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COLÉGIO ESTADUAL BARROS BARRETO

ALUNO (A): _______________________________________________________ Nº: _______


TEMPO DE APRENDER - EJA ENSINO: MÉDIO
DISCIPLINA: HISTÓRIA PROFESSOR (A): FERNANDO ARAUJO DATA: ____/____/____

TEMA: O TRABALHO NO BRASIL

Começamos mal ou o passado nos condena?

Os historiadores Ida Lewkowicz, Horacio Gutiérrez e Manolo Florentino iniciam seu livro Trabalho compulsório e
trabalho livre na História do Brasil destacando o fato de que “o trabalho no período colonial no Brasil pautou-se por
modalidades compulsórias, sendo a escravidão a principal e a mais cruenta de todas”. Tudo começou quando a
população que habitava a terra foi capturada pelos portugueses, que aqui aportaram em 1500, para trabalhar na
extração do pau-brasil a ser vendido no mercado internacional.

Os nativos – povos diferentes, que os portugueses chamaram genericamente de índios – foram, portanto, as primeiras
cobaias dessa forma compulsória, obrigatória, de trabalhar. Posteriormente, as tentativas de aprisionamento e
escravização dessas populações tiveram como meta o cultivo da cana-de-açúcar.

Era um trabalho pesado, desgastante e, segundo nossos historiadores, “considerado feminino”, contra o qual os
indígenas se rebelaram.

Os hábitos europeus de trabalho se chocavam brutalmente com os das culturas nativas. Mas, a partir de meados do
século XVI, os colonizadores contaram com a providencial ajuda dos religiosos, que estavam empenhados na
conversão dos indígenas à fé cristã.

Nessa campanha de reeducação cabia também o treinamento para novos hábitos de vida e de trabalho, ou seja, para
comportamentos mais afinados com os costumes europeus. Tentou-se, assim, criar um campesinato indígena.
Segundo os dados dos religiosos, em 1600 mais de 50 mil indígenas viviam em aldeamentos voltados para o trabalho
no campo. Imagine quão violento deve ter sido o contato dos nativos com o colonizador, que, mais forte, chegou
impondo hábitos totalmente estranhos! No sul da colônia, os indígenas que tentavam escapar dos espanhóis foram
acolhidos pelos jesuítas.

Mas não conseguiram escapar dos bandeirantes paulistas, que aprisionaram milhares deles e os conduziram ao
cativeiro em marchas forçadas, durante as quais morriam crianças e adultos, exauridos pela dureza das caminhadas.

As capturas de nativos se espalharam em todas as direções, a ponto de o antropólogo Carlos Fausto afirmar que, no
século que se seguiu à chegada dos portugueses à América, houve um verdadeiro “repovoamento” do território. Os
nativos foram substituídos por outros grupos, porque foram dizimados aos milhares. A história do trabalho na colônia
teve um começo cruel que prosseguiu com mais sofrimento. Aos indígenas seguiram-se os negros africanos, que já
vieram escravizados de seu continente de origem.

O mercado de gente

Comprar e vender pessoas para o trabalho forçado – é disso que se trata quando falamos da escravidão no Brasil. O
comércio de pessoas na costa africana alimentou o território brasileiro com mão de obra farta e continuada de meados
do século XVI a meados do século XIX, o que significa que por mais de 300 anos a sociedade brasileira conviveu com
uma prática de trabalho cruenta e condenável.

As cifras são implacáveis: dos 10 milhões de escravizados transportados para as Américas nesse período, cerca de 4
milhões desembarcaram no Brasil. E a cada novo século, até a proibição do tráfico, decretada em 1850 por pressões
internacionais, sobretudo inglesas, o número de escravizados que chegavam foi sempre crescente.
O trabalho escravo espalhou-se por amplos setores da produção. O cultivo da cana-de-açúcar, no Nordeste, somado
à atividade dos engenhos, foi o que mais utilizou o trabalho forçado. Nos séculos XVI e XVII, o nordeste foi, assim, o
principal destino dos escravizados africanos. Mas a economia do Período Colonial contou ainda com uma intensa
produção de café nas fazendas do Rio de Janeiro e São Paulo, além da atividade mineradora, sobretudo em Minas
Gerais.

Como escreveu André João Antonil (1649-1761) em um livro clássico intitulado Cultura e opulência do Brasil por suas
drogas e minas, publicado em 1711, os escravizados eram “as mãos e os pés do senhor de engenho”. Mas não só dele:
também do senhor do café, dos que extraíam metais preciosos nas minas, dos que criavam gado, dos que
movimentavam a produção em todas as escalas.

Embora a educadora alemã considerasse os negros “mais senhores do que escravos”, pela capacidade de trabalho que
demonstravam e pela agilidade com que se moviam em todas as funções, o regime de escravidão se caracterizava pela
ausência completa de direitos:

o escravo não era remunerado, sua jornada de trabalho não tinha limites prefixados, não havia descanso garantido
nem liberdade de escolher onde e para quem trabalhar. Muitos escravos que conseguiam a alforria – ou seja, a
liberdade concedida pelo senhor – prosseguiam nas atividades produtivas, e alguns até conseguiam comprar escravos
para trabalhar em seus negócios. Mas, mesmo vivendo em liberdade, os negros não eram considerados semelhantes
aos brancos. Muitas ocupações e postos de trabalho lhes eram proibidos.

Com a Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1888, às vésperas da Proclamação da República, em 1889, o trabalho
no Brasil tornou-se, por lei, livre. Mas a caminhada foi longa, e desde então os trabalhadores construíram uma história
de resistências, lutas, conquistas e retrocessos, que se confunde com a dos movimentos coletivos por mais bem-estar
e mais justiça nas sociedades.

Trabalho livre: libertos e imigrantes

Florestan Fernandes, importante sociólogo brasileiro, escreveu um livro considerado clássico na Sociologia. A
integração do negro na sociedade de classes é o título desse trabalho, que trata da passagem do regime escravista
para o do trabalho livre em nosso país. O livro nos mostra como, saindo de uma longa tradição escravista, sem acesso
aos benefícios da civilização – estudo, proteção social, preparação psicológica, educação para o mercado –, o negro
liberto foi jogado na sociedade competitiva sem nenhuma habilidade para competir.

Era um jogo condenado ao fracasso, que reproduzia tudo de negativo que a sociedade divulgava sobre os negros, uma
imensa parcela da população desprovida de qualquer direito à cidadania. Como se não bastasse, eles teriam de
enfrentar todos os preconceitos que ficaram enraizados nos costumes da sociedade, marcando-os como inferiores,
incapazes, em suma, inabilitados para o trabalho livre, que exigia iniciativa, conhecimento e capacidade.

Completadas duas décadas de república, o Brasil passou a estimular a vinda de imigrantes para o desenvolvimento da
cultura cafeeira, sobretudo no estado de São Paulo. A entrada de estrangeiros de várias nacionalidades – italianos,
espanhóis, alemães, japoneses – foi tão grande que em 1930 foi aprovada a Lei dos Dois Terços, estabelecendo que
as empresas tinham de ter em seus quadros dois terços de trabalhadores brasileiros.

Se foi preciso promulgar uma lei protegendo os trabalhadores nacionais, é porque havia uma real ameaça de as vagas
serem ocupadas majoritariamente pelos imigrantes. Vejamos os números: em 1889, quando o governo paulista abriu
as portas à imigração para abastecer de braços a lavoura cafeeira, entraram no estado cerca de 2 milhões de
imigrantes, um terço deles vindos da Itália. Em 1932, 33 mil fazendas de café do oeste paulista, equivalentes a 42% do
total, estavam nas mãos de italianos, portugueses e espanhóis. Os imigrantes italianos, que vinham de precárias
condições de trabalho em seu país de origem, engajaram-se também no trabalho fabril, que começava a se disseminar
no fim do século XIX. Tiveram, aqui também, uma vida de sacrifícios, escrita e lembrada em muitas pesquisas feitas
por historiadores e sociólogos.

O período conhecido como Primeira República (1889-1930) ferveu em manifestações de trabalhadores pela conquista
de direitos. Depois do primeiro marco importante na história dos direitos trabalhistas, representado pela Abolição da
Escravatura, uma longa caminhada se iniciou.
As décadas de 1920 e 1930 foram tomadas por movimentos de trabalhadores que reivindicavam a redução da carga
horária, a regulamentação do trabalho feminino e infantil, e a promulgação de uma lei de proteção contra acidentes
de trabalho. Os trabalhadores também organizaram greves. Do outro lado, a repressão policial era intensa – tão
intensa que uma expressão da época ficou famosa: “A questão operária é uma questão de polícia”. Os trabalhadores
criavam suas associações de classe, faziam boicotes, promoviam greves e campanhas contra a alta de preços, a falta
de dinheiro, as condições abusivas de trabalho e a guerra. Formavam partidos operários e lançavam candidatos às
eleições. Enfim, organizavam a vida coletiva com o objetivo de melhorar suas próprias condições de vida e de trabalho.

Trabalhadores do Brasil!

A chegada maciça de imigrantes europeus ao Brasil contribuiu para a valorização social do trabalho. Como nossa
tradição tinha sido predominantemente escravista, o trabalho era associado ao escravo. Logo, era degradante
trabalhar, como era degradante ser escravo. A presença de imigrantes brancos, que, mesmo pobres em seus países,
tinham recebido alguma educação formal, sabiam ler e tinham conhecimentos rudimentares, propiciou o contato dos
brasileiros com formas mais organizadas de pressionar o governo por melhorias.

Fazer que o trabalho fosse aceito como atividade digna, que o trabalhador se sentisse honrado por ser trabalhador,
foi a bandeira de alguns governantes brasileiros. Um deles ficou famoso por ter abraçado essa causa. Trata-se de
Getúlio Vargas, que governou o país de 1930 a 1945 e, depois, de 1951 a 1954. Vargas passou à história como o “pai
dos pobres” e “o presidente dos trabalhadores”, aquele que criou a carteira de Trabalho, em 1932, e assinou a
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1o de maio de 1943.

De novo, o governo de São Paulo, o estado mais desenvolvido do país, abriu as portas para receber os migrantes como
força de trabalho. A antiga política de subsídio à imigração foi então dirigida aos trabalhadores nacionais. Entre 1935
e 1939, mais de 285 mil trabalhadores estrangeiros passaram pela Hospedaria dos Imigrantes, na cidade de São Paulo,
antes de ser encaminhados às fazendas do interior. Entre 1946 e 1960 foram recebidos ali 1,6 milhão de trabalhadores
brasileiros. Os números não pararam de crescer: entre 1950 e 1960, a capital paulista triplicou de tamanho e a
população de origem nordestina aumentou dez vezes. O censo de 1970 indicava que cerca de 70% da população
economicamente ativa da cidade havia passado por algum tipo de experiência migratória.

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