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CETIC-Centro de Estudos de texto Informático e Ciberliteratura – UFP

CD-ROM da PO-EX (Poesia Experimental Portuguesa: Cadernos e Catálogos) – FCT/MCTES-/POCTI

Poesia Experimental Portuguesa – Estado da Arte


Pedro Reis

O experimentalismo surge como um dos mais profícuos campos com vista à


superação de limites diversos a que uma teorização dos géneros parecia ter
confinado a literatura ocidental. Desde Mallarmé, e com continuidades desiguais
com futuristas, dadaistas, surrealistas, construtivistas, letristas ou concretistas, a
experimentação literária, ao longo do século XX, traduziu-se essencialmente numa
atitude transgressora face a convenções dominantes e gramáticas específicas.

Adoptando uma postura aberta de descoberta do novo, buscando originalidade nos


métodos compositivos, o processo de experimentação literária surge em certo
sentido aparentado à experimentação científica, se atendermos a que,
impessoalizando a obra, o autor experimental põe em relevo o processo da sua
execução.

Com esta produção poética é possível identificar uma configuração dominante,


detectável numa variedade de novas experiências formais levadas a cabo por
poetas de muitos países, essencialmente a partir da Segunda Guerra Mundial, como
resposta à percepção de necessidades vivenciais e linguísticas do homem
contemporâneo.

De facto, excedendo as fronteiras dos países em que nasce e dos idiomas em que se
cria, esta poesia, que, dado o recurso a signos para lá da verbalidade, podemos
designar como intermediática, na esteira de Clüver (2002), Higgins (1989) ou Vos
(1997), coloca-se num plano supranacional, uma vez que o tratamento que propõe
da linguagem seria exequível em qualquer idioma, como o prova o facto de ter sido
realmente realizada em línguas tão díspares, como as analíticas portuguesa ou
francesa, a sintética inglesa e a não-flexionada e “isolante” japonesa.

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Identificada noutros países como concreta, visual, espacial, cinética ou “visiva”,


em Portugal, nos anos 60, auto-designou-se como poesia experimental. Não
obstante esta relativa especificidade nacional, o conjunto de poetas que integrou o
movimento foi, todavia, completamente contemporâneo do seu tempo, marcando
presença em exposições e publicações internacionais muito significativas neste
contexto, tais como as antologias de Emmett Williams (1967) ou Mary Ellen Solt
(1970). Os mais representativos foram Abílio, Alberto Pimenta, Ana Hatherly,
António Aragão, António Barros, Ernesto de Melo e Castro, Fernando Aguiar, José
Alberto Marques, Liberto Cruz, Salette Tavares e Silvestre Pestana.

O arauto desta produção poética em Portugal, a revista de que saíram dois


números, intitulou-se efectivamente Cadernos de Poesia Experimental e, embora
integrando o movimento internacional, uma das particularidades do
experimentalismo português residia na vontade de associar a necessidade de
renovação da comunicação literária, indo a contra-corrente dos padrões literários
estabelecidos, à desmontagem do discurso do poder instituído. O facto de
assumirem um posicionamento anti-lírico e anti-saudosista e de produzirem textos
e objectos tão contrários às tendências aceites, contrariando os hábitos
dominantes de aceitação e fruição do objecto artístico, demonstra como o
experimentalismo pretendia insurgir-se contra o statu quo sócio-cultural, e terá
mesmo pretendido assumir-se como um acto de subversão política. Com este pano
de fundo, lançaram os experimentalistas portugueses a proposta de um novo
construtivismo do discurso, apoiando-se sobretudo no poder da comunicação visual.

Não obstante a sua inegável importância no contexto literário, a Poesia


Experimental Portuguesa continua a ser uma realidade pouco conhecida do grande
público literário. Se numa fase inicial tal poderia ficar a dever-se ao facto de ter
sido alvo de uma certa marginalização, como consequência do carácter disruptivo
de muitas das suas propostas, nos dias de hoje esse desconhecimento deriva da

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escassa divulgação. Efectivamente, os referidos Cadernos de Poesia Experimental,


a antologia mais representativa da tendência em Portugal (Marques e Melo e
Castro, 1973), a colectânea de textos críticos e manifestos (Hatherly e Melo e
Castro, 1981) e também Poemografias (Aguiar e Pestana, 1985), o último livro que
reúne nomes históricos com alguns dos mais recentes continuadores, são
publicações há muito esgotadas e sem que se vislumbre qualquer possibilidade de
reedição. Nem o previsto catálogo da notável exposição, PO-EX: O
Experimentalismo Português entre 1964 e 1984, realizada entre 17 de Setembro e
28 de Novembro de 1999, no Museu de Serralves, viu ainda a luz do dia e,
atendendo ao tempo já decorrido, poderemos questionar-nos se alguma vez verá.

O propósito do presente projecto, ao facultar o acesso a autores, obras e ensaios, é


precisamente o de contribuir para atenuar, senão mesmo inverter, este estado da
arte, já que com a publicação do cd-rom, que constitui o seu resultado matérico,
torna-se possível a sua disseminação, sob várias formas tais como exposições,
colóquios, mas também como material didáctico ou conteúdo a incluir em sítios da
Internet, contribuindo tudo isto, em nosso entender, para a valorização deste
inestimável património.

REFERÊNCIAS

Aguiar, Fernando e Silvestre Pestana (eds.), 1985, Poemografias – Perspectivas da


Poesia Visual Portuguesa. Lisboa: Ed. Ulmeiro.

Clüver, Claus, 2002, “Concrete Sound Poetry: Between Poetry and Music”, in Erik
Hedling e Ulla-Britta Lagerroth (eds.), Cultural Functions of Intermedial
Exploration. Amesterdão e Nova Iorque: Rodopi: 163-78.

Hatherly, Ana e E. M. de Melo e Castro (eds.), 1981, Po-Ex – textos teóricos e


documentos da poesia experimental portuguesa. Lisboa: Moraes Editores.

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Higgins, Dick, 1989, “Pattern Poetry as Paradigm”, in Poetics Today 10.2: 401-28.

Marques, José Alberto e E. M. de Melo e Castro (eds.), 1973, Antologia da Poesia


Concreta em Portugal. Lisboa: Assírio & Alvim.

Solt, Mary Ellen, 1970(ed.), Concrete Poetry: A World View. Bloomington e


Londres: Indiana UP.

Vos, Eric, 1997, “The Eternal Network: Mail Art, Intermedia Semiotics, Interarts
Studies”, in Ulla-Britta Lagerroth, Hans Lund e Erik Hedling (eds.): 325-36.

Williams, Emmett (ed.), 1967, An Anthology of Concrete Poetry. Nova Iorque:


Something Else Press.