na adaptação ao mundo, era ineficiente30.

29
“Se escapamos do domínio do associacionismo somente para cairmos no atencionismo, nós dificilmente
melhoramos nossa condição na psicologia” (DEWEY, 1897, p.56).
30
Para uma análise histórica sobre a constituição da patologia como uma reação moral negativa do corpo e da mente,
ver STAROBINSKI (2001).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 29

2.2. A NEUROFISIOLOGIA MORAL DA ATENÇÃO


Mesmo que não possamos falar de uma direção única nos estudos fisiológicos e
neurofisiológicos da atenção, na segunda metade do século XIX, predominou o discurso que a
vinculava à inibição. Este era um dos significados mais antigos do termo. No entanto, a função
inibitória da atenção era inicialmente pensada em sua relação com o ato do conhecimento: a
atenção tornava uma idéia clara ao inibir as demais. Quando seus aspectos fisiológicos e
neurofisiológicos foram ressaltados, a função inibitória mentalista da atenção foi duplamente
modificada: aos poucos ela foi atada ao sistema nervoso e ao cérebro e, além de propiciar o
conhecimento mais claro, ela tornou-se responsável por regular o comportamento impulsivo e
espontâneo.
A ciência da época dizia que a energia corporal e mental era limitada. No processo de
adaptação do indivíduo ao mundo, ela deveria ser economizada, drenada e bem direcionada.
Todo gasto indevido, tornava-se um desperdício perigoso que deveria ser inibido, regulado,
controlado. Foi neste contexto que a impulsividade e a falta de autocontrole começaram a ser
vistos como signos patológicos, indícios de uma adaptação ineficiente e moralmente negativa. Os
indivíduos desatentos, distraídos, impulsivos e descontrolados passavam a ter algo em comum:
eles eram os inaptos, incapazes de inibir e de controlar seu próprio corpo. O elogio às atitudes
comedidas e prudentes e à capacidade de autocontrole não foi específico do século XIX. Mas foi
ao longo deste século que a neurofisiologia proporcionou as bases científicas e naturais para o
significado religioso, moral e político da inibição.
As “verdades” neurofisiológicas descreviam os fenômenos mentais e espirituais em
termos físicos e naturais. Para SMITH (1981, 1992a, 1992b) e MACMILLAN (1992), a
“verdade” revelada pela pesquisa da inibição foi uma das mais importantes e mais populares da
história da neurofisiologia31. Seu estudo esteve intimamente vinculado à constituição da ciência
neurofisiológica. Entre 1840 e 1870, a neurofisiologia como pesquisa prática e a ferramenta
conceitual da inibição foram mutuamente constitutivas. Antes do século XIX, o termo era
compreendido apenas em seus sentidos religiosos e morais. Seu emprego nas ciências

31
O interesse moral e social pelo problema do alcoolismo e o fascínio pela hipnose foram fenômenos que ajudaram a
popularizar as teorias da inibição e que, através dela, ganharam uma explicação naturalista. Ao menos desde o século
XVII, o “encantamento” de cobras e de galinhas impressionou multidões. Antes explicados como maravilhas ou
milagres da natureza, no século XIX, fenômenos desse gênero foram revistos sob o crivo das teorias da inibição. O
arcabouço teórico da inibição foi usado para explicar fenômenos misteriosos, freqüentemente interpretados como
espirituais, como o sonambulismo, a escrita automática e a resolução de problemas através do sonho (BALDWIN,
1901-1902, p.88).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 30

fisiológicas, psicológicas e médicas possibilitou que os valores da ordem e da regulação


vinculados ao conceito fossem naturalizados sem perderem sua conotação política, social,
espiritual e moral.
Uma das interpretações naturalistas mais poderosas da época descrevia a regulação e o
controle do movimento como um processo de inibição hierárquico, exercido pelo cérebro sobre o
sistema nervoso. Em algumas teorias, o centro inibitório cerebral coincidia com a localização da
atenção voluntária. A inibição do comportamento também era vista como um mecanismo de
competição. Este era o ponto de vista econômico do controle, fortemente influenciado pelas
teorias físicas da conservação de energia. As teorias psicológicas da atenção também apóiam essa
tese. No contexto político, econômico e moral da época, as descrições hierárquicas e econômicas
da inibição encontraram um solo fértil e foram rapidamente popularizadas. Ao defenderem que o
controle e a regulação do comportamento eram capacidades naturais individuais, elas reforçavam
o discurso da responsabilidade individual. Era dever moral e natural do indivíduo desenvolver a
capacidade de autocontrole e inibir os desejos imediatos do corpo. Esta crença unia a psiquiatria,
a neurologia, a neurofisiologia e a psicologia da época ao saber popular. Através dela, era
garantida a mediação entre o trabalho experimental especializado e os assuntos mais amplos da
moral pública.
A história da biologização da atenção, da inibição e da vontade pode ser dividida em
diferentes fases. Mas é importante destacar que, em seus diferentes momentos, ela inspirou a
constituição de teorias e de instrumentos capazes de justificar e garantir a ordem social e moral.
Como descrevemos no tópico anterior, as teorias neurofisiológicas da primeira metade do século
XIX foram marcadas por um materialismo não reducionista. Em suas bases, estava uma
psicofisiologia transitória que ainda se ocupava das questões psicológicas da mente. As ações
voluntárias eram nitidamente separadas das automáticas. Para Marshall Hall (1790-1857), um dos
grandes nomes da história da teoria reflexa, as escolhas racionais e voluntárias eram sempre
superiores às automáticas e delas diferenciadas. Johannes Müller (1801-1858) também defendia
uma posição semelhante. Ambos postulavam a existência de um controle hierárquico da mente
sobre o corpo, mas em suas teorias a mente não era identificada ao cérebro. Ela agia através dele.
Müller foi quem introduziu a noção de inibição da vontade32 e suas teorias influenciaram
enormemente o contexto britânico. No processo de biologização moral da vontade e da atenção, a

32
Na tradição de pensamento que ligava Hall e Müller, Alfred Wilhelm Volkmann (1801-1877) também é incluído.
Para Volkmann, o movimento voluntário requeria um “poder organizador” capaz de criar canais de condutibilidade
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 31

psicologia fisiológica vitoriana merece ser destacada. Com os ingleses Thomas Laycock (1812-
1876) e William Benjamin Carpenter (1813-1885), seus integrantes eram quase sempre médicos
ocupados com questões práticas da vida social e moral. Unindo seus pontos de vista estava a
necessidade de construir uma explicação natural e fisiológica para a patologia mental. Os motivos
eram muitos: a crença no progresso da ciência; a tentativa de consolidação da psiquiatria asilar
vinculada à pesquisa sobre a etiologia orgânica da patologia mental; a busca de instrumentos
institucionais e teóricos que auxiliassem na garantia da ordem moral perturbada pelos problemas
do alcoolismo e da criminalidade.
Na Inglaterra de 1840, a profissão médica era vista como um instrumento de controle
social privilegiado. Seu poder de influência nos assuntos legais e sociais foi ampliado e
fortalecido. Crescia a expectativa que, em suas mãos, a observação do fisiologista seria unida ao
olhar do filósofo moral. Muitos chamavam a nova profissão de “psicologia médica” e nela
Carpenter e Laycock foram personagens influentes. As soluções encontradas por esses médicos e
fisiologistas ingleses não foram unívocas, mas suas diferenças não eram fundamentadas em dados
e resultados empíricos contraditórios. Na maior parte das vezes, as teorias se diferenciavam
devido às suas posições políticas e ideológicas33. A solução encontrada por Carpenter para
reconciliar o ponto de vista naturalista e as demandas morais da época foi outorgar à vontade uma
ação controladora indireta: ela agia através da atenção34.
Em CARPENTER (1874), a atenção era colocada na posição mais alta da escala
valorativa das atividades mentais. Em sua prática, ele recomendava o treino da fixação consciente
da atenção. A educação tinha o papel de providenciar idéias moral e socialmente desejáveis e
ajudar a fixar a atenção da criança nestas idéias. Na história da psicologia e da fisiologia da
atenção, um espaço de importância deve ser reservado à sua noção da ação ideo-motora.

no sistema nervoso. Assim se passava no estado mental da atenção: a energia nervosa era devidamente drenada
impedindo sua descarga automática e desordenada (SMITH, 1992a).
33
Ambos, Laycock e Carpenter, tentaram encontrar respostas para as questões metodológicas, filosóficas e sociais
de sua época que fossem satisfatórias tanto para a ciência quanto para a ordem moral. Carpenter acreditava na
construção de uma sociedade baseada na responsabilidade e na consciência individual; era um propagandista da
necessidade da temperança. Laycock não acreditava no poder da vontade ou de algo para além do sistema biológico,
político e social que a determinava. Em termos políticos, Carpenter defendia uma posição de acordo com o
individualismo moralizante, enquanto Laycock se aproximava do paternalismo estatal. Para ele, a medicina era uma
prática social e política que deveria se ocupar das questões que escapavam à medicina cívica ou à medicina “doutor-
paciente”. Laycock foi um dos primeiros proponentes da prática política e social da medicina inglesa. Carpenter, por
sua vez, exerceu um papel influente nos assuntos da educação infantil, na reforma criminal e na prevenção do desvio
social de sua época. Consultar DANZIGER (1982).
34
Para uma discussão breve sobre as relações entre a vontade e a atenção na teoria de Carpenter, consultar
LINGARD (1877).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 32

Elaborada em 1850, esta teoria tornou-se famosa 40 anos após sua publicação devido a Wilhiam
James35. Seu pressuposto básico defendia que as idéias ideo-motoras, cujos centros nervosos
eram localizados no lobo frontal do cérebro, estimulavam automaticamente os movimentos. A
maioria dos comportamentos diários resultava desta conexão direta. Através da repetição, este
mecanismo possibilitava que ações habituais se tornassem automáticas ou ideo-motoras.
Carpenter acreditava que embora não pudesse ser imputada ao indivíduo a
responsabilidade direta pela execução de suas ações automáticas ou ideo-motoras, ele era
indiretamente responsável por suas conseqüências. Os reflexos cerebrais não eram considerados
entidades fixas e pré-determinadas. Adquiridas através da experiência, determinadas conexões
deveriam ser cultivadas e controladas através do treino da atenção consciente. Todo hábito
resultava da direção e manutenção da atenção. Eles eram compreendidos como uma segunda
natureza, mas em seu início dependiam das escolhas morais de cada indivíduo. A teoria reflexa
era inseparável do moralismo do caráter. Carpenter sonhava com uma sociedade na qual o saber
científico pudesse direcionar os parâmetros sociais, educacionais e médicos. A realização deste
sonho dependia da implicação de todos os indivíduos. Em sua unidade mínima, uma sociedade
desordenada resultava da ação de um corpo sem propósito e de um indivíduo sem valor. A
reforma social defendida por Carpenter tinha início na transformação dos hábitos morais
individuais. Mesmo os sujeitos predispostos à insanidade encontravam no controle dos hábitos e
da atenção um certo grau de autonomia.
Após 1865, a crença na autonomia da vontade ou em um mecanismo teológico que a
direcionava era cada vez mais ameaçada. Na virada do século, psico-fisiologistas, psicólogos
associacionistas evolucionistas compartilhavam a crença profunda de que o progresso intelectual
seria alcançado através da expansão de uma ciência naturalista determinista. A compreensão da
mente como a parte auto-determinada do eu era um obstáculo a esse avanço. Cada escola de
pensamento atacava o impasse metafísico e metodológico da indeterminação das funções mentais
de um ângulo diferente36. As teorias resultantes concordavam em poucos pontos, mas defendiam
a eliminação da vontade. Na explicação da patologia mental, essa “tentativa” de eliminação foi
inspirada principalmente pelos estudos neurofisiológicos da inibição. a princípio, nervos eram
mais acessíveis e observáveis do que pensamentos e desejos.

35
Em seu Princípios da Psicologia e em seu livro destinado aos educadores, em vários momentos JAMES (1890,
1898) citava a análise de Carpenter e seu conceito de ação ideo-motora na discussão sobre a atenção e o hábito.
36
DASTON (1982) difere três formas de ataque à vontade na segunda metade do século XIX: o associacionismo, o
reducionismo fisiológico e o paralelismo psicofísico.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 33

No novo naturalismo britânico, as teorias de Carpenter e Laycock eram vistas como não
científicas e não garantidoras da ordem social. Era o início de uma nova fase do processo de
biologização da moral da atenção. Os estudos neurofisiológicos da inibição proliferavam. Em
relação aos países nos quais ele foi disseminado, o conceito rompeu fronteiras. Em suas
diferentes tradições de pesquisa, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos da América e na
Alemanha o tema tornou-se recorrente. Para MACMILLAN (1992), havia começado “a época da
inibição e do controle cerebral”. Foi também a partir deste momento que os vínculos entre as
teorias da inibição, da atenção e da vontade se estreitaram. Para SMITH (1992a, 1992b) e UHL
(1889) os elos entre as teorias neurofisiológicas e psicológicas da segunda metade do século XIX
se constituíram principalmente através das relações estabelecidas entre estes conceitos37.
O momento de encontro dos discursos da atenção, da vontade e da inibição foi
extremamente importante para o processo de constituição do sujeito cerebral. Os historiadores
das ciências do cérebro apontam o ano de 1863 e as pesquisas de Ivan Mikhailovich Sechenov
(1829-1905) como o momento a partir do qual a teoria da inibição foi definitivamente aceita.
Sechenov é visto como o pai da fisiologia e psicologia experimental russa e como o primeiro a se
aventurar a falar das faculdades mais altas da mente como fenômenos de inervação. Ele descrevia
a inibição como a capacidade fisiológica do cérebro de resistir a influências externas e de colocar
barreiras contra os impulsos internos indesejados. Este cientista buscava uma explicação
fisiológica para os assuntos da psicologia e, no centro de seu programa, o conceito de inibição
estabelecia as relações entre o mundo moral e cotidiano da ação humana e a neurofisiologia.
Associações mais explícitas entre o processo de inibição e a vontade começavam a surgir.
Com o trabalho de David Ferrier (1843-1928), foi definitivamente iniciado o debate experimental
sobre a localização cerebral das funções da inibição, da vontade e da atenção38. Em sua obra, o

37
Smith é quem melhor descreve como o conceito de atenção em sua função inibitória funcionou como uma espécie
de amálgama entre as diversas teorias psicológicas e fisiológicas “As descrições da interação competitiva entre os
elementos mentais na formação dos seus conteúdos habitavam a literatura de Herbart a Wundt, Spencer e os últimos
experimentalistas norte-americanos. Elas foram vinculadas ao tópico da atenção e à suposição de que os processos
mentais mais altos, de alguma forma, envolviam um processo fisiológico que impedia e regulava a tradução do
excitamento em movimento” (SMITH, 1992a, p. 158/159). Para a psicologia alemã, entre 1870 e 1880, a
aproximação entre os conceitos de atenção e inibição fez parte da tentativa de criação de uma psicologia
verdadeiramente científica. Para a psicologia fisiológica inglesa, ela esteve no centro do processo de ampliação do
conhecimento científico para a cultura popular e intimamente vinculada à elaboração de respostas médicas para os
problemas sociais e morais da época. Na França e nos EUA, ela ganhou outros contornos, mas também esteve
presente no discurso médico moral. Em todo caso, as noções morais e filosóficas em torno da inibição e da atenção
continuavam alimentando o discurso científico.
38
Ferrier foi um filósofo, médico e psicólogo extremamente importante para a psicologia médica britânica. Como
Carpenter e Laycock, ele também buscava na ciência neurofisiológica as respostas para os problemas morais e
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 34

processo de inibição era claramente vinculado ao mecanismo fisiológico da atenção. Carpenter


antecipou o ponto de vista de que os centros nervosos da atenção voluntária eram responsáveis
por impedir a conversão corrente do fluxo de sensações em movimento. Mas foi FERRIER
(1876) quem melhor formulou esta hipótese ao identificar a sede da atenção39. Vinculando a
atenção ao mecanismo de inibição, Ferrier alojou ambos nos lobos frontais do córtex cerebral40. O
processo de cerebrização da vontade e da atenção era “teoricamente” concretizado.
Apesar do desenvolvimento e da expansão dos estudos da inibição, o século XIX não
formulou teorias empíricas que explicassem satisfatoriamente os mecanismos cerebrais e
neurofisiológicos das funções mentais. Ao mesmo tempo, nenhuma base fisiológica específica
para a insanidade havia sido encontrada. Mesmo David Ferrier abandonou sua tese sobre a
localização cerebral da inibição e da atenção41. Apesar dos diversos ataques, a vontade não havia
sido eliminada. A segunda metade do século XIX é freqüentemente vista como a fase na história
da ciência que possibilitou o naturalismo científico das ciências humanas: um contínuo havia sido
traçado entre o homem e o animal. No entanto, mesmo neste contínuo, um destaque foi
concedido à mente humana e à sua esfera voluntária e racional.
No momento em que foram postuladas as bases materiais e cerebrais da mente, a
capacidade de controle voluntário da atenção era descrita como a característica “possivelmente”
não material, que diferenciava o homem do animal. Uma distinção era feita entre a atenção
automática e espontânea, presente em todo reino animal e preservada mesmo em certos estados
patológicos, e a atenção voluntária. Para alguns, esta distinção resultava de um processo natural
de evolução que havia dado ao cérebro um papel privilegiado. Para outros, o cérebro era uma
condição necessária ao exercício do intelecto e de suas funções, mas não era sua causa ou sede.
Muitos cientistas não abandonaram a noção de existência de um agente para além do cérebro que
caracterizava a especificidade do homem diante do reino natural.

sociais de sua época. Assistente de Thomas Laycock, ele foi amigo de Hughlings Jackson e sua obra foi fortemente
influenciada pelas pesquisas de Alexander Bain.
39
“Ao falar da inibição como uma faculdade psicológica e ao mesmo tempo tratá-la como o mecanismo fisiológico
da atenção, Ferrier fez colocou a inibição “na base orgânica de todas as faculdades intelectuais mais altas””
(SMITH,1992a, p.119). Pode-se consultar também MACMILLAN (1992) e YOUNG (1968, 1970).
40
Até hoje, Ferrier é citado pelos estudos que buscam provar a tese da localização cerebral da vontade e da atenção.
GOLDBERG, (2002) é um exemplo.
41
MACMILLAN (1992) demonstra que, mesmo quando Ferrier postulou a existência de uma sede cerebral para a
atenção, sua afirmação era extremamente especulativa, “a atenção deveria estar localizada nos lobos frontais porque
ela não havia sido localizada em outro lugar”. A constatação do “não lugar da atenção” era o que inspirava a hipótese
de sua localização. Sua conclusão derivava de um raciocínio analógico, inspirado pelo princípio metafísico da
hegemonia causal fisiológica.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 35

No final do século XIX, os estudos da inibição diziam o mesmo. A inibição era uma
função nervosa geral, presente em todos os seres vivos e responsável pela regulação do
comportamento. Mas em seu nível mais complexo e voluntário, ela era especificamente humana,
desenvolvida principalmente nos homens civilizados e racionais. O discurso moral afirmava que
a capacidade de inibir o próprio comportamento e de regulá-lo distinguia o homem adulto da
criança, o indivíduo doente do sadio. Na classificação ética e política dos tipos humanos, no nível
mais baixo estavam os que, como as mulheres e os selvagens, eram facilmente governados por
seus sentimentos e sensações imediatas. Eles não eram capazes de se opor a suas tendências
naturais. O conselho dado pelos manuais psicológicos, pedagógicos, médicos e morais da época
exaltava o controle voluntário do corpo e das paixões. O treino da atenção e da vontade era o
método empregado42. Através do controle voluntário da atenção o indivíduo seria capaz de tomar
posse de sua vida, de sua saúde, de seus atos e de suas escolhas, substituindo vitoriosamente a
satisfação dos prazeres imediatos pela formação dos hábitos duradouros.
No século XIX, a questão moral, teológica e filosófica da liberdade da vontade foi
reavivada na linguagem da fisiologia e da neurologia. No entanto, esta tradução nunca foi
definitivamente efetivada. Somente o poder da vontade era suficientemente forte na luta contra
seus próprios determinismos e suas fraquezas. Ao resumir o pensamento moral e científico do
século XIX, NAYRAC (1906) não deixava dúvidas sobre as relações entre a biologia e a moral
da atenção. O homem que agia impulsivamente e involuntariamente ou que não agia por um
vacilo de sua vontade era doente e moralmente degenerado. Seu maior defeito residia em sua
incapacidade de dirigir e controlar sua atenção. O indivíduo que perdia progressivamente a
faculdade de adaptação mental (ou de direção da atenção) era condenado a decadência moral. No
dia em que ele não fosse capaz de agir ou agisse sem objetivo e inutilmente, em que ele
começasse a duvidar de si e a estranhar o mundo a seu redor, neste dia, seria iniciada a obra surda
da sua desagregação mental; neste dia, ele começaria sua marcha à deriva, ele seria apenas uma
máquina fisiológica; neste dia, ele se tornaria incapaz de realizar o esforço da atenção43.

42
Para uma análise das práticas utilizadas no processo de reeducação da vontade, pode-se consultar especialmente
PAYOT (1895).
43
NAYRAC (1906, p. 182).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 36

2.3. AS PATOLOGIAS DA ATENÇÃO


Quando a vida começou a ser compreendida como um processo de adaptação ou de reação
do corpo ao ambiente externo, a insanidade e a patologia mental também foram reescritas nestes
termos: o comportamento inapto passava a ser um de seus signos. Médicos como Pinel, Esquirol
e Prichard tentavam romper com a definição puramente intelectual da insanidade. Eles
postulavam que sintomas como a falta de autocontrole, o excitamento contínuo e a impulsividade
eram característicos de uma forma de insanidade44. Um indivíduo poderia sofrer de um defeito
moral e ao mesmo tempo manter intacta suas habilidades intelectuais. Nele estava afetada apenas
a capacidade de conduzir-se com decência e propriedade nos negócios da vida45. E, no final do
século XVIII e início do século XIX, o modelo psiquiátrico para a explicação das patologias da
moral e da ação foi aquele das patologias da vontade46.
Na primeira fase do processo de naturalização das funções mentais, as explicações para as
patologias da vontade não eliminavam seus aspectos espirituais e metafísicos. Por volta de 1860,
o ataque à esfera imaterial da vontade tornava-se uma necessidade científica, metodológica e
teórica. Por outro lado, o contexto social não poderia abrir mão da existência de um princípio ou
um agente regulador, capaz de manter a ordem moral. As relações constituídas entre os estudos
da inibição, da atenção e da vontade estiveram no centro deste paradoxo. As análises
neurofisiológicas de Hughlings Jackson (1835-1911) e Henry Maudsley (1835-1918)
predominavam. MAUDSLEY (1867, 1895) foi particularmente influente na psiquiatria britânica
e americana da época. Ele descrevia a insanidade como um defeito mental de bases fisiológicas
que destruía a harmonia entre o sujeito e seu ambiente, impedindo-o de viver e trabalhar entre
seus pares47. Na teoria de Maudsley, o funcionamento da mente humana, mesmo em suas funções
mais altas, era apoiado na teoria reflexa. A vontade autônoma e livre era uma abstração. Existiam

44
Para uma análise de como, principalmente na segunda metade do século XIX, a impulsividade foi um dos
principais sintomas da alienação mental, consultar Pitres e Régis (1902).
45
A categoria da insanidade moral descrita por Prichard foi um exemplo. Ela reunia uma pletora de desordens do
afeto e da vontade cujo fator comum era a ausência de delírio. Um outro exemplo foi a mania sem delírio,
classificada por Pinel, caracterizada pela manifestação de comportamentos impulsivos e furiosos sem prejuízo ao
intelecto. As monomanias instintivas descritas por Esquirol também fortaleciam este argumento.
46
Para uma análise histórica sobre as patologias da vontade, Consultar BERRIOS (1996). Alguns nomes importantes
na classificação das patologias da vontade foram MATTHEY (1816), quem primeiro propôs uma classificação
sistemática; Heinroth J. C.; Esquirol; Ernest Billot, depois de Matthey o nome mais importante; Griesinger;
MAUDSLEY (1867, 1883); RIBOT (1883, 1889), o autor mais conhecido nos estudos das patologias da vontade e
da atenção; JANET (1898); LAPIE (1902) e outros.
47
“Insanidade significa essencialmente a perda de harmonia entre o indivíduo e o seu meio social devido a algum
defeito ou fraqueza da mente que impedi o indivíduo de viver e trabalhar entre seus pares na organização social”
(MAUDSLEY, 1895, p. 3).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 37

apenas conexões cerebrais passadas e presentes, responsáveis pelo controle das ações que
formavam o caráter do indivíduo. Maudsley também desconsiderava a necessidade prática da
consciência, importante, talvez, para fins estéticos48.
Como David Ferrier, Maudsley estava intimamente vinculado à luta política e
institucional pelo fortalecimento da psiquiatria asilar, fundamentada na hipótese da causa
orgânica da insanidade. Esta tese deveria ser comprovada por experimentos que demonstrassem
que, nas bases da vida psicológica, estava o corpo neurológico. Teoricamente, este era o objetivo
de sua pesquisa e de sua prática. Mas embora fossem apresentados como resultados inevitáveis da
ciência neurofisiológica, a pesquisa de Maudsley era norteada por princípios moralistas e
metafísicos. Ele havia escrito uma “crítica metafísica à metafísica”, dizia STOUT (1884).
Descrevendo relações de controle entre centros nervosos hierárquicos, Maudsley esboçada sua
ideologia científica do controle social que, apesar de utilizar o vocabulário biológico, era
completamente especulativa.
A defesa dos princípios vitorianos era evidente em seu livro sobre as patologias da mente.
No primeiro capítulo, destinado à explicação da natureza e das causas da insanidade, o autor se
opôs à tese de que o excesso de trabalho e de estimulação, característicos das sociedades de seu
tempo, haviam causado um aumento nos casos de insanidade. Se algo poderia ser dito em relação
às “causas sociais” da proliferação da insanidade era que seus momentos de luxúria e de prazer,
mais do que o excesso de trabalho e de auto-restrição, propiciaram a dissipação e a degradação
das forças vitais49. Maudsley dizia que a pessoa saudável possuía o controle de suas emoções e de
seu comportamento; era comedida e racional. A lógica corporal e neurofisiológica que ele
descrevia justificava o princípio moral da inibição das emoções, da negação dos prazeres
imediatos e do poder de controle da mente sobre o corpo.
A medicina psicológica britânica continuava buscando seus fundamentos em uma
fisiologia ideológica, ocupada com as questões morais de sua época. Para DANZIGER (1982),
suas teorias foram pouco mais que racionalizações “quase naturalistas”. Elas apenas ofereciam
explicações pseudo-fisiológicas para os problemas que perturbavam as sociedades vitorianas.

48
Na psicologia médica britânica, não era com a crítica da introspecção, como método científico, que o estudo da
consciência deixava de ter importância. Para Maudsley, ela simplesmente não explicava e nem sequer tinha acesso
aos mecanismos que realmente importavam à análise do comportamento e da vida psicológica: seus elementos
neurofisiológicos.
49
“Sobre uma coisa nós podemos estar seguros: se a insanidade está aumentando entre as pessoas civilizadas, este
aumento é devido aos prazeres da civilizacão (…) à luxúria, preguiça e auto-indulgência mais do que ao trabalho e a
auto-negação (…)” (MAUDSLEY, 1895, p. 32).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 38

Hughlings Jackson (1835-1911) deu continuidade a esta tradição. Em sua obra também
encontramos uma hierarquia natural do controle. O sistema nervoso havia evoluído em graus de
complexidade, de sofisticação e de poder de controle do processo sensório motor mais simples
aos níveis cerebrais mais altos. A patologia era a perda do controle inibitório exercido pelos
níveis mais altos. Em Jackson, a insanidade era um “duplo”: em seu lado negativo, ela era a perda
de uma capacidade superior e, em seu lado positivo, ela envolvia a intensificação de alguma
capacidade inferior. O conceito de inibição estava no centro desta explicação. A perda da
capacidade de inibição causava a intensificação do movimento automático e o controle da ação
era entregue às funções espontâneas e à emoção.
Os atos criminosos e anti-sociais que ameaçavam a ordem social eram descritos e
interpretados através desta grade teórica. Devido a um defeito fisiológico nos centros inibitórios,
a conduta tornava-se patológica, perigosa e amoral. Em sua classificação das patologias da
vontade, LAPIE (1902) descrevia as parabulias, determinadas formas de abulia, como perversões
da vontade que levavam ao crime. O corpo tornava-se um exército sem comandante, um povo
sem governo, ele regredia aos primeiros estágios da evolução. Para Jackson, na fase mais
desenvolvida da civilização estava a integração alcançada pelo controle hierárquico dos centros
nervosos. Integração era sinônimo de saúde e desenvolvimento. Seu oposto era a dissolução,
signo da patologia e da degradação.
As principais teses de Jackson e da psicologia fisiológica britânica foram introduzidas na
França por Theódule Armand Ribot (1839-1916)50. Em 1883, foi publicada a primeira edição de

50
Theódule Ribot foi um psicólogo francês internacionalmente reconhecido e um dos mais importantes tradutores da
filosofia e psicologia inglesa para o francês. Ele foi durante muito tempo diretor e editor da revista francesa Revue
Philosophique, amplamente conhecida e respeitada pelos psicólogos, médicos, psiquiatras e educadores da época.
Nenhum autor do século XIX foi tão conhecido nos estudos das patologias da vontade e da atenção como Ribot. Em
suas mãos, a união da neurofisiologia experimental, do evolucionismo de Herbert Spencer (1820-1903), da
psicologia empírica e da neurologia clínica foi transformada em um programa prático e teórico, com implicações
para a educação, para o tratamento do insano e do criminoso. Suas análises sobre a memória e suas patologias
exerceram um grande impacto no pensamento de Pierre Janet, seu sucessor na cadeira de Psicologia na Universidade
de Paris. Sua compreensão do eu como uma conjunto de auto-narrativas vinculadas através da memória influenciou
enormemente a compreensão clínica da memória traumática e das desordens pós-traumáticas. Sobre a importância de
Ribot para os estudos da memória, consultar YOUNG (1995, 2000); em relação às patologias da vontade, ver
BERRIOS (1996) e LAKOFF (2000); sobre o estudo da atenção, sugiro PAYOT (1895), NAYRAC (1906) e
ROSSELLÓ (1993, 1998). Para os interessados na obra do autor, os livros As patologias da vontade, de 1883, e
Psicologia da atenção, publicado em 1889, reúnem suas análises sobre a vontade e a atenção. Nestas obras, o
vínculo entre as teorias evolucionistas de Jackson e as funções da vontade, da atenção e da inibição são nitidamente
explicitados. Na fase mais alta da evolução, estava a vontade liderando a organização hierárquica dos movimentos.
No início da vida, as excitações imediatamente convertidas em movimento eram predominantes. A dissolução do
organismo era identificada a este automatismo. A vida individual repetia a evolução filogenética: a infância era
caracterizada pela dispersão de movimentos até que seu uso econômico e produtivo fosse alcançado pela educação
da vontade e da atenção.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 39

seu livro sobre as patologias da vontade. Seis anos após, sua obra sobre a psicologia da atenção
ganhou o público francês e se tornou internacionalmente reconhecida. Os dois livros descreviam
as patologias da ação e da adaptação como patologias da vontade e da atenção. A definição mais
comum era a de abulia. A inteligência permanecia intacta e os atos automáticos e habituais eram
mantidos, mas no ato voluntário, o “eu quero” não se convertia em ação. A abulia era uma
patologia da ação caracterizada pela incapacidade de agir de acordo com a vontade. Uma outra
forma de patologia da vontade, oposta à primeira, tinha como efeito a ação impulsiva e
inevitável. Neste estado patológico os indivíduos eram possuídos por uma ação incontrolável. Os
casos mais interessantes eram aqueles nos quais a inteligência não era afetada e os indivíduos
eram conscientes de sua impotência. A idéia fixa obsessiva era um de seus exemplos.
A fixação normal da atenção não deveria ser nem absoluta nem temporária demais.
Quando ela era patologicamente temporária, havia uma hipertrofia da atenção. Nenhum centro de
atração era formado, nenhum estado predominava entre os demais e nenhuma direção era
seguida. Tudo era flutuante e disperso. Estes eram os estados de mania aguda, de alguns delírios,
da histeria, dos sujeitos apáticos e insensíveis, dos estados de fadiga extrema e dos
convalescentes. Eles eram caracterizados pela impossibilidade (ou extrema dificuldade) de
realização do esforço da atenção. A predominância absoluta de uma idéia ou de um estado mental
era o primeiro signo da hipertrofia da atenção. A descrição mais evidente era a idéia fixa51. Ribot
distinguia três formas de idéia fixa: simples ou intelectual; acompanhada de emoção, como as
fobias; e impulsiva, representada pelos atos violentos e criminosos. As primeiras eram os
exemplos mais fiéis das patologias da atenção. Possuídos por uma idéia, os sujeitos não eram
apenas atraídos por ela, eles eram seus prisioneiros. A fixação temporária da atenção
transformava-se em uma paralisia absoluta e duradoura. Havia ainda as enfermidades congênitas
nas quais a atenção voluntária não era capaz de se desenvolver ou de se constituir.
Do estado de sono e de sonho à concentração mais atenta, da saúde à patologia, da
barbárie à civilização, a vida era analisada através da capacidade de direção e coordenação
voluntária da atenção e dos movimentos. Todos os indivíduos que, devido a posturas de vida

51
JANET (1898) construiu um método e uma teoria patológica cujas bases se apoiavam na fixação mórbida da
atenção e da visão. A noção de idéia fixa estava no centro de sua explicação para a perturbação mental e física. Em
seu significado mais geral, as idéias fixas eram compreendidas como estados emotivos persistentes que impediam o
indivíduo de se adaptar às condições mutáveis do meio ambiente. Elas representavam um retraimento da consciência
e da visão. A atenção é identificada à função geral de adaptação mental e corporal do indivíduo à realidade. Toda
patologia mental é uma perturbação da função da realidade e da atenção. Consultar também NAYRAC (1906) e
PILLSBURY (1908).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 40

inapropriadas, a defeitos genéticos ou a traços naturais do caráter eram privados do poder de


inibir e controlar voluntariamente seu comportamento, eram também incapazes de controlar
ativamente sua atenção. Crianças, mulheres, assassinos e artistas se identificavam em um aspecto:
sua atenção era predominantemente espontânea e quase sempre guiada por interesses e afetos
naturais52.
No final do século XIX, os temas da atenção, do esforço e da vontade eram indissociáveis.
Ao analisar a literatura da época, esta era a conclusão de NAYRAC (1906) “é impossível separar
e distinguir fisiologica e experimentalmente a atenção, o esforço e a vontade”. Para RIBOT
(1883) as patologias da atenção diferiam das patologias da vontade apenas em intensidade.
Ambas resultavam da debilidade geral do poder de adaptação da mente e do corpo. Todo
comportamento não adaptado manifestava uma disfunção da atenção e da vontade. Esta
constatação dificultava enormemente a definição de uma patologia específica da atenção. A
distinção não era simples. Entre os casos normais e patológicos, a linha divisória era também
obscura. Os estados mórbidos eram marcados por excessos e falhas da atenção, mas não diferiam
qualitativamente dos seus defeitos na vida normal. A prática diagnóstica das patologias da
atenção se deparava com dois problemas: como definir os casos nos quais o distúrbio da atenção
era um sintoma secundário daqueles que ele estava em primeiro plano? Como saber quando seus
excessos e suas falhas ultrapassavam o limite da normalidade?53 Outros problemas limitavam a

52
“O selvagem é apaixonado pela caça, pela guerra e pelo jogo; pelo imprevisto, pelo incomum, pela sorte em todas
as suas formas; mas o trabalho permanente, ele ignora e não compreende. O amor ao trabalho é um sentimento de
formação secundária alcançado com a civilização (...) o trabalho é a forma concreta e mais perceptível da atenção”
(RIBOT, 1889, p. 60).
53
O exemplo dado era Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), um famoso poeta inglês. Para Ribot, ele possuía uma
patologia congênita da atenção, mas o diagnóstico era ambíguo. Seu poder de imaginação e de raciocínio filosófico
era fenomenal, sua inspiração poética rara e apreciável, mas seu grande defeito era a incapacidade de executar seus
projetos de forma satisfatória. Ribot distinguia a fraqueza congênita da atenção daquela adquirida. O primeiro
exemplo da fraqueza adquirida era o estado intelectual causado pelo consumo de ópio e de haxixe. Coleridge foi
durante muito tempo consumidor de ópio. Não era claro em quais das duas classificações ele estaria incluído. Os
sintomas eram os mesmos: impotência na direção das idéias e da ação voluntária devido à predominância da resposta
imediata e reflexa. Muitos artistas e intelectuais consumidores de ópio habitavam a linha tênue que separava estas
duas classificações. Por outro lado, quando lembramos que Coleridge traduziu toda a obra de Schiller para o inglês e
introduziu os pensamentos de Kant na Inglaterra, apenas para citar dois grandes fatos pelos quais o poeta é até hoje
exaltado, é difícil compreender o diagnóstico de Ribot. A questão era ainda mais delicada quando o discurso
ordinário sobre a atenção era considerado. A linguagem popular opunha a distração ao estado de atenção. Ribot não
estava completamente de acordo. A palavra possuía interpretações diferentes. A distração era descrita como um
estado de perpétua mobilidade no qual o indivíduo era incapaz de fixar sua atenção de forma estável e duradoura.
Este era um estado comum entre crianças e mulheres. Neste caso, ela poderia ser compreendida como oposta à
atenção, à concentração e à fixação duradoura da mente, mas não era necessariamente patológica. A possibilidade de
existência de uma patologia da atenção na infância nem sequer foi comentada por Ribot. A criança era, por natureza,
incapaz do exercício pleno da atenção voluntária. No entanto, quando a distração geral manifestava-se no homem
adulto ela era patológica (NAYRAC, 1906). Havia ainda um outro uso da palavra. Vimos que cientistas, artistas e
personagens proeminentes foram, desde o século XVIII, tachados de “distraídos” de seu entorno devido ao seu
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 41

pesquisa da atenção. Ribot vinculava a atenção voluntária à função inibitória, mas admitia que a
neurofisiologia da inibição era ainda obscura. A pesquisa neurofisiológica localizacionista da
vontade e da atenção não havia progredido e suas teses eram colocadas em questão. As teorias da
atenção diziam que ela não se limitava nem se localizava especificamente no córtex cerebral.
Ao analisar os estados patológicos da atenção, Ribot não propôs nenhuma patologia
específica da atenção. Na virada do século XIX para o século XX, seu estatuto médico era
extremamente duvidoso. Em 1902, James Baldwin admitia que nenhuma patologia definitiva da
atenção havia sido descoberta e que, devido a própria natureza do caso, talvez não fosse possível
“descobri-la”. Evidências consideráveis revelavam que as funções dos lobos frontais cerebrais
estavam conectadas ao poder da atenção, mas estas não provavam a existência de uma patologia
da atenção54. Os limites que separavam os sujeitos normais incapazes de controle da atenção e de
contenção das emoções dos casos patológicos eram cada vez mais tênues e frágeis. Nenhuma
marca evidente os separava. Como Ribot dizia, as diferenças eram de grau e de intensidade mais
do que de qualidade.
O conselho moral e o tratamento terapêutico se identificavam e ambos recomendavam o
treino da atenção e a disciplina da vontade. As relações entre a biologia e a moral da atenção
nunca foram tão claras. Era dito que a saúde do corpo era alcançada através do ajustamento
contínuo do eu às normas morais externas e a internalização de tais normas também dependia da
educação da atenção. Contra as fraquezas e debilidades “fisiológicas” da vontade a força moral
da atenção era requisitada. Como uma função que interferia em toda vida mental e fisiológica, a
atenção era comparada ao processo de adaptação mental e corporal e ao sentimento de realidade.
Todo trabalho psíquico e físico de integração do eu, de adaptação à realidade externa e de
formação do caráter era entregue a ela. Em seus aspectos fisiológicos e morais a atenção se

profundo estado de absorção. Eles foram julgados e recriminados por serem “excessivamente atentos”. Ribot
chamava os indivíduos do primeiro caso de distraídos dissipados (distraits-dissipés) e do segundo de distraídos
absorvidos (distraits-absorbés). Diferentemente de Tissot, que via na fixação dos homens da ciência uma forma de
patologia, para Ribot, ela também poderia ser uma manifestação da vida normal que quando transformada em idéia
fixa era mórbida. Já naquela época, tornava-se aparente uma das dificuldades inerentes à patologização da atenção: a
difícil distinção entre os casos normais e patológicos e entre as patologias da atenção e aquelas nas quais sua
disfunção era apenas um sintoma secundário.
54
“Nenhuma patologia específica da atenção foi definida e pode ser que, devido a sua própria natureza, uma
definição não seja possível; mas existem evidências consideráveis (vindas dos estudos das patologias, dos
experimentos artificiais e da análise comparativa do desenvolvimento) que demonstram que as funções dos lóbos
frontais do cérebro estão intimamente conectadas ao poder da atenção” (BALDWIN, 1901-1902, p.88).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 42

identificava à vontade e ao eu. Sua desagregação não era apenas um sintoma, ela era a causa
primeira dos males do corpo e da alma55.
Por outro lado, se a pesquisa neurofisiológica havia fracassado na definição de uma
patologia específica da atenção, na tentativa de objetivação e especificação da insanidade, este foi
um fracasso apenas parcial. Na segunda metade do século XIX, a busca pela sede fisiológica da
vontade e da mente estava intimamente vinculada à afirmação de um novo projeto científico,
fundamentado na objetividade mecânica. A ciência se fortalecia e se internacionalizava.
Comunidades científicas se constituíam. Os fatos pesquisados em um laboratório deveriam ser
passíveis de reprodução em outros. Mais do que nunca, a prática científica deveria ser
comunicável e reproduzível. Em muitos casos, a fidelidade ao fato observado era sacrificada em
prol do ideal de reprodutibilidade.
O processo de externalização da patologia mental e a pesquisa dos seus signos externos e
de suas bases fisiológicas cresceram neste contexto científico. A ciência alienista era alimentada
pela crença que a externalização da patologia mental (sua transformação em patologia da ação e
da reação) a tornaria apreensível e observável. A psiquiatria do século XIX treinou seu olhar na
busca pelos seus signos. Com o desenvolvimento das tecnologias visuais, desenhos, fotografias e
“gráficos da insanidade” foram incluídos nos manuais de psiquiatria e de medicina. Eles
mostravam as superfícies corporais, os olhares, as posturas e os movimentos da patologia mental.
As formas de identificar a dissolução patológica variavam consideravelmente e não eram simples,
mas elas se apoiavam na observação da superfície do corpo e em sua interioridade fisiológica.
As medidas da atenção estiveram no centro do processo de objetivação e externalização
da patologia mental. Vimos que, mais do que definirem um quadro mórbido específico, as
disfunções da atenção estavam presentes em quase todas as patologias da ação e da vontade.
Muitos psicólogos e psiquiatras acreditavam que se a atenção pudesse ser quantificada, medida e
visualizada uma classificação geral e objetivava da patologia mental seria possível, o método
diagnóstico universalizado e a psiquiatria finalmente se tornaria uma ciência confiável. O uso dos
instrumentos do tempo de reação foi um exemplo56. Os experimentos diziam que a velocidade da

55
Era dito que a desagregação da atenção era a causa de diversas disfunções fisiopatológica como problemas de
visão, de audição, de insensibilidade cutânea, anomalias do gosto e do odor e disfunções digestivas. Na classificação
das desordens mentais produzidas pela dissolução da atenção estavam os psicastênicos, as histéricas, os dementes
simples, os cretinos, os hipocondríacos, os melancólicos simples, os ansiosos e confusos, os maníacos excitados, os
impulsivos dentre muitos outros tipos patológicos (NAYRAC, 1906).
56
Um outro exemplo relacionado com a pesquisa patológica foi o estudo fisiológico da fadiga. FELSCH (2004)
demonstra como a pesquisa neurofisiológica da fadiga e seus métodos de quantificação e medição fizeram parte do
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 43

resposta a um determinado estímulo dependia dos graus de atenção. Para cada patologia, um
tempo de reação padrão era identificado e contabilizado. A psicologia médica italiana era a mais
citada. Interessados pelo estudo das causas nervosas da insanidade, os alienistas italianos, dentre
eles Tambroni, Algeri e Sancte de Sanctis, acreditavam que através da medida do tempo de
reação do insano, o diagnóstico de insanidade seria objetiva e cientificamente definido57.
A segunda metade do século XIX viu nascer o sonho científico de objetivação,
externalização e visualização da patologia mental e encontrou no fenômeno da atenção uma
forma de vinculá-lo ao ideal moral de autocontrole e de inibição das emoções. Em certa medida,
o início do século XX presenciou a transformação deste cenário. O projeto de criação de uma
ciência médica da vontade ou de um universo patológico híbrido, situado entre a mente e o corpo,
como proposto por Ribot, não prosperou. Ao menos parcialmente, o olhar psiquiátrico perdeu seu
poder diagnóstico. Um consenso sobre as medidas da atenção não havia sido encontrado. As
causas orgânicas da patologia eram obscuras. A pesquisa neurofisiológica da inibição e da
vontade não era menos metafísica e especulativa que as teses por ela atacadas. Unidos a esta
constelação, outros acontecimentos propiciaram que um espaço psicodinâmico fosse aberto entre
os órgãos e a conduta. Nele foram depositadas as causas da patologia mental. Em certa medida,
as imagens e os signos externos da doença mental eram substituídos pelo estudo de caso, os olhos
do psiquiatra eram trocados pela escuta do analista.
No entanto, o processo de patologização do indivíduo, incapaz de se adaptar às exigências
morais e sociais, não foi abandonado. O desatento, o impulsivo, o amoral e o desviante foram
interpretados com uma outra grade conceitual, mas continuaram sendo pessoas que precisavam
de tratamento médico e psicológico. De certa forma, a “escola do esforço” e do autocontrole foi
substituída pela intervenção psicológica e psicanalítica, mas também foi adaptada pelas teorias
comportamentais da primeira metade do século XX. A partir de 1970, uma nova constelação de
fatos transformou novamente a pesquisa psicopatológica. As explicações psicodinâmicas
perderam seu valor diagnóstico e foram trocadas pelas análises externalistas do comportamento e
pelas teses neurobiológicas. Nas teorias psiquiátricas, a infância foi substituída pelo cérebro. O

processo de objetivação da subjetividade durante o século XIX. Tais pesquisas eram também usadas para comprovar
a materialidade corporal da atenção. Uma das formas de medir a atenção era através da quantificação do esforço
físico que ela demandava e da fadiga resultante. Na pesquisa patológica era dito que na realização das tarefas nas
quais a atenção era requisitada, os alienados graves logo se fadigavam. Mais sérios ainda eram os casos nos quais o
tempo de reação não podia ser registrado devido à impossibilidade da manutenção mínima da atenção. Consultar
NAYRAC (1906); TITCHENER (1908) e JANET (1898).
57
Consultar Italian medical Psychology (1887).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 44

processo de constituição do sujeito cerebral foi retomado, modificado, fortalecido. Ao mesmo


tempo, uma nova moral da atenção se constituía. Uma nova economia da atenção, no interior de
um outro estilo de pensamento biológico e em um outro regime de objetividade científica, as
relações estabelecidas entre atenção, vontade e inibição teriam muito a dizer.

2.4. CONCLUSÃO
Em 1905, a Academia de Ciências Morais e Políticas de Paris escolheu como tema a
atenção. O trabalho de NAYRAC (1906) foi um dos escolhidos e premiados. O prefácio foi
escrito por Ribot. Ambos lembravam que nos últimos vinte anos do século XIX a atenção havia
sido alvo de diversos estudos, experiências, métodos, trabalhos laboratoriais, pesquisas clínicas e
patológicas e aplicações pedagógicas. Em países como a Alemanha, a França, os Estados Unidos
da América e a Inglaterra, o tema havia conquistado seu espaço e sua importância. A obra de
Nayrac buscava reunir a bibliografia produzida sobre o tema.
A monografia de Nayrac explicitava os dois aspectos mais importantes da atenção
enfatizados pelos estudos da época: sua fisiologia e sua importância moral e psicológica. Já no
século XVIII, o gasto e a direção da atenção foram objetos de controle e intervenção moral,
médica, pedagógica, científica, econômica, política e estética. No processo de psicologização da
pessoalidade ela foi uma peça importante, descrita como o ato mental que iluminava o
conhecimento de si e do mundo. Ao ser compreendida como uma habilidade que poderia ser
desenvolvida, ao menos parcialmente, ao indivíduo foi entregue a responsabilidade pela sua
direção. Dele era exigida e cobrada a adesão à vida disciplinada que instigava o poder racional da
mente. No século XVIII, sua importância moral e psicológica começava a ser afirmada e
popularizada. O século XIX lhe deu um corpo e lhe responsabilizou pela regulação do
comportamento. As tecnologias de controle e de gestão da atenção, em suas vertentes
normatizadoras e criadoras, descobriram sua fisiologia, a manipularam e a transformaram.
A corporificação da atenção também participou do projeto científico de externalização da
subjetividade, de visualização da patologia mental e de identificação de seus signos corporais. No
século XIX, a biologização da atenção esteve intimamente vinculada à constituição da figura
antropológica do sujeito cerebral. Ela contribuiu para que as esferas indeterminadas da mente
humana fossem alojadas na neurofisiologia cerebral. Mas essa identificação nunca foi definitiva.
Os processos de biologização da atenção, da inibição e da vontade permitiram que a moral do
controle e da prudência fosse fortalecida ao emprestar-lhe um viés naturalista. Suas teorias
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 45

inspiraram práticas educacionais, políticas, médicas, jurídicas e populares da mesma forma que
foram por elas inspiradas. Juntos, estes saberes e práticas criaram uma dietética de vida
fundamentada na “escola do esforço” e da eficiência. A vontade era um desenvolvimento
artificial, um resultado da evolução e da civilização que, com a educação, poderia ser moldado e
controlado pelo esforço individual.
No final do século XIX, na Inglaterra e nos Estados Unidos da América, toda uma
geração de médicos e alienistas acreditavam que nas bases da saúde e da normalidade estava uma
vontade fisiológica prudente, comedida e controlada em seus excessos e falhas58. O que
preocupava a sociedade da época não eram apenas as fraquezas do querer, mas suas ambições
excessivas. O indivíduo sem iniciativa e impotente no agir ameaçava a ordem econômica e social
da mesma forma que o indivíduo egoísta, ambicioso e prepotente. A ambição desenfreada era
também um signo patológico. A potência do querer era perigosa. Limites morais e naturais
deveriam ser impostos e respeitados. O indivíduo que ultrapassava os limites do querer não se
adequava à realidade do mundo e às possibilidades que lhe eram oferecidas. Ele não era capaz de
“ater-se às normas” e de controlar seu comportamento de acordo com elas e, por isso, deveria ser
tratado, reeducado e institucionalizado.
Mas no século XIX as “pesquisas ainda obscuras da inibição e das bases fisiológicas da
vontade” não permitiram que uma patologia da atenção fosse realmente definida, dizia Baldwin.
As últimas décadas do século XX reverteram esse diagnóstico. A pesquisa fisiológica da inibição
tornou-se mais especializada e invadiu os laboratórios neuroquímicos. Ela continuou inspirando a
busca pelas bases cerebrais da atenção e da vontade. Com as novas tecnologias de imagem
cerebral e com as pesquisas psicofarmacológicas, ela possibilitou que uma patologia da atenção
fosse finalmente legitimada. Nos capítulos seguintes, analisamos a fase mais recente do processo
de biologização moral da atenção. As relações entre atenção, inibição e vontade foram
reconstruídas e participaram da constituição do controverso diagnóstico do Déficit de Atenção e
Hiperatividade. Nele, tais relações continuaram vinculando os projetos de biologização e de
moralização da atenção.

58
Para uma análise sobre o contexto americano, ver SICHERMAN (1976).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 46

3. CELEBRIDADES E CEREBRIDADES EXECUTIVAS NA


ECONOMIA DA ATENÇÃO

“A economia da atenção traz consigo riquezas e


valores próprios; sua própria divisão de classes –
estrelas x fãs – e suas formas de propriedade (…) o
sucesso virá para aqueles que melhor se
acomodarem a esta nova realidade”
(GOLDHABER, 1998b).

Tempos atrás, talvez uma herança longínqua dos defensores da relaxante atmosfera
campestre e natural, a vida nas pequenas cidades era vista como um rio manso em contraste com
o mar turbulento dos cotidianos apressados das grandes metrópoles. Aparentemente, os pequenos
centros não deveriam sofrer de falta de tempo. Nestes idílicos paraísos, a necessidade de
controlar o gasto da atenção não seria uma exigência. No entanto, nos dias atuais, uma visita
breve a um desses espaços é suficiente para comprovar que, em maior ou menor grau, tal
expectativa é frustrada pelos fatos reais. Também lá, as pessoas se queixam da impossibilidade de
dar conta de toda a tarefa do dia e das demandas inesperadas que surgem. Mas ainda mais
importante, também lá, a gestão ótima da atenção é vista como um pré-requisito fundamental
para o alcance do sucesso. Também lá, a falha dessa gestão é considerada o primeiro signo da
ruína profissional e pessoal.
Muitos explicam esta situação dizendo que as sociedades da informação estenderam seu
império para além dos muros das grandes cidades e que os excessos dos quais elas se alimentam
não conhecem barreiras espaciais. Outros falam que tais excessos são característicos de uma
época na qual o “consumo pelo consumo” tornou-se o emblema social. A constelação atual é
aquela dos excessos que produzem cada vez mais faltas e demandas. As explicações sociológicas,
filosóficas e mesmo psicológicas para o quadro descrito são muitas. Começamos nossa análise
destacando ao menos um ponto em relação ao qual a maior parte delas está de acordo. A sensação
generalizada é que, no meio de tantos excessos, duas coisas extremamente importantes e
intimamente interligadas nos faltam: tempo e atenção.
A angústia infligida pela economia dos excessos que causam faltas é acompanhada pelo
sentimento nem sempre prazeroso que poderia ser descrito por uma das frases de Clarice
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 47

Lispector, escrita em um contexto totalmente diverso: para a imensidão do meu desejo o mar é
uma gota. Acrescentaríamos que, a essa imensidão de desejos, é adicionada uma outra imensidão
de coisas que, embora nem sempre desejadas, competem pela nossa atenção. E, infelizmente (ou
felizmente), a atenção e o tempo que podemos dedicar a tudo isto é bem menor do que essa gota
que é o mar. O desafio passa a ser então diminuir, ou ao menos selecionar, a quantidade de
desejos que queremos realizar. É preciso ter a habilidade de fazer com que a imensidão do meu
desejo seja reduzida a uma parte bem seleta do mar, já que ninguém mais acredita ser possível
colocar toda água do mar num buraco na areia.
A noção que a atenção é um recurso limitado encontra-se no centro do que alguns autores
têm chamado de uma “nova” economia ou de economia da atenção. Quando se assume que a
economia é o estudo de como a sociedade usa e emprega suas fontes escassas e valiosas,
pressupõe-se que quanto mais rara uma mercadoria, mais valiosa e mais desejada ela se torna. De
certa forma, toda economia assim pensada tem em suas bases uma fonte supostamente limitada e,
por esse mesmo motivo, cada vez mais desejada. Neste caso, a conclusão de que vivemos em
uma economia na qual a informação é esta mercadoria não seria correta, já que o que caracteriza
o momento atual não é a falta de informação. Em geral, é dito que quando a produção se torna
maior que a demanda, ela deve ser diminuída, caso se queira evitar um colapso econômico. Este
não parece ser o caso da produção de informação. Nada tem sido feito para que seus excessos
sejam diminuídos.
O que poderia ser o recurso mais escasso e mais valioso em uma época marcada pelo
excesso de informação? Parece que não há dúvidas de que o que todo mundo mais deseja e o que
é sempre sentido como escasso é a atenção. Os primeiros princípios da economia da atenção de
GOLDHABER (1996c) são a sua finitude e raridade. A atenção é rara porque ela é uma reserva
individual limitada. Ninguém pode prestar atenção por mim e somente eu posso saber para onde
direciono minha atenção. Cada pessoa possui uma quantidade específica de atenção para dar, que
pode ser expandida dentro de certos limites. Estamos novamente diante da necessidade de limitar
o mar de desejos e de demandas. Um exemplo trivial é o empresário de sucesso que se vê
frustrado na tentativa de beber um copo de água já que, no percurso entre o escritório e a cozinha
de sua empresa, é interrompido várias vezes pelo seu gerente de vendas, pelo seu diretor de
planejamento, pelo chefe de recursos humanos, todos eles ávidos por um minuto de sua atenção59.

59
O que toda celebridade executiva sabe e nem sempre é capaz de dizer é que “(...) cada um de nós, não importa
quão capaz, bem treinado, auxiliado por equipamentos ou dopado por estimulantes, possui uma capacidade limitada
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 48

Para os analistas da atenção, a lei da limitação da atenção fundamenta-se primeiramente


na experiência concreta dos indivíduos que, como dissemos, podem habitar grandes ou pequenos
centros. Além da comprovação popular da escassez da atenção, estes analistas também fazem uso
do discurso especializado. A verdade “inquestionável” demonstrada empiricamente pela pesquisa
científica neurológica, médica e psicológica é que a atenção é naturalmente e intrinsecamente
limitada60. O direcionamento da atenção para uma atividade causa, necessariamente, sua ausência
em uma outra direção. Embora não se chegue a um acordo sobre o número de elementos
passíveis de serem atendidos ao mesmo tempo, diz-se que ele é reduzido e este é um aspecto que
deve ser recordado no mercado atentivo.
Os defensores da intrigante idéia de que vivemos em uma época na qual a lógica
monetária foi substituída pela atentiva são Michael H. GOLDHABER (1996a, b, c; 1997a, b, c;
1998a, b) e Georg FRANCK (1995, 1998, 1999). Esta idéia, embora compreendida de forma bem
diferente, tem sido amplamente usada no mundo empresarial como uma ferramenta analítica e
prática. Dentre os consultores e professores que têm divulgado o tema para o mundo dos
negócios poderíamos citar Cyril Bouquet, Allen Morrison, John Beck e Thomas Davenport61. A
discussão sobre a existência de uma economia da atenção característica das sociedades atuais não
se limita aos trabalhos dos autores citados. Ela também não é unificada. O que se compreende por
atenção, por economia e o que se acredita ser uma performance de sucesso no interior desta
economia é extremamente diverso. Por que toda essa abrangência de significados pode ser

de prestar atenção. Como regra, podemos dar nossa atenção integral apenas para uma pessoa. Em certas ocasiões,
fingimos que estamos sendo atentos a dois, três ou mais indivíduos. Ainda assim, existem limites reais para a quantia
de atenção que podemos pessoalmente dedicar” (GOLDHABER, 1997a, p.4).
60
SMITH (1992a) chama esta interpretação de psico-econômica. Ela predominou no discurso psicológico e médico
do século XIX e da primeira metade do século XX. O corpo era compreendido como um sistema de energia fechado,
que distribuía diferentemente suas forças de acordo com o controle da atenção. Na segunda metade do século XX,
outras noções de regulação do corpo foram criadas. No cerne da teoria cibernética, o controle da informação era
separado da noção de uma energia dirigindo um sistema. No entanto, o ponto de vista psico-econômico continua
presente até os dias de hoje e é ele que, na maioria das vezes, alimenta a discussão sobre a economia da atenção.
61
Alguns nomes importantes no estudo da atenção no ramo empresarial são William Ocasio, Herbert Simon e outros
teóricos da Carnegie School; e Hansen e Haas da Harvard Business School. Eles representam um novo campo de
pesquisa no ramo do gerenciamento. Os autores comentados no corpo do nosso texto escreveram direta ou
indiretamente sobre o tema da atenção no mundo dos negócios. Eles fazem parte das empresas de consultorias e
escolas de negócios mais conceituadas do mundo. Allen Morrison, por exemplo, é professor de Gerenciamento
Global e Estratégias da IMD. No relatório especial sobre a “educação de negócios” da Finantial Times Executive
Education de 16 de maio de 2005, a IMD é classificada como a segunda melhor e mais importante escola de
negócios do mundo. Todo ano, mais de 5.500 executivos, representando cerca de 70 nacionalidades diferentes, são
matriculados nos seus Programas de Desenvolvimento Executivo da IMD. Na medida em que, nestes cursos, os
artigos e livros escritos pelos autores citados são sugeridos como uma bibliografia importante e que estes
profissionais são referências internacionais no ramo dos negócios, presume-se que o tema da economia da atenção
receberá cada vez mais atenção deste setor. Para maiores informações sobre o assunto consultar os sites
http://www.nslg.net, http://www.02.imd.ch/, http://news.ft.com/home/uk.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 49

incluída no rótulo abstrato da “economia da atenção” é uma pergunta importante que, por hora,
deixamos em aberto.
Recorremos à análise da economia da atenção no universo empresarial. Queremos
compreender como a gerência da atenção tornou-se uma via privilegiada de acesso ao sucesso
profissional, econômico e pessoal de uma nova figura antropológica: o eu empreendedor e gestor
de si62. Ao menos desde a década de 70, este tem sido um dos modelos de identidade mais
característicos das sociedades democráticas do liberalismo avançado. Por outro lado, em uma
outra interpretação, a economia da atenção coincide com o predomínio da cultura da visibilidade
na qual aparência e essência são dois nomes para a mesma coisa. Nela, as trocas intersubjetivas
são capitalizadas e passam a alimentar uma economia que se nutre da necessidade existencial de
atenção. Na economia visual, a atenção perde sua corporeidade e é descrita como uma “moeda
imaterial”. Nos tópicos seguintes, discutimos estas duas faces da economia da atenção e a elas
acrescentamos a análise da economia biomédica da atenção.

3.1. AS CELEBRIDADES EXECUTIVAS E A GESTÃO DA ATENÇÃO

“Compreender e gerenciar a atenção são agora os


determinantes mais importante para o sucesso dos
negócios. Bem vindos à economia da atenção”
(DAVENPORT e BECK, 2001).

“A compreensão e o gerenciamento da atenção são os determinantes mais importantes do


sucesso no mundo dos negócios. Bem vindo à economia da atenção”, é nestes termos que
Davenport e Beck (1998) iniciam seu famoso livro sobre a economia da atenção. Para os autores,
gerência eficiente da atenção e sucesso econômico e profissional são dois nomes para a mesma
coisa. Não é por acaso que um interesse pelo assunto desponta no universo empresarial. O tema
tornou-se precioso para editoras como a Harvard Business School Press que já há algum tempo
tem publicado livros e artigos relacionados ao “negócio atentivo”. Os homens de negócio
analistas da atenção dizem para os seus clientes também homens de negócio que, nas últimas
décadas do século XX, o paradigma econômico e mercadológico passou por uma mudança.
Conseqüentemente, a forma de gerenciar uma empresa também precisa mudar. Nesta mudança, a

62
Para uma análise minuciosa sobre a constituição das identidades empreendedoras no interior das sociedades
democráticas do liberalismo avançado consultar ROSE (1995, 1996, 1999) e minha dissertação de mestrado
(CALIMAN, 2002).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 50

dinâmica da atenção e da auto-gestão individual são fatores que devem ser obrigatoriamente
analisados.
Para Peter DRUCKER (1999), autor que ficou conhecido internacionalmente como o “pai
da administração” do pós-guerra, no mundo administrativo essa mudança ocorreu nos últimos 30
anos do século XX. Em seu livro Desafios gerenciais para o século XXI, o autor explica que a
necessidade de gerenciamento de si é específica de uma conjuntura na qual planejar o futuro, um
futuro cada vez mais distante no tempo, tornou-se um valor importante. No século XX, essa
conjuntura foi fortalecida pela diminuição da taxa de natalidade e pelo aumento da expectativa de
vida63. A perspectiva de uma existência longeva, nos diz GIANNETTI (2005), põe em relevo a
necessidade de um “plano de vida” pessoal e material mais estrututrado. Além disso, uma
mudança significativa na organização do trabalho esteve no centro deste processo. ROSE e
MILLER (1995) analisam essa transformação. Os autores demonstram que, na década de 70, uma
nova identidade do trabalhador se constituiu no cerne de uma agenda programática que defendia
as esferas democráticas, criativas, inovadores e produtivas do trabalho.
O novo modo de “gerir” o ambiente de trabalho deveria ser compatível com as premissas
do governo democrático. Diferentemente do que as antigas organizações do trabalho defendiam,
o trabalhador não era um organismo psicofísico ajustável ao ambiente da fábrica ou da empresa.
Ele era um indivíduo singular, ativo e motivado que buscava sua realização pessoal e existencial
no trabalho. A maximização da produtividade e da eficiência coincidiam com a satisfação pessoal
individual. Era no trabalho e através dele que o indivíduo teria a oportunidade de se destacar
como cidadão autônomo e responsável. O novo movimento de reestruturação e humanização
trabalhista vinculava a necessidade econômica de aumento da produtividade, ao pensamento
político democrático e à discussão ética sobre a identidade.
Especialmente nos Estados Unidos da América, o aumento da produtividade e o alcance
da satisfação pessoal eram atados à capacidade de adaptação, inovação e flexibilidade do
trabalhador e a sua sensibilidade às pressões e demandas do mercado. A partir da década de 70, o

63
Para GIANNETTI (2005), em nosso dias, duas tendências principais parecem afetar as expectativas de fututro dos
indivíduos: o aumento expressivo da esperança de vida ao nascer e a tentativa obstinada de suprimir ou expulsar a
morte do nosso campo de atenção consciente. Estas transformações alteraram (e têm alterado) profundamente nossa
forma de lidar com o tempo de nossas vidas, de gerenciá-lo e organizá-lo. Como Peter Drucker, o autor acredita que
o aumento da esperança de vida ao nascer é sem dúvida uma das mais contundentes e brihantes conquistas do mundo
moderno. Em 1885, de cada 1 milhão de pessoas nascidas no país mais desenvolvido da época (Inglaterra), somente
502 mil alcançavam os 45 anos de idade e 161 mil chegavam aos 75. Pouco mais de um século depois, o total dos
que alcançam os 45 anos de idade é 964 mil, enquanto os que atingem os 75 são 613 mil. No mundo, a esperança de
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 51

trabalhador americano era visto como o indivíduo que, com seu empreendedorismo, sustentava o
mundo econômico. Durante a década de 80, o tema da “identidade empreendedora” esteve no
centro da problematização política do trabalho, do discurso crítico contra as formas de controle
institucional, do programa de revitalização da vida econômica e dos debates éticos sobre a
identidade. A figura antropológica do empreendedor era legitimada.
O modelo da identidade empreendedora foi incorporado pelo empregado e pelo
empregador. Teoricamente, ele eliminava algumas de suas antigas distinções. Unindo-os estava
uma natureza humana naturalmente empreendedora. Tornava-se necessário compreender, analisar
e, enfim, reaproveitar esta face natural da humanidade. O desejo individual de ser criativo e
autônomo, de lutar pelo melhoramento de si e pelo desenvolvimento de suas capacidades deveria
ser estimulado e conduzido de forma produtiva. O lema era “sempre se é mais produtivo quando
as energias vitais pessoais são devidamente canalizadas”. E, na linguagem psicológica e
organizacional da época, a energia vital era mental, consciente e estava vinculada à função da
atenção. No mundo empresarial, o interesse pelos estudos da atenção ganhava um novo colorido.
A maximização da produtividade e a satisfação pessoal se encontravam em sua gestão ótima.
Na segunda metade do século XX, com o intuito de melhorar a qualidade de vida do
trabalho e fazer bom uso do capital humano, passo a passo com a pesquisa psicológica, a
literatura gerencial assumiu um desafio: compreender como as pessoas deveriam agir para não
serem sobrecarregadas pela explosão informacional. Nesta mesma época, a análise dos processos
atentivos crescia em importância no campo psicológico. A atenção era a função responsável por
selecionar as informações de maior prioridade64. Além disso, alguns autores descreviam o
funcionamento atentivo nos mesmos termos do processo de tomada de decisão. Além de separar
o joio do trigo e optar pelo trigo, o indivíduo atento sabia usá-lo da melhor forma. Para a cúpula
empresarial, responsável por decidir os rumos da empresa, direcionar a atenção para os pontos
mais relevantes e saber o que fazer com eles era uma habilidade fundamental.
Todos os indivíduos são produtores, vendedores e consumidores de atenção. Por sermos
empregados e empregadores do seu mercado, é necessário que saibamos gerenciar a atenção que
damos e que ganhamos. No mundo dos negócios, o interesse pela atenção é direcionado para

vida ao nascer passou de 53 anos em 1960 para 67 anos hoje em dia, ela aumentou mais em quatro décadas do que
nos 4 mil anos precedentes. Consultar GIANNETTI, 2005, p. 124.
64
Para BOUQUET (2005), nesta época, na literatura sobre o gerenciamento empresarial, os termos usados que se
aproximavam da função seletiva da atenção eram “problem recognition, sensing, and strategic issue diagnosis”. Eles
tentavam explicar como, no mundo informacional, os trabalhadores da gestão separavam o joio do trigo.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 52

esses dois aspectos. O primeiro, gestão da própria atenção, relaciona-se ao controle interna da
empresa e está vinculado ao desenvolvimento de estratégias de otimização da atenção dos
trabalhadores gestores. O objetivo é desenvolver a eficiência e a produtividade do trabalhador.
Quando o outro lado do mercado é enfatizado, aquele que visa atrair a atenção do consumidor,
funciona a lei da competição: nem todo produto, nem toda personalidade famosa, nem todo
programa de TV é capaz de atrair ou comprar a atenção do espectador-consumidor. Nos termos
da economia da atenção, o ramo do marketing nada mais é que o desenvolvimento especializado
de estratégias de captura da atenção. Não é difícil compreender que o mercado de vendas entraria
em ruína caso seus consumidores não estivessem atentos aos seus produtos. A indústria de
marketing é uma das maiores e mais dispendiosas do mercado de vendas. De longa data se diz
que a propaganda é a alma do negócio e que, para desempenhar o seu papel, ela cobra um preço
alto65. Seu desafio é criar desejo e interesse pelo produto anunciado.
Os trabalhos que investigam as tecnologias de atração da atenção constituem por si só um
vasto campo de pesquisa. Não iremos analisá-los aqui. Nosso foco direciona-se para o primeiro
aspecto comentado: a gerência da atenção do trabalhador. A história das tecnologias de manejo
da atenção do empregado não é nova. Como em Foucault, ela poderia ser lida através da análise
do poder disciplinar exercido sobre o corpo individual e coletivo. Mas quando este trabalhador
foi transformado na figura do autogestor autônomo e liberal, uma mudança ocorreu. Em certo
sentido, se continuamos falando de tecnologias de controle, elas deixaram de ser exercidas apenas
por instâncias externas para serem internamente geradas. A nosso ver, neste processo a auto-
gestão foi redefinida através da linguagem da autogerência da atenção66.
Para Drucker, na nova lógica do empreendedorismo, empregado e empregador passaram a
ser trabalhadores do conhecimento e da informação numa sociedade na qual o alcance do sucesso

65
Os exemplos que confirmam a importância da propaganda para qualquer mercado são abundantes. Escolhemos a
indústria farmacêutica porque ela é um ramo que se vincula intimamente à economia da atenção. De acordo com uma
pesquisa divulgada na revista The economist de 18 de junho de 2005, a Novartis, a sexta maior empresa
farmacêutica do mundo que, coincidentemente, produz a Ritalina, um dos medicamentos usados contra o déficit de
atenção, gasta cerca de 33 % de sua receita com marketing e apenas 19% com desenvolvimento de novos produtos.
Embora seja dito que o preço dos seus medicamentos é elevado devido ao investimento em pesquisas e novas
tecnologias, o gasto com estratégias de venda é maior do que o destinado para as outras àreas. Nos EUA, a indústria
farmacêutica empregou, em 2004, mais de 100.000 pessoas como representantes de vendas, um número que cresceu
muito nos últimos anos. Em 1995, eles eram pouco mais de 30.000.
66
Em minha dissertação de mestrado (CALIMAN, 2002) analiso como, já em Foucault, o Biopoder exercido por
instituições e saberes externos ao indivíduo foi aos poucos substituído pelas tecnologias de autocontrole e gestão.
Mas este deslocamento do controle nem sempre deve ser lido e compreendido em sua forma opressiva. A ênfase na
autogestão da atenção e da ação também criou novas estilísticas da existência. Para ROSE e MILLER (1995), o
modelo do empreendedor também poder ser visto como um modelo de homem de ação.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 53

era visto como uma possibilidade para todos. O autor via com desconfiança a promessa do
sucesso em todas as esferas da vida. Não se pode ter sucesso em tudo. Mas explicava que foi
nesta cultura que o gerenciamento de si tornou-se um pré-requisito: “Ela requer que cada
trabalhador do conhecimento pense e se comporte como um executivo principal”67. No mundo
dos negócios, na aquisição da habilidade de auto-gestão é depositada a promessa de sucesso. Nos
termos da economia da atenção, esta capacidade é também descrita como a habilidade de auto-
gestão da atenção e da ação. Os analistas da atenção acreditam que o trabalhador gestor deve ser,
antes de tudo, um mestre na gerência da sua própria atenção. Na economia empresarial da
atenção, o defeito atentivo não é necessariamente a incapacidade de se concentrar em um
determinado aspecto. O problema do gestor executivo reside na direção ineficiente da atenção.
A tarefa inicial imposta aos adeptos do credo econômico que buscam tornar-se
celebridades executivas empreendedoras é saber identificar, no dia a dia da empresa e na
multiplicidade de aspectos que chamam a sua atenção, aquilo que é o mais importante. A atenção
funciona como um filtro seletivo que exige habilidade, adquirida ou naturalmente herdada, para
que seja bem empregada. Ela deve ser eficiente e criativamente utilizada. O segundo passo é a
transformação da idéia escolhida em ação. Os indivíduos que não se dispersam são atentos semi-
perfeitos. Não é suficiente selecionar e reconhecer os interesses dignos de atenção, é preciso
persistir neles e transformá-los em ações bem sucedidas. Para tanto, a crença na escolha atentiva
inicial deve ser mantida. O indivíduo deve confiar na sua decisão e acreditar que ela é a mais
correta. Os atentos perfeitos sabem para onde dirigir sua atenção, são tenazes em sua manutenção
e são homens de ação. Eles também sabem quando devem mudar de alvo. O executivo deve estar
consciente do foco de sua atenção e ser capaz de sempre redirecioná-lo quando um outro aspecto
mais importante surgir.
Quando ouvimos falar da atenção nos termos acima descritos, o que está em questão não é
apenas a habilidade de manter a mente focada por longo tempo em uma questão, aspecto ou idéia,
mas a capacidade de “intuir” ou “descobrir” em qual aspecto se deve estar concentrado e o que
fazer com ele. A atenção é identificada à capacidade de focalização e concentração da mente, mas
também ao discernimento necessário ao ato de “deixar o resto de lado”. A primeira pergunta que
ela consciente ou inconscientemente impõe é: o que é prioridade para você? Quando a resposta
dada é “produtividade”, tudo o que não esteja aí incluído, que não se vincula a este objetivo, que
não colabora com ele é um competidor que deve ser eliminado. Além disso, feita a escolha e

67
DRUCKER 1999, p. 155.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 54

persistindo nela é preciso saber o que fazer com ela. A atenção não se identifica exatamente com
o tempo gasto no lidar atento com determinada coisa. O melhor uso da atenção exige um
resultado que seja bom, eficiente e criativo.
Que habilidades Henry Ford, Akio Morita, Bill Gates, Jack Welch teriam em comum68?
Eles são celebridades executivas porque resolveram bem os dois problemas que perturbam o
mundo empresarial. Para os analistas da atenção, eles são, antes de tudo, mestres da atenção,
especialistas na gerência de sua própria atenção e da atenção do mercado. Um dos resultados
dessa habilidade é que eles fazem com que “você se sinta bem seguindo suas recomendações”.
Eles são líderes celebrados no culto das personalidades de sucesso que, como Drucker nos
lembra, caracteriza o universo empresarial dos trabalhadores do conhecimento. Os líderes nada
são sem um público fiel e a conquista de seu público também resulta de sua habilidade
autogestora. Para tanto, eles devem ser exemplos de celebridades executivas capazes de: 1) focar
sua atenção própria; 2) atrair a forma correta de atenção para eles; 3) dirigir a atenção daqueles
que os seguem; 4) manter a atenção dos seus clientes.
Quando a gerência da atenção é descrita como um portal privilegiado, capaz de nos
transportar para o mundo do sucesso, a gestão ineficiente da atenção passa a ser o signo mais fiel
do fracasso. Este é um aspecto que está no coração da economia da atenção. No mundo dos
negócios, o fracassado é o desatento incapaz de gerenciar sua própria atenção e ação, incapaz de
direcionar sua energia mental para os fins corretos e mais importantes, incapaz de realizar os
planos futuros que ele mesmo propôs. Nele, as habilidades que definem uma celebridade
executiva, supostamente disponíveis em todo trabalhador-gestor, estão, por algum motivo,
ausentes. No mundo executivo, as ineficiências e os desperdícios da atenção são vistos como
irresponsabilidades não permitidas ou como deficiências que devem ser tratadas. Elas têm um
alto custo para a empresa e para toda a organização. Elas precisam ser resolvidas, tratadas,
trabalhadas. Todos os métodos disponíveis devem ser empregados em sua solução. Caso
contrário, a produtividade é diminuída, o pertencimento do trabalhador ao seu coletivo é
ameaçado e seu sentimento de realização pessoal colocado em questão.
Muitos analistas da atenção acreditam que o problema da desatenção (ou da falta de
atenção produtiva) se intensificou com a expansão da internet e das outras fontes de informação
atualmente disponíveis. Nas sociedades de informação a disparidade entre a produção de

68
As personalidades empresariais citadas são, respectivamente, os fundadores da Ford, da Sony, da Microsoft e o
CEO (chief executive officer) da General Electric.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 55

conhecimento e sua codificação eficiente tornou-se patológica. Uma das formas de “déficit de
atenção” resultantes desta constelação foi descrita por um estudo do grupo Reuters Business
Information no qual 1.300 empresários de diferentes nacionalidades foram entrevistados. A
“nova” patologia que acometia todos eles era descrita como a síndrome da fadiga informacional
(information fatigue syndrome), uma patologia sem fronteiras nacionais, caracterizada no mundo
empresarial pela incapacidade de tomar decisões; irritabilidade, medo e aflição; presença de dores
musculares e estomacais; sentimentos constantes de letargia e desamparo; dificuldades em dormir
ou manifestação de sono interrompido com episódios de pânico; e falta de energia e entusiasmo
para atividades de lazer.
Em um outro estudo do mesmo grupo, uma outra forma de síndrome relacionada ao
excesso informacional era a adição informacional (information-addiction), também caracterizada
pela incapacidade de tomar decisões. O problema era causado pela necessidade de sempre mais e
mais informações que sustentassem as resoluções a serem tomadas. As decisões pobres e
insuficientemente fundamentadas eram os fantasmas que perturbavam o sono do executivo
paralisado, viciado em informação. O problema da desatenção tornou-se tão sério no mundo
empresarial que alguns autores começam a falar de uma “Desordem do Déficit de Atenção
Organizacional” (Organizational ADD), por vezes acompanhada de um tédio corporativo. Seus
sintomas são o aumento na probabilidade de perda da informação chave no processo de tomada
de decisão; a substituição do tempo de reflexão pela simples troca de informação; o aumento da
dificuldade em atrair e manter a atenção de outros quando necessário; e a diminuição da
habilidade de focar a atenção quando ela é requisitada69.
Os diagnósticos dos déficits de atenção amedrontam o mundo econômico em suas três
formas: na desatenção do consumidor, do trabalhador gestor e da organização. As conclusões
dos analistas da atenção coincidem em um aspecto: o déficit de atenção é o maior inimigo do
sucesso empresarial. A gerência da atenção é uma necessidade fundamental para todo ramo
profissional que trabalha com as relações humanas. Ou a empresa e seus empregados aprendem a
lidar com esta preciosa e limitada fonte ou estarão fadados à desgraça. Como para toda desgraça
pressagiada, várias soluções são criadas, o mercado dos que oferecem respostas para o problema
se prolifera e se diversifica a cada dia. Ele também é uma parte importante da economia da
atenção. Problemas práticos exigem soluções práticas.

69
Os estudos comentados são citados por DAVENPORT e BECK (1998).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 56

As vozes dos analistas da atenção não são uníssonas e as soluções que elas oferecem são
diversas. Na maior parte das vezes, as diferenças resultam do que se acredita ser a força influente
na gestão e direção da atenção. Quando o trabalhador gestor é visto como o verdadeiro
responsável pela direção eficiente de sua atenção, são sugeridas técnicas de auto-avaliação, de
auto-julgamento e de desenvolvimento pessoal. Diferentemente das antigas estratégias opressivas
de maximização da produtividade, na maior parte das vezes estas tecnologias são desejáveis e
vistas com bons olhos pelo trabalhador. Elas prometem ajudar na “descoberta do eu” e no
desenvolvimento da consciência de si. Na lógica do gestor empreendedor, o indivíduo é
vinculado subjetiva e emocionalmente à sua produtividade. Por assim ser, ele está ativamente
engajado na busca de sua maximização.
Algumas empresas oferecem para outras empresas aulas de yoga, de meditação, de
gerenciamento comportamental e de autocontrole. A opção do coaching tem se tornado famosa
no ramo empresarial. Ela é uma forma de treinamento pessoal na qual um profissional,
normalmente da área psicológica ou administrativa, ajuda o gestor a descobrir seus objetivos
profissionais e as melhores estratégias para alcançá-los. O encorajamento e o reforço diário são
partes importantes de seu processo “administrativo-terapêutico”. O incentivo ao cuidado do corpo
também está em crescimento no mercado das soluções para o problema da atenção e da auto-
gestão. Mas a maior parte das pessoas tem preferido a alternativa medicamentosa70.
O mercado neurobiológico da atenção tem interessado à cúpula empresarial e sido
incorporado especialmente no dia a dia dos CEOs. Não é novidade que o mundo organizacional
quase sempre funcionou como um laboratório de manipulação e controle da atenção. Nele as
técnicas de direcionamento e de maximização da atenção são há muito tempo usadas e estão em
proliferação na “economia da atenção” atual. Mas elas ganharam uma nova face com a
incorporação dos avanços da pesquisa neurofarmacológica e cerebral. A esperança quase
ficcional dos atuais “analistas da atenção” é que os avanços da biologia molecular e das ciências
do cérebro possam, num futuro próximo, auxiliar na produção e comercialização das melhores

70
É preciso ressaltar que apesar de utilizarem o vocabulário médico com uma certa freqüência, na literatura
empresarial sobre a economia da atenção ainda não há uma tendência forte de patologização do déficit atentivo.
Mesmo quando a solução sugerida é a medicamentosa, trata-se do melhoramento cerebral da atenção. Quando o
medicamento não é a opção privilegiada, predomina a ênfase na importância da persistência da vontade. Estes
discursos nem sempre se separam: o melhoramento da atenção é cerebral, mas depende também da vontade.
Falaremos sobre a patologia médica da atenção em um capítulo seguinte e veremos que a difícil diferenciação entre o
tratamento dessa patologia e o melhoramento normal da eficiência da atenção tem sido uma das questões mais
importantes e polêmicas de seu debate. Em relação à opção do coaching, ele também é uma terapêutica sugerida no
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 57

tecnologias de análise, rastreamento e controle da atenção. Nesta esperança não são incluídas
apenas as pílulas estimulantes. Ela abrange todo arsenal das tecnologias cerebrais e dos novos
campos “neuros” como a neuroeconomia, a neuroeducação e a neurofitness71. Nelas, a crença que
a gestão da atenção tem suas bases na neurofisiologia cerebral individual é intensificada e
utilizada como um mecanismo de gestão institucional da atenção.
DAVENPORT e BECK (1998) citam algumas estratégias de medida e monitoramento da
atividade cerebral atentiva e sugerem que seu uso seja definitivamente adotado no universo
empresarial. Uma das tecnologias de monitoramento da atenção comentada foi desenvolvida pela
NASA e licenciada para uma companhia de pesquisa de marketing chamada Capita Research
Group. Nos experimentos da Capita, eletroencefalogramas tradicionais eram adaptados à
tecnologia desenvolvida pela NASA e usados na análise da forma, do tamanho e da velocidade da
atividade cerebral relacionada a certas capacidades cognitivas. Nas palavras da empresa, um tipo
de “lista de interesse” ou de atração era construída e vendida como a medida mais fiel “da
atenção, do interesse e do envolvimento” dos sujeitos testados. Enquanto os sujeitos analisados
assistiam a certos comerciais e programas de TV, sua atividade cerebral era medida e
transformada em um índice que demonstrava quando o sujeito se interessava ou não pelo que
estava sendo visto.
Quando se acredita que o direcionamento e o gerenciamento da atenção dependem da
estrutura organizacional e institucional, outras soluções são oferecidas. O melhor exemplo é a
análise de BOUQUET (2005). O estudo é um dos raros que olha para a ação do topo da gerência
e busca revelar o que ela faz no processo de decisão e aplicação destas decisões. O objetivo de
Bouquet era formular um novo conceito de mindset através da observação do comportamento
individual dos CEOs das grandes empresas multinacionais voltadas para o mercado global. O que
estes executivos realmente fazem e como eles gastam seu tempo? Essa era a pergunta do autor e
foi ela que inspirou a construção de uma análise comportamental-externalista do funcionamento

tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Ao mesmo tempo, a farmacologia indicada contra
este transtorno é também utilizada pelo executivo gestor (BUTCHER, 2003).
71
A neuroeconomia é um ramo de estudos recente que investiga como o cérebro interage com o ambiente externo na
produção do comportamento econômico; a neuroeducação investiga as funções cerebrais relevantes para o processo
de aprendizagem; a neurofitness tem por objetivo desenvolver estratégias e técnicas de rejuvenescimento cerebral
(VIDAL, 2005b). Especificamente sobre a utilização de certas tecnologias neurobiológicas e cerebrais na economia
da atenção empresarial, consultar DAVENPORT e BECK (1998) e WESTON (1985). Para Davenport e Beck, apesar
da diversidade de instrumentos utilizados na quantificação e análise da atenção, a medida neurofisiológica continua
sendo a mais fiel e objetiva “A medida mais acurada e útil da atenção será produzida pelo acesso direto à sua
fisiologia” (DAVENPORT e BECK, 1998, p. 51).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 58

cognitivo dos líderes empresariais. Em seu estudo, o tempo e o esforço gasto com determinada
coisa eram medidos pela avaliação da ação direcionada para certo objetivo.
O estudo de Bouquet se distingue dos outros porque ele analisa as estruturas atentivas
organizacionais criadas para auxiliar o trabalho dos líderes empresariais. Em sua categorização,
ele distingue três formas de atenção: individual; social ou situacional; e estrutural. Todos os
fatores implicados nestas três esferas da atenção interferem na forma como os indivíduos tomam
suas decisões. Em seu estudo, a terceira forma de atenção mostrou-se ser a mais influente. Ela é
formada por estruturas atentivas que, do interior da instituição, auxiliam na direção da atenção do
gestor (exemplos são prazos, benefícios, prêmios, análises de riscos, evidências de falha, etc)72.
Pelo menos no grupo dos tomadores de decisão pesquisados, as estruturas organizacionais foram
as mais influentes na direção e manutenção da atenção73.
Bouquet demonstra que quando se trata do direcionamento da atenção dos líderes de uma
empresa, diferentes mecanismos e estratégias institucionais estão em jogo. Eles são sempre
específicos e diferenciam-se de acordo com a empresa e com o aspecto que se quer fazer notar.
No caso em questão, o exemplo é a atenção direcionada para assuntos internacionais. As dicas
vão desde incentivos financeiros e sociais à educação da atenção. De acordo com o autor, a
decisão de dedicar mais tempo e esforço a determinado assunto ou questão não é suficiente. É
preciso que uma estrutura organizacional e social seja criada que facilite e auxilie o esforço da
atenção. O autor recorda que a compreensão da direção da energia mental inclui a análise de um
sistema organizacional complexo e não apenas das preferências e experiências pessoais.
A separação entre gestão interna e externa da atenção é quase sempre substituída pela
oposição entre o controle pelo indivíduo e o controle pela instituição. Ou a atenção é
externamente controlada ou ela depende da força individual que tem suas origens no sistema
neurológico, no esforço da vontade ou em outra instância interna. Algumas vezes, quando o
controle externo torna-se aparente, o discurso crítico vem em socorro do trabalhador contra as

72
Um bom exemplo de estruturas atentivas institucionais é oferecido pela própria indústria atentiva que contrapõe as
novas tecnologias de proteção da atenção às tecnologias de atração. Os filtros virtuais responsáveis pela restrição de
mensagens recebidas pelos correios eletrônicos é o mais famoso. Estes guardiões automáticos são agentes
extremamente importantes para qualquer pessoa que lida diariamente com o mundo virtual e informacional. Eles são
próteses da atenção e, de alguma forma, tentam facilitar seu trabalho. Além dos filtros de proteção que vetam a
informação indesejada, os sites de busca especializada são também exemplos de próteses atentivas. Para se ter um
acesso mais seletivo à “internet profunda” não alcançada por sites de busca geral como o google, uma das soluções
tem sido a utilização de buscadores de temas específicos que são filtros mais potentes e que exibem resultados mais
precisos. Esse tipo de tecnologia também faz parte da economia da atenção atual.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 59

opressões do poder empresarial que dele usurpou o poder de autocontrole e auto-gestão. Em


outros casos, este mesmo autocontrole é descrito como uma forma mais eficiente de gestão que,
na verdade, é tiranamente gerada por instâncias externas. A análise de Bouquet é menos aquela
das oposições entre as esferas externas e internas de gestão da atenção. Ela enfatiza as relações de
interdependência entre os indivíduos e seus espaços de vida e, neste caso, seus espaços de
trabalho. A crítica é direcionada às teorias da escolha racional que acreditam que apenas o dever,
a tradição e a rotina explicam o que os tomadores de decisão fazem e por que direcionam sua
atenção para certos aspectos. Para Bouquet, é necessário integrar os aspectos da atenção no
interior de uma teoria-prática múltipla que inclua as estruturas simbólicas de reconhecimento
social, a determinação ambiental e ecológica e dos determinantes internos.
Muito mais poderia ser dito sobre a economia da atenção na qual a performance do
sucesso é aquela das celebridades executivas. Por hora, destacamos apenas um de seus aspectos:
nesta economia, é fato inquestionável que a gestão da atenção está intimamente relacionada ao
alcance do sucesso econômico. O indivíduo atento é a celebridade executiva empreendedora. Mas
o que esta economia compreende por produtividade? Como ela define atenção? Como vimos, o
problema que ameaça a produtividade nas sociedades de informação, tal como elas são descritas
pelos teóricos da atenção, deriva dos excessos que ela mesma produz e da paralisação da ação
que estes excessos eventualmente causam. Ao mesmo tempo, como Peter Drucker destaca, trata-
se da produtividade individual ou empresarial numa sociedade na qual planejar o futuro tornou-
se um valor e uma exigência. A produtividade do gestor, que todo trabalhador do conhecimento
acredita ser, depende da habilidade de planejar o futuro mais próspero, da criação de estratégias
eficientes que viabilizem seu alcance e, por fim, da execução do plano criado.
A definição de atenção como uma fonte escassa que tem por função limitar a informação
que chega até nós e decidir eficientemente o que fazer com ela, é a mais corrente na sociedade da
informação e da gestão do futuro. Esta não é a única definição da atenção. Um dos fatos mais
curiosos em relação à sua análise é a diversidade de sua conceituação e a pluralidade de
problemas para os quais sua gerência é vista como uma solução mágica. No tópico seguinte
analisamos uma outra forma de compreensão da economia da atenção. Embora ela se diferencie
da versão que acabamos de contar, em alguns aspectos elas se encontram e dialogam. Em ambos
os casos, a gestão da atenção está intrinsecamente vinculada à constituição de certos modelos

73
“A focalização do tempo e do esforço dos gerentes é melhor explicada pelas estruturas de micro-nível – as posições
estruturais, as recompensas, os incentivos, o desenvolvimento das atividades de liderança que a firma coloca em ação
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 60

identitários. Se na economia das celebridades executivas ela ajuda a criar o empreendedor


produtivo, na economia das visibilidades ela participa da constituição das celebridades da
aparência.

3.2. APARÊNCIAS ATENTAS, ATENTOS ÀS APARÊNCIAS

“A atenção dos outros é a mais irresistível de todas


as drogas” (FRANCK, 1999).

Na análise das celebridades executivas, vimos que a relação entre atenção e produtividade
é tecida no interior da lógica das sociedades democráticas do liberalismo avançado e incorpora
um tipo específico de identidade: o eu empreendedor. A gerência da atenção é um instrumento
necessário ao aumento da produtividade e ao alcance da satisfação pessoal do trabalhador. Mas
para Goldhaber e Franck o vínculo entre atenção e produtividade não é o que realmente
caracteriza a economia da atenção em sua forma pura. Não é somente na venda de certo produto
que a atenção do consumidor é importante e o que mais importa não é a atenção que leva à
produtividade, à eficiência na tarefa realizada. Se estes são aspectos da economia da atenção, não
é prioritariamente deles que ela se nutre. Como os autores que analisamos no tópico anterior,
Goldhaber e Franck acreditam que o excesso de informação, a crescente competição pela atenção,
a diminuição do tempo livre e a constituição do culto das “celebridades” definem a economia ou
a “economização” (Ökonomisierung) da atenção. Mas Goldhaber acrescenta que a mudança no
significado e no desejo de privacidade e o declínio da importância dos bens materiais são
características que definem a economia pura da atenção.
Os argumentos dos dois autores diferem em alguns aspectos chaves. Em alguns momentos
de sua análise, Franck classifica as relações entre aumento da produtividade, atração do
consumidor e manejo da atenção como partes da história da “economização” e “racionalização”
da atenção. Para o autor, a economia da atenção nasceu com o desenvolvimento das primeiras
tecnologias de informação e comunicação. Sua primeira fase foi industrial e pré-informacional e
sua intensificação teve início com o desenvolvimento da indústria de entretenimento de massa.
Sua história é contada de forma progressiva e evolutiva. A história da economia da atenção não é
nova, mas ela atinge seu ápice nos dias de hoje ao tornar-se auto-suficiente. O mercado atual se

com o intuito de dirigir a atenção para certas atividades em detrimento de outras” (BOUQUET, 2005, p. 61).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 61

alimenta essencialmente do desejo de possuir a atenção do outro e, para Franck, esta é a mudança
econômica mais significativa dos últimos tempos74: o meio converteu-se em fim. O século XX,
especificamente sua segunda metade75, propiciou o surgimento de uma economia na qual a
captura da atenção tornou-se um objetivo em si e sua troca um mercado auto-suficiente. O que
realmente importa é o ganho da atenção, seja ele real ou ilusório. Sustentando esta economia está
o desejo pessoal de receber e dar atenção.
Em alguns aspectos, a análise de Goldhaber difere da interpretação de Franck. Embora
também enfatize que a atenção pela atenção é o que conta na nova economia, Goldhaber vê este
aspecto como um ponto de ruptura com a lógica econômica anterior. O momento atual é de difícil
análise porque vivemos em um período de transição entre duas economias distintas que se
encontram mescladas e conectadas. Dois conceitos diferentes de propaganda são utilizados na
tentativa de tornar clara as diferenças nem sempre aparentes entre estas duas economias. O
primeiro define a propaganda como um instrumento que auxilia na criação do desejo de compra
de algum produto. Este seria o conceito vinculado à antiga economia monetária. Nela, sabe-se
bem quem é o vendedor e quem é o consumidor. Somente ao primeiro é outorgada a tarefa de
captura da atenção. Seu fim é monetário e material. Na forma pura da economia da atenção a
segunda definição é a que conta: propaganda como um meio de divulgação de si mesmo, de
alguma idéia, de algum sentimento ou preocupação sem fins monetários. Nesta segunda
definição, interessa capturar a atenção por si só, tornar alguém ou alguma coisa presente para um
outro alguém, criar sua existência através da excitação de sua presença na vida de um outro.
A previsão de Goldhaber é escatológica. Estamos vivenciando um processo de
transformação radical no âmbito econômico, social, existencial e político, e no centro deste
processo, está o desejo de receber atenção. Mas quais são os tipos de desejo de atenção
característicos desta nova dinâmica? Uma das dificuldades em responder esta pergunta resulta
das diferentes e nem sempre claras definições de atenção que a economia pura da atenção nos
oferece. Dissemos que uma parte do discurso científico médico e neurológico comprova a
primeira lei da limitação da atenção e que esta lei está presente tanto na economia produtiva da
atenção quanto em sua forma pura. Mas as descrições da atenção presentes nos campos médicos
e econômicos nem sempre coincidem. Criticando a tentativa econômica de racionalização da

74
“Uma das mudanças econômicas mais significativas deste século é que a necessidade de atenção ultrapassou todos
os outros fatores em importância econômica” (FRANCK, 1995, p. 9).
75
Por algum motivo não explicitado, Goldhaber escolheu o ano de 1965 como um “marco” importante no
surgimento da economia pura da atenção.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 62

atenção, Franck também direciona seu protesto a uma certa vertente da ciência biológica da
atenção. Para o autor, o sistema nervoso não é um computador biológico, a atenção não se reduz
ao processamento e codificação de informação. A economia médica e executiva simplificam e
reduzem a atenção ao compreendê-la apenas como um recurso necessário ao aumento da
produtividade. Seus instrumentos não são capazes de capturar sua singularidade e complexidade,
já que ela se confunde com a essência do ser e com a energia vital que sustenta suas trocas no
mundo76.
Goldhaber também oferece uma definição para a atenção. Ela não é um processo simples,
diz o autor, ela é individual, plural, quase nunca previsível e dificilmente quantificável. A atenção
envolve todos os nossos sentidos, memórias, emoções, reflexões, paixões e, em sua
singularidade, nunca pode ser alvo de comparações. Ninguém pode ser mais atento que ninguém,
já que nenhuma forma de atenção é realmente igual77. Se consideramos esta compreensão da
atenção, seu mercado não se encaixa na lógica monetária produtiva, numérica, material e
quantificável. A atenção não pode ser descrita como uma mercadoria, caso se entenda por
mercadoria algo uniforme, mensurável. No sentido convencional, ela não é uma moeda.
Mas no debate econômico da atenção, não nos interessa se ela é uma moeda ou não, se
seu mercado é um mercado real, se ela substitui o dinheiro ou é paralela a ele ou se podemos falar
de duas economias distintas. Para os interessados no assunto, essa é uma discussão que não está
concluída78. Mas como a economia da atenção é necessariamente uma economia existencial, o
tema exige de nós uma atenção especial. Em sua lógica, o ater-se a e o ocupar-se com do
observador direcionam-se para o que, num movimento de vai e vem, retorna para aquele que vê
como possibilidade de ser visto pelo outro e de para ele existir. A visibilidade, a aparência e a
imagem estão no centro da descrição de Franck e de Goldhaber. Para ambos, a economia da
atenção coincide com o predomínio da cultura visual. Nada que não seja mostrado, tornado
público e aparente pode tornar-se objeto de interesse. O que não aparece não existe. O mesmo
ocorre em nível individual. No interior da economia pura da atenção, do indivíduo bem sucedido

76
Embora o conceito de atenção oferecido por Franck se diferencie da atenção consciente e racional enfatizada pelo
modelo das celebridades executivas, o autor negligencia que no modelo executivo a gestão da atenção também se
vincula à constituição identitária. A necessidade de maximização da produtividade não é somente uma demanda
externa. Para o trabalhador empreendedor, ela é um meio de satisfação pessoal especialmente significativo.
77
“A atenção não é algo simples. Ela é intrínsica, individual, variada, quase sempre imprevisível e dificilmente
quantificável. Ela inclui todos os sentidos; ela abrange a memória, as apreciações, a reflexão, o amor, o
entendimento, a observação, o cuidado (…) a atenção que eu sou capaz de dar é diferente da sua, assim como as
formas de atenção que eu desejo também diferem das suas. Em nenhum caso pode haver uma comparação entre
nossas atenções: você mais atentivo e eu menos ou vice e versa” (GOLDHABER, 1997b, p. 3).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 63

espera-se uma postura expressiva, explícita, comunicativa. Ele deve ser capaz de mostrar suas
qualidades e suas particularidades da melhor forma possível. É sugerido que quanto mais seus
desejos e suas características peculiares são explicitadas, mais ele irá chamar a atenção do outro.
Um espaço pequeno é reservado para os incapazes de comunicação e expressão, para o sujeito
reservado e tímido.
A importância dada a alguém, a um produto, a um assunto ou a uma disciplina científica
tornaram-se dependentes de seu grau de visibilidade e comunicação para o outro. E, nos termos
da economia da atenção, tornar-se visível é o mesmo que tornar-se objeto da atenção de um
outro. O espectador da economia da atenção não é apenas o voyeur que se delicia com o ato de
ver sem ser visto. Ele quer tornar-se objeto do ater-se e do ocupar-se de um outro. Essa troca se
dá em diferentes níveis. Em termos pessoais, a equação que resulta dessa premissa seria mais ou
menos assim: escolho olhar para você somente porque sei que serei correspondida e é nesta troca
de olhares que me constituo. Trata-se de uma lógica existencial na qual a troca de atenções ou a
troca com o outro é resumida ao âmbito das aparências ou do aparecer. Em certo sentido, nesta
versão da economia da atenção ela se confunde com a sociedade da aparência e da visibilidade na
qual aparência e essência se confundem79.
Na economia da atenção descrita por Goldhaber e Franck há pouco espaço para o desejo
de não ser visto. Parte-se da premissa que todo e qualquer indivíduo e instituição que dela deriva
ou que nela se constitua deseja ser visto. Nesta economia, o excesso de atenção recebida não é
uma vigilância indesejável. Na análise de nossos autores, quase nunca ouvimos falar de uma
possível esfera opressora da atenção. O controle exercido pelo panóptico foucaultiano não está
presente nela80. Duas formas de passividade incomodam o espectador desta nova lógica. Em
alguns momentos, o que o perturba é a impossibilidade ou a dificuldade de escolher o que ele
quer ver. Isso inclui a quantidade exorbitante de informação inútil que ele é obrigado a digerir.

78
Consultar Rishab Aiyer GHOSH (1997) e Philipe AIGRAIN (1997).
79
A bibliografia sobre a constituição de uma cultura da visibilidade nas sociedades ocidentais é extremamente rica e
vasta. Para uma interessante introdução ao tema, consultar Francisco ORTEGA (2004).
80
Diferentemente do que nossos autores defendem, acreditamos que, em certo sentido, a estrutura panóptica se
ramifica e se intensifica no mercado atentivo. Na indústria da atenção, mais do que nunca, importa vigiar o olho que
olha e que presta atenção, importa descobrir o que o indivíduo quer ver, para onde ele direciona seu olhar e suas
preferências. As técnicas de monitoramento da atenção são parte extremamente importantes de sua economia.
Mesmo sem se dar conta de que está sendo “visto”, quando um indivíduo clica no mouse de seu computador, na
escolha de determinada página na internet, sua escolha bem como o tempo que ele gasta navegando no site podem
estar sendo automaticamente monitorados. Neste ramo de sua economia, as estratégias de rastreamento da atenção se
sofisticam cada vez mais e formam por si só um complexo industrial. Dizer que em todos o espaços da economia da
atenção o “ser visto” é um desejo ilimitado, nos parece um exagero. Mesmo no ramo citado, vários debates têm sido
incitados sobre a invasão da privacidade individual, sobre a perda da liberdade do consumidor, etc.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 64

Em certo sentido, no centro da crítica de DEBORD (1967) à sociedade de espetáculo


encontramos uma forma similar de passividade. Ela nos fala do poder da manipulação
mercadológica e midiática da atenção do expectador, do que ele vê, deseja e percebe no mundo.
Mas uma outra forma de passividade, talvez ainda mais poderosa, afeta o espectador da nova
economia e ela se refere à árdua tarefa de se fazer notar. O quadro se agrava em uma época na
qual os exemplos Big Brothers estão por todos os lados dizendo que o alcance da fama não é
impossível. Contrariamente, é dito que o segredo do sucesso está bem debaixo do nariz (ou dos
olhos) de qualquer um. Mas a necessidade de tornar-se visível não se identifica ao desejo de ser
uma aparência célebre. Nem todo mundo quer ser uma estrela de TV81.
Sem entrar em muitos detalhes sobre a dinâmica que caracteriza o complexo social e
existencial em torno do ciberespaço82, preferimos falar que ele lida com visibilidades e
invisibilidades. É deste jogo que ele se constitui. Na economia da atenção, há coisas que
queremos que sejam vistas e outras que mantemos na invisibilidade. Muitos são os meios através
dos quais estas invisibilidades são construídas. Como FREIRE (2005) comenta, na atual cultura
da aparência somática, muitas vezes é preciso ser igual a todos para não ser notado. Justamente
por que tudo tornou-se tão aparente, necessitamos da proteção que a aniquilação da diferença e da
diversidade propiciam. Principalmente na Internet, a decisão de tornar algo visível surge também
da garantia de anonimato que ela mesmo permite manter.
Mas o que há de mais interessante e de mais bizarro na tese da expansão da economia da
atenção é a ênfase no seu aspecto intersubjetivo. Os analistas da atenção também dizem que, mais
do que o desejo de fama, a busca pela atenção do outro é a necessidade de estabelecer com ele

81
Quando alguém cria um blog na Internet, por exemplo, sua intenção não é necessariamente tornar-se famoso.
Dados do jornal inglês The observer de 14 de agosto de 2005 afirmam que mais de 4 milhões de blogs e de diários
online estão acessíveis na Internet. Neles, as pessoas escrevem diariamente qualquer coisa, desde pensamentos
políticos à descrição de suas tarefas domésticas. Alguns deles têm atraído milhares de visitantes a cada dia e
alcançado a fama. Mas a reportagem explora um outro aspecto interessante: a entrada de um novo setor no mundo
dos blogs. Eles são trabalhadores mal pagos, explorados por suas gerencias e vivendo extenuantes situações de
trabalho. Seus blogs têm funcionado como espaços de denúncia destas condições. Eles oferecem descrições reais da
dinâmica diária destes espaços de trabalho e divulgam opiniões e percepções que fora deste universo não seriam
facilmente explicitadas. A utilização das visibilidades da net como um instrumento político também faz parte de sua
dinâmica.
82
Para Goldhaber, o espaço no qual a economia da atenção mais se prolifera é o cibernético. De outra forma dita, o
espaço cibernético é o que melhor incorpora a dinâmica atentiva atual e ele é o meio tecnológico que mais a
interfere, modifica e modela. Antes dele, a tecnologia cinematográfica era a que mais se identificava com a dinâmica
mental e perceptiva da atenção e, por esse mesmo motivo, a mais influente em seu gerenciamento. Mas o espaço
cibernético é ainda mais potente. Nele, as separações entre o consumidor e o produtor da atenção se dissolvem ou são
obscurecidas. Todos passam a fazer parte do mercado atentivo. E, na medida em que o autor acredita que num futuro
não muito longínquo todas as esferas da vida serão de alguma forma engolfadas pela dinâmica cibernética, a
economia da atenção não se restringe somente a ele.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 65

conexões. Para Goldhaber, a nova economia da atenção não desconsidera sua dinâmica relacional
e conectiva, ela se utiliza desse aspecto: o desejo vital e existencial de estabelecer com o mundo e
com os outros homens trocas atentivas é comercializado. Uma das vantagens da janela criada por
um blog é que ela possibilita um tipo de troca atentiva. Para que seja interessante, o fluxo de
informação deve correr em mão dupla. Não basta chamar a atenção de alguém se esta atração
inicial não é transformada em um interesse mais duradouro capaz de, num movimento de troca,
retornar na forma de atenção dedicada. Quem cria um blog além de ser movido por outros
motivos, também busca um contato e almeja criar uma conexão com alguém. Quem disponibiliza
suas idéias na Internet quer iniciar um diálogo.
A economia da atenção é, como toda outra economia, baseada em relações de trocas. A
atenção que não cria uma conexão duradoura nem sempre é considerada uma forma valiosa de
atenção. Ao analisar a dinâmica da indústria atentiva, Davenport e Beck listam pelo menos quatro
princípios que devem estar na base das tecnologias de captura da atenção: relevância,
engajamento, comunidade e conveniência. A oferta do sentimento de troca relacional e da
possibilidade de integração a uma rede social de pertencimento são fatores chaves no comércio
atentivo. Um conselho dado por muitas empresas de consultoria diz que uma das formas mais
eficientes de capturar a atenção de alguém é estar atento a ela. Esta premissa é levada tão a sério
que o atendimento personalizado tem sido uma das estratégias privilegiadas na conquista de
novos clientes.
Nesta forma de economia, a atenção se confunde com a própria existência individual e
esta é uma existência relacional. Onde está depositada a atenção? Onde ela pode ser armazenada?
Ao longo da história, filósofos, psicólogos, psiquiatras e cientistas se debruçaram sobre estas
perguntas. Os teóricos da economia da atenção também se ocupam delas. Atentos ao seu aspecto
intersubjetivo, eles preferem falar de um “não lugar” da atenção. Ela só pode estar em algum
espaço relacional, entre os sujeitos que estabelecem uma conexão entre si. Ela só pode ser
observada ou sentida no momento em que esta conexão é estabelecida. De fato, para Goldhaber, a
economia da atenção em seu aspecto puro teve início quando este fator conectivo foi capitalizado
e comercializado. Se há algo de novo na Internet que outras tecnologias de atração não
desenvolveram totalmente é a promessa comercial da troca atentiva.
No mercado da atenção, impera a lei falaciosa do “é dando que se recebe”. Questionado
sobre quais seriam as melhores estratégias e tecnologias de atração da audiência, Goldhaber
declara que mesmo não sendo possível encontrar um aspecto para sempre funcional na captura da
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 66

atenção, de forma geral, o que captura a atenção de alguém é fazer com que ele se sinta envolvido
em uma troca inter-pessoal, real ou ilusória. A economia da atenção promete suprir a necessidade
de trocas atentivas, mas a mantém sempre viva por nunca cumprir definitivamente sua promessa.
Quase sempre é uma troca existencial ilusória e artificial é oferecida. Na lógica da economia pura
da atenção, as trocas reais têm sido substituídas por trocas ilusórias. Em seu nível existencial, o
crescente desejo de receber e dar atenção que a alimenta é característico de um momento no qual
trocas humanas significativas tornaram-se raras. A troca existencial é reduzida à troca de olhares.
Não por acaso, Goldhaber afirma que, nesta economia, alimentando o desejo de estabelecer
relações está um certo “sentimento de vaidade”.

3.3. CONCLUSÃO
A primeira constatação que resulta da análise das economias atentivas é que o interesse
atual pela gestão da atenção não é único. Ele também não é gratuito. No discurso econômico da
produção e da eficiência, da aparência e das celebridades, no discurso saudável da wellness ou da
mindfulness, na ênfase somática e na reciclagem ocidentalizada das filosofias orientais,
encontramos um imperativo: a necessidade da gerência da atenção. Todos eles dizem que sua
gestão é fundamental ao alcance do sucesso pessoal e inter-pessoal, mesmo que os significados
de “sucesso na vida” sejam totalmente diversos, mesmo que a “gestão da atenção” nunca seja a
mesma coisa.
A economia da atenção atual possibilita a aliança entre as aspirações democráticas do
processo de humanização do trabalho; a imagem individualista e empreendedora do gestor de si;
as tecnologias da nova cultura psicológica e neuropsicológica; e a cultura visual da aparência. Em
suas malhas, estas esferas criam relações diversas e se reafirmam. Nas palavras de Rose e Miller,
as novas estratégias de gestão da produtividade (e, acrescentaríamos, da atenção) do trabalhador
são comercialmente interessantes, por responderem à demanda da produtividade e da
competitividade; são também práticas e praticáveis, pois são formadas por tecnologias que podem
ser utilizadas no dia a dia do trabalhador; e são profundamente éticas em seu colorido psicológico
e terapêutico.
Mas o que caracteriza a economia da atenção atual é apenas a satisfação de um certo
narcisismo imagético centrado em um certo “sentimento de vaidade”? Ou, como acredita Franck,
ela retrata um momento no qual a ênfase na atenção a si e na captura da atenção possibilita a
criação de uma nova ética das trocas? O “eu empreendedor”, autônomo e responsável que o
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 67

modelo das celebridades executivas reafirma é apenas mais uma fonte de frustração existencial
ou ele pode ser o modelo dos verdadeiros homens de ação? Respostas positivas a estas perguntas
não seriam completamente contraditórias. Uma das características mais marcantes da história
ocidental do sujeito atento e de seus duplos é que eles sempre ocuparam espaços transitórios entre
políticas de subjetivação criadoras e totalizadoras. Neste sentido, o momento atual não parece ser
tão diferente, embora muitas vezes assistimos ao predomínio das faces mais opressivas da
economia da atenção.
Nos tópicos deste capítulo exploramos alguns dos aspectos que fizeram com que o
controle e a gestão da atenção fossem colocados no centro da economia existencial e da
econômica da atualidade. Nela, a falha da mestria da atenção é a condenação ao insucesso e à
inexistência. O desatento se identifica com o sujeito não produtivo, incapaz de auto-gestão. O
sujeito incapaz de chamar a atenção do outro é também um símbolo do fracasso na economia
atual da atenção. Antes de ser um desatento, ele é um desatendido, mas ele assim o é por não ser
capaz de ater-se suficientemente à tarefa de se fazer notar. A culpa de seu insucesso é dele e
somente dele, de sua falta de persistência e competência.
Nas análises seguintes continuaremos explorando outras partes do prisma que compõe a
economia atentiva atual, principalmente no que diz respeito ao discurso médico das disfunções da
atenção. O caso estudado é a constituição do diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e
Hiperatividade ou TDAH e da condição existencial que ele descreve. Por diversos motivos,
veremos que o indivíduo acometido pelo TDAH se aproxima do desatento que nunca será uma
celebridade executiva. O modelo subjetivo com o qual o TDAH dialoga e que possibilita sua
existência é o do gestor empreendedor. Por outro lado, ele também encarna o indivíduo
desatendido esquecido pelo discurso da fama, presente na face imaterial da atenção. Ao dar um
corpo cerebral para a atenção ele, paradoxalmente, afirma sua imaterialidade. No discurso
médico, as celebridades executivas são melhor descritas como cerebridades executivas. Nele, as
funções executivas do gestor empresarial são, em primeira instância, aquelas localizadas nas
estruturas mais complexas e sofisticadas do córtex cerebral. Elas são as funções que, na evolução
humana, possibilitaram que o estágio mais alto da civilização fosse alcançado. A imagem
oferecida por GOLDBERG (2001) em seu livro The Executive Brain: Frontal Lobes and the
Civilized Mind, ilustra o que queremos desenvolver no capítulo seguinte.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 68

Fig. 1. Capa do livro de Elkhonon Goldberg,


The Executive Brain: Frontal Lobos and the Civilized Mind
Fonte: www.ishkbooks.com/.../ neuropsychology_index.html

Como outros pesquisadores das funções executivas cerebrais, Goldberg acredita que elas
são responsáveis pelo desenvolvimento e gerenciamento das habilidades mais complexas e mais
nobres do ser humano. O autor resgata toda uma tradição de neurologistas que, já no século XIX,
afirmavam que das lesões dos lobos frontais resultavam as mais sérias e graves patologias, dentre
elas o sentimento bizarro de perda da integridade do eu e, atualmente, o Transtorno do Déficit de
Atenção e Hiperatividade. Na celebridade executiva ou no planejador gestor os lobos cerebrais
frontais são os mais atuantes. São eles que permitem que a gestão da atenção e da ação sejam
eficientemente orientadas para o futuro. São eles que permitem que o indivíduo seja um
empreendedor de sucesso, consciente de si, de suas aspirações e desejos.
Na economia médica e psiquiátrica dominante, a importância dada à gestão da atenção se
insere no processo de biologização e cerebrização das identidades que, ao menos desde o século
XVIII, tem marcado nossas sociedades ocidentais. Nele, a gestão química e comportamental atual
da atenção é parte fundamental da constituição do que Nikolas Rose (2003)83 tem chamado de eu

83
Autor de vários livros e artigos sobre a história da psicologia, da constituição da subjetividade moderna, das
sociedades democráticas do liberalismo avançado e do desenvolvimento das novas tecnologias biopolíticas, Nikolas
Rose é atualmente diretor do BIOS Research Centre for the study of Bioscience, Biomedicine, Biotechnology and
Society, um centro de estudos da The London School of Economic and Political Science. A nosso ver, O BIOS é um
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 69

neuroquímico e Fernando VIDAL (2005a, 2005b) a face mais atual da brainhood. Ao contrário
do que a primeira vista possa parecer, assim como nas economias da atenção que descrevemos,
no discurso médico e biológico a gestão da atenção continua sendo alojada no espaço nebuloso e
obscuro das intersecções entre a biologia e a moral, entre os determinismos do cérebro, as
liberdades da vontade racional e consciente do eu empreendedor, a moral do sucesso e a cultura
da visibilidade. Ao menos desde a década de 70, na economia biomédica da atenção, o indivíduo
atento e seus duplos são formados pelo encontro de diversos modelos e práticas identitárias. Nela,
encontramos traços do indivíduo empreendedor e gestor de si; do eu das aparências; do eu da
persistência da vontade; do eu neuroquímico e cerebral; do eu visto como um risco para si e para
a sociedade e, enfim, do eu no qual o “desejo do risco” não pode ser de todo controlado pelas
políticas de segurança atuais.

dos mais interessantes centros internacionais de estudos onde o debate ético, político e sociológico sobre os
desenvolvimentos das pesquisas cerebrais e neurológicas atuais tem sido amplamente produzido. Para os
interessados nesta discussão, sugiro o site do grupo http://www.lse.ac.uk/collections/BIOS/ e especialmente os dois
números da BIOS News (2005, 2006), de acesso livre pela Internet. Em nossas análises, em diversos momentos
estaremos nos apoiando nas pesquisas de Nikolas Rose e de alguns integrantes de seu grupo de pesquisa.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 70

4. A ECONOMIA BIOMÉDICA DA ATENÇÃO E O “FATO


TDAH” 84

Em sua monografia sobre a origem e o desenvolvimento de um fato científico, Ludwik


FLECK85 (1935) inicia sua análise com a seguinte pergunta: “o que é um fato?” De ponta a ponta,
a resposta do autor se contrapõe à explicação de que um fato, científico ou não, como a definição
de uma patologia, é um evento puramente objetivo, definitivo e permanente, ou seja, que sua
descoberta resulta do avanço tecnológico das ciências que o investigam. Em sua neutralidade
científica, ele é imune à interpretação subjetiva do cientista e do coletivo no qual ele está
inserido. Nesta visão, um fato, especialmente um fato médico, é uma realidade ou uma existência
independente, não condicionada por fatores temporais e culturais. Contrapondo-se a esta
perspectiva, Fleck ficou conhecido por oferecer uma análise sociológica do conhecimento

84
No contexto internacional, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade ou TDAH, como é chamado no
Brasil, é mais conhecido pela sigla ADHD ou Attention Deficit Hyperactivity Disorder. Este é a termo usado
principalmente na América do Norte, na Austrália e na Nova Zelândia. Com exceção de alguns países europeus que
também adotam esta nomenclatura, a maior parte dos países deste continente prefere o emprego do termo Transtorno
Hipercinético. Na Alemanha, o termo usado, Aufmerksamkeits-Defizit/Hyperaktivitäts-Syndrom (ADHS), pode ser
visto como a tradução alemã do ADHD. Na maior parte das vezes, essas diferenças de nomenclatura decorrem do
uso dos manuais de classificação diagnóstica da doença mental adotados em cada país. Existem duas classificações
mundialmente conhecidas. Uma delas é parte da Classificação Internacional das Doenças (International
Classification of Diseases), publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em Genebra, e sua décima edição
é chamada de CID-10 (ICD-10). Seu uso é mais comum no continente europeu. Nela, o transtorno é chamado de
Transtorno Hipercinético. A outra classificação é autorizada pela Associação Psiquiátrica Americana e é chamada de
Manual Estatístico e Diagnóstico de Doenças Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders). Sua
quarta edição (DSM IV) é a que está em vigor desde a década de 90. Nela, ADHD é a definição proposta. Neste
estudo, não exploramos as especificidades destas classificações, mas para muitos autores elas explicam as diferenças
na epidemiologia da patologia. Nos países que usam a DSM IV, o diagnóstico é mais disseminado, enquanto nos
países nos quais o CID é a classificação oficial, a síndrome é mais rara. Já que o termo TDAH é o mais popular no
Brasil, continuaremos adotando esta sigla que é claramente a tradução da classificação americana.
85
Nascido na Polônia, em 11 de Julho de 1886, Ludwik Fleck foi um importante médico judeu, conhecido por seus
estudos na área de bacteriologia e por sua contribuição singular à construção de uma sociologia do conhecimento
científico. Nossa referência a Fleck direciona-se particularmente a uma de suas obras mais famosas, publicada em
1935, intitulada Gênese e Desenvolvimento de um Fato Científico. Nesta obra, Fleck analisa a origem do conceito
moderno de Sífilis e, através deste estudo de caso, elabora uma das análises mais importantes da sociologia do
conhecimento científico. Na época em que foi publicado, o trabalho de Fleck quase não teve repercussão e
permaneceu no anonimato por um longo tempo. Após 30 anos de sua aparição, com Thomas Kuhn, a obra do autor
começou a ser conhecida. Para Kuhn, o trabalho de Fleck havia sido radical demais para seu tempo, mas era de
extrema importância para o contexto científico que a partir da década de 60 o resgatava. A análise de Ludwik Fleck é
hoje aclamada como uma das mais relevantes para a sociologia, história e filosofia da ciência. Ela está na base do
que alguns sociólogos e historiadores da ciência chamam de perspectiva construtivista do conhecimento científico.
No campo da história da medicina e da psiquiatria, a obra de Fleck tem influenciado direta e indiretamente autores
que, como Allan YOUNG (1995, 2000), Ian HACKING (1991, 1995) e Mariana VALVERDE (1998, 2003)
investigaram a construção de patologias e diagnósticos no interior do estilo do pensamento médico contemporâneo e
de seu fazer científico particular.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 71

científico na qual todo conceito, teoria ou verdade, científica ou não, é cultural e coletivamente
condicionada.
Para Fleck, fatos se tornam reais no interior de um estilo de pensamento datado,
específico de uma época. Uma explicação se origina e passa a fazer sentido somente se ela se
enquadra no vocabulário moral e empírico do espaço e contexto ao qual ela pertence. O autor fala
de uma “prontidão” (readiness) do cientista que guia sua observação, a escolha de seu método de
trabalho, o desenvolvimento de seus resultados e interpretações desses resultados em uma certa
direção: aquela privilegiada pelo coletivo que domina o pensamento científico da época. A
construção científica de um fato é constituída de muitos níveis. Em suas bases, encontramos
vozes destoantes, opiniões e escolhas pessoais e contingências institucionais que são omitidas.
Seu nível mais aparente revela apenas as partes já adaptadas ao estilo de pensamento do coletivo
dominante. Na face mais superficial de construção do fato, ele surge como uma realidade
unificada e permanente. Em sua última face, ele é transformado em uma realidade neutra e
objetiva, imune aos conflitos e direções que, na verdade, fizeram parte de sua constituição.
Não resgatamos Fleck com o intuito de analisar sua teoria em profundidade. Desde ao
menos a década de 70, muitos foram os autores que se dedicaram, e ainda se dedicam, à esta
tarefa. No que diz respeito aos nossos interesses, Fleck foi um dos pioneiros na construção do
olhar analítico que inspira nosso trabalho. Na pesquisa neurobiológica da atenção, ciência,
biologia e moral não se separam. A primeira patologia legítima da atenção originou-se das
relações estabelecidas entre elas nas últimas décadas do século XX. Nos próximos capítulos,
analisamos como a interpretação neurobiológica recente do TDAH e a história oficial86 da
descoberta do diagnóstico revelam o nível mais aparente e superficial da construção do “fato
TDAH”. Para o discurso da legitimidade biológica e visual do TDAH, as contingências locais,
morais, sociais e políticas de uma época não afetam a produção científica da patologia e a
condição existencial que ela descreve. A história do TDAH que ele nos conta é, em certo sentido,
“a-histórica” por ser fundamentalmente linear e evolutiva. Nela, o TDAH é um fato biológico
atemporal, descoberto clinicamente no ano de 1902 e desde sempre presente entre nós. Em sua

86
Em nossas análises seguintes, quando falamos da “história oficial do TDAH” nos referimos à versão contada pelo
discurso neurobiológico atual cujo representante principal é Russell Barkley. Ela pode ser chamada de “oficial”
porque é a versão contada pelos órgãos públicos e associações profissionais vinculadas à pesquisa e ao tratamento do
TDAH.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 72

história, não há conflitos, não há tumultos, apenas uma harmonia ilusória composta por um
conjunto de datas e nomes importantes para o processo de revelação da patologia87.
Não levantamos a questão sobre a “falsidade” ou a “veracidade” da interpretação
biomédica atual do TDAH e de sua história oficial. Elas são peças fundamentais do “fato
TDAH”. Mas as vozes destoantes que dialogam explícita e implicitamente com o discurso
biomédico também fazem parte da constituição da patologia. Investigamos a fase mais superficial
e harmônica da construção do TDAH e o estilo de pensamento que ela perpetua, mas também
damos relevo às vozes que, em um nível mais obscuro, participaram de sua constituição. Nosso
objetivo é destacar certas contingências morais e sociais que participam e participaram da
construção do diagnóstico do TDAH, da condição mórbida que ele descreve e dos modelos
identitários que ele fortalece.
O “fato TDAH” é uma peça importante da história da constituição do sujeito
atento/desatento. Vimos que ela não se limita ao espaço e ao tempo do século XX e XXI. No
entanto, se buscamos compreender suas particularidades, o indivíduo TDAH deve ser analisado

87
Muitas são as histórias “a-históricas” do TDAH. Elas são contadas por estudos que emergem de dentro e de fora
do campo neurológico. Vendidos e divulgados como um gênero misto, situado entre a medicina e a análise literária,
cresce o número de artigos nos quais personagens históricos, poetas e escritores, séculos após sua morte recebem o
diagnóstico póstumo do TDAH. Um exemplo é a hipótese de Michael Fitzgerald (2001) que defende que o poeta
Lord Byron (1788-1824) foi um autêntico “TDAH”. Na análise do autor, o poeta e grande parte de sua família
tinham TDAH. Ou ainda a análise alarmante de Dore J. Levy (1994), para quem o protagonista de um dos mais
importantes romances chineses, The Story of the Stone, de Cao Xueqin (1715-1763), tinha duodong zonghe zheng,
de acordo com o autor, o nome chinês para a síndrome de hiperatividade. Olle Hollertz encontra em Tomás de
Aquino, na Summa Theologiae, as primeiras descrições do sujeito TDAH e da síndrome de “Aspergers”. Mas
embora todas estas análise descrevam o TDAH como uma fenômeno transcultural e transhistórico, os usos do
argumento não são os mesmos. Encontramos estudos que defendem o brilhantismo da identidade TDAH. Eles
buscam na biografia e história das grandes personalidades exemplos de pessoas com TDAH. Especificamente
voltada para a defesa da existência biológica do transtorno em outras culturas e tempos, a análise mais famosa
resgata o poeta e médico alemão Heinrich Hoffman e seu famoso livro Der Struwwelpeter. Neste livro, o conto
Zappel-Philipp, escrito na primeira metade do século XIX, é destacado. O conto é retomado pela literatura popular
do TDAH e pela análise neurocientífica atual. BARKLEY (1997a) é um dos autores que cita Hoffman na
historiografia do transtorno. Antes da análise clínica de George Still, de 1902, Philipp foi a primeira descrição
“médica” da síndrome. Para os que assim acreditam, ao contar a história do menino que não parava nunca quieto,
que tinha dificuldades de ouvir os pais e de ficar sentado, Heinrich deu corpo literário aos casos que em sua clínica
médica eram comuns. Esta versão da história do TDAH é tão divulgada que o transtorno tem sido chamado de
“síndrome Zappel-Philipp”. Esta releitura de Heinrich não é característica apenas da historiografia do TDAH. Há os
que, como o Dr. Herbert H. Nehrlich, sugerem que Struwellpeter oferece outras descrições médicas. Em sua análise,
um outro conto do livro, Kaspar, um menino que morre de fome recusando comer sua sopa, é um caso evidente de
anorexia nervosa. Johannes THOME e Kerrin A. JACOBS (2004) identificam no livro os primeiros relatos do
comportamento agressivo, anti-social, racista. Em outro conto do livro, The story of Johnny Look-in-the-Air, os
autores vêem os sintomas de desatenção. Para uma discussão sobre a utilização da história de Heinrich na
historiografia do TDAH sugiro especificamente o site http://bmj.bmjjournals.com/cgi/eletters/329/7467/643-c e os
comentários direcionados ao texto de Roger Dobson, particularmente de Eduard Seidler. Para os interessados na
análise contextual da obra de Heinrich Hoffman, o estudo de ZIPEL (2002) é uma boa introdução ao assunto. Sugiro
especialmente a leitura do livro de HOFFMAN (1845), Der Struwwelpeter, fonte do debate e, por si só, uma peça
preciosa da literatura infantil alemã.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 73

como um objeto empírico e social criado na constelação política, econômica e científica


característica da segunda metade do século XX. Descrevemos uma parte deste cenário no
capítulo anterior, dedicado à economia da atenção atual. Ao direcionarmos nossa análise para o
diagnóstico do TDAH, nos tópicos seguintes damos relevo a economia biomédica na qual o
indivíduo atento/desatento está inserido. O regime médico que sustenta o TDAH e a economia
moral da atenção criaram entre si vínculos singulares e específicos. Eles pertencem às tecnologias
e estilos de pensamento que possibilitaram a constituição do indivíduo atento/desatento atual.

4.1. O TDAH NA ECONOMIA DA ATENÇÃO


Para GORDON e MURPHY (1998) as controvérsias em torno do diagnóstico do TDAH
nascem primeiramente de sua face interna. Uma das preocupações do debate bioético atual diz
respeito à separação entre o tratamento das patologias da atenção e o “melhoramento” das
habilidades atentivas normais. Até onde estamos tratando de uma patologia? Quando estamos
buscamos apenas a melhora da performance atentiva?88 O diagnóstico do TDAH está situado no
centro deste debate. De acordo com a interpretação mais aceita e divulgada, o Transtorno do
Déficit de Atenção e Hiperatividade é uma desordem comportamental do desenvolvimento,
caracterizada pela manifestação da desatenção, dos comportamentos impulsivos e da atividade
motora excessiva (hiperatividade). Ela diz que o indivíduo TDAH será sempre imaturo no
desenvolvimento da capacidade de persistência da atenção e controle da ação quando comparado
aos indivíduos de sua faixa de desenvolvimento. Em sua performance, o TDAH não se diferencia
completamente do sujeito normal, ele apenas está um passo atrás no desenvolvimento de suas
capacidades. Mais do que um sujeito “anormal”, ele é um indivíduo “imaturo” e a decisão sobre o
que é ser um indivíduo maduro ou imaturo é, sobretudo, social e moral.
Os sintomas que definem o transtorno (desatenção, impulsividade e hiperatividade) são,
em menor grau, traços comuns da natureza humana. Todo indivíduo é, em certa medida, um
pouco desatento, impulsivo, desorganizado e nem sempre finaliza as tarefas almejadas,

88
Retomamos a discussão de Erik PARENS (1998) sobre as implicações éticas, sociais e econômicas do
Enhancement Project. A diferença entre tratamento e melhoramento (treatment-enhancement) foi originalmente
proposta no contexto da terapia genética por SABIN e DANIELS (1994). O objetivo era separar as intervenções que
buscavam corrigir as deficiências do funcionamento genético normal e típico da espécie daquelas destinadas ao seu
melhoramento e maximização. Extrapolando a pesquisa genética, o termo “tecnologias de melhoramento”
(enhancement technologies) tem sido usado para descrever os tratamentos que visam melhorar a performance, a
aparência, e o comportamento humano quando essa maximização não é considerada necessária em termos médicos.
Principalmente nos EUA, a difícil distinção entre tratamento e melhoramento ganhou um colorido extremamente
econômico, relacionado à decisão sobre o que se deve ou não ser coberto pelos seguros saúde.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 74

especialmente quando o sujeito em questão é uma criança de 6 ou 7 anos de idade. Para


diferenciar um indivíduo normal do indivíduo com TDAH são feitas comparações. Suas
performances produtivas, sua adaptação social às exigências de seu entorno e sua capacidade de
autocontrole são confrontadas. Mas a distinção entre esta comparação e aquelas que caracterizam
as competições dos “homens normais” pelo sucesso se complica no interior da economia da
atenção. Na verdade, ela não pode ser de todo efetivada quando o que diferencia a patologia da
normalidade não é mais uma mudança qualitativa e sim temporal e de intensidade. Este é um
aspecto fundamental e extremamente controverso na definição do TDAH. Para que o diagnóstico
seja definido, seus sintomas devem ser quantitativamente anormais. O que os diferencia e os faz
signos da patologia são suas intensidades, seus excessos e suas faltas.
Além disso, os três sintomas do TDAH são construtos multidimensionais, o que significa
dizer que eles “podem” se desdobrar em quadros mais específicos. A interpretação atual enfatiza
que o TDAH é apenas um fator de risco, que torna mais provável o desenvolvimento de certos
comportamentos. O que vincula o TDAH a estas performances não é uma biologia determinista,
definidora de destinos. Embora seja dito que o indivíduo TDAH nunca alcançará definitivamente
o nível de maturidade normal, com certo automonitoramento ele poderá reduzir a distância que o
separa da “normalidade”. Devido a um atraso no desenvolvimento do sistema inibitório ou das
funções executivas, potencialmente o indivíduo TDAH poderá incorporar o sujeito desatendido
ou o improdutivo, ambos símbolos do fracasso na economia da atenção. Ele será excessivamente
introvertido ou extrovertido. Ele enfrentará sérios problemas acadêmicos e profissionais, devido a
sua distração e incapacidade de permanência da atenção. Quase sempre ele necessitará de um
ambiente mais regulado e estruturado para se organizar. Ele será dirigido por impulsos que,
apesar de partirem de sua natureza interna, estarão fora de seu controle. Por isso, ele será volátil e
imprevisível, propenso a atos violentos e agressivos. No que diz respeito à demanda do provérbio
“conhece-te a ti mesmo”, ele também poderá ser um fracassado por não possuir um acurado
conhecimento de si. Na esfera social à qual ele tenta pertencer, será visto como um inapto,
propenso ao desenvolvimento de sentimentos e atitudes egoístas e de autocentramento.
As dificuldades em traçar a linha divisória entre o desatento/hiperativo normal e o
anormal são ainda maiores quando a lista de sintomas do TDAH é considerada. “Uma pletora de
sintomas diferenciados, desde suas primeiras descrições”, é inicialmente nestes termos que Adam
RAFALOVICH (2002), em um dos mais preciosos estudos sobre o TDAH, define o transtorno.
Partindo desta definição e de muitas outras que dela se aproximam, os principais críticos do
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 75

TDAH repetem continuamente que o aspecto mais polêmico desde distúrbio refere-se ao seu
perfil “pletora de sintomas”. Sua classificação inclui tudo e, portanto, o TDAH é um transtorno
guarda-chuva que não pode ser realmente visto como uma descrição médica clara e unificada. A
descrição é extensa. O TDAH incapaz de inibição contínua não é capaz de esperar. Quando
envolvido em uma conversa, quebrando todos os códigos de etiqueta, ele repetidamente
interrompe a fala do outro ou não ouve o que ele tem a dizer. Na economia da atenção na qual a
importância das trocas atentivas tornou-se um valor, ele é mais uma vez um fracasso por ser
incapaz de integrar-se socialmente.
A vida social do indivíduo TDAH está sempre por um fio. Nele, além do comportamento
anti-social, a prudência e a reflexão necessárias à direção das ações mais importantes da vida são
prejudicadas. Ele é o indivíduo naturalmente propenso ao risco, que se direciona pela lógica do
tudo ou nada, que não mede as conseqüências de sua ação. Esta tendência para o imediato não
pensado e não refletido faz com que o produto de seu trabalho seja, na maior parte das vezes,
insatisfatório. O comportamento hiperativo também se divide em diferentes signos, desde a
manifestação de movimentos corporais excessivos e a incapacidade de permanecer sentado à
agitação interior ou ansiedade constante. E, para a economia biomédica da atenção, a
manifestação excessiva de movimentos e a incapacidade de quietude são incompatíveis com as
exigências do sucesso acadêmico e escolar.
Na economia da atenção e da gestão do futuro, os signos do TDAH são descrições da vida
normal, incompatíveis com as demandas do sucesso produtivo e da satisfação pessoal. Vimos que
o que define o grau patológico dos comportamentos descritos é a comparação com as
performances desatentas, hiperativas e impulsivas normais. Mas como definir cientificamente
esta comparação? A suspeita em torno do TDAH é também marcada pelo dilema metodológico
da objetividade científica. Embora as imagens cerebrais tentem dizer o contrário, a linha que
separa o indivíduo TDAH do sujeito normal é tão frágil e tênue que, na esfera da vida prática,
longe do ambiente laboratorial, nem sempre ela pode ser traçada e muito menos visualizada. Lá,
na vida, as diferenças entre o indivíduo normal desatento e incapaz de autocontrole e o indivíduo
TDAH não se sustentam cientificamente. Apesar dos avanços dos métodos de visualização
cerebral, no dia a dia da prática diagnóstica eles não revelam muita coisa. Até o momento,
nenhum teste ou exame específico e preciso para a “identificação” do TDAH foi definido. Seu
diagnóstico continua sendo feito através de um processo misto que inclui testes psicológicos,
história clínica, análise do desempenho escolar, entrevistas com pais e professores, etc.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 76

Quando se trata do adulto, a definição do diagnóstico do TDAH depende da avaliação


subjetiva do sujeito afetado. A família, através da análise do comportamento dos seus membros,
também participa da construção diagnóstica. Além disso, ela auxilia na reconstrução da história
familiar passada, identificando nela outros possíveis suspeitos. O professor e o empregador
também oferecem dados sobre os fracassos e os sucessos do indivíduo em questão. Em todas as
suas fases, a construção clínica e social do diagnóstico é parte do processo de constituição e
legitimação do TDAH e da condição existencial que ele descreve. A realidade do “fato TDAH”
surge do envolvimento subjetivo dos sujeitos implicados em sua avaliação e análise. Ela resulta
da mistura das expectativas pessoais, sociais e morais que alimentam a economia da atenção atual
e das verdades biomédicas que ela também oferece89.
O problema da definição do diagnóstico se agrava quando os outros quadros patológicos
descritos na quarta edição do Manual Estatístico e Diagnóstico de Doenças Mentais (DSM IV)
são considerados. Quase todas as patologias incluídas na bíblia psiquiátrica americana
manifestam um problema de desatenção, de concentração e de impulsividade e um defeito de
inibição. Além disso, na clínica do TDAH ele é acompanhado pelo diagnóstico de outras
morbidades (co-morbidades) ou quadros patológicos freqüentemente manifestados pelo indivíduo
TDAH. Essa “co-aparição” pode indicar que a patologia principal ou original é o TDAH e que
sua presença torna suscetível o desenvolvimento de outros quadros patológicos90 ou, na ordem
oposta, tais patologias são o problema principal e, em uma nível secundário, elas são um fator de
risco para o desenvolvimento do TDAH. Nos estudos que buscam legitimar a existência biológica
do TDAH, impera o primeiro ponto de vista: o TDAH é a patologia original que deve ser
primeiramente tratada porque sua causa é física e biológica. A forma como o indivíduo afetado

89
No ambiente escolar, equipes de profissionais têm sido criadas e treinadas para monitorarem a identificação da
criança TDAH. O processo de criação “da evidência do TDAH” é exaustivo. Nas palavras do pedagogo Luca
Rischbieter (2006), “ele é formado por uma via-crúcis de exames e visitas a psicopedagogos, fonoaudiólogos,
neurologistas e psiquiatras”. Na escola, importa criar a prova e a evidência da existência do transtorno. Testes são
realizados, observações cotidianas documentadas e estratégias de convencimento criadas. As tecnologias de
observação, descrição e quantificação dos signos externos da patologia são as de maior efeito na construção da
evidência. Terminado o estudo do caso e sendo a suspeita confirmada, todo este processo acompanha a ficha da
criança. Muitas vezes, o papel do médico é apenas analisar todo este material e confirmar o diagnóstico. Mas em
outros casos, o diagnóstico escolar é explicitamente rejeitado pelo profissional médico. Nem sempre o processo de
construção diagnóstica é pacífico. Ele envolve negociações entre campos de saber específicos e entre os próprios
indivíduos envolvidos (RAFALOVICH, 2002). A linguagem técnica médica sobre o TDAH tem penetrado o
universo público de diferentes formas, manifestando-se visivelmente na relação mutuamente informativa entre
professores e pais. As pessoas podem estar convencidas de que seus filhos tem a desordem antes de receberem o
diagnóstico oficial ou, contrariamente, serem previamente resistentes a ele. Em todo caso, elas também são partes
ativas da construção diagnóstica e são profundamente interferidas por esse processo.
90
No discurso psiquiátrico, a patologia “original” algumas vezes é chamada de superordinate (HACKING, 1995).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 77

compreende e lida com o diagnóstico do TDAH definirá o desenvolvimento do quadro e a


manifestação ou não de suas co-morbidades91.
Os avanços psicofarmacológicos também participam da construção do lugar fronteiriço
ocupado pelo TDAH. Como vimos, o universo empresarial é um dos espaços nos quais o
interesse pela molecularização e cerebrização da atenção tem crescido. A farmacologia do
transtorno da atenção se confunde e por vezes se identifica com as drogas cosméticas que buscam
melhorar a performance cerebral92. Estas drogas prometem aumentar as capacidades de
concentração, de memória e de atenção necessárias ao desenvolvimento da performance
produtiva. Em setembro de 2004, a revista The Economist dizia que ao menos 40 novas drogas
cosméticas estavam em desenvolvimento e já eram anunciadas. Na lista, estavam incluídos
medicamentos que prometiam ser mais efetivos que a Ritalina e de menor potencial aditivo como
o Provigil e o Alertec que, nos EUA, em 2003 alcançaram o número de US$290 milhões em
vendas. Diferentemente da Ritalina, ambos poderiam ser comprados sem prescrição médica.
Na linha tênue que separa os tratamentos da atenção dos seus melhoramentos, situamos
também a relação histórica entre a pesquisa da atenção e os interesses das Forças Armadas. Já de
longa data, a pesquisa psicológica sobre os estados da atenção tem estado vinculada às
necessidades militares. TAYLOR (1995) nos mostra como o retorno do interesse pelo estudo da
atenção na segunda metade do século XX resultou de uma demanda social e militar do Pós-
guerra: as novas tecnologias de radar exigiam que seus operadores lidassem com fontes cada vez
maiores de informação, cada qual exigindo uma resposta específica. O estudo dos mecanismos

91
Este é um aspecto importante quando analisamos o diagnóstico do TDAH como uma tecnologia de subjetivação
extremamente potente. A própria descrição da patologia lhe concede o lugar de maior autoridade na definição da
constituição subjetiva futura do sujeito afetado. Ela oferece ao indivíduo TDAH, à sua família, sua escola, seu
ambiente de trabalho e seus espaços de sociabilidade as regras de conduta que devem ser seguidas e incorporadas no
lidar com a patologia. Voltaremos a falar do TDAH como uma tecnologia de subjetivação quando analisamos a
teoria de Russell Barkley.
92
O Metilfenidato é uma droga estimulante do grupo dos anfetamínicos considerada a mais eficiente no tratamento
do TDAH. Por muitos anos, uma forma de metilfenidato comercializada pela Novartis com o nome Ritalina tornou-
se a droga mais usada e mais conhecida no tratamento do transtorno. Ela é uma droga de “ação curta” ou rápida
porque seu efeito se manifesta 30 minutos (ou uma hora) após sua ingestão e permanece atuando por 3 ou 4 horas.
Por esse motivo, na maior parte das vezes, é sugerido que o medicamento seja tomado três vezes ao dia. Nos últimos
cinco anos, alguns médicos e familiares têm começado a privilegiar o uso dos metilfenidatos de “longa ação”,
especialmente o medicamento vendido sob o nome Concerta pela McNeil. Este tipo de medicamento é tomado uma
vez ao dia e sua ação dura cerca de 8 a 12 horas. Existem ainda os sais de ação anfetamínica e as
dextroamphetamina/anfetamina (Adderall e Adderall XR) vendidos pela Shire. O mais novo medicamento contra o
TDAH é uma droga não estimulante chamada Strattera, comercializado pela Eli Lilly (SINGH, 2005). Estas drogas
se situam nas fronteiras das distinções comentadas, ora pensadas como tecnologias de melhoramento potentes, ora
incluídas na lista das descobertas milagrosas contra patologias específicas como o TDAH (SINGH, 2005; ELLIOT,
1999).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 78

atentivos tornava-se uma necessidade prática. Na NASA, eletroencefalogramas eram utilizados


pelos cientistas na avaliação da capacidade de focalização e vigilância de seus astronautas.
Desde a Segunda Guerra Mundial o uso de anfetaminas pelos pilotos das Forças Aéreas
Americanas tem sido uma prática comum e, há décadas, o US Air Force Fatigue
Countermeasures Branch tem estudado os efeitos da privação do sono na diminuição dos estados
atentivos. Um número cada vez maior de programas de pesquisa destinados ao estudo das
“farmacologias da atenção” tem sido financiado pelas forças militares. Recentemente, o governo
francês sugeriu que a Legião Estrangeira fizesse uso de uma forma de Modafinil durante algumas
de suas operações. Essa mesma droga vem sendo investigada pelas forças militares americanas. O
Modafinil criou uma grande polêmica na World Anti-Doping Agency que, dez dias antes das
Olimpíadas de 2004, adicionou o medicamento na lista de substâncias proibidas. Ele também é
indicado para o tratamento do TDAH.
Não são poucas as controvérsias a respeito de drogas que oscilam entre serem comparadas
à ilícita cocaína, a uma inofensiva taça de café ou a um elixir milagroso e recomendadas para
uma lista de indivíduos que incluem os soldados americanos, os CEOs das empresas mais
famosas do mundo e os indivíduos com TDAH. Na distância que separa e aproxima as drogas de
melhoramento cerebral das “pílulas da obediência” um espaço polêmico e confuso é constituído93.
Nele se alojam as partes interessadas pelo controle e gestão da atenção e da ação. Entre elas estão
o mercado farmacológico; as forças armadas; o universo empresarial e sua demanda pelo
aumento de produtividade e sucesso; o ramo midiático das tecnologias de atração da atenção; o
mercado esportivo e da cultura corporal e, como esperado, o universo educacional com suas
demandas de produtividade e eficiência. Todos eles também fazem parte da história da
constituição do indivíduo atento atual e do TDAH.
No momento em que nossa cultura transformou o planejamento do futuro, a gestão da
atenção e o controle de si em imperativos sociais e econômicos, sua deficiência passou a ser vista
como um risco social e um signo patológico. Um dos resultados da configuração fronteiriça que

93
No caso das drogas usadas para o tratamento do TDAH, casos alarmantes como o exemplo canadense não são
raros. Em 2005, o sistema de saúde canadense suspendeu a venda do Adderall XR que, desde 23 de janeiro de 2004,
tinha sido aprovado no mesmo país no tratamento do TDAH. A proibição alegava a associação desta droga com
mortes repentinas e ataques cardíacos. Os pacientes eram exortados a não interromperem o tratamento
medicamentoso bruscamente. Alegava-se que enquanto seus efeitos “positivos” eram imediatos e facilmente
perceptíveis, os danos colaterais e de longo prazo eram ignorados e pouco estudados (consultar http://www.hc-
sc.gc.ca/hpfb-dgpsa/tpd-dpt/adverse_e.html e o site brasileiro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
http://www.anvisa.gov.br). A história da Ritalina também é repleta de casos de proibições oficiais e escândalos
públicos. Consultar, DEGRANDPRE (2000).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 79

define o TDAH é que um traço comum, biológico, cerebral e epidemiológico, mas também
moral, social e existencial é criado entre a criança com TDAH, o desviante, o viciado em drogas
estimulantes, o alcoólatra, o deprimido, o motorista imprudente, o indivíduo patologicamente
instável, o criminoso e, por outro lado, o empresário bem sucedido tenaz em suas decisões, o
acadêmico produtivo e o indivíduo que se orienta pelas regras da vida saudável. Vinculando-os
está a maior ou menor capacidade de autocontrole e gestão da atenção94.
Como ROSE (2000, 2003) comenta, estas transformações se desenvolveram em um
momento histórico no qual as linhas divisórias entre o normal e o patológico foram dissolvidas e
transformadas em um contínuo somático. Neste contínuo, o indivíduo TDAH ocupa um espaço
ambíguo. Os modelos com os quais ele dialoga oscilam entre os pólos das celebridades
executivas e do marginal criminoso. A adesão ao diagnóstico e ao tratamento medicamentoso do
Transtorno de Atenção e Hiperatividade deriva do sofrimento dos que vêem o indivíduo TDAH
como um “criminoso potencial”, mas também resulta das exigências de sucesso atuais, do ideal
da família perfeita, da criança, da mãe e do pai perfeitos, do profissional competente e do
parceiro exemplar.
As questões que levantadas neste tópico fazem parte da polêmica ética, moral, econômica
e política que participou e participa da constituição do indivíduo atento/desatento atual e da
patologia do TDAH. A discussão de cada uma delas demandaria a realização de outras pesquisas.
O panorama traçado nos oferece um pano de fundo que contextualiza nossa discussão. Ele situa o
TDAH no processo moral de constituição do indivíduo atento/desatento. As pesquisas
neurocientíficas incluídas no processo de somatização do eu constituem um campo diverso e não
unificado. A vertente incorporada pela interpretação dominante do TDAH representa apenas uma
porção deste campo. Nela, os dilemas morais, políticos e econômicos que alimentam a

94
A criança TDAH é descrita como sendo naturalmente propensa ao desenvolvimento de comportamentos violentos
e criminosos. Uma parte das pesquisas neurofisiológicas e cerebrais tem comparado o cérebro do indivíduo TDAH
com o cérebro do criminoso. Em ambos, é identificado o mesmo problema: a incapacidade de autocontrole dos
impulsos decorrente da deficiência das funções executivas cerebrais. O documentário A Mind to Crime é um
exemplo dos espaços de difusão e popularização desta comparação. Ele discute a identificação entre o cérebro
criminoso e o cérebro do indivíduo TDAH. A criança TDAH é o dangerous few que no futuro poderá ser o criminoso
que desafia e coloca em risco as leis sociais. Por outro lado, o criminoso é o adulto TDAH que não recebeu o
tratamento adequado quando criança. O documentário conclui dizendo que o mal poderia ter sido evitado, a
sociedade poupada, o governo economizado, caso o diagnóstico tivesse sido previamente identificado e gerenciado.
Os custos econômicos e sociais do tratamento são pequenos quando comparados àqueles do sistema penitenciário. A
identificação diagnóstica e o tratamento do TDAH são descritos como políticas preventivas contra a criminalidade.
ROSE (2000, 2004) relata como a biocriminologia atual, orientada pela pesquisa genética, neuroquímica e
neurológica, tem por objetivo desenvolver técnicas de identificação, prevenção e tratamento dos fatores de risco do
comportamento anti-social e agressivo. O defeito neurobiológico do autocontrole é o primeiro indício do crime e já
que o TDAH é marcado por este defeito, ele também propicia o comportamento criminoso.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 80

constituição do TDAH são mitigados e teoricamente resolvidos pela evidência da prova biológica
e visual. No tópico seguinte, discutiremos o estilo de pensamento no qual ela está inserida e
devido ao qual ela é legitimada.

4.2. O ESTILO DE PENSAMENTO DA PSIQUIATRIA ATUAL E O TDAH


Dificilmente podemos falar de um único estilo de pensamento científico dominante em
uma época, principalmente quando analisamos a pesquisa e a clínica psiquiátrica a partir da
segunda metade do século XX. Especialmente nos EUA, a nova ciência psiquiátrica nascia do
encontro de diversos aspectos: o processo de biologização das doenças mentais vinculado às
descobertas psicofarmacológicas; o desenvolvimento do campo neurocientífico e de suas
tecnologias de imagem cerebral; o crescimento da pesquisa epidemiológica baseada nos estudos
populacionais dos riscos individuais; a criação do Instituto Nacional de Saúde Mental; o advento
da tecnologia genética, biofísica e bioquímica; o estabelecimento, entre os anos de 1940 e 1970,
do que RHEINBERGER (2000) chamou de um novo paradigma biológico molecular.
Todos os eventos acima citados causaram um poderoso impacto na pesquisa e na clínica
psiquiátrica, em seus modos de investigar, descrever e tratar a patologia mental. A análise das
transformações ocorridas nos manuais de classificação diagnóstica é uma das formas de
investigar esta mudança. O primeiro DSM foi produzido em 1952 e tinha em suas bases o
pensamento de Adolf Meyer. O DSM II, publicado em 1968, foi reestruturado com base na
linguagem psicanalítica. Para Allan Young (1995, 2000), a publicação do DSM III, em 1980,
materializou definitivamente o estilo de pensamento psiquiátrico criado pelo encontro dos
aspectos que mencionamos acima. O DSM III mudou drasticamente o sistema americano de
classificação das doenças mentais. O número de diagnósticos foi multiplicado, as referências a
autores e teorias banidas. O manual tornava-se o emblema da “autoridade e neutralidade
científica” (BLASHFIELD, 1998). Robert Spitzer foi o pesquisador responsável pela
coordenação de sua produção. Na época, Spitzer já era famoso pela publicação de seu Research
Diagnostic Criteria (RDC). Nele, a consistência das descrições diagnósticas era definida pela
observação de critérios e regras operacionais. Os críticos de Spitzer chamavam o novo DSM de
“menu chinês”. Para que um diagnóstico fosse definido, um número X de sintomas da lista A
deveria ser somado a um número Y da lista B, ambos presentes em intensidade T. O psiquiatra
deveria apenas observar os signos externos da patologia e agrupá-los na classificação devida.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 81

O DSM III é freqüentemente visto como uma resposta à crise de legitimidade que o saber
psiquiátrico vivenciou na década de 70. O grupo de pesquisadores responsáveis pela elaboração
do manual tinha por objetivo construir um sistema diagnóstico baseado em evidências científicas
neutras, compatível com várias teorias. Mas embora seu objetivo fosse oferecer uma ferramenta
diagnóstica útil e unificadora, o produto final não foi neutro e muito menos completamente
pluralista. Havia uma direção a ser seguida, uma clínica a ser reafirmada e um método a ser
priorizado. O manual resgatava a antiga psiquiatria biológica de Kraeplin e lhe emprestava um
novo colorido ao apoiá-la na pesquisa epidemiológica, estatística, psicotécnica e experimental da
época.
As mudanças na classificação psiquiátrica americana fizeram parte de um processo mais
amplo de deslocamento da forma como a desordem mental era investigada, explicada e tratada. O
olhar psiquiátrico molecular e neurocientífico se constituía. As desordens do humor, da cognição,
do afeto e da conduta começavam a ser descritas como anomalias cerebrais específicas,
relacionadas a sistemas neurotransmissores também específicos. A este olhar molecular e
neuroquímico, a nova pesquisa genética oferecia uma contribuição preciosa: ela buscava o
polimorfismo genético pontual, relacionado à cada tipo de desordem. Na psicofarmacologia, esta
dissecação molecular era alimentada pelo sonho da descoberta de drogas que, ao invés de
afetarem o funcionamento fisiológico como um todo, atuariam na correção neuroquímica pontual
da patologia em questão.
Alguns historiadores analisam o fortalecimento da interpretação biológica a partir da
segunda metade do século XX como um renascimento dos fundamentalismos e reducionismos
eugênicos. A identificação de uma base genética para cada patologia estaria alimentando novas
políticas de descriminação. No entanto, para autores como ROSE (1996, 1999, 2000a, 2000b,
2003, 2004), RHEINBERGER (2000), RABINOW (1999) e GRECO (1993), o novo olhar
molecular e neuroquímico não surgiu de uma “ressurreição” da antiga biologia eugênica. Desde
a década de 70, a psiquiatria biológica, a ciência genética e a psicofarmacologia participam da
constituição de identidades somáticas flexíveis, manipuláveis em sua própria biologia. No novo
olhar psiquiátrico e neuroquímico, a biologia não era determinista, fatalista e definidora de um
destino. Nele, a natureza era manipulável, modificável e corrigível.
Foi no contexto de elaboração do DSM III e das transformações acima comentadas que o
diagnóstico da Desordem do Déficit de Atenção (DDA) surgiu como uma categoria psiquiátrica.
O antigo diagnóstico “confuso e problemático” do transtorno de hiperatividade era redefinido
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 82

como uma desordem da atenção. A medida da atenção tornou-se o aspecto definidor do


transtorno quando a psiquiatria assumiu sua forma mais “biológica” e “científica”. Nas décadas
de 60 e 70, a patologia da hiperatividade foi amplamente analisada e estudada e estava no centro
do debate educacional e médico. Mas para a psiquiatria que se afirmava, ela trazia problemas.
Seu diagnóstico era impreciso e extremamente subjetivo. Era preciso construir uma nova
categoria diagnóstica, com signos mais unificados, objetivos e claros. Foi neste contexto que o
déficit de atenção, até então uma característica secundária, foi eleito o aspecto definidor do
transtorno. Os motivos foram em parte metodológicos e operacionais.
Em 1970, Meldman, um neurologista desconhecido para a historiografia oficial do
TDAH, defendia uma tese curiosa: as disfunções da atenção eram os primeiros e mais aparentes
signos da patologia mental. O autor começava seu livro enfatizando a importância da atenção
para a pesquisa psicológica e psiquiátrica, mas admitia que na primeira década do século XX,
com raras exceções, ela foi negligenciada. Sua proposta era radical: reescrever as patologias
mentais e da emoção como patologias da atenção. As razões eram metodológicas. O autor
chamava de atenção os níveis de ativação e de estimulação cerebrais, passíveis de visualização e
medição através das técnicas que começavam a proliferar em seu tempo. As pesquisas mais
recentes da década de 60 diziam que a atenção podia ser empiricamente medida, quantificada e
analisada. As descrições psiquiátricas demonstravam que em toda patologia mental um problema
de atenção estava presente. Para Meldman, a medida da atenção era, por excelência, a ferramenta
diagnóstica da psicopatologia. Cada patologia psiquiátrica deveria ser reescrita como uma
patologias da atenção95.
Embora Meldman seja um nome ausente na historiografia oficial do TDAH e sua proposta
um capítulo esquecido da história da psiquiatria, foi no contexto descrito pelo autor que a
“patologia da atenção” nasceu. O trabalho da canadense Virgínia Douglas foi particularmente
importante. Seu nome é um dos mais destacados pela historiografia oficial do TDAH. Para
BARKLEY (1990), foi devido ao trabalho do grupo de Douglas que no DSM III o transtorno
hipercinético foi renomeado como a Desordem do Déficit de Atenção com ou sem hiperatividade.

95
“Várias observações clínicas e técnicas experimentais têm sido usadas para medir a resposta atentiva e os aspectos
seletivos da atenção em pacientes psiquiátrico e grupos de controle. Todos os dados são consistentes com a hipótese
de que as desordens mentais podem ser compreensivamente reconstruídas como signos, sintomas e síndromes das
patologias da atenção” (MELDMAN, 1970, p. 156). A proposta de Meldmam era semelhante a dos psiquiatras e
psicólogos da segunda metade do século XIX. Nos dois momentos, a medida da atenção era vista como um
instrumento científico de objetificação da patologia mental, mesmo que o que se compreendia por atenção fosse
totalmente diverso, mesmo que as tecnologias utilizadas fossem também diferentes.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 83

Virgínia era líder de um grupo de pesquisadores da Universidade de McGill que buscavam


redefinir a desordem da hiperatividade de uma forma consistente e empiricamente válida. Novos
testes deveriam ser criados e novos critérios diagnósticos definidos. O objetivo era possibilitar a
medida dos déficits atentivos e cognitivos em um nível mais “profundo” do que permitido pela
observação comportamental. A partir da década de 70, um número crescente de pesquisadores
começaram a investigar a hiperatividade e o problema da desatenção através do uso de medidas
psicofisiológicas. O grupo de McGill foi apenas um entre muitos outros.
A partir da década de 80 um espaço cada vez mais importante foi reservado às pesquisas
que envolviam a neuro-imagem do cérebro TDAH. As técnicas mais conhecidas eram as de
imagem estrutural e as de imagem funcional. As primeiras, como a Tomografia Computadorizada
(TC), investigavam a existência de anomalias em determinadas estruturas cerebrais. As segundas,
como a Eletroencefalografia Quantitativa (qEEG), analisavam a atividade cerebral durante a
realização de determinadas tarefas96. Mas foi somente no decorrer da década de 90 que a
psicofisiologia e a neurociência inspiraram a construção de um novo modelo interpretativo para o
TDAH. A compreensão dos mecanismos causais do transtorno tornou-se prioridade. Russell
Barkley passou a ser uma das autoridades mais importantes do campo. Nas suas mãos, a
investigação genética, o estudo neuroquímico dos sistemas neurotransmissores, a análise do
sistema inibitório cerebral e a investigação laboratorial animal foram sistematicamente integradas
à pesquisa do TDAH.
Para Vidal97, a partir da década de 90, o eu molecular e neuroquímico do novo olhar
psiquiátrico encontrou-se definitivamente com o eu cerebral. Estes eventos contribuíram
significativamente para que o sentimento que “somos nosso cérebro” fosse popularizado,
afirmado e problematizado dentro e fora do discurso científico. As antigas ficções científicas
pareciam tornar-se reais. Nesta constelação de acontecimentos, o Transtorno do Déficit de
Atenção e Hiperatividade teve sua aparição oficial ao ser incluído no DSM IV, publicado em

96
O uso das técnicas de imagem cerebral não foram específicos dos últimos anos do século XX. Mas embora a
pneumoencefalografia e a angiografia cerebral fossem utilizadas entre os anos de 1910 e 1920, elas eram
consideradas tecnologias extremamente perigosas. Somente a partir da década de 70 tecnologias mais seguras foram
disponibilizadas como a Tomografia Axial Computadorizada (TAC), a Tomografia por Emissão de Positróns (PET)
e a Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton Único (SPECT). Desde 1990, a tecnologia privilegiada tem
sido a Imagem por Ressonância Magnética Funcional (fMRI) (VIDAL, 2005b, p. 39).
97
VIDAL (2005a, 2005b) identifica na história ocidental alguns dos discursos e práticas que, apesar de
extremamente plurais, desde o século XVIII contribuíram para o deslocamento do sentimento corporal de posse de
acordo com o qual “tenho um cérebro” para o sentimento “sou meu cérebro” ou, em outras palavras, da identificação
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 84

1994. O TDAH foi legitimado, popularizado, universalizado e tornou-se motivo de polêmica na


época conhecida como a “década do cérebro”.

4.3. O “FATO TDAH” NA DÉCADA DE 90


Em um artigo de 1999, publicado pela Heritage Foundation, Mary Eberstadt descrevia o
“cenário TDAH” na década de 90. De acordo com a autora, desde o final da década 80 e durante
os anos noventa, o mundo presenciou uma explosão publicitária sobre o TDAH e a Ritalina,
naquela época o medicamento mais conhecido e utilizado no tratamento do transtorno. Livros
sobre o assunto alcançaram a categoria de bestsellers como, por exemplo, Tendência à Distração
de HALLOWELL e RATEY, publicado em 1994. Entre livros e artigos, a lista estava em
crescimento e o adulto TDAH tornava-se parte do público interessado. Durante a década de 80 e
90, o TDAH, até então considerado um diagnóstico infantil, passou a ser visto como uma
desordem do desenvolvimento que continuava na vida adulta, um quadro crônico incurável98.
O debate sobre os direitos da criança TDAH ao requerimento de serviços educacionais
especiais conquistava novos espaços na legislação americana através da formulação do ADA
(Americans with Disabilities Act of 1990) e do IDEA (The Individuals with Disabilities
Education Act of 1997)99. Aclamado pelas associações americanas de pais e indivíduos TDAH
como um passo fundamental na conquista de seus direitos civis, o IDEA visava garantir a
assistência financeira federal e local à educação especial de crianças com problemas de
aprendizagem. No contexto educacional, ser reconhecido como um “indivíduo TDAH” era um
direito civil vinculado à decisão judiciária. Mais de uma década passada após a formulação do
ADA, no ano de 2003, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do Centro Americano para
o Controle e Prevenção da Doença publicava o mapa epidemiológico do transtorno. O mapa,
reproduzido abaixo, em diferentes tons de vermelho, era um sinal de alerta. As estatísticas
mostravam o alarmante percentual de crianças e adolescentes americanos com idades entre 4 e 17
diagnosticados e sob medicação. A média nacional relativa ao número de indivíduos medicados
girava em torno de 4,33%.

da identidade pessoal com o cérebro. Para o autor, por diversos motivos, a década de 90 pode ser descrita como a
fase mais atual e radical desta identificação.
98
Sobre a inclusão do adulto no diagnóstico, consultar BARKLEY (1998); MURPHY e GORDON, (1998);
MURPHY (1998); MANNUZA, KLEIN, BESSLER, MALLOY, LAPADULA (1998); FARAONE, BIEDERMAN,
SPENCER, WILENS, SEIDMAN, MICK, DOYLE, (2000); DOYLE, (2004), HECHTMAN, (1986).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 85

Fig. 2. Mapa da epidemiologia americana do TDAH e das crianças sob medicação.


EUA, 2003, Center for Disease Control and Prevention.
Fonte: www.cdc.gov/ncbddd/ adhd/adhdmedicated.htm

As estatísticas americanas eram também econômicas e baseavam-se nos custos médicos e


sociais do transtorno. Um número crescente de pesquisas se ocupava da análise das perdas
econômicas relacionadas ao TDAH. Além dos gastos com seguro saúde, medicamentos,
consultas e tratamentos, elas analisavam o impacto econômico da criminalidade entre indivíduos
TDAH, os custos vinculados ao desemprego ou constante troca de empregos - uma característica
marcante da vida profissional do adulto TDAH - e os custos relacionados aos freqüentes
acidentes automobilísticos envolvendo indivíduos TDAH100. Com suas cifras cada vez mais
preocupantes, estas pesquisas diziam que o TDAH deveria ser visto e tratado como um fator de

99
Estas leis estão disponíveis nos sites que oferecem suporte judiciário e informativo aos interessados no
requerimento de tais direitos. Um exemplo é o site da ADHD Support Company,
http://www.adhdsupportcompany.com.
100
Para uma introdução ao assunto, sugiro a revisão da literatura sobre os custos do TDAH feita por MATZA,
LOUS, PARAMONE, CLARK e MANISHI (2005).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 86

risco, como uma ameaça para os ideais de segurança e de produtividade individual e social do
país101.

Nas sociedades de segurança, é preciso antecipar o perigo, controlá-lo quando ele é ainda
uma possibilidade e um risco. Esta necessidade é ainda maior quando a sociedade em questão é a
americana e o perigo a ser evitado é o aumento da violência e da criminalidade. Na década de 90,
os EUA também presenciaram a proliferação de uma epidemia de crimes de agressão e
impulsividade que pareciam estar relacionados à incapacidade de autocontrole102. O problema
tornou-se uma preocupação pública. No início da década, buscando soluções, o Instituto Nacional
de Saúde Mental lançou uma Iniciativa Nacional contra a Violência. Ela unia a crença na
existência da biologia neuroquímica dos comportamentos impulsivos e violentos ao pensamento
preventivo da lógica do risco. Psiquiatras deveriam identificar as crianças propensas ao
desenvolvimento de comportamentos criminosos e desenvolver estratégias preventivas contra o
problema. O relatório oficial publicado em quatro volumes em 1993 e 1994, recomendava a
realização de pesquisas sobre os fatores genéticos e biológicos da criminalidade. Ele também
incentivava a investigação sobre a farmacologia capaz de reduzir o comportamento violento.

Em 1992, o governo federal, em colaboração com a Fundação Macarthur, almejava


investir 12 milhões por ano no Programa de Desenvolvimento Humano e Comportamento
Criminoso. O programa propunha a realização de uma análise longitudinal na qual, durante 8
anos, fatores sociais, biológicos e psicológicos influentes no desenvolvimento do comportamento
criminoso seriam estudados. Mas o objetivo principal era a identificação de marcas biológicas e
bioquímicas que auxiliassem na prevenção da criminalidade. Não havia nada de novo na
interpretação biológica da criminalidade e nem mesmo no fato de que suas explicações estavam
na base das estratégias preventivas. No entanto, entre o fim da segunda Guerra e o início da
década de 80, as teorias biológicas atingiram a prática da criminologia apenas marginalmente. No
recente processo de biologização da psiquiatria, este cenário foi transformado: o argumento
biológico foi fortalecido e vinculado à nova lógica dos riscos gerenciáveis. O comportamento

101
Vários estudos discutem a constituição do modo de vida baseado na filosofia do risco e do pensamento médico
que a sustenta. Em minha dissertação de mestrado, através de um olhar foucaultiano, analiso alguns dos seus
aspectos. Sugiro a leitura de CASTEL (1991); CASTIEL (1999); DOUGLAS (1992); ERICSON e DOYLE (2003);
EWALD (1991); GORDON (1991); GIROUX (2006); PETERSEN (1997); ROSE (2000a, 2000b, 2003, 2004).
Neste trabalho, não resgatamos a análise da filosofia do risco em seus aspectos gerais. Focamos nas especificidades
do diagnóstico do TDAH no interior de sua lógica.
102
Para uma bibliografia inicial sobre a importância do conceito de autocontrole na teoria criminal da década de 90,
consultar GEIS (2000), GOTTFREDSON e HIRSCHI (1990, 2000)
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 87

anti-social era novamente inscrito no corpo e no cérebro, mas a conduta criminosa e a biologia
individual se relacionavam em termos de suscetibilidades. Os criminologistas biológicos não
esperavam descobrir as causas genéticas do comportamento anti-social. Eles investigavam as
marcas biológicas vinculadas à sua suscetibilidade. E, contra os risco da violência, a estratégia
preventiva principal e mais eficaz era a farmacológica103.
Foi em parte no contexto acima descrito que o interesse pela identificação e pelo
tratamento do TDAH cresceu nos órgãos públicos americanos. Este foi o contexto que ajudou a
criá-lo e a legitimá-lo. Na lógica do risco, o TDAH é uma patologia caracterizada pela
impulsividade, hiperatividade e desatenção, mas é também uma “proto-patologia”: ele está
vinculado ao desenvolvimento de futuros problemas médicos, sociais e econômicos.
Especialmente nos Estados Unidos da América, sua compreensão e seu tratamento tornavam-se
necessidades vinculadas à gestão social e econômica da nação. Nos órgãos públicos, o alarme
gerado pela epidemiologia do TDAH exigia que as autoridades tomassem providências sérias.
Em 2004, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade foi oficialmente reconhecido,
através da Resolução 370104, como um dos problemas mais graves e importantes da saúde pública
americana. As estatísticas do transtorno eram ainda mais alarmantes. De acordo com as
estimativas publicadas nesta resolução, o TDAH abrangia de 3 a 7% das crianças e adolescentes
americanos em idade escolar (2.000.000) e 4 % dos adultos (8.000.000)105. Devido a esta
resolução, o TDAH teve sua entrada nas datas oficiais do país com a proclamação do 7 de
setembro como o “Dia da Consciência Nacional sobre O TDAH”106.
Devido a crescente importância do diagnóstico nos EUA, a expansão do “fenômeno
TDAH” era considerada por alguns críticos um acontecimento predominantemente americano.
Mas já há um certo tempo o TDAH tem sido visto como um assunto (e uma polêmica) de
interesse internacional, que desconhece barreiras culturais e sociais. O diagnóstico virou
manchete nos jornais mais renomados do mundo e tem se destacado como ponto de pauta nas

103
É no interior desta lógica que Nikolas Rose fala da constituição das identidades somáticas flexíveis e corrigíveis
e de seu vínculo com a estilo de pensamento baseado nos cálculos de risco (ROSE, 2000a, 2003, 2004).
104
108TH CONGRESS 2D SESSION, S. RES. 370, 2004.
105
Interessante que, no Brasil, a porcentagem atual de adultos diagnosticados é idêntica à porcentagem americana de
2004. De acordo com as estatísticas anunciadas pela Folha de São Paulo do dia 06 de novembro de 2005 (DIDONÊ,
2005), especialistas comprovam que cerca de 4% da população adulta brasileira já foi diagnosticada e a maior parte
destas pessoas enfrentam problemas profissionais relacionados à patologia.
106
Embora o dia 7 de setembro tenha sido oficialmente reconhecido como o dia da consciência sobre o TDAH, em
certos sites informativos todo o mês de setembro é celebrado como o mês do TDAH.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 88

organizações políticas internacionais107. Em Janeiro de 2002, “cientistas que haviam dedicado


anos, ou carreiras inteiras, ao estudo da desordem” assinaram um Consenso Internacional
atestando a legitimidade do diagnóstico e sua existência real108.
Quais foram os motivos que levaram à criação de um Consenso Internacional que
corroborasse a “existência do TDAH”? O consenso contrapunha-se ao clima social de dúvida e
em torno da legitimidade do diagnóstico. Apesar de aclamado pelos cientistas como a patologia
psiquiátrica mais estudada das últimas décadas, o TDAH vinha sendo chamado pela mídia e pelo
público leigo de “diagnosis du jour”, “boutique disorder” e “psychofad”. As controvérsias e
paradoxos de sua pesquisa invadiam a mídia109. O exorbitante aumento do número de casos
identificados em crianças, adolescentes e adultos; a disseminação das prescrições de
estimulantes; a proliferação dos processos legais que, com base na evidência do diagnóstico,
pleiteavam o direito à educação especial contribuíam para a disseminação de um clima de
suspeita110. Contra esta suspeita, era preciso reafirmar a legitimidade da natureza biológica e

107
No ano de 2005, em nove países da União Européia, várias conferências intituladas Encontros de Mentes
(Meetings of Minds) foram organizadas com o objetivo de debater questões relevantes sobre a pesquisa cerebral.
Representantes das instâncias públicas, legais, científicas, acadêmicas, empresariais e do público em geral reuniram-
se com o intuito de formular propostas para a pesquisa cerebral farmacológica, médica, neurológica e ética. A
conferência alemã (Europäische Bürgerkonferenz zur Hirnforschung) teve lugar na cidade de Dresden nos dias 25,
26 e 27 de novembro de 2005. Dentre todos os temas debatidos, as polêmicas em torno do TDAH dominaram a cena.
Um dos conferencistas chegou a comentar que era preciso lembrar que a pesquisa cerebral não se resumia à pesquisa
sobre o TDAH. No material de propaganda da conferência, a única patologia citada foi o TDAH. Consultar a
deliberação do Meeting of Minds, 2005.
108
International Consensus Statement on ADHD, 2002, p. 89.
109
Os programas na mídia internacional que debatem o TDAH são numerosos. Os mais famosos são divulgados pela
BBC. Alguns exemplos são Kids on pills, BBC Scotland, 2000; Case notes: ADHD, London, BBC Radio 4, 2003;
Living with ADHD, BBC TV, 2005.
110
Para citar apenas algumas cifras alarmantes a respeito da Ritalina, a revista The New York Times, de Janeiro de
1999, informava que a produção do medicamento havia aumentado em torno de 700% desde o início da década,
devido ao número de crianças americanas sob medicação. Em 1999, os EUA fizeram uso de 85% da produção
mundial de metilfenidato para propósitos médicos e é preciso lembrar que este medicamento não é comumente usado
no tratamento de outras patologias (com exceção da narcolepsia). O número de consumidores crescia e era
especialmente formado pelo público infantil e adolescente. Estimativas de 2001 diziam que aproximadamente 3%
das crianças americanas em idade escolar estavam tomando algum tipo de medicamento estimulante contra o TDAH
(SINGH, 2005). Um dos dados mais alarmantes era oferecido por DEGRANDPRE (2000) que, comentando a análise
de alguns especialistas, dizia que 7% da população mundial havia sido diagnosticada. Cerca de 400 milhões de
pessoas, mais do que a população dos EUA, México e Canadá juntas, estariam tomando Ritalina. Em uma
reportagem mais recente do Le Monde francês (23 de novembro de 2005), os seguros de saúde avaliados pelo jornal
diziam que no ano de 2005, só na França, o número de crianças tomando Ritalina girou em torno de 7500 e 9000 e
que mais de 170.000 “cartelas de pílulas da obediência” (Ritalina e Concerta) foram reembolsadas em 2004, um
número três vezes maior que do ano 2000. Na Alemanha, em 2004, um volume da Revista Cérebro e Mente
(Gehirn&Geist) foi especialmente dedicado à discussão do TDAH, intitulado “Geração TDAH” (Generation ADHS).
Os números alemães indicavam que cerca de 500 mil crianças e adolescentes já haviam sido diagnosticados
(KÖNNEKER, 2004). Em relação aos processos legais que, baseados no diagnóstico do TDAH, solicitavam o direito
à educação especial, as estatísticas de 2000 mostravam que nos últimos 5 anos este número havia
surpreendentemente dobrado (GORDON, 1998) e começava a preocupar as organizações públicas.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 89

cerebral do transtorno. Ele não era um efeito da forma de vida atual, da necessidade de segurança,
das exigências de produtividade e sucesso, da lógica do risco e do pensamento psiquiátrico
baseado na evidência visual. As questões econômicas, políticas, sociais e morais que ajudaram a
criar o “fato TDAH” deveriam ser mitigadas. Como Fleck diria, a face mais superficial da
construção do fato científico buscava silenciar os conflitos e consensos científicos e morais que o
possibilitaram.

4.4. O DISCURSO DA LEGITIMIDADE


Não é por acaso que, analisando o cenário científico americano, alguns autores descrevem
a década de 90, a “década do cérebro”, como o auge dos estudos neurológicos sobre o déficit de
atenção, financeiramente marcado por um investimento maciço do Instituto Nacional de Saúde
Mental (NIMH)111. Nesta mesma década, o quarto volume do Manual Estatístico e Diagnóstico de
Doenças Mentais (DSM IV) foi publicado e o transtorno do TDAH definitivamente reconhecido
como tal. Mais do que nunca, os estudos sobre a desordem da atenção e do controle do
comportamento e a pesquisa cerebral estavam conectados. A existência do transtorno e a validade
do diagnóstico dependiam da descoberta de suas bases biológicas e cerebrais e dos cálculos de
seu potencial de risco.
A ciência biomédica deveria responder satisfatoriamente à pergunta: “O TDAH é
realmente uma patologia?”. O Consenso Internacional é um bom exemplo do espaço textual e
político no qual a discussão sobre a realidade do transtorno emerge. No documento produzido
pelo Consenso, no que se baseava a evidência científica da existência do TDAH? A resposta a
esta pergunta torna mais claro o vínculo não meramente temporal entre a “década do cérebro” e a
legitimação biológica do diagnóstico do TDAH. Organizado por Russell A. Barkley, o
documento é composto de duas páginas de argumentos, 6 páginas de assinaturas de cientistas,
associações e instituições governamentais e 16 páginas nas quais pesquisas, artigos e livros
científicos são usados como provas a favor da existência biológica do transtorno112. Nele, a

111
LAKOFF (2000).
112
Dentre as instituições que assinaram o consenso estão a Associação Médica Americana, a Associação Psiquiátrica
Americana, a Academia Americana de Psiquiatria Infantil e do Adolescente, a Associação Americana de Psicologia
e, entre outras, a Academia Americana de Pediatria (International Consensus, 2002, p. 89).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 90

legitimidade do TDAH é sustentada pela autoridade profissional e pela suposta objetividade da


pesquisa científica genética, neuropsicológica e cerebral113.
O consenso queria dissolver um “falso” clima de suspeitas anunciado por um grupo de
jornalistas “irresponsáveis” que diziam que, na pesquisa científica do TDAH, não havia um
consenso sobre a validade do diagnóstico e sua realidade biológica. O documento oferecia uma
resposta definitiva para a pergunta que a mídia havia colocado na boca dos cientistas: o TDAH é
uma condição médica real? A resposta dada no formato de um consenso internacional era que
sim, o TDAH é uma condição médica real. A indignação dos cientistas não era em relação à
pergunta colocada e sim à suposição da existência de uma hesitação científica em relação à
resposta positiva. Em si, a interrogação sobre a realidade biológica da patologia sempre esteve na
base da pesquisa científica do TDAH e era considerada absolutamente legítima.
Pois bem, dois termos devem ser destacados na interrogação acima e duas novas
perguntas elaboradas. O que é real? O que é uma condição médica? As respostas exigem que as
condições contra as quais as perguntas se opõem, e devido as quais elas passam a ter algum
sentido, sejam também explicadas: O que não é real? O que não é uma condição médica? Essas
são perguntas semelhantes àquelas encontradas por Ian HACKING (1991, 1995) em sua análise
filosófica e histórica sobre a desordem da múltipla personalidade. Dos aspectos analisados pelo
autor, um deles se aproxima do debate sobre a legitimidade do TDAH e diz respeito à oposição
entre natureza e cultura. Na história psiquiátrica, não encontramos um critério universal que
defina quando uma condição psíquica deve ou não ser considerada uma desordem psiquiátrica.
No entanto, de tempos em tempos, algumas tendências ou estilos de pensamento dominam entre
os demais e ditam as regras que definem esta diferenciação. Para os assinantes do Consenso
Internacional, uma condição médica real se opõe a todo produto social circunstancial, a toda
forma de sofrimento culturalmente criado que se assemelha, apenas em sua sintomatologia, ao
verdadeiro quadro biológico da desordem. Por outro lado, uma condição médica também é
definida pela intensidade do dano que ela causa ao indivíduo afetado e à sociedade na qual ele
está inserido. Teoricamente, ela se diferencia daquelas condições da vida normal que demandam
a intervenção médica apenas com o intuito de “melhoramento”.
O critério adotado pelo Consenso dizia que evidências científicas deveriam provar que o
indivíduo acometido manifestava uma deficiência séria em algum mecanismo físico ou

113
“(…) em termos científicos, a noção de que o TDAH não existe é simplesmente errada. Todas as maiores
associações médicas e agências de saúde governamentais reconhecem o TDAH como uma desordem genuína porque
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 91

psicológico. A medida da intensidade dos danos causados deveria ser feita através da análise das
taxas de mortalidade e morbidade e do prejuízo das atividades vitais do indivíduo (educação,
relações sociais, funcionamento familiar, independência e auto-suficiência, vida profissional,
etc.). O parâmetro de comparação era os sujeitos da mesma faixa de desenvolvimento do
indivíduo afetado. O Consenso argumentava que, de acordo com este primeiro critério, o TDAH
é uma patologia real, já que os prejuízos sociais, educacionais, familiares, morais, profissionais e
econômicos por ele causados são cientifica e clinicamente comprovados.
ERICSON e DOYLE (2003) demonstram que a definição da realidade da patologia
através da medida de seus possíveis danos está intimamente vinculada à filosofia do risco que, ao
menos desde a década de 70, tem sido incorporada pelo pensamento psiquiátrico. O autor
demonstra que a avaliação do risco não é simplesmente científica e objetiva como o Consenso
Internacional sobre o TDAH afirma. A decisão sobre o que é uma conseqüência adversa e sobre a
intensidade na qual ela se torna patológica depende do que uma sociedade acredita ser bom ou
ruim, certo ou errado. Os sistemas de risco são constituídos por princípios morais e são
designados para produzir condutas morais. São eles que ditam as regras de vida que devem ser
observadas e seguidas pelos indivíduos doentes e por aqueles que, na saúde, se antecipam à
doença e a previnem114.
Voltando à pergunta sobre a legitimidade de uma condição médica, já é possível dizer que
a resposta não é tão simples quanto parece. No caso específico do TDAH, não são apenas testes
cognitivos e neurológicos que legitimam ou não a existência da patologia, mas a avaliação da
qualidade de vida do indivíduo e do risco de sua ameaça. Mas o que é esta qualidade de vida?
Como ela é avaliada? No discurso do TDAH, a avaliação da qualidade de vida está baseada na
manutenção da ordem familiar, da eficiência acadêmica e profissional, do enquadramento do
indivíduo nas políticas liberais da segurança, da prevenção e da prudência. Um exemplo
concreto, particularmente interessante, é o uso da taxa de acidentes de carro ocorridos com

as evidências científicas que provam este fato são enormes” (International Consensus, 2002, p. 89).
114
A diferença entre as análises dos autores citados e aquelas de GUIDENS (1991) e BECK (1997) é que estes
últimos vêem o risco como uma entidade amoral abstrata, inserida na lógica utilitarista das sociedades ocidentais.
Ericson e Doyle demonstram que um determinado regime moral e uma forma de responsabilidade são criados pelos
sistemas de risco atuais. A lógica do risco que substitui a moral do pecado é aquela na qual todos são responsáveis e
culpados pelos eventos que ameaçam a qualidade de vida individual e coletiva. Nesta mesma direção, em vários
artigos Nikolas Rose analisa as relações entre as biopolíticas do risco, as práticas de subjetivação características das
sociedades democráticas atuais e a constituição das identidades somáticas. Em seu texto de 1996, o autor também
explicita as diferenças entre as suas análises e as de Guidens e Beck.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 92

indivíduos TDAH na legitimação do transtorno. Ela também é usada na defesa do tratamento da


patologia como uma medida preventiva contra o risco de novos acidentes.
Ericson e Doyle descrevem um deslocamento moral na compreensão do que é acidente ou
acidental. A palavra acidente indica que o evento em questão não foi causado por más intenções;
ela descreve um acontecimento que não se pode prever. Os envolvidos não são responsáveis pelo
ocorrido e merecem a simpatia da sociedade mais do que uma atitude culpabilizadora. Com o
fortalecimento do discurso do risco, a palavra acidente tem sido substituída por outros termos que
permitem a atribuição da responsabilidade do ocorrido ao indivíduo. Os seguros para veículos,
por exemplo, a substituem por colisão. Eles afirmam que 90% destas colisões são causadas pelos
motorista. A probabilidade de que as condições do veículo ou das rodovias estejam também
implicadas não é comentada e a noção de acidente como algo que “acontece” desaparece da cena.
O indivíduo TDAH é um dos incluídos na lista de possíveis responsáveis pelos acidentes de
carro. Eles são uma ameaça à qualidade de vida individual e coletiva das sociedades de
segurança. Ser considerado um risco potencial para o aumento de acidentes acrescenta mais um
ponto positivo à defesa da existência real da patologia.
No discurso da legitimidade do transtorno, além da comprovação dos males causados pelo
TDAH e de seu potencial de risco e, em certo sentido, mais importante do que eles, está o
argumento sobre suas causas físicas. No Consenso, tratava-se não apenas de demonstrar que o
transtorno “causava” danos ao sujeito, mas que ele, o transtorno, era “causado” por aspectos
biológicos, genéticos e cerebrais. Tais suscetibilidades biológicas não eram os únicos fatores
influentes no desenvolvimento da patologia, mas eram, sem dúvida, os mais importantes. Os
dados vinham das pesquisas neurológicas e das funções cerebrais, dos estudos feitos com as
tecnologias de imagem cerebral e da pesquisa molecular e genética. Através deles, era possível
demonstrar que o transtorno era real porque, finalmente, seus fatores biológicos haviam sido
descobertos e, parte deles, tornaram-se passíveis de visualização, observação, universalização e
comunicação. O argumento era: o TDAH é real porque é visível e biológico.
No Consenso, é dito que a análise objetiva e visual dos aspectos biológicos que causam a
patologia foi alcançada. Em parte, é desta pretensa objetividade que a pesquisa neurocientífica
sobre o TDAH ganha sua força. O título do artigo de um outro pesquisador famoso no campo
retrata a confluência dos aspectos que destacamos: A interface entre genética, neuro-imagem e
neuroquímica na Desordem do Déficit de Atenção. Vale a pena recordar que, Alan Zametkin,
autor do artigo, ficou famoso por postular as diferenças entre um indivíduo-cérebro-normal e um
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 93

indivíduo-cérebro-TDAH ao comparar suas imagens cerebrais. O trabalho de Zametkin continua


sendo uma referência importante e tem sido amplamente utilizado pelo Instituto Nacional de
Saúde Mental. A imagem abaixo é uma das divulgadas no site da instituição e em outras páginas
da internet.

Fig. 3. Imagem cerebral produzida por uma PET, mostrando as diferenças entre a atividade cerebral do indivíduo
adulto com Déficit de Atenção (à esquerda) e o indivíduo normal (à direita).
Fonte: user.cybrzn.com/~kenyonck/ add/zametkin.html

Produzida por uma PET, a imagem pretendia “tornar aparente” as diferenças entre as
atividades cerebrais de um adulto com TDAH (à direita) e um adulto normal (à esquerda).
Através dela, é postulada a existência de uma relação entre a capacidade de persistência da
atenção e o nível de atividade cerebral. Enquanto os sujeitos do experimento decoravam uma lista
de palavras, a PET era usada para escanear e observar o cérebro em atividade. Durante a tarefa,
os pesquisadores mediam o nível de glicose usado pelas áreas do cérebro responsáveis pela
inibição dos impulsos e controle da atenção. A glicose era considerada a principal fonte de
energia cerebral, assim, eles acreditavam que sua medida era um bom indicador do nível de
atividade cerebral. Nas pessoas com TDAH, as áreas que controlavam a atenção usavam menos
glicose, indicando que elas eram menos ativas. A hipótese era que o baixo nível de atividade
cerebral em certas partes do cérebro causava a desatenção e a dificuldade de inibição do
comportamento.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 94

Embora a hipótese da medida da glicose tenha sido mais tarde rejeitada por Zametkin,
autor que a propôs, as imagens produzidas por seus estudos continuaram sendo utilizadas. Outras
hipóteses foram lançadas e corroboradas por novas imagens produzidas por novas tecnologias.
De certa forma, todas elas buscavam tornar visíveis as diferenças funcionais ou estruturais entre
os cérebros normais e o cérebro do indivíduo TDAH. O alcance da objetividade visual é
anunciado pelo comunidade científica como a grande vantagem da pesquisa atual do transtorno.
Mostramos abaixo alguns exemplos retirados dos sites e livros que pretendem explicar e tornar
aparente a natureza cerebral do TDAH.

Fig. 4. Imagem cerebral produzida por uma PET, mostrando as diferenças entre as atividades do cérebro do
indivíduo TDAH e do indivíduo normal. Em homens com TDAH, a PET mostra que as tarefas de memorização são
processadas nas áreas visuais, no lobo occipital cerebral, como indicado pelos pontos amarelos na imagem à
esquerda. Indivíduos normais usam o lobo frontal e temporal, como indicado na imagem à direita.
Fonte: www.akidjustlikeme.com/ id92.htm
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 95

Fig. 5. Imagem cerebral produzida por Ressonância Magnética (MRI), de um estudo da neurologista americana
Elizabeth Sowell, mostrando as diferenças nas áreas do cérebro do indivíduo TDAH, vinculadas à atenção e ao
controle dos impulsos.
Fonte: Imagem publicada no jornal The Lancet, 22 de novembro de 2003.
disponível no site www.akidjustlikeme.com/ id92.htm

Desde pelo menos 200 anos, a história da patologização do indivíduo desatento relaciona-
se intimamente com o desenvolvimento da cultura ocidental da visibilidade. Na história da
medicina, a observação do corpo substituiu ou passou a acompanhar o texto escrito e esta
mudança foi especialmente importante para a prática diagnóstica: os signos da patologia eram
identificados através da leitura do corpo. As formas que essa leitura assumiu mudaram
consideravelmente desde as primeiras encenações nos teatros anatômicos. Já no século XVIII, na
prática diagnóstica, a visão predominava sobre o tato e sobre os outros sentidos. Esta tendência
foi intensificada e modificada no século XIX com a invenção de novos instrumentos de
visualização, observação e registro da fisiologia corporal. Ela atingiu seu ápice no decorrer do
século XX com a invenção das novas tecnologias de imagem cerebral. Não por acaso, o início
dos anos 80 foi marcado por uma grande discussão sobre as possibilidades diagnósticas que estas
tecnologias traziam. A existência de certas patologias mentais e sua legitimidade médica
passaram a estar vinculadas à possibilidade de sua visualização: a imagem do “cérebro anormal”
possibilitava o diagnóstico da “mente anormal”.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 96

As tecnologias de imagem cerebral alimentam a crença da objetividade e neutralidade dos


fatos científicos. Na psiquiatria, desde a década de 70, esta crença tem sido fortalecida pela
incorporação dos métodos epidemiológicos e estatísticos, pelos cálculos de risco e pelos testes
psicométricos. A psiquiatria ganhava legitimidade e força através do discurso da objetividade. E,
como ROSE (2004) nos mostra, quando as decisões sobre o que é anormal são justificadas por
um número em uma escala, os julgamentos que fizeram parte da sistematização e validação
destas escalas tornam-se invisíveis, especialmente quando o que os esconde é uma outra imagem.
Ludwik FLECK (1935) dizia que todo fato científico é um produto do olhar pré-
condicionado do cientista. ORTEGA (2004)115 e CARTWRIGHT (1995) também nos mostram
com exuberância de detalhes a existência de um vínculo entre os dados que as tecnologias de
imagem cerebral produzem e o contexto sócio-cultural no qual elas são inteligíveis. Este vínculo
existe, mas é freqüentemente omitido, já que o discurso da legitimidade biológica se nutre da
ilusão da retórica da auto-evidência. Nem sempre é dito que os estudos sobre as imagens
cerebrais são constituídos de dados imprecisos e quase sempre contraditórios. Nem sempre é
explicitado que a substituição da mente pelo cérebro resulta de transformações morais que
extrapolam o discurso da prova científica. Além disso, paradoxalmente, ninguém comenta por
que as tecnologias de imagem cerebral não são usadas no dia a dia da clínica do diagnóstico.
Ninguém explica por que, na clínica, elas não são consideradas ferramentas auto-suficientes
quando se trata de “provar” a existência real do diagnóstico. Apesar de todos os avanços
alcançados pelas tecnologias de imagem cerebral, na prática, elas ainda não são ferramentas
diagnósticas auto-evidentes.
A decisão diagnóstica sobre o TDAH deriva de negociações sociais, médicas,
educacionais, políticas e econômicas nem sempre pacíficas. No interior do campo médico,
também encontramos desacordos, querelas, disputas. Mesmo o discurso que se alimenta do
argumento da objetividade científica é marcado por dissonâncias. Embora Barkley tente provar o
contrário, uma parte dos pesquisadores do TDAH até hoje afirmam, com muito pesar, que suas
causas precisas são ainda imprecisas. Diferentemente do que Barkley afirma em seu Consenso,
embora o discurso sobre o TDAH seja predominantemente neurológico, sua fala não é uníssona.
Desde a década de 90, as pesquisas cognitivas, neurológicas e genéticas sobre o transtorno da
atenção multiplicaram-se de forma surpreendente. Elas cresceram em volume, na diversidade de
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 97

argumentos e nas metodologias empregadas e este foi um crescimento extremamente


desordenado. Na maior parte das vezes, suas pesquisas lançaram novos dados empíricos ao
debate sem nenhum tipo de preocupação conceitual, como se seus números e gráficos fossem por
si só reveladores. Por outro lado, quando se tentava derivar destes dados explicações etiológicas,
elas eram quase sempre divergentes.
No campo neurológico da pesquisa sobre o transtorno, identificamos a proliferação de um
coro de vozes apenas semi-unificadas e, poderíamos dizer, desafinadas. As controvérsias que
alimentam o debate em torno do TDAH são também internas ao campo. Suas autoridades não
estão de acordo. Não entraremos na minúcia deste debate, mas é importante recordar que a
psiquiatria, a neurologia e as ciências cognitivas nem sempre defenderam e defendem os mesmos
argumentos, nem sempre ofereceram e oferecem as mesmas explicações e pontos de vista. No
caso do TDAH, esta história se repete e ela é também a história das disputas entre pontos de
vistas e fundamentos metodológicos divergentes, entre corpos disciplinares rivais, entre as
instituições que os sustentam e seus lugares de prestígio.
Na base da pesquisa neurobiológica encontramos um pensamento biológico causal que se
alimenta de premissas lógicas e filosóficas mais do que de dados científicos “reais”. Este
raciocínio diz que os fatores ambientais e sociais são aspectos influentes, mas não causam a
patologia. Eles interferem na intensidade e gravidade dos seus danos, mas o TDAH, em sua
natureza, não resulta da ação de elementos externos (ambientais e sociais) sobre o indivíduo. A
causa está no indivíduo, na sua constituição biológica e no seu (des) funcionamento cerebral. Na
história da psiquiatria, desde 1800, duas formas de classificação da doença mental competem
entre si: o modelo da descrição sintomatológica, no qual as desordens são definidas de acordo
com suas manifestações externas; e o modelo etiológico, no qual elas se agrupam de acordo com
as suas causas ou teorias sobre as suas causas116. No cenário americano da segunda metade do
século XX, o objetivo inicial da formulação dos DSMs era construir uma classificação
psiquiátrica puramente sintomatológica, na qual, ao menos na descrição dos transtornos
psiquiátricos, houvesse uma unidade.
Nada é dito no DSM IV a respeito das causas ou etiologia do TDAH, ou de outras
patologias mentais nele listadas. Ele não fornece elementos sobre a origem ou natureza do

115
O texto de Ortega comentado, O corpo transparente. Apontamentos para uma história cultural da
visualização médica do corpo, é um dos capítulos do livro do autor sobre a visualização médica do corpo que será
em breve publicado no Brasil.
116
HACKING (1995).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 98

transtorno. O consenso de Barkley se ocupa das causas. Ele explicita o deslocamento na pesquisa
científica sobre o transtorno que, na década de 90, passou a se ocupar de sua etiologia. Voltamos
a falar da década de 90, das relações da definição do TDAH como uma patologia de bases
biológicas e genéticas e a proclamação da década do cérebro pelo governo americano. Nesta
época, grande parte das patologias psiquiátricas foram redefinidas como disfunções químicas em
certas partes do cérebro, relacionadas a uma predisposição genética temporariamente corrigível
com a terapêutica medicamentosa. A esperança era que as novas descobertas, principalmente
vindas do campo psicofarmacológico, ajudariam a substituir o sistema diagnóstico descritivo do
DSM IV por um outro, cientificamente fundamentado no conhecimento etiológico da patologia
mental.
Não sabemos dos efeitos do predomínio das pesquisas etiológicas cerebrais e genéticas na
elaboração do DSM V, mas uma das críticas atuais ao DSM IV refere-se justamente ao seu
aspecto puramente descritivo. Em relação ao diagnóstico do TDAH, podemos especular sobre as
conseqüências se consideramos que as Resoluções publicadas pelo Congresso Americano, desde
2004, incorporam o discurso da legitimidade biológica. O argumento defendido pelo Consenso de
Barkley não revela apenas a opinião de um grupo de especialistas importantes. Ele é a posição
defendida por renomadas associações médicas e psiquiátricas americanas. Nele, o TDAH é
descrito como uma desordem neurobiológica e genética crônica que afeta crianças e adultos.
Tanto no discurso oficial como em Barkley, um defeito do sistema inibitório causa o TDAH. Ele
interfere especialmente na habilidade de regulação do comportamento. Além disso, o discurso
oficial atesta que o TDAH causa danos devastadores para a vida do indivíduo e para a sociedade.
O Congresso orienta para que todas as pessoas dos Estados Unidos da América procurem
informações sobre a desordem e auxiliem na criação de suportes sociais e terapêuticos para os
indivíduos afetados117.
Todo o livro de Hacking é uma demonstração preciosa sobre como, no argumento causal,
as falácias da oposição entre natureza e cultura não se sustentam. Em um dos comentários sobre o
Consenso, publicado na Critical Psychiatry Website, D. B. Double defendia a mesma posição.
Ele recordava que se foi possível escrever um consenso defendendo a realidade do TDAH com
base na evidência biológica, um outro consenso, também científico, poderia ser assinado

117
Resolução, 370.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 99

defendendo sua realidade cultural. Um consenso não precisaria se opor ao outro118. São também
pesquisas científicas que provam que a experiência individual e o ambiente social são fatores
cruciais na constituição do cérebro e na modificação de seu funcionamento. Mas ainda assim, a
defesa da legitimidade causal e cerebral se mantém. Talvez, se ela fosse somente uma defesa
“científica”, argumentos razoáveis e plausíveis como os de Hacking e Doublé seriam suficientes
para mudar seus pressupostos e os rumos das pesquisas que ela sustenta. Mas ela faz parte do
processo moral de cerebrização da identidade, de patologização do risco, de criação de
identidades somáticas corrigíveis e da afirmação da cultura visual e, por isso, continua
alimentando o discurso dominante do TDAH.

4.5. CONCLUSÃO
A “realidade patológica” de um sofrimento, de uma dor ou de uma condição mórbida
experienciada pelo indivíduo nem sempre é evidente. A decisão sobre a existência real de uma
patologia é especialmente complicada no campo psiquiátrico, onde nada é tão claro. Como
estabelecer as linhas entre o normal e o patológico? Não há uma resposta definitiva para esta
pergunta. Morbidades que marcaram épocas, como a histeria, foram cientifica e socialmente
legitimadas e, tempos depois, simplesmente desaparecem da cena ou perderam sua validade. Os
diagnósticos psiquiátricos também têm um tempo de vida: eles nascem e morrem. A história
psiquiátrica é formada por seus surgimentos e desaparições. Ela também é formada por aqueles
“semi-diagnósticos” que nunca foram suficientemente legítimos a ponto de serem incluídos em
seus manuais classificatórios.
Para compreender a importância da legitimação de um diagnóstico seria preciso contar a
história das patologias rejeitadas pelo saber psiquiátrico. Sabemos que mesmo os sujeitos
devidamente diagnosticados, classificados em uma descrição patológica oficial, enfrentam sérios
problemas no processo terapêutico: a falta de assistência médica, os custos elevados do
tratamento nem sempre cobertos pelo seguro saúde e pelo governo, os subsídios nem sempre
satisfatórios, etc. Mas quando o sofrimento vivido não é oficial e socialmente considerado
legítimo, ele é visto como artificial, irreal ou ilusório. Ao indivíduo, nem sequer é permitida a
entrada no universo dos que merecem cuidado e atenção especiais. Quando uma condição

118
Um exemplo de um outro Consenso Internacional sobre o TDAH que, diferenteme do que Double propõe, se opõe
ao argumento da causa biológica foi organizado pela campanha italiana Giù Le Mani Dai Bambini. Nela estão
reunidos mais de 6 milhões de cidadãos italianos. No consenso italiano, além de outros tópicos, são comentadas as
discordâncias entre os cientistas do TDAH a respeito das suas causas biológicas e genéticas.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 100

mórbida é "clinicamente" válida ou não, a ela é dado um sentido existencial e uma estrutura
interpretativa particular. Hoje, a interpretação das patologias psiquiátricas é essencialmente
genética, neuroquímica e cerebral. Ela sustenta uma forma específica de ver o sofrimento e de
compreender a subjetividade. Ela afirma o processo de cerebrização e biologização da identidade
pessoal, legitimando apenas o que pode ser visualizado na superfície e na profundidade corporal.
O processo de legitimação e “des-legitimação” de uma condição mórbida é extremamente
complexo. Ele envolve valores morais, interesses políticos, econômicos e sociais específicos de
uma época e de um contexto. Ele também deriva dos acordos que sustentam o estilo de
pensamento científico dominante. Desde a década de 1990, presenciamos a fase mais recente das
tentativas de universalização política e científica da legitimidade neurobiológica da patologia
mental; um processo que, ao menos nos EUA, teve início na década 70. Embora esta seja a
tendência geral do discurso psiquiátrico, para cada patologia mental foram criadas estratégias
específicas de legitimação. O TDAH é um dos exemplos, mas que se destaca entre os outros
devido à enorme atenção política, econômica e pública que ele tem recebido119. O discurso
científico que o legitima defende sua realidade biológica e cerebral e sustenta seu argumento na
possibilidade de visualização objetiva da patologia e na prova de seu potencial de risco.
Como BERRIOS (1996) pontua, os diagnósticos psicopatológicos são constructos cujas
fronteiras e limites dependem, em grande parte, da intenção de seus criadores e das pessoas neles
enquadradas. Mas entre os primeiros e os segundos nem sempre há acordos. Para os que lidam
cotidianamente com o problema do TDAH, os indivíduos diagnosticados, suas famílias ou os
profissionais de sua clínica, a pergunta sobre a existência real do transtorno é um prisma
composto de muitas partes e sentidos, nem simples, nem auto-evidente120. Muitos elementos
entram em jogo na decisão sobre o que é real, o que não é real, o que é patológico, o que é normal
e se o TDAH se inclui em um ou em outro desses reinos121.

119
Além da análise de Hacking sobre a Desordem da Personalidade Múltipla, sugerimos os estudos de Allan
YOUNG (1995; 2000) sobre a Desordem do Stress Pós-Traumático e de VALVERDE (1998, 2003) e ROSE (2003)
sobre o Alcoolismo.
120
Para uma análise sobre como os indivíduos envolvidos com o diagnóstico do TDAH (pais, psicólogos,
professores, psiquiatras e indivíduos afetados) constroem significados diversos para o transtorno, o reavaliam, o
reinterpretam e o reconstituem com base em suas experiências, sugiro a tese de doutorado de RAFALOVICH (2002)
e os excelentes artigos de Ilina SINGH (2003, 2004, 2005).
121
Quando distinguimos uma esfera do TDAH, que se ocupa da pesquisa sobre suas causas e sua natureza, e uma
outra esfera que, no dia a dia da clínica, lida com a tarefa diagnóstica e com o tratamento da condição, não queremos
dizer que elas não se encontram e não se interferem. Pelo contrário, elas se vinculam intimamente. É também
RAFALOVICH (2002) que nos mostra como a pergunta sobre a realidade (neurológica) e a irrealidade (ou realidade
apenas psicológica) do TDAH tornaram-se comuns a pais, professores e clínicos do TDAH. No entanto, não há
dúvidas de que as perguntas levantadas pela pesquisa laboratorial e pelo lidar cotidiano com o TDAH se
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 101

O processo de constituição e legitimação social e científica do transtorno não se resumiu,


e não se resume, à interrogação sobre sua natureza real e biológica. Ele é formado por outras
questões de caráter político, ético, econômico e moral que dialogam com as exigências da
economia da atenção atual. O diagnóstico do TDAH nasceu, se desenvolveu e se fortaleceu no
cerne de uma economia na qual o indivíduo bem sucedido, produtivo e feliz é o autogestor atento,
consciente, racional e prudente. Nesta economia, não há limites para as exigências de atenção. E,
na busca pela sua maximização, todo indivíduo será um pouco desatento. Por outro lado, a
psicofarmacologia afirma que logo não haverá limites para a intensificação da atenção. A lógica
das individualidades somáticas, corrigíveis e manipuláveis nos diz que tudo é possível. A
patologia da atenção legitimou-se neste contexto, quando os limites corporais e cerebrais da
atenção foram parcialmente eliminados. Ela seria o último resquício das limitações do corpo
atentivo. Mas ela também nos demonstra que o sonho do controle da atenção através do controle
do corpo e do cérebro pode ser uma ilusão. E, enquanto esse sonho permanecer, veremos cada
vez mais indivíduos serem incluídos no rótulo do TDAH.
A constituição do diagnóstico e da condição existencial que ele descreve derivam de uma
constelação de aspectos que são ocultados pelo discurso da legitimidade cerebral. Além de fazer
uso do argumento da neutralidade científica, ele reafirma sua interpretação ao contar a história da
evolução do pensamento biológico. Este é um dos aspectos mais marcantes da construção do
“fato TDAH”. Quando as polêmicas em torno da sua pesquisa atual se tornam aparentes e
colocam em risco o argumento científico neurobiológico, a versão histórica oficial do TDAH é
resgatada. Ela é um dispositivo fundamental para a afirmação da “verdade” do transtorno. Como
no discurso biomédico atual, a realidade biológica (e cerebral) do “fato TDAH” o legitima e o
separa das suas “imitações” sociais, psicológicas e culturais. No entanto, veremos que este
argumento é extremamente frágil mesmo quando consideramos os fatos enfatizados pela versão
histórica que o defende.
Nos 100 anos de sua história, as causas do transtorno oscilaram entre serem consideradas
psicodinâmicas e biológicas. Esta oscilação e o predomínio final do argumento neurofisiológico

desenvolvem em espaços diferentes, possuem diferentes demandas e encontram diferentes respostas. E, em certo
sentido, os discursos da legitimidade que nelas se desenvolvem também se diferenciam. Mas é marcante que em
nossas sociedades a tendência tem sido a aproximação entre estas esferas devido à crescente influência do saber
neurobiológico nos assuntos da vida prática. Analisar o impacto das descrições neurobiológicas da patologia sobre os
sujeitos que lidam com ela é um dos compromissos éticos mais importantes de nossos dias. Em nosso trabalho,
investigamos apenas o discurso textual sobre o TDAH e as tendências históricas que o sustentam. No entanto, não
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 102

não foram apenas conseqüências do desenvolvimento científico. A definição atual dominante do


diagnóstico do TDAH não resultou simplesmente do avanço teórico e metodológico das ciências
neurobiológicas sobre as psicológicas122. Se hoje é este discurso que define a legitimidade ou não
da patologia, ele predomina por ser sustentado por um estilo de pensamento específico,
característico de nossa época. Por outro lado, a história nos conta que se o discurso neurológico
predominou sobre o psicológico, as esferas psicodinâmica e social nem sempre foram alojadas no
pólo da “artificialidade” e da “não realidade”, nem sempre foram rivais do argumento biológico.
Ao lado do discurso neurobiológico, outras explicações para o transtorno foram e ainda
são mantidas e elas nem sempre se opõem ao discurso biológico. Mas dessa história quase nunca
ouvimos falar. Em parte, este silêncio é mantido pelo discurso da legitimidade biológica. No
entanto, para RAFALOVICH (2002) e BERRIOS (1996) ele também deriva de uma estagnação
do campo psicodinâmico. Em certo sentido, ele teria falhado em oferecer alternativas teóricas e
práticas satisfatórias para a compreensão e tratamento das patologias da atenção. Mas se este foi
realmente o caso, seria preciso investir na pesquisa psicodinâmica e não em sua desvalorização.
Berrios acredita que neste reinvestimento as filosofias da ação teriam muito a nos dizer. Em
nosso trabalho, não exploramos as alternativas ao discurso neurobiológico dominante, mas
lembramos que elas existem e constituem um campo de estudos extremamente interessante123.
No capítulo seguinte, oferecemos ao leitor uma cartografia dos discursos históricos do
TDAH. Em seguida, analisamos os momentos chaves de sua história oficial dando relevo aos
elementos morais e políticos por ela ocultados. Eles fazem parte dos níveis mais profundos da
constituição do fato TDAH que, como Fleck diria, não são explicitados pelo discurso científico
revelado ao público. Compreendemos as diferentes versões históricas destacadas e os elementos

nos privamos de remeter o leitor a outros estudos mais empíricos, como os de RAFALOVICH (2002) SINGH (2003,
2004, 2005), que se ocupam da análise dos impactos do discurso que estamos analisando.
122
Há ainda os que argumentam que, de forma geral e em suas bases mais profundas, não estamos presenciando a
substituição dos saberes psicológicos pelos neurofisiológicos no cenário científico. Ao analisar os desenvolvimentos
recentes nas áreas da percepção sensorial, da neurofisiologia visual e da investigação neuropsicológica sobre a
memória e suas patologias, HATFIELD demonstra como o argumento da perda da importância dos saberes
psicológicos, supostamente destronados pela nova neurobiologia, e sua expulsão da cena científica é apenas um
engodo. Para o autor, as ciências neurológicas analisadas continuam buscando seus fundamentos nos princípios da
teoria psicológica, apesar de revesti-los com a linguagem biológica (HATFIELD, 2000, p. 401).
123
No campo de estudos da fenomenologia da atenção e da ação, sugerimos as pesquisas anteriormente coordenadas
por Francisco Varela e hoje lideradas pelo grupo de Natalie Depraz. No Brasil, o Programa de Estudos e Pesquisas
da Ação e do Sujeito (PEPAS), desde 2001, vem se dedicando ao estudo das teorias da ação e do corpo. Os trabalhos
têm sido produzidos com o intuito de criar um corpo teórico rico e consistente, capaz de oferecer alternativas mais
éticas e plurais à compreensão das desordens da ação atual. Consultar http://www.pepas.org/.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 103

revelados e ocultados pela versão oficial como partes da constituição do TDAH. Juntos eles
formam a história do TDAH com todas as suas polêmicas e controvérsias.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 104

5. O TDAH ANTES DO TDAH

“Uma pletora de sintomas diferenciados, desde suas primeiras descrições”, esta é uma das
críticas de RAFALOVICH (2002) ao TDAH. O destaque em itálico é importante. Quais seriam
as primeiras descrições do TDAH? Supostamente, esta pergunta nos levaria à investigação do
transtorno nas classificações psiquiátricas. Nelas, seria preciso investigar os quadros patológicos
que se aproximaram do diagnóstico recente. Após identificá-los, analisaríamos suas explicações
etiológicas e suas descrições sintomatológicas. Encontraríamos um aspecto em comum forte o
suficiente para agrupá-los em uma mesma história diagnóstica. No cenário mais recente,
situaríamos o TDAH descrito no DSM IV e a Síndrome Hipercinética do CID 10. Mas quando
lembramos que o diagnóstico atual é composto pela pletora de sintomas que Rafalovich comenta,
a tarefa se complica. Não seria difícil encontrar vários quadros patológicos que incluíam um
defeito da atenção, da hiperatividade e da impulsividade.
Além disso, já que não é necessário que todos os sintomas estejam presentes para que o
diagnóstico do TDAH seja definido, sua história poderia ser orientada pela predominância de um
dos seus três sintomas centrais. Ao longo da história médica, a hiperatividade, a impulsividade e
a desatenção criaram entre si laços diversos. No interior da história oficial que as vincula e as
chama de TDAH, elas alternaram entre si o lugar de maior importância na definição da
classificação. Em certos momentos, o aspecto que mais caracterizava o quadro era a
hiperatividade que, em seguida, foi destronado pela desatenção que, também em seguida, foi feito
um aspecto menor das funções executivas. Houve um tempo em que nenhum deles era visto
como o aspecto definidor do transtorno.
Considerando ainda que cada um dos três sintomas se desdobra em quadros mais
específicos, caso estejamos falando da menina ou do menino, da criança ou do adulto TDAH, a
complicação se agrava. Poderíamos escrever a história da criança TDAH e, neste caso, as
descrições patológicas seriam buscadas no universo da psiquiatria, da neurologia, da psicologia
infantil e também da psicopedagogia. A relação estabelecida entre a criança TDAH e o universo
escolar é sustentada pela própria descrição do transtorno. É dito que os sintomas da desatenção,
da hiperatividade e da impulsividade manifestam-se, principalmente, no ambiente da escola. Este
não é um dado insignificante, mesmo para a história oficial da desordem. Nela, os quadros
precursores do TDAH estão relacionados a problemas escolares. O discurso crítico considera este
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 105

dado e analisa a história do TDAH como aquela do controle e da medicalização infantil


(SCHRAG e DIVOKY, 1975; WERNER, 2001). Alguns a descrevem como um capítulo
importante da história do poder institucional exercido sobre a criança indisciplinada (CONRAD,
1975, 1976). RAFALOVICH (2002) inicia a história do TDAH com o discurso médico da
criança idiota e do imbecil moral da segunda metade do século XIX. Ainda no universo infantil,
BARBETTI (2003) analisa a construção da criança hiperativa em sua relação com a história da
eletricidade a partir da segunda metade do século XIX.
Mas deixando de lado o universo infantil, a nossa história poderia ser também aquela do
adolescente TDAH. Neste caso, ela teria que considerar o discurso e a prática médica em torno da
delinqüência e da adolescência desviante. Por outro lado, seria possível construir a história do
adulto TDAH, já que desde a década de 80 ele também faz parte da categoria diagnóstica antes
considerada prioritariamente infantil. Certamente, o percurso histórico analisado seria outro.
Exagerando um pouco no argumento, nada impediria que a história do “TDAH familiar” fosse
construída, já que agora também se diz que a desordem acomete toda a família. Há os
pesquisadores que vêem na descoberta e na utilização terapêutica das drogas estimulantes e nos
interesses econômicos criados pelo seu comércio o aspecto central da constituição do diagnóstico.
A maior parte deles concentra-se na história da farmacologia da Ritalina124.
Encontramos ainda os que, como DUMIT (2000), acreditam que a validação do TDAH
como um diagnóstico médico esteve e está intimamente vinculada à construção da legitimidade
científica da neurologia e das tecnologias de imagem cerebral125. Dumit analisa o Déficit de
Atenção como uma das “novas desordens sócio-médicas” ou desordens “biomentais”. Elas são
patologias de forte repercussão legal, cujas imagens cerebrais exercem um papel importante em

124
Na literatura sobre a Ritalina, as análises mais citadas são as de Peter SCHRAG e Diane DIVOKY (1981);
DILLER (1998); DEGRANDPRE (2000) e MORTIMER (1995). Estas análises foram e ainda são importantes para o
debate sobre a história do TDAH. No entanto, não encontramos uma literatura mais específica que analise os
vínculos entre a história da farmacologia da atenção, o desenvolvimento do olhar psiquiátrico molecular e a
constituição do TDAH. A farmacologia da atenção sonha com a substância capaz de agir e alterar diretamente no
processo molecular responsável pelo controle da atenção. Ela alimenta a noção de que a patologia da atenção é
causada por um defeito molecular quimicamente corrigível. Para Nikolas ROSE (2003), esse tipo de pensamento-
prática está na base da constituição do eu neuroquímico.
125
A bibliografia sobre a interferência das tecnologias de imagem e visualização cerebral na validação de
determinados diagnósticos psiquiátricos é consideravelmente vasta. Especificamente sobre o diagnóstico do TDAH
não encontramos muitas análises e Dumit continua sendo nossa referência principal, embora seu objetivo não tenha
sido avaliar o processo de construção deste diagnóstico em detalhes. Dumit apenas nos oferece uma análise geral do
que ele define por novas desordens sócio-médicas. Nessa categoria, além do déficit de atenção, o autor inclui a
Síndrome da Fadiga Crônica, a Síndrome da Guerra do Golfo, a Sensibilidade Química Múltipla, a Desordem do
Stress Pós-Traumático, a esquizofrenia e a depressão. Na história da constituição do diagnóstico do TDAH, esse é
um campo de investigações ainda inexplorado.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 106

sua legitimação diagnóstica. Muitos analistas sociais constroem a história do TDAH como aquela
dos distúrbios produzidos pela era dos excessos da informação, do consumo material desenfreado
e sem sentido, da cultura somática, das identidades descartáveis, da perda da autoridade da
família, da igreja e do Estado. Neste grupo, há também os que identificam um non sense inerente
à proposição da patologia da atenção e da hiperatividade. Ela encarna a forma de vida atual e, por
assim dizer, normal em todas as suas destemperanças. Estes questionam a existência patológica
do TDAH.
Os percursos históricos do TDAH não param por aqui. No entanto, no debate público em
torno do distúrbio esta diversidade histórica raramente é comentada. A maioria das críticas
direcionadas ao transtorno apóiam-se nas suas controvérsias clínicas, epidemiológicas e
terapêuticas que, como se sabe, não são poucas. Muitas são pertinentes, necessárias e devem
ganhar o debate público. Mas uma atenção especial merece ser dedicada ao perfil desmemoriado
do debate. Da diversidade das versões históricas oferecidas, apenas uma é reconhecida e esta é a
versão que nasce no interior do campo biomédico. Ela é contada pelos especialistas da neurologia
e da psiquiatria infantil do TDAH. Eles são pesquisadores norte americanos, canadenses e
ingleses que dedicaram, e ainda dedicam, sua vida profissional clínica e acadêmica ao estudo do
transtorno. NEFSKY (2004) chama estes médicos pesquisadores de historiadores internos. Eles
representam o discurso da legitimidade biológica e cerebral do transtorno.
As formas de construir a história de um diagnóstico são muitas. Há os que a fazem
isolando-o de seu espaço epistêmico e social de surgimento, outorgando a ele uma independência
divina e emprestando à ciência que o gerou uma proteção olímpica. Eles desconsideram os
aspectos morais, sociais, políticos, econômicos e institucionais que alimentam a constituição do
fato patológico. Eles também desconsideram que os objetos científicos nascem do diálogo
turbulento entre as demandas políticas e ideológicas que sustentam sua pesquisa. Mas aqueles
que não outorgam a si a tarefa de garis da ciência biomédica sabem que as descrições do normal e
do patológico surgem de toda essa hibridez. Em relação à história dominante do TDAH, o
primeiro modo de fazer histórico predomina.
O discurso neurocientífico sobre o TDAH não é uníssono. Mas ele também cria suas
unanimidades e nenhuma delas é mais forte do que a história do diagnóstico. Nela, a criança
TDAH surgiu na literatura médica da primeira metade do século XX e, a partir de então, foi
batizada e re-batizada muitas vezes. No decorrer deste século, ela foi a criança com defeito no
controle moral; a portadora de uma deficiência mental leve ou branda; foi afetada pela Encefalite
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 107

Letárgica; chamaram-na simplesmente de hiperativa ou de hipercinética; seu cérebro foi visto


como moderadamente disfuncional; ela foi a criança com Déficit de Atenção e, enfim, a
portadora do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade/Impulsividade. Desde os últimos
20 anos, ela é marcada por um defeito inibitório que afeta o desenvolvimento das funções
executivas cerebrais.
Chamamos esta versão histórica de oficial e dominante porque no debate científico,
político, econômico e popular ela é a história do transtorno. Com raras exceções, críticos e
defensores da visão neurológica partem dos marcos e das classificações psiquiátricas que ela
oferece. Os primeiros, os críticos, repetem o trajeto histórico oferecido pelos segundos para
denunciar a volatilidade de um transtorno que, em menos de um século de vida, mudou de
classificação mais de 10 vezes126. Eles ridicularizam a pretensa clareza e unificação do discurso
neurológico. Descrições de patologias tão diversas não podem ser unificadas em uma mesma
história ou em um mesmo quadro patológico sem que uma redução indevida esteja presente.
Estas são as raras críticas que partem da história médica do transtorno, mas que o fazem sem
realmente analisar a história oferecida. Elas apenas argumentam que, historicamente, a pletora de
sintomas do TDAH é incluída em uma outra pletora de diferentes descrições patológicas.
Não incluímos nossa análise em nenhum dos dois lados do debate. Embora a crítica à
reunião de diferentes patologias em uma única história diagnóstica seja válida; ela desconsidera o
que as patologias “arbitrariamente escolhidas” teriam em comum. A história oficial do
diagnóstico do TDAH é constituída por outros diagnósticos psiquiátricos problemáticos e
duvidosos, situados na fronteira obscura entre as desordens nervosas definidas e indefinidas,
entre as disfunções da vida normal e patológica. Nem os historiadores internos do TDAH nem
seus críticos dizem que a história do “TDAH guarda-chuva” é fundamentalmente constituída por
outros diagnósticos “guarda-chuvas”. Na maior parte das vezes, neles estavam agrupadas as
patologias que colocaram em cheque o saber neurológico e psiquiátrico, mas que, por outro lado,
possibilitaram seu fortalecimento. O melhor exemplo é a síndrome da Encefalite Letárgica: uma
patologia misteriosa e obscura que desafiou o conhecimento neurológico da época da mesma
forma que participou de sua legitimação.

126
Algumas nomenclaturas que o diagnóstico inclui em sua história são: Encefalite Letárgica; Dano Cerebral
Mínimo; Paralisia Cerebral Mínima; Retardo Mental Leve; Disfunção Cerebral Mínima; Hipercinese;
Desenvolvimento Atípico do Ego; Desordem do Déficit de Atenção e Transtorno do Déficit de Atenção e
Hiperatividade. E, como dissemos no capítulo anterior, novas mudanças são pressagiadas.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 108

O próximo diagnóstico “guarda-chuva” incluído na história oficial do TDAH é o Dano


Cerebral Mínimo; uma classificação pouco definida, caracterizada por transtornos de
comportamento, de linguagem e de aprendizado associados a uma causa orgânica imprecisa.
Outras formas de descrever o quadro foram a Disfunção Cerebral Mínima e a Desordem
Orgânica do Comportamento, ambas também foram diagnósticos extremamente imprecisos e
abrangentes. Antes da publicação do DSM II, o que caracterizava o transtorno nas descrições
psiquiátricas era o seu elemento motor: o excesso de movimento e a incapacidade de inibição dos
impulsos. Em 1957, Laufer, Denhoff e Salomons descreveram-no como a Síndrome do Impulso
Hipercinético e em 1960 ele foi redefinido como a Síndrome da Criança Hiperativa127.
Progressivamente, a hipótese da existência de uma lesão cerebral precisa, mesmo que mínima, foi
substituída pela presença de um déficit neurofisiológico. Quadros mais diversos foram incluídos
no transtorno que passava a ser causado por uma disfunção neurofisiológica branda.
A partir de 70, a ênfase diagnóstica, até então centrada na hiperatividade, concentrou-se
no sintoma da desatenção. Mesmo auxiliadas pelas tecnologias visuais e cinematográficas, a
análise das patologias do movimento não se adequava às exigências do novo olhar psiquiátrico
em formação. A entidade foi renomeada e o diagnóstico mais uma vez ampliado: o transtorno
podia ocorrer com ou sem a presença do elemento hiperativo. Nesta mesma época, a pesquisa da
atenção afirmava que toda patologia mental incluía em sua sintomatologia um déficit atentivo. Na
década de 90, o transtorno foi reinterpretado como um defeito inibitório no mesmo contexto no
qual a falha da inibição era vista como o problema que estaria na base e no início do
desenvolvimento de quase todo quadro psicopatológico.
Como o TDAH, os diagnósticos “guarda-chuva” agrupados em sua história fizeram parte
do processo através do qual a ciência médica iniciou seu discurso sobre a saúde mental de
pessoas que não eram nem drasticamente mal-desenvolvidas nem mentalmente deficientes. Elas
eram apenas mal adaptadas. Os diagnósticos incluídos na história do TDAH são aqueles que
fortaleceram o processo de patologização dos indivíduos incapazes de satisfazer as expectativas

127
Ute HOLL (2004) e Lisa CARTWRIGHT (1995) demonstram como, na primeira metade do século XX, a ênfase
na análise do elemento motor da patologia mental e em seus signos externos foi acompanhada e fortalecida pelo uso
das tecnologias cinematográficas na clínica diagnóstica. As tecnologias visuais pareciam ser mais objetivas que a
análise de caso. Elas prometiam maior objetividade e cientificidade e reforçavam a análise neurofisiológica da
patologia mental. Em parte, as pesquisas sobre a hiperatividade também foram influenciadas por esta tendência,
principalmente aquelas resgatadas pela história do TDAH. As novas tecnologias cinematográficas foram
incorporadas por uma clínica neurológica que acreditava em suas promessas de objetividade, mas ainda não sabia
como lidar com elas. Era necessário criar um outro olhar neurológico capaz de incorporará-las. Sobre o uso das
tecnologias cinematográficas na clínica e na pesquisa médica, ver também VÖHRINGER e HAGNER (2004).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 109

morais, políticas e econômicas da sociedade na qual eles viviam. Na história da psiquiatria, a


patologização do indivíduo inapto ou não adaptado não é um processo recente, mas na
constituição do TDAH ela se vincula à cerebrização das disfunções adaptativas. Nela, o sucesso e
o fracasso adaptativo tornaram-se dependentes do funcionamento cerebral, de sua neuroquímica e
de seus ajustamentos e correções pontuais. A definição atual do transtorno e sua história
diagnóstica fazem parte de um processo maior de somatização e biologização da moral e da
vontade que, na história do sujeito desatento, teve início no século XIX128. Em nossa análise,
explicitamos os aspectos que fortaleceram os vínculos entre a biologia e a moral da atenção e
alimentaram a constituição do diagnóstico do TDAH.
Partimos da história oficial do transtorno. Mais uma vez, recorremos à análise de
Barkley129. Na sua teoria desenvolvida durante a década de 90, o TDAH resulta de um defeito da
inibição e da capacidade de autocontrole, ele é um “defeito da vontade” e um déficit do
desenvolvimento moral. Ou, como diria o psiquiatra Sérgio Bourbon, ele é a perda do controle
voluntário sobre certas situações do dia-a-dia130. Ao definir o TDAH através da linguagem do
autocontrole, Barkley enfatiza que seu ponto de vista não é novo. Na história do TDAH, o
médico inglês George Still, no início do século, e Virgínia Douglas, no final da década de 70,
defenderam um ponto de vista semelhante. Still, Douglas e Barkley teriam em comum ao menos
um aspecto que, para Barkley, é o ponto central da análise teórica e histórica do TDAH: em suas
análises, o que determina o transtorno da atenção e da hiperatividade é o vínculo entre um defeito
neurofisiológico do sistema inibitório, o déficit da moral e da vontade131.

128
Em nossa investigação, não consideramos apenas a criança TDAH. Esta é uma das novidades de nosso estudo.
Mesmo nas análises que divergem da versão neurológica dominante, o adulto TDAH raramente é um ponto de
partida. Todos os estudos traçam histórias da criança, seja ela a desviante, a indisciplinada, a desatenta, a imoral, a
hiperativa ou a impulsiva. Eles partiam do pressuposto que o TDAH era uma patologia prioritariamente infantil. Mas
como sabemos, este é um ponto de vista em modificação na descrição do transtorno. Esta é uma mudança que
acrescenta novos dados à sua análise. Ela permite que o processo de constituição do TDAH seja incluído na história
da biologização e cerebrização da vontade iniciada no século XIX. Naquela época, o indivíduo desatento e incapaz
de controle era, sobretudo, o adulto.
129
Na discussão sobre o Consenso Internacional do TDAH falamos que Russell A. Barkley é uma das autoridades
mais citadas no debate internacional clínico e político sobre o TDAH. Ele é quem melhor representa a direção
neurológica cognitiva da interpretação clínica e histórica do transtorno e, por assim ser, estará na base de nossas
análises seguintes.
130
Sérgio é diretor da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) (DIDONÊ, 2005).
131
Esta observação é demarcada logo no início de seu livro sobre o TDAH e a natureza do autocontrole,
„Significante retrospectivamente, mas aparentemente não percebida na época, foi a observação de Douglas, cerca de
70 anos após Still, de que a desordem estava associada a problemas sérios do desenvolvimento moral. A repetição
desta associação na história do TDAH, como veremos, não é mera coincidência“ (BARKLEY, 1997a, p. 6). Veremos
que o autor relaciona o problema moral ao déficit inibitório. Em sua opinião, Still e Douglas haviam chegado a
mesma conclusão.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 110

No capítulo anterior, vimos que Virgínia Douglas foi um nome importante na constituição
do déficit de atenção no contexto biomédico e moral da década de 70. Além de se adequar a
pesquisa do transtorno às exigências operacionais da psiquiatria da época, ao colocar a disfunção
da atenção no centro da patologia da hiperatividade, Virgínia Douglas resgatava os antigos
estudos das patologias da vontade e os vinculava à pesquisa atual das patologias da atenção. Para
a autora, os estudos da atenção do século XIX, principalmente as análises de William James,
deveriam ser relidos e incorporados pela ciência contemporânea132.
Ao resgatar a interpretação de Barkley, demonstramos que a categoria diagnóstica atual
do TDAH constituiu-se no interior dos dilemas morais, políticos, econômicos e tecnológicos que
resgatavam, não sem importantes alterações, os antigos dilemas das patologias da vontade.
Centramos nossa análise nos momentos históricos que vincularam as patologias da atenção, do
movimento e da vontade: o final do século XIX e início do século XX e os últimos 30 anos do
século XX. O primeiro capítulo da tese analisa as relações entre atenção, vontade e inibição, na
segunda metade do século XIX. No segundo capítulo, iniciamos a discussão sobre as últimas
décadas do século XX. Nos tópicos seguintes, resgatamos o cenário da primeira metade do século
XX ao analisar o trabalho de George Still.
Na análise de Barkley, Still foi quem primeiro vinculou o transtorno da atenção a um
defeito da vontade inibitória. Foi ele quem ofereceu as bases clínicas do diagnóstico do TDAH.
No entanto, vimos que o século XIX foi marcado pelo diálogo científico e moral entre os
discursos da atenção, da inibição e da vontade. A análise de George Still foi apenas uma das
tantas que tinham algo a dizer sobre o assunto. No tópico seguinte, resgatamos o trabalho de Still
com três objetivos: inserir sua análise no processo histórico de naturalização da moral, iniciado
no início do século XIX; destacar o caráter excessivo e tendencioso da leitura neurobiológica de
Barkley sobre Still; demonstrar que a interpretação atual do TDAH vincula-se às tentativas de
patologização e biologização da vontade que a antecedem e a incluem. É neste processo que
inserimos o TDAH. Mas seria mais correto falar de estratégias plurais de biologização da moral e
da vontade e analisar o TDAH como uma de suas faces recentes.
Em seguida, analisamos as relações entre a Encefalite Letárgica e o TDAH. A Encefalite
é um dos diagnósticos mais importantes incluídos na história oficial do TDAH. Mas os elos que

132
As interpretações atuais do conceito de atenção de William James são extremamente diversas. Na maior parte das
vezes, teorias que se opõem apóiam-se no “conceito de James”. No caso de Douglas, o objetivo era resgatar os
vínculos entre o esforço da permanência da atenção e da vontade. Neste trabalho, não analisamos o trabalho de
Douglas, apenas destacamos seu papel no processo de releitura do déficit da atenção como uma patologia da vontade.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 111

aproximam as duas patologias em nada se assemelham à harmonia ilusória dos desenvolvimentos


e descobertas científicas que a história do TDAH afirma. Se a Encefalite pode ser incluída na
história do TDAH, os traços que aproximam estas duas patologias são, sobretudo, políticos,
econômicos e epistemológicos. Vinculando-as encontramos o perfil duvidoso dos diagnósticos
“guarda-chuva”, a defesa das causas cerebrais da patologia e a legitimação política e científica do
saber neurológico.

5.1. GEORGE STILL E A BIOLOGIA DA MORAL NO INÍCIO DO SÉCULO


XX
A história oficial do TDAH conta que na literatura médica ele foi primeiro um defeito do
controle moral. O cenário de sua aparição foi a capital inglesa na virada do século XX, mais
especificamente o King´s College Hospital, no ano de 1902. George Still é o marco obrigatório133.
A história de Hussell A. Barkley sobre o transtorno é a mais citada pelos que, como ele,
encontram nas Conferências de George Still a primeira descrição médica do TDAH. Para o autor,
vários aspectos da análise de Still confirmam a existência biológica do transtorno e sua
manifestação clínica na virada do século. O primeiro ponto de acordo é etiológico: a condição
mórbida descrita por Still e o atual TDAH resultam do defeito da função inibitória da vontade. A
sintomatologia e a epidemiologia descritas são também as mesmas. Nas crianças afetadas a
punição é ineficaz. O comportamento agressivo e desafiante que está na base da criminalidade é
uma manifestação comum. Entre os familiares há relatos de alcoolismo, depressão e
comportamento criminoso. Nos dois diagnósticos, a desatenção e a hiperatividade estão
presentes. Observa-se o comportamento patológico orientado por gratificações imediatas,
acompanhado pela incapacidade de planejar o futuro. O intelecto não é afetado134. As duas
pesquisas legitimaram a patologia moral como uma condição mórbida independente e real porque

133
Considerado por seus comentadores o primeiro pediatra inglês, Still foi também o primeiro professor de doenças
infantis do King´s College Hospital e autor de vários livros sobre o comportamento infantil normal e patológico. Ele
ficou famoso pela descrição da “artrite reumatóide crônica” em crianças, patologia que ficou conhecida como a
“doença de Still”. Na história do diagnóstico do TDAH, de sua vasta produção são retomadas três conferências
proferidas diante do Royal College of Physicians, no ano de 1902, entituladas Algumas condições psíquicas
anormais em crianças, publicadas no The Lancet.
134
“Agressivas, emotivas, sem lei, desatentas, impulsivas e hiperativas eram descrições que ele (Still) dava para
aquelas crianças. Hoje em dia, muitas delas poderiam receber o diagnóstico do TDAH e também dos transtornos da
conduta desafiante e oposicional. As observações de Still eram astutas, ele descrevia muitos dos fatores associados
ao TDAH confirmados pela pesquisa do transtorno mais de 50 e 90 anos após: 1- a maior representação masculina
(uma taxa de 3:1 nas amostras de Still, que também corresponde as estimativas atuais); 2- a manifestação de
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 112

biológica e cerebral. O objetivo era e é encontrar a sede fisiológica da vontade, da moral e do


autocontrole.
As possíveis similaridades entre o TDAH e a condição analisada por Still são repetidas
em todo livro e tese sobre o assunto. Elas confirmam que o transtorno não é uma invenção de
nossos tempos. Elas ainda dizem que suas causas são biológicas. Mas na maior parte das vezes,
estes estudos emprestam a Still uma meticulosidade neurológica e um vocabulário
sintomatológico irreconhecível em suas conferências. O médico inglês era extremamente
cauteloso em seus argumentos. Ele sabia que muito deveria ser investigado antes que uma palavra
final pudesse ser dita. O debate estava em aberto135. Por outro lado, os historiadores internos do
TDAH nunca mencionam a questões morais, políticas e legais que norteavam os estudos de Still.
Tratava-se, em primeiro lugar, de legitimar os valores morais da época ao inscrevê-los no corpo.
Still foi um dos que, como Pinel, Esquirol, Prichard, postulou a existência de uma patologia
moral específica, marcada pela desobediência às regras e consensos sociais. Seu nome pode ser
incluído na história da naturalização da moral e moralização do natural.
Still analisava os “defeitos anormais do controle moral em crianças” resultantes de uma
falha no desenvolvimento mental. O médico acreditava que o controle moral normal sempre
estava “em conformidade com a idéia de bom ou de bem de todos”136. Ele inibia as forças
espontâneas e instintivas opostas à idéia de bem de todos. Mas nas crianças analisadas em seu
estudo, havia um defeito moral. A constituição do controle moral dependia da ação conjunta da
cognição, da consciência moral e da vontade. Quando uma delas não funcionava, seu
desenvolvimento era prejudicado. Para Still, somente a disfunção resultante do defeito da vontade
inibitória era uma patologia moral específica. O defeito moral era constitutivo quando
manifestado em imbecis e idiotas, mas em sua forma mais pura ele resultava das disfunções de
um cérebro moralmente desordenado.
O controle moral variava de criança para criança. Nem sempre era possível demarcar uma
linha precisa entre seu funcionamento normal e anormal. Esta demarcação, dizia Still, era
extremamente arbitrária. Em algumas crianças sua deficiência era tão extrema e inaceitável para

alcoolismo, conduta criminosa e depressão and depression entre os parentes biológicos; 3- a predisposição familiar a
manifestação da desordem decorrente de disfunções adquiridas do sistema nervoso” (BARKLEY, 1997a, p.4).
135
Em relação aos sintomas analisados, seus textos são repletos de expressões condicionais do tipo “se eles
realmente forem” (mórbidos ou não), “se eles existem” (como uma patologia) e de outras indeterminações do mesmo
gênero.
136
STILL, Lecture I, p. 1008.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 113

os padrões sociais da época que ela deveria ser mórbida137. Mas nenhuma prova empírica oriunda
da pesquisa neurofisiológica sustentava sua hipótese. As evidências que mostravam a existência
do distúrbio moral derivavam da decisão social sobre o que era tolerado ou não, sobre o que se
encaixava ou não em sua racionalidade138. Apesar da postulação da realidade biológica da
patologia da vontade e da moral, em Still as explicações sobre as causas da doença eram
extremamente vagas. A hipótese da lesão cerebral deveria ser descartada, caso ela fosse
compreendida como uma condição necessária à manifestação do defeito. Em sua ausência, toda
interferência no funcionamento cerebral suficientemente intensa a ponto de alterar sua nutrição
celular poderia causar o distúrbio moral. Devido à obscuridade da psicologia da vontade da
época, nada mais poderia ser dito. Mas nenhum destes aspectos são comentados na história
oficial do TDAH. Suas análises dizem que Still descobriu o defeito neurofisiológico da vontade e
da moral e suas bases cerebrais.
A história do TDAH também desconsidera a especificidade da condição descrita por Still:
não se tratava de um problema específico da atenção e da hiperatividade. O médico inglês citava
William James quando estabelecia a conexão entre a desatenção, o defeito moral e a patologia da
vontade. Para James, o esforço da atenção era o fenômeno essencial da vontade. Corroborando
esta hipótese, Still recordava que algumas crianças analisadas possuíam uma incapacidade de
sustentar a atenção. No entanto, a falta de atenção não era um fator de destaque na descrição de
Still. Na sua opinião, ela era importante na medida em que, teoricamente, confirmava que o
transtorno era causado pela deficiência da vontade inibitória. A conduta imoral, amoral e
perigosa era o problema maior dos casos analisados. As crianças possuíam algo em comum: elas

137
As observações de Still resultavam da análise clínica de 20 crianças nas quais eram identificados graus mórbidos
de: (1) fúria emotiva; (2) crueldade e malícia; (3) inveja; (4) ausência de lei; (5) disonestidade; (6) promiscuidade e
destrutividade; (7) ausência de modéstia e vergonha; (8) imoralidade sexual; e (9) vício. Todas as crianças
manifestavam uma necessidade mórbida de auto-gratificação que não considerava o bem dos outros o seu próprio
bem. Dos sintomas descritos, os mais freqüentes eram a fúria emotiva e a malícia, quando dores ou desconfortos em
outras pessoas eram causados, ou da crueldade, quando as vítimas dos maus tratos eram animais indefesos. Além
destas características, a resistência à disciplina e à autoridade na escola, no lar e em outros ambientes eram comuns.
Na lista dos nove sintomas, a desatenção e a hiperatividade não estavam incluídas.
138
Na decisão sobre a presença ou ausência da patologia moral eram analisados: 1 – o grau excepcional e excessivo
do defeito moral; 2 – a ausência de correspondência entre o ambiente da criança e seu comportamento, (por exemplo,
uma criança rica que tinha o costume de roubar coisas); 3 – a presença de comportamentos nocivos sem motivos
justificáveis (a criança roubava, mas não fazia uso do objeto roubado ou devolvia para o dono logo depois do furto);
4 – a falha ou insuficiência da punição como ato corretivo; 5- a consideração da história familiar e do ambiente de
criação da criança. Quase todas as crianças tinham em suas famílias parentes epiléticos, alcoólatras, imorais, insanos,
suícidas, mentalmente fracos ou sexualmente problemáticos. Certas anomalias físicas, ou signos de estigma, como a
cabeça maior do que a média, eram também perceptíveis.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 114

eram um perigo para si e para a sociedade e deveriam ser tratadas com seriedade e urgência139.
Still analisava a infância perigosa. Nos seus relatos, brincadeiras e atitudes violentas, envolvendo
fogo, facas e garfos e casos de fúria violenta eram comuns. Um dos meninos de cinco anos e
quatro meses, extremamente cruel e violento, foi institucionalizado em um orfanato. Um dos
garotos tentou se matar. Outro menino analisado quase foi mandado para o asilo devido aos seus
“atos perigosos”. Os relatos sobre movimentos violentos como bater a cabeça com força contra a
mesa e contra a parede eram também constantes.
Uma análise dos volumes do The Lancet da época, nos oferece uma idéia sobre o debate
inglês em torno da infância perigosa e do defeito moral. O tema era recorrente. No volume de 26
de outubro de 1895, uma matéria intitulada Crianças Criminosas relatava o caso de um bebê de
quatro meses morto pela irmã de três anos de idade, aparentemente, “por inveja”. O comentário
do escritor recorda a análise de Still em dois aspectos: a polaridade entre as causas biológicas e
ambientais e a ênfase no perigo que tais crianças representavam140. Como Still, o autor dizia que
pouco se sabia sobre o desenvolvimento moral da criança. O caso exigia o estudo do
desenvolvimento das paixões, do autocontrole e da interferência do ambiente e da saúde física no
controle moral.
No processo de naturalização da moral, alguns médicos vinculavam o problema prático e
social do indivíduo moralmente defeituoso ao quadro patológico do indivíduo mentalmente fraco
(feeble-minded) e do imbecil moral. Estes termos descreviam deficiências mentais menos graves
que a imbecilidade e eram normalmente associados à criminalidade. SMITH (1991) demonstra
que, em suas origens, a categoria da imbecilidade moral não foi nem “legal” nem “médica”. Ela
derivou do trabalho de observação e registro dos oficiais médicos das prisões inglesas,
interessados no estudo dos criminosos sobre os quais a punição era ineficiente. Em 1904, o termo
já era amplamente usado. No Relatório da Comissão Royal sobre o Cuidado e o Controle do
mentalmente fraco do mesmo ano, tais categoria eram assim definidas: as pessoas de mente fraca
eram capazes de manter suas vidas sob circunstancias favoráveis, mas eram incapazes, devido a
um defeito mental existente desde o nascimento ou cedo na vida, de competir em igualdade com

139
“O perigo que estas crianças constituem para si e para a sociedade exige maior consideração e reconhecimento do
quadro (…) existe uma possibilidade, ou quase uma certeza, de que se as crianças com uma desordem profunda e
permanente do controle moral da vontade não forem protegidas de si mesmas, mais cedo ou mais tarde, trarão
desgraça pública para si e para suas famílias e serão possivelmente punidas como se fossem criminosas, apesar das
evidências de que seus atos resultam de um estado mental como no caso da insanidade” (STILL, 1902, p. 1167).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 115

seus pares e de gerenciar suas vidas com prudência; os imbecis morais eram pessoas que desde
uma tenra idade manifestavam um defeito mental vinculado à propensão ao vício e ao crime141.
Neles, a punição tinha pouco ou quase nenhum efeito.
POTTS (1904) explicava as origens do problema em uma outra publicação do The
Lancet. Nestas patologias, as causas principais da fraqueza mental eram a nutrição deficiente nos
primeiros anos de vida e a tendência hereditária às atitudes criminosas, ao alcoolismo e à
insanidade. Os indivíduos acometidos eram de responsabilidade atenuada, sem senso de honra e
vergonha, preguiçosos e egoístas. O autor chamava a atenção para os casos femininos. As insanas
morais eram garotas de forte inteligência, mas sem senso de honra e modéstia. Elas eram
mulheres jovens, patologicamente não suscetíveis à educação moral e religiosa142. Se as causas
eram biológicas ou não, o tratamento deveria ser a institucionalização em casas de trabalho, o
ensino das regras de higiene, a ingestão de comida natural e não estimulante, ar fresco, banhos e
exercícios.
Nos discursos da imbecilidade e da imoralidade infantil, iniciado ao menos 24 anos antes
da descrição de Still, RAFALOVICH (2002) situa as origens da problemática que estaria nas
bases da história da criança TDAH: a tentativa de biologização e patologização da moral. Para o
autor, era este o pano de fundo que sustentava a opinião de Still. Mas a história da patologização
da infância amoral/imoral é ainda mais antiga. CHRISTOPHER (1990) demonstra como a
preocupação com a vida moral e educacional da criança é um assunto médico desde a primeira
metade do século XIX. Em 1835 Prichard chamava de insanidade moral as desordens do controle
moral que não manifestavam um déficit cognitivo. Já naquela época, o diagnóstico tornou-se
amplamente utilizado no universo infantil. Mais tarde, o termo foi substituído por imbecil moral e
estimulou a admissão de inúmeras crianças e adolescentes “amorais e imorais” em hospitais
psiquiátricos.

140
Baseado na análise dos fatos, é impossível dizer até onde a ausência de autocontrole resulta das condições mentais
defeituosas, até onde ela deriva das falhas da educação e do treino ou de outras circunstâncias ambientais”, (Infant
Criminals, 1895, p. 1056).
141
Embora as categorias do imbecil moral e do mentalmente fraco se diferenciassem, nem sempre a separação entre
elas era clara. Por vezes, o mentalmente fraco era fraco apenas moralmente e, neste sentido, se aproximava da
descrição do imbecil moral.
142
“Eu não preciso lembrar a vocês que em meninas, cujas qualidades morais e intelectuais são defeituosas, as
paixões mais baixas são quase sempre fortes e incontroláveis (…) eu classifico de moralmente insanas as garotas de
inteligência forte que não possuem senso de honra e modéstia, não são suscetíveis ao ensinamento moral e religioso
e, desta forma, diferem-se enormemente da maioria das meninas; nada pode impedí-las de mentir ou de roubar”
(POTTS, 1904, p. 1211). Diferentemente do que Barkley afirmou, talvez a predominância de meninos na análise de
Still não fosse tão reveladora do gênero do defeito moral da época.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 116

A fala de Still vinculava-se a diversos discursos e práticas que marcaram a ciência e a


sociedade de seu tempo: o desenvolvimento de uma preocupação científica, médica, econômica e
social com a infância; o fortalecimento institucional e profissional da psicologia e da pedagogia
do desenvolvimento fundamentadas nas teorias fisiológicas143; a busca pela sede biológica, na
maior parte das vezes neurológica, da moral; a defesa moral do controle dos instintos e dos
impulsos imediatos pelas instâncias mais nobres da consciência, da razão e da vontade; a
afirmação do discurso preventivo contra as patologias da moral. Essas são as vozes presentes nas
conferências de Still. A condição mórbida que ele descrevia foi criada pelas demandas dos
saberes legais e pela necessidade política e moral de encontrar soluções para o alcoolismo, a
prostituição e a delinqüência. De certa forma, este debate iniciou-se no universo adulto e somente
depois migrou para o reino infantil. Nesta transcrição, situamos as análises de Still. A medicina
havia tomado para si a função de definir o status patológico do comportamento desviante e isso
incluía também a criança.
A existência de uma função reguladora e inibitória natural era uma necessidade social.
Como Still dizia, “tais comportamentos deveriam ser mórbidos”. Como descrito no primeiro

143
Os primeiros tratados direcionados especificamente para a educação infantil foram publicados no século XVII.
Dois dos mais importantes foram os de Johann Amos Comenius, School of Infancy, escrito em 1633, e Some
Thoughts Concerning Education, de John Locke, publicado em 1693. Em linhas gerais, a lição ensinada por estes
tratados era que a criança deveria ser educada de acordo com as virtudes morais da razão e seu predomínio sobre o
desejo. A noção de que a educação deveria ser, antes de tudo, baseada no estudo e observação da natureza infantil foi
introduzida por Rousseau. Enquanto para Locke a educação da criança deveria obedecer às leis morais da razão,
Rousseau buscava proteger a infância da corrupção social, moldando o ambiente de acordo com as necessidades da
natureza da criança. Nas mãos do naturalismo romântico, os valores morais e utilitários da natureza ocupavam o
primeiro lugar no pódio educacional. Embora esse discurso não se apagara, no início do século XIX, ele foi
deslocado pelo neo-humanismo e pelo naturalismo racional. A cultura mais do que a natureza era vista como o
fundamento educacional. No final do século XIX, os valores políticos e sociais do nacionalismo e patriotismo
passaram a dominar o discurso educacional. O estudo da natureza viria em seu auxílio como ferramenta importante
no controle do natural e não mais na facilitação de suas tendências. Na virada do século XIX para o século XX, a
psicologia do desenvolvimento e a pedagogia experimental já haviam atingido o status de empreendimento
científico. Ambas utilizavam-se das concepções evolucionistas de desenvolvimento e tinham como proposta a
investigação experimental. Num texto de 1893 de John Fiske, The Meaning of Infancy, “os clamores de um
evolucionista” exaltavam a infância mais longa e mais indefesa de todo o reino animal como o símbolo da mais alta
plasticidade e flexibilidade alcançada na cadeia evolutiva. Nela, o progresso não teria limites. Possuidora do
potencial de aprendizagem mais vasto dentre todas as formas vivas, a infância humana representava o período no
qual o corpo poderia ser dominado e suas forças direcionadas pelas capacidades mais altas da mente. A psicologia do
desenvolvimento e a pedagogia experimental acreditavam que a investigação científica e natural de como este
processo se dava deveria estar na base da estruturação dos métodos e conteúdos educativos. Mas, na análise de
FUCHS (2004), os saberes da psicologia do desenvolvimento da pedagogia experimental não impulsionaram
nenhuma reforma educacional ampla. Os dados produzidos por essas ciências quase nunca foram convertidos em
propostas práticas. O exemplo dado é o alemão. A teoria educacional de Johan Friedrich Herbart liderava a cena
pedagógica da Alemanha, no final do século XIX, e nela moral e corpo eram estâncias separadas. A escola deveria
ser um empreendimento puramente moral. Este exemplo apenas nos prova que, historicamente, mesmo com todo
esforço de biologização da moral, na prática educacional, institucional e terapêutica, as técnicas morais de controle
da natureza nunca foram realmente banidas. O treino moral da vontade e da atenção era o mais enfatizado.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 117

capítulo desta tese, a neurofisiologia da vontade inglesa foi um ataque metafísico à metafísica que
atendia a certas necessidades sociais, econômicas e científicas da época. O ponto de vista de Still
era, por certo, “neurológico” e ele pode ser incluído na vertente que tentou resolver o problema
metafísico, metodológico e social da vontade através do reducionismo fisiológico. Mas quando
falava das causas da patologia da moral, o médico inglês fazia uso de analogias teóricas e de
pressupostos metafísicos. A força de seu argumento não se apoiava em nenhuma descoberta
científica específica e a “neurologia” que ele descrevia não era tão precisa e meticulosa como sua
releitura pelos historiadores internos do TDAH afirmam.
A solução “neurológica” não era a única disponível. No Inglaterra do final do século XIX,
todos os componentes para uma avaliação mais compreensiva sobre as crianças moralmente
deficientes estavam presentes, ainda que dispersos: a necessidade de uma discussão mais positiva
e preventiva para a delinqüência juvenil tinha sido reconhecida; o estabelecimento da educação
compulsória universal aumentou o número de crianças que não conseguiam se enquadrar às
exigências escolares; a crença que os problemas de tais crianças demandavam um trabalho
multiprofissional se fortalecia; já existiam clínicas experimentais nas quais médicos e psicólogos
trabalhavam juntos; alguns psiquiatras começavam a reconhecer que crianças e adolescentes
tinham problemas diferentes dos adultos e necessitavam de serviços separados; o solo estava
formado para a irrupção de novas teorias do comportamento.
Mas no início do século XX, na prática, a situação não havia mudado muito. O ensino da
ordem e da regularidade continuavam sendo recomendados, além de exercícios físicos e outros
tratamentos sugeridos pelo credo higienista. A fraqueza moral infantil era tratada através da
disciplina e do distanciamento da vida agitada e desregrada. Contra ela, era pregado o treino do
autocontrole. Este quadro mudou por volta de 1920 com o fortalecimento da tendência de
psicologização do comportamento infantil. O problema moral não era mais resolvido pelo
aprendizado do autocontrole, mas através do tratamento psicológico e médico. Nos anos de 1930
e 40, o deslocamento da leitura moral da doença mental infantil para a leitura médica e
psiquiátrica baseou-se principalmente na análise das relações familiares patogênicas.
PORTER (2001) e BAKKER (2001) descrevem um processo de medicalização do
comportamento amoral infantil que em seu início foi biológico, aos poucos tornou-se psicológico
e assim permaneceu até a década de 70. Durante o “período psicodinâmico”, as explicações
biológicas e cerebrais para as patologias da moral, da ação e da atenção não foram abandonadas.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 118

Elas estavam lado a lado, competindo e dialogando com as teses psicodinâmicas144. Na primeira
metade do século XX, a distinção e separação entre as teorias psicodinâmicas e biológicas nem
sempre era possível. Este aspecto não é revelado pelo discurso oficial do TDAH. Ele conta a
história do predomínio do pensamento biológico e das oposições entre as causas orgânicas e reais
da patologia e suas imitações sociais e psicológicas. No entanto, este argumento é desafiado até
mesmo quando analisamos as categorias diagnósticas incluídas na histórica que o legitima. Por
volta da década de 20 e 30, várias explicações biológicas para a síndrome hipercinética surgiram
na literatura médica de diferentes países. Para NEFSKY (2004), as teorias de Kahn e Cohen sobre
a existência de uma Organic Drivenness foram as mais importantes. Elas também estão incluídas
na historiografia do TDAH. Mas para Kahn e Cohen, a existência de uma causa biológica para a
patologia não eliminava as bases psicológicas do transtorno. A dificuldade em controlar certos
impulsos resultava de uma mudança orgânica periférica à constituição do sujeito, contra a qual o
esforço individual voluntário era um mecanismo eficiente145. Fatores psicológicos e neurológicos
estavam envolvidos na patologia da hiperatividade e ambos eram alvo do tratamento.
Na história neurobiológica do TDAH, um outro capítulo importante é dedicado à origem
do tratamento com estimulante e, neste caso, Charles Bradley146 é o nome mais citado.
Diferentemente do que a versão oficial nos conta, mesmo na história farmacológica, a explicação
para o transtorno não era de todo biológica. Em sua pesquisa, Bradley afirmava que o
medicamento estimulava as partes do córtex responsáveis pelo processo de inibição do
comportamento e assim auxiliava no tratamento da hiperatividade. Sua pesquisa comprovava as
bases neurofisiológicas do transtorno. Mas ele oferecia uma explicação para o problema que era
também psicodinâmica. As crianças sem interesse pela escola, incapazes de controlar seus

144
No cenário russo, o conceito de inibição ocupava um papel central na teoria de Ivan Pavlov (1849-1936). Ele
também estava comprometido com a fundação da psicologia no conhecimento do cérebro e descrevia a inibição
através da visão hierárquica e evolucionária do poder cerebral. De acordo com Pavlov, eram as relações entre a
excitação e a inibição cerebral e o equilíbrio entre elas que determinava o comportamento normal e patológico. Seu
conceito de inibição tornou-se dominante na ciência soviética de 1920 a 1960 e esteve na base da construção de uma
psiquiatria fisicalista dogmática durante e após a Guerra.
145 “(…) neles (os indivíduos afetados) uma luta também pode ser observada: a luta do organismo contra um corpo
extrangeiro, a luta da personalidade contra alguma coisa que ela não pode parar ou impedir, alguma coisa que está
além do controle do indivíduo devido a sua própria natureza. Pessoas simples e estúpidas podem sucumbir (…) mas
muitos, especialmente os mais inteligentes e sensíveis, indignam-se e lutam” (NEFSKY, 2004, p. 72).
146
A primeira pesquisa sobre o efeito de drogas estimulantes em crianças foi realizada por Charles Bradley, em
1937. Seu estudo sobre O Comportamento de Crianças Recebendo Benzedrina é quase sempre o ponto de partida
da história da farmacologia do TDAH.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 119

comportamentos impulsivos e suas emoções estavam quase sempre envolvidas em situações de


conflito pessoal147.
Devido a força da interpretação psicanalítica, o campo psiquiátrico era caracterizado pela
mistura entre as explicações biológicas e psicológicas. De certa forma, na conceituação da
hiperatividade e na psiquiatria infantil, as perspectivas psicodinâmicas dominavam o cenário. A
história oficial do TDAH privilegia as interpretações biológicas dos defeitos da atenção e da
hiperatividade e lhe emprestam um teor determinista nem sempre real. Ao mesmo tempo, os
motivos políticos, morais e econômicos que sustentam a defesa biológica são silenciados. O
exemplo seguinte é a categoria diagnóstica da Encefalite Letárgica ou Encefalite Epidêmica. Para
RAFALOVICH (2002) e NEFSKY (2004), na primeira metade do século XX, com este
diagnóstico a explicação biológica para o defeito moral ganhou nova força. Também nela as teses
da inibição cerebral estavam presentes.

5.2. A ENCEFALITE LETÁRGICA NA HISTÓRIA DO TDAH


A epidemia da encefalite foi uma infecção misteriosa, até hoje não desvendada, que
surgiu nos últimos anos da Primeira Guerra Mundial e desapareceu por volta de 1940 ao ser
classificada como uma síndrome amorfa de interesse marginal148. Ela foi nomeada pelo
neuroanatomista austríaco Constantin von Economo em 1917149, mas outros cientistas em outros
países também se ocuparam de sua investigação. Embora a Encefalite seja citada como uma das
mais importantes classificações precursoras do TDAH, as possíveis similaridades entre as duas
patologias nem sempre são comentadas. Elas são primeiramente semelhantes por incluírem em
suas descrições uma “pletora de sintomas” extremamente diversos. As duas desordens tornaram-
se pontos de pauta nas agendas da saúde pública; foram alvo de um enorme investimento
financeiro; em suas histórias encontramos brigas políticas entre laboratórios rivais; ambas foram

147 Comentando sobre o trabalho de Bradley, Nefsky afirma que “Seu estudo do efeito do tratamento
medicamentoso em crianças hiperativas associa Bradley naturalmente ao pensamento biomédico, mas sua teoria
etiológica não postulava um mecanismo neurológico consistente nas bases da hiperatividade. Na verdade, por fim,
ele usava conceitos psicodinâmicos como a noção de conflito pessoal” (NEFSKY, 2004, p.19).
148
Kroker, K. 2004, p. 108.
149
Von Economo, no mesmo estilo dos grandes neurologistas e morfologistas vitorianos, era um proeminente
anatomista ocupado com a pesquisa anatomopatológica cerebral. Seu objetivo era construir um mapa cerebral das
funções subcorticais e de suas desordens. Para Oliver Sacks (1990), as correlações que Von Economo estabeleceu
entre as desordens emocionais e impulsivas da Encefalite e os danos da estrutura hipotalâmica e diencefálica
pertencem à história da cerebrização do comportamento aberrante e de sua relação com as teorias da inibição. Neste
sentido, a Encefalite pode ser vista como uma patologia importante na genealogia do sujeito cerebral, da qual o
TDAH também faz parte.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 120

pensadas como um modelo de investigação para a ciência neurológica; elas impulsionaram uma
enorme produção científica e acadêmica sobre o corpo e o cérebro; em ambas as tecnologias de
visualização exerceram um poderoso efeito em sua legitimação; em parte, ambas se apoiaram na
pesquisa cerebral dos sistemas inibitórios, fortalecendo a interpretação neurofisiológica da
patologia mental150.
A Encefalite passou a chamar a atenção dos neurologistas americanos por volta de 1918
quando, capturando a atenção da bacteriologia, da epidemiologia e da saúde pública americana,
ela ficou conhecida como a “patologia do momento” (KROKER, 2004). Para a neurologia nova-
iorquina, a Encefalite trazia uma esperança: a vinculação do saber neurológico ao campo da
saúde pública e à pesquisa laboratorial, uma das ciências mais valorizadas na época. Através de
seu estudo, a neurologia e a psiquiatria abandonariam a prática diagnóstica incerta e vaga e sua
importância no cenário científico nacional e internacional seria finalmente reconhecida. Na época
da epidemia da Encefalite, a prática diagnóstica neurológica e psiquiátrica estava em
desvantagem. Ela era vaga e imprecisa para os parâmetros científicos da época. Com raras
exceções, a neurologia mantinha-se afastada da prática laboratorial e vivia um período de inércia
comparado às inovações dos outros campos biomédicos. Ao lado da bacteriologia, a odontologia
tinha mais a dizer sobre as doenças nervosas que a própria neurologia. Há tempos a neurologia
havia sido reconhecida como uma especialidade médica, mas na prática, ela ainda era uma
ciência menor. A autoridade neurológica precisava ser construída e a Encefalite parecia oferecer
o modelo de investigação a ser seguido.
Mas as expectativas iniciais em torno da Encefalite não foram realizadas. Após anos de
disputas políticas, de controvertidas investigações clínicas e epidemiológicas, o quadro mórbido

150
No debate científico da primeira metade do século XX, nas ciências da vida, as tecnologias visuais eram vistas
como a chave para o progresso científico. No caso da Encefalite, as tecnologias de visualização eram vinculadas ao
estudo da infectologia e da bacteriologia que pesquisava a causa da doença ou seu agente ainda invisível. Ser
invisível às tecnologias da época era um entrave à revelação da verdade da Encefalite. A pesquisa neurológica da
Encefalite também fez uso das tecnologias cinematográficas. Um exemplo foi o trabalho do neurologista americano
Frederick Tilney de 1918. A Encefalite reunia sintomas característicos das patologias orgânicas e das psicogênicas.
Era preciso distinguir o quadro orgânico de sua imitação psíquica. Através da utilização das tecnologias
cinematográficas, Tilney esperava identificar os movimentos mais sutis, manifestados apenas pelos indivíduos
organicamente afetados. CARTWRIGHT (1995) demonstra que, naquela época, as tecnologias cinematográficas
foram também utilizadas pela neurobiologia nazista na identificação do corpo e do movimento degenerado. Na
história recente do TDAH, são as tecnologias de imagem cerebral que prometem a visualização objetiva da causa da
patologia que, no entanto, também permanece invisível. O fato de ser considerada uma epidemia de importância
pública fazia da Encefalite uma patologia ainda mais útil e atraente para os neurologistas. O elo entre neurologia,
bacteriologia e saúde pública poderia ser traçado. Hoje em dia, também já ouvimos falar de uma “epidemia do
TDAH” e o diagnóstico tem sido oficialmente descrito como uma questão de saúde pública.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 121

que ela descrevia havia mudado tanto que alguns médicos diziam que uma outra patologia era
investigada sob o mesmo nome. A relação com as pesquisas de base laboratorial tornou-se
controversa. O interesse político e financeiro pela doença desapareceu. Ela não era mais uma
promessa científica e uma possibilidade de afirmação da disciplina neurológica. As esperanças
iniciais vinculadas às possibilidades de tratamento também fracassaram. Grande parte das vítimas
da encefalite ainda eram tratadas em instituições para epiléticos, mentalmente fracos e doentes de
Parkinson. A vacina usada, além de ineficiente, não era facilmente disponibilizada pelos
laboratórios. A Encefalite não era mais uma entidade patológica confiável. Ela passou a ser
descrita como uma síndrome de origem indeterminada, vinculada obscuramente à fisiologia
patológica cerebral.
As épocas de indefinições, incertezas e obscuridades, por suas fragilidades e seus
mistérios, trazem consigo uma riqueza singular. Elas impõem desafios e urgências que clamam
por respostas e estas são quase sempre diversas e plurais. A epidemia da Encefalite era vista
como uma doença misteriosa, estranha, fantasmagórica que desafiava o conhecimento
neurofisiológico clássico. As pessoas atingidas manifestavam crises extraordinárias e
instantâneas na qual estados catatônicos, tiques, sintomas característicos da doença de Parkinson,
alucinações, obsessões e mais 30 ou 40 outros sintomas eram vivenciados. Terminada a crise, os
sintomas simplesmente desapareciam. A neurofisiologia clássica, baseada no estudo dos centros e
funções cerebrais e nas gradações entre eles, não possuía respostas para o problema. A Encefalite
criou também um outro dilema para a neurologia da época: sem a análise da identidade do
paciente era impossível compreender sintomas tão diversos, já que cada indivíduo manifestava
um tipo diferente de Encefalite.
Oliver SACKS (1990) argumenta brilhantemente que a epidemia da Encefalite não
possibilitou apenas o fortalecimento político e institucional de uma neurologia biológica
reducionista. Ao lidar com a patologia, muito médicos passaram a acreditar que, na prática
clínica, o organismo como um todo – físico e psíquico – deveria ser considerado em sua unidade
integradora. A Encefalite também era interpretada como a perda da integração do organismo. O
processo terapêutico envolvia a criação de reintegrações singulares e individuais. Além disso,
para alguns médicos, nem todo sintoma da Encefalite era negativo. Em muitos casos, eles eram
libertadores e restauradores, em outros casos eles eram apenas “manifestações comportamentais”
não necessariamente patológicas.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 122

Por um lado, a leitura de Sacks sobre a Encefalite é otimista. Ele descreve como o
interesse público e científico pela desordem propiciou um desenvolvimento extraordinário do
conhecimento da fisiologia humana, de suas disfunções, de seu potencial regenerador, sua
flexibilidade e sua integração com a esfera psíquica. O corpo era descrito como um todo físico,
químico, biológico, psicológico e sociológico151. A Encefalite não foi apenas uma patologia
neurobiológica e cerebral, um parente longínquo do TDAH. Mas esta dimensão de sua histórica
também não é contada pelos historiadores do TDAH.

5.3. CONCLUSÃO
A história do TDAH antes do TDAH, recontada neste capítulo, diz que o diagnóstico do
Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e a condição existencial que ele descreve são
marcados por diferentes temporalidades. Entre suas temporalidades, há continuidades e
descontinuidades. O TDAH foi constituído na economia biomédica da atenção, característica das
últimas décadas do século XX. Ao mesmo tempo, ele pertence a uma duração que extrapola a
criação de seu conceito diagnóstico e o vincula à história do sujeito cerebral. Sendo parte de um
processo mais geral de somatização e cerebrização da identidade, ele pertence à história da
constituição das biologias morais da vontade e da atenção.
Dizer que a história do TDAH nos leva ao contexto moral e médico do século XVIII e
XIX não é o mesmo que defender sua imutabilidade biológica ou que há séculos convivemos com
a mesma patologia neurofisiológica da atenção e da hiperatividade. A defesa da causa cerebral e
neurológica da patologia mental também possui uma história. Seus argumentos, seus métodos e
suas tecnologias mudaram e se transformaram, fizeram parte de diferentes regimes científicos e
discursos morais. Mas em todos eles, as descrições biológicas das patologias da atenção e da
vontade permitiram que os valores morais dominantes em cada época fossem naturalizados e
inscritos no corpo.
O diagnóstico do TDAH não é um engodo e a condição patológica que ele descreve não é
inexistente. Fazemos nossas as palavras de Allan YOUNG (1995) em sua análise sobre a

151
“O grande número de pacientes afetados, talvez um milhão entre 1917 e 1927; a extraordinária variedade das
desordens manifestadas, tanto físicas quanto psíquicas; a incrível quantidade e qualidade da atenção dada ao
indivíduo afetado, se puramente “científica” e impessoal, como a de von Economo, ou mais humana e pessoal, como
a de McKenyie e Jelliffe, causou um avanço súbito e fantástico em nosso conhecimento e entendimento fazendo da
década da epidemia, simultaneamente, a mais sombria e a mais brilhante época documentada da história médica”
(SACKS, 1990, p. 421), e, citando um pesquisador da época “(…) uma extraordinária luz foi lançada no trabalho
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 123

Desordem do Stress Pós-traumático: não é a dúvida sobre a existência da patologia que nos
separa do ponto de vista psiquiátrico, mas nossas concepções divergentes sobre as origens de sua
realidade152. Para Young, a PTSD é um produto cultural criado no encontro de determinadas
tecnologias diagnósticas, racionalidades científicas e clínicas e concepções sobre a natureza
humana. Em sua temporalidade recente, o TDAH e a condição existencial que ele descreve foram
constituídos no espaço fronteiriço habitado pelas tecnologias de saber-poder que possibilitaram a
emergência do indivíduo empreendedor, gestor de si e persistente em sua vontade; do eu
neuroquímico e cerebral; do indivíduo visto como um risco para si e para a sociedade e do eu no
qual o “desejo de risco” é uma ameaça para as sociedades de segurança. Ele não somente nasceu
deste solo, mas participou e participa ativamente de sua constituição.
O transtorno do TDAH se inclui na fascinante categoria das patologias indefinidas,
controversas, polêmicas e misteriosas. O passado deste transtorno, contado pelo discurso médico,
constitui-se de um amontoado de outras síndromes amorfas que desafiaram e também
fortaleceram o discurso neurológico. Eles também possibilitaram a patologização do indivíduo
não adaptado. Mas como Robert ARONOWITZ (1998) enfatiza, uma patologia só pode ser
compreendida através da análise conjunta de sua biologia, das aspirações disciplinares em torno
de sua pesquisa, das organizações burocráticas que as financiam e as sustentam, de suas
terapêuticas, das mudanças em suas práticas investigativas e da forma como o indivíduo e a
sociedade a experienciam. No caso da Encefalite Letárgica, para surpresa de muitos críticos, a
consideração desses fatores não revelou apenas o fortalecimento da interpretação neurobiológica
reducionista.
Neste capítulo, mostramos como a história oficial do TDAH é um instrumento potente de
legitimação do discurso neurobiológico. Ela nos é útil por oferecer dados sobre o processo de
cerebrização da identidade. No entanto, ela unifica este processo, emprestando às teorias que lhe
apoiavam uma face biológica reducionista nem sempre fiel aos postulados defendidos. Além
disso, como uma tecnologia de legitimação do discurso científico purista, ela omite as faces
morais e políticas de seu discurso. Ela também suprime as outras vozes que participaram da
história da compreensão e do tratamento das patologias da atenção. Na história oficial do TDAH
elas são inexistentes ou insuficientes. Seguindo o exemplo de Oliver Sacks, seria preciso analisar

médico (…) na compreensão do corpo como um todo físico, químico, biológico, psicológico e sociológico (…)”
(JELLIFFE apud SACKS, 1990, p. 421-422).
152
YOUNG, 1995, p. 6.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 124

a face otimista e positiva da história das patologias da atenção e da hiperatividade. Esta seria a
história das margens do TDAH e, talvez, a história das margens da atenção. Ao se diferenciar da
análise biológica reducionista, talvez, ela oferecesse grades interpretativas e intervencionistas
mais éticas e plurais para a compreensão das patologias da atenção e da ação. No capítulo
seguinte, a interpretação neurobiológica dominante do TDAH é analisada em detalhes. Ela
também insere o TDAH nas temporalidades analisadas ao descrevê-lo através do discurso atual
da biologização da vontade.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 125

6. AS “CEREBRIDADES EXECUTIVAS” E O TDAH

Em todas as suas faces as práticas diagnósticas e terapêuticas são tecnologias de


subjetivação especialmente poderosas. Elas participam da constituição das condições existenciais
que elas nomeiam, identificam, classificam e tratam. Elas também propagam e afirmam
determinados modelos de saúde e normalidade. Ian HACKING (1986) identifica pelo menos duas
formas de subjetivação realizadas pelas descrições diagnósticas: 1) a nomeação de cima para
baixo, ou seja, quando os especialistas criam uma classificação e incluem nelas as pessoas
adequadas; 2) a pressão é exercida de baixo para cima e, neste caso, determinado comportamento
emerge, é considerado um problema que demanda a interferência do especialista e, por assim ser,
é incluído nos manuais classificatórios. Quase sempre essas formas de subjetivação são
inseparáveis e as classificações patológicas emergem junto com as existências que as
possibilitam153. Este é o caso do diagnóstico do TDAH.
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e a condição existencial que ele
descreve foram constituídos nas malhas das economias atuais da atenção. Eles compartilham
traços com outras patologias constituídas pelo olhar psiquiátrico molecular, mas possuem suas
especificidades. Um dos aspectos mais interessantes do TDAH é que ele incorpora, de ponta a
ponta, a racionalidade biomédica somática e liberal atual. O ideal do auto-gestor executivo é seu
norte e sua direção. A ele, o TDAH acrescenta o modelo das identidades neuroquímicas e
cerebrais. Juntos, estes modelos oferecem o projeto de possíveis ou a janela interpretativa através
da qual médicos, pais, professores e indivíduos implicados na sociabilidade TDAH vêem o
mundo e nele atuam. Eles modelam o sentimento subjetivo de milhares de crianças e interferem
no modo através do qual elas são compreendidas, educadas e julgadas154.
Neste capítulo, analisamos o diagnóstico do TDAH como uma tecnologia subjetiva que
participa da criação do modelo de identidade das “Cerebridades Executivas”, unindo a biologia e
a moral da atenção e do autocontrole no cenário atual. Discutimos principalmente a teoria de
Hussell Barkley. A pesquisa de Barkley sobre o TDAH tem praticamente o mesmo tempo de

153
Hacking chama seu ponto de vista de nominalismo dinâmico em contraposição ao nominalismo puro. De acordo
com o autor, uma realidade subjetiva pode emergir na mesma época em que é enquadrada em uma tipologia, mas não
é somente essa nomeação que possibilita sua produção. Outros fatores estão presentes. No entanto, a tipologia é uma
tecnologia subjetiva. A classificação diagnóstica e seus métodos de identificação e tratamento não criam sozinhas a
condição mórbida, mas participam ativamente de sua constituição e modificação.
154
Para uma análise geral sobre os efeitos da “biosocialização” baseada no argumento do defeito cerebral e
neurofisiológico na construção da auto-imagem da criança TDAH, consultar Matussek PETER (2001).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 126

existência do diagnóstico nos manuais psiquiátricos. Desde a década de 70, época na qual o olhar
psiquiátrico molecular começou a se estruturar, Russell Barkley é um nome importante na
pesquisa do transtorno. Na década de 90, sua teoria contribuiu para a re-interpretação mais atual
do transtorno, vinculando definitivamente à história das (im)potências da vontade. Para a
autoridade mais conhecida no debate internacional sobre o TDAH, o transtorno era definido por
um déficit ou um atraso no desenvolvimento da capacidade de inibição do comportamento. Uma
nova nomenclatura foi sugerida. O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade deveria ser
chamado de “Desordem da inibição do comportamento”.
Esta re-interpretação do transtorno ocorreu na mesma época em que o diagnóstico passou
a ser considerado na vida adulta. A nova descrição do transtorno ajudou a expandi-lo para além
do universo infantil155. Ainda que o adulto não fosse hiperativo e desatento, o transtorno poderia
estar presente. Mesmo que o quadro sintomatológico mudasse consideravelmente da infância
para a vida adulta, tratava-se ainda do TDAH. Barkley fundamenta sua explicação na literatura da
psicopatologia infantil; nos estudos da psicologia do desenvolvimento; nas teorias biológicas
sobre a evolução humana e animal e na pesquisa sobre o papel da linguagem no processo de
autocontrole do comportamento. Vinculando estes referenciais teóricos ao conceito
neuropsicológico das funções executivas, o autor formulou sua “Teoria Unificada sobre o
TDAH”. Ele acreditava que pela primeira vez, na história do transtorno, era elaborada uma teoria
única para os diferentes déficits cognitivos e comportamentais que definiam o TDAH.
Na constituição do autocontrole, o primeiro ato executivo e regulador é o ato inibitório. A
teoria inibitória do TDAH pertence às teses que, desde o século XIX, descrevem a vida como um
fenômeno reativo de adaptação do corpo às exigências externas. A inibição do comportamento
possibilita a adaptação do corpo e da mente ao mundo das regras e das normas sociais. Ela
permite, suporta e protege as funções executivas cerebrais responsáveis pela regulação do
comportamento de acordo com o controle da temporalidade externa. Seu defeito fragmenta o
indivíduo, separa sua ação de seu pensamento, seu conhecimento de sua performance, as esferas
do passado e do futuro do momento presente, a dimensão temporal da espacial156. Por isso, o
indivíduo TDAH é menos governado pelo ambiente externo e não se adequa às suas exigências.

155
Em sua análise sobre a história do TDAH adulto, Doyle comenta “Palelo a e por causa deste deslocamento há um
reconhecimento crescente de que o TDAH persiste na vida adulta” (DOYLE, 2004, p. 212).
156
“A totalidade dos déficits associados ao TDAH separam o pensamento da ação, o conhecimento da performance, o
passado e o futuro do momento presente e as dimensões do tempo do resto do mundo tri-dimensional (…)” O TDAH
é uma desorden da performance “ (…) uma incapacidade no “quando” e no “onde” mais do que no “como” e no “o
que” do comportamento” (BARKLEY, 1997a, p. 314).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 127

Na década de 90, o defeito da inibição não era apenas um sintoma do TDAH, ele era sua
causa. Na mesma época, comportamentos desinibidos ainda não vinculados a uma patologia
específica eram interpretados como um risco potencial ao desenvolvimento de outras
psicopatologias. Ao deslocar a ênfase no déficit da atenção para o problema da inibição, a
interpretação do TDAH fortalecia o argumento que, na base da psicopatologia, encontramos um
defeito inibitório cerebral responsável pelo desenvolvimento do autocontrole. Na prática, a
criança ainda nova para receber um diagnóstico psiquiátrico que manifestasse signos do defeito
inibitório tornava-se alvo da observação médica orientada pelo controle do risco. A re-
interpretação do TDAH como um defeito inibitório alimentou o sonho de especificação e
precisão da patologia mental. Ela trouxe consigo a promessa da identificação dos sinais do
transtorno ou do risco do seu desenvolvimento antes de sua manifestação. Se o TDAH já era
descrito como uma “proto-patologia”, a busca dos “protos” que antecedem outros “protos” se
intensificava.

6.1. AS DESATENÇÕES DO TDAH


Os estudos atuais da atenção distinguem dois processos a ela relacionados: na organização
da percepção, a seleção dos estímulos; na regulação do comportamento, o controle da resposta
que segue a percepção. Ao menos quatro formas de atividade da atenção implicadas na regulação
destes processos são identificadas: a concentração, a seleção, a persistência (ou manutenção) e o
controle. A maior parte das pesquisas da atenção revelam que estas formas de atividade são
inseparáveis. Não é possível distinguir processos psicológicos e neurológicos específicos por trás
de suas manifestações. Mas no estudo das disfunções da atenção, elas são separadas. Quando há
em defeito na capacidade de prestar atenção de forma intensa, estamos diante da fraqueza da
concentração. Quando se trata da dificuldade em selecionar um aspecto entre muitas
possibilidades, estamos diante da distração. Por outro lado, a deficiência na habilidade de
sustentar a atenção por um tempo prolongado afeta a capacidade de finalizar tarefas e de persistir
em determinado plano. O indivíduo só é capaz de se envolver com atividades de curta duração e
de menor complexidade.
No decorrer da segunda metade do século XX, as pesquisas neurológicas, cognitivas e
psicológicas da atenção tornaram-se cada vez mais complexas. Os estudos psicopatológicos
começaram a adotar a distinção entre os processos atentivos modulares e executivos. Os
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 128

primeiros vinculavam-se aos níveis mais simples do processamento de informação e às operações


cognitivas localizadas em uma área cerebral específica. Os segundos estavam relacionados às
funções executivas mais complexas, distribuídas em áreas mais amplas do córtex cerebral. Os
processos atentivos executivos estavam envolvidos no controle da ação de alta complexidade,
eram localizados nas áreas cerebrais mais nobres e possuíam uma conexão íntima com os centros
emotivos. Apesar da separação entre os processos modulares e executivos, a pesquisa
neurofisiológica da atenção dizia que ambos eram cerebrais e altamente complexos. Ambos
estavam relacionados à decisão sobre o que era relevante ou não para o sujeito. Na pesquisa
psicopatológica, a distinção entre as funções da atenção, o processo de tomada de decisão e o
papel das funções executivas tornava-se confusa. Na interpretação de Barkley, a desatenção é
uma manifestação secundária, derivada das disfunções inibitórias e dos distúrbios das funções
executivas, mas mesmo para o autor esta separação é obscura.
Barkley faz uma distinção entre os tipos de transtorno da atenção que demonstra
claramente a filiação do TDAH à genealogia das impotências da vontade. Na descrição do
diagnóstico pelo DSM IV, os tipos de TDAH predominantemente desatento e combinado diferem
basicamente pela presença ou não do comportamento hiperativo. Na opinião de Barkley, esta é
uma distinção equivocada. Trata-se, na verdade, de diferentes formas de déficit de atenção ou de
diferentes tipos de atenção afetados. O déficit atentivo do TDAH predominantemente desatento
deriva de uma falha no processamento de informação. A dificuldade é de seleção e focalização da
atenção. No déficit atentivo do TDAH combinado, o problema está relacionado com a atenção
sustentada e persistente e sua relação com o controle do comportamento. O problema do TDAH
hiperativo e desatento não está na aquisição da informação, mas em sua aplicação na execução do
comportamento de longo prazo. Ele possui uma deficiência de performance e não de cognição.
Na análise dos potenciais de risco do transtorno, os déficits atentivos também se diferem.
Enquanto o TDAH combinado é um fator de risco elevado, vinculado à manifestação de
comportamentos agressivos, criminosos e aditivos, o TDAH desatento não é um perigo para a
sociedade e não mantém relações aparentes com comportamentos agressivos e violentos. Apenas
quando a produtividade acadêmica e profissional é o parâmetro usado, as distinções entre os
riscos dos tipos de TDAH são atenuadas: os dois problemas da atenção afetam a vida profissional
negativamente. A teoria de Barkley explica apenas o transtorno do TDAH combinado. O autor
chega a sugerir, embora não desenvolva seu argumento, que o TDAH predominantemente
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 129

desatento é um transtorno qualitativamente diferente daquele no qual o problema central é a


inibição cerebral.
No TDAH analisado por Barkley, trata-se, portanto, do déficit da atenção sustentada. O
autor distingue duas formas de atenção sustentada e, a seu ver, ele é o primeiro pesquisador a
propor esta separação na discussão do transtorno. Há uma forma de manutenção e persistência da
atenção controlada por fatores contextuais que influenciam a ação no momento em que ela está
sendo efetivada. Para Barkley, provavelmente o envolvimento do córtex pré-frontal não é
necessário na manutenção deste tipo de atenção. Ela é uma “atenção menor”. A outra forma de
persistência e manutenção da atenção é cerebral, auto-regulada e controlada pelos objetivos
futuros. Ao ser uma propriedade ou efeito das funções executivas, ela depende do funcionamento
do córtex pré-frontal e de suas redes neurais. Para que ela seja mantida, a presença de uma
recompensa imediata não é requerida. A motivação que direciona este tipo de atenção é interna
(ou cerebral). Nesse modelo, desatenção não é necessariamente sinônimo de distração, mas de
ausência da persistência atentiva direcionada por objetivos e planos futuros.
Barkley afirma que um dos méritos de sua teoria foi ter redefinido o TDAH como uma
disfunção do sistema inibitório, descartando a tese de que em sua origem estava um déficit da
atenção. Esta afirmação tem sido repetida por muitos autores que dizem que a atenção não
representa um papel importante na teoria atual do TDAH. No entanto, ao que parece, a relação
entre a atenção e o TDAH não é diminuída na teoria de Barkley. Trata-se, contrariamente, de uma
redefinição dos termos. Quando a atenção é considerada apenas em seu aspecto seletivo e focal,
como um processo cognitivo de input informacional, seu defeito pouco ou nada tem a ver com o
transtorno do TDAH de Barkley. Quando se trata da disfunção da atenção controlada pelas
contingências ambientais imediatas, também não estamos no terreno do TDAH. Quando os
processos atentivos em questão não são necessariamente cerebrais, não se fala de TDAH. No
entanto, quando o defeito é aquele do comportamento atentivo cerebral e governado por regras;
da atenção necessária à formação de estruturas comportamentais novas, criativas, complexas e
flexíveis; da atenção requerida pelo planejamento e execução da ação duradoura; do esforço
atentivo exigido na regulação da emoção em prol dos ganhos futuros; e do esforço da atenção
demandado pela regulação das motivações da ação, estamos no coração do TDAH.
Para que o comportamento seja controlado pelos objetivos futuros, o indivíduo deve
sustentar bravamente sua atenção, nem atender nem responder às distrações internas e externas
que surgem no momento em que a tarefa está sendo realizada. Ao mesmo tempo, ele deve ter
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 130

sempre em mente o objetivo a ser atingido e as estratégias e planos necessários ao seu alcance.
Durante o processo de criação e manutenção dessa persistência atentiva, todas as funções
executivas cerebrais são requeridas. Não é por acaso que Barkley identifica uma confusão nos
estudos das funções executivas. Os mesmos experimentos e testes são utilizados na avaliação dos
mecanismos atentivos e das funções executivas. As funções executivas e a atenção dependem dos
sistemas cerebrais mais complexos para se desenvolverem e do sistema inibitório para serem
atuantes. As funções executivas, afirma Barkley, são uma forma de atenção ao eu que regula o
seu comportamento em prol de um resultado futuro.
Na re-interpretação do TDAH como um defeito inibitório, a atenção é definitivamente
localizada no cérebro, ela se confunde e se identifica com as funções executivas cerebrais. Ao
dizer que o TDAH é um defeito da inibição cerebral que afeta a capacidade de manutenção da
atenção, Barkley vincula definitivamente o transtorno atual da atenção e da ação à história da
biologização e cerebrização da vontade. No TDAH combinado, o déficit de atenção não é
cognitivo, ele é performativo. Trata-se ainda do esforço da manutenção e persistência da atenção,
enfatizado nas antigas teorias das patologias da vontade e da atenção. O que importa é seu
vínculo com o controle do comportamento e sua função inibitória. Como nos discursos do século
XIX, na teoria de Barkley a atenção também ocupa um lugar precioso no desenvolvimento da
capacidade de autocontrole e na constituição da consciência de si. Mas as antigas teorias
neurobiológicas não criaram uma patologia específica da atenção. A segunda metade do século
XX mudou esta configuração. Na década de 90, a filiação do Transtorno da Atenção e da
Hiperatividade ao projeto de cerebrização da identidade tornava-se ainda mais clara. A função
mediadora da atenção também era mantida: ela vinculava os discursos biológicos aos valores
morais das economias da atenção. A biológica da atenção continuava sendo moral.

6.2. AS CEREBRIDADES EXECUTIVAS PRUDENTES E O TDAH


Mais que oferecer uma explicação unificada para o transtorno do TDAH, na década de 90
Barkley (1997a) tornava claro que sua teoria era sobre o autocontrole em seu aspecto normal e,
somente em relação ao transtorno, tratava-se de suas disfunções. O objetivo do autor era
pretensioso: era preciso alterar a compreensão social e moral equivocada sobre a aquisição do
autocontrole. Barkley buscava modificar o que ele chamava de “o ponto de vista social igualitário
do autocontrole”. A falácia moral que o autor pretendia demolir descrevia o autocontrole como
uma habilidade igualmente distribuída para todos os seres humanos e que se diferenciava de
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 131

acordo com as formas de socialização individuais. Para Barkley, esta interpretação moral
incorreta do autocontrole criou o clima de desconfiança sobre a existência biológica do TDAH157.
Era contra esta desconfiança que a teoria do autor se direcionava.
Na opinião de Barkley, a capacidade de autocontrole é, antes de tudo, herdada e genética.
Os seres humanos não adquirem a habilidade de controle de si através da educação e da
socialização. Embora estes processos interfiram em sua forma e intensidade, o autocontrole,
como uma capacidade natural, resulta da maturação das estruturas neurais do córtex pré-frontal.
A teoria de Barkley ou o modelo das biologias prudentes e das cerebridades executivas, como
preferimos chamá-la, é fundamentada nas relações de dependência entre as funções executivas
neuropsicológicas, os lobos frontais, o córtex pré-frontal e o sistema inibitório. Estas funções
possibilitam a formação do autocontrole. Elas são executivas por serem responsáveis pela auto-
gestão do eu.
A auto-regulação é constituída por ações que governam outras ações. Seu objetivo é
alterar ou inibir a resposta corporal imediata a um determinando estímulo com vistas a uma
conseqüência futura favorável. Ela se ocupa do planejamento e da execução da ação futura
orientada por um objetivo. Assim pensada, a auto-regulação não é sempre necessária. Sua
interferência é requerida quando há um conflito de interesses entre as conseqüências imediatas e
as de longo prazo. Neste conflito, ela privilegia a ação que possibilitará a recompensa futura em
oposição ao ganho imediato. A auto-regulação também é necessária quando se trata da resolução
de problemas que requerem um tempo maior para serem solucionados. Neste caso, a solução final
do problema, compreendida como um reforço positivo para a tentativa de sua resolução, também
é uma conseqüência futura e não imediata. Por último, ela também é necessária quando o vínculo
entre um evento, uma resposta e sua conseqüência se perde no tempo ou é obscurecido.
Em um comportamento auto-regulado, a variabilidade de respostas a uma determinada
tarefa é consideravelmente diminuída. Ele é raramente afetado por contingências momentâneas e
por mudanças inesperadas. O comportamento estável e ordenado que se mantém, mesmo na
ausência de ganhos imediatos, é um produto do funcionamento ótimo das funções executivas.
Devido a elas, a ação é guiada pelo cálculo das gratificações e punições passadas, de alguma
forma vinculadas às ações presentes e que possuem algum efeito no futuro. É assim que os
processos de predição e controle do comportamento se formam: através da constituição de uma

157
“(…) antes que a sociedade aceite o TDAH como uma desordem do desenvolvimento do autocontrole e a insira
no reino das outras desordens do desenvolvimento, o ponto de vista social sobre o autocontrole precisa ser
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 132

relação temporal cerebral entre ações separadas no tempo. Em última instância, é esta linha
temporal que define qual objetivo será selecionado e quais as regras, os planos e as informações
utilizados na sua realização. Para Barkley, o tempo é o regulador da ação158. Mas de que
temporalidade se trata? Trata-se da temporalidade externa, incorporada pelas funções executivas.
A capacidade de criar o novo através do velho, de formular ações novas e complexas partindo da
experiência passada depende da internalização de um tempo que é originalmente externo ao
indivíduo. Para Barkley, é a internalização desse tempo que cria a sensação de que somos mestres
de nossas ações.
O sentimento de atividade do eu e a auto-consciência estão vinculados ao
desenvolvimento e ação das funções executivas. Em Barkley, a pessoalidade, a identidade, e a
sensação de posse ativa de si derivam do trabalho cerebral. O indivíduo no qual as funções
executivas estão em plena atividade controla suas ações através de uma força que lhe é interna.
Ele, o indivíduo, é o planejador e executor de seus atos de ação direcionados para o futuro
promissor. Ou ao menos pensa ser. O que seria esta força executiva interna? A força da vontade?
É a vontade que, em sua liberdade, rompe com os constrangimentos e determinismos externos e
internos? Para Barkley, a resposta para a segunda pergunta seria positiva, mas a terceira pergunta
é necessariamente equivocada. O autor não se opõe a chamar a atividade interna do eu de vontade
e de descrevê-la como uma função cerebral. No entanto, ela não liberta o indivíduo do controle
externo159.
No processo de constituição da auto-regulação não há uma extinção do controle do
ambiente. Não se trata da aquisição da liberdade plena da ação. Contrariamente, o controle da
ação pelo ambiente é intensificado, aprimorado e tornado mais eficiente. Trata-se de adicionar
um quarto elemento que compete pelo controle e este é o elemento temporal. Há um “duelo” ou
uma competição pela direção da ação entre o espaço-tempo presente e futuro. Ao espaço
tridimensional do presente imediato é contraposto o espaço-tempo das ações futuras. No
desenvolvimento do autocontrole, há um deslocamento da regulação exercida pelo momento

modificado” (BARKLEY, 1997a, p. 320).


158
“O regulador de nossas decisões, o definidor do objeto da auto-regulação é o tempo” (BARKLEY, 1997a, p. 205).
159
No debate filosófico e científico sobre a vontade, o autor se inclui no lado dos que postulam seu “determinismo”.
Para Barkley, sua teoria representa um avanço da pesquisa sobre os determinismos da vontade. Ela prova que o
determinismo da vontade é sobretudo biológico, genético, cerebral e temporal. No grupo de pensadores da vontade
assim pensada, ele inclui antigos autores como William James, Bastian, George Still e os teóricos contemporâneos
das funções executivas. Para o autor, o modelo teórico das funções executivas calcado nos lobos frontais explica a
natureza da vontade humana. Ele demonstra que a vontade não é livre. Seus determinismos são as sutilezas do
controle exercido pelo tempo e os sistemas neuropsicológicos que possibilitam este controle.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 133

presente para aquela efetivada pelo futuro hipotético. Neste deslocamento, o controle externo é
intensificado. Para Barkley o tempo é uma dimensão do mundo físico, incorporada e
internalizada pelas funções executivas. O córtex pré-frontal cerebral é descrito como uma
“máquina temporal” ou uma “máquina biológica espaço-temporal” responsável pela
internalização do tempo.
Quando as funções executivas são ineficientes, como no TDAH, ou quando lesões dos
lobos frontais são identificadas, há o desenvolvimento de um certo tipo de cegueira temporal. O
futuro deixa de ser influente no controle da ação. O indivíduo afetado passa a ser menos
governado pelas forças ambientais, já que a temporalidade externa perde seu poder.
Paradoxalmente, o indivíduo TDAH é, na verdade, “mais livre” que a cerebridade gestora. Em
seu exercício normal, as funções executivas e o processo de auto-regulação produzem apenas
uma ilusão de liberdade. Elas criam a sensação e a convicção que, por fim, nós e somente nós
somos as instâncias controladoras de nossas ações. Mas a verdadeira central reguladora é o
tempo, uma fonte de controle extremamente sutil, impalpável e invisível. Para Barkley, a
liberdade proporcionada pela ação das funções executivas ou, em outros termos, pela vontade, é
apenas a liberdade de não ser controlado pelas necessidades imediatas.
No desenvolvimento normal das funções executivas, o ser humano até os 30 anos de idade
vivencia uma mudança na temporalidade que controla sua ação. A criança, como o animal, é
inicialmente orientada pelas conseqüências imediatas do seu comportamento, mas ao longo dos
anos, todo indivíduo normal substitui esta preferência pelos ganhos a longo prazo. O controle do
comportamento exercido pelas conseqüências imediatas é do tipo espacial. Ele representa o
privilégio natural dado ao espaço do momento vivido no controle da ação. Com o passar do
tempo, o tempo do por vir assume o controle do comportamento. Na evolução humana, trocamos
a escravidão espacial pela escravidão temporal porque, em muitos sentidos, ela foi e continua
sendo coletiva e individualmente mais vantajosa.
Em seu desenvolvimento normal, a biologia humana é prudente, estável e extremamente
empreendedora. Na escolha e execução de seus planos de vida, cada indivíduo age como um
gerente de planejamento que não apenas gerencia, mas também executa o plano criado. No ápice
da escala evolutiva de Barkley, encontramos o modelo do planejador estratégico que se orienta
pelos cálculos dos riscos e benefícios da ação. Trata-se de propor uma teoria desenvolvimentista
do desenvolvimento humano fundamentada na neuropsicologia das funções executivas. O eu
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 134

autêntico das “cerebridades executivas” é cerebral, consciente, prudente, intencional, racional,


objetivo. Ele depende das funções executivas para se desenvolver e se manter. Quando algum
problema perturba a regulação executiva, o agente autêntico é enfraquecido e substituído por um
“invasor”, um inimigo interno que deve ser eliminado ou inibido. O eu das disfunções executivas
é predominantemente impulsivo, emotivo, reativo, desorganizado, desorientado, amoral e imoral,
perigoso e improdutivo.
O TDAH produz o “falso eu”. O defeito inibitório que está em suas bases impossibilita a
formação do sentimento de atividade necessário à constituição da ilusão do eu ativo. Na teoria de
Barkley, o indivíduo TDAH estará sempre um passo (ou mais de um) atrás no desenvolvimento
das “cerebridades executivas” autênticas. Seu comportamento é exatamente oposto ao do gestor
executivo: ele é mais influenciado pelo contexto e menos controlado pelas informações
internamente representadas; é guiado pelas conseqüências imediatas da ação; possui menor
capacidade de memorização e de utilização das experiências passadas na formulação da ação
futura; manifesta uma forma de “miopia temporal” na qual apenas o aqui e agora são influentes
no controle da ação. Para o indivíduo TDAH, o planejamento da ação futura e sua execução são
tarefas extremamente difíceis. Ele não é capaz de manter o vínculo associativo entre evento,
resposta e conseqüência. Por isso, a manutenção da atenção e da memória é quase impossível.
Toda ação social e adaptativa guiada por uma consideração futura torna-se prejudicada ou, no
mínimo, desorganizada. Estão incluídos aí os comportamentos que envolvem as considerações de
futuros riscos relacionados à ação presente. O indivíduo TDAH é por natureza propenso ao risco
e é uma ameaça para todo tipo de contrato social baseado na lógica da prudência.
No gráfico do desenvolvimento da prudência, o indivíduo TDAH ocupa sempre um
estágio inferior, abaixo do nível evolutivo normal. Ele é uma ameaça às vantagens adquiridas
pela evolução da biologia prudente. O indivíduo TDAH não é apenas uma ameaça para si e para
seu lócus social, ele é um perigo para a espécie humana. As estatísticas de Barkley demonstram
que, por estar relacionado ao desenvolvimento da conduta impulsiva e descontrolada, o TDAH
vincula-se à baixa expectativa de vida. Estas estatísticas também comprovam que os indivíduos
TDAH são mais propensos a terem filhos durante a adolescência. Na fase adulta, são eles que
possuem os índices de divórcio mais elevados. Em suas vidas, são comuns e numerosos os relatos
de acidentes, especialmente de trânsito. Para a teoria criminal calcada na explicação da ausência
do autocontrole, eles são fatores de risco para o desenvolvimento de atitudes criminosas, para o
uso e abuso de substâncias ilícitas como a maconha e a cocaína, suicídios etc. Neles, o
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 135

desenvolvimento natural de um sentimento de finitude relacionado à compreensão do conceito de


morte, está também prejudicado160.

6.3. AS (DES) TEMPORALIDADES DO INDIVÍDUO TDAH


“Time is the ultimate yet nearly invisible
disability afflicting those with ADHD”
(Barkley, 1997a, p.337).

O indivíduo TDAH possui uma miopia temporal: o tempo e o futuro são seus inimigos e é
contra eles que ele deve lutar. Por todos lados, na descrição do TDAH encontramos referências
temporais. Na etiologia, desenvolvimento e tratamento da patologia, uma certa dietética temporal
é esboçada. Em seu extremo mais alarmante, o tempo de vida do indivíduo TDAH é diminuído.
Ele vive menos que o normal. Mas a referência temporal não começa com a previsão de morte
prematura. Na síndrome dos imediatismos inconstantes161, o tempo do por vir é, em vários
sentidos, inexistente ou reduzido. Na correção da deficiência temporal, o próprio tempo é um
fator importante. A capacidade de ser eficientemente controlado pelo tempo futuro não pode ser
completamente restabelecida no TDAH (não há uma cura para o transtorno). Mas duas direções
terapêuticas são sugeridas: a medicamentosa e a modificação comportamental.
A medicação tem o poder de momentaneamente estimular a capacidade de inibição e
aprimorar a ação das funções executivas, possibilitando a concentração e o controle do
comportamento pelo tempo externo. Finalizado seu efeito, tudo volta a ser como era antes, até
que outra dose altere novamente a química cerebral e assim sucessivamente. A maior parte das
drogas contra o TDAH produzem um efeito quase imediato e atuam num período de tempo
reduzido. Seu efeito é imediato, pontual e de curto prazo. Ela é usada no controle de uma situação

160
“O TDAH não é um desordem benigma. Para os indivíduos afetados, ele pode causar problemas devastadores.
Estudos sugerem que os indivíduos TDAH são muito mais propensos do que pessoas normais a abandonarem a
escola (32-40%); a raramente completarem o ginásio (5-10%); terem poucos ou nenhum amigo (50-70%); terem
baixa produtividade no trabalho (70-80%); se envolverem em atividades anti-sociais (40-50%); usarem tabaco e
drogas ilícitas mais do que o normal. Além disso, crianças com TDAH são mais suscetíveis a engravidarem na
adolescência (40%); a manifestarem doenças sexualmente transmissíveis (16%); a dirigirem em velocidade excessiva
e a terem múltiplos acidentes de carro; elas vivenciam com mais freqüência estados depressivos (20-30%) e
desordens de personalidade (18-25%) e em centenas de outras formas colocam suas vidas em perigo” (International
Consensus Statement on ADHD, 2002, p. 90). A constatação de uma assimilação e compreensão deficiente do
conceito de morte no indivíduo TDAH é várias vezes comentada por Barkley em seu livro sobre o autocontrole
(BARKLEY, 1997a).
161
Apesar de centrarmos nossa análise na teoria de Barkley, é importante ressaltar que a interpretação do TDAH
como uma “patologia temporal”, marcada por imediatismos inconstantes, é amplamente divulgada nos manuais
populares sobre o transtorno.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 136

específica, um exame, uma tarefa escolar ou uma competição esportiva. Este é um aspecto
extremamente importante no tratamento do TDAH. A temporalidade "imediatista" criada pelo
transtorno diz que somente as intervenções terapêuticas diretamente vinculadas à performance
que se pretende alterar são eficientes. Os tratamentos mais úteis são aqueles imediatamente
aplicados no espaço e tempo da ação a ser modificada e que possuem um efeito também
imediato162.
A medicação estimulante modifica o comportamento ao alterar internamente a química
que lhe é correspondente. Teoricamente, ela faz com que a ação do indivíduo seja mais
semelhante a de seus pares: mais controlada pelo tempo, mais racional, prudente, organizada,
moderada e regulada. Durante o tempo, e somente durante este tempo, no qual a medicação atua
na neuroquímica cerebral, ao sujeito TDAH é permitido experimentar a vivência “normal do
tempo”. A experiência de ser ou possuir uma identidade normal ou autêntica é atada ao efeito
neuroquímico do medicamento. É seu efeito no cérebro que possibilita o sentimento de ser no
tempo. Na pergunta sobre qual o eu mais digno de ser “sentido como eu”, se o eu eficiente e
temporário, controlado pelo medicamento ou o ser crônico do TDAH, condenado ao eterno
imediatismo improdutivo, a resposta neuropsicológica opta pelo eu temporário dos imediatismos
produtivos163.
A alternativa comportamental interfere na performance do indivíduo TDAH através de
modificações externas. A rotina diária deve ser reestruturada, a vida familiar remodelada e o
modelo escolar redefinido. O resultado esperado é o mesmo: que o indivíduo se torne mais
racional, prudente, organizado e regulado. No entanto, esta transformação acontece por meio de
uma outra estratégia. O objetivo é adaptar o ambiente de socialização do indivíduo e sua vida às
limitações do TDAH. Trata-se da construção de um novo estilo de vida que considere as
incapacidades do TDAH e que possibilite a internação do controle, mesmo que ele seja apenas
parcial. O problema central do transtorno reside na incapacidade interna de controle da ação pelas
considerações passadas e futuras. Assim, é preciso criar estruturas externas capazes de diminuir a

162
“Os tratamentos mais eficientes serão aqueles que atuam nos espaços naturais de vida e que agem no momento em
que a performance esperada está para ocorrer” (Barkley, 1997a, p.338). Comentando o ponto de vista neurológico
dominante sobre o transtorno, Rafalovich também destaca este aspecto temporal “Incapaz de racionalizar ou pensar
baseado ou baseada nos resultados de suas ações, ele ou ela é disciplinado pelas experiências que somente o
momento presente pode trazer” (RAFALOVICH, 2002, p.102). Grifo nosso.
163
Ao retomar a discussão de Peter Kramer sobre o “efeito Prozac”, ELLIOT (1999) comenta que quase sempre “o
eu autêntico” é visto pelo usuário como o que possui os níveis apropriados de serotonina no cérebro. No entanto, em
certos momentos, este mesmo eu é sentido como uma invenção artificial, um produto do efeito medicamentoso nem
sempre aceito e desejado. Retornaremos esta discussão mais andiante em nosso texto.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 137

temporalidade real dos acontecimentos e torná-las atuante no controle da ação. No indivíduo


TDAH, o tempo é comprimido pela dimensão espacial do aqui e agora. Já que contra essa
compressão não há um antídoto mágico, a temporalidade longa e nem sempre retilínea das
durações normais deve ser comprimida.
Para o indivíduo normal, os laços distantes e incertos entre as ações passadas e suas
conseqüências são usados na direção da ação futura. Eles são suficientes. No indivíduo TDAH,
por serem distantes e incertos, estes elos não se sustentam. A terapêutica comportamental sugere
que seu ambiente de vida seja transformado em um verdadeiro laboratório onde cadeias de causa
e efeito sejam diariamente criadas. A vida do indivíduo TDAH deve ser reestruturada com base
na produção incessante das evidências do risco e dos benefícios da ação. Como ele não está
sozinho neste laboratório, trata-se de remodelar o ambiente familiar, escolar e profissional do
indivíduo nestes mesmos moldes. Ao invés de ameaçar a lógica da prudência e do cálculo do
risco, o fenômeno TDAH é um dispositivo que reforça e expande esta lógica, tornando a mais
eficiente.
Nos manuais e livros mais famosos sobre o TDAH, ao discurso neurológico simplificado
são unidas estratégias disciplinares de gestão do lar, da escola e de si. Eles contam para o público
o que é e como é a experiência de ser um indivíduo TDAH e oferecem estratégias de gestão de
seu espaço e tempo. Eles são, sobretudo, textos práticos164. O discurso neurológico diz que no
indivíduo TDAH a internalização do controle externo é ineficiente. É preciso fazer com que os
signos deste controle estejam mais do que nunca presentes no ambiente visual, auditivo e
sensorial do indivíduo TDAH. Trata-se de possibilitar a internalização artificial do controle
temporal externo.
Quando se trata da criança, a gestão do controle é outorgada aos pais e professores. A
primeira transformação deve ocorrer na vida dos pais. Somente pessoas realmente pacientes e
consistentes em suas ações conseguem conviver com a criança TDAH de forma menos sofrida e
auxiliá-la em seu tratamento. No cotidiano dos pais, habilidades específicas devem ser
desenvolvidas. Eles devem ser capazes de mostrar à criança que cada ação tem uma
conseqüência, cada efeito uma causa. E os efeitos esperados devem ser claramente reforçados.
Qualquer lapso ou esquecimento no condicionamento da ação-conseqüência-reforço pode causar
um atraso ou retrocesso no tratamento.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 138

Na patologia do imediatismo, os tratamentos efetivos são aqueles que atuam no imediato.


A princípio, eles não modificam a temporalidade do indivíduo TDAH e não lhe proporciona
“lentes temporais permanentes”; eles apenas criam imediatismos eficazes. As intervenções
medicamentosas e as modificações comportamentais são pontuais e não se generalizam. Para
Barkley, a criação de rotinas é diferente do treino e da educação do autocontrole, estes últimos
ineficientes no tratamento do TDAH. Como o autocontrole não pode ser ensinado, ele é apenas
condicionado; uma habilidade temporária dependente do tratamento. Se o suporte externo criado
e o medicamento adotado não são mantidos, há uma reversão do quadro. A lógica da correção
química e do monitoramento e ajustamento do TDAH é compatível com duas temporalidades
diferentes, aparentemente opostas, mas que compõem juntas o “imediatismo crônico” que define
o transtorno: as terapias medicamentosas e comportamentais são soluções de curto prazo que, por
isso mesmo, devem ser mantidas por toda vida.
Através do exemplo do TDAH, Barkley oferece uma explicação biológica para os
imediatismos que marcam a cultura atual. Somente tratamentos imediatos são biologicamente
efetivos para o TDAH. A necessidade existencial, política, moral e econômica de encontrar
soluções eficientes e imediatas para os problemas da vida, que tem pressionado ou descartado os
projetos terapêuticos de longo prazo, é naturalizada. Não há tempo a perder. O momento exige
resultados. Importante é identificar o problema específico, isolá-lo antes que ele aumente e seguir
com as demandas da vida. Na descrição da patologia, a naturalização desse discurso é uma
tecnologia de governo potente, que age em processos específicos, normalmente químicos, ao
invés de focar na pessoa como um todo. No entanto, como seu monitoramento é requerido para
todo o sempre, ela cria um estilo de vida e produz uma forma específica de subjetividade.

6.4. A BIOLOGIA MORAL DO TDAH


A crença de que a ciência, em sua neutralidade, deve libertar a sociedade de sua
compreensão moralista e igualitária do autocontrole é o motivo ético que, para Barkley, justifica
a pesquisa das causas biológicas do transtorno. O dever político que a ciência neuropsicológica
de Barkley busca cumprir é a transformação da atitude moral em relação aos incapazes de
controle de si. O indivíduo TDAH, seus pais e seus professores foram julgados culpados e

164
Além da leitura direta de alguns destes livros (ROHDE e MATTOS, 2003; HALLOWELL e RATEY, 1999;
DÖPFNER, FRÖLICH e LEHMKUHL, 2003), nos orientamos pela pesquisa de RAFALOVICH (2002) na qual o
autor analisou seis manuais para pais de crianças TDAH.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 139

responsáveis por suas deficiências. Ao provar que a culpa é do cérebro e do corpo e não do
sujeito e de sua família, a ciência estaria cumprindo seu papel libertador ao alterar a atitude de
tolerância da sociedade para com os indivíduos TDAH. Eles são doentes devido a determinações
naturais e estas são por definição amorais. Defendendo esta premissa, o discurso científico estaria
atando o indivíduo às suas limitações corporais e cerebrais, mas o libertaria do julgamento moral.
Quando um indivíduo é fisicamente incapaz de ver à distância, a ciência lhe oferece
óculos. Quando seu corpo não produz determinada substância que lhe é vital, ela oferece um
substituto. Quando o cérebro não é capaz de estimular o sistema inibitório responsável pelo
controle do comportamento no tempo, um medicamento também é oferecido. Por que o último
exemplo deveria ser diferente do primeiro? Por que no último caso culpamos moralmente o
indivíduo pelas conseqüências de sua ação imprudente, desorganizada e descontrolada ao invés
de reconhecermos que se trata de uma insuficiência física? Preconceito moral, diria Barkley. Em
todos os três casos estamos falando da mesma coisa: de um defeito natural. Há apenas uma
pequena e óbvia diferença: as partes do corpo afetadas não são as mesmas. No último caso, o
defeito é cerebral. Mas quando lembramos que este órgão tem sido historicamente descrito,
interpretado e representado pelas ciências, pela literatura, pela filosofia, pela religião e pelas artes
como a sede da mente, da alma e do eu, esta “pequena diferença” não parece ser tão irrelevante.
O que alimenta a premissa científica? Trata-se da tentativa de eliminação dos valores
morais que sustentam o lidar humano? Estaríamos falando da proposta de erradicação da moral
na constituição da identidade? Não parece ser este o caso. Se no discurso científico e em sua
tradução para o público leigo o eu tornou-se químico, neurológico e cerebral, ele não é amoral. A
identificação científica do cérebro com o eu afirma e cria certos valores morais. O discurso
biológico não diminui a postura moral da sociedade diante do indivíduo TDAH. Ele fortalece os
valores morais, políticos, sociais e econômicos que ditam que o verdadeiro eu é racional,
autônomo, bem sucedido, empreendedor e planejador do futuro. Ele também alimenta os mitos
do filho ideal e da família perfeita.
Em seus estudos, SINGH (2005, 2004, 2003) demonstra com riqueza de exemplos que, na
realidade, o deslocamento da culpa que está na base da explicação biológica do transtorno (da
culpa da mãe para a culpa do cérebro) é um engodo que fortalece ainda mais a culpa materna. O
tratamento do TDAH inclui a difícil tarefa de reestruturação do lar em prol das “exigências da
patologia”. Nessa reestruturação, modelos maternos e paternos são reafirmados: os pais devem
ser sempre pacientes, compreensíveis, tolerantes, vigilantes, organizados, previsíveis, constantes
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 140

e estáveis. Quando estes “ideais” não são alcançados, e este é quase sempre o caso, a
responsabilidade pelo fracasso no tratamento é transformada em culpa. A biologia, ou o cérebro
da criança, é apenas parcialmente culpado. No processo de tratamento da patologia, outros
personagens assumem a responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso do processo terapêutico.
Quando as estratégias de tratamento e de prevenção não são seguidas, o indivíduo é
responsabilizado. A relação entre o TDAH e os acidentes de carro é um bom exemplo. As
organizações americanas responsáveis pela análise dos acidentes de carro responsabilizam o
indivíduo. Para GUSFIELD (1981), esta postura não resulta apenas do individualismo americano.
Os discursos científicos e legais que individualizam os problemas sociais com a intenção de
atribuir responsabilidades e justificar intervenções também a fortalecem. A descoberta de uma
causa, e individual, para um problema social complexo torna sua solução aparentemente possível.
Uma das conseqüências é culpar a “vítima”. Quando a causa é a ingestão de álcool, por exemplo,
o sujeito é culpado por não ter considerado a regra preventiva “não dirigir após a ingestão de
álcool”. No caso do indivíduo TDAH, as causas da patologia são naturais, mas sua intensidade é
controlável. Se o transtorno deriva da natureza cerebral defeituosa, o indivíduo é responsável por
sua gestão. O tratamento da desordem é a única forma de gerenciar os riscos que ela traz. Quando
nada é feito pelo controle da situação, o indivíduo é culpado por não aderir à necessidade
individual e social de tratamento165.
Por outro lado, o alívio da culpa de ser um indivíduo TDAH ou uma mãe e um pai de uma
criança TDAH não é buscado na explicação sobre as causas biológicas do transtorno, mas nos
valores morais que ela fortalece. Para os pais e, mais precisamente, para as mães da criança
TDAH166, cada dose de medicamento envolve uma nova decisão, um pensar e repensar nos
motivos que justificam a modificação das “bases da identidade” de seus filhos. Quase sempre o
mito do “eu autêntico” justifica a prática medicamentosa. Quando a performance produtiva e de
sucesso é esperada, o TDAH é visto pelos pais como um intruso indesejado que deve ser domado
e controlado e dar espaço ao “verdadeiro eu”, o eu autêntico, controlado e organizado. O
medicamento permite que a criança seja ela mesma e se sinta confortável consigo mesma. Ele
não cria uma outra identidade, apenas permite que o eu verdadeiro reine em sua cidadela.

165
Citando as análises de Ian Hacking, ROSE também defende este argumento “o pensamento do risco é uma forma
de tentar “trazer o futuro para o presente e torná-lo calculável” e uma vez que alguém acredita que o futuro pode ser
gerenciado pelas decisões e ações calculadas no presente, logo todo mundo é obrigado a fazê-lo e é julgado culpado
se assim não o fizer” (ROSE, 2004, p. 18).
166
Singh também oferece uma análise detalhada das diferenças entre os valores morais paternos e maternos que
sustentam o lidar com a criança TDAH.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 141

No entanto, quase nunca a atitude sustentada pelo mito do “eu autêntico” é mantida sem
que outros valores a coloquem em questão. O tratamento medicamentoso do TDAH é
direcionado para determinadas situações nas quais uma postura mais produtiva, controlada, atenta
e organizada é esperada. Nos finais de semana e nas férias escolares, a recomendação de muitos
médicos é a interrupção do tratamento. As férias escolares são também férias medicamentosas.
Na decisão sobre continuar ou não com a medicação durante os períodos de “férias”, os pais que
optam pela pausa o fazem dizendo que, neste momento, e somente neste momento, a criança
pode ser o que ela realmente é em toda sua naturalidade e espontaneidade, longe das exigências
de sucesso e produtividade. Neste caso, o eu autêntico é aquele que não depende do
medicamento para se manifestar. A sensação é que a medicação gera um outro eu, ela altera a
identidade da criança de uma forma nem sempre desejada. Embora aparentemente contraditórios,
os diferentes discursos sobre o “eu autêntico” são partes sempre presentes no lidar com o TDAH.
A visão neurobiológica do transtorno alterou e continua alterando a atitude social e
individual direcionada ao sujeito acometido à necessidade de autocontrole e à gestão da atenção.
Mas se a intenção era banir o vocabulário judiciário da culpa e substituí-lo pelo da vítima
biológica, ela foi desde o início frustrada. Outros valores foram criados e outros motivos de culpa
incitados. A teoria neuropsicológica do TDAH é uma teoria moral. Nela, a separação entre o fator
biológico e o fator moral é apenas uma ficção. Não é do processo de “a-moralização” do corpo
que ela se nutre, mas de moralizações do natural.
Barkley diz que a “epidemia” do TDAH nas sociedades atuais não deriva de “mutações
genéticas”. Ela resulta da incompatibilidade entre a natureza do TDAH e a forma de vida atual.
Como um fator biológico, o transtorno da inibição e do autocontrole está há muito tempo entre
nós167. Mas somente no último século, o indivíduo TDAH tornou-se o modelo do sujeito incapaz
de se adaptar às normas sociais. O autor afirma que os valores morais da auto-suficiência, da
prudência, da auto-gestão reflexiva, racional e objetiva e do planejamento da ação que regem as
sociedades atuais são incompatíveis com a natureza do TDAH168. Mas também defende que esses

167
Por esse e outros motivos, Barkley também é um dos que cita Zappel-Phillip, de 1845, como a primeira descrição
clínica do TDAH. Já naquela época, os parâmetros sociais começavam a ser incompatíveis com a natureza TDAH.
168
As demandas sociais incompatíveis com a natureza TDAH são “(…) a necessidade de tornar-se pessoalmente
mais organizado e auto-suficiente; ser mais reflexivo, objetivo e racional na consideração dos eventos e na escolha
das ações a serem tomadas; tornar-se mais responsável no cuidado consigo mesmo. O indivíduo TDAH terá que
aprender a planejar o futuro, a ser mais independente dos outros e a respeitar as regras sociais complexas. Dele será
esperada a renúncia dos prazeres e seduções do momento e o engajamento em atitudes de auto-privação para que sua
atenção se concentre na maximização dos ganhos vindouros. A pressão social para que ele organize seu
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 142

“valores morais” são naturais. Ele nos diz que, na evolução, a fase mais civilizada e avançada da
humanidade é aquela na qual estes valores tornaram-se naturalmente alcançáveis e moralmente
desejáveis. Por isso, ela não tolera o indivíduo TDAH. A contradição do pensamento do autor é
nítida. A causa do TDAH e os fatores que determinam a capacidade de autocontrole são
biológicos e, por isso mesmo, amorais. Mas quando olhamos para a natureza, o corpo e o cérebro
amoral de Barkley, o que encontramos? Os valores morais que não toleram o TDAH.
A biologia da prudência não é neutra e amoral. Ela possibilita que determinadas
aspirações sociais sejam contempladas. O modelo escolhido pela “natureza humana” da teoria de
Barkley é a celebridade executiva auto-suficiente e auto-controlada, que alimenta a moral do
sucesso e da prudência. No processo de cerebrização moral da identidade ela foi transformada na
cerebridade executiva. A biologia moral da atenção diz que todos os humanos normais nasceram
biologicamente preparados para o futuro, para o progresso, para o sucesso. Em sua evolução, a
espécie humana alcançou este fim. Se, por algum motivo, ele não é atingido, duas explicações são
oferecidas: ou o indivíduo é naturalmente defeituoso ou não se dedicou suficientemente à tarefa
de aproveitar o que a natureza oferece de graça. Nos dois casos, o sujeito não é liberado do
tribunal moral e do discurso da responsabilidade individual.
A biologia da prudência de Barkley não é incompatível com o discurso da responsabilidade e
da liberdade individual. Ela o justifica e lhe oferece um fundamento corporal. Ao ser
biologicamente possível medir as conseqüências futuras da ação, prevê-las, evitá-las ou
possibilitá-las, não há motivos toleráveis que justifiquem a opção de não fazê-lo. Todo risco não
gerenciado converte-se em culpa. Nas palavras de DOUGLAS (1992), a cultura do risco é a
cultura da culpa. Somente uma sociedade fundamentada na responsabilidade individual e que
acredita que o sucesso depende da auto-gestão do futuro poderia afirmar que seus problemas
derivam do defeito do autocontrole, e isso inclui o TDAH.
Para Barkley, o TDAH não é uma desculpa que isenta o indivíduo de suas
responsabilidades. Ele é a razão pela qual essa responsabilidade deve ser reforçada e
evidenciada169. Cada ato do dia, cada comportamento e escolha devem ser racionalizados e

comportamento para o futuro e para o tempo prolongado e não para o contexto imediato será implacável”
(BARKLEY, 1997a, p. 20).
169
“O TDAH não é uma desculpa, mas uma explicação; ele não é uma razão para que as consequências da ação do
indivíduo acometido sejam completamente desconsideradas ou esquecidas, mas um motivo para que sua
responsabilidade seja aumentada pela aproximação temporal entre ação e consequência. O problema das deficiências
comportamentais da vida do indivíduo TDAH é o tempo e não as consequências de sua ação. Remover o tempo, e
não os resultados de sua ação, é a solução para o seu problema (…)” (BARKLEY, 1997a, p. 317).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 143

planejados. Ele deve aprender a controlar suas ações diárias como se cada uma delas fizesse parte
de um plano maior e mais duradouro. O futuro do TDAH é composto de uma coleção de “futuros
curtos” ou de “futurinhos” que devem ser programados com a mesma seriedade e
responsabilidade dos grandes planos. Para cada ação, há conseqüências imediatas previstas e elas
são recompensas ou perdas pelas quais ele e somente ele é responsável.
Ao mesmo tempo em que Barkley defende a existência real de uma natureza biológica
para o TDAH, ele também afirma que, em certo sentido, ela não é determinista, ela não define um
destino. Para ROSE (2000a, 2000b, 2003), um dos aspectos mais importantes do processo de
biologização e somatização atual da patologia mental é que ele não representa uma “ressurreição”
ou “renascimento” de antigos fundamentalismos e reducionismos biológicos. A biologia
neuroquímica ou genética que está na base das novas descrições das “patologias do desejo” e das
“desordens da vontade” inclui o vocabulário da liberdade, da autonomia, da escolha e da
responsabilidade individual.

6.5. AS (IM)POTÊNCIAS DO QUERER


A história da biologização da vontade não é nova. No século XIX, a questão moral,
teológica e filosófica da liberdade da vontade foi reavivada na linguagem da fisiologia e da
neurologia e na tentativa de somatização das patologias da vontade. Mas uma tradução biológica
definitiva da vontade nunca foi efetivada. No início do século XX, o número de livros e artigos
sobre a vontade e suas patologias sofreu um declínio progressivo. Para BERRIOS (1995), as
causas deste declínio ainda não foram bem estudadas. As explicações mais gerais dizem que,
junto com uma mudança na “moda filosófica”, os pensamentos anti-mentalistas behavioristas e
psicanalistas contribuíram para que o interesse pela vontade fosse diminuído. Muitos autores
passaram a dizer que ela foi banida da medicina, da psiquiatria, da psicologia e da filosofia ou ao
menos substituída por outros conceitos.
Contrapondo-se ao discurso do desaparecimento ou inexistência da vontade, SEDGWICK
(1993) descreve o momento atual como o das “epidemias da vontade”. Na época marcada pelo
problema dos excessos, a força da vontade surge como um antídoto poderoso. Ela é requisitada,
aclamada e reforçada na luta contra a adição, no discurso preventivo do risco, no auto-
monitoramento da cultura corporal e na busca pelo sucesso. Em todos estes espaços, a palavra de
ordem é “persistência” e “tenacidade”. Não se trata de dizer que uma linha evolutiva pode ser
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 144

demarcada entre os anos que separam e unem a problemática da vontade dos séculos XIX e XX.
No entanto, muitos dos antigos dilemas permanecem alimentando o debate contemporâneo.
No século XIX, somente o poder da vontade era suficientemente forte na luta contra seus
determinismos e suas fraquezas. Contra a vontade dos impulsos imediatos, a vontade racional,
prudente e consciente era o antídoto. Hoje, como VALVERDE (1998) recorda, apesar de ser
divulgado que fatores genéticos e familiares determinam o comportamento, a maioria das
pessoas, incluindo médicos, psicólogos, cientistas e doentes, acredita que a determinação da
vontade é uma arma poderosa contra um destino apenas parcialmente determinado pela biologia.
O sujeito, com sua determinação e força de vontade, é chamado a lutar contra o inimigo interno
ou externo, se antecipando a ele através da gestão dos riscos. O espaço hoje concedido à vontade
é legitimado pelo próprio discurso médico e científico e pela biologia que sustenta suas teorias.
Mais do que nunca, o problema da atenção, da hiperatividade e da impulsividade é
marcado pelo vocabulário puritano do autocontrole. O destino do indivíduo TDAH é apenas
relativamente determinado por sua condição defeituosa. Um espaço é concedido à capacidade de
disciplina e de determinação do sujeito. O tratamento depende, em grande parte, da força de
vontade do indivíduo. Se a vontade desapareceu ou se alojou nos circuitos nervosos, ela saiu de
cena apenas para trocar de papel ou mudar de vestimenta. Seu personagem ainda é um dos
principais.
Muitos são os relatos de vitórias e fracassos no manejo do transtorno. Para o discurso
neurobiológico, o sucesso depende primeiro da adoção completa e irrestrita de se “ser um
TDAH”. Ao conhecer e se identificar ao “modo de ser TDAH”, o indivíduo TDAH, que por
definição é instável, imprevisível e desordenado, aprende a lidar consigo mesmo. Ele encontra o
norte que lhe faltava. O primeiro conselho dado por Döpfner, Frölich e Lehmkuhl à criança
TDAH é que ela e somente ela tem que tomar a decisão de se tratar, de não desistir no meio do
percurso, de não fraquejar apesar de todas as dificuldades170. O indivíduo TDAH de sucesso, que
foi capaz de atingir boas colocações na vida profissional, familiar e afetiva, é um exemplo da

170
“Reflita se você quer solucionar o problema! (...) Importante é a sua decisão (...) não desista!” (DÖPFNER,
FRÖLICH, LEHMKUHL, 2003). O exemplo mais famoso da literatura popular que defende esta posição é o livro
Tendência a distração. A proposta central do livro é trocar o “eu não queria” pelo “eu não podia” prestar atenção.
Mas, por outro lado, eles dizem que a convivência bem sucedida com o TDAH envolve prática, aprendizado,
disciplina e treino. Se ele não pode ser culpado por sua condição patológica, ele é responsabilizado pela adesão total
ao tratamento e à identidade TDAH. O pedagogo RISCHBIETER (2005) é um dos que comenta os perigos dessa
identificação, principalmente quando se trata da criança “Ela recebe um rótulo no qual a escola acredita, os pais
acreditam e, pior, ela própria pode acabar acreditando. O risco maior é que a criança passe a se comportar como se
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 145

força da vontade, um resultado das potências do querer. Contra ele e lhe impondo obstáculos está
a sua própria natureza e esta é genética e cerebral, mas ele (ou sua vontade) pode ser mais forte
que ela.
No TDAH, trata-se apenas da deficiência da vontade orientada para o futuro. A vontade,
como um todo, não é extinta. Pelo contrário, seu exercício ou reforço é parte integrante da terapia
voltada para o TDAH171. Mesmo para o discurso que vê no indivíduo TDAH uma propensão
natural ao crime, ele não é descrito como um autômato governado por seus impulsos. O TDAH
não é capaz de “resistir a tentação” do impulso imediato172. Mas ele é capaz de controlar sua ação
quando ela é eficiente e continuamente condicionada em intervalos curtos de tempo. Para auxiliá-
lo, novas e antigas estratégias são bem vindas. A família TDAH tem que aprender a lidar com
jogos, instrumentos, engenhocas e novas tecnologias criadas pela indústria dos reforçadores da
vontade ou, como uma das páginas de venda da internet prefere chamar: o mercado dos
“instrumentos do bem estar” (tools for wellness)173.
O MotivAider é um dos instrumentos que tem sido incorporado e amplamente
comercializado no mercado TDAH. Um aparelho movido à bateria, programado para produzir
uma vibração suave em certos intervalos de tempo, o MotivAider funciona como um alarme que
recorda ao indivíduo um objetivo, um desejo, uma tarefa ou um plano que ele quer atingir ou
realizar. Os sites de venda do produto anunciam que, com o seu uso, os indivíduos aprendem
como eliminar de forma eficiente e rápida todo hábito indesejado e em seu lugar construir um

fosse de fato disléxica, agravando dificuldades que ela poderia ter superado facilmente”. Em sua fala, o autor
demonstra que as tecnologias diagnósticas fazem parte da constituição da patologia. Elas a tornam real.
171
Em seu estudo sobre o alcoolismo como uma patologia da vontade, Valverde demonstra que nas estratégias
terapêuticas de modificação comportamental, também indicadas para o tratamento do TDAH, está ainda presente o
fantasma da liberdade da vontade e da moral vitoriana do autocontrole “Na terapia cognitiva e comportamental, a
linguagem da vontade desapareceu e foi substituída pelo vocabulário das “decisões” e dos “contratos”. Mas o
fantasma da liberdade da vontade é claramente visível: o objetivo da terapia é facilitar o dizer não para as “coisas
más”. Ao compactuar com o objetivo tradicional e quase religioso do fortalecimento da capacidade individual de
dizer “não a tentação”, os programas cognitivos seguem a lógica da maximização das capacidades individuais”
(VALVERDE, 2003, p. 452). Smith afirma o mesmo ponto de vista ao dizer que as terapias comportamentais do
século XX deram continuidade ao ideal vitoriano de controle do corpo e do comportamento,“Os terapeutas do século
XX, como seus precursores vitorianos, acreditavam na existência da competição mental por fontes de energia
limitadas. A terapia, seguindo esse modelo psico-econômico, tornou-se uma intervenção normativa que tinha por
objetivo controlar a distribuição das fontes mentais limitadas (…) a terapia que fazia uso do condicionamento para
induzir a inibição de certos traços comportamentais traduziu a linguagem vitoriana moral para uma época
tecnicamente mais refinada” (SMITH, 1992a, p. 204/205). As terapias comportamentais ao lado da intervenção
medicamentosa são as mais recomendadas no tratamento do TDAH.
172
A expressão utilizada por Barkley “resistir a tentação” nos leva diretamente aos discursos morais e religiosos da
vontade.
173
O “Tools for wellness” é um dos sites de venda do que poderíamos chamar de uma nova indústria da vontade. Ele
oferece um catálogo grátis de 100 páginas no qual instrumentos variados são vendidos. Uma página específica é
destinada somente para as mercadorias TDAH. Consultar http://www.toolsforwellness.com/add.html.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 146

novo hábito. Criado na década de 80, esta engenhoca tem sido amplamente usada nos campos da
saúde, da educação, dos esportes e dos negócios. Como ela promete transformar “as boas
intenções em ações”, ela vem sendo vendida também no mercado destinado ao TDAH ou aos
indivíduos naturalmente imaturos na arte de converter intenções em ações a longo prazo.
Nas estratégias de gestão do TDAH, as metáforas empresariais são nítidas. Termos como
“negociação” e “contrato” são comuns nos discursos dos que lidam com o transtorno. Certos
manuais sugerem que uma lista de pontos a serem negociados seja feita, escrita de forma nítida
em uma folha de papel e entregue à criança ou adolescente com antecedência. Reuniões
periódicas de planejamento devem ser agendadas nas quais as sugestões da criança sobre a lista
devem ser ouvidas com atenção e consideradas com seriedade. Em nenhuma situação elas devem
ser motivo de risos, “mesmo que sejam ridículas”, recordava um dos guias do transtorno. Durante
a aplicação do plano negociado, novas reuniões de avaliação devem ser marcadas e assim por
diante174. A linguagem empresarial das negociações e dos contratos não é nova nos manuais que
ensinam como ser um bom pai e uma boa mãe, mas ela tem sido intensamente apropriada pelo
discurso científico do TDAH. O objetivo desse discurso é aumentar o papel ativo da criança e sua
autonomia ou fazer dela um “pequeno empreendedor”. Na maior parte das vezes, ele tenta fazer
com que a família se transforme em uma pequena empresa.
Dois métodos freqüentemente usados no tratamento do TDAH, ao menos nos EUA,
exemplificam o tom empresarial de seu tratamento: o Token economies e o points-based systems.
O Token economies é um sistema de pontuação. Para cada bom comportamento ou tarefa
cumprida, a criança recebe uma ficha. Após um número determinado de fichas, ela recebe uma
recompensa. Contrariamente, quando ela se comporta mal, as fichas são confiscadas. No points-
based systems, cada comportamento, bom ou mau, tem um valor. Emprestar o carro tem um valor
X, fazer o dever de casa um valor Y e eles podem ser negociados entre pais e filhos. O dever de
casa feito vale 5 pontos, o carro emprestado vale 10, assim, quando o dever de casa é feito ao
menos duas vezes o adolescente tem o direito de usar o carro por um período de tempo
previamente determinado. Em todas estas estratégias, trata-se da criação de uma racionalidade
econômica causal. Para cada ação da criança e relação estabelecida entre pais e filhos um plano
de gestão é previamente criado. Nada deve escapar à racionalização do tempo e da ação. A

174
Um exemplo de carta sugerida por um desses manuais é dado por Rafalovich, “Qerido John, nosso acordo era que
você deveria colocar a mesa do jantar nas terças-feiras. Eu fiquei muito aborrecida ao ver que a mesa não estava
preparada e eu estava atrasada para minha aula. Eu acho que seria melhor nós termos um encontro amanhã às 19:30
horas. Por favor, me diga se esse horário é bom para você. Mamãe” (RAFALOVICH, 2002, p. 108).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 147

autodisciplina e a auto-regulação devem ser rigorosamente seguidas. Hábitos alimentares, tempo


e formas de lazer, tarefas, obrigações domésticas e sociais devem ser diariamente monitoradas e
racionalizadas175.
O neurofeedback é uma terapia diretamente vinculada ao desenvolvimento das
tecnologias de imagem cerebral, recomendada no tratamento da depressão, da epilepsia, do
TDAH e para o melhoramento da concentração e da memória normais. Os criadores do
neurofeedback afirmam que, através do autocontrole consciente e voluntário, as ondas cerebrais
podem ser reguladas. O objetivo do neurofeedback é fazer com que o sujeito seja capaz de
conscientemente alterar e controlar suas ondas cerebrais e a habilidade cognitiva delas
dependente. Nele, a auto-regulação da atenção se identifica ao autocontrole da atividade cerebral.
As propagandas de divulgação da tecnologia são claras: “mude seu comportamento através da
mudança de sua onda cerebral”, “aumente seu poder de concentração fortalecendo suas ondas
cerebrais”. Nesta tecnologia, a concentração e atenção são identificadas com certas freqüências
das ondas cerebrais, mas o alcance do autocontrole cerebral depende ainda de treino e de
exercício e este é um exercício consciente e voluntário (KRAFT, 2006).
A “síndrome do imediatismo” é marcada por um defeito na capacidade de planejar e
realizar ações orientadas por objetivos futuros. Isto significa dizer que essa capacidade existe
como um resultado natural do desenvolvimento neuropsicológico. A explicação neurobiológica
do TDAH não elimina a vontade racional e o seu poder de controlar as decisões e as ações
precipitadas e inconseqüentes. Ao dizer que ela está parcialmente afetada no TDAH, o discurso
psiquiátrico perpetua a crença em sua existência e continua alojando-a no espaço confuso e
nebuloso das fronteiras entre a mente e o cérebro, entre as polaridades abstratas que separam as
esferas da escolha racional e da determinação natural. Em sua análise sobre o alcoolismo,
VALVERDE (1998, 2003) demonstra que no interior do discurso psiquiátrico molecular e
neuroquímico ele não foi totalmente medicalizado. O alcoolismo continua ocupando o espaço
híbrido destinado às patologias do desejo e da vontade. O mesmo pode ser dito em relação ao
TDAH. Mas como Rose indica em suas análises, talvez fosse mais correto falar de uma
medicalização por si mesma híbrida, ao invés de defender que a somatização da vontade e do
autocontrole fracassou em seus objetivos iniciais.

175
“No interior da vida doméstica do indivíduo TDAH, a modificação comportamental encontra a regulação da diéta,
o points system encontra o MotivAider, a regulação dos horários e programas de TV encontra o controle instante por
instante da criança. Comum a todos eles está um mecanismo disciplinar extremamente consistente” (RAFALOVICH,
2002, p.121).
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 148

O projeto histórico de medicalização e biologização das patologias da vontade e da


atenção não é linear. Ao mesmo tempo, a história das tecnologias de governo da atenção e da
vontade inclui o discurso médico e psiquiátrico e o extrapola. Os discursos da persistência da
vontade e da habilidade do autocontrole encontram-se por toda parte. Eles habitam a ciência
psiquiátrica e psicológica, a teoria criminal, as técnicas religiosas cristãs, a espiritualidade da
Nova Era, os manuais de auto-ajuda e etc. A ênfase atual no poder da persistência da vontade não
se opõe ao discurso médico de sua biologização. Com ele, embora de forma diversa, ela mantém
e alimenta a importância da vontade e do autocontrole nas sociedades atuais. Este é apenas um
dos paradoxos que fazem com que olhemos com desconfiança o argumento que o discurso moral
da atenção é enterrado com a patologização do desatento. Em primeiro lugar, esta não é uma
patologização definitiva. Nela, a natureza e a moral da atenção e do autocontrole continuam
criando entre si inúmeras relações, elas não são as mesmas do discurso das patologias da vontade
na virada do século XIX, mas persistem no cenário atual se alimentando de outras fontes.

6.6. CONCLUSÃO
Desde a década de 90 (a década do cérebro), a interpretação do TDAH como um defeito
inibitório ou uma disfunção da vontade (ou das funções executivas) que afeta a capacidade de
manutenção da atenção é a mais aceita no campo científico. Na história do sujeito cerebral, os
elos entre os discursos da inibição, da atenção e da vontade eram mais uma vez estabelecidos. O
TDAH era explicitamente incluído no processo de biologização moral da vontade. Com as
antigas patologias da vontade ele compartilha algumas características. Ele descreve uma
patologia da reação ou uma reação negativa na qual o corpo e a mente não se adaptam às
exigências do mundo externo. O controle não é internalizado. A vida é compreendida como uma
fenômeno reativo no qual o sentimento de atividade e liberdade é apenas uma ilusão produzida
pelas funções cerebrais. A temporalidade que ele privilegia é externa, racionalizada e, como diria
Bergson, espacializada. Ela é a duração dos indivíduos normais que deve ser artificialmente
criada nos indivíduos TDAH.
A patologia da atenção e do controle atual é também uma patologia moral. Os sujeitos
afetados não se encaixam nas exigências morais de sucesso e produtividade. Como as patologias
da vontade do século XIX, o TDAH constituiu-se nas fronteiras entre os saberes médicos e legais.
Ele responde à demanda de segurança e prudência das sociedades atuais que se antecipam ao
perigo, controlando-o antes mesmo que ele se manifeste. Ele se vincula à necessidade científica
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 149

de externalização da patologia mental, de tornar visível o invisível, de distinguir, separar,


especificar e classificar fenômenos integrados. O TDAH também faz parte do processo de
legitimação do discurso biológico e de sua neutralidade científica. Como nas antigas patologias
da vontade, alimentando o discurso dominante do TDAH estão também especulações metafísicas
que fortalecem o pensamento causal e a determinação do mental pelo corporal (cerebral). A elas
se acrescentam as tecnologias visuais que produzem a ilusão da auto-evidência. A patologia do
controle e da atenção atual também não eliminou a vontade, ela ainda é requisitada na luta contra
as determinações do corpo.
Os comportamentos que estão prejudicados no TDAH, o funcionamento ótimo da atenção
e o autocontrole, são construtos que foram historicamente vinculados à compreensão do que é ser
um indivíduo produtivo, evoluído, civilizado e moralmente desenvolvido e suas disfunções foram
associadas aos perigos que ameaçam a vida social. Mapear as linhas e os movimentos do
caleidoscópio que fez e faz do autocontrole e da atenção valores existenciais e morais ímpares
para as sociedades ocidentais não é uma tarefa simples. Ao longo do tempo, novos elementos,
novas cores e novos ritmos foram introduzidos neste caleidoscópio. Se ele continua sendo o
mesmo, não é uma pergunta que pode ser respondida com uma única resposta.
O TDAH é uma das faces mais recentes e atuais deste caleidoscópio, mas que carrega
consigo partes de seu passado, agora atualizadas e remodeladas. Ele é apenas uma parte da
história da constituição do indivíduo desatento e da biologização e cerebrização da vontade. Mas
uma das partes mais polêmicas e poderosas de sua fase atual. A polêmica em torno do TDAH é
repleta de dilemas que, por serem cobertos de uma importância existencial, política e econômica
fundamental, ajudam a fazer do diagnóstico um dos transtornos mais debatidos nos últimos
tempos e de maior repercussão pública. A constituição do indivíduo desatento e do diagnóstico
do TDAH não é um empreendimento puramente científico. Ela resulta de um pacto social,
político e econômico no qual a moral e a biologia da atenção permanecem vinculadas, se
alimentando mutuamente.
Na história do sujeito desatento que construímos, vemos o espaço “fronteiriço” do
diagnóstico do TDAH como um analisador importante do processo de biologização e
somatização moral da identidade. Nos tópicos deste capítulo, analisamos uma parte deste
processo: trata-se da história da biologização do autocontrole e da capacidade de inibição do
comportamento, de sua patologização e moralização mais recente. Nesta história, o defeito na
função inibitória cerebral é a explicação causal mais plausível e científica para a psicopatologia.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 150

Ela nos conta como, nas sociedades ocidentais, desde um determinado momento, a patologia
mental e o perigo social e, por outro lado, a normalidade do indivíduo bem sucedido, foram
identificadas aos graus da capacidade individual de autocontrole e inibição do comportamento.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 151

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nos capítulos desta tese, o nomadismo da atenção nos conduziu aos espaços reservados às
suas funções e disfunções nos últimos 200 anos das sociedades ocidentais. Estes espaços nos
contaram a história da formação de uma economia da atenção na qual o gasto da atenção se
transformou em um valor científico, político, econômico, social, existencial e biomédico. Nela, o
indivíduo atento e o indivíduo desatento foram constituídos. Seus perfis foram diversos e por isso
dificilmente podemos falar de uma única história do sujeito atento e desatento. Além disso, vimos
que a falta de atenção nem sempre produziu o indivíduo desatento; na história do indivíduo
desatento, nem sempre o problema da desatenção foi patológico; no processo de patologização da
atenção, nem sempre o TDAH esteve presente. No entanto, na história que contamos, todas as
diferentes fases da economia da atenção participaram da constituição do sujeito cerebral.
A história da cerebrização da atenção pode ser dividida em três períodos: a segunda
metade do século XVIII; a segunda metade do século XIX e as três últimas décadas do século
XX. Em nossa tese, vimos que os aspectos que vincularam estes períodos e permitiram que eles
fizessem parte do processo de somatização do eu foram muitos. Unindo-os encontramos os traços
da cultura visual; a tentativa de legitimação das bases biológicas e cerebrais do eu; o processo de
externalização da identidade; a patologização do sujeito incapaz de aderir às normas e valores
sociais dominantes; a compreensão da vida como um fenômeno reativo; a defesa da neutralidade
científica; os valores das sociedades de segurança; a crença na força da vontade e a ênfase na
capacidade de controle racional e consciente do corpo e do comportamento. Mas a história da
biologia moral da atenção também é marcada por descontinuidades. Neste capítulo final,
buscaremos tornar explícitas algumas semelhanças e diferenças entre as suas fases.
A história do sujeito cerebral, em certo sentido, reforça e defende o pensamento
fisiológico que diz que tudo resulta da lógica natural que, neste caso, é cerebral. Mas em seu
início, ela desconsiderou o corpo e não se ocupou do cérebro. Na constituição do sujeito cerebral,
a pessoalidade foi primeiro espiritual e mental. A história da valorização da atenção também
começou com sua desencarnação. No primeiro e segundo capítulos da tese vimos que, no século
XVIII, o indivíduo atento era o iluminado pela razão, que não cedia às tentações da imaginação e
das percepções falsas. O indivíduo desatento era o sujeito dos devaneios diários e de imaginação
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 152

fértil. Ele era também o leitor apressado, impaciente e desatento aos detalhes, incapaz de atingir o
conhecimento verdadeiro do mundo e de si. Uma moral existencial, epistemológica, científica,
política e econômica da atenção se formava. A atenção era desencarnada, mas já se vinculava à
capacidade de autocontrole racional da vontade. A economia moral da atenção se constituiu
quando o controle da atenção foi, ao menos parcialmente, entregue ao indivíduo. Por essa dádiva,
ele seria glorificado, mas também cobrado e julgado.
No século XVIII, a atenção era “a direção ativa da mente”. O século XIX entregou à
atenção a gestão ativa da ação ao mesmo tempo em que lhe concedeu um corpo. A segunda fase
do processo de valorização da atenção era iniciada. Nela, a moral e a biologia da atenção
começaram seu diálogo. Durante o século XIX, diferentes projetos de naturalização da mente e
da identidade foram desenvolvidos. Na descrição das patologias da atenção e da vontade o
craniocentrismo predominou. Mas os projetos de moralização e naturalização da atenção nunca
foram excludentes. Desde o início, o processo de biologização da atenção não foi amoral.
Durante o século XIX, a biologia que ditava as regras da vida e determinava a identidade pessoal
alimentava-se dos projetos de moralização do natural. As regras morais e espirituais eram
reescritas em uma linguagem natural, corporal e cerebral, aparentemente mais científica e
empírica. Os preceitos morais da época e as necessidades sociais vinculadas à manutenção da
ordem eram biologicamente legitimados.
Na história da atenção, três conceitos chaves possibilitaram e ainda possibilitam que a
biologia e a moral da atenção se interpenetrem e juntas participem da constituição do sujeito
(des)atento: a atenção, a inibição e a vontade. Ao escrever a história da inibição nas ciências da
mente e do cérebro do século XIX e início do século XX, SMITH (1992a) a descreve como uma
palavra mágica, repleta de usos e significados. Em relação aos países de disseminação, o conceito
rompeu fronteiras. Na língua inglesa, ela era usada para descrever processos físicos e
psicológicos; ela era um termo técnico da neurofisiologia e da psicologia experimental e uma
palavra que, no senso comum, descrevia a ação e o caráter humano. Na língua alemã, na primeira
metade do século XIX, ela era empregada na descrição dos conceitos de cultivo de si e nas
práticas administrativas. Na metade do século, os neurofisiologistas começaram a usá-la na
pesquisa patológica experimental. Na língua francesa e também inglesa, a inibição era
originalmente uma palavra legal que fazia referência ao poder de uma organização mais forte
sobre as subordinadas. Ela foi também um sinônimo para prevenção. No final dos anos de 1860,
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 153

médicos ocupados com as relações de controle entre o cérebro e o sistema nervoso mais baixo
adotaram o vocabulário da inibição.
A atenção também é uma palavra mágica. Em seu nomadismo, ela foi considerada um
acontecimento, um incidente, um ato, uma disposição física e psíquica, uma decisão, uma
habilidade, um dever, uma obrigação, um afeto e um presente. Ela descreveu fenômenos
psíquicos e físicos; esteve na base das teorias espiritualistas e naturalistas do século XIX; seus
significados foram e são repletos de valores morais, políticos e econômicos; na história das
ciências, ela definiu diferentes métodos e valores epistêmicos; no imaginário popular, ela é uma
palavra importante e extremamente utilizada; em sua história, ela foi identificada à energia vital
que vinculava todos os seres da cadeia viva, mas que fazia do homem o senhor de todo reino
animal; o sentimento de atividade do eu foi vinculado a ela e dela feito dependente; desde o
século XIX, ela se confunde com a capacidade de adaptação do corpo e da mente ao mundo; suas
disfunções estiveram presentes em quase todas as descrições da patologia.
Desde o século XVIII, as relações estabelecidas entre atenção e inibição possibilitaram
que os diversos usos e significados desses conceitos se mesclassem e incluíssem o vocabulário da
moral vitoriana do autocontrole e do poder da vontade. No século XIX, eles estiveram no centro
do processo de naturalização e externalização da identidade, de suas funções e disfunções. Seus
significados morais foram atados aos seus usos biológicos e neurofisiológicos. O indivíduo atento
e o indivíduo desatento foram constituídos no encontro das demandas morais, sociais, políticas,
econômicas e científicas em torno dos discursos e das tecnologias da inibição, da atenção e da
vontade e na manutenção destas demandas, a medicina foi um saber fundamental.
No século XIX, um lugar especial nas descrições psicopatológicas foi reservado ao
indivíduo desatento. Se desde o século XVIII a gestão da atenção tornou-se um assunto médico,
foi somente durante o século XIX que a economia biomédica da atenção fortaleceu suas bases.
No momento em que a vida passou a ser compreendida como um processo de adaptação do corpo
e da mente às exigências do mundo, a atenção tornou-se uma das funções psíquicas mais
importantes. Ela permitia a adaptação bem sucedida do corpo e da mente. Quando bem gerida,
ela alimentava o sonho do desenvolvimento científico e da evolução da civilização. Ao mesmo
tempo, suas disfunções tornaram-se signos da patologia, do desvio, da criminalidade, da
insanidade. As patologias da ação, da vontade e da moral eram também patologias da atenção e
para o projeto de naturalização da vontade e da moral, elas eram, sobretudo, cerebrais.
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 154

Mas no final do século XIX, a patologização do desatento foi um processo muito mais
moral do que biológico. Em suas bases estavam a necessidade de controle e restrição da vontade
em uma sociedade na qual o equilíbrio dos desejos comedidos deveria ser mantido a todo custo.
Restrições ao corpo e à ação precisavam ser estabelecidas e elas incluíam a própria vontade e a
atenção que não deveriam ser nem muito fracas nem muito potentes. A imagem que RIBOT
(1889) nos oferecia no final de sua análise sobre a atenção era a de uma linha vital. Em seu centro
e como ponto de partida, ele colocava a atenção espontânea necessária a toda espécie animal.
Crescendo em sua intensidade, encontramos a atenção espontânea forte, em seguida o que ele
chamava de preocupação e, deste ponto, partia uma bifurcação que levava a dois extremos: a
idéia fixa e o êxtase. Saindo novamente do centro e seguindo na ordem decrescente da atenção
espontânea, encontramos a atenção voluntária, em seguida o hábito organizado, a atenção
voluntária vacilante média e, novamente, uma bifurcação: a falha temporária desta atenção e sua
impossibilidade. Na linha atentiva que definia as formas vivas, os extremos eram indesejáveis e
deveriam ser evitados ou eliminados.
No final do século XVIII e durante o século XIX, os excessos da atenção eram mais
perigosos que suas faltas. A idéia fixa foi uma construção do século XIX que esteve presente na
explicação de quase todas as patologias mentais. Ela demonstrava os perigos da fixação excessiva
da atenção. Mas aquele século não viu nascer uma patologia biológica específica da atenção. Os
dados vindos da pesquisa neurofisiológica da inibição não foram suficientes. Por diversas razões,
o projeto de biologização da vontade e, por outro lado, a crença em seu poder regulador foram
parcialmente desacreditados. Entre as exigências do mundo externo e a reação corporal e cerebral
do indivíduo um espaço profundo e psíquico foi constituído. Nele foi alojada a pessoalidade, suas
funções e disfunções. Durante a primeira metade do século XX, a biologia moral da vontade teve
que dividir a cena psicopatológica com as teorias psicodinâmicas e comportamentais. O indivíduo
desatento e impulsivo não deixou de ser um problema social, médico e moral e continuou
presente nas classificações psicopatológicas. Os estudos neurofisiológicos sobre a inibição não
foram abandonados. Mas no período que se iniciava, as teorias psicodinâmicas e a psicanálise
ganharam proeminência.
Nos capítulos 3, 4 e 5 de nossa tese, vimos que as últimas três décadas do século XX
foram marcadas por transformações fundamentais. Iniciava-se a terceira fase da biologia moral da
atenção. O interesse político, econômico e médico pela gestão da atenção era reconstruído no
interior de uma nova economia. Em uma parte desta economia, o indivíduo atento e o indivíduo
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 155

desatento passaram a ter como modelo as celebridades executivas. Eles foram constituídos nos
espaços fronteiriços criados entre as aspirações democráticas do processo de humanização do
trabalho; a cultura visual da aparência e as novas demandas de sucesso profissional e pessoal. O
controle da atenção tornava-se uma necessidade pessoal do trabalhador gestor e dos indivíduos
que acreditavam na promessa do “sucesso para todos”. Nesta economia, o indivíduo desatento era
o sujeito ineficiente, incapaz de adequar sua vida às exigências do sucesso e da produtividade. A
ele era reservada a frustração dos planos não cumpridos e a insatisfação dos objetivos não
alcançados em uma época na qual planejar e organizar racionalmente um futuro cada vez mais
distante tornou-se uma exigência.
Na terceira fase do processo de valorização da atenção, mais uma vez ela foi alojada nos
circuitos cerebrais; esteve vinculada ao processo de biologização da vontade e fez parte da
tentativa de externalização e visualização da identidade e da patologia mental. Mas as novas
tecnologias de manipulação da atenção rompiam com seus antigos limites. A pesquisa
farmacológica e neurobiológica traziam uma promessa: o melhoramento e a intensificação
máxima da atenção. A biologia do novo olhar neuroquímico e molecular era compatível com uma
moral da atenção na qual os limites do querer e do ater deveriam ser rompidos, conquistados,
expandidos. Uma outra economia biomédica da atenção se fortalecia. Nela, ao menos
parcialmente, os excessos da atenção não eram vistos como patológicos. As faltas da atenção
passaram a ser o problema principal de uma economia na qual tudo e todos demandam atenção.
Nas últimas décadas do século XIX e no início do século XX, uma biologia capaz de
limitar e controlar a vontade e a atenção foi postulada. Ela respondia às necessidades morais de
uma sociedade que pregava a regulação do querer. Na economia atual, a biologia da atenção não
lhe impõe limites. Ela alimenta o sonho de sua maximização. Na nova economia biomédica, ao
serem alojadas no cérebro, teoricamente, a atenção e a vontade perdiam seus limites corporais e
mentais. Mas foi também neste contexto que uma patologia específica da atenção foi legitimada.
Em certo sentido, ela revelava que o sonho da otimização da atenção não seria realizado por
todos os homens. Aos que eram dele privados ela reservava um lugar nas classificações
psiquiátricas.
Com a constituição do diagnóstico do Déficit de Atenção e Hiperatividade, mais uma vez
as disfunções biológicas da atenção e da inibição da vontade foram usadas na explicação para o
comportamento criminoso e para os problemas sociais. No entanto, a biologia criminal do final
do século XX não era a mesma das teses do século XIX e início do século XX. Nos capítulos 3 e
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 156

5 da tese vimos que, nas primeiras décadas do século XX, a noção de que a criminalidade estava
inscrita no corpo físico degenerado e moralmente deficiente inspirou o movimento eugênico e
suas políticas de seqüestro, institucionalização e esterilização do mentalmente fraco, do insano,
do alcoólatra e da prostituta. No período entre o fim da segunda Guerra Mundial e o final da
década de 70, as explicações biológicas para a criminalidade foram duramente criticadas e
associadas ao racismo científico. Nos anos subseqüentes, os fatores biológicos da criminalidade
voltaram a ser enfatizados. Mas a re-biologização da psiquiatria e do comportamento criminoso
recebeu um novo colorido ao estar conectada à gestão neuroquímica dos riscos e à constituição de
um novo “tipo humano”: a pessoa biologicamente susceptível a perpetuar a agressão e a
violência.
Desde o século XIX, os cálculos do risco biológico integram a medicina coletiva. Mas na
segunda metade do século XX, a análise do risco foi profundamente reestruturada ao conectar-se
aos avanços das ciências biomédicas. Na primeira metade do século XX, os discursos eugênicos
diziam que certos comportamentos humanos perigosos eram hereditariamente determinados. A
biologia traçava seu destino. Eles eram específicos de uma população, grupo ou raça que deveria
ser eliminado, seqüestrado ou esterilizado. As estratégias preventivas eram de massa,
direcionadas para todo o grupo degenerado, ele, em si, um risco para toda a sociedade. Hoje, as
estratégias de prevenção do risco são individuais, especialmente quando se trata do
comportamento anti-social. Na lógica do risco predominante nas sociedades ocidentais
farmacológicas, suscetibilidades biológicas individuais manipuláveis e corrigíveis podem levar,
quando não remediadas, à conduta anti-social ou violenta.
A identidade somática que os indivíduos atuais compartilham não é ontológica e não é
profunda. É a adesão ao estilo de vida orientado pela gestão dos riscos que os vincula. Entre a
segunda e última fase do processo de biologização da atenção houve um deslocamento das
anormalidades implacáveis, da primeira metade do século XX, para as suscetibilidades
gerenciáveis, dos dias atuais. O indivíduo da biomedicina contemporânea é potencialmente livre
e responsável, empreendedor prudente que conduz a vida de forma calculada. O eu genético é o
eu da responsabilidade genética. Além disso, não há uma política de purificação das raças
alimentando a biologização da criminalidade e da capacidade de autocontrole atuais. A gerência
do risco biológico é apenas uma das estratégias de controle, prevenção e tratamento das pessoas
susceptíveis a perpetuar a agressão e a violência. Suas tecnologias não são negativas e
A Biologia Moral da Atenção - Luciana Caliman 157

compulsórias. Na maior parte das vezes, elas incluem a psicofarmacologia, a terapia genética, o
desenvolvimento da habilidade de autogestão e autocontrole.
Nos capítulos 3, 4, 5 e 6 de nossa tese, mostramos que em suas especificidades, o TDAH
foi constituído nas últimas três décadas do século XX. Ele pertence à última fase do processo de
cerebrização e biologização da vontade e da atenção. Como o sujeito desatento e impulsivo da
segunda metade do século XIX, o indivíduo TDAH também é o modelo do não permitido e do
não tolerado. Ele também foi constituído nos espaços fronteiriços das demandas científicas,
sociais, morais, econômicas e políticas. Ele também resulta de negociações que extrapolam a
pesquisa biológica, suas tecnologias e sua harmonia ilusória. Mas após um século de história,
outros foram os valores que ditaram as regras de inclusão e exclusão social e outros projetos
científicos permitiram que a biologia e a moral da atenção continuassem lado a lado, constituindo
o sujeito des(atento). A biologia moral da atenção de nossos dias é aquela que permite o encontro
do eu neuroquímico e autogestor com o sujeito cerebral. Juntos eles participam da criação dos
modelos das celebridades e cerebridades executivas que sustentam as controvérsias em torno do
TDAH, o legitimam e o tornam real.
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