Você está na página 1de 663

Índice

Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

Professor
de Ensino Fundamental II e Médio
História
Apostila de acordo com a Resolução SE 52, de 14 de agosto de 2013 e
Instruções Especiais SE 2, de 26/09/2013

BIBLIOGRAFIA-LIVROS E ARTIGOS

1. AZEVEDO, Cecília e RAMINELLI, Ronaldo. História das Américas: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vargas, 2011....................................................................................................................................................................01
2. BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2005.......20
3. BURKE, Peter. Variedades de História Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006...............................25
4. CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo. Novos domínios da História. Rio de Janeiro: Editora Campus,
2012...............................................................................................................................................................................................39
5. CERRI, Luis Fernando. Ensino da História e consciência histórica. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
2011................................................................................................................................................................................................41
6. FONSECA, Selva G. Didática e Prática de Ensino de História. Campinas: Editora Papirus, 2005.........................45
7. FREITAS, Marcos Cezar de. Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Editora Contexto, 2001..........58
8. FUNARI, Pedro Paulo e PIÑON, Ana. A temática indígena na escola. São Paulo: Editora Contexto, 2011............58
9. FUNARI, Pedro Paulo; FILHO, Glaydson José da e MARTINS, Adilton Luís. História Antiga: contribuições
brasileiras. São Paulo: AnnaBlume, 2009..................................................................................................................................61
10. HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de Aula: visita à História contemporânea. São Paulo: Editora Selo
Negro, 2010...................................................................................................................................................................................64
11. HOURANI, Albert. Uma história dos povos Árabes. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2005...............71
12. JUNIOR, Hilário Franco. A idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988..........72
13. MONTEIRO, Ana Maria; GASPARELLO Arlete Medeiros e MAGALHÃES (Orgs.). Ensino de História: sujeitos,
saberes e práticas. Rio de Janeiro: Editora Mauad X, 2009....................................................................................................88
14. PINSKY, Carla Bassanezi e LUCA, Tania Regina de (Orgs.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto,
2009...............................................................................................................................................................................................95
15. REIS, José Carlos. As identidades do Brasil: de Varnhagem a FHC. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
2002.............................................................................................................................................................................................105
16. RUSEN, Jorn. O livro didático ideal. In: SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel e MARTINS, Estevão de
Rezende. Jorn Rusen. O ensino da História. Curitiba: Editora UFPR, 2011.......................................................................108
17. SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Editora Companhia das
Letras, 1996................................................................................................................................................................................109
18. SILVIA, Janice Theodoro da. Descobrimentos e coloniza-ção. São Paulo: Editora Ática,1998............................ 113
19. SOIHET, Rachel; BICALHO, Maria Fernanda Baptista e GOUVÊA, Maria de Fátima Silva (Orgs.). Culturas
políticas. Rio de Janeiro: EDITORA Mauad/FAPERJ, 2005................................................................................................ 115

Didatismo e Conhecimento
Índice

PUBLICAÇÕES INSTITUCIONAIS

1. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: história. Brasília: MEC/SEF,
1998. .............................................................................................................................................................................................01
2. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. História e geografia, ciências
humanas e suas tecnologias: livro do professor – ensino fundamental e médio. Brasília: MEC/INEP, 2002.....................34
3. BRASIL. Secretaria de Educação Básica. Orientações Curriculares para o Ensino Médio: ciências humanas e suas
tecnologias; história. Brasília, MEC/SEB, 2006. ......................................................................................................................79
4. BRASIL. Secretaria de Educação Continuada. Orientações e Ações para Educação das Relações Étnico-Raciais:
educação ético-racial. Brasília. MEC/SECAD, 2006. ............................................................................................................125
5. SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo do Estado de São Paulo: história. In: ___________________.
Currículo do Estado de São Paulo: ciências humanas e suas tecnologias. São Paulo: SE, 2012. p. 25-27, 28-73. ...........197

Didatismo e Conhecimento
SAC

Atenção
SAC
Dúvidas de Matéria
A NOVA APOSTILA oferece aos candidatos um serviço diferenciado - SAC (Serviço de Apoio ao Candidato).
O SAC possui o objetivo de auxiliar os candidatos que possuem dúvidas relacionadas ao conteúdo do edital.
O candidato que desejar fazer uso do serviço deverá enviar sua dúvida somente através do e-mail: educacao@
novaconcursos.com.br.
Todas as dúvidas serão respondidas pela equipe de professores da Editora Nova, conforme a especialidade da
matéria em questão.
Para melhor funcionamento do serviço, solicitamos a especificação da apostila (apostila/concurso/cargo/Estado/
matéria/página). Por exemplo: Apostila Professor do Estado de São Paulo / Comum à todos os cargos - Disciplina:.
Português - paginas 82,86,90.
Havendo dúvidas em diversas matérias, deverá ser encaminhado um e-mail para cada especialidade, podendo
demorar em média 05 (cinco) dias para retornar. Não retornando nesse prazo, solicitamos o reenvio do mesmo.

Erros de Impressão
Alguns erros de edição ou impressão podem ocorrer durante o processo de fabricação deste volume, caso
encontre algo, por favor, entre em contato conosco, pelo nosso e-mail, nova@novaapostila.com.br.
Alertamos aos candidatos que para ingressar na carreira pública é necessário dedicação, portanto a NOVA
APOSTILA auxilia no estudo, mas não garante a sua aprovação. Como também não temos vínculos com a
organizadora dos concursos, de forma que inscrições, data de provas, lista de aprovados entre outros independe
de nossa equipe.
Havendo a retificação no edital, por favor, entre em contato pelo nosso e-mail, pois a apostila é elaborada com
base no primeiro edital do concurso, teremos o COMPROMISSO de enviar gratuitamente a retificação APENAS por
e-mail e também disponibilizaremos em nosso site, www.novaapostila.com.br, na opção ERRATAS.
Lembramos que nosso maior objetivo é auxiliá-los, portanto nossa equipe está igualmente à disposição para
quaisquer dúvidas ou esclarecimentos.

CONTATO COM A EDITORA:


2242-7998 / 2242-7743

nova@novaapostila.com

@novaconcurso\\

/NOVAConcursosOficial

NovaApostila

Atenciosamente,
NOVA CONCURSOS
Grupo Nova Concursos
novaconcursos.com.br

Didatismo e Conhecimento
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E
ARTIGOS (História)
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Sinópse
1. AZEVEDO, CECÍLIA E RAMINELLI,
RONALDO. HISTÓRIA DAS AMÉRICAS: Os textos deste livro refletem a experiência docente e de pes-
NOVAS PERSPECTIVAS. RIO DE JANEIRO: quisa de professores de História da América da UFF. Cada capítulo
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, 2011. explora debates historiográficos em torno de temas fundamentais
da área, apresentando-se como uma excelente ferramenta para o
ensino na graduação. Os trabalhos estimulam o espírito crítico, na
medida em que explicitam conflitos entre distintas correntes ex-
Sumário plicativas, questionam paradigmas e lançam questões polêmicas.
Mostram, enfim, que a História está sempre em movimento.
Introdução
História da América na Universidade Federal Fluminense Resumo
(UFF) em retrospectiva
Rachel Soihet
Baseado na obra, organizamos o seguinte conteúdo:
Capítulo 1
A monarquia católica e os poderes locais do Novo Mundo Monarquia
Ronald Raminelli
Monarquia é um sistema de governo em que o monarca (rei)
Capítulo 2 governa um país como chefe de Estado. A transmissão de poder
Os índios e as reformas bourbônicas: entre o “despotismo” e ocorre de forma hereditária (de pai para filho), portanto não há
o consenso eleições para a escolha de um monarca. Este governa de forma
Elisa Fruhauf Garcia vitalícia, ou seja, até morrer ou abdicar.
Capítulo 3
Revolução e independências: notas sobre o conceito e os pro- Monarquia no Brasil
cessos revolucionários na América espanhola
Maria de Fátima Silva Gouvêa Primeiro Reinado (1822-1831)

Capítulo 4 Proclamada a independência, o Brasil assumiu a form­a monár-


Populações indígenas e Estados nacionais latino-americanos: quica de governo. Uma monarquia imperial que teria no príncipe
novas abordagens historiográficas D. Pedro de Alcântara, herdeiro da Casa de Bragança, seu primeiro
Maria Regina Celestino de Almeida imperador. O governo de D. Pedro I, entre 1822 e 1831, denomi-
nou-se Primeiro Reinado, momento em que se inicia a instalação
Capítulo 5 do Estado Nacional brasileiro, em meio a dificuldades econômico-
Soltando-se das mãos: liberdades dos escravos na América
financeiras e aos primeiros conflitos internos, típicos de uma fase
espanhola
María Verónica Secreto em que se acomodam os múltiplos interesses que marcaram a luta
pela independência.
Capítulo 6 As propostas liberais da nova elite dirigente, agora dividida ao
Lutas políticas, relações raciais e afirmações culturais no pós sabor de antigas divergências, entrou em choque com o absolutis-
-abolição: os Estados Unidos em foco mo do Imperador, provocando o rom­pimento da aliança que asse-
Martha Abreu gurou a ruptura com Portugal. Opondo-se aos liberais brasileiros,
Larissa Viana que novamente se uniram para resistir ao autoritarismo imperial,
o grupo português (comerciantes, militares e burocratas) aproxi­
Capítulo 7 mou-se de D. Pedro I, manobrando para garantir suas van­tagens e,
Imprensa liberal no pós-abolição (1865-1877) no limite, inviabilizar a independência.
Marco Antonio Pamplona

Capítulo 8 O reconhecimento internacional da independência


A sociedade de massas: os populismos
Norberto Ferreras Uma vez vencida a resistência interna, o Império buscou o
reconhecimento externo, francamente apoiado pela Inglaterra no
Capítulo 9 âmbito europeu, onde Portugal recu­sava-se a aceitar a nova situa-
Ditadura, violência política e direitos humanos na Argentina, ção da ex-colônia. Contudo foram os Estados Unidos (26/5/1824)
no Brasil e no Chile o primeiro país a reconhecer oficialmente a nação brasileira. O
Samantha Viz Quadrat reconhecimento norte-americano baseava-se na Doutrina Monroe,
que defendia o princípio “A América para os americanos”, reagin-
Capítulo 10 do à ameaça de intervenção da Santa Aliança na América. Além
Relações interamericanas no século XX: percursos e debates disso, era parte de uma política de resguardo dos promissores mer-
acadêmicos cados da América Latina. A partir daí, o México e a Argentina tam-
Cecília Azevedo
bém deram o seu reconhecimento.

Didatismo e Conhecimento 1
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O reconhecimento português, sob pressão inglesa, deu-se em - Inglaterra interfere (por motivos econômicos) e cria o Uru-
agosto de 1825, através do Tratado Luso-Brasi­leiro. Por esse trata- guai. (Ver: Guerra da Cisplatina)
do, Portugal concordava com a emanci­pação brasileira, mediante o
pagamento, pelo Império, de uma indenização de dois milhões de A questão da sucessão portuguesa
libras esterlinas, além da concessão a D. João VI do título de Im-
perador Hono­rário do Brasil. Em outubro do mesmo ano, a França Com a morte de D. João VI, em 1826, D. Pedro foi aclamado
também reconhecia o Império, em troca de vantagens comerciais. rei de Portugal. A aceitação do título pelo Impe­rador provocou um
A Inglaterra reconheceu o Brasil independente apenas em ja- profundo mal-estar entre todos os brasileiros, que se viam agora
neiro de 1826. Para tanto, exigiu a renovação dos tratados de 1810 ameaçados pela reunifica­ção das duas coroas, o que colocava em
por mais 15 anos, garantindo aos produtos ingleses baixas taxas risco a indepen­dência do Brasil.
alfandegárias, além de do governo imperial o compromisso de Diante das sucessivas manifestações no Rio de Janeiro, D. Pe-
extinguir o tráfico negreiro, provocando assim, reações das elites dro renunciou ao trono português em favor de D. Maria da Glória,
agrárias. sua filha, que ainda era criança.
Para governar como regente, D. Pedro indicou seu irmão, D.
A primeira constituição - 1823 Miguel, de tendência absolutista e que acabou se apos­sando ilegi-
timamente do trono português.
Firme oposição aos portugueses (militares e comerciantes) Sempre sob suspeita dos brasileiros e apoiado pelos consti-
que ameaçavam a independência e queriam a recolonização. tucionalistas lusos, D. Pedro começou uma longa luta contra o
A constituição proibia os estrangeiros de ocupar cargos públi- irmão, sustentada por recursos nacionais e pelos empréstimos in-
cos de representação nacional e tinha a preocupação de limitar e gleses. A questão do trono português foi solucionada em 1830; um
diminuir os poderes do imperador e aumentar o poder legislativo. ano depois, abdicando ao trono brasileiro, D. Pedra se tomaria rei
Também tinha a intenção de manter o poder político nas mãos de Portugal. Com título de Pedro IV.
dos grandes proprietários rurais. O projeto estabelecia que o eleitor
precisava ter uma renda anual equivalente a, no mínimo, 150 alquei- O problema dos tratados com a Inglaterra
res de mandioca. Por isso o projeto ficou conhecido como Constitui-
ção da Mandioca. (Ver: Assembleia Constituinte de 1823). O Brasil independente herdou os tratados de 1810, celebrados
por D. João com a Inglaterra. Foram esses tratados, especialmente
A constituição outorgada de 1824 o de Comércio e Navegação e o de Aliança e Amizade, que ga-
rantiram a continuidade da preponderância britânica no Império
Em seguida à dissolução da Constituinte de 1823, D. Pedro brasileiro.
I, já governando de forma autoritária, nomeou um Conselho de Em 1826, para garantir o reconhecimento da independência,
Estado com a tarefa de redigir o novo projeto de Cons­tituição, que D. Pedro I cedeu aos interesses ingleses, renovando a taxa prefe-
ficou pronto em janeiro de 1824. Depois de enviado a todas as Câ- rencial de 15% sobre os produtos ingleses por mais quinze anos,
maras Municipais do país e não ter recebido emendas ou críticas com dois de carência, além da promessa de acabar com o tráfico
significativas, o projeto foi assinado por D. Pedro I, tornando-se a negreiro. Em 1827, sob pressão da diplomacia inglesa, ocorreu a
Constituição do Império do Brasil, na prática, uma carta outorgada ratificação do acordado no ano anterior com um novo adendo: o
pelo Imperador em 25 de março de 1824. Brasil assumia o compromisso de extinguir o tráfico de escravos
Essa carta, defendida pelo Imperador como uma cons­tituição em três anos.
“duplicadamente liberal” era, na realidade, uma simplificação da Com isso, D. Pedro I mostrava sua fraqueza diante dos inte-
Constituição da Mandioca, uma vez que se mantinha fiel aos prin- resses britânicos e, especialmente com relação ao tráfico negreiro,
cípios e às aspirações políticas da aristocracia rural. (Ver: Caracte- feria diretamente os interesses da aristocracia rural escravista. Em
rísticas da constituição de 1824). vista disso, a Assembleia Geral procurou facilitar a concessão de
privilégios semelhantes a outras nações, como a França, Áustria e
Confederação do Equador Estados Unidos, entre outros.
Em 1828, para melhorar a imagem desgastada, D. Pedro pas-
O nordeste atravessava uma grave crise econômica devido à sou a adotar uma postura nacionalista e decretou a unificação das
queda das exportações de açúcar. Tomados por um sentimento an- tarifas alfandegárias, ou seja, toda e qualquer mercadoria, proce-
ti-lusitano, diferentes setores da sociedade uniram-se em torno de dente de qualquer país do mundo, pagaria apenas 15% de taxa al-
ideias contrárias à monarquia e a centralização do poder. Diziam fandegária quando entrasse no Brasil.
que o sistema de governo no Brasil deveria ser republicano, com a A redução das tarifas aduaneiras, na prática, a instauração do
descentralização do poder e autonomia para as províncias. Os es- livre-cambismo no Brasil, reduziu drasticamente a arrecadação do
tados que participaram do movimento foram: Pernambuco, Ceará, governo e contribui, ainda mais, para o desequilíbrio na balança
Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas. Os líderes mais democrá- comercial brasileira.
ticos da confederação defendiam a extinção do tráfico negreiro e
a igualdade social para o povo. (Ver: Confederação do Equador) Economia e finanças do primeiro reinado

A guerra Cisplatina O início do Primeiro Reinado coincide com o início do perío-


do, que se prolongou até 1860, em que o comércio exterior brasi-
- Conflito armado entre Brasil e Argentina, disputando o atual leiro foi quase o tempo todo deficitário. Isto é, importávamos mais
Uruguai. do que exportávamos: estávamos sempre devendo.

Didatismo e Conhecimento 2
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Para pagar as dívidas, o país fazia empréstimos externos, solu- e da violenta repressão à Con­federação do Equador. A isso, soma-
ção que ia transferindo o problema para o futuro. Novos pagamen- ram-se o envolvi­mento de D. Pedro na questão sucessória portu-
tos eram acrescidos a títulos de juros e amortizações. O resultado guesa e a desastrosa Guerra da Cisplatina, abertamente condenada
era contínuo aumento do desequilíbrio em nossas contas com o pela opinião pública. Todas essas ocorrências foram permeadas
exterior. pela crise econômico-financeira que se agravava durante o perío-
Em nossas exportações, destacavam-se: do: a falência do Banco do Brasil, em 1828, espelha a situação do
- Açúcar, principal produto durante o primeiro reinado, era Brasil na época.
vendido a preços baixos, por causa concorrência das Antilhas e do Nesse quadro, cresceu e se fortaleceu a oposição ao imperia-
açúcar de beterraba; o café transformou-se em principal produto lismo imperial, com a multiplicação dos jornais de liberal - “Au-
de exportação; rora Fluminense”, “O Republico” e “A Malagueta”, entre outros -,
- Algodão, que enfrentava a concorrência americana; e com os veementes pronunciamentos na Câmara dos Deputados,
- Fumo, cacau, arroz e couro, não tinham tanta expressão e nos momen­to’” de curta convocação do Parlamento brasileiro.
enfrentavam a concorrência americana (arroz) e platina (couro).
As importações incluíam manufaturados da Inglaterra, benefi- Abdicação de D. Pedro I
ciada ainda pelas tarifas privilegiadas em 1810; trigo dos Estados
Após oito anos pontuados por sucessivas crises, D. Pedro I
Unidos e da Europa; produtos alimentícios da Europa; escravos
acabou cedendo às pressões da aristocracia rural brasileira e ab-
da África.
dicou ao trono brasileiro em favor de seu fi­lho, também chamado
O Brasil enfrentava também escassez de dinheiro, resultante
Pedro de Alcântara, dando início ao Segundo Reinado.
dos seguintes fatores:
- Esvaziamento dos cofres da família real, quando voltou a Período Regencial
Portugal em 1821.
- Indenização paga a Portugal para que reconhecesse nossa O período regencial começa em 1831, com a abdicação de
Independência dom Pedro I, e estende-se até 1840, quando dom Pedro II é aceito
- Gastos com a guerra da Cisplatina e revoltas internas como maior de idade. É uma das fases mais conturbadas da histó-
Por falta de recursos e máquinas, as indústrias não puderam ria brasileira e de grande violência social. A menoridade do prín-
desenvolver-se. A Inglaterra tinha substituído Portugal tanto no cipe herdeiro acirra as disputas pelo poder entre as diferentes fac-
comércio como na criação de dificuldades para o desenvolvimento ções das elites. Pela primeira vez no país, os chefes de governo são
da indústria brasileira. O caso da indústria têxtil foi um exemplo eleitos por seus pares. Os brasileiros pobres continuam alijados da
típico. A Inglaterra, favorecida pelas baixas taxas alfandegárias, vida política da nação. As revoltas regionais, os motins militares e
sufocou-a colocando aqui seus tecidos em melhores condições que os levantes populares são violentamente reprimidos.
os nossos e criando dificuldades para a importação de máquinas
por brasileiros. Em 1840, mais da metade de nossos gastos com A composição das forças políticas
importações de manufaturados referia-se ao pagamento de produ-
tos de vestuário. Na esfera política das Regências digladiaram-se as forças dis-
A indústria de mineração só alcançou alguns progressos, no postas na estrutura da sociedade imperial, basi­camente a mesma
entanto, com ajuda de capitais ingleses. da época colonial. Ao iniciar-se o perío­do, eram três as facções
Nas exportações, o café, que tomou a dianteira na Regência, políticas entrechocando-se na luta pelo poder: os restauradores, os
lideraria por muito tempo, seguido de longe por outros produtos liberais moderados e os liberais exaltados.
tropicais, como açúcar, algodão, couro e pele, tabaco, cacau, mate Os restauradores, também denominados caramurus, repre-
e borracha. sentavam uma parcela da classe dominante que ha­via apoiado o
As dificuldades econômicas durante meio reinado e a Regên- Imperador, quando este tendeu ao absolu­tismo. Mesmo depois
cia atingiriam mais as cidades que as grandes propriedades rurais, da abdicação, passaram a lutar pela sua volta ao trono brasileiro,
agitando os primeiros anos da Menoridade. Para eles, a monar-
pois estas eram quase autossuficientes. As crises se deviam aos
quia não significava apenas a preservação da antiga estrutura de
empréstimos, à má administração e aos excessivos privilégios con-
dominação, nem dos privilégios. Estavam convictos, também, de
cedidos à Inglaterra, a potência capitalista da época. As dificulda-
que só o regime monárquico autoritário permitiria a continui­dade
des e a dependência aos ingleses não cessariam durante o segundo da tranquilidade e disputada preponderância. Dentre eles, muitos
Reinado. Pelo Contrário, cresceriam. eram restauradores por interesse pessoal, como é o caso de José
Bonifácio, agora tutor de D. Pedro de Alcântara. O seu reduto era
O fim do primeiro reinado o Senado e a associação política que os representava era o Clube
Militar.
Desde 1823, D. Pedro I trilhava o caminho do abso­lutismo, Com a morte de D. Pedro I, em 1834, os caramurus passaram
aliando-se ao Partido Português e chocando-se com o liberalismo a compor, com os direitos liberais ou moderados, o “regresso con-
dos brasileiros. Estes, aliados dentro do Partido ­Brasileiro, deixa- servador”. Tornaram-se parte dos maioristas em 1840 e da facção
ram de lado as antigas divergências e passaram a fazer cerrada áulica do início do segundo Reinado.
oposição ao Imperador. A resposta foi a crescente violência de D. Os liberais moderados, entendidos como a direita li­beral, cor-
Pedro e de seus partidários. respondiam à outra parcela da aristocracia rural. Eram monarquis-
O rompimento da aliança D. Pedro/elites agrárias, que levou tas, evidentemente, pois viam nela a pro­teção dos seus privilégios.
à independência, iniciou-se em 1823, quando da dissolução da Porém, desejavam-na constitu­cional, uma vez que a Constituição
Constituinte pelo Imperador, seguida da outorga da Carta de 1824 de 1824 assegurava a sua continuidade na posição de mando. De-

Didatismo e Conhecimento 3
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
fendiam a manutenção da ordem em primeiro lugar e não preten- de 35 anos e em condições de assumir o poder. Ela é provisória
diam nenhuma reforma econômica ou social. Como opositores das porque não há quórum suficiente no dia da abdicação para a elei-
reformas políticas, batiam-se pela centralização político-adminis- ção de uma regência permanente. A primeira tarefa do novo gover-
trativa. O liberalismo que rotulava essa facção era apenas de facha- no é atenuar os impasses que levaram à abdicação de dom Pedro
da, adequado às suas neces­sidades de classe dominante. Preponde- I, quase todos resultantes dos excessos de um poder extremamen-
rou durante os primeiros anos das Regências, dividindo-se a partir te centralizado. O último ministério deposto por dom Pedro I, de
de 1835. Eram denominados chimangos e uniam-se sob a égide maioria liberal, é reintegrado e os presos políticos são anistiados.
da Sociedade Defensora da Liberdade e Indepen­dência Nacional, O poder dos regentes é limitado. Não podem, por exemplo, dissol-
fundada por Evaristo da Veiga. Empe­nharam-se no combate aos ver a Câmara, que, na prática, torna-se o centro do poder do país.
restauradores e exaltados fede­ralistas, na defesa da ordem e da Composição política da regência – A composição do primeiro
centralização, fornecen­do subsídios para a orientação governista. trio de governantes é fruto de uma negociação entre os restaura-
Os liberais exaltados, fazendo às vezes da esquerda liberal, dores e liberais moderados. É composto pelos senadores José Joa-
eram representados não só por algumas parcelas da aristocracia quim Carneiro Campos, marquês de Caravelas, representante dos
rural, como também por outros segmento sociais. Apresentavam- restauradores; Nicolau de Campos Vergueiro, representante dos li-
se divididos em camadas sobre­postas, constituindo-se inicialmente berais moderados; e, no papel de mediador, o brigadeiro Francisco
por uma camada de homens livres, destituídos de propriedades, ou de Lima e Silva, representante da oficialidade mais conservadora
pequenos proprietários. Variando de região para região, desenvol­ do Exército. Os liberais radicais não participam do governo, mas
viam atividades nos centros urbanos ou nos campos, osci­lando obtêm vitórias importantes no Legislativo.
numa relação de dependência, entre a classe domi­nante e a classe
que fornecia o trabalho. Seguia-se o aglo­merado urbano e rural - Regência Trina Permanente
marginalizado de recursos: agre­gados, lavradores e citadinos, de-
dicados a pequenos expe­dientes e biscates. A regência trina permanente é eleita pela Assembleia Geral
Enquanto os moderados batiam-se pela preservação da ordem em 17 de junho de 1831. Sua composição inclui as facções políti-
e instituições, opondo-se a qualquer alteração no status quo, os cas que se expressam na capital e também os interesses regionais
exaltados eram os reformistas. Defen­diam o direito de manifes- da elite agrária. É integrada pelos deputados moderados José da
tação, reformas políticas, desde o estabelecimento de uma mo-
Costa Carvalho, marquês de Montalvão, representante do sul, e
narquia descentralizada até a proclamação de uma República, a
João Bráulio Muniz, representante do norte, além do brigadeiro
reforma na Constitui­ção de 1824, ampliando principalmente a au-
Francisco de Lima e Silva, que já integrara a regência trina provi-
tonomia pro­vincial, batendo-se pelo federalismo. Sem muita cla-
sória. O padre Diogo Antônio Feijó é nomeado ministro da Justiça.
reza, exigiam reformas na estrutura econômica e social. Apela­vam
Guarda Nacional – A formação da Guarda Nacional é pro-
para a violência, arrastando as forças de composição variada, sob a
posta pelo padre Diogo Antônio Feijó e aprovada pela Câmara em
bandeira do federalismo. Eram também chamados de jurujubas ou
18 de agosto de 1831. Sua criação desorganiza o Exército. Com
farroupilhas, e se organiza­vam em tomo da Sociedade Federal e de
a Guarda Nacional, começa a se constituir no país uma força ar-
clubes federa­listas espalhados pelas províncias.
mada vinculada diretamente à aristocracia rural, com organização
O avanço liberal descentralizada, composta por membros da elite agrária e seus
agregados. Os oficiais de alta patente são eleitos nas regiões e,
As tendências e evolução destes grupamentos políti­cos e da para muitos historiadores, é um dos componentes fundamentais do
própria vida política do período regencial devem ser entendidas coronelismo político – instituição não-oficial determinante na po-
em dois momentos que o caracterizam: o avanço liberal e o regres- lítica brasileira e que chega ao apogeu durante a República Velha.
so conservador. Reformas liberais – As bases jurídicas e institucionais do
O primeiro momento decorreu entre 1831 e 1834, quando as país são alteradas por várias reformas constitucionais que, em sua
forças liberais uniram-se para combater os restauradores. Juntos, maioria, favorecem a descentralização do poder e o fortalecimento
também estabeleceram reformas insti­tucionais, entendidas tradi- das Províncias. Em 29 de novembro de 1832 é aprovado o Código
cionalmente como liberais ou descentralizadoras, com o objetivo do Processo Criminal, que altera a organização do Poder Judiciá-
de acalmar as tensões regionais latentes. Na realidade, as refor- rio. Os juízes de paz, eleitos diretamente sob o controle dos senho-
mas propaladas não passaram de concessões dos moderados, então res locais, passam a acumular amplos poderes nas localidades sob
pre­ponderantes, no sentido de deter a vaga revolucionária, esva- sua jurisdição.
ziando-a. É evidente que a união entre moderados e exaltados era Ato Adicional de 1834 – A tendência à descentralização do
precária e circunstancial, não se apoiando em bases sólidas. Daí, poder é reforçada pelo Ato Adicional assinado pela regência trina
sua efemeridade. permanente em 12 de agosto de 1834. Considerado uma vitória
É neste primeiro momento que se desenrolam as duas primei- dos liberais no plano institucional, o Ato extingue o Conselho de
ras regências trinas, assinaladas pelo precário equi­líbrio político. Estado, transfere para as Províncias os poderes policial e militar,
até então exclusivos do poder central, e permite-lhes eleger suas
- Regência Trina Provisória assembleias legislativas. O poder Executivo provincial continua
indicado pelo governo central e o caráter vitalício do Senado tam-
Instalada no mesmo dia da abdicação de dom Pedro I, em 7 bém é mantido. A regência trina é substituída pela regência una
de abril de 1831, a regência trina é uma exigência da Constituição eletiva e temporária, com um mandato de quatro anos para o re-
para o caso de não haver parentes próximos do soberano com mais gente.

Didatismo e Conhecimento 4
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
- Primeira Regência Una Segundo Reinado (1831-1889)

O processo de escolha do primeiro regente único do país co- Golpe da Maioridade (1840): Início do Segundo Reinado.
meça em junho de 1835. Os principais concorrentes são o padre Partidos liberal e conservador. As disputas políticas entre
Diogo Antônio Feijó, de tendência liberal, e o deputado pernam- progressistas (Feijó) e regressistas (Araújo Lima), durante as re-
bucano conservador Antônio Francisco de Paula e Holanda Caval- gências, resultaram posteriormente no Partido Liberal e no Partido
canti. Feijó defende o fortalecimento do poder Executivo e vence Conservador, que se alternaram no governo ao longo do Segundo
o pleito por uma pequena margem de votos. Reinado.
Governo Feijó – Empossado dia 12 de outubro de 1835 para Enquanto o Partido Liberal se aglutinou em torno do Ato Adi-
um mandato de quatro anos, padre Feijó não completa dois anos no cional, o Partido Conservador foi se organizando em torno da tese
cargo. Seu governo é marcado por intensa oposição parlamentar e da necessidade de limitar o alcance liberal do Ato Adicional, atra-
rebeliões provinciais, como a Cabanagem, no Pará, e o início da vés de uma lei interpretativa.
Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul. Com poucos recursos O período regencial começou liberal e terminou conservador.
para governar e isolado politicamente, renuncia em 19 de setembro E há uma explicação para esse fato: a ascensão da economia ca-
de 1837. feeira.
Diogo Antônio Feijó (1784-1843) nasce em São Paulo numa Por volta de 1830, o café havia deixado de ser uma cultura ex-
família de “barões do café”. Ordena-se sacerdote católico em 25 perimental e marginal para se tornar o principal produto de expor-
de outubro de 1805. Em 1821 é eleito deputado às Cortes Consti- tação, suplantando o açúcar. Os principais lideres conservadores
tucionais, em Lisboa. Defensor de ideias separatistas é perseguido eram representantes dos interesses cafeeiros.
pela Coroa portuguesa, refugiando-se na Inglaterra. Volta ao Brasil Com a formação desses dois partidos e a ascensão da econo-
após a independência. Deputado nas legislaturas de 1826 a 1829 e mia cafeeira, a vida política brasileira parecia ganhar finalmente a
de 1830 a 1833, combina ideias de um liberal radical com propos- necessária estabilidade. Porém, as regras do jogo foram quebradas
tas e práticas políticas conservadoras. Luta contra o absolutismo, pelos liberais, com o Golpe da Maioridade. Para compreendê-lo,
a escravidão e o celibato clerical. Chama os liberais de “clube de retomemos o fio da meada.
assassinos e anarquistas” e também se afasta dos restauradores. A aclamação de D. Pedro II. No Brasil, as agitações políticas e
Ocupa o Ministério da Justiça entre 5 de julho de 1831 e 3 de agos- sociais tomaram conta do país logo depois da abdicação de D. Pe-
to de 1832. Em 1833 é eleito senador e, em 1835, regente único dro I em 7 de abril de 1831. Diante das crises vividas pelo regime
do reino. Autoritário na condução do Estado e sem bases de apoio regencial, ficou parecendo a todos que elas haviam sido facilitadas
próprias, é obrigado a renunciar em 1837. Participa da Revolução pelo caráter transitório do governo, que atuava apenas como subs-
Liberal em 1842. Derrotado, foge para Vitória. Volta ao Rio de tituto do poder legítimo do imperador, constitucionalmente impe-
Janeiro em 1843 e, nesse mesmo ano, morre em São Paulo. dido de exercer a autoridade devido à menoridade.
A fim de conter as agitações e o perigo da fragmentação terri-
- Segunda regência Una torial, a antecipação da maioridade de D. Pedro de Alcântara pas-
sou a ser cogitada. Levada à apreciação da Câmara, a questão foi
Com a renúncia de Feijó e o desgaste dos liberais, os conser- aprovada em junho de 1840. Assim, com 15 anos incompletos, D.
vadores obtêm maioria na Câmara dos Deputados e elegem Pedro Pedro de Alcântara jurou a Constituição e foi aclamado imperador,
de Araújo Lima como novo regente único do Império, em 19 de com o título de D. Pedro II.
setembro de 1837. A antecipação da maioridade, entretanto, foi maquinada e pos-
Governo Araújo Lima – A segunda regência una é marcada ta em prática, com êxito, pelos liberais, que, desde a renúncia de
por uma reação conservadora. Várias conquistas liberais são abo- Feijó em 1837, haviam sido alijados do poder pelos regressistas.
lidas. A Lei de Interpretação do Ato Adicional, aprovada em 12 de Tratou-se, portanto de um golpe - o Golpe da Maioridade.
maio de 1840, restringe o poder provincial e fortalece o poder cen- Essa manobra política que possibilitou o retorno dos liberais
tral do Império. Acuados, os liberais aproximam-se dos partidários ao poder teve como consequência a afirmação da aristocracia rural
de dom Pedro. Juntos, articulam o chamado golpe da maioridade, e o estabelecimento de sua dominação sobre todo o país. Como
em 23 de julho de 1840. a burguesia, que na Europa abandonara definitivamente o ideal
revolucionário, os grandes proprietários de terras e escravos que
Golpe da Maioridade haviam lutado contra o domínio colonial adotaram finalmente uma
política conservadora e antirrevolucionária.
A política centralista dos conservadores durante o governo O gabinete da maioridade ou o Ministério dos Irmãos. Ime-
de Araújo Lima estimula revoltas e rebeliões por todo o país. As diatamente após o golpe, organizou-se o ministério, o primeiro da
dissidências entre liberais e conservadores fazem crescer a instabi- maioridade, dominado pelos “maioristas”, todos eles ligados ao
lidade política. Sentindo-se ameaçadas, as elites agrárias apostam Partido Liberal. Do novo gabinete participavam os irmãos Andra-
na restauração da monarquia e na efetiva centralização do poder. da (Antônio Carlos e Martim Francisco) e os irmãos Cavalcanti
Pela Constituição, no entanto, o imperador é considerado menor de (futuros viscondes de Albuquerque e de Suassuna), donde decor-
idade até completar 18 anos. reu o nome de Ministério dos Irmãos.
Clube da maioridade – Os liberais lançam a campanha pró As disputas políticas, contudo, tornaram-se sangrentas a partir
-maioridade de dom Pedro no Senado e articulam a popularização da ascensão liberal, e governar havia se tornado sinônimo de exer-
do movimento no Clube da Maioridade, presidido por Antônio cício do poder discricionário*. Assim, para controlar o país, o par-
Carlos de Andrade. A campanha vai às ruas e obtém o respaldo tido que se encontrava no governo estabelecia a rotina de nomear
da opinião pública. A Constituição é atropelada e Dom Pedro é presidentes de províncias de seu agrado e de substituir autoridades
declarado maior em 1840, com apenas 14 anos. judiciais e policiais de fidelidade duvidosa.

Didatismo e Conhecimento 5
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Nas eleições, os chefes políticos colocavam nas ruas bandos Nascia desse modo, o parlamentarismo* brasileiro. Mas esse
armados; o governo coagia eleitores e fraudava os resultados das era um parlamentarismo muito diferente daquele praticado na Eu-
urnas. A eleição de 13 de outubro de 1840, que deu início a esse ropa, que seguia o modelo inglês.
estilo novo (e violento) de fazer política, ficou conhecida como No parlamentarismo europeu, o primeiro-ministro (que equi-
“eleição do cacete”, e deu vitória aos liberais. Todas as outras elei- vale ao nosso presidente do Conselho de Ministros) era escolhido
ções realizadas depois disso não escaparam à regra: continuaram pelo Parlamento, que também tinha força para depô-lo. Além dis-
igualmente violentas. so, o ministério era responsável perante o Parlamento, ao qual era
obrigado a prestar contas. Em suma, o Legislativo contra lava o
Medidas Antiliberais Executivo.
No Brasil era o contrário. O ministério era responsável peran-
A unidade da aristocracia rural. Apesar das disputas políticas te o poder Moderador (imperador). O Parlamento (poder Legisla-
violentas, os partidos Conservador e Liberal eram diferentes ape- tivo) nada podia contra os ministros, que governavam ignorando-o
nas no nome. Um e outro eram integrados pelos grandes proprietá- e prestando contas apenas ao imperador. Por esse motivo, esse
parlamentarismo brasileiro ganhou o nome de “parlamentarismo
rios escravistas e defendiam os mesmos interesses: estavam unidos
às avessas”.
contra a participação do povo nas decisões políticas. Liberal ou
Conservador - não importava -, a aristocracia rural era a favor de Política Protecionista
uma política antidemocrática e antipopular.
Essa evolução no sentido da maior unidade de interesse e na Tarifa Alves Branco (1844). Da cobrança de taxas alfande-
defesa de uma política conservadora foi, em grande parte, moti- gárias o governo brasileiro obtinha a maior parte de sua receita.
vada pelo fortalecimento econômico da aristocracia rural. Desde Contudo, desde os tratados de 1810, que reduziram os direitos al-
a década de 1830, a cafeicultura havia se deslocado para o vale fandegários das mercadorias inglesas para 15% ad valorem, essa
do Paraíba, onde rapidamente se tornaria a principal atividade fonte de receita encontrava-se incomodamente restringida. A situa-
agroexportadora brasileira, beneficiando particularmente as três ção havia se agravado mais ainda com as concessões comerciais
províncias do sudeste: Rio de janeiro, São Paulo e Minas Gerais. feitas aos Estados Unidos e a outros países europeus, por ocasião
A projeção política dessas três províncias, as mais ricas e podero- do reconhecimento da emancipação do Brasil.
sas do Brasil, já se fazia sentir desde a transferência da Corte, em O débil desempenho da economia brasileira até por volta de
1808. Representadas agora pelos “barões do café”, elas fortalece- 1840 foi tornando cada dia mais precária a situação do Tesouro. A
ram ainda mais as suas posições relativas, tornando-se capazes, inexistência de uma produção nacional que suprisse as necessida-
efetivamente, de impor nacionalmente a sua política. des internas de consumo fez do Brasil uma economia inteiramente
Como segmento mais rico e próximo do poder central, os ba- dependente do fornecimento externo. Os gêneros alimentícios e os
rões do café estavam em condições de submeter à sua liderança produtos de uso corriqueiro, como sabão, velas, tecidos, etc., eram
a aristocracia rural das demais províncias. Formando então um trazidos de fora, e a sua importação, naturalmente, tinha um custo
bloco cada vez mais poderoso, imprimiram uma direção precisa monetário que deveria ser saldado com as exportações de produtos
à política nacional: o centralismo e a marginalização dos setores nacionais.
radicais e democráticos. A dependência em que o Brasil se encontrava em relação à In-
A reforma do Código de Processo Criminal. Assim, a partir de glaterra e em menor escala em relação aos Estados Unidos e outros
1840 firmou-se uma tendência política centralista e autoritária. O países europeus apenas havia transferido par muitos os benefícios
primeiro passo nesse sentido foi a instituição da Lei Interpretativa que antes só cabiam Portugal. O país continuava, no plano econô-
do Ato Adicional. Em dezembro de 1841, foi a vez da reforma do mico, essencialmente colonial.
Essa distorção, que dificultava a acumulação interna de capi-
Código de Processo Criminal, que, como já vimos, havia conferido
tal, foi parcialmente corrigida em 1844, com a substituição do li-
às autoridades locais uma enorme soma de poderes. Com a refor-
vre cambismo por medidas protecionistas, através da Tarifa Alves
ma, o antigo código foi descaracterizado no seu conteúdo liberal, Branco, como ficou conhecido o decreto do ministro da Fazenda
pois toda autoridade judiciária e policial foi submetida a uma rígi- Manuel Alves Branco.
da hierarquia e diretamente subordinada ao Ministério da Justiça. Segundo a nova legislação aduaneira, os direitos duplicaram
O poder central tinha agora nas mãos instrumentos eficientes para (passaram para 30%) para mercadorias sem similares nacionais e
assegurar a ordem pública. 60% em caso contrário. Evidentemente, as pressões internacionais
A restauração do Conselho de Estado. Durante o Primeiro contra a medida foram muitas, sobretudo por parte dos britânicos,
Reinado, o Conselho de Estado era um órgão consultivo do im- que perdiam boa parte dos privilégios que tinham no mercado bra-
perador D. Pedro I, para o qual ele havia nomeado membros do sileiro.
“partido português”. Na Regência, esse órgão foi extinto pelo Ato Embora a nova política protecionista não formasse uma bar-
Adicional (1834). Em 1841 foi restaurado e se tornou o principal reira intransponível, nem estimulasse decisivamente o desenvolvi-
órgão de assessoria direta do imperador, através do qual a aristo- mento do mercado interno, foi, todavia, um importante passo nesse
cracia rural garantia a sua presença no centro do poder. sentido.
A presidência do Conselho de Ministros e o parlamentarismo
às avessas. No Primeiro Reinado foi constante o conflito entre o A Abolição do Tráfico Negreiro
poder Moderador (D. Pedro I) e a Câmara dos Deputados. Para di-
minuir os atritos entre os poderes, foi criado, em 1847, a Presidên- A pressão britânica na abolição do tráfico. Em meados do sé-
cia do Conselho de Ministros. Ficou convencionado que o impera culo XIX foi extinto no Brasil o tráfico negreiro. A iniciativa não
dor nomearia apenas o presidente do Conselho, que, por sua vez, foi por vontade e decisão do governo brasileiro, mas resultou da
escolheria os demais ministros. eficiente pressão britânica nesse sentido. Várias razões explicam

Didatismo e Conhecimento 6
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
essa atitude do governo britânico. Em primeiro lugar, a Revolução A repressão ao tráfico foi assim intensificada, e os navios bri-
Industrial do século XVIII, na Inglaterra, que generalizou o empre- tânicos chegaram a apreender navios em águas territoriais brasilei-
go do trabalho assalariado, pondo fim a toda forma compulsória de ras, até mesmo entrando em seus portos.
exploração do trabalhador, tornou a sociedade sensível ao apelo A lei Eusébio de Queirós (1850). Em março de 1850, o todo
abolicionista. -poderoso primeiro-ministro Gladstone obrigou o Brasil ao cum-
De fato, para as sociedades europeias do século XIX, que primento dos tratados, ameaçando-o com uma guerra de extermí-
acompanhando o exemplo britânico evoluíam no sentido do em- nio. O governo brasileiro finalmente se curvou ante as exigências
prego generalizado do trabalho livre assalariado, a escravidão, em britânicas e em 4 de setembro de 1850 promulgou a lei de extinção
contraste, começou a ser vista em toda a sua desumanidade, crian- do tráfico pelo ministro Eusébio de Queirós. A tabela abaixo mos-
do bases para uma opinião abolicionista. Evidentemente, os bons tra os efeitos imediatos da medida.
sentimentos por si sós eram insuficientes para qualquer ação con- Consequências da extinção do tráfico. A lei Eusébio de Quei-
creta contra a escravidão. Na verdade, o capitalismo industrial é rós, que pôs fim ao tráfico negreiro de forma súbita, como se verifi-
um sistema baseado no crescimento permanente, com abertura de ca na tabela, liberou uma soma considerável de capital, que passou
novos mercados. Ora, os escravos, por definição, não são consumi- a ser aplicado em outros setores da economia. As atividades co-
dores e, portanto, as sociedades escravistas representavam sérios merciais, financeiras e industriais receberam um grande estímulo.
bloqueios àquela expansão. Em 1854 começou a funcionar a primeira estrada de ferro
Os acordos para a extinção do tráfico. Tendo abolido o tráfico brasileira, de Mauá a Fragoso (futura Leopoldina Rafways); em
em suas colônias em 1807 e a escravatura em 1833, a Inglaterra 1855, iniciou-se a construção da estrada de ferro D. Pedro II (fu-
passou a exigir o mesmo do Brasil, a partir dos tratados de 1810. tura Central do Brasil); o telégrafo apareceu em 1852. Enfim, um
Pelo tratado de 23 de janeiro de 1815, assinado em Viena, esta- novo horizonte se descortinou.
beleceu-se a proibição do tráfico acima da linha equatorial, o que Com a abolição do tráfico, os dias da escravidão no Brasil
atingiu importantes centros fornecedores de escravos, como São estavam contados e, portanto, os dias de existência do Império,
Jorge da Mina. Em 18 de julho de 1817, os governos luso-brasilei- cuja riqueza baseava-se fundamentalmente no fruto do trabalho
ro e inglês decidiram atuar conjuntamente na repressão ao tráfico escravo, também estaria no fim. Basta que nos lembremos de que
ilícito, inspecionando navios em alto mar. Para efeitos práticos, a escravidão foi abolida em 1888 e o Império caiu já no ano se-
contudo, apenas a Inglaterra possuía recursos para isso. guinte, em 1889.
Após 1822, a Inglaterra estabeleceu o fim do tráfico negreiro
O Iluminismo e o “Despotismo Esclarecido”
como uma das exigências para o reconhecimento da emancipação
 
do Brasil. Assim, o tratado de 3 de novembro de 1826 fixou o pra-
Os escritores franceses do século XVIII provocaram uma
zo de três anos para a sua completa extinção. O tráfico passou a ser
revolução intelectual na história do pensamento moderno. Suas
considerado, a partir de então, ato de pirataria, sujeito às punições
ideias caracterizavam-se pela importância dada à razão: rejeita-
previstas no tratado. Finalmente, a 7 de novembro de 1831 - com
vam as tradições e procuravam uma explicação racional para tudo.
atraso de dois anos em relação ao estipulado pelo tratado de 1826
Filósofos e economistas procuravam novos meios para dar felici-
-, uma lei formalizou esse compromisso.
dade aos homens. Atacavam a injustiça, a intolerância religiosa,
As resistências do Brasil. Apesar das crescentes pressões bri- os privilégios. Suas opiniões abriram caminho para a Revolução
tânicas, o tráfico continuou impune no Brasil. E a razão era sim- Francesa, pois denunciaram erros e vícios do Antigo Regime.
ples: toda a economia brasileira, desde a época colonial, estava As novas ideias conquistaram numerosos adeptos, a quem
assentada no trabalho escravo. Em tal circunstância, a abolição do pareciam trazer luz e conhecimento. Por isto, os filósofos que as
tráfico criaria enormes dificuldades à economia, comprometendo divulgaram foram chamados iluministas; sua maneira de pensar,
as suas bases produtivas. Iluminismo; e o movimento, Ilustração.
Ademais, desde a abdicação de D. Pedro I em 1831, os senho-  
res rurais haviam se apropriado do poder político, o que fortalecera A Ideologia Burguesa
consideravelmente a sua posição na sociedade. Por isso, nenhum  
dos acordos assinados com a Inglaterra foi cumprido, de modo que O Iluminismo expressou a ascensão da burguesia e de sua
o tráfico continuou com o consentimento tácito das autoridades. ideologia. Foi a culminância de um processo que começou no Re-
A Inglaterra, por sua vez, esforçou-se para fazer cumprir os nascimento, quando se usou a razão para descobrir o mundo, e que
termos dos tratados, de modo unilateral. E o fez em meio a difi- ganhou aspecto essencialmente crítico no século XVIII, quando
culdades, pois os traficantes, cercados em alto mar, atiravam os os homens passaram a usar a razão para entenderem a si mesmos
negros ao oceano, atados a uma pedra que os impedia de vir à tona. no contexto da sociedade. Tal espírito generalizou-se nos clubes,
Além disso, o tráfico, ao invés de se extinguir, continuou a crescer cafés e salões literários.
incessantemente. A filosofia considerava a razão indispensável ao estudo de fe-
Bill Aberdeen. A passividade do governo brasileiro ante o trá- nômenos naturais e sociais. Até a crença devia ser racionalizada:
fico e, portanto, o não cumprimento dos compromissos assumidos Os iluministas eram deístas, isto é, acreditavam que Deus está pre-
através de vários tratados fez a Inglaterra tomar uma atitude ex- sente na natureza, portanto no próprio homem, que pode descobri
trema. Em 8 de agosto de 1845, o Parlamento britânico aprovou -lo através da razão.
uma lei, chamada Bill Aberdeen, conferindo à Marinha o direito Para encontrar Deus, bastaria levar vida piedosa e virtuosa;
de aprisionar qualquer navio negreiro e fazer os traficantes res- a Igreja tornava-se dispensável. Os iluministas criticavam-na por
ponderem diante do almirantado ou de qualquer tribunal do vice sua intolerância, ambição política e inutilidade das ordens monás-
almirantado dos domínios britânicos. ticas.

Didatismo e Conhecimento 7
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Os iluministas diziam que leis naturais regulam as relações O escocês Adam Smith, seu discípulo, escreveu A Riqueza
entre os homens, tal como regulam os fenômenos da natureza. das Nações (1765), em que defendeu: nem a agricultura, como
Consideravam os homens todos bons e iguais; e que as desigual- queriam os fisiocratas; nem o comércio, como defendiam os mer-
dades seriam provocadas pelos próprios homens, isto é, pela so- cantilistas; o trabalho era a fonte da riqueza. O trabalho livre, sem
ciedade. Para corrigi-las, achavam necessário mudar a sociedade, intervenções, guiado espontaneamente pela natureza.
dando a todos liberdade de expressão e culto, e proteção contra a
escravidão, a injustiça, a opressão e as guerras. Os novos déspotas
O princípio organizador da sociedade deveria ser a busca da  
felicidade; ao governo caberia garantir direitos naturais: a liberda- Muitos príncipes puseram em prática as novas ideias. Sem
de individual e a livre posse de bens; tolerância para a expressão abandonar o poder absoluto, procuraram governar conforme a ra-
de ideias; igualdade perante a lei; justiça com base na punição dos zão e os interesses do povo. Esta aliança de princípios filosóficos
delitos; conforme defendia o jurista milanês Beccaria. A forma po- e poder monárquico deu origem ao regime de governo típico do
lítica ideal variava: seria a monarquia inglesa, segundo Montes- século XVIII, o despotismo esclarecido. Seus representantes mais
destacados foram Frederico II da Prússia; Catarina II da Rússia;
quieu e Voltaire; ou uma república fundada sobre a moralidade e a
José II da Áustria; Pombal, ministro português; e Aranda, ministro
virtude cívica, segundo Rousseau.
da Espanha.
Frederico II (1740-1786), discípulo de Voltaire e indiferente
Principais Filósofos Iluministas à religião, deu liberdade de culto ao povo prussiano. Tornou obri-
  gatório o ensino básico e atraiu os jesuítas, por suas qualidades de
Podemos dividir os pensadores iluministas em dois grupos: educadores, embora quase todos os países estivessem expulsando
os filósofos, que se preocupavam com problemas políticos; e os -os, por suas ligações com o papado. A tortura foi abolida e orga-
economistas, que procuravam uma maneira de aumentar a riqueza nizado novo código de justiça. O rei exigia obediência mas dava
das nações. Os principais filósofos franceses foram Montesquieu, total liberdade de expressão. Estimulou a economia, adotando
Voltaire, Rousseau e Diderot. medidas protecionistas, apesar de contrárias às ideias iluministas.
Montesquieu publicou em 1721 as Cartas Persas, em que ridi- Preservou a ordem: a Prússia permaneceu um Estado feudal, com
cularizava costumes e instituições. Em 1748, publicou O Espírito servos sujeitos à classe dominante, dos proprietários.
das Leis, estudo sobre formas de governo em que destacava a mo- O Estado que mais fez propaganda e menos praticou as no-
narquia inglesa e recomendava, como única maneira de garantir a vas ideias foi a Rússia. Catarina II (1762-1796) atraiu filósofos,
liberdade, a independência dos três poderes: Executivo; Legislati- manteve correspondência com eles, muito prometeu e pouco fez.
vo, Judiciário. A czarina deu liberdade religiosa ao povo e educou as altas classes
Voltaire foi o mais importante. Exilado na Inglaterra, publi- sociais, que se afrancesaram. A situação dos servos se agravou. Os
cou Cartas Inglesas, com ataques ao absolutismo e à intolerância proprietários chegaram a ter direito de condená-los à morte.
e elogios à liberdade existente naquele país. Fixando-se em Fer- José II (1780-1790) foi o déspota esclarecido típico. Aboliu a
ney, França, exerceu grande influência por mais de vinte anos, até servidão na Áustria, deu igualdade a todos perante a lei e os im-
morrer. Discípulos se espalharam pela Europa e divulgaram suas postos, uniformizou a administração do Império, deu liberdade de
ideias, especialmente o anticlericalismo. culto e direito de emprego aos não-católicos.
Rousseau teve origem modesta e vida aventureira. Nascido O Marquês de Pombal, ministro de Dom José I de Portugal,
em Genebra, era contrário ao luxo e à vida mundana. Em Dis- fez importantes reformas. A indústria cresceu, o comércio passou
curso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens (1755), ao controle de companhias que detinham o monopólio nas colô-
defendeu a tese da bondade natural dos homens, pervertidos pela nias, a agricultura foi estimulada; nobreza e clero foram persegui-
civilização. Consagrou toda a sua obra à tese da reforma necessá- dos para fortalecer o poder real.
Aranda também fez reformas na Espanha: liberou o comércio,
ria da sociedade corrompida. Propunha uma vida familiar simples;
estimulou a indústria de luxo e de tecidos, dinamizou a adminis-
no plano político, uma sociedade baseada na justiça, igualdade
tração com a criação dos intendentes, que fortaleceram o poder do
e soberania do povo, como mostra em seu texto mais famoso, O
Rei Carlos III.
Contrato Social. Sua teoria da vontade geral, referida ao povo, foi
fundamental na Revolução Francesa e inspirou Robespierre e ou- Independência
tros líderes.
Diderot organizou a Enciclopédia, publicada entre 1751 e A Independência do Brasil é um dos fatos históricos mais im-
1772, com ajuda do matemático d’ Alembert e da maioria dos pen- portantes de nosso país, pois marca o fim do domínio português
sadores e escritores. Proibida pelo governo por divulgar as novas e a conquista da autonomia política. Muitas tentativas anteriores
ideias, a obra passou a circular clandestinamente. Os economistas ocorreram e muitas pessoas morreram na luta por este ideal. Pode-
pregaram essencialmente a liberdade econômica e se opunham a mos citar o caso mais conhecido: Tiradentes. Foi executado pela
toda e qualquer regulamentação. A natureza deveria dirigir a eco- coroa portuguesa por defender a liberdade de nosso país, durante o
nomia; o Estado só interviria para garantir o livre curso da natu- processo da Inconfidência Mineira.
reza. Eram os fisiocratas, ou partidários da fisiocracia (governo
da natureza). Quesnay afirmava que a atividade verdadeiramente A Família Real no Brasil
produtiva era a agricultura.
Gournay propunha total liberdade para as atividades comer- No início do século XIX, a Europa estava agitada pelas guer-
ciais e industriais, consagrando a frase: ras. Inglaterra e França disputavam a liderança no continente euro-
“Laissez faire, laissez passar”.(Deixe fazer, deixe passar.). peu. Em 1806, Napoleão Bonaparte, imperador da França, decre-

Didatismo e Conhecimento 8
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
tou o Bloqueio Continental, proibindo que qualquer país aliado ou As mudanças provocaram o aumento da população na cidade
ocupado pelas forças francesas comercializasse com a Inglaterra. do Rio de Janeiro, que por volta de 1820, somava mais de 100 mil
O objetivo do bloqueio era arruinar a economia inglesa. Quem não habitantes, entre os quais muitos eram estrangeiros – portugueses
obedecesse, seria invadido pelo exército francês. comerciantes ingleses corpos diplomáticos – ou mesmo resultado
Portugal viu-se numa situação delicada. Nessa época, Portu- do deslocamento da população interna que procurava novas opor-
gal era governado pelo príncipe regente D. João, pois sua mãe, a tunidades na capital.
rainha D. Maria I, enlouquecera. D. João não podia cumprir as As construções passaram a seguir os padrões europeus. Novos
ordens de Napoleão e aderir ao Bloqueio Continental, pois tinha elementos foram incorporados ao mobiliário; espelhos, bibelôs,
longa relação comercial com a Inglaterra, por outro lado o governo biombos, papéis de parede, quadros, instrumentos musicais, reló-
português temia o exército francês. gios de parede.
Sem alternativa, Portugal aceitou o Bloqueio, mas, continuou
Com a Abertura dos Portos (1808) e os Tratados de Comércio
comercializando com a Inglaterra. Ao descobrir a trama, Napo-
e Navegação e de Aliança e Amizade (1810) estabelecendo tarifas
leão determinou a invasão de Portugal em novembro de 1807. Sem
condições de resistir à invasão francesa, D. João e toda a corte preferenciais aos produtos ingleses, o comércio cresceu. O porto
portuguesa fugiram para o Brasil, sob a proteção naval da marinha do Rio de Janeiro aumentou seu movimento que passou de 500
inglesa. A Inglaterra ofereceu escolta na travessia do Atlântico, para 1200 embarcações anuais.
mas em troca exigiu a abertura dos portos brasileiros aos navios A oferta de mercadorias e serviços diversificou-se. A Rua do
ingleses. Ouvidor, no centro do Rio, recebeu o cabeleireiro da Corte, costu-
A corte portuguesa partiu às pressas de Lisboa sob as vaias do reiras francesas, lojas elegantes, joalherias e tabacarias. A novida-
povo, em 29 de novembro de 1807. Na comitiva vinha D. João, de mais requintada era os chapéus, luvas, leques, flores artificiais,
sua mãe D. Maria I, a princesa Carlota Joaquina; as crianças D. perfumes e sabonetes.
Miguel, D. Maria Teresa, D. Maria Isabel, D. Maria Assunção, D. Para a elite, a presença da Corte e o número crescente de
Ana de Jesus Maria e D. Pedro, o futuro imperador do Brasil e comerciantes estrangeiros trouxeram familiaridade com novos
mais cerca de 15 mil pessoas entre nobres, militares, religiosos e produtos e padrões de comportamento em moldes europeus.  As
funcionários da Coroa. Trazendo tudo o que era possível carregar; mulheres seguindo o estilo francês; usavam vestidos leves e sem
móveis, objetos de arte, jóias, louças, livros, arquivos e todo o te- armações, com decotes abertos, cintura alta, deixando aparecer
souro real imperial. os sapatos de saltos baixos. Enquanto os homens usavam casa-
Após 54 dias de viagem a esquadra portuguesa chegou ao cas com golas altas enfeitadas por lenços coloridos e gravatas de
porto de Salvador na Bahia, em 22 de janeiro de 1808. Lá foram renda, calções até o joelho e meias. Embora apenas uma pequena
recebidos com festas, onde permaneceram por mais de um mês.
parte da população usufruísse desses luxos. Sem dúvida, a vinda
Seis dias após a chegada D. João cumpriu o seu acordo com os
de D. João deu um grande impulso à cultura no Brasil.
ingleses, abrindo os portos brasileiros às nações amigas, isto é, a
Inglaterra. Eliminando em parte o monopólio comercial português, Em abril de 1808, foi criado o Arquivo Central, que reunia
que obrigava o Brasil a fazer comércio apenas com Portugal. mapas e cartas geográficas do Brasil e projetos de obras públicas.
Mas o destino da Coroa portuguesa era a capital da colônia, o Em maio, D. João criou a Imprensa Régia e, em setembro, surgiu
Rio de Janeiro, onde D. João e sua comitiva desembarcaram em 8 a Gazeta do Rio de Janeiro. Logo vieram livros didáticos, técnicos
de março de 1808 e onde foi instalada a sede do governo. e de poesia. Em janeiro de 1810, foi aberta a Biblioteca Real, com
Na chegada ao Rio de Janeiro, a Corte portuguesa foi rece- 60 mil volumes trazidos de Lisboa.
bida com uma grande festa: o povo aglomerou-se no porto e nas Criaram-se as Escolas de Cirurgia e Academia de Marinha
principais ruas para acompanhar a Família Real em procissão até a (1808), a Aula de Comércio e Academia Militar (1810) e a Aca-
Catedral, onde, após uma missa em ação de graças, o rei concedeu demia Médico-cirúrgica (1813). A ciência também ganhou com a
o primeiro “beija-mão”. criação do Observatório Astronômico (1808), do Jardim Botânico
A transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro (1810) e do Laboratório de Química (1818).
provocou uma grande transformação na cidade.  D. João teve que Em 1813, foi inaugurado o Teatro São João (atual João Caeta-
organizar a estrutura administrativa do governo. Nomeou minis- no). Em 1816, a Missão Francesa, composta de pintores, esculto-
tros de Estado, colocaram em funcionamento diversas secretarias res, arquitetos e artesãos, chegaram ao Rio de Janeiro para criar a
públicas, instalou tribunais de justiça e criou o Banco do Brasil Imperial Academia e Escola de Belas-Artes. Em 1820, foi a vez da
(1808). Real Academia de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura-civil.
Era preciso acomodar os novos habitantes e tornar a cidade
A presença de artistas estrangeiros, botânicos, zoólogos, mé-
digna de ser a nova sede do Império português. O vice-rei do Bra-
dicos, etnólogos, geógrafos e muitos outros que fizeram viagens
sil, D. Marcos de Noronha e Brito cedeu sua residência, O Palácio
dos Governadores, no Lago do Paço, que passou a ser chamado e expedições regulares ao Brasil, trouxeram informações sobre o
Paço Real, para o rei e sua família e exigiu que os moradores das que acontecia pelo mundo e também tornou este país conhecido,
melhores casas da cidade fizessem o mesmo. Duas mil residên- por meio dos livros e artigos em jornais e revistas que aqueles
cias foram requisitadas, pregando-se nas portas o “P.R.”, que sig- profissionais publicavam. Foi uma mudança profunda, mas que
nificava “Príncipe Regente”, mas que o povo logo traduziu como não alterou os costumes da grande maioria da população carioca,
“Ponha-se na Rua”. Prédios públicos, quartéis, igrejas e conventos composta de escravos e trabalhadores assalariados.
também foram ocupados. A cidade passou por uma reforma geral: Com a vitória das nações europeias contra Napoleão em 1815,
limpeza de ruas, pinturas nas fachadas dos prédios e apreensão de ficou decidido que os reis de países invadidos, pela França deve-
animais. riam voltar a ocupar seus tronos.

Didatismo e Conhecimento 9
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
D. João e sua corte não queriam retornar ao empobrecido Os líderes do movimento foram presos e enviados para o Rio
Portugal. Então o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido de Janeiro responderam pelo crime de inconfidência (falta de fi-
de Portugal e Algarves (uma região ao sul de Portugal). O Brasil delidade ao rei), pelo qual foram condenados. Todos negaram sua
deixava de ser Colônia de Portugal, adquiria autonomia adminis- participação no movimento, menos Joaquim José da Silva Xavier,
trativa. o alferes conhecido como Tiradentes, que assumiu a responsabili-
Em 1820, houve em Portugal a Revolução Liberal do Porto, dade de liderar o movimento. Após decreto de D. Maria I é revo-
terminando com o Absolutismo e iniciando a Monarquia Constitu- gada a pena de morte dos inconfidentes, exceto a de Tiradentes.
cional. D. João deixava de ser monarca absoluto e passava a seguir Algum tem a pena transformada em prisão temporária, outros em
a Constituição do Reino. Dessa forma, a Assembleia Portuguesa prisão perpétua. Cláudio Manuel da Costa morreu na prisão, onde
exigia o retorno do monarca. O novo governo português desejava provavelmente foi assassinado.
recolonizar o Brasil, retirando sua autonomia econômica. O exemplo parece que não assustou a todos, já que nove anos
Em 26 de abril de 1821, D. João VI cedendo às pressões, volta mais tarde iniciava-se na Bahia a Revolta dos Alfaiates, também
a Portugal, deixando seu filho D.Pedro como príncipe regente do chamada de Conjuração Baiana. A influência da loja maçônica Ca-
Brasil. valeiros da Luz deu um sentido mais intelectual ao movimento
Se o que define a condição de colônia é o monopólio impos- que contou também com uma ativa participação de camadas po-
to pela metrópole, em 1808 com a abertura dos portos, o Brasil pulares como os alfaiates João de Deus e Manuel dos Santos Lira.
deixava de ser colônia. O monopólio não mais existia. Rompia-se Eram pretos, mestiços, índios, pobres em geral, além de soldados
o pacto colonial e atendia-se assim, os interesses da elite agrária e religiosos. Justamente por possuir uma composição social mais
brasileira, acentuando as relações com a Inglaterra, em detrimento abrangente com participação popular, a revolta pretendia uma re-
das tradicionais relações com Portugal. pública acompanhada da abolição da escravatura. Controlado pelo
Esse episódio, que inaugura a política de D. João VI no Brasil, governo, as lideranças populares do movimento foram executadas
é considerado a primeira medida formal em direção ao “sete de por enforcamento, enquanto que os intelectuais foram absolvidos.
setembro”. Outros movimentos de emancipação também foram controla-
Há muito Portugal dependia economicamente da Inglaterra. dos, como a Conjuração do Rio de Janeiro em 1794, a Conspiração
Essa dependência acentua-se com a vinda de D. João VI ao Brasil, dos Suaçunas em Pernambuco (1801) e a Revolução Pernambu-
que gradualmente deixava de ser colônia de Portugal, para entrar cana de 1817. Esta última, já na época que D. João VI havia se
na esfera do domínio britânico. Para Inglaterra industrializada, a estabelecido no Brasil. Apesar de contidas todas essas rebeliões
independência da América Latina era uma promissora oportunida- foram determinantes para o agravamento da crise do colonialismo
de de mercados, tanto fornecedores, como consumidores. no Brasil, já que trouxeram pela primeira vez os ideais iluministas
Com a assinatura dos Tratados de 1810 (Comércio e Nave- e os objetivos republicanos.
gação e Aliança e Amizade), Portugal perdeu definitivamente o
monopólio do comércio brasileiro e o Brasil caiu diretamente na
O Processo de Independência do Brasil
dependência do capitalismo inglês.
Em 1820, a burguesia mercantil portuguesa colocou fim ao
Em primeiro lugar, entender que 07 de setembro de 1822 não
absolutismo em Portugal com a Revolução do Porto. Implantou-
foi um ato isolado do príncipe D. Pedro, e sim um acontecimento
se uma monarquia constitucional, o que deu um caráter liberal ao
movimento. Mas, ao mesmo tempo, por tratar-se de uma burguesia que integra o processo de crise do Antigo Sistema Colonial, inicia-
mercantil que tomava o poder, essa revolução assume uma postura da com as revoltas de emancipação no final do século XVIII. Ain-
recolonizadora sobre o Brasil. D. João VI retorna para Portugal e da é muito comum a memória do estudante associar a independên-
seu filho aproxima-se ainda mais da aristocracia rural brasileira, cia do Brasil ao quadro de Pedro Américo, “O Grito do Ipiranga”,
que se sentia duplamente ameaçada em seus interesses: a intenção que personifica o acontecimento na figura de D. Pedro.
recolonizadora de Portugal e as guerras de independência na Amé- Em segundo lugar, perceber que a independência do Brasil,
rica Espanhola, responsáveis pela divisão da região em repúblicas. restringiu-se à esfera política, não alterando em nada a realidade
sócio-econômica, que se manteve com as mesmas características
Os Movimentos de Emancipação do período colonial.
Desde as últimas décadas do século XVIII assinala-se na
A Inconfidência Mineira destacou-se por ter sido o primeiro América Latina a crise do Antigo Sistema Colonial. No Brasil,
movimento social republicano-emancipacionista de nossa história. essa crise foi marcada pelas rebeliões de emancipação, destacan-
Eis aí sua importância maior, já que em outros aspectos ficou mui- do-se a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana. Foram os
to a desejar. Sua composição social por exemplo, marginalizava as primeiros movimentos sociais da história do Brasil a questionar o
camadas mais populares, configurando-se num movimento elitista pacto colonial e assumir um caráter republicano. Era apenas o iní-
estendendo-se no máximo às camadas médias da sociedade, como cio do processo de independência política do Brasil, que se estende
intelectuais, militares, e religiosos. Outros pontos que contribuíram até 1822 com o “sete de setembro”. Esta situação de crise do anti-
para debilitar o movimento foram a precária articulação militar e a go sistema colonial era na verdade, parte integrante da decadência
postura regionalista, ou seja, reivindicavam a emancipação e a re- do Antigo Regime europeu, debilitado pela Revolução Industrial
pública para o Brasil e na prática preocupavam-se com problemas na Inglaterra e principalmente pela difusão do liberalismo econô-
locais de Minas Gerais. O mais grave contudo foi a ausência de mico e dos princípios iluministas, que juntos formarão a base ideo-
uma postura clara que defendesse a abolição da escravatura. O des- lógica para a Independência dos Estados Unidos (1776) e para a
fecho do movimento foi assinalado quando o governador Visconde Revolução Francesa (1789). Trata-se de um dos mais importantes
de Barbacena suspendeu a derrama, seria o pretexto para deflagar a movimentos de transição na História, assinalado pela passagem da
revolta, e esvaziou a conspiração, iniciando prisões acompanhadas idade moderna para a contemporânea, representada pela transição
de uma verdadeira devassa. do capitalismo comercial para o industrial.

Didatismo e Conhecimento 10
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A aristocracia rural brasileira encaminhou a independência do Os que morrem achavam que valia a pena sacrificar-se para
Brasil com o cuidado de não afetar seus privilégios, representados melhorar a situação do povo brasileiro. Queriam uma vida melhor,
pelo latifúndio e escravismo. Dessa forma, a independência foi im- não só para eles, mas para todos os brasileiros.
posta verticalmente, com a preocupação em manter a unidade na- Mas a Independência do Brasil só aconteceu em 1822. E não
cional e conciliar as divergências existentes dentro da própria elite foi uma separação total, como aconteceu em outros países da Amé-
rural, afastando os setores mais baixos da sociedade representados rica que, ao ficarem independentes, tornaram-se repúblicas gover-
por escravos e trabalhadores pobres em geral. nadas por pessoas nascidas no país libertado. O Brasil independen-
Com a volta de D. João VI para Portugal e as exigências para te continuou sendo um reino, e seu primeiro imperador foi Dom
que também o príncipe regente voltasse, a aristocracia rural passa Pedro I, que era filho do rei de Portugal.
a viver sob um difícil dilema: conter a recolonização e ao mesmo Historicamente, o processo da Independência do Brasil ocu-
tempo evitar que a ruptura com Portugal assumisse o caráter revo- pou as três primeiras décadas do século XIX e foi marcado pela
lucionário-republicano que marcava a independência da América vinda da família real ao Brasil em 1808 e pelas medidas tomadas
Espanhola, o que evidentemente ameaçaria seus privilégios. no período de Dom João. A vinda da família real fez a autonomia
A maçonaria (reaberta no Rio de Janeiro com a loja maçônica brasileira ter mais o aspecto de transição.
Comércio e Artes) e a imprensa uniram suas forças contra a postu- O processo da independência foi bastante acelerado pelo que
ra recolonizadora das Cortes. ocorreu em Portugal em 1820. A Revolução do Porto comandada
D. Pedro é sondado para ficar no Brasil, pois sua partida po- pela burguesia comercial da cidade do Porto, que foi um movi-
deria representar o esfacelamento do país. Era preciso ganhar o mento que tinha características liberais para Portugal, mas para o
apoio de D. Pedro, em torno do qual se concretizariam os inte- Brasil, significava uma recolonização.
resses da aristocracia rural brasileira. Um abaixo assinado de oito
mil assinaturas foi levado por José Clemente Pereira (presidente As mudanças econômicas no Brasil: Depois da chegada da
do Senado) a D. Pedro em 9 de janeiro de 1822, solicitando sua família real duas medidas de Dom João deram rápido impulso à
permanência no Brasil. Cedendo às pressões, D. Pedro decidiu-se: economia brasileira: a abertura dos portos e a permissão de montar
“Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou indústrias que haviam sido proibidas por Portugal anteriormente.
pronto. Diga ao povo que fico”. Abriram-se fábricas, manufaturas de tecidos começaram a
É claro que D. Pedro decidiu ficar bem menos pelo povo e bem surgir, mas não progrediram por causa da concorrência dos tecidos
mais pela aristocracia, que o apoiaria como imperador em troca da ingleses. Bom resultado teve, porém, a produção de ferro com a
futura independência não alterar a realidade sócio-econômica co- criação da Usina de Ipanema nas províncias de São Paulo e Minas
lonial. Contudo, o Dia do fico era mais um passo para o rompimen- Gerais.
to definitivo com Portugal. Graças a homens como José Bonifácio Outras medidas de Dom João estimularam as atividades eco-
de Andrada e Silva (patriarca da independência), Gonçalves Ledo, nômicas do Brasil como: Construção de estradas; Os portos foram
José Clemente Pereira e outros, o movimento de independência
melhorados. Foram introduzidas no país novas espécies vegetais,
adquiriu um ritmo surpreendente com o cumpra-se, onde as leis
como o chá; Promoveu a vinda de colonos europeus; A produção
portuguesas seriam obedecidas somente com o aval de D. Pedro,
agrícola voltou a crescer. O açúcar e o algodão passaram a ser pri-
que acabou aceitando o título de Defensor Perpétuo do Brasil (13
meiro e segundo lugar nas exportações, no início do século XIX.
de maio de 1822), oferecido pela maçonaria e pelo Senado. Em 3
Neste período surgiu o café, novo produto, que logo passou do
de junho foi convocada uma Assembleia Geral Constituinte e Le-
gislativa e em primeiro de agosto considerou-se inimigas as tropas terceiro lugar para o primeiro lugar nas exportações brasileiras.
portuguesas que tentassem desembarcar no Brasil.
São Paulo vivia um clima de instabilidade para os irmãos An- Medidas de incentivo à Cultura: Além das mudanças co-
dradas, pois Martim Francisco (vice-presidente da Junta Gover- merciais, a chegada da família real ao Brasil também causou um
nativa de São Paulo) foi forçado a demitir-se, sendo expulso da reboliço cultural e educacional. Nessa época, foram criadas es-
província. Em Portugal, a reação tornava-se radical, com ameaça colas como a Academia Real Militar, a Academia da Marinha, a
de envio de tropas, caso o príncipe não retornasse imediatamente. Escola de Comércio, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios,
José Bonifácio transmitiu a decisão portuguesa ao príncipe, a Academia de Belas-Artes e dois Colégios de Medicina e Cirur-
juntamente com carta sua e de D. Maria Leopoldina, que ficara no gia, um no Rio de Janeiro e outro em Salvador. Foram fundados o
Rio de Janeiro como regente. No dia sete de setembro de 1822 D. Museu Nacional, o Observatório Astronômico e a Biblioteca Real,
Pedro que se encontrava às margens do riacho Ipiranga, em São cujo acervo era composto por muitos livros e documentos trazidos
Paulo, após a leitura das cartas que chegaram a suas mãos, bra- de Portugal. Também foi inaugurado o Real Teatro de São João e o
dou: “É tempo... Independência ou morte... Estamos separados de Jardim Botânico. Uma atitude muito importante de dom João foi a
Portugal”. Chegando ao Rio de Janeiro (14 de setembro de 1822), criação da Imprensa Régia. Ela editou obras de vários escritores e
D. Pedro foi aclamado Imperador Constitucional do Brasil. Era traduções de obras científicas. Foi um período de grande progresso
o início do Império, embora a coroação apenas se realizasse em e desenvolvimento.
primeiro de dezembro de 1822.
A independência não marcou nenhuma ruptura com o proces- As Guerras pela Independência
so de nossa história colonial. As bases sócio-econômicas (trabalho
escravo, monocultura e latifúndio), que representavam a manu- A Independência havia sido proclamada, mas nem todas as
tenção dos privilégios aristocráticos, permaneceram inalteradas. províncias do Brasil puderam reconhecer o governo do Rio de Ja-
O “sete de setembro” foi apenas a consolidação de uma ruptura neiro e unir-se ao Império sem pegar em armas. As Províncias da
política, que já começara 14 anos atrás, com a abertura dos por- Bahia, do Maranhão, do Piauí, do Grão-Pará e, por último, Cis-
tos. Ocorreram muitas revoltas pela libertação do Brasil, nas quais platina, dominadas ainda por tropas de Portugal, tiveram que lutar
muitos brasileiros perderam a vida. pela sua liberdade, até fins de 1823.

Didatismo e Conhecimento 11
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Na Bahia, a expulsão dos portugueses só foi possível quando ramente pelos jesuítas. Política e ideologicamente foi uma aliança
Dom Pedro I enviou para lá uma forte esquadra comandada pelo entre o Absolutismo ibérico e a Contra-Reforma religiosa, preo-
almirante Cochrane, para bloquear Salvador. Sitiados por terra e cupada com a posse do território recém-descoberto e com a con-
por mar, as tropas portuguesas tiveram finalmente que se render versão dos nativos ao cristianismo. Naturalmente que transcorrido
em 02 de julho de 1823. mais de 450 anos do lançamento dos seus fundamentos, o Estado
Após a vitória na Bahia, a esquadra de Cochrane, seguindo brasileiro assumiu formas diversas, sendo gradativamente nacio-
para o norte, bloqueou a cidade de São Luís. Esse bloqueio apres- nalizado e colocado a serviço do desenvolvimento econômico e
sou a derrota dos portugueses não só no Maranhão, mas também social. A transformação seguinte será a do Estado Imperial bra-
no Piauí. sileiro, legalizada depois da proclamação da independência, em
Do Maranhão um dos navios de Cochrane continuou até o ex- 1822, pela Constituição outorgada de 1824. D.Pedro I dedica-se
tremo norte, e, ameaçando a cidade de Belém, facilitou a rendição a obter a legitimidade, contestada por oficiais lusitanos (general
dos portugueses no Grão-Pará.
Madeira) e por líderes populares do Nordeste (Frei Caneca). A
No extremo Sul, a cidade de Montevidéu, sitiada por terra e
Carta determinou, além dos poderes tradicionais, executivo-le-
bloqueada por uma esquadra brasileira no rio da Prata teve de se
entregar. gislativo-judiciário, a implantação de um poder moderador (que
Com o reconhecimento da Independência pela Cisplatina de fato tornou-se uma sobreposição da autoridade do imperador).
completou-se a união de todas as províncias, sob o governo de Os objetivos gerais do Estado Imperial, que se estendeu até 1889,
Dom Pedro I, firmando assim o Império Brasileiro. podem ser determinados pela: a) consolidação da autoridade im-
perial sobre todo o território brasileiro; b) manutenção do regime
O Reconhecimento da Independência escravista; c) preservação da paz interna e do reconhecimento in-
ternacional.
Unidas todas as províncias e firmado dentro do território bra-
sileiro o Império, era necessário obter o reconhecimento da Inde- Constituição da Mandioca (1824): figurando um passo
pendência por parte das nações estrangeiras. fundamental para a consolidação da independência nacional, a
A primeira nação estrangeira a reconhecer a Independência do formulação de uma carta constituinte tornou-se uma das grandes
Brasil foram os Estados Unidos em maio de 1824. Não houve difi- questões do Primeiro Reinado. Mesmo antes de dar fim aos laços
culdades, pois os norte-americanos eram a favor da independência coloniais, Dom Pedro I já havia articulado, em 1822, a formação
de todas as colônias da América. (Independência dos EUA) de uma Assembleia Constituinte imbuída da missão de discutir as
O reconhecimento por parte das nações europeia foi mais di- leis máximas da nação. Essa primeira assembleia convocou oitenta
fícil porque os principais países da Europa, entre eles Portugal, deputados de catorze províncias. Uma das mais delicadas questões
haviam-se comprometido, no Congresso de Viena em 1815, a de-
que envolvia as leis elaboradas pela Assembleia, fazia referência
fender o absolutismo, o colonialismo e a combater as ideias de
à definição dos poderes de Dom Pedro I. Em pouco tempo, os
liberdade.
Entre as primeiras nações europeias apenas uma foi favorável constituintes formaram dois grupos políticos visíveis: um liberal,
ao reconhecimento do Brasil independente: a Inglaterra, que não defendendo a limitação dos poderes imperiais e dando maior au-
queria nem romper com seu antigo aliado, Portugal, nem prejudi- tonomia às províncias; e um conservador que apoiava um regime
car seu comércio com o Brasil. Foi graças à sua intervenção e às político centralizado nas mãos de Dom Pedro. A partir de então, a
demoradas conversações mantida junto aos governos de Lisboa e relação entre o rei e os constituintes não seria nada tranquila.
do Rio de Janeiro que Dom João VI acabou aceitando a Indepen- O primeiro anteprojeto da Constituição tendia a estabelecer
dência do Brasil, fixando-se as bases do reconhecimento. limites ao poder de ação política do imperador. No entanto, essa
A 29 de agosto de 1825 Portugal, através do embaixador in- medida liberal, convivia com uma orientação elitista que defendia
glês que o representava, assinou o Tratado luso-brasileiro de reco- a criação de um sistema eleitoral fundado no voto censitário. Ou-
nhecimento. O Brasil, entretanto, teve que pagar a Portugal uma tro artigo desse primeiro ensaio da Constituição estabelecia que
indenização de dois milhões de libra esterlinas, e Dom João VI os deputados não pudessem ser punidos pelo imperador. Mediante
obteve ainda o direito de usar o título de Imperador do Brasil, que tantas restrições, Dom Pedro I resolveu dissolver a primeira As-
não lhe dava, porém qualquer direito sobre a antiga colônia. sembleia Constituinte do Brasil.
A seguir as demais nações europeias, uma a uma, reconhece- Logo em seguida, o imperador resolveu nomear um Conselho
ram oficialmente a Independência e o Império do Brasil. de Estado composto por dez membros portugueses. Essa ação po-
Em 1826 estava firmada a posição do Brasil no cenário in-
lítica sinalizava o predomínio da orientação absolutista e a aproxi-
ternacional. Enquanto o Brasil era colônia de Portugal, o Brasil
mação do nosso governante junto os portugueses. Dessa maneira,
enfrentou com bravura e venceu os piratas, os franceses e os ho-
landeses. Ocorreram muitas lutas internas e muitos perderam a sua no dia 25 de março de 1824, Dom Pedro I, sem consultar nenhum
vida para tentar tornar seu país livre e independente de Portugal. outro poder, outorgou a primeira constituição brasileira. Contradi-
Essa luta durou mais de trezentos anos. O processo da Indepen- toriamente, o texto constitucional abrigava características de orien-
dência foi muito longo e por ironia do destino foi um português tação liberal e autoritária. O governo foi dividido em três poderes:
que a proclamou. Legislativo, Executivo e Judiciário. Através do Poder Moderador,
exclusivamente exercido por Dom Pedro I, o rei poderia anular
O Estado Brasileiro: o Estado no Brasil resultou de uma qualquer decisão tomada pelos outros poderes. As províncias não
enorme operação de conquista e ocupação de parte do Novo Mun- possuíam nenhum tipo de autonomia política, sendo o imperador
do, empreendimento no qual se associaram a Coroa portuguesa, responsável por nomear o presidente e o Conselho Geral de cada
através dos seus agentes, e a Igreja Católica, representada primei- uma das províncias.

Didatismo e Conhecimento 12
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O Poder Legislativo era dividido em duas câmaras onde se clamores por justiça social que ganhavam espaço no continente
agrupavam o Senado e a Câmara de Deputados. O sistema eleitoral foram brutalmente abafados nessa nova conjuntura. Ainda hoje, as
era organizado de forma indireta. Somente a população masculina, desigualdades sociais, o atraso econômico e a corrupção política
maior de 25 anos e portadora de uma renda mínima de 100 mil integram a realidade de muitos desses países que sofreram com a
-réis anuais teriam direito ao voto. Esses primeiros votavam em ditadura.
um corpo eleitoral incumbido de votar nos candidatos a senador e
deputado. O cargo senatorial era vitalício e só poderia ser pleiteado Ditadura na Argentina
por indivíduos com renda superior a 800 mil-réis.
A Igreja Católica foi apontada como religião oficial do Esta- A Ditadura na Argentina começou com um golpe de Esta-
do. Em contrapartida, as demais confissões religiosas poderiam ser do dado por militares que assumiram o poder do país. Durante
praticadas em território nacional. Os membros do clero católico sua vigência, foi um dos governos mais autoritários da América
estavam diretamente subordinados ao Estado, sendo esse incumbi- Latina no século XX.
do de nomear os membros da Igreja e fornecer a devida remunera- Na segunda metade do século XX surgiram vários governos
ção aos integrantes dela. ditatoriais na América Latina. Essas formas de governo normal-
Dessa maneira, a constituição de 1824 perfilou a criação de mente eram comandadas por militares que assumiam o controle
um Estado de natureza autoritária em meio a instituições de apa- do país, geralmente através de golpes de Estado. A conjuntura da
rência liberal. A contradição do período acabou excluindo a grande época no mundo era de Guerra Fria, então esses defensores da ex-
maioria da população ao direito de participação política e, logo em trema direita governavam com o discurso de combater os males do
seguida, motivando rebeliões de natureza separatista. Com isso, comunismo em seus respectivos países.
a primeira constituição apoiou um governo centralizado que, por A Argentina passou por situação semelhante a do Brasil em
vezes, ameaçou a unidade territorial e política do Brasil. relação a existência de um governo militar ditatorial. ADitadura
na Argentina teve início com um golpe militar no ano de 1966. O
Ditaduras políticas na América Latina presidente Arturo Illia, que exercia o cargo legalmente dentro da
constituição, foi deposto no dia 28 de junho daquele ano e a partir
O processo de independência das nações latino-americanas, ao de então se sucedeu uma série de governos de militares até 1973.
Embora o tempo de vigência da Ditadura na Argentina tenha
longo do século XIX, deu origem a uma série de Estados indepen-
sido de apenas sete anos, bem menos do que os 21 anos de ditadura
dentes em sua maioria influenciados pelo ideário iluminista. No en-
militar no Brasil, foi tempo suficiente para as várias atrocidades
tanto, a obtenção dessa soberania política não foi capaz de dar fim à
cometidas pelos governantes autoritários.
dependência econômica que submetia tais países aos interesses das
Os promovedores da Ditadura na Argentina, em semelhança
grandes potências econômicas da época. Ao mesmo tempo, a conso-
ao Brasil, a determinavam como Revolução Argentina. Logo após
lidação da democracia ainda era prejudicada pela ação de governos
a tomada de poder, entrou em vigor no país o Estatuto da Revolu-
tomados por uma elite conservadora e entreguista.
ção Argentina que legalizou as atividades dos militares. O intuito
No século XX, a desigualdade social e a exclusão econômica dos golpistas era de permanecerem no poder por tempo indeter-
ainda eram questões que permaneciam pendentes nas várias na- minado, enquanto fosse necessário para sanar todos os problemas
ções latino-americanas. Contudo, a ascensão de forças reformistas argentinos. A nova ‘constituição’ proibia a atividade dos partidos
e nacionalistas passou a se contrapor à arcaica hegemonia caudi- políticos e cancelava quase todos os direitos civis, sociais e políti-
lhista das elites. A insistência em manter as classes populares ex- cos por conta de um quase constante Estado de Sítio. Era a derro-
cluídas do jogo político e, ao mesmo tempo, preservar a economia cada da cidadania.
nacional atrelada aos interesses dos grandes centros capitalistas Ao longo do período de governo militar, três indivíduos ocu-
começou a sofrer seus primeiros abalos. param o poder: o general Juan Carlos Onganía, o generalRoberto
Após a Segunda Guerra Mundial, a instalação da ordem bipo- Marcelo Levingston e o general Alejandro Agustín Lanusse.
lar e o sucesso do processo revolucionário cubano inspiraram di- Juan Carlos Onganía governou de 1966 a 1970 e entregou o
versos movimentos de transformação política no continente ame- poder debilitado por conta de protestos. Em seu lugar, a Junta de
ricano. Em contrapartida, os Estados Unidos – nação que tomava Comandantes em Chefe das forças armadas assumiram o governo
a dianteira do bloco capitalista – preocupava-se com a deflagração do país e decidiram pela indicação do general Roberto Marcelo
de novas agitações políticas que viessem a abalar a hegemonia po- Levingston para a presidência. Levingston era um desconheci-
lítica, econômica e ideológica historicamente reforçada nos com- do militar e governou a Argentina até 1971 pela incapacidade de
balidos Estados latino-americanos. controlar a situação política, econômica e social do país. Em seu
Nesse contexto, ao longo das décadas de 1960 e 1970, os lugar entrou o homem forte da ditadura, o general Alejandro Au-
diversos movimentos de transformação que surgiram em nações gustín Lanusse. Este governou entre 1971 e 1973, sua gestão que
americanas foram atacados pelo interesse das elites nacionais. Para foi empenhada em obras de infra-estrutura nacional era vista com
tanto, buscavam o respaldo norte-americano para que pudessem desgosto da população.
dar fim aos movimentos revolucionários que ameaçavam os inte- As crescentes manifestações populares causaram as eleições
resses da burguesia industrial responsável por liderar essas ações para novo presidente na Argentina em 1973. A população que-
golpistas. Com isso, a ingerência política dos EUA se tornou agen- ria Perón no governo do país, mas o candidato do povo foi barrado
te fundamental nesse terrível capítulo da história americana. pelo então presidente militar que alterou as leis eleitorais da cons-
A perseguição política, a tortura e a censura às liberdades in- tituição de forma que barrasse sua candidatura. Impossibilitado
dividuais foram integralmente incorporadas a esses governos au- de ser eleito, Perón e o povo passaram a defender a candidatura
toritários que se estabeleceram pelo uso da força. Dessa forma, os de Hector José Cámpora, que saiu vitorioso no pleito.

Didatismo e Conhecimento 13
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O período da Ditadura Militar na Argentina foi cruel e san- quando liderou o golpe militar que terminou com o suicídio do
grento, a estimativa é de que aproximadamente 30 mil argentinos presidente socialista, Salvador Allende, no Palácio de La Moneda.
foram sequestrados pelos militares. Os opositores que conseguiam Assim iniciou-se um terrível regime de repressão contra o povo
se salvar fugiam do país, o que representa aproximadamente 2,5 chileno, que durou mais de uma década.
milhões de argentinos. Os militares alegam que mataram “apenas” A justificativa desse, que foi um dos golpes de Estado mais
oito mil civis, sendo que métodos tenebrosos de torturas e assas- sangrentos da América Latina, foi a de impedir a nacionalização
sinatos foram utilizados pelos representantes do poder. O governo dos bancos e das minas de cobre.
autoritário deixou marcas na Argentina mesmo após a ditadura, O Chile deixava de ser a sociedade liberal que era desde 1930.
com a democracia poucos presidentes conseguiram concluir seus Tornou-se palco de uma repressão criminosa, torturas e assassi-
mandatos por causa da grande instabilidade econômica e social.
natos. Cerca de trinta mil chilenos foram mortos e mais de cem
Ditadura Militar na Bolívia mil foram presos sem julgamento. Foi o reinado do terror. Quem
se opôs à junta de Pinochet foi perseguido e eliminado. O Estádio
Na Guerra do Pacífico (1879/1884), a Bolívia perde para o Nacional de Santiago era a última parada para milhares de vítimas.
Chile seu acesso ao oceano Pacífico. Em 1903 encerra o conflito Mais de vinte e dois mil estudantes foram expulsos das uni-
com seringueiros brasileiros ao vender ao Brasil o atual estado do versidades. Mais de cento e cinquenta mil chilenos foram para o
Acre. A descoberta de petróleo no sudeste provoca a Guerra do exílio.
Chaco (1932-1935), e a Bolívia perde o território para o Paraguai. A meta de Pinochet era juntar uma economia de livre iniciati-
Em 1951, Víctor Paz Estenssoro é eleito presidente. Os militares va com um Estado autoritário. A partir disso, nem as ideias podiam
impedem sua posse, mas ele estabelece o poder civil em 1952, circular livremente.
apoiado em uma rebelião popular. A reforma agrária e a nacio- Com outros ditadores do Cone Sul, em novembro de 1975,
nalização das minas provocam boicote internacional ao estanho organizou a “Operação Condor” para eliminar os opositores além
boliviano. Um golpe militar em 1964 leva à Presidência o general das fronteiras de seus respectivos países.
René Barrientos.
“No Chile não há uma folha que se mova sem que eu saiba”,
 Após a morte de Barrientos, em 1969, o país mergulha na
instabilidade. Em 1971, o general Hugo Bánzer Suárez assume o foi uma de suas declarações mais famosas, quando se confirmou
governo, suspende as eleições e bane os sindicatos e os partidos na chefia da ditadura mais prolongada que o Chile enfrentou em
políticos. Sua renúncia, em 1978, abre novo período de golpes. sua história republicana.
Em 1980, Hernán Siles Zuazo, de centro-esquerda, elege-se presi- Na época, ele não poderia imaginar os problemas que o es-
dente, mas um golpe instala no poder o general Luis García Meza. peravam a partir de 16 de outubro de 1998, quando foi detido em
Acusado de ligações com o narcotráfico, Meza é deposto em 1981. Londres para ficar exposto, durante 503 dias, perante a comuni-
Em 1982, os generais entregam o poder a Siles Zuazo. dade internacional como a encarnação das piores violações dos
direitos humanos.
Ditaduta no Chile Os chilenos perderam não só seus direitos, mas também os
direitos adquiridos com as reformas de Allende: liberdade política;
Nos anos 60, duas correntes políticas dividiam o Chile:  liberdade de expressão; liberdade de imprensa; programas sociais
para a infância; direito à educação universitária; reforma agrária;
1. a frente popular, socialista e democrata, e 
sindicatos; organizações de serviço social; e fábricas e minas, que
2. as forças imperialistas internas e externas. 
foram devolvidas aos monopólios chilenos e estrangeiros.
A batalha de ideias atingiu seu auge no final daquela década E Pinochet, que justificou o golpe contra Allende apontando
e, em 1970, o socialista Salvador Allende chegou à presidência. a nacionalização das minas de cobre, empreendeu essa própria na-
cionalização quando sobiu ao poder.
Allende foi o primeiro presidente de orientação marxista elei- Durante seu governo Pinochet fechou o Parlamento, aboliu os
to no Chile. Seu governo bateu de frente com os interesses dos partidos políticos e a Central Unitária de Trabalhadores (CUT) e
Estados Unidos e das oligarquias de seu país. Essa insatisfação instaurou a censura de imprensa.
instigou as forças armadas chilenas a prepararem um golpe de es-
tado em agosto de 1973, liderados pelo vice-almirante José Merino As Torturas
e o general Gustavo Leigh.
Ainda em agosto, o comandante geral das forças armadas, Reclusão e tortura constituíram uma prática institucional do
Carlos Prats, renunciou ao seu posto após manifestações de repú-
Estado”, afirmou, às lágrimas, o presidente do Chile, Ricardo La-
dio das esposas dos generais. Para o seu lugar, indicou o general
Augusto Pinochet, por considerá-lo um militar leal e apolítico. gos, ao receber, no dia 10 de novembro de 2004, o Relatório da Co-
Mas, com o desenrolar do golpe (iniciado pela marinha), o general missão Nacional sobre prisão política e tortura, por ele nomeada,
que deveria reprimi-lo passou a tomar parte ativa, aderindo aos um ano antes, para investigar as violações dos direitos humanos
comandantes rebelados. Pinochet chefiou a junta militar que depôs durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Pre-
Allende e anunciou-se novo presidente. sidida pelo bispo Sergio Valech, a Comissão trabalhou com afinco
e, em um ano apenas, recolheu depoimentos de 35.000 vítimas da
Pinochet Liderou Uma Ditadura Violenta Por 17 Anos No repressão do regime militar entre as mais de 100.000. Organismos
Chile pela defesa dos direitos humanos falam do dobro.
O Relatório divide o período estudado em três fases: na pri-
A figura de Augusto Pinochet era desconhecida para os 15 mi- meira, durante os meses que se seguiram imediatamente ao golpe
lhões de chilenos até a manhã daquele 11 de setembro de 1973, (1973), a repressão foi muito pesada e golpeou sobretudo jovens

Didatismo e Conhecimento 14
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
ligados ao partido de Salvador Allende, Unidad Popular, e às orga- Desde 27 de novembro, o ex-ditador cumpria prisão domici-
nizações sociais; na segunda (1974-78), enquanto a oposição po- liar no âmbito de um processo por dois dos desaparecidos deixados
lítica se reorganizava, a violência tornou-se mais seletiva e esteve pela “Caravana da Morte”, uma comitiva militar que percorreu o
sobretudo nas mãos dos serviços secretos, a Dirección de Inteli- Chile no início da ditadura.
gencia Nacional (DINA), de triste memória; na terceira (1978-90) A nova detenção ocorreu um ano depois da primeira, que du-
foi investigada sobretudo a ação da Central Nacional de Informa- rante seis meses também cumpriu em sua residência, quando foi
ciones (CNI), que substituiu a DINA. A tortura era a forma mais submetido a dois julgamentos que ainda estão em andamento.
generalizada de violação dos direitos humanos e era aplicada em Em um deles, foi acusado dos desaparecimentos durante a
todas as prisões. “Operação Colombo”, um plano repressivo executado por agentes
O poder político acobertava a ação e garantia a impunidade a do regime militar para eliminar opositores.
seus executores. Estes consideravam normal o seu trabalho, justi- No outro, o juiz Carlos Cerda estabeleceu a responsabilida-
ficado pela acusação de subversão, de comunismo, contra as víti- de de Pinochet em fraude tributária, falsificação de documentos e
mas. A finalidade principal da tortura era destruir a dignidade dos outros crimes vinculados com as contas secretas que manteve em
vitimados. As formas mais frequentes eram açoites prolongados, bancos dos Estados Unidos e de outros países, descobertas pelo
ameaças de morte (por fuzilamento ou asfixia), choques elétricos Senado americano em meados de 2005.
nas partes mais sensíveis do corpo, fome e frio, interrupção do O general enfrentou há seis anos um primeiro julgamento no
sono, exibição da própria nudez e humilhações corporais, estupros Chile por 75 assassinatos e sequestros executados pela “Caravana
de homens e mulheres, presenciar sessões de tortura e de estupros, da Morte”, mas a Suprema Corte encerrou o processo sem sanções
inclusive de familiares, forçar a comer os próprios escrementos e em julho de 2002, ao considerar que o ex-ditador sofria de uma
a beber a própria urina. “demência moderada” que o impedia de se defender perante os
juízes.
Fim Da Era Pinochet
Ditadura em Cuba – Revolução Cubana
Nos primeiros anos da ditadura, o governo Pinochet conse-
guiu reverter o quadro de crise econômica provocado pelo fracasso Cuba estava sobre o poder dos Estados Unidos, era um lugar
da política socializante de Salvador Allende. Algumas das medidas com cassinos e bordéis frequentados pela máfia e pelos fuzileiros
tomadas foram a autorização da entrada de capitais estrangeiros e a dos EUA. Há mais de duzentos anos que Cuba tenta a independên-
liberalização da economia, o que ajudou o Chile a crescer bastante cia ou anexação aos EUA. Antes da revolução cubana, a popula-
na década de 70. ção vivia em extrema pobreza, pessoa morriam de doenças que já
Mas o sucesso econômico foi manchado com sangue. A opo- existia cura, milhares eram analfabetos e estavam desempregados. 
sição dos EUA e as crises econômicas internacionais do começo Em 1952 sob a ditadura de Fulgêncio Batista que chegou ao
da década de 80 criaram um quadro de grandes complicações in- poder por um golpe militar. Em 26 de julho de 1953, formou-se
ternas, aumentando o desemprego e o déficit na balança comercial. uma oposição contra Batista e Fidel Castro se destacou atacando
Cresceram, assim, a insatisfação geral e as contestações à ditadura um quartel de Moncada com um grupo de companheiros. Seu ata-
de Pinochet. que fracassou e todos seus companheiros foram encarcerados. Fi-
Os protestos populares e a crise econômica forçaram o gover- del procurou exílio no México. Em 1956 retornou a Cuba para um
no a colocar em discussão a continuidade do regime e do general novo confronto com Batista e novamente fracassou. Refugiou-se
na presidência do país. Em um plebiscito realizado em 1988, o na Serra Maestra, lugar que começaram a planejar um novo ataque. 
povo chileno disse não à reeleição e forçou uma abertura negocia- O ataque de Fidel manteve distante do capitalismo e do co-
da que resultou no fim da ditadura, em 1990, com a posse de um munismo e manteve simpatia por todos os cubanos. É durante esse
presidente eleito. ataque que Che Guevara, médico da guerrilha decide entrar em
Pinochet foi detido e julgado em seu próprio país, em 31 de combate com toda coragem e crueldade com os inimigos. Rapida-
janeiro de 2001 por ordem do juiz Juan Guzmán Tapia, que conse- mente se tornou homem de confiança de Fidel Castro e em pouco
guiu despojá-lo de sua imunidade para submetê-lo a um primeiro tempo torna-se um líder com bastante liderados. 
julgamento por violações dos direitos humanos e enfrentar um pe- Os revolucionários em 1959 ganharam uma batalha e Batista
dido de extradição para a Espanha que não se concretizou. se exilou em São Domingos. A partir deste exílio, Cuba se torna
Liberado por “razões humanitárias”, Pinochet voltou ao Chile um país comunista comandado por Fidel Castro. Em 1962, Kenedy
em 3 de março de 2000, doente, humilhado e sem suas antigas fez uma denúncia contra Cuba, dizia que havia mísseis soviéticos
posições de poder. e então foi ordenado o bloqueio naval de Cuba. A partir de então,
Esta surpreendente detenção em Londres foi o início de seu Fidel Castro passou a trabalhar pela inclusão na América Latina
ocaso, que nos últimos anos o obrigou a se retirar em sua residên- para acabar com o isolamento. 
cia situada ao leste de Santiago ou no sítio de Los Boldos, na costa Por causa do bloqueio econômico, Cuba se encontrava em
central chilena. situação crítica. Em 1965 os revolucionários decidiram: ou ape-
Ali, ao lado da esposa, recebe as visitas periódicas de seus lavam para soluções políticas e econômicas ou pregariam a revo-
cinco filhos, de seus netos e dos poucos partidários que ainda lhe lução novamente. Che Guevara optou pela segunda opção, mas
restam. como a América Latina era seu único apoio e não havendo total
“No dia em que tocarem algum de meus homens se acaba o decisão dos revolucionários, decidiu-se que era suicídio abrandar
Estado de Direito”, advertiu Pinochet pouco antes de deixar o po- a revolução em Cuba. 
der, em 11 de março de 1990, mas no ano 2000, a Suprema Corte Em 1968, os dirigentes cubanos sem outras alternativas diante
o despojou de sua imunidade parlamentar para enfrentar mais de aos revolucionários, se retraíram, mas as guerrilhas não ultrapas-
100 processos por crimes contra a humanidade. sou o ano de 1975.

Didatismo e Conhecimento 15
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Ditadura no Equador por meio de referendum uma nova constituição prevendo eleições
gerais, mas tumulto de rua, com estudantes protestando contra o
O primeiro presidente foi o general Juan José Flores. Em aumento das tarifas de transporte urbanos levaram as Forças Ar-
1833, foi desencadeada uma guerra civil entre os conservadores madas a declararem o estado de sítio. Em 1979, foram realiza-
e os liberais, a primeira de uma extensa série de confrontos, que das eleições presidenciais. Desde então têm se sucedido diversos
tiveram como consequência a subida ao poder de três ditadores: governos constitucionais. Em 1981 reativaram-se os conflitos de
Juan José Flores, Gabriel García Moreno e Eloy Alfaro. No meio fronteira com o Peru (questões de limites, existentes desde 1942).
destas lutas, situa-se o período presidencial do general José María
Urbina. Ditadura no Haiti
Na vida política equatoriana sempre opuseram-se liberais e
conservadores, os primeiro dos litoral e os segundos da zona mon- Um dos períodos mais conturbados da história do Haiti teve
tanhosa. O governo de Gabriel García Moreno (1861-1865 e 1869- início em 1957. Naquele ano, o médico François “Papa Doc” Du-
1875), conservador, salientou-se pelo progresso material ao lado da valier foi eleito presidente da nação, instalando um regime dita-
férrea ditadura clerical, estabelecendo exclusividade de cidadania torial baseado na repressão militar que perseguiu muitos oposito-
aos católicos praticantes e suprimindo a oposição parlamentar. Os res – inclusive a Igreja Católica –, sua guarda pessoal, os tontons
liberais, liderados pelo escritor Juan Montalvo, agitaram o país até macoutes (bichos papões) eram os responsáveis pelos massacres. 
a morte de Moreno, assinado em 1875. Em 1895 subira os liberais, O Papa Doc foi assassinado em 1971, no entanto, seu filho
com a presidência de Eloy Alfaro, nas gestões de 1895-1901 e de Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, assumiu a presidência do Hai-
1905-1911, tendo construído a ferrovia de Quito a Guayaquil, sa- ti, dando continuidade às perseguições. Os protestos populares
neado a fazenda pública, apoiado a educação primária e universitá- contra o regime ditatorial se intensificaram, e Baby Doc fugiu para
ria, criado serviços de saúde, bem como nacionalizado os bens da a França em 1986, deixando no poder uma junta chefiada pelo ge-
Igreja, amealhados pelo confisco de propriedades dos espanhóis, neral Henri Namphy. 
durante a Independência. O general Leónidas Plaza, presidente de Sob nova Constituição, realizaram eleições presidenciais li-
1901-1905 e 1912-1916 governou sob a paz constitucional, ga- vres em 1990, a maioria dos eleitores (67%) optou pelo padre es-
rantindo a liberdade de imprensa e desenvolveu a comunicação querdista Jean-Bertrand Aristide. Porém, no mesmo ano, Aristides
ferroviária, bem como livrou Guayaquil da febre amarela. foi deposto por um novo golpe militar e a ditadura foi novamente
Até 1944, os liberais radicais governaram o país, sendo depos- imposta no país. A Organização das Nações Unidas (ONU) impôs
tos por uma coligação esquerdista, Alianza Democrática Equato-
sanções econômicas ao Haiti para forçar a volta de Aristides. So-
riana, que colocou no poder José Maria Velasco Ibarra. De 1948 a
mente em 1994, Aristide retornou ao cargo de presidente do Haiti. 
1952 sucedeu-lhe o filho Leónidas Plaza. Galo Plaza Lasso, assu-
Entretanto, os problemas no Haiti persistiram, fazendo com
mido para a gestão 1952-1956 novamente Velasco Ibarra, seguido
que Aristides fugisse para a África em fevereiro de 2004 e, atual-
por Ponce Enriquez (1956-1960). Velasco Ibarra foi reeleito para
mente, o país sofre intervenção internacional pela ONU. 
o mandato de 1960-1964, deixando o governo em 1961 pra o vice
Carlos Julio Arosemena Monroy, devido às pressões do Congres-
Ditadura na Nicarágua
so, que o acusou de desejar fechamento do Legislativo e insta-
lar uma ditadura. Arosemena tentou uma política de aproximação
com os países socialistas e em consequência de divergência com Em 1928 e 1932, os EUA supervisionaram as eleições que
os Estados Unidos, pronunciou em julho de 1963 violento discurso elegeram dois presidentes liberais: Moncada(1928-1933) e Saca-
atacando aquele país, numa festividade à qual comparecera o em- sa (1933-1936). As tropas norte-americanas abandonaram o país
baixador norte-americano. em 1933, depois de terem treinado a Guarda Nacional Nicaragua-
Nesta ocasião, o Exército tomando o poder e prendendo todos na, criada pelos americanos na gestão de Díaz com o objetivo de
os esquerdistas do país, suspendeu as eleições. Em 1967, foi pro- manter a ordem interna. Com a retirada dos fuzileiros, Sandino
mulgada uma nova constituição. A assembléia nomeou um presi- depôs as armas e reconciliou-se com Sacasa. No ano seguinte, o
dente provisório Otto Arosemena Gómez, sucedido, em 1968 por comandante da Guarda Nacional, o general Anastasio (Tacho) So-
Velasco Ibarra, que eme 1970 dirigiu um golpe de Estado, encami- moza García, sobrinho de Sacasa, instigou o assassinato do líder
nhando o Equador numa linha política bastante independente, no- rebelde liberal, Augusto César Sandino.
tadamente no relativo ao controvertido mar territorial superior a 3 Em 1936, Anastasio Somoza ganhou as eleições presidenciais
milhas, que originou vários atributos diplomáticos com os Estados e, durante vinte anos, governou o país, diretamente ou por interpos-
Unidos, pelo apresamento de embarcações de pesca daquele país tas pessoas, com pulso de ferro até ser assassinado em 1956 pelo
que não respeitou o limite fixado pelo Equador. poeta Rigoberto López Pérez. Foi sucedido pelo filho, Luís Somoza
Velasco Ibarra ,em 1972, foi novamente derrubado por um Debayle (1957-1963). René Schick Gutiérrez (1963-1966), morto
golpe militar, cujo principal dirigente, o general Guillermo Ro- no exercício da presidência, foi sucedido por Lorenzo Guerrero
dríguez Lara, tomou o poder como presidente, sendo substituído Gutiérrez(1966-1967), a que se seguiu Anastasio (Tachito) Somo-
alguns anos depois. Segundo exportador de petróleo da América za Debayle (1967-1972, 1974-1979), irmão mais novo de Luís e o
Latina (em 1973 tornou-se membro da OP), mas nem por isso se último membro da família Somoza a assumir a presidência.
acentuou o seu desenvolvimento econômico, prejudicado pela ins- As aparências democráticas desapareceram em 1971, quando
tabilidade política social: em 1974 as atividades políticas e social; Somoza revogou a constituição e dissolveu a Assembleia Nacio-
em 1975 houve uma fracassada tentativa de golpe de Estado; em nal. Aproveitando-se do terremoto que em 1972 arrasou Manágua,
1976 assumiu o poder uma Junta Militar; em 1978, foi aprovada Somoza obteve do Congresso poderes ilimitados.

Didatismo e Conhecimento 16
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Ditadura no Paraguai Stroessner, o então chefe das Forças Armadas. Foi nomeado como
presidente Tomam Romero e, em 11 de julho do mesmo ano, em
A crise democrática atual do Paraguai suscitou uma série de eleições sem concorrência, Stroessner articulou para ser candidato
discussões sobre a política paraguaia e, principalmente, latino-a- único do Partido Colorado e ganhou as eleições com 99% dos vo-
mericana. Muitas vezes deixada de lado nos estudos brasileiros, a tos e em 15 de agosto assumia a presidência da República.
história paraguaia mostra-se imprescindível para a compreensão O general teve o apoio da base política colorada, da oligarquia
da política latino-americana. O Paraguai, que vivia um processo agropecuária e dos Estados Unidos, que transformou o Paraguai
democrático desde a última Ditadura Militar (1954-1989), enfren- em um laboratório da Doutrina de Segurança Nacional. De acordo
com Miguel López em A construção Social dos Regimes Autoritá-
ta uma das mais severas crises políticas de sua história do século
rios, pouco depois que assumiu a presidência, Stroessner se reuniu
XXI. com membros do Comando Sul dos Estados Unidos e ali assinou
O ex-presidente Fernando Lugo, eleito em 20 de abril de 2008 um pacto com os altos oficiais americanos e brasileiros em que se
com 41% dos votos, rompeu com uma hegemonia de mais de seis comprometia a barrar qualquer crescimento ou avanço dos comu-
décadas do Partido Colorado (partido tradicional e de direita) na nistas.
presidência paraguaia, incluindo os 35 anos de Ditadura Militar. Por chegar ao poder em um momento de instabilidade, Stroes-
Ex-bispo católico ligado aos movimentos sociais de esquerda, sner apresentou um discurso pacificador e teve sua imagem asso-
Lugo tem um histórico de atuação com os sem-terra paraguaios. ciada ao propósito modernizante. Sua política não diferiu subs-
Os conflitos agrários vêm crescendo no país e culminou no conflito tancialmente das demais ditaduras militares da América Latina,
de Curuguaty, estopim para o processo de impeachment que desti- perseguiu e torturou seus opositores; recebeu investimentos finan-
tuiu Lugo da presidência. ceiros dos EUA; atuou contra o comunismo; criou redes de apoio e
Em 15 de junho de 2012, um confronto violento entre poli- defesa; desestabilizou as instituições democráticas, etc.
 A ditadura impôs a filiação partidária ao Partido Colorado
ciais e sem-terra deixou 17 mortos (11 trabalhadores rurais sem-
como condição primária para ter acesso a cargos públicos, para
terra e 6 policiais) na reintegração de posse de uma fazenda perto ingressar na Universidade, e muitas vezes a exigência da filiação
da fronteira com o Brasil. Este conflito foi uma das razões citadas acontecia também no setor privado, nas empresas cujos proprie-
pelos congressistas para destituir o presidente; com um Parlamen- tários eram aliados do regime. Sendo assim, o Partido Colorado
to cuja maioria era de direita e formava a oposição, o impeachment se constituiu como a base social da Ditadura Militar paraguaia;
foi votado e o resultado foi 39 dos votos a favor e apenas 4 contra. os sindicatos de trabalhadores, o movimento estudantil e outros
No lugar de Fernando Lugo, assume o vice-presidente Frederico setores que poderiam atuar como opositores do regime eram am-
Franco, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), que rompeu plamente formados por colorados, deixando assim a oposição cada
com a coligação de Lugo há um ano atrás. vez mais débil.
O processo relâmpago de impeachment chamou atenção dos Outro fator importante para a manutenção desse regime mi-
líderes políticos do mundo todo, principalmente dos países latino litar foi a criação da rede de delação no país. Funcionando como
-americanos; considerado por muitos desses como um golpe po- órgão de controle social, o governo criou a cultura da traição e
lítico, remete a uma inevitável associação com o ultimo período da denúncia. Os chamados pyrague (em Guarani, delator, espião),
formaram um verdadeiro exército que levou milhares de homens e
ditatorial do país que teve início em 1954 e terminou apenas em
mulheres ao cárcere, tortura e desaparecimento. A sociedade vivia
1989, com outro golpe político. com medo, pois qualquer um poderia ser um espião em potencial.
Ditadura Militar Paraguaia (1954 – 1989) Existiam aqueles que eram agentes permanentes e que recebiam
A história paraguaia é marcadamente militar, pois as mu- até salários do governo, como também cidadãos que denunciavam
danças políticas sempre foram acompanhadas de grandes even- simplesmente para não serem acusados de omissão.
tos militares. As Forças Armadas atuaram como agente político No campo econômico o Paraguai assistiu durante a ditadura
e ator importante no controle do Estado dada a vitória paraguaia Militar de Stroessner um intenso crescimento. Os agropecuários se
na Guerra do Charco (1932-1935) – guerra contra a Bolívia, cuja fortaleceram com o aumento de fluxo de capitais estrangeiros, com
reivindicação boliviana era a saída para o mar. Esta guerra e sua a isenção de impostos e créditos a juros baixos. Da mesma maneira
consequente vitória permitiram aos militares definirem sua identi- que o setor industrial também tirou suas vantagens, principalmente
dade e desfrutarem de alta simpatia da população. com a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que teve um
Entre os anos de 1936 e 1954 o Paraguai enfrentou uma série investimento de 18 bilhões de dólares e fez surgir uma nova classe
de golpes e contragolpes,  sempre com a atuação determinante das de ricos, chamados barões de Itaipu. Esse crescimento certamente
não alcançou a maioria da população, dados apontam que 1% da
Forças Armadas e dos partidos políticos mais influentes da cena
população detinha 80% de toda a riqueza nacional.
política, o Partido Liberal, Partido Corolado e Partido Febreris- A partir dos anos de 1980, a ditadura militar de Stroessner
ta. A partir de 1948 houve um domínio governamental colorado, começou a perder força, motivada pela desaceleração econômica
neste período os partidos opositores foram duramente perseguidos, e um novo golpe de Estado foi planejado por alguns setores do
e seus militantes, em sua maioria, foram exilados. O domínio go- Partido Colorado, nos dias 2 e 3 de fevereiro de 1989 um novo gol-
vernamental colorado (1948 a 1954) garantiu a filiação partidária pe destituiu o ditador da presidência paraguaia. A longa sucessão
dos membros das Forças Armadas e da Polícia. de governos autoritários e militaristas salienta uma característica
Foi nesse cenário político de sucessivos golpes, violentas per- política autoritária na história paraguaia. Uma das maiores preo-
seguições, hegemonia e fortalecimento do Partido Colorado e da cupações de Stroessner era travestir seu governo autoritário com
imagem das Forças Armadas, caracterizado pelo terror político, um manto de legitimidade, ou seja, buscou manter uma fachada
que se desenhou a ascensão política do general Alberto Stroess- democrática e institucional. A convocação rotineira de eleições,
ner. Com a queda do presidente Frederico Chávez, por um gol- sistematicamente fraudulentas confirmaram sempre expressivos
pe em maio de 1954 arquitetado por Méndez Fleitas, aliado de resultados eleitorais favoráveis ao Partido Colorado.

Didatismo e Conhecimento 17
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Durante a Ditadura Militar e personalista do general Alfredo A candidatura de Toledo aglutinou principalmente as cama-
Stroessner, dezenas de milhares de paraguaios e paraguaias foram das populares do campo, setores intelectualizados de classe média
detidos, torturados e levados ao exílio – aproximadamente um e estudantes, em parte por sua origem mestiça e pobre, uma vez
terço da população segundo organizações de direitos humanos. que ainda hoje o mestiço é maioria na população do país. Isso não
Os números são imprecisos, mas indicam que alguns milhares de significa, porém que o candidato oposicionista seja um legítimo re-
cidadãos podem ter sido assassinados pelo regime. Assim como presentante dos camponeses, pois na verdade possui um programa
as demais ditaduras latino-americanas, não cabe medir o grau de político reformista.
brutalidade e intensidade pelo número de mortos e vítimas por elas
geradas, a ditadura paraguaia deixou marcas profundas em sua so- O militarismo no Peru
ciedade, gerou traumas e ressentimentos presentes até hoje; como
toda ditadura, esta cerceou liberdades e foi cruel. No Peru o militarismo teve características bastante peculiares:
Assim como ocorreu outrora, a tentativa de travestir golpes e Assumindo o poder em 1968, o general Juan Velasco Alvarado deu
regimes autoritários com uma fachada de legalidade é recorrente início a uma política caracterizada por um discurso nacionalista e
na política paraguaia e latino-americana. E, por isso, temos que anti-imperialista e colocou e marcha a reforma agrária, garantin-
observar com cuidado o fato ocorrido em junho de 2012 no Para- do a uma parcela dos camponeses o acesso a terra, reivindicação
guai. A destituição de Fernando Lugo é considerada pelo Partido secular da sociedade rural, reformou a legislação social criando
Colorado como fato jurídico estritamente legal e democrático. As- condições para a elevação do nível de consumo do país, fato que
sim como salienta o jurista Luis Regules, “quase todos os golpes interessou tanto a burguesia internacional como à incipiente bur-
de Estado na América Latina se deram com apoio parlamentar. É guesia nacional.
uma história de tristes resultados que insiste em se repetir cada vez O governo militar ( 1968-75) foi responsável por importantes
mais como farsa. Ação foi vista por muitos países latinos como um mudanças, eliminando o poder das oligarquias, transferiu a hege-
golpe de Estado e pela União das Nações Sul-Americanas (Una- monia econômica para a burguesia; a sindicalização aumentou,
sul) como uma “violação da ordem democrática”. assim como a participação do Estado na economia.
No entanto a repressão interna e a crise internacional determi-
Ditadura no Peru naram o fim do Peruanismo e o regresso de uma política conser-
vadora, pautada pelos interesses internacionais ditados pelo FMI,
As recentes eleições no Peru demonstram mais uma vez ao fato que foi responsável por violenta crise, caracterizada pelo de-
mundo uma das principais características históricas da América
semprego e miséria. É nesse novo quadro que surgiram os movi-
Latina: o autoritarismo.
mentos guerrilheiros do Sendero Luminoso (1980) de tendência
No entanto o autoritarismo não é uma característica do povo
Maoísta e o Movimento Revolucionário Tupac Amaru (1984).
ou do caráter latino americano, mas fruto de condições históricas
que se desenvolveram desde o século anterior, em grande parte
Ditadura na República Dominicana - o regime de Trujillo
determinada pela política das grandes potências internacionais, a
partir da divisão internacional do trabalho, imposta com a Segunda
Sua história política é marcada por ditaduras e intervenções
Revolução Industrial.
militares dos Estados Unidos. Entre os anos de 1930 a 1961, a Re-
O Peru Atual pública Dominicana foi governada pelo ditador Rafael Leónidas
Trujillo. Esse período foi caracterizado por perseguições a oposi-
As eleições peruanas foram responsáveis por atrair a atenção tores, corrupção e concentração das riquezas nacionais (estima-se
internacional a partir do momento em que a justiça autorizou o que o ditador possuía 70% das áreas cultiváveis do país e 90% das
presidente-ditador Alberto Fujimori a concorrer, possibilitando- indústrias). A ditadura só teve fim com o assassinato de Trujillo,
lhe o terceiro mandato consecutivo. em maio de 1961. Alguns historiadores afirmam que a Agência
A legislação casuística e a subordinação do Poder Judiciário Central de Inteligência (CIA) estadunidense foi responsável por
ao Executivo são os elementos que mais evidenciam o caráter au- esse assassinato.
toritário do governo; no entanto, a utilização do aparelho repressi- Após esse período, o país sofreu uma intervenção militar es-
vo das Forças Armadas desde que assumiu o poder, com o pretexto tadunidense até que, em 1966, Joaquín Balaguer assumiu a presi-
de combater a guerrilha, foi responsável pela eliminação de vários dência.
grupos de oposição e intervenção na imprensa, possibilitando ao Todo esse contexto de políticas ditatoriais e corrupção contri-
governo desenvolver uma política subordinada aos interesses do buíram para o baixo padrão de vida dos habitantes. A subnutrição
FMI. atinge 21% da população; o índice de analfabetismo é de 11% e
Desta maneira os trabalhadores rurais, de origem indígena, fo- a taxa de mortalidade infantil é de 28 óbitos a cada mil nascidos
ram os mais afetados pela política recessiva, que tem seus efeitos vivos.
surgindo neste momento com cerca de 8 milhões de desemprega-
dos no país, acabando com a ilusão dos primeiros anos de governo, Ditadura Militar no Uruguai
quando o apoio norte americano, criou a expectativa de prosperi-
dade. Eliminados os principais focos de resistência, os EUA con- Na América do Sul, assim como nos países do Cone Sul, o
sideram que chegou a hora de o Peru cumprir seus compromissos Uruguai também enfrentou um processo de ditadura militar nos
internacionais. Foi neste quadro que surgiu a candidatura de Ale- anos 70. Até a década de 60, o país era uma espécie de “Suíça da
jandro Toledo. América”, fato decadente durante a década de 60.

Didatismo e Conhecimento 18
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O país caiu numa crise econômica e social que gerou movi- Na noite de 31 de março para 1 de abril de 1964 começa en-
mento guerrilheiro articulado pelos Tupamaros. A guerrilha urbana tão um período de exceção, arbitrariedade, desrespeito aos poderes
dos Tupamaros foi base para a implantação da ditadura militar em estabelecidos, aos direitos dos cidadãos, à sua integridade física,
1973. bem como sua liberdade de expressão. Certos de que realizavam
O Uruguai, principalmente naquela época, sempre foi um país um gesto de “purificação” do poder, o projeto de aparência edifi-
dependente das potências capitalistas centrais, das quais provinha cante dos militares descamba para a repressão de toda uma nação.
o preço, as armas, os carros e o pensamento. A militarização do A Constituição seria rasgada, o judiciário perderia sua indepen-
Uruguai não correspondeu a nenhum projeto expansionista, assim dência, e pior, os membros do legislativo seriam depostos de seus
como ocorrera no fascismo e no comunismo soviético. cargos como representantes legítimos do povo.
O Uruguai chegou a ter cerca de cinco mil presos políticos, A ideia era de que quando o Marechal Humberto Castelo
abrangendo sindicalistas, intelectuais e políticos. A falência da di- Branco assumisse o poder, logo o devolveria a um representante
tadura ocorreu nos anos 80, em virtude do agravamento dos pro- civil, garantindo mesmo as eleições previstas para 1965. Caste-
blemas estruturais do país. lo Branco pertencia ao grupo moderado do movimento, chamado
Mediante intensos protestos, o Estado Militar se viu obrigado de “Grupo de Sorbonne”. Logo, porém, os radicais assumiriam o
a ceder às pressões civis. Realizaram uma transição política com
controle do movimento, forçando a permanência dos militares no
grupos civis. Realizaram uma transição política com grupos civis
poder, em plena crença de que os entes responsáveis pelos males
dos partidos Blanco e Colorado.
políticos do país ainda poderiam voltar a comandar o país.
Ditadura Militar no Brasil É por obra dos radicais que ocorre a posse de Costa e Silva
como segundo presidente militar, e onde se inicia o período mais
É conhecido no Brasil como “Regime Militar” o período que pesado da repressão. Das perseguições a parlamentares da gestão
vai de 1964 a 1985, onde o país esteve sob controle das Forças anterior, os militares decidiram fechar o Congresso Nacional em
Armadas Nacionais (Exército, Marinha e Aeronáutica). Neste pe- 1968, através do infame Ato Institucional número 5. Costa e Silva
ríodo, os chefes de Estado, ministros e indivíduos instalados nas morre em pleno mandato, e mais uma vez o grupo radical conspira
principais posições do aparelho estatal pertenciam à hierarquia para que o vice presidente, Pedro Aleixo, um civil, não assuma;
militar, sendo que todos os presidentes do período eram generais no lugar, o poder seria entregue a uma Junta formada por três mi-
do exército. Era denominada ”Revolução” em sua época, sendo litares, um de cada força. A repressão chegaria ao seu auge com o
que os principais mentores do movimento viam o cenário político presidente seguinte, Emílio Médici, que acaba com qualquer mo-
do início dos anos 60 como corrupto, viciado e alheio às verdadei- vimento armado da oposição, dando a ideia da completa predomi-
ras necessidades do país naquele momento. Assim, o seu gesto era nância e popularidade do regime, sob pleno “Milagre Econômico“,
interpretado como saneador da vida social, econômica e política em meio à conquista definitiva da Taça Jules Rimet na Copa do
do país, livrando a nação da ameaça comunista e alinhando-a in- México de 1970.
ternacionalmente com os interesses norte-americanos, trazendo de Ao aproximar-se a Primeira Crise do Petróleo, sobe ao po-
volta a paz e ordem sociais. der justamente o presidente da Petrobrás, General Ernesto Geisel,
Os antecedentes do Regime Militar podem ser encontrados confrontado com o disparo da inflação e fim do milagre. Modera-
no período Vargas, entre os responsáveis pela sua derrubada em do, ele é incumbido de preparar a volta à normalidade, fazendo a
1945, pondo fim ao Estado Novo. Este contingente de oposição distensão “lenta, gradual e segura”. Apesar de casos infames como
se agruparia logo depois na UDN, União Democrática Nacional, a morte do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel
partido de orientação liberal-conservadora. Com a volta de Getúlio Filho, Geisel parece conseguir seu objetivo, entregando o poder
por meio de eleições diretas em 1951, tal grupo continuaria fazen- ao último general da era militar, João Batista Figueiredo. Apesar
do oposição à sua política, considerada “populista”. Tal pressão da crise econômica, que começava a atingir níveis insuportáveis,
acabaria por provocar o suicídio do presidente. Este gesto, apesar da concreta “quebra” do Brasil no plano econômico, e da impuni-
de frear o movimento das forças conservadoras, não impediu algu-
dade de vários personagens da época da repressão, Figueiredo irá,
mas tentativas, em especial a manobra para que o presidente eleito
depois de 21 anos de ditadura, transferir o poder a um civil, ainda
Juscelino Kubitschek não tomasse posse. Uma intervenção de um
indiretamente eleito: Tancredo Neves, que morre antes de subir ao
grupo militar não-ortodoxo garantiria a posse de Kubitschek.
Eleito Jânio, parecia finalmente que as forças que dariam res- poder. Seu vice, José Sarney, proveniente dos quadros políticos da
paldo aos militares subiria ao poder, mas, o temperamento ímpar ditadura, acabaria incumbido de guiar o país até as tão esperadas
do novo presidente, e sua surpreendente renúncia implodiriam o eleições diretas em mais de 25 anos, previstas para 1989.
projeto conservador. Outra vez as ideias de Vargas estariam repre-
sentadas por um de seus mais aplicados discípulos, João Goulart, Estado Novo – Era Vargas
que tinha o talento de atrair a repulsa de todos os movimentos um
pouco mais à direita do espectro político. O medo de que Goulart Dado como um governo estabelecido por vias golpistas, o Es-
implantasse no Brasil uma república sindicalista com o apoio dis- tado Novo foi implantado por Getúlio Vargas sob a justificativa de
creto do Partido Comunista Brasileiro acabou lançando a classe conter uma nova ameaça de golpe comunista no Brasil. Para dar
média contra o presidente, entendendo que o Brasil caminhava ao novo regime uma aparência legal, Francisco Campos, aliado
para o caos do socialismo operário e campesino. político de Getúlio, redigiu uma nova constituição inspirada por
Do mesmo modo que acreditavam estarem mantendo a lega- itens das constituições fascistas italiana e polonesa.
lidade ao garantir a posse de Juscelino, quase dez anos antes, os Conhecida como Constituição Polaca, a nova constituição
militares decidiram entrar em cena novamente. Agora, a deposição ampliou os poderes presidenciais, dando a Getúlio Vargas o direito
do presidente asseguraria a ordem e a legalidade. de intervir nos poderes Legislativo e Judiciário. Além disso, os

Didatismo e Conhecimento 19
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
governadores estaduais passaram a ser indicados pelo presidente. as seguintes representações partidárias: o Partido Trabalhista Bra-
Mesmo tendo algumas diretrizes políticas semelhantes aos gover- sileiro (PTB) e o Partido Social Democrata (PSD), ambos redutos
nos fascista e nazista, não é possível entender o Estado Novo como de apoio a Getúlio Vargas; a União Democrática Nacional (UDN),
uma mera imitação dos mesmos. agremiação de direita opositora de Vargas; e o Partido Comunista
A inexistência de um partido que intermediasse a relação entre Brasileiro (PCB), que saiu da ilegalidade decretada por Getúlio.
o povo e o Estado, a ausência de uma política eugênica e a falta Em 1945, as medidas tomadas pelo governo faziam da saída
de um discurso ultranacionalista são alguns dos pontos que distan- de Vargas um fato inevitável. Os que eram contrários a essa pos-
ciam o Estado Novo do fascismo italiano ou do nazismo alemão. sibilidade, organizaram-se no chamado Movimento Queremista.
No que se refere às suas principais medidas, o Estado Novo adotou Empunhados pelo lema “Queremos Getúlio!”, seus participantes
o chamado “Estado de Compromisso”, onde se criaram mecanis- defendiam a continuidade do governo de Vargas. Mesmo contan-
mos de controle e vias de negociação política responsáveis pelo do com vários setores favoráveis à sua permanência, inclusive de
surgimento de uma ampla frente de apoio a Getúlio Vargas. esquerda, Getúlio aceitou passivamente a deposição, liderada por
Entre os novos órgãos criados pelo governo, o Departamento militares, em setembro daquele ano.
de Imprensa e Propaganda (DIP) era responsável por controlar os Dessa maneira, Getúlio Vargas pretendeu conservar uma ima-
meios de comunicação da época e propagandear uma imagem po- gem política positiva. Aceitando o golpe, ele passou a ideia de que
sitiva do governo. Já o Departamento Administrativo do Serviço era um líder político favorável ao regime democrático. Essa estra-
Público, remodelou a estrutura do funcionalismo público prejudi- tégia e o amplo apoio popular, ainda renderam a ele um mandato
cando o tráfico de influências, as práticas nepotistas e outras rega- como senador, entre 1945 e 1951, e o retorno democrático ao posto
lias dos funcionários. presidencial, em 1951.
Outro ponto importante da política varguista pode ser notado
na relação entre o governo e as classes trabalhadoras. Tomado por Bibliografia
uma orientação populista, o governo preocupava-se em obter o fa- Livro: História das Américas: novas perspectivas;
vor dos trabalhadores por meio de concessões e leis de amparo ao Autores: Cecília Azevero e Ronaldo Raminelli;
trabalhador. Tais medidas viriam a desmobilizar os movimentos Referências:
sindicais da época. Suas ações eram controladas por leis que regu-
lamentavam o seu campo de ação legal. Nessa época, os sindicatos
transformaram-se em um espaço de divulgação da propaganda go-
vernista e seus líderes, representantes da ideologia varguista.
2. BITTENCOURT, CIRCE MARIA
As ações paternalistas de Vargas, dirigidas às classes trabalha-
FERNANDES. ENSINO DE HISTÓRIA:
doras, foram de fundamental importância para o crescimento da
FUNDAMENTOS E MÉTODOS. SÃO PAULO:
burguesia industrial da época. Ao conter o conflito de interesses
CORTEZ, 2005.
dessas duas classes, Vargas dava condições para o amplo desenvol-
vimento do setor industrial brasileiro. Além disso, o governo agia
diretamente na economia realizando uma política de industrializa-
ção por substituição de importações. Autor
Nessa política de substituições, o Estado seria responsável por
apoiar o crescimento da indústria a partir da criação das indústrias Circe Maria Fernandes Bittencourt: possui graduação em His-
de base. Tais indústrias dariam suporte para que os demais setores tória pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP
industriais se desenvolvessem, fornecendo importantes matérias (1967), pós-graduação em Metodologia e Teoria de História pela
-primas. Várias indústrias estatais e institutos de pesquisa foram faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP (1969),
criados no período. Entre as empresas estatais criadas por Vargas, mestrado em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e
podemos citar a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Com- Ciências Humanas - USP (1988) e doutorado em História Social
panhia Vale do Rio Doce (1942), a Fábrica Nacional de Motores pela Universidade de São Paulo (1993). Atualmente é professor
(1943) e a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945). pós-graduação da Faculdade de Educação USP e da Pontificia Uni-
Em 1939, com o início da Segunda Guerra Mundial, uma im- versidade Católica- SP. Tem experiência na área de história das
portante questão política orientou os últimos anos do Estado Novo. disciplinas e currículos escolares e educação indígena. Desenvolve
No início do conflito, Vargas adotou uma postura contraditória: pesquisas atualmente sobre a história dos livros didáticos, manten-
ora apoiando os países do Eixo, ora se aproximando dos aliados. do a organização do banco de dados LIVRES referente aos livros
Com a concessão de um empréstimo de 20 milhões de dólares, os didáticos brasileiros de 1810 a 2007, sobre ensino de historia e
Estados Unidos conquistaram o apoio do Brasil contra os países do história da educação, em especial história da educação indígena.
Eixo. A luta do Brasil contra os regimes totalitários de Adolf Hitler
e Benito Mussolini gerou uma tensão política que desestabilizou a Sinópse
legitimidade da ditadura varguista.
Durante o ano de 1943, um documento intitulado Manifesto O que é disciplina Escolar?
dos Mineiros, assinado por intelectuais e influentes figuras polí-
ticas, exigiu o fim do Estado Novo e a retomada da democracia. Quando se analisa a trajetória da disciplina História, constata-
Acenando favoravelmente a essa reivindicação, Vargas criou uma se que esta faz parte dos “planos de estudos” de 1837 da primeira
emenda constitucional que permitia a criação de partidos políticos escola pública brasileira. Entretanto, acompanhando a trajetória da
e anunciava novas eleições para 1945. Nesse meio tempo surgiram história no nível superior, constata-se que o primeiro curso de his-

Didatismo e Conhecimento 20
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
tória surgiu apenas na década de 30 do séc. XX. Tal situação pro- Segundo esse ponto de vista, a escola é o lugar de recepção
voca algumas indagações: O que é uma disciplina escolar e quais e de reprodução do conhecimento externo. E a figura do profes-
são suas especificidades? Quais as relações entre disciplina escolar sor aparece como um intermediário desse processo de reprodução,
e disciplina acadêmica? Como os estudos históricos se constituí- cujo grau de eficiência é medido pela capacidade de adaptação do
ram, para os níveis secundário e primário, ao longo da educação conhecimento cientifico ao meio escolar.
escolar? Qual tem sido a participação dos professores na constru-
ção da disciplina de história nas salas de aula? (...) 1.2. Disciplina escolar como entidade específica.
A história e outras tantas disciplinas escolares tem feito parte
do cotidiano de milhares de alunos e professores de tal forma que Para pesquisadores como, o inglês Ivor Goodson e o francês
acabamos por achar natural essa organização curricular e essa ma- André Chervel, a disciplina escolar não se constitui pela simples
neira de “ser da escola”. “transposição didática” do saber erudito, mas, antes, por intermé-
Existem as “matérias” e os respectivos professores encarre- dio de uma teia de outros conhecimentos.
gados de ministrá-las, obedecendo à determinada carga horária no Para os autores que se opõem à concepção de “transposição
decorrer de um tempo específico chamado “ano letivo”. Os pro- didática”, um ponto inicial é o fato de que aquela abordagem acen-
fessores são classificados por grupos: disciplinas cientificas, hu- tua a hierarquização de saberes como base para a constituição de
conhecimentos para a sociedade.
manas, exatas, etc. Além de outra divisão entre os docentes: os
Além disso, afirmam que essa hierarquização do conhecimen-
especialistas das disciplinas e os polivalentes das séries iniciais
to tem conotações sociais, como instrumento de poder de determi-
do ensino fundamental. Diante desse quadro, este capítulo procura
nados setores da sociedade.
entender o que é disciplina escolar e os saberes por ela produzido. André Chervel, ao defender a disciplina escolar como entida-
A história e os demais escolares fazem parte de um sistema de relativamente autônoma, considera as relações de poder pró-
educacional que mantém especificidades no processo de constitui- prias da escola.
ção de saberes ou de determinado conhecimento- o conhecimento É preciso deslocar o acento das influências exteriores a escola,
escolar. inserindo o conhecimento por ela produzido no interior de uma
cultura escolar.
1. Polêmicas sobre a concepção de disciplina escolar. Chervel concebe a escola como uma instituição que, embora
obedeça a uma lógica, deve ser considerada como lugar de pro-
Responder à pergunta “o que é disciplina escolar?” não é sim- dução de um saber próprio. As disciplinas escolares devem ser
ples. Os debates mais significativos em torno dessa concepção tem analisadas como parte integrante da cultura escolar. Conteúdos e
sido realizado por pesquisadores franceses e ingleses, com diver- métodos, não podem ser entendidos separadamente, e os conteú-
gências importantes e significativas entre eles. dos escolares não são vulgarizações ou mera adaptações de um
Existem os defensores da ideia de disciplina como “transpo- conhecimento produzido em “outro lugar”.
sição didática” e os que concebem disciplina como um campo de A seleção dos conteúdos escolares, por conseguinte, depende
“conhecimento autônomo”. de um complexo sistema de valores e de interesses próprios da
escola e do papel por ela desempenhado na sociedade letrada e
1.1. Uma Transposição Didática. moderna.

Para determinados educadores, franceses e ingleses, as dis- 1.3 Constituintes das disciplinas escolares.
ciplina escolares decorrem das ciências eruditas de referência,
dependentes da produção das universidades, e servem como ins- Para entender as disciplinas escolares, é preciso situá-las em
trumento de “vulgarização” do conhecimento produzido por um um processo dinâmico de produção. Segundo Chervel, as disci-
grupo de cientistas. plinas escolares constituíram-se efetivamente a partir de 1910. A
O pesquisador francês Yves Chevellard, passou a designar tal constituição das disciplinas foi resultado de disputas entre os co-
nhecimentos que deveriam fazer parte do currículo escolar.
concepção como “transposição didática”. Ele entende ser a escola
Desde o fim do séc. XIX se discutia sobre a necessidade de
parte de um sistema no qual o conhecimento por ela reproduzi-
manter um currículo humanístico organizado pelo estudo das lín-
do se organiza pela mediação da “noosfera ”, que corresponde ao
guas e da oratória. Que eram entendidas como fundamentais para
conjunto de agentes sociais externos a sala de aula – Inspetores, a formação das elites.
autores de livros didáticos, técnicos educacionais, famílias. Esses Com o desenvolvimento da industrialização, os conhecimen-
agentes garantem à escola o fluxo e as adaptações dos saberes pro- tos das áreas denominadas exatas, passaram a ser consideradas
venientes das ciências produzidas pela academia. importantes e disputavam espaço com as áreas das “humanidades
Essa abordagem considera a disciplina escolar dependente clássicas”. Foi importante nesse momento, estabelecer as finalida-
do conhecimento erudito ou cientifico. Também se consolida, por des de cada uma das disciplinas, explicitar os conteúdos selecio-
essa concepção uma hierarquia de conhecimentos, encontrando-se nados para serem ensinados e definir os métodos que garantissem
a disciplina escolar em uma escala inferior, como saber de segunda tanto a apreensão de tais conteúdos como a avaliação da aprendi-
classe. zagem.
No que refere aos conteúdos e métodos de ensino e aprendiza- As finalidades de uma disciplina escolar, cujo estabelecimento
gem, entende-se que os conteúdos escolares provem direta e exclu- é essencial para garantir sua permanência no currículo, caracteri-
sivamente da produção cientifica e os métodos decorrem apenas de zam-se pela articulação entre os objetivos instrucionais mais espe-
técnicas pedagógicas, que transforma-se em didáticas. cíficos e os objetivos educacionais mais gerais.

Didatismo e Conhecimento 21
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
As finalidades de uma disciplina tendem sempre a mudanças, A articulação entre as disciplinas escolares e as disciplinas
de modo que atendam diferentes públicos escolares e respondam acadêmicas é, portanto, complexa e não pode ser entendida como
às suas necessidades sociais e culturais inseridas no conjunto da um processo mecânico e linear, pelo qual o que se produz enquanto
sociedade. conhecimento histórico acadêmico seja necessariamente transmiti-
Outro constituinte fundamental da disciplina escolar é o con- do e incorporado pela escola.
teúdo explicito. Os conteúdos explícitos são geralmente organiza-
dos por temas específicos e apresentados em planos sucessivos, 2.3. Professores e disciplina escolares.
conforme os níveis de escolarização e devem estar em sintonia
com os objetivos educacionais e instrucionais. O professor é quem transforma o saber a ser ensinado em sa-
Os conteúdos explícitos articulam-se intimamente com os mé- ber aprendido, ação fundamental no processo de produção do co-
todos de ensino e de aprendizagem. Tais conteúdos são apresenta- nhecimento. Conteúdos, métodos e avaliações constroem-se nesse
dos ao público por intermédio de diferentes métodos, indo da aula cotidiano e nas relações entre professores e alunos.
expositiva até o uso dos livros didáticos ou da informática. O mé- “Dar aula” é uma ação complexa que exige o domínio de
todo é importante por ser um dos elementos que estão diretamente
vários saberes característicos e heterogêneos. De acordo com o
vinculados ao conteúdo explícito e aos objetivos das disciplinas.
canadense Maurice Tardif, e a brasileira Ana Maria Monteiro, os
E por fim, temos a avaliação, essencial para se ter controle so-
professores mobilizam em seu oficio os saberes das disciplinas,
bre o que é ensinado ou aprendido pelo aluno. Na avaliação reside
os saberes curriculares, os saberes da formação profissional e os
o maior poder do professor.
saberes da experiência. A pluralidade desses saberes corresponde
2. Disciplina escolar e produção do conhecimento. a um trabalho profissional que se define como “saber docente”.

2.1 Disciplina escolar ou matéria escolar. Comentário

Ivor Goodson entende a disciplina como uma forma de co- A obra aborda aspectos do ensino e aprendizagem de História
nhecimento oriunda e característica da tradição acadêmica e para o do ponto de vista dos problemas teóricos que fundamentam o co-
caso das escolas primárias e secundárias utiliza-se o termo matéria nhecimento escolar. Propiciará aos docentes de diferentes níveis
escolar. base para refletir sobre as finalidades do ensino de História e seu
Goodson explica que muitas matérias escolares não apresen- papel na formação.
tam as mesmas estruturas das disciplinas acadêmicas e não se uti-
lizam de conceitos e metodologias semelhantes. Ademais, argu- Resumo
mentando que muito do que se trabalha na escola nem tem uma
disciplina base ou ciência referência, pois, constituindo-se numa Suas contribuições na área de ensino de história e participação
comunidade autônoma recebe múltiplas interferências de profes- em diversas obras fazem de Circe Maria Fernandes Bittencourt
sores, administradores da escola ou da sociedade. uma referência no tocante ao ensino no Brasil, seus métodos e
Podem-se identificar diferenças entre as disciplinas acadêmi- fundamento ao longo da história da educação brasileira. Recente-
cas e as escolares, embora elas tenham relações entre si. Uma das mente vem trabalhando com a formação de professores e tem se
diferenças importantes diz respeito a seus objetivos, que evidente- dedicando à educação indígena.
mente não são os mesmos. A disciplina acadêmica visa formar um Suas orientações de cursos de pós-graduação trazem para
profissional. Já a matéria escolar visa formar um cidadão comum suas obras novas abordagens e questionamentos sobre o ensino
que necessita de ferramentas intelectuais variadas para compreen- de história em todo país. Há, inclusive, no presente tralhado, re-
der o mundo físico e social em que vive. ferências feitas a grupos de pesquisas, os quais considera de suma
importância para mostrar as dados sobre o ensino e contribuir com
2.2. Disciplina escolar e conhecimento histórico.
apontamentos recentes pois o ensino é algo dinâmico e requer um
acompanhamento rigoroso por parte do pesquisador.
O historiador francês Henri Moniot, ao estudar a história en-
É justamente a preocupação de Circe Bittencourt com ques-
quanto disciplina escolar conclui que seu ensino, no fim do séc.
tões inerentes ao ensino de história que insticou um trabalho sobre
XIX, assegurou a existência da história universitária.
A divisão da história em grandes períodos (Antiguidade, mé- seus fundamentos e métodos. Os questionamentos e polêmicas que
dia, moderna e contemporânea), criada para organizar os estudos circundam a área educacional e as polêmicas sobre o método de
escolares acabou por definir as divisões das disciplinas históricas ensino ideal para as novas gerações são lançadas no intuito de aju-
universitárias. dar o público docente, chamando a atenção para os novos desafios
Essa organização das disciplinas é uma das evidencias que da profissão.
permitem refletir sobre as relações entre o conhecimento acadê- A partir do ano de 1967, quando obtem o nível superior, Circe
mico e o escolar se envolver a história das disciplinas escolares e Currículos além
Modificar o currículo do ensino fundamental e médio, como de estudos sobre a história do livro didático. Não só suas pesqui-
quer as recentes propostas do ensino temático, implica mudanças sas, mas também os trabalhos de tantos outros pesquisadores bra-
no currículo de nível superior. sileiros e estrangeiros ajudaram a compor a presente obra, cuja
A história escolar tem um perfil próprio, mas há um intercâm- intenção central é abrir caminhos para uma prática de ensino pra-
bio de legitimações entre as duas entidades específicas zerosa e ao mesmo tempo difícil e desafiante.

Didatismo e Conhecimento 22
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A autora trás uma vasta linha de discussões a cerca da história Isolado do conhecimento científico na época do Brasil impé-
do ensino de história dividido sistematicamente em três unidades. rio, a História, dentro do ensino tinha funções determinadas pelos
Como abordagem essencial para a importância da prática escolar, agentes políticos, como para desenvolver na criança um sentimen-
trás uma reflexão sobre o conceito de disciplina escolar, fazendo to de identidade nacional com o intuito de homogeneizar. Em 1827
apontamento de alguns autores ingleses e franceses sobre como no Brasil, o básico considerado para se aprender no ensino primá-
eles vêem a disciplina escolar e sua relação com o conhecimento rio era leitura, escrita e aritmética. Qualquer tema histórico abor-
produzido na academia. dado tinha o caráter exemplar de dever patriótico e respeito aos
Segundo o pesquisador francês Yves Chevallard, que rotula a governantes. Os vertentes históricas abordadas nas escolas tinha
disciplina escolar como apenas sendo uma “transposição didática a finalildade específica de modelar comportamento e a forma de
do conhecimento acadêmico, a disciplina escolar depende do co- pensar do indivíduo vista pela História Sagrada (aplicada muitas
nhecimento erudito e que essa didática vulgariza o conhecimento vezes sob sabatina e castigos físicos, História Patriótica, cívica e
científico. Alguns estudiosos, sobretudo franceses e ingleses não moralista, A história Heróica e a História Biográfica. Caucando-se,
legitimam o conhecimento produzido em sala de aula, outros vão sobretudo no modelo educacional francês, o Brasil acabou adotan-
mais além, acreditam numa hierarquização entre os dois níveis, do estereótipos preconceituosos europeus que levaram ao enalte-
em que o conhecimento escolar e totalmente dependente do co- cimento de uma história elitizada, voltada para contar apenas as
nhecimento acadêmico, o papel do professor é de um adaptador do glórias que os “descobridores” tiveram ao levar a “civilização” ao
conhecimento científico ao meio escolar, fazendo uso da didática Brasil.
para transformar esse conhecimento acessível aos alunos. Em seguida a autora fala de da memorização do processo de
Cice Bittencourt também expõe as versões antagônicas, citan- aprendizagem que perdura até hoje no sistema de ensino brasileiro,
do o inglês Ivor Goodson e o francês André Chervel que defendem como datas nomes e frases repetidas em toda parte.
a disciplina escolar como entidade específica e com um conheci- Já no ensino secundário no primeiro império, prevalece uma
mento próprio e distinto do acadêmico. Seus argumentos se ba- história humanística de estudos clássicos e do latin, esse tipo de
seiam no caráter prático que o conhecimento escolar possui, o qual conhecimento diferenciava a elite do povo iletrado e sem acesso
à educação. Esse mesmo humanismo é bastante criticado pelos
dispõe de uma nova conotação, ou seja, a ação dos agentes sociais
cientistas posittistas que se voltavam para para a influência do ca-
e políticos, os quais necessitam de mudanças constantemente, fa-
pitalismo industrial, a ahistória e usada essencialmente para jus-
zendo-os abandonar, muitas vezes, referências científicas.
tificar ações e louvar os constritores do estado-nação, um herói
Segunda André Chervel, as disciplinas escolares se constituí-
branco, europeu, sobretudo português. Seja nas escolas ou nos
ram de acordo com as necessidades sociais que variam no tempo
discussos públicos eram contada uma história fantasiosa e mani-
e no espaço, ou seja, o desenvolvimento industrial, a tentativa de
pulada pelos agentes do poder. Tansmitia-se ao povo a ideia de
criar um sentimento patriótico na sociedade etc, criam necessida-
uma Europa boa e bela, berço da nação brasileira. Isso explica, por
des no meio escolar, ou numa cultura escolar e estabelecem finali- exemplo, a organização dos períodos históricos em quais o Brasil
dades conteúdos, métodos e forma de avaliação das disciplinas que “nasce” depois do medievo, vem sempre depois como algo “atra-
compõem, não aleatoriamente, o currículo escolar. sado”. A História Geral é tida como algo maior, mais importante.
Em seguida, Ivor Goodson é novamente mencionado quando Ainda dentro do histórico da disciplina, temas na obra da Cir-
a autora fala que o conhecimento escolar produz seu próprio co- ce Maria Fernandes Bittencourt tópicos dedicados às renovações
nhecimento, atendendo as necessidades sociais e políticas, toman- curriculares e a atuação dos novos métodos e tecnologias o qual
do como exemplo, a Educação Ambiental. elenca uma necessidade de os novos métodos de ensino entrarem
Para o historiador francês Henri Moniot, a divisão dos pe- na órbita do mundo globalizado. A autora lança alguns questiona-
ríodos históricos surgiu de uma necessidade escolar que forneceu mentos sobre como a escola se prepara para receber as novas gera-
modelos para a academia criando áreas de pesquisa em História ções na “cultura das mídias”. Além disso, ressalva o cuidado com
Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea. Os cursos superio- as informações das novas mídias como a televisão e o computador.
res, mencionado o caso específico de História se apóiam no con- O acesso a essas novas tecnologias não pode servir de instrumento
teúdo do livro didático ou de programas de vestibulares. Com tom de exclusão social e cultural, tendo em vista e realidade precária da
de conclusão, Bittencourt encerra com a afirmativa que a História escola pública brasileira.
escolar tem um perfil próprio, assim como a academia e que não se Diante de tantos desafios que as novas gerações fornecem para
pode separar os dois níveis de conhecimento. as propostas curriculares, podem ser destacados alguns avanços:
Ao destacar o papel do professor neste processo, Circe inicia - Maior autonomia do professor;
o parágrafo “Professores e Disciplina Escolares” afirmando ser o - Fundamentação pedagógica construtivista;
professor um peça fundamental do processo de ensino e que é ele - O aluno é visto como sujeito do processo, interferindo no
quem transforma o saber a ser ensinado em saber a ser apreendido. andamento com seu “conhecimento prévio”.
O professor não é um mero “reprodutor do saber, sua atividade Desde a década de 1930 que formuladores de propostas cur-
exige saber complexo, desenvoltura, domínio. riculares já vinham
Para os estudiosos do saber docente, o canadense Maurice Pensando em substituir as História e Geografia por Estudos
Tardif e a brasileira Ana Monteiro, os professores dominam os sa- Sociais tendo como influência pedagógica as teorias do suíço Jean
beres das disciplinas, os currículos, o saber da formação profissio- Piaget (1896 – 1980), segundo a qual as crianças desenvolvem por
nal e os saberes da experiência, dessa forma, o saber docente deve estágios determinados pela maturação biológica que delimitam
ser reconhecido como saber original. sua capacidade de aprendizagem, ou seja, nas séries iniciais do
Como componente da primeira unidade o capítulo II faz um primário as crianças não teriam condições de aprender conceitos
breve histórico do ensino de história. históricos, lhe bastando um conteúdo bem mais simples como a

Didatismo e Conhecimento 23
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
realidade de sua família ou do seu bairro e a sociedade que a re- Ao dialogar com o leitor a respeito de como o professor de
deiam, cabendo às séries posteriores (atual 5ª ano) o estudo da his- história deve falar dos conceitos em sua disciplina, Circe Bitten-
tória mundial e dos conceitos. Esse modelo foi implantado a partir court descreve três procedimentos fundamentais de como dever
da década de 1960 pelos governos militares. A partir de 1985, sob ser passados conceitos como: capitalismo, escravidão, aristocra-
propostas e reivindicações de professores e defensores do retorno cia, liberalismo e cidadania:
da história e Geografia não só no ensino primário (substituindo - Situá-los no tempo e no espaço;
Estudos Sociais), mas também secundário (substituindo os estudos - Explicar que são produtos de uma classe, numa determinada
de Organização Social e Política Brasileira), termina a ditadura e época, criados ou substituídos;
com ela alguns aspectos de seu modelo de ensino. - O contato entre sociedades provocam mutações de conceitos
A partir de 1985 se tornou cada vez mais presente nas propos- e agregação de outros.
tas de modelos de ensino no Brasil e se consolidou com a Lei de Em seguida, a autora lança um panorama sobre o método de
Diretrizes e Bases da educação (LDB/96) e os novos PCNs (Planos ensino tradicional e o inovador considerando suas características
Curriculares Nacionais) o ensino de História e Geografia para to- ao longo do tempo.
dos os níveis de ensino. O método tradicional começou a ser criticado no Brasil na
Baseados na perspectiva teórica de um dos grandes críticos da década de 1980 quando surgem em sua oposição muitas propostas
teoria de Piaget, o desenvolvimentalista Levy Vygotsky que consi- inovadoras, porém não deve ser banido do ensino tendo em vista
derava as crianças exploradoras independentes de suas condições que já foram muito importantes e fazem parte de uma cultura es-
biológicas, os PCNs prevêem o estudo dos conceitos históricos, colar e que qualquer mudança que venha a ocorrer dever ser cons-
noção de tempo e espaço históricos já na alfabetização, partindo de truída e não imposta.
uma premissa que o conteúdo pode ser introduzindo de um modo Dentre os métodos inovadores há o dialético o qual permite
adequado a cada fase da criança. o confronte de ideias e a formação crítica do aluno. Em história
Ao falar dos PCNs a autora pontua algumas de suas caracterís- tem que haver espaço para o contrário, a dúvida, tal perspectiva se
ticas e objetivos do ensino de história imprícitos como a intenção torna viável para a educação construtivista prevista nos próprios
de criar cidadãos políticos com um sentimento de identidade. PCNs. Essa proposta, tão difundida pelo educador Paulo Freire,
Bittencourt aborda, embora de maneira sucinta, alguns mé- não abandona o crédito que é dado ao conhecimento prévio do
todos inovadores no ensino de história que não vingaram, mais aluno, cabendo ao professor o papel diagnosticar e reorientar.
causaram polêmica e representaram uma tentativa de ruptura ao Ao elencar a importância da interdisciplinaridade em história
sistema de ensino tradicional como a história temática que valoriza para o ensino, Circe Bittencourt cita as aproximações necessárias
as ações sociais ao invés das políticas. Paulo Freire (1921 – 1997) entre história e meio ambiente ou a História Ambiental, iniciada
foi um dos maiores representantes de um ensino inovador, total- pelos estudos dos annalistas franceses na segunda metade do sé-
mente desvinculado de interesses políticos. culo XX, como March Bloch, Fernand Braudel e Le Roy Ladurie,
Na unidade II, Circe Bittencourt dispõe de diretrizes de como além de destacar os estudos dos brasileiros Sérgio Buarque de Ho-
selecionar os conteúdos históricos e alerta o profissional educador landa e Josimar de Almeida e do americano Warren Dian que se
para o “conteúdo significativo”, insistindo que o professor deve dedicou aos estudos da devastação da Mata Atlântica e a cultura
ter condições de atender a um público diverso que exige o uso de dos povos indígenas.
diferentes estratégias: o alunato. Além disso, deve estar sempre Outra aproximação citada é o estudo do patrimônio e da me-
atualizador e atento às produções historiográficas. mória coletiva que são de suma importância por serem capazes de,
Sobre o conteúdo a ser ensinado, deve-se observar as diversas através do estudo do meio, introduzirem os alunos no método de
maneiras de transmiti-lo, por exemplo, uma história narrativa, eco- investigação histórica.
nômica ou social. A história das mentalidades assim como a his- Na terceira e última unidade é dado atenção especial ao livro
tória coletiva ou a micro-história, surgidas com o Annales. Novas didático e a inserção do documento histórico no ensino de história.
abordagens possibilitam o aparecimento de novos sujeitos, o que O livro didático não é tudo, além de a autora entender que é
significa uma visão mais social e cultural da história. exercício de política em sala de aula feito pelo agente do poder,
Ao falar sobre conteúdos históricos, surge a crítica da autora sugere que com a ajuda do professor o material didático pode ser
sobre o trato atual da história nacional, que vem sendo deixada produzido pelo próprio aluno, ao escrever sobre um documento
para segundo plano, dando lugar a uma história geral ou global. O histórico, além de poderem produzir jogos, mapas, maquetes etc.
sistema econômico, atrelado ao estágio de uma mundialização da O conteúdo do livro didático é visto com preocupação por
economia, relega a abordagem do nacional a algo menos impor- Bittencourt não só por ser um instrumento ideológico, mas ser tra-
tante, embora ajam muitas correntes historiográficas que rompem tado como lucro dentro do sistema capitalista. Além disso, trás a
com o modelo de ensino vinculado a padrões político-econômicos. consagração de fatos considerados eixos centrais da história como
O mesmo tipo de crítica é feito à história regional subordinada revoluções, guerras, descobrimentos e independências. Outros es-
à história nacional, que no caso brasileiro, acaba sendo história da tudiosos tecem preocupações parecidas sobre as imagens e suas
região hegemônica, geralmente São Paulo. A historiadora Maria de legendas, pois constroem o imaginário do aluno. O livro didático
Lourdes Janotti enfatiza que as transformações sociais e econômi- tem uma difícil, por ser categórico, dificulta a correção de este-
cas não determinam o destino de um país imenso como o Brasil, reótipos preconceituosos formados com o seu mal uso. A autora
as outras regiões também tiveram sua parcela de importância no também trata algumas características com a mistura de instrumen-
processo histórico. Bittencourt sublinha essa questão com o exem- tos tradicionais e inovadores como a cronologia, a presença do
plo do livro didático que privilegia a história do local em que foi estruturalismo, indicações de atividades lúdicas para determinada
produzido. faixa etária.

Didatismo e Conhecimento 24
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Apesar de muitas vezes ser tratado como fonte única do co- 3. História como memória social
nhecimento, a autora não descarta a importância do seu uso, defen- 4. A linguagem do gesto no início da Itália moderna
de um uso adequado, ou seja, o livro é uma possibilidade auxiliar 5. Fronteiras do cômico no início da Itália moderna
no conhecimento, pode ser usado como um guia e ser lido de for- 6. O discreto charme de Milão: viajantes ingleses no século
ma espontânea pelo aluno. XVII
O uso didático dos documentos escritos e não escritos em sala 7. Esferas pública e privada na Gênova de fins do Renasci-
de aula encerra as discussões propostas por Circe Bittencourt. Fer- mento
ramenta que possibilitam a dinamização do conhecimento histó- 8. Cultura erudita e cultura popular na Itália renascentista
rico, o uso de documentos históricos em sala de aula possibilita à 9. A cavalaria no Novo Mundo
livre interpretação do aluno em contato com métodos de pesquisa 10. A tradução da cultura: o Carnaval em dois ou três mundos
11. Unidade e variedade na história cultural
histórica, embora alguns historiadores sejam contra por acharem
BIBLIOGRAFIA
que há nesse método a tentativa de criar “pequenos historiadores”.
Índice
Bittencourt salienta que a atividade da pesquisa histórica re-
quer cuidados ao trabalhar com esse documentos de maneira didá- Autor
tica, esse método apenas deve incitar a criatividade do aluno que
deve ter apenas um primeiro contato e não ser obrigado a fazer Peter Burke (Stanmore, 1937) é um historiador inglês. Dou-
uma análise complexa. torado na Universidade de Oxford (1957 a 1962) foi professor de
Os documentos que devem se inseridos em sala de aula men- História das ideias na School of European Studies da Universi-
cionados são: jornais, poemas, textos literários, romances, docu- dade de Essex, por dezesseis anos professor na Universidade de
mentos pessoas dos alunos, obras de arte, peças de museus, icono- Princeton (1967); atualmente é professor emérito da Universidade
grafias diversas, filmes e músicas. de Cambridge (1979). Foi professor visitante do Instituto de Pes-
Diante das abordagens feitas por Circe Bittencourt, podemos quisas Avançadas da USP (IPEA – USP) de Setembro de 1994 a
concluir que a atividade pedagógica em História é bastante com- setembro de 1995, período em que desenvolveu o projeto de pes-
plexa, levando em consideração as várias metodologias que podem quisa chamado “Duas Crises de Consciência Histórica”.
ser adotadas pelo professor, tais discussões servem como solucio- Vive em Cambridge juntamente com sua esposa, a historiado-
nadoras de muitos problemas que acompanham a história da disci- ra brasileira Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, da Faculdade de
plina. A subjugação do modelo educacional brasileiro à economia Educação da Universidade de São Paulo.
neoliberal representa o novo obstáculo à realização de um ensino Foi o historiador equatoriano Juan Maiguashca (professor de
história Econômica da América Latina da Universidade de Toron-
voltado parta atender a realidade brasileira, ou seja, o ensino fei-
to, discípulo de Chaunú, quem introduziu Peter Burke no mundo
to para elevar o padrão de vida da sociedade. Questionamentos, dos Annales). É também um dos maiores especialistas mundiais na
críticas construtivas e discussões são meios para se chegar a uma obra de Gilberto Freire.
conclusão, essa conclusão pode gerar reivindicações da sociedade
ou de seus representantes o que interfere de alguma forma nas po- Sinopse
líticas públicas voltadas para um ensino de qualidade. Hoje temos
um ensino e um profissional educador mais aberto a mudanças, O objetivo desta coletânea de ensaios é discutir e exemplifi-
uma história disposta a ser vista de diversas maneiras, um ensi- car algumas das principais variedades de história cultural surgidas
no que pelo menos em propostas é instigante e enriquecedor da desde o questionamento do que se poderia chamar de sua forma
consciência, embora ainda não despreze a prática tradicional da “clássica”, exemplificada na obra de Jacob Burckhardt e Johan
memorização. Huizinga. Esse modelo clássico não foi substituído por nenhuma
ortodoxia nova, apesar da importância das visões inspiradas pela
Bibliografia antropologia social e cultural.
Livro: Ensino de história: fundamentos e métodos; A coletânea começa com um capítulo sobre as origens da his-
Autores: Circe Maria Fernandes Bittencourt; tória cultural, que suscita questões gerais sobre a identidade do
Referências: RODRIGUES, W. C. T.; SANTOS, R. B. dos. tema. Os capítulos sobre sonhos e memória são substantivos, mas
também comparativos, além de tentar abordar problemas gerais na
prática da história cultural.
Seguem-se cinco estudos de caso detalhados do início da Itá-
3. BURKE, PETER. VARIEDADES DE
lia moderna, de meados da década de 1960 a meados da de 1980.
HISTÓRIA CULTURAL. RIO DE JANEIRO: Todos esses estudos se situam nas fronteiras da história cultural
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2006. (no sentido de constituírem áreas só recentemente examinadas) e
também nas fronteiras culturais - entre a cultura erudita e a cultura
popular, as esferas pública e privada, o sério e o cômico.
Seguem-se dois ensaios sobre o Novo Mundo, em especial
Sumário o Brasil (um mundo novo, que descobri há apenas uma década).
Esses se concentram nos romances de cavalaria e no Carnaval, mas
Esta obra está dividida em 11 capítulos: sua preocupação essencial é com a “tradução” cultural nos senti-
dos etimológico, literal e metafórico do termo. Deu-se particular
AGRADECIMENTOS ênfase às consequências de encontros culturais, nas circunstâncias
1. Origens da história cultural em que se podem descrevê-los em termos de mistura, sincretismo
2. A história cultural dos sonhos ou síntese.

Didatismo e Conhecimento 25
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O volume termina com um artigo teórico que discute as va- Para o autor, o significado de cultura, diante das mais pos-
riedades de história cultural comparando e contrastando o estilo síveis traduções e empregos, só pode ser definida em termos de
clássico com o “novo”, ou “antropológico” e tentando responder à nossa própria história, diferenciando-se conforme as regiões, cos-
questão de saber se a chamada “nova” história cultural está conde- tumes e épocas. Porém, mesmo sabendo que toda cultura tem uma
nada à fragmentação. história, o termo história cultural remonta a fins do século XVIII,
As ideias aqui apresentadas se desenvolveram a partir de uma na Alemanha.
espécie de diálogo entre fontes dos séculos XVI e XVII, historia- Para o segundo capítulo, Burke explicita as possíveis subjeti-
dores mais recentes (Jacob Burckhardt, Aby Warburg, Marc Blo- vidades abarcadas pela história cultural, principalmente o reconhe-
ch, Johan Huizinga) e teóricos culturais modernos, de Sigmund cimento dos territórios oníricos, reivindicados pelos historiadores
Freud, Norbert Elias e Mikhail Bakhtin a Michel Foucault, Michel das últimas gerações, como Michel Foucault. O ensaio apresen-
de Certeau e Pierre Bourdieu. Nos ensaios a seguir, tentarei evitar tado neste capítulo defende a possibilidade de “uma história dos
os perigos opostos do “construtivismo” (a ideia da construção cul- próprios sonhos” (BURKE, 2006: 41) e suas implicações meto-
tural ou discursiva da realidade) e do “positivismo” obsoleto (no dológicas e investigativas. O fato é que o autor concluiu que os
sentido de empirismo confiante em que “os documentos” revelarão sonhos são uma fonte em potencial para analisar a história cultural.
“os fatos”). Com cautela, este universo onírico de símbolos pode ser tratado
em conjunto, como indícios para os historiadores, categorizando
Resumo e comparando-os a fim de uma possível interpretação cultural dos
sonhos.
1. Origens da história cultural O ensaio seguinte trata do delicado embate entre história e
memória. Burke intitula tal capítulo como “História e memória
Não há concordância sobre o que constitui história cultural, social”, apontando desta forma um resumo dos complexos meios
menos ainda sobre o que constitui cultura. Há mais de quarenta pelos quais se recorda e se registra o passado. Um dos problemas
anos, dois estudiosos americanos começaram a mapear as varia- levantados é o da memória individual e coletiva, onde uma influen-
ções do emprego do termo em inglês, e reuniram mais de duzentas cia a outra formando as estruturas sociais e culturais. Além disso,
definições concorrentes. Levando-se em conta outras línguas e as cinco variedades de meios de comunicação nas organizações das
últimas quatro décadas, seria fácil reunir muito mais. Portanto, na memórias são analisadas: as tradições orais; a ação do historiador;
busca de nosso tema talvez fosse adequado adaptar a definição de as imagens; os rituais e os espaços. E para finalizar o capítulo, o
homem dos existencialistas e dizer que a história cultural não tem autor demonstra os usos da amnésia social como uma obliteração
essência. Só pode ser definida em termos de nossa própria história de memórias em conflito, onde o historiador, em alguns casos, de-
(p.13) sempenha o papel de lembrar às pessoas o que muitas delas gosta-
Nesse caso, as perguntas motivadas pelo presente são as se- riam de ter esquecido.
Para o terceiro ensaio, é suscitada uma interessante aborda-
guintes: qual a idade da história cultural, e como mudaram os con-
gem sobre o estudo da linguagem gestual, como um subsistema in-
ceitos de história cultural ao longo do tempo? O obstáculo a se
serido em uma estrutura maior de comunicação: a própria cultura.
evitar é dar a essas perguntas respostas igualmente motivadas pelo
Embora o autor tenha feito tal abordagem culturalista com
presente. O problema é escorregadio. Não somos o primeiro povo
foco na Itália, este caminho que tem os gestos e o controle do cor-
no mundo a compreender que a cultura, como hoje a chamamos,
po como objetos são indícios de comportamento e conivência com
tem uma história. O termo “história cultural” remonta a fins do
a cultura social, isto é, relativizam a própria cultura e sua história
século XVIII, pelo menos na Alemanha. (já que os gestos também se modificam em relação ao tempo).
A ideia de que a literatura, a filosofia e as artes têm histórias é Assim como os gestos, o riso também tem sua importância na
muito mais antiga. Essa tradição merece ser lembrada. A dificulda- história sociocultural. Tão aplicável quanto os modos à mesa, o
de é fazer isso sem incorrer no erro de imaginar que o que defini- chiste tem muito a dizer de cada cultura e de cada geração. O riso,
mos (e na verdade, em alguns lugares, institucionalizamos) como portanto, é tratado pelo autor como uma medida social, revelando
“tema” ou “subdisciplina” existia nessa forma no passado (p.14). determinadas tensões em culturas diferentes. A ideia do cômico
Nesta obra, Burke faz uma coletânea de ensaios, dispostos como cultura material parte do pressuposto de que é impossível
em onze capítulos, discutindo algumas das muitas variedades de reprimir de todo o riso, bem como as mudanças nas convenções
história cultural, com o objetivo de demonstrar que o questiona- sociais. Isto é, o riso é reflexo dos objetos de seu tempo, seja ironi-
mento da forma clássica de tal modo de fazer história resultou em zando, subvertendo ou comicizando, com significados que mudam
uma multiplicidade de abordagens e objetos, bem como suscitou com o decorrer do tempo.
a importância da interdisciplinaridade para embasar a emergência No ensaio seguinte, Burke apresenta os diários e correspon-
destes novos dimensionamentos. dências de viagens como fontes para a história cultural. A possi-
O primeiro capítulo trata das origens da história cultural e as bilidade de se colocar tanto o leitor quanto o historiador no lugar
possíveis identidades do tema. do viajante - e ver através dos olhos deste, experimentando como
No conjunto em que a história cultural aborda, as histórias se fosse o próprio – é tentadora, mas deve ser levada com pre-
da literatura, das artes e das línguas emergiram como efeitos do caução. Isto porque os limites entre estranhamento e preconceitos
Renascimento, interligando cultura e sociedade. O fato é que as são muito tênues e podem se emaranhar, levando às enganosas in-
diferenças entre costumes – rudes ou requintados – estavam asso- terpretações. Contudo, o autor tenta evitar os perigos opostos do
ciadas também aos diferentes modos de pensamento, onde as civi- construtivismo e do positivismo, abordando estas narrativas como
lidades estavam ligadas ao intelecto. Assim, enquanto os alemães documentos preciosos para a história, percebendo que as distan-
centravam-se em cultura, os franceses usavam a expressão como cias culturais também são percepções importantes, desde que cor-
“o progresso do espírito humano”. retamente tratadas.

Didatismo e Conhecimento 26
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A importância do urbano e das cidades em geral como mate- Por fim, e também por falta de uma definição exata para cultu-
rial para a história é debatida no sétimo ensaio. O valor atribuído ra, tanto Burke quanto os interessados nestas questões galgam uma
à vida privada tem como espaço referencial também os lugares concepção de bricolagem cultural, onde o processo de assimilação
públicos, onde um encontra-se imbricado no outro. Logo, os es- e apropriação deslocam-se como essências para suas abordagens.
paços urbanos – sejam no concerne do público ou privado – são Silvia Sasaki
lugares de cultura, onde os sujeitos atuam e agem na construção e Mestranda em História pela Universidade do Estado de
manutenção da história, através das estruturas sociais e políticas. Santa Catarina (UDESC)
Tal temática tem certa continuidade no oitavo capítulo, pois Burke,
dentro dos espaços das cidades italianas, analisa as diferenciações Sempre que se começa uma história, pode-se dizer que teria
e aproximações entre cultura popular e erudita. O fato é que ele- sido melhor começar antes. Este capítulo começa com os humanis-
mentos eruditos e populares transitam nas estruturas sociais, ca- tas da Itália renascentista, de Petrarca em diante, cujas tentativas
de desfazer a obra do que eles foram os primeiros a chamar de
bendo aos historiadores e estudiosos em geral reconhecerem os
“Idade Média” e reviver a literatura e o saber da Antiguidade clás-
poliformismos destes processos.
sica envolviam uma visão de três eras de cultura: antiga, medieval
Extrapolando fronteiras, o autor evidencia a América Latina e moderna. De fato, como bem sabiam os humanistas, alguns gre-
como inserção do Novo Mundo, no nono ensaio. Interessantemen- gos e romanos antigos já haviam afirmado que a linguagem tem
te, Burke inicia sua análise com os romances de cavalaria, de fins uma história, a filosofia tem uma história, os gêneros literários têm
do século XIX, e como estes estão presentes no Brasil em forma de uma história e a vida humana vinha sendo mudada por uma suces-
literatura de cordel, desde o mesmo período. A maior importância são de invenções. É possível encontrar essas ideias na Poética de
desta abordagem está na persistência dos temas, geralmente estru- Aristóteles, por exemplo, no tratado de Varro sobre a linguagem,
turados em termos de tradições culturais e condições sociais que na discussão de Cícero sobre a ascensão e queda da oratória e na
favorecem a manutenção dessas tradições. versão da primeira história do homem apresentada no poema de
Continuando seus ensaios sobre o Brasil, no penúltimo capí- Lucrécio sobre a natureza das coisas (tão importante para Vico, e
tulo é feita uma abordagem do Carnaval brasileiro como objeto outros, nos séculos XVII e XVIII) (p.15).
legitimo e recorrente da própria cultura do país. A partir de uma
visão estrangeira, Burke discute a interação cultural entre diferen- História da língua e da literatura
tes grupos, afirmando que, no caso do Brasil, um processo de re-
descoberta da cultura popular esteja evidenciando novas estruturas Os humanistas tinham uma história mais dramática para con-
de valorizações, principalmente a afro – americana por parte das tar sobre a língua e a literatura do que seus antigos modelos. Uma
história de invasões bárbaras e do consequente declínio e destrui-
elites, como uma “re-africanização do Carnaval” (BURKE, 2006:
ção do latim clássico, seguida por uma história de renascimento,
230).
obra (claro) dos próprios humanistas. Em outras palavras, uma era
Em sua conclusão, o autor afirma que estes novos estudos cul- de luz foi seguida de uma “Idade das Trevas” por sua vez seguida
turais – como uma “virada cultural” (BURKE, 2006: 233) – flores- de outra era de luz. Essa é a história que emerge de alguns textos
cem no âmbito das humanidades, onde os estudiosos se definem italianos do início do século XV, por exemplo, as vidas de Dante e
como pesquisadores das mais diversas possibilidades de “culturas” Petrarca, de Leonardo Bruni, a história da literatura latina escrita
(cultura visual, cultura da ciência, cultura política e outras). Tantas por Sicco Polenton, ou a introdução histórica à gramática latina,
variedades praticadas desde o fim do século XVIII, para Burke, de Lorenzo Valla, as Elegantiae. Essa interpretação da história da
ainda não estão estabelecidas de maneira tão sólida, mas evocam literatura fazia parte da justificação do movimento humanista.
sua importância. Diante de tantos questionamentos, em uma era de Nos séculos XV e XVI, debates em torno dos méritos relativos
fragmentações e relativismos, a história cultural se demonstra es- do latim e do italiano como língua literária e qual a melhor forma
sencialmente necessária não somente para dar respaldo aos novos do italiano a usar geraram pesquisas sobre a história da língua,
interesses por parte dos historiadores e estudiosos, promovendo de Leonardo Bruni, Flávio Biondo e outros. Eles discutiam, por
respostas às fraquezas de paradigmas anteriores, mas também para exemplo, que línguas os antigos romanos falavam na verdade, se
dar vozes àqueles antes vistos como uma grande unidade massifi- latim ou italiano. No início do século XVI, o cardeal humanista
cada, como se não houvesse diferenciações entre os grupos e in- Adriano Castellesi apresentou uma história do latim, De sermone
divíduos. latino (1516), dividida em quatro períodos - “muito antigo”, “anti-
A história cultural se demonstra como uma possibilidade de go”, “perfeito” (a era de Cícero) e “imperfeito” (desde então). Ou-
tro humanista e crítico, Pietro Bembo, que fez mais para imobilizar
tradução do passado, tornando esta inteligível ao presente, pois
o italiano em determinado ponto de seu desenvolvimento do que
ao invés de uma opção somente pela alteridade, onde a oposição
todos os demais, permitiu a uma das personagens em seu famoso
é a forma redutível de percepção, esta se demonstra como uma diálogo sobre o vernáculo, a Prose dela volgar lingua (1525), ob-
abordagem dos distanciamentos culturais – ao invés dos “choques servar que a língua muda “como as modas das roupas, os modos
culturais” - minimizando as diferenças. O que antes era marginal é da guerra e todas as outras maneiras e costumes” (Livro 1, capítulo
deslocado para o centro dos olhares, redefinindo as fronteiras entre 17)(p.16)
cultural e social. Não se trata de homogeneizações, mas sim de Os humanistas do norte, logo imitadores e adversários de seus
encontros culturais nos quais as diferenças são perceptíveis e não antecessores italianos, ampliaram a história chamando a atenção
anuladas, onde as fronteiras são atravessadas por repetidas vezes, para as evoluções linguísticas em seus próprios países. Na Fran-
em um processo de interação entre diferentes subculturas - embora ça, por exemplo, dois advogados humanistas, Étienne Pasquier em
o termo empregado pelo autor pareça, neste contexto, tão pejora- Rechercbes de la France (1566) e Claude Fauchet: em Origine de
tivo. la langue et poésie françoises (1581), narraram e festejaram as rea-

Didatismo e Conhecimento 27
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
lizações de escritores franceses desde o século XIII à era de Fran- O livro de Vasari inclui uma história da ascensão da arte na
cisco I e a Plêiade. Na Inglaterra, pode-se encontrar uma discussão Antiguidade, seu declínio na Idade Média e seu reflorescimento,
sobre a poesia inglesa a partir de Chaucer num tratado intitulado na Itália em três estágios, culminando no mestre de Vasari, Mi-
The Arte of English Poesie, publicado em 1589 e atribuído a Geor- chelangelo.
ge Puttenham. Também foi publicada em 1606 uma história do es- O livro de Vasari foi tratado como um desafio. Artistas e eru-
panhol, Del origen y principio de la lengua castellana, de Bernardo ditos de outras partes da Itália compilaram vidas de artistas locais
Aldrete, no mesmo ano que um estudo semelhante do português, para mostrar que Roma, Veneza, Gênova e Bolonha eram concor-
Origem da língua portuguesa, do bacharel Duarte Nunes de Leão. rentes dignas de Florença. Contudo, prestaram muito menos aten-
Os alemães tiveram de esperar até o século XVII por uma história ção ao que Vasari fizera para as tendências gerais na arte.
equivalente, assim como tiveram de esperar até o século XVII por O surgimento, do que convém chamar-se, em retrospecto, de
um equivalente dos poetas da Plêiade, mas a história, quando che- história da arte, em oposição às biografias de artistas, ocorrera an-
gou, era mais elaborada e comparativa. O polímata Daniel Morhof tes em estudos da Antiguidade clássica por uma razão bastante ób-
pôs a história da língua e da poesia alemãs numa estrutura europeia via. Apesar das famosas historietas de artistas gregos contadas por
comparativa em Unterricht von der Teutscben Sprache und Poesie Plinio (e adaptadas por Vasari), pouco se sabia de Apeles, Fídias e
(1682) (p.17) o resto, o que dificultou a organização de um estudo da arte anti-
Com base nesses fundamentos, muitos eruditos do século ga como uma série de biografias. O erudito florentino Gianbattista
XVIII apresentaram histórias em múltiplos volumes de literaturas Adriani, que escreveu uma breve história da arte antiga em forma de
nacionais, sobretudo as da França (de uma equipe de pesquisa de carta a Vasari (1567), para ajudá-lo em sua segunda edição de Vidas,
monges beneditinos liderados por Rivet de ta Grange) e da Itália preferiu organizá-la em torno da ideia de progresso artístico.
(compiladas por Girolamo Tiraboschi sozinho, sem ajuda). A am- O ensaio de Félibien sobre a origem da pintura e o de Huet
plidão da noção de “literatura” de Tiraboschi é digna de nota.9 sobre a origem dos romances foram escritos na França na mes-
Na Grã-Bretanha, surgiram movimentos semelhantes. Alexander ma década, de 1660, como se expressassem uma mudança mais
Pope publicou um “esquema da história da poesia inglesa”; Tho- geral na preferência historiográfica. De acordo com a tradição de
mas Gray aprimorou-a. Enquanto isso, a história era assegurada Félibien era a obra do pintor da corte, Monier, Histoire des arts
por Thomas Warton, que jamais foi além do início do século XVII,
(1698), escrita a princípio como palestras para alunos da Real Aca-
embora sua inacabada History of Englisb Poetry (4 vols., 1774-8)
demia de Pintura. A interpretação cíclica de Monier começou com
continue sendo impressionante(p.17)
a ascensão da arte na Antiguidade e prosseguiu até seu declínio na
Também se escreveram monografias sobre a história de deter-
Idade Média e seu renascimento entre 1000 e 1600. A data relati-
minados gêneros literários. O erudito protestante francês Isaac Ca-
vamente antecipada do reflorescimento permitiu a Monier dar um
saubon publicou um estudo da sátira grega em 1605, e John Dryde,
importante papel a franceses como Pasquier e Fauchet: no domínio
seguindo-lhe o exemplo, escreveu um Discourse Concerning the
da literatura.
Original and Progress of Satire (1693), que discutia seu desenvol-
Deve-se considerar a destacada realização nessa área, History
vimento desde o que chamou de sátira extemporânea “tosca, não
trabalhada” da Roma antiga até as criações aperfeiçoadas de um of the Ancient Art (1764), de johan joachim Wincklemann, não
período em que os romanos “Começavam a ficar um tanto mais como uma nova partida radical, mas o apogeu de uma tendência,
bem-educados, e a entrar, com a permissão da palavra, nos rudi- uma tendência que era estimulada não apenas pelo exemplo de
mentos da conversa polida”. Mais uma vez, o surgimento do ro- histórias da literatura, mas também por várias novas práticas, entre
mance nos séculos XVII e XVIII veio acompanhado de pesquisas elas o surgimento do colecionador de arte, do mercado da arte e do
sobre suas origens orientais e medievais, feitas pelo bispo polímata conhecimento especializado em arte(p.21)
Pierre-Daniei Huet, em sua Lettre sur Porigine des romans (1669), A história da música foi praticamente uma invenção do século
logo seguido por Thomas Warton, que inseriu em sua história da XVIII. No século XVIII, houve uma explosão de interesse pela
poesia uma digressão “Sobre a origem da ficção romântica na Eu- história da música. Na França, a família Bonnet-Bourdelot publi-
ropa”(p.18) cou em 1715 um importante estudo, Histoire de la musique.

História de artistas, arte e música A história da doutrina

Não chega a ser uma surpresa o fato de se encontrarem ho- As histórias da língua, da literatura e das artes parecem ter
mens de letras que dedicavam atenção à história da literatura. A começado como efeitos colaterais do Renascimento. A Reforma
arte era um objeto menos óbvio para a atenção do historiador, mes- também teve seus subprodutos. Assim como os humanistas defi-
mo no Renascimento. Os eruditos nem sempre levaram os pintores niram seu lugar na história ao dividir o passado em antigo, medie-
a sério, ao mesmo tempo que faltava aos pintores aquela prepara- val e moderno, também o fizeram os reformadores, ao remontar
ção necessária à pesquisa histórica. Quando, na Florença do século a antes da Idade Média e reviver a Antiguidade cristã, ou “igreja
XV, o escultor Lorenzo Ghiberti apresentou um esboço literário da primitiva” como a chamavam. As histórias da Reforma começam
história da arte, no autobiográfico Comentários, fazia uma coisa com a própria Reforma. Entre as mais famosas, estão os Commen-
meio incomum (p.18) taries, de Johann Steidan (1555), e os Acts and Monuments, de
Também não podemos dar por certo o caso de Vasari. Ele foi John Foxe (1563). Tendiam a ser histórias dos fatos ou histórias
notável em sua época porque tinha uma formação cultural dupla, das instituições, mas algumas delas - como a História eclesiástica,
não apenas o aprendizado no ateliê de um pintor, mas também uma do cristão antigo Eusébio de Cesaréia - encontraram um espaço
educação humanista subvencionada pelo cardeal Passerini. para a história das doutrinas(p.22)

Didatismo e Conhecimento 28
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Pode-se ver com clareza ainda maior a preocupação com as Montiriort pretendia escrever uma história da geometria segundo
mudanças nas doutrinas no século XVII. Do lado protestante, a o modelo das histórias existentes da pintura, música e assim por
Theologia historica (1664), de Heinrich Alting, defendia uma diante, mas morreu em 1719, antes de realizar seus planos.
“teologia histórica” com base em que a história da Igreja não era
apenas a dos fatos, mas também a dos dogmas (dogmatum narra- A história dos modos de pensamento
tio), da sua corrupção (depravatio) e reforma (reparatio, restitutío,
reformatio). Do lado católico, a aceitação da ideia de mudança nas Outro desenvolvimento decorrente da história das disciplinas
doutrinas foi mais difícil, apesar do exemplo do jesuíta espanhol foi à história dos modos de pensamento. Esse desenvolvimento
Rodriguez de Arriaga (m. em 1667), que elaborou o que se chamou tem uma impressionante semelhança, e não de todo ilusória, com
de “uma das mais extremas teorias de desenvolvimento já apresen- algumas das “novas direções” pregadas e praticadas hoje.
tadas por um conceituado pensador católico”. Professor em Praga, John Locke tinha aguda consciência das diferenças entre os
Arriaga ensinava que a proclamação da doutrina pela Igreja “é tor- modos de pensamento nas diferentes partes do mundo.
nar explícito o que não era explícito, e que também não precisava Este argumento relativista, alimentado por relatos recentes da
ter sido implícito” (p.22). África, dá óbvio apoio à polêmica de Locke contra ideias inatas.
Em relação à história da doutrina religiosa, os equivalentes Não há uma distância tão grande assim entre o interesse pelas
seculares parecem não ter dado nenhum grande passo. Contudo, variações de pensamento em diferentes lugares e o interesse por
nessa área (ao contrário da história da arte ou da história da litera- diferentes períodos. É bem possível que tenha sido a revolução
tura e da língua), parece ter havido poucos desmembramentos an- do pensamento, associada ao surgimento da “filosofia mecânica”,
tes do ano de 1600. Talvez a necessidade de avaliar as realizações que tornou alguns europeus conscientes do “mundo intelectual que
do passado fosse um subproduto da revolução científica do século haviam perdido”.
XVII, em que a “nova” filosofia mecânica, como muitas vezes a O ensaio de Fontenelle, a origem “dos mitos”), publicado em
chamaram, se tornou um tema de debate. 1724, afirmava que os sistemas de filosofia eram necessariamente
O exemplo clássico da história da filosofia foi Vidas dos fi- antropomórficos e mágicos. Vico chegou de modo independente
lósofos, escrita no século III por Diógenes Laércio, modelo que a conclusões semelhantes, expressas com um tanto mais de afini-
Eusébio adaptou no século seguinte para sua história das primeiras dade pelo que chamou de “lógica poética” do homem primitivo.
seitas cristãs, e que Vasari remodelou com radicalismo ainda maior O mesmo tipo de preocupação com a mentalidade exótica
para suas Vidas dos pintores, escultores e arquitetos. Esse modelo encontra-se subjacente ao interesse cada vez maior pela história da
biográfico continuou sendo tentador. Contudo, também se fizeram cavalaria, estudada pelo erudito francês Jean-Baptiste de La Curne
tentativas para contar uma história que fosse além da reunião de de Sainte-Palaye, com base em romances medievais e outras fon-
biografias, praticar o que Thomas Burnet (quase três séculos antes tes. Robertson afirmou que a “cavalaria (...) embora considerada
de Foucault) chamou de “arqueologia filosófica” e escrever a his- em geral uma instituição primitiva, efeito de capricho, e origem
tória intelectual não apenas dos gregos e romanos, mas também da extravagância, surgiu naturalmente do estado da sociedade na-
dos “bárbaros”. quele período, e exerceu uma influência muito séria sobre o refina-
Acredita-se, de maneira generalizada, que a expressão “histó- mento dos costumes das nações europeias”.
ria das ideias” foi lançada pelo filósofo americano Arthur Lovejov, Ao ler as obras de um autor que viveu em uma era remota, é
quando fundou o Clube da História das Ideias, na Universidade necessário que (...) nos coloquemos em sua situação e circunstan-
Johns Hopkins, na década de 1920. cias; que possamos ficar mais capacitados para julgar e discernir
como foram influenciados seu pensamento e sua maneira de escre-
A história das disciplinas ver, e como foram impregnados por aparências muito familiares e
reinantes, mas inteiramente diferentes das que nos circundam no
Da tradição história-da-filosofia, ramificaram-se vários estu- presente.
dos de disciplinas específicas. A história das crenças não expressas e das representações con-
No lado das artes, a história da retórica e a história da própria tinua sendo fundamental para o empreendimento da história cultu-
história merecem menção. Um jesuíta francês, Louis de Cresolle, ral, como argumentará o capítulo seguinte.
apresentou uma história notável da retórica dos antigos sofistas. Alguns homens de letras se dedicaram ao estudo da história
A primeira história da literatura histórica foi apresentada do que J. C. Adelung e J. G. Herder, os dois escrevendo em fins do
pelo senhor feudal de La Popelinière, em L’Histoire des histoires século XVIII, parecem ter sido os primeiros a chamar de “cultura
(1599), afirmando que a historiografia atravessou quatro estágios popular”.
- poesia, mito, anais e, por fim, uma “história perfeita” (histoire Em 1800, era tão grande o interesse por canções, lendas e
accomplie), que era filosófica, além de exata(p.25) contos folclóricos que parece razoável falar em “descoberta” da
No caso da medicina, alguns médicos do século XVI (em par- cultura popular pelos intelectuais europeus (p.31).
ticular Vesálio e Fernel) dedicaram suficiente atenção à história Dado o crescente número de histórias sobre artes e ciências no
para pôr sua própria obra no contexto do reflorescimento, ou Re- início do período moderno, não é nenhuma surpresa descobrir que
nascimento no qual viviam. A primeira obra substancial da história algumas pessoas tentaram colocá-las juntas.
médica, contudo, foi publicada muito mais tarde, em fins do século Contudo, o principal modelo de história cultural geral no iní-
XVII. cio do período moderno poderia ser descrito como o dos translatio
Na história da matemática, aos estudos das vidas de matemáti- studá, em outras palavras, o sucessivo domínio ou de diferentes
cos segundo o modelo de Diógenes Laércio se seguiram, no século regiões do mundo ou de diferentes disciplinas. Em seu admirável
XVIII, empreendimentos mais ambiciosos. Pierre Rémond de?- ensaio sobre história comparativa, Vicissitudes (1575), o humanis-

Didatismo e Conhecimento 29
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
ta francês Louis Le Roy afirmou que “todas as artes liberais e me- A defesa da atribuição de significados sociais ou culturais aos
cânicas floresceram juntas, e depois decaíram” (“tous arts liberaux sonhos foi feita pela primeira vez por antropólogos, em particular
et mécaniques ont fleuri ensemble, puis decbeu»), de modo que por antropólogos psicólogos, formados nas duas disciplinas, além
diferentes civilizações, grega, árabe, chinesa e assim por diante, de trabalhar em duas culturas. Em um estudo pioneiro, Jackson Lin-
têm seus diferentes picos e quedas(p.31). coln sugeriu que se podiam encontrar dois tipos de sonho em cultu-
Um humanista menor, Rainer Reineck, em seu Method for ras primitivas, ambos com significados sociais. O primeiro tipo era
Reading History (1583), inspirado no famoso estudo de mesmo o sonho espontâneo ou “individual”, cujo conteúdo manifesto refle-
nome de Jean Bodin, discutiu o que chamou de bistoria scholasti- tia a cultura, enquanto o conteúdo latente era universal. O segundo
ca, em outras palavras, a história da literatura, das artes e discipli- tipo, Lincoln chamou-o de sonho “padrão da cultura”, que em cada
nas intelectuais (p.32). tribo correspondia a um estereótipo estabelecido por aquela cultura.
Francis Bacon tinha conhecimento da obra de Le Roy, assim Nesses casos, mesmo o conteúdo latente do sonho era influenciado
como do tratado de Vives, mas foi além, pelo menos em inten- por sua cultura. Em suma, em uma determinada cultura, as pessoas
ção, em seu famoso apelo no segundo volume de Advancement tendem a ter determinados tipos de sonho (p.43).
of Learning (1605) a “uma história justa do saber, contendo as A hipótese de que os sonhos têm um significado cultural foi
antiguidades e origens do conhecimento e suas seitas, invenções, confirmada por dois estudos sobre os zulus, dos aldeões de Raias-
tradições, diversas administrações e gerenciamentos, florescimen- tan, de negros em São Paulo e de estudantes em Tóquio e Ken-
tucky. 8 Examinados juntos, esses estudos sugerem, como faz a
tos, oposições, decadências, quedas, esquecimentos e afastamen-
obra de J. S. Lincoln, que os sonhos são moldados de duas manei-
tos, com as causas e ocasiões de tudo isso”. A referência, incomum
ras pela cultura daquele que sonha (p.45).
para a época, às “administrações e gerenciamentos” do conheci-
Em primeiro lugar, os símbolos oníricos podem ter determi-
mento sem dúvida denuncia o homem de negócios. Esses negócios nados significados em determinada cultura, como no exemplo da
impediram Bacon de apresentar essa história proposta, mas seu cobra d’água entre os Hopi. Quando uma pessoa sonha com um
programa inspirou alguns escritores no século seguinte (p. 32). mito, não devemos tomar por certo, como parecem fazer Jung
O Ensaio sobre os costumes (1751) e A era de Luís XIV e seguidores, que isso é uma recriação espontânea do mito, um
(1756), de Voltaire, foram manifestos em favor de um novo tipo “arquétipo do inconsciente coletivo”. Devemos começar por per-
de história, que desse menos espaço à guerra e à política, e mais guntar se ela está ou não consciente do mito. Uma das objeções
ao “progresso da mente humana”. Na prática, Voltaire deu mais possíveis é que as variações no conteúdo manifesto dos sonhos não
espaço às guerras de Luís XIV que ao patrocínio do rei às artes e são importantes; a sociologia dos sonhos fica superficial se levar
ciências, mas suas histórias têm de fato muito a dizer sobre o re- apenas à conclusão de que os mesmos temas ou problemas básicos
nascimento das letras e o refinamento dos costumes. D’Alembert são simbolizados de diferentes modos em diferentes sociedades.
fez um relato semelhante do progresso intelectual, em seu discurso Essa questão da importância relativa do conteúdo manifesto dos
preliminar à Encyclopédie (1751), redigindo algumas das histórias sonhos é uma das questões polêmicas entre psicólogos, e na qual
das disciplinas (como fez Montucla na matemática), e afirmando os historiadores não devem se intrometer. Contudo, permite obser-
que a história deveria se interessar tanto pela cultura como pela var que, se pessoas de uma determinada cultura sonham os mitos
política, pelos “grandes gênios” como pelas “grandes nações”, pe- dessa cultura, seus sonhos por isso autenticam os mitos, sobretu-
los homens de letras como pelos reis, pelos filósofos como pelos do em culturas em que o sonhar é interpretado como “ver” outro
conquistadores (p.32). mundo. Os mitos modelam os sonhos, mas os sonhos, por sua vez,
autenticam os mitos, em um círculo que facilita a reprodução ou
2. A história cultural dos sonhos continuidade cultural (p.46).
Em segundo lugar, pode-se argumentar que o conteúdo laten-
Teorias dos sonhos te também é modelado em parte pela cultura do sonhador. Uma
breve justificação para essa hipótese, ao mesmo tempo mais fun-
Segundo Freud e Jung, os sonhos têm dois níveis de significa- damental e controvertida que a anterior, pode ser apresentada da
do, o individual e o universal. No nível individual, Freud conside- seguinte forma: os sonhos se relacionam com tensões, ansiedades
e conflitos do sonhador. As tensões típicas ou recorrentes, as ansie-
rava os sonhos como manifestações dos desejos inconscientes do
dades e os conflitos variam de uma cultura para outra. Um estudo
sonhador (uma visão que ele mais tarde modificou para explicar os
comparativo de “sonhos típicos” que atravessam culturas mostrou
sonhos traumáticos das vítimas de choques causados por bombar-
que a relativa frequência de diferentes sonhos de ansiedade va-
deios). jung, por sua vez, afirmava que os sonhos desempenhavam riava consideravelmente. Os americanos, por exemplo, sonhavam
várias funções, como a de avisar ao que sonha dos perigos de sua mais vezes que chegavam atrasados a encontros, compromissos
maneira de viver ou compensá-lo por suas atitudes conscientes. e eram surpreendidos nus, enquanto os japoneses sonhavam que
Os dois teóricos chamaram a atenção para a analogia entre estavam sendo atacados. O contraste sugere o que outro indício
sonho e mito, mas Freud tendia a interpretar os mitos em termos de confirma: os americanos são mais preocupados com pontualidade
sonho, e jung em geral interpretava os sonhos em termos de mito. e com “vergonha do corpo”, e os japoneses mais ansiosos com a
Nem Freud nem jung trataram os símbolos oníricos como fixos, agressão (p.46).
embora tenham muitas vezes sido criticados por não o fazer. Esta-
vam preocupados demais com o nível individual para imobilizar os Os sonhos na história
significados dessa maneira.
É na negligência da teoria clássica com um terceiro nível de O fato de pessoas terem sonhado no passado e às vezes regis-
significado dos sonhos, intermediário entre o individual e o univer- trado seus sonhos é uma condição necessária, mas não suficiente
sal - o nível cultural ou social-, que ela é mais criticada. para que os historiadores se interessem por eles. Se os sonhos não

Didatismo e Conhecimento 30
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
têm significado, os historiadores não teriam por que se interessar Os historiadores se interessam, ou de qualquer modo preci-
por eles. Se o significado universal dos sonhos fosse o único, eles sam se interessar, pela memória a partir de dois pontos de vista.
se limitariam a anotar a recorrência em sua época de sonhos com Em primeiro lugar, tem de estudar a memória como uma fonte
voos, perseguições ou perdas de dentes, e passar logo para outros histórica, elaborar uma crítica da confiabilidade da reminiscência
tópicos. no teor da crítica tradicional de documentos históricos. Esse em-
Se, contudo, os sonhos nos dizem alguma coisa sobre o sonha- preendimento já se acha de fato em movimento desde a década de
dor individual, os historiadores têm de dedicar-lhes mais atenção. 1960, quando historiadores do século XX passaram a compreender
Tornam-se uma fonte potencial a ser tratada, como outras, com a importância da “história oral”.
cautela, como observou o próprio Freud. Os historiadores devem Em segundo lugar, os historiadores se interessam pela memó-
ria como um fenômeno histórico, pelo que se poderia chamar de
procurar ter em mente o tempo todo o fato de que não têm acesso
história social do lembrar. Considerando-se o fato de que a memó-
ao sonho em si, mas na melhor das hipóteses a um registro escrito ria social, como a individual, é seletiva, precisamos identificar os
modificado pela mente pré-consciente ou consciente no decorrer princípios de seleção e observar como eles variam de lugar para
da recordação e escrita (sobre o problema da “memória”). É pro- lugar, ou de um grupo para outro, e como mudam com o passar do
vável, contudo, que essa «elaboração secundária» revele a perso- tempo. As memórias são maleáveis, e é necessário compreender
nalidade e os problemas do sonhador com tanta clareza quanto o como são concretizadas, e por quem, assim como os limites dessa
próprio sonho (p.47) maleabilidade (p.73).
Os historiadores também precisam lembrar que, ao contrário Trata-se de tópicos que por algum motivo só atraíram a aten-
dos psicanalistas, eles não têm acesso às associações que o so- ção de historiadores em fins da década de 1970. Desde então, mul-
nhador faz com os incidentes do sonho, associações que permitem tiplicaram-se os livros, artigos e conferências sobre eles, incluindo
aos analistas evitar uma decodificação mecânica e os ajudam a o levantamento, em múltiplos volumes, dos “domínios da memó-
descobrir o que significam os símbolos do sonho para os próprios ria” editados por Pierre Nora, desenvolvendo as percepções de
sonhadores. Para o historiador, o melhor a fazer é trabalhar com Halbwachs na relação entre a memória e sua estrutura espacial, e
oferecendo uma pesquisa da história francesa desse ponto de vista
uma serie de sonhos do mesmo indivíduo e interpretar cada um em
(p.73).
termos dos outros.
Para que sirva para os historiadores é preciso analisar os so- Transmissão da memória social
nhos individuais e em determinadas culturas e tentar categorizá
-los para conseguir obter uma linearidade na pesquisa. As memórias são influenciadas pela organização social de
transmissão e os diferentes meios de comunicação empregados.
3. História como memória social 1) As tradições orais, discutidas do ponto de vista do historia-
dor, em um famoso estudo de Jan Vansina.
A visão tradicional da relação entre a história e a memória é 2) A tradicional esfera de ação do historiador, as memórias e
relativamente simples. A função do historiador é ser o guardião da outros “relatos” escritos (outro termo relacionado a lembrar, ricor-
memória dos acontecimentos públicos quando escritos para pro- dare em italiano).
veito dos atores, para proporcionar-lhes fama, e também em pro- 3)As imagens, sejam pictóricas ou fotográficas, paradas ou
veito da posteridade, para aprender com o exemplo deles. A histó- em movimento. Os praticantes da chamada “arte da memória”, da
Antiguidade clássica ao Renascimento, enfatizavam o valor de as-
ria, como escreveu Cícero em um trecho que se tem citado desde
sociar o que se quisesse a imagens imponentes.
então (De oratore, ii. 36), é a “vida da memória” (vita memóriae).
4) As ações transmitem memórias ao transmitir aptidões, do
Historiadores tão diversos quanto Heródoto, Froissart e Lorde Cla- mestre ao aprendiz, por exemplo.
rendon afirmaram que escreviam para manter viva a memória de 5) Uma das mais interessantes observações no estudo de Hal-
grandes feitos e grandes fatos (p.69). bwachs sobre a estrutura social da memória se referia à importân-
O primeiro pesquisador sério da “estrutura social da memó- cia de um quinto meio de comunicação na transmissão de memó-
ria”, como a chamou, foi, é claro, o sociólogo ou antropólogo fran- rias: o espaço. Ele tornou explícito um ponto implícito na arte da
cês Maurice Halbwachs, na década de 1920.1 Halbwachs afirmou memória clássica e renascentista, o valor de “pôr” imagens que
que as memórias são construídas por grupos sociais. São os indiví- desejamos lembrar em locais imaginários impressionantes, como
duos que lembram, no sentido literal, físico, mas são os grupos so- palácios ou teatros memoráveis, explorando assim a associação de
ciais que determinam o que é “memorável”, e também como será ideias.
lembrado. Os indivíduos se identificam com os acontecimentos
públicos de importância para seu grupo. “Lembram” muito o que Usos da memória social
não viveram diretamente. Um artigo de noticiário, por exemplo, às
Quais as funções da memória social? É difícil chegar a ar-
vezes se torna parte da vida de uma pessoa. Daí pode-se descrever
rematar uma questão tão ampla como essa. Um advogado bem
a memória como uma reconstrução do passado (p.70). poderia discutir a importância do costume e precedente, a justifi-
Como fiel discípulo de Émile Durkheim, Halbwachs assentou cação sobre a legitimação de ações no presente com referência ao
seus argumentos sobre a sociologia da memória de uma forma só- passado, o lugar das memórias de testemunhos em julgamentos,
lida, embora não extrema. o conceito de “tempo imemórial”, em outras palavras, tempo “de
Halbwachs fez uma incisiva distinção entre a memória cole- que a memória do homem (...) não corra para o sentido inverso”,
tiva, que era uma construção social, e a história escrita, por ele e a mudança de atitude para o indício da memória resultante na
considerada - à maneira tradicional - objetiva. disseminação dos registros literários e escritos.

Didatismo e Conhecimento 31
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Os exemplos de governantes como heróis populares ilustram Um novo interesse pelos gestos
os usos das memórias coletivas. Nas histórias, os desastres acom-
panham a morte ou desaparecimento do herói. Contudo, há uma O historiador francês Jean-Claude Schmitt observou um inte-
circunstância para inverter isso e afirmar que um governante cujo resse cada vez maior pelos gestos no século XX. Um comentário
reino é seguido de desastres - da invasão estrangeira ao exorbi- semelhante poderia ser feito sobre a Europa Ocidental no início
tante aumento de impostos - é um candidato com boas chances de do período moderno, em particular no século XVII, como admite
transformar-se em herói, pois as pessoas lembrarão o passado com o próprio Schmitt. No caso da Inglaterra, por exemplo, também se
nostalgia dos bons tempos sob seu governo (p.81). pode ver esse interesse nos textos de Francis Bacon; no guia dos
Os irlandeses e os poloneses oferecem, em particular, exem- gestos de mão de John Bulwer, a Chirologia (1644), que afirma
plos claros do uso do passado, da memória social e dos mitos
que tais gestos “revelam o atual humor, estado de espírito e dispo-
para definir a identidade. A finalidade e de lembrar 1690 (de uma
sição”; e nas observações de viajantes ao exterior, entre eles John
maneira especial), reencenar o 12 de julho, explodir a Coluna de
Nelson em Dublin como fez o IRA em 1966 - ou reconstruir o an- Evelyn, Thomas Coryate e Philip Skippon. No caso da França, en-
tigo centro de Varsóvia, depois de destruída por bombardeios dos contram-se análises perspicazes do gesto nos textos de Montaigne,
alemães - como fizeram os poloneses após 1945 -, a finalidade de Pascal, La Bruyère, La Rochefoucauld e Saint-Simon, assim como
tudo isso é, sem dúvida, dizer quem somos “nós”, e diferenciar o na teoria da arte de Charies Lebrun. A história do gesto e postura
“nós” do eles. Poderíamos multiplicar esses exemplos. No caso da atraiu a atenção de estudiosos e pintores como Nicolas Poussin,
Europa, é particularmente fácil encontrá-los no século XIX (p.83). cuja última ceia revela sua consciência do costume da Roma antiga
de recostar-se para comer. Antoine Courtin, em Nouveau traité de
Os usos da amnésia social la civilité (1671), ofereceu um conselho mais prático, dizendo aos
leitores que não cruzassem as pernas nem fizessem “grandes ges-
É sempre esclarecedor abordar problemas por trás, virá-los tos com as mãos” ao falar. A postura de pernas cruzadas, a propó-
pelo avesso. Para entender os mecanismos da memória social, tal- sito, tinha vários sentidos. Em alguns contextos, significava poder,
vez valha a pena examinar a organização social do esquecer, as re- mas em outros falta de dignidade. Proibia-se a postura as mulhe-
gras de exclusão, supressão ou repressão e a questão de quem quer res, mas também nem sempre era permitida aos homens (p.98).
que quem esqueça o quê e por quê. Em suma, a amnésia social. A multiplicação de textos italianos que discutem o gesto do
Amnésia se relaciona a «anistia», com o que se chamava de «atos Renascimento em diante (mais ou menos um século antes que em
de esquecimento» a obliteração oficial de memórias em conflito no outros países) confirma a impressão de crescente interesse pelo
interesse da coesão social (p.86).
assunto. A literatura da moral e costumes contém muitas observa-
ções pertinentes sobre os gestos adequados para mulheres e para
4 - a linguagem do gesto no início da italia moderna
homens. Por exemplo, o anônimo Decor puellarum (1471), um
Este capítulo discutirá, com referência especial à Itália, os texto vernáculo apesar do título em latim, ensina meninas a man-
problemas em se escrever a história do gesto, ou melhor, integrar ter os olhos baixos, comer e falar com circunspeção, andar e ficar
o gesto à história. Tratará do problema da conceituação, distin- com a mão direita sobre a esquerda e manter os pés juntos, para
guindo os gestos conscientes e inconscientes, ritualizados e espon- não se parecerem com as prostitutas de Veneza. O gesto de uma
tâneos, das origens (tanto visuais como literárias), das variações mão apertando a outra era uma “fórmula de submissão” que se
regionais e sociais, e acima de tudo das mudanças com o passar encontra, por exemplo, em algumas figuras femininas de Giotto. O
do tempo, em particular a ênfase cada vez maior na disciplina e Courtier (1528) de Castiglione também comenta a postura (lo sta-
autocontrole do corpo, recomendados em tratados de autores tão re) e os gestos (i movimenti) mais adequados para mulheres e ho-
diferentes quanto Baldassare Castiglione e Carlo Borromeo. mens, enfatizando a necessidade de “suprema graça” nas mulheres
A tarefa de reconstruir o repertório completo dos gestos ita- e também uma espécie de timidez que revele sua modéstia (p.100).
lianos é evidentemente ambiciosa demais para um capítulo curto. Às suas diferentes maneiras, os textos acima citados reve-
Tudo o que posso fazer de maneira razoável é discutir o que pa- lam considerável interesse não apenas pela psicologia dos gestos,
recem ser as principais mudanças no sistema entre 1500 e 1800. como os sinais externos de emoções ocultas, mas também - e nisso
Ao contrário de obras anteriores sobre o assunto, este capítulo se reside à inovação - pelo que poderíamos chamar de «sociologia».
concentrará mais na vida cotidiana que nos gestos ritualizados de
Já se afirmou com frequência que os gestos formavam uma lin-
beijar os pés do papa, caminhar em procissão e assim por diante.
guagem universal, mas a essa posição «universalista» se opunha
Seguindo a parcialidade das fontes, será difícil deixar de dedicar
uma atenção desproporcional as classes mais altas e também aos uma «culturalista». Muitos autores se preocupavam com a maneira
homens, pois uma das regras da cultura era que as mulheres respei- como variavam, ou deviam variar os gestos segundo o que se po-
táveis não gesticulavam, ou pelo menos não muito (p.97). deriam chamar os vários «domínios» dos gestos (a família, a corte,
Podemos resumir as mudanças a serem aqui enfatizadas em a igreja e assim por diante) e também dos atores - jovens ou velhos
três hipóteses. A primeira é a de um crescente interesse pelos masculinos ou femininos, respeitáveis ou despudorados, nobres ou
gestos neste período, não apenas na Itália, mas de maneira mais comuns, leigos ou clericais. Portanto, poder-se-ia dizer que os tex-
generalizada na Europa. A segunda hipótese é de que essa auto- tos modernos oferecem testemunho de um interesse crescente não
consciência foi estimulada por um movimento pela “reforma” dos apenas pelo vocabulário dos gestos, exemplificado no dicionário
gestos que ocorreu tanto na Europa católica quanto na protestante de Bonifácio, mas também por sua «gramática», no sentido das
no período das Reformas. A terceira e última hipótese tenta vincu- regras de expressão correta, e por fim por seus vários «dialetos»
lar essa reforma ao surgimento do estereótipo nortista do italiano (para usar o termo de Jorio) ou «socioletos», como diriam os lin-
gesticulador (p.97). guistas modernos (p.101, 102).

Didatismo e Conhecimento 32
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A reforma dos gestos como a Grã-Bretanha, a Holanda e as áreas de língua alemã - do
que nas católicas do sul. O resultado foi a dilatação da lacuna entre
Vinculou-se a consciência cada vez maior dos gestos às tenta- os comportamentos do norte e do sul, e, em particular, os nortistas
tivas de algumas pessoas para mudar os gestos de outras. Os pro- se tornaram mais críticos em relação aos italianos. O estereótipo
testantes se preocupavam com o comportamento, do mesmo modo do italiano gesticulador parece ter nascido no início do período
que com a crença, enquanto nos países católicos uma reforma moderno, refletindo o contraste entre duas culturas gestuais, asso-
dos gestos fazia parte da disciplina moral da Contrarreforma. Por ciadas a dois estilos de retórica (laconic versus copious), além de
exemplo, nas Constituições que emitiu para sua diocese de Verona, outras diferenças (p.109).
por volta de 1527, Gianmatteo Giberti, que veio a ser considerado
um bispo modelo, ordenou a seu clero que mostrasse circunspeção 5 fronteiras do cômico no início da itália moderna
“nos gestos, no andar e no estilo do corpo” (“in gestu, incessu et
habitu corporis”). O termo “babitus” era, é claro, famoso nesse O chiste (ou o riso) tem seu lugar entre os objetos da história
período graças às traduções latinas de Aristóteles, muito antes de sociocultural. Na década de 1960, Mikhail Bakthin fez do assunto
Marcel Mauss e Pierre Bourdieu fazerem as suas. tema central de seu estudo sobre Rabelais, enfatizando o que des-
Não se deve vincular de forma tão estreita a reforma dos ges- creveu como função liberadora do riso.
tos italianos à Contra-Reforma. Cícero já desestimulava o que Os chistes são difíceis de traduzir de um período para o outro,
chamou de movimentos “teatrais”, ou andar depressa demais (ou assim como de uma cultura para outra. Daí a existência de um
devagar demais), e do Renascimento em diante sua autoridade era lugar para a história do riso.
levada muito a sério tanto no domínio dos gestos quanto no da fala. Na língua italiana haviam muitas palavras para o próprio chis-
Se os reformadores de gestos tinham um ideal em mente, te: baia, beffa, burla, facezia e outras.
qual era? Podia ser (e às vezes era, como vimos) descrito como
um modelo espanhol, influente na Europa Central, assim como na A beffa
Itália, e incluía língua, roupas e também gestos. Se se tivesse de
resumir esse ideal em uma única palavra, talvez fosse “gravidade”. Beffa era uma brincadeira de mau gosto ou truque e muitas
O humanista alemão Heinrich Agrippa afirmou em 1530 que os vezes descritas em livros de anedotas, historias e outras fontes.
italianos “andam um tanto devagar, são dignos nos gestos”. Outro Esse tipo de humor era prevalente na Itália, sobretudo em Flo-
alemão, Hieronymus Turler, insistiu na mesma afirmação (seja a rença, “la capitale de la beffa”.
partir de observação ou copiando Agrippa), na década de 1570; Decameron, de Boccaccio é um ponto de partida para o estudo
“o italiano tem um modo de andar meio lento, gestos graves” do gênero. Os truques ocorrem em 27 histórias e usam-se os ter-
(“incessum tardiusculum, gestum gravem”).43 Joseph Addison, mos beffa, beffare e beffatore oitenta vezes.
chegando a Milão (ainda parte do Império Espanhol) oriundo da Na novela do século XVI, encontramo-las em toda parte.
França, achou os italianos “hirtos, cerimoniosos e reservados”, em
contraste com os franceses(p.107). 6. O discreto charme de milão: viajantes ingleses no século
A atração do modelo espanhol nos séculos XVI e XVII sem xvii
dúvida se deu porque encontrou uma demanda já existente de con-
trole mais rigoroso do corpo, a reforma dos gestos discutida nesta Desde que se aprenda a usá-los, os diários ou correspondên-
seção. cias de viagens, travelogues, estão entre as mais eloquentes fontes
A história dessa demanda foi escrita pelo sociólogo Norbert para a história cultural.
Elias em seu famoso estudo do “processo civilizador” (com o que, A tentação, tanto para os historiadores quanto para outros
em geral, quer dizer autocontrole, particularmente os modos à leitores, é imaginar-se olhando através dos olhos dos escritores,
mesa), concentrando-se no norte da Europa, mas incluindo algu- ouvindo através de seus ouvidos e percebendo uma hoje remota
mas observações sobre os italianos, que foram, afinal, pioneiros no cultura como realmente era.
uso do garfo. Mais recentemente, Michel Foucault ofereceu uma
história alternativa do corpo, examinando os aspectos negativos Como viajar
em Vigiar e punir, os mais positivos em História da sexualidade e
enfatizando o controle sobre o corpo dos outros assim como sobre Também se revela que muitos desses diários e cartas de via-
o eu. Elias e Foucault se dedicaram ao estudo da prática, assim gem seguem as receitas dadas em livros sobre a “arte de viajar”.
como da teoria, dos gestos e do controle do corpo. É hora de per- Instruções sobre “como viajar” eram um gênero literário estabele-
guntar se os reformadores italianos dos gestos tiveram êxito em cido por volta do século XVII. Contribuições ao que às vezes se
suas metas (p.109). chamou de “arte apodêmica”, em outras palavras, viagem metódi-
ca, incluem De peregrinatione (1574), de Hieronymus Turler, De
O italiano gesticulador arte apodêmica (1577), de Hilarius Pyrckmair, Methodus apodê-
mica (1577), de Theodor Zwinger, De ratione peregrinandi (1578),
A reforma discutida na seção anterior não foi peculiarmente de Justus Lipsius, Methodus (1587), de Albert Meier, De peregri-
italiana, mas parte de um “processo civilizador” ocidental (há pa- natione (1605), de Saiomon Neugebauer e Metbodus peregrinandi
ralelos em outras partes do mundo, como a China e o Japão, mas (1608), de Henrik Rantzau. o ingresso em uma cultura estranha
sua história carece de ser escrita). A hipótese a ser aqui apresentada ou semiestranha transforma o viajante em espectador, observador
é que a reforma dos gestos, se não mais rigorosa, foi pelo menos se não em voyeur. Como diz Henry James em suas Italian Hours
mais bem-sucedida nas regiões protestantes do norte da Europa - (1877): “Viajar é, por assim dizer, ir ao teatro assistir a uma peça.”.

Didatismo e Conhecimento 33
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Visões da Itália Historiadores, sobretudo Roberto Lopez, ele próprio genovês
de nascença, ofereceram várias explicações para a falta de parti-
Dois importantes reformadores, Erasmo e Lutero, visitaram cipação genovesa no Renascimento. Para tratar de uma das mais
a Itália e relataram seu desagrado por alguns costumes italianos, convincentes, a falta de patrocínio cívico. Segundo Baron, o surgi-
como o Carnaval em Siena, testemunhado por Erasmo em 1509. mento do patriotismo cívico parece ter sido uma reação não apenas
Contudo, a rejeição pela Reforma de imagens, rituais, santos e as- à ameaça política, mas também a uma econômica: a ascensão do
sim por diante só pode ter aumentado a distância da cultura italiana luxo.
sentida por viajantes protestantes do norte da Europa. Os anos após 1528 (“28”, como chamavam os genoveses)
Apesar de seu desprezo, ou medo, do catolicismo (ou “pa- foram assinalados por mudanças culturais além de econômicas e
pismo”, como dizem), um considerável número de britânicos das políticas. Descreve-se às vezes o Renascimento veneziano como
classes mais altas sentia um vívido interesse pela cultura italiana. “tardio”, porém os genoveses entraram no campo ainda mais tarde.
O italiano era provavelmente a língua estrangeira mais conhe- O gasto impressionante em arte e arquitetura começou na era da
cida dos ingleses nessa época, ultrapassada pelo francês apenas no conexão espanhola.
decorrer do século XVIII. Admirava-se muito a literatura italiana, Contudo, o verdadeiro ponto crucial chegou na década de
sobretudo a poesia de Petrarca, Ariosto e Tasso. 1550, com a construção da Strada Nuova, uma rua de palácios que
Portanto, não surpreende a existência de um substancial nú- pertenciam às grandes dinastias financeiras.
mero de viajantes ingleses à Itália no início do período moderno. Houve o surgimento da literatura política (impressa e manus-
As diferenças de religião, língua, clima e costumes proporcio- crita), de 1559 quando o advogado humanista Oberto Foglietta
navam aos viajantes um agudo senso de distância cultural. publicou seu Republica di Gênova - ao início da década de 1620.
A princípio, vira-se a Itália como o centro da civilização, mas O que se publica é o mais importante, mas pode-se dizer que
no século XVIII ela já se transformava em uma Arcádia. Nos dois na Gênova de fins do Renascimento as coisas funcionavam de ou-
casos, encontramos um mito de lugar não muito diferente dos mi- tro modo. O que se publicava era geralmente (embora nem sem-
tos de tempo. pre) anódino. Por outro lado, as críticas ao governo circulavam em
O mito da Itália não impediu que alguns visitantes observas- manuscrito, às vezes em múltiplas cópias, uma espécie de samiz-
sem cuidadosamente os costumes locais, como os guias de viagem dat. A maioria das obras era anônima. Algumas adotavam a forma
recomendavam.
de diálogos humanistas à maneira de Luciano, com títulos como
“O sonho” ou os “Diálogos de Caronte”.
Visões de Milão
A linguagem de mais de um texto é uma reminiscência de
Maquiavel, aplicando suas ideias à análise de Gênova e suas fac-
Para uma análise intensiva mais precisa da interação entre
ções, e um diálogo o menciona pelo nome. Um dos poucos textos
estereótipo cultural e observação pessoal, podemos recorrer às vi-
impressos é em verso, uma série de sonetos em dialeto, descre-
sões de Milão registradas por viajantes britânicos no decorrer de
um longo século XVII, da década de 1950 ao inicio da década de vendo a República Romana, “Quell antiga República Romanna”,
1700. Nessa época, os britânicos tinham uma impressão razoavel- mas obviamente pensando no presente. Alguns desses textos fo-
mente clara de pelo menos quatro cidades italianas. Associava-se ram impressos nos séculos XIX e XX, mas outros permanecem
Roma, é claro, às ruínas da Antiguidade e ao papado. Veneza era em manuscrito nos arquivos e bibliotecas genoveses, merecendo
famosa pelo Carnaval além de sua “constituição mista”. Floren- uma análise mais detalhada do ponto de vista dos historiadores do
ça era célebre pelas obras de arte, e Nápoles pela beleza natural pensamento político formam a base deste capítulo.
(p.148). Os genoveses, ou alguns deles, temiam o domínio político dos
espanhóis.
7. Esferas pública e privada na Gênova de fins do renasci-
mento 8. Cultura erudita e cultura popular na Itália renascen-
tista
Historiadores e sociólogos urbanos concentravam a atenção
na economia das cidades, sua estrutura social e política, mas na O estudo da Itália renascentista continua a prosperar. A histó-
última geração passaram cada vez mais a preocupar-se com o que ria da cultura popular continua a se expandir. Estudos recentes da
se denominou de “a cidade como artefato”, incluindo a história do cultura popular afirmaram, de maneira muito razoável, que é mais
espaço urbano. O que chama de “queda do homem público” e seu proveitoso estudar as interações entre a cultura erudita e a cultura
oposto complementar, o valor cada vez maior atribuído à vida pri- popular do que tentar definir o que as separa. Apesar disso, os estu-
vada, foram estudados pelo sociólogo americano Richard Sennett dos do Renascimento italiano pouco têm a dizer sobre a cultura po-
em termos espaciais. Sennett descreve o “teatro” social e político pular, e os estudos da cultura popular italiana ainda menos a dizer
de Paris e Londres e seu cenário, as praças públicas, das quais se sobre o Renascimento. Examinar se a lacuna deve ser preenchida é
baniram o comércio e a diversão popular do final do século XVII o propósito deste capítulo (p.179)
ao início do XVIII, e outros lugares, de teatros a parques, onde Os historiadores da cultura italiana desse período têm de lidar
estranhos podiam se encontrar (p.161). com um processo de mão dupla. De um lado, a propagação das
Gênova é a Cinderela dos estudos do Renascimento Italiano, formas e ideias do Renascimento das elites para o povo, sua difu-
em geral negligenciada. Até certo ponto, essa negligência é quase são social, assim como geográfica. Por conveniência - usando uma
justificada, no sentido de que no início do Renascimento, e mesmo simples metáfora espacial - podemos chamar isto de movimento
no Alto Renascimento, os genoveses não deram a contribuição que “de cima para baixo”. Do outro, há um movimento “de baixo para
se poderia esperar de uma cidade do norte da Itália de suas dimen- cima”, em que os pintores e escritores italianos recorreram à he-
sões (cerca de 90 mil habitantes). rança cultural popular (p.180).

Didatismo e Conhecimento 34
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Um exemplo relativamente bem delineado de baixo para cima A Comedia delatar-te também merece estudo do ponto de vis-
é o da popularização de Orlando, furioso, de Ariosto. O poema foi, ta deste ensaio, com especial referência ao fascinante e confuso
é claro, escrito por um nobre para nobres, e em sua forma publica- problema da relação entre as personagens e as máscaras dessa for-
da era muito expressivo. Contudo, os anientos” de personagens do ma de arte de aparência popular- o soldado fanfarrão, o velho tolo,
poema, como Bradamante, Isabella, Rodomonte, Ruggiero e ou- o criado astuto - e as do antigo drama grego e romano.
tros, além de outras paráfrases em verso, suplementos e resumos, O aumento da complexidade ao longo do tempo talvez não
circulavam em livrinhos de contos e baladas populares no século seja acidental, mas resultado de um processo que se pode descre-
XVI. Alguns desses textos eram anônimos, mas um - uma tentativa ver como a “retirada” das elites da participação na cultura popular.
de comprimir as -belezas” do poema em dezesseis páginas - foi O lugar óbvio para começar é o Decameron, de Boccaccio.
obra do poeta bolonhês Giulio Cesare Croce, um famoso mediador Como no caso de Rabelais, Boccaccio é hoje lembrado pela sua
entre cultura erudita e popular(p.181). “vulgaridade”, portanto é necessário enfatizar que também ele
No caso das artes visuais, a relação entre erudito e popular é era um homem erudito, um professor universitário que escreveu
consideravelmente mais complicada, porque a arte “superior” do tratados em latim e fazia palestras sobre Dante. Seu toscano foi
Renascimento italiano era em geral produzida por homens com “canonizado” no século XVI (junto com o de Dante e Petrarca)
formação e status de artífices. Eles produziam pinturas religiosas como modelo de italiano puro. Apesar disso, fica claro que muitas
sem a oportunidade de estudar teologia e cenas da mitologia clás- das histórias no Decameron foram extraídas da tradição oral popu-
sica sem ter condições de ter em latim, para não falar de grego. lar, do que os estudiosos do século XIX chamavam de “Contos e
A obra de arte já ingressara na era da reprodução mecânica. lendas populares” e também exemplificam alguns dos temas pre-
Como a pintura, a gravura era um grande popularizador, pelo me- feridos de Bakhtin (p.188).
nos no sentido de que permitia que muito mais pessoas vissem as O lugar do carnavalesco na obra de Boccaccio é bastante cla-
imagens, e talvez também mais tipos de pessoas. ro, Várias histórias incluem episódios do que Bakhtin chama de
A cerâmica oferecia outro meio de difundir imagens de ma- “realismo grotesco” ou “degradação”. Logros e intrigas se repetem
neira mais generalizada, pois a matéria-prima era barata. várias vezes nas novelle de Boccaccio, como também nas outras
Evidentemente, a questão é descobrir como as pessoas que histórias do Renascimento (como as de Sacchetti, Masuccio Saler-
não eram membros de uma elite cultural percebiam esses objetos, nitario, Bandello e Grazzini), O monge beneditíno Teofilo Folengo
e em especial se se interessavam ou não por estilos, assim como que descreve uma viagem no mar com o dono de um rebanho de
ovelhas, O tema do poema de Folengo é híbrido, ao mesmo tempo
pelas histórias.
bucólico e cavalheiresco, e o estilo, de maneira bastante adequada,
também é híbrido. A linguagem é uma forma de latim que muitas
Inspiração popular no renascimento
vezes se comporta como se fosse italiano ou dialeto - uma mistura
de dois ou três códigos, ou melhor, um produto de sua interação.
É hora de deixarmos a popularização do Renascimento e pas-
O primeiro exemplo, o de Boccaccio, mostra um homem eru-
sar para a importância dos elementos «baixos» na cultura «alta». O
dito que recorre a uma tradição popular da qual participava. O se-
gênio que preside esta seção do capítulo é, evidentemente, Mikhail
gundo, o de Folengo, é mais complexo, pois mostra um homem
Bakhtin, cujo Mundo de Rabelais (escrito na década de 1930, mas erudito que faz uma síntese autoconsciente das tradições eruditas e
só publicado em 1965) afirmou que o autor de Gargântua e Panta- populares, ou pelo menos joga com as tensões entre elas.
gruel se inspirou maciçamente na «cultura de humor popular», em Ariosto é ainda mais complexo. Orlando furioso é um roman-
particular o grotesco e o carnavalesco. 15 Tomaram-se essas obras, ce de cavalaria ou um romance de cavalaria zombeteiro - Um ro-
que são tours de force da imaginação histórica, como modelo para mance do escritor brasileiro Jorge Amado, Tereza Batista cansada
estudos recentes de Breughel, Shakespeare e outros artistas e escri- de guerra (1972), por exemplo, recorre a um livrinho de cordel de
tores do Renascimento (p.185). Rodolfo Coelho Cavalcanti (esses livrinhos populares circulavam
O mundo de Rabelais também foi criticado por especialis- e talvez ainda circulem no Nordeste do Brasil, pelo menos nas
tas do Renascimento. Na suposição de que Bakhtin afirma que áreas mais remotas das cidades e da televisão).
Gargântua e Pantagruel pertence por completo à cultura popular, Pietro Aretino, que fez reputação em. A pasuinata era um gê-
os críticos salientaram que Rabelais era um homem erudito e sua nero fronteiriço entre cultura erudita e popular.
obra não teria sido completamente compreensível para as pessoas Contudo, o melhor exemplo da mistura ou interação de ele-
comuns. mentos eruditos e populares na obra de Aretino é, sem dúvida, seus
Outra distinção importante que permanece obscura na obra Ragionamenti, diálogos em que uma velha prostituta instrui uma
de Bakhtin é a entre a apropriação (e transformação) de elementos nova sobre as aptidões da profissão.
da cultura popular (que Rabelais sem dúvida faz) e a participação Aretino explora as semelhanças entre os termos cortegiano,
total daquela cultura. As elites europeias do século XVI eram “bi “cortesão”, e cortegiana, “cortesã”. Aretino era filho de um arte-
culturais”. Tinham uma cultura erudita da qual as pessoas comuns são, foi criado no mundo da cultura popular e até o fim da vida
eram excluídas, mas também participavam do que hoje chamamos apreciou os cantadores de rua.
de cultura “popular”. Os exemplos citados neste capítulo não esgotam o âmbito de
No caso da arte, pode-se começar pelo estudo da interação possibilidades, mas talvez sejam pelo menos suficientes para su-
entre alta e baixa com algumas esculturas grotescas ou cômicas. gerir a notável variedade das relações possíveis entre alta e baixa
Talvez seja insensato supor que tudo que é cômico é neces- culturas, os usos da cultura popular por escritores renascentistas,
sariamente popular, mas vale lembrar que Aristóteles - como era os usos do Renascimento pelas pessoas comuns e, por fim, a im-
interpretado pelos humanistas italianos afirmou que a comédia es- portância da “viagem circular” de imagens e temas, uma viagem
tava ligada a pessoas “inferiores”. circular em que o que retorna jamais é o mesmo que partiu.

Didatismo e Conhecimento 35
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A cavalaria no Novo Mundo Os mitos ou estereótipos tradicionais das chamadas “raças
monstruosas” eram assim revitalizados e projetados no Novo
Pode-se resumir a mensagem deste capítulo em uma frase, Mundo.
quase um título. Carlos Magno não morreu; vive na América Lati- Os emigrantes da Espanha para o México e o Peru levaram
na, ou vivia até relativamente pouco tempo atrás. O Novo Mundo consigo esses romances de cavalaria, ou conseguiam que vende-
chegou atrasado à cavalaria, pois era obviamente impossível para dores de livros os fornecessem.
seus habitantes conhecerem esse sistema de valores europeus e os No caso do Brasil, parece não haver quaisquer referências aos
romances que o expressaram até 1492. E talvez se possa julgar que romances de cavalaria. Na verdade, uma história da imprensa no
o comportamento de Cortês e Pízarro no México e no Peru nada país comenta a ausência de livros de qualquer tipo, segundo os
fez para tornar o sistema de valores mais inteligível para os astecas inventários, já no século XVII, em impressionante contraste com
e os incas. Por outro lado, assim que se transplantou a tradição, foi os vice-reinados do México e do Peru. Podiam-se importar livros,
no Novo Mundo, ou em partes dele, que os romances de cavalaria mas não se tinha permissão para imprimi-los no Brasil até o início
conservaram seu apelo por mais tempo, sobretudo no Nordeste do do século XIX. Apesar disso, é no Brasil que encontramos a mais
Brasil (p.197). rica documentação sobre cavalaria no Novo Mundo em fins do
Na Espanha da Idade Média, os romances de cavalaria eram século XIX e início do XX. Carlos Magno e seus paladinos ocupa-
um gênero popular oral e literário. Os muçulmanos, assim como vam um importante lugar na imaginação popular brasileira.
os cristãos, os compunham, recitavam e liam, e um número con- No próprio Brasil, os livrinhos, que eram chamados de fo-
siderável dessas histórias, incluindo os gigantes habituais, os cas- lhetos e agora são mais conhecidos por “literatura de cordel”, só
telos encantados, as espadas com nomes e as mulheres guerreiras, começaram a ser impressos em fins do século XIX. Esses textos
sobrevivem no espanhol escrito em caracteres árabes. 1 Como em continuam hoje sendo produzidos em números consideráveis.
outras partes da Europa renascentista, muitos espanhóis humanis- Como no caso dos livrinhos vendidos por mascates do início da
tas rejeitaram os romances de cavalaria como livros “tolos” ou Europa moderna, os de cordel eram e são bem adaptados a uma
“idiotas”. situação de alfabetização limitada. Em geral são em verso, quase
Dom Quixote era considerado o melhor livro do seu tipo no sempre no que se conhece por sextilhas (estrofes de seis versos
mundo. Ainda mais bem-sucedidos no século XVI foram dois de sete sílabas). Eram (e são) na maioria das vezes impressos em
ciclos de romances em castelhano: Palmerín de Oliva, cuja pu- gráficas pequenas e distribuídos em primeira instância pelos pró-
blicação começou em 1511, e Amadís de Gaula, publicado pela prios compositores ou cantadores, que fazem apresentações orais,
acompanhados de música nos mercados em dias de feira, e de-
primeira vez por volta de 1508. Amadis foi não apenas reeditado
pois os vendem aos ouvintes. Pode-se considerar o texto como a
muitas vezes, mas também seguido por uma série de continuações
espécie de lembrança da apresentação, ou a apresentação como
de cerca de meia dúzia de autores, girando sobre as aventuras do
uma espécie de comercial para o texto. Não importa muito se pois
filho de Amadís, o neto de Amadís e assim por diante, heróis com
geralmente é possível encontrar outra pessoa que leia ou cante o
nomes como Espladián, Lisuarte e Amadís da Grécia. Em 1546,
texto para eles(p.204, 205).
o ciclo já se estendera a doze livros. Essas histórias de aventuras
Também se pode interpretar o grande clássico da literatu-
tiveram um amplo apelo na Itália do Renascimento, na França, na ra brasileira moderna, Grande sertão (1956), de João Guimarães
Inglaterra e em outros lugares. Rosa, como uma transformação dos romances de cavalaria do
O humanista João de Barros não apenas foi um famoso histo- Novo Mundo feita por um autor conhecedor desde a infância da
riador das façanhas dos portugueses na Ásia, mas também autor de História de Carlos Magno. Grande sertão trata das aventuras de
um romance, Clarimundo (1520), que desfrutou considerável su- Riobaldo e Diadorim, um par de jagunços, isto é, homens de vio-
cesso. Escritores portugueses, como Francisco de Moraes e Diogo lência, honrados, que vivem no sertão.
Fernández, deram continuidade ao ciclo Palmerín. Quando o poeta A relação de Guimarães Rosa com a cultura popular não era
Luís de Camões introduziu o épico Os lusíadas (1572), contras- diferente da de Ariosto. Diplomata, polímata e poliglota, grande
tando sua narrativa com os feitos “fantásticos” ou “fabulosos” de conhecedor da literatura europeia, trabalhara antes como médi-
Rolando e Roger, talvez imaginasse que os leitores já conheciam co clínico no sertão de Minas Gerais. Dizia-se que, quando seus
esses romances. Um dos editores dos ciclos Amadís e Palmerín foi pacientes não podiam lhe pagar, ele lhes pedia em vez disso que
Marcos Borges, nomeado gráfico real em 1566. contassem uma história. Foi sem dúvida um estudioso assíduo do
Em vista do continuado interesse pelo gênero na Espanha e folclore local, que aparece em suas próprias histórias, coexistindo
em Portugal, quase não surpreende encontrar referências aos ro- e interagindo, como no caso de Diadorim, com temas da alta cul-
mances de cavalaria no início da história da conquista e coloniza- tura europeia.
ção do Novo Mundo. Esse contraste entre Oriente e Ocidente corrobora explicações
Uma das mais interessantes peças de comprovação vem da da persistência de temas que são estruturados em termos de tradi-
história da conquista do México, escrita por Bernal Díaz del Cas- ções culturais e de condições sociais que favorecem a persistência
tillo. dessas tradições.
Outra interessante peça antiga indicadora dos romances de ca-
valaria no Novo Mundo é um nome: Califórnia. 10. A tradução da cultura: o carnaval em dois ou três mun-
No romance Esplandián, uma continuação da história de dos
Amadís, publicada pela primeira vez em 1510, viemos a saber de
um grupo de mulheres guerreiras governadas por uma certa rainha O Carnaval não é apenas um tema de romances e filmes sobre
Catafia, “amante da grande ilha da o Brasil, como Orfeu negro (1958), de Marcel Carné, mas tam-
Califórnia, célebre por sua esplêndida abundância de ouro e bém um tema recorrente na própria cultura brasileira. O roteiro
joias”. de Orfeu negro foi obra do poeta Vinicius de Moraes, que adaptou

Didatismo e Conhecimento 36
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
sua peça Orfeu da Conceição, e a música do filme composta por O exemplo clássico de dança mista é o do Brasil, na era da
Luís Bonfá e Antônio Carlos Jobim, mais conhecido como “Tom”. polca, predominante dos anos 1850 a 1900, a era do maxixe, da dé-
Outros exemplos literários incluem Carnaval (1919), de Manuel cada de 1870 à de 1910, a era do samba, predominante de cerca de
Bandeira, Carnaval carioca (1923), de Mário de Andrade, e o pri- 1916 até hoje. No Rio, a dança era e é a parte mais importante do
meiro romance de Jorge Amado, O país do Carnaval (1932). Al- desfile, o cortejo carnavalesco que, em si, se tornou a parte essen-
gumas das melhores músicas de Chico Buarque, Gilberto Gil e cial das festividades de meados do século XIX em diante. (p.221).
outros importantes compositores foram originalmente compostas A dança é o lugar ocupado pelos elementos africanos no Car-
para determinados carnavais. Sobre representações do Carnaval naval e em outras festividades latino-americanas. A comemoração
na cultura popular, basta assistir a séries como Carnaval Duchen da festa de Corpus Christi no Brasil colonial, na província de Mi-
(Rádio e TV Record), Meu Carnaval não era assim (TV Tupi) ou nas Gerais, por exemplo, incluía carros alegóricos e danças de ne-
Carnaval do passado (TV Rio) (p.215). gros com bandeiras, instrumentos de percussão e músicas - todos
Qualquer pessoa familiarizada com os carnavais europeus se elementos a serem encontrados mais tarde nos carnavais brasilei-
sentirá em casa ao observar ou, na verdade, participar de carnavais ros. A tradição do maracatu, cucumbi, congada ou “reis do Con-
no Novo Mundo. Os paralelos são impressionantes. O lançamento go”, a entronização de reis e rainhas negras vestidas com fantasias
de cascas de ovo ou bisnagas de cera cheias de água, muito prati- deslumbrantes na festa de Nossa Senhora do Rosário, mais uma
cado no Rio do século XIX, por exemplo, derivou da tradição do vez em Minas Gerais, também foram transferidos para o Carnaval.
entrudo português, uma tradição com muitos paralelos na França, (p.221)
Espanha e Itália, embora os misseis fossem ovos ou laranjas. Fan- A dança, religiosa ou secular, era e talvez continue a ser uma
tasiar-se e usar máscaras eram um costume tradicional europeu, e forma de arte mais importante na África do que em qualquer outro
mesmo alguns dos costumes preferidos dos americanos, como os lugar. Na África oriental, por exemplo, havia a tradição da ngoma,
hussardos, os arlequins do Rio e os pierrôs e polichinelos de Trini- dança que muitas vezes adota a forma de parada militar ou “re-
dad, copiavam modelos europeus. O desfile das escolas de samba vista de tropas” por membros de diferentes associações de dança,
do Rio hoje lembra as paradas e carros alegóricos que já se viam em que as mulheres desempenhavam um papel predominante. Em
em Florença e Nuremberg no século XV. Mombasa de fins do século XIX, essas paradas incluíam carros
Mais uma vez, as escolas de samba e seus antecessores da alegóricos reminiscentes “dos carnavais em Nice e em Nova Or-
classe média, como os “Democráticos”, “Tenentes do Diabo” e leans”, segundo um oficial britânico. Na África ocidental, mais
“Fenianos” no Rio do século XIX, são reminiscências dos Abades relacionada às Américas, pois a maioria dos escravos é oriunda
da juventude e outras sociedades festivas europeias. (p.218). daquela região, a dança muitas vezes se associava intimamente as
No caso da relação do Brasil com a Europa, precisamos levar práticas religiosas. A associação entre dança e religião era mais
em conta não apenas a tradição inconsciente, mas também a imi- estreita do que na Europa, onde havia uma longa tradição de hosti-
tação consciente. Os brasileiros, em particular das classes médias, lidade oficial a danças na igreja ou mesmo por ocasião de festivais
eram e na verdade ainda são muito atraídos por modelos culturais religiosos. (p.223).
estrangeiros. Em particular, os carnavais de Veneza, Roma e Nice Os instrumentos e os movimentos da religião africana (can-
são exemplares no Brasil do século XIX. (p.218). domblé) foram mesclados ao carnaval brasileiro.
Esse Carnaval do Novo Mundo é muito mais que uma im- As danças do candomblé são às vezes comparadas ao samba
portação europeia. Como muitos aspectos da cultura europeia, foi do Carnaval não apenas por observadores, mas também por parti-
transformado ao longo de sua permanência nas Américas, trans- cipantes. No Brasil, incorporaram-se outras práticas religiosas ao
portado ou “traduzido” no sentido de ser adaptado às condições Carnaval, por meio do afoxé, palavra que significa não apenas um
locais. instrumento musical (a maraca) um cortejo carnavalesco de adep-
Essas transformações são mais importantes ou pelo menos tos do candomblé. O compositor e cantor brasileiro Gilberto Gil
observáveis com mais facilidade em três domínios - o lugar das conta que, quando desfilava no Carnaval de Salvador com o resto
mulheres, da dança e da cultura africana. (p.219). de seu grupo de afoxé, certa vez viu uma mulher de meia-idade
Por outro lado, no Novo Mundo, apesar da transplantação do benzer-se, na certa pensando que o que estava vendo era uma pro-
patriarcalismo - descrito por escritores latino-americanos, de Gil- cissão religiosa. (p.225).
berto Freyre a Gabriel García Márquez -, as mulheres há muito Os elementos mencionados talvez sejam suficientes para lan-
têm sido mais visíveis e ativas no Carnaval. Assim, em 1826, um çar a hipótese de que os carnavais do Novo Mundo são “super-
oficial inglês em Trinidad observou que “um grupo de mulheres, determinados”, no sentido de que surgiram do encontro de duas
tendo se transformado em um grupo de bandoleiros, atacou-me tradições festivas, a europeia e a africana. Há “sincretismo”, no
nos meus alojamentos”. No Brasil, a participação feminina no sentido preciso de coexistência e interação temporárias de elemen-
entrudo foi considerada digna de nota por visitantes estrangeiros, tos de diferentes culturas, assim como há “anti-sincretismo” no
como Thomas Lindley (1805), Henry Koster (1816), John Mawe sentido de tentativas de purificar o Carnaval, primeiro de seus ele-
(1822), Robert Walsh (1830) e Ferdínand Denis (1837). (p.220). mentos africanos (em fins do século XIX), e mais recentemente de
Ligada ao papel mais ativo de mulheres, a importância da dan- seus elementos europeus.36 Também pode ter havido elementos
ça torna os carnavais do Novo Mundo característicos. A dança não ameríndios nesse composto, mas, se assim for, é muito difícil iden-
era de todo ausente na Europa. tificá-los hoje (o uso de fantasias de índios por negros e brancos é
Em particular as de espada ocorriam nos tradicionais carna- outra questão).
vais europeus. Apesar disso, não tinha ali a mesma importância de As festas exemplificam, assim, o que o sociólogo e folcloris-
que no Brasil (digamos) ou em Trinidad, onde a cafinda ou dança ta cubano Fernando Ortiz, ele mesmo um entusiasta de Carnaval,
do pau é parte essencial das festividades desde, pelo menos, o iní- chamou de “transculturação” (p. 262), em outras palavras, a inte-
cio do século XIX, ou em Nova Orleans, que impressionou um ração recíproca entre duas culturas, em oposição à “aculturação”,
visitante francês porque “eles dançam em toda parte”. (p.220). em que se supõe que a influência se dê em um só sentido. (p.227).

Didatismo e Conhecimento 37
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
11. Unidade e variedade na história cultural Os Problemas

Atravessamos hoje um período da chamada “virada cultural” O problema essencial para os historiadores culturais hoje, é
no estudo da humanidade e sociedade. “Estudos culturais” flo- de que modo resistir à fragmentação sem retornar à suposição en-
rescem agora em muitas instituições educacionais, sobretudo no ganadora da homogeneidade de determinada sociedade ou perío-
mundo de língua inglesa. Muitos estudiosos que há mais ou menos do. Em outras palavras, revelar uma unidade subjacente (ou pelo
uma década se descreviam como críticos literários, historiadores menos ligações subjacentes) sem negar a diversidade do passado.
Por isso talvez seja útil chamar a atenção para um corpo de obras
da arte ou historiadores da ciência hoje preferem definir-se como
recentes e destacadas sobre a história de encontros culturais.
historiadores culturais, trabalhando em “cultura visual”, “a cultura
da ciência” e assim por diante. “Cientistas” políticos e historiado- O modelo de encontro
res políticos pesquisam “cultura política”, enquanto economistas
e historiadores econômicos desviaram a atenção da produção para Nos últimos anos, os historiadores culturais têm se interessa-
o consumo, e assim para desejos e necessidades moldados em ter- do cada vez mais por encontros, e também por “choques”, “con-
mos culturais. flitos”, “competições” e “invasões” culturais, sem esquecer ou
Apesar disso, a história cultural ainda não está estabelecida minimizar os aspectos destrutivos desses contatos. De sua parte,
de maneira muito sólida, pelo menos no sentido institucional. Pen- os historiadores da descoberta ou colonialismo começaram a exa-
sando bem, não é fácil responder à pergunta: que é cultura? Parece minar as consequências culturais, além das sociais e políticas, da
ser tão difícil definir o termo quanto prescindir dele. Como vimos expansão europeia. (p.255)
no Capítulo 1, muitas variedades de “história cultural” vêm sen- Seria, é claro, insensato tratar esses encontros como se ocor-
do praticadas em diferentes partes do mundo desde fins do século ressem entre duas culturas, recuando a uma linguagem de homo-
geneidade cultural e tratando as culturas como entidades objetiva-
XVIII, quando se cunhou originalmente o termo na Alemanha (p.
mente ligadas (os indivíduos às vezes têm um forte senso de limi-
14). Nos últimos anos, a história cultural se fragmentou ainda mais
tes, mas na prática as fronteiras são atravessadas repetidas vezes).
que antes. A disciplina da história está se dividindo em cada vez A questão a ser aqui enfatizada é o interesse relativamente
mais subdisciplinas, e a maioria dos estudiosos prefere contribuir novo pela maneira como as partes envolvidas percebiam, enten-
para a história de “setores” como ciência, arte, literatura, educação diam ou, na verdade, não entendiam umas às outras.
ou a própria historiografia, em vez de escrever sobre culturas to- Se nenhuma cultura é uma ilha, nem mesmo o Haiti ou a Grã
tais. De qualquer modo, a natureza, ou pelo menos a definição de -Bretanha, deve ser possível empregar o modelo de encontro para
história cultural, é cada vez mais questionada. (p.234). estudar a história de nossa própria cultura, ou culturas, que deve-
Em meados do século XIX, quando Matthew Arnold fazia mos considerar variadas em vez de homogêneas, múltiplas em vez
suas palestras sobre “Cultura e anarquia”, e Jacob Burckhardt de singulares. Portanto, os encontros e interações precisam juntar-
escrevia sua Kultur der Renaissance in Italien, a ideia de cultura se às práticas e representações que Chartier descreveu como os
parecia praticamente prescindir de explicações. A situação não era principais objetos da nova história cultural.
muito diferente em 1926, quando Johan Huizinga fez sua famosa
As consequências
palestra, em Utrecht, sobre “A tarefa da história cultural”.
Para os três historiadores, “cultura” significava arte, literatura
As consequências dos encontros entre culturas foram estu-
e ideias “suaves e leves”, como a descreveu Arnold, ou, na for- dadas pela primeira vez de maneira sistemática por estudiosos
mulação mais precisa, embora mais prosaica, de Huizinga, “figu- de sociedades do Novo Mundo, onde os encontros haviam sido
ras, motivos, temas, símbolos e sentimentos”. A literatura, ideias, particularmente drásticos. No início do século XX, antropólogos
símbolos, sentimentos, e assim por diante, eram em essência os norte-americanos, entre eles o imigrante Franz Boas, descreveram
encontrados na tradição ocidental, dos gregos em diante, entre as as mudanças nas culturas indígenas americanas como resultantes
elites com acesso à educação formal. Em suma, cultura era algo do contato com a cultura branca em termos do que denominaram
que as sociedades tinham (ou, mais exatamente, que alguns grupos “aculturação”, a adoção de elementos da cultura dominante.
em algumas sociedades tinham), embora faltasse a outros (p.235). Um discípulo de Boas, Melville Herskovits, definiu a acul-
Em alguns países, associa-se esse apelo cada vez maior ao turação como um fenômeno mais abrangente do que a difusão,
surgimento de cursos multidisciplinares sob a égide de “estudos e tentou explicar por que alguns traços, mais que outros, foram
Culturais”. incorporados à cultura receptora. À fase de apropriação segue-se
a da “cristalização” os estudiosos da cultura, a começar por espe-
cialistas em história da religião no antigo mundo mediterrâneo,
História antropológica
muitas vezes falaram em “sincretismo”.
Herskovits se interessava, sobretudo pelo sincretismo reli-
Os leitores talvez estejam se perguntando se a moral das crí- gioso, como por exemplo, a identificação entre deuses africanos
ticas relacionadas acima é o abandono total de toda a história cul- tradicionais e santos católicos no Haiti, Cuba, Brasil e em outros
tural. lugares. Outro discípulo de Boas, Gilberto Freyre, interpretou a
Os chamados “teóricos da recepção”, entre os quais incluo o história do Brasil colonial em termos do que chamou de “socie-
jesuíta antropólogo-historiador Michel de Certeau, substituíram a dade híbrida”, ou “fusão” de diferentes tradições culturais. Pelo
tradicional suposição de recepção passiva pela nova de adaptação menos um historiador do Renascimento, Edgar Wind, empregou o
criativa. Afirmam que “a característica essencial da transmissão termo “hibridização” para descrever a interação de culturas pagãs
cultural é que tudo o que se transmite muda”. e cristãs.

Didatismo e Conhecimento 38
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O sociólogo cubano Fernando Ortiz afirmou que se devia Portanto, deduz-se que uma história cultural centrada em en-
substituir o termo “aculturação” por “transculturação”, baseando- contros não deve ser escrita segundo um ponto de vista apenas.
se em que duas culturas eram modificadas em consequência de Nas palavras de Mikhail Bakhtin, essa história tem de ser “poli-
seus encontros, e não apenas a chamada “doadora”. fônica”. Em outras palavras, tem de conter em si mesma várias
Um bom exemplo desse tipo de aculturação, em que os con- línguas e pontos de vista, incluindo os dos vitoriosos e vencidos,
quistadores são conquistados, é o dos “creoles”, homens e mu- homens e mulheres, os de dentro e os de fora, de contemporâneos
lheres de origem europeia, mas que nasceram nas Américas e se e historiadores. (p.267).
tornaram, com o passar do tempo, cada vez mais americanos em
cultura e consciência. Bibliografia
Emprega-se uma grande variedade de termos em diferentes
lugares e diferentes disciplinas para descrever os processos cul- Livro: Variedades de história cultural;
turais de empréstimo, apropriação, troca, recepção, transferência, Autores: Peter Burke;
transposição, resistência, sincretismo, aculturação, enculturação, Referências: SASAKI, S.
inculturação, interculturação, transculturação, hibridização (mes-
tizaje), creolização e interação e interpenetração de culturas. Em
seguimento ao redespertar de interesse pela arte mudéjar mencio- 4. CARDOSO, CIRO FLAMARION E
nada acima (ela própria relacionada a uma consciência cada vez VAINFAS, RONALDO. NOVOS DOMÍNIOS
maior hoje do mundo muçulmano), alguns espanhóis agora se re- DA HISTÓRIA. RIO DE JANEIRO: EDITORA
ferem a um processo de “mudejarismo” em sua história cultural. CAMPUS, 2012.
Alguns desses novos termos talvez soem exóticos, e mesmo bár-
baros. Sua variedade presta eloquente testemunho à fragmentação
do mundo acadêmico atual. Também revela uma nova concepção
de cultura como bricolagem, em que o processo de apropriação e Sumário
assimilação não é secundário, mas essencial.
Os linguistas oferecem outro meio de abordar as consequên- Esta obra está dividida em 16 capítulos:
cias dos encontros culturais. O encontro de culturas, como de lin-
guagens, poderia ser descrito em termos do surgimento primeiro Introdução - História e conhecimento - uma abordagem epis-
do pidgin, uma forma de língua reduzida ao essencial para fins temológica
de comunicação intercultural, e depois do creoles. A “creolização”
descreve a situação em que um pidgin desenvolve uma estrutura Capítulo 1 - História, memória e tempo presente
mais complexa no momento em que as pessoas começam a usá-lo
como sua primeira língua e para propósitos gerais. Capítulo 2 - História e poder - uma nova história política?
Os linguistas afirmam que o que antes era considerado ape-
nas erro, como inglês “malfalado” ou latim “de cozinha”, devia Capítulo 3 - História e teoria política
ser visto como uma variedade de língua com suas próprias regras.
Também se pode fazer uma afirmação semelhante sobre (digamos) Capítulo 4 - História das relações internacionais
a linguagem da arquitetura na fronteira entre culturas. (p.266)
Alguns observadores ficam impressionados com a homo- Capítulo 5 - História e movimentos sociais
geneização da cultura mundial, o “efeito Coca-Cola”, embora
muitas vezes não levem em conta a criatividade da recepção e a Capítulo 6 - Nova história militar
transposição dos sentidos discutidas antes neste capítulo. Outros
Capítulo 7 - História e cultura material
veem mixagem ou ouvem pidgin em toda parte. Alguns acreditam
poder discernir uma nova ordem, a “creolização do mundo”. Um
Capítulo 8- História e antropologia
dos grandes estudantes da cultura em nosso século, o erudito russo
Mikhail Bakhtin, costumava enfatizar o que chamava de “hete-
Capítulo 9 - História oral - velhas questões, novos desafios
roglossia”, em outras palavras, a variedade e conflito de línguas
e pontos de vista dos quais, segundo sugeriu, se desenvolveram Capítulo 10 - História e Biografia
novas formas de linguagem e novas formas de literatura (em par-
ticular o romance). Capítulo 11 - Micro-história
Retornamos ao problema fundamental de unidade e varieda-
de, não apenas na história cultural, mas na própria cultura. É ne- Capítulo 12 - História e textualidade
cessário evitar duas supersimplificações opostas: a visão de cultura
homogênea, cega às diferenças e conflitos, e a visão de cultura es- Capítulo 13 - História e imagem - iconografia/iconologia e
sencialmente fragmentada, o que deixa de levar em conta os meios além
pelos quais todos criamos nossas misturas, sincretismos e sínteses
individuais ou de grupo. A interação de subculturas às vezes pro- Capítulo 14 - História e Fotografia
duz uma unidade de opostos aparentes.

Didatismo e Conhecimento 39
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Capítulo 15 - História e cinema Assim como a “História do Tempo Presente”, a “Nova Histó-
ria Militar”, apresentada por Luiz Carlos Soares e Ronaldo Vain-
Capítulo 16 - História e Informática fas; e a “Micro-história”, tema de Henrique Espada Lima, também
são abordadas nesta obra. Tais autores analisaram as proposições
Conclusão - Avanços em xeque, retornos úteis. dessas novas áreas de conhecimento e apontaram os principais de-
safios que a elas se impõem.
Autor Além dos novos territórios explorados, o livro também apre-
senta algumas exposições sobre domínios da história bastante
Ciro Flamarion Cardoso: professor titular de história antiga e tradicionais que, nas últimas décadas, passaram por um processo
medieval da UFF. Doutor pela Universidade de Paris X. Autor de de renovação. São os casos da “Nova História Política”, tema de
vastíssima obra, entre livros e artigos, destacando-se Os métodos Sônia Mendonça, Virginia Fontes e Ciro F. Cardoso; da “Biografia
da história, em parceria com Héctor Pérez Brignoli (Graal, 1979), Histórica”, tema de Benito Shmidt; e da “História das Relações
e Ensaios racionalistas (Campus, 1988). Internacionais”, abordada por Estevão R. Martins. Nestes capítu-
los, foram avaliados os avanços que cada um desses campos pôde
Ronaldo Vainfas: professor titular de história moderna da alcançar ao longo dos últimos anos.
Algumas temáticas apresentadas no livro anterior foram atua-
UFF. Mestre pela UFF, doutor pela USP. Autor de numerosos arti-
lizadas, passando a compor, também, o presente volume. Dentre as
gos e livros, entre os quais Trópico dos pecados (Campus, 1989) e
quais, podemos citar as relações entre “História e Antropologia”,
A heresia dos índios (Companhia da Letras, 1995).
tema de Maria Regina C. de Almeida; e a “História dos Movi-
mentos Sociais”, campo que vem despertando nos últimos anos
Sinópse um crescente interesse entre os pesquisadores, e que foi abordado
no livro por Hebe Matos. Uma outra temática também foi reto-
Novos domínios da história é obra dedicada, antes de tudo, a mada nesta obra: os usos da informática no ofício do historiador.
complementar Domínios da história, publicado em 1997, livro que No capítulo “História e Informática”, Célia Tavares reflete sobre
firmou-se como obra de referência para os profissionais da área. o impacto das novas tecnologias para a produção e divulgação do
Para isso, novos territórios são explorados como, por exemplo, a conhecimento científico.
“nova história militar”, a “história do tempo presente” e a própria Diferindo da edição de 1997, Novos Domínios da História
“micro-história”. apresenta abordagens mais profundas sobre certos campos da his-
A par dos novos territórios, foram incluídos no presente volu- tória, como “História e Cultura Material”, tema da contribuição
me alguns domínios muito tradicionais, quase canônicos, que têm de Marcelo Rede; “História e Imagem”, temática de Ulpiano de
sido objeto de renovação nas últimas décadas, como a chamada Menezes; “História e Fotografia”, abordada por Ana Mauad e Mar-
“nova história política”, a “biografia histórica” e a “história das cos Brum Lopes; “História e Cinema”, tema de Alexandre Valim;
relações internacionais”. e “História e Textualidade”, tema de Ciro F. Cardoso. De acordo
com os organizadores, esses domínios ganharam uma maior no-
Comentário toriedade no livro devido aos avanços e à especialização que vêm
alcançando nas últimas décadas.
Visa a complementar a obra “Domínios da História”, publica- A “História Oral”, tema que não esteve presente no livro an-
do em 1997, uma vez que mesmo trazendo a abordagem de nume- terior, também ganhou espaço neste novo volume. Em seu ensaio,
rosos autores, nos ambientes de História e Ciências Sociais, muitos Marieta de Moraes Ferreira evidencia que a história oral, apesar
temas e aspectos da disciplina histórica ficaram de fora. Reúne, de ter sido alvo de críticas de muitos historiadores nos anos 1960
portanto, novas abordagens e abarca inúmeros autores, mapeando e 1970, tornou-se no século XXI uma metodologia fundamental
e explorando areas do pensamento e da pesquisa praticadas pelos nas pesquisas realizadas no Brasil, sobretudo, nas relacionadas a
historiadores contemporâneos. temáticas contemporâneas.
Em Novos Domínios da História a introdução e a conclusão
desempenham a função de equilibrar as discussões apresentadas
Resumo
ao longo dos capítulos. A introdução, escrita por Ciro F. Cardoso,
apresenta os problemas específicos da epistemologia das ciências
Neste novo livro, que também contou com a participação de sociais e humanas, e discorre sobre as três modalidades básicas do
diversos autores, novos campos da História foram explorados a conhecimento histórico: o reconstrucionismo, o construcionismo e
exemplo da “História do Tempo Presente”, tema de Márcia Me- o desconstrucionismo. A conclusão, elaborada por Ronaldo Vain-
nendes Motta. Em seu texto, Motta discute as relações entre His- fas, dialoga com a introdução, analisando os “novos domínios” da
tória, memória e tempo presente; e comenta sobre o surgimento e história apresentados no livro a partir da tipologia epistemológica
consolidação da História do Tempo Presente. Entretanto, ao men- desenvolvida por Ciro F. Cardoso na parte inicial da obra.
cionar os trabalhos desenvolvidos no Brasil inseridos neste novo Como bem indicam os organizadores no prefácio do livro, nos
campo disciplinar, a autora restringe as produções do Laborató- dias atuais a história apresenta uma grande diversidade de abor-
rio do Tempo Presente (UFRJ) à temáticas relacionadas apenas à dagens, temas e conceitos. Sendo assim, Novos Domínios da His-
América do Sul. Além disso, sua exposição exclui a possibilidade tória, ao oferecer um panorama amplo e atualizado dos domínios
de pesquisas sobre a HTP desenvolvidas em outras regiões do país, da história – novos e antigos –, torna-se extremamente útil aos
que não o Sudeste. Nesse sentido, Motta não menciona, por exem- estudiosos e profissionais da história, podendo interessar também
plo, os trabalhos do Grupo de Estudos do Tempo presente (UFS). aos que atuam nas demais ciências humanas e sociais.

Didatismo e Conhecimento 40
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Bibliografia Sinópse
Livro: Novos domínios da História;
Autores: Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas; Além da introdução e das considerações finais, “Ensino de
Referências: MOURA, L. M. História e Consciência Histórica” encontra-se dividido em três ca-
pítulos. No primeiro, intitulado “O que é a consciência histórica”,
o objetivo, segundo o próprio autor é “recompor e procurar alinha-
var a contribuição de diferentes autores, originários de diferentes
5. CERRI, LUIS FERNANDO. ENSINO lugares, tanto físicos quanto epistemológicos, visando uma maior
DA HISTÓRIA E CONSCIÊNCIA HISTÓRICA. sistematização sobre a “consciência histórica” e suas implicações
RIO DE JANEIRO: FUNDAÇÃO GETÚLIO sobre o fazer atual da história nos múltiplos espaços que ela ocu-
VARGAS, 2011. pa”. Pra isso, Cerri aprofunda-se no conceito de “consciência” de
Karl Marx e, sem seguida, o leva para o contexto da história, atra-
vés da leitura de filósofos/historiadores de peso como Raymond
Aron, Hans-Georg Gadamer, Agnes Heller e, principalmente, Jörn
Sumário Rusen, sua principal referência ao longo do livro. Deste último,
Cerri toma emprestada a definição de “consciência história”: “a
Esta obra está dividida em três capítulos: suma das operações mentais com as quais os homens interpretam
sua experiência da evolução temporal de seu mundo e de si mes-
Introdução mos, de forma tal que possam orientar, intencionalmente, sua vida
prática no tempo”. Assim, a consciência histórica seria algo que
Capítulo 1 existe independente da vontade dos homens, com um bem univer-
O que é a consciência histórica salmente humano.
Consciência histórica, fenômeno humano Já no capítulo 2, “Conscientização histórica?”, Cerri desen-
Capturando a consciência histórica volve o “pensar historicamente” como uma competência inerente
Didática da história, uma disciplina de investigação do uso ao trabalho do professor, relacionada a construção da cidadania.
social da história Tal relação seria, no olhar do autor, uma das principais contribui-
ções da história para a formação do aluno. E mais: esta perspectiva
Capítulo 2 - que também pode ser tomada como uma reflexão - está associado
Consciência histórica? com o conceito de “conscientização” do educador Paulo Freire.
Pensar historicamente Freire afirmava que conscientização é o oposto de doutrinação.
A consciência histórica é histórica... e múltipla Está na base da construção de indivíduos autônomos, algo que
pode ser mais ou menos desenvolvido. Ao conectar esses dois con-
Capítulo 3 ceitos, Cerri politiza o trabalho do professor de história.
Consequências para a prática do profissional de história Por fim, o terceiro capítulo, chamado de “Consequenciais para
Ensinar história para quê, afinal? a prática do profissional de história”. Neste capítulo, o autor fala
Consciência histórica e o problema dos conteúdos sobre o porque do ensinar história. Para responder a pergunta, são
discutidas questões como política de identidades, racionalidade
Palavras finais da história científica e experiências narrativas. No fechamento do
livro, Cerri explica como o conceito de consciência histórica ofe-
Referências rece para o ensino da história:
“Em primeiro lugar, afasta-se uma visão voluntarista e mes-
Autor siânica que, sob diferentes formas, proponha a ‘conscientização
histórica” dos “sem consciência” porque, como argumentamos,
Luis Fernando Cerri possui graduação em História pela Uni- isso não existe: como todo navegam por suas vidas conduzidos
versidade Estadual de Campinas (1992), mestrado em Educação pela correnteza do tempo, todos tem que definir instrumentos e
pela Universidade Estadual de Campinas (1996) e doutorado em projetos para navegá-lo, e esse procedimento básico de viver é a
Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2000). Atual- consciência histórica em ação. (…) Ensinar história considerando
mente é professor associado da Universidade Estadual de Ponta a consciência histórica é desenvolver atividades que permitam que
Grossa, consultor das revistas Tempos Históricos (UNIOESTE) , o educando conheça a história - de preferência a história que, de
Educere et Educare (Unioeste), Cultura Histórica & Patrimônio forma mais aproximada, seja sua história - ao mesmo tempo que
(UNIFAL), Clio & Asociados - La Historia Enseñada (Santa Fe/ conhece diferentes formas pelas quais se lhe atribuiu sentido”.
La Plata) e TEL - Tempo, Espaço e Linguagem (UEPG). Tem ex- “Ensino de história e consciência histórica” é um livro que
periência na área de História, com ênfase em ensino de História, interessa basicamente dois grupos: professores escolares e alunos
atuando principalmente nos seguintes temas: didática da história, que estão começando a graduação em história. Oferece um pano-
consciência histórica, identidade social, ensino de história, forma- rama elaborado sobre o ensino de história, embora quase sempre a
ção de professores de história e nacionalismo. É líder do Grupo ótica marxista predomine, o que acaba reduzindo algumas discus-
de Pesquisa em Didática da História (GEDHI), da UEPG. É tutor sões importantes. No mais, Cerri consegue realizar uma conexão
no Programa de Educação Tutorial do Ministério da Educação, do entre os campos da teoria da história e do ensino da história, algo
grupo PET História UEPG. que é bastante comum em países com tradição na filosofia da his-

Didatismo e Conhecimento 41
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
tória, como a Alemanha. Essa articulação demonstra que o passado Como exemplo dessas agitações periódicas no lago calmo
é móvel, fluido, frágil. E que é justamente essa fluidez que provoca da representação nacional sobre seu próprio tempo, em agosto de
deslizamentos também na aprendizagem e no ensino. Está ainda 2007 foi lançado mais um livro-relatório da Comissão Especial de
no cerne de nossas projeções e de nossa identidades, individuais Mortos e Desaparecidos sobre a repressão realizada pela ditadura
ou coletivas. Como o próprio autor coloca, “quem acreditamos militar brasileira, que governou o país entre 1964 e 1985. Seu lan-
que somos depende de quem acreditamos que fomos”. O passado, çamento ganhou espaço na imprensa, e o comando do Exército,
neste sentido, é a pedra basilar que norteia nossa aço no mundo. em nota, mostrou que continua e continuará disposto a manter viva
e atuante a sua leitura dos acontecimentos do período. A nota da
Comentário corporação reafirmou a Lei da Anistia e afirmou que “fatos histó-
ricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus
A noção de consciência histórica tem se constituído em uma protagonistas”. Se por um lado aponta a força da permanência das
importante ferramenta para pensar as relações entre o conhecimen- razões militares em sua recente intervenção na vida pública e nos
to científico, produzido pelos acadêmicos, e a vida prática. Nesse poderes constituídos, por outro essa curiosa peça de relativismo
sentido, a noção de consciência histórica nos permite rever ques- histórico, assinada pelo comandante do Exército, indica o reconhe-
tões fundamentais para professores e demais interessados nos usos
cimento de outras versões e, ainda, que a versão militar encontra-
sociais do conhecimento histórico. Os leitores terão acesso às prin-
se na defensiva.
cipais contribuições que envolvem o tema, refletindo sobre o papel
A nota foi apresentada ao ministro da Defesa, Nelson Jobim,
da História dentro e fora da escola.
antes de ser entregue à imprensa. Jobim propôs – e foram acata-
Este título da Série História integra a Coleção FGV de Bolso,
voltada para a produção de obras de síntese sobre os mais diver- das – algumas mudanças no documento e avalizou a publicação
sos temas das ciências humanas e sociais. Destina-se a estudantes, do comunicado. Assim, o governo do presidente Lula referendava
professores e profissionais interessados em conhecer de maneira uma nota com o seguinte teor: “A Lei da Anistia, por ser parâmetro
rápida e eficaz, por meio de textos claros e acessíveis, os assuntos de conciliação, produziu a indispensável concórdia de toda a so-
tratados em cada volume. ciedade [...]. Colocá-la em questão importa em retrocesso à paz e
à harmonia nacionais, já alcançadas”. Logo a seguir, o ministro da
Resumo Defesa compareceu à cerimônia de lançamento do livro-relatório
e deu um recado aos militares, alertando que eventuais reações
Parece obvio que o passado e o futuro participam ativamente contrárias ao lançamento, por parte deles, também seriam respon-
d presente de nossas sociedades. Esse é o ponto de partida das re- didas. Um delicado equilíbrio.
flexões que o tema deste livro quer proporcionar. Alguns exemplos O equilíbrio do governo Lula para, por um lado, preservar
sobre o passado que constitui o presente nas sociedades do Cone suas origens políticas na oposição à ditadura e, por outro, não des-
Sul servirão para iniciarmos as argumentações referentes ao tema contentar demais os militares, é similar a outro equilíbrio delicado.
da consciência histórica. É na história recente que podemos colher O comandante do Exército também se equilibra entre afirmar que
esses exemplos, uma vez que suas conexões com o nosso cotidiano os fatos históricos são relativos ao ponto de vista do sujeito, ao
são mais frequentes e significativas. Mas também os exemplos em mesmo tempo em que utilizar os mitos fundadores da instituição
nossas vidas pessoais podem ser muito interessantes para pensar para afirmar que uma unidade que parece ser questionada quando
essa articulação entre passado presente e futuro. se afirma que o mesmo Exército, hoje comprometido com a demo-
O último ciclo ditatorial latino-americano, embalado pela cracia e com a inviolabilidade dos direitos civis, torturou e matou
Guerra Fria e pela mudança do papel da região no concerto da eco- poucos anos atrás. A nota indicava também que o Exército, voltado
nomia e da política mundial, estendeu-se dos anos 1960 aos anos para suas missões constitucionais, conquistou os mais elevados ín-
1980 e teve um componente adicional: a fratura na sociedade foi dices de confiança e de credibilidade junto ao povo brasileiro [...]
tão profunda que suas feridas permanecem abertas até a atualida- não há Exércitos distintos. Ao longo da história, temos sido sempre
de. No caso particular do Brasil, a ditadura encontrou uma classe
o mesmo Exército de Caxias, referência em termos de ética e de
média em ascensão econômica e política, que começava a superar
moral, alinhado com os legítimos anseios da sociedade brasileira.
com passos mais largos as marcas de uma sociedade que teve 200
A própria existência de uma nota do Exército em tensão com o
anos de escravidão. No bojo dessa sociedade, o proletariado dos
Ministério da Defesa mostra que, além de uma passado com senti-
setores mais dinâmicos da economia desequilibrou a balança do
controle social em favor da oposição democrática e precipitou o do em disputa, temos um passado que condiciona o presente.
fim da ditadura. A tradição brasileira de conciliação política e tran- Pouco mais de dois anos depois, nos primeiros meses de 2010,
sições “pelo alto”, sem mudanças expressivas no cotidiano, fez o tema volta ao noticiário e ao debate nacional com a promulgação
com que ditadura e ditadores saíssem de cena quase despercebi- do Plano Nacional de Direitos Humanos, que previu um amplo
dos, sem movimentos populares por ajustes de contas, como foi o conjunto de ações visando ampliar a democratização da socieda-
“ponto final”. Mesmo com uma transição tão “anestesiada” como de brasileira, reduzir desigualdades e retomar questões do passado
a brasileira, diferente em tantos pontos da transição argentina e ainda não resolvidas, como a responsabilidade penal dos agentes
semelhante em tantos outros à transição uruguaia, os esqueletos no do governo envolvidos nas violações da integridade física e da
armário da ditadura não se calaram totalmente. De tempos em tem- vida dos opositores da ditadura. Desagradando aos conglomera-
pos, algum protesto, alguma manifestação ou concessão de pensão dos de mídia por propor a revisão da Lei da Anistia e a criação
a ex-presos políticos ou às famílias de desaparecidos por ação das de uma Comissão da Verdade, o plano foi reescrito para suavizar
forças repressivas recoloca no centro da cena aquelas feridas co- suas posições dado o potencial de desgastar o governo em um ano
bertas que ainda doem. eleitoral, como efetivamente ocorreu.

Didatismo e Conhecimento 42
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Os pontos do passado coletivo que implicam situações de atendidas por políticas de reserva de vagas para alunos negros ou
ruptura e violência acabam por gerar memórias ou esquecimentos afrodescendentes em universidades e cargos públicos preenchidos
traumáticos. Isso é ainda mais intenso quando os grupos contendo- através de concursos. A efetivação de cotas raciais é demonstração
res são patrícios, e sua luta implica também a definição do sentido de um debate nacional sobre o passado: para que fossem aceitas,
da história nacional. Começamos, então, a nos aproximar do tema foi preciso que pessoas em pontos-chave da administração de mui-
desse livro a partir de um olhar sobre o uso que é feito da história, tas instituições estivessem convencidas de que a condição de negro
passado e persente, para significar o tempo vivido coletivamente e está associada a desvantagens pessoais comprovadas estatistica-
vincular projetos contemporâneos da sociedade, cultura e política mente; de que essas desvantagens se ligam a um tratamento his-
ao futuro nacional projetado em função da leitura do passado. toricamente desfavorável, devido a instituições e práticas racistas;
Para os personagens envolvidos nesses exemplos, o passado de que políticas universais (o tratamento igual aos desiguais) não
deve ser deixado em paz, porque tem o potencial de atrapalhar, e superaram as diferenças e, por fim, de que o projeto nacional brasi-
mesmo de comprometer, o presente e o futuro. Por outro lado, es- leiro não comporta que essas situações permaneçam. A negação ou
ses críticos dos mandatários presidenciais que se originaram poli- a indiferença a todas essas teses ainda marca parcelas expressivas
ticamente no combate às ditaduras militares não pretendem renun- da sociedade brasileira, mas a criação e a manutenção de políticas
ciar ao passado, mas buscam referências para identidade nacional afirmativas mostram um deslocamento das opiniões sobre a iden-
num passado mais distante e (aparentemente) menos controverso. tidade, o passado e o futuro da nação, que, por sua vez, conduzem
Podemos, ainda, citar outros exemplos. A conciliação, na re- a determinadas decisões e investimentos no presente. E esse mo-
memoração história de personagens que representaram grupos e vimento não decorre de outra coisa senão de deslocamentos na
projetos adversários na história, como Tiradentes, o revolucioná- aprendizagem e no ensino da história, em parte dentro da escola, e
rio de origem militar metido em uma conspiração sediciosa contra em parte no debate proporcionado pelos movimentos sociais, pelas
a coroa portuguesa, e o imperador d. Pedro I, aproximados pela ações de parlamentares e administradores ou junto a eles, e pelo
máquina de propaganda da ditadura sob o general Médici, que os debate público em geral.
representou como heróis de um processo único, como se passas- Tais questões, de fundo identitário, estão na base do conceito
sem o “bastão” da corrida pela independência um para o outro. OU de consciência histórica que, em poucas palavras, podemos definir
entre Rosas, na Argentina, tido com caudilho autoritário e nacio- como uma das estruturas do pensamento humano, o qual coloca
nalista, e Sarmiento, presidente liberal e cosmopolita, contrários em movimento a definição da identidade coletiva e pessoal, a me-
aproximados pela ritualística cívica no governo de Carlos Menem, mória e a imperiosidade de agir no mundo em que se está inserido.
quando promoveu a repatriação do restos mortais de Rosas como Para evocar a imagem poética judaico-cristá, depois que Deus so-
estratégia legitimadora da conciliação nacional e do indulto a mili- pra as narinas de barro de Adão e lhe impulsiona para a vida, esse
tares condenados por crimes contra os direitos humanos (Amézola, impulso continua para sempre, até a morte de cada homem e de
2002:133-154). cada mulher: mesmo que decida não agir, o indivíduo terá optado
Lembrar ou esquecer os dilaceramentos da nação realizados por uma forma de ação, ainda que passiva e indireta. Mas não basta
sob as ditaduras militares não é, ao contrário do que poderia pare- esse impulso irrecorrível de agir; é preciso saber para onde agir, e
cer, escolher entre passado e futuro, mas sim escolher entre distin- essa é a busca por sentido inerente a todo ser humano e à sua his-
tas articulações de passado, presente e futuro. O passado não está tória, que se liga à história da coletividade. Temos a necessidade
a salvo das intenções do presente de dar tal ou qual significado constante de atribuir sentido ao tempo, às origens do mundo, do
ao tempo, aos personagens históricos, à nação. O presente – bem nosso grupo e da humanidade.
como o futuro – depende de um passado relativamente móvel, No que se refere à experiência pessoal, podemos ainda exem-
que possa ser relido. Mas antes de cairmos em discussões sobre a plificar de outra forma a consciência história. Suponhamos uma
viabilidade ou não da objetividade no estudo da história, que não situação totalmente banal e cotidiana: acordar pela manhã. Se está
é intenção desse pequeno estudo, pensemos sobre o significado frio, minha primeira reação biológica é permanecer na cama mais
desses exemplos. Haveria outra maneira de abordar esses assuntos 10 minutos. Se lembro que da outra vez que fiz isso, acabei pegan-
sem esgrimir argumentos históricos, ou seja, referentes ao signifi- do ônibus lotado ou trânsito pesado no meu caminho para o traba-
cado de passado, presente e futuro? Decerto que sim: poder-se-ia, lho, tenho que escolher qual é o conforto que prefiro: mais 10 mi-
por exemplo, discutir o assunto com base em termos jurídicos, nutos de cama quente ou ruas mais livres/ônibus vazio. Se decido
somente, apelando para conceitos internacionais referentes aos levantar-me, posso escolher usar os chinelos para ir até o banheiro
direitos humanos e à democracia, por ambos os lados, não que ou não. Se decido não usar, alguma coisa me incomoda, além de
tal discussão não ganharia o mesmo espaço na mídia e na atenção sentir o chão frio: as insistentes vezes em que minha mãe me disse
popular sem os ingredientes históricos, pois não passaria por um para sempre andar calçado, para não me resfriar. Talvez por esses
conjunto de questões subjacentes: “quem somos nós, coletividade motivos, de sensibilidade e de memória, eu decida sair da cama e
nacional”, “de onde viemos e como nossa origem nos define hoje”, ir calçado ao banheiro. Novamente, ao tomar o café da manhã vou
“para onde vamos, qual é nosso destino comum” e, ainda, “quem alimentar-me do resultado de escolhas baseadas em interpretações
sou eu, e de que lado me posiciono”. do passado e na cultura de meu país e de minha família: no Brasil
Discussão semelhante vem das reivindicações dos movimen- talvez eu tome um café com leite e um pão francês com margina;
tos negros organizados, no sentido de obter reparações para os na Argentina pode ser que eu tome uma medialuna com chá; no
cidadãos prejudicados pela escravidão e pelo racismo, de modo pampa argentino, no Uruguai ou no sul do Brasil é provável que
que seus descendentes possam recuperar o patamar educacional, eu comece o dia com uma cuia de mate. Nos Estados Unidos será
econômico e social que poderia ter tido se não existissem aque- comum se eu recorrer a uma tigela com cereais industrializados de
las restrições. Essas reivindicações começaram a ser em parte milho e leite.

Didatismo e Conhecimento 43
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Por outro lado, se concebo a história como uma mera aparên- Quando nos acercamos de um recorte mais específico de nos-
cia, e acredito que a essência da realidade está num outro mundo, sas sociedades, os nossos sistemas escolares, a discussão sobre
regido por uma divindade, pode ser que eu não saia da cama sem o conceito de consciência história vêm abrir uma nova frente de
antes fazer uma prece. Essa consciência pode fazer a diferença reflexão quanto ao antigo problema: o que é e o que significa ensi-
na hora de decidir entre um abaixo-assinado ou uma corrente de nar história? Que consequências essa reflexão tem para o ensino?
orações, ambos visando a paz no mundo. Essa vinculação fará a Como os saberes sobre o tempo (nesse sentido, históricos) adquiri-
diferença no meu dia, que pode ser pontuado por diversos momen- dos antes, durante e apesar da escolarização afetam o aprendizado,
tos de oração, ou apenas um momento específico, ou a minha ida suas características e sua qualidade.
diária a um templo de minha fé. O estudioso alemão Jörn Rusen (2006) afirma que professores
Não se passou nem meia hora desde o momento em que des- e alunos podem estar trabalhando em sala de aula com quadros
pertamos, e já estamos sofrendo a influência de nosso passado, e matrizes de significação que nem sempre são conscientes. Po-
nossa memória e nossa cultura. A consciência história, entretanto, demos exemplificar esses quadros e matrizes com as noções de
não se resume ao passado e a à memória, mas às projeções que progresso, decadência e futuro. Considerando isso, pode ser que
fazemos para o nosso futuro. Escovarei os dentes para adiar ao muitos dos problemas dos alunos no aprendizado da história, dos
máximo a próxima ida ao temido dentista, ou porque quero estar quais nos queixamos há décadas, venham tendo suas causas in-
com bom hálito ao encontrar uma namorada daqui a pouco – por corretamente identificadas, pelo menos em parte. A perspectiva
mais que minha biologia tenda ao menor esforço e me dê preguiça da consciência história nos impõe, também, outro ponto de vista
(ou pressa) de voltar ao banheiro e escovar os dentes, pentear o sobre a nossa disciplina: o de que ela é resultado de necessidades
cabelo, fazer a barba. Projeto o futuro, imediato, de médio prazo sociais e políticas na formação da identidade de novas gerações
ou distante, e com isso tomo as decisões que me permitem agir, e, portanto, o seu problema não é somente de ordem cognitiva
porque nunca ajo apenas para que hoje seja igual a ontem , mas ou educacional, mas também sociológica e cultural. A rejeição
trabalho a partir da possibilidade de que no amanhã se realizem de muitos alunos em estudar história pode não ser somente uma
minhas expectativas, mesmo que de um cotidiano pacato e seguro. displicência com os estudos ou uma falta de habilidade com essa
Nessa dinâmica, a minha identidade (constituída em grande parte matéria, mas um confronto de concepções muito distintas sobre o
pela minha história) e a identidade coletiva (constituída em grande tempo, que não encontram nenhum ponto de contato com o tempo
parte pela história nacional) são fundamentais. E aqui está a liga- histórico tal como aparece na narrativa de caráter quase biográfico
ção entre a consciência histórica e o ensino de história, bem como das nações ou da humanidade. Talvez, ainda, o “código genético”
com os vários usos sociais que o conhecimento histórico assume. da disciplina escolar história, nascido no século XIX sob o influxo
do nacionalismo, do iluminismo ou do romantismo, do racionalis-
Quem acreditamos que somos depende de quem acreditamos
mo, da perspectiva do progresso (ainda que em última instância),
que fomos, e não é à toa que o ensino de história – escolar ou
imponha a nós, professores, uma concepção de tempo, de identida-
extraescolar, formal ou informal – é uma arena de combate em
de e de humanidade que não se encaixa nas visões das novas gera-
que lutam os diversos agentes sociais da atualidade. Definir quem
ções, marcadas por perspectivas de futuro (e, portanto, de tempo,
somos e quem são os outros é parte do condicionamento da nossa
de identidade e de humanidade) distintas. Pode ser que venha daí
ação e paixão, e da ação e paixão dos outros. Se eu conseguir con-
a dificuldade de dialogar com a vivência dos indivíduos jovens em
vencer meu adversário de que ele é um absoluto incompetente, não
convivência com suas comunidades concretas.
precisarei seque me bater com ele para alcançar a vitória, o que é a O conceito de consciência história é ligado, ainda segundo
mais perfeita definição de sucesso militar, por exemplo. O milenar Russen, à mudança de paradigma da didática da história nos anos
Sun Tzu já pontificava que a vitória completa se dá quando suas 1960, de acordo com a qual o foco da disciplina passa do ensino
forças não lutam: o cúmulo da habilidade é atingir seus objetivos para a aprendizagem histórica, e propõe outra mudança no nos-
sem luta. Assim, por exemplo, se minha diplomacia e minha in- so modo de ver o “fazer” da disciplina na escola. Se o ensino da
fluência na cultura e no pensamento econômico são valores em si história implica o gerenciamento dos objetivos curriculares e das
que, assumidos, levam o país a algum objetivo que parece radiante concepções de tempo e de história que os alunos já trazem consigo
como “progresso” ou “modernidade”, posso lograr desmontar par- desde fora da escola, então o professor de história definitivamente
ques industriais inteiros sem ter que bombardeá-los e subjugar ou- não é um tradutor de conhecimento erudito para o conhecimento
tro país economicamente, enquanto sigo protegendo normalmente escolar, um simplificador de conteúdos. É, sim, um intelectual ca-
a minha própria economia da concorrência estrangeira. paz de identificar os quadros de consciência história subjacentes
Esta reflexão é apenas aparentemente restrita à teoria da his- aos sujeitos do processo educativo – inclusive o seu próprio – e
tória e à sociologia/antropologia do conhecimento histórico. O es- de assessorar a comunidade na compreensão crítica do tempo, da
tudo das formas e conteúdos pelos quais o conhecimento sobre o identidade e da ação na história.
passado é mobilizado e manipulado publicamente para produzir Por fim, com este pequeno livro temos por objetivo contribuir
tais ou quais efeitos públicos e privados, coletivos ou individuais, para a visão de novos quadros de análise da realidade escolar por
envolve por completo o estudo do ensino da história e seu aperfei- parte do professor, e entendendo-o política e teoricamente como
çoamento, pois desde suas origens europeias no século XIX, nossa um intelectual, academicamente procurando promover uma maior
disciplina científica e escolar participa intensamente desses jogos aproximação entre a teoria da história em processo de reflexão di-
de saber-poder. Logo, os professores de história somos também dática e a prática cotidiana do ensino.
protagonistas desse jogo, voluntária ou involuntariamente, cons-
ciente ou inconscientemente. Produzimos, com nosso trabalho, Bibliografia
parte de nossas identidades pessoais, políticas e profissionais, e Livro: Ensino de história e consciência histórica;
participamos da constituição das identidades dos outros. Autores: Luis Fernando Cerri;

Didatismo e Conhecimento 44
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Sinopse
6. FONSECA, SELVA G. DIDÁTICA E
PRÁTICA DE ENSINO DE HISTÓRIA. Esse livro apresenta reflexões sobre Didática e Práticas de En-
CAMPINAS: EDITORA PAPIRUS, 2005. sino de História desenvolvidas, no ensino fundamental e médio,
pela autora e por diversos professores, formadores, pesquisadores
e alunos, em diferentes espaços e épocas. O texto está dividido
em duas partes. A primeira contém uma análise das principais di-
Sumário mensões do ensino de História, que são temas centrais nos cursos
de formação docente; a história da disciplina e seus objetivos, o
INTRODUÇÃO currículo, as diretrizes legais, as abordagens historiográficas recor-
rentes, a questão dos livros didáticos e a formação da cidadania.
Parte I A segunda parte apresenta questões didáticas, práticas de ensino,
DIMENSÕES DO ENSINO DE HISTÓRIA NO BRASIL sugestões de metodologia, relatos, técnicas de ensino e comentá-
rios críticos, visando à troca de experiências entre os profissionais
1. Revisitando a história da disciplina nas últimas décadas do que, cotidianamente, (re)constroem as práticas educativas em sala
século XX de aula. Ao final, encontram-se reflexões e sugestões para o de-
2. A nova LDB, os PCNs e o ensino de História senvolvimento da prática pedagógica nos processos de formação
3. Abordagens historiográficas e recorrentes no ensino funda- profissional, a fim de questionar e redimensionar as relações entre
mental e médio teoria e prática, saberes disciplinares, pedagógicos e experienciais,
4. Livros didáticos e paradidáticos de História nos campos da Didática, da Metodologia e da Prática de Ensino.
5. Como nos tornamos professores de história: A formação
inicial e continuada Resumo
6. O ensino de História e a construção da cidadania
Nas últimas décadas do século XX a produção historiográfi-
Parte II ca e educacional acadêmica aumentou sua presença na indústria
EXPERIÊNCIAS, SABERES E PRÁTICAS DE ENSINO DE cultural. Assim, além do Estado, do mercado editorial, a mídia
HISTÓRIA também se fez presente na discussão sobre o que ensinar em his-
tória aos milhões de jovens que frequentam as escolas brasileiras.
1. Interdisciplinaridade, transversalidade e ensino de História Assim, discutir o ensino de história hoje, é pensar os processos for-
2. Projetos de trabalho, teoria e prática mativos que se desenvolvem nos diversos espaços, é pensar fontes
3. A pesquisa e a produção de conhecimento em sala de aula e formas de educar cidadãos, numa sociedade complexa marcada
4. Temas de análise política no ensino de História do Brasil por diferenças e desigualdades (FONSECA, P.15, 2003)
5. O estudo da História local e a construção de identidades Isso nos convida à revisitação da história da disciplina no
6. A incorporação de diferentes fontes e linguagens no ensino contexto das mudanças sócio-históricas ocorridas no Brasil pós-
de História 1964. O papel da educação – assim como as metas para o setor,
estabelecidas pelo Estado brasileiro, nesse período- esteve estri-
CONSIDERAÇÕES FINAIS tamente vinculado ao ideário de segurança nacional e desenvol-
A prática pedagógica na formação do professor de História: vimento econômico. O projeto delineado nos planos e programas
Reflexões e sugestões de desenvolvimento, na legislação e nas diretrizes governamentais
representa o ideário educacional dos setores políticos dominantes
BIBLIOGRAFIA (p.15, 16).
A principal característica da política de ensino de 64 foi a de-
Autor sobrigação do investimento no ensino, especialmente no ensino
médio e superior, a constituição de 1967 não estipulou nenhum
Selva Guimarães Fonseca possui Graduação em Estudos So- critério para o investimento no ensino, por conta disso o Estado re-
ciais pela Universidade Federal de Uberlândia (1982), Graduação duziu o investimento que era de 10,6% em 1965, e foi decrescendo
em História pela Universidade Federal de Uberlândia (1985), até chegar em 4,3% em 1975,que se manteve em 5,5% até 1983,
Mestrado em História pela Universidade de São Paulo (1991), neste período o ensino privado ou particular cresceu consideravel-
Doutorado em História pela Universidade de São Paulo (1996), mente principalmente o ensino superior.
Pós-Doutorado em Educação pela UNICAMP (2007). Atualmente No final da década de oitenta, o senador João Calmon, apre-
é Pesquisadora de Produtividade do CNPq, Professora Associada sentou um projeto de lei no qual o governo fica obrigado a investir
do Programa de Pós-Graduação(Mestrado e Doutorado em Edu- 12% da receita de impostos no ensino; estados e municípios 25%.
cação) e da Faculdade de Educação da Universidade Federal de A aprovação desta emenda se fez pela pressão dos trabalhadores da
Uberlândia, Membro da ISHD( International Society for History educação. Na constituição de 1988 no qual o artigo 212 estabelece
Didactics). Possui experiência na área de Educação com ênfase e o aumento deste percentual de verbas para o ensino, o governo
publicações nos seguintes temas: ensino e aprendizagem de Histó- passou a investir 18% dos impostos, estados e municípios 25%, no
ria, formação docente, metodologias e práticas de ensino. artigo 213 fica firmado que este investimento será aplicado, não só
nas escolas públicas estendendo-se a todas instituições de ensino
sem fins lucrativos.

Didatismo e Conhecimento 45
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A reforma universitária de 1968 O controle técnico e burocrático no interior das escolas.

A reforma atacou duramente a organização do movimento es- Com a intervenção do governo nas escolas subordinando pro-
tudantil, retirando a autonomia universitária e o direito de contes- fessores aos supervisores e orientadores nomeados pelo estado, foi
tar ou criticar a política do governo dentro das instituições de ensi- reformulado e imposto todo material didático, como forma de con-
no. Medidas como: departamentização, matriculas por disciplinas, trolar o que era ensinado nas salas de aula.
unificação do vestibular, fragmentação dos cursos, e os controles Após 1969 o ataque aos professores com o AI 5 (ato institu-
de toda a didática que os professores lecionavam, foram imple- cional nº5) com o decreto 547/69 que autorizava o ensino profis-
mentadas para controlar o espírito critico e analítico dos alunos. sionalizante e praticamente proibia o ensino de ciências humanas,
Os estudantes não podiam pensar, isso era chamado pelo governo utilizando a desculpa de atender a carência do mercado, o ensino
como medida de ajustamento previsto na lei 5.540/68. profissionalizante alastrou-se rapidamente, criando muitas institui-
ções de ensino profissionalizante privado.
A lei 5692 de 1971- a reforma do ensino de 1º e 2º graus. O curso de licenciatura rápida tirava muito da autonomia do
professor, pois restringia muito seu conhecimento, assim a licen-
O governo de Médici completou em 1971, a implantação da
ciatura rápida é a melhor forma de legitimar o controle do Estado
reforma educacional de 1º e 2º graus, que vinha sendo implemen-
no interior das escolas. Os cursos superiores de estudos sociais
tada desde 1964, com a lei 5.692 de 11 de agosto de 1971. Com
são implantados em todo pais, e só saem da grade curricular entre
esta lei ficou estabelecido que alunos de 7 a 14 anos cursassem
o 1º grau, ou seja, 1º a 8ª série, e o 2º grau ficaria voltado para o os anos 80 e 90. Como pátria, integração nacional, tradição lei, e
ensino profissionalizante. As escolas ficavam desobrigadas de ter heróis brasileiros, autorizados pelos militares, o estudo da história
formação geral, principalmente em ciências humanas. Os jovens citado no decreto lei 68065/71, foi vinculada ao estudo moral e
não podiam acesso ao ensino do pensamento político, para que cívica. As escolas foram obrigadas a reduzir a carga horária de
desta forma, facilitasse o controle das massas pelo governo mili- historia, geografia, e estudos sociais para colocar as disciplinas
tar, esta lei foi combatida por dez anos, até que o conselho federal EMC, OSPB com altas cargas horárias. Os atos cívicos passaram a
ficou a favor da mudança, que ocorreu em 1982, quando o MEC serem cada vez mais presentes no dia a dia dos jovens, os símbolos
sancionou a lei 7.044, alterando alguns artigos da lei 5.692/71, cívicos e heróis passaram a ser implantados fortemente na cabeça
principalmente a parte que se referia ao 2º grau que tanto preocu- dos jovens.
pou a comunidade acadêmica nos anos 70.
•As novas disciplinas criadas.
A lei 7044 de 1982.
Com o decreto lei 869/69, amparado pelo AI 5, foi implantado
Muitos destes projetos de lei estão presentes nas nossas esco- o estudo moral e cívica para graduação e pós-graduação com a
las até hoje, como a formação do pensamento e cidadania. Embora desculpa do estudo ser direcionado ao estudo dos problemas bra-
o acesso a escola tenha sido ampliado, ainda vemos muita evasão, sileiros.
repetência e o aumento da distorção idade/serie. O elitismo que O Estado cria uma comissão para implantar e fiscalizar o en-
foi arduamente combatido permaneceu e a exclusão social ainda sino de moral e cívica tanto nas escolas quanto em outras esferas.
é muito visível. O conteúdo era basicamente formado por conceitos de historia co-
Após 1982 houve muitas mudanças, embora ainda haja muita meçou a se confundir com moral e cívica. Além dos atos cívicos
coisa para mudar, o ensino de ciências humanas ainda não é tão o Estado tirou toda a autonomia dos centros acadêmicos, e com o
bem aplicada como deveria. Em sua formação, os jovens estão per- decreto lei 477/69 proibiu qualquer forma de manifestação política
dendo os valores, como pensamento, consciência política, cons- ou subversiva não autorizada. A ordem era homogeneizar o poder
ciência social; não estão sendo estimulados a aprender e pensar, dos grupos dominantes que representavam os militares e moldar o
que é o fundamento do ensino.
conceito de moral, liberdade, e democracia aos de civismo, com
repressão de pensamento, de livre debate de ideias e cultos de he-
As mudanças do ensino de historia
róis e datas nacionais.
•A formação do profissional de história Em 1971 com a lei 5700 que continha 45 artigos foi definidas
penalidades a quem desrespeitasse qualquer símbolo cívico.
Após 1968 houve muitas mudanças no ensino de história, A implantação da moral e cívica gerou muita oposição pele
com a tentativa do governo autoritário em acabar com o estudo despreparo de professores e diretores que eram indicados pelo Es-
da história. Podemos observar a participação das forças sociais no tado, à transmissão do conhecimento se deu por professores de
processo de democratização, intervindo diretamente no ensino e na ciências humanas como filosofia, pedagogia, historia geografia, e
produção histórica. ciências sociais, professores que eram fieis opositores ao regime
A configuração construtiva deste processo começa na for- militar.
mação destes profissionais, que para a realização de um projeto
educacional é de profunda importância o professor, o qual domina •O conteúdo comum exigido nos programas de história.
o conhecimento que através de um planejamento, e do desenvol-
vimento no ensino, transmite seu conhecimento para seus alunos, Com a renovação do ensino que consolidou o EMC e outras
utilizando de sua autoridade acadêmica e institucional que foi res- disciplinas obrigatórias no artigo 7º da lei 5692/71 ficou descarac-
tabelecido pelo MEC em 82, após a tentativa da ditadura militar de terizado o ensino de historia e de geografia transformando-se em
64 em exterminar as ciências sociais da grade de ensino no Brasil. estudos sociais.

Didatismo e Conhecimento 46
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Os conteúdos mínimos abrangidos pelos estudos sociais não O ensino antes era voltado para uma classe privilegiada, mas
contemplavam a história constituída pelo homem e sim interpreta- com a sua universalização o acesso escolar passou a ser um direito
vam fatos das ciências sociais. de todos, e como isso a escola se tornou uma instituição de massa,
O foco era sempre o estudo EMC e o OSPB. Analisando este mostrando assim as diferenças sociais existentes.
aspecto fica claro a intenção de dissolver as disciplinas com ên- Com essa ampliação do ensino para todos, surge uma preocu-
fase na criação do espírito critico assim o governo militar pós 68 pação de alguns estudiosos: como trabalhar os elementos culturais
utilizava a história de forma estratégica manipulando a memória nessa nova classe? Para responder a essa pergunta, a autora se di-
coletiva para submeter o povo à lógica da política do governo. reciona aos pcns, que defende a inclusão das diferentes culturas
Em 1969 o presidente Médici através do decreto lei 65814/69 e etnias, a exemplo da indígena, africana e europeia. Ela defende
condicionou o ensino de historia, que sem seu artigo 1º determina os textos curriculares como “elementos de políticas educacionais
a revisão dos textos para o ensino com o intuito de retirar tudo vinculadores de ideologias, de propostas culturais e pedagógicas
àquilo que possa causar aos jovens aversões aos americanos. com grande poder de penetração na realidade escolar”. Com isso,
Analisando o decreto temos a real ideia do motivo do decreto. é preciso estudar a nova LDB e os Parâmetros Curriculares para
Ele tem por finalidade retirar toda parte da historia que poderia compreender o papel da escola em relação aos saberes transmiti-
causar aversão aos povos americanos, que ficou evidenciado no dos. Outro autor citado na obra é André Chervel, que vem colocar
fato ocorrido quando o presidente americano Trumam convocou o a escola como um lugar de formar indivíduos e a cultura; de dinâ-
congresso historical association solicitando uma elaboração de um mica própria, “saberes, hábitos, valores, modos de pensar, estraté-
programa histórico federal de luta contra o comunismo, firmando gias de dominação e resistências”.
a presença americana em toda América latina. No Brasil democrático, consolidou-se, na primeira década do
A presença americana fica clara na política brasileira após o século XXI, uma rica diversidade de modos de pensar e ensinar
golpe de 1964, pode ser constatado na educação e na intensa pro- História. A realidade escolar brasileira é complexa, plural e desi-
paganda anticomunista e no conceito da presença e da bondade gual. Não há um ensino único, nem um conhecimento histórico ex-
americana no mundo, através de estudos de temas e conceitos de clusivo. A produção historiográfica e educacional, as publicações
interesse central do governo. sobre ensino e aprendizagem de História evidenciam uma diversi-
Entre os anos de 70 e 80 vivemos uma realidade contraditória dade de temas, problemas, abordagens e fontes relevantes para o
e rica com a queda da ditadura, houve uma troca de experiências Ensino de História, produzidos por diferentes agentes (professo-
e um intenso debate sobre o ensino, quando houve uma grande res, historiadores, educadores, produtores de materiais) em vários
mudança no currículo escolar em varias partes do país no processo espaços educativos. Em diálogo com experiências internacionais,
de redemocratização nos anos 80, tivemos greves de professores e o movimento de debates no campo do ensino de História no Bra-
lutas por eleições diretas que contribuíram muito para o ensino de sil demonstra avanços da área na busca de respostas às questões
história nos últimos anos. emergentes na sociedade.
A partir dos anos 90 o contexto neoliberal conservador deu Este texto tem por objetivo refletir sobre as mudanças ocor-
espaço para nova política educacional, a extinção das disciplinas ridas nos últimos anos, discutir os avanços da área em termos de
EMC, OSPB, EPB com a lei de diretrizes e bases da educação definição de conteúdos básicos para a formação do cidadão, ana-
propiciou que a historia retomasse seu espaço voltando a ter sua lisar as abordagens mais recorrentes no ensino de História, bem
cadeira na comunidade acadêmica como formadora de espíritos como identificar e explicitar algumas das propostas metodológicas
críticos nos jovens estudantes. e estratégias de ensino que vêm produzindo resultados exitosos na
aprendizagem de História por crianças e jovens. Isso requer discu-
A nova LDB, os PCNs e o Ensino de História tir sobre o lugar, o papel, os objetivos e a importância da História
na educação básica, mais especificamente, no ensino fundamental.
O presente texto vem tratar da crise educacional que vem Neste espaço, discutiremos a diversificação de abordagens
acontecendo na atualidade. A autora coloca três aspectos que estão teóricas e políticas, bem como perspectivas do ensino de História.
relacionados com a educação, e que de certa forma também são Os conflitos entre as diversas interpretações serão tratados como
influenciados por esta crise: a cultura, a memória e o ensino de his- uma riqueza do debate, própria ao espaço público. Trataremos de
tória. Para enfrentar o território da crise, o historiador propõe uma novos e velhos temas, tendo como referência documentos, suges-
temática: “a relação orgânica entre a educação, cultura, memória tões curriculares, textos, produtos de políticas públicas, movimen-
e ensino de história”. Na sociedade atual, a educação se tornou tos sociais e experiências de ensino e pesquisa. Portanto, abordare-
indispensável e passa a ser de direito universal dos homens. Ela é a mos algumas dimensões do ensino de História no Brasil no início
transmissão e preservação da experiência humana entendida como do século XXI, focalizando “novas necessidades e possibilidades
cultura. Assim, de acordo com a autora, a educação, a memória e a de conhecimento, sem perder de vista o que se conquistou na área
cultura complementam-se, uma depende da outra. ao longo das últimas décadas do século XX” (Silva e Fonseca,
Segundo Hanna Arendt, citada por Selma Fonseca, define a 2007, p.7).
educação como uma das atividades mais elementares e necessá- Os saberes históricos e a formação do cidadão em diferentes
rias da sociedade. Os pais têm a responsabilidade para com seus contextos sociais e políticos da nossa história, é possível identi-
filhos desde o nascimento. A vida dada a esta criança é a primeira ficar intencionalidades educativas (Araújo, 2000) explícitas nos
responsabilidade, vindo o cuidado com o seu desenvolvimento e a documentos das políticas públicas.
continuidade pela sua vida. A autora defende o conservadorismo, Após catorze anos da implantação LDB-Lei de Diretrizes
no sentido de preservação e proteção, e coloca a educação como o e Bases da Educação ― Lei n.9394/96 ―, é possível fazer um
ato de formar e socializar o indivíduo para que ele não destrua a si balanço crítico das imbricações da política educacional dos anos
mesmo nem ao mundo, assim, essa educação deve ter comunica- 1990 no contexto de políticas neoliberais, em tempos de globaliza-
ção, reprodução e transmissão. ção da economia e desenvolvimento de novas tecnologias.

Didatismo e Conhecimento 47
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O lugar e o papel ocupados pela História na educação básica sinados, apreendidos e avaliados. Como define Sacristán, o currí-
brasileira, na atualidade, derivam, pois, de transformações na po- culo é uma construção social, “um projeto seletivo de cultura, cul-
lítica educacional e no ensino de História, conquistadas a partir de tural, social, política e administrativamente condicionado” (1998,
lutas pela democracia nos anos 1980, da promulgação da Consti- p.34); portanto, uma opção cultural. Para Goodson, inspirado em
tuição Federal de 1988 e da implantação da nova LDB. Dentre as Hobsbawn, o currículo “(...) é sempre parte de uma tradição sele-
transformações que se tornaram realidade nos anos 1990, destaca- tiva, um perfeito exemplo de invenção da tradição”. (1995, p 27).
mos aquelas que consideramos avanços significativos para a área: A História ocupa um lugar estratégico na “partitura” do currí-
o fim das disciplinas EMC (Educação Moral e Cívica), OSPB (Or- culo da Educação básica, pois como conhecimento e prática social,
pressupõe movimento, contradição, um processo de permanente
ganização Social e Política) e EPB (Estudos dos Problemas Brasi-
re/construção, um campo de lutas. Um currículo de História é
leiros) nos diferentes níveis de ensino; as mudanças na formação sempre processo e produto de concepções, visões, interpretações,
de professores com o fim dos cursos superiores de Licenciatura escolhas de alguém ou de algum grupo em determinados lugares,
Curta em Estudos Sociais, que também foram, paulatinamente, tempos, circunstâncias. Assim, os conteúdos, os temas e os pro-
extintos. Em contrapartida, houve um fortalecimento dos cursos blemas de ensino de História — sejam aqueles selecionados por
superiores de História, sobretudo nas instituições públicas, e ainda formuladores das políticas públicas, pesquisadores, autores de li-
mudanças na política pública de livros didáticos. Além disso, res- vros e materiais da indústria editorial, sejam os construídos pelos
saltamos as experiências significativas e impactantes de reformas professores na experiência cotidiana da sala de aula — expressam
curriculares no âmbito dos governos municipais e estaduais demo- opções, revelam tensões, conflitos, acordos, consensos, aproxima-
cráticos ― em São Paulo e Minas Gerais nos anos 1980 e 1990, ções e distanciamentos; enfim, relações de poder.
por exemplo, ―, bem como o desenvolvimento de programas e Os conteúdos (o que ensinar), os saberes históricos seleciona-
projetos de formação docente nas diversas regiões do território dos e sugeridos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs),
nacional. implantados a partir de 1997, apontam uma organização curricu-
lar por eixos temáticos, desdobrados em subtemas. Para os quatro
As reformas curriculares, expressas nos debates e documen-
anos iniciais do Ensino fundamental, foi proposto o estudo de dois
tos produzidos nos governos democráticos nos níveis federal, es- eixos temáticos: I) História local e do cotidiano, subdividida em
taduais e municipais, são reveladoras de objetivos, posições polí- dois subitens: ‘localidade’ e ‘comunidades indígenas’; II) História
ticas e teóricas que configuram não apenas o papel formativo da das organizações populacionais, subdividida em ‘deslocamentos
História como disciplina escolar estratégica para a formação do populacionais’, ‘organizações e lutas de grupos sociais e étnicos’,
cidadão, mas também modos pensar, construir e manipular o co- e ‘organização histórica e temporal’. Para os anos finais do Ensi-
nhecimento histórico escolar. no fundamental, os PCNs propõem outros dois eixos temáticos: I)
Isso nos remete a algumas perguntas: Se tudo é história, por ‘História das relações sociais, da cultura e do trabalho’, subdividi-
que às escolas de educação básica são endereçados determinados da em ‘as relações sociais, a natureza e a terra’, e ‘as relações de
conteúdos específicos, selecionados, elaborados em diferentes lu- trabalho’; II) ‘História das representações e das relações de poder’,
gares de produção? Por que, nas diferentes realidades escolares, desdobrada também em dois subitens: ‘nações, povos, lutas, guer-
na construção curricular cotidiana, outros conhecimentos são sele- ras e revoluções’; ‘cidadania e cultura no mundo contemporâneo’.
cionados e ensinados? Como os currículos de História operam no Além disso, o documento curricular estabelece como temas trans-
versais Ética, Saúde, Meio Ambiente, Orientação Sexual, Plurali-
sentido de selecionar para quê, o quê e como ensinar em História?
dade Cultural, Trabalho e Consumo, demandas sociais emergentes.
As respostas a essas questões podem parecer simples e até A organização dos currículos de História por temas e proble-
óbvias. Sabemos que estão intimamente ligadas às nossas posi- mas é fruto do intenso debate curricular ocorrido no Brasil, nos
ções políticas, nossas escolhas teóricas e metodológicas. Isso nos anos 1980, em diálogo com experiências europeias. É exemplar,
remete a outras questões: O que fazem os professores de História nesse movimento, o debate ocorrido, no estado de São Paulo, em
quando ensinam História? Por que ensinam como ensinam? Quais torno da Proposta Curricular da SEE/CENP (Secretaria de Estado
os temas, as fontes, as metodologias, os materiais, os problemas da Educação/Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas)
que escolhem para fazer as mediações entre o passado e o pre- (Fonseca, 1993). Tal proposição constituía uma busca, uma res-
sente vivido por nós? Como nos relacionamos com o passado posta às criticas a estrutura curricular tradicional, que privilegia-
quando ensinamos História às crianças e aos jovens brasileiros? va a organização cronológica linear, baseada em fatos/ marcos da
Relembrando Jenkins, “(...) nenhum historiador consegue abarcar história europeia, integrados, quando possível, aos fatos/marcos
e assim recuperar a totalidade dos acontecimentos passados, por- da história da nação brasileira. Era, assim, uma resposta crítica
que o conteúdo desses acontecimentos é praticamente ilimitado”. ao “quadripartismo francês”, ao eurocentrismo tão bem analisado
pelo historiador Chesneaux (1995) e radicalmente incorporado no
“(...) nenhum relato consegue recuperar o passado tal qual era.”
Brasil, formatando (e engessando) currículos e livros didáticos. A
A História, para o autor, “está sempre fadada a ser um construc- opção por eixos temáticos representava uma insubordinação “ao
to pessoal, uma manifestação da perspectiva do historiador como império do fato”, “ponto de localização de significações e lugar
narrador... O passado que conhecemos é sempre condicionado por onde é entrevista a realização da História”, como bem analisou
nossas próprias visões, nosso próprio presente” (2005 p. 31-33). Carlos Vesentini em “A teia do fato”, (1997). Na referida obra,
Logo, a história ensinada é sempre fruto de uma seleção, ou como o autor nos alerta: “alguns fatos são difundidos, impondo-se no
atualmente se diz de um “recorte” temporal, histórico. As histórias conjunto do social antes da possibilidade de qualquer reflexão es-
são frutos de múltiplas leituras, interpretações de sujeitos históri- pecífica voltar-se para o seu exame” (p.19). Assim, a organização
cos situados socialmente. dos conteúdos por eixos temáticos, intensamente discutida a partir
Ao refletirmos sobre a definição de conteúdos escolares, não dos anos 1980, passou a ser um desafio teórico e metodológico,
podemos esquecer que o currículo, assim como a História, não é uma postura crítica ante as tramas da produção e difusão do co-
um mero conjunto neutro de conhecimentos escolares a serem en- nhecimento histórico.

Didatismo e Conhecimento 48
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O texto curricular dos PCNs (1997), ao propor um tema amplo aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação as “Diretrizes
para os dois últimos anos da primeira fase do ensino fundamental, Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Ra-
possibilitou a professores e alunos problematizar e compreender ciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Afri-
temas/dimensões da História do Brasil. Isso significou enfrentar cana”, bem como a Resolução nº 1 do CNE, de 7 de junho de 2004,
um velho problema em algumas realidades escolares, uma respos- que instituiu as Diretrizes. Essas proposições provocaram altera-
ta a uma questão que muito incomodava os educadores: o fato de ções na Lei Federal nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 ― Lei de
o aluno concluir essa fase da escolaridade sem ter contato com Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) –, com o acrés-
a história do Brasil. Os antigos programas de ensino de Estudos cimo de dois artigos referentes ao ensino de História: o “26-A”
Sociais, em geral, encerravam o ciclo dos quatro anos do então trata da obrigatoriedade do ensino da História e Cultura da África
ensino de 1º grau (hoje ensino fundamental) com o estudo da his- e Afro-Brasileira, e define “o que ensinar”, “o conteúdo programá-
tória regional, do município e/ou do estado (unidade da federação tico”, “resgatando” a importância do estudo da luta dos africanos e
em que vive o aluno), de forma estanque e fragmentada. Assim, no afro-brasileiros, da História e da cultura destes povos. O parágrafo
estado de Minas Gerais, por exemplo, as crianças que estudavam 2º estabelece que os conteúdos devem ser objeto de todas as disci-
seguindo o Programa de Estudos Sociais da Secretaria de Estado plinas, em especial, das disciplinas Educação Artística, Literatura
da Educação (1975) e os livros didáticos elaborados à semelhança Brasileira e História Brasileira. O artigo 79-B inclui no calendário
do Programa chegavam ao final da 4ª série, hoje 5º ano, sem ter o dia 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra”.
noções mínimas, básicas de história do Brasil. O mesmo ocorria Como a história é dinâmica, campo de lutas e práticas sociais, no-
com os estudos de Geografia. Ora, levando em conta que grande vas alterações foram feitas na legislação em decorrência das lutas
parte dos alunos brasileiros não ultrapassava, naquele período, os políticas, articuladas ao movimento acadêmico multicultural crí-
limites da 4ª ou 5ª série, devido aos elevados índices de evasão tico. Em 2008, a Lei Federal nº 11.645 alterou a Lei no 9.394, de
e repetência, muitos encerravam ou interrompiam a escolaridade 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de
sem conhecer aspectos significativos da História e da Geografia do janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação
Brasil. Aqueles que prosseguiam os estudos chegavam, em regra, nacional, para incluir, no currículo oficial da rede de ensino, a obri-
a então 5ª série (6º ano) sem uma base conceitual e temática das gatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indí-
disciplinas, sem conhecimentos mínimos de História e Geografia gena”. Foram feitas alterações e modificações no artigo “26-A” e
do Brasil. respectivos parágrafos, acrescentando a obrigatoriedade dos estu-
O estudo de temas e problemas da História do Brasil nos anos dos referentes à questão indígena, passando o texto a ter a seguinte
iniciais do ensino fundamental foi uma mudança curricular rele- redação: Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e
vante no seio de conquistas maiores: o fim das disciplinas “Estu- de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo
dos Sociais” e correlatas, tais como “Formação Social e Política, da história e cultura afro-brasileira e indígena. (Redação dada pela
Integração Social”; a separação das disciplinas História e Geogra- Lei nº 11.645, de 2008).
fia e, como decorrência, a produção e adoção de livros didáticos § 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo in-
específicos para cada uma das disciplinas nesta etapa de formação. cluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a
Essas medidas em âmbito nacional, que em muitos estados e mu- formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étni-
nicípios já estavam sendo realizadas desde o fim da ditadura, con- cos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta
tribuíram para o debate acerca do objeto de estudo e do papel da dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indí-
História para a formação das identidades e da cidadania desde os gena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacio-
primeiros anos de escolaridade. Nesse sentido, potencializaram-se nal, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e
as investigações no âmbito acadêmico, o repensar da formação de política, pertinentes à história do Brasil. (Redação dada pela Lei nº
professores e os investimentos em produção de livros e materiais 11.645, de 2008). Esse complemento refere-se ao conteúdo, uma
didáticos e paradidáticos voltados para a aprendizagem da Histó- vez que vários outros aspectos relativos à educação escolar indíge-
ria no âmbito da educação das crianças. Em relação ao papel dos na eram regulamentados. Pesquisas em desenvolvimento na rede
currículos de História na formação de cidadãos, outro movimento escolar de ensino público e privado (Paula, 2009; Simonini, 2010)
merece ser registrado: as demandas de grupos sociais e étnicos. têm evidenciado contradições e dificuldades dos professores em
Como é amplamente conhecido da sociedade brasileira, desde ministrar tais conteúdos. As razões teóricas, políticas e pedagógi-
os anos 1970, intensificaram-se entre nós, de modo particular, a cas narradas pelos professores são múltiplas e diversas. No entan-
mobilização de mulheres, negros e indígenas contra o racismo, os to, há pontos em comum. Primeiro, a lacuna existente na formação
preconceitos, a marginalização e as diversas práticas e formas de inicial. Grande parte dos cursos de Licenciatura em Pedagogia e
dominação e exclusão. Esses movimentos foram interpenetrando História, em 2008, ainda não preparava os professores para o es-
espaços por meio de lutas específicas no campo da cultura, da edu- tudo das temáticas no ensino fundamental. Somam-se a isso difi-
cação e da cidadania. Alcançaram vitórias expressivas no processo culdades para obtenção de materiais didáticos pertinentes. Logo,
constituinte na década de 1980 e, em decorrência da Nova Consti- mais um consenso foi produzido: a necessidade de ampliação de
tuição Federal de 1988, vários projetos de políticas públicas foram projetos de formação continuada para suprir lacunas teóricas e me-
disseminados, alguns específicos na área da cultura e da educação todológicas, além de revisão dos currículos das Licenciaturas e o
de afrodescendentes e indígenas. Em 2003, foi sancionada pelo incremento de livros e materiais didáticos no que concerne a essa
Presidente da República a Lei Federal nº 10.639, de 9 de janeiro problemática. Outras questões curriculares, novas necessidades e
de 2003, tornando obrigatória a inclusão da “História e Cultura também possibilidades educativas emergiram com a reorganização
Afro-Brasileira e Africana” nos conteúdos das disciplinas Artes, da estrutura e duração do ensino fundamental brasileiro. Em 2006,
História e Língua Portuguesa do ensino básico. Em 2004, foram o Governo Federal, por meio da Lei n.11.274/2006, alterou a re-

Didatismo e Conhecimento 49
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
dação dos artigos 29, 30, 32 e 87 da LDB, ampliando para nove dos significados dos currículos. No entanto, o professor não está
anos a duração do ensino fundamental, com matrícula obrigatória sozinho frente aos alunos e aos saberes. Nas interações, no entre-
a partir de 6 anos. O artigo 5º da Lei supracitada estabelece que cruzamento das relações dos sujeitos, saberes e práticas em que se
municípios, estados e o distrito federal terão prazo até 2010 para configuram determinadas culturas, os professores leem, interpre-
implantar o ensino fundamental de 9 anos. Desde então, passaram tam, traduzem, re/constroem propostas curriculares que lhes são
a serem discutidas novas diretrizes curriculares nacionais no âmbi- apresentadas, seja pelas instituições e prescrições administrativas,
to do Conselho Nacional de Educação (CNE), sendo que, em 9 de seja pelos livros didáticos, materiais e fontes, seja pelas demandas
julho de 2010, foi publicado o texto do Parecer e o Projeto de Re- da mídia, do mercado, da comunidade, das famílias e dos próprios
solução (Parecer CNE 7/2010) aprovado pelo CNE e homologa- alunos. Trata-se, pois, de um exercício complexo, um ato político,
do pelo Ministro de Estado da Educação. As Diretrizes reiteram a cultural e pedagógico. No Brasil, os debates sobre ensino de His-
configuração da educação básica em três etapas: educação infantil; tória, desde os anos de luta contra a ditadura e mesmo de inquie-
o ensino fundamental obrigatório e gratuito, com duração de nove tações e movimentos anteriores, contribuíram para um alargamen-
anos, organizado e tratado em duas fases: a dos 5 anos iniciais e a to das concepções sobre esse campo de pensamento e trabalho.
dos quatro anos finais; e o ensino médio, com duração mínima de A despeito da força e do poder diretivo dos currículos prescritos,
3 anos. Na estrutura curricular que deve integrar a base comum na- precisamos atentar para o fato de que as disciplinas não são meros
cional, os ensinos de História e Geografia estão contemplados no espaços de vulgarização de saberes, nem tampouco de adaptação,
Item C do artigo 14, que estabelece como componente curricular: transposição das ciências de referência, mas produtos dos espa-
“o conhecimento do mundo físico, natural, da realidade social e ços, das culturas escolares. Os professores têm autonomia ante as
política, especialmente do Brasil, incluindo-se o estudo da História demandas do Estado, da sociedade e dos meios de comunicação;
e das Culturas Afro-brasileira e Indígena (Parecer CNE 7/2010, assim, questionam, criticam, subvertem os saberes e as práticas
p.66.). Essa configuração reafirma diretrizes anteriores recorrentes no cotidiano escolar. Entre os currículos prescritos e os vividos
na produção curricular e historiográfica escolar. Dentre os vários nas aulas de História, há diversas mediações entre os sujeitos (alu-
aspectos e ângulos, objetos das Diretrizes e merecedores de cuida- nos e professores), saberes de diferentes fontes (livros didáticos,
dosa reflexão da área de ensino de História, destacamos: o “foco fontes históricas, imprensa, textos, filmes, literatura, documentos
central na alfabetização, ao longo dos três primeiros anos”, como e outros), práticas institucionais, burocráticas e comunitárias em
um dos objetivos da formação básica da criança, definido no Item contextos muito diferenciados. Nessa trama relacional, é impres-
II, artigo 24 (2010, p.69). Esse “privilégio” da alfabetização não cindível a valorização do papel do professor, de sua formação, au-
quer dizer que não se deva ensinar História, Geografia e Ciências, tonomia e das condições do trabalho docente. A diversificação das
mas que, além da própria alfabetização nessas áreas, o trabalho abordagens: a História nos livros didáticos.
nelas desenvolvidos pode também, ao mesmo tempo em que se Com o objetivo de refletir sobre as abordagens recorrentes na
volta para o ensino de História, ser uma atividade fundamental no história ensinada, optamos pela análise, ainda que sintética, do
processo de desenvolvimento da linguagem oral e escrita. Exem- principal veículo de difusão da história na sociedade brasileira
plo: podemos realizar uma aula de leitura e interpretação de texto contemporânea: o livro didático destinado ao ensino fundamental.
partindo de um texto histórico, assim como trabalhar com a pro- Certamente, uma das políticas públicas mais antigas e exitosas do
dução de textos a partir de um tema da história. A leitura propicia Estado brasileiro é o Programa Nacional do Livro Didático
a aprendizagem em História, é inerente à atividade de construção (PNLD), que prevê a aquisição e a distribuição gratuita de livros
de saberes históricos. para os alunos da rede pública de ensino. Desde o início dos anos
O “foco na alfabetização” não pode perder de vista as diversas 2000, em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais
dimensões que o processo envolve, pois, como nos ensinou Paulo de 1997, o PNLD passou a exigir, nos Editais de Livros Didáticos
Freire, ler é ler o mundo (Freire, 2001); logo, não podemos apren- para os anos iniciais, a inscrição, avaliação e aquisição de livros
der a ler as palavras sem a busca da compreensão do mundo, da didáticos distintos para as duas disciplinas: História e Geografia.
história, da geografia, das experiências humanas construídas nos Isso impactou de forma positiva o ensino de História. Bastante co-
diversos tempos e lugares. Isto requer de nós outra concepção de nhecidos no meio educacional, os currículos prescritos pelas secre-
aprendizagem da Língua Portuguesa e da História. À pergunta de tarias estaduais e municipais de diversas regiões do Brasil, a partir
muitos professores ― “é possível ensinar História sem antes al- dos anos 1970, pós-Lei 5.692/71, contribuíram para a diluição dos
fabetizar?” ―, respondemos com outra questão e uma assertiva: objetos de ensino de História e Geografia, adicionadas com forte
“é possível alfabetizar sem a História”? (Fonseca, 2009). É possí- “tempero” de moral e civismo na fusão “Estudos Sociais”, apre-
vel, sim, alfabetizar as crianças, ensinando e aprendendo História. sentada nos livros didáticos. O perfil e o baixo padrão de qualidade
Aprender história é ler e compreender o mundo em que vivemos. dos livros didáticos de Estudos Sociais, adotados e distribuídos
Portanto, se ao ensino de História cabe um papel educativo, forma- pelo PNLD para os alunos das séries iniciais das escolas públicas
tivo, cultural e político e sua relação com a construção da cidada- brasileiras nesse período histórico, foram registrados num impor-
nia perpassa diferentes espaços de produção de saberes históricos, tante trabalho realizado pelo MEC/FAE (Fundação de Assistência
é essencial localizarmos no campo da História questões/temas/pro- ao Educando) em 1993. Em meio a denúncias de deficiências do
blemas considerados relevantes para a formação da consciência PNLD (execução, distribuição) e de problemas de qualidade das
histórica dos alunos. Isso requer um diálogo crítico com diferentes publicações ― identificados por educadores e pesquisadores bra-
sujeitos, lugares, saberes e práticas; entre a multiplicidade de cul- sileiros e estrangeiros ―, o MEC criou, em 1993, um grupo de
turas, etnias, sociedades. Ressalto aqui, concordando com Sacris- trabalho formado por especialistas das diversas áreas, indicados
tán (1998), o papel do professor, no caso de História, como um por diferentes entidades, com o objetivo de “definir parâmetros
agente ativo, decisivo na seleção e concretização dos conteúdos e para avaliar a qualidade e adequação dos conteúdos programáticos

Didatismo e Conhecimento 50
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
e os aspectos pedagógico-metodológicos dos livros destinados às ria revelam que, nos anos iniciais, há uma diversificação das abor-
séries iniciais do 1º grau, usualmente adotados no ensino de Portu- dagens com a presença mais forte da história temática; nos anos
guês, Matemática, Ciências, Estudos Sociais” (Brasil, 1994). Den- finais do ensino fundamental, também estão presentes várias ten-
tão, as avaliações periódicas da produção didática pelo MEC têm dências, mas a perspectiva curricular dominante legitima a con-
evidenciado melhoria do padrão qualitativo dos livros didáticos cepção didática da História chamada “integrada”, pelo critério
(não apenas de História), conforme demonstrado não só pelos temporal, linear, com base na cronologia da História europeia, ar-
Guias do Livro Didático publicados pelo MEC com os resultados ticulada, quando possível, à História do Brasil, América e África.
das avaliações, mas também por estudos e pesquisas acadêmicas Evidencia, desse modo, a força dessa concepção de História e de
(Oliveira e Stamatto, 2007). Nas Fichas de Avaliação do PNLD organização curricular em nossas escolas, no contexto de revisão e
2010 ― História, há um conjunto de critérios avaliativos que per- críticas historiográficas e pedagógicas. O conjunto dos autores/
mitem diagnosticar as abordagens e a linguagem da obra, as poten- editores/ obras que elege a história temática é minoritário, a des-
cialidades de desenvolvimento de capacidades e competências de peito de sugestões e diretrizes dos PCNs e de propostas curricula-
leitura, vocabulário, compreensão de gêneros textuais e produção res institucionais de vários estados e municípios. Logo, esses da-
de textos. Enfim, são avaliadas as possibilidades propiciadas pelos dos demonstram também que a opção/concepção dominante entre
livros de História (anos iniciais) de aprendizagem histórica rela- os professores de História que atuam neste nível de ensino não se
cionada ao domínio da leitura e escrita da língua portuguesa (2009, orienta pelo critério “temático”, mas pelo “cronológico”, seja na
p. 327). Portanto, os PCNs e as Avaliações dos Livros Didáticos versão “integrada”, seja na versão “intercalada” da História Geral
contribuíram decisivamente para a construção de um novo perfil das civilizações, articulada à História do Brasil, da América e da
de livros didáticos de História. Nos livros de História para os anos/ África. Para não sermos reducionistas nessa análise, lembramos
séries iniciais do ensino fundamental avaliados pelo PNLD – 2010, que a produção didática é fruto de um diálogo permanente entre
a comissão identificou quatro tendências, abordagens e/ou modos distintos espaços e modos de construção do conhecimento históri-
de organização dos conteúdos históricos: espacial (família, escola, co: a Universidade, que produz a historiografia e também forma os
bairro, campo/cidade, município, estado, país); temporal (unida- professores; os pesquisadores e os autores de livros; as escolas,
des em ordem cronológica); temática (temas ou eixos temáticos) e que também produzem saberes, culturas e práticas educativas; os
especial (por meio do elemento ficcional: histórias e personagens diferentes níveis e instâncias do Estado que, por meio de especia-
ficcionais). A maior parte das coleções e livros regionais opta pela listas, formulam currículos e implementam políticas públicas re-
História temática, seguida dos critérios de organização “tempo- guladoras e indutoras; os diversos espaços e movimentos sociais
ral”, “espacial” e, em menor escala, “ficcional”. Nos livros de His- abordados anteriormente; a indústria cultural, que compreende as
tória destinados aos anos finais do ensino fundamental, a avaliação editoras e os variados e poderosos meios de comunicação de mas-
publicada no Guia 2008 evidenciou uma tendência/abordagem sa. Certamente esse processo exige algumas reflexões: Por que os
histórica que se consolida na atualidade, nesse segmento. Segundo autores de obras para os anos iniciais elegem com mais frequência
o Guia 2008, foi possível agrupar um conjunto de 19 coleções “em a história temática? Por que a abordagem cronológica é a mais
quatro blocos, de acordo com a organização de conteúdos: história adotada nos anos finais? Que dificuldades enfrentam os professo-
temática (4 coleções); história integrada (7); história intercalada res ao lidar com as distintas abordagens? Como são formados os
(7) e história convencional (1 coleção)”. Os avaliadores concluí- professores nos cursos superiores de Pedagogia para ensinar His-
ram “que a maior parte das coleções inscritas neste PNLD-2008 tória nos anos iniciais? E nos cursos superiores de História, para
foi elaborada seguindo a organização curricular dos conteúdos que atuar nos anos finais do ensino fundamental e médio? Quais as
aborda, concomitantemente, as Histórias da América, do Brasil e relações entre as escolhas curriculares e as condições de trabalho
História Geral, sendo que metade, por meio da abordagem deno- nas escolas? Novas necessidades? Novas possibilidades de conhe-
minada “História Integrada” e a outra metade pela “História Inter- cimento? No debate, na busca de respostas, de novas possibilida-
calada”, o que permite a conclusão de que essa é a tendência atual des de conhecimento, nesse universo de ampliação de temas, pro-
da área “(2007, p.13)”. Sobre a avaliação realizada em 2009/2010, blemas e abordagens, livros e materiais didáticos, devemos estar
o Guia de Livros Didáticos PNLD 2011 ― História nos anos finais atentos para o fato de que ninguém poderá aprender, nem ensinar
do ensino fundamental ― informa que foram avaliadas 25 (vinte e tudo de tudo. O trabalho de selecionar, eleger é uma exigência per-
cinco) coleções, sendo 16 (dezesseis) aprovadas e 9 (nove) repro- manente. Um currículo de História é sempre fruto de uma seleção
vadas. Quanto às abordagens norteadoras ou à perspectiva curricu- cultural. Metodologias e práticas de ensino: desafios permanentes.
lar dominante no universo de coleções analisadas, a Comissão No final da primeira década do século XXI, pesquisadores,
concluiu que podem ser agrupadas em dois blocos: 94% das cole- formadores, gestores e professores têm uma clara compreensão de
ções aprovadas priorizam a chamada “História Integrada” e 6% a que a escola constitui um espaço complexo de debates, fontes his-
“História Temática”. Segundo o Guia, “por História Integrada tóricas e diferentes propostas de saber. A escola constitui um espa-
identificamos as coleções cujo agrupamento pauta-se pela evoca- ço democrático, onde diversas possibilidades de ensinar e aprender
ção da cronologia de base europeia, integrando-a, quando possível, estão presentes. Nesse sentido, a concepção de História como dis-
à abordagem de temas relativos à História brasileira, africana e ciplina formativa aponta para a construção de novas práticas e pos-
americana [...]. A organização em torno de uma proposta de Histó- sibilidades metodológicas que potencializam, indicam outras rela-
ria temática ocorre quando os volumes são apresentados não em ções educativas no ensino de História desde o processo de alfabe-
função de uma cronologia linear, mas por eixos temáticos que pro- tização da criança nos primeiros anos de escolaridade. A História,
blematizam as permanências e transformações temporais, sem, como componente curricular, não é mais uma instância burocrática
contudo, ignorar a orientação temporal assentada na cronologia” e repetitiva de soluções prévias elaboradas por especialistas. As
(2010, p.17). Portanto, as avaliações dos livros didáticos de Histó- respostas para as necessidades são formuladas de muitas maneiras,

Didatismo e Conhecimento 51
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
a partir das concepções de História, escola, ensino e mundo de - O trabalho pedagógico de construção de conceitos nas au-
cada professor, autor, debatedor, pesquisador. Nesse repensar, duas las de História. Para Schmidt e Cainelli, esse trabalho no ensino
questões são indissociáveis: o que ensinar e como ensinar, como de História requer respeito pelo conhecimento e pelo conjunto de
se depreende, por exemplo, da leitura de textos curriculares, obras representações que o aluno traz para a sala de aula. Tendo como
didáticas e didático-acadêmicas de ampla circulação na área, tais referência suas representações, “o aluno tem a possibilidade de
como Fonseca, 2003; Silva e Fonseca, 2007; Bittencourt, 2003, efetivar suas próprias ideias sobre os fenômenos do mundo social”
2004; Schmidt e Cainelli, 2004, entre outros. Vejamos, então, al- (2004 p.61-62). Com base em Moniot (1993), as autoras denomi-
gumas das propostas metodológicas e estratégias de ensino que nam os conceitos de possibilidades cognitivas. Alguns conceitos
vêm se consolidando entre nós e produzindo resultados exitosos são considerados chaves para o processo de compreensão da His-
na aprendizagem de História por crianças e jovens. tória, tais como tempo histórico e espaço, sociedade e relações so-
- O alargamento do campo da história ensinada. Nas várias ciais, trabalho e cultura. Como possibilidades cognitivas, devem
formas de organização curricular, é possível identificar a amplia- ser desenvolvidos desde os primeiros anos de escolarização. Ex-
ção do universo de temas, problemas estudados e de materiais/fon- periências significativas têm sido realizadas no cotidiano escolar
tes utilizadas no ensino de História. envolvendo a história de vida da criança, a história local, a história
- A pluralidade de leituras acessíveis às crianças e jovens. Ver- oral, documentos e objetos biográficos da criança, da família e da
sões da história que eram recorrentes na historiografia debatida e comunidade.
ensinada na Universidade têm sido, cada vez mais, incorporadas - A educação patrimonial. O trabalho pedagógico com os di-
à história ensinada na educação básica, por meio de textos didáti- ferentes lugares de memória (museus, arquivos, bibliotecas, mo-
cos e paradidáticos, de revistas, jornais de História destinados ao numentos, objetos, sítios históricos ou arqueológicos, paisagens,
grande público, filmes e outros materiais de ampla divulgação. A parques ou áreas de proteção ambiental, centros históricos urbanos
história única, verdade absoluta que privilegia alguns heróis, mitos ou comunidades rurais) e com as manifestações populares (as can-
e fatos da memória oficial, é combatida e contraposta por meio tigas, o folclore, as religiões, os hábitos e costumes, os modos de
de outras leituras, fontes e versões que enfatizam a história como falar, de vestir) pode contribuir para o desenvolvimento do respei-
uma construção. Logo, múltiplas leituras podem ser mobilizadas e to à diversidade, à multiplicidade de manifestações culturais. Fo-
confrontadas nas aulas de História. calizar, desde os primeiros anos de escolaridade, os elementos que
- As práticas interdisciplinares. O trabalho pedagógico por compõem a riqueza e a diversidade cultural dos diferentes grupos
meio de projetos de ensino que articulem temas históricos aos étnicos que formaram, fizeram a história do nosso país certamente
demais componentes curriculares têm se configurado, na prática, propicia o desenvolvimento da tolerância, da valorização das dife-
como possibilidades exitosas de aprendizagem e construção de sa- rentes culturas, sem distinguir, hierarquizar ou discriminar umas
beres, valores, habilidades, de modo especial nos primeiros anos como melhores do que outras. Assim, consideramos a educação
de escolaridade. Bittencourt reconhece a importância da interdis- patrimonial e histórica como parte do processo de alfabetização,
ciplinaridade, da compreensão do mundo em sua complexidade, pois possibilita leituras e a compreensão do mundo, bem como de
com as articulações inerentes entre a vida social e a natureza física trajetórias temporais e históricas.
e biológica... No entanto, nos alerta para a necessidade de “garantir - A incorporação e diversificação de diferentes fontes, lingua-
a preservação de um conhecimento escolar sem superficialidade, gens e artefatos da cultura contemporânea no processo de ensi-
que aborde temas interdisciplinares em profundidade. Cada disci- no e aprendizagem. Conforme já foi explicitado anteriormente, o
plina tem uma contribuição específica [...], o que exige do docente professor, ao ensinar História, incorpora as noções transmitidas
um aprofundamento do seu campo de conhecimento específico e no processo de socialização da criança, no mundo vivido fora da
ao mesmo tempo desencadeia um trabalho metodológico conjun- escola, na família, no trabalho, nos espaços de lazer, nos diversos
to” (2004, p.256). Tarefa complexa, que requer envolvimento indi- ambientes sociais e educativos, etc. A formação do aluno/cidadão
vidual e coletivo dos diferentes agentes educativos. se processa ao longo da vida, nos diversos espaços, entre eles a es-
- A produção de saberes históricos na sala de aula por meio cola. Logo, devemos considerar como fontes do ensino de História
de projetos. Publicações e apresentações expõem experiências di- todos os veículos, materiais, vozes, indícios que contribuem para a
dáticas bem sucedidas, em escolas de diferentes lugares do Brasil, produção e difusão do conhecimento, responsáveis pela formação
que articulam a pesquisa ao ensino, ou que têm como pressuposto do pensamento crítico: os meios de comunicação de massa (rádio,
do ensino a pesquisa. O desafio, em muitas realidades, permanece TV, imprensa em geral), a internet e os espaços virtuais, a literatu-
o mesmo apontado por nós no final dos anos 1980 e início dos ra, o cinema, fontes orais, monumentos, museus, arquivos, objetos,
anos 1990: não banalizar o conceito de “pesquisa”, confundido poesias e canções, além de documentos impressos e textuais e das
muitas vezes com “cópia” de textos produzidos por outros, antes fontes iconográficas.
(nos anos 1980, por exemplo) capturados em enciclopédias e li- Os livros didáticos e paradidáticos como fontes, suportes de
vros e, na atualidade, em sites que disponibilizam “trabalhos es- trabalho, também propiciam o acesso de alunos e professores à
colares” prontos sobre diversos assuntos. Mudaram-se as fontes, compreensão desse universo de linguagens. Incorporando diferen-
os recursos tecnológicos. Mas o procedimento permanece. Sem tes linguagens ao processo de ensino de História, reconhecemos
incorrer em generalizações, às vezes, o único trabalho do aluno não só a estreita ligação entre os saberes escolares e a vida social,
(da educação básica à universidade) é imprimir o texto e entregar mas também a necessidade de (re) construirmos o nosso conceito
ao professor. O exercício de produção, os projetos de trabalho que de ensino e aprendizagem. As metodologias propostas para o ensi-
envolvem pesquisa requerem orientação, acompanhamento, dis- no de História, na atualidade, exigem uma permanente atualização,
cussão e avaliação em todas as fases, desde a problematização até investigação e incorporação de diferentes fontes, e respeito às es-
a publicização dos resultados. pecificidades de cada uma delas.

Didatismo e Conhecimento 52
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Assim, reiteramos posições anteriormente assumidas. Em pri- A formação superior para o trabalho em sala de aula.
meiro lugar: pensar os currículos prescritos de História implica
auscultar os currículos vividos, as culturas escolares, os saberes, Para situarmos o tempo e o espaço dos quais estamos falando,
as concepções, as narrativas de professores, crianças e jovens, os recorremos às análises de Reis (2002) sobre a globalização “como
livros e materiais. metáfora da perplexidade” e os processos geoeconômicos. Segun-
A sala de aula é por excelência, um espaço plural, coletivo, o do ele, estamos perante tendências e contra tendências e tempora-
palco no qual professores e alunos/atores/sujeitos vivem, apren- lidades diversas.
dem, ensinam, relacionam-se uns com os outros, com o mundo, Assim, espaço (lugares = identidade, relações sociais e histó-
com os saberes. Ali eles se expressam, se expõem, se revelam, se ria) e tempo (temporalidades) se cruzam.
colocam por inteiro, na totalidade. Objetividade e subjetividade, Nesse contexto, declara o autor, insistimos na convicção de
corpo e mente, razão e sensibilidade, o bio/psico/social em ação. que a análise das tensões entre mobilidades e localizações não
Na sala de aula, o professor re/constrói sua bio/grafia, sua história, pode ser remetida para a busca das duas faces de uma mesma
sua trajetória, sua experiência pessoal e profissional. Espaço de moeda, o que nos conduz a uma visão apenas dialética. O mais
aprender e ensinar, logo, um espaço, um campo de relações. importante, reitera, é a procura das singularidades. A globalização
Nesse cenário de construção de experiências, de construção e a localização são processos conflituais e, até, potencialmente in-
de identidades, capturamos, em lugares diferentes, vozes de duas dependentes. Ambos, mas especialmente a localização, são consti-
professoras que nos falam muito: “Eu sei o conteúdo, mas não sei tutivos de trajetórias inesperadas (Reis, 2002, p. 106).
dar aulas!”, Para ampliar a compreensão do cenário, recorremos à leitura
“Eu gosto de ensinar, mas me falta conteúdo!”. A primeira é de Bhabha (2005, p. 19) sobre o nosso tempo e lugar:
graduada em História, professora dos anos finais do ensino funda- (...) nossa existência hoje é marcada por uma tenebrosa sensa-
mental em escolas públicas e privadas; a segunda é professora dos ção de sobrevivência, de viver nas fronteiras do “presente”... En-
anos iniciais do ensino fundamental em uma escola pública. contramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se
Essas lastimáveis incoerências podem suscitar diversas inda- cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade,
gações acerca das condições de formação e dos seus impactos no passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão.
trabalho do (a) professor (a), muitas das quais amplamente investi- Concordamos com esses autores: vivemos (e sentimos isso no
gadas e conhecidas no meio escolar e acadêmico. Mas, sobretudo, cotidiano) a emergência dos interstícios, sobreposições, desloca-
as duas frases nos incitam a pensar, não apenas no que “falta”,
mentos, mobilidades, tendências e contratendências. Preocupados
no “não saber”, mas sobre “quem são elas (es)”, as(os) professo-
com a formação e prática do professor, servimo-nos de uma das
ras(es), o que “sabem”, o que “fazem” e “como fazem”, como e o
perguntas de Bhabha (2005, p. 20): “Como se formam sujeitos nos
que aprenderam em seus percursos formativos. Como se relacio-
‘entre lugares’, nos excedentes das partes da diferença?”.
nam essas dimensões constitutivas do oficio do professor?
Ao defendermos, no ensino de História – reconhecidamente
Não sendo possível, neste espaço textual, abordar todos es-
um lugar de fronteira –, as relações entre sujeitos, saberes e práti-
ses problemas, apresentamos algumas reflexões, em diálogo com
cas, não estamos pensando apenas na pesquisa sobre a formação
outras investigações, a respeito de resultados de estudos desenvol-
vidos em grupo de pesquisa colaborativo que reúne professores docente, mas, sobretudo, nas relações entre a formação, a pes-
formadores em cursos de licenciatura, graduandos, pós-graduan- quisa, os saberes e as práticas em sala de aula. Estamos ousando
dos e professores da educação básica. O objeto central do grupo pensar nas relações que se estabelecem na sala de aula. A nossa
é a investigação “Formação docente, saberes e práticas de ensino opção é caminhar na intersecção, dialogando com os dois campos:
de História”. Educação e História. A formação e a prática docente serão discu-
No que concerne às relações entre sujeitos, saberes e práticas tidas aqui intimamente relacionadas ao conceito de profissionali-
nos processos formativos e na dinâmica do processo de ensino e zação, que, por sua vez, envolve, entre outros aspectos, condições
aprendizagem. Buscamos compreender os processos pelos quais de trabalho, carreira regulamentada e formação. Logo, inspirados
os sujeitos (formadores e formandos, professores/alunos) se apro- em Bhabha, ousaremos pensar a formação, os saberes e as práticas
priam dos saberes (docentes, escolares, acadêmicos) e práticas e nos “entre lugares”, articulando passado e presente, nas fronteiras
os reconstroem e como a formação (diferentes modalidades, ní- da experiência do ensino e da pesquisa.
veis; diferentes tempos e espaços) repercute nas ações educativas, Partilhamos as concepções de formação docente, amplamente
na constituição dos saberes e nas (re) configurações curriculares defendidas nos cenários nacional e internacional, como processo
em diversos níveis de ensino. Questionamos: Como se dão essas educativo que se desenvolve ao longo da vida dos sujeitos e trans-
relações? cende os limites da escolaridade formal – logo, não se inicia nem
Como essas relações entre sujeitos, saberes e práticas se confi- termina na educação superior (nos cursos de graduação, pós-gra-
guram e impactam o trabalho do professor na sala de aula? duação e aprimoramento). Processual, permanente, como o pro-
Somos sujeitos enredados em um trabalho coletivo de ensi- cesso de aprender e ensinar, desenvolve-se na experiência cotidia-
no e pesquisa em territórios de formação de professores. Concor- na, em diferentes tempos e espaços educativos, como nos espaços
damos com Burke (2003, p. 18), para quem, quando produzimos de lazer, teatros, cinemas e meios de comunicação, em diferentes
conhecimento e o situamos socialmente, devemos reconhecer que lugares de memória, museus, e bibliotecas, em igrejas e sindicatos
“alguns dos [nossos] vieses, resultados de classe, gênero, nação e nos espaços e atividades formais e informais.
e geração, sem dúvida ficarão logo aparentes”. Logo, esta narra- No exercício da profissão, na prática, na experiência da sala
tiva contém as marcas de uma experiência pessoal, profissional de aula, o professor também aprende e se forma. A formação é per-
e acadêmica tecida em um determinado lugar social de produção manente e complexa. A identidade profissional docente é definida
individual e coletiva. social e historicamente. Como é bastante óbvio, não se nasce pro-

Didatismo e Conhecimento 53
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
fessor; torna-se professor. É um processo inacabado. O “ser pro- truído socialmente pela desvalorização do trabalho e da profissão
fessor” é construído na história de vida, no terreno da experiência do professor, no cotidiano das famílias, no mercado de trabalho,
pessoal e coletiva em determinados espaços e tempos históricos em diferentes espaços de vivência e na própria universidade. Os
(Fonseca, 1997; Fonseca, Silva, 2007; Fonseca, Rocha, 2009; Vas- formadores dessas áreas não são valorizados nem são considera-
concelos, 2000). dos pesquisadores por muitos. Quantos alunos da universidade es-
Os cursos superiores de licenciatura são espaços de formação tranham o fato de nós, da área do ensino, desenvolvermos projetos
profissional, de aprendizagem da profissão, que possibilitam a arti- de pesquisas aprovados em agências externas à instituição! São
culação das atividades de ensino, pesquisa e extensão e as práticas também comuns relatos de colegas sobre a dificuldade de alguns
pedagógicas. cursos para alocarem, entre os professores (que compõem o qua-
Como formadores de professores e pesquisadores da área do dro docente), as disciplinas de Estágio e Prática de Ensino. Isto
ensino e aprendizagem de História e professores de Metodologia e geralmente ocorre em instituições onde não há contratações de
Prática de Ensino de História, compartilhamos uma situação para professores específicos e qualificados na área e expressa, a nosso
uns dual, interdependente, para outros ambígua, paradoxal, para ver, mais uma faceta do desprestígio da formação do professor no
muitos complexa, pois, como ponderamos anteriormente, situamo- interior dos próprios cursos superiores que têm, na universidade, a
nos em uma região de fronteira, território de disputa de poder no missão de formar professores.
interior da(s) instituição(ões), do(s) curso(s) superior(es) e do pró- Pesquisas sobre os currículos das licenciaturas que formam
prio meio acadêmico, nos espaços onde se discute a formação do- docentes do ensino fundamental evidenciam esses problemas, re-
cente. Em geral, somos originários de áreas específicas de bacha- correntes nas diversas áreas e não apenas em História, como mos-
relado/licenciatura, especializamo-nos em pós-graduação em edu- tram os resultados da pesquisa, realizada pelo Departamento de
cação, ensino, e nossas pesquisas têm como objeto/foco problemas Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, com apoio
do ensino e da aprendizagem. Na estrutura universitária brasileira, da Fundação Victor Civita, Formação de professores para o ensino
sobretudo nas universidades públicas, estamos localizados ou so- fundamental: instituições formadoras e seus currículos, coorde-
mos alocados (a palavra é esta) em departamentos e/ou faculdades/ nada por Bernadete Gatti e Marina Muniz R. Nunes (2008). Nos
institutos de educação, programas de pós-graduação e, também, currículos das licenciaturas analisadas.
em menor número, em áreas específicas. Essa não é uma situação - Língua Portuguesa, Matemática e Ciências Biológicas –,
simples e “natural”, como alguns acreditam; em alguns casos é
destacam-se, entre outras, as seguintes características:
fonte permanente de conflitos e disputas (nem sempre amigáveis).
Predomina nos currículos a formação disciplinar específica,
Pesquisas indicam que a maior parte da produção científica e
em detrimento da formação de professores para essas áreas do co-
da pesquisa acadêmica sobre ensino e aprendizagem das áreas es-
nhecimento.
pecíficas desenvolvida nas universidades se realiza nos programas
[...]
de pós-graduação em educação. Em Minas Gerais, por exemplo,
– Na maior parte dos ementários analisados, não foi obser-
de um total de 43 dissertações e teses que tratam do ensino de
vada uma articulação entre as disciplinas de formação específica
História defendidas no período de 1993-2008 nas instituições de
(conteúdos da área disciplinar) e as de formação pedagógica (con-
ensino superior (IES) localizadas no Estado apenas duas foram
produzidas em programas de pós-graduação específicos (Fonse- teúdos da docência).
ca, Rocha, Silva Junior, 2009). Nos espaços acadêmicos, como as – Saberes relacionados às tecnologias no ensino estão prati-
associações científicas, esses profissionais convivem e se movi- camente ausentes.
mentam (alguns em terrenos movediços) entre dois lugares institu- [...]
cionalizados (associações e/ou sociedades da área de Educação e – As disciplinas da categoria conhecimentos relativos aos sis-
demais áreas básicas, como, Biologia, História, Matemática, etc.). temas educacionais registram percentuais inexpressivos de presen-
Há um terceiro lugar, espaço de afirmação das identidades das ça em todas as licenciaturas analisadas. [...]. (Gatti, Barreto, 2009,
áreas, ou seja, as associações e sociedades específicas das áreas p. 153-154).
do ensino de História, Matemática, Biologia, e assim por diante. Esses problemas impactam de forma significativa o processo
Os lugares, ou como nos sugere Bhabha, os entre lugares de construção dos saberes e das práticas docentes. Pesquisas indi-
que os formadores de professores ocupam nas estruturas institu- cam que a realidade dos cursos superiores de Licenciatura em His-
cionais são evidências dos modos de produção de determinadas tória é similar às das demais licenciaturas (Mesquita, 1999; Couto,
concepções, crenças, culturas e práticas de formação de profes- 2004; Moura, 2005; Rassi, 2006; Silva Júnior, 2007). A predomi-
sores formadores e de futuros professores. É recorrente, nos cur- nância dos saberes específicos, a desarticulação, a inexpressiva
sos de licenciatura específicos – em História, por exemplo –, a presença dos chamados conteúdos pedagógicos, de estudos rela-
crença de que, para ser (bom) professor de História, basta saber tivos ao conhecimento da escola e dos sistemas educacionais são
História, ou seja, o importante é o domínio do conteúdo da disci- visíveis nas estruturas “grades curriculares”, no quadro de horários
plina. Os saberes pedagógicos são considerados complementares, e na carga horária das disciplinas disponíveis nos sites dos cur-
de segunda ordem, de menor importância na hierarquia disciplinar sos das maiores universidades do País. A pesquisa de Rodrigues
do currículo acadêmico. Muitos professores da chamada “área pe- (2010) sobre os saberes e as práticas de professores iniciantes de
dagógica” ou de “ensino” sentem o peso do descaso dos alunos História apresenta dados e narrativas que confirmam essa realida-
em relação à obrigatoriedade de cursar as disciplinas pedagógicas. de, e, mais do que isso, suscitam-nos indagações sobre o trabalho
Para exemplificar, relembramos vários registros de professores realizado em sala de aula, como exemplificado pela frase angus-
que ouviram seus graduandos/futuros professores denominarem tiada de uma professora iniciante de História (um a cinco anos de
essas disciplinas como “perfumarias”. Esse menosprezo é cons- magistério): “Eu sei o conteúdo, mas não sei dar aulas!”.

Didatismo e Conhecimento 54
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Nos cursos de licenciatura em Pedagogia, o outro lado do sas é o caráter abstrato, genérico, da formação. A escola e a sala de
“entre”, nós, formadores de professores para a educação infantil aula são elementos “quase ausentes” ou são apresentados de forma
e anos iniciais do ensino fundamental, vivenciamos (nós, forma- descolada da realidade educacional brasileira. Sentimos que paira
dores da área do ensino de História) uma cultura acadêmica que no ambiente do curso um discurso generalista, vago, desprovido
valoriza e propaga a crença de que, para ser professor desses ní- de evidências, muitas vezes estereotipado e até deslegitimador da
veis de ensino, o importante é o domínio dos saberes pedagógicos, “escola”.
dos fundamentos gerais da educação, das teorias que embasam o As cargas horárias registradas nas “grades” (o nome é esse
ensino, a aprendizagem e, por sua vez, desvalorizam os conteúdos mesmo) curriculares de cursos de Pedagogia, disponíveis nos sites
das áreas básicas do currículo escolar: Língua Portuguesa, Ma- de importantes universidades do Brasil, confirmam nossa preocu-
temática, Ciências, História, Geografia, Artes e Educação Física. pação com o reduzidíssimo espaço formativo atribuído aos saberes
O exame dos currículos dos cursos de Pedagogia no Brasil são disciplinares, específicos do ensino fundamental.
reveladores dessa concepção. Qual o lugar dos profissionais das A “grade das disciplinas do curso de Pedagogia, a partir de
áreas do ensino nesses cursos? Qual o espaço para o estudo de 2009”, da Universidade de São Paulo (USP), apresenta as seguin-
conteúdos e das metodologias de ensino das áreas básicas, acima tes disciplinas correlacionadas: Metodologia do Ensino de Mate-
mencionadas, nos currículos dos cursos de Pedagogia? Como se dá mática – 5º semestre, 4 créditos; Metodologia do Ensino de Por-
a formação do professor no campo do ensino e da aprendizagem tuguês: A alfabetização – 6º semestre, 4 créditos; Metodologia do
de conhecimentos das disciplinas da área básica do ensino fun- Ensino de Arte – 7º semestre, 4 créditos; Metodologia do Ensino
damental? Como se processam o estágio e a prática de ensino na de Ciências – 7º semestre, 4 créditos; Metodologia do Ensino de
formação dos cursos de Pedagogia? Educação Física – 8º semestre, 4 créditos; Metodologia do Ensino
Gatti e Barreto (2009) apresentam conclusões preocupantes de História – 8º semestre, 4 créditos; Metodologia do Ensino de
sobre os cursos de Pedagogia – responsáveis pela formação de pro- Geografia – 9º semestre, 4 créditos (USP, 2009).
fessores –, algumas delas velhas conhecidas do meio acadêmico, A “grade curricular do curso de Pedagogia” da Universidade
mas enraizadas na cultura acadêmica e institucional. Destacamos: Estadual de Campinas (Unicamp) é similar em relação ao espa-
– O currículo proposto tem uma característica fragmentária, ço curricular destinado aos conteúdos dos anos iniciais do ensino
apresentando um conjunto disciplinar bastante disperso. fundamental, no entanto, as disciplinas são descritas com outras
– A proporção de horas dedicadas às disciplinas referentes à nomenclaturas e com espaço de carga horária para aulas práticas:
formação profissional específica é de 30%, ficando 70% para outro Escola, Alfabetização e Culturas da Escrita – 5º semestre, 4 horas
tipo de matérias oferecidas nas instituições formadoras. teóricas, 2 práticas; Escola e Conhecimento de História e Geogra-
– Na análise das ementas das disciplinas de formação profis- fia – 5º semestre, 4 horas teóricas, 2 práticas; Escola e Cultura
sional predominam os referenciais teóricos, seja de natureza socio- Matemática – 6º semestre, 4 horas teóricas, 2 práticas; Escola e
lógica, psicológica ou outras com associação em poucos casos às Conhecimento em Ciências Naturais – 6º semestre, 4 horas teó-
práticas profissionais. ricas, 2 práticas; e Educação, Corpo e Arte – 6º semestre, 4 horas
– Pode-se inferir que a parte curricular que propicia o desen- teóricas, 2 práticas (Unicamp, 2007).
volvimento de habilidades profissionais específicas para a atuação No curso de Pedagogia da Universidade Federal de Uberlân-
nas escolas e nas salas de aula é bastante reduzida. dia (UFU), a nomenclatura das disciplinas é a mesma da USP. A
– Os conteúdos das disciplinas a serem ensinadas na educação carga horária das disciplinas é relativamente maior, porém não há
básica (Alfabetização, Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, espaço para as aulas práticas, como na estrutura da Unicamp, e os
Ciências, Educação Física) comparecem apenas esporadicamente; conteúdos de Arte e Educação Física não são contemplados como
na grande maioria dos cursos analisados, eles são abordados de nas outras duas instituições. A grade curricular relaciona as seguin-
forma genérica ou superficial no interior das disciplinas de Meto- tes disciplinas, responsáveis pelos conteúdos e metodologias do
dologias e Práticas de Ensino, sugerindo frágil associação com as ensino: Metodologia do Ensino de Matemática – 1º ano: 1º e 2º
práticas docentes. semestres, 4 horas teóricas; Metodologia do Ensino de Língua Por-
– Os estágios, obrigatórios, são registrados de modo vago, tuguesa – 1º ano: 1º e 2º semestres, 4 horas teóricas; Alfabetização
com pouquíssimas exceções. Não há propriamente projeto ou pla- – 2º ano: 3º e 4º semestres, 3 horas 4 horas teóricas; Metodologia
no de estágio nem sinalizações sobre o campo de prática ou a ati- do Ensino de Ciências – 3º ano: 5º e 6º semestres, 4 horas teóricas
vidade e a supervisão dos mesmos. (UFU, 2009, p. 45-47).
– A escola, enquanto instituição social e de ensino, é elemento Podemos inferir, com base nas pesquisas e nas descrições an-
quase ausente das ementas, o que leva a pensar numa formação teriores, que a carga horária das disciplinas específicas não varia
de caráter mais abstrato e pouco integrado ao contexto concre- muito – e é, como evidenciaram Gatti e Barreto (2009) em uma
to onde o profissional-professor vai atuar. (Gatti, Barreto, 2009, amostra de 71 cursos de Pedagogia, muito inferior à parte do cur-
p. 152-153). Gatti e Barreto (2009) apresentam uma cartografia rículo dedicada à formação geral. Assim, nossa percepção é que
e possíveis respostas para muitas das questões acima delineadas. os docentes polivalentes, nos cursos superiores de Pedagogia, re-
Os currículos dos cursos de Pedagogia são fragmentários; muitos cebem uma formação muito frágil na parte de conteúdos (o que
deles (a maioria) não fornecem uma preparação adequada em rela- ensinar) e na de metodologias de ensino (como ensinar). Os sabe-
ção aos conteúdos das áreas básicas do ensino, como evidenciam res disciplinares específicos do ensino fundamental são claramente
outras pesquisas, por exemplo, a de Michele Cristina de Moura menosprezados em relação à parte de formação geral.
(2005). Outro aspecto que chama a atenção de muitos formadores Isto nos leva a entender a angústia de uma professora do 3º
das áreas específicas – com experiência na prática de ensino de ano do ensino fundamental, com sete anos de magistério, que nos
educação básica – no cotidiano do curso e é retratado nas pesqui- afirmou:

Didatismo e Conhecimento 55
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
“Eu gosto de ensinar, mas me falta conteúdo!” (Fonseca, aqueles de menor prestígio acadêmico no interior das instituições,
2003, p. 58) e corrobora, também, resultados de investigação com territórios em permanente disputa, espaços conflituais não agluti-
professoras dos anos iniciais que declaram ensinar História (os nadores. Ao contrário, são interdependentes, relacionais, marcados
conteúdos e as metodologias) do modo como aprenderam quando por singularidades e diferenças constitutivas dos processos educa-
cursaram o ensino fundamental (Alves, 2008). tivos, potencialmente construtivos.
Assim, vivenciamos cotidianamente, no interior das institui-
ções, uma situação de relativa desvalorização nos dois campos: na A sala de aula como espaço de relações
licenciatura em Pedagogia, que oferece um espaço restrito para a
atuação dos profissionais “não pedagogos”, e, também, nas licen- Como declaramos na introdução, concebemos a sala de aula
ciaturas específicas, em que as disciplinas da área de ensino e a como o espaço de aprender e ensinar, logo um espaço, um campo
pesquisa sobre o ensino e a aprendizagem são desvalorizadas. de relações. A nosso ver, os processos e as relações estabelecidas
A experiência na docência nos diversos níveis de ensino e na no interior da universidade, como analisados anteriormente, se ex-
pesquisa sobre o ensino autoriza-nos a preconizar a valorização do pressam, de algum modo, no interior da sala de aula, no trabalho
diálogo entre as áreas, entre lugares, sujeitos e saberes. Conside- do professor, formado em nível superior, em determinados contex-
ramos fundamental uma preparação sólida do professor dos anos tos e condições. Em nossas pesquisas, temos buscado investigar as
iniciais e finais do ensino fundamental, e, para isto, a nosso ver, é relações entre a formação e as práticas, os sujeitos e os saberes. A
imprescindível repensar o lugar dos conteúdos e das metodologias formação acadêmica, “longe da escola”, faz-se presente “na esco-
de ensino específicas nesses cursos. la”, assim como a mídia, os currículos oficiais, as políticas públi-
Do mesmo modo, avaliamos imprescindível repensar o lugar cas do Estado. Neste sentido, compartilhamos com Charlot (2000,
dos conhecimentos pedagógicos, das metodologias de ensino es- p.78) o seguinte pressuposto: “A relação com o saber (o aprender)
pecíficas nos cursos de licenciatura. A nossa proposta, reiterada em é a relação de um sujeito com o mundo, com ele mesmo e com os
outros espaços, é articular ensino, pesquisa e prática pedagógica outros. É relação com o mundo como conjunto de significados,
na graduação, tornando o ensino objeto de investigação nos diver- mas também, como espaço de atividades, e se inscreve no tempo.”
sos cursos de licenciatura em parceria com as escolas, campos de Esse exercício relacional nos instiga a pensar além das apa-
estágios e práticas. A este respeito citamos dois importantes edu- rentes imbricações entre a formação, o currículo, os saberes e as
cadores que, em contextos e propósitos singulares, defenderam a culturas escolares. Segundo a fértil literatura da área de formação
importância do conhecimento dos professores. Paulo Freire (2001, e trabalho docente (Zeichner, 1993, 2002; Ávalos, Nordenflycht,
p. 2), em carta aos professores brasileiros, em 1993, pouco tempo 1999; Tedesco, 1999; Nóvoa, 1992, 2010; Tardif, 2002; Tardif,
depois de sua experiência na condução da Secretaria de Educação Lessard, 2005; Contreras, 2002; Gauthier, 1998; Gauthier, Marti-
de São Paulo (Seed), afirmou: neau, 2001; Pereira, Zeichner, 2002; Pimenta, Ghedin, 2002; Gat-
O fato, porém, de que ensinar, ensina o ensinante a ensinar ti, Barreto, 2009) e, no caso, de História (Lautier, 1997; Fonseca,
um certo conteúdo não deve significar, de modo algum, que o en- 1997; Fonseca, Silva, 2007; Fonseca, Zamboni, 2008), não pode-
sinante se aventure a ensinar sem competência para fazê-lo. Não o mos deixar de reconhecer a heterogeneidade, as singularidades, as
autoriza a ensinar o que não sabe. A responsabilidade ética, polí- histórias de vida, a diversificação, as identidades e as diferenças
tica e profissional do ensinante lhe coloca o dever de se preparar, de professores e alunos no mundo globalizado e multicultural. Na
de se capacitar, de se formar antes mesmo de iniciar sua atividade atualidade, não é mais possível mascarar as desigualdades das con-
docente. Esta atividade exige que sua preparação, sua capacitação, dições de oferta da educação escolar, no Brasil sobretudo, nem as
sua formação se tornem processos permanentes. Sua experiência distinções, por exemplo, de formação escolar e acadêmica; grau
docente, se bem percebida e bem ivida, vai deixando claro que ela de autonomia, de envolvimento institucional; produtividade dos
requer uma formação permanente do ensinante. Formação que se professores; as diferenciações em termos de salários, geração, for-
funda na análise crítica de sua prática. (grifos nossos) mação cultural, gênero, religião, etnia e condições de trabalho.
António Nóvoa (2010, p. 4), educador português com reco- No exercício da prática docente, sabemos que aquilo que o
nhecida produção na área de formação de professores, atualmente professor ensina ou deixa de ensinar, bem como aquilo que o alu-
reitor da Universidade de Lisboa, destaca em recente entrevista no aprende ou deixa de aprender, vai muito além do proposto nos
que a análise do trabalho docente nas sociedades contemporâneas currículos e livros, materiais didáticos e outros. Sabemos também
deve considerar os seguintes apontamentos: conhecimento, cultura que não é mera transposição daquilo que foi ensinado nos proces-
profissional, tato pedagógico, trabalho em equipe e compromis- sos formativos – o que não diminui a responsabilidade dos cursos
so social; sobre o conhecimento, vale-se das palavras do filósofo superiores com a qualidade do trabalho realizado pelo professor
francês Alain: “Dizem-me que, para instruir, é necessário conhecer na sala de aula – e, certamente, ultrapassa os limites das refra-
aqueles que se instruem. Talvez. Mas bem mais importante é, sem tárias culturas escolares. Por isto, defendemos, numa perspectiva
dúvida, conhecer bem aquilo que se ensina.”. sociohistórica cultural, um diálogo crítico, permanente, entre os
Como nos alertam os mestres, se conhecer é fundamental para sujeitos (formadores e formandos) que re/constroem saberes e prá-
o exercício do oficio de professor, o curso superior de licenciatura ticas escolares nos diversos espaços educativos e culturais, como a
– ainda que seja considerado o “início” da formação profissional escola de educação básica e as universidades.
– constitui um espaço e um tempo privilegiado para a problemati- O professor não opera no vazio – é óbvio. Mas o que isto
zação, produção e aprendizagem de conhecimentos básicos para a significa?
constituição do saber docente, da identidade profissional. Portanto, A sala de aula é um espaço pleno de experiências. Os saberes,
os espaços, os sujeitos formadores e os saberes das áreas espe- os valores culturais e políticos e os hábitos são transmitidos e re-
cíficas e pedagógicas não podem ser tratados e encarados como construídos na escola por sujeitos históricos, que trazem consigo

Didatismo e Conhecimento 56
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
um conjunto de crenças, significados, valores, atitudes e comporta- O trabalho do professor na sala de aula pressupõe um conjunto
mentos construídos nos vários espaços de vivência, antes e durante de relações entre sujeitos, saberes e práticas. No jogo relacional
o processo de escolarização. Isso tem várias implicações. No cam- entre os sujeitos professores e alunos, as pesquisas da área têm
po curricular, como nos ensina Goodson (1995, p. 27) inspirado focalizado: as relações interpessoais; o respeito, a aceitação e a
no historiador inglês Hobsbawn, há necessidade de auscultar, ler o valorização das diferenças entre os alunos; o trabalho em parceria
currículo em suas dimensões “prescrito e vivido”, como o perfeito em oposição às relações verticais; a construção da autonomia; a
exemplo de invenção da tradição. O trabalho do professor produz sempre destacada motivação para o estudo, a aprendizagem e o
e reproduz configurações curriculares no jogo de interações que desenvolvimento do prazer de aprender e também de ensinar – ve-
envolvem tensões, conflitos, concessões, vinculações e exclusões. mos aí que as dimensões afetivas e éticas são ressaltadas. No jogo
Pesquisas desenvolvidas no nosso grupo (Aguiar, 2006) acerca das relacional entre sujeitos, saberes e práticas, salientamos a relação
relações entre o currículo oficial prescrito (de História) e o vivido teoria-prática, o ensino-pesquisa, a organização do trabalho coleti-
por professores e professoras em escolas públicas no Estado da vo, as formas de avaliação e a sempre recomendada postura inter/
Bahia evidenciaram, no fazer histórico da sala de aula, múltiplas multi/transdisciplinar.
tensões, aproximações e distanciamentos entre as duas dimensões O professor, como um dos protagonistas, imbuído do princí-
curriculares. pio de responsabilidade social inerente ao trabalho coletivo institu-
De igual maneira, é importante atentarmos para o papel da cional, enfrenta inúmeros desafios no cotidiano escolar. E, no tra-
cultura escolar no trabalho do professor. Se entendermos cultura balho coletivo, constrói uma cultura profissional, uma identidade,
escolar, como conceitua Juliá (2001, p. 10-11), um “conjunto de uma história pessoal, singular e, ao mesmo tempo, coletiva, pois
normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a incul- partilhada por muitos docentes em diferentes realidades escolares
car, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses do Brasil. Para Larrosa (1996, p. 464), o modo como nos com-
conhecimentos e a incorporação desses comportamentos”, não po- preendemos é análogo ao modo como construímos textos sobre
demos analisá-la, como complementa o autor, “sem se levar em nós mesmos, e como são esses textos depende da relação com os
conta o corpo profissional dos agentes que são chamados a obede- outros textos e dos dispositivos sociais nos quais se realizam a
cer a essas ordens e, portanto, a utilizar dispositivos pedagógicos produção e a interpretação.
encarregados de sua aplicação”, ou seja, os professores. Assim, na atualidade, os desafios da formação, da profissiona-
Complementamos lembrando Morelo Pintado (2000, p. 226): lização e da ação docente constituem problemas complexos e, nes-
“as convicções culturais produzidas pela cultura escolar projetam te sentido, demandam políticas sistêmicas capazes de enfrentar as
influências sobre os aspectos mais íntimos da sala de aula”. O tra- múltiplas dimensões, pois “ser professor”, “tornar-se professor”,
balho do professor na sala de aula é permeado, atravessado por “constituir-se professor” e exercer o ofício é viver a ambiguida-
múltiplos “fios” explícitos e implícitos – numa urdidura visível e de, é exercitar a luta, enfrentar a heterogeneidade, as diferenças
invisível – que repercutem nas ações de ensino e aprendizagem. sociais e culturais no cotidiano dos diferentes espaços educativos.
Do mesmo modo que as culturas escolares não são unifor-
mes, a ação dos professores na sala de aula é também multiforme, Considerações finais
complexa. Antes de recorrer aos nossos referenciais, lembro-me
de quando preparava a mesma aula de História (o mesmo tema, a As fronteiras, os entre lugares, as mediações entre formação
mesma metodologia) para ministrar em quatro turmas de 8ª série e prática e entre sujeitos, saberes e práticas merecem, a nosso ver,
em uma escola pública em uma mesma tarde. Ao final do dia, saía ser pensados em movimento, no qual os problemas e as experiên-
da escola com a certeza de que foram ministradas quatro aulas cias do mundo acadêmico e do cotidiano escolar não se desvin-
diferentes em diversos aspectos. Gauthier e Martineau (2001, p. culam não se descolam do contexto histórico, social, econômico
62-64) sustentam e nos ajudam a entender o argumento da comple- e cultural em que se situam. Precisamos questionar os riscos que
xidade, com o qual concordamos, recorrendo às seis características podem representar o privilégio, as ênfases ou, em alguns casos, a
identificadas por Doyle e por eles citadas, a saber: multidimen- mitificação da prática escolar como o locus ou a dimensão prefe-
sionalidade, simultaneidade, imediatez, imprevisibilidade, visi- rencial da formação do professor, da construção de sua identida-
bilidade e historicidade. Lembram-nos, também, os oito tipos de de profissional. É necessário compreendermos o caráter singular,
ação, identificados por Tardif (apud Gauthier, Martineau, 2001), complementar/dialógico e dialético dessas relações em cada mo-
“por meio das quais é possível identificar a prática docente: o agir mento/etapa do processo de formação, de modo que o campo da
tradicional, o agir afetivo, o agir instrumental, o agir estratégico, prática e da crítica não esvazie o científico, o político, o ético e o
o agir normativo, o agir dramático, o agir expressivo e o agir co- estético. São dimensões do fazer-se, do processo de construção da
municacional”. Destacamos o caráter multi ou pluridimensional e identidade profissional. Em outras palavras, não é possível sim-
a historicidade do trabalho do professor no espaço da sala de aula. plesmente substituirmos uma forma de racionalidade por outra.
O professor não está sozinho, o ensino não é uma tábula rasa, mas, Portanto, a formação e a atuação do professor em sala de aula
como afirmamos, uma atividade complexa: expressa um conjunto são resultantes de múltiplas determinações e relações, de vontades/
variado, emaranhado e diverso de significados, símbolos, represen- responsabilidades individuais e coletivas, da obrigação institucio-
tações e relações, inseridas num espaço social e tempo histórico. nal do Estado e da sociedade; logo, devem integrar, de forma ativa
Concordando com Gauthier e Martineau (2001, p. 64), todas essas e dinâmica, os conhecimentos/as dimensões da experiência, das
dimensões identificadas pelos autores citados “estão no cerne da situações práticas, do mundo acadêmico e da realidade sociohistó-
prática docente”; logo, no âmbito da instituição educativa, o ensi- rico e cultural que estamos vivendo. Essas relações são complexas
no é uma atividade coletiva, pluridimensional e contextualizada. e abertas a uma variedade de interpretações.

Didatismo e Conhecimento 57
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Bibliografia O livro é um ótimo curso de historiografia brasileira. Óbvio
Livro: Didática e prática de ensino de história; que para estudar historiografia nos remetemos ao fato, logo o livro
Autores: Selva G. Fonseca; nos remete a diálogos convergentes e divergentes de diversos inte-
Referências: http://rbep.inep.gov.br/index.php/RBEP/article/ lectuais do período colonial, onde nem se tinha a ideia de Brasil até
viewFile/1619/1344; a contemporaneidade. Há um claro debate em relação a Gilberto
http://duvidasdahistoria.blogspot.com.br/2010/05/historia- Freyre e a contraposição Sergio Buarque de Holanda; as visões
da-disciplina-nas-ultimas.html posteriores de Emília Viotti, FHC, Florestan Fernandes, Jacob Go-
reder no que diz respeito a escravidão, enfim o livro percorre o real
caminho da história: “debates, diálogos e indagações.

7. FREITAS, MARCOS CEZAR DE. Resumo


HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA EM
PERSPECTIVA. SÃO PAULO: EDITORA Bibliografia
CONTEXTO, 2001. Livro: Historiografia brasileira em perspectiva;
Autores: Marcos Cezar de Freitas;
Referências: CARVALHO, V. de O.

Autor
8. FUNARI, PEDRO PAULO E PIÑON, ANA.
O campo de Marcos Cezar de Freitas é de atuação é interdisci- A TEMÁTICA INDÍGENA NA ESCOLA. SÃO
plinar abrangendo Educação e Saúde. Nesse sentido, trabalha com PAULO: EDITORA CONTEXTO, 2011.
os temas Pedagogia e Infância usando as contribuições das Ciên-
cias Sociais, particularmente a Antropologia, para estudar crianças
urbanas e suas vulnerabilidades. As vulnerabilidades abordadas
mais frequentemente são aquelas que, no presente e no passado,
se referem aos processos de convívio com severas limitações do Sumário
corpo, adoecimento grave, internação e preterição social. Conside-
rando a singularidade desses processos investiga os temas inclusão Esta obra está dividida da seguinte forma:
e ensino nas situações que dão origem à identificação de crianças
como alunos-problema. Tem Mestrado em Educação pela PUC-SP Os professores e a temática indígena
(1993), Doutorado em Educação pela PUC-SP (1996), Pós-douto-
rado na Faculdade de Educação da USP (2000), Livre-Docência no As identidades
Departamento de Educação da Universidade Federal de São Paulo Europeus e indígenas
- UNIFESP (2008). É Coordenador do Programa de Pós-Gradua- Ser índio
ção Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da Unifesp, Diversidade e transculturação
onde dirige o LEVI: Laboratório de Estudos de Vulnerabilidades
Infantis. No ensino de graduação oferece cursos sobre infância e Os índios
ensino. No âmbito da pós-graduação coordena projetos e orienta Como estudar os índios?
dissertações, teses e estágios de pós-doutoramento que abordam: A trajetória dos índios no continente americano
1) O ensino da criança gravemente enferma e a apropriação infan- A colonização do Brasil no contexto sul-americano
til de paliativos; 2) O ensino e as formas sociais da inteligência e A distribuição dos índios
do corpo da criança, 3) Criança, ensino e alteridades. O estatuto jurídico dos indígenas

Sinópse A escola
A educação entre os índios
Reúne 19 dos intelectuais mais prestigiosos do país e permite A escola ocidental chega à América
uma visão do conjunto dos caminhos já percorridos pela História Índios idealizados e índios combatidos
do Brasil, dos “explicadores” aos cultivadores de monografias, dos
positivistas aos marxistas, dos “braudelianos” aos seguidores de A República
Foucault, dos que buscam o “sentido” da História aos que afirmam Mudanças no tratamento da questão indígena
não ter ela sentido algum. Também reflete sobre o estado da arte A figura do índio na escola moderna
dos estudos de vários dos temas mais caros à nossa historiogra- A virada
fia (como sociedade colonial, escravidão, República, operariado) O ensino para as populações indígenas
além de outros que mais recentemente têm ocupado os historiado- Como os alunos de hoje percebem os índios
res brasileiros (mulheres, intelectuais, mitos fundadores da nacio-
nalidade, mentalidades e representações). Conclusão

Comentário Referências e fontes

Didatismo e Conhecimento 58
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Leituras recomendadas tória e Arqueologia, com ênfase em História Antiga e Arqueologia
Histórica, além de Latim, Grego, Cultura Judaica, Cristianismo,
Agradecimentos Religiosidades, Ambiente e Sociedade, Estudos Estratégicos, Tu-
rismo, Patrimônio, Relações de Gênero, Estudos Avançados. Foto
Os autores de Isaias Teixeira, Unicamp, 28/05/2012.

Autor Sinópse

Pedro Paulo Abreu Funari: bacharel em História (1981), A escola, ao longo da história do Brasil, tem cristalizado de-
mestre em Antropologia Social (1986) e doutor em Arqueologia terminadas representações sobre os índios no imaginário das pes-
(1990), sempre pela Universidade de S. Paulo, livre-docente em soas. Mais do que seres reais, indígenas acabam sendo percebidos,
História (1996) e Professor Titular (2004) da Unicamp. Professor equivocadamente, como figuras romantizadas ou mesmo lendá-
de programas de pós da UNICAMP e USP, Distiguished Lecturer
rias. Sua imagem real, a de seres humanos vivos, detentores de
University of Stanford, Research Associate - Illinois State Uni-
cultura própria, acaba sendo excluída, ou pelo menos esmaecida,
versity e Universidad de Barcelona, atual líder de grupo de pes-
na sociedade e na cultura brasileiras. Contudo, os índios e sua cul-
quisa do CNPq, assessor científico da FAPESP, foi colaborador
tura permeiam completamente o cotidiano de todos nós. Voltada
da UFPR, UFPel, docente da UNESP (1986-1992) e professor de
pós-graduação das Universidades do Algarve (Portugal), Nacio- para professores das escolas não indígenas - que muitas vezes não
nal de Catamarca e del Centro de la Provincia de Buenos Aires e têm informações suficientes ou bem balizadas sobre os índios -,
UFRJ. Supervisionou 13 pós-doutoramentos, 28 doutoramentos, esta obra procura mostrar os motivos para essa contradição: o tanto
34 mestrados, hoje destacados pesquisadores e líderes em insti- que temos a ver com os índios e nossa ausência de percepção dessa
tuições de prestígio (Université de Mulhouse, UNICAMP, USP, realidade. Acreditando no papel da escola como importante polo
UNESP, UFF, UFMG, UFPR, UFRJ, MASJ, UEL, UFPel, UCS, de difusão cultural, este livro traz informações, análises e refle-
UEMG, UEM, UMESP, Uniplac, PUCPR, FESB, UNIFAP, UFS, xões sobre inquietações recorrentes dos professores a respeito da
UNIP, Unifesp, U. Einstein de Limeira, UFG, UFBA, UNIFAL, temática indígena.
UFMA, UFPA, UFV, Museu Nacional da UFRJ, UEG, UFPE,
Museu da Bacia do Paraná, Unip). Na Unicamp, Coordenador do Comentário
Núcleo de Estudos Estratégicos (2007-2009), representante do
IFCH na CADI (2005-2009), membro da CAI/Consu (2009), As- De acordo com o autor, o livro surgiu da necessidade, tanto
sessor do Gabinete do Reitor e Coordenador do Centro de Estudos dos professores como dos alunos, de informações mais aprofunda-
Avançados da Unicamp (2009-2013), apresentador do programa das sobre os índios.
da RTV Unicamp “Diálogo sem fronteira”, desde 2011. Participa “Muitos jovens mencionam que têm parentes e/ou antepas-
do conselho editorial de mais de 50 revistas científicas estrangei- sados indígenas. Mas, ao mesmo tempo, ainda localizam o índio
ras e brasileiras. Publicou e organizou mais de 80 livros e reedi- longe: no passado e no mato. Os índios, às vezes, aparecem como
ções e de 215 capítulos nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, um indivíduo, ao lado de uma oca, sem seu contexto social e co-
Áustria, França, Holanda, Itália, Espanha, Argentina, Colômbia, letivo”, pontuou.
Brasil, entre outros, assim como mais de 545 artigos em mais de Ao longo de 128 páginas, os autores discorrem sobre a ques-
130 revistas científicas estrangeiras e brasileiras arbitradas, como tão indígena e suas representações nas escolas brasileiras. No
Current Anthropology, Antiquity, Revue Archéologique, Journal primeiro capítulo, Funari e Piñón abordam como se formam e se
of Social Archaeology, American Antiquity, American Journal of transformam as identidades sociais e a relação com os índios.
Archaeology, Dialogues d’ Histoire Ancienne. Foram publicadas Em seguida, observam os modos de se estudar os índios, na
mais de 70 resenhas de seus livros, mais de 30 delas em revistas
chamada experiência etnográfica – para os autores, a melhor forma
estrangeiras de ponta e participou de mais de 300 bancas. Projetos
de se conhecer um grupo humano, em particular uma comunida-
conjuntos com pesquisadores estrangeiros resultaram na visita de
de indígena, é imergir em seu mundo, no seu cotidiano. Depois,
numerosos estudiosos, das principais instituições de pesquisa do
seguem pela trajetória histórica desses habitantes no continente
mundo (Universidades de Londres, Paris, Saint Andrews, Boston,
Southampton, Durham, Illinois, Barcelona, Havana, Buenos Aires, americano e a situação atual dos índios no país.
Londres, CNRS). Co-editou enciclopédias como Encyclopaedia of Nos demais capítulos, o livro trata da temática indígena utili-
Historical Archaeology, Oxford Encyclopaedia of Archaeology e zada pela escola desde os tempos dos jesuítas até a escola republi-
Encyclopaedia of Archaeology (Academic Press). Participou de cana como projeto político, passando pela idealização dos índios
mais de 400 eventos e organizou mais de 115 reuniões científi- no século 19, no âmbito da corte imperial do Rio de Janeiro.
cas. Foi Secretary, World Archaeological Congress (2002-2003), Os autores examinam a influência da administração indígena
membro permanente do conselho da Union Internationale des pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) – criado em 1910, ope-
Sciences Préhistoriques e Protohistoriques (UISPP) e sócio da rou em diferentes formatos até 1967, quando foi substituído pela
ANPUH, ABA, SAB, SBPH, SHA, SAA, WAC, ABIB, AAA, Ro- Fundação Nacional do Índio (Funai) – e finalizam com as trans-
man Society. Líder de Grupo de Pesquisa do CNPq, sediado na formações nas formas de inclusão da temática nas salas de aula.
Unicamp e vice-líder de dois outros grupos. Editor de coleção de Funari considera que, além de estereotipado, o ensino sobre o
livros com 33 volumes, a maioria com apoio da FAPESP, CNPq, tema nas salas de aula está defasado, com o indígena retratado de
CAPES, FAPEMIG e UNICAMP. Tem experiência na área de His- forma distante, tanto no espaço como no tempo.

Didatismo e Conhecimento 59
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
“Isso transparece na sua presença na maior parte das vezes enfrentá-las estaremos prontos para avançar, incluindo os índios
referente à pré-história do Brasil. A legislação brasileira reconhece como atores históricos até o ponto em que possamos conhecê-los
direitos aos indígenas, do uso da língua até suas terras. Na cons- melhor e, consequentemente, a nós mesmos.
tituição e na legislação há uma ênfase grande na valorização da Nenhuma narrativa pode ser neutra nem pretendemos apre-
diversidade, contudo, tais avanços chegam à escola ainda de forma sentar aqui nossas interpretações como verdades certas e eviden-
parcial”, ressaltou. tes. Porém, como diria o escritor português Eça de Queirós: “sobre
a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”.
Formação mais ampla Se a maneira como concebemos a sociedade e as relações so-
ciais constitui as lentes que nos permitem enxergar o nosso tema, é
“A temática indígena ainda é tratada de maneira incipiente e bom deixar claro quais são nossas premissas.
marginal em cursos de licenciatura em história, geografia e portu- Assim, para começar, quando se trata de pessoas, só existe
guês; as que mais tratam do tema. Faltam nesses cursos disciplinas uma raça: a raça humana. A contraposição entre “índios” e “bran-
que tratem da pré-história do Brasil e da América, história indíge- cos” como categorias de tipo racial, além de ser um erro do ponto
na, da etnologia indígena e línguas indígenas, e que façam parte do de vista científico, dificulta que o ensino nas escolas abarque a di
currículo obrigatório”, disse Funari. versidade existente e, no limite, favorece o racismo. Como adverte
o historiador brasileiro Jaime Pinsky, “somos, na visão reprodu-
“Dessa forma, os futuros professores terão condições de apro-
zida em muitas escolas, brancos de cultura branca”. Ou seja, as
fundar seus conhecimentos sobre os índios, aproveitar melhor a
escolas comuns, do ensino fundamental e médio, quando falam
informação dos livros didáticos e ensinar de forma mais adequada
dos índios, costumam apresentá-los aos alunos em contraste com o
aos alunos”, destacou. que seriam os brancos, tomados como o termo referente, como se
O antropólogo ressalta que o livro poderá contribuir para uma branco caracterizasse a “sociedade nacional”, na qual o indígena
formação mais ampla e variada dos atuais e futuros professores, seria apenas “o outro”. Já está na hora de abandonarmos esse pen-
pois apresenta aspectos históricos e culturais não só dos indígenas, samento em função daquele que vê a nossa sociedade, em geral,
mas do Brasil de forma geral. “A obra fornece, também, indicações composta por uma infinidade de grupos étnicos em sua mescla.
de leituras que permitem ao leitor se aprofundar nos diversos te- Também não é mais possível sustentar o mito de que os colo-
mas tratados”, completou. nizadores eram da raça branca porque, como foi dito, não existem
raças que diferenciem os humanos, como também porque os colo-
Resumo nizadores europeus não eram “puros”. Eles sempre se mesclaram,
tanto na península ibérica, como no Brasil.
Este livro trata do índio tal qual é estudado na escola brasi- Apresentamos outras de nossas perspectivas interpretativas no
leira de fora das aldeias indígenas. Os professores das escolas não capítulo inicial do livro. Com isso, o leitor saberá de onde falamos
indígenas – a quem este livro se destina – muitas vezes não têm e poderá ter suas próprias e independentes opiniões. Em segui-
informações suficientes ou bem balizadas sobre os índios, embora da, observamos como podemos estudar os índios, sua trajetória
a cultura indígena faça parte do nosso cotidiano. Nomes de lugares histórica e sua situação atual. Depois, analisamos como a escola
conhecidos são indígenas – Itacoatiara, Ibirapuera, Pará, Paraná abordou a temática indígena, do tempo dos jesuítas até a escola
etc.; de alimentos prosaicos também: angu e pipoca; costumes pra- republicana como projeto político, passando pela idealização dos
zerosos – do espreguiçar-se na rede ao banho de rio – e sensações indígenas no século XIX, no âmbito da corte imperial no Rio de
profundas – jururu e urucubaca. Tudo isso provém de nossas li- Janeiro. Examinamos a influência da administração indígena le-
gações com os índios, mas nem sempre nos damos conta disso. vada a cabo pelo Serviço de Proteção ao Índio nas representações
Por vezes, nem mesmo reconhecemos que, em certa medida, entre sobre os indígenas. E terminamos com as transformações – pri-
outras coisas, somos também índios. Este livro procura mostrar os meiramente acarretadas pelo nacionalismo e, no último quarto do
motivos para uma aparente contradição: temos tanto a ver com os século XX, pela democratização – nas formas de incluir a temática
índios e nem sempre vemos isso claramente. indígena nas salas de aula. Concluímos com um balanço dos avan-
ços e desafios da escola, no que se refere ao assunto.
A escola, ao longo da história do Brasil, tem cristalizado de-
Este livro foi escrito sem notas, mas as referências e fontes
terminadas imagens sobre os índios que “fazem a cabeça” dos ci-
utilizadas estão apresentadas ao final. Evitamos, também, uma lin-
dadãos presentes e futuros. Com isso, muitas vezes, acabam favo-
guagem demasiado técnica e marcada por jargões, de modo que
recendo a exclusão ou, pelo menos, o esmaecimento da presença os conceitos são sempre explicados e exemplificados. Diversos
indígena na sociedade e na cultura brasileiras, como veremos neste excertos, de poemas a documentos oficiais, enriquecem a leitura.
livro. Entretanto, se houver vontade política para tanto, é inegável Alguns dados estatísticos são apresentados, mas de forma esparsa,
o papel que a escola pode ter no sentido de atuar para uma maior de modo a não dificultar o aproveitamento da narrativa. O objeti-
compreensão do quanto o Brasil deve aos índios e como se enri- vo maior é convidar o leitor, em particular o professor do ensino
quece, em termos culturais, com essa experiência. fundamental e médio, a uma viagem pela questão indígena e suas
No sentido de contribuir para esse reconhecimento, esta obra representações na escola brasileira. E, também, fazer um apelo à
traz informações e análises voltadas para as inquietações dos pro- reflexão autônoma e independente – meta maior e mais ambiciosa,
fessores sobre temas como: os índios são uma raça? São diferentes mas não menos importante – sobre os índios e a escola.
dos “brancos”? Existem mesmo “brancos” ou somos todos mis-
turados? Os índios pararam no tempo? Por que estranhamos os Bibliografia
índios, mesmo quando descendemos deles? Essas e tantas outras Livro: Temática indígena nas escolas;
questões parecem banais e mesmo torpes, em alguns casos, mas Autores: Pedro Paulo Funari;
refletem inquietações, dúvidas e preocupações comuns. Só ao Referências: PILEGGI, M.

Didatismo e Conhecimento 60
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
XIII – A mulher na Palestina e o “background” no ministério
9. FUNARI, PEDRO PAULO; de Jesus
FILHO, GLAYDSON JOSÉ DA E Roberta Alexandrina da Silva
MARTINS, ADILTON LUÍS. HISTÓRIA ANTI-
GA: CONTRIBUIÇÕES BRASILEIRAS. SÃO XIV – Economia e Patronato: as doações de Plínio, o jovem
PAULO: ANNABLUME, 2009. Renata Lopes Biazotto Venturini

Sobre os autores

Sumário Autor

Esta obra está dividida em: Pedro Paulo Abreu Funari: bacharel em História (1981),
mestre em Antropologia Social (1986) e doutor em Arqueologia
Apresentação (1990), sempre pela Universidade de S. Paulo, livre-docente em
História (1996) e Professor Titular (2004) da Unicamp. Professor
Introdução de programas de pós da UNICAMP e USP, Distiguished Lecturer
University of Stanford, Research Associate - Illinois State Uni-
I – Visões modernas do mundo antigo: a egiptomia versity e Universidad de Barcelona, atual líder de grupo de pes-
Margaret Marchiori Bakos quisa do CNPq, assessor científico da FAPESP, foi colaborador
da UFPR, UFPel, docente da UNESP (1986-1992) e professor de
II – Poder e imagens em Roma: Diocleciano, Constantino e a pós-graduação das Universidades do Algarve (Portugal), Nacio-
Nova/Velha Ordem nal de Catamarca e del Centro de la Provincia de Buenos Aires e
Cláudio Umpierre Carlam UFRJ. Supervisionou 13 pós-doutoramentos, 28 doutoramentos,
34 mestrados, hoje destacados pesquisadores e líderes em insti-
III – Sexualidade, política e identidade: as escavações de tuições de prestígio (Université de Mulhouse, UNICAMP, USP,
Pompeia e a coleção erótica UNESP, UFF, UFMG, UFPR, UFRJ, MASJ, UEL, UFPel, UCS,
UEMG, UEM, UMESP, Uniplac, PUCPR, FESB, UNIFAP, UFS,
IV – Evangelho de Judas: uma luz no fim de uma antiga his- UNIP, Unifesp, U. Einstein de Limeira, UFG, UFBA, UNIFAL,
tória sombria? UFMA, UFPA, UFV, Museu Nacional da UFRJ, UEG, UFPE,
André Leonardo Chevitaresi Museu da Bacia do Paraná, Unip). Na Unicamp, Coordenador do
Núcleo de Estudos Estratégicos (2007-2009), representante do
V – Paixão e desejo na sociedade Romana: interpretações his- IFCH na CADI (2005-2009), membro da CAI/Consu (2009), As-
toriográficas sessor do Gabinete do Reitor e Coordenador do Centro de Estudos
Lourdes Conde Feitosa Avançados da Unicamp (2009-2013), apresentador do programa
da RTV Unicamp “Diálogo sem fronteira”, desde 2011. Participa
VI – O interesse pelo Egipto faraônico: uma aproximação ini- do conselho editorial de mais de 50 revistas científicas estrangei-
cial ras e brasileiras. Publicou e organizou mais de 80 livros e reedi-
Raquel dos Santos Funari ções e de 215 capítulos nos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália,
Áustria, França, Holanda, Itália, Espanha, Argentina, Colômbia,
VII – Bretanha Romana: repensando os discursos arqueoló- Brasil, entre outros, assim como mais de 545 artigos em mais de
gicos 130 revistas científicas estrangeiras e brasileiras arbitradas, como
Renata Senna Garraffoni Current Anthropology, Antiquity, Revue Archéologique, Journal
of Social Archaeology, American Antiquity, American Journal of
VIII – Uma análise da Damnatio Memoriae de Geta Archaeology, Dialogues d’ Histoire Ancienne. Foram publicadas
Ana Teresa Marques Gonçalves mais de 70 resenhas de seus livros, mais de 30 delas em revistas
estrangeiras de ponta e participou de mais de 300 bancas. Projetos
IX – Liberdade e escravidão na Roma Antiga conjuntos com pesquisadores estrangeiros resultaram na visita de
Fábio Duarte Joly numerosos estudiosos, das principais instituições de pesquisa do
mundo (Universidades de Londres, Paris, Saint Andrews, Boston,
X – Problemas de interpretação e verdade na escrita da histó- Southampton, Durham, Illinois, Barcelona, Havana, Buenos Aires,
ria antiga Londres, CNRS). Co-editou enciclopédias como Encyclopaedia of
Maria Aparecida de Oliveira Silva e Taíse Figueira Motta Historical Archaeology, Oxford Encyclopaedia of Archaeology e
Encyclopaedia of Archaeology (Academic Press). Participou de
XI – A utopia da fronteira segundo Platão e Aristóteles mais de 400 eventos e organizou mais de 115 reuniões científi-
Airton Pollini cas. Foi Secretary, World Archaeological Congress (2002-2003),
membro permanente do conselho da Union Internationale des
XII – A magia na Mesopotâmia Sciences Préhistoriques e Protohistoriques (UISPP) e sócio da
Katia Maria Paim Pozzer ANPUH, ABA, SAB, SBPH, SHA, SAA, WAC, ABIB, AAA, Ro-
man Society. Líder de Grupo de Pesquisa do CNPq, sediado na

Didatismo e Conhecimento 61
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Unicamp e vice-líder de dois outros grupos. Editor de coleção de tribuições brasileiras (2009-Annablume/Fapesp), em co-autoria ao
livros com 33 volumes, a maioria com apoio da FAPESP, CNPq, professor Pedro Paulo Funari (Unicamp) e Glaydson José da Sil-
CAPES, FAPEMIG e UNICAMP. Tem experiência na área de His- va (Unifesp). Diretor executivo da Revista Aulas (www.unicamp.
tória e Arqueologia, com ênfase em História Antiga e Arqueologia br/~aulas) desde 2006.
Histórica, além de Latim, Grego, Cultura Judaica, Cristianismo,
Religiosidades, Ambiente e Sociedade, Estudos Estratégicos, Tu- Sinópse
rismo, Patrimônio, Relações de Gênero, Estudos Avançados. Foto
de Isaias Teixeira, Unicamp, 28/05/2012. Este livro oferece ao leitor um painel rico e atualizado da pro-
dução nacional sobre a chamada História Antiga. Embora relati-
Glaydson José da Silva: Bolsista Produtividade em Pesquisa vamente recente no panorama historiográfico brasileiro, o estudo
do Fundo de Apoio à Universidade Federal de São Paulo/FADA. da Antiguidade fincou sólidas raízes em nosso meio acadêmico,
Possui graduação em História pela Universidade Estadual Paulis- produzindo pesquisas originais e inovadoras que, não apenas se
ta Júlio de Mesquita Filho (1996) e mestrado (2001) e doutora- mostram em sintonia com a vasta produção internacional, mas
do (2005), também em História, pela Universidade Estadual de conferem à produção em solo brasileiro em caráter específico e
Campinas, tendo desenvolvido estágio doutoral em História e único. A presente obra apresenta uma significativa amostragem da
Arqueologia (Sanduíche - 2003-2004) junto à Université de Pa- riqueza e variedade de nossa produção, bem como de sua intensa
ris I - Sorbonne e ao Musée des Antiquités Nationales de Saint preocupação em relacionar o passado mais remoto com o mundo
Germain-en-Laye, na França. Realizou pós-doutoramento Junto à contemporâneo e, em particular, com a realidade brasileira. Abor-
Universidade Estadual de Campinas, entre janeiro de 2006 e de- dagens inovadoras e críticas aliam-se a temas pouco explorados
zembro de 2010, com apoio financeiro da FAPESP até fevereiro de pela historiografia tradicional: sexualidade, mundo do trabalho,
2008. Realizou, também, pós-doutoramento junto à Université de magia, reapropriação moderna da Antiguidade, propaganda e con-
Strasbourg, entre novembro de 2011 e março de 2012, com apoio tra-propaganda, estudos de gênero, relações de dominação e ex-
financeiro da FAPESP. Foi professor Adjunto-A da Universidade ploração e muitos outros. Neste livro, o leitor encontrará outras
Estadual de Londrina (UEL) - Paraná, entre abril e junho de 2008. maneiras de se olhar para a História Antiga: visões produzidas por
Atualmente é professor Adjunto Nível II da Universidade Federal historiadores brasileiros com diferentes qualificações acadêmicas,
de São Paulo (Unifesp), campus Guarulhos. É pesquisador colabo- o que lhe confere um caráter inusitadamente democrático, num
rador do Departamento de História da Universidade Estadual de meio em geral rigidamente hierarquizado, propiciando uma sín-
Campinas. Na Unicamp, ministrou disciplinas de Teoria da Histó- tese altamente enriquecedora do que melhor se produz atualmente
ria e exerceu, de março de 2007 a abril de 2009, função de Diretor sobre História Antiga no Brasil. De leitura obrigatória para histo-
Associado do Centro de Estudos e Documentação do Pensamen- riadores, especialistas no tema, o livro é também uma saborosa
to Antigo Clássico, Helenístico e de sua Posteridade Histórica. introdução ao mundo antigo para o público em geral, a partir de
Foi Diretor deste mesmo Centro entre abril de 2009 e outubro de uma perspectiva genuinamente brasileira e plenamente atual.
2011. Tem experiência na área de História, com ênfase em Histó-
ria Antiga, atuando, principalmente, nos seguintes temas: tradições Comentário
interpretativas em História Antiga, relações entre Antiguidade e
modernidade/leituras contemporâneas do mundo antigo, História O livro oferece ao leitor um painel rico e atualizado da pro-
das extremas direitas na França. É coordenador nacional do Gru- dução nacional sobre a chamada História Antiga. Embora relati-
po de Trabalho de História Antiga, da ANPUH. É avaliador do vamente recente no panorama historiográfico brasileiro, o estudo
Ministério da Educação para fins de autorização, reconhecimen- da Antiguidade fincou sólidas raízes em nosso meio acadêmico,
to e credenciamento de cursos de História. É membro da equipe produzindo pesquisas originais e inovadoras que, não apenas se
responsável pela implantação da Proposta Curricular de História mostram em sintonia com a vasta produção internacional, mas
para o Ensino fundamental e Médio do Estado de São Paulo (2007- conferem à produção em solo brasileiro em caráter específico e
2008). É assessor ad hoc da FAPESP. único. O leitor encontrará outras maneiras de olhar para a Histó-
ria Antiga - visões produzidas por historiadores brasileiros com
Adilton Luis Martins: Possui graduação em Filosofia pela diferentes qualificações acadêmicas, propiciando uma síntese al-
Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2002), mestrado tamente enriquecedora do que melhor se produz atualmente sobre
em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita História Antiga no Brasil.
Filho (2007) e doutorado, também em História, pela Universidade
Estadual de Campinas (2012). Tem experiência na área de Filoso- Resumo
fia e de História, com ênfase em Ensino de Filosofia e Epistemo-
logia da História, atuando, principalmente ,nos seguintes temas: A presente obra, de caráter conjunto, dirigida por Pedro Pau-
Ensino de Filosofia, História Antiga, História Moderna, Subjetivi- lo Abreu Funari, Glaydson José da Silva e Adilton Luis Martins,
dade, Usos do Passado. Foi pesquisador na Bibliothèque Naciona- constitui um bom exemplo para conhecer o que se está fazendo
le de France (BNF-2003-2004). É membro da equipe responsável hoje em dia no Brasil na área de História Antiga, disciplina que
pela implantação da Proposta Curricular de História para o Ensino conta a cada dia com um número cada vez mais importante de
fundamental e Médio do Estado de São Paulo (2007-2008). Pu- estudiosos e seguidores.
blicou vários livros, material em multimídia e sites acadêmicos Este livro pode considerar-se válido poque supõe um intento,
e educacionais sobre estas áreas, em especial, o livro Arestas do sempre difícil, de aproximar-se de um público mais amplo, su-
Poder (2010 - Annablume/Fapesp); «HISTÓRIA ANTIGA: con- perando assim o exíguo e fechado círculo de especialistas. Este

Didatismo e Conhecimento 62
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
propósito se faz sentir praticamente em todas as contribuições con- crítica à obra de Finley a este respeito. M. I. Finley, como todos
tidas no texto, sempre atentas à hora de utilizar nas exposições e os clássicos, é sempre um autor interpretável, e, inclusive, reinter-
proposições uma linguagem acessível ao grande público, sem per- pretável, e o autor do presente trabalho indaga-se em alternativas a
der de vista o rigor científico próprio de investigadores especialis- partir da obra de Tácito. Trata-se de uma prática salutar, na medida
tas em diversos campos, muitos deles formados em universidades em que toda discussão de conceitos pode aportar sempre proposi-
europeias. Optou-se no livro por um ordem alfabética, segundo o ções renovadas.
sobrenome dos autores, ainda que façamos aqui um comentário Do mesmo modo podemos entender o trabalho da professora
atendendo a critérios de cariz temático. R. L. B. Venturini, “Economia e patronato: as doações de Plínio, o
Trata-se de um total de 14 contribuições, nas quais se abordam Jovem”, que supõe um aprofundamento nas noções de fides e libe-
praticamente toda a temática própria do mundo antigo. Compreen- ralitas dentro do emaranhado social e político do mundo romando.
de-se o mundo do Oriente antigo com estudos relativos ao Egito e Os conceitos de poder político e das imagens que estas represen-
Mesopotâmia, de igual modo que se propõem problemas próprios tam são estudos a partir de diferentes óticas por C. U. Carlan e A.
do estudo da Grécia. Mas, sobretudo, esta obra investiga o mundo T. M. Gonçalves  O primeiro, em “Poder e imagens em Roma:
romano ao longo de praticamente toda sua história, em temas de Diocleciano, Constantino e a nova/velha ordem” estabelece uma
diverso conteúdo, tanto político como ideológico, historiográfico, relação entre a emissão de moeda e a propaganda que esta implica,
econômico, social, ou relativo a estudos de gênero e sexualidade, incidindo na comparação entre as moedas cunhadas sob o Império
valorando, também, como faz a professora Garrafoni, evidência de de Constantino e sua repercussão nas emissões efetuadas no Brasil
caráter arqueológico e sua interpretação. até o ano de 1929 pela Velha Oligarquia, amparada em respeitáveis
K. M. P. Poser, em “A magia na Mesopotâmia antiga”, desen- formas republicanas.
volve a dependência existente entre as divindades dos mundos su- As histórias de gênero e sexualidade constituem o tema de
perior e inferior e os acontecimentos relativos aos humanos, que se M. R. Caviccioli, em “Sexualidade, política e identidade: as esca-
concretizam em uma falta de arbítrio que é combatida por meio da vações de Pompeia e a coleção erótica”, de L. M. G. C. Feitosa,
literatura mágica, a qual busca para o homem uma vida sem pade- em “Paixão e desejo na sociedade romana”, e R. A. da Silva, em
cimentos, mediante a prática de encantamentos e rituais mágicos. “A mulher na Palestina e o “background” no ministério de Jesus”.
M. M. Bakos e R. dos Santos Funari analisam, em “Visões Esses trabalhos se inscrevem no interesse suscitado entre os estu-
modernas do mundo antigo: a egiptomania” e “O interesse pelo diosos do mundo antigo por aspectos até recentemente não muito
Egipto faraônico: uma aproximação inicial”, respectivamente, o tratados, ou tratados de maneira marginal. Aqui se aborda a se-
mundo do antigo Egito e sua repercussão na época atual, aprofun- xualidade como um conceito cultural, e, portanto, sujeito a idas e
dando conceitos tais como egiptomania, egiptofilia e egiptologia, vindas em função da moralidade e valores reinantes. É interessante
e evidenciando o caráter icônico que um conjunto de objetos ma- o caráter dos documentos, que estabelecem na maioria dos casos
teriais como pirâmides, esfinges e obeliscos têm no mundo con- uma diferença atendendo à diferenciação social, e propugnando,
temporâneo, incidindo, especialmente, no caso do Brasil. É muito portanto, a ideia de uma “boa” ou de uma “má” prática sexual,
interessante a relação estabelecida entre a história egípcia e seu atendendo a ideias tais como a de virtude, vício, etc. O amor ideal
ensinamento escolar, que se explica em grande medida ela fasci- seria próprio da classe aristocrática, e a imoralidade sempre impu-
nação, já desde o século XIX, com Pedro I, que esta civilização tável a grupos populares.
exerce neste país. Por último, a professora, R. S. Garraffoni, em seu texto “Bre-
A. Pollini, em “A utopia da fronteira segundo Platão e Aris- tanha romana: repensando os discursos arqueológicos”, reflete,
tóteles”, medianda análise de textos de Platão e Aristóteles, ob- com a utilização de um importante aparato crítico e com grande
serva duas concepções do que seria uma cidade ideal, intentando rigor, sobre a cultura material romana na Bretanha, estabelecendo
observar que a ideia de fronteira era um aspecto indissociável da relações entre determinado tipo de investigação e sua incidência na
organização de uma cidade grega na época clássica. O texto de A. criação de uma determinada idiossincrasia de povo ou nação. Des-
Chevitarese, “Evangelho de Judas: uma luz no fim de uma antiga ta maneira, a arqueologia, apesar de certas afirmações, seria obje-
história sombria?”, por sua vez, trata de tema atual e interessante, tiva só presumidamente, na medida em que os arqueólogos são, às
a descoberta do codex contendo o evangelho de Judas e suas im- vezes, propensos a visões demasiado mecânicas e deterministas.
plicações na analítica do tema. Para terminar, em boa hora esse tipo de iniciativa, como a aus-
A historiografia, mas objetivamente os conceitos de subjetivi- piciada pelos organizadores, desenvolve uma importante função e
dade-objetividade, é objeto de reflexão no trabalho conjunto de M. constitui um decisivo impulso aos estudos realizados sobre a Anti-
A. de Oliveira e T. F. Motta, em seus “Problemas de interpretação guidade, com importantes resultados nas universidades do Brasil.
e verdade na escrita de História Antiga”, analisando a questão da
“verdade histórica” por meio da utilização de diversas metodo- Bibliografia
logias, muitas vezes criadas pela própria tradição historiográfica, Livro: História antiga: contribuições brasileiras;
que chega a criar, inclusive, um mundo próprio. Autores: Pedro Paulo Abreu Funari, Glaydson José da Silva
No que concerne à história romana, contamos com a contri- e Adilton Luis Martins;
buição de F. D. Joly, “Liverdade e escravidão na Roma antiga”, um Referências: PÉREZ-SANCHÉZ, D.
esforço para oferecer uma alternativa à sempre complexa proble-
mática da escravidão e de sua ideologia intrínseca, mediante uma

Didatismo e Conhecimento 63
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
9. AS VÁRIAS NEGOCIAÇÕES DO IDEAL DE INDE-
PENDÊNCIA:
10. HERNANDEZ, LEILA LEITE. A ÁFRICA
DO PRAGMATISMO À INTOLERÃNCIA E AOS RACIS-
NA SALA DE AULA: VISITA À HISTÓRIA
MOS
CONTEMPORÂNEA. SÃO PAULO: EDITORA
A predominância da transformação pacífica: Gana, Nigéria,
SELO NEGRO, 2010.
Gãmbia e Serra Leoa
Nacionalismo expansionista e religiosidade nacionalista liber-
tária: Sudão Central e Egito
Sumário Identidade e nacionalidade: Somália e Djibuti
A “siasa” e a busca da independência: Tanzânia, Uganda,
Prefácio Ruanda e Burundi
Introdução A intolerância e os racismos: Zanzibar, Namíbia e África do
Sul
1. O OLHAR IMPERIAL E A INVENÇÃO DA ÁFRICA Independência às avessas – discriminação racial e dependên-
A África inventada cia econômica: Maláui, Zâmbia e Zimbábue
Repensando o continente africano A teia de segregações: África do Sul, Suazilândia, Lesoto e
África: um continente em movimento Botsuana

2. O PROCESSO DE “ROEDURA” DO CONTINENTE E 10. AS ESPECIFIDADES DOS CAMINHOS PARA A


A CONFERÊNCIA DE BERLIM INDEPENDÊNCIA EM DIFERENTES ESFERAS IMPE-
O impulso de “roedura RIAIS
Os missionários e os exploradores O impulso revolucionário na África setentrional: Argélia,
A conferência de Berlim e a partilha Marrocos, Tunísia e Líbia
A apropriação europeia do indico e os destinos de Madagás-
3. O “NOVO IMPERIALISMO” E A PERSPECTIVA car,
AFRICANA DA PARTILHA Comores, Maurício, Reunião e Seychelles
Os significados de imperialismo Libéria, Etiópia e Eritréia; qual independência
O “novo” imperialismo
A partilha e a conquista na perspectiva africana 11. O GRADUALISMO COMO ESTRATÉGIA DOMI-
NANTE PARA
4. “CIVILIZADOS” E “PRIMITIVOS” NA CONSTITUI- A INDEPENDÊNCIA NACIONAL
ÇÃO DO SISTEMA COLONIAL AFRICANO
Notas sobre o “imperialismo colonial A desagregação do império francês e o ambiente histórico:
Acerca dos sistemas coloniais Guiné, Mali, Senegal, Costa do Marfim, alto Volta, Benin, Níger,
As estruturas de poder Mauritânia,
As políticas de assimilação de diferenciação Chade, República Centro-Africana, república Popular do
Congo e gabão
5. OS MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA NA ÁFRICA Os territórios sob tutela: Togo, Ruanda e Burundi
O desafio à autoridade: a concretização das resistências Possessões espanholas – da autonomia à revolução: Canárias,
A resistência cotidiana e o banditismo social Saara Ocidental e Guiné Equatorial
Alguns desafios para a historiografia
12. RUMO À REVOLUÇÃO POSSÍVEL
6. O PAN-AFRICANISMO A falsa reciprocidade e a opção pela guerra de guerrilhas: Re-
A noção de raça: dominação e resistência pública Democrática do Congo, Camarões, Argélia e Quênia
A África para os africanos! (Kuame Nkrumah)
O pan-africanismo como questão política 13. AS ROTAS PARA A INDEPENDÊNCIA E O FIM DO
Os congressos pan-africanos “ULTRACOLONIALISMO”
14. O império português e a questão colonial na África
7. ENTRE A CONCEPÇÃO E A AÇÃO O sistema colonial em questão: cabo Verde, Guiné-Bissau,
Os pensares sobre o direito ao autogoverno São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique
Articulação de interesses e organização de solidariedades
Epílogo
8. A NOVA ORDEM POLÍTICA E A QUESTÃO COLO-
NIAL Bibliografia
O período entre guerras: algumas questões econômico-sociais
O impulso revolucionário Apêndice 1: Quadro geopolítico do continente africano do im-
Contestação e resistência perialismo
Os novos atores políticos Colonial de fins do século XIX até as independências

Didatismo e Conhecimento 64
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Apêndice 2: Mapa geopolítico do continente africano história original foi passada apenas oralmente de geração em ge-
ração por trovadores. Mesmo assim, essa foi uma das principais
Crédito das ilustrações, dos mapas e das vinhetas e legendas fontes de estudo da história dos povos africanos.
das vinhetas Esses escritos permitiram identificar as principais organiza-
ções sociais e políticas de 1500 a 1800 e ter ideia da complexidade
Fontes das ilustrações das relações culturais. O tema da escravidão se internalizou, visto
que escravos eram transportados para Europa permanentemente
Autor até o século XVI. Dois dos maiores fatores que causaram esse ín-
dice de exportação de escravos foram as guerras civis internas e
Leila leite Hernandez possui graduação em Ciências Sociais a fome. Isso sem contar a pífia desculpa da igreja no século XVII
pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento da de conter os pagãos. Sendo assim, foi observado que a África é
PUC/SP (1971), Mestrado em Ciência Política pela Universidade marcada pela incompetência de se conduzir.
de São Paulo (1980), com a monografia "Movimentos polí- O processo de roedura da África, já começava anteriormente
tico-ideológicos no Brasil de 1930 a 1937". Doutorado em à conferência de Berlim, com os portugueses. Portugal precisava
Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de de manutenções, em primeiro momento a busca de cereais para
São Bento da PUC/SP (1993), com a tese "Os filhos da terra abastecer a economia de subsistência. Em segundo, a intenção de
do sol: formação do estado-nação em Cabo Verde", publica- chegada às índias, que pelo caminho, favoreceu a um comércio de
do em 2002. É Livre-Docente e pesquisadora do Departamento de especiarias e metais preciosos. Tudo financiado pela coroa Portu-
História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da guesa. Em 1530 a região ocidental tornou-se um centro de criação
Universidade de São Paulo desde o ano de 2005. É especialista em e circulação de negros.
História da África Contemporânea e trabalha, em especial, com Além da exportação das riquezas da terra africana, a desmo-
os seguintes temas: colonialismo, movimentos de independência e ralização do negro altera as relações, sendo o homem ocidental o
nacionalismos. É autora dos livros: Os filhos da terra do sol: for- predador e se colocando como juiz que determina. Chegou ao pon-
mação do estado-nação em Cabo Verde (1ª ed., 2002) e A África na to de um cavalo valer mais que a vida de um homem negro. A jus-
sala de aula: visita à história contemporânea (1ª ed., 2005; 2ª ed., tificativa europeia era dominar e explorar povos “sem civilização”.
2008 e 3ª ed. 2010). Com o fim do tráfico negreiro em 1850 começam a aparecer
às regiões que se destacam no comércio, onde fundam cidades com
Linhas de Pesquisa
escravos libertos, como: Gabão, Angola, Moçambique, Zanzibar e
História dos Movimentos e das Relações Sociais, História
Madagascar, com poder e controle político ainda muito reduzido.
Política, África Contemporânea, Resistência e movimentos de in-
Medidas tomadas na Conferência de Berlim, e também após
dependência dos territórios colonizados por Portugal em África -
ela, demonstram as intenções de cada país em relação aos terri-
séculos XIX e XX
tórios africanos: ora de cunho político, ora de cunho econômico.
Tratados foram firmados entre as nações europeias e os líderes
Orientação dada
africanos que procuravam vantagens políticas em relação a seus
Mestrado e Doutorado. vizinhos, por exemplo, ajuda militar; manutenção da relação entre
soberanos e súditos; e preservação da soberania quando ameaçada
Artigos por nações europeias. Esses tratados, assim como os da Conferên-
Movimentos de resistência na África. cia de Berlim, muitas vezes não eram aceitos por uma ou outra
Anotações Preliminares sobre a sociedade caboverdiana. nação que reagiam com medidas diplomáticas ou guerrilhas.
Movimentos político-ideológicos nos Países Africanos de Os movimentos de resistência surgiram em todo o continente.
Língua Oficial Portuguesa. A reação religiosa também foi um forte componente nesses movi-
Graduação Pós-Graduação em História Social. mentos. As crenças ajudaram a manifestar um grau de consciência
essencial para que se organizassem os protestos. “De todo modo, o
Sinopse processo de colonização foi sempre marcado pela violência, pelo
desproposito, e, não raro, pela irracionalidade da dominação. O
Quando se fala da África, uma pergunta precisa ser formu- confisco de terras, as formas compulsórias de trabalho, a cobrança
lada; existe uma África única, uma identidade comum a todo o abusiva de impostos e a violência do racismo feriram o dinamismo
continente? É a essa pergunta que Leila Leite Hernandez responde histórico dos africanos.” (Hernandez, 2005, p.109). Tudo isto co-
neste livro. Ela nos convida a abandonar nossos pressupostos e labora para um quadro de difícil pesquisa, mostrando que a cultura
estereótipos, propondo um tipo de estudo; aprendermos a enxergar local é um vasto mosaico.
a África como um entrelaçamento de diversas culturas e processos As manifestações incluem também as escrituras de intelec-
históricos, de identidades complexas e, muitas vezes, contraditó- tuais negros, conferências, congressos e associações que inicia-
rias. () ram o movimento pan-africano; cujo lema era: A África para os
africanos. Os temas eram suposições, sentimentos, esperanças,
Resumo necessidades e interesses do negro em reação ao preconceito e à
discriminação.
Apenas a partir de 1960, foi reconhecida a necessidade de Nesse primeiro processo de colonização há três erros básicos:
identificar as diferentes formas de cultura e as diferentes raças * os europeus acreditavam na suposta aceitação tranquila pe-
existentes no continente africano. Para isso, buscaram algumas los povos africanos diante da colonização. O tema da resistência
escrituras da civilização islâmica medieval, pois a maior parte da não tinha muita importância;

Didatismo e Conhecimento 65
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
* consideravam os movimentos de resistência sem força, por entender porque Portugal sempre se viu como o povo único e es-
isso, insignificantes. Eram classificados como pequenos, desorga- colhido por Deus. Desse ego exagerado nasceram características
nizados e estimulados por ideologias irracionais; como racismo intrínseco e desigualdade. Em 1850 foi apresentado
* classificava as sociedades africanas em duas partes: o projeto “mapa cor-de-rosa” que propunha a unificação da An-
a. aquelas que possuem organização social com hierarquia e gola, Moçambique, o baixo do Congo, Zâmbia e Zimbábue para
poder político – consideradas potenciais resistências, pois tinham formar a Colônia angolo-moçambicana, para reeditar a África. A
seu sistema social similar ao europeu; pressão inglesa impediu o projeto e Portugal entrou em crise. Com
b. aquelas com hierarquia difusa e com poder político descen- o fim da crise, eles decidem invadir e ocupar militarmente Angola,
tralizado – consideradas submissas. Moçambique e Guiné. O tema da ocupação era domesticar e ca-
Essas classificações ignoram que em vários momentos os afri- lar os povos africanos para fazê-los submissos. Portugal instaurou
canos negociavam com os europeus, tentavam colaborar com eles, uma doutrina que considerava as colônias parte da nação, eram
e quando não conseguiam, havia conflitos para que seus interesses patrimônio sagrado da Mãe-pátria. Essa doutrina dava direito a
fossem defendidos. Assim, é possível identificar que as revoltas Portugal de possuir e civilizar as populações indígenas. O estado
entre 1880 e 1914 – as maiores da época - contribuíram para a tinha o dever de obrigá-los a trabalhar em obras públicas. E os
formação dos movimentos de independência. costumes indígenas poderiam ser respeitados se fossem compatí-
Nesse momento, houve um sentimento mutuo de transforma- veis com a moral imposta. Fica claro que o respeito não fazia parte
ção pacífica. Após várias políticas diferentes, quando cada uma novo imperialismo.
delas trouxe uma consequência, a situação evoluiu, principalmente Mais tarde, a elite africana reivindicou liberdade de expressão
durante a segunda guerra mundial. Mesmo que essa tranquilidade política e religiosa. Os estudantes começaram a se organizar e pe-
fosse um tanto artificial, serviu para unir diferentes frentes nacio- dir a emancipação dos africanos e a igualdade racial. Esse conjunto
nalistas – Gana, Nigéria, Gâmbia e Serra Leoa, principalmente - de ideias se somou a Declaração de Direitos do Homem e ganhou
em uma única frente nacional. força.
A população estava em busca da independência. Mas, o má- Com a povoação de Cabo Verde – importante ponto onde eram
ximo que conseguiram, foi uma independência às avessas, com a cobrados pagamentos de tributos e dízimos – as outras ilhas foram
discriminação racial ainda mais aflorada e uma total dependência facilmente dominadas para melhorar o tráfico negreiro e a escravi-
econômica. A estrutura social não se alterou e nem afetou os cha- dão. Alguns homens brancos defendiam o escambo e se juntavam
mados “direitos relativos aos minérios”, mais conhecidos como para resgatar escravos, o que criou algumas lutas. Aos poucos a
exploração da supremacia branca. Após quase 15 anos de avanços escravidão foi se tornando muito cara por causa das fugas e da
e recuos, a independência foi se tornando uma realidade. Os go- rebeldia. A abolição foi em 1876, mas o trabalho sem remuneração
vernadores e altos funcionários reuniram-se para discutir o futuro continuou em muitos pontos de Cabo Verde incentivado por amea-
de vários territórios nesse pós-guerra reafirmando a expectativa de ças e burocracias inventadas pelos proprietários. Após a segunda
independência e libertação da miséria e discriminação. guerra mundial, as elites de cabo verde começaram a debater sobre
Desde 1945 houve uma difícil relação entre as colônias e a os problemas sociais e políticos. E a reivindicação dos Direitos dos
oposição. As colônias dividiam-se em colônia de povoamento Homens se tornou mais forte. O movimento de independência de
ou colônia de exploração. A diferença é que na de exploração, o Guiné e Cabo Verde estabeleceu fronteiras entre eles e os portu-
número de colonos brancos era muito maior. Assim, os invasores gueses alegando diferenças raciais e sociais. Pouco a pouco, Por-
faziam da população seres humanos dominados pelo medo. Nas tugal foi sendo afastado. Por conta de carências e precariedades.
colônias de povoamento, alguns escolheram defender sua liberda- Eles reivindicavam a ruptura política com Portugal a fim de acabar
de por meio de guerrilhas. Esse quadro fez a população passar por com o analfabetismo, colocar em prática a liberdade e promover
um longo período de sangue e violência. a justiça e o desenvolvimento. Entre avanços e recuos deram ao
A África, logo após, passou por um período de transição de povo o direito a ilha de Cabo Verde e a independência em 1974.
uma idade em que o mito bastava para manter a ordem e a confor- Guiné, em 1890, junto a Cabo Verde se tornou uma provín-
midade com a tradição, a uma em que a ideologia moderna motiva- cia e também foi domesticada. E até 1930 os povos se rebelaram.
va as mobilizações. Todos esses acontecimentos evidenciaram que Com extrema violência foi instaurada a ideologia da pacificação.
as elites políticas estavam comprometidas em mudar as condições Em 1953 foi fundado o Clube Desportivo e Cultural para estimu-
econômicas sociais e políticas. O clima de liberdade permitiu a lar os moradores contra a injustiça imposta. É claro que o clube
concepção de novos argumentos, alimentados pela vitória da Argé- não durou muito tempo, mas o desejo coletivo de mudança ficou
lia. Apesar de toda a região africana desejar a independência, cada na cabeça daquelas pessoas. Pouco a pouco foram se dando con-
território fez sua livre escolha. ta que era possível organizar manifestações de protesto como a
Como já foi citado, o império português desejava se instaurar de 1959. Infelizmente ela foi recebida com violência extrema e
e colonizar o território africano justificado por uma nobre missão muitas mortes. Com o apoio internacional e popular, outras mani-
religiosa. Para tanto, o desenvolvimento da vida comercial e das festações aconteceram ao longo dos anos. Em 1961 foi declarada a
crenças religiosas se deram sempre juntos. Nesse ponto, Portugal política de insurreição. Em 66 e 67 o movimento de independência
se considerava “um país com vocação para a missão civilizatória, avançou e chegou a Bissau. Depois de várias lutas, em 1971 ela foi
a ponto de dispersar seu corpo e alma pelo mundo inteiro. Essa emancipada e mudou para o nome de Guiné-Bissau.
mitologia está, até os dias atuais, inscrita na bandeira portuguesa.” São Tomé foi invadida por sua posição estratégica próxima ao
(HERNANDEZ, 2005, P. 505). Sempre presentes na história, os reino do Congo. A maior batalha da província foi em 1595, onde
mitos são marcados por escritores como Camões em Os Lusíadas 4.000 negros reivindicavam o fim da escravidão. A derrota sofrida
e Fernando Pessoa em seus poemas. Ao ler esses textos, é fácil nessa fase foi decisiva para o restante do processo. As revoltas

Didatismo e Conhecimento 66
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
continuaram sempre entre os escravos que fugiam para as mon- Para além do truísmo da pergunta retórica, a dinâmica histórica
tanhas. Após um período de prosperidade, as ilhas se estagnaram mostra que o primeiro passo para quebrar estes paradigmas é atra-
devido à grande competição com a quantidade enorme de açúcar vés do diálogo. Em face disso, é justamente nessa discussão que a
fabricada no Brasil. Em 1860 passou por um período de recolo- autora se insere.
nização e retomou o crescimento. Atingiu o auge em 1860 com a A obra é prefaciada pelo escritor moçambicano Mia Couto,
produção de cacau e café. Com a necessidade de grande mão-de personalidade de destaque no cenário literário, cultural e, sobre-
-obra, alguns trabalhadores foram contratados por baixos salários. tudo, político, além de ser um dos escritores africanos de maior
Com o aumento desses contratados, começaram a surgir pessoas relevância. O autor aceita de bom grado a obra de Leila Leite Her-
de todas as raças e a miscigenação foi cada vez maior. Após nego- nandez, enfatizando o seu grau de relevância para contestar o olhar
ciações, passaram por uma transição pacífica até a independência. enviesado em relação à África, via de regra, concebida como um
A colônia de Angola surgiu quando 400 soldados e 100 fa- território homogêneo. Mia Couto contesta, igualmente, a assimila-
mílias de colonos se mudaram para aquela região para cultivar ção da identidade dos africanos por meio da questão da raça, que
açúcar. Mas, depois de uns anos, o número de colonos era muito acaba ofuscando os processos históricos e sociais do continente.
maior que o de portugueses. O período de guerras durou até 1896 Na esteira do autor, “a visão europeia do ser africano” provém da
quando Henrique Augusto Dias firmou tratados com vários chefes genética e não das condições históricas. Daí o sentido da metáfora
africanos e portugueses. Depois o território ainda passou por vá- trabalhada pelo autor, “África: um retrato sem moldura”, ou seja,
rias “guerras de pacificação” e muitas pessoas foram escravizadas de um lado há uma forma dos africanos se auto-reconhecerem (re-
para servir de mão-de-obra. As péssimas condições de vida e os trato) e por outro lado, há a tentativa de enquadramento da Europa
maus tratos levaram os escravos a reagir e fugir para quilombos. em relação à África (moldura). Com essa observação arguta o es-
Em 1878 a escravidão foi abolida, mas os escravos eram obriga- critor Moçambicano, que inclusive tem fomentado esses debates
dos a trabalhar para seus ex-donos em troca de pouquíssima coi- por meio de suas obras de ficção, questiona a visão de uma África
sa. O sentimento da resistência foi ainda maior quando, em 1890, pré-formatada.
Portugal divulgou sua intenção de avançar pelas terras angolanas. Como não poderia ser diferente, Leila Hernandez parte de
Juntaram os povos que ali moravam, os imigrantes e os colonos uma preocupação contemporânea, no sentido de compreender a
que buscaram refugio ali para formar um exercito. Depois de 14 África integrando o conjunto de temas de fins do século XIX e
anos de luta, em 1975, Agostinho Neto proclamou a independên- meados do XX, desnecessário dizer que esse é um método predo-
cia. Mas a divisão interna do território gerou uma segunda guerra
minantemente histórico – recorre-se ao passado para melhor com-
que durou mais alguns anos. A Angola deu início a um processo de
preender o presente.
reconstrução que está sendo seguido até os dias atuais.
A despeito do caráter extenso da obra (13 capítulos distribuí-
Em 1507 os Portugueses invadiram a costa de Moçambique
dos em 678 páginas), é possível dividi-la em quatro partes. Na pri-
e construíram uma feitoria-fortaleza para controlar o comércio de
meira delas (cap. I, II e III), Hernandez traz à baila alguns precon-
exportação de Marfim e ouro e se apossar das especiarias asiáticas
ceitos e pré-noções acerca da África, questionando, igualmente, a
como canela e pimenta. Em pouco tempo, as relações comerciais
aistoricidade (a-historicidade) em relação ao continente, importan-
foram ampliadas com a venda de escravos capturados nas guer-
te mencionar aqui o olhar enviesado do filósofo alemão Friedrich
ras. Isso atiçou a cobiça por essas terras. No século XIX houve
uma grande seca causando fome, epidemias e muitas mortes, o Hegel (1770-1831), que declarou em suas lições sobre a Filosofia
que provocou consequências sociais e políticas graves. Moçam- da História Universal, que a África não possuía “interesse históri-
bique tinha um pedaço de cada canto da África representado em co próprio, senão o de que os homens vivem ali na barbárie e no
sua população. Havia várias línguas, tradições religiosas, noções e selvagismo, sem aportar nenhum ingrediente à civilização”. Desta
valores distintos. Como o solo era muito produtivo e se localizava forma, a autora põe em suspenso conceitos oriundos de uma linha
em um ponto estratégico, Moçambique passou por muitos confli- de pensamento ocidental, que perpassa a antropologia funcionalis-
tos e guerras até assinar o tratado de paz em busca de reconciliação ta de Bronislaw Malinowski (1884-1942) e Radcliff-Brown (1881-
nacional que pôs fim numa guerra que já durava 16 anos. 1955), teoria que consiste em pensar as instituições a partir das
Quando se ouve falar em África, há uma opinião quase pre- suas funções sociais, no mais das vezes, sem levar em contas os
dominante na historiografia que consiste em afirmar que a grande aspectos das culturas locais. Reside aí o legado do “fato social” de
contribuição dos africanos para a História Universal foi a partir do Émile Durkheim, na sua configuração mais teórica e cientificista,
tráfico negreiro, muitas vezes, desconsiderando sua filosofia, seus aos trabalhos de Brown. Desnecessário dizer que tais teorias não
valores, crenças e cosmogonias. Entretanto, como a aceitação do são nem um pouco condizentes para a análise das inúmeras etnias
outro implica, sobretudo, na aceitação da sua estética, tem-se os presentes em África. Enfim, o conhecimento apronta das suas, vis-
ventos da História ao nosso favor para lembrar que a África não to que a universalidade acabar por esconder as particularidades
tem recebido o merecido tratamento em grande parte dos estudos locais. Conforme diria Léon Tolstoi, “Quer ser universal, cante
acadêmicos e científicos. com a aldeia”.
O maior exemplo disso é o desconhecimento para com nossas A autora também alerta-nos acerca do aspecto extremamente
raízes culturais e os preconceitos e pré-noções criadas em relação colonialista da Conferência de Berlim, em fins do século XIX e
à cultura africana, equivalendo dizer que as generalidades acerca início do XX, que partilhou a África entre as potências européias,
do continente acabam por esconder particularidades de espaços e sem ter em conta as peculiaridades locais, fruto do empreendimen-
vicissitudes de tempos. Basta se perguntar se as etnias koishan, to imperialista e neocolonialista que, tempos depois, desencadeou
que habitam o deserto do Kalahari, na Botswana, são iguais aos nas duas grandes guerras mundiais. Leila Leite também enfatiza a
wolofs ou diolas, que vivem nos limites da jurisdição senegalesa? importância das tradições orais para o estudo da África.

Didatismo e Conhecimento 67
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Na segunda parte da obra, é problematizada a questão do co- das nações africanas no cenário internacional, tendo em conta a
lonialismo, tendo em vista os instrumentos de luta de dominação: recomposição política da África pós-Conferência de Berlim. No
expansionismo, burocracia colonial e racismo. Aqui as “diferentes bojo desse processo surge, igualmente, nos anos 1930, um mo-
cabeças” do empreendimento colonial ganham maiores contornos, vimento encabeçado pelos pensadores Aimé Césaire (Martinica),
considerando-se os distintos tentáculos do colonizador, a partir dos Leopold Sedar Senghor (Senegal) e Léon Damás (Guiana France-
quais a África foi reduzida à fornecedora de matérias primas aos sa), que consistiu em pensar a identidade negra a partir de valores
países do centro numa dinâmica extremamente aviltante para com comuns fazendo frente ao racismo das instituições francesas do
os valores humanos, o que levou Hannah Arendt a classificar o período. Interessante notar que, muito embora, a negritude tenha
imperialismo colonial como uma pré-figuração dos fenômenos to- sido idealizada por intelectuais da diáspora e da África francófo-
talitários do século XX, a exemplo do nazismo e stalinismo. A meu na, ela se irradiou para outras paragens. Também é mencionada
ver, se Hernandez se apoiasse em Aimé Césaire (Discurso sobre o a Conferência de Bandung (1955) (Conferência Governamental
Colonialismo), cuja obra está presente na bibliografia do livro que Afro-Asiática), que consistiu no encontro entre nações africanas
se quer resenhado, teria elementos mais consistentes para estabele- e asiáticas, onde esses países optaram pelo não-alinhamento, bus-
cer o paralelo entre aquilo que Arendt chamou de “pré-figuração” cando não se inserir na arena bipolar ideológica dominada pelos
do totalitarismo na sua configuração nazista e stalinista e o totalita- EUA (1º mundo) e URSS (2º mundo). Advém daí a disseminação
rismo propriamente dito, visto que Césaire faz uma crítica ferrenha do termo terceiro mundo, elaborado anos antes (1952) pelo demó-
à relevância que é dada às atrocidades cometidas no entreguerras grafo francês, Alfred Sauvy, em artigo intitulado Trois monde, une
em detrimento ao empreendimento neocolonialista em África e nas planète, em alusão ao Terceiro Estado (povo) da Revolução fran-
chamadas periferias do capitalismo, que foi tão violento quanto, cesa. Em Bandung, os países signatários, a partir de laços assimé-
isso sem mencionar o grande contingente de africanos que lutaram tricos e interesses comuns, buscaram regulamentar conflitos por
na linha de frente dos exércitos coloniais, defendendo uma pátria meios pacíficos, pensando na representatividade das respectivas
que lhes eram alheia. Lembrando Césaire, “É permitido matar na nações no cenário internacional. Haja vista que dez anos depois,
Indochina, torturar em Madagáscar, aprisionar na África Negra, e à conferência se somaram as nações latino-americanas. Esse era o
reprimir nas Antilhas”. Essa crítica foi escrita em 1955. preço a ser pago pelas potências, tendo em vista a forma arbitrária
Entretanto, Hernandez traz um interessante contraponto, re- que estas conduziam os conflitos nas chamadas periferias do capi-
ferindo-se aos distintos movimentos de resistência existentes em talismo. Na década de 1960, já amadurecido esses diálogos, obser-
todo o continente contra as investidas do colonizador, a exemplo va-se o efeito em escala das independências das nações africanas,
da luta dos sudaneses, egípcios e somalis contra o imperialismo conforme exposto pela autora na última parte da obra.
britânico.
A parte terceira, que abarca o sexto, sétimo e oitavo capítulo, *Professor de História da Uniban/Anhaguera da unidade
centra-se no papel desenvolvido pelas elites culturais diante da po- Campo Limpo- Vila Mariana e pesquisador do Cecafro-PUC-SP
lítica e da questão da identidade, processo esse que dá ensejo à for- e da Cinemateca Brasileira.
mação da consciência nacional, pautando-se em ideias elaboradas
por diferentes correntes de pensamentos que foram de encontro Os primeiros seres humanos surgiram na África, os mais an-
aos preceitos engessadas made in Europa. Em diálogo com outros tigos fósseis de hominídeos foram encontrados no continente afri-
autores, Hernandez mostra como a categoria genérica “raça” foi cano e tem cerca de cinco milhões de anos.
moldada através de um saber europeu de fins do século XVIII e O Egito foi provavelmente o primeiro estado a se formar no
reforçado no XIX, na esteira evolucionista e do darwinismo social continente há cerca de5000 anos, além disso, os africanos foram
levado a cabo por Herbert Spencer (1820-1903), que aplicou à so- procurados desde a antiguidade por povos de outros continentes
ciologia ideias provenientes das ciências naturais. A esse respeito, que buscavam as suas riquezas como sal e ouro. Sua divisão ter-
assinala Hernandez: ritorial é muito recente. Realizou-se em meados do século XX, e
O significado desse ‘binômio’ composto pelas raças branca e resultou na descolonização européia.
negra não se encerra, é óbvio, nos limites de uma simples antítese. Apesar de se registrarem atualmente na África muitos confli-
Antes, tem o efeito de inspirar a seguinte dúvida: teriam o branco e tos de caráter político, a grande maioria dos países possui gover-
o negro a mesma origem? É bom lembrar que essa questão integra nos democraticamente eleitos. No entanto, as eleições são frequen-
o narcisismo europeu e sua busca de fronteiras entre ele e o outro, temente consideradas “sujas” devido ás fraudes tanto internamente
colocando, portanto, o tema da alteridade” (p.132). como pela comunidade internacional, já que existem países em
Nesse processo de formação de desenvolvimento de uma que o presidente ou o partido governamental se encontra no poder
consciência nacional, conforme observado pela autora, destaca- a vários anos.
se o papel de intelectuais e membros da elite africana, bem como No período da Expansão Marítima Européia, muitas áreas da
o ganense Kuame Nkrumah (1909-1972), que enxergou na união costa africana foram conquistadas e o comércio europeu foi esten-
africana uma possibilidade de superação dos limites impostos pela dido para essas regiões. No continente existiam muitas tribos pri-
violência neocolonialista. Daí ser Nkrumah um dos principais ar- mitivas, havia guerras entre tribos diferentes e aquelas que saíam
ticuladores do chamado Pan-africanismo – no seu dizer - “A Áfri- derrotadas se tornavam escravas das vencedoras.
ca para os africanos”. Resumo da ópera: o “pan-africanismo parte No período da colonização da América ocorria o tráfico ne-
da preocupação de constituir uma identidade de destino de um greiro. Eram buscados negros na África para trabalhar como es-
conjunto de povos frente à burocracia colonial e às experiências cravos nas colônias, esses eram conseguidos pelos europeus por
colonialistas. Face a isto, a partir do ideário pan-africanista, criou- negociação com as tribos vencedoras e os escravos eram trocados
se um série de conferências e congressos para discutir a inserção por mercadoria de pouco valor na Europa como o tabaco. Após

Didatismo e Conhecimento 68
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
a revolução industrial e a independência das colônias americanas Revolução Industrial. A Europa estava devastada, e as nações do
as potências européias começaram o imperialismo ou neocolonia- Velho Mundo se empenharam na reconstrução de suas economias
lismo em que áreas da África eram dominadas para expandir o arrasadas pela guerra.
comércio, buscar matéria primas e mercado consumidor. Logo a descolonização foi tão rápida quanto a ocupação im-
Devido ao neocolonialismo a África foi dividida em frontei- perialista e teve como uma das causas principais as pressões an-
ras artificiais de acordo com os interesses europeus, tribos aliadas ti-colonialistas exercidas por movimentos políticos nas principais
foram separadas e tribos inimigas foram unidas. nações européias apontando a contradição em manter os laços co-
Essa divisão ocorreu em 1884-1885 na Conferência de Berlin loniais após o combate ao nazi-fascismo.
que institui normas para a ocupação, onde as potências coloniais Com a Guerra Fria, desenvolveu-se na África um forte nacio-
nalismo caracterizado pelo antiimperialismo e pela noção de busca
negociaram a divisão da África, propondo a não invadir áreas ocu-
da soberania política e econômica. Entre 1950 e 1980 surgiram 45
padas por outras potências. No início da I Guerra Mundial, 90%
novas nações no continente africano, entretanto não trouxe paci-
das terras já estavam sob domínio da Europa. A partilha foi feita ficação, pois as fronteiras impostas pelos europeus contribuíram
de maneira arbitrária, não respeitando as características étnicas e para a eclosão de lutas internas de origem étnica, religiosa, terri-
culturais de cada povo, o que contribui para muitos dos confli- torial e econômica.
tos atuais no continente africano.Os principais países foram: Grã No final da Bipolaridade com a derrota da União Soviética,
-Bretanha, França, Espanha, Itália, Bélgica, Holanda, Dinamarca, eles tinham um armamento bélico tão gigantesco, que ficaram sem
Suécia, Portugal. Após a II Guerra Mundial as colônias da África saber como administrá-lo, anos de investimento militar para uma
começaram a conquistar independência formando os atuais países. guerra que nunca aconteceu, foi o ápice do tráfico de armas, que
A África Subsaariana ou África negra corresponde à região eram vendidas principalmente para os tiranos e guerrilheiros da
sul do deserto do Saara. África, devido às guerras civis espalhadas por todo o continente.
Ao norte encontramos uma organização sócio-econômica Estados Unidos, Federação Russa, Reino Unido, França e China,
muito semelhante à do Oriente Médio formando um mundo isla- são os paises que mais tem armas no mundo e nem sempre estão
mizado, ao sul temos a chamada África negra, assim denominada em guerra, logo possuem uma reserva imensa. Portanto, surge a
pela predominância de povos de pele escura, nesta região encon- dúvida se seus PIBs seriam tão elevados, devido a venda de armas.
tra-se os piores indicadores sociais. Os principais problemas são:
Fome, Guerras civis, Epidemias e Questões ambientais. III - Questões Problemáticas: Aids, Fome e Água

Quando se fala em África logo pensamos na fome e na grande


Contextos geopolíticos
epidemia da AIDS, que juntas são pioradas pela falta de água. Es-
ses problemas em conjunto assolam o continente africano, provo-
No início do período das Grandes Navegações, portugueses e cando mais pobreza e desprezo de grandes governantes do mundo,
espanhóis estabeleceram na costa ocidental africana feitorias para que fecham III. 1 AIDS A situação provocada pela Aids é catastró-
o comércio de mercadorias, mais tarde, já no século XIX, outros fica, combinada com a pobreza e a falta de informações tem pro-
países como Reino Unido, França, Alemanha, Bélgica e Itália se vocado uma tragédia de números inacreditáveis. A própria agência
interessaram pelo colonialismo no continente, devido seu enorme das Nações Unidas para a Aids, Unaids, já considera inevitável nos
potencial de recursos minerais e energéticos, por causa da dispu- próximos dez anos a morte de todas as pessoas hoje portadoras do
ta imperialista entre esses países europeus, em 1884, realizouse a vírus no continente africano. O número de infectados com HIV na
Conferência de Berlin, nela foram delimitadas as áreas coloniais África Subsaariana é maior que 28 milhões.
já conquistadas e definidas as suas fronteiras. Alguns anos depois A África do Sul, mesmo sendo o país mais rico do continente,
dessa reunião o domínio europeu chegou a 90% do território afri- não ficou fora da epidemia da Aids. Em pouco mais de uma déca-
cano. da, a África do Sul constatou 2,9 milhões de casos, deixando um
A riqueza do subsolo africano foi um dos principais motivos rastro de 360 mil mortos. Atingindo principalmente a população
para o conflito de interesses entre os europeus, dando início a Pri- negra e pobre, essa doença prejudica a economia dos países afri-
meira Guerra Mundial. Em um continente que tem 30% das reser- canos. O Produto Interno Bruto (PIB) da África do Sul, por exem-
vas mundiais de recursos minerais, seria inevitável uma disputa plo, será 17% menor em dez anos por causa da Aids. Empresas de
vários países calculam perder entre 6% e 8% dos lucros em gastos
acirrada pelos territórios. Dentre as riquezas merecem destaque o
com funcionários contaminados.
ouro – maior produção mundial se encontra na África do Sul, o
Segundo especialistas a razão pela qual o HIV se alastre de
diamante – a República Democrática do Congo tem a maior reser- uma forma tão rápida, é a falta de vontade política dos governantes
va, a platina – mais de 90% das reservas mundiais estão na África, de lidar com a doença e de tocar em assuntos tidos como tabu para
entre outras. a maioria das culturas africanas, como o sexo, homossexualismo
O nacionalismo foi uma das ferramentas que impulsionou a e camisinha.
Segunda Guerra Mundial. Muitos africanos ignoram o que seja a Aids. Eles acham que
Os alemães ao perderam a Primeira Grande Guerra e também a doença é causada apenas pela pobreza, por bruxaria, inveja ou
muitos de seus territórios, a acreditavam fielmente no Fuhrer que por maldição de espíritos antepassados. Esses mitos aumentam o
poderiam conquistar não só a África, mas o mundo, a preocupação estigma em torno da Aids, mantida em segredo por doentes e fami-
da segurança foi substituída pelo desejo de conseguir prestígio e liares devido ao preconceito e ao isolamento a que são submetidos
poder. na comunidade. Além disso, relataram-se diversos casos nos quais
Acaba a Segunda Guerra Mundial e após quase quinhentos africanos homossexuais tiveram tratamentos negados ou foram
anos de expansão, o colonialismo europeu entrou em colapso ridicularizados, mostrando a dupla discriminação, por serem ho-
graças às crises que atingiram os países dominantes da ordem da mossexuais e soropositivos.

Didatismo e Conhecimento 69
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Um grande contraste é que as causas da pandemia também es- tos do povo africano. São milhares de quilômetros - numa exten-
tão na política. Mesmo com um PIB per capita de U$ 10,7 mil, na são que vai da região dos Grandes Laos ao Mar Vermelho - que
África do Sul quase 22% da população adulta é portadora do HIV. compõem a faixa da seca. Essa seca foi provocada pela escassez e
Em Uganda, com PIB per capita de U$ 1,8 mil, a prevalência do pelo atraso das grandes chuvas características da região central da
vírus entre adultos reduziu-se de 12% para 4% na ultima década. A África, mas também pelas inúmeras guerras que fizeram mi-
diferença entre esses países e que a Uganda forneceu coquetéis as lhares de pessoas abandonarem os campos, fugindo dos exércitos
gestantes e investiu em saneamento básico, garantindo a segurança beligerantes. Nessa faixa de terra, existem cerca de 16 milhões de
da mistura do leite em pó e água aos bebes de mães portadoras do pessoas, entre homens, mulheres e crianças, ameaçados pela fome
vírus. porque não houve colheitas e os rebanhos começam a definhar.
A epidemia de Aids na África tem efeitos similares aos de uma A falta de chuva e o esvaziamento dos lagos artificiais já obri-
guerra, vitimando principalmente adultos. Mas, diferente da guer- gam, há mais de dez meses, o racionamento de eletricidade. No
ra, a Aids atinge homens e mulheres em proporção semelhante. Sudão, devido à guerra do sul contra o norte e no chamado Chifre
Do ponto de vista demográfico, ela tende a produzir sociedades de da África (Eritréia, Somália e Etiópia), a situação é caótica graças
adolescentes órfãos. aos deslocamentos de massas humanas para fugir das guerras e da
escravidão, pelo abandono dos campos e pela escassez de chuvas.
III. Fome Numericamente, o caso mais grave é o da Etiópia, país de clima
semi-árido e montanhoso, onde a subnutrição atinge 10 milhões de
Segundo as Nações Unidas, mais de trinta milhões de pessoas
moradores, conferindo-lhe o antepenúltimo lugar na escala mun-
em 24 países da África Subsaariana estão passando fome devido
dial da pobreza.
a problemas que vão desde guerras, clima seco a crises econômi-
cas. Doze milhões de pessoas na região sul da África necessitam Dentro de alguns anos, um entre dois africanos terá a sua por-
imediatamente de ajuda, depois de uma pobre colheita de cereais. ção de água necessária para sobreviver reduzida pela metade ou
O período entre dezembro a março é conhecido como “Estação da até menos. Tudo indica que mais de 12 países africanos terão que
fome”. Esse é o tempo que precede a colheita, devido à ausência enfrentar o problema da falta de água para suas populações, talvez
de alimentos nos armazéns, as famílias passam a fazer uma refei- até através de conflitos onde existem as grandes reservas de água,
ção por dia. Os efeitos da “Estação da fome” não são novos, mas como as regiões dos grandes lagos e dos grandes rios. Exemplo
recentemente têm se agravado com o aumento de conflitos étni- disso é o rio Nilo, sobre o qual a Etiópia reclama justos direitos de
cos, HIV/AIDS e a pobreza crônica que amplia fatores ambientais reservas, visto que em seu território nasce o Nilo Azul, responsável
como a seca. pelo fornecimento de 85% das águas de todo o rio.
Muitas comunidades não têm recursos para sobreviver a esses Se os problemas da África estão se agravando pelas guerras
fatores. civis, pelo abandono dos campos e pela falta de aplicações de re-
A fome é um das piores problemas da África, se não o pior. cursos para melhoramento da conservação do solo, outro fator ne-
A seca e outros desastres naturais em muitas partes do continente gativo é a substancial diminuição da ajuda estrangeira.
intensificaram a falta de comida, mas pobreza é a causa real desse Até o início do século XIX, os únicos redutos europeus exis-
empasse. Para piorar as melhores terras agrícolas foram tomadas tentes na África resumiam-se às regiões litorâneas de Angola, Mo-
para crescer café, cana de açúcar, chocolate, e outras colheitas çambique e Guiné, ocupadas por Portugal desde o século XVI. A
de exportação que foram vistas como o meio de desenvolvimen- nova conquista da África ocorreu entre os anos de 1830 e 1880,
to econômico de acordo com a teoria neoclássica de vantagem e de modo muito mais violento e traumático do que no período
comparativa. Fundos privados de governo foram investidos para anterior, uma vez que a partilha entre as potências não respeitou a
desenvolver estas colheitas de dinheiro, enquanto produção de ali- unidade linguística e cultural preexistente.
mento para a maioria pobre foi negligenciada. Usar a melhor terra Ao fim da 2ª Guerra Mundial, cerca de 800 etnias, falando
para agricultura de exportação degradou o ambiente e empobreceu mais de mil idiomas, conviviam no continente africano, que estava
a população agrícola rural, forçando muitos trabalhar em planta- dividido em áreas de exploração colonial ente França, Itália, Por-
ções . tugal, Alemanha, Espanha, Bélgica e Grã-Bretanha. E como essas
Um grande mito em relação à fome africana é falar que a
divisões eram por etnias, as rivalidades tribais eram muitas e aca-
mesma é causada pela população excedentária. Se fosse por esse
baram beneficiando os europeus, que as estimularam para melhor
motivo esperaríamos achar fome em países densamente povoados
dominá-las.
como Japão e os Países Baixos e nenhuma fome em países espar-
samente povoados com Senegal e Zaire, onde alias, deficiência de Na verdade, os colonizadores haviam dividido os territórios
nutrição é muito comum. segundo seus interesses políticos e econômicos, estabelecendo
Em relação à ajuda estrangeira, os EUA doam grandes quan- fronteiras artificiais, que era muitas vezes a reunião em um mesmo
tias de alimento para a África. Mas enquanto é essencial ajudar território de grupos étnicos inimigos, não respeitando as tradições
as pessoas em necessidade, devemos lembrar que essa ajuda de nem a história desses povos.
alimento, no melhor dos casos, só trata os sintomas de fome e po- Na época da Guerra Fria começou a surgir um grande movi-
breza, não suas causas. mento de libertação nacional na África. Como as antigas potências
colonialistas já estavam desgastadas com a 2ª Guerra Mundial,
III. Água elas já não tinham alternativas a oferecer aos movimentos que lu-
tavam pela independência desde a primeira metade do século XX.
Além das guerras étnicas, a África corre outro grande risco: Os EUA e a Ex-União Soviéticos, interessados em ampliarem suas
a disputa pela água para assegurar o suficiente para o povo e seus influências no contexto da Guerra Fria, também se posicionaram
animais. Uma catástrofe que pode agravar ainda mais os sofrimen- favoráveis aos projetos de descolonização. Mas os movimentos

Didatismo e Conhecimento 70
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
de independência tiveram que conviver com essas divisões arbi-
trárias. As fronteiras fixadas pelos colonizadores se mantiveram 11. HOURANI, ALBERT. UMA HISTÓRIA DOS
preservadas, adiando a tarefa de redesenhar politicamente o conti- POVOS ÁRABES. SÃO PAULO: EDITORA
nente de acordo com suas tradições. COMPANHIA DAS LETRAS, 2005.
V - Apartheid

Ao fazer uma análise sobre o Apartheid, percebe-se que tal Sumário


sistema de segregação racial é, no mínimo, preconceituoso, uma
vez que coloca o negro em uma condição de rebaixamento, ao A obra está dividida em cinco partes:
considerá-lo inferior ao branco. O negro era considerado e tratado
como um objeto; era impedido de manter uma vida social digna; Sumário
não podia frequentar os mesmos lugares que os brancos; não podia Prefácio Agradecimentos Sobre a grafia e as datas
se servir das mesmas regalias, das mesmas formas de lazer, dos Prólogo
mesmos serviços, enfim, os negros não tinham direitos, mas, sim,
deveres a serem cumpridos. Parte I — a criação de um mundo (séculos VII-X)
Pode não parecer, mas foi uma realidade vivida na África do 1. Um novo poder num velho mundo
Sul durante muitos anos. Esse quadro lamentável só veio a se mo- 2. A formação de um Império
dificar com o surgimento de uma figura heróica, a qual foi capaz 3. A formação de uma sociedade
de se submeter a vários desafios para alcançar seu grande objetivo: 4. A articulação do Islã
o fim do Apartheid.
Tal figura, da qual possuo grande admiração, pela sua garra e Parte II — sociedades muçulmanas árabes(séculos XI-XV)
coragem, é Nelson Mandela,advogado, principal representante do 5. O mundo muçulmano árabe
movimento anti-apartheid, como ativista, sabotador e guerrilheiro. 6. O campo
Considerado pela maioria das pessoas um guerreiro da luta pela 7. A vida das cidades
liberdade; considerado pelo governo sul-africano um terrorista. 8. Cidades e seus governantes
Após o fim do regime de segregação, em 1994, Mandela foi 9. Os caminhos do Islã
eleito presidente da África do sul. Encerrou seu mandato em 1999 10. A cultura dos ulemás
e, a partir desse ano, passou a defender causas humanitárias pelo 11. Caminhos divergentes de pensamento
mundo. 12. A cultura das cortes e do povo
Nós, como cidadãos, deveríamos seguir o exemplo de Nelson
Mandela – o de lutar pelos nossos interesses, o de tentar construir Parte III — a era otomana (séculos XVI-XVIII)
um mundo melhor. Mas, o que acontece, infelizmente, é que nós 13. O Império Otomano
nos acomodamos ao pensar que sozinhos não chegaremos a lugar 14. Sociedades otomanas
algum. 15. A mudança no equilíbrio de poder no século XVIII
É fato que, se continuarmos possuindo essa mente tão pe-
quena, nem um grão de areia será movido do lugar. É importante, Parte IV — a era dos impérios europeus (1800-1939)
portanto, que cada um faça sua parte; é importante dar o primeiro 16. Poder europeu e governos reformadores (1800-1860)
passo, para que, consequentemente, os próximos sejam dados. E 17. Impérios europeus e elites dominantes (1860-1914)
assim como Nelson Mandela conseguiu podemos, também nós, 18. A cultura do imperialismo e da reforma
contribuir para a construção de um mundo melhor, sem desigual- 19. O auge do poder europeu (1914-1939)
dades, sem preconceitos, em prol da paz. 20. Mudança de estilos de vida e de pensamento (1914-1939)

Bibliografia Parte V — a era das nações-estado (depois de 1939)


Livro: A África na sala de aula: vista à história comtempo- 21. O fim dos impérios (1939-1962)
rânea ; 22. Sociedades em transformação (décadas de 1940 e 1950)
Autores: Leila Leite Hernandez. 23. Cultura nacional (décadas de 1940 e 1950)
Referências: REIS, A.; MARTINS, V. 24. O auge do arabismo (décadas de 1950 e 1960)
ÁFRICA DE ONTEM, ÁFRICA DE HOJE, RESQUÍCIOS 25. União e desunião árabe (depois de 1967)
DE PERMANÊNCIA? Disponível em: http://www.revistacontem- 26. Uma perturbação de espíritos (depois de 1967)
poraneos.com.br/n2/pdf/africa3.pdf. Acessado em 11/09/2013.
Posfácio, Malise Ruthven
O profeta e seus descendentes, os califas e as dinastias
Notas
Bibliografia
Mapas
Sobre o autor

Didatismo e Conhecimento 71
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Autor O livro destina-se a estudantes que começam a explorar o
tema e aos leitores em geral que desejam aprender alguma coisa
Morreu em janeiro de 1993. Até então fora Membro Eméri- sobre ele. Ficará claro para os especialistas que, num livro de am-
to de St. Antony’s College, Oxford. As suas publicações incluem plitude tão grande, muito do que digo se baseia em pesquisas de
Uma História dos Povos Árabes (1990) e Islam in European outros. Procurei apresentar os fatos essenciais e interpretá-los à luz
thought (1991). Difundiu seus conceitos, em forma de conferên- do que outros escreveram. Parte de minhas dívidas com as obras
cias, na Universidade Americana de Beirute, na Faculdade das deles está indicada na bibliografia.
Artes e Ciências em Bagdá, em Oxford, e no Institut des Hautes Escrevendo um livro que cobre um período tão longo, tive
Études de Túnis. de tomar decisões sobre nomes. Usei nomes de países modernos
para indicar regiões geográficas, mesmo quando esses nomes não
Sinópse eram usados no passado; pareceu mais simples usar os mesmos no-
mes no livro todo, em vez de mudá-los de um período para outro.
A explosiva situação do Oriente Médio, com os intermináveis Assim, “Argélia” é usado para uma determinada região do norte
conflitos entre israelenses, palestinos e seus vizinhos, a guerra Irã da África, mesmo que o nome só tenha entrado em uso nos sé-
-Iraque, a guerra do Golfo, o fortalecimento do fundamentalismo culos modernos. Em geral, usei nomes que serão familiares aos
islâmico - desde a Segunda Guerra, os árabes estão no centro das que leem, sobretudo em inglês; a palavra“Magreb” provavelmente
questões mais turbulentas de nossa época. No entanto, deles e de é bastante conhecida para ser usada em vez de“Noroeste Africa-
sua história sabemos muito pouco. É esta lacuna grave e lamentá- no”, mas “Mashriq” não é, e por isso usei “Oriente Médio” em
vel que Uma história dos povos árabes vem sanar. seu lugar. Chamei as regiões muçulmanas da península Ibérica de
Com erudição, sensibilidade histórica e um estilo de exemplar Andalus, pois é mais fácil usar uma palavra que uma expressão.
clareza, Albert Hourani, durante décadas professor em Oxford, es- Quando uso um nome que hoje pertence a um Estado soberano, ao
creveu um livro obrigatório não apenas para os interessados nas tratar de um período anterior à existência desse Estado, estou me
raízes da atual crise internacional, mas para todos aqueles que têm referindo a determinada região mais ou menos definida; só quando
curiosidade por uma cultura de extraordinária riqueza, cuja impor- escrevo sobre o período moderno é que me refiro à área definida
tância em termos mundiais só tende a aumentar. pelas fronteiras do Estado. Por exemplo, em grande parte do livro
“Síria” refere-se a uma certa região de características comuns, tan-
Comentário to físicas quanto sociais, e que no todo teve uma única experiência
histórica, mas uso-o apenas em relação ao Estado da Síria assim
que este passa a existir, após a Primeira Guerra Mundial.Quase não
Desde a Segunda Guerra mundial, os povos árabes estão no
preciso dizer que tais usos não implicam qualquer julgamento po-
centro das questões mais turbulentas de nossa época. No entanto,
lítico sobre que Estados devem existir e onde estão suas fronteiras.
sabemos muito pouco deles e de sua história. É esta lacuna que
Albert Hourani, durante décadas professor em Oxford, vem sanar,
Bibliografia
apresentando de forma clara e suscinta um enorme volume de in-
Livro: Uma história dos povos Árabes;
formações. Partindo do aparecimento do Islã, no século VII, até
Autores: Albert Hourani.
a recente reafirmação da identidade islâmica e disseminação dos
grupos fundamentalistas, Hourani proporciona uma rara e equili-
brada visão de todos os aspectos da história das sociedades árabes.
Tudo isso sem deixar de fazer um exame completo das institui- 12. JUNIOR, HILÁRIO FRANCO. A IDADE
ções sociais, da literatura e outras formas artísticas, da situação da MÉDIA: NASCIMENTO DO OCIDENTE. SÃO
mulher, dos deslocamentos demográficos e da multiplicidade de PAULO: EDITORA BRASILIENSE, 1988.
movimentos religiosos e intelectuais.

Resumo
Sumário
O tema deste livro é a história das regiões de língua árabe do
mundo islâmico, desde o início do Islã até os dias atuais. Duran- Prefácio
te alguns períodos, porém, tive de ir além do tema: por exemplo, Introdução
quando examino a história inicial do Califado, o Império Otomano As estruturas demográficas As estruturas econômicas As es-
e a expansão comercial e imperial da Europa. Seria possível argu- truturas políticas
mentar que o tema é demasiado grande ou demasiado pequeno: As estruturas eclesiásticas
que a história do Magreb é diferente da do Oriente Médio, ou que As estruturas sociais
a história dos países onde o árabe é a língua principal não pode ser As estruturas culturais As estruturas cotidianas As estruturas
vista isoladamente da de outros países muçulmanos. Mas temos de mentais
traçar algum limite, e foi aí que decidi traçá-lo, em parte devido O significado da Idade Média
aos limites de meu próprio conhecimento. Espero que o livro de- Conclusão
monstre que há unidade de experiência histórica suficiente, entre Orientação para pesquisa
as diferentes regiões estudadas, para que seja possível pensar e Apêndices
escrever sobre elas dentro de um quadro único. 1. Glossário

Didatismo e Conhecimento 72
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
2. A formação das estruturas medievais A Idade Média Para Os Renascentistas E Iluminista
3. Quadro comparativo: Românico e Gótico
4. São Francisco: uma nova espiritualidade O italiano Francesco Petrarca (1304-1374) já se referira ao
5. Cronologia essencial período anterior como de tenebrae: nascia o mito historiográfico
6. Sinopse da civilização medieval da Idade das Trevas.
Sobre o autor A arte medieval, por fugir aos padrões clássicos, também era
vista como grosseira daí o grande pintor Rafael Sanzio (1483-
Autor 1520) chamá-la de “gótico”, termo então sinônimo de “bárbara”.
O sentido básico mantinha-se renascentista: a “Idade Média”
Professor de História Medieval na USP, fez seu doutorado teria sido uma interrupção no progresso humano, inaugurado pelos
gregos e romanos e retomado pelos homens do século XVI. Ou
nessa universidade e o pós-doutorado na École des Hautes Études
seja, também para o século XVII os tempos “medievais” teriam
en Sciences Sociales, com Jacques Le Goff. Atualmente prossegue
sido de barbárie, ignorância e superstição.
suas pesquisas nessa instituição com o apoio de Jean-Claude Sch- O século XVIII, antiaristocrático e anticlerical, acentuaram o
mitt. Além de vários artigos publicados em revistas especializadas menosprezo à Idade Média, vista como momento áureo da nobreza
nacionais e estrangeiras, é autor de diversos livros sobre a Idade e do clero. A filosofia da época, chamada de iluminista por se guiar
Média. Os mais recentes: As utopias medievais, São Paulo, Brasi- pela luz da Razão, censurava, sobretudo a forte religiosidade me-
liense, 1992; A Eva barbada. Ensaios de mitologia medieval, São dieval, o pouco apego da Idade Média a um estrito racionalismo e
Paulo, Edusp, 1996 (Prêmio jabuti); Cocanha. A história de um o peso político de que a Igreja então desfrutara.
país imaginário, São Paulo, Cia. das Letras, 1998 (Prêmio Jabuti);
Ano 1000: tempo de medo ou de esperança?, São Paulo, Cia. das A Idade Média Para Os Românticos
Letras, 1999.
O Romantismo da primeira metade do século XIX inverteu,
Sinópse contudo, o preconceito em relação à Idade Média. O ponto de par-
tida foi à questão da identidade nacional, que ganhara forte signifi-
O período entre os séculos IV e XVI é tradicionalmente co- cado com a Revolução Francesa. A nostalgia romântica pela Idade
nhecido por Idade das Trevas, Idade da Fé ou, com mais frequên- Média fazia com que ela fosse considerada o momento de origem
cia, Idade Média. Todos eles rótulos pejorativos, que escondem a das nacionalidades, satisfazendo assim os novos sentimentos do
importância daquela época na qual surgiram os traços essenciais século XIX.
Vista como época de fé, autoridade e tradição, a Idade Média
da civilização ocidental. Nesta, mesmo países surgidos depois da-
oferecia um remédio à insegurança e aos problemas decorrentes de
quela fase histórica - caso do Brasil - têm muito mais de medieval
um culto exagerado ao cientificismo.
do que à primeira vista possa parecer. Olhar para a Idade Média é Essa Idade Média dos escritores e músicos românticos era tão
estabelecer contato com coisas que nos são ao mesmo tempo fami- preconceituosa quanto à dos renascentistas e dos iluministas. Para
liares e estranhas, é resgatar uma infância longínqua que tendemos estes dois, ela teria sido uma época negra, a ser relegada da memó-
a negar mas da qual somos produto. De fato, para o homem do ria histórica. Para aqueles, um período esplêndido, um dos grandes
Ocidente atual compreender em profundidade a Idade Média é um momentos da trajetória humana, algo a ser imitado, prolongado.
exercício imprescindível de autoconhecimento.
A Idade Média Para O Século XX
Comentário
Passou-se a tentar ver a Idade Média como os olhos dela pró-
“... a civilização medieval, apesar de limitada materialmente pria, não com os daqueles que viveram ou vivem noutro momento.
segundo os padrões atuais, dava ao homem um sentido de vida. Entendeu-se que a função do historiador é compreender, não a de
Ele se via desempenhando um papel, por menor que fosse de al- julgar o passado. Logo, o único referencial possível para se ver a
cance amplo, importante para o equilíbrio do universo. Não sofria, Idade Média é a própria Idade Média.
portanto, com o sentimento de substituibilidade que atormenta o Ao examinar qualquer período do passado, o estudioso neces-
homem contemporâneo.“ (Hilário Franco Junior). sariamente trabalha com restos, com fragmentos — as fontes pri-
márias, no jargão dos historiadores — desse passado, que portanto
jamais poderá ser integralmente reconstituído. Ademais, o olhar
Resumo
que o historiador lança sobre o passado não pode deixar de ser um
olhar influenciado pelo seu presente.
Introdução O período que se estendeu de princípios do século IV a mea-
dos do século VIII sem dúvida apresenta uma feição própria, não
O (Pré) Conceito De Idade Média mais “antiga” e ainda não claramente “medieval”. Apesar disso,
talvez seja melhor chamá-la de Primeira Idade Média do que usar
Falarmos em Idade Antiga ou Média representa uma rotulação o velho rótulo de Antiguidade Tardia, pois nela teve início a convi-
a posteriori, uma satisfação da necessidade de se dar nome aos mo- vência e a lenta interpenetração dos três elementos históricos que
mentos passados, foi o século XVI que elaborou tal conceito, um comporiam todo o período medieval. Elementos que, por isso, cha-
desprezo não disfarçado em relação aos séculos localizados entre a mamos de Fundamentos da Idade Média: herança romana clássica,
Antiguidade Clássica e o próprio século XVI. herança germânica, cristianismo.

Didatismo e Conhecimento 73
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Nesse mundo em transformação, a penetração germânica in- Pelo menos até o século XII os medievos não sentiam neces-
tensificou as tendências estrutural anteriores, mas sem alterá-las. sidade de maior precisão no cômputo do tempo, o que expressava
Foi o caso da pluralidade política substituindo a unidade romana, e acentuava a falta de um conceito claro sobre sua própria época.
da concepção de obrigações recíprocas entre chefe e guerreiros, do De maneira geral, prevalecia o sentimento de viverem em “tem-
deslocamento para o norte do eixo de gravidade do Ocidente, que pos modernos”, devido à consciência que tinham do passado, dos
perdia seu caráter mediterrânico. O cristianismo, por sua vez, foi o “tempos antigos”, pré-cristãos. Estava também presente a ideia de
elemento que possibilitou a articulação entre romanos e germanos, que se caminhava para o Fim dos Tempos, não muito distante.
o elemento que ao fazer a síntese daquelas duas sociedades forjou
a unidade espiritual, essencial para a civilização medieval. Capitulo I – As Estruturas Demográficas
Europa católica entrou em outra fase, a Alta Idade Média
(meados do século VIII - fins do X). Foi então que se atingiu, ilu- O surgimento da Demografia Histórica, há menos de cinco
soriamente, uma nova unidade política com Carlos Magno, mas décadas, enriqueceu consideravelmente o arsenal do historiador na
sem interromper as fortes e profundas tendências centrífugas que sua tarefa de compreensão do passado.
levariam posteriormente à fragmentação feudal. A Idade Média estava na etapa que os especialistas chamam
Graças a esse temporário encontro de interesses entre a Igreja de Antigo Regime Demográfico, típico das sociedades agrárias,
pré-industriais: alta taxa de natalidade e alta taxa de mortalidade.
e o Império, ocorreu certa recuperação econômica e o início de
Em razão disso, a conjugação de certos fatores (estiagens, enchen-
uma retomada demográfica. Iniciou-se então a expansão territorial
tes, epidemias etc.) por poucos anos seguidos alterava o quadro de-
cristã sobre regiões pagãs — que se estenderia pelos séculos se-
mográfico ao elevar ainda mais a mortalidade. Ou, pelo contrário,
guintes — reformulando o mapa civilizacional da Europa. a ausência de eventos daquele tipo rapidamente produzia um saldo
A Idade Média Central (séculos XI-XIII) que então começou populacional positivo.
foi, grosso modo, a época do feudalismo, cuja montagem repre-
sentou uma resposta à crise geral do século X. A sociedade cristã Retratação Da Primeira Idade Media
ocidental conheceu uma forte expansão populacional c uma con-
sequente expansão territorial, da qual as Cruzadas são a faces mais Do ponto de vista demográfico, a primeira fase medieval foi
conhecida. Graças à maior procura de mercadorias e à maior dis- um prolongamento da situação do Império Romano, cuja popu-
ponibilidade de mão-de-obra, a economia ocidental foi revigorada lação conhecera um claro recuo desde o século II. Com a cres-
e diversificada. A produção cultural acompanhou essa tendência cente desorganização do aparelho estatal romano, foram rareando
nas artes, na literatura, no ensino, na filosofia, nas ciências. Aquela as importações de gêneros alimentícios que tinham por séculos
foi, portanto, em todos os sentidos, a fase mais rica da Idade Mé- permitidos a existência de uma grande população urbana. As cida-
dia, daí ter merecido em todos os capítulos deste livro uma maior des começaram a se esvaziar, cada região tentou passar a produzir
atenção. tudo àquilo de que necessitasse, Tal fenômeno paradoxalmente
A Baixa Idade Média (século XIV - meados do século XVI) aumentou a insegurança, pois bastava uma má colheita para que a
com suas crises e seus rearranjos representou exatamente o parto mortalidade naquele local rapidamente se elevasse, devido às difi-
daqueles novos tempos, a Modernidade. A crise do século XIV, or- culdades em obter alimentos em outras regiões.
gânica, global, foi uma decorrência da vitalidade e da contínua ex-
pansão (demográfica, econômica, territorial) dos séculos XI-XIII, A Relativa Ocupação Da Alta Idade Média
o que levara o sistema aos limites possíveis de seu funcionamento.
Em suma, o ritmo histórico da Idade Média foi se acelerando, Por meio de indícios esparsos na documentação — de inter-
e com ele nossos conhecimentos sobre o período. Sua infância e pretação problemática — indica certa retomada demográfica na
adolescência cobriram boas parte de sua vida (séculos IV-X), no segunda metade do século VIII. Esse fato talvez esteja ligado à
entanto as fontes que temos sobre elas são comparativamente pou- reorganização promovida pelos Carolíngios, e talvez ajude mes-
cas. mo a explicar a expansão territorial realizada por Carlos Magno.
Contudo, essa recuperação foi desigual no tempo e no espaço. Em
Sua maturidade (séculos XI-XIII) e senilidade (século XIV-
muitos locais, em muitos momentos, a fome e a mortalidade con-
-XVI) deixaram, pelo contrário, uma abundante documentação.
tinuavam acentuadas.
A Idade Media Para Os Medievais A Expansão Da Idade Media Central
As primeiras sociedades só registravam o tempo biologica- Apesar da inexistência de uma documentação quantitativa, é
mente, sem transformá-lo em História, portanto sem consciência inquestionável aquele crescimento na Idade Média Central, como
de sua irreversibilidade. Isso porque, para elas, viver no real era se percebe por cinco claros indícios: um acentuado movimento mi-
viver segundo modelos extra-humanos, arquetípicos. Assim, tanto gratório; o movimento de arroteamentos, que fazia recuar as flo-
o tempo sagrado (dos rituais) quanto o profano (do cotidiano) só restas, os terrenos baldios, as zonas pantanosas; aumento do preço
existiam por reproduzir atos ocorridos na origem dos tempos. da terra e do trigo; acentuado crescimento da população urbana na-
Tal concepção sofreu sua primeira rejeição com o judaísmo, quele período; transformações sofridas pela arquitetura religiosa.
que vê em Iavé não uma divindade criadora de gestos arquetípicos, Todos esses testemunhos apontam, portanto, para um forte
mas uma personalidade que intervém na História. O cristianismo crescimento demográfico entre os séculos XI e XIII, mas é extre-
retornou e desenvolveu essa ideia, enfatizando o caráter linear da mamente difícil quantificá-lo. De maneira geral, a documentação
História, com seu ponto de partida (Gênese), de inflexão (Nativi- medieval fornece poucos dados populacionais que permitem um
dade) e de chegada (Juízo Final). tratamento estatístico.

Didatismo e Conhecimento 74
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Portanto, mesmo sem se poder quantificar com maior rigor Em Antuérpia, importante centro distribuidor de cereais, o tri-
e precisão a expansão demográfica da Idade Média Central, ela é go subiu 320% em sete meses. A fome fazia grande quantidade
inegável. Naquele período dois fatores que anteriormente eleva- de vítimas. O canibalismo tornou-se comum. Diferentes epidemias
vam a mortalidade tiveram seu alcance reduzido. O primeiro deles agravavam a situação. Impulsionada pela fome, muita gente va-
foi à ausência de epidemias, com o recuo da peste e da malária, gava em busca do que comer, levando consigo as epidemias e a
continuando apenas a lepra a ter certa intensidade. desordem.
O segundo fator a considerar é o tipo de guerra, que não en- A crise demográfica da Baixa Idade Média, que teve seu pon-
volvia grandes tropas de combatentes anônimos, como nas legiões to crucial no ressurgimento da peste, então conhecida por peste
romanas ou nos exércitos nacionais modernos: a guerra feudal era negra. Ela apresentava-se de duas formas. A bubônica (assim cha-
feita por pequenos bandos de guerreiros de elite, os cavaleiros. mada por provocar um bubão, um inchaço) tinha uma letalidade
Guerra feudal não objetivava a morte do adversário, apenas (relação entre os atingidos pela doença e os que morrem dela) de
sua captura. Como uma das obrigações vassálicas era pagar o res- 60% a 80%, com a maioria falecendo após três ou quatro semanas.
gate do senhor aprisionado, c como na pirâmide hierárquica feudal A peste pneumônica, transmitida de homem a homem, tinha uma
quase todo nobre, além de ser vassalo de outros, tinha seus pró- letalidade de 100%, fazendo suas vítimas depois de apenas dois ou
prios vassalos, capturar um inimigo na guerra era obter um rendi- três dias de contraída a doença.
mento proporcional à importância do prisioneiro. Democrática e igualitária, a peste atingia indiferentemente a
Outro fator que contribuiu para a expansão demográfica me- todos. Até 1670, a Europa foi atingida todo ano. No período críti-
dieval foi à suavização do clima. Na Europa ocidental o clima tor- co, o da chamada peste negra, em 1348-1350, as perdas humanas
nou-se mais seco e temperado do que atualmente, sobretudo entre variaram, conforme a região, de dois terços a um oitavo da popu-
750 e 1215. A viticultura pôde então expandir-se em regiões ante- lação.
riormente impróprias, como a Inglaterra. A paisagem de alguns lo-
cais foi alterada e humanizada, como a Groenlândia, que fazia jus Capitulo II – As Estruturas Econômicas
a seu nome (literalmente, “terra verde”) e apenas no século XIII,
em virtude de novas mudanças climáticas, passou a ter icebergs em O prestígio ímpar que a História Econômica desfrutou por
longo tempo deixou profundas marcas na produção medievalísti-
sua direção, tornando-se inóspita.
ca. Sobretudo porque a impossibilidade de realizar estudos quan-
O período mais quente e seco não apenas transformou deter-
titativos como os que eram feitos para períodos históricos mais
minadas áreas em cultiváveis e habitáveis como contribuiu para
recentes, levou ao desenvolvimento de metodologias próprias. A
dificultar a difusão da peste.
historiografia especializada desenvolveu então trabalhos baseados
Por último, ajuda a explicar o crescimento populacional dos
no qualitativo (indícios, tendências, características), que elucidam
séculos X-XIII o surgimento ou difusão de uma série de inovações melhor a economia medieval do ponto de vista da própria época.
nas técnicas agrícolas. Dentre os aperfeiçoamentos técnicos da
época, três exerceram uma ação direta sobre a elevação da produ- Retração e Estagnação até o Século X
tividade agrícola: a nova atrelagem dos animais, a charrua pesada
e o sistema trienal. Do ângulo econômico, os séculos IV-X caracterizou por uma
As inovações tecnológicas não apenas produziram uma maior pequena produtividade agrícola e artesanal, consequentemente
quantidade de alimentos como, sobretudo, uma melhor qualida- uma baixa disponibilidade de bens de consumo e a correspondente
de. Até aquela época a dieta era mal balanceada, porque, baseada retração do comércio e portanto da economia monetária. Parale-
em cereais, fornecia muitas calorias e hidrato de carbono e poucas lamente, existiam pequenas e médias propriedades, ainda que aos
proteínas e vitaminas. A alteração então ocorrida na dieta talvez poucos elas fossem absorvidas pelas villae. De qualquer forma,
explique a mudança na proporção entre população masculina e estas são mais bem conhecidas e predominavam naquele território
feminina, favorável à primeira na Alta Idade Média e à segunda que era o centro de gravidade de então, daí porque seja justificável
posteriormente. falar em economia agrária dominial.
Com a introdução de leguminosas na dieta e uma presença Esta girava em torno da divisão da área em duas partes. A
mais assídua de carne, peixe, ovos e queijo, a mortalidade femi- primeira, chamada na época de terra indominicata (ou de reser-
nina diminuiu. Tal fato teve ampla repercussão, contribuindo até va senhorial pelos historiadores), era explorada diretamente pelo
mesmo para a valorização social da mulher. senhor. Ali estava sua casa, celeiros, estábulos, moinhos, oficinas
artesanais, pastos, bosques e terra cultivável. A segunda parte era
O Ressurgimento Da Peste Na Baixa Idade Media a terra mansionaria, ou seja, o conjunto de pequenas explorações
camponesas, cada uma delas designada pelos textos a partir do sé-
O crescimento populacional acabou por se revelar excessiva- culo VII por mansus. Cada manso era a menor unidade produtiva
mente elevado para as condições europeias de então. Durante o e fiscal do domínio. Dele uma família camponesa tirava sua sub-
auge daquele fenômeno tinham sido ocupadas terras marginais, de sistência, e por ter recebido tal concessão devia certas prestações
menor fertilidade, que se esgotavam em poucos anos, baixando a ao senhor. Os mansi serviles, ocupados por escravos, deviam en-
produtividade média e desestabilizando o frágil equilíbrio produ- cargos mais pesados que os mansi ingenuiles, possuídos por cam-
ção-consumo. poneses livres.
O aumento populacional tinha implicado a derrubada de gran- Apesar de o fundamento da economia dominial estar na pres-
des extensões florestais, já que a madeira era o principal com- tação de serviço na reserva senhorial por parte de camponeses li-
bustível e material de construção. Isso ajuda a explicar as chuvas vres mas dependentes, não se pode esquecer da mão-de-obra es-
torrenciais que em 1315-1317 atingiram a maior parte da Europa crava. Tudo indica que a escravidão ainda era praticada em boa
ao norte dos Alpes, exatamente nos locais de grande devastação parte do Ocidente cristão, especialmente na Inglaterra, Alemanha,
florestal. Itália e Catalunha. Mas é inegável que se generalizava então à fi-

Didatismo e Conhecimento 75
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
gura dos servi casati, escravos estabelecidos e fixados num pedaço com menos terra. Terceiro, os rendimentos senhoriais vinham en-
de terra. Dessa forma a própria palavra servus (escravo) passou a tão bem mais do exercício dos direitos de bando que da explora-
designar outra realidade jurídica, expressando aquela transforma- ção direta do solo (daí as baixas exigências feitas aos camponeses
ção socioeconômica — a do servo. em troca de suas tenências). Quarto, na nova ordem social que se
A produção dos domínios não apresentava grandes novida- implantava desde fins do século X — o feudalismo — para esta-
des em relação à agricultura da Antiguidade. A terra era trabalhada belecer relações de vassalagem o senhor cedia terras sob forma de
quase sempre no sistema bienal ou trienal. feudo.
O setor secundário ressentia-se da fraqueza demográfica e da Não se deve, portanto, confundir senhorio e feudo. O primeiro
medíocre produção agrícola. O primeiro fator roubava-lhe mão- era a base econômica do segundo, este a manifestação político-
-de-obra e especialmente consumidores. O segundo limitava o -militar daquele. O senhorio era um território que dava a seu de-
fornecimento de matérias-primas. O artesanato dos séculos IV-X tentor poderes econômicos (senhorio fundiário) ou jurídico-fiscais
estava concentrado nos domínios, que com sua tendência à autos- (senhorio banal), muitas vezes ambos ao mesmo tempo. O feudo
suficiência procurava produzir ali mesmo tudo que fosse possível. era uma cessão de direitos, geralmente mas não necessariamente
A mão-de-obra era predominantemente escrava, vivendo na terra sobre um senhorio. Havia regiões senhorializadas e não feudaliza-
indominicata daquilo que o senhor lhe entregava, trabalhando nas das (como a Sardenha), mas não existiam regiões feudalizadas sem
oficinas com ferramentas e matérias-primas fornecidas por ele. A ser senhorializadas.
Em razão disso, o regime de mão-de-obra também se modifi-
partir do século VIII havia também um pequeno grupo de artesãos
cou em relação ao da agricultura dominial. A escravidão pratica-
assalariados, que se deslocavam de domínio em domínio. O arte-
mente desapareceu no norte europeu, sobrevivendo apenas em al-
sanato urbano, por sua vez, estava limitado pelas condições das
gumas regiões mediterrânicas. O segmento de trabalho assalariado
cidades da época. expandiu-se, em especial no século XII, graças ao barateamento da
O setor terciário limitava-se praticamente ao comércio. O co- mão-de-obra resultante do aumento populacional. O servo tornou-
mércio interno também se viu limitado, mas não paralisado. Se as -se o principal tipo de trabalhador, complementando um processo
dificuldades de produção, de um lado, restringiam as trocas por bem anterior.
gerar poucos excedentes, de outro lado tornavam necessário que Em muitas regiões difundiu-se a prática de transformar a obri-
uma região com problemas temporários procurasse determinados gação de serviços em pagamento monetário, com o qual o senhor
produtos básicos em outras. Quando um domínio tinha certo ex- contratava assalariados, cujo trabalho rendia o dobro do servil.
cedente, ele era comercializado, diante da impossibilidade de se A produção cresceu em virtude de uma maior quantidade de
estocar. mão-de-obra (incremento demográfico) trabalhando sobre uma
Das três funções atribuídas à moeda, apenas uma foi impor- área mais extensa (desbravamento de florestas e terrenos baldios).
tante naquele período. Primeiramente, ela é instrumento de medida Mas também graças à difusão de diferentes técnicas: sistema trie-
de valor, ou seja, um padrão para medir o valor de bens e serviços nal, charrua, força motriz animal, adubo mineral, moinho de água,
adquiríveis, simplificando a relação pela qual determinada mer- moinho de vento.
cadoria pode ser trocado por outra. Em segundo lugar, a moeda é Uma segunda transformação importante ocorrida nos séculos
instrumento de troca, porque, não sendo ela própria consumível, XI-XIII foi possibilitada pela existência de um excedente agríco-
pode, graças à sua aceitabilidade geral, servir de intermediária en- la, o revigoramento do comércio. Este passou a desempenhar um
tre bens que se quer trocar. Por fim, ela é instrumento de reserva de papel central na vida do Ocidente, com repercussão muito além da
valor, já que sem perder as funções anteriores pode ser guardada esfera econômica.
para a qualquer momento satisfazer certas necessidades. Este pa- Uma terceira transformação econômica da Idade Média Cen-
pel da moeda foi acentuado nos séculos IV-X devido à pequena tral, podemos chamar de Revolução Industrial medieval. Seu pon-
disponibilidade de bens. to de partida foi o crescimento demográfico e comercial, fomen-
tador do desenvolvimento urbano. Estimuladas pela chegada de
O Crescimento Dos Séculos XI-XIII camponeses que conseguiam romper os laços servis, as cidades
localizadas próximas a rios ou estradas frequentadas por comer-
ciantes logo começaram a crescer.
A Idade Média Central conheceu importantes mudanças, a
Com presença mais ou menos generalizada, sem dúvida as
passagem da agricultura dominial para a senhorial. Havia dois ti-
duas maiores indústrias medievais foram a da construção e a têxtil.
pos básicos delas, ambas de concessão pouco onerosa para o cam-
A primeira delas beneficiou-se não só do crescimento populacio-
ponês, a censive e a champart. Na primeira, mais comum e difun- nal, mas também da prática social ostentatória que levava o clero
dida, em troca do usufruto da terra o camponês devia uma pequena e a aristocracia laica a construir cada vez mais e maiores igrejas,
renda fixa, o censo, pago em dinheiro ou em espécie. Na tenência mosteiros, castelos. Buscando superar sua origem humilde, tam-
champart (de campi pars, “parte da colheita”), a renda devida pelo bém a burguesia frequentemente erguia construções imponentes.
camponês ao senhor não era fixa, mas proporcional ao resultado A produção industrial nas cidades estava organizada em asso-
da colheita. De maneira geral, a taxa era de 10% na triticultura, de ciações profissionais que chamamos de corporações de ofício, co-
16% a 33% na viticultura e na criação. nhecidas na Idade Média apenas por “ofícios” (métiers na França,
Não só os lotes camponeses viram sua área diminuir na Idade ghilds na Inglaterra, Innungen na Alemanha, arti na Itália). Suas
Média Central. A reserva senhorial também se viu reduzida em origens são controvertidas, mas as razões para o agrupamento são
razão de vários fatores. Primeiro, a necessidade de criação de no- claras: religiosa, daí muitas vezes ter derivado de confrarias, isto é,
vas tenências camponesas, o que apenas o desmembramento dos de associações que desde o século X existiam para cultuar o santo
mansos não fazia na quantidade desejada. Segundo, o progresso patrono de uma determinada categoria profissional e para praticar
das técnicas agrícolas permitia ao senhor obter maior produção caridade recíproca entre seus membros; econômica, procurando

Didatismo e Conhecimento 76
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
garantir para eles o monopólio de determinada atividade; político- No setor primário, a produção era relativamente estática (li-
-social, com a plebe de artesãos tentando se organizar diante do mites técnicos da agricultura medieval) e o consumo dinâmico
patriciado mercador que detinha o poder na cidade. (crescimento populacional). No setor secundário, cada indivíduo
Em cada oficina o mestre trabalhava com alguns outros arte- gastava mais com alimentação e menos no consumo de bens in-
sãos. Os jornaleiros (ou companheiros) eram assalariados que ga- dustriais. O setor terciário ressentiu-se disso tudo, ocorrendo uma
nhavam em dinheiro e em espécie, pois viviam na casa do mestre. redução da margem de lucro tanto das atividades comerciais quan-
Os aprendizes, apenas um ou dois por oficina, eram adolescentes to das financeiras.
que procuravam iniciar-se nos segredos da profissão, vivendo para Uma das maiores fragilidades e fonte de graves problemas
isso ao lado do mestre e pagando a ele pelo aprendizado, pelo alo- econômicos eram as constantes mutações monetárias empreendi-
das pelos soberanos. Sempre necessitados de dinheiro, os monar-
jamento e pela alimentação.
cas diminuíam a proporção de metal precioso das moedas e man-
Outra importante transformação ocorrida na Idade Média
tinham seu valor nominal, cunhando assim um maior número de
Central foi uma acentuada monetarização da economia. Um pri- peças com a mesma quantidade de metal nobre.
meiro problema era a grande diversidade, de moedas senhoriais, As causas dessa política monetária eram várias. Uma, as ne-
cada uma delas circulando numa área restrita. Um segundo pro- cessidades geradas pela guerra, pela própria retração comercial, a
blema era o baixo valor das espécies, resultado da reforma mone- escassez metálica, a lentidão da circulação monetária, da procura,
tária carolíngia do século VIII, que implantara o monometalismo por fim, o entesouramento.
de prata: o denarius, moeda de pequeno valor, adequava-se melhor
àquela economia pouco produtiva e de lenta circulação. Capítulo III - As estruturas políticas
De um lado, a solução veio do fortalecimento do poder mo-
nárquico que então começava a ocorrer. De outro, os metais pre- Por muito tempo a História Política teve seus estudos voltados
ciosos que tinham sido entesourados foram aos poucos reentrando apenas para a camada dirigente. O primeiro passo na direção des-
em circulação. Graças à expansão mercantil, entre início do século sa Nova História Política foi dado em 1924 por Marc Bloch com
XII e meada do século XIII um afluxo de ouro muçulmano con- uma obra tão pioneira, Os reis taumaturgos. Desde então, nessa sua
tribuiu para alargar o estoque metálico ocidental. Graças às novas nova roupagem, a História Política não se preocupa mais em des-
técnicas de mineração, cresceu bastante a produção de prata da crever dinastias, reinados e batalhas. Ela coloca a ênfase em dois
Europa central. principais campos de estudo, o papel do imaginário na política e as
relações entre nação e Estado.
O Pré-Capitalismo Medieval
Política e imaginário
Em suma, a Idade Média Central foi uma época de mudan- Seguindo os antropólogos, sociólogos e politicólogos, os his-
ças, de expansão econômica, o que levou parte da historiografia toriadores passaram a ver a política como à forma básica de orga-
por muito tempo a falar num “capitalismo medieval”. Contudo, nização de qualquer grupo humano, como o instrumento minimi-
adotando-se uma definição ampla de capitalismo sistema econô- zador dos conflitos inerentes a toda sociedade.
mico centrado na posse privada de capital (mercadorias, máquinas, De fato, nas sociedades arcaicas, com visão monista do uni-
terras, dinheiro, conhecimento técnico) empregado de maneira a verso, sem fazer distinção entre natural e sobrenatural, indivíduo e
se reproduzir continuamente, ficando os desprovidos dele obriga- sociedade, a realeza desempenhava um papel harmonizador, inte-
dos a vender sua força de trabalho — poderíamos talvez aceitar grador do homem no cosmos. Na Idade Média o monarca, sem ser
sua existência nos últimos séculos da Idade Média. Ele coexistia deus ou sequer sacerdote, como nas civilizações da Antiguidade,
com o sistema doméstico, representado por pequenos artesãos in- tinha inquestionável caráter sagrado.
dependentes, e com o sistema senhorial, baseado em mão-de-obra Todo rei para ser visto como tal precisava ser submetido ao
dependente. rito da unção com óleo, sacralizava o monarca, tornava-o um eleito
de Deus.
A Depressão De Fins Da Idade Média Outros interessantes exemplos das relações entre política e
imaginário têm nos reis, históricos ou míticos, que teriam desa-
parecido sem morrer e que retornariam quando seus povos deles
A Baixa Idade Média, por fim, inaugurou um período de crise
precisassem. A crença nesses monarcas messiânicos e milenaristas
generalizada, facilmente perceptível no aspecto econômico. Sem
tanto podia legitimar seus sucessores quanto servir de contestação
dúvida, podemos afirmar que após uma fase A de crescimento ao governante do momento.
econômico (1200-1316) a Europa ocidental entrou numa fase B
depressiva, que se estenderia até fins do século XV no sul e princí- Nação e Estado
pios do XVI no centro e no norte.
De qualquer forma, a crise resultou dos próprios princípios da Pelo menos até o século X, “nação” tinha conotação apenas
economia extensiva e predatória da fase A. ela fundamentava-se étnica: natione vem de “nascimento”. Na Primeira e na Alta Idade
em N (recursos naturais) e T (força de trabalho) abundantes, e um Média, prevaleceu o princípio jurídico germânico da personalidade
K (capital) proporcionalmente pequeno. Ou seja, enquanto ainda das leis, quer dizer, cada pessoa era regida pelos costumes de seu
havia terras férteis disponíveis e mão-de-obra em quantidade para povo independentemente do lugar em que estivesse. O princípio
trabalhá-las, o sistema funcionou bem. Mas a riqueza social global jurídico romano da territorialidade das leis, ou seja, a submissão
pouco crescia por falta de reinvestimento. Logo, como N e T não aos costumes locais, qualquer que fosse a origem da pessoa, rega-
poderiam crescer indefinidamente, mais cedo ou mais tarde viria nharia força aos poucos, sobretudo a partir do século XII. Somente
à crise. então “nação” passou a ter caráter também geográfico e político.

Didatismo e Conhecimento 77
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
No Império Carolíngio alguns fatores permitiram o desenvol- so. Em segundo lugar, as relações do Ocidente com Bizâncio esta-
vimento de consciências étnicas: a pretensão a certo centralismo vam bastante abaladas naquele momento, de forma que não havia
administrativo, a conquista de novos territórios, o progresso dos a preocupação dos três séculos anteriores em respeitar os direitos
falares locais diante do recuo do latim. A fragmentação do império bizantinos.
em 843 expressava e reforçava aquela situação, estimulando a for- O território estava dividido em centenas de condados, de ex-
mação dos nacionalismos nos séculos seguintes. tensão variável, cada um deles dirigido por um conde, nomeado
A evolução do Estado medieval não é menos problemática. pelo imperador. O conde representava o poder central em tudo,
Apesar de a palavra existir desde o latim clássico (no qual status publicando as leis e zelando pela sua execução, estabelecendo im-
significa “modo de ser”, “estado”), apenas a partir de meados do postos, dirigindo trabalhos públicos, distribuindo justiça, alistando
século XIII ela começou a ganhar o sentido atual de corpo político e comandando os contingentes militares, recebendo os juramentos
submetido a um governo e a leis comuns, e somente em fins do sé- de fidelidade dirigidos ao imperador. Em troca recebia uma por-
culo XV essa acepção tornou-se usual. O Estado-nação progrediria centagem das taxas de justiça e, sobretudo terras entreguem pelo
na Baixa Idade Média, tanto no plano prático (exércitos nacionais, soberano.
protecionismo econômico) quanto no simbólico (surgimento das Essa prática revelou-se insuficiente para superar a fraqueza
bandeiras, do conceito de fronteira).
estrutural do Império Carolíngio, o que levou, em 843, à sua frag-
No século IX, restabeleceu-se uma relativa unidade com o
mentação por meio do Tratado de Verdun, assinado entre três netos
Império de Carlos Magno, que absorveu, mas não eliminou ou-
de Carlos Magno. Nele aparecia o primeiro esboço do futuro mapa
tros reinos formados no período anterior. Nos séculos X-XIII, o
Império tornou-se apenas uma ficção, uma idealização, pois na político europeu. O tratado estabeleceu dois grandes blocos territo-
prática ocorria uma profunda fragmentação política substantivada riais, étnicos e linguísticos (dos quais surgiriam às futuras França e
nos feudos, porém limitada pelos laços de vassalagem, que per- Alemanha) e uma longa faixa pluralista, composta de uma zona de
mitiriam às monarquias recuperar aos poucos seus direitos. Nos personalidade definida (Itália do norte), zonas multilinguistas que
séculos XIV-XVI, o processo de revigoramento das monarquias sofreriam o poder de atração daqueles primeiros blocos (futuras
acelerou-se, estimulado pela crise global que fazia a sociedade de- Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Suíça), zonas intermediárias
positar suas esperanças de recuperação no Estado. que seriam objeto de longas disputas (Alsácia, Lorena, Trieste, Ti-
rol).
A fragmentação da Primeira Idade Média O fato de o Império não ter unidade orgânica, assentando-se
sobre dois princípios contraditórios: o universalismo das tradições
A crise do século III já mostrara a fraqueza das instituições romana e cristã e o particularismo tribal germânico. A diversidade
políticas romanas. As lutas pelo trono eram frequentes; -, as inter- étnica era insuficientemente soldada pela autoridade real, muito
venções militares também. Cada exército provincial pretendia dar sujeita a flutuações conforme a personalidade do soberano. Um
o título imperial ao seu comandante para obter maiores vantagens: segundo fator foi à difusão da vassalagem, por meio da qual Car-
naquele período de “anarquia militar”. los Magno pretendeu unir a si todos os súditos importantes, num
As reformas políticas de Diocleciano e Constantino repuse- vínculo que manteria o predomínio imperial. A relação vassálica
ram em mãos imperiais um grande poder, porém suas reformas implicava, porém, a entrega por parte do soberano de terras e privi-
sociais e econômicas indiretamente e em longo prazo anularam légios políticos que na verdade o enfraqueciam. Naquela economia
aquela recuperação. Os latifundiários não só se tornavam mais ri- essencialmente agrária, ao ceder terras para os nobres o imperador
cos como passavam aos poucos a ter atribuições estatais dentro precisava conquistar novas áreas, mas para tanto dependia do ser-
de suas propriedades. A cada vez mais constante penetração de viço militar daqueles mesmos elementos. Surgia um círculo vicio-
germânicos em território romano gerava uma insegurança que re- so difícil de ser rompido.
forçava aquela tendência. O Estado ia perdendo as possibilidades Em terceiro lugar, revelou-se problemática a fusão do poder
de uma atuação efetiva. Ocorria um claro processo de desagrega- temporal e do poder espiritual na figura do imperador. No seu papel
ção política.
militar, pela tradição germânica, ele deveria ser um chefe guerreiro
Os germanos não tinham nem Estado nem cidades, sendo a
e obtentor de pilhagens; no seu papel religioso, pela tradição cristã,
tribo e a família as células básicas de sua organização política. As
ele deveria ser o mantenedor da paz e da justiça. Frágil equilíbrio.
relações sociais entre eles não se regiam pelo conceito de cidada-
nia, mas de parentesco. Assim, ao se sedentarizarem, ocupando O imperador fez com que a expansão cristã fosse realizada por
cada tribo uma parcela do Império Romano, eles vieram a substi- intermédio de missões religiosas, e não mais de conquistas milita-
tuir um Estado organizado e relativamente urbanizado. Não tendo res. O soberano ficou assim privado dos proventos da pilhagem,
instituições próprias para desempenhar tal tarefa, adotaram as que de forma que precisava remunerar os vassalos com suas próprias
estavam à mão, e que bem ou mal tinham funcionado por longo terras, esgotando a fortuna fundiária carolíngia, base inicial de seu
tempo. O rei ostrogodo Teodorico (474-526) pensou numa espécie poder.
de confederação germânica sob o domínio de seu reino. A ideia Por fim, as novas invasões dos séculos IX-X contribuíram
de uma confederação germânica não era absurda, mas precoce, na para mostrar a debilidade do sistema imperial. A rapidez dos vi-
época de Teodorico. kings, que descendo da Escandinávia penetravam pelos rios com
seus barcos leves e ágeis, não permitia a defesa por parte daquele
A renovação imperial carolíngia exército difícil de ser convocado e pesado nas manobras militares.
Ficava patente a impotência dos soberanos, e cada região organi-
As condições para tanto estariam reunidas apenas no reino zava sua própria defesa, em torno da nobreza local. Era a região,
franco do século VIII, na figura de Carlos Magno. Em primeiro portanto, que passava a definir seu próprio destino. A Europa co-
lugar, pelo fato de ele ter a anuência da Igreja para dar aquele pas- bria-se de castelos. O poder se fragmentava.

Didatismo e Conhecimento 78
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A partir de então, estavam presentes os personagens políticos Esse aspecto contratual vinha dos bárbaros germanos, para
que se manteriam em cena até o fim da Idade Média: o Império, a quem o rei, eleito, estava de certa forma subordinado ao direito
Igreja, as monarquias, o feudalismo e — um pouco mais tarde — costumeiro da tribo. Este determinava os poderes e atribuições do
as comunas. rei, e naturalmente não podia ser alterado por ele sem o consenti-
mento da comunidade por intermédio da assembleia dos guerrei-
Os poderes universalistas ros. Com o mesmo espírito, no feudalismo o vassalo que não cum-
pria suas obrigações podia perder seu feudo, depois de julgado por
Por causa de problemas dinásticos, tal título deixou de ser uti- seus pares no tribunal do senhor. Correspondentemente, o senhor
lizado de 924 a 962, quando se deu a chamada “segunda renova- que desrespeitava suas obrigações via o vassalo romper o contra-
ção do Império”, com Oto. Depois de ter consolidado seu poder to feudo-vassálico (diffidatio). Assim, o rei feudal como suserano
no reino alemão, ele derrotou os magiares e eslavos, pacificando mantinha relações contratuais apenas com seus vassalos diretos.
aquela região e ganhando um prestígio muito grande em toda a Por outro lado, a partir da própria fragmentação política feu-
Cristandade*. Intervindo na política italiana, ele casou-se com a dal desenvolvia-se um elemento que acabaria por ter um papel
herdeira do trono daquele território e proclamou-se rei também reaglutinador. Os bárbaros tinham possuído certa solidariedade de
ali. O papa, precisando de ajuda para superar problemas na Itália
tribo ou de povo, que, contudo não se associara a um território por
central, buscou seu apoio. Enfim, Oto I conseguiu reunir todas as
causa de seu nomadismo. Com a penetração e fixação em terras
condições para ser coroado imperador pelo pontífice. Renascia o
do antigo Império Romano, aos poucos surgiram vínculos entre os
Império Franco, que em 1157 passou a se chamar Santo Império e
a partir de 1254, Santo Império Romano Germânico. habitantes, seus costumes, suas tradições e o território ocupado. O
O Império resultava da reunião de três coroas, da Alemanha, primeiro resultado disso é constatável séculos depois, quando em
da Itália e da Borgonha. E o monarca era fraco em todas. Na Ale- 813 o concilio de Tours recomendava ao clero traduzir os sermões
manha, feudalizada tardiamente no século XII, a prática feudal não em língua vulgar para que fossem mais bem compreendidos.
trabalhava a favor do Estado, como ocorria na França: o rei não
podia manter os feudos confiscados, sendo obrigado a reenfeudá- Os poderes particularistas
-los após um ano e um dia. Na Itália, o território era descontínuo,
compreendendo o norte peninsular e algumas regiões meridionais, O feudalismo, do ponto de vista político, representava uma
pois o centro era papal e o extremo sul bizantino. Na Borgonha, pulverização do poder que respondia melhor às necessidades de
o poder da nobreza local já era bastante forte quando o reino se uma sociedade saída do fracasso de uma tentativa unitária (Impé-
tornou em 1033 um Estado autônomo no seio do Império. rio Carolíngio) e pressionada por inimigos externos (vikings, ma-
Sem poder efetivo nesses reinos, o soberano sempre buscou giares etc). Na verdade, as tendências centrífugas vinham desde o
o título imperial na esperança de com ele reforçar sua atuação na- século IV, quando manifestaram e aceleraram o debilitamento do
queles locais. Apenas o papa poderia coroar um imperador, mas Império Romano. Naquele momento, com a busca da autossufi-
não estava interessado na existência de um que fosse forte, pois ele ciência por parte dos latifúndios, com a insegurança gerada pela
próprio tinha pretensões universalistas, considerando-se o legítimo penetração dos bárbaros e com as dificuldades nas comunicações,
herdeiro do Império Romano. Daí os sérios conflitos entre Império acentuou-se a ruralização da economia e da sociedade, levando os
e Igreja, que se arrastariam por longo tempo. representantes do imperador a se verem limitados nas suas pos-
A Igreja, por sua vez, tornou-se claramente uma personalidade sibilidades de atuação. Os grandes proprietários rurais puderam,
política desde que se corporificou com a Doação de Pepino. Isto assim, usurpar atribuições do Estado.
é, ao receber do chefe franco em 754-756 os territórios que ele A formação dos reinos germânicos em nada alterou a essência
conquistara aos lombardos, nascia o Estado Pontifício. Contudo, daquele processo. Naquela economia fundamentalmente agrária,
tal fato trazia em si uma submissão implícita da Igreja ao poder os monarcas remuneravam seus servidores e guerreiros com ter-
monárquico, de quem recebia aquelas terras. Contra isso é que se ras, às quais se concediam muitas vezes imunidades. O detentor
forjou o documento conhecido por Doação de Constantino. Por
da terra desempenhava ali o papel de Estado, taxando, julgando,
este texto apócrifo, o imperador romano Constantino teria supos-
convocando.
tamente transferido para o papado, no século IV, o poder imperial
A concessão e recepção de feudos e sua contrapartida (o servi-
sobre todo o Ocidente. A questão ficava, dessa forma, invertida:
Pepino nada estaria doando à Igreja, mas apenas restituindo a ela ço militar) representavam uma forma de divisão da riqueza (terra
uma parte do que lhe pertencia. A Igreja, depositária do título im- e trabalhadores) sempre dentro da mesma elite. O poder político
perial, entregara-o ao rei franco por serviços prestados, podendo, estava fracionado para que pudesse ser mantido.
portanto, retoma-lo e atribuí-lo a quem quisesse. O surgimento das comunas representou um papel interessante
e importante. De um lado, aquele processo negava os princípios
Os poderes nacionalistas feudo-clericais. O tipo mais difundido era a comuna citadina, a
comunidade burguesa que se organizava para defender seus inte-
Ao promover a unção de Pepino, em 751, a Igreja justificara resses comerciais diante dos abusos feudais, como confiscos ou ta-
o poder monárquico. Em parte isso ocorrera por circunstâncias, já xações excessivas. No começo do século XI, ela pretendia apenas
que o papa necessitava do apoio franco contra os lombardos. escapar à arbitrariedade senhorial. Cerca de 100 anos depois, ela
Apesar de aceitar a sacralidade monárquica, a Igreja velava passou a buscar autonomia, que se comprava ou arrancava à força,
para que tal poder não se tornasse excessivo, daí a farta literatura dependendo de cada caso.
conhecida por “espelho dos príncipes”. Literatura de exortação aos Nascia então a verdadeira comuna, ou cidade-estado. Seu mo-
monarcas, de quem se exigiam qualidades cristãs e a quem se esta- delo acabado estava na Itália, região mais urbanizada do Ocidente,
beleciam limites de atuação. onde as longas lutas entre Império e Igreja tinham criado um vácuo

Didatismo e Conhecimento 79
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
de poder preenchido pelas associações burguesas. As comunas re- eclesiástico separou-se completamente da sociedade laica e procu-
presentaram uma novidade política não apenas na sua relação com rou dirigi-la, buscando desde fins do século XI erigir uma teocracia
os poderes tradicionais, mas também na sua organização interna. que esteve em via de se concretizar em princípios do século XIII.
No primeiro momento seu regime político foi o consulado, com Contudo, por fim, as transformações que a Cristandade conhe-
um grupo de funcionários (cônsules) eleitos defendo poderes exe- cera ao longo desse tempo inviabilizaram o projeto papal e prepa-
cutivos e judiciais. Para controlá-lo, havia uma assembleia inicial- rou sua maior crise, a Reforma Protestante do século XVI.
mente formada por todos os cidadãos e depois por certo número
deles escolhido por eleição ou sorteio. Num segundo momento, A formação da hierarquia eclesiástica na Primeira Idade Mé-
diante das crescentes disputas internas da camada dirigente, pas- dia
sou-se a entregar o poder a uma só pessoa, de fora da cidade e,
portanto neutra nos seus conflitos, o podestà (“regedor”). Nos seus primeiros tempos, a Igreja parecia envolvida numa
O grau de autonomia conseguido pelas comunas foi muito va- contradição, que, no entanto se revelaria a base de seu poder na
riável conforme o tempo, o local e o tipo de associação. E impor- Idade Média. Ao negar diversos aspectos da civilização romana,
tante lembrar que nem todas as comunas eram urbanas. As rurais, ela criava condições de aproximação com os germanos. Ao preser-
quase sempre muito modestas, nasciam da associação de aldeias var vários outros elementos da romanidade, consolidava seu papel
contra o seu senhor. O espírito era o mesmo das comunas urba- no seio da massa populacional do Império.
nas, mudavam os objetivos (acesso a áreas fechadas pelo senhor, Nascida nos quadros do Império Romano, a Igreja ia aos pou-
reação ao desrespeito por costumes locais etc.) e as condições de cos preenchendo os vazios deixados por ele até, em fins do século
alcançá-los (mais pobre que a cidade, o campo dificilmente podia IV, identificar-se com o Estado, quando o cristianismo foi reconhe-
comprar sua liberdade). cido como religião oficial. A Igreja passava a ser a herdeira natural
do Império Romano.
O jogo político medieval Para tanto, ela precisava ter sua própria hierarquia, realizando
e supervisionando os ofícios religiosos, orientando quanto às ques-
Os poderes universalistas (Igreja e Império) estavam em cho- tões de dogma, executando obras sociais, combatendo o paganis-
que constante, porque pela própria natureza do que reivindicavam mo. A concentração de todas essas atividades nas mãos de apenas
— a herança do Império Romano — somente um deles poderia alguns cristãos era aceita com naturalidade pelo conjunto dos fiéis,
já que tal poder lhes fora atribuído pela própria Divindade: segun-
ter sucesso. Assim, ambos fracassaram, permitindo a emergência
do o texto bíblico.
de poderes particularistas (feudos e comunas) e nacionalistas (mo-
Apenas no século IV determinou-se que somente homens li-
narquias). Mais do que isso, quando ficou patente em fins da Idade
vres poderiam ingressar no clero, e proibiu-se a passagem direta
Média, que o futuro pertencia a estas últimas, duas nacionalidade
do laicato para o episcopado, tornando-se necessário exercer antes
já tinham perdido sua oportunidade histórica de organizar Esta-
uma função inferior. O sustento do clero advinha das esmolas da-
dos centralizados. A luta entre os universalistas debilitara as bases
das pelos fiéis, de acordo com o princípio de “quem serve ao altar
territoriais e nacionais da Itália (centro nevrálgico da Igreja) e da
vive do altar”. O celibato não era obrigatório, apenas recomen-
Alemanha (base do Sacro Império). dado, tendo surgido à primeira legislação a respeito na Espanha,
Dessa forma, por muito tempo elas permaneceram apenas onde o sínodo de Elvira em 306 proibiu o casamento aos clérigos
realidades geográficas, não políticas. Perdidas as chances de obter sob pena de destituição.
colônias no Novo Mundo dos séculos XVI-XVII, atrasadas na in- Para a formação e organização da hierarquia eclesiástica aca-
dustrialização dos séculos XVIII-XIX, secundarizadas na partilha bou contribuindo bastante, paradoxalmente, um elemento que pu-
da África e da Ásia do século XIX, aquelas nacionalidades sentiam nha em risco a própria existência da Igreja: as heresias. Estas eram
cada vez mais a necessidade de se corporificar politicamente. produto do sincretismo que fazia a força, mas também a fraqueza
Apesar das transformações políticas dos séculos XI-XIII, na do cristianismo. Ao reunir e harmonizar componentes de várias
Baixa Idade Média os vínculos feudais continuavam a tencionar crenças da época, a religião cristã tornava-se mais facilmente assi-
as relações entre vários Estados: o rei da Inglaterra era vassalo milável, porém passível de interpretações discordantes do pensa-
francês, o reino português surgira de uma secessão de Castela, a mento oficial do clero cristão. Do ponto de vista deste, heresia era,
Escócia estava ligada à Inglaterra, e Flandres à França. Todas es- portanto, um desvio dogmático que colocava em perigo a unidade
sas questões pendentes, ou mal resolvidas, vieram à tona com o de fé.
grande conflito nacionalista da Idade Média, a Guerra dos Cem Qualquer ideia que parecesse herética era, então, submetida
Anos (1337-1453). Mas esta também envolveu questões feudais à apreciação do bispo local. Este geralmente colocava a questão
internas, pois cada vez mais se restringia o papel social da nobreza, perante seus pares nas assembleias episcopais, ou sínodos, que se
que era cumprido através de guerras locais, proibidas pelas monar- reuniam desde meados do século II para tratar de tudo que interes-
quias, daí a necessidade de guerras mais amplas, entre os Estados. sasse à Igreja local. Mas as questões de doutrina eram debatidas,
sobretudo nos concílios ecumênicos, que congregavam bispos de
Capítulo IV - As estruturas eclesiásticas todas as regiões, expressando a universalidade da Igreja.
Paralelamente a esse clero voltado para atividades em socie-
A linha tendencial da Igreja na Idade Média revela-se com dade — ministrar sacramentos, orientar espiritualmente, ajudar os
clareza. Num primeiro momento, a organização da hierarquia ecle- necessitados — e por isso chamado de clero secular, surgia um de
siástica visava à consolidação da recente vitória do cristianismo. A características diversas. Era constituído por indivíduos que busca-
seguir, a aproximação com os poderes políticos garantiu à Igreja vam servir a Deus vivendo em solidão, ascese e contemplação: os
maiores possibilidades de atuação. Em uma terceira fase, o corpo monges, do grego monakbos, “solitário”.

Didatismo e Conhecimento 80
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A tradicional trilogia monástica — castidade, pobreza e obe- ou mosteiro em suas terras, mantinha esse bem como plena pro-
diência — estava presente de forma concreta e equilibrada no co- priedade, podendo vendê-lo, doá-lo ou transmiti-lo em herança.
tidiano dos beneditinos. O abade eleito pelos monges recebe deles Podia apropriar-se das esmolas e dízimos recebidos pela igreja ou
total obediência, que representa ao mesmo tempo uma manifesta- mosteiro. Podia, sobretudo, nomear quem quisesse como sacerdo-
ção de pobreza, pois não se pode dispor sequer da própria vontade. te, função que desde o século VIII era atribuída como beneficiam
A pobreza, por sua vez, não é entendida como falta ou miséria, ou feudo.
mas posse do estritamente necessário, daí o monge não poder ter
nada de seu, apesar de o mosteiro possuir propriedades recebidas A tentativa de teocracia papal na Idade Média Central
em doação. A castidade, sendo negação da posse do próprio corpo,
também é uma forma de pobreza. Sendo negação do usufruto do Numa reação contra aquele estado de coisas, na Idade Média
próprio corpo, é uma forma de obediência. A obediência, sendo Central a Igreja teve como objetivo alcançar a autonomia e, sobre-
uma renúncia, é ainda uma forma de castidade. tudo — concretizando o agostinianismo político e impedindo que
Desde fins do século III ocorria forte expansão do cristianis- prosseguisse a sujeição aos leigos — passar a dirigir a sociedade.
O primeiro passo em direção àquela dupla meta tinha sido dado
mo nas cidades, onde a crise do Império Romano era mais sentida
em princípios do século X, com a fundação do mosteiro de Cluny,
e, portanto, as condições para a cristianização mais favoráveis. O
na Borgonha. Adotando a regra beneditina, mas interpretando-a de
campo, sempre mais conservador, mantinha-se preso às suas anti-
forma própria, Cluny valorizava os trabalhos litúrgicos, que absor-
gas crenças, mesmo pré-romanas, daí paganus (“camponês”) ter viam a quase totalidade do tempo dos monges. O trabalho manual
sido identificado ao não-cristão. Com a decadência urbana e o con- foi abandonado aos camponeses de seus senhorios, o trabalho in-
sequente êxodo, o cristianismo penetrou no campo. telectual relegado a segundo plano. Vivendo sob rígida disciplina,
cm ascetismo, silêncio e isolamento, os monges cluniacenses recu-
A submissão ao Estado na Alta Idade Média peraram o prestígio da vida religiosa.
Buscando restabelecer a paz social (não a igualdade, concep-
Estreitavam-se, portanto, as relações Estado-Igreja, com pre- ção estranha à época) e tornar-se sua guardiã, a Igreja promoveu
domínio do primeiro na época de Carlos Magno. Os clérigos par- em fins do século X o movimento conhecido por Paz de Deus.
ticipavam então do conselho real, os bispos tinham poderes civis, Ameaçados de excomunhão e de suas decorrentes punições sobre-
os cânones ganhavam força de lei. O monarca presidia os sínodos, naturais, os guerreiros foram pressionados a jurar sobre relíquias
punia os bispos, regulamentava com eles a disciplina eclesiástica que respeitariam as igrejas, os membros do clero e os bens dos
e a liturgia, intervinha mesmo em questões doutrinais. Os bispos humildes.
eram nomeados pelo soberano, contrariamente à tradição canôni- Tal movimento estendeu-se até por volta de 1040, sem conse-
ca, mas o fato não era considerado uma usurpação, e sim um servi- guir pacificar completamente a sociedade cristã ocidental. O clima
ço prestado pelo monarca à Igreja, quase um dever do cargo. Suas de violência expressava as necessidades da aristocracia laica, mais
conquistas territoriais abriram caminho para a cristianização dos numerosa devido ao crescimento demográfico, e a consequente
saxões, frísios, vendes, avaros, morávios e boêmios. Em virtude disputa entre ela e a aristocracia eclesiástica pela posse das rique-
da crescente extensão do Império, ele instituiu muitas paróquias, zas geradas pelos camponeses. Diante disso, seguindo o mesmo
criou novas dioceses e arquidioceses. espírito da Paz de Deus, mas buscando criar novos mecanismos de
Graças a isso, a Igreja enriqueceu ainda mais. No começo do controle sobre o comportamento da elite laica, a Igreja estabeleceu
século V ela tinha sido a segunda maior proprietária imobiliária em princípios do século XI a Trégua de Deus.
do Ocidente, depois do Estado Romano, e tornou-se a maior desde Como a ideia básica da Paz e da Trégua de Deus era a pre-
fins daquele século, com o desaparecimento do Império. De fato, servação da ordem religiosa, social e política desejada por Deus,
a chegada dos bárbaros não a prejudicou, pelo contrário, muitos entende-se que a partir de fins do século XI ela tenha derivado para
a ideia de Guerra Santa, que procurava impor aquela ordem dentro
indivíduos, diante da insegurança geral de então, entregaram suas
(Cruzada contra hereges) e fora (Cruzada contra muçulmanos) da
terras ao patrocinium da Igreja.
Cristandade.
Na terceira fase das relações Carolíngios-papado, completou-
As Cruzadas deveriam funcionar não só como elemento de
-se a reforma monástica sob o governo de Luís, o Pio, que encarre- pacificação interna da Europa católica, levando para fora dela à
gou Bento de Aniane de realizá-la. Este, em 817, procurou inicial- irrequieta nobreza feudal, mas especialmente como um fenômeno
mente combater o relaxamento que tomara conta da vida monásti- aglutinador da Cristandade sob o comando da Igreja, acenava-se
ca, impondo certa uniformização na aplicação da regra beneditina. para seus participantes com a remissão dos pecados, a proteção
Desde então, os monges entregaram-se especialmente ao culto. O eclesiástica sobre suas famílias e bens, a suspensão do pagamento
clero secular retomava a direção do movimento de cristianização e de juros. Lutando sob a égide da Igreja, os cruzados deveriam agir
o episcopado aumentava seu poder político. como guerreiros imbuídos de seus ideais.
A partir de inícios do século IX, inspirada no Direito Canô- No século XIII estavam reunidas todas as condições para o
nico e em Santo Agostinho, ganhou terreno à teoria do agostinia- exercício do poder papal sobre a comunidade cristã. Em relação
nismo político, que afirmava a superioridade espiritual sobre a aos clérigos, o papado legisla e julga, tributa, cria ou fiscaliza uni-
temporal, dos bispos sobre os reis. O movimento cultural chamado versidades, institui dioceses, nomeia para todas as funções, reco-
de Renascimento Carolíngio elevara o nível dos bispos. Tal teoria nhece novas ordens religiosas. Em relação aos leigos, julga em
contribuiu para aumentar a autonomia da nobreza, o que teve re- vários assuntos, cobra o dízimo, determina a vida sexual (casa-
flexos negativos sobre a Igreja, com a generalização do sistema de mento, abstinências), regulamenta a atividade profissional (traba-
“igreja própria”, já existente no século VII e que se estenderia até o lhos lícitos e ilícitos), estabelece o comportamento social (roupas,
século XII. Por ele, quando um latifundiário levantava uma igreja palavras, atitudes), estipula os valores culturais.

Didatismo e Conhecimento 81
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Um claro sinal do alargamento das atribuições papais estava e tributos. Contudo, o escravismo e o imperialismo marginaliza-
numa importante novidade, à exclusividade de canonização dos vam grande parte da população, que precisava ser sustentada pelo
santos. Desde princípios do cristianismo, os mártires vitimados Estado.
pelas perseguições romanas tornaram-se objeto de culto, sendo O segundo fator que enfraquecia as camadas médias urbanas
vistos como cristãos ideais, que tinham sacrificado suas vidas por era um pesado conjunto de impostos que o Estado cobrava para
fidelidade ao Deus único. tentar manter a própria vida citadina. Obrigados a contribuir na
promoção de jogos circenses, na distribuição de trigo à população
A crise da Baixa Idade Média marginalizada e na realização de obras públicas, os curiales (espé-
cie de aristocratas urbanos) procuravam fugir aos seus encargos. O
A grande questão da Igreja na Baixa Idade Média foi, porém, Estado precisou proibir sua migração para o campo e mesmo sua
um prolongamento da antiga disputa entre poder espiritual e poder entrada para a camada senatorial ou para o clero.
temporal. Em fins do século XIII, o papa Bonifácio VIII, defen- Na base da sociedade, os trabalhadores livres urbanos tiveram
sor da monarquia universal pontifícia, proibiu que os eclesiásticos decretado a vitaliciedade e hereditariedade de suas funções, sendo
fizessem doações sem autorização da Santa Sé e que os poderes reunidos em collegiae (corporações) de acordo com a especializa-
laicos cobrassem taxas sobre bens da Igreja. Na França, em ple- ção, para facilitar o controle estatal. Os trabalhadores livres rurais
no processo de afirmação da monarquia nacional, o rei Filipe IV, tendiam a se tornar dependentes dos latifundiários por meio do
em resposta, proibiu a saída de metais preciosos do país e baniu patrocinium e, sobretudo, do colonato. A criação dessa instituição
os coletores de impostos papais. Pouco depois, o monarca fran- era uma tentativa de responder a problemas colocados pela crise:
cês prendeu um bispo, levantando fortes protestos do papa. Filipe atendia ao interesse dos proprietários em ter mais mão-de-obra, ao
acusou Bonifácio de ter sido eleito papa ilegitimamente e em 1303 interesse do Estado em garantir suas rendas fiscais, ao interesse
conseguiu prendê-lo na cidade de Anagni. Apesar de solto logo dos humildes e despossuídos por segurança e estabilidade.
depois, o papa estava claramente desmoralizado, e o sonho da teo- Já no século III, precisando de soldados diante do retroces-
cracia pontifícia falido. so populacional, o Estado romano contratara muitos germanos, às
A crise do pontificado e o desenvolvimento do nacionalis- vezes tribos inteiras. O pagamento por esse serviço militar era a
mo, fenômenos, aliás, interligados, desenvolviam o sentimento entrega de lotes fronteiriços (hospitalitas), prática que se estendeu
de autonomia eclesiástica em diversos locais. Mesmo depois de a todo o território romano com as invasões do século V.
reunificada pelo Concilio de Constança, havendo um só papa re-
sidindo na tradicional sede de Roma, a Igreja continuava abalada. A aristocratização da Alta Idade Média
Grandes problemas permaneciam, opondo concilio e papa, Igreja
e monarquias, Estado Pontifício e Estados italianos, cultura cristã Como a terra era quase a única forma de riqueza da época,
tradicional e nova cultura humanista. Assim, em 1517, exatamente não existia uma camada urbana de comerciantes e artesãos que
100 anos depois da volta do papado a Roma, começava o Protes- exercessem por conta própria e regularmente seu ofício, mas ape-
tantismo. nas uns poucos indivíduos dedicando-se àquelas atividades. A
sociedade estava polarizada entre os proprietários fundiários, de
Capítulo V - As estruturas sociais um lado, e os camponeses despossuídos, de outro.
Dentre os primeiros, havia pequenos e médios proprietários,
A História Social total deve ser o objetivo último dos estudos camponeses livres (pagenses) que trabalhavam sua terra com a aju-
históricos, não uma etapa da reconstituição do passado, um campo da de familiares e uns poucos escravos. Como todo homem livre,
específico do saber. eles deviam (além do juramento de fidelidade ao soberano) serviço
militar e judicial, encargos muito pesados para seus recursos.
A redefinição da Primeira Idade Média A seguir vinham os colonos, que, apesar de serem juridica-
mente livres, cada vez mais sentiam a fraqueza da autoridade pú-
Os primeiros séculos medievais conheceram uma cristaliza- blica que deixava amplos poderes nas mãos dos grandes detento-
ção da hierarquia social, fenômeno que na verdade já se desen- res de terras. Sua situação oscilava, conforme os momentos e os
volvia anteriormente, mas que se completou apenas no século IV. locais, entre a dos pagenses e a dos escravos. Por fim, havia uma
De fato, a crise geral que sacudiu a civilização romana no século mão-de-obra escrava.
III levara a uma limitação dos espaços de atuação individual e ao
correspondente alargamento das funções do Estado. A feudo-clericalização dos séculos XI-XII
As tentativas reformistas criaram uma enorme distância social
entre as várias camadas. No topo da pirâmide estava a aristocracia O que se deve chamar de feudalismo ou termo correlato
senatorial, cinco vezes mais rica que a do século I. As camadas (modo de produção feudal, sociedade feudal, sistema feudal etc.)
médias, rurais e urbanas, encolhiam. As primeiras, devido à gene- é o conjunto da formação social dominante no Ocidente da Idade
ralização do patrocinium, laço de dependência que se criava entre Média Central, com suas facetas política, econômica, ideológica,
um camponês livre e um grande proprietário. As camadas médias institucional, social, cultural, religiosa. Em suma, uma totalidade
urbanas viam-se esmagadas por dois fatores. O primeiro deles — o histórica, da qual o feudo foi apenas um elemento. No entanto — e
processo de ruralização da sociedade romana — resultava de sua procurando não perder essa globalidade de vista —, como exami-
contradição básica: sendo escravista e imperialista, ela só poderia namos cada uma daquelas facetas nos capítulos correspondentes,
manter-se graças a novas conquistas que renovassem o estoque vamos aqui nos prender apenas à análise das relações sociais do
de mão-de-obra e trouxessem mais riquezas por meio de saques feudalismo.

Didatismo e Conhecimento 82
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Ou melhor, do feudo-clericalismo. Realmente, este rótulo A instabilidade dos séculos XIV-XVI
parece-nos mais conveniente, na medida em que explicita o papel
central da Igreja naquela sociedade. Fato fundamental e geralmen- Na Baixa Idade Média, a passagem da sociedade de ordens
te pouco considerado. para uma sociedade estamental, produto da própria dinâmica feu-
Foi por intermédio dela que se deu a conexão entre os vários dal, acelerou-se naquele contexto de crise generalizada. Com a
elementos (já anteriormente presentes) que comporiam aquela for- quebra da rígida estratificação anterior, baseada num ordenamento
mação social. Foi ela a maior detentora de terras naquela socie- divino da sociedade, o organismo social tornou-se determinável
dade essencialmente agrária, destacando-se, portanto, no jogo de pelos próprios indivíduos.
concessão e recepção de feudos. Foi ela a controlar as manifesta- A aristocracia, naturalmente, foi a mais atingida pelas trans-
ções mais íntimas da vida dos indivíduos: a consciência através formações da época. As dificuldades da economia senhorial arrui-
da confissão; a vida sexual através do casamento; o tempo através navam muitas famílias nobres, que perdiam suas terras e se deslo-
do calendário litúrgico; o conhecimento através do controle sobre cavam para as cidades ou para as cortes principescas ou monárqui-
cas. Dessa forma, a nobreza sofria certa descaracterização ou ao
as artes, as festas, o pensamento; a própria vida e a própria mor-
menos perdia alguns dos traços que tinham feito parte de seu poder
te através dos sacramentos (só se nascia verdadeiramente com o
e prestígio até então.
batismo, só se tinha o descanso eterno no solo sagrado do cemité-
A burguesia, cujo aparecimento na Idade Média Central tinha
rio). Foi ela a legitimadora das relações horizontais sacralizando expressado as transformações sociais então em gestação, consoli-
o contrato feudo vassálico, e das relações verticais justificando a dou-se com a crise aristocrática. Foi assim que se deu a penetra-
dependência servil. ção burguesa no campo, com a compra de terras, que ocorria pelo
Aliás, como produtora de ideologia, traçava a imagem que a menos desde o século XIII acelerando-se na Baixa Idade Média.
sociedade deveria ter de si mesma. Quanto à mão-de-obra urbana, a situação era mais homogê-
Tínhamos, portanto, naquela sociedade de ordens, de um lado, nea e mais difícil. A crise não criou uma elite trabalhadora, como
duas camadas identificadas quanto às origens e aos interesses, de- fizera no campo, apenas reforçou o poder da alta burguesia. A rela-
tentoras de terra e, assim, de poder econômico, político e judicial tiva alta de preços industriais, enquanto os preços agrícolas caíam,
(clérigos e guerreiros), de outro lado, uma massa formada princi- atraía muitos camponeses para as cidades. Dessa forma, aumen-
palmente por despossuídos e dependentes, os trabalhadores. As- tava a oferta de mão-de-obra urbana, o que permitia ao patriciado
sim, davam-se três formas de relações sociais, uma horizontal na burguês pressionar os salários para baixo, rompendo a tendência
camada dominante, outra horizontal na camada dominada e outra altista gerada pela peste negra.
vertical entre os dois grandes grupos. As revoltas urbanas, por sua vez, eram pelo controle do Es-
A primeira forma ocorria pelo contrato feudo-vassálico. A se- tado, em processo de afirmação, fosse ele comunal, senhorial ou
gunda, por acordos para empreendimentos comuns, diante das di- nacional.
ficuldades de um trabalhador realizar sozinho certas tarefas, como
arar um campo ou arrotear uma área. A terceira, fundamental, es- Capítulo VI - As estruturas culturais
tava na base da primeira (forma de a aristocracia dividir as terras e
o produto do trabalho camponês) e da segunda (forma de os labor Cultura era entendida como uma criação intelectual realizada
atores poderem concretizar seu papel social, de produtores). por “grandes homens”, mais ou menos desvinculados do contexto
histórico. E também como uma criação letrada, pois mesmo as ar-
O feudo-aburguesamento dos séculos XII-XIII tes, essencialmente visuais, pressuporiam certo conhecimento para
ser “compreendidas”. No entanto, as transformações do último
O crescimento demográfico e econômico, as cidades da Idade meio século nos veículos de divulgação cultural (rádio, televisão,
cinema, jornais, revistas), e mais recentemente o diálogo da Histó-
Média Central revigorou, pois para aqueles que fugiam dos laços
ria com a Antropologia, romperam aquela visão estreita.
compulsórios da servidão a vida urbana oferecia muitos atrativos.
Para tanto, entenderemos cultura como tudo aquilo que o ho-
Mais do que isso, tornava-se burguês (habitante do burgo, ou
mem encontra fora da natureza ao nascer. Tudo que foi criado,
seja, da cidade), o que significava uma situação jurídica própria, consciente e inconscientemente, para se relacionar com outros
bem definida, com obrigações limitadas e direitos de participação homens (idiomas, instituições, normas), com o meio físico (ves-
política, administrativa e econômica na vida da cidade. E verdade tes, moradias, ferramentas), com o mundo extra-humano (orações,
que desde fins do século XII os imigrantes não encontravam nas rituais, símbolos). Esse relacionamento tem caráter variado, po-
cidades as oportunidades com que sonhavam, formando um prole- dendo ser de expressão de sentimentos (literatura, arte), de domí-
tariado que frequentemente acabou por se chocar com a burguesia nio social (ideologias), de controle sobre a natureza (técnicas), de
dona das lojas e oficinas. Mas, utopicamente, os centros urbanos busca de compreensão do universo (filosofia, teologia).
continuaram a seduzir os homens do campo.
A grande síntese disso tudo talvez tenha sido o desenvolvi- As áreas culturais
mento do individualismo, com a consequente passagem da família
patriarcal para a família conjugal e a correspondente valorização De um lado, a cultura erudita, de elite, cultura letrada que pelo
da mulher e da criança. Foi nas cidades que despontaram novos menos até o século XIII foi eclesiástica do ponto de vista social
valores sociais, opostos aos coletivistas (interdependência das or- e latina do ponto de vista linguístico. Conscientemente elaborada
dens) e machistas (predominância do clero celibatário e dos guer- (mas sem deixar, é claro, de ser tributária da mentalidade), era for-
reiros). Na realidade, esse fenômeno social era reflexo c origem de malmente transmitida (escolas monásticas, escolas catedralícias,
um conjunto mais amplo de transformações, de uma revalorização universidades). Por isso, tendia a ser conservadora, a se fundamen-
do ser humano. tar em autoridades.

Didatismo e Conhecimento 83
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
De outro lado, estava a cultura que já foi chamada de popular, A clericalização da Alta Idade Média
laica ou folclórica, e que preferimos denominar “vulgar”, pois para
os medievais esta palavra rotulava sem ambiguidade tudo que não Entre as últimas décadas do século VIII e as primeiras do sé-
fosse clerical. A cultura vulgar era oral, transmitida informalmente culo IX, com a estreita relação entre Estado e Igreja que levou à
(nas casas, ruas, praças, tavernas etc.) por meio de idiomas e diale- constituição do Império Carolíngio, as manifestações da cultura
tos vernáculos. Espontaneamente elaborada, ela expressava a men- vulgar foram de forma geral abafadas. A cultura clerical, mais do
talidade de forma mais direta, com menos intermediações, com que nunca tornada oficial, foi produzida no âmbito do movimento
menos regras preestabelecidas. Ideologicamente, ela se inclinava a que se convencionou chamar de Renascimento Carolíngio. Segun-
recusar os valores e práticas oficiais. Ainda que muito presa às suas do o próprio Carlos Magno, seu objetivo era fazer com que “a sa-
próprias tradições — que a Igreja tendia a tachar de superstições bedoria necessária à compreensão das Sagradas Escrituras não seja
—, a cultura vulgar não estava fechada a outras influências. muito inferior à que deveria ser”. Melhorar o nível dos clérigos
A cultura erudita procurou apossar-se dos relatos míticos, pro- significava para a Igreja oferecer serviços religiosos mais elevados
movendo e legitimando o registro escrito de alguns deles e contro- e para o Império servidores administrativos mais eficientes. Daí o
lando sua interpretação. alcance daquele movimento ter-se limitado a algumas centenas de
A cultura vulgar, por sua vez, pressionou ao longo da Idade pessoas, concentradas nas escolas monásticas e, novidade, numa
Média para que certos ritos fossem criados ou modificados. escola criada no próprio palácio imperial. Diante de seus objeti-
vos, a tônica não era criar, mas redescobrir, adaptar, copiar, por
A bipolarização da Primeira Idade Média isso já se disse que “a Renascença Carolíngia, ao invés de semear,
entesoura”.
Na Primeira Idade Média, as dificuldades da época estabe- Para acelerar essa atividade copista e minimizar os erros de
leceram caracteres culturais que se manteriam, com variações de transcrição, buscava-se já havia algum tempo desenvolver uma
intensidade, nos séculos seguintes. Primeiro, alargamento do fosso caligrafia menos desenhada, que apresentasse maior regularidade.
entre a elite culta e a massa inculta. Segundo, este corte cultural Uma caligrafia mais prática, cursiva, que implicasse menor núme-
não coincidia com a estratificação social: a linha de separação era ro de movimentos com a mão.
entre clérigos e leigos, realidade sociocultural que ficou registrada
no francês moderno clerc (“letrado”), no inglês clerk (“escreven- O reequilíbrio da Idade Média Central
te”) e no português “leigo” (ignorante). Terceiro, a cultura clerical
era uma sistematização e simplificação da herança greco-romana, Com as acentuadas transformações sociais, políticas e econô-
adaptada à situação de uma época convulsionada politicamente, micas ocorridas a partir do século XI, foi quebrada a clara predo-
enrijecida socialmente, empobrecida economicamente e, síntese minância desfrutada pela cultura clerical na fase anterior. A cultura
disso tudo, limitada pelo seu “absolutismo religioso”. Quarto, a vulgar ressurgia com força. Em consequência, a cultura interme-
cultura vulgar regredira com as dificuldades materiais, a insegu- diária passou a marcar presença em quase todos os campos. A cul-
rança espiritual e a fusão com elementos bárbaros, daí a ressurgên- tura erudita viu, assim, reduzidas suas áreas de exclusividade, mas
cia de técnicas, crenças e mentalidades tradicionais, pré-romanas. com isso pôde concentrar forças e em certos setores atingir seu
Em virtude desse clima cultural e da finalidade que se atribuía apogeu. O movimento conhecido por Renascimento do século XII
ao conhecimento, às ciências viam-se limitadas no seu desenvolvi- ilustra bem esse fenômeno.
mento. Predominava a concepção de que a meta do homem era o
Reino de Deus e de que a Revelação estava contida nas Sagradas A Reação Folclórica
Escrituras.
A Literatura também foi influenciada por aquela tendência Com efeito, assistiu-se no século XI a um reequilíbrio de for-
a preservar e cristianizar obras antigas, mais do que a criar. Não ças entre os dois polos culturais. Assim como na Alta Idade Média
havia preocupação com originalidade, apenas com a conservação ocorrera a clericalização de muitos elementos folclóricos, agora se
da literatura clássica por meio de cópias realizadas nos scriptoria dava a folclorização de elementos cristãos. O cristianismo, ao des-
monásticos. sacralizar a natureza (que não se identificava mais com as divinda-
A arte ocidental dos séculos IV-VIII realizou uma síntese de des pagãs), tinha marcado nova etapa no pensamento racionalista,
elementos de origens diversas. Da arte romana clássica conservou- e nesse sentido a oposição folclórica representou a resistência de
-se algo das técnicas e das características arquitetônicas. Da arte outro sistema mental, de outra lógica, a do “pensamento selva-
oriental, com a qual se manteve contato mesmo após as invasões gem”.
germânicas, através de mercadores e missionários, veio certa esti-
lização e hieratismo das formas. Da arte germânica, típica de po- A cultura intermediária e a arte
vos nômades, aproveitou-se o caráter não figurativo e o geometris-
mo estilizado. Da arte céltica, através das iluminuras dos monges Mas a emissão e a recepção da mensagem iconográfica não
irlandeses, absorveu-se o uso de linhas abstratas, apenas ornamen- era, obviamente, sempre a mesma. As iluminuras de textos bíbli-
tais. Da arte cristã primitiva veio o essencial, isto é, a temática e o cos e teológicos, consumidas apenas por clérigos, recebiam tra-
simbolismo. No todo, elementos que se completavam mais do que tamento mais erudito. As esculturas, as pinturas murais, os mo-
se negavam, tendo cada um deles peso variável conforme o gênero saicos, os vitrais, colocados em igrejas, mosteiros e catedrais em
artístico (arquitetura, escultura, pintura, miniatura, mosaico etc.) e locais visíveis a todos, transmitiam mensagens ao alcance desse
as condições locais (composição étnica, meio físico, época). público mais amplo.

Didatismo e Conhecimento 84
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A cultura intermediária e a literatura Capítulo VII - As estruturas cotidianas

Na literatura latina, ao lado de uma produção nitidamente cle- O caráter factual e descritivo que marcou de forma geral a
rical (crônicas, poesias de cunho clássico), havia uma de espírito historiografia até princípios deste século levava à desconsideração
popular (hagiografia) e outra erudita mas antieclesiástica (goliár- dos “pequenos fatos”, dos eventos do dia-a-dia, repetitivos, sem
dica). Na literatura vernácula, havia gêneros com forte coloração uma influência clara e direta sobre os “grandes fatos” (batalhas, sa-
clerical (canção de gesta, ciclo do Graal) e outros acentuadamente gração de reis, criação de instituições, surgimento de importantes
laicos (lais, fabliaux). Em termos culturais, portanto, e não apenas obras literárias e artísticas etc). No entanto, a crescente compreen-
linguísticos, boa parte da literatura da Idade Média Central estava são de que o tecido da História é formado por fios dos mais varia-
na zona da cultura intermediária. dos tamanhos e cores permitiu o aparecimento de estudos sobre a
vida cotidiana e privada das populações do passado. Ou seja, dos
A cultura clerical e o ensino aspectos mais duradouros e presentes no desenrolar da História.

Um setor cultural que a Igreja monopolizava desde princípios O tempo


da Idade Média continuou nos séculos XI-XIII sob seu controle,
apresentando, todavia, características novas, que tendiam a esca- A Idade Média não se interessava por uma clara e uniforme
par de sua alçada — o ensino. De qualquer forma, mesmo com quantificação do tempo. Como na Antiguidade, o dia estava dividi-
certa laicização o ensino não deixava de estar na área da cultura do em 12 horas e a noite também, independentemente da época do
clerical, entendida cada vez mais, como já dissemos, como cultura ano. Os intervalos muito pequenos (segundos) eram simplesmente
de letrados, e não apenas cultura de eclesiásticos. ignorados, os pequenos (minutos) pouco considerados, os médios
Nesse processo, surgiram no século XI as escolas urbanas, que (horas) contabilizados grosseiramente por velas, ampulhetas, reló-
se transformariam em universidades no século XIII. Ambas eram gios d’água, observação do Sol.
produto do crescimento demográfico-econômico-urbano, que tor- Apenas o clero, por necessidades litúrgicas, estabeleceu um
nava a sociedade mais complexa e mais necessitada de atividades controle maior sobre as horas, contando-as precariamente de três
intelectuais. De fato, eram necessários sacerdotes em maior núme- em três a partir da meia-noite (matinas, laudes, primas, terça, sex-
ro e mais bem preparados para guiar fiéis mais numerosos e com ta, nona, vésperas, completas).
novos problemas; juristas para uma maior quantidade de tribunais
e às voltas com questões novas c mais difíceis; burocratas para Sexo
os reis e grandes senhores feudais, cujos rendimentos, despesas e
interesses se ampliavam; mercadores para atender à crescente pro- O surgimento do cristianismo respondia a essa demanda psi-
cura de bens e que precisavam elaborar contratos, escrever cartas, cológica e comportamental da sociedade romana, daí seu sucesso.
controlar lucros e estoques. Tornado religião oficial em 392 e cada vez mais institucionalizado
pela Igreja, já na Primeira Idade Média o cristianismo pôde impor
A cultura clerical e a teologia/filosofia seus valores.
A vida sexual ideal passou a ser a inexistente. A virgindade
O curso universitário que gozava de maior prestígio, apesar de tornou-se um grande valor, seguindo os modelos de Cristo e sua
toda a laicização da sociedade e da cultura que ocorria no século mãe. Vinha depois a castidade: quem já havia pecado podia em
XIII, era sem dúvida o de Teologia, especialmente o de Paris. O parte compensar essa falta abstendo-se de sexo pelo restante da
conhecimento nessa área mantinha-se virtualmente o mesmo dos vida. Os relatos hagiográficos de toda a Idade Média, sobretudo
séculos anteriores, com o termo então utilizado (sacra doctrina) de suas duas primeiras fases, abundam em exemplos de santas que
indicando que ela abarcava apenas o que tinha sido revelado direta morreram para defender sua virgindade e de santos e santas que ao
ou indiretamente por Deus: Bíblia, decisões de concílios, comentá- se converter ao cristianismo abandonaram a vida conjugal.
rios há muito aceitos pela Igreja. Na expressão de Santo Anselmo, Contudo essa interferência eclesiástica na vida íntima dos fiéis
era “a fé em busca da inteligência”. não foi aceita com facilidade. Quanto mais recuados no tempo e
mais afastados dos grandes centros clericais (sedes de bispado,
O redirecionamento da Baixa Idade Média mosteiros), mais os medievos puderam viver de forma “pagã”, no
dizer da Igreja.
O frágil equilíbrio entre cultura clerical e cultura vulgar rom- O matrimônio é uma relação monogâmica. Por um lado, isso
peu-se com a crise do século XIV. A razão disso está ligada ao fato atendia a um dado da mentalidade medieval, fascinada pela Unida-
de que na Baixa Idade Média “existia uma falta geral de equilíbrio de cosmológica, talvez como forma compensatória à grande diver-
no temperamento religioso, o que tornava tanto as massas como sidade da realidade concreta do Ocidente, dividido em vários rei-
os indivíduos suscetíveis de violentas contradições e de mudanças nos, milhares de feudos, dezenas de línguas e dialetos, diferentes
súbitas” (62: 163). As manifestações culturais oscilavam então do liturgias (apenas com a Reforma Gregoriana tentou-se impor o rito
mais estrito racionalismo ao mais fervoroso misticismo. A cultura galicano-romano a todas as regiões, o que demoraria a se concreti-
clerical não tinha mais a coerência da Alta Idade Média e a cultura zar). Assim, idealmente, ao Deus único deveria corresponder uma
vulgar não possuía o mesmo vigor que na Idade Média Central. só Igreja, uma só fé, um só governante secular. Por outro lado, a
Buscava-se uma nova composição, da qual sairia à cultura renas- monogamia respondia a uma lenta mas inegável transformação na
centista dos séculos XV-XVI. sensibilidade coletiva — que a Igreja soube reconhecer e tornar
lei — pela qual se passava a ver a essência do casamento no con-

Didatismo e Conhecimento 85
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
sentimento mútuo dos noivos. Isto é, a união deveria ser construída seu contexto geográfico, as cidades não eram iguais entre si. Uma
a partir do afeto recíproco, e não apenas de interesses políticos ou grande sede feudal (como Troyes), a capital de um reino (caso de
patrimoniais. Londres), uma importante sé episcopal (Burgos, por exemplo),
uma cidade dedicada ao comércio internacional (como Veneza ou
Alimentação Lübeck), uma cidade artesanal (como Ypres), um pequeno burgo
rural (os mais comuns) não poderiam, por razões geográficas e
Apesar das variações regionais de solo e clima, a Europa me- profissionais, construir habitações e edifícios públicos da mesma
dieval consumia por toda parte praticamente os mesmos alimentos forma.
e bebidas, preparados quase que da mesma maneira.
Diferenças houve, acima de tudo, entre as categorias sociais. Vestuário
O aristocrata, eclesiástico ou leigo, recebia de seus camponeses,
pelo uso da terra, prestações em serviço e produtos agrícolas. Po- Por toda Idade Média a base do vestuário foi à túnica de man-
dia, assim, consumir de tudo. Detentor de vários senhorios, um gas. Seu comprimento mudou várias vezes, mas geralmente ia até
aristocrata não se fixava numa certa terra, morando cada parte do os tornozelos para as mulheres e até os joelhos para os homens.
ano numa região, onde consumia a parcela da produção local que Debaixo dessa túnica usava-se uma camisa, longa no caso femi-
lhe cabia. Podia, então, ter alimentos todo o ano, independente- nino, curta no masculino, pois os homens portavam ainda calções,
mente das vicissitudes agrícolas de cada senhorio. Apesar disso, uma espécie de ceroula que ia até os tornozelos. No inverno, quem
por razões culturais, o cardápio não era muito variado. Os legumes tinha condições colocava diretamente no corpo, sob a camisa, uma
e verduras não estavam muito presentes, porque, sendo conside- peliça, espécie de colete de pele, sem mangas Por cima de tudo
rados produtos pouco nobres e de digestão difícil, ficavam reser- vinha uma capa, às vezes com capuz, de pele no caso dos mais
vados para dias de jejum. Os queijos, com exceção das regiões ricos, de lã no dos mais simples. O calçado podia ser bota de couro
montanhosas, também eram desprezados pelas camadas dirigen- de cano alto para os ricos ou simples sapatilha de tecido para os
tes, que viam neles aumentos de camponeses, pela literatura, que mais pobres. O uso de luvas era difundido em todas as categorias
os associava aos loucos, e pela medicina, que até o século XVI os sociais.
considerava pouco saudáveis.
A base da alimentação aristocrática era, portanto, carnívora. Lazer
Carne de animais domésticos, vaca, vitela, carneiro e sobretudo
porco. Carne de caça, especialmente cervo, javali e lebre. Carne Os medievais levavam uma vida material dura, os clérigos
de aves, galinha, pato, ganso, cisne, pombo. Carne de peixe de passando muitas horas por dia em orações, estudo e tarefas cotidia-
água doce onde possível, pescados em rios e lagos ou criados em nas de sua diocese ou mosteiro, os senhores laicos em exercícios
tanques (carpa, sável, esturjão). Carne de peixe de mar, consumi- militares e administração de seu senhorio, os burgueses em difíceis
do fresco nas regiões litorâneas (salmão, linguado, pescado) ou negociações e perigosas viagens, os camponeses num trabalho pe-
seco nas regiões continentais (arenque, bacalhau). A bebida para sado e de retorno nem sempre compensador.
acompanhar essas refeições era o vinho. A sobremesa nas mesas
aristocráticas podia ser alguma fruta fresca (geralmente consumi- Morte
da no início das refeições ou nos intervalos entre elas) ou, mais
comumente, frutas secas (figos, passas, amêndoas, nozes etc.) ou, Vivendo num mundo agrícola, em que se percebe cotidiana-
preferencialmente, uma torta ou bolo doce. mente como alguns seres precisam morrer para que outros possam
A dieta burguesa procurava em linhas gerais imitar a aristocrá- viver, convivendo com a constante ameaça da fome, das epide-
tica, sobretudo no seu fundamento carnívoro. mias e das guerras, os medievais sentiam a onipresença da morte,
A alimentação camponesa estava baseada nos cereais, que mas isso não os incomodava. Eles tinham dela uma visão natural,
forneciam as calorias necessárias para o esforço físico nas tarefas tranquila, diferente da de seus descendentes dos séculos seguintes.
rurais. Cereais preparados sob a forma de papas e mingaus e es- Como o cristianismo ensina que a morte é o começo da vida eter-
pecialmente de pão. Na verdade, o pão era essencial desde a An- na, e não o fim definitivo, chegado o momento as pessoas procu-
tiguidade. ravam se preparar. A grande tragédia não era morrer, mas morrer
inesperadamente, sem ter confessado, recebido os sacramentos,
Moradia feito doações e esmolas, estabelecido o testamento. Tinha-se cons-
ciência e resignação pelo fato de que o destino das espécies vivas
A moradia apresentava grandes variedades regionais, resul- é morrer. A morte nivela os homens e mostra o despropósito de seu
tantes das necessidades impostas pelo clima e das possibilidades orgulho e suas riquezas.
permitidas pelos materiais de construção de cada local.
O norte úmido, frio e florestal definiu um estilo obviamente Capítulo VIII - As estruturas mentais
diferente do sul mediterrâneo seco, quente e pedregoso. As regiões
montanhosas do norte ibérico, da zona pirenaica, do centro fran- Apenas há pouco tempo foi tornado objeto de estudo o fato
cês e da região alpina buscaram soluções próprias, diferenciadas óbvio de que o homem, e portanto a História, é formado tanto por
das áreas planas. As cidades apresentavam, naturalmente, condi- seus sonhos, fantasias, angústias e esperanças quanto por seu tra-
ções específicas, com uma grande população concentrada numa balho, leis e guerras. Desta forma, é fundamental a compreensão
superfície pequena, enquanto o campo tinha uma densidade demo- do primeiro conjunto de elementos para que o segundo ganhe sen-
gráfica baixa. Mas, assim como os campos se diferenciavam pelo tido. Bem entendido, não se trata de adotar uma postura determi-

Didatismo e Conhecimento 86
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
nista, atribuindo tudo à mentalidade (ou à economia, ou à política Paraíso”, para recuperar aquela carta, pois “isto foi o pior”, e sem
etc.)- Mas é preciso considerar o pano de fundo mental, “o nível reavê-la não poderia romper seu trato com Satanás. A Virgem o
mais estável, mais imóvel das sociedades” (LE GOFF: 69). ajudou, o contrato demoníaco foi queimado e ele pôde ter sua alma
salva.
A visão hierofânica de mundo
Capítulo IX - O significado da Idade Média
Para o homem medieval, o referencial de todas as coisas era
sagrado, fenômeno psicossocial típico de sociedades agrárias, Após os exageros denegridores dos séculos XVI-XVII e os
muito dependentes da natureza e, portanto, à mercê de forças des- exaltadores do século XIX, hoje temos uma visão mais equilibrada
conhecidas e não controláveis. sobre a Idade Média. E verdade que a divulgação que ela conhe-
ceu em fins do século XX fora dos meios acadêmicos — inúme-
O simbolismo ras publicações científicas e ficcionais, filmes, discos, exposições,
turismo etc. — nem sempre implicou uma melhor compreensão
“A função do símbolo é religar o alto e o baixo, criar entre o daquele período. Mas reflete um dado essencial: a percepção que
divino e o humano uma comunicação tal que eles se unam um ao se tem da Idade Média como matriz da civilização ocidental cristã.
outro” (39: 98). E encontro de duas realidades numa só, ou melhor, Diante da crise atual dessa civilização, cresce a necessidade de se
expressão da única realidade sob outra forma. O símbolo é inferior voltar às origens, de refazer o caminho, de identificar os proble-
à realidade simbolizada, mas por intermédio daquele o homem se mas. Enfim, de conhecer a Idade Média para conhecer melhor os
aproxima desta, restabelecendo a unidade primordial. Por isso ele séculos XX-XXI.
está presente em todas as religiões, cujo sentido é exatamente esse
de religar mundo humano e mundo divino. Entende-se, dessa for- A longa Idade Média
ma, que a relação do símbolo com a coisa simbolizada seja profun-
da, de essencialidade. Os quatro movimentos que se convencionou considerar inau-
Todos os elementos da natureza, animais, plantas, pedras, guradores da Modernidade — Renascimento, Protestantismo,
são símbolos, respondendo à necessidade de exprimir o invisível Descobrimentos, Centralização — são em grande parte medievais.
e o imaterial por meio do visível e do material. Por essa razão, O primeiro deles, o Renascimento dos séculos XV-XVI, recorreu a
o templo cristão não poderia deixar de ter forte carga simbólica, modelos culturais clássicos, que a Idade Média também conhecera
especialmente no período românico. A planta em cruz terminando e amara. Aliás, foi em grande parte por meio dela que os renas-
numa cabeceira com várias capelas expressava a concepção de que centistas tomaram contato com a Antiguidade. As características
a igreja era o próprio corpo de Cristo, daí o portal ser um arco do básicas do movimento (individualismo, racionalismo, empirismo,
triunfo para se entrar no Reino de Deus. neoplatonismo, humanismo) estavam presentes na cultura ociden-
tal pelo menos desde princípios do século XII.
O belicismo
A herança medieval no século XX
Esta característica da mentalidade medieval decorria da pre-
sença constante daquelas manifestações sagradas nas suas duas O patrimônio linguístico ocidental é quase todo medieval,
modalidades, vistas do ponto de vista humano, benéficas e maléfi- já que, com exceção do basco, idioma cujas origens continuam
cas. Elas prolongavam no palco terreno a luta que envolvia tempo- desconhecidas para os especialistas, às demais línguas formaram-
rariamente todo o universo. Os poderes negativos constituíam-se -se na Idade Média. Uma terça parte da população mundial atual,
numa realidade palpável para aquela sociedade de tempo rigida- isto é, 2 bilhões de pessoas, pensa e se exprime com instrumentos
mente dividido entre dia e noite, sem luz artificial eficiente, na linguísticos forjados na Idade Média. De fato, ao lado do latim
qual as trevas eram fortemente sentidas. Sua presença cotidiana legado pela Antiguidade — e durante a Idade Média empregado
era indisfarçável e esmagadora. As atividades humanas ficavam li- nos ofícios religiosos, nas atividades intelectuais e na administra-
mitadas às horas diurnas. A noite era o momento do desconhecido, ção, mas língua morta no sentido de não ser mais língua materna
portanto do assustador. Significativamente, ela era circunstância de ninguém —, no século VIII nasceram os idiomas chamados de
agravante para a justiça medieval vulgares, falados cotidianamente por todos, mesmo pelos clérigos.
Correndo o risco de simplificar em demasia um processo longo
O contratualismo e complexo, podemos dizer que aqueles idiomas se formaram da
interpenetração — em proporção diferente a cada caso — do celta,
Por fim, do belicismo derivava o contratualismo, estrutura do latim e do germânico.
mental que via o homem ligado, com os correspondentes direitos
e deveres, a uma ou outra daquelas forças universais em luta. A A herança medieval no Brasil
opção pelo Mal dava origem ao chamado pacto demoníaco, como
na conhecida história de Teófilo. Querendo ser nomeado vigário, Mesmo no Brasil, que vivia na Pré-História enquanto a Euro-
ele recorreu aos serviços de um judeu que o levou até a presença pa estava na chamada Idade Média, muitos elementos medievais
do Diabo, de quem se tornou “bom vassalo” após renegar Cris- continuam presentes. A colonização portuguesa introduziu práticas
to e Maria. Numa carta entregue ao “rei coroado” do Inferno, ele que, apesar de já então superadas na metrópole, foram aqui aplica-
formalizava o acordo, e obteve então as glórias e vantagens que das com vigor, inaugurando o clima de arcaísmo que marca muitos
desejava. Depois, arrependido, pediu ajuda à Virgem, “porta do séculos e muitos aspectos da história brasileira. Luís Weckmann

Didatismo e Conhecimento 87
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
detectou com pertinência a existência de uma herança medieval PARTE II – ENSINO DE HISTÓRIA E HISTÓRIA DA EDU-
no Brasil, porém limitou sua presença apenas até o século XVII. CAÇÃO
E, na realidade, ela continua viva ainda hoje nos nossos traços es-
senciais. Uma proposta de mapa do tempo para artesãos de mapas do
tempo: história do ensino de historia e didática da história
Conclusão - O nascimento do Ocidente Luis Fernando Cerri

Homem atual se reconhece mais nas coisas superficiais, de Encontro de saberes: as disciplinas escolares, o historiador da
origem recente, do que nas essenciais, que vêm daquela época. educação e o professor
Este é um grave problema do mundo atual, no qual os meios de Arlette Medeiros Gasparello
comunicação de massa uniformizam, apagam e constroem fatos
incessantemente. Desta forma, há um afastamento da cultura, ba- História da história não ensinada na escola: a história da edu-
seada no indivíduo, na inquietação, na interrogação, não em res- cação
postas prontas e rápidas. Libânia Xavier
A fraqueza do homem medieval era sua força, pois gerava de-
sejos, motivações. A força do homem atual é sua fraqueza, pois PARTE III – PROFESSORES E A HISTORIA ENSINADA:
gera desilusões. Na verdade, foi conseguindo ao longo dos séculos DIFERENTES APROPRIAÇÕES
satisfazer aqueles desejos que o homem chegou à situação atual.
Satisfação de desejos que se deu mais no plano material do que no A história nossa de cada dia: saber escolar e saber acadêmico
espiritual, daí certa sensação de vazio, de falta de sentido das coi- na sala de aula
sas, que a arte e a literatura contemporâneas expressam fartamente. Katia Maria Abud
De certa forma, a crise da civilização ocidental deve se ao descom-
passo entre o externo (contemporâneo) e o interno (medieval). E Narrativa e narradores no ensino de história
uma excessiva valorização do primeiro em detrimento do segundo. Ana Maria Monteiro
E uma espécie de esquizofrenia coletiva e social. Em razão disso,
O livro didático e o professor: entre a ortodoxia e a apropria-
os crescentes prestígio e popularidade dos estudos sobre a Idade
ção
Média têm algo, inconscientemente, de busca de reintegração dos
Kasumi Munakata
dois planos.
A constituição de saberes pedagógicos na formação inicial do
Bibliografia
professor para o ensino de história na educação básica
Livro: A Idade média: nascimento do ocidente;
Selva Guimarães Fonseca
Autores: Hilário Franco Junior;
Referências: http://gisele-finatti-baraglio.blogspot.com.br. Do formar-se ao fazer-se professor
Elison Antonio Paim

13. MONTEIRO, ANA MARIA; PARTE IV – HISTÓRIA LOCAL: MEMÓRIA E IDENTI-


GASPARELLO ARLETE MEDEIROS E MA- DADE
GALHÃES (ORGS.). ENSINO DE HISTÓRIA:
SUJEITOS, SABERES E PRÁTICAS. RIO DE História local: o reconhecimento da identidade pelo caminho
JANEIRO: EDITORA MAUAD X, 2009 da insignificância
Márcia de Almeida Gonçalves

O ensino de história local e os desafios da formação da cons-


ciência histórica
Sumário Maria Auxiliadora Schimidt

Apresentação Os desafios da história local


Helenice Ciampi
PARTE 1- HISTÓRIA, MEMÓRIA E ESCOLA
Ensinando História nas séries iniciais: alfabetizando olhar
História e ensino de história: memória e identidades sociais Leila Medeiros de Menezes e Maria de Fátima de Souza Silva
Ismênia de lima Martins
PARTE V – DOCUMENTO E ENSINO
Elza Nadai e o ensino de qualidade
Joana neves Repensando o documento histórico e sua utilização no ensino
Vera Cabana Andrade
Quando a casa vira escola\; a modernidade pedagógica no
Brasil Uma imagem vale mais que mil palavras!
Clarice Nunes Regina Maria da Cunha Bustamante

Didatismo e Conhecimento 88
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
PARTE VI – DESAFIOS ATUAIS: INCLUSÃO E INFOR- escolar e sua contribuição para a formação de alunos provenien-
MAÇÃO tes de diversas condições econômicas e culturais. Este livro busca
contribuir para o estabelecimento de um diálogo estimulante com
Ensino de história e educação inclusiva: suas dimensões for- os professores envolvidos com o ensino da História na educação
mativas básica e também com aqueles interessados pelos problemas de for-
Valdelúcia Alves da Costa mação da cidadania na atualidade. Este livro representa o esforço
para a promoção desses diálogos, fruto de debates do V Perspec-
Sociedade da informação no ensino de história: roteiro de uma tivas do Ensino de História, realizado no Rio de Janeiro, um dos
abordagem crítica principais encontros que especialistas da área, provenientes de
Lídia Silva de Freitas diversas instituições brasileiras, vêm realizando ao longo das úl-
timas décadas. Os temas abordados nesse V Encontro em torno do
Reflexões acerca de informação, conhecimento, história e en- eixo “sujeitos, saberes e práticas” marcam o aprofundamento das
sino relações entre a produção acadêmica e a da história escolar, uma
Raquel Goulart Barreto disciplina presente na formação de jovens e crianças desde o sé-
culo XIX e participante de uma formação política e de identidades
sociais cujas dimensões precisam ser constantemente redefinidas e
Organizadores situadas no processo educativo, para que possa desempenhar um
papel significativo na cultura escolar do mundo contemporâneo.)
Ana Maria Monteiro é doutora em educação pela PUC-Rio.
Graduada em História pela UFRJ e mestre em História pela UFF, Resumo
lecionou História na rede pública do Rio de Janeiro. Professora
do Departamento de Didática e do Programa de Pós-graduação ENSINO DE HISTÓRIA: entre história e memória
da faculdade de Educação da UFRJ, é pesquisadora do Núcleo de
Estudos de Currículo, da UFRJ, e do grupo Oficinas de História , A ambiguidade ou polissemia do termo história tem sido bas-
da Uerj. É autora do livro: Professores de História: entre saberes e tante discutida. Em muitos idiomas, como o português e o francês,
práticas e de artigos em livros, revistas e anais. diferentemente do alemão, a mesma palavra história é utilizada
para expressar a história vivida e a operação intelectual que a tor-
Arlete Medeiros Gasparello é doutora em História da Edu-
na inteligível. Esta “enfermidade da linguagem”, como diz Nora ,
cação pela PUC-SP. Graduada em História (UFF) e Pedagogia
expressa a não consciência de uma diferença ou a compreensão de
(Suam), mestre em Educação pela UFF, lecionou História na rede
que o movimento que nos transporta é da mesma natureza daquele
pública do Rio de janeiro e Niterói. Professora no departamento
que o representa para nós?
Sociedade, Educação e Conhecimento e no Programa de Pós-gra-
Questão semântica, que suscitou inúmeros debates, foi e é
duação da Faculdade de Educação da UFF, coordena o Grupo de
enfrentada por aqueles que investigam a teoria da história na bus-
pesquisa História da Educação e Ensino de História: Saberes e Prá-
ca da identificação e compreensão das diferentes concepções que
ticas. È autora do livro Construtores de identidades: a pedagogia
orientam as abordagens realizadas para a análise e escrita da histó-
da nação nos livros didáticos da escola secundária brasileira e de
artigos em livros, revistas e anais. ria, na produção da história enquanto conhecimento, e sua relação
com a história vivida.
Marcelo de Souza Magalhães é doutor em História pela Neste movimento, a relação entre história e memória tem sido
UFF. Professor no departamento de Ciências Humanas e no Pro- objeto de reflexões, na busca do estabelecimento de suas diferen-
grama de pós-graduação em História Social da Uerj, e do Núcleo ças e de suas relações.
de pesquisas e Estudos em História Cultural, da UFF. Desenvolve Nesse sentido, os textos de Halbwacs,Le Goff, Pierre Nora,
pesquisas sobre a história política carioca na Primeira República e Rousso, Pollack entre outros, contribuem para a melhor com-
o ensino de História. É autor de capítulos de livros e artigos, dentre preensão desses conceitos, e para a análise da complexa relação
os quais “História e cidadania: por que ensinar história hoje?” in entre o vivido, o conhecimento produzido em bases científicas, e
Ensino de história: conceitos, temáticas e metodologias. as percepções e representações sobre o passado, a memória. Essas
questões têm sido, prioritariamente, objeto de estudos e reflexões
Sinópse relacionados à produção historiográfica, à escrita da história. Com
relação ao ensino, no entanto, notamos que esta é uma relação ain-
O ensino de História se insere, no momento atual, em diversas da pouco problematizada. Parece que ainda nos encontramos no
problemáticas educacionais e historiográficas em meio ao proces- tempo em que história vivida e história conhecimento não eram
so de inclusão social que tem exigido redefinições de conteúdos percebidas como processos diferentes, embora relacionados. Em
históricos e de métodos possíveis de se articularem aos novos decorrência disso, é comum vermos e ouvirmos considerações, por
meios de comunicação com os quais as atuais gerações têm sido exemplo, que expressam a concepção de que a história ensinada é
formadas e informadas. As universidades encarregadas da produ- a história vivida, como se não houvesse distinção entre o vivido e
ção historiográfica e da formação docente, as decisões do poder o conhecido.
estatal e do setor privado, o mercado da indústria cultural, assim Esta confusão se aprofunda quando se afirma, de forma bas-
como professores, têm obrigatoriamente de ser objeto de reflexão tante genérica, que “basta saber história para ensinar história”.
e de estudos articulados para a maior compreensão sobre a história Mas que “história” é essa que se “sabe” ao ensinar?

Didatismo e Conhecimento 89
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Defendo que esta afirmação pode e precisa ser problematiza- Ensinar história refere-se a processo simples, contínuo, que
da. Ensinar história é mero desdobramento de atividades inerentes tem por objetivo divulgar conhecimentos produzidos pela ciência
ao ofício do historiador, que implicam o “domínio de conteúdos na sociedade? Ou é processo complexo que se insere no âmbito da
que são objeto de ensino e técnicas de transmissão destes conhe- educação e da cultura escolar, em lugares e tempos específicos?
cimentos para os diferentes níveis de ensino”, como consta nas Estudos contemporâneos do campo do currículo, dentro da
diretrizes curriculares para o curso de História? Os textos produzi- tradição crítica, têm demonstrado que “o currículo é terreno de
dos para o ensino de história ocupam um lugar na historiografia? criação e produção simbólica, cultural. A educação e o currículo
Em caso negativo, deveriam ocupar? Qual é, então, o significado não atuam, nessa visão, apenas como correias transmissoras de
da resposta negativa a esta questão, muito frequentemente ouvida? uma cultura produzida em outro local, por outros agentes, mas são
Não ocupa um lugar por que é escolar e, portanto, diferente? En- partes integrantes e ativas de um processo de produção e criação
tão, não caberia a investigação desta produção? de sentidos, de significações, de sujeitos”, nos ensinam Moreira e
Esta questão nos remete ao questionamento sobre o saber Silva.12 Assim, embora tenhamos currículos movidos por inten-
ensinado: no caso da disciplina História, este é o conhecimento ções oficiais, que prescrevem conteúdos a serem ensinados, o que
histórico trazido para a escola para ser transmitido aos alunos com efetivamente é aprendido nunca é literalmente o intencionado por-
que a transmissão se dá num contexto cultural de significação ativa
base em técnicas de ensino aplicáveis em qualquer situação? Ou é
dos materiais recebidos.
resultado de elaboração com epistemologia própria, que incorpora
Esta significação ativa se dá, não apenas pelos alunos, mas
a história dos grupos envolvidos e do lugar onde é realizado, que
também pelos professores que, ao preparar e desenvolver suas au-
incorpora contribuições dos diferentes saberes que circulam na so- las, elaboram e reelaboram os conteúdos prescritos em novas cons-
ciedade numa construção híbrida e que apresenta características truções para tornar aqueles saberes possíveis de serem ensinados e
decorrentes da dimensão educativa que o constitui? aprendidos. Este processo, denominado transposição didática por
Neste processo de problematização do saber ensinado, e no Chevallard , permite a criação de configurações novas, com episte-
caso, da história ensinada, a relação entre ensino de história e me- mologia própria e diferenciada em relação ao
mória, relação ainda pouco discutida no Brasil, me parece de ex- “saber acadêmico” o saber ensinado.
trema relevância se desejamos melhor compreender os processos e Para melhor compreender este processo, é bastante esclare-
significados deste fazer. Cabe indagar: ao ensinar história, de que cedora a distinção feita por Forquin, outro estudioso do currículo,
história estamos falando: da história vivida ou da história conhe- da didática e do saber escolar, sobre a diferença substancial entre
cimento? Ou das duas articuladas? Ou falamos da história saber a exposição teórica e a exposição didática. “A primeira deve levar
escolar? em conta o estado do conhecimento,
Ao questionarmos a epistemologia e sentido da história ensi- a segunda, o estado de quem conhece, os estados de quem
nada, qual o lugar da memória neste ensino? aprende e de quem ensina, sua posição respectiva com relação ao
Esse artigo tem por objetivo discutir o ensino de história saber e a forma institucionalizada da relação que existe entre um
enquanto “lugar”. Lugar teórico, de produção e transmissão de e outro, (grifo adicionado) em tal ou qual contexto social. Não se
saberes; “lugar de fronteira”: entre História e Educação, de con- trata apenas de fazer compreender, mas de fazer aprender, de fazer
fluência de e com outros múltiplos saberes, o que nos desafia per- incorporar ao habitus.”
manentemente ao dever de vigilância ética, política e epistemoló- Acredito, assim, que os conceitos de “saber escolar”, “trans-
gica ao atuar entre a necessidade de ensinar saberes referentes ao posição didática”, “saber ensinado”, oriundos do campo da didáti-
passado, ao mesmo tempo em que se contribui para desenvolver ca e do currículo, ajudam a questionar a ideia de que ensinar é ape-
o pensamento e a reflexão crítica dos alunos, cidadãos atuantes nas transmitir conhecimentos produzidos na instância científica,
na sociedade em que vivem; “lugar de memória”, na perspectiva ideia que se baseia numa perspectiva que naturaliza um processo
que possibilita relacionar o vivido (memórias espontâneas) com o de grande complexidade. Ensinar, como o próprio termo indica, é
ensinado/aprendido (saberes curricularizados, saberes ensinados, “fazer conhecer pelos sinais”, é produzir significados. E estes
significados são atribuídos pelos professores desde o momen-
saberes aprendidos), rever saberes e compreensões que os tornam
to em que se apropriam de um conceito e definem a proposta de
próprios e particulares, plenos de um saber do mundo na cons-
atividade a ser realizada para a sua aprendizagem, por aqueles
trução de conhecimentos de uso cotidiano, de memórias. Relação
alunos que têm em sua turma. São situações muito particulares à
estrutural que gera conflitos, resistências, negações. educação escolar e que atendem a objetivos amplos que têm, na
Relação que põe em confronto diferentes culturas, visões de dimensão educativa, um parâmetro diferenciador marcante, res-
mundo. Cabe indagar: É possível ensinar história? ponsável pela criação de saberes com epistemologia própria – o
saber escolar que articula os saberes disciplinares, os saberes dos
O ensino de história como “lugar de fronteira” alunos e professores e a cultura de forma ampla. São, também,
significados atribuídos pelos alunos aos saberes ensinados e que
Toda pesquisa historiográfica se articula com um lugar de expressam as diferentes apropriações decorrentes de saberes pré-
produção sócio-econômico, político e cultural. Implica um meio vios, vivências e experiências.
de elaboração que é circunscrito por determinações próprias: uma A análise das questões relacionadas ao saber ensinado em His-
profissão liberal, um posto de observação ou de ensino, uma cate- tória, realizada por Monteiro e Gabriel, tem revelado, no Brasil,
goria de letrados, etc. Ela está, pois, submetida a imposições, liga- o potencial destes conceitos para a melhor compreensão dos pro-
da a privilégios, enraizada em uma particularidade. É em função cessos envolvidos no ensino desta disciplina escolar que se man-
deste que se instauram os métodos, que se delineia uma topografia tém como um dos maiores desafios para professores que, ao bus-
de interesses, que os documentos e questões que lhe serão propos- car possibilidades para aprendizagens significativas pelos alunos,
tas se organizam.” muitas vezes encontram dificuldades que não conseguem superar.

Didatismo e Conhecimento 90
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
A origem desses problemas tem sido buscada por vários pes- Estudos e pesquisas, bem como a formação de professores,
quisadores que, frequentemente, responsabilizam os professores têm sido realizados, preferencialmente, no campo da educação que
que estariam despreparados ou mal formados. Para sanar estes oferece instrumental teórico próprio e essencial, mas insuficien-
problemas, cursos de extensão e especialização são oferecidos te quando tratamos do ensino em perspectiva disciplinar, e tendo
para atualização dos conhecimentos em história, o que acontece como pressuposto a mobilização de saberes pelos professores, e
também em outras disciplinas. não apenas técnicas de transmissão. Produzidos neste campo, res-
Os resultados têm se mostrado pífios face aos problemas en- sentem-se, também, de desprestígio e da desautorização daqueles
frentados. que exercem o ofício de historiador, que desconfiam de conheci-
Avaliações realizadas ao final revelam a satisfação dos docen- mentos produzidos “fora da oficina”.
tes com os cursos, que oferecem contribuições significativas para Por outro lado, trabalhos sobre o ensino, realizados no âmbito
a sua formação. Mas as repercussões na sala de aula têm mostrado da história, ressentem-se da falta de subsídios de autores que anali-
pouco alcance. sam aspectos próprios aos processos educativos, com instrumental
Quais as razões deste problema? É por que os adolescentes, que considera as especificidades da ‘razão pedagógica’.
com seus múltiplos interesses, vivem cada vez mais o presente Face ao exposto, podemos concluir, que o ensino de história
contínuo, desqualificando o passado como o velho, o obsoleto, o ocupa um lugar marcado por forte ambiguidade.
descartável ao incorporarem, mesmo inconscientemente, o senti- O que é permitido?
mento da modernidade difundido pela publicidade nas diferentes “Dominar conteúdos básicos que são objeto de ensino-apren-
mídias, de forma ampla na sociedade? Ou é incompetência dos dizagem no ensino fundamental e médio. Dominar métodos e téc-
professores? nicas pedagógicos para a transmissão destes conteúdos em dife-
Defendo que a origem desta dificuldade é outra. A pesquisa rentes níveis de ensino.”
científica avança com inovações e revisões. Mas será que é ne- Percebe-se, nesta proposição, uma forte dicotomia entre pes-
cessário (ou possível)levar todas as inovações para a escola e suas quisa e ensino, que é entendido em perspectiva meramente instru-
turmas de crianças, adolescentes e jovens? Será que todas as ino- mental. As competências para a atuação do pesquisador não reve-
vações e revisões precisam ir imediatamente para a sala de aula? lam articulação com o que é esperado do professor.
Será que é este processo que melhora e qualifica o ensino? O que é proibido?
Identifico aí questões relacionadas à transposição didática, Aqui encontramos indícios mais do que evidências concretas.
ou mediação didática como defende Lopes22, referencial teórico No campo da história, dificuldades para a realização de pesqui-
que envolve questões de ordem epistemológica, de elaboração de sas, o pouco ou nenhum interesse pela educação, o preconceito em
um novo saber que tem, e não pode perdê-las, referências no co- relação às produções e realizações de professores voltados para
nhecimento científico, no caso, na historiografia, tanto do ponto este fim. Interdições aparecem aqui mais pelo ‘não-dito’, seja ele
de vista dos conhecimentos sobre os processos, como também do impeditivo ou depreciativo. No campo da educação, o tecnicismo,
ponto de vista das questões teórico-metodológicas pertinentes à as abordagens sócio-políticas e/ou psicologizantes relegaram as
escrita da história e de sua atualização. Estar atento às inovações questões do ensino para um limbo do qual tem sido difícil se li-
e revisões é importante, mas não resolve o problema por si só. É bertar. Apenas recentemente temos verificado esforços mais siste-
preciso considerar as questões do ensino, da didática, da educação, máticos voltados para seu estudo, com base em outros paradigmas
referentes a como tornar este saber possível de ser aprendido por que têm a epistemologia do conhecimento escolar e dos saberes
“estes” alunos. docentes como fundamentação teórica renovadora, conforme já
Retomando as palavras de Certeau, “toda pesquisa historio- discutido anteriormente.
gráfica se articula com um lugar de produção sócio-econômico, Buscando avançar em relação a esse posicionamento, e ba-
político e cultural. Implica um meio de elaboração que é circuns- seando-me em trabalhos e iniciativas de muitos professores /his-
crito por determinações próprias: uma profissão liberal, um posto toriadores/professores que militam pela afirmação do campo do
de observação ou de ensino, uma categoria de letrados, etc. Ela ensino, confiantes que estão da importância social desta atividade,
está, pois, submetida a imposições, ligada a privilégios, enraizada defendo que o ensino de história ocupa um “lugar de fronteira”
em uma particularidade.” entre esses dois campos.
A afirmativa de Certeau refere-se à pesquisa historiográfica Fronteira não no sentido norte-americano de “frontier”, terra
stricto sensu mas, pode-se indagar, novamente, com base em sua além da qual se estende um vazio, uma terra de ninguém... Fron-
proposição, qual o lugar do ensino de história nesse campo? teira no sentido de “border”, lugar de marcação de diferenças, mas
Retomando as questões iniciais, indagamos: Os textos pro- que também permite o encontro, as trocas; zona híbrida onde os
duzidos para o ensino de história (textos didatizados, propostas contatos se pulverizam e se ordenam segundo micro-hierarquias,
curriculares, entre outros) ocupam um lugar na historiografia? A zona de imensas possibilidades de criação cultural.
pesquisa sobre o ensino de história é pesquisa historiográfica? A “A articulação da história com um lugar é a condição de aná-
história do ensino da história, a história da educação, são objetos lise da sociedade.”
de pesquisa historiográfica? Os livros didáticosproduzem uma his- Como afirma Certeau, a condição para a pesquisa e o desen-
toriografia? Ou constituem uma historiografia com epistemologia volvimento do ensino de história é a articulação com um lugar, em
própria? construção, que tenha o reconhecimento de seus pares e do público
As respostas a essas questões, quando feitas a historiadores, a que se destina, lugar de trocas, diálogos entre atores e saberes
no mínimo suscitam dúvidas... ou negações. distintos que se encontram e se recriam.

Didatismo e Conhecimento 91
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
O ensino de história: “lugar de memória”?“a destruição do contrário, pertence a todos e a ninguém, o que lhe dá uma vocação
passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa para o universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no
experiência pessoal às das gerações passadas – é um dos fenôme- gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades
nos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase temporais, às evoluções e às relações das coisas. A memória é um
todos os jovens de hoje crescem uma espécie de presente contínuo, absoluto e a história só conhece o relativo.”
sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em Nora nos lembra que a memória é viva, “carregada por gru-
que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os pos vivos... aberta à dialética da lembrança e do esquecimento...”
outros esquecem, tornam-se mais importantes do que nunca no fim Nossos alunos, ao chegarem à escola são portadores de saberes,
do segundo milênio.” Eric Hobsbawm. referências construídas nos grupos familiares que cultivam suas
Complementando Hobsbawm, lembraria que os professores memórias: sejam memórias de trabalhadores, migrantes nordesti-
de História são mais importantes do que nunca neste fim de século, nos, desempregados, de lutas e combates diários pela sobrevivên-
cada vez mais necessários. cia, de referências étnicas, religiosas que oferecem explicações do
Para ensinar história, como qualquer disciplina, realizamos mundo e de seu devir.
dois processos fundamentais: uma seleção cultural, ou seja, defi- Constituem, na área da educação, os chamados saberes pré-
vios que muitos de nós descartamos a priori, como expressões de
nimos entre os vários saberes disponíveis na sociedade, incluindo,
ideologias que precisam ser superadas porque portadoras de pre-
atualmente, aqueles produzidos pela ciência, os saberes a serem
conceitos e fomentadoras de atitudes e comportamentos discrimi-
ensinados às novas gerações.
natórios. Ou, às vezes, porque resultado de ensinamentos errôneos,
Esta seleção implica opções culturais, políticas, éticas possi- ultrapassados, equivocados, a serem superados por nossas aulas
bilitando ênfases, destaques, omissões e negações. Esta seleção é nas quais a “verdadeira história vai ser ensinada”...
sempre enraizada socialmente e é histórica, revelando interesses, Mas, muitas vezes, esquecemos que são referências culturais
projetos identitários e de legitimação de poderes instituídos ou a fortemente ancoradas em figuras familiares que sustentam cons-
instituir, suscetível a mudanças e redefinições. Esta seleção se rea- truções identitárias. “Dificuldades de aprendizagem”? Ou resistên-
liza e expressa nas propostas e nas práticas curriculares, processo cias a conteúdos e posturas mais críticas, apresentadas, frequen-
de constituição do conhecimento escolar para a escola e pela es- temente, como verdades absolutas pelos professores, mas que se
cola. A didatização é o outro processo que possibilita que os sa- chocam abertamente com a cultura de referência dos alunos?
beres selecionados sejam possíveis de ser ensinados, sejam trans- Exemplo conhecido por muitos de nós é o caso das reações
formados em objetos de ensino através da mediação didática. A ao trabalho com o evolucionismo junto a comunidades de forte
articulação dos dois processos, que se faz em função da finalidade adesão a religiões evangélicas que defendem o criacionismo. Os
educativa que orienta o ensino escolar, possibilita a formação de professores precisam estar atentos às representações sociais de que
representações e de valores pelos alunos, a produção de sentidos e seus alunos são portadores e procurar dialogar, lidar com elas no
atribuição de significados a partir das situações de aprendizagem seu trabalho, principalmente no ensino de história, no qual estará
vivenciadas. trazendo revisões e críticas a saberes consolidados, e que servem
O que desejo destacar é que, nesse processo, o ensino de histó- para a comunicação entre os grupos aos quais seus alunos perten-
ria contribui de forma importante para a construção e reconstrução cem.
do conhecimento cotidiano, utilizado por todos nós para a vida As representações sociais são dinâmicas, estão em processo
comum, e no qual operamos com a “memória” – construção indi- de constante transformação. Como diz Nora, a memória “está em
vidual realizada a partir de referências culturais coletivas, embora permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esque-
não possamos dizer que exista uma memória coletiva. cimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável
Nesse processo, professores enfrentamos uma contradição a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências
que muitos de nós não consideramos quando ensinamos, e que e de repentinas revitalizações.” Estas podem ser induzidas pelas
atua de forma ativa nos processos de aprendizagem podendo gerar aprendizagens da História que, também como nos ensina Nora,
“é operação intelectual e laicizante, demanda análise e discurso
interferências, dificuldades de compreensão, bloqueios.
crítico”, nos leva ao estranhamento, nos desestabiliza, nos descon-
Para melhor explicar esta contradição, trago para discussão
certa.
a proposição de Nora sobre a relação entre história e memória,
Essas representações compõem um repertório constituinte de
que dialogam, se alimentam e se contrapõem. “A memória é vida, memórias individuais, coletivamente referenciadas. Oriundos de
sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em campos teóricos distintos, os conceitos de representação social e
permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esque- memória contribuem para compreender dimensões de um mesmo
cimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável processo.
a todos os usos e manipulações, suceptível de longas latências e Nesse sentido, defendo ser fundamental considerar a relação
de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre entre história e memória para pensar o lugar do ensino de história.
problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é E questiono: o ensino de História é (ou pode) tornar-se um “lugar
um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno o presente; de memória”, “lugar onde a memória se refugia, se cristaliza” 38
a história, uma representação do passado. ...... A história, porque ao mesmo tempo objeto de grande interesse e de resistências, ne-
operação intelectual e laicizante, demanda análise e discurso críti- gações, perdas?
co. A memória instala a lembrança no sagrado, a história a liberta, Nora, em seu artigo já citado, explica que os lugares de me-
e a torna sempre prosaica. A memória emerge de um grupo que mória nascem e vivem de um sentimento de que não há mais me-
ela une, o que quer dizer como Halbwachs o fez, que há tantas mória espontânea nas sociedades atuais, que é preciso “organizar
memórias quantos grupos existem; que ela é, por natureza, múlti- os arquivos, manter os aniversários, organizar as celebrações....”
pla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A história, ao pois a aceleração do tempo, o presentismo nos fazem esquecer ou

Didatismo e Conhecimento 92
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
desconsiderar o passado. Além disso, em sociedades históricas - No contexto da aula e das atividades, cabe ao professor tra-
nas quais a história conhecimento se desenvolve - a memória é balhar o “pensamento histórico” para o questionamento de ver-
sempre objeto de suspeita pela história. De alguma forma, a his- dades estabelecidas e busca da compreensão da historicidade da
tória opera com a deslegitimação do passado vivido por meio da vida social. Novos saberes são construídos pelos alunos, saberes
análise crítica e da investigação. estes que, ao se constituírem como conhecimento cotidiano, e ao
Ainda, de acordo com Nora, um lugar de memória precisa incorporar a dimensão problematizadora e crítica, podem tornar-se
contemplar os três sentidos da palavra: material, simbólico e fun- instrumento de libertação, resistência. Mas pode também se man-
cional. Assim, é possível perguntar: estes sentidos estão presentes ter como lugar para a legitimação de poderes instituídos, em pers-
no ensino de história? Acredito que podem estar. É material por pectiva conservadora.
seus aspectos administrativos e técnicos de organização institu- As definições e opções dos professores no seu fazer são funda-
cional de espaços e tempos39; funcional, pois permite ao mesmo mentais para marcar e orientar diferentes abordagens e encaminha-
tempo a cristalização da lembrança e sua transmissão; simbólico, mentos. Discutir no ensino de história como lugar entre história e
porque permite a atribuição de sentidos e ressignificação de práti- memória nos remete também para a questão do direito à memória
cas e representações. O ensino de história é, potencialmente, um como direito de cidadania na perspectiva cultural. O tema da me-
lugar onde memórias se intrecruzam, dialogam, entram em confli- mória está em voga, hoje mais do que nunca. “Fala-se da memória
to; lugar no qual, também, se busca a afirmação e registro de - ou da mulher, do negro, do oprimido, das greves do ABC, memória
onde se desenvolvem embates entre -determinadas versões e ex- da Constituinte e do partido, memória da cidade, do bairro, da fa-
plicações sobre as sociedades, a política, o mundo, prescritas pela mília. Talvez apenas a memória nacional, tantas vezes acuada (e
instituição em que se localiza; “lugar de fronteira”, que possibilita tantas vezes acuadora) esteja retraída. Multiplicam-se as casas de
o diálogo entre memórias e “história conhecimento escolar”, com memória, centros, arquivos, bibliotecas, museus, coleções, publi-
o aprofundamento, ampliação, crítica e reelaboração para uso no cações especializadas (até mesmo periódicos). Os movimentos de
cotidiano. preservação do patrimônio cultural e de outras memórias específi-
Lugar do contraditório portanto, de embates.... cas já contam com força política e têm reconhecimento público. Se
Nesse sentido, defendo que o ensino de história, embora seja o antiquariato, a moda retrô, os revivals mergulham na sociedade
de consumo, a memória também tem fornecido munição para con-
um lugar onde e por meio do qual as memórias se entrecruzam e
frontos e reivindicações de toda espécie.”
se constituem, não é um lugar de memória no sentido atribuído
A afirmação de Meneses nos remete, novamente, a Nora ao
por Nora – lugar onde memórias se cristalizam - se trabalhamos
nos lembrar que esta tendência é decorrente da crescente acelera-
em perspectiva crítica, através da qual as memórias espontâneas
ção das sociedades industriais capitalistas e, por conseguinte, da
de nossos alunos são mobilizadas, tornam-se objeto de estudo e de
crise das sociedades organizadas sob a égide da tradição. O ques-
possibilidades de recriação.
tionamento do mito da nação, que atribuía a todos, e nos fazia acre-
Laville nos ajuda a compreender a contradição entre memória
ditar, numa origem comum, gera, de alguma forma, a necessidade
e história que, de acordo com ele, se expressa, no que se refere
da busca das histórias dos grupos, das memórias individuais. “O
ao ensino, na contraposição entre aquilo que ele denomina “o en-
dever de memória faz de cada um o historiador de si mesmo.”
tendimento do ensino de história como lugar para o trabalho com A ruptura com o passado nos leva a demandar representações
o “pensamento histórico” ou com a “compreensão histórica”... do passado como forma de restabelecer a coesão social e cultural.
Enquanto o pensamento histórico é um conjunto de operações in- Como esta questão se expressa no ensino de História no Bra-
telectuais e de atitudes do tipo daquelas exercidas para produzir sil?
os saberes históricos, a compreensão histórica é definida como a Durante o século XIX e grande parte do XX, o ensino de his-
atividade que leva ao entendimento de uma narrativa construída, tória serviu para divulgar a história do Brasil, uma nação homo-
procurando nela o sentido que o autor quis lhe dar e sensibilizan- gênea e sem contradições, herdeira e representante da civilização
do-se, ocasionalmente, com as suas intenções e pressupostos.” ocidental européia na América do Sul.
Essas duas abordagens são excludentes?Ou, de alguma forma, Heróis nacionais foram inventados como agentes da formação
podemos operar com as duas no ensino de história? Como temos nacional e dos grupos dominantes, em detrimento de sujeitos his-
desenvolvido este ensino? tóricos representantes de outros segmentos étnicos da sociedade
Defendo, então, que o ensino de história é, também, “lugar brasileira. Exemplo disso é o pequeno número de monumentos de-
de fronteira” entre história e memória porque lugar de reflexão dicados aos “heróis” de movimentos das classes subalternas.
crítica, de revisão de usos do passado, no qual a história é o co- Esta versão, a chamada história oficial, divulgada como fa-
nhecimento deflagrador de abordagens, análises, reflexões, novas tor de coesão, foi bem sucedida, do ponto de vista da educação
compreensões. escolar, enquanto a maioria dos membros das classes populares
Nas aulas, os professores trabalham com a história conheci- estiveram fora das escolas.
mento escolar, de constituição híbrida, que incorpora subsídios Com o processo de ampliação da oferta de escolas e vagas a
oriundos da historiografia - tanto do ponto de vista teórico como partir dos anos 1970, ocorreu a ampliação do acesso de crianças
dos novos conhecimentos produzidos - reelaborados para a media- e jovens das camadas populares às escolas. As dificuldades são
ção didática, os saberes (representações, referências, memórias) identificadas, inicialmente, como provenientes de um déficit cul-
dos alunos, saberes, experiências referências e valores dos profes- tural. Este diagnóstico, já muito criticado, transformava a questão
sores, da cultura escolar e outros saberes que circulam na socieda- da diferença em déficit, como se houvesse um padrão único cul-
de de forma ampla. tural ao qual todos teriam acesso. Hoje podemos indagar se estas

Didatismo e Conhecimento 93
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
dificuldades, no caso da história, não eram decorrentes, também Por último, uma outra questão que gostaria de destacar, refere-
do não reconhecimento e identificação, por parte deles, com uma se à abordagem utilizada para o ensino de determinados conteúdos
versão da história ensinada, na qual seus grupos eram ignorados e sua relação com a construção de memórias e identidades sociais.
ou apresentados em apenas alguns momentos da história, como su- A seleção de conteúdos tem relação direta com a memória que
balternos ou inimigos, excluídos de forma drástica do processo de ajudamos a constituir. Por exemplo, podemos citar os temas refe-
formação da nação. Este processo coincidiu com o movimento de rentes à história da América. É frequente ouvirmos críticas sobre
reação dos professores a tentativas governamentais de substituição nosso isolamento ou dificuldades no diálogo com os demais países
da disciplina pelos Estudos Sociais. da América Latina. Razões históricas ajudam a explicar este pro-
A história oficial foi então denunciada e combatida, devendo blema. Mas o que temos feito no ensino de história para contribuir
ser substituída por uma história crítica, designação atribuída por para a superação deste impasse? Como dialogar com quem não
alguns à perspectiva marxista então proposta. conhecemos? O que é ensinado de História da América nos cur-
Nesse contexto, “patrimônio histórico e cultural” passou a ser rículos? O “descobrimento”, a colonização espanhola, de forma
visto como expressão e representação da história dos dominantes bem geral, os movimentos de independência – quando há tempo, e
e, consequentemente, objeto de críticas e questionamentos. Me- muito pouco ou nada mais. Movimentos de resistência à domina-
mória foi associada à história oficial. ção espanhola? Raramente.
A partir da década de 1980, com a abertura política, as novas E assim também acontece com a história da África que so-
propostas curriculares implantadas no país anunciavam a formação mente entra em cena em muitos livros e aulas após o contato com
do cidadão crítico, sujeito da história, como o principal objetivo do os europeus. Foi preciso uma lei para nos “obrigar” a buscar in-
ensino desta disciplina. A contribuição do ensino para a formação serir estes conteúdos nos currículos. Que representação destes
da memória social foi, deliberadamente ou não, esquecida. continentes, sociedades, nações e povos ajudamos a construir? O
Movimentos sociais de diferentes grupos mobilizaram o país que sabemos deles? Essa situação somente tem contribuído para
nas últimas décadas na luta pela afirmação de seus direitos na so- fortalecer preconceitos.
ciedade brasileira. A lei 10639, por exemplo, é resultado patente Outra questão se relaciona com a história da escravidão. De
destes movimentos. Estes grupos definem lugares de memória para um tempo em que os escravos não eram mencionados, ou eram
o registro de suas lutas e vitórias. de forma muito parcimoniosa, com comentários sobre o possível
O conceito de patrimônio histórico e artístico foi substituído branqueamento por meio da miscigenação, passamos a ter, nos li-
pelo de patrimônio cultural, constituído por unidades designadas vros didáticos e no ensino, a preocupação, absolutamente justa e
como bens culturais. necessária com a denúncia da escravidão.
A mudança conceitual efetivada por esta política nos desafia, A história crítica e de abordagem econômica e/ou marxista,
no ensino de história, a rever conteúdos e atividades de ensino que fez prevalecer, a partir de final da década de 1970, textos que mos-
incorporem a identificação e reconhecimento destes bens como tram que o escravo como mercadoria, peça, coisa e que constituiu
patrimônio de todos, para que percebam, na fisionomia das cida- força de trabalho fundamental na economia colonial. Imagens dos
des, sua própria história de vida, suas experiências sociais e lutas escravos no trabalho e sendo castigados, ocupam as páginas volta-
cotidianas. das para o estudo da escravidão.
E para que, frente aos monumentos de representantes dos do- A presença africana na sociedade é assim ressaltada por um
minantes, os reconheçam enquanto tal e saibam explicar porque único ângulo, eliminando aspectos da subjetividade presente nas
estão ali. formas de resistência. A vitimização acaba por reforçar uma visão
Para isso contribui o ensino da História que traz subsídios do de submissão a esta condição.
conhecimento histórico para auxiliar a construção e reconstrução Pesquisas têm revelado o impacto dessa abordagem na cons-
da memória que possibilita aos indivíduos estabelecer relações trução da memória e das identidades de afro-descendentes no Bra-
afetivas com a cidade e o país onde vivem, compreendendo como sil. Crianças e jovens têm dificuldades em se identificar com an-
a sociedade em que vive foi construída através do tempo, tendo tepassados que castigados, eram chicoteados, eram considerados
uma história com continuidades e descontinuidades, mudanças, peças, coisas, mercadoria.
transformações. Além do mais, incorporam contribuições e infor- A presença e participação dos africanos e afro-descendentes
mações que fortalecem lutas e demandas sociais. na formação da sociedade brasileira precisa ser revista nos livros
A desnaturalização do social é, sem dúvida, uma das grandes e aulas de história. Os estudos e projetos deslanchados por meio
contribuições que o ensino de história pode oferecer para a forma- da Lei 10639 certamente terão muitas contribuições a oferecer. O
ção da cidadania. Acredito que, mais do que destruir monumentos, mesmo precisa ser feito com a história indígena ainda muito pouco
é importante entender porque estão ali, a quem servem, o que re- estudada na história escolar. De tal forma que, muitas vezes, não
presentam. reconhecemos como tal a nomenclatura indígena presente nos no-
Identificar quais monumentos consideramos importante pre- mes de ruas e bairros de muitas cidades brasileiras.
servar hoje: estátuas de figuras de projeção e lideranças políticas, Por exemplo, Araribóia, cuja estátua nos recebe ao chegarmos
objetos de uso cotidiano, máquinas que expressam o desenvolvi- de barca à cidade de Niterói, está ali como representante dos povos
mento tecnológico, formas de expressão de diferentes grupos so- indígenas ou como representante de um índio que foi batizado e
ciais, sítios e conjuntos urbanos ? O que desejamos lembrar? Que colaborou com os portugueses na luta contra os franceses?
representações do passado desejamos construir? Certamente, a Vimos assim alguns exemplos que nos desafiam a refletir so-
consideração destas questões implica rever a seleção de conteúdos. bre a importância da relação entre ensino de história e memória.
É a história em perspectiva europocêntrica que nos possibilita Em relação ao conceito de nação, por exemplo, denunciado por
estas análises? representar uma concepção que enfatiza a homogeneização e a do-

Didatismo e Conhecimento 94
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
minação de classe. O que devemos fazer: negá-lo ou discuti-lo, Referências: MONTEIRO, A. M :ENSINO DE HISTÓRIA:
considerando sua potencialidade ou não para a compreensão das entre história e memória. Disponível em http://www.ufrrj.br/gra-
possibilidades de convívio e expressão da diversidade cultural e duacao/prodocencia/publicacoes/pesquisa-pratica-educacional/
racial presente em nossa sociedade? Afinal o conceito ainda é utili- artigos/artigo1.pdf
zado na política e nas relações internacionais. Ignorá-lo é a melhor
forma de criticá-lo? Ou é questionando e explicando como surgiu
e a que interesse contemplou?
14. PINSKY, CARLA BASSANEZI E LUCA,
4. Ensino de História: lugar de fronteira entre história e
TANIA REGINA DE (ORGS.). O
memória
HISTORIADOR E SUAS FONTES. SÃO
PAULO: CONTEXTO, 2009.
Professores de História mostram-se angustiados com a difi-
culdade em abordar os conteúdos definidos para serem ensinados.
Uma frustração toma conta de nós quando percebemos que o tem-
po disponível será insuficiente para abordarmos tudo que é impor- Sumário
tante. Mas o que é importante? Muitas aulas são desenvolvidas
com pressa, docentes explicando e alunos ouvindo, mais ou menos Esta obra se divide em treze partes:
quietos e calados. O que é aprendido? Que representações são re-
construídas? Que apropriações são realizadas? Que memórias são Apresentação
constituídas? Carla Bassanezi Pinsky e Tânia Regina de Luca
Frequentemente temos a sensação de que pouco foi assimi-
lado. DOCUMENTO E HISTÓRIA
Saberes que se chocam com crenças e representações, que A memória evanescente
muitas vezes são ignoradas, são apenas objeto de estudo porque Leandro Karnal
cai na prova, sendo logo esquecidos depois. Havia Galli Tatsch
Se desejamos que o nosso trabalho resulte em aprendizagens
significativas, que nossas aulas se constituam em espaço para re- FOTOGRAFIAS
flexão crítica e mudança, precisamos de tempo para ouvir nossos Usos sociais e historiográficos
alunos. E, também, que através do diálogo, com subsídios do co- Solange Ferraz de Lima
nhecimento histórico, possamos contribuir para revisões e supera- Vânia Carneiro de Carvalho
ção de preconceitos. Assim, é preciso selecionar entre os inúmeros
conteúdos possíveis de serem objeto de ensino, aqueles que podem LITERATURA
oferecer contribuições fundamentais para os estes alunos. A fonte fecunda
A história conhecimento produzida pelos historiadores em António Celso Ferreira
suas pesquisas é operação que demanda análise e discurso, é nosso
instrumento para a ação e trabalho crítico. A história liberta, mas TESTAMENTOS E INVENTÁRIOS
pode oprimir também. A memória pode aprisionar mas, às vezes, A morte como testemunho da vida
torna-se o lugar das possibilidades de resistências e transgressões. Júnia Ferreira Furtado
É preciso que estejamos atentos a esta relação que pode ge-
rar, através do ensino, novos conhecimentos que, apropriados, se PROCESSOS CRIMINAIS
incorporam nas memórias individuais na forma de consciência A história nos porões dos arquivos judiciários
histórica. Keila Grinberg
Para isso, acredito, precisamos ter claro as múltiplas dimen-
sões deste lugar. “Lugar de fronteira”, que articula história e edu- REGISTROS PAROQUIAIS E CMS
cação para podermos ter instrumental para desenvolver o nosso Os eventos vitais na reconstituição da história
trabalho articulando contribuições teóricas das duas áreas; “lugar Maria Silvia Bassanezi
de fronteira” entre história e memória, por que ali revemos, am-
pliamos, ressignificamos e referendamos representações sobre o ARQUIVOS DE REGIMES REPRESSIVOS
passado no presente e contribuímos para a construção de identi- Fontes sensíveis da história recente
dades sociais; “lugar de reflexão crítica” porque ali podemos por Caroline Silveira Bauer
em questão verdades estabelecidas e abrir perspectivas e novos René E. Gertz
horizontes, superando naturalizações que nos subjugam à nossa
circunstância. CARTAS
Como nos ensina Octavio Paz, “A pluralidade de passados tor- Narrador, registro e arquivo
na plausível a pluralidade de futuros...” Teresa Malatian

Bibliografia DISCURSOS E PRONUNCIAMENTOS


Livro: Ensinos de história: sujeitos, saberes e práticas; A dimensão retórica da historiografia
Autores: Ana Maria Monteiro Durval Muniz de Albuquerque Júnior

Didatismo e Conhecimento 95
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
DIÁRIOS PESSOAIS ficos, ao sabor das tendências modernas e pós-modernas alteram
Territórios abertos para a História o uso das fontes históricas e afetam o ofício do historiador. O his-
Maria Teresa Cunha toriador e suas fontes é, portanto, uma instigante discussão sobre
teoria e prática da História.
FONTES PARA O PATRIMÓNIO CULTURAL
Uma construção permanente Resumo
Ana Luiza Martins
A presente reflexão visa demonstrar como e grande e diversa
PEQUENA HISTÓRIA DO DOCUMENTO as fontes históricas que o historiador dispõe para reconstruir a tra-
Aventuras modernas e desventuras pós-modernas ma histórica dos indivíduos sociais no tempo e espaço.
Elias Thomé Saliba Alguém pode perguntar: como historiador estabelece o conta-
to, dialogo com o passado? Como chegar ate lá, se ele não existe
Autor mais? Como o conhecimento do passado e possível?
Tendo em vista que todo conhecimento do passado é “indi-
Carla Silvia Beozzo Bassanezi Pinsky: historiadora e edito- reto” e, logo, o historiador, por definição, está na impossibilidade
ra. Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de de ele próprio constatar os fatos que estuda “. Assim, como afirma
Campinas (Unicamp) na Área de Família e Gênero (1999); mestre François Simiand, o conhecimento histórico é “um conhecimento
em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) (1992); através de vestígios “ de marcas perceptíveis aos sentidos deixadas
bacharel e licenciada em História pela Unicamp (1989). Autora “por um fenômeno em si mesmo impossível de captar”.
das obras PÁSSAROS DA LIBERDADE e VIRANDO AS PÁ- Diante disso, resta ao historiador à tarefa de tentar reconstituir
GINAS, REVENDO AS MULHERES. Coautora de HISTÓRIA possíveis existências para as pessoas do passado e os contextos em
DAS MULHERES NO BRASIL; HISTÓRIA DA CIDADANIA; que estavam mergulhadas, em que elas atuaram produzindo suas
HISTÓRIA NA SALA DE AULA; NOVOS TEMAS NAS AU- formas de vivência que relegaram ao presente.
LAS DE HISTÓRIA e NOVA HISTÓRIA DAS MULHERES NO Assim, temos que pesquisar a os seres humanos tanto do pon-
BRASIL entre outros livros publicados. Organizadora das obras to de vista de seu tempo-espaço como os processos que produzem
FACES DO FANATISMO; HISTÓRIA DA CIDADANIA; NO- os fatos dentro de um determinado período de tempo. Dessa forma,
VOS TEMAS NAS AULAS DE HISTÓRIA; FONTES HISTÓ- podemos dizer que a História relaciona-se com o Tempo. E, mais
RICAS; O HISTORIADOR E SUAS FONTES. Autora de artigos especificamente, ela relaciona-se com o passado visto a partir do
acadêmicos nas áreas de História Social, Historiografia, História presente. Ou, ainda, é o presente, procurando dar um sentido e uma
das Mulheres e Estudos de Gênero. Foi pesquisadora do Núcleo explicação para o passado.
de estudos de gênero Pagu - Unicamp (1992-1999). É membro do A “pegada humana” ao longo dos tempos, dentro do processo
Conselho editorial da Editora Contexto. histórico, é, ao mesmo tempo, processo de produção da cultura e
uma necessidade de cristalização que se realiza pelo registro. Essa
Tania Regina de Luca: possui graduação em História pela Uni- cristalização se dá mediante as fontes, os vestígios e as marcas que
versidade de São Paulo (1981), mestrado em História Social pela compõem o patrimônio histórico e é o resultado da ação concreta
Universidade de São Paulo (1989) e doutorado em História Social dos seres humana em um determinado tempo e espaço. Portanto,
pela Universidade de São Paulo (1996). É professora Livre Do- em sua temporalidade os seres humanos produzem suas marcas
cente em História do Brasil Republicano (2009) pela Universidade culturais e patrimoniais voluntariamente e involuntariamente (tra-
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Tem experiência na área ços deixados pelos homens sem a mínima intenção de legar um
de História, com ênfase em História do Brasil República, atuando testemunho à posteridade). Essas pegadas - marcas servem não só
principalmente nos seguintes temas: Historiografia, História So- para registrar a atuação humana, mas como também para crista-
cial da Cultura, História da Imprensa, História dos Intelectuais, lizar o a sua ação, os fatos ou os processos que produziram esses
construção dos discursos em torno da nação e do nacionalismo. acontecimentos. Neste sentido, Marc Bloch revela que “é quase
Atualmente desenvolve pesquisa sobre a impensa, entre as décadas infinita a diversidade dos testemunhos históricos. Tudo quanto o
finais do XIX e os primeiros decênios da centúria seguinte. homem diz ou escreve, tudo quanto fabrica, tudo em que toca,
pode e deve informar a seu respeito.” Portanto, Bloch nos diz que
Sinópse e grande a diversidade de fontes históricas de que o historiador
pode trabalhar na reconstrução das sociedades passadas. Portanto,
Como o pesquisador, na prática do seu oficio, pode trabalhar tudo que o homem produziu e deixou na história e o objeto do
com fotografias, obras literárias, cartas, diários, discursos e pro- historiador.
nunciamentos, testamentos, inventários, registros paroquiais e Neste ponto de vista, podemos dizer que pesquisar a história é
civis, processos criminais, materiais produzidos por órgãos de re- buscar a compreensão dos processos que produziram os fatos que
pressão ou mesmo com as inúmeras fontes do patrimônio cultural? marcaram o tempo e espaço. Isso é possível por que todas as coisas
Em O historiador e suas fontes, um grupo de historiadores expe- têm história e podemos estudar a história de tudo. Tudo que acon-
rientes responde a essa questão, expondo um repertório variado de tece e que aconteceu é história. A história, portanto, trabalha com
fontes interessantes e suas formas de utilização. o passado, com aquilo que os seres humanos produziram no pas-
A obra mostra também por que certos documentos adquirem sado. Assim, o pesquisador, reconstrói a história, mas faz isso no
maior ou menor relevância ao longo do tempo e em que isso afeta seu presente, pois ele é um estudioso que está em uma sociedade
a História e a memória. Fala ainda de como os debates historiográ- diferente daquela que ele volta seus olhos para pesquisar e apreen-

Didatismo e Conhecimento 96
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
der suas especificidades. Ademais, tudo tem sua historicidade, e a ideia de “grandes homens” na história, de uma história “vista de
logo o homem sendo protagonista da história, atuando-produzindo cima, do conceito de acontecimento e da ideia de narrativa, típicas
e deixando “pegadas”, ou utilizando outro termo, suas marcas ao da historiografia “metódica” do século XIX. Para ele, o resultado
longo de sua trajetória, ai está a gama de fontes que dispusemos desses questionamentos foi um significativo aumento no núme-
para escrever a respeito. ro de possíveis fontes a serem investigadas pelo historiador. De
Ao determos que a História é o estudo do homem no tempo, modo que se passou a observar a diversidade de fontes passíveis
rompe-se com a ideia de que a História deve examinar apenas e de serem inquiridas pelo historiador. Houve o reconhecimento da
necessariamente as ações do homem já transcorridas: o passado. O subjetividade inerente à escrita da história, de que existe também
que ela estuda na verdade são as ações e transformações humanas a história das “massas”, “vista de baixo”, e se constatou a impor-
(ou permanências) que se desenvolvem ou se estabelecem em um tância da “longa duração” e da ideia de “estrutura” para a história.
determinado período de tempo, mais longo ou mais curto. Assim, Por outro lado: tempo, percebe-se que as mais recentes conservam
desta maneira, a História é o estudo do Homem no Tempo e no diversos conteúdos das anteriores, alguns são vitalizados por re-
Espaço. leituras, outros permanecem cristalizados na produção de grupos
Existem documentos que são dominados fontes primarias e resistentes às novas ideias (JANOTTI In: PINSKY, 2005, p. 16).
outros, fontes secúndarias. As fontes primárias são testemunhas É o que constata uma das autoras do livro Fontes históricas
do passado que se caracteriza por ser contemporânea dos fatos sobre essa questão, e que foi organizado pela professora Carla Bas-
sanezi Pinsky. O livro reúne oito ensaios, dos quais o primeiro,
históricos a que se referem. Grosso modo estabelecemos aqui, a
escrito por Maria de Lourdes Janotti, é uma apresentação historio-
tipologia de fontes primarias que são as “pegadas” deixadas na
gráfica da obra, e o último, escrito por Jorge Grespan, que também
história pela ação dos homens, que o historiador utiliza para re-
serve de conclusão, oferece uma discussão teórica sobre o método
construir o passado o mais próximo possível do que aconteceu: na pesquisa histórica. O que quer dizer que os seis textos restantes
fontes escritas: documentos jurídicos (constituições, leis, decre- do livro empreendem um debate a respeito das fontes documentais
tos), sentenças, testamentos, inventários, discursos escritos, cartas, (dos arquivos); arqueológicas; impressas; orais; biográficas e au-
livros de contabilidade, livros de história, autobiografia, diários diovisuais.
biográficos, crônicas, poemas, novelas, romances, lendas, mitos, O livro oferece, assim, uma análise “das fontes propriamente
textos de imprensa (jornais e revistas), censos, estatísticas, mapas, ditas e, consequentemente, dos métodos e das técnicas utilizadas
gráficos e registros paroquiais ect. Fontes orais: entrevistas, grava- pelos pesquisadores em seu contato com os documentos, os ves-
ções (de entrevistas, por exemplo), lendas contadas ou registradas tígios e os testemunhos do passado humano”, esclarece Bassane-
de relato de viva voz, programas de radio e fitas cassete etc. Fontes zi na apresentação da obra. Todos os textos, nesse sentido, foram
materiais: utensílios, mobiliários, roupas, ornamentos (pessoais e pensados para servir tanto para o iniciante, pouco habituado com
coletivos), armas, símbolos, instrumentos de trabalho, construções o contato com as fontes, quanto para o especialista. Todos foram
(templo, casas, sepulturas), esculturas, moedas, restos (de pessoas escritos com os mesmos objetivos didáticos, muito bem definidos,
ou animais mortos), ruínas e nomes de lugar (toponímia) e outras trazendo, ao final de cada um, roteiros de leitura, dicas de pes-
mais. Fontes visuais: pinturas, caricaturas, fotografias, gravuras, quisa e questionamentos mais comuns àquela fonte. Para atingir a
filmes, vídeos e programas de televisão, entre outros. No que tange melhor execução das pesquisas à fonte discutida, todos os pesqui-
as fontes secundárias, estas são registros que contêm informações sadores formados pela academia “têm como referência o rigor na
sobre os conteúdos históricos resultantes de uma ou mais elabo- análise, as críticas propostas pela Nova História ao cientificismo,
rações realizadas por diferentes pesquisadores. Essas fontes nos a necessidade da interdisciplinaridade para ampliar as interpreta-
chegam por pesquisadores que realizam reconstruções do passado, ções, posturas não-dogmáticas, atenção às condições materiais da
cujas referencias são de diferentes fontes primarias. Ou seja, são as produção das fontes, quase ausência do viés sociológico na lin-
diversas interpretações que os pesquisadores realizam das fontes guagem, bibliografia atualizada, preocupação com a clareza da
primarias. E, o caso dos trabalhos acadêmicos. (Teses, Disserta- exposição” JANOTTI In: PINSKY, 2005, p. 17-8), diz Janotti ao
ções). avaliar o conjunto dos ensaios do livro.
A história se utiliza de documentos, transformados em fonte Com o objetivo de evidenciar as características e a importân-
cia da documentação armazenada nos arquivo públicos (e também
pelo olhar do pesquisador.
privados) do país, Carlos Bacellar, no seu ingresso, principalmen-
Fontes tão variadas quanto as chamadas “escritas de si”
te, aos arquivos cartoriais e paroquiais, apresenta-os aos iniciantes
(cartas, diários) assim como as produções destinadas a públicos
e aos familiarizados com esse tipo de fonte. Faz referência aos
amplos e diversificados (a literatura e os pronunciamentos e os diferentes tipos de documentos que podem ser armazenados nes-
discursos) estão presentes nesta obra. Documentos oficiais, testa- se tipo de arquivo e destaca os provenientes da administração do
mentos e inventários ou registros paroquiais e civis, bem como Estado. Daí seu questionamento: Como surgiram os primeiros “ar-
materiais produzidos pelo Poder Judiciário e pelos órgãos de re- quivos brasileiros”? Quando da expansão ultramarina, a instalação
pressão são apresentados e analisados. portuguesa no- cujo trâmite já havia se encerrado (BACELLAR
No século XX houve uma verdadeira revolução sobre o que In: PINSKY, 2005, p. 43).
se entende por documento, permitindo a ampliação e a diversi- O desenvolvimento dos estudos das fontes arqueológicas tam-
ficação da definição de fonte na pesquisa histórica. Peter Burke bém foi lento, e como demonstra Pedro Paulo Funari, têm sido,
já havia constatado isso na apresentação da obra A escrita da his- desde então, fundamentais para a pesquisa de sociedades do passa-
tória: novas perspectivas, em que ressaltava que a historiografia do e do presente. Segundo Funari: coleta e publicação de artefatos,
no século XX (a começar pela francesa) questionou o caráter e a edifícios e outros aspectos cultura material, que deve ser entendi-
limitação das fontes oficiais, a imputação de uma objetividade que da como tudo que é feito ou utilizado pelo homem (FUNARI In:
lhe era creditada pelo simples fato de se contatar sua autenticidade, PINSKY, 2005, p. 84-5).

Didatismo e Conhecimento 97
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Das fontes documentais de arquivos e das arqueológicas, pas- Expectativas, achados e surpresas: o que se encontra nos
sa-se para a análise das fontes impressas, com as quais Tânia de arquivos
Luca dedicou um interpretação cuidadosa, historiando como surgi-
ram e como passaram a ser estudadas, quais suas principais carac- “No mundo moderno e contemporâneo, o crescimento da má-
terísticas e qual a importância de se estudar jornais e revistas para quina do Estado e da burocracia resultaram na gigantesca multi-
a compreensão do passado. plicação dos volumes de papéis públicos acumulados nas reparti-
Mesmo com a crítica iniciada pelas Ciências Sociais, no fina- ções públicas. [...] após a proliferação da informática, arautos da
do século XIX, a esse tipo de tratamento e interpretação das fon-l modernidade vendiam a ideia de que a novas máquinas pensantes
tes, que foram levadas avante pelo movimento criado pela revista. iram dar fim á produção de papéis, principalmente quando do ad-
vento da internet e das redes de computadores. A documentação se
A hora da “mão na massa”: a prática da pesquisa. tornaria virtual, sem suporte em papel.” (p. 47).
“A informática e a cópia xerográfica contribuíram para a am-
Conhecer o nascedouro dos documentos pliação em escala inimaginável da produção de documentos, e em
especial para o acúmulo de duplicatas, triplicatas, atulhando os de-
“Como surgiram os primeiros “arquivos brasileiros”? [...] pela pósitos de arquivos correntes com enormes massas documentais.”
(p. 47).
concessão das capitanias hereditárias. [...] Podemos considerar
“Uma das grandes preocupações da arquivística contempo-
que, desde então, duas linhas básicas de acumulação documental
rânea reside justamente na eliminação desse excesso de papéis,
se estabeleceram: uma, privada, em mãos dos capitães-donatários,
característica da produção documental desde a segunda metade do
em sua maioria estabelecidos em Portugal, e outra pública, na sede século XX.” (p. 47).
do Governo local e metropolitano.” (p. 43). “Desinformados, tendem a julgar que o descarte implicará
“Para a pesquisa em arquivo, todo e qualquer historiadores perdas irreparáveis de informação histórica. Pelo contrário, a ar-
deveria, a princípio, estar ciente do evoluir histórico de toda a es- quivística atual está plenamente preparada e equipada para discer-
trutura da administração pública ao longo do tempo.” (p. 43). nir qual documentação é insubstituível, e qual é dispensável, seja
“Qual seria, no entanto, a importância de se conhecer a es- pela informação ali contida estar presente em outras fontes, seja
trutura da administração para a pesquisa empírica? [...] Conhecer por não ter valor em si.” (p. 48).
aquilo que podemos denominar como o organograma das instân- “Sem entrar no mérito da questão, é preciso saber que a do-
cias governamentais, com seus desdobramentos no espaço e no cumentação pública só será passível de livre e imediata consulta
tempo, permite entender, em grandes linhas, quais os cargos e as quando ultrapassar os respectivos prazos estabelecidos.” (p. 48).
funções que foram sendo estabelecidos ao longo dos séculos.” (p.
44). Condições de trabalho
“A elaboração de um documento não necessariamente signi-
fica que seguiram as normas de conteúdo informacional original- “Aventurar-se pelos arquivos, portanto, é sempre um desafio
mente previstas.” (p. 44). de trabalhar em instalações precárias, com documentos mal acon-
“... o historiador [...] deveria ter preocupações em conhecer dicionados e preservados, e mal organizados.” (p. 49).
o funcionamento da máquina administrativa para o período que “Em todo esse universo documental, o historiador encontra,
pretende pesquisar.” (p. 44). quase sempre, um relativo descaso pelo património arquivístico.
“... é fundamental que se tenha claro que um mínimo de refe- Documentos mal acomodados em instalações que chegam a ser
rência será necessário, já que deve haver correspondência entre a precárias sofrem rápida deterioração e podem se perder em defini-
estrutura dos órgãos produtores de documentação e sua posterior tivo. Infestados por brocas, cupins e traças, sofrendo incêndios ou
organização no arquivo público. [...] Caso contrário, é preciso ga- alagamentos, expostos a condições ambientais desfavoráveis, difi-
rimpar os documentos nas condições mais ou menos precárias em cilmente sobrevivem. O arquivista e o historiador têm, portanto, a
importante tarefa de, ao entrar em contato com acervos submetidos
que se encontram (p.45).
a tal risco, buscar a conscientização dos responsáveis e alertar a
comunidade, antes que seja tarde.” (p. 50).
Escarafunchar arquivos brasileiros
Os instrumentos de pesquisa
“Desde o momento em que o europeu desembarcou no conti-
nente americano, teve início, embora de maneira bastante desorga- “De modo geral, é preciso verificar, ao se propor um tema
nizada, a produção de documentos de caráter público, seja para o qualquer, quais conjuntos documentais poderiam ser investigados
registro da correspondência, seja para o registro de atos.” (p. 45). em busca de dados.” (p. 51).
“Mas o que importa é que tais depósitos ou arquivos aten- “Quanto maior o acervo, maior o conhecimento que o encar-
diam tão-somente às consultas do próprio corpo administrativo, regado da recepção deve acumular, tornando mais complexa a sua
que recorria aos documentos comprobatórios de suas atividades: formação profissional para essa função.” (p. 51).
concessões de títulos e terras, registros fiscais, correspondências. “De qualquer maneira, a instituição visitada deve, necessaria-
Não havia o caráter de arquivos públicos, mas apenas de arquivos mente, possuir alguns instrumentos de pesquisa, que o historiador
de serviço, internos à crescente burocracia estatal.” (p. 46). em geral chama, erroneamente, de catálogos.” (p. 51).
“Cabe ao historiador desvendar onde se encontraram os pa- “...as salas de consulta deveriam contar, necessariamente, com
péis que podem lhe servir, muitas vezes ultrapassando obstáculos um funcionário altamente qualificado, com amplo conhecimento
burocráticos e a falta de informação organizada, mesmo em se tra- do acervo e dos instrumentos de pesquisa, capaz de auxiliar e re-
tando de arquivos públicos.” (p. 46). solver dúvidas quando preciso.” (p. 52).

Didatismo e Conhecimento 98
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Consulta e coleta de material “... uma folha de papel sulfite colocada sob o documento per-
mite não só maior segurança no virar das páginas, mas também
“A surpresa de solicitar uma caixa e depois descobrir que o impede que se leia algo da página de baixo através das aberturas...”
conteúdo não condiz com a identificação do rótulo e do instrumen- (p. 56)
to de pesquisa não costuma ser incomum.” (p. 53).
“A paciência é arma básica do pesquisador em arquivos: pa- O manuseio dos documentos
ciência para descobrir os documentos que deseja, e paciência para
passar semanas, quando não meses ou anos, trabalhando na tarefa “... a grande maioria dos acervos não passa por procedimentos
de cuidadosa leitura e transcrição das informações encontradas. técnicos indispensáveis, ou os têm aplicado apenas parcialmente.”
(p. 57).
Pesquisar em fontes, principalmente as manuscritas, requer, ainda,
“Tirados da caixa ou desembalados dos maços, [...] os docu-
o empenho de aprender as técnicas de leitura paleográfica, que per- mentos devem ser tratados com extremo cuidado.” (p. 57).
mitem o “decifrar” dos escritos.” (p. 53). “O roubo de documentos também não é raro, merece atenção
especial dos funcionários e uma crítica ferrenha por parte dos his-
Primeiros cuidados toriadores.” (p. 57).
“Quem consulta deve levar em conta, sempre, que documen-
“O trabalho com documentos de arquivo exige precauções. tos de arquivo, ao contrário das bibliotecas, são únicos, insubsti-
[...] O uso de luvas, máscaras e aventais, exigidos em alguns pou- tuíveis. [...] cópias em microfilmes, em mídia digital ou on-line de-
cos arquivos, deveria ser naturalmente obrigatório, como preven- veriam estar bem mais presentes, poupando os preciosos originais
ção da saúde do consulente e como forma de favorecer a preserva- e retirando-os por consequência do acesso público.” (p. 57-58).
ção do papel. Sabe-se, hoje, que o simples suor de uma mão pode “Na maioria esmagadora dos casos, portanto, a consulta se
ser bastante prejudicial às fibras do papel, e convém evitá-lo.” (p. faz nos originais, por isso os pesquisadores devem redobrar seus
54). cuidados e contribuir para a preservação do material.” (p. 58).
“Todas essas dificuldades, no entanto, não são suficientes para
A leitura paleográfica
desencorajar o pesquisador.” (p. 54).
“... o manuseio dos papéis de arquivo requer boa dose de cui- “... tema que assusta alunos e mesmo certos professores. [...]
dado. São frágeis [...] é fundamental manter o documento sobre Há evidente temor de que eles percam tempo n leitura paleográfica
superfície plana, sem nada de relevo por baixo, como cadernos, e não consigam cumprir os prazos que lhe são impostos.” (p. 58).
lápis, ou mesmo o próprio bloco de documentos consultados. Não “... seria interessante que os cu cursos de História contassem
se deve nunca desdobrar as inevitáveis dobras, nunca intervir fisi- com uma disciplina que oferecesse os primeiros rudimentos, de
camente no documento, retirando o que quer se seja encontrado, modo a quebrar a barreira do medo que os papéis manuscritos es-
como grampos ou clipes. Em caso de dúvida, profissionais da casa tabelecem nos iniciantes.” (p. 58).
devem ser chamados.” (p. 55). “... e possível alcançar boa qualidade de leitura com um pouco
“...os documentos devem ser mantidos na ordem em que se de esforço pessoal.” (p. 58).
encontram, [...] Tirá-los de ordem significa destruir trabalho de “... o leitor precisa se acostumar com a caligrafia, que varia de
anos, e dificultar enormemente sua posterior recuperação. [...]alte- indivíduo para indivíduo.” (p. 59).
“O aprender também exige o desdobrar das abreviaturas, sem-
rar sua ordem: isso cabe aos profissionais especializados.” (p. 55).
pre tão comuns, e que podem, em grande parte, ser solucionadas
com o recurso ao importante Dicionário de abreviaturas.” (p. 59).
A rotina da leitura documental
A transcrição paleográfica e a edição de fontes
“... o pesquisador precisa se “moldar” a uma ortografia e a
uma gramática diferenciadas. Mesmo documentos datilografados “A manutenção da grafia original, transcrita para caracteres
ou jornais têm escritura distinta, e com tais características deve- modernos, é sempre mais interessante do que as tentativas de mo-
mos fazer a transcrição. Contudo, para o documento manuscrito dernização. Esta sempre traz embutido o risco de má interpretação,
é preciso, antes de tudo, acostumar-se com a caligrafia. [...] não alterando-se o sentido original do texto. A versão corretamente pa-
devemos escolher fontes pela sua maior ou menor facilidade de leografada pode melhor servir para ser usada por outros autores
leitura.” (p. 55). que a consultem na obra em que está publicada;” (p. 59).
“Ler velhos papéis é um desafio em muitas das precárias salas “... a não observação das regras estabelecidas para a transcri-
de consulta que encontramos por aí. [...] Alguns tipos de tintas de ção paleográfica, ou o uso de critérios não explicitados, dificultam
a percepção dos porquês das lacunas no texto, tornando complexa
escrever do passado se apagavam com certa facilidade, restando
sua utilização, e exigindo uma série de cuidados no momento da
hoje como leves traços coloridos, [...] para enfrentar as dificulda- interpretação.” (p. 60).
des nessa leitura é uma lupa de aumento. A ampliação da imagem
permite diminuir o esforço dos olhos, mas permite, também, que A reprodução dos documentos
se busque identificar o traçado de escrita de um único caractere, na
tentativa de identificá-lo e dar sentido a uma palavra não decifra- “A cópia por xerox encontra-se disponível em alguns locais,
da.”. (p. 56) embora haja, nos arquivos públicos, tendência a rejeitar tal prática.
“Outro instrumento útil para a leitura é uma régua leve, que Alega-se, de maneira geral, que as luzes da copiadora teriam efei-
possa servir para o acompanhamento de linhas. Seu uso deve ser tos destrutivos sobre as fibras da folha de papel, mas nada há de
cuidadoso para não interferir na integridade do papel...” (p. 56). comprovado em termos técnicos.” (p. 60).

Didatismo e Conhecimento 99
BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
“Opção crescente tem sido a fotografia digital, sem o uso do “... precisam ser cuidadosamente convertidas para padrões
flash, proibido por ser danoso ao papel.” (p. 60). atuais” (p. 65).
“Escanners portáteis, de mão, também têm sido adotados pe- “Resta, ao pesquisador, trabalhar com as metragens em termos
los consulentes, mas devem ter seu uso controlado, pois emprega- de ordem de grandeza, de modo a identificar dimensões da proprie-
do de forma errada pode danificar, e muito, a integridade física do dades tal como eram consideradas à época.” (p. 66).
documento.” (p. 61).
Os critérios
A amostragem na pesquisa
“E fundamental, ao se trabalhar com qualquer fonte, discutir
“... o historiador deve tomar muitos cuidados para não cair os critérios possivelmente adotados por quem a produziu, de modo
na tentação de transformar um caso isolado em caso corriqueiro.” a melhor decifrar a informação que ela nos fornece.” (p. 66).
(p. 62). “... temos a obrigação de ser cuidadosos.” (p. 68).
“O cruzamento de fontes permite vislumbrar outra realidade:
Os fichamentos a de artesãos que também vivem da lavoura.” (p. 68).

“Deve-se observar regras básicas de paleografia, principal- Os vieses


mente no que diz respeito a lacunas no texto, provocadas por
buracos, rasuras, borrões ou impossibilidade de entendimento da “Uma questão importante ao se avaliar as possibilidades de
caligrafia.” (p. 62). uma fonte documental é buscar perceber a qualidade das infor-
“É fundamental, também, anotar a referência do documento mações que ela pode ou não nos fornecer, de acordo com a pro-
transcrito, [...] não se pode esquecer, jamais, de indicar todos os blemática de cada pesquisa. Documentos do passado não foram
dados que permitam identificar o documento, como remetente, elaborados para o historiador, mas sim para atender a necessidades
destinatário, órgão produtor, local e data, para que, posteriormente, específicas do momento.” (p. 68-69).
se possa contextualizar seu conteúdo quando de seu uso.” (p. 62).
“A boa referenciação é essencial.” (p. 62). A identificação de indivíduos
A análise dos documentos
“A análise nominativa de fontes documentais é tendência cada
vez mais crescente.” (p. 70).
É importante para o pesquisador fazer algumas perguntas:
“... o acompanhamento nominativo de indivíduos apresenta
“Ao iniciar a pesquisa documental, [...] Sob quais condições aque-
problemas metodológicos consistentes. O mais complexo é, evi-
le documento foi redigido? Com que propósito? Por quem? Essas
dentemente, a falta de regras na transmissão de sobrenomes que
perguntas são básicas e primárias na pesquisa documental, mas
imperou nos diversos segmentos de população livre durante todo o
surpreende que muitos ainda deixem de lado tais preocupações.
período colonial e mesmo mais adiante.” (p. 70).
Contextualizar o documento que se coleta é fundamental para o
ofício do historiador!” (p. 63).
“Documento algum é neutro, e sempre carrega consigo a opi- Olhar de historiador
nião da pessoa e/ou do órgão que escreveu.” (p. 63)
“Um dos pontos cruciais do uso de fontes reside na necessi- “Já pode cotejar informações, justapor documentos, relacio-
dade imperiosa de se entender o texto no contexto de sua época, nar texto e contexto, estabelecer constantes, identificar mudanças e
e isso diz respeito, também, ao significado das palavras e das ex- permanências e produzir um trabalho de História.” (p. 71).
pressões. Sabemos que os significados mudam com o tempo, mas
não temos, de início, obrigação de conhecer tais mudanças. No A MEMÓRIA EVANESCENTE
entanto, boa dose de desconfiança é o princípio básico a nos orien-
tar nesses momentos, além de uma leitura muito atenta dos autores A categoria documento constitui uma parte importante do
que já trabalham na mesma linha de pesquisa.” (p. 63). campo de atuação do pesquisador e a amplitude de sua busca.
“As palavras podem trair o pesquisador descuidado.” (p. 64). A Carta de Caminha, por exemplo constitui um documento
“Acima de tudo, o historiador precisa entender as fontes em importante do nascimento do Brasil e o foco sobre o documento
seus contextos, perceber que algumas imprecisões demonstram pode variar em função do recorte.
os interesses de quem as escreveu. [...] O historiador não pode se Se chegarmos à conclusão de que não existe um fato histórico
submeter à sua fonte, julgar que o documento é a verdade, [...] eterno, pois depende do foco, mas existe um fato que hoje conside-
ser historiador exige que se desconfie das fontes, das intenções de ramos histórico, é fácil deduzir que o conceito de documento siga
quem a produziu.” (p. 64). a mesma lógica. Fato e documento histórico demonstram nossa
visão atual do passado, num dialogo entre a visão contemporânea
As medidas e as fontes pretéritas.
Apenas no século XIX triunfou a ideia de Documento como
“As medidas, em geral, variavam de região para região e ao prova histórica. Desde então esse conceito vem sendo ampliado.
longo do tempo. Portanto, é preciso situar, antes de tudo, a fonte A escola dos Annales, no século XX, colaborou ainda mais para a
documental para essas informações, para, então sim, buscar-se al- alargamento da noção de fonte.
gum parâmetro para conversão.” (p. 65).

Didatismo e Conhecimento 100


BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Porém, devemos questionar sobre o que garante a autencti- o inspetor responsável pelo sistema prisional francês idealizou um
cidade das fontes. A falsificação atinge todo objeto de valor, com projeto de fotografar os mais perigosos criminosos de diversas pe-
objetivos variados. Nazistas falsificavam objetos arqueológicos nitenciárias, procedimento que vai realmente acontecer anos de-
para demonstrerem falsa teses sobre a ocupação ariana da planície pois.
germano-polonesa. Farós ordenavam que se raspasse o nome de A trajetória da fotografia no Brasil também seguiu caminho
antecessores de monumentos e mandaveam aplicar o seu por cima por esse caminho. No caso de São Paulo, em meados do século
do verdadeiro construtor. Stalin ficou famoso pela prática de mu- XIX, a produção que melhor exemplifica essa vertente documen-
dança em fotografias que registravam a história soviética, apagan- tarista é a de Militão Augusto de Azevedo. Ao longo do século x, o
do adversários como Trotsky das imagens oficiais. O Cristianismo mercado fotográfico ampliou-se especializou-se. A prática fotográ-
era uma religião nova e já pulululava evangelhos apócrifos por fica de caráter documentarista tornou-se a marca da produção fo-
todo o Mediterrâneo. tográfica destinada aos meio de comunicação impressa, especial-
A química e a física podem ajudar bastante na determinação mente as revistas ilustradas. Fotógrafos como Jean Manzon, Pierre
da autenticidade do documento. Verger, Marcel Gautherot, Eduardo Medeiros, Walter Firmo, Tho-
O humanista Lorenzo Valla (1406-57), dedicou-se a estudar maz Farkas, Alice Brill, Hans Gunther Flieg, Hildegard Rosenthal
um consagrado documento hist´orico: a Doação de Constantino . e muitos outros passaram a construir uma história do fotojornalis-
O texto tinha uma importância extraordinária, pois justificaria uma mo e da fotografia autoral, eternizando certas imagens em ícones
doação do imperador romano Constantino ao papa sobre territó- da cultura brasileira e paulistana. A revista O Cruzeiro, fundada
rios da Itália.Lorenzo não dispunha da possibilidade da datação em 1928, pode ser considerada um marco no uso da fotografia na
química, logo, só poderia trabalhar com opróprio texto. O huma- imprensa. O perfil editorial da revista privilegiava a imagem como
nista destruiu a autenticidade por meio da filologia, demonstrando discurso e o Brasil como tema em matérias fartamente ilustradas.
que o latim utilizado pelo documento era um latim medieval “ba- A partir dos anos 1990, o interesse de historiadores, antropó-
rabarizado” diferente do latim romano. logos e sociólogos pela fotografia alargou-se. Confluiram os usos
O entusiasmo pela manutenção, autenticidade, coleta e con- sociais e científicos que a fotografia vinha recebendo com os novos
servação dos documentos parece ter sido muito incrementado pela paradigmas das ciências humanas. Tais paradigmas colocavam a
Revolução Francesa e pelo nacionalismo crescente do século XIX. dimensão visual e material da sociedade de consumo ocidental no
No Brasil, o Instituto Histórico e Geográfico nasce com a centro das reflexões epistemológicas. Nessa década a produção de
Regência, verdadeiro momento de afirmação nacional. Coerente- dissertações e teses acadêmicas abordando aspectos da produção
fotográfica é intensa. Pesquisadores da fotografia cujos trabalhos
mente, o Estado, grande produtor de documentos, torna-se o orga-
são referencias na atualidade como Helouise Costa, Maria Inês Tu-
nizador de arquivos e publicações para preservar documentos his-
razzi, Nadja Peregrino, Ricardo Mendes e Antônio Oliveira Junior
tóricos. Conservar e preservar documentos passa a ser uma função
expandiram o campo de investigação sobre as práticas fotográficas
muito ligada ao Estado.
para o século xx abordando temas como fotoclubismo, as exposi-
ções universais, o fotojornalismo.
Fotografias
A análise semiológica oferece à fotografia um arcabouço teó-
rico sólido que fortalece a relação entre a imagem e a realidade que
Usos sociais e historiográficos um dia esteve em frente à câmera fotográfica.
A abordagem semiológica coloca em outros termos aquilo que
Para compreender a fotografia como fonte histórica é impor- a própria sociedade identificava como prova, verdade ou testemu-
tante levar em consideração os usos sociais que agenciaram o in- nho. A fotografia passa a ser compreendida não como verdade,
vento fotográfico ao longo dos séculos XIX e XXconsolidaram mas como marca, isto é, índice. O índice é um tipo de signo que
acervos importantes para a pesquisa (p.29). define como vestígio do objeto que lá esteve o referente.
O crescimento dos seguimentos médios e suas expectativas Outra contribuição da semiologia para as reflexões a respeito
de ascensão incentivaram novas formas de representação de iden- da natureza da fotografia foi a ideia de que a imagem constitui um
tidade e distinção que estavam em sintonia com os esforços de discurso. Se a imagem é um discurso podemos pressupor que a li-
um diversificado grupo de homena das ciências, artistas e comer- teralidade da fotografia não é algo natural, mas cultural. Seu códi-
ciantes que transformaram a afotografia em um grande negócio. A go precisa, portanto, ser aprendido. O discurso visa à comunicação
fotografia foi substituindo a pedra litográfica. e para que isso ocorra outro pressuposto è que a fotografia possui
Invenção burguesa, a fotografia popularizou o retrato e levou uma linguagem que deve ser compartilhada para que ocorra a troca
aos recantos mais distantes do mundo essa “caixa de pandora”, de informação. A terceira decorrência da noção de discurso é a
contendo paisagens de lugares exóticos, de monumentos, de tipos assimetria social da troca. Toda troca de informação é interessada
humanos, retratos com apelos eróticos , paisagens urbanas, ima- e acontece numa arena de poder.
gens chocantes de guerras e de conquistas científicas. Desse ponto de vista, já se vê que também é possível analidar
As grandes celebridades podiam ser colecionadas em casa, a fotografia como parte atuante na reprodução do sistema, ou seja,
colocadas no álbum para promover a conversação em encontros como ideologia. O foco na fotografia como um meio ideologica-
sociais. mente eficaz está relacionado ao surgimento, nos anos 1960, de
Para as Instituições do Estado, a fotografia foi instrumento efi- estudos voltados para o meios de comunicação de massa e para a
caz no aprimoramento do controle da população por instituições, indústria cultural. As abordagens se bifurcam, mas procuram to-
especialmente a polícia. Em 1851 sugeriu-se o uso da fotografia mar distância da noção simplista de ideologia como simples mani-
nas licenças de habilitação para a direção de veículos a tração pulação ou deliberação da verdadeira realidade, capaz de anular o
animal; em 1853 pensou-se na fotografia de passaporte; em 1854 sujeito ao aliená-lo da realidade.

Didatismo e Conhecimento 101


BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
John Tagg, baseado na ideia de aparelhos do Estado de Athus- A história das famílias também pode ser conhecida, bem como
ser, mas também recorrendo a Michel Foucault e Umberto Eco, servirem de testemunho de vida material.
procura entender a fotografia e o estatuto de veracidade que ela é Inventários também podem ser usados para se estudar a escra-
atribuído como resultado de práticas de significação que ocorrem vidão sob os mais variados aspectos.
dentro de estruturas institucionais responsáveis pela produção de Os processos crime e cíveis são fontes igualmente abundantes
consensos que têm como eixo interesses dominantes associados e dão voz a todos os segmentos sociais, do escravo ao senhor. São
ao Estado. fontes preciosas para o entendimento das atividades mercantis, já
A preocupação com a construção de sentidos, ou nos termos que são recorrentes os autos de cobranças judiciais de dívidas e os
de John Tagg, de práticas de significações, colocou a fotografia em papéis de contabilidade de negócios de grande e pequeno porte.
um novo patamar documental, reconhecendo nela uma capacidade
constitutiva das categorias, estruturas e práticas sociais. Processos criminais

Literatura Os livros de registros de entradas de presos em cadeias e pe-


nitenciárias permitem que se trace um perfil social do prisioneiro,
Afirmar que a literatura integra o repertório das fontes histó- relacionando a qualidade de contravenção com cor, idade e outros
ricas não provoca hoje qualquer polêmica, mas nem sempre foi dados de identificação. É possível analisar a evolução do sistema
assim. Mais do que isso, nas ultimas décadas os textos literários policial e prisional.
passaram a ser vistos pelos historiadores como materiais propícios Os processos criminais contêm dados precioso a propósito de
a múltiplas leituras, especialmente por sua riqueza de significados acusados vítimas e testemunhas, o que possibilita análises quali-
para o entendimento do universo cultural, dos valores sociais e das tativas e quantitativas sobre o perfil das pessoas; contêm nomes e
experiências subjetivas dos homens e mulheres do tempo. Dessa atribuições de advogados, juízes, escrivão e outros agentes da lei
perspectiva resultaram numerosos trabalhos que abrangem tanto de diversas instâncias, o que nos permite avaliar suas atuações em
os estudos aplicados quanto as análises teórico-metodológicas so- diversos casos, as interpretações recorrentes, legislação citada, o
bre a exploração desse tipo de fonte. funcionamento da justiça em várias épocas(p.129).
No entanto, o estabelecimento dos juízos estéticos não cabe
numa pesquisa histórica. È facultado ao historiador, procurar Registros paroquiais e civis
compreender como os escritos literários formam e disseminam
Registros dos eventos vitais – nascimento, batismo, casamen-
os gostos, como repercutem no coletivo e permanecem ou não
to e óbito - elaborados e conservados pela igreja ou Registro Civil
historicamente. Devem interessar á pesquisa histórica todos os ti-
de Pessoas Naturais, são fontes onde a população pode ser recupe-
pos de textos literários, na medida em que sejam vis de acesso à
rada através desses registros, Por isso os livros que os contêm são
compreensão dos contextos sociais e culturais: literatura maior ou
considerados fontes democráticas. Mesmo que para determinados
literatura menor, escritos clássicos ou não, eruditos ou populares,
momentos e locais, uma parcela dos nascimentos, das uniões con-
bem-sucedidos no mercado ou ignorados, incensados ou amaldi-
jugais e dos óbitos, por algum motivo, não tenha sido anotada,
çoados.
esses livros incluem de fato os setores da sociedade. Homens e
mulheres, ricos e pobres, brancos, negros e índios, nacionais e es-
Testamentos e inventários trangeiros, filhos legítimos e ilegítimos/naturais, crianças expostas
ou rejeitadas e também escravos e libertos (antes de 1888) tiveram
Testamentos e inventários são produzidos no contexto da e têm os seus eventos vitais registrados(p.142).
morte da pessoa, mas ao contrário do que possa parecer, esses Os livros de notas dos tabeliães são preciosos para a análise
documentos contêm ricas e variadas informações sobre múltiplos da sociedade e da economia do passado.
aspectos da vida do morto, bem como da sociedade em que ele vi- A multiplicidade de atos é notável, a riqueza de informação
veu. Por isso, nas mãos do historiador, eles podem se transformar também.
em testemunhos sobre a morte, mas acima de tudo, sobre a vida, Os cartórios exigem, quase sempre, autorização para a pesqui-
em suas dimensões material e espiritual. Ambos os documentos sa, dede que justificada a natureza desta. Nem sempre contam com
guardam algumas similaridades, mas são distintos, cada qual com acomodações para isso, havendo que se improvisar um espaço para
sua própria especificidade. Como ponto de partida para compará acolher o pesquisador. O acolhimento varia desde a extrema sim-
-los, pode-se dizer que o testamento é produzido nos momentos patia até a enorme má vontade, e o historiador deve estar, sempre,
que antecedem a morte e nele fica registrada a última vontade do preparado para as duas eventualidades. Mas o retorno intelectual
testador relativa ao que ele deseja que seja feito com seus bens. Já sempre compensa, e muito, as eventuais dificuldades.
o inventário é feito após a morte, também chamado de inventário
post-mortem, e por ele os bens do morto são distribuídos conforme Arquivos eclesiásticos
as disposições legais e sua última vontade, no caso de haver tes-
tamento. O ponto em comum é que ambos versam sobre os bens Os arquivos de natureza religiosa no Brasil são detentores de
da pessoa e são regidos por leis especificas. Portanto, ao utilizar grandes conjuntos documentais, nem sempre facilmente acessí-
esses dois tipos de documentos como fontes, o historiador deve veis. Os mais notórios são os da Igreja Católica, cujos acervos es-
conhecer as leis vigentes no período e no espaço estudado(p.93). tão reunidos nas cúrias diocesanas, sob os cuidados de serviços de
Através de testamentos e inventários é possível conhecer a arquivos em geral bastante precários e desconfortáveis, que costu-
religiosidade das pessoas e qual a condição, por exemplo, dos es- mam improvisar o atendimento quando do surgimento inesperado
cravos no Brasil. de um pesquisador.

Didatismo e Conhecimento 102


BIBLIOGRAFIA - LIVROS E ARTIGOS (História)
Alguns interpõem dificuldades quase intransponíveis, en- Discursos e pronunciamentos
quanto outros são bastante liberais e abrem até mesmo documentos
mais sensíveis, como os processos relativos aos próprios religio- Discurso e pronunciamentos não são meras palavras, são con-
sos. ceitos e, portanto, podem ser entendidos de variadas maneiras, são
Os arquivos católicos preservam escassa documentação para ditas palavras ou conceitos polissêmicos.
os séculos XVI e XVI, começando a ser mais expressivos a partir Pronunciamento será entendido como ato ou efeito de publi-
do século XVIII. Seria de se esperar que essas fontes, fossem de camente expressar uma opinião, manifestar-se em defesa de dadas
livre acesso ao público, já que a igreja, por intermédio do Padroa- teses ou posições políticas, morais, religiosas, filosóficas, éticas,
do Régio, atuava como um autêntico serviço público. Deveriam econômicas, jurídicas, estéticas, etc.. Os pronunciamentos servem
estar abertos à livre consulta, sem maiores restrições, amparados ao historiador, tanto quanto os discursos, por implicarem uma in-
em legislação específica regulamentando essa questão. tervenção pública de alguém.
Existem também os trabalhos realizados pelos mórmons que, Durante muitos séculos, o saber histórico se notabilizou por
visando microfilmar toda a documentação nominativa que possi- se dedicar a abordar aqueles eventos e aqueles personagens que
bilitasse a reconstrução de árvores genealógicas e a conversão re- faziam parte da vida pública, cujos discursos, ao serem pronuncia-
troativa dos antepassados, levou-os a desenvolver intenso trabalho dos, ganhavam destaque, eram vistos e ditos como tendo a capaci-
de coleta e pesquisa em todo o mundo. consistiu em copiar acer- dade de mudar o curso da história(p.226).
vos da Igreja Católica, até que foram descobertos ao realizarem a
microfilmagem, os técnicos mórmons deixaram, como contrapar- Arquivos do Poder Executivo
tida, uma cópia gratuita dos respectivos rolos para cada instituição
visitada. Além disso, essa ação dos mórmons contribuiu de modo Correspondência: ofícios e requerimentos
negativo para a pesquisa histórica, pois criou um medo e a des-
confiança, ainda hoje bastante presentes nas cúrias, de que todo e Numerosas questões relacionadas à administração pública são
qualquer pesquisador sistemático das fontes documentais católicas tratadas na correspondência que autoridades do Executivo manti-
seja um potencial mórmon ‘disfarçado’. Tal desconfiança tem sido nham com autoridades das mais diversas esferas: requerimentos ao
o fundamento de muitos dos entraves à pesquisa mantidos pelas Presidente da Província, nos ajudam a entender o funcionamento
cúrias, mal informadas do genuíno interesse acadêmico sobre seus do Estado Imperial.
preciosos papéis históricos.
Listas nominativas de habitantes
Arquivos de regimes repressivos
O uso das listas nominativas como fonte documental vem
Historiadores recorrem á essa fonte para conhecer os fatos que crescendo desde a década de 1970, informam a composição de
marcaram a repressão social e política resultante de um regime cada domicílio, indicando nome, idade, cor, estado civil, condição,
centralizador e autoritário iniciado em 1930 que culminou numa naturalidade e ocupação econômica, permitem análises bastante