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ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS

LENDA DO TEMPO EM TRÊS ATOS E CINCO QUADROS

(1931)

De FEDERICO GARCÍA LORCA (05/06/1898 ~ 19/08/1936)

PERSONAGENS:

O

JOVEM

O

VELHO

A DATILÓGRAFA

O

AMIGO

O

GATO

O CRIADO

SEGUNDO AMIGO

A NOIVA

O JOGADOR DE RÚGBI

A CRIADA

O PAI O MANEQUIM

O ARLEQUIM O ECO

A MOÇA

O PALHAÇO

A MÁSCARA

A CRIADA

PRIMEIRO JOGADOR SEGUNDO JOGADOR TERCEIRO JOGADOR

PRIMEIRO ATO

Biblioteca. O Jovem está sentado. Veste um pijama azul. O Velho, de fraque cinzento, barba branca e enormes óculos de ouro, também sentado.

JOVEM - Não lhe causa surpresa.

VELHO - Perdão

JOVEM - Sempre se deu comigo o mesmo.

VELHO (Inquisitivo e amável). - Deveras?

JOVEM - Sim.

VELHO - É que

JOVEM - Lembro-me de que

VELHO (Ri) - Sempre me lembro.

JOVEM - Eu

VELHO (Ofegante) - Continue

JOVEM - De que guardava os doces para comê-los depois.

VELHO - Depois? Deveras? Ficam mais gostosos. Eu também

JOVEM - Eu tenho a recordação de que um dia

VELHO (Interrompendo com veemência) - Gosto tanto da palavra recordação. É uma palavra verde, suculenta. Mana sem cessar fiozinhos de água fria.

JOVEM (Alegre e tratando de convencer-se) - Sim, sim, claro. O senhor tem razão. É preciso lutar contra toda idéia de ruína; contra esses descascamentos de paredes. Muitas vezes levantei-me à meia noite para arrancar as ervas do jardim. Não quero ervas em minha casa nem móveis quebrados.

VELHO - Isso. Nem móveis quebrados porque há que recordar, mas

JOVEM - Mas as coisas vivas com seu sangue a arder, com todos os seus perfis intactos.

VELHO - Muito bem. Quer dizer (Baixando a voz) que há que recordar, mas recordar antes.

JOVEM - Antes?

VELHO (Em tom sigiloso) - Sim, há que recordar para amanhã.

JOVEM (Absorto) - Para amanhã.

(Um relógio soa seis horas. A Datilógrafa cruza a cena, chorando em silêncio.)

VELHO - Seis Horas.

JOVEM - Sim. Seis horas e com calor demais. (Levanta-se) Há um famoso céu de tempestade. Cheio de nuvens cinzentas

VELHO - De maneira que você?

astronomia. Está bem. De astronomia, não? E ela?

Fui grande amigo dessa família. Especialmente do pai. Ocupa-se com

JOVEM - Conheci-a pouco. Mas não importa. Creio que gosta de mim.

VELHO - Decerto!

JOVEM - Partiram para uma longa viagem. Quase em alegrei

VELHO - O pai dela veio?

JOVEM - Nunca! Por ora não pode ser. Por causas inexplicáveis. Até que se passem cinco anos.

VELHO - Muito bem! (Com alegria)

JOVEM (Sério) - Por que diz muito bem?

VELHO - Pois porque

JOVEM - Não.

É bonito isso? (Mostrando o aposento).

VELHO - Não o angustia a hora da partida, os acontecimentos, o que há de chegar agora mesmo

JOVEM - Sim, sim. Não me fale disso.

VELHO - Que se passa na rua?

?

JOVEM - Barulho, barulho sempre, calor, mau cheiro. Desagrada-me que as coisas da rua entrem em minha casa (Ouve-se um longo gemido. Pausa). João, fecha a janela

(Um Criado ligeiro, que anda na ponta dos pés fecha a janela).

VELHO - Ela é muito novinha?

JOVEM - Muito novinha. Quinze anos.

VELHO - Quinze anos que ela viveu e que são ela mesma. Mas por que não dizer que tem quinze neves, quinze ares, quinze crepúsculos? Não se atreve você a fugir, a voar, a dilatar seu amor pelo céu inteiro?

JOVEM (Cobre o rosto com as mãos) - Quero-lhe bem demais!

VELHO (De pé e com energia) - Ou então dizer: tem quinze anos, quinze grãozinhos de areia. Não se atreve você a concentrar, a tornar fervente e pequenino seu amor dentro do peito?

JOVEM - O senhor quer afastar-me dela. Mas eu conheço seu processo. Basta observar na palma da mão um inseto vivo ou olhar o mar uma tarde pondo atenção na forma de cada onda para que o rosto ou chaga que trazemos no peito se disfaça em borbulhas. Mas é que estou enamorado, e quero estar enamorado, tão enamorado quanto ela está de mim e por isso posso esperar cinco anos, na esperança de poder amarrar de noite, com o mundo todo às escuras, suas tranças de luz em redor de meu pescoço.

VELHO - Permito-me recordar-lhe que sua noiva

Não tem tranças.

JOVEM (Irritado) - Já sei. Cortou-as sem licença, naturalmente e isto (Com angústia) muda para mim sua imagem (Energético). Já sei que tem tranças (Quase furioso). Por que me lembrou isso? (Com tristeza) Mas nos próximos cinco anos voltará a tê-las.

VELHO (Entusiasmado) - E mais bonitas do que nunca. Serão umas tranças ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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JOVEM - São, são (Com alegria).

VELHO - São umas tranças cujo perfume se pode viver sem necessidade de pão nem água.

JOVEM - Penso tanto!

VELHO - Sonha tanto!

JOVEM - Como?

VELHO - Pensa tanto que

JOVEM - Que estou em carne viva. Tudo para dentro. Uma queimadura.

VELHO (Entregando-lhe um copo) - Beba.

JOVEM - Obrigado. Se me ponho a pensar na mocinha, na minha menina

VELHO - Diga: minha noiva. Atreva-se!

JOVEM - Não.

VELHO - Mas por quê?

JOVEM - Noiva

enormes tranças de neve. Não, não é minha noiva (Faz um gesto como se afastasse a imagem que quer

apossar-se dele). É minha menina, minha mocinha.

O senhor já sabe; se digo noiva, vejo-a sem querer amortalhada em um céu preso por

VELHO - Continue, continue.

JOVEM - Pois se me ponho a pensar nela, desenho-a, faço-a mover-se branca e viva; mas logo, quem lhe muda o nariz ou parte-lhe os dentes ou a transforma em outra cheia de andrajos que anda pelo meu pensamento como se estivesse mirando-se em um espelho de feira?

VELHO - Quem? Parece mentira que você diga quem, Mudam-se ainda mais as coisas que temos diante dos olhos do que as que vivem sem distância sob as nossas visitas. A água que vem pelo rio é completamente

ou do rosto de um

diferente da que se vai. E quem se lembra que um mapa exato das areias do deserto amigo qualquer?

JOVEM - Sim, sim. Ainda está mais vivo o que há aqui dentro, embora também mude. Na última vez que a

vi

não podia olhá-la de muito perto porque tinha duas ruguinhas na testa que, como me descuidasse entende

o

senhor? Lhe enchiam todo o rosto e a punham desfigurada, velha, como se tivesse sofrido muito. Tinha

necessidade de afastar-me dela para focalizá-la, a palavra é esta, em meu coração.

VELHO

- Com o que então naquele momento em que a viu velha estava ela completamente entregue a

você?

JOVEM - Sim.

VELHO (Exaltado) - Com que então se naquele preciso instante ela confessa que o enganou, que não o ama, que não lhe quer ver, as ruguinhas transformaram-se nela na rosa mais delicada do mundo?

JOVEM (Exaltado) - Sim.

VELHO - E tê-la-ia amado mais, precisamente por isso?

JOVEM (Exaltado) - Sim, sim. ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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VELHO - Então? Ah! Ah!

JOVEM - Então é muito difícil viver?

VELHO - Por isso é preciso voar de uma coisa para outra até perder-se. Se ela tem quinze anos, pode ter quinze crepúsculos ou quinze céus. Estão as coisas mais vivas aí dentro do que aqui fora, expostas ao ar ou à

morte. Por isso vamos

ou esperar. Porque o diferente é morrer agora mesmo e é mais belo

pensar que veremos amanhã ainda os cem cornos de outro com que o sol levanta as nuvens.

ou não vamos

JOVEM (Estendendo-lhe a mão) - Obrigado! Obrigado! Por tudo.

VELHO - Voltarei aqui.

(Aparece a Datilógrafa)

JOVEM - Acabou de escrever as cartas?

DATILÓGRAFA (chorosa) - Sim, senhor.

VELHO (Ao Jovem) - Que lhe está acontecendo?

DATILÓGRAFA - Desejo sair desta casa.

VELHO - Pois é bem fácil, não?

JOVEM (Perturbado) - O senhor verá.

DATILÓGRAFA - Quero sair e não posso.

JOVEM (Com doçura) - Não sou eu quem a retém. Já sabe que não posso fazer nada. Disse-lhe muitas vezes que esperasse, mas você

DATILÓGRAFA - Mas eu não espero; que é isso de esperar?

VELHO - E por que não? Esperar é crer e viver.

DATILÓGRAFA - Não espero porque não me dá vontade, porque não quero e, não obstante, não posso sair daqui.

JOVEM - Sempre acaba não dando razões.

que o amo. Não se

assuste, senhor! A de sempre. Quando pequenino (Ao Velho), eu o via brincar lá de minha varanda. Um dia caiu e o joelho começou a sangrar. Lembra-se? (Ao Jovem). Ainda tenho aquele sangue vivo como uma

serpente vermelha, tremendo entre meus peitos.

DATILÓGRAFA - Que razões vou dar? Não há mais do que uma razão e essa é

VELHO - Isto não está bem. O sangue seca e o que passou, passou.

DATILÓGRAFA - Que culpa tenho eu, senhor? (Ao Jovem). Rogo-lhe que faça minhas contas. Quero sair desta casa.

JOVEM - Muito bem. Nem eu tampouco tenho culpa alguma. Além disso, sabe você perfeitamente que não me pertence. Pode ir.

DATILÓGRAFA (Ao Velho) - Ouviu o que ele disse? Põe-me para fora de sua casa. Não quer ter-me aqui (Chora. Sai).

VELHO (Sigiloso ao JOVEM) - É perigosa essa mulher.

JOVEM - Quisera querer-lhe como quisera ter sede diante das fontes. Quisera

VELHO - De nenhuma maneira. Que faria você amanhã? Idem? Pense. Amanhã!

AMIGO (Entrando com escândalo) - Quanto silêncio nesta casa e para quê? Dá-me água com anis e gelo (O VELHO sai). Ou um coquetel.

JOVEM - Suponho que não me quebrarás os móveis.

AMIGO - Homem só, homem sério e com este calor!

JOVEM - Não podes sentar-te?

AMIGO (Abraça-o e dá voltas) - Tin, tin, tão A chamazinha de São João

JOVEM - Deixa-me. Não tenho vontade de brincadeiras.

AMIGO - Huuí? Quem era aquele velho? Um amigo teu? E onde estão nesta casa os retratos das moças com quem vais para a cama? Olha. (Aproxima-se) Vou pegar-te pelas lapelas e pintar de vermelho essas

bochechas cor de cera

ou assim esfregá-las.

JOVEM (Irritado) - Deixa-me!

AMIGO - E com uma bengala vou laçar-te à rua.

JOVEM - E o que vou fazer nela? Teu gosto, não é verdade? Tenho trabalho demais com ouvi-la cheia de carros e de gente desorientada.

AMIGO (Sentando-se e estirando-se no sofá) - Ai! Ui! Eu, em troca

anteontem fiz duas e hoje uma, resulta

uma garota

Fiz ontem três conquistas e como

fico sem nenhuma porque não tenho tempo. Estive com

pois

que

Ernestina.

Queres conhecê-la?

JOVEM - Não.

Não, embora cintura a

tenha muito melhor a Matilde (com ímpeto). Ai, meu Deus! (Dá um salto e cai estendido no sofá). Olha, é uma cintura para a medida de todos os braços e tão, frágil, que a gente deseja ter na mão um machado de prata para seccioná-la.

AMIGO (Levantando-se) - Naão e jamegão! Mas se a visses! Tem uma cintura!

JOVEM (Distraído e alheio à conversa) - Então subirei a escada.

AMIGO (De boca para baixo no sofá) - Não tenho tempo, não tenho tempo de nada, tudo para mim se atropela. Porque, imagina. Marco encontro com Ernestina. As tranças aqui, apertadas, negríssimas, e

depois

(O jovem golpeia com impaciência os dedos sobre a mesa.)

JOVEM - Não me deixas pensar!

o relógio). Já passou a hora. É

horrível, sempre ocorre o mesmo. Não tenho tempo e eisto me aborrece. Ia com uma mulher feíssima, mas

admirável. Uma morena dessas que fazem falta num meio dia de verão. E me agrada, (Atira uma almofada para o ar) porque parece um domador.

AMIGO - Mas se não há que pensar! Vou-me embora. Por mais

que

(Olha

JOVEM - Basta!

AMIGO - Sim, homem, não te zangues, mas uma mulher pode ser feíssima e um domador de cavalos pode

ser bonito. E ao contrário e

que sabemos? (Enche um copo de coquetel).

JOVEM - Nada.

AMIGO - Mas queres dizer-me o que está acontecendo?

JOVEM - Nada. Não conheces meu temperamento?

AMIGO - Não o entendo. Mas tampouco posso estar sério. (Ri). Vou saudar-te com os chineses (Esfrega o nariz no do JOVEM).

JOVEM (Sorrindo) – Para com isso.

AMIGO - Ri (Faz-lhe cócegas).

JOVEM (Rindo) -Bárbaro.

AMIGO - Uma gravata.

JOVEM - Posso contigo.

AMIGO - Agarrei-te (Prende-lhe a cabeça entre as pernas e golpeia-o).

VELHO (Entrando, gravemente) - Com licença olhando o JOVEM). Esquecer-me ei do chapéu.

AMIGO - Como?

(Os

jovens ficam de pé.) Perdoem

(Energeticamente

e

VELHO (Furioso) - Sim, senhor. Esquecer-me-ei do chapéu (entre dentes). Isto é, esqueci-me do chapéu.

AMIGO - Ah! ah! ah! ah! (Ouve-se barulho de vidraças)

JOVEM (Em voz alta) - João. Fecha as janelas.

AMIGO - Um pouco de tempestade. Queira Deus seja forte!

JOVEM - Mas não quero ouvi-la (Em voz alta). Tudo bem fechado.

AMIGO - São trovões; terás de ouvi-los.

JOVEM - Oh! Não!

AMIGO - Oh! Sim!

JOVEM - Não me importa o que se passa lá fora. Esta casa é minha. E aqui não entra ninguém.

VELHO (Indignado, ao AMIGO) - É uma verdade sem refutação possível! (Ouve-se um trovão distante.)

AMIGO - Entrará todo mundo que queira, não aqui, mas embaixo de tua cama. (Trovão mais próximo.)

JOVEM (Gritando) - Mas agora, agora, não!

VELHO - Bravos!

AMIGO - Abre a janela. Estou com calor.

VELHO - Abrir-se-á já!

JOVEM - Depois!

AMIGO - Mas vamos ver. Querem-me vocês dizer

(Ouve-se outro trovão. A luz esmorece e uma luminosidade azulada de tempestade invade a cena. Os três personagens ocultam-se por trás de um biombo negro bordado de estrelas. Pela porta da esquerda aparece o MENINO morto com o GATO. O MENINO vem vestido de branco, de primeira comunhão, com uma capela de rosas brancas na cabeça. Em seu rosto, pintado de cera, ressaltam seus olhos e seus lábios de lírio seco. Traz na mão um círio encrepado e um grande laço com flores de curo. O GATO é azul com duas enormes manchas cor de sangue no peito branco e cinzento e na cabeça. Avançam para o público. O MENINO traz o GATO preso por uma pata.)

GATO - Miau.

MENINO - Psiu

GATO - Miau.

MENINO - Toma meu lenço branco. Toma-me a coroa branca. Não chores mais.

GATO - Doem me as feridas Que os meninos me fizeram-me nas costas.

MENINO - Também me dói o coração.

GATO - Por que te dói, menino?

MENINO - Porque não anda. Ontem parou bem devagar, Rouxinol de minha cama.

Muito barulho; se visses

Com estas rosas diante da janela.

Puseram-me

GATO - E que ouvias tu?

MENINO - Pois ouvia Repuxos e abelhas pela sala. Atuaram-me as duas mãos. Muito mal feito! Os meninos pelas vidraças me olhavam. E um homem com martelo ia cravando Estrelas de papel em meu caixão (Cruzando as mãos.) Os anjos não vieram. Não, Gato.

GATO - Não me chame mais gato.

MENINO - Não?

GATO - Sou gata.

MENINO - És gata? GATO (Mimoso) - Devias ter conhecido.

MENINO - Por quê? ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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GATO - Pela minha voz de prata.

MENINO (Galante) - Não te queres sentar?

GATO - Sim, tenho fome.

MENINO - Vou ver se encontro uma rata para ti.( Põe-se a olhar por baixo das cadeiras. O GATO, sentado em um tamborete, treme.)

MENINO - Não a comas inteira. Uma patinha, Porque estás muito doente.

GATO - Dez pedradas me atiraram os meninos.

MENINO - Pesam como as rosas que me prenderam à noite na garganta. Queres uma? (Arranca uma rosa da cabeça.)

GATO (Alegre) - Sim, quero.

MENINO - Com tuas manchas de cera, rosa branca, pareces-me olho de lua partida, gazela entre vidros, desmaiada. (Põe-na na cabeça)

GATO - Que fazias?

MENINO - Brincar, e tu?

GATO - Brincar! Ia pelo telhado, gata chata, narinazinhas de lata, pela manhã ia colher os peixes n´água e ao meio-dia sob o rosal do muro adormecia.

MENINO - E à noite?

GATA (Enfática) - Saía só.

MENINO - Sem ninguém.

GATA - Pelo bosque.

MENINO (Com alegria) - Eu também ia, ai, gata chata, barata, narinazinhas de lata, comer sarçamouras e maças e depois à igreja com meninos brincar de cabra.

GATA - Que é brincar de cabra?

MENINO - Era mamar nos cravos da porta.

GATA - E eram bons?

MENINO - Não, gata! Era como chupar moedas. (Trovão distante) Ai! Espera! Será que vem? Tenho medo, sabes? Fugi de casa. (Chora) Eu não quero que me enterrem. Galões e vidros enfeitam meu caixão; mas é melhor que eu durma entre os juncos d’água. Não quero que me enterrem. Vamos logo! (Pega-lhe a pata)

GATA - E nos vão enterrar? Quando?

MENINO - Amanhã nuns buracos escuros, todos choram. Todos calam. Mas se vão. Eu o vi. E depois. Sabes? ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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GATA - Que acontece?

MENINO - Vêm comer-nos.

GATA - Quem?

MENINO - O lagarto e a lagarta, com seus filhinhos pequenos, que são muitos.

GATA - E o que nos comem?

MENINO - A cara com os dedos, (Baixando a voz) e a minhoca.

GATA (Ofendida) - Eu não tenho minhoca.

MENINO (Enérgico) - Gata! Comer-te-ão as patinhas e o bigode (Trovões muito distantes) Vamos-nos: de casa em casa chegaremos onde pastam os cavalinhos da água. Não é o céu. É a terra dura com muitos grilos que cantam, com ervas que se meneiam, com nuvens que se levantam, com fundas que lançam pedras e o vento como uma espada. Eu quero ser menino. Um menino! (Dirige-se para a porta à direita)

GATA - A porta está fechada. Vamos pela escada.

MENINO - Pela escada nos verão.

GATA - Espera.

MENINO - Já vem para enterrar-nos!

GATA - Vamos pela janela.

MENINO - Nunca veremos a luz, nem as nuvens que se elevam, nem os grilos dentre a relva, nem o vento como uma espada. (Cruzando as mãos) Ai girassol! Ai girassol de fogo! Ai girassol!

GATA - Ai cravina do sol!

MENINO - Apagado vai pelo céu. Só mares e montes de carvão e uma pomba morta na areia com asas cortadas e flor no bico. (Cantam) E na flor uma oliva e na oliva um limão

Como se segue?

Não sei. Qual o resto?

GATA - Ai, girassol! Ai, girassol de manhazinha!

MENINO - Ai! Cravina do sol! (A luz é tênue. O Menino e a Gata, agarrados andam às tontas)

GATA - Não há luz. Onde estás?

MENINO - Cala-te.

GATA - Já estão vindo os lagartos, menino?

MENINO - Não.

GATA - Encontraste saída? (A Gata aproxima-se da porta da direita; sai uma mão que a puxa para dentro)

GATA(Dentro) - Menino! Menino! Menino! (com angústia) Menino! Menino!

(O Menino adianta-se com terror, detendo-se a cada passo)

MENINO (em voz baixa) - Derreteu-se. Uma mão a colheu. Deve ser a de Deus.

Não me enterres. Esperas uns minutos

Irei só mui devagar, depois me deixarás fitar o sol. Muito pouco. Com um raio me contendo. (Desfolhando). Sim, não, sim, não, sim.

Enquanto esfolho esta flor. (Arranca a flor da cabeça e esfolha-a)

VOZ - Não, não.

MENINO - Sempre diz não.

(Uma mão aparece e puxa para dentro o Menino que desmaia. A luz ao desaparecer o Menino, volta a sua primitiva claridade. De trás do biombo voltam a entrar rapidamente os três personagens. Dão mostras de calor e de agitação viva. O jovem traz um leque azul, o Velho um leque preto e o Amigo um leque vermelho berrante. Abanam-se)

VELHO - Pois ainda será mais.

JOVEM - Sim, depois.

AMIGO - Já foi bastante. Creio que não podes escapar à tempestade.

VOZ (Fora) - Meu filho! Meu filho!

JOVEM – Senhor, quão tarde! João, quem grita assim?

CRIADO (Entrando e sempre em tom suave e andando nas pontas dos pés) - O menino da porteira morreu e agora vão enterrá-lo. Sua mãe chora.

AMIGO - Como é natural!

VELHO - Sim, sim; mas o que passou, passou.

AMIGO - Mas se está passando (Discutem)

(O Criado cruza a cena e vai sair pela porta da esquerda)

CRIADO - Senhor. Quer ter a bondade de deixar comigo as chaves de seu quarto de dormir?

JOVEM - Para quê?

CRIADO - Os meninos atiraram, em cima do telhado, um gato que haviam matado e há necessidade de tirá- lo dali.

JOVEM (Com enfado) - Toma (Ao Velho) O senhor não podia com ele.

VELHO - Nem me interessa.

AMIGO - Não é verdade. Sim, interessa-lhe. Por mim é que o senhor não se interessa, porque sei positivamente que a neve é fria e o fogo queima.

VELHO (Irônico) - Conforme.

AMIGO (Ao Jovem) - Está te enganando.

(O Velho olha energicamente para o amigo, apertando seu chapéu)

JOVEM (Fortemente) - Não influi o mínimo do meu caráter. Sou eu. Mas tu não podes compreender que se espere uma mulher cinco anos, transbordante e queimado pelo amor que cresce cada dia.

AMIGO - Não há necessidade de esperar.

JOVEM - Acreditas que posso vencer as coisas materiais, os obstáculos que surgem e aumentarão no caminho sem causar dor aos outros?

AMIGO - Primeiro tu, depois os outros.

JOVEM - Esperando que o nó se desfaça e a fruta amadureça.

AMIGO - Prefiro comê-la verde ou, melhor ainda, gosto de cortar sua flor para pô-la em minha lapela.

VELHO - Não é verdade.

AMIGO - O senhor é demasiado velho para sabê-lo!

VELHO (Severamente) - Lutei minha vida inteira para acender uma luz nos lugares mais escuros. E quando alguém foi retorcer o pescoço da pomba, segurei-lhe a mão e ajudei-a a voar.

AMIGO - E naturalmente o caçador morreu de fome!

JOVEM - Bendita seja a fome!

(Aparece pela porta esquerda o SEGUNDO AMIGO. Vem vestido de branco, com impecável traje de casimira e traz luvas e sapatos da mesma cor. Se não for possível que este papel seja feito por um ator muito jovem, fá- lo-á uma moça. O traje há de ser de um corte exageradíssimo, trará enormes botões azuis e o paletó e a gravata de rendas riçadas)

SEGUNDO AMIGO - Bendita seja quando há pão tostado, azeite e sonho depois. Muito sonho. Que não acabes nunca. Ouvi-te.

JOVEM (Com assombro) - Por onde entrou?

SEGUNDO AMIGO - Por qualquer lugar. Pela janela. Ajudaram-me dois meninos muito meus amigos.

mas aguaceiro

Conheci-os quando era muito pequeno e puxaram-me pelos pés. Vai cair um aguaceiro

bonito caiu o ano passado. Havia tão pouca luz, que minhas mãos ficaram amarelas. (Ao Velho) Lembra-se?

VELHO (Ácido) - Não me lembro de nada.

SEGUNDO AMIGO (Ao amigo) - E tu?

PRIMEIRO AMIGO (Sério) - Tampouco.

SEGUNDO AMIGO - Eu era muito pequeno. Mas recordo-me com todos os pormenores.

PRIMEIRO AMIGO - Olha

SEGUNDO AMIGO - Por isso não quero ver este. A chuva é bela. No colégio entrava pelos pátios e

espedaçava pelas paredes umas mulheres nuas muito pequenas que traz dentro de si. Não as viste? Quando

um, um ano apenas. É bonito não é verdade? Um

eu tinha cinco anos

ano peguei uma dessas mulherzinhas da chuva e conservei-a dois dias num aquário.

não, quando eu tinha dois

minto,

PRIMEIRO AMIGO (Com impertinência) - E cresceu? ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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SEGUNDO AMIGO - Não; foi ficando cada vez menor, mais menina, como deve ser, como é o justo, até que só restou dela uma gota d’água. E cantava uma canção Volto a buscar minhas asas, Deixai-me voltar. Quero morrer sendo amanhecer, Quero morrer sendo Ontem. Volto a buscar minhas asas, Deixai-me voltar. Quero morrer sendo fonte. Quero morrer fora do mar Que é precisamente o que canto a todas as horas.

VELHO (Irritado, ao Jovem) - Está completamente louco.

SEGUNDO AMIGO (Que o ouviu) - Louco? Porque não quero estar cheio de rugas e dores como o senhor. Porque quero viver o que é meu e mo tiram. Não conheço o senhor. Não quero ver gente como o senhor.

PRIMEIRO AMIGO (Bebendo) - Tudo isso não é mais do que medo da morte.

SEGUNDO AMIGO - Não. Agora mesmo, antes de entrar aqui vi um menino que iam enterra com as primeiras gotas da chuva. Quero que me enterrem assim. Em um caixão deste tamanhinho. E vocês vão lutar com a borrasca. Mas o meu rosto é meu e mo estão roubando. Eu era terno e cantava, e agora há um homem, um senhor (Ao Velho) como você que anda por dentro de mim com duas ou três máscaras preparadas (Tira

com aquela roupa

cinzenta

um espelho e mira-se). Mas ainda não. Ainda me vejo trepado nas cerejeiras

Uma

roupa cinzenta que tinha umas âncoras de prata. Meu Deus! (Cobre o rosto com as mãos).

VELHO - As roupas se rasgam, as âncoras se enferrujam e vamos adiante.

SEGUNDO AMIGO - Oh! Por favor, não fale assim!

VELHO (Entusiasmado) - As casas vêm abaixo.

PRIMEIRO AMIGO (Enérgico e em atitude de defesa) - As casas não vêm abaixo.

VELHO (Impertérrito) - Apagam-se os olhos e uma foice mais afiada sega os juncos das margens.

SEGUNDO AMIGO - Claro! Tudo isso passa mais adiante!

VELHO - Pelo contrário. Isso já passou.

SEGUNDO AMIGO - Atrás fica tudo quieto; como é possível que o senhor não saiba? Não é preciso mais do que ir despertando suavemente as coisas. Em compensação, dentro de quatro ou cinco anos existe um poço dentro do qual cairemos todos.

VELHO (Furioso) - Silêncio!

JOVEM (Tremendo, ao Velho) - Ouviu-o?

VELHO - Demais (Sai rapidamente pela porta da direita)

JOVEM (Seguindo-o) - Aonde vai? Por que sai assim? Espere! (Sai atrás dele)

SEGUNDO AMIGO (Encolhendo os ombros) - Bem. Velho tinha de ser. Você, em troca, não protestou.

PRIMEIRO AMIGO (Que esteve bebendo, sem parar) - Não.

SEGUNDO AMIGO - Você, tendo o que beber, está satisfeito.

PRIMEIRO AMIGO (Sério e com honradez) - Eu faço o que me agrada, o que me parece bem. Não pedi sua opinião.

SEGUNDO AMIGO (Com medo) encolhidas)

- Sim,sim. Não lhe digo nada

(Senta-se numa cadeira, com as pernas

(O Primeiro amigo bebe rapidamente os copos, secando até o último, e dando uma parcada (?) na testa, como se se recordasse de alguma coisa, sai rapidamente pela porta da esquera. Aparece o CRIADO pela direita,

sempre delicado, nas pontas dos pés

Começa a chover.)

SEGUNDO AMIGO - O aguaceiro. (Olha as mãos) Mas que luz mais feia. (Adormece)

JOVEM (Entrando) - Amanhã voltará. Necessito dele (Senta-se)

(Aparece a datilógrafa. Traz uma maleta. Cruza a cena e, ao meio dela, volta rapidamente.)

DATILÓGRAFA - Chamou-me?

JOVEM (Fechando os olhos) - Não. Não a chamei.

(A Datilógrafa sai olhando com ânsia e aguardando a chamada.)

DATILÓGRAFA (Na porta) - Precisa de mim?

JOVEM (Fechando os olhos) - Não. Não preciso de você.

(Sai a datilógrafa)

SEGUNDO AMIGO (Entre sonhos) - Volto a buscar minhas asas, Deixai-me voltar. Quero morrer sendo ontem. Quero morrer sendo Amanhecer.

(começa a chover)

JOVEM - É demasiado tarde. João, acenda as luzes. Que horas são?

JOÃO (intencionalmente) - Seis em ponto, senhor.

JOVEM - Está bem.

SEGUNDO AMIGO (Entre sonhos) - Volto a buscar minhas asas, Deixai-me voltar. Quero morrer sendo fonte. Quero morrer fora do mar.

(O JOVEM golpeia de leve a mesa com dedos.)

Pano lento

SEGUNDO ATO

Alcova estilo 1900. Móveis estranhos. Grandes cortinados cheios de pregas e borlas. Nas paredes, nuvens e anjos pintados. No centro, uma cama cheia de cortinas e plumagens. À esquerda um toucador sustido por anjos com ramos de luzes elétricas nas mãos. As varandas estão abertas e por elas entra a lua. Ouve-se uma buzina de automóvel que toca com fúria. A NOIVA salta da cama, com esplêndida bata cheia de rendas e enormes laços cor-de-rosa. Traz uma comprida cauda e todo o cabelo cheio de cachos.

NOIVA (Assomando à varanda) - Sobe. (Ouve-se a buzina) É preciso. Chegará meu noivo, o velho, o lírico,

e preciso apoiar-me em ti. (O JOGADOR DE RÚGBI entra pela varanda; vem trajado com as joelheiras e o capacete. Traz uma bolsa cheia de cigarros cubanos, que acende e esmaga sem cessar. )

NOIVA - Entra. Há dois dias que não te vejo (Abraçam-se). (O JOGADOR DE RÚGBI não fala, apenas fuma e esmaga no chão o cigarro. Dá mostras de grande vitalidade e abraça com ímpeto a NOIVA.)

NOIVA

estive vendo o cavalo. Era bonito. Branco e com os cascos dourados entre o feno das manjedouras (Senta-se num sofá que está ao pé da cama). Mas tu és mais bonito. Porque és como um dragão (Abraça-o). Creio que

me vais quebrar entre teus braços, porque sou fraca, porque sou pequena,

- Hoje me beijaste de maneira diferente. Sempre mudas, meu amor. Ontem não te vi, sabes? Mas

porque sou como a geada, porque

sou como uma diminuta guitarra queimada pelo sol,

e não me quebras.

(JOGADOR DE RÚGBI lança-lhe a fumaça no rosto.)

NOIVA (Passando-lhe a mão pelo pescoço) - Por trás de toda esta sombra há como uma travação de pontes de prata para estreitar-me e para defender-me, a mim que sou pequenina como um botão, pequenina como uma abelha que entrasse de repente no salão do trono, não é verdade, não é verdade que sim? Irei contigo (Apóia a cabeça no peito do JOGADOR). Dragão, meu dragão. Quantos corações tens? Há em teu peito como uma torrente aonde me vou afogar. Vou-me afogar (Fita-o). E depois sairás correndo (Chora) e me deixarás

morta pelas margens. (O JOGADOR DE RÚGBI leva um cigarro à boca e a NOIVA o acende) Oh! (Beija-o). Que brasa branca, que fogo de marfim derramam teus dentes! Meu noivo tinha os dentes gelados; beijava-me

e seus lábios se cobriam de pequenas flores murchas, eram como lábios secos. Cortei as tranças porque lhe agradavam muito, como agora vou descalça porque gostas assim, não é verdade, não é verdade mesmo? (O JOGADOR beija-a). Precisamos ir. Meu noivo vai chegar.

VOZ (À porta). - Senhorita!

NOIVA - Vai-te embora! (Beija-o)

VOZ - Senhorita!

NOIVA (Separando-se do JOGADOR e adotando nova atitude distraída). - Já vou! (Em voz baixa) Adeus!

(O JOGADOR volta da varanda e lhe dá um beijo, erguendo- a nos braço.)

VOZ - Abra!

NOIVA (Mudando de voz). - Que pouca paciência!

(O JOGADOR sai assobiando pela janela.)

CRIADA (Entrando). - Ai, senhorita!

NOIVA - Senhorita, o quê?

CRIADA - Senhorita!

NOIVA - Que é? (Acende a luz do teto. Uma luz mais azulada que a que entra pelas varandas). ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

15

CRIADA - Seu noivo chegou!

NOIVA - Está bem. Por que fica você assim?

CRIADA (Chorosa) - Por coisa alguma.

NOIVA - Onde está?

CRIADA - Lá embaixo.

NOIVA - Com quem?

CRIADA - Com seu pai.

NOIVA - Ninguém mais?

CRIADA - E um senhor com óculos de ouro. Discutem muito.

NOIVA - Vou vestir-me (Senta-se diante do toucador e arranja-se, ajudada pela CRIADA)

CRIADA (Chorosa) - Ai, senhorita!

NOIVA (Irritada). - Senhorita, o quê?

CRIADA - Senhorita!

NOIVA (Áspera). - Senhorita, o quê?

CRIADA - É bem bonitão o seu noivo.

NOIVA - Case-se com ele!

CRIADA - Vem muito contente!

NOIVA - Sim?

CRIADA - Trazia este ramo de flores.

NOIVA - Você já sabe que não gosto de flores. Atire-as fora pela varanda.

CRIADA - São Tão bonitas!

Foram

cortadas há pouco.

NOIVA (Autoritária). - Jogue-as fora!

(A CRIADA atira pela varanda umas flores que estavam dentro dum jarro.)

CRIADA - Ai, senhorita!

NOIVA (Furiosa). - Senhorita, o quê?

CRIADA - Senhorita!

NOIVA - O quêêê?

CRIADA - Pense bem no que vai fazer! Reflita. O mundo é grande. Mas nós, pessoas, somos pequenas.

NOIVA - Que sabe você? ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

16

CRIADA - Sim, sim, o sei. Meu pai esteve no Brasil duas vezes e era tão pequeno que cabia numa maleta. As coisas se esquecem e o que é mal fica.

NOIVA - Já lhe disse que se cale!

CRIADA - Ai, senhorita! NOIVA (Enérgica). - Minha roupa!

CRIADA - O que vai fazer?

NOIVA - O que posso!

CRIADA - Um homem tão bom. Tanto tempo à sua espera. Com tanta ilusão. Cinco anos. Cinco anos (Entrega-lhe a roupa).

NOIVA - Estendeu-lhe a mão?

CRIADA (Com alegria). - Sim; estendeu-me a mão.

NOIVA - E como lhe estendeu a mão?

CRIADA - Muito delicadamente, quase sem apertar.

NOIVA - Está vendo? Não a apertou.

CRIADA

- Tive um noivo soldado que me cravava os anéis, a ponto de tirar sangue. Por isso, mandei-o

embora.

NOIVA - Sim?

CRIADA - Ai, senhorita!

NOIVA - Que vestido usarei?

CRIADA - Com o vermelho fica linda.

NOIVA - Não quero estar bonita.

CRIADA - O verde.

NOIVA - Não.

CRIADA - O cor de laranja.

NOIVA (em tom forte) - Não.

CRIADA - O de filó.

NOIVA (mais forte) - Não.

CRIADA - O vestido cor de flores do Outono?

NOIVA (irritada, em voz alta) - Já disse que não. Quero um vestido cor de terra para esse homem; um vestido cor de rochedo nu com uma corda de esparto na cintura(Ouve-se a buzina. A Noiva cerra os olhos e, mudando de expressão, continua falando). Mas com uma capela de jasmins no pescoço e toda a minha carne apertada por um véu molhado pelo mar(Dirigi-se à varanda). CRIADA - Contanto que seu noivo repare!

NOIVA - Há de esperar (escolhendo um vestido comum, simples). Este (veste-se)

CRIADA - Está enganada!

NOIVA - Por quê? CRIADA - Seu noivo buscava outra coisa. Na minha aldeia havia um rapaz que subia à torre da igreja para olhar mais perto a lua e sua noiva mandou-o embora.

NOIVA - Fez bem.

CRIADA - Dizia que via a lua o retrato de sua noiva.

NOIVA (enérgica) - E a você parece bem?(Acaba de arranjar-se no toucador e acende a luz dos anjos)

CRIADA - Quando me desgostei do rapaz do hotel

NOIVA - Já de desgastou do rapaz do hotel? Tão bonito!

Criada Naturalmente. Dei-lhe de presente um lenço bordado por mim que dizia: “Amor, Amor, Amor,” e perdeu-o.

Tão

bonito!

tão

bonito!

NOIVA - Pode ir-se.

CRIADA - Fecho as varandas?

NOIVA - Não.

CRIADA - O ar vai queimar-lhe a pele.

NOIVA - Isso me agrada. Quero ficar escura. Mais escura que um rapaz. E se cair, não sangrar; e se agarrar a sarçamoura, não me ferir. Estão todos andando pelo arame com os olhos fechados. Quero ter chumbo nos pés. Ontem de noite sonhava que todos os meninos pequenos crescem por acaso. Que basta a força que tem um beijo para poder matar a todos. Um punhal, uma tesouras duram sempre e este meu peito dura só um momento.

CRIADA (escutando) - Aí vem seu pai.

NOIVA - Meta todos os meus vestidos de cor numa maleta

CRIADA

CRIADA ( Tremendo ) - Sim

(Tremendo) - Sim

NOIVA - E tenha pronta a chave da garagem.

CRIADA (Com medo) - Está bem!

(Entra o pai da noiva. É um velho distraído. Traz uns óculos pendurados ao pescoço. Cabeleira branca. Cara rosada. Traz luvas brancas e roupa preta. Tem sinais de leve miopia)

PAI - Já está preparada?

NOIVA (Irritada) - Mas para que tenho que estar preparada?

PAI - Chegou!

NOIVA - E com isso? PAI - Mas como já tem compromisso e se trata de sua vida, de sua felicidade, é natural que esteja contente e decidida.

NOIVA - Mas não estou.

PAI - Como?

NOIVA - Não estou contente. E o senhor?

PAI - Mas filha

Que

vai dizer esse homem?

NOIVA - Que diga o que quiser!

PAI - Vem casar-se contigo. Escrever-lhe durante os cinco anos que durou nossa viagem. Não dançaste com

ninguém nos transatlânticos

não te interesse por ninguém. Que mudança é está?

NOIVA - Não quero vê-lo. É preciso que eu viva. Fala demais.

PAI - Ai! Por que não disseste antes?

NOIVA - Antes não existia eu tampouco. Existiam a terra e o mar. Mas eu dormia docemente nas almofadas do trem.

PAI - Esse homem me insultará com razão. Ai, meu Deus! E estava tudo arranjado. Hava-se presenteado com o formoso traje de noiva. Está lá dentro, no manequim.

NOIVA - Não me fale disso. Não quero.

PAI - E eu? E eu? Será que não tenho direito de descansar? Esta noite há um eclipse da lua. Não poderei olhá-lo lá do terraço. Quando sofro uma irritação, sobe-me o sangue aos olhos e não vejo. Que faremos com esse homem?

NOIVA - O que o senhor quiser. Eu não quero vê-lo.

PAI (Enérgico, arrancando forças de vontade) - Tens de cumprir teu compromisso.

NOIVA - Não o cumpro.

PAI - É preciso.

NOIVA - Não.

PAI - Sim (Faz tenção de bater-lhe)

NOIVA (Com força) - Não.

PAI - Todos contra mim (Olha o céu pela varanda aberta). Afora vai começar o eclipse (Dirigi-se à varanda). Apagaram-se as lâmpadas. (Com angústia) Será belo! Estive esperando-o muito tempo. E agora não vejo. Por que o enganaste?

NOIVA - Não o enganei.

PAI - Cinco anos, dia a dia. Ai, meu Deus!

(A Criada entra precipitadamente e corre para a varanda. Ouvem-se vozes fora)

CRIADA - Estão discutindo.

PAI - Quem?

CRIADA - Já entrou (Sai rapidamente).

PAI - Que se passa?

NOIVA - Aonde vai? Feche a porta (Com angústia)

.

PAI - Mas, por quê?

NOIVA - Ah!

(Aparece Jovem. Vem com roupa de passeio. Arranjo o cabelo. No momento em que entra, acendem-se todas as luzes da cena e os ramos de lâmpadas que os anjos têm mão. Ficam os três personagens a olhar-s, quietos e em silêncio).

JOVEM - Perdoem. (Pausa)

PAI (Embaraçado) - Sente-se.

(Entra a Criada muito nervosa, com as mão sobre o peito)

JOVEM (Dando a mão à Noiva) - Foi uma viagem tão longa

NOIVA (Olhando-o bem fitamente sem soltar-lhe a mão) - Sim. Uma viagem fria. Tem nevado muito nestes últimos anos(Solta-lhe a mão).

JOVEM - Desculpem-me, mas o fato de correr, de subir a escada, me pôs agitado. E depois nuns meninos que estavam matando um gato a pedradas.

na rua bati

NOIVA ( À Criada) - Uma mão fria. Uma mão de cera cortada.

CRIADA - Vai ouvir!

NOIVA - E um olhar antigo. Um olhar que se parte como a asa de uma mariposa seca.

JOVEM - Não, não posso estar sentando. Prefiro conversar.

De repente, enquanto subia a escada, vieram à

minha memória todas as canções que havia esquecido e queria cantar todas de uma vez

(Aproxima-se da

Noiva). As tranças

NOIVA - Nunca tive tranças.

JOVEM - Seria a luz da lua. Seria o ar coagulado em bocas para beijar tua cabeça.

(A Criada retira-se para um canto. O Pai vai para as varandas e olha com os óculos prismáticos)

NOIVA - E tu não eras mais alto?

JOVEM - Não, não.

NOIVA - Não tinhas um sorriso violento que era como uma graça em teu rosto?

JOVEM - Não

NOIVA - E não jogavas rúgbi?

JOVEM - Nunca.

NOIVA (Com ardor) - E não levavas um cavalo pelas crinas e matavas em um dia três mil faisões? ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

20

JOVEM - Nunca.

NOIVA - Então

Para

que vens buscar-me? Tinha as mãos cheias de anéis. Onde há uma gota de sangue?

JOVEM - Eu derramei, se te agrada.

NOIVA (Com energia) - Não teu sangue. É meu!

JOVEM - Agora ninguém poderia separar meus braços de teu pescoço!

NOIVA - Não são teus braços, são os meus. Sou eu quem se quer queimar em outro fogo!

JOVEM - Não há mais outro fogo senão o meu(Abraça-a). Porque te esperei e agora ganho o meu sonho.

E

não é sonho tuas tranças porque as farei eu mesmo com teus cabelos, não é sonho tua cintura onde canta o

meu sangue, porque é meu esse sangue, ganho lentamente através de uma chuva, e meu este sonho.

 

NOIVA (Libertando-se) - Deixa-me. Tudo podias ter dito menos a palavra sonho. Aqui não se sonha. Eu não quero sonhar

JOVEM - Mas se ama!

NOIVA - Tampouco se ama. Vai-te!

JOVEM - Que dizes? (Aterrado)

NOIVA - Que busques outra mulher a quem possas fazer tranças.

JOVEM (Como desesperado) - Não.

NOIVA - Como vou deixar que entres no meu quarto, quando outro já entrou?

JOVEM - Ai! (Cobre o rosto com as mãos).

NOIVA - Bastaram apenas dois dias para que me sentisse carregada de cadeias. Nos espelhos e entre as rendas da cama ouço já o gemido de uma criança que me persegue.

JOVEM - Mas minha casa já está construída.

o ar?
o ar?

Com paredes que eu mesmo toquei. Vou deixar que nela viva

NOIVA - E que culpa tenho eu? Queres que vá contigo?

JOVEM (Sentando-se em uma cadeira, abatido) - Sim, sim, vem comigo.

NOIVA - Um espelho, uma mesa estariam mais perto de ti do que eu.

JOVEM - Que vou fazer agora?

NOIVA - Amar.

JOVEM - A quem?

NOIVA - Procura. Pelas ruas, pelo campo.

JOVEM (Enérgico) - Não procuro. Tenho-te a ti. Estás aqui entre minhas mãos, neste mesmo momento, e não me podes fechar a porta porque venho molhado por uma chuva de cinco anos. E porque depois não há nada, porque depois não posso amar, porque depois tudo se acabou.

NOIVA - Solta-me!

JOVEM - Não é tua falsidade que me dói. Tu não és má. Tu não significas nada. É meu tesouro perdido. É meu amor sem objetivo. Mas virás!

NOIVA - Não irei!

JOVEM - Para que não tenha de voltar a começar. Sinto que esqueço até as letras.

NOIVA - Não irei.

JOVEM - Para que não morra. Ouves? Para que não morra.

NOIVA - Deixa-me.

CRIADA (Entrando) - Senhorita! Senhor!

(Jovem solta a Noiva)

PAI (Entrando) - Quem está gritando?

NOIVA - Ninguém.

PAI (Olhando o Jovem) - Cavalheiro.

JOVEM (Abatido) - Falávamos.

NOIVA (Ao Pai) - É preciso devolver-lhes os presentes (O Jovem faz um movimento). Todos. Seria

injusto

todos menos os leques

porque se partiram.

JOVEM

(Acordando) - Dois leques.

 

NOIVA - Um azul

JOVEM - Com três gôndolas afundadas

NOIVA - E outro branco.

JOVEM - Que tinha no centro a cabeça de um tigre

E

estão partidos?

CRIADA - As últimas varetas levou-as o menino do carvoeiro.

PAI - Eram uns leques bons

mas vamos

JOVEM (Sorrindo) - Não importa que se tenham perdido. Lançam-me agora mesmo um ar que me queima a pele.

CRIADA (À Noiva) - Também o traje de noiva?

NOIVA - Está claro.

CRIADA (Chorosa) - Está ali dentro do manequim.

PAI (Ao Jovem) - Gostaria que

JOVEM - Não importa. ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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PAI - De qualquer modo, está em sua casa

JOVEM - Obrigado!

PAI (Que olha sempre na varanda) - Deve já estar no começo. O senhor desculpe (À Noiva) Vens?

NOIVA - Sim (Ao Jovem). Adeus!

JOVEM - Adeus! (Saem).

VOZ (Fora) - Adeus!

JOVEM - Adeus

e o quê? Que faço com essa hora que vem e que não conheço? Aonde vou?

(A luz da cena escurece. As lâmpadas dos anjos tomam uma luz azul. Pelas varandas torna a entrar uma luz de lua que vai aumentando até o final. Ouve-se um gemido.)

JOVEM (Olhando para a porta) - Quem é?

(Entra em cena o Manequim com o vestido de noiva. Esse personagem tem rosto, as sombrancelhas e os lábios dourados como manequim de vitrina de luxo.)

MANEQUIM - Quem usará a boa prata da noiva menina e morena? Pelo mar se perde minha cauda

e a lua leva minha coroa de laranjeira.

Meu anel, senhor meu, meu anel de ouro velho afundou-se nas areias do espelho. Quem vestirá meu traje? Quem vestirá? Pô-lo-á a ria grande para casar-me com o mar.

JOVEM - Que cantas? Dize-me.

MANEQUIM - Canto morte que não teve nunca dor de véu sem uso, com pranto de seda e pluma. Roupa de dentro que fica gelada de neve escura, sem que as rendas possam competir com as espumas. Telas que cobrem a carne serão para a água turva.

E em lugar de rumor quente,

quebrado torso de chuva. Quem usará a roupa boa da noiva menina e morena?

JOVEM - Pô-lo-á o ar escuro

brincando à alva em sua gruta, ligas de raso os juncos, meias de seda a lua.

O véu dai-o às aranhas

para que comam e cubram

as pombas, enredadas

em seus fios de beleza. ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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Ninguém porá o teu traje, forma branca e luz confusa que seda e geada foram leves arquiteturas.

MANEQUIM - Perde-se a minha cauda no mar.

JOVEM - E a lua levará no ar tua coroa de laranjeira.

MANEQUIM (Irritado) - Não quero. Minhas sedas têm fio a fio e uma a uma ânsia de calor de boca.

E minha camisa pergunta

onde estão as tíbias mãos

que oprimem na cintura.

JOVEM - Eu também pergunto. Cala.

MANEQUIM - Mentes. Tu tens a culpa. Pudeste ser para mim potro de chumbo e de espuma,

o

ar partido no freio

e

o mar atado à garupa.

Pudeste ser um relincho

e és dormido laguna,

com folhas secas e musgo onde este traje apodreça. Meu anel, senhor, meu anel de ouro velho.

JOVEM - Afundou nas areias do espelho.

MANEQUIM - Por que não vieste antes? Ela esperava nua como uma serpe de vento desmaiada pelas pontas.

JOVEM (Levantando-se) - Silêncio! Deixe-me! Vai-te ou te quebrarei com fúria as iniciais de nardo, que a branca seda oculta. Vai para a rua buscar ombros de virgem noturna ou guitarras que te chorem seis longos gritos de música. Ninguém usará teu traje.

MANEQUIM - Seguir-te-ei sempre.

JOVEM - Nunca.

MANEQUIM - Deixa-me falar-te.

JOVEM - É inútil. Não quero saber.

MANEQUIM - Escuta. Olha.

JOVEM - O quê? ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

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MANEQUIM - Um trajezinho que roubei da costura. (mostra uma roupa cor-de-rosa de menino) As fontes de leite branco molham minhas sedas de angústia

e uma dor branca de abelha

cobre-me de raios a nuca.

Meu filho. Quero o meu filho. Por minha saia o desenham estas cintas que me estalam de alegria na cintura.

E é teu filho.

JOVEM - Sim, meu filho:

onde chegam e onde se juntam pássaros de sonho louco

e jasmins de bondade. (Angustiado)

E se meu filho não chega?

Pássaro que o ar cruza

não pode cantar.

MANEQUIM - Não pode.

JOVEM - E se meu filho não chega? Veleiro que a água sulca não pode nadar.

MANEQUIM - Não pode.

JOVEM - Quieta a harpa da chuva, um mar feito pedra ri últimas ondas escuras.

MANEQUIM - Quem vestirá meu traje? Quem o vestirá?

JOVEM (Aterrado e decisivo) - Vesti-lo-á a mulher que anda pelas praias do mar.

MANEQUIM - Espera-te sempre. Lembras-te? Estava oculta em tua casa. Ele te amava e se foi. Teu filho canta em seu berço

e como é feito de neve

espera o sangue teu.

Corre a buscá-lo depressa

e entrega-mo desnudo

para que minhas sedas possam fio a fio, e uma a uma abrir a rosa que cobre seu ventre de carne loura.

JOVEM - Hei de viver

MANEQUIM - Sem espera

JOVEM - Meu filho canta em seu berço,

e como é feito de neve

aguarda calor e ajuda.

MANEQUIM - Dá-me o vestido

JOVEM (com doçura) - Não.

MANEQUIM - (arrebatando-lho) - Quero-o. Enquanto vences e buscas cantarei uma canção sobre suas ternas rugas (beija-o)

JOVEM - Pronto. Onde está?

MANEQUIM - na rua.

JOVEM - Antes que a lua vermelha limpe com sangue de eclipse a perfeição de sua curva, trarei tremendo de amor minha própria mulher nua.

(A luz é de um azul intensíssimo. Entra a CRIADA pela esquerda com um candelabro e a cena toma suavemente sua luz normal, sem descuidar a luz das varandas abertas de par em par que já no fundo. No momento em que entra a CRIADA, o MANEQUIM fica rígido como numa posição de vitrina. A cabeça inclinada e as mãos levantadas em atitude delicadíssima. A CRIADA deixa o candelabro sobre a mesa do toucador, sempre em atitude compungida e olhando o JOVEM. Neste momento aparece o VELHO por uma porta da direita. A luz aumenta).

JOVEM (Assustado) - O Senhor!

VELHO (Dá mostras de grande agitação e leva as mãos ao peito. Tem um lenço de seda na mão) - Sim, eu.

(A CRIADA sai rapidamente).

JOVEM (Com acritude) - Não me faz falta nenhuma.

VELHO - Mais que nunca! Ai, me magoaste! Por que subiste? Eu sabia o que ia passar-se. Ai!

JOVEM (com doçura) - Que está sentindo?

VELHO (enérgico) - Nada. Não estou sentindo nada. Uma ferida, mas passou, passou (O JOVEM inicia a retirada) Aonde vais?

JOVEM (Com alegria) - Buscar.

VELHO - Quem?

o sangue está-se secando e o que

JOVEM - A mulher que me quer. O senhor a viu em minha casa. Não se lembra?

VELHO - Não me lembro. Mas espera.

JOVEM - Não. Agora mesmo

(O VELHO agarra-lhe o braço).

PAI (entrando)

- Filha? Onde estás? Minha filha!

(Ouve-se a buzina do automóvel)

CRIADA (Na varanda) - Senhorita! Senhorita!

PAI (Dirigindo-se à varanda) - Filha! Espera, espera! (Sai).

JOVEM - Eu também vou-me embora. Busco, igual a ela, a nova flor do meu sangue. (Sai correndo)

VELHO - Espera! Espera! Não me deixes ferido. Espera! Espera! (Sai. Suas vozes se perdem).

CRIADA (Entra rapidamente, pega o candelabro e sai pela varanda) senhorita!

(Ouve-se ao longe a buzina)

MANEQUIM - Meu anel, senhor, meu anel de ouro velho (Pausa) afundou nas areias do espelho. Quem usará meu vestido? Quem o usará? (Pausa. Chorando). Usá-lo-á a ria grande para casar-se com o mar. (Desmaia e fica estendido no sofá).

VOZ (Fora)

Esperaaaaaaa!

Pano rápido.

TERCEIRO ATO

PRIMEIRO QUADRO

- Ai, a senhorita, meu Deus, a

Bosque. Grandes troncos. No centro, um teatro rodeado de cortinas barrocas com o pano cerrado. Uma escadinha une o tabladinho ao cenário. Ao levantar-se o pano, cruzam entre os troncos duas figuras trajadas de preto, com as caras brancas de gesso e as mãos também brancas. Soa uma música distante. Entra o ARLEQUIM. Roupa preta e verde. Traz duas máscaras, uma em cada mão e ocultas nas costas. Movimenta- se de modo plástico como um bailarino.

ARLEQUIM - O sonho vai sobre o tempo qual veleiro que flutua. Ninguém pode abrir sementes do sonho no coração. (Põe uma máscara de expressão alegríssima.) Ai, como canta a aurora, como canta! que pedaços de gelo azul levanta! (Tira a máscara.) O tempo vai sobre o sonho sumido té os cabelos. Amanhã e ontem comem escuras flores de luto. (Põe uma máscara de expressão sossegada.) Ai, como canta a noite, como canta! Que espessura de anêmonas levanta! (Tira-a.) Por sobre a mesma coluna,

abraçados sonho e tempo, dum menino o ai se cruza,

a língua rota do velho.

(Com uma máscara.) Ai, como canta a aurora, como canta! (Com a outra.) Que espessura de anêmonas levanta! E se o sonho finge muros pela planície do tempo, faz-lhe o tempo acreditar que nasce naquele instante. Ai, como canta a noite, como canta ! Que pedaços de gelo azul levanta! (Desde este momento, ouvem-se ao fundo, durante todo o ato e com intervalos medidos mais distantes, trompas graves de caça. Aparece uma MOÇA, vestida de preto, com túnica à moda grega. Vem saltando com uma grinalda.)

MOÇA - Quem o disse? Quem o dirá? Meu amado me aguarda no fundo do mar.

ARLEQUIM (Gracioso) - Mentira.

MOÇA - É verdade. Perdi meu desejo, perdi meu dedal

e nos troncos grandes

tornei a achá-los. ARLEQUIM (Irônico) - Uma corda mui longa, longa para baixar.

MOÇA - Peixes e tubarões

e ramos de coral.

ARLEQUIM - Está embaixo.

MOÇA - Muito embaixo.

ARLEQUIM - Adormecido.

MOÇA - Embaixo está. Bandeiras de água verde. chamam-no capitão.

ARLEQUIM (em voz alta e gracioso) - Mentira.

MOÇA (Em voz alta) - Verdade. Perdi minha coroa, perdi meu dedal,

e na meia volta

tornei a achá-los.

ARLEQUIM - Agora mesmo.

MOÇA - Agora?

ARLEQUIM - Teu amado verás na meia volta do vento e do mar.

MOÇA (Assustada) - Mentira.

ARLEQUIM - Verdade. Eu to darei.

MOÇA (inquieta) - Não mo darás. Não se chega nunca ao fundo do mar.

ARLEQUIM (Aos gritos e como se estivesse no circo) - Senhor homem, acuda!

(Aparece um esplêndido PALHAÇO, cheio de lentejoulas. Sua cabeça cheia de pó dá uma sensação de caveira. Ri com grandes gargalhadas.)

ARLEQUIM - O senhor dará

a esta mocinha

seu noivo do mar.

PALHAÇO (Arregaça as mangas) - Venha uma escada.

MOÇA (Assustada) - Sim?

PALHAÇO (À MOÇA) - Para descer. (Ao público.) Boa noite! ARLEQUIM - Bravo!

PALHAÇO (A ARLEQUIM) - Você, olhe para lá! (ARLEQUIM rindo, volta-se.) Vamos, toca! (Bate palmas.)

ARLEQUIM - Toco. Noivo, onde estás? (ARLEQUIM toca um violino branco, com duas cordas de ouro. Deve ser grande e pleno. Marca o compasso com a cabeça.)

ARLEQUIM (Fingindo a voz) - Pelas frescas algas vou-me a caçar grandes caracóis

e lírios de sal.

MOÇA (Assustada com a realidade) - Não quero.

PALHAÇO - Silêncio.

(ARLEQUIM ri.)

MOÇA (Ao PALHAÇO, com medo) - Eu vou saltar pelas ervas altas. Depois desceremos

à água do mar.

ARLEQUIM (Jocoso) - Mentira.

MOÇA (Ao PALHAÇO) - Verdade. (Faz que vai sair, chorando.) Quem o diria? Quem o dirá? Perdi a coroa, perdi meu dedal.

ARLEQUIM (Melancólico) - Na meia volta do vento e do mar.

(Sai a MOÇA.)

PALHAÇO (Apontando) - Ali.

ARLEQUIM - Onde? O quê?

PALHAÇO - Representando. Um menino pequeno que quer trocar em flores de aço seu naco de pão.

ARLEQUIM - Mentira.

PALHAÇO (Severo) - Verdade. Perdi rosa e curva, perdi meu colar, e em margem recente os tornei a achar.

ARLEQUIM (Adotando uma atitude de circo e como se o menino ouvisse) - Senhor homem, venha. (Inicia a falsa saída).

PALHAÇO (Aos gritos e olhando o bosque e adiantando-se ao ARLEQUIM)- Não grite tanto. Bom dia! (Em voz baixa). Vamos! Toque.

ARLEQUIM - Toco?

PALHAÇO - Uma valsa (Em voz alta) (O ARLEQUIM começa a tocar em voz baixa). Depressa. (Em voz alta). Senhores:

Vou demonstrar

ARLEQUIM - Que em marfim de nuvens Os tornou a achar.

PALHAÇO - Vou demonstrar (Sai).

ARLEQUIM - A roda que gira Do vento e o mar.

(Ouvem-se as trompas. Entra a DATILÓGRAFA. Veste traje de tênis, com boina de cor intensa. Em cima do vestido uma capa comprida. Vem com a primeira MÁSCARA. Esta veste traje de 1900, com comprida cauda amarelo-berrante, cabelo de seda amarelo, caindo como um manto, e máscara branca de gesso; luvas até o cotovelo da mesma cor. Traz chapéu amarelo e todo o peito semeado de lantejoulas de ouro. O efeito desse personagem deve ser o de uma labareda sobre o fundo de azuis lunares e troncos noturnos. Fala com leve sotaque italiano).

MÁSCARA (Rindo) - Um verdadeiro encanto. DATILÓGRAFA - Saí de sua casa. Lembro-me de que na tarde de minha partida havia uma grande tempestade de verão e tinha morrido o filho da porteira. Ele me disse: “Tinhas-me chamado?”, ao que lhe respondi, fechando os olhos: “Não”. E depois, já na porta, me disse: “Precisas de mim?” e eu lhe respondi:

“Não, não preciso de ti”.

MÁSCARA - Lindo.

DATILÓGRAFA - Não aparecia

Entrava o ar como uma faca, mas eu não lhe podia falar.

Mas o via pelas venezianas; quieto (Tira um lenço) com uns olhos

MÁSCARA - Por que, senhorita?

DATILÓGRAFA - Porque me amava demasiado.

MÁSCARA - “Oh! Meu Deus!” Era igual ao conde Artur da Itália. Oh! Amor!

DATILÓGRAFA - Sim?

MÁSCARA - No foyer da Ópera de Paris há umas enormes balaustradas que dão para o mar. O Conde

Artur, com uma camélia entre os lábios, vinha em uma barquinha, com seu filho, os dois abandonados por mim. Mas eu corria as cortinas e lhes atirava um diamante. Oh! Que dulcíssimo tormento, minha amiga! O conde e seu filho passavam fome e dormiam entre os ramos com um lebreu que me havia dado de presente um senhor da Rússia (Enérgica e suplicante). Não tens um pedacinho de pão para mim? Não tens um

pedacinho de pão para o teu filho? Para o menino que o conde Artur deixou morrer congelado?

(Agitada).

E depois fui ao hospital e ali soube que o conde havia se casado com uma grande dama romana pedi esmola e compartilhei de minha cama com os homens que descarregam o carvão no cais.

E depois

DATILÓGRAFA - Que dizes? Por que falas?

MÁSCARA (Serenando-se) - Digo que o conde Artur me amava tanto que chorava por trás das cortinas com seu filho, enquanto que eu era como uma meia-lua de prata, entre os binóculos e as luzes de gás que brilhavam sobre a cúpula da grande Ópera de Paris.

DATILÓGRAFA - Delicioso. E quando chega o conde?

MÁSCARA - E quando chega teu amigo?

DATILÓGRAFA - Tardará.

MÁSCARA - Também Artur tardará. Tem na mão direita uma cicatriz que lhe fizeram com um punhal, por minha causa, sem dúvida (Mostrando sua mão). Não a vês? (Apontando o pescoço). E aqui outra, estás vendo-a?

DATILÓGRAFA - Sim, mas por quê?

MÁSCARA - Por quê? Por quê? Que faço eu sem feridas? De quem são as feridas de meu conde? ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

31

DATILÓGRAFA - Tuas. É verdade! Há cinco anos que me está esperando, mas segurança o momento de ser amada!

MÁSCARA - E é seguro!

Que belo é esperar com

DATILÓGRAFA - Seguro! Por isso vamos rir! Quando pequena, guardava os doces para comê-los depois.

MÁSCARA - Ah! Ah! Ah! Não é verdade? São mais gostosos.

(Ouvem-se trompas). DATILÓGRAFA (Iniciando saída falsa)- Se me amigo viesse

riçado de um modo especial

Faze que não o conheces.

MÁSCARA - Claro, minha amiga (Recolhe a calda).

Tão alto, com todo o cabelo riçado, mas

(Aparece o JOVEM. Veste um traje niker cinzento com meias de quadrados azuis).

ARLEQUIM (Entrando) - Ei!

JOVEM - O quê?

ARLEQUIM - Aonde vai?

JOVEM - À minha casa!

ARLEQUIM (Irônico) - Sim?

JOVEM (Começa a andar) - Claro.

ARLEQUIM - Ei! Por aí não pode passar.

JOVEM - Fecharam o passeio?

ARLEQUIM - Por aí está o circo.

JOVEM - Bem (Volta).

ARLEQUIM - Cheio de espectadores definitivamente quietos. (Suave) Não quer entrar o senhor?

JOVEM - Não.

ARLEQUIM (Enfático) - O poeta Virgílio construiu uma mosca de ouro e morreram todas as moscas que envenenavam o ar de Nápoles. Lá dentro, no circo, há ouro brando, suficiente para fazer uma estátua do mesmo tamanho de você.

JOVEM - Também está interceptada a rua dos choupos?

ARLEQUIM - Ali estão os carros e as jaulas com as serpentes.

JOVEM - Então voltarei para trás (Inicia falsa saída).

PALHAÇO (Entrando pelo lado oposto) - Mas aonde vai? Ah! Ah! Ah!

JOVEM - Diz que vai para sua casa.

PALHAÇO (Dando uma bofetada de circo no ARLEQUIM) - Toma casa! ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

32

ARLEQUIM (Cai no chão, gritando) - Ai, está doendo, está doendo!

PALHAÇO (Ao jovem) - Venha.

JOVEM (Irritado) - Mas quererá dizer-me que brincadeira é essa? Eu ia para minha casa, isto é, para minha casa, não; para outra casa, para

PALHAÇO (Interrompendo-o) - Em busca de.

JOVEM - Sim; porque preciso. Em busca de. PALHAÇO (Alegre) - Procura. Dá meia volta e o encontrarás.

A VOZ DA DATILÓGRAFA (Cantando) - Aonde vais, meu amor, meu amor, com o ar dentro de um vaso

e o mar dentro de um vidro?

(O ARLEQUIM já se levantou. O JOVEM está de costas e saem também de costas, nas pontas dos pés, marcando um passo de baile e com o dedo nos lábios).

JOVEM (Assombrado) - Aonde vais, meu amor, vida minha, meu amor, com o ar dentro de um vaso

e o mar dentro de um vidro?

DATILÓGRAFA (Aparecendo) - Donde? Donde me chamam? JOVEM - Vida minha!

DATILÓGRAFA - Contigo.

JOVEM - Hei de levar-te desnuda, flor fanada e corpo limpo àquele sítio em que as sedas estão tremendo de frio. Brancos lençóis lá te esperam. Vamos logo. Agora mesmo. Antes que as ramadas gemam amarelos rouxinóis.

DATILÓGRAFA - Sim; que o sol é um milhafre. Melhor: um falcão de vidro. Não; que o sol é um grande tronco,

e tu a sombra de um rio.

Como, se me abraças, dize, Não nascem juncos e lírios

E não desbotam teus braços

As cores de meu vestido? Amor, deixa-me no monte, Farta de nuvem e rocio, Para ver-te grande e triste Cobrir um céu já dormido.

JOVEM - Não fales assim, filha.Vamos. Não quero tempo perdido. Sangue puro tempo perdido. Sangue puro e calor fundo. ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

33

Me estão levando a outro sítio. Quero viver.

DATILÓGRAFA - Com quem?

JOVEM - Contigo

DATILÓGRAFA - Que é isso que tão longe soa?

JOVEM - Amor,

O dia que volta.

Meu amor!

DATILÓGRAFA (Alegre e como em sonho) - Um rouxinol que canta, Rouxinol gríseo da tarde Na ramaria do vento. Rouxinol. Ouvi teu canto. Quero viver.

JOVEM - Com quem?

DATILÓGRAFA - Com a sombra de um rio (Angustiada e refugiando-se no peito do jovem) Que é isso que tão longe soa?

JOVEM - Amor, O sangue em minha garganta Meu amor. DATILÓGRAFA - Assim sempre, sempre assim, Despertos ou acordados.

JOVEM - Nunca assim, nunca, assim nunca! Vamo-nos deste lugar.

DATILÓGRAFA - Espera!

JOVEM - Amor não espera!

DATILÓGRAFA (Aparta-se do Jovem) - Aonde vais, meu amor, Com o ar dentro de um vaso

E o mar dentro de um vidro?

(Dirige-se para a escada. As cortinas do teatro se descerram e aparece a biblioteca do primeiro ato, reduzida e de tons pálidos. Aparece na cena a MÁSCARA amarela, tem um lenço de rendas na mão e aspira sem cessar um frasco de sais.)

MÁSCARA (À Datilógrafa) Agora mesmo acabo de abandonar para sempre o conde. Ficou para atrás com seu filho. (Desce a escada). Estou certa de que morrerá. Mas me quis tanto (Chora. À Datilógrafa). Não o sabias? Seu filho morrerá sob a geada. Abandonei-o. Não vês como estou contente? Não vês como rio? (Chora). Agora me buscará por todos os lados. (No chão) Vou esconder-me dentro das sarçamouras. Falo assim porque não quero que Arthur me ouça (Em voz alta) Não quero! Já te disse que não te quero (Sai chorando). Tu a mim, sim; mas eu a ti, não te quero.

(Aparecem dois CRIADOS vestidos de librés azuis e caras palidíssimas, os quais deixam à esquerda do cenário dois tamboretes brancos. Pela cenazinha cruza o Criado do primeiro ato, sempre andando nas pontas dos pés.)

DATILÓGRAFA (Ao Criado e subindo as escadas da cenazinha) - Se o senhor chegar, faça entrar (Na cenazinha). Embora só venha quando tiver de vir. (O Jovem começa a subir lentamente a escada)

JOVEM (Na cenazinha, apaixonado) - Estás contente aqui?

DATILÓGRAFA - Escreveste as cartas?

JOVEM - Lá em cima está-se melhor. Vem!

DATILÓGRAFA - Quis-te tanto!

JOVEM - Quero-te tanto!

DATILÓGRAFA - Hei de querer-te tanto!

JOVEM - Parece-me que agonizo sem ti. Aonde irei, se me deixas? Não me lembro de nada. A outra não existe, mas tu, sim, porque me queres.

DATILÓGRAFA - Sempre te quis amor. Hei de querer-te sempre.

JOVEM - Agora

DATILÓGRAFA - Por que dizes agora?

(Aparece no cenário o Velho. Vem vestido de azul e traz um grande lenço na mão, manchado de sangue, que leva ao peito e ao rosto. Dá mostras de agitação e observa lentamente o que se passa na cenazinha.).

JOVEM - Eu esperava e morria.

DATILÓGRAFA - Eu morria por esperar.

JOVEM - Mas o sangue lateja em minhas fontes com nós de fogo, e agora tenho-te já aqui.

VOZ (Fora) Meu filho! Meu filho!

(Cruza a cenazinha o MENINO morto. Vem só e entra por uma porta esquerda.)

JOVEM - Sim, meu filho. Corre por dentro de mim, como uma formiga sozinha dentro de uma caixa

fechada. (Á datilógrafa) Um pouco de luz para meu filho. Por Favor. É tão pequeno na vidraça do meu coraçãoe, não obstante, (não tem ar).

Achata as narinazinhas

MASCARA

AMARELA

presenciam a cena)

(Aparecendo no cenário grande) Meu

filho!

(Entram duas mascaras que

DATILÓGRAFA (Autoritária e seca) Escreveste as cartas? Não é teu filho, sou eu. Tu esperavas e me deixaste partir, mas sempre te acreditas amado. É mentira o que digo?

JOVEM (Impaciente) Não, mas

DATILÓGRAFA - Eu, em troca, sabia que não me quererias nunca. E, não obstante, elevei o meu amor, e mudei-te e vi-te pelos cantos da minha casa. (Apaixonada) Quero-te, porém mais longe de ti. Fugi tanto que preciso contemplar o mar para poder evocar o tremor de tua boca.

VELHO - Porque se ele tem vinte anos pode ter vinte luas.

DATILÓGRAFA (Lírica) Vinte rosas, vinte nortes de neve. ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

35

JOVEM (Irritado) Cala a boca. Virás comigo. Porque me queres e porque é necessário que eu viva.

DATILÓGRAFA - Sim, quero-te, porém muito mais. Não tens tu olhos, para ver-me nua, nem boca para beijar o meu corpo que nunca se acaba. Deixe-me! Quero-te demasiado para poder contemplar-te.

JOVEM - Nem um minuto mais. Vamos! (Agarra-a pelos pulsos).

DATILÓGRAFA - Está-me machucando, amor.

JOVEM - Desta forma me sentes.

DATILÓGRAFA - (Com doçura) Espera

VELHO - Ela irá. Senta-te, meu amigo

JOVEM (Angustiado) - Não.

Irei. Sempre. (Abraça-o)

Espera.

DATILÓGRAFA - Estou muito alta. Por que me deixaste? Ia morrer de frio e tive de buscar o seu amor por onde não há gente. Mas estarei contigo. Deixa-me baixar pouco a pouco de ti.

(Aparecem o PALHAÇO e o ARLEQUIM. O PALHAÇO traz uma cortina e o ARLEQUIM um violino branco. Sentam-se nos tamboretes).

PALHAÇO - Uma música

ARLEQUIM - De anos.

PALHAÇO - Luas e mares sem abrir.

ARLEQUIM - Fica atrás

PALHAÇO - A mortalha do ar. E a música de teu violino.

JOVEM: (Saindo de um sonho) - Vamos.

DATILÓGRAFA - Sim

formosa idéia: será amanhã? Não tens pena de mim?

Será possível que sejas tu? Assim de repente, sem haver sobreado lentamente essa

JOVEM (Enérgico) - Tua boca! (Beija-a).

DATILÓGRAFA - Mais tarde

JOVEM: (Apaixonado) - É melhor de noite

DATILÓGRAFA - Irei.

JOVEM - Sem tardar!

DATILÓGRAFA - Eu quero!

JOVEM - Vamos.

Escuta.

DATILÓGRAFA - Mas

JOVEM - Dize-me.

DATILÓGRAFA - Irei contigo.

JOVEM - Amor! Irei contigo!

DATILÓGRAFA (Tímida) - Assim que passem cinco anos!

JOVEM - Ah! (Leva a mão á fronte)

VELHO (Em voz baixa) - Bravo

(O Jovem começa a descer lentamente a escada. A Datilógrafa fica em atitude extática no cenário. Entra o Criado de ponta de pés e a cobre com uma grande capa branca). PALHAÇO - Uma música.

ARLEQUIM - De anos.

PALHAÇO - Luas e mares sem abrir. Ficam atrás.

ARLEQUIM - A mortalha do ar.

PALHAÇO - E a música de teu violino (Tocam).

MÁSCARA - O conde beija meu retrato de amazona.

VELHO - Vamos não chegar, mas vamos indo.

JOVEM (Desesperado, ao PALHAÇO) A saída? Por onde? DATILÓGRAFA (No cenário pequeno e como em sonhos) - Amor, amor.

JOVEM (Estremecido) - Mostra-me a porta.

PALHAÇO (Irônico, apontando a esquerda) - Por ali.

ARLEQUIM (Mostrando a direita) - Por ali.

DATILÓGRAFA - Espero-te, amor! Espero-te! Volte logo!

ARLEQUIM (Irônico) - Por ali.

JOVEM (Ao palhaço) - Rebentar-te-ei jaulas e telas.

VELHO (Com angustia) - Por aqui.

JOVEM - Quero voltar. Deixe-me!

ARLEQUIM - Fica o vento.

PALHAÇO - E a música de teu violino.

SEGUNDO QUADRO

A mesma biblioteca do primeiro ato. Á esquerda o traje de noiva posto em um manequim sem cabeça e sem mãos. Várias maletas abertas. Á direita uma mesa.

(Entram o Criado e a Criada)

CRIADA (Assombrada) - Sim?

CRIADO - Agora está como porteira. Mas antes foi uma grande senhora. Viveu muitos tempo com um conde italiano riquíssimo, pai do menino que acabam de enterrar.

CRIADA - Meu pobrezinho! Como estava bonito!

CRIADO - Dessa época lhe vem à mania de grandeza. Por isso gastou tudo quanto tinha na roupa de menino e no caixão.

CRIADA - E nas flores! Presenteei-o com um raminho de rosas, mas eram tão pequenas q nem sequer as deixaram entrar na sala. JOVEM: (Entrando) - João.

CRIADO - Senhor.

(A Criada sai)

JOVEM - Dá-me um copo d’água fria (O Jovem dá mostras de desesperança e desfalecimento físico).

(O Criado o serve)

JOVEM - Não era essa janela muito maior?

CRIADO - Não
CRIADO - Não
JOVEM - É assombroso que seja tão estreita. Minha casa tinha um pátio enorme, onde

JOVEM - É assombroso que seja tão estreita. Minha casa tinha um pátio enorme, onde eu brincava com meus cavalinhos. Quando o vi, aos vinte anos, era tão pequeno que me parecia incrível que houvesse podido

voar tanto por ele.

cavalinhos. Quando o vi, aos vinte anos, era tão pequeno que me parecia incrível que houvesse

CRIADO - Sente-se bem, o senhor?

JOVEM - Sente-se bem uma fonte deitando água? Responde.

CRIADO - Não sei.

JOVEM - Sente-se um cata-vento girando à vontade do vento?

CRIADO - bem o vento ?
CRIADO
-
bem
o vento
?

O senhor apresenta cada exemplo

Mas eu lhe perguntaria

JOVEM (seco) - Sinto-me bem.

CRIADO - Descansou o bastante depois da viagem?

JOVEM - Sim.

CRIADO - Muitíssimo me alegro (saída falsa).

JOVEM - João. Minha roupa está preparada?

CRIADO - Sim, senhor; está em seu dormitório.

JOVEM - Que roupa?

CRIADO - O fraque. Estendi-o na cama.

, se o senhor o permite

Sente-se

JOVEM

(excitado) - Pois tira-o. Não quero subir e encontra-lo estirado na cama, tão grande, tão vazia. Não

sei quem teve a idéia de compra-la. Eu tinha antes outra pequena, lembras-te?

 

CRIADO - Sim, senhor. A de nogueira talhada.

 

JOVEM - Isso mesmo. A de nogueira talhada. Quão bem se dormia nela. Lembro-me de que, quando

menino, vi nascer uma lua enorme por trás da varandinha de seus pés

Ou foi pelos ferros da varanda? Não

sei. Onde está?

 

CRIADO - O senhor deu-a de presente.

JOVEM

(pensando) - A quem?

 

CRIADO

(sério) - À sua antiga datilógrafa.

(o jovem fica pensativo)

JOVEM

(mandando o criado embora) - Está bem.

(o criado sai)

JOVEM

(com angústia) - João.

CRIADO

(severo) - Senhor.

JOVEM - Puseste meus sapatos de charão?

CRIADO - Os que têm atilhos de seda preta.

JOVEM - Seda preta

Não

Procura outros (levantando-se). E será possível que nesta casa esteja sempre o

ar rarefeito? Vou cortar todas as flores do jardim, sobretudo todas aquelas malditas adelfas que passam por

cima dos muros e aquela relva que só brota à meia-noite

 

CRIADO - Dizem que com as anêmonas e dormideiras dói a cabeça em certas horas do dia.

JOVEM - Deve ser isso. Leva isso também. (apontando o sobretudo) Põe-no no sótão.

CRIADO - Muito bem. (vai sair).

JOVEM

(tímido) - E deixa-me os sapatos de charão. Mas muda-lhes os atilhos.

(soa a campainha)

CRIADO (entrando) - São os rapazes que vêm jogar.

JOVEM (com enfado) - Ah!

CRIADO (na porta) - O senhor terá necessidade de mudar de roupa.

JOVEM (saindo) - Sim. (sai quase como uma sombra)

(Entram os Jogadores. Vêm de fraque. Trazem capas longas de cetim branco que lhes que lhes chegam aos pés)

PRIMEIRO JOGADOR - Foi em Veneza. Um ano mau de jogo. Mas aquele rapaz jogava de verdade.

Estava pálido, tão pálido que na última jogada já não tinha mais remédio senão largar o ás de coeur. Um

coração seu cheio de sangue. Largou-o e ao ir apanha-lo (baixando a voz) para

(olha para os lados) tinha

um ás de copas transbordando e fugiu bebendo nele com duas garotas, pelo Grande-Canal.

SEGUNDO JOGADOR - Não há que fiar-se em gente pálida ou que tem fastio; jogam, mas reservam.

TERCEIRO JOGADOR - Joguei na Índia com um velho que, quando já não tinha uma gota de sangue sobre as cartas, e eu esperava o momento de lançar-me sobre ele, tingiu de vermelho com uma anilina especial todas as copas e pôde escapar entre as árvores.

PRIMEIRO JOGADOR - Jogamos e ganhamos; mas que trabalho nos custa! As cartas bebem rico sangue nas mãos e é difícil cortar o fio que as une.

SEGUNDO JOGADOR - Mas creio que com este

não nos equivocamos.

TERCEIRO JOGADOR - Não sei. PRIMEIRO JOGADOR (ao segundo) - Não aprenderás nunca a conhecer teus clientes. A este? A vida se lhe escapa pelas pupilas que molham a comissura de seus lábios e lhe tingem de azul o peitilho do fraque.

SEGUNDO JOGADOR - Sim. Mas lembra-te do menino que na Suécia jogou conosco quase agonizante, e por pouco nos deixou cegos os três com o jorro de sangue que nos lançou.

TERCEIRO JOGADOR - O baralho (puxa um baralho).

SEGUNDO JOGADOR - É preciso trata-lo com muita mansidão para que não reaja.

TERCEIRO JOGADOR - E ainda que nem à outra, nem à senhorita datilógrafa ocorrerá virem aqui até que passem cinco anos, se é que vêm. SEGUNDO JOGADOR (rindo) - Se é vêm, ah! ah! ah!

PRIMEIRO JOGADOR - Não estará mal sermos rápidos na jogada.

SEGUNDO JOGADOR - Ele guarda um ás.

TERCEIRO JOGADOR - Um coração jovem, onde é provável que resvalem as flechas.

PRIMEIRO JOGADOR (alegre e profundo) - Eu guardo uma flecha num tiro ao alvo.

SEGUNDO JOGADOR (com curiosidade) - Onde?

PRIMEIRO JOGADOR (em brincadeira) - Em um tiro ao alvo que não somente se crava sobre o aço mais duro, como sobre a gaze mais fina. E isto sim que é difícil (riem).

SEGUNDO JOGADOR - Enfim, já veremos.

(aparece o Jovem vestido de fraque)

JOVEM - Senhores (aperta-lhes as mãos) Chegaram muito cedo. Faz demasiado calor.

PRIMEIRO JOGADOR - Não tanto.

SEGUNDO JOGADOR (ao jovem) - Elegante como sempre.

PRIMEIRO JOGADOR - Tão elegante que já não deveria tirar nunca a roupa.

TERCEIRO JOGADOR - Há vezes em que a roupa nos fica tão bem que já não temos vontade de tira-la.

SEGUNDO JOGADOR

(interrompendo) - Que já não podemos arrancá-la do corpo.

JOVEM (com enfado) - Demasiado amáveis. ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

40

(aparece o Criado com uma bandeja e copos que deixa na mesa)

JOVEM - Começamos?

(sentam-se os três)

PRIMEIRO JOGADOR - Prontos.

SEGUNDO JOGADOR

(em voz baixa) - Olho esperto.

TERCEIRO JOGADOR - Não se senta?

JOVEM - Não

Prefiro jogar de pé.

TERCEIRO JOGADOR - De pé?

SEGUNDO JOGADOR (Baixo) - Terás necessidade de afundar muito.

PRIMEIRO JOGADOR (Repetindo cartas) - Quantas?

JOVEM - Quatro. (Dá-las aos demais

)

TERCEIRO JOGADOR (Baixo) - Jogada nula.

JOVEM - Que cartas mais frias! Nada. (Deixa-as sobre a mesa) E vocês?

PRIMEIRO JOGADOR (em voz baixa) - Nada (Dá-lhes cartas outra vez)

SEGUNDO JOGADOR (olhando suas cartas) - Nada. Magnífico.

TERCEIRO JOGADOR (olhando suas cartas com inquietação) - Nada. Vamos ver.

PRIMEIRO JOGADOR (ao JOVEM) - Jogue você.

JOVEM (alegre) - Jogo eu (deita uma carta na mesa

)

PRIMEIRO

JOGADOR (enérgico) - E eu.

SEGUNDO JOGADOR - E eu.

TERCEIRO JOGADOR - E eu.

JOVEM (Excitado, com uma carta) - E agora?

(Os três JOGADORES mostram suas cartas. O JOVEM se detém e as oculta na mão).

JOVEM - João, serve licor a estes senhores.

PRIMEIRO JOGADOR (suave) - Que ter a bondade, a carta?

JOVEM (angustiado) - Que licor desejam?

SEGUNDO JOGADOR (com doçura) - A carta?

JOVEM (ao TERCEIRO JOGADOR) - Você certamente gostará de anis. É uma bebida

TERCEIRO JOGADOR - Por favor

a carta.

JOVEM (ao CRIADO, que entra) - Como, não há uísque? (No momento em que o CRIADO entra, os JOGADORES ficam silenciosos com as cartas na mão) Nem conhaque?

PRIMEIRO JOGADOR (em voz baixa e ocultando-se do CRIADO) - A carta.

JOVEM (Angustiado) - O conhaque é uma bebida para homens que sabem resistir.

SEGUNDO JOGADOR (Enérgico, mas em voz baixa) - A carta.

JOVEM - Ou preferem Chartreuse?

(Sai o CRIADO)

PRIMEIRO JOGADOR (de pé e enérgico) - Tenha a bondade de jogar.

JOVEM - Agora mesmo. Mas beberemos.

TERCEIRO JOGADOR (forte) - Tem de jogar.

JOVEM (agonizante) - Sim, sim. Um pouco de Chartreuse.

O Chartreuse é como uma grande noite de lua

verde dentro de um castelo onde há um jovem com umas algas de ouro.

 

PRIMEIRO JOGADOR (forte) - É necessário que você nos entregue seu ás.

JOVEM (à parte) - Meu coração.

SEGUNDO JOGADOR (enérgico) - Porque há que ganhar ou perder

TERCEIRO JOGADOR - Venha.

PRIMEIRO JOGADOR - Faça jogo.

JOVEM (com dor) - Minha carta.

PRIMEIRO JOGADOR - A última.

JOVEM - Jogo (põe a carta sobre a mesa).

Vamos. Sua carta.

(neste momento, nas prateleiras da biblioteca, aparece um ás de copas iluminado. O Primeiro Jogador saca uma pistola e dispara sem ruído como uma flecha. O ás de copas desaparece e o Jovem leva as mãos ao coração)

PRIMEIRO JOGADOR - É preciso fugir.

SEGUNDO JOGADOR - Não se pode esperar.

TERCEIRO JOGADOR - Corta, corta bem.

(o Primeiro Jogador, com uma tesoura, dá uns cortes no ar)

PRIMEIRO JOGADOR (em voz baixa) - Vamos.

SEGUNDO JOGADOR - Depressa. (saem)

TERCEIRO JOGADOR - Não se há de esperar nunca. ASSIM QUE PASSEM CINCO ANOS - FEDERICO GARCÍA LORCA “Santos e Poetas”, 1º Semestre 2008

42

JOVEM - João, João. É preciso viver.

ECO - João, João.

JOVEM (agonizante) - Perdi tudo.

ECO - Perdi tudo.

JOVEM - Meu amor.

ECO - Amor.

JOVEM (no sofá) – João. ECO - João.

JOVEM - Não há

ECO - Não há

SEGUNDO ECO (mais distante) - Não há?

JOVEM - Nenhum homem aqui?

ECO - Aqui

SEGUNDO ECO - Aqui

(o Jovem morre. Aparece o Criado com um candelabro aceso, o relógio soa as doze).

Pano. FIM

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