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Nome: Carolina Duarte Zambonato

Obra: Fortunas do Feminismo – Traficantes de sonhos de Nancy Fraser

Fichamento 05: Capítulo 05

Neste capítulo, a autora intenta argumentar porque se deve evitar as teorias do


discurso atribuídas à Lacan, bem como as relacionadas à Julia Kristeva.

Para isso, começa indagando: o que uma teoria do discurso pode contribuir para
o debate feminista? E, portanto, o que deveriam as feministas buscar numa teoria do
discurso? Fraser sugere 4 respostas a esta questão: 1) como se alteram as identidades
sociais das pessoas com o tempo; 2) entender como se formam e se desfazem, em
determinadas condições de desigualdade, agentes coletivos; 3) ilustrar como se assegura
e se questiona a hegemonia cultural dos grupos dominantes; 4) compreender as
perspectivas de transformação social e de práticas políticas emancipatórias.

Ao compreender as identidades sociais, a teoria do discurso permite traçar as


redes de complexidades de envolver essas construções e desconstruir os pontos de vista
estático, de variável única (como o biologicismo ou o psicologismo). Esta tarefa se
soma à compreensão da formação dos agentes coletivos, a partir de novas
autodefinições e filiações dos sujeitos. Fraser cita o exemplo dos termos “violência
conjugal”, “dupla jornada” como novas significações atribuídas pelo feminismo às
práticas sociais de gênero.

Estas questões anteriores se conectam com o entendimento da “hegemonia” –


termo gramsciano para a “cara discursiva do poder” - na qual se aponta a intersecção
entre poder, desigualdade e discurso. A teoria do discurso permitiria “decifrar” a
hegemonia cultural dos grupos dominantes. Por último, analisar as identidades sociais,
os agentes coletivos e os discursos hegemônicos permitiria criar novas práticas políticas
emancipatórias, sem que isso signifique uma “retirada culturalista da política”.
Permitiram, também, conceber as mulheres como sujeitos ativos no processo de criação
da cultura, quebrando uma noção totalizante da dominação masculina.

Nancy indaga, então, que tipo de concepção da teoria do discurso pode ser útil
para a teorização feminista. Para responder esta questão, a autora aborda os dois
enfoques sobre a linguagem que influenciaram os teóricos políticos no pós-guerra: o
estruturalismo e o pragmatismo. Enquanto este último, o estudo da linguagem se dá no
plano dos discursos, entendidos como práticas sociais de comunicação historicamente
específicas.

Já o estruturalismo constrói seu objetivo abstraindo dele a prática social e o


contexto social de comunicação. Para Saussure, autor estruturalista, dividiu a
significação linguística em língua (langue), que seria o sistema ou código simbólico e o
discurso (parole), ou seja, os usos que os falantes fazem da linguagem na prática
comunicativa. Assim, colocava seu objeto de estudo como algo estático e atemporal,
abstraindo-o das mudanças históricas. Este conjunto de designações fazem com que o
enfoque estruturalista tenha uma utilidade limitada para a teoria feminista, a medida que
elimina a agência, o conflito e a prática social.

À luz desta reflexão, a autora passa a analisar o que chama de “lacanismo”


presente na teoria feminista. Lacanismo, neste sentido, não seria algo que se refere ao
pensamento de Lacan, mas a uma leitura típica ideal, “neoestruturalista”, muito presente
entre as feministas de língua inglesa. Apesar da aparente conjugação positiva entre a
problemática freudiana da construção da subjetividade de gênero e a linguística
estrutural de Saussure, as vantagens de tal construção não se realizam.

Por uma parte, porque o lacanismo acaba por afirmar a ordem simbólica como
invariável, universalizando contingencias históricas – toma a relação de dominação
masculina como necessária à formação das subjetividades individuais. Por outra parte
elimina toda determinação biológica para afirmar um psicologismo, nos quais acaba por
sustentar imperativos psicológicos autônomos dados como independentes da cultura e
da história. O argumento circular, então, se forma nesses pressupostos: “O lacanismo
cai presa do psicologismo até o extremo de afirmar que a falocentricidade da ordem
simbólica é necessária pelas exigências de um processo de enculturação que é em si
mesmo independente da cultura.” (FRASER, p. 175).

Além do psicologismo, o lacanismo também acaba por afirma um simbolicismo


ao reificar, homogeneizando, diversas práticas significantes sob uma “ordem simbólica”
monolítica generalizada. Também por dotar esta ordem de um poder causal exclusivo e
ilimitado para fixar de uma vez por todas a subjetividade das pessoas. “O simbolicismo,
portanto, é uma operação pela qual a língua de abstração estruturalista se transforma em
uma semidivindade, uma ordem simbólica normativa cujo poder de modelar identidades
reduz a fronteira da extinção de meras instituições e práticas históricas.” (FRASER, p.
177).

Para Fraser, a combinação entre psicologismo e simbolicismo gera uma


concepção de pouca utilidade para o feminismo. Ela pode oferecer uma explicação da
construção discursiva da identidade social, porém não logra dar sentido à complexidade
e a multiplicidade de identidades sociais. Para ela, o lacanismo diferencia as identidades
apenas de modo binário – se possuem falo ou carecem dele – o que não é suficiente para
explicar a complexidade da feminilidade e da masculinidade. Também não é capaz de
explicar as mudanças de identidade ao longo do tempo, uma vez que as fixa de maneira
definitiva com a resolução do complexo de Édipo. O mesmo se dá com a formação dos
grupos sociais, uma vez que isto seria cair presa das ilusões do ego imaginário, ao nega
a falta e buscar uma unificação e uma realização impossíveis. Para Fraser, então, o
lacanismo considera os movimentos coletivos como veículos do engano, e “não
poderiam sequer em princípio ser emancipadores.” (FRASER, p. 179)
Da perspectiva da hegemonia cultural, não pode ser objeto de consideração uma
vez que só existe “a ordem simbólica”, um universo único tão sistemático que não
permite conceber alternativas. Fecha, assim, a possibilidade de haver uma pluralidade
de falantes distintos. De mesma forma bloqueia uma interpretação da prática discursiva
porque o “eu gramatical” é uma projeção imaginária calcado num desejo narcisista de
unidade e autocontemplação. Só pode “lutar eternamente contra moinhos de vento”.
Deste modo, as promessas do lacanismo – de introduzir o sujeito falante superando o
estruturalismo e teorizando a prática discursiva – caem por terra e não se cumprem.

Se o modelo estruturalista da linguagem é limitado para a teoria feminista, o


modelo pragmático é mais satisfatório, uma vez que estuda a linguagem como prática
social no contexto social, pois seu objeto é o discurso e não a estrutura. E o discurso,
por sua vez, relaciona o estudo da linguagem com o estudo da sociedade. Suas
vantagens repousam 1) no tratamento dos discursos como algo contingente e portante
permite teorizar as transformações; 2) na significação como ação e não enquanto
representação; 3) no tratamento dos discursos em pluralidade de espaços comunicativos,
permitindo teorizar as identidades sociais como algo não monolítico; 4) na capacidade
de relacionar o estudo dos discursos com o estudo das sociedades, o método pragmático
permite centrar no poder e na desigualdade.

Fraser passa então a analisar o caso de Julia Kristeva, que começou crítica ao
estruturalismo e partidária da opção pragmática, mas acabou por abraçar o lacanismo,
criando uma teoria híbrida entre estruturalismo e pragmatismo. Kristeva começou
criticando a proposta estruturalista e propondo um novo conceito de “sujeito falante” no
qual é capaz de efetuar práticas inovadoras. Em seu novo modelo de pragmática
discursiva, a prática transgressora dá lugar a inovações discursivas e estas, por sua vez,
podem conduzir a mudanças reais. “A prática inovadora pode então restar normalizada
na forma de normas discursivas novas ou modificadas, renovando assim as práticas
significantes.” (FRASER, p. 182)

Fraser passa então a analisar os problemas da nova concepção de Kristeva, 1) em


primeiro lugar por valorar a transgressão e a inovação per se, independente de seu
conteúdo ou direção, produzindo, por outro lado uma aversão a qualquer adaptação das
práticas às normas, independente do conteúdo de ditas normas (aponta para a influência
maoísta desta postura); 2) tendência estetizante associada à transgressão da prática
poética, tomando a produção estética como o âmbito de inovação privilegiado e
relegando a prática comunicativa do cotidiano como mero conformismo; 3) enfoque
teorizador aditivo, o qual diz respeito a sua tendência a remediar os problemas teóricos
fazendo acréscimos às teorias deficientes sem, no entanto, revisá-las – isto abre o risco
de criar um frankstein teórico.

Esta questão fica clara na relação entre simbólico – estrutura linguística - e


semiótico – expressão regida por pulsões e rupturas com a estrutura linguística. Para
Kristeva todas as práticas significantes contém certo grau de cada um desses dois
registros da linguagem, porém, com exceção da poesia, o registro simbólico é sempre
dominante. Embora tente atribuir a esta questão uma análise psicanalítica – simbólico
como representação do masculino falocentrado e o semiótico como o feminino pré-
edípico – acaba por reafirmar a ordem simbólica do estruturalismo. Butler aponta para
este aspecto: o semiótico é transitório e subordinado e tende a ser reabsorvido pelo
simbólico. O ponto mais problemático desta construção teórica é que o semiótico se
define contra o simbólico como negação abstrata, provocante uma amalgama entre
estrutura e anti-estrutura – uma má infinitude hegeliana. O ponto é que ao fazer esta
operação, Kristeva acaba por naufragar em sua afirmação pragmática para recair num
“neoestruturalismo quase lacaniano” (FRASER, p. 184), além de um psicologismo
autônomo e ahistórico. Fazendo isso, Kristeva acaba por renunciar as vantagens que a
pragmática oferece à teorização feminista, perdendo a capacidade de relacionar o
domínio discursivo com a desigualdade social, além de focar exclusivamente em
tensões intrasubjetivas e não intersubjetivas.

Por último, o sujeito falante de Kristeva acaba por reproduzir muitos dos traços
neutralizadores do lacanismo, ao concebê-lo como duas metades, nenhuma das quais
constitui um agente político em potencial. O sujeito do simbólico queda conformista e
profundamente submetido às convenções e normas simbólicas e seus traços semióticos
se ocupam de uma transgressão incapaz de ocupar-se dos aspectos reconstrutivos da
política transformadora a que a política feminista se propõe. Ademais, a fragmentação
das identidades sociais impede a reconstrução das identidades coletivas politicamente
constituídas. Não há, portanto, agente político. Se enquanto agentes individuais não há
prática emancipadora, igualmente não haverá agentes coletivos com esse intuito.

Fraser destaca o ensaio de Kristeva “O tempo das mulheres” (1979) em que ela
identifica três gerações do movimento feminista: 1) feminismo humanista e igualitário,
de espírito reformista, cujo escopo é o de garantir às mulheres uma participação plena
na esfera pública (Simone de Beauvoir); 2) feminismo ginocentrado de orientação
cultural, que objetiva promover uma especificidade simbólica e sexual feminina não
definida pelo homem (écriture féminine e parler femme); 3) pós-feminismo de enfoque
nominalista e antiessencialista, o qual afirma que “as mulheres” não existem e que as
identidades coletivas são ficções perigosas. Fraser identifica Kristeva nesta última
corrente.

Fraser analisa este ensaio reafirmando sua interpretação anterior sobre Kristeva,
de que ela repete seu padrão dualista e aditivo. Faz isso apontando uma contradição em
suas análises: ao mesmo tempo em que faz uma vinculação essencialista e biologicista
da maternidade, acaba por rechaçá-lo insistindo que as mulheres não existem, que a
identidade feminina é fictícia e que, portanto, os movimentos feministas tendem ao
religioso e ao protototalitário.

O padrão geral do pensamento de Kristeva sobre o feminismo é, portanto,


aditivo e dualista: acaba alternando aspectos ginocentricos essencialistas com
aspectos nominalistas antiessencialistas, aspectos que consolidam uma
identidade de gênero feminino ahistórico, indiferenciada e maternal com
aspectos que repudiam por completo as identidades das mulheres. (FRASER,
p. 187)

Conclui reafirmando que para a teorização feminista tem mais utilidade a


pragmática que os enfoques estruturalistas para os estudos da linguagem, porque insiste
no contexto e na prática social da comunicação e estudam uma pluralidade de práticas e
espaços discursivos historicamente modificáveis, e isto proporciona uma alternativa
tanto às concepções essencialista e reificadas da identidade de gênero quanto à simples
negação da identidade.

Afirmo, portanto, que com ajuda de uma concepção pragmática do discurso


podemos aceitar a crítica ao essencialismo sem nos tornarmos pós-feministas.
Isto me parece uma ajuda valiosíssima, porque não será o momento de falar
de pós-feminismo enquanto não pudermos falar legitimamente de pós-
patriarcado. (FRASER, p. 188)