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COORDENAÇÃO CENTRAL DE EXTENSÃO

Curso de Especialização em Psicologia Jurídica

Pedofilia(s) no discurso das Ciências Sociais e


Humanidades

Caroline Perrota Oliveira do Valle

Orientador:

Prof. Dr. José Cesar Coimbra


1

Caroline Perrota Oliveira do Valle

Pedofilia(s) no discurso das Ciências Sociais e


Humanidades

Monografia apresentada à Pontifícia Universidade Católica como parte


integrante do conjunto de tarefas avaliativas do curso de Pós-Graduação
em Psicologia Jurídica.

Orientador:

Prof. Dr. José Cesar Coimbra

Rio de Janeiro

2018
2

Agradecimentos

A Deus, primeiramente, pela vida, força e sabedoria concedidas. À


minha mãe Elaine pela educação e ensino ofertadas. Ao meu marido
Vinícius e meus filhos, Samuel e Thiago pelo amor, compreensão e
paciência. Aos caros colegas pelo companheirismo e conhecimentos
divididos. Aos professores pelos ensinamentos, e em especial, ao
Professor Orentador, Dr. César Coimbra, pela sua disponibilidade,
paciência e dedicação.
3

Sumário

Resumo ...................................................................................................... 4
1 Introdução ............................................................................................ 6
2 Sentidos atribuídos ao termo “pedofilia” .............................................. 8
3 Relação com uma categoria nosológica ............................................ 11
4 Relação com a ocorrência de abuso sexual infantil ........................... 13
5 Pedofilia e avaliação (assessment) ................................................... 15
6 Pedofilia entre reação social e políticas públicas ............................... 18
7 Considerações finais.......................................................................... 23
8 Referências........................................................................................ 27
4

RESUMO

O presente trabalho analisa o tema da pedofilia realizando uma revisão


sobre o conhecimento que as mais recentes pesquisas das Ciências
Sociais e Humanidades – especificamente Ciências Sociais, a Psicanálise,
a Psicologia e o Direito - têm construído sobre ele. Levantaram-se duas
questões principias que balizaram a produção do artigo: que conhecimento
existe acerca do tema da pedofilia? Como esse conhecimento tem sido
utilizado para promover a dignidade humana de sujeitos e fomentar os
direitos de crianças e adolescentes? Para tanto, a técnica utilizada para a
coleta e análise dos dados foi a revisão bibliográfica integrativa. Foram
levantados cinco pontos de análise, e os resultados foram integrados a
partir do método comparativo. Pôde-se perceber que o termo pedofilia,
assume diferentes sentidos em diferentes áreas. Para as Ciências sociais,
pedofilia é uma construção social. Para a Psicanálise, ela se relaciona com
a estrutura psíquica da perversão, apresentando uma grande fragilidade
narcísica que se utiliza da denegação para eliminar a diferença geracional.
Para a Psicologia, pedofilia é uma parafilia e se aproxima de uma categoria
nosológica. Para o direito o tema possui uma relação tênue com a
ocorrência de um crime. Foi observado que a reação social que o tema
suscita tem sido um entrave para um olhar mais aprofundado sobre o tema
que nos conduza a ações efetivas que atendam a sujeitos que sentem
atração sexual por crianças. Verificou-se que a pedofilia nem sempre tem
uma relação direta com a ocorrência de abusos sexuais, não sendo os
agressores necessariamente pedófilos e nem os pedófilos
necessariamente agressores. Observou-se como ponto de convergência o
entendimento de que pedofilia se refere a um desejo, e que esse ponto tem
sido suprimido dos discursos e de muitas abordagens propostas. O tema
nos remete à dificuldade que temos em lidar com aquilo que já foi definido
com um desejo instintual, o incesto, cuja proibição que se tornou
organizadora da sociedade, garantindo a diferença entre as gerações.
Nesse sentido, é importante realizar abordagens que considerem o sujeito
do desejo e que ajudem a lidar com esse desejo de outras formas que não
sejam a passagem ao ato.
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Palavras-chave: Pedofilia; Pedófilo; Desejo.


6

1 Introdução

O presente trabalho analisa o tema da pedofilia à luz das recentes


pesquisas referentes ao campo das ciências sociais e humanidades,
realizando uma revisão sobre o conhecimento construído nas ciências
estudadas – especificamente as Ciências Sociais, a Psicanálise, a
Psicologia e o Direito.

O interesse pelo tema surgiu quando do contato da autora em um


programa de voluntariado no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de
Janeiro. Nessa ocasião, o primeiro setor de contato foi o NUDECA (Núcleo
de Depoimento Especial de Crianças e Adolescentes), onde se realiza
depoimento especial de crianças e adolescentes. Depoimento Especial é
uma modalidade de tomada de depoimento de crianças e adolescentes.
Nessa modalidade, a vítima não fica presente na sala de audiências, mas
seu depoimento é colhido em sala especial, com características próprias
para a idade. Nessa sala, o depoimento é tomado por profissional treinado
(no Rio de Janeiro, em geral são psicólogos e assistentes sociais), é vídeo
gravado e transmitido ao vivo para a sala de audiências, onde juiz, promotor
e advogado podem fazer perguntas que são “traduzidas” para a criança
pelo profissional que está colhendo o depoimento.
Ali, chegavam inúmeros processos criminais que se referiam a abuso
sexual envolvendo crianças e adolescentes. Dois pontos passaram a
chamar atenção: o primeiro se referia às reações e falas com relação ao
suposto agressor; o outro se relacionava ao contraponto existente entre um
intenso movimento de formulações de políticas públicas e ações voltadas
à proteção da criança e pouco ou nenhum movimento articulado quanto a
pensar em políticas voltadas para os agressores e pessoas que sentem
atração sexual por crianças.

Diante disso surgiram as questões que balizaram a produção deste


artigo: que conhecimento se tem acerca do tema da pedofilia? Como esse
conhecimento tem sido utilizado para promover a dignidade humana de
sujeitos e fomentar os direitos de crianças e adolescentes?
7

Entender quais são os sentidos atribuídos ao termo “pedofilia” e


identificar os usos que se fazem em torno do tema torna-se certamente
importante para que se possa pensar em possíveis utilizações desse
conhecimento para intervenções que promovam dignidade humana a
esses sujeitos e que também fomentem direitos de crianças e
adolescentes.

Dessa forma, este artigo, ao reunir de maneira sucinta o conhecimento


que se tem sobre a pedofilia, traz à tona a discussão sobre os olhares que
se lançam sobre esse sujeito, intentando fornecer subsídios para a
construção de conhecimento acerca do tema.

Para isso, a técnica utilizada para a coleta e análise dos dados será a
revisão bibliográfica integrativa, que pretende realizar uma análise
ampliada da literatura existente acerca do tema da pedofilia em estudos
referentes às Ciências Sociais e Humanidades. Serão levantados cinco
pontos de análise para discussão das informações levantadas. Seriam eles:
Sentidos atribuídos à pedofilia; relação com uma categoria nosológica;
relação com a ocorrência de abusos sexuais; avaliação da pedofilia; e
pedofilia entre reação social e políticas públicas. Os resultados serão
integrados a partir do método comparativo, que consiste em confrontar as
informações obtidas para compreender diferenças e semelhanças entre os
conhecimentos nas áreas estudadas, assim como examinar as relações
entre eles.
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2 Sentidos atribuídos ao termo “pedofilia”

A palavra pedofilia é derivada do grego – paidophilia – e em sua origem


significa aquele que gosta de crianças (CRISTINO, 2013; TRINDADE,
2013). Dentro dessa concepção geral, a análise realizada demonstra que
o termo “pedofilia” assume diferentes sentidos em diferentes áreas.

As pesquisas na área das Ciências Sociais concebem o fenômeno da


pedofilia como uma construção social que acontece em múltiplos planos.
Tal tema aparece como uma categoria socialmente fabricada em uma
sociedade que direciona seu foco a sujeitos que se desviam da norma,
considerados como “problemáticos” (LOWENKRON, 2015). Oliveira (2015)
ainda argumenta que embora, em nossa sociedade atual, o senso comum
relacione “naturalmente” atividades sexuais entre um adulto e uma criança
ou adolescente como crime ou abuso, esta seria uma categoria socialmente
construída, advinda dos Estados Unidos da América, se espalhando para
o resto do mundo e influenciando o universo acadêmico; os ditos
especialistas que tinham alguma relação com o tema; o mundo dos
políticos, juristas e legisladores; e também as pessoas comuns envolvidas
em situações que se encaixavam na categoria. Aquilo que é socialmente
construído se torna uma classificação, possibilitando assim a produção de
saberes, atividades, organizações, criação de leis e modificações na
dinâmica e estrutura familiar (MÉLLO, 2001).

Lowenkron (2015) argumenta que, nesse processo de construção social,


o pedófilo é visto como monstro contemporâneo, aquele sobre o qual recai
a figura de inimigo a ser vigiado, diagnosticado, identificado e punido. A
autora indica que a construção social da pedofilia, portanto, nasce de uma
“cruzada antipedofilia” (LOWENKRON, 2015, p. 411).

Na área da psicanálise, Freud pouco falou sobre a pedofilia, não


deixando nenhum estudo sistematizado sobre o tema. Porém na obra “Os
três ensaios sobre sexualidade” (FREUD, 1905/1996), o referido autor a
classifica como um dos “desvios com respeito ao objeto sexual”, incluído
nas perversões, escrevendo que “os casos em que se escolhem pessoas
sexualmente imaturas (crianças) como objetos sexuais são desde logo
9

encarados como aberrações esporádicas.” (FREUD, 1905/1996, p. 140).


Mais adiante ele continua:

A experiência ensina que não se observa entre os loucos quaisquer


perturbações da pulsão sexual diferentes das encontradas entre os
sadios, bem como em raças e classes inteiras. Assim, com a mais insólita
frequência encontra-se o abuso sexual contra crianças entre os
professores e as pessoas que cuidam de crianças, simplesmente porque
a eles se oferece melhor oportunidade para isso. Os loucos apenas
exibem tal aberração em grau intensificado... (FREUD, 1905/1996, p.
140).

Considerando os escritos de Freud a partir da leitura de Jacques Lacan,


a perversão é vista a partir do complexo da castração como uma
denegação (verleugnung). Assim, há tanto o reconhecimento que a mãe
não tem o falo como a negação do reconhecimento. O que se renega é a
diferença sexual (JULIEN, 2003).

Assim, na teoria psicanalítica, a pedofilia se refere a um desejo por seres


imaturos e se baseia na negação da diferença geracional. A angústia da
castração teria um papal central, pois a castração seria denegada,
mantendo o narcisismo primário e dando espaço a um “Eu carente”
idealizado, de modo que é negada a humilhação e a proibição de possuir a
mãe, surgindo uma criança que é adorada. Nesse sentido, o amor pedófilo
seria uma marca do amor narcisista em que a perversão funcionaria como
um substitutivo da castração para amenizar a angústia. Assim, o pedófilo
não seria aquele que se vale da inocência infantil para a submetê-la aos
seus desejos, mas aquele que se submete ao desejo do outro, o seu duplo
narcísico. Ele não deseja roubar a infância, antes ele retorna à infância,
colocando-se no lugar da criança, ao mesmo tempo que assume o lugar do
adulto, do pai da horda, pai ideal (SCHINAIA, 2015).

Na visão psicanalítica, portanto, os pedófilos enxergam as relações de


forma sexualizada e assim, consideram as crianças portadoras de desejos
sexuais e passíveis de satisfazê-los (DE MASI, 1999 apud SCHINAIA,
2015).
10

Na área da Psicologia, Seto (2013) define pedofilia como uma


preferência sexual por crianças pré-puberes e indica que tal preferência é
manifestada em persistentes e recorrentes pensamentos, fantasias,
impulsos, excitação sexual ou comportamentos relacionados ao transtorno
pedofílico. Sua definição se aproxima da definição oferecida pela APA
(American Psychological Association), onde pedofilia é uma parafilia
relacionada a atos ou fantasias sexuais com crianças que sejam bem mais
novas que o abusador. A Associação ainda coloca que as atividades
sexuais podem estar relacionadas a olhar, tocar e em algumas vezes
abrangem relações sexuais, inclusive com crianças muito novas (APA, 2007
apud SETO, 2013).

Dessa forma, pedofilia seria uma parafilia, que

representa qualquer interesse Sexual intenso e persistente que não aquele voltado
para estimulação genital ou para carícias preliminares com parceiros humanos
que consentem e apresentam fenótipo normal e maturidade física (APA, 2014, p.
685).

O termo parafilia passa a nomear para a Psicologia o que na Psicanálise


é visto como perversão (ROUDINESCO, 1944/2008). Parafilias passam a
descrever os interesses sexuais que estariam fora do que seriam
“interesses sexuais normofílicos” (APA, 2014, p. 685).

Para a área do Direito, Breier (2013) afirma que não há na legislação


brasileira uma norma que ofereça uma descrição técnica da pedofilia, mas
defende a criação de um “conceito penal sobre pedofilia” (BREIER, 2013,
p. 145). Nessa área, a pedofilia é tratada como um desvio sexual, e é
colocada como sendo relacionada com a ocorrência de um ato criminoso.
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3 Relação com uma categoria nosológica

Pedofilia seria uma doença? Para responder esta pergunta, as áreas


mais autorizadas, dentre as que estão sendo estudadas seriam a
Psicanálise e a Psicologia.

Estudos em Psicanálise indicam que a pedofilia se relaciona com a


estrutura psíquica da perversão, apresentando uma grande fragilidade
narcísica que se utiliza da denegação para negar a diferença geracional. O
amor pedófilo seria uma marca do amor narcisista e a perversão seria um
ato substitutivo da castração para amenizar a angústia, porém apenas de
forma ilusória (MCDOUGALL, 1982 apud SCHINAIA, 2015). Assim, a
angústia da castração teria papel central na pedofilia. Freud (1905/1996)
explica que mesmo que muitos profissionais procurem classificar as
perversões como degeneração ou doença, só se encontraria um caráter
patológico nesses casos quando houvesse características de exclusividade
e fixação.

Já a Psicologia procura se aproximar do discurso médico e coloca a


pedofilia dentro de uma categoria nosológica.

Segundo o DSM 5(APA, 2014), a pedofilia seria uma condição para


que um indivíduo fosse classificado com “Transtorno Pedofílico”, incluído
na sessão dos “Transtornos Parafílicos”. O manual apresenta os seguintes
critérios diagnósticos:

A. Por um período de pelo menos seis meses, fantasias sexualmente


excitantes, impulsos sexuais ou comportamentos intensos e recorrentes
envolvendo atividade sexual com criança ou crianças pré-puberes (em
geral, 13 anos ou menos).
B. O indivíduo coloca em prática esses impulsos sexuais, ou os impulsos
ou as fantasias sexuais causam sofrimento intenso ou dificuldades
interpessoais.
C. O indivíduo tem, no mínimo, 16 anos de idade e é pelo menos cinco
anos mais velho que a criança ou as crianças do Critério A.
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Nota: Não incluir um indivíduo no fim da adolescência envolvido em


relacionamento sexual contínuo com pessoa de 12 ou 13 anos de idade.
(APA, 2014, p. 698).

O referido manual ainda afirma que há indivíduos que sentem


atração por crianças pré-puberes, mas nunca colocaram tais impulsos em
prática e não apresentam sentimento de culpa, vergonha ou ansiedade em
relação ao tema, nem limitações funcionais. Esses indivíduos teriam
orientação sexual pedofílica, porém não transtorno pedofílico. Ainda no
mesmo manual tem-se a indicação de que a pedofilia é condição para toda
a vida e que o interesse sexual por crianças surge por volta do período da
puberdade. É importante notar que a pedofilia é tida como condição
necessária para o transtorno pedofílico, apontando que a pedofilia em si,
ou seja, a atração sexual por crianças pré-puberes não indica uma doença
ou transtorno específico.

Nesse entendimento, verifica-se uma convergência com relação à


Psicologia e a Psicanálise quanto a que a pedofilia, enquanto na ideação e
no desejo não constitui uma categoria nosológica.
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4 Relação com a ocorrência de abuso sexual infantil

Quanto a temas relacionados a práticas que envolvam pedofilia


dentro do Direito Penal, vemos normatização na Constituição Federal de
1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90) e no Código
Penal (Lei 2848/40).

Os Crimes relacionados a atividades sexuais envolvendo crianças


estariam dispostos no Código Penal (Lei 2848/40), Capítulo ll, dos “Crimes
contra a Dignidade Sexual”, sob o subtítulo “Dos Crimes Sexuais
Praticados contra vulnerável”, estando descritos nos artigos 217-A, 218,
218-A e 218-B. Estes crimes seriam: estupro de vulnerável; corrupção de
menores; satisfação de lascívia mediante presença de criança ou
adolescente; e favorecimento da prostituição ou de outra forma de
exploração sexual de criança ou adolescente ou de vulnerável. Outros
artigos que guardam relação com o tema seriam o artigo 231, que trata de
tráfico internacional para o exercício da prostituição ou outra forma de
exploração sexual e o artigo 231-A, que trata do tráfico interno para fins de
exploração sexual dentro do território nacional. Ambos os crimes preveem
acréscimo de metade da pena quando envolver menor de 18 anos.

A lei 11829 de 2008 altera o Estatuto da Criança e do Adolescente,


incluindo novas figuras punitivas que tenham relação com crimes
relacionados à pornografia infantil por meios virtuais. Breier (2013) também
afirma que:

O objetivo da proteção penal para estes casos é a dignidade humana, a


imagem, a formação moral, a honra e a integridade física da criança e
adolescente, uma tutela relacionada aos direitos fundamentais que a
Constituição Federal reconhece de forma absoluta. (BREIR, 2013, p. 116).

Breier (2013) ainda nos diz que o tratamento jurídico-penal, para


casos relacionados à pedofilia seria determinado pelos traços psíquicos do
agente, com o fim de confirmar se ele pode ser considerado inimputável
(não é capaz de reconhecer seus atos como criminosos) ou semi-imputável
(é capaz de reconhecer parcialmente o caráter criminoso de seus atos). Tal
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fato poderá ser determinado através de prova técnica produzida por laudo
psiquiátrico forense.

Relacionado à imputabilidade penal, Cardin e Cazelato (2017)


defendem que pelo viés médico, a pedofilia pode ser vista como uma
doença mental. Os autores argumentam que embora a pedofilia vista como
uma enfermidade não suplanta o entendimento do pedófilo, ela incide sobre
a autodeterminação dos atos. Nesse entendimento, os autores defendem
que o pedófilo seja visto como inimputável, e assim, que lhes seja atribuída
medida de segurança no lugar da pena.

Quanto ao Código Penal (Lei 2848/40), Mendonça (2007) indica que


as normas concernentes aos crimes sexuais estão desatualizadas,
imbuídas de valores preconceituosos, ultrapassados em relação à
concepção ideológica da Constituição Federal, e não atendem a situações
reais de violação da liberdade e desenvolvimento sexual em crianças e
adolescentes. A autora conclui defendendo a imprescritibilidade dos crimes
sexuais quando praticados de forma generalizada e sistemática.

Para o ordenamento jurídico, a pedofilia, enquanto na instância do


desejo e da ideação não é tipificada como crime. Consideram-se crimes
condutas e práticas sexuais que envolvem, por meios físicos ou virtuais
crianças e adolescentes. Observou-se nos textos de cunho jurídico
estudado um uso confuso do termo pedofilia. O termo foi encontrado tanto
para descrever doença como para descrever a prática de um crime.
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5 Pedofilia e avaliação (assessment)

Existem estudos na área de Psicologia que intentam traçar perfis de


pedófilos e abusadores sexuais, sendo a grande maioria inconclusivos.

Pechorro, Poiares e Vieira (2008) realizaram um estudo que


objetivava levantar uma caracterização psicológica de abusadores sexuais.
Para a pesquisa, realizaram a avaliação psicológica de 41 abusadores
sexuais em detenção. Na conclusão eles escrevem:

É de salientar a grande diversidade de perfis obtidos... Os resultados


permitem-nos concluir que, apesar de certos perfis serem mais
frequentes, não é possível excluir a priori um dado perfil de personalidade
como não pertencente ao grupo dos abusadores sexuais. Tal coloca
seriamente em causa o valor de uma avaliação psicológica enquanto
prova jurídica nos casos de abuso sexual de crianças. (PECHORRO;
POIARES; VIEIRA; 2008, p. 622).

Serafim, Saffi, Rigonatti, Casoy e Barros (2009) apresentaram uma


revisão de literatura sobre o perfil psicológico e comportamental de
agressores sexuais de crianças. No estudo, os autores discorrem sobre a
importância de se utilizar perfis psicológicos em crimes sexuais, mas na
conclusão escrevem:

Analisando com minúcia, o crime sexual contra menores vem se


mostrando complexo e variado, com diferentes perfis de criminosos se
engajando nessa prática, por diferentes motivos. O perfil psicológico para
identificar criminosos sexuais, embora utilizado por alguns pesquisadores,
ainda requer maior validação científica...(SERAFIM; SAFFI; RIGONATTI;
CASOY; BARROS, 2009, p. 110).

Outro estudo de revisão de literatura sobre perfil do autor de


violência sexual contra crianças, realizado por Silva, Pinto e Milani (2013),
vai na mesma direção, concluindo que não há um único perfil que
caracterize esse sujeito, pois essa seria uma condição multifatorial e
multicausal.

Já Bohm (2012), em sua dissertação, não tenta classificar um perfil,


mas sim identificar características emocionais e comportamentais de
suspeitos de praticar abuso sexual. Ela conclui que entre as características
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comportamentais se encontram: impulsividade, agressividade, conduta


controladora do ambiente, abuso de álcool e outras drogas. E que as
características emocionais mais comuns seriam insegurança afetiva e
dependência emocional. Mais à frente a autora ressalta que tais
cararterísticas não correspondem a uma doença mental ou transtorno, mas
demandam ajuda multiprofissional.

Dessa forma, percebe-se que estudos na área de psicologia indicam


que variados tipos de pessoas podem cometer abuso sexual, sendo o
sujeito portador de pedofilia apenas um deles. Há várias classificações
envolvendo o tema da pedofilia e do abuso sexual infantil, tornando
duvidosa e até perigosa qualquer tipo de caracterização de um perfil do
“pedófilo” ou do “abusador sexual”. Quando se fala de pedofilia, não se fala
de uma categoria, mas de uma inclinação pertencente ao campo de desejo
e portadora de todas as variantes inerentes a esse campo, o que vai de
encontro ao senso comum e ao imaginário social a respeito do tema.

Seto relata que a avaliação de pedófilos pode se dar de diferentes


formas, por autorrelatos, por observação do comportamento (ele
desenvolveu uma escala para identificar interesses pedófilos, onde
sumariza características de possíveis vítimas sexuais e identifica aqueles
que mais apresentarão pedofilia em seus padrões de excitação sexual). Ele
defende o uso de polígrafo e da falometria (ou plestimografia peniana) para
identificar pedofilia entre homens que a negam.

A falometria - com a intenção de avaliar pedófilos - pretende avaliar


preferências sexuais por meio de respostas de ereção peniana diante de
estímulos sexuais relacionados ao tema. Paulino (2003) concluiu que não
foi demonstrada a validade científica da técnica, considerando que existem
diferentes aparelhos e que não existem critérios específicos descritos para
a correlação entre circunferência peniana e alteração do volume durante a
ereção. Segundo a autora, a validade científica fica comprometida
considerando o potencial para simulação/dissimulação (faking) e a baixa
sensibilidade/especificidade entre abusadores que admitem e que não
admitem e também para avaliar as preferências sexuais. Ela ainda
17

argumenta que os resultados podem ser facilmente manipulados e que a


técnica é mais útil quando utilizada em acusados que admitem o crime, que
apresentam múltiplas vítimas, sendo o crime não incestuoso. Defende que
a técnica não deve ser utilizada em acusados que negam o crime.

Rodrigues (2017b) fez um levantamento acerca da construção médico-


legal da violência sexual infantil nos EUA. Ele relata uma série de métodos
para identificação do pedófilo, tais como escalas, a própria falometria e
métodos neurofisiológicos e de neuroimagem (nesse caso o autor ressalta
que a pedofilia é vista como disfunção cerebral). Ele ainda faz levantamento
de terapias utilizadas para tratar agressores, tais como terapias cognitivo
comportamentais; e químicas e farmacológicas, como métodos de
castração química - castração química se refere à utilização de
medicamentos para diminuir níveis de testosterona e provocar alterações
em áreas cerebrais relacionadas à atividade sexual, tendo como fim a
diminuição da libido. No Brasil, a técnica é proibida pois foi vista como
inconstitucional. O autor, porém, argumenta que o tema do abuso sexual
infantil e da pedofilia tem assumido um caráter prescritivo, envolvendo um
campo de estratégias de controle de conduta sexuais desviantes.

As técnicas de avaliação e tratamento que vêm sendo utilizadas


parecem carregar consigo a ideia de contenção, correção do desejo e
controle do pedófilo.
18

6 Pedofilia entre reação social e políticas públicas

Na área das Ciências Sociais, Méllo (2001) e Lowenkron (2015)


apontam para o fato que o tema foi se delineando de forma a criar
sensibilizações e mobilizações que objetivassem proteger a criança e punir
o adulto envolvido. Méllo (2001) ainda relata que a maioria das pesquisas
com as quais teve contato e envolviam o tema versavam sobre assuntos
semelhantes, incluindo exames, classificações, vigilância e punição. A
partir dessas mobilizações, o tema do abuso sexual surge como uma
questão importante, colocando as famílias envolvidas passíveis de
intervenção do Estado e da sociedade, que é levada a mover todas as suas
forças para combater tais atos. A categoria “abuso sexual infantil” passa a
ter poder de fomentar todo tipo de ações e cria identidades de vítima e
monstro. Tal construção surge com a intenção de proteger a criança, porém
o questionamento que as pesquisas das Ciências Sociais procuram trazer
é se essa visão dualista de um tema tão complexo não tem sido pouco
eficaz, justamente por dar foco à necessidade de caracterização da figura
do “pedófilo” (que passa a ser visto como inimigo a ser combatido) e sua
respectiva punição, muitas vezes inclusive, deixando de olhar e considerar
o sofrimento da criança e das famílias envolvidas.

Paradoxalmente, assistimos a um incentivo cada vez maior da


sexualização das crianças. Felipe (2006) nos traz o conceito de
pedofilização para discutir as controvérsias da política atuais para o
enfrentamento do tema do abuso sexual infantil:

O conceito de pedofilização tem sido por mim utilizado no intuito de


pontuar as contradições existentes na sociedade atual, que busca criar
leis e sistemas de proteção à infância e adolescência contra a
violência/abuso sexual, mas ao mesmo tempo legitima determinadas
práticas sociais contemporâneas, seja através da mídia –publicidade,
novelas, programas humorísticos -, seja por intermédio de músicas, filmes,
etc., onde os corpos infanto-juvenis são acionados de forma
extremamente sedutora. (FELIPE, 2006, p. 216).
19

Em relação às políticas públicas relacionadas ao tema, temos o Plano


Nacional de Enfrentamento Da Violência Sexual Contra Crianças e
Adolescentes (BRASIL, 2015). O plano compreende 5 eixos:

• Prevenção – pretende fomentar ações que promovam proteção ao


abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, sobretudo
pela via da educação, sensibilização e autodefesa. Neste eixo não
há programação de ações relacionadas a pedófilos ou abusadores
sexuais.
• Atenção – se refere à garantia do atendimento especializado em
rede para vítimas, abusadores e suas famílias. Neste eixo há a
programação de ação de número sete que prevê:
Implantação e fortalecimento de programas intersetoriais e
serviços destinados ao atendimento e acompanhamento da
pessoa que comete violência sexual contra crianças e
adolescentes, com definição de parâmetros, considerando os
aspectos culturais, sociais e de saúde (BRASIL, 2015, p. 37).

A redação do parágrafo deixa dúvidas se a intenção desta


ação é fornecer tratamento médico ou psicossocial a estas pessoas
ou apenas um acompanhamento para fins de monitoramento.

• Defesa e responsabilização – pretende fomentar a atualização de


marcos normativos referentes à violência sexual, combatendo a
impunidade e disponibilizando serviços de notificação e
responsabilização. Todas as quinze ações propostas relacionam-se
com fortalecimento das instituições para reprimirem, punirem e
responsabilizarem a pessoa que comete crimes sexuais contra
criança. Não há previsão de ações preventivas direcionadas a
pedófilos e nem de ações que remetam à tratamento médico ou
psicossociais para pedófilos e pessoas que cometem abuso ou
exploração sexual contra crianças.
• Participação e protagonismo – pretende promover maior
participação e protagonismo de crianças e adolescentes para defesa
de direitos e implementação de políticas públicas. Neste eixo não há
20

programação de ações direcionadas a pedófilos ou abusadores


sexuais.
• Estudos e pesquisas – pretende fomentar pesquisas e estudos por
meio de diagnósticos, levantamento de dados, estudos e pesquisas.
As ações direcionadas a pedófilos ou abusadores são a de número
quatro que fomenta o levantamento de perfis de pessoas que
cometem crimes ou abuso sexual contra crianças e adolescentes. A
ação de número seis também estimula a elaboração de perfil de
atores relacionados a tráfico e exploração sexual de crianças e
adolescentes. Mais uma vez só há menção a estudos relacionados
a pedófilos e abusadores com sentido de classificação e controle.

Roudinesco (2008) se dedicou a estudar a história dos perversos,


aqueles sobre o qual, ao longo da história, passaram a absorver “o lado
obscuro de nós mesmos”. Ela mostra como ao longo do tempo as
manifestações perversas foram se desenhando na história e a reação
social suscitada frente a esses desenhos.

Nesse percurso, a autora demonstra como, ao longo do tempo, a ciência


passou a tomar o lugar da religião na normatização dos comportamentos,
tendo assim os perversos sido desumanizados para se tornarem objeto de
estudo. Nasce um estranho fascínio que busca perscrutar e esmiuçar os
cantos obscuros do homem e de suas práticas sexuais. Não mais nos
escritos do Marquês de Sade, mas em manuais e compêndios científicos,
os desvios da sexualidade humana passam a ser descritos em detalhes e
os termos grotescos são substituídos por termos técnicos. Ao longo do
tempo a nomenclatura psicanalítica é substituída por uma nomenclatura
cientificista e comportamentalista e o que estava inserido na perversão –
ou nas perversões – transforma-se em parafilias.

Nasce então, a corrida pelas classificações:

É em torno dos dois grandes princípios da semiologia (descrição dos


símbolos) e da taxonomia (classificação das entidades) que se
desenvolve, ruidosamente e ao longo de todo o século, a fascinação da
elite no poder pelo rastreamento, a mensuração, a identificação e o
21

controle de todas as práticas sexuais, das mais normais às mais


patológicas. (ROUDINESCO, 2008, p. 67).

Rodrigues (2017a) indica que as narrativas na sociedade sobre


pedofilia são colocadas de forma a produzir uma ligação direta do termo à
ocorrência de abuso sexual infantil, e provocam reações de negação e
repulsa. Essas reações são confirmadas por discursos médicos e
científicos que somadas com o saber jurídico incentivam um uso
indiscriminado do termo. Ele aponta que existem pedófilos que nunca
violentaram uma criança assim como muitos agressores sexuais de
crianças ou adolescentes não são considerados pedófilos. Porém, a
construção e saberes sobre o tema centram-se numa tentativa de
problematizá-lo, ou seja, transformá-lo num objeto de estudo, onde o
desejo é suprimido para fazer aparecer as ideias de doença e crime,
engendrando então ações de controle, coerção e correção.

Rodrigues (2017b) também aponta para o fato de que a emergência


de intensos questionamentos relacionados à violência sexual infantil
aponta para um controle social das condutas sexuais consideradas fora da
norma. Nesse sentido, a problematização em torno do tema da pedofilia é
cercada de profundos questionamentos morais.

Freud deu à perversão status de humanidade em sua essência.


Sendo a neurose o negativo da perversão, colocou esta ligada a instâncias
primitivas da sexualidade que habita todo ser humano. Quanto a desejos
incestuosos, em “Totem e Tabu” (1913/1996), Freud procurou descrever
como o incesto é um desejo instintual e sua proibição se tornou
organizadora da sociedade, garantindo a diferença entre as gerações. Tal
desejo teria sido dominado pela repressão e gerado aversão pelos
primitivos desejos incestuosos, que todos os seres humanos tiveram um
dia – Freud nos lembra que as primeiras escolhas de amor objetal de um
menino são incestuosas (mãe e irmã). Esta aversão provocaria a rejeição
de qualquer menção ao tema.

O incesto passa a ser uma proibição essencial, e assim, tornou-se


um tabu – tabus estariam na origem do nosso sistema legal. Aquele que
22

realiza o proibido tende a tornar-se ele mesmo proibido, “como se toda


carga perigosa tivesse sido transferida para ele” (FREUD, 1913/1996, p.
40) e “porque possui a perigosa qualidade de tentar os outros a seguir-lhe
o exemplo” (FREUD, 1913/1996, p. 49). O transgressor passa a ser visto
como um inimigo a ser combatido. Tal entendimento pode explicar a noção
de “combate à pedofilia” que tanto vemos nos jornais.
23

7 Considerações finais

As questões iniciais que balizaram este artigo foram: que conhecimento


existe acerca do tema da pedofilia? Como esse conhecimento tem sido
utilizado para promover a dignidade humana de sujeitos que sentem
atração sexual por crianças e para fomentar os direitos de crianças e
adolescentes?

Quanto a primeira questão, pôde-se verificar que existem


divergências e convergências no discurso científico acerca do termo
“pedofilia”. As divergências encontram relação com a natureza das áreas
que estudam o tema. Assim, o termo assume diferentes sentidos em
diferentes áreas. Para as Ciências Sociais, pedofilia é uma construção
social. Para a Psicanálise, ela se relaciona com a estrutura psíquica da
perversão, apresentando uma grande fragilidade narcísica que se utiliza da
denegação para negar a diferença geracional. Para a Psicologia, pedofilia
é uma parafilia, relacionada com o transtorno pedofílico. Para o direito o
tema possui uma relação tênue com a ocorrência de um crime.

Vimos no decorrer desse artigo que não existe uma relação direta entre
pedofilia e abuso sexual, ou seja, pedófilos não são necessariamente
abusadores sexuais infantis, assim como abusadores não são
necessariamente pedófilos. Porém, existe uma tendência na sociedade e
nos ramos de saber jurídico e médico a relacionar a pedofilia à ocorrência
de abusos sexuais.

A pedofilia passou a ser um fenômeno a ser estudado, ou seja, um


objeto de problematização. Para tanto passou a ser vista com
distanciamento e desnaturalização. Transformou-se em parafilia no
discurso médico e psicológico, que vem procurando descrever e classificar
o fenômeno, intentando traçar perfis psicológicos de quem pode ser
passível de tal “mal”.

No atual estudo, não foi encontrada uma convergência sobre um


perfil de pedófilo na literatura estudada. Porém, observou-se um
crescimento de meios de identificação através de escalas, exames médicos
24

e do uso da falometria em outros países – sobretudo nos EUA. No entanto,


esses instrumentos ainda são passíveis de questionamentos éticos e legais
quanto à sua aplicação.

Mas se a ciência, até o momento, não consegue estabelecer com


clareza marcações neurobiológicas e comportamentais que permitam
classificação e diferenciação, a lei se impõe marcando limites entre o lícito
e o ilícito. Os desvios sexuais, que antes eram condenados pela religião
em sua quase totalidade, passaram a ser diferenciados entre “parafilias’
aceitáveis e “parafilias” potencialmente criminosas, sendo a pedofilia um
destes últimos. Dessa forma o ordenamento jurídico tem positivado normas
que tornam proibidas comportamentos sexuais entre um adulto e uma
criança ou adolescente, seja por meios físicos ou virtuais. Porém, embora
a norma trate do comportamento, pudemos observar nesse estudo como o
discurso jurídico aponta para um desejo de criminalizar o próprio desejo e
não apenas o comportamento.

Observou-se que o tema é vasto, porém verificou-se uma


convergência quanto a um entendimento referente ao termo pedofilia: que
pedofilia se refere a um desejo!

Esse desejo se refere um desejo instintual, o incesto. Sua proibição se


tornou organizadora da sociedade, garantindo a diferença entre as
gerações. Tal desejo estaria presente em todos os seres humanos em
fases primitivas e teria sido dominado pela repressão, gerando aversão ao
tema.

Paradoxalmente, é justamente o ponto de convergência que parece ser


suprimido dos discursos. Da ciência à lei, o desejo e o gozo vem sendo
suprimidos. Não contabilizáveis no discurso cientificista positivista, muito
menos na lei, até entre correntes de psicanalistas vemos o seu
apagamento.

E desse ponto, partimos para a segunda questão balizadora deste


artigo: como esse conhecimento tem sido utilizado para promover a
dignidade humana de sujeitos que sentem atração sexual por crianças e
fomentar os direitos de crianças e adolescentes?
25

Como notado, o ponto de convergência com relação ao termo é o


desejo, e esse desejo está ligado a um desejo primitivo presente em todos
os seres humanos e, portanto, está ligado à humanidade. E se é justamente
o desejo que vem sendo suprimido dos discursos e ele próprio vem
sofrendo tentativas de criminalização, pode-se dizer que o conhecimento
sobre o tema não tem produzido dignidade humana e promoção de direitos.

Chama a atenção a ausência de políticas públicas voltadas a esses


sujeitos e a pouca quantidade de estudos clínicos com objetivo de
considerar o sujeito e o desejo ao invés de anulá-los. Igualmente, chama
atenção a “parafernália” que se cria a cada dia para melhor encontrar, punir
e monitorar os pedófilos. Sob a pecha de guardiões da infância, diversos
profissionais saem a sua caça.

Enquanto todo esse discurso cientificista conclamado a proteger a


infância pretende classificar, punir e monitorar os “pedófilos” para então
manter as crianças a salvo, estes a cada dia desafiam a lei e a ciência. Seja
nos cantos domésticos, ou nos cantos das escolas, na vida real ou virtual,
o desejo suprimido se manifesta na passagem ao ato.

Com Freud, a perversão foi vista como uma estrutura clínica dentro da
ordem do desejo. Com a noção de pulsão de morte, a ideia freudiana foi de
que essa pulsão (gozo do mal) só poderia ser limitada por meio da
sublimação, abrindo assim caminho para a civilização.

Se classificamos para achar, punir e monitorar, e com isso, banir o mal


da sociedade, o que se faz com o desejo, o gozo e, com ele, o sujeito e a
civilização?

Nesse ponto, retomo o entendimento de Lacan, de que apenas visando


a subjetividade, fazendo emergir o sujeito do desejo, criando espaços de
simbolização, chamando o inumano para o encontro com o humano,
podemos abrir a possibilidade de chamada à responsabilidade, “pois da
posição de sujeito sempre somos responsáveis” (SIQUEIRA, 2015, p. 148).

A partir disso é importante pensar em abordagens que possam criar


espaços de escuta e simbolização, onde o sujeito do desejo possa ser
26

considerado. E assim, espera-se que se possa ajudar esses sujeitos a


lidarem com esse desejo de outras formas que não seja a passagem ao
ato.

.
27

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