Diversidade sexual na escola

Sylvia Cavasin∗

A nossa sexualidade é um processo que se inicia em nosso nascimento, vai até a nossa morte e envolve, além do nosso corpo, nossa história, nossos costumes, nossa cultura. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (1975), a sexualidade forma a parte integral da personalidade de cada um de nós. A vivência da sexualidade é própria do ser humano, é uma dimensão da liberdade humana e está relacionada com a busca do prazer físico e emocional. A vivência da sexualidade não se limita à relação sexual, pois envolve sentimentos e nos motiva a procurar o contato físico e afetivo, a intimidade de um relacionamento, podendo ou não haver reprodução. Sabemos que nós, seres humanos, somos seres diversos e plurais quanto às nossas carcterísticas físicas e psíquicas. Essa diversidade e pluralidade também se aplica à maneira como cada um de nós se relaciona e se expressa afetiva e sexualmente. A sexualidade humana combina aspectos biológicos, sociais, culturais e psíquicos. A orientação sexual é a atração afetiva e sexual que uma pessoa sente pela outra. Essa atração pode ser por alguém do sexo oposto e, nesse caso, a pessoa é heterossexual; por alguém do mesmo sexo e, nesse caso, a pessoa é homossexual; por ambos os sexos e, nesse caso, a pessoa é bissexual. A homossexualidade integra a diversidade sexual, assim como a bissexualidade e a heterossexualidade. A homossexualidade é a orientação sexual e afetiva para pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade não é doença física nem problema psicológico. Hoje, já se sabe que ser gay ou lésbica não é uma opção, porque não implica uma escolha. O homossexual não opta por ser homossexual, assim como o heterossexual não escolhe ser heterossexual, o

∗ Sylvia Cavasin é socióloga, fundadora e diretora de projetos da ECOS-Comunicação em Sexualidade e uma das autoras do livro “Diversidade Sexual na Escola: uma metodologia de trabalho com adolescentes e jovens”. Parceria ECOS – Corsa, 2006.

mesmo acontecendo com os bissexuais. É uma característica natural e espontânea. Sendo assim, é impossível a um homossexual levar ou influenciar outra pessoa a ter a mesma orientação sexual que a dele. Da mesma maneira que não se cura a homossexualidade em consultórios psiquiátricos. A sexualidade humana é um complexo de fatores – genéticos, culturais, sociais. O início da vida sexual e afetiva é sempre marcado por descobertas, por encantamento, mas também por angústias e dúvidas diante dos novos sentimentos. É assim para os jovens e as jovens heterossexuais e também para os/as homossexuais. Pela razão de a heterossexualidade ser mais aceita em nossa sociedade do que a homossexualidade, esse processo pode ser tão cruel que acaba impondo a esses e essas jovens uma vida de sofrimento e exclusão, de desrespeito a seus direitos sexuais e reprodutivos. Em razão da intolerância e da homofobia imperante, o/a aluno/a homossexual tende a esconder, a disfarçar ou até a reprimir completamente a própria sexualidade, vista como doentia, imoral, vergonhosa. E não é nada disso. A homofobia, a aversão diante dos que têm desejo sexual e afetivo por pessoas do mesmo sexo, é uma triste realidade, mas é movida, sobretudo, pelo desconhecimento, pela desinformação em relação à sexualidade e às diferentes formas de expressão do desejo, do afeto e dos sentimentos. Todos os dias, em todos os lugares do mundo, milhões de pessoas são vítimas da homofobia. É gente que enfrenta sentimentos de ódio, desprezo, intolerância e rejeição porque demonstra ou sente atração afetiva e sexual por pessoas do mesmo sexo. È gente que chega a ser assassinada em decorrência a esses sentimentos de ódio. Tais fatos sensibilizam grande parcela da população, preocupada com a consolidação de padrões de civilidade, justiça e solidariedade em vez de violências e barbáries. Neste sentido, a escola é um importante espaço de reflexão e ação contra o preconceito. As organizações não-governamentais ECOS – Comunicação em

Sexualidade e o Grupo CORSA – Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e

Amor, acreditam que é preciso refletir sobre a educação hoje, do ponto de vista democrático, pensá-la na perspectiva de construção de uma sociedade capaz de assegurar direitos sociais, políticos, econômicos e culturais para todas as pessoas. É garantir que as diferenças de classe, raça/étnicas, etárias, de gênero, de orientação sexual, não signifiquem processos de legitimação de hierarquias sociais e de exclusão. A educação deve, necessariamente, estar voltada para a humanização. Em abril de 2004 a setembro de 2005, ECOS e CORSA, apostando na larga experiência de ambas as organizações no campo dos direitos humanos e da educação, estabeleceram parceria e realizaram o projeto “Diversidade Sexual na escola”, apoiado pelo PROSARE -Programa de Apoio a Projetos em Sexualidade e Saúde Reprodutiva∗, e ministraram um curso de oito módulos para 160 professores da Diretoria Norte 1 de São Paulo. O objetivo foi de estimular educadores/as, que atuam na Rede Pública de Ensino, a refletir sobre sua visão e sua opinião com relação à homossexualidade, a revê-las e a repensar também sobre sexualidade dos/das jovens para que, conseqüentemente, pudessem colaborar, através de seu trabalho, na eliminação do preconceito e da discriminação aos/as homossexuais. O corpo de formadores/as contou com especialistas em sexualidade, adolescência, religião, gênero, psicólogos, militantes de movimentos GLBT - gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. O mesmo curso foi ampliado para uma segunda turma de 160 professores, agora na região Sul de São Paulo, por meio de apoio obtido junto a SECAD/MEC. Temas e conceitos A concepção de diversidade sexual adotada pelas ong’s ECOS e CORSA se refere ao reconhecimento das diferentes formas e possibilidades de expressão da sexualidade ao longo da existência humana. A heterossexualidade, a relação sexual ou afetiva sexual com pessoas do sexo oposto, é apenas uma entre outras

O projeto recebeu apoio do PROSARE - Programa de Apoio a Projetos em Sexualidade e Saúde Reprodutiva desenvolvido pela Comissão de Cidadania e Reprodução em parceria com o CEBRAP-Centro Brasileiro de Análise e Planejamento apoiado pela Fundação MacArthur.

formas de o ser humano vivenciar sua sexualidade. A homossexualidade e a bissexualidade são também meios de expressão da sexualidade, desvinculada da relação homem/mulher, esta amplamente legitimada por conta da associação entre sexo e procriação. Assim, não existe um único modelo válido de orientação sexual do desejo ou, uma única forma de expressão da sexualidade ao longo da vida. Se conseguirmos entender a sexualidade em toda sua dimensão humana, vamos perceber que o modelo reprodutivo - que implica a participação de atores de sexos diferenciados (macho e fêmea) – é apenas um modelo, e não necessariamente o único. Outros tipos de relacionamentos são legítimos. Não existe uma relação direta entre sexo biológico e orientação sexual. As pessoas podem ou não ter a orientação sexual de seu desejo voltada para o sexo oposto. O que, no entanto, nos parece inquestionável é que não existem valores sociais definitivos, ou melhor, verdades absolutas em nenhum campo da experiência humana. Isso também vale para a sexualidade. Existem contextos históricos com seus paradigmas, seus saberes, suas ambigüidades, suas intolerâncias, marcando a complexidade da vida humana. Nesse sentido, a forma de trabalhar com o tema da diversidade sexual, proposta por ECOS e CORSA, permite ao/a educador/a questionar a heterossexualidade como modelo único, ir além da polarização homem e mulher e dos papéis de gênero tradicionalmente a eles atribuídos e ter mais proximidade com as múltiplas facetas da sexualidade. As relações de gênero perpassam todas as interações no interior da escola, mas são pouco discutidas enquanto relações de poder e de hierarquia entre homens e mulheres. Na realidade, estão ainda ancoradas na idéia de naturalização dos papéis masculinos e femininos. Assim, é necessário que se compreendam e se questionem as construções de gênero e se identifiquem os estereótipos associados ao masculino e ao feminino e suas relações com a homofobia. Ao falar de diversidade sexual, estamos tratando de temas que remetem às relações entre mulheres e homens, mulheres e mulheres, homens e homens, que podem, ou não, estar pautadas pela heteronormatividade e pelo desempenho dos papéis de gênero tradicionais.

A aliança com a escola A escola tem um papel de grande importância, assim como seu corpo docente, na desconstrução de mitos e preconceitos, na aquisição de valores democráticos e também no sentido de respeitabilidade para com o outro. É na escola que se formam cidadãos e cidadãs capazes de exercer seus papéis sociais. O/a educador/a é sem dúvida um personagem fundamental na história de vida de todos/as nós. É através dele/a que certos valores e saberes são legitimados, que pela sua voz as palavras ganham sentido, que por meio de seus gestos ou da ausência deles são internalizados valores, normas e atitudes. Aceitar a diversidade e dar espaço para as diferentes manifestações sexuais e afetivas é uma opção ética com relação ao ser humano do nosso tempo, dotado da capacidade de fazer escolhas e de tomar decisões. Nesse sentido, a escola é um espaço fundamental de construção de novas práticas e atitudes. Ao mesmo tempo em que transmite conhecimentos científicos e técnicos, orienta o comportamento social do indivíduo na sua relação consigo mesmo e com o outro. O projeto desenvolvido por ECOS e Corsa teve também como produto um livro de autoria coletiva∗ “Diversidade Sexual na Escola: uma metodologia de trabalho com adolescentes e jovens”, fundamentalmente voltado para a defesa dos direitos humanos, a erradicação da homofobia e a “desnaturalização” das relações desiguais entre os gêneros, princípios que regem toda atuação técnica e política das ong’s envolvidas. A experiência com a formação de educadores/as mostra que ainda são poucos no Brasil, os recursos didáticos que abordam a diversidade sexual numa perspectiva de valorização da dignidade da pessoa humana, de enfrentamento dos preconceitos e das discriminações por orientação sexual; menos ainda um material que possa subsidiar a atuação do professor em sala de aula, com atividades práticas.

Autores: Beto de Jesus, Claudio Pedrosa, Claudio Picazio, Edith L.Modesto, Isabel Costa, Lula Ramires,Sandra Unbehaum e Sylvia Cavasin.

Nosso desafio foi, portanto, construir um livro∗ composto por um material com uma proposta específica, objetiva, mostrando a possibilidade efetiva de intervenção na educação de jovens; por textos em linguagem acessível, sobre os temas relativos às questões de gênero, sexualidade, homossexualidade, direitos humanos; por informações que municiem o/a educador/a de palavras, idéias, informações, para que possa conduzir um debate competente e não se perder em meio aos desafios; por um material de apoio ao/a educador/a no sentido de dizer-lhe que não está sozinho nessa empreitada e que existem muitos cidadãos e cidadãs que acreditam em sua capacidade e torcem para que a escola possa dar conta de trabalhar com competência e seriedade temas que remetem à injustiça e à usurpação dos direitos humanos. Mudanças de comportamento levam tempo para ocorrer, mas a expectativa é a de que, se educadores e educadoras contarem com recursos didáticos e fundamentação teórica para não ficarem omissos/as diante de cenas explícitas de homofobia, eles e elas terão condições de dar-lhes o mesmo peso dado às outras formas de discriminação, como o racismo e o sexismo, contribuindo assim, para a formação de cidadãs e cidadãos solidários em relação ao diferente.

O livro “Diversidade sexual na escola: uma metodologia de trabalho com adolescentes e

jovens” pode ser encontrado na ECOS (fone 11-3255-1238, ecos@ecos.org.br) e CORSA (fone 11-3255-0076, contato@corsasp.org).